diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 4 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69878-0.txt | 17597 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69878-0.zip | bin | 317482 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h.zip | bin | 1762216 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/69878-h.htm | 21330 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/001.jpg | bin | 117027 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/002.jpg | bin | 188953 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/003.jpg | bin | 137123 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/004.jpg | bin | 163755 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/005.jpg | bin | 108520 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/006.png | bin | 68380 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/007.jpg | bin | 167125 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/cover.jpg | bin | 380849 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/dc_e.jpg | bin | 92139 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69878-h/images/dc_n.jpg | bin | 39483 -> 0 bytes |
17 files changed, 17 insertions, 38927 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..18c7f50 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #69878 (https://www.gutenberg.org/ebooks/69878) diff --git a/old/69878-0.txt b/old/69878-0.txt deleted file mode 100644 index 76ac8f4..0000000 --- a/old/69878-0.txt +++ /dev/null @@ -1,17597 +0,0 @@ -The Project Gutenberg eBook of Mappa de Portugal antigo, e moderno, -tomo 1 (of 3), by João Bautista de Castro - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3) - Parte I, II - -Author: João Bautista de Castro - -Release Date: January 25, 2023 [eBook #69878] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team - at https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by National Library of Portugal - (Biblioteca Nacional de Portugal).) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E -MODERNO, TOMO 1 (OF 3) *** - - - - - - MAPPA - - DE - - PORTUGAL - - ANTIGO, E MODERNO - - PELO PADRE - - JOAÕ BAUTISTA - - DE CASTRO, - - Beneficiado na Santa Basilica Patriarcal de Lisboa. - - TOMO PRIMEIRO. - - PARTE I. E II. - - _Nesta segunda ediçaõ revisto, e augmentado pelo seu mesmo Author: e -contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que - toca à sua Historia Secular, e Politica._ - - LISBOA, - - Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno. - - M.DCC.LXII. - - _Com as licenças necessarias, e Privilegio Real._ - - [Illustração] - - - - - INTRODUCÇAÕ Á OBRA. - - -Entrey na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos -Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com -individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso -Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros, -e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem -conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal. - -Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma -exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico -das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este -meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter -cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos, -cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor costuma supprir os -defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo -mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ -dos curiosos.[1] - -Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de -exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos -retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me -pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa. - -Com razaõ disse Justo Lipsio[2] que o invento dos Mappas fora a mais -engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a -huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e -grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ -aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro -Siculo[3] posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro[4] discipulo -de Thales Milesio. - -Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle -tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas, -mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a -altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas -Theodosianas.[5] Depois se foraõ expressando em globos, ou esferas, de -que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,[6] e de Roma se divulgou este uso para -todas as mais terras do Universo. - -Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos, -que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa -pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre -expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ -Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo -chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à -esquerda o Occidente. - -Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que -significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico -de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A -linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando -a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em -todos os Mappas. - -As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de -longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os -gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de -huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para -o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes -huma da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha -Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da -Equinocial para o Sul. - -Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse -pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou -Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto -mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da -Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que -as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar -entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de -cada num dos Tropicos. - -O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o -que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.[7] E foy -necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está -arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar -no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude, -mas o de Leste-Oeste, ou de longitude. - -Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos -globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos -se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta -a largura, ou latitude do mundo; e contém sómente a quarta parte do -comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de -Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha -para o Sul. - -Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18. -leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum -gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas, -diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante -até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de -altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay -levantando para nós o Polo sobre o Horizonte. - -Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente -para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito -do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles, -de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e -fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém -modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental -das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.[8] - -Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento -dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte, -Ptolomeu, e outros companheiros desejosos de alcançar quantos gráos -huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ -succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da -noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo -quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles -lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ -mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais -occidentaes. - -Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a -respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia -acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em -todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim -advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos -gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano -poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta -observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas -Geograficas de varios Authores. - -_Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de -Portugal._ - - _Latitud. Longit. Carta Geografica de_ - | gr. m. | gr. m. | - | | | - | 38. 58. | 7. 12. | Fernando Alvares Seco. - | 38. 26. | 9. 54. | Mons. Sanson. - | 38. 33. | ...... | P. Du-Val. - | 38. 53. | 10. 5. | Pedro Mortier. - | 38. 55. | 5. 15. | Francisco Halma. - | 38. 40. | 7. 45. | Carlos Allard. - | 38. 40. | 10. 14. | Joaõ de Ram. - | 38. 48. | 7. 42. | Nicoláo Vischer. - | 38. 35. | 7. 37. | P. Placido Agostinho. - | 38. 40. | 12. | Joaõ Bautista Lavanha. - | 38. 35. | 9. 52. | Joaõ Bautista Nolim. - | 38. 48. | 8. 6. | Mons. Tailot. - | 38. 50. | 9. 45. | Jacome Canteli. - | 38. 40. | 12. | Gaspar Baillieu. - | 38. 48. | 9. 12. | Joaõ Bautista Homannu. - | 38. 40. | 7. | Pedro Teixeira. - | 38. 48. | 9. 15. | Manoel Pimentel. - | 38. 45. | ...... | P. Capassi. - | 38. 39. | ...... | P. Dechales. - | 38. 40. | ...... | P. Ricciolo, e Tosca. - | 39. 38. | 5. 10. | Petavio. - -Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença -nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da -Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que -mais se ajusta às computações da Arte de navegar do nosso insigne -Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas. - -Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar, -segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a -respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na -mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras -que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se -poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que -está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro -quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce, -e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas -do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra, -e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor -altura do Polo. - -Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque -se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao -Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será -alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor -visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos -dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais -saõ iguaes os dias com as noites. - -Finalmente do conhecimento do gráo de longitude, e latitude juntamente -resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está -em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util -saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias -accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me -foy possivel extrahir dos Authores. - - _Braça_ | 10. palmos de craveira, ou 6. - _Portugueza.___|_ pés, ou 80. polegadas. - _Covado_ | 3. palmos, ou 2. pés Portuguezes - _Portuguez.____|_ - _Dedo._ | 4. grãos de cevada lateralmente - ___|_ unidos. - _Gráo em_ | 18. leguas. - _Portugal._ ___|_ - --_Em Alemanha_ | 10. leguas das grandes: 12. das - | medianas: 15. das pequenas, - | conforme diz Briecio; porém - | segundo Cluverio em Alemanha - | hum gráo da Esfera corresponde - | na terra a 5. leguas das - | grandes, ou a 10. das medianas, - ___|_ ou a 15. das pequenas. - --_Em Italia.____|_60. milhas. - --_Em França._ | 20. leguas das grandes, e 25. - ___|_ das commuas. - --_Em_ | 27. leguas das grandes: 50. das - _Inglaterra.___| medianas: 60. das pequenas. - _Legua_ | 28168. palmos craveiros, ou - _Portugueza._ | 2818. braças de 10. palmos - | cada huma, ou 3000. milhas - ___|_Italicas. - --_Alemã_ | 6000. passos geometricos. - _grande._ | - _Mediana._ | 5000. passos. - _Pequena._ ___|_4000. passos, segundo Briecio. - --_Italica._ ___|_1000. passos. - --_Franceza._ ___|_3000. passos. - --_Ingleza._ ___|_2181. passos geometricos. - --_Castelhana._ ___|_O mesmo que a Portugueza. - _Milha._ ___|_1000. passos. - _Palmo craveiro_ ___|_8. polegadas. - _Passo commum_ ___|_4. palmos e meyo, ou 3. pés. - --_Andante._ ___|_3. palmos, ou dous pés. - --_Geometrico_ | 7. palmos e meyo de craveira - ___|_ escassos, ou 5. pés geometricos. - _Pé Portuguez._ | 12. polegadas, ou palmo e meyo - ___|_ de craveira. - --_Francez._ ___|_O mesmo. - _Polegada._ ___|_10. pontos, ou linhas. - _Toeza._ | 6. pés Regios. He propriamente - ___|_ medida Franceza. - _Vara Portugueza.____|_5. palmos. - --_Valenciana._ ___|_4. palmos. - _Verga._ ___|_10. pés geometricos. - -Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes, -facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem de hum -Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou -Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que -ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé -do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma -vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra -terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou -escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta, -este lhe mostrará a distancia. - -Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do -compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma -distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao -corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até -fazer justa a mediçaõ. - -Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas -as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a -Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo -quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e -longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de -navegar do famoso Manoel Pimentel. - -Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas, -e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as -distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ -tiradas por linha recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de -Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse. - -No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos -outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos -me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as -suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo -protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja -totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo -infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento. - - [Illustração] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] Veja-se ao P. Azeved. no Trat. _Ilias in nuce_ pag. 52. - -[2] Lips. lib. 2. epist. 51. - -[3] Diod. Sicul. l. 1. sect .2. - -[4] Laertius in ejus vita. - -[5] Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph. antiq. - -[6] Ptolom. lib. 1. c. 24. - -[7] Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3. - -[8] Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3. - - - - - INDICE - - DOS CAPITULOS DESTE - - primeiro Tomo. - - - PARTE I. - - - Cap. I. _Da situaçaõ, etymologia, e clima - deste Reino_, Pag. 1. - - Cap. II. _Memorias de algumas Povoações que - existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ - em outras, ou totalmente se extinguiraõ_, 5. - - Cap. III. _Descripçaõ circular pela margem - maritima, e raya terrestre_, 29. - - Cap. IV. _Divisaõ antiga_, 42. - - Cap. V. _Divisaõ moderna pelas Provincias_, 45. - - Cap. VI. _Dos Montes, Promontorios, e serras - de mayor nome_, 81. - - Cap. VII. _Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais - consideraveis_, 99. - - Cap. VIII. _Das Fontes mais notaveis_, 148. - - Cap. IX. _Das Caldas_, 156. - - Cap. X. _Da Fertilidade do Reino em commum_, - 160. - - Cap. XI. _Dos Mineraes_, 169. - - Cap. XII. _Das Moedas de ouro, prata, e cobre - antigas, e modernas que se tem lavrado - em Portugal até o presente_, 177. - - Cap. XIII. _Da lingua Portugueza_, 193. - - Cap. XIV. _Do genio, e costumes dos Portuguezes_, - 201. - - - PARTE II. - - Cap. I. _Memorias dos primeiros Povoadores - da antiga Lusitania_, 221. - - Cap. II. _Estado da Lusitania com a invasaõ - dos Fenices, e Cartaginezes_, 236. - - Cap. III. _Conducta dos Portuguezes no governo - dos Romanos_, 240. - - Cap. IV. _Entrada das Nações barbaras, e dominio - dos Godos_, 254. - - Cap. V. _Invasaõ, e dominio dos Mouros_, 269. - - Cap. VI. _Erecção do Senhorio de Portugal separado - dos mais dominios de Hespanha, e - estabelecimento dos Soberanos Monarcas - Portuguezes_, 281. - - Cap. VII. _Catalogo das Serenissimas Rainhas - de Portugal_, 362. - - Cap. VIII. _Dos filhos legitimos, e illegitimos - dos soberanos Reys de Portugal_, 376. - - Cap. IX. _Do governo antigo, e moderno da Casa - Real_, 421. - - Cap. X. _Dos Officiaes, e ordem com que se assistia - à mesa dos Reys_, 428. - - Cap. XI. _Do acompanhamento com que os Reys - sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a - Corte,_ 433. - - Cap. XII. _Dos Officiaes destinados para a caça, - e montaria, e das Coutadas do Reino,_ 437. - - Cap. XIII. _Do estylo com que os Principes, e - Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos - pelos nossos Reys, e do modo com que estes - assistem no acto de Cortes_, 442. - - Cap. XIV. _Das ceremonias, e estylo que se praticava - nas mortes dos Reys_, 446. - - [Illustração] - - MAPPA - - DE - - PORTUGAL. - - - - - CAPITULO I. - - _Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino._ - - -1 Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha, -sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado -Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo -de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13 -gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas, -commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo -comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285 -leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as -150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10] - -2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada -gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de -latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude. - -3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao -Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar -Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ, -e Andaluzia confinaõ pelo Oriente. - -4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de _Lusitania_, querendo -os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de -Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse -o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém -este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as -contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda. - -5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a -palavra _Lusitania_ he vocabulo Fenicio, derivado da raiz _Luz_, que -se interpreta _Amydgdalum_, isto he, _Amendoa_, dos quaes frutos -foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar -nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ -mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta -conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ -tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa -do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas -Celtica. - -6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra -_Lusitania_ dos antigos povos chamados _Lusos_, que habitaraõ este -nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta, -e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos -antigos Portuguezes. - -7 Quanto ao nome de _Portugal_, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum -vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ -chamada _Cale_, que antigamente houve na margem austral do rio Douro, -fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das -gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o -progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se -fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o -anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem -outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era -proprio de huma só Cidade.[16] - -8 Naõ averiguamos se a palavra _Cale_, como quer Joaõ Salgado de -Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a -estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz -do Douro com o nome de _Cale_, que significa _Porto ameno, e seguro_; -porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria -se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias, -como improvaveis, e nugatorias. - -9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por -isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço -de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas -Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz -confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel -temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz -aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem -patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do -mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui -vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem -com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios. - -10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo -em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores -antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he -porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com -a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas, -e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades -sufficientes.[20] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[9] Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port. - -[10] Geograf. Blavian. - -[11] Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor. de Hesp. -c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc. Lusit. p. -1. lib. 1. - -[12] Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr. - -[13] Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22. - -[14] Hoffm. Diccion. verb. _Lusit._ - -[15] De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi. - -[16] Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49. Argot. Antig. -de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c. 92. n. 2. -Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de Portug. t. -1. pag. 188. - -[17] Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel. ad ann. -1331. num. 2. - -[18] Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6. - -[19] Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4. - -[20] Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175. - - - - - CAPITULO II. - - _Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes ou - se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ._ - -1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio[21] dá o titulo de sagrada, -he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com -o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra -que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue -para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que -a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas -memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ -em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for -possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares -notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os -Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ. - -2 _Aguas Celenas_, _Cilinas_, ou _Celanas_. Era povoaçaõ, que esteve -na Provincia do Minho. Lembraõ-se della Ptolomeu,[22] e Antonino em -seu Itinerario no segundo caminho de Braga para Astorga. Dos Geografos -modernos querem huns[23] que fosse onde está hoje o Lugar de _Faõ_, -meya legua acima da barra do rio Cávado da parte do Sul, e onde se -celebrou o famoso Concilio contra os Priscilianistas, em que presidio -S. Toribio em tempo de S. Leaõ Papa. Outros porém[24] o constituem em -Barcellos, persuadidos da semelhança do vocabulo do rio _Celano_, que -por alli passa, chamado hoje _Cávado_; porém estas conjecturas saõ muy -falliveis para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo -o sitio que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao -Padraõ, como bem explica o Padre Mestre Flores na _Espanha sagrada tom. -15. pag. 75_. - -3 _Aguas Flavias._ Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta terra, -que era onde vemos hoje a Villa de _Chaves_.[25] Dizem que tomou este -nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador Flavio Vespasiano, -a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy colonia dos Romanos -muy frequentada, e ennobrecida por elles, como larga, e eruditamente -mostra o insigne indagador de antiguidades[26] Lusitanicas, o Reverendo -D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem o Padre Mestre Flores -allegado. - -4 _Aguas Layas_, ou _Leenas_. Na Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio -achamos demarcado este lugar com o nome de _Aquæ Leæ Turudorum_ quasi -em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude. Alguns[27] querem que -estivessem entre as Villas de _Monçaõ_, e _Valladares_: o que naõ póde -ser pela arrumaçaõ daquelle insigne Geografo. Nosso famoso Argote -persuade-se com razaõ[28] que esta era a Cidade de _Lais_, capital dos -povos Turolicos, e que existira, onde hoje chamaõ a Freguezia de S. -Martinho de _Lanhozo_, termo da Villa de Caminha. - -5 _Ambracia._ O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha[29] diz que esta -Cidade estivera no sitio de _Barcellos_, a qual foy fundaçaõ dos -Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,[30] que diz que a -_Ambracia_ em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto, estava -em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio Lusitano, -seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,[31] porque diz que he -Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no _liv. 1. dos Successos -militares pag. 5. v._ diz que Ambracia estivera em Grecia, onde hoje -chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no _Diccionario Geografico_ com -Cellario na _Geografia antiga l. 2. c. 13. §. 177._ - -6 _Araduca._ Convem alguns dos Geografos[32] que estivesse esta Cidade -collocada onde hoje vemos a nobre Villa de _Guimarães_. E seguindo esta -opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de Guimarães, -diz:[33] - - _Na aldeya d’ Araduca celebrada - Pela rara belleza das pastoras._ - -O mesmo diz Filippe de la Gandara nas _Armas, e Triunfos de Galiza cap. -17. num. 3._ Porém Gaspar Estaço[34] segue o contrario, e o intenta -provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 gráos, -e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia -muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8 -leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito[35] diz que o que antigamente -foy _Araduca_, he hoje _Amarante_: e já houve quem disse que era -_Aljubarrota_. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a antiga -Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao Padre -Mestre Flores, Author moderno, _tom. 15. da España sagrada pag. 286_. - -7 _Araducta._ Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio, parece -ser a _Arouca_, que hoje existe. - -8 _Aravor._ O Author da Corografia Portugueza[36] quer que fosse esta -huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo sitio -está hoje a Villa de _Marialva_; porém esta noticia só neste Author a -achámos. - -9 _Aricio Pretorio_, ou _Ayre_. Desta povoaçaõ se faz memoria no -Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa -para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,[37] que existia -nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr. -Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades, -que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino. -Gaspar Barreirros tem para si[38] que distava huma legua de Coruche, -onde agora está a Villa de _Erra_; porém Jorge Cardoso[39] diz que -estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde -chamaõ _Alvéga_, porque neste sitio ha vestigios antigos, que assim -o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada _Aricio_ -entre a Feira, e Arouca; e na altura de _Benavente_, ou _Salvaterra_ se -vê _Aritium Prætorium_, em que parece convir com Resende. - -10 _Aroche._ Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas ruinas se -levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como eruditamente provaõ -Fr. Manoel de Sá,[40] e Resende com alguns cippos alli descobertos. - -11 _Aunona._ O Doutor D. Joaõ Ferreras[41] persuade-se que esta Cidade -estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém nosso -Argote[42] naõ he desta opiniaõ. - -12 _Auranca._ Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9 leguas de -Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10. c. 18., e -Jorge Cardoso no Agiologio.[43] - -13 _Balsa._ Tem para si o famoso antiquario Resende[44] que estivera -esta Cidade no Algarve, onde agora reside _Tavira_; mas, segundo -Ptolomeu, e Ortelio, parece ser _Castro-marim_. Todavia Christovaõ -Cellario segue a conjectura de Resende;[45] e Gaspar Barreiros em hum -manuscrito diz que he a aldea chamada _Simine_. Porém ou Balsa seja -Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo de Beja na horta -chamada do Bacello, naõ longe de _Baleizam_, achou no anno de 1742 o -incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira Religioso Dominico, grande -imitador de Resende no descobrimento das antiguidades do nosso Reino, -hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio Saturnino habitador de Balsa -erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem no _2. tom._ do _Diccionario -Geografico_ do P. Cardoso _a pag. 23._ e na Gazeta de 20 de Setembro de -1742. Donde sem muita violencia se póde conjecturar pela semelhança do -nome, que Balsa estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta -antigualha; a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso -Fr. Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta -Provincia, de que tem junto grosso cabedal. - -14 _Benis._ Por algumas congruencias parece ao laborioso D. Jeronymo -Contador de Argote[46] que era esta huma Cidade Episcopal existente -perto da Villa de Caminha. - -15 _Beselga._ Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio esta -povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar pobre, -e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda conserva o -appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ _Monte da -Cividade_. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes contornos, de -que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade Cardoso.[47] -Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he _Agueda_, huma legua de -Thomar. - -16 _Britonia._ Grande controversia ha entre os Geografos sobre a -verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima -em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos -dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que -ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de que -os despersuade Jorge Cardoso.[48] Muitos dos nossos insistem,[49] em -que esta Cidade estivera no sitio de _Britiandos_, Abbadia de Ponte -de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar da -Freguezia de S. Martinho de _Birtello_, termo da Villa da Ponte da -Barca.[50] Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem -em que existio junto do rio Lima,[51] fundando-se em mais provaveis -documentos. - -17 _Calantia._ Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo, e no -mesmo terreno de _Arrayolos_, dando-lhe por fundadores os Celtas.[52] - -18 _Caldelas._ Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe hum -Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia[53] -houvera alli antigamente a Cidade _Caldede_. E junto da Ermida de S. -Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores, -que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do -sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de -pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus -moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre, -das quaes confessa Jorge Cardoso[54] conservava huma com a effigie de -Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre. - -19 _Caliabria._ Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio na -Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que dista -huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, a cujo -sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ _Calabre_. -As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua grandeza, como -bem diz a _Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24._ - -20 _Cambeto._ O doutissimo Padre Argote intenta mostrar[55] que esta -Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de _Cambezes_ no -Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da antiga Lusitania, -composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o nome de _Cambetum -Lubenorum_ na altura de 41 gráos de latitude, e 13 de longitude, que -deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que do Minho. - -21 _Campos Elysios._ Anda introduzida nas Historias de Hespanha a -antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso -temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura -o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade -com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos[56] -collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova, -e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores[57] querem huns -que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na -Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados _Lysirias_, como -se dissessemos _Elysirios_ ou _Elysirias_; porém o certo he que naõ -estiveraõ em parte alguma de Hespanha. - -22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo -o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ -as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas. -O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,[58] o qual -introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do -clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel -conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia, -que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso. - -23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,[59] que os Gregos, -offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ -a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros -vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo -Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais -Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,[60] -que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece -significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque -conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano[61] comprova -o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra -cousa, que expressado debaixo de alguma sombra. - -24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece -celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel -expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente -assegura[62] tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o -quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos -Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso, -que a nossa vulgata chama do _Deleite_, substituindo assim a voz -_Eden_, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.[63] - -25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos -Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,[64] a quem seguiraõ os mais, -que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso -sagrado, de que faz memoria Moysés.[65] A causa porém, que commoveo -ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por -seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso -distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem, -conforme allega Moysés Barcepha,[66] e Malvenda.[67] Com esta breve -demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos -inteiramente das nossas Provincias. - -26 _Canace_, ou _Canali_. Conforme diz Rodrigo Caro,[68] foy esta huma -Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos collocada na -carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de Faria escreveo ao -Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que a Cidade de _Canace_ -estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde chamaõ Val de Infante, quatro -leguas affastada de Evora.[69] Hauberto tambem a constitue junto de -Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade Basiliense, que padecera -aqui martyrio.[70] - -27 _Capara_. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta Cidade -junto de Evora,[71] porque, segundo a melhor conjectura, foy Cidade -habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a poem quasi -na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra dos limites -de Portugal, e como diz Argaes,[72] pertence ao Bispado de Placencia. - -28 _Carmona._ O Author da Benedictina Lusitana diz,[73] que cinco -leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas leguas -pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira -antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de _Carmona_, cujas ruinas, -e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo. - -29 _Cauca._ Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso[74] em -collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves, -e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,[75] e outros; porque mais me -accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,[76] e tambem porque vejo -no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de -latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia. - -30 _Ceciliana._ O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre -Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama _Castra Ceciliana_, talvez -deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns querem que -seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas, o que -naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua de -Moura. Com o mesmo nome de _Castra Celicis_ vejo huma povoaçaõ situada -na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38 gráos, e -5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e outra -quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude. - -31 _Celiobriga._ Foy o que agora he _Celorico de Basto_, ou nas suas -visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra na -Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias do -Arcebispado de Braga.[77] - -32 _Centocellas._ Defende Jorge Cardoso[78] a situaçaõ desta Cidade -junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de _Belmonte_, onde -permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima a huma torre quadrada -de obra Romana, onde diz estivera prezo este Santo; o que tambem -confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das guerras da Provincia da -Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio da Purificaçaõ,[79] e os -incansaveis Antiquarios Argote, e Leal[80] mostraõ com evidencia ser -erro de Cardoso. - -33 _Cinania._ Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,[81] encarecendo -muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava na Lusitania. -Fr. Bernardo de Brito,[82] e seu abbreviador Manoel de Faria[83] -mostraõ que estivera fundada junto de _Roriz_. Pertende porém Gaspar -Estaço mostrar,[84] e o Padre Henrique de Abreu no discurso, que faz -sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra do Maraõ,[85] onde -ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela estrada, que da -Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra está a Villa -de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima está o Lugar -de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ: aqui prova o -dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso[86] a poem na eminencia de hum -monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de Guimarães. O Author -da Corografia Portugueza[87] a descobrio entre Lanhoso, e o Couto de -Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas Memorias eruditissimas -de Braga[88] confessa, que he incerta a precisa situaçaõ de Cinania. - -34 _Cetobriga._ Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas se -fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,[89] seguindo a -Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por -Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara _Cethubala_, ou -_Cætum-Tubalis_, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo nome -com pouca mudança se deduzio _Setubal_. Porém André de Resende,[90] e -Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva com tenacidade -a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel he o que diz -o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome: a antiga, -onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo se dizia -_Cetobriga_, e significava Cidade de muito, e grande peixe; porque -_Briga_ na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer Cidade, -ou fortaleza, e _Cete_ peixes grandes. Desta opiniaõ he Gaspar -Barreiros,[91] o qual affirma, que no seu tempo havia no sitio desta -Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o peixe, porque -se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo da agua se -mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem testifica -Resende. Extincta finalmente a antiga _Setubal_, ou _Cetobriga_ na -geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns moradores dos que -restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova colonia naquelle -sitio, intitulando-a da mesma fórma _Cetobriga_. Correndo depois -o tempo, se veyo a chamar _Cetobala_, e dahi _Cetubala_, e hoje -_Setubal_. Desta opiniaõ he Luiz Nunes,[92] Christovaõ Cellario,[93] -e convem no mesmo Villalpando _in Ezechielem tom. 2. p. 16._ Affirma -tambem o allegado Resende, que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga -está por cima da porta da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de -carneiro em pedra, e lhe parece que houvera alli hum templo de Jupiter. -De outras pedras alli descubertas faz tambem memoria o sobredito -Antiquario. - -35 _Collipo._ Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas -se levantou a Cidade de _Leiria_, como he constante entre todos os -Geografos.[94] - -36 _Concordia._ Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada de -Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua -antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania, -e quasi com elle concordaõ Bivar,[95] Plinio, e outros.[96] Houve -outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou -Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.[97] -Jorge Cardoso[98] diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas -no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta -povoaçaõ. Author ha, que diz he _Tentugal_. - -37 _Contraleucos_ conforme Ortelio; ou _Catraleucus_ segundo Ptolomeu, -foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa do Crato, como -o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na _Benedictina Lusitana_. Outros -querem que seja Castello-branco. Verdade seja que esta povoaçaõ, no -conceito de D. Francisco Manoel he huma das que por nenhum modo saõ -hoje por nós conhecidas. - -38 _Egitania._ Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade nobilissima -em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O Doutor Manoel -Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio, escreve della -eruditamente nas Memorias da Guarda.[99] - -39 _Eminio._ Hoje he o Lugar de _Agueda_ no termo de Aveiro. Foy -povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados, de -que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo, e de -Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de _Colubria_. -O Academico Manoel Pereira da Silva Leal[100] pertende mostrar que naõ -tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della Plino, e Ptolomeu -_apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9._ - -40 _Equabona._ He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a primeira -via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida. - -41 _Eritreia_, ou _Erythia_. Encontramos muito embaraçada entre os -Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,[101] seguindo -a Pomponio Mela,[102] diz, que estivera na Costa de Portugal, e -que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto, -se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos -_Berlengas_, talvez deduzido da palavra _Londobris_, que tambem lhe -dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz Marinho de -Azevedo, e outros, que este allega.[103] - -42 Porém Diogo de Paiva[104] persuadido com a geral confusaõ de alguns -Authores em naõ distinguirem a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso, -he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come -mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da -maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as -que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as -outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas -eruditas Disquisições;[105] e assim he infallivel ser diversa esta Ilha -das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto, -Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.[106] - -43 _Eburobricio._ Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira situaçaõ -desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar Barreiros[107] -dizem, que estivera no sitio, onde hoje está _Evora de Alcobaça_; porém -Fr. Bernardo de Brito,[108] reprovando a Vasconcellos, diz que fora em -_Alfezeiraõ_; mas em outra parte duvída.[109] Mons. de La Clede[110] no -Mappa da antiga Lusitania nenhuma duvida poem em situar a _Alfezeiraõ_ -no mesmo lugar de _Eburobricio_, e quasi na mesma altura se conformaõ -os mappas de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui -dedicado a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a -grande resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos -annos 130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.[111] - -44 _Evandria._ He Olivença. Antonino lhe chama Evandriana. - -45 _Flaviobriga._ O Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ do Minho tem -para si que estivera esta povoaçaõ no sitio de _Favayos_, Villa da -Provincia Transmontana, onde affirma que vira letreiros, que assim o -testemunhavaõ. Foy huma das Cidades, que edificou ElRey Brigo. - -46 _Foro dos Limicos._ Era huma Cidade collocada junto do rio Lima. -O Padre Argote persuade-se que estivera no sitio, a que hoje chamaõ -_Santo Estevaõ da Faxa_.[112] - -47 _Foro dos Narbassos._ Foy Cidade cabeça de huns Póvos assim -chamados, que existio perto de Braga, conforme a conjectura do -incansavel Argote.[113] - -48 _Gerabrica_, ou _Jerabrica._ Segundo a Geografia de Fr. Bernardo -de Brito[114] esteve esta Cidade situada onde vemos hoje a Villa de -_Póvos_. Prova-o este Author com o Itinerario de Antonino, o qual -assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos, que fazem as sete -leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa. Porém Gaspar Estaço, -Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo Itinerario, que -_Jerabrica_ foy o que hoje he _Alamquer_.[115] - -49 _Lacobriga._ Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e lembra-se -della Baptista Mantuano,[116] quando diz, que erigira o Senado desta -povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do Imperador -Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a tomaraõ. Das -suas ruinas se edificou a Cidade de _Lagos_ no Algarve, e neste sitio -vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de - -Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,[117] -donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando -Lagos com Lamego,[118] e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel -Pereira,[119] porque une os póvos da Serra da Estrella com os de -Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez -que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava -junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama -_Langobrica_, que Vasconcellos tem pela Villa da _Feira_. Ha quem diga -que _Lacobriga_ he a Villa de _Abrantes_, outros do _Landroal_, e Joaõ -de Mariana diz, que he a Villa de _Alvor_, fundada por Anibal. Parece a -outros ser Santiago de Cacem, como diz D. Francisco Manoel na carta 62. -da centuria 3. - -50 _Magneto._ Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de Romanos, -e existio onde hoje chamaõ _Santa Maria de Meinedo_, que he hum Lugar -do Bispado do Porto.[120] - -51 _Merobriga._ De duas povoações com este mesmo nome achamos memoria -em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra em -Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio. -Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy -onde agora he _Santiago de Cacem_.[121] Aqui se venera na Matriz a -notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na -escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico -Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra -fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como -declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35. - -52 _Myrtilis Julia_. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no sitio -de _Mertola_. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos até Béja, -que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que ha de huma a -outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta situaçaõ.[122] - -53 _Moro_ foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de -cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello -de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ -dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, -ou Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no _liv. 3. da sua Geografia_ se -lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para -conquistar os Lusitanos. - -54 _Nabancia._ Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do Nascente -da Villa de _Thomar_, onde affirmaõ nascera a gloriosa Virgem, e Martyr -Santa Iria.[123] Na divisaõ dos Bispados, que fez Wamba, se lhe dá o -nome de _Naba_,[124] conforme a intelligencia de Argote. - -55 _Norba Cesarea._ O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando a -Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios -desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e -Ponsul, onde chamaõ os Toulões.[125] Hoje he _Alcantara_. - -56 _Numancia._ Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa -Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores. -Nenhum melhor que o eruditissimo Argote[126] soube aclarar esta -confusaõ, distinguindo tres Cidades com este proprio nome; e com bons -fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos -nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ -_Nemaõ_, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro; e saõ -deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo com -mayor tenacidade,[127] a cujos fundamentos responde bem o sobredito -Padre Argote. - -57 _Obobriga._ Padeceo erro o Author da Corografia Portugueza[128] em -collocar esta povoaçaõ na Villa de _Monçaõ_: mais ajustada congruencia -tem em dizer que foy _Orosia_, posto que o insigne Argote o tem por -fabula.[129] - -58 _Ossel_, ou _Osset_. Tambem naõ lidaõ pouco os Historiadores, e -Geografos em averiguar a genuina situaçaõ local desta Cidade. Fr. -Bernardo de Brito tem para si que estivera no Valle Ossella, tres -leguas distante de Arouca, Bispado de Lamego;[130] e accrescenta, que -neste sitio achara vestigios daquelle notavel Templo, onde havia a Pia -baptismal milagrosa, e que no meyo de huns cumulos de pedra estava huma -cova feita ao comprido, cuberta de silvas, a que chamavaõ o banho, onde -parece que naquella consumida reliquia perseverava ainda a tradiçaõ do -tal prodigio. - -59 Todavia Fr. Antonio da Purificaçaõ mostra[131] que esta terra teve -sua existencia naõ longe de Viseu: que na sua principal Igreja houvera -huma reliquia de Santo Estevaõ muito milagrosa: que ainda no seu tempo -havia huma Ermida de fabrica antiquissima: que pouco adiante para a -parte do mar está huma fonte, que chamaõ das virtudes: que mais para -baixo estaõ naquelles contornos huns campos chamados de _Assem_, que -bem mostra ser vocabulo derivado de _Ossem_. - -60 Jorge Cardoso[132] julga que ficava Osset junto de Agueda, e que -era Cidade taõ forte, que a ella se fora refugiar Santo Hermenigildo -o anno 581 para rebater a furia de Leovigildo, como dizem alguns -Historiadores.[133] D. Joseph de Santa Maria Carthusiano, Vigario do -Convento de Nossa Senhora de las Cuevas em Sevilha, sahio à luz o -anno de 1630 com hum livro sobre a situaçaõ de _Ossel_, e a colloca -na Betica, seguindo a opiniaõ de Rodrigo Caro, a que Joaõ Franco -Barreto lhe responde na Historia dos Bispos de Evora cap. 11. 12. 13. -Porém huma das razões, que ha para desfazer estas conjecturas, he a -authoridade de S. Maximo, que expressamente diz ficava a tal povoaçaõ, -e Bautisterio no Bispado de _Pax Augusta_,[134] que he Badajoz. - -61 _Ossonoba_, a que Plinio chama _Lusturia_,[135] e Bocharto[136] -interpreta Fortaleza de Baal, esteve nas visinhanças de Faro no -Algarve, onde hoje chamaõ _Estoy_. Foy Cidade famosa, e nobre, pois -teve Cadeira Episcopal, como se collige de alguns Concilios, em que -se vem assinados varios Bispos com o titulo de Ussonobenses, os quaes -numéra o Catalogo dos Bispos do Algarve, que vem no fim das suas -Constituições. Em tempo dos Romanos foy Republica. Consta de hum -cippo, que está na muralha da fortificaçaõ de Faro, cujas letras se -podem ver em Resende, e Grutero.[137] Strabo[138] lhe chama Sonoba, se -acaso naõ he outro Lugar, como escrupuliza Bocharto. Na invasaõ dos -Mouros padeceo naõ só a ruina das suas fabricas, e muros, mas do nome, -porque lhe chamaraõ _Exubona_. Duarte Nunes,[139] e o Padre Poyares naõ -distinguem Estoy de Estombar, sendo elles taõ diversos. D. Rodrigo da -Cunha,[140] e Jorge Cardoso cahiraõ na mesma confusaõ, sendo que este -emendou o erro, retratando-o em outro lugar.[141] - -62 _Panonias._ Foy huma Cidade, que no tempo dos Romanos existio no -terreno de Villa-Real, onde hoje está a Aldea chamada o _Assento_, da -Freguezia de S. Pedro de Val de nogueiras: assim o mostra largamente o -Reverendo Padre Argote.[142] - -63 _Pineto._ Era outra Cidade situada no lugar, que hoje chamaõ _Val -de telhas_, cinco leguas distante da Villa de Chaves, e foy povoaçaõ -Romana, como affirma o mesmo erudito Argote.[143] - -64 _Salacia._ De duas Cidades com este mesmo nome achamos memorias que -existiraõ em nosso continente: huma cinco leguas de Braga, no sitio, -onde chamaõ _Salamonde_; assim o prova Argote[144] com o Itinerario -de Antonino: a outra Salacia esteve onde hoje vemos _Alcacer do Sal_, -e foy Cidade, que os Romanos chamaraõ Imperatoria, honra, que lhe deu -Augusto Cesar, fazendo-a tambem Municipio.[145] - -65 _Scalabis._ He sem controversia a Villa de Santarem, a que os -Romanos tambem chamaraõ _Julium Præsidium_. Em tempo dos Godos mudou o -nome de Scalabis no que hoje possue, adquirindo-o da Santa Virgem, e -Martyr Irena, cujo tumulo, naõ sem mysterio se conserva nas aguas do -Tejo defronte de Santarem, o qual melhor pronunciado he o mesmo que -_Santa-Irene_. - -66 _Talabrica._ Quasi todos os Geografos convem em ser esta Cidade -collocada antigamente onde está hoje _Aveiro_;[146] só Rodrigo Mendes -da Silva, seguindo a Floriaõ do Campo,[147] diz que Aveiro naõ foy a -_Talabrica_, mas sim a _Labara_, o que naõ he provavel, porque Labara -he hum Lugar pequeno sobre o mar no termo do Porto. Duarte Nunes a -constitue junto de Aveiro na ribeira do Vouga onde ha o lugar chamado -Cacîa, e na parte da Ermida de S. Juliaõ; com quem se conforma Gaspar -Barreiros pag. 51. - -67 _Tubuci_ foy povoaçaõ dos Romanos, de cujas ruinas, conforme -diz Resende, se erigio Abrantes, e se comprova com o Itinerario de -Antonino; o qual na segunda via militar, que descreve de Lisboa para -Merida, assina de Scalabis a Tubuci trinta e dous mil passos, que fazem -as oito leguas, que ha de Santarem a Abrantes. Alguns attribuem Tubuci -a Tancos. - -68 _Tuntobriga._ Foy huma Cidade, que pertencia à Chancellaria de -Braga, e de que se naõ sabe mais que o nome. - -69 _Vacca._ Persuade-se Jorge Cardoso no tom. 2. do Agiologio pag. -65. que esta antiga Cidade estivesse onde hoje vemos erecta a de -Viseu; porém Plinio, e Ptolomeu naõ fazem della mençaõ. O Author da -Corografia Portugueza diz, que por tradiçaõ a Cidade antiga chamada -_Vacca_ estivera onde hoje he a Villa de Vouga na Comarca de Aveiro: -porém quando trata da Cidade de Viseu, traslada tudo que achou em Jorge -Cardoso, convindo com elle em ser Viseu a antiga Vacca. - -70 Outras muitas povoações existiraõ em nosso Reino em tempo dos -Romanos, que se achaõ mencionadas nas Taboas de Ptolomeu, e Cartas de -outros Geografos, posto que nós naõ conhecemos, nem lhe podemos saber o -verdadeiro significado, mais que por conjectura, assim como fez Argote -com algumas da Provincia Bracarense. Das que sem muita controversia -podemos declarar situadas em varias partes do nosso continente, saõ as -que numeraõ Resende, e Vasconcellos, a saber: - - _Ad septem Aras_ Açumar, ou Alegrete. - _Amæa_ Portalegre. - _Aquæ Flaviæ_ Chaves. - _Aritium Prætorium_ Benavente. - _Arucitana_ Moura - _Balsa_ Tavira. - _Bracara Augusta_ Braga. - _Brætoleum_ Vianna de Caminha. - _Budua_ Botova, ou Ouguella. - _Calantica_ Arrayolos. - _Calem_ Porto. - _Ceciliana_ Agualva, ou Agua de Moira. - _Cellium_ Ceice junto de Thomar. - _Cetobriga_ Setubal. - _Collipo_ Leiria. - _Concia_ Miranda do Douro. - _Conimbrica_ Condeixa a velha. - _Ebora_, ou _Liberalitas Julia_ Evora. - _Eburobritium_ Evora d’Alcobaça. - _Elteri_ Alter do Chaõ. - _Eminium_ Agueda. - _Equabona_ Coina. - _Forum Limicorum_ Ponte de Lima. - _Fraxinum_ Alpalhaõ, ou Gaviaõ. - _Helvij_ Elvas. - _Jerabrica_ Póvos, ou Alenquer. - _Igædita_ Idanha, ou Guarda. - _Lacobrica_ Lagos. - _Lama_, ou _Lameca_ Lamego. - _Lancobrica_ Feira. - _Malceca_ Marateca. - _Matusaro_ Ponte de Sor. - _Medobrica_ Aramenha. - _Merobriga_ Santiago de Cacem. - _Moro_ Almorol, ou Punhete. - _Myrtilis Julia_ Mertola. - _Næbia_ Neiva. - _Olisipo_, ou _Fælicitas Julia_ Lisboa. - _Ossonoba_ Estoi junto de Faro. - _Pax Julia_ Beja. - _Portus Anibalis_ Villanova de Portimaõ. - _Salacia_, ou _Urbs Imperatoria_ Alcacer do Sal. - _Saurium_ Soure. - _Scalabis_, ou _Julium Præsidiũ_ Santarem. - _Serpa_ Serpa. - _Talabrica_ Aveiro. - _Tubuci_ Abrantes. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[21] Plin lib. 8. Epist. 24. _Revertere gloriam veterem, & hanc ipsam -senectutem, quæ in homine venerabilis, in urbibus sacra est_. - -[22] Ptolom. apud Cellar. lib. 2 cap. 1. Geogr. antiq. Veja-se Botelho -no Alfonso liv. 3. est. 77. - -[23] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. pag. 627. Corog. Port. tom. 1. p. -310. Argot. Antig. de Brag. t. 1. c. 2. - -[24] Villalob. Nobiliarch. Portug. pag. 89. Corogr. Port. t. 1. pag. -296. - -[25] Resend. lib. 1. Antiq. Lusit. Cellar. Georgr. antiq. lib. 2. c. 1. -§. 51. Vasæus Chronic. Hispan. pag. 254. Gruter. pag. 156. n. 4. - -[26] Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 3. 4. 5. Et de antiq. -Convent. Brachar. lib. 1. cap. 3. - -[27] Gaspar Barreir. na Corogr. - -[28] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. tom. 1. pag. 323. - -[29] Cunha Histor. Eccl. de Brag. part 1. c. 19. Villasboas Nobil. -Port. pag. 79. - -[30] Rodr. Caro in notis ad Dextr. ann. 265. _Ambrasia in Lusitania S. -Epitectus ejusdem Civitatis civis, & Pontifex Martyr Christi_ - -[31] Agiol. Lusit. tom. 3. pag 38. - -[32] O Campo Chron. p. 1. lib. 3. c. 27. Argot. Antig. de Brag. t. 1. -lib. 2. c. 6. n. 513. D. Franc. Man. Cent. 3. Cart. 62. p. 425. - -[33] Faria Fonte de Aganip. p. 2. Eclog. 4. Est. 10. - -[34] Estaç. nas Antig. de Port. c. 20. - -[35] Monarc. Lusit. liv. 2. cap. 11. - -[36] Corogr. Portug tom. 2. pag. 308. - -[37] Resend. de Antiq. Lusit. - -[38] Gasp. Barr. na Corogr. - -[39] Cardos. no Agiol. tom. 3. p. 371. - -[40] Sá Mem. Hist. part. 2 p. 1. & seq. Resend. de antiq. lib. 4. pag. -mihi 171. - -[41] Ferreras Histor. de Hesp. part 3. ad ann. 466 - -[42] Argot. Antig. de Braga tom. 1. p. 376. - -[43] Cardos. Agiol Lusit. tom. 2. p. 344. - -[44] Res. lib. 4. - -[45] Cellar. lib 2. Geogr. antiq. cap. 1. - -[46] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. lib. 2. c. 6. n 516. - -[47] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. V. Argais na Poblacion -Ecclesiast. de Hespanh. ad ann. 893. - -[48] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 23. - -[49] Monarq. Lus. l. 7. c. 23. Fr. Leaõ Benedict. tr. 2. p. 2. c. 21. - -[50] Corogr. Port. t. 1. p. 237. - -[51] Argot. Mem. de Brag. t. 2. p. 682. - -[52] Vasconc. in not. ad Resend. lib. 1. p. 258. Rodr. Mend. Poblac. -gen. de Hesp. p. 135. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port. -t. 2. p. 525. Agiol. Lus. tom. 3. p. 86. Cardoso no Diccion. Geogr. -tom. 1. p. 487. - -[53] Corogr. Port. tom. 3. p. 175. - -[54] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 761. - -[55] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p.316. - -[56] Rodr. Car. Antig. de Sevilh. Caram. Explicac. Mystic. de las armas -de Hespanh. p. 72. - -[57] Heit. Pint. in Ezech. cap. 13. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 1. -exc. 6. Far. Epit. p. 4. lib. 5. cap. 4. Becan. in Hermat. p. 229. Luiz -Mar. Antig. de Lisb. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port. -tom. 1. p. 209. Lacerd. in l. 6. Virgil. Æneid. - -[58] - - _Elysium in campum, terrarumque ultima tandem - Dii te transmittent, stat flavus ubi Rhadamanthus - Existitque viris, ubi vita, facilima durans - Non hyemis vis multa: nives non ingruit imber - Stridula, sed semper Zephyrorum flamina mittit - Ingens Oceanus, senimina grata virorum._ - - Homer. Odyss. d. vers. 113. - -[59] S. Gregor. Nazianz. orat. 20. p. 333. _Paradisi videlicet nostri -speciem quandam animo intuentes, atque ex Mosaicis, ut opinor, -nostrisque libris, tametsi in nomine nonnihil discreparit, aliis tamen -vocabulis, hoc ipsum indicantes._ - -[60] Proclus in Hesiod. fol. 27. _Beatorum insulas cum dicit Paradisum, -aut campum Elysium significare videtur, sic dictum, quod corpora servet -indissolubilia._ - -[61] Bechman. de origin. ling. Latin. p. 333. - -[62] S. Justin. in Cohortat. ad Græcos p. 27. _Permulta esse à Poeta, -ex Divinis quoque Prophetarum libris in opus suum relata... Deinde -verò, ut Paradisi effigiem Alcinoi horti conservarent, fecit illos -florentes, & frugum ubertate scatentes._ - -[63] Div. Hieron. in Genes. cap. 2. vers. 15. - -[64] Strab. de Situ Orbis lib. 3. p. mihi 143. - -[65] Genes. 5.23. - -[66] Barcepha de Paradis. cap. 12. - -[67] Malvend. de Parad. lib. 1. cap. 9. - -[68] Rodrig. Car. ad ann. Christ. 419. - -[69] Benedict. Lusit. tom. 1. pag. 304. - -[70] Haub. Chron. ad ann. 420. - -[71] Haubert. ad ann. 86. - -[72] Argaes Poblacion Eccles. de Hesp. tom. 1. fol. 10. - -[73] Benedict. Lus. tom. 2. p. 109. - -[74] Cardos. Agiol. Lus. tom. 1. p. 172. - -[75] Maced Flor. de Hesp. excel. 10. n. 3. P. Purific Chronic. de S. -Agost. p. 2. liv. 7. tit. 1. § 1. - -[76] Argot. Antig. de Brag. part. 1. p. 377. - -[77] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p. 318. - -[78] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 338. - -[79] Purific. Chron. August. tom. 1. p. 215. vers. - -[80] Argot. Mem. de Brag. tom. 2. p. 694. Leal, Mem. do Bispad. da -Guard. part. 1. tit. 3. cap. 2. n. 202. 203. 204. - -[81] Valer. Maxim. l. 6. cap. 4. - -[82] Monarq. Lusit. part. 1. liv. 3. cap. 13. - -[83] Far. Epitom. p. 110. part. 2. cap. 10. - -[84] Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. - -[85] P. Abreu no fim da vida de S. Quiteria p. 307. - -[86] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 320. e tom. 3. p. 17. - -[87] Corog. Port. tom. 1. p. 162. - -[88] Argot. Mem. de Brag. p. 386. e 457. - -[89] Monarq. Lusit. p. 1. cap. 3. Heit Pint. in Ezech. cap. 27. Far. -Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 3. - -[90] Resend. l. 4. de Antiq. p. mihi 216. Paiv. no Exame de Antiguid. -p. 9. - -[91] Barreir. Corograf. p. 63. - -[92] Luiz Nunes cap. 38. - -[93] Cellario Geograf. Antiq. liv. 2. cap. 1 § 16. - -[94] Plin. liv. 1. cap. 24. Gruter. p. 1155. Vasconcel lib. 5. de -Eborensi Municip. p. mihi 24. Duarte Nun. Deser. de Portug. p. 13. -Brandaõ t. 3. Cardos. no Agiol. t. 2. p. 374. Barreiros na Corograf. p. -50. v. - -[95] Bivar ad ann. 145. - -[96] Plin. liv. 4. cap. 22. Benedict. Lusit. part. 4. trat. 2. p. 173. -Abreu Vid. de S. Quiter. p. 203. - -[97] Medin. l. 2. - -[98] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. & tom. 1. p. 457. - -[99] Leal, Mem. do Bisp. da Guard. p. 14. & seq. - -[100] Id. Dissertaç. Exegetic. not. 5. n 28. - -[101] Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 26. - -[102] Mela liv. 5. cap. 24. - -[103] Resend lib. 2. Antiq. p. 66. mihi. Baudrand. Diction. Geogr. -verb. _Erythia._ Marinh. de Azeved. Antiguid. de Lisb. p. 105. - -[104] Paiv. Exam. de Antig. p. 42. - -[105] Montejar, Antig. de Hesp. part. 2 disquis. 5. §. 2. cap. 2. - -[106] Salmac. Exercit. Plinian. p. 284. Avien. in Oris maritim. vers. -308. Bochart. Geograf. Sacr. p. 679. Car. Antig. de Sevilh. l. 3. cap. -25. Cellar. Geogr. antiq. liv. 2. cap 1. §. 127. - -[107] Vasconcel. in Annotat. ad Resend. Barreir. Corograf. p. 50. - -[108] Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 11. - -[109] Ibid. l. 5. cap. 17. - -[110] De La Cled. Hist. de Portug. tom. 1. - -[111] Monarq. ut supr. - -[112] Argot. nas antiguid. da Chancellar. de Brag. p. 128. - -[113] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. liv. 2. cap. 6. n. 525. - -[114] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4. - -[115] Estaç. Antig. de Portug. cap. 87. Barreir. Corog. tit. de -Talaver. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 34. - -[116] - - _Dicitur Ardiburi posuisse Lacobriga septem - Victori toties statuas, totiesque per illum - Eruta Wandalicis bello insurgente procellis._ - - Mantuan. in Agelaric. - -[117] Vasconcel. Descript. Regn. Lusitan. p. 797. - -[118] Mousinh. no Afric. cant 3. est. 14. - -[119] Gabr. Pereir. na Ulyss. cant. 8. est. 146. - -[120] Argot. Mem. de Brag. liv. 4. cap. 4. p. 670. - -[121] Resend. de Antiq. Lusit. lib. 4. p. mihi 188. e 209. - -[122] Andr. Schotti, Isaac Vosio, Plinio, Antonin, e outros apud -Cellar. lib. 2. cap. 1. §. 20. Geograf. antiq. - -[123] Monarq. liv. 9. cap. 27. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 68. - -[124] Argot. Mem. do Arc. de Brag. p. 649. - -[125] P. Henriq. de Abreu, Vid. de S. Quiter. p. 203. - -[126] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. l. 2. cap. 14. dissert. 3. - -[127] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2 & 16. cap. 45. Cardos. Agiol. -Lusitan. tom. 2. a 20 de Abril, & tom. 3. p. 726. Arauj. nos Success. -Milit p. 109. & seqq. - -[128] Corograf. Port. tom. 1. p. 210. - -[129] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. p. 396. - -[130] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 11. - -[131] Purific. Chronic. August. tom. 1. p. 134. vers. - -[132] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 546. - -[133] Fr Leaõ de S. Thom. Benedictin. Lusit. tom. 2 p. 279. Saavedr. -Coron. Gotic. part. 1. cap 12. - -[134] S. Max. ad an. 550. _Prope Osset oppidum Lusitaniæ in Diœcesi -Pacis Augustæ fontes Baptismatis in pervigilio Paschatis excitantur_. - -[135] Plin. l. 3. cap. 1. - -[136] Bochart. Geogr. Sacr. lib 1. cap. 34. tom. 2. - -[137] Resend. l. 4. p. 201. Gruter. p. 274. - -[138] Strab. liv. 3. p. 99. - -[139] Nun. Descr. de Portug. pag. 13. Poyar. Diccion. Geogr. pag. 184. - -[140] Rodrig. da Cunh. Hist. de Brag. part. 2. cap. 61. Cardos. -Agiolog. Lusit. tom. 1. Prolog. § 6. - -[141] Id. Card. tom. 2. Agiol. p. 10. Vide etiam Argaes Dialog. 3. cap. -8. - -[142] Argot. Memor. do Arceb. de Brag. p. 325. - -[143] Id. ibid. p. 359. - -[144] Ibid. p. 370. - -[145] Plin. lib. 4. cap. 22. Barreir. Corogr. p. 63. - -[146] Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. §. 9. - -[147] Mend. da Silv. Poblac. gen. de Hesp. - - - - - CAPITULO III. - - _Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre._ - - -1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte -de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o -todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças -fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional, -o primeiro porto, que se nos offerece, he - -2 _Caminha_. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que -divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os -Lugares de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma -Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas -barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e -continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se - -3 _Viana_ na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de fóra da -ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade para -ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais entupida -de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, dous -revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para sua -defensa. Daqui se continúa até - -4 _Esposende_, que dista de Viana tres leguas para o Sul. Nesta barra, -onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de embarcações -grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças escaças de -agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o rio Cávado -por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando aquella para -a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, quasi meya legua -da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte a Sul hum quarto de -legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ _Cavallos de Faõ_, -entre os quaes, e a terra podem bordejar navios, pois tem cinco, ou -seis braças de fundo em preamar. O Author da Corografia Portugueza tom. -1. pag. 310. diz, que este era o porto, em que se carregavaõ de ouro as -frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual veja-se tambem a Antonio de Sousa -de Macedo nas Flores de Hespanha cap. 4. excel. 2. O mais certo he, que -foy este o porto, donde sahiaõ as armadas dos Romanos para fazerem as -suas conquistas. Vindo caminhando para o Sul o espaço de tres leguas, -segue-se a - -5 _Villa do Conde_. Dá entrada a esta barra a foz do rio Ave, porém -estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes delineado -pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay correndo a -marinha até o - -6 _Porto_, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o porto de -Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica -distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma da parte do -Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinaria de -entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua cheya, sendo -navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa -pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da -barra para a parte do Norte está o Castello de S. João da Foz em -quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus -lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado -opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. Aqui se termina a -Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto sempre para o Sul o -espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra da Beira, que he - -7 _Aveiro_. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da Cidade -tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e quatro -palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre da -ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia -de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no -ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias, -onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o -genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste, -encontramos a barra do - -8 _Mondego_. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca -da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do -forte meya legua na Costa fica a Villa de _Boarcos_, onde tambem ha -surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia -de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da -Estremadura a - -9 _Pederneira_. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e -caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja -de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo -concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de -duas leguas está - -10 _Selir_, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à Villa -de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, por onde -entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma enseada, que -terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e patachos. De -Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, segue-se - -11 _Peniche_, onde tambem chamaõ _Cabo de Carvoeiro_. Fica, estando a -maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da banda do Norte -he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em seis, ou sete -braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de Peniche estaõ -duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que chamaõ as -_Berlengas_, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de Peniche para -o Sul, caminhando onze leguas, está a _Ericeira_, e a pouco espaço o -_Cabo da Roca_. Para diante mais duas leguas está _Cascaes_, onde ha -capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito até vinte braças de alto. -Daqui proseguindo interposto o espaço de duas leguas, se encontra o -famoso porto de - -12 _Lisboa_. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo de duas -fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e S. Lourenço, -ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em distancia huma -da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo cada passo. -Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta barra 2500 -passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa dos cachopos, -que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a qual se divide -em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a fortaleza de S. -Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay por entre os -cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. Lourenço, -chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem 500 -braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra dentro, -a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey D. Manoel, -fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena distancia de -huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de Lisboa: mas como -o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum grande seyo, -fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que naõ continue -na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que ha desde a -barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte. - - _Portos do Tejo da parte do Portos do Tejo da parte do - Sul. Norte._ - - Trafaria. S. Giaõ. - Portinho de Costa. Oeiras. - Torre velha. Caxias. - Porto brandaõ. Carcavelos. - Manatega. Paço d’Arcos. - Alfansina. Cartuxa. - Arrabida. Boa Viagem. - Arialva. Santa Catharina. - Fonte da pipa. Pedrouços. - Cassilhas. Belém. - Caramujo. Junqueira. - Motella. Santo Amaro. - Oliveirinha. Alcantara. - Corroyos. Pampulha. - Santa Martha. Santos velhos. - Talaminho. Caes do Tojo. - Amora. A Dizima. - Rio dos Judeos. Remolares. - Arrentella. Corpo Santo. - Seixal. Caes da Pedra. - Rosario. Alfama. - Porto dos PP. Paulistas. Caes do Carvaõ. - Aldeya. Bica do Sapato. - Cabo da Linha. Santa Apollonia. - Coina. Cruz da Pedra. - Fornos delRey. Madre de Deos. - Palhaes. Xabregas. - A Telha. Grilo. - A Verderena. Beato Antonio. - Barreiro. Poço do Bispo. - Lavradio. A Martinha. - Barra a barra. Braço de prata. - Alhos vedros. Cabo rubo. - Moita. Unho de D. Garcia. - Esteiro furado. Marvilla. - Sarilhos grandes. Olivaes. - Sarilhos pequenos. Sacavem. - Aldeya Galega. Aqui desagua este rio no Tejo - Lançada. por huma grande boca, fazendo - Quinta de D. Maria. huma profundissima foz; e - Samouco. ficando quasi ao Norte da Cidade, - Alcouxete. volta contra o Noroeste, onde - Barroca d’Alva. se encontraõ os vistosos portos - Pancas. de _Unhos_, _Frielas_, _Mealhada_, - Çamora Correa. _Granja_,_ Marnotas_, _Santo Antonio - Benavente. do Tojal, &c_. Continuando pela - marinha direita, segue-se: - - Salvaterra. Massaroca. - Escaroupim. Santa Iria. - Mugem. Povoa. - Santa Martha. Alverca. - Almeirim. Alhandra. - Chamusca. Villa-Franca. - Pinheiro. Póvos. - Moita. Castanheira. - Barca. Villa-Nova. - Brito. Azambuja. - Santa Margarida. Casa branca. - Crucifixo. Valada. - &c. Porto de Mugem. - Santarem. - Azinhaga. - Labruja. - Cardiga. - Barquinha. - Tancos. - Payo de pelles. - Praya. - Punhete. - Redemoinhos. - Abrantes. - -Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico, -prosegue a Costa da Roca de Cintra até o - -13 _Cabo de Espichel_ na distancia de oito leguas ao Sudueste. Em outro -tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos Sarrios. No -cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa Imagem de Nossa -Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está - -14 _Cezimbra_, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à Arrabida -ha duas leguas, e junto della a _Torre de Outaõ_, e huma enseada para -setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa legua para -Leste se offerece a barra de - -15 _Setubal_, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte -e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella -mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas -fica - -16 _Sines_ já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro em -dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte leguas -até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste caminho -mais tres leguas se vê a - -17 _Ilha do Pessegueiro_, antigamente chamada Petanio, como diz Joaõ de -Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro em duas, -e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a barra de - -18 _Odemira_, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de fundo. -Caminhando-se para diante sete leguas, está - -19 _Arrifana_, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em oito -até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de S. -Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está - -20 _Sagres_, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem -surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para -diante continúa - -21 _Lagos_. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em sete para -oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da _Bandeira_, -bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta Costa outras -muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de Lagos a foz -de - -22 _Alvor_. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada -_Portos Anibalis_. Navega-se da sua foz até à Villa em lanchas. -Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece -senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se - -23 _Villa-Nova de Portimaõ_, em cuja barra por causa dos bancos de arêa -moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous fortes, -hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente, a que -chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar vinte e -tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para bastantes -embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe dista duas -leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia tem só meya -legua de comprimento capaz. Descobre-se logo - -14 _Albofeira_, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte da -Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de -Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte -de Leste, outro de Oeste. Segue-se - -25 _Faro_, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a parte de -Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante cinco leguas -vemos. - -26 _Tavira_, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo, e -he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a -Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do -Algarve, está ultimamente - -27 _Castro-Marim_ defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra parte do -rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e separa o Reino -do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este rio cinco leguas -com os olhos ao Norte, vemos a Villa de - -28 _Alcoutim_, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar do -Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno -levantado. Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e -separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de - -29 _Mertola_ já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres váos, o -do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima a margem -do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça, e Villa de - -30 _Serpa_, a qual com as de _Moura_, _Mouraõ_, _Olivença_, _Ouguela_ e -_Noudar_ estaõ no destricto de Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo -de terra, que alli se fórma da parte direita, pondo-nos voltados ao -Norte, deixando à maõ esquerda o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo -nossas desde o anno de 1297 pela concordata, ou tratado de Alcanisses, -que fez ElRey D. Diniz com ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela -margem do mesmo Guadiana está _Jurumenha_, e depois segue-se - -31 _Elvas_, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas -da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem -fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está -a Praça de - -32 _Campo-Mayor_ em huma grande planicie muy bem fortificada ao moderno -com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante seguem-se -_Arronches_, _Alegrete_, _Portalegre_, _Marvaõ_, _Castello de Vide_, e -_Montalvaõ_, Praças todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a -separaçaõ das duas Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo -por entre Malpica, e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que -se encontra na Beira, indo por esta parte, he - -33 _Rosmaninhal_, que de huma parte está fortificada com o Tejo, e de -outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he cercada -de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas junto -ao rio Elja está a Villa de - -34 _Segura_ com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o campo. -Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e Castella -de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa de - -35 _Salvaterra da Beira_ com Castello forte bem descortinado, e -guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais -para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que se -oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. Nas -costas de Salvaterra cinco leguas fica _Idanha nova_, cuja aspereza -de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o Nascente, -segue-se - -36 _Penagarcia_ com Castello forte sobre penhasco. Tem humas montanhas, -que lhe servem de grande defensa, e confiança contra qualquer -temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas costas de -Penagarcia está situada - -37 _Idanha a velha_ quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul: he -sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua -segue-se a Villa de - -38 _Monsanto_ com seu Castello fundado em hum monte das mais raras -asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a -todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade -de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde -para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem -o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum -adagio, que diz: _Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te ganare, -ganar puede el mundo_; e já os Romanos a tiveraõ sete annos de cerco. -Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas, segue-se -ao Norte. - -39 _Penamacor_, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente -penhasco, e he por sitio inexpugnavel. Oppoemse-lhe o Castello de -Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do - -40 _Sabugal_ com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de Sortelha -inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com Castella -de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste pela serra -de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal. De Lagiosa -até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde começa a -fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de - -41 _Alfayates_, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta Praça -o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680 pés -geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura de vinte -e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os Castellos de -Payo, e Albergaria. Seguem-se _Villar-Mayor_, e _Castello Mendo_, duas -leguas em distancia hum do outro, indo sempre ao Norte. Outras duas -para diante está _Castello Bom_, e mais outras duas a Praça de - -42 _Almeida_, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores Praças -do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por alcance de -vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem della terras -de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga, Miranda, -Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor -eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres -leguas para o Norte segue-se - -43 _Castel-Rodrigo_ em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as armas -Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer dar -entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque seus -moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites. Acabada -de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a divide -de Tras os Montes, onde vemos logo o _Castello d’Alva_, e _Freixo -de Espadacinta_ em sitio baixo, mas com cinco torres, e fortaleza -grandiosa. Segue-se o _Mogadouro_, a _Bemposta_, _Penas-Royas_, -_Algoso_, terras todas fronteiras do Reino de Leaõ. Depois segue-se - -44 _Miranda do Douro_ collocada sobre asperos penhascos, a quem o -rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem bom -Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se _Vimioso_, -_Outeiro_, cinco leguas cada huma de Miranda; e contaremos nove, se -passarmos daqui Nornoroeste a - -45 _Bragança_, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a aparta -da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na distancia -de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza - -46 _Vinhaes_, _Monforte do Rio livre_, _Chaves_, _Montalegre_; e -avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do Maraõ, e entrando na do -Gerez, em cujo encontro se dividem as duas Provincias Minho, e Tras os -Montes, se avistaõ nesta linha alguns Castellos, como o de _Lanhoso_ -em correspondencia da fortaleza de Araujo; o _Castello da Nobrega_ -com as terras de Entrimo por fronteiras; o _Castello de Lindoso_, a -quem se oppoem o Lugar de Ferreiros; o _Castello Laboreiro_, que tem -por opposto o da Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho. -Segue-se a Villa de - -47 _Melgaço_ com excellente Castello, a quem se oppoem os Lugares -Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante _Valladares_, -que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e Marcella. Outra legua -e meya está _Monçaõ_ em sitio eminente. Huma legua para diante segue-se -_Lapella_, e outra - -48 _Valença_ fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se -offerece _Villa-Nova de Cerveira_, fundada, e cercada de muros de -cantaria. Oppoem-se ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano; -e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com _Caminha_, donde -principiámos o gyro desta demarcaçaõ. - - - - - CAPITULO IV. - -_Divisaõ antiga._ - - -1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz. -Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos, -toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que -debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas, -Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos. -Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte -daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas. - -2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a -contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos -annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a -que chamaraõ Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.[148] A citerior -ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a -que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado -occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia -esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos -seus interesses, accrescentando, ou diminuindo as terras de huma, ou -de outra parte. - -3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra -Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio -a Hespanha em tres Provincias, a saber: _Lusitanica_, _Betica_, e -_Tarraconense_. A Lusitanica incluia a mayor parte do que hoje chamamos -Portugal, com outras muitas terras, que hoje pertencem ao Reino de -Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O rio Douro a separava -pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo oriental huma linha, -que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se incorpora com o -rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, e este depois -dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja costa cercava -o restante da Lusitania. - -4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva -Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli -corria até o cabo de _Finis terræ_, e aquelle espaço depois situado -entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, e -Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma -padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce -a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre -Argote.[149] - -5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano, -visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis -Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, -e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da -Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo -com particularidade, e certeza.[150] Constantino Magno fez outra -divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores. -Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias. - -6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições -tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a que -chamavaõ _Conventos Juridicos_, collocados nas Cidades mais insignes da -Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca para administraçaõ da -justiça. Destes Conventos Juridicos, a que correspondem hoje as nossas -Relações, havia quatorze em toda Hespanha: as que tocaraõ às nossas -terras, foraõ tres: _Braga_, _Béja_, e _Santarem_. - -7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de -_Municipios_. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas por -familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno _Béja_, e _Santarem_, -além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e gozavaõ seus -Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios eraõ os que -se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ _Lisboa_, _Evora_, -_Mertola_, e _Alcacer do Sal_. - -8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno -de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente -os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições -até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de -1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios; -e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou -a chamar Portugal o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões -antigas, passemos a expressar as modernas. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[148] Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin. cap. 23. -Strab. lib. 3. pag. 166. - -[149] P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas Mem. do -Arceb. de Brag. pag. 40. e 41. - -[150] Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6. Flor. do -Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog. de reb -Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. e 20. -Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir. Corograf. -pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers. - - - - - CAPITULO V. - -_Divisaõ moderna pelas Provincias._ - - -1 Presentemente se divide Portugal em seis Provincias, ou Regiões: -duas ficaõ na parte septentrional, e se chamaõ _Entre Douro e Minho_, -e _Tras os Montes_: duas no coraçaõ do Reino, chamadas _Beira_, -e _Estremadura_: e outras duas na parte Meridional, a que chamaõ -_Alentejo_, e _Algarve_, que tambem logra o titulo de Reino. Cada -Provincia destas se subdivide em Comarcas, ou Ouvidorias, para boa -administraçaõ da justiça; e cada Comarca tem debaixo da sua jurisdiçaõ -certo numero de Villas, e Lugares, em que existem seus Juizes, que -governaõ subordinados aos Corregedores das Comarcas. Supposta esta -prejacente noticia, entremos a descrever a primeira Regiaõ da parte do -Norte, chamada - - -_Provincia do Minho._ - -2 Como esta Provincia está encerrada entre as famosas correntes dos -dous rios Douro, e Minho no Occidente septentrional de Hespanha, da -tal situaçaõ tomou nome de Entre Douro, e Minho, que em Latim se diz -_Interamnensis_, ou _Duriminea_. Quasi todos os Geografos[151] lhe daõ -de comprido de Norte a Sul dezoito leguas, e de Nascente a Poente doze -de largo na sua mayor largura, porque em algumas partes naõ tem mais -que oito. - -3 Confina esta Provincia da banda do Meyo dia com o rio Douro, que -a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano, -começando em S. Joaõ da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o -rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do -Norte, vay pelo dito rio até o termo da Villa de Monçaõ, e alli passa o -termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de -Castro-Laboreiro, que saõ doze leguas desde a Villa de Caminha. Dalli -atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, e -vay pela terra de Barrozo até à ponte de Cavez, que está no rio Tamega, -e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay -pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começámos. - -4 O clima he o mais temperado, porque está entre o parallelo de 41 e -42 gráos de altura do Polo Arctico. Daqui nasce, que sendo taõ pequena -esta Regiaõ, he summamente fertil; e a benignidade dos seus ares, a -affluencia dos seus rios, as abundancias, e delicias dos seus campos -comprovaõ a fama do seu admiravel temperamento; donde se animou a dizer -Manoel de Faria,[152] que se no mundo houve Campos Elysios, existiraõ -nesta Provincia; e se os naõ houve, merecia que sómente os houvesse -nella, se he que este titulo se deve dar a sitio ameno, e delicioso. - -5 Assim o vemos, porque a mayor parte desta Provincia está sempre -cheya de arvoredos de todo o genero, que organizaõ hum continuado -bosque perpetuo, e muy aprazivel, composto de loureiros, azinheiros, -platanos, buxos, murtas, teixos, pinheiros, e ciprestes, que todos nem -de Inverno perdem a folha, além de castanheiros, carvalhos, sovereiros, -e outras arvores, donde se criaõ as mais robustas madeiras do -mundo,[153] taõ ferteis, que ha castanheiro, que dá trinta, e quarenta -alqueires de castanha, e ainda hum moyo, como affirma Joaõ Salgado de -Araujo:[154] pé de vide em latada, ou em arvore, que dá pipa de vinho: -pé de nogueira, que dá moyo de noz: larangeira, que dá cinco carros -de laranja: pé de carvalho, que dá meyo moyo de bolota; e alguns taõ -grandes, que naõ o abrangem quatro homens, como he na quinta de Mouro -de S. Joaõ de Ataens da Villa de Pica de Regalados. Testifica o Doutor -Joaõ de Barros na Descripçaõ, que fez desta Provincia, capitulo 7, que -vira hum, em cujo oco cabiaõ cincoenta cabras, e outro, onde cabiaõ dez -homens a cavallo, dando por testimunha ao Marquez de Villa-Real, que -foy huma das pessoas, que entrara dentro, o que parece encarecimento, -posto que o mesmo escreve Manoel de Faria.[155] - -6 Esta abundancia he igual em tudo. De boys, e vacas sustenta -quatrocentos mil, e mais de hum milhaõ de ovelhas, e carneiros, segundo -dizem Duarte Nunes,[156] e outros. O Doutor Joaõ de Barros, sendo -Ouvidor de Braga o anno de 1500 e tantos, diz, que por ordem delRey -mandara fazer a conta do gado, que havia só no termo daquella Cidade, -e achara treze mil cabeças de gado meudo, e de boys, e vacas onze -mil. A mesma fecundidade corresponde a todo o genero de caça, carnes, -e peixes, tudo de excellente sabor, principalmente havendo tantos -rios povoados de gostosos salmões, lampreas, trutas, salmonetes, -sáveis, bogas, e tainhas, com infinitos outros igualmente admiraveis. -Criaõ-se tambem todo o genero de legumes, e hortaliça: tem muito mel, e -lacticinios, muito milho, o paõ que basta, e até minas de ouro, prata, -ferro, e estanho. Lavra-se o linho mais fino, de que se fabrîca o panno -branco muy estimado na Europa. Só azeite ha pouco nesta Provincia, naõ -porque a terra deixe de criar oliveiras, mas porque naõ as plantaõ; -porque lisongeados os seus naturaes com o prestimo, e sabor do chamado -unto, de que usaõ tanto nos guizados, como às vezes nas luzes, -esqueceraõ-se de as cultivar. - -7 Saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e -até nos tempos, que a natureza constitue estereis, saõ aqui fecundas -as mulheres. Muitos exemplos, e casos ajuntou para confirmaçaõ desta -raridade, e excellencia Gaspar Estaço,[157] e Antonio de Sousa de -Macedo.[158] Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde -sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o -Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha -parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum sino, e cantar hum -galo.[159] Parece toda a Provincia huma Cidade continuada. - -8 Conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas -aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota, -e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes,[160] e -innumeraveis rios grandes, e pequenos; sendo os de mayor nome os -seguintes: _Ave_, _Basto_, _Benade_, _Biturim_, _Cabraõ_, _Caldas_, -_Campanhaõ_, _Cávado_, _Celho_, _Celinho_, _Coa_, _Cosme_, _Coura_, -_Deiriz, este_, _Dolo_, _Douro_, _Enfesta_, _Ensalde_, _Fato_, -_Ferreira_, _Fulias_, _Gadanha_, _Gifães_, _Gogim_, _Herdeiro_, -_Homem_, _Landim_, _Lavoreiro_, _Leça_, _Lima_, _Locia_, _Maçarelos_ -_Mejavelhas_, _Melres_, _Minho_, _Moles_, _Mouro_, _Neiva_, _Olo_, -_Ovelha_, _Ouvir_, _Pontido_, _Prado_, _Ramada_, _Rellas_, _Siguelos_, -_Sousa_, _Tamega_, _Taveira_, _Teixeira_, _Torto_, _Trovella_, _Tua_, -_Valengo_, _Vargeas_, _Veadões_, _Vez_, _Vizella_, _Zezere pequeno_, e -outros, que se diffundem nos capitaes. - -9 Duzentas saõ as pontes de cantaria, a que estes rios obedecem, e as -mais famosas a de _Cavez_ muy larga, e muy alta, com cinco arcos de -pedras taõ admiravelmente lavradas, que todas saõ de hum tamanho: a -de _Mondim_ com seis arcos: a de _Amarante_ feita por diligencias de -S. Gonçalo; e outras muitas. Contaõse-lhe seis portos de mar capazes -de receber navios: _Caminha_, _Viana_, _Esposende_, _Leça_, _Villa do -Conde_, _Porto_. - -10 As Praças de armas cercadas, e acastelladas saõ dezaseis: _Porto_, -_S. Joaõ da Foz_, _Villa do Conde_, _Viana_, _Caminha_, _Villa-Nova_, -_Valença_, _Lapela_, _Monçaõ_, _Melgaço_, _Castelo Lavoreiro_, -_Lindozo_, _Nobrega_, _Lanhozo_, _Aguiar de Pena_, _Celorico de -Basto_; e pelo Certaõ tem: _Braga_, _Guimarães_, _Ponte de Lima_, e -_Barcellos_, de todas as quaes se faz pleito, e omenagem. E segundo -o calculo de Joaõ Salgado de Araujo,[161] tinha no anno de 1644 seis -mil homens capazes de tomar armas. Mas pelo que toca ao militar, -accrescento huma singularidade desta Provincia, e he, que pelos muitos -rios menores, que comprehende, pontes delles, barcas dos mayores, -e grande abundancia de bosques, sem duvida que causará huma grande -difficuldade para se deixar penetrar de inimigos; e já estes embaraços -remiraõ muitas vezes este Paiz da invasaõ dos Romanos, aos quaes lhe -custou tempo, trabalho, e gente a sua conquista, quando tudo rendiaõ -suas armas entaõ vitoriosas contra as mais nações do mundo todo. - -11 Pelo que pertence ao estado Ecclesiastico, ha nesta Provincia duas -Igrejas Cathedraes: _Braga_ Arcebispado, e _Porto_ Bispado. Cinco -Collegiadas: _Guimarães_, _Barcellos_, _Valença_, _Cedofeita_, _Viana_. -Paroquias, conforme o calculo de alguns Authores,[162] tem 1460, e -de outros tem 1500.[163] Conventos, e Mosteiros de diversas Ordens -mais de 150. De Ermidas, e Igrejas naõ Paroquiaes hum grande numero. -Corpos de Santos, que venera, tem quatorze. Santos nacionaes tem grande -quantidade: _S. Damazo_, _S. Gonçalo de Amarante_, _S. Torcato_, -_S. Pedro de Rates_, _S. Gerardo_, _S. Vitouro_, _S. Frutuoso_, _S. -Martinho de Dume_, _S. Rozendo_, _Santa Senhorinha_, _Santa Suzana_, _o -Irmaõ Pedro de Basto_, e outros muitos, de que o Agiologio Lusitano faz -memoria. De homens insignes já em letras, já em armas tem produzido, -e produz numero grandissimo, de que nós, quando fallarmos das suas -patrias particulares, nos lembraremos. - -12 Naõ he para esquecer huma excellente gloria, que esta Provincia tem, -qual he darse nella principio à vida Eremitica muitos annos antes que -S. Paulo primeiro Ermitaõ a introduzisse no Reino; pois sendo S. Felix -o que deu sepultura a S. Pedro de Rates, como consta das suas Lições, e -que vivia nos desertos desta Provincia em hum alto monte de S. Miguel -de Laundos, Abbadia da Villa de Esposende,[164] fica precedendo S. -Felix a S. Paulo o que vay do anno 46, em que morreo S. Pedro de Rates, -ao de 300 em que floreceo S. Paulo. A causa porém, que houve para -chamar a S. Paulo primeiro Ermitaõ, veja-se no Agiologio Lusitano tom. -1. - -13 Divide-se finalmente esta Provincia em seis Comarcas, que vem a ser: -_Guimarães_, _Braga_, _Porto_, _Viana_, _Barcellos_, e _Valença_. Cada -huma dellas tem varias povoações debaixo de sua jurisdiçaõ. Tudo desta -Provincia resumio nestas duas estancias a Musa de hum engenho Hespanhol: - - _Es Entre Duero, y Miño la primera - Porcion del Reyno, en rios muy bañada, - Donde_ Braga _magnanima prospéra - De los Brachatos hija sublimada. - Al Romano dificil, y guerrera: - A los de Porto altiva, y respetada: - De Augusto honor, Juridico Convento, - Corte Sueva, y Arçobispal assiento. - - Del Duero ilustra el margen atractivo_ - Porto, _que de Gatelo pueblo raro - Dandole a Portugal nombre preclaro._ - Guimarães _Villa es noble, y primitivo - Solio de Reys Lusos. Tiene claro - Timbre_ Puente de Lima: _altas bellezas_ - Viana, _de partido ambas cabeças._ - -_Comarcas da Provincia do Minho._ - - { {Aguiar da Penha, Amarante, - {5 Villas. {Canaveses, Guimarães, - { {Povoa. - { - { {Atey, Cabeceiras de Basto, - { {Celorico de Basto, Santa - { {Cruz de Riba Tamega, - { {Felgueiras, Gestaço, Gouvea - { {de Riba Tamega, Hermello, - {19 Concelhos. {S. Joaõ de Rey, - { {Lanhoso, Mondim, Montelongo, - { {Ribeira de Pena, - I. { {Ribeira de Soás, Roças, - Guimarães { {Serva, Vieira, Villaboa da - Correiçaõ { {Roda, Unhaõ. - consta de { - { {Abbadim, Fonte Arcada, - { {Mancelos, Moreira de - { {Rey, Parada de Bouro, Pedraido, - {14 Coutos. {Pombeiro, Pousadela, - { {Refoyos de Basto, Taboado, - { {Tibães, Travanca, - { {Tugas, Vimieiro. - { - {4 Honras. {Cepães, Meinedo, Ovelha, - { {Villacahiz. - { - {1 Julgado. {Lagiosa. - - { {Arcos de Valdevez, Monçaõ, - {7 Villas. {Ponte da Barca, Ponte - { {de Lima, Prado, Viana, Villanova - { {de Cerveira. - { - { {Albergaria de Penella, Bouro, - { {Coura, Entre Homem - { {e Cávado, Geraz do Lima, - II. { {Lindoso, Santa Martha do - Viana {12 Concelhos.{Bouro, Santo Estevaõ da Faxa, - Correiçaõ { {Soajó, Souto de Rebordaõs, - consta de { {Villa Garcia, Pica - { {de Regalados. - { - { {Aboim da Nobrega, Azevedo, - { {Baldreu, Boilhosa, - { {Bouro, Cervães ou Villar - {15 Coutos. {de Areas, S. Fins, Freiriz, - { {Luzio, Manhente, Nogueira, - { {Queimada, Sabariz, - { {Souto, Rendufe. - - { {Barcellos, Castro Laboreiro, - {7 Villas. {Esposende, Famelicaõ, - { {Melgaço, Rates, Villa - { {do Conde. - { - III. {3 Concelhos. {Larim, Portella das Cabras, - Barcellos { {Villachã. - Ouvidoria { - consta de { {Cornelã, Fragoso, Gondufe, - {5 Coutos. {Palmeira, Villar de - { {Frades. - { - {1 Julgado. {Vermoim. - { - {1 Honra. {Fralães. - - IV. {3 Villas. {Caminha, Valença, Valadares. - Valença { - Ouvidoria { - consta de {2 Coutos. {Feães, Paderne. - {1 Cidade. {Braga. - V. { - Braga { {Arentim, Cabaços, Cambezes, - Ouvidoria { {Capareiros, Dornelas, - consta de {13 Coutos {Ervededo, Feitosa, Goivães, - { {Moure, Pedralva, - { {Provesende, Pulha, Ribatua. - - {1 Cidade. {Porto. - { - {3 Villas. {Melres, Povoa de Varzim, - { {Villanova. - { - { {Aguiar de Sousa, Avintes, - { {Bayaõ, Bemviver, Gaya, - VI. {13 Concelhos.{Gondomar, Lousada, Maya, - Porto { {Penafiel de Sousa, Penaguiaõ, - Correiçaõ { {Portocarreiro, Refoyos de - consta de { {Ribadave, Soalhães. - { - { {Ansede, Entre ambos os - {7 Coutos. {rios, Ferreira, Meinedo, - { {Paço de Sousa, Pendorada, - { {Villaboa de Quires. - { - {6 Behetr. e {Baltar, Barbosa, Frasaõ, - {Honras. {Gallegos, Louredo, Sabrosa. - - -_Provincia de Tras os Montes._ - -1 A Segunda Regiaõ, ou Provincia do Reino, he chamada _Tras os Montes_, -porque do Reino de Galiza até o Douro de Norte a Sul atravessaõ huns -montes muy altos, que parece estaõ cercando a Provincia do Minho, como -fazem os Alpes a Italia; e saõ de tanta eminencia estes montes, que -em muitas partes tem huma legua de subida aspera, como se experimenta -nas serranias do Gerez, e altura do Maraõ; e assim havendo respeito ao -Minho, fica esta Provincia além daquelles montes, que lhe deraõ o nome. - -2 Sua demarcaçaõ costuma fazerse da Portela de Homem pela banda do -Norte até à ponte de Cavez; e continuando do Poente pelo rio Tamega -até entrar no Douro, faz este a divisaõ com a Provincia da Beira até -Vilvestre. Daqui olhando para o Norte, o mesmo rio Douro a aparta do -Reino de Leaõ até quatro leguas depois de se chegar a Miranda; e daqui -por divisas, e marcos até dar no rio Maçaõ naõ longe de Maid, onde -inclina a Poente com a serra chamada de Teixeira, e as de Senabria, e -Gerez até vir incorporarse onde começou. - -3 O commum dos Geografos[165] dá a esta Provincia trinta leguas de -comprido, e vinte de largo; porém o Abbade de Pera[166] diz, que naõ -fizeraõ boa mediçaõ; porque da Portella de Homem até Urros defronte de -Vilvestre saõ trinta e quatro leguas, e de Canavezes até o rio Maçaõ -fazem trinta e seis (he erro, porque verdadeiramente naõ devem ser mais -que vinte e seis conforme os Mappas de Fernaõ Alvares Seco, e Pedro -Teixeira) e assim lhe dá de circuito cento e trinta leguas. - -4 Muito mal se informou Floriaõ do Campo naõ só na demarcaçaõ, que -dá a esta Provincia, mas em dizer que he terra infrutifera; porque -supposto naõ ser taõ fertil como Entre Douro e Minho, a verdade he -haver aqui muitos valles deliciosos, e muitas Villas abastadas de paõ, -vinho, azeite, mel, frutas, gados, caças, legumes, e sedas. Tal he a -Villa de Chaves muy amena, na qual habitaraõ os Romanos muito tempo, -por ser boa terra, e Villa-Real e outros muitos Lugares desta Regiaõ: -só de frutas de espinho naõ tem abundancia. - -5 O clima naõ ha duvida, que he frio em extremo: tem nove mezes de -Inverno, e tres de Veraõ ardentissimo, por naõ ser arejada do Norte, -que embaça nas montanhas, e com tudo he terra sadia, e de boas aguas, -excepto em Bragança, e Miranda, que saõ pessimas. Os rios mais nomeados -saõ estes: _Angueira_, _Alvedrinha_, _Azibo_, _Beça_, _Corgo_, _Caldo_, -_Calvo_, _Douro_, _Fervença_, _Frio_, _Fresno_, _Lobos_, _Maçaõ_, -_Mente_, _Pinhaõ_, _Rabaçal_, _Sabor_, _Tamega_, _Tinhella_, _Tua_, -_Tuella_, _Villariça_, _Vellarva_, _Zacharias_. Fontes medicinaes tem -quarenta e tres. - -6 A gente, que habita esta Provincia, he pela mayor parte robusta, e -corpulenta: as pessoas nobres saõ dotadas de grande primor, e brio; -muy valentes, e honrados; aptos para a guerra, e tem grande exercicio -da gineta, e brida, em que fazem sumptuosas festas. Saõ muy devotos -da Igreja, e veneraõ com estimaçaõ a seus Ministros: conservaõ as -amizades, e com os estranhos saõ attenciosos. As mulheres nobres tem -grande recolhimento, as outras ajudaõ a cultivar as terras a seus -maridos, e às vezes mais trabalhaõ ellas que elles: em fim diz o Abbade -Joaõ Salgado de Araujo, que naõ se sabe desta Provincia vicio algum -nativo della. - -7 Inclue esta Provincia duas Cidades: _Miranda_, que tem Bispo, e -_Bragança_, que o naõ tem. Ha tres Igrejas, que parecem Collegiadas: -_Chaves, illa-Real_, e _Torre de Moncorvo_, e consta de muitas -Abbadias, Reitorias, e Vigairarias. As Villas, que tem fortalezas -confinantes com Galiza, e Castella, saõ estas: _Montalegre_, -_Erveredo_, _Chaves_, _Monforte do rio livre_, _Bragança_, _Outeiro_, -_Miranda_, _Folgoso_, _Penas de Royas_, _Mogadouro_, _Freixo de -Espadacinta_, e de todas se dá omenagem. - -8 Divide-se finalmente esta Provincia em quatro Correições: _Moncorvo_, -_Miranda_, _Bragança_, e _Villa-Real_. Servem de epitome das suas -grandezas estas duas Oitavas: - - _Es Tras los Montes la porcion segunda - De heroicas poblaciones adornada, - Donde_ Miranda _Episcopal se funda - Sobre peñascos bien encastillada. - DelRey Brigo_ Bragança _hija segunda, - De la Inez bella, como desdichada, - Talamo, en llano delicioso brilla, - De esclarecidos Duques alta silla. - - Entre otras Villas sale floreciente - La_ Torre de Moncorvo; _la apacible_ - Villa-Flor: Mirandela _con gran puente: - Belica_ Chaves, Villa-Real _plausible,_ - Freixo de Espadacinta _muy valiente,_ - Alfandega da Fé _apeticible,_ - Mascareñas _en frutas deliciosa - Fertil_ Chacim, _y en trato generosa._ - -_Comarcas da Provincia de Tras os Montes._ - - { {Abreiro, Agua revez, - { {Alfandega da Fé, Anciães, - { {Castro-Vicente, Chacim, - { {Cortiços, Frechas, - I. { {Freixiel, Freixo de Espadacinta - Torre do { {Lamas de Orelhaõ, - Moncorvo {26 Villas. {Linhares, Moncorvo, Mirandella, - Correiçaõ { {Monforte de rio livre, - consta de { {Mós, Murça de Panoya, - { {Nuzellos, Pinhovelo, Sampayo, - { {Sezulfe, Torre de D. - { {Chama, Valdasnes, Villas-boas, - { {Villaflor, Villarinho - { {da Castanheira. - - { 1 Cidade. {Miranda. - II. { - Miranda. { {Algoso, Azinhoso, Bemposta, - Correiçaõ { {Carrocedo, Failde, - consta de { {Frieira, Mogadoiro, Penas - {14 Villas. {de Royas, Rebordainhos, - { {Sanseriz, Val de Passó, Vilar - { {seco da Lomba, Vimioso, - { {Vinhaes. - - { 1 Cidade. {Bragança. - III. { - Bragança { {Chaves, Ervedosa, Gustey, - Ouvidoria { {Montalegre, Outeiro, Rebordãos, - consta de {10 Villas. {Ruivães, Val de - { {Nogueira, Val de Prados, - { {Villafranca. - - { {Alijó, Dornellas, Ervededo, - IV. {9 Villas, {Favayos, Lordelo, S. - Villa-Real{e Coutos. {Mamede de Riba-Tua, Provezende, - Ouvidoria { {Ranhados, Villa-Real. - consta de { - {2 Honras. {Gallegos, Sobrosa. - - -_Provincia da Beira._ - -1 Quasi no coraçaõ do Reino está situada esta Provincia, e com a -extensaõ de trinta e quatro leguas desde Punhete até Villa-Nova do -Porto; e se contarmos de Buarcos até Val de la mula, saõ trinta e seis, -e de Punhete até a foz do Agueda saõ quarenta e cinco, e da foz do -Douro até Rosmaninhal fazem cincoenta e huma. Por esta demarcaçaõ, que -o Abbade de Pera tem por certa, e exacta, vem a ter esta Provincia de -circumferencia duzentas leguas pouco mais, ou menos, com o que torce -para costear a Estremadura; porém commummente se lhe dá trinta e seis -leguas de comprido, e outro tanto de largo, e assim fórma huma figura -quasi quadrada, tendo algumas entradas em Alentejo, e Estremadura -Lusitana. - -2 Confina pelo Oriente com a Estremadura Castelhana, e Leoneza, e parte -da Provincia de Tras os Montes, cujos limites continúa pelo Norte com -os da Regiaõ de Entre Douro, e Minho. Pelo Occidente recebe as aguas -do Oceano, e pelo Meyo Dia confina com a Estremadura de Portugal, e -Alentejo. Chama-se Beira, ou porque seus primeiros habitadores se -chamavaõ Berones, como diz Fr. Bernardo de Brito,[167] ou porque -respeitando-se a sua situaçaõ, por ser toda cercada de agua dos rios -Douro, Tejo, Coa, e Oceano, significa o mesmo que Margem, Borda, ou -Beira.[168] Joaõ Salgado diz, que o seu verdadeiro nome he _Vera_, que -se converteo em Beira. - -3 Reparte-se em duas largas porções de terra: huma, que se diffunde -desde a Serra da Estrella até o rio Tejo, e se diz _Beira baixa_: -outra, que desde a mesma Serra se espalha até o rio Douro, e desde -a Cidade de Coimbra até a do Porto, que aqui se diz Beiramar, e no -restante _Beira alta_.[169] Esta dilatada extensaõ de terreno grangeou -a esta Provincia o honroso titulo de Principado, que desde o anno de -1734 anda nos netos primogenitos dos Monarcas Portuguezes.[170] - -4 He terra muy fertil de centeyo, milho, castanha, vinho, gados, caças, -e gostosos peixes, produzindo a amenidade deste Paiz toda a diversidade -de saborosissimas frutas, especialmente os celebrados verdeaes de -Inverno, ajudando muito para esta abundancia a grande copia de aguas de -fontes, e rios, sendo os mais nomeados os seguintes: _Agueda_, _Alva_, -_Alfusqueiro_, _Aravil_, _Arda_, _Balsamaõ_, _Berosa_, _Ceira_, _Coa_, -_Daõ_, _Dansos_, _Douro_, _Elja_, _Freixiandas_, _Lomba_, _Lorveo_, -_Marnel_, _Mondego_, _Paiva_, _Ponsul_, _Ramalhoso_, _Sardaõ_, -_Soberbo_, _Tourões_, _Tripeiro_, _Veroza_, _Vouga_, _Xudruro_, -_Zezere_. - -5 Tem produzido esta Provincia homens famosissimos. Daqui foy ElRey -Wamba, e o valeroso Viriato, posto que Entre Douro e Minho contenda -sobre a naturalidade deste segundo; porque diz o Gerudense, que os -Soldados, que aquelle insigne Capitaõ trazia comsigo, eraõ Duriminios. -Os mais daquelles celebrados aventureiros, que foraõ a Inglaterra em -defensa das doze Damas motejadas de feyas, daqui eraõ naturaes, como -tambem o foraõ oito Reys Portuguezes, dous Sanchos, tres Affonsos, D. -Pedro, D. Fernando, e D. Duarte; e por naõ se gloriar só do nascimento, -honra-se naõ pouco de ser conservatorio de tres corpos veneraveis, e -Regios, como he o delRey D. Affonso Henriques, da Rainha Santa Isabel, -e de D. Sancho I, e tambem do delRey D. Rodrigo, ultimo Rey Godo. - -6 Manoel de Faria mal affecto porém à gente desta Regiaõ, com injurioso -conceito critíca absolutamente a todos os nacionaes della de pedintes, -e de pouco asseados.[171] O defeito particular de alguns individuos -naõ deve ser motivo para deteriorar a opiniaõ commua de huma Provincia -inteira. Eu bem sey que já Fr. Bernardo de Brito,[172] tratando dos -antigos habitadores da Serra da Estrella, chamados Herminios, diz, -que eraõ homens asperos, e duros de condiçaõ, indomitos pelas armas, -muy rusticos no traje, e modo de vestir, amigos de roubar o alheyo, -e pouco fieis no que tratavaõ; porém a cultura dos tempos, e a mesma -experiencia tem mostrado quanto se deve desvanecer este conceito, pois -o que vemos hoje nos seus naturaes, principalmente nos da primeira -esfera, he hum animo valente, e brioso, amigos de buscar honras, e -fortuna, ou pela carreira das letras, ou das armas, em que tem feito -progressos de grande credito para todo o Reino. - -7 Continuando a descrever suas grandezas, incluem-se nesta Provincia -cinco Cidades; quatro com Bispo: _Coimbra_, _Viseu_, _Lamego_, -_Guarda_; e _Aveiro_ modernamente erecta em Cidade, que o naõ tem. -Divide-se em nove Comarcas: de quatro saõ cabeças as quatro Cidades; -e das cinco he: _Castello-Branco, inhel_, _Esgueira_, _Montemór o -velho_, e _Feira_. Tem duzentas e trinta e quatro Villas, das quaes -cincoenta e oito saõ acastelladas, além das cinco Cidades. As que -confinaõ com Castella saõ estas: _Castello-Branco_, que no anno de -1704 foy accommettida de Castelhanos, e fica opposta à Villa de -Herrera: _Rosmaninhal_, _Segura_, _Salvaterra da Beira_, que todas -tres se oppoem à Villa de Alcantara, Praça de armas de Castella: -_Penagarcia_, _Idanha a velha_, _Monsanto_ defensavel por natureza, -_Proença_, _Belmonte_, _Penamacor_, _Sabugal_, _Sortelha_, _Alfayates_, -_Villar-Mayor_, _Castello Mendo_, _Castello Bom_, _Almeida_, _Pinhel_, -_Castello Rodrigo_. - -8 Tem mais de sete mil homens, que podem tomar armas: ha nesta -Provincia a mayor porçaõ das Comendas deste Reino: sustenta mais de -quarenta e quatro Conventos de Religiosos de varias Ordens, e vinte e -tres de Religiosas: muitas Igrejas com Coro, em que se reza o Officio -Divino: innumeraveis Abbadias, e Ermidas. Huma das singularidades, -de que se póde gloriar, he comprehender as duas mais admiraveis -officinas da virtude, e letras, que tem o Reino, quaes saõ Bussaco, -e a Universidade de Coimbra, donde tem sahido Varões portentosos na -santidade, e nas sciencias. Comprehendemos tudo succintamente nas -seguintes estancias: - - _Es Beira, la tercera Region, que ostenta - De Viriato el nombre formidable, - Donde_ Coimbra _Episcopal se assienta - De Mondego en la orilla deleitable. - Produxo siete Reyes opulenta - Grande en lo noble en letras admirable: - Yaze Obispal_ Viseu _en gran llanura - Del infeliz Rodrigo sepultura._ - - Lamego, _Episcopal sale gallarda_, - Aveiro _en territorio es abundante. - Sobre peñascos asperos la_ Guarda - _Con Iglesia Pastoral luze brillante. - Sin Mitra_ Idaña, _solo el timbre guarda, - Que de Wamba adquiriò patria elegante; - Mas poblacion la nueva Idaña tiene, - Que en el sitio cercano se contiene._ - - Castello-Branco _entre otras cobra fama:_ - Tentugal _por la fuente, que ay en ella,_ - Montemayor _de Brigo obra se acclama, - Fuerte_ Almeida, _que en armas tiene estrella._ - Celorico _el laurel de Apolo enrama: - Por sus Duques_ Lafões, _y_ Avero _es bella:_ - Cobillan _goza celebre fortuna - De la Cava fatal illustre cuna._ - - -_Comarcas da Provincia da Beira._ - - { 1 Cidade. {Coimbra. - { - { {Alvaiazere, Ançã, Anciaõ, - { {Arganil, Avó, Bobadella, - I. { {Botaõ, Buarcos, Cantanhede, - Coimbra { {Carvalho, Celavisa, - Correiçaõ { {Cernache, Santa Comba-Daõ, - consta de { {Coja, Santa Christina, - {32 Villas. {Esgueira, Fadeira, Fajaõ, - { {Goes, Mira, Miranda - { {do Corvo, Pena-Cova, Pereira, - { {Podentes, Pombalinho, - { {Pombeiro, Rabaçal, - { {Redondos, Tentugal, Vacariça, - { {Villanova de Anços, - { {Villanova de Monçarros. - - { 1 Cidade. {Aveiro. - { - { {Aguieira, Anadia, Angeja, - { {Assequins, Avelãs de caminho, - { {Avelãs de cima, Bemposta, - II. { {Brunhido, Eixo, Estarreja, - Esgueira { {Ferreiros, Ilhávo, S. - Provedoria {26 Villas. {Lourenço do Bairro, Oiz da - consta de { {Ribeira, Oliveira do Bairro, - { {Paos, Prestimo, Recardães, - { {Sangalhos, Segadães, Serem, - { {Sousa, Trofa, Villarinho do - { {Bairro, Vagos, Vouga. - { - { 1 Concelho. {Fermedo. - { - { 1 Couto. {Esteve. - - { 1 Cidade. {Viseu. - { - { {Alva, Banho, Candosa, Coja, - { {Enfias, Ferreira d’Aves, Lagares, - { {Mortagoa, Nogueira, - { {Oliveira do Conde, Oliveira - {22 Villas. {de Frades, Oliveira do Hospital, - { {Penalva d’Alva, Perselada, - { {Reriz, Sabugosa, Sandomil, - { {Santa Comba-Daõ, S. Pedro do - { {Sul, Taboa, Trapa, Tondela. - { - III. { {Azere, Azurara, Barreiro, - Viseu { {Besteiros, Canas de Sabugosa, - Correiçaõ { {Canas de Senhorim, Currellos, - consta de { {Folhadal, Foz de Piodaõ, - { {Gafanhaõ, Guardaõ, Gulfar - { {S. Joaõ de Areas, S. Joaõ do - {30 Concelhos.{Monte, Lafões, Mões, Mouraz, - { {Ovoa, Penalva do Castello, - { {Pinheiro de Azere, Povolide, - { {Ranhados, Sataõ, Senhorim, - { {Sever, Silvares, Sinde, - { {Tavares, Treixedo, Villacova - { {de Subavó. - { - { 2 Coutos. {Maceiradaõ, Moimenta. - - - IV. {5 Villas. {Cambra, Castanheira, Feira, - Feira { {Ovar, Pereira de Susaõ. - Ouvidoria { - consta de { - - {1 Cidade. {Lamego. - { - { {Arcos, Armamar, Arouca, - { {Barcos, Britiande, Castello, - { {Castrodairo, Chavães, - { {S. Cosmado, Fantello, Fragoas, - { {Goujim, Granja do - { {Tedo, Lalim, Lazarim, - {32 Villas. {Leomil, Longa, Lumiares, - V. { {Moimenta da Beira, Mondim, - Lamego { {Nagosa, Parada do Bispo, - Correiçaõ { {Passó, Pendilho, Sande, - consta de { {Taboaço, Tarouca, Valdigem, - { {Varzea da serra, - { {Veanha, Villacova, Villaseca. - { - { {Alvarenga, Aregos, Barqueiros - { {Cabril, Caria, Couto - { {da Ermida, S. Christovaõ - { {da Nogueira, Ferreiros, S. - {20 Concelhos. {Martinho de Mouros, Mossaõ, - { {Paiva, Parada de Ester, - { {Pera e Peva, Pezo da Regoa, - { {Pinheiro, Rezende, Sanfins, - { {Sinfaes, Teixeira, Tendaes. - - { {Aguiar, Alfaiates, Algodres, - { {Almeida, Almendra, - { {Castanheira, Casteiçaõ, Castello - { {bom, Castello melhor, - { {Castello mendo, Castello-Rodrigo, - { {Cedavim, Cinco Villas, - { {Ervedosa, Escalhaõ, Figueiró - { {da Granja, Fonte Arcada, - { {Fornos, Guilheiro, - { {Horta, S.Joaõ da Pesqueira, - VI. { {Lamegal, Langroiva, Marialva, - Pinhel {54 Villas. {Matança, Meda, Moreira, - Correiçaõ { {Muxagata, Nemaõ, Paradella, - consta de { {Paredes, Penaverde, - { {Penedono, Penella, Pinhel, - { {Ponto, Povoa, Ranhados, - { {Reigada, Sernancelhe, Sindim, - { {Soutelo, Souto, Tavora, - { {Touça, Trancoso, Trovões, - { {Valença do Douro, Val - { {de coelha, Vallongo, Vargeas, - { {Veloso, Villanova de - { {Foscoa, Villar mayor. - { - {1 Concelho {Carapito. - - {1 Cidade. {Guarda. - { - { {Açores, Alvoco da Serra, - { {Baraçal, Cabra, Castro verde, - { {Cea, Celorico, Codeceiro - { {Covilhã, Folgosinho, - VII. { {Forno-Telheiro, Gouvea, - Guarda {29 Villas. {Jarmello, Lagos, Linhares, - Correiçaõ { {Loriga, Lourosa, Manteigas - consta de { {Santa Marinha, Mello, - { {Mesquitella, Midões, Oliveirinha, - { {Seixo, S. Romaõ, - { {Torrozello, Vallazim, Valhelhas, - { {Villacova. - { - {1 Couto. {Mosteiro. - - { {Alpedrinha, Atalaya, Belmonte, - { {Bemposta, Castello-Branco, - { {Castelo novo, Idanha - VIII. { {nova, Idanha velha, Monsanto, - Castello- { {Penagarcia, Penamacor, - Branco {22 Villas. {Proença a velha, Rosmaninhal, - Correiçaõ { {Sabugal, Salvaterra - consta de { {do Estremo, Sarzedas, - { {Segura, Sortelha, Touro, - { {S. Vicente, Villa velha do - { {Rodaõ, Zibreira. - - IX. { - Montemor { - o velho {5 Villas. {Louriçal, Louzã, Montemor - Ouvidoria { {o velho, Penella, Serpins. - consta de { - - -_Provincia da Estremadura._ - -1 Esta Provincia se fórma de huma faxa de terra, que corre desde a boca -do rio Mondego até o caudaloso Tejo, e continúa pela Comarca de Setubal -até entestar com Santiago de Cacem. Comprehende em toda esta longitude, -conforme huns, quarenta leguas; e segundo outros, trinta e tres. De -largo huns lhe daõ dezoito, outros dezaseis[173] leguas na sua mayor -largura; porém se lançarmos huma linha de Cascaes até a Pampilhosa, -acharemos trinta e seis leguas de latitude. Pelo Occidente o mar Oceano -a termina: pelo Meyo dia confina com o Alentejo a travez, e pelo Norte -com a Beira. - -2 He o clima desta Regiaõ o mais saudavel, e temperado de todo o Reino, -porque a benignidade do Ceo faz aqui ser insensiveis aquellas estações -do tempo, que gradualmente succedem humas às outras com mudança suave; -e assim participando quasi sempre de ar puro, e Ceo sereno, produz -nella a natureza com abundancia os frutos de todos os generos. Fertil -he de azeites, bastando só a Villa de Santarem para prover o Reino, -e suas Conquistas: fertil he de vinhos, e dos melhores, chamados de -barra a barra, taõ estimados das nações Septentrionaes: fertil he de -frutas, das quaes sómente a Villa de Collares todo o anno provê a -Corte de Lisboa e se conduzem para outras muitas terras da Europa. De -trigo, legumes, e hortaliças tem o que lhe basta. Cria caças de toda a -especie, e das mais gostosas, porque comprehende as melhores coutadas -do Reino. Peixe em abundancia, e saborosissimo; e finalmente sem -exaggeraçaõ podemos dizer, que he a Provincia mais fertil, e farta de -Portugal, concorrendo tambem as outras com os seus productos para mais -a fertilizar, e enriquecer, tratando-a verdadeiramente como Rainha, -pois existe no meyo do Reino coroada de todas. - -3 Muito conduz para toda esta abundancia os seus famosos portos, -especialmente o de Lisboa, por onde todos os annos entraõ as ricas -frotas do Brasil, e em pouco mais tempo as preciosas mercadorias da -Asia, e quasi todos os dias innumeraveis embarcações estrangeiras para -commodidade do commercio, que he nesta Provincia o mayor de todo o -Reino. Conduz tambem naõ pouco a grande copia de boas aguas de suas -fontes, e rios, os quaes, segundo seu mayor nome, saõ estes: _Aguas -livres_, _Alcantara_, _Alferradede_, _Alfusqueiro_, _Aljés_, _Alpiaça_, -_Alviella_, _Arunca_, _Barcarena_, _Bezelga_, _Broya_, _Cadavás_, -_Cambra_, _Canha_, _Castelãos_, _Cera_, _Caranque_, _Chileiros_, -_Crins_, _Esporaõ_, _Guardaõ_, _Lago_, _Lena_, _Liten_, _Liça_, _Liz_, -_Montijo_, _Nabaõ_, _Pernes_, _Rezes_, _Sado_, _Sizandro_, _Tejo_, -_Val de lobos_, _Unhaes_, _Zezere_, a que podemos accrescentar por -singularidade as virtuosas aguas das que chamamos Caldas, que nesta -Provincia existem as de melhor fama. - -4 Quanto ao estado Ecclesiastico, tem duas Igrejas Cathedraes: -_Lisboa_, que logra a dignidade de Patriarcado; e _Leiria_ a de -Bispado. Numeraõ-se-lhe quatrocentas e sessenta e duas Paroquias, além -de outras muitas Igrejas, que o naõ saõ. Tres insignes Collegiadas: -_Santa Maria Mayor_ em Lisboa, _Nossa Senhora da Misericordia_ em -Ourem, e _Santa Maria da Alcaçova_ em Santarem, com outras, que o -parecem, como na Igreja de Santo Antonio de Lisboa, Santo Antonio do -Tojal, &c. Dous grandes Priorados das Ordens Militares: de _Santiago_ -em Palmella, de _Christo_ em Thomar. Seis Templos Regios os mais -insignes: _Alcobaça_, _Batalha_, _Belém_, _Mafra_, _Thomar_, _S. -Vicente de Fóra_. Conventos, e Mosteiros mais de cento e setenta. Hum -supremo Tribunal do Santo Officio. E finalmente he onde com mayor -culto, asseyo, e grandeza se executaõ todas as festividades, funções -Ecclesiasticas, e Officios Divinos, augmentando-se mais a devoçaõ com -os prodigiosos Santuarios, que encerra cheyos de continuadas maravilhas. - -5 As sciencias nos seus frenquentados Collegios, e Academias: as artes -liberaes nas suas grandes, e opulentas fabricas: a politica, o trato, -e a civilidade florecem nesta Regiaõ: até o idioma se pronuncía com -mayor pureza, e cadencia do que nas outras Provincias; pois nella -reside a Corte de Lisboa, que como Princeza de todas as do mundo, como -lhe chamou o nosso Poeta, infunde qualidades para a melhor cultura, e -perfeiçaõ. Finalmente - - _Es la quarta Provincia Estremadura, - Que contiene a_ Lisboa, _donde cria, - Del claro lis beviendo la dulçura - Con Episcopal Baculo_ Leiria. - _La Villa de_ Batalla _se assegura - De Reyes Portuguezes urna umbria._ - Santarem _con portentos se corona, - Y de aver sido throno Real blasona. - Con gran juridicion_ Thomar _se ofrece - Al dulce Naban, que sus campos baña._ - Alenquer _del Alano permanece - Fundacion en frutifera campaña._ - Cintra _del quinto Alonso patria crece. - Primera poblacion sale de España,_ - Setubal _al mar grande dirigida - Morada de Tubal apetecida._ - - -_Comarcas da Provincia da Estremadura._ - - {Senhora da Ajuda, Santo - {André, Senhora dos Anjos, - {S. Bartholomeu, Santa - {Catharina, Chagas de Jesus, - {S. Christovaõ, Senhora da - {Conceiçaõ, Santa Cruz do - {Castello, Senhora da Encarnaçaõ, - {Santa Engracia, Santo - { {Estevaõ, S. Joaõ da Praça, S. - I. { {Jorge, S. Joseph, Santa Isabel, - Lisboa { {S. Juliaõ, Santa Justa, - Capital do { 41 Paroquias. {Senhora do Loreto, S. Lourenço, - Reino { {S. Mamede, Santa Maria, - consta de { {Santa Maria Magdalena, - { {Santa Marinha, S. Martinho, - { {Senhora dos Martyres, Senhora - {das Mercês, S. Miguel, S. - {Nicolao, Patriarcal, S. Paulo, - {S. Pedro, Senhora da Pena, Santissimo - {Sacramento, Salvador, - {Santiago, Santos, S. - {Sebastiaõ, Senhora do Soccorro, - {S. Thomé, S. Vicente. - - {Alhandra, Alverca, Arruda, - II. { {Bellas, Cadaval, Cascaes, - Torres { {Castanheira, Chilleiros, Collares, - Vedras { 18 Villas. {Enxara dos Cavalleiros, - Correiçaõ { {Ericeira, Lourinhã, Mafra, - consta de { {Povos, Sobral de Monte - { {Agraço, Torres Vedras, Villa - {Franca de Xira, Villa Verde. - - III. { {Aldea Galega da Merciana, - Alanquer { 8 Villas. {Alenquer, Caldas, Chamusca, - Ouvidoria { {Cintra, Obidos, Salir - consta de { {do Porto, Ulme. - - { 1 Cidade. {Leiria. - IV. { - Leiria { {Alcobaça, Alfeizeraõ, Aljubarrota, - Correiçaõ { {Alpedriz, Alvorninha, - consta de { {Atouguia, Batalha, S. - { 11 Villas. {Catharina, Cella, Coz, Ega, - {Evora de Alcobaça, S. Martinho, - {Mayorga, Pederneira, Peniche, - {Pombal, Redinha, Salir - {do Mato, Soure, Turquel. - - {Abiul, Abrantes, Aguas - {Bellas, Aguda, Alvaro, Alváres, - {Amendoa, Aréga, - { {Assinceira, Atalaia, Chaõ de - V. { {couce, Dornes, Ferreira, Figueirò - Thomar { 28 Villas. {dos vinhos, Maçãs de - Correiçaõ { {caminho, Maçaõ, Pampilhosa, - consta de { {Payo de pelle, Pedrogaõ grande, - { {Pias, Ponte de - {Sor, Punhete, Pussos, Sardoal, - {Sovereira formosa, - {Tancos, Thomar, Villa de - {Rey. - - VI. { {Aguda, Avelar, Chaõ de - Ourem { 7 Villas. {Couce, Maçãs de D. Maria, - Ouvidoria { {Ourem, Porto de Moz, Pousaflores. - consta de { - - { {Alcanede, Alcoentre, Almeirim, - VII. { {Aveiras de cima, - Santarem { {Aveiras de baixo, Azambuja, - Correiçaõ {15 Villas. {Azambugeira, Erra, Golegã, - consta de { {Lamarosa, Montargil, - { {Mugem, Salvaterra de Mangos, - { {Santarem, Torresnovas. - - { {Alcacer do Sal, Alcochete, - VIII. { {Aldea Gallega, Alhosvedros, - Setubal { {Almada, Barreiro, Cabrella, - Correiçaõ {16 Villas. {Çamora Correya, Canha, - consta de { {Coina, Grandola, Lavradio, - { {Moita, Palmela, Setubal, - { {Sezimbra. - - -_Provincia do Alentejo._ - -1 Chama-se esta Provincia _Alentejo_, respeitando as outras Provincias -de Portugal, que ficaõ ao Norte do rio Tejo; mas isto he conforme -a divisaõ politica, e naõ fisica. Dilata-se entre os limites da -Estremadura Castelhana, Reino do Algarve, mar Oceano, Tejo, e Guadiana, -quasi em fórma quadrada, pelo que lhe daõ muitos trinta e quatro leguas -de huma, e outra parte;[174] porém o seu mayor comprimento pelo certaõ -saõ trinta e nove leguas, pela costa vinte e oito, e tendo pela margem -do Tejo trinta e cinco de largura, se estreita, e reduz na raya do -Algarve a vinte e huma.[175] - -2 He o seu terreno pela mayor parte plano, posto que o atravessaõ -algumas serras, a de Ossa, Caldeiraõ, Portalegre, Montemuro, Marvaõ, -e outras, donde nascem fontes, e rios, naõ em tanta abundancia, -como nas outras Provincias, porque tambem o ardente Sol no Veraõ -consome aqui muito sua humidade, mas todavia sempre se lhe numeraõ de -mayor nome os seguintes: _Abrilongo_, _Alcarapinha_, _Alcaraviça_, -_Alcarache_, _Algale_, _Anheloura_, _Aramenho_, _Aviz_, _Benavile_, -_Bonafide_, _Botova_, _Cabaça_, _Caya_, _Cayola_, _Campilhas_, _Canha_, -_Carreiras_, _Cobrinhas_, _Corbes_, _Corona_, _Dejebe_, _Detença_, -_Enxarrama_, _Erra_, _Ervedal_, _Figueiró_, _Fonte boa_, _Galego_, -_Guadiana_, _Lavra_, _Lamarosa_, _Leça_, _Limas_, _Lixoza_, _Lucefece_, -_Machede_, _Marataca_, _Mourinho_, _Niza_, _Odemira_, _Odivellas_, -_Odivor_, _Peramança_, _Regalvo_, _S. Romaõ_, _Sarrazola_, _Seda_, -_Sever_, _Severa_, _Sor_, _Sorraya_, _Taleigaõ_, _Tejo_, _Tera_, -_Terjes_, _Videgaõ_, _Xever_, _Xevora_, _Xola_, _Xouxou_, _Zata_. - -3 He fertilissima, pois correspondem os frutos com grande abundancia. -De trigo diz Macedo,[176] que só a Freguezia da Cathedral de Evora dá -ao dizimo cada anno setecentos moyos, com a circunstancia de que os -lavradores naõ cultivaõ todas as terras capazes de sementeira, senaõ -escolhem algumas, a que chamaõ folhas, para fazerem a lavoura de tres -em tres annos; isto he, a que se semeou este anno, naõ se torna a -affolhar, senaõ passados tres annos; porque se Alentejo cultivasse -annualmente todas as dilatadas campinas, e charnecas, que tem, daria -trigo, centeyo, e cevada para todo o mundo. A esta abundancia attendeo -Camões, quando cantou:[177] - - _E vós tambem, ò terras Transtaganas, - Affamadas co dom da flava Ceres._ - -4 Além dos trigos he abundante de boas frutas, azeite, vinho, mel, -cera, lãs, caças, gados, excellentes queijos, finos marmores, -affamados, e cheirosos barros; de sorte que esta Provincia naõ -necessita de cousa alguma, que em si naõ tenha com abundancia: até -peixe colhe abundantemente da ribeira do Sado, que entra no rio de -Alcacere, e na da Fonte Santa, que está no caminho de Estremoz, além de -outros rios, que temos nomeado. - -5 Ha em Alentejo quatro Cidades: _Evora_, que tem Arcebispo: _Elvas_, -e _Portalegre_, que tem Bispos: _Beja_ que o naõ tem. Contaõ-se mais -de cem Villas: dous grandes Priorados das Ordens Militares, de _Aviz_, -e de _Malta_. Divide-se em oito Comarcas, que saõ: _Evora_, _Béja_, -_Campo de Ourique_, _Villa Viçosa_, _Elvas_, _Portalegre_, _Crato_, -_Aviz_, das quaes algumas saõ Ouvidorias. - -6 Sempre nesta Provincia floreceraõ homens de singulares engenhos: em -tempos antigos Aprigio, Isidoro Pacense, e outros muitos: nos mais -proximos aos nossos André de Resende, o Padre Maldonado, o Padre -Manoel de Goes, o Doutor Pedro Nunes, rarissimo na Mathematica, -Thomaz Rodrigues, insigne Medico, além de muitos outros em todas as -faculdades. E no valor teve tambem homens assinalados, como foy D. Payo -Peres Correa, Josué Portuguez, D. Nuno Alvares Pereira, D. Vasco da -Gama, primeiro descubridor das Indias, os quaes bastaõ para credito da -Provincia. Tudo se recopila nestas duas estancias. - - _Sigue quinta Region la de Alentejo, - Cuya cabeça, y Metropolitana - Es_ Evora, _de Roma claro espejo, - Del gran Giraldo gloria soberana. - Tiene noble dominio, y fiel consejo_ - Portalegre _risueña Diocesana._ - Elvas _con Mitra luze venerable, - Siendo por su Castillo inexpugnable._ - - Béja _Ciudad insigne se publíca, - Y el precioso licor de Baco enseña. - Entre otras Villas_ Estremoz _muy rica - Es invencible, y fuerte_ Jurumeña. - _Por sus inclytos Nobles a Belona_ - Montemayor _el Nuevo el ser dedica._ - Villa Viçosa _en llano está florido - Templo de Proserpina, y de Cupido._ - - -_Comarcas da Provincia do Alentejo._ - - { 1 Cidade. {Evora. - I. { - Evora { {Aguias, Alcaçovas, Canal, - Correiçaõ {11 Villas. {Estremoz, Lavre, Montemór - consta de { {o novo, Montoito, Pavîa, - { {Redondo, Viana, Vimieiro. - - { 1 Cidade. {Béja. - { - { {Agua de Peixes, Aguiar, - II. { {Albergaria dos Fuzos, Alvito, - Béja { {Beringel, Faro, Ferreira, - Ouvidoria {18 Villas. {Ficalho, Frades, Moura, - consta de { {Odemira, Oriolas, Serpa, Torraõ, - { {Vidigueira, Villa-Alva, - { {Villanova de Alvito, Villa-Ruiva. - - III. { {Aljustrel, Almodovar, Alvalade, - Campo { {Castro verde, Collos, - d’Ourique {15 Villas. {Entradas, Gravaõ, Mertola, - Ouvidoria { {Messejana, Ourique, Padrões, - consta de { {Panoyas, Santiago de Cacem, - { {Sines, Villanova de mil fontes. - - { {Alter do chaõ, Arrayolos, - IV. { {Borba, Chancellaria, Evoramonte, - Villa-Viçosa {14 Villas. {Lagomel, Margem, - Ouvidoria { {Monsarás, Monforte, Portel, - consta de { {Souzel, Villa-Boim, Villa-Viçosa, - { {Villa-Fernando. - - { 1 Cidade. {Elvas. - V. { - Elvas { - Correiçaõ { {Barbacena, Campo Mayor, - consta de { 6 Villas. {Mouraõ, Olivença, Ouguela, - { {Terena. - - { 1 Cidade. {Portalegre. - VI. { - Portalegre { {Alegrete, Alpalhaõ, Arronches, - Correiçaõ { {Assumar, Arez, Castello - consta de {12 Villas. {de Vide, Marvaõ, Meadas, - { {Montalvaõ, Niza, Povoa, - { {Villaflor. - - { {Amieira, Belver, Cardigos, - VII. { {Carvoeiro, Certã, Crato, - Crato {12 Villas. {Envendos, S. Joaõ de - Ouvidoria { {Gafete, Oleiros, Pedrogaõ - consta de { {pequeno, Proença a nova, - { {Tolosa. - { {Alandroal, Alter Pedroso, - { {Aviz, Benavente, Benavilla, - VIII. { {Cabeço de Vide, Cabeçaõ, - Aviz {17 Villas. {Cano, Coruche, Figueira, - Ouvidoria { {Fronteira, Galveas, Jurumenha, - consta de { {Mora, Noudar, Seda, - { {Veiros. - - -_Provincia, e Reino do Algarve._ - -1 Fórma esta Regiaõ do Algarve hum dos principaes angulos da Peninsula -Lusitana no Cabo de S. Vicente com a concurrencia das linhas -Meridional, e Occidental até a foz do Guadiana. Daõ-lhe os Geografos -vinte e sete leguas de comprido, e nove de largo. Os Mouros lhe -chamaraõ Algarve, que quer dizer _Terra Occidental_,[178] mas outros -interpretaõ _Terra plana, e fertil_; porque sem embargo de comprehender -algumas serras pelo certaõ, occupa pela costa do mar planicies muy -ferteis, e deliciosas. - -2 Constitue-se Reino forte, e separado de Portugal pelos montes -Caldeiraõ, e Monchique, e de Andaluzia pelo rio Guadiana; de sorte, -que a sua situaçaõ he a mais vantajosa de todas as nossas Provincias. -Sua primeira conquista foy intentada por ElRey D. Affonso Henriques: -continuou-a com grandes progressos ElRey D. Sancho I., e a acabou -de conseguir ElRey D. Affonso III. ficando desde entaõ o Reino do -Algarve incorporado com permanencia na Coroa de Portugal, que organiza -suas Reaes armas com a orla dos sete castellos dourados em campo -vermelho.[179] 3 Consta de quatro Cidades: _Faro_, onde hoje está a Sé -Cathedral; _Silves_, donde foy mudada; _Tavira_, e _Lagos_. Tem mais -doze Villas, a saber: _Albofeira_, _Alcoutim_, _Aljezur_, _Alvor_, -_Cassella_, _Castro-Marim_, _Loulé_, _Odeseixe_, _Paderne_, _Sagres_, -_Villa de Bispo_, _Villa nova_. Tem dous Promontorios o Cabo de S. -Vicente, e o de Santa Maria. Tem cem pontes de pedra, sessenta e duas -pias de bautizar, e outras particularidades, que reservamos para lugar -mais proprio. - -4 Faz ser esta Provincia abundante com especialidade a grande copia -de figos, passas, e amendoas, de que se extrahem todos os annos -por negocio para differentes partes de Levante, Italia, e Flandes -consideraveis sommas; e assim como em outras terras estaõ semeados os -campos de trigo, cevada, e centeyo, esta os tem cubertos de vinhas, -amendoeiras, figueiras, e tambem palmeiras, de cujos ramos tecem seus -moradores varias curiosidades.[180] A pescaria de atum naõ serve de -pequeno lucro, e com que fazem hum grave negocio. Os rios, que cortaõ, -e regaõ este Reino, saõ muitos, porém pequenos, sendo os de mayor nome -o _Adoleite_, _Belixari_, _Guadiana_, _Lampas_, e _Vascaõ_. - -5 Seus habitadores saõ esforçados, e aptos para a guerra; e já em -tempos antigos venceraõ valerosamente ao Capitaõ Romano Sergio Galba. -Saõ muy dados à sciencia maritima, e se prezaõ muito de que no seu -terreno escolhessem o primeiro Patriarca, e Fundador de Hespanha -_Tubal_, e o famoso _Hercules_ os seus jazigos, se he certo o que -diz Fr. Bernardo de Brito. Divide-se finalmente o Algarve em duas -Comarcas, conforme a Geografia moderna do Padre D. Luiz de Lima, e vem -a ser: _Lagos_, e _Tavira_. Tem sete fontes medicinaes: tres Praças -de armas, que saõ: _Lagos_, _Faro_, _Castro-Marim_, bem fortificadas -com quatro mil homens de guarniçaõ; e até o presente numera quarenta -Governadores, ou Capitães Generaes com o segundo Marquez de Louriçal D. -Francisco de Menezes seu actual, e benemerito Governador. - - _El Reyno del Algarbe es la postrera - Porcion, cuyas Ciudades son_ Tavira - _DelRey Brigo gallarda Primavera, - Donde herido del viento el mar suspira._ - Faro _Obispal adorna su ribera, - Al Oceano fuerte_ Lagos _mira. - Con poca vezindad nombre difuso - Alcança_ Sylves _Paraiso Luso_. - -_Comarcas da Provincia, e Reino do Algarve._ - - { 2 Cidades. {Lagos, Silves. - I. { - Lagos { 7 Villas. {Aljezur, Alvor, Odeseixe, - Correiçaõ { {Paderne, Sagres, Villanova de - consta de { {Portimaõ, Villa do Bispo. - - II. { 2 Cidades. {Tavira, Faro. - Tavira { - Correiçaõ { 5 Villas. {Albufeira, Alcoutim, Cacella, - consta de { {Castro-Marim, Loulé. - +---------------------------------------------------------------------+ - | MAPPA | - | _Do que comprehendem as seis Provincias | - | de Portugal._ | - +------------+--------+---------+---------+--------+---------+--------+ - |Provincias | Minho. |Tr. os M.| Beira.| Estrem. |Alentej. | Algarv.| - | | | | | | | | - |Comarcas. | 6 | 4 | 8 | 8 | 8 | 2 | - | | | | | | | | - |Cidades. | 2 | 2 | 5 | 2 | 4 | 4 | - | | | | | | | | - |Villas. | 26 | 50 | 234 | 114 | 100 | 12 | - | | | | | | | | - |Patriac. | ... | ... | ... | 1 | ... | ... | - | | | | | | | | - |Arcebisp. | 1 | ... | ... | ... | 1 | ... | - | | | | | | | | - |Bispados. | 1 | 1 | 4 | 1 | 2 | 1 | - | | | | | | | | - |Inquisiç. | ... | ... | 1 | 1 | 1 | ... | - | | | | | | | | - |Univers. | ... | ... | 1 | ... | 1 | ... | - | | | | | | | | - |Paroquias. | 1500 | 620 | 1090 | 460 | 350 | 67 | - | | | | | | | | - |Cid. capit. | Porto. |Miranda. | Coimb. | Lisboa. | Evora. | Faro. | - | | | | | | | | - |Pr. d’ arm. | Viana. | Chaves. | Alm. | Lisboa. | Elvas. | Lagos. | - | | | | | | | | - |L. de comp. | 18 | 34 | 36 | 40 | 39 | 28 | - | | | | | | | | - |L. de largo.| 12 | 26 | 36 | 18 | 35 | 8 | - +------------+--------+---------+--------+---------+---------+--------+ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[151] Duarte Nun. Descripç. de Port. cap. 28. Joaõ de Barr. na -Descripç. do Minho cap. 6. Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. -2. a. 4. Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. -Geograf. Blavian. Cost. Corogr. Port. tom. 1. c. 1. Lim. Geogr. Histor. -tom. 1. pag. 2. - -[152] Far. no Epitom. part. 4. cap. 5. n. 4. Maced. Flor. de Hesp. cap. -1. excel. 6. - -[153] D. Franc. Man. Epanafor. 4. p. 518. - -[154] Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. pag. -3. vers. - -[155] Far. Epitom p. 4. cap. 17. - -[156] Nun. Descripç. de Portug. cap. 28. e 29. Vasconcell. in Descript. -Lusitan. - -[157] Estaç. Antig. de Portug. cap. 72. - -[158] Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 1. - -[159] Joaõ Salgad. Success. Milit. pag 3. vers. - -[160] Maced. Flor. de Hesp. cap. 2. excel. 3. Barbos. de Potestat. -Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. Gil Gonsal. de Avil. no Theatro de -las grandez. de Madrid. p. 500. - -[161] Arauj. Success. Milit. liv. 1. cap. 1. - -[162] August. Barb. de Potest. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. - -[163] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. Lim. Geogr. Histor. -tom. 2. pag. 3. - -[164] Corograf. Portug. tom. 1. p. 313. Padilha. Histor. Eccles. cent. -1. cap. 16. Monarq. Lusitan. part. 3. liv. 8. cap. 32. Rodrig. Mend. da -Silv. na Descripç. de Portug. - -[165] Colmenar. Delices du Port. tom. 4. pag. 713. Lim. Geograf. -Histor. tom. 2. p. 61. - -[166] Arauj. Success. Milit. p. 68. vers. - -[167] Brit. na Geograf. Lusitan. cap. 4. Fr. Man. da Esper. na 1. part. -da Histor. Serafic. liv. 4. cap. 13. - -[168] Poyar Diccionar. Geogr. p. 76. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p. -83. - -[169] Fr. Man. da Roch. Portug. renascid. part. 1. p. 109. - -[170] Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 8. p. 354. - -[171] Far. Europ. Port. tom. 3. pag. 3. cap. 2. - -[172] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2. - -[173] Geograf. Blavian. Mendes da Silv. Mons. de La Clede tom. 2. pag. -mihi 59. Corograf. Portug. tom. 3 Lim. Geogr. Histor. tom. 2. p. 136. -Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. p. 160. - -[174] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. Rodrig. Mend. da -Silv. na Descripç. de Portug. Geograf. Blavian. tom. de Hespanh. pag. -403. - -[175] Abbad. de Per. Success. Milit. p. 179. - -[176] Sousa de Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 3. - -[177] Cam. cant. 3 est.62. - -[178] Colmen. Delices de Hesp. tom. 4. p. 809. - -[179] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 4. - -[180] Rodrig. Mend. da Silv. Descripç. de Hesp. - - - - - CAPITULO VI. - - _Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome._ - - -1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem, -e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres -Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias -partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ -descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes -chamou Athlantes o famoso Caramuel,[181] pois com sua altivez pertendem -coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais -affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga. - -2 _Abelheira._ Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura em o -Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem com -a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a muitos -gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de grande -virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia de Tras -os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de edificios -Arabes. - -3 _Aboboreira._ Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de Gouvea. -He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de ambito, que -occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita caça que -alli se cria. - -4 _Achada._ Começa esta serra desde a ribeira de Cascaes, e se vay -unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ -obstante admittir cultura pelas suas raizes. - -5 _Açor._ Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na Beira, -que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil, -occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e -lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve. - -6 _Albardos._ Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo de -Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem -alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ -Senhores de todos os limites desta serra. - -7 _Alcaçovas._ Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca de -Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se descobrem -povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz[182] ser -provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre, segundo -se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros -vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre -Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta -serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar, -e onde se cria abundancia de caça, e de gado. - -8 _Alcubertas._ Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se descobre -huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra brilhante, -que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a mistura -da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados, e -grutescos. - -9 _Aleidões._ Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola, -estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e -consta de muitas carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli -se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel. - -10 _Algáres._ Principia esta serra a descobrirse huma legua distante -da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando contra o -Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço de duas -leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os Romanos -extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona, que -separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A _Corografia -Portugueza no tom. 3. pag. 336._ refere outras circunstancias desta -serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico. - -11 _Alpedreira._ Fica no Arcebispado de Evora, e se communica com -a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas -concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para -sementeira de centeyo. - -12 _Alqueidaõ._ He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria. A -sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho. Cria -tambem alguma caça miuda. - -13 _Altar de Trevim._ He huma serra que fica no termo da Louzã, -demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas -Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem -muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados -que por alli pastaõ. - -14 _Alvaõ._ Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães. -He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato -rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e -lebres. - -15 _Alvayazere._ Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de Coimbra. -He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido. Cria -muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ da sua -flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy espaçosa, -onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber. Suppoem-se que -seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no cimo da serra se -descobrem. - -16 _Airó._ Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos, tem -bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada -por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota -imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo, -de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca -distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S. -Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha, -Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com -sinaes de predestinado. - -17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar -de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e -antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso -caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo -89. onde diz: _Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que -passou_, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, que -com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do Convento -o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de ninguem; -dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella ave canora, -quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria parecem -instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este caso na -Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. Toda -esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor vinho -de enforcado, que deste genero ha no Reino. - -18 _Amarella._ He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio da -do Gerez. Descobrem-se da sua mayor altura muitas povoações distantes, -e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; alargando-se -tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve de termo. -Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, por cujo -motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer montaria -em tempos determinados, por obrigaçaõ. - -19 _Amoreira._ Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites de -Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas -povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras -negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras -de primor. - -20 _Anciam._ Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal, -e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais -eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito -alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto -aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem -que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui -se vê huma grande lapa chamada _Algar da agua_ aberta em hum penhasco -taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. Cria -tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O Author da -Corografia chama a esta serra a Carreira.[183] - -21 _Araceli._ He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, que -tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes admitte -cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas medicinaes, a -agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto Daro, de cujas -bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem para o prato, -e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha aqui muita caça -de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se tira bastante -mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, e se adora a -imagem da Senhora com o titulo de _Araceli_, que deu nome à serra. - -22 _Arada._ Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres leguas de -comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na planicie da sua -mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da Coelheira. Consta toda -esta serra de mato real, onde se cria muita caça, até aguias, e hervas -medicinaes. - -23 _Arga._ Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.[184] Divide -ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu terreno -antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do seu -ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. Tem -esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem ver -na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.[185] - -24 _Arrabida._ He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, que -corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo -espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por -sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a -banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do -Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita, -e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra, -está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia -Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de -Alcantara. - -25 Conforme diz Gaspar Barreiros[186] o nome de Arrabida he derivado -da antiga _Arabriga_, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual -demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que -o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr. -Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,[187] os quaes a derivaõ -do nome _Errabundus_; porque os que subiaõ a esta serra, sempre erravaõ -o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,[188] que os Mouros, -quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma -significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer -penitencia. - -26 Os Romanos chamaraõ a esta serra _Promontorio Barbarico_; ou -porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para Roma -muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ os -seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e aos -conductores barbaros, como diz André de Resende;[189] ou porque os -povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e -rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.[190] - -27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico, -se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou -antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli -templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de -bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se -descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco -caso dellas. - -28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha, -que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com -miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo -da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap. -5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo -mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que -vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo -Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou -seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel -circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem -da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à -maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ, -e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou -frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa, -presentemente arruinado, e extincto. - -29 _Atalaya._ Ha no Reino tres serras com este nome; duas na -Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de -canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma -caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem -hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada -com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ -de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade -muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia -da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas -abundante de lenha, e caça miuda. - -30 _Barregudo._ He huma serra, que fica no termo de Torres Vedras, e -que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de Montejunto. -Adquire nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos negros se -encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e huma casta de -areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se deixa cultivar -com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar. - -31 _Barris._ He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente da -Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas -hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum -admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem -suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se -criaõ. - -32 _Besteiros._ He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa pela -distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma fonte de -agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria mato rasteiro, -e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em abundancia. Pastaõ -nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso. - -33 _Bornes de Monte mel_ fica no termo de Braga, e tem duas leguas de -comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial della -he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro, povoações -de treze Bispados. - -34 _Borralheira._ Daõ este nome a huma serra, que com bastante -eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No -mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa -mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ, -os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem -atemorisaraõ aos moradores.[191] O Diccionario Geografico, naõ fazendo -mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia -de Tras os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem -cousa notavel. - -35 _Bussaco._ Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e he parte -da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o Nordeste, e -meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente pelo espaço de -tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do Reino; porque -para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella, e a de Castello -Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas. Para a parte do -Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que lhe ficaõ quarenta -leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de Grijó, affastada -quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura apontar com o dedo -para terras de sete Bispados, estando os dias claros. - -36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento[192] ao nome desta -serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum -Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de -Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira -habitaçaõ, e que de _Sublaco_ vieraõ a alterar a palavra, vertendo-a em -_Bussaco_. - -37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de -arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas -fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por -engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello. -Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços, -que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida -contemplativa.[193] - -38 _Cabreira_. Fica na Provincia de Tras os Montes, e tem duas leguas -de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que -recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio -Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda -de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos -consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz -Cardoso. - -39 _Cantaro._ No mais alto da serra da Estrella se levanta huma -eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que -chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua -Corografia,[194] costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho, -que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua -para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta -montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais -que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa _Escura_. - -40 _Caramullo._ Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu, e -diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome de -Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais alto -deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros, -ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos -homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto -para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze -leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os -tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas. - -41 _Carpento._ Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou o -Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes -penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na raiz deste monte -está hum sitio chamado o _Abismo_. He huma cova como hum poço de quatro -varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais dizem, que -se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha por huma -mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque ninguem -até agora se animou a descobrillo. - -41 _Cintra._ Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma -das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a -organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés -de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes; -mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina, -elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se -descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas, -que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada -esta serra _Promontorio da Lua_, donde Camões veyo a dizer: - - _E nas serras da Lua conhecidas - Subjuga a fria Cintra o duro braço._ - -43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta -serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o -Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol, -e à Lua; e porque a esta chamavaõ _Cynthia_, se derivou della o nome de -_Cintra_. - - _De_ Cynthia _tomou_ Cintra _celebrada - O nome que em rochedos he famosa._ - -Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso: - - _Diola nombre un gran templo, que aun expone - De Cynthia tan magnifico, y notable, - Que ser pudo d’el risco ala oportuna - Casa del Sol el templo de la Luna._ - -44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ, -referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando -tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes -naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde -o Montejunto com a serra de Cintra.[195] E o nosso grande Poeta -Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio -_Artabro_,[196] o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos, he o -Cabo de _Finis terræ_. Quem quizer mais largas informações desta serra, -lea os Authores abaixo nomeados.[197] - -45 _Estrella._ Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy -antigamente conhecida com o nome de monte _Herminio_, que queria dizer -aspero, e intratavel.[198] Hoje conserva o de Estrella, porque dizem -ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra hum -ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que aparta -Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de neve, -que por isso disse hum nosso Poeta:[199] - - _Que he de Herminia senhor serra nevada, - Onde o quente Veraõ nunca começa._ - -46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre -as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica -nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã: do Sueste as de -Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as -Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra -nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos -outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes. - -47 _Falperra._ Fica esta serra servindo de atalaya à Villa de Aguiar da -Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das fertilidades do ameno -valle, em que existe.[200] - -48 _S. Gens._ Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra, que -tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto della, -da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por Theodomiro -Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de Religiosos -Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que he parte da -serra de Ossa, e summamente alta.[201] - -49 _Gerez._ Os antigos chamaraõ a esta serra _Juressum_, que Antonio -de Sousa de Macedo[202] diz ser deduzido dos tres celebres Geriões, -que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito. Principia -algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte, e caminhando -encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa elevaçaõ, e por -algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a habitaõ cabras -montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes he aprazivel. -O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte dous especiaes -capitulos.[203] - -50 _Guardunha._ Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella, e em -sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas povoações, -arvores, fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra _Guardunha_ -he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha; porque sendo os -moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se foraõ refugiar a -esta serra para se defenderem delles.[204] - -51 _Hermello._ He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e no -cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio -Bruto. - -52 _Labruja,_ ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos caminhantes. -Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima para -Valença.[205] - -53 _Louzã._ He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno está -cuberta de neve.[206] - -54 _Maraõ._ Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ -abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira, -e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande -penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.[207] -Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia -da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro, -Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro, -de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da -Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar -desde a rocha de Cintra.[208] - -55 _Marvaõ._ Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de ouro, e -de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se havemos de -dar credito a Resende.[209] - -56 _Minde._ Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do Norte -para o Sul, e da parte Meridional nasce hum pequeno rio, que faz sua -corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito[210] naõ distingue esta -serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de -Faria.[211] - -57 _Monchique_, ou _Monsico_. Levanta-se no Algarve com eminencia tal, -que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com abundancia de agua -admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se descobre a mayor parte -do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de final aos navegantes -para demandarem seguramente a nossa barra; de sorte que principia de -Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur. Alguns Authores lhe daõ o -nome de _Sico_, ou seco por antifrase. Resende diz que he braço da -Serra Morena.[212] - -58 _Monte do figo._ No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho existe -esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera subida, -em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de legua. Em -cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores de todas -as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se levanta -outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume está huma -Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e para remedio -de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera alli o Arcanjo -S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu nome, que por este -motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o primeiro que avistaõ os -navegantes, que vem das Indias de Castella, muitas leguas ao mar, por -ser de immensa altura. - -59 _Montejunto._ Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se -extende esta serra, a que antigamente chamavaõ monte _Tagro_, de que -talvez se originaria o nome de _Tagarro_ a huma povoaçaõ edificada nas -suas vizinhanças.[213] Dizem alguns,[214] que he a mais alta serra de -Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e de altura -meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa agua. -Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro Convento -dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel Fr. Sueiro -Gomes.[215] - -60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro, -escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,[216] e em outra -obra[217] nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade, -e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ. -O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de -azeviche.[218] - -61 _Monte do Minhoto._ Junto ao rio Zezere está esta serra, muy alta, e -povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a parte do -rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella, e hum poço -de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem[219] que antigamente -houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava humas contas -a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio para muitas -enfermidades. - -62 _Monte-Muro._ Está junto a Evora, e he parte da serra de Besteiros: -os antigos lhe chamaraõ _Mons Maurus_. Toma grande distancia de terra, -mas em si he aspero; e da mesma grosseria, e rusticidade participa a -gente, que o habita. - -63 _Ossa._ Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo espaço -de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se de -muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria o -nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.[220] Comprehende -em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares, -Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes -fontes, que della procedem. - -64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e -parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de -S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas -abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ -fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de -Infantes verdadeira Thebaida Portugueza. - -65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento -se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que -chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na -_Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v._ Descobrem-se tambem nesta -serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre, e -almagre. - -66 _Pomares_. Antigamente se chamou _Monte de Venus_. Está junto a -Evora, onde agora se chama o Lugar de Pomares. Foy muy celebre pelos -trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.[221] Da sepultura de -Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora gloriosa -pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma. - -67 _Sandonho._ Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de -outra serra chamada Falperra. - -Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda -encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de -outros. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[181] Caram. no seu Philip. Prud. Proem. §. 1. n. 3. - -[182] Sousa na Histor. de S. Domingos part. 3. liv. 3. cap. 20. - -[183] Monarq. Lusit. tom. 1. na Geogr. Resende liv. 1. de Antiq. -Corograf. Port. tom. 2. pag. 89. - -[184] Ptolom. lib. 2. Geogr. tab. 2. Corograf. Portug. tom. 1. p. 282. -Argote de Antiq. Bracar. lib. 1. cap. 3. e nas Memor. de Braga tom. 1. -lib. 1. cap. 10. - -[185] Corograf. loc. supr. citat. Cardoso Diccion. Geogr. tom. 1. - -[186] Barreir. na Corograf. pag. 62. Santuar. Marian. tom. 2. pag. 465. - -[187] Piedad. Chron. da Arrab. part. 1. liv. 1. cap. 5. Brito de Mello -Chron. da Arrab. m. s. p. 1. c. 6. - -[188] Gonzag. de Origin. Relig. Seraph. part. 3. pag. 1123. - -[189] Resende lib. 1. de Antiquit. pag. mihi 37. - -[190] Monarq. Lus. liv. 1. c. 28. - -[191] Santuar. Marian. tom. 3. pag. 255. - -[192] Chron. dos Carmel. Descalç. part. 2. liv. 4. c. 13. - -[193] Idem tom. 2. pag. 76. Bened. Lusit. tom. 2. pag. 283. Corogr. -Port. tom. 2. pag. 69. Diccion. Geogr. de Cardos. tom. 2. - -[194] Corograf. Portug. tom. 2. pag. 76. - -[195] _Mons vero Tagrus, cujus Varro meminit, meo quidem judicio ille -idem est, quem nos Sintreum vocamus, & à, quo Lunæ promontorium in -mare prorumpit millia passuum ab Olisipone plus, minusve, quod nostris -hodie_ Rocham _appellari placuit, &c._ Goes _tract. de Olisipone._ - -[196] Botelho no Alfonso l. 1. est 7. da impress. de Roma. - -[197] Resende lib. 1. de Antiq. Monarq. Lus. liv. 1. c. 22. e liv. 5. -c. 15. Duart. Nun. Descripç. de Portug. c. 10. Faria sobre a Ode 1. de -Cam. Franc. d’Almeida Jordaõ em especial Relaçaõ que imprimio desta -serra no an. de 1748. - -[198] Monarq. Lus. t. 1. liv 4. cap. 1. Esperança tom 1. da Chronic. p. -421. Resende de Antiq. lib. 1. - -[199] Maced. no Olisip. cant. 4. est. II. - -[200] Carv. Corogr. Portug. tom. 1. p. 171. - -[201] Corograf. Portug. tom. 1. pag. 168. & tom. 2. pag. 447. - -[202] Maced. Olisip. cant. 2. est. 18. - -[203] Argot. Antiguid. de Brag. p. 372. - -[204] Santuar. Marian. tom. 3. p. 59. Corograf. Portug. tom. 2. p. 412. - -[205] Corograf. Portug. tom 1. p. 204. - -[206] Leit. nas Miscelan. pag. 15. - -[207] Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 106. - -[208] Sousa, Chronic. de S. Dom. part. 3. pag. 189. - -[209] Resend. liv. 1. de Antiquitat. - -[210] Monarq. Lusitan. liv. 11. cap. 30. e na Geogr. cap. 2. - -[211] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 3. cap. 6. - -[212] Resend. lib. 1. Antiquit. Vide Agiolog. Lusit. tom. 2. pag. -654. Far. no Epitom. part. 4. cap. 9. Diccionar. Geogr. tom. 1. verb. -_Algarve_. - -[213] Fr. Luiz de Sous. Histor. de S. Dom. part 1. liv. 1. cap. 12. - -[214] Far. na Europ. Portug. part. 3. tom. 3. cap. 6. - -[215] Santuar. Marian. tom. 2. p. 215. - -[216] Plin. Columel. e outros apud Mayol. part. 1. colloq. 7. Fonseca -na Medic. Lusit. disp. 2. cap. 5. - -[217] Recreaçaõ Proveit. part. 1. colloq. 4. p. 254. Veja-se tambem -Gerundens. no Paralipoemn. da Histor. de Hesp. lib. 1. pag. 6. Kormanni -tract. de Virgin jure cap. 12. Resend. lib. 1. Bernard. Florest. tom. -4. p. 267. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. - -[218] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2. - -[219] Santuar. Marian. tom. 3. p. 425. - -[220] - - _Es nombre desta horrifica montaña - El de la que fue patria de Centauros, - Que contra el Cielo puestos en campaña - Amontonaron Oëtas, Pindos, Tauros. - El nombre desta finalmente es Ossa, - Que aun aora escalar los Cielos osa._ - - Faria na 4. p. da Fonte de Aganipe Eglog. 5. - - - - - CAPITULO VII. - -_Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis._ - - -1 He tanta a abundancia de rios, que fertilizaõ, e regaõ nossas -Provincias, que por este motivo deu Estrabo à Lusitania o titulo de -feliz.[222] Dos capitaes, e de alguns, que se diffundem nelles, faremos -huma succinta, e hydrografica narraçaõ pelo mesmo estylo, que vamos -observando. - -2 _Abbadia._ Passando por Alcobaça, vay inundar os campos da Villa de -Mayorga. - -3 _Abrancalha,_ ou _Abrancuida_. He ribeira, que corre distante de -Abrantes huma legua para o Norte, fertilizando com suas aguas muitos -pomares, e hortas deliciosas. - -4 _Abrilongo._ Entra no rio Sévera, ou Xévora junto da Villa de -Ouguella, e cria muy gostoso peixe, por serem suas aguas frigidissimas. -Veja-se o que dizemos do Botova. - -5 _Agualva._ Ribeira, que passa junto da Villa de Bellas. - -6 _Agua santa._ He hum grande ribeiro, que nasce da serra de Ossa, e se -mete no rio Tera. - -7 _Aguas livres._ He huma formosa ribeira de abundantes aguas, que -corre pela Freguezia de Bellas, termo de Lisboa. Em algumas partes he -caudalosa, e naõ se passa sem ponte, como he no lugar chamado Ninha -a Pastora, e no forte da Cruz quebrada. Saõ conduzidas estas aguas -para Lisboa em soberbo, e forte aqueducto, que por ora descreveremos -brevemente. - -8 Tem elle o seu primeiro manancial nesta ribeira em distancia de boa -meya legua da ponte, a que alguns chamaõ de Bellas. A abundancia de -agua neste nascimento por si só vence os tres principaes chafarizes -de Alfama, que ha na Cidade. Manifestou-se pois este famoso aqueducto -para se pôr prompto em 6 de Agosto de 1732; e logo ao principio da -ribeira em distancia de 1800 palmos se lhe introduzio huma boa fonte, -a que chamaõ a Fonte santa do Leaõ; e continuando o aqueducto ao lado -direito da ribeira, (que logo a atravessou junto ao nascimento, que -fica à parte do Poente) caminha até avistar a ponte de Caranque, e aqui -se aparta da mesma ribeira para o Lugar da Porcalhota, encostando-se ao -oiteiro de S. Braz. - -9 Neste progresso vay mais para diante recolher a agua, que lança a -fonte chamada de S. Braz para a parte da Porcalhota, e logo atravessa -por baixo da estrada junto à quinta do Galvaõ proximamente à Ermida -de Santo Antonio da mesma quinta, donde salvando sobre huma ponte a -ribeira, que passa por dentro da dita quinta, se inclina a buscar a -raiz do Lugar da Fragoza; e continuando pela mesma encosta até o Lugar -de Calhariz, fronteiro à Freguezia de Bemfica, se vay prolongando -por defronte do Convento de S. Domingos até o monte, que chamaõ das -tres Cruzes, donde se passa a ribeira de Alcantara para se introduzir -no Bairo alto, recolhendo por este caminho (que he o da mais baixa -nivelaçaõ, que permittia o calice, em que a agua deve cahir no dito -bairro) varias fontes, que se vaõ encontrando, e descubrindo nos -alicerces da mesma obra. - -10 A fórma deste aqueducto he de hum corredor, ou mina artificial -de sete palmos de largo, e quatorze de alto, a que naõ chegou algum -dos aqueductos Romanos. Tem pelo meyo hum passeyo de tres palmos de -vaõ, fabricado de finissimo lagedo, e a cada lado hum encanamento de -marmore, que recebem ambos quarenta e duas manilhas de agua em palmo e -meyo de boca, e palmo e quarto de alto. - -11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua -horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta -se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como -por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto -se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto -algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o -antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na -utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ -inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de -seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira. - -12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ -introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a -este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous -montes, que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e -forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa, -em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado -manuscrito, intitulado: _Fabrica, que falta a Lisboa_, o qual vimos, e -se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo. - -13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas -para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer -ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós -vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada -de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos -naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto -appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as -da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz -Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra -desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ -nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes -embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ -V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para -a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel -da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade -merece imortaes elogios. - -14 _Agueda._ Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum, que -passa por Agueda, e este he o _Emineum_ dos antigos, que vay morrer em -Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de Riba-Coa. -Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay à ponte da -Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos montes em -Vilvestre entra no Douro. - -15 _Aguilhaõ._ Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes, e com -arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos peixes, -especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas margens ha -copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente agradavel, -e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se atravessar -por tres pontes de páo, e huma de cantaria. - -16 _Alborrel._ Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando Aremanha, e -divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos barbos. - -17 _Alcantara._ Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e se mete -no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos no livro, que -compoz, intitulado: _Sitio de Lisboa_, mostra de quanta utilidade seria -communicarse este rio com o de Sacavem, do qual naõ dista mais que -legua e meya para que ficando dentro deste circulo Lisboa, conseguisse -o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no mundo. Neste sitio -está a fabrica Real da Polvora reedificada por Antonio Cremer. - -18 _Alcaraviça._ He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos Gallegos -no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas fontes taõ -abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas. - -19 _Alcarabouça._ Provê este rio de bastante peixe a Villa de Ficalho, -por onde corre quatro leguas distante de Serpa. - -20 _Alcarapinha._ Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz. Suas -aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche. - -21 _Alcarque._ Conforme a Geografia Blaviana he rio, que no seu Mappa -vem assinado na Provincia do Alentejo. - -22 _Alcarrache._ He huma Ribeira, que nasce em Castella na serra de -Santa Maria, e vem sahir ao termo de Mouraõ, trazendo de jornada -quinze leguas; até que engrossada sua corrente com as aguas de outros -ribeiros, e fazendo trabalhar muitos moinhos, vay morrer no Guadiana. -Pescaõ-se nelle excellentes, e grandes barbos, e outros peixes mais -miudos: e se vadea por duas boas pontes de pedra. - -23 _Alcoa_, antigamente _Coa_. He o que unindo-se com o chamado _Baça_, -deu nome ao sitio de _Alcobaça_, onde os Religiosos Bernardos tem -o famoso, e magnifico templo, que alli fez edificar o Santo Rey D. -Affonso Henriques. - -24 _Alcofra._ He rio caudaloso da Beira no termo de Lafões, e que se -mete no Alfusqueiro. As suas margens estaõ cheias de carvalhos, e -castanheiros enlaçados com muitas vides, de que se faz o bom vinho de -embarrado. Cria saborosas trutas, e se deixa vadear por quatro pontes -de páo. - -25 _Alenquer._ Nasce ao pé da serra de Montejunto, e caminhando Norte -Sul o espaço de huma legua vem buscar nome à Villa de Alenquer. Aqui -fertiliza as suas quintas, e hortas com a abundancia de suas aguas -saudaveis, e aos seus moradores com a copia das suas trutas, barbos, e -bogas; até que incorporado com o rio de Ota se mete no Tejo junto de -Villanova da Rainha. - -26 _Alferradede._ He ribeira, que rega muitos pomares, e hortas do -termo da Villa do Sardoal, e vay morrer ao Tejo. - -27 _Alfusqueiro._ Passa este rio junto do Lugar dos Ferreiros, termo da -Villa de Vouga, e tem huma grande ponte de hum só olhal, muito alta, -fabricada de cantaria. Discorre tambem pela Villa de Assequins, e vay -descançar no rio Vouga. - -28 _Algés._ Nasce este rio em hum oiteiro, que fica defronte do Lugar -de Monsanto, termo de Lisboa; e augmentado com as aguas de hum regato, -que brota por cima de Outorella, entra a fertilizar a quinta das -Romeiras até ir mergulharse no mar pelo pé do forte da Conceiçaõ, onde -está huma ponte de pedra, que parte com a nobre quinta do Duque de -Cadaval. - -29 _Algodea._ Banha, e fecunda esta ribeira as hortas, e pomares, que -ficaõ fóra da Villa de Setubal: depois entra no Sado. - -30 _Alja_, ou _Alje_. He huma caudalosa, e arrebatada ribeira, que -discorre pela Villa de Arega, cinco leguas de Thomar, e se vay esconder -no rio Zezere. Pescaõ-se nelle excellentes trutas, e outros peixes muy -gostosos. Os antigos lhe chamavaõ ribeira fria. - -31 _Almaceda._ He rio, que cerca a Villa de Sarzedas, e entra no Ocreza -sempre arrebatado. - -32 _Almansor._ Divide esta ribeira do Alentejo os limites da Freguezia -de Nossa Senhora da Repreza, dos de Santa Sofia; e chegando até o termo -de Montemor o Novo, onde troca o nome pelo de Canha, se esconde no Tejo -perto de Benavente; deixando com a benignidade das suas aguas ferteis -os pomares, e as terras por onde passa. - -33 _Almonda._ Tem sua origem este rio na serra d’Aire, legua e meya da -Villa de Torres Novas. Saõ as aguas no seu nascimento, e matriz, taõ -claras, e he tanto o peixe, que se cria nellas, que ainda que o pégo he -fundo, se está vendo de cima das barreiras andarem a saltar: por isso -he aqui muy aprazivel a pescaria. Os Romanos acharaõ neste rio muita -semelhança com o Mondego, por cuja causa lhe chamaraõ _Alius munda_, -donde se originou com pouca corrupçaõ _Almonda_. Mete-se no Tejo junto -do Lugar da Azinhaga, como bem o diz o Reverendo Padre Luiz Cardoso no -Diccionario Geografico, emendando-me. - -34 _Alpiaça._ He rio da Estremadura, que nasce perto da Villa de Ulme; -de inverno corre arrebatado, e cria excellentes barbos, e fataças. -Mete-se no Tejo. - -35 _Alpreade._ Nasce esta ribeira na serra da Gardunha, e correndo -sempre desasocegada, vay acabar no rio Ponsul, passando por quatro -pontes de pedra, e fazendo trabalhar trinta e quatro azenhas, tres -lagares, e hum pizaõ. Cria muitas trutas, e bordallos. - -36 _Alva._ Este rio tem o nascimento na serra da Estrella; e fazendo -logo seu caminho ao Poente por baixo de hum monte, discorrendo em -algumas partes muy claro, vem cercar as Villas de Arganil, Coja, -Pombeiro, Penalva, Sandomil, Villa Cova de Subavó, e S. Romaõ, onde -tem duas pontes, huma chamada de Peramol, pela qual vay o caminho de -Veraõ para a Covilhã, outra de cantaria lavrada, na estrada, que vay -para Valezim. Pescaõ-se nelle boas bogas, trutas, lampreas, e saveis. -Finalmente entrando no Mondego rico de outras ribeiras, acaba no Oceano. - -37 _Alvar._ Nasce esta ribeira na serra de Montemel pela parte do Lugar -de Covellas; e passando junto da Villa da Alfandega da Fé, vem ao Lugar -de Santa Justa, donde caminhando quatro leguas, desagua na ribeira -Vellarva. - -38 _Alvaro._ No termo da Villa de Alvaro pela banda do Sul tem seu -nascimento esta ribeira; que dá o nome à Villa; e passando por duas -pontes de pedra, rodea o monte da Villa, e se mete no Zezere, fazendo -parecer aquella povoaçaõ huma peninsula. - -39 _Alviella._ A boa opiniaõ que fiz da Corografia Portugueza composta -pelo Padre Antonio Carvalho, me obrigou seguirlhe as pizadas em muitas -noticias, que delle tirey, e a elle me refiro. Entre ellas foy a -maravilhosa voragem, ou sorvedouro que diz acontecer nos olhos de agua -em a nascente deste rio de Alviella; mas como o Reverendo Padre Luiz -Cardoso, natural de Pernes, pode examinar melhor esta particularidade, -e a reconhece agora no Diccionario Geografico por fabulosa, he justo -que eu nesta segunda impressaõ do meu Mappa, agradecendo-lhe a -advertencia, melhore a noticia. - -40 Nasce pois este rio nas vertentes da serra do Patello junto do Lugar -da Louriceira, debaixo de hum grande rochedo; e logo em seu nascimento -vem com abundancia de peixes, especialmente bordalos, engrossando-se -com varios ribeiros até desembocar no Tejo junto ao Lugar do Reguengo. -Cria outras muitas castas de peixes saborosos em todo o tempo: faz -moer muitos moinhos, e lagares de azeite; e as suas ribeiras, e -margens estaõ cheias de arvoredo silvestre, e frutifero, que as fazem -vistosissimas. Sujeita-se porém a oito pontes; e dá abrigo a bastante -caça miuda de arribaçaõ. - -41 _Almioso._ He huma ribeira da Estremadura que nascendo pobre no -Troviscal, vay desaguar caudaloso no fim da cerca dos Religiosos -Capuchos da Certã. Cria muitos peixes miudos, e admitte algumas pontes. -As suas margens saõ incultas por fragosas, mas entre as suas areas se -acha ouro. - -42 _Analoura_, ou _Anhaloura_. Nasce entre as Villas de Borba, e Villa -Viçosa, rega a Villa de Veiros, e misturada com a ribeira de Fronteira, -vay engrossar a de Sauzel, e entraõ ambas por Aviz, até desembocar no -Sorraya. - -43 _Ancora._ As aguas deste rio que nascem na serra de Arga, dividem -o Concelho de Caminha do de Viana. Dizem que adquirira o nome, que -possue, desde que ElRey Ramiro II. lançara nelle sua mulher Dona Urraca -atada em huma ancora para ir mais depressa ao fundo. Authores ha que -tem isto por fabula. Morre finalmente no mar junto de Caminha, onde -fórma huma pequena barra com o fortim da Lagarteira. - -44 _Anços_, antigamente _Anceo_. Vem da Redinha banhar a Villa de -Soure, e dar nome a Villanova de Anços; e junto com outras correntes se -mete no Mondego a baixo de Coimbra. - -45 _Aravil._ Nasce junto de Castellobranco, e morre no Tejo. Pelo -Inverno corre arrebatado, e no Veraõ secca. He constante levar nas suas -correntes algum ouro, e por isso procurado de gandaeiros. - -46 _Arcaõ._ Nasce no celebre olho de agua Borbolegaõ na Villa de -Grandola, e se mete no Sado acima de Alcacer. - -47 _Ardila_, ou _Ardita_. He huma ribeira furiosa da Villa de Moura. -Fazem-na opulenta as enchentes das ribeiras Brunhos, e Lavandeira. -Desemboca no Guadiana, passando primeiro pela Villa de Noudar, que a -deixa quasi reduzida a Ilha, juntando-se, com a ribeira da Murtiga. - -48 _Arestal._ He huma lagoa profunda, que fica na Beira, e na serra do -seu mesmo nome. Em todo o anno lança agua para todas as partes, e faz -nascer della dous ribeiros. Dizem que se communica com o mar. - -49 _Arunca._ Nasce na ribeira de Gaya, e augmentando-se com as aguas de -outras ribeiras, vay correndo até à Villa de Pombal pelo espaço de tres -leguas, fertilizando de caminho muitos pomares, e quintas. Antes de se -meter no Mondego, passa pelas Villas de Soure, e Villanova de Anços. -No tempo de Inverno se enfurece, e corre com tanto impeto, que leva -comsigo searas, e edificios. Os antigos lhe chamaraõ Tapiço.[223] - -50 _Asturãos._ Rio do Minho, que nasce no sitio de Azevosa com muita -humildade, e continuando com a mesma brandura, vay acabar no Lima, -deixando de si saudades nas deliciosas, e frescas margens por onde -passou. - -51 _Ave._ Procede da serra de Agra, e de huma ribeira, a que chamaõ da -Lage; e unindo-se com hum regato ao pé da serra de Cabreira, já com -bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas de Barrozo, -e quatro leguas antes de entrar no Oceano, divide o Arcebispado de -Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Bairaõ, e de S. Tyrso, -e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo de Guimarães o -Vizella, ou Avizella, que passa por Pombeiro, caminha apressadamente -por baixo de varias pontes muito boas, e finalmente vay sepultarse no -mar por entre a Villa de Conde, e Azurara. O Padre Vasconcellos, como -traductor de Duarte Nunes, o faz erradamente, como elle, nascer junto -de Guimarães, como bem repara Fr. Leaõ de Santo Thomaz.[224] Em algumas -partes corre com tanta doçura, e suavidade, que obrigou a cantar delle -Manoel de Faria:[225] - - _De donde ouvindo estava o som divino, - Que faz correndo o Ave crystallino._ - -Todas as terras, por onde este rio passa, e vay regando, saõ -deliciosas, e elle abundante de barbos muy grandes, e saborosissimos. - -52 _Aviz._ He huma ribeira, que nasce acima de Monforte, e passando -pela Villa de Fronteira, e outras terras, em que recebe varios riachos, -com que se engrossa, chega à Villa de Aviz onde adquire o nome, e passa -por huma ponte de boa fabrica, até ir acabar ao Tejo incorporado com o -Sorraga, e Divor. - -53 _Azibo._ Com forças medianas discorre pelos limites da Villa de -Chacim, sete leguas de Moncorvo. Principia no Lugar de Podense, termo -de Bragança, e depois de caminhar quasi sete leguas, vay introduzirse -no rio Sabor por cima da ponte de Remondes, limite da Villa de -Castro-Vicente. - -54 _Baça._ Este rio, juntando-se com outro chamado Coa, nasce da parte -Oriental de Alcobaça, e fazendo volta para o Occidente, rega por -grande espaço os fertilissimos campos de Mayorca, e Abbadia, até que -junto da Villa da Pederneira se mergulha no Oceano. - -55 _Balocas._ Ribeira, que se mete no rio Alva. - -56 _Balsemaõ._ Em distancia de quatro leguas da Cidade de Lamego nasce -este rio na serra da Rosa, mas elle o naõ parece; porque tanto que póde -correr, caminha furioso, rompendo, e lavrando pedras com tal estrondo, -que ensurdece ainda pelo Veraõ, quando leva menos agua. Vay à ponte -de Lamego, atravessando o sitio da mayor fertilidade, a que chamaõ da -Ribeira, e se mergulha impetuoso no Douro juntamente com o Baroza com -quem se havia communicado. Antigamente lhe chamavaõ Unguio. - -57 _Barcarena._ Nasce esta ribeira nos limites de Bellas termo de -Lisboa, e fertilizando os Lugares da Agualva, e de Laveiras, aqui -se esconde no Tejo por baixo do Convento da Cartuxa. Faz trabalhar -com a sua agua no sitio de Barcarena a magestosa fabrica da polvora -reedificada no anno de 1729 pelo Hollandez Antonio Cremer. - -58 _Baroza_. Nasce este rio de dous principios: hum he no monte de -S. Joaõ de Tarouca, e nasce muy bravo, mordendo pedras até a ponte -de Mondim, que muitas vezes derruba. Mais para baixo lhe entra outro -braço, que nasce em Barcia da Serra, donde chega a Lazarim à ponte de -Baroza. Baixa aos campos de Tarouca muito brando, mas com a aprasivel -serenidade solapa nocivo terras, e campos muito bons, e os leva. Unido -vay a Ucanha adornar a nobre ponte da Torre, muy grandiosa, e adiante -lhe entra a ribeira de Salzedas, com que em fim morre no Douro. - -59 _Barroco._ Nasce este rio na serra da Arada em a Beira, e fazendo -varias voltas, e passagens, se precipita por entre penhas no escuro -pego do Vouraõ até ir acabar no Vouga. As suas margens saõ deliciosas -pelas grandes sombras de arvoredos com que convida aos passageiros. - -60 _Basegueda_, ou _Besadega._ Tem o seu nascimento este rio na serra -Marvana, tres leguas distante de Penamacor, onde tem huma ponte de -cantaria com cinco olhaes. A sua corrente he muy socegada, excepto no -Inverno, que corre arrebatada. Cria excellentes trutas, e rega pelas -suas margens vistosos, e frescos arvoredos; e deixando-nos saudades com -as suas areas de ouro, vay morrer Castelhano em o rio Erga. - -61 _Beça._ He rio do Minho, e nasce em Tras os Montes; corre sempre -arrebatado, e furioso por penedia, e por isso he infrutifera a sua -corrente. Depois de caminhar seis leguas, se mete no Tamega com -bastante copia de boas bogas, e trutas. - -62 _Bezelga._ Nasce junto da Villa de Ourem; e correndo mais de legua e -meya, vay descançar no rio Nabaõ por entre Thomar, e Cinceira. - -63 _Biturim._ Entra no Douro pela Provincia do Minho. - -64 _Borbolegaõ._ He este hum celebre olho de agua, que nasce na Villa -de Grandola, e passa pela natural ponte dos Aivados, que suas mesmas -aguas formaraõ galantemente em huma rocha. Mais para baixo vaõ taõ -violentas no sitio chamado Diabroria, que fazem moer a hum moinho entre -dia, e noite moyo e meyo de trigo. Neste olho de agua, que será do -tamanho de huma roda de carro, se lança de alto hum homem a pique, e -cravando-se nelle até os peitos, o impeto das aguas o faz vir pouco a -pouco para cima, até que arremeça com elle na margem com tanta furia, -como se fora huma leve cortiça. O mesmo faz a qualquer pezado madeiro, -que lhe lançaõ. Dentro nelle se ouve estrondo como o que faz na costa o -mar bravo. Finalmente vay morrer no Oceano pela Villa de Sines. - -65 _Botova._ O nascimento deste rio he nas serras de Albuquerque, e se -augmenta com as enchentes do Xévora, que nascendo ao pé da serra de S. -Mamede, e correndo pelos penhascos do monte chamado dos Sete, passa por -S. Juliaõ da Codiceira, onde recolhe as aguas do Abrilongo. Desta sorte -juntos vaõ communicarse com o Guadiana à vista da Cidade de Badajoz. -Deste rio faz mençaõ Antonino em o seu Itinerario com o nome de _Budua_. - -66 _Brescos._ Na Freguezia de Santo André, termo da Villa de Santiago -de Cacém, existe esta lagoa que tem de circuito meya legua, cujo -especial peixe, que delle se tira em abundancia, se arrenda todos -os annos. Muitas pessoas distinctas vaõ fazer alli por divertimento -suas pescarias. Devemos esta noticia ao M. R. Padre Fr. Francisco de -Oliveira Dominicano, que por carta nos communicou. - -67 _Briteiros._ Nasce no Minho na Freguezia, e Coito de Pedralva, e -fenece no Ave. No seu principio he pobre, mas enriquecido com varias -levadas, se faz rio opulento, cheyo de muitas trutas, e escalhos -saborosissimos. - -68 _Bugaõ._ Tem este rio a sua origem na Freguezia de Santiago de -Villa-Chã, termo da Villa da Barca, e se mete no Lima arrebaradamente. -Todo o peixe, que nelle se cria, he de admiravel gosto. - -69 _Cabraõ._ He hum pequeno regato, que corre pela Freguezia de S. -Lourenço, termo da Villa dos Arcos de Valdevez. Com a pouca enchente, -que leva, caminha com arrebatada furia, e passando pela ponte de -cantaria, a que chamaõ do Rodalho, divide as aguas do Lima, onde -finaliza. Criaõ-se nelle boas trutas, porém tambem naõ lhe faltaõ -sanguisugas. - -70 _Cabrella._ He ribeira do Alentejo, que nasce nas Silveiras termo -de Montemor. Recolhe as correntes de outras duas ribeiras chamadas da -Safira, e S. Romaõ, que lhe ficaõ ao Nascente, e da parte do Norte se -engrossa com outras duas, e se mete no mar com o nome de Marateca. O -seu curso em partes he furioso, pelo embaraço que lhe fazem as penedias -por onde corre. - -71 _Cachoeiras._ Nasce na Comarca de Alenquer formado de varios -regatos, e vay acabar no Tejo entre a Villa nova da Rainha, e a -Castanheira. Tem duas pontes huma de páo, outra de pedra no Lugar do -Carregado. - -72 _Cadavai._ He ribeira, que fertiliza as hortas no termo da Villa do -Sardoal, e se mete no Tejo. - -73 _Caldo._ Corre pela Villa de Monte alegre na Provincia Transmontana, -provendo de peixe os seus habitadores. - -74 _Cambas._ He pequeno rio, que entra no Zezere. - -75 _Campanhaõ._ Entra no Douro. - -76 _Campilhas._ Entra no rio Sadaõ muy corpulento em Alvalade. - -77 _Caná._ Faz delle mençaõ Macedo.[226] - -78 _Canal._ He ribeira da serra de Ossa, donde procede, e enriquece a -ribeira de Tera. - -79 _Canha._ Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o -novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de -Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa -Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com -huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos -depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ -occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte, -onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está -taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738 -correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro, natural da -mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada -no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e -era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa -certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do -Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra -na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das -Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de -1759. - -80 _Carbuncas_, ou _Cabruncas_. Nasce na serra de Freixedas do Bispado -de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante com o Danços -caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego. - -81 _Carcedo._ Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha, sem -dizer onde nasce, ou por onde corre. - -82 _Cardeira._ Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo -de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no -Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma -Cidade de Béja. - -83 _Carnide._ He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay -buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas, -vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira. - -84 _Castelãos._ Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de -Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio -Crins, que se mete no Mondego. - -85 _Cávado_, a quem os Romanos chamavaõ _Celando_, e Ptolomeu appellida -_Cavus_. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na Serra do Gerez, -segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber outras -ribeiras, especialmente o chamado _Homem_, cerca, e poem em Peninsula -as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga. Rega com suas -aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte; os muros de -Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no mar por entre -Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta para o Norte quasi -do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito sua força as marés. -Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que acerca deste rio fez -o Reverendo Padre Argote.[227] Pescaõ-se neste rio muitos salmões, -relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ tambem nelle amethystos, -jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas as pontes por onde se -deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que existe na Freguezia -de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos de cantaria, obra -Romana; e por aqui fazia transito huma das vias militares que sahiaõ de -Braga para Astorga. - -86 _Cá-vay._ Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy -distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles. - -87 _Caya._ Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte -chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo -dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar -Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya -antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy -conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer -a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento -mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes -entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias. - -88 _Cayde._ He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio perto -da Vila de Guimarães, e se mete no Celho. - -89 _Ceife._ Ribeira, que corre pela Freguezia de Santa Margarida do -termo da Villa de Proença a velha. - -90 _Cellinho._ Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com o -Celho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de -Sercedelo para se intrometter com o Ave. - -91 _Celano._ O mesmo que o _Cávado_. - -91 _Celho._ Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de -Guimarães, e conduzido com o augmento de outros riachos, vay passando -triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deos, a de -Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vay esconder no rio Ave por -baixo da ponte de Servás, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de -Penouços deraõ as aguas deste rio de beber às Tropas Portuguezas, e -Castelhanas, que se acharaõ na batalha da Veiga das Favas. - -93 _Ceiça._ Ribeira, que entra no Nabaõ, e nasce no termo da Villa das -Pias. - -94 _Cerdeira._ Ribeira, que corre pela Villa de Coja, e entra no Alva. - -95 _Ceras_, antigamente _Ceres_. Entra no Nabaõ. - -96 _Cértoma._ Nasce no Couto da Vacarissa perto do Bussaco, e vay -acabar no Agadaõ muy soberbo. As suas aguas antigamente eraõ pessimas: -depois que tiveraõ a felicidade de beber dellas Santa Isabel, ficaraõ -com tal virtude, que até os gados que alli bebem, saõ as suas carnes de -melhor sabor que os de outra parte.[228] - -97 _Ceira._ Rega as Villas de Goes, e Cerpins, fertilizando seus -campos, e enriquecendo seus moradores de grãos de ouro, que suas -correntes levaõ. - -98 _Chança._ Esta ribeira fica distante meya legua da Villa de Ficalho, -e divide por esta parte o nosso Reino do de Castella. - -99 _Chinches._ Corre ao Norte da Cidade de Elvas por hum amenissimo -valle povoado de fresquissimo arvoredo, hortas, e pomares, e repartindo -os montes de Nossa Senhora da Graça, e do Castello. Visto este rio da -Cidade, faz huma agradavel perspectiva. - -100 _Chileiros._ Nasce este rio na lagoa de Malveira, Lugar da -Freguezia de Alcainça, termo da Villa de Cintra; e discorrendo pelas -margens do monte Malhamartello, passa por baixo da estrada Real de -Mafra, onde se augmenta com os riachos Sexeira, e Pinheiro, que lhe -daõ forças para cortar com mayor efficacia o alto monte chamado de -Moncharro. Depois entra pelas terras da Freguezia da Igreja nova, e -passa pelos Lugares de Moinhos, Granja, Lage, e Farello, onde recebe -as aguas do ribeiro _Bocco_ da banda do Sul, e da mesma parte recolhe -outro, que nasce na fonte de Danços. Daqui vay caminhando até o moinho -das Peras pardas, onde se lhe introduzem as correntes do rio Mouraõ, -e as do Almargem do Bispo. Alli faz hum salto, de cujo impulso formaõ -as aguas hum profundo poço, que está sempre provido de muito, e bom -peixe; e metendo-se pelas Freguezias de Chileiros, e Carvoeira, vay até -à Igreja de Nossa Senhora do Porto occultarse no mar. Tem este rio mais -de quatro leguas de comprido, em cuja distancia fertiliza boas terras, -que todas se fabricaõ. Da Mouxeira para baixo vay banhando deliciosas -planicies cheias de muitas vinhas, que só a Freguezia da Carvoeira -dizima hum anno por outro trezentas pipas de vinho. Criaõ-se nelle -muitos bordallos, mugens, e fataças, que entraõ pela foz, quando se -rompe com as cheias. - -101 _Chouchou._ He ribeira, que banha a Villa de Serpa. - -102 _Coa._ No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre junto de -Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que nasce na -serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em nosso Reino por Folgosinho. -Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates, e concordaõ em -se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos lhe chamavaõ -_Cuda_, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ o nome de Cudanos, -e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para tingir lãs, e caldear -ferro; porém pessimas para se beber, porque causaõ melancolia, e dores -de cabeça. - -103 _Cobres._ Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e -unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde -perdem o nome. - -104 _Corgo._ Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de -Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os -Romanos lhe chamavaõ _Corrugo_. - -105 _Corona._ Em distancia de huma legua de Grandola corre este rio -pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos -termos de Grandola, e Alvalade. - -106 _Coura._ Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca -juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos, -formando duas barras, e a ilha Insoa. - -107 _Criz._ He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual passando -pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego. - -108 _Daõ._ Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul, ficando-lhe -da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao Poente, vay ao -Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas dos Bispados de -Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros, e por baixo da -Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no Mondego. - -109 _Danços._ Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da -Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o -Mondego. - -110 _Davino._ Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte do -Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto -da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de -fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte -de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique. - -111 _Degebe_, ou _Odigebe_. Nasce este rio na herdade do Passo, -Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres pontes em -outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte por onde -passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a Villa do -Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns pégos, ou -poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que na sua -lingua significa fosso, ou cisterna.[229] - -112 _Deste._ Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos -para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte -de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se -chamava _Aleste_. - -113 _Diabroria._ He huma lagoa, que ha no termo da Villa de Grandola -por baixo do olho de agua chamado _Borbolegaõ_, de que já fallamos, -a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha de huma -altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum, nem -se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de -peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa -de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e -meyo de paõ.[230] - -114 _Douro._ Conforme as melhores informações nasce este grande rio -nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos -antigamente eraõ chamados _Duraços_. Surte de huma portentosa lagoa, e -descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de Leaõ, onde -se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este augmento chega a -Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando primeiro por Miranda, -e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios Coa, Tua, Pinheiro, -Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até ir lançarse no mar em -S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste rio, que quando nelle -se introduzem as aguas dos outros, posto que opulentos, naõ fazem -demonstraçaõ alguma na sua entrada. - -115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre -precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo -de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e -por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as -terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes. -Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera -sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ -da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça -a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o -Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer -navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e -resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que -se deixou da empreza começada. - -116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no -lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde, -como affirma o grande Argote.[231] O Doutor Francisco da Fonseca -Henriques, fallando deste rio, diz, que as suas aguas tem virtude -deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis -para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas -causa melancolia, e dores de cabeça. - -117 _Elja_, ou _Elga_. Corre direito ao Sul, e passa por entre -Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de -Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara. - -118 _Enfesta._ Pequeno ribeiro, que desagua no Minho. - -119 _Enguias._ Corre esta ribeira por hum Lugar do seu nome, que fica -no termo da Villa de Belmonte. - -120 _Enxarrama_, ou _Xarrama_, nasce do ribeiro do Louredo, e se junta -depois com o da Lage perto do Convento do Espinheiro de Evora. Tem sete -pontes pequenas, e huma grande. A primeira da Cidade para o Espinheiro: -a segunda no caminho que conduz para Villa Viçosa: a terceira na -estrada para Béja: a quarta da quinta do Sande: a quinta a dos fornos -da cal: a sexta a que vay para Portel: a setima do Louredo: a oitava -grande, e sumptuosa, que fica da parte do Norte da Villa do Torraõ. Por -ella passa quem vay para Alcacer do Sal, e para Alcaçovas, ficando no -meyo desta o grande ribeiro das Banhas. Depois finalmente que desagua -na ribeira do Sado, vay com ella o Enxarrama meterse no rio de Alcacer -do Sal. - -121 _Enxurro._ Corre perto da Villa da Pederneira este ribeiro, que lhe -serve de grande utilidade. - -122 _Erra._ Rega esta ribeira os campos de Coruche, e nella se mete a -do Odivor. - -123 _Escura._ He huma lagoa assim chamada, e muy celebre no mais aspero -da serra da Estrella, que tem muitos passos de circuito, e consta de -aguas tristes, e verdenegras, a que nunca se lhe achou fundo, nem cria -cousa alguma. Quando o mar anda bravo, se embravece tambem a agua da -lagoa, dando bramidos a modo de trovaõ, que se ouvem dalli muitas -leguas; donde querem dizer os naturaes que se communica com o mar, naõ -obstante estar delle muito affastado, e serem doces as suas aguas; -porque affirma Joaõ Vaseu teremse-lhe achado mastros de navio. Perto -desta lagoa nascem os celebres rios Mondego, Zezere, e Alva. - -124 Mons. Marvellú, que teve a curiosidade de ver, e observar o melhor -deste Reino para a sua Historia natural que intentava compor, escreve -nas suas Memorias,[232] que subindo, e penetrando a altura desta serra, -e fazendo lançar dentro da lagoa Escura hum moço atado com huma corda, -observara este, que tendo andado cento e cincoenta passos, sentira que -as aguas puxavaõ fortemente por elle; donde se póde inferir, que as -aguas, que alli formaõ aquelle lago, tem alguma abertura, ou voragem -por onde desaguaõ impetuosamente. - -125 _Esporaõ._ Nasce na Povoa da Margem da parte do Sul do Concelho de -Guardaõ, e se mete no Criz. - -126 _Fervença._ Banha a Cidade de Bragança. - -127 _Figueiró._ He ribeira, que se diffunde pela Villa de Niza, e nasce -na serra de Portalegre. - -128 _Filvida._ Corre pelo Concelho de Sever, e faz parte da divisaõ dos -Bispados de Viseu, e Coimbra. - -129 _Folques._ He huma ribeira de Arganil, que entra no Alva. - -130 _Freixiandas._ Discorre por Alvayazere. - -131 _Freixo._ Atravessa este grande ribeiro a mata da Bardeira da Villa -do Vimieiro. Passa por entre Selmes, e Cuba, Aldeas no termo de Béja. -Corre sempre por penedias, de que procede criar singulares bordalos. - -132 _Fresno._ Mantem, e fertiliza este rio a Cidade de Miranda, a quem -cerca pela parte do Occidente, e onde he recebido em ponte de pedra -lavrada. Ha aqui proxima huma fonte, cuja agua vem por arcos conduzida -do Lugar de Villarinho. - -133 _Fulias._ Desagua no Minho. - -134 _Gafaria._ Entra no Douro. - -135 _Garcia menino._ He hum celebre pego, cujas aguas enriquecem o rio -Sadaõ, e onde se acha em todo o anno muito peixe, especialmente as -nomeadas tainhas de boca vermelha. - -136 _Germunde._ Entra no Douro. - -137 _Gobe._ Entra no Guadiana da parte de Portugal. - -138 _Grefões._ D. Francisco Manoel cuida que he o Celando, que nós -appropriamos ao Cávado. Veja-se o Padre Poyares no Diccionario pag. 347. - -139 _Gogim._ Faz este rio com suas aguas, que banhaõ a Freguezia do -Salvador de Sabadim, Comarca de Viana, augmentar grandemente o rio Vez, -com o qual se incorpora. - -140 _Guadiana._ Nasce quatro leguas de Montiel em huma lagoa chamada -Roidera na terra de Alhambra; e sumindo-se junto de Argamansilha, -resurge dalli sete leguas perto de Daimiel, onde chamaõ os olhos do -Guadiana; e correndo do Oriente para Poente, entra em Estremadura. -Chegando a Medalhim, muda seu curso para Meyo dia até chegar huma legua -antes de Merida, donde torna ao Poente, banhando seus muros, e os do -Castello de Lobon, e Cidade de Badajoz, a huma legua da qual, e duas da -Cidade de Elvas, divide os termos de ambas por huma parte, e o rio Caya -por outra. - -141 O nome proprio antigo de Guadiana foy _Ana_, derivado, conforme a -opiniaõ de alguns, de _Sic-ano_, que dizem ser Rey de Hespanha; porém, -segundo Samuel Bocharto,[233] he palavra Syriaca, a qual significa -ovelha, porque nas margens deste rio se apascentaõ grandes rebanhos -desse gado. Os Mouros lhe chamaõ _Guad-hana_, que quer dizer cousa, -que se esconde. Entra em fim em Portugal abundante de aguas de outros -menores rios, que se lhe introduzem, e perdem nelle o nome. Continúa -seu curso, dividindo a antiga Betica da Lusitania, e se lança no Oceano -Athlantico entre Ayamonte, e Castro-Marim. - -141 Enobrecem-no tres formosas pontes, a de Merida, Badajoz, e -Olivença. Nesta ponte mandou ElRey D. Joaõ II. edificar huma torre de -tres sobrados com suas janellas, e seteiras, que defendiaõ a passagem -do rio. Depois a mandou reedificar ElRey D. Manoel, ficando huma das -mais galhardas, e formosas pontes de todo o Reino por sua fortaleza, -arquitectura, e fabrica, a qual assenta sobre os penhascos do rio, -que naquella parte corre alcantilado sobre dezoito arcos, e tudo he -passo importantissimo para soccorrer Olivença, em que os passageiros -pagavaõ certo direito, que já naõ permanece. No principio das ultimas -guerras de Castella, que aconteceraõ o anno de 1709, a arruinaraõ os -Castelhanos. Fr. Bernardo de Brito na Geografia de Portugal, fallando -das aguas deste rio, diz, que costumaõ fazer negra a farinha do trigo, -que com ellas se moe. Tem ellas virtude diuretica, e deobstruente, como -nos diz o _Aquilegio Medicinal_. - -145 _Herdeiro._ Corre este rio chegado aos muros de Guimarães. Traz sua -origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal, que chamaõ d’Entre as -vinhas, na Freguezia de S. Pedro de Azurey. Tem huma só ponte de pedra -lavrada, que chamaõ de Santa Luzia, mais magestosa do que convinha -à pobreza das suas aguas. Vay acabar no rocio de S. Lazaro, aonde -ajudando-o outro regato, vaõ ambos incorporarse com o Celho no Lugar do -Reboto. - -144 _Homem._ Tem seu berço na serra do Gerez, e no sitio chamado -_Lamas de homem_. Dalli correndo direito ao Poente precipitado por -entre penedias, vay engrossando com os cabedaes de outras ribeiras -até se despenhar estrondosamente na Portela de Homem; donde voltando -a corrente para o Meyo dia dentro do espaço de meya legua, torna a -enriquecerse com as aguas de treze rios, com as quaes muito mais -poderoso vay desembocar no rio Cávado a huma legua de Braga. - -145 _Jarda._ Ribeira bem conhecida no termo de Lisboa, e na Freguezia -de Bellas, por onde corre. - -146 _Inha._ He huma ribeira muy impetuosa, que corre de altos -precipicios, e onde se criaõ aguias. Mete-se no Douro. - -147 _Jocete._ Mete-se no Guadiana. - -148 _Isna._ Divide os termos das Villas da Certã, e Abrantes. - -149 _Junqueira._ Rio, que desagua na enseada da Villa de Sines. - -150 _Lamas._ A Geografia Blaviana o assina no Alentejo. - -151 _Lampas._ Entra no Guadiana da parte de Portugal. - -152 _Laurede._ Tambem entra no Guadiana da mesma parte. - -153 _Lavandeiras._ Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo fosso -a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para ir -desembocar no Guadiana. - -154 _Leça._ Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros lhe -descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois -de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em -Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio -tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy -muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes -de pedra boas, e grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em -Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente -Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na -Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part. -2. Poema 8. - - _El Leça, que por hondo, y fresco valle - Corriendo con sociego grave, y blando - Occupa, angosta, y tortuosa calle - Con los nombres de Lethes, y Celando; - Pero si del olvido se appellida, - Quien una vez le vê, já mas le olvida._ - -Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado -de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na -Geografia de Braga. - -155 _Lena._ Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até -Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano. - -156 _Lima._ He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme -Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte -de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de -outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito[234] -deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he _Limia_ em Galiza, -a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas, que tem, -chamadas em Grego _Lymnas_, e em Latim _Lymum_, donde se derivou _Lima_ -em Portuguez. - -153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou _Belion_ e -depois _Lethes_. Assim cantou o mellifluo Bernardes na Eglog. 7. - - _Junto do Lima claro, e fresco rio, - Que Lethes se chamou antigamente._ - -A causa deste nome _Lethes_, que significa esquecimento, foy pela -sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas -passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ -seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo -ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse -desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto. - -158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao -idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida -já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ -perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio _Lethes_. De tudo vimos -a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio _Lima_ -fosse em algum tempo chamado _Lethes_, nem por isso tem dependencia com -o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os Authores abaixo;[235] -porque este nome _Lethes_ se acha imposto a outros rios illustres, -como diz Claudiano:[236] e todos os rios, que tem adquirido semelhante -nome, he porque houve nelles motivos, ainda que incognitos, de especial -esquecimento, e taes saõ os que sinala Estrabo[237] em Macedonia, e em -Candia, sem que por este principio haja dependencia, que faça perverter -o certo com o fabuloso. - -159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio -Floro,[238] que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo, -crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos -era elle o verdadeiro _Lethes_; respondemos, que este conceito era -futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava, para -lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra -parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma, -para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle -atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores: -e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella -repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia -o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento; -no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229. -contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que no -Prologo do seu _Filippe Prudente_, fallando do Lima, attribue às suas -aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a fabula. O -certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só parece que -corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, que o vem, de -que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse D. Francisco -Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne Botelho, e o -Padre Reys.[239] - -160 _Liria._ He ribeira de Castellobranco. - -161 _Lis._ Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica numa -legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a Cidade, e -o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde estaõ os -arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena. - -161 _Lixosa._ Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem -circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre, -fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa, -porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra -pelo Crato, onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros -de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de -Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as -ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento. -Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum -grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma -só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de -Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de -peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada. - -163 _Lobos._ Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo -de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a -Mirandella. - -164 _Lousaõ._ He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte do -Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie. - -165 _Locía._ He hum pequeno regato, que passa pelo meyo da Villa de -Amarante. - -166 _Lucefece._ Nasce na serra d’Ossa, e correndo junto da Villa de -Terena da parte do Norte, fertilizando o Alandroal, e Redondo, se vay -meter no Guadiana. - -167 _Maçaõ._ Nasce perto da serra chamada Teixeira, e entra no Douro. - -168 _Maratéca._ He huma das grandes ribeiras do Alentejo naõ muito -longe da Agualva. Por ella se passa para a Moita. - -169 _Marcabron._ Serve esta ribeira de separar os termos de Villa Alva, -e o de Villa de Frades. Por outra parte divide os limites de Béja dos -de Villa Ruiva, e Alvito: mete-se no de Odivellas, que vay parar ao -Sado. - -170 _Marnel._ Discorre pelo lado meridional da Villa de Vouga. - -171 _Mendo-Marques._ No termo de Arrayolos, e no sitio da Freguezia de -S. Gregorio corre esta ribeira. - -172 _Mente_, ou _Rabaçal_. He rio, que nasce perto de Pentes, Lugar de -Galiza, e rega o termo da Villa de Monforte, donde caminha para o Tua, -no qual se mergulha junto ao Lugar de Chellas em Mirandella depois de -caminhar doze leguas. Pescaõ-se nelle boas trutas. - -173 _Merce._ He huma ribeira, que nasce junto do Lugar de Val de -Prados, termo de Bragança; e correndo perto da Villa de Cortiços, passa -por huma ponte de dous arcos, para se ir incorporar com o Tua. - -174 _Minho._ Para diante do Lima tres leguas ao Norte corre o Minho -quasi taõ opulento como o Douro. Estrabo lhe dá o nome de _Benis_. -Nasce perto da Cidade de Lugo, e caminhando o espaço de trinta e -seis leguas, rega em Portugal as Villas de Melgaço, Monçaõ, Valença, -Cerveira, e vem fenecer no mar entre a Cidade de Tuy, e a Villa de -Caminha. Dizem que o chamarse Minho he por causa da cor, que as -suas aguas recebem do fundo, que tiraõ hum pouco a vermelho: outros -o attribuem ao vermelhaõ, que nasce nelle; porém Joaõ Salgado na -Hydrografia deste rio diz, que se deriva da fonte Minhaõ, onde nasce, -quatro leguas ao Norte de Lugo. Fallaõ deste rio os Authores abaixo -allegados.[240] - -175 _Mondego._ Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo pela -Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e recreyo -nos campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno, e passar -pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar o porto -de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões, quando -cantou:[241] - - _Vaõ as serenas aguas - Do Mondego descendo, - E mansamente até o mar naõ paraõ._ - -Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno -se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco -Mousinho veyo a dizer:[242] - - _Mondego no Veraõ sereno, e brando, - Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto. - Té lá onde na foz, que vay buscando, - Paga de suas aguas o tributo._[243] - -176 _Montijo._ He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum bom -porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e -navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por -isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes -com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa. - -177 _Mós._ He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de Mós. -Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de legua -afastado da Villa tem ponte de tres arcos. - -178 _Murtigaõ._ Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina. - -179 _Nabaõ_, antigamente chamado _Nava de Juncoso_.[244] Corre este -venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome de venturoso, -naõ só porque deu fama, e nome à insigne Cidade de Nabancia, -que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas porque -ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o -bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou -o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia; -donde Fr. Joaõ Felix disse:[245] - - _Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim, - Qui sacra mærenti corpora vexit aqua._ - -Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e -entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da -Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e -engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos -no Tejo junto à Villa de Punhete. - -180 _Neiva._ Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem fertilizando -os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois de se sujeitar -a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ dista muito de -Viana. Duarte Nunes diz,[246] que este rio se mete no Cávado, para -ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém outros[247] emendaõ -esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que temos expendido; porque -as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ para a parte do Norte muito -mais adiante, donde o rio desemboca. - -181 _Niza._ Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na serra de -Portalegre. - -182 _Noeime._ Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na -fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa -ao Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e -se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá -Joaõ Salgado de Araujo pag. 108. - -183 _Obidos._ No termo desta Villa está a celebre lagoa, que tem de -Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres quartos -de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de mar que -humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta Cruz a -barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe tanto de -area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios, dous -pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo arrabalde -de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o terceiro -vem das Caldas. - -184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda -a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos, -solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas, -berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as -duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando -todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e -juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito. - -185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da -Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso -do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve o -gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina de -pedra, que diz: _O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino ElRey -D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy feita._ -Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: _O Magnanimo -Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e D. Manoel -jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714._ - -186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada, -simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara -meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do -mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa -corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais -aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro -de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o -Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas -Reaes com a mayor parte da Corte. - -187 _Ocreza._ He huma ribeira, que corre junto da Villa de Sarzedas. - -188 _Odemira._ Banha Villa nova de Mil fontes no Algarve, e a pouco -espaço se mete no mar. - -189 _Odiége._ Fórma-se de duas ribeiras nas Freguezias de S. Brissos, -termo de Montemór o novo, e de S. Sebastiaõ da Gesteira, termo de -Evora. Tem ponte, e passada ella, se vê no alto de hum oiteiro da parte -do Sul a milagrosa fonte da Senhora da Esperança das Alcaçovas, de -que fallaõ o _Santuario Mariano tom. 6. pag. 320._ e o _Diccionario -Geografico_ de Cardoso _tom. 1. pag. 143._ - -190 _Odivelas._ Nasce na serra de Portel, e vay regar a Villa de -Alvito. Tem duas pontes, huma da banda do Sul no caminho que faz o -correio desta Villa para Béja, donde dista cinco leguas: outra em Villa -Ruiva na estrada por onde se vay desta Villa para Evora: esta ponte -foy fabrica dos Romanos, por ser transito da via militar de Evora -para Béja. Para diante da Aldea de Alfundaõ separa o termo de Béja do -Torraõ, e incorporado com a ribeira do Marcabron, vay morrer ao Sado. - -191 _Odivor._ Fertiliza pela parte do Norte os campos da Villa das -Aguias; e discorrendo pelo termo de Arrayolos, tem na Freguezia de -Santa Anna duas pontes, e dá movimento a sete moinhos. Esta ribeira he -a mesma que a de Arrayolos. - -192 _Olivença._ Passa esta ribeira pelo termo da Villa de seu nome. -Alguns dizem, que nasce nas serras de Salvaterra, outros na de Salva -Leon; mas sempre concluem, que tem sua origem em Castella, cujas -correntes fazem apartar aquelle Reino do nosso: mete-se no Guadiana. - -193 _Olho de Pedralva._ He huma pequena ribeira, que nasce de huma -fonte no Lugar de Pedralva, termo da Villa de S. Lourenço do Bairro, -Bispado de Coimbra. - -194 _Orãos._ He hum dos rios, que banhaõ a Villa de Soure, e vem da -Villa de Pombal para se meter no Mondego. - -195 _Paiva._ Nasce este rio em o sitio de Nossa Senhora da Lapa; e -chegando à Freguezia de S. Martinho do Gafanhaõ, divide o Bispado -de Lamego do de Viseu: depois correndo até o Castello de Paiva, -perde o nome, entrando no Douro cançado de ter andado doze leguas. -Escreve delle Jorge Cardoso,[248] donde tirou o que diz a Corografia -Portugueza.[249] - -196 _Palhas._ He hum rio, que corre por Villar-Mayor, conforme vemos no -Mappa de Joaõ Bautista Lavanha. - -197 _Paul._ Rio, que entra no Zezere. - -198 _Pega._ Ribeira, que corre perto da Villa de Pinhel, e desagua no -Coa. - -199 _Pedonde._ Nasce em Arouca abundante de gostosas lampreas, e acaba -no Douro. - -200 _Pera._ He rio menor que o Zezere onde se embebe; cerca a Villa de -Pedrogaõ, e utiliza a de Figueiró com a copia de seu peixe. Deste rio -se lembra Camões.[250] - -201 _Pera-manca._ Tem seu nascimento nas vinhas de Evora, e corre -junto da cerca dos Capuchos de Valverde, e se mete no Odiege depois de -passar por huma ponte. - -202 _Pernes._ Esta famosa ribeira deu o nome, ou o tomou do Lugar, que -fica no termo de Alcanede: he abundante de agua, e assim a communica -por muitos moinhos, que anima, e a muitas hortas, e pomares, que -fertiliza. A agua da levada, que corre mais junto da ponte, dizem, -que por intercessaõ de hum Bispo, que por alli passara, lhe infundio -virtude para sarar toda a casta de chagas. Cria bom peixe, e desagua no -Tejo. - -203 _Pias._ Dá esta fertilissima ribeira nome a huma Villa, e nasce -em hum lago junto da Ermida de S. Marcos dentro da quinta chamada -da Figueira de huns formosos olhos de agua; e costeando a serra de -Monchite, se mete no Nabaõ, fertilizando em tal fórma as terras, por -onde corre, que lhes faz duplicar dentro de hum anno todo o genero de -frutos. - -204 _Piodaõ._ Corta pelo meyo o Concelho de Vide de Foz de Piodaõ, e -entra no Alva. - -205 _Pipa._ Rega pela parte do Norte a Villa da Arruda. - -206 _Pisco._ Pela parte do Oriente da Villa de Langroiva corre este -rio, que fertiliza seus campos de paõ, azeite, e frutas. - -207 _Ponsul._ De tal fórma cerca a Villa de Idanha a velha, que a -reduz a Peninsula. Em distancia de huma legua para o Nascente de -Castellobranco tem ponte. - -208 _Pontega._ Passa pelas Freguezias de S. Gregorio, e Nossa Senhora -da Consolaçaõ, termo de Arrayolos, e se mete no Odivor. - -209 _Quarteira._ Este rio he do Algarve, e corre junto a Faro. - -210 _Rabaçal._ He o mesmo que o rio _Mente_. - -211 _Ramalhoso._ Ribeiro, que passa pela Villa de S. Vicente, e seu -termo. - -212 _Regalvo._ Desagua na enseada da Villa de Sines. - -213 _Rezes._ Ribeira do termo do Sardoal. - -214 _Riba-Pinhel._ Nasce perto da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa: -começa sua corrente pelo termo da Guarda encaminhado ao Sul: passa ao -termo de Jarmelo direito ao Nascente, e torna a voltar para o Norte por -entre Jarmejo, e Castello-Mendo. Vay à ponte de Pinhel, e huma legua -adiante entra no Coa. - -215 _Ribeira de Freixas._ He hum pequeno rio, que corre meya legua -distante da Villa de Trancozo. - -216 _Ribeira dos Gallegos._ Corre pelo termo da Villa de Vinhaes, e -junto da Freguezia de Santa Cecilia dos Casares, onde se pescaõ muitas, -e boas trutas. - -217 _Ribeira da Murta._ No termo de Alvaiazere discorre esta ribeira -pela Freguezia de S. Pedro do Rego, e divide este termo do da Villa das -Pias. - -218 _Rio das Maçãs._ He huma ribeira, que corre junto à Villa de -Collares. - -219 _Rio Mourinho._ Passa pelo termo de Montemór o Novo, e por junto do -Convento dos Religiosos Paulistas, que os provê de grandes pardelhas. - -220 _Rio Tinto._ Corre huma legua distante do Porto. Chama-se tinto, -porque quando foy a geral destruiçaõ de Hespanha, mataraõ os Cidadãos -do Porto tantos Mouros, que o sangue chegou a tingir a agua.[251] -Mete-se no Douro. - -221 _S. Romaõ._ Nasce na Freguezia de S. Martinho das Amoreiras, termo -de Ourique. Corre pelas Villas de Alvalade, Garvaõ, e termo de Panoyas, -até desaguar no porto delRey, termo da Villa de Alcacer do Sal. - -222 _Sabor._ Nasce por cima do Lugar de Rabal, que fica na raya de -Galiza, mas he termo de Bragança, donde dista duas leguas. Discorre -sempre por altas, e alcantiladas penedias, até chegar aos confins -da Villa de Castro Vicente; e depois de ter andado dezaseis leguas, -e obedecer a cinco pontes, algumas de cantaria, e de perfeita -arquitectura, com orgulho desagua no Douro. - -223 _Sacavem._ Este rio, que discorre pelo Lugar de seu nome duas -leguas distante de Lisboa, desemboca no Tejo, e faz huma profundissima -foz, na qual podem entrar os mayores navios deste porto; e ficando -quasi ao Norte da Cidade, volta contra o Noroeste, navegando-se até -a Mealhada, e da sua ribeira se levantaõ huns montes, que a cultura -tem feito apraziveis, os quaes se vaõ estendendo com huma larga volta -contra o Poente, levando sempre ao pé hum fundo valle aberto por muitas -partes com regatos, que por elle correm. Por ordem delRey D. Joaõ. V. -se reformou a barca da passagem deste rio pela admiravel idéa do nosso -insigne Maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os -passageiros. - -224 _Sadaõ_, ou _Sado_. O nascimento deste rio foy ignorado por -Duarte Nunes na Descripçaõ de Portugal; porém Joaõ Salgado de Araujo -diz, que nasce nas faldas da serra de Monchique junto à Villa de -Almodovar, e passando por Ourique, recebe as ribeiras de Aivados, -Gracido, Ferrarias, Campilhas, Figueira, Roxo, e Garcia menino, onde -faz hum grande lago, e mais para diante outro, que chamaõ de Santa -Margarida, até que copioso vay acabar em Setubal. André de Resende -ignorando-lhe tambem o principio, e dando-lhe o nome de Callipode, -que o tirou de Ptolomeu, diz que depois de se ajuntarem as torrentes -do Enxarrama, Santa Detença, e Odivellas acima de Porto de Rey, he -que se começa a chamar Sado; nome que usurpa pela demora que faz no -esteiro de Alcacere, antigamente Salacia; e por naõ viver muito tempo -soberbo, e desvanecido com tanto roubo, morre dahi a pouco em Setubal, -formando-lhe huma grande foz, e bahia. He navegavel este rio por doze -leguas até Porto de Rey; e as terras por onde passa, adornadas de -muitas fontes, e arvoredos, ficaõ ferteis, e e cheias de nata para -corresponderem abundantes na breve producçaõ dos seus frutos. - -225 _Safrins._ Corre em distancia de meya legua da Villa de Ferreira, e -a provê de bordalos taõ bons, que se mandaõ dar aos doentes. - -226 _Sarmenha._ He huma ribeira, que dista do rio Douro duas leguas, e -nasce nas raizes da serra do Maraõ. - -227 _Sarrazola._ Caudalosa ribeira, que banha Benavilla, huma legua -distante de Aviz. - -228 _Seda._ Nasce esta ribeira nas serras de Portalegre, e rega a -Villa, a que dá o nome. - -229 _Sertima._ Rio, que corre pelo termo da Villa de S. Lourenço do -Bairro, e que se augmenta com muitos ribeiros, que fertilizaõ o mesmo -termo. - -230 _Sequa._ Divide, ou corta pelo meyo a Cidade de Tavira, o qual -nascendo do sertaõ, faz este transito por huma boa ponte de sete arcos. - -231 _Sever_, ou _Severa_. Tem sua origem na serra de S. Mamede no -Alentejo, e com as fontes, que se despenhaõ das serras de S. Braz, e -Portalegre, se faz copioso. Desta sorte correndo pela Villa de Ouguela, -paga seu tributo ao Tejo junto a Villa Velha, onde se pescaõ as mais -excellentes trutas. O Padre Poyares no Diccionario Geografico lhe dá o -fim no Guadiana à vista de Badajoz. - -232 _Silveira._ Pequena ribeira, que se despenha da serra d’Ossa da -banda do Sul. - -233 _Sizandro._ Principia a descubrirse na Sapataria de huma fonte -chamada Sizandro, e vem cercar Torres-Vedras, que para mayor -commodidade se atravessa com cinco pontes. - -234 _Sobrena._ He huma ribeira do Alentejo, que nasce entre Viana, -e Villa nova da Baronia, a qual regando os seus pomares, se mete em -Odivellas. - -235 _Sorraya._ He huma ribeira, que pela parte do Sul banha a Villa de -Erra. - -236 _Sor._ He huma caudalosa ribeira, que banha a Villa da Ponte de Sor -pela banda do Oriente, e se mete no Tejo ao pé de Coruche. Os Romanos -fundaraõ aqui huma grandissima ponte, para por ella fazerem a estrada -de Santarem para Merida. - -237 _Sordo._ Na Freguezia de Santa Eulalia da Comieira do Concelho de -Penaguiaõ corre este rio da parte do Norte; e passando pelo Lugar de -Relvas, se vay esconder no Corgo. - -238 _Sozeis._ Dista esta ribeira duas leguas de Evora no caminho de -Béja, e se recolhe no Enxarrama. - -239 _Sousa._ Nasce junto à Igreja de Moura entre o Mosteiro de -Pombeiro, e o de Cramos; e daqui descendo a fertilizar todas as terras, -a que vay dando nome por espaço de oito leguas, vay acabar no Douro -defronte do Lugar de Arnelas, duas leguas acima do Porto. - -240 _Soberbo._ Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo, depois -que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo no caes -de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela conjuração em -que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ corresse mais -com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que fazia alto na -venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar o rio Soberbo. -Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ perto de Trancoso, -e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros pequenos rios -alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do Abbade, divide -os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe, e o Mosteiro -da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte de madeira -se vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de pedra se -diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte, marcha por -entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro de S. Pedro -das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte de pedra, -onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o Lugar de -Taboaço, e daqui caminha para o Douro.[252] - -241 _Sul._ Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e consente -vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante D. Luiz, -que foy Senhor do Concelho de Lafões. - -242 _Tamega._ He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza junto da -serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou o nome. -Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra pela -Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes da Villa -em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do letreiro, -que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve Grutero, e -Argote,[253] e vem a ser: - - IMP. CÆS. NERVÆ. - TRAIANO. AUG. GER. - DACICO. PONT. MAX. - TRIB. POT. CONS. V. P. P. - AQUIFLAVIENSES - PONTEM LAPIDEUM. - D. S. F. C. - -Quer dizer: _Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico -Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ -Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt._ - -243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita -antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: _Pontem -lapideum_; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos para -Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte tem -já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com -noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e -dois de alto. - -244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem -outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim -à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco -mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante -ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de -Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho -I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de -Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de -hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se -lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos -de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do -que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando -pouco a pouco. - -245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que -referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,[254] e foy dividirem-se -suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do -glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando -lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga. - -245 _Taveiró._ He ribeira, que banha as Villas da Bemposta da Beira, e -de Castello-Novo, e entra no Ponsul. - -247 _Tedo._ Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o -ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo -de Santo Adriaõ. - -248 _Teja._ Provê esta ribeira de peixe a Villa de Nomaõ. - -249 _Tejo._ Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy celebrado -o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais rios do -Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca: outros o -fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de Albarracin; e -discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia da Estremadura -Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo, Talavera de la -Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe as correntes -de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama, Mançanares, e -Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por Santarem -descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto de mundo: -e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de ouro,[255] -nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia, fica -semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas riquezas, que -todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra nas opulentas -frotas do Brasil. - -250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar -em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria, -sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy -visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado -Celio, com a mayor parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos, -como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se -separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da -Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno -1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se -abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se -fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,[256] que o -Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem -os Authores abaixo allegados.[257] - -251 _Temitólas._ Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay -direito ao Douro. - -252 _Tera._ Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que olha -para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por onde se -vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana. - -253 _Terena._ Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a huma -Villa, e mete-se no Guadiana. - -254 _Tinhella._ Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da Villa -de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça de -Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua. - -255 _Tourões._ Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do Rio -Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ, -entra no Agueda abaixo de Escarigo. - -256 _Trancaõ._ He huma ribeira no termo de Lisboa, que passando pelo -Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a grande -quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal, entrando-lhe -pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo de Inverno -vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro trabalhar muitas -azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas. - -257 _Trogalha._ Corre entre Sarzedas, e Castellobranco, e entra no Tejo. - -258 _Trovella._ Fertiliza os Coutos de Correlhã, e o da Feitosa pouco -distante de Ponte de Lima. - -259 _Tua._ Nasce em Galiza proximo ao Lugar de Pias: corre por -Mirandella, onde he recebido em ponte de dezanove arcos de cantaria; e -fertilizando muitas terras, vay fenecer no Douro no porto de Foz-Tua. - -260 _Vade._ Fertiliza com saborosas trutas o termo da Villa da Ponte da -Barca. - -261 _Val de Abrahaõ._ Pequena ribeira, que nasce, e desce da serra -d’Ossa da parte do Sul. - -262 _Val de Lobos._ Ribeira, que passa por hum Lugar da Freguezia de -Bellas, e faz animar muitas azenhas, e fertilizar muitos pomares. - -263 _Valdouro._ Corre esta ribeira huma legua distante da Villa de -Ferreira, e a enriquece de grandes bordalos, e pardelhas. - -264 _Valla._ Discorre junto da Villa de Mayorga, e com prejuizo de hum -formoso campo, que pelo Inverno padece suas inundações. - -265 _Varche._ Meya legua distante da Cidade de Elvas corre este ribeiro -pelo valle de seu mesmo nome. - -266 _Varzeas._ Faz dividir Melgaço de Galiza pela parte do Oriente, e -desagua no Minho. - -267 _Vascaõ._ Corre por Alcoutim, e entra no Guadiana, separando o -Reino do Algarve de Campo de Ourique. - -268 _Vez._ Banha este rio primeiramente o Val de Poldros, termo da -Villa dos Arcos, onde nasce nas montanhas de Penella; e continuando seu -caminho pelos campos de Valdevez, a que dá nome, vay logo perdello dahi -a huma legua, por se misturar com o Lima junto de S. Pedro do Souto, -posto que já caudaloso com os muitos regatos, que entraõ nelle. - -269 _Vellarva._ He huma ribeira, que rega o Lugar de Santa Justa, que -fica no termo de Alfandega da Fé, onde desagua a ribeira Alvar. - -270 _Velariça._ Nasce na serra de Montemel acima do Lugar da Burga, -termo de Bragança. Despenha-se pela serra até parar em hum valle, a que -dá o nome, e por elle detido o espaço de seis leguas, fertiliza todo -aquelle terreno bastantemente. Depois vay pagar o tributo ao Sabor meya -legua acima do Douro. - -271 _Vereza._ No cimo da serra da Gardunha nasce esta ribeira, e vem -logo refrescando o Lugar do Louriçal, que fica no termo da Villa de S. -Vicente, e vay avistar Castellobranco, passando por boa ponte. - -272 _Videgaõ._ Passa esta ribeira naõ muy distante da Villa de Cabeço -de Vide, fertilizando muitas hortas, e pomares. - -273 _Vide._ Cerca esta ribeira a Villa de Castello de Vide. - -274 _Vizella._ Fórma-se de tres regatos, que nascem no Concelho de -Monte-Longo; e lavando com suas aguas a Aldeya de Arricanha, se mistura -com o Ave, e perdem ambos o nome, mergulhando-se no mar pela Villa do -Conde. Alguns lhe chamaõ _Avizella_. Delle cantou Manoel de Faria:[258] - - _Corre el Visela amado - Progresso sonoroso, - O crystalino parto de una peña, - A ser favor de un prado._ - -275 _Unhaes._ Pequeno ribeiro, que passa pelo pé da Villa de Alvares, e -se mete no Zezere. - -276 _Voliarça._ Nasce esta ribeira na Freguezia de S. Brissos, termo de -Béja, e correndo de Poente a Nascente, se mete no Guadiana, passando -primeiro entre Béja, e Cuba, da qual dista huma legua. - -277 _Vouga._ Assinaõ o nascimento deste rio na fonte da Senhora da -Lapa, ou na serra de Alcoba. Daqui vem descendo ao Mosteiro de S. -Bento, que ha em Ferreira de Aves, pela parte do Poente; rega muitos -Lugares, até que misturado com os rios Sul, e Agueda, entra em Aveiro -com bastante soberba, segundo diz Fr. Joaõ Felix na Isagoge: - - _Amnibus innumeris, Agathoque superbus in æquor - Piscoso latè gurgite Vacca fluit._ - -Tem huma grandiosa ponte, acabada no anno de 1713 por ordem do -Fidelissimo Rey D. Joaõ V. - -278 _Xever_, _Xevera_, _Xeverete_, e _Xola_. Saõ ribeiras, que procedem -da serra de Portalegre. - -279 _Xudruro._ Ribeiro, que nasce na fonte Freja do Concelho do -Guardaõ, e fertiliza muito o Lugar de Janardo. - -280 _Zacharias._ Com este nome corre huma ribeira pelo termo da Villa -de Alfandega da Fé sujeita a huma ponte de quatro arcos, e tem seu -nascimento na serra de Sambade, que outros chamaõ de Montemel. Tendo -corrido seis leguas, vay acabar no rio Sabor junto do Lugar dos Picões. - -281 _Zezere._ A este rio chama Camões caudaloso, e na verdade o he com -as enchentes de outros, que entraõ nelle. Nasce na serra da Estrella -sobre a Villa de Manteigas pela parte de Levante; e dando volta ao -Poente, recebendo varios rios, e ribeiros, enfadado da jornada se vay -a Sudoeste, e se torna para o Sul receber outros riachos, e dá entrada -ao Nabaõ, que com o ribeiro da Cortiça, e regatos daquelles montes -fertiliza Thomar. Na Aldea da Mata se deixa atravessar com a barca -da Esteveira: e pela famosa ponte do Cabril, que faz a divisaõ dos -termos de Pedrogaõ grande, e pequeno. Vay finalmente acabar em Punhete, -mergulhando-se no Tejo com tanto impeto, que na distancia de mil e -quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul, e sabor doce das -suas aguas, como bem advertem Resende, e outros. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[221] Monarq. Lusit. tom 1. liv. 4. c. 8. Vasconcel. lib. 5. de Ebor. -Municip. - -[222] Strab. apud Resend. lib. 2. de Antiquit. tit. de Flumin. Duart. -Nun. Descripç. de Port. cap. 21. - -[223] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 1. pag. 305. - -[224] Fr. Leaõ, Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 15. Monarq. Lusit. liv. -14. cap. 5. - -[225] Far. Font. de Aganip. part. 4. Eglog. 4. - -[226] Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 2. excel. 2. - -[227] Argot. nas Memor. do Arcebispado de Braga tom. 2. pag. 865. - -[228] Cardoso Diccion. Geogr. tom. 2. pag. 613. - -[229] Fonseca Evor. glor. p. 89. fin. - -[230] Corograf. Port. tom. 3. p. 336. Bluteau tom. 1. do Suplem. ao -Vocab. p. 315. - -[231] Argot. nas Antiguid. da Chancellar. de Braga pag. 20. - -[232] Mem. instr. tom. 1. pag. 204. - -[233] Bochart. Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 35. - -[234] Brit. Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. - -[235] Virgil. liv. 7. Æneid. Silio Italico liv. 1. Lactancio Firmiano -lib. 7. c. 22. de Div. Instit. & alii. - -[236] Claudian. liv. 2. de Raptu Proserpinæ p. 218. - -[237] Strab. lib. 10. e 14. - -[238] Lucio Flor. liv. 2. cap. 17. - -[239] Botelh. no 7. do Alfonso est. 31. Reys em a Nota 124. da Epistol. -ad Jametem. - -[240] Plinio lib. 33. cap. 7. Vitruvio lib. 7. cap. 9. Strab. lib. -3. Pompon. Mella lib. 3. cap. 1. Bochart. tom. 2. p. 626. Nicol. de -Santa Maria na Chron. dos Coneg. Regrant. liv. 6. cap. 1. Maced. Poema -Olisip. cant. 2. est. 80. Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 40. D. -Francisc. Xavier da Garma no Theatro de Hespanh. tom. 1. p. 76. Argot. -Mem. de Brag. p. 105. e nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 32. e -outros, que deixo de allegar. - -[241] Cam. Canc. 4. - -[242] Mousinh. cant. 3. est. 38. do African. - -[243] Veja-se a Monarq. Lusitan. p. 4. liv. 4 cap. 18. Joaõ Salgad. -Success. Milit. p. 106. Corograf. Portug. tom. 2. pag. 2. - -[244] Brand. na Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 27. - -[245] Fr. Joaõ Fel. na Isagoge pag. 35. - -[246] Duart. Nun. Descripç. de Port. - -[247] Araujo Success. Milit. liv. 1. cap. 1. Benedictin. Lusit. tom. 2. -p. 109. - -[248] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 3. p. 573. - -[249] Costa, Corograf. Portug. tom. 3. p. 260. - -[250] Cam. Canç. 12. est. 2. - -[251] Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 256. - -[252] Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 108. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. -2. p. 714. Santuar. Marian. tom. 3. p. 172. - -[253] Gruter p. 162. n 4. Argot. nas Antig. da Chancel. de Brag. p. -108. e Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho. - -[254] Brand. na Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 25. Benedictin. Lusit. tom. -2. pag. 299. - -[255] Catul. Juven. Estaço, Ovid. e outros apud Macedo nas Flor. de -Hespanh. cap. 4. excel. 2. - -[256] Vasconcell. Histor. de Santar. part. 1. liv. 2. cap. 23. - -[257] Plin. liv. 4. cap. 22. & lib. 33. cap. 3. Mela lib. 3. cap. -1. Ludovic. Nun. Hispan. illustrat. tom. 3 cap. 35. Rodrig. dos -Sant Histor. Hispan. part. 1. cap. 3. Resend. lib. 2. de Antiquit. -Vasconcel. Descr. Lusitan. p. 407. Duart. Nun. Descr. de Portug. p. 33. -Nicoláo de Oliveir. Grand. de Lisb. p. 21. Joaõ Salgad. Success. Milit. -p. 175. D. Francisc. Xavier de Garma no Theatr. de Hesp. tom. 1. p. 68. -e outros muitos. - -[258] Far. Font. de Aganip. part. 3. Canç. 5. - - - - - CAPITULO VIII. - -_Das Fontes mais notaveis._ - - -1 Neste Capitulo fazemos só memoria daquelas fontes, que por alguma -particularidade se fazem dignas de admiraçaõ; pois seria intentarmos -hum quasi impossivel querer dar noticia de todas as que circulaõ -por nossas terras, sendo verdadeiramente innumeraveis. Nós em outra -Obra[259] já referimos algumas, e o Doutor Francisco da Fonseca -Henriques em o seu curioso _Aquilegio_ faz mençaõ de outras. -Repetiremos outra vez as mais singulares, pois que assim o pede o -assumpto, e a ordem, que seguimos, nomeando primeiramente para mayor -clareza as terras, donde emanaõ, e onde correm. - -2 _Abrantes._ Na distancia de quatro leguas desta Villa sobre a ribeira -de Sor ha huma fonte, a que chamaõ da Fedegosa, a qual nascendo em -mineral de enxofre tem qualidades frescas, e sara muitos achaques, -que peccaõ em quentura. E no seu termo junto da Ermida de nossa -Senhora do Tojo ha outra fonte de taõ excellente agua, que a mandaõ -buscar para os doentes beber: e accrescentaõ os moradores huma cousa -(diz a Corografia Portugueza, que para mim he incrivel) e vem a ser: -que havendo algumas differenças sobre quem ha de encher primeiro, -visivelmente se diminue a agua na mesma fonte.[260] - -3 _Aguiar de Sousa._ Na Freguezia de S. Mamede de Val-Longo ha no mais -alto da montanha hum poço muy profundo, que de Inverno secca-se, e de -Veraõ tem tanta abundancia de agua frigidissima, que serve naõ só de -regalo à gente, mas tambem aos milhos, que com ella se regaõ. - -4 _Alandroal._ A fonte desta Villa he memoravel pela grande copia -de agua, que expulsa, a qual dizem que se lhe communica de hum rio -subterraneo. Formou aqui a natureza huma larga concavidade, a que os -moradores chamaõ _Algar_, em cujo fundo se acha hum poço com bocal -feito ao picaõ, e delle sahe huma levada de agua muito grande.[261] -Nesta mesma Villa, na estrada, que vay para Terena, ha outra fonte, que -naõ corre de Inverno, senaõ no Estio.[262] - -5 _Alcacer do Sal._ Na herdade das Praxanas, distante duas grandes -leguas da Villa, existe huma fonte, cuja agua he buscada de muitas -leguas para remedio contra o mal da pedra; e tem as mesmas virtudes da -que ha na Villa de Almada. - -6 _Alcanede._ No termo desta Villa, e no Lugar dos Amiaes debaixo -corre huma fonte, que bebendo da sua agua qualquer pessoa, que tiver -sanguisugas na garganta, immediatamente lhas faz expellir, e se -comprova com muitas experiencias. - -7 _Aljustrel._ Em distancia de meya legua desta Villa, chegado à Ermida -de S. Joaõ do Deserto, ha huma fonte de agua taõ azeda, que ninguem -a bebe, nem ainda os animaes; porém tomada como medicina, serve de -excellente vomitorio, e boa para lançar fóra sezões. - -8 _Almada._ Nesta Villa ha huma fonte, cuja agua tem conhecida virtude -para os achaques de pedra, e areas.[263] - -9 _Amarante_. No campo chamado da Feitoria, que fica defronte do -Convento de S. Gonçalo desta Villa, brota huma Fonte abundantes aguas, -que tambem tem notoria analogia, e semelhante virtude à de Almada. - -10 _Ançaõ._ Nesta Villa se acha huma fonte, que lança de Veraõ agua -frigidissima, e pelo Inverno tepida. Tambem por experiencia se tem -observado, que a sua agua bebida facilita os partos, e preserva dos -achaques de pedra, e outras enfermidades. - -11 _Armamar._ Huma fonte ha no termo desta Villa, que tem virtude as -suas aguas para varias enfermidades. No sitio, onde nasce, ha muitas -pedrinhas quadradas semelhantes àquellas, que vem da India, e se -attribue, que a virtude, que tem a agua, será communicada das pedras. - -12 _Batalha._ Perto desta Villa ha huma fonte no Lugar das Brancas, -cuja agua com facilidade, e em breve tempo se transmuta em sal. - -13 _Besteiros._ Fica este Lugar no termo da Villa de Anciães, e aqui -existe huma fonte de agua taõ delgada, que com ella naõ se póde -fabricar azeite. - -14 _Braga._ Em distancia de hum quarto de legua desta Cidade, na quinta -dos Religiosos de Santo Agostinho corre de huma fonte agua taõ fria, -que no tempo mais ardente do Veraõ mal se póde aturar a maõ dentro -della nem ainda em quanto se reza huma Ave Maria; e em poucos minutos -reduz a vinagre hum frasco de vinho, se o meterem dentro della. - -15 _Bragança._ Além de outras fontes, que ha nesta Cidade notaveis, ha -huma na quinta de Val de flores, que a sua agua he efficacissima para -facilitar a digestaõ, e abrir a vontade de comer. - -16 _Cadima._ Ha aqui neste Lugar, que fica em distancia de Tentugal -duas leguas, a celebre fonte chamada _Fervença_, de que fallaõ muitos -Authores,[264] a qual sorve quanto lhe deitaõ dentro da voragem, que -sempre está em continua fervura. A causa deste fenomeno he, porque -alli ha alguma occulta cataracta, ou precipicio, como bem explica o -doutissimo Feijó.[265] Tambem na Freguezia de S. Mamede, termo de -Alcacer do Sal, donde dista quatro leguas, está da parte do Poente -hum grande olho de agua, que corre para o rio Sado, o qual sorve tudo -quanto lhe lançaõ dentro: chamaõ-lhe a _Anceira_. - -17 _Caldezes._ Fica este Lugar no Concelho da Povoa de Lanhoso, e tem -huma fonte chamada do _Tojal_ da qual sahem misturadas com a agua -muitas pedras quadradas, como já dissemos das de Armamar, e que tem a -mesma virtude alexifarmaca. - -18 _Cano._ Junto desta Villa ha huma fonte, a que chamaõ dos _Olhos_, -porque em seu nascimento está sempre a agua fervendo, e tem a -particularidade de converter sua agua facilmente em pedra as cousas, -que lhe lançaõ dentro. - -19 _Castello de Vide._ Entre a grande quantidade de fontes, que -regaõ esta Villa, pois passaõ de trezentas, ha especialmente huma no -arrebalde, que chamaõ da _Mealhada_, com a excellente virtude de livrar -de dores nefriticas aos que costumaõ beber da sua agua: e no termo da -Villa de Oiteiro ha outra, que dizem ter a propriedade, e natureza do -vinho. - -20 _Coimbra._ Perto desta Cidade, e no meyo da estrada poucas leguas -antes de chegar a ella, está a celebre fonte de _Alcabedeque_ huma das -mais copiosas, que ha no Reino, cujo nome lhe deraõ os Mouros pela sua -virtude, pois Alcabedeque na lingua Arabe quer dizer _Agua de Deos_. -Elles que lhe sabiaõ o prestimo mais do que nós, a estimavaõ tanto, que -fizeraõ junto della hum forte para a guardar. Veja-se a _Corografia -Portugueza no tom. 2. pag. 34._ - -21 _Covilhã._ Na cerca dos Religiosos de S. Francisco desta Villa está -huma fonte de agua frigidissima; e já tem acontecido algumas vezes -acharem convertido em vinagre o vinho, que mandavaõ aqui resfriar. - -22 _Envendros._ Existe huma fonte no sitio do Alpalhaõ, termo desta -Villa, cuja agua bebida no lugar em que brota, he ingrata ao gosto, -mas estando em casa, se faz de bom sabor. Attribuem os moradores, que -a causa de se viver aqui muito, e com saude, procede da boa qualidade -desta agua. - -23 _Ervedal._ Quasi chegado à estrada, que vay do Ervedal para -Benavilla, termo de Aviz, corre huma fonte, que no mez de Outubro -secca, e vindo Março torna a correr, e dura todo o Estio, por mais -ardente que seja. Reduz tambem a pedra quanto lhe deitaõ dentro.[266] - -24 _Estremoz._ A fonte da Lagoa, que ha na herdade dos Alens no termo -desta Villa, tem a mesma analogia que a antecedente, pois secca-se de -Inverno, e corre de Veraõ. - -25 _Ferreirim._ Huma legua distante de Lamego, na cerca do Convento de -Santo Antonio de Ferreirim, ha huma fonte de agua taõ fria, que tambem -converte promptamente o vinho em vinagre. - -26 _Freixeda._ Este Lugar, que fica no termo de Miranda, comprehende -com admiraçaõ huma fonte de agua muito fria, e taõ corrosiva, que -consome no espaço de meya hora a carne, que se lhe lança dentro, -deixando os ossos esburgados. - -27 _Grandola._ Da serra dos Algarves, que dista huma legua desta Villa, -manaõ dous olhos de agua com duas propriedades bem contrarias, sendo -irmãs no nascimento; porque as que sahem para a parte do Sul, saõ -excellentes, e as que correm para o Norte, naõ ha quem as possa beber, -e por isso lhe chamaõ agua azeda. De outro olho de agua, que sahe com -mayor abundancia, se tem observado, que toda a terra, que banha a sua -corrente, fica infrutifera, deixando tambem hum fortissimo gelo, por -onde passa. - -28 _Guarda._ Por baixo da Cruz da Faya nos limites desta Cidade emana -huma fonte de agua fria com qualidades taõ nocivas, que passaõ a -mortiferas. - -29 _Guardaõ._ Fertilissimo he este Concelho de aguas admiraveis: tal -he a fonte da Pipa junte da Povoa da Longera, a do Lugar das Paredes, -a fonte das Amexieiras, a chamada das Donas, e outras de singular -qualidade, que refere a Corografia Portugueza.[267] - -30 _Guimarães._ Afastado da Villa para o Sul fica a milagrosa fonte -de S. Gualter, cuja virtude para varias enfermidades faz attrahir -muita gente, que ou bebendo, ou lavando-se em sua agua, experimentaõ -conhecida melhoria. - -31 _Marmellos._ He este hum Lugar, que fica no termo da Villa de Lamas -de Orelhaõ, onde existe huma fonte de igual virtude curativa de varias -enfermidades, que a experiencia tem mostrado infallivel. - -32 _Massouco._ Junto da Igreja Matriz deste Lugar, que he do termo -da Villa de Freixo de Espadacinta, ha huma fonte, a que chamaõ do -_Xido_, a qual principia a correr do mez de Março por diante: e tem os -moradores feito observaçaõ, que se o anno ha de ser fertil, expulsa muy -pouca agua; e quando ha de ser esteril, brota com abundancia; e desta -fórma vem a ser hum quasi reportorio para as gentes daquelles contornos. - -33 _Monchique._ Com a mesma propriedade ha outra fonte neste Lugar, -que fica no Algarve, a qual em Dezembro totalmente se secca. De igual -singularidade se admira outra em Monforte, meya legua distante da -Villa, a qual se secca no mez de Setembro, e em Mayo torna a rebentar -com grande torrente. Em Monsanto tambem corre outra com as mesmas -circunstancias do tempo. - -34 _Olmos._ A fonte chamada do _Gogo_, que fica no termo desta Villa, -lança agua de fórma, que faz fio como clara de ovo, e affirma-se ter -virtudes medicinaes. - -35 _Ouguella._ Bebem os moradores desta Villa a agua de huma fonte, -que dizem naõ cria cousa viva dentro em si, senaõ sómente rãs. Saõ -presentaneas para matar sanguisugas, e lombrigas. Se por acaso, ou -inadvertencia poem a cozer legumes com esta agua, he escusado gastar -tempo, porque nunca os coze. - -36 _Santarem._ Nos limites desta Villa, e no Lugar de Rio-Mayor ha hum -olho de agua salgada seis leguas distante do mar. - -37 _Sardoal._ Aqui ha a fonte de Penha, que tem a circunstancia de -naõ correr, senaõ tambem de Veraõ, e seccarse pelo Inverno. Tal he a -providencia de Deos. - -38 _Serra da Estrella._ Emana do sitio chamado Valderosim huma fonte -de agua taõ fria, que em pouco espaço de tempo transmuta em vinagre o -vinho, quando o querem resfriar. - -39 _Setubal._ Tem a praça desta Villa huma formosa fonte, cuja agua he -petrificante; por isso o seu aqueducto he aberto, para se desintupir -desembaraçadamente. - -40 _Thomar._ Em a Freguezia dos Formiguaes, que he do termo desta -insigne Villa, e no Lugar da Quebrada rebenta de Inverno huma fonte com -alguns olhos de agua, pelos quaes sahem alguns ouriços de castanha, naõ -havendo dalli a tres leguas castanheiros. - -41 _Valverde._ Só em dia de S. Joaõ Bautista lança agua huma fonte -chamada por este motivo _Santa_, que existe neste Lugar do termo da -Villa da Alfandega da Fé. - -42 _Vinhaes._ Affirma-se que a melhor agua, que ha na Provincia de -Tras os Montes, he a que existe no rocio desta Villa em huma fonte -admiravel. Por mais que se beba della, nunca offende o estomago, e -facilita muito a exclusaõ de areas, e pedra. No Lugar dos Casares, -termo da dita Villa, ha outra fonte de agua taõ fria, que metendo-lhe -dentro hum quarto de carneiro, o come todo sem lhe deixar mais que os -ossos; e naõ faz damno aos moradores que della bebem. - -43 _Urros._ Chamaõ à fonte, que ha nesta Abbadia da Comarca da Villa de -Moncorvo, a fonte Santa, porque dizem que Santo Apollinario a fizera -rebentar neste sitio; e muita gente se aproveita de suas aguas para -algumas molestias, usando dellas com fé: mas naõ consiste aqui só a -maravilha, porque estando huma legua distante do Douro, se communica de -sorte com elle, que tambem se altera, quando elle se ensoberbece. - -44 Com estas, e outras innumeraveis fontes enriqueceo a Providencia -divina este nosso terreno, encontrando-se pelas Provincias do Reino -aguas nativas de exquisitas propriedades, que se a alguns dos Leitores, -ou estranhos, ou forasteiros, fizerem duvida, offerecemos a fé, e -credito dos mesmos naturaes, que o affirmaõ, quando a verdade desta -sincera narraçaõ naõ baste; pois o nosso objecto por agora naõ attende -a sondar, nem a averiguar os occultos arcanos da natureza, como -cousa impropria ao intento Geografico. O Doutor Francisco da Fonseca -Henriques escreveo deste assumpto hum livro, que intitulou _Aquilegio -Medicinal_, a que os curiosos podem recorrer. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[259] Recreaçaõ Proveitosa part. 1. p. 309. & seq. - -[260] Corograf. Portug. tom. 3. p. 190. - -[261] Novaes na Relaçaõ dos Bisp. de Elv. - -[262] Fonseca, Aquileg. p. 194. - -[263] Duart. Nun. Descripç. de Port. pag. 31. Vasconcell. ib. pag. 4O4. - -[264] Monarq. Lusitan. tom. 1. liv 2. cap. 5. Resend. lib. 2. de -Antiquit. Duart. Nun. Descripç. de Portug. pag. 30. Costa, Corograf. -Portug. tom. 2. pag. 85. Caram. no seu Philipp. Prud. Proem. §. 1. num. -3. Plinio lib. 2. cap. 103. - -[265] Feijó, Theatr. Critic. tom. 9. pag. 43. - -[266] Leit. nas Miscelan. pag. 347. - -[267] Corograf. Portug. tom. 2. pag. 192. - - - - - CAPITULO IX. - -_Das Caldas._ - - -1 Da abundancia das aguas saudaveis procede o beneficio dos banhos, -ou Caldas, de que o Reino tambem goza, de cujo assumpto, supposto -escreveraõ alguns dos nossos,[268] daremos informaçaõ das mais -especiaes, por naõ defraudarmos deste apontamento o nosso Mappa. - -2 _Alcafache._ Huma legua de Viseu, e no termo de Azurara nascem de -huma fonte, que está chegada ao rio Daõ, aguas sulfureas, que fazem o -mesmo effeito com sua virtude medicinal, como as de S. Pedro do Sul, -ainda transferidas para outras partes distantes. - -3 _Alvor._ Afastado quatro leguas desta Villa no Lugar de Monchique -estaõ huns banhos medicinaes, onde se foy curar ElRey D. Joaõ II. de -huma hydropezia. - -4 _Anciães_. Junto ao Lugar do Pombal, termo da Villa de Anciães, ha -humas Caldas, que nascem de huma fonte em serra aspera, e as suas -aguas saõ sulfureas, que tomadas em banhos servem para debilidades -de nervos, estupores, vertigens, e outros achaques desta classe: ha -occasiões, em que a experiencia tem mostrado bastar ao doente hum só -banho para sarar de todo. - -5 _Aregos._ No Concelho de Aregos, Comarca de Lamego, ha muitas Caldas -da mesma natureza que as referidas. - -6 _Cascaes._ As Caldas desta Villa estaõ na quinta do Estoril junto ao -Convento dos Religiosos de Santo Antonio: nascem de tres olhos de agua, -e servem para paralyzias, rheumatismos, convulsões, e para todas as -queixas espurias, e de calor. - -7 _Chaves._ Para achaques frios de nervos saõ estas as melhores Caldas -do Reino. Nascem entre a muralha da Praça, e o rio Tamega: procedem -de mineraes de enxofre, caparrosa, salitre, e pedra hume. Os Romanos -usavaõ muito dellas para as suas molestias. - -8 _Covilhã._ No termo desta Villa, e no Lugar chamado Unhães da serra -ha Caldas procedidas de huma fonte de agua sulfurea, presentanea para -achaques frios de juntas, e nervos. - -9 _Evendros._ Debaixo de hum penedo nesta Villa brota hum chorro de -agua mais que tepida, a qual tomada em banhos tem grande virtude para -achaques frios, e cutaneos. - -10 _Favayos._ Estaõ no termo desta Villa humas Caldas, que nascem -de mineraes de enxofre, e usaõ os naturaes dellas para quaesquer -molestias, que padecem, porque para todas encontraõ virtude naquellas -aguas. - -11 _Gerez._ Nesta serra ha algumas aguas calidas, e sulfureas, que tem -prestimo para achaques frios de nervos. - -12 _Guimarães._ Estaõ estas Caldas na Freguezia de S. Miguel, distante -huma legua da Villa, e se compoem das aguas calidas, que nascem de -huma fonte por sete olhos: applicaõ-se a achaques frios. - -13 _Lagiosa._ No areal do rio Daõ, que corre por esta Freguezia duas -leguas afastada de Viseu, se acha em qualquer parte delle agua tepida, -e sulfurea, tomando muita gente os banhos na abertura de covas, que -costumaõ abrir na mesma area, e saõ admiraveis para frialdades. - -14 _Leiria._ Brotaõ no rocio desta Cidade duas fontes, que parecem numa -só pela uniaõ, e lançaõ dous tornos de agua differentes, porque hum he -frio, outro tepido, e delles se formaõ as Caldas, boas para achaques -frios. - -15 _Lisboa._ Entre os chafarizes delRey, e dos Páos estaõ estas -Caldas, chamadas vulgarmente os banhos das Alcaçarias: saõ estas aguas -admiraveis para intemperanças quentes das entranhas, e mais partes -do corpo. A continuaçaõ dos enfermos, que a ellas concorrem sempre, -acreditaõ muito o seu prestimo. - -16 _Longroiva_, e _Monçaõ_. Participaõ estas Villas de suas Caldas -admiraveis para enfermidades frias, e para convulsões, estupores, -paralyzias, e vertigens. - -17 _Obidos._ Chamaõ-se os banhos, que ha junto desta Villa, Caldas da -Rainha, porque a Rainha Dona Leonor, mulher delRey D. Joaõ II. mandou -fazer alli Hospital para os enfermos se curarem. Vem as suas aguas -por mineraes de enxofre, e salitre, infundindo-lhe tal virtude para -differentes achaques, como a experiencia frequentadissima o publica. -ElRey D. Joaõ V. tomou aqui banhos em Agosto de 1742 com a assistencia -de toda a Corte, e continuou nos dous annos seguintes para remedio do -ataque da paralyzia, que lhe debilitou a parte esquerda. Vendo porém o -quanto estava destruido o edificio, o mandou reedificar desde o anno de -1747 com toda a magnificencia, e commodidade para os doentes, que alli -vaõ curarse naquelle verdadeiramente Regio Hospital. Diogo Patulhet, -Francez, Sargento mór da Artelharia, mas muito curioso, e de grandes -experiencias Medicas, compoz no anno de 1752 hum excellente livro de -observações destas Caldas, a cujas aguas justamente intitula divinas, e -os seus banhos prodigiosa Piscina. - -18 _S. Pedro do Sul._ Tambem estas Caldas saõ famosas. Ficaõ tres -leguas distantes de Viseu, e se compoem de aguas sulfureas, e nitrosas, -e taõ calidas, que metendo-se no lugar, onde nascem, qualquer animal, -logo o pellaõ. Servem para estupores, paralyzias, e outros achaques. -ElRey D. Affonso Henriques tomou aqui banhos, e delles ha huma -Descripçaõ impressa em livro de quarto muito boa, e erudita. - -19 _Pena-garcia._ Na Comarca de Castellobranco, e na raiz da serra de -Pena-garcia se admiraõ varias fontes de agua tepida com a prodigiosa -virtude de sarar varias enfermidades, ou bebida, ou applicada em banhos. - -20 _Penaguiaõ._ Neste Concelho ha duas Caldas sulfureas, que remedeaõ -achaques frios de nervos. - -21 _Ponte de Cavez._ Ao pé desta ponte ha hum nascimento de agua com a -mesma virtude, que as que nascem de mineraes sulfureos. - -22 _Nossa Senhora do Pranto._ No termo da Villa de Montemór o velho, e -no Lugar da Azenha ha as Caldas de Nossa Senhora do Pranto, cujas aguas -saõ salitrosas, e sulfureas, e com a mesma virtude analoga, que já -temos referido. - -23 _Ribeira do Boy._ Estas Caldas estaõ no termo da Villa de Touro, -Comarca de Castellobranco: compoem-se de aguas sulfureas, onde se tem -descuberto remedio para estupores, e debilidades de nervos. - -24 _Villar da Veiga._ Na Freguezia de Santa Anna, que está neste Lugar -situado no monte Gerez, ha pouco tempo se descubriraõ estas Caldas, que -dizem saõ as melhores do Reino. Veja-se ao Reverendo Padre Argote.[269] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[268] Jacob de Castr. Histor. Medic. Fonsec. Aquileg. Medicin. Curv. na -Polyanth. &c. Vasconcel. Descript. Lusit. p. 402. Duart. Nun. cap. 12. - - - - - CAPITULO X. - -_Da Fertilidade do Reino em commum._ - - -1 Quando fallámos de cada Provincia em particular, dissemos a benigna -qualidade do sitio, e clima favoravel, que pertencia a cada huma; e -pelo que vimos, naõ ha em Portugal palmo de terra, que seja esteril -em quasi todo genero de frutos. Os Authores antigos naõ só lhe daõ o -titulo de Paiz pingue, senaõ do mais delicioso do mundo;[270] e porque -esta verdade necessita de mais individual expressaõ para inteirar -o conceito dos estranhos, comecemos pelos mantimentos, e pelo mais -preciso. - -2 _Trigo._ Todos os nossos Escritores affirmaõ,[271] que em outro tempo -houve mais trigo no Reino, que no tempo de agora; e já Luiz Nunes na -sua Lusitania,[272] comparando sómente Santarem com Sicilia, naõ quiz -que esta Villa cedesse àquelle Reino na secundidade deste producto. -Esta abundancia naõ só de Santarem, mas de outras muitas terras nossas -puderaõ os naturaes experimentalla da mesma sorte presentemente, se naõ -houvera tanta extracçaõ de farinhas para as Conquistas, e houvera mais -applicaçaõ para a agricultura. Tambem este ponto he muy lamentado pelos -zelosos da patria.[273] - -3 A verdade he, que temos muitas terras baldias, que se quizeramos -aproveitarnos dellas, cultivando-as, daria-mos trigo a todo o mundo. No -Reino do Algarve ha grandes valles, e fertilissimos, porém devolutos. -No Alentejo ha charnecas, que nunca viraõ arado, nem enxada, e por -causa da ociosidade se achaõ infrutiferas, que de si o naõ saõ; e neste -sentido se deve entender o Padre Mariana, que chama a esta Provincia -esteril.[274] Na mesma Provincia, e no sitio das Vendas Novas, que he -terreno de area solta, e até aqui tida por infrutifera, desde que ElRey -D. Joaõ V. mandou fabricar alli hum grande Palacio no anno de 1728, se -principiou a plantar vinhas, pomares, e hortas muito boas, de que se -colhe grande renda. - -4 Certos Authores[275] dizem, que se abrirem o lamaraõ de Sacavem até -Alverca com vallos por dentro, e fizerem diques pela parte do rio, -dará paõ para meya Lisboa, e linho canamo para enxarcias, e amarras. O -mesmo se poderá fazer em outras muitas partes do Reino, onde se achaõ -lamarões, sapaes, e terras alagadiças, tomando o exemplo dos Romanos, -Venezianos, e Senhores de Ferrara, os quaes, como diz Botero,[276] -assim o executaraõ com as lagoas Pontinas, campos de Polesene, e valles -de Comachio em grande proveito de seus vassallos, e interesse dos -direitos Reaes. Deste projecto se aproveitou em outro tempo ElRey D. -Sancho I. que se honrou muito de ser chamado o _Lavrador_,[277] e o -mesmo cuidado teve ElRey D. Joaõ II. - -5 Sem embargo de toda esta negligencia, ou ociosidade, que naõ he -defeito das terras, mas dos homens, se naõ houvera tanta gente -superflua estrangeira, que habita em nosso Reino, e a grandeza de -herdades particulares, teria elle para os naturaes paõ superabundante, -e do melhor da Europa, principalmente do Alentejo, e termo de Lisboa, -onde vemos ainda assim as melhores tercenas, ou celeiros de toda a -Europa com a provisaõ deste genero de alimento. Nas outras Provincias, -onde naõ ha tanta abundancia de trigo, suppre o milho, a castanha, a -cevada, e o centeyo, de que fazem farinha, e se sustentaõ. - -6 _Azeite._ He tanta a abundancia de azeite, que escusamos repetir o -que neste particular affirmaõ nossos Escritores,[278] principalmente -da fertilidade, e bondade, que ha deste genero em Santarem, Abrantes, -Thomar, Torres-Novas, Montemór o Novo, Coimbra, Evora, Moura, Elvas, -Béja, Beringel, termo de Lisboa, e na Torre de Moncorvo, onde só o -dizimo importa mais de seiscentos almudes, gastando-se na fabrica do -sabaõ dous mil cantaros, e provendo-se Galiza, e outras terras de -Castella do muito, que daqui levaõ. - -7 _Vinho._ Deste producto soccorre o nosso Reino a muitos dos -estranhos, principalmente das partes Septentrionaes, porque aos -Portuguezes lhes he impossivel dar consumo à grande copia de vinhos, -que todos os annos recolhem das Provincias, sendo os mais gabados -os de Alvor, Béja, Villa de Frades, Vidigueira, Cuba, Peramanca, -Alcochete, Almada, Caparica, Carcavelos, Camarate, Oeiras, Ourem, -Lamego, Monçaõ, deixando os da Beira, e Tras os Montes taõ excellentes, -que os naõ tem melhores todo o mundo, sendo todos estes ordinariamente -bem incorporados, e com especialidade os tintos, que tem força para -lotar os outros. Os Francezes, e Inglezes gostaõ muito dos vinhos -extrahidos do Lugar chamado Barra a barra, que fica da outra banda de -Lisboa; porque dizem, que saõ mais delicados, e menos cubertos,[279] -e por isso conduzem muitos de Alhos vedros, e outras terras para as -suas; naõ deixando de se admirar de que nós naõ estimemos o licor de -Baco, tanto como elles, e que as fontes sejaõ ordinariamente as que -nos mataõ a sede, e naõ as vides. Os peyores vinhos do Reino saõ os -do Minho, chamados verdes,[280] porque duraõ pouco; e ou pela sua -aspereza lhe chamaõ de enforcado, (ou talvez porque lançaõ as vides, e -cachos pendurados nas arvores,) donde veyo a dizer o sentencioso Sá de -Miranda, alludindo ao dito de Cineas:[281] - - _Depois nos Olmos mostrado, - Nunca vi, disse, enforcado, - Que a forca, assim merecesse._ - -8 _Carnes._ Da grande copia em todo o genero de gados, que ha no Reino, -ninguem duvída. O grande consumo, que se faz delles no provimento de -armadas, e frotas, e a consideravel extracçaõ de lãs para o negocio do -Norte, e Inglaterra, bastava para prova desta opulencia, se já o naõ -tiveramos mostrado só na fecundidade da Provincia do Minho. No que se -deve reparar he no sabor, e mimo das _Vacas_, e _Vitellas_ da Beira: -_Carneiros_, _Cordeiros_, e _Leitões_ do Alentejo: _Cabritos_ da serra -de Cintra, e Caldeiraõ, sem omittir a preciosa provisaõ do _Leite_, -_Natas_, _Manteigas_ e _Queijos_ muito melhores que os Flamengos, e -Parmazanos: nem nos esquecermos dos excellentes _Presuntos_ da Beira, e -_Chacina_ do Alentejo. - -9 E que diremos da montaria, e caça Real? Sem encarecimento Castella -naõ a tem melhor. Admiraveis saõ as _Corças_, e _Cervos_ da serra -do Algarve: os _Veados_ das serras de Mertola, Portel, Almeirim, -Arrabida, Cintra, e tapada de Villa Viçosa: _Javalis_ da Tapada, -Pinheiro, serras de Portel, Vascaõ, Grandola, e Alcacer: _Lebres_, -e _Coelhos_ das Berlengas, Alcantara, e Nossa Senhora do Cabo, pelo -especial gosto, que lhe causa o pasto do perrexil. - -10 _Aves._ Deixando a grande creaçaõ das domesticas, que em grandes -ninhadas, e bandos vemos por todo o Reino em abundancia, _Galinhas_, -_Patos_, _Pombos_, e _Perús_, naõ ha cousa como os _Perdigotos_, -e _Perdizes_ do termo de Lisboa, das serras de Cintra, Beira, e -Caldeiraõ: _Tordos_ de Thomar, e do Alentejo, _Taralhões_ de Cezimbra, -_Rolas_ de Alcacer, _Adens_, e _Galeirões_ dos Paús de Palma, Obidos, -e Benavente, com outros varios bandos de passaros de arribaçaõ, que -com o cibato das nossas terras se fazem muito mais saborosos que os -_Hortolanos_ de Pariz. Aqui se póde aggregar a quantidade grande de -canoras, e vistosas aves, os _Rouxinoes_, _Pintasilgos_, _Chamarizes_, -_Codornizes_, _Cochichos_, _Lavercos_, _Verdelhões_, _Tentilhões_, -_Melros_, _Pintarroxos_, _Tutinegras_, e outros mil suaves passarinhos, -que pelos bosques, e ramos dos alemos, choupos, freixos, loureiros, -e outros arvoredos espessos divertem os olhos, e os ouvidos com -excellente musica natural em distinctos córos. - -11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de -Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que -nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por -toda a parte admiraveis _Laranjas da China_, _doces_, e _bicaes_, a que -os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de Portugal: prodigiosas -_Limas_ da serra d’Ossa, _Limões_ em Colares, Cintra, Peninha, Loures, -Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de -Cacem; e as admiraveis _Cidras_ do Landroal. - -12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as _Camoezas_ de Thomar, -Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas _Peras_ de -muitas castas, e nomes: _De Rey_, _de Conde_, _Bergamotas_, _Bojardas_, -_Cornicabras_, _Carvalhaes_, _Conforto_, _Flamengas_, _Gervasias_, -_Codornos_, _de Rio frio_, _Engonxo_, _de S. Bento_, _de Bom Christaõ_, -_Virgulosas_, e _Lambe-lhe os dedos_, com as formosas, e appetitosas -_Maçãs de Abrantes_, _Baunezas_, _Leirioas_, _Melapios_, _Repinaldos_, -_Verdeaes_, e até _Rainetas de França_ na Villa de Mafra, com outras -muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a Reinos -estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos pomares -de regadio muy deliciosos. - -13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço, -que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes -saõ as _Cerejas_ de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas de -_Saco_ da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as _Ginjas garrafaes_ -de Lamego, Borba, e Alenquer: as _Frutas novas_, e _Ameixas reinoes_ -de Montemór o Novo, com as _Brancas_, _Saragoçanas_, e _Abrunhos_ de -Cintra, Collares, Azeitaõ, e Cezimbra: os gentis _Figos lampos_, e -_Perinhas de cheiro_ do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos -_Damascos_, _Alperches_, e _Pessegos_ de tantas castas em Abrantes, -Aviz, Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas -_Amoras_, e _Morangos_, e das bellas _Uvas moscateis de Jesus_, -_Tamaras_, _Ferraes_, _Diagalves_, e _Malvazias_ de Punhete: do chamado -singular _Bastardo_ de Cassilhas, Barreiro, e Almada, com os seus -excellentes, e incomparaveis _Figos brancos_: dos selectos _Melões_ -da Vellariça, Chamusca, Arrayolos, Benavente, e Muxagata: das doces, -e vermelhas _Melancias_ de Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e -Chamusca: das _Romãs_, _Marmellos_, e _Gamboas_ de Santarem, com a -quantidade sem numero de _Castanhas verdes_, e _piladas_ da Beira, e -Minho: de _Amendoas_, _Passas_, _Figos_, e _Alfarrobas_ do Algarve, -principalmente de Estoy: _Nozes_, _Sorvas_, _Nesperas_, e _Avelãs_ -da Estremadura: _Bolotas_, _Azeitonas_, e _Pinhões_ do Alentejo, sem -fazermos caso dos _Medronhos_, _Murtinhos_, _Camarinhas_, e _Amoras de -silva_, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas -charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas _Tuberas da terra_, de -que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou feitas -à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas. - -14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar -as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma -haverá _Couves_ taõ grandes, e _Nabos_ taõ monstruosos, que se possaõ -igualar com as da Beira, especialmente as _Murcianas_ de Azeitaõ, e -Setubal: _Repolhos_ da Villa do Conde: _Cardos_ das hortas de Béja, e -Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito menos com a riqueza, -regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas, tendo só Lisboa em -si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta especie naõ cabe -na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa fertilidade de -legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas comestiveis, e -aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir os balsamos, -as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ mais -curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das hervas, -e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,[282] naõ haver -terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que Portugal, -ainda no mais escabroso das suas serras. - -15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a -diligencia da cultura o _Alecrim_, a _Arruda_, o _Aypo_, a _Argentina_, -a _Alfavaca de cobra_, os _Almeirões_, os _Agrões_, a _Agrimonia_, -a _Artemija_, a _Avenca_, as _Azedas_, a _Bisnaga_, a _Borragem_, -o _Cardo santo_, a _Carqueja_, a _Celidonia_, a _Centaurea_, a -_Congossa_, a _Douradinha_, a _Dormideira_, o _Endro_, o _Ensayaõ_, -a _Erva cidreira_, a _Erva doce_, a _Escabiosa_, a _Escorcioneira_, -a _Eufrazia_, o _Funcho_, a _Filipendola_, o _Gilbarbeiro_ a -_Hepatica_, a _Hera_, o _Hyssopo_, o _Jaro_, a _Labaça_, o _Lirio_, a -_Lingua de Vaca_, a _Losna_, a _Macela_, a _Malva_, o _Malvaisco_, a -_Mangerona_, o _Mastruço_, o _Marroyo_, o _Meimendro_, o _Millefolio_, -a _Moleirinha_, a _Murta_, o _Nardo celtico_, a _Neveda_, o _Oregaõ_, -a _Ortelã_, as _Papoilas_, a _Peonia_, a _Pimpinella_, os _Poejos_, -a _Rabaça_, o _Rosmaninho_, a _Salgadeira_, a _Salsa_, o _Saramago_, -a _Segurelha_, a _Sanguinaria_, a _Semprenoiva_, a _Serpentina_, a -_Solda_, a _Tamargueira_, a _Tanchagem_, o _Tomilho_, o _Trevo_, o -_Trovisco_, a _Valeriana_, o _Verbasco_, a _Versa_, a _Veronica_, a -_Viola_, e outras de experimentada virtude, e prestimo,[283] de que -tambem os multiplicados enxames de abelhas se aproveitaõ para a fabrica -do mel nos excellentes colmeares, principalmente nas serras de Serpa, -Portel, termo de Palmella, e toda a Provincia de Tras os Montes, que -costuma repartir com os visinhos: naõ sendo menos util a copiosa -colheita do _Linho_, _Grã_, e _Esparto_ das Provincias do Minho, -Beira, Estremadura, e Algarve, de que tanto se aproveitaõ as Nações -estrangeiras. - -16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a -natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de -infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas, -outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle, -que no tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com -o esmalte, e fragrancia das _Boninas_, _Junquilhos_, _Mosquetas_, -_Lirios_, _Madresilva_, _Legacaõ_, _Azareiro_, _Giesta_, _Murta_, -_Flor de laranja_, e outra muita diversidade, que exhalando agradavel -cheiro, nascem, e se criaõ em qualquer prado, compondo hum continuado -ramalhete; porque a industria da arte nas cercas, e nos jardins tem em -todo o anno constante o Abril, e florecente a Primavera com vistoso -matiz de _Amarantos_, _Ambretas_, _Amores perfeitos_, _Angelicas_, -_Aquilegias_, _Araras_, _Assucenas_, _Artemijas_, _Azareiros_, -_Anemolas_, _Bordões de S. Joseph_, _Botões de ouro_, _Barboletas_, -_Caracoleiros_, _Caxias_, _Cravos_, _Cravinas_, _Disciplinas_, -_Ervilhas de cheiro_, _Esporas_, _Flores pombinhas_, _Flores do -Cabo de boa esperança_, _Flores de Liz_, _Girasoes_, _Goivos_, -_Jasmins_, _Jacintos_, _Junquilhos_, _Lilazes_, _Malmequeres da -sessia_, _Malvas da India_, _Maravilhas_, _Mauritanas_, _Margaritas_, -_Melindres_, _Mogarins_, _Narcisos_, _Noturnos_, _Novelos_, _Orelhas -de Urso_, _Papagayos_, _Papoulas da India_, _Perpetuas_, _Piramides_, -_Primaveras_, _Rainunculos_, _Rosas_, _Saudades_, _Selindres_, -_Suspiros_, _Tulipas_, _Valverdes_, e _Violas_, com as frondosas -latadas de _Caracoes_, _Trepadeiras_, _Chagas_, e _Martyrios_, e o -verde adorno dos crespos, e cheirosos _Mangericões_. - -17 Quanto ao _Peixe_, além de o gabar Marineo Siculo,[284] e -Botero,[285] tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e -muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado, -e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está -regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores, -merecendo especial memoria os deliciosos _Salmões_ do Minho: as -gabadas _Azevias_ de Alhandra: os raros _Solhos_, e _Tainhas_ do Sado: -os saboros _Saveis_, e _Lampreas_ do Mondego, e Coa: as _Douradas_, -_Escolares_, e _Atum_ do Algarve: os _Salmonetes_, _Linguados_, -_Redovalhos_, _Bezugos_, e _Sardas_ de Setubal: as admiraveis -_Trutas_, e _Mugens_ da Beira, e Minho: as selectas _Bogas_, _Barbos_, -e _Escalhos_ de Alviella: os _Ruivos_ de S. Joaõ da Foz, e Villa do -Conde: as famosas _Pescadas_, e _Curvinas_ de Cezimbra, Cascaes, -Ericeira, Caminha, e Esposende: os _Congros_, e _Roballos_ de Peniche, -e Buarcos: os _Safios_, _Eirozes_, _Cachuchos_, e _Gorazes_ do Tejo. -E deixando de particularizar outras innumeraveis especies de peixe, -que os rios, ribeiras, e lagoas nos tributaõ com a fecunda pescaria de -_Sardinhas_, e _Carapáos_, e os celebrados _Camarões_ de Villa-Franca, -com os saborosos cardumes de _Ostras_, _Bribigões_, e mais Mariscos -de Aveiro, e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de -mantimentos, e regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a -fazer hum todo admiravel contra o que diz Virgilio, que _non omnis fert -omnia tellus_, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta -opulenta Peninsula. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[269] Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. pag. 382. - -[270] Strab. lib. 3. Athen. lib. 4. Gymnosoph. Polyb. lib. 38. - -[271] Apud Duart. Nun. Descripç. de Port. - -[272] _Jactitet se Cereris dono Sicilia, nihil video cur Santareno -præferantur._ - -[273] Duart. Nun. Descripç. de Portug. cap. 34. - -[274] P. Marian. Histor. de Hesp. liv 10. p. 1. cap. 13. - -[275] Luiz Mendes de Vasconcel no Sitio de Lisb. O A. dos Serões do -Principe part 1. disc. 6. § 9. Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 1. - -[276] Boter. de Ration. Stat. lib. 8. - -[277] Nun. na Vid. de Sancho I. - -[278] Duart. Nun. Descripçaõ de Portugal cap. 25. Fr. Nicol. de Oliv. -Grand. de Lisb. tract. 1. cap. 4. Maced. nas Flor. de Hespanh. cap. 3. -excel. 4. - -[279] Le Baron de Lahontan tom. 3. Voiages de Portug. p. 208. - -[280] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 8. n. 2. - -[281] Sá de Miranda cart. 2. est. 10. - -[282] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 193. e 216. Barlamont no -Elixir do Univ. cap. 4. e 5. - -[283] Gabr. Grisley Desengan. da Medicin. Duart. Nun. Descripç. de -Port. Vigier Histor. das Plant. - -[284] Marin. Sicul. de Reb. Hispan. lib. 1. - -[285] Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. pag. 14. - - - - - CAPITULO XI. - -_Dos Mineraes._ - - -1 A tanta fertilidade, e mimo de especies sensitivas, e vegetaveis, -como temos summariamente mostrado haver neste nosso Reino, quiz Deos -tambem ajuntarlhe as estimaveis riquezas de preciosos mineraes. Os -de ouro, e prata saõ muito antigos em toda a Hespanha, como refere -a Escritura sagrada;[286] e taõ naturaes em o nosso Portugal, como -affirma Plinio,[287] e o confirma Estrabo,[288] rendendo ao Senado de -Roma cada anno dos direitos, que se tiravaõ das minas de Asturias, -Portugal, e Galiza, trinta mil marcos de ouro: sendo este sem duvida -o unico attractivo, e reclamo, que chamou de taõ longe os Frigios, -Fenices, Tyrios, Carthaginezes, e Romanos a fazernos guerra, e -tributarios à sua cubiça. - -2 Mas deixando a lembrança das minas antigas, como as de que faz -mençaõ Justino[289] que havia na Provincia do Minho, e as que houve na -Freguezia de S. Mamede de Val-Longo do Concelho de Aguiar de Sousa, -e no Lugar de Villa-Verde, termo de Mirandella,[290] e no termo de -Grandola, e no sitio de Alfarella da Provincia de Tras os Montes, e no -Lugar do Seixo naõ longe de Anciães,[291] e em outras muitas partes do -Reino, esgotadas pela ambiçaõ dos Romanos. - -3 He certo que no anno de 1290 concedeo ElRey D. Diniz privilegios -aos que tiravaõ ouro na Adiça, junto à foz do Tejo entre Almada, e -Cezimbra, que era a officina mais antiga, donde se tirava ouro neste -Reino em grande copia. Os mesmos privilegios concederaõ os mais Reys -até ElRey D. Manoel, em cujo tempo com o descubrimento das riquezas da -Asia foraõ diminuindo as extracções das minas de Portugal, como tudo -conta a Monarquia Lusitana.[292] - -4 Tambem no anno de 1628 se descubrio no Lugar de Paramio, tres leguas -da Cidade de Bragança, huma mina de prata taõ fina, que de oito arrobas -de pissarra ficavaõ na fundiçaõ seis de prata; e havia tanta quantidade -della, que promettia o Superintendente oito arrobas cada dia livres -para ElRey.[293] Bem sabido he, e celebrado pelos antigos o purissimo -ouro, que se tirava de entre as areas do Tejo,[294] e tambem naõ he -para esquecer o Cetro, que ElRey D. Joaõ III. mandou fazer do ouro -extrahido das mesmas areas, o qual Cetro affirma Duarte Nunes,[295] que -muitas vezes vira nas mãos dos nossos Monarcas em occasiaõ de Cortes, e -que ainda se conserva no Thesouro Regio. - -5 Se nós fizermos huma natural reflexaõ acerca do muito, que nossos -primeiros Reys dispendiaõ, já com o sustento de grandes exercitos em -continuas campanhas; já com grossas armadas; já na erecçaõ de Templos, -e Palacios sumptuosos; nos thesouros riquissimos, que deixavaõ a seus -filhos; nas distribuições generosas, e soccorros poderosissimos, com -que ajudavaõ a muitos Principes Catholicos,[296] sem que naquelle -tempo houvesse tanta renda dos direitos Reaes, nem o descubrimento das -riquezas da Asia tivesse ainda contribuido com seus thesouros para -supprir estes gastos, forçosamente devemos inferir, que em Portugal -havia opulentas minas. Este pensamento confirma com bastante erudiçaõ o -Doutor Fr. Serafim de Freitas,[297] dizendo, que antes do descubrimento -da India naõ havia Reino na Europa mais opulento que Portugal: por isso -com elevado episodio, e sabio fundamento introduzio o erudito Botelho -na infancia de Portugal a idade preciosa de ouro,[298] que o singular -Camões no cant. 9. e 10. attribuio ao tempo, e governo do sempre -saudoso Rey D. Manoel. - -6 Esta observaçaõ he só por huma natural conjectura; porque he -infallivel haver sempre muitas minas de ouro, e prata por todo -o Reino, como ainda ha na Villa de Borba, Béja, Evora, no termo -de Barcellos, e Thomar, em Tras os Montes, e em outras partes -conhecidas,[299] as quaes naõ se praticaõ hoje por certa razaõ de -Estado, que aponta Plinio[300] nas de Italia, e Duarte Nunes,[301] -e as Memorias instructivas de hum viajor nas de Portugal: ou tambem -porque com o descubrimento das Minas da America no Estado do Brasil -taõ fecundas, e com as mais modernas de diamantes, descubertas no -Serro do Frio, de cujos riquissimos transportes resulta ao Reino taõ -copioso lucro, (pois chega a vinte milhões de cruzados o que nos vem -todos os annos das Minas,) attrahidos desta fertilidade, e opulencia os -Portuguezes, se esqueceraõ do que tinhaõ mais perto. - -7 Naõ só enriqueceo a natureza o Reino de ouro, e prata, mas tambem -de pedras preciosas. No monte do Oiteiro, que cerca a Villa de Borba, -achaõ-se finissimas _Turquezas_, as quaes naõ saõ de cor verde, como -disse Duarte Nunes,[302] e por sua informaçaõ Manoel de Faria, e a -Corografia Portugueza,[303] mas sim de cor azul opaco, segundo bem -adverte, e emenda o Padre Bluteau.[304] Na ribeira de Bellas, pouco -distante de Lisboa, e principalmente no Lugar do Suimo, ha muita -quantidade das pedras preciosas chamadas _Jacinthos_, que na cor -arremedaõ muito à flor Bemmequer.[305] No Algarve achaõ-se _Rubís_. Na -serra de Cintra ha minas de _Magnetes_, ou pedras de cevar,[306] de que -os estrangeiros se tem aproveitado mais do que nós. E no rio Cávado -apparecem _Amethystos_, _Jacinthos_ e _Crystaes_ finissimos. - -8 Tudo isto he muy conforme com o que dizem Botero, e Gil Gonçalves -de Avila,[307] que em Portugal naõ só ha muitas minas de preciosos -metaes, mas muitas pedras preciosas; donde Fr. Marcos de Guadalaxara -Xivier, tratando da nova França, diz,[308] que naquella terra se achaõ -_Diamantes_ semelhantes aos que ha no Tejo: e isto naõ póde causar -duvida, quando sabemos que na Real Capella de Villa-Viçosa ha huma -Custodia, cuja pedraria, de que está cravejada, foy toda extrahida das -minas de seus contornos.[309] - -9 De _Cobre_ se descubrio no anno de 1620 na serra de Grandola huma -mina muito boa. De _Estanho_, e muito fino temos em Amarante, Bouzella, -S. Pedro do Sul, Belmonte, e em outras partes,[310] que nós vimos no -anno de 1736 pela diligencia de Monsieur Damy. De _Ferro_ ha bastante -copia nas Villas de Penella, e Thomar;[311] e affirma o erudito Severim -de Faria,[312] que he o melhor ferro do mundo, pois delle se costumaõ -fabricar espingardas muy estimadas de todos os Principes. O _Crystal_ -em muitas partes deste Reino se acha em pedaços; e refere Duarte -Nunes,[313] que na Villa do Crato havia no seu tempo poços, donde se -tirava grande quantidade. O mesmo se acha nas montanhas de S. Mamede -de Val-Longo, termo de Aguiar de Sousa, e em S. Vicente de Caldellas, -termo de Pica de Regalados.[314] - -10 No Concelho de Gondomar na Freguezia de S. Christovaõ de Rio-Tinto -ha minas de _Talco_ taõ bom, que se conduz por negocio para muitas -partes. _Chumbo_ se extrahe de Aremenha. Que diremos das grandes -cantarias de tantas variedades de pedras, quantas vemos em todo o -Reino? Os marmores brancos taõ admiraveis, que se tiraõ da Villa de -Estremoz: os pretos de Cintra: os vermelhos, azuis, amarellos, e pardos -de Pedro Pinheiro, com os quaes se fabricou o Real Templo de Mafra, -que, com o adorno de tanta diversidade de pedras, bem podemos dizer, -que he huma joya preciosa, ou hum vistoso ramalhete, em que está unida -a robustez com a delicadeza, o natural com o artificioso. Com igual -estimaçaõ vemos os pórfidos de Setubal, e os celebrados marmores -da serra da Arrabida, e os de Montes Claros, e os de Villa Viçosa, -dos quaes se tem aproveitado ainda os melhores edificios de terras -estranhas.[315] - -11 Naõ longe de Coimbra ha huma casta de pedra muy clara, e lustrosa, -mas taõ branda, que basta qualquer prego sem maceta para a lavrar.[316] -Outra mais admiravel se produz no Lugar das Antas, termo da Villa da -Arruda, com a qual costumaõ ladrilhar os fornos, em que se coze o paõ; -porque tem ella tal virtude, e calor intrinseco, que basta receber pela -manhã a quentura sufficiente, para a conservar todo o dia, sem ser -necessario renovar-se o fogo, ou administrarlhe mais lenha.[317] A esta -especie podemos ajuntar as pedras molares de Cezimbra, e Porto de Mós, -e as admiraveis pederneiras de espingarda, que ha por Alcantara junto -de Lisboa, com todas as suas pedreiras matrizes de muita differença de -pedra, que com a falta de curiosidade inda ignoramos. - -12 Poucas terras levaráõ vantagem à nossa na producçaõ dos _Barros_ -finos, aptos para a fabrica de cousas domesticas. Entre todos merece -o primeiro lugar o barro vermelho, e odorifero de Estremoz, de que -se fazem preciosos pucaros, os quaes naõ só tem a galantaria de -ficarem prezos, e pendurados nos beiços, quando por elles se bebe, -mas tem a virtude bezoartica, e alexifarmaca, com que se extenuaõ as -qualidades do veneno,[318] pelo que he bem merecida a estimaçaõ, que -em toda a parte lograõ. Em Roma no Museo do Padre Kirker, e Bonani, -que se conserva no Collegio dos Padres Jesuitas, os vimos com especial -recato; e em muitos gabinetes de Monsenhores, e Principes de Italia -constituem naõ pequeno adorno. Depois destes seguem-se os de Lisboa, -chamados pucaros da Maya, ou do Romaõ, feitos com summa delicadeza, -e formosura especialmente aquelles, a que chamaõ de alètria, de hum -barro tambem odorifero, com os quaes lá lhe achou huma bella analogia -o discreto Camões[319] para comparar as formosas Damas Lisbonenses. Os -de Montermór o Novo, Sardoal, Aveiro, e Pombal saõ fabricados de barros -igualmente selectos, naõ sendo para desprezar a louça de barro, que se -fabrica na Villa das Caldas. - -13 De _Azeviche_ ha muitos mineraes, mayormente na Villa da Batalha, -de que se fazem curiosos brinquinhos, e figuinhas, as quaes trazidas à -vista dizem que saõ contra o quebranto, e fantasmas melancolicas:[320] -por isso rara he a criança neste Reino, que naõ ande armada de muitas -destas figas contra o máo olhado. O Padre Eusebio Nieremberg[321] -approva a virtude natural do azeviche para este effeito, mas condemna a -effigie. - -14 A formosura do _Coral_ nos contribue muitas vezes o mar de Peniche, -lançando-o pelas prayas em ramos, e esgalhos bem galantes, de que temos -visto alguns. O _Vermelhaõ_ se colhe no rio Minho, donde tomou o nome, -e de que falla Justino.[322] No tempo delRey D. Manoel se descubriraõ -minas de vermelhaõ, e de _Azougue_.[323] O cheiroso _Ambar_ acha-se -algumas vezes pelos areaes de Troya defronte de Setubal, que o mar -lança fóra, quando tem andado tempestuoso. O _Salitre_ naõ falta pelas -grutas de Alcantara.[324] - -15 O _Sal_ se coalha copiosamente nas muitas marinhas, que ha em -Aveiro, Santo Antonio do Tojal, e em Setubal, bastando só os direitos -Reaes destas salinas de Setubal para satisfazerem aos Hollandezes -os milhões, que se obrigou o Reino a pagarlhe pelo Tratado da liga -defensiva, concluindo-se o anno de 1703 o seu ultimo pagamento. -Bastante prova he desta fertilidade o grande numero de navios -estrangeiros, que continuamente vemos em nossos portos a fazerem -carregações do sal, que lá nas suas terras naõ tem: e he isto taõ -antigo, que affirma Pedro de Mariz[325] verse em tempo delRey D. -Pedro I. nos portos de Lisboa, e Setubal muitas vezes quatrocentos, e -quinhentos navios a esta carga, e outras nossas mercadorias. Seguia-se -tratarmos agora do Commercio do Reino; mas como reservamos esta -noticia para quando descrevermos Lisboa, primario archivo de todas as -grandezas, e trafegos de Portugal, passemos à averiguaçaõ das moedas, -que se tem lavrado, com toda a sua diversidade, e valor. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[286] 1 Machab. 8. - -[287] Plinio lib 33. cap. 4. - -[288] Strab. lib. 3. de Situ Orbis: _Nec in alia parte terrarum tot -sæculis hæc fertilitas._ Plin. alleg. - -[289] Justin. lib. 44. - -[290] Costa, Corograf. Port. tom. 1. p. 374 e 452. - -[291] Ibid. tom. 3. p. 337. Argot. Antig. da Chancel. de Brag. p. 224. -e 332. - -[292] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 30. - -[293] Ibid. Monarq. Lusit. - -[294] Silio Italico, Martial, e outros apud Maced. Flor. de Hespanh. -cap. 4. excel 2. - -[295] Duarte Nun. Descripç. de Portug. cap. 14. - -[296] Resend Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 61. Marian. lib. 25. c. 11. -Osor. liv. 2. de Reb. Emman. Andrad Chron. delRey D. Joaõ III. part 3. -cap. 15. - -[297] Freitas de Justo Imperio Lusit. cap. 16. _Ita ut ante Indiæ -explorationem nullum ex Europæis Regnum opulentius Lusitano -inveniretur._ - -[298] Botelh. no Alfonso da impressaõ de Salamanc. ann. 1731 liv. 10. -est. 76. & seqq. - -[299] Far. na Europ. Portug. tom. 3 part. 3. cap. 8. n. 10. Corograf. -Port. tom. 3. p. 171. - -[300] Plin. lib. 33. c. 4. - -[301] Duart Nun Descripç. de Port. cap. 14. Memor. instruct tom. 1. p. -210. - -[302] Duart Nun. Descripç. de Portug. p. 44. - -[303] Far. na Europ. Port. tom. 3. p. 183. Corograf. Port. tom. 2. p. -513. - -[304] Bluteau, Vocab. verb. _Turqueza_. - -[305] Corograf. Portug. tom. 3. pag. 52. Blut. verb. _Jacintho_. - -[306] Memor. instruct. tom. 1. pag. 112. - -[307] Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. Avila, Grand de Madrid. liv. -4. - -[308] Xivier part. 5. Pontif. lib. 3. cap. 4. - -[309] Serões do Princip. part. 1. disc. 6. § 10. - -[310] Corogr. Port. tom 2. p. 393. - -[311] Duart Nun. Descr. de Port. p. 42. - -[312] Sever. Notic. de Port. disc. 1. - -[313] Duart. Nun Descripç. de Port. p. 42. - -[314] Corogr. Port. tom. 1. p. 244. e 374. Monarq Lusit. liv. 16. cap. -30. - -[315] Duart. Nun. Descripç. de Portug. p. 45. Luiz Mendes no Sitio de -Lisb. p. 192. - -[316] Far. Europ. Port. tom. 3. p. 183. - -[317] Rodrig. Mend. da Silv. na Poblac. gener. de Hesp. p. 130. e -Duart. Nunes ut supr. - -[318] Aldrovand. in Musæo Metal. lib. 2. pag. 229. Curvo na Polyanth. -p. 592. mihi n. 15. Fonseca no Aquil. p 210. - -[319] Cam. cart. 1. - -[320] Dioscorid. lib. 5. cap. 103. Plin. liv. 25. cap. 10. S. August. -de Civit. Dei cap. 91. - -[321] Nieremb. Filosof. Natur. - -[322] Justin. lib. 44. cap. 4. - -[323] Monarq. Lusit. tom. 5. p. 80. - -[324] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 216. - -[325] Mariz Dialog. 3. cap. 6. - - - - - CAPITULO XII. - -_Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem -lavrado em Portugal._ - - -1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as -do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno -83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha, -mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo -perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma -estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.[326] Era -ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ -achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos. - -2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida -a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria -nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas -daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por -especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em -todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e -cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.[327] - -3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno -411 de Christo até o de 570, que he o em que governou Leovigildo com -poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo -até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal -abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3. -Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o -qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata -batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere -Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e -a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu -poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no -reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver, -que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem -diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora, -com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda -huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem -embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda -de prata do tempo dos Godos.[328] - -4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ -as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de -metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas, -principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes -de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé. -Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e -permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando -I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por maravedis, -assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se -estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que -estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma -resumida memoria pelo estylo, que observamos. - -5 _Alfonsim_. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que delle -tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.[329] Era de tres -qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia pouco mais -de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum tostaõ, e -valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre o nome -_Alfo_ huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas, que tinhaõ -a letra _L_, por serem abertas em Lisboa, outras a letra _P_, por -serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta inscripçaõ: _Adjutorium -nostrum in nomine Domini_. O mesmo se lia da outra parte, onde estavaõ -os cinco escudos do Reino postos em Cruz. O Alfonsim de ouro valia -quinhentos e tantos reis.[330] Todas estas moedas tinhaõ o mesmo cunho. - -6 _Aureo_. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II. pelos -annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo Padre -Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas de -Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da -Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas -mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua -figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: _Sancius Rex -Portugaliæ_ de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que -nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais, -e a letra à roda: _In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti. -Amen_;[331] e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de -cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se -acha no Reino. - -7 _Barbuda_, ou _Celada_. Foy moeda de prata muito ligada, que mandou -lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma parte tinha -hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo chamavaõ -Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma coroa, e pela -orla da moeda a letra: _Si Dominus mihi adjutor, non timebo_: da outra -parte huma Cruz da Ordem de Christo, que tomava todo o vaõ, e no meyo -da Cruz hum escudo pequeno com as quinas de Portugal, e nos angulos da -Cruz quatro castellos, e em roda a letra: _Fernandus Rex Portugaliæ, -Alg._ No tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real vem aberta a sua -figura, cuja circumferencia se póde ver melhor, que por informaçaõ dos -Authores, os quaes discrepaõ muito nas medidas da sua grandeza. - -8 _Calvario._ Era certa moeda de ouro de 22 quilates, e tambem -chamavaõ cruzados, que mandou lavrar ElRey D. Joaõ III. com o valor -de quatrocentos reis, que depois subio a seiscentos reis. Tinha de -huma parte a Cruz sobre o monte Calvario, que daqui tomou o nome, com -a letra em roda: _In hoc signo vinces_: da outra banda o escudo Real -coroado, e a letra: _Joann. III. Port. & Algarb. R. D. Guin._ - -9 _Ceitil._ Mandou lavrar esta moeda de cobre ElRey D. Joaõ I., ou na -occasiaõ em que tomou a Cidade de Ceuta aos Mouros, como dizem alguns -Authores, ou porque era cada dinheiro destes a sexta parte de hum real -de cobre, e por isso ceitil he o mesmo, que sextil, e esta nos parece a -mais verdadeira deducçaõ. Lavraraõ-na os Reys successores até ElRey D. -Sebastiaõ.[332] - -10 _Conceiçaõ._ Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Joaõ IV. em ouro, -e em prata no anno de 1648. A de ouro valia doze mil reis: tinha de -huma parte a effigie da Senhora da Conceiçaõ com tres symbolos deste -Mysterio por cada lado, e em circulo as letras: _Tutelaris Regni_: da -outra parte estavaõ as armas Reaes no meyo de huma Cruz da Ordem de -Christo, e na cercadura: _Joannes IIII. D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ -Rex_. A de prata tinha o mesmo cunho, mas era de mayor diametro, que os -cruzados novos, e corria com o valor de seiscentos reis. A origem, que -houve para se cunhar esta moeda, foy assim: - -11 Depois que o felicissimo Rey D. Joaõ IV. fez tributario o Reino de -Portugal à Conceiçaõ da Senhora em cincoenta cruzados de ouro cada -anno, applicados para a sua Real Capella de Villa Viçosa, jurando, e -tomando neste Mysterio a Senhora por Protectora do Reino em Cortes do -anno de 1646[333] tratou logo de lhe pagar o tributo em moeda especial, -e para isso mandou abrir a França hum cunho da fórma, que temos dito, -o qual trouxe, e fez Antonio Ruiter, a quem se deu tres mil reis, que -dispendeo com a abertura do ferro, como consta do liv. 1. do Registo -da Casa da Moeda pag. 256. vers. donde inserimos, que o primeiro anno, -em que ElRey fez a sobredita offerta, seria no anno de 1648, por ser -este anno o que se vê expresso na sobredita moeda, a qual desde o anno -de 1651 principiou a ser moeda corrente pela ley, que sahio para isso. -E sem embargo de que no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real -pag. 287. se diga, que humas, e outras moedas corriaõ com pezo de huma -onça, foy equivocaçaõ; porque da mesma ley, que vem no dito tomo a pag. -359. se vê, que as de ouro corriaõ com o pezo de doze oitavas, e valiaõ -por doze mil reis; e as de prata com pezo de huma onça, e corriaõ por -seis tostões: e pezo de doze oitavas he onça e meya. - -12 ElRey D. Affonso VI. continuou tambem a mandar lavrar as sobreditas -moedas em todo o tempo do seu governo, e da mesma sorte ElRey D. Pedro -II. e nesta moeda se fazia a offerta de vinte e quatro mil reis no dia -da festa da Conceiçaõ, em cujo dia trazem pendente ao pescoço os tres -Officiaes, que administraõ a Casa da Senhora, huma das taes moedas. No -anno porém de 1685 teve fim a fabrica destas moedas, porque desde entaõ -nunca mais se lavrarão, entregando-se os referidos vinte e quatro mil -reis em outra qualquer moeda para a despeza da festa de Villa Viçosa. - -13 _Coroa._ Foy moeda de ouro, que mandou lavrar ElRey D. Duarte com -o valor de 216 reis. ElRey D. Manoel tambem a mandou lavrar, e valia -120 reis: chamava-se _Meya coroa_. Este preço conservou até o reinado -delRey D. Joaõ III. e ElRey D. Sebastiaõ.[334] - -14 _Cruzado._ Quando o Papa Pio II. mandou a Bulla da Cruzada para -a guerra santa contra os Turcos, ordenou ElRey D. Affonso V. que se -lavrasse huma moeda de ouro subido de 24. quilates, e que se chamasse -cruzado em reverencia da Bulla, e com o valor de 400 reis. Tinha de -huma parte a Cruz de S. Jorge com a letra: _Adjutorium nostrum in -nomine Domini_; e da outra o escudo Real com a coroa sobre a Cruz da -Ordem de Aviz com estas letras: _Cruzatus Alphonsi Quinti R._ Manoel de -Faria[335] mostra que vio huma moeda destas com differente cunho. No -anno de 1561 valia cada cruzado destes 500 reis, e depois foraõ subindo -ao valor de 600 reis, e deste ao de 640.[336] - -15 Presentemente correm cruzados novos de ouro, que mandou lavrar -ElRey D. Joaõ V. desde o anno de 1718 com o valor intrinseco de 400 -reis, e na estimaçaõ commua de 480. Por Decreto de 8 de Fevereiro de -1730 mandou o mesmo Senhor que se lavrasse nas Minas quartos de escudo -de ouro com o valor extrinseco de 400 reis cada hum, e intrinseco de -375 reis, tendo de huma banda o retrato delRey, e da outra na parte -superior huma coroa Real, na inferior a era, em que se fabricaõ, e na -circumferencia o nome delRey. A esta moeda chamamos cruzado, dos quaes -já naõ ha muitos. - -16 ElRey D. Joaõ IV. mandou lavrar cruzados de prata com o valor de 400 -reis, e meyos cruzados com 200 reis de valia. Depois foraõ subindo até -o reinado delRey D. Pedro II. que levantou os cruzados a seis tostões, -e os meyos cruzados a tres tostões, mandando tambem lavrar cruzados -novos de prata com o valor de 480, e meyos cruzados com o de 240, a -que presentemente chamamos doze vintens, e que ainda correm nos nossos -tempos. - -17 _Dinheiro._ Foy moeda de cobre, que tinha de huma banda a Cruz da -Ordem de Christo com duas estrellas, e duas meyas luas nos vaõs, e a -letra _A. Rex Portugaliæ_: da outra parte tinha as cinco quinas com a -letra: _Algarbii_. Valia hum ceitil menos hum decimo. Destes dinheiros -faz mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. §. 17. - -18 _Dobra._ Moeda de ouro de varias castas: _Portuguezas_, -_Castelhanas_, _Mouriscas_, ou _Barbariscas_. As Portuguezas -chamavaõ-se _Cruzadas_, que mandou lavrar ElRey D. Diniz com o valor -de 270 reis: outras se chamaõ _Dobras delRey D. Pedro_, e valiaõ -147 reis. Das Dobras Castelhanas havia humas, que se chamavaõ da -_Banda_, por serem lavradas por ElRey D. Affonso XI. de Castella, e -tinhaõ de huma parte a banda, insignia da Ordem Militar, que o mesmo -Rey instituio, e valiaõ 216 reis: com este nome faz dellas mençaõ a -Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. Tambem se chamavaõ _Valedias_, porque -valiaõ, e corriaõ em Portugal. Havia outras dobras com o nome de _Dona -Branca_, e outras _Sevilhanas_, que mandou bater em Sevilha ElRey -D. Affonso o _Sabio_, e valiaõ 600 reis. Tinhaõ de huma parte ElRey -armado a cavallo com a espada na maõ, e a letra em roda: _Dominus mihi -adjutor_: da outra parte as armas de Castella, e Leão com o letreiro: -_Alfons. R. Castellæ, & Leg_.[337] As _Mouriscas_, ou _Barbariscas_ -valiaõ 270 reis. ElRey D. Pedro I. mandou lavrar _Meyas dobras_ com o -valor de 73 reis e meyo. - -19 _Ducataõ de ouro._ Quando ElRey D. Sebastiaõ foy a Guadalupe, mandou -lavrar esta moeda: huma com o valor de quarenta mil reis, outra de -trinta, outra de dez cruzados.[338] - -20 _Engenhoso._ Foy moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sebastiaõ no -anno de 1562 com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a Cruz com a -letra: _In hoc signo vinces_; e da outra banda o escudo do Reino com a -letra: _Sebastian. I. Rex Portugal._ Chamou-se esta moeda do Engenhoso, -por assim se chamar Joaõ Gonçalves, natural de Guimarães, que fez o -cunho. Ordenou o elle de sorte, que as moedas sahiaõ fundidas de pezo, -e com hum circulo ao redor para naõ se poderem cercear.[339] - -21 _Escudo._ Moeda de ouro com muita liga, que mandou fazer ElRey D. -Duarte com a valia de 90 reis. ElRey D. Manoel a mandou desfazer. - -22 _Espadim._ Houve neste Reino moedas com este mesmo nome de tres -castas. _Espadins de ouro_ mandou-os lavrar ElRey D. Joaõ II. com o -valor de 320 reis. Tinha de huma parte o escudo do Reino com a letra: -_Adjutorium nostrum in nomine Domini_; e do reverso huma espada -empunhada com a ponta para cima, e em circulo o nome delRey. Em tempo -delRey D. Manoel valia 500 reis. _Espadins de prata_, que mandou -abrir ElRey D. Affonso V. com o mesmo cunho que os de ouro, só com -a differença de ter a ponta da espada voltada para baixo. Chamou-se -Espadim em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista -de Fez, como diz Severim.[340] Valiaõ 24 reis. _Espadins de cobre_ -prateados mandou bater ElRey D. Joaõ II. com o valor de quatro reis. - -23 _Forte._ Com este nome mandou lavrar ElRey D. Diniz huma moeda de -prata com o valor de dous vintens, ou quarenta reis; e meyos Fortes, -que valiaõ hum vintem. Tinha hum, e outro de huma parte o habito de -Christo com a letra: _Dionysius Rex Portugal. & Algarb._ da outra parte -as armas do Reino, e a letra: _Ajutorium nostrum in nomine Domini_. -Houve outros Fortes, e meyos Fortes, que fez bater ElRey D. Fernando em -preço de 29 reis, que depois abateo a 16. - -24 _Frizante._ Foy moeda de prata, que corria no tempo de nossos -primeiros Reys, mas naõ se sabe de que valor era. A Monarquia Lusitana -faz mençaõ desta moeda.[341] - -25 _Gentil._ ElRey D. Fernando mandou lavrar esta moeda de ouro, mas de -quatro castas. Havia Gentil de hum ponto, e valia 162 reis: Gentil de -dous pontos 144 reis: Gentil de tres pontos 126 reis: Gentil de quatro -pontos 116 reis. Fr. Antonio da Purificaçaõ[342] diz, que o Gentil -delRey D. Fernando valia 720 reis. - -26 _Grave._ Moeda de prata, que mandou bater ElRey D. Fernando do -tamanho de meyo tostaõ, e valia 21 real. Tinha de huma parte a letra -_F_, primeira do seu nome, e sobre ella huma coroa dentro em hum -escudo, e nos lados duas Cruzes, com a letra na orla: _Si Dominus mihi -adjutor_. No reverso tinha a Cruz de S. Jorge sobre hum escudo rodeado -de quatro castellos, e o nome do Rey na cercadura. - -27 _Indios._ Mandou ElRey D. Manoel no anno de 1499 lavrar esta moeda -de prata com o valor de 33 reis em memoria do descubrimento da India. -Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo com o letreiro: _In hoc -signo vinces_; e da outra parte as armas do Reino com a letra: _Primus -Emanuel_. - -28 _Justo._ Esta moeda era de ouro, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II. -e valia 600 reis. De huma parte tinha o escudo Real já com as quinas -direitas sem a Cruz de Aviz, e o nome delRey na cercadura; e no reverso -tinha a effigie delRey sentado em hum throno com a espada na maõ entre -dous ramos de palma, e a letra em roda: _Justus ut palma florebit_. - -29 _Leal._ Era moeda de prata, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II. com -valor de doze reis. Tinha de huma parte a letra _Leal_ por baixo de -huma Cruz; e da outra parte o escudo do Reino com o nome delRey na orla. - -30 _Livra._ Foy moeda lavrada em varios reinados, e de varias castas, -donde procede a alteraçaõ de seu valor. A _Livra de ouro_ em tempo -delRey D. Diniz valia oito vintens: o mesmo valor tinha já no reinado -delRey D. Affonso III. No tempo delRey D. Joaõ I. valiaõ pouco mais -de 82 reis. A _Livra de prata_ era de dous generos: _Antigas_, e -_novas_. Havia livras antigas, por cada huma das quaes se haviaõ de -pagar setecentas das novas, e assim valia cada huma das antigas 36 -reis: e havia tambem livras antigas, por cada huma das quaes se pagava -quinhentas das novas, e entaõ valia cada huma 25 reis. A _Livra de -cobre_ era de tres sortes; porque havia livra de dez soldos, que valiaõ -tres reis e meyo: livras de dez livras pequenas, e valiaõ meyo real: -livras de tres livras e meya, que valiaõ real e meyo, e corriaõ até o -anno de 1407. - -31 _Maravedim_, ou _Morabitino_. Foy moeda, que introduziraõ no Reino -os Mouros Almoravides, ou Morabitos, que significa _Fieis_, segundo o -mostra Aldrete.[343] Havia maravedim de ouro, que mandou lavrar ElRey -D. Sancho I. com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a effigie -delRey a cavalo com a espada nua na maõ, e pela orladura: _In nomine -Patris, & Filii, & Spiritus Sancti._ No reverso tinha o escudo Real, e -o nome delRey em gyro. Os maravedís Mouriscos naõ tinhaõ mais que huns -caracteres, ou attributos de Deos de huma parte, e da outra, o nome do -Principe, que os mandara abrir. Houve tambem maravedís de prata, que -corriaõ com o valor de 27 reis. - -32 _Mealha._ Naõ era moeda, que tivesse cunho particular, mas era -metade da moeda, que chamavaõ _Dinheiro_, e valia meyo ceitil. - -33 _Nomeada._ Moeda de prata, que fez lavrar ElRey D. Joaõ I. e seu -filho ElRey D. Duarte. Naõ se sabe o que valia. Tinha de huma banda a -Cruz de S. Jorge com a letra: _Dominus adjutor fortis_; e da outra o -escudo do Reino com o nome delRey na circumferencia. - -34 _Patacaõ._ Era moeda de cobre com o valor de dez reis, que mandou -fazer ElRey D. Joaõ III. Tinha de huma parte o escudo Real coroado -com o nome delRey, e da outra parte a letra _X_, com a inscripçaõ: -_Rex Quintusdecimus_. Havia tambem meyos patacões com a letra _V_, que -valiaõ cinco reis. ElRey D. Sebastiaõ reduzio esta moeda ao valor de -tres reis. - -35 _Peças._ Moeda de ouro, que corria no tempo do Infante D. Pedro, -Duque de Coimbra. ElRey D. Joaõ II. a mandou desfazer. - -36 _Pé-Terra._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Fernando com o -valor de 216 reis. - -37 _Pilarte._ Foy moeda de prata, que lavrou ElRey D. Fernando com o -valor de treze reis, e dous ceitis. O nome de Pilarte foy posto em -attençaõ, ou memoria dos pagens dos soldados estrangeiros, que lhe -levavaõ os capacetes, ou barbudas, a que o Francez chama _Pilartes_. - -38 _Portuguez._ ElRey D. Manoel, do ouro, que lhe vinha das Conquistas -da Asia, fez lavrar humas moedas, que se chamaraõ _Portuguezes_ de 500 -ducados cada huma, e depois mandou lavrar outras, que valiaõ quatro -mil reis. Destas houve tanta copia, que nas praças naõ se pagava por -quasi todo o Reino com outra moeda, senaõ com a chamada Portuguezes de -ouro.[344] Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo, e a letra -em roda: _In hoc signo vinces_; e da outra o escudo Real coroado com -as letras: _E. R. P. A. C. U. A. D. G._ que queriaõ dizer: _Emmanuel -Rex Portugaliæ, Algarb. q. Citra, Ultra Afric. Dommus Guineæ._ Tinha -outro letreiro por fóra junto à garfila, ou orla: _C. C. N. E. A. P. -I._ que dizia: _Comercio, Conquista, Navegaçaõ, Ethiopia, Arabia, -Persia, India._ ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar da mesma -fórma. ElRey D. Joaõ V. mandou lavrar em Lisboa no anno de 1718 -_Portuguezes de ouro_ de 22 quilates, e com o valor de 19200 cada -Portuguez, os quaes foraõ sómente para se lançar nos alicerses da Real -Igreja de Mafra. Tambem ElRey D. Manoel mandou fabricar _Portuguezes de -prata_ no anno de 1504, e valia cada hum 400 reis. A estes Portuguezes -depois resuscitou ElRey D. Joaõ IV., e ElRey D. Pedro II. chamando-lhe -_Cruzados_. - -39 _Quatro vintens._ Mandou lavrar esta moeda de prata ElRey D. Joaõ -III. que de huma parte tem o nome do Rey com coroa, e o numero LXXX. e -na orla a letra: _Rex Portug. & Algarb._ Da outra parte tem a Cruz de -S. Jorge com a sabida inscripçaõ: _In hoc signo vinces._ - -40 _Real._ Esta moeda a mandou lavrar em prata varias vezes ElRey -D. Joaõ I. sempre com o mesmo valor, mas cada vez de menor pezo. Os -primeiros valiaõ nove dinheiros, os segundos seis dinheiros. Até o -tempo delRey D. Manoel corriaõ Reaes de prata com o valor de vinte -reis, e outros de trinta. ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar -com o valor de quarenta reis, e com os mesmos cunhos da moeda de quatro -vintens, mudando o numero 80 em 40. A mesma moeda fez lavrar D. Joaõ -IV. e he o chamado meyo tostaõ, que hoje corre. Havia Real de cobre -de varias sortes: huns tinhaõ mistura de estanho, com que ficavaõ -mais claros, e se chamavaõ _Reaes brancos_. Mandou lavrallos ElRey -D. Duarte, e D. Affonso V. Os que se lavraraõ antes do anno de 1446 -valiaõ dez ceitis. Havia outros Reaes chamados _Pretos_, por serem de -cobre puro, e valiaõ pouco mais de hum ceitil. ElRey D. Joaõ II. para -desterrar tanta confusaõ de Reaes, fez lavrar Real de cobre de seis -ceitis. O mesmo fizeraõ seus Successores até ElRey D. Joaõ III. Tinhaõ -de huma parte hum _R_, debaixo de huma coroa, e da outra o escudo do -Reino com o nome delRey na orla. ElRey D. Sebastiaõ fez lavrar _Meyos -Reaes_ com a valia de tres ceitis: tinha de huma banda hum _S_ coroado, -e da outra hum _R_ entre dous pontos. - -41 _Sinquinho._ Moeda de prata delRey D. Joaõ II. e D. Manoel: valia -cinco reis. O delRey D. Manoel tinha de huma parte os cinco escudos do -Reino em Cruz com as letras: _Emmanuel P. R. & Al._ da outra huma malta -com a mesma letra. Tambem ElRey D. Joaõ IV. fez lavrar Sinquinhos de -prata. - -42 _Soldo._ Foy moeda das mais antigas do Reino lavrada em ouro, prata, -e cobre. A de ouro valia oito reales, ou dezaseis vintens: a de prata -dez reis: a de cobre hum real. Este soldo em tempo delRey D. Joaõ I. -chamava-se _Moeda-Febre_. - -43 _Talento._ Corria esta moeda no governo delRey D. Sancho I. no anno -de 1188, e valia quatro ducados, ou cruzados, e era de ouro. - -44 _Tornezes._ Moeda de prata em tempo delRey D. Pedro I. Tinha de -huma parte a cabeça delRey com barba comprida, e a letra: _Petrus Rex -Portugal. & Algarbii_: da outra banda o escudo do Reino, e na orla a -letra: _Deus adjuva me_. Valia treze reis. ElRey D. Fernando tambem -lavrou _Tornezes_, que valiaõ oito soldos, ou quatorze reis. - -45 _Tostaõ._ ElRey D. Manoel mandou bater esta moeda em ouro, e em -prata. A de ouro era o quarto de ouro dos _Portuguezes_: a de prata -valia cem reis. Tinha de hum lado a Cruz da Ordem de Christo com a -letra: _In hoc signo vinces_; e do outro as armas do Reino com coroa, e -o nome do Rey na orladura. Mandou lavrar tambem _Meyos tostões_ com os -mesmos cunhos, e letras, e valiaõ cincoenta reis. - -46 _S. Vicente._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Joaõ III. com -o valor de mil reis. Tinha de huma parte a imagem de S. Vicente com -huma náo na maõ esquerda, e hum ramo de palma na direita com a letra: -_Zelator Fidei usque ad mortem_: da outra parte o escudo Real com a -letra: _Joan. III. Rex Portug. & Algarb._ - -47 _Vintem._ Moeda de prata, que teve principio no tempo delRey D. -Affonso V. e todos os mais Reys continuaraõ a mandar lavrar, ainda que -com a fórma, e figura mudada, mas sempre com o valor de vinte reis. -Em tempo dos Reys Filippes houve a moeda de meyo vintem em prata, que -valia dez reis. - - _Dinheiro, que presentemente corre._ - - _Em ouro._ _Valor._ _Pezo._ - - Dobraõ de 24U000 15 oitavas. - Meyo dobraõ de 12U800 1 onça. - Dobra de 4 escudos 6U400 4 oitavas. - Meya dobra de 2 esc. 3U200 2 oitavas. - Moeda de ouro de 4U800 3 oitavas. - Meya moeda 2U400 oitava e meya. - Escudo 1U600 1 oitava. - Quarto de moeda 1U200 54 grãos. - Meyo escudo U800 meya oitava. - Cruzado novo U480 21 grãos. - Quarto de escudo U400 18 grãos. - - _Em prata._ _Valor._ _Pezo._ - - Cruzado novo 480 4 oitavas 59 grãos. - Doze vintens 240 2 oitavas 29 grãos. - Seis vintens 120 1 oitava 14 grãos. - Tostaõ 100 1 oitava. - Tres vintens 60 43 grãos. - Meyo tostaõ 50 36 grãos. - Vintem 20 17 grãos. - - _Em cobre._ _Valor._ - - Moeda de 10 reis. - Moeda de 5 reis. - Moeda de 3 reis. - Moeda de 1 real e meyo. - -Por Ley do anno de 1732 prohibio ElRey D. Joaõ V. que se lavrassem -Dobrões de doze mil e oitocentos, Moedas de quatro mil e oitocentos, -nem outras, que excedaõ o valor de seis mil e quatrocentos reis; e que -em todas, assim nas que corriaõ, como nas que se lavrassem, se pozesse -a sarrilha, que tem as de prata. - - _Noticia, do valor, que tem tido o marco de ouro, e prata - neste Reino em varios governos._ - - _Rey._ _Metal._ _Valor._ - - D. Sancho I. Ouro 6U480. - D. Pedro I. Idem 7U380. - Idem Prata U945. - D. Fernando Idem U900. - D. Joaõ I. Idem 2U600. - D. Affonso V. Idem 1U260. - D. Manoel Idem 2U280. - D. Joaõ III. Ouro 30U000. - Idem Prata 2U600. - D. Sebastiaõ Idem 2U400. - Idem Idem 2U680. - D. Henrique Ouro 40U000. - Idem Prata 4U000. - D. Joaõ IV. Ouro 42U240. - Idem Idem 51U200. - Idem Idem 55U680. - Idem Idem 80U000. - Idem Prata 3U600. - Idem Idem 4U000. - Idem Idem 5U000. - D. Affonso VI. Idem 4U400. - Idem Idem 4U600. - D. Pedro II. Ouro 85U312. - Idem Idem 96U000. - Idem Prata 5U600. - D. Joaõ V. Ouro 96U000. - Idem Prata 5U600. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[326] Manoel Severim de Faria Notic. de Portug. disc. 4. §. 2. - -[327] Idem ibid Far. Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 11. Argot. -Memor. do Arcebisp. de Brag. tom. 3. no Supplem. ao liv. 4. pag. LVII. -Sousa na Histor. Geneal. tom. 4. p. 107. - -[328] Argot. ut supr. pag. LX. Monarq. Lusit. l. 6. c. 19. 21. e 22. - -[329] Chronic. delRey D. Fernand. cap. 58. - -[330] Fr. Anton. da Purificaç. Chronic. de S. Agost. part. 2 liv. 7. -tit. 6. §. 6. - -[331] Monarq. Lusitan. liv. 10. cap. 7. - -[332] Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 4. § 27. Cunha, Histor. -Eccl. de Lisb. tom. 1. p. 2. cap. 20. Far. na Europ. Port. tom. 3 part. -4. cap. 11. n 10. - -[333] Brandaõ na Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 23. part. 6. Maced. Eva, -c Ave part. 2. cap. 15. n. 27. - -[334] Fr. Anton. da Purific. allegad. e o illustr. Cunha na Histor. -Eccles. de Lisb. allegad. Ordenaç. delRey D. Man. liv. 4. tit. 1. - -[335] Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. II. n. 12. - -[336] Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. tom. 1. part. 2. cap. 20 n. 10. - -[337] Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. part. 2. cap. 20. n. 13. - -[338] Fr. Manoel dos Sant. Histor. Sebast. p. 488. - -[339] Barbos, Remiss. à Ord. tit. 21. liv. 4. p. 30. - -[340] Manoel Severim de Far. Notic. de Portug. disc. 4. §. 29. - -[341] Monarq. Lusit. p. 3. in Append. n. 16. - -[342] Purific. Chronic. de S. Agost. allegada. - -[343] Aldret. no Thesouro da lingua Castelh. vide etiam Bochart. in -Geograf. Sacra no principio da sua vida. - -[344] Far. no Comm. das Lusiad. de Cam. cant. 1. p. 115. - - - - - CAPITULO XIII. - -_Da Lingua Portugueza._ - - -1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou -Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes -multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou -Andaluzia;[345] porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade. -Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,[346] outros a Caldaica, ou -alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira -a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua -primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha. - -2 Filippe de la Gandara julga[347] que era idioma particular, e -distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que -usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de -Brito,[348] que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o -tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal -lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula, -porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto -viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera -Plinio.[349] - -3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a -estas partes muitas gentes de outras nações;[350] e como as linguas -entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ -os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que -ainda conservamos, e retemos.[351] Depois vieraõ os Romanos, e para -expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que -duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar. - -4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e -espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;[352] e -confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e -estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e -guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz -a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes -alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.[353] - -5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos, -Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia, -França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da -pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto -Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em -nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.[354] Verdade he que os -Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter -em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos; -porém como era gente mal disciplinada, misturou de tal fórma hum -com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e -impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos -fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que -introduzio o Bispo Ulfilas,[355] especialmente nos livros sagrados, e -Ecclesiasticos. - -6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e -perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso -Author muito erudito[356] diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando -livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os -Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se -conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio -Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar -que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto -muitas dicções, que principiaõ por _al_, e _xa_, e as que finalizaõ em -_z_, como observou o insigne Joaõ de Barros?[357] - -7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco -dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza -Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo -complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio -o discreto Bembo,[358] tratando da alteraçaõ, que tinha havido na -lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que -governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como -o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente -sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal -matiz, disse o Padre Joaõ de Mariana,[359] que a lingua Portugueza era -mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas -em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma, -que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos -compatriotas.[360] - -8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria[361] -que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse -respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo, -e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita -differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa[362] transcreve huma -carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha -Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente -o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas, -e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio -Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo -resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza. - -9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos -aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre -as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de -palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que -saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se -encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a -unica palavra _Saudade_ sabe exprimir com muito mayor força, e energia -a constancia do amor ausente; e com a voz _Magoa_ a penetrante dor do -sentimento. Para fallar em todo o genero de assumptos tem a extensaõ -necessaria de vocabulos, e modos abundantes: por isso disse bem o Tito -Livio Portuguez Joaõ de Barros,[363] que se Aristoteles fora nosso -natural, naõ fora buscar lingua emprestada para escrever na Filosofia, -e em todas outras materias, de que tratou; e se lhe faltara algum termo -succinto, fizera o que vemos em muitas partes aos presentes, que quando -carecem de termos Theologaes os Theologos para entendimento real da -cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos, Mathematicos, Juristas, e -Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na introducçaõ de vozes novas -naõ só he licito, mas preciso. - -10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido, -e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora -temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste -subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos -deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua -Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author[364] que a Portugueza -he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se -nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a -gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais -vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ -parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,[365] mas muito mais -semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.[366] E assim -como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras: -_Lascarim_, _Chatino_, _Zumbaya_, e outras muitas, que nos saõ já -domesticas, da mesma sorte tiveramos conquistado inteiramente a lingua -Latina, cujos vocabulos ainda assim tem degenerado taõ pouco no idioma -Portuguez, que sem violencia podem nelle comporse muitos discursos com -a mesma conformidade com a Latina,[367] o que naõ succederá facilmente -às outras locuções, que se prezaõ de serem seus dialectos. - -11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se -poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave; -porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas, -como saõ: _d_, _n_, _t_, _x_, assim como ouvimos a muitas linguas da -Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante de muitos Authores -graves Castelhanos,[368] que affirmaõ haver na lingua Portugueza esta -mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella aptissima, e notoria -facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e fallaõ com cadencia -todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o que naõ he taõ -factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ com a sua -verdadeira pronunciaçaõ.[369] - -12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso -dipthongo _aõ_, corruptamente deduzido do _om_ Francez, e Gallego, em -que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as dicções, que hoje -terminamos em _aõ_, excepto os da Provincia do Minho, que pela mayor -visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso. A quem se faz mais difficil -articular este dipthongo, he à gente Castelhana, porque tem o costume, -de finalizar com a letra _n_ quasi todas as palavras, que nós acabamos -em _m_. Este embaraço pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de -Mello da Fonseca no seu _Antidoto da lingua Portugueza_, cujo arbitrio -naõ foy bem aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque -este proprio mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito -com o _am_ dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de -verbos, e com tudo a defende Quintiliano;[370] nem deixa de parecer -grave, e suave a cadencia Latina com estas terminações, que com -mayor facilidade suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte -advertimos[371] para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza. - -13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto, -e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com -especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas -Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos -por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua -para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,[372] -allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: _Si -alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta -los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian, -commummente por la mayor parte eran en aquella lengua_. De maneira, -que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal -a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem -Provençaes,[373] assim na Hespanha era reputada mais propria para a -Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes, -por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo -porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas -publicas, de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no -idioma Portuguez.[374] - -14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem -he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que -se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para -que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda -das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já -mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras -Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ -entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que -as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa -pureza. - -15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P. -Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia -emendar,) disse onde imprimiraõ _Devoçaõ_, lea-se _Devaçaõ_; mas o -primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem mostrado -nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra _Homem_, -e outras assim semelhantes se escrevaõ sem _H_, como os Italianos. O -melhor he seguir a mediania, como fazem os doutos, cujo exemplo he -só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, e estravagancia, assim -como fez certo Author moderno, (posto que engenhoso) em huma nova -orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous _rr_ no principio -da dicçaõ,[375] contra toda a norma, e costume dos eruditos. Outras -muitas propriedades, e predicados da nossa lingua observou curiosamente -o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no discurso, que temos -allegado. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[345] Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5. - -[346] Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin. Siculo, -Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio Dextro p. -103. - -[347] Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5. - -[348] Monarq. Lusit. ut supr. - -[349] Plin. lib. 3. cap. 1. - -[350] Strab. lib. 1. & lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11. - -[351] Resend. lib. 1. Antiq. e nas Notas ao Poem. de S. Vicent. liv. 2. -not. 44. Far na Europ. Port. tom. 3. part 4. cap. 9. Matut. ut sup. §. -5. Joaõ Franco Barreto na Ortogr. Port. Luiz Martinho nas Antiguid. de -Lisb. liv. 1. c. 13. - -[352] Resend. lib. 3. Antiquit. _Abiere tandem in Romanorum mores -Lusitani, & civilitatem, linguamque Latinam, sicut & Turdetani -accepere._ Aldret. nas Antiguid. de Hesp. liv. 1. cap. 11. - -[353] Manoel Severim de Faria Notic. de Port. disc. 5. §. 2. - -[354] Kirquer de Turri Babel lib 3. p. 131. _Ex adventu Gothorum, -Alanorum, Vandalorum ingentem corruptionem passa, quaternas alias -peperit, Italicam, Gallicam, Hispanicam, Lusitanicam._ - -[355] Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 9. cap. 18. Yañes liv. 2. -p. 644. de la Era, y Fechas de Hesp. - -[356] Martinh. de Mendoç. Disc. Philolog. contr. P. Feijó impress. em -Madrid ann. 1727. - -[357] Joaõ de Barr. Dialog. do louv. da nossa linguag. p. 56. - -[358] Bemb. nas Pros. liv. 1. p. 16. vers. - -[359] Marian. Histor. de Hesp. lib. 1. cap. 5. - -[360] Veja-se a Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9. e no -Comm. das Rim. de Cam. tom. 4. part 2. pag. 81. Brit. Chronic. de -Cister liv. 6. cap. 1. - -[361] Idem Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9. - -[362] Sousa no Agiolog. Lusit. tom. 4. pag. 58. Veja-se o Apparat. da -Histor. Geneal. do mesmo Author tom. 1. p. 208. e a Leitaõ Ferreira nas -Noticias Chronolog. n. 574. - -[363] Joaõ de Barr. Dialog ut supr. pag. 55. - -[364] Gregor. Lop. Madeira no Disc. del monte Santo de Granad. part. 2. -cap. 19. p. 70. - -[365] Camões Cant. 1. Lusiad. est. 33. - -[366] Kirquer de Turri Babel lib. 3. cap. 1. p. 131. - -[367] Joaõ de Barros, Manoel de Far. Joaõ Franco Barreto já allegados. -Manoel Severim de Far. Disc. var. disc. 2. Macedo nas Flores de -Hespanh. cap 22 excel. 7. - -[368] Marian. Histor. de Hesp. liv. 1. cap. 5. Lope da Vega na Descr. -da Tapada, e na Dorot. act. 2. scen. 2. pag. 40. - -[369] Veja-se a Faria no Prologo do tom. 1. da Europ. Port. e a D. -Bernarda Ferreira na España libertada cant. 1. est. 6. - -[370] Quintil. lib. 9. cap. ult. - -[371] No Espelho da Eloquencia §.7. n.4. - -[372] Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273. - -[373] Bembo nas Pros. pag. 10. - -[374] Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na Monarq. -Port. liv. 16. cap. 3. - -[375] Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier de Oliv. -Cart. 7. p. 54. - - - - - CAPITULO XIV. - -_Do Genio, e costumes Portuguezes._ - - -1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no -assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e -inclinações das gentes de qualquer Paiz:[376] por isso depois de ter -dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras -especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso -intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus -habitadores. - -2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua -primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por -agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos, -e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e -intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem -elles nossos progenitores.[377] Com a melhor cultura, e Religiaõ se -melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada -de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do -tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço, -espirito, valentia, e gloria militar. - -3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ -os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os -antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida nos -Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo -affirmou,[378] que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes -os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio, -Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos, -e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,[379] cujos testimunhos, -e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor -grandeza, e indubitavel. - -4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor, -que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso -da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das -acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima -o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este -brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para -o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais -de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,[380] -excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas -tanto souberaõ engrandecer. - -5 A _Lealdade a seus Principes soberanos_ he outra admiravel prenda, -de que só os corações Portuguezes podem blazonar com grande -singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ -salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos -para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já -mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do -doutissimo Thomás Bosio,[381] natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de -outros gravissimos Authores.[382] Ardem os Portuguezes no amor do seu -Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o -receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.[383] - -6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar, -e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa -constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio -della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e -padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos; -de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que -disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta[384] ao Rey de -Melinde: - - _Crês tu que se este nosso ajuntamento - De Soldados naõ fora Lusitano, - Que durara elle tanto obediente - Por ventura a seu Rey, e a seu Regente? - Crês tu que já naõ foraõ levantados - Contra seu Capitaõ, se os resistira, - Fazendo-se piratas obrigados - De desesperaçaõ, de fome, de ira? - Grandemente por certo estaõ provados, - Pois que nenhum trabalho grande os tira - Daquella Portugueza alta excellencia - De lealdade firme, e obediencia._ - -Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave -authoridade.[385] E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes -de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos, -e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy -bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar -o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo -servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo -taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na -correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional, -se observa sempre inviolavel.[386] - -7 O heroico titulo de _Conquistador_ he huma das excellencias -felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez. -Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os -Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com -inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o -brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes -da sua execuçaõ residia no sublime peito, e mente Regia de nossos -antigos Principes o mesmo glorioso projecto.[387] Por este meyo se -vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos; -fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente -propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos -remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas, -com outras muitas Ilhas consideraveis,[388] naõ havendo no mundo -clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem -triunfantes.[389] - -8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o -genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ, -e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa -erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles -foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos -muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse -livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas -terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e -Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé -Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos do -Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos -Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:[390] elles saõ -finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que -o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e -piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he -preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos. - -9 Nas _Sciencias_ supposto que antigamente floreceraõ nellas alguns -Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,[391] -com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos -mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa -capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das -armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas, -e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a -tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes -valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares, -Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das -sciencias, como lamentou Camões,[392] e Francisco de Sá de Miranda:[393] - - _Dizem dos nossos passados - Que os mais naõ sabiaõ ler, - Eraõ bons, eraõ ousados, - Eu naõ gabo o naõ saber._ - -10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se -conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis, -nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares, -porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que -instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey -D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde -continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando -infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou -Camões na. 97. do 3. - - _Fez primeiro em Coimbra exercitarse - O valeroso officio de Minerva, - E de Helicona as Musas fez passarse - A pizar do Mondego a fertil herva. - Quanto póde de Athenas desejarse, - Tudo o soberbo Apolo aqui reserva: - Aqui as capellas dá tecidas de ouro, - De Baccaro, e do sempre verde louro._ - -11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais -evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em -toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados. -Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas -utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o -uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ -primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias -descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito, -a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo, e Joseph, Medicos delRey -D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual -abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique -inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ -nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel -de Faria.[394] - -12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas -estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais -se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e -nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece -que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia -mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela -precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles -povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da -Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e -Camões.[395] - -13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente -Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que -gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas -ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ -fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados -por vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian[396] -disse: _Que serian famosos, si non fuessen fumosos_; porém naõ póde -deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o -eruditissimo Feijó,[397] toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza -naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade do seu -espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos, -he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ, -que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu -patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo -com maõ generosa, e liberal. _Para mi tengo colegido que los Nobles de -Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que dizen_: -disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas. - -14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros[398] por naçaõ -extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só -estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora -em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da -honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que -nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos -não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura, -brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras -nos introduziraõ;[399] porém este conceito naõ se compadece com o que -ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos -fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com -aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem -os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos -nossos Poetas antigos,[400] dizendo: - - _Se hum estranho à terra vem, - Dizeis todos em geral: - Nunca aqui chegou ninguem; - E do vosso natural - Nada vos parece bem._ - - _Em fim que por natureza, - E constelaçaõ do clima, - Esta naçaõ Portugueza - O nada estrangeiro estima, - O muito dos seuss despreza._ - -Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco -Rodrigues Lobo no fim da _Egloga 1._ - - _Ouvir qualquer estrangeiro - Fallar de seus naturaes, - Dá delles taõ bons sinaes, - Que o naõ tem por verdadeiro. - Falem-vos n’um natural, - Dizeis faltas que naõ tem; - Mente o outro para bem, - Nós mentimos para mal._ - -15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos -proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos -nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e -mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D. -Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos, -que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D. -Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de -traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de -ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.[401] Neste mesmo -reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar -as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ -a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de -Miranda.[402] Concorreo depois a communicaçaõ das gentes de outros -paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos -seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse, -e deplorou Simaõ Machado.[403] - - _Vellos-heis, disse, à Franceza, - Depois disso à Castelhana, - Hoje andaõ à Bolonheza, - Á manhã à Sevilhana, - E já nunca à Portugueza._ - -Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4. - - _Por isso qualquer profano_ - Nos toma para entremez, - Porque fazemos cada anno - Té no traje Portuguez - Mais mudanças que hum cigano. - Naõ tomamos isto em grosso, - Vestimos por tantos modos - Cada hora, que dizer posso, - Que naõ temos traje nosso, - Porque o tomamos de todos._ - -16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e -na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque -dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande -rebuço às pessoas mal intencionadas;[404] porém a boa commodidade, que -este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde -justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que -se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem -a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ -a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar -esta introducçaõ. - - _Vereis mancebinhos de arte - Com espada em talabarte, - Naõ ha mais Italiano, etc._ - -Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o -adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas -compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ -IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D. -Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ -domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste -genero de compostura ha cada dia differentes novidades. - -17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente -conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em -certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo: -_Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e essa -parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa natureza -que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli as gentes -dessas qualidades._[405] Derretidos de amor nos chamaõ os Castelhanos; -mas este affecto foy, e he sempre exercitado por aquelle teor, e modo, -que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções decorosamente galantes. -As venerações, e cultos do amor candido saõ taõ antigos em Portugal, -que já em tempo dos Cartaginezes havia templo em Villa Viçosa dedicado -a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e chamavaõ _Endovelico_, -hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os seus sacrificios, offerecendo -no principio de cada mez por victima hum cordeiro branco,[406] para -mostrarem o sincero, e racionavel exercicio da mais poderosa paixaõ da -alma. Daqui se infere, que na chamma do amor Portuguez naõ ha fumo de -torpeza: por isso Valerio Maximo reprehendeo asperamente a Q. Metelo -Pio por delinquir nos excessos de Venus dentro da Provincia Lusitana, -que só amava os furores de Marte.[407] Assim o deraõ a entender tambem -aquelles Cavalleiros da Ordem Militar dos Namorados, que na celebre -batalha de Algibarrota obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta -contemplaçaõ das suas Damas;[408] e por desafronta de outras passaraõ -a Londres no anno de 1390 os doze celebrados Portuguezes, que com -gloria, e lustre da patria ficaraõ vencedores.[409] Foraõ finalmente -os Palacios dos Reys sempre escolas universaes da fina galantaria. -Celebravaõ-se saráos, e festins entre Damas, e galantes nas vodas, -nascimentos de Principes, e vindas de Embaixadores, e a este exemplo o -faziaõ os particulares com toda a modestia. Hoje está muy sincopada, -ou, para melhor dizer, extincta a galantaria;[410] donde o grande Sá de -Miranda[411] dizia já no seu tempo: - - _Traspozeraõ os amores, - E deixaraõ o Paço às cegas._ - -18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes -mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade, -e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os -estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente -se admiraõ, e estranhaõ. As mulheres civis raras vezes sahem de -casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ -acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta, -mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial -genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente -usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje -todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na -formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de -todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ -vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada -desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns -unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro; -porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito -a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de -ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello, -e olhos pretos com graça, e viveza. - -19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho -naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como -violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas -para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos, -adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de -linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos -annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva, -quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho, -chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua -companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma -moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas -della, e fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ -fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia -saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas -varas de panno para o enxoval da noiva.[412] Desta sorte ajudaõ huns -aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes -festas, e banquetes. - -20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os -moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339, -dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos, -e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador) -Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com -toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e -outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do -acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que -dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo -que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta -de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na _Monarquia -Lusitana liv. 18. cap. 30._ accrescentando: que este costume que agora -pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ de -ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno cheyo -de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella boa -idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando -nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia. - -21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade -dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado, -e de seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo -ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa -honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se -recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote -proporcionado aos bens, que lhe competem. - -22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos, -quando vieraõ a Lisboa,[413] introduziraõ o da altenaria, que se -pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente -Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais -proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D. -Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos -em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza -dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da -espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo -as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da -péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes -passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas -publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro -aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo. - -23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o -combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem -do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem -com muito apparato, e magnificencia.[414] Esta he só a occasiaõ em -que os estrangeiros dizem[415] que podem à sua vontade ver as Damas -Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites; mas todavia he este -genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o -horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das -suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes -fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias, -e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a -cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes. - -24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje -anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir -o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo -versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros -laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de -Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ _Viola_, he propriamente -Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos, -a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com -aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto -da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre -huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que -convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he -com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando -grandeza, vaidade, e desperdicio. - -25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum -grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque -estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a -Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns -sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu -genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores -nossos. - -Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.[416] - -Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento -do seu proprio.[417] - -Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o -seu companheiro.[418] - -He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira -gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem -alguma, que ver a outrem com vantagem.[419] - -Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e -todos nada para alguem.[420] - -Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer -cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. - -Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos -tormentos. - -Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna. - -Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente -Portugueza. - -A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes -substituio a adoraçaõ pelo decoro. - -Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania. - -Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos, -senaõ à grandeza dos corações. - -Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza. - -Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao -espirito o que outras Nações à copia. - -A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da -fama, que de sujeita a seus favores. - -A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela -ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ. - -Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles. - -Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito. - -Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a -affabilidade dos Principes. - -Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera -insoportaveis. - -As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas -nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres. - -Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada, -fiando vidas assim como linho. - -Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que -todos. - -He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que -luzaõ os que nascem nella. - -He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir, -tragallo logo, para que naõ luza. - -Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ -achou fundo com o entendimento. - -Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais -huma pedra à fabrica da Igreja. - -Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o -escudo. - -Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para -trazerem no nome a luz do mundo. - -Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para -outros. - -O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada, -onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento. - -Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado. - -A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer. - -Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança -de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos -sem suspeita aos Authores abaixo citados,[421] e outros, que allega -Hoffman,[422] porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes -o grande Camões em hum dos seus Cantos. - - _Por mais que da fortuna andem as rodas - Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa) - Honra, valor, e fama gloriosa._ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[376] Bentivoglio tom. 4. Relac. p. 86. - -[377] Resend. liv. 1. de Antiquit. _Neque tunc quidem malos, neque modo -nobis erubescendos._ - -[378] Diodor. Sicul. lib. 6. cap 9. e Boem. de morib. gent. lib. 3. cap -25. e Fern. Nun. no Commento à Copla 48. de Juan de Mena. - -[379] Justin. lib. 44. Bos. lib. 5. cap 23. e outros apud Maced. -nas Flor. de Hesp. cap. 14. per totum Justo Lipsio lib. 5. Epist. -66. Famian. Strad. de bel. Belgico lib 4. pag. mihi 188. Boter. nas -Relaç. p. 2. liv. 4. p. 93. e 101. Joaõ Bautista Moreli na Reducion, y -Restaur. de Port. p. 15. e 183. Garibay tom. 4. liv. 35. cap. 16. Fr. -Anton. de S. Roman. Histor. da India liv. 1. cap. 16. Sandoval Histor. -de Carl. V. part. 2. liv. 22. §. 4. Marian. Hist de Hesp. tom. 1. liv. -10. cap. 13. Lope da Vega na Arcad. liv. 3. p. 109. Dos nossos veja-se -a Gaspar Estaço nas Antig. de Port cap. 74. Monarq. Lusit. tom. 3. liv. -10. cap. 15. Bento Pereira na Pallas togata, & armata clas. 4. p. 319. -Fr. Francisc. de Maced. no Propugn. Lusit. part. 1. cap. 6. p. 146. -Far. nos Comm. das Lusiad. p. 245. Fr. Manoel Hom. no Memor. das arm. -cap. 37. - -[380] Cam. Cant. 1. est. 11. - -[381] Bosio tom. 1. de Signis Eccles. Dei cap. 1. lib 8 _Nulla natio ab -orbe condito præter Lusitanicam reperitur, quæ per tot sæcula civilibus -bellis minùs adversùs Reges suos fuerit commota. Imò nunquam commota -adversùs Reges communi decreto constitutos... Hanc laudem deberi -Lusitanica genti, ut Regum suorum studiosissima fuerit... Catholicis -hoc Lusitanis ab orbis exordio divinitùs est concessum, ut nunquam -Reges suos communi decreto constitutos armis petiverint._ - -[382] Barr. decad. 4. liv. 1. cap. 6. Duart. Nun. na Vida delRey D. -Sancho II. e na Descripç de Port. cap. 85. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. -20. Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 15. n. 2. - -[383] Cam. cant. 10. est. 148. - -[384] Idem cant. 5. est. 71. e 82. das Lusiad. - -[385] Franc. de Monçon Espejo de Princip. lib. 1. cap. 89. Zurita tom -5. liv. 3. cap 30. Gil Gonçalv. d’Avila Grandez. de Madr. liv. 4. -Marian. Histor. de Hespanh tom. 1. liv. 10. cap. 13. e liv. 12. cap. 4. -Joaõ Baptista Moreli na Reducion, y Restaur. de Port. pag. 39. - -[386] Veja-se a Macedo nas Flores de Hespanh. cap. 13. per totum. -Monarq. Lusitan. part. 4. pag. 165. Miguel Leit. nas Miscel. p. 47. - -[387] Cam. cant 8. est. 70. - -[388] Bos. de Sign. Eccl. tom. 1. lib. 8. sign 32. cap. 1. n 2. 3. 4. -_Nulla unquam gens, ex quo mundus est productus, tot maria transmitit, -ac tàm longè dissitas terras obivit, ut Lusitanica.... Nulla unquam -gens ab humani generis exordio in tot, ac tàm longè positis oris -sedes fixit, coloniasque deduxit, ut gens Lusitanica. Videbatur hoc -esse Romanorum, vel etiam Macedonum, Phœnicumque: sed his proculdubiò -Lusitani superiores. Romani namque Colonias nullibi posuerunt, nisi -intra Imperii sui confinia, quæ non protendebantur ultra gradus -nonaginta ab Occidente in Orientem; Lusitanorum verò sunt ultra gradus -250. Nulla unquam natio tàm remota regna, terrasque in suam potestatem -redigit, ut Lusitanica. Plures quidem plura, sed non adeo longinqua. -Igitur Lusitani non modò remotissimas oras adierunt, & in hoc omnibus -præcellunt, sed et in iis domos posuerunt, amplius etiam subegerunt -imperio suo._ - -[389] Bucanan. e Scaliger. apud Freit. de Just. Imper. pag. 29. 82. e -83. Maced no Olisip. p. 24. est. 60. Cam. cant. 1. est. 8. e cant. 7. -est. 14. - -[390] Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 18. n. 12. 13. e 14. Bosio de -Sign. Eccles. tom. 1. lib. 4. cap 2. pag. mihi 245. _Toti Lusitanicæ -genti debetur hæc laus, ut nobis ad remotissimas oras, & antiquis -invias, facillimus, ac tutus fuerit aditus apertus, ita ut Christiana -in amplissimis regionibus religio longè, latèque potuerit disseminari._ -Aubert. Miræus in Politica Ecclesiast. liv. 2. cap. 15. _Lusitanis -itaque in Indiam commigrantibus, & Imperio latè propagato, Christi -cultus, ac reverentia per vastissimum illum Asia tractum sese erigere -cœpit._ Gerard Mercat. in Tabula Lusit. Marian. tom. 1. liv. 10. cap. -13. Joaõ Pinto Ribeiro, Desengano ao parecer enganoso Gil Gonçalv. -d’Avil. Grandez. de Madrid: _Siendo(los Portuguezes) los primeros -hombres, que seminaron en el Indo la semilla de la palabra Divina, -aumentada con el riego de su sangre, haziendo se mas gloriosos con las -palmas del martyrio._ - -[391] Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 8. - -[392] Cam. est. 95. do 5. - -[393] Sá de Miranda na epist. 4. - -[394] Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 8. e no Comm. do Cant -5. de Cam. est. 25. e Joaõ de Barr. Decad 1. liv 4. cap. 2. - -[395] Idem ibid. liv. 3. cap. 5. Camões Cant. 5. est. 77. - -[396] Gracian part 3. do Criticon cris. 8 - -[397] Feijó tom. 6. do Theatr. Critic. disc. 3. §. 4. n. 6. - -[398] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. pag. 86. Gracian. no Critic. -ibid. - -[399] D. Franc. Man. na Visita das Font. pag. 218. - -[400] Simaõ Machad. na. Comed. de Alfeo p. 72. Veja-se tambem a Man. -de Far. na Font. de Agan. part. 3. Ode 15. est. 11. Franc. Rod. Lobo -Eglog. 1. - -[401] Faria no Comm. das Lusiad. Cant. 2. est. 97. - -[402] Idem nos Com. das Rim. de Cam. Eglog. 1. est. 2. Francisc. Nun. -de Velasco no Dialog. 11. Sá de Mirand. cart. 2. - -[403] Simaõ Machado na Comed. de Alfeo part. 1. - -[404] Description de la Ville de Lisbone pag. 92. - -[405] Sor. Mar. de la Antigual. 12. cap. 13. - -[406] Monarq. Lusit. part. 1. liv. 2. cap. 11. - -[407] Valer. Maxim. lib. 9. cap 1. n. 5. _En ubi ista? Non in Græcia, -neque in Asia, quarum luxuria severitas ipsa corrumpi poterat; sed -in horrida, et bellicosa Provincia, cum præsertim acerrimus hostis -Sertorius Romanorum exercituum oculos Lusitanis telis perstringeret._ - -[408] Fr. Jacinto de Deos no Escudo dos Cavall. §. 59. - -[409] Cam. Lusiad. cap. 6. est. 43. & seq. e seu Commentador Manoel de -Faria tom. 2. pag. 113. - -[410] D. Franc. de Port. na Arte de Galantaria, e D. Francisc. Man. na -Visit. das Fontes p. 279. - -[411] Sá de Miranda cart. 2. est. 76. - -[412] Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho cap. 9. - -[413] Figueiroa na Plaça Univ. disc. 12. §. 2. n. 3. - -[414] Veja-se a Blauteau no Vocab. verb. _Tourear_, e a Colmenar. nas -Delicias de Portug. pag. 857. - -[415] Memoires pour un Voyageur tom. 2. p. 131. - -[416] Far. tom. 3 da Asia p 1. c. 1. n. 15. - -[417] Ibid. tom. 1. c. 5. parr. 2. - -[418] Ibid. cap. 7. - -[419] Idem tom. 1. da Asia part. 4. c. 1. n. 2 - -[420] Ibid. part. 2. c. 2. - -[421] Justo Lipsio na epist. 96. do liv. 5. Andr. Scot. na Bibliotheca -Hispanica tom. 2. clas. 9. & tom. 3. clas. 2. Bosio tom. 3. de Sign. -Eccles. lib. 8. cap. 1. Cæsar de Bello Gallico lib. 3. Fr. Jeronym. -Rom. Republic. do mund. liv. 4. cap. 18. Magin. in nova Geograp. §. -_Portugalenses_. - -[422] Hoffman. Diccion. verb. _Portugallia_. Veja-se tambem a Mons. -de la Hontan, Mervelleux, Davity, Maffeu Historia da India, Sanson, -Moreri, Coronelli, e outros muitos, que por brevidade deixo de allegar. - - - - - FIM DA PRIMEIRA PARTE. - - - - - MAPPA - - DE - - PORTUGAL. - - PARTE II. - - - - - CAPITULO I. - -_Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania._ - - -1 Entramos nesta segunda parte do nosso Mappa com a laboriosa -averiguaçaõ de hum dos pontos historicos mais difficil do seculo -primeiro Lusitanico. Os Antiquarios Hespanhoes, e commummente os doutos -convem uniformes em que dos descendentes de Jafet, terceiro filho -do Patriarca Noé, (entre os quaes se repartio a povoaçaõ de toda a -Europa, e parte da Asia depois do universal diluvio,) coubera a Tubal, -seu quinto filho, plantar, e propagar Hespanha. - -2 Modernamente D. Francisco Xavier da Garma[423] pretendeo excluillo do -continente Hespanhol, substituindo em seu lugar por primeiro Povoador -delle a Tharsis, sobrinho de Tubal, filho de seu irmaõ Javan, e neto -de Jafet: porém esta opinião já seguida antecedentemente por outros, -desfaz com razões mais provaveis o erudito Padre Joseph Moret da -Companhia de Jesus.[424] - -3 Assentando pois que os Hespanhoes, e por consequencia os Lusitanos -se originaõ de Tubal, vista a grande authoridade dos Escritores, que -o affirmaõ,[425] nasce daqui hum reparo, e vem a ser: que dizendo -Josefo,[426] procederem os Iberos de Tubal, e interpretando S. -Jeronymo, Santo Isidoro,[427] e outros aos Iberos pelos Hespanhoes, -todavia como na Asia se achaõ tambem semelhantes povos Iberos desde -aquelles primeiros tempos, duvida-se justamente quaes devem ser -reputados por primarios descendentes de Tubal? - -4 Os Authores, que se persuadem fora o mundo povoado pouco a pouco, e -principiara do Oriente, estendendo-se os povos à medida, que a gente -crescia, dizem, que a Iberia Hespanhola, ou Occidental, foy Colonia dos -Iberos Asiaticos.[428] A outros porém se lhes faz mais verosimel que -os Hespanhoes levassem à Asia por transmigraçaõ o nome de Iberos;[429] -donde Rufo Festo Avieno veyo a dizer:[430] - - _......Asper Iberus - Hic agit: hic olim Tyrrhenide pulsus ab ora - Cespitis Eoi tenuit sola._ - -5 Esta opiniaõ parece que se conforma mais com o sentido natural do -Genesis, que no capitulo 10. dá a entender como os primeiros netos -de Noé logo se dividiraõ a povoar o mundo; e cabendo à familia de -Tubal lançar os alicerses, e estabelecer os limites de Hespanha, -veyo positivamente a ella, ou fosse por mar em pequenas embarcações, -passando da Armenia ao Egypto, do Egypto a Africa, e daqui atravessando -o Estreito de Gibraltar até o Promontorio, que depois se chamou Sacro; -ou fosse por terra, caminhando do Egypto a Jerusalem pela Natolia, -depois penetrando a Tartaria, Hungria, Alemanha, França, Hespanha, e -Portugal, sem lhe ser necessario por este caminho passar braço algum de -mar consideravel; ou finalmente transitando por outra qualquer via, que -lhe destinasse a Providencia, para soccorrer a necessidade da segunda -povoaçaõ do genero humano com viagem, que fosse prudente, e naõ -temeraria, como bem adverte o erudito Yañes. - -6 Collocado já Tubal, e sua familia nestas partes Occidentaes da Europa -pelos annos 150 depois do diluvio, conforme a melhor Chronologia,[431] -resta saber em que parte da Hespanha fez o seu primeiro assento? -Nisto, por mais que se intente indagar, naõ póde haver certeza; porque -o grande Abulense, julgando ser esta entrada pelos montes Pyrineos, -attribue a Pamplona a primazia das fundações de Tubal em todo este -tracto Hispanico,[432] Floriaõ do Campo a Andaluzia,[433] Martim -de Viciana a Valença,[434] Joseph Moret a Tafalla,[435] outros a -Toledo,[436] e Fr. Bernardo de Brito, Heitor Pinto, e outros muitos -a Setubal em Portugal.[437] Mais facil será crer (diz Manoel de -Faria judiciosamente) ter sido Tubal fundador de muitas povoações -na Hespanha, que o assegurar a primazia de alguma entre todas;[438] -e deste parecer foy o erudito Malvenda, que já allegámos. Todavia o -insigne Commentador de Virgilio Francisco de Lacerda, allegado por -Luiz Marinho de Azevedo, diz, que da Lusitania sahiraõ os primeiros -fundadores de Hespanha[439] a estabelecer povoações em varias partes -della. - -7 O certo he, que dos tempos immediatos à primitiva povoaçaõ de -Portugal, até que as armas Cartaginezas, e Romanas abriraõ o caminho à -communicaçaõ das gentes occidentaes da Europa, naõ pode a Historia dar -hum passo, senaõ às escuras, e com a vehemente suspeita de claudicar na -verdade; porque alguns Escritores fundados em documentos ou apocrifos, -ou de pouca authoridade, e exame, constituiraõ em Hespanha, e Portugal -com demaziada, e incauta crença o governo de alguns Reys duvidosos, -como foy Ibero, Jubalda, Briga, Beto, e outros, de que naõ ha historia -verdadeira. Sómente consta, que havia em nossas terras alguns Regulos, -como foy Lucinio, Culca, Gorgoris, Abides, Argantonio, Theron, -Mandonio, e alguns outros, de que fazem memoria Authores veridicos.[440] - -8 Tambem temos por certo, que naquelles principios todo este nosso -Continente estava occupado de varios povos, cada hum com seu nome, -costumes, e usos differentes, formando distinctas especies de pequenas -Republicas com suas leys, especialmente desde o governo de Gorgoris, -ou Gorgaris. Naõ será relaçaõ importuna communicarmos aqui hum breve -monumento destes povos primitivos para melhor intelligencia da Historia. - -9 _Abobricenses_; ou _Aobricenses_. Habitavaõ pouco distantes de -Chaves.[441] A Hoffmani lhe parece que eraõ os da Villa do Conde, e a -Joaõ de Barros os da Nobrega, ou Valdevez. - -10 _Amaienses._ Eraõ povos da Lusitania.[442] - -11 _Amfilocos._ Habitavaõ na Cidade Amfiloquia, que estava na Provincia -de Galiza, a que hoje chamaõ Orente, a qual no tempo dos Romanos veyo -a pertencer à Chancellaria de Braga.[443] Da vida de Alexandre Magno -escrita pelo segundo Xenofonte Arriano Nicomediense, consta que os -Amfilocos naõ estavaõ muy distantes da Ambracia,[444] que, conforme -alguns,[445] foy Barcellos. Ortelio colloca os Amfilocos entre os -Calaicos, e os Bracaros. - -12 _Ancodeos._ Povos nacionaes, que viviaõ nas visinhanças do monte -Gerez.[446] - -13 _Arevácos._ Procediaõ dos Celtiberos, e eraõ os ultimos povos, em -que se terminava Galiza junto do Douro.[447] - -14 _Artabros_, que depois se chamaraõ _Arrotebras_, occupavaõ desde o -Promontorio Celtico até os Astures.[448] - -15 _Astures._ Occupavaõ a Provincia de Tras os Montes, e eraõ notaveis -mineiros.[449] - -16 _Barbaros_, ou _Sarrios._ Habitavaõ por toda a serra da Arrabida -até Lisboa, ou todo aquelle tracto de terra, que fica entre o Tejo, e -Setubal. Viviaõ sem ley, sem policia, e com pouca, ou nenhuma Religiaõ. -Sustentavaõ-se dos frutos, que a terra produzia, e da caça, que na -montanha apanhavaõ. Este modo de viver barbaro, e agreste os fazia taõ -rigidos, que naõ só tiveraõ sanguinolentas guerras com os Celtas seus -visinhos, mas fizeraõ huma das mayores resistencias, que experimentou -Julio Cesar na conquista da Lusitania. No anno 501 antes de Christo, -vendo que a patria os naõ podia manter com a sua multiplicaçaõ, -determinaraõ que todos os moços até à idade de quarenta annos fossem -buscar outras terras desoccupadas, em que viver; e depois de varios -transes foraõ cultivar muita parte da Beira, principalmente aquellas -terras, que se extendem por algumas leguas à roda do rio Soberbo.[450] - -17 _Bardulos_, ou _Vardulos._ Habitavaõ onde agora se chama Guipuscoa. -Plinio diz, que os Bardulos eraõ os mesmos, que os Turdulos da -Lusitania. Baudrand diz, que eraõ diversos huns dos outros. - -18 _Belitanos._ O mesmo que Lusitanos. - -19 _Berones._ Querem alguns[451] conjecturar que habitavaõ na Provincia -da Beira, sendo que o Padre Argote[452] naõ convem nisso. Baudrand, -e Hoffmani dizem, que eraõ povos sujeitos aos Celtiberos, e a sua -principal Cidade era onde hoje está Trejo. - -20 _Bibalos._ Conforme Joaõ de Barros[453] habitavaõ em Val de Bouro na -Provincia do Minho. O Padre Argote os situa nas visinhanças de Orense, -e fóra do territorio de Portugal;[454] porém Resende he de parecer -que a palavra _Bibalos_ naõ era nome de povos, mas de Cidade,[455] -porque assim o diz expressamente a inscripçaõ da ponte de Chaves -sobre o Tamega, na qual estaõ gravados os nomes dos povos de todas -aquellas Comarcas, que concorreraõ para trabalharem nella: mas nisto -achamos pouca razaõ a Resende; porque ainda que a tal inscripçaõ diga -_Civitates X._ he sem duvida que as Cidades naõ haviaõ de ir trabalhar -na ponte, mas sim os moradores das taes Cidades, os quaes pela mayor -parte seriaõ os daquellas visinhanças de Chaves, como bem adverte Frey -Bernardo de Brito.[456] Finalmente Baudrand diz, que estiveraõ situados -junto do rio Lima. - -21 _Bracaros._ Ficavaõ estes povos na Provincia do Minho, e era nome -generico, que abraçava outros muitos povos particulares,[457] e -comprehendia povoações muito notaveis, como era Braga, Porto, Ponte de -Lima, Neiva, Caminha, e outros.[458] - -22 _Calaicos._ Eraõ de duas especies, Bracarios, e Lucenses: os -primeiros existiaõ na Provincia de Tras os Montes, os segundos no -Minho, e Reino de Galiza, onde hoje he Compostella. - -23 _Callenses._ Habitavaõ na Cidade de Gaya fronteira ao Porto. - -24 _Caperenses._ Lembraõ-se Resende, e Baudrand por boas conjecturas -de existirem estes povos na Estremadura Lusitana entre Merida, e -Placencia.[459] - -25 _Celerinos._ Eraõ os povos, que habitavaõ na Cidade Celiobriga, a -qual, conforme a indagaçaõ do Padre Argote, ficava ou em Celorico de -Basto, ou nas suas visinhanças.[460] Baudrand, allegando a Sanson, -julga que os Celerinos eraõ os habitadores de Barcellos. Na ponte de -Chaves, mandada fazer pelo Imperador Vespasiano, vem assinados os -Celerinos, os quaes eraõ povos daquella Comarca de Chaves, parte dos -quaes ficava em Portugal, parte em Galiza. - -26 _Celtas._ Existiaõ na Provincia do Alentejo, e confinavaõ da parte -do Meyo dia com os Turdetanos, da banda do Norte com o Tejo: pelo -Occidente lhe ficava a ribeira de Canha, tendo tambem por visinhos -os Barbaros da Arrabida. Eraõ as suas principaes povoações Elvas, -Estremoz, Villa Viçosa, e Evora. Havia na Andaluzia outros Celtas, -porém diversos destes.[461] - -27 _Celtiberos._ Eraõ povos, que se originaraõ dos Celtas do Alentejo, -os quaes passando-se para Andaluzia, e confederando-se com os que -habitavaõ pelas ribeiras do Ebro, deraõ origem aos Celtiberos, gente -muy conhecida em toda a Hespanha por valerosa, e que fizeraõ forte -resistencia aos Romanos, e Cartaginezes. Delles fallaõ muitos dos -Authores antigos allegados.[462] - -28 _Cerenecos._ Povos, que habitavaõ onde hoje chamaõ Concelho de -Thuyas junto a Canavezes.[463] - -29 _Cinesios._ Viviaõ junto dos Ostidanienses. - -30 _Colarnos._ Eraõ visinhos dos Turdulos modernos, e occupavaõ aquella -parte da Estremadura, que está entre os rios Tejo, e Odivor. - -31 _Curetes._ Habitavaõ no Algarve, fundaraõ Sylves, e vieraõ a -Hespanha quasi no tempo de Tubal.[464] - -32 _Grayos_, ou _Gravios._ Tinhaõ sua habitaçaõ na Provincia do Minho, -e nesta mesma Provincia viverão os _Gronios_.[465] Alguns Historiadores -querem que os primitivos Grayos, e todos os mais povoadores desta -Provincia daquelles primeiros seculos fossem de naçaõ Grega;[466] porém -temos por mais provavel, que todas, quantas noticias se nos offerecem -nas Historias de fundações Gregas, e nomes Gregos anteriores ao ultimo -anno do reinado de Argantonio, saõ fabulosas; pois consta de Herodoro, -o mais antigo Historiador daquelles tempos, serem os Fenices os -primeiros Gregos, que emprenderaõ de proposito o descubrimento de novas -terras, até chegarem a Hespanha em tempo, que ainda reinava Argantonio, -que foy 543 annos antes de Christo.[467] - -33 _Herminios._ Tinhaõ sua habitaçaõ na serra da Estrella da Provincia -da Beira.[468] - -34 _Ibéros._ Este nome era generico a todos os Hespanhoes. - -35 _Labricanos._ Residiaõ junto das ribeiras do Ave por aquella parte, -em que se lança no mar pela Villa do Conde.[469] - -36 _Lancienses._ Estavaõ naquellas partes da Provincia da Beira, que se -extende do Norte para o Meyo dia, do Ponsul até o Tejo; e do Oriente ao -Occidente, do Elja até o Zezere. - -37 _Limicos._ Viviaõ junto das margens do Lima.[470] - -38 _Luancos_, ou _Lubenos_. Habitavaõ na Provincia do Minho, mas -ignora-se a paragem certa. - -39 _Lusos_ ou _Lusitanos_. Possuiaõ terras entre o Tejo, e o Douro, -e occupavaõ tambem todo o lado Occidental, que corre desde a foz do -Douro até o Promontorio Celtico, e pelo lado Septentrional desde este -Promontorio até adiante da Corunha. O nome de Lusitanos era universal, -porque comprehendia outros muitos povos, como Celtiberos, Turdulos, -Vetones, &c. - -40 _Narbassos._ Eraõ visinhos dos Vacceos, e viviaõ junto a Freixo de -Espadacinta.[471] - -41 _Nemetates._ Existiaõ na Provincia de Tras os Montes desde Bragança -até o monte Gerez, separando-os de Galiza o rio Lima. No Mappa de -Ortelio os vemos situados junto de Araduca, passando-lhe pelo meyo o -Tamega. - -42 _Ostidanienses._ Occupavaõ aquelle angulo de terra, que se termina -no Cabo de S. Vicente pelo espaço naõ mais que de duas leguas.[472] - -43 _Pesures._ Estes povos eraõ pouco conhecidos; por isso na inscripçaõ -da ponte de Alcantara estaõ no ultimo lugar. Tinhaõ a sua habitação na -Covilhã, e Castellobranco, e parte da serra da Estrella. Naõ saõ os -mesmos, a que Resende chama _Meidobrigenses_, ou _Plumbarios._[473] O -Padre Bluteau diz, que elles saõ oriundos dos antigos Celtas, e que o -nome Pesures era ignominioso, pois significava gente cobarde, e nisto -concorda com a Monarquia Lusitana.[474] - -44 _Sarrios._ Eraõ os barbaros da Arrabida. - -45 _Seurbos._ Povos, que viviaõ pouco acima de Braga. - -46 _Tamacanos._ Viviaõ nas margens do Tamega pelo sitio, onde elle -entra no Douro.[475] - -47 _Transcudanos._ Pelos annos de 560 pouco mais, ou menos antes de -Christo, deixando alguns dos Turdulos antigos a costa maritima, em que -viviaõ, foraõ habitar aquelle espaço de terra, que se extende de Norte -a Sul entre os rios Coa, e Agueda; e pela situaçaõ, em que ficaraõ além -do Coa, se vieraõ a chamar povos Transcudanos.[476] - -48 _Turdetanos._ Possuiaõ a mayor parte do Algarve, e do Alentejo, -e era tudo o que vay de Béja até Sines. Foraõ reputados por insignes -guerreiros até à segunda guerra Punica. Eraõ engenhosos, tinhaõ -politica, e amavaõ as sciencias com fruto, e cultura. Prezavaõ-se de -ter leys escritas em verso, e todas as suas antiguidades conservadas em -livros de seis mil annos anteriores; mas cada anno constava só de tres -mezes. Estrabo os julga taõ opulentos, e ricos, que escreve tinhaõ até -nas estrebarias argolas de prata.[477] - -49 _Turdulos_. Eraõ de duas especies, huns antigos, outros modernos. -Os Turdulos antigos foy a gente mais veterana, e nobre da Lusitania: -tinhaõ por domicilio todas as terras, que estaõ do Norte ao Meyo dia -entre o Tejo, e o Douro, das quaes eraõ as principaes Lisboa, Santarem, -Alfeizeraõ, Coimbra, Leiria, Aveiro, Lamego, e Viseu. Os Turdulos -modernos tinhaõ o Tejo pela parte do Norte: pelo Meyo dia confinavaõ -com os Celtas, e nos costumes pouco se differençavaõ huns dos outros. -Christovaõ Cellario[478] situa os Turdulos no Alentejo, e em parte do -Algarve com pouca distancia dos Turdetanos. Samuel Bocharto confunde -huns com outros.[479] - -50 _Turolos_. Habitavaõ nas margens do rio Minho da parte esquerda, -onde está a Freguezia de S. Martinho de Lanhelas.[480] - -51 _Tyrios_. Eraõ povos, que antes dos Cartaginenses vieraõ com os -Celtas acommetter aos Iberos.[481] - -52 _Vacceos_. Tinhaõ a sua habitação entre Coimbra, e o Porto, e -tomaraõ o nome do rio Vouga.[482] - -53 _Vetones_. Viviaõ junto do Tejo na Estremadura entre os povos da -Lusitania.[483] - -54 Todos estes povos, ou os mais delles, independentes huns dos outros -se governavaõ conforme as leys, e costumes particulares, que tinhaõ. -Nas guerras elegiaõ seus Capitães, a que obedeciaõ com tanta efficacia, -que desprezavaõ a vida, se acaso aquelles morriaõ na batalha. -Armavaõ-se regularmente com duas espadas, huma comprida, outra mais -curta, ao modo das nossas espadas, e adagas, que ainda alcançámos ver. -Os naturaes da serra da Estrella foraõ os primeiros, que a inventaraõ; -donde veyo a cantar o nosso Botelho:[484] - - _Van muchos del confin, y heroico assiento, - Que ilustra la altivez del monte Herminio: - La espada Lusitana, que es su invento, - Manejaban con fuerte predominio._ - -55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais -propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ _Cetras_, segundo -explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e batendo -huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.[485] Assim -cantou delles Silio Italico:[486] - - - - - - - -_Misit dives Gallæcia pubem, - Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis, - Nunc pedis alterno percussa verbere terra, - Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras._ - -Em parte o quiz imitar Botelho:[487] - - _Vinieron los Calaicos_, a quien lavan - Las dos orlas del Miño difundido, - Y sus antiguas cetras los muravan, - Que servieron un tiempo a su alarido._ - -Em dizer este Poeta que as cetras, ou escudos os muravaõ, ou cubriaõ -todos, naõ se conforma com a advertencia critica de Vasconcellos. - -56 Solemnizavaõ com louvores, e festas, a que chamavaõ _Gymnopodia_, -aos que morriaõ pelejando;[488] e nas mayores solemnidades faziaõ o -sacrificio das _Hecatombas_, que era matar cem animaes de huma mesma -especie.[489] Adoravaõ a Marte, Minerva, e Hercules; donde parece, (diz -de la Clede)[490] que a veneraçaõ, e culto, que elles davaõ a Hercules, -póde servir de huma prova da vinda, que este Heroe fez a Portugal, para -livrar muitos de seus habitadores da oppressaõ de varios tyrannos, e -fundar aquelle famoso Templo no Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio -Sacro, onde se adorava o Sol com ritos, e ceremonias Egypciacas, e -donde o mesmo Hercules se mandou sepultar. - -57 Áquellas tres divindades fabulosas offereciaõ em sacrificio as -mãos direitas dos seus prizioneiros de guerra, que elles cortavaõ ao -pé dos altares; e da observaçaõ, que faziaõ nas abertas entranhas dos -mesmos inimigos, prognosticavaõ bons, ou máos successos para as suas -batalhas.[491] - -58 Nas doenças, e enfermidades servia de Medico todo aquelle, que tinha -experiencia do remedio prestante, e concernente à queixa. Para isso -costumavaõ expôr os enfermos nas portas das casas, ou nos transitos -das ruas, para que o passageiro applicasse o que soubesse, e fosse -opportuno pela observaçaõ, que tivesse feito em outra semelhante -molestia;[492] e destas bem sortidas experiencias sacou depois -Hypocrates documentos, e aforismos admiraveis para a sua medicina.[493] - -59 Com estes, e outros usos viviaõ os mais dos Lusitanos na sua -primitiva liberdade, quando acontecendo aquella extraordinaria secca, -e fome, de que faz mençaõ Justino, e as Historias de Hespanha,[494] -poz em incrivel consternaçaõ toda a terra. Despovoou-se o Alentejo, o -Algarve, e parte da Estremadura, e foraõ seus habitadores refugiarse -nas serras da Beira, e Minho, como mais ferteis, e frescas; outros -foraõ para Italia: taõ grande, e continuada foy a calamidade, que -padeciaõ, posto que Vaseu duvída muito della.[495] - -60 Applacou finalmente o Ceo sua ira, e restituidos à patria os -ausentes, e saudosos de tanto tempo, vieraõ tambem entre os nacionaes -muitos dos Gallos Celtas. Depois acontecendo pelos annos 1380 do -diluvio, conforme Vaseu, aquelle memoravel incendio nos montes -Pyreneos, que penetrando até as cavernas da terra, causou horrorosos -tremores, e fez descubrir muitas minas de ouro, e prata,[496] -divulgou-se a noticia desta fluente riqueza, a qual com a vehemencia da -sua virtude attrahindo de taõ longe a ambiçaõ dos Fenices, foy causa -de expedirem promptamente huma grosta armada, que aportou na Ilha de -Cadiz, e daqui vindo costeando as margens maritimas das nossas terras, -ancorou no Algarve. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[423] Garma no Theatr. Univ. de Hesp. tom. 1. c. 1. - -[424] Moret, Anales de Navarra, tom. 1. no Append. §. 1. - -[425] Strabo, Anselmo Laurunense, Lyra, Abulens. Delrio, Alapide, -e outros apud Malvend. de Anti-Christo lib. 6. cap. 22. Genebrad. -Chronol. lib. 1. p. 31. Arias Montan. in Isai 66. v. 19. Villalp. -in cap. 27. Ezech. v. 13. Sá ibid. Heitor Pint. ib. c. 38. v. 2. -Torniello, Annales Sacri ad ann. 1931. n. 22. Pineda lib. 4. de reb. -Salom. cap. 15. § 7. Bent Per. in Genes. tom. 2. liv. 15. Marin. Sicul. -lib. 6. cap. 1. Vasæus, Chronic. Hisp. tom. 1. ann. 143. Munster, -Cosmograf. liv. 2. p. 56. D. Rodr. Arceb. de Toled. liv. 1. cap. 3. -Flor. do Camp. liv. 1. cap. 4. Garibay tom. 1. liv. 4. cap 4. Escolan. -Hist. de Valenç. liv. 1. cap. 4. Henao, Antig. de Cantabr. liv. 1. c. -1. Pined. Monarq. Eccles. liv. 1. cap. 18. §. 4. Matut. Prosap. de -Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. Aldret Orig. da ling. Castelh. liv. 2. -cap. 15. Clericat. etá 2. del mondo pag. 7. Marian. liv. 1. c. 1. c. 7. -Kircher de Arc. Noé cap. 9. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap 1. - -[426] Jofeph. de Antiq. lib. 1. cap. 7. - -[427] D. Hieron quæst. Hebraic. in Genes. 10. & in cap. 32. Ezech. S. -Isidor. lib. 9. cap. 2. Origin. Euseb. lib. 9. cap. 3. - -[428] Melancthon in Chron. allegado por Joaõ Guilherme Stukio nos -Scholios in Periplum Pont. Euxini de Arriano pag. 32. e 144. Plin. -Strab. Marc. Varr. Arias Montan. apud Hoffman. in Diction. verb. -_Thubal_, & _Iberus_. Torniel. ad ann. 1931. ainda que duvidoso. -Marian. liv. 1 c. 7. Volaterr. liv. 3. - -[429] Moret, Anales de Navarra, tom. 1. liv. l. cap. 1. Nicefor. liv.8. -cap 34. Yañes España en la S. Bibl. part. 1. cap. 2. n. 5. e 6. e cap. -3. n. 3. - -[430] Avien. in Descript. Orbis vers. 882. - -[431] Far. tom. 1. da Europ. Port. part. 1. cap. 1. n. 5. Yañes España -en la S. Biblia part. 1. cap. 3. n. 2. - -[432] Abulens. super Genes. cap. 10. _Tubal, à quo Hispani, iste sedem -posuit in descensu montis Pyrinæi apud locum, qui dicitur Pampilona._ -O mesmo repete sobre o Prologo da Biblia, que se chama _Epistola ad -Paulinum_, cap. 1. - -[433] Flor. do Camp. liv. 1. - -[434] Vician. liv. 1. cap. 6. - -[435] Padr. Moret, Anales de Navarra tom 1. p. 4. - -[436] Apud Yañes ut supr. n. 6. - -[437] Brit. Monarq. Lusit. p. 1. l. 1 c. 3. Heyt. Pint. in cap. 27. -Ezech. p. 247. _Prima Urbis Hispaniæ, ut aiunt, appellata est Thubal, -ab ipso conditore nomine desumpto, quam viri docti eam dicunt esse, que -nunc Setubal appellatur in hac nostra Lusitania sita ad Occidentem._ -Diego de Colmenar. na Histor. de Segovia cap. 1. _Dize-se, que fundó -Tubal al lado meridional del rio Tajo sobre el grande Oceano un pueblo, -que nombró Setubal, nombre al parecer compuesto en honra del S. Seth, -su 10. abuelo, hijo de Adan._ Matut. Prosap. de Christ. edad. 2. cap. -3. §. 3. e outros apud Fr. Bernard. da Silva na Def. da Monarq. Lusit. -part. 1. cap. 10. - -[438] Faria ut supr. - -[439] Lacerd. in Virgil. apud L. Mar lib. 1. cap. 15. Antig. de Lisb. -_Ab Lusitania exuberante gente dissipati in reliquam Hispaniam sunt, & -tanquam in colonias deducti._ - -[440] Livius. lib. 3. decad. 4. Macrob. liv. 1. Saturn. Polyb. lib. 3. -apud Resend. lib. 3. Antiq. Herodot. lib. 1. cap. 42. Plin. liv. 7. -cap. 48. - -[441] Idem liv. 4. cap. 20. Mela liv. 3. cap. 1. Resend. liv. 1. de -Antiq. Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9. Argot. Memor. do Arcebisp. de -Brag. p. 177. e 373. - -[442] Resend. liv. 1. - -[443] Strab. liv. 3. Justin. liv. ult. cap ultim Resend. liv. 1. - -[444] Arrian. res gestar. Alex. liv. 2. _Sed Geryonis Regnum in -continenti fuisse circa Ambraciam, & Amphilocos, indeque Herculem boves -abegisse_ - -[445] Veja se a prim. parte do nosso Mappa cap. 2. n. 5. - -[446] Argot nas Antig. da Chancel. de Brag. p. 132. - -[447] Plin. lib. 3 cap. 3. Baudrand. - -[448] Mela liv. 3. cap. 1. Strab. liv. 3. Plin. lib. 4. cap. 20. Argot -nas Memor do Arceb. de Brag. pag. 184. Flores na Espanha sagrada tom. -15. pag. 26 - -[449] Strab. liv. 3. Argot. ut supr. p. 149. Monarq. Lusit. part. 1. -cap. 4. da Geograf. Martial lib. 10. Epigram. 16 - -[450] Pimentel, Notic. Academic. de 2 de Janeir. de 1727. - -[451] Brit. na Geogr. c. 4. Flor. do Camp. Histor. de Hespan. liv 2. -cap. 10. Plin. liv. 4. cap. 20. - -[452] Argot. nas Memor. de Brag. p. 450. - -[453] Joaõ de Barr. nas Antig. do Minho cap. 6. - -[454] Argot. ut supr liv. 1. cap 14. n. 285. - -[455] Resend. lib. 1. de Antiguit. _Sed hæc potius Civitatum sunt -nomina._ - -[456] Brit. na Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9. - -[457] Vasæus tom. 1. Chron. pag. 64. Argot. ut supr. p. 155. - -[458] Brit. na Geogr. cap. 4. - -[459] Resend. lib. 1. Antiq. - -[460] Plin. lib. 3. cap. 3. Resend. lib. 1. Argot. nas Memor. de Brag. -tom. 1. p. 157. e 317. - -[461] Brito na Geograf. cap. 4. - -[462] Diodor. lib. 6. Strab. lib.4. Plin. lib. 3. cap. 1. Liv. lib. 5. -Flor liv. 2. cap. 17. Lucan. lib. 4. v. 10. Silius Italic. lib. 3. v. -340. Catul. Epigr. 40. Marrial lib. 4. Epigr. 55. - -[463] Argot. nas Memor. de Brag. p. 157. - -[464] Justin. lib. 44. Strab. lib. 3. Gerund. lib. 1. - -[465] Mela lib. 3. cap. 1. Brit. na Geogr. cap. 4. - -[466] Plin. lib. 4. cap. 20. Estaço nas Antiguid. c. 9. Resend. lib. 1. -_Græcorum sobolis omina._ - -[467] Herod. lib. 1. cap. 163. _Hi Phocenses primi Græcorum longinquis -navigationibus usi sunt. Adriamque simul, & Tyrrheniam, Iberiam, atque -Tartesum occuparunt._ Pausan lib. 2. pag. mihi 144. Plin. lib. 7. c. -48. Valer. M. x. lib. 8. cap. 13. Vasæus tom. 1. Chron ann. 129 ab urbe -condita. - -[468] Monarq Lusit. tom. 1. liv. 4. cap. 1. - -[469] Ibid p. 322. - -[470] Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 128. Resend. lib. 1. -Antiq. - -[471] Argot nas Memor. de Brag. p. 160. e 322. - -[472] Ortel. no Mappa da Lusitan. Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. - -[473] Brit. na Geograf. cap. 4. Clede na Histor. de Port. tom. 1. liv. -1. - -[474] Bluteau, Vocabul. verb. _Pesures_. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 28. - -[475] Argot. Memor. de Brag. pag. 161. - -[476] Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 30. Pimentel, Notic. da Academ. de 2 -de Jan. de 1727. Vasconcel. nos Schol. a Resend. - -[477] Baudrand in Diction. Geograp. - -[478] Cellar. Geograf. liv. 2. cap. 1. - -[479] Bochart. Geograph. Sacr. liv. 1. cap. 34. - -[480] Argot. Mem. de Braga tom. 1. p. 162. - -[481] Ibid. p. 60. - -[482] Agiol. Lusit. tom. 2. - -[483] Resend lib. 1. - -[484] Botelho no Alphonso liv. 3. oitav. 88. Vide Just. Lipsium lib. 3. -de Militia Roman. Dialog. 3. - -[485] Vasconcel in Schol. ad lib. 1. Resend. de Antiq. _Cùm enim Cetras -resonas,_ (explica o texto de Silio) _hoc est tinnitum, & sonitum -edentes vocet, manifestè innuit esse illa parva scuta, quæ Bluqueria -dicuntur ex ligno fabrefacta, atque ære contecta, quæ clarissimum -sonitum inter se collisa edunt; quod coriaceis illis, & maioribus -scutis, seu parmis nequaquam convenire potest_. - -[486] Silius Ital lib 3. vers. 346. - -[487] Botelh. no Alphons. liv. 3. est. 90. - -[488] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 24. - -[489] Ibid. liv. 5. cap. 1. - -[490] De la Clede, Histor. de Portug. tom. 1. pag. mihi 21. - -[491] Alexand. ab Alexand. lib 6. cap. 26. _Lusitanis vetus mos erat, -ex intestinis hominum extæ prospicere, atque inde omina, & divinationes -captare, abscissasque captivorum dextras pro munere diis offerre._ - -[492] Bohem. lib. 3. cap. 25. de Vetustis Lusitanorum moribus. _Ægrotos -vetusto ritu Ægyptiorum in plateis deponunt, ut qui eo morbi genere -tentati sunt, commone facere eos valeat._ - -[493] Garm. no Theatr. Univ. de España tom. 1. p. 195. - -[494] Justin. liv. 44. cap. ult. Marian. tom. 1. liv. 1. cap 14. -Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 23. - -[495] Vasæus tom. 1. Chron. ann. 1250. _Circa hunc annum ponunt -admirabilem illam siccitatem... quod mihi quidem non sit verissimile, -quia nulla ejus rei memoria in veterum libris reperitur, qui rem tam -stupendam, ac raram proculdubio non tacuissent._ - -[496] Diodot. Sicul. liv. 1. Arist. de mirab. auscult. Monarq. Lusit. -liv. 1. cap. 26. - - - - - CAPITULO II. - -_Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes._ - - -1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo -em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro, -chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a -que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com -elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo -turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos -seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões, -e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano -com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado -descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados; -porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este -conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel. - -2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de -Christo, querem alguns Chronistas[497] que Nabucodonosor viesse, ou -mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os -Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito -de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos, -quebrantaraõ os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he -tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.[498] O certo he, -que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices: -que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em -recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes -castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas -da Ilha de Cadiz. - -3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente -buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e -lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de -exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou -a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor, -e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama -Principe,[499] fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal -para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio -Gaudalete[500] deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os -preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos -pendurados nas paredes dos Templos. - -4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para -mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à -sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes mais -animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e os -expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos naõ -querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria. Passaraõ -o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços, porque -os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo misturados com Gregos, -e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito varonil das -matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus inimigos, e a -vitoria ficou famosa com o titulo honroso de _Empreza das mulheres_, -produzindo-se por meyo della a tranquillidade na Provincia do -Minho.[501] - -5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices -sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as -tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo -poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon, -e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes, -estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor -a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo -se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança -alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ -com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos. - -6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a -narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que -rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem -ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e -provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver -mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com -huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto -havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de -Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos. - -7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos, de hum grande numero -de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era -Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez -do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava -os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e -desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para -o mayor numero das suas vitorias.[502] Elles foraõ os que em credito -da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia -a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel -passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula, -para evidente demonstraçaõ do seu esforço. - -8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a -assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em -que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares -mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio, -Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de -mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do -primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul -Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ, -e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em -recompensa de hum só Viriato.[503] - -9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se -deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse -da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento -da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias, -se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer o heroico -alento com os mimos daquella Cidade.[504] - -10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas -esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais -desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos -Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous -valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo -Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do -risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por -naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna -alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios -de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas -Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio -senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[497] Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes España en -la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos. - -[498] Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de antiguid. -p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34. - -[499] Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18. - -[500] Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29. - -[501] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1. part. 1. -cap. 9. num. 9. - -[502] Liv. decad. 3. lib. 7. - -[503] Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit. - - - - - CAPITULO III. - -_Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos._ - - -1 Assim continuava a soberania Romana em dominar Hespanha, que sendo -até o anno 534 da fundaçaõ de Roma huma só Provincia Consular, pelos -annos porém de 557 da mesma fundaçaõ, e 196 antes de Christo, foy -dividida em duas Provincias Pretorias, ou Proconsulares, chamadas -_Ulterior_, e _Citerior._ Naquella se comprehendia a Betica, e a -Lusitania, isto he, Andaluzia, e Portugal: na Citerior todas as mais -partes de Hespanha.[505] - -2 Para exacto governo dellas eraõ enviados de Roma varios Pretores, ou -Governadores fortalecidos com legiões de gente militar para presidio -das terras, que hiaõ conquistando; porém como os Lusitanos mal soffriaõ -o jugo Romano, foy preciso ao respeito dos Senadores para nos sujeitar -à obediencia mandar tambem o Consul Cataõ Censorino, o qual usando -de affabilidade, dominou os corações da nossa gente até o ultimo dia -do seu governo, pois tanto que Scipiaõ Nasica lhe succedeo, logo se -revoltaraõ como leões indomitos contra elle. - -3 Inconstante fortuna experimentou Nasica no principio da sua Pretura; -porém no fim a logrou taõ favoravel à custa dos nossos, que a sorte, -mais que o esforço, o fez vencedor de cento e trinta e quatro -bandeiras.[506] Mas naõ perdendo os Lusitanos já mais o acordo na -desgraça presente, e appellando para o primeiro conflicto, souberaõ -vingar a perda passada com destruiçaõ total do exercito Romano, que -governava Lucio Emilio,[507] ruina, que por muitos dias continuos foy -deplorada dentro em Roma, e até a vingança, que depois meditaraõ, foy -mal succedida. - -4 Continuavaõ os Pretores, e Consules o governo da Hespanha, os quaes -ou abatidos, ou vitoriosos, sempre confessavaõ por formidaveis as armas -Lusitanas, custando-lhe cada palmo de nosso terreno adquirido rios de -sangue Romano. Entre os nossos Capitães, que deixaraõ resplandecente -nome na veneravel duraçaõ da memoria, foraõ _Apimano_, _Cesaron_, -_Chancheno_, _Viriato_, e _Sertorio_, cujas gloriosas proezas occupaõ -até as Historias dos que pertenderaõ diminuirlhe a fama. - -5 Aquelle espantoso terror, que o brio dos Lusitanos tinha semeada em -Roma, chegou a produzir tal impressaõ nos animos de todos, que não -havia nem Tribuno, nem Pretor, que se quizesse encarregar da guerra de -Hespanha; e por acudirem pelo credito da Naçaõ, buscaraõ o caminho do -ludibrio, que foy o da aleivosia, naõ sem escandalo do mundo. Assim se -experimentou na morte de Viriato II. pela perfidia de Quinto Servilio, -e na de Sertorio pela de Marco Perpenna.[508] - -6 Seria alheyo da brevidade, que promettemos, particularizar acções, -e successos dos Lusitanos: todas taõ benemeritas da honra, e da -eternidade, como indignas de fama as que os Romanos obravaõ em nossos -Paizes; e muitas vezes com o dolo, e malicia em taõ vulgarizadas -operações, que mal podiaõ occultar a ignominia, que dellas lhes -resultava, como aconteceo com Servio Galba, reprehendido no Capitolio -pelas manifestas aleivosias, que usava com a gente Portugueza.[509] - -7 Mais de duzentos annos tardou a conquista da Lusitania; e depois que -se achavaõ nossas forças já lassas, e vigoroso o poder Romano, ainda -assim foy preciso ao prudente Conselho dos Senadores para acabar de -conquistar Hespanha determinar que se expedissem em diversos tempos -dous famosissimos Imperadores, Julio Cesar, e Octaviano Augusto. -Aquelle sendo o mayor guerreiro do mundo, padeceo innumeraveis -resistencias dos nossos. Que cuidados, e desconfianças naõ causaraõ -a Cesar os habitadores da serra da Estrella? Prenderaõ-lhe os -Embaixadores, zombaraõ delles, e se naõ usara Cesar de alguns -estratagemas, nem lhe domara a ferocidade, nem os vencera.[510] - -8 Pouco tempo durava esta sujeiçaõ, porque os nossos com obediencia -forçada, ainda que com forças diminutas, a cada passo se estavaõ -rebelando contra os presidios Romanos, querendo antes expôr as vidas -aos mayores empenhos da guerra, que renderem-se a quem lhe queria -supear a liberdade; e como já tinhaõ perdido as esperanças ao socego da -paz, era inconquistavel o seu animo, e orgulho. - -9 Seguiraõ-se os incendios tambem na Hespanha das guerras civis entre -Cesar, e Pompeo, e entaõ se acabou de ver que se ficavaõ triunfantes -aquellas bandeiras, a cuja sombra militavaõ Portuguezes. Veyo -finalmente Octaviano Augusto, e conseguida huma paz universal, se -viraõ os Lusitanos totalmente sujeitos ao jugo do Imperio Romano. Em -agradecimento desta tranquillidade offereceraõ muitas povoações nossas -nas fabricas de alguns Templos, eternos elogios, que por acreditarem a -duraçaõ, ainda o tempo gastando-lhe as pedras, lhe naõ pode consumir a -memoria. - -10 Dentro deste feliz, e pacifico silencio nasceo ao mundo a salvaçaõ -delle Christo bem nosso; e depois de ter completado Octaviano trinta e -seis annos de Imperio formal, se lhe seguio Tiberio, e successivamente -outros Imperadores sempre com o dominio das nossas terras, as quaes com -a cubiça dos legados fluctuavaõ em mares de turbulencia. Rompiaõ-se os -montes para se desentranharem das suas veas o ouro, e a prata. - -11 Alguns destes disturbios da ambiçaõ fez serenar a prudencia de -Vespasiano, e de seu filho Tito, os quaes com generosa, e liberal -affabilidade illustraraõ o Reino com obras, os vassallos com -beneficios. A aspereza dos caminhos se vio reduzida a planicies -suaves; os rios caudalosos vadeados com pontes magnificas; e toda a -Lusitania para o seu bom regimen dividida em tres Comarcas, cinco -Colonias, e tres Municipios. - -12 Foraõ passando os annos, e as vidas de outros Imperadores, a quem -nossos antepassados reconheceraõ vassallagem, até que no Imperio de -Galieno começou a descahir a grandeza Romana,[511] experimentando -mais lamentavel estrago em tempo de Arcadio, e Honorio pela invasaõ -dos barbaros de Alemanha, que discorrendo sem piedade por todas as -Provincias da sujeiçaõ de Roma, entraraõ a sepultar nas ruinas, que -abrirão suas espadas, as glorias da Monarquia Imperial por tantos -seculos triunfante, mas agora opprimida, e arrastada pelo decreto fatal -da Providencia. Será conveniente antes que entremos a informar do -estabelecimento do novo dominio, formar hum Catalogo chronologico dos -Pretores, e Consules, que nos governaraõ, noticia, que em obsequio, e -beneficio da Historia, se fará estimavel aos estudiosos. - - -_Catalogo chronologico aos Pretores, Consules, e Pro-Consules Romanos, -que vieraõ governar Hespanha desde a sua primeira divisaõ em Ulterior, -e Citerior até o Nascimento de Christo Senhor nosso._ - - Ant.| Fund.| - de | de | - Chr.| Roma | - 196 | 557 | Na Ulterior Marco Elio, ou Helvio. - | | - | | Na Citerior Cneyo Sempronio Tuditano. - | | - 195 | 558 | Na Ulterior, quinto Fabio Buteo. - | | - | | Na Citerior Quinto Minucio Thermo. - 194 | 559 | Na Ulterior Appio Claudio Nero. - | | - | | Na Citerior Paulo, ou Publio Manlio. - | | - | | Com estes dous Pretores veyo tambem - | | neste anno o Consul Marco Porcio - | | Cataõ Censorino, o qual teve o governo - | | em toda a Hespanha, e com felicidade, - | | porque os Lisbonenses, e os de - | | toda a sua Comarca lhe levantaraõ alguns - | | padrões honorificos, e elle recolhendo-se - | | a Roma riquissimo, introduzio - | | no thesouro publico mais de quatrocentos - | | mil cruzados em ouro, e prata, - | | que extrahio das nossas terras; e para - | | ter estas seguras na sua ausencia, antes - | | que partisse mandou derribar os muros - | | a quatrocentas Cidades, e Lugares fortes.[512] - | | - 192 | 560 | Na Ulterior Publio Cornelio Scipiaõ - | | Nasica. - | | - | | Na Citerior Sexto Digicio. - | | - | | Tiveraõ os Portuguezes neste governo - | | grandes batalhas com os Romanos, e estes - | | andavaõ taõ desconfiados, e Nasica - | | taõ temeroso do valor Lusitano, que - | | chegou a fazer votos a Jupiter pela vitoria, - | | a qual com effeito alcançou, porque - | | a fome, e fadiga dos nossos debilitou - | | muito o nosso exercito, e com tudo - | | custou-lhe sete mil e novecentos Romanos, - | | que morreraõ no conflicto. - | | - 191 | 561 | Na Ulterior Marco Fulvio Nobilior. - | | - | | Na Citerior Cayo Flaminio. - | | - 190 | 562 | Na Ulterior Appio Atilio Serrano. - | | - | | Na Citerior Marco Bebio Pamfilo. - | | - 189 | 563 | Na Ulterior Lucio Emilio Paulo. - | | Na Citerior Cayo Flaminio reconduzido. - | | - | | Venceraõ os Lusitanos ao Pretor Emilio, - | | matando-lhe seis mil Romanos. - | | - 188 | 564 | Ficaraõ reconduzidos os mesmos Pretores, - | | e Lucio Emilio alcançou vitoria - | | dos Portuguezes. - | | - 187 | 565 | Na Ulterior Lucio Bebio Divite. - | | - | | Na Citerior Lucio Plaucio Hipseo. - | | - | | Lucio Bebio morreo em Marselha antes - | | de chegar a Hespanha, e assim os - | | Consules mandaraõ para a Pretura de - | | Portugal a Publio Junio Bruto. - | | - 186 | 566 | Na Ulterior Cayo Catinio. - | | - | | Na Citerior Lucio Manlio Acidino. - | | - 185 | 567 | Os mesmos reconduzidos. - | | - 184 | 568 | Na Ulterior Cayo Calfurnio Pison. - | | - | | Na Citerior Lucio Quincio Crispino. - | | - | | Os Lusitanos unidos com os Celtiberos - | | ganharaõ a estes dous Pretores huma - | | batalha, em que lhe mataraõ cinco mil - | | homens. - | | - 183 | 569 | Os mesmos reconduzidos. - | | - 182 | 570 | Na Ulterior Paulo, ou Publio Sempronio - | | Longo. - | | - | | Na Citerior Aulo Terencio Varro. - | | - 181 | 571 | Ficaraõ reconduzidos. - | | - 180 | 572 | Na Ulterior Publio Manlio. - | | - | | Na Citerior Q. Fulvio Falco. - | | - 178 | 574 | Na Ulterior Lucio Posthumio Albino. - | | - | | Na Citerior Tiberio Sempronio Graco. - | | - | | O Pretor Posthumio teve huma grande - | | batalha com os Bracarenses, a quem - | | venceo depois de huma grande derrota - | | no seu exercito. - | | - 176 | 576 | Na Ulterior Tito Fonteyo Capito. - | | Na Citerior Marco Ticinio Curvo. - | | - 174 | 578 | Na Ulterior Marco Cornelio Scipiaõ. - | | - | | Na Citerior Publio Licinio Crasso. - | | - | | Estes dous Pretores naõ chegaraõ a vir - | | a Hespanha, e assim foraõ reconduzidos - | | os antecedentes. - | | - 173 | 579 | Na Ulterior ignora-se quem fosse neste - | | anno o Pretor. - | | - | | Na Citerior Appio Claudio Cento. - | | - 172 | 580 | Na Ulterior Cneyo Servilio Cepio. - | | - | | Na Citerior Publio Furio Filo. - | | - 171 | 581 | Na Ulterior Marco Macieno. - | | - | | Na Citerior Cneyo Fabio Buteo. - | | - 170 | 582 | Na Ulterior Spurio Lucrecio. - | | - | | Na Citerior Marco Junio. - | | - 169 | 583 | Neste anno determinaraõ os Consules - | | que houvesse na Hespanha huma só Pretura, - | | ou Provincia, e assim elegeraõ para - | | Pretor a Lucio Canuleyo. - | | - 167 | 585 | Claudio, ou Marco Marcelo. - | | - 166 | 586 | Publio Fonteyo. - | | - 165 | 587 | Neste anno tornaraõ a dividir Hespanha - | | em duas Preturas, e para a Ulterior - | | veyo Cayo Licinio Nerva, e para a Citerior - | | Cneyo Fulvio. - | | - 153 | 599 | Na Ulterior Marco Manilio. - | | - | | Neste governo floreceo hum insigne - | | Capitaõ Bracaranse, chamado Apimano, - | | a quem se seguio Cesaron, que ambos - | | aterraraõ os Romanos. - | | - 152 | 600 | Neste anno, conforme Orosio, foy - | | Pretor Sergio Galba; mas Apiano Alexandrino - | | diz que era Calfurnio Pison. - | | - 151 | 601 | Neste anno foy Hespanha Provincia - | | Consular, e para seu governo vieraõ os - | | Consules Q. Fulvio, e Tito Anio. - | | - 149 | 603 | Lucio Luculo, e Albo Posthumio - | | Consules tiveraõ com os Celtiberos, e - | | Vacceos algumas batalhas taõ mal succedidas, - | | que causou em Roma tanto - | | medo, que naõ havia quem quizesse vir - | | militar para Hespanha; até que Publio - | | Scipiaõ Emilitano, offerecendo-se voluntario, - | | persuadio a muitos a que viessem. - | | - | | No governo destes Consules diz Paulo - | | Orosio, que acontecera aquella vil - | | traição, que fez Servio Galba aos Portuguezes - | | do Algarve,[513] e que refere - | | a Monarquia Lusitana.[514] - | | - 145 | 607 | No governo dos Consules Cneyo Cornelio - | | Lentulo, e L. Mumio principiou - | | a florecer o esforçado valor do segundo - | | Viriato, dando mayor credito ao valor - | | dos Portuguezes com as repetidas vitorias, - | | que alcançava dos Romanos. - | | - 144 | 608 | C. Vetilio, ou Marco Vetilio, Pretor - | | da Hespanha Ulterior, foy vencido - | | por Viriato. - | | - 143 | 609 | Cayo Plaucio, Pretor da Hespanha - | | Ulterior, tambem vencido por Viriato - | | em muitas batalhas. - | | - 142 | 610 | Claudio Unimano vencido por Viriato - | | com grande infamia dos Romanos. - | | - | | Neste governo obraraõ prodigios os - | | Portuguezes. - | | - 141 | 611 | Cayo Nigidio, a quem huns daõ o titulo - | | de Pretor, outros de Consul, ficou - | | vencido por Viriato no campo de Viseu - | | em humas grandes vallas, que abrio para - | | isso. Taõ atemorizados tinhaõ aos Romanos - | | estes prosperos successos de Viriato, - | | que lhes foy preciso para esta - | | conquista de Hespanha duplicar os soccorros - | | com exercitos Consulares. - | | - 140 | 612 | Q. Fabio Consul usou crueldades com - | | os Portuguezes. - | | - 139 | 613 | Q. Fabio Proconsul expugnou muitas - | | Cidades da Lusitania. - | | - 138 | 614 | O mesmo reconduzido, e juntamente - | | os Consules Cayo Lelio o _Sabio_, e Q. - | | Servilio Cepio, que foy author do assassinio, - | | e morte de Viriato;[515] e Joaõ - | | de Barros diz, que Viriato fora morto - | | no Lumiar, termo de Lisboa.[516] - | | - 137 | 615 | M. Pompilio na Hespanha Citerior. - | | - 136 | 616 | Decio Junio Bruto Consul fez pazes - | | com os Lusitanos. - | | - 135 | 617 | Neste anno sendo Proconsul o mesmo - | | Decio, ou Decimo Junio Bruto, sujeitou - | | ao seu dominio quasi toda a Lusitania, - | | e na passagem do rio Lima lhe aconteceo - | | com os soldados, que naõ queriaõ - | | passar, o que fica referido na primeira - | | parte pag. 127. fallando daquelle - | | rio. A mayor resistencia, que experimentou - | | este Proconsul, foy a que lhe - | | fez a Cidade de Cinania. - | | - 134 | 618 | Neste anno vieraõ a Hespanha o Consul - | | Q. Furio, e os Proconsules Q. Metello, - | | e Q. Pomponio. - | | - 133 | 619 | M. Emilio Lepido Proconsul. - | | - 132 | 620 | Scipiaõ Africano Consul com C. Fulvio - | | Flaco poz hum apertado cerco a - | | Numancia. - | | - 131 | 621 | Neste anno vendo-se os Numantinos - | | taõ fortemente cercados pelos Romanos, - | | determinaraõ pôr fogo à Cidade, - | | e morrer antes todos, que entregarem-se. - | | Assim o executaraõ de sorte, que os - | | Romanos naõ acharaõ cousa, de que - | | triunfar, mais que do nome de Numancia. - | | - 130 | 622 | Neste anno, e em alguns dos seguintes - | | vieraõ a Hespanha varios Pretores, - | | e Consules, cujos annos de seus governos - | | naõ se podem produzir em chronologia - | | certa. - | | - 107 | 645 | Q. Servilio Cepio, ou Scipiaõ, triunfou - | | dos Portuguezes. - | | - 103 | 649 | Venceraõ os Lusitanos aos exercitos - | | dos Consules P. Rutilio Rufo, e C. - | | Manlio. - | | - 100 | 652 | C. Mario IV. e Q. Luctacio Consules - | | ficaraõ vencidos dos Lusitanos, e a - | | Hespanha Ulterior em grande paz. - | | - 97 | 655 | Lucio Cornelio Dolabella Proconsul - | | da Hespanha Ulterior triunfa dos Lusitanos. - | | - 92 | 660 | Publio Licinio Crasso Proconsul triunfa - | | dos Lusitanos. - | | - 79 | 673 | Neste anno floreceo o valor do Capitaõ - | | Q. Sertorio, que fugindo de Sylla, - | | seu inimigo Romano, veyo a Hespanha, - | | e conciliando a vontade, e animo dos - | | Portuguezes, venceo a muitos Capitães - | | Romanos. Edificou varias obras em Portugal, - | | principalmente Evora. - | | - 75 | 677 | Neste anno veyo a Hespanha Pompeo - | | Magno, a quem Sertorio venceo com - | | grande credito dos Portuguezes. - | | - 69 | 683 | Foy morto Sertorio em Evora atraiçoadamente - | | por M. Perpenna, e outros - | | conjurados. - | | - 68 | 684 | Com a morte de Sertorio conseguio - | | Pompeo que quasi todas as Cidades de - | | Hespanha se lhe entregassem, ainda que - | | à força de armas, e com bastante resistencia - | | de outras. - | | - 67 | 685 | Publio Pison Proconsul. - | | - 62 | 690 | Neste anno veyo a Hespanha com titulo - | | de Legado hum nobre mancebo - | | Romano, chamado Cneyo Pison, ao - | | qual mataraõ publicamente huns soldados - | | Hespanhoes por industria de Pompeo. - | | Tambem aconteceo neste anno - | | hum notavel tremor de terra na costa de - | | Portugal, e Galiza, com que se arruinaraõ - | | muitos Lugares.[517] - | | - 60 | 692 | Q. Calidio com titulo de Pretor de - | | Hespanha destruio muitas companhias - | | de Lusitanos. - | | - 59 | 693 | Na Hespanha Ulterior Tuberon Pretor. - | | Veyo por seu Questor C. Julio Cesar. - | | - 58 | 694 | Na Hespanha Ulterior C. Julio Cesar - | | Pretor fez sujeitar ao Imperio Romano - | | a Lusitania, e Galiza; e recolhendo-se - | | a Roma, foy feito Consul. - | | - 57 | 695 | Veyo Pompeo a Hespanha, que ao - | | depois administrou por Legados. - | | - 56 | 696 | Publio Lentulo Pretor. - | | - 54 | 698 | Q. Metello Nepos Proconsul. - | | - 53 | 699 | Q. Cecilio Dentato. Houve em Portugal - | | tanta fartura, que os mantimentos - | | se davaõ quasi de graça. - | | - 52 | 700 | Q. Cecilio Metello Neto. - | | - 50 | 702 | Tuberon Proconsul. - | | - 47 | 705 | Foy nomeado Pompeo para Pretor de - | | ambas as Provincias de Hespanha, as - | | quaes administrou por Legados, que - | | foraõ Petreyo, Afranio, e M. Varro. - | | Neste anno andavaõ em grande calor as - | | guerras civis entre Pompeo, e Julio Cesar. - | | - 46 | 706 | Sendo Julio Cesar Consul, e Dictador, - | | regeraõ ambas as Hespanhas Q. - | | Cassio a Ulterior, e o Proconsul M. Lepido - | | a Citerior. - | | - 44 | 708 | Q. Cassio Longino Propretor da Hespanha - | | Ulterior summamente avaro, e - | | cruel. - | | - 43 | 709 | C. Trebonio Proconsul. - | | - 42 | 710 | Q. Fabio Consul triunfou na Hespanha. - | | Neste anno pelejando Julio Cesar - | | contra os filhos de Pompeo, alcançou - | | delles o triunfo junto da Cidade de Munda - | | no Reino de Granada, em que os - | | Portuguezes mostraraõ grande fidelidade - | | a Pompeo.[518] - | | - 40 | 712 | Q. Pelio Proconsul triunfa na Hepanha. - | | - 39 | 713 | M. Emilio Lepido tambem alcançou - | | vitoria na Hespanha. - | | - 37 | 715 | Tomaõ os Lusitanos a Era de Cesar. - | | - 35 | 717 | Cneyo Domicio Calvino Proconsul - | | triunfa. - | | - | | C. Norbano Flaco Proconsul triunfa. - | | - 31 | 721 | C. Asinio Polion, discipulo de M. - | | Tulio, ficou governando Hespanha na - | | ausencia de Julio Cesar. - | | - 26 | 726 | Vendo o Imperador Octaviano Augusto - | | o pouco, que as armas Romanas - | | tinhaõ conseguido em Hespanha pelo espaço - | | de duzentos annos, determinou vir - | | em pessoa, e dentro em quatro annos - | | conciliou a paz em toda a Hespanha. Estando - | | em Tarragona, gozou hum pleno - | | dominio da honra Imperial. Muitos - | | povos Portuguezes lhe dedicaraõ templos, - | | e estatuas pelas mercês, e privilegios, - | | que lhes concedeo, singularizando-se - | | Evora, Mertola, Lisboa, e - | | Santarem, mudando todas os seus nomes, - | | que tinhaõ, em outro, que dissesse respeito - | | aos favores recebidos; e assim Evora - | | se principiou a chamar _Liberalitas Julia_, - | | Mertola _Mirtilis Julia_, Lisboa _Felicitas - | | Julia_, Santarem _Julium Præsidium_. - | | - 2 | 750 | Neste anno mandou o dito Imperador, - | | estando em Tarragona, publicar o - | | edicto geral para se alistar toda a gente, - | | que havia no mundo sujeita ao Imperio - | | Romano, e pagar certo tributo, que - | | era trinta e seis reis cada pessoa em reconhecimento - | | da vassallagem. De Portuguezes - | | se alistaraõ cinco contos e sessenta - | | e oito mil pessoas cabeças de familias, - | | cuja ordem se passou nas Chancellarias - | | do Reino, chamadas entaõ Conventos - | | Juridicos, e eraõ _Merida_, que - | | hoje está fóra do territorio de Portugal; - | | _Béja_, à qual acudia o povo de Alentejo, - | | e Algarve; _Braga_ para o povo do - | | Minho, e Tras os Montes; _Santarem_ - | | para o da Beira, e Estremadura. - | | - 1 | 751 | Neste anno se fez famoso hum Portuguez - | | do Minho, chamado _Corocota_, que - | | com certo numero de vadios inquietou - | | varias terras, e o Imperador promettendo - | | tres mil cruzados a quem o apanhasse, - | | elle mesmo se lhe veyo offerecer, e - | | o Imperador perdoando-lhe, o admittio - | | para sua guarda. - | | - | | Depois do Nascimento de Christo até - | | os Godos naõ ha cousa memoravel, que - | | pertença à Lusitania, mais que o acharse - | | em huma socegada paz na obediencia dos - | | Romanos. Até os tempos dos Imperadores - | | Maximiniano, e Diocleciano durou - | | o governo de Hespanha em Pretores, - | | e Proconsules: no de Constantino - | | houve outro estylo, porque se instituio - | | hum Vigario do Imperio, a que obedeciaõ - | | todos os Legados, e Regedores das - | | Provincias, e o tal Vigario ainda reconhecia - | | por Superior ao Prefeito do Pretorio, - | | que residia em França, por estar - | | no meyo das terras da sua jurisdicçaõ. - | | Depois se começou a governar por Condes. - | | Havia tambem alguns Regulos, ou - | | Fidalgos, Senhores de Cidades, subditos - | | ao Imperio Romano, qual foy Ont - | | Comero, pay de Santa Engracia, e no - | | tempo dos Godos Castinaldo, Principe - | | de Nabancia, e Cathelio, Senhor de - | | Norba Cesarea, e pay das Santas nove - | | irmãs.[519] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[504] Valer. Maxim. lib. 9. Just. Lipsio lib. 4. de Magnitud. Roman. -cap. 5. Tarselin. Epitom. Historic. lib. 3. - -[505] Strab lib. 3. Liv. decad. 4. lib. 3. Plin. lib. 3. c. 3. Guid. -Pancirol Notitia Dignit. utriusq. Imper. c. 66. Robortel. de Provinc. -Roman. Vasæus tom. 1. cap. 8. n. 14. - -[506] Monarq. Lusitan. liv 2. cap. 23. - -[507] Oros. liv. 4. cap. 19. Liv. decad. 4. lib. 6. Moral. lib. 7. cap. -11. - -[508] _Tantus metus Romanas omnes invasit; ut nemo inveniretur, qui vel -Tribunus, vel Legatus ire in eam Provinciam vellet._ Vasæus tom. 1. -cap. 12. Liv. decad. 3. lib. 6. - -[509] Orosius lib. 4. cap. 21. - -[510] Monarq. Lusitan. liv. 4. cap. 2. e 3. - -[511] Monarq. Lusitan. liv. 5. cap. 17. - -[512] Liv. decad. 3. lib. 7. Jul. Front. l. 1. c. 1. Val. Max. l. 4. - -[513] Oros. l. 4. c. 21. - -[514] Monarq. Lusit. liv. 2. c. 30. - -[515] Vide Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 10. - -[516] Joaõ de Barr. na Descripçaõ do Minho cap. 3. - -[517] Monarq. Lusitan. liv. 3. cap. 30. - -[518] Vid. Monarq. Lusit. liv. 4. cap. 17. e 18. Vas. tom. 1. cap. 12. -Resend. lib. 3. Antiquit. - -[519] Veja-se a Cujac. liv. 8. cap. 25. Observ. a Vaseu tom. 1. Chron. -cap. 13. Resend. lib. 3. de Antiq. Monarq. Lusit. part. 1. liv. 4. cap. -30. e liv. 5. cap. 18. 21. e 24. - - - - - CAPITULO IV. - -_Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos._ - - -1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador -Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho -Eucherio, o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas -gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas _Vandalos_, _Suevos_, -_Alanos_, e _Selingos_, os quaes depois de terem saqueado Roma, e -destruido grande parte de França, invadiraõ nossas terras com huma -expediçaõ taõ barbara, talando campos, e edificios, que igualavaõ a -colera com a crueldade.[520] - -2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca -dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que -aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ -a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,[521] que corresponde aos -annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que -esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a -tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que -os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade, -arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao -Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes -barbaros se encaminhavaõ. - -3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ; e por -naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos com o seu -Rey _Gunderico_, ou _Mondigelesio_, occuparaõ Andaluzia, que delles -adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus Reys _Resplandiano_, -e _Hermenerico_ possuiraõ a Lusitania, e Galiza, ficando Asturias, e -Biscaya permanecendo na sujeiçaõ Romana.[522] - -4 Morto _Resplandiano_ se lhe seguio _Atáces_, o qual estribando seu -atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte da Lusitania, -foy accommetter _Hermenerico_, Rey dos Suevos, a quem tomou algumas -terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava existente no sitio -de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que agora existe, -obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas. - -5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces; -convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no -Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos, -e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo -porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua -filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas -consideraveis.[523] Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro, -occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que -seguiaõ o partido Romano. - -6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo -accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces -pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito -pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com -taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a -Atáces. - -7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ -a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser -feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com -tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os -Portuguezes a chamar Suevos.[524] Passaõ os Vandalos para Africa em -numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na -Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte. - -8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos, -quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey -dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto -a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo, -para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de -Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França. - -9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos -Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e -nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada -eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ -lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os -Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey. - -10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de -naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a -França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos -descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e -padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ. - -11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que -seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como -a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle -o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente -feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o -principado da Lusitania, e dos Suevos. - -12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey -Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus -antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e -reconhecimento, em que vivia. Lisongeado Theodorico desta attençaõ, -houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha, -a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que -inficionou todo o Reino,[525] na qual foraõ permanecendo outros Reys -até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que -abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ -vivido noventa annos. - -13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias, -que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira, -voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o -Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,[526] principiando daqui para -diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal. - -14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ -continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras -Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys -Godos.[527] Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de -successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve -revelaçaõ divina,[528] foy escolhido Vamba, natural, e habitador de -Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o -dispotico exercicio da sua agricultura. - -15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e -elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel, -respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ -seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois -ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra, -foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ Rey de toda -Hespanha[529] na Era de 710.[530] - -16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar -Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum -accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a -Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o -Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,[531] -acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que -Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos. - -17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois -Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte -humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte -lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o -Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.[532] - -18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados -acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ -desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por -appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por -conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte -da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde, -chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura: -affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe -prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se -passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou -Egilona, formosa Princeza de Africa, a quem a braveza das ondas fizera -por hum incidente arribar a Hespanha.[533] - -19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com -seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle -se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros, -por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e -conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter -Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente -Monarquia dos Godos. - -20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que -corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas -circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros -com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous -annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que -os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem -Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer -destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ -que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo -alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em -parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e -que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o -que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.[534] E porque os -Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos -delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia. - - -_Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e -Galiza._ - - | Ann.| - | de | - | Chr.| - | | - | 409 | _Hermerico_, ou _Hermenerico_. Teve guerras - | | com os Alanos. Depois dos Vandalos - | | passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo - | | o Reino de Portugal da fórma, que hoje - | | está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza. - | | Morreo em Merida de huma doença, - | | que lhe durou sete annos, e governou trinta - | | e dous. - | | - | 440 | _Rechila_, filho do antecedente. Fora Principe - | | perfeito, se naõ seguira o Arrianismo. - | | Com prosperidade, e paz governou sete annos. - | | - | 448 | _Reciario_, filho de Rechila. Teve alguns - | | emulos no principio do seu reinado: casou - | | com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou, - | | e destruio os Vascões: passou a França - | | a visitar seu sogro, e na retirada conquistou - | | muitas terras de Hespanha. S. Balconio, - | | Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo. - | | Na Cidade do Porto foy degollado - | | por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha - | | verdadeira dos Suevos. Governou nove - | | annos. - | | - | 457 | _Maldra_, ou _Masdra_. Foy eleito na Cidade - | | de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do - | | Reino; mas padeceo as opposições, que lhe - | | fez _Franta_, que os do partido contrario - | | introduziraõ no governo, e elle governou tres - | | annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado - | | _Frumario_, que reinou tyrannicamente - | | dous annos, e a Masdra se seguio - | | - | 464 | _Remismundo_, a quem Santo Isidoro chama - | | _Arismundo_, filho de Masdra. Ficou prevalecendo - | | o seu reinado entre os dous precedentes - | | Contendores. Foy cativo, e prezo por - | | ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio - | | em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante - | | naõ he muy certa a successaõ dos Reys - | | Suevos por se interromper a sua serie com a - | | morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito[535] - | | dá por incertos a _Theodulo_, _Veremundo_, - | | _Miro_, _Pharamiro_. Filippe de la Gandara,[536] - | | seguindo o Chronicon de Marco Maximo, - | | assina depois de Remismundo a _Hermenerico_ - | | no anno 556 com o governo de quasi - | | cincoenta annos: a _Rechila II._ _Reciario II._ - | | a quem S. Martinho Dumiense converteo à - | | Fé Catholica, e a _Ariamiro_, ou - | | - | 560 | _Theodomiro_, filho de Reciario. Converteo-se - | | à Fé juntamente com seu pay, e foy grande - | | defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se - | | no seu tempo o primeiro Concilio - | | Bracarense. Os annos do seu governo saõ - | | muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue - | | o allegado Gandara, diz que reinou vinte e - | | quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu - | | Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem - | | lhe assina dez annos de governo, e parece - | | o mais provavel. O Padre Argote lhe dá - | | o nome de Theodomiro Junior, porque antes - | | delle diz que houvera outro Theodomiro - | | Senior.[537] - | | - | 570 | _Miro_, ou _Ariamiro_. Foy excellente Principe - | | em piedade, e Religiaõ. Fez convocar - | | em Braga o segundo Concilio para desterrar - | | alguns abusos, e governou treze annos. Aqui - | | ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey, - | | que alguns confundem com Theodomiro, e - | | por isso naõ se ajusta entre os Authores a - | | chronologia como deve ser.[538] - | | - | 583 | _Eborico_, ou _Eurico_. Succedeo no governo - | | ao antecedente. Foy logo despojado do Reino - | | por _Andéca_, padrasto de Eburico, o qual - | | para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe - | | fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro - | | de Dume, e professar. Esta violencia vingou - | | pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo, - | | obrigando tambem a Andéca a se ordenar de - | | Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou - | | posse de todas as riquezas do Reino, o qual - | | no poder dos Suevos tinha durado em ambas - | | as fortunas cento e setenta e sete annos. - -Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma -serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto -em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.[539] Este -Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel -nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir -na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim -exclue a _Frantan_, _Fumario_, e _Andéca_, numerando sómente oito Reys -Suevos legitimos, e verdadeiros. - -_Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e -Portugal._ - - | Ann.| - | de | - | Chr.| - | | - | 411 | _Ataulfo_. Foy o primeiro Rey Godo, que - | | teve dominio em Hespanha. Suceedeo a - | | Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do - | | Imperador Honorio, aquem este deu em dote - | | as terras de Hespanha com o designio de - | | expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações - | | Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se - | | com brandura no governo, foy desobedecido - | | pelos seus, e por elles morto em - | | companhia de sete filhos. Dizem huns que - | | governara cinco annos, outros seis. - | | - | 416 | _Sigirico._ Era valeroso Capitaõ, e por isso - | | elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos - | | termos de paz; e naõ se contentando os - | | Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ - | | a vida. Governou hum anno. - | | - | 416 | _Walia._ Começou a governar com o projecto - | | de conquistar Africa: perdeo huma grande - | | armada: retira-se a Barcelona, faz pazes - | | com Honorio, e depois guerra aos Vandalos, - | | e os vence. Morre em Tolosa, tendo - | | governado tres annos. - | | - | 419 | _Theodoredo_, ou _Theodorico_. Fez guerra aos - | | Romanos, e morreo na cruelissima batalha - | | dos campos Catalaunicos, cahindo de hum - | | cavallo. Governou trinta e tres annos. - | | - | 452 | _Thurismundo_, filho de Theodoredo. Foy - | | morto por industria de seus irmãos. Governou - | | hum anno. - | | - | 453 | _Theuderico_, irmaõ de Thurismundo. Venceo, - | | e matou a Reciario, Rey dos Suevos, - | | e em Braga fez grandes hostilidades. Foy - | | morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze - | | annos. - | | - | 466 | _Eurico._ Deu leys escritas aos Godos, expulsou - | | aos Romanos de Hespanha, conquistou, - | | e saqueou muitas terras de Portugal. - | | Neste tempo se achava Hespanha dividida em - | | tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza, - | | parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era - | | dos Godos: os Romanos eraõ senhores das - | | Provincias de Cartagena, e Carpentana com - | | o restante da Lusitania. Depois de algumas - | | vitorias morreo em Arlés de França, e governou - | | dezasete annos. - | | - | 483 | _Alarico II._ filho de Eurico. Litigou com - | | Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha - | | junto a Carcasona perdeo com ella a - | | vida. Governou vinte e tres annos. - | | - | 506 | _Gesalico_, ou _Gesaleuco_ ou _Gensalarico_, filho - | | illegitimo de Alarico. Foy acclamado - | | pelos Godos na menoridade de Amalarico. - | | Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em - | | França; e sendo vencido por Theodorico, - | | Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro - | | legitimo, morreo de melancolia. Governou - | | quatro annos. - | | - | 511 | _Theudorico II._ Tendo reinado dezoito annos - | | em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem - | | huns que como Rey verdadeiro, outros - | | só como tutor, ou administrador de seu neto. - | | Governou quinze annos. - | | - | 526 | _Amalarico_, filho de Alarico. Teve por mulher - | | a Crotilde, Princeza Catholica, filha - | | de Clodoveo, Rey de França; mas como o - | | marido era Arriano, padeceo com elle grandes - | | trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ, - | | matando-o, e destruindo muitas povoações - | | de Hespanha. Governou cinco annos. - | | - | 531 | _Theudo_, ou _Theudio_, ou _Teudis_. Tinha sido - | | tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha: - | | outros o fazem descendente delRey - | | Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio - | | o governo dos Romanos em Hespanha quanto - | | aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio - | | por hum homem, que se fingia bobo. - | | Governou dezasete annos. - | | - | 548 | _Theudiselo_, ou _Theudisclo_. Foy Arriano, e - | | hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o - | | mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete. - | | Governou hum anno. - | | - | 549 | _Agila._ Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito - | | Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos - | | dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ - | | em Merida. Governou cinco annos. - | | - | 554 | _Athanagildo._ De Capitaõ, que se havia rebelado, - | | ficou com o Reino dos Godos. Morreo - | | em Toledo, e governou quatorze annos. - | | - | 567 | _Liuva_, ou _Luiva_. Depois de reinar hum - | | anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ - | | Leovigildo, e elle se retira às terras, - | | que tinha em França. Governou hum anno. - | | - | 568 | _Leovigildo._ Alcançou muitas vitorias dos - | | Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas, - | | foy o primeiro, que usou de insignias Reaes, - | | throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras - | | com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio, - | | e fez martyrizar em Sevilha depois - | | de huma apertada prizaõ. Governou dezoito - | | annos. - | | - | 586 | _Flavio Recaredo_, filho de Leovigildo, e sobrinho - | | de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou - | | a heresia de Arrio das terras de Hespanha, - | | e governou quinze annos. - | | - | 601 | _Liuva II._ filho de Recaredo, que alguns - | | querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico. - | | Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe - | | com tyrannia a vida. Governou - | | dous annos. - | | - | 603 | _Witerico._ Renovou em seu governo a perfidia - | | de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ - | | pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe - | | immunda sepultura. Governou seis annos. - | | - | 610 | _Gundemaro._ Foy defensor da immunidade - | | Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou - | | dous annos. - | | - | 612 | _Sisebuto._ No principio do seu reinado constrangeo - | | aos Judeos a que seguissem a Ley de - | | Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para - | | França. Acabou de lançar fóra de Portugal - | | aos Romanos, que ainda se conservavaõ - | | neste tempo por toda a costa do Algarve, e - | | entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel. - | | Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em - | | Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou - | | oito annos e meyo. - | | - | 621 | _Flavio Suyntila_, filho de Recaredo. Destruio - | | os Imperiaes, e sujeitou ao dominio - | | Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios, - | | e crueldades de fórma, que o Concilio - | | Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro, - | | o excommungou, e a sua mulher, e filhos. - | | Os Vice-Godos o privaraõ do Reino. - | | Governou dez annos. - | | - | 631 | _Sisenando._ Foy sublimado ao throno por favor - | | de Dagoberto, Rey de França, a quem - | | deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ - | | para acabar o grande Templo de S. - | | Diniz. Governou quatro annos. - | | - | 636 | _Chintila._ Por votos uniformes da Nobreza - | | foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado - | | Regio sua descendencia, convocou alguns - | | Concilios para estabelecer o seu intento. - | | Governou tres annos. - | | - | 640 | _Tulga._ Viveo pouco, porém fez obras de - | | grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em - | | Toledo com grande sentimento, e saudade de - | | todos. Governou dous annos. - | | - | 642 | _Chindasuindo._ Entrou a governar por violencia, - | | continuou com justiça de forte, que - | | soube temperar o arduo do principio com - | | o suave do progresso. Convocou em Toledo - | | Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ - | | entre Toro, e Torresilhas, onde está - | | enterrado. Governou seis annos. - | | - | 649 | _Recesuindo_, filho do antecedente. Entrou a - | | governar sem contradiçaõ, e com justiça. - | | Governou vinte e tres annos. - | | - | 672 | _Wamba_, ou _Bamba_. Foy eleito, e ungido - | | Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas - | | contra aquelles povos, que se queriaõ - | | eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos - | | triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma - | | coroa por outra: repudiou o Reino, e - | | deixando a purpura pelo habito de Religioso, - | | acabou santamente. Governou sete annos. - | | - | 680 | _Ervigio._ Obteve o Cetro por industrias, - | | que maquinou em vida de Bamba. Governou - | | sete annos. - | | - | 687 | _Egica_, ou _Egiza_, genro de Ervigio. Tomou - | | por companheiro a seu filho Witiza, e - | | obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade. - | | Divide o governo entre si, e o filho, - | | dando a este o dominio de Portugal, e Galiza, - | | e elle ficando com o restante da Hespanha. - | | Governou dez annos. - | | - | 701 | _Witiza._ Tanto que subio ao Throno, fez - | | estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se - | | a todo o genero de vicios, chegou ao extremo - | | da maldade, e tyrannia, mandando tirar - | | os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia - | | pacifico no governo de Cordova. Concedeo - | | varios privilegios aos Judeos, e depois - | | de outras muitas perversidades, que o fizeraõ - | | aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou - | | dez annos. - | | - | 711 | _D. Rodrigo_, filho de Theodofredo, e neto - | | de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios - | | ao antecessor. Os amores, que teve com - | | Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa - | | da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se - | | por conducta do Conde offendido - | | no desprezo de sua filha hum grande corpo de - | | exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo, - | | e todo o poder dos Godos, que havia - | | durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta - | | annos.[540] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[520] Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5. pag. 113. - -[521] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. - -[522] Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e triunf. -Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron. Gotic. -tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3. - -[523] Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi 224. - -[524] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4. - -[525] Morales lib. 11. cap. 33. - -[526] Vasæus Chron. tom. 1. p. 39. - -[527] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 24. - -[528] Faria na Europa Portug. tom. 1. part. 3. cap. 20. - -[529] Monarq. Lusit, liv. 6. cap. 25. - -[530] Morales liv. 12. cap. 40. e 41. - -[531] Berganç. Antig. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 6. n. 67. - -[532] Castilh. liv. 2. disc. 10. Monarq. Lusit. ut supr. cap. 30. - -[533] Garibay liv. 36. Clede tom. 1. liv. 3. pag. mihi 309. Monarq. -Lusit. liv. 7. cap. 1. - -[534] Argot. Memor. do Arcebispad. de Brag. liv. 5. cap. 2. num. 367. - -[535] Monarq. Lusitan. liv. 5 cap. 10. - -[536] Gandar Triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. liv. 7. cap. 7. - -[537] Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1. - -[538] Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la Era, y -Fechas de España. - -[539] Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia. - - - - - CAPITULO V. - -_Invasaõ, e dominio dos Mouros._ - - -1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete -em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor -computaçaõ,[541] e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz -Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os -seus dias junto a Viseu,[542] entraraõ os Arabes a executar com todo -o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous -annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao -dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias, que -pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos -Africanos.[543] - -2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle -improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel, -vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias -a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e -Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando -estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais -proximas ao Oceano.[544] - -3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da -antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,[545] que com as breves -reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias. -Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador -Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle -ausente,[546] com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus -hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe -aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à -empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga, -noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou -accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil -Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.[547] - -4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos -Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e -concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso, filho de -D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey -Godo,[548] se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo, -o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o -desposou com sua filha Ermesenda. - -5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo, -e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e -recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino, -libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando -com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os -nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.[549] - -6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum -Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias -segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia -dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e -intimando as suas leys.[550] - -7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila, -seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta -gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que -resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações -dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na -obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia -de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio, -D. Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que -ElRey D. Affonso _o Casto_, reforçado com mayor poder, se avançou desde -as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor -presidio, e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do -Minho, e Beira, por onde passara. - -8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos, -sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ -todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém -este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com -este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado -das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e -mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D. -Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento. - -9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de -seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do -valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras -de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso -Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos -soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de -expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado -Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo -Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e -destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos -seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em -Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas -Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho, -podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e -guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de -Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de -Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon -de Vaseu. _Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que em -tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal._ - - | Ann. | - | de | - | Chr. | - | | - | 738 | _D. Affonso I._ chamado o _Catholico_, filho - | | do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey - | | D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias, - | | que depois da perda de Hespanha teve - | | dominio sobre os Portuguezes, e conquistou - | | aos Mouros terras de nosso paiz: fundou, - | | e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove - | | annos. - | | - | 757 | _D. Froila_, ou _Fruela_, filho de D. Affonso. - | | Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe - | | conquistou Béja, Setubal, e outras terras de - | | Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto - | | seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando - | | com esta crueldade todas as boas obras, - | | que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico - | | de Hespanha, e no seu tempo succedeo - | | a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal. - | | Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado - | | na Igreja de Oviedo, que elle fundou. - | | Governou onze annos e meyo. - | | - | 768 | _D. Aurelio_, filho de D. Fruela. Serenou - | | com prudencia num grande tumulto de escravos, - | | que se levantaraõ contra seus senhores. - | | Governou seis annos. - | | - | 774 | _D. Silo._ Succedeo na Coroa, por casar com - | | Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico. - | | Teve paz com os Sarracenos, e só com os - | | Gallegos teve huma guerra, em que venceo. - | | Entrou poderosamente na Cidade de Merida, - | | donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o - | | depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de - | | Pravia, onde elle está enterrado, com huma - | | inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho, - | | que diz, e se lê por todos os lados: _Silo Princeps - | | fecit_. Governou nove annos. - | | - | 783 | _D. Mauregato._ Obteve a Coroa por usurpaçaõ; - | | porque a Rainha Adosinda pertendeo - | | que os Grandes de Hespanha acclamassem - | | por successor a D. Affonso, seu sobrinho, - | | filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato, - | | filho bastardo de D. Affonso o _Catholico_ - | | havido em huma Moura, anhelando - | | tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen, - | | Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem, - | | se o soccorresse na sua pertençaõ. - | | Foy o promettimento dar-lhe todos os annos - | | cem donzellas de tributo, cincoenta nobres, - | | e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher - | | em Asturias, Portugal, e Galiza. D. - | | Joseph Pellizer,[551] a quem segue D. Joaõ - | | de Ferreras,[552] quizeraõ persuadir que este - | | Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera - | | ao Mouro o tributo annual das cem - | | donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ, - | | segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,[553] - | | e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.[554] - | | Governou cinco annos. - | | - | 789 | _D. Bermudo I._ filho de D. Fruela. Sendo - | | Diacono, e destinado à Igreja, por instancias - | | dos Grandes do Reino entrou a governar. - | | Naõ quiz contribuir aos Governadores - | | Mouros com o tributo das cem donzellas. - | | Depois de haver governado tres annos, e oito - | | mezes, renunciou o Reino em D. Affonso, - | | filho de seu primo D. Fruela, e passou - | | a buscar o habito de Monge no Mosteiro de - | | Sahagum, onde viveo muitos annos. - | | - | 791 | _D. Affonso II._ chamado o _Casto_. Encarregando-se - | | do governo, que lhe cedeo D. Bermudo, - | | começou a se fazer temido dos Mouros. - | | Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou - | | as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra, - | | Braga, e outros Lugares. Mahamet - | | fez pazes com elle, e o servia como vassallo. - | | Em seu tempo se descubrio o corpo do - | | glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou - | | edificar huma Igreja com magnificencia Real. - | | Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta - | | e hum annos; porém a Clave Historial - | | do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina - | | trinta e quatro. - | | - | 842 | _D. Ramiro I._ filho delRey D. Bermudo. - | | Logo no principio do seu reinado se levantou - | | contra elle hum Conde das Asturias, chamado - | | Nepociano, a quem venceo, e castigou, - | | mandando-lhe tirar os olhos, supplicio - | | ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual - | | ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego, - | | Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho. - | | Aqui poz por Governador a seu tio o - | | Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos - | | pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ - | | irremediavelmente por falta de mantimentos, - | | resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos, - | | e meninos haviaõ ficar expostos ao furor - | | dos tyrannos, fossem elles mesmos os que - | | sacrificassem a innocencia por victima da sua - | | honra: e assim cada hum degollou por suas - | | proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo - | | a acommetter desesperadamente aos Mouros, - | | os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo - | | modo de pelejar, se deraõ por vencidos - | | à custa de setenta mil que pereceraõ. No - | | outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo - | | novo motivo para a admiraçaõ, vendo - | | que todos os degollados viviaõ resuscitados - | | milagrosamente. Referem este caso nossos - | | Historiadores,[555] e parece que o acredita - | | a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece - | | nesta Villa. No seu Castello está hum - | | antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas - | | letras carcomidas, bem se percebe da contextura - | | ser narraçaõ deste prodigio. Havendo - | | finalmente D. Ramiro governado sete annos, - | | e oito mezes, morreo no primeiro de - | | Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja - | | de Oviedo. - | | - | 850 | _D. Ordonho I._ filho de D. Ramiro, a quem - | | succedeo com universal applauso, por ser - | | Principe de grande valor, e talento. Serenou - | | huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e - | | venceo ao renegado Musa, de grande nome - | | entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy - | | temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras - | | terras de Portugal. Morreo de gota, e - | | governou dezaseis annos. - | | - | 866 | _D. Affonso III._ chamado o _Magno_ pelas - | | grandes vitorias, que alcançou dos Mouros, - | | e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas, - | | que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se, - | | e os Barbaros oppondo-lhe fortes - | | exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou - | | dos outros. Em Portugal reedificou - | | muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto, - | | Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações - | | domesticas, e sabendo que os seus mesmos - | | filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos - | | naõ vencer a elles naquella violencia, se - | | venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a - | | D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e - | | Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal, - | | ficando elle só com a espada contra os - | | Mouros, de quem ainda alcançou vitorias. - | | Governou quarenta e quatro annos. - | | - | 910 | _D. Garcia._ Entrou a governar bem, explicando - | | o seu valor na vitoria, que teve dos - | | Mouros em Talavera, prendendo ao General - | | Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou - | | tres annos. - | | - | 913 | _D. Ordonho II._ Morto D. Garcia, foy acclamado - | | Rey pelos Bispos, e Principaes do - | | Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era - | | a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ, - | | e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ. - | | Poz grande terror aos Barbaros, de fórma - | | que ElRey de Merida lhe veyo render - | | vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes, - | | que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ - | | rebellar, mandou-os vir a Tejares junto - | | do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar - | | com elles materias importantes; mas dissimuladamente - | | os prendeo, e os fez degollar. Governou - | | nove annos, e meyo. - | | - | 923 | _D. Froila II._ Naõ se conta deste Rey acçaõ - | | contra os Mouros, antes o culpaõ de - | | tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo, - | | e desterrar a Fronimio, Bispo de - | | Leaõ, por terem seguido as partes do Infante - | | D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos - | | vassallos. Morreo de lepra, e governou hum - | | anno. - | | - | 924 | _D. Affonso IV._ Entrando a governar, e conhecendo-se - | | inutil, renunciou o dominio em - | | seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida - | | Monastica no Convento Benedictino de Sahagum. - | | Depois passados seis mezes, largando - | | o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ, - | | e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro, - | | passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou - | | a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe - | | mandou tirar os olhos, e prender até acabar - | | seus dias. Os annos do seu governo, e tempo - | | do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco - | | de Bergança,[556] e Fr. Manoel da Rocha.[557] - | | - | 931 | _D. Ramiro II._ Depois de prender a seu irmaõ, - | | e seus sobrinhos, determinou fazer - | | cruel guerra aos Mouros, como com effeito - | | fez taõ felizmente, que sempre os venceo. - | | Ajudando-o visivelmente Santiago, matou - | | junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns - | | Historiadores[558] dizem, que morrera - | | sendo Religioso. Governou dezanove annos. - | | - | 950 | _D. Ordonho III._ Foy filho de D. Ramiro, - | | e Principe valeroso, e prudente. Casou com - | | a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual - | | querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe - | | a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou - | | aos Gallegos, que se haviaõ levantado, - | | e passando a Portugal, chegou até Lisboa, - | | que entrou sem embaraço, saqueando os mais - | | lugares, que estavaõ em poder dos Mouros. - | | Governou cinco annos e meyo. - | | - | 955 | _D. Sancho I._ chamado o _Gordo_, porque - | | na verdade o era, e foy motivo para ser deposto - | | do throno, e subir em seu lugar o Infante - | | D. Ordonho, filho de D. Affonso IV. - | | intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves, - | | e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho - | | a Cordova, e alcançando lá remedio à - | | sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses, - | | valendo-se delRey Abderramen, que - | | com hum exercito de Mouros fez com que - | | D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ. - | | Os Condes, que governavaõ as terras do Minho, - | | e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey; - | | mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem - | | fidelidade, em cujo acto hum dos Condes - | | lhe deu peçonha, de que morreo. Governou - | | doze annos. - | | - | 967 | _D. Ramiro III._ Tomou a investidura do - | | Reino, tendo cinco annos de idade, e começou - | | este governo pelas direcções de sua mãy, - | | e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou - | | dos Mouros o corpo do glorioso S. - | | Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo - | | Sanches huma armada de Normandos, - | | que aportou em Galiza. Tratando com pouca - | | attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza, - | | estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante - | | D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a - | | 15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos - | | rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio - | | o argumento. Governou dezaseis annos. - | | - | 985 | _D. Bermudo II._ chamado o _Gotoso._ Foy pouco - | | afortunado, pois encontrou sempre muy - | | poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal - | | tudo que hia desde a corrente do Douro - | | até o Algarve estava sujeito aos Mouros, - | | e só a pequena Comarca de Entre Douro, e - | | Minho com algumas terras da Beira estavaõ - | | na obediencia delRey D. Bermudo. Unido - | | com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia - | | Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor, - | | que o obrigou a fugir para Cordova, - | | deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos. - | | Morreo arrependido de suas culpas - | | em Galiza, e governou quatorze annos. - | | - | 999 | _D. Affonso V._ filho de D. Bermudo. Succedeo - | | na Coroa, tendo cinco annos de idade. - | | Foy Principe muy pio, e caritativo. Com - | | intentos de destruir os Mouros passou a Viseu, - | | onde elles tinhaõ as mayores forças, e - | | resistencia, e os cercou apertadamente; mas - | | chegando-se perto das muralhas, huma seta - | | disparada das suas ameyas o atravessou, e - | | fez levantar o sitio. Governou vinte e sete - | | annos. - | | - | 1027 | _D. Bermudo III._ filho de D. Affonso. Foy - | | Principe de grande animo, porém infeliz, - | | porque nas guerras, que teve com seu cunhado - | | D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se - | | na batalha do Carrion por entre as - | | armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez - | | annos. - | | - | 1038 | _D. Fernando_ o _Magno_. Por morte de seu - | | cunhado tomou posse do Reino de Leaõ. - | | Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas - | | terras desde o Douro até o Mondego. Depois - | | de muitas vitorias mereceo que o glorioso - | | Santo Isidro lhe revelasse o fim dos - | | seus dias; e antes de morrer repartio seus - | | Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou - | | Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia - | | Galiza, e Portugal. Governou vinte e - | | nove annos. - | | - | 1067 | _D. Garcia._ No seu governo se deixou este - | | Principe levar das lisonjas de hum seu valido, - | | chamado Verna, que foy causa de se - | | descontentarem os illustres Portuguezes, e - | | Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ - | | armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle - | | todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais - | | velho, o metteo em prizões, e o Reino de - | | Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando - | | por entaõ incorporado na Coroa de Castella. - | | Governou quatro annos. - | | - | 1071 | _D. Sancho II_ Perseguio fortemente a seus - | | irmãos, e querendo usurpar tambem do poder - | | de sua irmã Dona Urraca a Cidade de - | | Çamora, que poz em apertado cerco, hum - | | Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou - | | com huma lança. Governou hum anno. - | | - | 1072 | _D. Affonso VI._ Teve o titulo de Imperador, - | | e reinou em Castella, Leaõ, Portugal, - | | e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados - | | Principes de Hespanha, e o que conquistou - | | mais terras aos Mouros, aos quaes - | | atropelou com o valor do celebrado Cid. - | | Distribuio o governo de algumas Comarcas - | | de Portugal por illustres pessoas. O Conde - | | D. Sisnando governava as terras de entre - | | Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca. - | | O Conde D. Nuno Mendes a Provincia - | | do Minho, a quem succedeo o illustrissimo - | | Conde D. Henrique, gloriosa origem dos - | | Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos - | | só como epitome o Capitulo seguinte. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[540] Veja-se Loays. nos Concil. de Hesp. Coronelli no Prodrom. part. -4. p. 465. Vasæu tom. 1. Chron p. 39. Resend. lib. 3. de Antiq. Marian. -Histor. de Hesp. part. 1. Savedr. Coron. Gotica. Gandar. nas Palm y -Triunf. de Galiza part. 2. Berganz. Antig. de Hesp part. 1. liv. 1. -Yañes España en la S. Biblia part 1. cap. 19. pag 224. - -[541] D. Rodrig, Arceb. liv. 1. cap. 255. Histor. Gen. de Hesp. part. -2. cap. 55. Moral. liv. 12. cap. 69. Berganç. Antiguid. de Hesp. part. -1. liv. 1. cap. 13. n. 212. Yañes de la Era, y Fechas de España lib. -2. cap. 29. p. 482. Chronic. Albendense seguido por Marian. part. 1. -liv. 6. cap. 23. Monarq. Lusit. liv. 7 cap. 2. concorda no anno, mas -discrepa no dia, porque assenta que foy no meyo de Outubro. - -[542] Væseus Chron. tom. 1. p. 113. Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 3. p. -386. Aqui affirma Brito, que na Igreja de S. Miguel do Fetal, que está -fóra dos muros de Viseu, vira a sepultura de D. Rodrigo, mas já naõ -tinha os ossos delRey, por haver annos, que os haviaõ, trasladado para -Castella, e naõ diz onde se depositaraõ. - -[543] Moret. Anales liv. 3. cap. 4. e no tom. 1. Append. §. 2. - -[544] Ferrer. ad ann. 713. n. 9. - -[545] Fr. Franc. Sota Chron. de los Princip. de las Astur. liv. 3. cap. -42. n. 7. - -[546] Isidor. Pacens. apud Brit. na Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6. - -[547] Monge de Silos apud Bergança nas Antiguid. de Hesp. part. 1. liv. -2. cap. 1. n. 7. Vasæus Chron. tom. 1. ad ann. 716. Marian. part. 1. -liv. 7. cap. 1. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6. - -[548] Salazar Histor. da Casa de Lara liv. 2. cap. 1. - -[549] Ferrer. tom. 4. na Dedicat. - -[550] Monarq. Lusitan. liv. 7. Bergança part. 1. liv. 2. cap. 1. num. 2. - -[551] Pellizer Anal. p. 401. - -[552] Ferrer. tom. 4. p. 108. - -[553] Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 9. - -[554] Bergança part. 1. das Antiguid. de Hesp. liv. 2. cap. 3. n. 35. - -[555] Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 14. Benedict. Lusit tom. 1. trat. 2. -part. 2. cap. 6. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Port. n 52. Paes Viegas -nos Princip. de Portug. liv. 6. p. 219. Agiolog. Lusit. tom. 3. p. 801. -Ann. Historic. tom. 2. p. 257. - -[556] Berganç. part. 1. das Antig. de Hesp. liv. 3. cap. 6. n. 65. - -[557] Rocha Portug. Renascid. part. 2. n. 124. & seqq. - -[558] Apud Berganç. ut supr. cap. 12. n. 138. - - - - - CAPITULO VI. - -_Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de -Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes._ - - -Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada -dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e -Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D. -Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das -conquisquistas delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas -o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote -naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo -inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido -tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com -huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado, -como já entramos a ver. - - -_Conde D. Henrique._ - -2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste -illustrissimo Conde. O primeiro: _Qual he a sua origem?_ Naõ menos que -seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se podem -ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.[559] A mais certa, e -verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he a que -faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques de -Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre -_Exemplar Floriacense_, que se achou em França na livraria do Convento -de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ no anno -de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em tempo do -proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida por texto -indubitavel. - -3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo -grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,[560] fomos encontrar -huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de -Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo -Agostinho, e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ -com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na -cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que -ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras -clausulas, a seguinte: - - _Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don - Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su - Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de - los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla, - &c._ - -4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste -epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande -Brandaõ,[561] diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas -nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais: -Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ, -digna de reparo, dizendo: _En lo que toca a ser su padre el Conde D. -Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de -Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo._ - -5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no -Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que -o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,[562] em -que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita -reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos -communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ -anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos -curiosos, e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de -Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72. - -6 O segundo ponto difficultoso he: _Se a Rainha Dona Teresa, mulher do -Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de Leaõ?_ -A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso sendo casado com -Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora Dona Teresa, foy -depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio VII. como consta da -sua Carta, ou Breve, que principia: _Dici non potest_, escrita ao mesmo -D. Affonso, por se contrahir sem dispensa do parentesco, que a dita -Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. Affonso, o qual foy casado -seis vezes. - -7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda -Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por -sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,[563] objecçaõ forçosa, -com que argumenta Manoel de Faria.[564] Porém isto naõ obsta; porque -além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso -tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a -entender Baronio,[565] he certo que os filhos havidos de matrimonios -separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos -legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte -Ribeiro.[566] Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo -erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar -já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.[567] - -8 A terceira difficuldade he: _Saber o anno, em que entrou o Conde -D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ em dote?_ -Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph Barbosa[568] -que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental Genealogico D. -Antonio Caetano[569] he de parecer que viera no anno antecedente; e -outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à segunda parte, o -dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras os Montes, e em Galiza -naõ comprehendia terra alguma, como affirma o Chronista Brandaõ,[570] -contra o que alguns disseraõ. Este era o estado de Portugal, que o -valeroso Conde augmentou depois com as outras terras, que foy ganhando -aos Mouros, por onde livremente podia. - -9 O quarto ponto difficultoso he: _Se o Reino de Portugal foy dado -ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo?_ Os Authores -Castelhanos dizem que sim;[571] porém o certo he que foy dado -independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella. -Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,[572] -e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;[573] porque naõ se -descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste -contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy -hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita -soberania. - -10 A quinta difficuldade he: _Saber em que tempo foy o Conde D. -Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver entrado -em Portugal?_ Brandaõ diz,[574] que depois, e no anno de 1103. Manoel -de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava casado,[575] -e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. Author daquella -expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por segura a sentença de -Brandaõ. - -11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que -resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas -vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor -fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da -Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo -muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com -egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao -descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta -e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na -Sé de Braga. - - -_D. Affonso Henriques, I. Rey._ - -12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso, -e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey -D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que -passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza, -naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede. - -13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e -Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o -melhor calculo;[576] e sendo seu nascimento festejado, assim como -era util, moderou o contentamento de pays, e vassallos hum defeito -corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda[577] passou -logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo, -e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da -purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o -por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a -Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de -que parece duvidar Mons. de la Clede.[578] - -14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade, -quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria -sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando -as insignias militares do altar do Salvador.[579] Passados dous annos, -considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro, -intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que -até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho -excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha, -que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho -de 1128. - -15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio -de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou -pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas -infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;[580] -porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a -Villa de Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto -aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente -ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua -palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ -querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz -havia feito, dizem,[581] que este fora a Toledo com mulher, e filhos -presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta -do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente -satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano. - -16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ -prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado, -passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe -poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir -os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys -Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de -quatrocentos mil combatentes.[582] - -17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento -de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia -Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si -hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da -sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas. -Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a -que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139, -a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey D. Affonso de -Castella,[583] e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179 -pela Bulla, que começa: _Manifestis probatum est argumentis._[584] - -18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do -mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte, -passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de -Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,[585] além de hum -grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste -admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que -abaixo allegamos,[586] naõ sendo digno de se ler neste particular -o Padre Mariana,[587] que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das -suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ -authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui -mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as -cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco, e que a orla dos -Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando -por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III. - -19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ -os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos -responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de -hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do -juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica -delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por -mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no -cap. 15.: _E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle mesmo -deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na mesma, -maneira que disse o Ermitaõ._ Camões, que morreo muito antes da vinda -do Rey Filippe, o cantou tambem no _Cant. 3. oitava 45. e 46_. O -letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal do campo de -Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André de Resende, -como elle o confessa no _liv. 4. de Antiquit_. faz memoria desta -appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores antiquissimos. - -20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente -santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo; -donde Sá de Miranda na _Carta 5. est. 9._ disse fallando de Coimbra: - - _Cidade rica do Santo - Corpo do seu Rey primeiro, - Que inda vimos com espanto, - Há taõ pouco tempo inteiro, - Dos annos que podem tanto._ - -Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea -ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja -de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da -integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao -projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a -instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo -processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais -urgentes. - -21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco -escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta -variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem -embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a -substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos -modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant. -3. desde a est. 153. - -22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de -Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar. -Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se -achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario -a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello -pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo -a transcreve Brito na Chronica de Cister _livro 3. cap. 5._ e outras -muitas que se podem ver na mesma Chronica _l. 3. c. 6._ e na _Monarquia -Lusitan. liv. 8 c. 26._ e na _Historia Ecclesiast. de Lisboa part. 2. -cap. 56._ - -23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se -D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ -à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo -feudatario, mas liberal tributo, dous marcos de ouro,[588] cujo -reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de -vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta -escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza, -tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando -magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e -cincoenta,[589] dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e -liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo -Portugal.[590] - -24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de -Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de -S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados -com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e -libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e -Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte -Reys, e dous Imperadores. - -25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo -III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou -com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente -setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou -o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo -governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa -Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns -prodigios, como se podem ver no argumento 10. do _Apparato Historico_, -que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno -de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete -elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em -virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste -santo Rey premiados com a eterna felicidade. - - -_D. Sancho I. segundo Rey._ - -26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com -os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos -mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das -armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou -na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito -Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria, -e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce, -filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo -vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens -por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem -presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs. - -27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia -da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ -taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do -sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do -Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda -com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal, -quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ -posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e -desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo -primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes -offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se -prezou ser seu especial bemfeitor.[593] - -28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das -honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra -aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de -idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como dizem -outros.[595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou -em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar -edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, -acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de _Povoador_,[596] -e _Pay da Patria_,[597] manifestando-se muito mais a sua piedade, e -grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta -prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia -offerta até do que ainda esperava ter.[598] - -29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em -direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal -veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho -conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral -com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino, -intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno 1188 até 1190.[599] -Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras -de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou -no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho -resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome -attenuado muito as forças.[600] - -30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos -povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais -populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ -só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601] -sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas, -e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de -Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular -bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste -Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas -de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos, -pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa -Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no -Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em -Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27 -de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em -Santa Cruz de Coimbra. - - -_D. Affonfo II. terceiro Rey._ - -31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na -morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso -no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de -idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por -se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de -Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum -achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa -Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de -Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o -liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605] - -32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo -generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste -nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia -alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e -Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas -as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de -outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero -de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes -alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se -appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho -de 1212.[606] - -33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e -assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu -pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte -fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas; -e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a -patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607] - -34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte -differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes -chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima -armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e -levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de -Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ -D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo -do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores -das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado -conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de -armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes, -que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia, -que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys -de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos -depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja. - -35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel -para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados, -renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de -ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e -venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos -Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande -credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de -idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março -de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça. - - -_D. Sancho II. quarto Rey._ - -36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de -1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude. -Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara -do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem -de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos -Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos -que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso -exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por -esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe -mandou.[609] - -37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o -anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e -Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur, -Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes -prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado -Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras -Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ -dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida -tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo -o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame -do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda -inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia _Grandi non -immerito_,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão -D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França. - -38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum -consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho -infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D. -Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor, -marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as -censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia -de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo -a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos -elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude -com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella -dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente -cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da -eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis -de idade, e vinte e cinco de governo. - - -_D. Affonso III. quinto Rey._ - -39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no -anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha, -sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou -criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de -certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245, -alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou -no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de -1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o -insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago. - -40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha -occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles -Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso -depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas -terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e -Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614] - -41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo, -estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo -de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e -perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a -Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda -delRey D. Affonso _Sabio_ de Castella no anno de 1253, motivo de haver -tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo, -e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher. -Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com -ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o -Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616] - -42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve -fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente -provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys -de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de -1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia -de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267 -se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o -Infante D. Diniz levou a D. Affonso o _Sabio_ contra os Mouros. - -43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias, -tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que -dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu -respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual -reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico, -continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou -XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer -obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619] - -44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620] -equivocadamente lhe chamasse _Bravo_, foy ElRey D. Affonso de notavel -governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino, -fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, -e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos, -estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de -1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy -depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se -trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz. - - -_D. Diniz sexto Rey._ - -45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o -Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu -padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros -desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por -ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno -Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso, -e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D. -Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622] - -46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro -annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a -Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu -avô[623] contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a -Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo -D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas -em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando -a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o -novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem -mágoa, e sentimento da Rainha. - -47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como -era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta -honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura -com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das -fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as -mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes. - -48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a -Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste -mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico, -e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando -a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem -as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este -cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou, -mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy -Mirandela, e outros. - -49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ, -foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio -dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra -vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real -todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava -dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: _Que justamente se tirava o -que injustamente se concedera._[624] Passou esta Ley em Coimbra a 26 de -Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o Chanceller -Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos grandes -serviços, que tinha feito ao Reino. - -50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão -D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois -dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara -o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter -nascido antes, e por isso illegitimo,[625] com este motivo chegaraõ -a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente, -o fez convir em composições, intervindo tambem na reconciliaçaõ dos -dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria, -ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha -Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de -1287. - -51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse -a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como -era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa -a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao -IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,[626] e continuando os -estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados -todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse -para Coimbra no anno 1308. - -52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que -prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente -ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas -nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;[627] e porque esta -limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ -menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade, -dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito -cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de -naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S. -Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e -Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes -dous participantes da sua liberalidade. - -53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em muitas virtudes, e em tres -excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na _Justiça_, _Verdade_, e -_Liberalidade_. Pela primeira foy eleito Juiz arbitro em companhia -delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey D. Fernando de -Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de Castella, e Leaõ, -em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de Aragaõ sem queixa -de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, que havia entre os -Reys de Castella, e Aragaõ. - -54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous -Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho -deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia, -porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima -esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,[628] e naõ -houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas, -e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a -seu filho sem offensa de seus vassallos. - -55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas -Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem -Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no seu -tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o cognome -de _Lavrador_, aos quaes chamava nervos da Republica, e por este -augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem _Pay da Patria_. -Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou por seu -Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a guerra. - -58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o -Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja, -que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo -irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ -com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo -em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo -vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco, -dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de -Odivellas em soberbo mausoleo. - - -_D. Affonso IV. setimo Rey_. - -57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro -de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia, -contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra, -conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco -Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural, -de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona -Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se -celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa. - -58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando -entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo -capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava -por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe -causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero, -de fórma que por elle grangeou o epitheto de _Bravo_, emprendeo acções -arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D. -Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632] - -59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de -ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha -do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada, -cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do -valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes -mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra -para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de -1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios. - -60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé -com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem; -hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na -sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito, -o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à -formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o -Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo -de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e -de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na -Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte -do Evangelho, e na Capella Mór[635]. - - -_D. Pedro I. oitavo Rey._ - -61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita -variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico -Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que -ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na -antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto -que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de -1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias, -cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona -Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ -tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com -o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro -Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ -os aggressores daquella innocente morte. - -62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia -promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da -morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança, -e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a -beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com -fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas -costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que -este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto -de _Justiceiro_, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia -mudou para o cognome de _Cruel_, de que os deixou desenganados o Plataõ -Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638] - - _Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ._ - -63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a -legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher, -fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando -lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto -apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a -boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava, -administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro. -Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as -dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles. - -64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o -genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por -outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de -fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e -unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado, -soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte -diziaõ, que _taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha visto -Portugal, nem esperava de os tornar a ver_. Achando-se na Villa de -Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda feira pela -madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; reinou -nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em Alcobaça -junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro. - - -_D. Fernando, nono Rey._ - -65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345, -vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando, -conforme a Chronologia mais bem averiguada.[639] A natureza o dotou -de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos -era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.[640] O genio, -e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou -Camões,[641] e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta -brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar, -e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II. - -66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando -vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e -opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros, -que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.[642] Cuidou logo em reedificar as -Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo -mercês com profusa liberalidade. - -67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D. -Pedro o _Cruel_, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique, -como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa -como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de -Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha -Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e -damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio -XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no -ultimo de Março de 1371.[643] - -68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao -forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da -Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando -pretextos para lhe annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por -mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo -apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.[644] Joaõ Lourenço da Cunha -se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já -militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos -crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino. - -69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua -palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ -da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey -Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, filha -delRey D. Pedro o _Cruel_, se intitulava Rey de Castella, e pertendia -a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique delRey -D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, entrou por -Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a espada, -sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos. - -70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas -povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos -moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,[645] esteve perto de -destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento -de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta -oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os -Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.[646] Achava-se -ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente, -vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo, -e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e elle com -tanto descuido, como diz Manoel de Faria,[647] sem dar providencia, ou -remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com -soberba descuberta por falta da opposiçaõ. - -71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com -toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ -promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes -ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ -entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente -aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do -Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas -embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos -artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D. -Fernando.[648] - -72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas -militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas -de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros -muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo -de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375. -Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria, -Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as -Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse -mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no -anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos -estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.[649] Inventou novos -arbitrios sobre a utilidade do commercio,[650] e fez varias mercês com -liberalidade regia. - -73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e -rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e -padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos -Castelhanos,[651] concluindo-se finalmente com o casamento de Dona -Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que -se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade -de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade -trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove -mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de -Santarem. - - -_D. Joaõ I. decimo Rey._ - -74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes -inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na -Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse -recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor -ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha -Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho -capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder, -mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e -Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos -successores.[652] - -75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela -grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes -Andeiro, seu escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os -negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes -julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia -ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre -de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D. -Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que -obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear -a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto -escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios -Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de -1383.[653] - -76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento -do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que -publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do -Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego -começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter -contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o -grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do -nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo -sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem -fazer nada depois de perder bastante gente.[654] - -77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes -algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso -Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante -Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de -Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas -nove horas da manhã,[655] tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete -annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,[656] ou vinte -e oito, conforme outros,[657] ou, o que temos por mais certo, vinte e -sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito -para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras -com as efficazes razões, que allegou neste caso.[658] - -78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores -cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo -primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a -occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella, -reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella -continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel -exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre, -e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta -mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por -isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada, -e gloriosa em todas as memorias,[659] e succedida a 14 de Agosto de -1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora. - -79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a -Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com -esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos -tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum -tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ -de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo -finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos. - -80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo -ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para -cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte -vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza -conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia, -que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey -de Portugal, e do Algarve o de _Senhor de Ceuta_.[660] - -81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se -muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que -resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas, -mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ -da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o -anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para -isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve -pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi -todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I. -de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem -Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1. - -82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com -igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy -uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre -Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou -à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa -Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664] -servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios -sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa -da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara -do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa -Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada -junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para -que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino -os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os -Loyos.[665] - -83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas, -e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim. -Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que -depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto -de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol, -exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido -setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e -oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na -Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy -transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da -Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve -Fr. Luiz de Sousa.[668] - - -_D. Duarte, undecimo Rey._ - -84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia -nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e -adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy -destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy -eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos -homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em -cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem -alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e -sciencia.[669] - -85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove -mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433 -nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428 -com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno, -começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez -por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey -seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ -dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o -luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou -fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte, -que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por -turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos. - -85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque -os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças; -e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do -Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D. -Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e -ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as -vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou -em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros -de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo -Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo -acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673] -determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D. -Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer -o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o -Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade -de Ceuta.[674] - -87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo -do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, -e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar -tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas -infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, -que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e -apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ -todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, -occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco -Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas -as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só -para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas -para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e -abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz -fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo -vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco -annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha. - - -_D. Affonso V. duodecimo Rey._ - -88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de -Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis -annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado -logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à -disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia -do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor -do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo -entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, -e de que existem memorias taõ lastimosas.[677] - -89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com -applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso -entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de -Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira, -de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya -de grandes, e honrodas expressões,[678] encommendando-lhe, acabado o -acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si -totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a -Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro. - -90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a -felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey, -o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que -o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe -encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas -quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao -Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o -Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo -de 1449.[679] - -91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no -convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros -Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este -Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta -empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém -ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa, -onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança; -e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas -de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer -no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade -ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a -de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de -_Africano_, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o _daquem, -e dalém mar em Africa_. - -92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a -Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma -unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella -se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da -Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de -vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta -successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha -no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora -Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia -a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey -Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ. - -93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque -nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua -sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ -para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição, -como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo -de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente -seu filho o Principe D. Joaõ. - -94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou -ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do -seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou -ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o -mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu -filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey -de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de -Novembro do proprio anno.[681] - -95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo -o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque -ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar -a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a -governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa -alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade -Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso[682] fora entre os -Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de -honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho. -quando lhe succedeo: _Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e -caminhos de Portugal_; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha -dado. - -96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande -propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e -favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de -Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na -lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito -vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne -Latino,[683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de -molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções -se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado -de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento -de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da -parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento -de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na -mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481, -em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete -mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e -dezanove dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo. - - -_D. Joaõ II. decimo terceiro Rey._ - -97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova -a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado -Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria -quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471 -recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com -irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa -conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade -promettia.[685] - -98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres -dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy -esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento -aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que -se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e -premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente -do povo. - -99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos -da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e -dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes -extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente -punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. -mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia -reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ -mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro, -conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem -adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687] - -100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu -a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e -desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe -que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio -alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que -havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo -occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas -dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que -lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou -a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689] - -101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ -desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo, -mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou -aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690] -Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o -que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. -Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez -todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, -se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar -dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse. - -102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua -Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de -Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus -de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento, -onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem -em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando -à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do -Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos, -e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias -Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra -a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa -Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India. - -103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns -Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o -ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na -generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel, -pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em -25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado -veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou -quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de -Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu -corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal, -que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691] - - -_D. Manoel decimo quarto Rey._ - -104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha -escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o -mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo -propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta -Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi -milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o -Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja -mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel -circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente -o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia -natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque -a letra Dominical daquelle anno, que foy _=A=_, assim o insinua, -prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que -collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno. - -105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D. -Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança -de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta -felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem -tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de -1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes -na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz, -que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de -Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694] - -106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim -despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao -Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem -pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os -Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes -concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em -gloria, e renda. - -107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar -fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ -converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo -por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso, -filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando, -e Dona Isabel. - -108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste -Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta -impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para -provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel -foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então -se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou -de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II. -havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro, -que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut, -e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal, -naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os -Venezianos.[697] - -109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da -Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e -innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos -Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os -fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo -muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros -poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia, -India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do -Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado -Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais -vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco -livros, que se conservaõ na Torre do Tombo. - -110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella -em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio -pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira -daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores -de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal -perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em -que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido -aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz -religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. -entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo -na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso -dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha -com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante -em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, -parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores -que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702] -e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de -Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos -Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, -e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito -dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle -mandou edificar para seu jazigo. - - -_D. Joaõ III. decimo quinto Rey._ - -111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. -que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel -pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e -coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o -acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do -seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e -generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a -estimaçaõ de todos os Principes da Europa. - -112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as -conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna -memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa -quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que -tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue -o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta -acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da -Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ -descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a -Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas -partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da -conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, -e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo -aquelles Religiosos. - -113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos -publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534 -conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando -vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de -letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra -a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel -affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas -para as artes, e sciencias.[708] - -114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de -Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando -em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso -aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio -Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy -a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709] -Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da -Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber -escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, -que _mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que -alcançava na vitoria_. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da -guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos -homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do -culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa -aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias -da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no -Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas, -que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo -punha às felicidades do Reino. - - -_D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey._ - -115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza -Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a -20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou -herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona -Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do -Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes -em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da -Religiaõ Christã. - -116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum -grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear -emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que -chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em -20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das -armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em -todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados, -então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas -acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de -Faria.[710] - -117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar -todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se -lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista -de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar -se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a -lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe -accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando -primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e -Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os -barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava. - -118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos, -e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey, -offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ -para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes, -que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto -de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para -Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens, -dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos -Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que -havia no Reino, mas sem exercicio militar. - -119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar, -diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava -porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de -cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a -cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves, -eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e -lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis -pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica -ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com -certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar -por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante -tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer -verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens -outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de -la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere, -mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos -Escritores naõ admittem. - -120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ; -porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e -impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey -extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se -a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ -com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos -chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D. -Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia -com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual -dia assim: - - _Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus, - Quem tulit in Lybicis mors properata plagis. - Nec dicas falli Regem qui vivere credit, - Pro lege extincto mors quasi vita fuit._ - - -_D. Henrique, decimo setimo Rey._ - -121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a -Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal -D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada -idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512 -em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy -pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para -o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade, -soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim -foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos -de Sacerdote.[714] - -122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e -successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais -gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que -dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já -decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem -pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de -successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim, -que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora -herança, que a todos lhes pertencesse. - -123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que -pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros -pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de -França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D. -Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa -sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que -fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da -pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos -descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte. - - | A Infanta Dona } - | Isabel Imperatriz,} Filippe II. - | que casou } Rey de Castella - | com Carlos } 1. pertendente - | V. Imperador, } - | e teve a } - | - | A Infanta Dona } Manoel Filisberto - | Brites, que } Duque de Saboya, - | casou com D. } e Principe - | Carlos Duque } de Piemõte 2. - | | de Saboya, } pertendente. - | ElRei | e teve a } - | D. Manoel | - | entre | O Infante D. } - | outros | Luiz Duque de } - | filhos | Béja naõ casou, } D. Antonio - | teve | mas de Violante } Prior do Crato, - | | Gomes, chamada } 3. pertendente. - | a _Pelicana_, } - | teve a } - | - | O Infante D. } D. Maria, q́ } Rainucio - | Duarte Duque } casou com o } Principe de - | de Guimarães } Principe de } Parma, e 4. - | casou com Dona } Parma, de } pertendente. - | Isabel filha } quem teve a } - | de D. Jayme - | Duque de Bragança,} D. Catharina que casou com - | e teve a } D. Joaõ Duque de Bragança - | } 5. pertendente. - -Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya -por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois -já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo -o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego; -de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ -em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona -Catharina. - -124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim -nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores -para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois -passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa, -veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de -idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na -mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ -com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido -seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe -mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa -da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem -passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da -Bemaventurança. - -125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a -usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum -seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou -talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando -viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às -cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes. - -126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a -sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o -acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se -a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da -Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a -intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino. - -127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa -executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito -de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados -pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem -resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas -junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de -Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do -Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões -Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois -varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595. - -128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno -damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ -as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com -tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy -à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força -de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem -esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa -consciencia.[718] - - - _D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo - oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos._ - -129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se -celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde -fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até -alli se tinha visto.[719] Começou a tratar os Portuguezes com muita -affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando -os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos -passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella -violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de -recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey -Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu -filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13 -de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado, -e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos, -governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha. - -130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que -havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte -annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os -seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes -a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir -o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay. -Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou -a morte, que lhe sobreveyo em Madrid no ultimo de Março de 1621 com -quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz -no Convento do Escurial. - -131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de -1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com -grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas; -porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu -Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e -privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo -em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o -Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar -para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas, -que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas -desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ -Escritores, que as referem.[720] - -132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da -commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo -Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça -para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo -direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina, -filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a -todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se -vivera, havia de ser Rey,[721] mas tambem por ser o Serenissimo Duque -natural do Reino, e o mayor Senhor delle, a quem por suas qualidades -verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das -oppressões, que padecia. - -133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes -quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ -ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se -presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de -Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a -fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel -de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e -ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de -Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro -Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,[722] ambos interessados -na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se -enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de -dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos -exorbitantes. - -134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais -a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro -de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de -varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e -zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo, -se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ -nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou -por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os -incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito -com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na -Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV., -acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor -do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da -sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia. - - -_D. João IV. vigesimo primeiro Rey._ - -135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e -restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza -ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de -Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ -em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares -Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo -Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se -experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e -festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724] -sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze -dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando -todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados -Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.[725] - -136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as -expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que -foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria -do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do -Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as -Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente -com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender, -e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando -seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura -debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era -necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de -papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o -Reino à sua obediencia.[726] - -137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e -fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas -do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França, -Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ -com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os -Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados, -experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas, -que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de -Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o -intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras -muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do -Reino. - -138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das -nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança -da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais -do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas -affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra -ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e -degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça -do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de -Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos; -sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D. -Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos -estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre -livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ -tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo -convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos, -foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa. - -139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo, -estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos -Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do -Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do -Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do -Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta -cruzados cada anno,[728] e em 25 de Março do proprio anno jurou, e -declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora -nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando -intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando -tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.[729] - -140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta -suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de -Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e -dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias. -Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra. - - -_D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey._ - -141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21 -de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando -subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay; -mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua -Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora -do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados -seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de -idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.[730] - -142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua -vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde -de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da -Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos -a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo -Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os -bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias -com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim -se vio nas celebres batalhas do _Amexial_, do _Canal_, e de _Montes -claros_, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu valor, e sciencia -militar. - -143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico -da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum -accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do -corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui -se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua -Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas -indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu -agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe -fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a -Bahia. - -144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca -Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ -se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade -delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ -aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança -a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do -matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença -da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real -propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha -pelas razões forçosas, que allegaraõ,[731] e que para evitar mayores -damnos na Monarquia avocasse a si o governo. - -145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen, -ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy -recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D. -Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27 -de Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello -da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para -os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no -Convento de Belem.[732] - - -_D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey._ - -146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo -Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino, -cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto -que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D. -Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já -na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a -nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria -Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou -Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ -houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha -espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a -segundas vodas para segurar a sua Real descendencia. - -147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em -fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do -Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ -augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo -com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza -dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior, -nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas do seu -tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para -com todos, e amante das pessoas virtuosas. - -148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom -regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia -mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco, -Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à -dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em -todos os empregos de grande experiencia. - -149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e -defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se -desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado -da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda, -a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo -do Imperador,[732a] o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por -este ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou -aqui ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e -pomposa entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com -elle ElRey D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de -introduzir em Castella. - -150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso -exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias -Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara, -Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey, -penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em -2 de Julho de 1706.[733] - -151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal em 17 de Novembro de -1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel -contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco -mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz -legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de -1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o -Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois -do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a -seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias: -reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de -vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra. - - -_D. Joaõ V. vigesimo quarto Rey._ - -152 Por falecimento do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria lhe -succedeo no Throno seu filho ElRey D. Joaõ V. tendo dezasete annos de -idade, contados desde 22 de Outubro de 1689, em que nasceo na Cidade de -Lisboa. Foy acclamado no primeiro de Janeiro de 1707, felicitando-lhe -com repetidos obsequios a exaltaçaõ à Coroa naõ só os seus vassallos, -mas todos os Principes da Europa. - -153 Começando logo a dirigir suas acções pelo caminho, e maximas da -herocidade, ratificou a grande alliança, que ElRey seu pay celebrara -contra Hespanha; mas esta liga fez experimentar ao nosso exercito em 25 -de Março de 1707 a mesma fortuna das Tropas alliadas: porque depois de -termos vencido valerosamente a batalha de Almança na fronteira do Reino -de Valença, melhorou o inimigo com tanta vantagem os seus esquadrões, -que o Duque de Baruvic nos prizionou treze Regimentos à custa de hum -grande destroço da sua gente.[734] - -154 No seguinte anno de 1708, elegendo S. Magestade para esposa -a Serenissima Archiduqueza Dona Maria Anna de Austria, filha do -Imperador Leopoldo I. nomeou ao Conde de Villar-Mayor por Embaixador -extraordinario à Corte de Viena para esta negociaçaõ; e conduzida a -Serenissima Rainha pelo mesmo Conde, chegou à barra de Lisboa em 26 de -Outubro do mesmo anno, e a 22 de Dezembro fez sua entrada publica por -entre dezanove arcos triunfaes custosamente ornados, e hum innumeravel -concurso de gente, que com as repetidas demonstrações de alegria faziaõ -aquella funçaõ mais plausivel, e vistosa. - -155 A guerra com Castella hia continuando, em que os nossos Generaes -davaõ evidentes provas do seu valor, e sciencia em varios choques, -cercos, e outros movimentos bellicos, recuperando algumas Praças, que -o inimigo nos havia usurpado, quando tudo se suspendeo pelo Tratado -da paz, que entre as tres Coroas de França, Hespanha, e Portugal se -celebrou na Cidade de Utreck em o anno de 1713, e se publicou em Lisboa -a 6 de Abril de 1715. - -156 Estabelecida assim a paz no Reino, fez a vigilancia de Monarca -taõ augusto, que nas terras do seu dominio prosperamente florecessem, -e se gozassem os frutos da mesma paz por meyo de utilissimas leys, -extincçaõ de abusos, perfeição de costumes, e outras muitas disposições -produzidas da sua perspicaz advertencia, e Regios pensamentos. O zelo -da Religiaõ, o amor das letras, a observancia da justiça, o cuidado, e -cultura da sua Monarquia foy todo o seu desvelo. . 157 Do zelo, culto, -e respeito da Religiaõ sobejaõ provas, e testimunhos; pois bastando o -incansavel excesso, com que se empregou o seu generoso, e pio animo, à -maneira de outro Salomaõ, nas sumptuosas fabricas de Templos divinos, -fazendo contribuir para elles os mais preciosos marmores nobremente -pulidos, parecendo-lhe ainda pouca toda a profusaõ do dispendio, -excedeo a todo este cuidado o incessante desejo, e a incansavel ancia -de engrandecer, e augmentar cada vez mais o obsequio, e respeito da -mesma Religiaõ, e a formalidade magestosa de seus ritos, e cultos. - -158 Este projecto naõ só Christianissimo, mas Regio, o elevou à -generosa obra da erecçaõ da Santa Igreja Patriarcal, onde vemos entre a -pomposa grandeza, e reverente devoçaõ celebraremse os Officios divinos, -e todas as funções Ecclesiasticas perfeitissimamente, ornando este -excellentissimo Collegio Patriarcal de pessoas mais esclarecidas em -sangue, e letras, a que conferio muitas preeminencias, e honras, e a -que ajuntou grandes rendas, conforme a jerarquia das suas Dignidades. -E para que a grandeza, e jurisdiçaõ desta Santa igreja fosse mais -ampla, fez supprimir o Arcebispado de Lisboa Oriental pela Bulla do -Santissimo Papa Benedicto XIV. intimada no primeiro de Setembro de -1741, ficando desde entaõ havendo hum só Cabido Patriarcal em todo o -territorio, e Diocese de Lisboa, que até este tempo estava dividida em -dous Arcebispados, erigindo tambem nos Paços dos antigos Arcebispos de -Lisboa hum Seminario para se educarem os estudantes, que houverem de -servir na Santa Igreja Patriarcal. - -159 Incitado do mesmo zelo da Religiaõ, e a rogos do Summo Pontifice -Clemente XI. mandou o nosso magnanimo Rey duas vezes soccorrer Italia -contra o formidavel poder Othomano, devendo-se à esquadra Portugueza, -que se compunha de seis náos de guerra, dous burlotes, e huma tartana, -a gloria de embaraçar ella só a terrivel força de vinte e duas -sultanas, e outras tantas náos de Barbaria, com que o Graõ Baxá vinha -sobre Corfú, e Veneza, fazendo o terror das nossas armas retirallo -injuriosamente para a Moréa com a perda de cinco mil Turcos; e deixando -desassombrados, e seguros os portos naõ só daquella Republica, mas de -toda Italia em Agosto de 1717, ficou nosso Monarca na vitoria deste -conflicto naval constituido arbitro dos que o tem sido do mundo.[735] - -160 O amor das letras se vê na util erecçaõ da Academia da Historia, -que teve o seu principio em 8 de Dezembro de 1720, compondo-a dos -homens mais eruditos do Reino, e a cujas Conferencias permittio a -honra da sua Real presença repetidas vezes. Para a celebre Academia -dos Arcades, que ha em Roma, comprou novo domicilio, para se fazerem -as suas assembleas com melhor commodidade. Em todas as Provincias do -Reino ordenou que houvessem Academias militares, para que florecesse -a sciencia Mathematica; e para a da Jurisprudencia erigio tambem -na Universidade de Evora tres Cadeiras do Direito Civil, e duas do -Canonico, excedendo para prova deste affecto naõ só o amparo, que os -eruditos achavaõ na sua benignidade, nem a grande collecçaõ de livros -selectos, com que formou huma das mayores Bibliothecas da Europa, mas a -vasta comprehensaõ das mesmas sciencias, e a continua liçaõ dos mesmos -livros. - -161 Naõ he possivel caber na curta esfera deste Mappa a expressaõ -de acções taõ grandes, que obrou ElRey D. João V.: os maravilhosos -edificios de Templos, Palacios, e casas de campo; a utilissima, e -sumptuosa construcçaõ do aqueducto de Lisboa; o desafogo das suas ruas; -a melhor commodidade da navegaçaõ do Tejo; a introducçaõ de novas -fabricas; o augmento dos arsenaes; e sobre tudo o da propagaçaõ da -Fé em todas as suas Conquistas, com a recta observancia da justiça, -saõ acções taõ notaveis, e tantas, que justamente poderá questionar a -posteridade, se foraõ obradas por hum só Heroe, ou por muitos: mas que -muito se no augusto, e magnanimo peito deste Monarca residiaõ juntos -elevadamente os espiritosos brios de todos os Monarcas Lusitanos, e de -fórma o animavaõ, que o faziaõ exceder a todos;[736] ajuntando-se a -todos estes dotes a magestosa presença, e bem proporcionada estatura -de seu galhardo corpo, que, ainda disfarçado, mal podia encubrir o -respeito de Soberano. - -162 Com toda esta felicidade padeceo todavia ElRey a 10 de Mayo de -1742 hum fortissimo ataque de paralysia, que lhe debilitou a parte -esquerda do corpo; mas com os banhos das Caldas, chamadas da Rainha, -para onde foy em 9 de Julho do dito anno, e com a applicaçaõ de outros -remedios adquirio alguma melhoria, mas naõ aquella total saude, que os -seus vassallos desejavaõ. Assim foy continuando com grande constancia -de animo o prolongado tormento da sua queixa, que sem embargo de lhe -embaraçar os passos para andar, naõ lhos pode impedir ao progresso da -sua devoçaõ, e piedade. - -163 Com esta assistia de continuo na tribuna da Santa Igreja -Patriarcal, adorando, e deprecando a Deos nos muitos sacrificios de -Missas que ouvia, e Officios que rezava. A elle devem as Almas detidas -no Purgatorio o grande suffragio, que por indulto Apostolico obteve da -Santidade de Benedicto XIV. expedido em Roma aos 21 de Agosto de 1748, -para que no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos podessem todos os -Sacerdotes dos seus dominios celebrar tres Missas. Este grande animo, -e fervor de espirito, com que favorecia as Almas, foy nelle sempre -inseparavel, dispendendo caritativo no frequente beneficio dos seus -suffragios grosso, e innumeravel cabedal. Destas acções taõ pias, e -magnanimas persuadido o Pontifice Benedicto XIV. lhe concedeo a 23 de -Dezembro do mesmo anno de 1748 para si, e seus successores o titulo de -_Fidelissimo_. - -164 Chegando finalmente o prazo ultimo de seus dias, os terminou em -Lisboa aos 31 de Julho de 1750, e foy viver na Bemaventurança em -premio das virtudes que exercitou; tendo-se primeiramente disposto, e -preparado como Catholico com todos os Sacramentos da Igreja. Jaz seu -corpo no Templo de S. Vicente de Fóra. - -165 A inclyta Naçaõ Portugueza deu ao publico em Roma numa demonstraçaõ -do seu reverente obsequio à saudosa memoria de taõ grande Monarca: -celebrou na Real Igreja de Santo Antonio as solemnes exequias com -aquella magnificencia, e esplendor, que eraõ devidas às excelsas -prerogativas de hum Principe taõ benemerito da Sé Apostolica: para isto -fez erigir hum sumptuoso Mausoleo com engenhoso artificio pela idéa do -Architecto Portuguez Manoel Rodrigues dos Santos, ornado de primorosas -figuras, medalhas, e epigrafes; concluindo-se todo o apparato lugubre -com a seguinte inscripçaõ: - - JOANNI V. - - _Lusitaniæ Regi Fidelissimo, - Pio, Victori, Pacifico. - Christianæ rei ubicumque terrarum Orbi, & Gentium - Propagatori. - Bonarum artium, omniumque Disciplinarum - Parenti vindici, Mæcenati munificentissimo. - Qui - Feralibus bellorum dissidiis, aut consilio restinctis, - Aut virtute sublatis, - Pacis artes, publica Sacerdotia, - Ecclesiæ majestatem, dignitatemque - Post Constantini Magni memoriam, - Quam qui maxime ornavit, auxit, amplificavit. - Principi Optimo - Deque omnium Nationum ordinibus benemerentissimo - Lusitani D. N. M. Q. Ejus._ - - -_ D. Joseph I. vigesimo quinto Rey._ - -166 He o Fidelissimo Senhor D. Joseph Monarca presentemente reinante, -augusto successor de seu grande Pay D. Joaõ V. Foy acclamado Rey na -Cidade de Lisboa em huma segunda feira de tarde aos 7 de Setembro de -1750 com festivos applausos de seus vassallos. Para esta ceremonia chea -de grande alegria, se levantou huma varanda magnifica no terreiro do -Paço junto a Palacio, a qual começando da sala dos Tedescos, por onde -tinha a entrada, rematava no torreaõ do Forte com quarenta palmos de -largo, e trezentos e setenta de comprido, sustida em dezaseis altas -columnas ligadas com huma balaustrada que fazia face ao mesmo terreiro, -e revestido tudo com o mais precioso ornato, que soube idear o bom -gosto. - -167 Tanto que subio ao Throno, e empunhou o Cetro, fez ver que existia -vivamente naõ só na magestade da Pessoa, e clemencia do genio, mas -na generosidade das acções, reproduzido o coraçaõ magnanimo de seu -memoravel Pay. Este bom conceito annunciaraõ seus vassallos desde o -dia 6 de Junho de 1714, em que este Monarca vio a primeira luz do -mundo, onde havia ser o primeiro brilhante Astro da esfera Lusitana. -Para segurar a successaõ Regia casou em 19 de Janeiro de 1729 com a -Serenissima Princeza das Asturias D. Maria Anna Victoria, filha delRey -Catholico Filippe V., e da Rainha D. Isabel Farnese sua segunda mulher. - -168 Logo nos primeiros passos do seu Reinado mostrou o grande zelo -de conservar os seus povos em paz, justiça, e prosperidade: e como -estes atributos naõ se podem estabelecer sem o recto manejo de bons -Ministros, cuidou em os eleger competentes, e de alta comprehensaõ aos -interesses politicos, e economicos do Estado. Com esta providencia -se dispozeraõ as negociações da Marinha, do Commercio, e de todos os -Tribunaes naquelle melhorado regimen, que o Reino experimenta; ajudando -ao bom exito de tudo as justissimas Leys, que em utilidade do bem -publico tem promulgado. - -169 Para augmentar o Commercio, e Navegaçaõ, de que resultaõ opulencias -mayores que as da natureza, ordenou que os despachos fossem promptos, -evitando demoras na expediçaõ dos Tribunaes. Exaltou, e renovou o -exercicio das bellas letras com a reforma de melhores Methodos; -dispondo que fossem educados seus vassallos principalmente os Nobres; -fundando para este effeito Collegio onde se aprendaõ todas as uteis, e -estimaveis profissões das Artes, abolindo por Decreto de 29 de Julho -de 1759 o magisterio aos Jesuitas, e a liçaõ da Arte do Padre Manoel -Alvares. - -170 Nos extraordinarios accidentes do terremoto, e incendio, que -fatalmente destruiraõ Lisboa no anno de 1755, se vio a grandeza do -coraçaõ deste augusto Monarca; porque conservando-se inalteravel -em hum caso taõ repentino, e horrendo, em que vacilaraõ os mayores -talentos, elle se applicou pio, e providente a soccorrer, e acautelar -a consternaçaõ, do afflicto Povo: e como se fora pequeno este empenho, -intentou d’entre as cinzas de Lisboa abrazada reproduzir outra de -novo com mayores vantagens, excedendo nas circustancias a grandeza de -Trajano.[737] - -171 Com igual constancia de animo tolerou aquelle barbaro desacato, com -que a aleivosia, rompendo as obrigações da fidelidade Portugueza, se -atreveo a insultar a sua veneravel Pessoa em a noite de 3 de Setembro -de 1758. Mas a Providencia de Deos, salvando-lhe com prodigio a vida, -fez que naõ ficassem sem castigo os perfidos delinquentes, fazendo-os -justiçar a 13 de Janeiro do seguinte anno em o Caes de Belém; porque o -Principe, que dissimula a malicia, reina só no nome; o que a castiga, -reina no nome, e no officio. - -172 Ainda naõ havia bem descançado de punir traições, e acautelarse -de insultos, quando os Reys Catholico, e Christianissimo com o _Pacto -de Familia_, que entre si estipularaõ, querendo por força que nos -declarassemos contra Inglaterra, invadiraõ, e atacaraõ com cavilozos -pretextos algumas das nossas Praças Trasmontanas; commetendo o Marquez -de Sarria, e outros Generaes Castelhanos muitas hostilidades desde 8, -15, e 21 de Mayo de 1762, em que se introduziraõ em Miranda, Bragança -e Chaves, e em cujas acções tem perturbado a paz publica, e fé dos -Tratados estabelecidos com a antiga solemnidade. - -173 Porém como da nossa parte milita a justiça, e a razaõ, espera ElRey -Fidelissimo triunfar do poder, e industria de seus inimigos. Para -este bom exito mandou fazer promptas as suas Tropas, cujo total mando, -e manejo entregou plenamente ao Conde Soberano de Lippa Guilherme de -Schaumburg, Cavalleiro da Real Ordem Prussiana da Aguia Negra, Pessoa -que ElRey da Grã Bretanha, como nosso Alliado, elegeo, por ser de -huma distincta reputaçaõ, e de conhecido valor, e fama nas guerras da -Europa. Sua Magestade Fidelissima o nomeou Marechal General dos seus -Exercitos, e Director geral de todas as suas Tropas por Decreto de 3 de -Julho de 1762. - -174 Toda esta boa razaõ, e justiça, em que se estriba a nossa -defensa, fez persuadir tambem ao Principe Carlos Luiz Federico Duque -de Meckelburgo, Streliz, Principe de Vandalia, a que passasse dos -exercitos Britanicos onde era Marechal de Campo, para as Tropas delRey -Fidelissimo, o qual logo o nomeou Coronel General de hum Regimento de -Cavallaria, a que deu titulo de Meckelburgo. Naõ só prometem estas -antecedencias felicidades às Armas Portuguezas, mas animo. Será cada -coraçaõ Portuguez hum escudo à vida, e gloria de nosso Augusto Monarca, -o qual em militares campanhas amedrentará com o ecco do seu valor -dilatados climas do Universo. - - +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+ - |_N._| _Nome._ | _Cognome._ | _Patria._ |_Nasc._|_Coroaç._| - +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+ - | 1 | D. Affonso I. | Conquistador.| Guimarães. | 1109 | 1128 | - | | | | | | | - | 2 | D. Sancho I. | Povoador. | Coimbra | 1154 | 1185 | - | | | | | | | - | 3 | D. Affonso II. | Gordo. | Coimbra. | 1185 | 1211 | - | | | | | | | - | 4 | D. Sancho II. | Capello. | Coimbra. | 1202 | 1223 | - | | | | | | | - | 5 | D. Affonso III.| Bolonhez. | Coimbra. | 1210 | 1246 | - | | | | | | | - | 6 | D. Diniz | Lavrador. | Lisboa. | 1261 | 1279 | - | | | | | | | - | 7 | D. Affonso IV. | Bravo. | Coimbra. | 1291 | 1325 | - | | | | | | | - | 8 | D. Pedro I. | Justiceiro. | Coimbra. | 1320 | 1357 | - | | | | | | | - | 9 | D. Fernando. | Formoso. | Coimbra. | 1345 | 1367 | - | | | | | | | - | 10 | D. Joaõ I. | Boa memoria. | Lisboa. | 1357 | 1385 | - | | | | | | | - | 11 | D. Duarte. | Eloquente. | Viseu. | 1391 | 1433 | - | | | | | | | - | 12 | D. Affonso V. | Africano. | Cintra. | 1432 | 1438 | - | | | | | | | - | 13 | D. Joaõ II. | Perfeito. | Lisboa. | 1455 | 1481 | - | | | | | | | - | 14 | D. Manoel. | Venturoso | Alcochete. | 1469 | 1495 | - | | | | | | | - | 15 | D. Joaõ III. | Piedoso. | Lisboa. | 1502 | 1521 | - | | | | | | | - | 16 | D. Sebastiaõ. | Desejado. | Lisboa. | 1554 | 1557 | - | | | | | | | - | 17 | D. Henrique. | Casto. | Almeirim. | 1512 | 1578 | - | | | | | | | - | 18 | D. Filippe II. | Prudente. | Valhadolid. | 1527 | 1581 | - | | | | | | | - | 19 | D. Filippe III.| Pio. | Madrid. | 1578 | 1598 | - | | | | | | | - | 20 | D. Filippe IV. | Grande. | Valhadolid. | 1605 | 1621 | - | | | | | | | - | 21 | D. Joaõ IV. | Restaurador. | Villa Viços.| 1604 | 1640 | - | | | | | | | - | 22 | D. Affonso VI. | Vitorioso. | Lisboa. | 1643 | 1656 | - | | | | | | | - | 23 | D. Pedro II. | Pacifico. | Lisboa. | 1648 | 1667 | - | | | | | | | - | 24 | D. Joaõ V. | Fidelissimo. | Lisboa. | 1689 | 1706 | - | | | | | | | - | 25 | D. Joseph I. | Fidelissimo. | Lisboa. | 1714 | 1750 | - +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+ - - +-------+-------+------+------------+------------------------------+ - | _ Ann._ | _Ann._ | _Anno_ | _Lugar_ | | - | _que_ | _que_ | _da_ | _da_ | _Lugar da sepultura_ | - |_reinou._| _viveo._|_morte._| _morte._ | | - +-------+-------+------+------------+------------------------------+ - | 57 | 76 | 1185 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. | - | | | | | | - | 26 | 57 | 1211 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. | - | | | | | | - | 12 | 38 | 1223 | Coimbra. | Alcobaça. | - | | | | | | - | 25 | 46 | 1248 | Toledo. | Sé de Toledo. | - | | | | | | - | 32 | 69 | 1279 | Lisboa. | Alcobaça. | - | | | | | | - | 46 | 63 | 1325 | Santarem. | Odivelas. | - | | | | | | - | 32 | 66 | 1357 | Lisboa. | Sé de Lisboa. | - | | | | | | - | 9 | 46 | 1367 | Estremoz. | Alcobaça. | - | | | | | | - | 16 | 38 | 1383 | Lisboa. | Santarem. | - | | | | | | - | 48 | 76 | 1433 | Lisboa. | Batalha. | - | | | | | | - | 5 | 46 | 1438 | Thomar. | Batalha. | - | | | | | | - | 43 | 49 | 1481 | Cintra. | Batalha. | - | | | | | | - | 14 | 40 | 1495 | Alvor. | Batalha. | - | | | | | | - | 26 | 52 | 1521 | Lisboa. | Belém. | - | | | | | | - | 35 | 55 | 1557 | Lisboa. | Belém. | - | | | | | | - | 21 | 24 | 1578 | Africa. | Belém. | - | | | | | | - | 1 | 68 | 1580 | Almeirim. | Belém. | - | | | | | | - | 18 | 71 | 1598 | Escurial. | Escurial. | - | | | | | | - | 23 | 43 | 1621 | Madrid. | Escurial. | - | | | | | | - | 19 | 60 | 1665 | Madrid. | Escurial. | - | | | | | | - | 15 | 51 | 1656 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra | - | | | | | | - | 11 | 40 | 1683 | Cintra. | Belém. | - | | | | | | - | 39 | 58 | 1706 | Alcantara. | S. Vicente de Fóra. | - | | | | | | - | 44 | 60 | 1750 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra. | - | | | | | | - +-------+-------+------+------------+------------------------------+ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[559] Rib. de Maced. na Geneal. do Conde D. Henr. - -[560] Sousa. Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 1. pag. 31. - -[561] Brand na Monarq. liv. 11. cap. 38. - -[562] Apud Maced. allegad. e Far. no tom. 2. da Europ. Port. part. 1. -cap. 2. - -[563] Exempl. Flor. _Alteram filiam, sed non ex conjugali thoro natam -Ainrico.. dedit._ - -[564] Far. Com. de Cam. Cant 3. est 25. - -[565] Baron. tom. 11. ad an. 1080 _Constat enim à Rege Catholico -Alphonso... uxorem diversam à consanguinea defunctæ conjugis accepisse._ - -[566] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 13. fin. Ribeir. de Maced. allegad - -[567] Barbos. Catal. das Rainhas de Port. pag. 7. Vide etiam Sous. na -Hist. Genealog. tom. 1. pag. 33. Berganç. Antiguid. de Hesp. part. 1. -liv. 5. n. 451. - -[568] Barbos. ut supr. p. 37. - -[569] Sousa ut supr. p. 32. - -[570] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 10. - -[571] Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 13. cap. 20. Garibay tom. -2. liv. 13. cap. 11. Ortiz, Anales de Sevilla liv. 2. p. 205. Garma -Theatr. univers. de Hesp. tom. 3. pag. 288. - -[572] Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 38. - -[573] Brochado na conta de 13 de Mayo de 1723 das Mem. Academ. Veja-se -tambem a Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 9. - -[574] Monarq. Lusit. liv. 8. cap 22. - -[575] Far. no Com. de Cam. Cant. 3. est. 27. - -[576] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 79. & seqq. - -[577] Estaço nas Antig. de Port. cap. 12. n 7. - -[578] Monarq Lusit. liv. 9. cap. 8. Mariz Dialog. 2. cap 3. Duart. Nun. -Chronic. do Conde D Henriq. Telles Chronic. da Comp. part. 1. liv. 1. -cap. 16. n 4. Far. na Europ. tom. 2. part 1. cap. 3. n 4. Maced. Excel -de Port. cap. 21. excel. unic. n 9. Vasconc. Anac. Maced. Propugn. -Lusitan. Galic. confut. 20. §. 1. Clede Hist. de Port. tom. 2. p. 67. - -[579] Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 14. - -[580] Brand. Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 16. - -[581] Brit. na Chronic. de Cister part 1. liv. 3. cap. 4. Cam. Lusiad. -cant. 3. est. 35. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 275. Monarq. Lusit. liv. -9. cap 19. Toscan. Paral. devar. illustr. cap. 26. Maced. Flor. de -Hesp. cap. 12. excel. 2. - -[582] Resend. lib. 4. Antiq. _Tantas congregavit copias, ut millia -quadringenta exercitus superaret._ - -[583] Horat. Tursellin. Epitom. Histor. liv. 8. ad ann. 1140. _Itaque -victoriis ingens ab Alphonso Rege Castellæ, Rex Lusitaniæ appellatur._ - -[584] Conserva-se na Torre do Tombo tit. 1. p. 1. dos Breves. - -[585] Monarq Lusit. liv. 10. cap. 5. Sousa Histor. Geneal. tom 1. das -Prov. n. 3. - -[586] Cam. Lusiad. cant. 3. est. 45 e seg. e seu Commentador Manoel de -Far. Brit. Chron. de Cist. liv. 3. c. 2. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. -5. Paes Viegas nos Princ. de Port. liv. 4. Resend. liv. 4 de Antiq. -Dam. de Goes in Descript. Olisip. Man. da Cost. celebre Jurista, na -Oraçaõ funeb. delRey D. Joaõ III. em 25 de Junho de 1557, e impressa em -Coimbr. ann. 1558. Osor. de reb. Emm. l. 8. & de Nobil l. 3. Vasconc. -Anacephal. n. 5. Freit. de just. Imp. Lusit. cap. 18. n. 16. Duart. -Galv. na Chronic. deste Rey cap. 15. e outros, que allega o Doutor -Joseph Pinto Pereira no Appar. Histor de argum. sanctit. Reg. Alphons. -Henr. arg. 1. Os Authores Estrangeiros saõ os seguintes: Thom. Boss. -de Sign. Eccles. tom. 2. l. 7. c. 7. Beyerlinck verb. _Apparitio_. -Delr. Disquis. magic. lib. 2 quæst 26. sect. 5. Thyræus de Christi -apparition. impersona lib. cap. 3. Rosignol de actib. virtut. lib.1. -cap. 16. Bagat. de admir. orb. Christian tom. 2. lib 5. cap. 1. n. 45. -Petra sancta in Tesseris gentilic. Jarric. Thesaur. rer. indic. p. -2. cap 3. Birag. Histor del Port. part. 13. Tracagnot. Histor. Ital. -Morel. Reduccion de Port. part. 1. n. 10. e outros, que allega D. -Anton. Caetano de Sousa no tom. 4. do Agiolog. Lusit. a 25 de Julho. - -[587] Marian. liv. 10. cap. 17. tom. 1. Histor. de Hespanh. - -[588] Brit. Chron. de Cister l. 3. cap. 4. e 5. Manriq. Annal. Cisterc. -ann. 1142. cap. 4. Brand. Monarq. liv. 11. cap. 4. liv. 16. cap. ult. -e liv. 19. cap. ultim. Maced. de Div. tutelar. p. 240. Maced. Philipp. -Portug. cap. 19. Velasc. Justa Acclam. part. 1. §. 4. n. 24. Baron. ad -ann. 1144. in Lucio II. Aguirre tom. 3. Concil. ad ann. 1144. n. 92. - -[589] Mariz. Dialog. 2. cap. 7. Garibay liv. 34. cap. 14. Mend. da -Silv. Catal. Real §. 59. Mendoça in Viridar. lib. 6. or. 3. num. 67. -Vieg. in Apocalyps. cap. 21. sect. 5. num. 6. - -[590] Brit. Chron. de Cister liv. 3. cap. 21. - -[591] Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 13. - -[592] Idem ibid. cap. 27. - -[593] Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 27. - -[594] Brand. ibid. l. 12. c. 1. - -[595] Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 80. - -[596] Monarq. liv. 12. cap. 1. e 11. - -[597] Ibid. - -[598] Idem ibid cap. 3. - -[599] Monarq. Lusit. liv. 12. c. 7. e no fim do Prologo da quarta parte. - -[600] Idem cap. 13. - -[601] Clede tom. 2. pag. mihi 165. - -[602] Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 31. - -[603] Ibid. cap. 35. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. das Prov. n. 10. -Cled. tom. 1. p. 166. - -[604] Barbos. Catal. das Rainh. de Port. p. 143. - -[605] Brand. na Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 27. - -[606] Cled. tom. 2. Histoir. de Port. p. 174. - -[607] Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 1. cap. 7. n. 7. - -[608] Brand. Monarq. liv. 13. cap. 10. e liv. 14. cap. 8. - -[609] Bzovius tom. 13. Annal. ad ann. 1225. apud Barbos. Catalog. das -Rainh. p. 160. - -[610] Sá de Mirand. cart. 5. est. 11. - -[611] Monarq. Lusit. liv. 14 cap. 25. - -[612] Monarq. Lusit. liv. 14. cap. 29. - -[613] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 5. - -[614] Ibid. cap. 12. - -[615] Ibid. cap. 13. - -[616] Cunh. Catalog. dos Bisp. do Port. part. 2. c. 12. Monarq. Lusit. -liv. 16. cap. 10. - -[617] Barbud. Emprezas Militar. p. 12. e outros. - -[618] Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 61. e seqq. Brand. na 4. part. -da Monarq. Lusit. e liv. 16. cap 41. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p. -288. & seq. Far. Epitom. part. 4. cap. 8. - -[619] Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 2. c. 1. n. 22. - -[620] Cam. cant. 3. est. 94. - -[621] Esperanç. Histor. Serafic. part. 1. liv. 5. cap. 11. Monarq. -Lusit. liv. 15. cap. 47. - -[622] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 1. 2. e 3. - -[623] Ibid. cap. 4. - -[624] Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 34. - -[625] Far. Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 2. n. 7. Monarq Lusit. -liv. 16. cap. 50. - -[626] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 72. ep. 320. Sous. tom. 1. das -Provas da Histor. Geneal. p. 74. - -[627] Monarq. Lusit. liv. 17. cap. 7. - -[628] Far. Europ. tom. 2. p. 2. cap. 2. n. 20. Monarq. liv. 18. cap. 2. -Barbud. Emprez. Milit. pag. 17. vers. - -[629] Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num 310. - -[630] Ibid. num. 312. - -[631] Monarq. Lusit. tom. 7. Liv. 3. cap. 3. num. 1. - -[632] Ruy de Pin. Chron. cap 5. - -[633] Sousa Histor. Genealog. tom. 1. p. 306. - -[634] Leit. Ferr. Notic. Chron. n. 321. e 333. - -[635] Monarq. Lusit. part. 7. liv. 10. cap. 22. e 23. - -[636] Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num. 404. - -[637] Nunes de Leaõ Chronic. delRey D. Pedro fol. 179. - -[638] Sá Elegia à morte do Principe D. Joaõ pag. mihi 277. Vide Barbud. -nas Emprez. Milit. pag. 23. - -[639] Ferrei. Notic. Chronolog. de Coimbr. n. 495 & seqq. - -[640] Fern. Lop. Chron. cap. 2. - -[641] Cam. Lusiad. cant. 3. est. 138. - -[642] Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 6. - -[643] Nunes de Leaõ na Chronic. deste Rey. - -[644] Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 21. - -[645] Cam. cant. 3. est. 138. - -[646] Monarq. Lusitan. tom. 8. liv. 22. cap. 24. Barbud. Emprez. -Militar. pag. 32. - -[647] Far. no Comm. da est. 138. do cant. 3. de Cam. - -[648] Monarq. Lusitan. part. 8. liv. 22. cap. 26. - -[649] Notic. Chronol. da Univ. de Coimbr. n. 438. - -[650] Monarq. Lusitan. part. 8. p. 211. - -[651] Idem ibid. liv. 22. cap. 47. - -[652] Idem ibid. liv. 23. cap. 4. Pufendorf, Introduct. a la Histoire -tom. 1. cap. 3. p. 128. - -[653] Fern. Lopes Chronic. deste Rey cap. 14. Monarq. Lusit. part. -8. p. 460. Silv Memor. delRey D. João I. tom. 1. p. 116. Quanto ao -dia, mez, e anno natalicio delRey D. Joaõ I. ha muita variedade entre -os Chronistas: ninguem investigou melhor este ponto que o Academico -Francisco Leitaõ Ferreira nas eruditas Noticias Chronologicas da -Universidade de Coimbra desde o num. 623. para diante, a qual assenta, -seguindo a Fernaõ Lopes, que o Mestre de Aviz nascera aos 15 de Abril -de 1358; porém nós seguimos a opiniaõ commummente recebida, e approvada -pelo Academico Joseph Soares da Silva tom. 1. p. 64. das Memorias deste -Rey. - -[654] Fr. Man. dos Sant. na 8. part. da Monarq. Lusit. liv. 23. cap. 19. - -[655] Notic. Chronol. da Univ. n. 534. - -[656] Soar. da Silv. nas Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. c. 42. n. 281. - -[657] Lim. Geograf. Histor. tom. 1. - -[658] Monarq. Lusit. part. 8. liv. 23. cap. 29. - -[659] Fern. Lop. Chron. delRey D. Joaõ I. part. 2. cap. 37. pag. 91. -Monarq. Lusit. part 8. liv. 23. c. 40. Clede, Histoir. de Portug. -tom. 3. liv. 10. Pufendorf, Introduct. a la Histoir. tom. 1. cap 3. -Teixeir. Vida de D. Nun. Alvar. Pereir. liv. 3. n. 173. p. 359. Conde -da Ericeira Vida delRey D. Joaõ I. liv. 2. p. 200. e liv. 3. p. 230. Sá -Memor. Historic. do Carmo part. 1. pag 82. - -[660] Soares da Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. pag. 1505. Leit. Ferr. -Notic. Chronol. n. 733. - -[661] Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. num. 5. - -[662] Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag. 23. Far. Europ. Portug. tom. -2. part. 3. cap. 1. Mariz Dialog. 4. Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom. -4. document. 19. p. 140. Argot. Memor. de Brag. tom. 3. p. 36. - -[663] Soar. da Silv. allegado p. 267. - -[664] Sous. allegad. tom. 2. p. 24. - -[665] Soar. da Silv. Mem. delRey D. Joaõ I. liv. 2. cap. 104. e 105. - -[666] Anno Histor. tom. 2. 14. de Agost. Teixeir. Vida do Condestav. p. -589. - -[667] Soar. da Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom. 1. cap. 53. p. 270. - -[668] Sousa na Histor. de S. Doming part. 2. fol. 330. - -[669] D. Anton. Caetan. de Sousa no tom. 1. das Prov. p. 529. - -[670] Fern. Lop. Chronic. delRey D. Joaõ I. part. 2. pag. 323. col. 1. - -[671] Clede Histoir. de Portug. tom. 3. p. 203. - -[672] Far. tom. 2. da Europ. part. 3. cap. 2. n. 7. Cled. Histoir. de -Portug. tom. 3. p. 205. - -[673] Idem ibid. p. 233. - -[674] Duart. Nun. de Leaõ cap. 18. Soar. da Silv. Memor. delRey D. Joaõ -I. pag. 494. - -[675] Cled. Histor. de Portug. tom. 3. p. 233. - -[676] Notic. Chronolog da Univers. de Coimbr. n. 750. - -[677] Far. na Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 3. n. 14. & seqq. - -[678] Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. n. 17. - -[679] Ruy de Pin. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 21. e 22. - -[680] Cam. cant. 4. est. 57. - -[681] Garc. de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 16. e 17. Duart. -Nun. Chron. delRey D. Affonso V. cap. 62. - -[682] Faria no Comm. de Cam. cant. 4. est. 57. - -[683] Idem no Epitom. part. 3. cap. 13. n. 24. Pint. Ribeir. no Trat. -da Prefer. das letr. às armas. - -[684] Garibay Damiaõ de Goes, Barbuda, Ferreras, e outros apud Leit. -Ferreir. Notic. Chron. da Universid. de Coimbr. n. 861. - -[685] Garc. de Resende na Vida deste Rey cap. 5. - -[686] Zerit. Anal. liv. 20. cap. 44. Sousa Histor. Geneal. tom. 5. liv. -6. cap. 7. p. 455. - -[687] Telles da Silv. de reb. gest. Joann. II. pag. 92. _Sed in -universum æstimanti sanè fuit meliori facto dignus._ - -[688] Garcia de Resend. na vida deste Rey cap. 50., 76., e 146. Far. -Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 4. n. 98. - -[689] Resende cap. 167. - -[690] Resende cap. 109 Sá de Mirand. cart. 2. est. 39. Telles da Silv. -de reb. gest. Joann II. pag. 33. - -[691] Garcia de Resende cap. 211. e 213. Dam. de Goes Chronic. delRey -D. Manoel p. 1 cap. 1. Fonseca na Evora gloriosa p. 97. - -[692] Cam. nas Lusiad. cant. 4. est. 66. - -[693] Leit. Ferr. Notic. Chronolog. num. 905. & seqq. - -[694] Goes Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 9. - -[695] Idem ibid. cap. 17. Faria tom. 2. da Europ. Port. part. 4. cap. -1. n. 10. Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 185. - -[696] Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 18. e 20. - -[697] Pufendorf Introduct. à la Histoir. tom. 1. cap.3. - -[698] Far. Europ. Port. tom. 2. part. 4. cap. 1. n. 23. Sous. Histor. -Geneal. tom. 3. p. 226. - -[699] Goes part. 4. cap. 85. - -[700] Far. no cant. 1. das Lusiad. pag. 111. - -[701] Descrevem esta Embaixada largamente Damiaõ de Goes na Chronica -delRey D. Manoel part. 3. desde o cap. 55. Osor. de reb. Emman. Ann. -Hist. a 12 de Fever. - -[702] Leit. Ferr. Notic. Chronol. - -[703] Goes na Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 62. Far. na Europ. -Port. tom. 2 part. 4. cap. 2. - -[704] Idem ibid. n. 3. - -[705] Cabed. de Patron. cap.47. Cunha no Catal. dos Bisp. do Port. p. -451. Fr. Anton. da Purific. na 2. part. da Chron. liv. 7. tit. 1. §. 3. -fol. 215. Faria na Vida de Camões, que vem no principio do Corrimento -das Rimas. - -[706] Leitaõ Ferr. Notic. Chronol. n. 1150. - -[707] Bento Pereir. de Academ. n. 111. Maced. nas Flor. de Hespanh. -cap. 8. excel. 7. - -[708] Bossius de Sign. Eccles. tom. 1. liv. 5. cap. 3. - -[709] Faria allegad. na Europ. Port. Sousa Histor. Genealog. tom. 3. p. -488. - -[710] Faria na Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 8. Veja-se -tambem o Anno Historico a 4 de Agosto. - -[711] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 39. Sousa Histor. -Genealog. tom. 3. p. 591. Lima Success. de Port. cap. 30. Anno Histor. -a 23 de Junh. - -[712] Clede tom. 5. pag 496. - -[713] Sousa Histor. Genealog. tom. 3. pag. 594. Anno Histor. a 5 de -Agosto num. 2. - -[714] Damiaõ de Goes 3. part. da Chronic. delRey D. Manoel cap. 27. -Barbos. nos Fast. da Lusit. a 31 de Janeiro §. 5. - -[715] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 1. cap. 3 n. 20. Sousa Histor. -Geneal. tom. 3. pag. 376. Torres de Lima nos Successos de Portug. part. -1. cap.33. - -[716] Herrer. liv. 3. §. 52. diz que eraõ cem mil homens. - -[717] Fr. Man. Hom. na Disposiçaõ das Arm. Castelhan. cap 3. - -[718] Bonacin. tom. 2. Restitut. disp. 2. quæst. ult. sect. 1. punct. -ultim. §. 2. Sá verb. _Bellum_ n. 8. Suar. de Charit. disp. 13. de -Bello sect. 6. n. 4. 5 & 6. Vasq. in l. 2. disp. 64. cap. 3. Molin. de -Justit. tom. 1. tract. 2. disp. 103. n. 2. & 11. etc. - -[719] Faria Europa Portug. tom. 3. part. 2. cap. 1. n. 15. Anno -Historic. a 29 de Junho. - -[720] Faria Europ. Port. Joaõ Pinto Ribeiro na Usurpaçaõ de Portug. -Joaõ Bapt. Morelli na Restituiçaõ de Portug part. 1. Maced. Lusit. -liberat. D. Francisco Man. Eco politic. O Author da Arte de furtar cap. -17. que supponho he Joaõ Pinto Ribeiro, e outros muitos. - -[721] Velasco na Justa Acclamaç part. 2. punct. 1. §. 1. Joaõ Salgad. -no Marte Port. certam. 2. art. 5. Portug. restaurad. liv. 1. - -[722] D. Francisc. Man. Epanafor. 1. pag. 21. 42. 74. O Abbade de -Vertot nas Revolutions de Portugal pag. mihi 81. - -[723] O Padre Anton. dos Reys in Epist. ad Jamet. Nota 115. traz hum -Catalogo dos Fidalgos confederados para a acclamaçaõ delRey D. Joaõ IV. -e saõ mais dos quarenta, que refere o tomo 1. do Portug. Restaurad. -pag.98. Sousa Histor. Genealog. tom. 7. - -[724] Almeid. Restaur. prodigiosa part. 2. cap. 10. - -[725] _Hæc mutatio dexteræ Excelsi est._ Psalm. 76. vers. 11. - -[726] Morelli na Restituiç. de Portug. pag. 114. - -[727] D. Franc. Manoel no Manifesto de Portug. Sousa Histor. Genealog. -tom. 7. p. 162. Vieir. Histor. do futuro pag. 94. & seqq. Portug. -Restaur. tom. 2. Evor. glor. p. 166. Ann. Histor. a 29 Agosto. - -[728] Monarq. Lusit. part. 6. liv. 19. cap. 23. - -[729] Sous. Hist. Geneal. tom. 7. p. 204. - -[730] Catastrofe de Portug. pag. 77. - -[731] Catastrofe de Port. pag. 225. - -[732] Portug. Restaurad. part. 2. pag. 919. - -[732a] Clede tom. 8. pag. 533. - -[733] Sousa Histor. Genealog. tom. 7. pag. 639. - -[734] Clede tom. 8. pag.535. Anno Histor. tom. 2. - -[735] Franc. Botelho no Alfonso da impressaõ de Salamanc. de 1741. liv. -1. est. 6. - - _Roma, de quien fue throno el mundo intero, - Buscó tu auxilio en riesgo furibundo, - Y fuiste con tu armada, oh Real guerrero, - Arbitro de los arbitros del mundo._ - -[736] - - _...Lysiae reliquos nunc adspice Reges, - Ut collata videns illorum insignia gesta - Joannes gestis, quantum caput efferat omnes - Hic suber agnoseas......._ - -Padre Antonio dos Reys no Enthusiasmo Poetico prope finem. - -[737] _Magnum hoc tuum, non erga homines modo, sed erga tecta ipsa -meritum, sistere ruinas, solitudinem pellere, ingentia opera, eodem quo -extructa sunt animo, ab interitu vendicare._ Plin. in Panegyr. Trajani. - - - - - CAPITULO VII. - - _Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal._ - - -O preclarissimo titulo de Rainha neste Reino he mais antigo que o dos -Reys; porque foy costume daquelles primeiros Monarcas de Leaõ dar em -vida titulo de Reys aos filhos, e de Rainhas às filhas para ficar assim -nelles mais estabelecida, e segura a successaõ Real;[738] e ainda que -alguns erradamente disseraõ, que o illustrissimo Conde D. Henrique -assentara o senhorio de Portugal debaixo do titulo de Condado,[739] -ninguem até agora duvidou que sua mulher a Senhora Dona Teresa, como -filha, que era delRey D. Affonso de Castella, deixasse de se chamar -sempre Rainha, e naõ Condessa; e do mesmo modo se chamaraõ Rainhas -suas filhas, cujo estylo se praticou neste Reino até D. Sancho I.[740] -do qual tempo até este nosso tomaraõ o nome de Infantes, o que naõ -entendendo alguns Historiadores Flamengos, attribuiraõ a ambiçaõ -chamarse Rainha, e naõ Condessa a Senhora Dona Teresa, filha delRey D. -Affonso I. que casou com o Conde de Flandes Filippe de Alsacia.[741] -Isto supposto, entremos a executar o promettido. - -2 _Dona Teresa_, mulher do Conde D. Henrique, era filha delRey D. -Affonso VI. de Leaõ, e herdeira de seus Estados, Senhora de notavel -formosura. Casou com o illustrissimo Conde no anno de 1093, trazendo -em dote todo o Reino de Portugal, que ella governou dezaseis annos -depois da morte do Conde seu marido, como senhora proprietaria -delle;[742] e porque se aproveitava dos conselhos de hum Cavalhero -Galego, chamado D. Fernando Peres, Conde de Trastamara, quizeraõ muitos -dizer[743] que a Rainha Dona Teresa contrahira segundo casamento com o -tal Conde; porém he certo que tal naõ houve, como efficazmente prova o -erudito Padre D. Joseph Barbosa.[744] Fundou a Igreja de S. Pedro de -Rates na Cidade de Braga: fez varias doações às Sés de Braga, Porto, e -Coimbra: admittio em Portugal os Cavalleiros Templarios; e finalmente -morreo em o primeiro de Novembro de 1130. Jaz na Capella mór da Sé de -Braga. - -3 _Dona Mafalda_, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana, -casou com D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, no anno -de 1146. Fundou, e dotou hum Hospital na Villa de Canavezes para -nove passageiros, e peregrinos terem nelle agazalho com todo o -commodo possivel: unio-lhe as rendas da ponte, que mandou fabricar -grandiosamente. Edificou a Igreja de Santa Maria de Sobre-Tamaga, e o -Morteiro da Costa de Guimarães, que deu aos Conegos Regulares de Santo -Agostinho, e hoje possuem os Religiosos de S. Jeronymo. Faleceo a 4 de -Novembro de 1157, e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra -junto de seu marido.[745] - -4 _Dona Dulce_ foy filha de D. Ramon Berenguer, Conde de Barcelona, -e Principe de Aragaõ. Casou com ElRey D. Sancho I. no anno de 1175, -confirmou com ElRey seu marido algumas doações pias, e morreu em -Coimbra no primeiro de Setembro de 1198. Está sepultada no Mosteiro de -Santa Cruz da mesma Cidade.[746] - -5 _Dona Urraca_ era filha de D. Affonso IX. Rey de Castella. Casou -com D. Affonso II. de Portugal no anno de 1201. Teve a felicidade -de receber em seu Palacio a S. Francisco, e aos cinco Martyres de -Marrocos; e sendo trazidos seus corpos a Coimbra, os foy buscar, e -deu sitio para se fundar na mesma Cidade o primeiro Convento de S. -Francisco em o Reino. Viveo com exemplar virtude, e mereceu que Deos -lhe revelasse o dia de sua morte, que foy a 3 de Novembro de 1220. Jaz -no Mosteiro de Alcobaça.[747] - -6 _Dona Brites_ filha delRey D. Affonso X. de Castella, chamado o -_Sabio_, e ella Princeza de singular perfeiçaõ, e prudencia, casou com -D. Affonso III. de Portugal no anno de 1253. Fundou o Hospital dos -Meninos Orfãos de Lisboa, e o Convento de S. Francisco de Estremoz. -O mayor louvor, que se lhe póde dar, he a grande fidelidade, que -mostrou a ElRey D. Affonso seu pay, socorrendo-o com seus thesouros. -Morreu em 27 de Outubro de 1303, e está sepultada no Real Mosteiro de -Alcobaça.[748] - -7 _Santa Isabel_ foy filha delRey D. Pedro III. de Aragaõ, chamado o -_Grande_. Casou com ElRey D. Diniz em 24 de Junho de 1282. Instituio -com seu marido a Igreja, e Festa do Espirito Santo em Alenquer. Fundou -a Capella de Nossa Senhora da Conceiçaõ no Convento da Trindade de -Lisboa. Por morte de seu marido se recolheo ao Mosteiro de Santa Clara -de Coimbra, tambem fundaçaõ sua, onde viveo com taõ grandes evidencias -de santidade, obrando Deos por sua intercessaõ muitos prodigios em -vida, e depois de sua morte, que alcançou ser numerada no Catalogo -dos Santos por Urbano VIII. em 25 de Mayo de 1625. Partio desta vida -a gozar da eterna em 4 de Julho de 1336. Está seu veneravel corpo no -Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.[749] - -8 _Dona Brites_ filha de D. Sancho IV. Rey de Castella, chamado o -_Bravo_, casou com D. Affonso IV. de Portugal em 12 de Setembro de -1309. Instituio na Sé de Lisboa as Mercearias, que chamaõ de Affonso -IV. por concorrer tambem seu marido para esta instituiçaõ. Morreo em -Lisboa no anno de 1359 a 25 de Outubro. Jaz na antiga Sé de Lisboa.[750] - -9 _Dona Constança_ foy filha de D. Joaõ Manoel, Duque de Peñafiel, -Marquez de Vilhena. Casou no anno de 1340 com ElRey D. Pedro I. sendo -ainda Infante, e foy sua primeira mulher. Morreo de parto do Infante -D. Fernando a 13 de Novembro de 1345. Está sepultada no Convento de S. -Francisco de Santarem.[751] - -10 _Dona Ignez de Castro_ foy filha de D. Pedro Fernandes de Castro, -grande Senhor em Galiza. Casou com o Principe D. Pedro no anno de 1354 -occultamente. Fundou a Capella, em que está sepultado S. Gervaz na -Paroquia da Villa de Basto. Por mandado delRey D. Affonso IV. foy morta -com grande tyrannia, e injustiça aos 7 de Janeiro de 1355. Passados -dous annos, declarou ElRey D. Pedro que havia sido sua legitima -mulher, e como a tal a fez sepultar em Alcobaça com insignias Reaes, -onde jaz em primoroso tumulo.[752] - -11 _Dona Leonor Telles_, filha de Martim Affonso Tello de Menezes, -casou com ElRey D. Fernando, que se namorou della, e a recebeo no -anno de 1371 contra o parecer de todos, porque a usurpou a seu marido -Joaõ Lourenço da Cunha, com quem estava casada, sem embargo de alguns -dizerem que indevidamente em razaõ de affinidade, e sem dispensa. -Em vida de seu marido foy causa dos excessos escandalosos de Joaõ -Fernandes Andeiro, Conde de Ourem. Passou-se a Castella, e morreo em -Tordesilhas a 27 de Abril de 1386. Jaz no Convento de Valhadolid.[753] - -12 _Dona Filippa de Lancastro_ foy filha do Duque de Lancastro Joaõ de -Gante. Casou com ElRey D. Joaõ I. de Portugal a 2 de Fevereiro de 1387. -Edificou a Igreja de S. Francisco de Leiria, e fez muitas obras pias, e -acções de caridade, por ser huma Senhora de grande virtude. Morreo no -Lugar de Sacavem aos 18 de Julho de 1415, para onde tinha ido por causa -da peste, e dalli foy conduzida para Odivellas, onde se fizeraõ as -exequias, e depois se transferio para o Convento da Batalha, onde agora -jaz. He fama, que na hora do seu transito a consolara Maria Santissima -com a incomparavel graça da sua vista, cujo favor parece que se faz -provavel, porque dalli a hum anno foy achado seu corpo incorrupto, e -cheiroso.[754] - -13 _Dona Leonor_ era filha delRey D. Fernando I. de Aragaõ. Casou com -ElRey D. Duarte a 22 de Setembro de 1428. Deixou-a ElRey seu marido -por tutora, e Governadora do Reino na menoridade delRey D. Affonso -seu filho, o que naõ consentindo os Infantes seus cunhados, houveraõ -discordias grandes entre elles, e a Rainha, até que ultimamente largou -o governo ao Infante D. Pedro, e se foy para Castella, onde morreo em -Toledo a 18 de Fevereiro de 1445, sendo depois seu corpo conduzido para -o Convento da Batalha, onde jaz.[755] - -14 _Dona Isabel_ foy filha do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, -Regente do Reino. Casou com ElRey D. Affonso V. em 6 de Mayo de 1448, -sendo que o insigne Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa diz, que -fora no anno antecedente, e o prova com escritura authentica. Mandou -edificar hum Convento para os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, -e he o que se vê hoje no sitio de Xabregas. Morreo finalmente em 2 de -Dezembro de 1455 na Cidade de Evora, e jaz no Convento da Batalha.[756] - -15 Bem se pudera unir a este Catalogo a pouco venturosa Rainha _Dona -Joanna_, filha delRey D. Henrique IV. de Castella, de quem foy jurada -herdeira, e casou em Mayo de 1475 com ElRey D. Affonso V.; mas como -este matrimonio naõ se consumou, porque lhe embaraçaraõ a dispensa -de parentesco a Rainha de Aragaõ, e ElRey D. Fernando o _Catholico_ -seu marido, por isso he infelizmente exclusa da ordem das Rainhas de -Portugal, sem embargo de que conservou até à morte estado de Rainha, -e lhe chamavaõ a _Excellente Senhora_. Morreo em Lisboa nos Paços do -Castello no anno de 1530. Jaz no Mosteiro de Santa Clara.[757] - -16 _Dona Leonor_ filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu, casou -com ElRey D. Joaõ II. a 22 de Janeiro de 1470. Foy Princeza adornada de -singular formosura, e virtudes admiraveis. Governou o Reino em tempo, -que ElRey D. Manoel seu irmaõ esteve em Castella. Fundou o Mosteiro -da Madre de Deos de Lisboa, e o adornou de preciosas Reliquias, e de -huma estimavel Imagem. Tambem edificou o Mosteiro da Annunciada no -primeiro sitio, que teve junto ao Castello, e o Hospital das Caldas -no termo de Obidos, chamadas por seu respeito da Rainha. Instituio a -Irmandade da Misericordia de Lisboa, donde emanaraõ todas as mais de -Hespanha. Estabeleceo cinco Mercearias na Igreja de Santa Maria de -Obidos, e outras tantas em Nossa Senhora da Graça de Torres Vedras. -Faleceo em Lisboa a 17 de Novembro de 1525, deixando de si, e de suas -virtuosissimas acções saudosas, e eternas memorias, que entre as -Princezas Portuguezas he recommendavel por singular. Está sepultada -no claustro do Mosteiro da Madre de Deos à porta do Refeitorio em -sepultura raza.[758] - -17 _Dona Isabel_, filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona -Isabel, casou primeiramente com o Principe D. Affonso, filho delRey -D. Joaõ II. de Portugal, aquelle, que depois de estar casado com esta -Senhora naõ mais que seis mezes, acabou lastimosamente a vida junto a -Santarem. Como do Principe lhe naõ ficaraõ filhos, tornou a casar com -ElRey D. Manoel em Outubro de 1497, e passando a Castella, foy jurada -Princeza herdeira daquelle Reino juntamente com ElRey seu marido; e -indo a Aragaõ para serem tambem jurados alli, morreo em Çaragoça de -parto do Principe D. Miguel aos 24 de Agosto de 1498. Jaz no Coro das -Religiosas de Santa Isabel a Real de Toledo.[759] - -18 _Dona Maria_ era filha dos mesmos Reys Catholicos, e foy a segunda -mulher delRey D. Manoel seu cunhado, com quem casou em 30 de Outubro de -1500. Foy Senhora de notavel governo. Fundou nas Berlengas o Convento -dos Monges de S. Jeronymo, que depois se mudaraõ para Val bem feito. -Morreo em Lisboa a 7 de Março de 1517. Está sepultada no Convento de -Belém.[760] - -19 _Dona Leonor_, terceira mulher delRey D. Manoel, filha delRey -Filippe I. de Castella, casou em 24 de Novembro de 1518. Foy Senhora -muito formosa. Deu principio ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assumpçaõ -de Faro das Religiosas de Santa Clara. Por morte delRey D. Manoel -voltou para Castella, e passou a segundas vodas com ElRey Francisco I. -de França. Faleceo em Talavera junto a Badajoz em 18 de Fevereiro de -1558. Jaz no Pantheon do Escurial.[761] - -20 _Dona Catharina_, filha delRey D. Filippe I. de Castella, casou com -ElRey D. Joaõ III. em 5 de Fevereiro de 1525. Foy Senhora de muita -bondade, zelosa do augmento da Religiaõ, e adornada de huma singular -prudencia. Governou felizmente o Reino por morte de seu marido na -minoridade delRey D. Sebastiaõ seu neto. Teve huma natural perspicacia -na boa eleiçaõ dos Ministros. Fundou o Convento de Val bem feito de -Monges Jeronymos, e o Mosteiro de Freiras de S. Francisco na Cidade de -Faro, e a Paroquial Igreja de Santa Catharina de Lisboa. Instituio no -Convento de S. Domingos da mesma Cidade huma Cadeira de Moral com renda -para trinta Clerigos assistirem às lições, que ainda hoje se practica -no mesmo Convento. Dotou o Collegio dos Meninos Orfãos. Estabeleceo -no Convento de Belém vinte Mercearias para Cavalleiros pobres, que -tivessem servido em Africa, ou nas Conquistas, e quatro na Capella do -Santo Christo de Cintra. Alcançou de Roma a instituiçaõ do Tribunal do -Santo Officio em Goa. Faleceo a 12 de Fevereiro de 1578 na Cidade de -Lisboa, e jaz no Real Mosteiro de Belém.[762] - -21 _Dona Anna de Austria_, filha do imperador Maximiliano II. foy a -quarta mulher de Filippe II. com quem casou a 12 de Novembro de 1570, -sendo sua sobrinha. Foy fecunda, e virtuosa. Morreo em Badajoz a 26 de -Outubro de 1580, e jaz no Escurial.[763] - -22 _Dona Margarida de Austria_, filha de Carlos Archiduque de Austria, -casou com Filippe III. em 18 de Abril de 1599. Morreo no Escurial a 3 -de Outubro de 1611, e jaz sepultada no Pantheon do mesmo Escurial.[764] - -23 _Dona Isabel de Borbon_, filha de Henrique IV. Rey de França, foy a -primeira mulher de Filippe IV. com quem casou no anno de 1615, e morreo -a 6 de Outubro de 1664. Jaz no Escurial.[765] - -24 _Dona Luiza Francisca de Gusmaõ_, filha de D. Joaõ Manoel Peres de -Gusmaõ, oitavo Duque de Medina Sidonia, casou com o Serenissimo Senhor -D. Joaõ, oitavo Duque de Bragança, e depois Rey de Portugal em 12 de -Janeiro de 1633. Foy Princeza de espirito altivo, e de admiraveis -virtudes. A restauraçaõ de Portugal esteve pendente da sua industria, -e magnanima resoluçaõ, com que soube persuadir taõ grande empreza ao -Duque seu marido. Este fiou sempre della os negocios mais arduos do -Reino, e ella o governou depois da morte delRey na minoridade de D. -Affonso VI. seu filho, em cujo tempo fez resplandecer no Throno todas -as grandes qualidades de hum Soberano. Introduzio neste Reino a Ordem -da Descalcez de Santo Agostinho, e fundou dous Conventos no Valle de -Xabregas para os Religiosos, e Religiosas desta Ordem. Tambem fundou o -Convento dos Religiosos Dominicos Irlandezes ao Corpo Santo, e o dos -Carmelitas Descalços aos Torneiros. Excitada de mayores pensamentos se -recolheo ao Mosteiro das Religiosas Descalças de Santo Agostinho, que -havia fundado no sitio do Grilo, onde totalmente se esqueceo de que -tivesse reinado, e a 27 de Fevereiro de 1666 faleceo, deixando de suas -virtudes eterna memoria, e jaz sepultada no Mosteiro do Grilo.[766] - -25 _Dona Maria Francisca Isabel de Saboya_, filha de Carlos Amadeo de -Saboya, Duque de Neomurs, casou primeiramente com ElRey D. Affonso -VI. de Portugal em 27 de Junho de 1666; porém como este matrimonio -foy julgado por nullo, tornou esta Princeza a casar segunda vez, e se -recebeo com seu cunhado o Principe Regente, que depois foy Rey D. Pedro -II. precedendo para isto dispensa do Pontifice, e se celebraraõ estas -segundas vodas em 2 de Abril de 1668. Foy esta Senhora de estremada -formosura, e dotada de muita prudencia, e por isso conservou com seu -marido hum amor muy reciproco. Mandou fazer a Capella de S. Francisco -de Sales na Igreja dos Padres do Oratorio de Lisboa, e no Noviciado da -Cotovia dos Padres da Companhia mandou edificar a Capella da Conceiçaõ. -Fundou o Mosteiro das Religiosas Capuchinhas Francezas do Santo -Crucifixo em Lisboa. Morreo a 27 de Dezembro de 1683 na quinta do -Conde de Sarzedas em Palhavã, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro, -que edificou.[767] - -26 _Dona Maria Sofia Isabel de Neoburg_, Filha do Eleitor Palatino do -Rhim Filippe Vilhelmo, foy a segunda mulher delRey D. Pedro II. com -quem se recebeo em 11 de Agosto de 1687. Foy Princeza muito benigna, e -caritativa, em cujos actos se exercitava continuamente. Venerou muito -a Religiaõ da Companhia de Jesus, e foy muy devota de S. Francisco -Xavier, em cujo obsequio mandou edificar hum Collegio para os seus -Padres na Cidade de Béja, ao qual dotou grandiosamente. Morreo no Paço -da Corte-Real a 4 de Agosto de 1699, e está sepultada no Convento de S. -Vicente de Fóra.[768] - -27 _Dona Maria Anna de Austria_, filha do Imperador Leopoldo I. -casou em 27 de Outubro de 1708 com ElRey D. Joaõ V. Era Princeza muy -affavel, e por isso estimada de seus vassallos: muy devota, muy pia, e -exercitada na cultura das principaes linguas da Europa. Quando ElRey -seu esposo passou ao Alentejo no anno de 1716, ficou esta Senhora com o -governo do Reino, em o qual mostrou a sua rara capacidade, prudencia, -e justiça, virtudes, que praticou com a mesma incumbencia na molestia -delRey. Soube medir as suas acções, e distribuir o tempo com ordem -inalteravel. Concorreo para se extinguirem os theatros profanos das -Comedias, e para exemplo de occupaçaõ mais segura visitava os Templos -com frequencia. Em final da sua verdadeira piedade, e Religiaõ fundou -o Convento dos Carmelitas Descalços Alemães em Lisboa, dedicado a -S. Joaõ Nepomuceno, cuja nova Igreja se benzeo a 6 de Mayo de 1741. -A todos estes habitos de taõ grandes virtudes, que esta augusta -Heroina praticou com edificaçaõ, se ajuntaõ os repetidos actos de -caridade, com que remediava generosa, e liberalmente os pobres. Parece -que o exercicio destes pios, e santos impulsos era hereditario da -augustissima Casa de Austria, a qual em toda a Igreja Catholica se -singulariza em religiosa piedade, e em benigna clemencia, sem embargo -que para a execuçaõ de tantas virtuosas perfeições nunca a Magestade -desta perfeitissima Princeza necessitou de estimulo, nem de exemplo. Em -fim foraõ as suas virtudes, e attributos tantos, e taes, que excedendo -a todos os elogios, mal poderaõ caber nas breves clausulas desta nossa -humilde expressaõ. Faleceo no palacio de Belém aos 14 de Agosto de -1754, e foy seu corpo sepultado na Igreja dos Carmelitas Descalços -Alemães que ella mandara edificar. - -28 _Dona Maria Anna Victoria_, filha delRey Catholico Filippe V., e da -Rainha Dona Isabel Farnese, casou em 19 de Janeiro de 1729 com ElRey -Fidelissimo D. Joseph I. He Princeza dotada de huma natural vivacidade, -a qual se nos bosques faz admirar as Ninfas, e as Deosas com os seus -tiros, he igualmente fervorosa nos seus retiros, e cheia de grande -devoçaõ, e piedade. O primoroso Templo de S. Francisco de Paula he -hum grande testemunho da sua grandeza; nem a sua inviolavel soberania -necessita de ser elogiada, para ser immortal. - - +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+ - | N.| Nome. | Naçaõ. |Ann. em | Marido. | - | | | |q̃ casou.| | - +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+ - | 1 | D. Teresa. | Castelhana. | 1093 | D. Henrique. | - | | | | | | - | 2 | D. Mafalda. | Saboyana. | 1146 | D. Affonso I. | - | | | | | | - | 3 | D. Dulce. | Aragoneza. | 1175 | D. Sancho I. | - | | | | | | - | 4 | D. Urraca. | Castelhana. | 1201 | D. Affonso II. | - | | | | | | - | 5 | D. Brites. | Castelhana. | 1253 | D. Affonso III. | - | | | | | | - | 6 | Santa Isabel. | Aragoneza. | 1282 | D. Diniz. | - | | | | | | - | 7 | D. Brites. | Castelhana. | 1309 | D. Affonso IV. | - | | | | | | - | 8 | D. Constança. | Castelhana. | 1340 | D. Pedro I. | - | | | | | | - | 9 | D. Ignez. | Castelhana. | 1354 | D. Pedro I. | - | | | | | | - |10 | D. Leonor. | Portugueza. | 1371 | D. Fernando. | - | | | | | | - |11 | D. Filippa. | Ingleza. | 1387 | D. Joaõ I. | - | | | | | | - |12 | D. Leonor. | Aragoneza. | 1428 | D. Duarte. | - | | | | | | - |13 | D. Isabel. | Portugueza. | 1448 | D. Affonso V. | - | | | | | | - |14 | D. Leonor. | Portugueza. | 1470 | D. Joaõ II. | - | | | | | | - |15 | D. Isabel. | Castelhana. | 1497 | D. Manoel. | - | | | | | | - |16 | D. Maria. | Castelhana. | 1500 | D. Manoel. | - | | | | | | - |17 | D. Leonor. | Flamenga. | 1518 | D. Manoel. | - | | | | | | - |18 | D. Catharina. | Castelhana. | 1525 | D. Joaõ III. | - | | | | | | - |19 | D. Anna. | Castelhana. | 1570 | D. Filippe II. | - | | | | | | - |20 | D. Margarida. | Alemã. | 1599 | D. Filippe III. | - | | | | | | - |21 | D. Isabel. | Franceza. | 1615 | D. Filippe IV. | - | | | | | | - |22 | D. Luiza. | Castelhana. | 1633 | D. Joaõ IV. | - | | | | | | - |23 | D. Maria Francisca. | Franceza. | 1668 | D. Pedro II. | - | | | | | | - |24 | D. Maria Sofia. | Alemã. | 1687 | D. Pedro II. | - | | | | | | - |25 | D. Maria Anna. | Alemã. | 1708 | D. Joaõ V. | - | | | | | | - |26 | D. Maria Anna. | Castelhana. | 1729 | D. Joseph I. | - +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+ - - +--------+-----------+---------------+---------------------------+ - | Filhos.| Anno em |Lugar da morte.| Lugar da sepultura. | - | |que morreo.| | | - +--------+-----------+---------------+---------------------------+ - | 4 | 1130 | ... | Sé de Braga. | - | | | | | - | 7 | 1157 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. | - | | | | | - | 11 | 1198 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. | - | | | | | - | 4 | 1220 | Coimbra. | Alcobaça. | - | | | | | - | 7 | 1303 | ... | Alcobaça. | - | | | | | - | 2 | 1336 | Estremoz. | Santa Clara de Coimbra. | - | | | | | - | 7 | 1359 | Lisboa. | Sé de Lisboa. | - | | | | | - | 3 | 1345 | Santarem. | S. Francisco de Santarem. | - | | | | | - | 4 | 1355 | Coimbra. | Alcobaça. | - | | | | | - | 3 | 1386 | Tordesilhas. | Valhadolid. | - | | | | | - | 8 | 1415 | Odivelas. | Batalha. | - | | | | | - | 9 | 1445 | Toledo. | Batalha. | - | | | | | - | 3 | 1455 | Evora. | Batalha. | - | | | | | - | 1 | 1525 | Lisboa. | Madre de Deos. | - | | | | | - | 1 | 1598 | Saragoça. | Santa Isabel de Toledo. | - | | | | | - | 10 | 1517 | Lisboa. | Belém. | - | | | | | - | 2 | 1558 | Badajoz. | Escurial. | - | | | | | - | 9 | 1578 | Lisboa. | Belém. | - | | | | | - | 3 | 1580 | Badajoz. | Escurial. | - | | | | | - | 7 | 1611 | Escurial. | Escurial. | - | | | | | - | 7 | 1664 | Madrid. | Escurial. | - | | | | | - | 7 | 1666 | Lisboa. | Grilo. | - | | | | | - | 1 | 1683 | Palhavã. | Francezinhas. | - | | | | | - | 7 | 1699 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra. | - | | | | | - | 6 | 1754 | Lisboa. | S. Joaõ Nepomuceno. | - | | | | | - | 4 | | | | - +--------+-----------+---------------+---------------------------+ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[738] Mariz Dialog. 2. pag. mihi 42. - -[739] Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 11. pag. 34. - -[740] Sousa Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 1. cap. 11. - -[741] Marchanc. liv. 2. Descripç. de Fland. Veja-se a Monarq. Lusit. -liv. 11. cap. 37. - -[742] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 29. - -[743] Conde D. Pedro no seu Nobiliario tit. 4. Estaç. nas Antiguid. de -Port. cap. 21. n. 5. - -[744] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 87. - -[745] Vide Joaõ Bap. Lavanh. nas Notas do Conde D Pedro tit. 7. Brand. -Monarq. Lusit. liv. 10. c. 19. Goes part. 4. cap 71. Estaço nas -Antiguid. de Port. cap. 25. num. 21. Corogr. Portug. tom. 1. p. 135. -Barbos. Catalog. das Rainh. p. 110. Sous. Histor. Genea. tom. 1. pag. 6. - -[746] Barbud. Emprez. Militar. pag. 7. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 318. -Duarte Ribeiro p. 301. part. 1. Barbos. Catalog. das Rainh. - -[747] Idem ibid. p. 143. Esperança na Histor. Serafica tom. 1. liv. 2. -cap. 28. num. 2. - -[748] Idem tom. 2. liv. 1 cap. 15. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 16. e -liv. 16. cap. 32. e liv. 18. cap. 9. - -[749] Lacerda na Vida desta Santa. Mendoça in Viridar. liv. 6. Barbos. -Catalog. das Rainhas. - -[750] Duarte Nun. Chronic. delRey D. Affonso IV. p. 172. Sous. Histor. -Genealog. tom. 1. p. 307. - -[751] Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 6. - -[752] Duart. Nun. Chronic. delRey D. Pedro, Mariz Dialog. 3. cap. 3. -Caram. Philipp. Prud. p. 138. Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa -tambem allegado na Histor. Geneal. tom. 1. - -[753] Monarq. Lusit. tom. 8. p. 147. Vejaõ-se tambem as razões, que -allegou o Doutor Joaõ das Regras, e se achaõ na 8. part. da Monarq. -Lusitan. pag. 651. - -[754] Sous. Histor. de S. Doming. part. 1. liv. 6. cap. 25. Barbos. no -Catal. das Rainh. - -[755] Damiaõ de Goes, Chron. do Princip. D. Joaõ cap. 17. Agiolog. -Lusit. tom. 3. - -[756] Barbos. no Catalog. das Rainh. Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 64. -Chronic. dos Padres Loyos liv. 2. cap. 26. - -[757] Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 67. Histor. Seraf. part. 3. liv. -3. cap. 16. n. 528. - -[758] Sousa Histor. Geneal. tom. 3. pag. 139. Goes Chron. delRey D. -Manoel part. 4. cap. 26. p. 282. Santuar. Marian. tom. 2. p. 329. e -tom. 7. p. 219. Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 77. - -[759] Damiaõ de Goes na Chronic. delRey D. Man. part. 1. cap. 46. -Barbos. no Catalog. p. 383. - -[760] Idem ibid. - -[761] Barbos. nos Factos da Lusit. a 25. de Fevereiro p. 664. - -[762] Barbos. no Catalog. das Rainh. p 404. e o Doutor Ignacio Barbosa -seu irmaõ nos Fast. da Lusit. a 12 de Fevereir. p. 511. Sous. Histor. -Genealog. tom. 3. p. 525. - -[763] Barbos. allegad. Les Delices de l’Espagne tom. 2. p. 285 - -[764] Ibid. - -[765] Ibid. - -[766] Os irmãos Barbos. hum no Catal. das Rainh. e outro nos Fast. da -Lusit. tom. 1. p. 691. Sousa Histor. Geneal. tom. 7. p. 247. Catastrof. -de Port. p. 133. Passarel. de Bell. Lusit. L’Abbé de Vertot Histoir. -des Revolut. de Portug. pag. mihi 52. e 152. Santuar. Marian. tom. 7. -pag. 10. e 132. - -[767] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 725. e segg. Barbos. no Catalog. -das Rainh. - -[768] Iidem ibid. - - - - - CAPITULO VIII. - - _Dos Filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de Portugal._ - - -Neste Reino assim como a succesaõ dos Serenissimos Reys se introduzio -por via de morgado, conforme o uso de Castella, tambem o portentoso -Heroe D. Affonso Henriques depois de acclamado Rey deu o mesmo Regio -titulo a seus filhos,[769] e se costumou até ElRey D. Affonso II. que -a todos chamou Infantes, o qual titulo nos primogenitos igualmente com -seus irmãos durou até o tempo delRey D. Duarte, que à imitaçaõ dos -Reys de Inglaterra ordenou, que seu filho D. Affonso V. fosse chamado -Principe, e foy o primeiro, que em Portugal começou a intitularse -assim.[770] O mesmo tratamento de Princeza tinha tambem a filha delRey, -que nascia primeiro, em quanto naõ havia filho varaõ. Os outros filhos -se chamavaõ Infantes; porém os filhos destes tinhaõ só o tratamento de -Senhores. Isto supposto, daremos huma breve noticia de todos os filhos, -que os Senhores Reys de Portugal tiveraõ. - - * * * * * - - -_Filhos do Conde D. Henrique._ - -1 _ElRey_ D. _Affonso Henriques_, de quem já dissemos no Capitulo VI. -num. 12. - -2 _A Infanta Dona Sancha Henriques_ casou com Fernaõ Mendes de -Bragança, chamado o _Bravo_, Fidalgo aventureiro, que se achou na -batalha do Campo de Ourique. Era Senhor de Bragança, e naõ teve -filhos.[771] - -3 _A Infanta Dona Urraca_ nasceo em Guimarães antes que seu irmaõ -D. Affonso Henriques. Casou com D. Bermudo Paes de Trava, Conde de -Trastamara, de que nasceraõ duas filhas, de huma das quaes procedem os -Viscondes de Villa-Nova de Cerveira, e outras Familias illustres.[772] - -4 _A Infanta Dona Teresa_ casou com D. Sancho Nunes de Barbosa, -descendente do Conde D. Nuno de Cella-Nova, como diz Brandaõ liv. 10. -cap. 20. - -Teve mais outros dous filhos, de que naõ se sabe o nome, e morreraõ de -pouca idade. - -5 Fóra do matrimonio teve de huma mulher nobre a _D. Pedro Affonso_, -valerosissimo Capitaõ, como o deu a conhecer em varias batalhas, em -que se achou com seu irmaõ D. Affonso Henriques. Em França, onde ElRey -o mandou como Embaixador, teve grande estimaçaõ; e com a amizade, que -lá teve com S. Bernardo, voltando a Portugal, e dando noticia a seu -irmaõ do Santo, foy causa principal, para que ElRey fundasse o insigne -Convento de Alcobaça, no qual D. Pedro se recolheo, assistindo-lhe -ElRey com toda a Corte no dia, que tomou o habito. Morreo mais -honradamente ainda do que tinha vivido, porque deixou de ser Principe -para ser Santo. Nunca se quiz ordenar de Missa, julgando-se indigno de -exercicio taõ soberano. Faleceo a 9 de Mayo de 1169. Jaz em Alcobaça ao -pé do Altar mór da parte do Evangelho.[773] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Affonso Henriques._ - -1 O _Infante D. Henrique_, filho primogenito, nasceo a 5 de Março de -1147, e faleceo de poucos annos. - -2 _ElRey D. Sancho_, que lhe succedeo na Coroa. - -3 O _Infante D. Joaõ_. Deste naõ consta mais que morrera a 25 de -Agosto.[774] - -4 _A Infanta Dona Urraca_ nasceo no anno de 1148. Casou no de 1160 com -D. Fernando II. Rey de Leaõ; mas por causa de parentesco o Papa fez -dissolver este matrimonio no anno de 1171. Manoel de Faria diz, que -àcerca deste divorcio se fizera hum Concilio em Salamanca. Morreo a 16 -de Outubro.[775] - -5 _A Infanta Dona Mafalda_. No anno de 1160 esteve contratada para -casar com D. Affonso II. de Aragaõ; mas nunca sahio de Portugal, nem -o casamento se ajustou, por falecer esta Infanta pouco depois do tal -contrato.[776] - -6 _A Infanta Dona Teresa_, a quem os Flamengos chamaõ _Mathilde_, casou -com Filippe I. de Alsacia, Conde de Flandres, em Agosto de 1184, o qual -morrendo no sitio de Acre no anno de 1191, ficou a Infanta governando -aquelles seus Estados com muita prudencia. Depois passou a segundo -matrimonio, e o celebrou com Eudo III. Duque de Borgonha no anno de -1194; mas foraõ separados por causa de parentesco no anno seguinte, e a -Infanta passados alguns annos morreo desastradamente affogada em huma -lagoa a 6 de Mayo de 1218. Jaz no Convento de Claraval em Borgonha.[777] - -7 _A Infanta Dona Sancha._ Naõ consta mais que morreo a 14 de -Fevereiro. - -8 Fóra do legitimo matrimonio teve a _Fernando Affonso_, Alferes Mór do -Reino, e a _D. Affonso_, Mestre da insigne Ordem de Rhodes. Foy muito -valeroso; e renunciando a dignidade, passou a Portugal, onde morreo, e -jaz sepultado na igreja de S. Joaõ da Villa de Santarem.[778] - -9 _Dona Teresa Affonso._ Naõ consente o Doutor Brandaõ[779] que ElRey -D. Affonso Henriques tivesse esta filha, porque naõ vira memoria della -em escrituras authenticas; porém D. Antonio Caetano de Sousa diz, que a -houvera ElRey em Elvira Gualter.[780] - -10 Teve mais a _Dona Urraca Affonso_, que casou com D. Pedro Affonso -Viegas, neto de D. Egas Moniz. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Sancho I._ - -1 A _Infanta Dona Constança_ nasceo em Mayo de 1182, e morreo a 3 de -Agosto de 1202. - -2 _A Infanta Beata Teresa_. Estando casada com ElRey D. Affonso IX. de -Leaõ, e já com tres filhos, foy separada pelo Papa Celestino III. no -anno de 1195 por causa do parentesco, e casar sem preceder dispensa. -Voltou para Portugal, e restaurando o Mosteiro de Lorvaõ, collocando -nelle Freiras da Ordem de Cister, professou o mesmo Instituto, e nelle -morreo santamente a 17 de Junho de 1250. Passados trezentos annos, foy -achado seu corpo incorrupto, por cujo motivo, e pelos milagres, que -obrava, o Papa Clemente XI. lhe confirmou o culto de Beata por Bulla -de 23 de Dezembro de 1705, e no anno de 1724 approvou, e concedeo o -Officio proprio para todo o Reino de Portugal. Jaz seu veneravel corpo -na Capella mór da Igreja de Lorvaõ.[781] - -3 _A Infanta Beata Sancha_ foy Senhora de Alenquer, onde fundou hum -Convento da Ordem de S. Francisco em vida do mesmo Santo, e foy o -primeiro desta Ordem, que houve em Portugal. Tambem fundou a Igreja da -Redonda na mesma Villa, e o Mosteiro de Celas em Coimbra, onde fez vida -Monacal, e morreo a 13 de Março de 1229, e neste Mosteiro he venerada -pelos Fieis, e resplandece em milagres, tributando-lhe os Fieis os -mesmos cultos, que a sua gloriosa irmã a Beata Teresa.[782] - -4 _O Infante D. Affonso_, que lhe succedeo no Throno. - -5 _O Infante D. Pedro_ nasceo a 23 de Março de 1187. Por desavenças, -que teve com seu irmaõ ElRey D. Affonso, sahio do Reino, e foy militar -nos exercitos delRey de Leaõ. Depois se passou para a Corte delRey -de Marrocos, e servio nas tropas do Imperador Miramolim, e de lá fez -transito para Aragaõ, onde casou no anno 1228 com Aurembiaux, Condessa -de Urgel, a qual morrendo sem lhe ficarem filhos, deixou a D. Pedro seu -marido por herdeiro de seus Estados, que depois elle trocou com ElRey -D. Jayme I. pela Ilha de Malhorca, que havia conquistado aos Mouros; e -naõ tendo D. Pedro armas para a defender delles, lha restituio, e houve -delle a Cidade de Segorbe, Morelha, e outras Praças. Ajudou tambem este -Infante a Guilherme de Mongrio, Prelado de Tarragona, a ganhar a Ilha -de Iviça, que possuiaõ os Mouros no anno 1230. Finalmente faleceo a -2 de Junho do anno 1258, deixando dous filhos bastardos, D. Rodrigo -insigne em letras, e D. Fernando.[783] - -6 _O Infante D. Fernando_ nasceo a 24 de Março de 1188. Foy Principe de -altos pensamentos. No anno de 1211 casou com a Princeza Joanna, filha -do Imperador Balduino de Constantinopla, e herdeira dos Estados de -Flandres. Deu grandes mostras do seu valor na batalha de Bovinas, em -que se achou militando por parte do Imperador Othon IV, e Joaõ I. Rey -de Inglaterra contra Filippe Augusto, Rey de França; e sendo o Infante -prezo, o levaraõ para o Castello de Louvre, onde esteve alguns annos. -Depois de livre ajudou a Rainha Dona Branca de França contra Pedro, -Duque de Bertanha, e outros Potentados, que embaraçavaõ àquella Senhora -a tutoria delRey S. Luiz seu filho. Morreo em fim na Cidade de Noyon -a 26 de Julho de 1233, e está sepultado na Abbadia de Market junto a -Lila.[784] - -7 _O Infante D. Henrique_ nasceo no anno de 1189, e morreo a 8 de -Dezembro, e naõ ha delle mais memoria.[785] - -8 _O Infante D. Raymundo_ faleceo a 9 de Março. - -9 _A Infanta Dona Mafalda_ casou com Henrique I. de Castella no anno de -1215; porém sendo este casamento julgado nullo, por serem parentes em -gráo prohibido, foraõ separados; e voltando a Infanta para Portugal, -se recolheo ao Mosteiro de Arouca de Freiras Benedictinas, que ella -reformou com as da Ordem de Cister; e aqui tomando o habito viveo -em continuo exercicio de virtudes, e morreo com opiniaõ de Santa no -primeiro de Mayo de 1256. Jaz no Mosteiro de Arouca.[786] - -10 _A Infanta Dona Branca_ foy Senhora da Cidade de Guadalaxara em -Castella; mas naõ se sabe porque titulo lhe veyo aquelle dominio. Foy -muito devota da Religiaõ dos Pregadores, e por isso lhe fundou em -Coimbra o Convento de S. Domingos o velho no Arnado, de que por causa -das enchentes do Mondego naõ ha vestigios, só sim do campanario, como -ainda havia no tempo do Author da Benedictina Lusitana. Morreo aos 17 -de Novembro de 1240. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.[787] - -11 _A Infanta Dona Berenguella_, ou _Berengaria_ casou no anno de 1213 -com ElRey Valdemaro II. de Dinamarca, a quem chamaraõ o _Vitorioso_, e -de quem teve tres filhos, e huma filha. Morreo no primeiro de Abril de -1220.[788] - -12 Fóra do matrimonio teve os seguintes filhos. _D. Martim Sanches_, -que nasceo de huma Fidalga chamada Dona Maria Annes, ou Ayres de -Tornellos. Por differenças, que teve com seu irmão ElRey D. Affonso II -se passou a Castella, e ElRey D. Affonso de Leaõ seu cunhado lhe fez -grandes mercês, e honras. Lá casou com Dona Ello, ou Olaya, filha do -Conde D. Pedro Fernandes de Castro, e naõ teve descendencia. Jaz em -Cosinos terra de Campos.[789] - -13 _Dona Urraca Sanches_ irmã do antecedente foy Senhora muito -virtuosa. Casou com o neto de D. Egas Moniz, e a Infanta Dona Mafalda a -nomeou sua testamenteira. - -14 Teve mais ElRey D. Sancho de outra Fidalga chamada Dona Maria -Paes da Ribeira a _D. Rodrigo Sanches_, do qual consta que morrera -valerosamente em 7 de Julho de 1245 em huma contenda, que tivera -com D. Martim Gil de Soverosa sobre reciprocas dependencias; e vindo -mortalmente ferido, espirou à porta do Convento de Grijó de Conegos -Regrantes, onde pozeraõ huma Cruz de pedra para memoria.[790] - -15 _D. Gil Sanches_. Dizem huns sómente que naõ casara; outros -accrescentaõ que fora Clerigo, e que morrera a 14 de Setembro de -1236.[791] - -16 _D. Nuno Sanches_ morreo de tenra idade. - -17 _Dona Mayor Sanches_ tambem morreo menina. - -18 _Dona Constança Sanches_. Ha tradiçaõ que vivera no Mosteiro -das Donas de Santa Cruz, que estava junto ao proprio Convento dos -Religiosos, e que possuira grandes rendas, as quaes soube distribuir -com piedade, e grandeza. Dizem que lhe appareceraõ os gloriosos S. -Francisco, e Santo Antonio, e que morrera com opiniaõ de Santa a 8 de -Agosto de 1269. Seu corpo foy achado inteiro, e incorrupto em tempo -delRey D. Manoel. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.[792] - -19 _Dona Teresa Sanches_ foy a segunda mulher de D. Affonso Telles de -Menezes, Rico-Homem, e Senhor de Albuquerque, e outras muitas terras. -Deste fecundo consorcio procedem muitas Casas illustres de Portugal, -como a dos Menezes, Cantanhede, Tarouca, e outras.[793] - - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Affonso II._ - -1 O _Infante D. Sancho_ successor. - -2 _O Infante D. Affonso_ nasceo a 5 de Mayo de 1210, e succedeo a seu -irmaõ, entrando a governar ainda em vida delle. - -3 _A Infanta Dona Leonor_ nasceo no anno de 1211, e casou no de -1229 com Valdemaro III. Rey de Dinamarca, e naõ de Dacia, como diz -eruditamente D. Antonio Caetano de Sousa, emendando a Brandaõ, e outros -Escritores. Morreo de parto a 13 de Mayo de 1231, e naõ deixou sucessaõ -alguma, como bem mostra D. Joseph Barbosa contra o Bispo Caramuel. Está -sepultada esta Infanta em Ringstad.[794] - -4 _O Infante D. Fernando_, a quem chamaraõ o Infante de Serpa, porque -foy Senhor desta Villa. Passou a Castella, e lá militou contra os -Mouros valerosamente, por cujas acções ElRey D. Fernando o _Santo_ o -casou no anno de 1241 com a Senhora de Balvas Dona Sancha Fernandes de -Lara, filha do Conde de Lara. Naõ consta de certo quando morreo, nem -onde está enterrado.[795] - -5 Fóra do matrimonio teve o sobredito Rey a _D. Joaõ Affonso_, do -qual naõ ha mais memoria, que a que se infere da inscripçaõ de huma -sepultura collocada no Mosteiro de Alcobaça à porta do Capitulo da -parte de fóra da banda esquerda, por onde consta que morrera no anno de -1234.[796] - - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Affonso III._ - -1 A _Infanta Dona Branca_ nasceo a 28 de Fevereiro de 1259 na Villa de -Guimarães. Foy Senhora de Montemór o Velho, de Campo-Mayor, e de outras -terras, e foy Abbadessa do Mosteiro de Lorvaõ, onde procedia com tanto -exemplo, que lhe deraõ em Burgos o governo do Mosteiro das Huelgas, de -cujo dominio, e obediencia pendiaõ doze Mosteiros. Naõ se sabe quando -morreo.[797] - -2 _O Infante D. Fernando_ naõ se sabe quando nasceo. Morreo ainda -menino em Lisboa no anno de 1262, e jaz em Alcobaça. - -3 _O Infante D. Diniz_ que succedeo na Coroa. - -4 _O Infante D. Affonso_ nasceo a 8 de Fevereiro de 1263. Foy Senhor -de Portalegre, Castello de Vide, Marvaõ, Arronches, e outras terras. -Por desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Diniz, passou-se a -Castella, e lá seguio a Corte, casando com a infanta Dona Violante -Manoel, filha do infante D. Manoel, Senhor de Escalona, e filho do -Santo D. Fernando III. Rey de Castella. Morreo em Lisboa a 2 de -Novembro de 1312. Jaz em S. Domingos de Lisboa collocado em hum tumulo -na parede por cima da porta, que hia do cruzeiro para a Sacristia.[798] - -5 _A Infanta Dona Sancha_ nasceo a 2 de Fevereiro de 1264. Perfilhou-a -sua tia Dona Constança Sanches, e lhe largou muitas terras, que -possuia. Tendo naõ mais que cinco annos, foy com a Rainha sua mãy -a Castella, e estando em Sevilha morreo no anno de 1302. Jaz em -Alcobaça.[799] - -6 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Novembro de 1265. Viveo -Religiosa no Mosteiro das Donas de Santa Cruz de Coimbra, e aqui morreo -com opiniaõ de santidade a 6 de Junho de 1304. Jaz em Santa Cruz de -Coimbra.[800] - -7 _O Infante D. Vicente_ nasceo a 22 de Janeiro de 1268. Morreu em -Lisboa, e jaz em Alcobaça.[801] - -8 Além destes filhos teve fóra do matrimonio seguintes: _D. Affonso -Diniz_, que nasceo de Maria Peres da Enxara, e casou com Dona Maria -Ribeira, donde procedem os Sousas da Casa de Arronches.[802] - -9 _D. Martim Affonso Chichorro_. O Chronista Fr. Antonio Brandaõ, diz -que a mãy deste Senhor fora huma filha do Alcaide, ou Governador de -Faro, muito formosa, de quem nosso Rey D. Affonso se namorara; e que -casando D. Martim na Casa dos Sousas, foy progenitor dos Sousas da -Familia dos Marquezes das Minas; porém naõ assegura esta origem com -certeza.[803] - -10 _D. Fernando Affonso_. Foy Cavalleiro Templario, e filho de Dona -Chamoa Gomes, filha do Conde D. Gomes Nunes. Os Freires de Veles o -mataraõ em Evora, e jaz sepultado na Igreja de S. Braz de Lisboa.[804] - -11 _D. Gil Affonso_. Foy tambem Cavalleiro Templario, e Ballio da -Igreja de S. Braz de Lisboa, onde está sepultado. - -12 _D. Rodrigo Affonso_. Parece que Fr. Antonio Brandaõ dá a entender, -que ElRey D. Affonso tivera dous filhos com este mesmo nome. Vejaõ-se -os lugares citados.[805] - -13 _Dona Leonor Affonso._ Foy esta Senhora casada duas vezes: a -primeira com D. Estevaõ Annes, filho de D. Joaõ Garcia de Sousa, -chamado o _Pinto_. Por morte de D. Estevaõ tornou a casar com D. -Gonçalo Garcia de Sousa, Alferes Mór delRey D. Affonso, a quem tambem -fez Conde. De nenhum destes matrimonios teve filhos Dona Leonor.[806] - -14 _Dona Urraca Affonso_ casou com D. Pedro Annes, que governava a -Provincia de Tras os Montes.[807] - -15 _Dona Leonor Affonso_. Foy Religiosa no Mosteiro de Santa Clara de -Santarem, e alli resplandeceo em grandes actos de virtude.[808] - -16 _Dona Urraca Affonso_. Viveo, e morreo no Mosteiro de Lorvaõ em -4 de Novembro de 1281. Jaz no mesmo Convento em sepultura ha pouco -descuberta.[809] O grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa -numera mais outro filho a ElRey D. Affonso III. e diz que foy o -_Infante D. Henrique Affonso_, mas poem-no em duvida. O Padre D. Luiz -de Lima[810] entre os filhos bastardos deste Rey assina tambem a _D. -Pedro Affonso_, de que naõ achamos noticia em outra parte. - - * * * * * - - -_Filhos del Rey D. Diniz._ - -1 A _Infanta Dona Constança_ nasceo a 5 de Janeiro de 1290, e no de -1302 casou com D. Fernando IV. Rey de Castella, de que teve dous -filhos, cuja descendencia se póde ver em D. Antonio Caetano de Sousa. -Morreo a 18 de Novembro de 1313.[811] - -2 _O Infante D. Affonso_ successor. - -3 Teve mais fóra do matrimonio de differentes mulheres os seguintes -filhos. _D. Affonso Sanches_ nascido de Dona Aldonça Rodrigues Telha. -Foy muito querido de seu pay, o qual o fez seu Mordomo Mór, e Senhor -da Villa do Conde, e outras muitas terras. Esta nimia affeiçaõ causou -tal inveja a seu irmaõ D. Affonso, que o perseguio fortemente depois -que principiou a governar. Casou com Dona Teresa Martins, filha do -Conde de Barcellos, e fundou com sua mulher o Mosteiro de Santa Clara -da Villa do Conde, dotando-o grandiosamente. Faleceo no anno de 1329,e -jaz sepultado no mesmo Mosteiro com opiniaõ de virtuoso. Ha tradiçaõ, -que depois de morto apparecera com sua mulher às Religiosas do seu -Mosteiro, animando-as em huma occasiaõ de guerra em Castella.[812] -Deste matrimonio descendem por allianças muitas Familias illustres -deste Reino. - -4 _D. Pedro Affonso_ havido em Dona Garcia Froyas, mulher de qualidade, -natural de Torres Vedras. Foy o sobredito D. Pedro Conde de Barcellos, -Alferes Mór do Reino, Mordomo Mór da Infanta Dona Brites, e possuio -muitas terras, com cujo dominio, e rendas conservava huma casa -magnifica. ElRey D. Diniz seu pay o estimava muito, e elle o merecia -pelo seu valor, e letras. Compoz o celebre Nobiliario, em que descreve -a origem de quasi todas as Familias de Hespanha, e he estimavel, por -naõ haver outro deste genero mais antigo. Casou tres vezes, mas naõ -teve descendencia. Morreo no anno de 1354, e jaz enterrado no Convento -de S. Joaõ de Tarouca da Ordem de Cister. A estatura do seu corpo tinha -de comprido onze palmos.[813] - -5 _D. Pedro Affonso._ Este foy outro filho delRey D. Diniz, e casou -com Dona Maria Mendes. Muitos se enganaraõ com este D. Pedro, fazendo-o -Author do famoso Nobiliario, o que desfaz facilmente o insigne D. -Antonio Caetano de Sousa.[814] - -6 _D. Joaõ Affonso_. Foy legitimado a 13 de Abril de 1317, e nascido -de Maria Pires, mulher de qualidade. Foy Mordomo Mór da Rainha Santa -Isabel, e ElRey D. Affonso, irmaõ deste D. Joaõ, o mandou degollar a 4 -de Junho de 1325.[815] - -7 _D. Fernaõ Sanches_. ElRey seu pay lhe fez muitas mercês. Casou com -Dona Froilhe Annes de Briteiros. - -8 _Dona Maria Affonso_ havida em Dona Marinha Gomes, mulher nobre de -Lisboa, e que fundou a Igreja de Santa Marinha. Casou com D. Joaõ de -Lacerda, de quem houve descendencia.[816] - -9 _Dona Maria Affonso_. Foy Freira em Odivellas, e faleceo no anno de -1320 com opiniaõ de virtuosa. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Affonso IV._ - -1 A _Infanta Dona Maria_ nasceo no anno de 1313, e no de 1328 casou com -ElRey de Castella D. Affonso XI. a quem soffreo muitas desattenções -originadas dos illicitos amores, que elle havia contrahido com Dona -Leonor Nunes de Gusmaõ. Morto seu marido, voltou ella para Portugal, -e em Evora faleceo a 18 de Janeiro de 1357, porém seu corpo foy -trasladado para a Capella dos Reys em Sevilha, onde jaz junto delRey -seu marido.[817] - -2 _O Infante D. Affonso_ nasceo no anno de 1315 na Villa de Penella, -e morreo menino na mesma Villa. Jaz sepultado em S. Domingos de -Santarem.[818] - -3 _O Infante D. Diniz_ nasceo em Santarem a 12 de Janeiro de 1317, e -dahi a hum anno morreo, e jaz em Alcobaça. - -4 _O Infante D. Pedro_ successor. - -5 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo a 21 de Dezembro do anno de 1324, e -dahi a dous annos morreo. Jaz no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. - -6 _O Infante D. Joaõ_ nasceo a 23 de Setembro de 1326, e morreo a 21 de -Junho de 1327. Está sepultado em Odivellas. - -7 _A Infanta Dona Leonor_ nasceo no anno de 1328, e no de 1347 casou -com ElRey de Aragaõ D. Pedro IV. Morreo na Villa de Exerica no ultimo -de Outubro de 1348.[819] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Pedro I._ - -1 A _Infanta Dona Maria_ nasceo a 6 de Abril de 1342 na Cidade -de Evora. Casou na mesma Cidade a 3 de Fevereiro de 1354 com D. -Fernando, Infante de Aragaõ; e passando-se para aquelle Reino, logrou -poucos annos a uniaõ de seu marido, pois no de 1363 o mandou matar -aleivosamente ElRey D. Pedro de Aragaõ seu irmaõ. Voltou a Infanta para -Portugal, e vivendo na Villa de Aveiro, alli faleceo, e descançaõ suas -cinzas no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.[820] - -2 _O Infante D. Luiz_ naõ teve mais que oito dias de vida. - -3 _O Infante D. Fernando_ successor. - -4 De sua segunda mulher Dona Ignez de Castro teve os seguintes filhos. -_O Infante D. Affonso_ faleceo de tenra idade. - -5 _O Infante D. Joaõ_ casou a primeira vez com Dona Maria Telles de -Menezes no anno de 1376, irmã de sua cunhada; porém induzido por esta, -que era a Rainha Dona Leonor, matou injustamente sua mulher, por cujo -crime, passando-se a Castella, ElRey D. Henrique II. o fez Conde de -Valença, e lhe deu o senhorio de outras terras, e sua filha bastarda -Dona Constança, com quem casou. Morto seu irmaõ ElRey D. Fernando, -temendo-se ElRey D. Joaõ de Castella, que pertendia o Reino de Portugal -pela Rainha Dona Brites sua mulher, que levantassem os Portuguezes por -seu Rey ao infante D. Joaõ, o mandou prender, e na prisaõ morreo. Jaz -no Convento de Santo Estevaõ de Salamanca.[821] - -6 _O Infante D. Diniz_. Por naõ querer beijar a maõ a sua cunhada a -Rainha Dona Leonor, sahio de Portugal, e passou-se para Castella, onde -ElRey D. Henrique o casou com huma filha bastarda, chamada Dona Joanna. -Jaz no Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, em cuja sepultura se lê -o titulo de Rey de Portugal pela pertençaõ, que tinha ao Reino.[822] - -8 Fóra do matrimonio teve a _D. Joaõ_, Mestre - -7 _A Infanta Dona Brites_ casou no anno de 1377 com D. Sancho, Conde de -Albuquerque, filho bastardo delRey D. Affonso XI. de Castella, donde -procede huma dilatada, e Real descendencia. Está sepultada na Sé de -Burgos.[823] - -8 Fóra do matrimonio teve a D. Joaõ, Mestre de Aviz, havido em huma -nobre Senhora de Galiza, chamada Dona Teresa Lourenço, e depois foy -Rey.[824] - -9 Teve ElRey D. Pedro mais outra filha bastarda, a que naõ se sabe o -nome, mas consta que se criara no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Fernando._ - -1 O _Infante D. Pedro_, que morreo menino. - -2 _O Infante D. Affonso_ tambem morreo de pouca idade. - -3 _A Infanta D. Brites_ nasceo em Coimbra no anno de 1372. Casou -a 14 de Mayo de 1383 na Cidade de Badajoz com ElRey D. Joaõ I. de -Castella, precedendo dispensa Pontificia no gráo do parentesco, que -havia entre os esposos, e celebrando-se esta funçaõ com grande pompa, e -magnificencia. Pouco durou esta uniaõ, porque morrendo ElRey no anno de -1390, ficou a Rainha Dona Brites sem filhos, e desamparada de parentes, -e amigos em Portugal, e Castella. Em Portugal, porque ElRey D. Joaõ I. -seu tio havia tomado posse do Reino, contrariando para mayor força a -sua legitimidade; e em Castella era mal aceita por causa das guerras, -que entaõ houve na pertençaõ de Portugal. Sem embargo desta afflicçaõ, -em que se via, considerando-se na flor dos seus annos, e formosissima, -sendo procurada para segundas vodas pelo Duque de Austria, foy esta -Princeza taõ virtuosa, e prudente, que mandou dizer aos Embaixadores, -que as mulheres como ella naõ casavaõ duas vezes; de cuja resposta -ficaraõ admirados. Morreo em fim na Villa de Madrigal.[825] - -4 Fóra do matrimonio teve a _Dona Isabel_, que nasceo no anno de 1364, -e no de 1378 casou em Burgos com D. Affonso, Conde de Gijon, e Noronha, -filho bastardo delRey D. Henrique II. de Castella. Deste matrimonio -procedem muitas Familias illustres deste nosso Reino, os Condes de -Monsanto, Marquezes de Cascaes, os Condes de Valladares, os de Arcos, -os de Villa Verde, os Marquezes de Angeja, os de Marialva, os Condes de -Cantanhede, os Senhores de Ilhavo, etc. Por morte de seu marido voltou -esta Senhora para Portugal, onde seu tio ElRey D. Joaõ I. lhe fez -muitas mercês.[826] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Joaõ I._ - -1 A _Infanta Dona Branca_ nasceo em Lisboa a 13 de Julho de 1388, e -morreo no de 1389. Jaz na Basilica de Santa Maria, antiga Metropolitana -de Lisboa, junto delRey D. Affonso IV. seu bisavô. - -2. _O Infante D. Affonso_ nasceo em Santarem a 30 de Julho de 1390. -Foy jurado successor do Reino. Viveo dez annos, porque faleceo a 22 de -Dezembro de 1400. Jaz na Cathedral de Braga em hum tumulo de bronze -dourado, que lhe mandou de Borgonha a Infanta Dona Isabel sua irmã.[827] - -3 _O Infante D. Duarte_ successor. - -4 _O Infante D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 9 de Dezembro de 1392. -Foy Duque de Coimbra, e Senhor de Montemór o Velho, e outras terras -do Infantado. Casou com Dona Isabel de Aragaõ, filha do Conde de -Urgel D. Jayme II. no anno de 1429. Foy este Principe illustre na -paz, e na guerra. No anno de 1424 sahio de Portugal, e fazendo huma -larga peregrinaçaõ na companhia de alguns Fidalgos, vio as Cortes -dos principaes Soberanos da Europa, Africa, e Asia. Na do Imperador -Sigismundo se demorou mais tempo, a quem ajudou na guerra contra os -Turcos. Naõ foy só excellente na disciplina militar, porque tambem -cultivou o seu engenho com as letras divinas, e humanas, e foy perito -nas linguas estrangeiras, e versado nas artes liberaes. Ficou por -tutor delRey D. Affonso V. seu sobrinho, e no governo do Reino se -houve com singular prudencia, mas com inveja de muitos emulos, cuja -ambiçaõ nunca pode saciar. Sahindo ElRey da idade pupilar, e tomando -o governo do seu Reino, em lugar das graças, que houvera de dar ao -Infante seu tutor, tio, e sogro, o desterrou; e pelas calumnias de seu -irmaõ D. Affonso, Conde de Barcellos, e de outros seus inimigos, vindo -o Infante a Santarem para se desculpar, ElRey lhe sahio ao encontro -com hum exercito. Poz-se o Infante em natural defensa com alguma gente -da sua facçaõ, deu-se a vergonhosa batalha chamada da Alfarrobeira, -e nella foy morto o Infante atrevidamente do tiro de huma destinada -setta a 20 de Mayo de 1449. Foy sepultado na igreja de Alverca, e daqui -trasladaraõ o corpo para Abrantes, depois para Santo Eloy de Lisboa, -e de Lisboa para a Batalha, onde jaz. Teve seis filhos, que foraõ: -_D. Pedro_, Condestavel de Portugal, e acclamado Rey de Aragaõ. _D. -Joaõ_, chamado de Coimbra. _Dona Isabel_, Rainha de Portugal, mulher -delRey D. Affonso V. _Dona Brites_, que casou em Flandes com Adolfo de -Cleves, Senhor de Revestein. _Dona Filippa_, que morreo recolhida em -Odivellas. _D. Jayme_, Arcebispo de Lisboa, e depois Cardeal do titulo -de Santo Eustaquio.[828] - -5 _O Infante D. Henrique_ nasceo na Cidade do Porto a 4 de Março de -1394. Foy Duque de Viseu, e Mestre da Ordem Militar de Christo, em -gloria da qual peleijou contra os infieis em muitas occasiões, dando -sempre mostras de seu grande valor. Desde a flor dos seus primeiros -annos se applicou tanto às Mathematicas, que a puras contemplações, e -igual constancia de quarenta annos, emprendendo novos descubrimentos -de Ceos, terras, e climas differentes, deu a conhecer ao mundo o que -o mesmo mundo ignorava. Além de tanto valor, e sciencia era dotado -de hum heroico espirito, vida santa, e pura, até que acabou como -virtuoso em Sagres do Reino do Algarve a 13 de Novembro de 1460. Jaz na -Batalha.[829] - -6 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Evora a 21 de Fevereiro de 1397, e -a 10 de Janeiro de 1430 se recebeo com D. Filippe III. o _Bom_, Duque -de Borgonha, e Conde de Flandes, em cujo dia, para que fosse celebrado -com mayor solemnidade, instituio o Duque a Ordem Militar do Tusaõ de -ouro na Cidade de Bruges, onde se festejaraõ as vodas com huma rara, e -extraordinaria magnificencia. Teve esta Princeza tal dom de conselho, -que nenhuma acçaõ executava seu marido sem o seu parecer, ainda nas -resoluções militares; porque além do grande juizo, e prudencia, existia -nella hum valor verdadeiramente varonil, como em algumas occasiões o -mostrou. Morreo a 17 de Dezembro de 1471, e jaz no Convento da Cartuxa -de Dijon, Cidade capital daquelle Estado.[830] - -7 _O Infante D. João_ nasceo em Santarem a 13 de Janeiro de 1400. Casou -no anno de 1424 com a Infanta Dona Isabel sua sobrinha, e filha de D. -Affonso, primeiro Duque de Bragança, seu irmaõ. Era o Infante terceiro -Condestavel de Portugal, Mestre da Ordem de Santiago, e Principe muy -prudente, valeroso, e bemquisto de todos. Morreo na Villa de Alcacer -do Sal a 18 de Outubro de 1442, e jaz no Templo da Batalha na mesma -Capella delRey seu pay. - -8 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Santarem a 29 de Setembro de -1402. Foy Mestre de Aviz com o titulo de Administrador, e Governador -perpetuo da dita Ordem. A sua vida sempre foy de procedimento naõ só -inculpavel, mas exemplar, pelo continuo exercicio de virtudes, com que -se fazia amado de todos. Sendo dado em refens aos Mouros até lhes ser -entregue a Cidade de Ceuta por concerto, que os Portuguezes fizeraõ com -os barbaros na infeliz jornada de Tangere em tempo delRey D. Duarte, -padeceo ignominias, e injurias naquelle cativeiro com huma paciencia -santa, até que morreo depois de seis annos de escravidaõ a 5 de Junho -de 1443. obrando Deos por intercessaõ deste Santo Infante muitos -prodigios. Jaz no Convento da Batalha.[831][832] - -9 Sendo ElRey D. Joaõ ainda Mestre de Aviz teve antes de casar o -_Senhor D. Affonso_, primeiro Duque de Bragança, que nasceo no Castello -de Veiros do Alentejo no anno de 1370, e havido em Dona Ignez Pires, -mulher nobre, a qual depois foy Commendadeira de Santos. Casou a 8 -de Novembro de 1401 com a Senhora Dona Brites Pereira, Condessa de -Barcellos, filha unica do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, de -cujo feliz consorcio descende, como de tronco glorioso, a Serenissima -Casa de Bragança hoje reinante. Morreo na Villa de Chaves em o mez -de Dezembro de 1461. Foy sepultado na Igreja dos Capuchos da mesma -Villa.[833] - -10 _A Senhora Dona Brites_ naõ se sabe quando nasceo; porém casou a 26 -de Novembro de 1405 com Thomaz Fitz, Conde de Arundel em Inglaterra, -onde foy esta Senhora recebida com pomposa magnificencia. Deste -casamento naõ teve successaõ, e pela morte de seu marido passou -a segundas vodas no anno de 1415 com Gilberto Talbot, Baraõ de -Irchenfield, de que tambem ficou viuva no anno de 1419. Ignora-se o -anno, em que morreo. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Duarte._ - -1 O _Infante D. Joaõ_ nasceo em Lisboa em Outubro de 1429, e morreo de -tenra idade. - -2 _A Infanta Dona Filippa_ nasceo em Santarem a 27 de Novembro de 1430, -e morreo a 24 de Março de 1439 ameaçada de peste. - -3 _O Principe D. Affonso_ successor. - -4 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 7 de Dezembro de 1432 na Villa do -Sardoal, e naõ teve mais que hum dia de vida. - -5 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Almeirim a 17 de Novembro de -1433, e no de 1438 foy jurado Principe successor do Reino. Era Duque -de Viseu, Condestavel do Reino, Senhor de Béja, e de outras muitas -terras. Casou nas Alcaçovas com a Infanta Dona Brites, filha de seu -tio o Infante D. João no anno de 1447. Como o Infante era de elevados -espiritos, sahio do Reino occultamente, e foy ter a Ceuta com a idéa -de ser alli Fronteiro; porém ElRey D. Affonso seu irmaõ o fez voltar -ao Reino, e depois se servio do seu valor na jornada, e expugnaçaõ de -Africa. Morreo em Setubal a 18 de Setembro de 1470, e jaz no Mosteiro -da Conceiçaõ de Béja, que a infanta sua mulher fundara. Desta Real -uniaõ nasceraõ o_Senhor D. Joaõ_, o _Senhor D. Diogo_, o _Senhor D. -Duarte_, o _Senhor Rey D. Manoel_, a _Rainha Dona Leonor_, a _Duqueza -Dona Isabel_, communicando-se tambem por via deste casamento o Regio -sangue dos Serenissimos Senhores Duques de Bragança a quasi todos os -soberanos Principes da Europa.[834] - -6 _Infanta Dona Leonor_ nasceo em Torres Vedras a 18 de Setembro do -anno 1434. Casou com o Imperador Federico III. no anno de 1451, e a -16 de Março de 1452 o Papa Nicoláo V. a recebeo em Roma, e a coroou -Imperatriz a 19 do mesmo mez; e passando depois a Alemanha, foy -coroada Rainha de Hungria, e Bohemia. Foy esta Princeza igualmente -muito formosa, e discreta, cujos predicados fazia realçar mais com -huma singular modestia, que era o atractivo de todos a amarem, e -respeitarem. Faleceo em Neustadt a 3 de Setembro de 1467. Jaz no -Mosteiro de Cister da mesma Cidade.[835] - -7 _O Infante D. Duarte_ nasceo em Alenquer a 12 de Julho de 1435, e -morreo de tenra idade. - -8 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo a 25 de Novembro de 1435. Esteve -desposada com D. Carlos, Principe de Navarra, e com ElRey de Inglaterra -Duarte IV. mas nenhum casamento se effetuou. Foy Princeza de muitas -virtudes, e com tanta applicaçaõ ao exercicio das letras, que chegou -a traduzir em Portuguez o livro da perfeiçaõ dos Monges, que em Latim -compoz S. Lourenço Justiniano. Morreo no Mosteiro de Santa Clara de -Lisboa com opiniaõ de virtuosa aos 17 de Junho de 1463. Jaz no Convento -de Santo Eloy desta Cidade.[836] - -9 _A Infanta Dona Joanna_ nasceo no fim de Março de 1439 na quinta do -Monte Olivete da Villa de Almada. Casou com Henrique IV. de Castella -a 21 de Mayo de 1455. Foy muito formosa, e naturalmente alegre, e -esperta, donde se lhe originaraõ as calumnias, de que a arguiraõ. Teve -huma unica filha, que foy a Princeza Dona Joanna, jurada herdeira de -Castella, a quem a fortuna, que lhe usurpou o Reino, contentou com o -nome de _Excellente Senhora_. Morreo a Rainha Dona Joanna em Madrid a -13 de Junho de 1475. Foy sepultada no Mosteiro de S. Francisco da mesma -Villa, cuja sepultura está hoje desfeita.[837] - -10 Ainda que Manoel de Faria tem por certo que ElRey D. Duarte naõ -tivera mais filhos fóra do matrimonio, os Genealogicos mais indagadores -affirmaõ, que tivera a _D. João Manoel_, nascido de Dona Joanna Manoel, -Dama da Rainha Dona Leonor. Criou-se em casa do inconquistavel, e -grande D. Nuno Alvares Pereira, e de quatorze annos tomou o habito da -Religiaõ do Carmo em Lisboa, e aqui foy Prior, e Provincial, donde a -merecimentos das suas virtudes foy elevado à dignidade de Bispo de -Ceuta, depois Bispo da Guarda. ElRey D. Affonso V. seu irmaõ o fez -tambem seu Capellaõ Mór, e se aproveitou muito da sua prudencia, -virtude, e conselhos. Morreo em Lisboa, e jaz no Convento do Carmo da -mesma Cidade na Casa do Capitulo velho, como nos mostra o moderno, e -insigne Chronista desta Religiaõ; e naõ na Sé de Lisboa, como escreve o -Author da Corografia Portugueza.[838] Daqui procedem os illustrissimos -Condes de Atalaya. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Affonso V._ - - -1 O _Principe D. Joaõ_ nasceo em Cintra a 29 de Janeiro do anno de -1451, e morreo de tenra idade. - -2 _A Infanta Beata Joanna_ nasceo em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1452. -Foy de singular virtude, e admiravel formosura, por cujas prendas -muitos Principes a pertenderaõ para esposa; mas repudiando a todos, -viveo em perpetua castidade. Consagrando-se toda a Deos, tomou o habito -de Religiosa de S. Domingos no Mosteiro de Jesus de Aveiro no anno de -1475, onde vivendo dezoito annos em continuo exercicio de todas as -virtudes, em que floreceo, acabou o circulo dos seus dias neste mundo -a 12 de Mayo de 1490. Jaz sepultada no mesmo Mosteiro em hum primoroso -tumulo, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. para onde se -trasladaraõ as veneraveis Reliquias em 22 de Outubro de 1711, por -ordem delRey D. Joaõ V. O mesmo Senhor D. Pedro II. alcançou do Papa -Innocencio XI. o culto de Beata desde 4 de Abril do anno de 1693.[839] - -3 _O Principe D. Joaõ_ successor. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Joaõ II._ - -1 O _Principe D. Affonso_ nasceo em Lisboa a 18 de Mayo do anno -1475. Casou com a Princesa Dona Isabel, filha delRey D. Fernando o -_Catholico_, a 23 de Novembro de 1490. Nas suas vodas se fizeraõ -as mayores festas, e demonstrações de alegria em variedade de -espectaculos, profusaõ monstruosa de manjares, e invenções exquisitas -de bailes, quaes nunca se viraõ, nem ouviraõ; porém como se toda -aquella magnificencia, divertimento, e grandeza fora feita por jogo, e -brinco da fortuna, dentro de poucos dias se mudou em subitos prantos, e -lutos, porque este Principe na florida idade de dezaseis annos, casado -de sete mezes, cahindo de hum cavallo, em que risonho corria pelas -margens do Tejo junto a Santarem, se fez em pedaços; e deitado sobre a -humilde cama de feno na choça de hum pobre pescador, exhalou a alma a -13 de Julho de 1491, nos braços delRey seu Pay, da Rainha sua Mãy, e da -Princeza sua Esposa, desfeitos todos em lagrimas, e sentimento por taõ -lastimosa fatalidade. Jaz na Batalha na Casa do Capitulo.[840] - -2 Teve fóra do matrimonio a _D. Jorge_, que nasceo em Abrantes a 12 de -Agosto de 1481. Foy sua mãy Dona Anna de Mendonça, Dama da Rainha Dona -Joanna, e Senhora muito nobre, e taõ estimada, e querida delRey, que a -seu respeito (diz o Author do Anno Historico) mandou erigir o Mosteiro -de Santos o Novo, e a nomeou Commendadeira perpetua, onde faleceo -virtuosamente no anno de 1545. Naõ foy menor o amor, que ElRey teve a -este filho, o qual se criou em casa da Senhora Dona Joanna sua tia; e -falecendo esta Princeza, o trouxe para o Paço a Rainha sua madrasta, e -o conduzio a Evora, onde ElRey estava, o Bispo do Porto. Foy esperallo -fóra da Cidade o Principe Affonso seu irmaõ com toda a Nobreza, -mandou-o seu pay tratar de Excellencia, mas por lisonja lhe fallavaõ -por Alteza. Quiz ElRey deixallo por successor do Reino, ao que se oppoz -a Rainha, por ser em prejuizo de seu irmaõ D. Manoel, a quem de direito -tocava, e tambem naõ quiz vir nisso o Papa Alexandre VI. havendo por -esta causa grandes discordias entre ElRey, e a Rainha. Mas como ElRey -naõ pode conseguir o que desejava, fez a D. Jorge o mayor Senhor, que -havia em Hespanha, porque quiz que succedesse aos bens de seu bisavô -o infante D. Pedro, e assim ficou sendo Duque de Coimbra, Senhor -de Montemór o Velho, Marquez de Torres Novas, Mestre das Ordens de -Santiago, e Aviz, e Senhor de outras muitas rendas. Morto ElRey, foraõ -muitos Fidalgos a Villa-Nova buscar o Senhor D. Jorge, e o conduziraõ -a Montemór o Novo, onde estava ElRey D. Manoel. Foy logo em direitura -apearse ao Paço vestido de burel, e assim subio a beijar a maõ a ElRey; -e o Prior do Crato D. Diogo de Almeida, que era seu Ayo, pegando-lhe -pela maõ, se pozeraõ ambos de joelhos, e o entregou a ElRey seu tio, -fazendo-lhe huma eloquente oraçaõ, em que lhe dizia como ElRey defunto -lho deixara encommendado. ElRey D. Manoel lhe fez grandes honras, e lhe -deu casa no Paço. Contava já o Senhor D. Jorge vinte annos de idade, -quando ElRey o casou com Dona Brites de Vilhena, filha de D. Alvaro, -irmaõ do Duque de Bragança D. Fernando II. e deste matrimonio descende -a illustre Familia dos Alencastres. Morreo o Senhor D. Jorge no anno -de 1550, e jaz no Convento de Palmella.[841] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Manoel._ - -1 O _Principe D. Miguel da Paz_ foy filho da primeira mulher a Rainha -Dona Isabel. Nasceo na Cidade de Saragoça a 24 de Agosto de 1498. Foy -jurado Principe herdeiro de Castella, e de Portugal. Naõ viveo mais que -dous annos, porque a 20 de Junho de 1500 expirou na mesma Cidade, onde -jaz. - -2 _O Principe D. Joaõ_, filho da segunda mulher a Rainha Dona Maria, -foy successor do Reino. - -3 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Lisboa a 24 de Outubro de 1503. -Foy rara a formosura, com que a dotou a natureza. Casou em Sevilha com -o Imperador Carlos V. a 11 de Março de 1526. As suas virtudes foraõ -mayores que os seus elogios, e estes foraõ innumeraveis. Adoeceo em -Toledo, e aqui expirou no primeiro de Mayo de 1539. Foy conduzido -o cadaver da imperatriz pelo Marquez de Lombay a ser sepultado na -Cathedral da Cidade de Granada; e como fosse preciso para aquella -entrega abrirse o caixaõ, chegando-se o Marquez a tirar a toalha, -que cubria o macilento rosto, vendo-o taõ demudado, e espantoso à -vista, foy causa do prodigioso desengano do Marquez, porque dalli se -converteo em hum S. Francisco de Borja, cujo resplandor de virtudes -illustrou tanto a Companhia de Jesus. No mesmo dia desta portentosa -transformaçaõ, que foy a 7 de Mayo do sobredito anno, vio a grande -serva de Deos Soror Francisca de Jesus, Abbadessa do Mosteiro de -Gandia, estando em oração, sahir do Purgatorio a alma da Imperatriz -assistida de alguns Anjos. A 4 de Fevereiro de 1574 foy trasladado -o corpo para o Escurial, onde jaz. Deste consorcio nasceo ElRey D. -Filippe II.[842] - -4 _A Infanta Dona Brites_ nasceo em Lisboa a 31 de Dezembro de 1504. -Casou com Carlos III. Duque de Saboya a 29 de Setembro de 1521. Foy -esta Princeza ornada de grandes virtudes, pelas quaes era muito amada -de seu esposo, e tida por huma singular Heroina daquelles tempos. -Morreo em Niza, Cidade de Saboya, a 8 de Janeiro de 1538.[843] - -5 _O Infante D. Luiz_ nasceo em Abrantes a 3 de Março de 1506. Foy -este Principe Duque de Béja, Condestavel de Portugal, Administrador do -Priorado do Crato, e ornado de tantas virtudes, que, como diz Damiaõ -de Goes, para a natureza cumprir de todo com os dotes, que lhe deu, -lhe havia de conceder tambem occasiões para poder conquistar mayores -Reinos, e Senhorios do que Alexandre, porque para a execuçaõ disso -lhe sobejou animo. Assim se vio na famosa expediçaõ, e conquista de -Tunes, que o Imperador Carlos V. seu cunhado fez no anno de 1535, onde -se achou o Infante D. Luiz governando o celebre Galeaõ _Botafogo_, e -Armada auxiliar, que ElRey D. Joaõ III. mandou ao Imperador, devendo-se -à animosa deliberaçaõ do Infante cortarse a fortissima cadea, que -atravessava o porto da Goleta, de que tanta gloria se seguio à -Christandade, credito à Naçaõ Portugueza, e fama ao valor do Infante. -Além destas prendas teve hum sublime engenho, que com o exercicio -das artes liberaes, ensinadas pelo grande Mestre Pedro Nunes, soube -adquirir hum lugar eminente na Republica das letras. Na Religiaõ foy -exemplar, e taõ pio, como o testifica o Mosteiro das Maltezas de -Estremoz, que elle edificou, e outras acções de caridade. Finalmente -faleceo na quinta de Marvilla junto a Lisboa a 27 de Novembro de 1555, -e jaz em Belém. De Violante Gomes, chamada a _Pelicana_, donzella -humilde, mas de rara formosura, a qual morreo professa no Mosteiro de -Almoster, teve ao _Senhor D. Antonio_, que foy Prior do Crato.[844] - -6 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Abrantes a 5 de Junho de 1507. Foy -Duque da Guarda, e Principe de condiçaõ sincera, muito animoso, amigo -da verdade, e dizia o que entendia sem o rebuço da politica adulaçaõ. -Foy muito dado à lição da Historia verdadeira, e naõ fabulosa, e por -ajuntar quantas Chronicas havia escritas em qualquer lingua que fosse, -gastou grosso cabedal. Mandou fazer huma arvore genealogica illuminada -pelo mais insigne Pintor, que havia em Flandes, e constava desde Noé -até ElRey D. Manoel seu pay. Casou com Dona Guiomar Coutinho, filha -herdeira do Conde de Marialva D. Francisco Coutinho, e morreo em -Abrantes a 7 de Novembro de 1534. Jaz em Belém.[845] - -7 _O Infante D. Affonso_ nasceo em Evora a 23 de Abril de 1509. O Papa -Leaõ X. o creou Cardeal Diacono de Santa Luzia. Foy Bispo da Guarda, e -de Viseu, Arcebispo de Lisboa, e o primeiro Prelado, que nestes Reinos -ordenou se lesse o Cathecismo da Doutrina christã nas Igrejas aos -meninos, e que nas Paroquias houvesse livros, onde se assentassem, e -escrevessem os nomes dos bautizados, e casados, sendo elle o que muitas -vezes conferia estes, e os mais Sacramentos com grande caridade. Foy -muito dado à lição dos livros, e teve por Mestres aos insignes Ayres -Barbosa, e Pedro Margalho. Morreo em Lisboa a 21 de Abril de 1540, e -jaz em Belém.[846] - -8 _O Infante D. Henrique_, Cardeal, que succedeo no Throno. - -9 _A Infanta Dona Maria_ nasceo conforme a conjectura do incansavel D. -Joseph Barbosa entre o anno de 1511, e 1513. Morreo em Evora no anno de -1513 e jaz em Belém.[847] - -10 _O Infante D. Duarte_ nasceo em Lisboa a 7 de Setembro de 1515. -Desde os primeiros annos foy muito inclinado às letras, nas quaes -fez bons progressos, ajudado da portentosa memoria, que tinha, e das -bem ordenadas instrucções de seu Mestre o celebrado, e erudito André -de Resende. Na musica foy destro, e sciente, e no exercicio da caça -incansavel. Casou em Villa Viçosa a 23 de Abril de 1537 com a Senhora -Dona Isabel, filha de D. Jayme, quarto Duque de Bragança, de cujo -matrimonio nasceraõ a Senhora _Dona Maria_, Princeza de Parma, e a -Senhora _Dona Catharina_. Antes deste Infante falecer, predisse elle -mesmo o dia da sua morte, que foy a 20 de Outubro de 154O. Jaz em -Belém.[848] - -11 _O Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 9 de Setembro de 1516. -Morreo logo, e jaz em Belém. Deste parto ficou a Rainha Dona Maria taõ -mal, que tambem faleceo dahi a pouco tempo; e tornando ElRey D. Manoel -a casar com a Rainha Dona Leonor, teve della - -12 _O Infante D. Carlos_, que nasceo em Evora a 18 de Fevereiro de -1520. Morreo em Lisboa a 15 de Abril de 1521, e jaz em Belém. - -13 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Lisboa a 8 de Junho de 1521. -Era Princeza, que em gentileza, e virtudes excedeo as melhores do -seu tempo. Seu Palacio era huma universidade de mulheres singulares -em letras, e outras artes de engenho, a quem presidia a famosa Dama -Toledana, chamada Luiza Sigea, cuja erudiçaõ fez aturdir a Europa. -Fundou o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, huma legua distante de -Lisboa, e o sumptuso Hospital alli vizinho: o Mosteiro da Incarnaçaõ de -Commendadeiras de Aviz em Lisboa, e em Evora o Mosteiro de Santa Helena -do Monte Calvario, e em Torres Vedras o Convento de Nossa Senhora dos -Anjos para os Religiosos Arrabidos, alcançando da Sé Apostolica para -esta Igreja o Jubileo da Porciuncula _in perpetuum_. Morreo a 10 de -Outubro de 1577. Jaz no Convento da Luz.[849] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Joaõ III._ - -1 O _Principe D. Affonso_ nasceo em Almeirim a 24 de Fevereiro de 1526. -Faleceo passados poucos dias, e jaz em Belém.[850] - -2 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Coimbra a 15 de Outubro de 1527. -Casou com D. Filippe, Principe de Castella, e se celebraraõ as vodas em -Salamanca a 15 de Novembro de 1543. Morreo de parto a 12 de Julho de -1545, estando em Valhadolid. Jaz no Escurial. - -3 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Lisboa a 28 de Abril de 1529. -Morreo de poucos mezes, e jaz em Belém. - -4 _A Infanta Dona Brites_ nasceo em Lisboa a 15 de Fevereiro de 1530, e -morreo de tenra idade. Jaz em Belém. - -5 _O Principe D. Manoel_ nasceo em Alvito no primeiro de Novembro de -1531. Faleceo em Evora a 14 de Abril de 1537, e jaz em Belém. - -6 _O Infante D. Filippe_ nasceo em Evora a 25 de Março de 1533. Foy -jurado Principe herdeiro do Reino. Viveo pouco, porque faleceo a 29 de -Abril de 1539. Jaz em Belém na mesma sepultura de seu irmaõ D. Affonso. - -7 _O Infante D. Diniz_ nasceo em Evora a 26 de Abril de 1535, e na -mesma Cidade morreo no primeiro de Janeiro de 1537. Jaz em Belém. - -8 _O Principe D. Joaõ_ nasceo em Evora a 3 de Junho de 1537. Foy jurado -Principe herdeiro nas Cortes, que se celebraraõ em Almeirim a 30 de -Março de 1544. Casou com a Princeza Dona Joanna de Austria, filha do -Imperador Carlos V. e se recebeo por procuraçaõ na Cidade de Toro a 11 -de Janeiro de 1552, e no fim de Novembro do mesmo anno entrou por Elvas -em Portugal. Gil Gonzales Davila faz honorifica memoria desta Princeza -no cap. 9. das Grandezas de Madrid, mas discreta na Chronologia, -que seguimos. Deste augusto thalamo nasceo _D. Sebastiaõ_ que sendo -Principe de esperanças, depois foy Rey de pouca ventura. Morreo em fim -o Principe D. Joaõ a 2 de Janeiro de 1554, e jaz em Belém em magnifico -mausoleo. Mereceraõ as bellas prendas, e saudosa memoria deste -Principe serem eternizadas na mais illustre, e canora Egloga do Homero -Portuguez, e nas citharas de outros insignes Poetas daquelle tempo.[851] - -9 _O Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 9 de Março de 1539, e -morreo a 20 de Janeiro de 1540. Jaz em Belém. - -10 Fóra do matrimonio teve ElRey a _D. Duarte_, que nasceo no anno -de 1521. Foy sua mãy Dona Isabel Muniz, moça da Camera da Rainha -Dona Leonor, e filha de hum Alcaide de Lisboa, homem honrado, a quem -chamavaõ o _Carrança_, e ella depois foy Freira de Santa Clara do -Porto. Criou-se D. Duarte no Convento de S. Jeronymo, chamado da Costa, -junto de Guimarães, e aqui estudou com exemplar progresso as boas -letras, e costumes. Mandou-o ElRey buscar ao dito Convento com grande -ostentaçaõ, e trazello a Cintra, onde estava a Corte; porém sendo -preciso a ElRey vir a Lisboa, tanto que D. Duarte chegou a Cintra, -foy o Conde da Castanheira buscallo, e o conduzio a Lisboa, e ElRey -o veyo esperar ao Convento de S. Domingos de Bemfica, onde o recebeo -com grandes honras, e expressões de alegria. Foy D. Duarte Arcebispo -de Braga, muy pio, e muy versado nos estudos de Filosofia, Theologia, -e ambos os Direitos. Começou a escrever em lingua Latina a Historia -dos Reys de Portugal, de que deixou elegantemente composta a delRey D. -Affonso Henriques, da qual fazem memoria D. Nicoláo Antonio, e o Abbade -de Sever. Morreo na flor dos seus annos a 11 de Novembro de 1543. Jaz -em Belém.[852] - -11 _D. Manoel_ morreo menino. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Filippe II._ - -1 O _Principe D. Carlos_ nasceo a 12 de Julho de 1545. Os Castelhanos -lhe chamaõ o _Infeliz_; porque sendo de genio turbulento, o pay -temeroso das extravagancias do filho, naõ desapprovou os meyos, que lhe -assinaraõ para lhe abreviar a vida, e assim veyo a acabar violentamente -em 24 de Junho de 1568. Foy filho da sua primeira mulher. - -2 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo a 12 de Agosto de 1566. Casou com o -Archiduque Alberto no anno de 1599, e sem successaõ morreo a 29 de -Novembro de 1633. - -3 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo a 10 de Outubro de 1567. Casou -com o Duque de Saboya Carlos Manoel no anno de 1585, e morreo a 6 de -Novembro de 1597. Estes dous foraõ filhos do terceiro matrimonio. - -4 _O Principe D. Fernando_ nasceo a 4 de Dezembro de 1571, e morreo a -18 de Outubro de 1578. - -5 _O Infante D. Carlos Lourenço_ nasceo a 12 de Agosto de 1573. Morreo -a 30 de Julho de 1582. - -6 _O Principe D. Diogo_ nasceu a 12 de Julho de 1575, e morreo a 21 de -Novembro de 1582. - -7 _O Principe D. Filippe_, que lhe succedeo. - -8 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Março de 1580, e morreo a 4 de -Agosto de 1583. Estes cinco foraõ filhos do quarto matrimonio. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Filippe III._ - -1 A _Infanta Dona Anna Mauricia de Austria_, Rainha de França, nasceo -em Valhadolid a 22 de Setembro de 1601. Casou com Luiz XIII. Rey de -França no anno de 1615, morreo a 14 de Mayo de 1643, jaz em S. Diniz. -Deste matrimonio nasceraõ Luiz XIV. Rey de França, e Filippe de França, -Duque de Orleans. - -2 _O Principe D. Filippe_ successor. - -3 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Valhadolid a 18 de Agosto de 1606. -Casou com o Imperador de Alemanha D. Fernando III. e morreo a 13 de -Mayo de 1646. - -4 O _Infante D. Carlos_ nasceo em Madrid a 14 de Setembro de 1607, e -morreo a 13 de Julho de 1632. - -5 _O Infante D. Fernando_ nasceo no Escurial a 16 de Mayo de 1609. O -Papa Paulo V. o creou Cardeal a 29 de Julho de 1619, naõ tendo mais que -dez annos, e lhe deu logo o governo do Arcebispado de Toledo, e o fez -Capitaõ General dos Paizes baixos, onde morreo a 9 de Novembro de 1641. - -6 _A Infanta Dona Margarida_ nasceo em Lerma a 25 de Mayo de 1610, e -morreo a 11 de Março de 1617. - -7 _O Infante D. Affonso Mauricio_ nasceo no Escurial a 22 de Setembro -de 1611, morreo a 16 de Setembro de 1612. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Filippe IV._ - -1 A _Infanta Dona Margarida Maria_ nasceo a 14 de Agosto de 1621, e -morreo no mesmo dia. - -2 _A Infanta Dona Maria Margarida_ nasceo a 25 de Novembro de 1623, e -morreo a 22 de Dezembro do mesmo anno. - -3 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Novembro de 1625, e morreo a 21 -de Julho de 1627. - -4 _O Principe D. Balthasar Carlos_ nasceo a 17 de Outubro de 1629. Foy -muito festejado o seu nascimento. Morreo a 9 de Outubro de 1646. - -5 _A Infanta Dona Isabel Teresa dos Santos_ morreo no primeiro de -Novembro de 1627. - -6 _A Infanta Dona Anna Antonia_ nasceo a 17 de Janeiro de 1635, e -morreo a 5 de Dezembro de 1636. - -7 _A Infanta Dona Maria Teresa_, Rainha de França, nasceo a 20 de -Setembro de 1638. Casou com ElRey de França Luiz XIV. a 4 de Julho de -1660, e morreo em Versalhes a 30 de Julho de 1683. Todos estes foraõ -filhos do primeiro matrimonio; e do segundo teve. - -8 _A Infanta Dona Margarida Maria Teresa_, que nasceo a 12 de Julho de -1651. Casou com o Imperador Leopoldo no anno de 1666, e morreo a 12 de -Março de 1673. - -9 _A Infanta Dona Maria Ambrosia_ morreo menina a 21 de Dezembro de -1659. - -10 _O Principe D. Filippe Prospero_ nasceo a 20 de Novembro de 1657, e -morreo no primeiro de Novembro de 1661. - -11 _O Infante D. Fernando_ nasceo a 22 de Dezembro de 1658, e morreo a -22 de Outubro de 1659. - -12 _O Principe Carlos II._ successor no Throno, nasceo a 6 de Novembro -de 1661, e casando duas vezes, morreo sem successaõ no primeiro de -Novembro de 1700. - -13 Fóra do matrimonio teve a _D. Joaõ de Austria_, que nasceo a 7 de -Abril de 1629, e teve por mãy Dona Maria Calderon. Foy Graõ Prior -de Malta em Castella, Vice-Rey de Sicilia, Governador de Flandes, -General de todas as forças maritimas da Monarquia de Castella, primeiro -Ministro delRey Carlos II. e hum dos mais valerosos soldados daquelle -seculo. Morreo a 17 de Setembro de 1679, e jaz no Escurial. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Joaõ IV._ - -1 O _Principe D. Theodosio_ nasceo em Villa Viçosa a 8 de Fevereiro -de 1634. Foy jurado Principe de Portugal a 28 de Janeiro de 1641, e -segundo as memorias felicissimas, que existem delle, foy certamente hum -portento da natureza, e da graça, sabendo accrescentar, e augmentar -os dotes de huma, e outra com as prendas adquiridas na continuada, e -illustre occupaçaõ das virtudes. Acabou na flor da sua idade a 15 de -Mayo de 1653, e jaz em Belém.[853] - -2 _A Senhora Dona Anna_ nasceo em Villa Viçosa a 21 de Janeiro de l635. -No mesmo dia expirou, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro das -Chagas da mesma Villa. - -3 _A Infanta Dona Joanna_ nasceo em Villa Viçosa a 18 de Setembro de -1636. Morreo a 17 de Novembro de 1653, e jaz em Belém. - -4 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo em Villa Viçosa a 25 de Novembro -de 1638. Casou com Carlos II. Rey de Inglaterra em 18 de Mayo de 1661. -Padeceo em Londres com varonil paciencia fortissimos contratempos, -culpando-a o Parlamento de querer introduzir em Inglaterra a Religiaõ -Catholica, por cujo motivo intentarão darlhe veneno, de que a -innocencia de sua virtuosa vida a livrou, até que passados sete annos -depois da morte de seu marido, voltou para Portugal, e chegou a Lisboa -a 20 de Janeiro de 1693. No anno de 1704, quando ElRey D. Pedro seu -irmão passou à Beira, ficou governando o Reino com grande satisfaçaõ -de todos; mas a 31 de Dezembro de 1705 deixou com sua morte a todos -saudosos. Jaz em Belém.[854] - -5 _O Senhor D. Manoel_ nasceo em Villa Viçosa a 6 de Setembro de 1640, -e logo morreo. Jaz no Convento de Santo Agostinho da mesma Villa. - -6 _O Infante D. Affonso_ successor. - -7 _O Infante D. Pedro_, que succedeo a ElRey D. Affonso seu irmaõ. - -8 Fóra do matrimonio teve a _Senhora Dona Maria_, que nasceo no anno -de 1643. Criou-se em casa do Secretario Antonio Cavide, ao qual passou -Alvará a Rainha Dona Luiza de tutor, curador, e administrador da -pessoa, e bens da dita Senhora. De casa do sobredito Secretario foy -para o Mosteiro de Carnide no anno de 1649, onde vestio o habito da -Religiaõ de Santa Teresa, mas naõ professou. Nunca veyo à Corte em -publico; porém indo às Caldas, foy acompanhada de Antonio Alvares da -Cunha, e de sua irmã a Condessa de Villa-Flor. ElRey D. Joaõ a declarou -por filha, e lhe deixou feita a mercê da Commenda mayor de Santiago, e -das Villas de Torres Vedras, e Colares, cujas disposições foraõ todas -inteiramente satisfeitas pela Rainha Regente, e o Serenissimo Rey D. -Affonso, os quaes em todos os Decretos, Alvarás, e Cartas, em que -fallavaõ nella, lhe chamavaõ _Dona Maria, muito amada, e prezada irmã_, -sem o titulo de Infanta; porque, como elegantemente prova o Doutor -Chronista Fr. Antonio Brandaõ,[855] nunca em Portugal se deu aos filhos -illegitimos o titulo de Infante. Fez esta Senhora varios, e grandiosos -donativos ao Mosteiro, em que viveo, até que aos cincoenta annos da sua -idade acabou esta vida a 6 de Fevereiro de 1693. Jaz no Coro debaixo do -mesmo Mosteiro.[856] - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Pedro II._ - -1 A _Infanta Dona Isabel_, filha do primeiro matrimonio, nasceo em -Lisboa a 6 de Janeiro de 1669. Foy jurada Princeza herdeira do Reino, -e esteve desposada com o Duque de Saboya Victorio Amadeo; mas a -intempestiva morte embaraçou este desejado consorcio, porque a Infanta -faleceo 21 de Outubro de 1690. Jaz no Mosteiro do Santo Crucifixo de -Capuchas Francezas junto da Rainha Dona Maria Francisca sua mãy. - -2 Do segundo matrimonio teve o _Principe D. Joaõ_ que nasceo em Lisboa -a 30 de Agosto de 1688, e morreo a 17 de Setembro do mesmo anno. Jaz em -S. Vicente de Fóra. - -3 _O Serenissimo Principe D. Joaõ_ succesor na Coroa. - -4 _O Serenissimo Infante D. Francisco_ nasceo em Lisboa a 25 de Mayo -de 1691. Foy Graõ Prior do Crato, e fez o officio de Condestavel do -Reino nas Cortes de 1697, e no Auto do levantamento delRey D. Joaõ V. -seu irmaõ. Possuio as grandes, e opulentas Casas do Infantado, e da -Feira, com outras muitas rendas, jurisdições, e prerogativas. Deveo-lhe -a sciencia Nautica hum particular desvelo, como se fora seu professor, -e não menos todo o manejo bellico, para que tinha natural viveza, e -propensaõ. A caça foy todo o seu divertimento, em que era perito, -destro, destemido, e incansavel, por cujo motivo mais era habitador -do campo, que da Corte. Teve entranhavel devoçaõ com a Imagem da -Senhora da Atalaya, a quem tributou liberaes offertas; e aos Religiosos -Capuchos da Conceiçaõ lhes mandou edificar hum Hospicio junto do seu -Palacio da Bemposta de Lisboa, delineado pela simetria do Convento da -Arrabida. Achando-se finalmente na quinta de Bernardo Freire, meya -legua distante das Caldas da Rainha, para onde tinha hido acompanhar a -ElRey, faleceo de hum volvulo a 21 de Julho de 1742. Jaz em S. Vicente -de Fóra. - -5 _O Serenissimo Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 15 de Março de -1694. Participou logo da natureza attributos verdadeiramente Reaes; -porque a bizarria da sua magestosa presença, revestida de hum soberano -agrado, e de numa seria affabilidade, era a fortissima cadea de ouro, -com que atava suavemente a todos, para que o amassem; mas muito mais -poderoso attractivo para o nosso affecto eraõ aquellas nobres prendas -do animo, e alma, que brilhavaõ grandemente em todas as suas acções, e -inculcavaõ a grandeza do seu espirito heroicamente generoso, sublime, -pio, e benigno. Faleceo finalmente a 20 de Outubro de 1757 em Alcantara -na quinta chamada da Tapada. Jaz em Belém. - -6 _A Senhora Infanta Dona Teresa_ nasceo em Lisboa a 24 de Fevereiro de -1696. ElRey seu Pay ajustou casalla com o Archiduque Carlos, mas desfez -este ajuste a morte da Infanta, que foy buscar ao Ceo outra coroa mais -perduravel em 16 de Fevereiro de 1704. Jaz em S. Vicente de Fóra. - -7 _O Serenissimo Senhor Infante D. Manoel_ nasceo em Lisboa a 3 de -Agosto de 1697. Para mostrar que no sangue Real Portuguez naõ estava -adormecida aquella natural aversaõ contra os sequazes da seita de -Mafoma, levado de hum sobrenatural impulso, e ardor militar, que -o naõ soffria conter nos limites da patria, naõ contando mais que -dezasete annos de idade, sahindo occultamente do porto de Lisboa em -4 de Novembro de 1715, passou a Hollanda, e daqui a Hungria, onde -militando sempre ao lado do famoso Principe Eugenio nas perigosas -batalhas de Peterwaradin, Temeswar, e Belgrado, obrou com tanto valor, -e desembaraço, que mais parecia Mestre, que discipulo de Marte. Depois -de serenadas as campanhas, e passando a ver algumas Cortes da Europa, -adquirindo ao seu augusto nome immortal fama, se restituio a Portugal -no anno de 1723, fazendo com as suas gloriosas proezas, que as Musas -tivessem heroico assumpto para os elogios, e as virtudes exercicio nos -seus louvaveis, e generosos empregos. - -9 _A Senhora Infanta Dona Francisca_ nasceo em Lisboa a 30 de Janeiro -de 1699. Ornou-a a natureza liberalmente em gráo supremo de huma -formosura magestosa, alegre, affavel; de hum genio compassivo, pio, -magnifico; e por todos estes, e outros muitos virtuosos predicados -dominava esta Princeza o coraçaõ de todos, attrahindo a Nobreza, e o -povo a amalla, e adoralla tanto, que arrebatando-a o Ceo em 15 de Julho -de 1756, ainda cá na terra a saudade existe viva em nossa memoria. -Jazem as suas cinzas em S. Vicente de Fóra. - -9 Teve ElRey D. Pedro fóra do matrimonio a _Senhora Dona Luiza_, que -nasceo a 9 de Janeiro de 1679. Criou-se em casa do Secretario de -Estado Francisco Correa de Lacerda, e de oito annos passou a viver -recolhida no Mosteiro de Carnide em companhia de sua tia a Senhora Dona -Maria. Em 14 de Mayo de 1695 se recebeo na Ermida de Nossa Senhora das -Necessidades com o Duque D. Luiz Ambrosio de Mello, filho do Duque de -Cadaval D. Nuno Alvares Pereira de Mello; porém morrendo o Duque D. -Luiz a 13 de Novembro de 1700, e ficando a Senhora Dona Luiza viuva, e -sem filhos, tornou a casar em 16 de Setembro de 1702 com seu cunhado -o Duque D. Jayme, do qual tambem naõ teve successaõ. Faleceo a 23 de -Dezembro de 1732, e jaz no Mosteiro de S. Joaõ Evangelista da Cidade de -Evora. - -10 _O Senhor D. Miguel_ nasceo em Lisboa a 15 de Outubro de 1699. -Criou-se em casa do Secretario das Mercês Bartholomeu de Sousa Mexia, -onde aprendeo as bellas letras, como se houvera de as professar; e -unindo à intelligencia das artes liberaes outros muitos dotes heroicos, -conseguio justamente fazerse crédor de huma estimaçaõ universal. -ElRey D. Joaõ V. o reconheceo por seu irmaõ, e ordenou se lhe désse -tratamento de Alteza, fazendo-lhe muitas honras devidas ao seu sublime -nascimento. Casou em 30 de Janeiro de 1715 com Dona Luiza Casimira de -Sousa, herdeira da illustrissima Casa de Arronches, a quem ElRey D. -Joaõ V. fez a mercê das honras de Duqueza. Deste plausivel matrimonio -nasceo em 11 de Novembro de 1716 a Senhora _Dona Joanna Perpetua_, a -quem ElRey D. Joaõ V. concedeo as honras de Duqueza, e casou em 20 de -Setembro de 1738 com o quarto Marquez de Cascaes D. Luiz, que morrendo -em 14 de Março de 1745, ficou esta Senhora viuva, e sem successaõ. -_O Senhor D. Pedro de Bragança_, Duque de Lafões, nasceo em 19 de -Janeiro de 1718, foy Regedor das Justiças da Casa da Supplicaçaõ, em -que entrou no anno de 1749, e falleceo no de 1761, e o _Senhor D. Joaõ -de Bragança_ nasceo em 6 de Março de 1719. Morreo em fim o Senhor D. -Miguel desgraçadamente, naufragando no Tejo em 13 de Janeiro de 1724, -e apparecendo o corpo a 5 de Fevereiro, foy conduzido ao Convento de -Santa Catharina de Ribamar, da Provincia da Arrabida, onde jaz. - -11 _O Senhor D. Jofeph_ nasceo a 6 de Mayo de 1703. Foy sagrado -Arcebispo de Braga a 5 de Fevereiro de 1741 pelo Eminentissimo Cardeal -Patriarca, e a 23 de Julho do referido anno fez a sua entrada publica -naquella Cidade com grandes festas, obsequios, e alegrias de seus -Cidadãos, onde depois de hum feliz governo acabou os seus dias. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Joaõ V._ - -1 A _Serenissima Princeza Dona Maria Barbara_ nasceo em Lisboa a 4 de -Dezembro de 1711. Desde a abençoada indole dos seus primeiros annos -se instruio com tanta perfeiçaõs nos solidos dictames da prudencia, e -das virtudes, que ainda hoje possue a gloria de ser venerada por huma -das Princezas mais benemeritas da attençaõ entre as expectaveis da -Europa. No anno de 1729, a 19 de Janeiro se desposou com o Serenissimo -Senhor D. Fernando, Principe das Asturias, passando a viver em Castella -com seu Regio esposo em reciproco affecto, e universal contentamento -dos Hespanhoes, até que a 27 de Agosto de 1758 foy gozar da eterna -Bemaventurança, como as suas virtudes nos persuadem. - -2 _O Principe D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 19 de Outubro de 1712. Naõ -viveo mais que dous annos, e dez dias, porque a 29 de Outubro de 1714 -foy para o Ceo, e jaz seu corpo em S. Vicente de Fóra. - -3 _O Serenissimo Principe D. Jofeph_ successor na Coroa, e hoje -felizmente reinante. - -4 _O Serenissimo Senhor Infante D. Carlos_ nasceo em Lisboa a 2 de Mayo -de 1716, e dando evidentes mostras de huma vasta capacidade para acções -heroicas, a sua intempestiva morte, supposto que succedida depois de -huma larga enfermidade, deixou a todos magoados em 30 de Março de 1736. -Jaz em S. Vicente de Fóra. - -5 _O Serenissimo Senhor Infante D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 5 de Julho -de 1717. Sua Magestade o collocou na alta dignidade de Graõ Prior do -Crato, pondo nesta forma em praxe o grande conceito, que merece o -relevante de suas admiraveis prendas. A 6 de Junho de 1760 se recebeo -com a Serenissima Senhora Dona Maria Princesa da Beira, e herdeira -do Reino, sua sobrinha, na Capella Real de Nossa Senhora da Ajuda. -De cujo consorcio nasceo a 21 de Agosto do anno seguinte pelas 10 -horas da noite o Serenissimo Principe _D. Jofeph Francisco Xavier_, -e foy bautizado na Igreja do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda pelo -Cardeal Patriarca D. Francisco Saldanha, festejando-se tudo com muitos -repiques, e luminarias. - -6 _O Serenissimo Senhor Infante D. Alexandre_ nasceo a 24 de Setembro -de 1723, e morreo de bexigas a 2 de Agosto de 1728. Jaz no Convento de -S. Vicente de Fóra. - -7 Teve o Senhor D. João V, fóra do matrimonio ao _Senhor D. Antonio_, -que nasceo em o primeiro de Outubro de 1714, ao _Senhor D. Gaspar_ em 8 -de Outubro de 1716, o qual a 24 de Agosto de 1758 foy sagrado Arcebispo -de Braga, onde felizmente governa com o exemplo, e justiça, de que -nasce o affecto que todas as suas ovelhas lhe tributaõ. Ao _Senhor D. -Joseph_ que nasceo a 8 de Setembro de 1720, e foy erecto em Inquisidor -Geral pela Bulla _Cum Officium_ de Benedicto XIV. de 15 de Março de -1758. - - * * * * * - - -_Filhos delRey D. Jofeph I._ - -1 A _Serenissima Senhora Princeza da Beira Dona Maria Francisca_ -nasceo a 17 de Dezembro de 1734, de quem já fallámos. A _Serenissima -Senhora Infanta Dona Maria Anna_, que nasceo a 7 de Outubro de 1736. A -_Serenissima Senhora Infanta Dona Maria Francisca Dorothea_, que nasceo -a 21 de Setembro de 1739. A _Serenissima Senhora Infanta Dona Maria -Francisca Benedicta_, que nasceo a 25 de Julho de 1746. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[769] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10. - -[770] Estaço nas Antiguid. de Portug. cap. 12. n. 9. Duart. Nun. -Descripç. de Portug. cap. 89. Alvar. Ferr. de Vera Orig. da Nobr. cap. -6. Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 12. - -[771] Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 23. - -[772] Idem liv. 8. cap. 27. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40 - -[773] Caram. Philip Prud. lib. 1 p.14. Monarq. Lusit. liv. l0. cap. 33. -e liv. 11. cap. 1. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40. e seqq. - -[774] Monarquia liv. 10. cap. 19. Vide Fastos da Lusit. tom. 1. pag 189. - -[775] Faria no Epitom. part. 3 cap. 2. - -[776] Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 42. Duarte Nun. Chronic. delRey D. -Affons. Henriq. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 61. - -[777] Barbos. no Catalog. das Rainhas. - -[778] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 2. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. -pag. 61. - -[779] Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 20. - -[780] Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 63. - -[781] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 126. Cardos. Agiolog. Lusit. -tom. 3. a 17 de Junh. Sous. Histor. Genealog. tom. 1. p. 109. - -[782] Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa allegad. na Histor. -Geneal. tom. 1. - -[783] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 127. Sousa Histor. Geneal. tom. -1. p. 100. - -[784] Ibid. p. 103. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 35. p 232. - -[785] Barbos. allegad. p. 127. - -[786] Monarq. Lusit. tom. 4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal. -tom. 1. liv. 1. cap. 9. Caram. Philipp. Prud. lib. 1. pag. 19. - -[787] Barbos. Catal. das Rainh. p. 127. Monarq. Lusitan. tom. 4. liv. -12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. cap. 9. Benedict. Lusitan. -tom. 2. p. 318. Garibay tom. 4. liv. 34. c. 15. - -[788] Barbos. no Catal. das Rainhas p. 134. Sous. Histor. Geneal. tom. -1. p. 125. - -[789] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 89. Benedictin. Lusit. tom. 2. -p. 318. Mariz Dial. 2. p. 93. Monarq. Lusit. liv. 13. cap. 6. - -[790] Monarq. Lusitan. liv. 14. cap. 24. Corograf. Port. tom. 2. p. 171. - -[791] Monarq. Lusitan. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Genealog. tom. -1. p. 91. - -[792] Monarq. Lusitan. liv. 15. cap. 35. Barbos. no Catalog. das Rainh. -p. 129. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 92. - -[793] Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 21. - -[794] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 144. Barbosa no Catal. das -Rainh. p. 237.& seqq. - -[795] Monarq. Lusit. liv.13. cap.20. Sousa allegad. tom.1. p.141. - -[796] Monarq. allegad. - -[797] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 257. - -[798] Sous. Histor. Genealog. tom 1. p. 185. Monarq. Lusit liv. 16. -cap. 31. e tom. 6. p. 178. Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 62. - -[799] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 176. Monarq. Lusit. liv. 16. -cap. 48. - -[800] Cardos. a 6 de Junh. - -[801] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 28. - -[802] Ibid. cap. 29. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 177. Moreir. -Theatr. Geneal. da Casa dos Sous. p. 319. diz, que este D. Affonso -Diniz naõ fora bastardo. - -[803] Brand. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. Emprez. Militar. p. 13. -Benedict. Lusit. part. 2. p. 322. - -[804] Sous. Histor. Geneal. tom. 1 p. 177. Malt. Port. tom. 1. liv. 2. -cap. 6. n. 71. - -[805] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e no Prol. da part.5. Veja-se -tambem a Leitaõ Ferr. nas Notic. Chronol. n. 71. - -[806] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e cap. 36. - -[807] Idem ibid. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 179. - -[808] Cornej. Chronic. da Ord. tom 2. p. 61. Esperança Histor. Serafic. -liv. 5. cap. 9. - -[809] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 180. - -[810] Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 210. - -[811] Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 286. - -[812] Monarq. Lusit. tom. 6. p. 271. e tom. 5. p. 39. e 270. Agiol. -Lusit. no primeiro de Janeiro. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p 237. - -[813] Idem ibid. p. 254. e seg. Rodrig. Mend. da Silv. Catal. Real. -Monarq. Lusitan. liv. 18. cap. 48. - -[814] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 280. - -[815] Idem ibid. p. 281. - -[816] Salazar Casa de Lara tom. 1. liv. 3. cap. 8. §. 3. Torre do Tombo -liv. 3. delRey D. Diniz fol. 34. e fol. 36. - -[817] Garibay tom. 2. liv. 14. cap. 5. e 6. Barbos. no Catal. das -Rainh. p. 279. - -[818] Monarq. Lusit. liv. 18. cap. 32. - -[819] Zurit. Annaes de Aragaõ tom. 2. liv. 8. cap. 13. 14. e 42. - -[820] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 295. Leitaõ Ferreir. Notic. -Chronol. num. 512. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 383. Garam. -Philipp. Prudent. p. 142. Far. no Com. de Cam. cant. 3. est. 101. - -[821] Faria Epitom. part. 3. cap. 9. - -[822] Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 1. - -[823] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 387. e seg. - -[824] Á cerca da verdadeira Mãy de D. Joaõ, Mestre de Aviz, veja-se -Joseph Soares da Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. e a D. Antonio -Caetano de Sousa no tom. 2. da Historia Genealogica da Casa Real -Portugueza. - -[825] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 431. Monarq. Lusit. tom. 8. p. -651. Duart. Nun. Descr. de Port. p. 139. Anno Historic. a 14 de Mayo. -Pint. Ribeir. nos Injust. Success. dos Reys de Leaõ §. 13. - -[826] Sous. allegad. p. 427. - -[827] Cunh. Histor de Brag. tom. 2. cap. 58. n. 1. Soares da Silva nas -Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 45. n. 292. - -[828] Fernaõ Lopes Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 148. Nunes Chronic. -do mesmo Rey c. 101. - -[829] Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag.103. Vieira tom. 11. num. 622. -Sous. Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 15. Soares da Silva nas -Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 75. e segg. - -[830] Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p.115. e segg. Duart. Nun. -Descripç. de Port. p. 144 - -[831] Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 94. Sous. Histor. de -S. Doming. liv. 6. cap. 15. p. 332 - -[832] Nun. de Leaõ na Chron. delRey D. Duarte, e na Descr. de Port. p. -120. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 3 a 5 de Junh. Sous. Histor. de S. -Dom. part. 1. liv. 6. cap. 27. e 28. Soar. da Silv. Memor. delRey D. -Joaõ I. liv. 1. Sousa Histor. Geneal. tom. 2. liv. 3. cap. 6. Vasco -Mousinho no Affonso Africano cant. 4. est. 52 e segg. - -[833] Sousa Histor. Geneal. tom. 5. lib. 6. Per. Chron. dos Carm. tom. -1. Lorena perseg. p. 405. - -[834] Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap 1 Barbos. no Catal. das -Rainh. Sous. Histor. Genealog. tom. 2. - -[835] Faria Europ. Port. tom. 2. part. 3. cap. 2. n. 28. Duarte Nun. -Descr. de Port. p. 140. Sousa allegad. - -[836] Agiolog. Lusitan. tom. 3. a 17 de Junho. - -[837] Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p. 661. - -[838] Benedict Lusit. tom. 1. p. 381. Per. Chron. dos Carm. tom. 1. n. -1655. Corog. Port. tom.2. p. 341. - -[839] Fr. Luiz de Sous. Chron. de S. Dom. part. 2. liv. 5. Agiol. Dom. -a 12 de Mayo. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 2. p. 79. - -[840] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap 8. e 131. Anno -Historico a 12, e 13 de Julho. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 4. -Fonseca Evora gloriosa pag. 96. - -[841] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 112. e 213. Goes -Chron. delRey D. Manoel part. 1. cap. 45. Faria Europ. Port. tom. 2. p. -492. n. 5. Leitaõ Miscelan. Dialog. 20. p. 632. Osor. de reb. Emmau. -lib. 1. cap. 1. Fr. Jeron. Rom. Histor. da Ordem Militar de Santiago -cap. 9. Anno Histor. a 12 de Agosto. - -[842] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 282. Sous. Histor. Geneal. tom. -3. p. 247. Duarte Nun. Descripç. de Port. p. 145. Clensueg. Vid. de S. -Francisco de Borja liv. 2. cap. 6. e 7. Anno Historico no primeiro de -Mayo. Barbos. nos Factos da Lusitan. a 21 de Março. - -[843] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 293. Barbos. nos Fact. da Lusit. -tom. 1. p. 108. - -[844] Damiaõ de Goes Chron. delRey D.Manoel part. 1. cap. 101. Mariz -Dial. 4. cap. 22. Telles part. 1. liv. 3. cap. 17. Sousa Histor. -Geneal. tom. 3. p. 357. Far. Epitom. part. 3. cap. 16 n. 9. Paul. Jor. -liv. 34. Tarcagnot Histor. del mondo part. 3. liv. 3. p. 170. Ilhescas -Histor. Pontif. part. 2. liv. 6. cap. 27. §. 1. Sandoval part. 2. liv. -22. §. 4. Anno Historic. a 12 de Julho. - -[845] Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 2. cap. 19. -Faria Europ. Portug. tom. 2. part. 4. cap 1. n. 57. O Author do Anno -Historico assina superfluamente o nascimento deste Infante a 5 de -Julho, tendo já delle feito memoria a 5 de Junho, dia proprio, e -verdadeiro. - -[846] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 2. cap. 42. Agiol. Lusitan. -tom. 2. p. 658. e 666. Sous. na Histor. Geneal. Barb. nos Factos da -Lusit. - -[847] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 391. - -[848] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. c. 79. Barbos. no Catal. -das Rainh. p 388. Rodrig. Mendes da Silv. Catal. Real p. 98. Manoel de -Galheg. Templo da fama liv. 4. est. 50. Sousa Histor. Geneal. tom. 3. -p. 421. - -[849] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 396. - -[850] Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 459. Camões cent. 1. Sonet. -83. Joaõ de Barr. no Panegyric. desta Princeza, que vem no fim das -Noticias de Sever. Maced. Flores de Hespanh. cap 8. excell. 11. -Santuar. Marian. tom. 2. Anno Histor. a 10 de Outubro. Duarte Nun, -Descr. da Port. p. 151. - -[851] Os eruditos irmãos Barbos. no Catal. das Rainh. p. 403. e nos -Fast. da Lusit. tom 1 p. 33. Cam. Eglog. 1. Sá de Miranda na Elegia à -morte deste Principe. Anton. Ferr. Eglog. 7. Luiz. Pereir. na Elegiada -cant. 1. p.11. - -[852] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 539. Nicol. Anton. na -Bibliothec. Hisp. Barbos. na Bibliothec. Lusitan. tom. 1. p. 721. - -[853] Menezes Port. Restaurad. tom. 1. liv. 11. p. 796. Vieir. tom. 13. -p. 92. Agiol. Lusit. a 15 de Mayo. Os eruditos irmãos Barbos. no Catal. -das Rainh. p. 426. e nos Fastos da Lusitan. tom. 1. a 8 de Fevereiro. -Anno Historico tom. 2. p. 81. - -[854] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 281. Anno Historic. tom. 2. p. -98. - -[855] Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 12. - -[856] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p 257. Barbos. nos Fast. da Lusit. -tom. 1. p. 464. - - - - - CAPITULO IX. - - _Do Governo antigo, e moderno da Casa Real._ - - -1 Ainda que alguns Escritores nossos se inclinassem[857] a que os -officios, com que se servio a Casa Real até ElRey D. Fernando, fossem -somente Mordomo da Corte, Alferes, e Trinchante,[858] todavia varios -outros Officiaes tiveraõ muitos dos Reys, que lhe precederaõ, dos quaes -daremos breve informaçaõ por aquella ordem, que nos for lembrando, sem -darmos exacta preferencia aos taes officios, que requer a grandeza da -sua dignidade. - -2 _Modome Mór._ He entre todos os officios titulares da Casa Real o que -tem o primeiro lugar. No Regimento, que fez Gomes Annes de Azurara, -(se acaso naõ foy Martim Affonso de Mello) dos officios Móres do Reino -por mandado delRey D. Affonso V. que foy o Principe, que reduzio a -singular ordem a Fidalguia Portuguesa nos empregos de Palacio, se lê, -que em outras Cortes chamavaõ à preeminencia deste officio _Senescal_, -que vale o mesmo que _Senex calculi_, ou Presidente das contas,[859] -porque a seu cargo toca tomallas de todas as despezas dos Reys; porém -Scipiaõ Amirato affirma, que Senescalco era o Architriclino antigo, e -que o officio de Mordomo Mór tivera origem no Reino de França, donde se -derivou a outras Cortes da Europa. - -3 Neste Reino devia começar com o Conde D. Henrique; porque em tempo -delRey D. Affonso seu filho assina, e confirma muitas vezes as doações -o Mordomo Mór Gonçalo Rodrigues. O que temos por infallivel he, que -esta dignidade andou sempre nos principaes Senhores de Portugal. ElRey -D. Diniz honrou com ella a seu filho illegitimo D. Affonso Sanches, -de quem foy summamente affeiçoado. O Conde D. Nuno Alvares Pereira -foy Mordomo Mór delRey D. Joaõ I. e assim a tiveraõ outros muitos -Cavalheros da primeira Nobreza. - -4 Além da superintendencia, que o Mordomo Mór tem na Casa Real, -entende particularmente em receber todos os criados, e moradores -della; e porque antigamente em lugar do verbo _Tomar_ se dizia -_Filhar_, conserva ainda hoje esta palavra, chamando-se a estas -recepções _Filhamentos_. Os Fóros, que ha na Casa Real, em que -entraõ os novamente filhados saõ elles: _Moços da Camera_, _Moços da -Guardaroupa_, _Escudeiros Fidalgos_, _Cavalleiros Fidalgos_, _Moços -Fidalgos_, _Fidalgos Escudeiros_, _Fidalgos Cavalleiros_, _Fidalgos do -Conselho_. - -4 No foro de _Moços Fidalgos_ filha o Mordomo Mór aos filhos, e -netos dos já filhados, ou a outros, a quem ElRey faz mercê de novo, -ainda que seus antepassados naõ fossem filhados. O filhamento dos -primeiros he ordinario, porque naõ se póde negar ao filho do criado -delRey o foro, e moradia de seu pay. Chegando os Moços Fidalgos a -vinte annos, os accrescentaõ a _Fidalgos Escudeiros_; e depois sendo -armados Cavalleiros em algum acto de guerra, lhe daõ foro de _Fidalgos -Cavalleiros_; porém nisso póde haver dispensa com facilidade. O -ultimo accrescentamento he de _Fidalgos do Conselho_, porém naõ he -accrescentamento ordinario, nem os filhos o podem requerer, mas ElRey -dá este titulo a quem lhe parece, e anda annexo a todos os Arcebispos, -e Bispos, Priores Móres de Aviz, e Santiago, a todos os Inquisidores -do Conselho Geral do Santo Officio, a todos os Condes, Desembargadores -do Paço, Chancelleres da Casa da Supplicaçaõ de Lisboa, e Relaçaõ do -Porto, e Chanceller Mór, Reitor da Universidade de Coimbra, Governador -do Algarve, aos Governadores das Praças de Africa, Brasil, e Angola, e -presentemente o concedeo Sua Magestade aos setenta e dous Mon-Senhores -Prelados da Santa Igreja Patriarcal. - -6 Os moradores da Casa delRey, que naõ entraõ por Moços Fidalgos, saõ -tomados por _Moços da Camera_, e depois se accrescentaõ a _Escudeiros -Fidalgos_, e ultimamente a _Cavalleiros_ com a terceira, ou quarta -parte mais de moradia, conforme suas qualidades. Os Moços da Capella, -Porteiros, Resposteiros, e toda a mais gente daqui para baixo tem -accrescentamento ordinario a Escudeiro sómente, e esse menor, e de -quantia certa. - -7 O foro dos _Fidalgos Cavalleiros_, que sómente se dava em algum -famoso acto militar, mais era dignidade que foro, e começou neste -Reino a ser accrescentamento ordinario depois da tomada de Alcacere, -como diz Gomes Annes de Azurara; porque até entaõ como o Reino estava -sem Conquistas, naõ havia ocasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante -honra; e os que hiaõ buscalla fóra do Reino, eraõ poucos, e por isso -esta dignidade era taõ estimada, que todos os Principes daquelle -tempo a procuravaõ alcançar com grande cuidado: assim lemos que -para este effeito vieraõ a Hespanha, e Portugal grandes Senhores em -varios tempos; e os que nesta parte alcançaraõ mayor gloria, foraõ os -nossos Infantes, filhos delRey D. João I. porque só com este intento -emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceuta, e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe, -a de Arzilla. - -8 Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas, -quando alguma Personagem subia ao novo titulo, como fez ElRey D. Pedro -I. quando creou Conde de Barcellos a D. Joaõ Affonso Tello, seu grande -privado,[860] para o qual acto mandou fazer cinco cirios, que outros -tantos homens tiveraõ nas mãos toda a noite, que o Conde velou as armas -no Convento de S. Domingos de Lisboa, estando postos em duas alas desde -a Igreja até os Paços do Castello. ElRey D. Affonso V. armou Cavalleiro -a seu irmaõ o Infante D. Fernando com tanta solemnidade, que o menor -apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil -tochas, que levavaõ quatrocentos Cavalleiros, e seiscentos Escudeiros -dos mais luzidos da Corte todos vestidos de huma libré, e traje. - -9 _Camareiro Mór_ he o segundo officio da Casa Real, conforme a -distribuiçaõ, que lhe assina a Ordenaçaõ do Reino.[861] Chamava-se -esta dignidade em tempo dos Imperadores Romanos _Primicerius sacri -cubiculi_. Os Reys Godos intitularaõ ao Camareiro Mór _Comes -cubicularius_, e havia outros, a que chamavaõ Condes do cubiculo, que -eraõ os que agora saõ os Gentis-homens da Camera.[862] - -10 Esta dignidade começou mais tarde neste Reino, pois no governo -delRey D. Affonso III. he a primeira vez, que se encontra este titulo -em Joaõ Fernandes; e antes que a houvesse, fazia este offcio o -Reposteiro Mór. Sua particular obrigaçaõ he vestir, e despir a pessoa -delRey, aos pés de cujo leito costumava dormir. Ultimamente andou -este officio na familia dos Sás, Condes de Penaguiaõ, e Marquezes de -Abrantes, que exercitava com o titulo de Camarista, ou Gentil-homem da -Camera em companhia de outros, que todos servem às semanas, e trazem -chave dourada.[863] - -11 _Guarda Mór da Casa._ Desta dignidade se faz mençaõ no Regimento -dos officios móres delRey D. Affonso V. o qual ordena, que o Guarda -Mór traga sempre vinte Cavalleiros para guarda da pessoa delRey, que o -acompanhem em toda a parte. Na Chronica delRey D. Manoel escreve Damiaõ -de Goes,[864] que o dito Rey, em quanto viveo, tivera sempre guarda da -Camera, e dos Ginetes, de que muito se prezava. Constava a sobredita -guarda de vinte e quatro Cavalleiros dos mais assinalados da Corte, que -dormiaõ no Paço junto da Camera delRey, e na mesma casa dormiaõ tambem -alguns Moços Fidalgos, e na outra sala outros tantos Moços do monte. -Na guarda dos Ginetes havia duzentos Cavalleiros muito valentes, que -armados com lanças, e adargas, acompanhavaõ a ElRey para onde hia. - -12 Tanto que ElRey se deitava na cama, antes de se lhe correr a -cortina, entrava o Guarda Mór, e via a ElRey, e entaõ corria a cortina -o Sumilher; e sahiaõ para fóra. Fechava o Guarda Mór a porta, e junto -della se lhe fazia a cama, onde dormia, e mais afastado se seguiaõ as -camas dos outros Fidalgos da guarda. Pela manhã, quando ElRey chamava, -entrava o Guarda Mór com o Sumilher; este levantava a cortina, e o -Guarda Mór assistia ao vestir delRey. Este costume se usou até o -tempo delRey D Sebastiaõ,[865] e o officio expirou em Pedro de Mendoça -Furtado no reinado delRey D. Joaõ IV. que depois naõ se tornou mais a -prover. - -13 _Reposteiro Mór._ Chamavaõ os Romanos a este officio _Comes -Castrensis_, e presidia aos Castrensianos, que punhaõ a meza ao -Imperador; aos Lampadarios, que tratavaõ das luzes, que de noite havia -no Paço; aos Cellarios, que tinhaõ cuidado na despensa, e a outros -muitos. Neste Reino serve de chegar a cadeira, ou almofada a ElRey, -quando se assenta, ou poem de joelhos; e preside aos Reposteiros, -cujos officios provê. Anda hoje esta dignidade na Casa do Conde de -Castello-Melhor, que a herdou por morte de Bernardim de Tavora. - -14 _Veador da Casa._ O primeiro Veador, de que ha noticia neste -Reino, he de Egas Moniz em tempo do invicto Rey D. Affonso Henriques; -e os mais, que se lhe seguiraõ, foraõ sempre Cavalheros de grande -caracter.[866] Estava a seu cargo naõ só o governo total das oxarias, -mas grande parte do regimen da Casa Real, porque servia inteiramente -o officio de Mordomo Mór, quando este por qualquer ausencia, ou -molestia faltava no Paço: assim o determinou ElRey D. Affonfo V. no -seu Regimento,[867] e se vê tambem no da Fazenda,[868] estylo, que em -muitos Reinos he estabelecido.[869] - -15 Ha muitos exemplos de servirem os Veadores o officio de Mordomo Mór, -como foy Vasco Annes Corte-Real pelos annos 507, 512, e 515; Ruy Lopes -em 527, e 529; D. Francisco de Sousa em 541, Thomé de Sousa em 551, D. -Diogo Lopes de Lima em 570, e Damiaõ Borges em 579, sendo estes tempos -comprehendidos nos governos dos Senhores Reys D. Manoel, D. Joaõ III. -D. Sebastiaõ, e D. Henrique. Na mesma fórma continuou Francisco Barreto -no tempo delRey Filippe II. - -16 He verdade que servindo o Veador Francisco Barreto de Mordomo Mór, -se moveraõ entre elle, e o proprietario varias duvidas. Primeira sobre -qual delles havia de levar o ordenado de Mordomo Mór. Segunda como se -havia de dizer nos Alvarás: _Eu ElRey faço saber a vós F. meu Mordomo -Mór_; ou _F. meu Veador, que hora servis de meu Mordomo Mór_. Terceira, -se quando tornava a servir o Mordomo Mór, lhe havia de entregar -o Veador as Consultas, e mais papeis, que, quando tinha servido, -despachara, ou se haviaõ de ficar em seu poder. Resolveo-se que ambos -levassem o ordenado de Mordomo Mór; que nos Alvarás se dissese: -_Veador, que servis de Mordomo Mór_; e que os papeis fossem todos para -o Cartorio, em que costumavaõ estar. - -17 Em todo o tempo dos Senhores Reys D. Joaõ IV., e D. Affonso VI. -governavaõ os Veadores às semanas pela precisa, e continua assistencia, -que faziaõ no Paço, assistindo aos comeres de Suas Magestades, e naõ -mandando os ditos Senhores fazer nem ainda para si cousa alguma, -que naõ fosse ordenando-o vocalmente ao Veador de semana, e este -aos Officiaes subalternos. Quando as pessoas Reaes estavaõ doentes, -eraõ obrigados a assistir nas juntas dos Medicos, para verem o que -lhe mandavaõ comer, e receitar. Aos Veadores tocava o mando de todos -os Officiaes pertencentes à meza delRey: elles tinhaõ o governo dos -Moços da Camera: a seu cargo estava a enfermaria, onde se curavaõ os -criados pobres; e nas jornadas, que os Reys faziaõ, corriaõ com todos -os gastos inteiramente, e era totalmente sua a disposiçaõ. No governo -do Serenissimo Senhor D. Pedro II. como se servia com os Camaristas, -e comia pela Casa da Rainha, e as despezas ordinarias se faziaõ pela -do Infantado, quasi ficaraõ sem exercicio os Veadores. Anda hoje este -officio nas Casas dos illustrissimos Condes do Redondo, e Assumar, e D. -Francisco Xavier de Sousa. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[857] Naõ fazem mençaõ de outros Officiaes até o dito tempo Fr. Antonio -Brandaõ, Ruy de Pina, e Duarte Nunes, sendo estes dos mais principaes -Chronistas entre os nossos. - -[858] Os que contaõ em hum dos tres officios ao Trinchante, he porque -entendem que isto significava _Dapifer_; mas enganaõ-se, porque este -officio corresponde ao de Veador, entre o qual, e o de Mordomo Mór naõ -havia antigamente differença. Danet. in Diction. antiq. Roman. verb. -_Comes._ Castr. Palat. Ducange verb. _Dapifer_. - -[859] Veja-se a Bluteau no vocab. _Mordomo Mór_, e _Senescal_, e a Gil -Gonçalves Davila no Theatro de las grandezas de Madrid p. 313. Nunes de -Castro no livro _Solo Madrid es Corte_ liv. 1. cap. 10. Villasboas na -Nobiliarq. Port. cap 12. Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 481. Solan. -Succo de Pegas tom. 2. p. 376. verb. _Æconomus_. - -[860] Faria na Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 4. num. 22. - -[861] Orden. liv. 3. tit. 5. no princip. - -[862] Petr. Pantin. de Offic. Regis domus Gothor. Garm. Theatr. de -Hesp. tom. 3. p. 143 e 223. - -[863] Vide Gil Gonçalv. Theatr. de las grandez, de Madrid p. 315. -Peg. à Orden. tit. 13. liv. 3. tit. 5. gloss. 2. n. 64. Barbos. à -dit. Orden. n. 2. Carv. in cap. Raynald. de test. part. 1. n. 364. -Villasboas Nobiliarq. Port. cap. 12. - -[864] Goes part. 4. cap. 84. - -[865] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 552. Lim. Geograf. Histor.tom. -1. p. 444. Veja-se a Argote no Discurso da Montaria Real cap. 6. e a D. -Franc. Xavier de Garma no Theatr. Univ. de Hesp. t. 3. c. 14. - -[866] Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 5. e liv. 10. cap. 4. Chron. del Rey -D.Joaõ I. cap. 68. - -[867] No tit. de Mordomo Mór. - -[868] Cap. 241. - -[869] L’Etat de la France, e de la Gran Bretaña. Ethiquetas de Hespanha. - - - - - CAPITULO X. - - _Dos Officiaes, e ordem, com que se assistia à meza dos Reys._ - - -1 Costumavaõ os Senhores Reys deste Reino comer ordinariamente em -publico, e com magestoso apparato desde o tempo delRey D. Affonso V. -que imitou a seu tio o Infante D. Pedro.[870] Assistia à meza hum -_Trinchante_, que cortava. Até o tempo delRey D. Joaõ III. foy hum -só, depois se accrescentou mais outro, e no reinado delRey D. Joaõ -IV. houveraõ tres Trinchantes de tres differentes Casas. Hoje anda na -de D. Antonio Alvares da Cunha, Senhor da Taboa, e na de D.Joseph de -Vasconcellos e Sousa, que herdou este officio por casar com huma filha -herdeira de Diogo de Brito Coutinho.[871] Á maõ direita do Trinchante -ficava o _Uchaõ_, e junto com elle o Servidor da toalha. Da parte -esquerda se seguia o _Mantieiro_. - -2 Traziaõ os Moços da Camera as iguarias, vindo diante o _Prestes -da Cozinha_, que he hum accrescentado, e nas festas grandes o -_Mestre-Sala_. Davaõ-se os pratos ao Servidor da toalha, que os punha -na meza, e o Uchaõ os chegava para o Trinchante por ordem, conforme -se havia de comer. Depois de trinchados os que eraõ para iso, fazia a -salva o Servidor da toalha, e o Trinchante os chegava a ElRey; e tanto -que ElRey comia, os tirava o Mantieiro, e metia outros, e novamente -guardanapo. - -3 _Uchaõ_ he o que tinha cuidado de mandar guardar a caça na ucharia, -ou dispensa da Casa Real, e por isso parece que se lhe deu o nome -de Uchaõ, tomado de _Uccello_, que em italiano significa passaro. O -officio de _Copeiro Mór_, a que os Godos chamavaõ Conde das Escancias, -ou _Comes scanciarum_, que he o mesmo, que se dissessemos Conde das -bebidas, he o que dá o pucaro de agua a ElRey para beber, e anda hoje -este officio na Casa do Conde de Villa-Flor. Quando ElRey lhe fazia -sinal, hia buscar o pucaro à porta da casa, onde ElRey comia, e lho -entregava o Copeiro menor; e tornando a entrar acompanhado do mesmo -Copeiro, e dous Porteiros da cana, que faziaõ suas cortezias, e se -punhaõ de joelhos, chegava o Copeiro Mór à meza, dava o pucaro a ElRey, -que acabando de beber, o tomava, estando até entaõ inclinado sobre a -meza, tendo a salva debaixo do pucaro. Depois se levantava, e tres pés -atraz fazia a cortezia, e dava o pucaro ao Copeiro menor, que o levava -à copa acompanhado dos Porteiros. - -4 Nas solemnidades grandes se fazia este acto com muito mayor -ceremonia; porque hiaõ diante os Porteiros da maça dous e dous, os -Reys de armas, Arautos, e Passavantes, o Porteiro Mór, Mestre-Sala, -Veador da Casa, os Védores da Fazenda, e detraz de todos o Mordomo Mór, -e todos hiaõ descubertos até o estrado, onde faziaõ suas cortezias. -Os Védores da Fazenda tiravaõ os chapeos no meyo da sala, e o Mordomo -Mór até o fazer da cortezia, que juntamente a fazia, e tirava o -chapeo, e neste tempo se tocavaõ os intrumentos musicos. Este mesmo -acompanhamento se fazia nas primeiras, e ultimas iguarias, que vinhaõ -à meza, e quando traziaõ a fruta.[872] Todos estes Officiaes, que -assitiaõ à meza, levavaõ certas iguarias de gajes da copa, as quaes -eraõ de tanta importancia, que mandando ElRey D. Filippe II. que lhas -dessem a dinheiro, se lhes arbitrarão por ellas grossos ordenados. - -5 Todos os Senhores, que assistiaõ à meza, estavaõ em pé encostados à -parede, e nenhum dos Grandes tinha assento, porém cubriaõ-se os que -tinhaõ esse privilegio. Á roda da meza estavaõ de joelhos os Moços -Fidalgos; e quando no fim vinha a confeiteira, repartia ElRey com elles -dos doces, e frutas.[873] Em quanto os Reys comiaõ, costumavaõ praticar -com os Fidalgos, principalmente com aquelles, que tinhaõ andado fóra -do Reino; e com os doutos, que sempre estavaõ presentes, se excitavaõ -questões curiosas, e uteis. - -6 Muitas vezes nos Domingos, e dias Santos jantavaõ, e ceavaõ com -musicas; e nas Festas principaes com atabales, e trombetas. Vespera de -Natal consoava ElRey em publico com todo o estado, e entretanto davaõ -de cear a todos os Escudeiros, e Fidalgos, que estavaõ na sala. Depois -mandavaõ de consoar às Damas, e aos Officiaes delRey se lhes mandava -a suas casas. Os Moços da Camera consoavão na Guarda-reposta, e aqui -mesmo se dava consoadas aos Capellães, e daqui para baixo até os moços -da estribeira, e do monte. - -7 O fausto, e grandeza, com que ElRey D. Joaõ II. celebrou as vodas -de seu filho o Principe D. Affonso com a Senhora Dona Isabel, -especialmente nos banquetes, que deu em Evora, foraõ taõ notaveis, -que nos obriga a transcrever o mais raro delles pelas formaes palavras -do seu Chronista Garcia de Resende cap. 113. o qual diz: _Logo à -entrada, da meza veyo huma grande carreta dourada, e traziaõ-na dous -grandes boys assados inteiros com cornos, e mãos, e pés dourados, e o -carro vinha cheyo de muitos carneiros assados inteiros com os cornos -dourados, e vinha tudo posto num cadafalso taõ baixo com rodetas -no fundo delle, que naõ se viaõ, que os boys pareciao vivos, e que -andavaõ. E diante vinha hum Moço Fidalgo com huma aguilhada na maõ, -picando os boys, que parecia que andavaõ, e levavaõ a carreta, e vinha -vestido como carreteiro com hum pelote, e hum gaibaõ de veludo branco -forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia proprio -carreteiro, e assim foy oferecer os boys, e carneiros à Princeza, -e feito o serviço, os tornou a virar com sua aguilhada por toda a -sala até sahir fóra, e deixou tudo ao povo, que com grande grita, e -prazer foraõ espedaçados, e levava cada hum quanto mais podia. E assim -vieraõ juntamente a todas as mezas muitos pavões assados com os rabos -inteiros, e os pescoços, e cabeça com toda sua penna, que pareceraõ -muito bem, por serem muitos, e outras muitas sortes de aves, e caças, -manjares, e frutas, tudo em muito grande abundancia, e muita perfeiçaõ._ - -8 A ultima vez, que as Magestades Portuguezas comeraõ em publico, foy -quando veyo de Alemanha a Rainha Dona Maria Anna de Austria. A primeira -cea, e jantar se deu na casa da galé, e foy de grande esplendor, -disposiçaõ, asseyo, e apparato. Tinha a meza de comprido quatorze -palmos e meyo, e de largo seis e meyo. Constava de quatro cubertas de -vinte e hum pratos cada huma: as tres primeiras de cozinha, e a ultima -de doces, e frutas. A disposiçaõ era nesta formalidade, segundo o -mappa, que vimos em casa do Excellentissimo Conde do Redondo. - - K K K K - - X +-----------------------+ Z - | A B | - | | - X | C E |Y Z - | |Y - | * * | - X | D G H F | Z - +-----------------------+ - I L M N O P Q I - X S V T V V T V R Z - - - A Lugar do talher delRey Nosso Senhor. - - B Lugar do talher da Rainha nossa Senhora. - - C Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Francisco. - - D Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Antonio. - - E Lugar do guardanapo da Senhora Infanta Dona Francisca. - - F Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Manoel. - - G Primeiro aviamento de trinchar. - - H Segundo aviamento de trinchar. - - I Moços Fidalgos com abanos. - - L Lugar do Veador. - - M Lugar do Mantieiro. - - N Lugar do primeiro Trinchante. - - O Lugar do segundo Trinchante. - - P Lugar do Servidor da toalha. - - Q Lugar do Mestre-Sala. - - R Lugar do Copeiro Mór. - - S Lugar do Escrivaõ da cozinha. - - TT Dous Moços da Camera com pratinhos. - - VV Moços da Camera, que servem à Meza. - XX Lugar dos Titulos. - - ZZ Lugar dos Officiaes da Casa. - - YY Fysico Mór, e Cirurgião Mór. - - KK Lugar das Senhoras, que acompanharaõ a Rainha nossa Senhora. - - ** Girandulas, ou serpentinas de luzes. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[870] Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 125. Soares da Silva nas -Memorias delRey D. Joaõ I. p. 366. - -[871] Lim. Geograf. Histor. tom. 1. p. 511. Sous. Grandes de Portug. p. -279. - -[872] Garcia de Resend. Chron. delRey D.Joaõ II. cap. 123. - -[873] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 4. cap. 84. - - - - - CAPITULO XI. - - _Do acompanhamento, com que os Reys sahiaõ pela Cidade, e caminhavaõ - com a Corte._ - - -1 Quando os Reys caminhavaõ pela Cidade, hiaõ nesta fórma: Os Porteiros -da cana, e os Reys de armas precediaõ a todos a cavallo, e descubertos. -Depois os Moços da estribeira tambem descubertos. Seguia-se o -Estribeiro Mór a cavallo, e cuberto. Dahi a espaço a pessoa delRey; e -atrás delle todos os Fidalgos a cavallo cubertos sem ordem. Só havendo -algum Infante, ou Senhor grande, hia este mais chegado à Pessoa delRey, -conforme o parentesco. Sendo dia solemne, hiaõ os trombetas, e timbales -diante delRey. - -2 Na Cidade naõ usaraõ alguns Reys de guarda. ElRey D. Joaõ II. e -ElRey D. Manoel a traziaõ: já ElRey D. Joaõ III. muitas vezes usava -sahir fóra só com dous Porteiros da cana diante de si, a que alludio -Francisco de Sá e Miranda, quando disse:[874] - - _Que se póde ir mais à vante - Com quanto alcança o sentido, - Sem ferro, ou fogo, que espante, - Com duas canas diante - His amado, e his temido._ - -ElRey D. Sebastiaõ pelos muitos estrangeiros, que havia em Lisboa, -introduzio a guarda de pé de Alabardeiros Portuguezes, e naõ Tedescos, -com seu Capitaõ Fidalgo dos principaes. ElRey Filippe II. admittio -guarda Tedesca, e a deixou ao Archiduque Alberto, depois do qual se -continuou com os Governadores, e Vice-Reys. ElRey D. Joaõ IV. fez duas -Companhias de guarda, huma de Alemães, outra de Portuguezes, como -explica o douto, e diligente Padre D. Luiz de Lima.[875] - -3 Tinhaõ por costume os Senhores Reys ir fóra todos os Domingos depois -de jantar ver correr a carreira, e algumas vezes elles mesmos a -corriaõ.[876] Para isto se ajuntavaõ além dos familiares do Paço muita -outra gente dos contornos, onde ElRey estava, e corriaõ diante delle a -cavallo. Eraõ os Reys taõ benignos, e humanos, que quando hiaõ pelas -ruas, e viaõ alguns homens nobres à porta, se detinhaõ, e fallavaõ com -elles.[877] Honravaõ tanto a seus criados, que a alguns hiaõ levar -a suas casas em dia de noivado: assim se lê delRey D. Joaõ III. que -recebendo-se nos Paços dos Estáos (hoje da Inquisiçaõ) Dona Maria de -Menezes com o avô de D. Antaõ de Almada, sahio ElRey acompanhando-a, -atravessou o Rocio, e chegou até à esquina das casas de D. Braz da -Silveira; e apontando para as dos Almadas, lhe disse galantemente: -_Dona Maria, até aqui cheguey para vos mostrar as vossas casas, porque -vos naõ enganassem, e levassem a outras._[878] - -4 Quando ElRey hia fóra da Corte, o acompanhavaõ ordinariamente os -moradores da sua Casa, Conselho de Estado, e outra muita gente, que -o seguia, assim por este respeito, como por seus requerimentos, e -despachos; pelo que em qualquer parte, que a Corte estava, havia tanta -frequencia, como em huma boa Cidade, e por isso ordenaraõ que a Corte -trouxesse comsigo todos os Officiaes assim politicos, como de justiça, -que saõ necessarios para o governo de huma Republica. Eraõ estes o -Aposentador Mór, Almotacé Mór, Correyo Mór, Corregedores do Crime da -Corte, Corregedores do Civel com seus Officiaes de justiça inferiores. - -5 O Aposentador Mór tem por obrigaçaõ ir diante da Corte hum, ou dous -dias, para ter prevenido o alojamento delRey; porque he costume antigo -neste Reino aposentarem os moradores de qualquer povo a ElRey, e sua -Corte, dando a metade das casas para se recolherem os que acompanhaõ a -ElRey. Esta distribuiçaõ de aposentos faz o Aposentador Mór, e he Juiz -de todas as duvidas, que sobre esta materia occorrerem. Hoje anda este -Officio na Casa dos illustrissimos Condes de Santiago.[879] - -6 Ao Almotacé Mór pertence prover a Corte, onde quer que estiver, de -mantimentos, e para isso tem grande jurisdiçaõ, que se extende cinco -leguas da Corte. Antes que ElRey faça jornada para alguma parte, manda -adiante fazer promptos os mantimentos, e convocar certo numero de -Regatões, que chamaõ da Corte, cujos officios elle dá, os quaes tem -por obrigaçaõ prover a Corte de caça, e do mais preciso, com tanto que -naõ tragaõ os mantimentos dos povos cinco leguas à roda do lugar, onde -a Corte está; e para ser provida melhor, quando a Corte está fóra de -Lisboa, se quita meya ciza a quaesquer outros Regatões, a que fóra das -cinco leguas trazem mantimentos. Anda este cargo de Almotacé Mór em -Joaõ Gonçalves da Camera Coutinho.[880] - -7 Ao Correyo Mór compete prover de cavalgaduras para os moradores -da Corte caminharem, e pôr as postas ordinarias no Reino; e quando -ElRey corre a posta, serve elle de Postilhaõ. Despacha os Correyos -ordinarios de pé, e cavallo, assim para o Reino, como para fóra delle. -A propiedade deste officio concedeo D. Filippe II. e confirmou ElRey D. -Joaõ de juro e herdade à Familia dos Matas.[881] Nestas jornadas usavaõ -os Reys às vezes de guarda cavalleiros, e particularmente a trazia -ElRey D. Joaõ II. a quem sempre acompanhava o Capitaõ dos Ginetes com -ella. ElRey D. Manoel lhe accrescentou o numero, que faziaõ duzentos -Cavalleiros, que com o mesmo Capitaõ lhe precediaõ sempre. - -8 Com a mudança de governo houve tambem mudanças na formalidade da -guarda Real. Para idéa da que hoje se pratica nas funções solemnes, -mostraremos brevemente a ordem, com que as Pessoas Reaes caminharaõ de -Elvas para o Caya em 19 de janeiro de 1729 para as reciprocas entregas, -e desposorios dos Principes, e Princezas. Principiava aquelle vistoso -acompanhamento por mais de quarenta coches dos Fidalgos titulares -do Reino, a mayor parte delles tirados a seis frizões. Seguia-se -huma partida de quinze Cavalleiros com hum Alferes, vinte e quatro -trombetas, e atabaleiros da Casa Real vestidos de veludo carmesim -apassamanados de galões de ouro. Logo os cavallos de maõ dos Infantes -D. Francisco, e D. Antonio cubertos de telizes de veludo verde bordados -de ouro, e trinta delRey, do Principe, e do seu Estribeiro Mór. Depois -marchava hum Tenente com quinze cavallos, e logo doze postilhões -de gabinete com fardas de panno encarnado com alamares de prata. -Seguiaõ-se muitos coches, e berlindas, em que hiaõ muitos Officiaes -do Paço de mayor graduaçaõ. Logo os coches de respeito dos Infantes, -da Princeza, do Principe, e delRey, e ultimamente o coche magnifico, -em que hia a Familia Real, e atrás delle muitos moços da estribeira a -cavallo, e sete berlindas com as Camareiras Móres, e outras Senhoras, -e cento e trinta seges da Familia, e no fim de tudo hum esquadraõ de -guarda com quinhentos cavallos, que desde Lisboa foraõ acompanhando a -ElRey, e governavaõ quatro Fidalgos da primeira Nobreza. Naõ fallamos -na magnificencia, e magestosa pompa desta jornada mais extensamente, -porque se póde ver nos Authores allegados;[882] só advertimos, que -para esta funçaõ mandou ElRey que a libré antiga da Serenissima Casa -de Bragança, que era de panno silvado de verde e branco guarnecida de -galões de prata, se mudasse sómente para a sua Casa Real, da Rainha, e -Principes do Brasil na cor, de que usaraõ os antigos Reys, que era de -panno encarnado com os cabos, e vesteas azuis agaloadas de prata, e aos -Archeiros da guarda da mesma cor com a differença de serem os galões de -ouro.[883] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[874] Sá de Mirand. Epist. 1. - -[875] Lim. Geogr. Histor. part. 1. p. 399. - -[876] Goes Chronic. delRey D. Manoel p. 341. - -[877] Clede tom. 3. pag. mihi 421. na vida delRey D. Joaõ II. - -[878] Sous. Histor. Geneal. tom. 4. p. 258. - -[879] Veja-se a Pegas à Orden. t. 13 add. t. 5. gloss. 2. num. 100. -Far. no Epitom. pag. mihi 665. Villasb. na Nobiliarq. Port. cap. 12. -Lima Geogr. Histor. tom. 1. pag. 337. Navarret. Conservac. de las -Monarq. cap. 20. - -[880] Orden. liv. 1. tit. 18. - -[881] Corogr. Portug. tom. 3. p. 390. - - - - - CAPITULO XII. - - _Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das principaes - coutadas do Reino._ - - -1 O Exercicio da caça assim de volateria, como de montaria foy -sempre a mais ordinaria recreaçaõ dos Reys Portuguezes, para a qual -mantinhaõ com grande pompa Officiaes, e Caçadores, que fossem destros, -e intelligentes em semelhantes artes.[884] Do Infante D. Duarte, -filho delRey D. Manoel, se conta,[885] que era nelle taõ dominante -este divertimento, que naõ reparava em descommodo algum só para matar -hum veado, chegando muitas vezes a dormir vestido no campo exposto à -inclemencia do tempo. Continuou este passatempo até o reinado delRey D. -Sebastiaõ; depois conforme o genio, e inclinaçaõ dos Principes assim -hia crescendo, ou diminuindo. - -2 Quanto aos Officiaes para este ministerio, he o _Monteiro Mór_ o que -preside aos mais ministros da caça, o qual aceita todos os Monteiros de -cavallo, e de pé, e moços do monte, de que ElRey se serve. Havia tambem -_Caçador Mór_ para a caça de volateria, e _Falcoeiro Mór_ para a que se -fazia com falcões. Hoje todas estas tres occupações unidas ao officio -de Monteiro Mór andaõ na Familia dos Mellos.[886] - -3 As coutadas antigas do Reino em tempo delRey D. Affonso V. occupavaõ -grande quantidade de terra, e por isso pediraõ os povos a ElRey D. -Joaõ II. nas Cortes de Montemór o Novo, que descoutasse parte dellas -para os campos se poderem aproveitar, e se escusarem os damnos, que as -caças silvestres faziaõ nas sementeiras. ElRey como Principe taõ amante -de seus vassallos o consentio, e descoutou muitas terras. O mesmo fez -ElRey D. Manoel nas Cortes de Lisboa de 1498,[4] e Filippe II. no anno -1594,[887] descoutou as montarias de Palmella, a de Montemór o Novo, a -de Montemor o Velho, e a de Aveiro, ordenando que naõ houvesse mais -coutadas que as de Lisboa, Cintra, Collares, Almeirim, e Salvaterra. - -4 A coutada de Lisboa principiava das portas de Santo Antaõ, estrada -direita até o Lugar de Bemfica, e de Bemfica até Agualva, e da Agualva -a S. Marcos, e de S. Marcos a Oeiras, e daqui direito ao mar. As de -Cintra, e Collares tinhaõ duas leguas em circuito ao redor de cada -huma das ditas Villas. As de Almeirim, e Salvaterra principiava a sua -demarcaçaõ de Santo Eustacio direito pela estrada de aguas vivas acima -até as Simalhas, e dahi atravessando até a ribeira de Muja por cima da -mouta das Corvas, e atravessando a dita ribeira para o Zebro, e arneiro -dos Cruzentes, e daqui às Bezerras: dahi atravessando a ribeira da -Lamarosa direito às Cortezinhas, e das Cortezinhas à Erra, depois pela -estrada de Coruche, e pela mesma estrada abaixo até S. Romaõ, e logo a -Santo Estevaõ, atravessando a ribeira de Canha direito para as casas de -Belmonte, e dahi ao longo das terras do Duque até a ponta da mata de -Payo Real, que parte as lavouras, e daqui pela banda do Tejo a Santo -Eustacio.[888] - -5 Naõ obstante isto, ficou sempre conservando as montarias de -_Santarem_, que constaõ de muito mais de vinte e seis matas, com outras -de particulares: as de _Alenquer_, as de _Obidos_ com quinze matas, -e outras particulares: as de _Leiria_ com o famoso pinhal de quatro -leguas de comprido, e huma de largo: as de _Pombal_, as de _Coimbra_, -as de _Coruche_, as de _Benavente_, e as de _Alcacere do Sal_, onde -junto ao rio, que vay para a dita Villa, ha hum pinhal de huma legua de -comprido, e de largo hum quarto de legua bastecida de muita caça. - -6 As mais notaveis coutadas, que servem hoje de divertimento aos -Principes de Portugal, são as dos sitios de _Alcantara_, e _Belém_ -abundantes de perdizes, lebres, coelhos, e gamos: a de_Cintra_, que se -extende por dilatados bosques, cujo sitio excede em qualidades a todos -os do Reino, e chega até a Villa de Cascaes, fertil todo o seu terreno -de perdizes, lebres, coelhos, e de certa especie de caça de arribação, -que a fertiliza nos mezes de Setembro, e Outubro. Ao Sul da serra de -Cintra da parte opposta do rio corre a serra da Arrabida, taõ povoada -de todo o genero de caça, e em particular de veados, que além de serem -os mayores de toda a Hespanha, excedem em quantidade a outras coutadas -do Reino, com tanto commodo para os Caçadores, quantas saõ as quintas, -e casas de campo, que tem o seu assento nos vistosos, e fertilissimos -sitios de Azeitaõ, Cezimbra, e Calhariz, situadas nas margens, e -visinhanças da mesma serra. - -7 Para o tempo de Inverno he a celebre coutada de _Pancas_, tres leguas -de Lisboa da outra banda do rio, taõ fertil de todo o genero de caça, -que em pouca distancia da terra costuma entreter muitos Caçadores. -Tanta he a abundancia, e variedade, que no mesmo tempo se occupaõ os -Monteiros em correr à lança grandes javalis, e generosos veados, e os -Caçadores em tirar às perdizes, correr às lebres, e matar os coelhos, -além de outra muita caça de arribaçaõ, que concorre às lagoas, e -pantanos daquelle sitio. Com pouca mais distancia de leguas no termo da -grande Villa de Setubal nas ribeiras do rio Sado estaõ as duas grandes -coutadas do _Pinheiro_, e _Palma_, notaveis pela abundancia de veados, -e porcos montezes muito pingues, e grande quantidade de perdizes, -lebres, coelhos, e outras variedades de caças. - -8 Apartadas de Lisboa dez, e quatorze leguas se seguem as Reaes -Casas de campo de _Salvaterra_, e _Almeirim_, que pelo Tejo acima se -communicaõ por mar, sendo o caminho de terra facil, ameno, e commodo -pelo assento, e concurso de muitos lugares vistosos, que em toda -aquella distancia se vaõ continuando por huma povoaçaõ successiva, onde -a Corte se entretinha todos os annos por espaço de quarenta dias com -diversos exercicios de passatempo.[889] Saõ ferteis de veados, porcos, -e toda a especie de caça; commodas para as montarias de cavallo; faceis -para as caçadas de lança, e de espigarda; abundantes nas volaterias; -dispostas para o entretenimento das Damas com tal commodidade, que -dos mesmos coches vem alancear os porcos, matar os veados, correr -as lebres, apanhar os coelhos. e voar as aves tão suavemente, e sem -fadiga, que na mayor distancia se escusa todo o desvelo, porque a -fecundidade do sitio facilita os exercicios igualmente a quem os vê, e -a quem os segue. - -9 De mais destas grandes coutadas se aparta de Lisboa em distancia de -trinta leguas aquella mais celebre da Serenissima Casa de Bragança, -que com o nome de _Tapada_ tem o seu assento em _Villa Viçosa_, aonde -os javalis saõ ferozes, e muitos, e em grande quantidade os veados, -e muita caça miuda, que ainda sendo o sitio fertil por natureza, os -sustenta por maravilha.[890] Porém melhor que todas he a _Tapada -Real de Mafra_, depois que se acabaraõ de fechar os seus muros -pela circumvalaçaõ de tres leguas, servindo para mayor grandeza, e -divertimento as Ermidas, bosques, rios, pontes, e outras officinas, que -ha dentro do seu circuito, tudo igualmente magnifico, e perfeito. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[882] Sous. Histor. Geneal. tom. 8. p. 286. Barbos. nos Fast. da Lusit. -tom 1. p. 229. - -[883] Veja-se o livrinho Francez intitulado: _Description de la Ville -de Lisbonne_ pag. 82. - -[884] Diogo Fernandes na Arte da caça de altanaria pag. 4. - -[885] Dam. de Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. cap. 78. Sous. -Histor. Geneal. tom. 3. p. 424. - -[886] Vide Solano Succo de Peg. tom. 3. p. 413. Cabedo decis. 90. part. -2. Ord. liv. 3. tit. 5. e gloss. 2. n. 115. Villasboas Nobiliarq. -Portug. cap. 12. - -[887] Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 26. - -[888] Veja-se o Regimento do Monteiro Mór. - -[889] Luiz Mendes de Vasconcel. no Sitio de Lisboa p. 207. Nicol. de -Oliveir nas Grandez. de Lisb. trat. 2. cap. 5. Brand. Monarq. Lusit. -liv. 16. cap. 41 e liv. 18 cap. 2. Sous. Histor. de S. Doming. part. 2. -pag. 256. - -[890] Sous. Histor. Geneal. tom. 5. p. 559. e tom. 6. p. 408. - - - - - CAPITULO XIII. - - _Do estylo, com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ - recebidos pelos nossos Reys, e do modo, com que estes assistem no acto - das Cortes._ - - -1 Dos estylos, que os Reys tinhaõ no recebimento de outros grandes -Principes, que vinhaõ ao Reino, ha poucos exemplos, por serem raras as -vezes, que isto aconteceo em Portugal; e ainda que algumas memorias -referem, que ElRey D. Affonso II. de Castella veyo a este Reino pedir -a ElRey D. Affonso IV. o soccorro, com que o foy ajudar na batalha -de Tarifa, com tudo naõ se escrevem as ceremonias, que neste acto -passaraõ. E quando ElRey D. Pedro de Castella expulso fóra do Reino por -seu irmaõ veyo a Portugal valerse delRey D. Pedro I. naõ se vio com -elle; porque como os nossos Principes em razaõ, e respeito de estado -o naõ quizeraõ ajudar, evitaraõ as vistas, e o mandaraõ acompanhar -sómente por alguns Fidalgos principaes do Reino até à raya de Galiza; -porém he facil de entender que em semelhantes occasiões seriaõ tratados -nos recebimentos das Cidades com as mesmas ceremonias dos Reys -naturaes, pois assim em Castella, e em França se fez o mesmo aos Reys -deste Reino. - -2 Em tempo delRey D. Fernando veyo a este Reino Aymon, Conde de -Cambrix, Infante de Inglaterra, trazendo comsigo a Infanta Dona Isabel -sua mulher, e filha delRey D. Pedro de Castella, por cujo respeito o -Conde pertendia aquelle Reino. Chegados os Infantes a Lisboa, ElRey os -foy visitar à náo, e desembarcados foraõ fazer oraçaõ à Sé, indo todos -a pé, e levando ElRey a Infanta pelo braço. Á vinda montaraõ todos a -cavallo, e ElRey, por ser grande cortezaõ, levou a infanta de redea até -S. Domingos, onde havia ordenado que pousassem.[891] - -3 No anno de 1670 veyo à Corte de Lisboa o Graõ Duque de Toscana Cosme -III. e se aposentou no Collegio de Santo Antaõ. Fallou com ElRey D. -Pedro em audiencia particular com a formalidade seguinte: Entrou às -oito horas da noite pelo picadeiro da Corte Real em hum coche de -respeito de Sua Alteza, e D. Joaõ de Sousa, Védor da Casa Real, o veyo -buscar com doze Moços da Camera com tochas; e depois de responder ao -cumprimento de D. Joaõ de Sousa, mandou cubrir os Moços da Camera; e -subindo pela escada recondita, o veyo buscar huns poucos de degráos -abaixo o Gentil-homem da Camera, que estava de semana, do Principe -Regente, a cuja presença o conduzio, e em cuja Camera estava huma cama -rica de téla azul, hum bofete cuberto, e huma cadeira. O Principe -Regente o recebeo com agrado, dando os passos necessarios para chegar -ao meyo da casa; e tornando para o seu lugar, disse ao Graõ Duque: -_Cubra-se V. Alteza_; e no discurso da conversaçaõ lhe deu sempre o -tratamento de Vós, e o Graõ Duque ao Principe Regente o de Magestade. -Os Gentis-homens da Camera sahiraõ para fóra; e quando o Duque se -despedio, o Principe deu os mesmos passos, e elle foy acompanhado da -mesma fórma, que no principio.[892] - -4 Tambem no anno de 1688 veyo incognito a Lisboa o Principe Jorge -Augusto de Saxonia, que depois foy Rey Augusto II. de Polonia, e -fallou a ElRey D. Pedro com quasi a mesma formalidade.[893] - -5 O recebimento dos Embaixadores se fazia com muita solemnidade. -Mandava-os ElRey acompanhar ao Paço no dia da audiencia por Fidalgos -da primeira Nobreza, segundo a graduaçaõ, e grandeza dos Principes, -de que eraõ enviados; e entrando pela casa, onde ElRey os esperava, -se levantava ElRey da cadeira, e punha a maõ no chapeo, e tornava -a abaixalla; e encostando-se no braço da cadeira, lhe vinhaõ os -Embaixadores beijar a maõ, e lhes tomava as cartas de crença, e em -pé os ouvia até os despedir. Depois para tratar dos negocios, a que -vinhaõ, se lhes dava audiencia em casa particular em cadeira raza com -alcatifa por cima.[894] - -6 As Cortes em Portugal correspondem às Assembleas de França, Dietas de -Alemanha, e Parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos tres Estados do -Reino, Ecclesiastico, Nobreza, e Povo, aos quaes costuma ElRey convocar -para as determinações publicas, e de grandes interesses. Juntaõ-se as -pessoas dos tres Estados em huma sala ricamente adornada: na cabeceira -della se levanta hum estrado de seis degráos com a elevaçaõ de sete -palmos, que he para o throno delRey: na parte inferior arrimados -à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem -os chamados, que saõ os Titulos, Prelados, Senhores de terras, e -Procuradores das Cidades, e Villas. - -7 Principia este acto com a assistencia delRey, o qual costuma vir -com oppa rossagante de brocado, e Cetro de ouro na maõ. Vem diante -delle o Condestavel do Reino com o estoque levantado, e mais adiante o -Alferes Mór com a bandeira Real enrolada, precedendo os Reys de armas, -Arautos, e Passavantes vestidos em cottas, onde se vê bordado o escudo -do Reino. A estes antecedem os Porteiros com maças de prata; e se o -acto he de juramento de algum Principe, precedem a tudo os atabales, -e clarins. Chegando ElRey à cadeira, se accommodaõ todos nos seus -assentos determinados. - - -_Preferencia dos Procuradores das Cidades, e Villas do Reino, que tem -assento em acto de Cortes._ - - _Bancos._ - - 1 Porto, Evora, Lisboa, Coimbra, Santarem, Elvas. - 2 Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves. - 3 Lagos, Faro, Leiria, Béja, Guimarães, Estremoz, Olivença. - 4 Portalegre, Bragança, Thomar, Montemór o Novo, Covilhã, Setubal, - Miranda. - 5 Ponte de Lima, Vianna, Foz de Lima, Villa-Real, Moura, Montemór o - Velho. - 6 Cintra, Torres Novas, Alenquer, Obidos, Alcacere, Almada. - 7 Niza, Torres Vedras, Castellobranco, Aveiro. - 8 Mouraõ, Serpa, Villa do Conde, Trancozo. - 9 Aviz, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé. - 10 Alter do Chaõ, Freixo de Espada à cinta, Valença, Monçaõ, Alegrete. - 11 Castello Rodrigo, Castello de Vide, Penamacor, Marvaõ, Certã. - 12 Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Mayor. - 13 Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmella, Cabeço de - Vide. - 14 Barcellos, Coruche, Monsanto, Gravaõ, Panoias, Ourem. - 15 Arrayolos, Ourique, Albofeira, Borba, Portel. - 16 Atouguia, Monsarás, Villa Viçosa, Penela, Santiago de Cacem. - 17 Vianna junto de Evora, Villa-Nova de Cerveira, Porto de Mós, - Pombal. - 18 Alvito, Mertola. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[891] Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 2. cap. 5. n. 63. - -[892] Sousa Histor. Geneal. tom. 2. p. 441. - -[893] Sousa Histor. Genealog. tom 7 p. 694. - -[894] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 77. p. 50. vers. -Chron. delRey D. Joaõ III. part. 1. Cap. 25. Far. na Europ. Port. part. -4. cap. 2. n. 26. - - - - - CAPITULO XIV. - - _Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys._ - - -1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da -gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas -mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e -acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta -ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa -era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de -pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos -misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom -tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que -introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre -o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando -faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.[895] - -2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey -D. Fernando,[896] até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da -Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,[897] conservando-se -porém ainda até o tempo delRey D. Manoel o luto de burel branco, -porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se -vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.[898] -Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se -despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia -se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos -de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo -tempo os sinos. - -3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva -seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava -huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo -luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno -acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que -lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais -publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns -degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro -Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para o -povo, dizia tres vezes em voz alta: _Ouvide_, _ouvide_, _ouvide._ Logo -o primeiro Vereador dizia estas palavras, que levava escritas: _Choray, -povo, choray a morte do vosso Rey, que vos governou com justiça, e amor -de pay_. E subindo o escudo sobre a cabeça, o deixava cahir em terra, e -se quebrava. Com as mesmas circunstancias se repetia a mesma ceremonia -pelos outros Vereadores, levantando ao mesmo tempo o povo grandes -clamores, e prantos. Depois caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ -ao funeral, que tambem se fazia com aquella expressaõ de pena, e dor, -que merecia a grandeza da perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de -Resende, e outros Chronistas antigos, que as descrevem com miudeza. - -4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da -Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas -mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa -os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro -no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no -Rocio.[899] As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se -tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe -D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de -Resende;[900] porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se -executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas -breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:[901] - - _Tot mundi Principes, tanta potentia: - In ictu oculi clauduntur omnia._ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[895] Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 44. e liv. 22. cap. 52. - -[896] Ibid. - -[897] Ibid. - -[898] Soar. da Silv. Memorias delRey D. Joaõ I. n. 153. - -[899] Monarq. Lusitan. part 7. liv. 5. cap 1. Far. Europ Portug tom. 2. -part. 1. cap. 6. - -[900] Resend. cap. 131. e 133. - -[901] Drexelio no Prodrom. æternitat. cap. 3. §. 3. n. 4. - - FIM. - - - - -INDICE DAS COUSAS NOTAVEIS _deste primeiro Tomo._ - -=A= - - -_Abrantes_, antigamente se chamava _Tubuci_, pagin. 29. - -_Abundancia_ da Provincia do Minho, 47. - -_Academia Real_ da Historia Portuguesa por quem foy instituida, 353. - -_Açumar_, ou Alegrete se chamava _Ad septem aras_, 28. - -_D. Affonso VI._ Rey de Castella, suas conquistas, 271. - -_D. Affonso Henriques_ onde nasceo, 286. Alcançou milagrosamente saude -da Senhora de Carquere por supplicas de Egas Moniz, 287. Elle mesmo se -armou Cavalleiro na Igreja Cathedral de Çamora, _ibid._ Excluio sua mãy -do Governo por força de armas, _ibid._ Ganhou huma batalha na Veiga -de Valdevez, _ibid._ Triunfou de cinco Reys Mouros confederados no -campo de Ourique, onde lhe appareceo Christo crucificado, dando-lhe o -Escudo das Armas de Portugal, 288. He acclamado Rey pelo seu exercito, -cujo titulo confirmou o Papa Alexandre III. 289. Mostra-se a verdade -da appariçaõ de Christo, _ibid._ Responde se aos argumentos oppostos, -290. Offerece D. Affonso Henriques por liberal tributo à Sé Apostolica -dous marcos de ouro, 291. E a Santa Maria de Claraval cinco escudos -cada ano, 292. Edificou cento e cincoenta Templos, _ibid._ Inftituio -as Ordens Militares da Aza, e de Aviz, _ibid._ Casou com a Rainha -Dona Mafalda, _ibid._ Filhos que teve, _ibid._, e 378. Sua morte, e -sepultura, 293. - -_D. Affonso II._ Rey de Portugal chamado o _Gordo_, quando, e onde -nasceo, 296. Foy livre prodigiosamente de hum achaque por virtude de -Santa Senhorinha, _ibid._ Teve grande parte na victoria das Navas -contra os Mouros, auxiliando a ElRey de Castella, _ibid._ Intentou -usurpar as terras que eraõ de suas irmãs, _ibid._ Conquistou aos Mouros -Alcacer do Sal, e defendeo Elvas, _ibid._ Filhos que teve, 384. Quando -morreo, e onde jaz seu corpo, 297. - -_D. Affonso III._ Rey de Portugal, chamado o _Bolonhez_, casou com a -Condessa Matilde, 299. Conquistou o Algarve, _ibid._ Reduzio a seu -dominio algumas terras de Andaluzia, 300. Repudiou sua legitima mulher, -e casou com Dona Brites filha natural delRey D. Affonso de Castella, -_ibid._ Disturbios que houve no Reino por este motivo, _ibid._ Fez -violencias ao Estado Ecclesiastico, mas sujeitou-se às Censuras dos -Pontifices, 301. Edificou os Conventos de S. Domingos de Lisboa, -o de Elvas, e Santa Clara de Santarem, _ibid._ Alimpou o Reino de -facinorosos, _ibid._ Filhos que teve, 385. Quando morreo, e onde jaz, -301. - -_D. Affonso IV._ Rey de Portugal chamado o _Bravo_, quando nasceo, -306. Com quem casou, _ibid._ Foy excessivo no exercicio da caça, -_ibid._ Ajudou na batalha do Salado a ElRey de Castella, 307. Fez por -duas vezes mudar os Estudos publicos de Lisboa para Coimbra, _ibid._ -Reedificou a Sé, estabelecendo nella varias Capellanias, _ibid._ -Consentio que matassem a Dona Ignez de Castro, _ibid._ Filhos que teve, -389. Quando morreo, e onde jaz, 307. - -_D. Affonso V._ Rey de Portugal chamado o _Africano_, quando nasceo, -320. Onde foy acclamado Rey, _ibid._ Dá batalha ao Infante D. Pedro -seu irmaõ em o sitio de Alfarrobeira, 321. Passou a Africa onde ganhou -muitas Praças aos Mouros, de que se lhe originou o titulo de Africano, -322. Com quem casou, _ibid._ Contendeo com D. Fernando de Aragaõ que -o desbaratou na batalha de Toro, _ibid._ Passou a França a varias -negociações, e intenta ir ver os Lugares Santos de Jerusalem, 323. Foy -muy liberal, e o primeiro que ajuntou livraria em Palacio, _ibid._ -Filhos que teve, 400. Onde morreo, e onde jaz, 324. - -_D. Affonso VI._ Rey de Portugal chamado o _Victorioso_, quando nasceo, -346. Foy acclamado Rey, e quando tomou posse, _ibid._ Alcançou contra -Castella muitas victorias, especialmente a do Amexial, Canal, e Montes -claros, _ibid._ Entregou-se todo às disposições de hum Antonio Conti, -que o desencaminhava, 347. Casou com a Princeza Dona Maria Francisca -Isabel de Saboya, _ibid._ Separou-se della por nullidade do Matrimonio, -_ibid._ Foy deposto do governo, e em seu lugar se admittio o Principe -D. Pedro seu irmaõ, _ibid._ Onde morreo, e onde jaz, 348. - -_Aguas celenas_, povoaçaõ antiga, onde ficava, 5. --_Flavias_, onde -existiu, 6. --_Layas, ibid._ - -_Agualva_, antigamente se chamou _Ceciliana_, 28. - -_Alanos_, seu dominio, 256. - -_Albofeira_, terra do Algarve, 37. - -_Alcacere do Sal_ antigamente _Salacia_, 29. He ganhada aos Mouros por -ElRey D. Affonso II. 297. - -_Alcoutim_, onde existe, 37. - -_Alentejo_. Descreve-se esta Provincia, 72. - -_Alenquer_, antigamente se chamava _Jerabrica_ 28. - -_Alfayates_, Praça na Beira, 40. - -_Algarve_. Descreve-se esta Provincia, 77. - -_Almeida_, Praça na Beira, 40. - -_Almorol_, antigamente _Moro_, 29. - -_Alpalhaõ_, antigamente _Fraxinum_, 28. - -_Alvor_, antigamente chamado _Portus Anibalis_, 36. - -_Ambracia_, povoaçaõ antiga, 7. - -_Anibal_, suas acções em Portugal, 238. - -_D. Antonio_ Prior do Crato, de quem foy filho, e se oppoem à successaõ -do Reino de Portugal, 337. Foy acclamado Rey em Santarem, 339. Entrou -em Lisboa com o mesmo titulo, _ibid._ He destruido pelo Duque de Alva -na ponte de Alcantara junto a Lisboa, _ibid._ Morreo em Pariz. _ibid._ - -_Araduca_, povoaçaõ antiga, 7. - -_Araducta_, onde existia esta povoaçaõ, 8. - -_Aramenha_, antigamente _Medrobica_, 29. - -_Arcadio, e Honorio._ No governo destes Imperadores se acabou o dominio -dos Romanos em Portugal, 244. - -_Armas de Portugal_, foraõ dadas por Christo ao primeiro Rey D. Affonso -Henriques, 288. - -_Aricio Pretorio_, onde existio, 8. - -_Aroche_, povoaçaõ antiga, 8. - -_Arrayolos_, antigamente _Calantica_, 28. - -_Arrifana_, sua enteada, 36. - -_Atributus_ especiaes dos Portuguezes, 218. - -_Aveiro_. Descreve se a sua barra, 31. - -_Aves_ que ha no Reino, 164. - -_Azeite_ que ha em Portugal, 162. - -_Azeviche_ em que parte do Reino se acha, 175. - - -=B= - -_Balfa_, Cidade antiga, 9. - -_Banquete publico_ que nas vodas do Principe D. Affonso fez ElRey D. -Joaõ II. 430. - -_Barbaros_ quando invadiraõ Portugal, 254. - -_Barros_ excellentes que ha no Reino, 175. - -_Batalha_. Dos Arcos de Valdevez, 287. Do campo de Ourique, 288. A do -Arganhal, 293. Das Navas, 296. De Alcacer do Sal, 297. A do Salado, -307. A de Aljubarrota, 315. A de Alcantara junto a Lisboa, 339. A do -Montijo, 344. A do Ameixial, Canal, e Montes claros, 346. A de Almança, -350. - -_Baucio Capeto_, insigne Capitaõ da Turdetania, 237. - -_Béja_, antigamente se chamava _Paz Julia_, 29. Costume antigo que -havia nos moradores desta Cidade quando cazavaõ seus filhos, 2l5. - -_Benis_, povoaçaõ antiga, 10. - -_Beira._ Descreve-se esta Provincia, 59. - -_Benavente_, antigamente se chamava _Aricio Pretorio_, 28. - -_Becelga_, Cidade antiga, 10. - -_Braga_, antigamente _Brachara Augusta_, 28. - -_Bragança_, seu sitio, 41. - -_Britenia_, povoaçaõ antiga, 10. - - -=C= - -_Cabo de Espichel_, 35. - -_Caça_, e seu exercicio, 216. e 438. - -_Caldelas_, antiga povoaçaõ, 11. - -_Cale_ que significa, 3. - -_Callantia_, povoaçaõ antiga, 10. - -_Calliabria_, povoaçaõ antiga, 11. - -_Cambeto_, povoaçaõ antiga, 11. - -_Camareiro Mór_, sua obrigaçaõ, 424. - -_Caminha_, sua barra, 29. - -_Campos Elysios_ se na verdade os houve, e onde existiraõ, 12. - -_Campo Mayor_, sua Praça, 38. - -_Canace_, Cidade antiga do Algarve, 14. - -_Capara_, povoaçaõ antiga, 14. - -_Catalogo_ Chronologico dos Reys das Asturias que governaraõ Portugal, -273. - -_Cauca_, povoaçaõ antiga, 15. - -_Cava_, ou _Florinda_, foy causa da ruina de Hespanha, 259. - -_Castro-Marim_, sua foz, 37. - -_Cartagineses_, quando entraraõ em Portugal, 236. - -_Cascaes_, seu porto, 32. - -_Ceciliana_, onde existio esta povoaçaõ, 15. - -_Chaves_, como se chamava antigamente, 28. - -_Christo crucificado_, apparece no Campo de Ourique a ElRey D. Affonso -Henriques, 289. - -_Collipo_, foy Cidade antiga, onde hoje está Leiria, 18. - -_Coitadas_ do Reino, 438. - -_Comarcas._ De quantas consta a Provincia do Minho, 51. A de Tras os -Montes, 57. A da Beira, 61. A da Estremadura, 70 A do Alentejo, 75. A -do Algarve, 79. - -_Conceiçaõ da Senhora_, erecta em Padroeira do Reino, 345. - -_Copeiro Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 429. - -_Cortes._ Modo com que se celebraõ, 444. - -_Costumes dos Portuguezes._ Saõ naturalmente esforçados, e valerosos, -201. Leaes a seus Soberanos, 202. Conquistadores, 204. Zelosos, e -constantes na Religiaõ, 205. Aptos para as sciencias, 206. Pouco -inclinados a aprender linguas estrangeiras, 208. Saõ pomposos nas -occasiões publicas, _ibid._ Saõ imitadores das modas estrangeiras, 209. -Nos trages saõ inconstantes, 210. Saõ muy namorados, 212. Muito dados à -caça, 216. E ao combate de touros, _ibid._ Amaõ a Poezia, e a Musica, -217. - - -=D= - -_Descripçaõ_ circular do Reino, 29. - -_D. Diniz_ Rey de Portugal, chamado o _Lavrador_, quando nasceo, 302. -Quando foy acclamado Rey, _ibid._ Casou com a Rainha Santa Isabel, -303. Incorporou no Padroado Real todas as fazendas que havia doado -injustamente, _ibid._ Teve discordias com seu irmaõ, _ibid._ Separou -a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ de Castella, 304. Instituio -em Lisboa a primeira Universidade de letras, _ibid._ Fundou o Real -Mosteiro de Odivellas, e o de Santa Clara de Coimbra, e Villa do -Conde, 304. Teve em summo gráo as virtudes da Justiça, verdade, e -liberalidade, 305. Instituio rezarem-se no Paço as Horas Canonicas, -_ibid._ Instituio a Ordem Militar de Christo, _ibid._ Foy chamado o -_Pay da Patria_, e o _Lavrador_ pelo affecto que tinha à Agricultura, -_ibid._ Teve no Reino algumas guerras civis, 306. Quantos filhos teve, -387. Sua morte, e sepultura, 306. - -_D. Duarte_ Rey de Portugal chamado o _Eloquente_, onde, e quando -nasceo, 318. Foy muito dado ao estudo das letras, _ibid._ Quando foy -acclamado, e quando casou, _ibid._ Quiz resgatar seu irmaõ D. Fernando -mas frustradamente, 319. Filhos que teve, 397. Sua morte, e sepultura, -320. - - -=E= - -_Eburobricio_, onde existio esta antiga povoaçaõ, 20. - -_Egas Moniz_ foy Ayo delRey D. Affonso Henriques, suas virtudes, 288. - -_Egitania_, Cidade antiga, 19. - -_Egoas_ que concebiaõ do vento, se as havia em Portugal, 97. - -_Elvas_, sua Praça, 38. - -_Embaixadores_, como eraõ recebidos, 442. - -_Empreza das mulheres_, foy huma insigne vitoria que alcançaraõ as -Portuguezas do Minho contra os Cartaginezes, 238. - -_Eremitica vida_, teve principio na Provincia do Minho, 50. - -_Ervas_ medicinaes que ha em Portugal, 167. - -_Eritrea_, onde existio, 19. - -_Esposende_, sua barra, 30. - -_Estoi_, antigamente Ossonoba, 29. - -_Estrangeiros_, estimados dos Portuguezes, 209. - -_Estremadura._ Descreve-se esta Provincia, 67. - -_Evandria_, povoaçaõ antiga, 20. - -_Evora_, Cidade antigamente chamada _Liberalitas Julia_, 28. - - -=F= - -_Faro_, sua barra, 37. - -_Fenices_, quando entraraõ em Portugal, 236. - -_Feira_, Villa antigamente chamada _Lancobriga_, 29 - -_D. Fernando_ Rey de Portugal, chamado o _Formoso_, quando nasceo, -309. A sua brandura o fez cair em muitas desordens, 310. Reedificou -as Praças do Reino, _ibid._ Seus casamentos, _ibid._ Fez pazes com -ElRey de Castella, 312. Cercou Lisboa de novos muros, _ibid._ Mudou -a Universidade de Coimbra para Lisboa, _ibid._ Filhos que teve, 392. -Quando morreo, 313. - -_D. Fernando_ filho delRey D. Joaõ I. ficou em refens na Praça de -Tangere, 396. Morreo em Berberia, e jaz na Batalha, _ibid._ - -_Fertilidade_ do Reino em geral, 160. - -_Fidalgos Portuguezes_, saõ reputados por vãos, 208. - -_Filippe II. III. IV._ Reys de Portugal, suas acções que obraraõ neste -Reino, 340. - -_Filhamentos_, que cousa he, 422. - -_Filhos_ dos Senhores Reys Portuguezes, 376. até 420. - -_Flaviobriga_, povoaçaõ antiga, 20. - -_Flores_ de varias especies que nascem em Portugal, 167. - -_Florinda_ filha do Conde D. Juliaõ foy causa da destruiçaõ de -Hespanha, 259. - -_Fome_ extraordinaria que houve na Hespanha, 235. - -_Fontes_ notaveis que ha em Portugal, 148. - -_Foro dos Limicos_, povoaçaõ antiga, 21. --_Dos Narbassos_, outra -antiga povoação, _ibid._ - -_Foros_ que ha na Casa Real, 422. - -_Frutas_ de varias castas que ha em Portugal, 164. - - -=G= - -_Genio Portuguez._ Vide _Costumes_. - -_Gerabrica._ Vide _Jerabrica_. - -_Godos_, quando começaraõ a dominar em Portugal, 255. Catalogo dos Reys -que governaraõ neste Reino, 263. - -_Governo_ antigo, e moderno da Casa Real, 421. - -_Guarda Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 425. - -_Guarda Real_, 433. - -_Guimarães_ cercada, e por quem, 288. Foy a antiga _Araduca_, 7. - - -=H= - -_Dom Henrique_ Conde de Portugal quem foy, 282. Com quem casou, 284. -Quando passou a Jerusalem, 285. Batalhas que venceo, 286. Filhos que -teve, 376. Sua morte, e sepultura, 286. - -_D. Henrique_ Cardeal he acclamado Rey, 336. Sua morte, e sepultura, -338. - - -=I= - -_Jantar_ esplendido que deu o Senhor Rey D. Joaõ V. quando se desposou -com a Serenissima Rainha Dona Maria Anna de Austria, 431. - -_Iberos_ Hespanhoes se foraõ primarios descendentes de Tubal, 222. - -_Idanha_, antigamente _Ægedita_, 28. - -_Jerabrica_, povoaçaõ antiga dos Romanos, 21. - -_Igrejas Cathedraes_ na Provincia do Minho, 50. Em Tras os Montes, 56. -Na Beira, 61. Na Estremadura, 69. No Alentejo, 74. No Algarve, 78. - -_Incendio_ notavel que houve nos Pyrineos, 235. - -_D. Joaõ I._ Rey de Portugal chamado de _Boa memoria_, quando nasceo, e -de quem era filho, 314. Antes de ser Rey matou ao Conde Joaõ Fernandes -Andeiro, _ibid._ Foy declarado pelo povo Defensor, e Governador do -Reino, _ibid._ Foy acclamado Rey em acto de Cortes, 315. Triunfou dos -Castelhanos na famosa batalha de Aljubarrota, _ibid._ Com quem casou, -316. Foy expugnar Ceuta, _ibid._ Mandou supprimir a antiga computaçaõ -da Era de Cesar, e que se usasse da Epoca do Nascimento de Christo, -_ibid._ Erigio em Metropolitana a Cathedral de Lisboa, 317. Templos que -edificou, _ibid._ Obras insignes que fez, _ibid._ Filhos que teve, 393. -Sua morte, e sepultura, 318. - -_D. Joaõ II._ Rey de Portugal chamado _Perfeito_, quando nasceo, 324. -Com quem casou, _ibid._ Quando foy acclamado Rey, _ibid._ Mandou -degolar ao Duque de Bragança, por ser comprehendido em huma conjuraçaõ -contra elle, 325. Seu caracter, _ibid._ Foy opposto aos jogadores, -326. Templos que edificou, _ibid._ Dispoz a formalidade de Coro na -sua Capella, _ibid._ Descobrimentos que se fizeraõ em seu tempo, -_ibid._ Filhos que teve, 401. Sua morte, 327. Jaz seu corpo na Batalha -incorrupto, _ibid._ - -_D.Joaõ III._ Rey de Portugal chamado _Piedoso_, quando nasceo, 330. -Quando, e onde foy acclamado Rey, 331. Fez muitas conquistas na India, -e largou muitas Praças de Africa aos Mouros, _ibid._ Introduzio no -Reino o Tribunal da Inquisiçaõ, _ibid._ Reformou muitas Religiões, e -admittio em Portugal a dos Jesuitas, _ibid._ Removeo a Universidade -para Coimbra, _ibid._ Obras insignes que fez, 332. Com quem casou, 369. -Filhos que teve, 407. Sua morte, e sepultura, 332. - -_D. Joaõ IV._ Rey de Portugal chamado _Restaurador_, quando nasceo, -343. Com quem casou, _ibid._ Foy acclamado Rey em Lisboa, 344. Alcançou -muitas vitorias contra os Castelhanos, _ibid._ Castigou os cabeças de -varias conjurações, 345. Institue muitos Tribunaes, _ibid._ Tomou em -acto de Cortes por Protectora do Reino a Maria Santissima da Conceiçaõ, -_ibid._ Filhos que teve, 413. Sua morte, e sepultura, 346. - -_D. Joaõ V._ Rey de Portugal _Fidelissimo_, quando nasceo, 350. Em que -dia foy acclamado Rey, _ibid._ Celebra pazes com Castella, _ibid._ Com -quem casou, 351. Erigio em Basilica Patriarcal a sua Real Capella, 352. -Mandou hum grande soccorro a favor da Igreja contra o Turco, _ibid._ -Instituio a Academia Real da Historia Portugueza, 353. Erigio varios -Bispados de novo, _ibid._ Templos, e edificios que fabricou, 354. -Obteve do Papa Benedicto XIV. o indulto de poderem os Sacerdotes dos -seus Dominios celebrar cada hum tres Missas no dia da Commemoraçaõ dos -Fieis defuntos, 355. Filhos que teve, 419. Morte, e sepultura, 355. - -_D. Joseph I._ Rey de Portugal _Fidelissimo_, quando nasceo, 357. -Quando foy acclamado Rey, 356. Quando, e com quem casou, 357. Leys -que tem promulgado, _ibid._ Restaura o exercicio das letras com -melhores methodos, extinguindo o magisterio aos Jesuitas, _ibid._ No -extraordinario terremoto de Lisboa, se houve magnanimamente, 358. -Escapou milagrosamente de tres tiros com que o queriaõ matar, 358. Faz -justiçar os delinquentes no Caes de Belém, _ibid._ Resiste às Tropas -Castelhanas que injustamente invadiraõ Portugal _ibid._ Admitte para -Generalissimo das suas Armas ao Conde Soberano de Lippe Guilherme de -Schaumburg, 359. Filhos que tem, 420. - -_Julio Cesar_ veyo à conquista de Portugal, 242. - - -=L= - -_Lacobriga_ povoaçaõ antiga onde hoje he Lagos, 21. - -_Lagos_, seu porto, 36. - -_Lagoas_ mais notaveis que ha no Reino, 81. - -_Lamego_, antigamente _Lama_, 29. - -_Legoas_ que tem Portugal de comprido, e de largo, 2. - -_Leiria_, antigamente _Collipo_, 28. - -_Lingua Portugueza._ A primeira que se fallou em Portugal foy a dos -Turdulos que Tubal communicou, 193. Muitos se capacitaõ que fora a -Hebraica, outros a Vasconça, ou Biscainha, _ibid._ Conforme foraõ as -Nações que dominaraõ em Portugal, assim foy a lingua que se fallou, -194. Pela entrada dos Godos entrou tambem neste Reino a lingua -Portugueza, _ibid._ He misturada com vocabulos de outros idiomas, 196. -No tempo delRey D. Diniz começou a adquirir mayor perfeiçaõ, _ibid._ -Participa de todas as circunstancias para ser perfeita, _ibid. & seq._ - -_Lisboa_, antigamente _Olisipo_, ou _Fælicitas Julia_, 29. Descreve-se -a sua barra, 32. Todos os seus portos pelo Tejo, 33. - - -=M= - -_Magneto_, Cidade antiga, 22. - -_D. Manoel_ Rey de Portugal, chamado _Venturoso_, quando nasceo, 327. -Quando foy coroado, 328. Embaixadas que mandou ao Papa Alexandre VI. -_ibid._ E a Leaõ X. 330. Expulsou fora do Reino aos Judeos, _ibid._ Com -quem casou, _ibid._ Accrescentou ao seu Imperio muitas terras da India, -que no seu tempo se descobriraõ, 329. Libertou o Estado Ecclesiastico -de muitos tributos, _ibid._ Foy jurado Rey de Castella, _ibid._ Templos -que fundou, _ibid._ Filhos que teve, 403. Sua morte, e sepultura, 330. - -_Mappa_ do que comprehendem as seis Provincias de Portugal, 80. - -_Marco_ de ouro, e prata que valor tem tido em todos os Reinados, 192. - -_Merobriga_, povoaçaõ antiga, 22. - -_Mertola_ onde existe, 38. - -_Mestre-Sala_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 428. - -_Mineraes_ que ha no Reino, 169. - -_Minho._ Descreve-se esta Provincia, 45. - -_Miranda do Douro_, antigamente _Concia_ 28. Seu sitio, 41. - -_Moedas_ de varios metaes que se tem lavrado em Portugal, 177. - -_Mondego_, sua barra, 31. - -_Monsanto_, 39. - -_Montes_ que ha no Reino, 81. - -_Monteiro Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 438. - -_Mordomo Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 421. - -_Morte_ dos Reys como se publicava, 446. - -_Moura_, antigamente _Arucitana_, 28. - -_Mouros_, quando invadiraõ a Portugal, 269. - -_Mulheres Portuguezas_, seu valor, 238. - -_Municipios_ o que eraõ, e quantos havia em Portugal, 44. - - -=N= - -_Nabancia_, povoaçaõ antiga junto a Thomar, 23. - -_Nomes Latinos_ de algumas povoações de Portugal, 28. - -_Norba Cesarea_, onde existio, 23. - -_Numancia_, onde existio esta famosa Cidade, 23. - -_D. Nuno Alvares Pereira_ Condestavel de Portugal. Suas proezas, 315. - - -=O= - -_Obidos_, sua grande lagoa, 133. - -_Obobriga_, povoaçaõ antiga, 24. - -_Octaviano Augusto_ conciliou a paz em Portugal, 262. - -_Odemira_, sua barra, 36. - -_Ordens Militares_ que instituio ElRey D. Affonso, 292. - -_Ossel_, onde existio, 24. - -_Ossonoba_, foy povoaçaõ antiga no Algarve, 25. - -_Ourique_, celebre campo do Alentejo onde ElRey D. Affonso Henriques -alcançou huma grande vitoria contra os Mouros, 288. - - -=P= - -_Panonias_, onde existio esta antiga povoaçaõ, 26. - -_Pederneira_, sua enseada, 32. - -_Pedras preciosas_, que se achaõ em muitas terras de Portugal, 172. - -_D. Pedro I._ Rey de Portugal, chamado _Justiceiro_, quando nasceo, -308. Quando foy acclamado, _ibid._ Vingança que tomou dos que mataraõ -Dona Ignez de Castro, _ibid._ Demonstraçaõ publica que fez de ser Dona -Ignez sua legitima mulher, 309. Caracter deste Rey, _ibid._ Filhos que -teve, 390. Sua morte, e sepultura, 309. - -_D. Pedro II._ Rey de Portugal, chamado _Pacifico_, quando nasceo, 348. -Quando se intitulou Rey, _ibid._ Seus casamentos, _ibid._ Seu caracter, -349. Bispados que de novo erigio, _ibid._ Entrou na grande alliança com -o Imperador, Inglaterra, e Hollanda, _ibid._ Rompe guerra com Castella -para onde foy em pessoa por introduzir Carlos III. Rey de Hespanha, -_ibid._ Filhos que teve, 415. Sua morte, e sepultura, 350. - -_Peixe_, abundancia delle que ha em Portugal, 168. - -_Penagarcia_, Seu Castello, 39. - -_Penamacor_, seu Castello, 39. - -_Pertendentes_ de Portugal quaes foraõ depois do Cardeal Henrique, 337. - -_Pineto_, povoaçaõ antiga, 26. - -_Portalegre_, antigamente _Amæa_, 28. - -_Porto_, antigamente _Calem_, 28. Sua barra, 31. - -_Portos_ que ha no Tejo, 34. - -_Portuguezes_, seu genio, e costumes, 201. Attributos proprios, 218. - -_Povoadores_ primeiros de Portugal, 225. - -_Pretores Romanos_ no governo de Portugal, 241. - -_Provincias_ antigas, e modernas de Portugal, 43. - -_Punhete_, antigamente _Moro_, 29. - - -=R= - -_Rainhas_ de Portugal, 362. & seq. - -_Reys_ das Austurias que governaraõ Portugal, 273. - -_Reposteiro Mór_, sua dignidade, 426. - -_Rios._ Do Minho, 48. De Tras os Montes, 56. Da Beira, 60. Da -Estremadura, 68. Do Alentejo, 73. Do Algarve, 78. Dos mais notaveis que -ha no Reino, 99. _& seq._ - -_D. Rodrigo_ ultimo Rey Godo, sua ruina, 259. - -_Romanos_, quando invadiraõ, e se senhorearaõ de Portugal, 241. - -_Rosmaninhal_, sua Praça, 38. - - -=S= - -_Sabugal_, seu Castello, 40. - -_Sagres_, sua enseada, 36. - -_Sal_, abundancia della que ha em Portugal, 176. - -_Salacia_, onde existio esta povoaçaõ, 26. - -_Salvaterra da Beira_, seu Castello, 39. - -_D. Sancho I._ Rey de Portugal, chamado _Povoador_, quando nasceo, 293. -Com quem casou, _ibid._ Acções que obrou antes de Rey, 294. Quando foy -acclamado, _ibid._ Conquistou o Algarve, _ibid._ Templos, e edificios -que erigio, 295. Filhos que teve, 379. Sua morte, e sepultura, 295. - -_D. Sancho II._ Rey de Portugal, chamado _Capelo_, quando nasceo, 298. -Quando entrou a governar, _ibid._ Recuperou muitas Praças do Alentejo -que os Mouros nos tinhaõ usurpado, _ibid._ Opprimio muito o Estado -Ecclesiastico, por cujo motivo Innocencio IV. o depoz do governo, -_ibid._ Substituio-lhe seu irmaõ D. Affonso, 299. Recolheo-se a Toledo -onde morreo, _ibid._ - -_Santarem_, antigamente _Scalabis_, ou _Præsidium Julium_, 29. - -_Santiago de Cacem_, antigamente _Merobriga_, 29. - -_D. Sebastiaõ_ Rey de Portugal, chamado o _Desejado_, quando nasceo, -333. Quando tomou posse do Reino, _ibid._ Seu caracter, _ibid._ Passou -a Africa a primeira vez, 334. Foy segunda vez soccorrer a Hamet, -onde ficou destruido, e todo o seu exercito, 335. Jaz seu corpo com -incerteza no Convento de Belém, _ibid._ - -_Secca_ extraordinaria que houve na Hespanha, 235. - -_Serras_ que ha no Reino, 81. - -_Setubal_, antigamente _Cetobriga_, 28. Sua barra, 36. Foy fundada por -Tubal, 224. - -_Sines_, seu surgidouro, 36. - -_Suevos_, Catalogo dos seus Reys que governaraõ Portugal, 261. - - -=T= - -_Talabrica_, foy povoaçaõ onde hoje he Aveiro, 27. - -_Tapada_ de Mafra, e Villa Viçosa, 441. - -_Tavira_, antigamente chamada _Balsa_, 28. Sua barra, 37. - -_Templos_ que os Portuguezes erigiraõ ao Imperador Octaviano Augusto, -253. - -_Trage Portuguez_, 210. - -_Tras os Montes._ Descreve-se esta Provincia, 55. - -_Trigo_ que ha em Portugal, 160. - -_Trinchante_, sua dignidade, 428. - -_Tubal_, seus descendentes foraõ os primeiros povoadores de Portugal, -222. - -_Tubuci_, povoaçaõ antiga, 27. - -_Tuntobriga_, onde existio esta povoaçaõ, 27. - - -=U= - -_Vaca_, povoçaõ antiga, 27. - -_Valença_, fronteira a Cidade de Tuy, 41. - -_Uchaõ_, que occupaçaõ era na Casa Real, 429. - -_Veador da Casa_, sua dignidade, 426. - -_Viana de Caminha_, descreve-se a sua barra, 30. ----_Do Conde_, sua -barra, _ibid._ - -_Villas_ de que consta a Provincia do Minho, 52. A de Tras os Montes, -56. A da Beira, 63. A da Estremadura, 71. A do Alentejo, 75. A do -Algarve, 79. - -_Vinho_ que ha em Portugal, 162. - -_Viola_, instrumento proprio dos Portuguezes, 217. - - - =FIM.= - - [Illustração] - - - - - =LICENÇAS= - - - Do Santo Officio. - -Pódem-se reimprimir os cinco Tomos, de que se faz menção, e depois -voltaráõ conferidos para se dar licença que corraõ, sem a qual naõ -correraõ. Lisboa, 23 de Abril de 1762. - -_Trigoso._ _Lima._ - - -Do Ordinario. - -Póde-se reimprimir os Tomos de que trata a petiçaõ, e depois tornem -para se dar licença para correr. Lisboa, 23 de Abril de 1762. - -_D. J. Arceb. Lacedemonia._ - - -Do Desembargo do Paço. - -Que se possaõ reimprimir, e depois de impressos tornaraõ conferidos -para as licenças de correr. Lisboa, 24 de Abril de 1762. - -_Carvalho._ _Emaús._ _D. Velho._ _Affonseca._ - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E -MODERNO, TOMO 1 (OF 3) *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg™ electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg™ License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you will have to check the laws of the country where - you are located before using this eBook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase “Project -Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg™ License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format -other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg™ website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain -Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works -provided that: - -• You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation.” - -• You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ - works. - -• You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -• You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg™ works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right -of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you “AS-IS”, WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ - -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™'s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation's website -and official page at www.gutenberg.org/contact - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without -widespread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/69878-0.zip b/old/69878-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 5deed2a..0000000 --- a/old/69878-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h.zip b/old/69878-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index dcbe680..0000000 --- a/old/69878-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/69878-h.htm b/old/69878-h/69878-h.htm deleted file mode 100644 index f971bba..0000000 --- a/old/69878-h/69878-h.htm +++ /dev/null @@ -1,21330 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> -<head> - <meta charset="UTF-8"> - <title> - Mappa de Portugal, by Joao Bautista de Castro—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="icon" href="images/cover.jpg" type="image/x-cover"> - <style> /* <![CDATA[ */ - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -img.drop-cap -{ - float: left; - margin: 0 0.5em 0 0; -} - -.top {vertical-align: top;} - -p.drop-cap:first-letter -{ - color: transparent; - visibility: hidden; - margin-left: -0.9em; -} - -.x-ebookmaker img.drop-cap -{ - display: none; -} - -.x-ebookmaker p.drop-cap:first-letter -{ - color: inherit; - visibility: visible; - margin-left: 0; -} - -.upper-case -{ - text-transform: uppercase; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent: 1em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%; margin-left: 27.5%; margin-right: 27.5%;} -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media print { hr.chap {display: none; visibility: hidden;} } - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} -table.autotable { border-collapse: collapse; width: 80%;} -table.autotable td, -table.autotable th { padding: 4px; } -.x-ebookmaker table {width: 95%;} - -.tdl {text-align: left;} -.tdr {text-align: right; vertical-align: top;} -.tdc {text-align: center;} -.page {width: 5em; vertical-align: top;} - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; - font-weight: normal; - font-variant: normal; - text-indent: 0; -} - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 5%; -} - -.bb {border-bottom: 2px solid;} - -.bt {border-top: 2px solid;} -.center {text-align: center; text-indent: 0em;} - -.caption {font-weight: bold;} - -/* Images */ - -img { - max-width: 100%; - height: auto; -} -img.w75 {width: 75%;} -.x-ebookmaker .w75 {width: 95%;} -.w50 {width: 50%;} -.x-ebookmaker .w50 {width: 75%;} -img.w25 {width: 25%;} -.x-ebookmaker .w25 {width: 35%;} -.w10 {width: 10%;} -.x-ebookmaker .w10 {width: 13%;} - -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; - page-break-inside: avoid; - max-width: 100%; -} - -/* Footnotes */ -.footnotes {border: 1px dashed; margin-top: 1em;} - -.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} - -.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: - none; -} - -/* Poetry */ -.poetry {text-align: left; margin-left: 30%; margin-right: 5%; text-indent: 0em;} -/* uncomment the next line for centered poetry in browsers */ -/* .poetry {display: inline-block;} */ -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media print { .poetry {display: block;} } -.x-ebookmaker .poetry {display: block; margin-left: 5%} - -.xbig {font-size: 2em;} -.big {font-size: 1.2em;} -.small {font-size: 0.8em;} - - - /* ]]> */ </style> -</head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3)</span>, by João Bautista de Castro</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3)</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>Parte I, II</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: João Bautista de Castro</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: January 25, 2023 [eBook #69878]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E MODERNO, TOMO 1 (OF 3)</span> ***</div> - - - -<h1>MAPPA<br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL</span></h1> - -<p class="center">ANTIGO, E MODERNO</p> - -<p class="center small">PELO PADRE</p> - -<p class="center big">JOAÕ BAUTISTA</p> - -<p class="center">DE CASTRO,</p> - -<p class="center small">Beneficiado na Santa Basilica Patriarcal de Lisboa.</p> - -<p class="center big">TOMO PRIMEIRO.</p> - -<p class="center">PARTE I. E II.</p> - -<p class="center"><i>Nesta segunda ediçaõ revisto, e augmentado pelo seu mesmo Author: e -contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que -toca à sua Historia Secular, e Politica.</i></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> -<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa"> -</span></p> -<p class="center p2 big">LISBOA,</p> - -<p class="center">Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.</p> -<hr class="r5"> -<p class="center small">M.DCC.LXII.</p> - -<p class="center small"><i>Com as licenças necessarias, e Privilegio Real.</i><span class="pagenum" id="Page_ii">[Pg ii]</span></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002"> -<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Imagem decorativa"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO_A_OBRA">INTRODUCÇAÕ Á OBRA.</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Entrey</span> na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos -Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com -individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso -Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros, -e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem -conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal.</p> - -<p>Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma -exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico -das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este -meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter -cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos, -cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor<span class="pagenum" id="Page_iii">[Pg iii]</span> costuma supprir os -defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo -mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ -dos curiosos.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a></p> - -<p>Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de -exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos -retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me -pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa.</p> - -<p>Com razaõ disse Justo Lipsio<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> que o invento dos Mappas fora a mais -engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a -huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e -grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ -aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro -Siculo<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> discipulo -de Thales Milesio.</p> - -<p>Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle -tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas, -mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a -altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas -Theodosianas.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> Depois se foraõ<span class="pagenum" id="Page_iv">[Pg iv]</span> expressando em globos, ou esferas, de -que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> e de Roma se divulgou este uso para -todas as mais terras do Universo.</p> - -<p>Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos, -que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa -pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre -expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ -Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo -chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à -esquerda o Occidente.</p> - -<p>Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que -significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico -de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A -linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando -a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em -todos os Mappas.</p> - -<p>As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de -longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os -gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de -huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para -o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes -huma<span class="pagenum" id="Page_v">[Pg v]</span> da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha -Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da -Equinocial para o Sul.</p> - -<p>Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse -pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou -Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto -mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da -Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que -as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar -entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de -cada num dos Tropicos.</p> - -<p>O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o -que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> E foy -necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está -arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar -no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude, -mas o de Leste-Oeste, ou de longitude.</p> - -<p>Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos -globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos -se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta -a largura, ou latitude do mundo; e contém<span class="pagenum" id="Page_vi">[Pg vi]</span> sómente a quarta parte do -comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de -Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha -para o Sul.</p> - -<p>Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18. -leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum -gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas, -diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante -até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de -altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay -levantando para nós o Polo sobre o Horizonte.</p> - -<p>Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente -para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito -do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles, -de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e -fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém -modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental -das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p> - -<p>Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento -dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte, -Ptolomeu, e outros companheiros<span class="pagenum" id="Page_vii">[Pg vii]</span> desejosos de alcançar quantos gráos -huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ -succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da -noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo -quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles -lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ -mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais -occidentaes.</p> - -<p>Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a -respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia -acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em -todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim -advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos -gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano -poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta -observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas -Geograficas de varios Authores.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_viii">[Pg viii]</span></p> - -<p class="center caption"><i>Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de -Portugal.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th class="tdr">Latitud.</th><th class="tdr">Longit.</th><th class="tdr">Carta Geografica de</th></tr> -<tr><td class="tdr">gr. m.</td><td class="tdr">gr. m.</td><td></td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 58.</td><td class="tdr">7. 12.</td><td class="tdr">Fernando Alvares Seco.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 26.</td><td class="tdr">9. 54.</td><td class="tdr">Mons. Sanson.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 33.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Du-Val.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 53.</td><td class="tdr">10. 5.</td><td class="tdr">Pedro Mortier.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 55.</td><td class="tdr">5. 15.</td><td class="tdr">Francisco Halma.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">7. 45.</td><td class="tdr">Carlos Allard.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">10. 14.</td><td class="tdr">Joaõ de Ram.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">7. 42.</td><td class="tdr">Nicoláo Vischer.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 35.</td><td class="tdr">7. 37.</td><td class="tdr">P. Placido Agostinho.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">12.      </td><td class="tdr"> Joaõ Bautista Lavanha.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 35.</td><td class="tdr">9. 52.</td><td class="tdr">Joaõ Bautista Nolim.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">8. 6.</td><td class="tdr">Mons. Tailot.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 50.</td><td class="tdr">9. 45.</td><td class="tdr">Jacome Canteli.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">12.      </td><td class="tdr"> Gaspar Baillieu.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">9. 12.</td><td class="tdr">Joaõ Bautista Homannu.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">7.      </td><td class="tdr"> Pedro Teixeira.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">9. 15.</td><td class="tdr">Manoel Pimentel.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 45.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Capassi.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 39.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Dechales.</td></tr> -<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Ricciolo, e Tosca.</td></tr> -<tr><td class="tdr">39. 38.</td><td class="tdr">5. 10.</td><td class="tdr">Petavio.</td></tr> -</table> - -<p>Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença -nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da -Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que -mais se ajusta às<span class="pagenum" id="Page_ix">[Pg ix]</span> computações da Arte de navegar do nosso insigne -Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas.</p> - -<p>Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar, -segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a -respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na -mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras -que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se -poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que -está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro -quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce, -e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas -do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra, -e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor -altura do Polo.</p> - -<p>Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque -se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao -Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será -alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor -visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos -dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais -saõ iguaes os dias com as noites.</p> - -<p>Finalmente do conhecimento do gráo de<span class="pagenum" id="Page_x">[Pg x]</span> longitude, e latitude juntamente -resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está -em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util -saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias -accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me -foy possivel extrahir dos Authores.</p> - -<table class="autotable"> -<tr><td class="tdl"><i>Braça Portugueza.</i></td><td class="tdl">10. palmos de craveira, ou 6. -pés, ou 80. polegadas.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Covado Portuguez.</i></td><td class="tdl">3. palmos, ou 2. pés Portuguezes</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Dedo.</i></td><td class="tdl">4. grãos de cevada lateralmente -unidos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Gráo em Portugal.</i></td><td class="tdl">18. leguas.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Em Alemanha</i></td><td class="tdl">10. leguas das grandes: 12. das -medianas: 15. das pequenas, -conforme diz Briecio; porém -segundo Cluverio em Alemanha -hum gráo da Esfera corresponde -na terra a 5. leguas das -grandes, ou a 10. das medianas, -ou a 15. das pequenas.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Em Italia.</i></td><td class="tdl">60. milhas.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Em França.</i></td><td class="tdl">20. leguas das grandes, e 25. -das commuas.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Em Inglaterra.</i></td><td class="tdl">27. leguas das grandes: 50. das -medianas: 60. das pequenas.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Legua Portugueza.</i></td><td class="tdl">28168. palmos craveiros, ou -2818. braças de 10. palmos<span class="pagenum" id="Page_xi">[Pg xi]</span> cada huma, ou 3000. milhas Italicas.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Alemã grande.</i></td><td class="tdl">6000. passos geometricos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Mediana.</i></td><td class="tdl">5000. passos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Pequena.</i> </td><td class="tdl">4000. passos, segundo Briecio.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Italica.</i> </td><td class="tdl">1000. passos.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Franceza.</i> </td><td class="tdl">3000. passos.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Ingleza.</i> </td><td class="tdl">2181. passos geometricos.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Castelhana.</i> </td><td class="tdl">O mesmo que a Portugueza.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Milha.</i> </td><td class="tdl">1000. passos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Palmo craveiro</i> </td><td class="tdl">8. polegadas.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Passo commum</i> </td><td class="tdl">4. palmos e meyo, ou 3. pés.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Andante.</i> </td><td class="tdl">3. palmos, ou dous pés.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Geometrico</i></td><td class="tdl">7. palmos e meyo de craveira escassos, ou 5. pés geometricos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Pé Portuguez.</i></td><td class="tdl">12. polegadas, ou palmo e meyo de craveira.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Francez.</i> </td><td class="tdl">O mesmo.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Polegada.</i> </td><td class="tdl">10. pontos, ou linhas.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Toeza.</i></td><td class="tdl">6. pés Regios. He propriamente medida Franceza.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Vara Portugueza.</i></td><td class="tdl">5. palmos.</td></tr> -<tr><td class="tdl">—<i>Valenciana.</i> </td><td class="tdl">4. palmos.</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Verga.</i> </td><td class="tdl">10. pés geometricos.</td></tr> -</table> - -<p>Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes, -facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem<span class="pagenum" id="Page_xii">[Pg xii]</span> de hum -Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou -Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que -ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé -do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma -vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra -terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou -escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta, -este lhe mostrará a distancia.</p> - -<p>Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do -compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma -distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao -corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até -fazer justa a mediçaõ.</p> - -<p>Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas -as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a -Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo -quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e -longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de -navegar do famoso Manoel Pimentel.</p> - -<p>Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas, -e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as -distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ -tiradas por linha<span class="pagenum" id="Page_xiii">[Pg xiii]</span> recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de -Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse.</p> - -<p>No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos -outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos -me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as -suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo -protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja -totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo -infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003"> -<img src="images/003.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa"> -</span></p> - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Veja-se ao P. Azeved. no Trat. <i>Ilias in nuce</i> pag. -52.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Lips. lib. 2. epist. 51.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Diod. Sicul. l. 1. sect .2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Laertius in ejus vita.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph. -antiq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Ptolom. lib. 1. c. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3.</p> -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_xiv">[Pg xiv]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="INDICE"><span class="big">INDICE</span><br>DOS CAPITULOS DESTE<br><span class="small">primeiro Tomo.</span></h2> -</div> - - - - -<p class="center caption">PARTE I.</p> - - -<table class="autotable"> -<tr><td class="page"><a href="#CAPITULO_I">Cap. I.</a></td><td><i>Da situaçaõ, etymologia, e clima - deste Reino</i>, <a href="#Page_1">Pag. 1.</a></td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_II">Cap. II.</a></td><td><i>Memorias de algumas Povoações que - existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ - em outras, ou totalmente se extinguiraõ</i>, <a href="#Page_5">5</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_III">Cap. III.</a></td><td><i>Descripçaõ circular pela margem - maritima, e raya terrestre</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_IV">Cap. IV.</a></td><td><i>Divisaõ antiga</i>, <a href="#Page_42">42</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_V">Cap. V.</a></td><td><i>Divisaõ moderna pelas Provincias</i>, <a href="#Page_45">45</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_VI">Cap. VI.</a></td><td><i>Dos Montes, Promontorios, e serras - de mayor nome</i>, <a href="#Page_81">81</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_VII">Cap. VII.</a></td><td><i>Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais - consideraveis</i>, <a href="#Page_99">99</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_VIII">Cap. VIII.</a></td><td><i>Das Fontes mais notaveis</i>, <a href="#Page_148">148</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_IX">Cap. IX.</a></td><td><i>Das Caldas</i>, <a href="#Page_156">156</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_X">Cap. X.</a></td><td><i>Da Fertilidade do Reino em commum</i>, - <a href="#Page_160">160</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_XI">Cap. XI.</a></td><td><i>Dos Mineraes</i>, <a href="#Page_169">169</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_XII">Cap. XII.</a></td><td><i>Das Moedas de ouro, prata, e cobre - antigas, e modernas que se tem lavrado - em Portugal até o presente</i>, <a href="#Page_177">177</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_XIII">Cap.</a></td><td>XIII. <i>Da lingua Portugueza</i>, <a href="#Page_193">193</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#CAPITULO_XIV">Cap. XIV.</a></td><td><i>Do genio, e costumes dos Portuguezes</i>, - <a href="#Page_201">201</a>.</td></tr> -</table><p> -<span class="pagenum" id="Page_xv">[Pg xv]</span></p> - - -<p class="center caption">PARTE II.</p> - -<table class="autotable"> -<tr><td class="page"><a href="#2_CAPITULO_I">Cap. I.</a></td><td><i>Memorias dos primeiros Povoadores - da antiga Lusitania</i>, <a href="#Page_221">221</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_II">Cap. II.</a></td><td><i>Estado da Lusitania com a invasaõ - dos Fenices, e Cartaginezes</i>, <a href="#Page_236">236</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_III">Cap. III.</a></td><td><i>Conducta dos Portuguezes no governo - dos Romanos</i>, <a href="#Page_240">240</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_IV">Cap. IV.</a></td><td><i>Entrada das Nações barbaras, e dominio - dos Godos</i>, <a href="#Page_254">254</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_V">Cap. V.</a></td><td><i>Invasaõ, e dominio dos Mouros</i>, <a href="#Page_269">269</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VI">Cap. VI.</a></td><td><i>Erecção do Senhorio de Portugal separado - dos mais dominios de Hespanha, e - estabelecimento dos Soberanos Monarcas - Portuguezes</i>, <a href="#Page_281">281</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VII">Cap. VII.</a></td><td><i>Catalogo das Serenissimas Rainhas - de Portugal</i>, <a href="#Page_362">362</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VIII">Cap. VIII.</a></td><td><i>Dos filhos legitimos, e illegitimos - dos soberanos Reys de Portugal</i>, <a href="#Page_376">376</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_IX">Cap. IX.</a></td><td><i>Do governo antigo, e moderno da Casa - Real</i>, <a href="#Page_421">421</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_X">Cap. X.</a></td><td><i>Dos Officiaes, e ordem com que se assistia - à mesa dos Reys</i>, <a href="#Page_428">428</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XI">Cap. XI.</a></td><td><i>Do acompanhamento com que os Reys - sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a - Corte,</i> <a href="#Page_433">433</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XII">Cap. XII.</a></td><td><i>Dos Officiaes destinados para a caça, - e montaria, e das Coutadas do Reino,</i> <a href="#Page_437">437</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XIII">Cap. XIII.</a></td><td><i>Do estylo com que os Principes, e - Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos - pelos nossos Reys, e do modo com que estes - assistem no acto de Cortes</i>, <a href="#Page_442">442</a>.</td></tr> -<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XIV">Cap. XIV.</a></td><td><i>Das ceremonias, e estylo que se praticava - nas mortes dos Reys</i>, <a href="#Page_446">446</a>. -</table> -<p> -<span class="pagenum" id="Page_xvi">[Pg xvi]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004"> -<img src="images/004.jpg" class="w75" alt="Reyno de Portugal"> -</span></p> -<p class="center caption">Reyno de Portugal<br></p> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005"> -<img src="images/005.jpg" class="w25" alt="Imagem decorativa"> -</span></p> -<p class="center"><span class="big">MAPPA</span><br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL.</span></p> - - - -<hr class="tb"> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_I">CAPITULO I.<br><span class="small"> -<i>Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino.</i></span></h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Na</span> parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha, -sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado -Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo -de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13 -gráos de longitude,<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> cuja distancia intermedia reduzida a leguas, -commensuradas pela margem<span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span> maritima, vem a fazer 100 no seu justo -comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285 -leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as -150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a></p> - -<p>2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada -gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de -latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.</p> - -<p>3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao -Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar -Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ, -e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.</p> - -<p>4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de <i>Lusitania</i>, -querendo os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, -filho de Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe -conferisse o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> -Porém este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as -contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.</p> - -<p>5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> a palavra -<i>Lusitania</i> he vocabulo Fenicio, derivado da raiz <i>Luz</i>, que -se interpreta <i>Amydgdalum</i>, isto he, <i>Amendoa</i>, dos quaes -frutos foy sempre fertil Portugal:<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> e como os Fenices costumavaõ -dar nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ -mais abundantes,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> naõ parecia improvavel, nem incongruente esta -conjectura, por ser estabelecida em<span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span> historia verdadeira, se acaso naõ -tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa -do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas -Celtica.</p> - -<p>6 Mons. de La Clede<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> tem por etymologia mais certa deduzir a palavra -<i>Lusitania</i> dos antigos povos chamados <i>Lusos</i>, que habitaraõ -este nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de -alta, e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço -dos antigos Portuguezes.</p> - -<p>7 Quanto ao nome de <i>Portugal</i>, por naõ darmos derivaçaõ antiga a -hum vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ -chamada <i>Cale</i>, que antigamente houve na margem austral do rio -Douro, fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia -das gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com -o progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se -fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o -anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem -outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era -proprio de huma só Cidade.<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a></p> - -<p>8 Naõ averiguamos se a palavra <i>Cale</i>, como quer Joaõ Salgado de -Araujo,<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a -estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz -do Douro com o nome de <i>Cale</i>, que significa <i>Porto ameno, e -seguro</i>; porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que -esta memoria se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas<span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span> as mais -etymologias, como improvaveis, e nugatorias.</p> - -<p>9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por -isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço -de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas -Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz -confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Com esta favoravel -temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz -aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem -patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do -mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui -vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem -com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.</p> - -<p>10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo -em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores -antigos:<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he -porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com -a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas, -e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades -sufficientes.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Geograf. Blavian.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor. -de Hesp. c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc. -Lusit. p. 1. lib. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Hoffm. Diccion. verb. <i>Lusit.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49. -Argot. Antig. de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c. -92. n. 2. Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de -Portug. t. 1. pag. 188.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel. -ad ann. 1331. num. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175.</p> - -</div></div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_II">CAPITULO II.<br><span class="small"><i>Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes -ou se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ.</i></span></h2> -</div> - -<p>1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> dá o titulo de sagrada, -he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com -o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra -que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue -para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que -a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas -memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ -em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for -possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares -notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os -Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ.</p> - -<p>2 <i>Aguas Celenas</i>, <i>Cilinas</i>, ou <i>Celanas</i>. Era -povoaçaõ, que esteve na Provincia do Minho. Lembraõ-se della -Ptolomeu,<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> e Antonino em seu Itinerario no segundo caminho de -Braga para Astorga. Dos Geografos modernos querem huns<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> que fosse -onde está hoje o Lugar de <i>Faõ</i>, meya legua acima da barra do -rio Cávado da parte do Sul, e onde se celebrou o famoso Concilio -contra os Priscilianistas,<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> em que presidio S. Toribio em tempo de S. -Leaõ Papa. Outros porém<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a> o constituem em Barcellos, persuadidos -da semelhança do vocabulo do rio <i>Celano</i>, que por alli passa, -chamado hoje <i>Cávado</i>; porém estas conjecturas saõ muy falliveis -para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo o sitio -que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao Padraõ, -como bem explica o Padre Mestre Flores na <i>Espanha sagrada tom. 15. -pag. 75</i>.</p> - -<p>3 <i>Aguas Flavias.</i> Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta -terra, que era onde vemos hoje a Villa de <i>Chaves</i>.<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> Dizem -que tomou este nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador -Flavio Vespasiano, a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy -colonia dos Romanos muy frequentada, e ennobrecida por elles, como -larga, e eruditamente mostra o insigne indagador de antiguidades<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> -Lusitanicas, o Reverendo D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem -o Padre Mestre Flores allegado.</p> - -<p>4 <i>Aguas Layas</i>, ou <i>Leenas</i>. Na Carta Geografica de -Abrahaõ Ortelio achamos demarcado este lugar com o nome de <i>Aquæ -Leæ Turudorum</i> quasi em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude. -Alguns<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> querem que estivessem entre as Villas de <i>Monçaõ</i>, e -<i>Valladares</i>: o que naõ póde ser pela arrumaçaõ daquelle insigne -Geografo. Nosso famoso Argote persuade-se com razaõ<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> que esta era -a Cidade de <i>Lais</i>, capital dos povos Turolicos, e que existira, -onde hoje chamaõ a Freguezia de S. Martinho de <i>Lanhozo</i>, termo da -Villa de Caminha.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p> - -<p>5 <i>Ambracia.</i> O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> diz que -esta Cidade estivera no sitio de <i>Barcellos</i>, a qual foy fundaçaõ -dos Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> que diz que -a <i>Ambracia</i> em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto, -estava em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio -Lusitano, seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> porque diz -que he Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no <i>liv. 1. -dos Successos militares pag. 5. v.</i> diz que Ambracia estivera em -Grecia, onde hoje chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no <i>Diccionario -Geografico</i> com Cellario na <i>Geografia antiga l. 2. c. 13. §. -177.</i></p> - -<p>6 <i>Araduca.</i> Convem alguns dos Geografos<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> que estivesse esta -Cidade collocada onde hoje vemos a nobre Villa de <i>Guimarães</i>. E -seguindo esta opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de -Guimarães, diz:<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Na aldeya d’ Araduca celebrada</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Pela rara belleza das pastoras.</i></span><br> -</p> - -<p>O mesmo diz Filippe de la Gandara nas <i>Armas, e Triunfos de Galiza -cap. 17. num. 3.</i> Porém Gaspar Estaço<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> segue o contrario, e o -intenta provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 -gráos, e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia -muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8 -leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> diz que o que antigamente foy -<i>Araduca</i>, he hoje <i>Amarante</i>:<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span> e já houve quem disse que era -<i>Aljubarrota</i>. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a -antiga Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao -Padre Mestre Flores, Author moderno, <i>tom. 15. da España sagrada pag. -286</i>.</p> - -<p>7 <i>Araducta.</i> Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio, -parece ser a <i>Arouca</i>, que hoje existe.</p> - -<p>8 <i>Aravor.</i> O Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a> quer que fosse -esta huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo -sitio está hoje a Villa de <i>Marialva</i>; porém esta noticia só neste -Author a achámos.</p> - -<p>9 <i>Aricio Pretorio</i>, ou <i>Ayre</i>. Desta povoaçaõ se faz memoria -no Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa -para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> que existia -nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr. -Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades, -que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino. -Gaspar Barreirros tem para si<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> que distava huma legua de Coruche, -onde agora está a Villa de <i>Erra</i>; porém Jorge Cardoso<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a> diz -que estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde -chamaõ <i>Alvéga</i>, porque neste sitio ha vestigios antigos, que -assim o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada -<i>Aricio</i> entre a Feira, e Arouca; e na altura de <i>Benavente</i>, -ou <i>Salvaterra</i> se vê <i>Aritium Prætorium</i>, em que parece -convir com Resende.</p> - -<p>10 <i>Aroche.</i> Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas -ruinas se levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como -eruditamente provaõ<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> Fr. Manoel de Sá,<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a> e Resende com alguns cippos -alli descobertos.</p> - -<p>11 <i>Aunona.</i> O Doutor D. Joaõ Ferreras<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a> persuade-se que esta -Cidade estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém -nosso Argote<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a> naõ he desta opiniaõ.</p> - -<p>12 <i>Auranca.</i> Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9 -leguas de Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10. -c. 18., e Jorge Cardoso no Agiologio.<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a></p> - -<p>13 <i>Balsa.</i> Tem para si o famoso antiquario Resende<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a> que -estivera esta Cidade no Algarve, onde agora reside <i>Tavira</i>; -mas, segundo Ptolomeu, e Ortelio, parece ser <i>Castro-marim</i>. -Todavia Christovaõ Cellario segue a conjectura de Resende;<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a> e Gaspar -Barreiros em hum manuscrito diz que he a aldea chamada <i>Simine</i>. -Porém ou Balsa seja Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo -de Beja na horta chamada do Bacello, naõ longe de <i>Baleizam</i>, -achou no anno de 1742 o incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira -Religioso Dominico, grande imitador de Resende no descobrimento das -antiguidades do nosso Reino, hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio -Saturnino habitador de Balsa erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem -no <i>2. tom.</i> do <i>Diccionario Geografico</i> do P. Cardoso <i>a -pag. 23.</i> e na Gazeta de 20 de Setembro de 1742. Donde sem muita -violencia se póde conjecturar pela semelhança do nome, que Balsa -estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta antigualha; -a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso Fr. -Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta -Provincia, de que tem junto grosso cabedal.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p> - -<p>14 <i>Benis.</i> Por algumas congruencias parece ao laborioso D. -Jeronymo Contador de Argote<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a> que era esta huma Cidade Episcopal -existente perto da Villa de Caminha.</p> - -<p>15 <i>Beselga.</i> Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio -esta povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar -pobre, e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda -conserva o appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ -<i>Monte da Cividade</i>. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes -contornos, de que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade -Cardoso.<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a> Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he <i>Agueda</i>, -huma legua de Thomar.</p> - -<p>16 <i>Britonia.</i> Grande controversia ha entre os Geografos sobre a -verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima -em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos -dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que -ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de -que os despersuade Jorge Cardoso.<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a> Muitos dos nossos insistem,<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a> -em que esta Cidade estivera no sitio de <i>Britiandos</i>, Abbadia de -Ponte de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar -da Freguezia de S. Martinho de <i>Birtello</i>, termo da Villa da Ponte -da Barca.<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a> Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem -em que existio junto do rio Lima,<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a> fundando-se em mais provaveis -documentos.</p> - -<p>17 <i>Calantia.</i> Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo, -e no mesmo terreno de <i>Arrayolos</i>,<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> dando-lhe por fundadores os -Celtas.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p> - -<p>18 <i>Caldelas.</i> Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe -hum Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a> -houvera alli antigamente a Cidade <i>Caldede</i>. E junto da Ermida de -S. Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores, -que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do -sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de -pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus -moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre, -das quaes confessa Jorge Cardoso<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a> conservava huma com a effigie de -Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.</p> - -<p>19 <i>Caliabria.</i> Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio -na Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que -dista huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, -a cujo sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ -<i>Calabre</i>. As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua -grandeza, como bem diz a <i>Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24.</i></p> - -<p>20 <i>Cambeto.</i> O doutissimo Padre Argote intenta mostrar<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a> -que esta Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de -<i>Cambezes</i> no Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da -antiga Lusitania, composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o -nome de <i>Cambetum Lubenorum</i> na altura de 41 gráos de latitude, e -13 de longitude, que deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que -do Minho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p> - -<p>21 <i>Campos Elysios.</i> Anda introduzida nas Historias de Hespanha -a antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso -temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura -o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade -com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a> -collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova, -e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a> querem huns -que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na -Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados <i>Lysirias</i>, -como se dissessemos <i>Elysirios</i> ou <i>Elysirias</i>; porém o certo -he que naõ estiveraõ em parte alguma de Hespanha.</p> - -<p>22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo -o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ -as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas. -O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a> o qual -introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do -clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel -conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia, -que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p> - -<p>23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a> que os Gregos, -offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ -a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros -vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo -Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais -Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a> -que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece -significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque -conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a> comprova -o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra -cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.</p> - -<p>24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece -celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel -expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente -assegura<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o -quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos -Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso, -que a nossa vulgata chama do <i>Deleite</i>, substituindo assim a voz -<i>Eden</i>, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span></p> - -<p>25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos -Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a> a quem seguiraõ os mais, -que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso -sagrado, de que faz memoria Moysés.<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> A causa porém, que commoveo -ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por -seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso -distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem, -conforme allega Moysés Barcepha,<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a> e Malvenda.<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> Com esta breve -demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos -inteiramente das nossas Provincias.</p> - -<p>26 <i>Canace</i>, ou <i>Canali</i>. Conforme diz Rodrigo Caro,<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a> -foy esta huma Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos -collocada na carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de -Faria escreveo ao Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que -a Cidade de <i>Canace</i> estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde -chamaõ Val de Infante, quatro leguas affastada de Evora.<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a> Hauberto -tambem a constitue junto de Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade -Basiliense, que padecera aqui martyrio.<a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a></p> - -<p>27 <i>Capara</i>. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta -Cidade junto de Evora,<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> porque, segundo a melhor conjectura, foy -Cidade habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a -poem quasi na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra -dos limites de Portugal, e como diz Argaes,<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a> pertence ao Bispado de -Placencia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p> - -<p>28 <i>Carmona.</i> O Author da Benedictina Lusitana diz,<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a> que -cinco leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas -leguas pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira -antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de <i>Carmona</i>, cujas -ruinas, e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo.</p> - -<p>29 <i>Cauca.</i> Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a> em -collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves, -e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a> e outros; porque mais me -accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a> e tambem porque vejo -no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de -latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia.</p> - -<p>30 <i>Ceciliana.</i> O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre -Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama <i>Castra Ceciliana</i>, -talvez deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns -querem que seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas, -o que naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua -de Moura. Com o mesmo nome de <i>Castra Celicis</i> vejo huma povoaçaõ -situada na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38 -gráos, e 5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e -outra quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude.</p> - -<p>31 <i>Celiobriga.</i> Foy o que agora he <i>Celorico de Basto</i>, ou -nas suas visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra -na Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias -do Arcebispado de Braga.<a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p> - -<p>32 <i>Centocellas.</i> Defende Jorge Cardoso<a id="FNanchor_78" href="#Footnote_78" class="fnanchor">[78]</a> a situaçaõ -desta Cidade junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de -<i>Belmonte</i>, onde permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima -a huma torre quadrada de obra Romana, onde diz estivera prezo este -Santo; o que tambem confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das -guerras da Provincia da Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio -da Purificaçaõ,<a id="FNanchor_79" href="#Footnote_79" class="fnanchor">[79]</a> e os incansaveis Antiquarios Argote, e Leal<a id="FNanchor_80" href="#Footnote_80" class="fnanchor">[80]</a> -mostraõ com evidencia ser erro de Cardoso.</p> - -<p>33 <i>Cinania.</i> Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,<a id="FNanchor_81" href="#Footnote_81" class="fnanchor">[81]</a> -encarecendo muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava -na Lusitania. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_82" href="#Footnote_82" class="fnanchor">[82]</a> e seu abbreviador Manoel -de Faria<a id="FNanchor_83" href="#Footnote_83" class="fnanchor">[83]</a> mostraõ que estivera fundada junto de <i>Roriz</i>. -Pertende porém Gaspar Estaço mostrar,<a id="FNanchor_84" href="#Footnote_84" class="fnanchor">[84]</a> e o Padre Henrique de Abreu -no discurso, que faz sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra -do Maraõ,<a id="FNanchor_85" href="#Footnote_85" class="fnanchor">[85]</a> onde ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela -estrada, que da Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra -está a Villa de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima -está o Lugar de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ: -aqui prova o dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso<a id="FNanchor_86" href="#Footnote_86" class="fnanchor">[86]</a> a poem na -eminencia de hum monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de -Guimarães. O Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_87" href="#Footnote_87" class="fnanchor">[87]</a> a descobrio entre -Lanhoso, e o Couto de Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas -Memorias eruditissimas de Braga<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span><a id="FNanchor_88" href="#Footnote_88" class="fnanchor">[88]</a> confessa, que he incerta a precisa -situaçaõ de Cinania.</p> - -<p>34 <i>Cetobriga.</i> Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas -se fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_89" href="#Footnote_89" class="fnanchor">[89]</a> seguindo a -Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por -Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara <i>Cethubala</i>, -ou <i>Cætum-Tubalis</i>, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo -nome com pouca mudança se deduzio <i>Setubal</i>. Porém André de -Resende,<a id="FNanchor_90" href="#Footnote_90" class="fnanchor">[90]</a> e Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva -com tenacidade a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel -he o que diz o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome: -a antiga, onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo -se dizia <i>Cetobriga</i>, e significava Cidade de muito, e grande -peixe; porque <i>Briga</i> na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer -Cidade, ou fortaleza, e <i>Cete</i> peixes grandes. Desta opiniaõ -he Gaspar Barreiros,<a id="FNanchor_91" href="#Footnote_91" class="fnanchor">[91]</a> o qual affirma, que no seu tempo havia no -sitio desta Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o -peixe, porque se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo -da agua se mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem -testifica Resende. Extincta finalmente a antiga <i>Setubal</i>, ou -<i>Cetobriga</i> na geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns -moradores dos que restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova -colonia naquelle sitio, intitulando-a da mesma fórma <i>Cetobriga</i>. -Correndo depois o tempo, se veyo a chamar <i>Cetobala</i>, e dahi -<i>Cetubala</i>, e hoje <i>Setubal</i>. Desta opiniaõ he Luiz -Nunes,<a id="FNanchor_92" href="#Footnote_92" class="fnanchor">[92]</a> Christovaõ Cellario,<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span><a id="FNanchor_93" href="#Footnote_93" class="fnanchor">[93]</a> e convem no mesmo Villalpando -<i>in Ezechielem tom. 2. p. 16.</i> Affirma tambem o allegado Resende, -que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga está por cima da porta -da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de carneiro em pedra, e lhe -parece que houvera alli hum templo de Jupiter. De outras pedras alli -descubertas faz tambem memoria o sobredito Antiquario.</p> - -<p>35 <i>Collipo.</i> Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas -se levantou a Cidade de <i>Leiria</i>, como he constante entre todos os -Geografos.<a id="FNanchor_94" href="#Footnote_94" class="fnanchor">[94]</a></p> - -<p>36 <i>Concordia.</i> Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada -de Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua -antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania, -e quasi com elle concordaõ Bivar,<a id="FNanchor_95" href="#Footnote_95" class="fnanchor">[95]</a> Plinio, e outros.<a id="FNanchor_96" href="#Footnote_96" class="fnanchor">[96]</a> Houve -outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou -Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.<a id="FNanchor_97" href="#Footnote_97" class="fnanchor">[97]</a> -Jorge Cardoso<a id="FNanchor_98" href="#Footnote_98" class="fnanchor">[98]</a> diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas -no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta -povoaçaõ. Author ha, que diz he <i>Tentugal</i>.</p> - -<p>37 <i>Contraleucos</i> conforme Ortelio; ou <i>Catraleucus</i> segundo -Ptolomeu, foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa -do Crato, como o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na <i>Benedictina -Lusitana</i>. Outros querem que seja Castello-branco. Verdade seja que -esta povoaçaõ, no conceito de<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span> D. Francisco Manoel he huma das que por -nenhum modo saõ hoje por nós conhecidas.</p> - -<p>38 <i>Egitania.</i> Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade -nobilissima em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O -Doutor Manoel Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio, -escreve della eruditamente nas Memorias da Guarda.<a id="FNanchor_99" href="#Footnote_99" class="fnanchor">[99]</a></p> - -<p>39 <i>Eminio.</i> Hoje he o Lugar de <i>Agueda</i> no termo de Aveiro. -Foy povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados, -de que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo, -e de Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de -<i>Colubria</i>. O Academico Manoel Pereira da Silva Leal<a id="FNanchor_100" href="#Footnote_100" class="fnanchor">[100]</a> pertende -mostrar que naõ tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della -Plino, e Ptolomeu <i>apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9.</i></p> - -<p>40 <i>Equabona.</i> He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a -primeira via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida.</p> - -<p>41 <i>Eritreia</i>, ou <i>Erythia</i>. Encontramos muito embaraçada -entre os Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_101" href="#Footnote_101" class="fnanchor">[101]</a> -seguindo a Pomponio Mela,<a id="FNanchor_102" href="#Footnote_102" class="fnanchor">[102]</a> diz, que estivera na Costa de Portugal, -e que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto, -se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos -<i>Berlengas</i>, talvez deduzido da palavra <i>Londobris</i>, que -tambem lhe dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz -Marinho de Azevedo, e outros, que este allega.<a id="FNanchor_103" href="#Footnote_103" class="fnanchor">[103]</a></p> - -<p>42 Porém Diogo de Paiva<a id="FNanchor_104" href="#Footnote_104" class="fnanchor">[104]</a> persuadido com a geral confusaõ de alguns -Authores em naõ distinguirem<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso, -he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come -mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da -maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as -que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as -outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas -eruditas Disquisições;<a id="FNanchor_105" href="#Footnote_105" class="fnanchor">[105]</a> e assim he infallivel ser diversa esta Ilha -das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto, -Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.<a id="FNanchor_106" href="#Footnote_106" class="fnanchor">[106]</a></p> - -<p>43 <i>Eburobricio.</i> Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira -situaçaõ desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar -Barreiros<a id="FNanchor_107" href="#Footnote_107" class="fnanchor">[107]</a> dizem, que estivera no sitio, onde hoje está <i>Evora -de Alcobaça</i>; porém Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_108" href="#Footnote_108" class="fnanchor">[108]</a> reprovando a -Vasconcellos, diz que fora em <i>Alfezeiraõ</i>; mas em outra parte -duvída.<a id="FNanchor_109" href="#Footnote_109" class="fnanchor">[109]</a> Mons. de La Clede<a id="FNanchor_110" href="#Footnote_110" class="fnanchor">[110]</a> no Mappa da antiga Lusitania -nenhuma duvida poem em situar a <i>Alfezeiraõ</i> no mesmo lugar de -<i>Eburobricio</i>, e quasi na mesma altura se conformaõ os mappas -de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui dedicado -a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a grande -resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos annos -130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.<a id="FNanchor_111" href="#Footnote_111" class="fnanchor">[111]</a></p> - -<p>44 <i>Evandria.</i> He Olivença. Antonino lhe chama Evandriana.</p> - -<p>45 <i>Flaviobriga.</i> O Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ do Minho -tem para si que estivera esta povoaçaõ<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> no sitio de <i>Favayos</i>, -Villa da Provincia Transmontana, onde affirma que vira letreiros, que -assim o testemunhavaõ. Foy huma das Cidades, que edificou ElRey Brigo.</p> - -<p>46 <i>Foro dos Limicos.</i> Era huma Cidade collocada junto do rio -Lima. O Padre Argote persuade-se que estivera no sitio, a que hoje -chamaõ <i>Santo Estevaõ da Faxa</i>.<a id="FNanchor_112" href="#Footnote_112" class="fnanchor">[112]</a></p> - -<p>47 <i>Foro dos Narbassos.</i> Foy Cidade cabeça de huns Póvos assim -chamados, que existio perto de Braga, conforme a conjectura do -incansavel Argote.<a id="FNanchor_113" href="#Footnote_113" class="fnanchor">[113]</a></p> - -<p>48 <i>Gerabrica</i>, ou <i>Jerabrica.</i> Segundo a Geografia de -Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_114" href="#Footnote_114" class="fnanchor">[114]</a> esteve esta Cidade situada onde vemos -hoje a Villa de <i>Póvos</i>. Prova-o este Author com o Itinerario -de Antonino, o qual assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos, -que fazem as sete leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa. -Porém Gaspar Estaço, Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo -Itinerario, que <i>Jerabrica</i> foy o que hoje he <i>Alamquer</i>.<a id="FNanchor_115" href="#Footnote_115" class="fnanchor">[115]</a></p> - -<p>49 <i>Lacobriga.</i> Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e -lembra-se della Baptista Mantuano,<a id="FNanchor_116" href="#Footnote_116" class="fnanchor">[116]</a> quando diz, que erigira o -Senado desta povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do -Imperador Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a -tomaraõ. Das suas ruinas se edificou a Cidade de <i>Lagos</i> no -Algarve, e neste sitio vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p> - -<p>Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,<a id="FNanchor_117" href="#Footnote_117" class="fnanchor">[117]</a> -donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando -Lagos com Lamego,<a id="FNanchor_118" href="#Footnote_118" class="fnanchor">[118]</a> e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel -Pereira,<a id="FNanchor_119" href="#Footnote_119" class="fnanchor">[119]</a> porque une os póvos da Serra da Estrella com os de -Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez -que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava -junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama -<i>Langobrica</i>, que Vasconcellos tem pela Villa da <i>Feira</i>. Ha -quem diga que <i>Lacobriga</i> he a Villa de <i>Abrantes</i>, outros do -<i>Landroal</i>, e Joaõ de Mariana diz, que he a Villa de <i>Alvor</i>, -fundada por Anibal. Parece a outros ser Santiago de Cacem, como diz D. -Francisco Manoel na carta 62. da centuria 3.</p> - -<p>50 <i>Magneto.</i> Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de -Romanos, e existio onde hoje chamaõ <i>Santa Maria de Meinedo</i>, que -he hum Lugar do Bispado do Porto.<a id="FNanchor_120" href="#Footnote_120" class="fnanchor">[120]</a></p> - -<p>51 <i>Merobriga.</i> De duas povoações com este mesmo nome achamos -memoria em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra -em Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio. -Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy -onde agora he <i>Santiago de Cacem</i>.<a id="FNanchor_121" href="#Footnote_121" class="fnanchor">[121]</a> Aqui se venera na Matriz -a notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na -escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico -Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra -fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como -declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p> - -<p>52 <i>Myrtilis Julia</i>. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no -sitio de <i>Mertola</i>. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos -até Béja, que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que -ha de huma a outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta -situaçaõ.<a id="FNanchor_122" href="#Footnote_122" class="fnanchor">[122]</a></p> - -<p>53 <i>Moro</i> foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de -cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello -de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ -dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, ou -Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no <i>liv. 3. da sua Geografia</i> se -lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para -conquistar os Lusitanos.</p> - -<p>54 <i>Nabancia.</i> Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do -Nascente da Villa de <i>Thomar</i>, onde affirmaõ nascera a gloriosa -Virgem, e Martyr Santa Iria.<a id="FNanchor_123" href="#Footnote_123" class="fnanchor">[123]</a> Na divisaõ dos Bispados, que fez -Wamba, se lhe dá o nome de <i>Naba</i>,<a id="FNanchor_124" href="#Footnote_124" class="fnanchor">[124]</a> conforme a intelligencia -de Argote.</p> - -<p>55 <i>Norba Cesarea.</i> O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando -a Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios -desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e -Ponsul, onde chamaõ os Toulões.<a id="FNanchor_125" href="#Footnote_125" class="fnanchor">[125]</a> Hoje he <i>Alcantara</i>.</p> - -<p>56 <i>Numancia.</i> Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa -Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores. -Nenhum melhor que o eruditissimo Argote<a id="FNanchor_126" href="#Footnote_126" class="fnanchor">[126]</a> soube aclarar esta -confusaõ, distinguindo tres Cidades com este<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> proprio nome; e com bons -fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos -nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ -<i>Nemaõ</i>, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro; -e saõ deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo -com mayor tenacidade,<a id="FNanchor_127" href="#Footnote_127" class="fnanchor">[127]</a> a cujos fundamentos responde bem o sobredito -Padre Argote.</p> - -<p>57 <i>Obobriga.</i> Padeceo erro o Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_128" href="#Footnote_128" class="fnanchor">[128]</a> -em collocar esta povoaçaõ na Villa de <i>Monçaõ</i>: mais ajustada -congruencia tem em dizer que foy <i>Orosia</i>, posto que o insigne -Argote o tem por fabula.<a id="FNanchor_129" href="#Footnote_129" class="fnanchor">[129]</a></p> - -<p>58 <i>Ossel</i>, ou <i>Osset</i>. Tambem naõ lidaõ pouco os -Historiadores, e Geografos em averiguar a genuina situaçaõ local -desta Cidade. Fr. Bernardo de Brito tem para si que estivera no Valle -Ossella, tres leguas distante de Arouca, Bispado de Lamego;<a id="FNanchor_130" href="#Footnote_130" class="fnanchor">[130]</a> e -accrescenta, que neste sitio achara vestigios daquelle notavel Templo, -onde havia a Pia baptismal milagrosa, e que no meyo de huns cumulos -de pedra estava huma cova feita ao comprido, cuberta de silvas, a -que chamavaõ o banho, onde parece que naquella consumida reliquia -perseverava ainda a tradiçaõ do tal prodigio.</p> - -<p>59 Todavia Fr. Antonio da Purificaçaõ mostra<a id="FNanchor_131" href="#Footnote_131" class="fnanchor">[131]</a> que esta terra teve -sua existencia naõ longe de Viseu: que na sua principal Igreja houvera -huma reliquia de Santo Estevaõ muito milagrosa: que ainda no seu tempo -havia huma Ermida de fabrica antiquissima: que pouco adiante para a -parte do mar está huma fonte, que chamaõ das virtudes: que mais para -baixo estaõ naquelles contornos huns campos<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> chamados de <i>Assem</i>, -que bem mostra ser vocabulo derivado de <i>Ossem</i>.</p> - -<p>60 Jorge Cardoso<a id="FNanchor_132" href="#Footnote_132" class="fnanchor">[132]</a> julga que ficava Osset junto de Agueda, e que -era Cidade taõ forte, que a ella se fora refugiar Santo Hermenigildo -o anno 581 para rebater a furia de Leovigildo, como dizem alguns -Historiadores.<a id="FNanchor_133" href="#Footnote_133" class="fnanchor">[133]</a> D. Joseph de Santa Maria Carthusiano, Vigario do -Convento de Nossa Senhora de las Cuevas em Sevilha, sahio à luz o anno -de 1630 com hum livro sobre a situaçaõ de <i>Ossel</i>, e a colloca -na Betica, seguindo a opiniaõ de Rodrigo Caro, a que Joaõ Franco -Barreto lhe responde na Historia dos Bispos de Evora cap. 11. 12. 13. -Porém huma das razões, que ha para desfazer estas conjecturas, he a -authoridade de S. Maximo, que expressamente diz ficava a tal povoaçaõ, -e Bautisterio no Bispado de <i>Pax Augusta</i>,<a id="FNanchor_134" href="#Footnote_134" class="fnanchor">[134]</a> que he Badajoz.</p> - -<p>61 <i>Ossonoba</i>, a que Plinio chama <i>Lusturia</i>,<a id="FNanchor_135" href="#Footnote_135" class="fnanchor">[135]</a> e -Bocharto<a id="FNanchor_136" href="#Footnote_136" class="fnanchor">[136]</a> interpreta Fortaleza de Baal, esteve nas visinhanças de -Faro no Algarve, onde hoje chamaõ <i>Estoy</i>. Foy Cidade famosa, -e nobre, pois teve Cadeira Episcopal, como se collige de alguns -Concilios, em que se vem assinados varios Bispos com o titulo de -Ussonobenses, os quaes numéra o Catalogo dos Bispos do Algarve, que -vem no fim das suas Constituições. Em tempo dos Romanos foy Republica. -Consta de hum cippo, que está na muralha da fortificaçaõ de Faro, cujas -letras se podem ver em Resende, e Grutero.<a id="FNanchor_137" href="#Footnote_137" class="fnanchor">[137]</a> Strabo<a id="FNanchor_138" href="#Footnote_138" class="fnanchor">[138]</a> lhe chama -Sonoba, se acaso naõ he outro Lugar, como escrupuliza Bocharto. Na -invasaõ dos Mouros padeceo<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> naõ só a ruina das suas fabricas, e muros, -mas do nome, porque lhe chamaraõ <i>Exubona</i>. Duarte Nunes,<a id="FNanchor_139" href="#Footnote_139" class="fnanchor">[139]</a> -e o Padre Poyares naõ distinguem Estoy de Estombar, sendo elles -taõ diversos. D. Rodrigo da Cunha,<a id="FNanchor_140" href="#Footnote_140" class="fnanchor">[140]</a> e Jorge Cardoso cahiraõ na -mesma confusaõ, sendo que este emendou o erro, retratando-o em outro -lugar.<a id="FNanchor_141" href="#Footnote_141" class="fnanchor">[141]</a></p> - -<p>62 <i>Panonias.</i> Foy huma Cidade, que no tempo dos Romanos -existio no terreno de Villa-Real, onde hoje está a Aldea chamada o -<i>Assento</i>, da Freguezia de S. Pedro de Val de nogueiras: assim o -mostra largamente o Reverendo Padre Argote.<a id="FNanchor_142" href="#Footnote_142" class="fnanchor">[142]</a></p> - -<p>63 <i>Pineto.</i> Era outra Cidade situada no lugar, que hoje chamaõ -<i>Val de telhas</i>, cinco leguas distante da Villa de Chaves, e foy -povoaçaõ Romana, como affirma o mesmo erudito Argote.<a id="FNanchor_143" href="#Footnote_143" class="fnanchor">[143]</a></p> - -<p>64 <i>Salacia.</i> De duas Cidades com este mesmo nome achamos memorias -que existiraõ em nosso continente: huma cinco leguas de Braga, no -sitio, onde chamaõ <i>Salamonde</i>; assim o prova Argote<a id="FNanchor_144" href="#Footnote_144" class="fnanchor">[144]</a> -com o Itinerario de Antonino: a outra Salacia esteve onde hoje -vemos <i>Alcacer do Sal</i>, e foy Cidade, que os Romanos chamaraõ -Imperatoria, honra, que lhe deu Augusto Cesar, fazendo-a tambem -Municipio.<a id="FNanchor_145" href="#Footnote_145" class="fnanchor">[145]</a></p> - -<p>65 <i>Scalabis.</i> He sem controversia a Villa de Santarem, a que os -Romanos tambem chamaraõ <i>Julium Præsidium</i>. Em tempo dos Godos -mudou o nome de Scalabis no que hoje possue, adquirindo-o da Santa -Virgem, e Martyr Irena, cujo tumulo, naõ sem mysterio se conserva nas -aguas do Tejo defronte<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> de Santarem, o qual melhor pronunciado he o -mesmo que <i>Santa-Irene</i>.</p> - -<p>66 <i>Talabrica.</i> Quasi todos os Geografos convem em ser esta Cidade -collocada antigamente onde está hoje <i>Aveiro</i>;<a id="FNanchor_146" href="#Footnote_146" class="fnanchor">[146]</a> só Rodrigo -Mendes da Silva, seguindo a Floriaõ do Campo,<a id="FNanchor_147" href="#Footnote_147" class="fnanchor">[147]</a> diz que Aveiro naõ -foy a <i>Talabrica</i>, mas sim a <i>Labara</i>, o que naõ he provavel, -porque Labara he hum Lugar pequeno sobre o mar no termo do Porto. -Duarte Nunes a constitue junto de Aveiro na ribeira do Vouga onde ha -o lugar chamado Cacîa, e na parte da Ermida de S. Juliaõ; com quem se -conforma Gaspar Barreiros pag. 51.</p> - -<p>67 <i>Tubuci</i> foy povoaçaõ dos Romanos, de cujas ruinas, conforme -diz Resende, se erigio Abrantes, e se comprova com o Itinerario de -Antonino; o qual na segunda via militar, que descreve de Lisboa para -Merida, assina de Scalabis a Tubuci trinta e dous mil passos, que fazem -as oito leguas, que ha de Santarem a Abrantes. Alguns attribuem Tubuci -a Tancos.</p> - -<p>68 <i>Tuntobriga.</i> Foy huma Cidade, que pertencia à Chancellaria de -Braga, e de que se naõ sabe mais que o nome.</p> - -<p>69 <i>Vacca.</i> Persuade-se Jorge Cardoso no tom. 2. do Agiologio pag. -65. que esta antiga Cidade estivesse onde hoje vemos erecta a de Viseu; -porém Plinio, e Ptolomeu naõ fazem della mençaõ. O Author da Corografia -Portugueza diz, que por tradiçaõ a Cidade antiga chamada <i>Vacca</i> -estivera onde hoje he a Villa de Vouga na Comarca de Aveiro: porém -quando trata da Cidade de Viseu, traslada tudo que achou em Jorge -Cardoso, convindo com elle em ser Viseu a antiga Vacca.</p> - -<p>70 Outras muitas povoações existiraõ em nosso<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> Reino em tempo dos -Romanos, que se achaõ mencionadas nas Taboas de Ptolomeu, e Cartas de -outros Geografos, posto que nós naõ conhecemos, nem lhe podemos saber o -verdadeiro significado, mais que por conjectura, assim como fez Argote -com algumas da Provincia Bracarense. Das que sem muita controversia -podemos declarar situadas em varias partes do nosso continente, saõ as -que numeraõ Resende, e Vasconcellos, a saber:</p> - -<table class="autotable"> -<tr><td><i>Ad septem Aras</i></td><td> Açumar, ou Alegrete.</td></tr> -<tr><td><i>Amæa</i></td><td> Portalegre.</td></tr> -<tr><td><i>Aquæ Flaviæ</i></td><td> Chaves.</td></tr> -<tr><td><i>Aritium Prætorium</i></td><td> Benavente.</td></tr> -<tr><td><i>Arucitana</i></td><td> Moura</td></tr> -<tr><td><i>Balsa</i></td><td> Tavira.</td></tr> -<tr><td><i>Bracara Augusta</i></td><td> Braga.</td></tr> -<tr><td><i>Brætoleum</i></td><td> Vianna de Caminha.</td></tr> -<tr><td><i>Budua</i></td><td> Botova, ou Ouguella.</td></tr> -<tr><td><i>Calantica</i></td><td> Arrayolos.</td></tr> -<tr><td><i>Calem</i></td><td> Porto.</td></tr> -<tr><td><i>Ceciliana</i></td><td> Agualva, ou Agua de Moira.</td></tr> -<tr><td><i>Cellium</i></td><td> Ceice junto de Thomar.</td></tr> -<tr><td><i>Cetobriga</i></td><td> Setubal.</td></tr> -<tr><td><i>Collipo</i></td><td> Leiria.</td></tr> -<tr><td><i>Concia</i></td><td> Miranda do Douro.</td></tr> -<tr><td><i>Conimbrica</i></td><td> Condeixa a velha.</td></tr> -<tr><td><i>Ebora</i>, ou <i>Liberalitas Julia</i></td><td> Evora.</td></tr> -<tr><td><i>Eburobritium</i></td><td> Evora d’Alcobaça.</td></tr> -<tr><td><i>Elteri</i></td><td> Alter do Chaõ.</td></tr> -<tr><td><i>Eminium</i></td><td> Agueda.</td></tr> -<tr><td><i>Equabona</i></td><td> Coina.</td></tr> -<tr><td><i>Forum Limicorum</i></td><td> Ponte de Lima.</td></tr> -<tr><td><i>Fraxinum</i></td><td> Alpalhaõ, ou Gaviaõ.</td></tr> -<tr><td><i>Helvij</i></td><td> Elvas.</td></tr> -<tr><td><i>Jerabrica</i></td><td> Póvos, ou Alenquer.</td></tr> -<tr><td><i>Igædita</i></td><td> Idanha, ou Guarda.</td></tr> -<tr><td><i>Lacobrica</i></td><td> Lagos.<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></td></tr> -<tr><td><i>Lama</i>, ou <i>Lameca</i></td><td> Lamego.</td></tr> -<tr><td><i>Lancobrica</i></td><td> Feira.</td></tr> -<tr><td><i>Malceca</i></td><td> Marateca.</td></tr> -<tr><td><i>Matusaro</i></td><td> Ponte de Sor.</td></tr> -<tr><td><i>Medobrica</i></td><td> Aramenha.</td></tr> -<tr><td><i>Merobriga</i></td><td> Santiago de Cacem.</td></tr> -<tr><td><i>Moro</i></td><td> Almorol, ou Punhete.</td></tr> -<tr><td><i>Myrtilis Julia</i></td><td> Mertola.</td></tr> -<tr><td><i>Næbia</i></td><td> Neiva.</td></tr> -<tr><td><i>Olisipo</i>, ou <i>Fælicitas Julia</i></td><td> Lisboa.</td></tr> -<tr><td><i>Ossonoba</i></td><td> Estoi junto de Faro.</td></tr> -<tr><td><i>Pax Julia</i></td><td> Beja.</td></tr> -<tr><td><i>Portus Anibalis</i></td><td> Villanova de Portimaõ.</td></tr> -<tr><td><i>Salacia</i>, ou <i>Urbs Imperatoria</i></td><td> Alcacer do Sal.</td></tr> -<tr><td><i>Saurium</i></td><td> Soure.</td></tr> -<tr><td><i>Scalabis</i>, ou <i>Julium Præsidiũ</i></td><td> Santarem.</td></tr> -<tr><td><i>Serpa</i></td><td> Serpa.</td></tr> -<tr><td><i>Talabrica</i></td><td> Aveiro.</td></tr> -<tr><td><i>Tubuci</i></td><td> Abrantes.</td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Plin lib. 8. Epist. 24. <i>Revertere gloriam veterem, -& hanc ipsam senectutem, quæ in homine venerabilis, in urbibus sacra -est</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Ptolom. apud Cellar. lib. 2 cap. 1. Geogr. antiq. Veja-se -Botelho no Alfonso liv. 3. est. 77.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. pag. 627. Corog. Port. tom. -1. p. 310. Argot. Antig. de Brag. t. 1. c. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Villalob. Nobiliarch. Portug. pag. 89. Corogr. Port. t. -1. pag. 296.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Resend. lib. 1. Antiq. Lusit. Cellar. Georgr. antiq. lib. -2. c. 1. §. 51. Vasæus Chronic. Hispan. pag. 254. Gruter. pag. 156. n. -4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 3. 4. 5. Et de -antiq. Convent. Brachar. lib. 1. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Gaspar Barreir. na Corogr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. tom. 1. pag. 323.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Cunha Histor. Eccl. de Brag. part 1. c. 19. Villasboas -Nobil. Port. pag. 79.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Rodr. Caro in notis ad Dextr. ann. 265. <i>Ambrasia in -Lusitania S. Epitectus ejusdem Civitatis civis, & Pontifex Martyr -Christi</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Agiol. Lusit. tom. 3. pag 38.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> O Campo Chron. p. 1. lib. 3. c. 27. Argot. Antig. de -Brag. t. 1. lib. 2. c. 6. n. 513. D. Franc. Man. Cent. 3. Cart. 62. p. -425.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Faria Fonte de Aganip. p. 2. Eclog. 4. Est. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Estaç. nas Antig. de Port. c. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Monarc. Lusit. liv. 2. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Corogr. Portug tom. 2. pag. 308.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Resend. de Antiq. Lusit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Gasp. Barr. na Corogr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Cardos. no Agiol. tom. 3. p. 371.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Sá Mem. Hist. part. 2 p. 1. & seq. Resend. de antiq. lib. -4. pag. mihi 171.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Ferreras Histor. de Hesp. part 3. ad ann. 466</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> Argot. Antig. de Braga tom. 1. p. 376.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> Cardos. Agiol Lusit. tom. 2. p. 344.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> Res. lib. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> Cellar. lib 2. Geogr. antiq. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. lib. 2. c. 6. n 516.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. V. Argais na -Poblacion Ecclesiast. de Hespanh. ad ann. 893.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> Monarq. Lus. l. 7. c. 23. Fr. Leaõ Benedict. tr. 2. p. 2. -c. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> Corogr. Port. t. 1. p. 237.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> Argot. Mem. de Brag. t. 2. p. 682.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> Vasconc. in not. ad Resend. lib. 1. p. 258. Rodr. Mend. -Poblac. gen. de Hesp. p. 135. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. -Port. t. 2. p. 525. Agiol. Lus. tom. 3. p. 86. Cardoso no Diccion. -Geogr. tom. 1. p. 487.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Corogr. Port. tom. 3. p. 175.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 761.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p.316.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> Rodr. Car. Antig. de Sevilh. Caram. Explicac. Mystic. de -las armas de Hespanh. p. 72.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Heit. Pint. in Ezech. cap. 13. Maced. Flor. de Hespanh. -cap. 1. exc. 6. Far. Epit. p. 4. lib. 5. cap. 4. Becan. in Hermat. -p. 229. Luiz Mar. Antig. de Lisb. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. -Corogr. Port. tom. 1. p. 209. Lacerd. in l. 6. Virgil. Æneid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Elysium in campum, terrarumque ultima tandem</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Dii te transmittent, stat flavus ubi Rhadamanthus</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Existitque viris, ubi vita, facilima durans</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Non hyemis vis multa: nives non ingruit imber</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Stridula, sed semper Zephyrorum flamina mittit</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Ingens Oceanus, senimina grata virorum.</i></span><br> -</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 10em;">Homer. Odyss. d. vers. 113.</span><br> -</p> - - - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> S. Gregor. Nazianz. orat. 20. p. 333. <i>Paradisi -videlicet nostri speciem quandam animo intuentes, atque ex Mosaicis, -ut opinor, nostrisque libris, tametsi in nomine nonnihil discreparit, -aliis tamen vocabulis, hoc ipsum indicantes.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> Proclus in Hesiod. fol. 27. <i>Beatorum insulas cum dicit -Paradisum, aut campum Elysium significare videtur, sic dictum, quod -corpora servet indissolubilia.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Bechman. de origin. ling. Latin. p. 333.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> S. Justin. in Cohortat. ad Græcos p. 27. <i>Permulta esse -à Poeta, ex Divinis quoque Prophetarum libris in opus suum relata... -Deinde verò, ut Paradisi effigiem Alcinoi horti conservarent, fecit -illos florentes, & frugum ubertate scatentes.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Div. Hieron. in Genes. cap. 2. vers. 15.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> Strab. de Situ Orbis lib. 3. p. mihi 143.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> Genes. 5.23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> Barcepha de Paradis. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> Malvend. de Parad. lib. 1. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> Rodrig. Car. ad ann. Christ. 419.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> Benedict. Lusit. tom. 1. pag. 304.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Haub. Chron. ad ann. 420.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> Haubert. ad ann. 86.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Argaes Poblacion Eccles. de Hesp. tom. 1. fol. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> Benedict. Lus. tom. 2. p. 109.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Cardos. Agiol. Lus. tom. 1. p. 172.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Maced Flor. de Hesp. excel. 10. n. 3. P. Purific Chronic. -de S. Agost. p. 2. liv. 7. tit. 1. § 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> Argot. Antig. de Brag. part. 1. p. 377.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p. 318.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_78" href="#FNanchor_78" class="label">[78]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 338.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_79" href="#FNanchor_79" class="label">[79]</a> Purific. Chron. August. tom. 1. p. 215. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_80" href="#FNanchor_80" class="label">[80]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 2. p. 694. Leal, Mem. do -Bispad. da Guard. part. 1. tit. 3. cap. 2. n. 202. 203. 204.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_81" href="#FNanchor_81" class="label">[81]</a> Valer. Maxim. l. 6. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_82" href="#FNanchor_82" class="label">[82]</a> Monarq. Lusit. part. 1. liv. 3. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_83" href="#FNanchor_83" class="label">[83]</a> Far. Epitom. p. 110. part. 2. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_84" href="#FNanchor_84" class="label">[84]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_85" href="#FNanchor_85" class="label">[85]</a> P. Abreu no fim da vida de S. Quiteria p. 307.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_86" href="#FNanchor_86" class="label">[86]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 320. e tom. 3. p. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_87" href="#FNanchor_87" class="label">[87]</a> Corog. Port. tom. 1. p. 162.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_88" href="#FNanchor_88" class="label">[88]</a> Argot. Mem. de Brag. p. 386. e 457.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_89" href="#FNanchor_89" class="label">[89]</a> Monarq. Lusit. p. 1. cap. 3. Heit Pint. in Ezech. cap. -27. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_90" href="#FNanchor_90" class="label">[90]</a> Resend. l. 4. de Antiq. p. mihi 216. Paiv. no Exame de -Antiguid. p. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_91" href="#FNanchor_91" class="label">[91]</a> Barreir. Corograf. p. 63.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_92" href="#FNanchor_92" class="label">[92]</a> Luiz Nunes cap. 38.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_93" href="#FNanchor_93" class="label">[93]</a> Cellario Geograf. Antiq. liv. 2. cap. 1 § 16.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_94" href="#FNanchor_94" class="label">[94]</a> Plin. liv. 1. cap. 24. Gruter. p. 1155. Vasconcel lib. 5. -de Eborensi Municip. p. mihi 24. Duarte Nun. Deser. de Portug. p. 13. -Brandaõ t. 3. Cardos. no Agiol. t. 2. p. 374. Barreiros na Corograf. p. -50. v.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_95" href="#FNanchor_95" class="label">[95]</a> Bivar ad ann. 145.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_96" href="#FNanchor_96" class="label">[96]</a> Plin. liv. 4. cap. 22. Benedict. Lusit. part. 4. trat. 2. -p. 173. Abreu Vid. de S. Quiter. p. 203.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_97" href="#FNanchor_97" class="label">[97]</a> Medin. l. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_98" href="#FNanchor_98" class="label">[98]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. & tom. 1. p. 457.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_99" href="#FNanchor_99" class="label">[99]</a> Leal, Mem. do Bisp. da Guard. p. 14. & seq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_100" href="#FNanchor_100" class="label">[100]</a> Id. Dissertaç. Exegetic. not. 5. n 28.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_101" href="#FNanchor_101" class="label">[101]</a> Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 26.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_102" href="#FNanchor_102" class="label">[102]</a> Mela liv. 5. cap. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_103" href="#FNanchor_103" class="label">[103]</a> Resend lib. 2. Antiq. p. 66. mihi. Baudrand. Diction. -Geogr. verb. <i>Erythia.</i> Marinh. de Azeved. Antiguid. de Lisb. p. -105.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_104" href="#FNanchor_104" class="label">[104]</a> Paiv. Exam. de Antig. p. 42.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_105" href="#FNanchor_105" class="label">[105]</a> Montejar, Antig. de Hesp. part. 2 disquis. 5. §. 2. cap. -2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_106" href="#FNanchor_106" class="label">[106]</a> Salmac. Exercit. Plinian. p. 284. Avien. in Oris -maritim. vers. 308. Bochart. Geograf. Sacr. p. 679. Car. Antig. de -Sevilh. l. 3. cap. 25. Cellar. Geogr. antiq. liv. 2. cap 1. §. 127.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_107" href="#FNanchor_107" class="label">[107]</a> Vasconcel. in Annotat. ad Resend. Barreir. Corograf. p. -50.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_108" href="#FNanchor_108" class="label">[108]</a> Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_109" href="#FNanchor_109" class="label">[109]</a> Ibid. l. 5. cap. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_110" href="#FNanchor_110" class="label">[110]</a> De La Cled. Hist. de Portug. tom. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_111" href="#FNanchor_111" class="label">[111]</a> Monarq. ut supr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_112" href="#FNanchor_112" class="label">[112]</a> Argot. nas antiguid. da Chancellar. de Brag. p. 128.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_113" href="#FNanchor_113" class="label">[113]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. liv. 2. cap. 6. n. 525.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_114" href="#FNanchor_114" class="label">[114]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_115" href="#FNanchor_115" class="label">[115]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 87. Barreir. Corog. tit. -de Talaver. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_116" href="#FNanchor_116" class="label">[116]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Dicitur Ardiburi posuisse Lacobriga septem</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Victori toties statuas, totiesque per illum</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Eruta Wandalicis bello insurgente procellis.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 10em;">Mantuan. in Agelaric.</span><br> -</p> - - - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_117" href="#FNanchor_117" class="label">[117]</a> Vasconcel. Descript. Regn. Lusitan. p. 797.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_118" href="#FNanchor_118" class="label">[118]</a> Mousinh. no Afric. cant 3. est. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_119" href="#FNanchor_119" class="label">[119]</a> Gabr. Pereir. na Ulyss. cant. 8. est. 146.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_120" href="#FNanchor_120" class="label">[120]</a> Argot. Mem. de Brag. liv. 4. cap. 4. p. 670.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_121" href="#FNanchor_121" class="label">[121]</a> Resend. de Antiq. Lusit. lib. 4. p. mihi 188. e 209.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_122" href="#FNanchor_122" class="label">[122]</a> Andr. Schotti, Isaac Vosio, Plinio, Antonin, e outros -apud Cellar. lib. 2. cap. 1. §. 20. Geograf. antiq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_123" href="#FNanchor_123" class="label">[123]</a> Monarq. liv. 9. cap. 27. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 68.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_124" href="#FNanchor_124" class="label">[124]</a> Argot. Mem. do Arc. de Brag. p. 649.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_125" href="#FNanchor_125" class="label">[125]</a> P. Henriq. de Abreu, Vid. de S. Quiter. p. 203.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_126" href="#FNanchor_126" class="label">[126]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. l. 2. cap. 14. dissert. -3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_127" href="#FNanchor_127" class="label">[127]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2 & 16. cap. 45. Cardos. -Agiol. Lusitan. tom. 2. a 20 de Abril, & tom. 3. p. 726. Arauj. nos -Success. Milit p. 109. & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_128" href="#FNanchor_128" class="label">[128]</a> Corograf. Port. tom. 1. p. 210.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_129" href="#FNanchor_129" class="label">[129]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. p. 396.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_130" href="#FNanchor_130" class="label">[130]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_131" href="#FNanchor_131" class="label">[131]</a> Purific. Chronic. August. tom. 1. p. 134. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_132" href="#FNanchor_132" class="label">[132]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 546.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_133" href="#FNanchor_133" class="label">[133]</a> Fr Leaõ de S. Thom. Benedictin. Lusit. tom. 2 p. 279. -Saavedr. Coron. Gotic. part. 1. cap 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_134" href="#FNanchor_134" class="label">[134]</a> S. Max. ad an. 550. <i>Prope Osset oppidum Lusitaniæ -in Diœcesi Pacis Augustæ fontes Baptismatis in pervigilio Paschatis -excitantur</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_135" href="#FNanchor_135" class="label">[135]</a> Plin. l. 3. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_136" href="#FNanchor_136" class="label">[136]</a> Bochart. Geogr. Sacr. lib 1. cap. 34. tom. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_137" href="#FNanchor_137" class="label">[137]</a> Resend. l. 4. p. 201. Gruter. p. 274.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_138" href="#FNanchor_138" class="label">[138]</a> Strab. liv. 3. p. 99.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_139" href="#FNanchor_139" class="label">[139]</a> Nun. Descr. de Portug. pag. 13. Poyar. Diccion. Geogr. -pag. 184.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_140" href="#FNanchor_140" class="label">[140]</a> Rodrig. da Cunh. Hist. de Brag. part. 2. cap. 61. -Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 1. Prolog. § 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_141" href="#FNanchor_141" class="label">[141]</a> Id. Card. tom. 2. Agiol. p. 10. Vide etiam Argaes -Dialog. 3. cap. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_142" href="#FNanchor_142" class="label">[142]</a> Argot. Memor. do Arceb. de Brag. p. 325.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_143" href="#FNanchor_143" class="label">[143]</a> Id. ibid. p. 359.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_144" href="#FNanchor_144" class="label">[144]</a> Ibid. p. 370.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_145" href="#FNanchor_145" class="label">[145]</a> Plin. lib. 4. cap. 22. Barreir. Corogr. p. 63.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_146" href="#FNanchor_146" class="label">[146]</a> Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. §. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_147" href="#FNanchor_147" class="label">[147]</a> Mend. da Silv. Poblac. gen. de Hesp.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_III">CAPITULO III.<br><span class="small"><i>Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre.</i></span></h2> -</div> - - -<p>1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte -de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o -todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças -fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional, -o primeiro porto, que se nos offerece, he</p> - -<p>2 <i>Caminha</i>. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que -divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os -Lugares<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma -Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas -barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e -continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se</p> - -<p>3 <i>Viana</i> na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de -fóra da ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade -para ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais -entupida de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, -dous revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para -sua defensa. Daqui se continúa até</p> - -<p>4 <i>Esposende</i>, que dista de Viana tres leguas para o Sul. -Nesta barra, onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de -embarcações grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças -escaças de agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o -rio Cávado por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando -aquella para a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, -quasi meya legua da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte -a Sul hum quarto de legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ -<i>Cavallos de Faõ</i>, entre os quaes, e a terra podem bordejar -navios, pois tem cinco, ou seis braças de fundo em preamar. O Author -da Corografia Portugueza tom. 1. pag. 310. diz, que este era o porto, -em que se carregavaõ de ouro as frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual -veja-se tambem a Antonio de Sousa de Macedo nas Flores de Hespanha cap. -4. excel. 2. O mais certo he, que foy este o porto, donde sahiaõ as -armadas dos Romanos para fazerem as suas conquistas. Vindo caminhando -para o Sul o espaço de tres leguas, segue-se a</p> - -<p>5 <i>Villa do Conde</i>. Dá entrada a esta barra a foz<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> do rio Ave, -porém estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes -delineado pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay -correndo a marinha até o</p> - -<p>6 <i>Porto</i>, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o -porto de Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, -e fica distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma -da parte do Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira -ordinaria de entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua -cheya, sendo navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno -sempre he perigosa pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. -Perto da entrada da barra para a parte do Norte está o Castello de S. -João da Foz em quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. -Hum dos seus lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e -no outro lado opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. -Aqui se termina a Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto -sempre para o Sul o espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra -da Beira, que he</p> - -<p>7 <i>Aveiro</i>. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da -Cidade tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e -quatro palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre -da ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia -de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no -ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias, -onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o -genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste, -encontramos a barra do</p> - -<p>8 <i>Mondego</i>. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca -da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do forte -meya legua<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span> na Costa fica a Villa de <i>Boarcos</i>, onde tambem ha -surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia -de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da -Estremadura a</p> - -<p>9 <i>Pederneira</i>. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e -caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja -de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo -concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de -duas leguas está</p> - -<p>10 <i>Selir</i>, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à -Villa de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, -por onde entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma -enseada, que terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e -patachos. De Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, -segue-se</p> - -<p>11 <i>Peniche</i>, onde tambem chamaõ <i>Cabo de Carvoeiro</i>. Fica, -estando a maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da -banda do Norte he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em -seis, ou sete braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de -Peniche estaõ duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que -chamaõ as <i>Berlengas</i>, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de -Peniche para o Sul, caminhando onze leguas, está a <i>Ericeira</i>, e a -pouco espaço o <i>Cabo da Roca</i>. Para diante mais duas leguas está -<i>Cascaes</i>, onde ha capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito -até vinte braças de alto. Daqui proseguindo interposto o espaço de duas -leguas, se encontra o famoso porto de</p> - -<p>12 <i>Lisboa</i>. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo -de duas fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e -S. Lourenço,<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em -distancia huma da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo -cada passo. Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta -barra 2500 passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa -dos cachopos, que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a -qual se divide em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a -fortaleza de S. Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay -por entre os cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. -Lourenço, chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem -500 braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra -dentro, a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey -D. Manoel, fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena -distancia de huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de -Lisboa: mas como o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum -grande seyo, fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que -naõ continue na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que -ha desde a barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.</p> - -<table class="autotable"> -<tr><th class="w50">Portos do Tejo da parte do Sul.</th><th>Portos do Tejo da parte do Norte.</th></tr> -<tr><td>Trafaria. </td><td>S. Giaõ.</td></tr> -<tr><td>Portinho de Costa. </td><td>Oeiras.</td></tr> -<tr><td>Torre velha. </td><td>Caxias.</td></tr> -<tr><td>Porto brandaõ. </td><td>Carcavelos.</td></tr> -<tr><td>Manatega. </td><td>Paço d’Arcos.</td></tr> -<tr><td>Alfansina. </td><td>Cartuxa.</td></tr> -<tr><td>Arrabida. </td><td>Boa Viagem.</td></tr> -<tr><td>Arialva. </td><td>Santa Catharina.</td></tr> -<tr><td>Fonte da pipa. </td><td>Pedrouços.</td></tr> -<tr><td>Cassilhas. </td><td>Belém.<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></td></tr> -<tr><td>Caramujo. </td><td>Junqueira.</td></tr> -<tr><td>Motella. </td><td>Santo Amaro.</td></tr> -<tr><td>Oliveirinha. </td><td>Alcantara.</td></tr> -<tr><td>Corroyos. </td><td>Pampulha.</td></tr> -<tr><td>Santa Martha. </td><td>Santos velhos.</td></tr> -<tr><td>Talaminho. </td><td>Caes do Tojo.</td></tr> -<tr><td>Amora. </td><td>A Dizima.</td></tr> -<tr><td>Rio dos Judeos. </td><td>Remolares.</td></tr> -<tr><td>Arrentella. </td><td>Corpo Santo.</td></tr> -<tr><td>Seixal. </td><td>Caes da Pedra.</td></tr> -<tr><td>Rosario. </td><td>Alfama.</td></tr> -<tr><td>Porto dos PP. Paulistas. </td><td>Caes do Carvaõ.</td></tr> -<tr><td>Aldeya. </td><td>Bica do Sapato.</td></tr> -<tr><td>Cabo da Linha. </td><td>Santa Apollonia.</td></tr> -<tr><td>Coina. </td><td>Cruz da Pedra.</td></tr> -<tr><td>Fornos delRey. </td><td>Madre de Deos.</td></tr> -<tr><td>Palhaes. </td><td>Xabregas.</td></tr> -<tr><td>A Telha. </td><td>Grilo.</td></tr> -<tr><td>A Verderena. </td><td>Beato Antonio.</td></tr> -<tr><td>Barreiro. </td><td>Poço do Bispo.</td></tr> -<tr><td>Lavradio. </td><td>A Martinha.</td></tr> -<tr><td>Barra a barra. </td><td>Braço de prata.</td></tr> -<tr><td>Alhos vedros. </td><td>Cabo rubo.</td></tr> -<tr><td>Moita. </td><td>Unho de D. Garcia.</td></tr> -<tr><td>Esteiro furado. </td><td>Marvilla.</td></tr> -<tr><td>Sarilhos grandes. </td><td>Olivaes.</td></tr> -<tr><td>Sarilhos pequenos. </td><td>Sacavem.</td></tr> -<tr><td>Aldeya Galega. </td><td rowspan="9" class="top">Aqui desagua este rio no Tejo por huma grande boca, fazendo huma profundissima foz; e ficando quasi ao Norte da Cidade, -volta contra o Noroeste, onde se encontraõ os vistosos portos de <i>Unhos</i>, <i>Frielas</i>, <i>Mealhada</i>, <i>Granja</i>, -<i>Marnotas</i>, <i>Santo Antonio do Tojal, &c</i>. Continuando pela marinha direita, segue-se:<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></td></tr> -<tr><td>Lançada.</td></tr> -<tr><td>Quinta de D. Maria. </td></tr> -<tr><td>Samouco. </td></tr> -<tr><td>Alcouxete. </td></tr> -<tr><td>Barroca d’Alva. </td></tr> -<tr><td>Pancas. </td></tr> -<tr><td>Çamora Correa. </td></tr> -<tr><td>Benavente. </td></tr> - - -<tr><td>Salvaterra. </td><td>Massaroca.</td></tr> -<tr><td>Escaroupim. </td><td>Santa Iria.</td></tr> -<tr><td>Mugem. </td><td>Povoa.</td></tr> -<tr><td>Santa Martha. </td><td>Alverca.</td></tr> -<tr><td>Almeirim. </td><td>Alhandra.</td></tr> -<tr><td>Chamusca. </td><td>Villa-Franca.</td></tr> -<tr><td>Pinheiro. </td><td>Póvos.</td></tr> -<tr><td>Moita. </td><td>Castanheira.</td></tr> -<tr><td>Barca. </td><td>Villa-Nova.</td></tr> -<tr><td>Brito. </td><td>Azambuja.</td></tr> -<tr><td>Santa Margarida. </td><td>Casa branca.</td></tr> -<tr><td>Crucifixo. </td><td>Valada.</td></tr> -<tr><td rowspan="12" class="top">&c.</td><td> Porto de Mugem.</td></tr> - <tr><td>Santarem.</td></tr> - <tr><td>Azinhaga.</td></tr> - <tr><td>Labruja.</td></tr> - <tr><td>Cardiga.</td></tr> - <tr><td>Barquinha.</td></tr> - <tr><td>Tancos.</td></tr> - <tr><td>Payo de pelles.</td></tr> - <tr><td>Praya.</td></tr> - <tr><td>Punhete.</td></tr> - <tr><td>Redemoinhos.</td></tr> - <tr><td>Abrantes.</td></tr> -</table> - -<p>Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico, -prosegue a Costa da Roca de Cintra até o</p> - -<p>13 <i>Cabo de Espichel</i> na distancia de oito leguas ao Sudueste. -Em outro tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos -Sarrios. No cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa -Imagem de Nossa Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está</p> - -<p>14 <i>Cezimbra</i>, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à -Arrabida ha duas leguas, e junto<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> della a <i>Torre de Outaõ</i>, e huma -enseada para setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa -legua para Leste se offerece a barra de</p> - -<p>15 <i>Setubal</i>, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte -e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella -mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas -fica</p> - -<p>16 <i>Sines</i> já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro -em dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte -leguas até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste -caminho mais tres leguas se vê a</p> - -<p>17 <i>Ilha do Pessegueiro</i>, antigamente chamada Petanio, como diz -Joaõ de Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro -em duas, e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a -barra de</p> - -<p>18 <i>Odemira</i>, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de -fundo. Caminhando-se para diante sete leguas, está</p> - -<p>19 <i>Arrifana</i>, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em -oito até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de -S. Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está</p> - -<p>20 <i>Sagres</i>, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem -surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para -diante continúa</p> - -<p>21 <i>Lagos</i>. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em -sete para oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da -<i>Bandeira</i>, bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta -Costa outras muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de -Lagos a foz de</p> - -<p>22 <i>Alvor</i>. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada -<i>Portos Anibalis</i>. Navega-se da sua<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> foz até à Villa em lanchas. -Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece -senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se</p> - -<p>23 <i>Villa-Nova de Portimaõ</i>, em cuja barra por causa dos bancos -de arêa moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous -fortes, hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente, -a que chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar -vinte e tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para -bastantes embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe -dista duas leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia -tem só meya legua de comprimento capaz. Descobre-se logo</p> - -<p>14 <i>Albofeira</i>, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte -da Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de -Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte -de Leste, outro de Oeste. Segue-se</p> - -<p>25 <i>Faro</i>, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a -parte de Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante -cinco leguas vemos.</p> - -<p>26 <i>Tavira</i>, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo, -e he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a -Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do -Algarve, está ultimamente</p> - -<p>27 <i>Castro-Marim</i> defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra -parte do rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e -separa o Reino do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este -rio cinco leguas com os olhos ao Norte, vemos a Villa de</p> - -<p>28 <i>Alcoutim</i>, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar -do Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno -levantado.<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e -separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de</p> - -<p>29 <i>Mertola</i> já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres -váos, o do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima -a margem do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça, -e Villa de</p> - -<p>30 <i>Serpa</i>, a qual com as de <i>Moura</i>, <i>Mouraõ</i>, -<i>Olivença</i>, <i>Ouguela</i> e <i>Noudar</i> estaõ no destricto de -Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo de terra, que alli se fórma da -parte direita, pondo-nos voltados ao Norte, deixando à maõ esquerda -o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo nossas desde o anno de 1297 -pela concordata, ou tratado de Alcanisses, que fez ElRey D. Diniz com -ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela margem do mesmo Guadiana está -<i>Jurumenha</i>, e depois segue-se</p> - -<p>31 <i>Elvas</i>, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas -da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem -fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está -a Praça de</p> - -<p>32 <i>Campo-Mayor</i> em huma grande planicie muy bem fortificada -ao moderno com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante -seguem-se <i>Arronches</i>, <i>Alegrete</i>, <i>Portalegre</i>, -<i>Marvaõ</i>, <i>Castello de Vide</i>, e <i>Montalvaõ</i>, Praças -todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a separaçaõ das duas -Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo por entre Malpica, -e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que se encontra na -Beira, indo por esta parte, he</p> - -<p>33 <i>Rosmaninhal</i>, que de huma parte está fortificada com o Tejo, -e de outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he -cercada de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas -junto ao rio Elja está a Villa de</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span></p> - -<p>34 <i>Segura</i> com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o -campo. Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e -Castella de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa -de</p> - -<p>35 <i>Salvaterra da Beira</i> com Castello forte bem descortinado, e -guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais -para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que -se oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. -Nas costas de Salvaterra cinco leguas fica <i>Idanha nova</i>, cuja -aspereza de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o -Nascente, segue-se</p> - -<p>36 <i>Penagarcia</i> com Castello forte sobre penhasco. Tem humas -montanhas, que lhe servem de grande defensa, e confiança contra -qualquer temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas -costas de Penagarcia está situada</p> - -<p>37 <i>Idanha a velha</i> quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul: -he sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua -segue-se a Villa de</p> - -<p>38 <i>Monsanto</i> com seu Castello fundado em hum monte das mais raras -asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a -todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade -de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde -para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem -o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum -adagio, que diz: <i>Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te -ganare, ganar puede el mundo</i>; e já os Romanos a tiveraõ sete annos -de cerco. Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas, -segue-se ao Norte.</p> - -<p>39 <i>Penamacor</i>, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente -penhasco, e he por sitio inexpugnavel.<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> Oppoemse-lhe o Castello de -Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do</p> - -<p>40 <i>Sabugal</i> com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de -Sortelha inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com -Castella de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste -pela serra de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal. -De Lagiosa até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde -começa a fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de</p> - -<p>41 <i>Alfayates</i>, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta -Praça o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680 -pés geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura -de vinte e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os -Castellos de Payo, e Albergaria. Seguem-se <i>Villar-Mayor</i>, e -<i>Castello Mendo</i>, duas leguas em distancia hum do outro, indo -sempre ao Norte. Outras duas para diante está <i>Castello Bom</i>, e -mais outras duas a Praça de</p> - -<p>42 <i>Almeida</i>, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores -Praças do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por -alcance de vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem -della terras de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga, -Miranda, Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor -eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres -leguas para o Norte segue-se</p> - -<p>43 <i>Castel-Rodrigo</i> em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as -armas Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer -dar entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque -seus moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites. -Acabada de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a -divide de<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> Tras os Montes, onde vemos logo o <i>Castello d’Alva</i>, e -<i>Freixo de Espadacinta</i> em sitio baixo, mas com cinco torres, e -fortaleza grandiosa. Segue-se o <i>Mogadouro</i>, a <i>Bemposta</i>, -<i>Penas-Royas</i>, <i>Algoso</i>, terras todas fronteiras do Reino de -Leaõ. Depois segue-se</p> - -<p>44 <i>Miranda do Douro</i> collocada sobre asperos penhascos, a quem -o rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem -bom Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se -<i>Vimioso</i>, <i>Outeiro</i>, cinco leguas cada huma de Miranda; e -contaremos nove, se passarmos daqui Nornoroeste a</p> - -<p>45 <i>Bragança</i>, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a -aparta da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na -distancia de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza</p> - -<p>46 <i>Vinhaes</i>, <i>Monforte do Rio livre</i>, <i>Chaves</i>, -<i>Montalegre</i>; e avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do -Maraõ, e entrando na do Gerez, em cujo encontro se dividem as duas -Provincias Minho, e Tras os Montes, se avistaõ nesta linha alguns -Castellos, como o de <i>Lanhoso</i> em correspondencia da fortaleza -de Araujo; o <i>Castello da Nobrega</i> com as terras de Entrimo por -fronteiras; o <i>Castello de Lindoso</i>, a quem se oppoem o Lugar -de Ferreiros; o <i>Castello Laboreiro</i>, que tem por opposto o da -Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho. Segue-se a Villa de</p> - -<p>47 <i>Melgaço</i> com excellente Castello, a quem se oppoem os -Lugares Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante -<i>Valladares</i>, que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e -Marcella. Outra legua e meya está <i>Monçaõ</i> em sitio eminente. Huma -legua para diante segue-se <i>Lapella</i>, e outra</p> - -<p>48 <i>Valença</i> fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se -offerece <i>Villa-Nova de Cerveira</i>, fundada, e cercada de muros de -cantaria. Oppoem-se<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano; -e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com <i>Caminha</i>, -donde principiámos o gyro desta demarcaçaõ.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV.<br><span class="small"><i>Divisaõ antiga.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz. -Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos, -toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que -debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas, -Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos. -Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte -daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas.</p> - -<p>2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a -contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos -annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a -que chamaraõ Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.<a id="FNanchor_148" href="#Footnote_148" class="fnanchor">[148]</a> A citerior -ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a -que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado -occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia -esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos -seus interesses, accrescentando,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> ou diminuindo as terras de huma, ou -de outra parte.</p> - -<p>3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra -Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, -dividio a Hespanha em tres Provincias, a saber: <i>Lusitanica</i>, -<i>Betica</i>, e <i>Tarraconense</i>. A Lusitanica incluia a mayor -parte do que hoje chamamos Portugal, com outras muitas terras, que hoje -pertencem ao Reino de Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O -rio Douro a separava pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo -oriental huma linha, que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se -incorpora com o rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, -e este depois dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja -costa cercava o restante da Lusitania.</p> - -<p>4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva -Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli -corria até o cabo de <i>Finis terræ</i>, e aquelle espaço depois -situado entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, -e Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma -padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce -a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre -Argote.<a id="FNanchor_149" href="#Footnote_149" class="fnanchor">[149]</a></p> - -<p>5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano, -visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis -Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza, -e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da -Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo -com<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> particularidade, e certeza.<a id="FNanchor_150" href="#Footnote_150" class="fnanchor">[150]</a> Constantino Magno fez outra -divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores. -Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.</p> - -<p>6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições -tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a -que chamavaõ <i>Conventos Juridicos</i>, collocados nas Cidades -mais insignes da Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca -para administraçaõ da justiça. Destes Conventos Juridicos, a que -correspondem hoje as nossas Relações, havia quatorze em toda Hespanha: -as que tocaraõ às nossas terras, foraõ tres: <i>Braga</i>, <i>Béja</i>, -e <i>Santarem</i>.</p> - -<p>7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de -<i>Municipios</i>. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas -por familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno <i>Béja</i>, e -<i>Santarem</i>, além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e -gozavaõ seus Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios -eraõ os que se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ -<i>Lisboa</i>, <i>Evora</i>, <i>Mertola</i>, e <i>Alcacer do Sal</i>.</p> - -<p>8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno -de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente -os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições -até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de -1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios; -e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou -a chamar Portugal<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões -antigas, passemos a expressar as modernas.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_148" href="#FNanchor_148" class="label">[148]</a> Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin. -cap. 23. Strab. lib. 3. pag. 166.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_149" href="#FNanchor_149" class="label">[149]</a> P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas -Mem. do Arceb. de Brag. pag. 40. e 41.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_150" href="#FNanchor_150" class="label">[150]</a> Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6. -Flor. do Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog. -de reb Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. -e 20. Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir. -Corograf. pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_V">CAPITULO V.<br><span class="small"><i>Divisaõ moderna pelas Provincias.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Presentemente se divide Portugal em seis Provincias, ou Regiões: duas -ficaõ na parte septentrional, e se chamaõ <i>Entre Douro e Minho</i>, e -<i>Tras os Montes</i>: duas no coraçaõ do Reino, chamadas <i>Beira</i>, -e <i>Estremadura</i>: e outras duas na parte Meridional, a que chamaõ -<i>Alentejo</i>, e <i>Algarve</i>, que tambem logra o titulo de Reino. -Cada Provincia destas se subdivide em Comarcas, ou Ouvidorias, para boa -administraçaõ da justiça; e cada Comarca tem debaixo da sua jurisdiçaõ -certo numero de Villas, e Lugares, em que existem seus Juizes, que -governaõ subordinados aos Corregedores das Comarcas. Supposta esta -prejacente noticia, entremos a descrever a primeira Regiaõ da parte do -Norte, chamada</p> - - -<h3><i>Provincia do Minho.</i></h3> - -<p>2 Como esta Provincia está encerrada entre as famosas correntes dos -dous rios Douro, e Minho no Occidente septentrional de Hespanha, -da tal situaçaõ tomou nome de Entre Douro, e Minho, que em Latim -se diz <i>Interamnensis</i>, ou <i>Duriminea</i>. Quasi todos os -Geografos<a id="FNanchor_151" href="#Footnote_151" class="fnanchor">[151]</a> lhe daõ de<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span> comprido de Norte a Sul dezoito leguas, e de -Nascente a Poente doze de largo na sua mayor largura, porque em algumas -partes naõ tem mais que oito.</p> - -<p>3 Confina esta Provincia da banda do Meyo dia com o rio Douro, que -a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano, -começando em S. Joaõ da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o -rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do -Norte, vay pelo dito rio até o termo da Villa de Monçaõ, e alli passa o -termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de -Castro-Laboreiro, que saõ doze leguas desde a Villa de Caminha. Dalli -atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, e -vay pela terra de Barrozo até à ponte de Cavez, que está no rio Tamega, -e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay -pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começámos.</p> - -<p>4 O clima he o mais temperado, porque está entre o parallelo de 41 e -42 gráos de altura do Polo Arctico. Daqui nasce, que sendo taõ pequena -esta Regiaõ, he summamente fertil; e a benignidade dos seus ares, a -affluencia dos seus rios, as abundancias, e delicias dos seus campos -comprovaõ a fama do seu admiravel temperamento; donde se animou a dizer -Manoel de Faria,<a id="FNanchor_152" href="#Footnote_152" class="fnanchor">[152]</a> que se no mundo houve Campos Elysios, existiraõ -nesta Provincia; e se os naõ houve, merecia que sómente os houvesse -nella, se he que este titulo se deve dar a sitio ameno, e delicioso.</p> - -<p>5 Assim o vemos, porque a mayor parte desta Provincia está sempre -cheya de arvoredos de todo o genero, que organizaõ hum continuado -bosque perpetuo, e muy aprazivel, composto de loureiros,<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span> azinheiros, -platanos, buxos, murtas, teixos, pinheiros, e ciprestes, que todos nem -de Inverno perdem a folha, além de castanheiros, carvalhos, sovereiros, -e outras arvores, donde se criaõ as mais robustas madeiras do -mundo,<a id="FNanchor_153" href="#Footnote_153" class="fnanchor">[153]</a> taõ ferteis, que ha castanheiro, que dá trinta, e quarenta -alqueires de castanha, e ainda hum moyo, como affirma Joaõ Salgado de -Araujo:<a id="FNanchor_154" href="#Footnote_154" class="fnanchor">[154]</a> pé de vide em latada, ou em arvore, que dá pipa de vinho: -pé de nogueira, que dá moyo de noz: larangeira, que dá cinco carros -de laranja: pé de carvalho, que dá meyo moyo de bolota; e alguns taõ -grandes, que naõ o abrangem quatro homens, como he na quinta de Mouro -de S. Joaõ de Ataens da Villa de Pica de Regalados. Testifica o Doutor -Joaõ de Barros na Descripçaõ, que fez desta Provincia, capitulo 7, que -vira hum, em cujo oco cabiaõ cincoenta cabras, e outro, onde cabiaõ dez -homens a cavallo, dando por testimunha ao Marquez de Villa-Real, que -foy huma das pessoas, que entrara dentro, o que parece encarecimento, -posto que o mesmo escreve Manoel de Faria.<a id="FNanchor_155" href="#Footnote_155" class="fnanchor">[155]</a></p> - -<p>6 Esta abundancia he igual em tudo. De boys, e vacas sustenta -quatrocentos mil, e mais de hum milhaõ de ovelhas, e carneiros, segundo -dizem Duarte Nunes,<a id="FNanchor_156" href="#Footnote_156" class="fnanchor">[156]</a> e outros. O Doutor Joaõ de Barros, sendo -Ouvidor de Braga o anno de 1500 e tantos, diz, que por ordem delRey -mandara fazer a conta do gado, que havia só no termo daquella Cidade, -e achara treze mil cabeças de gado meudo, e de boys, e vacas onze -mil. A mesma fecundidade corresponde a todo o genero de caça, carnes, -e peixes, tudo de excellente sabor, principalmente havendo tantos -rios povoados de gostosos salmões, lampreas,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> trutas, salmonetes, -sáveis, bogas, e tainhas, com infinitos outros igualmente admiraveis. -Criaõ-se tambem todo o genero de legumes, e hortaliça: tem muito mel, e -lacticinios, muito milho, o paõ que basta, e até minas de ouro, prata, -ferro, e estanho. Lavra-se o linho mais fino, de que se fabrîca o panno -branco muy estimado na Europa. Só azeite ha pouco nesta Provincia, naõ -porque a terra deixe de criar oliveiras, mas porque naõ as plantaõ; -porque lisongeados os seus naturaes com o prestimo, e sabor do chamado -unto, de que usaõ tanto nos guizados, como às vezes nas luzes, -esqueceraõ-se de as cultivar.</p> - -<p>7 Saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e -até nos tempos, que a natureza constitue estereis, saõ aqui fecundas -as mulheres. Muitos exemplos, e casos ajuntou para confirmaçaõ desta -raridade, e excellencia Gaspar Estaço,<a id="FNanchor_157" href="#Footnote_157" class="fnanchor">[157]</a> e Antonio de Sousa de -Macedo.<a id="FNanchor_158" href="#Footnote_158" class="fnanchor">[158]</a> Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde -sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o -Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha -parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum sino, e cantar hum -galo.<a id="FNanchor_159" href="#Footnote_159" class="fnanchor">[159]</a> Parece toda a Provincia huma Cidade continuada.</p> - -<p>8 Conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas -aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota, -e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes,<a id="FNanchor_160" href="#Footnote_160" class="fnanchor">[160]</a> e -innumeraveis rios grandes, e pequenos; sendo os de mayor nome os -seguintes: <i>Ave</i>, <i>Basto</i>, <i>Benade</i>, <i>Biturim</i>, -<i>Cabraõ</i>, <i>Caldas</i>, <i>Campanhaõ</i>, <i>Cávado</i>, -<i>Celho</i>, <i>Celinho</i>, <i>Coa</i>, <i>Cosme</i>, <i>Coura</i>, -<i>Deiriz,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> este</i>, <i>Dolo</i>, <i>Douro</i>, <i>Enfesta</i>, -<i>Ensalde</i>, <i>Fato</i>, <i>Ferreira</i>, <i>Fulias</i>, -<i>Gadanha</i>, <i>Gifães</i>, <i>Gogim</i>, <i>Herdeiro</i>, -<i>Homem</i>, <i>Landim</i>, <i>Lavoreiro</i>, <i>Leça</i>, -<i>Lima</i>, <i>Locia</i>, <i>Maçarelos</i> <i>Mejavelhas</i>, -<i>Melres</i>, <i>Minho</i>, <i>Moles</i>, <i>Mouro</i>, <i>Neiva</i>, -<i>Olo</i>, <i>Ovelha</i>, <i>Ouvir</i>, <i>Pontido</i>, <i>Prado</i>, -<i>Ramada</i>, <i>Rellas</i>, <i>Siguelos</i>, <i>Sousa</i>, -<i>Tamega</i>, <i>Taveira</i>, <i>Teixeira</i>, <i>Torto</i>, -<i>Trovella</i>, <i>Tua</i>, <i>Valengo</i>, <i>Vargeas</i>, -<i>Veadões</i>, <i>Vez</i>, <i>Vizella</i>, <i>Zezere pequeno</i>, e -outros, que se diffundem nos capitaes.</p> - -<p>9 Duzentas saõ as pontes de cantaria, a que estes rios obedecem, e -as mais famosas a de <i>Cavez</i> muy larga, e muy alta, com cinco -arcos de pedras taõ admiravelmente lavradas, que todas saõ de hum -tamanho: a de <i>Mondim</i> com seis arcos: a de <i>Amarante</i> feita -por diligencias de S. Gonçalo; e outras muitas. Contaõse-lhe seis -portos de mar capazes de receber navios: <i>Caminha</i>, <i>Viana</i>, -<i>Esposende</i>, <i>Leça</i>, <i>Villa do Conde</i>, <i>Porto</i>.</p> - -<p>10 As Praças de armas cercadas, e acastelladas saõ dezaseis: -<i>Porto</i>, <i>S. Joaõ da Foz</i>, <i>Villa do Conde</i>, -<i>Viana</i>, <i>Caminha</i>, <i>Villa-Nova</i>, <i>Valença</i>, -<i>Lapela</i>, <i>Monçaõ</i>, <i>Melgaço</i>, <i>Castelo Lavoreiro</i>, -<i>Lindozo</i>, <i>Nobrega</i>, <i>Lanhozo</i>, <i>Aguiar de -Pena</i>, <i>Celorico de Basto</i>; e pelo Certaõ tem: <i>Braga</i>, -<i>Guimarães</i>, <i>Ponte de Lima</i>, e <i>Barcellos</i>, de todas as -quaes se faz pleito, e omenagem. E segundo o calculo de Joaõ Salgado -de Araujo,<a id="FNanchor_161" href="#Footnote_161" class="fnanchor">[161]</a> tinha no anno de 1644 seis mil homens capazes de tomar -armas. Mas pelo que toca ao militar, accrescento huma singularidade -desta Provincia, e he, que pelos muitos rios menores, que comprehende, -pontes delles, barcas dos mayores, e grande abundancia de bosques, sem -duvida que causará huma grande difficuldade para se deixar penetrar -de inimigos; e já estes embaraços remiraõ muitas vezes este Paiz da -invasaõ dos Romanos, aos quaes lhe custou tempo, trabalho, e gente a -sua conquista,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> quando tudo rendiaõ suas armas entaõ vitoriosas contra -as mais nações do mundo todo.</p> - -<p>11 Pelo que pertence ao estado Ecclesiastico, ha nesta Provincia duas -Igrejas Cathedraes: <i>Braga</i> Arcebispado, e <i>Porto</i> Bispado. -Cinco Collegiadas: <i>Guimarães</i>, <i>Barcellos</i>, <i>Valença</i>, -<i>Cedofeita</i>, <i>Viana</i>. Paroquias, conforme o calculo de -alguns Authores,<a id="FNanchor_162" href="#Footnote_162" class="fnanchor">[162]</a> tem 1460, e de outros tem 1500.<a id="FNanchor_163" href="#Footnote_163" class="fnanchor">[163]</a> Conventos, -e Mosteiros de diversas Ordens mais de 150. De Ermidas, e Igrejas -naõ Paroquiaes hum grande numero. Corpos de Santos, que venera, tem -quatorze. Santos nacionaes tem grande quantidade: <i>S. Damazo</i>, -<i>S. Gonçalo de Amarante</i>, <i>S. Torcato</i>, <i>S. Pedro de -Rates</i>, <i>S. Gerardo</i>, <i>S. Vitouro</i>, <i>S. Frutuoso</i>, -<i>S. Martinho de Dume</i>, <i>S. Rozendo</i>, <i>Santa Senhorinha</i>, -<i>Santa Suzana</i>, <i>o Irmaõ Pedro de Basto</i>, e outros muitos, de -que o Agiologio Lusitano faz memoria. De homens insignes já em letras, -já em armas tem produzido, e produz numero grandissimo, de que nós, -quando fallarmos das suas patrias particulares, nos lembraremos.</p> - -<p>12 Naõ he para esquecer huma excellente gloria, que esta Provincia tem, -qual he darse nella principio à vida Eremitica muitos annos antes que -S. Paulo primeiro Ermitaõ a introduzisse no Reino; pois sendo S. Felix -o que deu sepultura a S. Pedro de Rates, como consta das suas Lições, e -que vivia nos desertos desta Provincia em hum alto monte de S. Miguel -de Laundos, Abbadia da Villa de Esposende,<a id="FNanchor_164" href="#Footnote_164" class="fnanchor">[164]</a> fica precedendo S. -Felix a S. Paulo o que vay do anno 46, em que morreo S. Pedro de Rates, -ao de 300 em que floreceo S. Paulo. A causa porém, que houve para -chamar a S.<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> Paulo primeiro Ermitaõ, veja-se no Agiologio Lusitano tom. -1.</p> - -<p>13 Divide-se finalmente esta Provincia em seis Comarcas, que vem a -ser: <i>Guimarães</i>, <i>Braga</i>, <i>Porto</i>, <i>Viana</i>, -<i>Barcellos</i>, e <i>Valença</i>. Cada huma dellas tem varias -povoações debaixo de sua jurisdiçaõ. Tudo desta Provincia resumio -nestas duas estancias a Musa de hum engenho Hespanhol:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Entre Duero, y Miño la primera</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Porcion del Reyno, en rios muy bañada,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Donde</i> Braga <i>magnanima prospéra</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De los Brachatos hija sublimada.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Al Romano dificil, y guerrera:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>A los de Porto altiva, y respetada:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De Augusto honor, Juridico Convento,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Corte Sueva, y Arçobispal assiento.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Del Duero ilustra el margen atractivo</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Porto, <i>que de Gatelo pueblo raro</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Dandole a Portugal nombre preclaro.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Guimarães <i>Villa es noble, y primitivo</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Solio de Reys Lusos. Tiene claro</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Timbre</i> Puente de Lima: <i>altas bellezas</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Viana, <i>de partido ambas cabeças.</i></span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p> - -<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia do Minho.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td rowspan="5">I. Guimarães Correiçaõ consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Aguiar da Penha, Amarante, -Canaveses, Guimarães, -Povoa.</td></tr> -<tr><td>19 Concelhos.</td><td>Atey, Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Santa Cruz de Riba Tamega, Felgueiras, Gestaço, Gouvea -de Riba Tamega, Hermello, S. Joaõ de Rey, Lanhoso, Mondim, Montelongo, Ribeira de Pena, Ribeira de Soás, Roças, Serva, Vieira, Villaboa da Roda, Unhaõ.</td></tr> -<tr><td>14 Coutos.</td><td>Abbadim, Fonte Arcada, Mancelos, Moreira de Rey, Parada de Bouro, Pedraido,Pombeiro, Pousadela, -Refoyos de Basto, Taboado, Tibães, Travanca, Tugas, Vimieiro.</td></tr> - -<tr><td>4 Honras.</td><td>Cepães, Meinedo, Ovelha, Villacahiz.</td></tr> - -<tr class="bb"><td>1 Julgado.</td><td>Lagiosa.<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span></td></tr> -<tr><td rowspan="3">II. Viana Correiçaõ consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Arcos de Valdevez, Monçaõ, Ponte da Barca, Ponte -de Lima, Prado, Viana, Villanova de Cerveira.</td></tr> -<tr><td>12 Concelhos.</td><td>Albergaria de Penella, Bouro, Coura, Entre Homem e Cávado, Geraz do Lima, Lindoso, Santa Martha do -Bouro, Santo Estevaõ da Faxa, Soajó, Souto de Rebordaõs, Villa Garcia, Pica de Regalados.</td></tr> -<tr class="bb"><td>15 Coutos.</td><td>Aboim da Nobrega, Azevedo, Baldreu, Boilhosa, Bouro, Cervães ou Villar de Areas, S. Fins, Freiriz, -Luzio, Manhente, Nogueira, Queimada, Sabariz, Souto, Rendufe.</td></tr> -<tr><td rowspan="5">III. Barcellos Ouvidoria consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Barcellos, Castro Laboreiro, Esposende, Famelicaõ, -Melgaço, Rates, Villa do Conde.</td></tr> -<tr><td>3 Concelhos.</td><td>Larim, Portella das Cabras, Villachã.</td></tr> -<tr><td>5 Coutos.</td><td>Cornelã, Fragoso, Gondufe, Palmeira, Villar de Frades.</td></tr> -<tr><td>1 Julgado.</td><td>Vermoim.</td></tr> -<tr class="bb"><td>1 Honra.</td><td>Fralães.<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></td></tr> -<tr><td rowspan="2">IV. Valença Ouvidoria consta de</td><td>3 Villas.</td><td>Caminha, Valença, Valadares.</td></tr> -<tr class="bb"><td>2 Coutos.</td><td>Feães, Paderne.</td></tr> -<tr><td rowspan="2">V. Braga Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Braga.</td></tr> -<tr class="bb"><td>13 Coutos.</td><td>Arentim, Cabaços, Cambezes, Capareiros, Dornelas, Ervededo, Feitosa, Goivães, -Moure, Pedralva, Provesende, Pulha, Ribatua.</td></tr> -<tr><td rowspan="5">VI. Porto Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Porto.</td></tr> -<tr><td>3 Villas.</td><td>Melres, Povoa de Varzim, Villanova.</td></tr> -<tr><td>13 Concelhos.</td><td>Aguiar de Sousa, Avintes, Bayaõ, Bemviver, Gaya, Gondomar, Lousada, Maya, Penafiel de Sousa, Penaguiaõ, -Portocarreiro, Refoyos de Ribadave, Soalhães.</td></tr> -<tr><td>7 Coutos.</td><td>Ansede, Entre ambos os rios, Ferreira, Meinedo, Paço de Sousa, Pendorada, Villaboa de Quires.</td></tr> -<tr class="bb"><td>6 Behetr. e Honras.</td><td>Baltar, Barbosa, Frasaõ, Gallegos, Louredo, Sabrosa.</td></tr> -</table> - -<p> -<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p> - - -<h3><i>Provincia de Tras os Montes.</i></h3> - -<p>1 A Segunda Regiaõ, ou Provincia do Reino, he chamada <i>Tras os -Montes</i>, porque do Reino de Galiza até o Douro de Norte a Sul -atravessaõ huns montes muy altos, que parece estaõ cercando a Provincia -do Minho, como fazem os Alpes a Italia; e saõ de tanta eminencia estes -montes, que em muitas partes tem huma legua de subida aspera, como se -experimenta nas serranias do Gerez, e altura do Maraõ; e assim havendo -respeito ao Minho, fica esta Provincia além daquelles montes, que lhe -deraõ o nome.</p> - -<p>2 Sua demarcaçaõ costuma fazerse da Portela de Homem pela banda do -Norte até à ponte de Cavez; e continuando do Poente pelo rio Tamega -até entrar no Douro, faz este a divisaõ com a Provincia da Beira até -Vilvestre. Daqui olhando para o Norte, o mesmo rio Douro a aparta do -Reino de Leaõ até quatro leguas depois de se chegar a Miranda; e daqui -por divisas, e marcos até dar no rio Maçaõ naõ longe de Maid, onde -inclina a Poente com a serra chamada de Teixeira, e as de Senabria, e -Gerez até vir incorporarse onde começou.</p> - -<p>3 O commum dos Geografos<a id="FNanchor_165" href="#Footnote_165" class="fnanchor">[165]</a> dá a esta Provincia trinta leguas de -comprido, e vinte de largo; porém o Abbade de Pera<a id="FNanchor_166" href="#Footnote_166" class="fnanchor">[166]</a> diz, que naõ -fizeraõ boa mediçaõ; porque da Portella de Homem até Urros defronte de -Vilvestre saõ trinta e quatro leguas, e de Canavezes até o rio Maçaõ -fazem trinta e seis (he erro, porque verdadeiramente naõ devem ser mais -que vinte e seis conforme os Mappas de Fernaõ Alvares Seco, e Pedro -Teixeira) e assim lhe dá de circuito cento e trinta leguas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p> - -<p>4 Muito mal se informou Floriaõ do Campo naõ só na demarcaçaõ, que -dá a esta Provincia, mas em dizer que he terra infrutifera; porque -supposto naõ ser taõ fertil como Entre Douro e Minho, a verdade he -haver aqui muitos valles deliciosos, e muitas Villas abastadas de paõ, -vinho, azeite, mel, frutas, gados, caças, legumes, e sedas. Tal he a -Villa de Chaves muy amena, na qual habitaraõ os Romanos muito tempo, -por ser boa terra, e Villa-Real e outros muitos Lugares desta Regiaõ: -só de frutas de espinho naõ tem abundancia.</p> - -<p>5 O clima naõ ha duvida, que he frio em extremo: tem nove mezes de -Inverno, e tres de Veraõ ardentissimo, por naõ ser arejada do Norte, -que embaça nas montanhas, e com tudo he terra sadia, e de boas aguas, -excepto em Bragança, e Miranda, que saõ pessimas. Os rios mais -nomeados saõ estes: <i>Angueira</i>, <i>Alvedrinha</i>, <i>Azibo</i>, -<i>Beça</i>, <i>Corgo</i>, <i>Caldo</i>, <i>Calvo</i>, <i>Douro</i>, -<i>Fervença</i>, <i>Frio</i>, <i>Fresno</i>, <i>Lobos</i>, -<i>Maçaõ</i>, <i>Mente</i>, <i>Pinhaõ</i>, <i>Rabaçal</i>, -<i>Sabor</i>, <i>Tamega</i>, <i>Tinhella</i>, <i>Tua</i>, -<i>Tuella</i>, <i>Villariça</i>, <i>Vellarva</i>, <i>Zacharias</i>. -Fontes medicinaes tem quarenta e tres.</p> - -<p>6 A gente, que habita esta Provincia, he pela mayor parte robusta, e -corpulenta: as pessoas nobres saõ dotadas de grande primor, e brio; -muy valentes, e honrados; aptos para a guerra, e tem grande exercicio -da gineta, e brida, em que fazem sumptuosas festas. Saõ muy devotos -da Igreja, e veneraõ com estimaçaõ a seus Ministros: conservaõ as -amizades, e com os estranhos saõ attenciosos. As mulheres nobres tem -grande recolhimento, as outras ajudaõ a cultivar as terras a seus -maridos, e às vezes mais trabalhaõ ellas que elles: em fim diz o Abbade -Joaõ Salgado de Araujo, que naõ se sabe desta Provincia vicio algum -nativo della.</p> - -<p>7 Inclue esta Provincia duas Cidades: <i>Miranda</i>, que tem Bispo, -e <i>Bragança</i>, que o naõ tem. Ha tres Igrejas, que parecem -Collegiadas: <i>Chaves,<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> illa-Real</i>, e <i>Torre de Moncorvo</i>, -e consta de muitas Abbadias, Reitorias, e Vigairarias. As Villas, -que tem fortalezas confinantes com Galiza, e Castella, saõ estas: -<i>Montalegre</i>, <i>Erveredo</i>, <i>Chaves</i>, <i>Monforte do -rio livre</i>, <i>Bragança</i>, <i>Outeiro</i>, <i>Miranda</i>, -<i>Folgoso</i>, <i>Penas de Royas</i>, <i>Mogadouro</i>, <i>Freixo de -Espadacinta</i>, e de todas se dá omenagem.</p> - -<p>8 Divide-se finalmente esta Provincia em quatro Correições: -<i>Moncorvo</i>, <i>Miranda</i>, <i>Bragança</i>, e <i>Villa-Real</i>. -Servem de epitome das suas grandezas estas duas Oitavas:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Tras los Montes la porcion segunda</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De heroicas poblaciones adornada,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Donde</i> Miranda <i>Episcopal se funda</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Sobre peñascos bien encastillada.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>DelRey Brigo</i> Bragança <i>hija segunda,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De la Inez bella, como desdichada,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Talamo, en llano delicioso brilla,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De esclarecidos Duques alta silla.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Entre otras Villas sale floreciente</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>La</i> Torre de Moncorvo; <i>la apacible</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;">Villa-Flor: Mirandela <i>con gran puente:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Belica</i> Chaves, Villa-Real <i>plausible,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;">Freixo de Espadacinta <i>muy valiente,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;">Alfandega da Fé <i>apeticible,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;">Mascareñas <i>en frutas deliciosa</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Fertil</i> Chacim, <i>y en trato generosa.</i></span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p> - -<p class="center p2 caption"><i>Comarcas da Provincia de Tras os Montes.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td>I. Torre do Moncorvo Correiçaõ consta de</td><td>26 Villas. -</td><td>Abreiro, Agua revez, Alfandega da Fé, Anciães, Castro-Vicente, Chacim, Cortiços, Frechas, Freixiel, Freixo de Espadacinta -Lamas de Orelhaõ, Linhares, Moncorvo, Mirandella, Monforte de rio livre, Mós, Murça de Panoya, Nuzellos, Pinhovelo, Sampayo, -Sezulfe, Torre de D. Chama, Valdasnes, Villas-boas, Villaflor, Villarinho da Castanheira.</td></tr> -<tr class="bt"><td rowspan="2">II. Miranda. Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Miranda.</td></tr> -<tr><td> -14 Villas.</td><td>Algoso, Azinhoso, Bemposta, Carrocedo, Failde,Frieira, Mogadoiro, Penas de Royas, Rebordainhos, -Sanseriz, Val de Passó, Vilar seco da Lomba, Vimioso, Vinhaes.</td></tr> -<tr class="bt"><td rowspan="2">III. Bragança Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Bragança.</td></tr> -<tr><td>10 Villas.</td><td>Chaves, Ervedosa, Gustey, Montalegre, Outeiro, Rebordãos, Ruivães, Val de Nogueira, Val de Prados, -Villafranca.<span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></td></tr> -<tr class="bt"><td rowspan="2">IV. Villa-Real Ouvidoria consta de</td><td>9 Villas, e Coutos.</td><td>Alijó, Dornellas, Ervededo, -Favayos, Lordelo, S. Mamede de Riba-Tua, Provezende, Ranhados, Villa-Real.</td></tr> -<tr class="bb"><td>2 Honras.</td><td>Gallegos, Sobrosa.</td></tr> -</table> - - -<h3><i>Provincia da Beira.</i></h3> - -<p>1 Quasi no coraçaõ do Reino está situada esta Provincia, e com a -extensaõ de trinta e quatro leguas desde Punhete até Villa-Nova do -Porto; e se contarmos de Buarcos até Val de la mula, saõ trinta e seis, -e de Punhete até a foz do Agueda saõ quarenta e cinco, e da foz do -Douro até Rosmaninhal fazem cincoenta e huma. Por esta demarcaçaõ, que -o Abbade de Pera tem por certa, e exacta, vem a ter esta Provincia de -circumferencia duzentas leguas pouco mais, ou menos, com o que torce -para costear a Estremadura; porém commummente se lhe dá trinta e seis -leguas de comprido, e outro tanto de largo, e assim fórma huma figura -quasi quadrada, tendo algumas entradas em Alentejo, e Estremadura -Lusitana.</p> - -<p>2 Confina pelo Oriente com a Estremadura Castelhana, e Leoneza, e parte -da Provincia de Tras os Montes, cujos limites continúa pelo Norte com -os da Regiaõ de Entre Douro, e Minho. Pelo Occidente recebe as aguas -do Oceano, e pelo Meyo Dia confina com a Estremadura de Portugal, e -Alentejo. Chama-se Beira, ou porque seus primeiros habitadores se -chamavaõ Berones, como diz Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_167" href="#Footnote_167" class="fnanchor">[167]</a> ou porque -respeitando-se a sua<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> situaçaõ, por ser toda cercada de agua dos rios -Douro, Tejo, Coa, e Oceano, significa o mesmo que Margem, Borda, ou -Beira.<a id="FNanchor_168" href="#Footnote_168" class="fnanchor">[168]</a> Joaõ Salgado diz, que o seu verdadeiro nome he <i>Vera</i>, -que se converteo em Beira.</p> - -<p>3 Reparte-se em duas largas porções de terra: huma, que se diffunde -desde a Serra da Estrella até o rio Tejo, e se diz <i>Beira baixa</i>: -outra, que desde a mesma Serra se espalha até o rio Douro, e desde -a Cidade de Coimbra até a do Porto, que aqui se diz Beiramar, e no -restante <i>Beira alta</i>.<a id="FNanchor_169" href="#Footnote_169" class="fnanchor">[169]</a> Esta dilatada extensaõ de terreno -grangeou a esta Provincia o honroso titulo de Principado, que desde o -anno de 1734 anda nos netos primogenitos dos Monarcas Portuguezes.<a id="FNanchor_170" href="#Footnote_170" class="fnanchor">[170]</a></p> - -<p>4 He terra muy fertil de centeyo, milho, castanha, vinho, gados, caças, -e gostosos peixes, produzindo a amenidade deste Paiz toda a diversidade -de saborosissimas frutas, especialmente os celebrados verdeaes de -Inverno, ajudando muito para esta abundancia a grande copia de aguas -de fontes, e rios, sendo os mais nomeados os seguintes: <i>Agueda</i>, -<i>Alva</i>, <i>Alfusqueiro</i>, <i>Aravil</i>, <i>Arda</i>, -<i>Balsamaõ</i>, <i>Berosa</i>, <i>Ceira</i>, <i>Coa</i>, <i>Daõ</i>, -<i>Dansos</i>, <i>Douro</i>, <i>Elja</i>, <i>Freixiandas</i>, -<i>Lomba</i>, <i>Lorveo</i>, <i>Marnel</i>, <i>Mondego</i>, -<i>Paiva</i>, <i>Ponsul</i>, <i>Ramalhoso</i>, <i>Sardaõ</i>, -<i>Soberbo</i>, <i>Tourões</i>, <i>Tripeiro</i>, <i>Veroza</i>, -<i>Vouga</i>, <i>Xudruro</i>, <i>Zezere</i>.</p> - -<p>5 Tem produzido esta Provincia homens famosissimos. Daqui foy ElRey -Wamba, e o valeroso Viriato, posto que Entre Douro e Minho contenda -sobre a naturalidade deste segundo; porque diz o Gerudense, que os -Soldados, que aquelle insigne Capitaõ trazia comsigo, eraõ Duriminios. -Os mais daquelles celebrados aventureiros, que foraõ a Inglaterra<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span> em -defensa das doze Damas motejadas de feyas, daqui eraõ naturaes, como -tambem o foraõ oito Reys Portuguezes, dous Sanchos, tres Affonsos, D. -Pedro, D. Fernando, e D. Duarte; e por naõ se gloriar só do nascimento, -honra-se naõ pouco de ser conservatorio de tres corpos veneraveis, e -Regios, como he o delRey D. Affonso Henriques, da Rainha Santa Isabel, -e de D. Sancho I, e tambem do delRey D. Rodrigo, ultimo Rey Godo.</p> - -<p>6 Manoel de Faria mal affecto porém à gente desta Regiaõ, com injurioso -conceito critíca absolutamente a todos os nacionaes della de pedintes, -e de pouco asseados.<a id="FNanchor_171" href="#Footnote_171" class="fnanchor">[171]</a> O defeito particular de alguns individuos -naõ deve ser motivo para deteriorar a opiniaõ commua de huma Provincia -inteira. Eu bem sey que já Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_172" href="#Footnote_172" class="fnanchor">[172]</a> tratando dos -antigos habitadores da Serra da Estrella, chamados Herminios, diz, -que eraõ homens asperos, e duros de condiçaõ, indomitos pelas armas, -muy rusticos no traje, e modo de vestir, amigos de roubar o alheyo, -e pouco fieis no que tratavaõ; porém a cultura dos tempos, e a mesma -experiencia tem mostrado quanto se deve desvanecer este conceito, pois -o que vemos hoje nos seus naturaes, principalmente nos da primeira -esfera, he hum animo valente, e brioso, amigos de buscar honras, e -fortuna, ou pela carreira das letras, ou das armas, em que tem feito -progressos de grande credito para todo o Reino.</p> - -<p>7 Continuando a descrever suas grandezas, incluem-se nesta Provincia -cinco Cidades; quatro com Bispo: <i>Coimbra</i>, <i>Viseu</i>, -<i>Lamego</i>, <i>Guarda</i>; e <i>Aveiro</i> modernamente erecta -em Cidade, que o naõ tem. Divide-se em nove Comarcas: de quatro saõ -cabeças as quatro Cidades; e das cinco he: <i>Castello-Branco,<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span> -inhel</i>, <i>Esgueira</i>, <i>Montemór o velho</i>, e <i>Feira</i>. -Tem duzentas e trinta e quatro Villas, das quaes cincoenta e oito saõ -acastelladas, além das cinco Cidades. As que confinaõ com Castella saõ -estas: <i>Castello-Branco</i>, que no anno de 1704 foy accommettida de -Castelhanos, e fica opposta à Villa de Herrera: <i>Rosmaninhal</i>, -<i>Segura</i>, <i>Salvaterra da Beira</i>, que todas tres se oppoem -à Villa de Alcantara, Praça de armas de Castella: <i>Penagarcia</i>, -<i>Idanha a velha</i>, <i>Monsanto</i> defensavel por natureza, -<i>Proença</i>, <i>Belmonte</i>, <i>Penamacor</i>, <i>Sabugal</i>, -<i>Sortelha</i>, <i>Alfayates</i>, <i>Villar-Mayor</i>, <i>Castello -Mendo</i>, <i>Castello Bom</i>, <i>Almeida</i>, <i>Pinhel</i>, -<i>Castello Rodrigo</i>.</p> - -<p>8 Tem mais de sete mil homens, que podem tomar armas: ha nesta -Provincia a mayor porçaõ das Comendas deste Reino: sustenta mais de -quarenta e quatro Conventos de Religiosos de varias Ordens, e vinte e -tres de Religiosas: muitas Igrejas com Coro, em que se reza o Officio -Divino: innumeraveis Abbadias, e Ermidas. Huma das singularidades, -de que se póde gloriar, he comprehender as duas mais admiraveis -officinas da virtude, e letras, que tem o Reino, quaes saõ Bussaco, -e a Universidade de Coimbra, donde tem sahido Varões portentosos na -santidade, e nas sciencias. Comprehendemos tudo succintamente nas -seguintes estancias:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Beira, la tercera Region, que ostenta</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De Viriato el nombre formidable,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Donde</i> Coimbra <i>Episcopal se assienta</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De Mondego en la orilla deleitable.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Produxo siete Reyes opulenta</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Grande en lo noble en letras admirable:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Yaze Obispal</i> Viseu <i>en gran llanura</i></span><br> -<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Del infeliz Rodrigo sepultura.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;">Lamego, <i>Episcopal sale gallarda</i>,</span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Aveiro <i>en territorio es abundante.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Sobre peñascos asperos la</i> Guarda</span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Con Iglesia Pastoral luze brillante.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Sin Mitra</i> Idaña, <i>solo el timbre guarda,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que de Wamba adquiriò patria elegante;</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Mas poblacion la nueva Idaña tiene,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que en el sitio cercano se contiene.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;">Castello-Branco <i>entre otras cobra fama:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Tentugal <i>por la fuente, que ay en ella,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Montemayor <i>de Brigo obra se acclama,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Fuerte</i> Almeida, <i>que en armas tiene estrella.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Celorico <i>el laurel de Apolo enrama:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Por sus Duques</i> Lafões, <i>y</i> Avero <i>es bella:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Cobillan <i>goza celebre fortuna</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De la Cava fatal illustre cuna.</i></span><br> -</p> - - -<p class="center caption"><i>Comarcas da Provincia da Beira.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td rowspan="3">I.Coimbra Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Coimbra.</td></tr> -<tr><td>32 Villas.</td><td>Alvaiazere, Ançã, Anciaõ, Arganil, Avó, Bobadella, Botaõ, Buarcos, Cantanhede, Carvalho, Celavisa, -Cernache, Santa Comba-Daõ, Coja, Santa Christina, Esgueira, Fadeira, Fajaõ, Goes, Mira, Miranda -do Corvo, Pena-Cova, Pereira, Podentes, Pombalinho, Pombeiro, Rabaçal, Redondos, Tentugal, Vacariça, -Villanova de Anços, Villanova de Monçarros.<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></td></tr> -<tr class="bb"><td>1 Cidade.</td><td>Aveiro.</td></tr> -<tr><td rowspan="3">II. Esgueira Provedoria consta de</td><td>26 Villas.</td><td>Aguieira, Anadia, Angeja, Assequins, Avelãs de caminho, -Avelãs de cima, Bemposta, Brunhido, Eixo, Estarreja, Ferreiros, Ilhávo, S. Lourenço do Bairro, Oiz da Ribeira, Oliveira do Bairro, -Paos, Prestimo, Recardães, Sangalhos, Segadães, Serem, Sousa, Trofa, Villarinho do Bairro, Vagos, Vouga.</td></tr> -<tr><td>1 Concelho.</td><td>Fermedo.</td></tr> -<tr class="bb"><td>1 Couto.</td><td>Esteve.</td></tr> -<tr><td rowspan="4">III. Viseu Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Viseu.</td></tr> -<tr><td>22 Villas.</td><td>Alva, Banho, Candosa, Coja, Enfias, Ferreira d’Aves, Lagares, Mortagoa, Nogueira, Oliveira do Conde, Oliveira -de Frades, Oliveira do Hospital, Penalva d’Alva, Perselada, Reriz, Sabugosa, Sandomil, Santa Comba-Daõ, S. Pedro do Sul, Taboa, Trapa, Tondela.</td></tr> -<tr><td>30 Concelhos.</td><td>Azere, Azurara, Barreiro, Besteiros, Canas de Sabugosa, Canas de Senhorim, Currellos, -Folhadal, Foz de Piodaõ, Gafanhaõ, Guardaõ, Gulfar S. Joaõ de Areas, S. Joaõ do Monte, Lafões, Mões, Mouraz, -Ovoa, Penalva do Castello, Pinheiro de Azere, Povolide, Ranhados, Sataõ, Senhorim, Sever, Silvares, Sinde, Tavares, Treixedo, Villacova de Subavó. -</td></tr> -<tr class="bb"><td>2 Coutos.</td><td>Maceiradaõ, Moimenta.<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></td></tr> -<tr class="bb"><td>IV. Feira Ouvidoria consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Cambra, Castanheira, Feira, Ovar, Pereira de Susaõ.</td></tr> -<tr><td rowspan="3">V. Lamego Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Lamego.</td></tr> -<tr><td>32 Villas.</td><td>Arcos, Armamar, Arouca, Barcos, Britiande, Castello, Castrodairo, Chavães, -S. Cosmado, Fantello, Fragoas, Goujim, Granja do Tedo, Lalim, Lazarim, Leomil, Longa, Lumiares, Moimenta da Beira, Mondim, -Nagosa, Parada do Bispo, Passó, Pendilho, Sande, Taboaço, Tarouca, Valdigem, Varzea da serra, Veanha, Villacova, Villaseca.</td></tr> -<tr class="bb"><td>20 Concelhos.</td><td>Alvarenga, Aregos, Barqueiros Cabril, Caria, Couto da Ermida, S. Christovaõ da Nogueira, Ferreiros, S. Martinho de Mouros, Mossaõ, -Paiva, Parada de Ester, Pera e Peva, Pezo da Regoa, Pinheiro, Rezende, Sanfins, Sinfaes, Teixeira, Tendaes.<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span> -</td></tr> -<tr><td rowspan="2">VI. Pinhel Correiçaõ consta de</td><td>54 Villas.</td><td> -Aguiar, Alfaiates, Algodres, Almeida, Almendra, Castanheira, Casteiçaõ, Castello bom, Castello melhor, Castello mendo, Castello-Rodrigo, -Cedavim, Cinco Villas, Ervedosa, Escalhaõ, Figueiró da Granja, Fonte Arcada, Fornos, Guilheiro, Horta, S. Joaõ da Pesqueira, Lamegal, Langroiva, Marialva, -Matança, Meda, Moreira, Muxagata, Nemaõ, Paradella, Paredes, Penaverde, Penedono, Penella, Pinhel, Ponto, Povoa, Ranhados, -Reigada, Sernancelhe, Sindim, Soutelo, Souto, Tavora, Touça, Trancoso, Trovões, Valença do Douro, Val de coelha, Vallongo, Vargeas, Veloso, Villanova de Foscoa, Villar mayor. -</td></tr> -<tr class="bb"><td>1 Concelho.</td><td>Carapito.</td></tr> -<tr><td rowspan="3">VII. Guarda Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Guarda.</td></tr> -<tr><td>29 Villas.</td><td>Açores, Alvoco da Serra,Baraçal, Cabra, Castro verde, Cea, Celorico, Codeceiro Covilhã, Folgosinho, Forno-Telheiro, Gouvea, Jarmello, Lagos, Linhares, -Loriga, Lourosa, Manteigas Santa Marinha, Mello, Mesquitella, Midões, Oliveirinha, Seixo, S. Romaõ, Torrozello, Vallazim, Valhelhas, Villacova. -</td></tr> -<tr class="bb"><td>1 Couto.</td><td>Mosteiro.<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></td></tr> -<tr class="bb"><td>VIII. Castello-Branco Correiçaõ consta de</td><td>22 Villas.</td><td> -Alpedrinha, Atalaya, Belmonte, Bemposta, Castello-Branco, Castelo novo, Idanha nova, Idanha velha, Monsanto, Penagarcia, Penamacor, -Proença a velha, Rosmaninhal, Sabugal, Salvaterra do Estremo, Sarzedas, Segura, Sortelha, Touro, S. Vicente, Villa velha do Rodaõ, Zibreira. -</td></tr> -<tr class="bb"><td>IX. Montemor o velho Ouvidoria consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Louriçal, Louzã, Montemor o velho, Penella, Serpins. -</td></tr></table> - - -<h3><i>Provincia da Estremadura.</i></h3> - -<p>1 Esta Provincia se fórma de huma faxa de terra, que corre desde a boca -do rio Mondego até o caudaloso Tejo, e continúa pela Comarca de Setubal -até entestar com Santiago de Cacem. Comprehende em toda esta longitude, -conforme huns, quarenta leguas; e segundo outros, trinta e tres. De -largo huns lhe daõ dezoito, outros dezaseis<a id="FNanchor_173" href="#Footnote_173" class="fnanchor">[173]</a> leguas na sua mayor -largura; porém se lançarmos huma linha de Cascaes até a Pampilhosa, -acharemos trinta e seis leguas de latitude. Pelo Occidente o mar Oceano -a termina: pelo Meyo dia confina com o Alentejo a travez, e pelo Norte -com a Beira.</p> - -<p>2 He o clima desta Regiaõ o mais saudavel, e temperado de todo o Reino, -porque a benignidade<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> do Ceo faz aqui ser insensiveis aquellas estações -do tempo, que gradualmente succedem humas às outras com mudança suave; -e assim participando quasi sempre de ar puro, e Ceo sereno, produz -nella a natureza com abundancia os frutos de todos os generos. Fertil -he de azeites, bastando só a Villa de Santarem para prover o Reino, -e suas Conquistas: fertil he de vinhos, e dos melhores, chamados de -barra a barra, taõ estimados das nações Septentrionaes: fertil he de -frutas, das quaes sómente a Villa de Collares todo o anno provê a -Corte de Lisboa e se conduzem para outras muitas terras da Europa. De -trigo, legumes, e hortaliças tem o que lhe basta. Cria caças de toda a -especie, e das mais gostosas, porque comprehende as melhores coutadas -do Reino. Peixe em abundancia, e saborosissimo; e finalmente sem -exaggeraçaõ podemos dizer, que he a Provincia mais fertil, e farta de -Portugal, concorrendo tambem as outras com os seus productos para mais -a fertilizar, e enriquecer, tratando-a verdadeiramente como Rainha, -pois existe no meyo do Reino coroada de todas.</p> - -<p>3 Muito conduz para toda esta abundancia os seus famosos portos, -especialmente o de Lisboa, por onde todos os annos entraõ as ricas -frotas do Brasil, e em pouco mais tempo as preciosas mercadorias da -Asia, e quasi todos os dias innumeraveis embarcações estrangeiras -para commodidade do commercio, que he nesta Provincia o mayor de -todo o Reino. Conduz tambem naõ pouco a grande copia de boas aguas -de suas fontes, e rios, os quaes, segundo seu mayor nome, saõ -estes: <i>Aguas livres</i>, <i>Alcantara</i>, <i>Alferradede</i>, -<i>Alfusqueiro</i>, <i>Aljés</i>, <i>Alpiaça</i>, <i>Alviella</i>, -<i>Arunca</i>, <i>Barcarena</i>, <i>Bezelga</i>, <i>Broya</i>, -<i>Cadavás</i>, <i>Cambra</i>, <i>Canha</i>, <i>Castelãos</i>, -<i>Cera</i>, <i>Caranque</i>, <i>Chileiros</i>, <i>Crins</i>, -<i>Esporaõ</i>, <i>Guardaõ</i>, <i>Lago</i>, <i>Lena</i>, <i>Liten</i>, -<i>Liça</i>, <i>Liz</i>, <i>Montijo</i>, <i>Nabaõ</i>, <i>Pernes</i>, -<i>Rezes</i>, <i>Sado</i>, <i>Sizandro</i>, <i>Tejo</i>, <i>Val de -lobos</i>, <i>Unhaes</i>, <i>Zezere</i>,<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> a que podemos accrescentar -por singularidade as virtuosas aguas das que chamamos Caldas, que nesta -Provincia existem as de melhor fama.</p> - -<p>4 Quanto ao estado Ecclesiastico, tem duas Igrejas Cathedraes: -<i>Lisboa</i>, que logra a dignidade de Patriarcado; e <i>Leiria</i> a -de Bispado. Numeraõ-se-lhe quatrocentas e sessenta e duas Paroquias, -além de outras muitas Igrejas, que o naõ saõ. Tres insignes -Collegiadas: <i>Santa Maria Mayor</i> em Lisboa, <i>Nossa Senhora -da Misericordia</i> em Ourem, e <i>Santa Maria da Alcaçova</i> em -Santarem, com outras, que o parecem, como na Igreja de Santo Antonio de -Lisboa, Santo Antonio do Tojal, &c. Dous grandes Priorados das Ordens -Militares: de <i>Santiago</i> em Palmella, de <i>Christo</i> em Thomar. -Seis Templos Regios os mais insignes: <i>Alcobaça</i>, <i>Batalha</i>, -<i>Belém</i>, <i>Mafra</i>, <i>Thomar</i>, <i>S. Vicente de Fóra</i>. -Conventos, e Mosteiros mais de cento e setenta. Hum supremo Tribunal do -Santo Officio. E finalmente he onde com mayor culto, asseyo, e grandeza -se executaõ todas as festividades, funções Ecclesiasticas, e Officios -Divinos, augmentando-se mais a devoçaõ com os prodigiosos Santuarios, -que encerra cheyos de continuadas maravilhas.</p> - -<p>5 As sciencias nos seus frenquentados Collegios, e Academias: as artes -liberaes nas suas grandes, e opulentas fabricas: a politica, o trato, -e a civilidade florecem nesta Regiaõ: até o idioma se pronuncía com -mayor pureza, e cadencia do que nas outras Provincias; pois nella -reside a Corte de Lisboa, que como Princeza de todas as do mundo, como -lhe chamou o nosso Poeta, infunde qualidades para a melhor cultura, e -perfeiçaõ. Finalmente</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Es la quarta Provincia Estremadura,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que contiene a</i> Lisboa, <i>donde cria,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Del claro lis beviendo la dulçura</i></span><br> -<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Con Episcopal Baculo</i> Leiria.</span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>La Villa de</i> Batalla <i>se assegura</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">De Reyes Portuguezes urna umbria.</span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Santarem <i>con portentos se corona,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Y de aver sido throno Real blasona.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Con gran juridicion</i> Thomar <i>se ofrece</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Al dulce Naban, que sus campos baña.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Alenquer <i>del Alano permanece</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Fundacion en frutifera campaña.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Cintra <i>del quinto Alonso patria crece.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Primera poblacion sale de España,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Setubal <i>al mar grande dirigida</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Morada de Tubal apetecida.</i></span><br> -</p> - - -<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia da Estremadura.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt bb"><td>I. Lisboa Capital do Reino consta de</td><td>41 Paroquias.</td><td> -Senhora da Ajuda, Santo André, Senhora dos Anjos, S. Bartholomeu, Santa Catharina, Chagas de Jesus, S. Christovaõ, Senhora da Conceiçaõ, Santa Cruz do -Castello, Senhora da Encarnaçaõ, Santa Engracia, Santo Estevaõ, S. Joaõ da Praça, S. Jorge, S. Joseph, Santa Isabel, -S. Juliaõ, Santa Justa, Senhora do Loreto, S. Lourenço, S. Mamede, Santa Maria, Santa Maria Magdalena, Santa Marinha, S. Martinho, -Senhora dos Martyres, Senhora das Mercês, S. Miguel, S. Nicolao, Patriarcal, S. Paulo, -S. Pedro, Senhora da Pena, Santissimo Sacramento, Salvador, Santiago, Santos, S. Sebastiaõ, Senhora do Soccorro, S. Thomé, S. Vicente.<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span> -</td></tr> -<tr class="bb"><td>II. Torres Vedras Correiçaõ consta de</td><td>18 Villas.</td><td>Alhandra, Alverca, Arruda, -Bellas, Cadaval, Cascaes, Castanheira, Chilleiros, Collares, Enxara dos Cavalleiros, -Ericeira, Lourinhã, Mafra, Povos, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras, Villa Franca de Xira, Villa Verde. -</td></tr> -<tr class="bb"><td>III. Alanquer Ouvidoria consta de</td><td>8 Villas.</td><td>Aldea Galega da Merciana, -Alenquer, Caldas, Chamusca, Cintra, Obidos, Salir do Porto, Ulme.</td></tr> -<tr><td rowspan="2">IV. Leiria Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Leiria.</td></tr> -<tr class="bb"><td>11 Villas.</td><td>Alcobaça, Alfeizeraõ, Aljubarrota, Alpedriz, Alvorninha, Atouguia, Batalha, S. Catharina, Cella, Coz, Ega, -Evora de Alcobaça, S. Martinho, Mayorga, Pederneira, Peniche, Pombal, Redinha, Salir do Mato, Soure, Turquel.</td></tr> -<tr class="bb"><td>V. Thomar Correiçaõ consta de</td><td>28 Villas.</td><td> -Abiul, Abrantes, Aguas Bellas, Aguda, Alvaro, Alváres, Amendoa, Aréga, Assinceira, Atalaia, Chaõ de couce, Dornes, Ferreira, Figueirò -dos vinhos, Maçãs de caminho, Maçaõ, Pampilhosa, Payo de pelle, Pedrogaõ grande, Pias, Ponte de Sor, Punhete, Pussos, Sardoal, -Sovereira formosa, Tancos, Thomar, Villa de Rey.<span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></td></tr> -<tr class="bb"><td>VI. Ourem Ouvidoria consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Aguda, Avelar, Chaõ de Couce, Maçãs de D. Maria, -Ourem, Porto de Moz, Pousaflores.</td></tr> -<tr class="bb"><td>VII. Santarem Correiçaõ consta de</td><td>15 Villas.</td><td>Alcanede, Alcoentre, Almeirim, -Aveiras de cima, Aveiras de baixo, Azambuja, Azambugeira, Erra, Golegã, Lamarosa, Montargil, -Mugem, Salvaterra de Mangos, Santarem, Torresnovas.</td></tr> -<tr class="bb"><td>VIII. Setubal Correiçaõ consta de</td><td>16 Villas.</td><td>Alcacer do Sal, Alcochete, -Aldea Gallega, Alhosvedros, Almada, Barreiro, Cabrella, Çamora Correya, Canha, Coina, Grandola, Lavradio, Moita, Palmela, Setubal, -Sezimbra.</td></tr> -</table> - - -<h3><i>Provincia do Alentejo.</i></h3> - -<p>1 Chama-se esta Provincia <i>Alentejo</i>, respeitando as outras -Provincias de Portugal, que ficaõ ao Norte do rio Tejo; mas isto -he conforme a divisaõ politica, e naõ fisica. Dilata-se entre os -limites da Estremadura Castelhana, Reino do Algarve, mar Oceano, -Tejo, e Guadiana, quasi em fórma quadrada, pelo que lhe daõ muitos -trinta e quatro leguas de huma, e outra parte;<a id="FNanchor_174" href="#Footnote_174" class="fnanchor">[174]</a> porém o seu mayor -comprimento pelo certaõ saõ trinta e nove<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> leguas, pela costa vinte -e oito, e tendo pela margem do Tejo trinta e cinco de largura, se -estreita, e reduz na raya do Algarve a vinte e huma.<a id="FNanchor_175" href="#Footnote_175" class="fnanchor">[175]</a></p> - -<p>2 He o seu terreno pela mayor parte plano, posto que o atravessaõ -algumas serras, a de Ossa, Caldeiraõ, Portalegre, Montemuro, Marvaõ, -e outras, donde nascem fontes, e rios, naõ em tanta abundancia, -como nas outras Provincias, porque tambem o ardente Sol no Veraõ -consome aqui muito sua humidade, mas todavia sempre se lhe numeraõ -de mayor nome os seguintes: <i>Abrilongo</i>, <i>Alcarapinha</i>, -<i>Alcaraviça</i>, <i>Alcarache</i>, <i>Algale</i>, <i>Anheloura</i>, -<i>Aramenho</i>, <i>Aviz</i>, <i>Benavile</i>, <i>Bonafide</i>, -<i>Botova</i>, <i>Cabaça</i>, <i>Caya</i>, <i>Cayola</i>, -<i>Campilhas</i>, <i>Canha</i>, <i>Carreiras</i>, <i>Cobrinhas</i>, -<i>Corbes</i>, <i>Corona</i>, <i>Dejebe</i>, <i>Detença</i>, -<i>Enxarrama</i>, <i>Erra</i>, <i>Ervedal</i>, <i>Figueiró</i>, -<i>Fonte boa</i>, <i>Galego</i>, <i>Guadiana</i>, <i>Lavra</i>, -<i>Lamarosa</i>, <i>Leça</i>, <i>Limas</i>, <i>Lixoza</i>, -<i>Lucefece</i>, <i>Machede</i>, <i>Marataca</i>, <i>Mourinho</i>, -<i>Niza</i>, <i>Odemira</i>, <i>Odivellas</i>, <i>Odivor</i>, -<i>Peramança</i>, <i>Regalvo</i>, <i>S. Romaõ</i>, <i>Sarrazola</i>, -<i>Seda</i>, <i>Sever</i>, <i>Severa</i>, <i>Sor</i>, <i>Sorraya</i>, -<i>Taleigaõ</i>, <i>Tejo</i>, <i>Tera</i>, <i>Terjes</i>, -<i>Videgaõ</i>, <i>Xever</i>, <i>Xevora</i>, <i>Xola</i>, -<i>Xouxou</i>, <i>Zata</i>.</p> - -<p>3 He fertilissima, pois correspondem os frutos com grande abundancia. -De trigo diz Macedo,<a id="FNanchor_176" href="#Footnote_176" class="fnanchor">[176]</a> que só a Freguezia da Cathedral de Evora dá -ao dizimo cada anno setecentos moyos, com a circunstancia de que os -lavradores naõ cultivaõ todas as terras capazes de sementeira, senaõ -escolhem algumas, a que chamaõ folhas, para fazerem a lavoura de tres -em tres annos; isto he, a que se semeou este anno, naõ se torna a -affolhar, senaõ passados tres annos; porque se Alentejo cultivasse -annualmente todas as dilatadas campinas, e charnecas, que tem, daria -trigo, centeyo, e cevada para todo o mundo.<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span> A esta abundancia attendeo -Camões, quando cantou:<a id="FNanchor_177" href="#Footnote_177" class="fnanchor">[177]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>E vós tambem, ò terras Transtaganas,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Affamadas co dom da flava Ceres.</i></span><br> -</p> - -<p>4 Além dos trigos he abundante de boas frutas, azeite, vinho, mel, -cera, lãs, caças, gados, excellentes queijos, finos marmores, -affamados, e cheirosos barros; de sorte que esta Provincia naõ -necessita de cousa alguma, que em si naõ tenha com abundancia: até -peixe colhe abundantemente da ribeira do Sado, que entra no rio de -Alcacere, e na da Fonte Santa, que está no caminho de Estremoz, além de -outros rios, que temos nomeado.</p> - -<p>5 Ha em Alentejo quatro Cidades: <i>Evora</i>, que tem Arcebispo: -<i>Elvas</i>, e <i>Portalegre</i>, que tem Bispos: <i>Beja</i> que -o naõ tem. Contaõ-se mais de cem Villas: dous grandes Priorados das -Ordens Militares, de <i>Aviz</i>, e de <i>Malta</i>. Divide-se em oito -Comarcas, que saõ: <i>Evora</i>, <i>Béja</i>, <i>Campo de Ourique</i>, -<i>Villa Viçosa</i>, <i>Elvas</i>, <i>Portalegre</i>, <i>Crato</i>, -<i>Aviz</i>, das quaes algumas saõ Ouvidorias.</p> - -<p>6 Sempre nesta Provincia floreceraõ homens de singulares engenhos: em -tempos antigos Aprigio, Isidoro Pacense, e outros muitos: nos mais -proximos aos nossos André de Resende, o Padre Maldonado, o Padre -Manoel de Goes, o Doutor Pedro Nunes, rarissimo na Mathematica, -Thomaz Rodrigues, insigne Medico, além de muitos outros em todas as -faculdades. E no valor teve tambem homens assinalados, como foy D. Payo -Peres Correa, Josué Portuguez, D. Nuno Alvares Pereira, D. Vasco da -Gama, primeiro descubridor das Indias, os quaes bastaõ para credito da -Provincia. Tudo se recopila nestas duas estancias.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Sigue quinta Region la de Alentejo,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Cuya cabeça, y Metropolitana</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Es</i> Evora, <i>de Roma claro espejo,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Del gran Giraldo gloria soberana.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Tiene noble dominio, y fiel consejo</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Portalegre <i>risueña Diocesana.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Elvas <i>con Mitra luze venerable,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Siendo por su Castillo inexpugnable.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;">Béja <i>Ciudad insigne se publíca,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Y el precioso licor de Baco enseña.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Entre otras Villas</i> Estremoz <i>muy rica</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Es invencible, y fuerte</i> Jurumeña.</span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Por sus inclytos Nobles a Belona</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Montemayor <i>el Nuevo el ser dedica.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;">Villa Viçosa <i>en llano está florido</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Templo de Proserpina, y de Cupido.</i></span><br> -</p> - - -<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia do Alentejo.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td rowspan="2">I. Evora Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Evora.</td></tr> -<tr class="bb"><td>11 Villas.</td><td>Aguias, Alcaçovas, Canal, Estremoz, Lavre, Montemór o novo, Montoito, Pavîa, Redondo, Viana, Vimieiro. -</td></tr> -<tr><td rowspan="2">II. Béja Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Béja.</td></tr> -<tr class="bb"><td>18 Villas.</td><td>Agua de Peixes, Aguiar, Albergaria dos Fuzos, Alvito, Beringel, Faro, Ferreira, -Ficalho, Frades, Moura, Odemira, Oriolas, Serpa, Torraõ, Vidigueira, Villa-Alva, Villanova de Alvito, Villa-Ruiva.<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> -<tr class="bb"><td>III. Campo d’Ourique Ouvidoria consta de</td><td>15 Villas.</td><td>Aljustrel, Almodovar, Alvalade, Castro verde, Collos, -Entradas, Gravaõ, Mertola, Messejana, Ourique, Padrões, Panoyas, Santiago de Cacem, Sines, Villanova de mil fontes.</td></tr> -<tr class="bb"><td>IV. Villa-Viçosa Ouvidoria consta de</td><td>14 Villas.</td><td>Alter do chaõ, Arrayolos, Borba, Chancellaria, Evoramonte, Lagomel, Margem, -Monsarás, Monforte, Portel, Souzel, Villa-Boim, Villa-Viçosa, Villa-Fernando.</td></tr> -<tr><td rowspan="2">V. Elvas Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Elvas.</td></tr> -<tr class="bb"><td>6 Villas.</td><td>Barbacena, Campo Mayor, Mouraõ, Olivença, Ouguela, Terena.</td></tr> -<tr><td rowspan="2">VI. Portalegre Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Portalegre.</td></tr> -<tr class="bb"><td>12 Villas.</td><td>Alegrete, Alpalhaõ, Arronches, Assumar, Arez, Castello de Vide, Marvaõ, Meadas, -Montalvaõ, Niza, Povoa, Villaflor.</td></tr> -<tr class="bb"><td>VII. Crato Ouvidoria consta de</td><td>12 Villas.</td><td>Amieira, Belver, Cardigos, Carvoeiro, Certã, Crato, -Envendos, S. Joaõ de Gafete, Oleiros, Pedrogaõ pequeno, Proença a nova, Tolosa.<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></td></tr> -<tr class="bb"><td>VIII. Aviz Ouvidoria consta de</td><td>17 Villas.</td><td>Alandroal, Alter Pedroso, Aviz, Benavente, Benavilla, -Cabeço de Vide, Cabeçaõ, Cano, Coruche, Figueira, Fronteira, Galveas, Jurumenha, Mora, Noudar, Seda, Veiros.</td></tr> -</table> - - -<h3><i>Provincia, e Reino do Algarve.</i></h3> - -<p>1 Fórma esta Regiaõ do Algarve hum dos principaes angulos da Peninsula -Lusitana no Cabo de S. Vicente com a concurrencia das linhas -Meridional, e Occidental até a foz do Guadiana. Daõ-lhe os Geografos -vinte e sete leguas de comprido, e nove de largo. Os Mouros lhe -chamaraõ Algarve, que quer dizer <i>Terra Occidental</i>,<a id="FNanchor_178" href="#Footnote_178" class="fnanchor">[178]</a> mas -outros interpretaõ <i>Terra plana, e fertil</i>; porque sem embargo -de comprehender algumas serras pelo certaõ, occupa pela costa do mar -planicies muy ferteis, e deliciosas.</p> - -<p>2 Constitue-se Reino forte, e separado de Portugal pelos montes -Caldeiraõ, e Monchique, e de Andaluzia pelo rio Guadiana; de sorte, -que a sua situaçaõ he a mais vantajosa de todas as nossas Provincias. -Sua primeira conquista foy intentada por ElRey D. Affonso Henriques: -continuou-a com grandes progressos ElRey D. Sancho I., e a acabou -de conseguir ElRey D. Affonso III. ficando desde entaõ o Reino do -Algarve incorporado com permanencia na Coroa de Portugal, que organiza -suas Reaes armas com a orla dos sete castellos dourados em campo -vermelho.<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span><a id="FNanchor_179" href="#Footnote_179" class="fnanchor">[179]</a> 3 Consta de quatro Cidades: <i>Faro</i>, onde hoje -está a Sé Cathedral; <i>Silves</i>, donde foy mudada; <i>Tavira</i>, -e <i>Lagos</i>. Tem mais doze Villas, a saber: <i>Albofeira</i>, -<i>Alcoutim</i>, <i>Aljezur</i>, <i>Alvor</i>, <i>Cassella</i>, -<i>Castro-Marim</i>, <i>Loulé</i>, <i>Odeseixe</i>, <i>Paderne</i>, -<i>Sagres</i>, <i>Villa de Bispo</i>, <i>Villa nova</i>. Tem dous -Promontorios o Cabo de S. Vicente, e o de Santa Maria. Tem cem pontes -de pedra, sessenta e duas pias de bautizar, e outras particularidades, -que reservamos para lugar mais proprio.</p> - -<p>4 Faz ser esta Provincia abundante com especialidade a grande copia -de figos, passas, e amendoas, de que se extrahem todos os annos -por negocio para differentes partes de Levante, Italia, e Flandes -consideraveis sommas; e assim como em outras terras estaõ semeados os -campos de trigo, cevada, e centeyo, esta os tem cubertos de vinhas, -amendoeiras, figueiras, e tambem palmeiras, de cujos ramos tecem seus -moradores varias curiosidades.<a id="FNanchor_180" href="#Footnote_180" class="fnanchor">[180]</a> A pescaria de atum naõ serve de -pequeno lucro, e com que fazem hum grave negocio. Os rios, que cortaõ, -e regaõ este Reino, saõ muitos, porém pequenos, sendo os de mayor nome -o <i>Adoleite</i>, <i>Belixari</i>, <i>Guadiana</i>, <i>Lampas</i>, e -<i>Vascaõ</i>.</p> - -<p>5 Seus habitadores saõ esforçados, e aptos para a guerra; e já em -tempos antigos venceraõ valerosamente ao Capitaõ Romano Sergio Galba. -Saõ muy dados à sciencia maritima, e se prezaõ muito de que no seu -terreno escolhessem o primeiro Patriarca, e Fundador de Hespanha -<i>Tubal</i>, e o famoso <i>Hercules</i> os seus jazigos, se he certo -o que diz Fr. Bernardo de Brito. Divide-se finalmente o Algarve em -duas Comarcas, conforme a Geografia moderna do Padre D. Luiz de -Lima, e vem a ser: <i>Lagos</i>, e <i>Tavira</i>. Tem sete fontes -medicinaes: tres Praças de armas, que saõ: <i>Lagos</i>, <i>Faro</i>, -<i>Castro-Marim</i>, bem fortificadas com quatro mil homens de -guarniçaõ; e<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span> até o presente numera quarenta Governadores, ou Capitães -Generaes com o segundo Marquez de Louriçal D. Francisco de Menezes seu -actual, e benemerito Governador.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>El Reyno del Algarbe es la postrera</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Porcion, cuyas Ciudades son</i> Tavira</span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>DelRey Brigo gallarda Primavera,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Donde herido del viento el mar suspira.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Faro <i>Obispal adorna su ribera,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Al Oceano fuerte</i> Lagos <i>mira.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Con poca vezindad nombre difuso</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Alcança</i> Sylves <i>Paraiso Luso</i>.</span><br> -</p> - -<p class="center caption"><i>Comarcas da Provincia, e Reino do Algarve.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td rowspan="2">I. Lagos Correiçaõ consta de</td><td>2 Cidades.</td><td>Lagos, Silves.</td></tr> -<tr class="bb"><td>7 Villas.</td><td>Aljezur, Alvor, Odeseixe, Paderne, Sagres, Villanova de Portimaõ, Villa do Bispo.</td></tr> -<tr><td rowspan="2">II. Tavira Correiçaõ consta de</td><td>2 Cidades.</td><td>Tavira, Faro.</td></tr> -<tr class="bb"><td>5 Villas.</td><td>Albufeira, Alcoutim, Cacella, Castro-Marim, Loulé.<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></td></tr> -</table> - -<p class="center caption p2">MAPPA<br><i>Do que comprehendem as seis Provincias de Portugal.</i></p> -<table class="autotable"> -<tr><th>Provincias</th><th>Minho.</th><th>Tr. os M.</th><th>Beira.</th><th>Estrem.</th><th>Alentej.</th><th>Algarv.</th></tr> -<tr><td>Comarcas. </td><td class="tdc"> 6 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 2 </td></tr> -<tr><td>Cidades. </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 5 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 4 </td></tr> -<tr><td>Villas. </td><td class="tdc">26 </td><td class="tdc">50 </td><td class="tdc">234 </td><td class="tdc">114 </td><td class="tdc">100 </td><td class="tdc">12 </td></tr> -<tr><td>Patriac. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td></tr> -<tr><td>Arcebisp. </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr> -<tr><td>Bispados. </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 1 </td></tr> -<tr><td>Inquisiç. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr> -<tr><td>Univers. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr> -<tr><td>Paroquias. </td><td class="tdc">1500 </td><td class="tdc">620 </td><td class="tdc">1090 </td><td class="tdc">460 </td><td class="tdc">350 </td><td class="tdc">67 </td></tr> -<tr><td>Cid. capit. </td><td class="tdc">Porto. </td><td class="tdc">Miranda. </td><td class="tdc">Coimb. </td><td class="tdc">Lisboa. </td><td class="tdc">Evora. </td><td class="tdc">Faro. </td></tr> -<tr><td>Pr. d’ arm. </td><td class="tdc">Viana. </td><td class="tdc">Chaves. </td><td class="tdc">Alm. </td><td class="tdc">Lisboa. </td><td class="tdc">Elvas. </td><td class="tdc">Lagos. </td></tr> -<tr><td>L. de comp. </td><td class="tdc">18 </td><td class="tdc">34 </td><td class="tdc">36 </td><td class="tdc">40 </td><td class="tdc">39 </td><td class="tdc">28 </td></tr> -<tr><td>L. de largo.</td><td class="tdc">12 </td><td class="tdc">26 </td><td class="tdc">36 </td><td class="tdc">18 </td><td class="tdc">35 </td><td class="tdc"> 8 </td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_151" href="#FNanchor_151" class="label">[151]</a> Duarte Nun. Descripç. de Port. cap. 28. Joaõ de Barr. -na Descripç. do Minho cap. 6. Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. -2. a. 4. Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. -Geograf. Blavian. Cost. Corogr. Port. tom. 1. c. 1. Lim. Geogr. Histor. -tom. 1. pag. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_152" href="#FNanchor_152" class="label">[152]</a> Far. no Epitom. part. 4. cap. 5. n. 4. Maced. Flor. de -Hesp. cap. 1. excel. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_153" href="#FNanchor_153" class="label">[153]</a> D. Franc. Man. Epanafor. 4. p. 518.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_154" href="#FNanchor_154" class="label">[154]</a> Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. -1. pag. 3. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_155" href="#FNanchor_155" class="label">[155]</a> Far. Epitom p. 4. cap. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_156" href="#FNanchor_156" class="label">[156]</a> Nun. Descripç. de Portug. cap. 28. e 29. Vasconcell. in -Descript. Lusitan.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_157" href="#FNanchor_157" class="label">[157]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 72.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_158" href="#FNanchor_158" class="label">[158]</a> Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_159" href="#FNanchor_159" class="label">[159]</a> Joaõ Salgad. Success. Milit. pag 3. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_160" href="#FNanchor_160" class="label">[160]</a> Maced. Flor. de Hesp. cap. 2. excel. 3. Barbos. de -Potestat. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. Gil Gonsal. de Avil. no -Theatro de las grandez. de Madrid. p. 500.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_161" href="#FNanchor_161" class="label">[161]</a> Arauj. Success. Milit. liv. 1. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_162" href="#FNanchor_162" class="label">[162]</a> August. Barb. de Potest. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. -8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_163" href="#FNanchor_163" class="label">[163]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. Lim. Geogr. -Histor. tom. 2. pag. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_164" href="#FNanchor_164" class="label">[164]</a> Corograf. Portug. tom. 1. p. 313. Padilha. Histor. -Eccles. cent. 1. cap. 16. Monarq. Lusitan. part. 3. liv. 8. cap. 32. -Rodrig. Mend. da Silv. na Descripç. de Portug.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_165" href="#FNanchor_165" class="label">[165]</a> Colmenar. Delices du Port. tom. 4. pag. 713. Lim. -Geograf. Histor. tom. 2. p. 61.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_166" href="#FNanchor_166" class="label">[166]</a> Arauj. Success. Milit. p. 68. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_167" href="#FNanchor_167" class="label">[167]</a> Brit. na Geograf. Lusitan. cap. 4. Fr. Man. da Esper. na -1. part. da Histor. Serafic. liv. 4. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_168" href="#FNanchor_168" class="label">[168]</a> Poyar Diccionar. Geogr. p. 76. Lim. Geograf. Histor. -tom. 2. p. 83.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_169" href="#FNanchor_169" class="label">[169]</a> Fr. Man. da Roch. Portug. renascid. part. 1. p. 109.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_170" href="#FNanchor_170" class="label">[170]</a> Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 8. p. 354.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_171" href="#FNanchor_171" class="label">[171]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. pag. 3. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_172" href="#FNanchor_172" class="label">[172]</a> Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_173" href="#FNanchor_173" class="label">[173]</a> Geograf. Blavian. Mendes da Silv. Mons. de La Clede tom. -2. pag. mihi 59. Corograf. Portug. tom. 3 Lim. Geogr. Histor. tom. 2. -p. 136. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. p. 160.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_174" href="#FNanchor_174" class="label">[174]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. Rodrig. -Mend. da Silv. na Descripç. de Portug. Geograf. Blavian. tom. de -Hespanh. pag. 403.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_175" href="#FNanchor_175" class="label">[175]</a> Abbad. de Per. Success. Milit. p. 179.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_176" href="#FNanchor_176" class="label">[176]</a> Sousa de Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_177" href="#FNanchor_177" class="label">[177]</a> Cam. cant. 3 est.62.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_178" href="#FNanchor_178" class="label">[178]</a> Colmen. Delices de Hesp. tom. 4. p. 809.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_179" href="#FNanchor_179" class="label">[179]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_180" href="#FNanchor_180" class="label">[180]</a> Rodrig. Mend. da Silv. Descripç. de Hesp.</p> - -</div></div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI.<br><span class="small"><i>Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome.</i></span></h2> -</div> - - - -<p>1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem, -e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres -Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias -partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ -descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes -chamou Athlantes o famoso Caramuel,<a id="FNanchor_181" href="#Footnote_181" class="fnanchor">[181]</a> pois com sua altivez pertendem -coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais -affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga.</p> - -<p>2 <i>Abelheira.</i> Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura -em o Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem -com a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a -muitos gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de -grande virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia -de Tras os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de -edificios Arabes.</p> - -<p>3 <i>Aboboreira.</i> Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de -Gouvea. He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de -ambito, que occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita -caça que alli se cria.</p> - -<p>4 <i>Achada.</i> Começa esta serra desde a ribeira de<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> Cascaes, e se -vay unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ -obstante admittir cultura pelas suas raizes.</p> - -<p>5 <i>Açor.</i> Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na -Beira, que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil, -occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e -lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve.</p> - -<p>6 <i>Albardos.</i> Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo -de Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem -alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ -Senhores de todos os limites desta serra.</p> - -<p>7 <i>Alcaçovas.</i> Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca -de Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se -descobrem povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz<a id="FNanchor_182" href="#Footnote_182" class="fnanchor">[182]</a> -ser provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre, -segundo se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros -vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre -Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta -serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar, -e onde se cria abundancia de caça, e de gado.</p> - -<p>8 <i>Alcubertas.</i> Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se -descobre huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra -brilhante, que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a -mistura da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados, -e grutescos.</p> - -<p>9 <i>Aleidões.</i> Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola, -estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e -consta de muitas<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span> carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli -se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel.</p> - -<p>10 <i>Algáres.</i> Principia esta serra a descobrirse huma legua -distante da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando -contra o Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço -de duas leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os -Romanos extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona, -que separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A <i>Corografia -Portugueza no tom. 3. pag. 336.</i> refere outras circunstancias desta -serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico.</p> - -<p>11 <i>Alpedreira.</i> Fica no Arcebispado de Evora, e se communica -com a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas -concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para -sementeira de centeyo.</p> - -<p>12 <i>Alqueidaõ.</i> He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria. -A sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho. -Cria tambem alguma caça miuda.</p> - -<p>13 <i>Altar de Trevim.</i> He huma serra que fica no termo da Louzã, -demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas -Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem -muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados -que por alli pastaõ.</p> - -<p>14 <i>Alvaõ.</i> Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães. -He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato -rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e -lebres.</p> - -<p>15 <i>Alvayazere.</i> Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de -Coimbra. He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido. -Cria muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> -da sua flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy -espaçosa, onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber. -Suppoem-se que seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no -cimo da serra se descobrem.</p> - -<p>16 <i>Airó.</i> Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos, -tem bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada -por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota -imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo, -de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca -distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S. -Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha, -Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com -sinaes de predestinado.</p> - -<p>17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar -de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e -antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso -caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo -89. onde diz: <i>Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que -passou</i>, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, -que com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do -Convento o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de -ninguem; dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella -ave canora, quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria -parecem instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este -caso na Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. -Toda esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor -vinho de enforcado, que deste genero ha no Reino.</p> - -<p>18 <i>Amarella.</i> He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio -da do Gerez. Descobrem-se da<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span> sua mayor altura muitas povoações -distantes, e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; -alargando-se tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve -de termo. Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, -por cujo motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer -montaria em tempos determinados, por obrigaçaõ.</p> - -<p>19 <i>Amoreira.</i> Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites -de Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas -povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras -negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras -de primor.</p> - -<p>20 <i>Anciam.</i> Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal, -e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais -eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito -alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto -aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem -que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui -se vê huma grande lapa chamada <i>Algar da agua</i> aberta em hum -penhasco taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. -Cria tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O -Author da Corografia chama a esta serra a Carreira.<a id="FNanchor_183" href="#Footnote_183" class="fnanchor">[183]</a></p> - -<p>21 <i>Araceli.</i> He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, -que tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes -admitte cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas -medicinaes, a agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto -Daro, de cujas bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem -para<span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span> o prato, e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha -aqui muita caça de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se -tira bastante mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, -e se adora a imagem da Senhora com o titulo de <i>Araceli</i>, que deu -nome à serra.</p> - -<p>22 <i>Arada.</i> Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres -leguas de comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na -planicie da sua mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da -Coelheira. Consta toda esta serra de mato real, onde se cria muita -caça, até aguias, e hervas medicinaes.</p> - -<p>23 <i>Arga.</i> Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.<a id="FNanchor_184" href="#Footnote_184" class="fnanchor">[184]</a> -Divide ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu -terreno antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do -seu ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. -Tem esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem -ver na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.<a id="FNanchor_185" href="#Footnote_185" class="fnanchor">[185]</a></p> - -<p>24 <i>Arrabida.</i> He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, -que corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo -espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por -sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a -banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do -Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita, -e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra, -está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia -Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de -Alcantara.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p> - -<p>25 Conforme diz Gaspar Barreiros<a id="FNanchor_186" href="#Footnote_186" class="fnanchor">[186]</a> o nome de Arrabida he derivado -da antiga <i>Arabriga</i>, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual -demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que -o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr. -Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,<a id="FNanchor_187" href="#Footnote_187" class="fnanchor">[187]</a> os quaes a derivaõ -do nome <i>Errabundus</i>; porque os que subiaõ a esta serra, sempre -erravaõ o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,<a id="FNanchor_188" href="#Footnote_188" class="fnanchor">[188]</a> que os -Mouros, quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma -significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer -penitencia.</p> - -<p>26 Os Romanos chamaraõ a esta serra <i>Promontorio Barbarico</i>; -ou porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para -Roma muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ -os seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e -aos conductores barbaros, como diz André de Resende;<a id="FNanchor_189" href="#Footnote_189" class="fnanchor">[189]</a> ou porque -os povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e -rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.<a id="FNanchor_190" href="#Footnote_190" class="fnanchor">[190]</a></p> - -<p>27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico, -se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou -antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli -templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de -bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se -descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco -caso dellas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span></p> - -<p>28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha, -que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com -miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo -da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap. -5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo -mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que -vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo -Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou -seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel -circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem -da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à -maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ, -e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou -frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa, -presentemente arruinado, e extincto.</p> - -<p>29 <i>Atalaya.</i> Ha no Reino tres serras com este nome; duas na -Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de -canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma -caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem -hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada -com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ -de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade -muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia -da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas -abundante de lenha, e caça miuda.</p> - -<p>30 <i>Barregudo.</i> He huma serra, que fica no termo de Torres -Vedras, e que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de -Montejunto. Adquire<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span> nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos -negros se encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e -huma casta de areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se -deixa cultivar com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar.</p> - -<p>31 <i>Barris.</i> He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente -da Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas -hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum -admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem -suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se -criaõ.</p> - -<p>32 <i>Besteiros.</i> He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa -pela distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma -fonte de agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria -mato rasteiro, e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em -abundancia. Pastaõ nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso.</p> - -<p>33 <i>Bornes de Monte mel</i> fica no termo de Braga, e tem duas leguas -de comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial -della he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro, -povoações de treze Bispados.</p> - -<p>34 <i>Borralheira.</i> Daõ este nome a huma serra, que com bastante -eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No -mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa -mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ, -os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem -atemorisaraõ aos moradores.<a id="FNanchor_191" href="#Footnote_191" class="fnanchor">[191]</a> O Diccionario Geografico, naõ fazendo -mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia -de Tras<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span> os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem -cousa notavel.</p> - -<p>35 <i>Bussaco.</i> Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e -he parte da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o -Nordeste, e meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente -pelo espaço de tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do -Reino; porque para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella, -e a de Castello Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas. -Para a parte do Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que -lhe ficaõ quarenta leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de -Grijó, affastada quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura -apontar com o dedo para terras de sete Bispados, estando os dias claros.</p> - -<p>36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento<a id="FNanchor_192" href="#Footnote_192" class="fnanchor">[192]</a> ao nome desta -serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum -Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de -Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira -habitaçaõ, e que de <i>Sublaco</i> vieraõ a alterar a palavra, -vertendo-a em <i>Bussaco</i>.</p> - -<p>37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de -arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas -fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por -engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello. -Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços, -que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida -contemplativa.<a id="FNanchor_193" href="#Footnote_193" class="fnanchor">[193]</a></p> - -<p>38 <i>Cabreira</i>. Fica na Provincia de Tras os Montes,<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> e tem duas -leguas de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que -recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio -Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda -de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos -consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz -Cardoso.</p> - -<p>39 <i>Cantaro.</i> No mais alto da serra da Estrella se levanta huma -eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que -chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua -Corografia,<a id="FNanchor_194" href="#Footnote_194" class="fnanchor">[194]</a> costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho, -que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua -para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta -montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais -que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa <i>Escura</i>.</p> - -<p>40 <i>Caramullo.</i> Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu, -e diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome -de Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais -alto deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros, -ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos -homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto -para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze -leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os -tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas.</p> - -<p>41 <i>Carpento.</i> Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou -o Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes -penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> raiz deste monte -está hum sitio chamado o <i>Abismo</i>. He huma cova como hum poço de -quatro varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais -dizem, que se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha -por huma mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque -ninguem até agora se animou a descobrillo.</p> - -<p>41 <i>Cintra.</i> Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma -das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a -organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés -de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes; -mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina, -elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se -descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas, -que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada -esta serra <i>Promontorio da Lua</i>, donde Camões veyo a dizer:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>E nas serras da Lua conhecidas</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Subjuga a fria Cintra o duro braço.</i></span><br> -</p> - -<p>43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta -serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o -Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol, -e à Lua; e porque a esta chamavaõ <i>Cynthia</i>, se derivou della o -nome de <i>Cintra</i>.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>De</i> Cynthia <i>tomou</i> Cintra <i>celebrada</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>O nome que em rochedos he famosa.</i></span><br> -</p> - -<p>Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Diola nombre un gran templo, que aun expone</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>De Cynthia tan magnifico, y notable,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que ser pudo d’el risco ala oportuna</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Casa del Sol el templo de la Luna.</i></span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p> - -<p>44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ, -referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando -tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes -naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde -o Montejunto com a serra de Cintra.<a id="FNanchor_195" href="#Footnote_195" class="fnanchor">[195]</a> E o nosso grande Poeta -Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio -<i>Artabro</i>,<a id="FNanchor_196" href="#Footnote_196" class="fnanchor">[196]</a> o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos, -he o Cabo de <i>Finis terræ</i>. Quem quizer mais largas informações -desta serra, lea os Authores abaixo nomeados.<a id="FNanchor_197" href="#Footnote_197" class="fnanchor">[197]</a></p> - -<p>45 <i>Estrella.</i> Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy -antigamente conhecida com o nome de monte <i>Herminio</i>, que queria -dizer aspero, e intratavel.<a id="FNanchor_198" href="#Footnote_198" class="fnanchor">[198]</a> Hoje conserva o de Estrella, porque -dizem ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra -hum ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que -aparta Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de -neve, que por isso disse hum nosso Poeta:<a id="FNanchor_199" href="#Footnote_199" class="fnanchor">[199]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que he de Herminia senhor serra nevada,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Onde o quente Veraõ nunca começa.</i></span><br> -</p> - -<p>46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre -as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica -nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã:<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> do Sueste as de -Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as -Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra -nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos -outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes.</p> - -<p>47 <i>Falperra.</i> Fica esta serra servindo de atalaya à Villa -de Aguiar da Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das -fertilidades do ameno valle, em que existe.<a id="FNanchor_200" href="#Footnote_200" class="fnanchor">[200]</a></p> - -<p>48 <i>S. Gens.</i> Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra, -que tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto -della, da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por -Theodomiro Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de -Religiosos Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que -he parte da serra de Ossa, e summamente alta.<a id="FNanchor_201" href="#Footnote_201" class="fnanchor">[201]</a></p> - -<p>49 <i>Gerez.</i> Os antigos chamaraõ a esta serra <i>Juressum</i>, que -Antonio de Sousa de Macedo<a id="FNanchor_202" href="#Footnote_202" class="fnanchor">[202]</a> diz ser deduzido dos tres celebres -Geriões, que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito. -Principia algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte, -e caminhando encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa -elevaçaõ, e por algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a -habitaõ cabras montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes -he aprazivel. O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte -dous especiaes capitulos.<a id="FNanchor_203" href="#Footnote_203" class="fnanchor">[203]</a></p> - -<p>50 <i>Guardunha.</i> Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella, -e em sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas -povoações, arvores,<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra -<i>Guardunha</i> he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha; -porque sendo os moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se -foraõ refugiar a esta serra para se defenderem delles.<a id="FNanchor_204" href="#Footnote_204" class="fnanchor">[204]</a></p> - -<p>51 <i>Hermello.</i> He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e -no cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio -Bruto.</p> - -<p>52 <i>Labruja,</i> ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos -caminhantes. Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima -para Valença.<a id="FNanchor_205" href="#Footnote_205" class="fnanchor">[205]</a></p> - -<p>53 <i>Louzã.</i> He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno -está cuberta de neve.<a id="FNanchor_206" href="#Footnote_206" class="fnanchor">[206]</a></p> - -<p>54 <i>Maraõ.</i> Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ -abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira, -e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande -penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.<a id="FNanchor_207" href="#Footnote_207" class="fnanchor">[207]</a> -Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia -da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro, -Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro, -de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da -Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar -desde a rocha de Cintra.<a id="FNanchor_208" href="#Footnote_208" class="fnanchor">[208]</a></p> - -<p>55 <i>Marvaõ.</i> Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de -ouro, e de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se -havemos de dar credito a Resende.<a id="FNanchor_209" href="#Footnote_209" class="fnanchor">[209]</a></p> - -<p>56 <i>Minde.</i> Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do -Norte para o Sul, e da parte Meridional<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span> nasce hum pequeno rio, que faz -sua corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_210" href="#Footnote_210" class="fnanchor">[210]</a> naõ distingue -esta serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de -Faria.<a id="FNanchor_211" href="#Footnote_211" class="fnanchor">[211]</a></p> - -<p>57 <i>Monchique</i>, ou <i>Monsico</i>. Levanta-se no Algarve com -eminencia tal, que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com -abundancia de agua admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se -descobre a mayor parte do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de -final aos navegantes para demandarem seguramente a nossa barra; de -sorte que principia de Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur. -Alguns Authores lhe daõ o nome de <i>Sico</i>, ou seco por antifrase. -Resende diz que he braço da Serra Morena.<a id="FNanchor_212" href="#Footnote_212" class="fnanchor">[212]</a></p> - -<p>58 <i>Monte do figo.</i> No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho -existe esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera -subida, em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de -legua. Em cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores -de todas as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se -levanta outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume -está huma Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e -para remedio de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera -alli o Arcanjo S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu -nome, que por este motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o -primeiro que avistaõ os navegantes, que vem das Indias de Castella, -muitas leguas ao mar, por ser de immensa altura.</p> - -<p>59 <i>Montejunto.</i> Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se -extende esta serra, a que antigamente<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> chamavaõ monte <i>Tagro</i>, -de que talvez se originaria o nome de <i>Tagarro</i> a huma povoaçaõ -edificada nas suas vizinhanças.<a id="FNanchor_213" href="#Footnote_213" class="fnanchor">[213]</a> Dizem alguns,<a id="FNanchor_214" href="#Footnote_214" class="fnanchor">[214]</a> que he a mais -alta serra de Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e -de altura meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa -agua. Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro -Convento dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel -Fr. Sueiro Gomes.<a id="FNanchor_215" href="#Footnote_215" class="fnanchor">[215]</a></p> - -<p>60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro, -escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,<a id="FNanchor_216" href="#Footnote_216" class="fnanchor">[216]</a> e em outra -obra<a id="FNanchor_217" href="#Footnote_217" class="fnanchor">[217]</a> nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade, -e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ. -O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de -azeviche.<a id="FNanchor_218" href="#Footnote_218" class="fnanchor">[218]</a></p> - -<p>61 <i>Monte do Minhoto.</i> Junto ao rio Zezere está esta serra, muy -alta, e povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a -parte do rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella, -e hum poço de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem<a id="FNanchor_219" href="#Footnote_219" class="fnanchor">[219]</a> que -antigamente houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava -humas contas a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio -para muitas enfermidades.</p> - -<p>62 <i>Monte-Muro.</i> Está junto a Evora, e he parte da serra de -Besteiros: os antigos lhe chamaraõ <i>Mons Maurus</i>. Toma grande -distancia de terra, mas em<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> si he aspero; e da mesma grosseria, e -rusticidade participa a gente, que o habita.</p> - -<p>63 <i>Ossa.</i> Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo -espaço de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se -de muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria -o nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.<a id="FNanchor_220" href="#Footnote_220" class="fnanchor">[220]</a> Comprehende -em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares, -Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes -fontes, que della procedem.</p> - -<p>64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e -parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de -S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas -abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ -fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de -Infantes verdadeira Thebaida Portugueza.</p> - -<p>65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento -se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que -chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na -<i>Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v.</i> Descobrem-se tambem -nesta serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre, -e almagre.</p> - -<p>66 <i>Pomares</i>. Antigamente se chamou <i>Monte de Venus</i>. Está -junto a Evora, onde agora se chama o<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span> Lugar de Pomares. Foy muy celebre -pelos trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.<a id="FNanchor_221" href="#Footnote_221" class="fnanchor">[221]</a> Da sepultura -de Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora -gloriosa pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma.</p> - -<p>67 <i>Sandonho.</i> Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de -outra serra chamada Falperra.</p> - -<p>Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda -encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de -outros.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_181" href="#FNanchor_181" class="label">[181]</a> Caram. no seu Philip. Prud. Proem. §. 1. n. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_182" href="#FNanchor_182" class="label">[182]</a> Sousa na Histor. de S. Domingos part. 3. liv. 3. cap. -20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_183" href="#FNanchor_183" class="label">[183]</a> Monarq. Lusit. tom. 1. na Geogr. Resende liv. 1. de -Antiq. Corograf. Port. tom. 2. pag. 89.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_184" href="#FNanchor_184" class="label">[184]</a> Ptolom. lib. 2. Geogr. tab. 2. Corograf. Portug. tom. 1. -p. 282. Argote de Antiq. Bracar. lib. 1. cap. 3. e nas Memor. de Braga -tom. 1. lib. 1. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_185" href="#FNanchor_185" class="label">[185]</a> Corograf. loc. supr. citat. Cardoso Diccion. Geogr. tom. -1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_186" href="#FNanchor_186" class="label">[186]</a> Barreir. na Corograf. pag. 62. Santuar. Marian. tom. 2. -pag. 465.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_187" href="#FNanchor_187" class="label">[187]</a> Piedad. Chron. da Arrab. part. 1. liv. 1. cap. 5. Brito -de Mello Chron. da Arrab. m. s. p. 1. c. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_188" href="#FNanchor_188" class="label">[188]</a> Gonzag. de Origin. Relig. Seraph. part. 3. pag. 1123.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_189" href="#FNanchor_189" class="label">[189]</a> Resende lib. 1. de Antiquit. pag. mihi 37.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_190" href="#FNanchor_190" class="label">[190]</a> Monarq. Lus. liv. 1. c. 28.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_191" href="#FNanchor_191" class="label">[191]</a> Santuar. Marian. tom. 3. pag. 255.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_192" href="#FNanchor_192" class="label">[192]</a> Chron. dos Carmel. Descalç. part. 2. liv. 4. c. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_193" href="#FNanchor_193" class="label">[193]</a> Idem tom. 2. pag. 76. Bened. Lusit. tom. 2. pag. 283. -Corogr. Port. tom. 2. pag. 69. Diccion. Geogr. de Cardos. tom. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_194" href="#FNanchor_194" class="label">[194]</a> Corograf. Portug. tom. 2. pag. 76.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_195" href="#FNanchor_195" class="label">[195]</a> <i>Mons vero Tagrus, cujus Varro meminit, meo quidem -judicio ille idem est, quem nos Sintreum vocamus, & à, quo Lunæ -promontorium in mare prorumpit millia passuum ab Olisipone plus, -minusve, quod nostris hodie</i> Rocham <i>appellari placuit, &c.</i> -Goes <i>tract. de Olisipone.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_196" href="#FNanchor_196" class="label">[196]</a> Botelho no Alfonso l. 1. est 7. da impress. de Roma.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_197" href="#FNanchor_197" class="label">[197]</a> Resende lib. 1. de Antiq. Monarq. Lus. liv. 1. c. 22. e -liv. 5. c. 15. Duart. Nun. Descripç. de Portug. c. 10. Faria sobre a -Ode 1. de Cam. Franc. d’Almeida Jordaõ em especial Relaçaõ que imprimio -desta serra no an. de 1748.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_198" href="#FNanchor_198" class="label">[198]</a> Monarq. Lus. t. 1. liv 4. cap. 1. Esperança tom 1. da -Chronic. p. 421. Resende de Antiq. lib. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_199" href="#FNanchor_199" class="label">[199]</a> Maced. no Olisip. cant. 4. est. II.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_200" href="#FNanchor_200" class="label">[200]</a> Carv. Corogr. Portug. tom. 1. p. 171.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_201" href="#FNanchor_201" class="label">[201]</a> Corograf. Portug. tom. 1. pag. 168. & tom. 2. pag. 447.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_202" href="#FNanchor_202" class="label">[202]</a> Maced. Olisip. cant. 2. est. 18.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_203" href="#FNanchor_203" class="label">[203]</a> Argot. Antiguid. de Brag. p. 372.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_204" href="#FNanchor_204" class="label">[204]</a> Santuar. Marian. tom. 3. p. 59. Corograf. Portug. tom. -2. p. 412.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_205" href="#FNanchor_205" class="label">[205]</a> Corograf. Portug. tom 1. p. 204.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_206" href="#FNanchor_206" class="label">[206]</a> Leit. nas Miscelan. pag. 15.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_207" href="#FNanchor_207" class="label">[207]</a> Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 106.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_208" href="#FNanchor_208" class="label">[208]</a> Sousa, Chronic. de S. Dom. part. 3. pag. 189.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_209" href="#FNanchor_209" class="label">[209]</a> Resend. liv. 1. de Antiquitat.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_210" href="#FNanchor_210" class="label">[210]</a> Monarq. Lusitan. liv. 11. cap. 30. e na Geogr. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_211" href="#FNanchor_211" class="label">[211]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 3. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_212" href="#FNanchor_212" class="label">[212]</a> Resend. lib. 1. Antiquit. Vide Agiolog. Lusit. tom. 2. -pag. 654. Far. no Epitom. part. 4. cap. 9. Diccionar. Geogr. tom. 1. -verb. <i>Algarve</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_213" href="#FNanchor_213" class="label">[213]</a> Fr. Luiz de Sous. Histor. de S. Dom. part 1. liv. 1. -cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_214" href="#FNanchor_214" class="label">[214]</a> Far. na Europ. Portug. part. 3. tom. 3. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_215" href="#FNanchor_215" class="label">[215]</a> Santuar. Marian. tom. 2. p. 215.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_216" href="#FNanchor_216" class="label">[216]</a> Plin. Columel. e outros apud Mayol. part. 1. colloq. 7. -Fonseca na Medic. Lusit. disp. 2. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_217" href="#FNanchor_217" class="label">[217]</a> Recreaçaõ Proveit. part. 1. colloq. 4. p. 254. Veja-se -tambem Gerundens. no Paralipoemn. da Histor. de Hesp. lib. 1. pag. -6. Kormanni tract. de Virgin jure cap. 12. Resend. lib. 1. Bernard. -Florest. tom. 4. p. 267. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_218" href="#FNanchor_218" class="label">[218]</a> Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_219" href="#FNanchor_219" class="label">[219]</a> Santuar. Marian. tom. 3. p. 425.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_220" href="#FNanchor_220" class="label">[220]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Es nombre desta horrifica montaña</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>El de la que fue patria de Centauros,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que contra el Cielo puestos en campaña</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Amontonaron Oëtas, Pindos, Tauros.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>El nombre desta finalmente es Ossa,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que aun aora escalar los Cielos osa.</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 10em;">Faria na 4. p. da Fonte de Aganipe Eglog. 5.</span><br> -</p> - - -</div> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII.<br><span class="small"><i>Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis.</i></span></h2></div> - - -<p>1 He tanta a abundancia de rios, que fertilizaõ, e regaõ nossas -Provincias, que por este motivo deu Estrabo à Lusitania o titulo de -feliz.<a id="FNanchor_222" href="#Footnote_222" class="fnanchor">[222]</a> Dos capitaes, e de alguns, que se diffundem nelles, faremos -huma succinta, e hydrografica narraçaõ pelo mesmo estylo, que vamos -observando.</p> - -<p>2 <i>Abbadia.</i> Passando por Alcobaça, vay inundar os campos da Villa -de Mayorga.</p> - -<p>3 <i>Abrancalha,</i> ou <i>Abrancuida</i>. He ribeira, que corre -distante de Abrantes huma legua para o Norte, fertilizando com suas -aguas muitos pomares, e hortas deliciosas.</p> - -<p>4 <i>Abrilongo.</i> Entra no rio Sévera, ou Xévora<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> junto da Villa de -Ouguella, e cria muy gostoso peixe, por serem suas aguas frigidissimas. -Veja-se o que dizemos do Botova.</p> - -<p>5 <i>Agualva.</i> Ribeira, que passa junto da Villa de Bellas.</p> - -<p>6 <i>Agua santa.</i> He hum grande ribeiro, que nasce da serra de Ossa, -e se mete no rio Tera.</p> - -<p>7 <i>Aguas livres.</i> He huma formosa ribeira de abundantes aguas, -que corre pela Freguezia de Bellas, termo de Lisboa. Em algumas partes -he caudalosa, e naõ se passa sem ponte, como he no lugar chamado Ninha -a Pastora, e no forte da Cruz quebrada. Saõ conduzidas estas aguas -para Lisboa em soberbo, e forte aqueducto, que por ora descreveremos -brevemente.</p> - -<p>8 Tem elle o seu primeiro manancial nesta ribeira em distancia de boa -meya legua da ponte, a que alguns chamaõ de Bellas. A abundancia de -agua neste nascimento por si só vence os tres principaes chafarizes -de Alfama, que ha na Cidade. Manifestou-se pois este famoso aqueducto -para se pôr prompto em 6 de Agosto de 1732; e logo ao principio da -ribeira em distancia de 1800 palmos se lhe introduzio huma boa fonte, -a que chamaõ a Fonte santa do Leaõ; e continuando o aqueducto ao lado -direito da ribeira, (que logo a atravessou junto ao nascimento, que -fica à parte do Poente) caminha até avistar a ponte de Caranque, e aqui -se aparta da mesma ribeira para o Lugar da Porcalhota, encostando-se ao -oiteiro de S. Braz.</p> - -<p>9 Neste progresso vay mais para diante recolher a agua, que lança a -fonte chamada de S. Braz para a parte da Porcalhota, e logo atravessa -por baixo da estrada junto à quinta do Galvaõ proximamente à Ermida -de Santo Antonio da mesma quinta, donde salvando sobre huma ponte a -ribeira, que passa por dentro da dita quinta, se inclina a buscar a -raiz do Lugar da Fragoza; e continuando pela<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span> mesma encosta até o Lugar -de Calhariz, fronteiro à Freguezia de Bemfica, se vay prolongando -por defronte do Convento de S. Domingos até o monte, que chamaõ das -tres Cruzes, donde se passa a ribeira de Alcantara para se introduzir -no Bairo alto, recolhendo por este caminho (que he o da mais baixa -nivelaçaõ, que permittia o calice, em que a agua deve cahir no dito -bairro) varias fontes, que se vaõ encontrando, e descubrindo nos -alicerces da mesma obra.</p> - -<p>10 A fórma deste aqueducto he de hum corredor, ou mina artificial -de sete palmos de largo, e quatorze de alto, a que naõ chegou algum -dos aqueductos Romanos. Tem pelo meyo hum passeyo de tres palmos de -vaõ, fabricado de finissimo lagedo, e a cada lado hum encanamento de -marmore, que recebem ambos quarenta e duas manilhas de agua em palmo e -meyo de boca, e palmo e quarto de alto.</p> - -<p>11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua -horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta -se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como -por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto -se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto -algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o -antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na -utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ -inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de -seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira.</p> - -<p>12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ -introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a -este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous -montes,<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e -forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa, -em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado -manuscrito, intitulado: <i>Fabrica, que falta a Lisboa</i>, o qual -vimos, e se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.</p> - -<p>13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas -para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer -ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós -vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada -de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos -naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto -appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as -da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz -Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra -desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ -nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes -embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ -V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para -a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel -da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade -merece imortaes elogios.</p> - -<p>14 <i>Agueda.</i> Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum, -que passa por Agueda, e este he o <i>Emineum</i> dos antigos, que vay -morrer em Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de -Riba-Coa. Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay -à ponte da Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos -montes em Vilvestre entra no Douro.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p> - -<p>15 <i>Aguilhaõ.</i> Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes, -e com arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos -peixes, especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas -margens ha copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente -agradavel, e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se -atravessar por tres pontes de páo, e huma de cantaria.</p> - -<p>16 <i>Alborrel.</i> Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando -Aremanha, e divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos -barbos.</p> - -<p>17 <i>Alcantara.</i> Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e -se mete no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos -no livro, que compoz, intitulado: <i>Sitio de Lisboa</i>, mostra de -quanta utilidade seria communicarse este rio com o de Sacavem, do qual -naõ dista mais que legua e meya para que ficando dentro deste circulo -Lisboa, conseguisse o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no -mundo. Neste sitio está a fabrica Real da Polvora reedificada por -Antonio Cremer.</p> - -<p>18 <i>Alcaraviça.</i> He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos -Gallegos no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas -fontes taõ abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas.</p> - -<p>19 <i>Alcarabouça.</i> Provê este rio de bastante peixe a Villa de -Ficalho, por onde corre quatro leguas distante de Serpa.</p> - -<p>20 <i>Alcarapinha.</i> Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz. -Suas aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche.</p> - -<p>21 <i>Alcarque.</i> Conforme a Geografia Blaviana he rio, que no seu -Mappa vem assinado na Provincia do Alentejo.</p> - -<p>22 <i>Alcarrache.</i> He huma Ribeira, que nasce em Castella na serra -de Santa Maria, e vem sahir ao termo de Mouraõ, trazendo de jornada -quinze leguas;<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> até que engrossada sua corrente com as aguas de outros -ribeiros, e fazendo trabalhar muitos moinhos, vay morrer no Guadiana. -Pescaõ-se nelle excellentes, e grandes barbos, e outros peixes mais -miudos: e se vadea por duas boas pontes de pedra.</p> - -<p>23 <i>Alcoa</i>, antigamente <i>Coa</i>. He o que unindo-se com o -chamado <i>Baça</i>, deu nome ao sitio de <i>Alcobaça</i>, onde os -Religiosos Bernardos tem o famoso, e magnifico templo, que alli fez -edificar o Santo Rey D. Affonso Henriques.</p> - -<p>24 <i>Alcofra.</i> He rio caudaloso da Beira no termo de Lafões, e que -se mete no Alfusqueiro. As suas margens estaõ cheias de carvalhos, e -castanheiros enlaçados com muitas vides, de que se faz o bom vinho de -embarrado. Cria saborosas trutas, e se deixa vadear por quatro pontes -de páo.</p> - -<p>25 <i>Alenquer.</i> Nasce ao pé da serra de Montejunto, e caminhando -Norte Sul o espaço de huma legua vem buscar nome à Villa de Alenquer. -Aqui fertiliza as suas quintas, e hortas com a abundancia de suas aguas -saudaveis, e aos seus moradores com a copia das suas trutas, barbos, e -bogas; até que incorporado com o rio de Ota se mete no Tejo junto de -Villanova da Rainha.</p> - -<p>26 <i>Alferradede.</i> He ribeira, que rega muitos pomares, e hortas do -termo da Villa do Sardoal, e vay morrer ao Tejo.</p> - -<p>27 <i>Alfusqueiro.</i> Passa este rio junto do Lugar dos Ferreiros, -termo da Villa de Vouga, e tem huma grande ponte de hum só olhal, muito -alta, fabricada de cantaria. Discorre tambem pela Villa de Assequins, e -vay descançar no rio Vouga.</p> - -<p>28 <i>Algés.</i> Nasce este rio em hum oiteiro, que fica defronte do -Lugar de Monsanto, termo de Lisboa; e augmentado com as aguas de hum -regato, que brota por cima de Outorella, entra a fertilizar a quinta -das Romeiras até ir mergulharse no mar pelo pé do forte da Conceiçaõ, -onde está huma ponte<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> de pedra, que parte com a nobre quinta do Duque -de Cadaval.</p> - -<p>29 <i>Algodea.</i> Banha, e fecunda esta ribeira as hortas, e pomares, -que ficaõ fóra da Villa de Setubal: depois entra no Sado.</p> - -<p>30 <i>Alja</i>, ou <i>Alje</i>. He huma caudalosa, e arrebatada -ribeira, que discorre pela Villa de Arega, cinco leguas de Thomar, e -se vay esconder no rio Zezere. Pescaõ-se nelle excellentes trutas, e -outros peixes muy gostosos. Os antigos lhe chamavaõ ribeira fria.</p> - -<p>31 <i>Almaceda.</i> He rio, que cerca a Villa de Sarzedas, e entra no -Ocreza sempre arrebatado.</p> - -<p>32 <i>Almansor.</i> Divide esta ribeira do Alentejo os limites da -Freguezia de Nossa Senhora da Repreza, dos de Santa Sofia; e chegando -até o termo de Montemor o Novo, onde troca o nome pelo de Canha, se -esconde no Tejo perto de Benavente; deixando com a benignidade das suas -aguas ferteis os pomares, e as terras por onde passa.</p> - -<p>33 <i>Almonda.</i> Tem sua origem este rio na serra d’Aire, legua -e meya da Villa de Torres Novas. Saõ as aguas no seu nascimento, e -matriz, taõ claras, e he tanto o peixe, que se cria nellas, que ainda -que o pégo he fundo, se está vendo de cima das barreiras andarem -a saltar: por isso he aqui muy aprazivel a pescaria. Os Romanos -acharaõ neste rio muita semelhança com o Mondego, por cuja causa lhe -chamaraõ <i>Alius munda</i>, donde se originou com pouca corrupçaõ -<i>Almonda</i>. Mete-se no Tejo junto do Lugar da Azinhaga, como -bem o diz o Reverendo Padre Luiz Cardoso no Diccionario Geografico, -emendando-me.</p> - -<p>34 <i>Alpiaça.</i> He rio da Estremadura, que nasce perto da Villa -de Ulme; de inverno corre arrebatado, e cria excellentes barbos, e -fataças. Mete-se no Tejo.</p> - -<p>35 <i>Alpreade.</i> Nasce esta ribeira na serra da Gardunha,<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> e -correndo sempre desasocegada, vay acabar no rio Ponsul, passando por -quatro pontes de pedra, e fazendo trabalhar trinta e quatro azenhas, -tres lagares, e hum pizaõ. Cria muitas trutas, e bordallos.</p> - -<p>36 <i>Alva.</i> Este rio tem o nascimento na serra da Estrella; e -fazendo logo seu caminho ao Poente por baixo de hum monte, discorrendo -em algumas partes muy claro, vem cercar as Villas de Arganil, Coja, -Pombeiro, Penalva, Sandomil, Villa Cova de Subavó, e S. Romaõ, onde -tem duas pontes, huma chamada de Peramol, pela qual vay o caminho de -Veraõ para a Covilhã, outra de cantaria lavrada, na estrada, que vay -para Valezim. Pescaõ-se nelle boas bogas, trutas, lampreas, e saveis. -Finalmente entrando no Mondego rico de outras ribeiras, acaba no Oceano.</p> - -<p>37 <i>Alvar.</i> Nasce esta ribeira na serra de Montemel pela parte do -Lugar de Covellas; e passando junto da Villa da Alfandega da Fé, vem -ao Lugar de Santa Justa, donde caminhando quatro leguas, desagua na -ribeira Vellarva.</p> - -<p>38 <i>Alvaro.</i> No termo da Villa de Alvaro pela banda do Sul tem seu -nascimento esta ribeira; que dá o nome à Villa; e passando por duas -pontes de pedra, rodea o monte da Villa, e se mete no Zezere, fazendo -parecer aquella povoaçaõ huma peninsula.</p> - -<p>39 <i>Alviella.</i> A boa opiniaõ que fiz da Corografia Portugueza -composta pelo Padre Antonio Carvalho, me obrigou seguirlhe as pizadas -em muitas noticias, que delle tirey, e a elle me refiro. Entre ellas -foy a maravilhosa voragem, ou sorvedouro que diz acontecer nos olhos -de agua em a nascente deste rio de Alviella; mas como o Reverendo -Padre Luiz Cardoso, natural de Pernes, pode examinar melhor esta -particularidade, e a reconhece agora no Diccionario Geografico por -fabulosa, he justo que<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> eu nesta segunda impressaõ do meu Mappa, -agradecendo-lhe a advertencia, melhore a noticia.</p> - -<p>40 Nasce pois este rio nas vertentes da serra do Patello junto do Lugar -da Louriceira, debaixo de hum grande rochedo; e logo em seu nascimento -vem com abundancia de peixes, especialmente bordalos, engrossando-se -com varios ribeiros até desembocar no Tejo junto ao Lugar do Reguengo. -Cria outras muitas castas de peixes saborosos em todo o tempo: faz -moer muitos moinhos, e lagares de azeite; e as suas ribeiras, e -margens estaõ cheias de arvoredo silvestre, e frutifero, que as fazem -vistosissimas. Sujeita-se porém a oito pontes; e dá abrigo a bastante -caça miuda de arribaçaõ.</p> - -<p>41 <i>Almioso.</i> He huma ribeira da Estremadura que nascendo pobre -no Troviscal, vay desaguar caudaloso no fim da cerca dos Religiosos -Capuchos da Certã. Cria muitos peixes miudos, e admitte algumas pontes. -As suas margens saõ incultas por fragosas, mas entre as suas areas se -acha ouro.</p> - -<p>42 <i>Analoura</i>, ou <i>Anhaloura</i>. Nasce entre as Villas de -Borba, e Villa Viçosa, rega a Villa de Veiros, e misturada com a -ribeira de Fronteira, vay engrossar a de Sauzel, e entraõ ambas por -Aviz, até desembocar no Sorraya.</p> - -<p>43 <i>Ancora.</i> As aguas deste rio que nascem na serra de Arga, -dividem o Concelho de Caminha do de Viana. Dizem que adquirira o nome, -que possue, desde que ElRey Ramiro II. lançara nelle sua mulher Dona -Urraca atada em huma ancora para ir mais depressa ao fundo. Authores ha -que tem isto por fabula. Morre finalmente no mar junto de Caminha, onde -fórma huma pequena barra com o fortim da Lagarteira.</p> - -<p>44 <i>Anços</i>, antigamente <i>Anceo</i>. Vem da Redinha banhar a -Villa de Soure, e dar nome a Villanova de Anços; e junto com outras -correntes se mete no Mondego a baixo de Coimbra.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p> - -<p>45 <i>Aravil.</i> Nasce junto de Castellobranco, e morre no Tejo. Pelo -Inverno corre arrebatado, e no Veraõ secca. He constante levar nas suas -correntes algum ouro, e por isso procurado de gandaeiros.</p> - -<p>46 <i>Arcaõ.</i> Nasce no celebre olho de agua Borbolegaõ na Villa de -Grandola, e se mete no Sado acima de Alcacer.</p> - -<p>47 <i>Ardila</i>, ou <i>Ardita</i>. He huma ribeira furiosa da Villa -de Moura. Fazem-na opulenta as enchentes das ribeiras Brunhos, e -Lavandeira. Desemboca no Guadiana, passando primeiro pela Villa de -Noudar, que a deixa quasi reduzida a Ilha, juntando-se, com a ribeira -da Murtiga.</p> - -<p>48 <i>Arestal.</i> He huma lagoa profunda, que fica na Beira, e na -serra do seu mesmo nome. Em todo o anno lança agua para todas as -partes, e faz nascer della dous ribeiros. Dizem que se communica com o -mar.</p> - -<p>49 <i>Arunca.</i> Nasce na ribeira de Gaya, e augmentando-se com as -aguas de outras ribeiras, vay correndo até à Villa de Pombal pelo -espaço de tres leguas, fertilizando de caminho muitos pomares, e -quintas. Antes de se meter no Mondego, passa pelas Villas de Soure, e -Villanova de Anços. No tempo de Inverno se enfurece, e corre com tanto -impeto, que leva comsigo searas, e edificios. Os antigos lhe chamaraõ -Tapiço.<a id="FNanchor_223" href="#Footnote_223" class="fnanchor">[223]</a></p> - -<p>50 <i>Asturãos.</i> Rio do Minho, que nasce no sitio de Azevosa com -muita humildade, e continuando com a mesma brandura, vay acabar no -Lima, deixando de si saudades nas deliciosas, e frescas margens por -onde passou.</p> - -<p>51 <i>Ave.</i> Procede da serra de Agra, e de huma ribeira, a que -chamaõ da Lage; e unindo-se com hum regato ao pé da serra de Cabreira, -já com bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span> -de Barrozo, e quatro leguas antes de entrar no Oceano, divide o -Arcebispado de Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Bairaõ, -e de S. Tyrso, e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo -de Guimarães o Vizella, ou Avizella, que passa por Pombeiro, caminha -apressadamente por baixo de varias pontes muito boas, e finalmente -vay sepultarse no mar por entre a Villa de Conde, e Azurara. O Padre -Vasconcellos, como traductor de Duarte Nunes, o faz erradamente, como -elle, nascer junto de Guimarães, como bem repara Fr. Leaõ de Santo -Thomaz.<a id="FNanchor_224" href="#Footnote_224" class="fnanchor">[224]</a> Em algumas partes corre com tanta doçura, e suavidade, que -obrigou a cantar delle Manoel de Faria:<a id="FNanchor_225" href="#Footnote_225" class="fnanchor">[225]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>De donde ouvindo estava o som divino,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que faz correndo o Ave crystallino.</i></span><br> -</p> - -<p>Todas as terras, por onde este rio passa, e vay regando, saõ -deliciosas, e elle abundante de barbos muy grandes, e saborosissimos.</p> - -<p>52 <i>Aviz.</i> He huma ribeira, que nasce acima de Monforte, e -passando pela Villa de Fronteira, e outras terras, em que recebe varios -riachos, com que se engrossa, chega à Villa de Aviz onde adquire o -nome, e passa por huma ponte de boa fabrica, até ir acabar ao Tejo -incorporado com o Sorraga, e Divor.</p> - -<p>53 <i>Azibo.</i> Com forças medianas discorre pelos limites da Villa de -Chacim, sete leguas de Moncorvo. Principia no Lugar de Podense, termo -de Bragança, e depois de caminhar quasi sete leguas, vay introduzirse -no rio Sabor por cima da ponte de Remondes, limite da Villa de -Castro-Vicente.</p> - -<p>54 <i>Baça.</i> Este rio, juntando-se com outro chamado Coa, nasce da -parte Oriental de Alcobaça, e<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span> fazendo volta para o Occidente, rega por -grande espaço os fertilissimos campos de Mayorca, e Abbadia, até que -junto da Villa da Pederneira se mergulha no Oceano.</p> - -<p>55 <i>Balocas.</i> Ribeira, que se mete no rio Alva.</p> - -<p>56 <i>Balsemaõ.</i> Em distancia de quatro leguas da Cidade de Lamego -nasce este rio na serra da Rosa, mas elle o naõ parece; porque tanto -que póde correr, caminha furioso, rompendo, e lavrando pedras com tal -estrondo, que ensurdece ainda pelo Veraõ, quando leva menos agua. Vay -à ponte de Lamego, atravessando o sitio da mayor fertilidade, a que -chamaõ da Ribeira, e se mergulha impetuoso no Douro juntamente com o -Baroza com quem se havia communicado. Antigamente lhe chamavaõ Unguio.</p> - -<p>57 <i>Barcarena.</i> Nasce esta ribeira nos limites de Bellas termo -de Lisboa, e fertilizando os Lugares da Agualva, e de Laveiras, aqui -se esconde no Tejo por baixo do Convento da Cartuxa. Faz trabalhar -com a sua agua no sitio de Barcarena a magestosa fabrica da polvora -reedificada no anno de 1729 pelo Hollandez Antonio Cremer.</p> - -<p>58 <i>Baroza</i>. Nasce este rio de dous principios: hum he no monte -de S. Joaõ de Tarouca, e nasce muy bravo, mordendo pedras até a ponte -de Mondim, que muitas vezes derruba. Mais para baixo lhe entra outro -braço, que nasce em Barcia da Serra, donde chega a Lazarim à ponte de -Baroza. Baixa aos campos de Tarouca muito brando, mas com a aprasivel -serenidade solapa nocivo terras, e campos muito bons, e os leva. Unido -vay a Ucanha adornar a nobre ponte da Torre, muy grandiosa, e adiante -lhe entra a ribeira de Salzedas, com que em fim morre no Douro.</p> - -<p>59 <i>Barroco.</i> Nasce este rio na serra da Arada em a Beira, e -fazendo varias voltas, e passagens, se precipita por entre penhas no -escuro pego do Vouraõ<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span> até ir acabar no Vouga. As suas margens saõ -deliciosas pelas grandes sombras de arvoredos com que convida aos -passageiros.</p> - -<p>60 <i>Basegueda</i>, ou <i>Besadega.</i> Tem o seu nascimento este rio -na serra Marvana, tres leguas distante de Penamacor, onde tem huma -ponte de cantaria com cinco olhaes. A sua corrente he muy socegada, -excepto no Inverno, que corre arrebatada. Cria excellentes trutas, e -rega pelas suas margens vistosos, e frescos arvoredos; e deixando-nos -saudades com as suas areas de ouro, vay morrer Castelhano em o rio Erga.</p> - -<p>61 <i>Beça.</i> He rio do Minho, e nasce em Tras os Montes; corre -sempre arrebatado, e furioso por penedia, e por isso he infrutifera a -sua corrente. Depois de caminhar seis leguas, se mete no Tamega com -bastante copia de boas bogas, e trutas.</p> - -<p>62 <i>Bezelga.</i> Nasce junto da Villa de Ourem; e correndo mais de -legua e meya, vay descançar no rio Nabaõ por entre Thomar, e Cinceira.</p> - -<p>63 <i>Biturim.</i> Entra no Douro pela Provincia do Minho.</p> - -<p>64 <i>Borbolegaõ.</i> He este hum celebre olho de agua, que nasce na -Villa de Grandola, e passa pela natural ponte dos Aivados, que suas -mesmas aguas formaraõ galantemente em huma rocha. Mais para baixo vaõ -taõ violentas no sitio chamado Diabroria, que fazem moer a hum moinho -entre dia, e noite moyo e meyo de trigo. Neste olho de agua, que será -do tamanho de huma roda de carro, se lança de alto hum homem a pique, e -cravando-se nelle até os peitos, o impeto das aguas o faz vir pouco a -pouco para cima, até que arremeça com elle na margem com tanta furia, -como se fora huma leve cortiça. O mesmo faz a qualquer pezado madeiro, -que lhe lançaõ. Dentro nelle se ouve estrondo como o que faz na costa o -mar bravo. Finalmente vay morrer no Oceano pela Villa de Sines.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p> - -<p>65 <i>Botova.</i> O nascimento deste rio he nas serras de Albuquerque, -e se augmenta com as enchentes do Xévora, que nascendo ao pé da serra -de S. Mamede, e correndo pelos penhascos do monte chamado dos Sete, -passa por S. Juliaõ da Codiceira, onde recolhe as aguas do Abrilongo. -Desta sorte juntos vaõ communicarse com o Guadiana à vista da Cidade de -Badajoz. Deste rio faz mençaõ Antonino em o seu Itinerario com o nome -de <i>Budua</i>.</p> - -<p>66 <i>Brescos.</i> Na Freguezia de Santo André, termo da Villa de -Santiago de Cacém, existe esta lagoa que tem de circuito meya legua, -cujo especial peixe, que delle se tira em abundancia, se arrenda todos -os annos. Muitas pessoas distinctas vaõ fazer alli por divertimento -suas pescarias. Devemos esta noticia ao M. R. Padre Fr. Francisco de -Oliveira Dominicano, que por carta nos communicou.</p> - -<p>67 <i>Briteiros.</i> Nasce no Minho na Freguezia, e Coito de Pedralva, -e fenece no Ave. No seu principio he pobre, mas enriquecido com varias -levadas, se faz rio opulento, cheyo de muitas trutas, e escalhos -saborosissimos.</p> - -<p>68 <i>Bugaõ.</i> Tem este rio a sua origem na Freguezia de Santiago de -Villa-Chã, termo da Villa da Barca, e se mete no Lima arrebaradamente. -Todo o peixe, que nelle se cria, he de admiravel gosto.</p> - -<p>69 <i>Cabraõ.</i> He hum pequeno regato, que corre pela Freguezia -de S. Lourenço, termo da Villa dos Arcos de Valdevez. Com a pouca -enchente, que leva, caminha com arrebatada furia, e passando pela -ponte de cantaria, a que chamaõ do Rodalho, divide as aguas do Lima, -onde finaliza. Criaõ-se nelle boas trutas, porém tambem naõ lhe faltaõ -sanguisugas.</p> - -<p>70 <i>Cabrella.</i> He ribeira do Alentejo, que nasce nas Silveiras -termo de Montemor. Recolhe as correntes de outras duas ribeiras -chamadas da Safira, e S. Romaõ, que lhe ficaõ ao Nascente, e da parte<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> -do Norte se engrossa com outras duas, e se mete no mar com o nome de -Marateca. O seu curso em partes he furioso, pelo embaraço que lhe fazem -as penedias por onde corre.</p> - -<p>71 <i>Cachoeiras.</i> Nasce na Comarca de Alenquer formado de varios -regatos, e vay acabar no Tejo entre a Villa nova da Rainha, e a -Castanheira. Tem duas pontes huma de páo, outra de pedra no Lugar do -Carregado.</p> - -<p>72 <i>Cadavai.</i> He ribeira, que fertiliza as hortas no termo da -Villa do Sardoal, e se mete no Tejo.</p> - -<p>73 <i>Caldo.</i> Corre pela Villa de Monte alegre na Provincia -Transmontana, provendo de peixe os seus habitadores.</p> - -<p>74 <i>Cambas.</i> He pequeno rio, que entra no Zezere.</p> - -<p>75 <i>Campanhaõ.</i> Entra no Douro.</p> - -<p>76 <i>Campilhas.</i> Entra no rio Sadaõ muy corpulento em Alvalade.</p> - -<p>77 <i>Caná.</i> Faz delle mençaõ Macedo.<a id="FNanchor_226" href="#Footnote_226" class="fnanchor">[226]</a></p> - -<p>78 <i>Canal.</i> He ribeira da serra de Ossa, donde procede, e -enriquece a ribeira de Tera.</p> - -<p>79 <i>Canha.</i> Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o -novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de -Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa -Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com -huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos -depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ -occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte, -onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está -taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738 -correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro,<span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span> natural da -mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada -no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e -era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa -certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do -Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra -na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das -Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de -1759.</p> - -<p>80 <i>Carbuncas</i>, ou <i>Cabruncas</i>. Nasce na serra de Freixedas -do Bispado de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante -com o Danços caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego.</p> - -<p>81 <i>Carcedo.</i> Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha, -sem dizer onde nasce, ou por onde corre.</p> - -<p>82 <i>Cardeira.</i> Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo -de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no -Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma -Cidade de Béja.</p> - -<p>83 <i>Carnide.</i> He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay -buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas, -vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira.</p> - -<p>84 <i>Castelãos.</i> Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de -Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio -Crins, que se mete no Mondego.</p> - -<p>85 <i>Cávado</i>, a quem os Romanos chamavaõ <i>Celando</i>, e Ptolomeu -appellida <i>Cavus</i>. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na -Serra do Gerez, segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber -outras ribeiras, especialmente o chamado <i>Homem</i>, cerca, e poem -em Peninsula as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga. -Rega<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span> com suas aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte; -os muros de Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no -mar por entre Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta -para o Norte quasi do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito -sua força as marés. Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que -acerca deste rio fez o Reverendo Padre Argote.<a id="FNanchor_227" href="#Footnote_227" class="fnanchor">[227]</a> Pescaõ-se neste -rio muitos salmões, relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ -tambem nelle amethystos, jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas -as pontes por onde se deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que -existe na Freguezia de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos -de cantaria, obra Romana; e por aqui fazia transito huma das vias -militares que sahiaõ de Braga para Astorga.</p> - -<p>86 <i>Cá-vay.</i> Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy -distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles.</p> - -<p>87 <i>Caya.</i> Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte -chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo -dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar -Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya -antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy -conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer -a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento -mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes -entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias.</p> - -<p>88 <i>Cayde.</i> He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio -perto da Vila de Guimarães, e se mete no Celho.</p> - -<p>89 <i>Ceife.</i> Ribeira, que corre pela Freguezia de<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> Santa Margarida -do termo da Villa de Proença a velha.</p> - -<p>90 <i>Cellinho.</i> Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com -o Celho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de -Sercedelo para se intrometter com o Ave.</p> - -<p>91 <i>Celano.</i> O mesmo que o <i>Cávado</i>.</p> - -<p>91 <i>Celho.</i> Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de -Guimarães, e conduzido com o augmento de outros riachos, vay passando -triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deos, a de -Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vay esconder no rio Ave por -baixo da ponte de Servás, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de -Penouços deraõ as aguas deste rio de beber às Tropas Portuguezas, e -Castelhanas, que se acharaõ na batalha da Veiga das Favas.</p> - -<p>93 <i>Ceiça.</i> Ribeira, que entra no Nabaõ, e nasce no termo da Villa -das Pias.</p> - -<p>94 <i>Cerdeira.</i> Ribeira, que corre pela Villa de Coja, e entra no -Alva.</p> - -<p>95 <i>Ceras</i>, antigamente <i>Ceres</i>. Entra no Nabaõ.</p> - -<p>96 <i>Cértoma.</i> Nasce no Couto da Vacarissa perto do Bussaco, e vay -acabar no Agadaõ muy soberbo. As suas aguas antigamente eraõ pessimas: -depois que tiveraõ a felicidade de beber dellas Santa Isabel, ficaraõ -com tal virtude, que até os gados que alli bebem, saõ as suas carnes de -melhor sabor que os de outra parte.<a id="FNanchor_228" href="#Footnote_228" class="fnanchor">[228]</a></p> - -<p>97 <i>Ceira.</i> Rega as Villas de Goes, e Cerpins, fertilizando seus -campos, e enriquecendo seus moradores de grãos de ouro, que suas -correntes levaõ.</p> - -<p>98 <i>Chança.</i> Esta ribeira fica distante meya legua da Villa de -Ficalho, e divide por esta parte o nosso Reino do de Castella.</p> - -<p>99 <i>Chinches.</i> Corre ao Norte da Cidade de Elvas<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> por hum -amenissimo valle povoado de fresquissimo arvoredo, hortas, e pomares, -e repartindo os montes de Nossa Senhora da Graça, e do Castello. Visto -este rio da Cidade, faz huma agradavel perspectiva.</p> - -<p>100 <i>Chileiros.</i> Nasce este rio na lagoa de Malveira, Lugar da -Freguezia de Alcainça, termo da Villa de Cintra; e discorrendo pelas -margens do monte Malhamartello, passa por baixo da estrada Real de -Mafra, onde se augmenta com os riachos Sexeira, e Pinheiro, que lhe -daõ forças para cortar com mayor efficacia o alto monte chamado de -Moncharro. Depois entra pelas terras da Freguezia da Igreja nova, e -passa pelos Lugares de Moinhos, Granja, Lage, e Farello, onde recebe -as aguas do ribeiro <i>Bocco</i> da banda do Sul, e da mesma parte -recolhe outro, que nasce na fonte de Danços. Daqui vay caminhando até -o moinho das Peras pardas, onde se lhe introduzem as correntes do rio -Mouraõ, e as do Almargem do Bispo. Alli faz hum salto, de cujo impulso -formaõ as aguas hum profundo poço, que está sempre provido de muito, -e bom peixe; e metendo-se pelas Freguezias de Chileiros, e Carvoeira, -vay até à Igreja de Nossa Senhora do Porto occultarse no mar. Tem este -rio mais de quatro leguas de comprido, em cuja distancia fertiliza boas -terras, que todas se fabricaõ. Da Mouxeira para baixo vay banhando -deliciosas planicies cheias de muitas vinhas, que só a Freguezia da -Carvoeira dizima hum anno por outro trezentas pipas de vinho. Criaõ-se -nelle muitos bordallos, mugens, e fataças, que entraõ pela foz, quando -se rompe com as cheias.</p> - -<p>101 <i>Chouchou.</i> He ribeira, que banha a Villa de Serpa.</p> - -<p>102 <i>Coa.</i> No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre -junto de Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que -nasce na serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span> nosso Reino -por Folgosinho. Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates, -e concordaõ em se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos -lhe chamavaõ <i>Cuda</i>, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ -o nome de Cudanos, e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para -tingir lãs, e caldear ferro; porém pessimas para se beber, porque -causaõ melancolia, e dores de cabeça.</p> - -<p>103 <i>Cobres.</i> Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e -unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde -perdem o nome.</p> - -<p>104 <i>Corgo.</i> Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de -Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os -Romanos lhe chamavaõ <i>Corrugo</i>.</p> - -<p>105 <i>Corona.</i> Em distancia de huma legua de Grandola corre este -rio pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos -termos de Grandola, e Alvalade.</p> - -<p>106 <i>Coura.</i> Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca -juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos, -formando duas barras, e a ilha Insoa.</p> - -<p>107 <i>Criz.</i> He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual -passando pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego.</p> - -<p>108 <i>Daõ.</i> Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul, -ficando-lhe da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao -Poente, vay ao Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas -dos Bispados de Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros, -e por baixo da Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no -Mondego.</p> - -<p>109 <i>Danços.</i> Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da -Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o -Mondego.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p> - -<p>110 <i>Davino.</i> Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte -do Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto -da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de -fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte -de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique.</p> - -<p>111 <i>Degebe</i>, ou <i>Odigebe</i>. Nasce este rio na herdade do -Passo, Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres -pontes em outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte -por onde passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a -Villa do Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns -pégos, ou poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que -na sua lingua significa fosso, ou cisterna.<a id="FNanchor_229" href="#Footnote_229" class="fnanchor">[229]</a></p> - -<p>112 <i>Deste.</i> Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos -para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte -de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se -chamava <i>Aleste</i>.</p> - -<p>113 <i>Diabroria.</i> He huma lagoa, que ha no termo da Villa de -Grandola por baixo do olho de agua chamado <i>Borbolegaõ</i>, de que -já fallamos, a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha -de huma altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum, -nem se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de -peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa -de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e -meyo de paõ.<a id="FNanchor_230" href="#Footnote_230" class="fnanchor">[230]</a></p> - -<p>114 <i>Douro.</i> Conforme as melhores informações nasce este grande -rio nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos -antigamente<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> eraõ chamados <i>Duraços</i>. Surte de huma portentosa -lagoa, e descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de -Leaõ, onde se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este -augmento chega a Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando -primeiro por Miranda, e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios -Coa, Tua, Pinheiro, Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até -ir lançarse no mar em S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste -rio, que quando nelle se introduzem as aguas dos outros, posto que -opulentos, naõ fazem demonstraçaõ alguma na sua entrada.</p> - -<p>115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre -precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo -de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e -por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as -terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes. -Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera -sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ -da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça -a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o -Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer -navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e -resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que -se deixou da empreza começada.</p> - -<p>116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no -lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde, -como affirma o grande Argote.<a id="FNanchor_231" href="#Footnote_231" class="fnanchor">[231]</a> O Doutor Francisco da Fonseca -Henriques, fallando deste rio, diz, que as<span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span> suas aguas tem virtude -deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis -para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas -causa melancolia, e dores de cabeça.</p> - -<p>117 <i>Elja</i>, ou <i>Elga</i>. Corre direito ao Sul, e passa por -entre Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de -Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara.</p> - -<p>118 <i>Enfesta.</i> Pequeno ribeiro, que desagua no Minho.</p> - -<p>119 <i>Enguias.</i> Corre esta ribeira por hum Lugar do seu nome, que -fica no termo da Villa de Belmonte.</p> - -<p>120 <i>Enxarrama</i>, ou <i>Xarrama</i>, nasce do ribeiro do Louredo, -e se junta depois com o da Lage perto do Convento do Espinheiro de -Evora. Tem sete pontes pequenas, e huma grande. A primeira da Cidade -para o Espinheiro: a segunda no caminho que conduz para Villa Viçosa: a -terceira na estrada para Béja: a quarta da quinta do Sande: a quinta a -dos fornos da cal: a sexta a que vay para Portel: a setima do Louredo: -a oitava grande, e sumptuosa, que fica da parte do Norte da Villa do -Torraõ. Por ella passa quem vay para Alcacer do Sal, e para Alcaçovas, -ficando no meyo desta o grande ribeiro das Banhas. Depois finalmente -que desagua na ribeira do Sado, vay com ella o Enxarrama meterse no rio -de Alcacer do Sal.</p> - -<p>121 <i>Enxurro.</i> Corre perto da Villa da Pederneira este ribeiro, -que lhe serve de grande utilidade.</p> - -<p>122 <i>Erra.</i> Rega esta ribeira os campos de Coruche, e nella se -mete a do Odivor.</p> - -<p>123 <i>Escura.</i> He huma lagoa assim chamada, e muy celebre no mais -aspero da serra da Estrella, que tem muitos passos de circuito, e -consta de aguas tristes, e verdenegras, a que nunca se lhe achou fundo, -nem cria cousa alguma. Quando o mar anda bravo, se embravece tambem a -agua da lagoa, dando<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> bramidos a modo de trovaõ, que se ouvem dalli -muitas leguas; donde querem dizer os naturaes que se communica com o -mar, naõ obstante estar delle muito affastado, e serem doces as suas -aguas; porque affirma Joaõ Vaseu teremse-lhe achado mastros de navio. -Perto desta lagoa nascem os celebres rios Mondego, Zezere, e Alva.</p> - -<p>124 Mons. Marvellú, que teve a curiosidade de ver, e observar o melhor -deste Reino para a sua Historia natural que intentava compor, escreve -nas suas Memorias,<a id="FNanchor_232" href="#Footnote_232" class="fnanchor">[232]</a> que subindo, e penetrando a altura desta serra, -e fazendo lançar dentro da lagoa Escura hum moço atado com huma corda, -observara este, que tendo andado cento e cincoenta passos, sentira que -as aguas puxavaõ fortemente por elle; donde se póde inferir, que as -aguas, que alli formaõ aquelle lago, tem alguma abertura, ou voragem -por onde desaguaõ impetuosamente.</p> - -<p>125 <i>Esporaõ.</i> Nasce na Povoa da Margem da parte do Sul do -Concelho de Guardaõ, e se mete no Criz.</p> - -<p>126 <i>Fervença.</i> Banha a Cidade de Bragança.</p> - -<p>127 <i>Figueiró.</i> He ribeira, que se diffunde pela Villa de Niza, e -nasce na serra de Portalegre.</p> - -<p>128 <i>Filvida.</i> Corre pelo Concelho de Sever, e faz parte da -divisaõ dos Bispados de Viseu, e Coimbra.</p> - -<p>129 <i>Folques.</i> He huma ribeira de Arganil, que entra no Alva.</p> - -<p>130 <i>Freixiandas.</i> Discorre por Alvayazere.</p> - -<p>131 <i>Freixo.</i> Atravessa este grande ribeiro a mata da Bardeira -da Villa do Vimieiro. Passa por entre Selmes, e Cuba, Aldeas no termo -de Béja. Corre sempre por penedias, de que procede criar singulares -bordalos.</p> - -<p>132 <i>Fresno.</i> Mantem, e fertiliza este rio a Cidade<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> de Miranda, -a quem cerca pela parte do Occidente, e onde he recebido em ponte de -pedra lavrada. Ha aqui proxima huma fonte, cuja agua vem por arcos -conduzida do Lugar de Villarinho.</p> - -<p>133 <i>Fulias.</i> Desagua no Minho.</p> - -<p>134 <i>Gafaria.</i> Entra no Douro.</p> - -<p>135 <i>Garcia menino.</i> He hum celebre pego, cujas aguas enriquecem o -rio Sadaõ, e onde se acha em todo o anno muito peixe, especialmente as -nomeadas tainhas de boca vermelha.</p> - -<p>136 <i>Germunde.</i> Entra no Douro.</p> - -<p>137 <i>Gobe.</i> Entra no Guadiana da parte de Portugal.</p> - -<p>138 <i>Grefões.</i> D. Francisco Manoel cuida que he o Celando, que nós -appropriamos ao Cávado. Veja-se o Padre Poyares no Diccionario pag. 347.</p> - -<p>139 <i>Gogim.</i> Faz este rio com suas aguas, que banhaõ a Freguezia -do Salvador de Sabadim, Comarca de Viana, augmentar grandemente o rio -Vez, com o qual se incorpora.</p> - -<p>140 <i>Guadiana.</i> Nasce quatro leguas de Montiel em huma lagoa -chamada Roidera na terra de Alhambra; e sumindo-se junto de -Argamansilha, resurge dalli sete leguas perto de Daimiel, onde chamaõ -os olhos do Guadiana; e correndo do Oriente para Poente, entra em -Estremadura. Chegando a Medalhim, muda seu curso para Meyo dia até -chegar huma legua antes de Merida, donde torna ao Poente, banhando seus -muros, e os do Castello de Lobon, e Cidade de Badajoz, a huma legua da -qual, e duas da Cidade de Elvas, divide os termos de ambas por huma -parte, e o rio Caya por outra.</p> - -<p>141 O nome proprio antigo de Guadiana foy <i>Ana</i>, derivado, -conforme a opiniaõ de alguns, de <i>Sic-ano</i>, que dizem ser Rey de -Hespanha; porém, segundo Samuel Bocharto,<a id="FNanchor_233" href="#Footnote_233" class="fnanchor">[233]</a> he palavra Syriaca,<span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span> -a qual significa ovelha, porque nas margens deste rio se apascentaõ -grandes rebanhos desse gado. Os Mouros lhe chamaõ <i>Guad-hana</i>, que -quer dizer cousa, que se esconde. Entra em fim em Portugal abundante de -aguas de outros menores rios, que se lhe introduzem, e perdem nelle o -nome. Continúa seu curso, dividindo a antiga Betica da Lusitania, e se -lança no Oceano Athlantico entre Ayamonte, e Castro-Marim.</p> - -<p>141 Enobrecem-no tres formosas pontes, a de Merida, Badajoz, e -Olivença. Nesta ponte mandou ElRey D. Joaõ II. edificar huma torre de -tres sobrados com suas janellas, e seteiras, que defendiaõ a passagem -do rio. Depois a mandou reedificar ElRey D. Manoel, ficando huma das -mais galhardas, e formosas pontes de todo o Reino por sua fortaleza, -arquitectura, e fabrica, a qual assenta sobre os penhascos do rio, -que naquella parte corre alcantilado sobre dezoito arcos, e tudo he -passo importantissimo para soccorrer Olivença, em que os passageiros -pagavaõ certo direito, que já naõ permanece. No principio das ultimas -guerras de Castella, que aconteceraõ o anno de 1709, a arruinaraõ os -Castelhanos. Fr. Bernardo de Brito na Geografia de Portugal, fallando -das aguas deste rio, diz, que costumaõ fazer negra a farinha do trigo, -que com ellas se moe. Tem ellas virtude diuretica, e deobstruente, como -nos diz o <i>Aquilegio Medicinal</i>.</p> - -<p>145 <i>Herdeiro.</i> Corre este rio chegado aos muros de Guimarães. -Traz sua origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal, que chamaõ -d’Entre as vinhas, na Freguezia de S. Pedro de Azurey. Tem huma só -ponte de pedra lavrada, que chamaõ de Santa Luzia, mais magestosa -do que convinha à pobreza das suas aguas. Vay acabar no rocio de S. -Lazaro, aonde ajudando-o outro regato, vaõ ambos incorporarse com o -Celho no Lugar do Reboto.</p> - -<p>144 <i>Homem.</i> Tem seu berço na serra do Gerez,<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span> e no sitio chamado -<i>Lamas de homem</i>. Dalli correndo direito ao Poente precipitado -por entre penedias, vay engrossando com os cabedaes de outras ribeiras -até se despenhar estrondosamente na Portela de Homem; donde voltando -a corrente para o Meyo dia dentro do espaço de meya legua, torna a -enriquecerse com as aguas de treze rios, com as quaes muito mais -poderoso vay desembocar no rio Cávado a huma legua de Braga.</p> - -<p>145 <i>Jarda.</i> Ribeira bem conhecida no termo de Lisboa, e na -Freguezia de Bellas, por onde corre.</p> - -<p>146 <i>Inha.</i> He huma ribeira muy impetuosa, que corre de altos -precipicios, e onde se criaõ aguias. Mete-se no Douro.</p> - -<p>147 <i>Jocete.</i> Mete-se no Guadiana.</p> - -<p>148 <i>Isna.</i> Divide os termos das Villas da Certã, e Abrantes.</p> - -<p>149 <i>Junqueira.</i> Rio, que desagua na enseada da Villa de Sines.</p> - -<p>150 <i>Lamas.</i> A Geografia Blaviana o assina no Alentejo.</p> - -<p>151 <i>Lampas.</i> Entra no Guadiana da parte de Portugal.</p> - -<p>152 <i>Laurede.</i> Tambem entra no Guadiana da mesma parte.</p> - -<p>153 <i>Lavandeiras.</i> Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo -fosso a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para -ir desembocar no Guadiana.</p> - -<p>154 <i>Leça.</i> Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros -lhe descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois -de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em -Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio -tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy -muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes -de pedra boas, e<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em -Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente -Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na -Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part. -2. Poema 8.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>El Leça, que por hondo, y fresco valle</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Corriendo con sociego grave, y blando</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Occupa, angosta, y tortuosa calle</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Con los nombres de Lethes, y Celando;</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Pero si del olvido se appellida,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Quien una vez le vê, já mas le olvida.</i></span><br> -</p> - -<p>Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado -de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na -Geografia de Braga.</p> - -<p>155 <i>Lena.</i> Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até -Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano.</p> - -<p>156 <i>Lima.</i> He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme -Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte -de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de -outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_234" href="#Footnote_234" class="fnanchor">[234]</a> -deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he <i>Limia</i> em -Galiza, a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas, -que tem, chamadas em Grego <i>Lymnas</i>, e em Latim <i>Lymum</i>, -donde se derivou <i>Lima</i> em Portuguez.</p> - -<p>153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou -<i>Belion</i> e depois <i>Lethes</i>. Assim cantou o mellifluo -Bernardes na Eglog. 7.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Junto do Lima claro, e fresco rio,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que Lethes se chamou antigamente.</i></span><br> -</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p> -<p>A causa deste nome <i>Lethes</i>, que significa esquecimento, foy pela -sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas -passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ -seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo -ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse -desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.</p> - -<p>158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao -idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida -já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ -perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio <i>Lethes</i>. De tudo -vimos a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio -<i>Lima</i> fosse em algum tempo chamado <i>Lethes</i>, nem por isso -tem dependencia com o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os -Authores abaixo;<a id="FNanchor_235" href="#Footnote_235" class="fnanchor">[235]</a> porque este nome <i>Lethes</i> se acha imposto a -outros rios illustres, como diz Claudiano:<a id="FNanchor_236" href="#Footnote_236" class="fnanchor">[236]</a> e todos os rios, que -tem adquirido semelhante nome, he porque houve nelles motivos, ainda -que incognitos, de especial esquecimento, e taes saõ os que sinala -Estrabo<a id="FNanchor_237" href="#Footnote_237" class="fnanchor">[237]</a> em Macedonia, e em Candia, sem que por este principio haja -dependencia, que faça perverter o certo com o fabuloso.</p> - -<p>159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio -Floro,<a id="FNanchor_238" href="#Footnote_238" class="fnanchor">[238]</a> que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo, -crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos -era elle o verdadeiro <i>Lethes</i>; respondemos, que este conceito era -futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava,<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span> para -lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra -parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma, -para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle -atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores: -e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella -repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia -o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento; -no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229. -contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que -no Prologo do seu <i>Filippe Prudente</i>, fallando do Lima, attribue -às suas aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a -fabula. O certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só -parece que corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, -que o vem, de que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse -D. Francisco Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne -Botelho, e o Padre Reys.<a id="FNanchor_239" href="#Footnote_239" class="fnanchor">[239]</a></p> - -<p>160 <i>Liria.</i> He ribeira de Castellobranco.</p> - -<p>161 <i>Lis.</i> Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica -numa legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a -Cidade, e o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde -estaõ os arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena.</p> - -<p>161 <i>Lixosa.</i> Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem -circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre, -fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa, -porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra -pelo Crato,<span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span> onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros -de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de -Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as -ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento. -Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum -grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma -só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de -Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de -peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada.</p> - -<p>163 <i>Lobos.</i> Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo -de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a -Mirandella.</p> - -<p>164 <i>Lousaõ.</i> He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte -do Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie.</p> - -<p>165 <i>Locía.</i> He hum pequeno regato, que passa pelo meyo da Villa -de Amarante.</p> - -<p>166 <i>Lucefece.</i> Nasce na serra d’Ossa, e correndo junto da Villa -de Terena da parte do Norte, fertilizando o Alandroal, e Redondo, se -vay meter no Guadiana.</p> - -<p>167 <i>Maçaõ.</i> Nasce perto da serra chamada Teixeira, e entra no -Douro.</p> - -<p>168 <i>Maratéca.</i> He huma das grandes ribeiras do Alentejo naõ muito -longe da Agualva. Por ella se passa para a Moita.</p> - -<p>169 <i>Marcabron.</i> Serve esta ribeira de separar os termos de Villa -Alva, e o de Villa de Frades. Por outra parte divide os limites de Béja -dos de Villa Ruiva, e Alvito: mete-se no de Odivellas, que vay parar ao -Sado.</p> - -<p>170 <i>Marnel.</i> Discorre pelo lado meridional da Villa de Vouga.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span></p> - -<p>171 <i>Mendo-Marques.</i> No termo de Arrayolos, e no sitio da -Freguezia de S. Gregorio corre esta ribeira.</p> - -<p>172 <i>Mente</i>, ou <i>Rabaçal</i>. He rio, que nasce perto de Pentes, -Lugar de Galiza, e rega o termo da Villa de Monforte, donde caminha -para o Tua, no qual se mergulha junto ao Lugar de Chellas em Mirandella -depois de caminhar doze leguas. Pescaõ-se nelle boas trutas.</p> - -<p>173 <i>Merce.</i> He huma ribeira, que nasce junto do Lugar de Val de -Prados, termo de Bragança; e correndo perto da Villa de Cortiços, passa -por huma ponte de dous arcos, para se ir incorporar com o Tua.</p> - -<p>174 <i>Minho.</i> Para diante do Lima tres leguas ao Norte corre -o Minho quasi taõ opulento como o Douro. Estrabo lhe dá o nome de -<i>Benis</i>. Nasce perto da Cidade de Lugo, e caminhando o espaço de -trinta e seis leguas, rega em Portugal as Villas de Melgaço, Monçaõ, -Valença, Cerveira, e vem fenecer no mar entre a Cidade de Tuy, e a -Villa de Caminha. Dizem que o chamarse Minho he por causa da cor, -que as suas aguas recebem do fundo, que tiraõ hum pouco a vermelho: -outros o attribuem ao vermelhaõ, que nasce nelle; porém Joaõ Salgado na -Hydrografia deste rio diz, que se deriva da fonte Minhaõ, onde nasce, -quatro leguas ao Norte de Lugo. Fallaõ deste rio os Authores abaixo -allegados.<a id="FNanchor_240" href="#Footnote_240" class="fnanchor">[240]</a></p> - -<p>175 <i>Mondego.</i> Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo -pela Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e -recreyo nos<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span> campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno, -e passar pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar -o porto de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões, -quando cantou:<a id="FNanchor_241" href="#Footnote_241" class="fnanchor">[241]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Vaõ as serenas aguas</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Do Mondego descendo,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>E mansamente até o mar naõ paraõ.</i></span><br> -</p> - -<p>Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno -se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco -Mousinho veyo a dizer:<a id="FNanchor_242" href="#Footnote_242" class="fnanchor">[242]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Mondego no Veraõ sereno, e brando,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Té lá onde na foz, que vay buscando,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Paga de suas aguas o tributo.</i><a id="FNanchor_243" href="#Footnote_243" class="fnanchor">[243]</a></span><br> -</p> - -<p>176 <i>Montijo.</i> He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum -bom porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e -navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por -isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes -com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa.</p> - -<p>177 <i>Mós.</i> He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de -Mós. Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de -legua afastado da Villa tem ponte de tres arcos.</p> - -<p>178 <i>Murtigaõ.</i> Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina.</p> - -<p>179 <i>Nabaõ</i>, antigamente chamado <i>Nava de Juncoso</i>.<a id="FNanchor_244" href="#Footnote_244" class="fnanchor">[244]</a> -Corre este venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome -de venturoso, naõ só porque<span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span> deu fama, e nome à insigne Cidade de -Nabancia, que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas -porque ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o -bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou -o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia; -donde Fr. Joaõ Felix disse:<a id="FNanchor_245" href="#Footnote_245" class="fnanchor">[245]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Qui sacra mærenti corpora vexit aqua.</i></span><br> -</p> - -<p>Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e -entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da -Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e -engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos -no Tejo junto à Villa de Punhete.</p> - -<p>180 <i>Neiva.</i> Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem -fertilizando os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois -de se sujeitar a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ -dista muito de Viana. Duarte Nunes diz,<a id="FNanchor_246" href="#Footnote_246" class="fnanchor">[246]</a> que este rio se mete -no Cávado, para ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém -outros<a id="FNanchor_247" href="#Footnote_247" class="fnanchor">[247]</a> emendaõ esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que -temos expendido; porque as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ -para a parte do Norte muito mais adiante, donde o rio desemboca.</p> - -<p>181 <i>Niza.</i> Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na -serra de Portalegre.</p> - -<p>182 <i>Noeime.</i> Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na -fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa -ao<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span> Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e -se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá -Joaõ Salgado de Araujo pag. 108.</p> - -<p>183 <i>Obidos.</i> No termo desta Villa está a celebre lagoa, que -tem de Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres -quartos de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de -mar que humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta -Cruz a barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe -tanto de area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios, -dous pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo -arrabalde de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o -terceiro vem das Caldas.</p> - -<p>184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda -a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos, -solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas, -berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as -duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando -todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e -juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito.</p> - -<p>185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da -Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso -do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve -o gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina -de pedra, que diz: <i>O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino -ElRey D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy -feita.</i> Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: <i>O -Magnanimo Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e -D. Manoel jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p> - -<p>186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada, -simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara -meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do -mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa -corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais -aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro -de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o -Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas -Reaes com a mayor parte da Corte.</p> - -<p>187 <i>Ocreza.</i> He huma ribeira, que corre junto da Villa de -Sarzedas.</p> - -<p>188 <i>Odemira.</i> Banha Villa nova de Mil fontes no Algarve, e a -pouco espaço se mete no mar.</p> - -<p>189 <i>Odiége.</i> Fórma-se de duas ribeiras nas Freguezias de S. -Brissos, termo de Montemór o novo, e de S. Sebastiaõ da Gesteira, termo -de Evora. Tem ponte, e passada ella, se vê no alto de hum oiteiro da -parte do Sul a milagrosa fonte da Senhora da Esperança das Alcaçovas, -de que fallaõ o <i>Santuario Mariano tom. 6. pag. 320.</i> e o -<i>Diccionario Geografico</i> de Cardoso <i>tom. 1. pag. 143.</i></p> - -<p>190 <i>Odivelas.</i> Nasce na serra de Portel, e vay regar a Villa -de Alvito. Tem duas pontes, huma da banda do Sul no caminho que faz -o correio desta Villa para Béja, donde dista cinco leguas: outra em -Villa Ruiva na estrada por onde se vay desta Villa para Evora: esta -ponte foy fabrica dos Romanos, por ser transito da via militar de Evora -para Béja. Para diante da Aldea de Alfundaõ separa o termo de Béja do -Torraõ, e incorporado com a ribeira do Marcabron, vay morrer ao Sado.</p> - -<p>191 <i>Odivor.</i> Fertiliza pela parte do Norte os campos da Villa -das Aguias; e discorrendo pelo termo de Arrayolos, tem na Freguezia de -Santa Anna duas pontes, e dá movimento a sete moinhos.<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span> Esta ribeira he -a mesma que a de Arrayolos.</p> - -<p>192 <i>Olivença.</i> Passa esta ribeira pelo termo da Villa de seu -nome. Alguns dizem, que nasce nas serras de Salvaterra, outros na de -Salva Leon; mas sempre concluem, que tem sua origem em Castella, cujas -correntes fazem apartar aquelle Reino do nosso: mete-se no Guadiana.</p> - -<p>193 <i>Olho de Pedralva.</i> He huma pequena ribeira, que nasce de huma -fonte no Lugar de Pedralva, termo da Villa de S. Lourenço do Bairro, -Bispado de Coimbra.</p> - -<p>194 <i>Orãos.</i> He hum dos rios, que banhaõ a Villa de Soure, e vem -da Villa de Pombal para se meter no Mondego.</p> - -<p>195 <i>Paiva.</i> Nasce este rio em o sitio de Nossa Senhora da Lapa; -e chegando à Freguezia de S. Martinho do Gafanhaõ, divide o Bispado -de Lamego do de Viseu: depois correndo até o Castello de Paiva, -perde o nome, entrando no Douro cançado de ter andado doze leguas. -Escreve delle Jorge Cardoso,<a id="FNanchor_248" href="#Footnote_248" class="fnanchor">[248]</a> donde tirou o que diz a Corografia -Portugueza.<a id="FNanchor_249" href="#Footnote_249" class="fnanchor">[249]</a></p> - -<p>196 <i>Palhas.</i> He hum rio, que corre por Villar-Mayor, conforme -vemos no Mappa de Joaõ Bautista Lavanha.</p> - -<p>197 <i>Paul.</i> Rio, que entra no Zezere.</p> - -<p>198 <i>Pega.</i> Ribeira, que corre perto da Villa de Pinhel, e desagua -no Coa.</p> - -<p>199 <i>Pedonde.</i> Nasce em Arouca abundante de gostosas lampreas, e -acaba no Douro.</p> - -<p>200 <i>Pera.</i> He rio menor que o Zezere onde se embebe; cerca a -Villa de Pedrogaõ, e utiliza a de Figueiró com a copia de seu peixe. -Deste rio se lembra Camões.<a id="FNanchor_250" href="#Footnote_250" class="fnanchor">[250]</a></p> - -<p>201 <i>Pera-manca.</i> Tem seu nascimento nas vinhas<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span> de Evora, e corre -junto da cerca dos Capuchos de Valverde, e se mete no Odiege depois de -passar por huma ponte.</p> - -<p>202 <i>Pernes.</i> Esta famosa ribeira deu o nome, ou o tomou do -Lugar, que fica no termo de Alcanede: he abundante de agua, e assim a -communica por muitos moinhos, que anima, e a muitas hortas, e pomares, -que fertiliza. A agua da levada, que corre mais junto da ponte, dizem, -que por intercessaõ de hum Bispo, que por alli passara, lhe infundio -virtude para sarar toda a casta de chagas. Cria bom peixe, e desagua no -Tejo.</p> - -<p>203 <i>Pias.</i> Dá esta fertilissima ribeira nome a huma Villa, e -nasce em hum lago junto da Ermida de S. Marcos dentro da quinta chamada -da Figueira de huns formosos olhos de agua; e costeando a serra de -Monchite, se mete no Nabaõ, fertilizando em tal fórma as terras, por -onde corre, que lhes faz duplicar dentro de hum anno todo o genero de -frutos.</p> - -<p>204 <i>Piodaõ.</i> Corta pelo meyo o Concelho de Vide de Foz de Piodaõ, -e entra no Alva.</p> - -<p>205 <i>Pipa.</i> Rega pela parte do Norte a Villa da Arruda.</p> - -<p>206 <i>Pisco.</i> Pela parte do Oriente da Villa de Langroiva corre -este rio, que fertiliza seus campos de paõ, azeite, e frutas.</p> - -<p>207 <i>Ponsul.</i> De tal fórma cerca a Villa de Idanha a velha, que -a reduz a Peninsula. Em distancia de huma legua para o Nascente de -Castellobranco tem ponte.</p> - -<p>208 <i>Pontega.</i> Passa pelas Freguezias de S. Gregorio, e Nossa -Senhora da Consolaçaõ, termo de Arrayolos, e se mete no Odivor.</p> - -<p>209 <i>Quarteira.</i> Este rio he do Algarve, e corre junto a Faro.</p> - -<p>210 <i>Rabaçal.</i> He o mesmo que o rio <i>Mente</i>.</p> - -<p>211 <i>Ramalhoso.</i> Ribeiro, que passa pela Villa de S. Vicente, e -seu termo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p> - -<p>212 <i>Regalvo.</i> Desagua na enseada da Villa de Sines.</p> - -<p>213 <i>Rezes.</i> Ribeira do termo do Sardoal.</p> - -<p>214 <i>Riba-Pinhel.</i> Nasce perto da Igreja de Nossa Senhora da -Lagoa: começa sua corrente pelo termo da Guarda encaminhado ao Sul: -passa ao termo de Jarmelo direito ao Nascente, e torna a voltar para -o Norte por entre Jarmejo, e Castello-Mendo. Vay à ponte de Pinhel, e -huma legua adiante entra no Coa.</p> - -<p>215 <i>Ribeira de Freixas.</i> He hum pequeno rio, que corre meya legua -distante da Villa de Trancozo.</p> - -<p>216 <i>Ribeira dos Gallegos.</i> Corre pelo termo da Villa de Vinhaes, -e junto da Freguezia de Santa Cecilia dos Casares, onde se pescaõ -muitas, e boas trutas.</p> - -<p>217 <i>Ribeira da Murta.</i> No termo de Alvaiazere discorre esta -ribeira pela Freguezia de S. Pedro do Rego, e divide este termo do da -Villa das Pias.</p> - -<p>218 <i>Rio das Maçãs.</i> He huma ribeira, que corre junto à Villa de -Collares.</p> - -<p>219 <i>Rio Mourinho.</i> Passa pelo termo de Montemór o Novo, e por -junto do Convento dos Religiosos Paulistas, que os provê de grandes -pardelhas.</p> - -<p>220 <i>Rio Tinto.</i> Corre huma legua distante do Porto. Chama-se -tinto, porque quando foy a geral destruiçaõ de Hespanha, mataraõ -os Cidadãos do Porto tantos Mouros, que o sangue chegou a tingir a -agua.<a id="FNanchor_251" href="#Footnote_251" class="fnanchor">[251]</a> Mete-se no Douro.</p> - -<p>221 <i>S. Romaõ.</i> Nasce na Freguezia de S. Martinho das Amoreiras, -termo de Ourique. Corre pelas Villas de Alvalade, Garvaõ, e termo de -Panoyas, até desaguar no porto delRey, termo da Villa de Alcacer do Sal.</p> - -<p>222 <i>Sabor.</i> Nasce por cima do Lugar de Rabal, que fica na -raya de Galiza, mas he termo de Bragança,<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> donde dista duas leguas. -Discorre sempre por altas, e alcantiladas penedias, até chegar aos -confins da Villa de Castro Vicente; e depois de ter andado dezaseis -leguas, e obedecer a cinco pontes, algumas de cantaria, e de perfeita -arquitectura, com orgulho desagua no Douro.</p> - -<p>223 <i>Sacavem.</i> Este rio, que discorre pelo Lugar de seu nome duas -leguas distante de Lisboa, desemboca no Tejo, e faz huma profundissima -foz, na qual podem entrar os mayores navios deste porto; e ficando -quasi ao Norte da Cidade, volta contra o Noroeste, navegando-se até -a Mealhada, e da sua ribeira se levantaõ huns montes, que a cultura -tem feito apraziveis, os quaes se vaõ estendendo com huma larga volta -contra o Poente, levando sempre ao pé hum fundo valle aberto por muitas -partes com regatos, que por elle correm. Por ordem delRey D. Joaõ. V. -se reformou a barca da passagem deste rio pela admiravel idéa do nosso -insigne Maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os -passageiros.</p> - -<p>224 <i>Sadaõ</i>, ou <i>Sado</i>. O nascimento deste rio foy ignorado -por Duarte Nunes na Descripçaõ de Portugal; porém Joaõ Salgado de -Araujo diz, que nasce nas faldas da serra de Monchique junto à Villa -de Almodovar, e passando por Ourique, recebe as ribeiras de Aivados, -Gracido, Ferrarias, Campilhas, Figueira, Roxo, e Garcia menino, onde -faz hum grande lago, e mais para diante outro, que chamaõ de Santa -Margarida, até que copioso vay acabar em Setubal. André de Resende -ignorando-lhe tambem o principio, e dando-lhe o nome de Callipode, -que o tirou de Ptolomeu, diz que depois de se ajuntarem as torrentes -do Enxarrama, Santa Detença, e Odivellas acima de Porto de Rey, he -que se começa a chamar Sado; nome que usurpa pela demora que faz no -esteiro de Alcacere, antigamente Salacia; e por naõ viver muito tempo -soberbo,<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span> e desvanecido com tanto roubo, morre dahi a pouco em Setubal, -formando-lhe huma grande foz, e bahia. He navegavel este rio por doze -leguas até Porto de Rey; e as terras por onde passa, adornadas de -muitas fontes, e arvoredos, ficaõ ferteis, e e cheias de nata para -corresponderem abundantes na breve producçaõ dos seus frutos.</p> - -<p>225 <i>Safrins.</i> Corre em distancia de meya legua da Villa de -Ferreira, e a provê de bordalos taõ bons, que se mandaõ dar aos doentes.</p> - -<p>226 <i>Sarmenha.</i> He huma ribeira, que dista do rio Douro duas -leguas, e nasce nas raizes da serra do Maraõ.</p> - -<p>227 <i>Sarrazola.</i> Caudalosa ribeira, que banha Benavilla, huma -legua distante de Aviz.</p> - -<p>228 <i>Seda.</i> Nasce esta ribeira nas serras de Portalegre, e rega a -Villa, a que dá o nome.</p> - -<p>229 <i>Sertima.</i> Rio, que corre pelo termo da Villa de S. Lourenço -do Bairro, e que se augmenta com muitos ribeiros, que fertilizaõ o -mesmo termo.</p> - -<p>230 <i>Sequa.</i> Divide, ou corta pelo meyo a Cidade de Tavira, o qual -nascendo do sertaõ, faz este transito por huma boa ponte de sete arcos.</p> - -<p>231 <i>Sever</i>, ou <i>Severa</i>. Tem sua origem na serra de S. -Mamede no Alentejo, e com as fontes, que se despenhaõ das serras de S. -Braz, e Portalegre, se faz copioso. Desta sorte correndo pela Villa de -Ouguela, paga seu tributo ao Tejo junto a Villa Velha, onde se pescaõ -as mais excellentes trutas. O Padre Poyares no Diccionario Geografico -lhe dá o fim no Guadiana à vista de Badajoz.</p> - -<p>232 <i>Silveira.</i> Pequena ribeira, que se despenha da serra d’Ossa -da banda do Sul.</p> - -<p>233 <i>Sizandro.</i> Principia a descubrirse na Sapataria de huma -fonte chamada Sizandro, e vem cercar Torres-Vedras, que para mayor -commodidade se atravessa com cinco pontes.</p> - -<p>234 <i>Sobrena.</i> He huma ribeira do Alentejo, que<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> nasce entre -Viana, e Villa nova da Baronia, a qual regando os seus pomares, se mete -em Odivellas.</p> - -<p>235 <i>Sorraya.</i> He huma ribeira, que pela parte do Sul banha a -Villa de Erra.</p> - -<p>236 <i>Sor.</i> He huma caudalosa ribeira, que banha a Villa da Ponte -de Sor pela banda do Oriente, e se mete no Tejo ao pé de Coruche. Os -Romanos fundaraõ aqui huma grandissima ponte, para por ella fazerem a -estrada de Santarem para Merida.</p> - -<p>237 <i>Sordo.</i> Na Freguezia de Santa Eulalia da Comieira do Concelho -de Penaguiaõ corre este rio da parte do Norte; e passando pelo Lugar de -Relvas, se vay esconder no Corgo.</p> - -<p>238 <i>Sozeis.</i> Dista esta ribeira duas leguas de Evora no caminho -de Béja, e se recolhe no Enxarrama.</p> - -<p>239 <i>Sousa.</i> Nasce junto à Igreja de Moura entre o Mosteiro de -Pombeiro, e o de Cramos; e daqui descendo a fertilizar todas as terras, -a que vay dando nome por espaço de oito leguas, vay acabar no Douro -defronte do Lugar de Arnelas, duas leguas acima do Porto.</p> - -<p>240 <i>Soberbo.</i> Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo, -depois que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo -no caes de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela -conjuração em que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ -corresse mais com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que -fazia alto na venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar -o rio Soberbo. Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ -perto de Trancoso, e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros -pequenos rios alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do -Abbade, divide os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe, -e o Mosteiro da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte -de madeira se<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de -pedra se diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte, -marcha por entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro -de S. Pedro das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte -de pedra, onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o -Lugar de Taboaço, e daqui caminha para o Douro.<a id="FNanchor_252" href="#Footnote_252" class="fnanchor">[252]</a></p> - -<p>241 <i>Sul.</i> Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e -consente vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante -D. Luiz, que foy Senhor do Concelho de Lafões.</p> - -<p>242 <i>Tamega.</i> He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza -junto da serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou -o nome. Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra -pela Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes -da Villa em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do -letreiro, que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve -Grutero, e Argote,<a id="FNanchor_253" href="#Footnote_253" class="fnanchor">[253]</a> e vem a ser:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">IMP. CÆS. NERVÆ.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">TRAIANO. AUG. GER.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">DACICO. PONT. MAX.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">TRIB. POT. CONS. V. P. P.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">AQUIFLAVIENSES</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">PONTEM LAPIDEUM.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">D. S. F. C.</span><br> -</p> - -<p>Quer dizer: <i>Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico -Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ -Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p> - -<p>243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita -antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: <i>Pontem -lapideum</i>; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos -para Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte -tem já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com -noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e -dois de alto.</p> - -<p>244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem -outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim -à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco -mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante -ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de -Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho -I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de -Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de -hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se -lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos -de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do -que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando -pouco a pouco.</p> - -<p>245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que -referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,<a id="FNanchor_254" href="#Footnote_254" class="fnanchor">[254]</a> e foy dividirem-se -suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do -glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando -lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga.</p> - -<p>245 <i>Taveiró.</i> He ribeira, que banha as Villas da<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> Bemposta da -Beira, e de Castello-Novo, e entra no Ponsul.</p> - -<p>247 <i>Tedo.</i> Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o -ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo -de Santo Adriaõ.</p> - -<p>248 <i>Teja.</i> Provê esta ribeira de peixe a Villa de Nomaõ.</p> - -<p>249 <i>Tejo.</i> Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy -celebrado o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais -rios do Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca: -outros o fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de -Albarracin; e discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia -da Estremadura Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo, -Talavera de la Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe -as correntes de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama, -Mançanares, e Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por -Santarem descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto -de mundo: e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de -ouro,<a id="FNanchor_255" href="#Footnote_255" class="fnanchor">[255]</a> nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia, -fica semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas -riquezas, que todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra -nas opulentas frotas do Brasil.</p> - -<p>250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar -em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria, -sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy -visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado -Celio, com a mayor<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos, -como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se -separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da -Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno -1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se -abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se -fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,<a id="FNanchor_256" href="#Footnote_256" class="fnanchor">[256]</a> que o -Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem -os Authores abaixo allegados.<a id="FNanchor_257" href="#Footnote_257" class="fnanchor">[257]</a></p> - -<p>251 <i>Temitólas.</i> Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay -direito ao Douro.</p> - -<p>252 <i>Tera.</i> Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que -olha para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por -onde se vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana.</p> - -<p>253 <i>Terena.</i> Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a -huma Villa, e mete-se no Guadiana.</p> - -<p>254 <i>Tinhella.</i> Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da -Villa de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça -de Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua.</p> - -<p>255 <i>Tourões.</i> Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do -Rio Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ, -entra no Agueda abaixo de Escarigo.</p> - -<p>256 <i>Trancaõ.</i> He huma ribeira no termo de Lisboa,<span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span> que passando -pelo Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a -grande quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal, -entrando-lhe pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo -de Inverno vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro -trabalhar muitas azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas.</p> - -<p>257 <i>Trogalha.</i> Corre entre Sarzedas, e Castellobranco, e entra no -Tejo.</p> - -<p>258 <i>Trovella.</i> Fertiliza os Coutos de Correlhã, e o da Feitosa -pouco distante de Ponte de Lima.</p> - -<p>259 <i>Tua.</i> Nasce em Galiza proximo ao Lugar de Pias: corre por -Mirandella, onde he recebido em ponte de dezanove arcos de cantaria; e -fertilizando muitas terras, vay fenecer no Douro no porto de Foz-Tua.</p> - -<p>260 <i>Vade.</i> Fertiliza com saborosas trutas o termo da Villa da -Ponte da Barca.</p> - -<p>261 <i>Val de Abrahaõ.</i> Pequena ribeira, que nasce, e desce da serra -d’Ossa da parte do Sul.</p> - -<p>262 <i>Val de Lobos.</i> Ribeira, que passa por hum Lugar da Freguezia -de Bellas, e faz animar muitas azenhas, e fertilizar muitos pomares.</p> - -<p>263 <i>Valdouro.</i> Corre esta ribeira huma legua distante da Villa de -Ferreira, e a enriquece de grandes bordalos, e pardelhas.</p> - -<p>264 <i>Valla.</i> Discorre junto da Villa de Mayorga, e com prejuizo de -hum formoso campo, que pelo Inverno padece suas inundações.</p> - -<p>265 <i>Varche.</i> Meya legua distante da Cidade de Elvas corre este -ribeiro pelo valle de seu mesmo nome.</p> - -<p>266 <i>Varzeas.</i> Faz dividir Melgaço de Galiza pela parte do -Oriente, e desagua no Minho.</p> - -<p>267 <i>Vascaõ.</i> Corre por Alcoutim, e entra no Guadiana, separando o -Reino do Algarve de Campo de Ourique.</p> - -<p>268 <i>Vez.</i> Banha este rio primeiramente o Val<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> de Poldros, termo -da Villa dos Arcos, onde nasce nas montanhas de Penella; e continuando -seu caminho pelos campos de Valdevez, a que dá nome, vay logo perdello -dahi a huma legua, por se misturar com o Lima junto de S. Pedro do -Souto, posto que já caudaloso com os muitos regatos, que entraõ nelle.</p> - -<p>269 <i>Vellarva.</i> He huma ribeira, que rega o Lugar de Santa Justa, -que fica no termo de Alfandega da Fé, onde desagua a ribeira Alvar.</p> - -<p>270 <i>Velariça.</i> Nasce na serra de Montemel acima do Lugar da -Burga, termo de Bragança. Despenha-se pela serra até parar em hum -valle, a que dá o nome, e por elle detido o espaço de seis leguas, -fertiliza todo aquelle terreno bastantemente. Depois vay pagar o -tributo ao Sabor meya legua acima do Douro.</p> - -<p>271 <i>Vereza.</i> No cimo da serra da Gardunha nasce esta ribeira, e -vem logo refrescando o Lugar do Louriçal, que fica no termo da Villa de -S. Vicente, e vay avistar Castellobranco, passando por boa ponte.</p> - -<p>272 <i>Videgaõ.</i> Passa esta ribeira naõ muy distante da Villa de -Cabeço de Vide, fertilizando muitas hortas, e pomares.</p> - -<p>273 <i>Vide.</i> Cerca esta ribeira a Villa de Castello de Vide.</p> - -<p>274 <i>Vizella.</i> Fórma-se de tres regatos, que nascem no Concelho de -Monte-Longo; e lavando com suas aguas a Aldeya de Arricanha, se mistura -com o Ave, e perdem ambos o nome, mergulhando-se no mar pela Villa -do Conde. Alguns lhe chamaõ <i>Avizella</i>. Delle cantou Manoel de -Faria:<a id="FNanchor_258" href="#Footnote_258" class="fnanchor">[258]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Corre el Visela amado</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Progresso sonoroso,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>O crystalino parto de una peña,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>A ser favor de un prado.</i></span><br> -</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p> -<p>275 <i>Unhaes.</i> Pequeno ribeiro, que passa pelo pé da Villa de -Alvares, e se mete no Zezere.</p> - -<p>276 <i>Voliarça.</i> Nasce esta ribeira na Freguezia de S. Brissos, -termo de Béja, e correndo de Poente a Nascente, se mete no Guadiana, -passando primeiro entre Béja, e Cuba, da qual dista huma legua.</p> - -<p>277 <i>Vouga.</i> Assinaõ o nascimento deste rio na fonte da Senhora -da Lapa, ou na serra de Alcoba. Daqui vem descendo ao Mosteiro de S. -Bento, que ha em Ferreira de Aves, pela parte do Poente; rega muitos -Lugares, até que misturado com os rios Sul, e Agueda, entra em Aveiro -com bastante soberba, segundo diz Fr. Joaõ Felix na Isagoge:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Amnibus innumeris, Agathoque superbus in æquor</i></span><br> -<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Piscoso latè gurgite Vacca fluit.</i></span><br> -</p> - -<p>Tem huma grandiosa ponte, acabada no anno de 1713 por ordem do -Fidelissimo Rey D. Joaõ V.</p> - -<p>278 <i>Xever</i>, <i>Xevera</i>, <i>Xeverete</i>, e <i>Xola</i>. Saõ -ribeiras, que procedem da serra de Portalegre.</p> - -<p>279 <i>Xudruro.</i> Ribeiro, que nasce na fonte Freja do Concelho do -Guardaõ, e fertiliza muito o Lugar de Janardo.</p> - -<p>280 <i>Zacharias.</i> Com este nome corre huma ribeira pelo termo da -Villa de Alfandega da Fé sujeita a huma ponte de quatro arcos, e tem -seu nascimento na serra de Sambade, que outros chamaõ de Montemel. -Tendo corrido seis leguas, vay acabar no rio Sabor junto do Lugar dos -Picões.</p> - -<p>281 <i>Zezere.</i> A este rio chama Camões caudaloso, e na verdade o -he com as enchentes de outros, que entraõ nelle. Nasce na serra da -Estrella sobre a Villa de Manteigas pela parte de Levante; e dando -volta ao Poente, recebendo varios rios, e ribeiros, enfadado da jornada -se vay a Sudoeste, e se torna para o Sul receber outros riachos, e dá -entrada ao Nabaõ, que com o ribeiro da Cortiça, e<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> regatos daquelles -montes fertiliza Thomar. Na Aldea da Mata se deixa atravessar com a -barca da Esteveira: e pela famosa ponte do Cabril, que faz a divisaõ -dos termos de Pedrogaõ grande, e pequeno. Vay finalmente acabar em -Punhete, mergulhando-se no Tejo com tanto impeto, que na distancia de -mil e quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul, e sabor doce -das suas aguas, como bem advertem Resende, e outros.</p> - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_221" href="#FNanchor_221" class="label">[221]</a> Monarq. Lusit. tom 1. liv. 4. c. 8. Vasconcel. lib. 5. -de Ebor. Municip.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_222" href="#FNanchor_222" class="label">[222]</a> Strab. apud Resend. lib. 2. de Antiquit. tit. de Flumin. -Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_223" href="#FNanchor_223" class="label">[223]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 1. pag. 305.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_224" href="#FNanchor_224" class="label">[224]</a> Fr. Leaõ, Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 15. Monarq. -Lusit. liv. 14. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_225" href="#FNanchor_225" class="label">[225]</a> Far. Font. de Aganip. part. 4. Eglog. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_226" href="#FNanchor_226" class="label">[226]</a> Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 2. excel. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_227" href="#FNanchor_227" class="label">[227]</a> Argot. nas Memor. do Arcebispado de Braga tom. 2. pag. -865.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_228" href="#FNanchor_228" class="label">[228]</a> Cardoso Diccion. Geogr. tom. 2. pag. 613.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_229" href="#FNanchor_229" class="label">[229]</a> Fonseca Evor. glor. p. 89. fin.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_230" href="#FNanchor_230" class="label">[230]</a> Corograf. Port. tom. 3. p. 336. Bluteau tom. 1. do -Suplem. ao Vocab. p. 315.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_231" href="#FNanchor_231" class="label">[231]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancellar. de Braga pag. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_232" href="#FNanchor_232" class="label">[232]</a> Mem. instr. tom. 1. pag. 204.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_233" href="#FNanchor_233" class="label">[233]</a> Bochart. Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 35.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_234" href="#FNanchor_234" class="label">[234]</a> Brit. Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_235" href="#FNanchor_235" class="label">[235]</a> Virgil. liv. 7. Æneid. Silio Italico liv. 1. Lactancio -Firmiano lib. 7. c. 22. de Div. Instit. & alii.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_236" href="#FNanchor_236" class="label">[236]</a> Claudian. liv. 2. de Raptu Proserpinæ p. 218.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_237" href="#FNanchor_237" class="label">[237]</a> Strab. lib. 10. e 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_238" href="#FNanchor_238" class="label">[238]</a> Lucio Flor. liv. 2. cap. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_239" href="#FNanchor_239" class="label">[239]</a> Botelh. no 7. do Alfonso est. 31. Reys em a Nota 124. da -Epistol. ad Jametem.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_240" href="#FNanchor_240" class="label">[240]</a> Plinio lib. 33. cap. 7. Vitruvio lib. 7. cap. 9. Strab. -lib. 3. Pompon. Mella lib. 3. cap. 1. Bochart. tom. 2. p. 626. Nicol. -de Santa Maria na Chron. dos Coneg. Regrant. liv. 6. cap. 1. Maced. -Poema Olisip. cant. 2. est. 80. Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. -40. D. Francisc. Xavier da Garma no Theatro de Hespanh. tom. 1. p. 76. -Argot. Mem. de Brag. p. 105. e nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. -32. e outros, que deixo de allegar.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_241" href="#FNanchor_241" class="label">[241]</a> Cam. Canc. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_242" href="#FNanchor_242" class="label">[242]</a> Mousinh. cant. 3. est. 38. do African.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_243" href="#FNanchor_243" class="label">[243]</a> Veja-se a Monarq. Lusitan. p. 4. liv. 4 cap. 18. Joaõ -Salgad. Success. Milit. p. 106. Corograf. Portug. tom. 2. pag. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_244" href="#FNanchor_244" class="label">[244]</a> Brand. na Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_245" href="#FNanchor_245" class="label">[245]</a> Fr. Joaõ Fel. na Isagoge pag. 35.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_246" href="#FNanchor_246" class="label">[246]</a> Duart. Nun. Descripç. de Port.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_247" href="#FNanchor_247" class="label">[247]</a> Araujo Success. Milit. liv. 1. cap. 1. Benedictin. -Lusit. tom. 2. p. 109.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_248" href="#FNanchor_248" class="label">[248]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 3. p. 573.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_249" href="#FNanchor_249" class="label">[249]</a> Costa, Corograf. Portug. tom. 3. p. 260.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_250" href="#FNanchor_250" class="label">[250]</a> Cam. Canç. 12. est. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_251" href="#FNanchor_251" class="label">[251]</a> Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 256.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_252" href="#FNanchor_252" class="label">[252]</a> Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 108. Cardos. Agiolog. -Lusit. tom. 2. p. 714. Santuar. Marian. tom. 3. p. 172.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_253" href="#FNanchor_253" class="label">[253]</a> Gruter p. 162. n 4. Argot. nas Antig. da Chancel. de -Brag. p. 108. e Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_254" href="#FNanchor_254" class="label">[254]</a> Brand. na Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 25. Benedictin. -Lusit. tom. 2. pag. 299.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_255" href="#FNanchor_255" class="label">[255]</a> Catul. Juven. Estaço, Ovid. e outros apud Macedo nas -Flor. de Hespanh. cap. 4. excel. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_256" href="#FNanchor_256" class="label">[256]</a> Vasconcell. Histor. de Santar. part. 1. liv. 2. cap. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_257" href="#FNanchor_257" class="label">[257]</a> Plin. liv. 4. cap. 22. & lib. 33. cap. 3. Mela lib. 3. -cap. 1. Ludovic. Nun. Hispan. illustrat. tom. 3 cap. 35. Rodrig. dos -Sant Histor. Hispan. part. 1. cap. 3. Resend. lib. 2. de Antiquit. -Vasconcel. Descr. Lusitan. p. 407. Duart. Nun. Descr. de Portug. p. 33. -Nicoláo de Oliveir. Grand. de Lisb. p. 21. Joaõ Salgad. Success. Milit. -p. 175. D. Francisc. Xavier de Garma no Theatr. de Hesp. tom. 1. p. 68. -e outros muitos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_258" href="#FNanchor_258" class="label">[258]</a> Far. Font. de Aganip. part. 3. Canç. 5.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII.<br><span class="small"><i>Das Fontes mais notaveis.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Neste Capitulo fazemos só memoria daquelas fontes, que por alguma -particularidade se fazem dignas de admiraçaõ; pois seria intentarmos -hum quasi impossivel querer dar noticia de todas as que circulaõ -por nossas terras, sendo verdadeiramente innumeraveis. Nós em outra -Obra<a id="FNanchor_259" href="#Footnote_259" class="fnanchor">[259]</a> já referimos algumas, e o Doutor Francisco da Fonseca -Henriques em o seu curioso <i>Aquilegio</i> faz mençaõ de outras. -Repetiremos outra vez as mais singulares, pois que assim o pede o -assumpto, e a ordem, que seguimos, nomeando primeiramente para mayor -clareza as terras, donde emanaõ, e onde correm.</p> - -<p>2 <i>Abrantes.</i> Na distancia de quatro leguas desta Villa sobre -a ribeira de Sor ha huma fonte, a que chamaõ da Fedegosa, a qual -nascendo em mineral de enxofre tem qualidades frescas, e sara muitos -achaques, que peccaõ em quentura. E no seu termo junto da Ermida de -nossa Senhora do Tojo ha outra fonte de taõ excellente agua, que a -mandaõ<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> buscar para os doentes beber: e accrescentaõ os moradores huma -cousa (diz a Corografia Portugueza, que para mim he incrivel) e vem a -ser: que havendo algumas differenças sobre quem ha de encher primeiro, -visivelmente se diminue a agua na mesma fonte.<a id="FNanchor_260" href="#Footnote_260" class="fnanchor">[260]</a></p> - -<p>3 <i>Aguiar de Sousa.</i> Na Freguezia de S. Mamede de Val-Longo ha no -mais alto da montanha hum poço muy profundo, que de Inverno secca-se, e -de Veraõ tem tanta abundancia de agua frigidissima, que serve naõ só de -regalo à gente, mas tambem aos milhos, que com ella se regaõ.</p> - -<p>4 <i>Alandroal.</i> A fonte desta Villa he memoravel pela grande copia -de agua, que expulsa, a qual dizem que se lhe communica de hum rio -subterraneo. Formou aqui a natureza huma larga concavidade, a que os -moradores chamaõ <i>Algar</i>, em cujo fundo se acha hum poço com bocal -feito ao picaõ, e delle sahe huma levada de agua muito grande.<a id="FNanchor_261" href="#Footnote_261" class="fnanchor">[261]</a> -Nesta mesma Villa, na estrada, que vay para Terena, ha outra fonte, que -naõ corre de Inverno, senaõ no Estio.<a id="FNanchor_262" href="#Footnote_262" class="fnanchor">[262]</a></p> - -<p>5 <i>Alcacer do Sal.</i> Na herdade das Praxanas, distante duas grandes -leguas da Villa, existe huma fonte, cuja agua he buscada de muitas -leguas para remedio contra o mal da pedra; e tem as mesmas virtudes da -que ha na Villa de Almada.</p> - -<p>6 <i>Alcanede.</i> No termo desta Villa, e no Lugar dos Amiaes debaixo -corre huma fonte, que bebendo da sua agua qualquer pessoa, que tiver -sanguisugas na garganta, immediatamente lhas faz expellir, e se -comprova com muitas experiencias.</p> - -<p>7 <i>Aljustrel.</i> Em distancia de meya legua desta Villa, chegado -à Ermida de S. Joaõ do Deserto, ha huma fonte de agua taõ azeda, que -ninguem a bebe, nem ainda os animaes; porém tomada como<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> medicina, -serve de excellente vomitorio, e boa para lançar fóra sezões.</p> - -<p>8 <i>Almada.</i> Nesta Villa ha huma fonte, cuja agua tem conhecida -virtude para os achaques de pedra, e areas.<a id="FNanchor_263" href="#Footnote_263" class="fnanchor">[263]</a></p> - -<p>9 <i>Amarante</i>. No campo chamado da Feitoria, que fica defronte do -Convento de S. Gonçalo desta Villa, brota huma Fonte abundantes aguas, -que tambem tem notoria analogia, e semelhante virtude à de Almada.</p> - -<p>10 <i>Ançaõ.</i> Nesta Villa se acha huma fonte, que lança de Veraõ -agua frigidissima, e pelo Inverno tepida. Tambem por experiencia se tem -observado, que a sua agua bebida facilita os partos, e preserva dos -achaques de pedra, e outras enfermidades.</p> - -<p>11 <i>Armamar.</i> Huma fonte ha no termo desta Villa, que tem virtude -as suas aguas para varias enfermidades. No sitio, onde nasce, ha muitas -pedrinhas quadradas semelhantes àquellas, que vem da India, e se -attribue, que a virtude, que tem a agua, será communicada das pedras.</p> - -<p>12 <i>Batalha.</i> Perto desta Villa ha huma fonte no Lugar das -Brancas, cuja agua com facilidade, e em breve tempo se transmuta em sal.</p> - -<p>13 <i>Besteiros.</i> Fica este Lugar no termo da Villa de Anciães, e -aqui existe huma fonte de agua taõ delgada, que com ella naõ se póde -fabricar azeite.</p> - -<p>14 <i>Braga.</i> Em distancia de hum quarto de legua desta Cidade, -na quinta dos Religiosos de Santo Agostinho corre de huma fonte agua -taõ fria, que no tempo mais ardente do Veraõ mal se póde aturar a maõ -dentro della nem ainda em quanto se reza huma Ave Maria; e em poucos -minutos reduz a vinagre hum frasco de vinho, se o meterem dentro della.</p> - -<p>15 <i>Bragança.</i> Além de outras fontes, que ha<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> nesta Cidade -notaveis, ha huma na quinta de Val de flores, que a sua agua he -efficacissima para facilitar a digestaõ, e abrir a vontade de comer.</p> - -<p>16 <i>Cadima.</i> Ha aqui neste Lugar, que fica em distancia de -Tentugal duas leguas, a celebre fonte chamada <i>Fervença</i>, de que -fallaõ muitos Authores,<a id="FNanchor_264" href="#Footnote_264" class="fnanchor">[264]</a> a qual sorve quanto lhe deitaõ dentro da -voragem, que sempre está em continua fervura. A causa deste fenomeno -he, porque alli ha alguma occulta cataracta, ou precipicio, como bem -explica o doutissimo Feijó.<a id="FNanchor_265" href="#Footnote_265" class="fnanchor">[265]</a> Tambem na Freguezia de S. Mamede, -termo de Alcacer do Sal, donde dista quatro leguas, está da parte do -Poente hum grande olho de agua, que corre para o rio Sado, o qual sorve -tudo quanto lhe lançaõ dentro: chamaõ-lhe a <i>Anceira</i>.</p> - -<p>17 <i>Caldezes.</i> Fica este Lugar no Concelho da Povoa de Lanhoso, e -tem huma fonte chamada do <i>Tojal</i> da qual sahem misturadas com a -agua muitas pedras quadradas, como já dissemos das de Armamar, e que -tem a mesma virtude alexifarmaca.</p> - -<p>18 <i>Cano.</i> Junto desta Villa ha huma fonte, a que chamaõ dos -<i>Olhos</i>, porque em seu nascimento está sempre a agua fervendo, -e tem a particularidade de converter sua agua facilmente em pedra as -cousas, que lhe lançaõ dentro.</p> - -<p>19 <i>Castello de Vide.</i> Entre a grande quantidade de fontes, que -regaõ esta Villa, pois passaõ de trezentas, ha especialmente huma no -arrebalde, que chamaõ da <i>Mealhada</i>, com a excellente virtude de -livrar de dores nefriticas aos que costumaõ beber da sua agua: e no -termo da Villa de Oiteiro ha outra, que dizem ter a propriedade, e -natureza do vinho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span></p> - -<p>20 <i>Coimbra.</i> Perto desta Cidade, e no meyo da estrada -poucas leguas antes de chegar a ella, está a celebre fonte de -<i>Alcabedeque</i> huma das mais copiosas, que ha no Reino, cujo nome -lhe deraõ os Mouros pela sua virtude, pois Alcabedeque na lingua Arabe -quer dizer <i>Agua de Deos</i>. Elles que lhe sabiaõ o prestimo mais do -que nós, a estimavaõ tanto, que fizeraõ junto della hum forte para a -guardar. Veja-se a <i>Corografia Portugueza no tom. 2. pag. 34.</i></p> - -<p>21 <i>Covilhã.</i> Na cerca dos Religiosos de S. Francisco desta Villa -está huma fonte de agua frigidissima; e já tem acontecido algumas vezes -acharem convertido em vinagre o vinho, que mandavaõ aqui resfriar.</p> - -<p>22 <i>Envendros.</i> Existe huma fonte no sitio do Alpalhaõ, termo -desta Villa, cuja agua bebida no lugar em que brota, he ingrata -ao gosto, mas estando em casa, se faz de bom sabor. Attribuem os -moradores, que a causa de se viver aqui muito, e com saude, procede da -boa qualidade desta agua.</p> - -<p>23 <i>Ervedal.</i> Quasi chegado à estrada, que vay do Ervedal para -Benavilla, termo de Aviz, corre huma fonte, que no mez de Outubro -secca, e vindo Março torna a correr, e dura todo o Estio, por mais -ardente que seja. Reduz tambem a pedra quanto lhe deitaõ dentro.<a id="FNanchor_266" href="#Footnote_266" class="fnanchor">[266]</a></p> - -<p>24 <i>Estremoz.</i> A fonte da Lagoa, que ha na herdade dos Alens -no termo desta Villa, tem a mesma analogia que a antecedente, pois -secca-se de Inverno, e corre de Veraõ.</p> - -<p>25 <i>Ferreirim.</i> Huma legua distante de Lamego, na cerca do -Convento de Santo Antonio de Ferreirim, ha huma fonte de agua taõ fria, -que tambem converte promptamente o vinho em vinagre.</p> - -<p>26 <i>Freixeda.</i> Este Lugar, que fica no termo de Miranda, -comprehende com admiraçaõ huma fonte<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> de agua muito fria, e taõ -corrosiva, que consome no espaço de meya hora a carne, que se lhe lança -dentro, deixando os ossos esburgados.</p> - -<p>27 <i>Grandola.</i> Da serra dos Algarves, que dista huma legua desta -Villa, manaõ dous olhos de agua com duas propriedades bem contrarias, -sendo irmãs no nascimento; porque as que sahem para a parte do Sul, saõ -excellentes, e as que correm para o Norte, naõ ha quem as possa beber, -e por isso lhe chamaõ agua azeda. De outro olho de agua, que sahe com -mayor abundancia, se tem observado, que toda a terra, que banha a sua -corrente, fica infrutifera, deixando tambem hum fortissimo gelo, por -onde passa.</p> - -<p>28 <i>Guarda.</i> Por baixo da Cruz da Faya nos limites desta Cidade -emana huma fonte de agua fria com qualidades taõ nocivas, que passaõ a -mortiferas.</p> - -<p>29 <i>Guardaõ.</i> Fertilissimo he este Concelho de aguas admiraveis: -tal he a fonte da Pipa junte da Povoa da Longera, a do Lugar das -Paredes, a fonte das Amexieiras, a chamada das Donas, e outras de -singular qualidade, que refere a Corografia Portugueza.<a id="FNanchor_267" href="#Footnote_267" class="fnanchor">[267]</a></p> - -<p>30 <i>Guimarães.</i> Afastado da Villa para o Sul fica a milagrosa -fonte de S. Gualter, cuja virtude para varias enfermidades faz attrahir -muita gente, que ou bebendo, ou lavando-se em sua agua, experimentaõ -conhecida melhoria.</p> - -<p>31 <i>Marmellos.</i> He este hum Lugar, que fica no termo da Villa de -Lamas de Orelhaõ, onde existe huma fonte de igual virtude curativa de -varias enfermidades, que a experiencia tem mostrado infallivel.</p> - -<p>32 <i>Massouco.</i> Junto da Igreja Matriz deste Lugar, que he do -termo da Villa de Freixo de Espadacinta,<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> ha huma fonte, a que -chamaõ do <i>Xido</i>, a qual principia a correr do mez de Março por -diante: e tem os moradores feito observaçaõ, que se o anno ha de ser -fertil, expulsa muy pouca agua; e quando ha de ser esteril, brota com -abundancia; e desta fórma vem a ser hum quasi reportorio para as gentes -daquelles contornos.</p> - -<p>33 <i>Monchique.</i> Com a mesma propriedade ha outra fonte neste -Lugar, que fica no Algarve, a qual em Dezembro totalmente se secca. De -igual singularidade se admira outra em Monforte, meya legua distante da -Villa, a qual se secca no mez de Setembro, e em Mayo torna a rebentar -com grande torrente. Em Monsanto tambem corre outra com as mesmas -circunstancias do tempo.</p> - -<p>34 <i>Olmos.</i> A fonte chamada do <i>Gogo</i>, que fica no termo -desta Villa, lança agua de fórma, que faz fio como clara de ovo, e -affirma-se ter virtudes medicinaes.</p> - -<p>35 <i>Ouguella.</i> Bebem os moradores desta Villa a agua de huma -fonte, que dizem naõ cria cousa viva dentro em si, senaõ sómente rãs. -Saõ presentaneas para matar sanguisugas, e lombrigas. Se por acaso, ou -inadvertencia poem a cozer legumes com esta agua, he escusado gastar -tempo, porque nunca os coze.</p> - -<p>36 <i>Santarem.</i> Nos limites desta Villa, e no Lugar de Rio-Mayor ha -hum olho de agua salgada seis leguas distante do mar.</p> - -<p>37 <i>Sardoal.</i> Aqui ha a fonte de Penha, que tem a circunstancia de -naõ correr, senaõ tambem de Veraõ, e seccarse pelo Inverno. Tal he a -providencia de Deos.</p> - -<p>38 <i>Serra da Estrella.</i> Emana do sitio chamado Valderosim huma -fonte de agua taõ fria, que em pouco espaço de tempo transmuta em -vinagre o vinho, quando o querem resfriar.</p> - -<p>39 <i>Setubal.</i> Tem a praça desta Villa huma formosa<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> fonte, cuja -agua he petrificante; por isso o seu aqueducto he aberto, para se -desintupir desembaraçadamente.</p> - -<p>40 <i>Thomar.</i> Em a Freguezia dos Formiguaes, que he do termo desta -insigne Villa, e no Lugar da Quebrada rebenta de Inverno huma fonte com -alguns olhos de agua, pelos quaes sahem alguns ouriços de castanha, naõ -havendo dalli a tres leguas castanheiros.</p> - -<p>41 <i>Valverde.</i> Só em dia de S. Joaõ Bautista lança agua huma fonte -chamada por este motivo <i>Santa</i>, que existe neste Lugar do termo -da Villa da Alfandega da Fé.</p> - -<p>42 <i>Vinhaes.</i> Affirma-se que a melhor agua, que ha na Provincia -de Tras os Montes, he a que existe no rocio desta Villa em huma fonte -admiravel. Por mais que se beba della, nunca offende o estomago, e -facilita muito a exclusaõ de areas, e pedra. No Lugar dos Casares, -termo da dita Villa, ha outra fonte de agua taõ fria, que metendo-lhe -dentro hum quarto de carneiro, o come todo sem lhe deixar mais que os -ossos; e naõ faz damno aos moradores que della bebem.</p> - -<p>43 <i>Urros.</i> Chamaõ à fonte, que ha nesta Abbadia da Comarca da -Villa de Moncorvo, a fonte Santa, porque dizem que Santo Apollinario a -fizera rebentar neste sitio; e muita gente se aproveita de suas aguas -para algumas molestias, usando dellas com fé: mas naõ consiste aqui só -a maravilha, porque estando huma legua distante do Douro, se communica -de sorte com elle, que tambem se altera, quando elle se ensoberbece.</p> - -<p>44 Com estas, e outras innumeraveis fontes enriqueceo a Providencia -divina este nosso terreno, encontrando-se pelas Provincias do Reino -aguas nativas de exquisitas propriedades, que se a alguns dos Leitores, -ou estranhos, ou forasteiros, fizerem duvida, offerecemos a fé, e -credito dos mesmos naturaes,<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> que o affirmaõ, quando a verdade desta -sincera narraçaõ naõ baste; pois o nosso objecto por agora naõ attende -a sondar, nem a averiguar os occultos arcanos da natureza, como -cousa impropria ao intento Geografico. O Doutor Francisco da Fonseca -Henriques escreveo deste assumpto hum livro, que intitulou <i>Aquilegio -Medicinal</i>, a que os curiosos podem recorrer.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_259" href="#FNanchor_259" class="label">[259]</a> Recreaçaõ Proveitosa part. 1. p. 309. & seq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_260" href="#FNanchor_260" class="label">[260]</a> Corograf. Portug. tom. 3. p. 190.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_261" href="#FNanchor_261" class="label">[261]</a> Novaes na Relaçaõ dos Bisp. de Elv.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_262" href="#FNanchor_262" class="label">[262]</a> Fonseca, Aquileg. p. 194.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_263" href="#FNanchor_263" class="label">[263]</a> Duart. Nun. Descripç. de Port. pag. 31. Vasconcell. ib. -pag. 4O4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_264" href="#FNanchor_264" class="label">[264]</a> Monarq. Lusitan. tom. 1. liv 2. cap. 5. Resend. lib. 2. -de Antiquit. Duart. Nun. Descripç. de Portug. pag. 30. Costa, Corograf. -Portug. tom. 2. pag. 85. Caram. no seu Philipp. Prud. Proem. §. 1. num. -3. Plinio lib. 2. cap. 103.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_265" href="#FNanchor_265" class="label">[265]</a> Feijó, Theatr. Critic. tom. 9. pag. 43.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_266" href="#FNanchor_266" class="label">[266]</a> Leit. nas Miscelan. pag. 347.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_267" href="#FNanchor_267" class="label">[267]</a> Corograf. Portug. tom. 2. pag. 192.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX.<br><span class="small"><i>Das Caldas.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Da abundancia das aguas saudaveis procede o beneficio dos banhos, -ou Caldas, de que o Reino tambem goza, de cujo assumpto, supposto -escreveraõ alguns dos nossos,<a id="FNanchor_268" href="#Footnote_268" class="fnanchor">[268]</a> daremos informaçaõ das mais -especiaes, por naõ defraudarmos deste apontamento o nosso Mappa.</p> - -<p>2 <i>Alcafache.</i> Huma legua de Viseu, e no termo de Azurara nascem -de huma fonte, que está chegada ao rio Daõ, aguas sulfureas, que fazem -o mesmo effeito com sua virtude medicinal, como as de S. Pedro do Sul, -ainda transferidas para outras partes distantes.</p> - -<p>3 <i>Alvor.</i> Afastado quatro leguas desta Villa no Lugar de -Monchique estaõ huns banhos medicinaes, onde se foy curar ElRey D. Joaõ -II. de huma hydropezia.</p> - -<p>4 <i>Anciães</i>. Junto ao Lugar do Pombal, termo da Villa de Anciães, -ha humas Caldas, que nascem de huma fonte em serra aspera, e as suas -aguas saõ<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> sulfureas, que tomadas em banhos servem para debilidades -de nervos, estupores, vertigens, e outros achaques desta classe: ha -occasiões, em que a experiencia tem mostrado bastar ao doente hum só -banho para sarar de todo.</p> - -<p>5 <i>Aregos.</i> No Concelho de Aregos, Comarca de Lamego, ha muitas -Caldas da mesma natureza que as referidas.</p> - -<p>6 <i>Cascaes.</i> As Caldas desta Villa estaõ na quinta do Estoril -junto ao Convento dos Religiosos de Santo Antonio: nascem de tres olhos -de agua, e servem para paralyzias, rheumatismos, convulsões, e para -todas as queixas espurias, e de calor.</p> - -<p>7 <i>Chaves.</i> Para achaques frios de nervos saõ estas as melhores -Caldas do Reino. Nascem entre a muralha da Praça, e o rio Tamega: -procedem de mineraes de enxofre, caparrosa, salitre, e pedra hume. Os -Romanos usavaõ muito dellas para as suas molestias.</p> - -<p>8 <i>Covilhã.</i> No termo desta Villa, e no Lugar chamado Unhães da -serra ha Caldas procedidas de huma fonte de agua sulfurea, presentanea -para achaques frios de juntas, e nervos.</p> - -<p>9 <i>Evendros.</i> Debaixo de hum penedo nesta Villa brota hum chorro -de agua mais que tepida, a qual tomada em banhos tem grande virtude -para achaques frios, e cutaneos.</p> - -<p>10 <i>Favayos.</i> Estaõ no termo desta Villa humas Caldas, que nascem -de mineraes de enxofre, e usaõ os naturaes dellas para quaesquer -molestias, que padecem, porque para todas encontraõ virtude naquellas -aguas.</p> - -<p>11 <i>Gerez.</i> Nesta serra ha algumas aguas calidas, e sulfureas, que -tem prestimo para achaques frios de nervos.</p> - -<p>12 <i>Guimarães.</i> Estaõ estas Caldas na Freguezia de S. Miguel, -distante huma legua da Villa, e se compoem das aguas calidas, que -nascem de huma<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> fonte por sete olhos: applicaõ-se a achaques frios.</p> - -<p>13 <i>Lagiosa.</i> No areal do rio Daõ, que corre por esta Freguezia -duas leguas afastada de Viseu, se acha em qualquer parte delle agua -tepida, e sulfurea, tomando muita gente os banhos na abertura de covas, -que costumaõ abrir na mesma area, e saõ admiraveis para frialdades.</p> - -<p>14 <i>Leiria.</i> Brotaõ no rocio desta Cidade duas fontes, que parecem -numa só pela uniaõ, e lançaõ dous tornos de agua differentes, porque -hum he frio, outro tepido, e delles se formaõ as Caldas, boas para -achaques frios.</p> - -<p>15 <i>Lisboa.</i> Entre os chafarizes delRey, e dos Páos estaõ estas -Caldas, chamadas vulgarmente os banhos das Alcaçarias: saõ estas aguas -admiraveis para intemperanças quentes das entranhas, e mais partes -do corpo. A continuaçaõ dos enfermos, que a ellas concorrem sempre, -acreditaõ muito o seu prestimo.</p> - -<p>16 <i>Longroiva</i>, e <i>Monçaõ</i>. Participaõ estas Villas de -suas Caldas admiraveis para enfermidades frias, e para convulsões, -estupores, paralyzias, e vertigens.</p> - -<p>17 <i>Obidos.</i> Chamaõ-se os banhos, que ha junto desta Villa, -Caldas da Rainha, porque a Rainha Dona Leonor, mulher delRey D. Joaõ -II. mandou fazer alli Hospital para os enfermos se curarem. Vem as -suas aguas por mineraes de enxofre, e salitre, infundindo-lhe tal -virtude para differentes achaques, como a experiencia frequentadissima -o publica. ElRey D. Joaõ V. tomou aqui banhos em Agosto de 1742 com a -assistencia de toda a Corte, e continuou nos dous annos seguintes para -remedio do ataque da paralyzia, que lhe debilitou a parte esquerda. -Vendo porém o quanto estava destruido o edificio, o mandou reedificar -desde o anno de 1747 com toda a magnificencia, e commodidade para os -doentes, que alli vaõ curarse naquelle verdadeiramente<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> Regio Hospital. -Diogo Patulhet, Francez, Sargento mór da Artelharia, mas muito -curioso, e de grandes experiencias Medicas, compoz no anno de 1752 hum -excellente livro de observações destas Caldas, a cujas aguas justamente -intitula divinas, e os seus banhos prodigiosa Piscina.</p> - -<p>18 <i>S. Pedro do Sul.</i> Tambem estas Caldas saõ famosas. Ficaõ tres -leguas distantes de Viseu, e se compoem de aguas sulfureas, e nitrosas, -e taõ calidas, que metendo-se no lugar, onde nascem, qualquer animal, -logo o pellaõ. Servem para estupores, paralyzias, e outros achaques. -ElRey D. Affonso Henriques tomou aqui banhos, e delles ha huma -Descripçaõ impressa em livro de quarto muito boa, e erudita.</p> - -<p>19 <i>Pena-garcia.</i> Na Comarca de Castellobranco, e na raiz da serra -de Pena-garcia se admiraõ varias fontes de agua tepida com a prodigiosa -virtude de sarar varias enfermidades, ou bebida, ou applicada em banhos.</p> - -<p>20 <i>Penaguiaõ.</i> Neste Concelho ha duas Caldas sulfureas, que -remedeaõ achaques frios de nervos.</p> - -<p>21 <i>Ponte de Cavez.</i> Ao pé desta ponte ha hum nascimento de agua -com a mesma virtude, que as que nascem de mineraes sulfureos.</p> - -<p>22 <i>Nossa Senhora do Pranto.</i> No termo da Villa de Montemór o -velho, e no Lugar da Azenha ha as Caldas de Nossa Senhora do Pranto, -cujas aguas saõ salitrosas, e sulfureas, e com a mesma virtude analoga, -que já temos referido.</p> - -<p>23 <i>Ribeira do Boy.</i> Estas Caldas estaõ no termo da Villa de -Touro, Comarca de Castellobranco: compoem-se de aguas sulfureas, onde -se tem descuberto remedio para estupores, e debilidades de nervos.</p> - -<p>24 <i>Villar da Veiga.</i> Na Freguezia de Santa Anna, que está neste -Lugar situado no monte Gerez, ha pouco tempo se descubriraõ estas -Caldas, que dizem<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> saõ as melhores do Reino. Veja-se ao Reverendo Padre -Argote.<a id="FNanchor_269" href="#Footnote_269" class="fnanchor">[269]</a></p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_268" href="#FNanchor_268" class="label">[268]</a> Jacob de Castr. Histor. Medic. Fonsec. Aquileg. Medicin. -Curv. na Polyanth. &c. Vasconcel. Descript. Lusit. p. 402. Duart. Nun. -cap. 12.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_X">CAPITULO X.<br><span class="small"><i>Da Fertilidade do Reino em commum.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Quando fallámos de cada Provincia em particular, dissemos a benigna -qualidade do sitio, e clima favoravel, que pertencia a cada huma; e -pelo que vimos, naõ ha em Portugal palmo de terra, que seja esteril -em quasi todo genero de frutos. Os Authores antigos naõ só lhe daõ o -titulo de Paiz pingue, senaõ do mais delicioso do mundo;<a id="FNanchor_270" href="#Footnote_270" class="fnanchor">[270]</a> e porque -esta verdade necessita de mais individual expressaõ para inteirar -o conceito dos estranhos, comecemos pelos mantimentos, e pelo mais -preciso.</p> - -<p>2 <i>Trigo.</i> Todos os nossos Escritores affirmaõ,<a id="FNanchor_271" href="#Footnote_271" class="fnanchor">[271]</a> que em -outro tempo houve mais trigo no Reino, que no tempo de agora; e já -Luiz Nunes na sua Lusitania,<a id="FNanchor_272" href="#Footnote_272" class="fnanchor">[272]</a> comparando sómente Santarem com -Sicilia, naõ quiz que esta Villa cedesse àquelle Reino na secundidade -deste producto. Esta abundancia naõ só de Santarem, mas de outras -muitas terras nossas puderaõ os naturaes experimentalla da mesma sorte -presentemente, se naõ houvera tanta extracçaõ de farinhas para as -Conquistas, e houvera mais applicaçaõ para a agricultura. Tambem este -ponto he muy lamentado pelos zelosos da patria.<a id="FNanchor_273" href="#Footnote_273" class="fnanchor">[273]</a></p> - -<p>3 A verdade he, que temos muitas terras baldias,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> que se quizeramos -aproveitarnos dellas, cultivando-as, daria-mos trigo a todo o mundo. No -Reino do Algarve ha grandes valles, e fertilissimos, porém devolutos. -No Alentejo ha charnecas, que nunca viraõ arado, nem enxada, e por -causa da ociosidade se achaõ infrutiferas, que de si o naõ saõ; e neste -sentido se deve entender o Padre Mariana, que chama a esta Provincia -esteril.<a id="FNanchor_274" href="#Footnote_274" class="fnanchor">[274]</a> Na mesma Provincia, e no sitio das Vendas Novas, que he -terreno de area solta, e até aqui tida por infrutifera, desde que ElRey -D. Joaõ V. mandou fabricar alli hum grande Palacio no anno de 1728, se -principiou a plantar vinhas, pomares, e hortas muito boas, de que se -colhe grande renda.</p> - -<p>4 Certos Authores<a id="FNanchor_275" href="#Footnote_275" class="fnanchor">[275]</a> dizem, que se abrirem o lamaraõ de Sacavem até -Alverca com vallos por dentro, e fizerem diques pela parte do rio, -dará paõ para meya Lisboa, e linho canamo para enxarcias, e amarras. O -mesmo se poderá fazer em outras muitas partes do Reino, onde se achaõ -lamarões, sapaes, e terras alagadiças, tomando o exemplo dos Romanos, -Venezianos, e Senhores de Ferrara, os quaes, como diz Botero,<a id="FNanchor_276" href="#Footnote_276" class="fnanchor">[276]</a> -assim o executaraõ com as lagoas Pontinas, campos de Polesene, e valles -de Comachio em grande proveito de seus vassallos, e interesse dos -direitos Reaes. Deste projecto se aproveitou em outro tempo ElRey D. -Sancho I. que se honrou muito de ser chamado o <i>Lavrador</i>,<a id="FNanchor_277" href="#Footnote_277" class="fnanchor">[277]</a> e -o mesmo cuidado teve ElRey D. Joaõ II.</p> - -<p>5 Sem embargo de toda esta negligencia, ou ociosidade, que naõ he -defeito das terras, mas dos homens, se naõ houvera tanta gente -superflua estrangeira, que habita em nosso Reino, e a grandeza<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> de -herdades particulares, teria elle para os naturaes paõ superabundante, -e do melhor da Europa, principalmente do Alentejo, e termo de Lisboa, -onde vemos ainda assim as melhores tercenas, ou celeiros de toda a -Europa com a provisaõ deste genero de alimento. Nas outras Provincias, -onde naõ ha tanta abundancia de trigo, suppre o milho, a castanha, a -cevada, e o centeyo, de que fazem farinha, e se sustentaõ.</p> - -<p>6 <i>Azeite.</i> He tanta a abundancia de azeite, que escusamos repetir -o que neste particular affirmaõ nossos Escritores,<a id="FNanchor_278" href="#Footnote_278" class="fnanchor">[278]</a> principalmente -da fertilidade, e bondade, que ha deste genero em Santarem, Abrantes, -Thomar, Torres-Novas, Montemór o Novo, Coimbra, Evora, Moura, Elvas, -Béja, Beringel, termo de Lisboa, e na Torre de Moncorvo, onde só o -dizimo importa mais de seiscentos almudes, gastando-se na fabrica do -sabaõ dous mil cantaros, e provendo-se Galiza, e outras terras de -Castella do muito, que daqui levaõ.</p> - -<p>7 <i>Vinho.</i> Deste producto soccorre o nosso Reino a muitos dos -estranhos, principalmente das partes Septentrionaes, porque aos -Portuguezes lhes he impossivel dar consumo à grande copia de vinhos, -que todos os annos recolhem das Provincias, sendo os mais gabados -os de Alvor, Béja, Villa de Frades, Vidigueira, Cuba, Peramanca, -Alcochete, Almada, Caparica, Carcavelos, Camarate, Oeiras, Ourem, -Lamego, Monçaõ, deixando os da Beira, e Tras os Montes taõ excellentes, -que os naõ tem melhores todo o mundo, sendo todos estes ordinariamente -bem incorporados, e com especialidade os tintos, que tem força para -lotar os outros. Os Francezes, e Inglezes gostaõ muito dos vinhos -extrahidos do Lugar chamado Barra a barra, que fica da<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span> outra banda de -Lisboa; porque dizem, que saõ mais delicados, e menos cubertos,<a id="FNanchor_279" href="#Footnote_279" class="fnanchor">[279]</a> -e por isso conduzem muitos de Alhos vedros, e outras terras para as -suas; naõ deixando de se admirar de que nós naõ estimemos o licor de -Baco, tanto como elles, e que as fontes sejaõ ordinariamente as que -nos mataõ a sede, e naõ as vides. Os peyores vinhos do Reino saõ os -do Minho, chamados verdes,<a id="FNanchor_280" href="#Footnote_280" class="fnanchor">[280]</a> porque duraõ pouco; e ou pela sua -aspereza lhe chamaõ de enforcado, (ou talvez porque lançaõ as vides, e -cachos pendurados nas arvores,) donde veyo a dizer o sentencioso Sá de -Miranda, alludindo ao dito de Cineas:<a id="FNanchor_281" href="#Footnote_281" class="fnanchor">[281]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Depois nos Olmos mostrado,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Nunca vi, disse, enforcado,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que a forca, assim merecesse.</i></span><br> -</p> - -<p>8 <i>Carnes.</i> Da grande copia em todo o genero de gados, que ha -no Reino, ninguem duvída. O grande consumo, que se faz delles no -provimento de armadas, e frotas, e a consideravel extracçaõ de lãs para -o negocio do Norte, e Inglaterra, bastava para prova desta opulencia, -se já o naõ tiveramos mostrado só na fecundidade da Provincia do -Minho. No que se deve reparar he no sabor, e mimo das <i>Vacas</i>, -e <i>Vitellas</i> da Beira: <i>Carneiros</i>, <i>Cordeiros</i>, e -<i>Leitões</i> do Alentejo: <i>Cabritos</i> da serra de Cintra, -e Caldeiraõ, sem omittir a preciosa provisaõ do <i>Leite</i>, -<i>Natas</i>, <i>Manteigas</i> e <i>Queijos</i> muito melhores que -os Flamengos, e Parmazanos: nem nos esquecermos dos excellentes -<i>Presuntos</i> da Beira, e <i>Chacina</i> do Alentejo.</p> - -<p>9 E que diremos da montaria, e caça Real? Sem encarecimento Castella -naõ a tem melhor. Admiraveis saõ as <i>Corças</i>, e <i>Cervos</i> da -serra do Algarve: os<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> <i>Veados</i> das serras de Mertola, Portel, -Almeirim, Arrabida, Cintra, e tapada de Villa Viçosa: <i>Javalis</i> -da Tapada, Pinheiro, serras de Portel, Vascaõ, Grandola, e Alcacer: -<i>Lebres</i>, e <i>Coelhos</i> das Berlengas, Alcantara, e Nossa -Senhora do Cabo, pelo especial gosto, que lhe causa o pasto do perrexil.</p> - -<p>10 <i>Aves.</i> Deixando a grande creaçaõ das domesticas, que em -grandes ninhadas, e bandos vemos por todo o Reino em abundancia, -<i>Galinhas</i>, <i>Patos</i>, <i>Pombos</i>, e <i>Perús</i>, naõ -ha cousa como os <i>Perdigotos</i>, e <i>Perdizes</i> do termo de -Lisboa, das serras de Cintra, Beira, e Caldeiraõ: <i>Tordos</i> de -Thomar, e do Alentejo, <i>Taralhões</i> de Cezimbra, <i>Rolas</i> de -Alcacer, <i>Adens</i>, e <i>Galeirões</i> dos Paús de Palma, Obidos, -e Benavente, com outros varios bandos de passaros de arribaçaõ, que -com o cibato das nossas terras se fazem muito mais saborosos que os -<i>Hortolanos</i> de Pariz. Aqui se póde aggregar a quantidade grande -de canoras, e vistosas aves, os <i>Rouxinoes</i>, <i>Pintasilgos</i>, -<i>Chamarizes</i>, <i>Codornizes</i>, <i>Cochichos</i>, -<i>Lavercos</i>, <i>Verdelhões</i>, <i>Tentilhões</i>, <i>Melros</i>, -<i>Pintarroxos</i>, <i>Tutinegras</i>, e outros mil suaves passarinhos, -que pelos bosques, e ramos dos alemos, choupos, freixos, loureiros, -e outros arvoredos espessos divertem os olhos, e os ouvidos com -excellente musica natural em distinctos córos.</p> - -<p>11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de -Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que -nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por -toda a parte admiraveis <i>Laranjas da China</i>, <i>doces</i>, e -<i>bicaes</i>, a que os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de -Portugal: prodigiosas <i>Limas</i> da serra d’Ossa, <i>Limões</i> -em Colares, Cintra, Peninha, Loures, Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto -do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de Cacem; e as admiraveis -<i>Cidras</i> do Landroal.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span></p> - -<p>12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as <i>Camoezas</i> de -Thomar, Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas -<i>Peras</i> de muitas castas, e nomes: <i>De Rey</i>, <i>de -Conde</i>, <i>Bergamotas</i>, <i>Bojardas</i>, <i>Cornicabras</i>, -<i>Carvalhaes</i>, <i>Conforto</i>, <i>Flamengas</i>, <i>Gervasias</i>, -<i>Codornos</i>, <i>de Rio frio</i>, <i>Engonxo</i>, <i>de S. -Bento</i>, <i>de Bom Christaõ</i>, <i>Virgulosas</i>, e <i>Lambe-lhe -os dedos</i>, com as formosas, e appetitosas <i>Maçãs de Abrantes</i>, -<i>Baunezas</i>, <i>Leirioas</i>, <i>Melapios</i>, <i>Repinaldos</i>, -<i>Verdeaes</i>, e até <i>Rainetas de França</i> na Villa de Mafra, com -outras muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a -Reinos estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos -pomares de regadio muy deliciosos.</p> - -<p>13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço, -que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes saõ -as <i>Cerejas</i> de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas -de <i>Saco</i> da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as <i>Ginjas -garrafaes</i> de Lamego, Borba, e Alenquer: as <i>Frutas novas</i>, -e <i>Ameixas reinoes</i> de Montemór o Novo, com as <i>Brancas</i>, -<i>Saragoçanas</i>, e <i>Abrunhos</i> de Cintra, Collares, Azeitaõ, e -Cezimbra: os gentis <i>Figos lampos</i>, e <i>Perinhas de cheiro</i> -do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos <i>Damascos</i>, -<i>Alperches</i>, e <i>Pessegos</i> de tantas castas em Abrantes, Aviz, -Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas <i>Amoras</i>, -e <i>Morangos</i>, e das bellas <i>Uvas moscateis de Jesus</i>, -<i>Tamaras</i>, <i>Ferraes</i>, <i>Diagalves</i>, e <i>Malvazias</i> de -Punhete: do chamado singular <i>Bastardo</i> de Cassilhas, Barreiro, e -Almada, com os seus excellentes, e incomparaveis <i>Figos brancos</i>: -dos selectos <i>Melões</i> da Vellariça, Chamusca, Arrayolos, -Benavente, e Muxagata: das doces, e vermelhas <i>Melancias</i> de -Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e Chamusca: das <i>Romãs</i>, -<i>Marmellos</i>, e <i>Gamboas</i> de Santarem, com a quantidade sem -numero de <i>Castanhas verdes</i>, e <i>piladas</i> da Beira, e Minho:<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> -de <i>Amendoas</i>, <i>Passas</i>, <i>Figos</i>, e <i>Alfarrobas</i> -do Algarve, principalmente de Estoy: <i>Nozes</i>, <i>Sorvas</i>, -<i>Nesperas</i>, e <i>Avelãs</i> da Estremadura: <i>Bolotas</i>, -<i>Azeitonas</i>, e <i>Pinhões</i> do Alentejo, sem fazermos caso dos -<i>Medronhos</i>, <i>Murtinhos</i>, <i>Camarinhas</i>, e <i>Amoras de -silva</i>, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas -charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas <i>Tuberas da terra</i>, -de que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou -feitas à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas.</p> - -<p>14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar -as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma -haverá <i>Couves</i> taõ grandes, e <i>Nabos</i> taõ monstruosos, que -se possaõ igualar com as da Beira, especialmente as <i>Murcianas</i> de -Azeitaõ, e Setubal: <i>Repolhos</i> da Villa do Conde: <i>Cardos</i> -das hortas de Béja, e Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito -menos com a riqueza, regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas, -tendo só Lisboa em si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta -especie naõ cabe na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa -fertilidade de legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas -comestiveis, e aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir -os balsamos, as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ -mais curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das -hervas, e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,<a id="FNanchor_282" href="#Footnote_282" class="fnanchor">[282]</a> -naõ haver terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que -Portugal, ainda no mais escabroso das suas serras.</p> - -<p>15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a -diligencia da cultura o <i>Alecrim</i>, a <i>Arruda</i>, o <i>Aypo</i>, -a <i>Argentina</i>, a <i>Alfavaca de cobra</i>,<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> os <i>Almeirões</i>, -os <i>Agrões</i>, a <i>Agrimonia</i>, a <i>Artemija</i>, a -<i>Avenca</i>, as <i>Azedas</i>, a <i>Bisnaga</i>, a <i>Borragem</i>, -o <i>Cardo santo</i>, a <i>Carqueja</i>, a <i>Celidonia</i>, -a <i>Centaurea</i>, a <i>Congossa</i>, a <i>Douradinha</i>, -a <i>Dormideira</i>, o <i>Endro</i>, o <i>Ensayaõ</i>, a -<i>Erva cidreira</i>, a <i>Erva doce</i>, a <i>Escabiosa</i>, -a <i>Escorcioneira</i>, a <i>Eufrazia</i>, o <i>Funcho</i>, a -<i>Filipendola</i>, o <i>Gilbarbeiro</i> a <i>Hepatica</i>, a -<i>Hera</i>, o <i>Hyssopo</i>, o <i>Jaro</i>, a <i>Labaça</i>, -o <i>Lirio</i>, a <i>Lingua de Vaca</i>, a <i>Losna</i>, a -<i>Macela</i>, a <i>Malva</i>, o <i>Malvaisco</i>, a <i>Mangerona</i>, -o <i>Mastruço</i>, o <i>Marroyo</i>, o <i>Meimendro</i>, o -<i>Millefolio</i>, a <i>Moleirinha</i>, a <i>Murta</i>, o <i>Nardo -celtico</i>, a <i>Neveda</i>, o <i>Oregaõ</i>, a <i>Ortelã</i>, -as <i>Papoilas</i>, a <i>Peonia</i>, a <i>Pimpinella</i>, -os <i>Poejos</i>, a <i>Rabaça</i>, o <i>Rosmaninho</i>, a -<i>Salgadeira</i>, a <i>Salsa</i>, o <i>Saramago</i>, a -<i>Segurelha</i>, a <i>Sanguinaria</i>, a <i>Semprenoiva</i>, -a <i>Serpentina</i>, a <i>Solda</i>, a <i>Tamargueira</i>, a -<i>Tanchagem</i>, o <i>Tomilho</i>, o <i>Trevo</i>, o <i>Trovisco</i>, -a <i>Valeriana</i>, o <i>Verbasco</i>, a <i>Versa</i>, a -<i>Veronica</i>, a <i>Viola</i>, e outras de experimentada virtude, -e prestimo,<a id="FNanchor_283" href="#Footnote_283" class="fnanchor">[283]</a> de que tambem os multiplicados enxames de abelhas -se aproveitaõ para a fabrica do mel nos excellentes colmeares, -principalmente nas serras de Serpa, Portel, termo de Palmella, e toda -a Provincia de Tras os Montes, que costuma repartir com os visinhos: -naõ sendo menos util a copiosa colheita do <i>Linho</i>, <i>Grã</i>, e -<i>Esparto</i> das Provincias do Minho, Beira, Estremadura, e Algarve, -de que tanto se aproveitaõ as Nações estrangeiras.</p> - -<p>16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a -natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de -infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas, -outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle, que no -tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com o esmalte, -e fragrancia das <i>Boninas</i>, <i>Junquilhos</i>, <i>Mosquetas</i>, -<i>Lirios</i>, <i>Madresilva</i>,<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> <i>Legacaõ</i>, <i>Azareiro</i>, -<i>Giesta</i>, <i>Murta</i>, <i>Flor de laranja</i>, e outra muita -diversidade, que exhalando agradavel cheiro, nascem, e se criaõ em -qualquer prado, compondo hum continuado ramalhete; porque a industria -da arte nas cercas, e nos jardins tem em todo o anno constante o -Abril, e florecente a Primavera com vistoso matiz de <i>Amarantos</i>, -<i>Ambretas</i>, <i>Amores perfeitos</i>, <i>Angelicas</i>, -<i>Aquilegias</i>, <i>Araras</i>, <i>Assucenas</i>, <i>Artemijas</i>, -<i>Azareiros</i>, <i>Anemolas</i>, <i>Bordões de S. Joseph</i>, -<i>Botões de ouro</i>, <i>Barboletas</i>, <i>Caracoleiros</i>, -<i>Caxias</i>, <i>Cravos</i>, <i>Cravinas</i>, <i>Disciplinas</i>, -<i>Ervilhas de cheiro</i>, <i>Esporas</i>, <i>Flores pombinhas</i>, -<i>Flores do Cabo de boa esperança</i>, <i>Flores de Liz</i>, -<i>Girasoes</i>, <i>Goivos</i>, <i>Jasmins</i>, <i>Jacintos</i>, -<i>Junquilhos</i>, <i>Lilazes</i>, <i>Malmequeres da sessia</i>, -<i>Malvas da India</i>, <i>Maravilhas</i>, <i>Mauritanas</i>, -<i>Margaritas</i>, <i>Melindres</i>, <i>Mogarins</i>, <i>Narcisos</i>, -<i>Noturnos</i>, <i>Novelos</i>, <i>Orelhas de Urso</i>, -<i>Papagayos</i>, <i>Papoulas da India</i>, <i>Perpetuas</i>, -<i>Piramides</i>, <i>Primaveras</i>, <i>Rainunculos</i>, <i>Rosas</i>, -<i>Saudades</i>, <i>Selindres</i>, <i>Suspiros</i>, <i>Tulipas</i>, -<i>Valverdes</i>, e <i>Violas</i>, com as frondosas latadas de -<i>Caracoes</i>, <i>Trepadeiras</i>, <i>Chagas</i>, e <i>Martyrios</i>, -e o verde adorno dos crespos, e cheirosos <i>Mangericões</i>.</p> - -<p>17 Quanto ao <i>Peixe</i>, além de o gabar Marineo Siculo,<a id="FNanchor_284" href="#Footnote_284" class="fnanchor">[284]</a> e -Botero,<a id="FNanchor_285" href="#Footnote_285" class="fnanchor">[285]</a> tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e -muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado, -e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está -regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores, -merecendo especial memoria os deliciosos <i>Salmões</i> do Minho: -as gabadas <i>Azevias</i> de Alhandra: os raros <i>Solhos</i>, e -<i>Tainhas</i> do Sado: os saboros <i>Saveis</i>, e <i>Lampreas</i> -do Mondego, e Coa: as <i>Douradas</i>, <i>Escolares</i>, e -<i>Atum</i> do Algarve: os <i>Salmonetes</i>, <i>Linguados</i>, -<i>Redovalhos</i>, <i>Bezugos</i>, e <i>Sardas</i> de Setubal: as -admiraveis <i>Trutas</i>,<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> e <i>Mugens</i> da Beira, e Minho: as -selectas <i>Bogas</i>, <i>Barbos</i>, e <i>Escalhos</i> de Alviella: -os <i>Ruivos</i> de S. Joaõ da Foz, e Villa do Conde: as famosas -<i>Pescadas</i>, e <i>Curvinas</i> de Cezimbra, Cascaes, Ericeira, -Caminha, e Esposende: os <i>Congros</i>, e <i>Roballos</i> de Peniche, -e Buarcos: os <i>Safios</i>, <i>Eirozes</i>, <i>Cachuchos</i>, -e <i>Gorazes</i> do Tejo. E deixando de particularizar outras -innumeraveis especies de peixe, que os rios, ribeiras, e lagoas nos -tributaõ com a fecunda pescaria de <i>Sardinhas</i>, e <i>Carapáos</i>, -e os celebrados <i>Camarões</i> de Villa-Franca, com os saborosos -cardumes de <i>Ostras</i>, <i>Bribigões</i>, e mais Mariscos de Aveiro, -e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de mantimentos, e -regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a fazer hum -todo admiravel contra o que diz Virgilio, que <i>non omnis fert omnia -tellus</i>, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta -opulenta Peninsula.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_269" href="#FNanchor_269" class="label">[269]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. pag. 382.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_270" href="#FNanchor_270" class="label">[270]</a> Strab. lib. 3. Athen. lib. 4. Gymnosoph. Polyb. lib. 38.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_271" href="#FNanchor_271" class="label">[271]</a> Apud Duart. Nun. Descripç. de Port.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_272" href="#FNanchor_272" class="label">[272]</a> <i>Jactitet se Cereris dono Sicilia, nihil video cur -Santareno præferantur.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_273" href="#FNanchor_273" class="label">[273]</a> Duart. Nun. Descripç. de Portug. cap. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_274" href="#FNanchor_274" class="label">[274]</a> P. Marian. Histor. de Hesp. liv 10. p. 1. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_275" href="#FNanchor_275" class="label">[275]</a> Luiz Mendes de Vasconcel no Sitio de Lisb. O A. dos -Serões do Principe part 1. disc. 6. § 9. Sever. de Far. Notic. de -Portug. disc. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_276" href="#FNanchor_276" class="label">[276]</a> Boter. de Ration. Stat. lib. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_277" href="#FNanchor_277" class="label">[277]</a> Nun. na Vid. de Sancho I.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_278" href="#FNanchor_278" class="label">[278]</a> Duart. Nun. Descripçaõ de Portugal cap. 25. Fr. Nicol. -de Oliv. Grand. de Lisb. tract. 1. cap. 4. Maced. nas Flor. de Hespanh. -cap. 3. excel. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_279" href="#FNanchor_279" class="label">[279]</a> Le Baron de Lahontan tom. 3. Voiages de Portug. p. 208.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_280" href="#FNanchor_280" class="label">[280]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 8. n. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_281" href="#FNanchor_281" class="label">[281]</a> Sá de Miranda cart. 2. est. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_282" href="#FNanchor_282" class="label">[282]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 193. e 216. -Barlamont no Elixir do Univ. cap. 4. e 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_283" href="#FNanchor_283" class="label">[283]</a> Gabr. Grisley Desengan. da Medicin. Duart. Nun. -Descripç. de Port. Vigier Histor. das Plant.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_284" href="#FNanchor_284" class="label">[284]</a> Marin. Sicul. de Reb. Hispan. lib. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_285" href="#FNanchor_285" class="label">[285]</a> Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. pag. 14.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XI">CAPITULO XI.<br><span class="small"><i>Dos Mineraes.</i></span></h2></div> - - -<p>1 A tanta fertilidade, e mimo de especies sensitivas, e vegetaveis, -como temos summariamente mostrado haver neste nosso Reino, quiz Deos -tambem ajuntarlhe as estimaveis riquezas de preciosos mineraes. Os -de ouro, e prata saõ muito antigos em toda a Hespanha, como refere -a Escritura sagrada;<a id="FNanchor_286" href="#Footnote_286" class="fnanchor">[286]</a> e taõ naturaes em o nosso Portugal, como -affirma Plinio,<a id="FNanchor_287" href="#Footnote_287" class="fnanchor">[287]</a> e o confirma Estrabo,<a id="FNanchor_288" href="#Footnote_288" class="fnanchor">[288]</a> rendendo ao Senado de -Roma cada anno dos<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span> direitos, que se tiravaõ das minas de Asturias, -Portugal, e Galiza, trinta mil marcos de ouro: sendo este sem duvida -o unico attractivo, e reclamo, que chamou de taõ longe os Frigios, -Fenices, Tyrios, Carthaginezes, e Romanos a fazernos guerra, e -tributarios à sua cubiça.</p> - -<p>2 Mas deixando a lembrança das minas antigas, como as de que faz -mençaõ Justino<a id="FNanchor_289" href="#Footnote_289" class="fnanchor">[289]</a> que havia na Provincia do Minho, e as que houve na -Freguezia de S. Mamede de Val-Longo do Concelho de Aguiar de Sousa, -e no Lugar de Villa-Verde, termo de Mirandella,<a id="FNanchor_290" href="#Footnote_290" class="fnanchor">[290]</a> e no termo de -Grandola, e no sitio de Alfarella da Provincia de Tras os Montes, e no -Lugar do Seixo naõ longe de Anciães,<a id="FNanchor_291" href="#Footnote_291" class="fnanchor">[291]</a> e em outras muitas partes do -Reino, esgotadas pela ambiçaõ dos Romanos.</p> - -<p>3 He certo que no anno de 1290 concedeo ElRey D. Diniz privilegios -aos que tiravaõ ouro na Adiça, junto à foz do Tejo entre Almada, e -Cezimbra, que era a officina mais antiga, donde se tirava ouro neste -Reino em grande copia. Os mesmos privilegios concederaõ os mais Reys -até ElRey D. Manoel, em cujo tempo com o descubrimento das riquezas da -Asia foraõ diminuindo as extracções das minas de Portugal, como tudo -conta a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_292" href="#Footnote_292" class="fnanchor">[292]</a></p> - -<p>4 Tambem no anno de 1628 se descubrio no Lugar de Paramio, tres leguas -da Cidade de Bragança, huma mina de prata taõ fina, que de oito arrobas -de pissarra ficavaõ na fundiçaõ seis de prata; e havia tanta quantidade -della, que promettia o Superintendente oito arrobas cada dia livres -para ElRey.<a id="FNanchor_293" href="#Footnote_293" class="fnanchor">[293]</a> Bem sabido he, e celebrado pelos antigos o purissimo -ouro, que se tirava de entre as areas do Tejo,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span><a id="FNanchor_294" href="#Footnote_294" class="fnanchor">[294]</a> e tambem naõ he -para esquecer o Cetro, que ElRey D. Joaõ III. mandou fazer do ouro -extrahido das mesmas areas, o qual Cetro affirma Duarte Nunes,<a id="FNanchor_295" href="#Footnote_295" class="fnanchor">[295]</a> que -muitas vezes vira nas mãos dos nossos Monarcas em occasiaõ de Cortes, e -que ainda se conserva no Thesouro Regio.</p> - -<p>5 Se nós fizermos huma natural reflexaõ acerca do muito, que nossos -primeiros Reys dispendiaõ, já com o sustento de grandes exercitos em -continuas campanhas; já com grossas armadas; já na erecçaõ de Templos, -e Palacios sumptuosos; nos thesouros riquissimos, que deixavaõ a seus -filhos; nas distribuições generosas, e soccorros poderosissimos, com -que ajudavaõ a muitos Principes Catholicos,<a id="FNanchor_296" href="#Footnote_296" class="fnanchor">[296]</a> sem que naquelle -tempo houvesse tanta renda dos direitos Reaes, nem o descubrimento das -riquezas da Asia tivesse ainda contribuido com seus thesouros para -supprir estes gastos, forçosamente devemos inferir, que em Portugal -havia opulentas minas. Este pensamento confirma com bastante erudiçaõ o -Doutor Fr. Serafim de Freitas,<a id="FNanchor_297" href="#Footnote_297" class="fnanchor">[297]</a> dizendo, que antes do descubrimento -da India naõ havia Reino na Europa mais opulento que Portugal: por isso -com elevado episodio, e sabio fundamento introduzio o erudito Botelho -na infancia de Portugal a idade preciosa de ouro,<a id="FNanchor_298" href="#Footnote_298" class="fnanchor">[298]</a> que o singular -Camões no cant. 9. e 10. attribuio ao tempo, e governo do sempre -saudoso Rey D. Manoel.</p> - -<p>6 Esta observaçaõ he só por huma natural conjectura; porque he -infallivel haver sempre muitas<span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span> minas de ouro, e prata por todo -o Reino, como ainda ha na Villa de Borba, Béja, Evora, no termo -de Barcellos, e Thomar, em Tras os Montes, e em outras partes -conhecidas,<a id="FNanchor_299" href="#Footnote_299" class="fnanchor">[299]</a> as quaes naõ se praticaõ hoje por certa razaõ de -Estado, que aponta Plinio<a id="FNanchor_300" href="#Footnote_300" class="fnanchor">[300]</a> nas de Italia, e Duarte Nunes,<a id="FNanchor_301" href="#Footnote_301" class="fnanchor">[301]</a> -e as Memorias instructivas de hum viajor nas de Portugal: ou tambem -porque com o descubrimento das Minas da America no Estado do Brasil -taõ fecundas, e com as mais modernas de diamantes, descubertas no -Serro do Frio, de cujos riquissimos transportes resulta ao Reino taõ -copioso lucro, (pois chega a vinte milhões de cruzados o que nos vem -todos os annos das Minas,) attrahidos desta fertilidade, e opulencia os -Portuguezes, se esqueceraõ do que tinhaõ mais perto.</p> - -<p>7 Naõ só enriqueceo a natureza o Reino de ouro, e prata, mas tambem -de pedras preciosas. No monte do Oiteiro, que cerca a Villa de Borba, -achaõ-se finissimas <i>Turquezas</i>, as quaes naõ saõ de cor verde, -como disse Duarte Nunes,<a id="FNanchor_302" href="#Footnote_302" class="fnanchor">[302]</a> e por sua informaçaõ Manoel de Faria, -e a Corografia Portugueza,<a id="FNanchor_303" href="#Footnote_303" class="fnanchor">[303]</a> mas sim de cor azul opaco, segundo -bem adverte, e emenda o Padre Bluteau.<a id="FNanchor_304" href="#Footnote_304" class="fnanchor">[304]</a> Na ribeira de Bellas, -pouco distante de Lisboa, e principalmente no Lugar do Suimo, ha -muita quantidade das pedras preciosas chamadas <i>Jacinthos</i>, que -na cor arremedaõ muito à flor Bemmequer.<a id="FNanchor_305" href="#Footnote_305" class="fnanchor">[305]</a> No Algarve achaõ-se -<i>Rubís</i>. Na serra de Cintra ha minas de <i>Magnetes</i>, ou pedras -de cevar,<a id="FNanchor_306" href="#Footnote_306" class="fnanchor">[306]</a> de que os estrangeiros se tem aproveitado mais do que -nós. E<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span> no rio Cávado apparecem <i>Amethystos</i>, <i>Jacinthos</i> e -<i>Crystaes</i> finissimos.</p> - -<p>8 Tudo isto he muy conforme com o que dizem Botero, e Gil Gonçalves -de Avila,<a id="FNanchor_307" href="#Footnote_307" class="fnanchor">[307]</a> que em Portugal naõ só ha muitas minas de preciosos -metaes, mas muitas pedras preciosas; donde Fr. Marcos de Guadalaxara -Xivier, tratando da nova França, diz,<a id="FNanchor_308" href="#Footnote_308" class="fnanchor">[308]</a> que naquella terra se achaõ -<i>Diamantes</i> semelhantes aos que ha no Tejo: e isto naõ póde causar -duvida, quando sabemos que na Real Capella de Villa-Viçosa ha huma -Custodia, cuja pedraria, de que está cravejada, foy toda extrahida das -minas de seus contornos.<a id="FNanchor_309" href="#Footnote_309" class="fnanchor">[309]</a></p> - -<p>9 De <i>Cobre</i> se descubrio no anno de 1620 na serra de Grandola -huma mina muito boa. De <i>Estanho</i>, e muito fino temos em Amarante, -Bouzella, S. Pedro do Sul, Belmonte, e em outras partes,<a id="FNanchor_310" href="#Footnote_310" class="fnanchor">[310]</a> que nós -vimos no anno de 1736 pela diligencia de Monsieur Damy. De <i>Ferro</i> -ha bastante copia nas Villas de Penella, e Thomar;<a id="FNanchor_311" href="#Footnote_311" class="fnanchor">[311]</a> e affirma o -erudito Severim de Faria,<a id="FNanchor_312" href="#Footnote_312" class="fnanchor">[312]</a> que he o melhor ferro do mundo, pois -delle se costumaõ fabricar espingardas muy estimadas de todos os -Principes. O <i>Crystal</i> em muitas partes deste Reino se acha em -pedaços; e refere Duarte Nunes,<a id="FNanchor_313" href="#Footnote_313" class="fnanchor">[313]</a> que na Villa do Crato havia no seu -tempo poços, donde se tirava grande quantidade. O mesmo se acha nas -montanhas de S. Mamede de Val-Longo, termo de Aguiar de Sousa, e em S. -Vicente de Caldellas, termo de Pica de Regalados.<a id="FNanchor_314" href="#Footnote_314" class="fnanchor">[314]</a></p> - -<p>10 No Concelho de Gondomar na Freguezia de S. Christovaõ de Rio-Tinto -ha minas de <i>Talco</i> taõ<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> bom, que se conduz por negocio para -muitas partes. <i>Chumbo</i> se extrahe de Aremenha. Que diremos das -grandes cantarias de tantas variedades de pedras, quantas vemos em todo -o Reino? Os marmores brancos taõ admiraveis, que se tiraõ da Villa -de Estremoz: os pretos de Cintra: os vermelhos, azuis, amarellos, e -pardos de Pedro Pinheiro, com os quaes se fabricou o Real Templo de -Mafra, que, com o adorno de tanta diversidade de pedras, bem podemos -dizer, que he huma joya preciosa, ou hum vistoso ramalhete, em que está -unida a robustez com a delicadeza, o natural com o artificioso. Com -igual estimaçaõ vemos os pórfidos de Setubal, e os celebrados marmores -da serra da Arrabida, e os de Montes Claros, e os de Villa Viçosa, -dos quaes se tem aproveitado ainda os melhores edificios de terras -estranhas.<a id="FNanchor_315" href="#Footnote_315" class="fnanchor">[315]</a></p> - -<p>11 Naõ longe de Coimbra ha huma casta de pedra muy clara, e lustrosa, -mas taõ branda, que basta qualquer prego sem maceta para a lavrar.<a id="FNanchor_316" href="#Footnote_316" class="fnanchor">[316]</a> -Outra mais admiravel se produz no Lugar das Antas, termo da Villa da -Arruda, com a qual costumaõ ladrilhar os fornos, em que se coze o paõ; -porque tem ella tal virtude, e calor intrinseco, que basta receber pela -manhã a quentura sufficiente, para a conservar todo o dia, sem ser -necessario renovar-se o fogo, ou administrarlhe mais lenha.<a id="FNanchor_317" href="#Footnote_317" class="fnanchor">[317]</a> A esta -especie podemos ajuntar as pedras molares de Cezimbra, e Porto de Mós, -e as admiraveis pederneiras de espingarda, que ha por Alcantara junto -de Lisboa, com todas as suas pedreiras matrizes de muita differença de -pedra, que com a falta de curiosidade inda ignoramos.</p> - -<p>12 Poucas terras levaráõ vantagem à nossa na<span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span> producçaõ dos -<i>Barros</i> finos, aptos para a fabrica de cousas domesticas. -Entre todos merece o primeiro lugar o barro vermelho, e odorifero -de Estremoz, de que se fazem preciosos pucaros, os quaes naõ só tem -a galantaria de ficarem prezos, e pendurados nos beiços, quando por -elles se bebe, mas tem a virtude bezoartica, e alexifarmaca, com que -se extenuaõ as qualidades do veneno,<a id="FNanchor_318" href="#Footnote_318" class="fnanchor">[318]</a> pelo que he bem merecida -a estimaçaõ, que em toda a parte lograõ. Em Roma no Museo do Padre -Kirker, e Bonani, que se conserva no Collegio dos Padres Jesuitas, -os vimos com especial recato; e em muitos gabinetes de Monsenhores, -e Principes de Italia constituem naõ pequeno adorno. Depois destes -seguem-se os de Lisboa, chamados pucaros da Maya, ou do Romaõ, feitos -com summa delicadeza, e formosura especialmente aquelles, a que chamaõ -de alètria, de hum barro tambem odorifero, com os quaes lá lhe achou -huma bella analogia o discreto Camões<a id="FNanchor_319" href="#Footnote_319" class="fnanchor">[319]</a> para comparar as formosas -Damas Lisbonenses. Os de Montermór o Novo, Sardoal, Aveiro, e Pombal -saõ fabricados de barros igualmente selectos, naõ sendo para desprezar -a louça de barro, que se fabrica na Villa das Caldas.</p> - -<p>13 De <i>Azeviche</i> ha muitos mineraes, mayormente na Villa da -Batalha, de que se fazem curiosos brinquinhos, e figuinhas, as quaes -trazidas à vista dizem que saõ contra o quebranto, e fantasmas -melancolicas:<a id="FNanchor_320" href="#Footnote_320" class="fnanchor">[320]</a> por isso rara he a criança neste Reino, que naõ ande -armada de muitas destas figas contra o máo olhado. O Padre Eusebio -Nieremberg<a id="FNanchor_321" href="#Footnote_321" class="fnanchor">[321]</a> approva a virtude natural do azeviche para este -effeito, mas condemna a effigie.</p> - -<p>14 A formosura do <i>Coral</i> nos contribue muitas<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> vezes o mar de -Peniche, lançando-o pelas prayas em ramos, e esgalhos bem galantes, de -que temos visto alguns. O <i>Vermelhaõ</i> se colhe no rio Minho, donde -tomou o nome, e de que falla Justino.<a id="FNanchor_322" href="#Footnote_322" class="fnanchor">[322]</a> No tempo delRey D. Manoel se -descubriraõ minas de vermelhaõ, e de <i>Azougue</i>.<a id="FNanchor_323" href="#Footnote_323" class="fnanchor">[323]</a> O cheiroso -<i>Ambar</i> acha-se algumas vezes pelos areaes de Troya defronte -de Setubal, que o mar lança fóra, quando tem andado tempestuoso. O -<i>Salitre</i> naõ falta pelas grutas de Alcantara.<a id="FNanchor_324" href="#Footnote_324" class="fnanchor">[324]</a></p> - -<p>15 O <i>Sal</i> se coalha copiosamente nas muitas marinhas, que ha em -Aveiro, Santo Antonio do Tojal, e em Setubal, bastando só os direitos -Reaes destas salinas de Setubal para satisfazerem aos Hollandezes -os milhões, que se obrigou o Reino a pagarlhe pelo Tratado da liga -defensiva, concluindo-se o anno de 1703 o seu ultimo pagamento. -Bastante prova he desta fertilidade o grande numero de navios -estrangeiros, que continuamente vemos em nossos portos a fazerem -carregações do sal, que lá nas suas terras naõ tem: e he isto taõ -antigo, que affirma Pedro de Mariz<a id="FNanchor_325" href="#Footnote_325" class="fnanchor">[325]</a> verse em tempo delRey D. -Pedro I. nos portos de Lisboa, e Setubal muitas vezes quatrocentos, e -quinhentos navios a esta carga, e outras nossas mercadorias. Seguia-se -tratarmos agora do Commercio do Reino; mas como reservamos esta -noticia para quando descrevermos Lisboa, primario archivo de todas as -grandezas, e trafegos de Portugal, passemos à averiguaçaõ das moedas, -que se tem lavrado, com toda a sua diversidade, e valor.</p> - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_286" href="#FNanchor_286" class="label">[286]</a> 1 Machab. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_287" href="#FNanchor_287" class="label">[287]</a> Plinio lib 33. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_288" href="#FNanchor_288" class="label">[288]</a> Strab. lib. 3. de Situ Orbis: <i>Nec in alia parte -terrarum tot sæculis hæc fertilitas.</i> Plin. alleg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_289" href="#FNanchor_289" class="label">[289]</a> Justin. lib. 44.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_290" href="#FNanchor_290" class="label">[290]</a> Costa, Corograf. Port. tom. 1. p. 374 e 452.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_291" href="#FNanchor_291" class="label">[291]</a> Ibid. tom. 3. p. 337. Argot. Antig. da Chancel. de Brag. -p. 224. e 332.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_292" href="#FNanchor_292" class="label">[292]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_293" href="#FNanchor_293" class="label">[293]</a> Ibid. Monarq. Lusit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_294" href="#FNanchor_294" class="label">[294]</a> Silio Italico, Martial, e outros apud Maced. Flor. de -Hespanh. cap. 4. excel 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_295" href="#FNanchor_295" class="label">[295]</a> Duarte Nun. Descripç. de Portug. cap. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_296" href="#FNanchor_296" class="label">[296]</a> Resend Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 61. Marian. lib. -25. c. 11. Osor. liv. 2. de Reb. Emman. Andrad Chron. delRey D. Joaõ -III. part 3. cap. 15.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_297" href="#FNanchor_297" class="label">[297]</a> Freitas de Justo Imperio Lusit. cap. 16. <i>Ita ut ante -Indiæ explorationem nullum ex Europæis Regnum opulentius Lusitano -inveniretur.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_298" href="#FNanchor_298" class="label">[298]</a> Botelh. no Alfonso da impressaõ de Salamanc. ann. 1731 -liv. 10. est. 76. & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_299" href="#FNanchor_299" class="label">[299]</a> Far. na Europ. Portug. tom. 3 part. 3. cap. 8. n. 10. -Corograf. Port. tom. 3. p. 171.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_300" href="#FNanchor_300" class="label">[300]</a> Plin. lib. 33. c. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_301" href="#FNanchor_301" class="label">[301]</a> Duart Nun Descripç. de Port. cap. 14. Memor. instruct -tom. 1. p. 210.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_302" href="#FNanchor_302" class="label">[302]</a> Duart Nun. Descripç. de Portug. p. 44.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_303" href="#FNanchor_303" class="label">[303]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. p. 183. Corograf. Port. -tom. 2. p. 513.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_304" href="#FNanchor_304" class="label">[304]</a> Bluteau, Vocab. verb. <i>Turqueza</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_305" href="#FNanchor_305" class="label">[305]</a> Corograf. Portug. tom. 3. pag. 52. Blut. verb. -<i>Jacintho</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_306" href="#FNanchor_306" class="label">[306]</a> Memor. instruct. tom. 1. pag. 112.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_307" href="#FNanchor_307" class="label">[307]</a> Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. Avila, Grand de -Madrid. liv. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_308" href="#FNanchor_308" class="label">[308]</a> Xivier part. 5. Pontif. lib. 3. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_309" href="#FNanchor_309" class="label">[309]</a> Serões do Princip. part. 1. disc. 6. § 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_310" href="#FNanchor_310" class="label">[310]</a> Corogr. Port. tom 2. p. 393.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_311" href="#FNanchor_311" class="label">[311]</a> Duart Nun. Descr. de Port. p. 42.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_312" href="#FNanchor_312" class="label">[312]</a> Sever. Notic. de Port. disc. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_313" href="#FNanchor_313" class="label">[313]</a> Duart. Nun Descripç. de Port. p. 42.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_314" href="#FNanchor_314" class="label">[314]</a> Corogr. Port. tom. 1. p. 244. e 374. Monarq Lusit. liv. -16. cap. 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_315" href="#FNanchor_315" class="label">[315]</a> Duart. Nun. Descripç. de Portug. p. 45. Luiz Mendes no -Sitio de Lisb. p. 192.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_316" href="#FNanchor_316" class="label">[316]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. p. 183.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_317" href="#FNanchor_317" class="label">[317]</a> Rodrig. Mend. da Silv. na Poblac. gener. de Hesp. p. -130. e Duart. Nunes ut supr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_318" href="#FNanchor_318" class="label">[318]</a> Aldrovand. in Musæo Metal. lib. 2. pag. 229. Curvo na -Polyanth. p. 592. mihi n. 15. Fonseca no Aquil. p 210.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_319" href="#FNanchor_319" class="label">[319]</a> Cam. cart. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_320" href="#FNanchor_320" class="label">[320]</a> Dioscorid. lib. 5. cap. 103. Plin. liv. 25. cap. 10. S. -August. de Civit. Dei cap. 91.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_321" href="#FNanchor_321" class="label">[321]</a> Nieremb. Filosof. Natur.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_322" href="#FNanchor_322" class="label">[322]</a> Justin. lib. 44. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_323" href="#FNanchor_323" class="label">[323]</a> Monarq. Lusit. tom. 5. p. 80.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_324" href="#FNanchor_324" class="label">[324]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 216.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_325" href="#FNanchor_325" class="label">[325]</a> Mariz Dialog. 3. cap. 6.</p> -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XII">CAPITULO XII.<br><span class="small"><i>Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem -lavrado em Portugal.</i></span></h2></div> - - -<p>1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as -do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno -83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha, -mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo -perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma -estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.<a id="FNanchor_326" href="#Footnote_326" class="fnanchor">[326]</a> Era -ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ -achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos.</p> - -<p>2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida -a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria -nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas -daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por -especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em -todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e -cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.<a id="FNanchor_327" href="#Footnote_327" class="fnanchor">[327]</a></p> - -<p>3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno -411 de Christo até o de<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span> 570, que he o em que governou Leovigildo com -poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo -até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal -abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3. -Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o -qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata -batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere -Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e -a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu -poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no -reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver, -que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem -diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora, -com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda -huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem -embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda -de prata do tempo dos Godos.<a id="FNanchor_328" href="#Footnote_328" class="fnanchor">[328]</a></p> - -<p>4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ -as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de -metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas, -principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes -de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé. -Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e -permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando -I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> maravedis, -assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se -estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que -estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma -resumida memoria pelo estylo, que observamos.</p> - -<p>5 <i>Alfonsim</i>. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que -delle tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.<a id="FNanchor_329" href="#Footnote_329" class="fnanchor">[329]</a> Era -de tres qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia -pouco mais de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum -tostaõ, e valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre -o nome <i>Alfo</i> huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas, -que tinhaõ a letra <i>L</i>, por serem abertas em Lisboa, outras a -letra <i>P</i>, por serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta -inscripçaõ: <i>Adjutorium nostrum in nomine Domini</i>. O mesmo se lia -da outra parte, onde estavaõ os cinco escudos do Reino postos em Cruz. -O Alfonsim de ouro valia quinhentos e tantos reis.<a id="FNanchor_330" href="#Footnote_330" class="fnanchor">[330]</a> Todas estas -moedas tinhaõ o mesmo cunho.</p> - -<p>6 <i>Aureo</i>. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II. -pelos annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo -Padre Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas -de Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da -Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas -mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua -figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: <i>Sancius Rex -Portugaliæ</i> de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que -nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais, -e a letra à<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span> roda: <i>In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti. -Amen</i>;<a id="FNanchor_331" href="#Footnote_331" class="fnanchor">[331]</a> e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de -cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se -acha no Reino.</p> - -<p>7 <i>Barbuda</i>, ou <i>Celada</i>. Foy moeda de prata muito ligada, -que mandou lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma -parte tinha hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo -chamavaõ Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma -coroa, e pela orla da moeda a letra: <i>Si Dominus mihi adjutor, -non timebo</i>: da outra parte huma Cruz da Ordem de Christo, que -tomava todo o vaõ, e no meyo da Cruz hum escudo pequeno com as quinas -de Portugal, e nos angulos da Cruz quatro castellos, e em roda a -letra: <i>Fernandus Rex Portugaliæ, Alg.</i> No tom. 4. da Historia -Genealogica da Casa Real vem aberta a sua figura, cuja circumferencia -se póde ver melhor, que por informaçaõ dos Authores, os quaes discrepaõ -muito nas medidas da sua grandeza.</p> - -<p>8 <i>Calvario.</i> Era certa moeda de ouro de 22 quilates, e tambem -chamavaõ cruzados, que mandou lavrar ElRey D. Joaõ III. com o valor de -quatrocentos reis, que depois subio a seiscentos reis. Tinha de huma -parte a Cruz sobre o monte Calvario, que daqui tomou o nome, com a -letra em roda: <i>In hoc signo vinces</i>: da outra banda o escudo Real -coroado, e a letra: <i>Joann. III. Port. & Algarb. R. D. Guin.</i></p> - -<p>9 <i>Ceitil.</i> Mandou lavrar esta moeda de cobre ElRey D. Joaõ I., -ou na occasiaõ em que tomou a Cidade de Ceuta aos Mouros, como dizem -alguns Authores, ou porque era cada dinheiro destes a sexta parte de -hum real de cobre, e por isso ceitil he o mesmo, que sextil, e esta nos -parece a mais verdadeira<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> deducçaõ. Lavraraõ-na os Reys successores até -ElRey D. Sebastiaõ.<a id="FNanchor_332" href="#Footnote_332" class="fnanchor">[332]</a></p> - -<p>10 <i>Conceiçaõ.</i> Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Joaõ IV. em -ouro, e em prata no anno de 1648. A de ouro valia doze mil reis: tinha -de huma parte a effigie da Senhora da Conceiçaõ com tres symbolos deste -Mysterio por cada lado, e em circulo as letras: <i>Tutelaris Regni</i>: -da outra parte estavaõ as armas Reaes no meyo de huma Cruz da Ordem de -Christo, e na cercadura: <i>Joannes IIII. D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ -Rex</i>. A de prata tinha o mesmo cunho, mas era de mayor diametro, que -os cruzados novos, e corria com o valor de seiscentos reis. A origem, -que houve para se cunhar esta moeda, foy assim:</p> - -<p>11 Depois que o felicissimo Rey D. Joaõ IV. fez tributario o Reino de -Portugal à Conceiçaõ da Senhora em cincoenta cruzados de ouro cada -anno, applicados para a sua Real Capella de Villa Viçosa, jurando, e -tomando neste Mysterio a Senhora por Protectora do Reino em Cortes do -anno de 1646<a id="FNanchor_333" href="#Footnote_333" class="fnanchor">[333]</a> tratou logo de lhe pagar o tributo em moeda especial, -e para isso mandou abrir a França hum cunho da fórma, que temos dito, -o qual trouxe, e fez Antonio Ruiter, a quem se deu tres mil reis, que -dispendeo com a abertura do ferro, como consta do liv. 1. do Registo -da Casa da Moeda pag. 256. vers. donde inserimos, que o primeiro anno, -em que ElRey fez a sobredita offerta, seria no anno de 1648, por ser -este anno o que se vê expresso na sobredita moeda, a qual desde o anno -de 1651 principiou a ser moeda corrente pela ley, que sahio para isso. -E sem embargo de que no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real -pag. 287. se diga, que humas,<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> e outras moedas corriaõ com pezo de huma -onça, foy equivocaçaõ; porque da mesma ley, que vem no dito tomo a pag. -359. se vê, que as de ouro corriaõ com o pezo de doze oitavas, e valiaõ -por doze mil reis; e as de prata com pezo de huma onça, e corriaõ por -seis tostões: e pezo de doze oitavas he onça e meya.</p> - -<p>12 ElRey D. Affonso VI. continuou tambem a mandar lavrar as sobreditas -moedas em todo o tempo do seu governo, e da mesma sorte ElRey D. Pedro -II. e nesta moeda se fazia a offerta de vinte e quatro mil reis no dia -da festa da Conceiçaõ, em cujo dia trazem pendente ao pescoço os tres -Officiaes, que administraõ a Casa da Senhora, huma das taes moedas. No -anno porém de 1685 teve fim a fabrica destas moedas, porque desde entaõ -nunca mais se lavrarão, entregando-se os referidos vinte e quatro mil -reis em outra qualquer moeda para a despeza da festa de Villa Viçosa.</p> - -<p>13 <i>Coroa.</i> Foy moeda de ouro, que mandou lavrar ElRey D. Duarte -com o valor de 216 reis. ElRey D. Manoel tambem a mandou lavrar, e -valia 120 reis: chamava-se <i>Meya coroa</i>. Este preço conservou até -o reinado delRey D. Joaõ III. e ElRey D. Sebastiaõ.<a id="FNanchor_334" href="#Footnote_334" class="fnanchor">[334]</a></p> - -<p>14 <i>Cruzado.</i> Quando o Papa Pio II. mandou a Bulla da Cruzada para -a guerra santa contra os Turcos, ordenou ElRey D. Affonso V. que se -lavrasse huma moeda de ouro subido de 24. quilates, e que se chamasse -cruzado em reverencia da Bulla, e com o valor de 400 reis. Tinha de -huma parte a Cruz de S. Jorge com a letra: <i>Adjutorium nostrum in -nomine Domini</i>; e da outra o escudo Real com a coroa sobre a Cruz -da Ordem de Aviz com estas letras: <i>Cruzatus Alphonsi Quinti R.</i> -Manoel de Faria<span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span><a id="FNanchor_335" href="#Footnote_335" class="fnanchor">[335]</a> mostra que vio huma moeda destas com differente -cunho. No anno de 1561 valia cada cruzado destes 500 reis, e depois -foraõ subindo ao valor de 600 reis, e deste ao de 640.<a id="FNanchor_336" href="#Footnote_336" class="fnanchor">[336]</a></p> - -<p>15 Presentemente correm cruzados novos de ouro, que mandou lavrar -ElRey D. Joaõ V. desde o anno de 1718 com o valor intrinseco de 400 -reis, e na estimaçaõ commua de 480. Por Decreto de 8 de Fevereiro de -1730 mandou o mesmo Senhor que se lavrasse nas Minas quartos de escudo -de ouro com o valor extrinseco de 400 reis cada hum, e intrinseco de -375 reis, tendo de huma banda o retrato delRey, e da outra na parte -superior huma coroa Real, na inferior a era, em que se fabricaõ, e na -circumferencia o nome delRey. A esta moeda chamamos cruzado, dos quaes -já naõ ha muitos.</p> - -<p>16 ElRey D. Joaõ IV. mandou lavrar cruzados de prata com o valor de 400 -reis, e meyos cruzados com 200 reis de valia. Depois foraõ subindo até -o reinado delRey D. Pedro II. que levantou os cruzados a seis tostões, -e os meyos cruzados a tres tostões, mandando tambem lavrar cruzados -novos de prata com o valor de 480, e meyos cruzados com o de 240, a -que presentemente chamamos doze vintens, e que ainda correm nos nossos -tempos.</p> - -<p>17 <i>Dinheiro.</i> Foy moeda de cobre, que tinha de huma banda a Cruz -da Ordem de Christo com duas estrellas, e duas meyas luas nos vaõs, e -a letra <i>A. Rex Portugaliæ</i>: da outra parte tinha as cinco quinas -com a letra: <i>Algarbii</i>. Valia hum ceitil menos hum decimo. Destes -dinheiros faz mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. §. 17.</p> - -<p>18 <i>Dobra.</i> Moeda de ouro de varias castas: <i>Portuguezas</i>, -<i>Castelhanas</i>, <i>Mouriscas</i>, ou <i>Barbariscas</i>. As -Portuguezas chamavaõ-se <i>Cruzadas</i>, que mandou lavrar ElRey D. -Diniz com o valor de 270 reis: outras<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> se chamaõ <i>Dobras delRey D. -Pedro</i>, e valiaõ 147 reis. Das Dobras Castelhanas havia humas, que -se chamavaõ da <i>Banda</i>, por serem lavradas por ElRey D. Affonso -XI. de Castella, e tinhaõ de huma parte a banda, insignia da Ordem -Militar, que o mesmo Rey instituio, e valiaõ 216 reis: com este nome -faz dellas mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. Tambem se chamavaõ -<i>Valedias</i>, porque valiaõ, e corriaõ em Portugal. Havia outras -dobras com o nome de <i>Dona Branca</i>, e outras <i>Sevilhanas</i>, -que mandou bater em Sevilha ElRey D. Affonso o <i>Sabio</i>, e valiaõ -600 reis. Tinhaõ de huma parte ElRey armado a cavallo com a espada na -maõ, e a letra em roda: <i>Dominus mihi adjutor</i>: da outra parte -as armas de Castella, e Leão com o letreiro: <i>Alfons. R. Castellæ, -& Leg</i>.<a id="FNanchor_337" href="#Footnote_337" class="fnanchor">[337]</a> As <i>Mouriscas</i>, ou <i>Barbariscas</i> valiaõ 270 -reis. ElRey D. Pedro I. mandou lavrar <i>Meyas dobras</i> com o valor -de 73 reis e meyo.</p> - -<p>19 <i>Ducataõ de ouro.</i> Quando ElRey D. Sebastiaõ foy a Guadalupe, -mandou lavrar esta moeda: huma com o valor de quarenta mil reis, outra -de trinta, outra de dez cruzados.<a id="FNanchor_338" href="#Footnote_338" class="fnanchor">[338]</a></p> - -<p>20 <i>Engenhoso.</i> Foy moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. -Sebastiaõ no anno de 1562 com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte -a Cruz com a letra: <i>In hoc signo vinces</i>; e da outra banda -o escudo do Reino com a letra: <i>Sebastian. I. Rex Portugal.</i> -Chamou-se esta moeda do Engenhoso, por assim se chamar Joaõ Gonçalves, -natural de Guimarães, que fez o cunho. Ordenou o elle de sorte, que as -moedas sahiaõ fundidas de pezo, e com hum circulo ao redor para naõ se -poderem cercear.<a id="FNanchor_339" href="#Footnote_339" class="fnanchor">[339]</a></p> - -<p>21 <i>Escudo.</i> Moeda de ouro com muita liga, que mandou fazer ElRey -D. Duarte com a valia de 90 reis. ElRey D. Manoel a mandou desfazer.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p> - -<p>22 <i>Espadim.</i> Houve neste Reino moedas com este mesmo nome de -tres castas. <i>Espadins de ouro</i> mandou-os lavrar ElRey D. Joaõ II. -com o valor de 320 reis. Tinha de huma parte o escudo do Reino com a -letra: <i>Adjutorium nostrum in nomine Domini</i>; e do reverso huma -espada empunhada com a ponta para cima, e em circulo o nome delRey. Em -tempo delRey D. Manoel valia 500 reis. <i>Espadins de prata</i>, que -mandou abrir ElRey D. Affonso V. com o mesmo cunho que os de ouro, só -com a differença de ter a ponta da espada voltada para baixo. Chamou-se -Espadim em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista -de Fez, como diz Severim.<a id="FNanchor_340" href="#Footnote_340" class="fnanchor">[340]</a> Valiaõ 24 reis. <i>Espadins de cobre</i> -prateados mandou bater ElRey D. Joaõ II. com o valor de quatro reis.</p> - -<p>23 <i>Forte.</i> Com este nome mandou lavrar ElRey D. Diniz huma moeda -de prata com o valor de dous vintens, ou quarenta reis; e meyos Fortes, -que valiaõ hum vintem. Tinha hum, e outro de huma parte o habito de -Christo com a letra: <i>Dionysius Rex Portugal. & Algarb.</i> da outra -parte as armas do Reino, e a letra: <i>Ajutorium nostrum in nomine -Domini</i>. Houve outros Fortes, e meyos Fortes, que fez bater ElRey D. -Fernando em preço de 29 reis, que depois abateo a 16.</p> - -<p>24 <i>Frizante.</i> Foy moeda de prata, que corria no tempo de nossos -primeiros Reys, mas naõ se sabe de que valor era. A Monarquia Lusitana -faz mençaõ desta moeda.<a id="FNanchor_341" href="#Footnote_341" class="fnanchor">[341]</a></p> - -<p>25 <i>Gentil.</i> ElRey D. Fernando mandou lavrar esta moeda de ouro, -mas de quatro castas. Havia Gentil de hum ponto, e valia 162 reis: -Gentil de dous pontos 144 reis: Gentil de tres pontos 126 reis: Gentil -de quatro pontos 116 reis. Fr. Antonio<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> da Purificaçaõ<a id="FNanchor_342" href="#Footnote_342" class="fnanchor">[342]</a> diz, que o -Gentil delRey D. Fernando valia 720 reis.</p> - -<p>26 <i>Grave.</i> Moeda de prata, que mandou bater ElRey D. Fernando do -tamanho de meyo tostaõ, e valia 21 real. Tinha de huma parte a letra -<i>F</i>, primeira do seu nome, e sobre ella huma coroa dentro em hum -escudo, e nos lados duas Cruzes, com a letra na orla: <i>Si Dominus -mihi adjutor</i>. No reverso tinha a Cruz de S. Jorge sobre hum escudo -rodeado de quatro castellos, e o nome do Rey na cercadura.</p> - -<p>27 <i>Indios.</i> Mandou ElRey D. Manoel no anno de 1499 lavrar esta -moeda de prata com o valor de 33 reis em memoria do descubrimento da -India. Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo com o letreiro: -<i>In hoc signo vinces</i>; e da outra parte as armas do Reino com a -letra: <i>Primus Emanuel</i>.</p> - -<p>28 <i>Justo.</i> Esta moeda era de ouro, que mandou fazer ElRey D. -Joaõ II. e valia 600 reis. De huma parte tinha o escudo Real já com as -quinas direitas sem a Cruz de Aviz, e o nome delRey na cercadura; e no -reverso tinha a effigie delRey sentado em hum throno com a espada na -maõ entre dous ramos de palma, e a letra em roda: <i>Justus ut palma -florebit</i>.</p> - -<p>29 <i>Leal.</i> Era moeda de prata, que mandou fazer ElRey D. Joaõ -II. com valor de doze reis. Tinha de huma parte a letra <i>Leal</i> -por baixo de huma Cruz; e da outra parte o escudo do Reino com o nome -delRey na orla.</p> - -<p>30 <i>Livra.</i> Foy moeda lavrada em varios reinados, e de varias -castas, donde procede a alteraçaõ de seu valor. A <i>Livra de ouro</i> -em tempo delRey D. Diniz valia oito vintens: o mesmo valor tinha já -no reinado delRey D. Affonso III. No tempo delRey D. Joaõ I. valiaõ -pouco mais de 82 reis. A <i>Livra<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> de prata</i> era de dous generos: -<i>Antigas</i>, e <i>novas</i>. Havia livras antigas, por cada huma das -quaes se haviaõ de pagar setecentas das novas, e assim valia cada huma -das antigas 36 reis: e havia tambem livras antigas, por cada huma das -quaes se pagava quinhentas das novas, e entaõ valia cada huma 25 reis. -A <i>Livra de cobre</i> era de tres sortes; porque havia livra de dez -soldos, que valiaõ tres reis e meyo: livras de dez livras pequenas, e -valiaõ meyo real: livras de tres livras e meya, que valiaõ real e meyo, -e corriaõ até o anno de 1407.</p> - -<p>31 <i>Maravedim</i>, ou <i>Morabitino</i>. Foy moeda, que introduziraõ -no Reino os Mouros Almoravides, ou Morabitos, que significa -<i>Fieis</i>, segundo o mostra Aldrete.<a id="FNanchor_343" href="#Footnote_343" class="fnanchor">[343]</a> Havia maravedim de ouro, -que mandou lavrar ElRey D. Sancho I. com o valor de 500 reis. Tinha -de huma parte a effigie delRey a cavalo com a espada nua na maõ, e -pela orladura: <i>In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti.</i> -No reverso tinha o escudo Real, e o nome delRey em gyro. Os maravedís -Mouriscos naõ tinhaõ mais que huns caracteres, ou attributos de Deos de -huma parte, e da outra, o nome do Principe, que os mandara abrir. Houve -tambem maravedís de prata, que corriaõ com o valor de 27 reis.</p> - -<p>32 <i>Mealha.</i> Naõ era moeda, que tivesse cunho particular, mas era -metade da moeda, que chamavaõ <i>Dinheiro</i>, e valia meyo ceitil.</p> - -<p>33 <i>Nomeada.</i> Moeda de prata, que fez lavrar ElRey D. Joaõ I. e -seu filho ElRey D. Duarte. Naõ se sabe o que valia. Tinha de huma banda -a Cruz de S. Jorge com a letra: <i>Dominus adjutor fortis</i>; e da -outra o escudo do Reino com o nome delRey na circumferencia.</p> - -<p>34 <i>Patacaõ.</i> Era moeda de cobre com o valor<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> de dez reis, que -mandou fazer ElRey D. Joaõ III. Tinha de huma parte o escudo Real -coroado com o nome delRey, e da outra parte a letra <i>X</i>, com a -inscripçaõ: <i>Rex Quintusdecimus</i>. Havia tambem meyos patacões com -a letra <i>V</i>, que valiaõ cinco reis. ElRey D. Sebastiaõ reduzio -esta moeda ao valor de tres reis.</p> - -<p>35 <i>Peças.</i> Moeda de ouro, que corria no tempo do Infante D. -Pedro, Duque de Coimbra. ElRey D. Joaõ II. a mandou desfazer.</p> - -<p>36 <i>Pé-Terra.</i> Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Fernando com -o valor de 216 reis.</p> - -<p>37 <i>Pilarte.</i> Foy moeda de prata, que lavrou ElRey D. Fernando -com o valor de treze reis, e dous ceitis. O nome de Pilarte foy -posto em attençaõ, ou memoria dos pagens dos soldados estrangeiros, -que lhe levavaõ os capacetes, ou barbudas, a que o Francez chama -<i>Pilartes</i>.</p> - -<p>38 <i>Portuguez.</i> ElRey D. Manoel, do ouro, que lhe vinha das -Conquistas da Asia, fez lavrar humas moedas, que se chamaraõ -<i>Portuguezes</i> de 500 ducados cada huma, e depois mandou lavrar -outras, que valiaõ quatro mil reis. Destas houve tanta copia, que nas -praças naõ se pagava por quasi todo o Reino com outra moeda, senaõ -com a chamada Portuguezes de ouro.<a id="FNanchor_344" href="#Footnote_344" class="fnanchor">[344]</a> Tinha de huma parte a Cruz da -Ordem de Christo, e a letra em roda: <i>In hoc signo vinces</i>; e da -outra o escudo Real coroado com as letras: <i>E. R. P. A. C. U. A. D. -G.</i> que queriaõ dizer: <i>Emmanuel Rex Portugaliæ, Algarb. q. Citra, -Ultra Afric. Dommus Guineæ.</i> Tinha outro letreiro por fóra junto à -garfila, ou orla: <i>C. C. N. E. A. P. I.</i> que dizia: <i>Comercio, -Conquista, Navegaçaõ, Ethiopia, Arabia, Persia, India.</i> ElRey D. -Joaõ III. tambem os mandou lavrar da mesma fórma. ElRey D. Joaõ V. -mandou lavrar em Lisboa no anno de 1718 <i>Portuguezes<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> de ouro</i> -de 22 quilates, e com o valor de 19200 cada Portuguez, os quaes foraõ -sómente para se lançar nos alicerses da Real Igreja de Mafra. Tambem -ElRey D. Manoel mandou fabricar <i>Portuguezes de prata</i> no anno de -1504, e valia cada hum 400 reis. A estes Portuguezes depois resuscitou -ElRey D. Joaõ IV., e ElRey D. Pedro II. chamando-lhe <i>Cruzados</i>.</p> - -<p>39 <i>Quatro vintens.</i> Mandou lavrar esta moeda de prata ElRey D. -Joaõ III. que de huma parte tem o nome do Rey com coroa, e o numero -LXXX. e na orla a letra: <i>Rex Portug. & Algarb.</i> Da outra parte -tem a Cruz de S. Jorge com a sabida inscripçaõ: <i>In hoc signo -vinces.</i></p> - -<p>40 <i>Real.</i> Esta moeda a mandou lavrar em prata varias vezes ElRey -D. Joaõ I. sempre com o mesmo valor, mas cada vez de menor pezo. Os -primeiros valiaõ nove dinheiros, os segundos seis dinheiros. Até o -tempo delRey D. Manoel corriaõ Reaes de prata com o valor de vinte -reis, e outros de trinta. ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar -com o valor de quarenta reis, e com os mesmos cunhos da moeda de quatro -vintens, mudando o numero 80 em 40. A mesma moeda fez lavrar D. Joaõ -IV. e he o chamado meyo tostaõ, que hoje corre. Havia Real de cobre de -varias sortes: huns tinhaõ mistura de estanho, com que ficavaõ mais -claros, e se chamavaõ <i>Reaes brancos</i>. Mandou lavrallos ElRey D. -Duarte, e D. Affonso V. Os que se lavraraõ antes do anno de 1446 valiaõ -dez ceitis. Havia outros Reaes chamados <i>Pretos</i>, por serem de -cobre puro, e valiaõ pouco mais de hum ceitil. ElRey D. Joaõ II. para -desterrar tanta confusaõ de Reaes, fez lavrar Real de cobre de seis -ceitis. O mesmo fizeraõ seus Successores até ElRey D. Joaõ III. Tinhaõ -de huma parte hum <i>R</i>, debaixo de huma coroa, e da outra o escudo -do Reino com o nome delRey na orla. ElRey D. Sebastiaõ fez lavrar -<i>Meyos<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> Reaes</i> com a valia de tres ceitis: tinha de huma banda hum -<i>S</i> coroado, e da outra hum <i>R</i> entre dous pontos.</p> - -<p>41 <i>Sinquinho.</i> Moeda de prata delRey D. Joaõ II. e D. Manoel: -valia cinco reis. O delRey D. Manoel tinha de huma parte os cinco -escudos do Reino em Cruz com as letras: <i>Emmanuel P. R. & Al.</i> da -outra huma malta com a mesma letra. Tambem ElRey D. Joaõ IV. fez lavrar -Sinquinhos de prata.</p> - -<p>42 <i>Soldo.</i> Foy moeda das mais antigas do Reino lavrada em ouro, -prata, e cobre. A de ouro valia oito reales, ou dezaseis vintens: a de -prata dez reis: a de cobre hum real. Este soldo em tempo delRey D. Joaõ -I. chamava-se <i>Moeda-Febre</i>.</p> - -<p>43 <i>Talento.</i> Corria esta moeda no governo delRey D. Sancho I. no -anno de 1188, e valia quatro ducados, ou cruzados, e era de ouro.</p> - -<p>44 <i>Tornezes.</i> Moeda de prata em tempo delRey D. Pedro I. Tinha de -huma parte a cabeça delRey com barba comprida, e a letra: <i>Petrus Rex -Portugal. & Algarbii</i>: da outra banda o escudo do Reino, e na orla -a letra: <i>Deus adjuva me</i>. Valia treze reis. ElRey D. Fernando -tambem lavrou <i>Tornezes</i>, que valiaõ oito soldos, ou quatorze reis.</p> - -<p>45 <i>Tostaõ.</i> ElRey D. Manoel mandou bater esta moeda em ouro, e -em prata. A de ouro era o quarto de ouro dos <i>Portuguezes</i>: a de -prata valia cem reis. Tinha de hum lado a Cruz da Ordem de Christo -com a letra: <i>In hoc signo vinces</i>; e do outro as armas do Reino -com coroa, e o nome do Rey na orladura. Mandou lavrar tambem <i>Meyos -tostões</i> com os mesmos cunhos, e letras, e valiaõ cincoenta reis.</p> - -<p>46 <i>S. Vicente.</i> Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Joaõ III. -com o valor de mil reis. Tinha de huma parte a imagem de S. Vicente com -huma náo na maõ esquerda, e hum ramo de palma na direita com a letra: -<i>Zelator Fidei usque ad mortem</i>:<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> da outra parte o escudo Real com -a letra: <i>Joan. III. Rex Portug. & Algarb.</i></p> - -<p>47 <i>Vintem.</i> Moeda de prata, que teve principio no tempo delRey -D. Affonso V. e todos os mais Reys continuaraõ a mandar lavrar, ainda -que com a fórma, e figura mudada, mas sempre com o valor de vinte reis. -Em tempo dos Reys Filippes houve a moeda de meyo vintem em prata, que -valia dez reis.</p> - - -<p class="center p2 caption"><i>Dinheiro, que presentemente corre.</i></p> -<table class="autotable"> -<tr><th>Em ouro.</th><th>Valor.</th><th>Pezo.</th></tr> -<tr><td>Dobraõ de </td><td class="tdr">24U000 </td><td class="tdr">15 oitavas.</td></tr> -<tr><td>Meyo dobraõ de </td><td class="tdr">12U800 </td><td class="tdr">1 onça.</td></tr> -<tr><td>Dobra de 4 escudos </td><td class="tdr">6U400 </td><td class="tdr">4 oitavas.</td></tr> -<tr><td>Meya dobra de 2 esc. </td><td class="tdr">3U200 </td><td class="tdr">2 oitavas.</td></tr> -<tr><td>Moeda de ouro de </td><td class="tdr">4U800 </td><td class="tdr">3 oitavas.</td></tr> -<tr><td>Meya moeda </td><td class="tdr">2U400 </td><td class="tdr">oitava e meya.</td></tr> -<tr><td>Escudo </td><td class="tdr">1U600 </td><td class="tdr">1 oitava.</td></tr> -<tr><td>Quarto de moeda </td><td class="tdr">1U200 </td><td class="tdr">54 grãos.</td></tr> -<tr><td>Meyo escudo </td><td class="tdr">U800 </td><td class="tdr"> meya oitava.</td></tr> -<tr><td>Cruzado novo </td><td class="tdr">U480 </td><td class="tdr">21 grãos.</td></tr> -<tr><td>Quarto de escudo </td><td class="tdr">U400 </td><td class="tdr">18 grãos.</td></tr></table> -<table class="autotable p2"> -<tr><th>Em prata.</th><th>Valor.</th><th>Pezo.</th></tr> -<tr><td>Cruzado novo </td><td class="tdr">480 </td><td class="tdr">4 oitavas 59 grãos.</td></tr> -<tr><td>Doze vintens </td><td class="tdr">240 </td><td class="tdr">2 oitavas 29 grãos.</td></tr> -<tr><td>Seis vintens </td><td class="tdr">120 </td><td class="tdr">1 oitava 14 grãos.</td></tr> -<tr><td>Tostaõ </td><td class="tdr">100 </td><td class="tdr">1 oitava.</td></tr> -<tr><td>Tres vintens </td><td class="tdr">60 </td><td class="tdr">43 grãos.</td></tr> -<tr><td>Meyo tostaõ </td><td class="tdr">50 </td><td class="tdr">36 grãos.</td></tr> -<tr><td>Vintem </td><td class="tdr">20 </td><td class="tdr">17 grãos.</td></tr></table> -<table class="autotable p2"> -<tr><th>Em cobre.</th><th>Valor.</th></tr> -<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">10 reis.</td></tr> -<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">5 reis.</td></tr> -<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">3 reis.</td></tr> -<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">1 real e meyo.</td></tr></table><p> -<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p> - -<p>Por Ley do anno de 1732 prohibio ElRey D. Joaõ V. que se lavrassem -Dobrões de doze mil e oitocentos, Moedas de quatro mil e oitocentos, -nem outras, que excedaõ o valor de seis mil e quatrocentos reis; e que -em todas, assim nas que corriaõ, como nas que se lavrassem, se pozesse -a sarrilha, que tem as de prata.</p> - -<p class="center p2 caption"> - <i>Noticia, do valor, que tem tido o marco de ouro, e prata - neste Reino em varios governos.</i></p> -<table class="autotable"> -<tr><th>Rey.</th><th> Metal.</th><th> Valor.</th></tr> -<tr><td>D. Sancho I. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 6U480.</td></tr> -<tr><td>D. Pedro I. </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 7U380.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> U945.</td></tr> -<tr><td>D. Fernando </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> U900.</td></tr> -<tr><td>D. Joaõ I. </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U600.</td></tr> -<tr><td>D. Affonso V. </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 1U260.</td></tr> -<tr><td>D. Manoel </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U280.</td></tr> -<tr><td>D. Joaõ III. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 30U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 2U600.</td></tr> -<tr><td>D. Sebastiaõ </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U400.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U680.</td></tr> -<tr><td>D. Henrique </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 40U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 4U000.</td></tr> -<tr><td>D. Joaõ IV. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 42U240.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 51U200.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 55U680.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 80U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 3U600.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 4U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 5U000.</td></tr> -<tr><td>D. Affonso VI. </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 4U400.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 4U600.</td></tr> -<tr><td>D. Pedro II. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 85U312.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 96U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 5U600.</td></tr> -<tr><td>D. Joaõ V. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 96U000.</td></tr> -<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata </td><td class="tdr"> 5U600.</td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_326" href="#FNanchor_326" class="label">[326]</a> Manoel Severim de Faria Notic. de Portug. disc. 4. §. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_327" href="#FNanchor_327" class="label">[327]</a> Idem ibid Far. Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 11. -Argot. Memor. do Arcebisp. de Brag. tom. 3. no Supplem. ao liv. 4. pag. -LVII. Sousa na Histor. Geneal. tom. 4. p. 107.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_328" href="#FNanchor_328" class="label">[328]</a> Argot. ut supr. pag. LX. Monarq. Lusit. l. 6. c. 19. 21. -e 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_329" href="#FNanchor_329" class="label">[329]</a> Chronic. delRey D. Fernand. cap. 58.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_330" href="#FNanchor_330" class="label">[330]</a> Fr. Anton. da Purificaç. Chronic. de S. Agost. part. 2 -liv. 7. tit. 6. §. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_331" href="#FNanchor_331" class="label">[331]</a> Monarq. Lusitan. liv. 10. cap. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_332" href="#FNanchor_332" class="label">[332]</a> Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 4. § 27. Cunha, -Histor. Eccl. de Lisb. tom. 1. p. 2. cap. 20. Far. na Europ. Port. tom. -3 part. 4. cap. 11. n 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_333" href="#FNanchor_333" class="label">[333]</a> Brandaõ na Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 23. part. 6. -Maced. Eva, c Ave part. 2. cap. 15. n. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_334" href="#FNanchor_334" class="label">[334]</a> Fr. Anton. da Purific. allegad. e o illustr. Cunha na -Histor. Eccles. de Lisb. allegad. Ordenaç. delRey D. Man. liv. 4. tit. -1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_335" href="#FNanchor_335" class="label">[335]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. II. n. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_336" href="#FNanchor_336" class="label">[336]</a> Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. tom. 1. part. 2. cap. -20 n. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_337" href="#FNanchor_337" class="label">[337]</a> Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. part. 2. cap. 20. n. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_338" href="#FNanchor_338" class="label">[338]</a> Fr. Manoel dos Sant. Histor. Sebast. p. 488.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_339" href="#FNanchor_339" class="label">[339]</a> Barbos, Remiss. à Ord. tit. 21. liv. 4. p. 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_340" href="#FNanchor_340" class="label">[340]</a> Manoel Severim de Far. Notic. de Portug. disc. 4. §. 29.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_341" href="#FNanchor_341" class="label">[341]</a> Monarq. Lusit. p. 3. in Append. n. 16.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_342" href="#FNanchor_342" class="label">[342]</a> Purific. Chronic. de S. Agost. allegada.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_343" href="#FNanchor_343" class="label">[343]</a> Aldret. no Thesouro da lingua Castelh. vide etiam -Bochart. in Geograf. Sacra no principio da sua vida.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_344" href="#FNanchor_344" class="label">[344]</a> Far. no Comm. das Lusiad. de Cam. cant. 1. p. 115.</p> -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII.<br><span class="small"><i>Da Lingua Portugueza.</i></span></h2></div> - - -<p>1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou -Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes -multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou -Andaluzia;<a id="FNanchor_345" href="#Footnote_345" class="fnanchor">[345]</a> porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade. -Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,<a id="FNanchor_346" href="#Footnote_346" class="fnanchor">[346]</a> outros a Caldaica, ou -alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira -a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua -primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha.</p> - -<p>2 Filippe de la Gandara julga<a id="FNanchor_347" href="#Footnote_347" class="fnanchor">[347]</a> que era idioma particular, e -distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que -usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de -Brito,<a id="FNanchor_348" href="#Footnote_348" class="fnanchor">[348]</a> que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o -tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal -lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula, -porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto -viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera -Plinio.<a id="FNanchor_349" href="#Footnote_349" class="fnanchor">[349]</a></p> - -<p>3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a -estas partes muitas gentes de<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> outras nações;<a id="FNanchor_350" href="#Footnote_350" class="fnanchor">[350]</a> e como as linguas -entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ -os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que -ainda conservamos, e retemos.<a id="FNanchor_351" href="#Footnote_351" class="fnanchor">[351]</a> Depois vieraõ os Romanos, e para -expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que -duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar.</p> - -<p>4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e -espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;<a id="FNanchor_352" href="#Footnote_352" class="fnanchor">[352]</a> e -confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e -estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e -guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz -a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes -alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.<a id="FNanchor_353" href="#Footnote_353" class="fnanchor">[353]</a></p> - -<p>5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos, -Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia, -França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da -pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto -Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em -nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.<a id="FNanchor_354" href="#Footnote_354" class="fnanchor">[354]</a> Verdade he que os -Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter -em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos; -porém como era gente mal<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> disciplinada, misturou de tal fórma hum -com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e -impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos -fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que -introduzio o Bispo Ulfilas,<a id="FNanchor_355" href="#Footnote_355" class="fnanchor">[355]</a> especialmente nos livros sagrados, e -Ecclesiasticos.</p> - -<p>6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e -perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso -Author muito erudito<a id="FNanchor_356" href="#Footnote_356" class="fnanchor">[356]</a> diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando -livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os -Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se -conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio -Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar -que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto -muitas dicções, que principiaõ por <i>al</i>, e <i>xa</i>, e as que -finalizaõ em <i>z</i>, como observou o insigne Joaõ de Barros?<a id="FNanchor_357" href="#Footnote_357" class="fnanchor">[357]</a></p> - -<p>7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco -dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza -Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo -complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio -o discreto Bembo,<a id="FNanchor_358" href="#Footnote_358" class="fnanchor">[358]</a> tratando da alteraçaõ, que tinha havido na -lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que -governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como -o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente -sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal -matiz, disse<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> o Padre Joaõ de Mariana,<a id="FNanchor_359" href="#Footnote_359" class="fnanchor">[359]</a> que a lingua Portugueza era -mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas -em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma, -que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos -compatriotas.<a id="FNanchor_360" href="#Footnote_360" class="fnanchor">[360]</a></p> - -<p>8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria<a id="FNanchor_361" href="#Footnote_361" class="fnanchor">[361]</a> -que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse -respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo, -e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita -differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa<a id="FNanchor_362" href="#Footnote_362" class="fnanchor">[362]</a> transcreve huma -carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha -Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente -o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas, -e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio -Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo -resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza.</p> - -<p>9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos -aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre -as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de -palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que -saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se -encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a -unica palavra <i>Saudade</i> sabe exprimir com muito mayor força, -e energia a constancia<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> do amor ausente; e com a voz <i>Magoa</i> -a penetrante dor do sentimento. Para fallar em todo o genero de -assumptos tem a extensaõ necessaria de vocabulos, e modos abundantes: -por isso disse bem o Tito Livio Portuguez Joaõ de Barros,<a id="FNanchor_363" href="#Footnote_363" class="fnanchor">[363]</a> que se -Aristoteles fora nosso natural, naõ fora buscar lingua emprestada para -escrever na Filosofia, e em todas outras materias, de que tratou; e se -lhe faltara algum termo succinto, fizera o que vemos em muitas partes -aos presentes, que quando carecem de termos Theologaes os Theologos -para entendimento real da cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos, -Mathematicos, Juristas, e Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na -introducçaõ de vozes novas naõ só he licito, mas preciso.</p> - -<p>10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido, -e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora -temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste -subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos -deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua -Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author<a id="FNanchor_364" href="#Footnote_364" class="fnanchor">[364]</a> que a Portugueza -he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se -nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a -gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais -vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ -parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,<a id="FNanchor_365" href="#Footnote_365" class="fnanchor">[365]</a> mas muito mais -semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.<a id="FNanchor_366" href="#Footnote_366" class="fnanchor">[366]</a> E assim -como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras: -<i>Lascarim</i>, <i>Chatino</i>, <i>Zumbaya</i>, e outras muitas, -que nos saõ já domesticas,<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span> da mesma sorte tiveramos conquistado -inteiramente a lingua Latina, cujos vocabulos ainda assim tem -degenerado taõ pouco no idioma Portuguez, que sem violencia podem nelle -comporse muitos discursos com a mesma conformidade com a Latina,<a id="FNanchor_367" href="#Footnote_367" class="fnanchor">[367]</a> o -que naõ succederá facilmente às outras locuções, que se prezaõ de serem -seus dialectos.</p> - -<p>11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se -poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave; -porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas, -como saõ: <i>d</i>, <i>n</i>, <i>t</i>, <i>x</i>, assim como ouvimos a -muitas linguas da Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante -de muitos Authores graves Castelhanos,<a id="FNanchor_368" href="#Footnote_368" class="fnanchor">[368]</a> que affirmaõ haver na -lingua Portugueza esta mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella -aptissima, e notoria facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e -fallaõ com cadencia todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o -que naõ he taõ factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ -com a sua verdadeira pronunciaçaõ.<a id="FNanchor_369" href="#Footnote_369" class="fnanchor">[369]</a></p> - -<p>12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso -dipthongo <i>aõ</i>, corruptamente deduzido do <i>om</i> Francez, e -Gallego, em que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as -dicções, que hoje terminamos em <i>aõ</i>, excepto os da Provincia -do Minho, que pela mayor visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso. -A quem se faz mais difficil articular este dipthongo, he à gente -Castelhana, porque tem o costume, de finalizar com a letra <i>n</i> -quasi todas as palavras, que nós acabamos<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> em <i>m</i>. Este embaraço -pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de Mello da Fonseca no -seu <i>Antidoto da lingua Portugueza</i>, cujo arbitrio naõ foy bem -aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque este proprio -mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito com o <i>am</i> -dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de verbos, e -com tudo a defende Quintiliano;<a id="FNanchor_370" href="#Footnote_370" class="fnanchor">[370]</a> nem deixa de parecer grave, e -suave a cadencia Latina com estas terminações, que com mayor facilidade -suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte advertimos<a id="FNanchor_371" href="#Footnote_371" class="fnanchor">[371]</a> -para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza.</p> - -<p>13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto, -e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com -especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas -Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos -por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua -para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,<a id="FNanchor_372" href="#Footnote_372" class="fnanchor">[372]</a> -allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: <i>Si -alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta -los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian, -commummente por la mayor parte eran en aquella lengua</i>. De maneira, -que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal -a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem -Provençaes,<a id="FNanchor_373" href="#Footnote_373" class="fnanchor">[373]</a> assim na Hespanha era reputada mais propria para a -Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes, -por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo -porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas -publicas,<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no -idioma Portuguez.<a id="FNanchor_374" href="#Footnote_374" class="fnanchor">[374]</a></p> - -<p>14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem -he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que -se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para -que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda -das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já -mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras -Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ -entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que -as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa -pureza.</p> - -<p>15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P. -Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia -emendar,) disse onde imprimiraõ <i>Devoçaõ</i>, lea-se <i>Devaçaõ</i>; -mas o primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem -mostrado nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra -<i>Homem</i>, e outras assim semelhantes se escrevaõ sem <i>H</i>, -como os Italianos. O melhor he seguir a mediania, como fazem os -doutos, cujo exemplo he só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, -e estravagancia, assim como fez certo Author moderno, (posto que -engenhoso) em huma nova orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous -<i>rr</i> no principio da dicçaõ,<a id="FNanchor_375" href="#Footnote_375" class="fnanchor">[375]</a> contra toda a norma, e costume -dos eruditos. Outras muitas propriedades, e predicados da nossa lingua -observou curiosamente o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no -discurso, que temos allegado.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_345" href="#FNanchor_345" class="label">[345]</a> Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_346" href="#FNanchor_346" class="label">[346]</a> Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin. -Siculo, Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio -Dextro p. 103.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_347" href="#FNanchor_347" class="label">[347]</a> Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_348" href="#FNanchor_348" class="label">[348]</a> Monarq. Lusit. ut supr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_349" href="#FNanchor_349" class="label">[349]</a> Plin. lib. 3. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_350" href="#FNanchor_350" class="label">[350]</a> Strab. lib. 1. & lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_351" href="#FNanchor_351" class="label">[351]</a> Resend. lib. 1. Antiq. e nas Notas ao Poem. de S. -Vicent. liv. 2. not. 44. Far na Europ. Port. tom. 3. part 4. cap. 9. -Matut. ut sup. §. 5. Joaõ Franco Barreto na Ortogr. Port. Luiz Martinho -nas Antiguid. de Lisb. liv. 1. c. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_352" href="#FNanchor_352" class="label">[352]</a> Resend. lib. 3. Antiquit. <i>Abiere tandem in Romanorum -mores Lusitani, & civilitatem, linguamque Latinam, sicut & Turdetani -accepere.</i> Aldret. nas Antiguid. de Hesp. liv. 1. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_353" href="#FNanchor_353" class="label">[353]</a> Manoel Severim de Faria Notic. de Port. disc. 5. §. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_354" href="#FNanchor_354" class="label">[354]</a> Kirquer de Turri Babel lib 3. p. 131. <i>Ex adventu -Gothorum, Alanorum, Vandalorum ingentem corruptionem passa, quaternas -alias peperit, Italicam, Gallicam, Hispanicam, Lusitanicam.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_355" href="#FNanchor_355" class="label">[355]</a> Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 9. cap. 18. Yañes -liv. 2. p. 644. de la Era, y Fechas de Hesp.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_356" href="#FNanchor_356" class="label">[356]</a> Martinh. de Mendoç. Disc. Philolog. contr. P. Feijó -impress. em Madrid ann. 1727.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_357" href="#FNanchor_357" class="label">[357]</a> Joaõ de Barr. Dialog. do louv. da nossa linguag. p. 56.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_358" href="#FNanchor_358" class="label">[358]</a> Bemb. nas Pros. liv. 1. p. 16. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_359" href="#FNanchor_359" class="label">[359]</a> Marian. Histor. de Hesp. lib. 1. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_360" href="#FNanchor_360" class="label">[360]</a> Veja-se a Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. -9. e no Comm. das Rim. de Cam. tom. 4. part 2. pag. 81. Brit. Chronic. -de Cister liv. 6. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_361" href="#FNanchor_361" class="label">[361]</a> Idem Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_362" href="#FNanchor_362" class="label">[362]</a> Sousa no Agiolog. Lusit. tom. 4. pag. 58. Veja-se o -Apparat. da Histor. Geneal. do mesmo Author tom. 1. p. 208. e a Leitaõ -Ferreira nas Noticias Chronolog. n. 574.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_363" href="#FNanchor_363" class="label">[363]</a> Joaõ de Barr. Dialog ut supr. pag. 55.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_364" href="#FNanchor_364" class="label">[364]</a> Gregor. Lop. Madeira no Disc. del monte Santo de Granad. -part. 2. cap. 19. p. 70.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_365" href="#FNanchor_365" class="label">[365]</a> Camões Cant. 1. Lusiad. est. 33.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_366" href="#FNanchor_366" class="label">[366]</a> Kirquer de Turri Babel lib. 3. cap. 1. p. 131.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_367" href="#FNanchor_367" class="label">[367]</a> Joaõ de Barros, Manoel de Far. Joaõ Franco Barreto já -allegados. Manoel Severim de Far. Disc. var. disc. 2. Macedo nas Flores -de Hespanh. cap 22 excel. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_368" href="#FNanchor_368" class="label">[368]</a> Marian. Histor. de Hesp. liv. 1. cap. 5. Lope da Vega na -Descr. da Tapada, e na Dorot. act. 2. scen. 2. pag. 40.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_369" href="#FNanchor_369" class="label">[369]</a> Veja-se a Faria no Prologo do tom. 1. da Europ. Port. e -a D. Bernarda Ferreira na España libertada cant. 1. est. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_370" href="#FNanchor_370" class="label">[370]</a> Quintil. lib. 9. cap. ult.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_371" href="#FNanchor_371" class="label">[371]</a> No Espelho da Eloquencia §.7. n.4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_372" href="#FNanchor_372" class="label">[372]</a> Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_373" href="#FNanchor_373" class="label">[373]</a> Bembo nas Pros. pag. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_374" href="#FNanchor_374" class="label">[374]</a> Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na -Monarq. Port. liv. 16. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_375" href="#FNanchor_375" class="label">[375]</a> Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier -de Oliv. Cart. 7. p. 54.</p> -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV.<br><span class="small"><i>Do Genio, e costumes Portuguezes.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no -assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e -inclinações das gentes de qualquer Paiz:<a id="FNanchor_376" href="#Footnote_376" class="fnanchor">[376]</a> por isso depois de ter -dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras -especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso -intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus -habitadores.</p> - -<p>2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua -primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por -agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos, -e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e -intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem -elles nossos progenitores.<a id="FNanchor_377" href="#Footnote_377" class="fnanchor">[377]</a> Com a melhor cultura, e Religiaõ se -melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada -de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do -tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço, -espirito, valentia, e gloria militar.</p> - -<p>3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ -os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os -antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> nos -Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo -affirmou,<a id="FNanchor_378" href="#Footnote_378" class="fnanchor">[378]</a> que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes -os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio, -Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos, -e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,<a id="FNanchor_379" href="#Footnote_379" class="fnanchor">[379]</a> cujos testimunhos, -e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor -grandeza, e indubitavel.</p> - -<p>4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor, -que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso -da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das -acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima -o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este -brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para -o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais -de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,<a id="FNanchor_380" href="#Footnote_380" class="fnanchor">[380]</a> -excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas -tanto souberaõ engrandecer.</p> - -<p>5 A <i>Lealdade a seus Principes soberanos</i> he outra admiravel -prenda, de que só os corações Portuguezes<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> podem blazonar com grande -singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ -salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos -para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já -mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do -doutissimo Thomás Bosio,<a id="FNanchor_381" href="#Footnote_381" class="fnanchor">[381]</a> natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de -outros gravissimos Authores.<a id="FNanchor_382" href="#Footnote_382" class="fnanchor">[382]</a> Ardem os Portuguezes no amor do seu -Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o -receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.<a id="FNanchor_383" href="#Footnote_383" class="fnanchor">[383]</a></p> - -<p>6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar, -e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa -constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio -della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e -padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos; -de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que -disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta<a id="FNanchor_384" href="#Footnote_384" class="fnanchor">[384]</a> ao Rey de -Melinde:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Crês tu que se este nosso ajuntamento</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De Soldados naõ fora Lusitano,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que durara elle tanto obediente</i></span><br> -<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Crês tu que já naõ foraõ levantados</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Contra seu Capitaõ, se os resistira,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Fazendo-se piratas obrigados</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De desesperaçaõ, de fome, de ira?</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Grandemente por certo estaõ provados,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Pois que nenhum trabalho grande os tira</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Daquella Portugueza alta excellencia</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De lealdade firme, e obediencia.</i></span><br> -</p> - -<p>Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave -authoridade.<a id="FNanchor_385" href="#Footnote_385" class="fnanchor">[385]</a> E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes -de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos, -e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy -bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar -o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo -servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo -taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na -correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional, -se observa sempre inviolavel.<a id="FNanchor_386" href="#Footnote_386" class="fnanchor">[386]</a></p> - -<p>7 O heroico titulo de <i>Conquistador</i> he huma das excellencias -felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez. -Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os -Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com -inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o -brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes -da sua execuçaõ residia no sublime<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span> peito, e mente Regia de nossos -antigos Principes o mesmo glorioso projecto.<a id="FNanchor_387" href="#Footnote_387" class="fnanchor">[387]</a> Por este meyo se -vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos; -fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente -propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos -remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas, -com outras muitas Ilhas consideraveis,<a id="FNanchor_388" href="#Footnote_388" class="fnanchor">[388]</a> naõ havendo no mundo -clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem -triunfantes.<a id="FNanchor_389" href="#Footnote_389" class="fnanchor">[389]</a></p> - -<p>8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o -genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ, -e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa -erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles -foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos -muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse -livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas -terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e -Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé -Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> do -Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos -Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:<a id="FNanchor_390" href="#Footnote_390" class="fnanchor">[390]</a> elles saõ -finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que -o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e -piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he -preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.</p> - -<p>9 Nas <i>Sciencias</i> supposto que antigamente floreceraõ nellas -alguns Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,<a id="FNanchor_391" href="#Footnote_391" class="fnanchor">[391]</a> -com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos -mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa -capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das -armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas, -e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a -tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes -valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares, -Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das -sciencias, como lamentou Camões,<a id="FNanchor_392" href="#Footnote_392" class="fnanchor">[392]</a> e Francisco de Sá de Miranda:<a id="FNanchor_393" href="#Footnote_393" class="fnanchor">[393]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Dizem dos nossos passados</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que os mais naõ sabiaõ ler,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Eraõ bons, eraõ ousados,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Eu naõ gabo o naõ saber.</i></span><br> -</p> - -<p>10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se -conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis, -nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares, -porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que -instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey -D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde -continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando -infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou -Camões na. 97. do 3.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Fez primeiro em Coimbra exercitarse</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>O valeroso officio de Minerva,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>E de Helicona as Musas fez passarse</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>A pizar do Mondego a fertil herva.</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Quanto póde de Athenas desejarse,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Aqui as capellas dá tecidas de ouro,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>De Baccaro, e do sempre verde louro.</i></span><br> -</p> - -<p>11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais -evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em -toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados. -Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas -utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o -uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ -primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias -descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito, -a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo,<span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span> e Joseph, Medicos delRey -D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual -abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique -inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ -nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel -de Faria.<a id="FNanchor_394" href="#Footnote_394" class="fnanchor">[394]</a></p> - -<p>12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas -estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais -se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e -nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece -que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia -mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela -precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles -povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da -Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e -Camões.<a id="FNanchor_395" href="#Footnote_395" class="fnanchor">[395]</a></p> - -<p>13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente -Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que -gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas -ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ -fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados por -vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian<a id="FNanchor_396" href="#Footnote_396" class="fnanchor">[396]</a> disse: -<i>Que serian famosos, si non fuessen fumosos</i>; porém naõ póde -deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o -eruditissimo Feijó,<a id="FNanchor_397" href="#Footnote_397" class="fnanchor">[397]</a> toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza -naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> do seu -espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos, -he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ, -que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu -patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo -com maõ generosa, e liberal. <i>Para mi tengo colegido que los Nobles -de Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que -dizen</i>: disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.</p> - -<p>14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros<a id="FNanchor_398" href="#Footnote_398" class="fnanchor">[398]</a> por naçaõ -extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só -estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora -em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da -honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que -nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos -não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura, -brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras -nos introduziraõ;<a id="FNanchor_399" href="#Footnote_399" class="fnanchor">[399]</a> porém este conceito naõ se compadece com o que -ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos -fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com -aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem -os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos -nossos Poetas antigos,<a id="FNanchor_400" href="#Footnote_400" class="fnanchor">[400]</a> dizendo:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Se hum estranho à terra vem,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Dizeis todos em geral:</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Nunca aqui chegou ninguem;</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>E do vosso natural</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Nada vos parece bem.</i></span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Em fim que por natureza,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>E constelaçaõ do clima,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Esta naçaõ Portugueza</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>O nada estrangeiro estima,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>O muito dos seuss despreza.</i></span><br> -</p> - -<p>Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco -Rodrigues Lobo no fim da <i>Egloga 1.</i></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Ouvir qualquer estrangeiro</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Fallar de seus naturaes,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Dá delles taõ bons sinaes,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que o naõ tem por verdadeiro.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Falem-vos n’um natural,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Dizeis faltas que naõ tem;</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Mente o outro para bem,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Nós mentimos para mal.</i></span><br> -</p> - -<p>15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos -proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos -nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e -mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D. -Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos, -que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D. -Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de -traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de -ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.<a id="FNanchor_401" href="#Footnote_401" class="fnanchor">[401]</a> Neste mesmo -reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar -as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ -a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de -Miranda.<a id="FNanchor_402" href="#Footnote_402" class="fnanchor">[402]</a> Concorreo depois a communicaçaõ das<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> gentes de outros -paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos -seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse, -e deplorou Simaõ Machado.<a id="FNanchor_403" href="#Footnote_403" class="fnanchor">[403]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Vellos-heis, disse, à Franceza,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Depois disso à Castelhana,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Hoje andaõ à Bolonheza,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Á manhã à Sevilhana,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>E já nunca à Portugueza.</i></span><br> -</p> - -<p>Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Por isso qualquer profano</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Nos toma para entremez,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Porque fazemos cada anno</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Té no traje Portuguez</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Mais mudanças que hum cigano.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ tomamos isto em grosso,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Vestimos por tantos modos</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Cada hora, que dizer posso,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que naõ temos traje nosso,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Porque o tomamos de todos.</i></span><br> -</p> - -<p>16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e -na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque -dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande -rebuço às pessoas mal intencionadas;<a id="FNanchor_404" href="#Footnote_404" class="fnanchor">[404]</a> porém a boa commodidade, que -este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde -justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que -se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem -a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ -a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar -esta introducçaõ.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Vereis mancebinhos de arte</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Com espada em talabarte,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ ha mais Italiano, etc.</i></span><br> -</p> - -<p>Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o -adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas -compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ -IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D. -Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ -domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste -genero de compostura ha cada dia differentes novidades.</p> - -<p>17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente -conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em -certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo: -<i>Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e -essa parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa -natureza que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli -as gentes dessas qualidades.</i><a id="FNanchor_405" href="#Footnote_405" class="fnanchor">[405]</a> Derretidos de amor nos chamaõ -os Castelhanos; mas este affecto foy, e he sempre exercitado por -aquelle teor, e modo, que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções -decorosamente galantes. As venerações, e cultos do amor candido saõ -taõ antigos em Portugal, que já em tempo dos Cartaginezes havia templo -em Villa Viçosa dedicado a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e -chamavaõ <i>Endovelico</i>, hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os -seus sacrificios, offerecendo no principio de cada mez por victima hum -cordeiro branco,<a id="FNanchor_406" href="#Footnote_406" class="fnanchor">[406]</a> para mostrarem o sincero, e racionavel exercicio -da mais poderosa paixaõ da alma.<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> Daqui se infere, que na chamma -do amor Portuguez naõ ha fumo de torpeza: por isso Valerio Maximo -reprehendeo asperamente a Q. Metelo Pio por delinquir nos excessos -de Venus dentro da Provincia Lusitana, que só amava os furores de -Marte.<a id="FNanchor_407" href="#Footnote_407" class="fnanchor">[407]</a> Assim o deraõ a entender tambem aquelles Cavalleiros da -Ordem Militar dos Namorados, que na celebre batalha de Algibarrota -obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta contemplaçaõ das suas -Damas;<a id="FNanchor_408" href="#Footnote_408" class="fnanchor">[408]</a> e por desafronta de outras passaraõ a Londres no anno de -1390 os doze celebrados Portuguezes, que com gloria, e lustre da patria -ficaraõ vencedores.<a id="FNanchor_409" href="#Footnote_409" class="fnanchor">[409]</a> Foraõ finalmente os Palacios dos Reys sempre -escolas universaes da fina galantaria. Celebravaõ-se saráos, e festins -entre Damas, e galantes nas vodas, nascimentos de Principes, e vindas -de Embaixadores, e a este exemplo o faziaõ os particulares com toda -a modestia. Hoje está muy sincopada, ou, para melhor dizer, extincta -a galantaria;<a id="FNanchor_410" href="#Footnote_410" class="fnanchor">[410]</a> donde o grande Sá de Miranda<a id="FNanchor_411" href="#Footnote_411" class="fnanchor">[411]</a> dizia já no seu -tempo:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Traspozeraõ os amores,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>E deixaraõ o Paço às cegas.</i></span><br> -</p> - -<p>18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes -mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade, -e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os -estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente -se admiraõ, e estranhaõ.<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> As mulheres civis raras vezes sahem de -casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ -acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta, -mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial -genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente -usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje -todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na -formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de -todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ -vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada -desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns -unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro; -porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito -a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de -ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello, -e olhos pretos com graça, e viveza.</p> - -<p>19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho -naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como -violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas -para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos, -adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de -linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos -annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva, -quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho, -chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua -companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma -moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas -della, e<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ -fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia -saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas -varas de panno para o enxoval da noiva.<a id="FNanchor_412" href="#Footnote_412" class="fnanchor">[412]</a> Desta sorte ajudaõ huns -aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes -festas, e banquetes.</p> - -<p>20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os -moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339, -dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos, -e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador) -Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com -toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e -outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do -acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que -dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo -que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta -de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na <i>Monarquia -Lusitana liv. 18. cap. 30.</i> accrescentando: que este costume que -agora pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ -de ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno -cheyo de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella -boa idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando -nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.</p> - -<p>21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade -dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado, -e de<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo -ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa -honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se -recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote -proporcionado aos bens, que lhe competem.</p> - -<p>22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos, -quando vieraõ a Lisboa,<a id="FNanchor_413" href="#Footnote_413" class="fnanchor">[413]</a> introduziraõ o da altenaria, que se -pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente -Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais -proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D. -Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos -em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza -dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da -espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo -as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da -péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes -passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas -publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro -aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo.</p> - -<p>23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o -combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem -do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem -com muito apparato, e magnificencia.<a id="FNanchor_414" href="#Footnote_414" class="fnanchor">[414]</a> Esta he só a occasiaõ em -que os estrangeiros dizem<a id="FNanchor_415" href="#Footnote_415" class="fnanchor">[415]</a> que podem à sua vontade ver as Damas -Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites;<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> mas todavia he este -genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o -horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das -suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes -fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias, -e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a -cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes.</p> - -<p>24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje -anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir -o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo -versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros -laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de -Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ <i>Viola</i>, he propriamente -Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos, -a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com -aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto -da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre -huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que -convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he -com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando -grandeza, vaidade, e desperdicio.</p> - -<p>25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum -grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque -estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a -Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns -sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu -genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores -nossos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p> - -<p>Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.<a id="FNanchor_416" href="#Footnote_416" class="fnanchor">[416]</a></p> - -<p>Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento -do seu proprio.<a id="FNanchor_417" href="#Footnote_417" class="fnanchor">[417]</a></p> - -<p>Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o -seu companheiro.<a id="FNanchor_418" href="#Footnote_418" class="fnanchor">[418]</a></p> - -<p>He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira -gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem -alguma, que ver a outrem com vantagem.<a id="FNanchor_419" href="#Footnote_419" class="fnanchor">[419]</a></p> - -<p>Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e -todos nada para alguem.<a id="FNanchor_420" href="#Footnote_420" class="fnanchor">[420]</a></p> - -<p>Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer -cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba.</p> - -<p>Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos -tormentos.</p> - -<p>Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna.</p> - -<p>Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente -Portugueza.</p> - -<p>A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes -substituio a adoraçaõ pelo decoro.</p> - -<p>Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania.</p> - -<p>Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos, -senaõ à grandeza dos corações.</p> - -<p>Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza.</p> - -<p>Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao -espirito o que outras Nações à copia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span></p> - -<p>A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da -fama, que de sujeita a seus favores.</p> - -<p>A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela -ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ.</p> - -<p>Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles.</p> - -<p>Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito.</p> - -<p>Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a -affabilidade dos Principes.</p> - -<p>Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera -insoportaveis.</p> - -<p>As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas -nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres.</p> - -<p>Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada, -fiando vidas assim como linho.</p> - -<p>Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que -todos.</p> - -<p>He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que -luzaõ os que nascem nella.</p> - -<p>He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir, -tragallo logo, para que naõ luza.</p> - -<p>Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ -achou fundo com o entendimento.</p> - -<p>Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais -huma pedra à fabrica da Igreja.</p> - -<p>Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o -escudo.</p> - -<p>Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para -trazerem no nome a luz do mundo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span></p> - -<p>Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para -outros.</p> - -<p>O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada, -onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento.</p> - -<p>Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado.</p> - -<p>A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer.</p> - -<p>Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança -de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos -sem suspeita aos Authores abaixo citados,<a id="FNanchor_421" href="#Footnote_421" class="fnanchor">[421]</a> e outros, que allega -Hoffman,<a id="FNanchor_422" href="#Footnote_422" class="fnanchor">[422]</a> porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes -o grande Camões em hum dos seus Cantos.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Por mais que da fortuna andem as rodas</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa)</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Honra, valor, e fama gloriosa.</i></span><br> -</p> - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_376" href="#FNanchor_376" class="label">[376]</a> Bentivoglio tom. 4. Relac. p. 86.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_377" href="#FNanchor_377" class="label">[377]</a> Resend. liv. 1. de Antiquit. <i>Neque tunc quidem malos, -neque modo nobis erubescendos.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_378" href="#FNanchor_378" class="label">[378]</a> Diodor. Sicul. lib. 6. cap 9. e Boem. de morib. gent. -lib. 3. cap 25. e Fern. Nun. no Commento à Copla 48. de Juan de Mena.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_379" href="#FNanchor_379" class="label">[379]</a> Justin. lib. 44. Bos. lib. 5. cap 23. e outros apud -Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 14. per totum Justo Lipsio lib. 5. -Epist. 66. Famian. Strad. de bel. Belgico lib 4. pag. mihi 188. -Boter. nas Relaç. p. 2. liv. 4. p. 93. e 101. Joaõ Bautista Moreli na -Reducion, y Restaur. de Port. p. 15. e 183. Garibay tom. 4. liv. 35. -cap. 16. Fr. Anton. de S. Roman. Histor. da India liv. 1. cap. 16. -Sandoval Histor. de Carl. V. part. 2. liv. 22. §. 4. Marian. Hist de -Hesp. tom. 1. liv. 10. cap. 13. Lope da Vega na Arcad. liv. 3. p. 109. -Dos nossos veja-se a Gaspar Estaço nas Antig. de Port cap. 74. Monarq. -Lusit. tom. 3. liv. 10. cap. 15. Bento Pereira na Pallas togata, & -armata clas. 4. p. 319. Fr. Francisc. de Maced. no Propugn. Lusit. -part. 1. cap. 6. p. 146. Far. nos Comm. das Lusiad. p. 245. Fr. Manoel -Hom. no Memor. das arm. cap. 37.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_380" href="#FNanchor_380" class="label">[380]</a> Cam. Cant. 1. est. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_381" href="#FNanchor_381" class="label">[381]</a> Bosio tom. 1. de Signis Eccles. Dei cap. 1. lib 8 -<i>Nulla natio ab orbe condito præter Lusitanicam reperitur, quæ per -tot sæcula civilibus bellis minùs adversùs Reges suos fuerit commota. -Imò nunquam commota adversùs Reges communi decreto constitutos... Hanc -laudem deberi Lusitanica genti, ut Regum suorum studiosissima fuerit... -Catholicis hoc Lusitanis ab orbis exordio divinitùs est concessum, ut -nunquam Reges suos communi decreto constitutos armis petiverint.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_382" href="#FNanchor_382" class="label">[382]</a> Barr. decad. 4. liv. 1. cap. 6. Duart. Nun. na Vida -delRey D. Sancho II. e na Descripç de Port. cap. 85. Monarq. Lusit. -liv. 1. cap. 20. Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 15. n. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_383" href="#FNanchor_383" class="label">[383]</a> Cam. cant. 10. est. 148.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_384" href="#FNanchor_384" class="label">[384]</a> Idem cant. 5. est. 71. e 82. das Lusiad.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_385" href="#FNanchor_385" class="label">[385]</a> Franc. de Monçon Espejo de Princip. lib. 1. cap. 89. -Zurita tom 5. liv. 3. cap 30. Gil Gonçalv. d’Avila Grandez. de Madr. -liv. 4. Marian. Histor. de Hespanh tom. 1. liv. 10. cap. 13. e liv. 12. -cap. 4. Joaõ Baptista Moreli na Reducion, y Restaur. de Port. pag. 39.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_386" href="#FNanchor_386" class="label">[386]</a> Veja-se a Macedo nas Flores de Hespanh. cap. 13. per -totum. Monarq. Lusitan. part. 4. pag. 165. Miguel Leit. nas Miscel. p. -47.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_387" href="#FNanchor_387" class="label">[387]</a> Cam. cant 8. est. 70.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_388" href="#FNanchor_388" class="label">[388]</a> Bos. de Sign. Eccl. tom. 1. lib. 8. sign 32. cap. 1. n -2. 3. 4. <i>Nulla unquam gens, ex quo mundus est productus, tot maria -transmitit, ac tàm longè dissitas terras obivit, ut Lusitanica.... -Nulla unquam gens ab humani generis exordio in tot, ac tàm longè -positis oris sedes fixit, coloniasque deduxit, ut gens Lusitanica. -Videbatur hoc esse Romanorum, vel etiam Macedonum, Phœnicumque: sed -his proculdubiò Lusitani superiores. Romani namque Colonias nullibi -posuerunt, nisi intra Imperii sui confinia, quæ non protendebantur -ultra gradus nonaginta ab Occidente in Orientem; Lusitanorum verò sunt -ultra gradus 250. Nulla unquam natio tàm remota regna, terrasque in -suam potestatem redigit, ut Lusitanica. Plures quidem plura, sed non -adeo longinqua. Igitur Lusitani non modò remotissimas oras adierunt, & -in hoc omnibus præcellunt, sed et in iis domos posuerunt, amplius etiam -subegerunt imperio suo.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_389" href="#FNanchor_389" class="label">[389]</a> Bucanan. e Scaliger. apud Freit. de Just. Imper. pag. -29. 82. e 83. Maced no Olisip. p. 24. est. 60. Cam. cant. 1. est. 8. e -cant. 7. est. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_390" href="#FNanchor_390" class="label">[390]</a> Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 18. n. 12. 13. e -14. Bosio de Sign. Eccles. tom. 1. lib. 4. cap 2. pag. mihi 245. -<i>Toti Lusitanicæ genti debetur hæc laus, ut nobis ad remotissimas -oras, & antiquis invias, facillimus, ac tutus fuerit aditus apertus, -ita ut Christiana in amplissimis regionibus religio longè, latèque -potuerit disseminari.</i> Aubert. Miræus in Politica Ecclesiast. liv. -2. cap. 15. <i>Lusitanis itaque in Indiam commigrantibus, & Imperio -latè propagato, Christi cultus, ac reverentia per vastissimum illum -Asia tractum sese erigere cœpit.</i> Gerard Mercat. in Tabula Lusit. -Marian. tom. 1. liv. 10. cap. 13. Joaõ Pinto Ribeiro, Desengano ao -parecer enganoso Gil Gonçalv. d’Avil. Grandez. de Madrid: <i>Siendo(los -Portuguezes) los primeros hombres, que seminaron en el Indo la semilla -de la palabra Divina, aumentada con el riego de su sangre, haziendo se -mas gloriosos con las palmas del martyrio.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_391" href="#FNanchor_391" class="label">[391]</a> Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_392" href="#FNanchor_392" class="label">[392]</a> Cam. est. 95. do 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_393" href="#FNanchor_393" class="label">[393]</a> Sá de Miranda na epist. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_394" href="#FNanchor_394" class="label">[394]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 8. e no Comm. -do Cant 5. de Cam. est. 25. e Joaõ de Barr. Decad 1. liv 4. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_395" href="#FNanchor_395" class="label">[395]</a> Idem ibid. liv. 3. cap. 5. Camões Cant. 5. est. 77.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_396" href="#FNanchor_396" class="label">[396]</a> Gracian part 3. do Criticon cris. 8</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_397" href="#FNanchor_397" class="label">[397]</a> Feijó tom. 6. do Theatr. Critic. disc. 3. §. 4. n. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_398" href="#FNanchor_398" class="label">[398]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. pag. 86. Gracian. no -Critic. ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_399" href="#FNanchor_399" class="label">[399]</a> D. Franc. Man. na Visita das Font. pag. 218.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_400" href="#FNanchor_400" class="label">[400]</a> Simaõ Machad. na. Comed. de Alfeo p. 72. Veja-se tambem -a Man. de Far. na Font. de Agan. part. 3. Ode 15. est. 11. Franc. Rod. -Lobo Eglog. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_401" href="#FNanchor_401" class="label">[401]</a> Faria no Comm. das Lusiad. Cant. 2. est. 97.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_402" href="#FNanchor_402" class="label">[402]</a> Idem nos Com. das Rim. de Cam. Eglog. 1. est. 2. -Francisc. Nun. de Velasco no Dialog. 11. Sá de Mirand. cart. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_403" href="#FNanchor_403" class="label">[403]</a> Simaõ Machado na Comed. de Alfeo part. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_404" href="#FNanchor_404" class="label">[404]</a> Description de la Ville de Lisbone pag. 92.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_405" href="#FNanchor_405" class="label">[405]</a> Sor. Mar. de la Antigual. 12. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_406" href="#FNanchor_406" class="label">[406]</a> Monarq. Lusit. part. 1. liv. 2. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_407" href="#FNanchor_407" class="label">[407]</a> Valer. Maxim. lib. 9. cap 1. n. 5. <i>En ubi ista? -Non in Græcia, neque in Asia, quarum luxuria severitas ipsa corrumpi -poterat; sed in horrida, et bellicosa Provincia, cum præsertim -acerrimus hostis Sertorius Romanorum exercituum oculos Lusitanis telis -perstringeret.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_408" href="#FNanchor_408" class="label">[408]</a> Fr. Jacinto de Deos no Escudo dos Cavall. §. 59.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_409" href="#FNanchor_409" class="label">[409]</a> Cam. Lusiad. cap. 6. est. 43. & seq. e seu Commentador -Manoel de Faria tom. 2. pag. 113.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_410" href="#FNanchor_410" class="label">[410]</a> D. Franc. de Port. na Arte de Galantaria, e D. Francisc. -Man. na Visit. das Fontes p. 279.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_411" href="#FNanchor_411" class="label">[411]</a> Sá de Miranda cart. 2. est. 76.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_412" href="#FNanchor_412" class="label">[412]</a> Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_413" href="#FNanchor_413" class="label">[413]</a> Figueiroa na Plaça Univ. disc. 12. §. 2. n. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_414" href="#FNanchor_414" class="label">[414]</a> Veja-se a Blauteau no Vocab. verb. <i>Tourear</i>, e a -Colmenar. nas Delicias de Portug. pag. 857.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_415" href="#FNanchor_415" class="label">[415]</a> Memoires pour un Voyageur tom. 2. p. 131.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_416" href="#FNanchor_416" class="label">[416]</a> Far. tom. 3 da Asia p 1. c. 1. n. 15.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_417" href="#FNanchor_417" class="label">[417]</a> Ibid. tom. 1. c. 5. parr. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_418" href="#FNanchor_418" class="label">[418]</a> Ibid. cap. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_419" href="#FNanchor_419" class="label">[419]</a> Idem tom. 1. da Asia part. 4. c. 1. n. 2</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_420" href="#FNanchor_420" class="label">[420]</a> Ibid. part. 2. c. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_421" href="#FNanchor_421" class="label">[421]</a> Justo Lipsio na epist. 96. do liv. 5. Andr. Scot. na -Bibliotheca Hispanica tom. 2. clas. 9. & tom. 3. clas. 2. Bosio tom. -3. de Sign. Eccles. lib. 8. cap. 1. Cæsar de Bello Gallico lib. 3. -Fr. Jeronym. Rom. Republic. do mund. liv. 4. cap. 18. Magin. in nova -Geograp. §. <i>Portugalenses</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_422" href="#FNanchor_422" class="label">[422]</a> Hoffman. Diccion. verb. <i>Portugallia</i>. Veja-se -tambem a Mons. de la Hontan, Mervelleux, Davity, Maffeu Historia da -India, Sanson, Moreri, Coronelli, e outros muitos, que por brevidade -deixo de allegar.</p> - -</div></div> -<hr class="tb"> -<p><span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span></p> -<p class="center xbig">FIM DA PRIMEIRA PARTE.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> - - - -<p class="center"><span class="big">MAPPA</span><br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL.</span></p> - - -<p class="center big">PARTE II.</p> -<hr class="tb"> - -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_I">CAPITULO I.<br><span class="small"><i>Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Entramos nesta segunda parte do nosso Mappa com a laboriosa -averiguaçaõ de hum dos pontos historicos mais difficil do seculo -primeiro Lusitanico. Os Antiquarios Hespanhoes, e commummente os doutos -convem uniformes em que dos descendentes de Jafet, terceiro filho -do Patriarca Noé, (entre os quaes se repartio<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span> a povoaçaõ de toda a -Europa, e parte da Asia depois do universal diluvio,) coubera a Tubal, -seu quinto filho, plantar, e propagar Hespanha.</p> - -<p>2 Modernamente D. Francisco Xavier da Garma<a id="FNanchor_423" href="#Footnote_423" class="fnanchor">[423]</a> pretendeo excluillo do -continente Hespanhol, substituindo em seu lugar por primeiro Povoador -delle a Tharsis, sobrinho de Tubal, filho de seu irmaõ Javan, e neto -de Jafet: porém esta opinião já seguida antecedentemente por outros, -desfaz com razões mais provaveis o erudito Padre Joseph Moret da -Companhia de Jesus.<a id="FNanchor_424" href="#Footnote_424" class="fnanchor">[424]</a></p> - -<p>3 Assentando pois que os Hespanhoes, e por consequencia os Lusitanos -se originaõ de Tubal, vista a grande authoridade dos Escritores, que -o affirmaõ,<a id="FNanchor_425" href="#Footnote_425" class="fnanchor">[425]</a> nasce daqui hum reparo, e vem a ser: que dizendo -Josefo,<a id="FNanchor_426" href="#Footnote_426" class="fnanchor">[426]</a> procederem os Iberos de Tubal, e interpretando S. -Jeronymo, Santo Isidoro,<a id="FNanchor_427" href="#Footnote_427" class="fnanchor">[427]</a> e outros aos Iberos pelos Hespanhoes, -todavia como na Asia se achaõ tambem semelhantes povos Iberos desde -aquelles primeiros tempos, duvida-se justamente quaes devem ser -reputados por primarios descendentes de Tubal?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span></p> - -<p>4 Os Authores, que se persuadem fora o mundo povoado pouco a pouco, e -principiara do Oriente, estendendo-se os povos à medida, que a gente -crescia, dizem, que a Iberia Hespanhola, ou Occidental, foy Colonia dos -Iberos Asiaticos.<a id="FNanchor_428" href="#Footnote_428" class="fnanchor">[428]</a> A outros porém se lhes faz mais verosimel que -os Hespanhoes levassem à Asia por transmigraçaõ o nome de Iberos;<a id="FNanchor_429" href="#Footnote_429" class="fnanchor">[429]</a> -donde Rufo Festo Avieno veyo a dizer:<a id="FNanchor_430" href="#Footnote_430" class="fnanchor">[430]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>......Asper Iberus</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Hic agit: hic olim Tyrrhenide pulsus ab ora</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Cespitis Eoi tenuit sola.</i></span><br> -</p> - -<p>5 Esta opiniaõ parece que se conforma mais com o sentido natural do -Genesis, que no capitulo 10. dá a entender como os primeiros netos -de Noé logo se dividiraõ a povoar o mundo; e cabendo à familia de -Tubal lançar os alicerses, e estabelecer os limites de Hespanha, -veyo positivamente a ella, ou fosse por mar em pequenas embarcações, -passando da Armenia ao Egypto, do Egypto a Africa, e daqui atravessando -o Estreito de Gibraltar até o Promontorio, que depois se chamou Sacro; -ou fosse por terra, caminhando do Egypto a Jerusalem pela Natolia, -depois penetrando a Tartaria, Hungria, Alemanha, França, Hespanha, e -Portugal, sem lhe ser necessario por este caminho passar braço algum de -mar consideravel; ou finalmente transitando por outra qualquer via, que -lhe destinasse a Providencia, para soccorrer a necessidade da segunda -povoaçaõ do genero humano com viagem, que<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span> fosse prudente, e naõ -temeraria, como bem adverte o erudito Yañes.</p> - -<p>6 Collocado já Tubal, e sua familia nestas partes Occidentaes da Europa -pelos annos 150 depois do diluvio, conforme a melhor Chronologia,<a id="FNanchor_431" href="#Footnote_431" class="fnanchor">[431]</a> -resta saber em que parte da Hespanha fez o seu primeiro assento? -Nisto, por mais que se intente indagar, naõ póde haver certeza; porque -o grande Abulense, julgando ser esta entrada pelos montes Pyrineos, -attribue a Pamplona a primazia das fundações de Tubal em todo este -tracto Hispanico,<a id="FNanchor_432" href="#Footnote_432" class="fnanchor">[432]</a> Floriaõ do Campo a Andaluzia,<a id="FNanchor_433" href="#Footnote_433" class="fnanchor">[433]</a> Martim -de Viciana a Valença,<a id="FNanchor_434" href="#Footnote_434" class="fnanchor">[434]</a> Joseph Moret a Tafalla,<a id="FNanchor_435" href="#Footnote_435" class="fnanchor">[435]</a> outros a -Toledo,<a id="FNanchor_436" href="#Footnote_436" class="fnanchor">[436]</a> e Fr. Bernardo de Brito, Heitor Pinto, e outros muitos -a Setubal em Portugal.<a id="FNanchor_437" href="#Footnote_437" class="fnanchor">[437]</a> Mais facil será crer (diz Manoel de -Faria judiciosamente) ter sido Tubal fundador de muitas povoações -na Hespanha, que o assegurar a primazia de alguma entre todas;<a id="FNanchor_438" href="#Footnote_438" class="fnanchor">[438]</a> -e deste parecer foy o erudito Malvenda, que já allegámos. Todavia o -insigne Commentador de Virgilio Francisco de Lacerda, allegado por -Luiz Marinho de Azevedo, diz, que da Lusitania sahiraõ os primeiros -fundadores de Hespanha<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span><a id="FNanchor_439" href="#Footnote_439" class="fnanchor">[439]</a> a estabelecer povoações em varias partes -della.</p> - -<p>7 O certo he, que dos tempos immediatos à primitiva povoaçaõ de -Portugal, até que as armas Cartaginezas, e Romanas abriraõ o caminho à -communicaçaõ das gentes occidentaes da Europa, naõ pode a Historia dar -hum passo, senaõ às escuras, e com a vehemente suspeita de claudicar na -verdade; porque alguns Escritores fundados em documentos ou apocrifos, -ou de pouca authoridade, e exame, constituiraõ em Hespanha, e Portugal -com demaziada, e incauta crença o governo de alguns Reys duvidosos, -como foy Ibero, Jubalda, Briga, Beto, e outros, de que naõ ha historia -verdadeira. Sómente consta, que havia em nossas terras alguns Regulos, -como foy Lucinio, Culca, Gorgoris, Abides, Argantonio, Theron, -Mandonio, e alguns outros, de que fazem memoria Authores veridicos.<a id="FNanchor_440" href="#Footnote_440" class="fnanchor">[440]</a></p> - -<p>8 Tambem temos por certo, que naquelles principios todo este nosso -Continente estava occupado de varios povos, cada hum com seu nome, -costumes, e usos differentes, formando distinctas especies de pequenas -Republicas com suas leys, especialmente desde o governo de Gorgoris, -ou Gorgaris. Naõ será relaçaõ importuna communicarmos aqui hum breve -monumento destes povos primitivos para melhor intelligencia da Historia.</p> - -<p>9 <i>Abobricenses</i>; ou <i>Aobricenses</i>. Habitavaõ pouco distantes -de Chaves.<a id="FNanchor_441" href="#Footnote_441" class="fnanchor">[441]</a> A Hoffmani lhe parece<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span> que eraõ os da Villa do Conde, e -a Joaõ de Barros os da Nobrega, ou Valdevez.</p> - -<p>10 <i>Amaienses.</i> Eraõ povos da Lusitania.<a id="FNanchor_442" href="#Footnote_442" class="fnanchor">[442]</a></p> - -<p>11 <i>Amfilocos.</i> Habitavaõ na Cidade Amfiloquia, que estava na -Provincia de Galiza, a que hoje chamaõ Orente, a qual no tempo dos -Romanos veyo a pertencer à Chancellaria de Braga.<a id="FNanchor_443" href="#Footnote_443" class="fnanchor">[443]</a> Da vida de -Alexandre Magno escrita pelo segundo Xenofonte Arriano Nicomediense, -consta que os Amfilocos naõ estavaõ muy distantes da Ambracia,<a id="FNanchor_444" href="#Footnote_444" class="fnanchor">[444]</a> -que, conforme alguns,<a id="FNanchor_445" href="#Footnote_445" class="fnanchor">[445]</a> foy Barcellos. Ortelio colloca os Amfilocos -entre os Calaicos, e os Bracaros.</p> - -<p>12 <i>Ancodeos.</i> Povos nacionaes, que viviaõ nas visinhanças do -monte Gerez.<a id="FNanchor_446" href="#Footnote_446" class="fnanchor">[446]</a></p> - -<p>13 <i>Arevácos.</i> Procediaõ dos Celtiberos, e eraõ os ultimos povos, -em que se terminava Galiza junto do Douro.<a id="FNanchor_447" href="#Footnote_447" class="fnanchor">[447]</a></p> - -<p>14 <i>Artabros</i>, que depois se chamaraõ <i>Arrotebras</i>, occupavaõ -desde o Promontorio Celtico até os Astures.<a id="FNanchor_448" href="#Footnote_448" class="fnanchor">[448]</a></p> - -<p>15 <i>Astures.</i> Occupavaõ a Provincia de Tras os Montes, e eraõ -notaveis mineiros.<a id="FNanchor_449" href="#Footnote_449" class="fnanchor">[449]</a></p> - -<p>16 <i>Barbaros</i>, ou <i>Sarrios.</i> Habitavaõ por toda a serra da -Arrabida até Lisboa, ou todo aquelle tracto de terra, que fica entre o -Tejo, e Setubal. Viviaõ sem ley, sem policia, e com pouca, ou nenhuma -Religiaõ. Sustentavaõ-se dos frutos, que a terra produzia, e da caça, -que na montanha apanhavaõ. Este modo de viver barbaro, e agreste os -fazia taõ rigidos, que naõ só tiveraõ sanguinolentas<span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span> guerras com -os Celtas seus visinhos, mas fizeraõ huma das mayores resistencias, -que experimentou Julio Cesar na conquista da Lusitania. No anno 501 -antes de Christo, vendo que a patria os naõ podia manter com a sua -multiplicaçaõ, determinaraõ que todos os moços até à idade de quarenta -annos fossem buscar outras terras desoccupadas, em que viver; e depois -de varios transes foraõ cultivar muita parte da Beira, principalmente -aquellas terras, que se extendem por algumas leguas à roda do rio -Soberbo.<a id="FNanchor_450" href="#Footnote_450" class="fnanchor">[450]</a></p> - -<p>17 <i>Bardulos</i>, ou <i>Vardulos.</i> Habitavaõ onde agora se chama -Guipuscoa. Plinio diz, que os Bardulos eraõ os mesmos, que os Turdulos -da Lusitania. Baudrand diz, que eraõ diversos huns dos outros.</p> - -<p>18 <i>Belitanos.</i> O mesmo que Lusitanos.</p> - -<p>19 <i>Berones.</i> Querem alguns<a id="FNanchor_451" href="#Footnote_451" class="fnanchor">[451]</a> conjecturar que habitavaõ na -Provincia da Beira, sendo que o Padre Argote<a id="FNanchor_452" href="#Footnote_452" class="fnanchor">[452]</a> naõ convem nisso. -Baudrand, e Hoffmani dizem, que eraõ povos sujeitos aos Celtiberos, e a -sua principal Cidade era onde hoje está Trejo.</p> - -<p>20 <i>Bibalos.</i> Conforme Joaõ de Barros<a id="FNanchor_453" href="#Footnote_453" class="fnanchor">[453]</a> habitavaõ em Val de -Bouro na Provincia do Minho. O Padre Argote os situa nas visinhanças -de Orense, e fóra do territorio de Portugal;<a id="FNanchor_454" href="#Footnote_454" class="fnanchor">[454]</a> porém Resende he de -parecer que a palavra <i>Bibalos</i> naõ era nome de povos, mas de -Cidade,<a id="FNanchor_455" href="#Footnote_455" class="fnanchor">[455]</a> porque assim o diz expressamente a inscripçaõ da ponte de -Chaves sobre o Tamega, na qual estaõ gravados os nomes dos povos de -todas aquellas Comarcas, que concorreraõ para trabalharem nella: mas -nisto achamos pouca razaõ a Resende; porque ainda que a tal inscripçaõ<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span> -diga <i>Civitates X.</i> he sem duvida que as Cidades naõ haviaõ de ir -trabalhar na ponte, mas sim os moradores das taes Cidades, os quaes -pela mayor parte seriaõ os daquellas visinhanças de Chaves, como bem -adverte Frey Bernardo de Brito.<a id="FNanchor_456" href="#Footnote_456" class="fnanchor">[456]</a> Finalmente Baudrand diz, que -estiveraõ situados junto do rio Lima.</p> - -<p>21 <i>Bracaros.</i> Ficavaõ estes povos na Provincia do Minho, e era -nome generico, que abraçava outros muitos povos particulares,<a id="FNanchor_457" href="#Footnote_457" class="fnanchor">[457]</a> e -comprehendia povoações muito notaveis, como era Braga, Porto, Ponte de -Lima, Neiva, Caminha, e outros.<a id="FNanchor_458" href="#Footnote_458" class="fnanchor">[458]</a></p> - -<p>22 <i>Calaicos.</i> Eraõ de duas especies, Bracarios, e Lucenses: os -primeiros existiaõ na Provincia de Tras os Montes, os segundos no -Minho, e Reino de Galiza, onde hoje he Compostella.</p> - -<p>23 <i>Callenses.</i> Habitavaõ na Cidade de Gaya fronteira ao Porto.</p> - -<p>24 <i>Caperenses.</i> Lembraõ-se Resende, e Baudrand por boas -conjecturas de existirem estes povos na Estremadura Lusitana entre -Merida, e Placencia.<a id="FNanchor_459" href="#Footnote_459" class="fnanchor">[459]</a></p> - -<p>25 <i>Celerinos.</i> Eraõ os povos, que habitavaõ na Cidade Celiobriga, -a qual, conforme a indagaçaõ do Padre Argote, ficava ou em Celorico -de Basto, ou nas suas visinhanças.<a id="FNanchor_460" href="#Footnote_460" class="fnanchor">[460]</a> Baudrand, allegando a Sanson, -julga que os Celerinos eraõ os habitadores de Barcellos. Na ponte de -Chaves, mandada fazer pelo Imperador Vespasiano, vem assinados os -Celerinos, os quaes eraõ povos daquella Comarca de Chaves, parte dos -quaes ficava em Portugal, parte em Galiza.</p> - -<p>26 <i>Celtas.</i> Existiaõ na Provincia do Alentejo,<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span> e confinavaõ da -parte do Meyo dia com os Turdetanos, da banda do Norte com o Tejo: pelo -Occidente lhe ficava a ribeira de Canha, tendo tambem por visinhos -os Barbaros da Arrabida. Eraõ as suas principaes povoações Elvas, -Estremoz, Villa Viçosa, e Evora. Havia na Andaluzia outros Celtas, -porém diversos destes.<a id="FNanchor_461" href="#Footnote_461" class="fnanchor">[461]</a></p> - -<p>27 <i>Celtiberos.</i> Eraõ povos, que se originaraõ dos Celtas do -Alentejo, os quaes passando-se para Andaluzia, e confederando-se com -os que habitavaõ pelas ribeiras do Ebro, deraõ origem aos Celtiberos, -gente muy conhecida em toda a Hespanha por valerosa, e que fizeraõ -forte resistencia aos Romanos, e Cartaginezes. Delles fallaõ muitos dos -Authores antigos allegados.<a id="FNanchor_462" href="#Footnote_462" class="fnanchor">[462]</a></p> - -<p>28 <i>Cerenecos.</i> Povos, que habitavaõ onde hoje chamaõ Concelho de -Thuyas junto a Canavezes.<a id="FNanchor_463" href="#Footnote_463" class="fnanchor">[463]</a></p> - -<p>29 <i>Cinesios.</i> Viviaõ junto dos Ostidanienses.</p> - -<p>30 <i>Colarnos.</i> Eraõ visinhos dos Turdulos modernos, e occupavaõ -aquella parte da Estremadura, que está entre os rios Tejo, e Odivor.</p> - -<p>31 <i>Curetes.</i> Habitavaõ no Algarve, fundaraõ Sylves, e vieraõ a -Hespanha quasi no tempo de Tubal.<a id="FNanchor_464" href="#Footnote_464" class="fnanchor">[464]</a></p> - -<p>32 <i>Grayos</i>, ou <i>Gravios.</i> Tinhaõ sua habitaçaõ na Provincia -do Minho, e nesta mesma Provincia viverão os <i>Gronios</i>.<a id="FNanchor_465" href="#Footnote_465" class="fnanchor">[465]</a> -Alguns Historiadores querem que os primitivos Grayos, e todos os mais -povoadores desta Provincia daquelles primeiros seculos fossem de naçaõ -Grega;<a id="FNanchor_466" href="#Footnote_466" class="fnanchor">[466]</a> porém temos por mais provavel, que todas, quantas noticias -se nos offerecem nas Historias de fundações Gregas, e nomes<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span> Gregos -anteriores ao ultimo anno do reinado de Argantonio, saõ fabulosas; -pois consta de Herodoro, o mais antigo Historiador daquelles tempos, -serem os Fenices os primeiros Gregos, que emprenderaõ de proposito o -descubrimento de novas terras, até chegarem a Hespanha em tempo, que -ainda reinava Argantonio, que foy 543 annos antes de Christo.<a id="FNanchor_467" href="#Footnote_467" class="fnanchor">[467]</a></p> - -<p>33 <i>Herminios.</i> Tinhaõ sua habitaçaõ na serra da Estrella da -Provincia da Beira.<a id="FNanchor_468" href="#Footnote_468" class="fnanchor">[468]</a></p> - -<p>34 <i>Ibéros.</i> Este nome era generico a todos os Hespanhoes.</p> - -<p>35 <i>Labricanos.</i> Residiaõ junto das ribeiras do Ave por aquella -parte, em que se lança no mar pela Villa do Conde.<a id="FNanchor_469" href="#Footnote_469" class="fnanchor">[469]</a></p> - -<p>36 <i>Lancienses.</i> Estavaõ naquellas partes da Provincia da Beira, -que se extende do Norte para o Meyo dia, do Ponsul até o Tejo; e do -Oriente ao Occidente, do Elja até o Zezere.</p> - -<p>37 <i>Limicos.</i> Viviaõ junto das margens do Lima.<a id="FNanchor_470" href="#Footnote_470" class="fnanchor">[470]</a></p> - -<p>38 <i>Luancos</i>, ou <i>Lubenos</i>. Habitavaõ na Provincia do Minho, -mas ignora-se a paragem certa.</p> - -<p>39 <i>Lusos</i> ou <i>Lusitanos</i>. Possuiaõ terras entre o Tejo, e -o Douro, e occupavaõ tambem todo o lado Occidental, que corre desde -a foz do Douro até o Promontorio Celtico, e pelo lado Septentrional -desde este Promontorio até adiante da Corunha. O nome de Lusitanos era -universal, porque comprehendia outros muitos povos, como Celtiberos, -Turdulos, Vetones, &c.</p> - -<p>40 <i>Narbassos.</i> Eraõ visinhos dos Vacceos, e viviaõ<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span> junto a -Freixo de Espadacinta.<a id="FNanchor_471" href="#Footnote_471" class="fnanchor">[471]</a></p> - -<p>41 <i>Nemetates.</i> Existiaõ na Provincia de Tras os Montes desde -Bragança até o monte Gerez, separando-os de Galiza o rio Lima. No Mappa -de Ortelio os vemos situados junto de Araduca, passando-lhe pelo meyo o -Tamega.</p> - -<p>42 <i>Ostidanienses.</i> Occupavaõ aquelle angulo de terra, que -se termina no Cabo de S. Vicente pelo espaço naõ mais que de duas -leguas.<a id="FNanchor_472" href="#Footnote_472" class="fnanchor">[472]</a></p> - -<p>43 <i>Pesures.</i> Estes povos eraõ pouco conhecidos; por isso na -inscripçaõ da ponte de Alcantara estaõ no ultimo lugar. Tinhaõ a sua -habitação na Covilhã, e Castellobranco, e parte da serra da Estrella. -Naõ saõ os mesmos, a que Resende chama <i>Meidobrigenses</i>, ou -<i>Plumbarios.</i><a id="FNanchor_473" href="#Footnote_473" class="fnanchor">[473]</a> O Padre Bluteau diz, que elles saõ oriundos dos -antigos Celtas, e que o nome Pesures era ignominioso, pois significava -gente cobarde, e nisto concorda com a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_474" href="#Footnote_474" class="fnanchor">[474]</a></p> - -<p>44 <i>Sarrios.</i> Eraõ os barbaros da Arrabida.</p> - -<p>45 <i>Seurbos.</i> Povos, que viviaõ pouco acima de Braga.</p> - -<p>46 <i>Tamacanos.</i> Viviaõ nas margens do Tamega pelo sitio, onde elle -entra no Douro.<a id="FNanchor_475" href="#Footnote_475" class="fnanchor">[475]</a></p> - -<p>47 <i>Transcudanos.</i> Pelos annos de 560 pouco mais, ou menos antes -de Christo, deixando alguns dos Turdulos antigos a costa maritima, -em que viviaõ, foraõ habitar aquelle espaço de terra, que se extende -de Norte a Sul entre os rios Coa, e Agueda; e pela situaçaõ, em que -ficaraõ além do Coa, se vieraõ a chamar povos Transcudanos.<a id="FNanchor_476" href="#Footnote_476" class="fnanchor">[476]</a></p> - -<p>48 <i>Turdetanos.</i> Possuiaõ a mayor parte do Algarve,<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span> e do -Alentejo, e era tudo o que vay de Béja até Sines. Foraõ reputados por -insignes guerreiros até à segunda guerra Punica. Eraõ engenhosos, -tinhaõ politica, e amavaõ as sciencias com fruto, e cultura. -Prezavaõ-se de ter leys escritas em verso, e todas as suas antiguidades -conservadas em livros de seis mil annos anteriores; mas cada anno -constava só de tres mezes. Estrabo os julga taõ opulentos, e ricos, que -escreve tinhaõ até nas estrebarias argolas de prata.<a id="FNanchor_477" href="#Footnote_477" class="fnanchor">[477]</a></p> - -<p>49 <i>Turdulos</i>. Eraõ de duas especies, huns antigos, outros -modernos. Os Turdulos antigos foy a gente mais veterana, e nobre da -Lusitania: tinhaõ por domicilio todas as terras, que estaõ do Norte ao -Meyo dia entre o Tejo, e o Douro, das quaes eraõ as principaes Lisboa, -Santarem, Alfeizeraõ, Coimbra, Leiria, Aveiro, Lamego, e Viseu. Os -Turdulos modernos tinhaõ o Tejo pela parte do Norte: pelo Meyo dia -confinavaõ com os Celtas, e nos costumes pouco se differençavaõ huns -dos outros. Christovaõ Cellario<a id="FNanchor_478" href="#Footnote_478" class="fnanchor">[478]</a> situa os Turdulos no Alentejo, e -em parte do Algarve com pouca distancia dos Turdetanos. Samuel Bocharto -confunde huns com outros.<a id="FNanchor_479" href="#Footnote_479" class="fnanchor">[479]</a></p> - -<p>50 <i>Turolos</i>. Habitavaõ nas margens do rio Minho da parte -esquerda, onde está a Freguezia de S. Martinho de Lanhelas.<a id="FNanchor_480" href="#Footnote_480" class="fnanchor">[480]</a></p> - -<p>51 <i>Tyrios</i>. Eraõ povos, que antes dos Cartaginenses vieraõ com os -Celtas acommetter aos Iberos.<a id="FNanchor_481" href="#Footnote_481" class="fnanchor">[481]</a></p> - -<p>52 <i>Vacceos</i>. Tinhaõ a sua habitação entre Coimbra, e o Porto, e -tomaraõ o nome do rio Vouga.<a id="FNanchor_482" href="#Footnote_482" class="fnanchor">[482]</a></p> - -<p>53 <i>Vetones</i>. Viviaõ junto do Tejo na Estremadura entre os povos -da Lusitania.<a id="FNanchor_483" href="#Footnote_483" class="fnanchor">[483]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span></p> - -<p>54 Todos estes povos, ou os mais delles, independentes huns dos outros -se governavaõ conforme as leys, e costumes particulares, que tinhaõ. -Nas guerras elegiaõ seus Capitães, a que obedeciaõ com tanta efficacia, -que desprezavaõ a vida, se acaso aquelles morriaõ na batalha. -Armavaõ-se regularmente com duas espadas, huma comprida, outra mais -curta, ao modo das nossas espadas, e adagas, que ainda alcançámos ver. -Os naturaes da serra da Estrella foraõ os primeiros, que a inventaraõ; -donde veyo a cantar o nosso Botelho:<a id="FNanchor_484" href="#Footnote_484" class="fnanchor">[484]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Van muchos del confin, y heroico assiento,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que ilustra la altivez del monte Herminio:</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>La espada Lusitana, que es su invento,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Manejaban con fuerte predominio.</i></span><br> -</p> - -<p>55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais -propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ <i>Cetras</i>, -segundo explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e -batendo huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.<a id="FNanchor_485" href="#Footnote_485" class="fnanchor">[485]</a> -Assim cantou delles Silio Italico:<a id="FNanchor_486" href="#Footnote_486" class="fnanchor">[486]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">- - - - - -<i>Misit dives Gallæcia pubem,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Nunc pedis alterno percussa verbere terra,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras.</i></span><br> -</p> - -<p>Em parte o quiz imitar Botelho:<a id="FNanchor_487" href="#Footnote_487" class="fnanchor">[487]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_234">[Pg 234]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Vinieron los Calaicos, a quien lavan</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Las dos orlas del Miño difundido,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Y sus antiguas cetras los muravan,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que servieron un tiempo a su alarido.</i></span><br> -</p> - -<p>Em dizer este Poeta que as cetras, ou escudos os muravaõ, ou cubriaõ -todos, naõ se conforma com a advertencia critica de Vasconcellos.</p> - -<p>56 Solemnizavaõ com louvores, e festas, a que chamavaõ -<i>Gymnopodia</i>, aos que morriaõ pelejando;<a id="FNanchor_488" href="#Footnote_488" class="fnanchor">[488]</a> e nas mayores -solemnidades faziaõ o sacrificio das <i>Hecatombas</i>, que era matar -cem animaes de huma mesma especie.<a id="FNanchor_489" href="#Footnote_489" class="fnanchor">[489]</a> Adoravaõ a Marte, Minerva, -e Hercules; donde parece, (diz de la Clede)<a id="FNanchor_490" href="#Footnote_490" class="fnanchor">[490]</a> que a veneraçaõ, e -culto, que elles davaõ a Hercules, póde servir de huma prova da vinda, -que este Heroe fez a Portugal, para livrar muitos de seus habitadores -da oppressaõ de varios tyrannos, e fundar aquelle famoso Templo no -Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro, onde se adorava o Sol -com ritos, e ceremonias Egypciacas, e donde o mesmo Hercules se mandou -sepultar.</p> - -<p>57 Áquellas tres divindades fabulosas offereciaõ em sacrificio as -mãos direitas dos seus prizioneiros de guerra, que elles cortavaõ ao -pé dos altares; e da observaçaõ, que faziaõ nas abertas entranhas dos -mesmos inimigos, prognosticavaõ bons, ou máos successos para as suas -batalhas.<a id="FNanchor_491" href="#Footnote_491" class="fnanchor">[491]</a></p> - -<p>58 Nas doenças, e enfermidades servia de Medico todo aquelle, que tinha -experiencia do remedio prestante, e concernente à queixa. Para isso -costumavaõ expôr os enfermos nas portas das casas, ou nos transitos -das ruas, para que o passageiro<span class="pagenum" id="Page_235">[Pg 235]</span> applicasse o que soubesse, e fosse -opportuno pela observaçaõ, que tivesse feito em outra semelhante -molestia;<a id="FNanchor_492" href="#Footnote_492" class="fnanchor">[492]</a> e destas bem sortidas experiencias sacou depois -Hypocrates documentos, e aforismos admiraveis para a sua medicina.<a id="FNanchor_493" href="#Footnote_493" class="fnanchor">[493]</a></p> - -<p>59 Com estes, e outros usos viviaõ os mais dos Lusitanos na sua -primitiva liberdade, quando acontecendo aquella extraordinaria secca, -e fome, de que faz mençaõ Justino, e as Historias de Hespanha,<a id="FNanchor_494" href="#Footnote_494" class="fnanchor">[494]</a> -poz em incrivel consternaçaõ toda a terra. Despovoou-se o Alentejo, o -Algarve, e parte da Estremadura, e foraõ seus habitadores refugiarse -nas serras da Beira, e Minho, como mais ferteis, e frescas; outros -foraõ para Italia: taõ grande, e continuada foy a calamidade, que -padeciaõ, posto que Vaseu duvída muito della.<a id="FNanchor_495" href="#Footnote_495" class="fnanchor">[495]</a></p> - -<p>60 Applacou finalmente o Ceo sua ira, e restituidos à patria os -ausentes, e saudosos de tanto tempo, vieraõ tambem entre os nacionaes -muitos dos Gallos Celtas. Depois acontecendo pelos annos 1380 do -diluvio, conforme Vaseu, aquelle memoravel incendio nos montes -Pyreneos, que penetrando até as cavernas da terra, causou horrorosos -tremores, e fez descubrir muitas minas de ouro, e prata,<a id="FNanchor_496" href="#Footnote_496" class="fnanchor">[496]</a> -divulgou-se a noticia desta fluente riqueza, a qual com a vehemencia da -sua virtude attrahindo de taõ longe a ambiçaõ dos Fenices, foy causa -de expedirem promptamente huma grosta armada, que aportou na Ilha de -Cadiz, e daqui vindo costeando as<span class="pagenum" id="Page_236">[Pg 236]</span> margens maritimas das nossas terras, -ancorou no Algarve.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_423" href="#FNanchor_423" class="label">[423]</a> Garma no Theatr. Univ. de Hesp. tom. 1. c. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_424" href="#FNanchor_424" class="label">[424]</a> Moret, Anales de Navarra, tom. 1. no Append. §. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_425" href="#FNanchor_425" class="label">[425]</a> Strabo, Anselmo Laurunense, Lyra, Abulens. Delrio, -Alapide, e outros apud Malvend. de Anti-Christo lib. 6. cap. 22. -Genebrad. Chronol. lib. 1. p. 31. Arias Montan. in Isai 66. v. 19. -Villalp. in cap. 27. Ezech. v. 13. Sá ibid. Heitor Pint. ib. c. 38. v. -2. Torniello, Annales Sacri ad ann. 1931. n. 22. Pineda lib. 4. de reb. -Salom. cap. 15. § 7. Bent Per. in Genes. tom. 2. liv. 15. Marin. Sicul. -lib. 6. cap. 1. Vasæus, Chronic. Hisp. tom. 1. ann. 143. Munster, -Cosmograf. liv. 2. p. 56. D. Rodr. Arceb. de Toled. liv. 1. cap. 3. -Flor. do Camp. liv. 1. cap. 4. Garibay tom. 1. liv. 4. cap 4. Escolan. -Hist. de Valenç. liv. 1. cap. 4. Henao, Antig. de Cantabr. liv. 1. c. -1. Pined. Monarq. Eccles. liv. 1. cap. 18. §. 4. Matut. Prosap. de -Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. Aldret Orig. da ling. Castelh. liv. 2. -cap. 15. Clericat. etá 2. del mondo pag. 7. Marian. liv. 1. c. 1. c. 7. -Kircher de Arc. Noé cap. 9. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap -1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_426" href="#FNanchor_426" class="label">[426]</a> Jofeph. de Antiq. lib. 1. cap. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_427" href="#FNanchor_427" class="label">[427]</a> D. Hieron quæst. Hebraic. in Genes. 10. & in cap. 32. -Ezech. S. Isidor. lib. 9. cap. 2. Origin. Euseb. lib. 9. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_428" href="#FNanchor_428" class="label">[428]</a> Melancthon in Chron. allegado por Joaõ Guilherme -Stukio nos Scholios in Periplum Pont. Euxini de Arriano pag. 32. e -144. Plin. Strab. Marc. Varr. Arias Montan. apud Hoffman. in Diction. -verb. <i>Thubal</i>, & <i>Iberus</i>. Torniel. ad ann. 1931. ainda que -duvidoso. Marian. liv. 1 c. 7. Volaterr. liv. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_429" href="#FNanchor_429" class="label">[429]</a> Moret, Anales de Navarra, tom. 1. liv. l. cap. 1. -Nicefor. liv.8. cap 34. Yañes España en la S. Bibl. part. 1. cap. 2. n. -5. e 6. e cap. 3. n. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_430" href="#FNanchor_430" class="label">[430]</a> Avien. in Descript. Orbis vers. 882.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_431" href="#FNanchor_431" class="label">[431]</a> Far. tom. 1. da Europ. Port. part. 1. cap. 1. n. 5. -Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap. 3. n. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_432" href="#FNanchor_432" class="label">[432]</a> Abulens. super Genes. cap. 10. <i>Tubal, à quo Hispani, -iste sedem posuit in descensu montis Pyrinæi apud locum, qui dicitur -Pampilona.</i> O mesmo repete sobre o Prologo da Biblia, que se chama -<i>Epistola ad Paulinum</i>, cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_433" href="#FNanchor_433" class="label">[433]</a> Flor. do Camp. liv. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_434" href="#FNanchor_434" class="label">[434]</a> Vician. liv. 1. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_435" href="#FNanchor_435" class="label">[435]</a> Padr. Moret, Anales de Navarra tom 1. p. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_436" href="#FNanchor_436" class="label">[436]</a> Apud Yañes ut supr. n. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_437" href="#FNanchor_437" class="label">[437]</a> Brit. Monarq. Lusit. p. 1. l. 1 c. 3. Heyt. Pint. in -cap. 27. Ezech. p. 247. <i>Prima Urbis Hispaniæ, ut aiunt, appellata -est Thubal, ab ipso conditore nomine desumpto, quam viri docti eam -dicunt esse, que nunc Setubal appellatur in hac nostra Lusitania sita -ad Occidentem.</i> Diego de Colmenar. na Histor. de Segovia cap. 1. -<i>Dize-se, que fundó Tubal al lado meridional del rio Tajo sobre -el grande Oceano un pueblo, que nombró Setubal, nombre al parecer -compuesto en honra del S. Seth, su 10. abuelo, hijo de Adan.</i> Matut. -Prosap. de Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. e outros apud Fr. Bernard. da -Silva na Def. da Monarq. Lusit. part. 1. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_438" href="#FNanchor_438" class="label">[438]</a> Faria ut supr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_439" href="#FNanchor_439" class="label">[439]</a> Lacerd. in Virgil. apud L. Mar lib. 1. cap. 15. Antig. -de Lisb. <i>Ab Lusitania exuberante gente dissipati in reliquam -Hispaniam sunt, & tanquam in colonias deducti.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_440" href="#FNanchor_440" class="label">[440]</a> Livius. lib. 3. decad. 4. Macrob. liv. 1. Saturn. Polyb. -lib. 3. apud Resend. lib. 3. Antiq. Herodot. lib. 1. cap. 42. Plin. -liv. 7. cap. 48.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_441" href="#FNanchor_441" class="label">[441]</a> Idem liv. 4. cap. 20. Mela liv. 3. cap. 1. Resend. liv. -1. de Antiq. Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9. Argot. Memor. do Arcebisp. -de Brag. p. 177. e 373.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_442" href="#FNanchor_442" class="label">[442]</a> Resend. liv. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_443" href="#FNanchor_443" class="label">[443]</a> Strab. liv. 3. Justin. liv. ult. cap ultim Resend. liv. -1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_444" href="#FNanchor_444" class="label">[444]</a> Arrian. res gestar. Alex. liv. 2. <i>Sed Geryonis Regnum -in continenti fuisse circa Ambraciam, & Amphilocos, indeque Herculem -boves abegisse</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_445" href="#FNanchor_445" class="label">[445]</a> Veja se a prim. parte do nosso Mappa cap. 2. n. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_446" href="#FNanchor_446" class="label">[446]</a> Argot nas Antig. da Chancel. de Brag. p. 132.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_447" href="#FNanchor_447" class="label">[447]</a> Plin. lib. 3 cap. 3. Baudrand.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_448" href="#FNanchor_448" class="label">[448]</a> Mela liv. 3. cap. 1. Strab. liv. 3. Plin. lib. 4. cap. -20. Argot nas Memor do Arceb. de Brag. pag. 184. Flores na Espanha -sagrada tom. 15. pag. 26</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_449" href="#FNanchor_449" class="label">[449]</a> Strab. liv. 3. Argot. ut supr. p. 149. Monarq. Lusit. -part. 1. cap. 4. da Geograf. Martial lib. 10. Epigram. 16</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_450" href="#FNanchor_450" class="label">[450]</a> Pimentel, Notic. Academic. de 2 de Janeir. de 1727.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_451" href="#FNanchor_451" class="label">[451]</a> Brit. na Geogr. c. 4. Flor. do Camp. Histor. de Hespan. -liv 2. cap. 10. Plin. liv. 4. cap. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_452" href="#FNanchor_452" class="label">[452]</a> Argot. nas Memor. de Brag. p. 450.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_453" href="#FNanchor_453" class="label">[453]</a> Joaõ de Barr. nas Antig. do Minho cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_454" href="#FNanchor_454" class="label">[454]</a> Argot. ut supr liv. 1. cap 14. n. 285.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_455" href="#FNanchor_455" class="label">[455]</a> Resend. lib. 1. de Antiguit. <i>Sed hæc potius Civitatum -sunt nomina.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_456" href="#FNanchor_456" class="label">[456]</a> Brit. na Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_457" href="#FNanchor_457" class="label">[457]</a> Vasæus tom. 1. Chron. pag. 64. Argot. ut supr. p. 155.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_458" href="#FNanchor_458" class="label">[458]</a> Brit. na Geogr. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_459" href="#FNanchor_459" class="label">[459]</a> Resend. lib. 1. Antiq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_460" href="#FNanchor_460" class="label">[460]</a> Plin. lib. 3. cap. 3. Resend. lib. 1. Argot. nas Memor. -de Brag. tom. 1. p. 157. e 317.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_461" href="#FNanchor_461" class="label">[461]</a> Brito na Geograf. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_462" href="#FNanchor_462" class="label">[462]</a> Diodor. lib. 6. Strab. lib.4. Plin. lib. 3. cap. 1. Liv. -lib. 5. Flor liv. 2. cap. 17. Lucan. lib. 4. v. 10. Silius Italic. lib. -3. v. 340. Catul. Epigr. 40. Marrial lib. 4. Epigr. 55.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_463" href="#FNanchor_463" class="label">[463]</a> Argot. nas Memor. de Brag. p. 157.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_464" href="#FNanchor_464" class="label">[464]</a> Justin. lib. 44. Strab. lib. 3. Gerund. lib. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_465" href="#FNanchor_465" class="label">[465]</a> Mela lib. 3. cap. 1. Brit. na Geogr. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_466" href="#FNanchor_466" class="label">[466]</a> Plin. lib. 4. cap. 20. Estaço nas Antiguid. c. 9. -Resend. lib. 1. <i>Græcorum sobolis omina.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_467" href="#FNanchor_467" class="label">[467]</a> Herod. lib. 1. cap. 163. <i>Hi Phocenses primi Græcorum -longinquis navigationibus usi sunt. Adriamque simul, & Tyrrheniam, -Iberiam, atque Tartesum occuparunt.</i> Pausan lib. 2. pag. mihi 144. -Plin. lib. 7. c. 48. Valer. M. x. lib. 8. cap. 13. Vasæus tom. 1. Chron -ann. 129 ab urbe condita.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_468" href="#FNanchor_468" class="label">[468]</a> Monarq Lusit. tom. 1. liv. 4. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_469" href="#FNanchor_469" class="label">[469]</a> Ibid p. 322.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_470" href="#FNanchor_470" class="label">[470]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 128. -Resend. lib. 1. Antiq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_471" href="#FNanchor_471" class="label">[471]</a> Argot nas Memor. de Brag. p. 160. e 322.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_472" href="#FNanchor_472" class="label">[472]</a> Ortel. no Mappa da Lusitan. Cellar. Geogr. antiq. lib. -2. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_473" href="#FNanchor_473" class="label">[473]</a> Brit. na Geograf. cap. 4. Clede na Histor. de Port. tom. -1. liv. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_474" href="#FNanchor_474" class="label">[474]</a> Bluteau, Vocabul. verb. <i>Pesures</i>. Monarq. Lusit. -liv. 1. cap. 28.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_475" href="#FNanchor_475" class="label">[475]</a> Argot. Memor. de Brag. pag. 161.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_476" href="#FNanchor_476" class="label">[476]</a> Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 30. Pimentel, Notic. da -Academ. de 2 de Jan. de 1727. Vasconcel. nos Schol. a Resend.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_477" href="#FNanchor_477" class="label">[477]</a> Baudrand in Diction. Geograp.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_478" href="#FNanchor_478" class="label">[478]</a> Cellar. Geograf. liv. 2. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_479" href="#FNanchor_479" class="label">[479]</a> Bochart. Geograph. Sacr. liv. 1. cap. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_480" href="#FNanchor_480" class="label">[480]</a> Argot. Mem. de Braga tom. 1. p. 162.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_481" href="#FNanchor_481" class="label">[481]</a> Ibid. p. 60.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_482" href="#FNanchor_482" class="label">[482]</a> Agiol. Lusit. tom. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_483" href="#FNanchor_483" class="label">[483]</a> Resend lib. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_484" href="#FNanchor_484" class="label">[484]</a> Botelho no Alphonso liv. 3. oitav. 88. Vide Just. -Lipsium lib. 3. de Militia Roman. Dialog. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_485" href="#FNanchor_485" class="label">[485]</a> Vasconcel in Schol. ad lib. 1. Resend. de Antiq. -<i>Cùm enim Cetras resonas,</i> (explica o texto de Silio) <i>hoc est -tinnitum, & sonitum edentes vocet, manifestè innuit esse illa parva -scuta, quæ Bluqueria dicuntur ex ligno fabrefacta, atque ære contecta, -quæ clarissimum sonitum inter se collisa edunt; quod coriaceis illis, & -maioribus scutis, seu parmis nequaquam convenire potest</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_486" href="#FNanchor_486" class="label">[486]</a> Silius Ital lib 3. vers. 346.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_487" href="#FNanchor_487" class="label">[487]</a> Botelh. no Alphons. liv. 3. est. 90.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_488" href="#FNanchor_488" class="label">[488]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_489" href="#FNanchor_489" class="label">[489]</a> Ibid. liv. 5. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_490" href="#FNanchor_490" class="label">[490]</a> De la Clede, Histor. de Portug. tom. 1. pag. mihi 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_491" href="#FNanchor_491" class="label">[491]</a> Alexand. ab Alexand. lib 6. cap. 26. <i>Lusitanis vetus -mos erat, ex intestinis hominum extæ prospicere, atque inde omina, & -divinationes captare, abscissasque captivorum dextras pro munere diis -offerre.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_492" href="#FNanchor_492" class="label">[492]</a> Bohem. lib. 3. cap. 25. de Vetustis Lusitanorum moribus. -<i>Ægrotos vetusto ritu Ægyptiorum in plateis deponunt, ut qui eo morbi -genere tentati sunt, commone facere eos valeat.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_493" href="#FNanchor_493" class="label">[493]</a> Garm. no Theatr. Univ. de España tom. 1. p. 195.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_494" href="#FNanchor_494" class="label">[494]</a> Justin. liv. 44. cap. ult. Marian. tom. 1. liv. 1. cap -14. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_495" href="#FNanchor_495" class="label">[495]</a> Vasæus tom. 1. Chron. ann. 1250. <i>Circa hunc annum -ponunt admirabilem illam siccitatem... quod mihi quidem non sit -verissimile, quia nulla ejus rei memoria in veterum libris reperitur, -qui rem tam stupendam, ac raram proculdubio non tacuissent.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_496" href="#FNanchor_496" class="label">[496]</a> Diodot. Sicul. liv. 1. Arist. de mirab. auscult. Monarq. -Lusit. liv. 1. cap. 26.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_II">CAPITULO II.<br><span class="small"><i>Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo -em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro, -chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a -que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com -elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo -turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos -seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões, -e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano -com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado -descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados; -porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este -conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel.</p> - -<p>2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de -Christo, querem alguns Chronistas<a id="FNanchor_497" href="#Footnote_497" class="fnanchor">[497]</a> que Nabucodonosor viesse, ou -mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os -Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito -de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos, -quebrantaraõ<span class="pagenum" id="Page_237">[Pg 237]</span> os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he -tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.<a id="FNanchor_498" href="#Footnote_498" class="fnanchor">[498]</a> O certo he, -que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices: -que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em -recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes -castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas -da Ilha de Cadiz.</p> - -<p>3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente -buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e -lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de -exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou -a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor, -e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama -Principe,<a id="FNanchor_499" href="#Footnote_499" class="fnanchor">[499]</a> fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal -para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio -Gaudalete<a id="FNanchor_500" href="#Footnote_500" class="fnanchor">[500]</a> deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os -preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos -pendurados nas paredes dos Templos.</p> - -<p>4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para -mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à -sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes -mais animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e -os expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos -naõ querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria. -Passaraõ o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços, -porque os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo<span class="pagenum" id="Page_238">[Pg 238]</span> misturados com -Gregos, e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito -varonil das matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus -inimigos, e a vitoria ficou famosa com o titulo honroso de <i>Empreza -das mulheres</i>, produzindo-se por meyo della a tranquillidade na -Provincia do Minho.<a id="FNanchor_501" href="#Footnote_501" class="fnanchor">[501]</a></p> - -<p>5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices -sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as -tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo -poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon, -e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes, -estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor -a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo -se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança -alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ -com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos.</p> - -<p>6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a -narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que -rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem -ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e -provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver -mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com -huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto -havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de -Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos.</p> - -<p>7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos,<span class="pagenum" id="Page_239">[Pg 239]</span> de hum grande numero -de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era -Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez -do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava -os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e -desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para -o mayor numero das suas vitorias.<a id="FNanchor_502" href="#Footnote_502" class="fnanchor">[502]</a> Elles foraõ os que em credito -da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia -a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel -passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula, -para evidente demonstraçaõ do seu esforço.</p> - -<p>8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a -assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em -que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares -mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio, -Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de -mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do -primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul -Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ, -e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em -recompensa de hum só Viriato.<a id="FNanchor_503" href="#Footnote_503" class="fnanchor">[503]</a></p> - -<p>9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se -deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse -da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento -da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias, -se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer<span class="pagenum" id="Page_240">[Pg 240]</span> o heroico -alento com os mimos daquella Cidade.<a id="FNanchor_504" href="#Footnote_504" class="fnanchor">[504]</a></p> - -<p>10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas -esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais -desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos -Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous -valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo -Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do -risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por -naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna -alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios -de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas -Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio -senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_497" href="#FNanchor_497" class="label">[497]</a> Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes -España en la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_498" href="#FNanchor_498" class="label">[498]</a> Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de -antiguid. p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_499" href="#FNanchor_499" class="label">[499]</a> Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_500" href="#FNanchor_500" class="label">[500]</a> Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_501" href="#FNanchor_501" class="label">[501]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1. -part. 1. cap. 9. num. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_502" href="#FNanchor_502" class="label">[502]</a> Liv. decad. 3. lib. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_503" href="#FNanchor_503" class="label">[503]</a> Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_III">CAPITULO III.<br><span class="small"><i>Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Assim continuava a soberania Romana em dominar Hespanha, que sendo -até o anno 534 da fundaçaõ de Roma huma só Provincia Consular, pelos -annos porém de 557 da mesma fundaçaõ, e 196 antes de Christo, foy -dividida em duas Provincias Pretorias, ou Proconsulares, chamadas -<i>Ulterior</i>, e <i>Citerior.</i> Naquella se comprehendia a Betica,<span class="pagenum" id="Page_241">[Pg 241]</span> -e a Lusitania, isto he, Andaluzia, e Portugal: na Citerior todas as -mais partes de Hespanha.<a id="FNanchor_505" href="#Footnote_505" class="fnanchor">[505]</a></p> - -<p>2 Para exacto governo dellas eraõ enviados de Roma varios Pretores, ou -Governadores fortalecidos com legiões de gente militar para presidio -das terras, que hiaõ conquistando; porém como os Lusitanos mal soffriaõ -o jugo Romano, foy preciso ao respeito dos Senadores para nos sujeitar -à obediencia mandar tambem o Consul Cataõ Censorino, o qual usando -de affabilidade, dominou os corações da nossa gente até o ultimo dia -do seu governo, pois tanto que Scipiaõ Nasica lhe succedeo, logo se -revoltaraõ como leões indomitos contra elle.</p> - -<p>3 Inconstante fortuna experimentou Nasica no principio da sua Pretura; -porém no fim a logrou taõ favoravel à custa dos nossos, que a sorte, -mais que o esforço, o fez vencedor de cento e trinta e quatro -bandeiras.<a id="FNanchor_506" href="#Footnote_506" class="fnanchor">[506]</a> Mas naõ perdendo os Lusitanos já mais o acordo na -desgraça presente, e appellando para o primeiro conflicto, souberaõ -vingar a perda passada com destruiçaõ total do exercito Romano, que -governava Lucio Emilio,<a id="FNanchor_507" href="#Footnote_507" class="fnanchor">[507]</a> ruina, que por muitos dias continuos foy -deplorada dentro em Roma, e até a vingança, que depois meditaraõ, foy -mal succedida.</p> - -<p>4 Continuavaõ os Pretores, e Consules o governo da Hespanha, os quaes -ou abatidos, ou vitoriosos, sempre confessavaõ por formidaveis as armas -Lusitanas, custando-lhe cada palmo de nosso terreno adquirido rios de -sangue Romano. Entre os nossos Capitães, que deixaraõ resplandecente -nome na veneravel duraçaõ da memoria, foraõ <i>Apimano</i>, -<i>Cesaron</i>, <i>Chancheno</i>, <i>Viriato</i>, e <i>Sertorio</i>, -cujas gloriosas<span class="pagenum" id="Page_242">[Pg 242]</span> proezas occupaõ até as Historias dos que pertenderaõ -diminuirlhe a fama.</p> - -<p>5 Aquelle espantoso terror, que o brio dos Lusitanos tinha semeada em -Roma, chegou a produzir tal impressaõ nos animos de todos, que não -havia nem Tribuno, nem Pretor, que se quizesse encarregar da guerra de -Hespanha; e por acudirem pelo credito da Naçaõ, buscaraõ o caminho do -ludibrio, que foy o da aleivosia, naõ sem escandalo do mundo. Assim se -experimentou na morte de Viriato II. pela perfidia de Quinto Servilio, -e na de Sertorio pela de Marco Perpenna.<a id="FNanchor_508" href="#Footnote_508" class="fnanchor">[508]</a></p> - -<p>6 Seria alheyo da brevidade, que promettemos, particularizar acções, -e successos dos Lusitanos: todas taõ benemeritas da honra, e da -eternidade, como indignas de fama as que os Romanos obravaõ em nossos -Paizes; e muitas vezes com o dolo, e malicia em taõ vulgarizadas -operações, que mal podiaõ occultar a ignominia, que dellas lhes -resultava, como aconteceo com Servio Galba, reprehendido no Capitolio -pelas manifestas aleivosias, que usava com a gente Portugueza.<a id="FNanchor_509" href="#Footnote_509" class="fnanchor">[509]</a></p> - -<p>7 Mais de duzentos annos tardou a conquista da Lusitania; e depois que -se achavaõ nossas forças já lassas, e vigoroso o poder Romano, ainda -assim foy preciso ao prudente Conselho dos Senadores para acabar de -conquistar Hespanha determinar que se expedissem em diversos tempos -dous famosissimos Imperadores, Julio Cesar, e Octaviano Augusto. -Aquelle sendo o mayor guerreiro do mundo, padeceo innumeraveis -resistencias dos nossos. Que cuidados, e desconfianças naõ causaraõ -a Cesar os habitadores da serra da Estrella? Prenderaõ-lhe os -Embaixadores, zombaraõ delles, e se naõ usara Cesar<span class="pagenum" id="Page_243">[Pg 243]</span> de alguns -estratagemas, nem lhe domara a ferocidade, nem os vencera.<a id="FNanchor_510" href="#Footnote_510" class="fnanchor">[510]</a></p> - -<p>8 Pouco tempo durava esta sujeiçaõ, porque os nossos com obediencia -forçada, ainda que com forças diminutas, a cada passo se estavaõ -rebelando contra os presidios Romanos, querendo antes expôr as vidas -aos mayores empenhos da guerra, que renderem-se a quem lhe queria -supear a liberdade; e como já tinhaõ perdido as esperanças ao socego da -paz, era inconquistavel o seu animo, e orgulho.</p> - -<p>9 Seguiraõ-se os incendios tambem na Hespanha das guerras civis entre -Cesar, e Pompeo, e entaõ se acabou de ver que se ficavaõ triunfantes -aquellas bandeiras, a cuja sombra militavaõ Portuguezes. Veyo -finalmente Octaviano Augusto, e conseguida huma paz universal, se -viraõ os Lusitanos totalmente sujeitos ao jugo do Imperio Romano. Em -agradecimento desta tranquillidade offereceraõ muitas povoações nossas -nas fabricas de alguns Templos, eternos elogios, que por acreditarem a -duraçaõ, ainda o tempo gastando-lhe as pedras, lhe naõ pode consumir a -memoria.</p> - -<p>10 Dentro deste feliz, e pacifico silencio nasceo ao mundo a salvaçaõ -delle Christo bem nosso; e depois de ter completado Octaviano trinta e -seis annos de Imperio formal, se lhe seguio Tiberio, e successivamente -outros Imperadores sempre com o dominio das nossas terras, as quaes com -a cubiça dos legados fluctuavaõ em mares de turbulencia. Rompiaõ-se os -montes para se desentranharem das suas veas o ouro, e a prata.</p> - -<p>11 Alguns destes disturbios da ambiçaõ fez serenar a prudencia de -Vespasiano, e de seu filho Tito, os quaes com generosa, e liberal -affabilidade illustraraõ o Reino com obras, os vassallos com -beneficios. A aspereza dos caminhos se vio reduzida a<span class="pagenum" id="Page_244">[Pg 244]</span> planicies -suaves; os rios caudalosos vadeados com pontes magnificas; e toda a -Lusitania para o seu bom regimen dividida em tres Comarcas, cinco -Colonias, e tres Municipios.</p> - -<p>12 Foraõ passando os annos, e as vidas de outros Imperadores, a quem -nossos antepassados reconheceraõ vassallagem, até que no Imperio de -Galieno começou a descahir a grandeza Romana,<a id="FNanchor_511" href="#Footnote_511" class="fnanchor">[511]</a> experimentando -mais lamentavel estrago em tempo de Arcadio, e Honorio pela invasaõ -dos barbaros de Alemanha, que discorrendo sem piedade por todas as -Provincias da sujeiçaõ de Roma, entraraõ a sepultar nas ruinas, que -abrirão suas espadas, as glorias da Monarquia Imperial por tantos -seculos triunfante, mas agora opprimida, e arrastada pelo decreto fatal -da Providencia. Será conveniente antes que entremos a informar do -estabelecimento do novo dominio, formar hum Catalogo chronologico dos -Pretores, e Consules, que nos governaraõ, noticia, que em obsequio, e -beneficio da Historia, se fará estimavel aos estudiosos.</p> - - -<p class="center caption"><i>Catalogo chronologico aos Pretores, Consules, e Pro-Consules -Romanos, que vieraõ governar Hespanha desde a sua primeira divisaõ em -Ulterior, e Citerior até o Nascimento de Christo Senhor nosso.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th>Ant. de Chr.</th><th>Fund. de Roma</th><th></th></tr> -<tr><td class="tdr">196</td><td class="tdr">557</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Elio, ou Helvio.</td></tr> -<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cneyo Sempronio Tuditano.</td></tr> -<tr><td class="tdr">195</td><td class="tdr">558</td><td class="tdl">Na Ulterior, quinto Fabio Buteo.</td></tr> -<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Quinto Minucio Thermo.<span class="pagenum" id="Page_245">[Pg 245]</span></td></tr> -<tr><td class="tdr">194</td><td class="tdr"> 559</td><td class="tdl">Na Ulterior Appio Claudio Nero.</td></tr> -<tr><td class="tdr"> </td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Paulo, ou Publio Manlio.</td></tr> -<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Com estes dous Pretores veyo tambem neste anno o Consul Marco Porcio -Cataõ Censorino, o qual teve o governo em toda a Hespanha, e com felicidade, porque os Lisbonenses, e os de -toda a sua Comarca lhe levantaraõ alguns padrões honorificos, e elle recolhendo-se a Roma riquissimo, introduzio -no thesouro publico mais de quatrocentos mil cruzados em ouro, e prata, que extrahio das nossas terras; e para -ter estas seguras na sua ausencia, antes que partisse mandou derribar os muros -a quatrocentas Cidades, e Lugares fortes.<a id="FNanchor_512" href="#Footnote_512" class="fnanchor">[512]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr"> 192</td><td class="tdr"> 560</td><td class="tdl">Na Ulterior Publio Cornelio Scipiaõ Nasica.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl"> Na Citerior Sexto Digicio.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> <td class="tdl">Tiveraõ os Portuguezes neste governo grandes batalhas com os Romanos, e estes andavaõ taõ desconfiados, e Nasica -taõ temeroso do valor Lusitano, que chegou a fazer votos a Jupiter pela vitoria, a qual com effeito alcançou, porque -a fome, e fadiga dos nossos debilitou muito o nosso exercito, e com tudo custou-lhe sete mil e novecentos Romanos, que morreraõ no conflicto.</td></tr> -<tr><td class="tdr">191</td><td class="tdr"> 561</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Fulvio Nobilior.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td> Na Citerior Cayo Flaminio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">190</td><td class="tdr"> 562</td><td class="tdl">Na Ulterior Appio Atilio Serrano.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Bebio Pamfilo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">189</td><td class="tdr"> 563</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Emilio Paulo.<span class="pagenum" id="Page_246">[Pg 246]</span></td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cayo Flaminio reconduzido.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Venceraõ os Lusitanos ao Pretor Emilio, matando-lhe seis mil Romanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">188</td><td class="tdr"> 564</td><td class="tdl">Ficaraõ reconduzidos os mesmos Pretores, - e Lucio Emilio alcançou vitoria - dos Portuguezes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">187</td><td class="tdr"> 565</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Bebio Divite.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Plaucio Hipseo.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Lucio Bebio morreo em Marselha antes - de chegar a Hespanha, e assim os - Consules mandaraõ para a Pretura de - Portugal a Publio Junio Bruto.</td></tr> -<tr><td class="tdr">186</td><td class="tdr"> 566</td><td class="tdl">Na Ulterior Cayo Catinio.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Manlio Acidino.</td></tr> -<tr><td class="tdr">185</td><td class="tdr"> 567</td><td class="tdl">Os mesmos reconduzidos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">184</td><td class="tdr"> 568</td><td class="tdl">Na Ulterior Cayo Calfurnio Pison.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Quincio Crispino.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Os Lusitanos unidos com os Celtiberos - ganharaõ a estes dous Pretores huma - batalha, em que lhe mataraõ cinco mil - homens.</td></tr> -<tr><td class="tdr">183</td><td class="tdr"> 569</td><td class="tdl">Os mesmos reconduzidos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">182</td><td class="tdr"> 570</td><td class="tdl">Na Ulterior Paulo, ou Publio Sempronio Longo. - </td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Aulo Terencio Varro.</td></tr> -<tr><td class="tdr">181</td><td class="tdr"> 571</td><td class="tdl">Ficaraõ reconduzidos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">180</td><td class="tdr"> 572</td><td class="tdl">Na Ulterior Publio Manlio.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Q. Fulvio Falco.</td></tr> -<tr><td class="tdr">178</td><td class="tdr"> 574</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Posthumio Albino.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Tiberio Sempronio Graco.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">O Pretor Posthumio teve huma grande -batalha com os Bracarenses, a quem -venceo depois de huma grande derrota - no seu exercito.</td></tr> -<tr><td class="tdr">176</td><td class="tdr"> 576</td><td class="tdl">Na Ulterior Tito Fonteyo Capito.<span class="pagenum" id="Page_247">[Pg 247]</span></td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Ticinio Curvo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">174</td><td class="tdr"> 578</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Cornelio Scipiaõ. -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Publio Licinio Crasso.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Estes dous Pretores naõ chegaraõ a vir - a Hespanha, e assim foraõ reconduzidos - os antecedentes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">173</td><td class="tdr"> 579</td><td class="tdl">Na Ulterior ignora-se quem fosse neste - anno o Pretor.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Appio Claudio Cento.</td></tr> -<tr><td class="tdr">172</td><td class="tdr"> 580</td><td class="tdl">Na Ulterior Cneyo Servilio Cepio.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Publio Furio Filo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">171</td><td class="tdr"> 581</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Macieno.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cneyo Fabio Buteo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">170</td><td class="tdr"> 582</td><td class="tdl">Na Ulterior Spurio Lucrecio.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Junio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">169</td><td class="tdr"> 583</td><td class="tdl">Neste anno determinaraõ os Consules - que houvesse na Hespanha huma só Pretura, - ou Provincia, e assim elegeraõ para - Pretor a Lucio Canuleyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">167</td><td class="tdr"> 585</td><td class="tdl">Claudio, ou Marco Marcelo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">166</td><td class="tdr"> 586</td><td class="tdl">Publio Fonteyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">165</td><td class="tdr"> 587</td><td class="tdl">Neste anno tornaraõ a dividir Hespanha - em duas Preturas, e para a Ulterior - veyo Cayo Licinio Nerva, e para a Citerior - Cneyo Fulvio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">153</td><td class="tdr"> 599</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Manilio. -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Neste governo floreceo hum insigne - Capitaõ Bracaranse, chamado Apimano, - a quem se seguio Cesaron, que ambos - aterraraõ os Romanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">152</td><td class="tdr"> 600</td><td class="tdl">Neste anno, conforme Orosio, foy - Pretor Sergio Galba; mas Apiano Alexandrino - diz que era Calfurnio Pison.</td></tr> -<tr><td class="tdr">151</td><td class="tdr"> 601</td><td class="tdl">Neste anno foy Hespanha Provincia - Consular, e para seu governo vieraõ os - Consules Q. Fulvio, e Tito Anio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">149</td><td class="tdr">603</td><td class="tdl">Lucio Luculo, e Albo Posthumio -Consules tiveraõ com os Celtiberos, e<span class="pagenum" id="Page_248">[Pg 248]</span> - Vacceos algumas batalhas taõ mal succedidas, - que causou em Roma tanto - medo, que naõ havia quem quizesse vir - militar para Hespanha; até que Publio - Scipiaõ Emilitano, offerecendo-se voluntario, - persuadio a muitos a que viessem.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">No governo destes Consules diz Paulo - Orosio, que acontecera aquella vil - traição, que fez Servio Galba aos Portuguezes - do Algarve,<a id="FNanchor_513" href="#Footnote_513" class="fnanchor">[513]</a> e que refere - a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_514" href="#Footnote_514" class="fnanchor">[514]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">145</td><td class="tdr"> 607</td><td class="tdl">No governo dos Consules Cneyo Cornelio - Lentulo, e L. Mumio principiou - a florecer o esforçado valor do segundo - Viriato, dando mayor credito ao valor - dos Portuguezes com as repetidas vitorias, - que alcançava dos Romanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">144</td><td class="tdr"> 608</td><td class="tdl">C. Vetilio, ou Marco Vetilio, Pretor - da Hespanha Ulterior, foy vencido - por Viriato.</td></tr> -<tr><td class="tdr">143</td><td class="tdr"> 609</td><td class="tdl">Cayo Plaucio, Pretor da Hespanha - Ulterior, tambem vencido por Viriato - em muitas batalhas.</td></tr> -<tr><td class="tdr">142</td><td class="tdr"> 610</td><td class="tdl">Claudio Unimano vencido por Viriato - com grande infamia dos Romanos.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Neste governo obraraõ prodigios os - Portuguezes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">141</td><td class="tdr"> 611</td><td class="tdl">Cayo Nigidio, a quem huns daõ o titulo - de Pretor, outros de Consul, ficou - vencido por Viriato no campo de Viseu - em humas grandes vallas, que abrio para - isso. Taõ atemorizados tinhaõ aos Romanos - estes prosperos successos de Viriato, - que lhes foy preciso para esta - conquista de Hespanha duplicar os soccorros<span class="pagenum" id="Page_249">[Pg 249]</span> - com exercitos Consulares.</td></tr> -<tr><td class="tdr">140</td><td class="tdr"> 612</td><td class="tdl">Q. Fabio Consul usou crueldades com - os Portuguezes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">139</td><td class="tdr"> 613</td><td class="tdl">Q. Fabio Proconsul expugnou muitas - Cidades da Lusitania.</td></tr> -<tr><td class="tdr">138</td><td class="tdr"> 614</td><td class="tdl">O mesmo reconduzido, e juntamente - os Consules Cayo Lelio o <i>Sabio</i>, e Q. - Servilio Cepio, que foy author do assassinio, - e morte de Viriato;<a id="FNanchor_515" href="#Footnote_515" class="fnanchor">[515]</a> e Joaõ - de Barros diz, que Viriato fora morto - no Lumiar, termo de Lisboa.<a id="FNanchor_516" href="#Footnote_516" class="fnanchor">[516]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">137</td><td class="tdr"> 615</td><td class="tdl">M. Pompilio na Hespanha Citerior.</td></tr> -<tr><td class="tdr">136</td><td class="tdr"> 616</td><td class="tdl">Decio Junio Bruto Consul fez pazes - com os Lusitanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">135</td><td class="tdr"> 617</td><td class="tdl">Neste anno sendo Proconsul o mesmo - Decio, ou Decimo Junio Bruto, sujeitou - ao seu dominio quasi toda a Lusitania, - e na passagem do rio Lima lhe aconteceo - com os soldados, que naõ queriaõ - passar, o que fica referido na primeira - parte pag. 127. fallando daquelle - rio. A mayor resistencia, que experimentou - este Proconsul, foy a que lhe - fez a Cidade de Cinania.</td></tr> -<tr><td class="tdr">134</td><td class="tdr"> 618</td><td class="tdl">Neste anno vieraõ a Hespanha o Consul - Q. Furio, e os Proconsules Q. Metello, - e Q. Pomponio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">133</td><td class="tdr"> 619</td><td class="tdl">M. Emilio Lepido Proconsul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">132</td><td class="tdr"> 620</td><td class="tdl">Scipiaõ Africano Consul com C. Fulvio - Flaco poz hum apertado cerco a - Numancia.</td></tr> -<tr><td class="tdr">131</td><td class="tdr"> 621</td><td class="tdl">Neste anno vendo-se os Numantinos - taõ fortemente cercados pelos Romanos, - determinaraõ pôr fogo à Cidade, - e morrer antes todos, que entregarem-se.<span class="pagenum" id="Page_250">[Pg 250]</span> - Assim o executaraõ de sorte, que os - Romanos naõ acharaõ cousa, de que - triunfar, mais que do nome de Numancia.</td></tr> -<tr><td class="tdr">130</td><td class="tdr"> 622</td><td class="tdl">Neste anno, e em alguns dos seguintes - vieraõ a Hespanha varios Pretores, - e Consules, cujos annos de seus governos - naõ se podem produzir em chronologia - certa.</td></tr> -<tr><td class="tdr">107</td><td class="tdr"> 645</td><td class="tdl">Q. Servilio Cepio, ou Scipiaõ, triunfou - dos Portuguezes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">103</td><td class="tdr"> 649</td><td class="tdl">Venceraõ os Lusitanos aos exercitos - dos Consules P. Rutilio Rufo, e C. - Manlio.</td></tr> -<tr><td class="tdr">100</td><td class="tdr"> 652</td><td class="tdl">C. Mario IV. e Q. Luctacio Consules - ficaraõ vencidos dos Lusitanos, e a - Hespanha Ulterior em grande paz.</td></tr> -<tr><td class="tdr">97</td><td class="tdr"> 655</td><td class="tdl">Lucio Cornelio Dolabella Proconsul - da Hespanha Ulterior triunfa dos Lusitanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">92</td><td class="tdr"> 660</td><td class="tdl">Publio Licinio Crasso Proconsul triunfa - dos Lusitanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">79</td><td class="tdr"> 673</td><td class="tdl">Neste anno floreceo o valor do Capitaõ - Q. Sertorio, que fugindo de Sylla, - seu inimigo Romano, veyo a Hespanha, - e conciliando a vontade, e animo dos - Portuguezes, venceo a muitos Capitães - Romanos. Edificou varias obras em Portugal, - principalmente Evora.</td></tr> -<tr><td class="tdr">75</td><td class="tdr"> 677</td><td class="tdl">Neste anno veyo a Hespanha Pompeo - Magno, a quem Sertorio venceo com - grande credito dos Portuguezes.</td></tr> -<tr><td class="tdr">69</td><td class="tdr"> 683</td><td class="tdl">Foy morto Sertorio em Evora atraiçoadamente - por M. Perpenna, e outros - conjurados.</td></tr> -<tr><td class="tdr">68</td><td class="tdr"> 684</td><td class="tdl">Com a morte de Sertorio conseguio - Pompeo que quasi todas as Cidades de - Hespanha se lhe entregassem, ainda que<span class="pagenum" id="Page_251">[Pg 251]</span> - à força de armas, e com bastante resistencia - de outras.</td></tr> -<tr><td class="tdr">67</td><td class="tdr"> 685</td><td class="tdl">Publio Pison Proconsul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">62</td><td class="tdr"> 690</td><td class="tdl">Neste anno veyo a Hespanha com titulo - de Legado hum nobre mancebo - Romano, chamado Cneyo Pison, ao - qual mataraõ publicamente huns soldados - Hespanhoes por industria de Pompeo. - Tambem aconteceo neste anno - hum notavel tremor de terra na costa de - Portugal, e Galiza, com que se arruinaraõ - muitos Lugares.<a id="FNanchor_517" href="#Footnote_517" class="fnanchor">[517]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">60</td><td class="tdr"> 692</td><td class="tdl">Q. Calidio com titulo de Pretor de - Hespanha destruio muitas companhias - de Lusitanos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">59</td><td class="tdr"> 693</td><td class="tdl">Na Hespanha Ulterior Tuberon Pretor. - Veyo por seu Questor C. Julio Cesar.</td></tr> -<tr><td class="tdr">58</td><td class="tdr"> 694</td><td class="tdl">Na Hespanha Ulterior C. Julio Cesar - Pretor fez sujeitar ao Imperio Romano - a Lusitania, e Galiza; e recolhendo-se - a Roma, foy feito Consul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">57</td><td class="tdr"> 695</td><td class="tdl">Veyo Pompeo a Hespanha, que ao - depois administrou por Legados.</td></tr> -<tr><td class="tdr">56</td><td class="tdr"> 696</td><td class="tdl">Publio Lentulo Pretor.</td></tr> -<tr><td class="tdr">54</td><td class="tdr"> 698</td><td class="tdl">Q. Metello Nepos Proconsul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">53</td><td class="tdr">699</td><td class="tdl">Q. Cecilio Dentato. Houve em Portugal - tanta fartura, que os mantimentos - se davaõ quasi de graça.</td></tr> -<tr><td class="tdr">52</td><td class="tdr"> 700</td><td class="tdl">Q. Cecilio Metello Neto.</td></tr> -<tr><td class="tdr">50</td><td class="tdr"> 702</td><td class="tdl">Tuberon Proconsul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">47</td><td class="tdr"> 705</td><td class="tdl">Foy nomeado Pompeo para Pretor de -ambas as Provincias de Hespanha, as - quaes administrou por Legados, que - foraõ Petreyo, Afranio, e M. Varro. Neste anno andavaõ em grande calor as<span class="pagenum" id="Page_252">[Pg 252]</span> - guerras civis entre Pompeo, e Julio Cesar.</td></tr> -<tr><td class="tdr">46</td><td class="tdr"> 706</td><td class="tdl">Sendo Julio Cesar Consul, e Dictador, - regeraõ ambas as Hespanhas Q. - Cassio a Ulterior, e o Proconsul M. Lepido - a Citerior.</td></tr> -<tr><td class="tdr">44</td><td class="tdr"> 708</td><td class="tdl">Q. Cassio Longino Propretor da Hespanha - Ulterior summamente avaro, e - cruel.</td></tr> -<tr><td class="tdr">43</td><td class="tdr"> 709</td><td class="tdl">C. Trebonio Proconsul.</td></tr> -<tr><td class="tdr">42</td><td class="tdr"> 710</td><td class="tdl">Q. Fabio Consul triunfou na Hespanha. - Neste anno pelejando Julio Cesar - contra os filhos de Pompeo, alcançou - delles o triunfo junto da Cidade de Munda - no Reino de Granada, em que os - Portuguezes mostraraõ grande fidelidade - a Pompeo.<a id="FNanchor_518" href="#Footnote_518" class="fnanchor">[518]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">40</td><td class="tdr"> 712</td><td class="tdl">Q. Pelio Proconsul triunfa na Hepanha.</td></tr> -<tr><td class="tdr">39</td><td class="tdr"> 713</td><td class="tdl">M. Emilio Lepido tambem alcançou - vitoria na Hespanha.</td></tr> -<tr><td class="tdr">37</td><td class="tdr"> 715</td><td class="tdl">Tomaõ os Lusitanos a Era de Cesar.</td></tr> -<tr><td class="tdr">35</td><td class="tdr"> 717</td><td class="tdl">Cneyo Domicio Calvino Proconsul - triunfa.</td></tr> -<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">C. Norbano Flaco Proconsul triunfa. -<tr><td class="tdr">31</td><td class="tdr"> 721</td><td class="tdl">C. Asinio Polion, discipulo de M. - Tulio, ficou governando Hespanha na - ausencia de Julio Cesar.</td></tr> -<tr><td class="tdr">26</td><td class="tdr"> 726</td><td class="tdl">Vendo o Imperador Octaviano Augusto - o pouco, que as armas Romanas - tinhaõ conseguido em Hespanha pelo espaço - de duzentos annos, determinou vir - em pessoa, e dentro em quatro annos - conciliou a paz em toda a Hespanha. Estando - em Tarragona, gozou hum pleno<span class="pagenum" id="Page_253">[Pg 253]</span> - dominio da honra Imperial. Muitos - povos Portuguezes lhe dedicaraõ templos, - e estatuas pelas mercês, e privilegios, - que lhes concedeo, singularizando-se - Evora, Mertola, Lisboa, e - Santarem, mudando todas os seus nomes, - que tinhaõ, em outro, que dissesse respeito - aos favores recebidos; e assim Evora - se principiou a chamar <i>Liberalitas Julia</i>, - Mertola <i>Mirtilis Julia</i>, Lisboa <i>Felicitas - Julia</i>, Santarem <i>Julium Præsidium</i>.</td></tr> -<tr><td class="tdr">2</td><td class="tdr"> 750</td><td class="tdl">Neste anno mandou o dito Imperador, - estando em Tarragona, publicar o - edicto geral para se alistar toda a gente, - que havia no mundo sujeita ao Imperio - Romano, e pagar certo tributo, que - era trinta e seis reis cada pessoa em reconhecimento - da vassallagem. De Portuguezes - se alistaraõ cinco contos e sessenta - e oito mil pessoas cabeças de familias, - cuja ordem se passou nas Chancellarias - do Reino, chamadas entaõ Conventos - Juridicos, e eraõ <i>Merida</i>, que - hoje está fóra do territorio de Portugal; - <i>Béja</i>, à qual acudia o povo de Alentejo, - e Algarve; <i>Braga</i> para o povo do - Minho, e Tras os Montes; <i>Santarem</i> - para o da Beira, e Estremadura.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1</td><td class="tdr"> 751</td><td class="tdl">Neste anno se fez famoso hum Portuguez - do Minho, chamado <i>Corocota</i>, que - com certo numero de vadios inquietou - varias terras, e o Imperador promettendo - tres mil cruzados a quem o apanhasse, - elle mesmo se lhe veyo offerecer, e - o Imperador perdoando-lhe, o admittio - para sua guarda.</td></tr> -<tr><td> </td><td> </td><td class="tdl">Depois do Nascimento de Christo até<span class="pagenum" id="Page_254">[Pg 254]</span> - os Godos naõ ha cousa memoravel, que - pertença à Lusitania, mais que o acharse - em huma socegada paz na obediencia dos - Romanos. Até os tempos dos Imperadores - Maximiniano, e Diocleciano durou - o governo de Hespanha em Pretores, - e Proconsules: no de Constantino - houve outro estylo, porque se instituio - hum Vigario do Imperio, a que obedeciaõ - todos os Legados, e Regedores das - Provincias, e o tal Vigario ainda reconhecia - por Superior ao Prefeito do Pretorio, - que residia em França, por estar - no meyo das terras da sua jurisdicçaõ. - Depois se começou a governar por Condes. - Havia tambem alguns Regulos, ou - Fidalgos, Senhores de Cidades, subditos - ao Imperio Romano, qual foy Ont - Comero, pay de Santa Engracia, e no - tempo dos Godos Castinaldo, Principe - de Nabancia, e Cathelio, Senhor de - Norba Cesarea, e pay das Santas nove - irmãs.<a id="FNanchor_519" href="#Footnote_519" class="fnanchor">[519]</a></td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_504" href="#FNanchor_504" class="label">[504]</a> Valer. Maxim. lib. 9. Just. Lipsio lib. 4. de Magnitud. -Roman. cap. 5. Tarselin. Epitom. Historic. lib. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_505" href="#FNanchor_505" class="label">[505]</a> Strab lib. 3. Liv. decad. 4. lib. 3. Plin. lib. 3. c. -3. Guid. Pancirol Notitia Dignit. utriusq. Imper. c. 66. Robortel. de -Provinc. Roman. Vasæus tom. 1. cap. 8. n. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_506" href="#FNanchor_506" class="label">[506]</a> Monarq. Lusitan. liv 2. cap. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_507" href="#FNanchor_507" class="label">[507]</a> Oros. liv. 4. cap. 19. Liv. decad. 4. lib. 6. Moral. -lib. 7. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_508" href="#FNanchor_508" class="label">[508]</a> <i>Tantus metus Romanas omnes invasit; ut nemo -inveniretur, qui vel Tribunus, vel Legatus ire in eam Provinciam -vellet.</i> Vasæus tom. 1. cap. 12. Liv. decad. 3. lib. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_509" href="#FNanchor_509" class="label">[509]</a> Orosius lib. 4. cap. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_510" href="#FNanchor_510" class="label">[510]</a> Monarq. Lusitan. liv. 4. cap. 2. e 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_511" href="#FNanchor_511" class="label">[511]</a> Monarq. Lusitan. liv. 5. cap. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_512" href="#FNanchor_512" class="label">[512]</a> Liv. decad. 3. lib. 7. Jul. Front. l. 1. c. 1. Val. Max. -l. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_513" href="#FNanchor_513" class="label">[513]</a> Oros. l. 4. c. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_514" href="#FNanchor_514" class="label">[514]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. c. 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_515" href="#FNanchor_515" class="label">[515]</a> Vide Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_516" href="#FNanchor_516" class="label">[516]</a> Joaõ de Barr. na Descripçaõ do Minho cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_517" href="#FNanchor_517" class="label">[517]</a> Monarq. Lusitan. liv. 3. cap. 30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_518" href="#FNanchor_518" class="label">[518]</a> Vid. Monarq. Lusit. liv. 4. cap. 17. e 18. Vas. tom. 1. -cap. 12. Resend. lib. 3. Antiquit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_519" href="#FNanchor_519" class="label">[519]</a> Veja-se a Cujac. liv. 8. cap. 25. Observ. a Vaseu tom. -1. Chron. cap. 13. Resend. lib. 3. de Antiq. Monarq. Lusit. part. 1. -liv. 4. cap. 30. e liv. 5. cap. 18. 21. e 24.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_IV">CAPITULO IV.<br><span class="small"><i>Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador -Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho -Eucherio,<span class="pagenum" id="Page_255">[Pg 255]</span> o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas -gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas <i>Vandalos</i>, -<i>Suevos</i>, <i>Alanos</i>, e <i>Selingos</i>, os quaes depois de -terem saqueado Roma, e destruido grande parte de França, invadiraõ -nossas terras com huma expediçaõ taõ barbara, talando campos, e -edificios, que igualavaõ a colera com a crueldade.<a id="FNanchor_520" href="#Footnote_520" class="fnanchor">[520]</a></p> - -<p>2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca -dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que -aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ -a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,<a id="FNanchor_521" href="#Footnote_521" class="fnanchor">[521]</a> que corresponde aos -annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que -esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a -tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que -os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade, -arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao -Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes -barbaros se encaminhavaõ.</p> - -<p>3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ; -e por naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos -com o seu Rey <i>Gunderico</i>, ou <i>Mondigelesio</i>, occuparaõ -Andaluzia, que delles adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus -Reys <i>Resplandiano</i>, e <i>Hermenerico</i> possuiraõ a Lusitania, -e Galiza, ficando Asturias, e Biscaya permanecendo na sujeiçaõ -Romana.<a id="FNanchor_522" href="#Footnote_522" class="fnanchor">[522]</a></p> - -<p>4 Morto <i>Resplandiano</i> se lhe seguio <i>Atáces</i>, o qual -estribando seu atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte -da Lusitania, foy accommetter<span class="pagenum" id="Page_256">[Pg 256]</span> <i>Hermenerico</i>, Rey dos Suevos, a -quem tomou algumas terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava -existente no sitio de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que -agora existe, obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.</p> - -<p>5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces; -convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no -Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos, -e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo -porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua -filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas -consideraveis.<a id="FNanchor_523" href="#Footnote_523" class="fnanchor">[523]</a> Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro, -occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que -seguiaõ o partido Romano.</p> - -<p>6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo -accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces -pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito -pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com -taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a -Atáces.</p> - -<p>7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ -a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser -feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com -tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os -Portuguezes a chamar Suevos.<a id="FNanchor_524" href="#Footnote_524" class="fnanchor">[524]</a> Passaõ os Vandalos para Africa em -numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na -Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_257">[Pg 257]</span></p> - -<p>8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos, -quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey -dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto -a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo, -para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de -Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.</p> - -<p>9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos -Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e -nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada -eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ -lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os -Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.</p> - -<p>10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de -naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a -França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos -descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e -padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.</p> - -<p>11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que -seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como -a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle -o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente -feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o -principado da Lusitania, e dos Suevos.</p> - -<p>12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey -Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus -antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e -reconhecimento, em que vivia.<span class="pagenum" id="Page_258">[Pg 258]</span> Lisongeado Theodorico desta attençaõ, -houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha, -a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que -inficionou todo o Reino,<a id="FNanchor_525" href="#Footnote_525" class="fnanchor">[525]</a> na qual foraõ permanecendo outros Reys -até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que -abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ -vivido noventa annos.</p> - -<p>13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias, -que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira, -voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o -Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,<a id="FNanchor_526" href="#Footnote_526" class="fnanchor">[526]</a> principiando daqui para -diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.</p> - -<p>14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ -continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras -Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys -Godos.<a id="FNanchor_527" href="#Footnote_527" class="fnanchor">[527]</a> Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de -successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve -revelaçaõ divina,<a id="FNanchor_528" href="#Footnote_528" class="fnanchor">[528]</a> foy escolhido Vamba, natural, e habitador de -Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o -dispotico exercicio da sua agricultura.</p> - -<p>15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e -elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel, -respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ -seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois -ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra, -foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ<span class="pagenum" id="Page_259">[Pg 259]</span> Rey de toda -Hespanha<a id="FNanchor_529" href="#Footnote_529" class="fnanchor">[529]</a> na Era de 710.<a id="FNanchor_530" href="#Footnote_530" class="fnanchor">[530]</a></p> - -<p>16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar -Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum -accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a -Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o -Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,<a id="FNanchor_531" href="#Footnote_531" class="fnanchor">[531]</a> -acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que -Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.</p> - -<p>17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois -Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte -humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte -lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o -Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.<a id="FNanchor_532" href="#Footnote_532" class="fnanchor">[532]</a></p> - -<p>18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados -acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ -desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por -appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por -conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte -da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde, -chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura: -affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe -prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se -passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou -Egilona, formosa Princeza de Africa,<span class="pagenum" id="Page_260">[Pg 260]</span> a quem a braveza das ondas fizera -por hum incidente arribar a Hespanha.<a id="FNanchor_533" href="#Footnote_533" class="fnanchor">[533]</a></p> - -<p>19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com -seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle -se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros, -por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e -conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter -Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente -Monarquia dos Godos.</p> - -<p>20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que -corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas -circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros -com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous -annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que -os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem -Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer -destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ -que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo -alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em -parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e -que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o -que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.<a id="FNanchor_534" href="#Footnote_534" class="fnanchor">[534]</a> E porque os -Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos -delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_261">[Pg 261]</span></p> -<p class="center caption p2"><i>Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e -Galiza.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr> -<tr><td class="tdr">409</td><td><i>Hermerico</i>, ou <i>Hermenerico</i>. Teve guerras -com os Alanos. Depois dos Vandalos -passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo -o Reino de Portugal da fórma, que hoje -está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza. -Morreo em Merida de huma doença, -que lhe durou sete annos, e governou trinta -e dous.</td></tr> -<tr><td class="tdr">440</td><td><i>Rechila</i>, filho do antecedente. Fora Principe -perfeito, se naõ seguira o Arrianismo. -Com prosperidade, e paz governou sete annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">448</td><td><i>Reciario</i>, filho de Rechila. Teve alguns -emulos no principio do seu reinado: casou -com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou, -e destruio os Vascões: passou a França -a visitar seu sogro, e na retirada conquistou -muitas terras de Hespanha. S. Balconio, -Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo. -Na Cidade do Porto foy degollado -por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha -verdadeira dos Suevos. Governou nove -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">457</td><td><i>Maldra</i>, ou <i>Masdra</i>. Foy eleito na Cidade -de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do -Reino; mas padeceo as opposições, que lhe -fez <i>Franta</i>, que os do partido contrario -introduziraõ no governo, e elle governou tres -annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado -<i>Frumario</i>, que reinou tyrannicamente -dous annos, e a Masdra se seguio</td></tr> -<tr><td class="tdr">464</td><td><i>Remismundo</i>, a quem Santo Isidoro chama -<i>Arismundo</i>, filho de Masdra. Ficou prevalecendo<span class="pagenum" id="Page_262">[Pg 262]</span> -o seu reinado entre os dous precedentes -Contendores. Foy cativo, e prezo por -ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio -em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante -naõ he muy certa a successaõ dos Reys -Suevos por se interromper a sua serie com a -morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_535" href="#Footnote_535" class="fnanchor">[535]</a> -dá por incertos a <i>Theodulo</i>, <i>Veremundo</i>, -<i>Miro</i>, <i>Pharamiro</i>. Filippe de la Gandara,<a id="FNanchor_536" href="#Footnote_536" class="fnanchor">[536]</a> -seguindo o Chronicon de Marco Maximo, -assina depois de Remismundo a <i>Hermenerico</i> -no anno 556 com o governo de quasi -cincoenta annos: a <i>Rechila II.</i> <i>Reciario II.</i> -a quem S. Martinho Dumiense converteo à -Fé Catholica, e a <i>Ariamiro</i>, ou</td></tr> -<tr><td class="tdr">560</td><td><i>Theodomiro</i>, filho de Reciario. Converteo-se -à Fé juntamente com seu pay, e foy grande -defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se -no seu tempo o primeiro Concilio -Bracarense. Os annos do seu governo saõ -muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue -o allegado Gandara, diz que reinou vinte e -quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu -Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem -lhe assina dez annos de governo, e parece -o mais provavel. O Padre Argote lhe dá -o nome de Theodomiro Junior, porque antes -delle diz que houvera outro Theodomiro -Senior.<a id="FNanchor_537" href="#Footnote_537" class="fnanchor">[537]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">570</td><td><i>Miro</i>, ou <i>Ariamiro</i>. Foy excellente Principe -em piedade, e Religiaõ. Fez convocar -em Braga o segundo Concilio para desterrar -alguns abusos, e governou treze annos. Aqui -ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey, -que alguns confundem com Theodomiro, e<span class="pagenum" id="Page_263">[Pg 263]</span> -por isso naõ se ajusta entre os Authores a -chronologia como deve ser.<a id="FNanchor_538" href="#Footnote_538" class="fnanchor">[538]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">583</td><td><i>Eborico</i>, ou <i>Eurico</i>. Succedeo no governo -ao antecedente. Foy logo despojado do Reino -por <i>Andéca</i>, padrasto de Eburico, o qual -para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe -fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro -de Dume, e professar. Esta violencia vingou -pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo, -obrigando tambem a Andéca a se ordenar de -Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou -posse de todas as riquezas do Reino, o qual -no poder dos Suevos tinha durado em ambas -as fortunas cento e setenta e sete annos.</td></tr> -</table> - -<p>Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma -serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto -em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.<a id="FNanchor_539" href="#Footnote_539" class="fnanchor">[539]</a> Este -Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel -nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir -na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim -exclue a <i>Frantan</i>, <i>Fumario</i>, e <i>Andéca</i>, numerando -sómente oito Reys Suevos legitimos, e verdadeiros.</p> - -<p class="center caption p2"><i>Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e -Portugal.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr> -<tr><td class="tdr">411</td><td><i>Ataulfo</i>. Foy o primeiro Rey Godo, que -teve dominio em Hespanha. Suceedeo a -Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do<span class="pagenum" id="Page_264">[Pg 264]</span> -Imperador Honorio, aquem este deu em dote -as terras de Hespanha com o designio de -expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações -Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se -com brandura no governo, foy desobedecido -pelos seus, e por elles morto em -companhia de sete filhos. Dizem huns que -governara cinco annos, outros seis.</td></tr> -<tr><td class="tdr">416</td><td><i>Sigirico.</i> Era valeroso Capitaõ, e por isso -elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos -termos de paz; e naõ se contentando os -Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ -a vida. Governou hum anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">416</td><td><i>Walia.</i> Começou a governar com o projecto -de conquistar Africa: perdeo huma grande -armada: retira-se a Barcelona, faz pazes -com Honorio, e depois guerra aos Vandalos, -e os vence. Morre em Tolosa, tendo -governado tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">419</td><td><i>Theodoredo</i>, ou <i>Theodorico</i>. Fez guerra aos -Romanos, e morreo na cruelissima batalha -dos campos Catalaunicos, cahindo de hum -cavallo. Governou trinta e tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">452</td><td><i>Thurismundo</i>, filho de Theodoredo. Foy -morto por industria de seus irmãos. Governou -hum anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">453</td><td><i>Theuderico</i>, irmaõ de Thurismundo. Venceo, -e matou a Reciario, Rey dos Suevos, -e em Braga fez grandes hostilidades. Foy -morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">466</td><td><i>Eurico.</i> Deu leys escritas aos Godos, expulsou -aos Romanos de Hespanha, conquistou, -e saqueou muitas terras de Portugal. -Neste tempo se achava Hespanha dividida em -tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza, -parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era -dos Godos: os Romanos eraõ senhores das<span class="pagenum" id="Page_265">[Pg 265]</span> -Provincias de Cartagena, e Carpentana com -o restante da Lusitania. Depois de algumas -vitorias morreo em Arlés de França, e governou -dezasete annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr"> 483</td><td><i>Alarico II.</i> filho de Eurico. Litigou com -Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha -junto a Carcasona perdeo com ella a -vida. Governou vinte e tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">506</td><td><i>Gesalico</i>, ou <i>Gesaleuco</i> ou <i>Gensalarico</i>, filho -illegitimo de Alarico. Foy acclamado -pelos Godos na menoridade de Amalarico. -Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em -França; e sendo vencido por Theodorico, -Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro -legitimo, morreo de melancolia. Governou -quatro annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">511</td><td><i>Theudorico II.</i> Tendo reinado dezoito annos -em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem -huns que como Rey verdadeiro, outros -só como tutor, ou administrador de seu neto. -Governou quinze annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">526</td><td><i>Amalarico</i>, filho de Alarico. Teve por mulher -a Crotilde, Princeza Catholica, filha -de Clodoveo, Rey de França; mas como o -marido era Arriano, padeceo com elle grandes -trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ, -matando-o, e destruindo muitas povoações -de Hespanha. Governou cinco annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">531</td><td><i>Theudo</i>, ou <i>Theudio</i>, ou <i>Teudis</i>. Tinha sido -tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha: -outros o fazem descendente delRey -Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio -o governo dos Romanos em Hespanha quanto -aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio -por hum homem, que se fingia bobo. -Governou dezasete annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">548</td><td><i>Theudiselo</i>, ou <i>Theudisclo</i>. Foy Arriano, e -hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o<span class="pagenum" id="Page_266">[Pg 266]</span> -mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete. -Governou hum anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">549</td><td><i>Agila.</i> Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito -Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos -dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ -em Merida. Governou cinco annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">554</td><td><i>Athanagildo.</i> De Capitaõ, que se havia rebelado, -ficou com o Reino dos Godos. Morreo -em Toledo, e governou quatorze annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">567</td><td><i>Liuva</i>, ou <i>Luiva</i>. Depois de reinar hum -anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ -Leovigildo, e elle se retira às terras, -que tinha em França. Governou hum anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">568</td><td><i>Leovigildo.</i> Alcançou muitas vitorias dos -Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas, -foy o primeiro, que usou de insignias Reaes, -throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras -com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio, -e fez martyrizar em Sevilha depois -de huma apertada prizaõ. Governou dezoito -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">586</td><td><i>Flavio Recaredo</i>, filho de Leovigildo, e sobrinho -de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou -a heresia de Arrio das terras de Hespanha, -e governou quinze annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">601</td><td><i>Liuva II.</i> filho de Recaredo, que alguns -querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico. -Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe -com tyrannia a vida. Governou -dous annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">603</td><td><i>Witerico.</i> Renovou em seu governo a perfidia -de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ -pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe -immunda sepultura. Governou seis annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">610</td><td><i>Gundemaro.</i> Foy defensor da immunidade -Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou -dous annos.<span class="pagenum" id="Page_267">[Pg 267]</span></td></tr> -<tr><td class="tdr">612</td><td><i>Sisebuto.</i> No principio do seu reinado constrangeo -aos Judeos a que seguissem a Ley de -Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para -França. Acabou de lançar fóra de Portugal -aos Romanos, que ainda se conservavaõ -neste tempo por toda a costa do Algarve, e -entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel. -Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em -Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou -oito annos e meyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">621</td><td><i>Flavio Suyntila</i>, filho de Recaredo. Destruio -os Imperiaes, e sujeitou ao dominio -Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios, -e crueldades de fórma, que o Concilio -Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro, -o excommungou, e a sua mulher, e filhos. -Os Vice-Godos o privaraõ do Reino. -Governou dez annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">631</td><td><i>Sisenando.</i> Foy sublimado ao throno por favor -de Dagoberto, Rey de França, a quem -deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ -para acabar o grande Templo de S. -Diniz. Governou quatro annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">636</td><td><i>Chintila.</i> Por votos uniformes da Nobreza -foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado -Regio sua descendencia, convocou alguns -Concilios para estabelecer o seu intento. -Governou tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">640</td><td><i>Tulga.</i> Viveo pouco, porém fez obras de -grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em -Toledo com grande sentimento, e saudade de -todos. Governou dous annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">642</td><td><i>Chindasuindo.</i> Entrou a governar por violencia, -continuou com justiça de forte, que -soube temperar o arduo do principio com -o suave do progresso. Convocou em Toledo -Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ -entre Toro, e Torresilhas, onde está<span class="pagenum" id="Page_268">[Pg 268]</span> -enterrado. Governou seis annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">649</td><td><i>Recesuindo</i>, filho do antecedente. Entrou a -governar sem contradiçaõ, e com justiça. -Governou vinte e tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">672</td><td><i>Wamba</i>, ou <i>Bamba</i>. Foy eleito, e ungido -Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas -contra aquelles povos, que se queriaõ -eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos -triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma -coroa por outra: repudiou o Reino, e -deixando a purpura pelo habito de Religioso, -acabou santamente. Governou sete annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">680</td><td><i>Ervigio.</i> Obteve o Cetro por industrias, -que maquinou em vida de Bamba. Governou -sete annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">687</td><td><i>Egica</i>, ou <i>Egiza</i>, genro de Ervigio. Tomou -por companheiro a seu filho Witiza, e -obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade. -Divide o governo entre si, e o filho, -dando a este o dominio de Portugal, e Galiza, -e elle ficando com o restante da Hespanha. -Governou dez annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">701</td><td><i>Witiza.</i> Tanto que subio ao Throno, fez -estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se -a todo o genero de vicios, chegou ao extremo -da maldade, e tyrannia, mandando tirar -os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia -pacifico no governo de Cordova. Concedeo -varios privilegios aos Judeos, e depois -de outras muitas perversidades, que o fizeraõ -aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou -dez annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">711</td><td><i>D. Rodrigo</i>, filho de Theodofredo, e neto -de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios -ao antecessor. Os amores, que teve com -Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa -da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se<span class="pagenum" id="Page_269">[Pg 269]</span> -por conducta do Conde offendido -no desprezo de sua filha hum grande corpo de -exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo, -e todo o poder dos Godos, que havia -durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta -annos.<a id="FNanchor_540" href="#Footnote_540" class="fnanchor">[540]</a></td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_520" href="#FNanchor_520" class="label">[520]</a> Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5. -pag. 113.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_521" href="#FNanchor_521" class="label">[521]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_522" href="#FNanchor_522" class="label">[522]</a> Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e -triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron. -Gotic. tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_523" href="#FNanchor_523" class="label">[523]</a> Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi -224.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_524" href="#FNanchor_524" class="label">[524]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_525" href="#FNanchor_525" class="label">[525]</a> Morales lib. 11. cap. 33.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_526" href="#FNanchor_526" class="label">[526]</a> Vasæus Chron. tom. 1. p. 39.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_527" href="#FNanchor_527" class="label">[527]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_528" href="#FNanchor_528" class="label">[528]</a> Faria na Europa Portug. tom. 1. part. 3. cap. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_529" href="#FNanchor_529" class="label">[529]</a> Monarq. Lusit, liv. 6. cap. 25.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_530" href="#FNanchor_530" class="label">[530]</a> Morales liv. 12. cap. 40. e 41.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_531" href="#FNanchor_531" class="label">[531]</a> Berganç. Antig. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 6. n. 67.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_532" href="#FNanchor_532" class="label">[532]</a> Castilh. liv. 2. disc. 10. Monarq. Lusit. ut supr. cap. -30.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_533" href="#FNanchor_533" class="label">[533]</a> Garibay liv. 36. Clede tom. 1. liv. 3. pag. mihi 309. -Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_534" href="#FNanchor_534" class="label">[534]</a> Argot. Memor. do Arcebispad. de Brag. liv. 5. cap. 2. -num. 367.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_535" href="#FNanchor_535" class="label">[535]</a> Monarq. Lusitan. liv. 5 cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_536" href="#FNanchor_536" class="label">[536]</a> Gandar Triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. liv. 7. cap. -7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_537" href="#FNanchor_537" class="label">[537]</a> Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_538" href="#FNanchor_538" class="label">[538]</a> Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la -Era, y Fechas de España.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_539" href="#FNanchor_539" class="label">[539]</a> Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_V">CAPITULO V.<br><span class="small"><i>Invasaõ, e dominio dos Mouros.</i></span></h2></div> - - -<p>1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete -em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor -computaçaõ,<a id="FNanchor_541" href="#Footnote_541" class="fnanchor">[541]</a> e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz -Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os -seus dias junto a Viseu,<a id="FNanchor_542" href="#Footnote_542" class="fnanchor">[542]</a> entraraõ os Arabes a executar com todo -o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous -annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao -dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias,<span class="pagenum" id="Page_270">[Pg 270]</span> que -pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos -Africanos.<a id="FNanchor_543" href="#Footnote_543" class="fnanchor">[543]</a></p> - -<p>2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle -improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel, -vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias -a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e -Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando -estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais -proximas ao Oceano.<a id="FNanchor_544" href="#Footnote_544" class="fnanchor">[544]</a></p> - -<p>3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da -antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,<a id="FNanchor_545" href="#Footnote_545" class="fnanchor">[545]</a> que com as breves -reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias. -Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador -Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle -ausente,<a id="FNanchor_546" href="#Footnote_546" class="fnanchor">[546]</a> com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus -hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe -aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à -empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga, -noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou -accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil -Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.<a id="FNanchor_547" href="#Footnote_547" class="fnanchor">[547]</a></p> - -<p>4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos -Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e -concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso,<span class="pagenum" id="Page_271">[Pg 271]</span> filho de -D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey -Godo,<a id="FNanchor_548" href="#Footnote_548" class="fnanchor">[548]</a> se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo, -o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o -desposou com sua filha Ermesenda.</p> - -<p>5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo, -e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e -recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino, -libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando -com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os -nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.<a id="FNanchor_549" href="#Footnote_549" class="fnanchor">[549]</a></p> - -<p>6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum -Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias -segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia -dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e -intimando as suas leys.<a id="FNanchor_550" href="#Footnote_550" class="fnanchor">[550]</a></p> - -<p>7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila, -seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta -gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que -resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações -dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na -obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia -de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio, D. -Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que ElRey -D. Affonso <i>o Casto</i>, reforçado com mayor poder, se avançou desde -as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor -presidio,<span class="pagenum" id="Page_272">[Pg 272]</span> e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do -Minho, e Beira, por onde passara.</p> - -<p>8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos, -sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ -todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém -este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com -este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado -das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e -mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D. -Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento.</p> - -<p>9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de -seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do -valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras -de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso -Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos -soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de -expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado -Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo -Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e -destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos -seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em -Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas -Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho, -podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e -guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de -Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de -Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon -de Vaseu.<span class="pagenum" id="Page_273">[Pg 273]</span> <i>Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que -em tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal.</i></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr> -<tr><td class="tdr">738</td><td><i>D. Affonso I.</i> chamado o <i>Catholico</i>, filho -do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey -D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias, -que depois da perda de Hespanha teve -dominio sobre os Portuguezes, e conquistou -aos Mouros terras de nosso paiz: fundou, -e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">757</td><td><i>D. Froila</i>, ou <i>Fruela</i>, filho de D. Affonso. -Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe -conquistou Béja, Setubal, e outras terras de -Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto -seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando -com esta crueldade todas as boas obras, -que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico -de Hespanha, e no seu tempo succedeo -a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal. -Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado -na Igreja de Oviedo, que elle fundou. -Governou onze annos e meyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">768</td><td><i>D. Aurelio</i>, filho de D. Fruela. Serenou -com prudencia num grande tumulto de escravos, -que se levantaraõ contra seus senhores. -Governou seis annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">774</td><td><i>D. Silo.</i> Succedeo na Coroa, por casar com -Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico. -Teve paz com os Sarracenos, e só com os -Gallegos teve huma guerra, em que venceo. -Entrou poderosamente na Cidade de Merida, -donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o -depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de -Pravia, onde elle está enterrado, com huma<span class="pagenum" id="Page_274">[Pg 274]</span> -inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho, -que diz, e se lê por todos os lados: <i>Silo Princeps -fecit</i>. Governou nove annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">783</td><td><i>D. Mauregato.</i> Obteve a Coroa por usurpaçaõ; -porque a Rainha Adosinda pertendeo -que os Grandes de Hespanha acclamassem -por successor a D. Affonso, seu sobrinho, -filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato, -filho bastardo de D. Affonso o <i>Catholico</i> -havido em huma Moura, anhelando -tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen, -Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem, -se o soccorresse na sua pertençaõ. -Foy o promettimento dar-lhe todos os annos -cem donzellas de tributo, cincoenta nobres, -e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher -em Asturias, Portugal, e Galiza. D. -Joseph Pellizer,<a id="FNanchor_551" href="#Footnote_551" class="fnanchor">[551]</a> a quem segue D. Joaõ -de Ferreras,<a id="FNanchor_552" href="#Footnote_552" class="fnanchor">[552]</a> quizeraõ persuadir que este -Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera -ao Mouro o tributo annual das cem -donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ, -segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,<a id="FNanchor_553" href="#Footnote_553" class="fnanchor">[553]</a> -e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.<a id="FNanchor_554" href="#Footnote_554" class="fnanchor">[554]</a> -Governou cinco annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">789</td><td><i>D. Bermudo I.</i> filho de D. Fruela. Sendo -Diacono, e destinado à Igreja, por instancias -dos Grandes do Reino entrou a governar. -Naõ quiz contribuir aos Governadores -Mouros com o tributo das cem donzellas. -Depois de haver governado tres annos, e oito -mezes, renunciou o Reino em D. Affonso, -filho de seu primo D. Fruela, e passou -a buscar o habito de Monge no Mosteiro de -Sahagum, onde viveo muitos annos.<span class="pagenum" id="Page_275">[Pg 275]</span></td></tr> -<tr><td class="tdr">791</td><td><i>D. Affonso II.</i> chamado o <i>Casto</i>. Encarregando-se -do governo, que lhe cedeo D. Bermudo, -começou a se fazer temido dos Mouros. -Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou -as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra, -Braga, e outros Lugares. Mahamet -fez pazes com elle, e o servia como vassallo. -Em seu tempo se descubrio o corpo do -glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou -edificar huma Igreja com magnificencia Real. -Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta -e hum annos; porém a Clave Historial -do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina -trinta e quatro.</td></tr> -<tr><td class="tdr">842</td><td><i>D. Ramiro I.</i> filho delRey D. Bermudo. -Logo no principio do seu reinado se levantou -contra elle hum Conde das Asturias, chamado -Nepociano, a quem venceo, e castigou, -mandando-lhe tirar os olhos, supplicio -ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual -ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego, -Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho. -Aqui poz por Governador a seu tio o -Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos -pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ -irremediavelmente por falta de mantimentos, -resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos, -e meninos haviaõ ficar expostos ao furor -dos tyrannos, fossem elles mesmos os que -sacrificassem a innocencia por victima da sua -honra: e assim cada hum degollou por suas -proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo -a acommetter desesperadamente aos Mouros, -os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo -modo de pelejar, se deraõ por vencidos -à custa de setenta mil que pereceraõ. No -outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo -novo motivo para a admiraçaõ, vendo<span class="pagenum" id="Page_276">[Pg 276]</span> -que todos os degollados viviaõ resuscitados -milagrosamente. Referem este caso nossos -Historiadores,<a id="FNanchor_555" href="#Footnote_555" class="fnanchor">[555]</a> e parece que o acredita -a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece -nesta Villa. No seu Castello está hum -antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas -letras carcomidas, bem se percebe da contextura -ser narraçaõ deste prodigio. Havendo -finalmente D. Ramiro governado sete annos, -e oito mezes, morreo no primeiro de -Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja -de Oviedo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">850</td><td><i>D. Ordonho I.</i> filho de D. Ramiro, a quem -succedeo com universal applauso, por ser -Principe de grande valor, e talento. Serenou -huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e -venceo ao renegado Musa, de grande nome -entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy -temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras -terras de Portugal. Morreo de gota, e -governou dezaseis annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">866</td><td><i>D. Affonso III.</i> chamado o <i>Magno</i> pelas -grandes vitorias, que alcançou dos Mouros, -e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas, -que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se, -e os Barbaros oppondo-lhe fortes -exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou -dos outros. Em Portugal reedificou -muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto, -Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações -domesticas, e sabendo que os seus mesmos -filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos -naõ vencer a elles naquella violencia, se -venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a<span class="pagenum" id="Page_277">[Pg 277]</span> -D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e -Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal, -ficando elle só com a espada contra os -Mouros, de quem ainda alcançou vitorias. -Governou quarenta e quatro annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">910</td><td><i>D. Garcia.</i> Entrou a governar bem, explicando -o seu valor na vitoria, que teve dos -Mouros em Talavera, prendendo ao General -Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou -tres annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">913</td><td><i>D. Ordonho II.</i> Morto D. Garcia, foy acclamado -Rey pelos Bispos, e Principaes do -Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era -a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ, -e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ. -Poz grande terror aos Barbaros, de fórma -que ElRey de Merida lhe veyo render -vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes, -que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ -rebellar, mandou-os vir a Tejares junto -do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar -com elles materias importantes; mas dissimuladamente -os prendeo, e os fez degollar. Governou -nove annos, e meyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">923</td><td><i>D. Froila II.</i> Naõ se conta deste Rey acçaõ -contra os Mouros, antes o culpaõ de -tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo, -e desterrar a Fronimio, Bispo de -Leaõ, por terem seguido as partes do Infante -D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos -vassallos. Morreo de lepra, e governou hum -anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">924</td><td><i>D. Affonso IV.</i> Entrando a governar, e conhecendo-se -inutil, renunciou o dominio em -seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida -Monastica no Convento Benedictino de Sahagum. -Depois passados seis mezes, largando -o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ,<span class="pagenum" id="Page_278">[Pg 278]</span> -e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro, -passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou -a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe -mandou tirar os olhos, e prender até acabar -seus dias. Os annos do seu governo, e tempo -do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco -de Bergança,<a id="FNanchor_556" href="#Footnote_556" class="fnanchor">[556]</a> e Fr. Manoel da Rocha.<a id="FNanchor_557" href="#Footnote_557" class="fnanchor">[557]</a></td></tr> -<tr><td class="tdr">931</td><td><i>D. Ramiro II.</i> Depois de prender a seu irmaõ, -e seus sobrinhos, determinou fazer -cruel guerra aos Mouros, como com effeito -fez taõ felizmente, que sempre os venceo. -Ajudando-o visivelmente Santiago, matou -junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns -Historiadores<a id="FNanchor_558" href="#Footnote_558" class="fnanchor">[558]</a> dizem, que morrera -sendo Religioso. Governou dezanove annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">950</td><td><i>D. Ordonho III.</i> Foy filho de D. Ramiro, -e Principe valeroso, e prudente. Casou com -a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual -querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe -a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou -aos Gallegos, que se haviaõ levantado, -e passando a Portugal, chegou até Lisboa, -que entrou sem embaraço, saqueando os mais -lugares, que estavaõ em poder dos Mouros. -Governou cinco annos e meyo.</td></tr> -<tr><td class="tdr">955</td><td><i>D. Sancho I.</i> chamado o <i>Gordo</i>, porque -na verdade o era, e foy motivo para ser deposto -do throno, e subir em seu lugar o Infante -D. Ordonho, filho de D. Affonso IV. -intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves, -e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho -a Cordova, e alcançando lá remedio à -sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses, -valendo-se delRey Abderramen, que<span class="pagenum" id="Page_279">[Pg 279]</span> -com hum exercito de Mouros fez com que -D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ. -Os Condes, que governavaõ as terras do Minho, -e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey; -mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem -fidelidade, em cujo acto hum dos Condes -lhe deu peçonha, de que morreo. Governou -doze annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">967</td><td><i>D. Ramiro III.</i> Tomou a investidura do -Reino, tendo cinco annos de idade, e começou -este governo pelas direcções de sua mãy, -e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou -dos Mouros o corpo do glorioso S. -Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo -Sanches huma armada de Normandos, -que aportou em Galiza. Tratando com pouca -attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza, -estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante -D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a -15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos -rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio -o argumento. Governou dezaseis annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">985</td><td><i>D. Bermudo II.</i> chamado o <i>Gotoso.</i> Foy pouco -afortunado, pois encontrou sempre muy -poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal -tudo que hia desde a corrente do Douro -até o Algarve estava sujeito aos Mouros, -e só a pequena Comarca de Entre Douro, e -Minho com algumas terras da Beira estavaõ -na obediencia delRey D. Bermudo. Unido -com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia -Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor, -que o obrigou a fugir para Cordova, -deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos. -Morreo arrependido de suas culpas -em Galiza, e governou quatorze annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">999</td><td><i>D. Affonso V.</i> filho de D. Bermudo. Succedeo -na Coroa, tendo cinco annos de idade.<span class="pagenum" id="Page_280">[Pg 280]</span> -Foy Principe muy pio, e caritativo. Com -intentos de destruir os Mouros passou a Viseu, -onde elles tinhaõ as mayores forças, e -resistencia, e os cercou apertadamente; mas -chegando-se perto das muralhas, huma seta -disparada das suas ameyas o atravessou, e -fez levantar o sitio. Governou vinte e sete -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1027</td><td><i>D. Bermudo III.</i> filho de D. Affonso. Foy -Principe de grande animo, porém infeliz, -porque nas guerras, que teve com seu cunhado -D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se -na batalha do Carrion por entre as -armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez -annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1038</td><td><i>D. Fernando</i> o <i>Magno</i>. Por morte de seu -cunhado tomou posse do Reino de Leaõ. -Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas -terras desde o Douro até o Mondego. Depois -de muitas vitorias mereceo que o glorioso -Santo Isidro lhe revelasse o fim dos -seus dias; e antes de morrer repartio seus -Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou -Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia -Galiza, e Portugal. Governou vinte e -nove annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1067</td><td><i>D. Garcia.</i> No seu governo se deixou este -Principe levar das lisonjas de hum seu valido, -chamado Verna, que foy causa de se -descontentarem os illustres Portuguezes, e -Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ -armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle -todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais -velho, o metteo em prizões, e o Reino de -Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando -por entaõ incorporado na Coroa de Castella. -Governou quatro annos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1071</td><td><i>D. Sancho II</i> Perseguio fortemente a seus<span class="pagenum" id="Page_281">[Pg 281]</span> -irmãos, e querendo usurpar tambem do poder -de sua irmã Dona Urraca a Cidade de -Çamora, que poz em apertado cerco, hum -Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou -com huma lança. Governou hum anno.</td></tr> -<tr><td class="tdr">1072</td><td><i>D. Affonso VI.</i> Teve o titulo de Imperador, -e reinou em Castella, Leaõ, Portugal, -e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados -Principes de Hespanha, e o que conquistou -mais terras aos Mouros, aos quaes -atropelou com o valor do celebrado Cid. -Distribuio o governo de algumas Comarcas -de Portugal por illustres pessoas. O Conde -D. Sisnando governava as terras de entre -Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca. -O Conde D. Nuno Mendes a Provincia -do Minho, a quem succedeo o illustrissimo -Conde D. Henrique, gloriosa origem dos -Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos -só como epitome o Capitulo seguinte.</td></tr> -</table> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_540" href="#FNanchor_540" class="label">[540]</a> Veja-se Loays. nos Concil. de Hesp. Coronelli no -Prodrom. part. 4. p. 465. Vasæu tom. 1. Chron p. 39. Resend. lib. 3. de -Antiq. Marian. Histor. de Hesp. part. 1. Savedr. Coron. Gotica. Gandar. -nas Palm y Triunf. de Galiza part. 2. Berganz. Antig. de Hesp part. 1. -liv. 1. Yañes España en la S. Biblia part 1. cap. 19. pag 224.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_541" href="#FNanchor_541" class="label">[541]</a> D. Rodrig, Arceb. liv. 1. cap. 255. Histor. Gen. de -Hesp. part. 2. cap. 55. Moral. liv. 12. cap. 69. Berganç. Antiguid. de -Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 13. n. 212. Yañes de la Era, y Fechas de -España lib. 2. cap. 29. p. 482. Chronic. Albendense seguido por Marian. -part. 1. liv. 6. cap. 23. Monarq. Lusit. liv. 7 cap. 2. concorda no -anno, mas discrepa no dia, porque assenta que foy no meyo de Outubro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_542" href="#FNanchor_542" class="label">[542]</a> Væseus Chron. tom. 1. p. 113. Monarq. Lusitan. liv. -7. cap. 3. p. 386. Aqui affirma Brito, que na Igreja de S. Miguel -do Fetal, que está fóra dos muros de Viseu, vira a sepultura de D. -Rodrigo, mas já naõ tinha os ossos delRey, por haver annos, que os -haviaõ, trasladado para Castella, e naõ diz onde se depositaraõ.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_543" href="#FNanchor_543" class="label">[543]</a> Moret. Anales liv. 3. cap. 4. e no tom. 1. Append. §. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_544" href="#FNanchor_544" class="label">[544]</a> Ferrer. ad ann. 713. n. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_545" href="#FNanchor_545" class="label">[545]</a> Fr. Franc. Sota Chron. de los Princip. de las Astur. -liv. 3. cap. 42. n. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_546" href="#FNanchor_546" class="label">[546]</a> Isidor. Pacens. apud Brit. na Monarq. Lusit. liv. 7. -cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_547" href="#FNanchor_547" class="label">[547]</a> Monge de Silos apud Bergança nas Antiguid. de Hesp. -part. 1. liv. 2. cap. 1. n. 7. Vasæus Chron. tom. 1. ad ann. 716. -Marian. part. 1. liv. 7. cap. 1. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_548" href="#FNanchor_548" class="label">[548]</a> Salazar Histor. da Casa de Lara liv. 2. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_549" href="#FNanchor_549" class="label">[549]</a> Ferrer. tom. 4. na Dedicat.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_550" href="#FNanchor_550" class="label">[550]</a> Monarq. Lusitan. liv. 7. Bergança part. 1. liv. 2. cap. -1. num. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_551" href="#FNanchor_551" class="label">[551]</a> Pellizer Anal. p. 401.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_552" href="#FNanchor_552" class="label">[552]</a> Ferrer. tom. 4. p. 108.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_553" href="#FNanchor_553" class="label">[553]</a> Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_554" href="#FNanchor_554" class="label">[554]</a> Bergança part. 1. das Antiguid. de Hesp. liv. 2. cap. 3. -n. 35.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_555" href="#FNanchor_555" class="label">[555]</a> Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 14. Benedict. Lusit tom. 1. -trat. 2. part. 2. cap. 6. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Port. n 52. Paes -Viegas nos Princip. de Portug. liv. 6. p. 219. Agiolog. Lusit. tom. 3. -p. 801. Ann. Historic. tom. 2. p. 257.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_556" href="#FNanchor_556" class="label">[556]</a> Berganç. part. 1. das Antig. de Hesp. liv. 3. cap. 6. n. -65.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_557" href="#FNanchor_557" class="label">[557]</a> Rocha Portug. Renascid. part. 2. n. 124. & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_558" href="#FNanchor_558" class="label">[558]</a> Apud Berganç. ut supr. cap. 12. n. 138.</p> - -</div></div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VI">CAPITULO VI.<br><span class="small"><i>Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de -Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes.</i></span></h2></div> - - -<p>Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada -dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e -Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D. -Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das -conquisquistas<span class="pagenum" id="Page_282">[Pg 282]</span> delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas -o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote -naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo -inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido -tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com -huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado, -como já entramos a ver.</p> - - -<h3><i>Conde D. Henrique.</i></h3> - -<p>2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste -illustrissimo Conde. O primeiro: <i>Qual he a sua origem?</i> Naõ menos -que seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se -podem ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.<a id="FNanchor_560" href="#Footnote_560" class="fnanchor">[559]</a> A mais -certa, e verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he -a que faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques -de Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre -<i>Exemplar Floriacense</i>, que se achou em França na livraria do -Convento de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ -no anno de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em -tempo do proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida -por texto indubitavel.</p> - -<p>3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo -grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,<a id="FNanchor_561" href="#Footnote_561" class="fnanchor">[560]</a> fomos encontrar -huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de -Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo -Agostinho,<span class="pagenum" id="Page_283">[Pg 283]</span> e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ -com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na -cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que -ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras -clausulas, a seguinte:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p><i>Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don -Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su -Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de -los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla, -&c.</i></p> -</div> - -<p>4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste -epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande -Brandaõ,<a id="FNanchor_562" href="#Footnote_562" class="fnanchor">[561]</a> diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas -nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais: -Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ, -digna de reparo, dizendo: <i>En lo que toca a ser su padre el Conde D. -Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de -Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo.</i></p> - -<p>5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no -Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que -o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,<a id="FNanchor_563" href="#Footnote_563" class="fnanchor">[562]</a> em -que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita -reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos -communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ -anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos -curiosos,<span class="pagenum" id="Page_284">[Pg 284]</span> e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de -Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.</p> - -<p>6 O segundo ponto difficultoso he: <i>Se a Rainha Dona Teresa, mulher -do Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de -Leaõ?</i> A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso -sendo casado com Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora -Dona Teresa, foy depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio -VII. como consta da sua Carta, ou Breve, que principia: <i>Dici non -potest</i>, escrita ao mesmo D. Affonso, por se contrahir sem dispensa -do parentesco, que a dita Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. -Affonso, o qual foy casado seis vezes.</p> - -<p>7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda -Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por -sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,<a id="FNanchor_564" href="#Footnote_564" class="fnanchor">[563]</a> objecçaõ forçosa, -com que argumenta Manoel de Faria.<a id="FNanchor_565" href="#Footnote_565" class="fnanchor">[564]</a> Porém isto naõ obsta; porque -além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso -tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a -entender Baronio,<a id="FNanchor_566" href="#Footnote_566" class="fnanchor">[565]</a> he certo que os filhos havidos de matrimonios -separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos -legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte -Ribeiro.<a id="FNanchor_567" href="#Footnote_567" class="fnanchor">[566]</a> Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo -erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar -já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.<a id="FNanchor_568" href="#Footnote_568" class="fnanchor">[567]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_285">[Pg 285]</span></p> - -<p>8 A terceira difficuldade he: <i>Saber o anno, em que entrou o -Conde D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ -em dote?</i> Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph -Barbosa<a id="FNanchor_569" href="#Footnote_569" class="fnanchor">[568]</a> que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental -Genealogico D. Antonio Caetano<a id="FNanchor_570" href="#Footnote_570" class="fnanchor">[569]</a> he de parecer que viera no anno -antecedente; e outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à -segunda parte, o dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras -os Montes, e em Galiza naõ comprehendia terra alguma, como affirma -o Chronista Brandaõ,<a id="FNanchor_571" href="#Footnote_571" class="fnanchor">[570]</a> contra o que alguns disseraõ. Este era o -estado de Portugal, que o valeroso Conde augmentou depois com as outras -terras, que foy ganhando aos Mouros, por onde livremente podia.</p> - -<p>9 O quarto ponto difficultoso he: <i>Se o Reino de Portugal foy dado -ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo?</i> Os Authores -Castelhanos dizem que sim;<a id="FNanchor_572" href="#Footnote_572" class="fnanchor">[571]</a> porém o certo he que foy dado -independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella. -Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,<a id="FNanchor_573" href="#Footnote_573" class="fnanchor">[572]</a> -e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;<a id="FNanchor_574" href="#Footnote_574" class="fnanchor">[573]</a> porque naõ se -descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste -contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy -hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita -soberania.</p> - -<p>10 A quinta difficuldade he: <i>Saber em que tempo foy o Conde D. -Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver -entrado em Portugal?</i> Brandaõ<span class="pagenum" id="Page_286">[Pg 286]</span> diz,<a id="FNanchor_575" href="#Footnote_575" class="fnanchor">[574]</a> que depois, e no anno de -1103. Manoel de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava -casado,<a id="FNanchor_576" href="#Footnote_576" class="fnanchor">[575]</a> e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. -Author daquella expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por -segura a sentença de Brandaõ.</p> - -<p>11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que -resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas -vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor -fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da -Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo -muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com -egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao -descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta -e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na -Sé de Braga.</p> - - -<h3><i>D. Affonso Henriques, I. Rey.</i></h3> - -<p>12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso, -e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey -D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que -passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza, -naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.</p> - -<p>13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e -Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o -melhor calculo;<a id="FNanchor_577" href="#Footnote_577" class="fnanchor">[576]</a> e sendo seu nascimento festejado, assim como -era util, moderou o contentamento de<span class="pagenum" id="Page_287">[Pg 287]</span> pays, e vassallos hum defeito -corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda<a id="FNanchor_578" href="#Footnote_578" class="fnanchor">[577]</a> passou -logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo, -e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da -purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o -por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a -Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de -que parece duvidar Mons. de la Clede.<a id="FNanchor_579" href="#Footnote_579" class="fnanchor">[578]</a></p> - -<p>14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade, -quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria -sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando -as insignias militares do altar do Salvador.<a id="FNanchor_580" href="#Footnote_580" class="fnanchor">[579]</a> Passados dous annos, -considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro, -intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que -até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho -excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha, -que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho -de 1128.</p> - -<p>15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio -de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou -pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas -infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;<a id="FNanchor_581" href="#Footnote_581" class="fnanchor">[580]</a> -porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a -Villa de<span class="pagenum" id="Page_288">[Pg 288]</span> Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto -aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente -ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua -palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ -querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz -havia feito, dizem,<a id="FNanchor_582" href="#Footnote_582" class="fnanchor">[581]</a> que este fora a Toledo com mulher, e filhos -presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta -do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente -satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.</p> - -<p>16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ -prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado, -passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe -poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir -os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys -Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de -quatrocentos mil combatentes.<a id="FNanchor_583" href="#Footnote_583" class="fnanchor">[582]</a></p> - -<p>17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento -de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia -Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si -hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da -sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas. -Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a -que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139, -a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey<span class="pagenum" id="Page_289">[Pg 289]</span> D. Affonso de -Castella,<a id="FNanchor_584" href="#Footnote_584" class="fnanchor">[583]</a> e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179 -pela Bulla, que começa: <i>Manifestis probatum est argumentis.</i><a id="FNanchor_585" href="#Footnote_585" class="fnanchor">[584]</a></p> - -<p>18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do -mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte, -passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de -Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,<a id="FNanchor_586" href="#Footnote_586" class="fnanchor">[585]</a> além de hum -grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste -admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que -abaixo allegamos,<a id="FNanchor_587" href="#Footnote_587" class="fnanchor">[586]</a> naõ sendo digno de se ler neste particular -o Padre Mariana,<a id="FNanchor_588" href="#Footnote_588" class="fnanchor">[587]</a> que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das -suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ -authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui -mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as -cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco,<span class="pagenum" id="Page_290">[Pg 290]</span> e que a orla dos -Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando -por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.</p> - -<p>19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ -os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos -responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de -hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do -juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica -delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por -mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no -cap. 15.: <i>E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle -mesmo deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na -mesma, maneira que disse o Ermitaõ.</i> Camões, que morreo muito antes -da vinda do Rey Filippe, o cantou tambem no <i>Cant. 3. oitava 45. e -46</i>. O letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal -do campo de Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André -de Resende, como elle o confessa no <i>liv. 4. de Antiquit</i>. faz -memoria desta appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores -antiquissimos.</p> - -<p>20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente -santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo; -donde Sá de Miranda na <i>Carta 5. est. 9.</i> disse fallando de -Coimbra:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Cidade rica do Santo</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Corpo do seu Rey primeiro,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Que inda vimos com espanto,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Há taõ pouco tempo inteiro,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Dos annos que podem tanto.</i></span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_291">[Pg 291]</span></p> - -<p>Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea -ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja -de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da -integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao -projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a -instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo -processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais -urgentes.</p> - -<p>21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco -escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta -variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem -embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a -substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos -modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant. -3. desde a est. 153.</p> - -<p>22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de -Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar. -Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se -achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario -a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello -pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo a -transcreve Brito na Chronica de Cister <i>livro 3. cap. 5.</i> e outras -muitas que se podem ver na mesma Chronica <i>l. 3. c. 6.</i> e na -<i>Monarquia Lusitan. liv. 8 c. 26.</i> e na <i>Historia Ecclesiast. de -Lisboa part. 2. cap. 56.</i></p> - -<p>23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se -D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ -à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo -feudatario, mas liberal tributo, dous marcos<span class="pagenum" id="Page_292">[Pg 292]</span> de ouro,<a id="FNanchor_589" href="#Footnote_589" class="fnanchor">[588]</a> cujo -reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de -vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta -escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza, -tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando -magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e -cincoenta,<a id="FNanchor_590" href="#Footnote_590" class="fnanchor">[589]</a> dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e -liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo -Portugal.<a id="FNanchor_591" href="#Footnote_591" class="fnanchor">[590]</a></p> - -<p>24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de -Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de -S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados -com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e -libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e -Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte -Reys, e dous Imperadores.</p> - -<p>25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo -III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou -com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente -setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou -o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo -governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de -Santa Cruz de Coimbra com<span class="pagenum" id="Page_293">[Pg 293]</span> grande veneraçaõ, obrando Deos por elle -alguns prodigios, como se podem ver no argumento 10. do <i>Apparato -Historico</i>, que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio -em Roma no anno de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe -tece vinte e sete elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas -mais conspicuas em virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os -merecimentos deste santo Rey premiados com a eterna felicidade.</p> - - -<h3><i>D. Sancho I. segundo Rey.</i></h3> - -<p>26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com -os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos -mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das -armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou -na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito -Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria, -e defendido seu pay.<a id="FNanchor_592" href="#Footnote_592" class="fnanchor">[591]</a> De vinte e hum annos casou com Dona Dulce, -filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo -vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens -por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem -presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.</p> - -<p>27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia -da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ -taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do -sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do -Guadalquivir.<a id="FNanchor_593" href="#Footnote_593" class="fnanchor">[592]</a> Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda<span class="pagenum" id="Page_294">[Pg 294]</span> -com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal, -quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ -posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e -desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo -primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes -offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se -prezou ser seu especial bemfeitor.<a id="FNanchor_594" href="#Footnote_594" class="fnanchor">[593]</a></p> - -<p>28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das honras -funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra aos 9 de -Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de idade, como bem -diz Brandaõ,<a id="FNanchor_595" href="#Footnote_595" class="fnanchor">[594]</a> e naõ trinta e oito, como dizem outros.<a id="FNanchor_596" href="#Footnote_596" class="fnanchor">[595]</a> Logo -solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou em convertella em -utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar edificios, fundar -Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, acções, que lhe -grangearaõ os honrosos cognomes de <i>Povoador</i>,<a id="FNanchor_597" href="#Footnote_597" class="fnanchor">[596]</a> e <i>Pay -da Patria</i>,<a id="FNanchor_598" href="#Footnote_598" class="fnanchor">[597]</a> manifestando-se muito mais a sua piedade, e -grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta -prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia -offerta até do que ainda esperava ter.<a id="FNanchor_599" href="#Footnote_599" class="fnanchor">[598]</a></p> - -<p>29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em -direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal -veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho -conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral -com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino, -intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno<span class="pagenum" id="Page_295">[Pg 295]</span> 1188 até 1190.<a id="FNanchor_600" href="#Footnote_600" class="fnanchor">[599]</a> -Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras -de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou -no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho -resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome -attenuado muito as forças.<a id="FNanchor_601" href="#Footnote_601" class="fnanchor">[600]</a></p> - -<p>30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos -povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais -populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ -só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,<a id="FNanchor_602" href="#Footnote_602" class="fnanchor">[601]</a> -sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas, -e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de -Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular -bemfeitor,<a id="FNanchor_603" href="#Footnote_603" class="fnanchor">[602]</a> acabando todos de ver o governo, e a piedade deste -Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas -de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos, -pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa -Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no -Mosteiro de Lorvaõ.<a id="FNanchor_604" href="#Footnote_604" class="fnanchor">[603]</a> Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em -Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27 -de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em -Santa Cruz de Coimbra.</p> - - -<h3><i>D. Affonfo II. terceiro Rey.</i></h3> - -<p>31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na -morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso<span class="pagenum" id="Page_296">[Pg 296]</span> -no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de -idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por -se ter recebido no anno 1201.<a id="FNanchor_605" href="#Footnote_605" class="fnanchor">[604]</a> Havia nascido em Coimbra a 23 de -Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum -achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa -Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de -Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o -liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.<a id="FNanchor_606" href="#Footnote_606" class="fnanchor">[605]</a></p> - -<p>32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo -generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste -nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia -alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e -Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas -as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de -outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero -de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes -alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se -appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho -de 1212.<a id="FNanchor_607" href="#Footnote_607" class="fnanchor">[606]</a></p> - -<p>33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e -assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu -pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte -fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas; -e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a -patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.<a id="FNanchor_608" href="#Footnote_608" class="fnanchor">[607]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_297">[Pg 297]</span></p> - -<p>34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte -differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes -chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima -armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e -levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de -Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ -D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo -do insigne Chronista Brandaõ),<a id="FNanchor_609" href="#Footnote_609" class="fnanchor">[608]</a> ajudado com outros Commendadores -das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado -conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de -armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes, -que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia, -que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys -de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos -depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.</p> - -<p>35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel -para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados, -renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de -ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e -venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos -Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande -credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de -idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março -de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_298">[Pg 298]</span></p> - - -<h3><i>D. Sancho II. quarto Rey.</i></h3> - -<p>36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de -1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude. -Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara -do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem -de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos -Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos -que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso -exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por -esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe -mandou.<a id="FNanchor_610" href="#Footnote_610" class="fnanchor">[609]</a></p> - -<p>37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o -anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e -Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur, -Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes -prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado -Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras -Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ -dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida -tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.<a id="FNanchor_611" href="#Footnote_611" class="fnanchor">[610]</a> Porém vendo -o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame -do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda -inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia <i>Grandi non -immerito</i>,<a id="FNanchor_612" href="#Footnote_612" class="fnanchor">[611]</a> substituindo em seu lugar por Governador a seu -irmão<span class="pagenum" id="Page_299">[Pg 299]</span> D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de -França.</p> - -<p>38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum -consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho -infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D. -Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor, -marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as -censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia -de D. Affonso,<a id="FNanchor_613" href="#Footnote_613" class="fnanchor">[612]</a> desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo -a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos -elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude -com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella -dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente -cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da -eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis -de idade, e vinte e cinco de governo.</p> - - -<h3><i>D. Affonso III. quinto Rey.</i></h3> - -<p>39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no -anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha, -sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou -criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de -certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245, -alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou -no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de -1250 o conseguio quasi plenamente,<span class="pagenum" id="Page_300">[Pg 300]</span><a id="FNanchor_614" href="#Footnote_614" class="fnanchor">[613]</a> e em que se distinguio muito o -insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.</p> - -<p>40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha -occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles -Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso -depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas -terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e -Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.<a id="FNanchor_615" href="#Footnote_615" class="fnanchor">[614]</a></p> - -<p>41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo, -estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;<a id="FNanchor_616" href="#Footnote_616" class="fnanchor">[615]</a> porém no meyo -de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e -perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a -Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda -delRey D. Affonso <i>Sabio</i> de Castella no anno de 1253, motivo de -haver tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ -o povo, e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira -mulher. Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse -dispensar com ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano -IV. e ficou o Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia -contumacia.<a id="FNanchor_617" href="#Footnote_617" class="fnanchor">[616]</a></p> - -<p>42 Alguns Escritores se enganaraõ<a id="FNanchor_618" href="#Footnote_618" class="fnanchor">[617]</a> em dizer que o Reino do Algarve -fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente -provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,<a id="FNanchor_619" href="#Footnote_619" class="fnanchor">[618]</a> porque só<span class="pagenum" id="Page_301">[Pg 301]</span> consta que os Reys -de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de -1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia -de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267 -se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o -Infante D. Diniz levou a D. Affonso o <i>Sabio</i> contra os Mouros.</p> - -<p>43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias, -tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que -dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu -respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual -reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico, -continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou -XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer -obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.<a id="FNanchor_620" href="#Footnote_620" class="fnanchor">[619]</a></p> - -<p>44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta<a id="FNanchor_621" href="#Footnote_621" class="fnanchor">[620]</a> -equivocadamente lhe chamasse <i>Bravo</i>, foy ElRey D. Affonso de -notavel governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do -Reino, fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de -Elvas, e Santa Clara de Santarem.<a id="FNanchor_622" href="#Footnote_622" class="fnanchor">[621]</a> Alimpou o Reino de facinorosos, -estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de -1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy -depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se -trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_302">[Pg 302]</span></p> -<p><i>D. Diniz sexto Rey.</i></p> - -<p>45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o -Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu -padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros -desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por -ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno -Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso, -e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D. -Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.<a id="FNanchor_623" href="#Footnote_623" class="fnanchor">[622]</a></p> - -<p>46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro -annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a -Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu -avô<a id="FNanchor_624" href="#Footnote_624" class="fnanchor">[623]</a> contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a -Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo -D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas -em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando -a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o -novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem -mágoa, e sentimento da Rainha.</p> - -<p>47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como -era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta -honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura -com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das -fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as -mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_303">[Pg 303]</span></p> - -<p>48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a -Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste -mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico, -e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando -a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem -as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este -cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou, -mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy -Mirandela, e outros.</p> - -<p>49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ, -foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio -dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra -vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real -todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava -dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: <i>Que justamente se tirava -o que injustamente se concedera.</i><a id="FNanchor_625" href="#Footnote_625" class="fnanchor">[624]</a> Passou esta Ley em Coimbra -a 26 de Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o -Chanceller Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos -grandes serviços, que tinha feito ao Reino.</p> - -<p>50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão -D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois -dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara -o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter -nascido antes, e por isso illegitimo,<a id="FNanchor_626" href="#Footnote_626" class="fnanchor">[625]</a> com este motivo chegaraõ -a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente, -o fez convir em composições,<span class="pagenum" id="Page_304">[Pg 304]</span> intervindo tambem na reconciliaçaõ dos -dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria, -ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha -Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de -1287.</p> - -<p>51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse -a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como -era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa -a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao -IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,<a id="FNanchor_627" href="#Footnote_627" class="fnanchor">[626]</a> e continuando os -estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados -todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse -para Coimbra no anno 1308.</p> - -<p>52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que -prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente -ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas -nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;<a id="FNanchor_628" href="#Footnote_628" class="fnanchor">[627]</a> e porque esta -limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ -menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade, -dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito -cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de -naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S. -Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e -Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes -dous participantes da sua liberalidade.</p> - -<p>53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em<span class="pagenum" id="Page_305">[Pg 305]</span> muitas virtudes, e em -tres excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na <i>Justiça</i>, -<i>Verdade</i>, e <i>Liberalidade</i>. Pela primeira foy eleito Juiz -arbitro em companhia delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey -D. Fernando de Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de -Castella, e Leaõ, em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de -Aragaõ sem queixa de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, -que havia entre os Reys de Castella, e Aragaõ.</p> - -<p>54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous -Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho -deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia, -porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima -esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,<a id="FNanchor_629" href="#Footnote_629" class="fnanchor">[628]</a> e naõ -houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas, -e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a -seu filho sem offensa de seus vassallos.</p> - -<p>55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas -Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem -Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no -seu tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o -cognome de <i>Lavrador</i>, aos quaes chamava nervos da Republica, e -por este augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem <i>Pay da -Patria</i>. Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou -por seu Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a -guerra.</p> - -<p>58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos<span class="pagenum" id="Page_306">[Pg 306]</span> com seu filho o -Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja, -que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo -irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ -com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo -em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo -vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco, -dez mezes, e vinte dias.<a id="FNanchor_630" href="#Footnote_630" class="fnanchor">[629]</a> Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de -Odivellas em soberbo mausoleo.</p> - - -<h3><i>D. Affonso IV. setimo Rey</i>.</h3> - -<p>57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro -de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia, -contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra, -conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco -Leitaõ Ferreira.<a id="FNanchor_631" href="#Footnote_631" class="fnanchor">[630]</a> Desde a primeira idade mostrou o aspero natural, -de que era dotado. Casou em Mayo de 1309<a id="FNanchor_632" href="#Footnote_632" class="fnanchor">[631]</a> com a Senhora Dona -Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se -celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.</p> - -<p>58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando -entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo -capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava -por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe -causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero, -de fórma que por elle grangeou o epitheto de <i>Bravo</i>, emprendeo -acções arduas, e teve grandes<span class="pagenum" id="Page_307">[Pg 307]</span> discordias com seu pay, e seu sobrinho -D. Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.<a id="FNanchor_633" href="#Footnote_633" class="fnanchor">[632]</a></p> - -<p>59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de -ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha -do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada, -cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do -valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.<a id="FNanchor_634" href="#Footnote_634" class="fnanchor">[633]</a> Fez por duas vezes -mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra -para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de -1354,<a id="FNanchor_635" href="#Footnote_635" class="fnanchor">[634]</a> concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.</p> - -<p>60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé -com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem; -hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na -sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito, -o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à -formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o -Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo -de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e -de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na -Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte -do Evangelho, e na Capella Mór<a id="FNanchor_636" href="#Footnote_636" class="fnanchor">[635]</a>.</p> - - -<h3><i>D. Pedro I. oitavo Rey.</i></h3> - -<p>61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita -variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico -Francisco<span class="pagenum" id="Page_308">[Pg 308]</span> Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que -ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na -antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.<a id="FNanchor_637" href="#Footnote_637" class="fnanchor">[636]</a> Tanto -que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de -1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias, -cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona -Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ -tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com -o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro -Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ -os aggressores daquella innocente morte.</p> - -<p>62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia -promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da -morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança, -e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a -beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com -fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas -costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.<a id="FNanchor_638" href="#Footnote_638" class="fnanchor">[637]</a> Parece que este -excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto de -<i>Justiceiro</i>, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia -mudou para o cognome de <i>Cruel</i>, de que os deixou desenganados o -Plataõ Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:<a id="FNanchor_639" href="#Footnote_639" class="fnanchor">[638]</a></p> - -<div class="blockquot"> - -<p><i>Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel -inclinaçaõ.</i></p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_309">[Pg 309]</span></p> - -<p>63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a -legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher, -fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando -lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto -apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a -boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava, -administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro. -Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as -dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.</p> - -<p>64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o -genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por -outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de -fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e -unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado, -soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte -diziaõ, que <i>taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha -visto Portugal, nem esperava de os tornar a ver</i>. Achando-se na -Villa de Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda -feira pela madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; -reinou nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em -Alcobaça junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.</p> - - -<h3><i>D. Fernando, nono Rey.</i></h3> - -<p>65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345, -vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando, -conforme a Chronologia mais bem averiguada.<span class="pagenum" id="Page_310">[Pg 310]</span><a id="FNanchor_640" href="#Footnote_640" class="fnanchor">[639]</a> A natureza o dotou -de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos -era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.<a id="FNanchor_641" href="#Footnote_641" class="fnanchor">[640]</a> O genio, -e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou -Camões,<a id="FNanchor_642" href="#Footnote_642" class="fnanchor">[641]</a> e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta -brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar, -e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.</p> - -<p>66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando -vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e -opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros, -que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.<a id="FNanchor_643" href="#Footnote_643" class="fnanchor">[642]</a> Cuidou logo em reedificar as -Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo -mercês com profusa liberalidade.</p> - -<p>67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D. -Pedro o <i>Cruel</i>, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique, -como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa -como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de -Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha -Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e -damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio -XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no -ultimo de Março de 1371.<a id="FNanchor_644" href="#Footnote_644" class="fnanchor">[643]</a></p> - -<p>68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao -forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da -Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando -pretextos para lhe<span class="pagenum" id="Page_311">[Pg 311]</span> annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por -mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo -apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.<a id="FNanchor_645" href="#Footnote_645" class="fnanchor">[644]</a> Joaõ Lourenço da Cunha -se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já -militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos -crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.</p> - -<p>69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua -palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ -da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey -Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, -filha delRey D. Pedro o <i>Cruel</i>, se intitulava Rey de Castella, e -pertendia a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique -delRey D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, -entrou por Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a -espada, sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.</p> - -<p>70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas -povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos -moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,<a id="FNanchor_646" href="#Footnote_646" class="fnanchor">[645]</a> esteve perto de -destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento -de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta -oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os -Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.<a id="FNanchor_647" href="#Footnote_647" class="fnanchor">[646]</a> Achava-se -ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente, -vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo, -e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e<span class="pagenum" id="Page_312">[Pg 312]</span> elle com -tanto descuido, como diz Manoel de Faria,<a id="FNanchor_648" href="#Footnote_648" class="fnanchor">[647]</a> sem dar providencia, ou -remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com -soberba descuberta por falta da opposiçaõ.</p> - -<p>71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com -toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ -promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes -ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ -entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente -aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do -Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas -embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos -artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D. -Fernando.<a id="FNanchor_649" href="#Footnote_649" class="fnanchor">[648]</a></p> - -<p>72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas -militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas -de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros -muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo -de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375. -Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria, -Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as -Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse -mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no -anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos -estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.<a id="FNanchor_650" href="#Footnote_650" class="fnanchor">[649]</a> Inventou novos -arbitrios sobre a utilidade do commercio,<span class="pagenum" id="Page_313">[Pg 313]</span><a id="FNanchor_651" href="#Footnote_651" class="fnanchor">[650]</a> e fez varias mercês com -liberalidade regia.</p> - -<p>73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e -rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e -padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos -Castelhanos,<a id="FNanchor_652" href="#Footnote_652" class="fnanchor">[651]</a> concluindo-se finalmente com o casamento de Dona -Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que -se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade -de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade -trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove -mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de -Santarem.</p> - - -<h3><i>D. Joaõ I. decimo Rey.</i></h3> - -<p>74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes -inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na -Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse -recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor -ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha -Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho -capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder, -mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e -Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos -successores.<a id="FNanchor_653" href="#Footnote_653" class="fnanchor">[652]</a></p> - -<p>75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela -grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes -Andeiro, seu<span class="pagenum" id="Page_314">[Pg 314]</span> escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os -negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes -julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia -ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre -de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D. -Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que -obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear -a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto -escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios -Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de -1383.<a id="FNanchor_654" href="#Footnote_654" class="fnanchor">[653]</a></p> - -<p>76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento -do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que -publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do -Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego -começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter -contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o -grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do -nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo -sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem -fazer nada depois de perder bastante gente.<a id="FNanchor_655" href="#Footnote_655" class="fnanchor">[654]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_315">[Pg 315]</span></p> - -<p>77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes -algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso -Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante -Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de -Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas -nove horas da manhã,<a id="FNanchor_656" href="#Footnote_656" class="fnanchor">[655]</a> tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete -annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,<a id="FNanchor_657" href="#Footnote_657" class="fnanchor">[656]</a> ou vinte -e oito, conforme outros,<a id="FNanchor_658" href="#Footnote_658" class="fnanchor">[657]</a> ou, o que temos por mais certo, vinte e -sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito -para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras -com as efficazes razões, que allegou neste caso.<a id="FNanchor_659" href="#Footnote_659" class="fnanchor">[658]</a></p> - -<p>78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores -cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo -primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a -occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella, -reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella -continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel -exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre, -e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta -mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por -isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada, -e gloriosa em todas as memorias,<a id="FNanchor_660" href="#Footnote_660" class="fnanchor">[659]</a> e succedida a 14<span class="pagenum" id="Page_316">[Pg 316]</span> de Agosto de -1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.</p> - -<p>79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a -Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com -esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos -tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum -tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ -de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo -finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.</p> - -<p>80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo -ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para -cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte -vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza -conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia, -que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey -de Portugal, e do Algarve o de <i>Senhor de Ceuta</i>.<a id="FNanchor_661" href="#Footnote_661" class="fnanchor">[660]</a></p> - -<p>81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se -muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que -resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas, -mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ -da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o -anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para -isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,<a id="FNanchor_662" href="#Footnote_662" class="fnanchor">[661]</a> que parece só teve -pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi -todos os Escritores.<span class="pagenum" id="Page_317">[Pg 317]</span><a id="FNanchor_663" href="#Footnote_663" class="fnanchor">[662]</a> Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I. -de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem -Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.</p> - -<p>82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com -igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy -uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre -Joaõ das Regras.<a id="FNanchor_664" href="#Footnote_664" class="fnanchor">[663]</a> Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou -à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa -Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,<a id="FNanchor_665" href="#Footnote_665" class="fnanchor">[664]</a> -servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios -sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa -da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara -do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa -Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada -junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para -que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino -os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os -Loyos.<a id="FNanchor_666" href="#Footnote_666" class="fnanchor">[665]</a></p> - -<p>83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas, -e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim. -Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que -depois revogou naõ sem escandalo.<a id="FNanchor_667" href="#Footnote_667" class="fnanchor">[666]</a> Finalmente no dia 14 de Agosto -de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do<span class="pagenum" id="Page_318">[Pg 318]</span> Sol, -exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido -setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e -oito annos, quatro mezes, e oito dias.<a id="FNanchor_668" href="#Footnote_668" class="fnanchor">[667]</a> Foy seu corpo depositado na -Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy -transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da -Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve -Fr. Luiz de Sousa.<a id="FNanchor_669" href="#Footnote_669" class="fnanchor">[668]</a></p> - - -<h3><i>D. Duarte, undecimo Rey.</i></h3> - -<p>84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia -nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e -adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy -destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy -eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos -homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em -cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem -alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e -sciencia.<a id="FNanchor_670" href="#Footnote_670" class="fnanchor">[669]</a></p> - -<p>85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove -mezes, e quatorze dias,<a id="FNanchor_671" href="#Footnote_671" class="fnanchor">[670]</a> e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433 -nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428 -com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno, -começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez -por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey -seu pay.<span class="pagenum" id="Page_319">[Pg 319]</span><a id="FNanchor_672" href="#Footnote_672" class="fnanchor">[671]</a> Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ -dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o -luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou -fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte, -que os obrigava a empenhos,<a id="FNanchor_673" href="#Footnote_673" class="fnanchor">[672]</a> excepto aquelles Fidalgos, que por -turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.</p> - -<p>85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque -os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças; -e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do -Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D. -Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e -ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as -vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou -em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros -de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo -Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo -acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,<a id="FNanchor_674" href="#Footnote_674" class="fnanchor">[673]</a> -determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D. -Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer -o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o -Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade -de Ceuta.<a id="FNanchor_675" href="#Footnote_675" class="fnanchor">[674]</a></p> - -<p>87 Mons. de la Clede<a id="FNanchor_676" href="#Footnote_676" class="fnanchor">[675]</a> accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo -do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, -e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o<span class="pagenum" id="Page_320">[Pg 320]</span> desejo de procurar -tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas -infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, -que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e -apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ -todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, -occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco -Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas -as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só -para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas -para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e -abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz -fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo -vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco -annos, e vinte e seis dias.<a id="FNanchor_677" href="#Footnote_677" class="fnanchor">[676]</a> Jaz no Convento da Batalha.</p> - - -<h3><i>D. Affonso V. duodecimo Rey.</i></h3> - -<p>88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de -Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis -annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado -logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à -disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia -do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor -do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo -entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, -e de que existem memorias taõ lastimosas.<a id="FNanchor_678" href="#Footnote_678" class="fnanchor">[677]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_321">[Pg 321]</span></p> - -<p>89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com -applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso -entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de -Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira, -de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya -de grandes, e honrodas expressões,<a id="FNanchor_679" href="#Footnote_679" class="fnanchor">[678]</a> encommendando-lhe, acabado o -acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si -totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a -Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.</p> - -<p>90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a -felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey, -o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que -o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe -encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas -quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao -Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o -Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo -de 1449.<a id="FNanchor_680" href="#Footnote_680" class="fnanchor">[679]</a></p> - -<p>91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no -convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros -Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este -Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta -empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém -ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa, -onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança;<span class="pagenum" id="Page_322">[Pg 322]</span> -e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas -de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer -no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade -ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou -a de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia -de <i>Africano</i>, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o -<i>daquem, e dalém mar em Africa</i>.</p> - -<p>92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a -Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma -unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella -se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da -Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de -vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta -successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha -no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora -Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia -a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey -Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.</p> - -<p>93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque -nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua -sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ -para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição, -como lhe attribue Camões,<a id="FNanchor_681" href="#Footnote_681" class="fnanchor">[680]</a> mas sim razão justificada, sem embargo -de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente -seu filho o Principe D. Joaõ.</p> - -<p>94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou -ElRey logo a França no<span class="pagenum" id="Page_323">[Pg 323]</span> mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do -seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou -ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o -mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu -filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey -de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de -Novembro do proprio anno.<a id="FNanchor_682" href="#Footnote_682" class="fnanchor">[681]</a></p> - -<p>95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo -o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque -ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar -a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a -governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa -alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade -Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso<a id="FNanchor_683" href="#Footnote_683" class="fnanchor">[682]</a> fora entre os -Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de -honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho. -quando lhe succedeo: <i>Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e -caminhos de Portugal</i>; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha -dado.</p> - -<p>96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande -propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e -favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de -Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na -lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito -vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne -Latino,<a id="FNanchor_684" href="#Footnote_684" class="fnanchor">[683]</a> que morreo sem fazer cousa alguma<span class="pagenum" id="Page_324">[Pg 324]</span> por embaraços de -molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções -se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado -de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento -de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da -parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento -de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na -mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481, -em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete -mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e -dezanove dias.<a id="FNanchor_685" href="#Footnote_685" class="fnanchor">[684]</a> Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.</p> - - -<h3><i>D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.</i></h3> - -<p>97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova -a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado -Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria -quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471 -recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com -irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa -conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade -promettia.<a id="FNanchor_686" href="#Footnote_686" class="fnanchor">[685]</a></p> - -<p>98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres -dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy -esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento -aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que -se sabiaõ distinguir<span class="pagenum" id="Page_325">[Pg 325]</span> pela sua capacidade, e talento, as honrava, e -premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente -do povo.</p> - -<p>99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos -da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e -dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes -extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente -punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. -mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia -reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ -mereciaõ tanto rigor,<a id="FNanchor_687" href="#Footnote_687" class="fnanchor">[686]</a> sendo na verdade o Duque Cavalheiro, -conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem -adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.<a id="FNanchor_688" href="#Footnote_688" class="fnanchor">[687]</a></p> - -<p>100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu -a conhecer em varias occasiões;<a id="FNanchor_689" href="#Footnote_689" class="fnanchor">[688]</a> de hum engenho muy vivo, e -desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe -que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio -alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que -havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo -occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas -dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que -lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou -a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.<a id="FNanchor_690" href="#Footnote_690" class="fnanchor">[689]</a></p> - -<p>101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ -desfez muitos abusos, e fez<span class="pagenum" id="Page_326">[Pg 326]</span> com que se evitassem as casas de jogo, -mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou -aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.<a id="FNanchor_691" href="#Footnote_691" class="fnanchor">[690]</a> -Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o -que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. -Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez -todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, -se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar -dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.</p> - -<p>102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua -Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de -Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus -de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento, -onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem -em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando -à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do -Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos, -e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias -Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra -a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa -Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.</p> - -<p>103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns -Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o -ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na -generosidade, e na Religião foy singularissimo,<span class="pagenum" id="Page_327">[Pg 327]</span> recto, admiravel, -pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em -25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado -veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou -quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de -Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu -corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal, -que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.<a id="FNanchor_692" href="#Footnote_692" class="fnanchor">[691]</a></p> - - -<h3><i>D. Manoel decimo quarto Rey.</i></h3> - -<p>104 Parece, como bem disse o nosso Homero,<a id="FNanchor_693" href="#Footnote_693" class="fnanchor">[692]</a> que Deos tinha -escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o -mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo -propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta -Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi -milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o -Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja -mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel -circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente -o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,<a id="FNanchor_694" href="#Footnote_694" class="fnanchor">[693]</a> que o verdadeiro dia -natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque -a letra Dominical daquelle anno, que foy <i><b>A</b></i>, assim o -insinua, prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos -os que collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_328">[Pg 328]</span></p> - -<p>105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D. -Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança -de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta -felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem -tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de -1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes -na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz, -que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de -Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.<a id="FNanchor_695" href="#Footnote_695" class="fnanchor">[694]</a></p> - -<p>106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim -despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao -Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem -pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os -Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes -concedeo,<a id="FNanchor_696" href="#Footnote_696" class="fnanchor">[695]</a> e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em -gloria, e renda.</p> - -<p>107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar -fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ -converter à Fé de Christo;<a id="FNanchor_697" href="#Footnote_697" class="fnanchor">[696]</a> e logo em Outubro do anno 1497 recebeo -por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso, -filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando, -e Dona Isabel.</p> - -<p>108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste -Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta -impossibilidade,<span class="pagenum" id="Page_329">[Pg 329]</span> segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para -provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel -foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então -se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou -de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II. -havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro, -que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut, -e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal, -naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os -Venezianos.<a id="FNanchor_698" href="#Footnote_698" class="fnanchor">[697]</a></p> - -<p>109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da -Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e -innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos -Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os -fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo -muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros -poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia, -India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do -Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado -Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais -vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco -livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.</p> - -<p>110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella -em 28 de Abril de 1498,<a id="FNanchor_699" href="#Footnote_699" class="fnanchor">[698]</a> cuja posse, e titulo brevemente possuio -pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira -daquelle Reino. Fundou Templos, que<span class="pagenum" id="Page_330">[Pg 330]</span> podem competir com os melhores -de Roma.<a id="FNanchor_700" href="#Footnote_700" class="fnanchor">[699]</a> Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal -perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em -que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.<a id="FNanchor_701" href="#Footnote_701" class="fnanchor">[700]</a> Agradecido -aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz -religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. -entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo -na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso -dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha -com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante -em Roma.<a id="FNanchor_702" href="#Footnote_702" class="fnanchor">[701]</a> Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, -parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores -que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;<a id="FNanchor_703" href="#Footnote_703" class="fnanchor">[702]</a> -e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de -Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos -Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, -e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito -dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle -mandou edificar para seu jazigo.</p> - - -<h3><i>D. Joaõ III. decimo quinto Rey.</i></h3> - -<p>111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. -que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel -pela horrivel tempestade, que houve no Reino de<span class="pagenum" id="Page_331">[Pg 331]</span> trovões, rayos, e -coriscos.<a id="FNanchor_704" href="#Footnote_704" class="fnanchor">[703]</a> Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o -acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do -seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e -generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a -estimaçaõ de todos os Principes da Europa.</p> - -<p>112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as -conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna -memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa -quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que -tanto se lamenta Manoel de Faria,<a id="FNanchor_705" href="#Footnote_705" class="fnanchor">[704]</a> e a cujo consentimento attribue -o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta -acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da -Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ -descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a -Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas -partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da -conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, -e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo -aquelles Religiosos.</p> - -<p>113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos -publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534 -conforme dizem huns,<a id="FNanchor_706" href="#Footnote_706" class="fnanchor">[705]</a> e segundo outros no de 1537,<a id="FNanchor_707" href="#Footnote_707" class="fnanchor">[706]</a> mandando -vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de -letras, que havia<span class="pagenum" id="Page_332">[Pg 332]</span> na Europa,<a id="FNanchor_708" href="#Footnote_708" class="fnanchor">[707]</a> de sorte que restabeleceo em Coimbra -a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel -affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas -para as artes, e sciencias.<a id="FNanchor_709" href="#Footnote_709" class="fnanchor">[708]</a></p> - -<p>114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de -Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando -em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso -aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio -Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy -a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.<a id="FNanchor_710" href="#Footnote_710" class="fnanchor">[709]</a> -Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da -Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber -escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, -que <i>mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com -o que alcançava na vitoria</i>. Finalmente assim nas cousas da paz, -como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para -beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro -conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. -Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco -annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, -e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ -muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida -por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_333">[Pg 333]</span></p> - - -<h3><i>D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey.</i></h3> - -<p>115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza -Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a -20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou -herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona -Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do -Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes -em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da -Religiaõ Christã.</p> - -<p>116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum -grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear -emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que -chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em -20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das -armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em -todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados, -então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas -acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de -Faria.<a id="FNanchor_711" href="#Footnote_711" class="fnanchor">[710]</a></p> - -<p>117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar -todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se -lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista -de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar -se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a -lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe -accendiaõ no peito<span class="pagenum" id="Page_334">[Pg 334]</span> deliberações temerarias. Praticou-as, passando -primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e -Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os -barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.</p> - -<p>118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos, -e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey, -offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ -para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes, -que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto -de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para -Portugal.<a id="FNanchor_712" href="#Footnote_712" class="fnanchor">[711]</a> Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens, -dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos -Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que -havia no Reino, mas sem exercicio militar.</p> - -<p>119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar, -diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava -porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de -cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a -cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves, -eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e -lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis -pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica -ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com -certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar -por elle, delirio, que com teimosa<span class="pagenum" id="Page_335">[Pg 335]</span> tradiçaõ permaneceo bastante -tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer -verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens -outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de -la Clede assenta,<a id="FNanchor_713" href="#Footnote_713" class="fnanchor">[712]</a> que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere, -mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos -Escritores naõ admittem.</p> - -<p>120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ; -porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e -impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey -extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se -a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ -com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos -chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D. -Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia -com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,<a id="FNanchor_714" href="#Footnote_714" class="fnanchor">[713]</a> o qual -dia assim:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Nec dicas falli Regem qui vivere credit,</i></span><br> -<span style="margin-left: 2em;"><i>Pro lege extincto mors quasi vita fuit.</i></span><br> -</p> - - -<h3><i>D. Henrique, decimo setimo Rey.</i></h3> - -<p>121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a -Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal -D. Henrique, filho delRey D. Manoel,<span class="pagenum" id="Page_336">[Pg 336]</span> que entaõ se achava na avançada -idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512 -em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy -pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para -o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade, -soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim -foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos -de Sacerdote.<a id="FNanchor_715" href="#Footnote_715" class="fnanchor">[714]</a></p> - -<p>122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e -successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais -gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que -dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já -decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem -pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de -successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim, -que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora -herança, que a todos lhes pertencesse.</p> - -<p>123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que -pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros -pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de -França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D. -Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa -sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que -fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da -pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos -descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_337">[Pg 337]</span></p> - -<table class="autotable"> -<tr><td rowspan="5" class="top">ElRei D. Manoel entre outros filhos teve -</td><td>A Infanta Dona Isabel Imperatriz, que casou com Carlos V. Imperador, e teve a</td><td colspan="2">Filippe II. -Rey de Castella 1. pertendente</td></tr> -<tr><td>A Infanta Dona Brites, que casou com D. Carlos Duque de Saboya, e teve a</td><td colspan="2" class="top"> Manoel Filisberto -Duque de Saboya, e Principe de Piemõte 2. pertendente.</td></tr> -<tr><td>O Infante D. Luiz Duque de Béja naõ casou, mas de Violante Gomes, chamada a <i>Pelicana</i>, teve a -</td><td colspan="2" class="top">D. Antonio Prior do Crato, 3. pertendente.</td></tr> - -<tr><td rowspan="2">O Infante D. Duarte Duque de Guimarães casou com Dona Isabel filha de D. Jayme Duque de Bragança, e teve a </td><td class="top">D. Maria, q casou com o Principe de Parma, de quem teve a</td><td class="top">Rainucio Principe de Parma, e 4. pertendente.</td></tr> -<tr><td colspan="2">D. Catharina que casou com D. Joaõ Duque de Bragança 5. pertendente.</td></tr> -</table><p> -<span class="pagenum" id="Page_338">[Pg 338]</span></p> - -<p>Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya -por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois -já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo -o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego; -de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ -em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona -Catharina.</p> - -<p>124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim -nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores -para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois -passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa, -veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de -idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na -mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ -com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido -seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe -mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa -da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem -passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da -Bemaventurança.</p> - -<p>125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a -usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum -seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou -talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando -viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às -cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.</p> - -<p>126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a -sua pertençaõ; e adquirindo<span class="pagenum" id="Page_339">[Pg 339]</span> algum sequito de gente popular, esta o -acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,<a id="FNanchor_716" href="#Footnote_716" class="fnanchor">[715]</a> e logo passando-se -a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da -Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a -intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.</p> - -<p>127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa -executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito -de mais de vinte mil homens,<a id="FNanchor_717" href="#Footnote_717" class="fnanchor">[716]</a> e dous mil gastadores, commandados -pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem -resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas -junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de -Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do -Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões -Portuguezes,<a id="FNanchor_718" href="#Footnote_718" class="fnanchor">[717]</a> e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois -varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.</p> - -<p>128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno -damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ -as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com -tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy -à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força -de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem -esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa -consciencia.<a id="FNanchor_719" href="#Footnote_719" class="fnanchor">[718]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_340">[Pg 340]</span></p> -<div class="blockquot"> - -<p><i>D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo -oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos.</i></p> -</div> - -<p>129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se -celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde -fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até -alli se tinha visto.<a id="FNanchor_720" href="#Footnote_720" class="fnanchor">[719]</a> Começou a tratar os Portuguezes com muita -affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando -os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos -passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella -violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de -recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey -Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu -filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13 -de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado, -e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos, -governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.</p> - -<p>130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que -havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte -annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os -seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes -a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir -o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay. -Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou -a morte, que lhe sobreveyo em Madrid<span class="pagenum" id="Page_341">[Pg 341]</span> no ultimo de Março de 1621 com -quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz -no Convento do Escurial.</p> - -<p>131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de -1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com -grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas; -porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu -Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e -privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo -em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o -Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar -para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas, -que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas -desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ -Escritores, que as referem.<a id="FNanchor_721" href="#Footnote_721" class="fnanchor">[720]</a></p> - -<p>132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da -commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo -Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça -para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo -direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina, -filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a -todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se -vivera, havia de ser Rey,<a id="FNanchor_722" href="#Footnote_722" class="fnanchor">[721]</a> mas tambem por ser o Serenissimo Duque -natural do Reino, e o mayor<span class="pagenum" id="Page_342">[Pg 342]</span> Senhor delle, a quem por suas qualidades -verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das -oppressões, que padecia.</p> - -<p>133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes -quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ -ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se -presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de -Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a -fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel -de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e -ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de -Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro -Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,<a id="FNanchor_723" href="#Footnote_723" class="fnanchor">[722]</a> ambos interessados -na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se -enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de -dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos -exorbitantes.</p> - -<p>134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais -a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro -de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de -varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e -zelosos da patria,<a id="FNanchor_724" href="#Footnote_724" class="fnanchor">[723]</a> convidando tambem a outros com todo o segredo, -se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ -nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou -por interpreza.<span class="pagenum" id="Page_343">[Pg 343]</span> Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os -incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito -com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na -Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV., -acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor -do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da -sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.</p> - - -<h3><i>D. João IV. vigesimo primeiro Rey.</i></h3> - -<p>135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e -restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza -ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de -Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ -em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares -Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo -Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se -experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e -festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,<a id="FNanchor_725" href="#Footnote_725" class="fnanchor">[724]</a> -sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze -dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando -todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados -Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.<a id="FNanchor_726" href="#Footnote_726" class="fnanchor">[725]</a></p> - -<p>136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as -expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que -foy<span class="pagenum" id="Page_344">[Pg 344]</span> em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria -do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do -Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as -Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente -com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender, -e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando -seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura -debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era -necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de -papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o -Reino à sua obediencia.<a id="FNanchor_727" href="#Footnote_727" class="fnanchor">[726]</a></p> - -<p>137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e -fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas -do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França, -Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ -com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os -Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados, -experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas, -que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de -Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o -intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras -muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do -Reino.</p> - -<p>138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das -nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança -da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais -do ouro, que do ferro; e corrompendo<span class="pagenum" id="Page_345">[Pg 345]</span> com elle algumas pessoas suas -affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra -ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e -degolados<a id="FNanchor_728" href="#Footnote_728" class="fnanchor">[727]</a> a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça -do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de -Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos; -sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D. -Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos -estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre -livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ -tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo -convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos, -foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.</p> - -<p>139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo, -estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos -Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do -Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do -Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do -Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta -cruzados cada anno,<a id="FNanchor_729" href="#Footnote_729" class="fnanchor">[728]</a> e em 25 de Março do proprio anno jurou, e -declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora -nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando -intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando -tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.<a id="FNanchor_730" href="#Footnote_730" class="fnanchor">[729]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_346">[Pg 346]</span></p> - -<p>140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta -suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de -Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e -dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias. -Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.</p> - - -<h3><i>D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey.</i></h3> - -<p>141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21 -de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando -subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay; -mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua -Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora -do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados -seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de -idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.<a id="FNanchor_731" href="#Footnote_731" class="fnanchor">[730]</a></p> - -<p>142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua -vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde -de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da -Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos -a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo -Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os -bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias -com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim -se vio nas celebres batalhas do <i>Amexial</i>, do <i>Canal</i>, e -de <i>Montes claros</i>, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu -valor, e sciencia militar.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_347">[Pg 347]</span></p> - -<p>143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico -da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum -accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do -corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui -se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua -Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas -indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu -agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe -fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a -Bahia.</p> - -<p>144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca -Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ -se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade -delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ -aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança -a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do -matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença -da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real -propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha -pelas razões forçosas, que allegaraõ,<a id="FNanchor_732" href="#Footnote_732" class="fnanchor">[731]</a> e que para evitar mayores -damnos na Monarquia avocasse a si o governo.</p> - -<p>145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen, -ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy -recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D. -Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27 -de<span class="pagenum" id="Page_348">[Pg 348]</span> Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello -da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para -os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no -Convento de Belem.<a id="FNanchor_733" href="#Footnote_733" class="fnanchor">[732]</a></p> - - -<h3><i>D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey.</i></h3> - -<p>146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo -Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino, -cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto -que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D. -Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já -na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a -nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria -Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou -Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ -houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha -espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a -segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.</p> - -<p>147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em -fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do -Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ -augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo -com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza -dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior, -nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas<span class="pagenum" id="Page_349">[Pg 349]</span> do seu -tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para -com todos, e amante das pessoas virtuosas.</p> - -<p>148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom -regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia -mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco, -Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à -dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em -todos os empregos de grande experiencia.</p> - -<p>149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e -defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se -desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado -da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda, -a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo -do Imperador,<a id="FNanchor_732a" href="#Footnote_732a" class="fnanchor">[732a]</a> o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por este -ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou aqui -ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e pomposa -entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com elle ElRey -D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de introduzir em -Castella.</p> - -<p>150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso -exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias -Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara, -Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey, -penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em -2 de Julho de 1706.<a id="FNanchor_734" href="#Footnote_734" class="fnanchor">[733]</a></p> - - - -<p>151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal<span class="pagenum" id="Page_350">[Pg 350]</span> em 17 de Novembro de -1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel -contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco -mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz -legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de -1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o -Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois -do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a -seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias: -reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de -vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra.</p> - - -<h3>D. Joaõ V. vigesimo quarto Rey.</h3> - -<p>152 Por falecimento do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria lhe -succedeo no Throno seu filho ElRey D. Joaõ V. tendo dezasete annos de -idade, contados desde 22 de Outubro de 1689, em que nasceo na Cidade de -Lisboa. Foy acclamado no primeiro de Janeiro de 1707, felicitando-lhe -com repetidos obsequios a exaltaçaõ à Coroa naõ só os seus vassallos, -mas todos os Principes da Europa.</p> - -<p>153 Começando logo a dirigir suas acções pelo caminho, e maximas da -herocidade, ratificou a grande alliança, que ElRey seu pay celebrara -contra Hespanha; mas esta liga fez experimentar ao nosso exercito em 25 -de Março de 1707 a mesma fortuna das Tropas alliadas: porque depois de -termos vencido valerosamente a batalha de Almança na fronteira do Reino -de Valença, melhorou o inimigo com tanta vantagem os seus esquadrões, -que o Duque de Baruvic nos prizionou treze Regimentos<span class="pagenum" id="Page_351">[Pg 351]</span> à custa de hum -grande destroço da sua gente.<a id="FNanchor_735" href="#Footnote_735" class="fnanchor">[734]</a></p> - -<p>154 No seguinte anno de 1708, elegendo S. Magestade para esposa -a Serenissima Archiduqueza Dona Maria Anna de Austria, filha do -Imperador Leopoldo I. nomeou ao Conde de Villar-Mayor por Embaixador -extraordinario à Corte de Viena para esta negociaçaõ; e conduzida a -Serenissima Rainha pelo mesmo Conde, chegou à barra de Lisboa em 26 de -Outubro do mesmo anno, e a 22 de Dezembro fez sua entrada publica por -entre dezanove arcos triunfaes custosamente ornados, e hum innumeravel -concurso de gente, que com as repetidas demonstrações de alegria faziaõ -aquella funçaõ mais plausivel, e vistosa.</p> - -<p>155 A guerra com Castella hia continuando, em que os nossos Generaes -davaõ evidentes provas do seu valor, e sciencia em varios choques, -cercos, e outros movimentos bellicos, recuperando algumas Praças, que -o inimigo nos havia usurpado, quando tudo se suspendeo pelo Tratado -da paz, que entre as tres Coroas de França, Hespanha, e Portugal se -celebrou na Cidade de Utreck em o anno de 1713, e se publicou em Lisboa -a 6 de Abril de 1715.</p> - -<p>156 Estabelecida assim a paz no Reino, fez a vigilancia de Monarca -taõ augusto, que nas terras do seu dominio prosperamente florecessem, -e se gozassem os frutos da mesma paz por meyo de utilissimas leys, -extincçaõ de abusos, perfeição de costumes, e outras muitas disposições -produzidas da sua perspicaz advertencia, e Regios pensamentos. O zelo -da Religiaõ, o amor das letras, a observancia da justiça, o cuidado, e -cultura da sua Monarquia foy todo o seu desvelo. . 157 Do zelo, culto, -e respeito da Religiaõ sobejaõ<span class="pagenum" id="Page_352">[Pg 352]</span> provas, e testimunhos; pois bastando o -incansavel excesso, com que se empregou o seu generoso, e pio animo, à -maneira de outro Salomaõ, nas sumptuosas fabricas de Templos divinos, -fazendo contribuir para elles os mais preciosos marmores nobremente -pulidos, parecendo-lhe ainda pouca toda a profusaõ do dispendio, -excedeo a todo este cuidado o incessante desejo, e a incansavel ancia -de engrandecer, e augmentar cada vez mais o obsequio, e respeito da -mesma Religiaõ, e a formalidade magestosa de seus ritos, e cultos.</p> - -<p>158 Este projecto naõ só Christianissimo, mas Regio, o elevou à -generosa obra da erecçaõ da Santa Igreja Patriarcal, onde vemos entre a -pomposa grandeza, e reverente devoçaõ celebraremse os Officios divinos, -e todas as funções Ecclesiasticas perfeitissimamente, ornando este -excellentissimo Collegio Patriarcal de pessoas mais esclarecidas em -sangue, e letras, a que conferio muitas preeminencias, e honras, e a -que ajuntou grandes rendas, conforme a jerarquia das suas Dignidades. -E para que a grandeza, e jurisdiçaõ desta Santa igreja fosse mais -ampla, fez supprimir o Arcebispado de Lisboa Oriental pela Bulla do -Santissimo Papa Benedicto XIV. intimada no primeiro de Setembro de -1741, ficando desde entaõ havendo hum só Cabido Patriarcal em todo o -territorio, e Diocese de Lisboa, que até este tempo estava dividida em -dous Arcebispados, erigindo tambem nos Paços dos antigos Arcebispos de -Lisboa hum Seminario para se educarem os estudantes, que houverem de -servir na Santa Igreja Patriarcal.</p> - -<p>159 Incitado do mesmo zelo da Religiaõ, e a rogos do Summo Pontifice -Clemente XI. mandou o nosso magnanimo Rey duas vezes soccorrer Italia -contra o formidavel poder Othomano, devendo-se à esquadra Portugueza, -que se compunha de seis náos de guerra, dous burlotes, e huma tartana, -a<span class="pagenum" id="Page_353">[Pg 353]</span> gloria de embaraçar ella só a terrivel força de vinte e duas -sultanas, e outras tantas náos de Barbaria, com que o Graõ Baxá vinha -sobre Corfú, e Veneza, fazendo o terror das nossas armas retirallo -injuriosamente para a Moréa com a perda de cinco mil Turcos; e deixando -desassombrados, e seguros os portos naõ só daquella Republica, mas de -toda Italia em Agosto de 1717, ficou nosso Monarca na vitoria deste -conflicto naval constituido arbitro dos que o tem sido do mundo.<a id="FNanchor_736" href="#Footnote_736" class="fnanchor">[735]</a></p> - -<p>160 O amor das letras se vê na util erecçaõ da Academia da Historia, -que teve o seu principio em 8 de Dezembro de 1720, compondo-a dos -homens mais eruditos do Reino, e a cujas Conferencias permittio a -honra da sua Real presença repetidas vezes. Para a celebre Academia -dos Arcades, que ha em Roma, comprou novo domicilio, para se fazerem -as suas assembleas com melhor commodidade. Em todas as Provincias do -Reino ordenou que houvessem Academias militares, para que florecesse -a sciencia Mathematica; e para a da Jurisprudencia erigio tambem -na Universidade de Evora tres Cadeiras do Direito Civil, e duas do -Canonico, excedendo para prova deste affecto naõ só o amparo, que os -eruditos achavaõ na sua benignidade, nem a grande collecçaõ de livros -selectos, com que formou huma das mayores Bibliothecas da Europa, mas a -vasta comprehensaõ das mesmas sciencias, e a continua liçaõ dos mesmos -livros.</p> - -<p>161 Naõ he possivel caber na curta esfera deste Mappa a expressaõ -de acções taõ grandes, que obrou ElRey D. João V.: os maravilhosos -edificios<span class="pagenum" id="Page_354">[Pg 354]</span> de Templos, Palacios, e casas de campo; a utilissima, e -sumptuosa construcçaõ do aqueducto de Lisboa; o desafogo das suas ruas; -a melhor commodidade da navegaçaõ do Tejo; a introducçaõ de novas -fabricas; o augmento dos arsenaes; e sobre tudo o da propagaçaõ da -Fé em todas as suas Conquistas, com a recta observancia da justiça, -saõ acções taõ notaveis, e tantas, que justamente poderá questionar a -posteridade, se foraõ obradas por hum só Heroe, ou por muitos: mas que -muito se no augusto, e magnanimo peito deste Monarca residiaõ juntos -elevadamente os espiritosos brios de todos os Monarcas Lusitanos, e de -fórma o animavaõ, que o faziaõ exceder a todos;<a id="FNanchor_737" href="#Footnote_737" class="fnanchor">[736]</a> ajuntando-se a -todos estes dotes a magestosa presença, e bem proporcionada estatura -de seu galhardo corpo, que, ainda disfarçado, mal podia encubrir o -respeito de Soberano.</p> - -<p>162 Com toda esta felicidade padeceo todavia ElRey a 10 de Mayo de -1742 hum fortissimo ataque de paralysia, que lhe debilitou a parte -esquerda do corpo; mas com os banhos das Caldas, chamadas da Rainha, -para onde foy em 9 de Julho do dito anno, e com a applicaçaõ de outros -remedios adquirio alguma melhoria, mas naõ aquella total saude, que os -seus vassallos desejavaõ. Assim foy continuando com grande constancia -de animo o prolongado tormento da sua queixa, que sem embargo de lhe -embaraçar os passos para andar, naõ lhos pode impedir ao progresso da -sua devoçaõ, e piedade.</p> - -<p>163 Com esta assistia de continuo na tribuna da Santa Igreja -Patriarcal, adorando, e deprecando a<span class="pagenum" id="Page_355">[Pg 355]</span> Deos nos muitos sacrificios de -Missas que ouvia, e Officios que rezava. A elle devem as Almas detidas -no Purgatorio o grande suffragio, que por indulto Apostolico obteve da -Santidade de Benedicto XIV. expedido em Roma aos 21 de Agosto de 1748, -para que no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos podessem todos os -Sacerdotes dos seus dominios celebrar tres Missas. Este grande animo, -e fervor de espirito, com que favorecia as Almas, foy nelle sempre -inseparavel, dispendendo caritativo no frequente beneficio dos seus -suffragios grosso, e innumeravel cabedal. Destas acções taõ pias, e -magnanimas persuadido o Pontifice Benedicto XIV. lhe concedeo a 23 de -Dezembro do mesmo anno de 1748 para si, e seus successores o titulo de -<i>Fidelissimo</i>.</p> - -<p>164 Chegando finalmente o prazo ultimo de seus dias, os terminou em -Lisboa aos 31 de Julho de 1750, e foy viver na Bemaventurança em -premio das virtudes que exercitou; tendo-se primeiramente disposto, e -preparado como Catholico com todos os Sacramentos da Igreja. Jaz seu -corpo no Templo de S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>165 A inclyta Naçaõ Portugueza deu ao publico em Roma numa demonstraçaõ -do seu reverente obsequio à saudosa memoria de taõ grande Monarca: -celebrou na Real Igreja de Santo Antonio as solemnes exequias com -aquella magnificencia, e esplendor, que eraõ devidas às excelsas -prerogativas de hum Principe taõ benemerito da Sé Apostolica: para isto -fez erigir hum sumptuoso Mausoleo com engenhoso artificio pela idéa do -Architecto Portuguez Manoel Rodrigues dos Santos, ornado de primorosas -figuras, medalhas, e epigrafes; concluindo-se todo o apparato lugubre -com a seguinte inscripçaõ:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_356">[Pg 356]</span></p> - -<p class="center"> -JOANNI V.<br> -<br> -<i>Lusitaniæ Regi Fidelissimo,</i><br> -<i>Pio, Victori, Pacifico.</i><br> -<i>Christianæ rei ubicumque terrarum Orbi, & Gentium</i><br> -<i>Propagatori.</i><br> -<i>Bonarum artium, omniumque Disciplinarum</i><br> -<i>Parenti vindici, Mæcenati munificentissimo.</i><br> -<i>Qui</i><br> -<i>Feralibus bellorum dissidiis, aut consilio restinctis,</i><br> -<i>Aut virtute sublatis,</i><br> -<i>Pacis artes, publica Sacerdotia,</i><br> -<i>Ecclesiæ majestatem, dignitatemque</i><br> -<i>Post Constantini Magni memoriam,</i><br> -<i>Quam qui maxime ornavit, auxit, amplificavit.</i><br> -<i>Principi Optimo</i><br> -<i>Deque omnium Nationum ordinibus benemerentissimo</i><br> -<i>Lusitani D. N. M. Q. Ejus.</i><br> -</p> - - -<h3><i> D. Joseph I. vigesimo quinto Rey.</i></h3> - -<p>166 He o Fidelissimo Senhor D. Joseph Monarca presentemente reinante, -augusto successor de seu grande Pay D. Joaõ V. Foy acclamado Rey na -Cidade de Lisboa em huma segunda feira de tarde aos 7 de Setembro de -1750 com festivos applausos de seus vassallos. Para esta ceremonia chea -de grande alegria, se levantou huma varanda magnifica no terreiro do -Paço junto a Palacio, a qual começando da sala dos Tedescos, por onde -tinha a entrada, rematava no torreaõ do Forte com quarenta palmos de -largo, e trezentos e setenta de comprido, sustida em dezaseis altas -columnas ligadas com huma balaustrada que fazia face ao mesmo terreiro, -e revestido tudo com o mais precioso ornato, que soube idear o bom -gosto.</p> - -<p>167 Tanto que subio ao Throno, e empunhou o Cetro, fez ver que existia -vivamente naõ só na<span class="pagenum" id="Page_357">[Pg 357]</span> magestade da Pessoa, e clemencia do genio, mas -na generosidade das acções, reproduzido o coraçaõ magnanimo de seu -memoravel Pay. Este bom conceito annunciaraõ seus vassallos desde o -dia 6 de Junho de 1714, em que este Monarca vio a primeira luz do -mundo, onde havia ser o primeiro brilhante Astro da esfera Lusitana. -Para segurar a successaõ Regia casou em 19 de Janeiro de 1729 com a -Serenissima Princeza das Asturias D. Maria Anna Victoria, filha delRey -Catholico Filippe V., e da Rainha D. Isabel Farnese sua segunda mulher.</p> - -<p>168 Logo nos primeiros passos do seu Reinado mostrou o grande zelo -de conservar os seus povos em paz, justiça, e prosperidade: e como -estes atributos naõ se podem estabelecer sem o recto manejo de bons -Ministros, cuidou em os eleger competentes, e de alta comprehensaõ aos -interesses politicos, e economicos do Estado. Com esta providencia -se dispozeraõ as negociações da Marinha, do Commercio, e de todos os -Tribunaes naquelle melhorado regimen, que o Reino experimenta; ajudando -ao bom exito de tudo as justissimas Leys, que em utilidade do bem -publico tem promulgado.</p> - -<p>169 Para augmentar o Commercio, e Navegaçaõ, de que resultaõ opulencias -mayores que as da natureza, ordenou que os despachos fossem promptos, -evitando demoras na expediçaõ dos Tribunaes. Exaltou, e renovou o -exercicio das bellas letras com a reforma de melhores Methodos; -dispondo que fossem educados seus vassallos principalmente os Nobres; -fundando para este effeito Collegio onde se aprendaõ todas as uteis, e -estimaveis profissões das Artes, abolindo por Decreto de 29 de Julho -de 1759 o magisterio aos Jesuitas, e a liçaõ da Arte do Padre Manoel -Alvares.</p> - -<p>170 Nos extraordinarios accidentes do terremoto, e incendio, que -fatalmente destruiraõ Lisboa no anno de 1755, se vio a grandeza do -coraçaõ deste<span class="pagenum" id="Page_358">[Pg 358]</span> augusto Monarca; porque conservando-se inalteravel -em hum caso taõ repentino, e horrendo, em que vacilaraõ os mayores -talentos, elle se applicou pio, e providente a soccorrer, e acautelar -a consternaçaõ, do afflicto Povo: e como se fora pequeno este empenho, -intentou d’entre as cinzas de Lisboa abrazada reproduzir outra de -novo com mayores vantagens, excedendo nas circustancias a grandeza de -Trajano.<a id="FNanchor_738" href="#Footnote_738" class="fnanchor">[737]</a></p> - -<p>171 Com igual constancia de animo tolerou aquelle barbaro desacato, com -que a aleivosia, rompendo as obrigações da fidelidade Portugueza, se -atreveo a insultar a sua veneravel Pessoa em a noite de 3 de Setembro -de 1758. Mas a Providencia de Deos, salvando-lhe com prodigio a vida, -fez que naõ ficassem sem castigo os perfidos delinquentes, fazendo-os -justiçar a 13 de Janeiro do seguinte anno em o Caes de Belém; porque o -Principe, que dissimula a malicia, reina só no nome; o que a castiga, -reina no nome, e no officio.</p> - -<p>172 Ainda naõ havia bem descançado de punir traições, e acautelarse de -insultos, quando os Reys Catholico, e Christianissimo com o <i>Pacto -de Familia</i>, que entre si estipularaõ, querendo por força que nos -declarassemos contra Inglaterra, invadiraõ, e atacaraõ com cavilozos -pretextos algumas das nossas Praças Trasmontanas; commetendo o Marquez -de Sarria, e outros Generaes Castelhanos muitas hostilidades desde 8, -15, e 21 de Mayo de 1762, em que se introduziraõ em Miranda, Bragança -e Chaves, e em cujas acções tem perturbado a paz publica, e fé dos -Tratados estabelecidos com a antiga solemnidade.</p> - -<p>173 Porém como da nossa parte milita a justiça, e a razaõ, espera ElRey -Fidelissimo triunfar do<span class="pagenum" id="Page_359">[Pg 359]</span> poder, e industria de seus inimigos. Para -este bom exito mandou fazer promptas as suas Tropas, cujo total mando, -e manejo entregou plenamente ao Conde Soberano de Lippa Guilherme de -Schaumburg, Cavalleiro da Real Ordem Prussiana da Aguia Negra, Pessoa -que ElRey da Grã Bretanha, como nosso Alliado, elegeo, por ser de -huma distincta reputaçaõ, e de conhecido valor, e fama nas guerras da -Europa. Sua Magestade Fidelissima o nomeou Marechal General dos seus -Exercitos, e Director geral de todas as suas Tropas por Decreto de 3 de -Julho de 1762.</p> - -<p>174 Toda esta boa razaõ, e justiça, em que se estriba a nossa -defensa, fez persuadir tambem ao Principe Carlos Luiz Federico Duque -de Meckelburgo, Streliz, Principe de Vandalia, a que passasse dos -exercitos Britanicos onde era Marechal de Campo, para as Tropas delRey -Fidelissimo, o qual logo o nomeou Coronel General de hum Regimento de -Cavallaria, a que deu titulo de Meckelburgo. Naõ só prometem estas -antecedencias felicidades às Armas Portuguezas, mas animo. Será cada -coraçaõ Portuguez hum escudo à vida, e gloria de nosso Augusto Monarca, -o qual em militares campanhas amedrentará com o ecco do seu valor -dilatados climas do Universo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_360">[Pg 360]</span></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th><i>N.</i></th><th><i>Nome.</i> </th><th><i>Cognome.</i></th><th><i>Patria.</i></th><th><i>Nasc.</i></th><th><i>Coroaç.</i></th><th> -<i> Ann. que reinou.</i> </th><th><i>Ann. que viveo.</i></th><th><i>Anno da morte.</i></th><th> <i>Lugar da morte.</i></th><th> <i>Lugar da sepultura</i> </th> -</tr> -<tr><td class="tdr">1</td><td>D. Affonso I. </td><td>Conquistador.</td><td>Guimarães. </td><td>1109 </td><td>1128 </td><td> 57 </td><td> 76 </td><td>1185</td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">2</td><td>D. Sancho I. </td><td>Povoador. </td><td>Coimbra </td><td>1154 </td><td>1185 </td><td> 26 </td><td> 57 </td><td>1211</td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">3</td><td>D. Affonso II. </td><td>Gordo. </td><td>Coimbra. </td><td>1185 </td><td>1211 </td><td> 12 </td><td> 38 </td><td>1223</td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça. </td></tr> -<tr><td class="tdr">4</td><td>D. Sancho II. </td><td>Capello. </td><td>Coimbra. </td><td>1202 </td><td>1223 </td><td> 25 </td><td> 46 </td><td>1248</td><td>Toledo. </td><td>Sé de Toledo. </td></tr> -<tr><td class="tdr">5</td><td>D. Affonso III.</td><td>Bolonhez. </td><td>Coimbra. </td><td>1210 </td><td>1246 </td><td> 32 </td><td> 69 </td><td>1279</td><td>Lisboa. </td><td>Alcobaça. </td></tr> -<tr><td class="tdr">6</td><td>D. Diniz </td><td>Lavrador. </td><td>Lisboa. </td><td>1261 </td><td>1279 </td><td> 46 </td><td> 63 </td><td>1325</td><td>Santarem. </td><td>Odivelas. </td></tr> -<tr><td class="tdr">7</td><td>D. Affonso IV. </td><td>Bravo. </td><td>Coimbra. </td><td>1291 </td><td>1325 </td><td> 32 </td><td> 66 </td><td>1357</td><td>Lisboa. </td><td>Sé de Lisboa. </td></tr> -<tr><td class="tdr">8</td><td>D. Pedro I. </td><td>Justiceiro. </td><td>Coimbra. </td><td>1320 </td><td>1357 </td><td> 9 </td><td> 46 </td><td>1367</td><td>Estremoz. </td><td>Alcobaça. </td></tr> -<tr><td class="tdr">9</td><td>D. Fernando. </td><td>Formoso. </td><td>Coimbra. </td><td>1345 </td><td>1367 </td><td> 16 </td><td> 38 </td><td>1383</td><td>Lisboa. </td><td>Santarem. </td></tr> -<tr><td class="tdr">10</td><td>D. Joaõ I. </td><td>Boa memoria.</td><td>Lisboa. </td><td>1357 </td><td>1385 </td><td> 48 </td><td> 76 </td><td>1433</td><td>Lisboa. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">11</td><td>D. Duarte. </td><td>Eloquente. </td><td>Viseu. </td><td>1391 </td><td>1433 </td><td> 5 </td><td> 46 </td><td>1438</td><td>Thomar. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">12</td><td>D. Affonso V. </td><td>Africano. </td><td>Cintra. </td><td>1432 </td><td>1438 </td><td> 43 </td><td> 49 </td><td>1481</td><td>Cintra. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">13</td><td>D. Joaõ II. </td><td>Perfeito. </td><td>Lisboa. </td><td>1455 </td><td>1481 </td><td> 14 </td><td> 40 </td><td>1495</td><td>Alvor. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">14</td><td>D. Manoel. </td><td>Venturoso </td><td>Alcochete. </td><td>1469 </td><td>1495 </td><td> 26 </td><td> 52 </td><td>1521</td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">15</td><td>D. Joaõ III. </td><td>Piedoso. </td><td>Lisboa. </td><td>1502 </td><td>1521 </td><td> 35 </td><td> 55 </td><td>1557</td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">16</td><td>D. Sebastiaõ. </td><td>Desejado. </td><td>Lisboa. </td><td>1554 </td><td>1557 </td><td> 21 </td><td> 24 </td><td>1578</td><td>Africa. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">17</td><td>D. Henrique. </td><td>Casto. </td><td>Almeirim. </td><td>1512 </td><td>1578 </td><td> 1 </td><td> 68 </td><td>1580</td><td>Almeirim. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">18</td><td>D. Filippe II. </td><td>Prudente. </td><td>Valhadolid.</td><td>1527 </td><td>1581 </td><td> 18 </td><td> 71 </td><td>1598</td><td>Escurial. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">19</td><td>D. Filippe III.</td><td>Pio. </td><td>Madrid. </td><td>1578 </td><td>1598 </td><td> 23 </td><td> 43 </td><td>1621</td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">20</td><td>D. Filippe IV. </td><td>Grande. </td><td>Valhadolid.</td><td>1605 </td><td>1621 </td><td> 19 </td><td> 60 </td><td>1665</td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">21</td><td>D. Joaõ IV. </td><td>Restaurador.</td><td>Villa Viços.</td><td> 1604 </td><td>1640 </td><td> 15 </td><td> 51 </td><td>1656</td><td>Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra </td></tr> -<tr><td class="tdr">22</td><td>D. Affonso VI. </td><td>Vitorioso. </td><td>Lisboa. </td><td>1643 </td><td>1656 </td><td> 11 </td><td> 40 </td><td>1683</td><td> Cintra. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">23</td><td>D. Pedro II. </td><td>Pacifico. </td><td>Lisboa. </td><td>1648 </td><td>1667 </td><td> 39 </td><td> 58 </td><td>1706</td><td>Alcantara.</td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">24</td><td>D. Joaõ V. </td><td>Fidelissimo.</td><td>Lisboa. </td><td>1689 </td><td>1706 </td><td> 44 </td><td> 60 </td><td>1750</td><td> Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">25</td><td>D. Joseph I. </td><td>Fidelissimo.</td><td>Lisboa. </td><td>1714 </td><td>1750 <td colspan="5"> </td></tr> -</table><p> -<span class="pagenum" id="Page_361">[Pg 361]</span></p> - - - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - - - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_560" href="#FNanchor_560" class="label">[559]</a> Rib. de Maced. na Geneal. do Conde D. Henr.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_561" href="#FNanchor_561" class="label">[560]</a> Sousa. Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 1. pag. -31.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_562" href="#FNanchor_562" class="label">[561]</a> Brand na Monarq. liv. 11. cap. 38.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_563" href="#FNanchor_563" class="label">[562]</a> Apud Maced. allegad. e Far. no tom. 2. da Europ. Port. -part. 1. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_564" href="#FNanchor_564" class="label">[563]</a> Exempl. Flor. <i>Alteram filiam, sed non ex conjugali -thoro natam Ainrico.. dedit.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_565" href="#FNanchor_565" class="label">[564]</a> Far. Com. de Cam. Cant 3. est 25.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_566" href="#FNanchor_566" class="label">[565]</a> Baron. tom. 11. ad an. 1080 <i>Constat enim à Rege -Catholico Alphonso... uxorem diversam à consanguinea defunctæ conjugis -accepisse.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_567" href="#FNanchor_567" class="label">[566]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 13. fin. Ribeir. de Maced. -allegad</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_568" href="#FNanchor_568" class="label">[567]</a> Barbos. Catal. das Rainhas de Port. pag. 7. Vide etiam -Sous. na Hist. Genealog. tom. 1. pag. 33. Berganç. Antiguid. de Hesp. -part. 1. liv. 5. n. 451.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_569" href="#FNanchor_569" class="label">[568]</a> Barbos. ut supr. p. 37.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_570" href="#FNanchor_570" class="label">[569]</a> Sousa ut supr. p. 32.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_571" href="#FNanchor_571" class="label">[570]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_572" href="#FNanchor_572" class="label">[571]</a> Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 13. cap. 20. -Garibay tom. 2. liv. 13. cap. 11. Ortiz, Anales de Sevilla liv. 2. p. -205. Garma Theatr. univers. de Hesp. tom. 3. pag. 288.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_573" href="#FNanchor_573" class="label">[572]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 38.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_574" href="#FNanchor_574" class="label">[573]</a> Brochado na conta de 13 de Mayo de 1723 das Mem. Academ. -Veja-se tambem a Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_575" href="#FNanchor_575" class="label">[574]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_576" href="#FNanchor_576" class="label">[575]</a> Far. no Com. de Cam. Cant. 3. est. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_577" href="#FNanchor_577" class="label">[576]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 79. & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_578" href="#FNanchor_578" class="label">[577]</a> Estaço nas Antig. de Port. cap. 12. n 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_579" href="#FNanchor_579" class="label">[578]</a> Monarq Lusit. liv. 9. cap. 8. Mariz Dialog. 2. cap 3. -Duart. Nun. Chronic. do Conde D Henriq. Telles Chronic. da Comp. part. -1. liv. 1. cap. 16. n 4. Far. na Europ. tom. 2. part 1. cap. 3. n 4. -Maced. Excel de Port. cap. 21. excel. unic. n 9. Vasconc. Anac. Maced. -Propugn. Lusitan. Galic. confut. 20. §. 1. Clede Hist. de Port. tom. 2. -p. 67.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_580" href="#FNanchor_580" class="label">[579]</a> Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_581" href="#FNanchor_581" class="label">[580]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 16.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_582" href="#FNanchor_582" class="label">[581]</a> Brit. na Chronic. de Cister part 1. liv. 3. cap. 4. Cam. -Lusiad. cant. 3. est. 35. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 275. Monarq. -Lusit. liv. 9. cap 19. Toscan. Paral. devar. illustr. cap. 26. Maced. -Flor. de Hesp. cap. 12. excel. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_583" href="#FNanchor_583" class="label">[582]</a> Resend. lib. 4. Antiq. <i>Tantas congregavit copias, ut -millia quadringenta exercitus superaret.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_584" href="#FNanchor_584" class="label">[583]</a> Horat. Tursellin. Epitom. Histor. liv. 8. ad ann. 1140. -<i>Itaque victoriis ingens ab Alphonso Rege Castellæ, Rex Lusitaniæ -appellatur.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_585" href="#FNanchor_585" class="label">[584]</a> Conserva-se na Torre do Tombo tit. 1. p. 1. dos Breves.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_586" href="#FNanchor_586" class="label">[585]</a> Monarq Lusit. liv. 10. cap. 5. Sousa Histor. Geneal. tom -1. das Prov. n. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_587" href="#FNanchor_587" class="label">[586]</a> Cam. Lusiad. cant. 3. est. 45 e seg. e seu Commentador -Manoel de Far. Brit. Chron. de Cist. liv. 3. c. 2. Monarq. Lusit. -liv. 10. cap. 5. Paes Viegas nos Princ. de Port. liv. 4. Resend. -liv. 4 de Antiq. Dam. de Goes in Descript. Olisip. Man. da Cost. -celebre Jurista, na Oraçaõ funeb. delRey D. Joaõ III. em 25 de Junho -de 1557, e impressa em Coimbr. ann. 1558. Osor. de reb. Emm. l. 8. & -de Nobil l. 3. Vasconc. Anacephal. n. 5. Freit. de just. Imp. Lusit. -cap. 18. n. 16. Duart. Galv. na Chronic. deste Rey cap. 15. e outros, -que allega o Doutor Joseph Pinto Pereira no Appar. Histor de argum. -sanctit. Reg. Alphons. Henr. arg. 1. Os Authores Estrangeiros saõ os -seguintes: Thom. Boss. de Sign. Eccles. tom. 2. l. 7. c. 7. Beyerlinck -verb. <i>Apparitio</i>. Delr. Disquis. magic. lib. 2 quæst 26. sect. -5. Thyræus de Christi apparition. impersona lib. cap. 3. Rosignol de -actib. virtut. lib.1. cap. 16. Bagat. de admir. orb. Christian tom. -2. lib 5. cap. 1. n. 45. Petra sancta in Tesseris gentilic. Jarric. -Thesaur. rer. indic. p. 2. cap 3. Birag. Histor del Port. part. 13. -Tracagnot. Histor. Ital. Morel. Reduccion de Port. part. 1. n. 10. e -outros, que allega D. Anton. Caetano de Sousa no tom. 4. do Agiolog. -Lusit. a 25 de Julho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_588" href="#FNanchor_588" class="label">[587]</a> Marian. liv. 10. cap. 17. tom. 1. Histor. de Hespanh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_589" href="#FNanchor_589" class="label">[588]</a> Brit. Chron. de Cister l. 3. cap. 4. e 5. Manriq. Annal. -Cisterc. ann. 1142. cap. 4. Brand. Monarq. liv. 11. cap. 4. liv. 16. -cap. ult. e liv. 19. cap. ultim. Maced. de Div. tutelar. p. 240. Maced. -Philipp. Portug. cap. 19. Velasc. Justa Acclam. part. 1. §. 4. n. 24. -Baron. ad ann. 1144. in Lucio II. Aguirre tom. 3. Concil. ad ann. 1144. -n. 92.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_590" href="#FNanchor_590" class="label">[589]</a> Mariz. Dialog. 2. cap. 7. Garibay liv. 34. cap. 14. -Mend. da Silv. Catal. Real §. 59. Mendoça in Viridar. lib. 6. or. 3. -num. 67. Vieg. in Apocalyps. cap. 21. sect. 5. num. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_591" href="#FNanchor_591" class="label">[590]</a> Brit. Chron. de Cister liv. 3. cap. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_592" href="#FNanchor_592" class="label">[591]</a> Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_593" href="#FNanchor_593" class="label">[592]</a> Idem ibid. cap. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_594" href="#FNanchor_594" class="label">[593]</a> Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_595" href="#FNanchor_595" class="label">[594]</a> Brand. ibid. l. 12. c. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_596" href="#FNanchor_596" class="label">[595]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 80.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_597" href="#FNanchor_597" class="label">[596]</a> Monarq. liv. 12. cap. 1. e 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_598" href="#FNanchor_598" class="label">[597]</a> Ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_599" href="#FNanchor_599" class="label">[598]</a> Idem ibid cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_600" href="#FNanchor_600" class="label">[599]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. c. 7. e no fim do Prologo da -quarta parte.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_601" href="#FNanchor_601" class="label">[600]</a> Idem cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_602" href="#FNanchor_602" class="label">[601]</a> Clede tom. 2. pag. mihi 165.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_603" href="#FNanchor_603" class="label">[602]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 31.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_604" href="#FNanchor_604" class="label">[603]</a> Ibid. cap. 35. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. das Prov. -n. 10. Cled. tom. 1. p. 166.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_605" href="#FNanchor_605" class="label">[604]</a> Barbos. Catal. das Rainh. de Port. p. 143.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_606" href="#FNanchor_606" class="label">[605]</a> Brand. na Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 27.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_607" href="#FNanchor_607" class="label">[606]</a> Cled. tom. 2. Histoir. de Port. p. 174.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_608" href="#FNanchor_608" class="label">[607]</a> Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 1. cap. 7. n. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_609" href="#FNanchor_609" class="label">[608]</a> Brand. Monarq. liv. 13. cap. 10. e liv. 14. cap. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_610" href="#FNanchor_610" class="label">[609]</a> Bzovius tom. 13. Annal. ad ann. 1225. apud Barbos. -Catalog. das Rainh. p. 160.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_611" href="#FNanchor_611" class="label">[610]</a> Sá de Mirand. cart. 5. est. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_612" href="#FNanchor_612" class="label">[611]</a> Monarq. Lusit. liv. 14 cap. 25.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_613" href="#FNanchor_613" class="label">[612]</a> Monarq. Lusit. liv. 14. cap. 29.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_614" href="#FNanchor_614" class="label">[613]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_615" href="#FNanchor_615" class="label">[614]</a> Ibid. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_616" href="#FNanchor_616" class="label">[615]</a> Ibid. cap. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_617" href="#FNanchor_617" class="label">[616]</a> Cunh. Catalog. dos Bisp. do Port. part. 2. c. 12. -Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_618" href="#FNanchor_618" class="label">[617]</a> Barbud. Emprezas Militar. p. 12. e outros.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_619" href="#FNanchor_619" class="label">[618]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 61. e seqq. Brand. na -4. part. da Monarq. Lusit. e liv. 16. cap 41. Lim. Geograf. Histor. -tom. 2. p. 288. & seq. Far. Epitom. part. 4. cap. 8.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_620" href="#FNanchor_620" class="label">[619]</a> Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 2. c. 1. n. 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_621" href="#FNanchor_621" class="label">[620]</a> Cam. cant. 3. est. 94.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_622" href="#FNanchor_622" class="label">[621]</a> Esperanç. Histor. Serafic. part. 1. liv. 5. cap. 11. -Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 47.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_623" href="#FNanchor_623" class="label">[622]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 1. 2. e 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_624" href="#FNanchor_624" class="label">[623]</a> Ibid. cap. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_625" href="#FNanchor_625" class="label">[624]</a> Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_626" href="#FNanchor_626" class="label">[625]</a> Far. Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 2. n. 7. Monarq -Lusit. liv. 16. cap. 50.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_627" href="#FNanchor_627" class="label">[626]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 72. ep. 320. Sous. tom. 1. -das Provas da Histor. Geneal. p. 74.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_628" href="#FNanchor_628" class="label">[627]</a> Monarq. Lusit. liv. 17. cap. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_629" href="#FNanchor_629" class="label">[628]</a> Far. Europ. tom. 2. p. 2. cap. 2. n. 20. Monarq. liv. -18. cap. 2. Barbud. Emprez. Milit. pag. 17. vers.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_630" href="#FNanchor_630" class="label">[629]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num -310.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_631" href="#FNanchor_631" class="label">[630]</a> Ibid. num. 312.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_632" href="#FNanchor_632" class="label">[631]</a> Monarq. Lusit. tom. 7. Liv. 3. cap. 3. num. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_633" href="#FNanchor_633" class="label">[632]</a> Ruy de Pin. Chron. cap 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_634" href="#FNanchor_634" class="label">[633]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 1. p. 306.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_635" href="#FNanchor_635" class="label">[634]</a> Leit. Ferr. Notic. Chron. n. 321. e 333.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_636" href="#FNanchor_636" class="label">[635]</a> Monarq. Lusit. part. 7. liv. 10. cap. 22. e 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_637" href="#FNanchor_637" class="label">[636]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. -num. 404.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_638" href="#FNanchor_638" class="label">[637]</a> Nunes de Leaõ Chronic. delRey D. Pedro fol. 179.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_639" href="#FNanchor_639" class="label">[638]</a> Sá Elegia à morte do Principe D. Joaõ pag. mihi 277. -Vide Barbud. nas Emprez. Milit. pag. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_640" href="#FNanchor_640" class="label">[639]</a> Ferrei. Notic. Chronolog. de Coimbr. n. 495 & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_641" href="#FNanchor_641" class="label">[640]</a> Fern. Lop. Chron. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_642" href="#FNanchor_642" class="label">[641]</a> Cam. Lusiad. cant. 3. est. 138.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_643" href="#FNanchor_643" class="label">[642]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_644" href="#FNanchor_644" class="label">[643]</a> Nunes de Leaõ na Chronic. deste Rey.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_645" href="#FNanchor_645" class="label">[644]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_646" href="#FNanchor_646" class="label">[645]</a> Cam. cant. 3. est. 138.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_647" href="#FNanchor_647" class="label">[646]</a> Monarq. Lusitan. tom. 8. liv. 22. cap. 24. Barbud. -Emprez. Militar. pag. 32.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_648" href="#FNanchor_648" class="label">[647]</a> Far. no Comm. da est. 138. do cant. 3. de Cam.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_649" href="#FNanchor_649" class="label">[648]</a> Monarq. Lusitan. part. 8. liv. 22. cap. 26.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_650" href="#FNanchor_650" class="label">[649]</a> Notic. Chronol. da Univ. de Coimbr. n. 438.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_651" href="#FNanchor_651" class="label">[650]</a> Monarq. Lusitan. part. 8. p. 211.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_652" href="#FNanchor_652" class="label">[651]</a> Idem ibid. liv. 22. cap. 47.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_653" href="#FNanchor_653" class="label">[652]</a> Idem ibid. liv. 23. cap. 4. Pufendorf, Introduct. a la -Histoire tom. 1. cap. 3. p. 128.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_654" href="#FNanchor_654" class="label">[653]</a> Fern. Lopes Chronic. deste Rey cap. 14. Monarq. Lusit. -part. 8. p. 460. Silv Memor. delRey D. João I. tom. 1. p. 116. Quanto -ao dia, mez, e anno natalicio delRey D. Joaõ I. ha muita variedade -entre os Chronistas: ninguem investigou melhor este ponto que o -Academico Francisco Leitaõ Ferreira nas eruditas Noticias Chronologicas -da Universidade de Coimbra desde o num. 623. para diante, a qual -assenta, seguindo a Fernaõ Lopes, que o Mestre de Aviz nascera aos 15 -de Abril de 1358; porém nós seguimos a opiniaõ commummente recebida, -e approvada pelo Academico Joseph Soares da Silva tom. 1. p. 64. das -Memorias deste Rey.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_655" href="#FNanchor_655" class="label">[654]</a> Fr. Man. dos Sant. na 8. part. da Monarq. Lusit. liv. -23. cap. 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_656" href="#FNanchor_656" class="label">[655]</a> Notic. Chronol. da Univ. n. 534.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_657" href="#FNanchor_657" class="label">[656]</a> Soar. da Silv. nas Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. c. -42. n. 281.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_658" href="#FNanchor_658" class="label">[657]</a> Lim. Geograf. Histor. tom. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_659" href="#FNanchor_659" class="label">[658]</a> Monarq. Lusit. part. 8. liv. 23. cap. 29.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_660" href="#FNanchor_660" class="label">[659]</a> Fern. Lop. Chron. delRey D. Joaõ I. part. 2. cap. 37. -pag. 91. Monarq. Lusit. part 8. liv. 23. c. 40. Clede, Histoir. de -Portug. tom. 3. liv. 10. Pufendorf, Introduct. a la Histoir. tom. 1. -cap 3. Teixeir. Vida de D. Nun. Alvar. Pereir. liv. 3. n. 173. p. 359. -Conde da Ericeira Vida delRey D. Joaõ I. liv. 2. p. 200. e liv. 3. p. -230. Sá Memor. Historic. do Carmo part. 1. pag 82.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_661" href="#FNanchor_661" class="label">[660]</a> Soares da Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. pag. 1505. -Leit. Ferr. Notic. Chronol. n. 733.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_662" href="#FNanchor_662" class="label">[661]</a> Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. num. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_663" href="#FNanchor_663" class="label">[662]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag. 23. Far. Europ. -Portug. tom. 2. part. 3. cap. 1. Mariz Dialog. 4. Silv. Memor. delRey D -Joaõ I. tom. 4. document. 19. p. 140. Argot. Memor. de Brag. tom. 3. p. -36.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_664" href="#FNanchor_664" class="label">[663]</a> Soar. da Silv. allegado p. 267.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_665" href="#FNanchor_665" class="label">[664]</a> Sous. allegad. tom. 2. p. 24.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_666" href="#FNanchor_666" class="label">[665]</a> Soar. da Silv. Mem. delRey D. Joaõ I. liv. 2. cap. 104. -e 105.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_667" href="#FNanchor_667" class="label">[666]</a> Anno Histor. tom. 2. 14. de Agost. Teixeir. Vida do -Condestav. p. 589.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_668" href="#FNanchor_668" class="label">[667]</a> Soar. da Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom. 1. cap. 53. -p. 270.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_669" href="#FNanchor_669" class="label">[668]</a> Sousa na Histor. de S. Doming part. 2. fol. 330.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_670" href="#FNanchor_670" class="label">[669]</a> D. Anton. Caetan. de Sousa no tom. 1. das Prov. p. 529.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_671" href="#FNanchor_671" class="label">[670]</a> Fern. Lop. Chronic. delRey D. Joaõ I. part. 2. pag. 323. -col. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_672" href="#FNanchor_672" class="label">[671]</a> Clede Histoir. de Portug. tom. 3. p. 203.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_673" href="#FNanchor_673" class="label">[672]</a> Far. tom. 2. da Europ. part. 3. cap. 2. n. 7. Cled. -Histoir. de Portug. tom. 3. p. 205.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_674" href="#FNanchor_674" class="label">[673]</a> Idem ibid. p. 233.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_675" href="#FNanchor_675" class="label">[674]</a> Duart. Nun. de Leaõ cap. 18. Soar. da Silv. Memor. -delRey D. Joaõ I. pag. 494.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_676" href="#FNanchor_676" class="label">[675]</a> Cled. Histor. de Portug. tom. 3. p. 233.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_677" href="#FNanchor_677" class="label">[676]</a> Notic. Chronolog da Univers. de Coimbr. n. 750.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_678" href="#FNanchor_678" class="label">[677]</a> Far. na Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 3. n. 14. & -seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_679" href="#FNanchor_679" class="label">[678]</a> Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. n. 17.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_680" href="#FNanchor_680" class="label">[679]</a> Ruy de Pin. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 21. e 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_681" href="#FNanchor_681" class="label">[680]</a> Cam. cant. 4. est. 57.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_682" href="#FNanchor_682" class="label">[681]</a> Garc. de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 16. e -17. Duart. Nun. Chron. delRey D. Affonso V. cap. 62.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_683" href="#FNanchor_683" class="label">[682]</a> Faria no Comm. de Cam. cant. 4. est. 57.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_684" href="#FNanchor_684" class="label">[683]</a> Idem no Epitom. part. 3. cap. 13. n. 24. Pint. Ribeir. -no Trat. da Prefer. das letr. às armas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_685" href="#FNanchor_685" class="label">[684]</a> Garibay Damiaõ de Goes, Barbuda, Ferreras, e outros apud -Leit. Ferreir. Notic. Chron. da Universid. de Coimbr. n. 861.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_686" href="#FNanchor_686" class="label">[685]</a> Garc. de Resende na Vida deste Rey cap. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_687" href="#FNanchor_687" class="label">[686]</a> Zerit. Anal. liv. 20. cap. 44. Sousa Histor. Geneal. -tom. 5. liv. 6. cap. 7. p. 455.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_688" href="#FNanchor_688" class="label">[687]</a> Telles da Silv. de reb. gest. Joann. II. pag. 92. <i>Sed -in universum æstimanti sanè fuit meliori facto dignus.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_689" href="#FNanchor_689" class="label">[688]</a> Garcia de Resend. na vida deste Rey cap. 50., 76., e -146. Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 4. n. 98.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_690" href="#FNanchor_690" class="label">[689]</a> Resende cap. 167.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_691" href="#FNanchor_691" class="label">[690]</a> Resende cap. 109 Sá de Mirand. cart. 2. est. 39. Telles -da Silv. de reb. gest. Joann II. pag. 33.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_692" href="#FNanchor_692" class="label">[691]</a> Garcia de Resende cap. 211. e 213. Dam. de Goes Chronic. -delRey D. Manoel p. 1 cap. 1. Fonseca na Evora gloriosa p. 97.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_693" href="#FNanchor_693" class="label">[692]</a> Cam. nas Lusiad. cant. 4. est. 66.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_694" href="#FNanchor_694" class="label">[693]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronolog. num. 905. & seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_695" href="#FNanchor_695" class="label">[694]</a> Goes Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_696" href="#FNanchor_696" class="label">[695]</a> Idem ibid. cap. 17. Faria tom. 2. da Europ. Port. part. -4. cap. 1. n. 10. Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 185.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_697" href="#FNanchor_697" class="label">[696]</a> Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 18. e 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_698" href="#FNanchor_698" class="label">[697]</a> Pufendorf Introduct. à la Histoir. tom. 1. cap.3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_699" href="#FNanchor_699" class="label">[698]</a> Far. Europ. Port. tom. 2. part. 4. cap. 1. n. 23. Sous. -Histor. Geneal. tom. 3. p. 226.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_700" href="#FNanchor_700" class="label">[699]</a> Goes part. 4. cap. 85.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_701" href="#FNanchor_701" class="label">[700]</a> Far. no cant. 1. das Lusiad. pag. 111.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_702" href="#FNanchor_702" class="label">[701]</a> Descrevem esta Embaixada largamente Damiaõ de Goes na -Chronica delRey D. Manoel part. 3. desde o cap. 55. Osor. de reb. -Emman. Ann. Hist. a 12 de Fever.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_703" href="#FNanchor_703" class="label">[702]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_704" href="#FNanchor_704" class="label">[703]</a> Goes na Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 62. Far. -na Europ. Port. tom. 2 part. 4. cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_705" href="#FNanchor_705" class="label">[704]</a> Idem ibid. n. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_706" href="#FNanchor_706" class="label">[705]</a> Cabed. de Patron. cap.47. Cunha no Catal. dos Bisp. do -Port. p. 451. Fr. Anton. da Purific. na 2. part. da Chron. liv. 7. tit. -1. §. 3. fol. 215. Faria na Vida de Camões, que vem no principio do -Corrimento das Rimas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_707" href="#FNanchor_707" class="label">[706]</a> Leitaõ Ferr. Notic. Chronol. n. 1150.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_708" href="#FNanchor_708" class="label">[707]</a> Bento Pereir. de Academ. n. 111. Maced. nas Flor. de -Hespanh. cap. 8. excel. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_709" href="#FNanchor_709" class="label">[708]</a> Bossius de Sign. Eccles. tom. 1. liv. 5. cap. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_710" href="#FNanchor_710" class="label">[709]</a> Faria allegad. na Europ. Port. Sousa Histor. Genealog. -tom. 3. p. 488.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_711" href="#FNanchor_711" class="label">[710]</a> Faria na Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 8. -Veja-se tambem o Anno Historico a 4 de Agosto.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_712" href="#FNanchor_712" class="label">[711]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 39. Sousa -Histor. Genealog. tom. 3. p. 591. Lima Success. de Port. cap. 30. Anno -Histor. a 23 de Junh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_713" href="#FNanchor_713" class="label">[712]</a> Clede tom. 5. pag 496.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_714" href="#FNanchor_714" class="label">[713]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 3. pag. 594. Anno Histor. a -5 de Agosto num. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_715" href="#FNanchor_715" class="label">[714]</a> Damiaõ de Goes 3. part. da Chronic. delRey D. Manoel -cap. 27. Barbos. nos Fast. da Lusit. a 31 de Janeiro §. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_716" href="#FNanchor_716" class="label">[715]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 1. cap. 3 n. 20. Sousa -Histor. Geneal. tom. 3. pag. 376. Torres de Lima nos Successos de -Portug. part. 1. cap.33.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_717" href="#FNanchor_717" class="label">[716]</a> Herrer. liv. 3. §. 52. diz que eraõ cem mil homens.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_718" href="#FNanchor_718" class="label">[717]</a> Fr. Man. Hom. na Disposiçaõ das Arm. Castelhan. cap 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_719" href="#FNanchor_719" class="label">[718]</a> Bonacin. tom. 2. Restitut. disp. 2. quæst. ult. sect. 1. -punct. ultim. §. 2. Sá verb. <i>Bellum</i> n. 8. Suar. de Charit. disp. -13. de Bello sect. 6. n. 4. 5 & 6. Vasq. in l. 2. disp. 64. cap. 3. -Molin. de Justit. tom. 1. tract. 2. disp. 103. n. 2. & 11. etc.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_720" href="#FNanchor_720" class="label">[719]</a> Faria Europa Portug. tom. 3. part. 2. cap. 1. n. 15. -Anno Historic. a 29 de Junho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_721" href="#FNanchor_721" class="label">[720]</a> Faria Europ. Port. Joaõ Pinto Ribeiro na Usurpaçaõ de -Portug. Joaõ Bapt. Morelli na Restituiçaõ de Portug part. 1. Maced. -Lusit. liberat. D. Francisco Man. Eco politic. O Author da Arte de -furtar cap. 17. que supponho he Joaõ Pinto Ribeiro, e outros muitos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_722" href="#FNanchor_722" class="label">[721]</a> Velasco na Justa Acclamaç part. 2. punct. 1. §. 1. Joaõ -Salgad. no Marte Port. certam. 2. art. 5. Portug. restaurad. liv. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_723" href="#FNanchor_723" class="label">[722]</a> D. Francisc. Man. Epanafor. 1. pag. 21. 42. 74. O Abbade -de Vertot nas Revolutions de Portugal pag. mihi 81.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_724" href="#FNanchor_724" class="label">[723]</a> O Padre Anton. dos Reys in Epist. ad Jamet. Nota 115. -traz hum Catalogo dos Fidalgos confederados para a acclamaçaõ delRey -D. Joaõ IV. e saõ mais dos quarenta, que refere o tomo 1. do Portug. -Restaurad. pag.98. Sousa Histor. Genealog. tom. 7.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_725" href="#FNanchor_725" class="label">[724]</a> Almeid. Restaur. prodigiosa part. 2. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_726" href="#FNanchor_726" class="label">[725]</a> <i>Hæc mutatio dexteræ Excelsi est.</i> Psalm. 76. vers. -11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_727" href="#FNanchor_727" class="label">[726]</a> Morelli na Restituiç. de Portug. pag. 114.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_728" href="#FNanchor_728" class="label">[727]</a> D. Franc. Manoel no Manifesto de Portug. Sousa Histor. -Genealog. tom. 7. p. 162. Vieir. Histor. do futuro pag. 94. & seqq. -Portug. Restaur. tom. 2. Evor. glor. p. 166. Ann. Histor. a 29 Agosto.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_729" href="#FNanchor_729" class="label">[728]</a> Monarq. Lusit. part. 6. liv. 19. cap. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_730" href="#FNanchor_730" class="label">[729]</a> Sous. Hist. Geneal. tom. 7. p. 204.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_731" href="#FNanchor_731" class="label">[730]</a> Catastrofe de Portug. pag. 77.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_732" href="#FNanchor_732" class="label">[731]</a> Catastrofe de Port. pag. 225.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_733" href="#FNanchor_733" class="label">[732]</a> Portug. Restaurad. part. 2. pag. 919.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_732a" href="#FNanchor_732a" class="label">[732a]</a> Clede tom. 8. pag. 533.</p> - -</div> - - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_734" href="#FNanchor_734" class="label">[733]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 7. pag. 639.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_735" href="#FNanchor_735" class="label">[734]</a> Clede tom. 8. pag.535. Anno Histor. tom. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_736" href="#FNanchor_736" class="label">[735]</a> Franc. Botelho no Alfonso da impressaõ de Salamanc. de -1741. liv. 1. est. 6.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Roma, de quien fue throno el mundo intero,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Buscó tu auxilio en riesgo furibundo,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Y fuiste con tu armada, oh Real guerrero,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Arbitro de los arbitros del mundo.</i></span><br> -</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_737" href="#FNanchor_737" class="label">[736]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>...Lysiae reliquos nunc adspice Reges,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Ut collata videns illorum insignia gesta</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Joannes gestis, quantum caput efferat omnes</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Hic suber agnoseas.......</i></span><br> -</p> - -<p>Padre Antonio dos Reys no Enthusiasmo Poetico prope finem.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_738" href="#FNanchor_738" class="label">[737]</a> <i>Magnum hoc tuum, non erga homines modo, sed erga -tecta ipsa meritum, sistere ruinas, solitudinem pellere, ingentia -opera, eodem quo extructa sunt animo, ab interitu vendicare.</i> Plin. -in Panegyr. Trajani.</p> -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_362">[Pg 362]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VII">CAPITULO VII.<br><span class="small"><i>Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal.</i></span></h2> -</div> - -<p>O preclarissimo titulo de Rainha neste Reino he mais antigo que o dos -Reys; porque foy costume daquelles primeiros Monarcas de Leaõ dar em -vida titulo de Reys aos filhos, e de Rainhas às filhas para ficar assim -nelles mais estabelecida, e segura a successaõ Real;<a id="FNanchor_739" href="#Footnote_739" class="fnanchor">[738]</a> e ainda que -alguns erradamente disseraõ, que o illustrissimo Conde D. Henrique -assentara o senhorio de Portugal debaixo do titulo de Condado,<a id="FNanchor_740" href="#Footnote_740" class="fnanchor">[739]</a> -ninguem até agora duvidou que sua mulher a Senhora Dona Teresa, como -filha, que era delRey D. Affonso de Castella, deixasse de se chamar -sempre Rainha, e naõ Condessa; e do mesmo modo se chamaraõ Rainhas -suas filhas, cujo estylo se praticou neste Reino até D. Sancho I.<a id="FNanchor_741" href="#Footnote_741" class="fnanchor">[740]</a> -do qual tempo até este nosso tomaraõ o nome de Infantes, o que naõ -entendendo alguns Historiadores Flamengos, attribuiraõ a ambiçaõ -chamarse Rainha, e naõ Condessa a Senhora Dona Teresa, filha delRey D. -Affonso I. que casou com o Conde de Flandes Filippe de Alsacia.<a id="FNanchor_742" href="#Footnote_742" class="fnanchor">[741]</a> -Isto supposto, entremos a executar o promettido.</p> - -<p>2 <i>Dona Teresa</i>, mulher do Conde D. Henrique, era filha delRey -D. Affonso VI. de Leaõ, e herdeira de seus Estados, Senhora de -notavel formosura.<span class="pagenum" id="Page_363">[Pg 363]</span> Casou com o illustrissimo Conde no anno de 1093, -trazendo em dote todo o Reino de Portugal, que ella governou dezaseis -annos depois da morte do Conde seu marido, como senhora proprietaria -delle;<a id="FNanchor_743" href="#Footnote_743" class="fnanchor">[742]</a> e porque se aproveitava dos conselhos de hum Cavalhero -Galego, chamado D. Fernando Peres, Conde de Trastamara, quizeraõ muitos -dizer<a id="FNanchor_744" href="#Footnote_744" class="fnanchor">[743]</a> que a Rainha Dona Teresa contrahira segundo casamento com o -tal Conde; porém he certo que tal naõ houve, como efficazmente prova o -erudito Padre D. Joseph Barbosa.<a id="FNanchor_745" href="#Footnote_745" class="fnanchor">[744]</a> Fundou a Igreja de S. Pedro de -Rates na Cidade de Braga: fez varias doações às Sés de Braga, Porto, e -Coimbra: admittio em Portugal os Cavalleiros Templarios; e finalmente -morreo em o primeiro de Novembro de 1130. Jaz na Capella mór da Sé de -Braga.</p> - -<p>3 <i>Dona Mafalda</i>, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e -Moriana, casou com D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, -no anno de 1146. Fundou, e dotou hum Hospital na Villa de Canavezes -para nove passageiros, e peregrinos terem nelle agazalho com todo o -commodo possivel: unio-lhe as rendas da ponte, que mandou fabricar -grandiosamente. Edificou a Igreja de Santa Maria de Sobre-Tamaga, e o -Morteiro da Costa de Guimarães, que deu aos Conegos Regulares de Santo -Agostinho, e hoje possuem os Religiosos de S. Jeronymo. Faleceo a 4 de -Novembro de 1157, e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra -junto de seu marido.<a id="FNanchor_746" href="#Footnote_746" class="fnanchor">[745]</a></p> - -<p>4 <i>Dona Dulce</i> foy filha de D. Ramon Berenguer,<span class="pagenum" id="Page_364">[Pg 364]</span> Conde de -Barcelona, e Principe de Aragaõ. Casou com ElRey D. Sancho I. no anno -de 1175, confirmou com ElRey seu marido algumas doações pias, e morreu -em Coimbra no primeiro de Setembro de 1198. Está sepultada no Mosteiro -de Santa Cruz da mesma Cidade.<a id="FNanchor_747" href="#Footnote_747" class="fnanchor">[746]</a></p> - -<p>5 <i>Dona Urraca</i> era filha de D. Affonso IX. Rey de Castella. Casou -com D. Affonso II. de Portugal no anno de 1201. Teve a felicidade -de receber em seu Palacio a S. Francisco, e aos cinco Martyres de -Marrocos; e sendo trazidos seus corpos a Coimbra, os foy buscar, e -deu sitio para se fundar na mesma Cidade o primeiro Convento de S. -Francisco em o Reino. Viveo com exemplar virtude, e mereceu que Deos -lhe revelasse o dia de sua morte, que foy a 3 de Novembro de 1220. Jaz -no Mosteiro de Alcobaça.<a id="FNanchor_748" href="#Footnote_748" class="fnanchor">[747]</a></p> - -<p>6 <i>Dona Brites</i> filha delRey D. Affonso X. de Castella, chamado o -<i>Sabio</i>, e ella Princeza de singular perfeiçaõ, e prudencia, casou -com D. Affonso III. de Portugal no anno de 1253. Fundou o Hospital dos -Meninos Orfãos de Lisboa, e o Convento de S. Francisco de Estremoz. -O mayor louvor, que se lhe póde dar, he a grande fidelidade, que -mostrou a ElRey D. Affonso seu pay, socorrendo-o com seus thesouros. -Morreu em 27 de Outubro de 1303, e está sepultada no Real Mosteiro de -Alcobaça.<a id="FNanchor_749" href="#Footnote_749" class="fnanchor">[748]</a></p> - -<p>7 <i>Santa Isabel</i> foy filha delRey D. Pedro III. de Aragaõ, -chamado o <i>Grande</i>. Casou com ElRey D. Diniz em 24 de Junho de -1282. Instituio com seu marido a Igreja, e Festa do Espirito Santo em -Alenquer. Fundou a Capella de Nossa Senhora da<span class="pagenum" id="Page_365">[Pg 365]</span> Conceiçaõ no Convento -da Trindade de Lisboa. Por morte de seu marido se recolheo ao Mosteiro -de Santa Clara de Coimbra, tambem fundaçaõ sua, onde viveo com taõ -grandes evidencias de santidade, obrando Deos por sua intercessaõ -muitos prodigios em vida, e depois de sua morte, que alcançou ser -numerada no Catalogo dos Santos por Urbano VIII. em 25 de Mayo de 1625. -Partio desta vida a gozar da eterna em 4 de Julho de 1336. Está seu -veneravel corpo no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.<a id="FNanchor_750" href="#Footnote_750" class="fnanchor">[749]</a></p> - -<p>8 <i>Dona Brites</i> filha de D. Sancho IV. Rey de Castella, chamado o -<i>Bravo</i>, casou com D. Affonso IV. de Portugal em 12 de Setembro de -1309. Instituio na Sé de Lisboa as Mercearias, que chamaõ de Affonso -IV. por concorrer tambem seu marido para esta instituiçaõ. Morreo em -Lisboa no anno de 1359 a 25 de Outubro. Jaz na antiga Sé de Lisboa.<a id="FNanchor_751" href="#Footnote_751" class="fnanchor">[750]</a></p> - -<p>9 <i>Dona Constança</i> foy filha de D. Joaõ Manoel, Duque de Peñafiel, -Marquez de Vilhena. Casou no anno de 1340 com ElRey D. Pedro I. sendo -ainda Infante, e foy sua primeira mulher. Morreo de parto do Infante -D. Fernando a 13 de Novembro de 1345. Está sepultada no Convento de S. -Francisco de Santarem.<a id="FNanchor_752" href="#Footnote_752" class="fnanchor">[751]</a></p> - -<p>10 <i>Dona Ignez de Castro</i> foy filha de D. Pedro Fernandes de -Castro, grande Senhor em Galiza. Casou com o Principe D. Pedro no -anno de 1354 occultamente. Fundou a Capella, em que está sepultado S. -Gervaz na Paroquia da Villa de Basto. Por mandado delRey D. Affonso -IV. foy morta com grande tyrannia, e injustiça aos 7 de Janeiro de -1355. Passados dous annos, declarou ElRey D.<span class="pagenum" id="Page_366">[Pg 366]</span> Pedro que havia sido sua -legitima mulher, e como a tal a fez sepultar em Alcobaça com insignias -Reaes, onde jaz em primoroso tumulo.<a id="FNanchor_753" href="#Footnote_753" class="fnanchor">[752]</a></p> - -<p>11 <i>Dona Leonor Telles</i>, filha de Martim Affonso Tello de Menezes, -casou com ElRey D. Fernando, que se namorou della, e a recebeo no -anno de 1371 contra o parecer de todos, porque a usurpou a seu marido -Joaõ Lourenço da Cunha, com quem estava casada, sem embargo de alguns -dizerem que indevidamente em razaõ de affinidade, e sem dispensa. -Em vida de seu marido foy causa dos excessos escandalosos de Joaõ -Fernandes Andeiro, Conde de Ourem. Passou-se a Castella, e morreo em -Tordesilhas a 27 de Abril de 1386. Jaz no Convento de Valhadolid.<a id="FNanchor_754" href="#Footnote_754" class="fnanchor">[753]</a></p> - -<p>12 <i>Dona Filippa de Lancastro</i> foy filha do Duque de Lancastro -Joaõ de Gante. Casou com ElRey D. Joaõ I. de Portugal a 2 de Fevereiro -de 1387. Edificou a Igreja de S. Francisco de Leiria, e fez muitas -obras pias, e acções de caridade, por ser huma Senhora de grande -virtude. Morreo no Lugar de Sacavem aos 18 de Julho de 1415, para onde -tinha ido por causa da peste, e dalli foy conduzida para Odivellas, -onde se fizeraõ as exequias, e depois se transferio para o Convento -da Batalha, onde agora jaz. He fama, que na hora do seu transito a -consolara Maria Santissima com a incomparavel graça da sua vista, cujo -favor parece que se faz provavel, porque dalli a hum anno foy achado -seu corpo incorrupto, e cheiroso.<a id="FNanchor_755" href="#Footnote_755" class="fnanchor">[754]</a></p> - -<p>13 <i>Dona Leonor</i> era filha delRey D. Fernando I. de Aragaõ. -Casou com ElRey D. Duarte a 22 de<span class="pagenum" id="Page_367">[Pg 367]</span> Setembro de 1428. Deixou-a -ElRey seu marido por tutora, e Governadora do Reino na menoridade -delRey D. Affonso seu filho, o que naõ consentindo os Infantes seus -cunhados, houveraõ discordias grandes entre elles, e a Rainha, até -que ultimamente largou o governo ao Infante D. Pedro, e se foy para -Castella, onde morreo em Toledo a 18 de Fevereiro de 1445, sendo depois -seu corpo conduzido para o Convento da Batalha, onde jaz.<a id="FNanchor_756" href="#Footnote_756" class="fnanchor">[755]</a></p> - -<p>14 <i>Dona Isabel</i> foy filha do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, -Regente do Reino. Casou com ElRey D. Affonso V. em 6 de Mayo de 1448, -sendo que o insigne Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa diz, que -fora no anno antecedente, e o prova com escritura authentica. Mandou -edificar hum Convento para os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, -e he o que se vê hoje no sitio de Xabregas. Morreo finalmente em 2 de -Dezembro de 1455 na Cidade de Evora, e jaz no Convento da Batalha.<a id="FNanchor_757" href="#Footnote_757" class="fnanchor">[756]</a></p> - -<p>15 Bem se pudera unir a este Catalogo a pouco venturosa Rainha <i>Dona -Joanna</i>, filha delRey D. Henrique IV. de Castella, de quem foy -jurada herdeira, e casou em Mayo de 1475 com ElRey D. Affonso V.; -mas como este matrimonio naõ se consumou, porque lhe embaraçaraõ a -dispensa de parentesco a Rainha de Aragaõ, e ElRey D. Fernando o -<i>Catholico</i> seu marido, por isso he infelizmente exclusa da ordem -das Rainhas de Portugal, sem embargo de que conservou até à morte -estado de Rainha, e lhe chamavaõ a <i>Excellente Senhora</i>. Morreo em -Lisboa nos Paços do Castello no anno de 1530. Jaz no Mosteiro de Santa -Clara.<a id="FNanchor_758" href="#Footnote_758" class="fnanchor">[757]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_368">[Pg 368]</span></p> - -<p>16 <i>Dona Leonor</i> filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu, -casou com ElRey D. Joaõ II. a 22 de Janeiro de 1470. Foy Princeza -adornada de singular formosura, e virtudes admiraveis. Governou o -Reino em tempo, que ElRey D. Manoel seu irmaõ esteve em Castella. -Fundou o Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa, e o adornou de preciosas -Reliquias, e de huma estimavel Imagem. Tambem edificou o Mosteiro da -Annunciada no primeiro sitio, que teve junto ao Castello, e o Hospital -das Caldas no termo de Obidos, chamadas por seu respeito da Rainha. -Instituio a Irmandade da Misericordia de Lisboa, donde emanaraõ todas -as mais de Hespanha. Estabeleceo cinco Mercearias na Igreja de Santa -Maria de Obidos, e outras tantas em Nossa Senhora da Graça de Torres -Vedras. Faleceo em Lisboa a 17 de Novembro de 1525, deixando de si, e -de suas virtuosissimas acções saudosas, e eternas memorias, que entre -as Princezas Portuguezas he recommendavel por singular. Está sepultada -no claustro do Mosteiro da Madre de Deos à porta do Refeitorio em -sepultura raza.<a id="FNanchor_759" href="#Footnote_759" class="fnanchor">[758]</a></p> - -<p>17 <i>Dona Isabel</i>, filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona -Isabel, casou primeiramente com o Principe D. Affonso, filho delRey -D. Joaõ II. de Portugal, aquelle, que depois de estar casado com esta -Senhora naõ mais que seis mezes, acabou lastimosamente a vida junto a -Santarem. Como do Principe lhe naõ ficaraõ filhos, tornou a casar com -ElRey D. Manoel em Outubro de 1497, e passando a Castella, foy jurada -Princeza herdeira daquelle Reino juntamente com ElRey seu marido; e -indo a Aragaõ para serem tambem jurados alli, morreo em Çaragoça de -parto do Principe D. Miguel aos 24 de Agosto de 1498. Jaz no Coro das -Religiosas<span class="pagenum" id="Page_369">[Pg 369]</span> de Santa Isabel a Real de Toledo.<a id="FNanchor_760" href="#Footnote_760" class="fnanchor">[759]</a></p> - -<p>18 <i>Dona Maria</i> era filha dos mesmos Reys Catholicos, e foy a -segunda mulher delRey D. Manoel seu cunhado, com quem casou em 30 de -Outubro de 1500. Foy Senhora de notavel governo. Fundou nas Berlengas -o Convento dos Monges de S. Jeronymo, que depois se mudaraõ para Val -bem feito. Morreo em Lisboa a 7 de Março de 1517. Está sepultada no -Convento de Belém.<a id="FNanchor_761" href="#Footnote_761" class="fnanchor">[760]</a></p> - -<p>19 <i>Dona Leonor</i>, terceira mulher delRey D. Manoel, filha delRey -Filippe I. de Castella, casou em 24 de Novembro de 1518. Foy Senhora -muito formosa. Deu principio ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assumpçaõ -de Faro das Religiosas de Santa Clara. Por morte delRey D. Manoel -voltou para Castella, e passou a segundas vodas com ElRey Francisco I. -de França. Faleceo em Talavera junto a Badajoz em 18 de Fevereiro de -1558. Jaz no Pantheon do Escurial.<a id="FNanchor_762" href="#Footnote_762" class="fnanchor">[761]</a></p> - -<p>20 <i>Dona Catharina</i>, filha delRey D. Filippe I. de Castella, casou -com ElRey D. Joaõ III. em 5 de Fevereiro de 1525. Foy Senhora de muita -bondade, zelosa do augmento da Religiaõ, e adornada de huma singular -prudencia. Governou felizmente o Reino por morte de seu marido na -minoridade delRey D. Sebastiaõ seu neto. Teve huma natural perspicacia -na boa eleiçaõ dos Ministros. Fundou o Convento de Val bem feito de -Monges Jeronymos, e o Mosteiro de Freiras de S. Francisco na Cidade de -Faro, e a Paroquial Igreja de Santa Catharina de Lisboa. Instituio no -Convento de S. Domingos da mesma Cidade huma Cadeira de Moral com renda -para trinta Clerigos assistirem às lições, que ainda hoje se practica -no mesmo Convento. Dotou o Collegio dos Meninos Orfãos. Estabeleceo<span class="pagenum" id="Page_370">[Pg 370]</span> -no Convento de Belém vinte Mercearias para Cavalleiros pobres, que -tivessem servido em Africa, ou nas Conquistas, e quatro na Capella do -Santo Christo de Cintra. Alcançou de Roma a instituiçaõ do Tribunal do -Santo Officio em Goa. Faleceo a 12 de Fevereiro de 1578 na Cidade de -Lisboa, e jaz no Real Mosteiro de Belém.<a id="FNanchor_763" href="#Footnote_763" class="fnanchor">[762]</a></p> - -<p>21 <i>Dona Anna de Austria</i>, filha do imperador Maximiliano II. foy -a quarta mulher de Filippe II. com quem casou a 12 de Novembro de 1570, -sendo sua sobrinha. Foy fecunda, e virtuosa. Morreo em Badajoz a 26 de -Outubro de 1580, e jaz no Escurial.<a id="FNanchor_764" href="#Footnote_764" class="fnanchor">[763]</a></p> - -<p>22 <i>Dona Margarida de Austria</i>, filha de Carlos Archiduque de -Austria, casou com Filippe III. em 18 de Abril de 1599. Morreo no -Escurial a 3 de Outubro de 1611, e jaz sepultada no Pantheon do mesmo -Escurial.<a id="FNanchor_765" href="#Footnote_765" class="fnanchor">[764]</a></p> - -<p>23 <i>Dona Isabel de Borbon</i>, filha de Henrique IV. Rey de França, -foy a primeira mulher de Filippe IV. com quem casou no anno de 1615, e -morreo a 6 de Outubro de 1664. Jaz no Escurial.<a id="FNanchor_766" href="#Footnote_766" class="fnanchor">[765]</a></p> - -<p>24 <i>Dona Luiza Francisca de Gusmaõ</i>, filha de D. Joaõ Manoel Peres -de Gusmaõ, oitavo Duque de Medina Sidonia, casou com o Serenissimo -Senhor D. Joaõ, oitavo Duque de Bragança, e depois Rey de Portugal em -12 de Janeiro de 1633. Foy Princeza de espirito altivo, e de admiraveis -virtudes. A restauraçaõ de Portugal esteve pendente da sua industria, -e magnanima resoluçaõ, com que soube persuadir taõ grande empreza ao -Duque seu marido. Este fiou sempre della os negocios mais arduos do -Reino, e ella o governou depois da morte delRey na minoridade de D. -Affonso VI. seu filho,<span class="pagenum" id="Page_371">[Pg 371]</span> em cujo tempo fez resplandecer no Throno todas -as grandes qualidades de hum Soberano. Introduzio neste Reino a Ordem -da Descalcez de Santo Agostinho, e fundou dous Conventos no Valle de -Xabregas para os Religiosos, e Religiosas desta Ordem. Tambem fundou o -Convento dos Religiosos Dominicos Irlandezes ao Corpo Santo, e o dos -Carmelitas Descalços aos Torneiros. Excitada de mayores pensamentos se -recolheo ao Mosteiro das Religiosas Descalças de Santo Agostinho, que -havia fundado no sitio do Grilo, onde totalmente se esqueceo de que -tivesse reinado, e a 27 de Fevereiro de 1666 faleceo, deixando de suas -virtudes eterna memoria, e jaz sepultada no Mosteiro do Grilo.<a id="FNanchor_767" href="#Footnote_767" class="fnanchor">[766]</a></p> - -<p>25 <i>Dona Maria Francisca Isabel de Saboya</i>, filha de Carlos Amadeo -de Saboya, Duque de Neomurs, casou primeiramente com ElRey D. Affonso -VI. de Portugal em 27 de Junho de 1666; porém como este matrimonio -foy julgado por nullo, tornou esta Princeza a casar segunda vez, e se -recebeo com seu cunhado o Principe Regente, que depois foy Rey D. Pedro -II. precedendo para isto dispensa do Pontifice, e se celebraraõ estas -segundas vodas em 2 de Abril de 1668. Foy esta Senhora de estremada -formosura, e dotada de muita prudencia, e por isso conservou com seu -marido hum amor muy reciproco. Mandou fazer a Capella de S. Francisco -de Sales na Igreja dos Padres do Oratorio de Lisboa, e no Noviciado da -Cotovia dos Padres da Companhia mandou edificar a Capella da Conceiçaõ. -Fundou o Mosteiro das Religiosas Capuchinhas Francezas do Santo -Crucifixo em Lisboa. Morreo a 27 de<span class="pagenum" id="Page_372">[Pg 372]</span> Dezembro de 1683 na quinta do -Conde de Sarzedas em Palhavã, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro, -que edificou.<a id="FNanchor_768" href="#Footnote_768" class="fnanchor">[767]</a></p> - -<p>26 <i>Dona Maria Sofia Isabel de Neoburg</i>, Filha do Eleitor Palatino -do Rhim Filippe Vilhelmo, foy a segunda mulher delRey D. Pedro II. com -quem se recebeo em 11 de Agosto de 1687. Foy Princeza muito benigna, e -caritativa, em cujos actos se exercitava continuamente. Venerou muito -a Religiaõ da Companhia de Jesus, e foy muy devota de S. Francisco -Xavier, em cujo obsequio mandou edificar hum Collegio para os seus -Padres na Cidade de Béja, ao qual dotou grandiosamente. Morreo no Paço -da Corte-Real a 4 de Agosto de 1699, e está sepultada no Convento de S. -Vicente de Fóra.<a id="FNanchor_769" href="#Footnote_769" class="fnanchor">[768]</a></p> - -<p>27 <i>Dona Maria Anna de Austria</i>, filha do Imperador Leopoldo I. -casou em 27 de Outubro de 1708 com ElRey D. Joaõ V. Era Princeza muy -affavel, e por isso estimada de seus vassallos: muy devota, muy pia, e -exercitada na cultura das principaes linguas da Europa. Quando ElRey -seu esposo passou ao Alentejo no anno de 1716, ficou esta Senhora com o -governo do Reino, em o qual mostrou a sua rara capacidade, prudencia, -e justiça, virtudes, que praticou com a mesma incumbencia na molestia -delRey. Soube medir as suas acções, e distribuir o tempo com ordem -inalteravel. Concorreo para se extinguirem os theatros profanos das -Comedias, e para exemplo de occupaçaõ mais segura visitava os Templos -com frequencia. Em final da sua verdadeira piedade, e Religiaõ fundou -o Convento dos Carmelitas Descalços Alemães em Lisboa, dedicado a -S. Joaõ Nepomuceno, cuja nova Igreja se benzeo a 6 de Mayo de 1741. -A todos<span class="pagenum" id="Page_373">[Pg 373]</span> estes habitos de taõ grandes virtudes, que esta augusta -Heroina praticou com edificaçaõ, se ajuntaõ os repetidos actos de -caridade, com que remediava generosa, e liberalmente os pobres. Parece -que o exercicio destes pios, e santos impulsos era hereditario da -augustissima Casa de Austria, a qual em toda a Igreja Catholica se -singulariza em religiosa piedade, e em benigna clemencia, sem embargo -que para a execuçaõ de tantas virtuosas perfeições nunca a Magestade -desta perfeitissima Princeza necessitou de estimulo, nem de exemplo. Em -fim foraõ as suas virtudes, e attributos tantos, e taes, que excedendo -a todos os elogios, mal poderaõ caber nas breves clausulas desta nossa -humilde expressaõ. Faleceo no palacio de Belém aos 14 de Agosto de -1754, e foy seu corpo sepultado na Igreja dos Carmelitas Descalços -Alemães que ella mandara edificar.</p> - -<p>28 <i>Dona Maria Anna Victoria</i>, filha delRey Catholico Filippe -V., e da Rainha Dona Isabel Farnese, casou em 19 de Janeiro de 1729 -com ElRey Fidelissimo D. Joseph I. He Princeza dotada de huma natural -vivacidade, a qual se nos bosques faz admirar as Ninfas, e as Deosas -com os seus tiros, he igualmente fervorosa nos seus retiros, e cheia -de grande devoçaõ, e piedade. O primoroso Templo de S. Francisco de -Paula he hum grande testemunho da sua grandeza; nem a sua inviolavel -soberania necessita de ser elogiada, para ser immortal.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_374">[Pg 374]</span></p> - -<table class="autotable"> -<tr><th> <i>N.</i></th><th> <i>Nome.</i></th><th> <i>Naçaõ.</i></th><th><i>Ann. em q̃ casou.</i></th><th> <i>Marido.</i> </th><th> -<i>Filhos.</i></th><th><i>Anno em que morreo.</i></th><th><i>Lugar da morte.</i></th><th><i>Lugar da sepultura.</i></th> </tr> -<tr><td class="tdr">1</td><td>D. Teresa. </td><td>Castelhana.</td><td> 1093 </td><td>D. Henrique.</td><td>4 </td><td> 1130 </td><td>... </td><td>Sé de Braga. </td></tr> -<tr><td class="tdr">2</td><td>D. Mafalda. </td><td>Saboyana. </td><td> 1146 </td><td>D. Affonso I. </td><td> 7 </td><td> 1157 </td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra.</td></tr> -<tr><td class="tdr">3</td><td>D. Dulce. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1175 </td><td>D. Sancho I. </td><td> 11 </td><td> 1198 </td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">4</td><td>D. Urraca. </td><td>Castelhana.</td><td> 1201 </td><td>D. Affonso II. </td><td>4 </td><td> 1220 </td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça. </td></tr> -<tr><td class="tdr">5</td><td class="top">D. Brites. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1253 </td><td class="top">D. Affonso III.</td><td class="top"> 7 </td><td class="top"> 1303 </td><td class="top">... </td><td class="top">Alcobaça. </td></tr> -<tr><td class="tdr">6</td><td>Santa Isabel. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1282 </td><td>D. Diniz. </td><td> 2 </td><td> 1336 </td><td>Estremoz. </td><td>Santa Clara de Coimbra.</td></tr> -<tr><td class="tdr">7</td><td class="top">D. Brites. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1309 </td><td>D. Affonso IV. </td><td class="top"> 7 </td><td class="top"> 1359 </td><td class="top">Lisboa. </td><td class="top">Sé de Lisboa. </td></tr> -<tr><td class="tdr">8</td><td class="top">D. Constança. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1340 </td><td class="top">D. Pedro I. </td><td class="top">3 </td><td class="top"> 1345 </td><td class="top">Santarem. </td><td>S. Francisco de Santarem. </td></tr> -<tr><td class="tdr">9</td><td>D. Ignez. </td><td>Castelhana.</td><td> 1354 </td><td>D. Pedro I. </td><td> 4 </td><td> 1355 </td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça.</td></tr> -<tr><td class="tdr">10</td><td>D. Leonor. </td><td>Portugueza.</td><td> 1371 </td><td>D. Fernando. </td><td> 3 </td><td> 1386 </td><td>Tordesilhas. </td><td>Valhadolid.</td></tr> -<tr><td class="tdr">11</td><td>D. Filippa. </td><td>Ingleza. </td><td> 1387 </td><td>D. Joaõ I. </td><td> 8 </td><td> 1415 </td><td>Odivelas. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">12</td><td>D. Leonor. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1428 </td><td>D. Duarte. </td><td> 9 </td><td> 1445 </td><td>Toledo. </td><td>Batalha.</td></tr> -<tr><td class="tdr">13</td><td>D. Isabel. </td><td>Portugueza.</td><td> 1448 </td><td>D. Affonso V. </td><td>3 </td><td> 1455 </td><td>Evora. </td><td>Batalha. </td></tr> -<tr><td class="tdr">14</td><td>D. Leonor. </td><td>Portugueza.</td><td> 1470 </td><td>D. Joaõ II. </td><td> 1 </td><td> 1525 </td><td>Lisboa. </td><td>Madre de Deos.</td></tr> -<tr><td class="tdr">15</td><td>D. Isabel. </td><td>Castelhana.</td><td> 1497 </td><td>D. Manoel. </td><td> 1 </td><td> 1598 </td><td>Saragoça. </td><td>Santa Isabel de Toledo. -</td></tr> -<tr><td class="tdr">16</td><td>D. Maria. </td><td>Castelhana.</td><td> 1500 </td><td>D. Manoel. </td><td> 10 </td><td> 1517 </td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">17</td><td>D. Leonor. </td><td>Flamenga. </td><td> 1518 </td><td>D. Manoel. </td><td>2 </td><td> 1558 </td><td>Badajoz. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">18</td><td>D. Catharina. </td><td>Castelhana.</td><td> 1525 </td><td>D. Joaõ III. </td><td>9 </td><td> 1578 </td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr> -<tr><td class="tdr">19</td><td>D. Anna. </td><td>Castelhana.</td><td> 1570 </td><td>D. Filippe II. </td><td> 3 </td><td> 1580 </td><td>Badajoz. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">20</td><td>D. Margarida. </td><td>Alemã. </td><td> 1599 </td><td>D. Filippe III.</td><td>7 </td><td> 1611 </td><td>Escurial. </td><td>Escurial.</td></tr> -<tr><td class="tdr">21</td><td>D. Isabel. </td><td>Franceza. </td><td> 1615 </td><td>D. Filippe IV. </td><td> 7 </td><td> 1664 </td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr> -<tr><td class="tdr">22</td><td>D. Luiza. </td><td>Castelhana.</td><td> 1633 </td><td>D. Joaõ IV. </td><td> 7 </td><td> 1666 </td><td>Lisboa. </td><td>Grilo. </td></tr> -<tr><td class="tdr">23</td><td class="top">D. Maria Francisca.</td><td class="top">Franceza. </td><td class="top"> 1668 </td><td class="top">D. Pedro II. </td><td class="top"> 1 </td><td class="top"> 1683 </td><td class="top">Palhavã. </td><td class="top">Francezinhas. </td></tr> -<tr><td class="tdr">24</td><td>D. Maria Sofia. </td><td>Alemã. </td><td> 1687 </td><td>D. Pedro II. </td><td> 7 </td><td> 1699 </td><td>Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr> -<tr><td class="tdr">25</td><td>D. Maria Anna. </td><td>Alemã. </td><td> 1708 </td><td>D. Joaõ V. </td><td> 6 </td><td> 1754 </td><td>Lisboa. </td><td>S. Joaõ Nepomuceno. </td></tr> -<tr><td class="tdr">26</td><td>D. Maria Anna. </td><td>Castelhana.</td><td> 1729 </td><td>D. Joseph I. </td><td>4</td><td colspan="3"></td></tr> -</table> -<p><span class="pagenum" id="Page_375">[Pg 375]</span> -</p> -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_739" href="#FNanchor_739" class="label">[738]</a> Mariz Dialog. 2. pag. mihi 42.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_740" href="#FNanchor_740" class="label">[739]</a> Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 11. pag. 34.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_741" href="#FNanchor_741" class="label">[740]</a> Sousa Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 1. cap. 11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_742" href="#FNanchor_742" class="label">[741]</a> Marchanc. liv. 2. Descripç. de Fland. Veja-se a Monarq. -Lusit. liv. 11. cap. 37.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_743" href="#FNanchor_743" class="label">[742]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 29.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_744" href="#FNanchor_744" class="label">[743]</a> Conde D. Pedro no seu Nobiliario tit. 4. Estaç. nas -Antiguid. de Port. cap. 21. n. 5.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_745" href="#FNanchor_745" class="label">[744]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 87.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_746" href="#FNanchor_746" class="label">[745]</a> Vide Joaõ Bap. Lavanh. nas Notas do Conde D Pedro tit. -7. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. c. 19. Goes part. 4. cap 71. Estaço -nas Antiguid. de Port. cap. 25. num. 21. Corogr. Portug. tom. 1. p. -135. Barbos. Catalog. das Rainh. p. 110. Sous. Histor. Genea. tom. 1. -pag. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_747" href="#FNanchor_747" class="label">[746]</a> Barbud. Emprez. Militar. pag. 7. Benedict. Lusit. tom. -2. p. 318. Duarte Ribeiro p. 301. part. 1. Barbos. Catalog. das Rainh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_748" href="#FNanchor_748" class="label">[747]</a> Idem ibid. p. 143. Esperança na Histor. Serafica tom. 1. -liv. 2. cap. 28. num. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_749" href="#FNanchor_749" class="label">[748]</a> Idem tom. 2. liv. 1 cap. 15. Monarq. Lusit. liv. 15. -cap. 16. e liv. 16. cap. 32. e liv. 18. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_750" href="#FNanchor_750" class="label">[749]</a> Lacerda na Vida desta Santa. Mendoça in Viridar. liv. 6. -Barbos. Catalog. das Rainhas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_751" href="#FNanchor_751" class="label">[750]</a> Duarte Nun. Chronic. delRey D. Affonso IV. p. 172. Sous. -Histor. Genealog. tom. 1. p. 307.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_752" href="#FNanchor_752" class="label">[751]</a> Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_753" href="#FNanchor_753" class="label">[752]</a> Duart. Nun. Chronic. delRey D. Pedro, Mariz Dialog. 3. -cap. 3. Caram. Philipp. Prud. p. 138. Barbos. no Catalog. das Rainh. e -Sousa tambem allegado na Histor. Geneal. tom. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_754" href="#FNanchor_754" class="label">[753]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. p. 147. Vejaõ-se tambem as -razões, que allegou o Doutor Joaõ das Regras, e se achaõ na 8. part. da -Monarq. Lusitan. pag. 651.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_755" href="#FNanchor_755" class="label">[754]</a> Sous. Histor. de S. Doming. part. 1. liv. 6. cap. 25. -Barbos. no Catal. das Rainh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_756" href="#FNanchor_756" class="label">[755]</a> Damiaõ de Goes, Chron. do Princip. D. Joaõ cap. 17. -Agiolog. Lusit. tom. 3.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_757" href="#FNanchor_757" class="label">[756]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. Sous. Hist. Geneal. tom. -3. p. 64. Chronic. dos Padres Loyos liv. 2. cap. 26.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_758" href="#FNanchor_758" class="label">[757]</a> Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 67. Histor. Seraf. part. -3. liv. 3. cap. 16. n. 528.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_759" href="#FNanchor_759" class="label">[758]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 3. pag. 139. Goes Chron. -delRey D. Manoel part. 4. cap. 26. p. 282. Santuar. Marian. tom. 2. p. -329. e tom. 7. p. 219. Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 77.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_760" href="#FNanchor_760" class="label">[759]</a> Damiaõ de Goes na Chronic. delRey D. Man. part. 1. cap. -46. Barbos. no Catalog. p. 383.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_761" href="#FNanchor_761" class="label">[760]</a> Idem ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_762" href="#FNanchor_762" class="label">[761]</a> Barbos. nos Factos da Lusit. a 25. de Fevereiro p. 664.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_763" href="#FNanchor_763" class="label">[762]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p 404. e o Doutor Ignacio -Barbosa seu irmaõ nos Fast. da Lusit. a 12 de Fevereir. p. 511. Sous. -Histor. Genealog. tom. 3. p. 525.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_764" href="#FNanchor_764" class="label">[763]</a> Barbos. allegad. Les Delices de l’Espagne tom. 2. p. 285</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_765" href="#FNanchor_765" class="label">[764]</a> Ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_766" href="#FNanchor_766" class="label">[765]</a> Ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_767" href="#FNanchor_767" class="label">[766]</a> Os irmãos Barbos. hum no Catal. das Rainh. e outro nos -Fast. da Lusit. tom. 1. p. 691. Sousa Histor. Geneal. tom. 7. p. 247. -Catastrof. de Port. p. 133. Passarel. de Bell. Lusit. L’Abbé de Vertot -Histoir. des Revolut. de Portug. pag. mihi 52. e 152. Santuar. Marian. -tom. 7. pag. 10. e 132.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_768" href="#FNanchor_768" class="label">[767]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 725. e segg. Barbos. no -Catalog. das Rainh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_769" href="#FNanchor_769" class="label">[768]</a> Iidem ibid.</p> - -</div></div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_376">[Pg 376]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII.<br><span class="small"><i>Dos Filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de -Portugal.</i></span></h2> -</div> - - -<p>Neste Reino assim como a succesaõ dos Serenissimos Reys se introduzio -por via de morgado, conforme o uso de Castella, tambem o portentoso -Heroe D. Affonso Henriques depois de acclamado Rey deu o mesmo Regio -titulo a seus filhos,<a id="FNanchor_770" href="#Footnote_770" class="fnanchor">[769]</a> e se costumou até ElRey D. Affonso II. que -a todos chamou Infantes, o qual titulo nos primogenitos igualmente com -seus irmãos durou até o tempo delRey D. Duarte, que à imitaçaõ dos -Reys de Inglaterra ordenou, que seu filho D. Affonso V. fosse chamado -Principe, e foy o primeiro, que em Portugal começou a intitularse -assim.<a id="FNanchor_771" href="#Footnote_771" class="fnanchor">[770]</a> O mesmo tratamento de Princeza tinha tambem a filha delRey, -que nascia primeiro, em quanto naõ havia filho varaõ. Os outros filhos -se chamavaõ Infantes; porém os filhos destes tinhaõ só o tratamento de -Senhores. Isto supposto, daremos huma breve noticia de todos os filhos, -que os Senhores Reys de Portugal tiveraõ.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos do Conde D. Henrique.</i></h3> - -<p>1 <i>ElRey</i> D. <i>Affonso Henriques</i>, de quem já dissemos no -Capitulo VI. num. 12.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Dona Sancha Henriques</i> casou com<span class="pagenum" id="Page_377">[Pg 377]</span> Fernaõ Mendes de -Bragança, chamado o <i>Bravo</i>, Fidalgo aventureiro, que se achou -na batalha do Campo de Ourique. Era Senhor de Bragança, e naõ teve -filhos.<a id="FNanchor_772" href="#Footnote_772" class="fnanchor">[771]</a></p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Urraca</i> nasceo em Guimarães antes que seu irmaõ -D. Affonso Henriques. Casou com D. Bermudo Paes de Trava, Conde de -Trastamara, de que nasceraõ duas filhas, de huma das quaes procedem os -Viscondes de Villa-Nova de Cerveira, e outras Familias illustres.<a id="FNanchor_773" href="#Footnote_773" class="fnanchor">[772]</a></p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Teresa</i> casou com D. Sancho Nunes de Barbosa, -descendente do Conde D. Nuno de Cella-Nova, como diz Brandaõ liv. 10. -cap. 20.</p> - -<p>Teve mais outros dous filhos, de que naõ se sabe o nome, e morreraõ de -pouca idade.</p> - -<p>5 Fóra do matrimonio teve de huma mulher nobre a <i>D. Pedro -Affonso</i>, valerosissimo Capitaõ, como o deu a conhecer em varias -batalhas, em que se achou com seu irmaõ D. Affonso Henriques. Em -França, onde ElRey o mandou como Embaixador, teve grande estimaçaõ; -e com a amizade, que lá teve com S. Bernardo, voltando a Portugal, -e dando noticia a seu irmaõ do Santo, foy causa principal, para que -ElRey fundasse o insigne Convento de Alcobaça, no qual D. Pedro se -recolheo, assistindo-lhe ElRey com toda a Corte no dia, que tomou o -habito. Morreo mais honradamente ainda do que tinha vivido, porque -deixou de ser Principe para ser Santo. Nunca se quiz ordenar de Missa, -julgando-se indigno de exercicio taõ soberano. Faleceo a 9 de Mayo de -1169. Jaz em Alcobaça ao pé do Altar mór da parte do Evangelho.<a id="FNanchor_774" href="#Footnote_774" class="fnanchor">[773]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_378">[Pg 378]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Affonso Henriques.</i></h3> - -<p>1 O <i>Infante D. Henrique</i>, filho primogenito, nasceo a 5 de Março -de 1147, e faleceo de poucos annos.</p> - -<p>2 <i>ElRey D. Sancho</i>, que lhe succedeo na Coroa.</p> - -<p>3 O <i>Infante D. Joaõ</i>. Deste naõ consta mais que morrera a 25 de -Agosto.<a id="FNanchor_775" href="#Footnote_775" class="fnanchor">[774]</a></p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Urraca</i> nasceo no anno de 1148. Casou no de 1160 -com D. Fernando II. Rey de Leaõ; mas por causa de parentesco o Papa fez -dissolver este matrimonio no anno de 1171. Manoel de Faria diz, que -àcerca deste divorcio se fizera hum Concilio em Salamanca. Morreo a 16 -de Outubro.<a id="FNanchor_776" href="#Footnote_776" class="fnanchor">[775]</a></p> - -<p>5 <i>A Infanta Dona Mafalda</i>. No anno de 1160 esteve contratada para -casar com D. Affonso II. de Aragaõ; mas nunca sahio de Portugal, nem -o casamento se ajustou, por falecer esta Infanta pouco depois do tal -contrato.<a id="FNanchor_777" href="#Footnote_777" class="fnanchor">[776]</a></p> - -<p>6 <i>A Infanta Dona Teresa</i>, a quem os Flamengos chamaõ -<i>Mathilde</i>, casou com Filippe I. de Alsacia, Conde de Flandres, -em Agosto de 1184, o qual morrendo no sitio de Acre no anno de 1191, -ficou a Infanta governando aquelles seus Estados com muita prudencia. -Depois passou a segundo matrimonio, e o celebrou com Eudo III. -Duque de Borgonha no anno de 1194; mas foraõ separados por causa de -parentesco no anno seguinte, e a Infanta passados alguns annos morreo -desastradamente affogada em huma lagoa a 6 de Mayo de 1218. Jaz no -Convento de Claraval em Borgonha.<a id="FNanchor_778" href="#Footnote_778" class="fnanchor">[777]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_379">[Pg 379]</span></p> - -<p>7 <i>A Infanta Dona Sancha.</i> Naõ consta mais que morreo a 14 de -Fevereiro.</p> - -<p>8 Fóra do legitimo matrimonio teve a <i>Fernando Affonso</i>, Alferes -Mór do Reino, e a <i>D. Affonso</i>, Mestre da insigne Ordem de Rhodes. -Foy muito valeroso; e renunciando a dignidade, passou a Portugal, onde -morreo, e jaz sepultado na igreja de S. Joaõ da Villa de Santarem.<a id="FNanchor_779" href="#Footnote_779" class="fnanchor">[778]</a></p> - -<p>9 <i>Dona Teresa Affonso.</i> Naõ consente o Doutor Brandaõ<a id="FNanchor_780" href="#Footnote_780" class="fnanchor">[779]</a> que -ElRey D. Affonso Henriques tivesse esta filha, porque naõ vira memoria -della em escrituras authenticas; porém D. Antonio Caetano de Sousa diz, -que a houvera ElRey em Elvira Gualter.<a id="FNanchor_781" href="#Footnote_781" class="fnanchor">[780]</a></p> - -<p>10 Teve mais a <i>Dona Urraca Affonso</i>, que casou com D. Pedro -Affonso Viegas, neto de D. Egas Moniz.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Sancho I.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Constança</i> nasceo em Mayo de 1182, e morreo a 3 -de Agosto de 1202.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Beata Teresa</i>. Estando casada com ElRey D. Affonso -IX. de Leaõ, e já com tres filhos, foy separada pelo Papa Celestino -III. no anno de 1195 por causa do parentesco, e casar sem preceder -dispensa. Voltou para Portugal, e restaurando o Mosteiro de Lorvaõ, -collocando nelle Freiras da Ordem de Cister, professou o mesmo -Instituto, e nelle morreo santamente a 17 de Junho de 1250. Passados -trezentos annos, foy achado seu corpo incorrupto, por cujo motivo, -e pelos milagres, que obrava, o Papa Clemente XI. lhe confirmou<span class="pagenum" id="Page_380">[Pg 380]</span> o -culto de Beata por Bulla de 23 de Dezembro de 1705, e no anno de 1724 -approvou, e concedeo o Officio proprio para todo o Reino de Portugal. -Jaz seu veneravel corpo na Capella mór da Igreja de Lorvaõ.<a id="FNanchor_782" href="#Footnote_782" class="fnanchor">[781]</a></p> - -<p>3 <i>A Infanta Beata Sancha</i> foy Senhora de Alenquer, onde fundou -hum Convento da Ordem de S. Francisco em vida do mesmo Santo, e foy o -primeiro desta Ordem, que houve em Portugal. Tambem fundou a Igreja da -Redonda na mesma Villa, e o Mosteiro de Celas em Coimbra, onde fez vida -Monacal, e morreo a 13 de Março de 1229, e neste Mosteiro he venerada -pelos Fieis, e resplandece em milagres, tributando-lhe os Fieis os -mesmos cultos, que a sua gloriosa irmã a Beata Teresa.<a id="FNanchor_783" href="#Footnote_783" class="fnanchor">[782]</a></p> - -<p>4 <i>O Infante D. Affonso</i>, que lhe succedeo no Throno.</p> - -<p>5 <i>O Infante D. Pedro</i> nasceo a 23 de Março de 1187. Por -desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Affonso, sahio do Reino, e -foy militar nos exercitos delRey de Leaõ. Depois se passou para a Corte -delRey de Marrocos, e servio nas tropas do Imperador Miramolim, e de -lá fez transito para Aragaõ, onde casou no anno 1228 com Aurembiaux, -Condessa de Urgel, a qual morrendo sem lhe ficarem filhos, deixou a D. -Pedro seu marido por herdeiro de seus Estados, que depois elle trocou -com ElRey D. Jayme I. pela Ilha de Malhorca, que havia conquistado -aos Mouros; e naõ tendo D. Pedro armas para a defender delles, lha -restituio, e houve delle a Cidade de Segorbe, Morelha, e outras -Praças. Ajudou tambem este Infante a Guilherme de Mongrio, Prelado de -Tarragona, a ganhar a Ilha de Iviça, que possuiaõ os Mouros no anno -1230. Finalmente faleceo a 2 de Junho do<span class="pagenum" id="Page_381">[Pg 381]</span> anno 1258, deixando dous -filhos bastardos, D. Rodrigo insigne em letras, e D. Fernando.<a id="FNanchor_784" href="#Footnote_784" class="fnanchor">[783]</a></p> - -<p>6 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo a 24 de Março de 1188. Foy -Principe de altos pensamentos. No anno de 1211 casou com a Princeza -Joanna, filha do Imperador Balduino de Constantinopla, e herdeira dos -Estados de Flandres. Deu grandes mostras do seu valor na batalha de -Bovinas, em que se achou militando por parte do Imperador Othon IV, -e Joaõ I. Rey de Inglaterra contra Filippe Augusto, Rey de França; e -sendo o Infante prezo, o levaraõ para o Castello de Louvre, onde esteve -alguns annos. Depois de livre ajudou a Rainha Dona Branca de França -contra Pedro, Duque de Bertanha, e outros Potentados, que embaraçavaõ -àquella Senhora a tutoria delRey S. Luiz seu filho. Morreo em fim na -Cidade de Noyon a 26 de Julho de 1233, e está sepultado na Abbadia de -Market junto a Lila.<a id="FNanchor_785" href="#Footnote_785" class="fnanchor">[784]</a></p> - -<p>7 <i>O Infante D. Henrique</i> nasceo no anno de 1189, e morreo a 8 de -Dezembro, e naõ ha delle mais memoria.<a id="FNanchor_786" href="#Footnote_786" class="fnanchor">[785]</a></p> - -<p>8 <i>O Infante D. Raymundo</i> faleceo a 9 de Março.</p> - -<p>9 <i>A Infanta Dona Mafalda</i> casou com Henrique I. de Castella no -anno de 1215; porém sendo este casamento julgado nullo, por serem -parentes em gráo prohibido, foraõ separados; e voltando a Infanta para -Portugal, se recolheo ao Mosteiro de Arouca de Freiras Benedictinas, -que ella reformou com as da Ordem de Cister; e aqui tomando o habito -viveo em continuo exercicio de virtudes, e morreo com opiniaõ de Santa -no primeiro de Mayo de 1256. Jaz no Mosteiro de Arouca.<a id="FNanchor_787" href="#Footnote_787" class="fnanchor">[786]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_382">[Pg 382]</span></p> - -<p>10 <i>A Infanta Dona Branca</i> foy Senhora da Cidade de Guadalaxara -em Castella; mas naõ se sabe porque titulo lhe veyo aquelle dominio. -Foy muito devota da Religiaõ dos Pregadores, e por isso lhe fundou em -Coimbra o Convento de S. Domingos o velho no Arnado, de que por causa -das enchentes do Mondego naõ ha vestigios, só sim do campanario, como -ainda havia no tempo do Author da Benedictina Lusitana. Morreo aos 17 -de Novembro de 1240. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.<a id="FNanchor_788" href="#Footnote_788" class="fnanchor">[787]</a></p> - -<p>11 <i>A Infanta Dona Berenguella</i>, ou <i>Berengaria</i> casou no -anno de 1213 com ElRey Valdemaro II. de Dinamarca, a quem chamaraõ o -<i>Vitorioso</i>, e de quem teve tres filhos, e huma filha. Morreo no -primeiro de Abril de 1220.<a id="FNanchor_789" href="#Footnote_789" class="fnanchor">[788]</a></p> - -<p>12 Fóra do matrimonio teve os seguintes filhos. <i>D. Martim -Sanches</i>, que nasceo de huma Fidalga chamada Dona Maria Annes, ou -Ayres de Tornellos. Por differenças, que teve com seu irmão ElRey D. -Affonso II se passou a Castella, e ElRey D. Affonso de Leaõ seu cunhado -lhe fez grandes mercês, e honras. Lá casou com Dona Ello, ou Olaya, -filha do Conde D. Pedro Fernandes de Castro, e naõ teve descendencia. -Jaz em Cosinos terra de Campos.<a id="FNanchor_790" href="#Footnote_790" class="fnanchor">[789]</a></p> - -<p>13 <i>Dona Urraca Sanches</i> irmã do antecedente foy Senhora muito -virtuosa. Casou com o neto de D. Egas Moniz, e a Infanta Dona Mafalda a -nomeou sua testamenteira.</p> - -<p>14 Teve mais ElRey D. Sancho de outra Fidalga chamada Dona Maria Paes -da Ribeira a <i>D. Rodrigo Sanches</i>, do qual consta que morrera -valerosamente<span class="pagenum" id="Page_383">[Pg 383]</span> em 7 de Julho de 1245 em huma contenda, que tivera -com D. Martim Gil de Soverosa sobre reciprocas dependencias; e vindo -mortalmente ferido, espirou à porta do Convento de Grijó de Conegos -Regrantes, onde pozeraõ huma Cruz de pedra para memoria.<a id="FNanchor_791" href="#Footnote_791" class="fnanchor">[790]</a></p> - -<p>15 <i>D. Gil Sanches</i>. Dizem huns sómente que naõ casara; outros -accrescentaõ que fora Clerigo, e que morrera a 14 de Setembro de -1236.<a id="FNanchor_792" href="#Footnote_792" class="fnanchor">[791]</a></p> - -<p>16 <i>D. Nuno Sanches</i> morreo de tenra idade.</p> - -<p>17 <i>Dona Mayor Sanches</i> tambem morreo menina.</p> - -<p>18 <i>Dona Constança Sanches</i>. Ha tradiçaõ que vivera no Mosteiro -das Donas de Santa Cruz, que estava junto ao proprio Convento dos -Religiosos, e que possuira grandes rendas, as quaes soube distribuir -com piedade, e grandeza. Dizem que lhe appareceraõ os gloriosos S. -Francisco, e Santo Antonio, e que morrera com opiniaõ de Santa a 8 de -Agosto de 1269. Seu corpo foy achado inteiro, e incorrupto em tempo -delRey D. Manoel. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.<a id="FNanchor_793" href="#Footnote_793" class="fnanchor">[792]</a></p> - -<p>19 <i>Dona Teresa Sanches</i> foy a segunda mulher de D. Affonso Telles -de Menezes, Rico-Homem, e Senhor de Albuquerque, e outras muitas -terras. Deste fecundo consorcio procedem muitas Casas illustres de -Portugal, como a dos Menezes, Cantanhede, Tarouca, e outras.<a id="FNanchor_794" href="#Footnote_794" class="fnanchor">[793]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_384">[Pg 384]</span></p> -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Affonso II.</i></h3> - -<p>1 O <i>Infante D. Sancho</i> successor.</p> - -<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo a 5 de Mayo de 1210, e succedeo a -seu irmaõ, entrando a governar ainda em vida delle.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Leonor</i> nasceo no anno de 1211, e casou no de -1229 com Valdemaro III. Rey de Dinamarca, e naõ de Dacia, como diz -eruditamente D. Antonio Caetano de Sousa, emendando a Brandaõ, e outros -Escritores. Morreo de parto a 13 de Mayo de 1231, e naõ deixou sucessaõ -alguma, como bem mostra D. Joseph Barbosa contra o Bispo Caramuel. Está -sepultada esta Infanta em Ringstad.<a id="FNanchor_795" href="#Footnote_795" class="fnanchor">[794]</a></p> - -<p>4 <i>O Infante D. Fernando</i>, a quem chamaraõ o Infante de Serpa, -porque foy Senhor desta Villa. Passou a Castella, e lá militou -contra os Mouros valerosamente, por cujas acções ElRey D. Fernando -o <i>Santo</i> o casou no anno de 1241 com a Senhora de Balvas Dona -Sancha Fernandes de Lara, filha do Conde de Lara. Naõ consta de certo -quando morreo, nem onde está enterrado.<a id="FNanchor_796" href="#Footnote_796" class="fnanchor">[795]</a></p> - -<p>5 Fóra do matrimonio teve o sobredito Rey a <i>D. Joaõ Affonso</i>, do -qual naõ ha mais memoria, que a que se infere da inscripçaõ de huma -sepultura collocada no Mosteiro de Alcobaça à porta do Capitulo da -parte de fóra da banda esquerda, por onde consta que morrera no anno de -1234.<a id="FNanchor_797" href="#Footnote_797" class="fnanchor">[796]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_385">[Pg 385]</span></p> -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Affonso III.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Branca</i> nasceo a 28 de Fevereiro de 1259 na -Villa de Guimarães. Foy Senhora de Montemór o Velho, de Campo-Mayor, e -de outras terras, e foy Abbadessa do Mosteiro de Lorvaõ, onde procedia -com tanto exemplo, que lhe deraõ em Burgos o governo do Mosteiro das -Huelgas, de cujo dominio, e obediencia pendiaõ doze Mosteiros. Naõ se -sabe quando morreo.<a id="FNanchor_798" href="#Footnote_798" class="fnanchor">[797]</a></p> - -<p>2 <i>O Infante D. Fernando</i> naõ se sabe quando nasceo. Morreo ainda -menino em Lisboa no anno de 1262, e jaz em Alcobaça.</p> - -<p>3 <i>O Infante D. Diniz</i> que succedeo na Coroa.</p> - -<p>4 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo a 8 de Fevereiro de 1263. Foy -Senhor de Portalegre, Castello de Vide, Marvaõ, Arronches, e outras -terras. Por desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Diniz, -passou-se a Castella, e lá seguio a Corte, casando com a infanta Dona -Violante Manoel, filha do infante D. Manoel, Senhor de Escalona, e -filho do Santo D. Fernando III. Rey de Castella. Morreo em Lisboa -a 2 de Novembro de 1312. Jaz em S. Domingos de Lisboa collocado em -hum tumulo na parede por cima da porta, que hia do cruzeiro para a -Sacristia.<a id="FNanchor_799" href="#Footnote_799" class="fnanchor">[798]</a></p> - -<p>5 <i>A Infanta Dona Sancha</i> nasceo a 2 de Fevereiro de 1264. -Perfilhou-a sua tia Dona Constança Sanches, e lhe largou muitas terras, -que possuia. Tendo naõ mais que cinco annos, foy com a Rainha sua -mãy a Castella, e estando em Sevilha morreo no anno de 1302. Jaz em -Alcobaça.<a id="FNanchor_800" href="#Footnote_800" class="fnanchor">[799]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_386">[Pg 386]</span></p> - -<p>6 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Novembro de 1265. Viveo -Religiosa no Mosteiro das Donas de Santa Cruz de Coimbra, e aqui morreo -com opiniaõ de santidade a 6 de Junho de 1304. Jaz em Santa Cruz de -Coimbra.<a id="FNanchor_801" href="#Footnote_801" class="fnanchor">[800]</a></p> - -<p>7 <i>O Infante D. Vicente</i> nasceo a 22 de Janeiro de 1268. Morreu em -Lisboa, e jaz em Alcobaça.<a id="FNanchor_802" href="#Footnote_802" class="fnanchor">[801]</a></p> - -<p>8 Além destes filhos teve fóra do matrimonio seguintes: <i>D. Affonso -Diniz</i>, que nasceo de Maria Peres da Enxara, e casou com Dona Maria -Ribeira, donde procedem os Sousas da Casa de Arronches.<a id="FNanchor_803" href="#Footnote_803" class="fnanchor">[802]</a></p> - -<p>9 <i>D. Martim Affonso Chichorro</i>. O Chronista Fr. Antonio Brandaõ, -diz que a mãy deste Senhor fora huma filha do Alcaide, ou Governador -de Faro, muito formosa, de quem nosso Rey D. Affonso se namorara; e -que casando D. Martim na Casa dos Sousas, foy progenitor dos Sousas da -Familia dos Marquezes das Minas; porém naõ assegura esta origem com -certeza.<a id="FNanchor_804" href="#Footnote_804" class="fnanchor">[803]</a></p> - -<p>10 <i>D. Fernando Affonso</i>. Foy Cavalleiro Templario, e filho de -Dona Chamoa Gomes, filha do Conde D. Gomes Nunes. Os Freires de Veles o -mataraõ em Evora, e jaz sepultado na Igreja de S. Braz de Lisboa.<a id="FNanchor_805" href="#Footnote_805" class="fnanchor">[804]</a></p> - -<p>11 <i>D. Gil Affonso</i>. Foy tambem Cavalleiro Templario, e Ballio da -Igreja de S. Braz de Lisboa, onde está sepultado.</p> - -<p>12 <i>D. Rodrigo Affonso</i>. Parece que Fr. Antonio Brandaõ dá a -entender, que ElRey D. Affonso tivera dous filhos com este mesmo nome. -Vejaõ-se os lugares citados.<a id="FNanchor_806" href="#Footnote_806" class="fnanchor">[805]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_387">[Pg 387]</span></p> - -<p>13 <i>Dona Leonor Affonso.</i> Foy esta Senhora casada duas vezes: -a primeira com D. Estevaõ Annes, filho de D. Joaõ Garcia de Sousa, -chamado o <i>Pinto</i>. Por morte de D. Estevaõ tornou a casar com D. -Gonçalo Garcia de Sousa, Alferes Mór delRey D. Affonso, a quem tambem -fez Conde. De nenhum destes matrimonios teve filhos Dona Leonor.<a id="FNanchor_807" href="#Footnote_807" class="fnanchor">[806]</a></p> - -<p>14 <i>Dona Urraca Affonso</i> casou com D. Pedro Annes, que governava a -Provincia de Tras os Montes.<a id="FNanchor_808" href="#Footnote_808" class="fnanchor">[807]</a></p> - -<p>15 <i>Dona Leonor Affonso</i>. Foy Religiosa no Mosteiro de Santa Clara -de Santarem, e alli resplandeceo em grandes actos de virtude.<a id="FNanchor_809" href="#Footnote_809" class="fnanchor">[808]</a></p> - -<p>16 <i>Dona Urraca Affonso</i>. Viveo, e morreo no Mosteiro de Lorvaõ -em 4 de Novembro de 1281. Jaz no mesmo Convento em sepultura ha pouco -descuberta.<a id="FNanchor_810" href="#Footnote_810" class="fnanchor">[809]</a> O grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa -numera mais outro filho a ElRey D. Affonso III. e diz que foy o -<i>Infante D. Henrique Affonso</i>, mas poem-no em duvida. O Padre D. -Luiz de Lima<a id="FNanchor_811" href="#Footnote_811" class="fnanchor">[810]</a> entre os filhos bastardos deste Rey assina tambem a -<i>D. Pedro Affonso</i>, de que naõ achamos noticia em outra parte.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos del Rey D. Diniz.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Constança</i> nasceo a 5 de Janeiro de 1290, e no -de 1302 casou com D. Fernando IV. Rey de Castella, de que teve dous -filhos, cuja descendencia se póde ver em D. Antonio Caetano de Sousa. -Morreo a 18 de Novembro de 1313.<a id="FNanchor_812" href="#Footnote_812" class="fnanchor">[811]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_388">[Pg 388]</span></p> - -<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> successor.</p> - -<p>3 Teve mais fóra do matrimonio de differentes mulheres os seguintes -filhos. <i>D. Affonso Sanches</i> nascido de Dona Aldonça Rodrigues -Telha. Foy muito querido de seu pay, o qual o fez seu Mordomo Mór, e -Senhor da Villa do Conde, e outras muitas terras. Esta nimia affeiçaõ -causou tal inveja a seu irmaõ D. Affonso, que o perseguio fortemente -depois que principiou a governar. Casou com Dona Teresa Martins, -filha do Conde de Barcellos, e fundou com sua mulher o Mosteiro de -Santa Clara da Villa do Conde, dotando-o grandiosamente. Faleceo -no anno de 1329,e jaz sepultado no mesmo Mosteiro com opiniaõ de -virtuoso. Ha tradiçaõ, que depois de morto apparecera com sua mulher às -Religiosas do seu Mosteiro, animando-as em huma occasiaõ de guerra em -Castella.<a id="FNanchor_813" href="#Footnote_813" class="fnanchor">[812]</a> Deste matrimonio descendem por allianças muitas Familias -illustres deste Reino.</p> - -<p>4 <i>D. Pedro Affonso</i> havido em Dona Garcia Froyas, mulher de -qualidade, natural de Torres Vedras. Foy o sobredito D. Pedro Conde de -Barcellos, Alferes Mór do Reino, Mordomo Mór da Infanta Dona Brites, e -possuio muitas terras, com cujo dominio, e rendas conservava huma casa -magnifica. ElRey D. Diniz seu pay o estimava muito, e elle o merecia -pelo seu valor, e letras. Compoz o celebre Nobiliario, em que descreve -a origem de quasi todas as Familias de Hespanha, e he estimavel, por -naõ haver outro deste genero mais antigo. Casou tres vezes, mas naõ -teve descendencia. Morreo no anno de 1354, e jaz enterrado no Convento -de S. Joaõ de Tarouca da Ordem de Cister. A estatura do seu corpo tinha -de comprido onze palmos.<a id="FNanchor_814" href="#Footnote_814" class="fnanchor">[813]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_389">[Pg 389]</span></p> - -<p>5 <i>D. Pedro Affonso.</i> Este foy outro filho delRey D. Diniz, e -casou com Dona Maria Mendes. Muitos se enganaraõ com este D. Pedro, -fazendo-o Author do famoso Nobiliario, o que desfaz facilmente o -insigne D. Antonio Caetano de Sousa.<a id="FNanchor_815" href="#Footnote_815" class="fnanchor">[814]</a></p> - -<p>6 <i>D. Joaõ Affonso</i>. Foy legitimado a 13 de Abril de 1317, e -nascido de Maria Pires, mulher de qualidade. Foy Mordomo Mór da Rainha -Santa Isabel, e ElRey D. Affonso, irmaõ deste D. Joaõ, o mandou -degollar a 4 de Junho de 1325.<a id="FNanchor_816" href="#Footnote_816" class="fnanchor">[815]</a></p> - -<p>7 <i>D. Fernaõ Sanches</i>. ElRey seu pay lhe fez muitas mercês. Casou -com Dona Froilhe Annes de Briteiros.</p> - -<p>8 <i>Dona Maria Affonso</i> havida em Dona Marinha Gomes, mulher nobre -de Lisboa, e que fundou a Igreja de Santa Marinha. Casou com D. Joaõ de -Lacerda, de quem houve descendencia.<a id="FNanchor_817" href="#Footnote_817" class="fnanchor">[816]</a></p> - -<p>9 <i>Dona Maria Affonso</i>. Foy Freira em Odivellas, e faleceo no anno -de 1320 com opiniaõ de virtuosa.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Affonso IV.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Maria</i> nasceo no anno de 1313, e no de 1328 -casou com ElRey de Castella D. Affonso XI. a quem soffreo muitas -desattenções originadas dos illicitos amores, que elle havia contrahido -com Dona Leonor Nunes de Gusmaõ. Morto seu marido, voltou ella para -Portugal, e em Evora faleceo a 18 de Janeiro de 1357, porém seu corpo -foy trasladado para a Capella dos Reys em Sevilha, onde jaz junto -delRey seu marido.<a id="FNanchor_818" href="#Footnote_818" class="fnanchor">[817]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_390">[Pg 390]</span></p> - -<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo no anno de 1315 na Villa de -Penella, e morreo menino na mesma Villa. Jaz sepultado em S. Domingos -de Santarem.<a id="FNanchor_819" href="#Footnote_819" class="fnanchor">[818]</a></p> - -<p>3 <i>O Infante D. Diniz</i> nasceo em Santarem a 12 de Janeiro de 1317, -e dahi a hum anno morreo, e jaz em Alcobaça.</p> - -<p>4 <i>O Infante D. Pedro</i> successor.</p> - -<p>5 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo a 21 de Dezembro do anno de 1324, -e dahi a dous annos morreo. Jaz no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.</p> - -<p>6 <i>O Infante D. Joaõ</i> nasceo a 23 de Setembro de 1326, e morreo a -21 de Junho de 1327. Está sepultado em Odivellas.</p> - -<p>7 <i>A Infanta Dona Leonor</i> nasceo no anno de 1328, e no de 1347 -casou com ElRey de Aragaõ D. Pedro IV. Morreo na Villa de Exerica no -ultimo de Outubro de 1348.<a id="FNanchor_820" href="#Footnote_820" class="fnanchor">[819]</a></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Pedro I.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Maria</i> nasceo a 6 de Abril de 1342 na Cidade -de Evora. Casou na mesma Cidade a 3 de Fevereiro de 1354 com D. -Fernando, Infante de Aragaõ; e passando-se para aquelle Reino, logrou -poucos annos a uniaõ de seu marido, pois no de 1363 o mandou matar -aleivosamente ElRey D. Pedro de Aragaõ seu irmaõ. Voltou a Infanta para -Portugal, e vivendo na Villa de Aveiro, alli faleceo, e descançaõ suas -cinzas no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.<a id="FNanchor_821" href="#Footnote_821" class="fnanchor">[820]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_391">[Pg 391]</span></p> - -<p>2 <i>O Infante D. Luiz</i> naõ teve mais que oito dias de vida.</p> - -<p>3 <i>O Infante D. Fernando</i> successor.</p> - -<p>4 De sua segunda mulher Dona Ignez de Castro teve os seguintes filhos. -<i>O Infante D. Affonso</i> faleceo de tenra idade.</p> - -<p>5 <i>O Infante D. Joaõ</i> casou a primeira vez com Dona Maria Telles -de Menezes no anno de 1376, irmã de sua cunhada; porém induzido por -esta, que era a Rainha Dona Leonor, matou injustamente sua mulher, por -cujo crime, passando-se a Castella, ElRey D. Henrique II. o fez Conde -de Valença, e lhe deu o senhorio de outras terras, e sua filha bastarda -Dona Constança, com quem casou. Morto seu irmaõ ElRey D. Fernando, -temendo-se ElRey D. Joaõ de Castella, que pertendia o Reino de Portugal -pela Rainha Dona Brites sua mulher, que levantassem os Portuguezes por -seu Rey ao infante D. Joaõ, o mandou prender, e na prisaõ morreo. Jaz -no Convento de Santo Estevaõ de Salamanca.<a id="FNanchor_822" href="#Footnote_822" class="fnanchor">[821]</a></p> - -<p>6 <i>O Infante D. Diniz</i>. Por naõ querer beijar a maõ a sua cunhada -a Rainha Dona Leonor, sahio de Portugal, e passou-se para Castella, -onde ElRey D. Henrique o casou com huma filha bastarda, chamada -Dona Joanna. Jaz no Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, em cuja -sepultura se lê o titulo de Rey de Portugal pela pertençaõ, que tinha -ao Reino.<a id="FNanchor_823" href="#Footnote_823" class="fnanchor">[822]</a></p> - -<p>8 Fóra do matrimonio teve a <i>D. Joaõ</i>, Mestre</p> - -<p>7 <i>A Infanta Dona Brites</i> casou no anno de 1377 com D. Sancho, -Conde de Albuquerque, filho bastardo delRey D. Affonso XI. de Castella, -donde procede huma dilatada, e Real descendencia. Está sepultada na Sé -de Burgos.<a id="FNanchor_824" href="#Footnote_824" class="fnanchor">[823]</a></p> - -<p>8 Fóra do matrimonio teve a D. Joaõ, Mestre<span class="pagenum" id="Page_392">[Pg 392]</span> de Aviz, havido em huma -nobre Senhora de Galiza, chamada Dona Teresa Lourenço, e depois foy -Rey.<a id="FNanchor_825" href="#Footnote_825" class="fnanchor">[824]</a></p> - -<p>9 Teve ElRey D. Pedro mais outra filha bastarda, a que naõ se sabe o -nome, mas consta que se criara no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Fernando.</i></h3> - -<p>1 O <i>Infante D. Pedro</i>, que morreo menino.</p> - -<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> tambem morreo de pouca idade.</p> - -<p>3 <i>A Infanta D. Brites</i> nasceo em Coimbra no anno de 1372. Casou -a 14 de Mayo de 1383 na Cidade de Badajoz com ElRey D. Joaõ I. de -Castella, precedendo dispensa Pontificia no gráo do parentesco, que -havia entre os esposos, e celebrando-se esta funçaõ com grande pompa, e -magnificencia. Pouco durou esta uniaõ, porque morrendo ElRey no anno de -1390, ficou a Rainha Dona Brites sem filhos, e desamparada de parentes, -e amigos em Portugal, e Castella. Em Portugal, porque ElRey D. Joaõ I. -seu tio havia tomado posse do Reino, contrariando para mayor força a -sua legitimidade; e em Castella era mal aceita por causa das guerras, -que entaõ houve na pertençaõ de Portugal. Sem embargo desta afflicçaõ, -em que se via, considerando-se na flor dos seus annos, e formosissima, -sendo procurada para segundas vodas pelo Duque de Austria, foy esta -Princeza taõ virtuosa, e prudente, que mandou dizer aos Embaixadores, -que as mulheres como ella naõ casavaõ duas vezes; de cuja<span class="pagenum" id="Page_393">[Pg 393]</span> resposta -ficaraõ admirados. Morreo em fim na Villa de Madrigal.<a id="FNanchor_826" href="#Footnote_826" class="fnanchor">[825]</a></p> - -<p>4 Fóra do matrimonio teve a <i>Dona Isabel</i>, que nasceo no anno de -1364, e no de 1378 casou em Burgos com D. Affonso, Conde de Gijon, -e Noronha, filho bastardo delRey D. Henrique II. de Castella. Deste -matrimonio procedem muitas Familias illustres deste nosso Reino, os -Condes de Monsanto, Marquezes de Cascaes, os Condes de Valladares, os -de Arcos, os de Villa Verde, os Marquezes de Angeja, os de Marialva, -os Condes de Cantanhede, os Senhores de Ilhavo, etc. Por morte de seu -marido voltou esta Senhora para Portugal, onde seu tio ElRey D. Joaõ I. -lhe fez muitas mercês.<a id="FNanchor_827" href="#Footnote_827" class="fnanchor">[826]</a></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ I.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Branca</i> nasceo em Lisboa a 13 de Julho de -1388, e morreo no de 1389. Jaz na Basilica de Santa Maria, antiga -Metropolitana de Lisboa, junto delRey D. Affonso IV. seu bisavô.</p> - -<p>2. <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo em Santarem a 30 de Julho de -1390. Foy jurado successor do Reino. Viveo dez annos, porque faleceo -a 22 de Dezembro de 1400. Jaz na Cathedral de Braga em hum tumulo de -bronze dourado, que lhe mandou de Borgonha a Infanta Dona Isabel sua -irmã.<a id="FNanchor_828" href="#Footnote_828" class="fnanchor">[827]</a></p> - -<p>3 <i>O Infante D. Duarte</i> successor.</p> - -<p>4 <i>O Infante D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 9 de<span class="pagenum" id="Page_394">[Pg 394]</span> Dezembro de -1392. Foy Duque de Coimbra, e Senhor de Montemór o Velho, e outras -terras do Infantado. Casou com Dona Isabel de Aragaõ, filha do Conde -de Urgel D. Jayme II. no anno de 1429. Foy este Principe illustre na -paz, e na guerra. No anno de 1424 sahio de Portugal, e fazendo huma -larga peregrinaçaõ na companhia de alguns Fidalgos, vio as Cortes -dos principaes Soberanos da Europa, Africa, e Asia. Na do Imperador -Sigismundo se demorou mais tempo, a quem ajudou na guerra contra os -Turcos. Naõ foy só excellente na disciplina militar, porque tambem -cultivou o seu engenho com as letras divinas, e humanas, e foy perito -nas linguas estrangeiras, e versado nas artes liberaes. Ficou por -tutor delRey D. Affonso V. seu sobrinho, e no governo do Reino se -houve com singular prudencia, mas com inveja de muitos emulos, cuja -ambiçaõ nunca pode saciar. Sahindo ElRey da idade pupilar, e tomando -o governo do seu Reino, em lugar das graças, que houvera de dar ao -Infante seu tutor, tio, e sogro, o desterrou; e pelas calumnias de seu -irmaõ D. Affonso, Conde de Barcellos, e de outros seus inimigos, vindo -o Infante a Santarem para se desculpar, ElRey lhe sahio ao encontro -com hum exercito. Poz-se o Infante em natural defensa com alguma gente -da sua facçaõ, deu-se a vergonhosa batalha chamada da Alfarrobeira, -e nella foy morto o Infante atrevidamente do tiro de huma destinada -setta a 20 de Mayo de 1449. Foy sepultado na igreja de Alverca, e daqui -trasladaraõ o corpo para Abrantes, depois para Santo Eloy de Lisboa, e -de Lisboa para a Batalha, onde jaz. Teve seis filhos, que foraõ: <i>D. -Pedro</i>, Condestavel de Portugal, e acclamado Rey de Aragaõ. <i>D. -Joaõ</i>, chamado de Coimbra. <i>Dona Isabel</i>, Rainha de Portugal, -mulher delRey D. Affonso V. <i>Dona Brites</i>, que casou em Flandes -com Adolfo de Cleves, Senhor de Revestein. <i>Dona Filippa</i>, que<span class="pagenum" id="Page_395">[Pg 395]</span> -morreo recolhida em Odivellas. <i>D. Jayme</i>, Arcebispo de Lisboa, e -depois Cardeal do titulo de Santo Eustaquio.<a id="FNanchor_829" href="#Footnote_829" class="fnanchor">[828]</a></p> - -<p>5 <i>O Infante D. Henrique</i> nasceo na Cidade do Porto a 4 de Março -de 1394. Foy Duque de Viseu, e Mestre da Ordem Militar de Christo, em -gloria da qual peleijou contra os infieis em muitas occasiões, dando -sempre mostras de seu grande valor. Desde a flor dos seus primeiros -annos se applicou tanto às Mathematicas, que a puras contemplações, e -igual constancia de quarenta annos, emprendendo novos descubrimentos -de Ceos, terras, e climas differentes, deu a conhecer ao mundo o que -o mesmo mundo ignorava. Além de tanto valor, e sciencia era dotado -de hum heroico espirito, vida santa, e pura, até que acabou como -virtuoso em Sagres do Reino do Algarve a 13 de Novembro de 1460. Jaz na -Batalha.<a id="FNanchor_830" href="#Footnote_830" class="fnanchor">[829]</a></p> - -<p>6 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Evora a 21 de Fevereiro de -1397, e a 10 de Janeiro de 1430 se recebeo com D. Filippe III. o -<i>Bom</i>, Duque de Borgonha, e Conde de Flandes, em cujo dia, para -que fosse celebrado com mayor solemnidade, instituio o Duque a Ordem -Militar do Tusaõ de ouro na Cidade de Bruges, onde se festejaraõ as -vodas com huma rara, e extraordinaria magnificencia. Teve esta Princeza -tal dom de conselho, que nenhuma acçaõ executava seu marido sem o seu -parecer, ainda nas resoluções militares; porque além do grande juizo, -e prudencia, existia nella hum valor verdadeiramente varonil, como em -algumas occasiões o mostrou. Morreo a 17 de Dezembro de 1471, e jaz no -Convento da Cartuxa de Dijon,<span class="pagenum" id="Page_396">[Pg 396]</span> Cidade capital daquelle Estado.<a id="FNanchor_831" href="#Footnote_831" class="fnanchor">[830]</a></p> - -<p>7 <i>O Infante D. João</i> nasceo em Santarem a 13 de Janeiro de 1400. -Casou no anno de 1424 com a Infanta Dona Isabel sua sobrinha, e filha -de D. Affonso, primeiro Duque de Bragança, seu irmaõ. Era o Infante -terceiro Condestavel de Portugal, Mestre da Ordem de Santiago, e -Principe muy prudente, valeroso, e bemquisto de todos. Morreo na Villa -de Alcacer do Sal a 18 de Outubro de 1442, e jaz no Templo da Batalha -na mesma Capella delRey seu pay.</p> - -<p>8 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Santarem a 29 de Setembro de -1402. Foy Mestre de Aviz com o titulo de Administrador, e Governador -perpetuo da dita Ordem. A sua vida sempre foy de procedimento naõ só -inculpavel, mas exemplar, pelo continuo exercicio de virtudes, com que -se fazia amado de todos. Sendo dado em refens aos Mouros até lhes ser -entregue a Cidade de Ceuta por concerto, que os Portuguezes fizeraõ com -os barbaros na infeliz jornada de Tangere em tempo delRey D. Duarte, -padeceo ignominias, e injurias naquelle cativeiro com huma paciencia -santa, até que morreo depois de seis annos de escravidaõ a 5 de Junho -de 1443. obrando Deos por intercessaõ deste Santo Infante muitos -prodigios. Jaz no Convento da Batalha.<a id="FNanchor_832" href="#Footnote_832" class="fnanchor">[831]</a><a id="FNanchor_833" href="#Footnote_833" class="fnanchor">[832]</a></p> - -<p>9 Sendo ElRey D. Joaõ ainda Mestre de Aviz teve antes de casar o -<i>Senhor D. Affonso</i>, primeiro Duque de Bragança, que nasceo no -Castello de<span class="pagenum" id="Page_397">[Pg 397]</span> Veiros do Alentejo no anno de 1370, e havido em Dona Ignez -Pires, mulher nobre, a qual depois foy Commendadeira de Santos. Casou -a 8 de Novembro de 1401 com a Senhora Dona Brites Pereira, Condessa -de Barcellos, filha unica do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, de -cujo feliz consorcio descende, como de tronco glorioso, a Serenissima -Casa de Bragança hoje reinante. Morreo na Villa de Chaves em o mez -de Dezembro de 1461. Foy sepultado na Igreja dos Capuchos da mesma -Villa.<a id="FNanchor_834" href="#Footnote_834" class="fnanchor">[833]</a></p> - -<p>10 <i>A Senhora Dona Brites</i> naõ se sabe quando nasceo; porém -casou a 26 de Novembro de 1405 com Thomaz Fitz, Conde de Arundel em -Inglaterra, onde foy esta Senhora recebida com pomposa magnificencia. -Deste casamento naõ teve successaõ, e pela morte de seu marido passou -a segundas vodas no anno de 1415 com Gilberto Talbot, Baraõ de -Irchenfield, de que tambem ficou viuva no anno de 1419. Ignora-se o -anno, em que morreo.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Duarte.</i></h3> - -<p>1 O <i>Infante D. Joaõ</i> nasceo em Lisboa em Outubro de 1429, e -morreo de tenra idade.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Dona Filippa</i> nasceo em Santarem a 27 de Novembro de -1430, e morreo a 24 de Março de 1439 ameaçada de peste.</p> - -<p>3 <i>O Principe D. Affonso</i> successor.</p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 7 de Dezembro de 1432 na Villa -do Sardoal, e naõ teve mais que hum dia de vida.</p> - -<p>5 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Almeirim<span class="pagenum" id="Page_398">[Pg 398]</span> a 17 de Novembro de -1433, e no de 1438 foy jurado Principe successor do Reino. Era Duque -de Viseu, Condestavel do Reino, Senhor de Béja, e de outras muitas -terras. Casou nas Alcaçovas com a Infanta Dona Brites, filha de seu -tio o Infante D. João no anno de 1447. Como o Infante era de elevados -espiritos, sahio do Reino occultamente, e foy ter a Ceuta com a idéa -de ser alli Fronteiro; porém ElRey D. Affonso seu irmaõ o fez voltar -ao Reino, e depois se servio do seu valor na jornada, e expugnaçaõ de -Africa. Morreo em Setubal a 18 de Setembro de 1470, e jaz no Mosteiro -da Conceiçaõ de Béja, que a infanta sua mulher fundara. Desta Real -uniaõ nasceraõ o<i>Senhor D. Joaõ</i>, o <i>Senhor D. Diogo</i>, o -<i>Senhor D. Duarte</i>, o <i>Senhor Rey D. Manoel</i>, a <i>Rainha -Dona Leonor</i>, a <i>Duqueza Dona Isabel</i>, communicando-se tambem -por via deste casamento o Regio sangue dos Serenissimos Senhores Duques -de Bragança a quasi todos os soberanos Principes da Europa.<a id="FNanchor_835" href="#Footnote_835" class="fnanchor">[834]</a></p> - -<p>6 <i>Infanta Dona Leonor</i> nasceo em Torres Vedras a 18 de Setembro -do anno 1434. Casou com o Imperador Federico III. no anno de 1451, -e a 16 de Março de 1452 o Papa Nicoláo V. a recebeo em Roma, e a -coroou Imperatriz a 19 do mesmo mez; e passando depois a Alemanha, foy -coroada Rainha de Hungria, e Bohemia. Foy esta Princeza igualmente -muito formosa, e discreta, cujos predicados fazia realçar mais com -huma singular modestia, que era o atractivo de todos a amarem, e -respeitarem. Faleceo em Neustadt a 3 de Setembro de 1467. Jaz no -Mosteiro de Cister da mesma Cidade.<a id="FNanchor_836" href="#Footnote_836" class="fnanchor">[835]</a></p> - -<p>7 <i>O Infante D. Duarte</i> nasceo em Alenquer a 12 de Julho de 1435, -e morreo de tenra idade.</p> - -<p>8 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo a 25 de Novembro<span class="pagenum" id="Page_399">[Pg 399]</span> de 1435. -Esteve desposada com D. Carlos, Principe de Navarra, e com ElRey de -Inglaterra Duarte IV. mas nenhum casamento se effetuou. Foy Princeza de -muitas virtudes, e com tanta applicaçaõ ao exercicio das letras, que -chegou a traduzir em Portuguez o livro da perfeiçaõ dos Monges, que -em Latim compoz S. Lourenço Justiniano. Morreo no Mosteiro de Santa -Clara de Lisboa com opiniaõ de virtuosa aos 17 de Junho de 1463. Jaz no -Convento de Santo Eloy desta Cidade.<a id="FNanchor_837" href="#Footnote_837" class="fnanchor">[836]</a></p> - -<p>9 <i>A Infanta Dona Joanna</i> nasceo no fim de Março de 1439 na quinta -do Monte Olivete da Villa de Almada. Casou com Henrique IV. de Castella -a 21 de Mayo de 1455. Foy muito formosa, e naturalmente alegre, e -esperta, donde se lhe originaraõ as calumnias, de que a arguiraõ. Teve -huma unica filha, que foy a Princeza Dona Joanna, jurada herdeira de -Castella, a quem a fortuna, que lhe usurpou o Reino, contentou com -o nome de <i>Excellente Senhora</i>. Morreo a Rainha Dona Joanna em -Madrid a 13 de Junho de 1475. Foy sepultada no Mosteiro de S. Francisco -da mesma Villa, cuja sepultura está hoje desfeita.<a id="FNanchor_838" href="#Footnote_838" class="fnanchor">[837]</a></p> - -<p>10 Ainda que Manoel de Faria tem por certo que ElRey D. Duarte naõ -tivera mais filhos fóra do matrimonio, os Genealogicos mais indagadores -affirmaõ, que tivera a <i>D. João Manoel</i>, nascido de Dona Joanna -Manoel, Dama da Rainha Dona Leonor. Criou-se em casa do inconquistavel, -e grande D. Nuno Alvares Pereira, e de quatorze annos tomou o habito -da Religiaõ do Carmo em Lisboa, e aqui foy Prior, e Provincial, donde -a merecimentos das suas virtudes foy elevado à dignidade de Bispo de -Ceuta, depois Bispo da Guarda. ElRey D. Affonso V. seu irmaõ o fez -tambem seu Capellaõ<span class="pagenum" id="Page_400">[Pg 400]</span> Mór, e se aproveitou muito da sua prudencia, -virtude, e conselhos. Morreo em Lisboa, e jaz no Convento do Carmo da -mesma Cidade na Casa do Capitulo velho, como nos mostra o moderno, e -insigne Chronista desta Religiaõ; e naõ na Sé de Lisboa, como escreve o -Author da Corografia Portugueza.<a id="FNanchor_839" href="#Footnote_839" class="fnanchor">[838]</a> Daqui procedem os illustrissimos -Condes de Atalaya.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Affonso V.</i></h3> - - -<p>1 O <i>Principe D. Joaõ</i> nasceo em Cintra a 29 de Janeiro do anno de -1451, e morreo de tenra idade.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Beata Joanna</i> nasceo em Lisboa a 6 de Fevereiro de -1452. Foy de singular virtude, e admiravel formosura, por cujas prendas -muitos Principes a pertenderaõ para esposa; mas repudiando a todos, -viveo em perpetua castidade. Consagrando-se toda a Deos, tomou o habito -de Religiosa de S. Domingos no Mosteiro de Jesus de Aveiro no anno de -1475, onde vivendo dezoito annos em continuo exercicio de todas as -virtudes, em que floreceo, acabou o circulo dos seus dias neste mundo -a 12 de Mayo de 1490. Jaz sepultada no mesmo Mosteiro em hum primoroso -tumulo, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. para onde se -trasladaraõ as veneraveis Reliquias em 22 de Outubro de 1711, por -ordem delRey D. Joaõ V. O mesmo Senhor D. Pedro II. alcançou do Papa -Innocencio XI. o culto de Beata desde 4 de Abril do anno de 1693.<a id="FNanchor_840" href="#Footnote_840" class="fnanchor">[839]</a></p> - -<p>3 <i>O Principe D. Joaõ</i> successor.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_401">[Pg 401]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ II.</i></h3> - -<p>1 O <i>Principe D. Affonso</i> nasceo em Lisboa a 18 de Mayo do anno -1475. Casou com a Princesa Dona Isabel, filha delRey D. Fernando -o <i>Catholico</i>, a 23 de Novembro de 1490. Nas suas vodas se -fizeraõ as mayores festas, e demonstrações de alegria em variedade de -espectaculos, profusaõ monstruosa de manjares, e invenções exquisitas -de bailes, quaes nunca se viraõ, nem ouviraõ; porém como se toda -aquella magnificencia, divertimento, e grandeza fora feita por jogo, e -brinco da fortuna, dentro de poucos dias se mudou em subitos prantos, e -lutos, porque este Principe na florida idade de dezaseis annos, casado -de sete mezes, cahindo de hum cavallo, em que risonho corria pelas -margens do Tejo junto a Santarem, se fez em pedaços; e deitado sobre a -humilde cama de feno na choça de hum pobre pescador, exhalou a alma a -13 de Julho de 1491, nos braços delRey seu Pay, da Rainha sua Mãy, e da -Princeza sua Esposa, desfeitos todos em lagrimas, e sentimento por taõ -lastimosa fatalidade. Jaz na Batalha na Casa do Capitulo.<a id="FNanchor_841" href="#Footnote_841" class="fnanchor">[840]</a></p> - -<p>2 Teve fóra do matrimonio a <i>D. Jorge</i>, que nasceo em Abrantes a -12 de Agosto de 1481. Foy sua mãy Dona Anna de Mendonça, Dama da Rainha -Dona Joanna, e Senhora muito nobre, e taõ estimada, e querida delRey, -que a seu respeito (diz o Author do Anno Historico) mandou erigir o -Mosteiro de Santos o Novo, e a nomeou Commendadeira<span class="pagenum" id="Page_402">[Pg 402]</span> perpetua, onde -faleceo virtuosamente no anno de 1545. Naõ foy menor o amor, que ElRey -teve a este filho, o qual se criou em casa da Senhora Dona Joanna sua -tia; e falecendo esta Princeza, o trouxe para o Paço a Rainha sua -madrasta, e o conduzio a Evora, onde ElRey estava, o Bispo do Porto. -Foy esperallo fóra da Cidade o Principe Affonso seu irmaõ com toda a -Nobreza, mandou-o seu pay tratar de Excellencia, mas por lisonja lhe -fallavaõ por Alteza. Quiz ElRey deixallo por successor do Reino, ao -que se oppoz a Rainha, por ser em prejuizo de seu irmaõ D. Manoel, a -quem de direito tocava, e tambem naõ quiz vir nisso o Papa Alexandre -VI. havendo por esta causa grandes discordias entre ElRey, e a Rainha. -Mas como ElRey naõ pode conseguir o que desejava, fez a D. Jorge o -mayor Senhor, que havia em Hespanha, porque quiz que succedesse aos -bens de seu bisavô o infante D. Pedro, e assim ficou sendo Duque de -Coimbra, Senhor de Montemór o Velho, Marquez de Torres Novas, Mestre -das Ordens de Santiago, e Aviz, e Senhor de outras muitas rendas. Morto -ElRey, foraõ muitos Fidalgos a Villa-Nova buscar o Senhor D. Jorge, e -o conduziraõ a Montemór o Novo, onde estava ElRey D. Manoel. Foy logo -em direitura apearse ao Paço vestido de burel, e assim subio a beijar -a maõ a ElRey; e o Prior do Crato D. Diogo de Almeida, que era seu -Ayo, pegando-lhe pela maõ, se pozeraõ ambos de joelhos, e o entregou -a ElRey seu tio, fazendo-lhe huma eloquente oraçaõ, em que lhe dizia -como ElRey defunto lho deixara encommendado. ElRey D. Manoel lhe fez -grandes honras, e lhe deu casa no Paço. Contava já o Senhor D. Jorge -vinte annos de idade, quando ElRey o casou com Dona Brites de Vilhena, -filha de D. Alvaro, irmaõ do Duque de Bragança D. Fernando II. e deste -matrimonio descende a illustre Familia dos Alencastres.<span class="pagenum" id="Page_403">[Pg 403]</span> Morreo o -Senhor D. Jorge no anno de 1550, e jaz no Convento de Palmella.<a id="FNanchor_842" href="#Footnote_842" class="fnanchor">[841]</a></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Manoel.</i></h3> - -<p>1 O <i>Principe D. Miguel da Paz</i> foy filho da primeira mulher a -Rainha Dona Isabel. Nasceo na Cidade de Saragoça a 24 de Agosto de -1498. Foy jurado Principe herdeiro de Castella, e de Portugal. Naõ -viveo mais que dous annos, porque a 20 de Junho de 1500 expirou na -mesma Cidade, onde jaz.</p> - -<p>2 <i>O Principe D. Joaõ</i>, filho da segunda mulher a Rainha Dona -Maria, foy successor do Reino.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Lisboa a 24 de Outubro de -1503. Foy rara a formosura, com que a dotou a natureza. Casou em -Sevilha com o Imperador Carlos V. a 11 de Março de 1526. As suas -virtudes foraõ mayores que os seus elogios, e estes foraõ innumeraveis. -Adoeceo em Toledo, e aqui expirou no primeiro de Mayo de 1539. Foy -conduzido o cadaver da imperatriz pelo Marquez de Lombay a ser -sepultado na Cathedral da Cidade de Granada; e como fosse preciso para -aquella entrega abrirse o caixaõ, chegando-se o Marquez a tirar a -toalha, que cubria o macilento rosto, vendo-o taõ demudado, e espantoso -à vista, foy causa do prodigioso desengano do Marquez, porque dalli se -converteo em hum S. Francisco de Borja, cujo resplandor de virtudes -illustrou tanto a Companhia de Jesus. No mesmo dia desta portentosa -transformaçaõ,<span class="pagenum" id="Page_404">[Pg 404]</span> que foy a 7 de Mayo do sobredito anno, vio a grande -serva de Deos Soror Francisca de Jesus, Abbadessa do Mosteiro de -Gandia, estando em oração, sahir do Purgatorio a alma da Imperatriz -assistida de alguns Anjos. A 4 de Fevereiro de 1574 foy trasladado -o corpo para o Escurial, onde jaz. Deste consorcio nasceo ElRey D. -Filippe II.<a id="FNanchor_843" href="#Footnote_843" class="fnanchor">[842]</a></p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Brites</i> nasceo em Lisboa a 31 de Dezembro de -1504. Casou com Carlos III. Duque de Saboya a 29 de Setembro de 1521. -Foy esta Princeza ornada de grandes virtudes, pelas quaes era muito -amada de seu esposo, e tida por huma singular Heroina daquelles tempos. -Morreo em Niza, Cidade de Saboya, a 8 de Janeiro de 1538.<a id="FNanchor_844" href="#Footnote_844" class="fnanchor">[843]</a></p> - -<p>5 <i>O Infante D. Luiz</i> nasceo em Abrantes a 3 de Março de 1506. Foy -este Principe Duque de Béja, Condestavel de Portugal, Administrador do -Priorado do Crato, e ornado de tantas virtudes, que, como diz Damiaõ -de Goes, para a natureza cumprir de todo com os dotes, que lhe deu, -lhe havia de conceder tambem occasiões para poder conquistar mayores -Reinos, e Senhorios do que Alexandre, porque para a execuçaõ disso lhe -sobejou animo. Assim se vio na famosa expediçaõ, e conquista de Tunes, -que o Imperador Carlos V. seu cunhado fez no anno de 1535, onde se -achou o Infante D. Luiz governando o celebre Galeaõ <i>Botafogo</i>, -e Armada auxiliar, que ElRey D. Joaõ III. mandou ao Imperador, -devendo-se à animosa deliberaçaõ do Infante cortarse a fortissima -cadea, que atravessava o porto da Goleta, de que tanta gloria se -seguio à Christandade, credito à Naçaõ Portugueza, e fama ao valor -do Infante. Além destas prendas teve<span class="pagenum" id="Page_405">[Pg 405]</span> hum sublime engenho, que com o -exercicio das artes liberaes, ensinadas pelo grande Mestre Pedro Nunes, -soube adquirir hum lugar eminente na Republica das letras. Na Religiaõ -foy exemplar, e taõ pio, como o testifica o Mosteiro das Maltezas de -Estremoz, que elle edificou, e outras acções de caridade. Finalmente -faleceo na quinta de Marvilla junto a Lisboa a 27 de Novembro de 1555, -e jaz em Belém. De Violante Gomes, chamada a <i>Pelicana</i>, donzella -humilde, mas de rara formosura, a qual morreo professa no Mosteiro de -Almoster, teve ao <i>Senhor D. Antonio</i>, que foy Prior do Crato.<a id="FNanchor_845" href="#Footnote_845" class="fnanchor">[844]</a></p> - -<p>6 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Abrantes a 5 de Junho de -1507. Foy Duque da Guarda, e Principe de condiçaõ sincera, muito -animoso, amigo da verdade, e dizia o que entendia sem o rebuço da -politica adulaçaõ. Foy muito dado à lição da Historia verdadeira, -e naõ fabulosa, e por ajuntar quantas Chronicas havia escritas em -qualquer lingua que fosse, gastou grosso cabedal. Mandou fazer huma -arvore genealogica illuminada pelo mais insigne Pintor, que havia -em Flandes, e constava desde Noé até ElRey D. Manoel seu pay. Casou -com Dona Guiomar Coutinho, filha herdeira do Conde de Marialva D. -Francisco Coutinho, e morreo em Abrantes a 7 de Novembro de 1534. Jaz -em Belém.<a id="FNanchor_846" href="#Footnote_846" class="fnanchor">[845]</a></p> - -<p>7 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo em Evora a 23 de Abril de 1509. -O Papa Leaõ X. o creou Cardeal<span class="pagenum" id="Page_406">[Pg 406]</span> Diacono de Santa Luzia. Foy Bispo da -Guarda, e de Viseu, Arcebispo de Lisboa, e o primeiro Prelado, que -nestes Reinos ordenou se lesse o Cathecismo da Doutrina christã nas -Igrejas aos meninos, e que nas Paroquias houvesse livros, onde se -assentassem, e escrevessem os nomes dos bautizados, e casados, sendo -elle o que muitas vezes conferia estes, e os mais Sacramentos com -grande caridade. Foy muito dado à lição dos livros, e teve por Mestres -aos insignes Ayres Barbosa, e Pedro Margalho. Morreo em Lisboa a 21 de -Abril de 1540, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_847" href="#Footnote_847" class="fnanchor">[846]</a></p> - -<p>8 <i>O Infante D. Henrique</i>, Cardeal, que succedeo no Throno.</p> - -<p>9 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo conforme a conjectura do -incansavel D. Joseph Barbosa entre o anno de 1511, e 1513. Morreo em -Evora no anno de 1513 e jaz em Belém.<a id="FNanchor_848" href="#Footnote_848" class="fnanchor">[847]</a></p> - -<p>10 <i>O Infante D. Duarte</i> nasceo em Lisboa a 7 de Setembro de 1515. -Desde os primeiros annos foy muito inclinado às letras, nas quaes -fez bons progressos, ajudado da portentosa memoria, que tinha, e das -bem ordenadas instrucções de seu Mestre o celebrado, e erudito André -de Resende. Na musica foy destro, e sciente, e no exercicio da caça -incansavel. Casou em Villa Viçosa a 23 de Abril de 1537 com a Senhora -Dona Isabel, filha de D. Jayme, quarto Duque de Bragança, de cujo -matrimonio nasceraõ a Senhora <i>Dona Maria</i>, Princeza de Parma, e -a Senhora <i>Dona Catharina</i>. Antes deste Infante falecer, predisse -elle mesmo o dia da sua morte, que foy a 20 de Outubro de 154O. Jaz em -Belém.<a id="FNanchor_849" href="#Footnote_849" class="fnanchor">[848]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_407">[Pg 407]</span></p> - -<p>11 <i>O Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 9 de Setembro de -1516. Morreo logo, e jaz em Belém. Deste parto ficou a Rainha Dona -Maria taõ mal, que tambem faleceo dahi a pouco tempo; e tornando ElRey -D. Manoel a casar com a Rainha Dona Leonor, teve della</p> - -<p>12 <i>O Infante D. Carlos</i>, que nasceo em Evora a 18 de Fevereiro de -1520. Morreo em Lisboa a 15 de Abril de 1521, e jaz em Belém.</p> - -<p>13 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Lisboa a 8 de Junho de 1521. -Era Princeza, que em gentileza, e virtudes excedeo as melhores do -seu tempo. Seu Palacio era huma universidade de mulheres singulares -em letras, e outras artes de engenho, a quem presidia a famosa Dama -Toledana, chamada Luiza Sigea, cuja erudiçaõ fez aturdir a Europa. -Fundou o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, huma legua distante de -Lisboa, e o sumptuso Hospital alli vizinho: o Mosteiro da Incarnaçaõ de -Commendadeiras de Aviz em Lisboa, e em Evora o Mosteiro de Santa Helena -do Monte Calvario, e em Torres Vedras o Convento de Nossa Senhora dos -Anjos para os Religiosos Arrabidos, alcançando da Sé Apostolica para -esta Igreja o Jubileo da Porciuncula <i>in perpetuum</i>. Morreo a 10 -de Outubro de 1577. Jaz no Convento da Luz.<a id="FNanchor_850" href="#Footnote_850" class="fnanchor">[849]</a></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ III.</i></h3> - -<p>1 O <i>Principe D. Affonso</i> nasceo em Almeirim a 24 de Fevereiro de -1526. Faleceo passados poucos dias, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_851" href="#Footnote_851" class="fnanchor">[850]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_408">[Pg 408]</span></p> - -<p>2 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Coimbra a 15 de Outubro de -1527. Casou com D. Filippe, Principe de Castella, e se celebraraõ as -vodas em Salamanca a 15 de Novembro de 1543. Morreo de parto a 12 de -Julho de 1545, estando em Valhadolid. Jaz no Escurial.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Lisboa a 28 de Abril de 1529. -Morreo de poucos mezes, e jaz em Belém.</p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Brites</i> nasceo em Lisboa a 15 de Fevereiro de -1530, e morreo de tenra idade. Jaz em Belém.</p> - -<p>5 <i>O Principe D. Manoel</i> nasceo em Alvito no primeiro de Novembro -de 1531. Faleceo em Evora a 14 de Abril de 1537, e jaz em Belém.</p> - -<p>6 <i>O Infante D. Filippe</i> nasceo em Evora a 25 de Março de 1533. -Foy jurado Principe herdeiro do Reino. Viveo pouco, porque faleceo a -29 de Abril de 1539. Jaz em Belém na mesma sepultura de seu irmaõ D. -Affonso.</p> - -<p>7 <i>O Infante D. Diniz</i> nasceo em Evora a 26 de Abril de 1535, e na -mesma Cidade morreo no primeiro de Janeiro de 1537. Jaz em Belém.</p> - -<p>8 <i>O Principe D. Joaõ</i> nasceo em Evora a 3 de Junho de 1537. Foy -jurado Principe herdeiro nas Cortes, que se celebraraõ em Almeirim a 30 -de Março de 1544. Casou com a Princeza Dona Joanna de Austria, filha do -Imperador Carlos V. e se recebeo por procuraçaõ na Cidade de Toro a 11 -de Janeiro de 1552, e no fim de Novembro do mesmo anno entrou por Elvas -em Portugal. Gil Gonzales Davila faz honorifica memoria desta Princeza -no cap. 9. das Grandezas de Madrid, mas discreta na Chronologia, que -seguimos. Deste augusto thalamo nasceo <i>D. Sebastiaõ</i> que sendo -Principe de esperanças, depois foy Rey de pouca ventura. Morreo em fim -o Principe D. Joaõ a 2 de Janeiro de 1554, e jaz em Belém em magnifico -mausoleo.<span class="pagenum" id="Page_409">[Pg 409]</span> Mereceraõ as bellas prendas, e saudosa memoria deste -Principe serem eternizadas na mais illustre, e canora Egloga do Homero -Portuguez, e nas citharas de outros insignes Poetas daquelle tempo.<a id="FNanchor_852" href="#Footnote_852" class="fnanchor">[851]</a></p> - -<p>9 <i>O Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 9 de Março de 1539, e -morreo a 20 de Janeiro de 1540. Jaz em Belém.</p> - -<p>10 Fóra do matrimonio teve ElRey a <i>D. Duarte</i>, que nasceo no -anno de 1521. Foy sua mãy Dona Isabel Muniz, moça da Camera da Rainha -Dona Leonor, e filha de hum Alcaide de Lisboa, homem honrado, a quem -chamavaõ o <i>Carrança</i>, e ella depois foy Freira de Santa Clara do -Porto. Criou-se D. Duarte no Convento de S. Jeronymo, chamado da Costa, -junto de Guimarães, e aqui estudou com exemplar progresso as boas -letras, e costumes. Mandou-o ElRey buscar ao dito Convento com grande -ostentaçaõ, e trazello a Cintra, onde estava a Corte; porém sendo -preciso a ElRey vir a Lisboa, tanto que D. Duarte chegou a Cintra, -foy o Conde da Castanheira buscallo, e o conduzio a Lisboa, e ElRey -o veyo esperar ao Convento de S. Domingos de Bemfica, onde o recebeo -com grandes honras, e expressões de alegria. Foy D. Duarte Arcebispo -de Braga, muy pio, e muy versado nos estudos de Filosofia, Theologia, -e ambos os Direitos. Começou a escrever em lingua Latina a Historia -dos Reys de Portugal, de que deixou elegantemente composta a delRey D. -Affonso Henriques, da qual fazem memoria D. Nicoláo Antonio, e o Abbade -de Sever. Morreo na flor dos seus annos a 11 de Novembro de 1543. Jaz -em Belém.<a id="FNanchor_853" href="#Footnote_853" class="fnanchor">[852]</a></p> - -<p>11 <i>D. Manoel</i> morreo menino.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_410">[Pg 410]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Filippe II.</i></h3> - -<p>1 O <i>Principe D. Carlos</i> nasceo a 12 de Julho de 1545. Os -Castelhanos lhe chamaõ o <i>Infeliz</i>; porque sendo de genio -turbulento, o pay temeroso das extravagancias do filho, naõ desapprovou -os meyos, que lhe assinaraõ para lhe abreviar a vida, e assim veyo a -acabar violentamente em 24 de Junho de 1568. Foy filho da sua primeira -mulher.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo a 12 de Agosto de 1566. Casou com -o Archiduque Alberto no anno de 1599, e sem successaõ morreo a 29 de -Novembro de 1633.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo a 10 de Outubro de 1567. Casou -com o Duque de Saboya Carlos Manoel no anno de 1585, e morreo a 6 de -Novembro de 1597. Estes dous foraõ filhos do terceiro matrimonio.</p> - -<p>4 <i>O Principe D. Fernando</i> nasceo a 4 de Dezembro de 1571, e -morreo a 18 de Outubro de 1578.</p> - -<p>5 <i>O Infante D. Carlos Lourenço</i> nasceo a 12 de Agosto de 1573. -Morreo a 30 de Julho de 1582.</p> - -<p>6 <i>O Principe D. Diogo</i> nasceu a 12 de Julho de 1575, e morreo a -21 de Novembro de 1582.</p> - -<p>7 <i>O Principe D. Filippe</i>, que lhe succedeo.</p> - -<p>8 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Março de 1580, e morreo a -4 de Agosto de 1583. Estes cinco foraõ filhos do quarto matrimonio.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Filippe III.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Anna Mauricia de Austria</i>, Rainha de França, -nasceo em Valhadolid a 22 de Setembro de 1601. Casou com Luiz XIII.<span class="pagenum" id="Page_411">[Pg 411]</span> -Rey de França no anno de 1615, morreo a 14 de Mayo de 1643, jaz em S. -Diniz. Deste matrimonio nasceraõ Luiz XIV. Rey de França, e Filippe de -França, Duque de Orleans.</p> - -<p>2 <i>O Principe D. Filippe</i> successor.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Valhadolid a 18 de Agosto de -1606. Casou com o Imperador de Alemanha D. Fernando III. e morreo a 13 -de Mayo de 1646.</p> - -<p>4 O <i>Infante D. Carlos</i> nasceo em Madrid a 14 de Setembro de 1607, -e morreo a 13 de Julho de 1632.</p> - -<p>5 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo no Escurial a 16 de Mayo de 1609. -O Papa Paulo V. o creou Cardeal a 29 de Julho de 1619, naõ tendo mais -que dez annos, e lhe deu logo o governo do Arcebispado de Toledo, e o -fez Capitaõ General dos Paizes baixos, onde morreo a 9 de Novembro de -1641.</p> - -<p>6 <i>A Infanta Dona Margarida</i> nasceo em Lerma a 25 de Mayo de 1610, -e morreo a 11 de Março de 1617.</p> - -<p>7 <i>O Infante D. Affonso Mauricio</i> nasceo no Escurial a 22 de -Setembro de 1611, morreo a 16 de Setembro de 1612.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Filippe IV.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Margarida Maria</i> nasceo a 14 de Agosto de 1621, -e morreo no mesmo dia.</p> - -<p>2 <i>A Infanta Dona Maria Margarida</i> nasceo a 25 de Novembro de -1623, e morreo a 22 de Dezembro do mesmo anno.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Novembro de 1625, e morreo -a 21 de Julho de 1627.</p> - -<p>4 <i>O Principe D. Balthasar Carlos</i> nasceo a 17 de<span class="pagenum" id="Page_412">[Pg 412]</span> Outubro de -1629. Foy muito festejado o seu nascimento. Morreo a 9 de Outubro de -1646.</p> - -<p>5 <i>A Infanta Dona Isabel Teresa dos Santos</i> morreo no primeiro de -Novembro de 1627.</p> - -<p>6 <i>A Infanta Dona Anna Antonia</i> nasceo a 17 de Janeiro de 1635, e -morreo a 5 de Dezembro de 1636.</p> - -<p>7 <i>A Infanta Dona Maria Teresa</i>, Rainha de França, nasceo a 20 de -Setembro de 1638. Casou com ElRey de França Luiz XIV. a 4 de Julho de -1660, e morreo em Versalhes a 30 de Julho de 1683. Todos estes foraõ -filhos do primeiro matrimonio; e do segundo teve.</p> - -<p>8 <i>A Infanta Dona Margarida Maria Teresa</i>, que nasceo a 12 de -Julho de 1651. Casou com o Imperador Leopoldo no anno de 1666, e morreo -a 12 de Março de 1673.</p> - -<p>9 <i>A Infanta Dona Maria Ambrosia</i> morreo menina a 21 de Dezembro -de 1659.</p> - -<p>10 <i>O Principe D. Filippe Prospero</i> nasceo a 20 de Novembro de -1657, e morreo no primeiro de Novembro de 1661.</p> - -<p>11 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo a 22 de Dezembro de 1658, e -morreo a 22 de Outubro de 1659.</p> - -<p>12 <i>O Principe Carlos II.</i> successor no Throno, nasceo a 6 de -Novembro de 1661, e casando duas vezes, morreo sem successaõ no -primeiro de Novembro de 1700.</p> - -<p>13 Fóra do matrimonio teve a <i>D. Joaõ de Austria</i>, que nasceo a 7 -de Abril de 1629, e teve por mãy Dona Maria Calderon. Foy Graõ Prior -de Malta em Castella, Vice-Rey de Sicilia, Governador de Flandes, -General de todas as forças maritimas da Monarquia de Castella, primeiro -Ministro delRey Carlos II. e hum dos mais valerosos soldados daquelle -seculo. Morreo a 17 de Setembro de 1679, e jaz no Escurial.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_413">[Pg 413]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ IV.</i></h3> - -<p>1 O <i>Principe D. Theodosio</i> nasceo em Villa Viçosa a 8 de -Fevereiro de 1634. Foy jurado Principe de Portugal a 28 de Janeiro -de 1641, e segundo as memorias felicissimas, que existem delle, foy -certamente hum portento da natureza, e da graça, sabendo accrescentar, -e augmentar os dotes de huma, e outra com as prendas adquiridas na -continuada, e illustre occupaçaõ das virtudes. Acabou na flor da sua -idade a 15 de Mayo de 1653, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_854" href="#Footnote_854" class="fnanchor">[853]</a></p> - -<p>2 <i>A Senhora Dona Anna</i> nasceo em Villa Viçosa a 21 de Janeiro de -l635. No mesmo dia expirou, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro -das Chagas da mesma Villa.</p> - -<p>3 <i>A Infanta Dona Joanna</i> nasceo em Villa Viçosa a 18 de Setembro -de 1636. Morreo a 17 de Novembro de 1653, e jaz em Belém.</p> - -<p>4 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo em Villa Viçosa a 25 de -Novembro de 1638. Casou com Carlos II. Rey de Inglaterra em 18 de -Mayo de 1661. Padeceo em Londres com varonil paciencia fortissimos -contratempos, culpando-a o Parlamento de querer introduzir em -Inglaterra a Religiaõ Catholica, por cujo motivo intentarão darlhe -veneno, de que a innocencia de sua virtuosa vida a livrou, até que -passados sete annos depois da morte de seu marido, voltou para -Portugal, e chegou a Lisboa a 20 de Janeiro de 1693. No anno de 1704, -quando ElRey D. Pedro seu irmão passou à Beira, ficou governando o -Reino com grande satisfaçaõ de todos;<span class="pagenum" id="Page_414">[Pg 414]</span> mas a 31 de Dezembro de 1705 -deixou com sua morte a todos saudosos. Jaz em Belém.<a id="FNanchor_855" href="#Footnote_855" class="fnanchor">[854]</a></p> - -<p>5 <i>O Senhor D. Manoel</i> nasceo em Villa Viçosa a 6 de Setembro de -1640, e logo morreo. Jaz no Convento de Santo Agostinho da mesma Villa.</p> - -<p>6 <i>O Infante D. Affonso</i> successor.</p> - -<p>7 <i>O Infante D. Pedro</i>, que succedeo a ElRey D. Affonso seu irmaõ.</p> - -<p>8 Fóra do matrimonio teve a <i>Senhora Dona Maria</i>, que nasceo no -anno de 1643. Criou-se em casa do Secretario Antonio Cavide, ao qual -passou Alvará a Rainha Dona Luiza de tutor, curador, e administrador -da pessoa, e bens da dita Senhora. De casa do sobredito Secretario -foy para o Mosteiro de Carnide no anno de 1649, onde vestio o habito -da Religiaõ de Santa Teresa, mas naõ professou. Nunca veyo à Corte em -publico; porém indo às Caldas, foy acompanhada de Antonio Alvares da -Cunha, e de sua irmã a Condessa de Villa-Flor. ElRey D. Joaõ a declarou -por filha, e lhe deixou feita a mercê da Commenda mayor de Santiago, -e das Villas de Torres Vedras, e Colares, cujas disposições foraõ -todas inteiramente satisfeitas pela Rainha Regente, e o Serenissimo -Rey D. Affonso, os quaes em todos os Decretos, Alvarás, e Cartas, em -que fallavaõ nella, lhe chamavaõ <i>Dona Maria, muito amada, e prezada -irmã</i>, sem o titulo de Infanta; porque, como elegantemente prova o -Doutor Chronista Fr. Antonio Brandaõ,<a id="FNanchor_856" href="#Footnote_856" class="fnanchor">[855]</a> nunca em Portugal se deu -aos filhos illegitimos o titulo de Infante. Fez esta Senhora varios, e -grandiosos donativos ao Mosteiro, em que viveo, até que aos cincoenta -annos da sua idade acabou esta vida a 6 de Fevereiro de 1693. Jaz no -Coro debaixo do mesmo Mosteiro.<a id="FNanchor_857" href="#Footnote_857" class="fnanchor">[856]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_415">[Pg 415]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Pedro II.</i></h3> - -<p>1 A <i>Infanta Dona Isabel</i>, filha do primeiro matrimonio, nasceo -em Lisboa a 6 de Janeiro de 1669. Foy jurada Princeza herdeira do -Reino, e esteve desposada com o Duque de Saboya Victorio Amadeo; mas a -intempestiva morte embaraçou este desejado consorcio, porque a Infanta -faleceo 21 de Outubro de 1690. Jaz no Mosteiro do Santo Crucifixo de -Capuchas Francezas junto da Rainha Dona Maria Francisca sua mãy.</p> - -<p>2 Do segundo matrimonio teve o <i>Principe D. Joaõ</i> que nasceo em -Lisboa a 30 de Agosto de 1688, e morreo a 17 de Setembro do mesmo anno. -Jaz em S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>3 <i>O Serenissimo Principe D. Joaõ</i> succesor na Coroa.</p> - -<p>4 <i>O Serenissimo Infante D. Francisco</i> nasceo em Lisboa a 25 de -Mayo de 1691. Foy Graõ Prior do Crato, e fez o officio de Condestavel -do Reino nas Cortes de 1697, e no Auto do levantamento delRey D. Joaõ -V. seu irmaõ. Possuio as grandes, e opulentas Casas do Infantado, e da -Feira, com outras muitas rendas, jurisdições, e prerogativas. Deveo-lhe -a sciencia Nautica hum particular desvelo, como se fora seu professor, -e não menos todo o manejo bellico, para que tinha natural viveza, e -propensaõ. A caça foy todo o seu divertimento, em que era perito, -destro, destemido, e incansavel, por cujo motivo mais era habitador -do campo, que da Corte. Teve entranhavel devoçaõ com a Imagem da -Senhora da Atalaya, a quem tributou liberaes offertas; e aos Religiosos -Capuchos da Conceiçaõ lhes mandou edificar hum Hospicio junto do seu -Palacio da Bemposta de Lisboa, delineado pela simetria do Convento da -Arrabida. Achando-se finalmente<span class="pagenum" id="Page_416">[Pg 416]</span> na quinta de Bernardo Freire, meya -legua distante das Caldas da Rainha, para onde tinha hido acompanhar a -ElRey, faleceo de hum volvulo a 21 de Julho de 1742. Jaz em S. Vicente -de Fóra.</p> - -<p>5 <i>O Serenissimo Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 15 de -Março de 1694. Participou logo da natureza attributos verdadeiramente -Reaes; porque a bizarria da sua magestosa presença, revestida de hum -soberano agrado, e de numa seria affabilidade, era a fortissima cadea -de ouro, com que atava suavemente a todos, para que o amassem; mas -muito mais poderoso attractivo para o nosso affecto eraõ aquellas -nobres prendas do animo, e alma, que brilhavaõ grandemente em todas -as suas acções, e inculcavaõ a grandeza do seu espirito heroicamente -generoso, sublime, pio, e benigno. Faleceo finalmente a 20 de Outubro -de 1757 em Alcantara na quinta chamada da Tapada. Jaz em Belém.</p> - -<p>6 <i>A Senhora Infanta Dona Teresa</i> nasceo em Lisboa a 24 de -Fevereiro de 1696. ElRey seu Pay ajustou casalla com o Archiduque -Carlos, mas desfez este ajuste a morte da Infanta, que foy buscar ao -Ceo outra coroa mais perduravel em 16 de Fevereiro de 1704. Jaz em S. -Vicente de Fóra.</p> - -<p>7 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Manoel</i> nasceo em Lisboa a -3 de Agosto de 1697. Para mostrar que no sangue Real Portuguez naõ -estava adormecida aquella natural aversaõ contra os sequazes da seita -de Mafoma, levado de hum sobrenatural impulso, e ardor militar, que -o naõ soffria conter nos limites da patria, naõ contando mais que -dezasete annos de idade, sahindo occultamente do porto de Lisboa em -4 de Novembro de 1715, passou a Hollanda, e daqui a Hungria, onde -militando sempre ao lado do famoso Principe Eugenio nas perigosas -batalhas de Peterwaradin, Temeswar, e Belgrado, obrou com tanto valor, -e desembaraço, que mais<span class="pagenum" id="Page_417">[Pg 417]</span> parecia Mestre, que discipulo de Marte. Depois -de serenadas as campanhas, e passando a ver algumas Cortes da Europa, -adquirindo ao seu augusto nome immortal fama, se restituio a Portugal -no anno de 1723, fazendo com as suas gloriosas proezas, que as Musas -tivessem heroico assumpto para os elogios, e as virtudes exercicio nos -seus louvaveis, e generosos empregos.</p> - -<p>9 <i>A Senhora Infanta Dona Francisca</i> nasceo em Lisboa a 30 de -Janeiro de 1699. Ornou-a a natureza liberalmente em gráo supremo de -huma formosura magestosa, alegre, affavel; de hum genio compassivo, -pio, magnifico; e por todos estes, e outros muitos virtuosos predicados -dominava esta Princeza o coraçaõ de todos, attrahindo a Nobreza, e o -povo a amalla, e adoralla tanto, que arrebatando-a o Ceo em 15 de Julho -de 1756, ainda cá na terra a saudade existe viva em nossa memoria. -Jazem as suas cinzas em S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>9 Teve ElRey D. Pedro fóra do matrimonio a <i>Senhora Dona Luiza</i>, -que nasceo a 9 de Janeiro de 1679. Criou-se em casa do Secretario -de Estado Francisco Correa de Lacerda, e de oito annos passou a viver -recolhida no Mosteiro de Carnide em companhia de sua tia a Senhora Dona -Maria. Em 14 de Mayo de 1695 se recebeo na Ermida de Nossa Senhora das -Necessidades com o Duque D. Luiz Ambrosio de Mello, filho do Duque de -Cadaval D. Nuno Alvares Pereira de Mello; porém morrendo o Duque D. -Luiz a 13 de Novembro de 1700, e ficando a Senhora Dona Luiza viuva, e -sem filhos, tornou a casar em 16 de Setembro de 1702 com seu cunhado -o Duque D. Jayme, do qual tambem naõ teve successaõ. Faleceo a 23 de -Dezembro de 1732, e jaz no Mosteiro de S. Joaõ Evangelista da Cidade de -Evora.</p> - -<p>10 <i>O Senhor D. Miguel</i> nasceo em Lisboa a 15 de Outubro de 1699. -Criou-se em casa do Secretario<span class="pagenum" id="Page_418">[Pg 418]</span> das Mercês Bartholomeu de Sousa Mexia, -onde aprendeo as bellas letras, como se houvera de as professar; e -unindo à intelligencia das artes liberaes outros muitos dotes heroicos, -conseguio justamente fazerse crédor de huma estimaçaõ universal. -ElRey D. Joaõ V. o reconheceo por seu irmaõ, e ordenou se lhe désse -tratamento de Alteza, fazendo-lhe muitas honras devidas ao seu sublime -nascimento. Casou em 30 de Janeiro de 1715 com Dona Luiza Casimira de -Sousa, herdeira da illustrissima Casa de Arronches, a quem ElRey D. -Joaõ V. fez a mercê das honras de Duqueza. Deste plausivel matrimonio -nasceo em 11 de Novembro de 1716 a Senhora <i>Dona Joanna Perpetua</i>, -a quem ElRey D. Joaõ V. concedeo as honras de Duqueza, e casou em 20 de -Setembro de 1738 com o quarto Marquez de Cascaes D. Luiz, que morrendo -em 14 de Março de 1745, ficou esta Senhora viuva, e sem successaõ. -<i>O Senhor D. Pedro de Bragança</i>, Duque de Lafões, nasceo em 19 -de Janeiro de 1718, foy Regedor das Justiças da Casa da Supplicaçaõ, -em que entrou no anno de 1749, e falleceo no de 1761, e o <i>Senhor -D. Joaõ de Bragança</i> nasceo em 6 de Março de 1719. Morreo em fim o -Senhor D. Miguel desgraçadamente, naufragando no Tejo em 13 de Janeiro -de 1724, e apparecendo o corpo a 5 de Fevereiro, foy conduzido ao -Convento de Santa Catharina de Ribamar, da Provincia da Arrabida, onde -jaz.</p> - -<p>11 <i>O Senhor D. Jofeph</i> nasceo a 6 de Mayo de 1703. Foy sagrado -Arcebispo de Braga a 5 de Fevereiro de 1741 pelo Eminentissimo Cardeal -Patriarca, e a 23 de Julho do referido anno fez a sua entrada publica -naquella Cidade com grandes festas, obsequios, e alegrias de seus -Cidadãos, onde depois de hum feliz governo acabou os seus dias.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_419">[Pg 419]</span></p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ V.</i></h3> - -<p>1 A <i>Serenissima Princeza Dona Maria Barbara</i> nasceo em Lisboa a 4 -de Dezembro de 1711. Desde a abençoada indole dos seus primeiros annos -se instruio com tanta perfeiçaõs nos solidos dictames da prudencia, e -das virtudes, que ainda hoje possue a gloria de ser venerada por huma -das Princezas mais benemeritas da attençaõ entre as expectaveis da -Europa. No anno de 1729, a 19 de Janeiro se desposou com o Serenissimo -Senhor D. Fernando, Principe das Asturias, passando a viver em Castella -com seu Regio esposo em reciproco affecto, e universal contentamento -dos Hespanhoes, até que a 27 de Agosto de 1758 foy gozar da eterna -Bemaventurança, como as suas virtudes nos persuadem.</p> - -<p>2 <i>O Principe D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 19 de Outubro de 1712. -Naõ viveo mais que dous annos, e dez dias, porque a 29 de Outubro de -1714 foy para o Ceo, e jaz seu corpo em S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>3 <i>O Serenissimo Principe D. Jofeph</i> successor na Coroa, e hoje -felizmente reinante.</p> - -<p>4 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Carlos</i> nasceo em Lisboa a 2 -de Mayo de 1716, e dando evidentes mostras de huma vasta capacidade -para acções heroicas, a sua intempestiva morte, supposto que succedida -depois de huma larga enfermidade, deixou a todos magoados em 30 de -Março de 1736. Jaz em S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>5 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 5 de -Julho de 1717. Sua Magestade o collocou na alta dignidade de Graõ Prior -do Crato, pondo nesta forma em praxe o grande conceito, que merece o -relevante de suas admiraveis prendas. A 6 de Junho de 1760 se recebeo -com a Serenissima Senhora<span class="pagenum" id="Page_420">[Pg 420]</span> Dona Maria Princesa da Beira, e herdeira -do Reino, sua sobrinha, na Capella Real de Nossa Senhora da Ajuda. De -cujo consorcio nasceo a 21 de Agosto do anno seguinte pelas 10 horas -da noite o Serenissimo Principe <i>D. Jofeph Francisco Xavier</i>, -e foy bautizado na Igreja do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda pelo -Cardeal Patriarca D. Francisco Saldanha, festejando-se tudo com muitos -repiques, e luminarias.</p> - -<p>6 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Alexandre</i> nasceo a 24 de -Setembro de 1723, e morreo de bexigas a 2 de Agosto de 1728. Jaz no -Convento de S. Vicente de Fóra.</p> - -<p>7 Teve o Senhor D. João V, fóra do matrimonio ao <i>Senhor D. -Antonio</i>, que nasceo em o primeiro de Outubro de 1714, ao <i>Senhor -D. Gaspar</i> em 8 de Outubro de 1716, o qual a 24 de Agosto de 1758 -foy sagrado Arcebispo de Braga, onde felizmente governa com o exemplo, -e justiça, de que nasce o affecto que todas as suas ovelhas lhe -tributaõ. Ao <i>Senhor D. Joseph</i> que nasceo a 8 de Setembro de -1720, e foy erecto em Inquisidor Geral pela Bulla <i>Cum Officium</i> -de Benedicto XIV. de 15 de Março de 1758.</p> - -<hr class="tb"> - - -<h3><i>Filhos delRey D. Jofeph I.</i></h3> - -<p>1 A <i>Serenissima Senhora Princeza da Beira Dona Maria Francisca</i> -nasceo a 17 de Dezembro de 1734, de quem já fallámos. A <i>Serenissima -Senhora Infanta Dona Maria Anna</i>, que nasceo a 7 de Outubro de 1736. -A <i>Serenissima Senhora Infanta Dona Maria Francisca Dorothea</i>, que -nasceo a 21 de Setembro de 1739. A <i>Serenissima Senhora Infanta Dona -Maria Francisca Benedicta</i>, que nasceo a 25 de Julho de 1746.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_770" href="#FNanchor_770" class="label">[769]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_771" href="#FNanchor_771" class="label">[770]</a> Estaço nas Antiguid. de Portug. cap. 12. n. 9. Duart. -Nun. Descripç. de Portug. cap. 89. Alvar. Ferr. de Vera Orig. da Nobr. -cap. 6. Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_772" href="#FNanchor_772" class="label">[771]</a> Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 23.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_773" href="#FNanchor_773" class="label">[772]</a> Idem liv. 8. cap. 27. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. -pag. 40</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_774" href="#FNanchor_774" class="label">[773]</a> Caram. Philip Prud. lib. 1 p.14. Monarq. Lusit. liv. l0. -cap. 33. e liv. 11. cap. 1. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40. e -seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_775" href="#FNanchor_775" class="label">[774]</a> Monarquia liv. 10. cap. 19. Vide Fastos da Lusit. tom. -1. pag 189.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_776" href="#FNanchor_776" class="label">[775]</a> Faria no Epitom. part. 3 cap. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_777" href="#FNanchor_777" class="label">[776]</a> Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 42. Duarte Nun. Chronic. -delRey D. Affons. Henriq. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 61.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_778" href="#FNanchor_778" class="label">[777]</a> Barbos. no Catalog. das Rainhas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_779" href="#FNanchor_779" class="label">[778]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 2. Sousa Histor. -Genealog. tom. 1. pag. 61.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_780" href="#FNanchor_780" class="label">[779]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_781" href="#FNanchor_781" class="label">[780]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 63.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_782" href="#FNanchor_782" class="label">[781]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 126. Cardos. Agiolog. -Lusit. tom. 3. a 17 de Junh. Sous. Histor. Genealog. tom. 1. p. 109.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_783" href="#FNanchor_783" class="label">[782]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa allegad. na -Histor. Geneal. tom. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_784" href="#FNanchor_784" class="label">[783]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 127. Sousa Histor. -Geneal. tom. 1. p. 100.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_785" href="#FNanchor_785" class="label">[784]</a> Ibid. p. 103. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 35. p 232.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_786" href="#FNanchor_786" class="label">[785]</a> Barbos. allegad. p. 127.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_787" href="#FNanchor_787" class="label">[786]</a> Monarq. Lusit. tom. 4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. -Geneal. tom. 1. liv. 1. cap. 9. Caram. Philipp. Prud. lib. 1. pag. 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_788" href="#FNanchor_788" class="label">[787]</a> Barbos. Catal. das Rainh. p. 127. Monarq. Lusitan. tom. -4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. cap. 9. Benedict. -Lusitan. tom. 2. p. 318. Garibay tom. 4. liv. 34. c. 15.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_789" href="#FNanchor_789" class="label">[788]</a> Barbos. no Catal. das Rainhas p. 134. Sous. Histor. -Geneal. tom. 1. p. 125.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_790" href="#FNanchor_790" class="label">[789]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 89. Benedictin. Lusit. -tom. 2. p. 318. Mariz Dial. 2. p. 93. Monarq. Lusit. liv. 13. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_791" href="#FNanchor_791" class="label">[790]</a> Monarq. Lusitan. liv. 14. cap. 24. Corograf. Port. tom. -2. p. 171.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_792" href="#FNanchor_792" class="label">[791]</a> Monarq. Lusitan. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. -Genealog. tom. 1. p. 91.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_793" href="#FNanchor_793" class="label">[792]</a> Monarq. Lusitan. liv. 15. cap. 35. Barbos. no Catalog. -das Rainh. p. 129. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 92.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_794" href="#FNanchor_794" class="label">[793]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 21.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_795" href="#FNanchor_795" class="label">[794]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 144. Barbosa no Catal. -das Rainh. p. 237.& seqq.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_796" href="#FNanchor_796" class="label">[795]</a> Monarq. Lusit. liv.13. cap.20. Sousa allegad. tom.1. -p.141.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_797" href="#FNanchor_797" class="label">[796]</a> Monarq. allegad.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_798" href="#FNanchor_798" class="label">[797]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 257.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_799" href="#FNanchor_799" class="label">[798]</a> Sous. Histor. Genealog. tom 1. p. 185. Monarq. Lusit -liv. 16. cap. 31. e tom. 6. p. 178. Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. -62.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_800" href="#FNanchor_800" class="label">[799]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 176. Monarq. Lusit. -liv. 16. cap. 48.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_801" href="#FNanchor_801" class="label">[800]</a> Cardos. a 6 de Junh.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_802" href="#FNanchor_802" class="label">[801]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 28.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_803" href="#FNanchor_803" class="label">[802]</a> Ibid. cap. 29. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 177. -Moreir. Theatr. Geneal. da Casa dos Sous. p. 319. diz, que este D. -Affonso Diniz naõ fora bastardo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_804" href="#FNanchor_804" class="label">[803]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. Emprez. Militar. -p. 13. Benedict. Lusit. part. 2. p. 322.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_805" href="#FNanchor_805" class="label">[804]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1 p. 177. Malt. Port. tom. 1. -liv. 2. cap. 6. n. 71.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_806" href="#FNanchor_806" class="label">[805]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e no Prol. da part.5. -Veja-se tambem a Leitaõ Ferr. nas Notic. Chronol. n. 71.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_807" href="#FNanchor_807" class="label">[806]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e cap. 36.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_808" href="#FNanchor_808" class="label">[807]</a> Idem ibid. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 179.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_809" href="#FNanchor_809" class="label">[808]</a> Cornej. Chronic. da Ord. tom 2. p. 61. Esperança Histor. -Serafic. liv. 5. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_810" href="#FNanchor_810" class="label">[809]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 180.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_811" href="#FNanchor_811" class="label">[810]</a> Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 210.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_812" href="#FNanchor_812" class="label">[811]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 286.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_813" href="#FNanchor_813" class="label">[812]</a> Monarq. Lusit. tom. 6. p. 271. e tom. 5. p. 39. e 270. -Agiol. Lusit. no primeiro de Janeiro. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p -237.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_814" href="#FNanchor_814" class="label">[813]</a> Idem ibid. p. 254. e seg. Rodrig. Mend. da Silv. Catal. -Real. Monarq. Lusitan. liv. 18. cap. 48.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_815" href="#FNanchor_815" class="label">[814]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 280.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_816" href="#FNanchor_816" class="label">[815]</a> Idem ibid. p. 281.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_817" href="#FNanchor_817" class="label">[816]</a> Salazar Casa de Lara tom. 1. liv. 3. cap. 8. §. 3. Torre -do Tombo liv. 3. delRey D. Diniz fol. 34. e fol. 36.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_818" href="#FNanchor_818" class="label">[817]</a> Garibay tom. 2. liv. 14. cap. 5. e 6. Barbos. no Catal. -das Rainh. p. 279.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_819" href="#FNanchor_819" class="label">[818]</a> Monarq. Lusit. liv. 18. cap. 32.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_820" href="#FNanchor_820" class="label">[819]</a> Zurit. Annaes de Aragaõ tom. 2. liv. 8. cap. 13. 14. e -42.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_821" href="#FNanchor_821" class="label">[820]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 295. Leitaõ Ferreir. -Notic. Chronol. num. 512. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 383. Garam. -Philipp. Prudent. p. 142. Far. no Com. de Cam. cant. 3. est. 101.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_822" href="#FNanchor_822" class="label">[821]</a> Faria Epitom. part. 3. cap. 9.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_823" href="#FNanchor_823" class="label">[822]</a> Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_824" href="#FNanchor_824" class="label">[823]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 387. e seg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_825" href="#FNanchor_825" class="label">[824]</a> Á cerca da verdadeira Mãy de D. Joaõ, Mestre de Aviz, -veja-se Joseph Soares da Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. e a D. -Antonio Caetano de Sousa no tom. 2. da Historia Genealogica da Casa -Real Portugueza.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_826" href="#FNanchor_826" class="label">[825]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 431. Monarq. Lusit. -tom. 8. p. 651. Duart. Nun. Descr. de Port. p. 139. Anno Historic. a 14 -de Mayo. Pint. Ribeir. nos Injust. Success. dos Reys de Leaõ §. 13.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_827" href="#FNanchor_827" class="label">[826]</a> Sous. allegad. p. 427.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_828" href="#FNanchor_828" class="label">[827]</a> Cunh. Histor de Brag. tom. 2. cap. 58. n. 1. Soares da -Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 45. n. 292.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_829" href="#FNanchor_829" class="label">[828]</a> Fernaõ Lopes Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 148. Nunes -Chronic. do mesmo Rey c. 101.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_830" href="#FNanchor_830" class="label">[829]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag.103. Vieira tom. 11. -num. 622. Sous. Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 15. Soares da -Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 75. e segg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_831" href="#FNanchor_831" class="label">[830]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p.115. e segg. Duart. -Nun. Descripç. de Port. p. 144</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_832" href="#FNanchor_832" class="label">[831]</a> Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 94. Sous. -Histor. de S. Doming. liv. 6. cap. 15. p. 332</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_833" href="#FNanchor_833" class="label">[832]</a> Nun. de Leaõ na Chron. delRey D. Duarte, e na Descr. de -Port. p. 120. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 3 a 5 de Junh. Sous. Histor. -de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 27. e 28. Soar. da Silv. Memor. delRey -D. Joaõ I. liv. 1. Sousa Histor. Geneal. tom. 2. liv. 3. cap. 6. Vasco -Mousinho no Affonso Africano cant. 4. est. 52 e segg.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_834" href="#FNanchor_834" class="label">[833]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 5. lib. 6. Per. Chron. dos -Carm. tom. 1. Lorena perseg. p. 405.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_835" href="#FNanchor_835" class="label">[834]</a> Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap 1 Barbos. no -Catal. das Rainh. Sous. Histor. Genealog. tom. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_836" href="#FNanchor_836" class="label">[835]</a> Faria Europ. Port. tom. 2. part. 3. cap. 2. n. 28. -Duarte Nun. Descr. de Port. p. 140. Sousa allegad.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_837" href="#FNanchor_837" class="label">[836]</a> Agiolog. Lusitan. tom. 3. a 17 de Junho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_838" href="#FNanchor_838" class="label">[837]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p. 661.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_839" href="#FNanchor_839" class="label">[838]</a> Benedict Lusit. tom. 1. p. 381. Per. Chron. dos Carm. -tom. 1. n. 1655. Corog. Port. tom.2. p. 341.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_840" href="#FNanchor_840" class="label">[839]</a> Fr. Luiz de Sous. Chron. de S. Dom. part. 2. liv. 5. -Agiol. Dom. a 12 de Mayo. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 2. p. 79.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_841" href="#FNanchor_841" class="label">[840]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap 8. e -131. Anno Historico a 12, e 13 de Julho. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. -cap. 4. Fonseca Evora gloriosa pag. 96.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_842" href="#FNanchor_842" class="label">[841]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 112. e -213. Goes Chron. delRey D. Manoel part. 1. cap. 45. Faria Europ. Port. -tom. 2. p. 492. n. 5. Leitaõ Miscelan. Dialog. 20. p. 632. Osor. de -reb. Emmau. lib. 1. cap. 1. Fr. Jeron. Rom. Histor. da Ordem Militar de -Santiago cap. 9. Anno Histor. a 12 de Agosto.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_843" href="#FNanchor_843" class="label">[842]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 282. Sous. Histor. -Geneal. tom. 3. p. 247. Duarte Nun. Descripç. de Port. p. 145. -Clensueg. Vid. de S. Francisco de Borja liv. 2. cap. 6. e 7. Anno -Historico no primeiro de Mayo. Barbos. nos Factos da Lusitan. a 21 de -Março.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_844" href="#FNanchor_844" class="label">[843]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 293. Barbos. nos Fact. -da Lusit. tom. 1. p. 108.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_845" href="#FNanchor_845" class="label">[844]</a> Damiaõ de Goes Chron. delRey D.Manoel part. 1. cap. 101. -Mariz Dial. 4. cap. 22. Telles part. 1. liv. 3. cap. 17. Sousa Histor. -Geneal. tom. 3. p. 357. Far. Epitom. part. 3. cap. 16 n. 9. Paul. Jor. -liv. 34. Tarcagnot Histor. del mondo part. 3. liv. 3. p. 170. Ilhescas -Histor. Pontif. part. 2. liv. 6. cap. 27. §. 1. Sandoval part. 2. liv. -22. §. 4. Anno Historic. a 12 de Julho.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_846" href="#FNanchor_846" class="label">[845]</a> Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 2. cap. -19. Faria Europ. Portug. tom. 2. part. 4. cap 1. n. 57. O Author do -Anno Historico assina superfluamente o nascimento deste Infante a 5 -de Julho, tendo já delle feito memoria a 5 de Junho, dia proprio, e -verdadeiro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_847" href="#FNanchor_847" class="label">[846]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 2. cap. 42. Agiol. -Lusitan. tom. 2. p. 658. e 666. Sous. na Histor. Geneal. Barb. nos -Factos da Lusit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_848" href="#FNanchor_848" class="label">[847]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 391.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_849" href="#FNanchor_849" class="label">[848]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. c. 79. Barbos. no -Catal. das Rainh. p 388. Rodrig. Mendes da Silv. Catal. Real p. 98. -Manoel de Galheg. Templo da fama liv. 4. est. 50. Sousa Histor. Geneal. -tom. 3. p. 421.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_850" href="#FNanchor_850" class="label">[849]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 396.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_851" href="#FNanchor_851" class="label">[850]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 459. Camões cent. -1. Sonet. 83. Joaõ de Barr. no Panegyric. desta Princeza, que vem no -fim das Noticias de Sever. Maced. Flores de Hespanh. cap 8. excell. -11. Santuar. Marian. tom. 2. Anno Histor. a 10 de Outubro. Duarte Nun, -Descr. da Port. p. 151.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_852" href="#FNanchor_852" class="label">[851]</a> Os eruditos irmãos Barbos. no Catal. das Rainh. p. 403. -e nos Fast. da Lusit. tom 1 p. 33. Cam. Eglog. 1. Sá de Miranda na -Elegia à morte deste Principe. Anton. Ferr. Eglog. 7. Luiz. Pereir. na -Elegiada cant. 1. p.11.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_853" href="#FNanchor_853" class="label">[852]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 539. Nicol. Anton. na -Bibliothec. Hisp. Barbos. na Bibliothec. Lusitan. tom. 1. p. 721.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_854" href="#FNanchor_854" class="label">[853]</a> Menezes Port. Restaurad. tom. 1. liv. 11. p. 796. Vieir. -tom. 13. p. 92. Agiol. Lusit. a 15 de Mayo. Os eruditos irmãos Barbos. -no Catal. das Rainh. p. 426. e nos Fastos da Lusitan. tom. 1. a 8 de -Fevereiro. Anno Historico tom. 2. p. 81.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_855" href="#FNanchor_855" class="label">[854]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 281. Anno Historic. -tom. 2. p. 98.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_856" href="#FNanchor_856" class="label">[855]</a> Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_857" href="#FNanchor_857" class="label">[856]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p 257. Barbos. nos Fast. -da Lusit. tom. 1. p. 464.</p> - -</div></div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_421">[Pg 421]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_IX">CAPITULO IX.<br><span class="small"><i>Do Governo antigo, e moderno da Casa Real.</i></span></h2> -</div> - - - -<p>1 Ainda que alguns Escritores nossos se inclinassem<a id="FNanchor_858" href="#Footnote_858" class="fnanchor">[857]</a> a que os -officios, com que se servio a Casa Real até ElRey D. Fernando, fossem -somente Mordomo da Corte, Alferes, e Trinchante,<a id="FNanchor_859" href="#Footnote_859" class="fnanchor">[858]</a> todavia varios -outros Officiaes tiveraõ muitos dos Reys, que lhe precederaõ, dos quaes -daremos breve informaçaõ por aquella ordem, que nos for lembrando, sem -darmos exacta preferencia aos taes officios, que requer a grandeza da -sua dignidade.</p> - -<p>2 <i>Modome Mór.</i> He entre todos os officios titulares da Casa -Real o que tem o primeiro lugar. No Regimento, que fez Gomes Annes -de Azurara, (se acaso naõ foy Martim Affonso de Mello) dos officios -Móres do Reino por mandado delRey D. Affonso V. que foy o Principe, -que reduzio a singular ordem a Fidalguia Portuguesa nos empregos de -Palacio, se lê, que em outras Cortes chamavaõ à preeminencia deste -officio <i>Senescal</i>, que vale o mesmo que <i>Senex calculi</i>, ou -Presidente das contas,<a id="FNanchor_860" href="#Footnote_860" class="fnanchor">[859]</a> porque<span class="pagenum" id="Page_422">[Pg 422]</span> a seu cargo toca tomallas de todas -as despezas dos Reys; porém Scipiaõ Amirato affirma, que Senescalco era -o Architriclino antigo, e que o officio de Mordomo Mór tivera origem no -Reino de França, donde se derivou a outras Cortes da Europa.</p> - -<p>3 Neste Reino devia começar com o Conde D. Henrique; porque em tempo -delRey D. Affonso seu filho assina, e confirma muitas vezes as doações -o Mordomo Mór Gonçalo Rodrigues. O que temos por infallivel he, que -esta dignidade andou sempre nos principaes Senhores de Portugal. ElRey -D. Diniz honrou com ella a seu filho illegitimo D. Affonso Sanches, -de quem foy summamente affeiçoado. O Conde D. Nuno Alvares Pereira -foy Mordomo Mór delRey D. Joaõ I. e assim a tiveraõ outros muitos -Cavalheros da primeira Nobreza.</p> - -<p>4 Além da superintendencia, que o Mordomo Mór tem na Casa Real, -entende particularmente em receber todos os criados, e moradores -della; e porque antigamente em lugar do verbo <i>Tomar</i> se dizia -<i>Filhar</i>, conserva ainda hoje esta palavra, chamando-se a estas -recepções <i>Filhamentos</i>. Os Fóros, que ha na Casa Real, em que -entraõ os novamente filhados saõ elles: <i>Moços da Camera</i>, -<i>Moços da Guardaroupa</i>, <i>Escudeiros Fidalgos</i>, <i>Cavalleiros -Fidalgos</i>, <i>Moços Fidalgos</i>, <i>Fidalgos Escudeiros</i>, -<i>Fidalgos Cavalleiros</i>, <i>Fidalgos do Conselho</i>.</p> - -<p>4 No foro de <i>Moços Fidalgos</i> filha o Mordomo Mór aos filhos, e -netos dos já filhados, ou a outros, a quem ElRey faz mercê de novo, -ainda que seus antepassados naõ fossem filhados. O filhamento dos -primeiros he ordinario, porque naõ se póde negar ao filho do criado -delRey o foro, e moradia de seu pay. Chegando os Moços Fidalgos a -vinte annos, os accrescentaõ a <i>Fidalgos Escudeiros</i>; e depois -sendo armados Cavalleiros em algum acto de guerra, lhe daõ foro -de <i>Fidalgos Cavalleiros</i>; porém nisso póde haver dispensa -com facilidade. O ultimo<span class="pagenum" id="Page_423">[Pg 423]</span> accrescentamento he de <i>Fidalgos do -Conselho</i>, porém naõ he accrescentamento ordinario, nem os filhos -o podem requerer, mas ElRey dá este titulo a quem lhe parece, e anda -annexo a todos os Arcebispos, e Bispos, Priores Móres de Aviz, e -Santiago, a todos os Inquisidores do Conselho Geral do Santo Officio, -a todos os Condes, Desembargadores do Paço, Chancelleres da Casa da -Supplicaçaõ de Lisboa, e Relaçaõ do Porto, e Chanceller Mór, Reitor -da Universidade de Coimbra, Governador do Algarve, aos Governadores -das Praças de Africa, Brasil, e Angola, e presentemente o concedeo Sua -Magestade aos setenta e dous Mon-Senhores Prelados da Santa Igreja -Patriarcal.</p> - -<p>6 Os moradores da Casa delRey, que naõ entraõ por Moços Fidalgos, -saõ tomados por <i>Moços da Camera</i>, e depois se accrescentaõ a -<i>Escudeiros Fidalgos</i>, e ultimamente a <i>Cavalleiros</i> com a -terceira, ou quarta parte mais de moradia, conforme suas qualidades. Os -Moços da Capella, Porteiros, Resposteiros, e toda a mais gente daqui -para baixo tem accrescentamento ordinario a Escudeiro sómente, e esse -menor, e de quantia certa.</p> - -<p>7 O foro dos <i>Fidalgos Cavalleiros</i>, que sómente se dava em algum -famoso acto militar, mais era dignidade que foro, e começou neste -Reino a ser accrescentamento ordinario depois da tomada de Alcacere, -como diz Gomes Annes de Azurara; porque até entaõ como o Reino estava -sem Conquistas, naõ havia ocasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante -honra; e os que hiaõ buscalla fóra do Reino, eraõ poucos, e por isso -esta dignidade era taõ estimada, que todos os Principes daquelle -tempo a procuravaõ alcançar com grande cuidado: assim lemos que -para este effeito vieraõ a Hespanha, e Portugal grandes Senhores em -varios tempos; e os que nesta parte alcançaraõ mayor gloria, foraõ os -nossos Infantes, filhos delRey D. João I. porque<span class="pagenum" id="Page_424">[Pg 424]</span> só com este intento -emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceuta, e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe, -a de Arzilla.</p> - -<p>8 Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas, -quando alguma Personagem subia ao novo titulo, como fez ElRey D. Pedro -I. quando creou Conde de Barcellos a D. Joaõ Affonso Tello, seu grande -privado,<a id="FNanchor_861" href="#Footnote_861" class="fnanchor">[860]</a> para o qual acto mandou fazer cinco cirios, que outros -tantos homens tiveraõ nas mãos toda a noite, que o Conde velou as armas -no Convento de S. Domingos de Lisboa, estando postos em duas alas desde -a Igreja até os Paços do Castello. ElRey D. Affonso V. armou Cavalleiro -a seu irmaõ o Infante D. Fernando com tanta solemnidade, que o menor -apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil -tochas, que levavaõ quatrocentos Cavalleiros, e seiscentos Escudeiros -dos mais luzidos da Corte todos vestidos de huma libré, e traje.</p> - -<p>9 <i>Camareiro Mór</i> he o segundo officio da Casa Real, conforme a -distribuiçaõ, que lhe assina a Ordenaçaõ do Reino.<a id="FNanchor_862" href="#Footnote_862" class="fnanchor">[861]</a> Chamava-se -esta dignidade em tempo dos Imperadores Romanos <i>Primicerius sacri -cubiculi</i>. Os Reys Godos intitularaõ ao Camareiro Mór <i>Comes -cubicularius</i>, e havia outros, a que chamavaõ Condes do cubiculo, -que eraõ os que agora saõ os Gentis-homens da Camera.<a id="FNanchor_863" href="#Footnote_863" class="fnanchor">[862]</a></p> - -<p>10 Esta dignidade começou mais tarde neste Reino, pois no governo -delRey D. Affonso III. he a primeira vez, que se encontra este titulo -em Joaõ Fernandes; e antes que a houvesse, fazia este offcio o -Reposteiro Mór. Sua particular obrigaçaõ he vestir, e despir a pessoa -delRey, aos pés de<span class="pagenum" id="Page_425">[Pg 425]</span> cujo leito costumava dormir. Ultimamente andou -este officio na familia dos Sás, Condes de Penaguiaõ, e Marquezes de -Abrantes, que exercitava com o titulo de Camarista, ou Gentil-homem da -Camera em companhia de outros, que todos servem às semanas, e trazem -chave dourada.<a id="FNanchor_864" href="#Footnote_864" class="fnanchor">[863]</a></p> - -<p>11 <i>Guarda Mór da Casa.</i> Desta dignidade se faz mençaõ no -Regimento dos officios móres delRey D. Affonso V. o qual ordena, que o -Guarda Mór traga sempre vinte Cavalleiros para guarda da pessoa delRey, -que o acompanhem em toda a parte. Na Chronica delRey D. Manoel escreve -Damiaõ de Goes,<a id="FNanchor_865" href="#Footnote_865" class="fnanchor">[864]</a> que o dito Rey, em quanto viveo, tivera sempre -guarda da Camera, e dos Ginetes, de que muito se prezava. Constava a -sobredita guarda de vinte e quatro Cavalleiros dos mais assinalados -da Corte, que dormiaõ no Paço junto da Camera delRey, e na mesma casa -dormiaõ tambem alguns Moços Fidalgos, e na outra sala outros tantos -Moços do monte. Na guarda dos Ginetes havia duzentos Cavalleiros muito -valentes, que armados com lanças, e adargas, acompanhavaõ a ElRey para -onde hia.</p> - -<p>12 Tanto que ElRey se deitava na cama, antes de se lhe correr a -cortina, entrava o Guarda Mór, e via a ElRey, e entaõ corria a cortina -o Sumilher; e sahiaõ para fóra. Fechava o Guarda Mór a porta, e junto -della se lhe fazia a cama, onde dormia, e mais afastado se seguiaõ as -camas dos outros Fidalgos da guarda. Pela manhã, quando ElRey chamava, -entrava o Guarda Mór com o Sumilher; este levantava a cortina, e o -Guarda Mór assistia ao vestir delRey. Este costume se usou até<span class="pagenum" id="Page_426">[Pg 426]</span> o -tempo delRey D Sebastiaõ,<a id="FNanchor_866" href="#Footnote_866" class="fnanchor">[865]</a> e o officio expirou em Pedro de Mendoça -Furtado no reinado delRey D. Joaõ IV. que depois naõ se tornou mais a -prover.</p> - -<p>13 <i>Reposteiro Mór.</i> Chamavaõ os Romanos a este officio <i>Comes -Castrensis</i>, e presidia aos Castrensianos, que punhaõ a meza ao -Imperador; aos Lampadarios, que tratavaõ das luzes, que de noite havia -no Paço; aos Cellarios, que tinhaõ cuidado na despensa, e a outros -muitos. Neste Reino serve de chegar a cadeira, ou almofada a ElRey, -quando se assenta, ou poem de joelhos; e preside aos Reposteiros, -cujos officios provê. Anda hoje esta dignidade na Casa do Conde de -Castello-Melhor, que a herdou por morte de Bernardim de Tavora.</p> - -<p>14 <i>Veador da Casa.</i> O primeiro Veador, de que ha noticia neste -Reino, he de Egas Moniz em tempo do invicto Rey D. Affonso Henriques; -e os mais, que se lhe seguiraõ, foraõ sempre Cavalheros de grande -caracter.<a id="FNanchor_867" href="#Footnote_867" class="fnanchor">[866]</a> Estava a seu cargo naõ só o governo total das oxarias, -mas grande parte do regimen da Casa Real, porque servia inteiramente -o officio de Mordomo Mór, quando este por qualquer ausencia, ou -molestia faltava no Paço: assim o determinou ElRey D. Affonfo V. no -seu Regimento,<a id="FNanchor_868" href="#Footnote_868" class="fnanchor">[867]</a> e se vê tambem no da Fazenda,<a id="FNanchor_869" href="#Footnote_869" class="fnanchor">[868]</a> estylo, que em -muitos Reinos he estabelecido.<a id="FNanchor_870" href="#Footnote_870" class="fnanchor">[869]</a></p> - -<p>15 Ha muitos exemplos de servirem os Veadores o officio de Mordomo Mór, -como foy Vasco Annes Corte-Real pelos annos 507, 512, e 515; Ruy Lopes -em 527, e 529; D. Francisco de Sousa em 541, Thomé de Sousa em 551, D. -Diogo<span class="pagenum" id="Page_427">[Pg 427]</span> Lopes de Lima em 570, e Damiaõ Borges em 579, sendo estes tempos -comprehendidos nos governos dos Senhores Reys D. Manoel, D. Joaõ III. -D. Sebastiaõ, e D. Henrique. Na mesma fórma continuou Francisco Barreto -no tempo delRey Filippe II.</p> - -<p>16 He verdade que servindo o Veador Francisco Barreto de Mordomo Mór, -se moveraõ entre elle, e o proprietario varias duvidas. Primeira sobre -qual delles havia de levar o ordenado de Mordomo Mór. Segunda como -se havia de dizer nos Alvarás: <i>Eu ElRey faço saber a vós F. meu -Mordomo Mór</i>; ou <i>F. meu Veador, que hora servis de meu Mordomo -Mór</i>. Terceira, se quando tornava a servir o Mordomo Mór, lhe havia -de entregar o Veador as Consultas, e mais papeis, que, quando tinha -servido, despachara, ou se haviaõ de ficar em seu poder. Resolveo-se -que ambos levassem o ordenado de Mordomo Mór; que nos Alvarás se -dissese: <i>Veador, que servis de Mordomo Mór</i>; e que os papeis -fossem todos para o Cartorio, em que costumavaõ estar.</p> - -<p>17 Em todo o tempo dos Senhores Reys D. Joaõ IV., e D. Affonso VI. -governavaõ os Veadores às semanas pela precisa, e continua assistencia, -que faziaõ no Paço, assistindo aos comeres de Suas Magestades, e naõ -mandando os ditos Senhores fazer nem ainda para si cousa alguma, -que naõ fosse ordenando-o vocalmente ao Veador de semana, e este -aos Officiaes subalternos. Quando as pessoas Reaes estavaõ doentes, -eraõ obrigados a assistir nas juntas dos Medicos, para verem o que -lhe mandavaõ comer, e receitar. Aos Veadores tocava o mando de todos -os Officiaes pertencentes à meza delRey: elles tinhaõ o governo dos -Moços da Camera: a seu cargo estava a enfermaria, onde se curavaõ os -criados pobres; e nas jornadas, que os Reys faziaõ, corriaõ com todos -os gastos inteiramente, e era totalmente<span class="pagenum" id="Page_428">[Pg 428]</span> sua a disposiçaõ. No governo -do Serenissimo Senhor D. Pedro II. como se servia com os Camaristas, -e comia pela Casa da Rainha, e as despezas ordinarias se faziaõ pela -do Infantado, quasi ficaraõ sem exercicio os Veadores. Anda hoje este -officio nas Casas dos illustrissimos Condes do Redondo, e Assumar, e D. -Francisco Xavier de Sousa.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_858" href="#FNanchor_858" class="label">[857]</a> Naõ fazem mençaõ de outros Officiaes até o dito tempo -Fr. Antonio Brandaõ, Ruy de Pina, e Duarte Nunes, sendo estes dos mais -principaes Chronistas entre os nossos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_859" href="#FNanchor_859" class="label">[858]</a> Os que contaõ em hum dos tres officios ao Trinchante, he -porque entendem que isto significava <i>Dapifer</i>; mas enganaõ-se, -porque este officio corresponde ao de Veador, entre o qual, e o de -Mordomo Mór naõ havia antigamente differença. Danet. in Diction. antiq. -Roman. verb. <i>Comes.</i> Castr. Palat. Ducange verb. <i>Dapifer</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_860" href="#FNanchor_860" class="label">[859]</a> Veja-se a Bluteau no vocab. <i>Mordomo Mór</i>, e -<i>Senescal</i>, e a Gil Gonçalves Davila no Theatro de las grandezas -de Madrid p. 313. Nunes de Castro no livro <i>Solo Madrid es Corte</i> -liv. 1. cap. 10. Villasboas na Nobiliarq. Port. cap 12. Lima Geograf. -Histor. tom. 1. p. 481. Solan. Succo de Pegas tom. 2. p. 376. verb. -<i>Æconomus</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_861" href="#FNanchor_861" class="label">[860]</a> Faria na Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 4. num. 22.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_862" href="#FNanchor_862" class="label">[861]</a> Orden. liv. 3. tit. 5. no princip.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_863" href="#FNanchor_863" class="label">[862]</a> Petr. Pantin. de Offic. Regis domus Gothor. Garm. -Theatr. de Hesp. tom. 3. p. 143 e 223.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_864" href="#FNanchor_864" class="label">[863]</a> Vide Gil Gonçalv. Theatr. de las grandez, de Madrid p. -315. Peg. à Orden. tit. 13. liv. 3. tit. 5. gloss. 2. n. 64. Barbos. -à dit. Orden. n. 2. Carv. in cap. Raynald. de test. part. 1. n. 364. -Villasboas Nobiliarq. Port. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_865" href="#FNanchor_865" class="label">[864]</a> Goes part. 4. cap. 84.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_866" href="#FNanchor_866" class="label">[865]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 552. Lim. Geograf. -Histor.tom. 1. p. 444. Veja-se a Argote no Discurso da Montaria Real -cap. 6. e a D. Franc. Xavier de Garma no Theatr. Univ. de Hesp. t. 3. -c. 14.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_867" href="#FNanchor_867" class="label">[866]</a> Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 5. e liv. 10. cap. 4. Chron. -del Rey D.Joaõ I. cap. 68.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_868" href="#FNanchor_868" class="label">[867]</a> No tit. de Mordomo Mór.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_869" href="#FNanchor_869" class="label">[868]</a> Cap. 241.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_870" href="#FNanchor_870" class="label">[869]</a> L’Etat de la France, e de la Gran Bretaña. Ethiquetas de -Hespanha.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_X">CAPITULO X.<br><span class="small"><i>Dos Officiaes, e ordem, com que se assistia à meza dos Reys.</i></span></h2> -</div> - - -<p>1 Costumavaõ os Senhores Reys deste Reino comer ordinariamente em -publico, e com magestoso apparato desde o tempo delRey D. Affonso V. -que imitou a seu tio o Infante D. Pedro.<a id="FNanchor_871" href="#Footnote_871" class="fnanchor">[870]</a> Assistia à meza hum -<i>Trinchante</i>, que cortava. Até o tempo delRey D. Joaõ III. foy -hum só, depois se accrescentou mais outro, e no reinado delRey D. Joaõ -IV. houveraõ tres Trinchantes de tres differentes Casas. Hoje anda na -de D. Antonio Alvares da Cunha, Senhor da Taboa, e na de D.Joseph de -Vasconcellos e Sousa, que herdou este officio por casar com huma filha -herdeira de Diogo de Brito Coutinho.<a id="FNanchor_872" href="#Footnote_872" class="fnanchor">[871]</a> Á maõ direita do Trinchante -ficava o <i>Uchaõ</i>, e junto com elle o Servidor da toalha. Da parte -esquerda se seguia o <i>Mantieiro</i>.</p> - -<p>2 Traziaõ os Moços da Camera as iguarias, vindo diante o <i>Prestes -da Cozinha</i>, que he hum accrescentado, e nas festas grandes o -<i>Mestre-Sala</i>. Davaõ-se os pratos ao Servidor da toalha, que os -punha<span class="pagenum" id="Page_429">[Pg 429]</span> na meza, e o Uchaõ os chegava para o Trinchante por ordem, -conforme se havia de comer. Depois de trinchados os que eraõ para iso, -fazia a salva o Servidor da toalha, e o Trinchante os chegava a ElRey; -e tanto que ElRey comia, os tirava o Mantieiro, e metia outros, e -novamente guardanapo.</p> - -<p>3 <i>Uchaõ</i> he o que tinha cuidado de mandar guardar a caça na -ucharia, ou dispensa da Casa Real, e por isso parece que se lhe deu -o nome de Uchaõ, tomado de <i>Uccello</i>, que em italiano significa -passaro. O officio de <i>Copeiro Mór</i>, a que os Godos chamavaõ -Conde das Escancias, ou <i>Comes scanciarum</i>, que he o mesmo, que -se dissessemos Conde das bebidas, he o que dá o pucaro de agua a ElRey -para beber, e anda hoje este officio na Casa do Conde de Villa-Flor. -Quando ElRey lhe fazia sinal, hia buscar o pucaro à porta da casa, -onde ElRey comia, e lho entregava o Copeiro menor; e tornando a entrar -acompanhado do mesmo Copeiro, e dous Porteiros da cana, que faziaõ -suas cortezias, e se punhaõ de joelhos, chegava o Copeiro Mór à meza, -dava o pucaro a ElRey, que acabando de beber, o tomava, estando até -entaõ inclinado sobre a meza, tendo a salva debaixo do pucaro. Depois -se levantava, e tres pés atraz fazia a cortezia, e dava o pucaro ao -Copeiro menor, que o levava à copa acompanhado dos Porteiros.</p> - -<p>4 Nas solemnidades grandes se fazia este acto com muito mayor -ceremonia; porque hiaõ diante os Porteiros da maça dous e dous, os -Reys de armas, Arautos, e Passavantes, o Porteiro Mór, Mestre-Sala, -Veador da Casa, os Védores da Fazenda, e detraz de todos o Mordomo Mór, -e todos hiaõ descubertos até o estrado, onde faziaõ suas cortezias. -Os Védores da Fazenda tiravaõ os chapeos no meyo da sala, e o Mordomo -Mór até o fazer da cortezia, que juntamente a fazia, e tirava o<span class="pagenum" id="Page_430">[Pg 430]</span> -chapeo, e neste tempo se tocavaõ os intrumentos musicos. Este mesmo -acompanhamento se fazia nas primeiras, e ultimas iguarias, que vinhaõ -à meza, e quando traziaõ a fruta.<a id="FNanchor_873" href="#Footnote_873" class="fnanchor">[872]</a> Todos estes Officiaes, que -assitiaõ à meza, levavaõ certas iguarias de gajes da copa, as quaes -eraõ de tanta importancia, que mandando ElRey D. Filippe II. que lhas -dessem a dinheiro, se lhes arbitrarão por ellas grossos ordenados.</p> - -<p>5 Todos os Senhores, que assistiaõ à meza, estavaõ em pé encostados à -parede, e nenhum dos Grandes tinha assento, porém cubriaõ-se os que -tinhaõ esse privilegio. Á roda da meza estavaõ de joelhos os Moços -Fidalgos; e quando no fim vinha a confeiteira, repartia ElRey com elles -dos doces, e frutas.<a id="FNanchor_874" href="#Footnote_874" class="fnanchor">[873]</a> Em quanto os Reys comiaõ, costumavaõ praticar -com os Fidalgos, principalmente com aquelles, que tinhaõ andado fóra -do Reino; e com os doutos, que sempre estavaõ presentes, se excitavaõ -questões curiosas, e uteis.</p> - -<p>6 Muitas vezes nos Domingos, e dias Santos jantavaõ, e ceavaõ com -musicas; e nas Festas principaes com atabales, e trombetas. Vespera de -Natal consoava ElRey em publico com todo o estado, e entretanto davaõ -de cear a todos os Escudeiros, e Fidalgos, que estavaõ na sala. Depois -mandavaõ de consoar às Damas, e aos Officiaes delRey se lhes mandava -a suas casas. Os Moços da Camera consoavão na Guarda-reposta, e aqui -mesmo se dava consoadas aos Capellães, e daqui para baixo até os moços -da estribeira, e do monte.</p> - -<p>7 O fausto, e grandeza, com que ElRey D. Joaõ II. celebrou as vodas -de seu filho o Principe D. Affonso com a Senhora Dona Isabel, -especialmente nos banquetes, que deu em Evora, foraõ taõ<span class="pagenum" id="Page_431">[Pg 431]</span> notaveis, -que nos obriga a transcrever o mais raro delles pelas formaes palavras -do seu Chronista Garcia de Resende cap. 113. o qual diz: <i>Logo à -entrada, da meza veyo huma grande carreta dourada, e traziaõ-na dous -grandes boys assados inteiros com cornos, e mãos, e pés dourados, e o -carro vinha cheyo de muitos carneiros assados inteiros com os cornos -dourados, e vinha tudo posto num cadafalso taõ baixo com rodetas -no fundo delle, que naõ se viaõ, que os boys pareciao vivos, e que -andavaõ. E diante vinha hum Moço Fidalgo com huma aguilhada na maõ, -picando os boys, que parecia que andavaõ, e levavaõ a carreta, e vinha -vestido como carreteiro com hum pelote, e hum gaibaõ de veludo branco -forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia proprio -carreteiro, e assim foy oferecer os boys, e carneiros à Princeza, -e feito o serviço, os tornou a virar com sua aguilhada por toda a -sala até sahir fóra, e deixou tudo ao povo, que com grande grita, -e prazer foraõ espedaçados, e levava cada hum quanto mais podia. E -assim vieraõ juntamente a todas as mezas muitos pavões assados com -os rabos inteiros, e os pescoços, e cabeça com toda sua penna, que -pareceraõ muito bem, por serem muitos, e outras muitas sortes de aves, -e caças, manjares, e frutas, tudo em muito grande abundancia, e muita -perfeiçaõ.</i></p> - -<p>8 A ultima vez, que as Magestades Portuguezas comeraõ em publico, foy -quando veyo de Alemanha a Rainha Dona Maria Anna de Austria. A primeira -cea, e jantar se deu na casa da galé, e foy de grande esplendor, -disposiçaõ, asseyo, e apparato. Tinha a meza de comprido quatorze -palmos e meyo, e de largo seis e meyo. Constava de quatro cubertas de -vinte e hum pratos cada huma: as tres primeiras de cozinha, e a ultima -de doces, e frutas. A disposiçaõ era nesta formalidade, segundo o -mappa, que vimos em casa do Excellentissimo Conde do Redondo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_432">[Pg 432]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006"> -<img src="images/006.png" class="w50" alt="Lugar na mesa"> -</span></p> -<p class="poetry"> - A Lugar do talher delRey Nosso Senhor. -<br><br> - B Lugar do talher da Rainha nossa Senhora. -<br><br> - C Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Francisco. -<br><br> - D Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Antonio. -<br><br> - E Lugar do guardanapo da Senhora Infanta Dona Francisca. -<br><br> - F Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Manoel. -<br><br> - G Primeiro aviamento de trinchar. -<br><br> - H Segundo aviamento de trinchar. -<br><br> - I Moços Fidalgos com abanos. -<br><br> - L Lugar do Veador. -<br><br> - M Lugar do Mantieiro. -<br><br> - N Lugar do primeiro Trinchante. -<br><br> - O Lugar do segundo Trinchante. -<br><br> - P Lugar do Servidor da toalha. -<br><br> - Q Lugar do Mestre-Sala. -<br><br> - R Lugar do Copeiro Mór. -<br><br> - S Lugar do Escrivaõ da cozinha. -<br><br> - TT Dous Moços da Camera com pratinhos. -<br><br> - VV Moços da Camera, que servem à Meza.<span class="pagenum" id="Page_433">[Pg 433]</span> -<br><br> XX Lugar dos Titulos. -<br><br> - ZZ Lugar dos Officiaes da Casa. -<br><br> - YY Fysico Mór, e Cirurgião Mór. -<br><br> - KK Lugar das Senhoras, que acompanharaõ a Rainha nossa Senhora. -<br><br> - ** Girandulas, ou serpentinas de luzes. -</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_871" href="#FNanchor_871" class="label">[870]</a> Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 125. Soares da -Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. p. 366.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_872" href="#FNanchor_872" class="label">[871]</a> Lim. Geograf. Histor. tom. 1. p. 511. Sous. Grandes de -Portug. p. 279.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_873" href="#FNanchor_873" class="label">[872]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D.Joaõ II. cap. 123.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_874" href="#FNanchor_874" class="label">[873]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 4. cap. 84.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XI">CAPITULO XI.<br><span class="small"><i>Do acompanhamento, com que os Reys sahiaõ pela Cidade, e caminhavaõ -com a Corte.</i></span></h2> -</div> - - - -<p>1 Quando os Reys caminhavaõ pela Cidade, hiaõ nesta fórma: Os Porteiros -da cana, e os Reys de armas precediaõ a todos a cavallo, e descubertos. -Depois os Moços da estribeira tambem descubertos. Seguia-se o -Estribeiro Mór a cavallo, e cuberto. Dahi a espaço a pessoa delRey; e -atrás delle todos os Fidalgos a cavallo cubertos sem ordem. Só havendo -algum Infante, ou Senhor grande, hia este mais chegado à Pessoa delRey, -conforme o parentesco. Sendo dia solemne, hiaõ os trombetas, e timbales -diante delRey.</p> - -<p>2 Na Cidade naõ usaraõ alguns Reys de guarda. ElRey D. Joaõ II. e -ElRey D. Manoel a traziaõ: já ElRey D. Joaõ III. muitas vezes usava -sahir fóra só com dous Porteiros da cana diante de si, a que alludio -Francisco de Sá e Miranda, quando disse:<a id="FNanchor_875" href="#Footnote_875" class="fnanchor">[874]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Que se póde ir mais à vante</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Com quanto alcança o sentido,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Sem ferro, ou fogo, que espante,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Com duas canas diante</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>His amado, e his temido.</i></span><br> -</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_434">[Pg 434]</span></p> -<p>ElRey D. Sebastiaõ pelos muitos estrangeiros, que havia em Lisboa, -introduzio a guarda de pé de Alabardeiros Portuguezes, e naõ Tedescos, -com seu Capitaõ Fidalgo dos principaes. ElRey Filippe II. admittio -guarda Tedesca, e a deixou ao Archiduque Alberto, depois do qual se -continuou com os Governadores, e Vice-Reys. ElRey D. Joaõ IV. fez duas -Companhias de guarda, huma de Alemães, outra de Portuguezes, como -explica o douto, e diligente Padre D. Luiz de Lima.<a id="FNanchor_876" href="#Footnote_876" class="fnanchor">[875]</a></p> - -<p>3 Tinhaõ por costume os Senhores Reys ir fóra todos os Domingos depois -de jantar ver correr a carreira, e algumas vezes elles mesmos a -corriaõ.<a id="FNanchor_877" href="#Footnote_877" class="fnanchor">[876]</a> Para isto se ajuntavaõ além dos familiares do Paço muita -outra gente dos contornos, onde ElRey estava, e corriaõ diante delle a -cavallo. Eraõ os Reys taõ benignos, e humanos, que quando hiaõ pelas -ruas, e viaõ alguns homens nobres à porta, se detinhaõ, e fallavaõ com -elles.<a id="FNanchor_878" href="#Footnote_878" class="fnanchor">[877]</a> Honravaõ tanto a seus criados, que a alguns hiaõ levar -a suas casas em dia de noivado: assim se lê delRey D. Joaõ III. que -recebendo-se nos Paços dos Estáos (hoje da Inquisiçaõ) Dona Maria de -Menezes com o avô de D. Antaõ de Almada, sahio ElRey acompanhando-a, -atravessou o Rocio, e chegou até à esquina das casas de D. Braz da -Silveira; e apontando para as dos Almadas, lhe disse galantemente: -<i>Dona Maria, até aqui cheguey para vos mostrar as vossas casas, -porque vos naõ enganassem, e levassem a outras.</i><a id="FNanchor_879" href="#Footnote_879" class="fnanchor">[878]</a></p> - -<p>4 Quando ElRey hia fóra da Corte, o acompanhavaõ ordinariamente os -moradores da sua Casa, Conselho de Estado, e outra muita gente, que -o seguia, assim por este respeito, como por seus requerimentos, e -despachos; pelo que em qualquer parte, que a Corte estava, havia tanta -frequencia,<span class="pagenum" id="Page_435">[Pg 435]</span> como em huma boa Cidade, e por isso ordenaraõ que a Corte -trouxesse comsigo todos os Officiaes assim politicos, como de justiça, -que saõ necessarios para o governo de huma Republica. Eraõ estes o -Aposentador Mór, Almotacé Mór, Correyo Mór, Corregedores do Crime da -Corte, Corregedores do Civel com seus Officiaes de justiça inferiores.</p> - -<p>5 O Aposentador Mór tem por obrigaçaõ ir diante da Corte hum, ou dous -dias, para ter prevenido o alojamento delRey; porque he costume antigo -neste Reino aposentarem os moradores de qualquer povo a ElRey, e sua -Corte, dando a metade das casas para se recolherem os que acompanhaõ a -ElRey. Esta distribuiçaõ de aposentos faz o Aposentador Mór, e he Juiz -de todas as duvidas, que sobre esta materia occorrerem. Hoje anda este -Officio na Casa dos illustrissimos Condes de Santiago.<a id="FNanchor_880" href="#Footnote_880" class="fnanchor">[879]</a></p> - -<p>6 Ao Almotacé Mór pertence prover a Corte, onde quer que estiver, de -mantimentos, e para isso tem grande jurisdiçaõ, que se extende cinco -leguas da Corte. Antes que ElRey faça jornada para alguma parte, manda -adiante fazer promptos os mantimentos, e convocar certo numero de -Regatões, que chamaõ da Corte, cujos officios elle dá, os quaes tem -por obrigaçaõ prover a Corte de caça, e do mais preciso, com tanto que -naõ tragaõ os mantimentos dos povos cinco leguas à roda do lugar, onde -a Corte está; e para ser provida melhor, quando a Corte está fóra de -Lisboa, se quita meya ciza a quaesquer outros Regatões, a que fóra das -cinco leguas trazem mantimentos. Anda este cargo de Almotacé Mór em -Joaõ Gonçalves da Camera Coutinho.<a id="FNanchor_881" href="#Footnote_881" class="fnanchor">[880]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_436">[Pg 436]</span></p> - -<p>7 Ao Correyo Mór compete prover de cavalgaduras para os moradores -da Corte caminharem, e pôr as postas ordinarias no Reino; e quando -ElRey corre a posta, serve elle de Postilhaõ. Despacha os Correyos -ordinarios de pé, e cavallo, assim para o Reino, como para fóra delle. -A propiedade deste officio concedeo D. Filippe II. e confirmou ElRey D. -Joaõ de juro e herdade à Familia dos Matas.<a id="FNanchor_882" href="#Footnote_882" class="fnanchor">[881]</a> Nestas jornadas usavaõ -os Reys às vezes de guarda cavalleiros, e particularmente a trazia -ElRey D. Joaõ II. a quem sempre acompanhava o Capitaõ dos Ginetes com -ella. ElRey D. Manoel lhe accrescentou o numero, que faziaõ duzentos -Cavalleiros, que com o mesmo Capitaõ lhe precediaõ sempre.</p> - -<p>8 Com a mudança de governo houve tambem mudanças na formalidade da -guarda Real. Para idéa da que hoje se pratica nas funções solemnes, -mostraremos brevemente a ordem, com que as Pessoas Reaes caminharaõ de -Elvas para o Caya em 19 de janeiro de 1729 para as reciprocas entregas, -e desposorios dos Principes, e Princezas. Principiava aquelle vistoso -acompanhamento por mais de quarenta coches dos Fidalgos titulares -do Reino, a mayor parte delles tirados a seis frizões. Seguia-se -huma partida de quinze Cavalleiros com hum Alferes, vinte e quatro -trombetas, e atabaleiros da Casa Real vestidos de veludo carmesim -apassamanados de galões de ouro. Logo os cavallos de maõ dos Infantes -D. Francisco, e D. Antonio cubertos de telizes de veludo verde bordados -de ouro, e trinta delRey, do Principe, e do seu Estribeiro Mór. Depois -marchava hum Tenente com quinze cavallos, e logo doze postilhões -de gabinete com fardas de panno encarnado com alamares de prata. -Seguiaõ-se muitos coches, e berlindas, em que hiaõ<span class="pagenum" id="Page_437">[Pg 437]</span> muitos Officiaes -do Paço de mayor graduaçaõ. Logo os coches de respeito dos Infantes, -da Princeza, do Principe, e delRey, e ultimamente o coche magnifico, -em que hia a Familia Real, e atrás delle muitos moços da estribeira a -cavallo, e sete berlindas com as Camareiras Móres, e outras Senhoras, -e cento e trinta seges da Familia, e no fim de tudo hum esquadraõ de -guarda com quinhentos cavallos, que desde Lisboa foraõ acompanhando a -ElRey, e governavaõ quatro Fidalgos da primeira Nobreza. Naõ fallamos -na magnificencia, e magestosa pompa desta jornada mais extensamente, -porque se póde ver nos Authores allegados;<a id="FNanchor_883" href="#Footnote_883" class="fnanchor">[882]</a> só advertimos, que -para esta funçaõ mandou ElRey que a libré antiga da Serenissima Casa -de Bragança, que era de panno silvado de verde e branco guarnecida de -galões de prata, se mudasse sómente para a sua Casa Real, da Rainha, e -Principes do Brasil na cor, de que usaraõ os antigos Reys, que era de -panno encarnado com os cabos, e vesteas azuis agaloadas de prata, e aos -Archeiros da guarda da mesma cor com a differença de serem os galões de -ouro.<a id="FNanchor_884" href="#Footnote_884" class="fnanchor">[883]</a></p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_875" href="#FNanchor_875" class="label">[874]</a> Sá de Mirand. Epist. 1.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_876" href="#FNanchor_876" class="label">[875]</a> Lim. Geogr. Histor. part. 1. p. 399.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_877" href="#FNanchor_877" class="label">[876]</a> Goes Chronic. delRey D. Manoel p. 341.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_878" href="#FNanchor_878" class="label">[877]</a> Clede tom. 3. pag. mihi 421. na vida delRey D. Joaõ II.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_879" href="#FNanchor_879" class="label">[878]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 4. p. 258.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_880" href="#FNanchor_880" class="label">[879]</a> Veja-se a Pegas à Orden. t. 13 add. t. 5. gloss. 2. num. -100. Far. no Epitom. pag. mihi 665. Villasb. na Nobiliarq. Port. cap. -12. Lima Geogr. Histor. tom. 1. pag. 337. Navarret. Conservac. de las -Monarq. cap. 20.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_881" href="#FNanchor_881" class="label">[880]</a> Orden. liv. 1. tit. 18.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_882" href="#FNanchor_882" class="label">[881]</a> Corogr. Portug. tom. 3. p. 390.</p> - -</div></div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XII">CAPITULO XII.<br><span class="small"><i>Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das principaes -coutadas do Reino.</i></span></h2> -</div> - -<p>1 O Exercicio da caça assim de volateria, como de montaria foy -sempre a mais ordinaria recreaçaõ dos Reys Portuguezes, para a qual -mantinhaõ<span class="pagenum" id="Page_438">[Pg 438]</span> com grande pompa Officiaes, e Caçadores, que fossem destros, -e intelligentes em semelhantes artes.<a id="FNanchor_885" href="#Footnote_885" class="fnanchor">[884]</a> Do Infante D. Duarte, -filho delRey D. Manoel, se conta,<a id="FNanchor_886" href="#Footnote_886" class="fnanchor">[885]</a> que era nelle taõ dominante -este divertimento, que naõ reparava em descommodo algum só para matar -hum veado, chegando muitas vezes a dormir vestido no campo exposto à -inclemencia do tempo. Continuou este passatempo até o reinado delRey D. -Sebastiaõ; depois conforme o genio, e inclinaçaõ dos Principes assim -hia crescendo, ou diminuindo.</p> - -<p>2 Quanto aos Officiaes para este ministerio, he o <i>Monteiro Mór</i> -o que preside aos mais ministros da caça, o qual aceita todos os -Monteiros de cavallo, e de pé, e moços do monte, de que ElRey se -serve. Havia tambem <i>Caçador Mór</i> para a caça de volateria, e -<i>Falcoeiro Mór</i> para a que se fazia com falcões. Hoje todas estas -tres occupações unidas ao officio de Monteiro Mór andaõ na Familia dos -Mellos.<a id="FNanchor_887" href="#Footnote_887" class="fnanchor">[886]</a></p> - -<p>3 As coutadas antigas do Reino em tempo delRey D. Affonso V. occupavaõ -grande quantidade de terra, e por isso pediraõ os povos a ElRey D. -Joaõ II. nas Cortes de Montemór o Novo, que descoutasse parte dellas -para os campos se poderem aproveitar, e se escusarem os damnos, que as -caças silvestres faziaõ nas sementeiras. ElRey como Principe taõ amante -de seus vassallos o consentio, e descoutou muitas terras. O mesmo fez -ElRey D. Manoel nas Cortes de Lisboa de 1498,[4] e Filippe II. no anno -1594,<a id="FNanchor_888" href="#Footnote_888" class="fnanchor">[887]</a> descoutou as montarias de Palmella, a de Montemór o Novo, a -de Montemor o Velho,<span class="pagenum" id="Page_439">[Pg 439]</span> e a de Aveiro, ordenando que naõ houvesse mais -coutadas que as de Lisboa, Cintra, Collares, Almeirim, e Salvaterra.</p> - -<p>4 A coutada de Lisboa principiava das portas de Santo Antaõ, estrada -direita até o Lugar de Bemfica, e de Bemfica até Agualva, e da Agualva -a S. Marcos, e de S. Marcos a Oeiras, e daqui direito ao mar. As de -Cintra, e Collares tinhaõ duas leguas em circuito ao redor de cada -huma das ditas Villas. As de Almeirim, e Salvaterra principiava a sua -demarcaçaõ de Santo Eustacio direito pela estrada de aguas vivas acima -até as Simalhas, e dahi atravessando até a ribeira de Muja por cima da -mouta das Corvas, e atravessando a dita ribeira para o Zebro, e arneiro -dos Cruzentes, e daqui às Bezerras: dahi atravessando a ribeira da -Lamarosa direito às Cortezinhas, e das Cortezinhas à Erra, depois pela -estrada de Coruche, e pela mesma estrada abaixo até S. Romaõ, e logo a -Santo Estevaõ, atravessando a ribeira de Canha direito para as casas de -Belmonte, e dahi ao longo das terras do Duque até a ponta da mata de -Payo Real, que parte as lavouras, e daqui pela banda do Tejo a Santo -Eustacio.<a id="FNanchor_889" href="#Footnote_889" class="fnanchor">[888]</a></p> - -<p>5 Naõ obstante isto, ficou sempre conservando as montarias de -<i>Santarem</i>, que constaõ de muito mais de vinte e seis matas, com -outras de particulares: as de <i>Alenquer</i>, as de <i>Obidos</i> -com quinze matas, e outras particulares: as de <i>Leiria</i> com o -famoso pinhal de quatro leguas de comprido, e huma de largo: as de -<i>Pombal</i>, as de <i>Coimbra</i>, as de <i>Coruche</i>, as de -<i>Benavente</i>, e as de <i>Alcacere do Sal</i>, onde junto ao rio, -que vay para a dita Villa, ha hum pinhal de huma legua de comprido, e -de largo hum quarto de legua bastecida de muita caça.</p> - -<p>6 As mais notaveis coutadas, que servem hoje<span class="pagenum" id="Page_440">[Pg 440]</span> de divertimento aos -Principes de Portugal, são as dos sitios de <i>Alcantara</i>, e -<i>Belém</i> abundantes de perdizes, lebres, coelhos, e gamos: a -de<i>Cintra</i>, que se extende por dilatados bosques, cujo sitio -excede em qualidades a todos os do Reino, e chega até a Villa de -Cascaes, fertil todo o seu terreno de perdizes, lebres, coelhos, e -de certa especie de caça de arribação, que a fertiliza nos mezes de -Setembro, e Outubro. Ao Sul da serra de Cintra da parte opposta do rio -corre a serra da Arrabida, taõ povoada de todo o genero de caça, e em -particular de veados, que além de serem os mayores de toda a Hespanha, -excedem em quantidade a outras coutadas do Reino, com tanto commodo -para os Caçadores, quantas saõ as quintas, e casas de campo, que tem o -seu assento nos vistosos, e fertilissimos sitios de Azeitaõ, Cezimbra, -e Calhariz, situadas nas margens, e visinhanças da mesma serra.</p> - -<p>7 Para o tempo de Inverno he a celebre coutada de <i>Pancas</i>, tres -leguas de Lisboa da outra banda do rio, taõ fertil de todo o genero -de caça, que em pouca distancia da terra costuma entreter muitos -Caçadores. Tanta he a abundancia, e variedade, que no mesmo tempo se -occupaõ os Monteiros em correr à lança grandes javalis, e generosos -veados, e os Caçadores em tirar às perdizes, correr às lebres, e matar -os coelhos, além de outra muita caça de arribaçaõ, que concorre às -lagoas, e pantanos daquelle sitio. Com pouca mais distancia de leguas -no termo da grande Villa de Setubal nas ribeiras do rio Sado estaõ as -duas grandes coutadas do <i>Pinheiro</i>, e <i>Palma</i>, notaveis -pela abundancia de veados, e porcos montezes muito pingues, e grande -quantidade de perdizes, lebres, coelhos, e outras variedades de caças.</p> - -<p>8 Apartadas de Lisboa dez, e quatorze leguas se seguem as Reaes -Casas de campo de <i>Salvaterra</i>, e <i>Almeirim</i>, que pelo -Tejo acima se communicaõ<span class="pagenum" id="Page_441">[Pg 441]</span> por mar, sendo o caminho de terra facil, -ameno, e commodo pelo assento, e concurso de muitos lugares vistosos, -que em toda aquella distancia se vaõ continuando por huma povoaçaõ -successiva, onde a Corte se entretinha todos os annos por espaço -de quarenta dias com diversos exercicios de passatempo.<a id="FNanchor_890" href="#Footnote_890" class="fnanchor">[889]</a> Saõ -ferteis de veados, porcos, e toda a especie de caça; commodas para as -montarias de cavallo; faceis para as caçadas de lança, e de espigarda; -abundantes nas volaterias; dispostas para o entretenimento das Damas -com tal commodidade, que dos mesmos coches vem alancear os porcos, -matar os veados, correr as lebres, apanhar os coelhos. e voar as -aves tão suavemente, e sem fadiga, que na mayor distancia se escusa -todo o desvelo, porque a fecundidade do sitio facilita os exercicios -igualmente a quem os vê, e a quem os segue.</p> - -<p>9 De mais destas grandes coutadas se aparta de Lisboa em distancia de -trinta leguas aquella mais celebre da Serenissima Casa de Bragança, que -com o nome de <i>Tapada</i> tem o seu assento em <i>Villa Viçosa</i>, -aonde os javalis saõ ferozes, e muitos, e em grande quantidade os -veados, e muita caça miuda, que ainda sendo o sitio fertil por -natureza, os sustenta por maravilha.<a id="FNanchor_891" href="#Footnote_891" class="fnanchor">[890]</a> Porém melhor que todas he a -<i>Tapada Real de Mafra</i>, depois que se acabaraõ de fechar os seus -muros pela circumvalaçaõ de tres leguas, servindo para mayor grandeza, -e divertimento as Ermidas, bosques, rios, pontes, e outras officinas, -que ha dentro do seu circuito, tudo igualmente magnifico, e perfeito.</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_883" href="#FNanchor_883" class="label">[882]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 8. p. 286. Barbos. nos Fast. -da Lusit. tom 1. p. 229.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_884" href="#FNanchor_884" class="label">[883]</a> Veja-se o livrinho Francez intitulado: <i>Description de -la Ville de Lisbonne</i> pag. 82.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_885" href="#FNanchor_885" class="label">[884]</a> Diogo Fernandes na Arte da caça de altanaria pag. 4.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_886" href="#FNanchor_886" class="label">[885]</a> Dam. de Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. cap. 78. -Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 424.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_887" href="#FNanchor_887" class="label">[886]</a> Vide Solano Succo de Peg. tom. 3. p. 413. Cabedo decis. -90. part. 2. Ord. liv. 3. tit. 5. e gloss. 2. n. 115. Villasboas -Nobiliarq. Portug. cap. 12.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_888" href="#FNanchor_888" class="label">[887]</a> Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. -26.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_889" href="#FNanchor_889" class="label">[888]</a> Veja-se o Regimento do Monteiro Mór.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_890" href="#FNanchor_890" class="label">[889]</a> Luiz Mendes de Vasconcel. no Sitio de Lisboa p. 207. -Nicol. de Oliveir nas Grandez. de Lisb. trat. 2. cap. 5. Brand. Monarq. -Lusit. liv. 16. cap. 41 e liv. 18 cap. 2. Sous. Histor. de S. Doming. -part. 2. pag. 256.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_891" href="#FNanchor_891" class="label">[890]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 5. p. 559. e tom. 6. p. 408.</p> - -</div></div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_442">[Pg 442]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII.<br><span class="small"><i>Do estylo, com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ -recebidos pelos nossos Reys, e do modo, com que estes assistem no acto -das Cortes.</i></span></h2> -</div> - - -<p>1 Dos estylos, que os Reys tinhaõ no recebimento de outros grandes -Principes, que vinhaõ ao Reino, ha poucos exemplos, por serem raras as -vezes, que isto aconteceo em Portugal; e ainda que algumas memorias -referem, que ElRey D. Affonso II. de Castella veyo a este Reino pedir -a ElRey D. Affonso IV. o soccorro, com que o foy ajudar na batalha -de Tarifa, com tudo naõ se escrevem as ceremonias, que neste acto -passaraõ. E quando ElRey D. Pedro de Castella expulso fóra do Reino por -seu irmaõ veyo a Portugal valerse delRey D. Pedro I. naõ se vio com -elle; porque como os nossos Principes em razaõ, e respeito de estado -o naõ quizeraõ ajudar, evitaraõ as vistas, e o mandaraõ acompanhar -sómente por alguns Fidalgos principaes do Reino até à raya de Galiza; -porém he facil de entender que em semelhantes occasiões seriaõ tratados -nos recebimentos das Cidades com as mesmas ceremonias dos Reys -naturaes, pois assim em Castella, e em França se fez o mesmo aos Reys -deste Reino.</p> - -<p>2 Em tempo delRey D. Fernando veyo a este Reino Aymon, Conde de -Cambrix, Infante de Inglaterra, trazendo comsigo a Infanta Dona Isabel -sua mulher, e filha delRey D. Pedro de Castella, por cujo respeito o -Conde pertendia aquelle Reino. Chegados os Infantes a Lisboa, ElRey os<span class="pagenum" id="Page_443">[Pg 443]</span> -foy visitar à náo, e desembarcados foraõ fazer oraçaõ à Sé, indo todos -a pé, e levando ElRey a Infanta pelo braço. Á vinda montaraõ todos a -cavallo, e ElRey, por ser grande cortezaõ, levou a infanta de redea até -S. Domingos, onde havia ordenado que pousassem.<a id="FNanchor_892" href="#Footnote_892" class="fnanchor">[891]</a></p> - -<p>3 No anno de 1670 veyo à Corte de Lisboa o Graõ Duque de Toscana Cosme -III. e se aposentou no Collegio de Santo Antaõ. Fallou com ElRey D. -Pedro em audiencia particular com a formalidade seguinte: Entrou às -oito horas da noite pelo picadeiro da Corte Real em hum coche de -respeito de Sua Alteza, e D. Joaõ de Sousa, Védor da Casa Real, o veyo -buscar com doze Moços da Camera com tochas; e depois de responder ao -cumprimento de D. Joaõ de Sousa, mandou cubrir os Moços da Camera; e -subindo pela escada recondita, o veyo buscar huns poucos de degráos -abaixo o Gentil-homem da Camera, que estava de semana, do Principe -Regente, a cuja presença o conduzio, e em cuja Camera estava huma cama -rica de téla azul, hum bofete cuberto, e huma cadeira. O Principe -Regente o recebeo com agrado, dando os passos necessarios para chegar -ao meyo da casa; e tornando para o seu lugar, disse ao Graõ Duque: -<i>Cubra-se V. Alteza</i>; e no discurso da conversaçaõ lhe deu sempre -o tratamento de Vós, e o Graõ Duque ao Principe Regente o de Magestade. -Os Gentis-homens da Camera sahiraõ para fóra; e quando o Duque se -despedio, o Principe deu os mesmos passos, e elle foy acompanhado da -mesma fórma, que no principio.<a id="FNanchor_893" href="#Footnote_893" class="fnanchor">[892]</a></p> - -<p>4 Tambem no anno de 1688 veyo incognito a Lisboa o Principe Jorge -Augusto de Saxonia, que depois foy Rey Augusto II. de Polonia, e -fallou<span class="pagenum" id="Page_444">[Pg 444]</span> a ElRey D. Pedro com quasi a mesma formalidade.<a id="FNanchor_894" href="#Footnote_894" class="fnanchor">[893]</a></p> - -<p>5 O recebimento dos Embaixadores se fazia com muita solemnidade. -Mandava-os ElRey acompanhar ao Paço no dia da audiencia por Fidalgos -da primeira Nobreza, segundo a graduaçaõ, e grandeza dos Principes, -de que eraõ enviados; e entrando pela casa, onde ElRey os esperava, -se levantava ElRey da cadeira, e punha a maõ no chapeo, e tornava -a abaixalla; e encostando-se no braço da cadeira, lhe vinhaõ os -Embaixadores beijar a maõ, e lhes tomava as cartas de crença, e em -pé os ouvia até os despedir. Depois para tratar dos negocios, a que -vinhaõ, se lhes dava audiencia em casa particular em cadeira raza com -alcatifa por cima.<a id="FNanchor_895" href="#Footnote_895" class="fnanchor">[894]</a></p> - -<p>6 As Cortes em Portugal correspondem às Assembleas de França, Dietas de -Alemanha, e Parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos tres Estados do -Reino, Ecclesiastico, Nobreza, e Povo, aos quaes costuma ElRey convocar -para as determinações publicas, e de grandes interesses. Juntaõ-se as -pessoas dos tres Estados em huma sala ricamente adornada: na cabeceira -della se levanta hum estrado de seis degráos com a elevaçaõ de sete -palmos, que he para o throno delRey: na parte inferior arrimados -à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem -os chamados, que saõ os Titulos, Prelados, Senhores de terras, e -Procuradores das Cidades, e Villas.</p> - -<p>7 Principia este acto com a assistencia delRey, o qual costuma vir -com oppa rossagante de brocado, e Cetro de ouro na maõ. Vem diante -delle o Condestavel do Reino com o estoque levantado, e mais adiante o -Alferes Mór com a bandeira Real enrolada, precedendo os Reys de armas, -Arautos,<span class="pagenum" id="Page_445">[Pg 445]</span> e Passavantes vestidos em cottas, onde se vê bordado o escudo -do Reino. A estes antecedem os Porteiros com maças de prata; e se o -acto he de juramento de algum Principe, precedem a tudo os atabales, -e clarins. Chegando ElRey à cadeira, se accommodaõ todos nos seus -assentos determinados.</p> - - -<p class="center caption"><i>Preferencia dos Procuradores das Cidades, e Villas do Reino, que tem -assento em acto de Cortes.</i></p> - -<p class="center caption"><i>Bancos.</i></p> -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">1  Porto, Evora, Lisboa, Coimbra, Santarem, Elvas.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">2  Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">3  Lagos, Faro, Leiria, Béja, Guimarães, Estremoz, Olivença.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">4  Portalegre, Bragança, Thomar, Montemór o Novo, Covilhã, Setubal, Miranda.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">5  Ponte de Lima, Vianna, Foz de Lima, Villa-Real, Moura, Montemór o Velho.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">6  Cintra, Torres Novas, Alenquer, Obidos, Alcacere, Almada.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">7  Niza, Torres Vedras, Castellobranco, Aveiro.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">8  Mouraõ, Serpa, Villa do Conde, Trancozo.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">9  Aviz, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">10  Alter do Chaõ, Freixo de Espada à cinta, Valença, Monçaõ, Alegrete.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">11  Castello Rodrigo, Castello de Vide, Penamacor, Marvaõ, Certã.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">12  Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Mayor.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">13  Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmella, Cabeço de Vide.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">14  Barcellos, Coruche, Monsanto, Gravaõ, Panoias, Ourem.</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_446">[Pg 446]</span><span style="margin-left: 1em;">15  Arrayolos, Ourique, Albofeira, Borba, Portel.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">16  Atouguia, Monsarás, Villa Viçosa, Penela, Santiago de Cacem.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">17  Vianna junto de Evora, Villa-Nova de Cerveira, Porto de Mós, Pombal. </span><br> -<span style="margin-left: 1em;">18  Alvito, Mertola.</span><br> -</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_892" href="#FNanchor_892" class="label">[891]</a> Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 2. cap. 5. n. 63.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_893" href="#FNanchor_893" class="label">[892]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 2. p. 441.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_894" href="#FNanchor_894" class="label">[893]</a> Sousa Histor. Genealog. tom 7 p. 694.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_895" href="#FNanchor_895" class="label">[894]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 77. p. -50. vers. Chron. delRey D. Joaõ III. part. 1. Cap. 25. Far. na Europ. -Port. part. 4. cap. 2. n. 26.</p> - -</div> - -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV.<br><span class="small"><i>Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys.</i></span></h2> -</div> - - - -<p>1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da -gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas -mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e -acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta -ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa -era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de -pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos -misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom -tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que -introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre -o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando -faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.<a id="FNanchor_896" href="#Footnote_896" class="fnanchor">[895]</a></p> - -<p>2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey -D. Fernando,<a id="FNanchor_897" href="#Footnote_897" class="fnanchor">[896]</a> até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da -Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,<a id="FNanchor_898" href="#Footnote_898" class="fnanchor">[897]</a> conservando-se -porém ainda até o tempo delRey<span class="pagenum" id="Page_447">[Pg 447]</span> D. Manoel o luto de burel branco, -porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se -vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.<a id="FNanchor_899" href="#Footnote_899" class="fnanchor">[898]</a> -Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se -despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia -se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos -de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo -tempo os sinos.</p> - -<p>3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva -seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava -huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo -luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno -acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que -lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais -publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns -degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro -Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para -o povo, dizia tres vezes em voz alta: <i>Ouvide</i>, <i>ouvide</i>, -<i>ouvide.</i> Logo o primeiro Vereador dizia estas palavras, que -levava escritas: <i>Choray, povo, choray a morte do vosso Rey, que -vos governou com justiça, e amor de pay</i>. E subindo o escudo sobre -a cabeça, o deixava cahir em terra, e se quebrava. Com as mesmas -circunstancias se repetia a mesma ceremonia pelos outros Vereadores, -levantando ao mesmo tempo o povo grandes clamores, e prantos. Depois -caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ ao funeral, que tambem se -fazia com aquella expressaõ de pena, e dor, que merecia a grandeza da -perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de Resende, e outros Chronistas -antigos, que as descrevem com miudeza.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_448">[Pg 448]</span></p> - -<p>4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da -Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas -mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa -os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro -no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no -Rocio.<a id="FNanchor_900" href="#Footnote_900" class="fnanchor">[899]</a> As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se -tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe -D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de -Resende;<a id="FNanchor_901" href="#Footnote_901" class="fnanchor">[900]</a> porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se -executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas -breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:<a id="FNanchor_902" href="#Footnote_902" class="fnanchor">[901]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Tot mundi Principes, tanta potentia:</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>In ictu oculi clauduntur omnia.</i></span><br> -</p> - - -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_896" href="#FNanchor_896" class="label">[895]</a> Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 44. e liv. 22. cap. 52.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_897" href="#FNanchor_897" class="label">[896]</a> Ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_898" href="#FNanchor_898" class="label">[897]</a> Ibid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_899" href="#FNanchor_899" class="label">[898]</a> Soar. da Silv. Memorias delRey D. Joaõ I. n. 153.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_900" href="#FNanchor_900" class="label">[899]</a> Monarq. Lusitan. part 7. liv. 5. cap 1. Far. Europ -Portug tom. 2. part. 1. cap. 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_901" href="#FNanchor_901" class="label">[900]</a> Resend. cap. 131. e 133.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_902" href="#FNanchor_902" class="label">[901]</a> Drexelio no Prodrom. æternitat. cap. 3. §. 3. n. 4.</p> -</div> -</div> - -<p class="center p4">FIM.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_449">[Pg 449]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="INDICE_DAS_COUSAS_NOTAVEIS_deste_primeiro_Tomo">INDICE DAS COUSAS NOTAVEIS <br><i>deste primeiro Tomo.</i></h2> -</div> - -<p class="center caption"><b>A</b></p> - - -<p><i>Abrantes</i>, antigamente se chamava <i>Tubuci</i>, pagin. <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Abundancia</i> da Provincia do Minho, <a href="#Page_47">47</a>.</p> - -<p><i>Academia Real</i> da Historia Portuguesa por quem foy instituida, -<a href="#Page_353">353</a>.</p> - -<p><i>Açumar</i>, ou Alegrete se chamava <i>Ad septem aras</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso VI.</i> Rey de Castella, suas conquistas, <a href="#Page_271">271</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso Henriques</i> onde nasceo, <a href="#Page_286">286</a>. Alcançou milagrosamente -saude da Senhora de Carquere por supplicas de Egas Moniz, <a href="#Page_287">287</a>. Elle -mesmo se armou Cavalleiro na Igreja Cathedral de Çamora, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i> -Excluio sua mãy do Governo por força de armas, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i> Ganhou -huma batalha na Veiga de Valdevez, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i> Triunfou de cinco -Reys Mouros confederados no campo de Ourique, onde lhe appareceo -Christo crucificado, dando-lhe o Escudo das Armas de Portugal, <a href="#Page_288">288</a>. He -acclamado Rey pelo seu exercito, cujo titulo confirmou o Papa Alexandre -III. <a href="#Page_289">289</a>. Mostra-se a verdade da appariçaõ de Christo, <i><a href="#Page_289">ibid.</a></i> -Responde se aos argumentos oppostos, <a href="#Page_290">290</a>. Offerece D. Affonso Henriques -por liberal tributo à Sé Apostolica dous marcos de ouro, <a href="#Page_291">291</a>. E a -Santa Maria de Claraval cinco escudos cada ano, <a href="#Page_292">292</a>. Edificou cento e -cincoenta Templos, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i> Inftituio<span class="pagenum" id="Page_450">[Pg 450]</span> as Ordens Militares da Aza, -e de Aviz, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i> Casou com a Rainha Dona Mafalda, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i> -Filhos que teve, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i>, e <a href="#Page_378">378</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_293">293</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso II.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Gordo</i>, quando, e -onde nasceo, <a href="#Page_296">296</a>. Foy livre prodigiosamente de hum achaque por virtude -de Santa Senhorinha, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i> Teve grande parte na victoria das -Navas contra os Mouros, auxiliando a ElRey de Castella, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i> -Intentou usurpar as terras que eraõ de suas irmãs, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i> -Conquistou aos Mouros Alcacer do Sal, e defendeo Elvas, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i> -Filhos que teve, <a href="#Page_384">384</a>. Quando morreo, e onde jaz seu corpo, <a href="#Page_297">297</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso III.</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Bolonhez</i>, -casou com a Condessa Matilde, <a href="#Page_299">299</a>. Conquistou o Algarve, <i><a href="#Page_299">ibid.</a></i> -Reduzio a seu dominio algumas terras de Andaluzia, <a href="#Page_300">300</a>. Repudiou sua -legitima mulher, e casou com Dona Brites filha natural delRey D. -Affonso de Castella, <i><a href="#Page_300">ibid.</a></i> Disturbios que houve no Reino por -este motivo, <i><a href="#Page_300">ibid.</a></i> Fez violencias ao Estado Ecclesiastico, mas -sujeitou-se às Censuras dos Pontifices, <a href="#Page_301">301</a>. Edificou os Conventos -de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, e Santa Clara de Santarem, -<i><a href="#Page_301">ibid.</a></i> Alimpou o Reino de facinorosos, <i><a href="#Page_301">ibid.</a></i> Filhos que -teve, <a href="#Page_385">385</a>. Quando morreo, e onde jaz, <a href="#Page_301">301</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso IV.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Bravo</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_306">306</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_306">ibid.</a></i> Foy excessivo no exercicio -da caça, <i><a href="#Page_306">ibid.</a></i> Ajudou na batalha do Salado a ElRey de Castella, -<a href="#Page_307">307</a>. Fez por duas vezes mudar os Estudos publicos de Lisboa para -Coimbra, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Reedificou a Sé, estabelecendo nella varias -Capellanias, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Consentio que matassem a Dona Ignez de -Castro, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_389">389</a>. Quando morreo, e onde jaz, -<a href="#Page_307">307</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso V.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Africano</i>,<span class="pagenum" id="Page_451">[Pg 451]</span> -quando nasceo, <a href="#Page_320">320</a>. Onde foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_320">ibid.</a></i> Dá batalha ao -Infante D. Pedro seu irmaõ em o sitio de Alfarrobeira, <a href="#Page_321">321</a>. Passou a -Africa onde ganhou muitas Praças aos Mouros, de que se lhe originou o -titulo de Africano, <a href="#Page_322">322</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_322">ibid.</a></i> Contendeo com D. -Fernando de Aragaõ que o desbaratou na batalha de Toro, <i><a href="#Page_322">ibid.</a></i> -Passou a França a varias negociações, e intenta ir ver os Lugares -Santos de Jerusalem, <a href="#Page_323">323</a>. Foy muy liberal, e o primeiro que ajuntou -livraria em Palacio, <i><a href="#Page_323">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_400">400</a>. Onde morreo, e -onde jaz, <a href="#Page_324">324</a>.</p> - -<p><i>D. Affonso VI.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Victorioso</i>, -quando nasceo, <a href="#Page_346">346</a>. Foy acclamado Rey, e quando tomou posse, -<i><a href="#Page_346">ibid.</a></i> Alcançou contra Castella muitas victorias, especialmente -a do Amexial, Canal, e Montes claros, <i><a href="#Page_346">ibid.</a></i> Entregou-se todo -às disposições de hum Antonio Conti, que o desencaminhava, <a href="#Page_347">347</a>. Casou -com a Princeza Dona Maria Francisca Isabel de Saboya, <i><a href="#Page_347">ibid.</a></i> -Separou-se della por nullidade do Matrimonio, <i><a href="#Page_347">ibid.</a></i> Foy deposto -do governo, e em seu lugar se admittio o Principe D. Pedro seu irmaõ, -<i><a href="#Page_347">ibid.</a></i> Onde morreo, e onde jaz, <a href="#Page_348">348</a>.</p> - -<p><i>Aguas celenas</i>, povoaçaõ antiga, onde ficava, <a href="#Page_5">5</a>. -—<i>Flavias</i>, onde existiu, <a href="#Page_6">6</a>. —<i>Layas, <a href="#Page_6">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Agualva</i>, antigamente se chamou <i>Ceciliana</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Alanos</i>, seu dominio, <a href="#Page_256">256</a>.</p> - -<p><i>Albofeira</i>, terra do Algarve, <a href="#Page_37">37</a>.</p> - -<p><i>Alcacere do Sal</i> antigamente <i>Salacia</i>, <a href="#Page_29">29</a>. He ganhada aos -Mouros por ElRey D. Affonso II. <a href="#Page_297">297</a>.</p> - -<p><i>Alcoutim</i>, onde existe, <a href="#Page_37">37</a>.</p> - -<p><i>Alentejo</i>. Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_72">72</a>.</p> - -<p><i>Alenquer</i>, antigamente se chamava <i>Jerabrica</i> <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Alfayates</i>, Praça na Beira, <a href="#Page_40">40</a>.</p> - -<p><i>Algarve</i>. Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_77">77</a>.</p> - -<p><i>Almeida</i>, Praça na Beira, <a href="#Page_40">40</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_452">[Pg 452]</span></p> - -<p><i>Almorol</i>, antigamente <i>Moro</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Alpalhaõ</i>, antigamente <i>Fraxinum</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Alvor</i>, antigamente chamado <i>Portus Anibalis</i>, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Ambracia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_7">7</a>.</p> - -<p><i>Anibal</i>, suas acções em Portugal, <a href="#Page_238">238</a>.</p> - -<p><i>D. Antonio</i> Prior do Crato, de quem foy filho, e se oppoem à -successaõ do Reino de Portugal, <a href="#Page_337">337</a>. Foy acclamado Rey em Santarem, -<a href="#Page_339">339</a>. Entrou em Lisboa com o mesmo titulo, <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i> He destruido -pelo Duque de Alva na ponte de Alcantara junto a Lisboa, <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i> -Morreo em Pariz. <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Araduca</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_7">7</a>.</p> - -<p><i>Araducta</i>, onde existia esta povoaçaõ, <a href="#Page_8">8</a>.</p> - -<p><i>Aramenha</i>, antigamente <i>Medrobica</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Arcadio, e Honorio.</i> No governo destes Imperadores se acabou o -dominio dos Romanos em Portugal, <a href="#Page_244">244</a>.</p> - -<p><i>Armas de Portugal</i>, foraõ dadas por Christo ao primeiro Rey D. -Affonso Henriques, <a href="#Page_288">288</a>.</p> - -<p><i>Aricio Pretorio</i>, onde existio, <a href="#Page_8">8</a>.</p> - -<p><i>Aroche</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_8">8</a>.</p> - -<p><i>Arrayolos</i>, antigamente <i>Calantica</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Arrifana</i>, sua enteada, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Atributus</i> especiaes dos Portuguezes, <a href="#Page_218">218</a>.</p> - -<p><i>Aveiro</i>. Descreve se a sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p> - -<p><i>Aves</i> que ha no Reino, <a href="#Page_164">164</a>.</p> - -<p><i>Azeite</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_162">162</a>.</p> - -<p><i>Azeviche</i> em que parte do Reino se acha, <a href="#Page_175">175</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>B</b></p> - -<p><i>Balfa</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_9">9</a>.</p> - -<p><i>Banquete publico</i> que nas vodas do Principe D. Affonso fez ElRey -D. Joaõ II. <a href="#Page_430">430</a>.</p> - -<p><i>Barbaros</i> quando invadiraõ Portugal, <a href="#Page_254">254</a>.</p> - -<p><i>Barros</i> excellentes que ha no Reino, <a href="#Page_175">175</a>.</p> - -<p><i>Batalha</i>. Dos Arcos de Valdevez, <a href="#Page_287">287</a>. Do campo<span class="pagenum" id="Page_453">[Pg 453]</span> de Ourique, -<a href="#Page_288">288</a>. A do Arganhal, <a href="#Page_293">293</a>. Das Navas, <a href="#Page_296">296</a>. De Alcacer do Sal, <a href="#Page_297">297</a>. A do -Salado, <a href="#Page_307">307</a>. A de Aljubarrota, <a href="#Page_315">315</a>. A de Alcantara junto a Lisboa, <a href="#Page_339">339</a>. -A do Montijo, <a href="#Page_344">344</a>. A do Ameixial, Canal, e Montes claros, <a href="#Page_346">346</a>. A de -Almança, <a href="#Page_350">350</a>.</p> - -<p><i>Baucio Capeto</i>, insigne Capitaõ da Turdetania, <a href="#Page_237">237</a>.</p> - -<p><i>Béja</i>, antigamente se chamava <i>Paz Julia</i>, <a href="#Page_29">29</a>. Costume -antigo que havia nos moradores desta Cidade quando cazavaõ seus filhos, -<a href="#Page_215">215</a>.</p> - -<p><i>Benis</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p> - -<p><i>Beira.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_59">59</a>.</p> - -<p><i>Benavente</i>, antigamente se chamava <i>Aricio Pretorio</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Becelga</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p> - -<p><i>Braga</i>, antigamente <i>Brachara Augusta</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Bragança</i>, seu sitio, <a href="#Page_41">41</a>.</p> - -<p><i>Britenia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>C</b></p> - -<p><i>Cabo de Espichel</i>, <a href="#Page_35">35</a>.</p> - -<p><i>Caça</i>, e seu exercicio, <a href="#Page_216">216</a>. e <a href="#Page_438">438</a>.</p> - -<p><i>Caldelas</i>, antiga povoaçaõ, <a href="#Page_11">11</a>.</p> - -<p><i>Cale</i> que significa, <a href="#Page_3">3</a>.</p> - -<p><i>Callantia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p> - -<p><i>Calliabria</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_11">11</a>.</p> - -<p><i>Cambeto</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_11">11</a>.</p> - -<p><i>Camareiro Mór</i>, sua obrigaçaõ, <a href="#Page_424">424</a>.</p> - -<p><i>Caminha</i>, sua barra, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Campos Elysios</i> se na verdade os houve, e onde existiraõ, <a href="#Page_12">12</a>.</p> - -<p><i>Campo Mayor</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p> - -<p><i>Canace</i>, Cidade antiga do Algarve, <a href="#Page_14">14</a>.</p> - -<p><i>Capara</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_14">14</a>.</p> - -<p><i>Catalogo</i> Chronologico dos Reys das Asturias que governaraõ -Portugal, <a href="#Page_273">273</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_454">[Pg 454]</span></p> - -<p><i>Cauca</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_15">15</a>.</p> - -<p><i>Cava</i>, ou <i>Florinda</i>, foy causa da ruina de Hespanha, <a href="#Page_259">259</a>.</p> - -<p><i>Castro-Marim</i>, sua foz, <a href="#Page_37">37</a>.</p> - -<p><i>Cartagineses</i>, quando entraraõ em Portugal, <a href="#Page_236">236</a>.</p> - -<p><i>Cascaes</i>, seu porto, <a href="#Page_32">32</a>.</p> - -<p><i>Ceciliana</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_15">15</a>.</p> - -<p><i>Chaves</i>, como se chamava antigamente, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Christo crucificado</i>, apparece no Campo de Ourique a ElRey D. -Affonso Henriques, <a href="#Page_289">289</a>.</p> - -<p><i>Collipo</i>, foy Cidade antiga, onde hoje está Leiria, <a href="#Page_18">18</a>.</p> - -<p><i>Coitadas</i> do Reino, <a href="#Page_438">438</a>.</p> - -<p><i>Comarcas.</i> De quantas consta a Provincia do Minho, <a href="#Page_51">51</a>. A de Tras -os Montes, <a href="#Page_57">57</a>. A da Beira, <a href="#Page_61">61</a>. A da Estremadura, <a href="#Page_70">70</a> A do Alentejo, <a href="#Page_75">75</a>. -A do Algarve, <a href="#Page_79">79</a>.</p> - -<p><i>Conceiçaõ da Senhora</i>, erecta em Padroeira do Reino, <a href="#Page_345">345</a>.</p> - -<p><i>Copeiro Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_429">429</a>.</p> - -<p><i>Cortes.</i> Modo com que se celebraõ, <a href="#Page_444">444</a>.</p> - -<p id="costume"><i>Costumes dos Portuguezes.</i> Saõ naturalmente esforçados, e -valerosos, <a href="#Page_201">201</a>. Leaes a seus Soberanos, <a href="#Page_202">202</a>. Conquistadores, <a href="#Page_204">204</a>. -Zelosos, e constantes na Religiaõ, <a href="#Page_205">205</a>. Aptos para as sciencias, <a href="#Page_206">206</a>. -Pouco inclinados a aprender linguas estrangeiras, <a href="#Page_208">208</a>. Saõ pomposos nas -occasiões publicas, <i><a href="#Page_208">ibid.</a></i> Saõ imitadores das modas estrangeiras, -<a href="#Page_209">209</a>. Nos trages saõ inconstantes, <a href="#Page_210">210</a>. Saõ muy namorados, <a href="#Page_212">212</a>. Muito -dados à caça, <a href="#Page_216">216</a>. E ao combate de touros, <i><a href="#Page_216">ibid.</a></i> Amaõ a Poezia, -e a Musica, <a href="#Page_217">217</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>D</b></p> - -<p><i>Descripçaõ</i> circular do Reino, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>D. Diniz</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Lavrador</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_302">302</a>. Quando foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_302">ibid.</a></i><span class="pagenum" id="Page_455">[Pg 455]</span> Casou com a Rainha -Santa Isabel, <a href="#Page_303">303</a>. Incorporou no Padroado Real todas as fazendas -que havia doado injustamente, <i><a href="#Page_303">ibid.</a></i> Teve discordias com seu -irmaõ, <i><a href="#Page_303">ibid.</a></i> Separou a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ de -Castella, <a href="#Page_304">304</a>. Instituio em Lisboa a primeira Universidade de letras, -<i><a href="#Page_304">ibid.</a></i> Fundou o Real Mosteiro de Odivellas, e o de Santa Clara -de Coimbra, e Villa do Conde, <a href="#Page_304">304</a>. Teve em summo gráo as virtudes da -Justiça, verdade, e liberalidade, <a href="#Page_305">305</a>. Instituio rezarem-se no Paço as -Horas Canonicas, <i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Instituio a Ordem Militar de Christo, -<i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Foy chamado o <i>Pay da Patria</i>, e o <i>Lavrador</i> -pelo affecto que tinha à Agricultura, <i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Teve no Reino -algumas guerras civis, <a href="#Page_306">306</a>. Quantos filhos teve, <a href="#Page_387">387</a>. Sua morte, e -sepultura, <a href="#Page_306">306</a>.</p> - -<p><i>D. Duarte</i> Rey de Portugal chamado o <i>Eloquente</i>, onde, e -quando nasceo, <a href="#Page_318">318</a>. Foy muito dado ao estudo das letras, <i><a href="#Page_318">ibid.</a></i> -Quando foy acclamado, e quando casou, <i><a href="#Page_318">ibid.</a></i> Quiz resgatar seu -irmaõ D. Fernando mas frustradamente, <a href="#Page_319">319</a>. Filhos que teve, <a href="#Page_397">397</a>. Sua -morte, e sepultura, <a href="#Page_320">320</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>E</b></p> - -<p><i>Eburobricio</i>, onde existio esta antiga povoaçaõ, <a href="#Page_20">20</a>.</p> - -<p><i>Egas Moniz</i> foy Ayo delRey D. Affonso Henriques, suas virtudes, -<a href="#Page_288">288</a>.</p> - -<p><i>Egitania</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_19">19</a>.</p> - -<p><i>Egoas</i> que concebiaõ do vento, se as havia em Portugal, <a href="#Page_97">97</a>.</p> - -<p><i>Elvas</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p> - -<p><i>Embaixadores</i>, como eraõ recebidos, <a href="#Page_442">442</a>.</p> - -<p><i>Empreza das mulheres</i>, foy huma insigne vitoria que alcançaraõ as -Portuguezas do Minho contra os Cartaginezes, <a href="#Page_238">238</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_456">[Pg 456]</span></p> - -<p><i>Eremitica vida</i>, teve principio na Provincia do Minho, <a href="#Page_50">50</a>.</p> - -<p><i>Ervas</i> medicinaes que ha em Portugal, <a href="#Page_167">167</a>.</p> - -<p><i>Eritrea</i>, onde existio, <a href="#Page_19">19</a>.</p> - -<p><i>Esposende</i>, sua barra, <a href="#Page_30">30</a>.</p> - -<p><i>Estoi</i>, antigamente Ossonoba, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Estrangeiros</i>, estimados dos Portuguezes, <a href="#Page_209">209</a>.</p> - -<p><i>Estremadura.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_67">67</a>.</p> - -<p><i>Evandria</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_20">20</a>.</p> - -<p><i>Evora</i>, Cidade antigamente chamada <i>Liberalitas Julia</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>F</b></p> - -<p><i>Faro</i>, sua barra, <a href="#Page_37">37</a>.</p> - -<p><i>Fenices</i>, quando entraraõ em Portugal, <a href="#Page_236">236</a>.</p> - -<p><i>Feira</i>, Villa antigamente chamada <i>Lancobriga</i>, <a href="#Page_29">29</a></p> - -<p><i>D. Fernando</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Formoso</i>, -quando nasceo, <a href="#Page_309">309</a>. A sua brandura o fez cair em muitas desordens, -<a href="#Page_310">310</a>. Reedificou as Praças do Reino, <i><a href="#Page_310">ibid.</a></i> Seus casamentos, -<i><a href="#Page_310">ibid.</a></i> Fez pazes com ElRey de Castella, <a href="#Page_312">312</a>. Cercou Lisboa de -novos muros, <i><a href="#Page_312">ibid.</a></i> Mudou a Universidade de Coimbra para Lisboa, -<i><a href="#Page_312">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_392">392</a>. Quando morreo, <a href="#Page_313">313</a>.</p> - -<p><i>D. Fernando</i> filho delRey D. Joaõ I. ficou em refens na Praça de -Tangere, <a href="#Page_396">396</a>. Morreo em Berberia, e jaz na Batalha, <i><a href="#Page_396">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Fertilidade</i> do Reino em geral, <a href="#Page_160">160</a>.</p> - -<p><i>Fidalgos Portuguezes</i>, saõ reputados por vãos, <a href="#Page_208">208</a>.</p> - -<p><i>Filippe II. III. IV.</i> Reys de Portugal, suas acções que obraraõ -neste Reino, <a href="#Page_340">340</a>.</p> - -<p><i>Filhamentos</i>, que cousa he, <a href="#Page_422">422</a>.</p> - -<p><i>Filhos</i> dos Senhores Reys Portuguezes, <a href="#Page_376">376</a>. até <a href="#Page_420">420</a>.</p> - -<p><i>Flaviobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_20">20</a>.</p> - -<p><i>Flores</i> de varias especies que nascem em Portugal, <a href="#Page_167">167</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_>457">[Pg 457]</span></p> - -<p><i>Florinda</i> filha do Conde D. Juliaõ foy causa da destruiçaõ de -Hespanha, <a href="#Page_259">259</a>.</p> - -<p><i>Fome</i> extraordinaria que houve na Hespanha, <a href="#Page_235">235</a>.</p> - -<p><i>Fontes</i> notaveis que ha em Portugal, <a href="#Page_148">148</a>.</p> - -<p><i>Foro dos Limicos</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_21">21</a>. —<i>Dos Narbassos</i>, -outra antiga povoação, <i><a href="#Page_21">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Foros</i> que ha na Casa Real, <a href="#Page_422">422</a>.</p> - -<p><i>Frutas</i> de varias castas que ha em Portugal, <a href="#Page_164">164</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>G</b></p> - -<p><i>Genio Portuguez.</i> Vide <i><a href="#costume">Costumes</a></i>.</p> - -<p><i>Gerabrica.</i> Vide <i><a href="#jera">Jerabrica</a></i>.</p> - -<p><i>Godos</i>, quando começaraõ a dominar em Portugal, <a href="#Page_255">255</a>. Catalogo dos -Reys que governaraõ neste Reino, <a href="#Page_263">263</a>.</p> - -<p><i>Governo</i> antigo, e moderno da Casa Real, <a href="#Page_421">421</a>.</p> - -<p><i>Guarda Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_425">425</a>.</p> - -<p><i>Guarda Real</i>, <a href="#Page_433">433</a>.</p> - -<p><i>Guimarães</i> cercada, e por quem, <a href="#Page_288">288</a>. Foy a antiga <i>Araduca</i>, -<a href="#Page_7">7</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>H</b></p> - -<p><i>Dom Henrique</i> Conde de Portugal quem foy, <a href="#Page_282">282</a>. Com quem casou, -<a href="#Page_284">284</a>. Quando passou a Jerusalem, <a href="#Page_285">285</a>. Batalhas que venceo, <a href="#Page_286">286</a>. Filhos -que teve, <a href="#Page_376">376</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_286">286</a>.</p> - -<p><i>D. Henrique</i> Cardeal he acclamado Rey, <a href="#Page_336">336</a>. Sua morte, e -sepultura, <a href="#Page_338">338</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>I</b></p> - -<p><i>Jantar</i> esplendido que deu o Senhor Rey D. Joaõ V. quando se -desposou com a Serenissima Rainha Dona Maria Anna de Austria, <a href="#Page_431">431</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_458">[Pg 458]</span></p> - -<p><i>Iberos</i> Hespanhoes se foraõ primarios descendentes de Tubal, <a href="#Page_222">222</a>.</p> - -<p><i>Idanha</i>, antigamente <i>Ægedita</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p id="jera"><i>Jerabrica</i>, povoaçaõ antiga dos Romanos, <a href="#Page_21">21</a>.</p> - -<p><i>Igrejas Cathedraes</i> na Provincia do Minho, <a href="#Page_50">50</a>. Em Tras os Montes, -<a href="#Page_56">56</a>. Na Beira, <a href="#Page_61">61</a>. Na Estremadura, <a href="#Page_69">69</a>. No Alentejo, <a href="#Page_74">74</a>. No Algarve, <a href="#Page_78">78</a>.</p> - -<p><i>Incendio</i> notavel que houve nos Pyrineos, <a href="#Page_235">235</a>.</p> - -<p><i>D. Joaõ I.</i> Rey de Portugal chamado de <i>Boa memoria</i>, quando -nasceo, e de quem era filho, <a href="#Page_314">314</a>. Antes de ser Rey matou ao Conde Joaõ -Fernandes Andeiro, <i><a href="#Page_314">ibid.</a></i> Foy declarado pelo povo Defensor, e -Governador do Reino, <i><a href="#Page_314">ibid.</a></i> Foy acclamado Rey em acto de Cortes, -<a href="#Page_315">315</a>. Triunfou dos Castelhanos na famosa batalha de Aljubarrota, -<i><a href="#Page_315">ibid.</a></i> Com quem casou, <a href="#Page_316">316</a>. Foy expugnar Ceuta, <i><a href="#Page_315">ibid.</a></i> -Mandou supprimir a antiga computaçaõ da Era de Cesar, e que se usasse -da Epoca do Nascimento de Christo, <i><a href="#Page_315">ibid.</a></i> Erigio em Metropolitana -a Cathedral de Lisboa, <a href="#Page_317">317</a>. Templos que edificou, <i><a href="#Page_317">ibid.</a></i> Obras -insignes que fez, <i><a href="#Page_317">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_393">393</a>. Sua morte, e -sepultura, <a href="#Page_318">318</a>.</p> - -<p><i>D. Joaõ II.</i> Rey de Portugal chamado <i>Perfeito</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_324">324</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_324">ibid.</a></i> Quando foy acclamado Rey, -<i><a href="#Page_324">ibid.</a></i> Mandou degolar ao Duque de Bragança, por ser comprehendido -em huma conjuraçaõ contra elle, <a href="#Page_325">325</a>. Seu caracter, <i><a href="#Page_325">ibid.</a></i> Foy -opposto aos jogadores, <a href="#Page_326">326</a>. Templos que edificou, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Dispoz -a formalidade de Coro na sua Capella, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Descobrimentos que -se fizeraõ em seu tempo, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_401">401</a>. Sua morte, -<a href="#Page_327">327</a>. Jaz seu corpo na Batalha incorrupto, <i><a href="#Page_327">ibid.</a></i></p> - -<p><i>D.Joaõ III.</i> Rey de Portugal chamado <i>Piedoso</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_330">330</a>. Quando, e onde foy acclamado Rey, <a href="#Page_331">331</a>. Fez muitas -conquistas na India, e largou muitas Praças de Africa aos Mouros, -<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i><span class="pagenum" id="Page_459">[Pg 459]</span> Introduzio no Reino o Tribunal da Inquisiçaõ, -<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Reformou muitas Religiões, e admittio em Portugal a -dos Jesuitas, <i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Removeo a Universidade para Coimbra, -<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Obras insignes que fez, <a href="#Page_332">332</a>. Com quem casou, <a href="#Page_369">369</a>. Filhos -que teve, <a href="#Page_407">407</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_332">332</a>.</p> - -<p><i>D. Joaõ IV.</i> Rey de Portugal chamado <i>Restaurador</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_343">343</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_343">ibid.</a></i> Foy acclamado Rey em Lisboa, -<a href="#Page_344">344</a>. Alcançou muitas vitorias contra os Castelhanos, <i><a href="#Page_344">ibid.</a></i> -Castigou os cabeças de varias conjurações, <a href="#Page_345">345</a>. Institue muitos -Tribunaes, <i><a href="#Page_345">ibid.</a></i> Tomou em acto de Cortes por Protectora do Reino -a Maria Santissima da Conceiçaõ, <i><a href="#Page_345">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_413">413</a>. Sua -morte, e sepultura, <a href="#Page_346">346</a>.</p> - -<p><i>D. Joaõ V.</i> Rey de Portugal <i>Fidelissimo</i>, quando nasceo, -<a href="#Page_350">350</a>. Em que dia foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_350">ibid.</a></i> Celebra pazes com -Castella, <i><a href="#Page_350">ibid.</a></i> Com quem casou, <a href="#Page_351">351</a>. Erigio em Basilica -Patriarcal a sua Real Capella, <a href="#Page_352">352</a>. Mandou hum grande soccorro a favor -da Igreja contra o Turco, <i><a href="#Page_352">ibid.</a></i> Instituio a Academia Real da -Historia Portugueza, <a href="#Page_353">353</a>. Erigio varios Bispados de novo, <i><a href="#Page_353">ibid.</a></i> -Templos, e edificios que fabricou, <a href="#Page_354">354</a>. Obteve do Papa Benedicto XIV. -o indulto de poderem os Sacerdotes dos seus Dominios celebrar cada hum -tres Missas no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos, <a href="#Page_355">355</a>. Filhos que -teve, <a href="#Page_419">419</a>. Morte, e sepultura, <a href="#Page_355">355</a>.</p> - -<p><i>D. Joseph I.</i> Rey de Portugal <i>Fidelissimo</i>, quando nasceo, -<a href="#Page_357">357</a>. Quando foy acclamado Rey, <a href="#Page_356">356</a>. Quando, e com quem casou, <a href="#Page_357">357</a>. Leys -que tem promulgado, <i><a href="#Page_357">ibid.</a></i> Restaura o exercicio das letras com -melhores methodos, extinguindo o magisterio aos Jesuitas, <i><a href="#Page_357">ibid.</a></i> -No extraordinario terremoto de Lisboa, se houve magnanimamente, <a href="#Page_358">358</a>. -Escapou milagrosamente de tres tiros com que o<span class="pagenum" id="Page_460">[Pg 460]</span> queriaõ matar, <a href="#Page_358">358</a>. -Faz justiçar os delinquentes no Caes de Belém, <i><a href="#Page_358">ibid.</a></i> Resiste às -Tropas Castelhanas que injustamente invadiraõ Portugal <i><a href="#Page_358">ibid.</a></i> -Admitte para Generalissimo das suas Armas ao Conde Soberano de Lippe -Guilherme de Schaumburg, <a href="#Page_359">359</a>. Filhos que tem, <a href="#Page_420">420</a>.</p> - -<p><i>Julio Cesar</i> veyo à conquista de Portugal, <a href="#Page_242">242</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>L</b></p> - -<p><i>Lacobriga</i> povoaçaõ antiga onde hoje he Lagos, <a href="#Page_21">21</a>.</p> - -<p><i>Lagos</i>, seu porto, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Lagoas</i> mais notaveis que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p> - -<p><i>Lamego</i>, antigamente <i>Lama</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Legoas</i> que tem Portugal de comprido, e de largo, <a href="#Page_2">2</a>.</p> - -<p><i>Leiria</i>, antigamente <i>Collipo</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Lingua Portugueza.</i> A primeira que se fallou em Portugal foy a -dos Turdulos que Tubal communicou, <a href="#Page_193">193</a>. Muitos se capacitaõ que fora -a Hebraica, outros a Vasconça, ou Biscainha, <i><a href="#Page_193">ibid.</a></i> Conforme -foraõ as Nações que dominaraõ em Portugal, assim foy a lingua que se -fallou, <a href="#Page_194">194</a>. Pela entrada dos Godos entrou tambem neste Reino a lingua -Portugueza, <i><a href="#Page_194">ibid.</a></i> He misturada com vocabulos de outros idiomas, -<a href="#Page_196">196</a>. No tempo delRey D. Diniz começou a adquirir mayor perfeiçaõ, -<i><a href="#Page_196">ibid.</a></i> Participa de todas as circunstancias para ser perfeita, -<i><a href="#Page_196">ibid.</a> & seq.</i></p> - -<p><i>Lisboa</i>, antigamente <i>Olisipo</i>, ou <i>Fælicitas Julia</i>, -<a href="#Page_29">29</a>. Descreve-se a sua barra, <a href="#Page_32">32</a>. Todos os seus portos pelo Tejo, <a href="#Page_33">33</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_461">[Pg 461]</span></p> - - -<p class="center caption p2"><b>M</b></p> - -<p><i>Magneto</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_22">22</a>.</p> - -<p><i>D. Manoel</i> Rey de Portugal, chamado <i>Venturoso</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_327">327</a>. Quando foy coroado, <a href="#Page_328">328</a>. Embaixadas que mandou ao Papa -Alexandre VI. <i><a href="#Page_328">ibid.</a></i> E a Leaõ X. <a href="#Page_330">330</a>. Expulsou fora do Reino aos -Judeos, <i><a href="#Page_330">ibid.</a></i> Com quem casou, <i><a href="#Page_330">ibid.</a></i> Accrescentou ao seu -Imperio muitas terras da India, que no seu tempo se descobriraõ, <a href="#Page_329">329</a>. -Libertou o Estado Ecclesiastico de muitos tributos, <i><a href="#Page_329">ibid.</a></i> Foy -jurado Rey de Castella, <i><a href="#Page_309">ibid.</a></i> Templos que fundou, <i><a href="#Page_329">ibid.</a></i> -Filhos que teve, <a href="#Page_403">403</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_330">330</a>.</p> - -<p><i>Mappa</i> do que comprehendem as seis Provincias de Portugal, <a href="#Page_80">80</a>.</p> - -<p><i>Marco</i> de ouro, e prata que valor tem tido em todos os Reinados, -<a href="#Page_192">192</a>.</p> - -<p><i>Merobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_22">22</a>.</p> - -<p><i>Mertola</i> onde existe, <a href="#Page_38">38</a>.</p> - -<p><i>Mestre-Sala</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_428">428</a>.</p> - -<p><i>Mineraes</i> que ha no Reino, <a href="#Page_169">169</a>.</p> - -<p><i>Minho.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_45">45</a>.</p> - -<p><i>Miranda do Douro</i>, antigamente <i>Concia</i> <a href="#Page_28">28</a>. Seu sitio, <a href="#Page_41">41</a>.</p> - -<p><i>Moedas</i> de varios metaes que se tem lavrado em Portugal, <a href="#Page_177">177</a>.</p> - -<p><i>Mondego</i>, sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p> - -<p><i>Monsanto</i>, <a href="#Page_39">39</a>.</p> - -<p><i>Montes</i> que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p> - -<p><i>Monteiro Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_438">438</a>.</p> - -<p><i>Mordomo Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_421">421</a>.</p> - -<p><i>Morte</i> dos Reys como se publicava, <a href="#Page_446">446</a>.</p> - -<p><i>Moura</i>, antigamente <i>Arucitana</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Mouros</i>, quando invadiraõ a Portugal, <a href="#Page_269">269</a>.</p> - -<p><i>Mulheres Portuguezas</i>, seu valor, <a href="#Page_238">238</a>.</p> - -<p><i>Municipios</i> o que eraõ, e quantos havia em Portugal, <a href="#Page_44">44</a>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_462">[Pg 462]</span></p> - - -<p class="center caption p2"><b>N</b></p> - -<p><i>Nabancia</i>, povoaçaõ antiga junto a Thomar, <a href="#Page_23">23</a>.</p> - -<p><i>Nomes Latinos</i> de algumas povoações de Portugal, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Norba Cesarea</i>, onde existio, <a href="#Page_23">23</a>.</p> - -<p><i>Numancia</i>, onde existio esta famosa Cidade, <a href="#Page_23">23</a>.</p> - -<p><i>D. Nuno Alvares Pereira</i> Condestavel de Portugal. Suas proezas, -<a href="#Page_315">315</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>O</b></p> - -<p><i>Obidos</i>, sua grande lagoa, <a href="#Page_133">133</a>.</p> - -<p><i>Obobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_24">24</a>.</p> - -<p><i>Octaviano Augusto</i> conciliou a paz em Portugal, <a href="#Page_262">262</a>.</p> - -<p><i>Odemira</i>, sua barra, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Ordens Militares</i> que instituio ElRey D. Affonso, <a href="#Page_292">292</a>.</p> - -<p><i>Ossel</i>, onde existio, <a href="#Page_24">24</a>.</p> - -<p><i>Ossonoba</i>, foy povoaçaõ antiga no Algarve, <a href="#Page_25">25</a>.</p> - -<p><i>Ourique</i>, celebre campo do Alentejo onde ElRey D. Affonso -Henriques alcançou huma grande vitoria contra os Mouros, <a href="#Page_288">288</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>P</b></p> - -<p><i>Panonias</i>, onde existio esta antiga povoaçaõ, <a href="#Page_26">26</a>.</p> - -<p><i>Pederneira</i>, sua enseada, <a href="#Page_32">32</a>.</p> - -<p><i>Pedras preciosas</i>, que se achaõ em muitas terras de Portugal, <a href="#Page_172">172</a>.</p> - -<p><i>D. Pedro I.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Justiceiro</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_308">308</a>. Quando foy acclamado, <i><a href="#Page_308">ibid.</a></i> Vingança que tomou dos -que mataraõ Dona Ignez de Castro, <i><a href="#Page_308">ibid.</a></i> Demonstraçaõ publica<span class="pagenum" id="Page_463">[Pg 463]</span> -que fez de ser Dona Ignez sua legitima mulher, <a href="#Page_309">309</a>. Caracter deste Rey, -<i><a href="#Page_309">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_390">390</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_309">309</a>.</p> - -<p><i>D. Pedro II.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Pacifico</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_348">348</a>. Quando se intitulou Rey, <i><a href="#Page_348">ibid.</a></i> Seus casamentos, -<i><a href="#Page_348">ibid.</a></i> Seu caracter, <a href="#Page_349">349</a>. Bispados que de novo erigio, -<i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Entrou na grande alliança com o Imperador, Inglaterra, -e Hollanda, <i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Rompe guerra com Castella para onde foy em -pessoa por introduzir Carlos III. Rey de Hespanha, <i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Filhos -que teve, <a href="#Page_415">415</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_350">350</a>.</p> - -<p><i>Peixe</i>, abundancia delle que ha em Portugal, <a href="#Page_168">168</a>.</p> - -<p><i>Penagarcia</i>, Seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p> - -<p><i>Penamacor</i>, seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p> - -<p><i>Pertendentes</i> de Portugal quaes foraõ depois do Cardeal Henrique, -<a href="#Page_337">337</a>.</p> - -<p><i>Pineto</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_26">26</a>.</p> - -<p><i>Portalegre</i>, antigamente <i>Amæa</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p> - -<p><i>Porto</i>, antigamente <i>Calem</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p> - -<p><i>Portos</i> que ha no Tejo, <a href="#Page_34">34</a>.</p> - -<p><i>Portuguezes</i>, seu genio, e costumes, <a href="#Page_201">201</a>. Attributos proprios, -<a href="#Page_218">218</a>.</p> - -<p><i>Povoadores</i> primeiros de Portugal, <a href="#Page_225">225</a>.</p> - -<p><i>Pretores Romanos</i> no governo de Portugal, <a href="#Page_241">241</a>.</p> - -<p><i>Provincias</i> antigas, e modernas de Portugal, <a href="#Page_43">43</a>.</p> - -<p><i>Punhete</i>, antigamente <i>Moro</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>R</b></p> - -<p><i>Rainhas</i> de Portugal, <a href="#Page_362">362</a>. & seq.</p> - -<p><i>Reys</i> das Austurias que governaraõ Portugal, <a href="#Page_273">273</a>.</p> - -<p><i>Reposteiro Mór</i>, sua dignidade, <a href="#Page_426">426</a>.</p> - -<p><i>Rios.</i> Do Minho, <a href="#Page_48">48</a>. De Tras os Montes, <a href="#Page_56">56</a>. Da Beira, <a href="#Page_60">60</a>. Da -Estremadura, <a href="#Page_68">68</a>. Do Alentejo, <a href="#Page_73">73</a>. Do Algarve, <a href="#Page_78">78</a>. Dos mais notaveis que -ha no Reino, <a href="#Page_99">99</a>. <i>& seq.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_464">[Pg 464]</span></p> - -<p><i>D. Rodrigo</i> ultimo Rey Godo, sua ruina, <a href="#Page_259">259</a>.</p> - -<p><i>Romanos</i>, quando invadiraõ, e se senhorearaõ de Portugal, <a href="#Page_241">241</a>.</p> - -<p><i>Rosmaninhal</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>S</b></p> - -<p><i>Sabugal</i>, seu Castello, <a href="#Page_40">40</a>.</p> - -<p><i>Sagres</i>, sua enseada, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Sal</i>, abundancia della que ha em Portugal, <a href="#Page_176">176</a>.</p> - -<p><i>Salacia</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_26">26</a>.</p> - -<p><i>Salvaterra da Beira</i>, seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p> - -<p><i>D. Sancho I.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Povoador</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_293">293</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_293">ibid.</a></i> Acções que obrou antes de -Rey, <a href="#Page_294">294</a>. Quando foy acclamado, <i><a href="#Page_294">ibid.</a></i> Conquistou o Algarve, -<i><a href="#Page_294">ibid.</a></i> Templos, e edificios que erigio, <a href="#Page_295">295</a>. Filhos que teve, -<a href="#Page_379">379</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_295">295</a>.</p> - -<p><i>D. Sancho II.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Capelo</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_298">298</a>. Quando entrou a governar, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i> Recuperou muitas -Praças do Alentejo que os Mouros nos tinhaõ usurpado, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i> -Opprimio muito o Estado Ecclesiastico, por cujo motivo Innocencio IV. -o depoz do governo, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i> Substituio-lhe seu irmaõ D. Affonso, -<a href="#Page_299">299</a>. Recolheo-se a Toledo onde morreo, <i><a href="#Page_299">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Santarem</i>, antigamente <i>Scalabis</i>, ou <i>Præsidium -Julium</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>Santiago de Cacem</i>, antigamente <i>Merobriga</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p> - -<p><i>D. Sebastiaõ</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Desejado</i>, quando -nasceo, <a href="#Page_333">333</a>. Quando tomou posse do Reino, <i><a href="#Page_333">ibid.</a></i> Seu caracter, -<i><a href="#Page_333">ibid.</a></i> Passou a Africa a primeira vez, <a href="#Page_334">334</a>. Foy segunda vez -soccorrer a Hamet, onde ficou destruido, e todo o seu exercito, <a href="#Page_335">335</a>. -Jaz seu corpo com incerteza no Convento de Belém, <i><a href="#Page_335">ibid.</a></i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_465">[Pg 465]</span></p> - -<p><i>Secca</i> extraordinaria que houve na Hespanha, <a href="#Page_235">235</a>.</p> - -<p><i>Serras</i> que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p> - -<p><i>Setubal</i>, antigamente <i>Cetobriga</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_36">36</a>. Foy -fundada por Tubal, <a href="#Page_224">224</a>.</p> - -<p><i>Sines</i>, seu surgidouro, <a href="#Page_36">36</a>.</p> - -<p><i>Suevos</i>, Catalogo dos seus Reys que governaraõ Portugal, <a href="#Page_261">261</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>T</b></p> - -<p><i>Talabrica</i>, foy povoaçaõ onde hoje he Aveiro, <a href="#Page_27">27</a>.</p> - -<p><i>Tapada</i> de Mafra, e Villa Viçosa, <a href="#Page_441">441</a>.</p> - -<p><i>Tavira</i>, antigamente chamada <i>Balsa</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_37">37</a>.</p> - -<p><i>Templos</i> que os Portuguezes erigiraõ ao Imperador Octaviano -Augusto, <a href="#Page_253">253</a>.</p> - -<p><i>Trage Portuguez</i>, <a href="#Page_210">210</a>.</p> - -<p><i>Tras os Montes.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_55">55</a>.</p> - -<p><i>Trigo</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_160">160</a>.</p> - -<p><i>Trinchante</i>, sua dignidade, <a href="#Page_428">428</a>.</p> - -<p><i>Tubal</i>, seus descendentes foraõ os primeiros povoadores de -Portugal, <a href="#Page_222">222</a>.</p> - -<p><i>Tubuci</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_27">27</a>.</p> - -<p><i>Tuntobriga</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_27">27</a>.</p> - - -<p class="center caption p2"><b>U</b></p> - -<p><i>Vaca</i>, povoçaõ antiga, <a href="#Page_27">27</a>.</p> - -<p><i>Valença</i>, fronteira a Cidade de Tuy, <a href="#Page_41">41</a>.</p> - -<p><i>Uchaõ</i>, que occupaçaõ era na Casa Real, <a href="#Page_429">429</a>.</p> - -<p><i>Veador da Casa</i>, sua dignidade, <a href="#Page_426">426</a>.</p> - -<p><i>Viana de Caminha</i>, descreve-se a sua barra, <a href="#Page_30">30</a>. ——<i>Do -Conde</i>, sua barra, <i><a href="#Page_30">ibid.</a></i></p> - -<p><i>Villas</i> de que consta a Provincia do Minho, <a href="#Page_52">52</a>. A de Tras os -Montes, <a href="#Page_56">56</a>. A da Beira, <a href="#Page_63">63</a>. A da<span class="pagenum" id="Page_466">[Pg 466]</span> Estremadura, <a href="#Page_71">71</a>. A do Alentejo, <a href="#Page_75">75</a>. A -do Algarve, <a href="#Page_79">79</a>.</p> - -<p><i>Vinho</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_162">162</a>.</p> - -<p><i>Viola</i>, instrumento proprio dos Portuguezes, <a href="#Page_217">217</a>.</p> - - -<p class="center p4" ><b>FIM.</b></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007"> -<img src="images/007.jpg" class="w25" alt="imagem decorativa"> -</span></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="LICENCAS"><b>LICENÇAS</b></h2> -</div> - - -<p class="center big p2">Do Santo Officio.</p> - -<p>Pódem-se reimprimir os cinco Tomos, de que se faz menção, e depois -voltaráõ conferidos para se dar licença que corraõ, sem a qual naõ -correraõ. Lisboa, 23 de Abril de 1762.</p> - -<p class="center"><i>Trigoso.</i> <i>Lima.</i></p> - - -<p class="center big p2">Do Ordinario.</p> - -<p>Póde-se reimprimir os Tomos de que trata a petiçaõ, e depois tornem -para se dar licença para correr. Lisboa, 23 de Abril de 1762.</p> - -<p class="center"><i>D. J. Arceb. Lacedemonia.</i></p> - - -<p class="center big p2">Do Desembargo do Paço.</p> - -<p>Que se possaõ reimprimir, e depois de impressos tornaraõ conferidos -para as licenças de correr. Lisboa, 24 de Abril de 1762.</p> - -<p class="center"><i>Carvalho.</i> <i>Emaús.</i> <i>D. Velho.</i> <i>Affonseca.</i></p> - - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E MODERNO, TOMO 1 (OF 3)</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg™ License when -you share it without charge with others. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you - are not located in the United States, you will have to check the laws - of the country where you are located before using this eBook. - </div> -</blockquote> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase “Project -Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg™ License. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format -other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg™ website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain -Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works -provided that: -</div> - -<div style='margin-left:0.7em;'> - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation.” - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ - works. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg™ works. - </div> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right -of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/69878-h/images/001.jpg b/old/69878-h/images/001.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2ebaaec..0000000 --- a/old/69878-h/images/001.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/002.jpg b/old/69878-h/images/002.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index fd91551..0000000 --- a/old/69878-h/images/002.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/003.jpg b/old/69878-h/images/003.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 4879dd5..0000000 --- a/old/69878-h/images/003.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/004.jpg b/old/69878-h/images/004.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 62fa66c..0000000 --- a/old/69878-h/images/004.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/005.jpg b/old/69878-h/images/005.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 738ebc5..0000000 --- a/old/69878-h/images/005.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/006.png b/old/69878-h/images/006.png Binary files differdeleted file mode 100644 index 84384c6..0000000 --- a/old/69878-h/images/006.png +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/007.jpg b/old/69878-h/images/007.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index b098a13..0000000 --- a/old/69878-h/images/007.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/cover.jpg b/old/69878-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index e36496e..0000000 --- a/old/69878-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/dc_e.jpg b/old/69878-h/images/dc_e.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 9ba9fb1..0000000 --- a/old/69878-h/images/dc_e.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69878-h/images/dc_n.jpg b/old/69878-h/images/dc_n.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index cca46b8..0000000 --- a/old/69878-h/images/dc_n.jpg +++ /dev/null |
