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-The Project Gutenberg eBook of Mappa de Portugal antigo, e moderno,
-tomo 1 (of 3), by João Bautista de Castro
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3)
- Parte I, II
-
-Author: João Bautista de Castro
-
-Release Date: January 25, 2023 [eBook #69878]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E
-MODERNO, TOMO 1 (OF 3) ***
-
-
-
-
-
- MAPPA
-
- DE
-
- PORTUGAL
-
- ANTIGO, E MODERNO
-
- PELO PADRE
-
- JOAÕ BAUTISTA
-
- DE CASTRO,
-
- Beneficiado na Santa Basilica Patriarcal de Lisboa.
-
- TOMO PRIMEIRO.
-
- PARTE I. E II.
-
- _Nesta segunda ediçaõ revisto, e augmentado pelo seu mesmo Author: e
-contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que
- toca à sua Historia Secular, e Politica._
-
- LISBOA,
-
- Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.
-
- M.DCC.LXII.
-
- _Com as licenças necessarias, e Privilegio Real._
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- INTRODUCÇAÕ Á OBRA.
-
-
-Entrey na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos
-Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com
-individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso
-Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros,
-e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem
-conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal.
-
-Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma
-exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico
-das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este
-meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter
-cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos,
-cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor costuma supprir os
-defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo
-mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ
-dos curiosos.[1]
-
-Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de
-exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos
-retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me
-pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa.
-
-Com razaõ disse Justo Lipsio[2] que o invento dos Mappas fora a mais
-engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a
-huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e
-grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ
-aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro
-Siculo[3] posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro[4] discipulo
-de Thales Milesio.
-
-Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle
-tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas,
-mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a
-altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas
-Theodosianas.[5] Depois se foraõ expressando em globos, ou esferas, de
-que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,[6] e de Roma se divulgou este uso para
-todas as mais terras do Universo.
-
-Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos,
-que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa
-pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre
-expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ
-Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo
-chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à
-esquerda o Occidente.
-
-Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que
-significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico
-de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A
-linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando
-a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em
-todos os Mappas.
-
-As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de
-longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os
-gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de
-huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para
-o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes
-huma da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha
-Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da
-Equinocial para o Sul.
-
-Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse
-pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou
-Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto
-mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da
-Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que
-as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar
-entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de
-cada num dos Tropicos.
-
-O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o
-que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.[7] E foy
-necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está
-arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar
-no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude,
-mas o de Leste-Oeste, ou de longitude.
-
-Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos
-globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos
-se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta
-a largura, ou latitude do mundo; e contém sómente a quarta parte do
-comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de
-Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha
-para o Sul.
-
-Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18.
-leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum
-gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas,
-diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante
-até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de
-altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay
-levantando para nós o Polo sobre o Horizonte.
-
-Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente
-para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito
-do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles,
-de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e
-fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém
-modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental
-das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.[8]
-
-Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento
-dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte,
-Ptolomeu, e outros companheiros desejosos de alcançar quantos gráos
-huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ
-succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da
-noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo
-quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles
-lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ
-mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais
-occidentaes.
-
-Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a
-respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia
-acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em
-todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim
-advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos
-gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano
-poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta
-observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas
-Geograficas de varios Authores.
-
-_Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de
-Portugal._
-
- _Latitud. Longit. Carta Geografica de_
- | gr. m. | gr. m. |
- | | |
- | 38. 58. | 7. 12. | Fernando Alvares Seco.
- | 38. 26. | 9. 54. | Mons. Sanson.
- | 38. 33. | ...... | P. Du-Val.
- | 38. 53. | 10. 5. | Pedro Mortier.
- | 38. 55. | 5. 15. | Francisco Halma.
- | 38. 40. | 7. 45. | Carlos Allard.
- | 38. 40. | 10. 14. | Joaõ de Ram.
- | 38. 48. | 7. 42. | Nicoláo Vischer.
- | 38. 35. | 7. 37. | P. Placido Agostinho.
- | 38. 40. | 12. | Joaõ Bautista Lavanha.
- | 38. 35. | 9. 52. | Joaõ Bautista Nolim.
- | 38. 48. | 8. 6. | Mons. Tailot.
- | 38. 50. | 9. 45. | Jacome Canteli.
- | 38. 40. | 12. | Gaspar Baillieu.
- | 38. 48. | 9. 12. | Joaõ Bautista Homannu.
- | 38. 40. | 7. | Pedro Teixeira.
- | 38. 48. | 9. 15. | Manoel Pimentel.
- | 38. 45. | ...... | P. Capassi.
- | 38. 39. | ...... | P. Dechales.
- | 38. 40. | ...... | P. Ricciolo, e Tosca.
- | 39. 38. | 5. 10. | Petavio.
-
-Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença
-nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da
-Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que
-mais se ajusta às computações da Arte de navegar do nosso insigne
-Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas.
-
-Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar,
-segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a
-respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na
-mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras
-que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se
-poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que
-está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro
-quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce,
-e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas
-do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra,
-e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor
-altura do Polo.
-
-Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque
-se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao
-Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será
-alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor
-visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos
-dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais
-saõ iguaes os dias com as noites.
-
-Finalmente do conhecimento do gráo de longitude, e latitude juntamente
-resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está
-em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util
-saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias
-accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me
-foy possivel extrahir dos Authores.
-
- _Braça_ | 10. palmos de craveira, ou 6.
- _Portugueza.___|_ pés, ou 80. polegadas.
- _Covado_ | 3. palmos, ou 2. pés Portuguezes
- _Portuguez.____|_
- _Dedo._ | 4. grãos de cevada lateralmente
- ___|_ unidos.
- _Gráo em_ | 18. leguas.
- _Portugal._ ___|_
- --_Em Alemanha_ | 10. leguas das grandes: 12. das
- | medianas: 15. das pequenas,
- | conforme diz Briecio; porém
- | segundo Cluverio em Alemanha
- | hum gráo da Esfera corresponde
- | na terra a 5. leguas das
- | grandes, ou a 10. das medianas,
- ___|_ ou a 15. das pequenas.
- --_Em Italia.____|_60. milhas.
- --_Em França._ | 20. leguas das grandes, e 25.
- ___|_ das commuas.
- --_Em_ | 27. leguas das grandes: 50. das
- _Inglaterra.___| medianas: 60. das pequenas.
- _Legua_ | 28168. palmos craveiros, ou
- _Portugueza._ | 2818. braças de 10. palmos
- | cada huma, ou 3000. milhas
- ___|_Italicas.
- --_Alemã_ | 6000. passos geometricos.
- _grande._ |
- _Mediana._ | 5000. passos.
- _Pequena._ ___|_4000. passos, segundo Briecio.
- --_Italica._ ___|_1000. passos.
- --_Franceza._ ___|_3000. passos.
- --_Ingleza._ ___|_2181. passos geometricos.
- --_Castelhana._ ___|_O mesmo que a Portugueza.
- _Milha._ ___|_1000. passos.
- _Palmo craveiro_ ___|_8. polegadas.
- _Passo commum_ ___|_4. palmos e meyo, ou 3. pés.
- --_Andante._ ___|_3. palmos, ou dous pés.
- --_Geometrico_ | 7. palmos e meyo de craveira
- ___|_ escassos, ou 5. pés geometricos.
- _Pé Portuguez._ | 12. polegadas, ou palmo e meyo
- ___|_ de craveira.
- --_Francez._ ___|_O mesmo.
- _Polegada._ ___|_10. pontos, ou linhas.
- _Toeza._ | 6. pés Regios. He propriamente
- ___|_ medida Franceza.
- _Vara Portugueza.____|_5. palmos.
- --_Valenciana._ ___|_4. palmos.
- _Verga._ ___|_10. pés geometricos.
-
-Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes,
-facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem de hum
-Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou
-Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que
-ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé
-do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma
-vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra
-terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou
-escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta,
-este lhe mostrará a distancia.
-
-Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do
-compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma
-distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao
-corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até
-fazer justa a mediçaõ.
-
-Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas
-as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a
-Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo
-quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e
-longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de
-navegar do famoso Manoel Pimentel.
-
-Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas,
-e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as
-distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ
-tiradas por linha recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de
-Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse.
-
-No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos
-outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos
-me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as
-suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo
-protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja
-totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo
-infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento.
-
- [Illustração]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] Veja-se ao P. Azeved. no Trat. _Ilias in nuce_ pag. 52.
-
-[2] Lips. lib. 2. epist. 51.
-
-[3] Diod. Sicul. l. 1. sect .2.
-
-[4] Laertius in ejus vita.
-
-[5] Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph. antiq.
-
-[6] Ptolom. lib. 1. c. 24.
-
-[7] Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3.
-
-[8] Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3.
-
-
-
-
- INDICE
-
- DOS CAPITULOS DESTE
-
- primeiro Tomo.
-
-
- PARTE I.
-
-
- Cap. I. _Da situaçaõ, etymologia, e clima
- deste Reino_, Pag. 1.
-
- Cap. II. _Memorias de algumas Povoações que
- existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ
- em outras, ou totalmente se extinguiraõ_, 5.
-
- Cap. III. _Descripçaõ circular pela margem
- maritima, e raya terrestre_, 29.
-
- Cap. IV. _Divisaõ antiga_, 42.
-
- Cap. V. _Divisaõ moderna pelas Provincias_, 45.
-
- Cap. VI. _Dos Montes, Promontorios, e serras
- de mayor nome_, 81.
-
- Cap. VII. _Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais
- consideraveis_, 99.
-
- Cap. VIII. _Das Fontes mais notaveis_, 148.
-
- Cap. IX. _Das Caldas_, 156.
-
- Cap. X. _Da Fertilidade do Reino em commum_,
- 160.
-
- Cap. XI. _Dos Mineraes_, 169.
-
- Cap. XII. _Das Moedas de ouro, prata, e cobre
- antigas, e modernas que se tem lavrado
- em Portugal até o presente_, 177.
-
- Cap. XIII. _Da lingua Portugueza_, 193.
-
- Cap. XIV. _Do genio, e costumes dos Portuguezes_,
- 201.
-
-
- PARTE II.
-
- Cap. I. _Memorias dos primeiros Povoadores
- da antiga Lusitania_, 221.
-
- Cap. II. _Estado da Lusitania com a invasaõ
- dos Fenices, e Cartaginezes_, 236.
-
- Cap. III. _Conducta dos Portuguezes no governo
- dos Romanos_, 240.
-
- Cap. IV. _Entrada das Nações barbaras, e dominio
- dos Godos_, 254.
-
- Cap. V. _Invasaõ, e dominio dos Mouros_, 269.
-
- Cap. VI. _Erecção do Senhorio de Portugal separado
- dos mais dominios de Hespanha, e
- estabelecimento dos Soberanos Monarcas
- Portuguezes_, 281.
-
- Cap. VII. _Catalogo das Serenissimas Rainhas
- de Portugal_, 362.
-
- Cap. VIII. _Dos filhos legitimos, e illegitimos
- dos soberanos Reys de Portugal_, 376.
-
- Cap. IX. _Do governo antigo, e moderno da Casa
- Real_, 421.
-
- Cap. X. _Dos Officiaes, e ordem com que se assistia
- à mesa dos Reys_, 428.
-
- Cap. XI. _Do acompanhamento com que os Reys
- sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a
- Corte,_ 433.
-
- Cap. XII. _Dos Officiaes destinados para a caça,
- e montaria, e das Coutadas do Reino,_ 437.
-
- Cap. XIII. _Do estylo com que os Principes, e
- Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos
- pelos nossos Reys, e do modo com que estes
- assistem no acto de Cortes_, 442.
-
- Cap. XIV. _Das ceremonias, e estylo que se praticava
- nas mortes dos Reys_, 446.
-
- [Illustração]
-
- MAPPA
-
- DE
-
- PORTUGAL.
-
-
-
-
- CAPITULO I.
-
- _Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino._
-
-
-1 Na parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha,
-sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado
-Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo
-de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13
-gráos de longitude,[9] cuja distancia intermedia reduzida a leguas,
-commensuradas pela margem maritima, vem a fazer 100 no seu justo
-comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285
-leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as
-150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.[10]
-
-2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada
-gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de
-latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.
-
-3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao
-Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar
-Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ,
-e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.
-
-4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de _Lusitania_, querendo
-os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias, filho de
-Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe conferisse
-o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.[11] Porém
-este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as
-contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.
-
-5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,[12] a
-palavra _Lusitania_ he vocabulo Fenicio, derivado da raiz _Luz_, que
-se interpreta _Amydgdalum_, isto he, _Amendoa_, dos quaes frutos
-foy sempre fertil Portugal:[13] e como os Fenices costumavaõ dar
-nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ
-mais abundantes,[14] naõ parecia improvavel, nem incongruente esta
-conjectura, por ser estabelecida em historia verdadeira, se acaso naõ
-tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa
-do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas
-Celtica.
-
-6 Mons. de La Clede[15] tem por etymologia mais certa deduzir a palavra
-_Lusitania_ dos antigos povos chamados _Lusos_, que habitaraõ este
-nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de alta,
-e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço dos
-antigos Portuguezes.
-
-7 Quanto ao nome de _Portugal_, por naõ darmos derivaçaõ antiga a hum
-vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ
-chamada _Cale_, que antigamente houve na margem austral do rio Douro,
-fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia das
-gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com o
-progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se
-fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o
-anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem
-outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era
-proprio de huma só Cidade.[16]
-
-8 Naõ averiguamos se a palavra _Cale_, como quer Joaõ Salgado de
-Araujo,[17] foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a
-estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz
-do Douro com o nome de _Cale_, que significa _Porto ameno, e seguro_;
-porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que esta memoria
-se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas as mais etymologias,
-como improvaveis, e nugatorias.
-
-9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por
-isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço
-de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas
-Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz
-confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.[18] Com esta favoravel
-temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz
-aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem
-patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do
-mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui
-vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem
-com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.
-
-10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo
-em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores
-antigos:[19] e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he
-porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com
-a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas,
-e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades
-sufficientes.[20]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[9] Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port.
-
-[10] Geograf. Blavian.
-
-[11] Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor. de Hesp.
-c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc. Lusit. p.
-1. lib. 1.
-
-[12] Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr.
-
-[13] Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22.
-
-[14] Hoffm. Diccion. verb. _Lusit._
-
-[15] De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi.
-
-[16] Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49. Argot. Antig.
-de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c. 92. n. 2.
-Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de Portug. t.
-1. pag. 188.
-
-[17] Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel. ad ann.
-1331. num. 2.
-
-[18] Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6.
-
-[19] Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4.
-
-[20] Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175.
-
-
-
-
- CAPITULO II.
-
- _Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes ou
- se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ._
-
-1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio[21] dá o titulo de sagrada,
-he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com
-o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra
-que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue
-para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que
-a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas
-memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ
-em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for
-possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares
-notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os
-Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ.
-
-2 _Aguas Celenas_, _Cilinas_, ou _Celanas_. Era povoaçaõ, que esteve
-na Provincia do Minho. Lembraõ-se della Ptolomeu,[22] e Antonino em
-seu Itinerario no segundo caminho de Braga para Astorga. Dos Geografos
-modernos querem huns[23] que fosse onde está hoje o Lugar de _Faõ_,
-meya legua acima da barra do rio Cávado da parte do Sul, e onde se
-celebrou o famoso Concilio contra os Priscilianistas, em que presidio
-S. Toribio em tempo de S. Leaõ Papa. Outros porém[24] o constituem em
-Barcellos, persuadidos da semelhança do vocabulo do rio _Celano_, que
-por alli passa, chamado hoje _Cávado_; porém estas conjecturas saõ muy
-falliveis para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo
-o sitio que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao
-Padraõ, como bem explica o Padre Mestre Flores na _Espanha sagrada tom.
-15. pag. 75_.
-
-3 _Aguas Flavias._ Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta terra,
-que era onde vemos hoje a Villa de _Chaves_.[25] Dizem que tomou este
-nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador Flavio Vespasiano,
-a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy colonia dos Romanos
-muy frequentada, e ennobrecida por elles, como larga, e eruditamente
-mostra o insigne indagador de antiguidades[26] Lusitanicas, o Reverendo
-D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem o Padre Mestre Flores
-allegado.
-
-4 _Aguas Layas_, ou _Leenas_. Na Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio
-achamos demarcado este lugar com o nome de _Aquæ Leæ Turudorum_ quasi
-em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude. Alguns[27] querem que
-estivessem entre as Villas de _Monçaõ_, e _Valladares_: o que naõ póde
-ser pela arrumaçaõ daquelle insigne Geografo. Nosso famoso Argote
-persuade-se com razaõ[28] que esta era a Cidade de _Lais_, capital dos
-povos Turolicos, e que existira, onde hoje chamaõ a Freguezia de S.
-Martinho de _Lanhozo_, termo da Villa de Caminha.
-
-5 _Ambracia._ O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha[29] diz que esta
-Cidade estivera no sitio de _Barcellos_, a qual foy fundaçaõ dos
-Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,[30] que diz que a
-_Ambracia_ em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto, estava
-em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio Lusitano,
-seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,[31] porque diz que he
-Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no _liv. 1. dos Successos
-militares pag. 5. v._ diz que Ambracia estivera em Grecia, onde hoje
-chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no _Diccionario Geografico_ com
-Cellario na _Geografia antiga l. 2. c. 13. §. 177._
-
-6 _Araduca._ Convem alguns dos Geografos[32] que estivesse esta Cidade
-collocada onde hoje vemos a nobre Villa de _Guimarães_. E seguindo esta
-opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de Guimarães,
-diz:[33]
-
- _Na aldeya d’ Araduca celebrada
- Pela rara belleza das pastoras._
-
-O mesmo diz Filippe de la Gandara nas _Armas, e Triunfos de Galiza cap.
-17. num. 3._ Porém Gaspar Estaço[34] segue o contrario, e o intenta
-provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 gráos,
-e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia
-muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8
-leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito[35] diz que o que antigamente
-foy _Araduca_, he hoje _Amarante_: e já houve quem disse que era
-_Aljubarrota_. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a antiga
-Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao Padre
-Mestre Flores, Author moderno, _tom. 15. da España sagrada pag. 286_.
-
-7 _Araducta._ Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio, parece
-ser a _Arouca_, que hoje existe.
-
-8 _Aravor._ O Author da Corografia Portugueza[36] quer que fosse esta
-huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo sitio
-está hoje a Villa de _Marialva_; porém esta noticia só neste Author a
-achámos.
-
-9 _Aricio Pretorio_, ou _Ayre_. Desta povoaçaõ se faz memoria no
-Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa
-para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,[37] que existia
-nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr.
-Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades,
-que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino.
-Gaspar Barreirros tem para si[38] que distava huma legua de Coruche,
-onde agora está a Villa de _Erra_; porém Jorge Cardoso[39] diz que
-estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde
-chamaõ _Alvéga_, porque neste sitio ha vestigios antigos, que assim
-o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada _Aricio_
-entre a Feira, e Arouca; e na altura de _Benavente_, ou _Salvaterra_ se
-vê _Aritium Prætorium_, em que parece convir com Resende.
-
-10 _Aroche._ Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas ruinas se
-levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como eruditamente provaõ
-Fr. Manoel de Sá,[40] e Resende com alguns cippos alli descobertos.
-
-11 _Aunona._ O Doutor D. Joaõ Ferreras[41] persuade-se que esta Cidade
-estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém nosso
-Argote[42] naõ he desta opiniaõ.
-
-12 _Auranca._ Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9 leguas de
-Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10. c. 18., e
-Jorge Cardoso no Agiologio.[43]
-
-13 _Balsa._ Tem para si o famoso antiquario Resende[44] que estivera
-esta Cidade no Algarve, onde agora reside _Tavira_; mas, segundo
-Ptolomeu, e Ortelio, parece ser _Castro-marim_. Todavia Christovaõ
-Cellario segue a conjectura de Resende;[45] e Gaspar Barreiros em hum
-manuscrito diz que he a aldea chamada _Simine_. Porém ou Balsa seja
-Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo de Beja na horta
-chamada do Bacello, naõ longe de _Baleizam_, achou no anno de 1742 o
-incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira Religioso Dominico, grande
-imitador de Resende no descobrimento das antiguidades do nosso Reino,
-hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio Saturnino habitador de Balsa
-erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem no _2. tom._ do _Diccionario
-Geografico_ do P. Cardoso _a pag. 23._ e na Gazeta de 20 de Setembro de
-1742. Donde sem muita violencia se póde conjecturar pela semelhança do
-nome, que Balsa estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta
-antigualha; a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso
-Fr. Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta
-Provincia, de que tem junto grosso cabedal.
-
-14 _Benis._ Por algumas congruencias parece ao laborioso D. Jeronymo
-Contador de Argote[46] que era esta huma Cidade Episcopal existente
-perto da Villa de Caminha.
-
-15 _Beselga._ Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio esta
-povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar pobre,
-e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda conserva o
-appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ _Monte da
-Cividade_. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes contornos, de
-que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade Cardoso.[47]
-Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he _Agueda_, huma legua de
-Thomar.
-
-16 _Britonia._ Grande controversia ha entre os Geografos sobre a
-verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima
-em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos
-dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que
-ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de que
-os despersuade Jorge Cardoso.[48] Muitos dos nossos insistem,[49] em
-que esta Cidade estivera no sitio de _Britiandos_, Abbadia de Ponte
-de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar da
-Freguezia de S. Martinho de _Birtello_, termo da Villa da Ponte da
-Barca.[50] Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem
-em que existio junto do rio Lima,[51] fundando-se em mais provaveis
-documentos.
-
-17 _Calantia._ Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo, e no
-mesmo terreno de _Arrayolos_, dando-lhe por fundadores os Celtas.[52]
-
-18 _Caldelas._ Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe hum
-Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia[53]
-houvera alli antigamente a Cidade _Caldede_. E junto da Ermida de S.
-Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores,
-que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do
-sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de
-pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus
-moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre,
-das quaes confessa Jorge Cardoso[54] conservava huma com a effigie de
-Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.
-
-19 _Caliabria._ Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio na
-Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que dista
-huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, a cujo
-sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ _Calabre_.
-As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua grandeza, como
-bem diz a _Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24._
-
-20 _Cambeto._ O doutissimo Padre Argote intenta mostrar[55] que esta
-Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de _Cambezes_ no
-Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da antiga Lusitania,
-composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o nome de _Cambetum
-Lubenorum_ na altura de 41 gráos de latitude, e 13 de longitude, que
-deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que do Minho.
-
-21 _Campos Elysios._ Anda introduzida nas Historias de Hespanha a
-antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso
-temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura
-o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade
-com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos[56]
-collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova,
-e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores[57] querem huns
-que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na
-Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados _Lysirias_, como
-se dissessemos _Elysirios_ ou _Elysirias_; porém o certo he que naõ
-estiveraõ em parte alguma de Hespanha.
-
-22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo
-o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ
-as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas.
-O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,[58] o qual
-introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do
-clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel
-conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia,
-que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.
-
-23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,[59] que os Gregos,
-offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ
-a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros
-vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo
-Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais
-Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,[60]
-que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece
-significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque
-conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano[61] comprova
-o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra
-cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.
-
-24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece
-celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel
-expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente
-assegura[62] tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o
-quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos
-Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso,
-que a nossa vulgata chama do _Deleite_, substituindo assim a voz
-_Eden_, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.[63]
-
-25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos
-Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,[64] a quem seguiraõ os mais,
-que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso
-sagrado, de que faz memoria Moysés.[65] A causa porém, que commoveo
-ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por
-seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso
-distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem,
-conforme allega Moysés Barcepha,[66] e Malvenda.[67] Com esta breve
-demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos
-inteiramente das nossas Provincias.
-
-26 _Canace_, ou _Canali_. Conforme diz Rodrigo Caro,[68] foy esta huma
-Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos collocada na
-carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de Faria escreveo ao
-Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que a Cidade de _Canace_
-estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde chamaõ Val de Infante, quatro
-leguas affastada de Evora.[69] Hauberto tambem a constitue junto de
-Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade Basiliense, que padecera
-aqui martyrio.[70]
-
-27 _Capara_. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta Cidade
-junto de Evora,[71] porque, segundo a melhor conjectura, foy Cidade
-habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a poem quasi
-na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra dos limites
-de Portugal, e como diz Argaes,[72] pertence ao Bispado de Placencia.
-
-28 _Carmona._ O Author da Benedictina Lusitana diz,[73] que cinco
-leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas leguas
-pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira
-antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de _Carmona_, cujas ruinas,
-e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo.
-
-29 _Cauca._ Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso[74] em
-collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves,
-e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,[75] e outros; porque mais me
-accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,[76] e tambem porque vejo
-no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de
-latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia.
-
-30 _Ceciliana._ O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre
-Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama _Castra Ceciliana_, talvez
-deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns querem que
-seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas, o que
-naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua de
-Moura. Com o mesmo nome de _Castra Celicis_ vejo huma povoaçaõ situada
-na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38 gráos, e
-5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e outra
-quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude.
-
-31 _Celiobriga._ Foy o que agora he _Celorico de Basto_, ou nas suas
-visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra na
-Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias do
-Arcebispado de Braga.[77]
-
-32 _Centocellas._ Defende Jorge Cardoso[78] a situaçaõ desta Cidade
-junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de _Belmonte_, onde
-permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima a huma torre quadrada
-de obra Romana, onde diz estivera prezo este Santo; o que tambem
-confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das guerras da Provincia da
-Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio da Purificaçaõ,[79] e os
-incansaveis Antiquarios Argote, e Leal[80] mostraõ com evidencia ser
-erro de Cardoso.
-
-33 _Cinania._ Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,[81] encarecendo
-muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava na Lusitania.
-Fr. Bernardo de Brito,[82] e seu abbreviador Manoel de Faria[83]
-mostraõ que estivera fundada junto de _Roriz_. Pertende porém Gaspar
-Estaço mostrar,[84] e o Padre Henrique de Abreu no discurso, que faz
-sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra do Maraõ,[85] onde
-ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela estrada, que da
-Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra está a Villa
-de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima está o Lugar
-de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ: aqui prova o
-dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso[86] a poem na eminencia de hum
-monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de Guimarães. O Author
-da Corografia Portugueza[87] a descobrio entre Lanhoso, e o Couto de
-Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas Memorias eruditissimas
-de Braga[88] confessa, que he incerta a precisa situaçaõ de Cinania.
-
-34 _Cetobriga._ Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas se
-fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,[89] seguindo a
-Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por
-Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara _Cethubala_, ou
-_Cætum-Tubalis_, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo nome
-com pouca mudança se deduzio _Setubal_. Porém André de Resende,[90] e
-Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva com tenacidade
-a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel he o que diz
-o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome: a antiga,
-onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo se dizia
-_Cetobriga_, e significava Cidade de muito, e grande peixe; porque
-_Briga_ na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer Cidade,
-ou fortaleza, e _Cete_ peixes grandes. Desta opiniaõ he Gaspar
-Barreiros,[91] o qual affirma, que no seu tempo havia no sitio desta
-Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o peixe, porque
-se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo da agua se
-mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem testifica
-Resende. Extincta finalmente a antiga _Setubal_, ou _Cetobriga_ na
-geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns moradores dos que
-restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova colonia naquelle
-sitio, intitulando-a da mesma fórma _Cetobriga_. Correndo depois
-o tempo, se veyo a chamar _Cetobala_, e dahi _Cetubala_, e hoje
-_Setubal_. Desta opiniaõ he Luiz Nunes,[92] Christovaõ Cellario,[93]
-e convem no mesmo Villalpando _in Ezechielem tom. 2. p. 16._ Affirma
-tambem o allegado Resende, que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga
-está por cima da porta da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de
-carneiro em pedra, e lhe parece que houvera alli hum templo de Jupiter.
-De outras pedras alli descubertas faz tambem memoria o sobredito
-Antiquario.
-
-35 _Collipo._ Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas
-se levantou a Cidade de _Leiria_, como he constante entre todos os
-Geografos.[94]
-
-36 _Concordia._ Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada de
-Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua
-antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania,
-e quasi com elle concordaõ Bivar,[95] Plinio, e outros.[96] Houve
-outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou
-Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.[97]
-Jorge Cardoso[98] diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas
-no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta
-povoaçaõ. Author ha, que diz he _Tentugal_.
-
-37 _Contraleucos_ conforme Ortelio; ou _Catraleucus_ segundo Ptolomeu,
-foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa do Crato, como
-o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na _Benedictina Lusitana_. Outros
-querem que seja Castello-branco. Verdade seja que esta povoaçaõ, no
-conceito de D. Francisco Manoel he huma das que por nenhum modo saõ
-hoje por nós conhecidas.
-
-38 _Egitania._ Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade nobilissima
-em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O Doutor Manoel
-Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio, escreve della
-eruditamente nas Memorias da Guarda.[99]
-
-39 _Eminio._ Hoje he o Lugar de _Agueda_ no termo de Aveiro. Foy
-povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados, de
-que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo, e de
-Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de _Colubria_.
-O Academico Manoel Pereira da Silva Leal[100] pertende mostrar que naõ
-tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della Plino, e Ptolomeu
-_apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9._
-
-40 _Equabona._ He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a primeira
-via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida.
-
-41 _Eritreia_, ou _Erythia_. Encontramos muito embaraçada entre os
-Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,[101] seguindo
-a Pomponio Mela,[102] diz, que estivera na Costa de Portugal, e
-que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto,
-se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos
-_Berlengas_, talvez deduzido da palavra _Londobris_, que tambem lhe
-dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz Marinho de
-Azevedo, e outros, que este allega.[103]
-
-42 Porém Diogo de Paiva[104] persuadido com a geral confusaõ de alguns
-Authores em naõ distinguirem a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso,
-he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come
-mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da
-maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as
-que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as
-outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas
-eruditas Disquisições;[105] e assim he infallivel ser diversa esta Ilha
-das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto,
-Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.[106]
-
-43 _Eburobricio._ Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira situaçaõ
-desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar Barreiros[107]
-dizem, que estivera no sitio, onde hoje está _Evora de Alcobaça_; porém
-Fr. Bernardo de Brito,[108] reprovando a Vasconcellos, diz que fora em
-_Alfezeiraõ_; mas em outra parte duvída.[109] Mons. de La Clede[110] no
-Mappa da antiga Lusitania nenhuma duvida poem em situar a _Alfezeiraõ_
-no mesmo lugar de _Eburobricio_, e quasi na mesma altura se conformaõ
-os mappas de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui
-dedicado a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a
-grande resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos
-annos 130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.[111]
-
-44 _Evandria._ He Olivença. Antonino lhe chama Evandriana.
-
-45 _Flaviobriga._ O Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ do Minho tem
-para si que estivera esta povoaçaõ no sitio de _Favayos_, Villa da
-Provincia Transmontana, onde affirma que vira letreiros, que assim o
-testemunhavaõ. Foy huma das Cidades, que edificou ElRey Brigo.
-
-46 _Foro dos Limicos._ Era huma Cidade collocada junto do rio Lima.
-O Padre Argote persuade-se que estivera no sitio, a que hoje chamaõ
-_Santo Estevaõ da Faxa_.[112]
-
-47 _Foro dos Narbassos._ Foy Cidade cabeça de huns Póvos assim
-chamados, que existio perto de Braga, conforme a conjectura do
-incansavel Argote.[113]
-
-48 _Gerabrica_, ou _Jerabrica._ Segundo a Geografia de Fr. Bernardo
-de Brito[114] esteve esta Cidade situada onde vemos hoje a Villa de
-_Póvos_. Prova-o este Author com o Itinerario de Antonino, o qual
-assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos, que fazem as sete
-leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa. Porém Gaspar Estaço,
-Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo Itinerario, que
-_Jerabrica_ foy o que hoje he _Alamquer_.[115]
-
-49 _Lacobriga._ Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e lembra-se
-della Baptista Mantuano,[116] quando diz, que erigira o Senado desta
-povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do Imperador
-Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a tomaraõ. Das
-suas ruinas se edificou a Cidade de _Lagos_ no Algarve, e neste sitio
-vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de
-
-Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,[117]
-donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando
-Lagos com Lamego,[118] e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel
-Pereira,[119] porque une os póvos da Serra da Estrella com os de
-Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez
-que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava
-junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama
-_Langobrica_, que Vasconcellos tem pela Villa da _Feira_. Ha quem diga
-que _Lacobriga_ he a Villa de _Abrantes_, outros do _Landroal_, e Joaõ
-de Mariana diz, que he a Villa de _Alvor_, fundada por Anibal. Parece a
-outros ser Santiago de Cacem, como diz D. Francisco Manoel na carta 62.
-da centuria 3.
-
-50 _Magneto._ Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de Romanos,
-e existio onde hoje chamaõ _Santa Maria de Meinedo_, que he hum Lugar
-do Bispado do Porto.[120]
-
-51 _Merobriga._ De duas povoações com este mesmo nome achamos memoria
-em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra em
-Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio.
-Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy
-onde agora he _Santiago de Cacem_.[121] Aqui se venera na Matriz a
-notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na
-escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico
-Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra
-fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como
-declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35.
-
-52 _Myrtilis Julia_. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no sitio
-de _Mertola_. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos até Béja,
-que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que ha de huma a
-outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta situaçaõ.[122]
-
-53 _Moro_ foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de
-cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello
-de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ
-dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete,
-ou Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no _liv. 3. da sua Geografia_ se
-lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para
-conquistar os Lusitanos.
-
-54 _Nabancia._ Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do Nascente
-da Villa de _Thomar_, onde affirmaõ nascera a gloriosa Virgem, e Martyr
-Santa Iria.[123] Na divisaõ dos Bispados, que fez Wamba, se lhe dá o
-nome de _Naba_,[124] conforme a intelligencia de Argote.
-
-55 _Norba Cesarea._ O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando a
-Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios
-desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e
-Ponsul, onde chamaõ os Toulões.[125] Hoje he _Alcantara_.
-
-56 _Numancia._ Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa
-Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores.
-Nenhum melhor que o eruditissimo Argote[126] soube aclarar esta
-confusaõ, distinguindo tres Cidades com este proprio nome; e com bons
-fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos
-nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ
-_Nemaõ_, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro; e saõ
-deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo com
-mayor tenacidade,[127] a cujos fundamentos responde bem o sobredito
-Padre Argote.
-
-57 _Obobriga._ Padeceo erro o Author da Corografia Portugueza[128] em
-collocar esta povoaçaõ na Villa de _Monçaõ_: mais ajustada congruencia
-tem em dizer que foy _Orosia_, posto que o insigne Argote o tem por
-fabula.[129]
-
-58 _Ossel_, ou _Osset_. Tambem naõ lidaõ pouco os Historiadores, e
-Geografos em averiguar a genuina situaçaõ local desta Cidade. Fr.
-Bernardo de Brito tem para si que estivera no Valle Ossella, tres
-leguas distante de Arouca, Bispado de Lamego;[130] e accrescenta, que
-neste sitio achara vestigios daquelle notavel Templo, onde havia a Pia
-baptismal milagrosa, e que no meyo de huns cumulos de pedra estava huma
-cova feita ao comprido, cuberta de silvas, a que chamavaõ o banho, onde
-parece que naquella consumida reliquia perseverava ainda a tradiçaõ do
-tal prodigio.
-
-59 Todavia Fr. Antonio da Purificaçaõ mostra[131] que esta terra teve
-sua existencia naõ longe de Viseu: que na sua principal Igreja houvera
-huma reliquia de Santo Estevaõ muito milagrosa: que ainda no seu tempo
-havia huma Ermida de fabrica antiquissima: que pouco adiante para a
-parte do mar está huma fonte, que chamaõ das virtudes: que mais para
-baixo estaõ naquelles contornos huns campos chamados de _Assem_, que
-bem mostra ser vocabulo derivado de _Ossem_.
-
-60 Jorge Cardoso[132] julga que ficava Osset junto de Agueda, e que
-era Cidade taõ forte, que a ella se fora refugiar Santo Hermenigildo
-o anno 581 para rebater a furia de Leovigildo, como dizem alguns
-Historiadores.[133] D. Joseph de Santa Maria Carthusiano, Vigario do
-Convento de Nossa Senhora de las Cuevas em Sevilha, sahio à luz o
-anno de 1630 com hum livro sobre a situaçaõ de _Ossel_, e a colloca
-na Betica, seguindo a opiniaõ de Rodrigo Caro, a que Joaõ Franco
-Barreto lhe responde na Historia dos Bispos de Evora cap. 11. 12. 13.
-Porém huma das razões, que ha para desfazer estas conjecturas, he a
-authoridade de S. Maximo, que expressamente diz ficava a tal povoaçaõ,
-e Bautisterio no Bispado de _Pax Augusta_,[134] que he Badajoz.
-
-61 _Ossonoba_, a que Plinio chama _Lusturia_,[135] e Bocharto[136]
-interpreta Fortaleza de Baal, esteve nas visinhanças de Faro no
-Algarve, onde hoje chamaõ _Estoy_. Foy Cidade famosa, e nobre, pois
-teve Cadeira Episcopal, como se collige de alguns Concilios, em que
-se vem assinados varios Bispos com o titulo de Ussonobenses, os quaes
-numéra o Catalogo dos Bispos do Algarve, que vem no fim das suas
-Constituições. Em tempo dos Romanos foy Republica. Consta de hum
-cippo, que está na muralha da fortificaçaõ de Faro, cujas letras se
-podem ver em Resende, e Grutero.[137] Strabo[138] lhe chama Sonoba, se
-acaso naõ he outro Lugar, como escrupuliza Bocharto. Na invasaõ dos
-Mouros padeceo naõ só a ruina das suas fabricas, e muros, mas do nome,
-porque lhe chamaraõ _Exubona_. Duarte Nunes,[139] e o Padre Poyares naõ
-distinguem Estoy de Estombar, sendo elles taõ diversos. D. Rodrigo da
-Cunha,[140] e Jorge Cardoso cahiraõ na mesma confusaõ, sendo que este
-emendou o erro, retratando-o em outro lugar.[141]
-
-62 _Panonias._ Foy huma Cidade, que no tempo dos Romanos existio no
-terreno de Villa-Real, onde hoje está a Aldea chamada o _Assento_, da
-Freguezia de S. Pedro de Val de nogueiras: assim o mostra largamente o
-Reverendo Padre Argote.[142]
-
-63 _Pineto._ Era outra Cidade situada no lugar, que hoje chamaõ _Val
-de telhas_, cinco leguas distante da Villa de Chaves, e foy povoaçaõ
-Romana, como affirma o mesmo erudito Argote.[143]
-
-64 _Salacia._ De duas Cidades com este mesmo nome achamos memorias que
-existiraõ em nosso continente: huma cinco leguas de Braga, no sitio,
-onde chamaõ _Salamonde_; assim o prova Argote[144] com o Itinerario
-de Antonino: a outra Salacia esteve onde hoje vemos _Alcacer do Sal_,
-e foy Cidade, que os Romanos chamaraõ Imperatoria, honra, que lhe deu
-Augusto Cesar, fazendo-a tambem Municipio.[145]
-
-65 _Scalabis._ He sem controversia a Villa de Santarem, a que os
-Romanos tambem chamaraõ _Julium Præsidium_. Em tempo dos Godos mudou o
-nome de Scalabis no que hoje possue, adquirindo-o da Santa Virgem, e
-Martyr Irena, cujo tumulo, naõ sem mysterio se conserva nas aguas do
-Tejo defronte de Santarem, o qual melhor pronunciado he o mesmo que
-_Santa-Irene_.
-
-66 _Talabrica._ Quasi todos os Geografos convem em ser esta Cidade
-collocada antigamente onde está hoje _Aveiro_;[146] só Rodrigo Mendes
-da Silva, seguindo a Floriaõ do Campo,[147] diz que Aveiro naõ foy a
-_Talabrica_, mas sim a _Labara_, o que naõ he provavel, porque Labara
-he hum Lugar pequeno sobre o mar no termo do Porto. Duarte Nunes a
-constitue junto de Aveiro na ribeira do Vouga onde ha o lugar chamado
-Cacîa, e na parte da Ermida de S. Juliaõ; com quem se conforma Gaspar
-Barreiros pag. 51.
-
-67 _Tubuci_ foy povoaçaõ dos Romanos, de cujas ruinas, conforme
-diz Resende, se erigio Abrantes, e se comprova com o Itinerario de
-Antonino; o qual na segunda via militar, que descreve de Lisboa para
-Merida, assina de Scalabis a Tubuci trinta e dous mil passos, que fazem
-as oito leguas, que ha de Santarem a Abrantes. Alguns attribuem Tubuci
-a Tancos.
-
-68 _Tuntobriga._ Foy huma Cidade, que pertencia à Chancellaria de
-Braga, e de que se naõ sabe mais que o nome.
-
-69 _Vacca._ Persuade-se Jorge Cardoso no tom. 2. do Agiologio pag.
-65. que esta antiga Cidade estivesse onde hoje vemos erecta a de
-Viseu; porém Plinio, e Ptolomeu naõ fazem della mençaõ. O Author da
-Corografia Portugueza diz, que por tradiçaõ a Cidade antiga chamada
-_Vacca_ estivera onde hoje he a Villa de Vouga na Comarca de Aveiro:
-porém quando trata da Cidade de Viseu, traslada tudo que achou em Jorge
-Cardoso, convindo com elle em ser Viseu a antiga Vacca.
-
-70 Outras muitas povoações existiraõ em nosso Reino em tempo dos
-Romanos, que se achaõ mencionadas nas Taboas de Ptolomeu, e Cartas de
-outros Geografos, posto que nós naõ conhecemos, nem lhe podemos saber o
-verdadeiro significado, mais que por conjectura, assim como fez Argote
-com algumas da Provincia Bracarense. Das que sem muita controversia
-podemos declarar situadas em varias partes do nosso continente, saõ as
-que numeraõ Resende, e Vasconcellos, a saber:
-
- _Ad septem Aras_ Açumar, ou Alegrete.
- _Amæa_ Portalegre.
- _Aquæ Flaviæ_ Chaves.
- _Aritium Prætorium_ Benavente.
- _Arucitana_ Moura
- _Balsa_ Tavira.
- _Bracara Augusta_ Braga.
- _Brætoleum_ Vianna de Caminha.
- _Budua_ Botova, ou Ouguella.
- _Calantica_ Arrayolos.
- _Calem_ Porto.
- _Ceciliana_ Agualva, ou Agua de Moira.
- _Cellium_ Ceice junto de Thomar.
- _Cetobriga_ Setubal.
- _Collipo_ Leiria.
- _Concia_ Miranda do Douro.
- _Conimbrica_ Condeixa a velha.
- _Ebora_, ou _Liberalitas Julia_ Evora.
- _Eburobritium_ Evora d’Alcobaça.
- _Elteri_ Alter do Chaõ.
- _Eminium_ Agueda.
- _Equabona_ Coina.
- _Forum Limicorum_ Ponte de Lima.
- _Fraxinum_ Alpalhaõ, ou Gaviaõ.
- _Helvij_ Elvas.
- _Jerabrica_ Póvos, ou Alenquer.
- _Igædita_ Idanha, ou Guarda.
- _Lacobrica_ Lagos.
- _Lama_, ou _Lameca_ Lamego.
- _Lancobrica_ Feira.
- _Malceca_ Marateca.
- _Matusaro_ Ponte de Sor.
- _Medobrica_ Aramenha.
- _Merobriga_ Santiago de Cacem.
- _Moro_ Almorol, ou Punhete.
- _Myrtilis Julia_ Mertola.
- _Næbia_ Neiva.
- _Olisipo_, ou _Fælicitas Julia_ Lisboa.
- _Ossonoba_ Estoi junto de Faro.
- _Pax Julia_ Beja.
- _Portus Anibalis_ Villanova de Portimaõ.
- _Salacia_, ou _Urbs Imperatoria_ Alcacer do Sal.
- _Saurium_ Soure.
- _Scalabis_, ou _Julium Præsidiũ_ Santarem.
- _Serpa_ Serpa.
- _Talabrica_ Aveiro.
- _Tubuci_ Abrantes.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[21] Plin lib. 8. Epist. 24. _Revertere gloriam veterem, & hanc ipsam
-senectutem, quæ in homine venerabilis, in urbibus sacra est_.
-
-[22] Ptolom. apud Cellar. lib. 2 cap. 1. Geogr. antiq. Veja-se Botelho
-no Alfonso liv. 3. est. 77.
-
-[23] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. pag. 627. Corog. Port. tom. 1. p.
-310. Argot. Antig. de Brag. t. 1. c. 2.
-
-[24] Villalob. Nobiliarch. Portug. pag. 89. Corogr. Port. t. 1. pag.
-296.
-
-[25] Resend. lib. 1. Antiq. Lusit. Cellar. Georgr. antiq. lib. 2. c. 1.
-§. 51. Vasæus Chronic. Hispan. pag. 254. Gruter. pag. 156. n. 4.
-
-[26] Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 3. 4. 5. Et de antiq.
-Convent. Brachar. lib. 1. cap. 3.
-
-[27] Gaspar Barreir. na Corogr.
-
-[28] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. tom. 1. pag. 323.
-
-[29] Cunha Histor. Eccl. de Brag. part 1. c. 19. Villasboas Nobil.
-Port. pag. 79.
-
-[30] Rodr. Caro in notis ad Dextr. ann. 265. _Ambrasia in Lusitania S.
-Epitectus ejusdem Civitatis civis, & Pontifex Martyr Christi_
-
-[31] Agiol. Lusit. tom. 3. pag 38.
-
-[32] O Campo Chron. p. 1. lib. 3. c. 27. Argot. Antig. de Brag. t. 1.
-lib. 2. c. 6. n. 513. D. Franc. Man. Cent. 3. Cart. 62. p. 425.
-
-[33] Faria Fonte de Aganip. p. 2. Eclog. 4. Est. 10.
-
-[34] Estaç. nas Antig. de Port. c. 20.
-
-[35] Monarc. Lusit. liv. 2. cap. 11.
-
-[36] Corogr. Portug tom. 2. pag. 308.
-
-[37] Resend. de Antiq. Lusit.
-
-[38] Gasp. Barr. na Corogr.
-
-[39] Cardos. no Agiol. tom. 3. p. 371.
-
-[40] Sá Mem. Hist. part. 2 p. 1. & seq. Resend. de antiq. lib. 4. pag.
-mihi 171.
-
-[41] Ferreras Histor. de Hesp. part 3. ad ann. 466
-
-[42] Argot. Antig. de Braga tom. 1. p. 376.
-
-[43] Cardos. Agiol Lusit. tom. 2. p. 344.
-
-[44] Res. lib. 4.
-
-[45] Cellar. lib 2. Geogr. antiq. cap. 1.
-
-[46] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. lib. 2. c. 6. n 516.
-
-[47] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. V. Argais na Poblacion
-Ecclesiast. de Hespanh. ad ann. 893.
-
-[48] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 23.
-
-[49] Monarq. Lus. l. 7. c. 23. Fr. Leaõ Benedict. tr. 2. p. 2. c. 21.
-
-[50] Corogr. Port. t. 1. p. 237.
-
-[51] Argot. Mem. de Brag. t. 2. p. 682.
-
-[52] Vasconc. in not. ad Resend. lib. 1. p. 258. Rodr. Mend. Poblac.
-gen. de Hesp. p. 135. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port.
-t. 2. p. 525. Agiol. Lus. tom. 3. p. 86. Cardoso no Diccion. Geogr.
-tom. 1. p. 487.
-
-[53] Corogr. Port. tom. 3. p. 175.
-
-[54] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 761.
-
-[55] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p.316.
-
-[56] Rodr. Car. Antig. de Sevilh. Caram. Explicac. Mystic. de las armas
-de Hespanh. p. 72.
-
-[57] Heit. Pint. in Ezech. cap. 13. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 1.
-exc. 6. Far. Epit. p. 4. lib. 5. cap. 4. Becan. in Hermat. p. 229. Luiz
-Mar. Antig. de Lisb. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr. Port.
-tom. 1. p. 209. Lacerd. in l. 6. Virgil. Æneid.
-
-[58]
-
- _Elysium in campum, terrarumque ultima tandem
- Dii te transmittent, stat flavus ubi Rhadamanthus
- Existitque viris, ubi vita, facilima durans
- Non hyemis vis multa: nives non ingruit imber
- Stridula, sed semper Zephyrorum flamina mittit
- Ingens Oceanus, senimina grata virorum._
-
- Homer. Odyss. d. vers. 113.
-
-[59] S. Gregor. Nazianz. orat. 20. p. 333. _Paradisi videlicet nostri
-speciem quandam animo intuentes, atque ex Mosaicis, ut opinor,
-nostrisque libris, tametsi in nomine nonnihil discreparit, aliis tamen
-vocabulis, hoc ipsum indicantes._
-
-[60] Proclus in Hesiod. fol. 27. _Beatorum insulas cum dicit Paradisum,
-aut campum Elysium significare videtur, sic dictum, quod corpora servet
-indissolubilia._
-
-[61] Bechman. de origin. ling. Latin. p. 333.
-
-[62] S. Justin. in Cohortat. ad Græcos p. 27. _Permulta esse à Poeta,
-ex Divinis quoque Prophetarum libris in opus suum relata... Deinde
-verò, ut Paradisi effigiem Alcinoi horti conservarent, fecit illos
-florentes, & frugum ubertate scatentes._
-
-[63] Div. Hieron. in Genes. cap. 2. vers. 15.
-
-[64] Strab. de Situ Orbis lib. 3. p. mihi 143.
-
-[65] Genes. 5.23.
-
-[66] Barcepha de Paradis. cap. 12.
-
-[67] Malvend. de Parad. lib. 1. cap. 9.
-
-[68] Rodrig. Car. ad ann. Christ. 419.
-
-[69] Benedict. Lusit. tom. 1. pag. 304.
-
-[70] Haub. Chron. ad ann. 420.
-
-[71] Haubert. ad ann. 86.
-
-[72] Argaes Poblacion Eccles. de Hesp. tom. 1. fol. 10.
-
-[73] Benedict. Lus. tom. 2. p. 109.
-
-[74] Cardos. Agiol. Lus. tom. 1. p. 172.
-
-[75] Maced Flor. de Hesp. excel. 10. n. 3. P. Purific Chronic. de S.
-Agost. p. 2. liv. 7. tit. 1. § 1.
-
-[76] Argot. Antig. de Brag. part. 1. p. 377.
-
-[77] Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p. 318.
-
-[78] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 338.
-
-[79] Purific. Chron. August. tom. 1. p. 215. vers.
-
-[80] Argot. Mem. de Brag. tom. 2. p. 694. Leal, Mem. do Bispad. da
-Guard. part. 1. tit. 3. cap. 2. n. 202. 203. 204.
-
-[81] Valer. Maxim. l. 6. cap. 4.
-
-[82] Monarq. Lusit. part. 1. liv. 3. cap. 13.
-
-[83] Far. Epitom. p. 110. part. 2. cap. 10.
-
-[84] Estaç. Antig. de Portug. cap. 19.
-
-[85] P. Abreu no fim da vida de S. Quiteria p. 307.
-
-[86] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 320. e tom. 3. p. 17.
-
-[87] Corog. Port. tom. 1. p. 162.
-
-[88] Argot. Mem. de Brag. p. 386. e 457.
-
-[89] Monarq. Lusit. p. 1. cap. 3. Heit Pint. in Ezech. cap. 27. Far.
-Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 3.
-
-[90] Resend. l. 4. de Antiq. p. mihi 216. Paiv. no Exame de Antiguid.
-p. 9.
-
-[91] Barreir. Corograf. p. 63.
-
-[92] Luiz Nunes cap. 38.
-
-[93] Cellario Geograf. Antiq. liv. 2. cap. 1 § 16.
-
-[94] Plin. liv. 1. cap. 24. Gruter. p. 1155. Vasconcel lib. 5. de
-Eborensi Municip. p. mihi 24. Duarte Nun. Deser. de Portug. p. 13.
-Brandaõ t. 3. Cardos. no Agiol. t. 2. p. 374. Barreiros na Corograf. p.
-50. v.
-
-[95] Bivar ad ann. 145.
-
-[96] Plin. liv. 4. cap. 22. Benedict. Lusit. part. 4. trat. 2. p. 173.
-Abreu Vid. de S. Quiter. p. 203.
-
-[97] Medin. l. 2.
-
-[98] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. & tom. 1. p. 457.
-
-[99] Leal, Mem. do Bisp. da Guard. p. 14. & seq.
-
-[100] Id. Dissertaç. Exegetic. not. 5. n 28.
-
-[101] Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 26.
-
-[102] Mela liv. 5. cap. 24.
-
-[103] Resend lib. 2. Antiq. p. 66. mihi. Baudrand. Diction. Geogr.
-verb. _Erythia._ Marinh. de Azeved. Antiguid. de Lisb. p. 105.
-
-[104] Paiv. Exam. de Antig. p. 42.
-
-[105] Montejar, Antig. de Hesp. part. 2 disquis. 5. §. 2. cap. 2.
-
-[106] Salmac. Exercit. Plinian. p. 284. Avien. in Oris maritim. vers.
-308. Bochart. Geograf. Sacr. p. 679. Car. Antig. de Sevilh. l. 3. cap.
-25. Cellar. Geogr. antiq. liv. 2. cap 1. §. 127.
-
-[107] Vasconcel. in Annotat. ad Resend. Barreir. Corograf. p. 50.
-
-[108] Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 11.
-
-[109] Ibid. l. 5. cap. 17.
-
-[110] De La Cled. Hist. de Portug. tom. 1.
-
-[111] Monarq. ut supr.
-
-[112] Argot. nas antiguid. da Chancellar. de Brag. p. 128.
-
-[113] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. liv. 2. cap. 6. n. 525.
-
-[114] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.
-
-[115] Estaç. Antig. de Portug. cap. 87. Barreir. Corog. tit. de
-Talaver. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 34.
-
-[116]
-
- _Dicitur Ardiburi posuisse Lacobriga septem
- Victori toties statuas, totiesque per illum
- Eruta Wandalicis bello insurgente procellis._
-
- Mantuan. in Agelaric.
-
-[117] Vasconcel. Descript. Regn. Lusitan. p. 797.
-
-[118] Mousinh. no Afric. cant 3. est. 14.
-
-[119] Gabr. Pereir. na Ulyss. cant. 8. est. 146.
-
-[120] Argot. Mem. de Brag. liv. 4. cap. 4. p. 670.
-
-[121] Resend. de Antiq. Lusit. lib. 4. p. mihi 188. e 209.
-
-[122] Andr. Schotti, Isaac Vosio, Plinio, Antonin, e outros apud
-Cellar. lib. 2. cap. 1. §. 20. Geograf. antiq.
-
-[123] Monarq. liv. 9. cap. 27. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 68.
-
-[124] Argot. Mem. do Arc. de Brag. p. 649.
-
-[125] P. Henriq. de Abreu, Vid. de S. Quiter. p. 203.
-
-[126] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. l. 2. cap. 14. dissert. 3.
-
-[127] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2 & 16. cap. 45. Cardos. Agiol.
-Lusitan. tom. 2. a 20 de Abril, & tom. 3. p. 726. Arauj. nos Success.
-Milit p. 109. & seqq.
-
-[128] Corograf. Port. tom. 1. p. 210.
-
-[129] Argot. Mem. do Arceb. de Brag. p. 396.
-
-[130] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 11.
-
-[131] Purific. Chronic. August. tom. 1. p. 134. vers.
-
-[132] Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 546.
-
-[133] Fr Leaõ de S. Thom. Benedictin. Lusit. tom. 2 p. 279. Saavedr.
-Coron. Gotic. part. 1. cap 12.
-
-[134] S. Max. ad an. 550. _Prope Osset oppidum Lusitaniæ in Diœcesi
-Pacis Augustæ fontes Baptismatis in pervigilio Paschatis excitantur_.
-
-[135] Plin. l. 3. cap. 1.
-
-[136] Bochart. Geogr. Sacr. lib 1. cap. 34. tom. 2.
-
-[137] Resend. l. 4. p. 201. Gruter. p. 274.
-
-[138] Strab. liv. 3. p. 99.
-
-[139] Nun. Descr. de Portug. pag. 13. Poyar. Diccion. Geogr. pag. 184.
-
-[140] Rodrig. da Cunh. Hist. de Brag. part. 2. cap. 61. Cardos.
-Agiolog. Lusit. tom. 1. Prolog. § 6.
-
-[141] Id. Card. tom. 2. Agiol. p. 10. Vide etiam Argaes Dialog. 3. cap.
-8.
-
-[142] Argot. Memor. do Arceb. de Brag. p. 325.
-
-[143] Id. ibid. p. 359.
-
-[144] Ibid. p. 370.
-
-[145] Plin. lib. 4. cap. 22. Barreir. Corogr. p. 63.
-
-[146] Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. §. 9.
-
-[147] Mend. da Silv. Poblac. gen. de Hesp.
-
-
-
-
- CAPITULO III.
-
- _Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre._
-
-
-1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte
-de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o
-todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças
-fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional,
-o primeiro porto, que se nos offerece, he
-
-2 _Caminha_. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que
-divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os
-Lugares de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma
-Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas
-barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e
-continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se
-
-3 _Viana_ na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de fóra da
-ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade para
-ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais entupida
-de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes, dous
-revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para sua
-defensa. Daqui se continúa até
-
-4 _Esposende_, que dista de Viana tres leguas para o Sul. Nesta barra,
-onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de embarcações
-grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças escaças de
-agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o rio Cávado
-por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando aquella para
-a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, quasi meya legua
-da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte a Sul hum quarto de
-legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ _Cavallos de Faõ_,
-entre os quaes, e a terra podem bordejar navios, pois tem cinco, ou
-seis braças de fundo em preamar. O Author da Corografia Portugueza tom.
-1. pag. 310. diz, que este era o porto, em que se carregavaõ de ouro as
-frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual veja-se tambem a Antonio de Sousa
-de Macedo nas Flores de Hespanha cap. 4. excel. 2. O mais certo he, que
-foy este o porto, donde sahiaõ as armadas dos Romanos para fazerem as
-suas conquistas. Vindo caminhando para o Sul o espaço de tres leguas,
-segue-se a
-
-5 _Villa do Conde_. Dá entrada a esta barra a foz do rio Ave, porém
-estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes delineado
-pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay correndo a
-marinha até o
-
-6 _Porto_, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o porto de
-Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica
-distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma da parte do
-Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinaria de
-entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua cheya, sendo
-navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa
-pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da
-barra para a parte do Norte está o Castello de S. João da Foz em
-quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus
-lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado
-opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. Aqui se termina a
-Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto sempre para o Sul o
-espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra da Beira, que he
-
-7 _Aveiro_. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da Cidade
-tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e quatro
-palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre da
-ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia
-de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no
-ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias,
-onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o
-genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste,
-encontramos a barra do
-
-8 _Mondego_. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca
-da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do
-forte meya legua na Costa fica a Villa de _Boarcos_, onde tambem ha
-surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia
-de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da
-Estremadura a
-
-9 _Pederneira_. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e
-caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja
-de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo
-concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de
-duas leguas está
-
-10 _Selir_, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à Villa
-de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, por onde
-entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma enseada, que
-terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e patachos. De
-Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, segue-se
-
-11 _Peniche_, onde tambem chamaõ _Cabo de Carvoeiro_. Fica, estando a
-maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da banda do Norte
-he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em seis, ou sete
-braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de Peniche estaõ
-duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que chamaõ as
-_Berlengas_, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de Peniche para
-o Sul, caminhando onze leguas, está a _Ericeira_, e a pouco espaço o
-_Cabo da Roca_. Para diante mais duas leguas está _Cascaes_, onde ha
-capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito até vinte braças de alto.
-Daqui proseguindo interposto o espaço de duas leguas, se encontra o
-famoso porto de
-
-12 _Lisboa_. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo de duas
-fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e S. Lourenço,
-ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em distancia huma
-da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo cada passo.
-Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta barra 2500
-passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa dos cachopos,
-que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a qual se divide
-em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a fortaleza de S.
-Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay por entre os
-cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. Lourenço,
-chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem 500
-braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra dentro,
-a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey D. Manoel,
-fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena distancia de
-huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de Lisboa: mas como
-o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum grande seyo,
-fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que naõ continue
-na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que ha desde a
-barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.
-
- _Portos do Tejo da parte do Portos do Tejo da parte do
- Sul. Norte._
-
- Trafaria. S. Giaõ.
- Portinho de Costa. Oeiras.
- Torre velha. Caxias.
- Porto brandaõ. Carcavelos.
- Manatega. Paço d’Arcos.
- Alfansina. Cartuxa.
- Arrabida. Boa Viagem.
- Arialva. Santa Catharina.
- Fonte da pipa. Pedrouços.
- Cassilhas. Belém.
- Caramujo. Junqueira.
- Motella. Santo Amaro.
- Oliveirinha. Alcantara.
- Corroyos. Pampulha.
- Santa Martha. Santos velhos.
- Talaminho. Caes do Tojo.
- Amora. A Dizima.
- Rio dos Judeos. Remolares.
- Arrentella. Corpo Santo.
- Seixal. Caes da Pedra.
- Rosario. Alfama.
- Porto dos PP. Paulistas. Caes do Carvaõ.
- Aldeya. Bica do Sapato.
- Cabo da Linha. Santa Apollonia.
- Coina. Cruz da Pedra.
- Fornos delRey. Madre de Deos.
- Palhaes. Xabregas.
- A Telha. Grilo.
- A Verderena. Beato Antonio.
- Barreiro. Poço do Bispo.
- Lavradio. A Martinha.
- Barra a barra. Braço de prata.
- Alhos vedros. Cabo rubo.
- Moita. Unho de D. Garcia.
- Esteiro furado. Marvilla.
- Sarilhos grandes. Olivaes.
- Sarilhos pequenos. Sacavem.
- Aldeya Galega. Aqui desagua este rio no Tejo
- Lançada. por huma grande boca, fazendo
- Quinta de D. Maria. huma profundissima foz; e
- Samouco. ficando quasi ao Norte da Cidade,
- Alcouxete. volta contra o Noroeste, onde
- Barroca d’Alva. se encontraõ os vistosos portos
- Pancas. de _Unhos_, _Frielas_, _Mealhada_,
- Çamora Correa. _Granja_,_ Marnotas_, _Santo Antonio
- Benavente. do Tojal, &c_. Continuando pela
- marinha direita, segue-se:
-
- Salvaterra. Massaroca.
- Escaroupim. Santa Iria.
- Mugem. Povoa.
- Santa Martha. Alverca.
- Almeirim. Alhandra.
- Chamusca. Villa-Franca.
- Pinheiro. Póvos.
- Moita. Castanheira.
- Barca. Villa-Nova.
- Brito. Azambuja.
- Santa Margarida. Casa branca.
- Crucifixo. Valada.
- &c. Porto de Mugem.
- Santarem.
- Azinhaga.
- Labruja.
- Cardiga.
- Barquinha.
- Tancos.
- Payo de pelles.
- Praya.
- Punhete.
- Redemoinhos.
- Abrantes.
-
-Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico,
-prosegue a Costa da Roca de Cintra até o
-
-13 _Cabo de Espichel_ na distancia de oito leguas ao Sudueste. Em outro
-tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos Sarrios. No
-cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa Imagem de Nossa
-Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está
-
-14 _Cezimbra_, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à Arrabida
-ha duas leguas, e junto della a _Torre de Outaõ_, e huma enseada para
-setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa legua para
-Leste se offerece a barra de
-
-15 _Setubal_, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte
-e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella
-mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas
-fica
-
-16 _Sines_ já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro em
-dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte leguas
-até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste caminho
-mais tres leguas se vê a
-
-17 _Ilha do Pessegueiro_, antigamente chamada Petanio, como diz Joaõ de
-Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro em duas,
-e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a barra de
-
-18 _Odemira_, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de fundo.
-Caminhando-se para diante sete leguas, está
-
-19 _Arrifana_, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em oito
-até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de S.
-Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está
-
-20 _Sagres_, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem
-surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para
-diante continúa
-
-21 _Lagos_. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em sete para
-oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da _Bandeira_,
-bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta Costa outras
-muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de Lagos a foz
-de
-
-22 _Alvor_. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada
-_Portos Anibalis_. Navega-se da sua foz até à Villa em lanchas.
-Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece
-senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se
-
-23 _Villa-Nova de Portimaõ_, em cuja barra por causa dos bancos de arêa
-moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous fortes,
-hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente, a que
-chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar vinte e
-tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para bastantes
-embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe dista duas
-leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia tem só meya
-legua de comprimento capaz. Descobre-se logo
-
-14 _Albofeira_, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte da
-Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de
-Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte
-de Leste, outro de Oeste. Segue-se
-
-25 _Faro_, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a parte de
-Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante cinco leguas
-vemos.
-
-26 _Tavira_, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo, e
-he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a
-Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do
-Algarve, está ultimamente
-
-27 _Castro-Marim_ defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra parte do
-rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e separa o Reino
-do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este rio cinco leguas
-com os olhos ao Norte, vemos a Villa de
-
-28 _Alcoutim_, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar do
-Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno
-levantado. Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e
-separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de
-
-29 _Mertola_ já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres váos, o
-do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima a margem
-do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça, e Villa de
-
-30 _Serpa_, a qual com as de _Moura_, _Mouraõ_, _Olivença_, _Ouguela_ e
-_Noudar_ estaõ no destricto de Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo
-de terra, que alli se fórma da parte direita, pondo-nos voltados ao
-Norte, deixando à maõ esquerda o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo
-nossas desde o anno de 1297 pela concordata, ou tratado de Alcanisses,
-que fez ElRey D. Diniz com ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela
-margem do mesmo Guadiana está _Jurumenha_, e depois segue-se
-
-31 _Elvas_, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas
-da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem
-fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está
-a Praça de
-
-32 _Campo-Mayor_ em huma grande planicie muy bem fortificada ao moderno
-com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante seguem-se
-_Arronches_, _Alegrete_, _Portalegre_, _Marvaõ_, _Castello de Vide_, e
-_Montalvaõ_, Praças todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a
-separaçaõ das duas Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo
-por entre Malpica, e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que
-se encontra na Beira, indo por esta parte, he
-
-33 _Rosmaninhal_, que de huma parte está fortificada com o Tejo, e de
-outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he cercada
-de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas junto
-ao rio Elja está a Villa de
-
-34 _Segura_ com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o campo.
-Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e Castella
-de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa de
-
-35 _Salvaterra da Beira_ com Castello forte bem descortinado, e
-guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais
-para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que se
-oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal. Nas
-costas de Salvaterra cinco leguas fica _Idanha nova_, cuja aspereza
-de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o Nascente,
-segue-se
-
-36 _Penagarcia_ com Castello forte sobre penhasco. Tem humas montanhas,
-que lhe servem de grande defensa, e confiança contra qualquer
-temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas costas de
-Penagarcia está situada
-
-37 _Idanha a velha_ quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul: he
-sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua
-segue-se a Villa de
-
-38 _Monsanto_ com seu Castello fundado em hum monte das mais raras
-asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a
-todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade
-de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde
-para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem
-o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum
-adagio, que diz: _Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te ganare,
-ganar puede el mundo_; e já os Romanos a tiveraõ sete annos de cerco.
-Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas, segue-se
-ao Norte.
-
-39 _Penamacor_, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente
-penhasco, e he por sitio inexpugnavel. Oppoemse-lhe o Castello de
-Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do
-
-40 _Sabugal_ com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de Sortelha
-inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com Castella
-de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste pela serra
-de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal. De Lagiosa
-até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde começa a
-fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de
-
-41 _Alfayates_, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta Praça
-o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680 pés
-geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura de vinte
-e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os Castellos de
-Payo, e Albergaria. Seguem-se _Villar-Mayor_, e _Castello Mendo_, duas
-leguas em distancia hum do outro, indo sempre ao Norte. Outras duas
-para diante está _Castello Bom_, e mais outras duas a Praça de
-
-42 _Almeida_, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores Praças
-do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por alcance de
-vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem della terras
-de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga, Miranda,
-Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor
-eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres
-leguas para o Norte segue-se
-
-43 _Castel-Rodrigo_ em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as armas
-Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer dar
-entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque seus
-moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites. Acabada
-de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a divide
-de Tras os Montes, onde vemos logo o _Castello d’Alva_, e _Freixo
-de Espadacinta_ em sitio baixo, mas com cinco torres, e fortaleza
-grandiosa. Segue-se o _Mogadouro_, a _Bemposta_, _Penas-Royas_,
-_Algoso_, terras todas fronteiras do Reino de Leaõ. Depois segue-se
-
-44 _Miranda do Douro_ collocada sobre asperos penhascos, a quem o
-rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem bom
-Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se _Vimioso_,
-_Outeiro_, cinco leguas cada huma de Miranda; e contaremos nove, se
-passarmos daqui Nornoroeste a
-
-45 _Bragança_, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a aparta
-da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na distancia
-de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza
-
-46 _Vinhaes_, _Monforte do Rio livre_, _Chaves_, _Montalegre_; e
-avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do Maraõ, e entrando na do
-Gerez, em cujo encontro se dividem as duas Provincias Minho, e Tras os
-Montes, se avistaõ nesta linha alguns Castellos, como o de _Lanhoso_
-em correspondencia da fortaleza de Araujo; o _Castello da Nobrega_
-com as terras de Entrimo por fronteiras; o _Castello de Lindoso_, a
-quem se oppoem o Lugar de Ferreiros; o _Castello Laboreiro_, que tem
-por opposto o da Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho.
-Segue-se a Villa de
-
-47 _Melgaço_ com excellente Castello, a quem se oppoem os Lugares
-Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante _Valladares_,
-que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e Marcella. Outra legua
-e meya está _Monçaõ_ em sitio eminente. Huma legua para diante segue-se
-_Lapella_, e outra
-
-48 _Valença_ fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se
-offerece _Villa-Nova de Cerveira_, fundada, e cercada de muros de
-cantaria. Oppoem-se ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano;
-e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com _Caminha_, donde
-principiámos o gyro desta demarcaçaõ.
-
-
-
-
- CAPITULO IV.
-
-_Divisaõ antiga._
-
-
-1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz.
-Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos,
-toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que
-debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas,
-Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos.
-Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte
-daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas.
-
-2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a
-contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos
-annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a
-que chamaraõ Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.[148] A citerior
-ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a
-que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado
-occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia
-esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos
-seus interesses, accrescentando, ou diminuindo as terras de huma, ou
-de outra parte.
-
-3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra
-Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites, dividio
-a Hespanha em tres Provincias, a saber: _Lusitanica_, _Betica_, e
-_Tarraconense_. A Lusitanica incluia a mayor parte do que hoje chamamos
-Portugal, com outras muitas terras, que hoje pertencem ao Reino de
-Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O rio Douro a separava
-pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo oriental huma linha,
-que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se incorpora com o
-rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana, e este depois
-dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja costa cercava
-o restante da Lusitania.
-
-4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva
-Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli
-corria até o cabo de _Finis terræ_, e aquelle espaço depois situado
-entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo, e
-Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma
-padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce
-a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre
-Argote.[149]
-
-5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano,
-visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis
-Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza,
-e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da
-Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo
-com particularidade, e certeza.[150] Constantino Magno fez outra
-divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores.
-Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.
-
-6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições
-tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a que
-chamavaõ _Conventos Juridicos_, collocados nas Cidades mais insignes da
-Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca para administraçaõ da
-justiça. Destes Conventos Juridicos, a que correspondem hoje as nossas
-Relações, havia quatorze em toda Hespanha: as que tocaraõ às nossas
-terras, foraõ tres: _Braga_, _Béja_, e _Santarem_.
-
-7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de
-_Municipios_. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas por
-familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno _Béja_, e _Santarem_,
-além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e gozavaõ seus
-Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios eraõ os que
-se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ _Lisboa_, _Evora_,
-_Mertola_, e _Alcacer do Sal_.
-
-8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno
-de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente
-os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições
-até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de
-1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios;
-e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou
-a chamar Portugal o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões
-antigas, passemos a expressar as modernas.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[148] Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin. cap. 23.
-Strab. lib. 3. pag. 166.
-
-[149] P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas Mem. do
-Arceb. de Brag. pag. 40. e 41.
-
-[150] Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6. Flor. do
-Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog. de reb
-Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19. e 20.
-Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir. Corograf.
-pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers.
-
-
-
-
- CAPITULO V.
-
-_Divisaõ moderna pelas Provincias._
-
-
-1 Presentemente se divide Portugal em seis Provincias, ou Regiões:
-duas ficaõ na parte septentrional, e se chamaõ _Entre Douro e Minho_,
-e _Tras os Montes_: duas no coraçaõ do Reino, chamadas _Beira_,
-e _Estremadura_: e outras duas na parte Meridional, a que chamaõ
-_Alentejo_, e _Algarve_, que tambem logra o titulo de Reino. Cada
-Provincia destas se subdivide em Comarcas, ou Ouvidorias, para boa
-administraçaõ da justiça; e cada Comarca tem debaixo da sua jurisdiçaõ
-certo numero de Villas, e Lugares, em que existem seus Juizes, que
-governaõ subordinados aos Corregedores das Comarcas. Supposta esta
-prejacente noticia, entremos a descrever a primeira Regiaõ da parte do
-Norte, chamada
-
-
-_Provincia do Minho._
-
-2 Como esta Provincia está encerrada entre as famosas correntes dos
-dous rios Douro, e Minho no Occidente septentrional de Hespanha, da
-tal situaçaõ tomou nome de Entre Douro, e Minho, que em Latim se diz
-_Interamnensis_, ou _Duriminea_. Quasi todos os Geografos[151] lhe daõ
-de comprido de Norte a Sul dezoito leguas, e de Nascente a Poente doze
-de largo na sua mayor largura, porque em algumas partes naõ tem mais
-que oito.
-
-3 Confina esta Provincia da banda do Meyo dia com o rio Douro, que
-a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano,
-começando em S. Joaõ da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o
-rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do
-Norte, vay pelo dito rio até o termo da Villa de Monçaõ, e alli passa o
-termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de
-Castro-Laboreiro, que saõ doze leguas desde a Villa de Caminha. Dalli
-atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, e
-vay pela terra de Barrozo até à ponte de Cavez, que está no rio Tamega,
-e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay
-pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começámos.
-
-4 O clima he o mais temperado, porque está entre o parallelo de 41 e
-42 gráos de altura do Polo Arctico. Daqui nasce, que sendo taõ pequena
-esta Regiaõ, he summamente fertil; e a benignidade dos seus ares, a
-affluencia dos seus rios, as abundancias, e delicias dos seus campos
-comprovaõ a fama do seu admiravel temperamento; donde se animou a dizer
-Manoel de Faria,[152] que se no mundo houve Campos Elysios, existiraõ
-nesta Provincia; e se os naõ houve, merecia que sómente os houvesse
-nella, se he que este titulo se deve dar a sitio ameno, e delicioso.
-
-5 Assim o vemos, porque a mayor parte desta Provincia está sempre
-cheya de arvoredos de todo o genero, que organizaõ hum continuado
-bosque perpetuo, e muy aprazivel, composto de loureiros, azinheiros,
-platanos, buxos, murtas, teixos, pinheiros, e ciprestes, que todos nem
-de Inverno perdem a folha, além de castanheiros, carvalhos, sovereiros,
-e outras arvores, donde se criaõ as mais robustas madeiras do
-mundo,[153] taõ ferteis, que ha castanheiro, que dá trinta, e quarenta
-alqueires de castanha, e ainda hum moyo, como affirma Joaõ Salgado de
-Araujo:[154] pé de vide em latada, ou em arvore, que dá pipa de vinho:
-pé de nogueira, que dá moyo de noz: larangeira, que dá cinco carros
-de laranja: pé de carvalho, que dá meyo moyo de bolota; e alguns taõ
-grandes, que naõ o abrangem quatro homens, como he na quinta de Mouro
-de S. Joaõ de Ataens da Villa de Pica de Regalados. Testifica o Doutor
-Joaõ de Barros na Descripçaõ, que fez desta Provincia, capitulo 7, que
-vira hum, em cujo oco cabiaõ cincoenta cabras, e outro, onde cabiaõ dez
-homens a cavallo, dando por testimunha ao Marquez de Villa-Real, que
-foy huma das pessoas, que entrara dentro, o que parece encarecimento,
-posto que o mesmo escreve Manoel de Faria.[155]
-
-6 Esta abundancia he igual em tudo. De boys, e vacas sustenta
-quatrocentos mil, e mais de hum milhaõ de ovelhas, e carneiros, segundo
-dizem Duarte Nunes,[156] e outros. O Doutor Joaõ de Barros, sendo
-Ouvidor de Braga o anno de 1500 e tantos, diz, que por ordem delRey
-mandara fazer a conta do gado, que havia só no termo daquella Cidade,
-e achara treze mil cabeças de gado meudo, e de boys, e vacas onze
-mil. A mesma fecundidade corresponde a todo o genero de caça, carnes,
-e peixes, tudo de excellente sabor, principalmente havendo tantos
-rios povoados de gostosos salmões, lampreas, trutas, salmonetes,
-sáveis, bogas, e tainhas, com infinitos outros igualmente admiraveis.
-Criaõ-se tambem todo o genero de legumes, e hortaliça: tem muito mel, e
-lacticinios, muito milho, o paõ que basta, e até minas de ouro, prata,
-ferro, e estanho. Lavra-se o linho mais fino, de que se fabrîca o panno
-branco muy estimado na Europa. Só azeite ha pouco nesta Provincia, naõ
-porque a terra deixe de criar oliveiras, mas porque naõ as plantaõ;
-porque lisongeados os seus naturaes com o prestimo, e sabor do chamado
-unto, de que usaõ tanto nos guizados, como às vezes nas luzes,
-esqueceraõ-se de as cultivar.
-
-7 Saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e
-até nos tempos, que a natureza constitue estereis, saõ aqui fecundas
-as mulheres. Muitos exemplos, e casos ajuntou para confirmaçaõ desta
-raridade, e excellencia Gaspar Estaço,[157] e Antonio de Sousa de
-Macedo.[158] Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde
-sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o
-Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha
-parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum sino, e cantar hum
-galo.[159] Parece toda a Provincia huma Cidade continuada.
-
-8 Conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas
-aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota,
-e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes,[160] e
-innumeraveis rios grandes, e pequenos; sendo os de mayor nome os
-seguintes: _Ave_, _Basto_, _Benade_, _Biturim_, _Cabraõ_, _Caldas_,
-_Campanhaõ_, _Cávado_, _Celho_, _Celinho_, _Coa_, _Cosme_, _Coura_,
-_Deiriz, este_, _Dolo_, _Douro_, _Enfesta_, _Ensalde_, _Fato_,
-_Ferreira_, _Fulias_, _Gadanha_, _Gifães_, _Gogim_, _Herdeiro_,
-_Homem_, _Landim_, _Lavoreiro_, _Leça_, _Lima_, _Locia_, _Maçarelos_
-_Mejavelhas_, _Melres_, _Minho_, _Moles_, _Mouro_, _Neiva_, _Olo_,
-_Ovelha_, _Ouvir_, _Pontido_, _Prado_, _Ramada_, _Rellas_, _Siguelos_,
-_Sousa_, _Tamega_, _Taveira_, _Teixeira_, _Torto_, _Trovella_, _Tua_,
-_Valengo_, _Vargeas_, _Veadões_, _Vez_, _Vizella_, _Zezere pequeno_, e
-outros, que se diffundem nos capitaes.
-
-9 Duzentas saõ as pontes de cantaria, a que estes rios obedecem, e as
-mais famosas a de _Cavez_ muy larga, e muy alta, com cinco arcos de
-pedras taõ admiravelmente lavradas, que todas saõ de hum tamanho: a
-de _Mondim_ com seis arcos: a de _Amarante_ feita por diligencias de
-S. Gonçalo; e outras muitas. Contaõse-lhe seis portos de mar capazes
-de receber navios: _Caminha_, _Viana_, _Esposende_, _Leça_, _Villa do
-Conde_, _Porto_.
-
-10 As Praças de armas cercadas, e acastelladas saõ dezaseis: _Porto_,
-_S. Joaõ da Foz_, _Villa do Conde_, _Viana_, _Caminha_, _Villa-Nova_,
-_Valença_, _Lapela_, _Monçaõ_, _Melgaço_, _Castelo Lavoreiro_,
-_Lindozo_, _Nobrega_, _Lanhozo_, _Aguiar de Pena_, _Celorico de
-Basto_; e pelo Certaõ tem: _Braga_, _Guimarães_, _Ponte de Lima_, e
-_Barcellos_, de todas as quaes se faz pleito, e omenagem. E segundo
-o calculo de Joaõ Salgado de Araujo,[161] tinha no anno de 1644 seis
-mil homens capazes de tomar armas. Mas pelo que toca ao militar,
-accrescento huma singularidade desta Provincia, e he, que pelos muitos
-rios menores, que comprehende, pontes delles, barcas dos mayores,
-e grande abundancia de bosques, sem duvida que causará huma grande
-difficuldade para se deixar penetrar de inimigos; e já estes embaraços
-remiraõ muitas vezes este Paiz da invasaõ dos Romanos, aos quaes lhe
-custou tempo, trabalho, e gente a sua conquista, quando tudo rendiaõ
-suas armas entaõ vitoriosas contra as mais nações do mundo todo.
-
-11 Pelo que pertence ao estado Ecclesiastico, ha nesta Provincia duas
-Igrejas Cathedraes: _Braga_ Arcebispado, e _Porto_ Bispado. Cinco
-Collegiadas: _Guimarães_, _Barcellos_, _Valença_, _Cedofeita_, _Viana_.
-Paroquias, conforme o calculo de alguns Authores,[162] tem 1460, e
-de outros tem 1500.[163] Conventos, e Mosteiros de diversas Ordens
-mais de 150. De Ermidas, e Igrejas naõ Paroquiaes hum grande numero.
-Corpos de Santos, que venera, tem quatorze. Santos nacionaes tem grande
-quantidade: _S. Damazo_, _S. Gonçalo de Amarante_, _S. Torcato_,
-_S. Pedro de Rates_, _S. Gerardo_, _S. Vitouro_, _S. Frutuoso_, _S.
-Martinho de Dume_, _S. Rozendo_, _Santa Senhorinha_, _Santa Suzana_, _o
-Irmaõ Pedro de Basto_, e outros muitos, de que o Agiologio Lusitano faz
-memoria. De homens insignes já em letras, já em armas tem produzido,
-e produz numero grandissimo, de que nós, quando fallarmos das suas
-patrias particulares, nos lembraremos.
-
-12 Naõ he para esquecer huma excellente gloria, que esta Provincia tem,
-qual he darse nella principio à vida Eremitica muitos annos antes que
-S. Paulo primeiro Ermitaõ a introduzisse no Reino; pois sendo S. Felix
-o que deu sepultura a S. Pedro de Rates, como consta das suas Lições, e
-que vivia nos desertos desta Provincia em hum alto monte de S. Miguel
-de Laundos, Abbadia da Villa de Esposende,[164] fica precedendo S.
-Felix a S. Paulo o que vay do anno 46, em que morreo S. Pedro de Rates,
-ao de 300 em que floreceo S. Paulo. A causa porém, que houve para
-chamar a S. Paulo primeiro Ermitaõ, veja-se no Agiologio Lusitano tom.
-1.
-
-13 Divide-se finalmente esta Provincia em seis Comarcas, que vem a ser:
-_Guimarães_, _Braga_, _Porto_, _Viana_, _Barcellos_, e _Valença_. Cada
-huma dellas tem varias povoações debaixo de sua jurisdiçaõ. Tudo desta
-Provincia resumio nestas duas estancias a Musa de hum engenho Hespanhol:
-
- _Es Entre Duero, y Miño la primera
- Porcion del Reyno, en rios muy bañada,
- Donde_ Braga _magnanima prospéra
- De los Brachatos hija sublimada.
- Al Romano dificil, y guerrera:
- A los de Porto altiva, y respetada:
- De Augusto honor, Juridico Convento,
- Corte Sueva, y Arçobispal assiento.
-
- Del Duero ilustra el margen atractivo_
- Porto, _que de Gatelo pueblo raro
- Dandole a Portugal nombre preclaro._
- Guimarães _Villa es noble, y primitivo
- Solio de Reys Lusos. Tiene claro
- Timbre_ Puente de Lima: _altas bellezas_
- Viana, _de partido ambas cabeças._
-
-_Comarcas da Provincia do Minho._
-
- { {Aguiar da Penha, Amarante,
- {5 Villas. {Canaveses, Guimarães,
- { {Povoa.
- {
- { {Atey, Cabeceiras de Basto,
- { {Celorico de Basto, Santa
- { {Cruz de Riba Tamega,
- { {Felgueiras, Gestaço, Gouvea
- { {de Riba Tamega, Hermello,
- {19 Concelhos. {S. Joaõ de Rey,
- { {Lanhoso, Mondim, Montelongo,
- { {Ribeira de Pena,
- I. { {Ribeira de Soás, Roças,
- Guimarães { {Serva, Vieira, Villaboa da
- Correiçaõ { {Roda, Unhaõ.
- consta de {
- { {Abbadim, Fonte Arcada,
- { {Mancelos, Moreira de
- { {Rey, Parada de Bouro, Pedraido,
- {14 Coutos. {Pombeiro, Pousadela,
- { {Refoyos de Basto, Taboado,
- { {Tibães, Travanca,
- { {Tugas, Vimieiro.
- {
- {4 Honras. {Cepães, Meinedo, Ovelha,
- { {Villacahiz.
- {
- {1 Julgado. {Lagiosa.
-
- { {Arcos de Valdevez, Monçaõ,
- {7 Villas. {Ponte da Barca, Ponte
- { {de Lima, Prado, Viana, Villanova
- { {de Cerveira.
- {
- { {Albergaria de Penella, Bouro,
- { {Coura, Entre Homem
- { {e Cávado, Geraz do Lima,
- II. { {Lindoso, Santa Martha do
- Viana {12 Concelhos.{Bouro, Santo Estevaõ da Faxa,
- Correiçaõ { {Soajó, Souto de Rebordaõs,
- consta de { {Villa Garcia, Pica
- { {de Regalados.
- {
- { {Aboim da Nobrega, Azevedo,
- { {Baldreu, Boilhosa,
- { {Bouro, Cervães ou Villar
- {15 Coutos. {de Areas, S. Fins, Freiriz,
- { {Luzio, Manhente, Nogueira,
- { {Queimada, Sabariz,
- { {Souto, Rendufe.
-
- { {Barcellos, Castro Laboreiro,
- {7 Villas. {Esposende, Famelicaõ,
- { {Melgaço, Rates, Villa
- { {do Conde.
- {
- III. {3 Concelhos. {Larim, Portella das Cabras,
- Barcellos { {Villachã.
- Ouvidoria {
- consta de { {Cornelã, Fragoso, Gondufe,
- {5 Coutos. {Palmeira, Villar de
- { {Frades.
- {
- {1 Julgado. {Vermoim.
- {
- {1 Honra. {Fralães.
-
- IV. {3 Villas. {Caminha, Valença, Valadares.
- Valença {
- Ouvidoria {
- consta de {2 Coutos. {Feães, Paderne.
- {1 Cidade. {Braga.
- V. {
- Braga { {Arentim, Cabaços, Cambezes,
- Ouvidoria { {Capareiros, Dornelas,
- consta de {13 Coutos {Ervededo, Feitosa, Goivães,
- { {Moure, Pedralva,
- { {Provesende, Pulha, Ribatua.
-
- {1 Cidade. {Porto.
- {
- {3 Villas. {Melres, Povoa de Varzim,
- { {Villanova.
- {
- { {Aguiar de Sousa, Avintes,
- { {Bayaõ, Bemviver, Gaya,
- VI. {13 Concelhos.{Gondomar, Lousada, Maya,
- Porto { {Penafiel de Sousa, Penaguiaõ,
- Correiçaõ { {Portocarreiro, Refoyos de
- consta de { {Ribadave, Soalhães.
- {
- { {Ansede, Entre ambos os
- {7 Coutos. {rios, Ferreira, Meinedo,
- { {Paço de Sousa, Pendorada,
- { {Villaboa de Quires.
- {
- {6 Behetr. e {Baltar, Barbosa, Frasaõ,
- {Honras. {Gallegos, Louredo, Sabrosa.
-
-
-_Provincia de Tras os Montes._
-
-1 A Segunda Regiaõ, ou Provincia do Reino, he chamada _Tras os Montes_,
-porque do Reino de Galiza até o Douro de Norte a Sul atravessaõ huns
-montes muy altos, que parece estaõ cercando a Provincia do Minho, como
-fazem os Alpes a Italia; e saõ de tanta eminencia estes montes, que
-em muitas partes tem huma legua de subida aspera, como se experimenta
-nas serranias do Gerez, e altura do Maraõ; e assim havendo respeito ao
-Minho, fica esta Provincia além daquelles montes, que lhe deraõ o nome.
-
-2 Sua demarcaçaõ costuma fazerse da Portela de Homem pela banda do
-Norte até à ponte de Cavez; e continuando do Poente pelo rio Tamega
-até entrar no Douro, faz este a divisaõ com a Provincia da Beira até
-Vilvestre. Daqui olhando para o Norte, o mesmo rio Douro a aparta do
-Reino de Leaõ até quatro leguas depois de se chegar a Miranda; e daqui
-por divisas, e marcos até dar no rio Maçaõ naõ longe de Maid, onde
-inclina a Poente com a serra chamada de Teixeira, e as de Senabria, e
-Gerez até vir incorporarse onde começou.
-
-3 O commum dos Geografos[165] dá a esta Provincia trinta leguas de
-comprido, e vinte de largo; porém o Abbade de Pera[166] diz, que naõ
-fizeraõ boa mediçaõ; porque da Portella de Homem até Urros defronte de
-Vilvestre saõ trinta e quatro leguas, e de Canavezes até o rio Maçaõ
-fazem trinta e seis (he erro, porque verdadeiramente naõ devem ser mais
-que vinte e seis conforme os Mappas de Fernaõ Alvares Seco, e Pedro
-Teixeira) e assim lhe dá de circuito cento e trinta leguas.
-
-4 Muito mal se informou Floriaõ do Campo naõ só na demarcaçaõ, que
-dá a esta Provincia, mas em dizer que he terra infrutifera; porque
-supposto naõ ser taõ fertil como Entre Douro e Minho, a verdade he
-haver aqui muitos valles deliciosos, e muitas Villas abastadas de paõ,
-vinho, azeite, mel, frutas, gados, caças, legumes, e sedas. Tal he a
-Villa de Chaves muy amena, na qual habitaraõ os Romanos muito tempo,
-por ser boa terra, e Villa-Real e outros muitos Lugares desta Regiaõ:
-só de frutas de espinho naõ tem abundancia.
-
-5 O clima naõ ha duvida, que he frio em extremo: tem nove mezes de
-Inverno, e tres de Veraõ ardentissimo, por naõ ser arejada do Norte,
-que embaça nas montanhas, e com tudo he terra sadia, e de boas aguas,
-excepto em Bragança, e Miranda, que saõ pessimas. Os rios mais nomeados
-saõ estes: _Angueira_, _Alvedrinha_, _Azibo_, _Beça_, _Corgo_, _Caldo_,
-_Calvo_, _Douro_, _Fervença_, _Frio_, _Fresno_, _Lobos_, _Maçaõ_,
-_Mente_, _Pinhaõ_, _Rabaçal_, _Sabor_, _Tamega_, _Tinhella_, _Tua_,
-_Tuella_, _Villariça_, _Vellarva_, _Zacharias_. Fontes medicinaes tem
-quarenta e tres.
-
-6 A gente, que habita esta Provincia, he pela mayor parte robusta, e
-corpulenta: as pessoas nobres saõ dotadas de grande primor, e brio;
-muy valentes, e honrados; aptos para a guerra, e tem grande exercicio
-da gineta, e brida, em que fazem sumptuosas festas. Saõ muy devotos
-da Igreja, e veneraõ com estimaçaõ a seus Ministros: conservaõ as
-amizades, e com os estranhos saõ attenciosos. As mulheres nobres tem
-grande recolhimento, as outras ajudaõ a cultivar as terras a seus
-maridos, e às vezes mais trabalhaõ ellas que elles: em fim diz o Abbade
-Joaõ Salgado de Araujo, que naõ se sabe desta Provincia vicio algum
-nativo della.
-
-7 Inclue esta Provincia duas Cidades: _Miranda_, que tem Bispo, e
-_Bragança_, que o naõ tem. Ha tres Igrejas, que parecem Collegiadas:
-_Chaves, illa-Real_, e _Torre de Moncorvo_, e consta de muitas
-Abbadias, Reitorias, e Vigairarias. As Villas, que tem fortalezas
-confinantes com Galiza, e Castella, saõ estas: _Montalegre_,
-_Erveredo_, _Chaves_, _Monforte do rio livre_, _Bragança_, _Outeiro_,
-_Miranda_, _Folgoso_, _Penas de Royas_, _Mogadouro_, _Freixo de
-Espadacinta_, e de todas se dá omenagem.
-
-8 Divide-se finalmente esta Provincia em quatro Correições: _Moncorvo_,
-_Miranda_, _Bragança_, e _Villa-Real_. Servem de epitome das suas
-grandezas estas duas Oitavas:
-
- _Es Tras los Montes la porcion segunda
- De heroicas poblaciones adornada,
- Donde_ Miranda _Episcopal se funda
- Sobre peñascos bien encastillada.
- DelRey Brigo_ Bragança _hija segunda,
- De la Inez bella, como desdichada,
- Talamo, en llano delicioso brilla,
- De esclarecidos Duques alta silla.
-
- Entre otras Villas sale floreciente
- La_ Torre de Moncorvo; _la apacible_
- Villa-Flor: Mirandela _con gran puente:
- Belica_ Chaves, Villa-Real _plausible,_
- Freixo de Espadacinta _muy valiente,_
- Alfandega da Fé _apeticible,_
- Mascareñas _en frutas deliciosa
- Fertil_ Chacim, _y en trato generosa._
-
-_Comarcas da Provincia de Tras os Montes._
-
- { {Abreiro, Agua revez,
- { {Alfandega da Fé, Anciães,
- { {Castro-Vicente, Chacim,
- { {Cortiços, Frechas,
- I. { {Freixiel, Freixo de Espadacinta
- Torre do { {Lamas de Orelhaõ,
- Moncorvo {26 Villas. {Linhares, Moncorvo, Mirandella,
- Correiçaõ { {Monforte de rio livre,
- consta de { {Mós, Murça de Panoya,
- { {Nuzellos, Pinhovelo, Sampayo,
- { {Sezulfe, Torre de D.
- { {Chama, Valdasnes, Villas-boas,
- { {Villaflor, Villarinho
- { {da Castanheira.
-
- { 1 Cidade. {Miranda.
- II. {
- Miranda. { {Algoso, Azinhoso, Bemposta,
- Correiçaõ { {Carrocedo, Failde,
- consta de { {Frieira, Mogadoiro, Penas
- {14 Villas. {de Royas, Rebordainhos,
- { {Sanseriz, Val de Passó, Vilar
- { {seco da Lomba, Vimioso,
- { {Vinhaes.
-
- { 1 Cidade. {Bragança.
- III. {
- Bragança { {Chaves, Ervedosa, Gustey,
- Ouvidoria { {Montalegre, Outeiro, Rebordãos,
- consta de {10 Villas. {Ruivães, Val de
- { {Nogueira, Val de Prados,
- { {Villafranca.
-
- { {Alijó, Dornellas, Ervededo,
- IV. {9 Villas, {Favayos, Lordelo, S.
- Villa-Real{e Coutos. {Mamede de Riba-Tua, Provezende,
- Ouvidoria { {Ranhados, Villa-Real.
- consta de {
- {2 Honras. {Gallegos, Sobrosa.
-
-
-_Provincia da Beira._
-
-1 Quasi no coraçaõ do Reino está situada esta Provincia, e com a
-extensaõ de trinta e quatro leguas desde Punhete até Villa-Nova do
-Porto; e se contarmos de Buarcos até Val de la mula, saõ trinta e seis,
-e de Punhete até a foz do Agueda saõ quarenta e cinco, e da foz do
-Douro até Rosmaninhal fazem cincoenta e huma. Por esta demarcaçaõ, que
-o Abbade de Pera tem por certa, e exacta, vem a ter esta Provincia de
-circumferencia duzentas leguas pouco mais, ou menos, com o que torce
-para costear a Estremadura; porém commummente se lhe dá trinta e seis
-leguas de comprido, e outro tanto de largo, e assim fórma huma figura
-quasi quadrada, tendo algumas entradas em Alentejo, e Estremadura
-Lusitana.
-
-2 Confina pelo Oriente com a Estremadura Castelhana, e Leoneza, e parte
-da Provincia de Tras os Montes, cujos limites continúa pelo Norte com
-os da Regiaõ de Entre Douro, e Minho. Pelo Occidente recebe as aguas
-do Oceano, e pelo Meyo Dia confina com a Estremadura de Portugal, e
-Alentejo. Chama-se Beira, ou porque seus primeiros habitadores se
-chamavaõ Berones, como diz Fr. Bernardo de Brito,[167] ou porque
-respeitando-se a sua situaçaõ, por ser toda cercada de agua dos rios
-Douro, Tejo, Coa, e Oceano, significa o mesmo que Margem, Borda, ou
-Beira.[168] Joaõ Salgado diz, que o seu verdadeiro nome he _Vera_, que
-se converteo em Beira.
-
-3 Reparte-se em duas largas porções de terra: huma, que se diffunde
-desde a Serra da Estrella até o rio Tejo, e se diz _Beira baixa_:
-outra, que desde a mesma Serra se espalha até o rio Douro, e desde
-a Cidade de Coimbra até a do Porto, que aqui se diz Beiramar, e no
-restante _Beira alta_.[169] Esta dilatada extensaõ de terreno grangeou
-a esta Provincia o honroso titulo de Principado, que desde o anno de
-1734 anda nos netos primogenitos dos Monarcas Portuguezes.[170]
-
-4 He terra muy fertil de centeyo, milho, castanha, vinho, gados, caças,
-e gostosos peixes, produzindo a amenidade deste Paiz toda a diversidade
-de saborosissimas frutas, especialmente os celebrados verdeaes de
-Inverno, ajudando muito para esta abundancia a grande copia de aguas de
-fontes, e rios, sendo os mais nomeados os seguintes: _Agueda_, _Alva_,
-_Alfusqueiro_, _Aravil_, _Arda_, _Balsamaõ_, _Berosa_, _Ceira_, _Coa_,
-_Daõ_, _Dansos_, _Douro_, _Elja_, _Freixiandas_, _Lomba_, _Lorveo_,
-_Marnel_, _Mondego_, _Paiva_, _Ponsul_, _Ramalhoso_, _Sardaõ_,
-_Soberbo_, _Tourões_, _Tripeiro_, _Veroza_, _Vouga_, _Xudruro_,
-_Zezere_.
-
-5 Tem produzido esta Provincia homens famosissimos. Daqui foy ElRey
-Wamba, e o valeroso Viriato, posto que Entre Douro e Minho contenda
-sobre a naturalidade deste segundo; porque diz o Gerudense, que os
-Soldados, que aquelle insigne Capitaõ trazia comsigo, eraõ Duriminios.
-Os mais daquelles celebrados aventureiros, que foraõ a Inglaterra em
-defensa das doze Damas motejadas de feyas, daqui eraõ naturaes, como
-tambem o foraõ oito Reys Portuguezes, dous Sanchos, tres Affonsos, D.
-Pedro, D. Fernando, e D. Duarte; e por naõ se gloriar só do nascimento,
-honra-se naõ pouco de ser conservatorio de tres corpos veneraveis, e
-Regios, como he o delRey D. Affonso Henriques, da Rainha Santa Isabel,
-e de D. Sancho I, e tambem do delRey D. Rodrigo, ultimo Rey Godo.
-
-6 Manoel de Faria mal affecto porém à gente desta Regiaõ, com injurioso
-conceito critíca absolutamente a todos os nacionaes della de pedintes,
-e de pouco asseados.[171] O defeito particular de alguns individuos
-naõ deve ser motivo para deteriorar a opiniaõ commua de huma Provincia
-inteira. Eu bem sey que já Fr. Bernardo de Brito,[172] tratando dos
-antigos habitadores da Serra da Estrella, chamados Herminios, diz,
-que eraõ homens asperos, e duros de condiçaõ, indomitos pelas armas,
-muy rusticos no traje, e modo de vestir, amigos de roubar o alheyo,
-e pouco fieis no que tratavaõ; porém a cultura dos tempos, e a mesma
-experiencia tem mostrado quanto se deve desvanecer este conceito, pois
-o que vemos hoje nos seus naturaes, principalmente nos da primeira
-esfera, he hum animo valente, e brioso, amigos de buscar honras, e
-fortuna, ou pela carreira das letras, ou das armas, em que tem feito
-progressos de grande credito para todo o Reino.
-
-7 Continuando a descrever suas grandezas, incluem-se nesta Provincia
-cinco Cidades; quatro com Bispo: _Coimbra_, _Viseu_, _Lamego_,
-_Guarda_; e _Aveiro_ modernamente erecta em Cidade, que o naõ tem.
-Divide-se em nove Comarcas: de quatro saõ cabeças as quatro Cidades;
-e das cinco he: _Castello-Branco, inhel_, _Esgueira_, _Montemór o
-velho_, e _Feira_. Tem duzentas e trinta e quatro Villas, das quaes
-cincoenta e oito saõ acastelladas, além das cinco Cidades. As que
-confinaõ com Castella saõ estas: _Castello-Branco_, que no anno de
-1704 foy accommettida de Castelhanos, e fica opposta à Villa de
-Herrera: _Rosmaninhal_, _Segura_, _Salvaterra da Beira_, que todas
-tres se oppoem à Villa de Alcantara, Praça de armas de Castella:
-_Penagarcia_, _Idanha a velha_, _Monsanto_ defensavel por natureza,
-_Proença_, _Belmonte_, _Penamacor_, _Sabugal_, _Sortelha_, _Alfayates_,
-_Villar-Mayor_, _Castello Mendo_, _Castello Bom_, _Almeida_, _Pinhel_,
-_Castello Rodrigo_.
-
-8 Tem mais de sete mil homens, que podem tomar armas: ha nesta
-Provincia a mayor porçaõ das Comendas deste Reino: sustenta mais de
-quarenta e quatro Conventos de Religiosos de varias Ordens, e vinte e
-tres de Religiosas: muitas Igrejas com Coro, em que se reza o Officio
-Divino: innumeraveis Abbadias, e Ermidas. Huma das singularidades,
-de que se póde gloriar, he comprehender as duas mais admiraveis
-officinas da virtude, e letras, que tem o Reino, quaes saõ Bussaco,
-e a Universidade de Coimbra, donde tem sahido Varões portentosos na
-santidade, e nas sciencias. Comprehendemos tudo succintamente nas
-seguintes estancias:
-
- _Es Beira, la tercera Region, que ostenta
- De Viriato el nombre formidable,
- Donde_ Coimbra _Episcopal se assienta
- De Mondego en la orilla deleitable.
- Produxo siete Reyes opulenta
- Grande en lo noble en letras admirable:
- Yaze Obispal_ Viseu _en gran llanura
- Del infeliz Rodrigo sepultura._
-
- Lamego, _Episcopal sale gallarda_,
- Aveiro _en territorio es abundante.
- Sobre peñascos asperos la_ Guarda
- _Con Iglesia Pastoral luze brillante.
- Sin Mitra_ Idaña, _solo el timbre guarda,
- Que de Wamba adquiriò patria elegante;
- Mas poblacion la nueva Idaña tiene,
- Que en el sitio cercano se contiene._
-
- Castello-Branco _entre otras cobra fama:_
- Tentugal _por la fuente, que ay en ella,_
- Montemayor _de Brigo obra se acclama,
- Fuerte_ Almeida, _que en armas tiene estrella._
- Celorico _el laurel de Apolo enrama:
- Por sus Duques_ Lafões, _y_ Avero _es bella:_
- Cobillan _goza celebre fortuna
- De la Cava fatal illustre cuna._
-
-
-_Comarcas da Provincia da Beira._
-
- { 1 Cidade. {Coimbra.
- {
- { {Alvaiazere, Ançã, Anciaõ,
- { {Arganil, Avó, Bobadella,
- I. { {Botaõ, Buarcos, Cantanhede,
- Coimbra { {Carvalho, Celavisa,
- Correiçaõ { {Cernache, Santa Comba-Daõ,
- consta de { {Coja, Santa Christina,
- {32 Villas. {Esgueira, Fadeira, Fajaõ,
- { {Goes, Mira, Miranda
- { {do Corvo, Pena-Cova, Pereira,
- { {Podentes, Pombalinho,
- { {Pombeiro, Rabaçal,
- { {Redondos, Tentugal, Vacariça,
- { {Villanova de Anços,
- { {Villanova de Monçarros.
-
- { 1 Cidade. {Aveiro.
- {
- { {Aguieira, Anadia, Angeja,
- { {Assequins, Avelãs de caminho,
- { {Avelãs de cima, Bemposta,
- II. { {Brunhido, Eixo, Estarreja,
- Esgueira { {Ferreiros, Ilhávo, S.
- Provedoria {26 Villas. {Lourenço do Bairro, Oiz da
- consta de { {Ribeira, Oliveira do Bairro,
- { {Paos, Prestimo, Recardães,
- { {Sangalhos, Segadães, Serem,
- { {Sousa, Trofa, Villarinho do
- { {Bairro, Vagos, Vouga.
- {
- { 1 Concelho. {Fermedo.
- {
- { 1 Couto. {Esteve.
-
- { 1 Cidade. {Viseu.
- {
- { {Alva, Banho, Candosa, Coja,
- { {Enfias, Ferreira d’Aves, Lagares,
- { {Mortagoa, Nogueira,
- { {Oliveira do Conde, Oliveira
- {22 Villas. {de Frades, Oliveira do Hospital,
- { {Penalva d’Alva, Perselada,
- { {Reriz, Sabugosa, Sandomil,
- { {Santa Comba-Daõ, S. Pedro do
- { {Sul, Taboa, Trapa, Tondela.
- {
- III. { {Azere, Azurara, Barreiro,
- Viseu { {Besteiros, Canas de Sabugosa,
- Correiçaõ { {Canas de Senhorim, Currellos,
- consta de { {Folhadal, Foz de Piodaõ,
- { {Gafanhaõ, Guardaõ, Gulfar
- { {S. Joaõ de Areas, S. Joaõ do
- {30 Concelhos.{Monte, Lafões, Mões, Mouraz,
- { {Ovoa, Penalva do Castello,
- { {Pinheiro de Azere, Povolide,
- { {Ranhados, Sataõ, Senhorim,
- { {Sever, Silvares, Sinde,
- { {Tavares, Treixedo, Villacova
- { {de Subavó.
- {
- { 2 Coutos. {Maceiradaõ, Moimenta.
-
-
- IV. {5 Villas. {Cambra, Castanheira, Feira,
- Feira { {Ovar, Pereira de Susaõ.
- Ouvidoria {
- consta de {
-
- {1 Cidade. {Lamego.
- {
- { {Arcos, Armamar, Arouca,
- { {Barcos, Britiande, Castello,
- { {Castrodairo, Chavães,
- { {S. Cosmado, Fantello, Fragoas,
- { {Goujim, Granja do
- { {Tedo, Lalim, Lazarim,
- {32 Villas. {Leomil, Longa, Lumiares,
- V. { {Moimenta da Beira, Mondim,
- Lamego { {Nagosa, Parada do Bispo,
- Correiçaõ { {Passó, Pendilho, Sande,
- consta de { {Taboaço, Tarouca, Valdigem,
- { {Varzea da serra,
- { {Veanha, Villacova, Villaseca.
- {
- { {Alvarenga, Aregos, Barqueiros
- { {Cabril, Caria, Couto
- { {da Ermida, S. Christovaõ
- { {da Nogueira, Ferreiros, S.
- {20 Concelhos. {Martinho de Mouros, Mossaõ,
- { {Paiva, Parada de Ester,
- { {Pera e Peva, Pezo da Regoa,
- { {Pinheiro, Rezende, Sanfins,
- { {Sinfaes, Teixeira, Tendaes.
-
- { {Aguiar, Alfaiates, Algodres,
- { {Almeida, Almendra,
- { {Castanheira, Casteiçaõ, Castello
- { {bom, Castello melhor,
- { {Castello mendo, Castello-Rodrigo,
- { {Cedavim, Cinco Villas,
- { {Ervedosa, Escalhaõ, Figueiró
- { {da Granja, Fonte Arcada,
- { {Fornos, Guilheiro,
- { {Horta, S.Joaõ da Pesqueira,
- VI. { {Lamegal, Langroiva, Marialva,
- Pinhel {54 Villas. {Matança, Meda, Moreira,
- Correiçaõ { {Muxagata, Nemaõ, Paradella,
- consta de { {Paredes, Penaverde,
- { {Penedono, Penella, Pinhel,
- { {Ponto, Povoa, Ranhados,
- { {Reigada, Sernancelhe, Sindim,
- { {Soutelo, Souto, Tavora,
- { {Touça, Trancoso, Trovões,
- { {Valença do Douro, Val
- { {de coelha, Vallongo, Vargeas,
- { {Veloso, Villanova de
- { {Foscoa, Villar mayor.
- {
- {1 Concelho {Carapito.
-
- {1 Cidade. {Guarda.
- {
- { {Açores, Alvoco da Serra,
- { {Baraçal, Cabra, Castro verde,
- { {Cea, Celorico, Codeceiro
- { {Covilhã, Folgosinho,
- VII. { {Forno-Telheiro, Gouvea,
- Guarda {29 Villas. {Jarmello, Lagos, Linhares,
- Correiçaõ { {Loriga, Lourosa, Manteigas
- consta de { {Santa Marinha, Mello,
- { {Mesquitella, Midões, Oliveirinha,
- { {Seixo, S. Romaõ,
- { {Torrozello, Vallazim, Valhelhas,
- { {Villacova.
- {
- {1 Couto. {Mosteiro.
-
- { {Alpedrinha, Atalaya, Belmonte,
- { {Bemposta, Castello-Branco,
- { {Castelo novo, Idanha
- VIII. { {nova, Idanha velha, Monsanto,
- Castello- { {Penagarcia, Penamacor,
- Branco {22 Villas. {Proença a velha, Rosmaninhal,
- Correiçaõ { {Sabugal, Salvaterra
- consta de { {do Estremo, Sarzedas,
- { {Segura, Sortelha, Touro,
- { {S. Vicente, Villa velha do
- { {Rodaõ, Zibreira.
-
- IX. {
- Montemor {
- o velho {5 Villas. {Louriçal, Louzã, Montemor
- Ouvidoria { {o velho, Penella, Serpins.
- consta de {
-
-
-_Provincia da Estremadura._
-
-1 Esta Provincia se fórma de huma faxa de terra, que corre desde a boca
-do rio Mondego até o caudaloso Tejo, e continúa pela Comarca de Setubal
-até entestar com Santiago de Cacem. Comprehende em toda esta longitude,
-conforme huns, quarenta leguas; e segundo outros, trinta e tres. De
-largo huns lhe daõ dezoito, outros dezaseis[173] leguas na sua mayor
-largura; porém se lançarmos huma linha de Cascaes até a Pampilhosa,
-acharemos trinta e seis leguas de latitude. Pelo Occidente o mar Oceano
-a termina: pelo Meyo dia confina com o Alentejo a travez, e pelo Norte
-com a Beira.
-
-2 He o clima desta Regiaõ o mais saudavel, e temperado de todo o Reino,
-porque a benignidade do Ceo faz aqui ser insensiveis aquellas estações
-do tempo, que gradualmente succedem humas às outras com mudança suave;
-e assim participando quasi sempre de ar puro, e Ceo sereno, produz
-nella a natureza com abundancia os frutos de todos os generos. Fertil
-he de azeites, bastando só a Villa de Santarem para prover o Reino,
-e suas Conquistas: fertil he de vinhos, e dos melhores, chamados de
-barra a barra, taõ estimados das nações Septentrionaes: fertil he de
-frutas, das quaes sómente a Villa de Collares todo o anno provê a
-Corte de Lisboa e se conduzem para outras muitas terras da Europa. De
-trigo, legumes, e hortaliças tem o que lhe basta. Cria caças de toda a
-especie, e das mais gostosas, porque comprehende as melhores coutadas
-do Reino. Peixe em abundancia, e saborosissimo; e finalmente sem
-exaggeraçaõ podemos dizer, que he a Provincia mais fertil, e farta de
-Portugal, concorrendo tambem as outras com os seus productos para mais
-a fertilizar, e enriquecer, tratando-a verdadeiramente como Rainha,
-pois existe no meyo do Reino coroada de todas.
-
-3 Muito conduz para toda esta abundancia os seus famosos portos,
-especialmente o de Lisboa, por onde todos os annos entraõ as ricas
-frotas do Brasil, e em pouco mais tempo as preciosas mercadorias da
-Asia, e quasi todos os dias innumeraveis embarcações estrangeiras para
-commodidade do commercio, que he nesta Provincia o mayor de todo o
-Reino. Conduz tambem naõ pouco a grande copia de boas aguas de suas
-fontes, e rios, os quaes, segundo seu mayor nome, saõ estes: _Aguas
-livres_, _Alcantara_, _Alferradede_, _Alfusqueiro_, _Aljés_, _Alpiaça_,
-_Alviella_, _Arunca_, _Barcarena_, _Bezelga_, _Broya_, _Cadavás_,
-_Cambra_, _Canha_, _Castelãos_, _Cera_, _Caranque_, _Chileiros_,
-_Crins_, _Esporaõ_, _Guardaõ_, _Lago_, _Lena_, _Liten_, _Liça_, _Liz_,
-_Montijo_, _Nabaõ_, _Pernes_, _Rezes_, _Sado_, _Sizandro_, _Tejo_,
-_Val de lobos_, _Unhaes_, _Zezere_, a que podemos accrescentar por
-singularidade as virtuosas aguas das que chamamos Caldas, que nesta
-Provincia existem as de melhor fama.
-
-4 Quanto ao estado Ecclesiastico, tem duas Igrejas Cathedraes:
-_Lisboa_, que logra a dignidade de Patriarcado; e _Leiria_ a de
-Bispado. Numeraõ-se-lhe quatrocentas e sessenta e duas Paroquias, além
-de outras muitas Igrejas, que o naõ saõ. Tres insignes Collegiadas:
-_Santa Maria Mayor_ em Lisboa, _Nossa Senhora da Misericordia_ em
-Ourem, e _Santa Maria da Alcaçova_ em Santarem, com outras, que o
-parecem, como na Igreja de Santo Antonio de Lisboa, Santo Antonio do
-Tojal, &c. Dous grandes Priorados das Ordens Militares: de _Santiago_
-em Palmella, de _Christo_ em Thomar. Seis Templos Regios os mais
-insignes: _Alcobaça_, _Batalha_, _Belém_, _Mafra_, _Thomar_, _S.
-Vicente de Fóra_. Conventos, e Mosteiros mais de cento e setenta. Hum
-supremo Tribunal do Santo Officio. E finalmente he onde com mayor
-culto, asseyo, e grandeza se executaõ todas as festividades, funções
-Ecclesiasticas, e Officios Divinos, augmentando-se mais a devoçaõ com
-os prodigiosos Santuarios, que encerra cheyos de continuadas maravilhas.
-
-5 As sciencias nos seus frenquentados Collegios, e Academias: as artes
-liberaes nas suas grandes, e opulentas fabricas: a politica, o trato,
-e a civilidade florecem nesta Regiaõ: até o idioma se pronuncía com
-mayor pureza, e cadencia do que nas outras Provincias; pois nella
-reside a Corte de Lisboa, que como Princeza de todas as do mundo, como
-lhe chamou o nosso Poeta, infunde qualidades para a melhor cultura, e
-perfeiçaõ. Finalmente
-
- _Es la quarta Provincia Estremadura,
- Que contiene a_ Lisboa, _donde cria,
- Del claro lis beviendo la dulçura
- Con Episcopal Baculo_ Leiria.
- _La Villa de_ Batalla _se assegura
- De Reyes Portuguezes urna umbria._
- Santarem _con portentos se corona,
- Y de aver sido throno Real blasona.
- Con gran juridicion_ Thomar _se ofrece
- Al dulce Naban, que sus campos baña._
- Alenquer _del Alano permanece
- Fundacion en frutifera campaña._
- Cintra _del quinto Alonso patria crece.
- Primera poblacion sale de España,_
- Setubal _al mar grande dirigida
- Morada de Tubal apetecida._
-
-
-_Comarcas da Provincia da Estremadura._
-
- {Senhora da Ajuda, Santo
- {André, Senhora dos Anjos,
- {S. Bartholomeu, Santa
- {Catharina, Chagas de Jesus,
- {S. Christovaõ, Senhora da
- {Conceiçaõ, Santa Cruz do
- {Castello, Senhora da Encarnaçaõ,
- {Santa Engracia, Santo
- { {Estevaõ, S. Joaõ da Praça, S.
- I. { {Jorge, S. Joseph, Santa Isabel,
- Lisboa { {S. Juliaõ, Santa Justa,
- Capital do { 41 Paroquias. {Senhora do Loreto, S. Lourenço,
- Reino { {S. Mamede, Santa Maria,
- consta de { {Santa Maria Magdalena,
- { {Santa Marinha, S. Martinho,
- { {Senhora dos Martyres, Senhora
- {das Mercês, S. Miguel, S.
- {Nicolao, Patriarcal, S. Paulo,
- {S. Pedro, Senhora da Pena, Santissimo
- {Sacramento, Salvador,
- {Santiago, Santos, S.
- {Sebastiaõ, Senhora do Soccorro,
- {S. Thomé, S. Vicente.
-
- {Alhandra, Alverca, Arruda,
- II. { {Bellas, Cadaval, Cascaes,
- Torres { {Castanheira, Chilleiros, Collares,
- Vedras { 18 Villas. {Enxara dos Cavalleiros,
- Correiçaõ { {Ericeira, Lourinhã, Mafra,
- consta de { {Povos, Sobral de Monte
- { {Agraço, Torres Vedras, Villa
- {Franca de Xira, Villa Verde.
-
- III. { {Aldea Galega da Merciana,
- Alanquer { 8 Villas. {Alenquer, Caldas, Chamusca,
- Ouvidoria { {Cintra, Obidos, Salir
- consta de { {do Porto, Ulme.
-
- { 1 Cidade. {Leiria.
- IV. {
- Leiria { {Alcobaça, Alfeizeraõ, Aljubarrota,
- Correiçaõ { {Alpedriz, Alvorninha,
- consta de { {Atouguia, Batalha, S.
- { 11 Villas. {Catharina, Cella, Coz, Ega,
- {Evora de Alcobaça, S. Martinho,
- {Mayorga, Pederneira, Peniche,
- {Pombal, Redinha, Salir
- {do Mato, Soure, Turquel.
-
- {Abiul, Abrantes, Aguas
- {Bellas, Aguda, Alvaro, Alváres,
- {Amendoa, Aréga,
- { {Assinceira, Atalaia, Chaõ de
- V. { {couce, Dornes, Ferreira, Figueirò
- Thomar { 28 Villas. {dos vinhos, Maçãs de
- Correiçaõ { {caminho, Maçaõ, Pampilhosa,
- consta de { {Payo de pelle, Pedrogaõ grande,
- { {Pias, Ponte de
- {Sor, Punhete, Pussos, Sardoal,
- {Sovereira formosa,
- {Tancos, Thomar, Villa de
- {Rey.
-
- VI. { {Aguda, Avelar, Chaõ de
- Ourem { 7 Villas. {Couce, Maçãs de D. Maria,
- Ouvidoria { {Ourem, Porto de Moz, Pousaflores.
- consta de {
-
- { {Alcanede, Alcoentre, Almeirim,
- VII. { {Aveiras de cima,
- Santarem { {Aveiras de baixo, Azambuja,
- Correiçaõ {15 Villas. {Azambugeira, Erra, Golegã,
- consta de { {Lamarosa, Montargil,
- { {Mugem, Salvaterra de Mangos,
- { {Santarem, Torresnovas.
-
- { {Alcacer do Sal, Alcochete,
- VIII. { {Aldea Gallega, Alhosvedros,
- Setubal { {Almada, Barreiro, Cabrella,
- Correiçaõ {16 Villas. {Çamora Correya, Canha,
- consta de { {Coina, Grandola, Lavradio,
- { {Moita, Palmela, Setubal,
- { {Sezimbra.
-
-
-_Provincia do Alentejo._
-
-1 Chama-se esta Provincia _Alentejo_, respeitando as outras Provincias
-de Portugal, que ficaõ ao Norte do rio Tejo; mas isto he conforme
-a divisaõ politica, e naõ fisica. Dilata-se entre os limites da
-Estremadura Castelhana, Reino do Algarve, mar Oceano, Tejo, e Guadiana,
-quasi em fórma quadrada, pelo que lhe daõ muitos trinta e quatro leguas
-de huma, e outra parte;[174] porém o seu mayor comprimento pelo certaõ
-saõ trinta e nove leguas, pela costa vinte e oito, e tendo pela margem
-do Tejo trinta e cinco de largura, se estreita, e reduz na raya do
-Algarve a vinte e huma.[175]
-
-2 He o seu terreno pela mayor parte plano, posto que o atravessaõ
-algumas serras, a de Ossa, Caldeiraõ, Portalegre, Montemuro, Marvaõ,
-e outras, donde nascem fontes, e rios, naõ em tanta abundancia,
-como nas outras Provincias, porque tambem o ardente Sol no Veraõ
-consome aqui muito sua humidade, mas todavia sempre se lhe numeraõ de
-mayor nome os seguintes: _Abrilongo_, _Alcarapinha_, _Alcaraviça_,
-_Alcarache_, _Algale_, _Anheloura_, _Aramenho_, _Aviz_, _Benavile_,
-_Bonafide_, _Botova_, _Cabaça_, _Caya_, _Cayola_, _Campilhas_, _Canha_,
-_Carreiras_, _Cobrinhas_, _Corbes_, _Corona_, _Dejebe_, _Detença_,
-_Enxarrama_, _Erra_, _Ervedal_, _Figueiró_, _Fonte boa_, _Galego_,
-_Guadiana_, _Lavra_, _Lamarosa_, _Leça_, _Limas_, _Lixoza_, _Lucefece_,
-_Machede_, _Marataca_, _Mourinho_, _Niza_, _Odemira_, _Odivellas_,
-_Odivor_, _Peramança_, _Regalvo_, _S. Romaõ_, _Sarrazola_, _Seda_,
-_Sever_, _Severa_, _Sor_, _Sorraya_, _Taleigaõ_, _Tejo_, _Tera_,
-_Terjes_, _Videgaõ_, _Xever_, _Xevora_, _Xola_, _Xouxou_, _Zata_.
-
-3 He fertilissima, pois correspondem os frutos com grande abundancia.
-De trigo diz Macedo,[176] que só a Freguezia da Cathedral de Evora dá
-ao dizimo cada anno setecentos moyos, com a circunstancia de que os
-lavradores naõ cultivaõ todas as terras capazes de sementeira, senaõ
-escolhem algumas, a que chamaõ folhas, para fazerem a lavoura de tres
-em tres annos; isto he, a que se semeou este anno, naõ se torna a
-affolhar, senaõ passados tres annos; porque se Alentejo cultivasse
-annualmente todas as dilatadas campinas, e charnecas, que tem, daria
-trigo, centeyo, e cevada para todo o mundo. A esta abundancia attendeo
-Camões, quando cantou:[177]
-
- _E vós tambem, ò terras Transtaganas,
- Affamadas co dom da flava Ceres._
-
-4 Além dos trigos he abundante de boas frutas, azeite, vinho, mel,
-cera, lãs, caças, gados, excellentes queijos, finos marmores,
-affamados, e cheirosos barros; de sorte que esta Provincia naõ
-necessita de cousa alguma, que em si naõ tenha com abundancia: até
-peixe colhe abundantemente da ribeira do Sado, que entra no rio de
-Alcacere, e na da Fonte Santa, que está no caminho de Estremoz, além de
-outros rios, que temos nomeado.
-
-5 Ha em Alentejo quatro Cidades: _Evora_, que tem Arcebispo: _Elvas_,
-e _Portalegre_, que tem Bispos: _Beja_ que o naõ tem. Contaõ-se mais
-de cem Villas: dous grandes Priorados das Ordens Militares, de _Aviz_,
-e de _Malta_. Divide-se em oito Comarcas, que saõ: _Evora_, _Béja_,
-_Campo de Ourique_, _Villa Viçosa_, _Elvas_, _Portalegre_, _Crato_,
-_Aviz_, das quaes algumas saõ Ouvidorias.
-
-6 Sempre nesta Provincia floreceraõ homens de singulares engenhos: em
-tempos antigos Aprigio, Isidoro Pacense, e outros muitos: nos mais
-proximos aos nossos André de Resende, o Padre Maldonado, o Padre
-Manoel de Goes, o Doutor Pedro Nunes, rarissimo na Mathematica,
-Thomaz Rodrigues, insigne Medico, além de muitos outros em todas as
-faculdades. E no valor teve tambem homens assinalados, como foy D. Payo
-Peres Correa, Josué Portuguez, D. Nuno Alvares Pereira, D. Vasco da
-Gama, primeiro descubridor das Indias, os quaes bastaõ para credito da
-Provincia. Tudo se recopila nestas duas estancias.
-
- _Sigue quinta Region la de Alentejo,
- Cuya cabeça, y Metropolitana
- Es_ Evora, _de Roma claro espejo,
- Del gran Giraldo gloria soberana.
- Tiene noble dominio, y fiel consejo_
- Portalegre _risueña Diocesana._
- Elvas _con Mitra luze venerable,
- Siendo por su Castillo inexpugnable._
-
- Béja _Ciudad insigne se publíca,
- Y el precioso licor de Baco enseña.
- Entre otras Villas_ Estremoz _muy rica
- Es invencible, y fuerte_ Jurumeña.
- _Por sus inclytos Nobles a Belona_
- Montemayor _el Nuevo el ser dedica._
- Villa Viçosa _en llano está florido
- Templo de Proserpina, y de Cupido._
-
-
-_Comarcas da Provincia do Alentejo._
-
- { 1 Cidade. {Evora.
- I. {
- Evora { {Aguias, Alcaçovas, Canal,
- Correiçaõ {11 Villas. {Estremoz, Lavre, Montemór
- consta de { {o novo, Montoito, Pavîa,
- { {Redondo, Viana, Vimieiro.
-
- { 1 Cidade. {Béja.
- {
- { {Agua de Peixes, Aguiar,
- II. { {Albergaria dos Fuzos, Alvito,
- Béja { {Beringel, Faro, Ferreira,
- Ouvidoria {18 Villas. {Ficalho, Frades, Moura,
- consta de { {Odemira, Oriolas, Serpa, Torraõ,
- { {Vidigueira, Villa-Alva,
- { {Villanova de Alvito, Villa-Ruiva.
-
- III. { {Aljustrel, Almodovar, Alvalade,
- Campo { {Castro verde, Collos,
- d’Ourique {15 Villas. {Entradas, Gravaõ, Mertola,
- Ouvidoria { {Messejana, Ourique, Padrões,
- consta de { {Panoyas, Santiago de Cacem,
- { {Sines, Villanova de mil fontes.
-
- { {Alter do chaõ, Arrayolos,
- IV. { {Borba, Chancellaria, Evoramonte,
- Villa-Viçosa {14 Villas. {Lagomel, Margem,
- Ouvidoria { {Monsarás, Monforte, Portel,
- consta de { {Souzel, Villa-Boim, Villa-Viçosa,
- { {Villa-Fernando.
-
- { 1 Cidade. {Elvas.
- V. {
- Elvas {
- Correiçaõ { {Barbacena, Campo Mayor,
- consta de { 6 Villas. {Mouraõ, Olivença, Ouguela,
- { {Terena.
-
- { 1 Cidade. {Portalegre.
- VI. {
- Portalegre { {Alegrete, Alpalhaõ, Arronches,
- Correiçaõ { {Assumar, Arez, Castello
- consta de {12 Villas. {de Vide, Marvaõ, Meadas,
- { {Montalvaõ, Niza, Povoa,
- { {Villaflor.
-
- { {Amieira, Belver, Cardigos,
- VII. { {Carvoeiro, Certã, Crato,
- Crato {12 Villas. {Envendos, S. Joaõ de
- Ouvidoria { {Gafete, Oleiros, Pedrogaõ
- consta de { {pequeno, Proença a nova,
- { {Tolosa.
- { {Alandroal, Alter Pedroso,
- { {Aviz, Benavente, Benavilla,
- VIII. { {Cabeço de Vide, Cabeçaõ,
- Aviz {17 Villas. {Cano, Coruche, Figueira,
- Ouvidoria { {Fronteira, Galveas, Jurumenha,
- consta de { {Mora, Noudar, Seda,
- { {Veiros.
-
-
-_Provincia, e Reino do Algarve._
-
-1 Fórma esta Regiaõ do Algarve hum dos principaes angulos da Peninsula
-Lusitana no Cabo de S. Vicente com a concurrencia das linhas
-Meridional, e Occidental até a foz do Guadiana. Daõ-lhe os Geografos
-vinte e sete leguas de comprido, e nove de largo. Os Mouros lhe
-chamaraõ Algarve, que quer dizer _Terra Occidental_,[178] mas outros
-interpretaõ _Terra plana, e fertil_; porque sem embargo de comprehender
-algumas serras pelo certaõ, occupa pela costa do mar planicies muy
-ferteis, e deliciosas.
-
-2 Constitue-se Reino forte, e separado de Portugal pelos montes
-Caldeiraõ, e Monchique, e de Andaluzia pelo rio Guadiana; de sorte,
-que a sua situaçaõ he a mais vantajosa de todas as nossas Provincias.
-Sua primeira conquista foy intentada por ElRey D. Affonso Henriques:
-continuou-a com grandes progressos ElRey D. Sancho I., e a acabou
-de conseguir ElRey D. Affonso III. ficando desde entaõ o Reino do
-Algarve incorporado com permanencia na Coroa de Portugal, que organiza
-suas Reaes armas com a orla dos sete castellos dourados em campo
-vermelho.[179] 3 Consta de quatro Cidades: _Faro_, onde hoje está a Sé
-Cathedral; _Silves_, donde foy mudada; _Tavira_, e _Lagos_. Tem mais
-doze Villas, a saber: _Albofeira_, _Alcoutim_, _Aljezur_, _Alvor_,
-_Cassella_, _Castro-Marim_, _Loulé_, _Odeseixe_, _Paderne_, _Sagres_,
-_Villa de Bispo_, _Villa nova_. Tem dous Promontorios o Cabo de S.
-Vicente, e o de Santa Maria. Tem cem pontes de pedra, sessenta e duas
-pias de bautizar, e outras particularidades, que reservamos para lugar
-mais proprio.
-
-4 Faz ser esta Provincia abundante com especialidade a grande copia
-de figos, passas, e amendoas, de que se extrahem todos os annos
-por negocio para differentes partes de Levante, Italia, e Flandes
-consideraveis sommas; e assim como em outras terras estaõ semeados os
-campos de trigo, cevada, e centeyo, esta os tem cubertos de vinhas,
-amendoeiras, figueiras, e tambem palmeiras, de cujos ramos tecem seus
-moradores varias curiosidades.[180] A pescaria de atum naõ serve de
-pequeno lucro, e com que fazem hum grave negocio. Os rios, que cortaõ,
-e regaõ este Reino, saõ muitos, porém pequenos, sendo os de mayor nome
-o _Adoleite_, _Belixari_, _Guadiana_, _Lampas_, e _Vascaõ_.
-
-5 Seus habitadores saõ esforçados, e aptos para a guerra; e já em
-tempos antigos venceraõ valerosamente ao Capitaõ Romano Sergio Galba.
-Saõ muy dados à sciencia maritima, e se prezaõ muito de que no seu
-terreno escolhessem o primeiro Patriarca, e Fundador de Hespanha
-_Tubal_, e o famoso _Hercules_ os seus jazigos, se he certo o que
-diz Fr. Bernardo de Brito. Divide-se finalmente o Algarve em duas
-Comarcas, conforme a Geografia moderna do Padre D. Luiz de Lima, e vem
-a ser: _Lagos_, e _Tavira_. Tem sete fontes medicinaes: tres Praças
-de armas, que saõ: _Lagos_, _Faro_, _Castro-Marim_, bem fortificadas
-com quatro mil homens de guarniçaõ; e até o presente numera quarenta
-Governadores, ou Capitães Generaes com o segundo Marquez de Louriçal D.
-Francisco de Menezes seu actual, e benemerito Governador.
-
- _El Reyno del Algarbe es la postrera
- Porcion, cuyas Ciudades son_ Tavira
- _DelRey Brigo gallarda Primavera,
- Donde herido del viento el mar suspira._
- Faro _Obispal adorna su ribera,
- Al Oceano fuerte_ Lagos _mira.
- Con poca vezindad nombre difuso
- Alcança_ Sylves _Paraiso Luso_.
-
-_Comarcas da Provincia, e Reino do Algarve._
-
- { 2 Cidades. {Lagos, Silves.
- I. {
- Lagos { 7 Villas. {Aljezur, Alvor, Odeseixe,
- Correiçaõ { {Paderne, Sagres, Villanova de
- consta de { {Portimaõ, Villa do Bispo.
-
- II. { 2 Cidades. {Tavira, Faro.
- Tavira {
- Correiçaõ { 5 Villas. {Albufeira, Alcoutim, Cacella,
- consta de { {Castro-Marim, Loulé.
- +---------------------------------------------------------------------+
- | MAPPA |
- | _Do que comprehendem as seis Provincias |
- | de Portugal._ |
- +------------+--------+---------+---------+--------+---------+--------+
- |Provincias | Minho. |Tr. os M.| Beira.| Estrem. |Alentej. | Algarv.|
- | | | | | | | |
- |Comarcas. | 6 | 4 | 8 | 8 | 8 | 2 |
- | | | | | | | |
- |Cidades. | 2 | 2 | 5 | 2 | 4 | 4 |
- | | | | | | | |
- |Villas. | 26 | 50 | 234 | 114 | 100 | 12 |
- | | | | | | | |
- |Patriac. | ... | ... | ... | 1 | ... | ... |
- | | | | | | | |
- |Arcebisp. | 1 | ... | ... | ... | 1 | ... |
- | | | | | | | |
- |Bispados. | 1 | 1 | 4 | 1 | 2 | 1 |
- | | | | | | | |
- |Inquisiç. | ... | ... | 1 | 1 | 1 | ... |
- | | | | | | | |
- |Univers. | ... | ... | 1 | ... | 1 | ... |
- | | | | | | | |
- |Paroquias. | 1500 | 620 | 1090 | 460 | 350 | 67 |
- | | | | | | | |
- |Cid. capit. | Porto. |Miranda. | Coimb. | Lisboa. | Evora. | Faro. |
- | | | | | | | |
- |Pr. d’ arm. | Viana. | Chaves. | Alm. | Lisboa. | Elvas. | Lagos. |
- | | | | | | | |
- |L. de comp. | 18 | 34 | 36 | 40 | 39 | 28 |
- | | | | | | | |
- |L. de largo.| 12 | 26 | 36 | 18 | 35 | 8 |
- +------------+--------+---------+--------+---------+---------+--------+
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[151] Duarte Nun. Descripç. de Port. cap. 28. Joaõ de Barr. na
-Descripç. do Minho cap. 6. Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap.
-2. a. 4. Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1.
-Geograf. Blavian. Cost. Corogr. Port. tom. 1. c. 1. Lim. Geogr. Histor.
-tom. 1. pag. 2.
-
-[152] Far. no Epitom. part. 4. cap. 5. n. 4. Maced. Flor. de Hesp. cap.
-1. excel. 6.
-
-[153] D. Franc. Man. Epanafor. 4. p. 518.
-
-[154] Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. pag.
-3. vers.
-
-[155] Far. Epitom p. 4. cap. 17.
-
-[156] Nun. Descripç. de Portug. cap. 28. e 29. Vasconcell. in Descript.
-Lusitan.
-
-[157] Estaç. Antig. de Portug. cap. 72.
-
-[158] Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 1.
-
-[159] Joaõ Salgad. Success. Milit. pag 3. vers.
-
-[160] Maced. Flor. de Hesp. cap. 2. excel. 3. Barbos. de Potestat.
-Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. Gil Gonsal. de Avil. no Theatro de
-las grandez. de Madrid. p. 500.
-
-[161] Arauj. Success. Milit. liv. 1. cap. 1.
-
-[162] August. Barb. de Potest. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8.
-
-[163] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. Lim. Geogr. Histor.
-tom. 2. pag. 3.
-
-[164] Corograf. Portug. tom. 1. p. 313. Padilha. Histor. Eccles. cent.
-1. cap. 16. Monarq. Lusitan. part. 3. liv. 8. cap. 32. Rodrig. Mend. da
-Silv. na Descripç. de Portug.
-
-[165] Colmenar. Delices du Port. tom. 4. pag. 713. Lim. Geograf.
-Histor. tom. 2. p. 61.
-
-[166] Arauj. Success. Milit. p. 68. vers.
-
-[167] Brit. na Geograf. Lusitan. cap. 4. Fr. Man. da Esper. na 1. part.
-da Histor. Serafic. liv. 4. cap. 13.
-
-[168] Poyar Diccionar. Geogr. p. 76. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p.
-83.
-
-[169] Fr. Man. da Roch. Portug. renascid. part. 1. p. 109.
-
-[170] Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 8. p. 354.
-
-[171] Far. Europ. Port. tom. 3. pag. 3. cap. 2.
-
-[172] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.
-
-[173] Geograf. Blavian. Mendes da Silv. Mons. de La Clede tom. 2. pag.
-mihi 59. Corograf. Portug. tom. 3 Lim. Geogr. Histor. tom. 2. p. 136.
-Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. p. 160.
-
-[174] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. Rodrig. Mend. da
-Silv. na Descripç. de Portug. Geograf. Blavian. tom. de Hespanh. pag.
-403.
-
-[175] Abbad. de Per. Success. Milit. p. 179.
-
-[176] Sousa de Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 3.
-
-[177] Cam. cant. 3 est.62.
-
-[178] Colmen. Delices de Hesp. tom. 4. p. 809.
-
-[179] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 4.
-
-[180] Rodrig. Mend. da Silv. Descripç. de Hesp.
-
-
-
-
- CAPITULO VI.
-
- _Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome._
-
-
-1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem,
-e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres
-Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias
-partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ
-descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes
-chamou Athlantes o famoso Caramuel,[181] pois com sua altivez pertendem
-coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais
-affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga.
-
-2 _Abelheira._ Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura em o
-Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem com
-a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a muitos
-gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de grande
-virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia de Tras
-os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de edificios
-Arabes.
-
-3 _Aboboreira._ Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de Gouvea.
-He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de ambito, que
-occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita caça que
-alli se cria.
-
-4 _Achada._ Começa esta serra desde a ribeira de Cascaes, e se vay
-unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ
-obstante admittir cultura pelas suas raizes.
-
-5 _Açor._ Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na Beira,
-que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil,
-occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e
-lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve.
-
-6 _Albardos._ Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo de
-Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem
-alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ
-Senhores de todos os limites desta serra.
-
-7 _Alcaçovas._ Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca de
-Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se descobrem
-povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz[182] ser
-provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre, segundo
-se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros
-vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre
-Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta
-serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar,
-e onde se cria abundancia de caça, e de gado.
-
-8 _Alcubertas._ Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se descobre
-huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra brilhante,
-que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a mistura
-da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados, e
-grutescos.
-
-9 _Aleidões._ Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola,
-estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e
-consta de muitas carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli
-se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel.
-
-10 _Algáres._ Principia esta serra a descobrirse huma legua distante
-da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando contra o
-Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço de duas
-leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os Romanos
-extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona, que
-separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A _Corografia
-Portugueza no tom. 3. pag. 336._ refere outras circunstancias desta
-serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico.
-
-11 _Alpedreira._ Fica no Arcebispado de Evora, e se communica com
-a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas
-concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para
-sementeira de centeyo.
-
-12 _Alqueidaõ._ He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria. A
-sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho. Cria
-tambem alguma caça miuda.
-
-13 _Altar de Trevim._ He huma serra que fica no termo da Louzã,
-demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas
-Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem
-muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados
-que por alli pastaõ.
-
-14 _Alvaõ._ Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães.
-He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato
-rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e
-lebres.
-
-15 _Alvayazere._ Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de Coimbra.
-He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido. Cria
-muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ da sua
-flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy espaçosa,
-onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber. Suppoem-se que
-seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no cimo da serra se
-descobrem.
-
-16 _Airó._ Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos, tem
-bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada
-por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota
-imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo,
-de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca
-distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S.
-Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha,
-Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com
-sinaes de predestinado.
-
-17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar
-de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e
-antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso
-caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo
-89. onde diz: _Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que
-passou_, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, que
-com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do Convento
-o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de ninguem;
-dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella ave canora,
-quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria parecem
-instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este caso na
-Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. Toda
-esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor vinho
-de enforcado, que deste genero ha no Reino.
-
-18 _Amarella._ He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio da
-do Gerez. Descobrem-se da sua mayor altura muitas povoações distantes,
-e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; alargando-se
-tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve de termo.
-Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, por cujo
-motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer montaria
-em tempos determinados, por obrigaçaõ.
-
-19 _Amoreira._ Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites de
-Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas
-povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras
-negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras
-de primor.
-
-20 _Anciam._ Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal,
-e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais
-eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito
-alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto
-aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem
-que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui
-se vê huma grande lapa chamada _Algar da agua_ aberta em hum penhasco
-taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. Cria
-tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O Author da
-Corografia chama a esta serra a Carreira.[183]
-
-21 _Araceli._ He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, que
-tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes admitte
-cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas medicinaes, a
-agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto Daro, de cujas
-bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem para o prato,
-e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha aqui muita caça
-de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se tira bastante
-mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, e se adora a
-imagem da Senhora com o titulo de _Araceli_, que deu nome à serra.
-
-22 _Arada._ Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres leguas de
-comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na planicie da sua
-mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da Coelheira. Consta toda
-esta serra de mato real, onde se cria muita caça, até aguias, e hervas
-medicinaes.
-
-23 _Arga._ Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.[184] Divide
-ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu terreno
-antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do seu
-ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. Tem
-esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem ver
-na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.[185]
-
-24 _Arrabida._ He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, que
-corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo
-espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por
-sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a
-banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do
-Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita,
-e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra,
-está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia
-Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de
-Alcantara.
-
-25 Conforme diz Gaspar Barreiros[186] o nome de Arrabida he derivado
-da antiga _Arabriga_, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual
-demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que
-o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr.
-Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,[187] os quaes a derivaõ
-do nome _Errabundus_; porque os que subiaõ a esta serra, sempre erravaõ
-o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,[188] que os Mouros,
-quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma
-significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer
-penitencia.
-
-26 Os Romanos chamaraõ a esta serra _Promontorio Barbarico_; ou
-porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para Roma
-muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ os
-seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e aos
-conductores barbaros, como diz André de Resende;[189] ou porque os
-povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e
-rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.[190]
-
-27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico,
-se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou
-antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli
-templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de
-bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se
-descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco
-caso dellas.
-
-28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha,
-que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com
-miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo
-da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap.
-5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo
-mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que
-vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo
-Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou
-seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel
-circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem
-da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à
-maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ,
-e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou
-frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa,
-presentemente arruinado, e extincto.
-
-29 _Atalaya._ Ha no Reino tres serras com este nome; duas na
-Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de
-canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma
-caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem
-hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada
-com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ
-de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade
-muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia
-da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas
-abundante de lenha, e caça miuda.
-
-30 _Barregudo._ He huma serra, que fica no termo de Torres Vedras, e
-que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de Montejunto.
-Adquire nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos negros se
-encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e huma casta de
-areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se deixa cultivar
-com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar.
-
-31 _Barris._ He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente da
-Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas
-hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum
-admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem
-suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se
-criaõ.
-
-32 _Besteiros._ He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa pela
-distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma fonte de
-agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria mato rasteiro,
-e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em abundancia. Pastaõ
-nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso.
-
-33 _Bornes de Monte mel_ fica no termo de Braga, e tem duas leguas de
-comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial della
-he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro, povoações
-de treze Bispados.
-
-34 _Borralheira._ Daõ este nome a huma serra, que com bastante
-eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No
-mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa
-mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ,
-os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem
-atemorisaraõ aos moradores.[191] O Diccionario Geografico, naõ fazendo
-mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia
-de Tras os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem
-cousa notavel.
-
-35 _Bussaco._ Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e he parte
-da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o Nordeste, e
-meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente pelo espaço de
-tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do Reino; porque
-para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella, e a de Castello
-Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas. Para a parte do
-Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que lhe ficaõ quarenta
-leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de Grijó, affastada
-quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura apontar com o dedo
-para terras de sete Bispados, estando os dias claros.
-
-36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento[192] ao nome desta
-serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum
-Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de
-Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira
-habitaçaõ, e que de _Sublaco_ vieraõ a alterar a palavra, vertendo-a em
-_Bussaco_.
-
-37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de
-arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas
-fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por
-engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello.
-Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços,
-que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida
-contemplativa.[193]
-
-38 _Cabreira_. Fica na Provincia de Tras os Montes, e tem duas leguas
-de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que
-recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio
-Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda
-de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos
-consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz
-Cardoso.
-
-39 _Cantaro._ No mais alto da serra da Estrella se levanta huma
-eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que
-chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua
-Corografia,[194] costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho,
-que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua
-para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta
-montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais
-que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa _Escura_.
-
-40 _Caramullo._ Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu, e
-diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome de
-Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais alto
-deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros,
-ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos
-homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto
-para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze
-leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os
-tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas.
-
-41 _Carpento._ Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou o
-Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes
-penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na raiz deste monte
-está hum sitio chamado o _Abismo_. He huma cova como hum poço de quatro
-varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais dizem, que
-se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha por huma
-mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque ninguem
-até agora se animou a descobrillo.
-
-41 _Cintra._ Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma
-das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a
-organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés
-de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes;
-mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina,
-elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se
-descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas,
-que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada
-esta serra _Promontorio da Lua_, donde Camões veyo a dizer:
-
- _E nas serras da Lua conhecidas
- Subjuga a fria Cintra o duro braço._
-
-43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta
-serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o
-Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol,
-e à Lua; e porque a esta chamavaõ _Cynthia_, se derivou della o nome de
-_Cintra_.
-
- _De_ Cynthia _tomou_ Cintra _celebrada
- O nome que em rochedos he famosa._
-
-Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso:
-
- _Diola nombre un gran templo, que aun expone
- De Cynthia tan magnifico, y notable,
- Que ser pudo d’el risco ala oportuna
- Casa del Sol el templo de la Luna._
-
-44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ,
-referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando
-tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes
-naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde
-o Montejunto com a serra de Cintra.[195] E o nosso grande Poeta
-Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio
-_Artabro_,[196] o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos, he o
-Cabo de _Finis terræ_. Quem quizer mais largas informações desta serra,
-lea os Authores abaixo nomeados.[197]
-
-45 _Estrella._ Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy
-antigamente conhecida com o nome de monte _Herminio_, que queria dizer
-aspero, e intratavel.[198] Hoje conserva o de Estrella, porque dizem
-ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra hum
-ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que aparta
-Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de neve,
-que por isso disse hum nosso Poeta:[199]
-
- _Que he de Herminia senhor serra nevada,
- Onde o quente Veraõ nunca começa._
-
-46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre
-as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica
-nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã: do Sueste as de
-Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as
-Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra
-nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos
-outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes.
-
-47 _Falperra._ Fica esta serra servindo de atalaya à Villa de Aguiar da
-Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das fertilidades do ameno
-valle, em que existe.[200]
-
-48 _S. Gens._ Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra, que
-tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto della,
-da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por Theodomiro
-Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de Religiosos
-Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que he parte da
-serra de Ossa, e summamente alta.[201]
-
-49 _Gerez._ Os antigos chamaraõ a esta serra _Juressum_, que Antonio
-de Sousa de Macedo[202] diz ser deduzido dos tres celebres Geriões,
-que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito. Principia
-algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte, e caminhando
-encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa elevaçaõ, e por
-algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a habitaõ cabras
-montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes he aprazivel.
-O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte dous especiaes
-capitulos.[203]
-
-50 _Guardunha._ Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella, e em
-sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas povoações,
-arvores, fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra _Guardunha_
-he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha; porque sendo os
-moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se foraõ refugiar a
-esta serra para se defenderem delles.[204]
-
-51 _Hermello._ He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e no
-cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio
-Bruto.
-
-52 _Labruja,_ ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos caminhantes.
-Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima para
-Valença.[205]
-
-53 _Louzã._ He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno está
-cuberta de neve.[206]
-
-54 _Maraõ._ Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ
-abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira,
-e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande
-penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.[207]
-Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia
-da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro,
-Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro,
-de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da
-Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar
-desde a rocha de Cintra.[208]
-
-55 _Marvaõ._ Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de ouro, e
-de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se havemos de
-dar credito a Resende.[209]
-
-56 _Minde._ Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do Norte
-para o Sul, e da parte Meridional nasce hum pequeno rio, que faz sua
-corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito[210] naõ distingue esta
-serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de
-Faria.[211]
-
-57 _Monchique_, ou _Monsico_. Levanta-se no Algarve com eminencia tal,
-que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com abundancia de agua
-admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se descobre a mayor parte
-do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de final aos navegantes
-para demandarem seguramente a nossa barra; de sorte que principia de
-Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur. Alguns Authores lhe daõ o
-nome de _Sico_, ou seco por antifrase. Resende diz que he braço da
-Serra Morena.[212]
-
-58 _Monte do figo._ No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho existe
-esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera subida,
-em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de legua. Em
-cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores de todas
-as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se levanta
-outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume está huma
-Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e para remedio
-de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera alli o Arcanjo
-S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu nome, que por este
-motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o primeiro que avistaõ os
-navegantes, que vem das Indias de Castella, muitas leguas ao mar, por
-ser de immensa altura.
-
-59 _Montejunto._ Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se
-extende esta serra, a que antigamente chamavaõ monte _Tagro_, de que
-talvez se originaria o nome de _Tagarro_ a huma povoaçaõ edificada nas
-suas vizinhanças.[213] Dizem alguns,[214] que he a mais alta serra de
-Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e de altura
-meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa agua.
-Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro Convento
-dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel Fr. Sueiro
-Gomes.[215]
-
-60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro,
-escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,[216] e em outra
-obra[217] nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade,
-e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ.
-O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de
-azeviche.[218]
-
-61 _Monte do Minhoto._ Junto ao rio Zezere está esta serra, muy alta, e
-povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a parte do
-rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella, e hum poço
-de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem[219] que antigamente
-houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava humas contas
-a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio para muitas
-enfermidades.
-
-62 _Monte-Muro._ Está junto a Evora, e he parte da serra de Besteiros:
-os antigos lhe chamaraõ _Mons Maurus_. Toma grande distancia de terra,
-mas em si he aspero; e da mesma grosseria, e rusticidade participa a
-gente, que o habita.
-
-63 _Ossa._ Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo espaço
-de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se de
-muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria o
-nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.[220] Comprehende
-em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares,
-Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes
-fontes, que della procedem.
-
-64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e
-parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de
-S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas
-abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ
-fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de
-Infantes verdadeira Thebaida Portugueza.
-
-65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento
-se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que
-chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na
-_Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v._ Descobrem-se tambem nesta
-serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre, e
-almagre.
-
-66 _Pomares_. Antigamente se chamou _Monte de Venus_. Está junto a
-Evora, onde agora se chama o Lugar de Pomares. Foy muy celebre pelos
-trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.[221] Da sepultura de
-Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora gloriosa
-pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma.
-
-67 _Sandonho._ Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de
-outra serra chamada Falperra.
-
-Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda
-encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de
-outros.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[181] Caram. no seu Philip. Prud. Proem. §. 1. n. 3.
-
-[182] Sousa na Histor. de S. Domingos part. 3. liv. 3. cap. 20.
-
-[183] Monarq. Lusit. tom. 1. na Geogr. Resende liv. 1. de Antiq.
-Corograf. Port. tom. 2. pag. 89.
-
-[184] Ptolom. lib. 2. Geogr. tab. 2. Corograf. Portug. tom. 1. p. 282.
-Argote de Antiq. Bracar. lib. 1. cap. 3. e nas Memor. de Braga tom. 1.
-lib. 1. cap. 10.
-
-[185] Corograf. loc. supr. citat. Cardoso Diccion. Geogr. tom. 1.
-
-[186] Barreir. na Corograf. pag. 62. Santuar. Marian. tom. 2. pag. 465.
-
-[187] Piedad. Chron. da Arrab. part. 1. liv. 1. cap. 5. Brito de Mello
-Chron. da Arrab. m. s. p. 1. c. 6.
-
-[188] Gonzag. de Origin. Relig. Seraph. part. 3. pag. 1123.
-
-[189] Resende lib. 1. de Antiquit. pag. mihi 37.
-
-[190] Monarq. Lus. liv. 1. c. 28.
-
-[191] Santuar. Marian. tom. 3. pag. 255.
-
-[192] Chron. dos Carmel. Descalç. part. 2. liv. 4. c. 13.
-
-[193] Idem tom. 2. pag. 76. Bened. Lusit. tom. 2. pag. 283. Corogr.
-Port. tom. 2. pag. 69. Diccion. Geogr. de Cardos. tom. 2.
-
-[194] Corograf. Portug. tom. 2. pag. 76.
-
-[195] _Mons vero Tagrus, cujus Varro meminit, meo quidem judicio ille
-idem est, quem nos Sintreum vocamus, & à, quo Lunæ promontorium in
-mare prorumpit millia passuum ab Olisipone plus, minusve, quod nostris
-hodie_ Rocham _appellari placuit, &c._ Goes _tract. de Olisipone._
-
-[196] Botelho no Alfonso l. 1. est 7. da impress. de Roma.
-
-[197] Resende lib. 1. de Antiq. Monarq. Lus. liv. 1. c. 22. e liv. 5.
-c. 15. Duart. Nun. Descripç. de Portug. c. 10. Faria sobre a Ode 1. de
-Cam. Franc. d’Almeida Jordaõ em especial Relaçaõ que imprimio desta
-serra no an. de 1748.
-
-[198] Monarq. Lus. t. 1. liv 4. cap. 1. Esperança tom 1. da Chronic. p.
-421. Resende de Antiq. lib. 1.
-
-[199] Maced. no Olisip. cant. 4. est. II.
-
-[200] Carv. Corogr. Portug. tom. 1. p. 171.
-
-[201] Corograf. Portug. tom. 1. pag. 168. & tom. 2. pag. 447.
-
-[202] Maced. Olisip. cant. 2. est. 18.
-
-[203] Argot. Antiguid. de Brag. p. 372.
-
-[204] Santuar. Marian. tom. 3. p. 59. Corograf. Portug. tom. 2. p. 412.
-
-[205] Corograf. Portug. tom 1. p. 204.
-
-[206] Leit. nas Miscelan. pag. 15.
-
-[207] Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 106.
-
-[208] Sousa, Chronic. de S. Dom. part. 3. pag. 189.
-
-[209] Resend. liv. 1. de Antiquitat.
-
-[210] Monarq. Lusitan. liv. 11. cap. 30. e na Geogr. cap. 2.
-
-[211] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 3. cap. 6.
-
-[212] Resend. lib. 1. Antiquit. Vide Agiolog. Lusit. tom. 2. pag.
-654. Far. no Epitom. part. 4. cap. 9. Diccionar. Geogr. tom. 1. verb.
-_Algarve_.
-
-[213] Fr. Luiz de Sous. Histor. de S. Dom. part 1. liv. 1. cap. 12.
-
-[214] Far. na Europ. Portug. part. 3. tom. 3. cap. 6.
-
-[215] Santuar. Marian. tom. 2. p. 215.
-
-[216] Plin. Columel. e outros apud Mayol. part. 1. colloq. 7. Fonseca
-na Medic. Lusit. disp. 2. cap. 5.
-
-[217] Recreaçaõ Proveit. part. 1. colloq. 4. p. 254. Veja-se tambem
-Gerundens. no Paralipoemn. da Histor. de Hesp. lib. 1. pag. 6. Kormanni
-tract. de Virgin jure cap. 12. Resend. lib. 1. Bernard. Florest. tom.
-4. p. 267. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3.
-
-[218] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.
-
-[219] Santuar. Marian. tom. 3. p. 425.
-
-[220]
-
- _Es nombre desta horrifica montaña
- El de la que fue patria de Centauros,
- Que contra el Cielo puestos en campaña
- Amontonaron Oëtas, Pindos, Tauros.
- El nombre desta finalmente es Ossa,
- Que aun aora escalar los Cielos osa._
-
- Faria na 4. p. da Fonte de Aganipe Eglog. 5.
-
-
-
-
- CAPITULO VII.
-
-_Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis._
-
-
-1 He tanta a abundancia de rios, que fertilizaõ, e regaõ nossas
-Provincias, que por este motivo deu Estrabo à Lusitania o titulo de
-feliz.[222] Dos capitaes, e de alguns, que se diffundem nelles, faremos
-huma succinta, e hydrografica narraçaõ pelo mesmo estylo, que vamos
-observando.
-
-2 _Abbadia._ Passando por Alcobaça, vay inundar os campos da Villa de
-Mayorga.
-
-3 _Abrancalha,_ ou _Abrancuida_. He ribeira, que corre distante de
-Abrantes huma legua para o Norte, fertilizando com suas aguas muitos
-pomares, e hortas deliciosas.
-
-4 _Abrilongo._ Entra no rio Sévera, ou Xévora junto da Villa de
-Ouguella, e cria muy gostoso peixe, por serem suas aguas frigidissimas.
-Veja-se o que dizemos do Botova.
-
-5 _Agualva._ Ribeira, que passa junto da Villa de Bellas.
-
-6 _Agua santa._ He hum grande ribeiro, que nasce da serra de Ossa, e se
-mete no rio Tera.
-
-7 _Aguas livres._ He huma formosa ribeira de abundantes aguas, que
-corre pela Freguezia de Bellas, termo de Lisboa. Em algumas partes he
-caudalosa, e naõ se passa sem ponte, como he no lugar chamado Ninha
-a Pastora, e no forte da Cruz quebrada. Saõ conduzidas estas aguas
-para Lisboa em soberbo, e forte aqueducto, que por ora descreveremos
-brevemente.
-
-8 Tem elle o seu primeiro manancial nesta ribeira em distancia de boa
-meya legua da ponte, a que alguns chamaõ de Bellas. A abundancia de
-agua neste nascimento por si só vence os tres principaes chafarizes
-de Alfama, que ha na Cidade. Manifestou-se pois este famoso aqueducto
-para se pôr prompto em 6 de Agosto de 1732; e logo ao principio da
-ribeira em distancia de 1800 palmos se lhe introduzio huma boa fonte,
-a que chamaõ a Fonte santa do Leaõ; e continuando o aqueducto ao lado
-direito da ribeira, (que logo a atravessou junto ao nascimento, que
-fica à parte do Poente) caminha até avistar a ponte de Caranque, e aqui
-se aparta da mesma ribeira para o Lugar da Porcalhota, encostando-se ao
-oiteiro de S. Braz.
-
-9 Neste progresso vay mais para diante recolher a agua, que lança a
-fonte chamada de S. Braz para a parte da Porcalhota, e logo atravessa
-por baixo da estrada junto à quinta do Galvaõ proximamente à Ermida
-de Santo Antonio da mesma quinta, donde salvando sobre huma ponte a
-ribeira, que passa por dentro da dita quinta, se inclina a buscar a
-raiz do Lugar da Fragoza; e continuando pela mesma encosta até o Lugar
-de Calhariz, fronteiro à Freguezia de Bemfica, se vay prolongando
-por defronte do Convento de S. Domingos até o monte, que chamaõ das
-tres Cruzes, donde se passa a ribeira de Alcantara para se introduzir
-no Bairo alto, recolhendo por este caminho (que he o da mais baixa
-nivelaçaõ, que permittia o calice, em que a agua deve cahir no dito
-bairro) varias fontes, que se vaõ encontrando, e descubrindo nos
-alicerces da mesma obra.
-
-10 A fórma deste aqueducto he de hum corredor, ou mina artificial
-de sete palmos de largo, e quatorze de alto, a que naõ chegou algum
-dos aqueductos Romanos. Tem pelo meyo hum passeyo de tres palmos de
-vaõ, fabricado de finissimo lagedo, e a cada lado hum encanamento de
-marmore, que recebem ambos quarenta e duas manilhas de agua em palmo e
-meyo de boca, e palmo e quarto de alto.
-
-11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua
-horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta
-se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como
-por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto
-se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto
-algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o
-antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na
-utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ
-inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de
-seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira.
-
-12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ
-introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a
-este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous
-montes, que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e
-forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa,
-em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado
-manuscrito, intitulado: _Fabrica, que falta a Lisboa_, o qual vimos, e
-se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.
-
-13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas
-para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer
-ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós
-vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada
-de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos
-naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto
-appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as
-da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz
-Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra
-desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ
-nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes
-embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ
-V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para
-a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel
-da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade
-merece imortaes elogios.
-
-14 _Agueda._ Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum, que
-passa por Agueda, e este he o _Emineum_ dos antigos, que vay morrer em
-Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de Riba-Coa.
-Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay à ponte da
-Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos montes em
-Vilvestre entra no Douro.
-
-15 _Aguilhaõ._ Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes, e com
-arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos peixes,
-especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas margens ha
-copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente agradavel,
-e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se atravessar
-por tres pontes de páo, e huma de cantaria.
-
-16 _Alborrel._ Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando Aremanha, e
-divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos barbos.
-
-17 _Alcantara._ Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e se mete
-no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos no livro, que
-compoz, intitulado: _Sitio de Lisboa_, mostra de quanta utilidade seria
-communicarse este rio com o de Sacavem, do qual naõ dista mais que
-legua e meya para que ficando dentro deste circulo Lisboa, conseguisse
-o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no mundo. Neste sitio
-está a fabrica Real da Polvora reedificada por Antonio Cremer.
-
-18 _Alcaraviça._ He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos Gallegos
-no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas fontes taõ
-abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas.
-
-19 _Alcarabouça._ Provê este rio de bastante peixe a Villa de Ficalho,
-por onde corre quatro leguas distante de Serpa.
-
-20 _Alcarapinha._ Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz. Suas
-aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche.
-
-21 _Alcarque._ Conforme a Geografia Blaviana he rio, que no seu Mappa
-vem assinado na Provincia do Alentejo.
-
-22 _Alcarrache._ He huma Ribeira, que nasce em Castella na serra de
-Santa Maria, e vem sahir ao termo de Mouraõ, trazendo de jornada
-quinze leguas; até que engrossada sua corrente com as aguas de outros
-ribeiros, e fazendo trabalhar muitos moinhos, vay morrer no Guadiana.
-Pescaõ-se nelle excellentes, e grandes barbos, e outros peixes mais
-miudos: e se vadea por duas boas pontes de pedra.
-
-23 _Alcoa_, antigamente _Coa_. He o que unindo-se com o chamado _Baça_,
-deu nome ao sitio de _Alcobaça_, onde os Religiosos Bernardos tem
-o famoso, e magnifico templo, que alli fez edificar o Santo Rey D.
-Affonso Henriques.
-
-24 _Alcofra._ He rio caudaloso da Beira no termo de Lafões, e que se
-mete no Alfusqueiro. As suas margens estaõ cheias de carvalhos, e
-castanheiros enlaçados com muitas vides, de que se faz o bom vinho de
-embarrado. Cria saborosas trutas, e se deixa vadear por quatro pontes
-de páo.
-
-25 _Alenquer._ Nasce ao pé da serra de Montejunto, e caminhando Norte
-Sul o espaço de huma legua vem buscar nome à Villa de Alenquer. Aqui
-fertiliza as suas quintas, e hortas com a abundancia de suas aguas
-saudaveis, e aos seus moradores com a copia das suas trutas, barbos, e
-bogas; até que incorporado com o rio de Ota se mete no Tejo junto de
-Villanova da Rainha.
-
-26 _Alferradede._ He ribeira, que rega muitos pomares, e hortas do
-termo da Villa do Sardoal, e vay morrer ao Tejo.
-
-27 _Alfusqueiro._ Passa este rio junto do Lugar dos Ferreiros, termo da
-Villa de Vouga, e tem huma grande ponte de hum só olhal, muito alta,
-fabricada de cantaria. Discorre tambem pela Villa de Assequins, e vay
-descançar no rio Vouga.
-
-28 _Algés._ Nasce este rio em hum oiteiro, que fica defronte do Lugar
-de Monsanto, termo de Lisboa; e augmentado com as aguas de hum regato,
-que brota por cima de Outorella, entra a fertilizar a quinta das
-Romeiras até ir mergulharse no mar pelo pé do forte da Conceiçaõ, onde
-está huma ponte de pedra, que parte com a nobre quinta do Duque de
-Cadaval.
-
-29 _Algodea._ Banha, e fecunda esta ribeira as hortas, e pomares, que
-ficaõ fóra da Villa de Setubal: depois entra no Sado.
-
-30 _Alja_, ou _Alje_. He huma caudalosa, e arrebatada ribeira, que
-discorre pela Villa de Arega, cinco leguas de Thomar, e se vay esconder
-no rio Zezere. Pescaõ-se nelle excellentes trutas, e outros peixes muy
-gostosos. Os antigos lhe chamavaõ ribeira fria.
-
-31 _Almaceda._ He rio, que cerca a Villa de Sarzedas, e entra no Ocreza
-sempre arrebatado.
-
-32 _Almansor._ Divide esta ribeira do Alentejo os limites da Freguezia
-de Nossa Senhora da Repreza, dos de Santa Sofia; e chegando até o termo
-de Montemor o Novo, onde troca o nome pelo de Canha, se esconde no Tejo
-perto de Benavente; deixando com a benignidade das suas aguas ferteis
-os pomares, e as terras por onde passa.
-
-33 _Almonda._ Tem sua origem este rio na serra d’Aire, legua e meya da
-Villa de Torres Novas. Saõ as aguas no seu nascimento, e matriz, taõ
-claras, e he tanto o peixe, que se cria nellas, que ainda que o pégo he
-fundo, se está vendo de cima das barreiras andarem a saltar: por isso
-he aqui muy aprazivel a pescaria. Os Romanos acharaõ neste rio muita
-semelhança com o Mondego, por cuja causa lhe chamaraõ _Alius munda_,
-donde se originou com pouca corrupçaõ _Almonda_. Mete-se no Tejo junto
-do Lugar da Azinhaga, como bem o diz o Reverendo Padre Luiz Cardoso no
-Diccionario Geografico, emendando-me.
-
-34 _Alpiaça._ He rio da Estremadura, que nasce perto da Villa de Ulme;
-de inverno corre arrebatado, e cria excellentes barbos, e fataças.
-Mete-se no Tejo.
-
-35 _Alpreade._ Nasce esta ribeira na serra da Gardunha, e correndo
-sempre desasocegada, vay acabar no rio Ponsul, passando por quatro
-pontes de pedra, e fazendo trabalhar trinta e quatro azenhas, tres
-lagares, e hum pizaõ. Cria muitas trutas, e bordallos.
-
-36 _Alva._ Este rio tem o nascimento na serra da Estrella; e fazendo
-logo seu caminho ao Poente por baixo de hum monte, discorrendo em
-algumas partes muy claro, vem cercar as Villas de Arganil, Coja,
-Pombeiro, Penalva, Sandomil, Villa Cova de Subavó, e S. Romaõ, onde
-tem duas pontes, huma chamada de Peramol, pela qual vay o caminho de
-Veraõ para a Covilhã, outra de cantaria lavrada, na estrada, que vay
-para Valezim. Pescaõ-se nelle boas bogas, trutas, lampreas, e saveis.
-Finalmente entrando no Mondego rico de outras ribeiras, acaba no Oceano.
-
-37 _Alvar._ Nasce esta ribeira na serra de Montemel pela parte do Lugar
-de Covellas; e passando junto da Villa da Alfandega da Fé, vem ao Lugar
-de Santa Justa, donde caminhando quatro leguas, desagua na ribeira
-Vellarva.
-
-38 _Alvaro._ No termo da Villa de Alvaro pela banda do Sul tem seu
-nascimento esta ribeira; que dá o nome à Villa; e passando por duas
-pontes de pedra, rodea o monte da Villa, e se mete no Zezere, fazendo
-parecer aquella povoaçaõ huma peninsula.
-
-39 _Alviella._ A boa opiniaõ que fiz da Corografia Portugueza composta
-pelo Padre Antonio Carvalho, me obrigou seguirlhe as pizadas em muitas
-noticias, que delle tirey, e a elle me refiro. Entre ellas foy a
-maravilhosa voragem, ou sorvedouro que diz acontecer nos olhos de agua
-em a nascente deste rio de Alviella; mas como o Reverendo Padre Luiz
-Cardoso, natural de Pernes, pode examinar melhor esta particularidade,
-e a reconhece agora no Diccionario Geografico por fabulosa, he justo
-que eu nesta segunda impressaõ do meu Mappa, agradecendo-lhe a
-advertencia, melhore a noticia.
-
-40 Nasce pois este rio nas vertentes da serra do Patello junto do Lugar
-da Louriceira, debaixo de hum grande rochedo; e logo em seu nascimento
-vem com abundancia de peixes, especialmente bordalos, engrossando-se
-com varios ribeiros até desembocar no Tejo junto ao Lugar do Reguengo.
-Cria outras muitas castas de peixes saborosos em todo o tempo: faz
-moer muitos moinhos, e lagares de azeite; e as suas ribeiras, e
-margens estaõ cheias de arvoredo silvestre, e frutifero, que as fazem
-vistosissimas. Sujeita-se porém a oito pontes; e dá abrigo a bastante
-caça miuda de arribaçaõ.
-
-41 _Almioso._ He huma ribeira da Estremadura que nascendo pobre no
-Troviscal, vay desaguar caudaloso no fim da cerca dos Religiosos
-Capuchos da Certã. Cria muitos peixes miudos, e admitte algumas pontes.
-As suas margens saõ incultas por fragosas, mas entre as suas areas se
-acha ouro.
-
-42 _Analoura_, ou _Anhaloura_. Nasce entre as Villas de Borba, e Villa
-Viçosa, rega a Villa de Veiros, e misturada com a ribeira de Fronteira,
-vay engrossar a de Sauzel, e entraõ ambas por Aviz, até desembocar no
-Sorraya.
-
-43 _Ancora._ As aguas deste rio que nascem na serra de Arga, dividem
-o Concelho de Caminha do de Viana. Dizem que adquirira o nome, que
-possue, desde que ElRey Ramiro II. lançara nelle sua mulher Dona Urraca
-atada em huma ancora para ir mais depressa ao fundo. Authores ha que
-tem isto por fabula. Morre finalmente no mar junto de Caminha, onde
-fórma huma pequena barra com o fortim da Lagarteira.
-
-44 _Anços_, antigamente _Anceo_. Vem da Redinha banhar a Villa de
-Soure, e dar nome a Villanova de Anços; e junto com outras correntes se
-mete no Mondego a baixo de Coimbra.
-
-45 _Aravil._ Nasce junto de Castellobranco, e morre no Tejo. Pelo
-Inverno corre arrebatado, e no Veraõ secca. He constante levar nas suas
-correntes algum ouro, e por isso procurado de gandaeiros.
-
-46 _Arcaõ._ Nasce no celebre olho de agua Borbolegaõ na Villa de
-Grandola, e se mete no Sado acima de Alcacer.
-
-47 _Ardila_, ou _Ardita_. He huma ribeira furiosa da Villa de Moura.
-Fazem-na opulenta as enchentes das ribeiras Brunhos, e Lavandeira.
-Desemboca no Guadiana, passando primeiro pela Villa de Noudar, que a
-deixa quasi reduzida a Ilha, juntando-se, com a ribeira da Murtiga.
-
-48 _Arestal._ He huma lagoa profunda, que fica na Beira, e na serra do
-seu mesmo nome. Em todo o anno lança agua para todas as partes, e faz
-nascer della dous ribeiros. Dizem que se communica com o mar.
-
-49 _Arunca._ Nasce na ribeira de Gaya, e augmentando-se com as aguas de
-outras ribeiras, vay correndo até à Villa de Pombal pelo espaço de tres
-leguas, fertilizando de caminho muitos pomares, e quintas. Antes de se
-meter no Mondego, passa pelas Villas de Soure, e Villanova de Anços.
-No tempo de Inverno se enfurece, e corre com tanto impeto, que leva
-comsigo searas, e edificios. Os antigos lhe chamaraõ Tapiço.[223]
-
-50 _Asturãos._ Rio do Minho, que nasce no sitio de Azevosa com muita
-humildade, e continuando com a mesma brandura, vay acabar no Lima,
-deixando de si saudades nas deliciosas, e frescas margens por onde
-passou.
-
-51 _Ave._ Procede da serra de Agra, e de huma ribeira, a que chamaõ da
-Lage; e unindo-se com hum regato ao pé da serra de Cabreira, já com
-bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas de Barrozo,
-e quatro leguas antes de entrar no Oceano, divide o Arcebispado de
-Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Bairaõ, e de S. Tyrso,
-e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo de Guimarães o
-Vizella, ou Avizella, que passa por Pombeiro, caminha apressadamente
-por baixo de varias pontes muito boas, e finalmente vay sepultarse no
-mar por entre a Villa de Conde, e Azurara. O Padre Vasconcellos, como
-traductor de Duarte Nunes, o faz erradamente, como elle, nascer junto
-de Guimarães, como bem repara Fr. Leaõ de Santo Thomaz.[224] Em algumas
-partes corre com tanta doçura, e suavidade, que obrigou a cantar delle
-Manoel de Faria:[225]
-
- _De donde ouvindo estava o som divino,
- Que faz correndo o Ave crystallino._
-
-Todas as terras, por onde este rio passa, e vay regando, saõ
-deliciosas, e elle abundante de barbos muy grandes, e saborosissimos.
-
-52 _Aviz._ He huma ribeira, que nasce acima de Monforte, e passando
-pela Villa de Fronteira, e outras terras, em que recebe varios riachos,
-com que se engrossa, chega à Villa de Aviz onde adquire o nome, e passa
-por huma ponte de boa fabrica, até ir acabar ao Tejo incorporado com o
-Sorraga, e Divor.
-
-53 _Azibo._ Com forças medianas discorre pelos limites da Villa de
-Chacim, sete leguas de Moncorvo. Principia no Lugar de Podense, termo
-de Bragança, e depois de caminhar quasi sete leguas, vay introduzirse
-no rio Sabor por cima da ponte de Remondes, limite da Villa de
-Castro-Vicente.
-
-54 _Baça._ Este rio, juntando-se com outro chamado Coa, nasce da parte
-Oriental de Alcobaça, e fazendo volta para o Occidente, rega por
-grande espaço os fertilissimos campos de Mayorca, e Abbadia, até que
-junto da Villa da Pederneira se mergulha no Oceano.
-
-55 _Balocas._ Ribeira, que se mete no rio Alva.
-
-56 _Balsemaõ._ Em distancia de quatro leguas da Cidade de Lamego nasce
-este rio na serra da Rosa, mas elle o naõ parece; porque tanto que póde
-correr, caminha furioso, rompendo, e lavrando pedras com tal estrondo,
-que ensurdece ainda pelo Veraõ, quando leva menos agua. Vay à ponte
-de Lamego, atravessando o sitio da mayor fertilidade, a que chamaõ da
-Ribeira, e se mergulha impetuoso no Douro juntamente com o Baroza com
-quem se havia communicado. Antigamente lhe chamavaõ Unguio.
-
-57 _Barcarena._ Nasce esta ribeira nos limites de Bellas termo de
-Lisboa, e fertilizando os Lugares da Agualva, e de Laveiras, aqui
-se esconde no Tejo por baixo do Convento da Cartuxa. Faz trabalhar
-com a sua agua no sitio de Barcarena a magestosa fabrica da polvora
-reedificada no anno de 1729 pelo Hollandez Antonio Cremer.
-
-58 _Baroza_. Nasce este rio de dous principios: hum he no monte de
-S. Joaõ de Tarouca, e nasce muy bravo, mordendo pedras até a ponte
-de Mondim, que muitas vezes derruba. Mais para baixo lhe entra outro
-braço, que nasce em Barcia da Serra, donde chega a Lazarim à ponte de
-Baroza. Baixa aos campos de Tarouca muito brando, mas com a aprasivel
-serenidade solapa nocivo terras, e campos muito bons, e os leva. Unido
-vay a Ucanha adornar a nobre ponte da Torre, muy grandiosa, e adiante
-lhe entra a ribeira de Salzedas, com que em fim morre no Douro.
-
-59 _Barroco._ Nasce este rio na serra da Arada em a Beira, e fazendo
-varias voltas, e passagens, se precipita por entre penhas no escuro
-pego do Vouraõ até ir acabar no Vouga. As suas margens saõ deliciosas
-pelas grandes sombras de arvoredos com que convida aos passageiros.
-
-60 _Basegueda_, ou _Besadega._ Tem o seu nascimento este rio na serra
-Marvana, tres leguas distante de Penamacor, onde tem huma ponte de
-cantaria com cinco olhaes. A sua corrente he muy socegada, excepto no
-Inverno, que corre arrebatada. Cria excellentes trutas, e rega pelas
-suas margens vistosos, e frescos arvoredos; e deixando-nos saudades com
-as suas areas de ouro, vay morrer Castelhano em o rio Erga.
-
-61 _Beça._ He rio do Minho, e nasce em Tras os Montes; corre sempre
-arrebatado, e furioso por penedia, e por isso he infrutifera a sua
-corrente. Depois de caminhar seis leguas, se mete no Tamega com
-bastante copia de boas bogas, e trutas.
-
-62 _Bezelga._ Nasce junto da Villa de Ourem; e correndo mais de legua e
-meya, vay descançar no rio Nabaõ por entre Thomar, e Cinceira.
-
-63 _Biturim._ Entra no Douro pela Provincia do Minho.
-
-64 _Borbolegaõ._ He este hum celebre olho de agua, que nasce na Villa
-de Grandola, e passa pela natural ponte dos Aivados, que suas mesmas
-aguas formaraõ galantemente em huma rocha. Mais para baixo vaõ taõ
-violentas no sitio chamado Diabroria, que fazem moer a hum moinho entre
-dia, e noite moyo e meyo de trigo. Neste olho de agua, que será do
-tamanho de huma roda de carro, se lança de alto hum homem a pique, e
-cravando-se nelle até os peitos, o impeto das aguas o faz vir pouco a
-pouco para cima, até que arremeça com elle na margem com tanta furia,
-como se fora huma leve cortiça. O mesmo faz a qualquer pezado madeiro,
-que lhe lançaõ. Dentro nelle se ouve estrondo como o que faz na costa o
-mar bravo. Finalmente vay morrer no Oceano pela Villa de Sines.
-
-65 _Botova._ O nascimento deste rio he nas serras de Albuquerque, e se
-augmenta com as enchentes do Xévora, que nascendo ao pé da serra de S.
-Mamede, e correndo pelos penhascos do monte chamado dos Sete, passa por
-S. Juliaõ da Codiceira, onde recolhe as aguas do Abrilongo. Desta sorte
-juntos vaõ communicarse com o Guadiana à vista da Cidade de Badajoz.
-Deste rio faz mençaõ Antonino em o seu Itinerario com o nome de _Budua_.
-
-66 _Brescos._ Na Freguezia de Santo André, termo da Villa de Santiago
-de Cacém, existe esta lagoa que tem de circuito meya legua, cujo
-especial peixe, que delle se tira em abundancia, se arrenda todos
-os annos. Muitas pessoas distinctas vaõ fazer alli por divertimento
-suas pescarias. Devemos esta noticia ao M. R. Padre Fr. Francisco de
-Oliveira Dominicano, que por carta nos communicou.
-
-67 _Briteiros._ Nasce no Minho na Freguezia, e Coito de Pedralva, e
-fenece no Ave. No seu principio he pobre, mas enriquecido com varias
-levadas, se faz rio opulento, cheyo de muitas trutas, e escalhos
-saborosissimos.
-
-68 _Bugaõ._ Tem este rio a sua origem na Freguezia de Santiago de
-Villa-Chã, termo da Villa da Barca, e se mete no Lima arrebaradamente.
-Todo o peixe, que nelle se cria, he de admiravel gosto.
-
-69 _Cabraõ._ He hum pequeno regato, que corre pela Freguezia de S.
-Lourenço, termo da Villa dos Arcos de Valdevez. Com a pouca enchente,
-que leva, caminha com arrebatada furia, e passando pela ponte de
-cantaria, a que chamaõ do Rodalho, divide as aguas do Lima, onde
-finaliza. Criaõ-se nelle boas trutas, porém tambem naõ lhe faltaõ
-sanguisugas.
-
-70 _Cabrella._ He ribeira do Alentejo, que nasce nas Silveiras termo
-de Montemor. Recolhe as correntes de outras duas ribeiras chamadas da
-Safira, e S. Romaõ, que lhe ficaõ ao Nascente, e da parte do Norte se
-engrossa com outras duas, e se mete no mar com o nome de Marateca. O
-seu curso em partes he furioso, pelo embaraço que lhe fazem as penedias
-por onde corre.
-
-71 _Cachoeiras._ Nasce na Comarca de Alenquer formado de varios
-regatos, e vay acabar no Tejo entre a Villa nova da Rainha, e a
-Castanheira. Tem duas pontes huma de páo, outra de pedra no Lugar do
-Carregado.
-
-72 _Cadavai._ He ribeira, que fertiliza as hortas no termo da Villa do
-Sardoal, e se mete no Tejo.
-
-73 _Caldo._ Corre pela Villa de Monte alegre na Provincia Transmontana,
-provendo de peixe os seus habitadores.
-
-74 _Cambas._ He pequeno rio, que entra no Zezere.
-
-75 _Campanhaõ._ Entra no Douro.
-
-76 _Campilhas._ Entra no rio Sadaõ muy corpulento em Alvalade.
-
-77 _Caná._ Faz delle mençaõ Macedo.[226]
-
-78 _Canal._ He ribeira da serra de Ossa, donde procede, e enriquece a
-ribeira de Tera.
-
-79 _Canha._ Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o
-novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de
-Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa
-Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com
-huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos
-depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ
-occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte,
-onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está
-taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738
-correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro, natural da
-mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada
-no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e
-era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa
-certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do
-Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra
-na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das
-Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de
-1759.
-
-80 _Carbuncas_, ou _Cabruncas_. Nasce na serra de Freixedas do Bispado
-de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante com o Danços
-caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego.
-
-81 _Carcedo._ Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha, sem
-dizer onde nasce, ou por onde corre.
-
-82 _Cardeira._ Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo
-de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no
-Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma
-Cidade de Béja.
-
-83 _Carnide._ He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay
-buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas,
-vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira.
-
-84 _Castelãos._ Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de
-Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio
-Crins, que se mete no Mondego.
-
-85 _Cávado_, a quem os Romanos chamavaõ _Celando_, e Ptolomeu appellida
-_Cavus_. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na Serra do Gerez,
-segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber outras
-ribeiras, especialmente o chamado _Homem_, cerca, e poem em Peninsula
-as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga. Rega com suas
-aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte; os muros de
-Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no mar por entre
-Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta para o Norte quasi
-do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito sua força as marés.
-Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que acerca deste rio fez
-o Reverendo Padre Argote.[227] Pescaõ-se neste rio muitos salmões,
-relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ tambem nelle amethystos,
-jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas as pontes por onde se
-deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que existe na Freguezia
-de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos de cantaria, obra
-Romana; e por aqui fazia transito huma das vias militares que sahiaõ de
-Braga para Astorga.
-
-86 _Cá-vay._ Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy
-distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles.
-
-87 _Caya._ Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte
-chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo
-dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar
-Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya
-antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy
-conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer
-a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento
-mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes
-entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias.
-
-88 _Cayde._ He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio perto
-da Vila de Guimarães, e se mete no Celho.
-
-89 _Ceife._ Ribeira, que corre pela Freguezia de Santa Margarida do
-termo da Villa de Proença a velha.
-
-90 _Cellinho._ Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com o
-Celho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de
-Sercedelo para se intrometter com o Ave.
-
-91 _Celano._ O mesmo que o _Cávado_.
-
-91 _Celho._ Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de
-Guimarães, e conduzido com o augmento de outros riachos, vay passando
-triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deos, a de
-Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vay esconder no rio Ave por
-baixo da ponte de Servás, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de
-Penouços deraõ as aguas deste rio de beber às Tropas Portuguezas, e
-Castelhanas, que se acharaõ na batalha da Veiga das Favas.
-
-93 _Ceiça._ Ribeira, que entra no Nabaõ, e nasce no termo da Villa das
-Pias.
-
-94 _Cerdeira._ Ribeira, que corre pela Villa de Coja, e entra no Alva.
-
-95 _Ceras_, antigamente _Ceres_. Entra no Nabaõ.
-
-96 _Cértoma._ Nasce no Couto da Vacarissa perto do Bussaco, e vay
-acabar no Agadaõ muy soberbo. As suas aguas antigamente eraõ pessimas:
-depois que tiveraõ a felicidade de beber dellas Santa Isabel, ficaraõ
-com tal virtude, que até os gados que alli bebem, saõ as suas carnes de
-melhor sabor que os de outra parte.[228]
-
-97 _Ceira._ Rega as Villas de Goes, e Cerpins, fertilizando seus
-campos, e enriquecendo seus moradores de grãos de ouro, que suas
-correntes levaõ.
-
-98 _Chança._ Esta ribeira fica distante meya legua da Villa de Ficalho,
-e divide por esta parte o nosso Reino do de Castella.
-
-99 _Chinches._ Corre ao Norte da Cidade de Elvas por hum amenissimo
-valle povoado de fresquissimo arvoredo, hortas, e pomares, e repartindo
-os montes de Nossa Senhora da Graça, e do Castello. Visto este rio da
-Cidade, faz huma agradavel perspectiva.
-
-100 _Chileiros._ Nasce este rio na lagoa de Malveira, Lugar da
-Freguezia de Alcainça, termo da Villa de Cintra; e discorrendo pelas
-margens do monte Malhamartello, passa por baixo da estrada Real de
-Mafra, onde se augmenta com os riachos Sexeira, e Pinheiro, que lhe
-daõ forças para cortar com mayor efficacia o alto monte chamado de
-Moncharro. Depois entra pelas terras da Freguezia da Igreja nova, e
-passa pelos Lugares de Moinhos, Granja, Lage, e Farello, onde recebe
-as aguas do ribeiro _Bocco_ da banda do Sul, e da mesma parte recolhe
-outro, que nasce na fonte de Danços. Daqui vay caminhando até o moinho
-das Peras pardas, onde se lhe introduzem as correntes do rio Mouraõ,
-e as do Almargem do Bispo. Alli faz hum salto, de cujo impulso formaõ
-as aguas hum profundo poço, que está sempre provido de muito, e bom
-peixe; e metendo-se pelas Freguezias de Chileiros, e Carvoeira, vay até
-à Igreja de Nossa Senhora do Porto occultarse no mar. Tem este rio mais
-de quatro leguas de comprido, em cuja distancia fertiliza boas terras,
-que todas se fabricaõ. Da Mouxeira para baixo vay banhando deliciosas
-planicies cheias de muitas vinhas, que só a Freguezia da Carvoeira
-dizima hum anno por outro trezentas pipas de vinho. Criaõ-se nelle
-muitos bordallos, mugens, e fataças, que entraõ pela foz, quando se
-rompe com as cheias.
-
-101 _Chouchou._ He ribeira, que banha a Villa de Serpa.
-
-102 _Coa._ No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre junto de
-Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que nasce na
-serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em nosso Reino por Folgosinho.
-Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates, e concordaõ em
-se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos lhe chamavaõ
-_Cuda_, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ o nome de Cudanos,
-e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para tingir lãs, e caldear
-ferro; porém pessimas para se beber, porque causaõ melancolia, e dores
-de cabeça.
-
-103 _Cobres._ Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e
-unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde
-perdem o nome.
-
-104 _Corgo._ Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de
-Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os
-Romanos lhe chamavaõ _Corrugo_.
-
-105 _Corona._ Em distancia de huma legua de Grandola corre este rio
-pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos
-termos de Grandola, e Alvalade.
-
-106 _Coura._ Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca
-juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos,
-formando duas barras, e a ilha Insoa.
-
-107 _Criz._ He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual passando
-pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego.
-
-108 _Daõ._ Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul, ficando-lhe
-da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao Poente, vay ao
-Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas dos Bispados de
-Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros, e por baixo da
-Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no Mondego.
-
-109 _Danços._ Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da
-Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o
-Mondego.
-
-110 _Davino._ Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte do
-Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto
-da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de
-fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte
-de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique.
-
-111 _Degebe_, ou _Odigebe_. Nasce este rio na herdade do Passo,
-Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres pontes em
-outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte por onde
-passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a Villa do
-Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns pégos, ou
-poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que na sua
-lingua significa fosso, ou cisterna.[229]
-
-112 _Deste._ Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos
-para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte
-de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se
-chamava _Aleste_.
-
-113 _Diabroria._ He huma lagoa, que ha no termo da Villa de Grandola
-por baixo do olho de agua chamado _Borbolegaõ_, de que já fallamos,
-a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha de huma
-altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum, nem
-se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de
-peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa
-de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e
-meyo de paõ.[230]
-
-114 _Douro._ Conforme as melhores informações nasce este grande rio
-nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos
-antigamente eraõ chamados _Duraços_. Surte de huma portentosa lagoa, e
-descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de Leaõ, onde
-se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este augmento chega a
-Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando primeiro por Miranda,
-e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios Coa, Tua, Pinheiro,
-Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até ir lançarse no mar em
-S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste rio, que quando nelle
-se introduzem as aguas dos outros, posto que opulentos, naõ fazem
-demonstraçaõ alguma na sua entrada.
-
-115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre
-precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo
-de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e
-por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as
-terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes.
-Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera
-sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ
-da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça
-a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o
-Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer
-navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e
-resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que
-se deixou da empreza começada.
-
-116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no
-lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde,
-como affirma o grande Argote.[231] O Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques, fallando deste rio, diz, que as suas aguas tem virtude
-deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis
-para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas
-causa melancolia, e dores de cabeça.
-
-117 _Elja_, ou _Elga_. Corre direito ao Sul, e passa por entre
-Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de
-Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara.
-
-118 _Enfesta._ Pequeno ribeiro, que desagua no Minho.
-
-119 _Enguias._ Corre esta ribeira por hum Lugar do seu nome, que fica
-no termo da Villa de Belmonte.
-
-120 _Enxarrama_, ou _Xarrama_, nasce do ribeiro do Louredo, e se junta
-depois com o da Lage perto do Convento do Espinheiro de Evora. Tem sete
-pontes pequenas, e huma grande. A primeira da Cidade para o Espinheiro:
-a segunda no caminho que conduz para Villa Viçosa: a terceira na
-estrada para Béja: a quarta da quinta do Sande: a quinta a dos fornos
-da cal: a sexta a que vay para Portel: a setima do Louredo: a oitava
-grande, e sumptuosa, que fica da parte do Norte da Villa do Torraõ. Por
-ella passa quem vay para Alcacer do Sal, e para Alcaçovas, ficando no
-meyo desta o grande ribeiro das Banhas. Depois finalmente que desagua
-na ribeira do Sado, vay com ella o Enxarrama meterse no rio de Alcacer
-do Sal.
-
-121 _Enxurro._ Corre perto da Villa da Pederneira este ribeiro, que lhe
-serve de grande utilidade.
-
-122 _Erra._ Rega esta ribeira os campos de Coruche, e nella se mete a
-do Odivor.
-
-123 _Escura._ He huma lagoa assim chamada, e muy celebre no mais aspero
-da serra da Estrella, que tem muitos passos de circuito, e consta de
-aguas tristes, e verdenegras, a que nunca se lhe achou fundo, nem cria
-cousa alguma. Quando o mar anda bravo, se embravece tambem a agua da
-lagoa, dando bramidos a modo de trovaõ, que se ouvem dalli muitas
-leguas; donde querem dizer os naturaes que se communica com o mar, naõ
-obstante estar delle muito affastado, e serem doces as suas aguas;
-porque affirma Joaõ Vaseu teremse-lhe achado mastros de navio. Perto
-desta lagoa nascem os celebres rios Mondego, Zezere, e Alva.
-
-124 Mons. Marvellú, que teve a curiosidade de ver, e observar o melhor
-deste Reino para a sua Historia natural que intentava compor, escreve
-nas suas Memorias,[232] que subindo, e penetrando a altura desta serra,
-e fazendo lançar dentro da lagoa Escura hum moço atado com huma corda,
-observara este, que tendo andado cento e cincoenta passos, sentira que
-as aguas puxavaõ fortemente por elle; donde se póde inferir, que as
-aguas, que alli formaõ aquelle lago, tem alguma abertura, ou voragem
-por onde desaguaõ impetuosamente.
-
-125 _Esporaõ._ Nasce na Povoa da Margem da parte do Sul do Concelho de
-Guardaõ, e se mete no Criz.
-
-126 _Fervença._ Banha a Cidade de Bragança.
-
-127 _Figueiró._ He ribeira, que se diffunde pela Villa de Niza, e nasce
-na serra de Portalegre.
-
-128 _Filvida._ Corre pelo Concelho de Sever, e faz parte da divisaõ dos
-Bispados de Viseu, e Coimbra.
-
-129 _Folques._ He huma ribeira de Arganil, que entra no Alva.
-
-130 _Freixiandas._ Discorre por Alvayazere.
-
-131 _Freixo._ Atravessa este grande ribeiro a mata da Bardeira da Villa
-do Vimieiro. Passa por entre Selmes, e Cuba, Aldeas no termo de Béja.
-Corre sempre por penedias, de que procede criar singulares bordalos.
-
-132 _Fresno._ Mantem, e fertiliza este rio a Cidade de Miranda, a quem
-cerca pela parte do Occidente, e onde he recebido em ponte de pedra
-lavrada. Ha aqui proxima huma fonte, cuja agua vem por arcos conduzida
-do Lugar de Villarinho.
-
-133 _Fulias._ Desagua no Minho.
-
-134 _Gafaria._ Entra no Douro.
-
-135 _Garcia menino._ He hum celebre pego, cujas aguas enriquecem o rio
-Sadaõ, e onde se acha em todo o anno muito peixe, especialmente as
-nomeadas tainhas de boca vermelha.
-
-136 _Germunde._ Entra no Douro.
-
-137 _Gobe._ Entra no Guadiana da parte de Portugal.
-
-138 _Grefões._ D. Francisco Manoel cuida que he o Celando, que nós
-appropriamos ao Cávado. Veja-se o Padre Poyares no Diccionario pag. 347.
-
-139 _Gogim._ Faz este rio com suas aguas, que banhaõ a Freguezia do
-Salvador de Sabadim, Comarca de Viana, augmentar grandemente o rio Vez,
-com o qual se incorpora.
-
-140 _Guadiana._ Nasce quatro leguas de Montiel em huma lagoa chamada
-Roidera na terra de Alhambra; e sumindo-se junto de Argamansilha,
-resurge dalli sete leguas perto de Daimiel, onde chamaõ os olhos do
-Guadiana; e correndo do Oriente para Poente, entra em Estremadura.
-Chegando a Medalhim, muda seu curso para Meyo dia até chegar huma legua
-antes de Merida, donde torna ao Poente, banhando seus muros, e os do
-Castello de Lobon, e Cidade de Badajoz, a huma legua da qual, e duas da
-Cidade de Elvas, divide os termos de ambas por huma parte, e o rio Caya
-por outra.
-
-141 O nome proprio antigo de Guadiana foy _Ana_, derivado, conforme a
-opiniaõ de alguns, de _Sic-ano_, que dizem ser Rey de Hespanha; porém,
-segundo Samuel Bocharto,[233] he palavra Syriaca, a qual significa
-ovelha, porque nas margens deste rio se apascentaõ grandes rebanhos
-desse gado. Os Mouros lhe chamaõ _Guad-hana_, que quer dizer cousa,
-que se esconde. Entra em fim em Portugal abundante de aguas de outros
-menores rios, que se lhe introduzem, e perdem nelle o nome. Continúa
-seu curso, dividindo a antiga Betica da Lusitania, e se lança no Oceano
-Athlantico entre Ayamonte, e Castro-Marim.
-
-141 Enobrecem-no tres formosas pontes, a de Merida, Badajoz, e
-Olivença. Nesta ponte mandou ElRey D. Joaõ II. edificar huma torre de
-tres sobrados com suas janellas, e seteiras, que defendiaõ a passagem
-do rio. Depois a mandou reedificar ElRey D. Manoel, ficando huma das
-mais galhardas, e formosas pontes de todo o Reino por sua fortaleza,
-arquitectura, e fabrica, a qual assenta sobre os penhascos do rio,
-que naquella parte corre alcantilado sobre dezoito arcos, e tudo he
-passo importantissimo para soccorrer Olivença, em que os passageiros
-pagavaõ certo direito, que já naõ permanece. No principio das ultimas
-guerras de Castella, que aconteceraõ o anno de 1709, a arruinaraõ os
-Castelhanos. Fr. Bernardo de Brito na Geografia de Portugal, fallando
-das aguas deste rio, diz, que costumaõ fazer negra a farinha do trigo,
-que com ellas se moe. Tem ellas virtude diuretica, e deobstruente, como
-nos diz o _Aquilegio Medicinal_.
-
-145 _Herdeiro._ Corre este rio chegado aos muros de Guimarães. Traz sua
-origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal, que chamaõ d’Entre as
-vinhas, na Freguezia de S. Pedro de Azurey. Tem huma só ponte de pedra
-lavrada, que chamaõ de Santa Luzia, mais magestosa do que convinha
-à pobreza das suas aguas. Vay acabar no rocio de S. Lazaro, aonde
-ajudando-o outro regato, vaõ ambos incorporarse com o Celho no Lugar do
-Reboto.
-
-144 _Homem._ Tem seu berço na serra do Gerez, e no sitio chamado
-_Lamas de homem_. Dalli correndo direito ao Poente precipitado por
-entre penedias, vay engrossando com os cabedaes de outras ribeiras
-até se despenhar estrondosamente na Portela de Homem; donde voltando
-a corrente para o Meyo dia dentro do espaço de meya legua, torna a
-enriquecerse com as aguas de treze rios, com as quaes muito mais
-poderoso vay desembocar no rio Cávado a huma legua de Braga.
-
-145 _Jarda._ Ribeira bem conhecida no termo de Lisboa, e na Freguezia
-de Bellas, por onde corre.
-
-146 _Inha._ He huma ribeira muy impetuosa, que corre de altos
-precipicios, e onde se criaõ aguias. Mete-se no Douro.
-
-147 _Jocete._ Mete-se no Guadiana.
-
-148 _Isna._ Divide os termos das Villas da Certã, e Abrantes.
-
-149 _Junqueira._ Rio, que desagua na enseada da Villa de Sines.
-
-150 _Lamas._ A Geografia Blaviana o assina no Alentejo.
-
-151 _Lampas._ Entra no Guadiana da parte de Portugal.
-
-152 _Laurede._ Tambem entra no Guadiana da mesma parte.
-
-153 _Lavandeiras._ Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo fosso
-a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para ir
-desembocar no Guadiana.
-
-154 _Leça._ Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros lhe
-descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois
-de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em
-Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio
-tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy
-muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes
-de pedra boas, e grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em
-Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente
-Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na
-Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part.
-2. Poema 8.
-
- _El Leça, que por hondo, y fresco valle
- Corriendo con sociego grave, y blando
- Occupa, angosta, y tortuosa calle
- Con los nombres de Lethes, y Celando;
- Pero si del olvido se appellida,
- Quien una vez le vê, já mas le olvida._
-
-Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado
-de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na
-Geografia de Braga.
-
-155 _Lena._ Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até
-Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano.
-
-156 _Lima._ He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme
-Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte
-de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de
-outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito[234]
-deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he _Limia_ em Galiza,
-a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas, que tem,
-chamadas em Grego _Lymnas_, e em Latim _Lymum_, donde se derivou _Lima_
-em Portuguez.
-
-153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou _Belion_ e
-depois _Lethes_. Assim cantou o mellifluo Bernardes na Eglog. 7.
-
- _Junto do Lima claro, e fresco rio,
- Que Lethes se chamou antigamente._
-
-A causa deste nome _Lethes_, que significa esquecimento, foy pela
-sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas
-passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ
-seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo
-ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse
-desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.
-
-158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao
-idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida
-já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ
-perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio _Lethes_. De tudo vimos
-a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio _Lima_
-fosse em algum tempo chamado _Lethes_, nem por isso tem dependencia com
-o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os Authores abaixo;[235]
-porque este nome _Lethes_ se acha imposto a outros rios illustres,
-como diz Claudiano:[236] e todos os rios, que tem adquirido semelhante
-nome, he porque houve nelles motivos, ainda que incognitos, de especial
-esquecimento, e taes saõ os que sinala Estrabo[237] em Macedonia, e em
-Candia, sem que por este principio haja dependencia, que faça perverter
-o certo com o fabuloso.
-
-159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio
-Floro,[238] que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo,
-crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos
-era elle o verdadeiro _Lethes_; respondemos, que este conceito era
-futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava, para
-lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra
-parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma,
-para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle
-atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores:
-e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella
-repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia
-o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento;
-no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229.
-contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que no
-Prologo do seu _Filippe Prudente_, fallando do Lima, attribue às suas
-aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a fabula. O
-certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só parece que
-corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, que o vem, de
-que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse D. Francisco
-Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne Botelho, e o
-Padre Reys.[239]
-
-160 _Liria._ He ribeira de Castellobranco.
-
-161 _Lis._ Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica numa
-legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a Cidade, e
-o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde estaõ os
-arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena.
-
-161 _Lixosa._ Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem
-circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre,
-fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa,
-porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra
-pelo Crato, onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros
-de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de
-Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as
-ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento.
-Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum
-grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma
-só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de
-Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de
-peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada.
-
-163 _Lobos._ Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo
-de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a
-Mirandella.
-
-164 _Lousaõ._ He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte do
-Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie.
-
-165 _Locía._ He hum pequeno regato, que passa pelo meyo da Villa de
-Amarante.
-
-166 _Lucefece._ Nasce na serra d’Ossa, e correndo junto da Villa de
-Terena da parte do Norte, fertilizando o Alandroal, e Redondo, se vay
-meter no Guadiana.
-
-167 _Maçaõ._ Nasce perto da serra chamada Teixeira, e entra no Douro.
-
-168 _Maratéca._ He huma das grandes ribeiras do Alentejo naõ muito
-longe da Agualva. Por ella se passa para a Moita.
-
-169 _Marcabron._ Serve esta ribeira de separar os termos de Villa Alva,
-e o de Villa de Frades. Por outra parte divide os limites de Béja dos
-de Villa Ruiva, e Alvito: mete-se no de Odivellas, que vay parar ao
-Sado.
-
-170 _Marnel._ Discorre pelo lado meridional da Villa de Vouga.
-
-171 _Mendo-Marques._ No termo de Arrayolos, e no sitio da Freguezia de
-S. Gregorio corre esta ribeira.
-
-172 _Mente_, ou _Rabaçal_. He rio, que nasce perto de Pentes, Lugar de
-Galiza, e rega o termo da Villa de Monforte, donde caminha para o Tua,
-no qual se mergulha junto ao Lugar de Chellas em Mirandella depois de
-caminhar doze leguas. Pescaõ-se nelle boas trutas.
-
-173 _Merce._ He huma ribeira, que nasce junto do Lugar de Val de
-Prados, termo de Bragança; e correndo perto da Villa de Cortiços, passa
-por huma ponte de dous arcos, para se ir incorporar com o Tua.
-
-174 _Minho._ Para diante do Lima tres leguas ao Norte corre o Minho
-quasi taõ opulento como o Douro. Estrabo lhe dá o nome de _Benis_.
-Nasce perto da Cidade de Lugo, e caminhando o espaço de trinta e
-seis leguas, rega em Portugal as Villas de Melgaço, Monçaõ, Valença,
-Cerveira, e vem fenecer no mar entre a Cidade de Tuy, e a Villa de
-Caminha. Dizem que o chamarse Minho he por causa da cor, que as
-suas aguas recebem do fundo, que tiraõ hum pouco a vermelho: outros
-o attribuem ao vermelhaõ, que nasce nelle; porém Joaõ Salgado na
-Hydrografia deste rio diz, que se deriva da fonte Minhaõ, onde nasce,
-quatro leguas ao Norte de Lugo. Fallaõ deste rio os Authores abaixo
-allegados.[240]
-
-175 _Mondego._ Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo pela
-Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e recreyo
-nos campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno, e passar
-pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar o porto
-de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões, quando
-cantou:[241]
-
- _Vaõ as serenas aguas
- Do Mondego descendo,
- E mansamente até o mar naõ paraõ._
-
-Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno
-se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco
-Mousinho veyo a dizer:[242]
-
- _Mondego no Veraõ sereno, e brando,
- Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto.
- Té lá onde na foz, que vay buscando,
- Paga de suas aguas o tributo._[243]
-
-176 _Montijo._ He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum bom
-porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e
-navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por
-isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes
-com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa.
-
-177 _Mós._ He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de Mós.
-Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de legua
-afastado da Villa tem ponte de tres arcos.
-
-178 _Murtigaõ._ Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina.
-
-179 _Nabaõ_, antigamente chamado _Nava de Juncoso_.[244] Corre este
-venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome de venturoso,
-naõ só porque deu fama, e nome à insigne Cidade de Nabancia,
-que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas porque
-ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o
-bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou
-o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia;
-donde Fr. Joaõ Felix disse:[245]
-
- _Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,
- Qui sacra mærenti corpora vexit aqua._
-
-Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e
-entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da
-Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e
-engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos
-no Tejo junto à Villa de Punhete.
-
-180 _Neiva._ Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem fertilizando
-os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois de se sujeitar
-a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ dista muito de
-Viana. Duarte Nunes diz,[246] que este rio se mete no Cávado, para
-ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém outros[247] emendaõ
-esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que temos expendido; porque
-as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ para a parte do Norte muito
-mais adiante, donde o rio desemboca.
-
-181 _Niza._ Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na serra de
-Portalegre.
-
-182 _Noeime._ Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na
-fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa
-ao Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e
-se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá
-Joaõ Salgado de Araujo pag. 108.
-
-183 _Obidos._ No termo desta Villa está a celebre lagoa, que tem de
-Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres quartos
-de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de mar que
-humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta Cruz a
-barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe tanto de
-area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios, dous
-pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo arrabalde
-de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o terceiro
-vem das Caldas.
-
-184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda
-a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos,
-solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas,
-berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as
-duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando
-todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e
-juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito.
-
-185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da
-Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso
-do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve o
-gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina de
-pedra, que diz: _O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino ElRey
-D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy feita._
-Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: _O Magnanimo
-Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e D. Manoel
-jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714._
-
-186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada,
-simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara
-meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do
-mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa
-corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais
-aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro
-de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o
-Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas
-Reaes com a mayor parte da Corte.
-
-187 _Ocreza._ He huma ribeira, que corre junto da Villa de Sarzedas.
-
-188 _Odemira._ Banha Villa nova de Mil fontes no Algarve, e a pouco
-espaço se mete no mar.
-
-189 _Odiége._ Fórma-se de duas ribeiras nas Freguezias de S. Brissos,
-termo de Montemór o novo, e de S. Sebastiaõ da Gesteira, termo de
-Evora. Tem ponte, e passada ella, se vê no alto de hum oiteiro da parte
-do Sul a milagrosa fonte da Senhora da Esperança das Alcaçovas, de
-que fallaõ o _Santuario Mariano tom. 6. pag. 320._ e o _Diccionario
-Geografico_ de Cardoso _tom. 1. pag. 143._
-
-190 _Odivelas._ Nasce na serra de Portel, e vay regar a Villa de
-Alvito. Tem duas pontes, huma da banda do Sul no caminho que faz o
-correio desta Villa para Béja, donde dista cinco leguas: outra em Villa
-Ruiva na estrada por onde se vay desta Villa para Evora: esta ponte
-foy fabrica dos Romanos, por ser transito da via militar de Evora
-para Béja. Para diante da Aldea de Alfundaõ separa o termo de Béja do
-Torraõ, e incorporado com a ribeira do Marcabron, vay morrer ao Sado.
-
-191 _Odivor._ Fertiliza pela parte do Norte os campos da Villa das
-Aguias; e discorrendo pelo termo de Arrayolos, tem na Freguezia de
-Santa Anna duas pontes, e dá movimento a sete moinhos. Esta ribeira he
-a mesma que a de Arrayolos.
-
-192 _Olivença._ Passa esta ribeira pelo termo da Villa de seu nome.
-Alguns dizem, que nasce nas serras de Salvaterra, outros na de Salva
-Leon; mas sempre concluem, que tem sua origem em Castella, cujas
-correntes fazem apartar aquelle Reino do nosso: mete-se no Guadiana.
-
-193 _Olho de Pedralva._ He huma pequena ribeira, que nasce de huma
-fonte no Lugar de Pedralva, termo da Villa de S. Lourenço do Bairro,
-Bispado de Coimbra.
-
-194 _Orãos._ He hum dos rios, que banhaõ a Villa de Soure, e vem da
-Villa de Pombal para se meter no Mondego.
-
-195 _Paiva._ Nasce este rio em o sitio de Nossa Senhora da Lapa; e
-chegando à Freguezia de S. Martinho do Gafanhaõ, divide o Bispado
-de Lamego do de Viseu: depois correndo até o Castello de Paiva,
-perde o nome, entrando no Douro cançado de ter andado doze leguas.
-Escreve delle Jorge Cardoso,[248] donde tirou o que diz a Corografia
-Portugueza.[249]
-
-196 _Palhas._ He hum rio, que corre por Villar-Mayor, conforme vemos no
-Mappa de Joaõ Bautista Lavanha.
-
-197 _Paul._ Rio, que entra no Zezere.
-
-198 _Pega._ Ribeira, que corre perto da Villa de Pinhel, e desagua no
-Coa.
-
-199 _Pedonde._ Nasce em Arouca abundante de gostosas lampreas, e acaba
-no Douro.
-
-200 _Pera._ He rio menor que o Zezere onde se embebe; cerca a Villa de
-Pedrogaõ, e utiliza a de Figueiró com a copia de seu peixe. Deste rio
-se lembra Camões.[250]
-
-201 _Pera-manca._ Tem seu nascimento nas vinhas de Evora, e corre
-junto da cerca dos Capuchos de Valverde, e se mete no Odiege depois de
-passar por huma ponte.
-
-202 _Pernes._ Esta famosa ribeira deu o nome, ou o tomou do Lugar, que
-fica no termo de Alcanede: he abundante de agua, e assim a communica
-por muitos moinhos, que anima, e a muitas hortas, e pomares, que
-fertiliza. A agua da levada, que corre mais junto da ponte, dizem,
-que por intercessaõ de hum Bispo, que por alli passara, lhe infundio
-virtude para sarar toda a casta de chagas. Cria bom peixe, e desagua no
-Tejo.
-
-203 _Pias._ Dá esta fertilissima ribeira nome a huma Villa, e nasce
-em hum lago junto da Ermida de S. Marcos dentro da quinta chamada
-da Figueira de huns formosos olhos de agua; e costeando a serra de
-Monchite, se mete no Nabaõ, fertilizando em tal fórma as terras, por
-onde corre, que lhes faz duplicar dentro de hum anno todo o genero de
-frutos.
-
-204 _Piodaõ._ Corta pelo meyo o Concelho de Vide de Foz de Piodaõ, e
-entra no Alva.
-
-205 _Pipa._ Rega pela parte do Norte a Villa da Arruda.
-
-206 _Pisco._ Pela parte do Oriente da Villa de Langroiva corre este
-rio, que fertiliza seus campos de paõ, azeite, e frutas.
-
-207 _Ponsul._ De tal fórma cerca a Villa de Idanha a velha, que a
-reduz a Peninsula. Em distancia de huma legua para o Nascente de
-Castellobranco tem ponte.
-
-208 _Pontega._ Passa pelas Freguezias de S. Gregorio, e Nossa Senhora
-da Consolaçaõ, termo de Arrayolos, e se mete no Odivor.
-
-209 _Quarteira._ Este rio he do Algarve, e corre junto a Faro.
-
-210 _Rabaçal._ He o mesmo que o rio _Mente_.
-
-211 _Ramalhoso._ Ribeiro, que passa pela Villa de S. Vicente, e seu
-termo.
-
-212 _Regalvo._ Desagua na enseada da Villa de Sines.
-
-213 _Rezes._ Ribeira do termo do Sardoal.
-
-214 _Riba-Pinhel._ Nasce perto da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa:
-começa sua corrente pelo termo da Guarda encaminhado ao Sul: passa ao
-termo de Jarmelo direito ao Nascente, e torna a voltar para o Norte por
-entre Jarmejo, e Castello-Mendo. Vay à ponte de Pinhel, e huma legua
-adiante entra no Coa.
-
-215 _Ribeira de Freixas._ He hum pequeno rio, que corre meya legua
-distante da Villa de Trancozo.
-
-216 _Ribeira dos Gallegos._ Corre pelo termo da Villa de Vinhaes, e
-junto da Freguezia de Santa Cecilia dos Casares, onde se pescaõ muitas,
-e boas trutas.
-
-217 _Ribeira da Murta._ No termo de Alvaiazere discorre esta ribeira
-pela Freguezia de S. Pedro do Rego, e divide este termo do da Villa das
-Pias.
-
-218 _Rio das Maçãs._ He huma ribeira, que corre junto à Villa de
-Collares.
-
-219 _Rio Mourinho._ Passa pelo termo de Montemór o Novo, e por junto do
-Convento dos Religiosos Paulistas, que os provê de grandes pardelhas.
-
-220 _Rio Tinto._ Corre huma legua distante do Porto. Chama-se tinto,
-porque quando foy a geral destruiçaõ de Hespanha, mataraõ os Cidadãos
-do Porto tantos Mouros, que o sangue chegou a tingir a agua.[251]
-Mete-se no Douro.
-
-221 _S. Romaõ._ Nasce na Freguezia de S. Martinho das Amoreiras, termo
-de Ourique. Corre pelas Villas de Alvalade, Garvaõ, e termo de Panoyas,
-até desaguar no porto delRey, termo da Villa de Alcacer do Sal.
-
-222 _Sabor._ Nasce por cima do Lugar de Rabal, que fica na raya de
-Galiza, mas he termo de Bragança, donde dista duas leguas. Discorre
-sempre por altas, e alcantiladas penedias, até chegar aos confins
-da Villa de Castro Vicente; e depois de ter andado dezaseis leguas,
-e obedecer a cinco pontes, algumas de cantaria, e de perfeita
-arquitectura, com orgulho desagua no Douro.
-
-223 _Sacavem._ Este rio, que discorre pelo Lugar de seu nome duas
-leguas distante de Lisboa, desemboca no Tejo, e faz huma profundissima
-foz, na qual podem entrar os mayores navios deste porto; e ficando
-quasi ao Norte da Cidade, volta contra o Noroeste, navegando-se até
-a Mealhada, e da sua ribeira se levantaõ huns montes, que a cultura
-tem feito apraziveis, os quaes se vaõ estendendo com huma larga volta
-contra o Poente, levando sempre ao pé hum fundo valle aberto por muitas
-partes com regatos, que por elle correm. Por ordem delRey D. Joaõ. V.
-se reformou a barca da passagem deste rio pela admiravel idéa do nosso
-insigne Maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os
-passageiros.
-
-224 _Sadaõ_, ou _Sado_. O nascimento deste rio foy ignorado por
-Duarte Nunes na Descripçaõ de Portugal; porém Joaõ Salgado de Araujo
-diz, que nasce nas faldas da serra de Monchique junto à Villa de
-Almodovar, e passando por Ourique, recebe as ribeiras de Aivados,
-Gracido, Ferrarias, Campilhas, Figueira, Roxo, e Garcia menino, onde
-faz hum grande lago, e mais para diante outro, que chamaõ de Santa
-Margarida, até que copioso vay acabar em Setubal. André de Resende
-ignorando-lhe tambem o principio, e dando-lhe o nome de Callipode,
-que o tirou de Ptolomeu, diz que depois de se ajuntarem as torrentes
-do Enxarrama, Santa Detença, e Odivellas acima de Porto de Rey, he
-que se começa a chamar Sado; nome que usurpa pela demora que faz no
-esteiro de Alcacere, antigamente Salacia; e por naõ viver muito tempo
-soberbo, e desvanecido com tanto roubo, morre dahi a pouco em Setubal,
-formando-lhe huma grande foz, e bahia. He navegavel este rio por doze
-leguas até Porto de Rey; e as terras por onde passa, adornadas de
-muitas fontes, e arvoredos, ficaõ ferteis, e e cheias de nata para
-corresponderem abundantes na breve producçaõ dos seus frutos.
-
-225 _Safrins._ Corre em distancia de meya legua da Villa de Ferreira, e
-a provê de bordalos taõ bons, que se mandaõ dar aos doentes.
-
-226 _Sarmenha._ He huma ribeira, que dista do rio Douro duas leguas, e
-nasce nas raizes da serra do Maraõ.
-
-227 _Sarrazola._ Caudalosa ribeira, que banha Benavilla, huma legua
-distante de Aviz.
-
-228 _Seda._ Nasce esta ribeira nas serras de Portalegre, e rega a
-Villa, a que dá o nome.
-
-229 _Sertima._ Rio, que corre pelo termo da Villa de S. Lourenço do
-Bairro, e que se augmenta com muitos ribeiros, que fertilizaõ o mesmo
-termo.
-
-230 _Sequa._ Divide, ou corta pelo meyo a Cidade de Tavira, o qual
-nascendo do sertaõ, faz este transito por huma boa ponte de sete arcos.
-
-231 _Sever_, ou _Severa_. Tem sua origem na serra de S. Mamede no
-Alentejo, e com as fontes, que se despenhaõ das serras de S. Braz, e
-Portalegre, se faz copioso. Desta sorte correndo pela Villa de Ouguela,
-paga seu tributo ao Tejo junto a Villa Velha, onde se pescaõ as mais
-excellentes trutas. O Padre Poyares no Diccionario Geografico lhe dá o
-fim no Guadiana à vista de Badajoz.
-
-232 _Silveira._ Pequena ribeira, que se despenha da serra d’Ossa da
-banda do Sul.
-
-233 _Sizandro._ Principia a descubrirse na Sapataria de huma fonte
-chamada Sizandro, e vem cercar Torres-Vedras, que para mayor
-commodidade se atravessa com cinco pontes.
-
-234 _Sobrena._ He huma ribeira do Alentejo, que nasce entre Viana,
-e Villa nova da Baronia, a qual regando os seus pomares, se mete em
-Odivellas.
-
-235 _Sorraya._ He huma ribeira, que pela parte do Sul banha a Villa de
-Erra.
-
-236 _Sor._ He huma caudalosa ribeira, que banha a Villa da Ponte de Sor
-pela banda do Oriente, e se mete no Tejo ao pé de Coruche. Os Romanos
-fundaraõ aqui huma grandissima ponte, para por ella fazerem a estrada
-de Santarem para Merida.
-
-237 _Sordo._ Na Freguezia de Santa Eulalia da Comieira do Concelho de
-Penaguiaõ corre este rio da parte do Norte; e passando pelo Lugar de
-Relvas, se vay esconder no Corgo.
-
-238 _Sozeis._ Dista esta ribeira duas leguas de Evora no caminho de
-Béja, e se recolhe no Enxarrama.
-
-239 _Sousa._ Nasce junto à Igreja de Moura entre o Mosteiro de
-Pombeiro, e o de Cramos; e daqui descendo a fertilizar todas as terras,
-a que vay dando nome por espaço de oito leguas, vay acabar no Douro
-defronte do Lugar de Arnelas, duas leguas acima do Porto.
-
-240 _Soberbo._ Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo, depois
-que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo no caes
-de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela conjuração em
-que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ corresse mais
-com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que fazia alto na
-venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar o rio Soberbo.
-Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ perto de Trancoso,
-e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros pequenos rios
-alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do Abbade, divide
-os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe, e o Mosteiro
-da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte de madeira
-se vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de pedra se
-diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte, marcha por
-entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro de S. Pedro
-das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte de pedra,
-onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o Lugar de
-Taboaço, e daqui caminha para o Douro.[252]
-
-241 _Sul._ Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e consente
-vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante D. Luiz,
-que foy Senhor do Concelho de Lafões.
-
-242 _Tamega._ He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza junto da
-serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou o nome.
-Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra pela
-Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes da Villa
-em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do letreiro,
-que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve Grutero, e
-Argote,[253] e vem a ser:
-
- IMP. CÆS. NERVÆ.
- TRAIANO. AUG. GER.
- DACICO. PONT. MAX.
- TRIB. POT. CONS. V. P. P.
- AQUIFLAVIENSES
- PONTEM LAPIDEUM.
- D. S. F. C.
-
-Quer dizer: _Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico
-Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ
-Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt._
-
-243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita
-antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: _Pontem
-lapideum_; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos para
-Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte tem
-já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com
-noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e
-dois de alto.
-
-244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem
-outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim
-à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco
-mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante
-ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de
-Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho
-I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de
-Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de
-hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se
-lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos
-de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do
-que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando
-pouco a pouco.
-
-245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que
-referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,[254] e foy dividirem-se
-suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do
-glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando
-lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga.
-
-245 _Taveiró._ He ribeira, que banha as Villas da Bemposta da Beira, e
-de Castello-Novo, e entra no Ponsul.
-
-247 _Tedo._ Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o
-ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo
-de Santo Adriaõ.
-
-248 _Teja._ Provê esta ribeira de peixe a Villa de Nomaõ.
-
-249 _Tejo._ Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy celebrado
-o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais rios do
-Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca: outros o
-fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de Albarracin; e
-discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia da Estremadura
-Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo, Talavera de la
-Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe as correntes
-de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama, Mançanares, e
-Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por Santarem
-descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto de mundo:
-e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de ouro,[255]
-nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia, fica
-semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas riquezas, que
-todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra nas opulentas
-frotas do Brasil.
-
-250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar
-em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria,
-sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy
-visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado
-Celio, com a mayor parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos,
-como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se
-separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da
-Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno
-1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se
-abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se
-fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,[256] que o
-Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem
-os Authores abaixo allegados.[257]
-
-251 _Temitólas._ Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay
-direito ao Douro.
-
-252 _Tera._ Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que olha
-para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por onde se
-vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana.
-
-253 _Terena._ Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a huma
-Villa, e mete-se no Guadiana.
-
-254 _Tinhella._ Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da Villa
-de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça de
-Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua.
-
-255 _Tourões._ Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do Rio
-Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ,
-entra no Agueda abaixo de Escarigo.
-
-256 _Trancaõ._ He huma ribeira no termo de Lisboa, que passando pelo
-Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a grande
-quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal, entrando-lhe
-pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo de Inverno
-vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro trabalhar muitas
-azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas.
-
-257 _Trogalha._ Corre entre Sarzedas, e Castellobranco, e entra no Tejo.
-
-258 _Trovella._ Fertiliza os Coutos de Correlhã, e o da Feitosa pouco
-distante de Ponte de Lima.
-
-259 _Tua._ Nasce em Galiza proximo ao Lugar de Pias: corre por
-Mirandella, onde he recebido em ponte de dezanove arcos de cantaria; e
-fertilizando muitas terras, vay fenecer no Douro no porto de Foz-Tua.
-
-260 _Vade._ Fertiliza com saborosas trutas o termo da Villa da Ponte da
-Barca.
-
-261 _Val de Abrahaõ._ Pequena ribeira, que nasce, e desce da serra
-d’Ossa da parte do Sul.
-
-262 _Val de Lobos._ Ribeira, que passa por hum Lugar da Freguezia de
-Bellas, e faz animar muitas azenhas, e fertilizar muitos pomares.
-
-263 _Valdouro._ Corre esta ribeira huma legua distante da Villa de
-Ferreira, e a enriquece de grandes bordalos, e pardelhas.
-
-264 _Valla._ Discorre junto da Villa de Mayorga, e com prejuizo de hum
-formoso campo, que pelo Inverno padece suas inundações.
-
-265 _Varche._ Meya legua distante da Cidade de Elvas corre este ribeiro
-pelo valle de seu mesmo nome.
-
-266 _Varzeas._ Faz dividir Melgaço de Galiza pela parte do Oriente, e
-desagua no Minho.
-
-267 _Vascaõ._ Corre por Alcoutim, e entra no Guadiana, separando o
-Reino do Algarve de Campo de Ourique.
-
-268 _Vez._ Banha este rio primeiramente o Val de Poldros, termo da
-Villa dos Arcos, onde nasce nas montanhas de Penella; e continuando seu
-caminho pelos campos de Valdevez, a que dá nome, vay logo perdello dahi
-a huma legua, por se misturar com o Lima junto de S. Pedro do Souto,
-posto que já caudaloso com os muitos regatos, que entraõ nelle.
-
-269 _Vellarva._ He huma ribeira, que rega o Lugar de Santa Justa, que
-fica no termo de Alfandega da Fé, onde desagua a ribeira Alvar.
-
-270 _Velariça._ Nasce na serra de Montemel acima do Lugar da Burga,
-termo de Bragança. Despenha-se pela serra até parar em hum valle, a que
-dá o nome, e por elle detido o espaço de seis leguas, fertiliza todo
-aquelle terreno bastantemente. Depois vay pagar o tributo ao Sabor meya
-legua acima do Douro.
-
-271 _Vereza._ No cimo da serra da Gardunha nasce esta ribeira, e vem
-logo refrescando o Lugar do Louriçal, que fica no termo da Villa de S.
-Vicente, e vay avistar Castellobranco, passando por boa ponte.
-
-272 _Videgaõ._ Passa esta ribeira naõ muy distante da Villa de Cabeço
-de Vide, fertilizando muitas hortas, e pomares.
-
-273 _Vide._ Cerca esta ribeira a Villa de Castello de Vide.
-
-274 _Vizella._ Fórma-se de tres regatos, que nascem no Concelho de
-Monte-Longo; e lavando com suas aguas a Aldeya de Arricanha, se mistura
-com o Ave, e perdem ambos o nome, mergulhando-se no mar pela Villa do
-Conde. Alguns lhe chamaõ _Avizella_. Delle cantou Manoel de Faria:[258]
-
- _Corre el Visela amado
- Progresso sonoroso,
- O crystalino parto de una peña,
- A ser favor de un prado._
-
-275 _Unhaes._ Pequeno ribeiro, que passa pelo pé da Villa de Alvares, e
-se mete no Zezere.
-
-276 _Voliarça._ Nasce esta ribeira na Freguezia de S. Brissos, termo de
-Béja, e correndo de Poente a Nascente, se mete no Guadiana, passando
-primeiro entre Béja, e Cuba, da qual dista huma legua.
-
-277 _Vouga._ Assinaõ o nascimento deste rio na fonte da Senhora da
-Lapa, ou na serra de Alcoba. Daqui vem descendo ao Mosteiro de S.
-Bento, que ha em Ferreira de Aves, pela parte do Poente; rega muitos
-Lugares, até que misturado com os rios Sul, e Agueda, entra em Aveiro
-com bastante soberba, segundo diz Fr. Joaõ Felix na Isagoge:
-
- _Amnibus innumeris, Agathoque superbus in æquor
- Piscoso latè gurgite Vacca fluit._
-
-Tem huma grandiosa ponte, acabada no anno de 1713 por ordem do
-Fidelissimo Rey D. Joaõ V.
-
-278 _Xever_, _Xevera_, _Xeverete_, e _Xola_. Saõ ribeiras, que procedem
-da serra de Portalegre.
-
-279 _Xudruro._ Ribeiro, que nasce na fonte Freja do Concelho do
-Guardaõ, e fertiliza muito o Lugar de Janardo.
-
-280 _Zacharias._ Com este nome corre huma ribeira pelo termo da Villa
-de Alfandega da Fé sujeita a huma ponte de quatro arcos, e tem seu
-nascimento na serra de Sambade, que outros chamaõ de Montemel. Tendo
-corrido seis leguas, vay acabar no rio Sabor junto do Lugar dos Picões.
-
-281 _Zezere._ A este rio chama Camões caudaloso, e na verdade o he com
-as enchentes de outros, que entraõ nelle. Nasce na serra da Estrella
-sobre a Villa de Manteigas pela parte de Levante; e dando volta ao
-Poente, recebendo varios rios, e ribeiros, enfadado da jornada se vay
-a Sudoeste, e se torna para o Sul receber outros riachos, e dá entrada
-ao Nabaõ, que com o ribeiro da Cortiça, e regatos daquelles montes
-fertiliza Thomar. Na Aldea da Mata se deixa atravessar com a barca
-da Esteveira: e pela famosa ponte do Cabril, que faz a divisaõ dos
-termos de Pedrogaõ grande, e pequeno. Vay finalmente acabar em Punhete,
-mergulhando-se no Tejo com tanto impeto, que na distancia de mil e
-quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul, e sabor doce das
-suas aguas, como bem advertem Resende, e outros.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[221] Monarq. Lusit. tom 1. liv. 4. c. 8. Vasconcel. lib. 5. de Ebor.
-Municip.
-
-[222] Strab. apud Resend. lib. 2. de Antiquit. tit. de Flumin. Duart.
-Nun. Descripç. de Port. cap. 21.
-
-[223] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 1. pag. 305.
-
-[224] Fr. Leaõ, Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 15. Monarq. Lusit. liv.
-14. cap. 5.
-
-[225] Far. Font. de Aganip. part. 4. Eglog. 4.
-
-[226] Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 2. excel. 2.
-
-[227] Argot. nas Memor. do Arcebispado de Braga tom. 2. pag. 865.
-
-[228] Cardoso Diccion. Geogr. tom. 2. pag. 613.
-
-[229] Fonseca Evor. glor. p. 89. fin.
-
-[230] Corograf. Port. tom. 3. p. 336. Bluteau tom. 1. do Suplem. ao
-Vocab. p. 315.
-
-[231] Argot. nas Antiguid. da Chancellar. de Braga pag. 20.
-
-[232] Mem. instr. tom. 1. pag. 204.
-
-[233] Bochart. Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 35.
-
-[234] Brit. Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4.
-
-[235] Virgil. liv. 7. Æneid. Silio Italico liv. 1. Lactancio Firmiano
-lib. 7. c. 22. de Div. Instit. & alii.
-
-[236] Claudian. liv. 2. de Raptu Proserpinæ p. 218.
-
-[237] Strab. lib. 10. e 14.
-
-[238] Lucio Flor. liv. 2. cap. 17.
-
-[239] Botelh. no 7. do Alfonso est. 31. Reys em a Nota 124. da Epistol.
-ad Jametem.
-
-[240] Plinio lib. 33. cap. 7. Vitruvio lib. 7. cap. 9. Strab. lib.
-3. Pompon. Mella lib. 3. cap. 1. Bochart. tom. 2. p. 626. Nicol. de
-Santa Maria na Chron. dos Coneg. Regrant. liv. 6. cap. 1. Maced. Poema
-Olisip. cant. 2. est. 80. Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 40. D.
-Francisc. Xavier da Garma no Theatro de Hespanh. tom. 1. p. 76. Argot.
-Mem. de Brag. p. 105. e nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 32. e
-outros, que deixo de allegar.
-
-[241] Cam. Canc. 4.
-
-[242] Mousinh. cant. 3. est. 38. do African.
-
-[243] Veja-se a Monarq. Lusitan. p. 4. liv. 4 cap. 18. Joaõ Salgad.
-Success. Milit. p. 106. Corograf. Portug. tom. 2. pag. 2.
-
-[244] Brand. na Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 27.
-
-[245] Fr. Joaõ Fel. na Isagoge pag. 35.
-
-[246] Duart. Nun. Descripç. de Port.
-
-[247] Araujo Success. Milit. liv. 1. cap. 1. Benedictin. Lusit. tom. 2.
-p. 109.
-
-[248] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 3. p. 573.
-
-[249] Costa, Corograf. Portug. tom. 3. p. 260.
-
-[250] Cam. Canç. 12. est. 2.
-
-[251] Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 256.
-
-[252] Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 108. Cardos. Agiolog. Lusit. tom.
-2. p. 714. Santuar. Marian. tom. 3. p. 172.
-
-[253] Gruter p. 162. n 4. Argot. nas Antig. da Chancel. de Brag. p.
-108. e Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho.
-
-[254] Brand. na Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 25. Benedictin. Lusit. tom.
-2. pag. 299.
-
-[255] Catul. Juven. Estaço, Ovid. e outros apud Macedo nas Flor. de
-Hespanh. cap. 4. excel. 2.
-
-[256] Vasconcell. Histor. de Santar. part. 1. liv. 2. cap. 23.
-
-[257] Plin. liv. 4. cap. 22. & lib. 33. cap. 3. Mela lib. 3. cap.
-1. Ludovic. Nun. Hispan. illustrat. tom. 3 cap. 35. Rodrig. dos
-Sant Histor. Hispan. part. 1. cap. 3. Resend. lib. 2. de Antiquit.
-Vasconcel. Descr. Lusitan. p. 407. Duart. Nun. Descr. de Portug. p. 33.
-Nicoláo de Oliveir. Grand. de Lisb. p. 21. Joaõ Salgad. Success. Milit.
-p. 175. D. Francisc. Xavier de Garma no Theatr. de Hesp. tom. 1. p. 68.
-e outros muitos.
-
-[258] Far. Font. de Aganip. part. 3. Canç. 5.
-
-
-
-
- CAPITULO VIII.
-
-_Das Fontes mais notaveis._
-
-
-1 Neste Capitulo fazemos só memoria daquelas fontes, que por alguma
-particularidade se fazem dignas de admiraçaõ; pois seria intentarmos
-hum quasi impossivel querer dar noticia de todas as que circulaõ
-por nossas terras, sendo verdadeiramente innumeraveis. Nós em outra
-Obra[259] já referimos algumas, e o Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques em o seu curioso _Aquilegio_ faz mençaõ de outras.
-Repetiremos outra vez as mais singulares, pois que assim o pede o
-assumpto, e a ordem, que seguimos, nomeando primeiramente para mayor
-clareza as terras, donde emanaõ, e onde correm.
-
-2 _Abrantes._ Na distancia de quatro leguas desta Villa sobre a ribeira
-de Sor ha huma fonte, a que chamaõ da Fedegosa, a qual nascendo em
-mineral de enxofre tem qualidades frescas, e sara muitos achaques,
-que peccaõ em quentura. E no seu termo junto da Ermida de nossa
-Senhora do Tojo ha outra fonte de taõ excellente agua, que a mandaõ
-buscar para os doentes beber: e accrescentaõ os moradores huma cousa
-(diz a Corografia Portugueza, que para mim he incrivel) e vem a ser:
-que havendo algumas differenças sobre quem ha de encher primeiro,
-visivelmente se diminue a agua na mesma fonte.[260]
-
-3 _Aguiar de Sousa._ Na Freguezia de S. Mamede de Val-Longo ha no mais
-alto da montanha hum poço muy profundo, que de Inverno secca-se, e de
-Veraõ tem tanta abundancia de agua frigidissima, que serve naõ só de
-regalo à gente, mas tambem aos milhos, que com ella se regaõ.
-
-4 _Alandroal._ A fonte desta Villa he memoravel pela grande copia
-de agua, que expulsa, a qual dizem que se lhe communica de hum rio
-subterraneo. Formou aqui a natureza huma larga concavidade, a que os
-moradores chamaõ _Algar_, em cujo fundo se acha hum poço com bocal
-feito ao picaõ, e delle sahe huma levada de agua muito grande.[261]
-Nesta mesma Villa, na estrada, que vay para Terena, ha outra fonte, que
-naõ corre de Inverno, senaõ no Estio.[262]
-
-5 _Alcacer do Sal._ Na herdade das Praxanas, distante duas grandes
-leguas da Villa, existe huma fonte, cuja agua he buscada de muitas
-leguas para remedio contra o mal da pedra; e tem as mesmas virtudes da
-que ha na Villa de Almada.
-
-6 _Alcanede._ No termo desta Villa, e no Lugar dos Amiaes debaixo
-corre huma fonte, que bebendo da sua agua qualquer pessoa, que tiver
-sanguisugas na garganta, immediatamente lhas faz expellir, e se
-comprova com muitas experiencias.
-
-7 _Aljustrel._ Em distancia de meya legua desta Villa, chegado à Ermida
-de S. Joaõ do Deserto, ha huma fonte de agua taõ azeda, que ninguem
-a bebe, nem ainda os animaes; porém tomada como medicina, serve de
-excellente vomitorio, e boa para lançar fóra sezões.
-
-8 _Almada._ Nesta Villa ha huma fonte, cuja agua tem conhecida virtude
-para os achaques de pedra, e areas.[263]
-
-9 _Amarante_. No campo chamado da Feitoria, que fica defronte do
-Convento de S. Gonçalo desta Villa, brota huma Fonte abundantes aguas,
-que tambem tem notoria analogia, e semelhante virtude à de Almada.
-
-10 _Ançaõ._ Nesta Villa se acha huma fonte, que lança de Veraõ agua
-frigidissima, e pelo Inverno tepida. Tambem por experiencia se tem
-observado, que a sua agua bebida facilita os partos, e preserva dos
-achaques de pedra, e outras enfermidades.
-
-11 _Armamar._ Huma fonte ha no termo desta Villa, que tem virtude as
-suas aguas para varias enfermidades. No sitio, onde nasce, ha muitas
-pedrinhas quadradas semelhantes àquellas, que vem da India, e se
-attribue, que a virtude, que tem a agua, será communicada das pedras.
-
-12 _Batalha._ Perto desta Villa ha huma fonte no Lugar das Brancas,
-cuja agua com facilidade, e em breve tempo se transmuta em sal.
-
-13 _Besteiros._ Fica este Lugar no termo da Villa de Anciães, e aqui
-existe huma fonte de agua taõ delgada, que com ella naõ se póde
-fabricar azeite.
-
-14 _Braga._ Em distancia de hum quarto de legua desta Cidade, na quinta
-dos Religiosos de Santo Agostinho corre de huma fonte agua taõ fria,
-que no tempo mais ardente do Veraõ mal se póde aturar a maõ dentro
-della nem ainda em quanto se reza huma Ave Maria; e em poucos minutos
-reduz a vinagre hum frasco de vinho, se o meterem dentro della.
-
-15 _Bragança._ Além de outras fontes, que ha nesta Cidade notaveis, ha
-huma na quinta de Val de flores, que a sua agua he efficacissima para
-facilitar a digestaõ, e abrir a vontade de comer.
-
-16 _Cadima._ Ha aqui neste Lugar, que fica em distancia de Tentugal
-duas leguas, a celebre fonte chamada _Fervença_, de que fallaõ muitos
-Authores,[264] a qual sorve quanto lhe deitaõ dentro da voragem, que
-sempre está em continua fervura. A causa deste fenomeno he, porque
-alli ha alguma occulta cataracta, ou precipicio, como bem explica o
-doutissimo Feijó.[265] Tambem na Freguezia de S. Mamede, termo de
-Alcacer do Sal, donde dista quatro leguas, está da parte do Poente
-hum grande olho de agua, que corre para o rio Sado, o qual sorve tudo
-quanto lhe lançaõ dentro: chamaõ-lhe a _Anceira_.
-
-17 _Caldezes._ Fica este Lugar no Concelho da Povoa de Lanhoso, e tem
-huma fonte chamada do _Tojal_ da qual sahem misturadas com a agua
-muitas pedras quadradas, como já dissemos das de Armamar, e que tem a
-mesma virtude alexifarmaca.
-
-18 _Cano._ Junto desta Villa ha huma fonte, a que chamaõ dos _Olhos_,
-porque em seu nascimento está sempre a agua fervendo, e tem a
-particularidade de converter sua agua facilmente em pedra as cousas,
-que lhe lançaõ dentro.
-
-19 _Castello de Vide._ Entre a grande quantidade de fontes, que
-regaõ esta Villa, pois passaõ de trezentas, ha especialmente huma no
-arrebalde, que chamaõ da _Mealhada_, com a excellente virtude de livrar
-de dores nefriticas aos que costumaõ beber da sua agua: e no termo da
-Villa de Oiteiro ha outra, que dizem ter a propriedade, e natureza do
-vinho.
-
-20 _Coimbra._ Perto desta Cidade, e no meyo da estrada poucas leguas
-antes de chegar a ella, está a celebre fonte de _Alcabedeque_ huma das
-mais copiosas, que ha no Reino, cujo nome lhe deraõ os Mouros pela sua
-virtude, pois Alcabedeque na lingua Arabe quer dizer _Agua de Deos_.
-Elles que lhe sabiaõ o prestimo mais do que nós, a estimavaõ tanto, que
-fizeraõ junto della hum forte para a guardar. Veja-se a _Corografia
-Portugueza no tom. 2. pag. 34._
-
-21 _Covilhã._ Na cerca dos Religiosos de S. Francisco desta Villa está
-huma fonte de agua frigidissima; e já tem acontecido algumas vezes
-acharem convertido em vinagre o vinho, que mandavaõ aqui resfriar.
-
-22 _Envendros._ Existe huma fonte no sitio do Alpalhaõ, termo desta
-Villa, cuja agua bebida no lugar em que brota, he ingrata ao gosto,
-mas estando em casa, se faz de bom sabor. Attribuem os moradores, que
-a causa de se viver aqui muito, e com saude, procede da boa qualidade
-desta agua.
-
-23 _Ervedal._ Quasi chegado à estrada, que vay do Ervedal para
-Benavilla, termo de Aviz, corre huma fonte, que no mez de Outubro
-secca, e vindo Março torna a correr, e dura todo o Estio, por mais
-ardente que seja. Reduz tambem a pedra quanto lhe deitaõ dentro.[266]
-
-24 _Estremoz._ A fonte da Lagoa, que ha na herdade dos Alens no termo
-desta Villa, tem a mesma analogia que a antecedente, pois secca-se de
-Inverno, e corre de Veraõ.
-
-25 _Ferreirim._ Huma legua distante de Lamego, na cerca do Convento de
-Santo Antonio de Ferreirim, ha huma fonte de agua taõ fria, que tambem
-converte promptamente o vinho em vinagre.
-
-26 _Freixeda._ Este Lugar, que fica no termo de Miranda, comprehende
-com admiraçaõ huma fonte de agua muito fria, e taõ corrosiva, que
-consome no espaço de meya hora a carne, que se lhe lança dentro,
-deixando os ossos esburgados.
-
-27 _Grandola._ Da serra dos Algarves, que dista huma legua desta Villa,
-manaõ dous olhos de agua com duas propriedades bem contrarias, sendo
-irmãs no nascimento; porque as que sahem para a parte do Sul, saõ
-excellentes, e as que correm para o Norte, naõ ha quem as possa beber,
-e por isso lhe chamaõ agua azeda. De outro olho de agua, que sahe com
-mayor abundancia, se tem observado, que toda a terra, que banha a sua
-corrente, fica infrutifera, deixando tambem hum fortissimo gelo, por
-onde passa.
-
-28 _Guarda._ Por baixo da Cruz da Faya nos limites desta Cidade emana
-huma fonte de agua fria com qualidades taõ nocivas, que passaõ a
-mortiferas.
-
-29 _Guardaõ._ Fertilissimo he este Concelho de aguas admiraveis: tal
-he a fonte da Pipa junte da Povoa da Longera, a do Lugar das Paredes,
-a fonte das Amexieiras, a chamada das Donas, e outras de singular
-qualidade, que refere a Corografia Portugueza.[267]
-
-30 _Guimarães._ Afastado da Villa para o Sul fica a milagrosa fonte
-de S. Gualter, cuja virtude para varias enfermidades faz attrahir
-muita gente, que ou bebendo, ou lavando-se em sua agua, experimentaõ
-conhecida melhoria.
-
-31 _Marmellos._ He este hum Lugar, que fica no termo da Villa de Lamas
-de Orelhaõ, onde existe huma fonte de igual virtude curativa de varias
-enfermidades, que a experiencia tem mostrado infallivel.
-
-32 _Massouco._ Junto da Igreja Matriz deste Lugar, que he do termo
-da Villa de Freixo de Espadacinta, ha huma fonte, a que chamaõ do
-_Xido_, a qual principia a correr do mez de Março por diante: e tem os
-moradores feito observaçaõ, que se o anno ha de ser fertil, expulsa muy
-pouca agua; e quando ha de ser esteril, brota com abundancia; e desta
-fórma vem a ser hum quasi reportorio para as gentes daquelles contornos.
-
-33 _Monchique._ Com a mesma propriedade ha outra fonte neste Lugar,
-que fica no Algarve, a qual em Dezembro totalmente se secca. De igual
-singularidade se admira outra em Monforte, meya legua distante da
-Villa, a qual se secca no mez de Setembro, e em Mayo torna a rebentar
-com grande torrente. Em Monsanto tambem corre outra com as mesmas
-circunstancias do tempo.
-
-34 _Olmos._ A fonte chamada do _Gogo_, que fica no termo desta Villa,
-lança agua de fórma, que faz fio como clara de ovo, e affirma-se ter
-virtudes medicinaes.
-
-35 _Ouguella._ Bebem os moradores desta Villa a agua de huma fonte,
-que dizem naõ cria cousa viva dentro em si, senaõ sómente rãs. Saõ
-presentaneas para matar sanguisugas, e lombrigas. Se por acaso, ou
-inadvertencia poem a cozer legumes com esta agua, he escusado gastar
-tempo, porque nunca os coze.
-
-36 _Santarem._ Nos limites desta Villa, e no Lugar de Rio-Mayor ha hum
-olho de agua salgada seis leguas distante do mar.
-
-37 _Sardoal._ Aqui ha a fonte de Penha, que tem a circunstancia de
-naõ correr, senaõ tambem de Veraõ, e seccarse pelo Inverno. Tal he a
-providencia de Deos.
-
-38 _Serra da Estrella._ Emana do sitio chamado Valderosim huma fonte
-de agua taõ fria, que em pouco espaço de tempo transmuta em vinagre o
-vinho, quando o querem resfriar.
-
-39 _Setubal._ Tem a praça desta Villa huma formosa fonte, cuja agua he
-petrificante; por isso o seu aqueducto he aberto, para se desintupir
-desembaraçadamente.
-
-40 _Thomar._ Em a Freguezia dos Formiguaes, que he do termo desta
-insigne Villa, e no Lugar da Quebrada rebenta de Inverno huma fonte com
-alguns olhos de agua, pelos quaes sahem alguns ouriços de castanha, naõ
-havendo dalli a tres leguas castanheiros.
-
-41 _Valverde._ Só em dia de S. Joaõ Bautista lança agua huma fonte
-chamada por este motivo _Santa_, que existe neste Lugar do termo da
-Villa da Alfandega da Fé.
-
-42 _Vinhaes._ Affirma-se que a melhor agua, que ha na Provincia de
-Tras os Montes, he a que existe no rocio desta Villa em huma fonte
-admiravel. Por mais que se beba della, nunca offende o estomago, e
-facilita muito a exclusaõ de areas, e pedra. No Lugar dos Casares,
-termo da dita Villa, ha outra fonte de agua taõ fria, que metendo-lhe
-dentro hum quarto de carneiro, o come todo sem lhe deixar mais que os
-ossos; e naõ faz damno aos moradores que della bebem.
-
-43 _Urros._ Chamaõ à fonte, que ha nesta Abbadia da Comarca da Villa de
-Moncorvo, a fonte Santa, porque dizem que Santo Apollinario a fizera
-rebentar neste sitio; e muita gente se aproveita de suas aguas para
-algumas molestias, usando dellas com fé: mas naõ consiste aqui só a
-maravilha, porque estando huma legua distante do Douro, se communica de
-sorte com elle, que tambem se altera, quando elle se ensoberbece.
-
-44 Com estas, e outras innumeraveis fontes enriqueceo a Providencia
-divina este nosso terreno, encontrando-se pelas Provincias do Reino
-aguas nativas de exquisitas propriedades, que se a alguns dos Leitores,
-ou estranhos, ou forasteiros, fizerem duvida, offerecemos a fé, e
-credito dos mesmos naturaes, que o affirmaõ, quando a verdade desta
-sincera narraçaõ naõ baste; pois o nosso objecto por agora naõ attende
-a sondar, nem a averiguar os occultos arcanos da natureza, como
-cousa impropria ao intento Geografico. O Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques escreveo deste assumpto hum livro, que intitulou _Aquilegio
-Medicinal_, a que os curiosos podem recorrer.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[259] Recreaçaõ Proveitosa part. 1. p. 309. & seq.
-
-[260] Corograf. Portug. tom. 3. p. 190.
-
-[261] Novaes na Relaçaõ dos Bisp. de Elv.
-
-[262] Fonseca, Aquileg. p. 194.
-
-[263] Duart. Nun. Descripç. de Port. pag. 31. Vasconcell. ib. pag. 4O4.
-
-[264] Monarq. Lusitan. tom. 1. liv 2. cap. 5. Resend. lib. 2. de
-Antiquit. Duart. Nun. Descripç. de Portug. pag. 30. Costa, Corograf.
-Portug. tom. 2. pag. 85. Caram. no seu Philipp. Prud. Proem. §. 1. num.
-3. Plinio lib. 2. cap. 103.
-
-[265] Feijó, Theatr. Critic. tom. 9. pag. 43.
-
-[266] Leit. nas Miscelan. pag. 347.
-
-[267] Corograf. Portug. tom. 2. pag. 192.
-
-
-
-
- CAPITULO IX.
-
-_Das Caldas._
-
-
-1 Da abundancia das aguas saudaveis procede o beneficio dos banhos,
-ou Caldas, de que o Reino tambem goza, de cujo assumpto, supposto
-escreveraõ alguns dos nossos,[268] daremos informaçaõ das mais
-especiaes, por naõ defraudarmos deste apontamento o nosso Mappa.
-
-2 _Alcafache._ Huma legua de Viseu, e no termo de Azurara nascem de
-huma fonte, que está chegada ao rio Daõ, aguas sulfureas, que fazem o
-mesmo effeito com sua virtude medicinal, como as de S. Pedro do Sul,
-ainda transferidas para outras partes distantes.
-
-3 _Alvor._ Afastado quatro leguas desta Villa no Lugar de Monchique
-estaõ huns banhos medicinaes, onde se foy curar ElRey D. Joaõ II. de
-huma hydropezia.
-
-4 _Anciães_. Junto ao Lugar do Pombal, termo da Villa de Anciães, ha
-humas Caldas, que nascem de huma fonte em serra aspera, e as suas
-aguas saõ sulfureas, que tomadas em banhos servem para debilidades
-de nervos, estupores, vertigens, e outros achaques desta classe: ha
-occasiões, em que a experiencia tem mostrado bastar ao doente hum só
-banho para sarar de todo.
-
-5 _Aregos._ No Concelho de Aregos, Comarca de Lamego, ha muitas Caldas
-da mesma natureza que as referidas.
-
-6 _Cascaes._ As Caldas desta Villa estaõ na quinta do Estoril junto ao
-Convento dos Religiosos de Santo Antonio: nascem de tres olhos de agua,
-e servem para paralyzias, rheumatismos, convulsões, e para todas as
-queixas espurias, e de calor.
-
-7 _Chaves._ Para achaques frios de nervos saõ estas as melhores Caldas
-do Reino. Nascem entre a muralha da Praça, e o rio Tamega: procedem
-de mineraes de enxofre, caparrosa, salitre, e pedra hume. Os Romanos
-usavaõ muito dellas para as suas molestias.
-
-8 _Covilhã._ No termo desta Villa, e no Lugar chamado Unhães da serra
-ha Caldas procedidas de huma fonte de agua sulfurea, presentanea para
-achaques frios de juntas, e nervos.
-
-9 _Evendros._ Debaixo de hum penedo nesta Villa brota hum chorro de
-agua mais que tepida, a qual tomada em banhos tem grande virtude para
-achaques frios, e cutaneos.
-
-10 _Favayos._ Estaõ no termo desta Villa humas Caldas, que nascem
-de mineraes de enxofre, e usaõ os naturaes dellas para quaesquer
-molestias, que padecem, porque para todas encontraõ virtude naquellas
-aguas.
-
-11 _Gerez._ Nesta serra ha algumas aguas calidas, e sulfureas, que tem
-prestimo para achaques frios de nervos.
-
-12 _Guimarães._ Estaõ estas Caldas na Freguezia de S. Miguel, distante
-huma legua da Villa, e se compoem das aguas calidas, que nascem de
-huma fonte por sete olhos: applicaõ-se a achaques frios.
-
-13 _Lagiosa._ No areal do rio Daõ, que corre por esta Freguezia duas
-leguas afastada de Viseu, se acha em qualquer parte delle agua tepida,
-e sulfurea, tomando muita gente os banhos na abertura de covas, que
-costumaõ abrir na mesma area, e saõ admiraveis para frialdades.
-
-14 _Leiria._ Brotaõ no rocio desta Cidade duas fontes, que parecem numa
-só pela uniaõ, e lançaõ dous tornos de agua differentes, porque hum he
-frio, outro tepido, e delles se formaõ as Caldas, boas para achaques
-frios.
-
-15 _Lisboa._ Entre os chafarizes delRey, e dos Páos estaõ estas
-Caldas, chamadas vulgarmente os banhos das Alcaçarias: saõ estas aguas
-admiraveis para intemperanças quentes das entranhas, e mais partes
-do corpo. A continuaçaõ dos enfermos, que a ellas concorrem sempre,
-acreditaõ muito o seu prestimo.
-
-16 _Longroiva_, e _Monçaõ_. Participaõ estas Villas de suas Caldas
-admiraveis para enfermidades frias, e para convulsões, estupores,
-paralyzias, e vertigens.
-
-17 _Obidos._ Chamaõ-se os banhos, que ha junto desta Villa, Caldas da
-Rainha, porque a Rainha Dona Leonor, mulher delRey D. Joaõ II. mandou
-fazer alli Hospital para os enfermos se curarem. Vem as suas aguas
-por mineraes de enxofre, e salitre, infundindo-lhe tal virtude para
-differentes achaques, como a experiencia frequentadissima o publica.
-ElRey D. Joaõ V. tomou aqui banhos em Agosto de 1742 com a assistencia
-de toda a Corte, e continuou nos dous annos seguintes para remedio do
-ataque da paralyzia, que lhe debilitou a parte esquerda. Vendo porém o
-quanto estava destruido o edificio, o mandou reedificar desde o anno de
-1747 com toda a magnificencia, e commodidade para os doentes, que alli
-vaõ curarse naquelle verdadeiramente Regio Hospital. Diogo Patulhet,
-Francez, Sargento mór da Artelharia, mas muito curioso, e de grandes
-experiencias Medicas, compoz no anno de 1752 hum excellente livro de
-observações destas Caldas, a cujas aguas justamente intitula divinas, e
-os seus banhos prodigiosa Piscina.
-
-18 _S. Pedro do Sul._ Tambem estas Caldas saõ famosas. Ficaõ tres
-leguas distantes de Viseu, e se compoem de aguas sulfureas, e nitrosas,
-e taõ calidas, que metendo-se no lugar, onde nascem, qualquer animal,
-logo o pellaõ. Servem para estupores, paralyzias, e outros achaques.
-ElRey D. Affonso Henriques tomou aqui banhos, e delles ha huma
-Descripçaõ impressa em livro de quarto muito boa, e erudita.
-
-19 _Pena-garcia._ Na Comarca de Castellobranco, e na raiz da serra de
-Pena-garcia se admiraõ varias fontes de agua tepida com a prodigiosa
-virtude de sarar varias enfermidades, ou bebida, ou applicada em banhos.
-
-20 _Penaguiaõ._ Neste Concelho ha duas Caldas sulfureas, que remedeaõ
-achaques frios de nervos.
-
-21 _Ponte de Cavez._ Ao pé desta ponte ha hum nascimento de agua com a
-mesma virtude, que as que nascem de mineraes sulfureos.
-
-22 _Nossa Senhora do Pranto._ No termo da Villa de Montemór o velho, e
-no Lugar da Azenha ha as Caldas de Nossa Senhora do Pranto, cujas aguas
-saõ salitrosas, e sulfureas, e com a mesma virtude analoga, que já
-temos referido.
-
-23 _Ribeira do Boy._ Estas Caldas estaõ no termo da Villa de Touro,
-Comarca de Castellobranco: compoem-se de aguas sulfureas, onde se tem
-descuberto remedio para estupores, e debilidades de nervos.
-
-24 _Villar da Veiga._ Na Freguezia de Santa Anna, que está neste Lugar
-situado no monte Gerez, ha pouco tempo se descubriraõ estas Caldas, que
-dizem saõ as melhores do Reino. Veja-se ao Reverendo Padre Argote.[269]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[268] Jacob de Castr. Histor. Medic. Fonsec. Aquileg. Medicin. Curv. na
-Polyanth. &c. Vasconcel. Descript. Lusit. p. 402. Duart. Nun. cap. 12.
-
-
-
-
- CAPITULO X.
-
-_Da Fertilidade do Reino em commum._
-
-
-1 Quando fallámos de cada Provincia em particular, dissemos a benigna
-qualidade do sitio, e clima favoravel, que pertencia a cada huma; e
-pelo que vimos, naõ ha em Portugal palmo de terra, que seja esteril
-em quasi todo genero de frutos. Os Authores antigos naõ só lhe daõ o
-titulo de Paiz pingue, senaõ do mais delicioso do mundo;[270] e porque
-esta verdade necessita de mais individual expressaõ para inteirar
-o conceito dos estranhos, comecemos pelos mantimentos, e pelo mais
-preciso.
-
-2 _Trigo._ Todos os nossos Escritores affirmaõ,[271] que em outro tempo
-houve mais trigo no Reino, que no tempo de agora; e já Luiz Nunes na
-sua Lusitania,[272] comparando sómente Santarem com Sicilia, naõ quiz
-que esta Villa cedesse àquelle Reino na secundidade deste producto.
-Esta abundancia naõ só de Santarem, mas de outras muitas terras nossas
-puderaõ os naturaes experimentalla da mesma sorte presentemente, se naõ
-houvera tanta extracçaõ de farinhas para as Conquistas, e houvera mais
-applicaçaõ para a agricultura. Tambem este ponto he muy lamentado pelos
-zelosos da patria.[273]
-
-3 A verdade he, que temos muitas terras baldias, que se quizeramos
-aproveitarnos dellas, cultivando-as, daria-mos trigo a todo o mundo. No
-Reino do Algarve ha grandes valles, e fertilissimos, porém devolutos.
-No Alentejo ha charnecas, que nunca viraõ arado, nem enxada, e por
-causa da ociosidade se achaõ infrutiferas, que de si o naõ saõ; e neste
-sentido se deve entender o Padre Mariana, que chama a esta Provincia
-esteril.[274] Na mesma Provincia, e no sitio das Vendas Novas, que he
-terreno de area solta, e até aqui tida por infrutifera, desde que ElRey
-D. Joaõ V. mandou fabricar alli hum grande Palacio no anno de 1728, se
-principiou a plantar vinhas, pomares, e hortas muito boas, de que se
-colhe grande renda.
-
-4 Certos Authores[275] dizem, que se abrirem o lamaraõ de Sacavem até
-Alverca com vallos por dentro, e fizerem diques pela parte do rio,
-dará paõ para meya Lisboa, e linho canamo para enxarcias, e amarras. O
-mesmo se poderá fazer em outras muitas partes do Reino, onde se achaõ
-lamarões, sapaes, e terras alagadiças, tomando o exemplo dos Romanos,
-Venezianos, e Senhores de Ferrara, os quaes, como diz Botero,[276]
-assim o executaraõ com as lagoas Pontinas, campos de Polesene, e valles
-de Comachio em grande proveito de seus vassallos, e interesse dos
-direitos Reaes. Deste projecto se aproveitou em outro tempo ElRey D.
-Sancho I. que se honrou muito de ser chamado o _Lavrador_,[277] e o
-mesmo cuidado teve ElRey D. Joaõ II.
-
-5 Sem embargo de toda esta negligencia, ou ociosidade, que naõ he
-defeito das terras, mas dos homens, se naõ houvera tanta gente
-superflua estrangeira, que habita em nosso Reino, e a grandeza de
-herdades particulares, teria elle para os naturaes paõ superabundante,
-e do melhor da Europa, principalmente do Alentejo, e termo de Lisboa,
-onde vemos ainda assim as melhores tercenas, ou celeiros de toda a
-Europa com a provisaõ deste genero de alimento. Nas outras Provincias,
-onde naõ ha tanta abundancia de trigo, suppre o milho, a castanha, a
-cevada, e o centeyo, de que fazem farinha, e se sustentaõ.
-
-6 _Azeite._ He tanta a abundancia de azeite, que escusamos repetir o
-que neste particular affirmaõ nossos Escritores,[278] principalmente
-da fertilidade, e bondade, que ha deste genero em Santarem, Abrantes,
-Thomar, Torres-Novas, Montemór o Novo, Coimbra, Evora, Moura, Elvas,
-Béja, Beringel, termo de Lisboa, e na Torre de Moncorvo, onde só o
-dizimo importa mais de seiscentos almudes, gastando-se na fabrica do
-sabaõ dous mil cantaros, e provendo-se Galiza, e outras terras de
-Castella do muito, que daqui levaõ.
-
-7 _Vinho._ Deste producto soccorre o nosso Reino a muitos dos
-estranhos, principalmente das partes Septentrionaes, porque aos
-Portuguezes lhes he impossivel dar consumo à grande copia de vinhos,
-que todos os annos recolhem das Provincias, sendo os mais gabados
-os de Alvor, Béja, Villa de Frades, Vidigueira, Cuba, Peramanca,
-Alcochete, Almada, Caparica, Carcavelos, Camarate, Oeiras, Ourem,
-Lamego, Monçaõ, deixando os da Beira, e Tras os Montes taõ excellentes,
-que os naõ tem melhores todo o mundo, sendo todos estes ordinariamente
-bem incorporados, e com especialidade os tintos, que tem força para
-lotar os outros. Os Francezes, e Inglezes gostaõ muito dos vinhos
-extrahidos do Lugar chamado Barra a barra, que fica da outra banda de
-Lisboa; porque dizem, que saõ mais delicados, e menos cubertos,[279]
-e por isso conduzem muitos de Alhos vedros, e outras terras para as
-suas; naõ deixando de se admirar de que nós naõ estimemos o licor de
-Baco, tanto como elles, e que as fontes sejaõ ordinariamente as que
-nos mataõ a sede, e naõ as vides. Os peyores vinhos do Reino saõ os
-do Minho, chamados verdes,[280] porque duraõ pouco; e ou pela sua
-aspereza lhe chamaõ de enforcado, (ou talvez porque lançaõ as vides, e
-cachos pendurados nas arvores,) donde veyo a dizer o sentencioso Sá de
-Miranda, alludindo ao dito de Cineas:[281]
-
- _Depois nos Olmos mostrado,
- Nunca vi, disse, enforcado,
- Que a forca, assim merecesse._
-
-8 _Carnes._ Da grande copia em todo o genero de gados, que ha no Reino,
-ninguem duvída. O grande consumo, que se faz delles no provimento de
-armadas, e frotas, e a consideravel extracçaõ de lãs para o negocio do
-Norte, e Inglaterra, bastava para prova desta opulencia, se já o naõ
-tiveramos mostrado só na fecundidade da Provincia do Minho. No que se
-deve reparar he no sabor, e mimo das _Vacas_, e _Vitellas_ da Beira:
-_Carneiros_, _Cordeiros_, e _Leitões_ do Alentejo: _Cabritos_ da serra
-de Cintra, e Caldeiraõ, sem omittir a preciosa provisaõ do _Leite_,
-_Natas_, _Manteigas_ e _Queijos_ muito melhores que os Flamengos, e
-Parmazanos: nem nos esquecermos dos excellentes _Presuntos_ da Beira, e
-_Chacina_ do Alentejo.
-
-9 E que diremos da montaria, e caça Real? Sem encarecimento Castella
-naõ a tem melhor. Admiraveis saõ as _Corças_, e _Cervos_ da serra
-do Algarve: os _Veados_ das serras de Mertola, Portel, Almeirim,
-Arrabida, Cintra, e tapada de Villa Viçosa: _Javalis_ da Tapada,
-Pinheiro, serras de Portel, Vascaõ, Grandola, e Alcacer: _Lebres_,
-e _Coelhos_ das Berlengas, Alcantara, e Nossa Senhora do Cabo, pelo
-especial gosto, que lhe causa o pasto do perrexil.
-
-10 _Aves._ Deixando a grande creaçaõ das domesticas, que em grandes
-ninhadas, e bandos vemos por todo o Reino em abundancia, _Galinhas_,
-_Patos_, _Pombos_, e _Perús_, naõ ha cousa como os _Perdigotos_,
-e _Perdizes_ do termo de Lisboa, das serras de Cintra, Beira, e
-Caldeiraõ: _Tordos_ de Thomar, e do Alentejo, _Taralhões_ de Cezimbra,
-_Rolas_ de Alcacer, _Adens_, e _Galeirões_ dos Paús de Palma, Obidos,
-e Benavente, com outros varios bandos de passaros de arribaçaõ, que
-com o cibato das nossas terras se fazem muito mais saborosos que os
-_Hortolanos_ de Pariz. Aqui se póde aggregar a quantidade grande de
-canoras, e vistosas aves, os _Rouxinoes_, _Pintasilgos_, _Chamarizes_,
-_Codornizes_, _Cochichos_, _Lavercos_, _Verdelhões_, _Tentilhões_,
-_Melros_, _Pintarroxos_, _Tutinegras_, e outros mil suaves passarinhos,
-que pelos bosques, e ramos dos alemos, choupos, freixos, loureiros,
-e outros arvoredos espessos divertem os olhos, e os ouvidos com
-excellente musica natural em distinctos córos.
-
-11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de
-Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que
-nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por
-toda a parte admiraveis _Laranjas da China_, _doces_, e _bicaes_, a que
-os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de Portugal: prodigiosas
-_Limas_ da serra d’Ossa, _Limões_ em Colares, Cintra, Peninha, Loures,
-Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de
-Cacem; e as admiraveis _Cidras_ do Landroal.
-
-12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as _Camoezas_ de Thomar,
-Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas _Peras_ de
-muitas castas, e nomes: _De Rey_, _de Conde_, _Bergamotas_, _Bojardas_,
-_Cornicabras_, _Carvalhaes_, _Conforto_, _Flamengas_, _Gervasias_,
-_Codornos_, _de Rio frio_, _Engonxo_, _de S. Bento_, _de Bom Christaõ_,
-_Virgulosas_, e _Lambe-lhe os dedos_, com as formosas, e appetitosas
-_Maçãs de Abrantes_, _Baunezas_, _Leirioas_, _Melapios_, _Repinaldos_,
-_Verdeaes_, e até _Rainetas de França_ na Villa de Mafra, com outras
-muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a Reinos
-estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos pomares
-de regadio muy deliciosos.
-
-13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço,
-que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes
-saõ as _Cerejas_ de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas de
-_Saco_ da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as _Ginjas garrafaes_
-de Lamego, Borba, e Alenquer: as _Frutas novas_, e _Ameixas reinoes_
-de Montemór o Novo, com as _Brancas_, _Saragoçanas_, e _Abrunhos_ de
-Cintra, Collares, Azeitaõ, e Cezimbra: os gentis _Figos lampos_, e
-_Perinhas de cheiro_ do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos
-_Damascos_, _Alperches_, e _Pessegos_ de tantas castas em Abrantes,
-Aviz, Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas
-_Amoras_, e _Morangos_, e das bellas _Uvas moscateis de Jesus_,
-_Tamaras_, _Ferraes_, _Diagalves_, e _Malvazias_ de Punhete: do chamado
-singular _Bastardo_ de Cassilhas, Barreiro, e Almada, com os seus
-excellentes, e incomparaveis _Figos brancos_: dos selectos _Melões_
-da Vellariça, Chamusca, Arrayolos, Benavente, e Muxagata: das doces,
-e vermelhas _Melancias_ de Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e
-Chamusca: das _Romãs_, _Marmellos_, e _Gamboas_ de Santarem, com a
-quantidade sem numero de _Castanhas verdes_, e _piladas_ da Beira, e
-Minho: de _Amendoas_, _Passas_, _Figos_, e _Alfarrobas_ do Algarve,
-principalmente de Estoy: _Nozes_, _Sorvas_, _Nesperas_, e _Avelãs_
-da Estremadura: _Bolotas_, _Azeitonas_, e _Pinhões_ do Alentejo, sem
-fazermos caso dos _Medronhos_, _Murtinhos_, _Camarinhas_, e _Amoras de
-silva_, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas
-charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas _Tuberas da terra_, de
-que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou feitas
-à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas.
-
-14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar
-as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma
-haverá _Couves_ taõ grandes, e _Nabos_ taõ monstruosos, que se possaõ
-igualar com as da Beira, especialmente as _Murcianas_ de Azeitaõ, e
-Setubal: _Repolhos_ da Villa do Conde: _Cardos_ das hortas de Béja, e
-Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito menos com a riqueza,
-regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas, tendo só Lisboa em
-si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta especie naõ cabe
-na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa fertilidade de
-legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas comestiveis, e
-aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir os balsamos,
-as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ mais
-curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das hervas,
-e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,[282] naõ haver
-terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que Portugal,
-ainda no mais escabroso das suas serras.
-
-15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a
-diligencia da cultura o _Alecrim_, a _Arruda_, o _Aypo_, a _Argentina_,
-a _Alfavaca de cobra_, os _Almeirões_, os _Agrões_, a _Agrimonia_,
-a _Artemija_, a _Avenca_, as _Azedas_, a _Bisnaga_, a _Borragem_,
-o _Cardo santo_, a _Carqueja_, a _Celidonia_, a _Centaurea_, a
-_Congossa_, a _Douradinha_, a _Dormideira_, o _Endro_, o _Ensayaõ_,
-a _Erva cidreira_, a _Erva doce_, a _Escabiosa_, a _Escorcioneira_,
-a _Eufrazia_, o _Funcho_, a _Filipendola_, o _Gilbarbeiro_ a
-_Hepatica_, a _Hera_, o _Hyssopo_, o _Jaro_, a _Labaça_, o _Lirio_, a
-_Lingua de Vaca_, a _Losna_, a _Macela_, a _Malva_, o _Malvaisco_, a
-_Mangerona_, o _Mastruço_, o _Marroyo_, o _Meimendro_, o _Millefolio_,
-a _Moleirinha_, a _Murta_, o _Nardo celtico_, a _Neveda_, o _Oregaõ_,
-a _Ortelã_, as _Papoilas_, a _Peonia_, a _Pimpinella_, os _Poejos_,
-a _Rabaça_, o _Rosmaninho_, a _Salgadeira_, a _Salsa_, o _Saramago_,
-a _Segurelha_, a _Sanguinaria_, a _Semprenoiva_, a _Serpentina_, a
-_Solda_, a _Tamargueira_, a _Tanchagem_, o _Tomilho_, o _Trevo_, o
-_Trovisco_, a _Valeriana_, o _Verbasco_, a _Versa_, a _Veronica_, a
-_Viola_, e outras de experimentada virtude, e prestimo,[283] de que
-tambem os multiplicados enxames de abelhas se aproveitaõ para a fabrica
-do mel nos excellentes colmeares, principalmente nas serras de Serpa,
-Portel, termo de Palmella, e toda a Provincia de Tras os Montes, que
-costuma repartir com os visinhos: naõ sendo menos util a copiosa
-colheita do _Linho_, _Grã_, e _Esparto_ das Provincias do Minho,
-Beira, Estremadura, e Algarve, de que tanto se aproveitaõ as Nações
-estrangeiras.
-
-16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a
-natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de
-infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas,
-outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle,
-que no tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com
-o esmalte, e fragrancia das _Boninas_, _Junquilhos_, _Mosquetas_,
-_Lirios_, _Madresilva_, _Legacaõ_, _Azareiro_, _Giesta_, _Murta_,
-_Flor de laranja_, e outra muita diversidade, que exhalando agradavel
-cheiro, nascem, e se criaõ em qualquer prado, compondo hum continuado
-ramalhete; porque a industria da arte nas cercas, e nos jardins tem em
-todo o anno constante o Abril, e florecente a Primavera com vistoso
-matiz de _Amarantos_, _Ambretas_, _Amores perfeitos_, _Angelicas_,
-_Aquilegias_, _Araras_, _Assucenas_, _Artemijas_, _Azareiros_,
-_Anemolas_, _Bordões de S. Joseph_, _Botões de ouro_, _Barboletas_,
-_Caracoleiros_, _Caxias_, _Cravos_, _Cravinas_, _Disciplinas_,
-_Ervilhas de cheiro_, _Esporas_, _Flores pombinhas_, _Flores do
-Cabo de boa esperança_, _Flores de Liz_, _Girasoes_, _Goivos_,
-_Jasmins_, _Jacintos_, _Junquilhos_, _Lilazes_, _Malmequeres da
-sessia_, _Malvas da India_, _Maravilhas_, _Mauritanas_, _Margaritas_,
-_Melindres_, _Mogarins_, _Narcisos_, _Noturnos_, _Novelos_, _Orelhas
-de Urso_, _Papagayos_, _Papoulas da India_, _Perpetuas_, _Piramides_,
-_Primaveras_, _Rainunculos_, _Rosas_, _Saudades_, _Selindres_,
-_Suspiros_, _Tulipas_, _Valverdes_, e _Violas_, com as frondosas
-latadas de _Caracoes_, _Trepadeiras_, _Chagas_, e _Martyrios_, e o
-verde adorno dos crespos, e cheirosos _Mangericões_.
-
-17 Quanto ao _Peixe_, além de o gabar Marineo Siculo,[284] e
-Botero,[285] tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e
-muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado,
-e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está
-regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores,
-merecendo especial memoria os deliciosos _Salmões_ do Minho: as
-gabadas _Azevias_ de Alhandra: os raros _Solhos_, e _Tainhas_ do Sado:
-os saboros _Saveis_, e _Lampreas_ do Mondego, e Coa: as _Douradas_,
-_Escolares_, e _Atum_ do Algarve: os _Salmonetes_, _Linguados_,
-_Redovalhos_, _Bezugos_, e _Sardas_ de Setubal: as admiraveis
-_Trutas_, e _Mugens_ da Beira, e Minho: as selectas _Bogas_, _Barbos_,
-e _Escalhos_ de Alviella: os _Ruivos_ de S. Joaõ da Foz, e Villa do
-Conde: as famosas _Pescadas_, e _Curvinas_ de Cezimbra, Cascaes,
-Ericeira, Caminha, e Esposende: os _Congros_, e _Roballos_ de Peniche,
-e Buarcos: os _Safios_, _Eirozes_, _Cachuchos_, e _Gorazes_ do Tejo.
-E deixando de particularizar outras innumeraveis especies de peixe,
-que os rios, ribeiras, e lagoas nos tributaõ com a fecunda pescaria de
-_Sardinhas_, e _Carapáos_, e os celebrados _Camarões_ de Villa-Franca,
-com os saborosos cardumes de _Ostras_, _Bribigões_, e mais Mariscos
-de Aveiro, e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de
-mantimentos, e regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a
-fazer hum todo admiravel contra o que diz Virgilio, que _non omnis fert
-omnia tellus_, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta
-opulenta Peninsula.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[269] Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. pag. 382.
-
-[270] Strab. lib. 3. Athen. lib. 4. Gymnosoph. Polyb. lib. 38.
-
-[271] Apud Duart. Nun. Descripç. de Port.
-
-[272] _Jactitet se Cereris dono Sicilia, nihil video cur Santareno
-præferantur._
-
-[273] Duart. Nun. Descripç. de Portug. cap. 34.
-
-[274] P. Marian. Histor. de Hesp. liv 10. p. 1. cap. 13.
-
-[275] Luiz Mendes de Vasconcel no Sitio de Lisb. O A. dos Serões do
-Principe part 1. disc. 6. § 9. Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 1.
-
-[276] Boter. de Ration. Stat. lib. 8.
-
-[277] Nun. na Vid. de Sancho I.
-
-[278] Duart. Nun. Descripçaõ de Portugal cap. 25. Fr. Nicol. de Oliv.
-Grand. de Lisb. tract. 1. cap. 4. Maced. nas Flor. de Hespanh. cap. 3.
-excel. 4.
-
-[279] Le Baron de Lahontan tom. 3. Voiages de Portug. p. 208.
-
-[280] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 8. n. 2.
-
-[281] Sá de Miranda cart. 2. est. 10.
-
-[282] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 193. e 216. Barlamont no
-Elixir do Univ. cap. 4. e 5.
-
-[283] Gabr. Grisley Desengan. da Medicin. Duart. Nun. Descripç. de
-Port. Vigier Histor. das Plant.
-
-[284] Marin. Sicul. de Reb. Hispan. lib. 1.
-
-[285] Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. pag. 14.
-
-
-
-
- CAPITULO XI.
-
-_Dos Mineraes._
-
-
-1 A tanta fertilidade, e mimo de especies sensitivas, e vegetaveis,
-como temos summariamente mostrado haver neste nosso Reino, quiz Deos
-tambem ajuntarlhe as estimaveis riquezas de preciosos mineraes. Os
-de ouro, e prata saõ muito antigos em toda a Hespanha, como refere
-a Escritura sagrada;[286] e taõ naturaes em o nosso Portugal, como
-affirma Plinio,[287] e o confirma Estrabo,[288] rendendo ao Senado de
-Roma cada anno dos direitos, que se tiravaõ das minas de Asturias,
-Portugal, e Galiza, trinta mil marcos de ouro: sendo este sem duvida
-o unico attractivo, e reclamo, que chamou de taõ longe os Frigios,
-Fenices, Tyrios, Carthaginezes, e Romanos a fazernos guerra, e
-tributarios à sua cubiça.
-
-2 Mas deixando a lembrança das minas antigas, como as de que faz
-mençaõ Justino[289] que havia na Provincia do Minho, e as que houve na
-Freguezia de S. Mamede de Val-Longo do Concelho de Aguiar de Sousa,
-e no Lugar de Villa-Verde, termo de Mirandella,[290] e no termo de
-Grandola, e no sitio de Alfarella da Provincia de Tras os Montes, e no
-Lugar do Seixo naõ longe de Anciães,[291] e em outras muitas partes do
-Reino, esgotadas pela ambiçaõ dos Romanos.
-
-3 He certo que no anno de 1290 concedeo ElRey D. Diniz privilegios
-aos que tiravaõ ouro na Adiça, junto à foz do Tejo entre Almada, e
-Cezimbra, que era a officina mais antiga, donde se tirava ouro neste
-Reino em grande copia. Os mesmos privilegios concederaõ os mais Reys
-até ElRey D. Manoel, em cujo tempo com o descubrimento das riquezas da
-Asia foraõ diminuindo as extracções das minas de Portugal, como tudo
-conta a Monarquia Lusitana.[292]
-
-4 Tambem no anno de 1628 se descubrio no Lugar de Paramio, tres leguas
-da Cidade de Bragança, huma mina de prata taõ fina, que de oito arrobas
-de pissarra ficavaõ na fundiçaõ seis de prata; e havia tanta quantidade
-della, que promettia o Superintendente oito arrobas cada dia livres
-para ElRey.[293] Bem sabido he, e celebrado pelos antigos o purissimo
-ouro, que se tirava de entre as areas do Tejo,[294] e tambem naõ he
-para esquecer o Cetro, que ElRey D. Joaõ III. mandou fazer do ouro
-extrahido das mesmas areas, o qual Cetro affirma Duarte Nunes,[295] que
-muitas vezes vira nas mãos dos nossos Monarcas em occasiaõ de Cortes, e
-que ainda se conserva no Thesouro Regio.
-
-5 Se nós fizermos huma natural reflexaõ acerca do muito, que nossos
-primeiros Reys dispendiaõ, já com o sustento de grandes exercitos em
-continuas campanhas; já com grossas armadas; já na erecçaõ de Templos,
-e Palacios sumptuosos; nos thesouros riquissimos, que deixavaõ a seus
-filhos; nas distribuições generosas, e soccorros poderosissimos, com
-que ajudavaõ a muitos Principes Catholicos,[296] sem que naquelle
-tempo houvesse tanta renda dos direitos Reaes, nem o descubrimento das
-riquezas da Asia tivesse ainda contribuido com seus thesouros para
-supprir estes gastos, forçosamente devemos inferir, que em Portugal
-havia opulentas minas. Este pensamento confirma com bastante erudiçaõ o
-Doutor Fr. Serafim de Freitas,[297] dizendo, que antes do descubrimento
-da India naõ havia Reino na Europa mais opulento que Portugal: por isso
-com elevado episodio, e sabio fundamento introduzio o erudito Botelho
-na infancia de Portugal a idade preciosa de ouro,[298] que o singular
-Camões no cant. 9. e 10. attribuio ao tempo, e governo do sempre
-saudoso Rey D. Manoel.
-
-6 Esta observaçaõ he só por huma natural conjectura; porque he
-infallivel haver sempre muitas minas de ouro, e prata por todo
-o Reino, como ainda ha na Villa de Borba, Béja, Evora, no termo
-de Barcellos, e Thomar, em Tras os Montes, e em outras partes
-conhecidas,[299] as quaes naõ se praticaõ hoje por certa razaõ de
-Estado, que aponta Plinio[300] nas de Italia, e Duarte Nunes,[301]
-e as Memorias instructivas de hum viajor nas de Portugal: ou tambem
-porque com o descubrimento das Minas da America no Estado do Brasil
-taõ fecundas, e com as mais modernas de diamantes, descubertas no
-Serro do Frio, de cujos riquissimos transportes resulta ao Reino taõ
-copioso lucro, (pois chega a vinte milhões de cruzados o que nos vem
-todos os annos das Minas,) attrahidos desta fertilidade, e opulencia os
-Portuguezes, se esqueceraõ do que tinhaõ mais perto.
-
-7 Naõ só enriqueceo a natureza o Reino de ouro, e prata, mas tambem
-de pedras preciosas. No monte do Oiteiro, que cerca a Villa de Borba,
-achaõ-se finissimas _Turquezas_, as quaes naõ saõ de cor verde, como
-disse Duarte Nunes,[302] e por sua informaçaõ Manoel de Faria, e a
-Corografia Portugueza,[303] mas sim de cor azul opaco, segundo bem
-adverte, e emenda o Padre Bluteau.[304] Na ribeira de Bellas, pouco
-distante de Lisboa, e principalmente no Lugar do Suimo, ha muita
-quantidade das pedras preciosas chamadas _Jacinthos_, que na cor
-arremedaõ muito à flor Bemmequer.[305] No Algarve achaõ-se _Rubís_. Na
-serra de Cintra ha minas de _Magnetes_, ou pedras de cevar,[306] de que
-os estrangeiros se tem aproveitado mais do que nós. E no rio Cávado
-apparecem _Amethystos_, _Jacinthos_ e _Crystaes_ finissimos.
-
-8 Tudo isto he muy conforme com o que dizem Botero, e Gil Gonçalves
-de Avila,[307] que em Portugal naõ só ha muitas minas de preciosos
-metaes, mas muitas pedras preciosas; donde Fr. Marcos de Guadalaxara
-Xivier, tratando da nova França, diz,[308] que naquella terra se achaõ
-_Diamantes_ semelhantes aos que ha no Tejo: e isto naõ póde causar
-duvida, quando sabemos que na Real Capella de Villa-Viçosa ha huma
-Custodia, cuja pedraria, de que está cravejada, foy toda extrahida das
-minas de seus contornos.[309]
-
-9 De _Cobre_ se descubrio no anno de 1620 na serra de Grandola huma
-mina muito boa. De _Estanho_, e muito fino temos em Amarante, Bouzella,
-S. Pedro do Sul, Belmonte, e em outras partes,[310] que nós vimos no
-anno de 1736 pela diligencia de Monsieur Damy. De _Ferro_ ha bastante
-copia nas Villas de Penella, e Thomar;[311] e affirma o erudito Severim
-de Faria,[312] que he o melhor ferro do mundo, pois delle se costumaõ
-fabricar espingardas muy estimadas de todos os Principes. O _Crystal_
-em muitas partes deste Reino se acha em pedaços; e refere Duarte
-Nunes,[313] que na Villa do Crato havia no seu tempo poços, donde se
-tirava grande quantidade. O mesmo se acha nas montanhas de S. Mamede
-de Val-Longo, termo de Aguiar de Sousa, e em S. Vicente de Caldellas,
-termo de Pica de Regalados.[314]
-
-10 No Concelho de Gondomar na Freguezia de S. Christovaõ de Rio-Tinto
-ha minas de _Talco_ taõ bom, que se conduz por negocio para muitas
-partes. _Chumbo_ se extrahe de Aremenha. Que diremos das grandes
-cantarias de tantas variedades de pedras, quantas vemos em todo o
-Reino? Os marmores brancos taõ admiraveis, que se tiraõ da Villa de
-Estremoz: os pretos de Cintra: os vermelhos, azuis, amarellos, e pardos
-de Pedro Pinheiro, com os quaes se fabricou o Real Templo de Mafra,
-que, com o adorno de tanta diversidade de pedras, bem podemos dizer,
-que he huma joya preciosa, ou hum vistoso ramalhete, em que está unida
-a robustez com a delicadeza, o natural com o artificioso. Com igual
-estimaçaõ vemos os pórfidos de Setubal, e os celebrados marmores
-da serra da Arrabida, e os de Montes Claros, e os de Villa Viçosa,
-dos quaes se tem aproveitado ainda os melhores edificios de terras
-estranhas.[315]
-
-11 Naõ longe de Coimbra ha huma casta de pedra muy clara, e lustrosa,
-mas taõ branda, que basta qualquer prego sem maceta para a lavrar.[316]
-Outra mais admiravel se produz no Lugar das Antas, termo da Villa da
-Arruda, com a qual costumaõ ladrilhar os fornos, em que se coze o paõ;
-porque tem ella tal virtude, e calor intrinseco, que basta receber pela
-manhã a quentura sufficiente, para a conservar todo o dia, sem ser
-necessario renovar-se o fogo, ou administrarlhe mais lenha.[317] A esta
-especie podemos ajuntar as pedras molares de Cezimbra, e Porto de Mós,
-e as admiraveis pederneiras de espingarda, que ha por Alcantara junto
-de Lisboa, com todas as suas pedreiras matrizes de muita differença de
-pedra, que com a falta de curiosidade inda ignoramos.
-
-12 Poucas terras levaráõ vantagem à nossa na producçaõ dos _Barros_
-finos, aptos para a fabrica de cousas domesticas. Entre todos merece
-o primeiro lugar o barro vermelho, e odorifero de Estremoz, de que
-se fazem preciosos pucaros, os quaes naõ só tem a galantaria de
-ficarem prezos, e pendurados nos beiços, quando por elles se bebe,
-mas tem a virtude bezoartica, e alexifarmaca, com que se extenuaõ as
-qualidades do veneno,[318] pelo que he bem merecida a estimaçaõ, que
-em toda a parte lograõ. Em Roma no Museo do Padre Kirker, e Bonani,
-que se conserva no Collegio dos Padres Jesuitas, os vimos com especial
-recato; e em muitos gabinetes de Monsenhores, e Principes de Italia
-constituem naõ pequeno adorno. Depois destes seguem-se os de Lisboa,
-chamados pucaros da Maya, ou do Romaõ, feitos com summa delicadeza,
-e formosura especialmente aquelles, a que chamaõ de alètria, de hum
-barro tambem odorifero, com os quaes lá lhe achou huma bella analogia
-o discreto Camões[319] para comparar as formosas Damas Lisbonenses. Os
-de Montermór o Novo, Sardoal, Aveiro, e Pombal saõ fabricados de barros
-igualmente selectos, naõ sendo para desprezar a louça de barro, que se
-fabrica na Villa das Caldas.
-
-13 De _Azeviche_ ha muitos mineraes, mayormente na Villa da Batalha,
-de que se fazem curiosos brinquinhos, e figuinhas, as quaes trazidas à
-vista dizem que saõ contra o quebranto, e fantasmas melancolicas:[320]
-por isso rara he a criança neste Reino, que naõ ande armada de muitas
-destas figas contra o máo olhado. O Padre Eusebio Nieremberg[321]
-approva a virtude natural do azeviche para este effeito, mas condemna a
-effigie.
-
-14 A formosura do _Coral_ nos contribue muitas vezes o mar de Peniche,
-lançando-o pelas prayas em ramos, e esgalhos bem galantes, de que temos
-visto alguns. O _Vermelhaõ_ se colhe no rio Minho, donde tomou o nome,
-e de que falla Justino.[322] No tempo delRey D. Manoel se descubriraõ
-minas de vermelhaõ, e de _Azougue_.[323] O cheiroso _Ambar_ acha-se
-algumas vezes pelos areaes de Troya defronte de Setubal, que o mar
-lança fóra, quando tem andado tempestuoso. O _Salitre_ naõ falta pelas
-grutas de Alcantara.[324]
-
-15 O _Sal_ se coalha copiosamente nas muitas marinhas, que ha em
-Aveiro, Santo Antonio do Tojal, e em Setubal, bastando só os direitos
-Reaes destas salinas de Setubal para satisfazerem aos Hollandezes
-os milhões, que se obrigou o Reino a pagarlhe pelo Tratado da liga
-defensiva, concluindo-se o anno de 1703 o seu ultimo pagamento.
-Bastante prova he desta fertilidade o grande numero de navios
-estrangeiros, que continuamente vemos em nossos portos a fazerem
-carregações do sal, que lá nas suas terras naõ tem: e he isto taõ
-antigo, que affirma Pedro de Mariz[325] verse em tempo delRey D.
-Pedro I. nos portos de Lisboa, e Setubal muitas vezes quatrocentos, e
-quinhentos navios a esta carga, e outras nossas mercadorias. Seguia-se
-tratarmos agora do Commercio do Reino; mas como reservamos esta
-noticia para quando descrevermos Lisboa, primario archivo de todas as
-grandezas, e trafegos de Portugal, passemos à averiguaçaõ das moedas,
-que se tem lavrado, com toda a sua diversidade, e valor.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[286] 1 Machab. 8.
-
-[287] Plinio lib 33. cap. 4.
-
-[288] Strab. lib. 3. de Situ Orbis: _Nec in alia parte terrarum tot
-sæculis hæc fertilitas._ Plin. alleg.
-
-[289] Justin. lib. 44.
-
-[290] Costa, Corograf. Port. tom. 1. p. 374 e 452.
-
-[291] Ibid. tom. 3. p. 337. Argot. Antig. da Chancel. de Brag. p. 224.
-e 332.
-
-[292] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 30.
-
-[293] Ibid. Monarq. Lusit.
-
-[294] Silio Italico, Martial, e outros apud Maced. Flor. de Hespanh.
-cap. 4. excel 2.
-
-[295] Duarte Nun. Descripç. de Portug. cap. 14.
-
-[296] Resend Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 61. Marian. lib. 25. c. 11.
-Osor. liv. 2. de Reb. Emman. Andrad Chron. delRey D. Joaõ III. part 3.
-cap. 15.
-
-[297] Freitas de Justo Imperio Lusit. cap. 16. _Ita ut ante Indiæ
-explorationem nullum ex Europæis Regnum opulentius Lusitano
-inveniretur._
-
-[298] Botelh. no Alfonso da impressaõ de Salamanc. ann. 1731 liv. 10.
-est. 76. & seqq.
-
-[299] Far. na Europ. Portug. tom. 3 part. 3. cap. 8. n. 10. Corograf.
-Port. tom. 3. p. 171.
-
-[300] Plin. lib. 33. c. 4.
-
-[301] Duart Nun Descripç. de Port. cap. 14. Memor. instruct tom. 1. p.
-210.
-
-[302] Duart Nun. Descripç. de Portug. p. 44.
-
-[303] Far. na Europ. Port. tom. 3. p. 183. Corograf. Port. tom. 2. p.
-513.
-
-[304] Bluteau, Vocab. verb. _Turqueza_.
-
-[305] Corograf. Portug. tom. 3. pag. 52. Blut. verb. _Jacintho_.
-
-[306] Memor. instruct. tom. 1. pag. 112.
-
-[307] Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. Avila, Grand de Madrid. liv.
-4.
-
-[308] Xivier part. 5. Pontif. lib. 3. cap. 4.
-
-[309] Serões do Princip. part. 1. disc. 6. § 10.
-
-[310] Corogr. Port. tom 2. p. 393.
-
-[311] Duart Nun. Descr. de Port. p. 42.
-
-[312] Sever. Notic. de Port. disc. 1.
-
-[313] Duart. Nun Descripç. de Port. p. 42.
-
-[314] Corogr. Port. tom. 1. p. 244. e 374. Monarq Lusit. liv. 16. cap.
-30.
-
-[315] Duart. Nun. Descripç. de Portug. p. 45. Luiz Mendes no Sitio de
-Lisb. p. 192.
-
-[316] Far. Europ. Port. tom. 3. p. 183.
-
-[317] Rodrig. Mend. da Silv. na Poblac. gener. de Hesp. p. 130. e
-Duart. Nunes ut supr.
-
-[318] Aldrovand. in Musæo Metal. lib. 2. pag. 229. Curvo na Polyanth.
-p. 592. mihi n. 15. Fonseca no Aquil. p 210.
-
-[319] Cam. cart. 1.
-
-[320] Dioscorid. lib. 5. cap. 103. Plin. liv. 25. cap. 10. S. August.
-de Civit. Dei cap. 91.
-
-[321] Nieremb. Filosof. Natur.
-
-[322] Justin. lib. 44. cap. 4.
-
-[323] Monarq. Lusit. tom. 5. p. 80.
-
-[324] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 216.
-
-[325] Mariz Dialog. 3. cap. 6.
-
-
-
-
- CAPITULO XII.
-
-_Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem
-lavrado em Portugal._
-
-
-1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as
-do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno
-83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha,
-mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo
-perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma
-estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.[326] Era
-ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ
-achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos.
-
-2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida
-a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria
-nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas
-daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por
-especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em
-todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e
-cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.[327]
-
-3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno
-411 de Christo até o de 570, que he o em que governou Leovigildo com
-poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo
-até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal
-abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3.
-Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o
-qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata
-batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere
-Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e
-a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu
-poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no
-reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver,
-que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem
-diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora,
-com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda
-huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem
-embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda
-de prata do tempo dos Godos.[328]
-
-4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ
-as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de
-metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas,
-principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes
-de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé.
-Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e
-permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando
-I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por maravedis,
-assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se
-estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que
-estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma
-resumida memoria pelo estylo, que observamos.
-
-5 _Alfonsim_. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que delle
-tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.[329] Era de tres
-qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia pouco mais
-de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum tostaõ, e
-valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre o nome
-_Alfo_ huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas, que tinhaõ
-a letra _L_, por serem abertas em Lisboa, outras a letra _P_, por
-serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta inscripçaõ: _Adjutorium
-nostrum in nomine Domini_. O mesmo se lia da outra parte, onde estavaõ
-os cinco escudos do Reino postos em Cruz. O Alfonsim de ouro valia
-quinhentos e tantos reis.[330] Todas estas moedas tinhaõ o mesmo cunho.
-
-6 _Aureo_. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II. pelos
-annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo Padre
-Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas de
-Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da
-Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas
-mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua
-figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: _Sancius Rex
-Portugaliæ_ de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que
-nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais,
-e a letra à roda: _In nomine Patris, & Filii, & Spiritus Sancti.
-Amen_;[331] e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de
-cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se
-acha no Reino.
-
-7 _Barbuda_, ou _Celada_. Foy moeda de prata muito ligada, que mandou
-lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma parte tinha
-hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo chamavaõ
-Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma coroa, e pela
-orla da moeda a letra: _Si Dominus mihi adjutor, non timebo_: da outra
-parte huma Cruz da Ordem de Christo, que tomava todo o vaõ, e no meyo
-da Cruz hum escudo pequeno com as quinas de Portugal, e nos angulos da
-Cruz quatro castellos, e em roda a letra: _Fernandus Rex Portugaliæ,
-Alg._ No tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real vem aberta a sua
-figura, cuja circumferencia se póde ver melhor, que por informaçaõ dos
-Authores, os quaes discrepaõ muito nas medidas da sua grandeza.
-
-8 _Calvario._ Era certa moeda de ouro de 22 quilates, e tambem
-chamavaõ cruzados, que mandou lavrar ElRey D. Joaõ III. com o valor
-de quatrocentos reis, que depois subio a seiscentos reis. Tinha de
-huma parte a Cruz sobre o monte Calvario, que daqui tomou o nome, com
-a letra em roda: _In hoc signo vinces_: da outra banda o escudo Real
-coroado, e a letra: _Joann. III. Port. & Algarb. R. D. Guin._
-
-9 _Ceitil._ Mandou lavrar esta moeda de cobre ElRey D. Joaõ I., ou na
-occasiaõ em que tomou a Cidade de Ceuta aos Mouros, como dizem alguns
-Authores, ou porque era cada dinheiro destes a sexta parte de hum real
-de cobre, e por isso ceitil he o mesmo, que sextil, e esta nos parece a
-mais verdadeira deducçaõ. Lavraraõ-na os Reys successores até ElRey D.
-Sebastiaõ.[332]
-
-10 _Conceiçaõ._ Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Joaõ IV. em ouro,
-e em prata no anno de 1648. A de ouro valia doze mil reis: tinha de
-huma parte a effigie da Senhora da Conceiçaõ com tres symbolos deste
-Mysterio por cada lado, e em circulo as letras: _Tutelaris Regni_: da
-outra parte estavaõ as armas Reaes no meyo de huma Cruz da Ordem de
-Christo, e na cercadura: _Joannes IIII. D. G. Portugaliæ, & Algarbiæ
-Rex_. A de prata tinha o mesmo cunho, mas era de mayor diametro, que os
-cruzados novos, e corria com o valor de seiscentos reis. A origem, que
-houve para se cunhar esta moeda, foy assim:
-
-11 Depois que o felicissimo Rey D. Joaõ IV. fez tributario o Reino de
-Portugal à Conceiçaõ da Senhora em cincoenta cruzados de ouro cada
-anno, applicados para a sua Real Capella de Villa Viçosa, jurando, e
-tomando neste Mysterio a Senhora por Protectora do Reino em Cortes do
-anno de 1646[333] tratou logo de lhe pagar o tributo em moeda especial,
-e para isso mandou abrir a França hum cunho da fórma, que temos dito,
-o qual trouxe, e fez Antonio Ruiter, a quem se deu tres mil reis, que
-dispendeo com a abertura do ferro, como consta do liv. 1. do Registo
-da Casa da Moeda pag. 256. vers. donde inserimos, que o primeiro anno,
-em que ElRey fez a sobredita offerta, seria no anno de 1648, por ser
-este anno o que se vê expresso na sobredita moeda, a qual desde o anno
-de 1651 principiou a ser moeda corrente pela ley, que sahio para isso.
-E sem embargo de que no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real
-pag. 287. se diga, que humas, e outras moedas corriaõ com pezo de huma
-onça, foy equivocaçaõ; porque da mesma ley, que vem no dito tomo a pag.
-359. se vê, que as de ouro corriaõ com o pezo de doze oitavas, e valiaõ
-por doze mil reis; e as de prata com pezo de huma onça, e corriaõ por
-seis tostões: e pezo de doze oitavas he onça e meya.
-
-12 ElRey D. Affonso VI. continuou tambem a mandar lavrar as sobreditas
-moedas em todo o tempo do seu governo, e da mesma sorte ElRey D. Pedro
-II. e nesta moeda se fazia a offerta de vinte e quatro mil reis no dia
-da festa da Conceiçaõ, em cujo dia trazem pendente ao pescoço os tres
-Officiaes, que administraõ a Casa da Senhora, huma das taes moedas. No
-anno porém de 1685 teve fim a fabrica destas moedas, porque desde entaõ
-nunca mais se lavrarão, entregando-se os referidos vinte e quatro mil
-reis em outra qualquer moeda para a despeza da festa de Villa Viçosa.
-
-13 _Coroa._ Foy moeda de ouro, que mandou lavrar ElRey D. Duarte com
-o valor de 216 reis. ElRey D. Manoel tambem a mandou lavrar, e valia
-120 reis: chamava-se _Meya coroa_. Este preço conservou até o reinado
-delRey D. Joaõ III. e ElRey D. Sebastiaõ.[334]
-
-14 _Cruzado._ Quando o Papa Pio II. mandou a Bulla da Cruzada para
-a guerra santa contra os Turcos, ordenou ElRey D. Affonso V. que se
-lavrasse huma moeda de ouro subido de 24. quilates, e que se chamasse
-cruzado em reverencia da Bulla, e com o valor de 400 reis. Tinha de
-huma parte a Cruz de S. Jorge com a letra: _Adjutorium nostrum in
-nomine Domini_; e da outra o escudo Real com a coroa sobre a Cruz da
-Ordem de Aviz com estas letras: _Cruzatus Alphonsi Quinti R._ Manoel de
-Faria[335] mostra que vio huma moeda destas com differente cunho. No
-anno de 1561 valia cada cruzado destes 500 reis, e depois foraõ subindo
-ao valor de 600 reis, e deste ao de 640.[336]
-
-15 Presentemente correm cruzados novos de ouro, que mandou lavrar
-ElRey D. Joaõ V. desde o anno de 1718 com o valor intrinseco de 400
-reis, e na estimaçaõ commua de 480. Por Decreto de 8 de Fevereiro de
-1730 mandou o mesmo Senhor que se lavrasse nas Minas quartos de escudo
-de ouro com o valor extrinseco de 400 reis cada hum, e intrinseco de
-375 reis, tendo de huma banda o retrato delRey, e da outra na parte
-superior huma coroa Real, na inferior a era, em que se fabricaõ, e na
-circumferencia o nome delRey. A esta moeda chamamos cruzado, dos quaes
-já naõ ha muitos.
-
-16 ElRey D. Joaõ IV. mandou lavrar cruzados de prata com o valor de 400
-reis, e meyos cruzados com 200 reis de valia. Depois foraõ subindo até
-o reinado delRey D. Pedro II. que levantou os cruzados a seis tostões,
-e os meyos cruzados a tres tostões, mandando tambem lavrar cruzados
-novos de prata com o valor de 480, e meyos cruzados com o de 240, a
-que presentemente chamamos doze vintens, e que ainda correm nos nossos
-tempos.
-
-17 _Dinheiro._ Foy moeda de cobre, que tinha de huma banda a Cruz da
-Ordem de Christo com duas estrellas, e duas meyas luas nos vaõs, e a
-letra _A. Rex Portugaliæ_: da outra parte tinha as cinco quinas com a
-letra: _Algarbii_. Valia hum ceitil menos hum decimo. Destes dinheiros
-faz mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. §. 17.
-
-18 _Dobra._ Moeda de ouro de varias castas: _Portuguezas_,
-_Castelhanas_, _Mouriscas_, ou _Barbariscas_. As Portuguezas
-chamavaõ-se _Cruzadas_, que mandou lavrar ElRey D. Diniz com o valor
-de 270 reis: outras se chamaõ _Dobras delRey D. Pedro_, e valiaõ
-147 reis. Das Dobras Castelhanas havia humas, que se chamavaõ da
-_Banda_, por serem lavradas por ElRey D. Affonso XI. de Castella, e
-tinhaõ de huma parte a banda, insignia da Ordem Militar, que o mesmo
-Rey instituio, e valiaõ 216 reis: com este nome faz dellas mençaõ a
-Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. Tambem se chamavaõ _Valedias_, porque
-valiaõ, e corriaõ em Portugal. Havia outras dobras com o nome de _Dona
-Branca_, e outras _Sevilhanas_, que mandou bater em Sevilha ElRey
-D. Affonso o _Sabio_, e valiaõ 600 reis. Tinhaõ de huma parte ElRey
-armado a cavallo com a espada na maõ, e a letra em roda: _Dominus mihi
-adjutor_: da outra parte as armas de Castella, e Leão com o letreiro:
-_Alfons. R. Castellæ, & Leg_.[337] As _Mouriscas_, ou _Barbariscas_
-valiaõ 270 reis. ElRey D. Pedro I. mandou lavrar _Meyas dobras_ com o
-valor de 73 reis e meyo.
-
-19 _Ducataõ de ouro._ Quando ElRey D. Sebastiaõ foy a Guadalupe, mandou
-lavrar esta moeda: huma com o valor de quarenta mil reis, outra de
-trinta, outra de dez cruzados.[338]
-
-20 _Engenhoso._ Foy moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sebastiaõ no
-anno de 1562 com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a Cruz com a
-letra: _In hoc signo vinces_; e da outra banda o escudo do Reino com a
-letra: _Sebastian. I. Rex Portugal._ Chamou-se esta moeda do Engenhoso,
-por assim se chamar Joaõ Gonçalves, natural de Guimarães, que fez o
-cunho. Ordenou o elle de sorte, que as moedas sahiaõ fundidas de pezo,
-e com hum circulo ao redor para naõ se poderem cercear.[339]
-
-21 _Escudo._ Moeda de ouro com muita liga, que mandou fazer ElRey D.
-Duarte com a valia de 90 reis. ElRey D. Manoel a mandou desfazer.
-
-22 _Espadim._ Houve neste Reino moedas com este mesmo nome de tres
-castas. _Espadins de ouro_ mandou-os lavrar ElRey D. Joaõ II. com o
-valor de 320 reis. Tinha de huma parte o escudo do Reino com a letra:
-_Adjutorium nostrum in nomine Domini_; e do reverso huma espada
-empunhada com a ponta para cima, e em circulo o nome delRey. Em tempo
-delRey D. Manoel valia 500 reis. _Espadins de prata_, que mandou
-abrir ElRey D. Affonso V. com o mesmo cunho que os de ouro, só com
-a differença de ter a ponta da espada voltada para baixo. Chamou-se
-Espadim em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista
-de Fez, como diz Severim.[340] Valiaõ 24 reis. _Espadins de cobre_
-prateados mandou bater ElRey D. Joaõ II. com o valor de quatro reis.
-
-23 _Forte._ Com este nome mandou lavrar ElRey D. Diniz huma moeda de
-prata com o valor de dous vintens, ou quarenta reis; e meyos Fortes,
-que valiaõ hum vintem. Tinha hum, e outro de huma parte o habito de
-Christo com a letra: _Dionysius Rex Portugal. & Algarb._ da outra parte
-as armas do Reino, e a letra: _Ajutorium nostrum in nomine Domini_.
-Houve outros Fortes, e meyos Fortes, que fez bater ElRey D. Fernando em
-preço de 29 reis, que depois abateo a 16.
-
-24 _Frizante._ Foy moeda de prata, que corria no tempo de nossos
-primeiros Reys, mas naõ se sabe de que valor era. A Monarquia Lusitana
-faz mençaõ desta moeda.[341]
-
-25 _Gentil._ ElRey D. Fernando mandou lavrar esta moeda de ouro, mas de
-quatro castas. Havia Gentil de hum ponto, e valia 162 reis: Gentil de
-dous pontos 144 reis: Gentil de tres pontos 126 reis: Gentil de quatro
-pontos 116 reis. Fr. Antonio da Purificaçaõ[342] diz, que o Gentil
-delRey D. Fernando valia 720 reis.
-
-26 _Grave._ Moeda de prata, que mandou bater ElRey D. Fernando do
-tamanho de meyo tostaõ, e valia 21 real. Tinha de huma parte a letra
-_F_, primeira do seu nome, e sobre ella huma coroa dentro em hum
-escudo, e nos lados duas Cruzes, com a letra na orla: _Si Dominus mihi
-adjutor_. No reverso tinha a Cruz de S. Jorge sobre hum escudo rodeado
-de quatro castellos, e o nome do Rey na cercadura.
-
-27 _Indios._ Mandou ElRey D. Manoel no anno de 1499 lavrar esta moeda
-de prata com o valor de 33 reis em memoria do descubrimento da India.
-Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo com o letreiro: _In hoc
-signo vinces_; e da outra parte as armas do Reino com a letra: _Primus
-Emanuel_.
-
-28 _Justo._ Esta moeda era de ouro, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II.
-e valia 600 reis. De huma parte tinha o escudo Real já com as quinas
-direitas sem a Cruz de Aviz, e o nome delRey na cercadura; e no reverso
-tinha a effigie delRey sentado em hum throno com a espada na maõ entre
-dous ramos de palma, e a letra em roda: _Justus ut palma florebit_.
-
-29 _Leal._ Era moeda de prata, que mandou fazer ElRey D. Joaõ II. com
-valor de doze reis. Tinha de huma parte a letra _Leal_ por baixo de
-huma Cruz; e da outra parte o escudo do Reino com o nome delRey na orla.
-
-30 _Livra._ Foy moeda lavrada em varios reinados, e de varias castas,
-donde procede a alteraçaõ de seu valor. A _Livra de ouro_ em tempo
-delRey D. Diniz valia oito vintens: o mesmo valor tinha já no reinado
-delRey D. Affonso III. No tempo delRey D. Joaõ I. valiaõ pouco mais
-de 82 reis. A _Livra de prata_ era de dous generos: _Antigas_, e
-_novas_. Havia livras antigas, por cada huma das quaes se haviaõ de
-pagar setecentas das novas, e assim valia cada huma das antigas 36
-reis: e havia tambem livras antigas, por cada huma das quaes se pagava
-quinhentas das novas, e entaõ valia cada huma 25 reis. A _Livra de
-cobre_ era de tres sortes; porque havia livra de dez soldos, que valiaõ
-tres reis e meyo: livras de dez livras pequenas, e valiaõ meyo real:
-livras de tres livras e meya, que valiaõ real e meyo, e corriaõ até o
-anno de 1407.
-
-31 _Maravedim_, ou _Morabitino_. Foy moeda, que introduziraõ no Reino
-os Mouros Almoravides, ou Morabitos, que significa _Fieis_, segundo o
-mostra Aldrete.[343] Havia maravedim de ouro, que mandou lavrar ElRey
-D. Sancho I. com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte a effigie
-delRey a cavalo com a espada nua na maõ, e pela orladura: _In nomine
-Patris, & Filii, & Spiritus Sancti._ No reverso tinha o escudo Real, e
-o nome delRey em gyro. Os maravedís Mouriscos naõ tinhaõ mais que huns
-caracteres, ou attributos de Deos de huma parte, e da outra, o nome do
-Principe, que os mandara abrir. Houve tambem maravedís de prata, que
-corriaõ com o valor de 27 reis.
-
-32 _Mealha._ Naõ era moeda, que tivesse cunho particular, mas era
-metade da moeda, que chamavaõ _Dinheiro_, e valia meyo ceitil.
-
-33 _Nomeada._ Moeda de prata, que fez lavrar ElRey D. Joaõ I. e seu
-filho ElRey D. Duarte. Naõ se sabe o que valia. Tinha de huma banda a
-Cruz de S. Jorge com a letra: _Dominus adjutor fortis_; e da outra o
-escudo do Reino com o nome delRey na circumferencia.
-
-34 _Patacaõ._ Era moeda de cobre com o valor de dez reis, que mandou
-fazer ElRey D. Joaõ III. Tinha de huma parte o escudo Real coroado
-com o nome delRey, e da outra parte a letra _X_, com a inscripçaõ:
-_Rex Quintusdecimus_. Havia tambem meyos patacões com a letra _V_, que
-valiaõ cinco reis. ElRey D. Sebastiaõ reduzio esta moeda ao valor de
-tres reis.
-
-35 _Peças._ Moeda de ouro, que corria no tempo do Infante D. Pedro,
-Duque de Coimbra. ElRey D. Joaõ II. a mandou desfazer.
-
-36 _Pé-Terra._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Fernando com o
-valor de 216 reis.
-
-37 _Pilarte._ Foy moeda de prata, que lavrou ElRey D. Fernando com o
-valor de treze reis, e dous ceitis. O nome de Pilarte foy posto em
-attençaõ, ou memoria dos pagens dos soldados estrangeiros, que lhe
-levavaõ os capacetes, ou barbudas, a que o Francez chama _Pilartes_.
-
-38 _Portuguez._ ElRey D. Manoel, do ouro, que lhe vinha das Conquistas
-da Asia, fez lavrar humas moedas, que se chamaraõ _Portuguezes_ de 500
-ducados cada huma, e depois mandou lavrar outras, que valiaõ quatro
-mil reis. Destas houve tanta copia, que nas praças naõ se pagava por
-quasi todo o Reino com outra moeda, senaõ com a chamada Portuguezes de
-ouro.[344] Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo, e a letra
-em roda: _In hoc signo vinces_; e da outra o escudo Real coroado com
-as letras: _E. R. P. A. C. U. A. D. G._ que queriaõ dizer: _Emmanuel
-Rex Portugaliæ, Algarb. q. Citra, Ultra Afric. Dommus Guineæ._ Tinha
-outro letreiro por fóra junto à garfila, ou orla: _C. C. N. E. A. P.
-I._ que dizia: _Comercio, Conquista, Navegaçaõ, Ethiopia, Arabia,
-Persia, India._ ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar da mesma
-fórma. ElRey D. Joaõ V. mandou lavrar em Lisboa no anno de 1718
-_Portuguezes de ouro_ de 22 quilates, e com o valor de 19200 cada
-Portuguez, os quaes foraõ sómente para se lançar nos alicerses da Real
-Igreja de Mafra. Tambem ElRey D. Manoel mandou fabricar _Portuguezes de
-prata_ no anno de 1504, e valia cada hum 400 reis. A estes Portuguezes
-depois resuscitou ElRey D. Joaõ IV., e ElRey D. Pedro II. chamando-lhe
-_Cruzados_.
-
-39 _Quatro vintens._ Mandou lavrar esta moeda de prata ElRey D. Joaõ
-III. que de huma parte tem o nome do Rey com coroa, e o numero LXXX. e
-na orla a letra: _Rex Portug. & Algarb._ Da outra parte tem a Cruz de
-S. Jorge com a sabida inscripçaõ: _In hoc signo vinces._
-
-40 _Real._ Esta moeda a mandou lavrar em prata varias vezes ElRey
-D. Joaõ I. sempre com o mesmo valor, mas cada vez de menor pezo. Os
-primeiros valiaõ nove dinheiros, os segundos seis dinheiros. Até o
-tempo delRey D. Manoel corriaõ Reaes de prata com o valor de vinte
-reis, e outros de trinta. ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar
-com o valor de quarenta reis, e com os mesmos cunhos da moeda de quatro
-vintens, mudando o numero 80 em 40. A mesma moeda fez lavrar D. Joaõ
-IV. e he o chamado meyo tostaõ, que hoje corre. Havia Real de cobre
-de varias sortes: huns tinhaõ mistura de estanho, com que ficavaõ
-mais claros, e se chamavaõ _Reaes brancos_. Mandou lavrallos ElRey
-D. Duarte, e D. Affonso V. Os que se lavraraõ antes do anno de 1446
-valiaõ dez ceitis. Havia outros Reaes chamados _Pretos_, por serem de
-cobre puro, e valiaõ pouco mais de hum ceitil. ElRey D. Joaõ II. para
-desterrar tanta confusaõ de Reaes, fez lavrar Real de cobre de seis
-ceitis. O mesmo fizeraõ seus Successores até ElRey D. Joaõ III. Tinhaõ
-de huma parte hum _R_, debaixo de huma coroa, e da outra o escudo do
-Reino com o nome delRey na orla. ElRey D. Sebastiaõ fez lavrar _Meyos
-Reaes_ com a valia de tres ceitis: tinha de huma banda hum _S_ coroado,
-e da outra hum _R_ entre dous pontos.
-
-41 _Sinquinho._ Moeda de prata delRey D. Joaõ II. e D. Manoel: valia
-cinco reis. O delRey D. Manoel tinha de huma parte os cinco escudos do
-Reino em Cruz com as letras: _Emmanuel P. R. & Al._ da outra huma malta
-com a mesma letra. Tambem ElRey D. Joaõ IV. fez lavrar Sinquinhos de
-prata.
-
-42 _Soldo._ Foy moeda das mais antigas do Reino lavrada em ouro, prata,
-e cobre. A de ouro valia oito reales, ou dezaseis vintens: a de prata
-dez reis: a de cobre hum real. Este soldo em tempo delRey D. Joaõ I.
-chamava-se _Moeda-Febre_.
-
-43 _Talento._ Corria esta moeda no governo delRey D. Sancho I. no anno
-de 1188, e valia quatro ducados, ou cruzados, e era de ouro.
-
-44 _Tornezes._ Moeda de prata em tempo delRey D. Pedro I. Tinha de
-huma parte a cabeça delRey com barba comprida, e a letra: _Petrus Rex
-Portugal. & Algarbii_: da outra banda o escudo do Reino, e na orla a
-letra: _Deus adjuva me_. Valia treze reis. ElRey D. Fernando tambem
-lavrou _Tornezes_, que valiaõ oito soldos, ou quatorze reis.
-
-45 _Tostaõ._ ElRey D. Manoel mandou bater esta moeda em ouro, e em
-prata. A de ouro era o quarto de ouro dos _Portuguezes_: a de prata
-valia cem reis. Tinha de hum lado a Cruz da Ordem de Christo com a
-letra: _In hoc signo vinces_; e do outro as armas do Reino com coroa, e
-o nome do Rey na orladura. Mandou lavrar tambem _Meyos tostões_ com os
-mesmos cunhos, e letras, e valiaõ cincoenta reis.
-
-46 _S. Vicente._ Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Joaõ III. com
-o valor de mil reis. Tinha de huma parte a imagem de S. Vicente com
-huma náo na maõ esquerda, e hum ramo de palma na direita com a letra:
-_Zelator Fidei usque ad mortem_: da outra parte o escudo Real com a
-letra: _Joan. III. Rex Portug. & Algarb._
-
-47 _Vintem._ Moeda de prata, que teve principio no tempo delRey D.
-Affonso V. e todos os mais Reys continuaraõ a mandar lavrar, ainda que
-com a fórma, e figura mudada, mas sempre com o valor de vinte reis.
-Em tempo dos Reys Filippes houve a moeda de meyo vintem em prata, que
-valia dez reis.
-
- _Dinheiro, que presentemente corre._
-
- _Em ouro._ _Valor._ _Pezo._
-
- Dobraõ de 24U000 15 oitavas.
- Meyo dobraõ de 12U800 1 onça.
- Dobra de 4 escudos 6U400 4 oitavas.
- Meya dobra de 2 esc. 3U200 2 oitavas.
- Moeda de ouro de 4U800 3 oitavas.
- Meya moeda 2U400 oitava e meya.
- Escudo 1U600 1 oitava.
- Quarto de moeda 1U200 54 grãos.
- Meyo escudo U800 meya oitava.
- Cruzado novo U480 21 grãos.
- Quarto de escudo U400 18 grãos.
-
- _Em prata._ _Valor._ _Pezo._
-
- Cruzado novo 480 4 oitavas 59 grãos.
- Doze vintens 240 2 oitavas 29 grãos.
- Seis vintens 120 1 oitava 14 grãos.
- Tostaõ 100 1 oitava.
- Tres vintens 60 43 grãos.
- Meyo tostaõ 50 36 grãos.
- Vintem 20 17 grãos.
-
- _Em cobre._ _Valor._
-
- Moeda de 10 reis.
- Moeda de 5 reis.
- Moeda de 3 reis.
- Moeda de 1 real e meyo.
-
-Por Ley do anno de 1732 prohibio ElRey D. Joaõ V. que se lavrassem
-Dobrões de doze mil e oitocentos, Moedas de quatro mil e oitocentos,
-nem outras, que excedaõ o valor de seis mil e quatrocentos reis; e que
-em todas, assim nas que corriaõ, como nas que se lavrassem, se pozesse
-a sarrilha, que tem as de prata.
-
- _Noticia, do valor, que tem tido o marco de ouro, e prata
- neste Reino em varios governos._
-
- _Rey._ _Metal._ _Valor._
-
- D. Sancho I. Ouro 6U480.
- D. Pedro I. Idem 7U380.
- Idem Prata U945.
- D. Fernando Idem U900.
- D. Joaõ I. Idem 2U600.
- D. Affonso V. Idem 1U260.
- D. Manoel Idem 2U280.
- D. Joaõ III. Ouro 30U000.
- Idem Prata 2U600.
- D. Sebastiaõ Idem 2U400.
- Idem Idem 2U680.
- D. Henrique Ouro 40U000.
- Idem Prata 4U000.
- D. Joaõ IV. Ouro 42U240.
- Idem Idem 51U200.
- Idem Idem 55U680.
- Idem Idem 80U000.
- Idem Prata 3U600.
- Idem Idem 4U000.
- Idem Idem 5U000.
- D. Affonso VI. Idem 4U400.
- Idem Idem 4U600.
- D. Pedro II. Ouro 85U312.
- Idem Idem 96U000.
- Idem Prata 5U600.
- D. Joaõ V. Ouro 96U000.
- Idem Prata 5U600.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[326] Manoel Severim de Faria Notic. de Portug. disc. 4. §. 2.
-
-[327] Idem ibid Far. Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 11. Argot.
-Memor. do Arcebisp. de Brag. tom. 3. no Supplem. ao liv. 4. pag. LVII.
-Sousa na Histor. Geneal. tom. 4. p. 107.
-
-[328] Argot. ut supr. pag. LX. Monarq. Lusit. l. 6. c. 19. 21. e 22.
-
-[329] Chronic. delRey D. Fernand. cap. 58.
-
-[330] Fr. Anton. da Purificaç. Chronic. de S. Agost. part. 2 liv. 7.
-tit. 6. §. 6.
-
-[331] Monarq. Lusitan. liv. 10. cap. 7.
-
-[332] Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 4. § 27. Cunha, Histor.
-Eccl. de Lisb. tom. 1. p. 2. cap. 20. Far. na Europ. Port. tom. 3 part.
-4. cap. 11. n 10.
-
-[333] Brandaõ na Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 23. part. 6. Maced. Eva,
-c Ave part. 2. cap. 15. n. 27.
-
-[334] Fr. Anton. da Purific. allegad. e o illustr. Cunha na Histor.
-Eccles. de Lisb. allegad. Ordenaç. delRey D. Man. liv. 4. tit. 1.
-
-[335] Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. II. n. 12.
-
-[336] Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. tom. 1. part. 2. cap. 20 n. 10.
-
-[337] Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. part. 2. cap. 20. n. 13.
-
-[338] Fr. Manoel dos Sant. Histor. Sebast. p. 488.
-
-[339] Barbos, Remiss. à Ord. tit. 21. liv. 4. p. 30.
-
-[340] Manoel Severim de Far. Notic. de Portug. disc. 4. §. 29.
-
-[341] Monarq. Lusit. p. 3. in Append. n. 16.
-
-[342] Purific. Chronic. de S. Agost. allegada.
-
-[343] Aldret. no Thesouro da lingua Castelh. vide etiam Bochart. in
-Geograf. Sacra no principio da sua vida.
-
-[344] Far. no Comm. das Lusiad. de Cam. cant. 1. p. 115.
-
-
-
-
- CAPITULO XIII.
-
-_Da Lingua Portugueza._
-
-
-1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou
-Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes
-multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou
-Andaluzia;[345] porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade.
-Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,[346] outros a Caldaica, ou
-alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira
-a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua
-primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha.
-
-2 Filippe de la Gandara julga[347] que era idioma particular, e
-distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que
-usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de
-Brito,[348] que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o
-tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal
-lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula,
-porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto
-viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera
-Plinio.[349]
-
-3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a
-estas partes muitas gentes de outras nações;[350] e como as linguas
-entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ
-os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que
-ainda conservamos, e retemos.[351] Depois vieraõ os Romanos, e para
-expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que
-duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar.
-
-4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e
-espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;[352] e
-confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e
-estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e
-guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz
-a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes
-alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.[353]
-
-5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos,
-Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia,
-França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da
-pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto
-Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em
-nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.[354] Verdade he que os
-Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter
-em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos;
-porém como era gente mal disciplinada, misturou de tal fórma hum
-com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e
-impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos
-fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que
-introduzio o Bispo Ulfilas,[355] especialmente nos livros sagrados, e
-Ecclesiasticos.
-
-6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e
-perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso
-Author muito erudito[356] diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando
-livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os
-Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se
-conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio
-Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar
-que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto
-muitas dicções, que principiaõ por _al_, e _xa_, e as que finalizaõ em
-_z_, como observou o insigne Joaõ de Barros?[357]
-
-7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco
-dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza
-Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo
-complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio
-o discreto Bembo,[358] tratando da alteraçaõ, que tinha havido na
-lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que
-governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como
-o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente
-sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal
-matiz, disse o Padre Joaõ de Mariana,[359] que a lingua Portugueza era
-mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas
-em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma,
-que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos
-compatriotas.[360]
-
-8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria[361]
-que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse
-respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo,
-e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita
-differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa[362] transcreve huma
-carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha
-Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente
-o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas,
-e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio
-Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo
-resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza.
-
-9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos
-aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre
-as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de
-palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que
-saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se
-encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a
-unica palavra _Saudade_ sabe exprimir com muito mayor força, e energia
-a constancia do amor ausente; e com a voz _Magoa_ a penetrante dor do
-sentimento. Para fallar em todo o genero de assumptos tem a extensaõ
-necessaria de vocabulos, e modos abundantes: por isso disse bem o Tito
-Livio Portuguez Joaõ de Barros,[363] que se Aristoteles fora nosso
-natural, naõ fora buscar lingua emprestada para escrever na Filosofia,
-e em todas outras materias, de que tratou; e se lhe faltara algum termo
-succinto, fizera o que vemos em muitas partes aos presentes, que quando
-carecem de termos Theologaes os Theologos para entendimento real da
-cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos, Mathematicos, Juristas, e
-Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na introducçaõ de vozes novas
-naõ só he licito, mas preciso.
-
-10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido,
-e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora
-temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste
-subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos
-deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua
-Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author[364] que a Portugueza
-he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se
-nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a
-gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais
-vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ
-parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,[365] mas muito mais
-semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.[366] E assim
-como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras:
-_Lascarim_, _Chatino_, _Zumbaya_, e outras muitas, que nos saõ já
-domesticas, da mesma sorte tiveramos conquistado inteiramente a lingua
-Latina, cujos vocabulos ainda assim tem degenerado taõ pouco no idioma
-Portuguez, que sem violencia podem nelle comporse muitos discursos com
-a mesma conformidade com a Latina,[367] o que naõ succederá facilmente
-às outras locuções, que se prezaõ de serem seus dialectos.
-
-11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se
-poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave;
-porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas,
-como saõ: _d_, _n_, _t_, _x_, assim como ouvimos a muitas linguas da
-Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante de muitos Authores
-graves Castelhanos,[368] que affirmaõ haver na lingua Portugueza esta
-mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella aptissima, e notoria
-facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e fallaõ com cadencia
-todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o que naõ he taõ
-factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ com a sua
-verdadeira pronunciaçaõ.[369]
-
-12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso
-dipthongo _aõ_, corruptamente deduzido do _om_ Francez, e Gallego, em
-que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as dicções, que hoje
-terminamos em _aõ_, excepto os da Provincia do Minho, que pela mayor
-visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso. A quem se faz mais difficil
-articular este dipthongo, he à gente Castelhana, porque tem o costume,
-de finalizar com a letra _n_ quasi todas as palavras, que nós acabamos
-em _m_. Este embaraço pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de
-Mello da Fonseca no seu _Antidoto da lingua Portugueza_, cujo arbitrio
-naõ foy bem aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque
-este proprio mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito
-com o _am_ dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de
-verbos, e com tudo a defende Quintiliano;[370] nem deixa de parecer
-grave, e suave a cadencia Latina com estas terminações, que com
-mayor facilidade suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte
-advertimos[371] para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza.
-
-13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto,
-e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com
-especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas
-Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos
-por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua
-para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,[372]
-allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: _Si
-alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta
-los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian,
-commummente por la mayor parte eran en aquella lengua_. De maneira,
-que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal
-a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem
-Provençaes,[373] assim na Hespanha era reputada mais propria para a
-Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes,
-por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo
-porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas
-publicas, de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no
-idioma Portuguez.[374]
-
-14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem
-he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que
-se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para
-que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda
-das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já
-mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras
-Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ
-entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que
-as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa
-pureza.
-
-15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P.
-Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia
-emendar,) disse onde imprimiraõ _Devoçaõ_, lea-se _Devaçaõ_; mas o
-primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem mostrado
-nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra _Homem_,
-e outras assim semelhantes se escrevaõ sem _H_, como os Italianos. O
-melhor he seguir a mediania, como fazem os doutos, cujo exemplo he
-só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, e estravagancia, assim
-como fez certo Author moderno, (posto que engenhoso) em huma nova
-orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous _rr_ no principio
-da dicçaõ,[375] contra toda a norma, e costume dos eruditos. Outras
-muitas propriedades, e predicados da nossa lingua observou curiosamente
-o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no discurso, que temos
-allegado.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[345] Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5.
-
-[346] Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin. Siculo,
-Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio Dextro p.
-103.
-
-[347] Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5.
-
-[348] Monarq. Lusit. ut supr.
-
-[349] Plin. lib. 3. cap. 1.
-
-[350] Strab. lib. 1. & lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11.
-
-[351] Resend. lib. 1. Antiq. e nas Notas ao Poem. de S. Vicent. liv. 2.
-not. 44. Far na Europ. Port. tom. 3. part 4. cap. 9. Matut. ut sup. §.
-5. Joaõ Franco Barreto na Ortogr. Port. Luiz Martinho nas Antiguid. de
-Lisb. liv. 1. c. 13.
-
-[352] Resend. lib. 3. Antiquit. _Abiere tandem in Romanorum mores
-Lusitani, & civilitatem, linguamque Latinam, sicut & Turdetani
-accepere._ Aldret. nas Antiguid. de Hesp. liv. 1. cap. 11.
-
-[353] Manoel Severim de Faria Notic. de Port. disc. 5. §. 2.
-
-[354] Kirquer de Turri Babel lib 3. p. 131. _Ex adventu Gothorum,
-Alanorum, Vandalorum ingentem corruptionem passa, quaternas alias
-peperit, Italicam, Gallicam, Hispanicam, Lusitanicam._
-
-[355] Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 9. cap. 18. Yañes liv. 2.
-p. 644. de la Era, y Fechas de Hesp.
-
-[356] Martinh. de Mendoç. Disc. Philolog. contr. P. Feijó impress. em
-Madrid ann. 1727.
-
-[357] Joaõ de Barr. Dialog. do louv. da nossa linguag. p. 56.
-
-[358] Bemb. nas Pros. liv. 1. p. 16. vers.
-
-[359] Marian. Histor. de Hesp. lib. 1. cap. 5.
-
-[360] Veja-se a Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9. e no
-Comm. das Rim. de Cam. tom. 4. part 2. pag. 81. Brit. Chronic. de
-Cister liv. 6. cap. 1.
-
-[361] Idem Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9.
-
-[362] Sousa no Agiolog. Lusit. tom. 4. pag. 58. Veja-se o Apparat. da
-Histor. Geneal. do mesmo Author tom. 1. p. 208. e a Leitaõ Ferreira nas
-Noticias Chronolog. n. 574.
-
-[363] Joaõ de Barr. Dialog ut supr. pag. 55.
-
-[364] Gregor. Lop. Madeira no Disc. del monte Santo de Granad. part. 2.
-cap. 19. p. 70.
-
-[365] Camões Cant. 1. Lusiad. est. 33.
-
-[366] Kirquer de Turri Babel lib. 3. cap. 1. p. 131.
-
-[367] Joaõ de Barros, Manoel de Far. Joaõ Franco Barreto já allegados.
-Manoel Severim de Far. Disc. var. disc. 2. Macedo nas Flores de
-Hespanh. cap 22 excel. 7.
-
-[368] Marian. Histor. de Hesp. liv. 1. cap. 5. Lope da Vega na Descr.
-da Tapada, e na Dorot. act. 2. scen. 2. pag. 40.
-
-[369] Veja-se a Faria no Prologo do tom. 1. da Europ. Port. e a D.
-Bernarda Ferreira na España libertada cant. 1. est. 6.
-
-[370] Quintil. lib. 9. cap. ult.
-
-[371] No Espelho da Eloquencia §.7. n.4.
-
-[372] Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273.
-
-[373] Bembo nas Pros. pag. 10.
-
-[374] Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na Monarq.
-Port. liv. 16. cap. 3.
-
-[375] Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier de Oliv.
-Cart. 7. p. 54.
-
-
-
-
- CAPITULO XIV.
-
-_Do Genio, e costumes Portuguezes._
-
-
-1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no
-assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e
-inclinações das gentes de qualquer Paiz:[376] por isso depois de ter
-dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras
-especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso
-intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus
-habitadores.
-
-2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua
-primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por
-agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos,
-e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e
-intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem
-elles nossos progenitores.[377] Com a melhor cultura, e Religiaõ se
-melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada
-de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do
-tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço,
-espirito, valentia, e gloria militar.
-
-3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ
-os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os
-antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida nos
-Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo
-affirmou,[378] que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes
-os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio,
-Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos,
-e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,[379] cujos testimunhos,
-e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor
-grandeza, e indubitavel.
-
-4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor,
-que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso
-da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das
-acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima
-o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este
-brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para
-o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais
-de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,[380]
-excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas
-tanto souberaõ engrandecer.
-
-5 A _Lealdade a seus Principes soberanos_ he outra admiravel prenda,
-de que só os corações Portuguezes podem blazonar com grande
-singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ
-salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos
-para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já
-mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do
-doutissimo Thomás Bosio,[381] natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de
-outros gravissimos Authores.[382] Ardem os Portuguezes no amor do seu
-Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o
-receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.[383]
-
-6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar,
-e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa
-constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio
-della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e
-padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos;
-de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que
-disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta[384] ao Rey de
-Melinde:
-
- _Crês tu que se este nosso ajuntamento
- De Soldados naõ fora Lusitano,
- Que durara elle tanto obediente
- Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?
- Crês tu que já naõ foraõ levantados
- Contra seu Capitaõ, se os resistira,
- Fazendo-se piratas obrigados
- De desesperaçaõ, de fome, de ira?
- Grandemente por certo estaõ provados,
- Pois que nenhum trabalho grande os tira
- Daquella Portugueza alta excellencia
- De lealdade firme, e obediencia._
-
-Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave
-authoridade.[385] E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes
-de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos,
-e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy
-bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar
-o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo
-servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo
-taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na
-correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional,
-se observa sempre inviolavel.[386]
-
-7 O heroico titulo de _Conquistador_ he huma das excellencias
-felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez.
-Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os
-Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com
-inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o
-brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes
-da sua execuçaõ residia no sublime peito, e mente Regia de nossos
-antigos Principes o mesmo glorioso projecto.[387] Por este meyo se
-vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos;
-fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente
-propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos
-remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas,
-com outras muitas Ilhas consideraveis,[388] naõ havendo no mundo
-clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem
-triunfantes.[389]
-
-8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o
-genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ,
-e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa
-erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles
-foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos
-muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse
-livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas
-terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e
-Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé
-Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos do
-Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos
-Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:[390] elles saõ
-finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que
-o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e
-piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he
-preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.
-
-9 Nas _Sciencias_ supposto que antigamente floreceraõ nellas alguns
-Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,[391]
-com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos
-mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa
-capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das
-armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas,
-e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a
-tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes
-valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares,
-Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das
-sciencias, como lamentou Camões,[392] e Francisco de Sá de Miranda:[393]
-
- _Dizem dos nossos passados
- Que os mais naõ sabiaõ ler,
- Eraõ bons, eraõ ousados,
- Eu naõ gabo o naõ saber._
-
-10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se
-conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis,
-nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares,
-porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que
-instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey
-D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde
-continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando
-infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou
-Camões na. 97. do 3.
-
- _Fez primeiro em Coimbra exercitarse
- O valeroso officio de Minerva,
- E de Helicona as Musas fez passarse
- A pizar do Mondego a fertil herva.
- Quanto póde de Athenas desejarse,
- Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:
- Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
- De Baccaro, e do sempre verde louro._
-
-11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais
-evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em
-toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados.
-Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas
-utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o
-uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ
-primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias
-descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito,
-a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo, e Joseph, Medicos delRey
-D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual
-abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique
-inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ
-nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel
-de Faria.[394]
-
-12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas
-estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais
-se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e
-nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece
-que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia
-mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela
-precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles
-povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da
-Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e
-Camões.[395]
-
-13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente
-Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que
-gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas
-ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ
-fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados
-por vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian[396]
-disse: _Que serian famosos, si non fuessen fumosos_; porém naõ póde
-deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o
-eruditissimo Feijó,[397] toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza
-naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade do seu
-espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos,
-he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ,
-que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu
-patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo
-com maõ generosa, e liberal. _Para mi tengo colegido que los Nobles de
-Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que dizen_:
-disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.
-
-14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros[398] por naçaõ
-extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só
-estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora
-em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da
-honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que
-nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos
-não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura,
-brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras
-nos introduziraõ;[399] porém este conceito naõ se compadece com o que
-ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos
-fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com
-aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem
-os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos
-nossos Poetas antigos,[400] dizendo:
-
- _Se hum estranho à terra vem,
- Dizeis todos em geral:
- Nunca aqui chegou ninguem;
- E do vosso natural
- Nada vos parece bem._
-
- _Em fim que por natureza,
- E constelaçaõ do clima,
- Esta naçaõ Portugueza
- O nada estrangeiro estima,
- O muito dos seuss despreza._
-
-Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco
-Rodrigues Lobo no fim da _Egloga 1._
-
- _Ouvir qualquer estrangeiro
- Fallar de seus naturaes,
- Dá delles taõ bons sinaes,
- Que o naõ tem por verdadeiro.
- Falem-vos n’um natural,
- Dizeis faltas que naõ tem;
- Mente o outro para bem,
- Nós mentimos para mal._
-
-15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos
-proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos
-nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e
-mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D.
-Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos,
-que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D.
-Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de
-traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de
-ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.[401] Neste mesmo
-reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar
-as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ
-a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de
-Miranda.[402] Concorreo depois a communicaçaõ das gentes de outros
-paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos
-seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse,
-e deplorou Simaõ Machado.[403]
-
- _Vellos-heis, disse, à Franceza,
- Depois disso à Castelhana,
- Hoje andaõ à Bolonheza,
- Á manhã à Sevilhana,
- E já nunca à Portugueza._
-
-Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.
-
- _Por isso qualquer profano_
- Nos toma para entremez,
- Porque fazemos cada anno
- Té no traje Portuguez
- Mais mudanças que hum cigano.
- Naõ tomamos isto em grosso,
- Vestimos por tantos modos
- Cada hora, que dizer posso,
- Que naõ temos traje nosso,
- Porque o tomamos de todos._
-
-16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e
-na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque
-dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande
-rebuço às pessoas mal intencionadas;[404] porém a boa commodidade, que
-este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde
-justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que
-se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem
-a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ
-a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar
-esta introducçaõ.
-
- _Vereis mancebinhos de arte
- Com espada em talabarte,
- Naõ ha mais Italiano, etc._
-
-Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o
-adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas
-compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ
-IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D.
-Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ
-domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste
-genero de compostura ha cada dia differentes novidades.
-
-17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente
-conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em
-certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo:
-_Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e essa
-parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa natureza
-que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli as gentes
-dessas qualidades._[405] Derretidos de amor nos chamaõ os Castelhanos;
-mas este affecto foy, e he sempre exercitado por aquelle teor, e modo,
-que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções decorosamente galantes.
-As venerações, e cultos do amor candido saõ taõ antigos em Portugal,
-que já em tempo dos Cartaginezes havia templo em Villa Viçosa dedicado
-a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e chamavaõ _Endovelico_,
-hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os seus sacrificios, offerecendo
-no principio de cada mez por victima hum cordeiro branco,[406] para
-mostrarem o sincero, e racionavel exercicio da mais poderosa paixaõ da
-alma. Daqui se infere, que na chamma do amor Portuguez naõ ha fumo de
-torpeza: por isso Valerio Maximo reprehendeo asperamente a Q. Metelo
-Pio por delinquir nos excessos de Venus dentro da Provincia Lusitana,
-que só amava os furores de Marte.[407] Assim o deraõ a entender tambem
-aquelles Cavalleiros da Ordem Militar dos Namorados, que na celebre
-batalha de Algibarrota obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta
-contemplaçaõ das suas Damas;[408] e por desafronta de outras passaraõ
-a Londres no anno de 1390 os doze celebrados Portuguezes, que com
-gloria, e lustre da patria ficaraõ vencedores.[409] Foraõ finalmente
-os Palacios dos Reys sempre escolas universaes da fina galantaria.
-Celebravaõ-se saráos, e festins entre Damas, e galantes nas vodas,
-nascimentos de Principes, e vindas de Embaixadores, e a este exemplo o
-faziaõ os particulares com toda a modestia. Hoje está muy sincopada,
-ou, para melhor dizer, extincta a galantaria;[410] donde o grande Sá de
-Miranda[411] dizia já no seu tempo:
-
- _Traspozeraõ os amores,
- E deixaraõ o Paço às cegas._
-
-18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes
-mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade,
-e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os
-estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente
-se admiraõ, e estranhaõ. As mulheres civis raras vezes sahem de
-casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ
-acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta,
-mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial
-genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente
-usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje
-todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na
-formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de
-todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ
-vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada
-desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns
-unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro;
-porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito
-a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de
-ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello,
-e olhos pretos com graça, e viveza.
-
-19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho
-naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como
-violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas
-para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos,
-adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de
-linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos
-annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva,
-quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho,
-chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua
-companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma
-moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas
-della, e fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ
-fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia
-saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas
-varas de panno para o enxoval da noiva.[412] Desta sorte ajudaõ huns
-aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes
-festas, e banquetes.
-
-20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os
-moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339,
-dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos,
-e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador)
-Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com
-toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e
-outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do
-acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que
-dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo
-que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta
-de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na _Monarquia
-Lusitana liv. 18. cap. 30._ accrescentando: que este costume que agora
-pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ de
-ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno cheyo
-de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella boa
-idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando
-nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.
-
-21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade
-dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado,
-e de seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo
-ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa
-honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se
-recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote
-proporcionado aos bens, que lhe competem.
-
-22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos,
-quando vieraõ a Lisboa,[413] introduziraõ o da altenaria, que se
-pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente
-Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais
-proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D.
-Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos
-em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza
-dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da
-espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo
-as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da
-péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes
-passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas
-publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro
-aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo.
-
-23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o
-combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem
-do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem
-com muito apparato, e magnificencia.[414] Esta he só a occasiaõ em
-que os estrangeiros dizem[415] que podem à sua vontade ver as Damas
-Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites; mas todavia he este
-genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o
-horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das
-suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes
-fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias,
-e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a
-cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes.
-
-24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje
-anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir
-o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo
-versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros
-laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de
-Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ _Viola_, he propriamente
-Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos,
-a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com
-aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto
-da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre
-huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que
-convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he
-com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando
-grandeza, vaidade, e desperdicio.
-
-25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum
-grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque
-estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a
-Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns
-sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu
-genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores
-nossos.
-
-Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.[416]
-
-Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento
-do seu proprio.[417]
-
-Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o
-seu companheiro.[418]
-
-He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira
-gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem
-alguma, que ver a outrem com vantagem.[419]
-
-Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e
-todos nada para alguem.[420]
-
-Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer
-cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba.
-
-Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos
-tormentos.
-
-Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna.
-
-Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente
-Portugueza.
-
-A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes
-substituio a adoraçaõ pelo decoro.
-
-Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania.
-
-Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos,
-senaõ à grandeza dos corações.
-
-Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza.
-
-Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao
-espirito o que outras Nações à copia.
-
-A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da
-fama, que de sujeita a seus favores.
-
-A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela
-ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ.
-
-Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles.
-
-Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito.
-
-Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a
-affabilidade dos Principes.
-
-Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera
-insoportaveis.
-
-As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas
-nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres.
-
-Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada,
-fiando vidas assim como linho.
-
-Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que
-todos.
-
-He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que
-luzaõ os que nascem nella.
-
-He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir,
-tragallo logo, para que naõ luza.
-
-Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ
-achou fundo com o entendimento.
-
-Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais
-huma pedra à fabrica da Igreja.
-
-Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o
-escudo.
-
-Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para
-trazerem no nome a luz do mundo.
-
-Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para
-outros.
-
-O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada,
-onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento.
-
-Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado.
-
-A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer.
-
-Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança
-de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos
-sem suspeita aos Authores abaixo citados,[421] e outros, que allega
-Hoffman,[422] porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes
-o grande Camões em hum dos seus Cantos.
-
- _Por mais que da fortuna andem as rodas
- Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa)
- Honra, valor, e fama gloriosa._
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[376] Bentivoglio tom. 4. Relac. p. 86.
-
-[377] Resend. liv. 1. de Antiquit. _Neque tunc quidem malos, neque modo
-nobis erubescendos._
-
-[378] Diodor. Sicul. lib. 6. cap 9. e Boem. de morib. gent. lib. 3. cap
-25. e Fern. Nun. no Commento à Copla 48. de Juan de Mena.
-
-[379] Justin. lib. 44. Bos. lib. 5. cap 23. e outros apud Maced.
-nas Flor. de Hesp. cap. 14. per totum Justo Lipsio lib. 5. Epist.
-66. Famian. Strad. de bel. Belgico lib 4. pag. mihi 188. Boter. nas
-Relaç. p. 2. liv. 4. p. 93. e 101. Joaõ Bautista Moreli na Reducion, y
-Restaur. de Port. p. 15. e 183. Garibay tom. 4. liv. 35. cap. 16. Fr.
-Anton. de S. Roman. Histor. da India liv. 1. cap. 16. Sandoval Histor.
-de Carl. V. part. 2. liv. 22. §. 4. Marian. Hist de Hesp. tom. 1. liv.
-10. cap. 13. Lope da Vega na Arcad. liv. 3. p. 109. Dos nossos veja-se
-a Gaspar Estaço nas Antig. de Port cap. 74. Monarq. Lusit. tom. 3. liv.
-10. cap. 15. Bento Pereira na Pallas togata, & armata clas. 4. p. 319.
-Fr. Francisc. de Maced. no Propugn. Lusit. part. 1. cap. 6. p. 146.
-Far. nos Comm. das Lusiad. p. 245. Fr. Manoel Hom. no Memor. das arm.
-cap. 37.
-
-[380] Cam. Cant. 1. est. 11.
-
-[381] Bosio tom. 1. de Signis Eccles. Dei cap. 1. lib 8 _Nulla natio ab
-orbe condito præter Lusitanicam reperitur, quæ per tot sæcula civilibus
-bellis minùs adversùs Reges suos fuerit commota. Imò nunquam commota
-adversùs Reges communi decreto constitutos... Hanc laudem deberi
-Lusitanica genti, ut Regum suorum studiosissima fuerit... Catholicis
-hoc Lusitanis ab orbis exordio divinitùs est concessum, ut nunquam
-Reges suos communi decreto constitutos armis petiverint._
-
-[382] Barr. decad. 4. liv. 1. cap. 6. Duart. Nun. na Vida delRey D.
-Sancho II. e na Descripç de Port. cap. 85. Monarq. Lusit. liv. 1. cap.
-20. Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 15. n. 2.
-
-[383] Cam. cant. 10. est. 148.
-
-[384] Idem cant. 5. est. 71. e 82. das Lusiad.
-
-[385] Franc. de Monçon Espejo de Princip. lib. 1. cap. 89. Zurita tom
-5. liv. 3. cap 30. Gil Gonçalv. d’Avila Grandez. de Madr. liv. 4.
-Marian. Histor. de Hespanh tom. 1. liv. 10. cap. 13. e liv. 12. cap. 4.
-Joaõ Baptista Moreli na Reducion, y Restaur. de Port. pag. 39.
-
-[386] Veja-se a Macedo nas Flores de Hespanh. cap. 13. per totum.
-Monarq. Lusitan. part. 4. pag. 165. Miguel Leit. nas Miscel. p. 47.
-
-[387] Cam. cant 8. est. 70.
-
-[388] Bos. de Sign. Eccl. tom. 1. lib. 8. sign 32. cap. 1. n 2. 3. 4.
-_Nulla unquam gens, ex quo mundus est productus, tot maria transmitit,
-ac tàm longè dissitas terras obivit, ut Lusitanica.... Nulla unquam
-gens ab humani generis exordio in tot, ac tàm longè positis oris
-sedes fixit, coloniasque deduxit, ut gens Lusitanica. Videbatur hoc
-esse Romanorum, vel etiam Macedonum, Phœnicumque: sed his proculdubiò
-Lusitani superiores. Romani namque Colonias nullibi posuerunt, nisi
-intra Imperii sui confinia, quæ non protendebantur ultra gradus
-nonaginta ab Occidente in Orientem; Lusitanorum verò sunt ultra gradus
-250. Nulla unquam natio tàm remota regna, terrasque in suam potestatem
-redigit, ut Lusitanica. Plures quidem plura, sed non adeo longinqua.
-Igitur Lusitani non modò remotissimas oras adierunt, & in hoc omnibus
-præcellunt, sed et in iis domos posuerunt, amplius etiam subegerunt
-imperio suo._
-
-[389] Bucanan. e Scaliger. apud Freit. de Just. Imper. pag. 29. 82. e
-83. Maced no Olisip. p. 24. est. 60. Cam. cant. 1. est. 8. e cant. 7.
-est. 14.
-
-[390] Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 18. n. 12. 13. e 14. Bosio de
-Sign. Eccles. tom. 1. lib. 4. cap 2. pag. mihi 245. _Toti Lusitanicæ
-genti debetur hæc laus, ut nobis ad remotissimas oras, & antiquis
-invias, facillimus, ac tutus fuerit aditus apertus, ita ut Christiana
-in amplissimis regionibus religio longè, latèque potuerit disseminari._
-Aubert. Miræus in Politica Ecclesiast. liv. 2. cap. 15. _Lusitanis
-itaque in Indiam commigrantibus, & Imperio latè propagato, Christi
-cultus, ac reverentia per vastissimum illum Asia tractum sese erigere
-cœpit._ Gerard Mercat. in Tabula Lusit. Marian. tom. 1. liv. 10. cap.
-13. Joaõ Pinto Ribeiro, Desengano ao parecer enganoso Gil Gonçalv.
-d’Avil. Grandez. de Madrid: _Siendo(los Portuguezes) los primeros
-hombres, que seminaron en el Indo la semilla de la palabra Divina,
-aumentada con el riego de su sangre, haziendo se mas gloriosos con las
-palmas del martyrio._
-
-[391] Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 8.
-
-[392] Cam. est. 95. do 5.
-
-[393] Sá de Miranda na epist. 4.
-
-[394] Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 8. e no Comm. do Cant
-5. de Cam. est. 25. e Joaõ de Barr. Decad 1. liv 4. cap. 2.
-
-[395] Idem ibid. liv. 3. cap. 5. Camões Cant. 5. est. 77.
-
-[396] Gracian part 3. do Criticon cris. 8
-
-[397] Feijó tom. 6. do Theatr. Critic. disc. 3. §. 4. n. 6.
-
-[398] Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. pag. 86. Gracian. no Critic.
-ibid.
-
-[399] D. Franc. Man. na Visita das Font. pag. 218.
-
-[400] Simaõ Machad. na. Comed. de Alfeo p. 72. Veja-se tambem a Man.
-de Far. na Font. de Agan. part. 3. Ode 15. est. 11. Franc. Rod. Lobo
-Eglog. 1.
-
-[401] Faria no Comm. das Lusiad. Cant. 2. est. 97.
-
-[402] Idem nos Com. das Rim. de Cam. Eglog. 1. est. 2. Francisc. Nun.
-de Velasco no Dialog. 11. Sá de Mirand. cart. 2.
-
-[403] Simaõ Machado na Comed. de Alfeo part. 1.
-
-[404] Description de la Ville de Lisbone pag. 92.
-
-[405] Sor. Mar. de la Antigual. 12. cap. 13.
-
-[406] Monarq. Lusit. part. 1. liv. 2. cap. 11.
-
-[407] Valer. Maxim. lib. 9. cap 1. n. 5. _En ubi ista? Non in Græcia,
-neque in Asia, quarum luxuria severitas ipsa corrumpi poterat; sed
-in horrida, et bellicosa Provincia, cum præsertim acerrimus hostis
-Sertorius Romanorum exercituum oculos Lusitanis telis perstringeret._
-
-[408] Fr. Jacinto de Deos no Escudo dos Cavall. §. 59.
-
-[409] Cam. Lusiad. cap. 6. est. 43. & seq. e seu Commentador Manoel de
-Faria tom. 2. pag. 113.
-
-[410] D. Franc. de Port. na Arte de Galantaria, e D. Francisc. Man. na
-Visit. das Fontes p. 279.
-
-[411] Sá de Miranda cart. 2. est. 76.
-
-[412] Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho cap. 9.
-
-[413] Figueiroa na Plaça Univ. disc. 12. §. 2. n. 3.
-
-[414] Veja-se a Blauteau no Vocab. verb. _Tourear_, e a Colmenar. nas
-Delicias de Portug. pag. 857.
-
-[415] Memoires pour un Voyageur tom. 2. p. 131.
-
-[416] Far. tom. 3 da Asia p 1. c. 1. n. 15.
-
-[417] Ibid. tom. 1. c. 5. parr. 2.
-
-[418] Ibid. cap. 7.
-
-[419] Idem tom. 1. da Asia part. 4. c. 1. n. 2
-
-[420] Ibid. part. 2. c. 2.
-
-[421] Justo Lipsio na epist. 96. do liv. 5. Andr. Scot. na Bibliotheca
-Hispanica tom. 2. clas. 9. & tom. 3. clas. 2. Bosio tom. 3. de Sign.
-Eccles. lib. 8. cap. 1. Cæsar de Bello Gallico lib. 3. Fr. Jeronym.
-Rom. Republic. do mund. liv. 4. cap. 18. Magin. in nova Geograp. §.
-_Portugalenses_.
-
-[422] Hoffman. Diccion. verb. _Portugallia_. Veja-se tambem a Mons.
-de la Hontan, Mervelleux, Davity, Maffeu Historia da India, Sanson,
-Moreri, Coronelli, e outros muitos, que por brevidade deixo de allegar.
-
-
-
-
- FIM DA PRIMEIRA PARTE.
-
-
-
-
- MAPPA
-
- DE
-
- PORTUGAL.
-
- PARTE II.
-
-
-
-
- CAPITULO I.
-
-_Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania._
-
-
-1 Entramos nesta segunda parte do nosso Mappa com a laboriosa
-averiguaçaõ de hum dos pontos historicos mais difficil do seculo
-primeiro Lusitanico. Os Antiquarios Hespanhoes, e commummente os doutos
-convem uniformes em que dos descendentes de Jafet, terceiro filho
-do Patriarca Noé, (entre os quaes se repartio a povoaçaõ de toda a
-Europa, e parte da Asia depois do universal diluvio,) coubera a Tubal,
-seu quinto filho, plantar, e propagar Hespanha.
-
-2 Modernamente D. Francisco Xavier da Garma[423] pretendeo excluillo do
-continente Hespanhol, substituindo em seu lugar por primeiro Povoador
-delle a Tharsis, sobrinho de Tubal, filho de seu irmaõ Javan, e neto
-de Jafet: porém esta opinião já seguida antecedentemente por outros,
-desfaz com razões mais provaveis o erudito Padre Joseph Moret da
-Companhia de Jesus.[424]
-
-3 Assentando pois que os Hespanhoes, e por consequencia os Lusitanos
-se originaõ de Tubal, vista a grande authoridade dos Escritores, que
-o affirmaõ,[425] nasce daqui hum reparo, e vem a ser: que dizendo
-Josefo,[426] procederem os Iberos de Tubal, e interpretando S.
-Jeronymo, Santo Isidoro,[427] e outros aos Iberos pelos Hespanhoes,
-todavia como na Asia se achaõ tambem semelhantes povos Iberos desde
-aquelles primeiros tempos, duvida-se justamente quaes devem ser
-reputados por primarios descendentes de Tubal?
-
-4 Os Authores, que se persuadem fora o mundo povoado pouco a pouco, e
-principiara do Oriente, estendendo-se os povos à medida, que a gente
-crescia, dizem, que a Iberia Hespanhola, ou Occidental, foy Colonia dos
-Iberos Asiaticos.[428] A outros porém se lhes faz mais verosimel que
-os Hespanhoes levassem à Asia por transmigraçaõ o nome de Iberos;[429]
-donde Rufo Festo Avieno veyo a dizer:[430]
-
- _......Asper Iberus
- Hic agit: hic olim Tyrrhenide pulsus ab ora
- Cespitis Eoi tenuit sola._
-
-5 Esta opiniaõ parece que se conforma mais com o sentido natural do
-Genesis, que no capitulo 10. dá a entender como os primeiros netos
-de Noé logo se dividiraõ a povoar o mundo; e cabendo à familia de
-Tubal lançar os alicerses, e estabelecer os limites de Hespanha,
-veyo positivamente a ella, ou fosse por mar em pequenas embarcações,
-passando da Armenia ao Egypto, do Egypto a Africa, e daqui atravessando
-o Estreito de Gibraltar até o Promontorio, que depois se chamou Sacro;
-ou fosse por terra, caminhando do Egypto a Jerusalem pela Natolia,
-depois penetrando a Tartaria, Hungria, Alemanha, França, Hespanha, e
-Portugal, sem lhe ser necessario por este caminho passar braço algum de
-mar consideravel; ou finalmente transitando por outra qualquer via, que
-lhe destinasse a Providencia, para soccorrer a necessidade da segunda
-povoaçaõ do genero humano com viagem, que fosse prudente, e naõ
-temeraria, como bem adverte o erudito Yañes.
-
-6 Collocado já Tubal, e sua familia nestas partes Occidentaes da Europa
-pelos annos 150 depois do diluvio, conforme a melhor Chronologia,[431]
-resta saber em que parte da Hespanha fez o seu primeiro assento?
-Nisto, por mais que se intente indagar, naõ póde haver certeza; porque
-o grande Abulense, julgando ser esta entrada pelos montes Pyrineos,
-attribue a Pamplona a primazia das fundações de Tubal em todo este
-tracto Hispanico,[432] Floriaõ do Campo a Andaluzia,[433] Martim
-de Viciana a Valença,[434] Joseph Moret a Tafalla,[435] outros a
-Toledo,[436] e Fr. Bernardo de Brito, Heitor Pinto, e outros muitos
-a Setubal em Portugal.[437] Mais facil será crer (diz Manoel de
-Faria judiciosamente) ter sido Tubal fundador de muitas povoações
-na Hespanha, que o assegurar a primazia de alguma entre todas;[438]
-e deste parecer foy o erudito Malvenda, que já allegámos. Todavia o
-insigne Commentador de Virgilio Francisco de Lacerda, allegado por
-Luiz Marinho de Azevedo, diz, que da Lusitania sahiraõ os primeiros
-fundadores de Hespanha[439] a estabelecer povoações em varias partes
-della.
-
-7 O certo he, que dos tempos immediatos à primitiva povoaçaõ de
-Portugal, até que as armas Cartaginezas, e Romanas abriraõ o caminho à
-communicaçaõ das gentes occidentaes da Europa, naõ pode a Historia dar
-hum passo, senaõ às escuras, e com a vehemente suspeita de claudicar na
-verdade; porque alguns Escritores fundados em documentos ou apocrifos,
-ou de pouca authoridade, e exame, constituiraõ em Hespanha, e Portugal
-com demaziada, e incauta crença o governo de alguns Reys duvidosos,
-como foy Ibero, Jubalda, Briga, Beto, e outros, de que naõ ha historia
-verdadeira. Sómente consta, que havia em nossas terras alguns Regulos,
-como foy Lucinio, Culca, Gorgoris, Abides, Argantonio, Theron,
-Mandonio, e alguns outros, de que fazem memoria Authores veridicos.[440]
-
-8 Tambem temos por certo, que naquelles principios todo este nosso
-Continente estava occupado de varios povos, cada hum com seu nome,
-costumes, e usos differentes, formando distinctas especies de pequenas
-Republicas com suas leys, especialmente desde o governo de Gorgoris,
-ou Gorgaris. Naõ será relaçaõ importuna communicarmos aqui hum breve
-monumento destes povos primitivos para melhor intelligencia da Historia.
-
-9 _Abobricenses_; ou _Aobricenses_. Habitavaõ pouco distantes de
-Chaves.[441] A Hoffmani lhe parece que eraõ os da Villa do Conde, e a
-Joaõ de Barros os da Nobrega, ou Valdevez.
-
-10 _Amaienses._ Eraõ povos da Lusitania.[442]
-
-11 _Amfilocos._ Habitavaõ na Cidade Amfiloquia, que estava na Provincia
-de Galiza, a que hoje chamaõ Orente, a qual no tempo dos Romanos veyo
-a pertencer à Chancellaria de Braga.[443] Da vida de Alexandre Magno
-escrita pelo segundo Xenofonte Arriano Nicomediense, consta que os
-Amfilocos naõ estavaõ muy distantes da Ambracia,[444] que, conforme
-alguns,[445] foy Barcellos. Ortelio colloca os Amfilocos entre os
-Calaicos, e os Bracaros.
-
-12 _Ancodeos._ Povos nacionaes, que viviaõ nas visinhanças do monte
-Gerez.[446]
-
-13 _Arevácos._ Procediaõ dos Celtiberos, e eraõ os ultimos povos, em
-que se terminava Galiza junto do Douro.[447]
-
-14 _Artabros_, que depois se chamaraõ _Arrotebras_, occupavaõ desde o
-Promontorio Celtico até os Astures.[448]
-
-15 _Astures._ Occupavaõ a Provincia de Tras os Montes, e eraõ notaveis
-mineiros.[449]
-
-16 _Barbaros_, ou _Sarrios._ Habitavaõ por toda a serra da Arrabida
-até Lisboa, ou todo aquelle tracto de terra, que fica entre o Tejo, e
-Setubal. Viviaõ sem ley, sem policia, e com pouca, ou nenhuma Religiaõ.
-Sustentavaõ-se dos frutos, que a terra produzia, e da caça, que na
-montanha apanhavaõ. Este modo de viver barbaro, e agreste os fazia taõ
-rigidos, que naõ só tiveraõ sanguinolentas guerras com os Celtas seus
-visinhos, mas fizeraõ huma das mayores resistencias, que experimentou
-Julio Cesar na conquista da Lusitania. No anno 501 antes de Christo,
-vendo que a patria os naõ podia manter com a sua multiplicaçaõ,
-determinaraõ que todos os moços até à idade de quarenta annos fossem
-buscar outras terras desoccupadas, em que viver; e depois de varios
-transes foraõ cultivar muita parte da Beira, principalmente aquellas
-terras, que se extendem por algumas leguas à roda do rio Soberbo.[450]
-
-17 _Bardulos_, ou _Vardulos._ Habitavaõ onde agora se chama Guipuscoa.
-Plinio diz, que os Bardulos eraõ os mesmos, que os Turdulos da
-Lusitania. Baudrand diz, que eraõ diversos huns dos outros.
-
-18 _Belitanos._ O mesmo que Lusitanos.
-
-19 _Berones._ Querem alguns[451] conjecturar que habitavaõ na Provincia
-da Beira, sendo que o Padre Argote[452] naõ convem nisso. Baudrand,
-e Hoffmani dizem, que eraõ povos sujeitos aos Celtiberos, e a sua
-principal Cidade era onde hoje está Trejo.
-
-20 _Bibalos._ Conforme Joaõ de Barros[453] habitavaõ em Val de Bouro na
-Provincia do Minho. O Padre Argote os situa nas visinhanças de Orense,
-e fóra do territorio de Portugal;[454] porém Resende he de parecer
-que a palavra _Bibalos_ naõ era nome de povos, mas de Cidade,[455]
-porque assim o diz expressamente a inscripçaõ da ponte de Chaves
-sobre o Tamega, na qual estaõ gravados os nomes dos povos de todas
-aquellas Comarcas, que concorreraõ para trabalharem nella: mas nisto
-achamos pouca razaõ a Resende; porque ainda que a tal inscripçaõ diga
-_Civitates X._ he sem duvida que as Cidades naõ haviaõ de ir trabalhar
-na ponte, mas sim os moradores das taes Cidades, os quaes pela mayor
-parte seriaõ os daquellas visinhanças de Chaves, como bem adverte Frey
-Bernardo de Brito.[456] Finalmente Baudrand diz, que estiveraõ situados
-junto do rio Lima.
-
-21 _Bracaros._ Ficavaõ estes povos na Provincia do Minho, e era nome
-generico, que abraçava outros muitos povos particulares,[457] e
-comprehendia povoações muito notaveis, como era Braga, Porto, Ponte de
-Lima, Neiva, Caminha, e outros.[458]
-
-22 _Calaicos._ Eraõ de duas especies, Bracarios, e Lucenses: os
-primeiros existiaõ na Provincia de Tras os Montes, os segundos no
-Minho, e Reino de Galiza, onde hoje he Compostella.
-
-23 _Callenses._ Habitavaõ na Cidade de Gaya fronteira ao Porto.
-
-24 _Caperenses._ Lembraõ-se Resende, e Baudrand por boas conjecturas
-de existirem estes povos na Estremadura Lusitana entre Merida, e
-Placencia.[459]
-
-25 _Celerinos._ Eraõ os povos, que habitavaõ na Cidade Celiobriga, a
-qual, conforme a indagaçaõ do Padre Argote, ficava ou em Celorico de
-Basto, ou nas suas visinhanças.[460] Baudrand, allegando a Sanson,
-julga que os Celerinos eraõ os habitadores de Barcellos. Na ponte de
-Chaves, mandada fazer pelo Imperador Vespasiano, vem assinados os
-Celerinos, os quaes eraõ povos daquella Comarca de Chaves, parte dos
-quaes ficava em Portugal, parte em Galiza.
-
-26 _Celtas._ Existiaõ na Provincia do Alentejo, e confinavaõ da parte
-do Meyo dia com os Turdetanos, da banda do Norte com o Tejo: pelo
-Occidente lhe ficava a ribeira de Canha, tendo tambem por visinhos
-os Barbaros da Arrabida. Eraõ as suas principaes povoações Elvas,
-Estremoz, Villa Viçosa, e Evora. Havia na Andaluzia outros Celtas,
-porém diversos destes.[461]
-
-27 _Celtiberos._ Eraõ povos, que se originaraõ dos Celtas do Alentejo,
-os quaes passando-se para Andaluzia, e confederando-se com os que
-habitavaõ pelas ribeiras do Ebro, deraõ origem aos Celtiberos, gente
-muy conhecida em toda a Hespanha por valerosa, e que fizeraõ forte
-resistencia aos Romanos, e Cartaginezes. Delles fallaõ muitos dos
-Authores antigos allegados.[462]
-
-28 _Cerenecos._ Povos, que habitavaõ onde hoje chamaõ Concelho de
-Thuyas junto a Canavezes.[463]
-
-29 _Cinesios._ Viviaõ junto dos Ostidanienses.
-
-30 _Colarnos._ Eraõ visinhos dos Turdulos modernos, e occupavaõ aquella
-parte da Estremadura, que está entre os rios Tejo, e Odivor.
-
-31 _Curetes._ Habitavaõ no Algarve, fundaraõ Sylves, e vieraõ a
-Hespanha quasi no tempo de Tubal.[464]
-
-32 _Grayos_, ou _Gravios._ Tinhaõ sua habitaçaõ na Provincia do Minho,
-e nesta mesma Provincia viverão os _Gronios_.[465] Alguns Historiadores
-querem que os primitivos Grayos, e todos os mais povoadores desta
-Provincia daquelles primeiros seculos fossem de naçaõ Grega;[466] porém
-temos por mais provavel, que todas, quantas noticias se nos offerecem
-nas Historias de fundações Gregas, e nomes Gregos anteriores ao ultimo
-anno do reinado de Argantonio, saõ fabulosas; pois consta de Herodoro,
-o mais antigo Historiador daquelles tempos, serem os Fenices os
-primeiros Gregos, que emprenderaõ de proposito o descubrimento de novas
-terras, até chegarem a Hespanha em tempo, que ainda reinava Argantonio,
-que foy 543 annos antes de Christo.[467]
-
-33 _Herminios._ Tinhaõ sua habitaçaõ na serra da Estrella da Provincia
-da Beira.[468]
-
-34 _Ibéros._ Este nome era generico a todos os Hespanhoes.
-
-35 _Labricanos._ Residiaõ junto das ribeiras do Ave por aquella parte,
-em que se lança no mar pela Villa do Conde.[469]
-
-36 _Lancienses._ Estavaõ naquellas partes da Provincia da Beira, que se
-extende do Norte para o Meyo dia, do Ponsul até o Tejo; e do Oriente ao
-Occidente, do Elja até o Zezere.
-
-37 _Limicos._ Viviaõ junto das margens do Lima.[470]
-
-38 _Luancos_, ou _Lubenos_. Habitavaõ na Provincia do Minho, mas
-ignora-se a paragem certa.
-
-39 _Lusos_ ou _Lusitanos_. Possuiaõ terras entre o Tejo, e o Douro,
-e occupavaõ tambem todo o lado Occidental, que corre desde a foz do
-Douro até o Promontorio Celtico, e pelo lado Septentrional desde este
-Promontorio até adiante da Corunha. O nome de Lusitanos era universal,
-porque comprehendia outros muitos povos, como Celtiberos, Turdulos,
-Vetones, &c.
-
-40 _Narbassos._ Eraõ visinhos dos Vacceos, e viviaõ junto a Freixo de
-Espadacinta.[471]
-
-41 _Nemetates._ Existiaõ na Provincia de Tras os Montes desde Bragança
-até o monte Gerez, separando-os de Galiza o rio Lima. No Mappa de
-Ortelio os vemos situados junto de Araduca, passando-lhe pelo meyo o
-Tamega.
-
-42 _Ostidanienses._ Occupavaõ aquelle angulo de terra, que se termina
-no Cabo de S. Vicente pelo espaço naõ mais que de duas leguas.[472]
-
-43 _Pesures._ Estes povos eraõ pouco conhecidos; por isso na inscripçaõ
-da ponte de Alcantara estaõ no ultimo lugar. Tinhaõ a sua habitação na
-Covilhã, e Castellobranco, e parte da serra da Estrella. Naõ saõ os
-mesmos, a que Resende chama _Meidobrigenses_, ou _Plumbarios._[473] O
-Padre Bluteau diz, que elles saõ oriundos dos antigos Celtas, e que o
-nome Pesures era ignominioso, pois significava gente cobarde, e nisto
-concorda com a Monarquia Lusitana.[474]
-
-44 _Sarrios._ Eraõ os barbaros da Arrabida.
-
-45 _Seurbos._ Povos, que viviaõ pouco acima de Braga.
-
-46 _Tamacanos._ Viviaõ nas margens do Tamega pelo sitio, onde elle
-entra no Douro.[475]
-
-47 _Transcudanos._ Pelos annos de 560 pouco mais, ou menos antes de
-Christo, deixando alguns dos Turdulos antigos a costa maritima, em que
-viviaõ, foraõ habitar aquelle espaço de terra, que se extende de Norte
-a Sul entre os rios Coa, e Agueda; e pela situaçaõ, em que ficaraõ além
-do Coa, se vieraõ a chamar povos Transcudanos.[476]
-
-48 _Turdetanos._ Possuiaõ a mayor parte do Algarve, e do Alentejo,
-e era tudo o que vay de Béja até Sines. Foraõ reputados por insignes
-guerreiros até à segunda guerra Punica. Eraõ engenhosos, tinhaõ
-politica, e amavaõ as sciencias com fruto, e cultura. Prezavaõ-se de
-ter leys escritas em verso, e todas as suas antiguidades conservadas em
-livros de seis mil annos anteriores; mas cada anno constava só de tres
-mezes. Estrabo os julga taõ opulentos, e ricos, que escreve tinhaõ até
-nas estrebarias argolas de prata.[477]
-
-49 _Turdulos_. Eraõ de duas especies, huns antigos, outros modernos.
-Os Turdulos antigos foy a gente mais veterana, e nobre da Lusitania:
-tinhaõ por domicilio todas as terras, que estaõ do Norte ao Meyo dia
-entre o Tejo, e o Douro, das quaes eraõ as principaes Lisboa, Santarem,
-Alfeizeraõ, Coimbra, Leiria, Aveiro, Lamego, e Viseu. Os Turdulos
-modernos tinhaõ o Tejo pela parte do Norte: pelo Meyo dia confinavaõ
-com os Celtas, e nos costumes pouco se differençavaõ huns dos outros.
-Christovaõ Cellario[478] situa os Turdulos no Alentejo, e em parte do
-Algarve com pouca distancia dos Turdetanos. Samuel Bocharto confunde
-huns com outros.[479]
-
-50 _Turolos_. Habitavaõ nas margens do rio Minho da parte esquerda,
-onde está a Freguezia de S. Martinho de Lanhelas.[480]
-
-51 _Tyrios_. Eraõ povos, que antes dos Cartaginenses vieraõ com os
-Celtas acommetter aos Iberos.[481]
-
-52 _Vacceos_. Tinhaõ a sua habitação entre Coimbra, e o Porto, e
-tomaraõ o nome do rio Vouga.[482]
-
-53 _Vetones_. Viviaõ junto do Tejo na Estremadura entre os povos da
-Lusitania.[483]
-
-54 Todos estes povos, ou os mais delles, independentes huns dos outros
-se governavaõ conforme as leys, e costumes particulares, que tinhaõ.
-Nas guerras elegiaõ seus Capitães, a que obedeciaõ com tanta efficacia,
-que desprezavaõ a vida, se acaso aquelles morriaõ na batalha.
-Armavaõ-se regularmente com duas espadas, huma comprida, outra mais
-curta, ao modo das nossas espadas, e adagas, que ainda alcançámos ver.
-Os naturaes da serra da Estrella foraõ os primeiros, que a inventaraõ;
-donde veyo a cantar o nosso Botelho:[484]
-
- _Van muchos del confin, y heroico assiento,
- Que ilustra la altivez del monte Herminio:
- La espada Lusitana, que es su invento,
- Manejaban con fuerte predominio._
-
-55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais
-propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ _Cetras_, segundo
-explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e batendo
-huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.[485] Assim
-cantou delles Silio Italico:[486]
-
- - - - - - -_Misit dives Gallæcia pubem,
- Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,
- Nunc pedis alterno percussa verbere terra,
- Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras._
-
-Em parte o quiz imitar Botelho:[487]
-
- _Vinieron los Calaicos_, a quien lavan
- Las dos orlas del Miño difundido,
- Y sus antiguas cetras los muravan,
- Que servieron un tiempo a su alarido._
-
-Em dizer este Poeta que as cetras, ou escudos os muravaõ, ou cubriaõ
-todos, naõ se conforma com a advertencia critica de Vasconcellos.
-
-56 Solemnizavaõ com louvores, e festas, a que chamavaõ _Gymnopodia_,
-aos que morriaõ pelejando;[488] e nas mayores solemnidades faziaõ o
-sacrificio das _Hecatombas_, que era matar cem animaes de huma mesma
-especie.[489] Adoravaõ a Marte, Minerva, e Hercules; donde parece, (diz
-de la Clede)[490] que a veneraçaõ, e culto, que elles davaõ a Hercules,
-póde servir de huma prova da vinda, que este Heroe fez a Portugal, para
-livrar muitos de seus habitadores da oppressaõ de varios tyrannos, e
-fundar aquelle famoso Templo no Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio
-Sacro, onde se adorava o Sol com ritos, e ceremonias Egypciacas, e
-donde o mesmo Hercules se mandou sepultar.
-
-57 Áquellas tres divindades fabulosas offereciaõ em sacrificio as
-mãos direitas dos seus prizioneiros de guerra, que elles cortavaõ ao
-pé dos altares; e da observaçaõ, que faziaõ nas abertas entranhas dos
-mesmos inimigos, prognosticavaõ bons, ou máos successos para as suas
-batalhas.[491]
-
-58 Nas doenças, e enfermidades servia de Medico todo aquelle, que tinha
-experiencia do remedio prestante, e concernente à queixa. Para isso
-costumavaõ expôr os enfermos nas portas das casas, ou nos transitos
-das ruas, para que o passageiro applicasse o que soubesse, e fosse
-opportuno pela observaçaõ, que tivesse feito em outra semelhante
-molestia;[492] e destas bem sortidas experiencias sacou depois
-Hypocrates documentos, e aforismos admiraveis para a sua medicina.[493]
-
-59 Com estes, e outros usos viviaõ os mais dos Lusitanos na sua
-primitiva liberdade, quando acontecendo aquella extraordinaria secca,
-e fome, de que faz mençaõ Justino, e as Historias de Hespanha,[494]
-poz em incrivel consternaçaõ toda a terra. Despovoou-se o Alentejo, o
-Algarve, e parte da Estremadura, e foraõ seus habitadores refugiarse
-nas serras da Beira, e Minho, como mais ferteis, e frescas; outros
-foraõ para Italia: taõ grande, e continuada foy a calamidade, que
-padeciaõ, posto que Vaseu duvída muito della.[495]
-
-60 Applacou finalmente o Ceo sua ira, e restituidos à patria os
-ausentes, e saudosos de tanto tempo, vieraõ tambem entre os nacionaes
-muitos dos Gallos Celtas. Depois acontecendo pelos annos 1380 do
-diluvio, conforme Vaseu, aquelle memoravel incendio nos montes
-Pyreneos, que penetrando até as cavernas da terra, causou horrorosos
-tremores, e fez descubrir muitas minas de ouro, e prata,[496]
-divulgou-se a noticia desta fluente riqueza, a qual com a vehemencia da
-sua virtude attrahindo de taõ longe a ambiçaõ dos Fenices, foy causa
-de expedirem promptamente huma grosta armada, que aportou na Ilha de
-Cadiz, e daqui vindo costeando as margens maritimas das nossas terras,
-ancorou no Algarve.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[423] Garma no Theatr. Univ. de Hesp. tom. 1. c. 1.
-
-[424] Moret, Anales de Navarra, tom. 1. no Append. §. 1.
-
-[425] Strabo, Anselmo Laurunense, Lyra, Abulens. Delrio, Alapide,
-e outros apud Malvend. de Anti-Christo lib. 6. cap. 22. Genebrad.
-Chronol. lib. 1. p. 31. Arias Montan. in Isai 66. v. 19. Villalp.
-in cap. 27. Ezech. v. 13. Sá ibid. Heitor Pint. ib. c. 38. v. 2.
-Torniello, Annales Sacri ad ann. 1931. n. 22. Pineda lib. 4. de reb.
-Salom. cap. 15. § 7. Bent Per. in Genes. tom. 2. liv. 15. Marin. Sicul.
-lib. 6. cap. 1. Vasæus, Chronic. Hisp. tom. 1. ann. 143. Munster,
-Cosmograf. liv. 2. p. 56. D. Rodr. Arceb. de Toled. liv. 1. cap. 3.
-Flor. do Camp. liv. 1. cap. 4. Garibay tom. 1. liv. 4. cap 4. Escolan.
-Hist. de Valenç. liv. 1. cap. 4. Henao, Antig. de Cantabr. liv. 1. c.
-1. Pined. Monarq. Eccles. liv. 1. cap. 18. §. 4. Matut. Prosap. de
-Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. Aldret Orig. da ling. Castelh. liv. 2.
-cap. 15. Clericat. etá 2. del mondo pag. 7. Marian. liv. 1. c. 1. c. 7.
-Kircher de Arc. Noé cap. 9. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap 1.
-
-[426] Jofeph. de Antiq. lib. 1. cap. 7.
-
-[427] D. Hieron quæst. Hebraic. in Genes. 10. & in cap. 32. Ezech. S.
-Isidor. lib. 9. cap. 2. Origin. Euseb. lib. 9. cap. 3.
-
-[428] Melancthon in Chron. allegado por Joaõ Guilherme Stukio nos
-Scholios in Periplum Pont. Euxini de Arriano pag. 32. e 144. Plin.
-Strab. Marc. Varr. Arias Montan. apud Hoffman. in Diction. verb.
-_Thubal_, & _Iberus_. Torniel. ad ann. 1931. ainda que duvidoso.
-Marian. liv. 1 c. 7. Volaterr. liv. 3.
-
-[429] Moret, Anales de Navarra, tom. 1. liv. l. cap. 1. Nicefor. liv.8.
-cap 34. Yañes España en la S. Bibl. part. 1. cap. 2. n. 5. e 6. e cap.
-3. n. 3.
-
-[430] Avien. in Descript. Orbis vers. 882.
-
-[431] Far. tom. 1. da Europ. Port. part. 1. cap. 1. n. 5. Yañes España
-en la S. Biblia part. 1. cap. 3. n. 2.
-
-[432] Abulens. super Genes. cap. 10. _Tubal, à quo Hispani, iste sedem
-posuit in descensu montis Pyrinæi apud locum, qui dicitur Pampilona._
-O mesmo repete sobre o Prologo da Biblia, que se chama _Epistola ad
-Paulinum_, cap. 1.
-
-[433] Flor. do Camp. liv. 1.
-
-[434] Vician. liv. 1. cap. 6.
-
-[435] Padr. Moret, Anales de Navarra tom 1. p. 4.
-
-[436] Apud Yañes ut supr. n. 6.
-
-[437] Brit. Monarq. Lusit. p. 1. l. 1 c. 3. Heyt. Pint. in cap. 27.
-Ezech. p. 247. _Prima Urbis Hispaniæ, ut aiunt, appellata est Thubal,
-ab ipso conditore nomine desumpto, quam viri docti eam dicunt esse, que
-nunc Setubal appellatur in hac nostra Lusitania sita ad Occidentem._
-Diego de Colmenar. na Histor. de Segovia cap. 1. _Dize-se, que fundó
-Tubal al lado meridional del rio Tajo sobre el grande Oceano un pueblo,
-que nombró Setubal, nombre al parecer compuesto en honra del S. Seth,
-su 10. abuelo, hijo de Adan._ Matut. Prosap. de Christ. edad. 2. cap.
-3. §. 3. e outros apud Fr. Bernard. da Silva na Def. da Monarq. Lusit.
-part. 1. cap. 10.
-
-[438] Faria ut supr.
-
-[439] Lacerd. in Virgil. apud L. Mar lib. 1. cap. 15. Antig. de Lisb.
-_Ab Lusitania exuberante gente dissipati in reliquam Hispaniam sunt, &
-tanquam in colonias deducti._
-
-[440] Livius. lib. 3. decad. 4. Macrob. liv. 1. Saturn. Polyb. lib. 3.
-apud Resend. lib. 3. Antiq. Herodot. lib. 1. cap. 42. Plin. liv. 7.
-cap. 48.
-
-[441] Idem liv. 4. cap. 20. Mela liv. 3. cap. 1. Resend. liv. 1. de
-Antiq. Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9. Argot. Memor. do Arcebisp. de
-Brag. p. 177. e 373.
-
-[442] Resend. liv. 1.
-
-[443] Strab. liv. 3. Justin. liv. ult. cap ultim Resend. liv. 1.
-
-[444] Arrian. res gestar. Alex. liv. 2. _Sed Geryonis Regnum in
-continenti fuisse circa Ambraciam, & Amphilocos, indeque Herculem boves
-abegisse_
-
-[445] Veja se a prim. parte do nosso Mappa cap. 2. n. 5.
-
-[446] Argot nas Antig. da Chancel. de Brag. p. 132.
-
-[447] Plin. lib. 3 cap. 3. Baudrand.
-
-[448] Mela liv. 3. cap. 1. Strab. liv. 3. Plin. lib. 4. cap. 20. Argot
-nas Memor do Arceb. de Brag. pag. 184. Flores na Espanha sagrada tom.
-15. pag. 26
-
-[449] Strab. liv. 3. Argot. ut supr. p. 149. Monarq. Lusit. part. 1.
-cap. 4. da Geograf. Martial lib. 10. Epigram. 16
-
-[450] Pimentel, Notic. Academic. de 2 de Janeir. de 1727.
-
-[451] Brit. na Geogr. c. 4. Flor. do Camp. Histor. de Hespan. liv 2.
-cap. 10. Plin. liv. 4. cap. 20.
-
-[452] Argot. nas Memor. de Brag. p. 450.
-
-[453] Joaõ de Barr. nas Antig. do Minho cap. 6.
-
-[454] Argot. ut supr liv. 1. cap 14. n. 285.
-
-[455] Resend. lib. 1. de Antiguit. _Sed hæc potius Civitatum sunt
-nomina._
-
-[456] Brit. na Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9.
-
-[457] Vasæus tom. 1. Chron. pag. 64. Argot. ut supr. p. 155.
-
-[458] Brit. na Geogr. cap. 4.
-
-[459] Resend. lib. 1. Antiq.
-
-[460] Plin. lib. 3. cap. 3. Resend. lib. 1. Argot. nas Memor. de Brag.
-tom. 1. p. 157. e 317.
-
-[461] Brito na Geograf. cap. 4.
-
-[462] Diodor. lib. 6. Strab. lib.4. Plin. lib. 3. cap. 1. Liv. lib. 5.
-Flor liv. 2. cap. 17. Lucan. lib. 4. v. 10. Silius Italic. lib. 3. v.
-340. Catul. Epigr. 40. Marrial lib. 4. Epigr. 55.
-
-[463] Argot. nas Memor. de Brag. p. 157.
-
-[464] Justin. lib. 44. Strab. lib. 3. Gerund. lib. 1.
-
-[465] Mela lib. 3. cap. 1. Brit. na Geogr. cap. 4.
-
-[466] Plin. lib. 4. cap. 20. Estaço nas Antiguid. c. 9. Resend. lib. 1.
-_Græcorum sobolis omina._
-
-[467] Herod. lib. 1. cap. 163. _Hi Phocenses primi Græcorum longinquis
-navigationibus usi sunt. Adriamque simul, & Tyrrheniam, Iberiam, atque
-Tartesum occuparunt._ Pausan lib. 2. pag. mihi 144. Plin. lib. 7. c.
-48. Valer. M. x. lib. 8. cap. 13. Vasæus tom. 1. Chron ann. 129 ab urbe
-condita.
-
-[468] Monarq Lusit. tom. 1. liv. 4. cap. 1.
-
-[469] Ibid p. 322.
-
-[470] Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 128. Resend. lib. 1.
-Antiq.
-
-[471] Argot nas Memor. de Brag. p. 160. e 322.
-
-[472] Ortel. no Mappa da Lusitan. Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1.
-
-[473] Brit. na Geograf. cap. 4. Clede na Histor. de Port. tom. 1. liv.
-1.
-
-[474] Bluteau, Vocabul. verb. _Pesures_. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 28.
-
-[475] Argot. Memor. de Brag. pag. 161.
-
-[476] Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 30. Pimentel, Notic. da Academ. de 2
-de Jan. de 1727. Vasconcel. nos Schol. a Resend.
-
-[477] Baudrand in Diction. Geograp.
-
-[478] Cellar. Geograf. liv. 2. cap. 1.
-
-[479] Bochart. Geograph. Sacr. liv. 1. cap. 34.
-
-[480] Argot. Mem. de Braga tom. 1. p. 162.
-
-[481] Ibid. p. 60.
-
-[482] Agiol. Lusit. tom. 2.
-
-[483] Resend lib. 1.
-
-[484] Botelho no Alphonso liv. 3. oitav. 88. Vide Just. Lipsium lib. 3.
-de Militia Roman. Dialog. 3.
-
-[485] Vasconcel in Schol. ad lib. 1. Resend. de Antiq. _Cùm enim Cetras
-resonas,_ (explica o texto de Silio) _hoc est tinnitum, & sonitum
-edentes vocet, manifestè innuit esse illa parva scuta, quæ Bluqueria
-dicuntur ex ligno fabrefacta, atque ære contecta, quæ clarissimum
-sonitum inter se collisa edunt; quod coriaceis illis, & maioribus
-scutis, seu parmis nequaquam convenire potest_.
-
-[486] Silius Ital lib 3. vers. 346.
-
-[487] Botelh. no Alphons. liv. 3. est. 90.
-
-[488] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 24.
-
-[489] Ibid. liv. 5. cap. 1.
-
-[490] De la Clede, Histor. de Portug. tom. 1. pag. mihi 21.
-
-[491] Alexand. ab Alexand. lib 6. cap. 26. _Lusitanis vetus mos erat,
-ex intestinis hominum extæ prospicere, atque inde omina, & divinationes
-captare, abscissasque captivorum dextras pro munere diis offerre._
-
-[492] Bohem. lib. 3. cap. 25. de Vetustis Lusitanorum moribus. _Ægrotos
-vetusto ritu Ægyptiorum in plateis deponunt, ut qui eo morbi genere
-tentati sunt, commone facere eos valeat._
-
-[493] Garm. no Theatr. Univ. de España tom. 1. p. 195.
-
-[494] Justin. liv. 44. cap. ult. Marian. tom. 1. liv. 1. cap 14.
-Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 23.
-
-[495] Vasæus tom. 1. Chron. ann. 1250. _Circa hunc annum ponunt
-admirabilem illam siccitatem... quod mihi quidem non sit verissimile,
-quia nulla ejus rei memoria in veterum libris reperitur, qui rem tam
-stupendam, ac raram proculdubio non tacuissent._
-
-[496] Diodot. Sicul. liv. 1. Arist. de mirab. auscult. Monarq. Lusit.
-liv. 1. cap. 26.
-
-
-
-
- CAPITULO II.
-
-_Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes._
-
-
-1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo
-em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro,
-chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a
-que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com
-elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo
-turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos
-seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões,
-e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano
-com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado
-descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados;
-porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este
-conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel.
-
-2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de
-Christo, querem alguns Chronistas[497] que Nabucodonosor viesse, ou
-mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os
-Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito
-de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos,
-quebrantaraõ os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he
-tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.[498] O certo he,
-que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices:
-que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em
-recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes
-castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas
-da Ilha de Cadiz.
-
-3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente
-buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e
-lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de
-exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou
-a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor,
-e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama
-Principe,[499] fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal
-para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio
-Gaudalete[500] deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os
-preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos
-pendurados nas paredes dos Templos.
-
-4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para
-mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à
-sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes mais
-animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e os
-expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos naõ
-querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria. Passaraõ
-o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços, porque
-os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo misturados com Gregos,
-e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito varonil das
-matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus inimigos, e a
-vitoria ficou famosa com o titulo honroso de _Empreza das mulheres_,
-produzindo-se por meyo della a tranquillidade na Provincia do
-Minho.[501]
-
-5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices
-sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as
-tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo
-poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon,
-e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes,
-estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor
-a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo
-se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança
-alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ
-com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos.
-
-6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a
-narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que
-rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem
-ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e
-provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver
-mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com
-huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto
-havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de
-Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos.
-
-7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos, de hum grande numero
-de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era
-Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez
-do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava
-os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e
-desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para
-o mayor numero das suas vitorias.[502] Elles foraõ os que em credito
-da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia
-a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel
-passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula,
-para evidente demonstraçaõ do seu esforço.
-
-8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a
-assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em
-que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares
-mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio,
-Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de
-mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do
-primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul
-Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ,
-e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em
-recompensa de hum só Viriato.[503]
-
-9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se
-deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse
-da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento
-da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias,
-se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer o heroico
-alento com os mimos daquella Cidade.[504]
-
-10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas
-esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais
-desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos
-Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous
-valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo
-Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do
-risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por
-naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna
-alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios
-de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas
-Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio
-senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[497] Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes España en
-la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos.
-
-[498] Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de antiguid.
-p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34.
-
-[499] Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18.
-
-[500] Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29.
-
-[501] Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1. part. 1.
-cap. 9. num. 9.
-
-[502] Liv. decad. 3. lib. 7.
-
-[503] Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit.
-
-
-
-
- CAPITULO III.
-
-_Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos._
-
-
-1 Assim continuava a soberania Romana em dominar Hespanha, que sendo
-até o anno 534 da fundaçaõ de Roma huma só Provincia Consular, pelos
-annos porém de 557 da mesma fundaçaõ, e 196 antes de Christo, foy
-dividida em duas Provincias Pretorias, ou Proconsulares, chamadas
-_Ulterior_, e _Citerior._ Naquella se comprehendia a Betica, e a
-Lusitania, isto he, Andaluzia, e Portugal: na Citerior todas as mais
-partes de Hespanha.[505]
-
-2 Para exacto governo dellas eraõ enviados de Roma varios Pretores, ou
-Governadores fortalecidos com legiões de gente militar para presidio
-das terras, que hiaõ conquistando; porém como os Lusitanos mal soffriaõ
-o jugo Romano, foy preciso ao respeito dos Senadores para nos sujeitar
-à obediencia mandar tambem o Consul Cataõ Censorino, o qual usando
-de affabilidade, dominou os corações da nossa gente até o ultimo dia
-do seu governo, pois tanto que Scipiaõ Nasica lhe succedeo, logo se
-revoltaraõ como leões indomitos contra elle.
-
-3 Inconstante fortuna experimentou Nasica no principio da sua Pretura;
-porém no fim a logrou taõ favoravel à custa dos nossos, que a sorte,
-mais que o esforço, o fez vencedor de cento e trinta e quatro
-bandeiras.[506] Mas naõ perdendo os Lusitanos já mais o acordo na
-desgraça presente, e appellando para o primeiro conflicto, souberaõ
-vingar a perda passada com destruiçaõ total do exercito Romano, que
-governava Lucio Emilio,[507] ruina, que por muitos dias continuos foy
-deplorada dentro em Roma, e até a vingança, que depois meditaraõ, foy
-mal succedida.
-
-4 Continuavaõ os Pretores, e Consules o governo da Hespanha, os quaes
-ou abatidos, ou vitoriosos, sempre confessavaõ por formidaveis as armas
-Lusitanas, custando-lhe cada palmo de nosso terreno adquirido rios de
-sangue Romano. Entre os nossos Capitães, que deixaraõ resplandecente
-nome na veneravel duraçaõ da memoria, foraõ _Apimano_, _Cesaron_,
-_Chancheno_, _Viriato_, e _Sertorio_, cujas gloriosas proezas occupaõ
-até as Historias dos que pertenderaõ diminuirlhe a fama.
-
-5 Aquelle espantoso terror, que o brio dos Lusitanos tinha semeada em
-Roma, chegou a produzir tal impressaõ nos animos de todos, que não
-havia nem Tribuno, nem Pretor, que se quizesse encarregar da guerra de
-Hespanha; e por acudirem pelo credito da Naçaõ, buscaraõ o caminho do
-ludibrio, que foy o da aleivosia, naõ sem escandalo do mundo. Assim se
-experimentou na morte de Viriato II. pela perfidia de Quinto Servilio,
-e na de Sertorio pela de Marco Perpenna.[508]
-
-6 Seria alheyo da brevidade, que promettemos, particularizar acções,
-e successos dos Lusitanos: todas taõ benemeritas da honra, e da
-eternidade, como indignas de fama as que os Romanos obravaõ em nossos
-Paizes; e muitas vezes com o dolo, e malicia em taõ vulgarizadas
-operações, que mal podiaõ occultar a ignominia, que dellas lhes
-resultava, como aconteceo com Servio Galba, reprehendido no Capitolio
-pelas manifestas aleivosias, que usava com a gente Portugueza.[509]
-
-7 Mais de duzentos annos tardou a conquista da Lusitania; e depois que
-se achavaõ nossas forças já lassas, e vigoroso o poder Romano, ainda
-assim foy preciso ao prudente Conselho dos Senadores para acabar de
-conquistar Hespanha determinar que se expedissem em diversos tempos
-dous famosissimos Imperadores, Julio Cesar, e Octaviano Augusto.
-Aquelle sendo o mayor guerreiro do mundo, padeceo innumeraveis
-resistencias dos nossos. Que cuidados, e desconfianças naõ causaraõ
-a Cesar os habitadores da serra da Estrella? Prenderaõ-lhe os
-Embaixadores, zombaraõ delles, e se naõ usara Cesar de alguns
-estratagemas, nem lhe domara a ferocidade, nem os vencera.[510]
-
-8 Pouco tempo durava esta sujeiçaõ, porque os nossos com obediencia
-forçada, ainda que com forças diminutas, a cada passo se estavaõ
-rebelando contra os presidios Romanos, querendo antes expôr as vidas
-aos mayores empenhos da guerra, que renderem-se a quem lhe queria
-supear a liberdade; e como já tinhaõ perdido as esperanças ao socego da
-paz, era inconquistavel o seu animo, e orgulho.
-
-9 Seguiraõ-se os incendios tambem na Hespanha das guerras civis entre
-Cesar, e Pompeo, e entaõ se acabou de ver que se ficavaõ triunfantes
-aquellas bandeiras, a cuja sombra militavaõ Portuguezes. Veyo
-finalmente Octaviano Augusto, e conseguida huma paz universal, se
-viraõ os Lusitanos totalmente sujeitos ao jugo do Imperio Romano. Em
-agradecimento desta tranquillidade offereceraõ muitas povoações nossas
-nas fabricas de alguns Templos, eternos elogios, que por acreditarem a
-duraçaõ, ainda o tempo gastando-lhe as pedras, lhe naõ pode consumir a
-memoria.
-
-10 Dentro deste feliz, e pacifico silencio nasceo ao mundo a salvaçaõ
-delle Christo bem nosso; e depois de ter completado Octaviano trinta e
-seis annos de Imperio formal, se lhe seguio Tiberio, e successivamente
-outros Imperadores sempre com o dominio das nossas terras, as quaes com
-a cubiça dos legados fluctuavaõ em mares de turbulencia. Rompiaõ-se os
-montes para se desentranharem das suas veas o ouro, e a prata.
-
-11 Alguns destes disturbios da ambiçaõ fez serenar a prudencia de
-Vespasiano, e de seu filho Tito, os quaes com generosa, e liberal
-affabilidade illustraraõ o Reino com obras, os vassallos com
-beneficios. A aspereza dos caminhos se vio reduzida a planicies
-suaves; os rios caudalosos vadeados com pontes magnificas; e toda a
-Lusitania para o seu bom regimen dividida em tres Comarcas, cinco
-Colonias, e tres Municipios.
-
-12 Foraõ passando os annos, e as vidas de outros Imperadores, a quem
-nossos antepassados reconheceraõ vassallagem, até que no Imperio de
-Galieno começou a descahir a grandeza Romana,[511] experimentando
-mais lamentavel estrago em tempo de Arcadio, e Honorio pela invasaõ
-dos barbaros de Alemanha, que discorrendo sem piedade por todas as
-Provincias da sujeiçaõ de Roma, entraraõ a sepultar nas ruinas, que
-abrirão suas espadas, as glorias da Monarquia Imperial por tantos
-seculos triunfante, mas agora opprimida, e arrastada pelo decreto fatal
-da Providencia. Será conveniente antes que entremos a informar do
-estabelecimento do novo dominio, formar hum Catalogo chronologico dos
-Pretores, e Consules, que nos governaraõ, noticia, que em obsequio, e
-beneficio da Historia, se fará estimavel aos estudiosos.
-
-
-_Catalogo chronologico aos Pretores, Consules, e Pro-Consules Romanos,
-que vieraõ governar Hespanha desde a sua primeira divisaõ em Ulterior,
-e Citerior até o Nascimento de Christo Senhor nosso._
-
- Ant.| Fund.|
- de | de |
- Chr.| Roma |
- 196 | 557 | Na Ulterior Marco Elio, ou Helvio.
- | |
- | | Na Citerior Cneyo Sempronio Tuditano.
- | |
- 195 | 558 | Na Ulterior, quinto Fabio Buteo.
- | |
- | | Na Citerior Quinto Minucio Thermo.
- 194 | 559 | Na Ulterior Appio Claudio Nero.
- | |
- | | Na Citerior Paulo, ou Publio Manlio.
- | |
- | | Com estes dous Pretores veyo tambem
- | | neste anno o Consul Marco Porcio
- | | Cataõ Censorino, o qual teve o governo
- | | em toda a Hespanha, e com felicidade,
- | | porque os Lisbonenses, e os de
- | | toda a sua Comarca lhe levantaraõ alguns
- | | padrões honorificos, e elle recolhendo-se
- | | a Roma riquissimo, introduzio
- | | no thesouro publico mais de quatrocentos
- | | mil cruzados em ouro, e prata,
- | | que extrahio das nossas terras; e para
- | | ter estas seguras na sua ausencia, antes
- | | que partisse mandou derribar os muros
- | | a quatrocentas Cidades, e Lugares fortes.[512]
- | |
- 192 | 560 | Na Ulterior Publio Cornelio Scipiaõ
- | | Nasica.
- | |
- | | Na Citerior Sexto Digicio.
- | |
- | | Tiveraõ os Portuguezes neste governo
- | | grandes batalhas com os Romanos, e estes
- | | andavaõ taõ desconfiados, e Nasica
- | | taõ temeroso do valor Lusitano, que
- | | chegou a fazer votos a Jupiter pela vitoria,
- | | a qual com effeito alcançou, porque
- | | a fome, e fadiga dos nossos debilitou
- | | muito o nosso exercito, e com tudo
- | | custou-lhe sete mil e novecentos Romanos,
- | | que morreraõ no conflicto.
- | |
- 191 | 561 | Na Ulterior Marco Fulvio Nobilior.
- | |
- | | Na Citerior Cayo Flaminio.
- | |
- 190 | 562 | Na Ulterior Appio Atilio Serrano.
- | |
- | | Na Citerior Marco Bebio Pamfilo.
- | |
- 189 | 563 | Na Ulterior Lucio Emilio Paulo.
- | | Na Citerior Cayo Flaminio reconduzido.
- | |
- | | Venceraõ os Lusitanos ao Pretor Emilio,
- | | matando-lhe seis mil Romanos.
- | |
- 188 | 564 | Ficaraõ reconduzidos os mesmos Pretores,
- | | e Lucio Emilio alcançou vitoria
- | | dos Portuguezes.
- | |
- 187 | 565 | Na Ulterior Lucio Bebio Divite.
- | |
- | | Na Citerior Lucio Plaucio Hipseo.
- | |
- | | Lucio Bebio morreo em Marselha antes
- | | de chegar a Hespanha, e assim os
- | | Consules mandaraõ para a Pretura de
- | | Portugal a Publio Junio Bruto.
- | |
- 186 | 566 | Na Ulterior Cayo Catinio.
- | |
- | | Na Citerior Lucio Manlio Acidino.
- | |
- 185 | 567 | Os mesmos reconduzidos.
- | |
- 184 | 568 | Na Ulterior Cayo Calfurnio Pison.
- | |
- | | Na Citerior Lucio Quincio Crispino.
- | |
- | | Os Lusitanos unidos com os Celtiberos
- | | ganharaõ a estes dous Pretores huma
- | | batalha, em que lhe mataraõ cinco mil
- | | homens.
- | |
- 183 | 569 | Os mesmos reconduzidos.
- | |
- 182 | 570 | Na Ulterior Paulo, ou Publio Sempronio
- | | Longo.
- | |
- | | Na Citerior Aulo Terencio Varro.
- | |
- 181 | 571 | Ficaraõ reconduzidos.
- | |
- 180 | 572 | Na Ulterior Publio Manlio.
- | |
- | | Na Citerior Q. Fulvio Falco.
- | |
- 178 | 574 | Na Ulterior Lucio Posthumio Albino.
- | |
- | | Na Citerior Tiberio Sempronio Graco.
- | |
- | | O Pretor Posthumio teve huma grande
- | | batalha com os Bracarenses, a quem
- | | venceo depois de huma grande derrota
- | | no seu exercito.
- | |
- 176 | 576 | Na Ulterior Tito Fonteyo Capito.
- | | Na Citerior Marco Ticinio Curvo.
- | |
- 174 | 578 | Na Ulterior Marco Cornelio Scipiaõ.
- | |
- | | Na Citerior Publio Licinio Crasso.
- | |
- | | Estes dous Pretores naõ chegaraõ a vir
- | | a Hespanha, e assim foraõ reconduzidos
- | | os antecedentes.
- | |
- 173 | 579 | Na Ulterior ignora-se quem fosse neste
- | | anno o Pretor.
- | |
- | | Na Citerior Appio Claudio Cento.
- | |
- 172 | 580 | Na Ulterior Cneyo Servilio Cepio.
- | |
- | | Na Citerior Publio Furio Filo.
- | |
- 171 | 581 | Na Ulterior Marco Macieno.
- | |
- | | Na Citerior Cneyo Fabio Buteo.
- | |
- 170 | 582 | Na Ulterior Spurio Lucrecio.
- | |
- | | Na Citerior Marco Junio.
- | |
- 169 | 583 | Neste anno determinaraõ os Consules
- | | que houvesse na Hespanha huma só Pretura,
- | | ou Provincia, e assim elegeraõ para
- | | Pretor a Lucio Canuleyo.
- | |
- 167 | 585 | Claudio, ou Marco Marcelo.
- | |
- 166 | 586 | Publio Fonteyo.
- | |
- 165 | 587 | Neste anno tornaraõ a dividir Hespanha
- | | em duas Preturas, e para a Ulterior
- | | veyo Cayo Licinio Nerva, e para a Citerior
- | | Cneyo Fulvio.
- | |
- 153 | 599 | Na Ulterior Marco Manilio.
- | |
- | | Neste governo floreceo hum insigne
- | | Capitaõ Bracaranse, chamado Apimano,
- | | a quem se seguio Cesaron, que ambos
- | | aterraraõ os Romanos.
- | |
- 152 | 600 | Neste anno, conforme Orosio, foy
- | | Pretor Sergio Galba; mas Apiano Alexandrino
- | | diz que era Calfurnio Pison.
- | |
- 151 | 601 | Neste anno foy Hespanha Provincia
- | | Consular, e para seu governo vieraõ os
- | | Consules Q. Fulvio, e Tito Anio.
- | |
- 149 | 603 | Lucio Luculo, e Albo Posthumio
- | | Consules tiveraõ com os Celtiberos, e
- | | Vacceos algumas batalhas taõ mal succedidas,
- | | que causou em Roma tanto
- | | medo, que naõ havia quem quizesse vir
- | | militar para Hespanha; até que Publio
- | | Scipiaõ Emilitano, offerecendo-se voluntario,
- | | persuadio a muitos a que viessem.
- | |
- | | No governo destes Consules diz Paulo
- | | Orosio, que acontecera aquella vil
- | | traição, que fez Servio Galba aos Portuguezes
- | | do Algarve,[513] e que refere
- | | a Monarquia Lusitana.[514]
- | |
- 145 | 607 | No governo dos Consules Cneyo Cornelio
- | | Lentulo, e L. Mumio principiou
- | | a florecer o esforçado valor do segundo
- | | Viriato, dando mayor credito ao valor
- | | dos Portuguezes com as repetidas vitorias,
- | | que alcançava dos Romanos.
- | |
- 144 | 608 | C. Vetilio, ou Marco Vetilio, Pretor
- | | da Hespanha Ulterior, foy vencido
- | | por Viriato.
- | |
- 143 | 609 | Cayo Plaucio, Pretor da Hespanha
- | | Ulterior, tambem vencido por Viriato
- | | em muitas batalhas.
- | |
- 142 | 610 | Claudio Unimano vencido por Viriato
- | | com grande infamia dos Romanos.
- | |
- | | Neste governo obraraõ prodigios os
- | | Portuguezes.
- | |
- 141 | 611 | Cayo Nigidio, a quem huns daõ o titulo
- | | de Pretor, outros de Consul, ficou
- | | vencido por Viriato no campo de Viseu
- | | em humas grandes vallas, que abrio para
- | | isso. Taõ atemorizados tinhaõ aos Romanos
- | | estes prosperos successos de Viriato,
- | | que lhes foy preciso para esta
- | | conquista de Hespanha duplicar os soccorros
- | | com exercitos Consulares.
- | |
- 140 | 612 | Q. Fabio Consul usou crueldades com
- | | os Portuguezes.
- | |
- 139 | 613 | Q. Fabio Proconsul expugnou muitas
- | | Cidades da Lusitania.
- | |
- 138 | 614 | O mesmo reconduzido, e juntamente
- | | os Consules Cayo Lelio o _Sabio_, e Q.
- | | Servilio Cepio, que foy author do assassinio,
- | | e morte de Viriato;[515] e Joaõ
- | | de Barros diz, que Viriato fora morto
- | | no Lumiar, termo de Lisboa.[516]
- | |
- 137 | 615 | M. Pompilio na Hespanha Citerior.
- | |
- 136 | 616 | Decio Junio Bruto Consul fez pazes
- | | com os Lusitanos.
- | |
- 135 | 617 | Neste anno sendo Proconsul o mesmo
- | | Decio, ou Decimo Junio Bruto, sujeitou
- | | ao seu dominio quasi toda a Lusitania,
- | | e na passagem do rio Lima lhe aconteceo
- | | com os soldados, que naõ queriaõ
- | | passar, o que fica referido na primeira
- | | parte pag. 127. fallando daquelle
- | | rio. A mayor resistencia, que experimentou
- | | este Proconsul, foy a que lhe
- | | fez a Cidade de Cinania.
- | |
- 134 | 618 | Neste anno vieraõ a Hespanha o Consul
- | | Q. Furio, e os Proconsules Q. Metello,
- | | e Q. Pomponio.
- | |
- 133 | 619 | M. Emilio Lepido Proconsul.
- | |
- 132 | 620 | Scipiaõ Africano Consul com C. Fulvio
- | | Flaco poz hum apertado cerco a
- | | Numancia.
- | |
- 131 | 621 | Neste anno vendo-se os Numantinos
- | | taõ fortemente cercados pelos Romanos,
- | | determinaraõ pôr fogo à Cidade,
- | | e morrer antes todos, que entregarem-se.
- | | Assim o executaraõ de sorte, que os
- | | Romanos naõ acharaõ cousa, de que
- | | triunfar, mais que do nome de Numancia.
- | |
- 130 | 622 | Neste anno, e em alguns dos seguintes
- | | vieraõ a Hespanha varios Pretores,
- | | e Consules, cujos annos de seus governos
- | | naõ se podem produzir em chronologia
- | | certa.
- | |
- 107 | 645 | Q. Servilio Cepio, ou Scipiaõ, triunfou
- | | dos Portuguezes.
- | |
- 103 | 649 | Venceraõ os Lusitanos aos exercitos
- | | dos Consules P. Rutilio Rufo, e C.
- | | Manlio.
- | |
- 100 | 652 | C. Mario IV. e Q. Luctacio Consules
- | | ficaraõ vencidos dos Lusitanos, e a
- | | Hespanha Ulterior em grande paz.
- | |
- 97 | 655 | Lucio Cornelio Dolabella Proconsul
- | | da Hespanha Ulterior triunfa dos Lusitanos.
- | |
- 92 | 660 | Publio Licinio Crasso Proconsul triunfa
- | | dos Lusitanos.
- | |
- 79 | 673 | Neste anno floreceo o valor do Capitaõ
- | | Q. Sertorio, que fugindo de Sylla,
- | | seu inimigo Romano, veyo a Hespanha,
- | | e conciliando a vontade, e animo dos
- | | Portuguezes, venceo a muitos Capitães
- | | Romanos. Edificou varias obras em Portugal,
- | | principalmente Evora.
- | |
- 75 | 677 | Neste anno veyo a Hespanha Pompeo
- | | Magno, a quem Sertorio venceo com
- | | grande credito dos Portuguezes.
- | |
- 69 | 683 | Foy morto Sertorio em Evora atraiçoadamente
- | | por M. Perpenna, e outros
- | | conjurados.
- | |
- 68 | 684 | Com a morte de Sertorio conseguio
- | | Pompeo que quasi todas as Cidades de
- | | Hespanha se lhe entregassem, ainda que
- | | à força de armas, e com bastante resistencia
- | | de outras.
- | |
- 67 | 685 | Publio Pison Proconsul.
- | |
- 62 | 690 | Neste anno veyo a Hespanha com titulo
- | | de Legado hum nobre mancebo
- | | Romano, chamado Cneyo Pison, ao
- | | qual mataraõ publicamente huns soldados
- | | Hespanhoes por industria de Pompeo.
- | | Tambem aconteceo neste anno
- | | hum notavel tremor de terra na costa de
- | | Portugal, e Galiza, com que se arruinaraõ
- | | muitos Lugares.[517]
- | |
- 60 | 692 | Q. Calidio com titulo de Pretor de
- | | Hespanha destruio muitas companhias
- | | de Lusitanos.
- | |
- 59 | 693 | Na Hespanha Ulterior Tuberon Pretor.
- | | Veyo por seu Questor C. Julio Cesar.
- | |
- 58 | 694 | Na Hespanha Ulterior C. Julio Cesar
- | | Pretor fez sujeitar ao Imperio Romano
- | | a Lusitania, e Galiza; e recolhendo-se
- | | a Roma, foy feito Consul.
- | |
- 57 | 695 | Veyo Pompeo a Hespanha, que ao
- | | depois administrou por Legados.
- | |
- 56 | 696 | Publio Lentulo Pretor.
- | |
- 54 | 698 | Q. Metello Nepos Proconsul.
- | |
- 53 | 699 | Q. Cecilio Dentato. Houve em Portugal
- | | tanta fartura, que os mantimentos
- | | se davaõ quasi de graça.
- | |
- 52 | 700 | Q. Cecilio Metello Neto.
- | |
- 50 | 702 | Tuberon Proconsul.
- | |
- 47 | 705 | Foy nomeado Pompeo para Pretor de
- | | ambas as Provincias de Hespanha, as
- | | quaes administrou por Legados, que
- | | foraõ Petreyo, Afranio, e M. Varro.
- | | Neste anno andavaõ em grande calor as
- | | guerras civis entre Pompeo, e Julio Cesar.
- | |
- 46 | 706 | Sendo Julio Cesar Consul, e Dictador,
- | | regeraõ ambas as Hespanhas Q.
- | | Cassio a Ulterior, e o Proconsul M. Lepido
- | | a Citerior.
- | |
- 44 | 708 | Q. Cassio Longino Propretor da Hespanha
- | | Ulterior summamente avaro, e
- | | cruel.
- | |
- 43 | 709 | C. Trebonio Proconsul.
- | |
- 42 | 710 | Q. Fabio Consul triunfou na Hespanha.
- | | Neste anno pelejando Julio Cesar
- | | contra os filhos de Pompeo, alcançou
- | | delles o triunfo junto da Cidade de Munda
- | | no Reino de Granada, em que os
- | | Portuguezes mostraraõ grande fidelidade
- | | a Pompeo.[518]
- | |
- 40 | 712 | Q. Pelio Proconsul triunfa na Hepanha.
- | |
- 39 | 713 | M. Emilio Lepido tambem alcançou
- | | vitoria na Hespanha.
- | |
- 37 | 715 | Tomaõ os Lusitanos a Era de Cesar.
- | |
- 35 | 717 | Cneyo Domicio Calvino Proconsul
- | | triunfa.
- | |
- | | C. Norbano Flaco Proconsul triunfa.
- | |
- 31 | 721 | C. Asinio Polion, discipulo de M.
- | | Tulio, ficou governando Hespanha na
- | | ausencia de Julio Cesar.
- | |
- 26 | 726 | Vendo o Imperador Octaviano Augusto
- | | o pouco, que as armas Romanas
- | | tinhaõ conseguido em Hespanha pelo espaço
- | | de duzentos annos, determinou vir
- | | em pessoa, e dentro em quatro annos
- | | conciliou a paz em toda a Hespanha. Estando
- | | em Tarragona, gozou hum pleno
- | | dominio da honra Imperial. Muitos
- | | povos Portuguezes lhe dedicaraõ templos,
- | | e estatuas pelas mercês, e privilegios,
- | | que lhes concedeo, singularizando-se
- | | Evora, Mertola, Lisboa, e
- | | Santarem, mudando todas os seus nomes,
- | | que tinhaõ, em outro, que dissesse respeito
- | | aos favores recebidos; e assim Evora
- | | se principiou a chamar _Liberalitas Julia_,
- | | Mertola _Mirtilis Julia_, Lisboa _Felicitas
- | | Julia_, Santarem _Julium Præsidium_.
- | |
- 2 | 750 | Neste anno mandou o dito Imperador,
- | | estando em Tarragona, publicar o
- | | edicto geral para se alistar toda a gente,
- | | que havia no mundo sujeita ao Imperio
- | | Romano, e pagar certo tributo, que
- | | era trinta e seis reis cada pessoa em reconhecimento
- | | da vassallagem. De Portuguezes
- | | se alistaraõ cinco contos e sessenta
- | | e oito mil pessoas cabeças de familias,
- | | cuja ordem se passou nas Chancellarias
- | | do Reino, chamadas entaõ Conventos
- | | Juridicos, e eraõ _Merida_, que
- | | hoje está fóra do territorio de Portugal;
- | | _Béja_, à qual acudia o povo de Alentejo,
- | | e Algarve; _Braga_ para o povo do
- | | Minho, e Tras os Montes; _Santarem_
- | | para o da Beira, e Estremadura.
- | |
- 1 | 751 | Neste anno se fez famoso hum Portuguez
- | | do Minho, chamado _Corocota_, que
- | | com certo numero de vadios inquietou
- | | varias terras, e o Imperador promettendo
- | | tres mil cruzados a quem o apanhasse,
- | | elle mesmo se lhe veyo offerecer, e
- | | o Imperador perdoando-lhe, o admittio
- | | para sua guarda.
- | |
- | | Depois do Nascimento de Christo até
- | | os Godos naõ ha cousa memoravel, que
- | | pertença à Lusitania, mais que o acharse
- | | em huma socegada paz na obediencia dos
- | | Romanos. Até os tempos dos Imperadores
- | | Maximiniano, e Diocleciano durou
- | | o governo de Hespanha em Pretores,
- | | e Proconsules: no de Constantino
- | | houve outro estylo, porque se instituio
- | | hum Vigario do Imperio, a que obedeciaõ
- | | todos os Legados, e Regedores das
- | | Provincias, e o tal Vigario ainda reconhecia
- | | por Superior ao Prefeito do Pretorio,
- | | que residia em França, por estar
- | | no meyo das terras da sua jurisdicçaõ.
- | | Depois se começou a governar por Condes.
- | | Havia tambem alguns Regulos, ou
- | | Fidalgos, Senhores de Cidades, subditos
- | | ao Imperio Romano, qual foy Ont
- | | Comero, pay de Santa Engracia, e no
- | | tempo dos Godos Castinaldo, Principe
- | | de Nabancia, e Cathelio, Senhor de
- | | Norba Cesarea, e pay das Santas nove
- | | irmãs.[519]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[504] Valer. Maxim. lib. 9. Just. Lipsio lib. 4. de Magnitud. Roman.
-cap. 5. Tarselin. Epitom. Historic. lib. 3.
-
-[505] Strab lib. 3. Liv. decad. 4. lib. 3. Plin. lib. 3. c. 3. Guid.
-Pancirol Notitia Dignit. utriusq. Imper. c. 66. Robortel. de Provinc.
-Roman. Vasæus tom. 1. cap. 8. n. 14.
-
-[506] Monarq. Lusitan. liv 2. cap. 23.
-
-[507] Oros. liv. 4. cap. 19. Liv. decad. 4. lib. 6. Moral. lib. 7. cap.
-11.
-
-[508] _Tantus metus Romanas omnes invasit; ut nemo inveniretur, qui vel
-Tribunus, vel Legatus ire in eam Provinciam vellet._ Vasæus tom. 1.
-cap. 12. Liv. decad. 3. lib. 6.
-
-[509] Orosius lib. 4. cap. 21.
-
-[510] Monarq. Lusitan. liv. 4. cap. 2. e 3.
-
-[511] Monarq. Lusitan. liv. 5. cap. 17.
-
-[512] Liv. decad. 3. lib. 7. Jul. Front. l. 1. c. 1. Val. Max. l. 4.
-
-[513] Oros. l. 4. c. 21.
-
-[514] Monarq. Lusit. liv. 2. c. 30.
-
-[515] Vide Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 10.
-
-[516] Joaõ de Barr. na Descripçaõ do Minho cap. 3.
-
-[517] Monarq. Lusitan. liv. 3. cap. 30.
-
-[518] Vid. Monarq. Lusit. liv. 4. cap. 17. e 18. Vas. tom. 1. cap. 12.
-Resend. lib. 3. Antiquit.
-
-[519] Veja-se a Cujac. liv. 8. cap. 25. Observ. a Vaseu tom. 1. Chron.
-cap. 13. Resend. lib. 3. de Antiq. Monarq. Lusit. part. 1. liv. 4. cap.
-30. e liv. 5. cap. 18. 21. e 24.
-
-
-
-
- CAPITULO IV.
-
-_Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos._
-
-
-1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador
-Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho
-Eucherio, o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas
-gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas _Vandalos_, _Suevos_,
-_Alanos_, e _Selingos_, os quaes depois de terem saqueado Roma, e
-destruido grande parte de França, invadiraõ nossas terras com huma
-expediçaõ taõ barbara, talando campos, e edificios, que igualavaõ a
-colera com a crueldade.[520]
-
-2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca
-dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que
-aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ
-a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,[521] que corresponde aos
-annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que
-esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a
-tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que
-os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade,
-arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao
-Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes
-barbaros se encaminhavaõ.
-
-3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ; e por
-naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos com o seu
-Rey _Gunderico_, ou _Mondigelesio_, occuparaõ Andaluzia, que delles
-adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus Reys _Resplandiano_,
-e _Hermenerico_ possuiraõ a Lusitania, e Galiza, ficando Asturias, e
-Biscaya permanecendo na sujeiçaõ Romana.[522]
-
-4 Morto _Resplandiano_ se lhe seguio _Atáces_, o qual estribando seu
-atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte da Lusitania,
-foy accommetter _Hermenerico_, Rey dos Suevos, a quem tomou algumas
-terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava existente no sitio
-de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que agora existe,
-obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.
-
-5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces;
-convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no
-Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos,
-e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo
-porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua
-filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas
-consideraveis.[523] Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro,
-occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que
-seguiaõ o partido Romano.
-
-6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo
-accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces
-pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito
-pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com
-taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a
-Atáces.
-
-7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ
-a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser
-feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com
-tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os
-Portuguezes a chamar Suevos.[524] Passaõ os Vandalos para Africa em
-numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na
-Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.
-
-8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos,
-quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey
-dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto
-a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo,
-para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de
-Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.
-
-9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos
-Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e
-nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada
-eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ
-lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os
-Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.
-
-10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de
-naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a
-França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos
-descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e
-padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.
-
-11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que
-seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como
-a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle
-o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente
-feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o
-principado da Lusitania, e dos Suevos.
-
-12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey
-Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus
-antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e
-reconhecimento, em que vivia. Lisongeado Theodorico desta attençaõ,
-houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha,
-a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que
-inficionou todo o Reino,[525] na qual foraõ permanecendo outros Reys
-até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que
-abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ
-vivido noventa annos.
-
-13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias,
-que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira,
-voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o
-Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,[526] principiando daqui para
-diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.
-
-14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ
-continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras
-Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys
-Godos.[527] Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de
-successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve
-revelaçaõ divina,[528] foy escolhido Vamba, natural, e habitador de
-Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o
-dispotico exercicio da sua agricultura.
-
-15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e
-elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel,
-respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ
-seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois
-ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra,
-foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ Rey de toda
-Hespanha[529] na Era de 710.[530]
-
-16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar
-Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum
-accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a
-Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o
-Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,[531]
-acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que
-Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.
-
-17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois
-Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte
-humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte
-lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o
-Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.[532]
-
-18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados
-acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ
-desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por
-appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por
-conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte
-da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde,
-chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura:
-affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe
-prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se
-passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou
-Egilona, formosa Princeza de Africa, a quem a braveza das ondas fizera
-por hum incidente arribar a Hespanha.[533]
-
-19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com
-seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle
-se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros,
-por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e
-conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter
-Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente
-Monarquia dos Godos.
-
-20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que
-corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas
-circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros
-com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous
-annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que
-os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem
-Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer
-destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ
-que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo
-alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em
-parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e
-que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o
-que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.[534] E porque os
-Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos
-delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.
-
-
-_Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e
-Galiza._
-
- | Ann.|
- | de |
- | Chr.|
- | |
- | 409 | _Hermerico_, ou _Hermenerico_. Teve guerras
- | | com os Alanos. Depois dos Vandalos
- | | passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo
- | | o Reino de Portugal da fórma, que hoje
- | | está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza.
- | | Morreo em Merida de huma doença,
- | | que lhe durou sete annos, e governou trinta
- | | e dous.
- | |
- | 440 | _Rechila_, filho do antecedente. Fora Principe
- | | perfeito, se naõ seguira o Arrianismo.
- | | Com prosperidade, e paz governou sete annos.
- | |
- | 448 | _Reciario_, filho de Rechila. Teve alguns
- | | emulos no principio do seu reinado: casou
- | | com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou,
- | | e destruio os Vascões: passou a França
- | | a visitar seu sogro, e na retirada conquistou
- | | muitas terras de Hespanha. S. Balconio,
- | | Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo.
- | | Na Cidade do Porto foy degollado
- | | por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha
- | | verdadeira dos Suevos. Governou nove
- | | annos.
- | |
- | 457 | _Maldra_, ou _Masdra_. Foy eleito na Cidade
- | | de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do
- | | Reino; mas padeceo as opposições, que lhe
- | | fez _Franta_, que os do partido contrario
- | | introduziraõ no governo, e elle governou tres
- | | annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado
- | | _Frumario_, que reinou tyrannicamente
- | | dous annos, e a Masdra se seguio
- | |
- | 464 | _Remismundo_, a quem Santo Isidoro chama
- | | _Arismundo_, filho de Masdra. Ficou prevalecendo
- | | o seu reinado entre os dous precedentes
- | | Contendores. Foy cativo, e prezo por
- | | ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio
- | | em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante
- | | naõ he muy certa a successaõ dos Reys
- | | Suevos por se interromper a sua serie com a
- | | morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito[535]
- | | dá por incertos a _Theodulo_, _Veremundo_,
- | | _Miro_, _Pharamiro_. Filippe de la Gandara,[536]
- | | seguindo o Chronicon de Marco Maximo,
- | | assina depois de Remismundo a _Hermenerico_
- | | no anno 556 com o governo de quasi
- | | cincoenta annos: a _Rechila II._ _Reciario II._
- | | a quem S. Martinho Dumiense converteo à
- | | Fé Catholica, e a _Ariamiro_, ou
- | |
- | 560 | _Theodomiro_, filho de Reciario. Converteo-se
- | | à Fé juntamente com seu pay, e foy grande
- | | defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se
- | | no seu tempo o primeiro Concilio
- | | Bracarense. Os annos do seu governo saõ
- | | muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue
- | | o allegado Gandara, diz que reinou vinte e
- | | quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu
- | | Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem
- | | lhe assina dez annos de governo, e parece
- | | o mais provavel. O Padre Argote lhe dá
- | | o nome de Theodomiro Junior, porque antes
- | | delle diz que houvera outro Theodomiro
- | | Senior.[537]
- | |
- | 570 | _Miro_, ou _Ariamiro_. Foy excellente Principe
- | | em piedade, e Religiaõ. Fez convocar
- | | em Braga o segundo Concilio para desterrar
- | | alguns abusos, e governou treze annos. Aqui
- | | ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey,
- | | que alguns confundem com Theodomiro, e
- | | por isso naõ se ajusta entre os Authores a
- | | chronologia como deve ser.[538]
- | |
- | 583 | _Eborico_, ou _Eurico_. Succedeo no governo
- | | ao antecedente. Foy logo despojado do Reino
- | | por _Andéca_, padrasto de Eburico, o qual
- | | para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe
- | | fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro
- | | de Dume, e professar. Esta violencia vingou
- | | pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo,
- | | obrigando tambem a Andéca a se ordenar de
- | | Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou
- | | posse de todas as riquezas do Reino, o qual
- | | no poder dos Suevos tinha durado em ambas
- | | as fortunas cento e setenta e sete annos.
-
-Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma
-serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto
-em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.[539] Este
-Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel
-nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir
-na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim
-exclue a _Frantan_, _Fumario_, e _Andéca_, numerando sómente oito Reys
-Suevos legitimos, e verdadeiros.
-
-_Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e
-Portugal._
-
- | Ann.|
- | de |
- | Chr.|
- | |
- | 411 | _Ataulfo_. Foy o primeiro Rey Godo, que
- | | teve dominio em Hespanha. Suceedeo a
- | | Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do
- | | Imperador Honorio, aquem este deu em dote
- | | as terras de Hespanha com o designio de
- | | expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações
- | | Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se
- | | com brandura no governo, foy desobedecido
- | | pelos seus, e por elles morto em
- | | companhia de sete filhos. Dizem huns que
- | | governara cinco annos, outros seis.
- | |
- | 416 | _Sigirico._ Era valeroso Capitaõ, e por isso
- | | elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos
- | | termos de paz; e naõ se contentando os
- | | Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ
- | | a vida. Governou hum anno.
- | |
- | 416 | _Walia._ Começou a governar com o projecto
- | | de conquistar Africa: perdeo huma grande
- | | armada: retira-se a Barcelona, faz pazes
- | | com Honorio, e depois guerra aos Vandalos,
- | | e os vence. Morre em Tolosa, tendo
- | | governado tres annos.
- | |
- | 419 | _Theodoredo_, ou _Theodorico_. Fez guerra aos
- | | Romanos, e morreo na cruelissima batalha
- | | dos campos Catalaunicos, cahindo de hum
- | | cavallo. Governou trinta e tres annos.
- | |
- | 452 | _Thurismundo_, filho de Theodoredo. Foy
- | | morto por industria de seus irmãos. Governou
- | | hum anno.
- | |
- | 453 | _Theuderico_, irmaõ de Thurismundo. Venceo,
- | | e matou a Reciario, Rey dos Suevos,
- | | e em Braga fez grandes hostilidades. Foy
- | | morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze
- | | annos.
- | |
- | 466 | _Eurico._ Deu leys escritas aos Godos, expulsou
- | | aos Romanos de Hespanha, conquistou,
- | | e saqueou muitas terras de Portugal.
- | | Neste tempo se achava Hespanha dividida em
- | | tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza,
- | | parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era
- | | dos Godos: os Romanos eraõ senhores das
- | | Provincias de Cartagena, e Carpentana com
- | | o restante da Lusitania. Depois de algumas
- | | vitorias morreo em Arlés de França, e governou
- | | dezasete annos.
- | |
- | 483 | _Alarico II._ filho de Eurico. Litigou com
- | | Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha
- | | junto a Carcasona perdeo com ella a
- | | vida. Governou vinte e tres annos.
- | |
- | 506 | _Gesalico_, ou _Gesaleuco_ ou _Gensalarico_, filho
- | | illegitimo de Alarico. Foy acclamado
- | | pelos Godos na menoridade de Amalarico.
- | | Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em
- | | França; e sendo vencido por Theodorico,
- | | Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro
- | | legitimo, morreo de melancolia. Governou
- | | quatro annos.
- | |
- | 511 | _Theudorico II._ Tendo reinado dezoito annos
- | | em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem
- | | huns que como Rey verdadeiro, outros
- | | só como tutor, ou administrador de seu neto.
- | | Governou quinze annos.
- | |
- | 526 | _Amalarico_, filho de Alarico. Teve por mulher
- | | a Crotilde, Princeza Catholica, filha
- | | de Clodoveo, Rey de França; mas como o
- | | marido era Arriano, padeceo com elle grandes
- | | trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ,
- | | matando-o, e destruindo muitas povoações
- | | de Hespanha. Governou cinco annos.
- | |
- | 531 | _Theudo_, ou _Theudio_, ou _Teudis_. Tinha sido
- | | tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha:
- | | outros o fazem descendente delRey
- | | Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio
- | | o governo dos Romanos em Hespanha quanto
- | | aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio
- | | por hum homem, que se fingia bobo.
- | | Governou dezasete annos.
- | |
- | 548 | _Theudiselo_, ou _Theudisclo_. Foy Arriano, e
- | | hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o
- | | mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete.
- | | Governou hum anno.
- | |
- | 549 | _Agila._ Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito
- | | Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos
- | | dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ
- | | em Merida. Governou cinco annos.
- | |
- | 554 | _Athanagildo._ De Capitaõ, que se havia rebelado,
- | | ficou com o Reino dos Godos. Morreo
- | | em Toledo, e governou quatorze annos.
- | |
- | 567 | _Liuva_, ou _Luiva_. Depois de reinar hum
- | | anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ
- | | Leovigildo, e elle se retira às terras,
- | | que tinha em França. Governou hum anno.
- | |
- | 568 | _Leovigildo._ Alcançou muitas vitorias dos
- | | Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas,
- | | foy o primeiro, que usou de insignias Reaes,
- | | throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras
- | | com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio,
- | | e fez martyrizar em Sevilha depois
- | | de huma apertada prizaõ. Governou dezoito
- | | annos.
- | |
- | 586 | _Flavio Recaredo_, filho de Leovigildo, e sobrinho
- | | de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou
- | | a heresia de Arrio das terras de Hespanha,
- | | e governou quinze annos.
- | |
- | 601 | _Liuva II._ filho de Recaredo, que alguns
- | | querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico.
- | | Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe
- | | com tyrannia a vida. Governou
- | | dous annos.
- | |
- | 603 | _Witerico._ Renovou em seu governo a perfidia
- | | de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ
- | | pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe
- | | immunda sepultura. Governou seis annos.
- | |
- | 610 | _Gundemaro._ Foy defensor da immunidade
- | | Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou
- | | dous annos.
- | |
- | 612 | _Sisebuto._ No principio do seu reinado constrangeo
- | | aos Judeos a que seguissem a Ley de
- | | Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para
- | | França. Acabou de lançar fóra de Portugal
- | | aos Romanos, que ainda se conservavaõ
- | | neste tempo por toda a costa do Algarve, e
- | | entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel.
- | | Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em
- | | Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou
- | | oito annos e meyo.
- | |
- | 621 | _Flavio Suyntila_, filho de Recaredo. Destruio
- | | os Imperiaes, e sujeitou ao dominio
- | | Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios,
- | | e crueldades de fórma, que o Concilio
- | | Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro,
- | | o excommungou, e a sua mulher, e filhos.
- | | Os Vice-Godos o privaraõ do Reino.
- | | Governou dez annos.
- | |
- | 631 | _Sisenando._ Foy sublimado ao throno por favor
- | | de Dagoberto, Rey de França, a quem
- | | deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ
- | | para acabar o grande Templo de S.
- | | Diniz. Governou quatro annos.
- | |
- | 636 | _Chintila._ Por votos uniformes da Nobreza
- | | foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado
- | | Regio sua descendencia, convocou alguns
- | | Concilios para estabelecer o seu intento.
- | | Governou tres annos.
- | |
- | 640 | _Tulga._ Viveo pouco, porém fez obras de
- | | grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em
- | | Toledo com grande sentimento, e saudade de
- | | todos. Governou dous annos.
- | |
- | 642 | _Chindasuindo._ Entrou a governar por violencia,
- | | continuou com justiça de forte, que
- | | soube temperar o arduo do principio com
- | | o suave do progresso. Convocou em Toledo
- | | Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ
- | | entre Toro, e Torresilhas, onde está
- | | enterrado. Governou seis annos.
- | |
- | 649 | _Recesuindo_, filho do antecedente. Entrou a
- | | governar sem contradiçaõ, e com justiça.
- | | Governou vinte e tres annos.
- | |
- | 672 | _Wamba_, ou _Bamba_. Foy eleito, e ungido
- | | Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas
- | | contra aquelles povos, que se queriaõ
- | | eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos
- | | triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma
- | | coroa por outra: repudiou o Reino, e
- | | deixando a purpura pelo habito de Religioso,
- | | acabou santamente. Governou sete annos.
- | |
- | 680 | _Ervigio._ Obteve o Cetro por industrias,
- | | que maquinou em vida de Bamba. Governou
- | | sete annos.
- | |
- | 687 | _Egica_, ou _Egiza_, genro de Ervigio. Tomou
- | | por companheiro a seu filho Witiza, e
- | | obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade.
- | | Divide o governo entre si, e o filho,
- | | dando a este o dominio de Portugal, e Galiza,
- | | e elle ficando com o restante da Hespanha.
- | | Governou dez annos.
- | |
- | 701 | _Witiza._ Tanto que subio ao Throno, fez
- | | estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se
- | | a todo o genero de vicios, chegou ao extremo
- | | da maldade, e tyrannia, mandando tirar
- | | os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia
- | | pacifico no governo de Cordova. Concedeo
- | | varios privilegios aos Judeos, e depois
- | | de outras muitas perversidades, que o fizeraõ
- | | aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou
- | | dez annos.
- | |
- | 711 | _D. Rodrigo_, filho de Theodofredo, e neto
- | | de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios
- | | ao antecessor. Os amores, que teve com
- | | Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa
- | | da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se
- | | por conducta do Conde offendido
- | | no desprezo de sua filha hum grande corpo de
- | | exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo,
- | | e todo o poder dos Godos, que havia
- | | durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta
- | | annos.[540]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[520] Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5. pag. 113.
-
-[521] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2.
-
-[522] Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e triunf.
-Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron. Gotic.
-tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3.
-
-[523] Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi 224.
-
-[524] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.
-
-[525] Morales lib. 11. cap. 33.
-
-[526] Vasæus Chron. tom. 1. p. 39.
-
-[527] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 24.
-
-[528] Faria na Europa Portug. tom. 1. part. 3. cap. 20.
-
-[529] Monarq. Lusit, liv. 6. cap. 25.
-
-[530] Morales liv. 12. cap. 40. e 41.
-
-[531] Berganç. Antig. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 6. n. 67.
-
-[532] Castilh. liv. 2. disc. 10. Monarq. Lusit. ut supr. cap. 30.
-
-[533] Garibay liv. 36. Clede tom. 1. liv. 3. pag. mihi 309. Monarq.
-Lusit. liv. 7. cap. 1.
-
-[534] Argot. Memor. do Arcebispad. de Brag. liv. 5. cap. 2. num. 367.
-
-[535] Monarq. Lusitan. liv. 5 cap. 10.
-
-[536] Gandar Triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. liv. 7. cap. 7.
-
-[537] Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1.
-
-[538] Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la Era, y
-Fechas de España.
-
-[539] Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia.
-
-
-
-
- CAPITULO V.
-
-_Invasaõ, e dominio dos Mouros._
-
-
-1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete
-em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor
-computaçaõ,[541] e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz
-Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os
-seus dias junto a Viseu,[542] entraraõ os Arabes a executar com todo
-o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous
-annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao
-dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias, que
-pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos
-Africanos.[543]
-
-2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle
-improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel,
-vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias
-a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e
-Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando
-estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais
-proximas ao Oceano.[544]
-
-3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da
-antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,[545] que com as breves
-reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias.
-Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador
-Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle
-ausente,[546] com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus
-hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe
-aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à
-empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga,
-noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou
-accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil
-Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.[547]
-
-4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos
-Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e
-concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso, filho de
-D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey
-Godo,[548] se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo,
-o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o
-desposou com sua filha Ermesenda.
-
-5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo,
-e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e
-recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino,
-libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando
-com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os
-nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.[549]
-
-6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum
-Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias
-segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia
-dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e
-intimando as suas leys.[550]
-
-7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila,
-seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta
-gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que
-resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações
-dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na
-obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia
-de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio,
-D. Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que
-ElRey D. Affonso _o Casto_, reforçado com mayor poder, se avançou desde
-as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor
-presidio, e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do
-Minho, e Beira, por onde passara.
-
-8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos,
-sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ
-todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém
-este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com
-este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado
-das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e
-mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D.
-Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento.
-
-9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de
-seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do
-valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras
-de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso
-Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos
-soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de
-expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado
-Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo
-Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e
-destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos
-seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em
-Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas
-Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho,
-podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e
-guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de
-Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de
-Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon
-de Vaseu. _Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que em
-tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal._
-
- | Ann. |
- | de |
- | Chr. |
- | |
- | 738 | _D. Affonso I._ chamado o _Catholico_, filho
- | | do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey
- | | D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias,
- | | que depois da perda de Hespanha teve
- | | dominio sobre os Portuguezes, e conquistou
- | | aos Mouros terras de nosso paiz: fundou,
- | | e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove
- | | annos.
- | |
- | 757 | _D. Froila_, ou _Fruela_, filho de D. Affonso.
- | | Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe
- | | conquistou Béja, Setubal, e outras terras de
- | | Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto
- | | seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando
- | | com esta crueldade todas as boas obras,
- | | que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico
- | | de Hespanha, e no seu tempo succedeo
- | | a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal.
- | | Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado
- | | na Igreja de Oviedo, que elle fundou.
- | | Governou onze annos e meyo.
- | |
- | 768 | _D. Aurelio_, filho de D. Fruela. Serenou
- | | com prudencia num grande tumulto de escravos,
- | | que se levantaraõ contra seus senhores.
- | | Governou seis annos.
- | |
- | 774 | _D. Silo._ Succedeo na Coroa, por casar com
- | | Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico.
- | | Teve paz com os Sarracenos, e só com os
- | | Gallegos teve huma guerra, em que venceo.
- | | Entrou poderosamente na Cidade de Merida,
- | | donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o
- | | depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de
- | | Pravia, onde elle está enterrado, com huma
- | | inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho,
- | | que diz, e se lê por todos os lados: _Silo Princeps
- | | fecit_. Governou nove annos.
- | |
- | 783 | _D. Mauregato._ Obteve a Coroa por usurpaçaõ;
- | | porque a Rainha Adosinda pertendeo
- | | que os Grandes de Hespanha acclamassem
- | | por successor a D. Affonso, seu sobrinho,
- | | filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato,
- | | filho bastardo de D. Affonso o _Catholico_
- | | havido em huma Moura, anhelando
- | | tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen,
- | | Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem,
- | | se o soccorresse na sua pertençaõ.
- | | Foy o promettimento dar-lhe todos os annos
- | | cem donzellas de tributo, cincoenta nobres,
- | | e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher
- | | em Asturias, Portugal, e Galiza. D.
- | | Joseph Pellizer,[551] a quem segue D. Joaõ
- | | de Ferreras,[552] quizeraõ persuadir que este
- | | Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera
- | | ao Mouro o tributo annual das cem
- | | donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ,
- | | segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,[553]
- | | e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.[554]
- | | Governou cinco annos.
- | |
- | 789 | _D. Bermudo I._ filho de D. Fruela. Sendo
- | | Diacono, e destinado à Igreja, por instancias
- | | dos Grandes do Reino entrou a governar.
- | | Naõ quiz contribuir aos Governadores
- | | Mouros com o tributo das cem donzellas.
- | | Depois de haver governado tres annos, e oito
- | | mezes, renunciou o Reino em D. Affonso,
- | | filho de seu primo D. Fruela, e passou
- | | a buscar o habito de Monge no Mosteiro de
- | | Sahagum, onde viveo muitos annos.
- | |
- | 791 | _D. Affonso II._ chamado o _Casto_. Encarregando-se
- | | do governo, que lhe cedeo D. Bermudo,
- | | começou a se fazer temido dos Mouros.
- | | Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou
- | | as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra,
- | | Braga, e outros Lugares. Mahamet
- | | fez pazes com elle, e o servia como vassallo.
- | | Em seu tempo se descubrio o corpo do
- | | glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou
- | | edificar huma Igreja com magnificencia Real.
- | | Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta
- | | e hum annos; porém a Clave Historial
- | | do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina
- | | trinta e quatro.
- | |
- | 842 | _D. Ramiro I._ filho delRey D. Bermudo.
- | | Logo no principio do seu reinado se levantou
- | | contra elle hum Conde das Asturias, chamado
- | | Nepociano, a quem venceo, e castigou,
- | | mandando-lhe tirar os olhos, supplicio
- | | ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual
- | | ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego,
- | | Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho.
- | | Aqui poz por Governador a seu tio o
- | | Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos
- | | pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ
- | | irremediavelmente por falta de mantimentos,
- | | resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos,
- | | e meninos haviaõ ficar expostos ao furor
- | | dos tyrannos, fossem elles mesmos os que
- | | sacrificassem a innocencia por victima da sua
- | | honra: e assim cada hum degollou por suas
- | | proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo
- | | a acommetter desesperadamente aos Mouros,
- | | os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo
- | | modo de pelejar, se deraõ por vencidos
- | | à custa de setenta mil que pereceraõ. No
- | | outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo
- | | novo motivo para a admiraçaõ, vendo
- | | que todos os degollados viviaõ resuscitados
- | | milagrosamente. Referem este caso nossos
- | | Historiadores,[555] e parece que o acredita
- | | a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece
- | | nesta Villa. No seu Castello está hum
- | | antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas
- | | letras carcomidas, bem se percebe da contextura
- | | ser narraçaõ deste prodigio. Havendo
- | | finalmente D. Ramiro governado sete annos,
- | | e oito mezes, morreo no primeiro de
- | | Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja
- | | de Oviedo.
- | |
- | 850 | _D. Ordonho I._ filho de D. Ramiro, a quem
- | | succedeo com universal applauso, por ser
- | | Principe de grande valor, e talento. Serenou
- | | huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e
- | | venceo ao renegado Musa, de grande nome
- | | entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy
- | | temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras
- | | terras de Portugal. Morreo de gota, e
- | | governou dezaseis annos.
- | |
- | 866 | _D. Affonso III._ chamado o _Magno_ pelas
- | | grandes vitorias, que alcançou dos Mouros,
- | | e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas,
- | | que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se,
- | | e os Barbaros oppondo-lhe fortes
- | | exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou
- | | dos outros. Em Portugal reedificou
- | | muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto,
- | | Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações
- | | domesticas, e sabendo que os seus mesmos
- | | filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos
- | | naõ vencer a elles naquella violencia, se
- | | venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a
- | | D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e
- | | Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal,
- | | ficando elle só com a espada contra os
- | | Mouros, de quem ainda alcançou vitorias.
- | | Governou quarenta e quatro annos.
- | |
- | 910 | _D. Garcia._ Entrou a governar bem, explicando
- | | o seu valor na vitoria, que teve dos
- | | Mouros em Talavera, prendendo ao General
- | | Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou
- | | tres annos.
- | |
- | 913 | _D. Ordonho II._ Morto D. Garcia, foy acclamado
- | | Rey pelos Bispos, e Principaes do
- | | Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era
- | | a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ,
- | | e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ.
- | | Poz grande terror aos Barbaros, de fórma
- | | que ElRey de Merida lhe veyo render
- | | vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes,
- | | que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ
- | | rebellar, mandou-os vir a Tejares junto
- | | do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar
- | | com elles materias importantes; mas dissimuladamente
- | | os prendeo, e os fez degollar. Governou
- | | nove annos, e meyo.
- | |
- | 923 | _D. Froila II._ Naõ se conta deste Rey acçaõ
- | | contra os Mouros, antes o culpaõ de
- | | tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo,
- | | e desterrar a Fronimio, Bispo de
- | | Leaõ, por terem seguido as partes do Infante
- | | D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos
- | | vassallos. Morreo de lepra, e governou hum
- | | anno.
- | |
- | 924 | _D. Affonso IV._ Entrando a governar, e conhecendo-se
- | | inutil, renunciou o dominio em
- | | seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida
- | | Monastica no Convento Benedictino de Sahagum.
- | | Depois passados seis mezes, largando
- | | o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ,
- | | e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro,
- | | passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou
- | | a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe
- | | mandou tirar os olhos, e prender até acabar
- | | seus dias. Os annos do seu governo, e tempo
- | | do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco
- | | de Bergança,[556] e Fr. Manoel da Rocha.[557]
- | |
- | 931 | _D. Ramiro II._ Depois de prender a seu irmaõ,
- | | e seus sobrinhos, determinou fazer
- | | cruel guerra aos Mouros, como com effeito
- | | fez taõ felizmente, que sempre os venceo.
- | | Ajudando-o visivelmente Santiago, matou
- | | junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns
- | | Historiadores[558] dizem, que morrera
- | | sendo Religioso. Governou dezanove annos.
- | |
- | 950 | _D. Ordonho III._ Foy filho de D. Ramiro,
- | | e Principe valeroso, e prudente. Casou com
- | | a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual
- | | querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe
- | | a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou
- | | aos Gallegos, que se haviaõ levantado,
- | | e passando a Portugal, chegou até Lisboa,
- | | que entrou sem embaraço, saqueando os mais
- | | lugares, que estavaõ em poder dos Mouros.
- | | Governou cinco annos e meyo.
- | |
- | 955 | _D. Sancho I._ chamado o _Gordo_, porque
- | | na verdade o era, e foy motivo para ser deposto
- | | do throno, e subir em seu lugar o Infante
- | | D. Ordonho, filho de D. Affonso IV.
- | | intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves,
- | | e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho
- | | a Cordova, e alcançando lá remedio à
- | | sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses,
- | | valendo-se delRey Abderramen, que
- | | com hum exercito de Mouros fez com que
- | | D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ.
- | | Os Condes, que governavaõ as terras do Minho,
- | | e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey;
- | | mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem
- | | fidelidade, em cujo acto hum dos Condes
- | | lhe deu peçonha, de que morreo. Governou
- | | doze annos.
- | |
- | 967 | _D. Ramiro III._ Tomou a investidura do
- | | Reino, tendo cinco annos de idade, e começou
- | | este governo pelas direcções de sua mãy,
- | | e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou
- | | dos Mouros o corpo do glorioso S.
- | | Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo
- | | Sanches huma armada de Normandos,
- | | que aportou em Galiza. Tratando com pouca
- | | attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza,
- | | estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante
- | | D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a
- | | 15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos
- | | rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio
- | | o argumento. Governou dezaseis annos.
- | |
- | 985 | _D. Bermudo II._ chamado o _Gotoso._ Foy pouco
- | | afortunado, pois encontrou sempre muy
- | | poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal
- | | tudo que hia desde a corrente do Douro
- | | até o Algarve estava sujeito aos Mouros,
- | | e só a pequena Comarca de Entre Douro, e
- | | Minho com algumas terras da Beira estavaõ
- | | na obediencia delRey D. Bermudo. Unido
- | | com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia
- | | Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor,
- | | que o obrigou a fugir para Cordova,
- | | deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos.
- | | Morreo arrependido de suas culpas
- | | em Galiza, e governou quatorze annos.
- | |
- | 999 | _D. Affonso V._ filho de D. Bermudo. Succedeo
- | | na Coroa, tendo cinco annos de idade.
- | | Foy Principe muy pio, e caritativo. Com
- | | intentos de destruir os Mouros passou a Viseu,
- | | onde elles tinhaõ as mayores forças, e
- | | resistencia, e os cercou apertadamente; mas
- | | chegando-se perto das muralhas, huma seta
- | | disparada das suas ameyas o atravessou, e
- | | fez levantar o sitio. Governou vinte e sete
- | | annos.
- | |
- | 1027 | _D. Bermudo III._ filho de D. Affonso. Foy
- | | Principe de grande animo, porém infeliz,
- | | porque nas guerras, que teve com seu cunhado
- | | D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se
- | | na batalha do Carrion por entre as
- | | armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez
- | | annos.
- | |
- | 1038 | _D. Fernando_ o _Magno_. Por morte de seu
- | | cunhado tomou posse do Reino de Leaõ.
- | | Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas
- | | terras desde o Douro até o Mondego. Depois
- | | de muitas vitorias mereceo que o glorioso
- | | Santo Isidro lhe revelasse o fim dos
- | | seus dias; e antes de morrer repartio seus
- | | Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou
- | | Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia
- | | Galiza, e Portugal. Governou vinte e
- | | nove annos.
- | |
- | 1067 | _D. Garcia._ No seu governo se deixou este
- | | Principe levar das lisonjas de hum seu valido,
- | | chamado Verna, que foy causa de se
- | | descontentarem os illustres Portuguezes, e
- | | Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ
- | | armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle
- | | todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais
- | | velho, o metteo em prizões, e o Reino de
- | | Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando
- | | por entaõ incorporado na Coroa de Castella.
- | | Governou quatro annos.
- | |
- | 1071 | _D. Sancho II_ Perseguio fortemente a seus
- | | irmãos, e querendo usurpar tambem do poder
- | | de sua irmã Dona Urraca a Cidade de
- | | Çamora, que poz em apertado cerco, hum
- | | Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou
- | | com huma lança. Governou hum anno.
- | |
- | 1072 | _D. Affonso VI._ Teve o titulo de Imperador,
- | | e reinou em Castella, Leaõ, Portugal,
- | | e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados
- | | Principes de Hespanha, e o que conquistou
- | | mais terras aos Mouros, aos quaes
- | | atropelou com o valor do celebrado Cid.
- | | Distribuio o governo de algumas Comarcas
- | | de Portugal por illustres pessoas. O Conde
- | | D. Sisnando governava as terras de entre
- | | Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca.
- | | O Conde D. Nuno Mendes a Provincia
- | | do Minho, a quem succedeo o illustrissimo
- | | Conde D. Henrique, gloriosa origem dos
- | | Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos
- | | só como epitome o Capitulo seguinte.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[540] Veja-se Loays. nos Concil. de Hesp. Coronelli no Prodrom. part.
-4. p. 465. Vasæu tom. 1. Chron p. 39. Resend. lib. 3. de Antiq. Marian.
-Histor. de Hesp. part. 1. Savedr. Coron. Gotica. Gandar. nas Palm y
-Triunf. de Galiza part. 2. Berganz. Antig. de Hesp part. 1. liv. 1.
-Yañes España en la S. Biblia part 1. cap. 19. pag 224.
-
-[541] D. Rodrig, Arceb. liv. 1. cap. 255. Histor. Gen. de Hesp. part.
-2. cap. 55. Moral. liv. 12. cap. 69. Berganç. Antiguid. de Hesp. part.
-1. liv. 1. cap. 13. n. 212. Yañes de la Era, y Fechas de España lib.
-2. cap. 29. p. 482. Chronic. Albendense seguido por Marian. part. 1.
-liv. 6. cap. 23. Monarq. Lusit. liv. 7 cap. 2. concorda no anno, mas
-discrepa no dia, porque assenta que foy no meyo de Outubro.
-
-[542] Væseus Chron. tom. 1. p. 113. Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 3. p.
-386. Aqui affirma Brito, que na Igreja de S. Miguel do Fetal, que está
-fóra dos muros de Viseu, vira a sepultura de D. Rodrigo, mas já naõ
-tinha os ossos delRey, por haver annos, que os haviaõ, trasladado para
-Castella, e naõ diz onde se depositaraõ.
-
-[543] Moret. Anales liv. 3. cap. 4. e no tom. 1. Append. §. 2.
-
-[544] Ferrer. ad ann. 713. n. 9.
-
-[545] Fr. Franc. Sota Chron. de los Princip. de las Astur. liv. 3. cap.
-42. n. 7.
-
-[546] Isidor. Pacens. apud Brit. na Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.
-
-[547] Monge de Silos apud Bergança nas Antiguid. de Hesp. part. 1. liv.
-2. cap. 1. n. 7. Vasæus Chron. tom. 1. ad ann. 716. Marian. part. 1.
-liv. 7. cap. 1. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.
-
-[548] Salazar Histor. da Casa de Lara liv. 2. cap. 1.
-
-[549] Ferrer. tom. 4. na Dedicat.
-
-[550] Monarq. Lusitan. liv. 7. Bergança part. 1. liv. 2. cap. 1. num. 2.
-
-[551] Pellizer Anal. p. 401.
-
-[552] Ferrer. tom. 4. p. 108.
-
-[553] Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 9.
-
-[554] Bergança part. 1. das Antiguid. de Hesp. liv. 2. cap. 3. n. 35.
-
-[555] Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 14. Benedict. Lusit tom. 1. trat. 2.
-part. 2. cap. 6. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Port. n 52. Paes Viegas
-nos Princip. de Portug. liv. 6. p. 219. Agiolog. Lusit. tom. 3. p. 801.
-Ann. Historic. tom. 2. p. 257.
-
-[556] Berganç. part. 1. das Antig. de Hesp. liv. 3. cap. 6. n. 65.
-
-[557] Rocha Portug. Renascid. part. 2. n. 124. & seqq.
-
-[558] Apud Berganç. ut supr. cap. 12. n. 138.
-
-
-
-
- CAPITULO VI.
-
-_Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de
-Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes._
-
-
-Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada
-dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e
-Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D.
-Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das
-conquisquistas delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas
-o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote
-naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo
-inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido
-tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com
-huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado,
-como já entramos a ver.
-
-
-_Conde D. Henrique._
-
-2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste
-illustrissimo Conde. O primeiro: _Qual he a sua origem?_ Naõ menos que
-seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se podem
-ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.[559] A mais certa, e
-verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he a que
-faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques de
-Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre
-_Exemplar Floriacense_, que se achou em França na livraria do Convento
-de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ no anno
-de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em tempo do
-proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida por texto
-indubitavel.
-
-3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo
-grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,[560] fomos encontrar
-huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de
-Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo
-Agostinho, e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ
-com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na
-cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que
-ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras
-clausulas, a seguinte:
-
- _Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don
- Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su
- Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de
- los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla,
- &c._
-
-4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste
-epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande
-Brandaõ,[561] diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas
-nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais:
-Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ,
-digna de reparo, dizendo: _En lo que toca a ser su padre el Conde D.
-Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de
-Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo._
-
-5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no
-Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que
-o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,[562] em
-que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita
-reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos
-communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ
-anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos
-curiosos, e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de
-Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.
-
-6 O segundo ponto difficultoso he: _Se a Rainha Dona Teresa, mulher do
-Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de Leaõ?_
-A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso sendo casado com
-Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora Dona Teresa, foy
-depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio VII. como consta da
-sua Carta, ou Breve, que principia: _Dici non potest_, escrita ao mesmo
-D. Affonso, por se contrahir sem dispensa do parentesco, que a dita
-Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. Affonso, o qual foy casado
-seis vezes.
-
-7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda
-Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por
-sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,[563] objecçaõ forçosa,
-com que argumenta Manoel de Faria.[564] Porém isto naõ obsta; porque
-além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso
-tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a
-entender Baronio,[565] he certo que os filhos havidos de matrimonios
-separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos
-legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte
-Ribeiro.[566] Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo
-erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar
-já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.[567]
-
-8 A terceira difficuldade he: _Saber o anno, em que entrou o Conde
-D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ em dote?_
-Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph Barbosa[568]
-que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental Genealogico D.
-Antonio Caetano[569] he de parecer que viera no anno antecedente; e
-outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à segunda parte, o
-dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras os Montes, e em Galiza
-naõ comprehendia terra alguma, como affirma o Chronista Brandaõ,[570]
-contra o que alguns disseraõ. Este era o estado de Portugal, que o
-valeroso Conde augmentou depois com as outras terras, que foy ganhando
-aos Mouros, por onde livremente podia.
-
-9 O quarto ponto difficultoso he: _Se o Reino de Portugal foy dado
-ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo?_ Os Authores
-Castelhanos dizem que sim;[571] porém o certo he que foy dado
-independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella.
-Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,[572]
-e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;[573] porque naõ se
-descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste
-contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy
-hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita
-soberania.
-
-10 A quinta difficuldade he: _Saber em que tempo foy o Conde D.
-Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver entrado
-em Portugal?_ Brandaõ diz,[574] que depois, e no anno de 1103. Manoel
-de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava casado,[575]
-e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. Author daquella
-expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por segura a sentença de
-Brandaõ.
-
-11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que
-resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas
-vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor
-fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da
-Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo
-muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com
-egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao
-descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta
-e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na
-Sé de Braga.
-
-
-_D. Affonso Henriques, I. Rey._
-
-12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso,
-e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey
-D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que
-passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza,
-naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.
-
-13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e
-Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o
-melhor calculo;[576] e sendo seu nascimento festejado, assim como
-era util, moderou o contentamento de pays, e vassallos hum defeito
-corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda[577] passou
-logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo,
-e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da
-purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o
-por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a
-Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de
-que parece duvidar Mons. de la Clede.[578]
-
-14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade,
-quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria
-sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando
-as insignias militares do altar do Salvador.[579] Passados dous annos,
-considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro,
-intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que
-até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho
-excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha,
-que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho
-de 1128.
-
-15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio
-de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou
-pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas
-infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;[580]
-porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a
-Villa de Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto
-aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente
-ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua
-palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ
-querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz
-havia feito, dizem,[581] que este fora a Toledo com mulher, e filhos
-presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta
-do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente
-satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.
-
-16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ
-prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado,
-passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe
-poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir
-os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys
-Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de
-quatrocentos mil combatentes.[582]
-
-17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento
-de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia
-Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si
-hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da
-sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas.
-Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a
-que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139,
-a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey D. Affonso de
-Castella,[583] e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179
-pela Bulla, que começa: _Manifestis probatum est argumentis._[584]
-
-18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do
-mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte,
-passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de
-Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,[585] além de hum
-grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste
-admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que
-abaixo allegamos,[586] naõ sendo digno de se ler neste particular
-o Padre Mariana,[587] que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das
-suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ
-authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui
-mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as
-cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco, e que a orla dos
-Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando
-por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.
-
-19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ
-os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos
-responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de
-hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do
-juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica
-delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por
-mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no
-cap. 15.: _E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle mesmo
-deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na mesma,
-maneira que disse o Ermitaõ._ Camões, que morreo muito antes da vinda
-do Rey Filippe, o cantou tambem no _Cant. 3. oitava 45. e 46_. O
-letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal do campo de
-Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André de Resende,
-como elle o confessa no _liv. 4. de Antiquit_. faz memoria desta
-appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores antiquissimos.
-
-20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente
-santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo;
-donde Sá de Miranda na _Carta 5. est. 9._ disse fallando de Coimbra:
-
- _Cidade rica do Santo
- Corpo do seu Rey primeiro,
- Que inda vimos com espanto,
- Há taõ pouco tempo inteiro,
- Dos annos que podem tanto._
-
-Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea
-ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja
-de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da
-integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao
-projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a
-instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo
-processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais
-urgentes.
-
-21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco
-escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta
-variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem
-embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a
-substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos
-modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant.
-3. desde a est. 153.
-
-22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de
-Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar.
-Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se
-achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario
-a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello
-pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo
-a transcreve Brito na Chronica de Cister _livro 3. cap. 5._ e outras
-muitas que se podem ver na mesma Chronica _l. 3. c. 6._ e na _Monarquia
-Lusitan. liv. 8 c. 26._ e na _Historia Ecclesiast. de Lisboa part. 2.
-cap. 56._
-
-23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se
-D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ
-à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo
-feudatario, mas liberal tributo, dous marcos de ouro,[588] cujo
-reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de
-vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta
-escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza,
-tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando
-magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e
-cincoenta,[589] dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e
-liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo
-Portugal.[590]
-
-24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de
-Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de
-S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados
-com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e
-libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e
-Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte
-Reys, e dous Imperadores.
-
-25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo
-III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou
-com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente
-setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou
-o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo
-governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa
-Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns
-prodigios, como se podem ver no argumento 10. do _Apparato Historico_,
-que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno
-de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete
-elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em
-virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste
-santo Rey premiados com a eterna felicidade.
-
-
-_D. Sancho I. segundo Rey._
-
-26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com
-os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos
-mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das
-armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou
-na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito
-Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria,
-e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce,
-filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo
-vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens
-por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem
-presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.
-
-27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia
-da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ
-taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do
-sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do
-Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda
-com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal,
-quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ
-posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e
-desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo
-primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes
-offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se
-prezou ser seu especial bemfeitor.[593]
-
-28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das
-honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra
-aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de
-idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como dizem
-outros.[595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou
-em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar
-edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras,
-acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de _Povoador_,[596]
-e _Pay da Patria_,[597] manifestando-se muito mais a sua piedade, e
-grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta
-prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia
-offerta até do que ainda esperava ter.[598]
-
-29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em
-direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal
-veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho
-conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral
-com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino,
-intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno 1188 até 1190.[599]
-Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras
-de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou
-no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho
-resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome
-attenuado muito as forças.[600]
-
-30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos
-povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais
-populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ
-só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601]
-sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas,
-e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de
-Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular
-bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste
-Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas
-de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos,
-pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa
-Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no
-Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em
-Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27
-de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em
-Santa Cruz de Coimbra.
-
-
-_D. Affonfo II. terceiro Rey._
-
-31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na
-morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso
-no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de
-idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por
-se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de
-Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum
-achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa
-Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de
-Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o
-liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605]
-
-32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo
-generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste
-nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia
-alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e
-Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas
-as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de
-outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero
-de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes
-alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se
-appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho
-de 1212.[606]
-
-33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e
-assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu
-pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte
-fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas;
-e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a
-patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607]
-
-34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte
-differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes
-chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima
-armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e
-levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de
-Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ
-D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo
-do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores
-das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado
-conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de
-armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes,
-que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia,
-que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys
-de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos
-depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.
-
-35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel
-para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados,
-renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de
-ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e
-venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos
-Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande
-credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de
-idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março
-de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.
-
-
-_D. Sancho II. quarto Rey._
-
-36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de
-1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude.
-Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara
-do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem
-de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos
-Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos
-que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso
-exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por
-esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe
-mandou.[609]
-
-37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o
-anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e
-Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur,
-Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes
-prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado
-Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras
-Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ
-dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida
-tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo
-o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame
-do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda
-inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia _Grandi non
-immerito_,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão
-D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França.
-
-38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum
-consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho
-infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D.
-Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor,
-marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as
-censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia
-de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo
-a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos
-elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude
-com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella
-dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente
-cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da
-eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis
-de idade, e vinte e cinco de governo.
-
-
-_D. Affonso III. quinto Rey._
-
-39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no
-anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha,
-sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou
-criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de
-certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245,
-alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou
-no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de
-1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o
-insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.
-
-40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha
-occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles
-Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso
-depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas
-terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e
-Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614]
-
-41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo,
-estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo
-de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e
-perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a
-Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda
-delRey D. Affonso _Sabio_ de Castella no anno de 1253, motivo de haver
-tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo,
-e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher.
-Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com
-ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o
-Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616]
-
-42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve
-fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente
-provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys
-de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de
-1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia
-de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267
-se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o
-Infante D. Diniz levou a D. Affonso o _Sabio_ contra os Mouros.
-
-43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias,
-tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que
-dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu
-respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual
-reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico,
-continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou
-XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer
-obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619]
-
-44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620]
-equivocadamente lhe chamasse _Bravo_, foy ElRey D. Affonso de notavel
-governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino,
-fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas,
-e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos,
-estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de
-1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy
-depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se
-trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.
-
-
-_D. Diniz sexto Rey._
-
-45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o
-Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu
-padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros
-desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por
-ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno
-Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso,
-e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D.
-Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622]
-
-46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro
-annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a
-Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu
-avô[623] contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a
-Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo
-D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas
-em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando
-a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o
-novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem
-mágoa, e sentimento da Rainha.
-
-47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como
-era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta
-honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura
-com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das
-fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as
-mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.
-
-48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a
-Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste
-mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico,
-e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando
-a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem
-as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este
-cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou,
-mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy
-Mirandela, e outros.
-
-49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ,
-foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio
-dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra
-vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real
-todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava
-dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: _Que justamente se tirava o
-que injustamente se concedera._[624] Passou esta Ley em Coimbra a 26 de
-Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o Chanceller
-Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos grandes
-serviços, que tinha feito ao Reino.
-
-50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão
-D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois
-dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara
-o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter
-nascido antes, e por isso illegitimo,[625] com este motivo chegaraõ
-a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente,
-o fez convir em composições, intervindo tambem na reconciliaçaõ dos
-dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria,
-ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha
-Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de
-1287.
-
-51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse
-a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como
-era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa
-a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao
-IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,[626] e continuando os
-estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados
-todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse
-para Coimbra no anno 1308.
-
-52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que
-prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente
-ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas
-nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;[627] e porque esta
-limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ
-menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade,
-dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito
-cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de
-naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S.
-Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e
-Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes
-dous participantes da sua liberalidade.
-
-53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em muitas virtudes, e em tres
-excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na _Justiça_, _Verdade_, e
-_Liberalidade_. Pela primeira foy eleito Juiz arbitro em companhia
-delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey D. Fernando de
-Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de Castella, e Leaõ,
-em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de Aragaõ sem queixa
-de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, que havia entre os
-Reys de Castella, e Aragaõ.
-
-54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous
-Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho
-deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia,
-porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima
-esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,[628] e naõ
-houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas,
-e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a
-seu filho sem offensa de seus vassallos.
-
-55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas
-Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem
-Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no seu
-tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o cognome
-de _Lavrador_, aos quaes chamava nervos da Republica, e por este
-augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem _Pay da Patria_.
-Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou por seu
-Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a guerra.
-
-58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o
-Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja,
-que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo
-irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ
-com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo
-em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo
-vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco,
-dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de
-Odivellas em soberbo mausoleo.
-
-
-_D. Affonso IV. setimo Rey_.
-
-57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro
-de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia,
-contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra,
-conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco
-Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural,
-de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona
-Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se
-celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.
-
-58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando
-entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo
-capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava
-por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe
-causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero,
-de fórma que por elle grangeou o epitheto de _Bravo_, emprendeo acções
-arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D.
-Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632]
-
-59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de
-ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha
-do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada,
-cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do
-valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes
-mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra
-para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de
-1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.
-
-60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé
-com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem;
-hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na
-sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito,
-o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à
-formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o
-Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo
-de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e
-de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na
-Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte
-do Evangelho, e na Capella Mór[635].
-
-
-_D. Pedro I. oitavo Rey._
-
-61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita
-variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico
-Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que
-ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na
-antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto
-que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de
-1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias,
-cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona
-Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ
-tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com
-o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro
-Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ
-os aggressores daquella innocente morte.
-
-62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia
-promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da
-morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança,
-e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a
-beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com
-fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas
-costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que
-este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto
-de _Justiceiro_, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia
-mudou para o cognome de _Cruel_, de que os deixou desenganados o Plataõ
-Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638]
-
- _Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ._
-
-63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a
-legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher,
-fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando
-lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto
-apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a
-boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava,
-administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro.
-Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as
-dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.
-
-64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o
-genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por
-outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de
-fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e
-unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado,
-soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte
-diziaõ, que _taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha visto
-Portugal, nem esperava de os tornar a ver_. Achando-se na Villa de
-Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda feira pela
-madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; reinou
-nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em Alcobaça
-junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.
-
-
-_D. Fernando, nono Rey._
-
-65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345,
-vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando,
-conforme a Chronologia mais bem averiguada.[639] A natureza o dotou
-de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos
-era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.[640] O genio,
-e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou
-Camões,[641] e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta
-brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar,
-e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.
-
-66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando
-vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e
-opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros,
-que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.[642] Cuidou logo em reedificar as
-Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo
-mercês com profusa liberalidade.
-
-67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D.
-Pedro o _Cruel_, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique,
-como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa
-como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de
-Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha
-Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e
-damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio
-XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no
-ultimo de Março de 1371.[643]
-
-68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao
-forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da
-Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando
-pretextos para lhe annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por
-mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo
-apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.[644] Joaõ Lourenço da Cunha
-se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já
-militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos
-crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.
-
-69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua
-palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ
-da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey
-Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, filha
-delRey D. Pedro o _Cruel_, se intitulava Rey de Castella, e pertendia
-a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique delRey
-D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, entrou por
-Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a espada,
-sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.
-
-70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas
-povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos
-moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,[645] esteve perto de
-destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento
-de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta
-oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os
-Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.[646] Achava-se
-ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente,
-vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo,
-e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e elle com
-tanto descuido, como diz Manoel de Faria,[647] sem dar providencia, ou
-remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com
-soberba descuberta por falta da opposiçaõ.
-
-71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com
-toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ
-promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes
-ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ
-entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente
-aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do
-Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas
-embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos
-artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D.
-Fernando.[648]
-
-72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas
-militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas
-de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros
-muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo
-de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375.
-Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria,
-Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as
-Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse
-mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no
-anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos
-estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.[649] Inventou novos
-arbitrios sobre a utilidade do commercio,[650] e fez varias mercês com
-liberalidade regia.
-
-73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e
-rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e
-padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos
-Castelhanos,[651] concluindo-se finalmente com o casamento de Dona
-Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que
-se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade
-de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade
-trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove
-mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de
-Santarem.
-
-
-_D. Joaõ I. decimo Rey._
-
-74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes
-inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na
-Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse
-recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor
-ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha
-Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho
-capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder,
-mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e
-Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos
-successores.[652]
-
-75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela
-grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes
-Andeiro, seu escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os
-negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes
-julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia
-ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre
-de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D.
-Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que
-obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear
-a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto
-escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios
-Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de
-1383.[653]
-
-76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento
-do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que
-publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do
-Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego
-começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter
-contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o
-grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do
-nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo
-sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem
-fazer nada depois de perder bastante gente.[654]
-
-77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes
-algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso
-Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante
-Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de
-Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas
-nove horas da manhã,[655] tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete
-annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,[656] ou vinte
-e oito, conforme outros,[657] ou, o que temos por mais certo, vinte e
-sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito
-para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras
-com as efficazes razões, que allegou neste caso.[658]
-
-78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores
-cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo
-primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a
-occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella,
-reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella
-continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel
-exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre,
-e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta
-mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por
-isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada,
-e gloriosa em todas as memorias,[659] e succedida a 14 de Agosto de
-1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.
-
-79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a
-Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com
-esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos
-tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum
-tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ
-de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo
-finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.
-
-80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo
-ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para
-cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte
-vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza
-conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia,
-que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey
-de Portugal, e do Algarve o de _Senhor de Ceuta_.[660]
-
-81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se
-muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que
-resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas,
-mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ
-da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o
-anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para
-isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve
-pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi
-todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I.
-de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem
-Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.
-
-82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com
-igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy
-uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre
-Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou
-à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa
-Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664]
-servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios
-sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa
-da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara
-do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa
-Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada
-junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para
-que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino
-os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os
-Loyos.[665]
-
-83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas,
-e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim.
-Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que
-depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto
-de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol,
-exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido
-setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e
-oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na
-Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy
-transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da
-Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve
-Fr. Luiz de Sousa.[668]
-
-
-_D. Duarte, undecimo Rey._
-
-84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia
-nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e
-adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy
-destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy
-eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos
-homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em
-cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem
-alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e
-sciencia.[669]
-
-85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove
-mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433
-nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428
-com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno,
-começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez
-por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey
-seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ
-dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o
-luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou
-fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte,
-que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por
-turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.
-
-85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque
-os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças;
-e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do
-Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D.
-Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e
-ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as
-vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou
-em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros
-de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo
-Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo
-acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673]
-determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D.
-Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer
-o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o
-Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade
-de Ceuta.[674]
-
-87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo
-do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo,
-e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar
-tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas
-infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada,
-que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e
-apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ
-todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino,
-occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco
-Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas
-as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só
-para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas
-para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e
-abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz
-fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo
-vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco
-annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.
-
-
-_D. Affonso V. duodecimo Rey._
-
-88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de
-Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis
-annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado
-logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à
-disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia
-do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor
-do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo
-entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações,
-e de que existem memorias taõ lastimosas.[677]
-
-89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com
-applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso
-entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de
-Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira,
-de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya
-de grandes, e honrodas expressões,[678] encommendando-lhe, acabado o
-acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si
-totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a
-Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.
-
-90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a
-felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey,
-o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que
-o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe
-encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas
-quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao
-Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o
-Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo
-de 1449.[679]
-
-91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no
-convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros
-Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este
-Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta
-empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém
-ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa,
-onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança;
-e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas
-de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer
-no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade
-ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a
-de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de
-_Africano_, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o _daquem,
-e dalém mar em Africa_.
-
-92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a
-Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma
-unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella
-se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da
-Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de
-vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta
-successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha
-no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora
-Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia
-a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey
-Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.
-
-93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque
-nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua
-sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ
-para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição,
-como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo
-de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente
-seu filho o Principe D. Joaõ.
-
-94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou
-ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do
-seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou
-ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o
-mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu
-filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey
-de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de
-Novembro do proprio anno.[681]
-
-95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo
-o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque
-ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar
-a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a
-governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa
-alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade
-Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso[682] fora entre os
-Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de
-honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho.
-quando lhe succedeo: _Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e
-caminhos de Portugal_; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha
-dado.
-
-96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande
-propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e
-favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de
-Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na
-lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito
-vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne
-Latino,[683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de
-molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções
-se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado
-de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento
-de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da
-parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento
-de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na
-mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481,
-em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete
-mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e
-dezanove dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.
-
-
-_D. Joaõ II. decimo terceiro Rey._
-
-97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova
-a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado
-Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria
-quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471
-recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com
-irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa
-conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade
-promettia.[685]
-
-98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres
-dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy
-esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento
-aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que
-se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e
-premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente
-do povo.
-
-99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos
-da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e
-dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes
-extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente
-punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II.
-mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia
-reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ
-mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro,
-conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem
-adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687]
-
-100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu
-a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e
-desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe
-que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio
-alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que
-havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo
-occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas
-dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que
-lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou
-a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689]
-
-101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ
-desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo,
-mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou
-aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690]
-Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o
-que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo.
-Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez
-todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal,
-se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar
-dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.
-
-102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua
-Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de
-Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus
-de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento,
-onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem
-em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando
-à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do
-Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos,
-e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias
-Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra
-a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa
-Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.
-
-103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns
-Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o
-ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na
-generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel,
-pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em
-25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado
-veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou
-quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de
-Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu
-corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal,
-que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691]
-
-
-_D. Manoel decimo quarto Rey._
-
-104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha
-escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o
-mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo
-propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta
-Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi
-milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o
-Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja
-mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel
-circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente
-o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia
-natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque
-a letra Dominical daquelle anno, que foy _=A=_, assim o insinua,
-prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que
-collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.
-
-105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D.
-Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança
-de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta
-felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem
-tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de
-1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes
-na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz,
-que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de
-Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694]
-
-106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim
-despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao
-Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem
-pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os
-Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes
-concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em
-gloria, e renda.
-
-107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar
-fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ
-converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo
-por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso,
-filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando,
-e Dona Isabel.
-
-108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste
-Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta
-impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para
-provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel
-foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então
-se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou
-de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II.
-havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro,
-que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut,
-e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal,
-naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os
-Venezianos.[697]
-
-109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da
-Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e
-innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos
-Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os
-fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo
-muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros
-poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia,
-India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do
-Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado
-Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais
-vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco
-livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.
-
-110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella
-em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio
-pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira
-daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores
-de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal
-perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em
-que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido
-aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz
-religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X.
-entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo
-na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso
-dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha
-com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante
-em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse,
-parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores
-que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702]
-e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de
-Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos
-Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes,
-e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito
-dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle
-mandou edificar para seu jazigo.
-
-
-_D. Joaõ III. decimo quinto Rey._
-
-111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III.
-que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel
-pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e
-coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o
-acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do
-seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e
-generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a
-estimaçaõ de todos os Principes da Europa.
-
-112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as
-conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna
-memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa
-quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que
-tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue
-o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta
-acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da
-Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ
-descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a
-Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas
-partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da
-conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa,
-e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo
-aquelles Religiosos.
-
-113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos
-publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534
-conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando
-vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de
-letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra
-a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel
-affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas
-para as artes, e sciencias.[708]
-
-114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de
-Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando
-em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso
-aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio
-Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy
-a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709]
-Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da
-Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber
-escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia,
-que _mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que
-alcançava na vitoria_. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da
-guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos
-homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do
-culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa
-aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias
-da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no
-Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas,
-que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo
-punha às felicidades do Reino.
-
-
-_D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey._
-
-115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza
-Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a
-20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou
-herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona
-Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do
-Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes
-em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da
-Religiaõ Christã.
-
-116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum
-grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear
-emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que
-chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em
-20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das
-armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em
-todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados,
-então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas
-acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de
-Faria.[710]
-
-117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar
-todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se
-lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista
-de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar
-se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a
-lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe
-accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando
-primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e
-Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os
-barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.
-
-118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos,
-e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey,
-offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ
-para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes,
-que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto
-de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para
-Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens,
-dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos
-Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que
-havia no Reino, mas sem exercicio militar.
-
-119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar,
-diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava
-porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de
-cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a
-cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves,
-eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e
-lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis
-pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica
-ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com
-certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar
-por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante
-tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer
-verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens
-outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de
-la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere,
-mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos
-Escritores naõ admittem.
-
-120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ;
-porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e
-impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey
-extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se
-a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ
-com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos
-chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D.
-Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia
-com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual
-dia assim:
-
- _Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,
- Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.
- Nec dicas falli Regem qui vivere credit,
- Pro lege extincto mors quasi vita fuit._
-
-
-_D. Henrique, decimo setimo Rey._
-
-121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a
-Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal
-D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada
-idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512
-em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy
-pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para
-o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade,
-soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim
-foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos
-de Sacerdote.[714]
-
-122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e
-successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais
-gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que
-dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já
-decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem
-pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de
-successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim,
-que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora
-herança, que a todos lhes pertencesse.
-
-123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que
-pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros
-pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de
-França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D.
-Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa
-sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que
-fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da
-pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos
-descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.
-
- | A Infanta Dona }
- | Isabel Imperatriz,} Filippe II.
- | que casou } Rey de Castella
- | com Carlos } 1. pertendente
- | V. Imperador, }
- | e teve a }
- |
- | A Infanta Dona } Manoel Filisberto
- | Brites, que } Duque de Saboya,
- | casou com D. } e Principe
- | Carlos Duque } de Piemõte 2.
- | | de Saboya, } pertendente.
- | ElRei | e teve a }
- | D. Manoel |
- | entre | O Infante D. }
- | outros | Luiz Duque de }
- | filhos | Béja naõ casou, } D. Antonio
- | teve | mas de Violante } Prior do Crato,
- | | Gomes, chamada } 3. pertendente.
- | a _Pelicana_, }
- | teve a }
- |
- | O Infante D. } D. Maria, q́ } Rainucio
- | Duarte Duque } casou com o } Principe de
- | de Guimarães } Principe de } Parma, e 4.
- | casou com Dona } Parma, de } pertendente.
- | Isabel filha } quem teve a }
- | de D. Jayme
- | Duque de Bragança,} D. Catharina que casou com
- | e teve a } D. Joaõ Duque de Bragança
- | } 5. pertendente.
-
-Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya
-por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois
-já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo
-o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego;
-de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ
-em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona
-Catharina.
-
-124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim
-nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores
-para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois
-passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa,
-veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de
-idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na
-mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ
-com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido
-seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe
-mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa
-da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem
-passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da
-Bemaventurança.
-
-125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a
-usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum
-seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou
-talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando
-viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às
-cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.
-
-126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a
-sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o
-acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se
-a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da
-Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a
-intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.
-
-127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa
-executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito
-de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados
-pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem
-resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas
-junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de
-Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do
-Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões
-Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois
-varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.
-
-128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno
-damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ
-as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com
-tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy
-à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força
-de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem
-esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa
-consciencia.[718]
-
-
- _D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo
- oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos._
-
-129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se
-celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde
-fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até
-alli se tinha visto.[719] Começou a tratar os Portuguezes com muita
-affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando
-os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos
-passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella
-violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de
-recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey
-Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu
-filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13
-de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado,
-e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos,
-governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.
-
-130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que
-havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte
-annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os
-seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes
-a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir
-o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay.
-Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou
-a morte, que lhe sobreveyo em Madrid no ultimo de Março de 1621 com
-quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz
-no Convento do Escurial.
-
-131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de
-1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com
-grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas;
-porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu
-Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e
-privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo
-em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o
-Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar
-para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas,
-que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas
-desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ
-Escritores, que as referem.[720]
-
-132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da
-commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo
-Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça
-para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo
-direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina,
-filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a
-todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se
-vivera, havia de ser Rey,[721] mas tambem por ser o Serenissimo Duque
-natural do Reino, e o mayor Senhor delle, a quem por suas qualidades
-verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das
-oppressões, que padecia.
-
-133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes
-quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ
-ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se
-presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de
-Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a
-fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel
-de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e
-ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de
-Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro
-Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,[722] ambos interessados
-na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se
-enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de
-dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos
-exorbitantes.
-
-134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais
-a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro
-de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de
-varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e
-zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo,
-se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ
-nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou
-por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os
-incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito
-com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na
-Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV.,
-acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor
-do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da
-sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.
-
-
-_D. João IV. vigesimo primeiro Rey._
-
-135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e
-restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza
-ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de
-Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ
-em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares
-Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo
-Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se
-experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e
-festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724]
-sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze
-dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando
-todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados
-Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.[725]
-
-136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as
-expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que
-foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria
-do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do
-Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as
-Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente
-com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender,
-e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando
-seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura
-debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era
-necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de
-papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o
-Reino à sua obediencia.[726]
-
-137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e
-fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas
-do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França,
-Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ
-com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os
-Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados,
-experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas,
-que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de
-Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o
-intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras
-muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do
-Reino.
-
-138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das
-nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança
-da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais
-do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas
-affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra
-ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e
-degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça
-do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de
-Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos;
-sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D.
-Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos
-estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre
-livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ
-tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo
-convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos,
-foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.
-
-139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo,
-estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos
-Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do
-Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do
-Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do
-Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta
-cruzados cada anno,[728] e em 25 de Março do proprio anno jurou, e
-declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora
-nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando
-intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando
-tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.[729]
-
-140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta
-suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de
-Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e
-dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias.
-Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.
-
-
-_D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey._
-
-141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21
-de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando
-subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay;
-mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua
-Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora
-do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados
-seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de
-idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.[730]
-
-142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua
-vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde
-de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da
-Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos
-a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo
-Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os
-bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias
-com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim
-se vio nas celebres batalhas do _Amexial_, do _Canal_, e de _Montes
-claros_, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu valor, e sciencia
-militar.
-
-143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico
-da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum
-accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do
-corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui
-se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua
-Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas
-indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu
-agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe
-fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a
-Bahia.
-
-144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca
-Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ
-se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade
-delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ
-aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança
-a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do
-matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença
-da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real
-propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha
-pelas razões forçosas, que allegaraõ,[731] e que para evitar mayores
-damnos na Monarquia avocasse a si o governo.
-
-145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen,
-ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy
-recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D.
-Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27
-de Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello
-da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para
-os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no
-Convento de Belem.[732]
-
-
-_D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey._
-
-146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo
-Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino,
-cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto
-que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D.
-Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já
-na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a
-nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria
-Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou
-Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ
-houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha
-espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a
-segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.
-
-147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em
-fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do
-Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ
-augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo
-com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza
-dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior,
-nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas do seu
-tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para
-com todos, e amante das pessoas virtuosas.
-
-148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom
-regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia
-mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco,
-Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à
-dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em
-todos os empregos de grande experiencia.
-
-149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e
-defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se
-desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado
-da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda,
-a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo
-do Imperador,[732a] o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por
-este ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou
-aqui ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e
-pomposa entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com
-elle ElRey D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de
-introduzir em Castella.
-
-150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso
-exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias
-Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara,
-Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey,
-penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em
-2 de Julho de 1706.[733]
-
-151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal em 17 de Novembro de
-1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel
-contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco
-mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz
-legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de
-1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o
-Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois
-do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a
-seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias:
-reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de
-vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra.
-
-
-_D. Joaõ V. vigesimo quarto Rey._
-
-152 Por falecimento do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria lhe
-succedeo no Throno seu filho ElRey D. Joaõ V. tendo dezasete annos de
-idade, contados desde 22 de Outubro de 1689, em que nasceo na Cidade de
-Lisboa. Foy acclamado no primeiro de Janeiro de 1707, felicitando-lhe
-com repetidos obsequios a exaltaçaõ à Coroa naõ só os seus vassallos,
-mas todos os Principes da Europa.
-
-153 Começando logo a dirigir suas acções pelo caminho, e maximas da
-herocidade, ratificou a grande alliança, que ElRey seu pay celebrara
-contra Hespanha; mas esta liga fez experimentar ao nosso exercito em 25
-de Março de 1707 a mesma fortuna das Tropas alliadas: porque depois de
-termos vencido valerosamente a batalha de Almança na fronteira do Reino
-de Valença, melhorou o inimigo com tanta vantagem os seus esquadrões,
-que o Duque de Baruvic nos prizionou treze Regimentos à custa de hum
-grande destroço da sua gente.[734]
-
-154 No seguinte anno de 1708, elegendo S. Magestade para esposa
-a Serenissima Archiduqueza Dona Maria Anna de Austria, filha do
-Imperador Leopoldo I. nomeou ao Conde de Villar-Mayor por Embaixador
-extraordinario à Corte de Viena para esta negociaçaõ; e conduzida a
-Serenissima Rainha pelo mesmo Conde, chegou à barra de Lisboa em 26 de
-Outubro do mesmo anno, e a 22 de Dezembro fez sua entrada publica por
-entre dezanove arcos triunfaes custosamente ornados, e hum innumeravel
-concurso de gente, que com as repetidas demonstrações de alegria faziaõ
-aquella funçaõ mais plausivel, e vistosa.
-
-155 A guerra com Castella hia continuando, em que os nossos Generaes
-davaõ evidentes provas do seu valor, e sciencia em varios choques,
-cercos, e outros movimentos bellicos, recuperando algumas Praças, que
-o inimigo nos havia usurpado, quando tudo se suspendeo pelo Tratado
-da paz, que entre as tres Coroas de França, Hespanha, e Portugal se
-celebrou na Cidade de Utreck em o anno de 1713, e se publicou em Lisboa
-a 6 de Abril de 1715.
-
-156 Estabelecida assim a paz no Reino, fez a vigilancia de Monarca
-taõ augusto, que nas terras do seu dominio prosperamente florecessem,
-e se gozassem os frutos da mesma paz por meyo de utilissimas leys,
-extincçaõ de abusos, perfeição de costumes, e outras muitas disposições
-produzidas da sua perspicaz advertencia, e Regios pensamentos. O zelo
-da Religiaõ, o amor das letras, a observancia da justiça, o cuidado, e
-cultura da sua Monarquia foy todo o seu desvelo. . 157 Do zelo, culto,
-e respeito da Religiaõ sobejaõ provas, e testimunhos; pois bastando o
-incansavel excesso, com que se empregou o seu generoso, e pio animo, à
-maneira de outro Salomaõ, nas sumptuosas fabricas de Templos divinos,
-fazendo contribuir para elles os mais preciosos marmores nobremente
-pulidos, parecendo-lhe ainda pouca toda a profusaõ do dispendio,
-excedeo a todo este cuidado o incessante desejo, e a incansavel ancia
-de engrandecer, e augmentar cada vez mais o obsequio, e respeito da
-mesma Religiaõ, e a formalidade magestosa de seus ritos, e cultos.
-
-158 Este projecto naõ só Christianissimo, mas Regio, o elevou à
-generosa obra da erecçaõ da Santa Igreja Patriarcal, onde vemos entre a
-pomposa grandeza, e reverente devoçaõ celebraremse os Officios divinos,
-e todas as funções Ecclesiasticas perfeitissimamente, ornando este
-excellentissimo Collegio Patriarcal de pessoas mais esclarecidas em
-sangue, e letras, a que conferio muitas preeminencias, e honras, e a
-que ajuntou grandes rendas, conforme a jerarquia das suas Dignidades.
-E para que a grandeza, e jurisdiçaõ desta Santa igreja fosse mais
-ampla, fez supprimir o Arcebispado de Lisboa Oriental pela Bulla do
-Santissimo Papa Benedicto XIV. intimada no primeiro de Setembro de
-1741, ficando desde entaõ havendo hum só Cabido Patriarcal em todo o
-territorio, e Diocese de Lisboa, que até este tempo estava dividida em
-dous Arcebispados, erigindo tambem nos Paços dos antigos Arcebispos de
-Lisboa hum Seminario para se educarem os estudantes, que houverem de
-servir na Santa Igreja Patriarcal.
-
-159 Incitado do mesmo zelo da Religiaõ, e a rogos do Summo Pontifice
-Clemente XI. mandou o nosso magnanimo Rey duas vezes soccorrer Italia
-contra o formidavel poder Othomano, devendo-se à esquadra Portugueza,
-que se compunha de seis náos de guerra, dous burlotes, e huma tartana,
-a gloria de embaraçar ella só a terrivel força de vinte e duas
-sultanas, e outras tantas náos de Barbaria, com que o Graõ Baxá vinha
-sobre Corfú, e Veneza, fazendo o terror das nossas armas retirallo
-injuriosamente para a Moréa com a perda de cinco mil Turcos; e deixando
-desassombrados, e seguros os portos naõ só daquella Republica, mas de
-toda Italia em Agosto de 1717, ficou nosso Monarca na vitoria deste
-conflicto naval constituido arbitro dos que o tem sido do mundo.[735]
-
-160 O amor das letras se vê na util erecçaõ da Academia da Historia,
-que teve o seu principio em 8 de Dezembro de 1720, compondo-a dos
-homens mais eruditos do Reino, e a cujas Conferencias permittio a
-honra da sua Real presença repetidas vezes. Para a celebre Academia
-dos Arcades, que ha em Roma, comprou novo domicilio, para se fazerem
-as suas assembleas com melhor commodidade. Em todas as Provincias do
-Reino ordenou que houvessem Academias militares, para que florecesse
-a sciencia Mathematica; e para a da Jurisprudencia erigio tambem
-na Universidade de Evora tres Cadeiras do Direito Civil, e duas do
-Canonico, excedendo para prova deste affecto naõ só o amparo, que os
-eruditos achavaõ na sua benignidade, nem a grande collecçaõ de livros
-selectos, com que formou huma das mayores Bibliothecas da Europa, mas a
-vasta comprehensaõ das mesmas sciencias, e a continua liçaõ dos mesmos
-livros.
-
-161 Naõ he possivel caber na curta esfera deste Mappa a expressaõ
-de acções taõ grandes, que obrou ElRey D. João V.: os maravilhosos
-edificios de Templos, Palacios, e casas de campo; a utilissima, e
-sumptuosa construcçaõ do aqueducto de Lisboa; o desafogo das suas ruas;
-a melhor commodidade da navegaçaõ do Tejo; a introducçaõ de novas
-fabricas; o augmento dos arsenaes; e sobre tudo o da propagaçaõ da
-Fé em todas as suas Conquistas, com a recta observancia da justiça,
-saõ acções taõ notaveis, e tantas, que justamente poderá questionar a
-posteridade, se foraõ obradas por hum só Heroe, ou por muitos: mas que
-muito se no augusto, e magnanimo peito deste Monarca residiaõ juntos
-elevadamente os espiritosos brios de todos os Monarcas Lusitanos, e de
-fórma o animavaõ, que o faziaõ exceder a todos;[736] ajuntando-se a
-todos estes dotes a magestosa presença, e bem proporcionada estatura
-de seu galhardo corpo, que, ainda disfarçado, mal podia encubrir o
-respeito de Soberano.
-
-162 Com toda esta felicidade padeceo todavia ElRey a 10 de Mayo de
-1742 hum fortissimo ataque de paralysia, que lhe debilitou a parte
-esquerda do corpo; mas com os banhos das Caldas, chamadas da Rainha,
-para onde foy em 9 de Julho do dito anno, e com a applicaçaõ de outros
-remedios adquirio alguma melhoria, mas naõ aquella total saude, que os
-seus vassallos desejavaõ. Assim foy continuando com grande constancia
-de animo o prolongado tormento da sua queixa, que sem embargo de lhe
-embaraçar os passos para andar, naõ lhos pode impedir ao progresso da
-sua devoçaõ, e piedade.
-
-163 Com esta assistia de continuo na tribuna da Santa Igreja
-Patriarcal, adorando, e deprecando a Deos nos muitos sacrificios de
-Missas que ouvia, e Officios que rezava. A elle devem as Almas detidas
-no Purgatorio o grande suffragio, que por indulto Apostolico obteve da
-Santidade de Benedicto XIV. expedido em Roma aos 21 de Agosto de 1748,
-para que no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos podessem todos os
-Sacerdotes dos seus dominios celebrar tres Missas. Este grande animo,
-e fervor de espirito, com que favorecia as Almas, foy nelle sempre
-inseparavel, dispendendo caritativo no frequente beneficio dos seus
-suffragios grosso, e innumeravel cabedal. Destas acções taõ pias, e
-magnanimas persuadido o Pontifice Benedicto XIV. lhe concedeo a 23 de
-Dezembro do mesmo anno de 1748 para si, e seus successores o titulo de
-_Fidelissimo_.
-
-164 Chegando finalmente o prazo ultimo de seus dias, os terminou em
-Lisboa aos 31 de Julho de 1750, e foy viver na Bemaventurança em
-premio das virtudes que exercitou; tendo-se primeiramente disposto, e
-preparado como Catholico com todos os Sacramentos da Igreja. Jaz seu
-corpo no Templo de S. Vicente de Fóra.
-
-165 A inclyta Naçaõ Portugueza deu ao publico em Roma numa demonstraçaõ
-do seu reverente obsequio à saudosa memoria de taõ grande Monarca:
-celebrou na Real Igreja de Santo Antonio as solemnes exequias com
-aquella magnificencia, e esplendor, que eraõ devidas às excelsas
-prerogativas de hum Principe taõ benemerito da Sé Apostolica: para isto
-fez erigir hum sumptuoso Mausoleo com engenhoso artificio pela idéa do
-Architecto Portuguez Manoel Rodrigues dos Santos, ornado de primorosas
-figuras, medalhas, e epigrafes; concluindo-se todo o apparato lugubre
-com a seguinte inscripçaõ:
-
- JOANNI V.
-
- _Lusitaniæ Regi Fidelissimo,
- Pio, Victori, Pacifico.
- Christianæ rei ubicumque terrarum Orbi, & Gentium
- Propagatori.
- Bonarum artium, omniumque Disciplinarum
- Parenti vindici, Mæcenati munificentissimo.
- Qui
- Feralibus bellorum dissidiis, aut consilio restinctis,
- Aut virtute sublatis,
- Pacis artes, publica Sacerdotia,
- Ecclesiæ majestatem, dignitatemque
- Post Constantini Magni memoriam,
- Quam qui maxime ornavit, auxit, amplificavit.
- Principi Optimo
- Deque omnium Nationum ordinibus benemerentissimo
- Lusitani D. N. M. Q. Ejus._
-
-
-_ D. Joseph I. vigesimo quinto Rey._
-
-166 He o Fidelissimo Senhor D. Joseph Monarca presentemente reinante,
-augusto successor de seu grande Pay D. Joaõ V. Foy acclamado Rey na
-Cidade de Lisboa em huma segunda feira de tarde aos 7 de Setembro de
-1750 com festivos applausos de seus vassallos. Para esta ceremonia chea
-de grande alegria, se levantou huma varanda magnifica no terreiro do
-Paço junto a Palacio, a qual começando da sala dos Tedescos, por onde
-tinha a entrada, rematava no torreaõ do Forte com quarenta palmos de
-largo, e trezentos e setenta de comprido, sustida em dezaseis altas
-columnas ligadas com huma balaustrada que fazia face ao mesmo terreiro,
-e revestido tudo com o mais precioso ornato, que soube idear o bom
-gosto.
-
-167 Tanto que subio ao Throno, e empunhou o Cetro, fez ver que existia
-vivamente naõ só na magestade da Pessoa, e clemencia do genio, mas
-na generosidade das acções, reproduzido o coraçaõ magnanimo de seu
-memoravel Pay. Este bom conceito annunciaraõ seus vassallos desde o
-dia 6 de Junho de 1714, em que este Monarca vio a primeira luz do
-mundo, onde havia ser o primeiro brilhante Astro da esfera Lusitana.
-Para segurar a successaõ Regia casou em 19 de Janeiro de 1729 com a
-Serenissima Princeza das Asturias D. Maria Anna Victoria, filha delRey
-Catholico Filippe V., e da Rainha D. Isabel Farnese sua segunda mulher.
-
-168 Logo nos primeiros passos do seu Reinado mostrou o grande zelo
-de conservar os seus povos em paz, justiça, e prosperidade: e como
-estes atributos naõ se podem estabelecer sem o recto manejo de bons
-Ministros, cuidou em os eleger competentes, e de alta comprehensaõ aos
-interesses politicos, e economicos do Estado. Com esta providencia
-se dispozeraõ as negociações da Marinha, do Commercio, e de todos os
-Tribunaes naquelle melhorado regimen, que o Reino experimenta; ajudando
-ao bom exito de tudo as justissimas Leys, que em utilidade do bem
-publico tem promulgado.
-
-169 Para augmentar o Commercio, e Navegaçaõ, de que resultaõ opulencias
-mayores que as da natureza, ordenou que os despachos fossem promptos,
-evitando demoras na expediçaõ dos Tribunaes. Exaltou, e renovou o
-exercicio das bellas letras com a reforma de melhores Methodos;
-dispondo que fossem educados seus vassallos principalmente os Nobres;
-fundando para este effeito Collegio onde se aprendaõ todas as uteis, e
-estimaveis profissões das Artes, abolindo por Decreto de 29 de Julho
-de 1759 o magisterio aos Jesuitas, e a liçaõ da Arte do Padre Manoel
-Alvares.
-
-170 Nos extraordinarios accidentes do terremoto, e incendio, que
-fatalmente destruiraõ Lisboa no anno de 1755, se vio a grandeza do
-coraçaõ deste augusto Monarca; porque conservando-se inalteravel
-em hum caso taõ repentino, e horrendo, em que vacilaraõ os mayores
-talentos, elle se applicou pio, e providente a soccorrer, e acautelar
-a consternaçaõ, do afflicto Povo: e como se fora pequeno este empenho,
-intentou d’entre as cinzas de Lisboa abrazada reproduzir outra de
-novo com mayores vantagens, excedendo nas circustancias a grandeza de
-Trajano.[737]
-
-171 Com igual constancia de animo tolerou aquelle barbaro desacato, com
-que a aleivosia, rompendo as obrigações da fidelidade Portugueza, se
-atreveo a insultar a sua veneravel Pessoa em a noite de 3 de Setembro
-de 1758. Mas a Providencia de Deos, salvando-lhe com prodigio a vida,
-fez que naõ ficassem sem castigo os perfidos delinquentes, fazendo-os
-justiçar a 13 de Janeiro do seguinte anno em o Caes de Belém; porque o
-Principe, que dissimula a malicia, reina só no nome; o que a castiga,
-reina no nome, e no officio.
-
-172 Ainda naõ havia bem descançado de punir traições, e acautelarse
-de insultos, quando os Reys Catholico, e Christianissimo com o _Pacto
-de Familia_, que entre si estipularaõ, querendo por força que nos
-declarassemos contra Inglaterra, invadiraõ, e atacaraõ com cavilozos
-pretextos algumas das nossas Praças Trasmontanas; commetendo o Marquez
-de Sarria, e outros Generaes Castelhanos muitas hostilidades desde 8,
-15, e 21 de Mayo de 1762, em que se introduziraõ em Miranda, Bragança
-e Chaves, e em cujas acções tem perturbado a paz publica, e fé dos
-Tratados estabelecidos com a antiga solemnidade.
-
-173 Porém como da nossa parte milita a justiça, e a razaõ, espera ElRey
-Fidelissimo triunfar do poder, e industria de seus inimigos. Para
-este bom exito mandou fazer promptas as suas Tropas, cujo total mando,
-e manejo entregou plenamente ao Conde Soberano de Lippa Guilherme de
-Schaumburg, Cavalleiro da Real Ordem Prussiana da Aguia Negra, Pessoa
-que ElRey da Grã Bretanha, como nosso Alliado, elegeo, por ser de
-huma distincta reputaçaõ, e de conhecido valor, e fama nas guerras da
-Europa. Sua Magestade Fidelissima o nomeou Marechal General dos seus
-Exercitos, e Director geral de todas as suas Tropas por Decreto de 3 de
-Julho de 1762.
-
-174 Toda esta boa razaõ, e justiça, em que se estriba a nossa
-defensa, fez persuadir tambem ao Principe Carlos Luiz Federico Duque
-de Meckelburgo, Streliz, Principe de Vandalia, a que passasse dos
-exercitos Britanicos onde era Marechal de Campo, para as Tropas delRey
-Fidelissimo, o qual logo o nomeou Coronel General de hum Regimento de
-Cavallaria, a que deu titulo de Meckelburgo. Naõ só prometem estas
-antecedencias felicidades às Armas Portuguezas, mas animo. Será cada
-coraçaõ Portuguez hum escudo à vida, e gloria de nosso Augusto Monarca,
-o qual em militares campanhas amedrentará com o ecco do seu valor
-dilatados climas do Universo.
-
- +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+
- |_N._| _Nome._ | _Cognome._ | _Patria._ |_Nasc._|_Coroaç._|
- +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+
- | 1 | D. Affonso I. | Conquistador.| Guimarães. | 1109 | 1128 |
- | | | | | | |
- | 2 | D. Sancho I. | Povoador. | Coimbra | 1154 | 1185 |
- | | | | | | |
- | 3 | D. Affonso II. | Gordo. | Coimbra. | 1185 | 1211 |
- | | | | | | |
- | 4 | D. Sancho II. | Capello. | Coimbra. | 1202 | 1223 |
- | | | | | | |
- | 5 | D. Affonso III.| Bolonhez. | Coimbra. | 1210 | 1246 |
- | | | | | | |
- | 6 | D. Diniz | Lavrador. | Lisboa. | 1261 | 1279 |
- | | | | | | |
- | 7 | D. Affonso IV. | Bravo. | Coimbra. | 1291 | 1325 |
- | | | | | | |
- | 8 | D. Pedro I. | Justiceiro. | Coimbra. | 1320 | 1357 |
- | | | | | | |
- | 9 | D. Fernando. | Formoso. | Coimbra. | 1345 | 1367 |
- | | | | | | |
- | 10 | D. Joaõ I. | Boa memoria. | Lisboa. | 1357 | 1385 |
- | | | | | | |
- | 11 | D. Duarte. | Eloquente. | Viseu. | 1391 | 1433 |
- | | | | | | |
- | 12 | D. Affonso V. | Africano. | Cintra. | 1432 | 1438 |
- | | | | | | |
- | 13 | D. Joaõ II. | Perfeito. | Lisboa. | 1455 | 1481 |
- | | | | | | |
- | 14 | D. Manoel. | Venturoso | Alcochete. | 1469 | 1495 |
- | | | | | | |
- | 15 | D. Joaõ III. | Piedoso. | Lisboa. | 1502 | 1521 |
- | | | | | | |
- | 16 | D. Sebastiaõ. | Desejado. | Lisboa. | 1554 | 1557 |
- | | | | | | |
- | 17 | D. Henrique. | Casto. | Almeirim. | 1512 | 1578 |
- | | | | | | |
- | 18 | D. Filippe II. | Prudente. | Valhadolid. | 1527 | 1581 |
- | | | | | | |
- | 19 | D. Filippe III.| Pio. | Madrid. | 1578 | 1598 |
- | | | | | | |
- | 20 | D. Filippe IV. | Grande. | Valhadolid. | 1605 | 1621 |
- | | | | | | |
- | 21 | D. Joaõ IV. | Restaurador. | Villa Viços.| 1604 | 1640 |
- | | | | | | |
- | 22 | D. Affonso VI. | Vitorioso. | Lisboa. | 1643 | 1656 |
- | | | | | | |
- | 23 | D. Pedro II. | Pacifico. | Lisboa. | 1648 | 1667 |
- | | | | | | |
- | 24 | D. Joaõ V. | Fidelissimo. | Lisboa. | 1689 | 1706 |
- | | | | | | |
- | 25 | D. Joseph I. | Fidelissimo. | Lisboa. | 1714 | 1750 |
- +----+----------------+--------------+-------------+-------+---------+
-
- +-------+-------+------+------------+------------------------------+
- | _ Ann._ | _Ann._ | _Anno_ | _Lugar_ | |
- | _que_ | _que_ | _da_ | _da_ | _Lugar da sepultura_ |
- |_reinou._| _viveo._|_morte._| _morte._ | |
- +-------+-------+------+------------+------------------------------+
- | 57 | 76 | 1185 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
- | | | | | |
- | 26 | 57 | 1211 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
- | | | | | |
- | 12 | 38 | 1223 | Coimbra. | Alcobaça. |
- | | | | | |
- | 25 | 46 | 1248 | Toledo. | Sé de Toledo. |
- | | | | | |
- | 32 | 69 | 1279 | Lisboa. | Alcobaça. |
- | | | | | |
- | 46 | 63 | 1325 | Santarem. | Odivelas. |
- | | | | | |
- | 32 | 66 | 1357 | Lisboa. | Sé de Lisboa. |
- | | | | | |
- | 9 | 46 | 1367 | Estremoz. | Alcobaça. |
- | | | | | |
- | 16 | 38 | 1383 | Lisboa. | Santarem. |
- | | | | | |
- | 48 | 76 | 1433 | Lisboa. | Batalha. |
- | | | | | |
- | 5 | 46 | 1438 | Thomar. | Batalha. |
- | | | | | |
- | 43 | 49 | 1481 | Cintra. | Batalha. |
- | | | | | |
- | 14 | 40 | 1495 | Alvor. | Batalha. |
- | | | | | |
- | 26 | 52 | 1521 | Lisboa. | Belém. |
- | | | | | |
- | 35 | 55 | 1557 | Lisboa. | Belém. |
- | | | | | |
- | 21 | 24 | 1578 | Africa. | Belém. |
- | | | | | |
- | 1 | 68 | 1580 | Almeirim. | Belém. |
- | | | | | |
- | 18 | 71 | 1598 | Escurial. | Escurial. |
- | | | | | |
- | 23 | 43 | 1621 | Madrid. | Escurial. |
- | | | | | |
- | 19 | 60 | 1665 | Madrid. | Escurial. |
- | | | | | |
- | 15 | 51 | 1656 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra |
- | | | | | |
- | 11 | 40 | 1683 | Cintra. | Belém. |
- | | | | | |
- | 39 | 58 | 1706 | Alcantara. | S. Vicente de Fóra. |
- | | | | | |
- | 44 | 60 | 1750 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra. |
- | | | | | |
- +-------+-------+------+------------+------------------------------+
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[559] Rib. de Maced. na Geneal. do Conde D. Henr.
-
-[560] Sousa. Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 1. pag. 31.
-
-[561] Brand na Monarq. liv. 11. cap. 38.
-
-[562] Apud Maced. allegad. e Far. no tom. 2. da Europ. Port. part. 1.
-cap. 2.
-
-[563] Exempl. Flor. _Alteram filiam, sed non ex conjugali thoro natam
-Ainrico.. dedit._
-
-[564] Far. Com. de Cam. Cant 3. est 25.
-
-[565] Baron. tom. 11. ad an. 1080 _Constat enim à Rege Catholico
-Alphonso... uxorem diversam à consanguinea defunctæ conjugis accepisse._
-
-[566] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 13. fin. Ribeir. de Maced. allegad
-
-[567] Barbos. Catal. das Rainhas de Port. pag. 7. Vide etiam Sous. na
-Hist. Genealog. tom. 1. pag. 33. Berganç. Antiguid. de Hesp. part. 1.
-liv. 5. n. 451.
-
-[568] Barbos. ut supr. p. 37.
-
-[569] Sousa ut supr. p. 32.
-
-[570] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 10.
-
-[571] Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 13. cap. 20. Garibay tom.
-2. liv. 13. cap. 11. Ortiz, Anales de Sevilla liv. 2. p. 205. Garma
-Theatr. univers. de Hesp. tom. 3. pag. 288.
-
-[572] Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 38.
-
-[573] Brochado na conta de 13 de Mayo de 1723 das Mem. Academ. Veja-se
-tambem a Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 9.
-
-[574] Monarq. Lusit. liv. 8. cap 22.
-
-[575] Far. no Com. de Cam. Cant. 3. est. 27.
-
-[576] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 79. & seqq.
-
-[577] Estaço nas Antig. de Port. cap. 12. n 7.
-
-[578] Monarq Lusit. liv. 9. cap. 8. Mariz Dialog. 2. cap 3. Duart. Nun.
-Chronic. do Conde D Henriq. Telles Chronic. da Comp. part. 1. liv. 1.
-cap. 16. n 4. Far. na Europ. tom. 2. part 1. cap. 3. n 4. Maced. Excel
-de Port. cap. 21. excel. unic. n 9. Vasconc. Anac. Maced. Propugn.
-Lusitan. Galic. confut. 20. §. 1. Clede Hist. de Port. tom. 2. p. 67.
-
-[579] Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 14.
-
-[580] Brand. Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 16.
-
-[581] Brit. na Chronic. de Cister part 1. liv. 3. cap. 4. Cam. Lusiad.
-cant. 3. est. 35. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 275. Monarq. Lusit. liv.
-9. cap 19. Toscan. Paral. devar. illustr. cap. 26. Maced. Flor. de
-Hesp. cap. 12. excel. 2.
-
-[582] Resend. lib. 4. Antiq. _Tantas congregavit copias, ut millia
-quadringenta exercitus superaret._
-
-[583] Horat. Tursellin. Epitom. Histor. liv. 8. ad ann. 1140. _Itaque
-victoriis ingens ab Alphonso Rege Castellæ, Rex Lusitaniæ appellatur._
-
-[584] Conserva-se na Torre do Tombo tit. 1. p. 1. dos Breves.
-
-[585] Monarq Lusit. liv. 10. cap. 5. Sousa Histor. Geneal. tom 1. das
-Prov. n. 3.
-
-[586] Cam. Lusiad. cant. 3. est. 45 e seg. e seu Commentador Manoel de
-Far. Brit. Chron. de Cist. liv. 3. c. 2. Monarq. Lusit. liv. 10. cap.
-5. Paes Viegas nos Princ. de Port. liv. 4. Resend. liv. 4 de Antiq.
-Dam. de Goes in Descript. Olisip. Man. da Cost. celebre Jurista, na
-Oraçaõ funeb. delRey D. Joaõ III. em 25 de Junho de 1557, e impressa em
-Coimbr. ann. 1558. Osor. de reb. Emm. l. 8. & de Nobil l. 3. Vasconc.
-Anacephal. n. 5. Freit. de just. Imp. Lusit. cap. 18. n. 16. Duart.
-Galv. na Chronic. deste Rey cap. 15. e outros, que allega o Doutor
-Joseph Pinto Pereira no Appar. Histor de argum. sanctit. Reg. Alphons.
-Henr. arg. 1. Os Authores Estrangeiros saõ os seguintes: Thom. Boss.
-de Sign. Eccles. tom. 2. l. 7. c. 7. Beyerlinck verb. _Apparitio_.
-Delr. Disquis. magic. lib. 2 quæst 26. sect. 5. Thyræus de Christi
-apparition. impersona lib. cap. 3. Rosignol de actib. virtut. lib.1.
-cap. 16. Bagat. de admir. orb. Christian tom. 2. lib 5. cap. 1. n. 45.
-Petra sancta in Tesseris gentilic. Jarric. Thesaur. rer. indic. p.
-2. cap 3. Birag. Histor del Port. part. 13. Tracagnot. Histor. Ital.
-Morel. Reduccion de Port. part. 1. n. 10. e outros, que allega D.
-Anton. Caetano de Sousa no tom. 4. do Agiolog. Lusit. a 25 de Julho.
-
-[587] Marian. liv. 10. cap. 17. tom. 1. Histor. de Hespanh.
-
-[588] Brit. Chron. de Cister l. 3. cap. 4. e 5. Manriq. Annal. Cisterc.
-ann. 1142. cap. 4. Brand. Monarq. liv. 11. cap. 4. liv. 16. cap. ult.
-e liv. 19. cap. ultim. Maced. de Div. tutelar. p. 240. Maced. Philipp.
-Portug. cap. 19. Velasc. Justa Acclam. part. 1. §. 4. n. 24. Baron. ad
-ann. 1144. in Lucio II. Aguirre tom. 3. Concil. ad ann. 1144. n. 92.
-
-[589] Mariz. Dialog. 2. cap. 7. Garibay liv. 34. cap. 14. Mend. da
-Silv. Catal. Real §. 59. Mendoça in Viridar. lib. 6. or. 3. num. 67.
-Vieg. in Apocalyps. cap. 21. sect. 5. num. 6.
-
-[590] Brit. Chron. de Cister liv. 3. cap. 21.
-
-[591] Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 13.
-
-[592] Idem ibid. cap. 27.
-
-[593] Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 27.
-
-[594] Brand. ibid. l. 12. c. 1.
-
-[595] Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 80.
-
-[596] Monarq. liv. 12. cap. 1. e 11.
-
-[597] Ibid.
-
-[598] Idem ibid cap. 3.
-
-[599] Monarq. Lusit. liv. 12. c. 7. e no fim do Prologo da quarta parte.
-
-[600] Idem cap. 13.
-
-[601] Clede tom. 2. pag. mihi 165.
-
-[602] Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 31.
-
-[603] Ibid. cap. 35. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. das Prov. n. 10.
-Cled. tom. 1. p. 166.
-
-[604] Barbos. Catal. das Rainh. de Port. p. 143.
-
-[605] Brand. na Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 27.
-
-[606] Cled. tom. 2. Histoir. de Port. p. 174.
-
-[607] Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 1. cap. 7. n. 7.
-
-[608] Brand. Monarq. liv. 13. cap. 10. e liv. 14. cap. 8.
-
-[609] Bzovius tom. 13. Annal. ad ann. 1225. apud Barbos. Catalog. das
-Rainh. p. 160.
-
-[610] Sá de Mirand. cart. 5. est. 11.
-
-[611] Monarq. Lusit. liv. 14 cap. 25.
-
-[612] Monarq. Lusit. liv. 14. cap. 29.
-
-[613] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 5.
-
-[614] Ibid. cap. 12.
-
-[615] Ibid. cap. 13.
-
-[616] Cunh. Catalog. dos Bisp. do Port. part. 2. c. 12. Monarq. Lusit.
-liv. 16. cap. 10.
-
-[617] Barbud. Emprezas Militar. p. 12. e outros.
-
-[618] Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 61. e seqq. Brand. na 4. part.
-da Monarq. Lusit. e liv. 16. cap 41. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p.
-288. & seq. Far. Epitom. part. 4. cap. 8.
-
-[619] Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 2. c. 1. n. 22.
-
-[620] Cam. cant. 3. est. 94.
-
-[621] Esperanç. Histor. Serafic. part. 1. liv. 5. cap. 11. Monarq.
-Lusit. liv. 15. cap. 47.
-
-[622] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 1. 2. e 3.
-
-[623] Ibid. cap. 4.
-
-[624] Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 34.
-
-[625] Far. Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 2. n. 7. Monarq Lusit.
-liv. 16. cap. 50.
-
-[626] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 72. ep. 320. Sous. tom. 1. das
-Provas da Histor. Geneal. p. 74.
-
-[627] Monarq. Lusit. liv. 17. cap. 7.
-
-[628] Far. Europ. tom. 2. p. 2. cap. 2. n. 20. Monarq. liv. 18. cap. 2.
-Barbud. Emprez. Milit. pag. 17. vers.
-
-[629] Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num 310.
-
-[630] Ibid. num. 312.
-
-[631] Monarq. Lusit. tom. 7. Liv. 3. cap. 3. num. 1.
-
-[632] Ruy de Pin. Chron. cap 5.
-
-[633] Sousa Histor. Genealog. tom. 1. p. 306.
-
-[634] Leit. Ferr. Notic. Chron. n. 321. e 333.
-
-[635] Monarq. Lusit. part. 7. liv. 10. cap. 22. e 23.
-
-[636] Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num. 404.
-
-[637] Nunes de Leaõ Chronic. delRey D. Pedro fol. 179.
-
-[638] Sá Elegia à morte do Principe D. Joaõ pag. mihi 277. Vide Barbud.
-nas Emprez. Milit. pag. 23.
-
-[639] Ferrei. Notic. Chronolog. de Coimbr. n. 495 & seqq.
-
-[640] Fern. Lop. Chron. cap. 2.
-
-[641] Cam. Lusiad. cant. 3. est. 138.
-
-[642] Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 6.
-
-[643] Nunes de Leaõ na Chronic. deste Rey.
-
-[644] Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 21.
-
-[645] Cam. cant. 3. est. 138.
-
-[646] Monarq. Lusitan. tom. 8. liv. 22. cap. 24. Barbud. Emprez.
-Militar. pag. 32.
-
-[647] Far. no Comm. da est. 138. do cant. 3. de Cam.
-
-[648] Monarq. Lusitan. part. 8. liv. 22. cap. 26.
-
-[649] Notic. Chronol. da Univ. de Coimbr. n. 438.
-
-[650] Monarq. Lusitan. part. 8. p. 211.
-
-[651] Idem ibid. liv. 22. cap. 47.
-
-[652] Idem ibid. liv. 23. cap. 4. Pufendorf, Introduct. a la Histoire
-tom. 1. cap. 3. p. 128.
-
-[653] Fern. Lopes Chronic. deste Rey cap. 14. Monarq. Lusit. part.
-8. p. 460. Silv Memor. delRey D. João I. tom. 1. p. 116. Quanto ao
-dia, mez, e anno natalicio delRey D. Joaõ I. ha muita variedade entre
-os Chronistas: ninguem investigou melhor este ponto que o Academico
-Francisco Leitaõ Ferreira nas eruditas Noticias Chronologicas da
-Universidade de Coimbra desde o num. 623. para diante, a qual assenta,
-seguindo a Fernaõ Lopes, que o Mestre de Aviz nascera aos 15 de Abril
-de 1358; porém nós seguimos a opiniaõ commummente recebida, e approvada
-pelo Academico Joseph Soares da Silva tom. 1. p. 64. das Memorias deste
-Rey.
-
-[654] Fr. Man. dos Sant. na 8. part. da Monarq. Lusit. liv. 23. cap. 19.
-
-[655] Notic. Chronol. da Univ. n. 534.
-
-[656] Soar. da Silv. nas Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. c. 42. n. 281.
-
-[657] Lim. Geograf. Histor. tom. 1.
-
-[658] Monarq. Lusit. part. 8. liv. 23. cap. 29.
-
-[659] Fern. Lop. Chron. delRey D. Joaõ I. part. 2. cap. 37. pag. 91.
-Monarq. Lusit. part 8. liv. 23. c. 40. Clede, Histoir. de Portug.
-tom. 3. liv. 10. Pufendorf, Introduct. a la Histoir. tom. 1. cap 3.
-Teixeir. Vida de D. Nun. Alvar. Pereir. liv. 3. n. 173. p. 359. Conde
-da Ericeira Vida delRey D. Joaõ I. liv. 2. p. 200. e liv. 3. p. 230. Sá
-Memor. Historic. do Carmo part. 1. pag 82.
-
-[660] Soares da Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. pag. 1505. Leit. Ferr.
-Notic. Chronol. n. 733.
-
-[661] Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. num. 5.
-
-[662] Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag. 23. Far. Europ. Portug. tom.
-2. part. 3. cap. 1. Mariz Dialog. 4. Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom.
-4. document. 19. p. 140. Argot. Memor. de Brag. tom. 3. p. 36.
-
-[663] Soar. da Silv. allegado p. 267.
-
-[664] Sous. allegad. tom. 2. p. 24.
-
-[665] Soar. da Silv. Mem. delRey D. Joaõ I. liv. 2. cap. 104. e 105.
-
-[666] Anno Histor. tom. 2. 14. de Agost. Teixeir. Vida do Condestav. p.
-589.
-
-[667] Soar. da Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom. 1. cap. 53. p. 270.
-
-[668] Sousa na Histor. de S. Doming part. 2. fol. 330.
-
-[669] D. Anton. Caetan. de Sousa no tom. 1. das Prov. p. 529.
-
-[670] Fern. Lop. Chronic. delRey D. Joaõ I. part. 2. pag. 323. col. 1.
-
-[671] Clede Histoir. de Portug. tom. 3. p. 203.
-
-[672] Far. tom. 2. da Europ. part. 3. cap. 2. n. 7. Cled. Histoir. de
-Portug. tom. 3. p. 205.
-
-[673] Idem ibid. p. 233.
-
-[674] Duart. Nun. de Leaõ cap. 18. Soar. da Silv. Memor. delRey D. Joaõ
-I. pag. 494.
-
-[675] Cled. Histor. de Portug. tom. 3. p. 233.
-
-[676] Notic. Chronolog da Univers. de Coimbr. n. 750.
-
-[677] Far. na Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 3. n. 14. & seqq.
-
-[678] Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. n. 17.
-
-[679] Ruy de Pin. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 21. e 22.
-
-[680] Cam. cant. 4. est. 57.
-
-[681] Garc. de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 16. e 17. Duart.
-Nun. Chron. delRey D. Affonso V. cap. 62.
-
-[682] Faria no Comm. de Cam. cant. 4. est. 57.
-
-[683] Idem no Epitom. part. 3. cap. 13. n. 24. Pint. Ribeir. no Trat.
-da Prefer. das letr. às armas.
-
-[684] Garibay Damiaõ de Goes, Barbuda, Ferreras, e outros apud Leit.
-Ferreir. Notic. Chron. da Universid. de Coimbr. n. 861.
-
-[685] Garc. de Resende na Vida deste Rey cap. 5.
-
-[686] Zerit. Anal. liv. 20. cap. 44. Sousa Histor. Geneal. tom. 5. liv.
-6. cap. 7. p. 455.
-
-[687] Telles da Silv. de reb. gest. Joann. II. pag. 92. _Sed in
-universum æstimanti sanè fuit meliori facto dignus._
-
-[688] Garcia de Resend. na vida deste Rey cap. 50., 76., e 146. Far.
-Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 4. n. 98.
-
-[689] Resende cap. 167.
-
-[690] Resende cap. 109 Sá de Mirand. cart. 2. est. 39. Telles da Silv.
-de reb. gest. Joann II. pag. 33.
-
-[691] Garcia de Resende cap. 211. e 213. Dam. de Goes Chronic. delRey
-D. Manoel p. 1 cap. 1. Fonseca na Evora gloriosa p. 97.
-
-[692] Cam. nas Lusiad. cant. 4. est. 66.
-
-[693] Leit. Ferr. Notic. Chronolog. num. 905. & seqq.
-
-[694] Goes Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 9.
-
-[695] Idem ibid. cap. 17. Faria tom. 2. da Europ. Port. part. 4. cap.
-1. n. 10. Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 185.
-
-[696] Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 18. e 20.
-
-[697] Pufendorf Introduct. à la Histoir. tom. 1. cap.3.
-
-[698] Far. Europ. Port. tom. 2. part. 4. cap. 1. n. 23. Sous. Histor.
-Geneal. tom. 3. p. 226.
-
-[699] Goes part. 4. cap. 85.
-
-[700] Far. no cant. 1. das Lusiad. pag. 111.
-
-[701] Descrevem esta Embaixada largamente Damiaõ de Goes na Chronica
-delRey D. Manoel part. 3. desde o cap. 55. Osor. de reb. Emman. Ann.
-Hist. a 12 de Fever.
-
-[702] Leit. Ferr. Notic. Chronol.
-
-[703] Goes na Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 62. Far. na Europ.
-Port. tom. 2 part. 4. cap. 2.
-
-[704] Idem ibid. n. 3.
-
-[705] Cabed. de Patron. cap.47. Cunha no Catal. dos Bisp. do Port. p.
-451. Fr. Anton. da Purific. na 2. part. da Chron. liv. 7. tit. 1. §. 3.
-fol. 215. Faria na Vida de Camões, que vem no principio do Corrimento
-das Rimas.
-
-[706] Leitaõ Ferr. Notic. Chronol. n. 1150.
-
-[707] Bento Pereir. de Academ. n. 111. Maced. nas Flor. de Hespanh.
-cap. 8. excel. 7.
-
-[708] Bossius de Sign. Eccles. tom. 1. liv. 5. cap. 3.
-
-[709] Faria allegad. na Europ. Port. Sousa Histor. Genealog. tom. 3. p.
-488.
-
-[710] Faria na Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 8. Veja-se
-tambem o Anno Historico a 4 de Agosto.
-
-[711] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 39. Sousa Histor.
-Genealog. tom. 3. p. 591. Lima Success. de Port. cap. 30. Anno Histor.
-a 23 de Junh.
-
-[712] Clede tom. 5. pag 496.
-
-[713] Sousa Histor. Genealog. tom. 3. pag. 594. Anno Histor. a 5 de
-Agosto num. 2.
-
-[714] Damiaõ de Goes 3. part. da Chronic. delRey D. Manoel cap. 27.
-Barbos. nos Fast. da Lusit. a 31 de Janeiro §. 5.
-
-[715] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 1. cap. 3 n. 20. Sousa Histor.
-Geneal. tom. 3. pag. 376. Torres de Lima nos Successos de Portug. part.
-1. cap.33.
-
-[716] Herrer. liv. 3. §. 52. diz que eraõ cem mil homens.
-
-[717] Fr. Man. Hom. na Disposiçaõ das Arm. Castelhan. cap 3.
-
-[718] Bonacin. tom. 2. Restitut. disp. 2. quæst. ult. sect. 1. punct.
-ultim. §. 2. Sá verb. _Bellum_ n. 8. Suar. de Charit. disp. 13. de
-Bello sect. 6. n. 4. 5 & 6. Vasq. in l. 2. disp. 64. cap. 3. Molin. de
-Justit. tom. 1. tract. 2. disp. 103. n. 2. & 11. etc.
-
-[719] Faria Europa Portug. tom. 3. part. 2. cap. 1. n. 15. Anno
-Historic. a 29 de Junho.
-
-[720] Faria Europ. Port. Joaõ Pinto Ribeiro na Usurpaçaõ de Portug.
-Joaõ Bapt. Morelli na Restituiçaõ de Portug part. 1. Maced. Lusit.
-liberat. D. Francisco Man. Eco politic. O Author da Arte de furtar cap.
-17. que supponho he Joaõ Pinto Ribeiro, e outros muitos.
-
-[721] Velasco na Justa Acclamaç part. 2. punct. 1. §. 1. Joaõ Salgad.
-no Marte Port. certam. 2. art. 5. Portug. restaurad. liv. 1.
-
-[722] D. Francisc. Man. Epanafor. 1. pag. 21. 42. 74. O Abbade de
-Vertot nas Revolutions de Portugal pag. mihi 81.
-
-[723] O Padre Anton. dos Reys in Epist. ad Jamet. Nota 115. traz hum
-Catalogo dos Fidalgos confederados para a acclamaçaõ delRey D. Joaõ IV.
-e saõ mais dos quarenta, que refere o tomo 1. do Portug. Restaurad.
-pag.98. Sousa Histor. Genealog. tom. 7.
-
-[724] Almeid. Restaur. prodigiosa part. 2. cap. 10.
-
-[725] _Hæc mutatio dexteræ Excelsi est._ Psalm. 76. vers. 11.
-
-[726] Morelli na Restituiç. de Portug. pag. 114.
-
-[727] D. Franc. Manoel no Manifesto de Portug. Sousa Histor. Genealog.
-tom. 7. p. 162. Vieir. Histor. do futuro pag. 94. & seqq. Portug.
-Restaur. tom. 2. Evor. glor. p. 166. Ann. Histor. a 29 Agosto.
-
-[728] Monarq. Lusit. part. 6. liv. 19. cap. 23.
-
-[729] Sous. Hist. Geneal. tom. 7. p. 204.
-
-[730] Catastrofe de Portug. pag. 77.
-
-[731] Catastrofe de Port. pag. 225.
-
-[732] Portug. Restaurad. part. 2. pag. 919.
-
-[732a] Clede tom. 8. pag. 533.
-
-[733] Sousa Histor. Genealog. tom. 7. pag. 639.
-
-[734] Clede tom. 8. pag.535. Anno Histor. tom. 2.
-
-[735] Franc. Botelho no Alfonso da impressaõ de Salamanc. de 1741. liv.
-1. est. 6.
-
- _Roma, de quien fue throno el mundo intero,
- Buscó tu auxilio en riesgo furibundo,
- Y fuiste con tu armada, oh Real guerrero,
- Arbitro de los arbitros del mundo._
-
-[736]
-
- _...Lysiae reliquos nunc adspice Reges,
- Ut collata videns illorum insignia gesta
- Joannes gestis, quantum caput efferat omnes
- Hic suber agnoseas......._
-
-Padre Antonio dos Reys no Enthusiasmo Poetico prope finem.
-
-[737] _Magnum hoc tuum, non erga homines modo, sed erga tecta ipsa
-meritum, sistere ruinas, solitudinem pellere, ingentia opera, eodem quo
-extructa sunt animo, ab interitu vendicare._ Plin. in Panegyr. Trajani.
-
-
-
-
- CAPITULO VII.
-
- _Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal._
-
-
-O preclarissimo titulo de Rainha neste Reino he mais antigo que o dos
-Reys; porque foy costume daquelles primeiros Monarcas de Leaõ dar em
-vida titulo de Reys aos filhos, e de Rainhas às filhas para ficar assim
-nelles mais estabelecida, e segura a successaõ Real;[738] e ainda que
-alguns erradamente disseraõ, que o illustrissimo Conde D. Henrique
-assentara o senhorio de Portugal debaixo do titulo de Condado,[739]
-ninguem até agora duvidou que sua mulher a Senhora Dona Teresa, como
-filha, que era delRey D. Affonso de Castella, deixasse de se chamar
-sempre Rainha, e naõ Condessa; e do mesmo modo se chamaraõ Rainhas
-suas filhas, cujo estylo se praticou neste Reino até D. Sancho I.[740]
-do qual tempo até este nosso tomaraõ o nome de Infantes, o que naõ
-entendendo alguns Historiadores Flamengos, attribuiraõ a ambiçaõ
-chamarse Rainha, e naõ Condessa a Senhora Dona Teresa, filha delRey D.
-Affonso I. que casou com o Conde de Flandes Filippe de Alsacia.[741]
-Isto supposto, entremos a executar o promettido.
-
-2 _Dona Teresa_, mulher do Conde D. Henrique, era filha delRey D.
-Affonso VI. de Leaõ, e herdeira de seus Estados, Senhora de notavel
-formosura. Casou com o illustrissimo Conde no anno de 1093, trazendo
-em dote todo o Reino de Portugal, que ella governou dezaseis annos
-depois da morte do Conde seu marido, como senhora proprietaria
-delle;[742] e porque se aproveitava dos conselhos de hum Cavalhero
-Galego, chamado D. Fernando Peres, Conde de Trastamara, quizeraõ muitos
-dizer[743] que a Rainha Dona Teresa contrahira segundo casamento com o
-tal Conde; porém he certo que tal naõ houve, como efficazmente prova o
-erudito Padre D. Joseph Barbosa.[744] Fundou a Igreja de S. Pedro de
-Rates na Cidade de Braga: fez varias doações às Sés de Braga, Porto, e
-Coimbra: admittio em Portugal os Cavalleiros Templarios; e finalmente
-morreo em o primeiro de Novembro de 1130. Jaz na Capella mór da Sé de
-Braga.
-
-3 _Dona Mafalda_, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana,
-casou com D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, no anno
-de 1146. Fundou, e dotou hum Hospital na Villa de Canavezes para
-nove passageiros, e peregrinos terem nelle agazalho com todo o
-commodo possivel: unio-lhe as rendas da ponte, que mandou fabricar
-grandiosamente. Edificou a Igreja de Santa Maria de Sobre-Tamaga, e o
-Morteiro da Costa de Guimarães, que deu aos Conegos Regulares de Santo
-Agostinho, e hoje possuem os Religiosos de S. Jeronymo. Faleceo a 4 de
-Novembro de 1157, e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra
-junto de seu marido.[745]
-
-4 _Dona Dulce_ foy filha de D. Ramon Berenguer, Conde de Barcelona,
-e Principe de Aragaõ. Casou com ElRey D. Sancho I. no anno de 1175,
-confirmou com ElRey seu marido algumas doações pias, e morreu em
-Coimbra no primeiro de Setembro de 1198. Está sepultada no Mosteiro de
-Santa Cruz da mesma Cidade.[746]
-
-5 _Dona Urraca_ era filha de D. Affonso IX. Rey de Castella. Casou
-com D. Affonso II. de Portugal no anno de 1201. Teve a felicidade
-de receber em seu Palacio a S. Francisco, e aos cinco Martyres de
-Marrocos; e sendo trazidos seus corpos a Coimbra, os foy buscar, e
-deu sitio para se fundar na mesma Cidade o primeiro Convento de S.
-Francisco em o Reino. Viveo com exemplar virtude, e mereceu que Deos
-lhe revelasse o dia de sua morte, que foy a 3 de Novembro de 1220. Jaz
-no Mosteiro de Alcobaça.[747]
-
-6 _Dona Brites_ filha delRey D. Affonso X. de Castella, chamado o
-_Sabio_, e ella Princeza de singular perfeiçaõ, e prudencia, casou com
-D. Affonso III. de Portugal no anno de 1253. Fundou o Hospital dos
-Meninos Orfãos de Lisboa, e o Convento de S. Francisco de Estremoz.
-O mayor louvor, que se lhe póde dar, he a grande fidelidade, que
-mostrou a ElRey D. Affonso seu pay, socorrendo-o com seus thesouros.
-Morreu em 27 de Outubro de 1303, e está sepultada no Real Mosteiro de
-Alcobaça.[748]
-
-7 _Santa Isabel_ foy filha delRey D. Pedro III. de Aragaõ, chamado o
-_Grande_. Casou com ElRey D. Diniz em 24 de Junho de 1282. Instituio
-com seu marido a Igreja, e Festa do Espirito Santo em Alenquer. Fundou
-a Capella de Nossa Senhora da Conceiçaõ no Convento da Trindade de
-Lisboa. Por morte de seu marido se recolheo ao Mosteiro de Santa Clara
-de Coimbra, tambem fundaçaõ sua, onde viveo com taõ grandes evidencias
-de santidade, obrando Deos por sua intercessaõ muitos prodigios em
-vida, e depois de sua morte, que alcançou ser numerada no Catalogo
-dos Santos por Urbano VIII. em 25 de Mayo de 1625. Partio desta vida
-a gozar da eterna em 4 de Julho de 1336. Está seu veneravel corpo no
-Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.[749]
-
-8 _Dona Brites_ filha de D. Sancho IV. Rey de Castella, chamado o
-_Bravo_, casou com D. Affonso IV. de Portugal em 12 de Setembro de
-1309. Instituio na Sé de Lisboa as Mercearias, que chamaõ de Affonso
-IV. por concorrer tambem seu marido para esta instituiçaõ. Morreo em
-Lisboa no anno de 1359 a 25 de Outubro. Jaz na antiga Sé de Lisboa.[750]
-
-9 _Dona Constança_ foy filha de D. Joaõ Manoel, Duque de Peñafiel,
-Marquez de Vilhena. Casou no anno de 1340 com ElRey D. Pedro I. sendo
-ainda Infante, e foy sua primeira mulher. Morreo de parto do Infante
-D. Fernando a 13 de Novembro de 1345. Está sepultada no Convento de S.
-Francisco de Santarem.[751]
-
-10 _Dona Ignez de Castro_ foy filha de D. Pedro Fernandes de Castro,
-grande Senhor em Galiza. Casou com o Principe D. Pedro no anno de 1354
-occultamente. Fundou a Capella, em que está sepultado S. Gervaz na
-Paroquia da Villa de Basto. Por mandado delRey D. Affonso IV. foy morta
-com grande tyrannia, e injustiça aos 7 de Janeiro de 1355. Passados
-dous annos, declarou ElRey D. Pedro que havia sido sua legitima
-mulher, e como a tal a fez sepultar em Alcobaça com insignias Reaes,
-onde jaz em primoroso tumulo.[752]
-
-11 _Dona Leonor Telles_, filha de Martim Affonso Tello de Menezes,
-casou com ElRey D. Fernando, que se namorou della, e a recebeo no
-anno de 1371 contra o parecer de todos, porque a usurpou a seu marido
-Joaõ Lourenço da Cunha, com quem estava casada, sem embargo de alguns
-dizerem que indevidamente em razaõ de affinidade, e sem dispensa.
-Em vida de seu marido foy causa dos excessos escandalosos de Joaõ
-Fernandes Andeiro, Conde de Ourem. Passou-se a Castella, e morreo em
-Tordesilhas a 27 de Abril de 1386. Jaz no Convento de Valhadolid.[753]
-
-12 _Dona Filippa de Lancastro_ foy filha do Duque de Lancastro Joaõ de
-Gante. Casou com ElRey D. Joaõ I. de Portugal a 2 de Fevereiro de 1387.
-Edificou a Igreja de S. Francisco de Leiria, e fez muitas obras pias, e
-acções de caridade, por ser huma Senhora de grande virtude. Morreo no
-Lugar de Sacavem aos 18 de Julho de 1415, para onde tinha ido por causa
-da peste, e dalli foy conduzida para Odivellas, onde se fizeraõ as
-exequias, e depois se transferio para o Convento da Batalha, onde agora
-jaz. He fama, que na hora do seu transito a consolara Maria Santissima
-com a incomparavel graça da sua vista, cujo favor parece que se faz
-provavel, porque dalli a hum anno foy achado seu corpo incorrupto, e
-cheiroso.[754]
-
-13 _Dona Leonor_ era filha delRey D. Fernando I. de Aragaõ. Casou com
-ElRey D. Duarte a 22 de Setembro de 1428. Deixou-a ElRey seu marido
-por tutora, e Governadora do Reino na menoridade delRey D. Affonso
-seu filho, o que naõ consentindo os Infantes seus cunhados, houveraõ
-discordias grandes entre elles, e a Rainha, até que ultimamente largou
-o governo ao Infante D. Pedro, e se foy para Castella, onde morreo em
-Toledo a 18 de Fevereiro de 1445, sendo depois seu corpo conduzido para
-o Convento da Batalha, onde jaz.[755]
-
-14 _Dona Isabel_ foy filha do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra,
-Regente do Reino. Casou com ElRey D. Affonso V. em 6 de Mayo de 1448,
-sendo que o insigne Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa diz, que
-fora no anno antecedente, e o prova com escritura authentica. Mandou
-edificar hum Convento para os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista,
-e he o que se vê hoje no sitio de Xabregas. Morreo finalmente em 2 de
-Dezembro de 1455 na Cidade de Evora, e jaz no Convento da Batalha.[756]
-
-15 Bem se pudera unir a este Catalogo a pouco venturosa Rainha _Dona
-Joanna_, filha delRey D. Henrique IV. de Castella, de quem foy jurada
-herdeira, e casou em Mayo de 1475 com ElRey D. Affonso V.; mas como
-este matrimonio naõ se consumou, porque lhe embaraçaraõ a dispensa
-de parentesco a Rainha de Aragaõ, e ElRey D. Fernando o _Catholico_
-seu marido, por isso he infelizmente exclusa da ordem das Rainhas de
-Portugal, sem embargo de que conservou até à morte estado de Rainha,
-e lhe chamavaõ a _Excellente Senhora_. Morreo em Lisboa nos Paços do
-Castello no anno de 1530. Jaz no Mosteiro de Santa Clara.[757]
-
-16 _Dona Leonor_ filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu, casou
-com ElRey D. Joaõ II. a 22 de Janeiro de 1470. Foy Princeza adornada de
-singular formosura, e virtudes admiraveis. Governou o Reino em tempo,
-que ElRey D. Manoel seu irmaõ esteve em Castella. Fundou o Mosteiro
-da Madre de Deos de Lisboa, e o adornou de preciosas Reliquias, e de
-huma estimavel Imagem. Tambem edificou o Mosteiro da Annunciada no
-primeiro sitio, que teve junto ao Castello, e o Hospital das Caldas
-no termo de Obidos, chamadas por seu respeito da Rainha. Instituio a
-Irmandade da Misericordia de Lisboa, donde emanaraõ todas as mais de
-Hespanha. Estabeleceo cinco Mercearias na Igreja de Santa Maria de
-Obidos, e outras tantas em Nossa Senhora da Graça de Torres Vedras.
-Faleceo em Lisboa a 17 de Novembro de 1525, deixando de si, e de suas
-virtuosissimas acções saudosas, e eternas memorias, que entre as
-Princezas Portuguezas he recommendavel por singular. Está sepultada
-no claustro do Mosteiro da Madre de Deos à porta do Refeitorio em
-sepultura raza.[758]
-
-17 _Dona Isabel_, filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona
-Isabel, casou primeiramente com o Principe D. Affonso, filho delRey
-D. Joaõ II. de Portugal, aquelle, que depois de estar casado com esta
-Senhora naõ mais que seis mezes, acabou lastimosamente a vida junto a
-Santarem. Como do Principe lhe naõ ficaraõ filhos, tornou a casar com
-ElRey D. Manoel em Outubro de 1497, e passando a Castella, foy jurada
-Princeza herdeira daquelle Reino juntamente com ElRey seu marido; e
-indo a Aragaõ para serem tambem jurados alli, morreo em Çaragoça de
-parto do Principe D. Miguel aos 24 de Agosto de 1498. Jaz no Coro das
-Religiosas de Santa Isabel a Real de Toledo.[759]
-
-18 _Dona Maria_ era filha dos mesmos Reys Catholicos, e foy a segunda
-mulher delRey D. Manoel seu cunhado, com quem casou em 30 de Outubro de
-1500. Foy Senhora de notavel governo. Fundou nas Berlengas o Convento
-dos Monges de S. Jeronymo, que depois se mudaraõ para Val bem feito.
-Morreo em Lisboa a 7 de Março de 1517. Está sepultada no Convento de
-Belém.[760]
-
-19 _Dona Leonor_, terceira mulher delRey D. Manoel, filha delRey
-Filippe I. de Castella, casou em 24 de Novembro de 1518. Foy Senhora
-muito formosa. Deu principio ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assumpçaõ
-de Faro das Religiosas de Santa Clara. Por morte delRey D. Manoel
-voltou para Castella, e passou a segundas vodas com ElRey Francisco I.
-de França. Faleceo em Talavera junto a Badajoz em 18 de Fevereiro de
-1558. Jaz no Pantheon do Escurial.[761]
-
-20 _Dona Catharina_, filha delRey D. Filippe I. de Castella, casou com
-ElRey D. Joaõ III. em 5 de Fevereiro de 1525. Foy Senhora de muita
-bondade, zelosa do augmento da Religiaõ, e adornada de huma singular
-prudencia. Governou felizmente o Reino por morte de seu marido na
-minoridade delRey D. Sebastiaõ seu neto. Teve huma natural perspicacia
-na boa eleiçaõ dos Ministros. Fundou o Convento de Val bem feito de
-Monges Jeronymos, e o Mosteiro de Freiras de S. Francisco na Cidade de
-Faro, e a Paroquial Igreja de Santa Catharina de Lisboa. Instituio no
-Convento de S. Domingos da mesma Cidade huma Cadeira de Moral com renda
-para trinta Clerigos assistirem às lições, que ainda hoje se practica
-no mesmo Convento. Dotou o Collegio dos Meninos Orfãos. Estabeleceo
-no Convento de Belém vinte Mercearias para Cavalleiros pobres, que
-tivessem servido em Africa, ou nas Conquistas, e quatro na Capella do
-Santo Christo de Cintra. Alcançou de Roma a instituiçaõ do Tribunal do
-Santo Officio em Goa. Faleceo a 12 de Fevereiro de 1578 na Cidade de
-Lisboa, e jaz no Real Mosteiro de Belém.[762]
-
-21 _Dona Anna de Austria_, filha do imperador Maximiliano II. foy a
-quarta mulher de Filippe II. com quem casou a 12 de Novembro de 1570,
-sendo sua sobrinha. Foy fecunda, e virtuosa. Morreo em Badajoz a 26 de
-Outubro de 1580, e jaz no Escurial.[763]
-
-22 _Dona Margarida de Austria_, filha de Carlos Archiduque de Austria,
-casou com Filippe III. em 18 de Abril de 1599. Morreo no Escurial a 3
-de Outubro de 1611, e jaz sepultada no Pantheon do mesmo Escurial.[764]
-
-23 _Dona Isabel de Borbon_, filha de Henrique IV. Rey de França, foy a
-primeira mulher de Filippe IV. com quem casou no anno de 1615, e morreo
-a 6 de Outubro de 1664. Jaz no Escurial.[765]
-
-24 _Dona Luiza Francisca de Gusmaõ_, filha de D. Joaõ Manoel Peres de
-Gusmaõ, oitavo Duque de Medina Sidonia, casou com o Serenissimo Senhor
-D. Joaõ, oitavo Duque de Bragança, e depois Rey de Portugal em 12 de
-Janeiro de 1633. Foy Princeza de espirito altivo, e de admiraveis
-virtudes. A restauraçaõ de Portugal esteve pendente da sua industria,
-e magnanima resoluçaõ, com que soube persuadir taõ grande empreza ao
-Duque seu marido. Este fiou sempre della os negocios mais arduos do
-Reino, e ella o governou depois da morte delRey na minoridade de D.
-Affonso VI. seu filho, em cujo tempo fez resplandecer no Throno todas
-as grandes qualidades de hum Soberano. Introduzio neste Reino a Ordem
-da Descalcez de Santo Agostinho, e fundou dous Conventos no Valle de
-Xabregas para os Religiosos, e Religiosas desta Ordem. Tambem fundou o
-Convento dos Religiosos Dominicos Irlandezes ao Corpo Santo, e o dos
-Carmelitas Descalços aos Torneiros. Excitada de mayores pensamentos se
-recolheo ao Mosteiro das Religiosas Descalças de Santo Agostinho, que
-havia fundado no sitio do Grilo, onde totalmente se esqueceo de que
-tivesse reinado, e a 27 de Fevereiro de 1666 faleceo, deixando de suas
-virtudes eterna memoria, e jaz sepultada no Mosteiro do Grilo.[766]
-
-25 _Dona Maria Francisca Isabel de Saboya_, filha de Carlos Amadeo de
-Saboya, Duque de Neomurs, casou primeiramente com ElRey D. Affonso
-VI. de Portugal em 27 de Junho de 1666; porém como este matrimonio
-foy julgado por nullo, tornou esta Princeza a casar segunda vez, e se
-recebeo com seu cunhado o Principe Regente, que depois foy Rey D. Pedro
-II. precedendo para isto dispensa do Pontifice, e se celebraraõ estas
-segundas vodas em 2 de Abril de 1668. Foy esta Senhora de estremada
-formosura, e dotada de muita prudencia, e por isso conservou com seu
-marido hum amor muy reciproco. Mandou fazer a Capella de S. Francisco
-de Sales na Igreja dos Padres do Oratorio de Lisboa, e no Noviciado da
-Cotovia dos Padres da Companhia mandou edificar a Capella da Conceiçaõ.
-Fundou o Mosteiro das Religiosas Capuchinhas Francezas do Santo
-Crucifixo em Lisboa. Morreo a 27 de Dezembro de 1683 na quinta do
-Conde de Sarzedas em Palhavã, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro,
-que edificou.[767]
-
-26 _Dona Maria Sofia Isabel de Neoburg_, Filha do Eleitor Palatino do
-Rhim Filippe Vilhelmo, foy a segunda mulher delRey D. Pedro II. com
-quem se recebeo em 11 de Agosto de 1687. Foy Princeza muito benigna, e
-caritativa, em cujos actos se exercitava continuamente. Venerou muito
-a Religiaõ da Companhia de Jesus, e foy muy devota de S. Francisco
-Xavier, em cujo obsequio mandou edificar hum Collegio para os seus
-Padres na Cidade de Béja, ao qual dotou grandiosamente. Morreo no Paço
-da Corte-Real a 4 de Agosto de 1699, e está sepultada no Convento de S.
-Vicente de Fóra.[768]
-
-27 _Dona Maria Anna de Austria_, filha do Imperador Leopoldo I.
-casou em 27 de Outubro de 1708 com ElRey D. Joaõ V. Era Princeza muy
-affavel, e por isso estimada de seus vassallos: muy devota, muy pia, e
-exercitada na cultura das principaes linguas da Europa. Quando ElRey
-seu esposo passou ao Alentejo no anno de 1716, ficou esta Senhora com o
-governo do Reino, em o qual mostrou a sua rara capacidade, prudencia,
-e justiça, virtudes, que praticou com a mesma incumbencia na molestia
-delRey. Soube medir as suas acções, e distribuir o tempo com ordem
-inalteravel. Concorreo para se extinguirem os theatros profanos das
-Comedias, e para exemplo de occupaçaõ mais segura visitava os Templos
-com frequencia. Em final da sua verdadeira piedade, e Religiaõ fundou
-o Convento dos Carmelitas Descalços Alemães em Lisboa, dedicado a
-S. Joaõ Nepomuceno, cuja nova Igreja se benzeo a 6 de Mayo de 1741.
-A todos estes habitos de taõ grandes virtudes, que esta augusta
-Heroina praticou com edificaçaõ, se ajuntaõ os repetidos actos de
-caridade, com que remediava generosa, e liberalmente os pobres. Parece
-que o exercicio destes pios, e santos impulsos era hereditario da
-augustissima Casa de Austria, a qual em toda a Igreja Catholica se
-singulariza em religiosa piedade, e em benigna clemencia, sem embargo
-que para a execuçaõ de tantas virtuosas perfeições nunca a Magestade
-desta perfeitissima Princeza necessitou de estimulo, nem de exemplo. Em
-fim foraõ as suas virtudes, e attributos tantos, e taes, que excedendo
-a todos os elogios, mal poderaõ caber nas breves clausulas desta nossa
-humilde expressaõ. Faleceo no palacio de Belém aos 14 de Agosto de
-1754, e foy seu corpo sepultado na Igreja dos Carmelitas Descalços
-Alemães que ella mandara edificar.
-
-28 _Dona Maria Anna Victoria_, filha delRey Catholico Filippe V., e da
-Rainha Dona Isabel Farnese, casou em 19 de Janeiro de 1729 com ElRey
-Fidelissimo D. Joseph I. He Princeza dotada de huma natural vivacidade,
-a qual se nos bosques faz admirar as Ninfas, e as Deosas com os seus
-tiros, he igualmente fervorosa nos seus retiros, e cheia de grande
-devoçaõ, e piedade. O primoroso Templo de S. Francisco de Paula he
-hum grande testemunho da sua grandeza; nem a sua inviolavel soberania
-necessita de ser elogiada, para ser immortal.
-
- +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+
- | N.| Nome. | Naçaõ. |Ann. em | Marido. |
- | | | |q̃ casou.| |
- +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+
- | 1 | D. Teresa. | Castelhana. | 1093 | D. Henrique. |
- | | | | | |
- | 2 | D. Mafalda. | Saboyana. | 1146 | D. Affonso I. |
- | | | | | |
- | 3 | D. Dulce. | Aragoneza. | 1175 | D. Sancho I. |
- | | | | | |
- | 4 | D. Urraca. | Castelhana. | 1201 | D. Affonso II. |
- | | | | | |
- | 5 | D. Brites. | Castelhana. | 1253 | D. Affonso III. |
- | | | | | |
- | 6 | Santa Isabel. | Aragoneza. | 1282 | D. Diniz. |
- | | | | | |
- | 7 | D. Brites. | Castelhana. | 1309 | D. Affonso IV. |
- | | | | | |
- | 8 | D. Constança. | Castelhana. | 1340 | D. Pedro I. |
- | | | | | |
- | 9 | D. Ignez. | Castelhana. | 1354 | D. Pedro I. |
- | | | | | |
- |10 | D. Leonor. | Portugueza. | 1371 | D. Fernando. |
- | | | | | |
- |11 | D. Filippa. | Ingleza. | 1387 | D. Joaõ I. |
- | | | | | |
- |12 | D. Leonor. | Aragoneza. | 1428 | D. Duarte. |
- | | | | | |
- |13 | D. Isabel. | Portugueza. | 1448 | D. Affonso V. |
- | | | | | |
- |14 | D. Leonor. | Portugueza. | 1470 | D. Joaõ II. |
- | | | | | |
- |15 | D. Isabel. | Castelhana. | 1497 | D. Manoel. |
- | | | | | |
- |16 | D. Maria. | Castelhana. | 1500 | D. Manoel. |
- | | | | | |
- |17 | D. Leonor. | Flamenga. | 1518 | D. Manoel. |
- | | | | | |
- |18 | D. Catharina. | Castelhana. | 1525 | D. Joaõ III. |
- | | | | | |
- |19 | D. Anna. | Castelhana. | 1570 | D. Filippe II. |
- | | | | | |
- |20 | D. Margarida. | Alemã. | 1599 | D. Filippe III. |
- | | | | | |
- |21 | D. Isabel. | Franceza. | 1615 | D. Filippe IV. |
- | | | | | |
- |22 | D. Luiza. | Castelhana. | 1633 | D. Joaõ IV. |
- | | | | | |
- |23 | D. Maria Francisca. | Franceza. | 1668 | D. Pedro II. |
- | | | | | |
- |24 | D. Maria Sofia. | Alemã. | 1687 | D. Pedro II. |
- | | | | | |
- |25 | D. Maria Anna. | Alemã. | 1708 | D. Joaõ V. |
- | | | | | |
- |26 | D. Maria Anna. | Castelhana. | 1729 | D. Joseph I. |
- +---+---------------------+-------------+---------+-----------------+
-
- +--------+-----------+---------------+---------------------------+
- | Filhos.| Anno em |Lugar da morte.| Lugar da sepultura. |
- | |que morreo.| | |
- +--------+-----------+---------------+---------------------------+
- | 4 | 1130 | ... | Sé de Braga. |
- | | | | |
- | 7 | 1157 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
- | | | | |
- | 11 | 1198 | Coimbra. | Santa Cruz de Coimbra. |
- | | | | |
- | 4 | 1220 | Coimbra. | Alcobaça. |
- | | | | |
- | 7 | 1303 | ... | Alcobaça. |
- | | | | |
- | 2 | 1336 | Estremoz. | Santa Clara de Coimbra. |
- | | | | |
- | 7 | 1359 | Lisboa. | Sé de Lisboa. |
- | | | | |
- | 3 | 1345 | Santarem. | S. Francisco de Santarem. |
- | | | | |
- | 4 | 1355 | Coimbra. | Alcobaça. |
- | | | | |
- | 3 | 1386 | Tordesilhas. | Valhadolid. |
- | | | | |
- | 8 | 1415 | Odivelas. | Batalha. |
- | | | | |
- | 9 | 1445 | Toledo. | Batalha. |
- | | | | |
- | 3 | 1455 | Evora. | Batalha. |
- | | | | |
- | 1 | 1525 | Lisboa. | Madre de Deos. |
- | | | | |
- | 1 | 1598 | Saragoça. | Santa Isabel de Toledo. |
- | | | | |
- | 10 | 1517 | Lisboa. | Belém. |
- | | | | |
- | 2 | 1558 | Badajoz. | Escurial. |
- | | | | |
- | 9 | 1578 | Lisboa. | Belém. |
- | | | | |
- | 3 | 1580 | Badajoz. | Escurial. |
- | | | | |
- | 7 | 1611 | Escurial. | Escurial. |
- | | | | |
- | 7 | 1664 | Madrid. | Escurial. |
- | | | | |
- | 7 | 1666 | Lisboa. | Grilo. |
- | | | | |
- | 1 | 1683 | Palhavã. | Francezinhas. |
- | | | | |
- | 7 | 1699 | Lisboa. | S. Vicente de Fóra. |
- | | | | |
- | 6 | 1754 | Lisboa. | S. Joaõ Nepomuceno. |
- | | | | |
- | 4 | | | |
- +--------+-----------+---------------+---------------------------+
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[738] Mariz Dialog. 2. pag. mihi 42.
-
-[739] Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 11. pag. 34.
-
-[740] Sousa Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 1. cap. 11.
-
-[741] Marchanc. liv. 2. Descripç. de Fland. Veja-se a Monarq. Lusit.
-liv. 11. cap. 37.
-
-[742] Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 29.
-
-[743] Conde D. Pedro no seu Nobiliario tit. 4. Estaç. nas Antiguid. de
-Port. cap. 21. n. 5.
-
-[744] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 87.
-
-[745] Vide Joaõ Bap. Lavanh. nas Notas do Conde D Pedro tit. 7. Brand.
-Monarq. Lusit. liv. 10. c. 19. Goes part. 4. cap 71. Estaço nas
-Antiguid. de Port. cap. 25. num. 21. Corogr. Portug. tom. 1. p. 135.
-Barbos. Catalog. das Rainh. p. 110. Sous. Histor. Genea. tom. 1. pag. 6.
-
-[746] Barbud. Emprez. Militar. pag. 7. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 318.
-Duarte Ribeiro p. 301. part. 1. Barbos. Catalog. das Rainh.
-
-[747] Idem ibid. p. 143. Esperança na Histor. Serafica tom. 1. liv. 2.
-cap. 28. num. 2.
-
-[748] Idem tom. 2. liv. 1 cap. 15. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 16. e
-liv. 16. cap. 32. e liv. 18. cap. 9.
-
-[749] Lacerda na Vida desta Santa. Mendoça in Viridar. liv. 6. Barbos.
-Catalog. das Rainhas.
-
-[750] Duarte Nun. Chronic. delRey D. Affonso IV. p. 172. Sous. Histor.
-Genealog. tom. 1. p. 307.
-
-[751] Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 6.
-
-[752] Duart. Nun. Chronic. delRey D. Pedro, Mariz Dialog. 3. cap. 3.
-Caram. Philipp. Prud. p. 138. Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa
-tambem allegado na Histor. Geneal. tom. 1.
-
-[753] Monarq. Lusit. tom. 8. p. 147. Vejaõ-se tambem as razões, que
-allegou o Doutor Joaõ das Regras, e se achaõ na 8. part. da Monarq.
-Lusitan. pag. 651.
-
-[754] Sous. Histor. de S. Doming. part. 1. liv. 6. cap. 25. Barbos. no
-Catal. das Rainh.
-
-[755] Damiaõ de Goes, Chron. do Princip. D. Joaõ cap. 17. Agiolog.
-Lusit. tom. 3.
-
-[756] Barbos. no Catalog. das Rainh. Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 64.
-Chronic. dos Padres Loyos liv. 2. cap. 26.
-
-[757] Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 67. Histor. Seraf. part. 3. liv.
-3. cap. 16. n. 528.
-
-[758] Sousa Histor. Geneal. tom. 3. pag. 139. Goes Chron. delRey D.
-Manoel part. 4. cap. 26. p. 282. Santuar. Marian. tom. 2. p. 329. e
-tom. 7. p. 219. Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 77.
-
-[759] Damiaõ de Goes na Chronic. delRey D. Man. part. 1. cap. 46.
-Barbos. no Catalog. p. 383.
-
-[760] Idem ibid.
-
-[761] Barbos. nos Factos da Lusit. a 25. de Fevereiro p. 664.
-
-[762] Barbos. no Catalog. das Rainh. p 404. e o Doutor Ignacio Barbosa
-seu irmaõ nos Fast. da Lusit. a 12 de Fevereir. p. 511. Sous. Histor.
-Genealog. tom. 3. p. 525.
-
-[763] Barbos. allegad. Les Delices de l’Espagne tom. 2. p. 285
-
-[764] Ibid.
-
-[765] Ibid.
-
-[766] Os irmãos Barbos. hum no Catal. das Rainh. e outro nos Fast. da
-Lusit. tom. 1. p. 691. Sousa Histor. Geneal. tom. 7. p. 247. Catastrof.
-de Port. p. 133. Passarel. de Bell. Lusit. L’Abbé de Vertot Histoir.
-des Revolut. de Portug. pag. mihi 52. e 152. Santuar. Marian. tom. 7.
-pag. 10. e 132.
-
-[767] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 725. e segg. Barbos. no Catalog.
-das Rainh.
-
-[768] Iidem ibid.
-
-
-
-
- CAPITULO VIII.
-
- _Dos Filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de Portugal._
-
-
-Neste Reino assim como a succesaõ dos Serenissimos Reys se introduzio
-por via de morgado, conforme o uso de Castella, tambem o portentoso
-Heroe D. Affonso Henriques depois de acclamado Rey deu o mesmo Regio
-titulo a seus filhos,[769] e se costumou até ElRey D. Affonso II. que
-a todos chamou Infantes, o qual titulo nos primogenitos igualmente com
-seus irmãos durou até o tempo delRey D. Duarte, que à imitaçaõ dos
-Reys de Inglaterra ordenou, que seu filho D. Affonso V. fosse chamado
-Principe, e foy o primeiro, que em Portugal começou a intitularse
-assim.[770] O mesmo tratamento de Princeza tinha tambem a filha delRey,
-que nascia primeiro, em quanto naõ havia filho varaõ. Os outros filhos
-se chamavaõ Infantes; porém os filhos destes tinhaõ só o tratamento de
-Senhores. Isto supposto, daremos huma breve noticia de todos os filhos,
-que os Senhores Reys de Portugal tiveraõ.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos do Conde D. Henrique._
-
-1 _ElRey_ D. _Affonso Henriques_, de quem já dissemos no Capitulo VI.
-num. 12.
-
-2 _A Infanta Dona Sancha Henriques_ casou com Fernaõ Mendes de
-Bragança, chamado o _Bravo_, Fidalgo aventureiro, que se achou na
-batalha do Campo de Ourique. Era Senhor de Bragança, e naõ teve
-filhos.[771]
-
-3 _A Infanta Dona Urraca_ nasceo em Guimarães antes que seu irmaõ
-D. Affonso Henriques. Casou com D. Bermudo Paes de Trava, Conde de
-Trastamara, de que nasceraõ duas filhas, de huma das quaes procedem os
-Viscondes de Villa-Nova de Cerveira, e outras Familias illustres.[772]
-
-4 _A Infanta Dona Teresa_ casou com D. Sancho Nunes de Barbosa,
-descendente do Conde D. Nuno de Cella-Nova, como diz Brandaõ liv. 10.
-cap. 20.
-
-Teve mais outros dous filhos, de que naõ se sabe o nome, e morreraõ de
-pouca idade.
-
-5 Fóra do matrimonio teve de huma mulher nobre a _D. Pedro Affonso_,
-valerosissimo Capitaõ, como o deu a conhecer em varias batalhas, em
-que se achou com seu irmaõ D. Affonso Henriques. Em França, onde ElRey
-o mandou como Embaixador, teve grande estimaçaõ; e com a amizade, que
-lá teve com S. Bernardo, voltando a Portugal, e dando noticia a seu
-irmaõ do Santo, foy causa principal, para que ElRey fundasse o insigne
-Convento de Alcobaça, no qual D. Pedro se recolheo, assistindo-lhe
-ElRey com toda a Corte no dia, que tomou o habito. Morreo mais
-honradamente ainda do que tinha vivido, porque deixou de ser Principe
-para ser Santo. Nunca se quiz ordenar de Missa, julgando-se indigno de
-exercicio taõ soberano. Faleceo a 9 de Mayo de 1169. Jaz em Alcobaça ao
-pé do Altar mór da parte do Evangelho.[773]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Affonso Henriques._
-
-1 O _Infante D. Henrique_, filho primogenito, nasceo a 5 de Março de
-1147, e faleceo de poucos annos.
-
-2 _ElRey D. Sancho_, que lhe succedeo na Coroa.
-
-3 O _Infante D. Joaõ_. Deste naõ consta mais que morrera a 25 de
-Agosto.[774]
-
-4 _A Infanta Dona Urraca_ nasceo no anno de 1148. Casou no de 1160 com
-D. Fernando II. Rey de Leaõ; mas por causa de parentesco o Papa fez
-dissolver este matrimonio no anno de 1171. Manoel de Faria diz, que
-àcerca deste divorcio se fizera hum Concilio em Salamanca. Morreo a 16
-de Outubro.[775]
-
-5 _A Infanta Dona Mafalda_. No anno de 1160 esteve contratada para
-casar com D. Affonso II. de Aragaõ; mas nunca sahio de Portugal, nem
-o casamento se ajustou, por falecer esta Infanta pouco depois do tal
-contrato.[776]
-
-6 _A Infanta Dona Teresa_, a quem os Flamengos chamaõ _Mathilde_, casou
-com Filippe I. de Alsacia, Conde de Flandres, em Agosto de 1184, o qual
-morrendo no sitio de Acre no anno de 1191, ficou a Infanta governando
-aquelles seus Estados com muita prudencia. Depois passou a segundo
-matrimonio, e o celebrou com Eudo III. Duque de Borgonha no anno de
-1194; mas foraõ separados por causa de parentesco no anno seguinte, e a
-Infanta passados alguns annos morreo desastradamente affogada em huma
-lagoa a 6 de Mayo de 1218. Jaz no Convento de Claraval em Borgonha.[777]
-
-7 _A Infanta Dona Sancha._ Naõ consta mais que morreo a 14 de
-Fevereiro.
-
-8 Fóra do legitimo matrimonio teve a _Fernando Affonso_, Alferes Mór do
-Reino, e a _D. Affonso_, Mestre da insigne Ordem de Rhodes. Foy muito
-valeroso; e renunciando a dignidade, passou a Portugal, onde morreo, e
-jaz sepultado na igreja de S. Joaõ da Villa de Santarem.[778]
-
-9 _Dona Teresa Affonso._ Naõ consente o Doutor Brandaõ[779] que ElRey
-D. Affonso Henriques tivesse esta filha, porque naõ vira memoria della
-em escrituras authenticas; porém D. Antonio Caetano de Sousa diz, que a
-houvera ElRey em Elvira Gualter.[780]
-
-10 Teve mais a _Dona Urraca Affonso_, que casou com D. Pedro Affonso
-Viegas, neto de D. Egas Moniz.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Sancho I._
-
-1 A _Infanta Dona Constança_ nasceo em Mayo de 1182, e morreo a 3 de
-Agosto de 1202.
-
-2 _A Infanta Beata Teresa_. Estando casada com ElRey D. Affonso IX. de
-Leaõ, e já com tres filhos, foy separada pelo Papa Celestino III. no
-anno de 1195 por causa do parentesco, e casar sem preceder dispensa.
-Voltou para Portugal, e restaurando o Mosteiro de Lorvaõ, collocando
-nelle Freiras da Ordem de Cister, professou o mesmo Instituto, e nelle
-morreo santamente a 17 de Junho de 1250. Passados trezentos annos, foy
-achado seu corpo incorrupto, por cujo motivo, e pelos milagres, que
-obrava, o Papa Clemente XI. lhe confirmou o culto de Beata por Bulla
-de 23 de Dezembro de 1705, e no anno de 1724 approvou, e concedeo o
-Officio proprio para todo o Reino de Portugal. Jaz seu veneravel corpo
-na Capella mór da Igreja de Lorvaõ.[781]
-
-3 _A Infanta Beata Sancha_ foy Senhora de Alenquer, onde fundou hum
-Convento da Ordem de S. Francisco em vida do mesmo Santo, e foy o
-primeiro desta Ordem, que houve em Portugal. Tambem fundou a Igreja da
-Redonda na mesma Villa, e o Mosteiro de Celas em Coimbra, onde fez vida
-Monacal, e morreo a 13 de Março de 1229, e neste Mosteiro he venerada
-pelos Fieis, e resplandece em milagres, tributando-lhe os Fieis os
-mesmos cultos, que a sua gloriosa irmã a Beata Teresa.[782]
-
-4 _O Infante D. Affonso_, que lhe succedeo no Throno.
-
-5 _O Infante D. Pedro_ nasceo a 23 de Março de 1187. Por desavenças,
-que teve com seu irmaõ ElRey D. Affonso, sahio do Reino, e foy militar
-nos exercitos delRey de Leaõ. Depois se passou para a Corte delRey
-de Marrocos, e servio nas tropas do Imperador Miramolim, e de lá fez
-transito para Aragaõ, onde casou no anno 1228 com Aurembiaux, Condessa
-de Urgel, a qual morrendo sem lhe ficarem filhos, deixou a D. Pedro seu
-marido por herdeiro de seus Estados, que depois elle trocou com ElRey
-D. Jayme I. pela Ilha de Malhorca, que havia conquistado aos Mouros; e
-naõ tendo D. Pedro armas para a defender delles, lha restituio, e houve
-delle a Cidade de Segorbe, Morelha, e outras Praças. Ajudou tambem este
-Infante a Guilherme de Mongrio, Prelado de Tarragona, a ganhar a Ilha
-de Iviça, que possuiaõ os Mouros no anno 1230. Finalmente faleceo a
-2 de Junho do anno 1258, deixando dous filhos bastardos, D. Rodrigo
-insigne em letras, e D. Fernando.[783]
-
-6 _O Infante D. Fernando_ nasceo a 24 de Março de 1188. Foy Principe de
-altos pensamentos. No anno de 1211 casou com a Princeza Joanna, filha
-do Imperador Balduino de Constantinopla, e herdeira dos Estados de
-Flandres. Deu grandes mostras do seu valor na batalha de Bovinas, em
-que se achou militando por parte do Imperador Othon IV, e Joaõ I. Rey
-de Inglaterra contra Filippe Augusto, Rey de França; e sendo o Infante
-prezo, o levaraõ para o Castello de Louvre, onde esteve alguns annos.
-Depois de livre ajudou a Rainha Dona Branca de França contra Pedro,
-Duque de Bertanha, e outros Potentados, que embaraçavaõ àquella Senhora
-a tutoria delRey S. Luiz seu filho. Morreo em fim na Cidade de Noyon
-a 26 de Julho de 1233, e está sepultado na Abbadia de Market junto a
-Lila.[784]
-
-7 _O Infante D. Henrique_ nasceo no anno de 1189, e morreo a 8 de
-Dezembro, e naõ ha delle mais memoria.[785]
-
-8 _O Infante D. Raymundo_ faleceo a 9 de Março.
-
-9 _A Infanta Dona Mafalda_ casou com Henrique I. de Castella no anno de
-1215; porém sendo este casamento julgado nullo, por serem parentes em
-gráo prohibido, foraõ separados; e voltando a Infanta para Portugal,
-se recolheo ao Mosteiro de Arouca de Freiras Benedictinas, que ella
-reformou com as da Ordem de Cister; e aqui tomando o habito viveo
-em continuo exercicio de virtudes, e morreo com opiniaõ de Santa no
-primeiro de Mayo de 1256. Jaz no Mosteiro de Arouca.[786]
-
-10 _A Infanta Dona Branca_ foy Senhora da Cidade de Guadalaxara em
-Castella; mas naõ se sabe porque titulo lhe veyo aquelle dominio. Foy
-muito devota da Religiaõ dos Pregadores, e por isso lhe fundou em
-Coimbra o Convento de S. Domingos o velho no Arnado, de que por causa
-das enchentes do Mondego naõ ha vestigios, só sim do campanario, como
-ainda havia no tempo do Author da Benedictina Lusitana. Morreo aos 17
-de Novembro de 1240. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.[787]
-
-11 _A Infanta Dona Berenguella_, ou _Berengaria_ casou no anno de 1213
-com ElRey Valdemaro II. de Dinamarca, a quem chamaraõ o _Vitorioso_, e
-de quem teve tres filhos, e huma filha. Morreo no primeiro de Abril de
-1220.[788]
-
-12 Fóra do matrimonio teve os seguintes filhos. _D. Martim Sanches_,
-que nasceo de huma Fidalga chamada Dona Maria Annes, ou Ayres de
-Tornellos. Por differenças, que teve com seu irmão ElRey D. Affonso II
-se passou a Castella, e ElRey D. Affonso de Leaõ seu cunhado lhe fez
-grandes mercês, e honras. Lá casou com Dona Ello, ou Olaya, filha do
-Conde D. Pedro Fernandes de Castro, e naõ teve descendencia. Jaz em
-Cosinos terra de Campos.[789]
-
-13 _Dona Urraca Sanches_ irmã do antecedente foy Senhora muito
-virtuosa. Casou com o neto de D. Egas Moniz, e a Infanta Dona Mafalda a
-nomeou sua testamenteira.
-
-14 Teve mais ElRey D. Sancho de outra Fidalga chamada Dona Maria
-Paes da Ribeira a _D. Rodrigo Sanches_, do qual consta que morrera
-valerosamente em 7 de Julho de 1245 em huma contenda, que tivera
-com D. Martim Gil de Soverosa sobre reciprocas dependencias; e vindo
-mortalmente ferido, espirou à porta do Convento de Grijó de Conegos
-Regrantes, onde pozeraõ huma Cruz de pedra para memoria.[790]
-
-15 _D. Gil Sanches_. Dizem huns sómente que naõ casara; outros
-accrescentaõ que fora Clerigo, e que morrera a 14 de Setembro de
-1236.[791]
-
-16 _D. Nuno Sanches_ morreo de tenra idade.
-
-17 _Dona Mayor Sanches_ tambem morreo menina.
-
-18 _Dona Constança Sanches_. Ha tradiçaõ que vivera no Mosteiro
-das Donas de Santa Cruz, que estava junto ao proprio Convento dos
-Religiosos, e que possuira grandes rendas, as quaes soube distribuir
-com piedade, e grandeza. Dizem que lhe appareceraõ os gloriosos S.
-Francisco, e Santo Antonio, e que morrera com opiniaõ de Santa a 8 de
-Agosto de 1269. Seu corpo foy achado inteiro, e incorrupto em tempo
-delRey D. Manoel. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.[792]
-
-19 _Dona Teresa Sanches_ foy a segunda mulher de D. Affonso Telles de
-Menezes, Rico-Homem, e Senhor de Albuquerque, e outras muitas terras.
-Deste fecundo consorcio procedem muitas Casas illustres de Portugal,
-como a dos Menezes, Cantanhede, Tarouca, e outras.[793]
-
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Affonso II._
-
-1 O _Infante D. Sancho_ successor.
-
-2 _O Infante D. Affonso_ nasceo a 5 de Mayo de 1210, e succedeo a seu
-irmaõ, entrando a governar ainda em vida delle.
-
-3 _A Infanta Dona Leonor_ nasceo no anno de 1211, e casou no de
-1229 com Valdemaro III. Rey de Dinamarca, e naõ de Dacia, como diz
-eruditamente D. Antonio Caetano de Sousa, emendando a Brandaõ, e outros
-Escritores. Morreo de parto a 13 de Mayo de 1231, e naõ deixou sucessaõ
-alguma, como bem mostra D. Joseph Barbosa contra o Bispo Caramuel. Está
-sepultada esta Infanta em Ringstad.[794]
-
-4 _O Infante D. Fernando_, a quem chamaraõ o Infante de Serpa, porque
-foy Senhor desta Villa. Passou a Castella, e lá militou contra os
-Mouros valerosamente, por cujas acções ElRey D. Fernando o _Santo_ o
-casou no anno de 1241 com a Senhora de Balvas Dona Sancha Fernandes de
-Lara, filha do Conde de Lara. Naõ consta de certo quando morreo, nem
-onde está enterrado.[795]
-
-5 Fóra do matrimonio teve o sobredito Rey a _D. Joaõ Affonso_, do
-qual naõ ha mais memoria, que a que se infere da inscripçaõ de huma
-sepultura collocada no Mosteiro de Alcobaça à porta do Capitulo da
-parte de fóra da banda esquerda, por onde consta que morrera no anno de
-1234.[796]
-
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Affonso III._
-
-1 A _Infanta Dona Branca_ nasceo a 28 de Fevereiro de 1259 na Villa de
-Guimarães. Foy Senhora de Montemór o Velho, de Campo-Mayor, e de outras
-terras, e foy Abbadessa do Mosteiro de Lorvaõ, onde procedia com tanto
-exemplo, que lhe deraõ em Burgos o governo do Mosteiro das Huelgas, de
-cujo dominio, e obediencia pendiaõ doze Mosteiros. Naõ se sabe quando
-morreo.[797]
-
-2 _O Infante D. Fernando_ naõ se sabe quando nasceo. Morreo ainda
-menino em Lisboa no anno de 1262, e jaz em Alcobaça.
-
-3 _O Infante D. Diniz_ que succedeo na Coroa.
-
-4 _O Infante D. Affonso_ nasceo a 8 de Fevereiro de 1263. Foy Senhor
-de Portalegre, Castello de Vide, Marvaõ, Arronches, e outras terras.
-Por desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Diniz, passou-se a
-Castella, e lá seguio a Corte, casando com a infanta Dona Violante
-Manoel, filha do infante D. Manoel, Senhor de Escalona, e filho do
-Santo D. Fernando III. Rey de Castella. Morreo em Lisboa a 2 de
-Novembro de 1312. Jaz em S. Domingos de Lisboa collocado em hum tumulo
-na parede por cima da porta, que hia do cruzeiro para a Sacristia.[798]
-
-5 _A Infanta Dona Sancha_ nasceo a 2 de Fevereiro de 1264. Perfilhou-a
-sua tia Dona Constança Sanches, e lhe largou muitas terras, que
-possuia. Tendo naõ mais que cinco annos, foy com a Rainha sua mãy
-a Castella, e estando em Sevilha morreo no anno de 1302. Jaz em
-Alcobaça.[799]
-
-6 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Novembro de 1265. Viveo
-Religiosa no Mosteiro das Donas de Santa Cruz de Coimbra, e aqui morreo
-com opiniaõ de santidade a 6 de Junho de 1304. Jaz em Santa Cruz de
-Coimbra.[800]
-
-7 _O Infante D. Vicente_ nasceo a 22 de Janeiro de 1268. Morreu em
-Lisboa, e jaz em Alcobaça.[801]
-
-8 Além destes filhos teve fóra do matrimonio seguintes: _D. Affonso
-Diniz_, que nasceo de Maria Peres da Enxara, e casou com Dona Maria
-Ribeira, donde procedem os Sousas da Casa de Arronches.[802]
-
-9 _D. Martim Affonso Chichorro_. O Chronista Fr. Antonio Brandaõ, diz
-que a mãy deste Senhor fora huma filha do Alcaide, ou Governador de
-Faro, muito formosa, de quem nosso Rey D. Affonso se namorara; e que
-casando D. Martim na Casa dos Sousas, foy progenitor dos Sousas da
-Familia dos Marquezes das Minas; porém naõ assegura esta origem com
-certeza.[803]
-
-10 _D. Fernando Affonso_. Foy Cavalleiro Templario, e filho de Dona
-Chamoa Gomes, filha do Conde D. Gomes Nunes. Os Freires de Veles o
-mataraõ em Evora, e jaz sepultado na Igreja de S. Braz de Lisboa.[804]
-
-11 _D. Gil Affonso_. Foy tambem Cavalleiro Templario, e Ballio da
-Igreja de S. Braz de Lisboa, onde está sepultado.
-
-12 _D. Rodrigo Affonso_. Parece que Fr. Antonio Brandaõ dá a entender,
-que ElRey D. Affonso tivera dous filhos com este mesmo nome. Vejaõ-se
-os lugares citados.[805]
-
-13 _Dona Leonor Affonso._ Foy esta Senhora casada duas vezes: a
-primeira com D. Estevaõ Annes, filho de D. Joaõ Garcia de Sousa,
-chamado o _Pinto_. Por morte de D. Estevaõ tornou a casar com D.
-Gonçalo Garcia de Sousa, Alferes Mór delRey D. Affonso, a quem tambem
-fez Conde. De nenhum destes matrimonios teve filhos Dona Leonor.[806]
-
-14 _Dona Urraca Affonso_ casou com D. Pedro Annes, que governava a
-Provincia de Tras os Montes.[807]
-
-15 _Dona Leonor Affonso_. Foy Religiosa no Mosteiro de Santa Clara de
-Santarem, e alli resplandeceo em grandes actos de virtude.[808]
-
-16 _Dona Urraca Affonso_. Viveo, e morreo no Mosteiro de Lorvaõ em
-4 de Novembro de 1281. Jaz no mesmo Convento em sepultura ha pouco
-descuberta.[809] O grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa
-numera mais outro filho a ElRey D. Affonso III. e diz que foy o
-_Infante D. Henrique Affonso_, mas poem-no em duvida. O Padre D. Luiz
-de Lima[810] entre os filhos bastardos deste Rey assina tambem a _D.
-Pedro Affonso_, de que naõ achamos noticia em outra parte.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos del Rey D. Diniz._
-
-1 A _Infanta Dona Constança_ nasceo a 5 de Janeiro de 1290, e no de
-1302 casou com D. Fernando IV. Rey de Castella, de que teve dous
-filhos, cuja descendencia se póde ver em D. Antonio Caetano de Sousa.
-Morreo a 18 de Novembro de 1313.[811]
-
-2 _O Infante D. Affonso_ successor.
-
-3 Teve mais fóra do matrimonio de differentes mulheres os seguintes
-filhos. _D. Affonso Sanches_ nascido de Dona Aldonça Rodrigues Telha.
-Foy muito querido de seu pay, o qual o fez seu Mordomo Mór, e Senhor
-da Villa do Conde, e outras muitas terras. Esta nimia affeiçaõ causou
-tal inveja a seu irmaõ D. Affonso, que o perseguio fortemente depois
-que principiou a governar. Casou com Dona Teresa Martins, filha do
-Conde de Barcellos, e fundou com sua mulher o Mosteiro de Santa Clara
-da Villa do Conde, dotando-o grandiosamente. Faleceo no anno de 1329,e
-jaz sepultado no mesmo Mosteiro com opiniaõ de virtuoso. Ha tradiçaõ,
-que depois de morto apparecera com sua mulher às Religiosas do seu
-Mosteiro, animando-as em huma occasiaõ de guerra em Castella.[812]
-Deste matrimonio descendem por allianças muitas Familias illustres
-deste Reino.
-
-4 _D. Pedro Affonso_ havido em Dona Garcia Froyas, mulher de qualidade,
-natural de Torres Vedras. Foy o sobredito D. Pedro Conde de Barcellos,
-Alferes Mór do Reino, Mordomo Mór da Infanta Dona Brites, e possuio
-muitas terras, com cujo dominio, e rendas conservava huma casa
-magnifica. ElRey D. Diniz seu pay o estimava muito, e elle o merecia
-pelo seu valor, e letras. Compoz o celebre Nobiliario, em que descreve
-a origem de quasi todas as Familias de Hespanha, e he estimavel, por
-naõ haver outro deste genero mais antigo. Casou tres vezes, mas naõ
-teve descendencia. Morreo no anno de 1354, e jaz enterrado no Convento
-de S. Joaõ de Tarouca da Ordem de Cister. A estatura do seu corpo tinha
-de comprido onze palmos.[813]
-
-5 _D. Pedro Affonso._ Este foy outro filho delRey D. Diniz, e casou
-com Dona Maria Mendes. Muitos se enganaraõ com este D. Pedro, fazendo-o
-Author do famoso Nobiliario, o que desfaz facilmente o insigne D.
-Antonio Caetano de Sousa.[814]
-
-6 _D. Joaõ Affonso_. Foy legitimado a 13 de Abril de 1317, e nascido
-de Maria Pires, mulher de qualidade. Foy Mordomo Mór da Rainha Santa
-Isabel, e ElRey D. Affonso, irmaõ deste D. Joaõ, o mandou degollar a 4
-de Junho de 1325.[815]
-
-7 _D. Fernaõ Sanches_. ElRey seu pay lhe fez muitas mercês. Casou com
-Dona Froilhe Annes de Briteiros.
-
-8 _Dona Maria Affonso_ havida em Dona Marinha Gomes, mulher nobre de
-Lisboa, e que fundou a Igreja de Santa Marinha. Casou com D. Joaõ de
-Lacerda, de quem houve descendencia.[816]
-
-9 _Dona Maria Affonso_. Foy Freira em Odivellas, e faleceo no anno de
-1320 com opiniaõ de virtuosa.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Affonso IV._
-
-1 A _Infanta Dona Maria_ nasceo no anno de 1313, e no de 1328 casou com
-ElRey de Castella D. Affonso XI. a quem soffreo muitas desattenções
-originadas dos illicitos amores, que elle havia contrahido com Dona
-Leonor Nunes de Gusmaõ. Morto seu marido, voltou ella para Portugal,
-e em Evora faleceo a 18 de Janeiro de 1357, porém seu corpo foy
-trasladado para a Capella dos Reys em Sevilha, onde jaz junto delRey
-seu marido.[817]
-
-2 _O Infante D. Affonso_ nasceo no anno de 1315 na Villa de Penella,
-e morreo menino na mesma Villa. Jaz sepultado em S. Domingos de
-Santarem.[818]
-
-3 _O Infante D. Diniz_ nasceo em Santarem a 12 de Janeiro de 1317, e
-dahi a hum anno morreo, e jaz em Alcobaça.
-
-4 _O Infante D. Pedro_ successor.
-
-5 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo a 21 de Dezembro do anno de 1324, e
-dahi a dous annos morreo. Jaz no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.
-
-6 _O Infante D. Joaõ_ nasceo a 23 de Setembro de 1326, e morreo a 21 de
-Junho de 1327. Está sepultado em Odivellas.
-
-7 _A Infanta Dona Leonor_ nasceo no anno de 1328, e no de 1347 casou
-com ElRey de Aragaõ D. Pedro IV. Morreo na Villa de Exerica no ultimo
-de Outubro de 1348.[819]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Pedro I._
-
-1 A _Infanta Dona Maria_ nasceo a 6 de Abril de 1342 na Cidade
-de Evora. Casou na mesma Cidade a 3 de Fevereiro de 1354 com D.
-Fernando, Infante de Aragaõ; e passando-se para aquelle Reino, logrou
-poucos annos a uniaõ de seu marido, pois no de 1363 o mandou matar
-aleivosamente ElRey D. Pedro de Aragaõ seu irmaõ. Voltou a Infanta para
-Portugal, e vivendo na Villa de Aveiro, alli faleceo, e descançaõ suas
-cinzas no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.[820]
-
-2 _O Infante D. Luiz_ naõ teve mais que oito dias de vida.
-
-3 _O Infante D. Fernando_ successor.
-
-4 De sua segunda mulher Dona Ignez de Castro teve os seguintes filhos.
-_O Infante D. Affonso_ faleceo de tenra idade.
-
-5 _O Infante D. Joaõ_ casou a primeira vez com Dona Maria Telles de
-Menezes no anno de 1376, irmã de sua cunhada; porém induzido por esta,
-que era a Rainha Dona Leonor, matou injustamente sua mulher, por cujo
-crime, passando-se a Castella, ElRey D. Henrique II. o fez Conde de
-Valença, e lhe deu o senhorio de outras terras, e sua filha bastarda
-Dona Constança, com quem casou. Morto seu irmaõ ElRey D. Fernando,
-temendo-se ElRey D. Joaõ de Castella, que pertendia o Reino de Portugal
-pela Rainha Dona Brites sua mulher, que levantassem os Portuguezes por
-seu Rey ao infante D. Joaõ, o mandou prender, e na prisaõ morreo. Jaz
-no Convento de Santo Estevaõ de Salamanca.[821]
-
-6 _O Infante D. Diniz_. Por naõ querer beijar a maõ a sua cunhada a
-Rainha Dona Leonor, sahio de Portugal, e passou-se para Castella, onde
-ElRey D. Henrique o casou com huma filha bastarda, chamada Dona Joanna.
-Jaz no Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, em cuja sepultura se lê
-o titulo de Rey de Portugal pela pertençaõ, que tinha ao Reino.[822]
-
-8 Fóra do matrimonio teve a _D. Joaõ_, Mestre
-
-7 _A Infanta Dona Brites_ casou no anno de 1377 com D. Sancho, Conde de
-Albuquerque, filho bastardo delRey D. Affonso XI. de Castella, donde
-procede huma dilatada, e Real descendencia. Está sepultada na Sé de
-Burgos.[823]
-
-8 Fóra do matrimonio teve a D. Joaõ, Mestre de Aviz, havido em huma
-nobre Senhora de Galiza, chamada Dona Teresa Lourenço, e depois foy
-Rey.[824]
-
-9 Teve ElRey D. Pedro mais outra filha bastarda, a que naõ se sabe o
-nome, mas consta que se criara no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Fernando._
-
-1 O _Infante D. Pedro_, que morreo menino.
-
-2 _O Infante D. Affonso_ tambem morreo de pouca idade.
-
-3 _A Infanta D. Brites_ nasceo em Coimbra no anno de 1372. Casou
-a 14 de Mayo de 1383 na Cidade de Badajoz com ElRey D. Joaõ I. de
-Castella, precedendo dispensa Pontificia no gráo do parentesco, que
-havia entre os esposos, e celebrando-se esta funçaõ com grande pompa, e
-magnificencia. Pouco durou esta uniaõ, porque morrendo ElRey no anno de
-1390, ficou a Rainha Dona Brites sem filhos, e desamparada de parentes,
-e amigos em Portugal, e Castella. Em Portugal, porque ElRey D. Joaõ I.
-seu tio havia tomado posse do Reino, contrariando para mayor força a
-sua legitimidade; e em Castella era mal aceita por causa das guerras,
-que entaõ houve na pertençaõ de Portugal. Sem embargo desta afflicçaõ,
-em que se via, considerando-se na flor dos seus annos, e formosissima,
-sendo procurada para segundas vodas pelo Duque de Austria, foy esta
-Princeza taõ virtuosa, e prudente, que mandou dizer aos Embaixadores,
-que as mulheres como ella naõ casavaõ duas vezes; de cuja resposta
-ficaraõ admirados. Morreo em fim na Villa de Madrigal.[825]
-
-4 Fóra do matrimonio teve a _Dona Isabel_, que nasceo no anno de 1364,
-e no de 1378 casou em Burgos com D. Affonso, Conde de Gijon, e Noronha,
-filho bastardo delRey D. Henrique II. de Castella. Deste matrimonio
-procedem muitas Familias illustres deste nosso Reino, os Condes de
-Monsanto, Marquezes de Cascaes, os Condes de Valladares, os de Arcos,
-os de Villa Verde, os Marquezes de Angeja, os de Marialva, os Condes de
-Cantanhede, os Senhores de Ilhavo, etc. Por morte de seu marido voltou
-esta Senhora para Portugal, onde seu tio ElRey D. Joaõ I. lhe fez
-muitas mercês.[826]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Joaõ I._
-
-1 A _Infanta Dona Branca_ nasceo em Lisboa a 13 de Julho de 1388, e
-morreo no de 1389. Jaz na Basilica de Santa Maria, antiga Metropolitana
-de Lisboa, junto delRey D. Affonso IV. seu bisavô.
-
-2. _O Infante D. Affonso_ nasceo em Santarem a 30 de Julho de 1390.
-Foy jurado successor do Reino. Viveo dez annos, porque faleceo a 22 de
-Dezembro de 1400. Jaz na Cathedral de Braga em hum tumulo de bronze
-dourado, que lhe mandou de Borgonha a Infanta Dona Isabel sua irmã.[827]
-
-3 _O Infante D. Duarte_ successor.
-
-4 _O Infante D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 9 de Dezembro de 1392.
-Foy Duque de Coimbra, e Senhor de Montemór o Velho, e outras terras
-do Infantado. Casou com Dona Isabel de Aragaõ, filha do Conde de
-Urgel D. Jayme II. no anno de 1429. Foy este Principe illustre na
-paz, e na guerra. No anno de 1424 sahio de Portugal, e fazendo huma
-larga peregrinaçaõ na companhia de alguns Fidalgos, vio as Cortes
-dos principaes Soberanos da Europa, Africa, e Asia. Na do Imperador
-Sigismundo se demorou mais tempo, a quem ajudou na guerra contra os
-Turcos. Naõ foy só excellente na disciplina militar, porque tambem
-cultivou o seu engenho com as letras divinas, e humanas, e foy perito
-nas linguas estrangeiras, e versado nas artes liberaes. Ficou por
-tutor delRey D. Affonso V. seu sobrinho, e no governo do Reino se
-houve com singular prudencia, mas com inveja de muitos emulos, cuja
-ambiçaõ nunca pode saciar. Sahindo ElRey da idade pupilar, e tomando
-o governo do seu Reino, em lugar das graças, que houvera de dar ao
-Infante seu tutor, tio, e sogro, o desterrou; e pelas calumnias de seu
-irmaõ D. Affonso, Conde de Barcellos, e de outros seus inimigos, vindo
-o Infante a Santarem para se desculpar, ElRey lhe sahio ao encontro
-com hum exercito. Poz-se o Infante em natural defensa com alguma gente
-da sua facçaõ, deu-se a vergonhosa batalha chamada da Alfarrobeira,
-e nella foy morto o Infante atrevidamente do tiro de huma destinada
-setta a 20 de Mayo de 1449. Foy sepultado na igreja de Alverca, e daqui
-trasladaraõ o corpo para Abrantes, depois para Santo Eloy de Lisboa,
-e de Lisboa para a Batalha, onde jaz. Teve seis filhos, que foraõ:
-_D. Pedro_, Condestavel de Portugal, e acclamado Rey de Aragaõ. _D.
-Joaõ_, chamado de Coimbra. _Dona Isabel_, Rainha de Portugal, mulher
-delRey D. Affonso V. _Dona Brites_, que casou em Flandes com Adolfo de
-Cleves, Senhor de Revestein. _Dona Filippa_, que morreo recolhida em
-Odivellas. _D. Jayme_, Arcebispo de Lisboa, e depois Cardeal do titulo
-de Santo Eustaquio.[828]
-
-5 _O Infante D. Henrique_ nasceo na Cidade do Porto a 4 de Março de
-1394. Foy Duque de Viseu, e Mestre da Ordem Militar de Christo, em
-gloria da qual peleijou contra os infieis em muitas occasiões, dando
-sempre mostras de seu grande valor. Desde a flor dos seus primeiros
-annos se applicou tanto às Mathematicas, que a puras contemplações, e
-igual constancia de quarenta annos, emprendendo novos descubrimentos
-de Ceos, terras, e climas differentes, deu a conhecer ao mundo o que
-o mesmo mundo ignorava. Além de tanto valor, e sciencia era dotado
-de hum heroico espirito, vida santa, e pura, até que acabou como
-virtuoso em Sagres do Reino do Algarve a 13 de Novembro de 1460. Jaz na
-Batalha.[829]
-
-6 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Evora a 21 de Fevereiro de 1397, e
-a 10 de Janeiro de 1430 se recebeo com D. Filippe III. o _Bom_, Duque
-de Borgonha, e Conde de Flandes, em cujo dia, para que fosse celebrado
-com mayor solemnidade, instituio o Duque a Ordem Militar do Tusaõ de
-ouro na Cidade de Bruges, onde se festejaraõ as vodas com huma rara, e
-extraordinaria magnificencia. Teve esta Princeza tal dom de conselho,
-que nenhuma acçaõ executava seu marido sem o seu parecer, ainda nas
-resoluções militares; porque além do grande juizo, e prudencia, existia
-nella hum valor verdadeiramente varonil, como em algumas occasiões o
-mostrou. Morreo a 17 de Dezembro de 1471, e jaz no Convento da Cartuxa
-de Dijon, Cidade capital daquelle Estado.[830]
-
-7 _O Infante D. João_ nasceo em Santarem a 13 de Janeiro de 1400. Casou
-no anno de 1424 com a Infanta Dona Isabel sua sobrinha, e filha de D.
-Affonso, primeiro Duque de Bragança, seu irmaõ. Era o Infante terceiro
-Condestavel de Portugal, Mestre da Ordem de Santiago, e Principe muy
-prudente, valeroso, e bemquisto de todos. Morreo na Villa de Alcacer
-do Sal a 18 de Outubro de 1442, e jaz no Templo da Batalha na mesma
-Capella delRey seu pay.
-
-8 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Santarem a 29 de Setembro de
-1402. Foy Mestre de Aviz com o titulo de Administrador, e Governador
-perpetuo da dita Ordem. A sua vida sempre foy de procedimento naõ só
-inculpavel, mas exemplar, pelo continuo exercicio de virtudes, com que
-se fazia amado de todos. Sendo dado em refens aos Mouros até lhes ser
-entregue a Cidade de Ceuta por concerto, que os Portuguezes fizeraõ com
-os barbaros na infeliz jornada de Tangere em tempo delRey D. Duarte,
-padeceo ignominias, e injurias naquelle cativeiro com huma paciencia
-santa, até que morreo depois de seis annos de escravidaõ a 5 de Junho
-de 1443. obrando Deos por intercessaõ deste Santo Infante muitos
-prodigios. Jaz no Convento da Batalha.[831][832]
-
-9 Sendo ElRey D. Joaõ ainda Mestre de Aviz teve antes de casar o
-_Senhor D. Affonso_, primeiro Duque de Bragança, que nasceo no Castello
-de Veiros do Alentejo no anno de 1370, e havido em Dona Ignez Pires,
-mulher nobre, a qual depois foy Commendadeira de Santos. Casou a 8
-de Novembro de 1401 com a Senhora Dona Brites Pereira, Condessa de
-Barcellos, filha unica do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, de
-cujo feliz consorcio descende, como de tronco glorioso, a Serenissima
-Casa de Bragança hoje reinante. Morreo na Villa de Chaves em o mez
-de Dezembro de 1461. Foy sepultado na Igreja dos Capuchos da mesma
-Villa.[833]
-
-10 _A Senhora Dona Brites_ naõ se sabe quando nasceo; porém casou a 26
-de Novembro de 1405 com Thomaz Fitz, Conde de Arundel em Inglaterra,
-onde foy esta Senhora recebida com pomposa magnificencia. Deste
-casamento naõ teve successaõ, e pela morte de seu marido passou
-a segundas vodas no anno de 1415 com Gilberto Talbot, Baraõ de
-Irchenfield, de que tambem ficou viuva no anno de 1419. Ignora-se o
-anno, em que morreo.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Duarte._
-
-1 O _Infante D. Joaõ_ nasceo em Lisboa em Outubro de 1429, e morreo de
-tenra idade.
-
-2 _A Infanta Dona Filippa_ nasceo em Santarem a 27 de Novembro de 1430,
-e morreo a 24 de Março de 1439 ameaçada de peste.
-
-3 _O Principe D. Affonso_ successor.
-
-4 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 7 de Dezembro de 1432 na Villa do
-Sardoal, e naõ teve mais que hum dia de vida.
-
-5 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Almeirim a 17 de Novembro de
-1433, e no de 1438 foy jurado Principe successor do Reino. Era Duque
-de Viseu, Condestavel do Reino, Senhor de Béja, e de outras muitas
-terras. Casou nas Alcaçovas com a Infanta Dona Brites, filha de seu
-tio o Infante D. João no anno de 1447. Como o Infante era de elevados
-espiritos, sahio do Reino occultamente, e foy ter a Ceuta com a idéa
-de ser alli Fronteiro; porém ElRey D. Affonso seu irmaõ o fez voltar
-ao Reino, e depois se servio do seu valor na jornada, e expugnaçaõ de
-Africa. Morreo em Setubal a 18 de Setembro de 1470, e jaz no Mosteiro
-da Conceiçaõ de Béja, que a infanta sua mulher fundara. Desta Real
-uniaõ nasceraõ o_Senhor D. Joaõ_, o _Senhor D. Diogo_, o _Senhor D.
-Duarte_, o _Senhor Rey D. Manoel_, a _Rainha Dona Leonor_, a _Duqueza
-Dona Isabel_, communicando-se tambem por via deste casamento o Regio
-sangue dos Serenissimos Senhores Duques de Bragança a quasi todos os
-soberanos Principes da Europa.[834]
-
-6 _Infanta Dona Leonor_ nasceo em Torres Vedras a 18 de Setembro do
-anno 1434. Casou com o Imperador Federico III. no anno de 1451, e a
-16 de Março de 1452 o Papa Nicoláo V. a recebeo em Roma, e a coroou
-Imperatriz a 19 do mesmo mez; e passando depois a Alemanha, foy
-coroada Rainha de Hungria, e Bohemia. Foy esta Princeza igualmente
-muito formosa, e discreta, cujos predicados fazia realçar mais com
-huma singular modestia, que era o atractivo de todos a amarem, e
-respeitarem. Faleceo em Neustadt a 3 de Setembro de 1467. Jaz no
-Mosteiro de Cister da mesma Cidade.[835]
-
-7 _O Infante D. Duarte_ nasceo em Alenquer a 12 de Julho de 1435, e
-morreo de tenra idade.
-
-8 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo a 25 de Novembro de 1435. Esteve
-desposada com D. Carlos, Principe de Navarra, e com ElRey de Inglaterra
-Duarte IV. mas nenhum casamento se effetuou. Foy Princeza de muitas
-virtudes, e com tanta applicaçaõ ao exercicio das letras, que chegou
-a traduzir em Portuguez o livro da perfeiçaõ dos Monges, que em Latim
-compoz S. Lourenço Justiniano. Morreo no Mosteiro de Santa Clara de
-Lisboa com opiniaõ de virtuosa aos 17 de Junho de 1463. Jaz no Convento
-de Santo Eloy desta Cidade.[836]
-
-9 _A Infanta Dona Joanna_ nasceo no fim de Março de 1439 na quinta do
-Monte Olivete da Villa de Almada. Casou com Henrique IV. de Castella
-a 21 de Mayo de 1455. Foy muito formosa, e naturalmente alegre, e
-esperta, donde se lhe originaraõ as calumnias, de que a arguiraõ. Teve
-huma unica filha, que foy a Princeza Dona Joanna, jurada herdeira de
-Castella, a quem a fortuna, que lhe usurpou o Reino, contentou com o
-nome de _Excellente Senhora_. Morreo a Rainha Dona Joanna em Madrid a
-13 de Junho de 1475. Foy sepultada no Mosteiro de S. Francisco da mesma
-Villa, cuja sepultura está hoje desfeita.[837]
-
-10 Ainda que Manoel de Faria tem por certo que ElRey D. Duarte naõ
-tivera mais filhos fóra do matrimonio, os Genealogicos mais indagadores
-affirmaõ, que tivera a _D. João Manoel_, nascido de Dona Joanna Manoel,
-Dama da Rainha Dona Leonor. Criou-se em casa do inconquistavel, e
-grande D. Nuno Alvares Pereira, e de quatorze annos tomou o habito da
-Religiaõ do Carmo em Lisboa, e aqui foy Prior, e Provincial, donde a
-merecimentos das suas virtudes foy elevado à dignidade de Bispo de
-Ceuta, depois Bispo da Guarda. ElRey D. Affonso V. seu irmaõ o fez
-tambem seu Capellaõ Mór, e se aproveitou muito da sua prudencia,
-virtude, e conselhos. Morreo em Lisboa, e jaz no Convento do Carmo da
-mesma Cidade na Casa do Capitulo velho, como nos mostra o moderno, e
-insigne Chronista desta Religiaõ; e naõ na Sé de Lisboa, como escreve o
-Author da Corografia Portugueza.[838] Daqui procedem os illustrissimos
-Condes de Atalaya.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Affonso V._
-
-
-1 O _Principe D. Joaõ_ nasceo em Cintra a 29 de Janeiro do anno de
-1451, e morreo de tenra idade.
-
-2 _A Infanta Beata Joanna_ nasceo em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1452.
-Foy de singular virtude, e admiravel formosura, por cujas prendas
-muitos Principes a pertenderaõ para esposa; mas repudiando a todos,
-viveo em perpetua castidade. Consagrando-se toda a Deos, tomou o habito
-de Religiosa de S. Domingos no Mosteiro de Jesus de Aveiro no anno de
-1475, onde vivendo dezoito annos em continuo exercicio de todas as
-virtudes, em que floreceo, acabou o circulo dos seus dias neste mundo
-a 12 de Mayo de 1490. Jaz sepultada no mesmo Mosteiro em hum primoroso
-tumulo, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. para onde se
-trasladaraõ as veneraveis Reliquias em 22 de Outubro de 1711, por
-ordem delRey D. Joaõ V. O mesmo Senhor D. Pedro II. alcançou do Papa
-Innocencio XI. o culto de Beata desde 4 de Abril do anno de 1693.[839]
-
-3 _O Principe D. Joaõ_ successor.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Joaõ II._
-
-1 O _Principe D. Affonso_ nasceo em Lisboa a 18 de Mayo do anno
-1475. Casou com a Princesa Dona Isabel, filha delRey D. Fernando o
-_Catholico_, a 23 de Novembro de 1490. Nas suas vodas se fizeraõ
-as mayores festas, e demonstrações de alegria em variedade de
-espectaculos, profusaõ monstruosa de manjares, e invenções exquisitas
-de bailes, quaes nunca se viraõ, nem ouviraõ; porém como se toda
-aquella magnificencia, divertimento, e grandeza fora feita por jogo, e
-brinco da fortuna, dentro de poucos dias se mudou em subitos prantos, e
-lutos, porque este Principe na florida idade de dezaseis annos, casado
-de sete mezes, cahindo de hum cavallo, em que risonho corria pelas
-margens do Tejo junto a Santarem, se fez em pedaços; e deitado sobre a
-humilde cama de feno na choça de hum pobre pescador, exhalou a alma a
-13 de Julho de 1491, nos braços delRey seu Pay, da Rainha sua Mãy, e da
-Princeza sua Esposa, desfeitos todos em lagrimas, e sentimento por taõ
-lastimosa fatalidade. Jaz na Batalha na Casa do Capitulo.[840]
-
-2 Teve fóra do matrimonio a _D. Jorge_, que nasceo em Abrantes a 12 de
-Agosto de 1481. Foy sua mãy Dona Anna de Mendonça, Dama da Rainha Dona
-Joanna, e Senhora muito nobre, e taõ estimada, e querida delRey, que a
-seu respeito (diz o Author do Anno Historico) mandou erigir o Mosteiro
-de Santos o Novo, e a nomeou Commendadeira perpetua, onde faleceo
-virtuosamente no anno de 1545. Naõ foy menor o amor, que ElRey teve a
-este filho, o qual se criou em casa da Senhora Dona Joanna sua tia; e
-falecendo esta Princeza, o trouxe para o Paço a Rainha sua madrasta, e
-o conduzio a Evora, onde ElRey estava, o Bispo do Porto. Foy esperallo
-fóra da Cidade o Principe Affonso seu irmaõ com toda a Nobreza,
-mandou-o seu pay tratar de Excellencia, mas por lisonja lhe fallavaõ
-por Alteza. Quiz ElRey deixallo por successor do Reino, ao que se oppoz
-a Rainha, por ser em prejuizo de seu irmaõ D. Manoel, a quem de direito
-tocava, e tambem naõ quiz vir nisso o Papa Alexandre VI. havendo por
-esta causa grandes discordias entre ElRey, e a Rainha. Mas como ElRey
-naõ pode conseguir o que desejava, fez a D. Jorge o mayor Senhor, que
-havia em Hespanha, porque quiz que succedesse aos bens de seu bisavô
-o infante D. Pedro, e assim ficou sendo Duque de Coimbra, Senhor
-de Montemór o Velho, Marquez de Torres Novas, Mestre das Ordens de
-Santiago, e Aviz, e Senhor de outras muitas rendas. Morto ElRey, foraõ
-muitos Fidalgos a Villa-Nova buscar o Senhor D. Jorge, e o conduziraõ
-a Montemór o Novo, onde estava ElRey D. Manoel. Foy logo em direitura
-apearse ao Paço vestido de burel, e assim subio a beijar a maõ a ElRey;
-e o Prior do Crato D. Diogo de Almeida, que era seu Ayo, pegando-lhe
-pela maõ, se pozeraõ ambos de joelhos, e o entregou a ElRey seu tio,
-fazendo-lhe huma eloquente oraçaõ, em que lhe dizia como ElRey defunto
-lho deixara encommendado. ElRey D. Manoel lhe fez grandes honras, e lhe
-deu casa no Paço. Contava já o Senhor D. Jorge vinte annos de idade,
-quando ElRey o casou com Dona Brites de Vilhena, filha de D. Alvaro,
-irmaõ do Duque de Bragança D. Fernando II. e deste matrimonio descende
-a illustre Familia dos Alencastres. Morreo o Senhor D. Jorge no anno
-de 1550, e jaz no Convento de Palmella.[841]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Manoel._
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-1 O _Principe D. Miguel da Paz_ foy filho da primeira mulher a Rainha
-Dona Isabel. Nasceo na Cidade de Saragoça a 24 de Agosto de 1498. Foy
-jurado Principe herdeiro de Castella, e de Portugal. Naõ viveo mais que
-dous annos, porque a 20 de Junho de 1500 expirou na mesma Cidade, onde
-jaz.
-
-2 _O Principe D. Joaõ_, filho da segunda mulher a Rainha Dona Maria,
-foy successor do Reino.
-
-3 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Lisboa a 24 de Outubro de 1503.
-Foy rara a formosura, com que a dotou a natureza. Casou em Sevilha com
-o Imperador Carlos V. a 11 de Março de 1526. As suas virtudes foraõ
-mayores que os seus elogios, e estes foraõ innumeraveis. Adoeceo em
-Toledo, e aqui expirou no primeiro de Mayo de 1539. Foy conduzido
-o cadaver da imperatriz pelo Marquez de Lombay a ser sepultado na
-Cathedral da Cidade de Granada; e como fosse preciso para aquella
-entrega abrirse o caixaõ, chegando-se o Marquez a tirar a toalha,
-que cubria o macilento rosto, vendo-o taõ demudado, e espantoso à
-vista, foy causa do prodigioso desengano do Marquez, porque dalli se
-converteo em hum S. Francisco de Borja, cujo resplandor de virtudes
-illustrou tanto a Companhia de Jesus. No mesmo dia desta portentosa
-transformaçaõ, que foy a 7 de Mayo do sobredito anno, vio a grande
-serva de Deos Soror Francisca de Jesus, Abbadessa do Mosteiro de
-Gandia, estando em oração, sahir do Purgatorio a alma da Imperatriz
-assistida de alguns Anjos. A 4 de Fevereiro de 1574 foy trasladado
-o corpo para o Escurial, onde jaz. Deste consorcio nasceo ElRey D.
-Filippe II.[842]
-
-4 _A Infanta Dona Brites_ nasceo em Lisboa a 31 de Dezembro de 1504.
-Casou com Carlos III. Duque de Saboya a 29 de Setembro de 1521. Foy
-esta Princeza ornada de grandes virtudes, pelas quaes era muito amada
-de seu esposo, e tida por huma singular Heroina daquelles tempos.
-Morreo em Niza, Cidade de Saboya, a 8 de Janeiro de 1538.[843]
-
-5 _O Infante D. Luiz_ nasceo em Abrantes a 3 de Março de 1506. Foy
-este Principe Duque de Béja, Condestavel de Portugal, Administrador do
-Priorado do Crato, e ornado de tantas virtudes, que, como diz Damiaõ
-de Goes, para a natureza cumprir de todo com os dotes, que lhe deu,
-lhe havia de conceder tambem occasiões para poder conquistar mayores
-Reinos, e Senhorios do que Alexandre, porque para a execuçaõ disso
-lhe sobejou animo. Assim se vio na famosa expediçaõ, e conquista de
-Tunes, que o Imperador Carlos V. seu cunhado fez no anno de 1535, onde
-se achou o Infante D. Luiz governando o celebre Galeaõ _Botafogo_, e
-Armada auxiliar, que ElRey D. Joaõ III. mandou ao Imperador, devendo-se
-à animosa deliberaçaõ do Infante cortarse a fortissima cadea, que
-atravessava o porto da Goleta, de que tanta gloria se seguio à
-Christandade, credito à Naçaõ Portugueza, e fama ao valor do Infante.
-Além destas prendas teve hum sublime engenho, que com o exercicio
-das artes liberaes, ensinadas pelo grande Mestre Pedro Nunes, soube
-adquirir hum lugar eminente na Republica das letras. Na Religiaõ foy
-exemplar, e taõ pio, como o testifica o Mosteiro das Maltezas de
-Estremoz, que elle edificou, e outras acções de caridade. Finalmente
-faleceo na quinta de Marvilla junto a Lisboa a 27 de Novembro de 1555,
-e jaz em Belém. De Violante Gomes, chamada a _Pelicana_, donzella
-humilde, mas de rara formosura, a qual morreo professa no Mosteiro de
-Almoster, teve ao _Senhor D. Antonio_, que foy Prior do Crato.[844]
-
-6 _O Infante D. Fernando_ nasceo em Abrantes a 5 de Junho de 1507. Foy
-Duque da Guarda, e Principe de condiçaõ sincera, muito animoso, amigo
-da verdade, e dizia o que entendia sem o rebuço da politica adulaçaõ.
-Foy muito dado à lição da Historia verdadeira, e naõ fabulosa, e por
-ajuntar quantas Chronicas havia escritas em qualquer lingua que fosse,
-gastou grosso cabedal. Mandou fazer huma arvore genealogica illuminada
-pelo mais insigne Pintor, que havia em Flandes, e constava desde Noé
-até ElRey D. Manoel seu pay. Casou com Dona Guiomar Coutinho, filha
-herdeira do Conde de Marialva D. Francisco Coutinho, e morreo em
-Abrantes a 7 de Novembro de 1534. Jaz em Belém.[845]
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-7 _O Infante D. Affonso_ nasceo em Evora a 23 de Abril de 1509. O Papa
-Leaõ X. o creou Cardeal Diacono de Santa Luzia. Foy Bispo da Guarda, e
-de Viseu, Arcebispo de Lisboa, e o primeiro Prelado, que nestes Reinos
-ordenou se lesse o Cathecismo da Doutrina christã nas Igrejas aos
-meninos, e que nas Paroquias houvesse livros, onde se assentassem, e
-escrevessem os nomes dos bautizados, e casados, sendo elle o que muitas
-vezes conferia estes, e os mais Sacramentos com grande caridade. Foy
-muito dado à lição dos livros, e teve por Mestres aos insignes Ayres
-Barbosa, e Pedro Margalho. Morreo em Lisboa a 21 de Abril de 1540, e
-jaz em Belém.[846]
-
-8 _O Infante D. Henrique_, Cardeal, que succedeo no Throno.
-
-9 _A Infanta Dona Maria_ nasceo conforme a conjectura do incansavel D.
-Joseph Barbosa entre o anno de 1511, e 1513. Morreo em Evora no anno de
-1513 e jaz em Belém.[847]
-
-10 _O Infante D. Duarte_ nasceo em Lisboa a 7 de Setembro de 1515.
-Desde os primeiros annos foy muito inclinado às letras, nas quaes
-fez bons progressos, ajudado da portentosa memoria, que tinha, e das
-bem ordenadas instrucções de seu Mestre o celebrado, e erudito André
-de Resende. Na musica foy destro, e sciente, e no exercicio da caça
-incansavel. Casou em Villa Viçosa a 23 de Abril de 1537 com a Senhora
-Dona Isabel, filha de D. Jayme, quarto Duque de Bragança, de cujo
-matrimonio nasceraõ a Senhora _Dona Maria_, Princeza de Parma, e a
-Senhora _Dona Catharina_. Antes deste Infante falecer, predisse elle
-mesmo o dia da sua morte, que foy a 20 de Outubro de 154O. Jaz em
-Belém.[848]
-
-11 _O Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 9 de Setembro de 1516.
-Morreo logo, e jaz em Belém. Deste parto ficou a Rainha Dona Maria taõ
-mal, que tambem faleceo dahi a pouco tempo; e tornando ElRey D. Manoel
-a casar com a Rainha Dona Leonor, teve della
-
-12 _O Infante D. Carlos_, que nasceo em Evora a 18 de Fevereiro de
-1520. Morreo em Lisboa a 15 de Abril de 1521, e jaz em Belém.
-
-13 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Lisboa a 8 de Junho de 1521.
-Era Princeza, que em gentileza, e virtudes excedeo as melhores do
-seu tempo. Seu Palacio era huma universidade de mulheres singulares
-em letras, e outras artes de engenho, a quem presidia a famosa Dama
-Toledana, chamada Luiza Sigea, cuja erudiçaõ fez aturdir a Europa.
-Fundou o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, huma legua distante de
-Lisboa, e o sumptuso Hospital alli vizinho: o Mosteiro da Incarnaçaõ de
-Commendadeiras de Aviz em Lisboa, e em Evora o Mosteiro de Santa Helena
-do Monte Calvario, e em Torres Vedras o Convento de Nossa Senhora dos
-Anjos para os Religiosos Arrabidos, alcançando da Sé Apostolica para
-esta Igreja o Jubileo da Porciuncula _in perpetuum_. Morreo a 10 de
-Outubro de 1577. Jaz no Convento da Luz.[849]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Joaõ III._
-
-1 O _Principe D. Affonso_ nasceo em Almeirim a 24 de Fevereiro de 1526.
-Faleceo passados poucos dias, e jaz em Belém.[850]
-
-2 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Coimbra a 15 de Outubro de 1527.
-Casou com D. Filippe, Principe de Castella, e se celebraraõ as vodas em
-Salamanca a 15 de Novembro de 1543. Morreo de parto a 12 de Julho de
-1545, estando em Valhadolid. Jaz no Escurial.
-
-3 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo em Lisboa a 28 de Abril de 1529.
-Morreo de poucos mezes, e jaz em Belém.
-
-4 _A Infanta Dona Brites_ nasceo em Lisboa a 15 de Fevereiro de 1530, e
-morreo de tenra idade. Jaz em Belém.
-
-5 _O Principe D. Manoel_ nasceo em Alvito no primeiro de Novembro de
-1531. Faleceo em Evora a 14 de Abril de 1537, e jaz em Belém.
-
-6 _O Infante D. Filippe_ nasceo em Evora a 25 de Março de 1533. Foy
-jurado Principe herdeiro do Reino. Viveo pouco, porque faleceo a 29 de
-Abril de 1539. Jaz em Belém na mesma sepultura de seu irmaõ D. Affonso.
-
-7 _O Infante D. Diniz_ nasceo em Evora a 26 de Abril de 1535, e na
-mesma Cidade morreo no primeiro de Janeiro de 1537. Jaz em Belém.
-
-8 _O Principe D. Joaõ_ nasceo em Evora a 3 de Junho de 1537. Foy jurado
-Principe herdeiro nas Cortes, que se celebraraõ em Almeirim a 30 de
-Março de 1544. Casou com a Princeza Dona Joanna de Austria, filha do
-Imperador Carlos V. e se recebeo por procuraçaõ na Cidade de Toro a 11
-de Janeiro de 1552, e no fim de Novembro do mesmo anno entrou por Elvas
-em Portugal. Gil Gonzales Davila faz honorifica memoria desta Princeza
-no cap. 9. das Grandezas de Madrid, mas discreta na Chronologia,
-que seguimos. Deste augusto thalamo nasceo _D. Sebastiaõ_ que sendo
-Principe de esperanças, depois foy Rey de pouca ventura. Morreo em fim
-o Principe D. Joaõ a 2 de Janeiro de 1554, e jaz em Belém em magnifico
-mausoleo. Mereceraõ as bellas prendas, e saudosa memoria deste
-Principe serem eternizadas na mais illustre, e canora Egloga do Homero
-Portuguez, e nas citharas de outros insignes Poetas daquelle tempo.[851]
-
-9 _O Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 9 de Março de 1539, e
-morreo a 20 de Janeiro de 1540. Jaz em Belém.
-
-10 Fóra do matrimonio teve ElRey a _D. Duarte_, que nasceo no anno
-de 1521. Foy sua mãy Dona Isabel Muniz, moça da Camera da Rainha
-Dona Leonor, e filha de hum Alcaide de Lisboa, homem honrado, a quem
-chamavaõ o _Carrança_, e ella depois foy Freira de Santa Clara do
-Porto. Criou-se D. Duarte no Convento de S. Jeronymo, chamado da Costa,
-junto de Guimarães, e aqui estudou com exemplar progresso as boas
-letras, e costumes. Mandou-o ElRey buscar ao dito Convento com grande
-ostentaçaõ, e trazello a Cintra, onde estava a Corte; porém sendo
-preciso a ElRey vir a Lisboa, tanto que D. Duarte chegou a Cintra,
-foy o Conde da Castanheira buscallo, e o conduzio a Lisboa, e ElRey
-o veyo esperar ao Convento de S. Domingos de Bemfica, onde o recebeo
-com grandes honras, e expressões de alegria. Foy D. Duarte Arcebispo
-de Braga, muy pio, e muy versado nos estudos de Filosofia, Theologia,
-e ambos os Direitos. Começou a escrever em lingua Latina a Historia
-dos Reys de Portugal, de que deixou elegantemente composta a delRey D.
-Affonso Henriques, da qual fazem memoria D. Nicoláo Antonio, e o Abbade
-de Sever. Morreo na flor dos seus annos a 11 de Novembro de 1543. Jaz
-em Belém.[852]
-
-11 _D. Manoel_ morreo menino.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Filippe II._
-
-1 O _Principe D. Carlos_ nasceo a 12 de Julho de 1545. Os Castelhanos
-lhe chamaõ o _Infeliz_; porque sendo de genio turbulento, o pay
-temeroso das extravagancias do filho, naõ desapprovou os meyos, que lhe
-assinaraõ para lhe abreviar a vida, e assim veyo a acabar violentamente
-em 24 de Junho de 1568. Foy filho da sua primeira mulher.
-
-2 _A Infanta Dona Isabel_ nasceo a 12 de Agosto de 1566. Casou com o
-Archiduque Alberto no anno de 1599, e sem successaõ morreo a 29 de
-Novembro de 1633.
-
-3 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo a 10 de Outubro de 1567. Casou
-com o Duque de Saboya Carlos Manoel no anno de 1585, e morreo a 6 de
-Novembro de 1597. Estes dous foraõ filhos do terceiro matrimonio.
-
-4 _O Principe D. Fernando_ nasceo a 4 de Dezembro de 1571, e morreo a
-18 de Outubro de 1578.
-
-5 _O Infante D. Carlos Lourenço_ nasceo a 12 de Agosto de 1573. Morreo
-a 30 de Julho de 1582.
-
-6 _O Principe D. Diogo_ nasceu a 12 de Julho de 1575, e morreo a 21 de
-Novembro de 1582.
-
-7 _O Principe D. Filippe_, que lhe succedeo.
-
-8 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Março de 1580, e morreo a 4 de
-Agosto de 1583. Estes cinco foraõ filhos do quarto matrimonio.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Filippe III._
-
-1 A _Infanta Dona Anna Mauricia de Austria_, Rainha de França, nasceo
-em Valhadolid a 22 de Setembro de 1601. Casou com Luiz XIII. Rey de
-França no anno de 1615, morreo a 14 de Mayo de 1643, jaz em S. Diniz.
-Deste matrimonio nasceraõ Luiz XIV. Rey de França, e Filippe de França,
-Duque de Orleans.
-
-2 _O Principe D. Filippe_ successor.
-
-3 _A Infanta Dona Maria_ nasceo em Valhadolid a 18 de Agosto de 1606.
-Casou com o Imperador de Alemanha D. Fernando III. e morreo a 13 de
-Mayo de 1646.
-
-4 O _Infante D. Carlos_ nasceo em Madrid a 14 de Setembro de 1607, e
-morreo a 13 de Julho de 1632.
-
-5 _O Infante D. Fernando_ nasceo no Escurial a 16 de Mayo de 1609. O
-Papa Paulo V. o creou Cardeal a 29 de Julho de 1619, naõ tendo mais que
-dez annos, e lhe deu logo o governo do Arcebispado de Toledo, e o fez
-Capitaõ General dos Paizes baixos, onde morreo a 9 de Novembro de 1641.
-
-6 _A Infanta Dona Margarida_ nasceo em Lerma a 25 de Mayo de 1610, e
-morreo a 11 de Março de 1617.
-
-7 _O Infante D. Affonso Mauricio_ nasceo no Escurial a 22 de Setembro
-de 1611, morreo a 16 de Setembro de 1612.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Filippe IV._
-
-1 A _Infanta Dona Margarida Maria_ nasceo a 14 de Agosto de 1621, e
-morreo no mesmo dia.
-
-2 _A Infanta Dona Maria Margarida_ nasceo a 25 de Novembro de 1623, e
-morreo a 22 de Dezembro do mesmo anno.
-
-3 _A Infanta Dona Maria_ nasceo a 21 de Novembro de 1625, e morreo a 21
-de Julho de 1627.
-
-4 _O Principe D. Balthasar Carlos_ nasceo a 17 de Outubro de 1629. Foy
-muito festejado o seu nascimento. Morreo a 9 de Outubro de 1646.
-
-5 _A Infanta Dona Isabel Teresa dos Santos_ morreo no primeiro de
-Novembro de 1627.
-
-6 _A Infanta Dona Anna Antonia_ nasceo a 17 de Janeiro de 1635, e
-morreo a 5 de Dezembro de 1636.
-
-7 _A Infanta Dona Maria Teresa_, Rainha de França, nasceo a 20 de
-Setembro de 1638. Casou com ElRey de França Luiz XIV. a 4 de Julho de
-1660, e morreo em Versalhes a 30 de Julho de 1683. Todos estes foraõ
-filhos do primeiro matrimonio; e do segundo teve.
-
-8 _A Infanta Dona Margarida Maria Teresa_, que nasceo a 12 de Julho de
-1651. Casou com o Imperador Leopoldo no anno de 1666, e morreo a 12 de
-Março de 1673.
-
-9 _A Infanta Dona Maria Ambrosia_ morreo menina a 21 de Dezembro de
-1659.
-
-10 _O Principe D. Filippe Prospero_ nasceo a 20 de Novembro de 1657, e
-morreo no primeiro de Novembro de 1661.
-
-11 _O Infante D. Fernando_ nasceo a 22 de Dezembro de 1658, e morreo a
-22 de Outubro de 1659.
-
-12 _O Principe Carlos II._ successor no Throno, nasceo a 6 de Novembro
-de 1661, e casando duas vezes, morreo sem successaõ no primeiro de
-Novembro de 1700.
-
-13 Fóra do matrimonio teve a _D. Joaõ de Austria_, que nasceo a 7 de
-Abril de 1629, e teve por mãy Dona Maria Calderon. Foy Graõ Prior
-de Malta em Castella, Vice-Rey de Sicilia, Governador de Flandes,
-General de todas as forças maritimas da Monarquia de Castella, primeiro
-Ministro delRey Carlos II. e hum dos mais valerosos soldados daquelle
-seculo. Morreo a 17 de Setembro de 1679, e jaz no Escurial.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Joaõ IV._
-
-1 O _Principe D. Theodosio_ nasceo em Villa Viçosa a 8 de Fevereiro
-de 1634. Foy jurado Principe de Portugal a 28 de Janeiro de 1641, e
-segundo as memorias felicissimas, que existem delle, foy certamente hum
-portento da natureza, e da graça, sabendo accrescentar, e augmentar
-os dotes de huma, e outra com as prendas adquiridas na continuada, e
-illustre occupaçaõ das virtudes. Acabou na flor da sua idade a 15 de
-Mayo de 1653, e jaz em Belém.[853]
-
-2 _A Senhora Dona Anna_ nasceo em Villa Viçosa a 21 de Janeiro de l635.
-No mesmo dia expirou, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro das
-Chagas da mesma Villa.
-
-3 _A Infanta Dona Joanna_ nasceo em Villa Viçosa a 18 de Setembro de
-1636. Morreo a 17 de Novembro de 1653, e jaz em Belém.
-
-4 _A Infanta Dona Catharina_ nasceo em Villa Viçosa a 25 de Novembro
-de 1638. Casou com Carlos II. Rey de Inglaterra em 18 de Mayo de 1661.
-Padeceo em Londres com varonil paciencia fortissimos contratempos,
-culpando-a o Parlamento de querer introduzir em Inglaterra a Religiaõ
-Catholica, por cujo motivo intentarão darlhe veneno, de que a
-innocencia de sua virtuosa vida a livrou, até que passados sete annos
-depois da morte de seu marido, voltou para Portugal, e chegou a Lisboa
-a 20 de Janeiro de 1693. No anno de 1704, quando ElRey D. Pedro seu
-irmão passou à Beira, ficou governando o Reino com grande satisfaçaõ
-de todos; mas a 31 de Dezembro de 1705 deixou com sua morte a todos
-saudosos. Jaz em Belém.[854]
-
-5 _O Senhor D. Manoel_ nasceo em Villa Viçosa a 6 de Setembro de 1640,
-e logo morreo. Jaz no Convento de Santo Agostinho da mesma Villa.
-
-6 _O Infante D. Affonso_ successor.
-
-7 _O Infante D. Pedro_, que succedeo a ElRey D. Affonso seu irmaõ.
-
-8 Fóra do matrimonio teve a _Senhora Dona Maria_, que nasceo no anno
-de 1643. Criou-se em casa do Secretario Antonio Cavide, ao qual passou
-Alvará a Rainha Dona Luiza de tutor, curador, e administrador da
-pessoa, e bens da dita Senhora. De casa do sobredito Secretario foy
-para o Mosteiro de Carnide no anno de 1649, onde vestio o habito da
-Religiaõ de Santa Teresa, mas naõ professou. Nunca veyo à Corte em
-publico; porém indo às Caldas, foy acompanhada de Antonio Alvares da
-Cunha, e de sua irmã a Condessa de Villa-Flor. ElRey D. Joaõ a declarou
-por filha, e lhe deixou feita a mercê da Commenda mayor de Santiago, e
-das Villas de Torres Vedras, e Colares, cujas disposições foraõ todas
-inteiramente satisfeitas pela Rainha Regente, e o Serenissimo Rey D.
-Affonso, os quaes em todos os Decretos, Alvarás, e Cartas, em que
-fallavaõ nella, lhe chamavaõ _Dona Maria, muito amada, e prezada irmã_,
-sem o titulo de Infanta; porque, como elegantemente prova o Doutor
-Chronista Fr. Antonio Brandaõ,[855] nunca em Portugal se deu aos filhos
-illegitimos o titulo de Infante. Fez esta Senhora varios, e grandiosos
-donativos ao Mosteiro, em que viveo, até que aos cincoenta annos da sua
-idade acabou esta vida a 6 de Fevereiro de 1693. Jaz no Coro debaixo do
-mesmo Mosteiro.[856]
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Pedro II._
-
-1 A _Infanta Dona Isabel_, filha do primeiro matrimonio, nasceo em
-Lisboa a 6 de Janeiro de 1669. Foy jurada Princeza herdeira do Reino,
-e esteve desposada com o Duque de Saboya Victorio Amadeo; mas a
-intempestiva morte embaraçou este desejado consorcio, porque a Infanta
-faleceo 21 de Outubro de 1690. Jaz no Mosteiro do Santo Crucifixo de
-Capuchas Francezas junto da Rainha Dona Maria Francisca sua mãy.
-
-2 Do segundo matrimonio teve o _Principe D. Joaõ_ que nasceo em Lisboa
-a 30 de Agosto de 1688, e morreo a 17 de Setembro do mesmo anno. Jaz em
-S. Vicente de Fóra.
-
-3 _O Serenissimo Principe D. Joaõ_ succesor na Coroa.
-
-4 _O Serenissimo Infante D. Francisco_ nasceo em Lisboa a 25 de Mayo
-de 1691. Foy Graõ Prior do Crato, e fez o officio de Condestavel do
-Reino nas Cortes de 1697, e no Auto do levantamento delRey D. Joaõ V.
-seu irmaõ. Possuio as grandes, e opulentas Casas do Infantado, e da
-Feira, com outras muitas rendas, jurisdições, e prerogativas. Deveo-lhe
-a sciencia Nautica hum particular desvelo, como se fora seu professor,
-e não menos todo o manejo bellico, para que tinha natural viveza, e
-propensaõ. A caça foy todo o seu divertimento, em que era perito,
-destro, destemido, e incansavel, por cujo motivo mais era habitador
-do campo, que da Corte. Teve entranhavel devoçaõ com a Imagem da
-Senhora da Atalaya, a quem tributou liberaes offertas; e aos Religiosos
-Capuchos da Conceiçaõ lhes mandou edificar hum Hospicio junto do seu
-Palacio da Bemposta de Lisboa, delineado pela simetria do Convento da
-Arrabida. Achando-se finalmente na quinta de Bernardo Freire, meya
-legua distante das Caldas da Rainha, para onde tinha hido acompanhar a
-ElRey, faleceo de hum volvulo a 21 de Julho de 1742. Jaz em S. Vicente
-de Fóra.
-
-5 _O Serenissimo Infante D. Antonio_ nasceo em Lisboa a 15 de Março de
-1694. Participou logo da natureza attributos verdadeiramente Reaes;
-porque a bizarria da sua magestosa presença, revestida de hum soberano
-agrado, e de numa seria affabilidade, era a fortissima cadea de ouro,
-com que atava suavemente a todos, para que o amassem; mas muito mais
-poderoso attractivo para o nosso affecto eraõ aquellas nobres prendas
-do animo, e alma, que brilhavaõ grandemente em todas as suas acções, e
-inculcavaõ a grandeza do seu espirito heroicamente generoso, sublime,
-pio, e benigno. Faleceo finalmente a 20 de Outubro de 1757 em Alcantara
-na quinta chamada da Tapada. Jaz em Belém.
-
-6 _A Senhora Infanta Dona Teresa_ nasceo em Lisboa a 24 de Fevereiro de
-1696. ElRey seu Pay ajustou casalla com o Archiduque Carlos, mas desfez
-este ajuste a morte da Infanta, que foy buscar ao Ceo outra coroa mais
-perduravel em 16 de Fevereiro de 1704. Jaz em S. Vicente de Fóra.
-
-7 _O Serenissimo Senhor Infante D. Manoel_ nasceo em Lisboa a 3 de
-Agosto de 1697. Para mostrar que no sangue Real Portuguez naõ estava
-adormecida aquella natural aversaõ contra os sequazes da seita de
-Mafoma, levado de hum sobrenatural impulso, e ardor militar, que
-o naõ soffria conter nos limites da patria, naõ contando mais que
-dezasete annos de idade, sahindo occultamente do porto de Lisboa em
-4 de Novembro de 1715, passou a Hollanda, e daqui a Hungria, onde
-militando sempre ao lado do famoso Principe Eugenio nas perigosas
-batalhas de Peterwaradin, Temeswar, e Belgrado, obrou com tanto valor,
-e desembaraço, que mais parecia Mestre, que discipulo de Marte. Depois
-de serenadas as campanhas, e passando a ver algumas Cortes da Europa,
-adquirindo ao seu augusto nome immortal fama, se restituio a Portugal
-no anno de 1723, fazendo com as suas gloriosas proezas, que as Musas
-tivessem heroico assumpto para os elogios, e as virtudes exercicio nos
-seus louvaveis, e generosos empregos.
-
-9 _A Senhora Infanta Dona Francisca_ nasceo em Lisboa a 30 de Janeiro
-de 1699. Ornou-a a natureza liberalmente em gráo supremo de huma
-formosura magestosa, alegre, affavel; de hum genio compassivo, pio,
-magnifico; e por todos estes, e outros muitos virtuosos predicados
-dominava esta Princeza o coraçaõ de todos, attrahindo a Nobreza, e o
-povo a amalla, e adoralla tanto, que arrebatando-a o Ceo em 15 de Julho
-de 1756, ainda cá na terra a saudade existe viva em nossa memoria.
-Jazem as suas cinzas em S. Vicente de Fóra.
-
-9 Teve ElRey D. Pedro fóra do matrimonio a _Senhora Dona Luiza_, que
-nasceo a 9 de Janeiro de 1679. Criou-se em casa do Secretario de
-Estado Francisco Correa de Lacerda, e de oito annos passou a viver
-recolhida no Mosteiro de Carnide em companhia de sua tia a Senhora Dona
-Maria. Em 14 de Mayo de 1695 se recebeo na Ermida de Nossa Senhora das
-Necessidades com o Duque D. Luiz Ambrosio de Mello, filho do Duque de
-Cadaval D. Nuno Alvares Pereira de Mello; porém morrendo o Duque D.
-Luiz a 13 de Novembro de 1700, e ficando a Senhora Dona Luiza viuva, e
-sem filhos, tornou a casar em 16 de Setembro de 1702 com seu cunhado
-o Duque D. Jayme, do qual tambem naõ teve successaõ. Faleceo a 23 de
-Dezembro de 1732, e jaz no Mosteiro de S. Joaõ Evangelista da Cidade de
-Evora.
-
-10 _O Senhor D. Miguel_ nasceo em Lisboa a 15 de Outubro de 1699.
-Criou-se em casa do Secretario das Mercês Bartholomeu de Sousa Mexia,
-onde aprendeo as bellas letras, como se houvera de as professar; e
-unindo à intelligencia das artes liberaes outros muitos dotes heroicos,
-conseguio justamente fazerse crédor de huma estimaçaõ universal.
-ElRey D. Joaõ V. o reconheceo por seu irmaõ, e ordenou se lhe désse
-tratamento de Alteza, fazendo-lhe muitas honras devidas ao seu sublime
-nascimento. Casou em 30 de Janeiro de 1715 com Dona Luiza Casimira de
-Sousa, herdeira da illustrissima Casa de Arronches, a quem ElRey D.
-Joaõ V. fez a mercê das honras de Duqueza. Deste plausivel matrimonio
-nasceo em 11 de Novembro de 1716 a Senhora _Dona Joanna Perpetua_, a
-quem ElRey D. Joaõ V. concedeo as honras de Duqueza, e casou em 20 de
-Setembro de 1738 com o quarto Marquez de Cascaes D. Luiz, que morrendo
-em 14 de Março de 1745, ficou esta Senhora viuva, e sem successaõ.
-_O Senhor D. Pedro de Bragança_, Duque de Lafões, nasceo em 19 de
-Janeiro de 1718, foy Regedor das Justiças da Casa da Supplicaçaõ, em
-que entrou no anno de 1749, e falleceo no de 1761, e o _Senhor D. Joaõ
-de Bragança_ nasceo em 6 de Março de 1719. Morreo em fim o Senhor D.
-Miguel desgraçadamente, naufragando no Tejo em 13 de Janeiro de 1724,
-e apparecendo o corpo a 5 de Fevereiro, foy conduzido ao Convento de
-Santa Catharina de Ribamar, da Provincia da Arrabida, onde jaz.
-
-11 _O Senhor D. Jofeph_ nasceo a 6 de Mayo de 1703. Foy sagrado
-Arcebispo de Braga a 5 de Fevereiro de 1741 pelo Eminentissimo Cardeal
-Patriarca, e a 23 de Julho do referido anno fez a sua entrada publica
-naquella Cidade com grandes festas, obsequios, e alegrias de seus
-Cidadãos, onde depois de hum feliz governo acabou os seus dias.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Joaõ V._
-
-1 A _Serenissima Princeza Dona Maria Barbara_ nasceo em Lisboa a 4 de
-Dezembro de 1711. Desde a abençoada indole dos seus primeiros annos
-se instruio com tanta perfeiçaõs nos solidos dictames da prudencia, e
-das virtudes, que ainda hoje possue a gloria de ser venerada por huma
-das Princezas mais benemeritas da attençaõ entre as expectaveis da
-Europa. No anno de 1729, a 19 de Janeiro se desposou com o Serenissimo
-Senhor D. Fernando, Principe das Asturias, passando a viver em Castella
-com seu Regio esposo em reciproco affecto, e universal contentamento
-dos Hespanhoes, até que a 27 de Agosto de 1758 foy gozar da eterna
-Bemaventurança, como as suas virtudes nos persuadem.
-
-2 _O Principe D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 19 de Outubro de 1712. Naõ
-viveo mais que dous annos, e dez dias, porque a 29 de Outubro de 1714
-foy para o Ceo, e jaz seu corpo em S. Vicente de Fóra.
-
-3 _O Serenissimo Principe D. Jofeph_ successor na Coroa, e hoje
-felizmente reinante.
-
-4 _O Serenissimo Senhor Infante D. Carlos_ nasceo em Lisboa a 2 de Mayo
-de 1716, e dando evidentes mostras de huma vasta capacidade para acções
-heroicas, a sua intempestiva morte, supposto que succedida depois de
-huma larga enfermidade, deixou a todos magoados em 30 de Março de 1736.
-Jaz em S. Vicente de Fóra.
-
-5 _O Serenissimo Senhor Infante D. Pedro_ nasceo em Lisboa a 5 de Julho
-de 1717. Sua Magestade o collocou na alta dignidade de Graõ Prior do
-Crato, pondo nesta forma em praxe o grande conceito, que merece o
-relevante de suas admiraveis prendas. A 6 de Junho de 1760 se recebeo
-com a Serenissima Senhora Dona Maria Princesa da Beira, e herdeira
-do Reino, sua sobrinha, na Capella Real de Nossa Senhora da Ajuda.
-De cujo consorcio nasceo a 21 de Agosto do anno seguinte pelas 10
-horas da noite o Serenissimo Principe _D. Jofeph Francisco Xavier_,
-e foy bautizado na Igreja do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda pelo
-Cardeal Patriarca D. Francisco Saldanha, festejando-se tudo com muitos
-repiques, e luminarias.
-
-6 _O Serenissimo Senhor Infante D. Alexandre_ nasceo a 24 de Setembro
-de 1723, e morreo de bexigas a 2 de Agosto de 1728. Jaz no Convento de
-S. Vicente de Fóra.
-
-7 Teve o Senhor D. João V, fóra do matrimonio ao _Senhor D. Antonio_,
-que nasceo em o primeiro de Outubro de 1714, ao _Senhor D. Gaspar_ em 8
-de Outubro de 1716, o qual a 24 de Agosto de 1758 foy sagrado Arcebispo
-de Braga, onde felizmente governa com o exemplo, e justiça, de que
-nasce o affecto que todas as suas ovelhas lhe tributaõ. Ao _Senhor D.
-Joseph_ que nasceo a 8 de Setembro de 1720, e foy erecto em Inquisidor
-Geral pela Bulla _Cum Officium_ de Benedicto XIV. de 15 de Março de
-1758.
-
- * * * * *
-
-
-_Filhos delRey D. Jofeph I._
-
-1 A _Serenissima Senhora Princeza da Beira Dona Maria Francisca_
-nasceo a 17 de Dezembro de 1734, de quem já fallámos. A _Serenissima
-Senhora Infanta Dona Maria Anna_, que nasceo a 7 de Outubro de 1736. A
-_Serenissima Senhora Infanta Dona Maria Francisca Dorothea_, que nasceo
-a 21 de Setembro de 1739. A _Serenissima Senhora Infanta Dona Maria
-Francisca Benedicta_, que nasceo a 25 de Julho de 1746.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[769] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10.
-
-[770] Estaço nas Antiguid. de Portug. cap. 12. n. 9. Duart. Nun.
-Descripç. de Portug. cap. 89. Alvar. Ferr. de Vera Orig. da Nobr. cap.
-6. Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 12.
-
-[771] Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 23.
-
-[772] Idem liv. 8. cap. 27. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40
-
-[773] Caram. Philip Prud. lib. 1 p.14. Monarq. Lusit. liv. l0. cap. 33.
-e liv. 11. cap. 1. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40. e seqq.
-
-[774] Monarquia liv. 10. cap. 19. Vide Fastos da Lusit. tom. 1. pag 189.
-
-[775] Faria no Epitom. part. 3 cap. 2.
-
-[776] Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 42. Duarte Nun. Chronic. delRey D.
-Affons. Henriq. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 61.
-
-[777] Barbos. no Catalog. das Rainhas.
-
-[778] Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 2. Sousa Histor. Genealog. tom. 1.
-pag. 61.
-
-[779] Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 20.
-
-[780] Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 63.
-
-[781] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 126. Cardos. Agiolog. Lusit.
-tom. 3. a 17 de Junh. Sous. Histor. Genealog. tom. 1. p. 109.
-
-[782] Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa allegad. na Histor.
-Geneal. tom. 1.
-
-[783] Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 127. Sousa Histor. Geneal. tom.
-1. p. 100.
-
-[784] Ibid. p. 103. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 35. p 232.
-
-[785] Barbos. allegad. p. 127.
-
-[786] Monarq. Lusit. tom. 4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal.
-tom. 1. liv. 1. cap. 9. Caram. Philipp. Prud. lib. 1. pag. 19.
-
-[787] Barbos. Catal. das Rainh. p. 127. Monarq. Lusitan. tom. 4. liv.
-12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. cap. 9. Benedict. Lusitan.
-tom. 2. p. 318. Garibay tom. 4. liv. 34. c. 15.
-
-[788] Barbos. no Catal. das Rainhas p. 134. Sous. Histor. Geneal. tom.
-1. p. 125.
-
-[789] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 89. Benedictin. Lusit. tom. 2.
-p. 318. Mariz Dial. 2. p. 93. Monarq. Lusit. liv. 13. cap. 6.
-
-[790] Monarq. Lusitan. liv. 14. cap. 24. Corograf. Port. tom. 2. p. 171.
-
-[791] Monarq. Lusitan. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Genealog. tom.
-1. p. 91.
-
-[792] Monarq. Lusitan. liv. 15. cap. 35. Barbos. no Catalog. das Rainh.
-p. 129. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 92.
-
-[793] Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 21.
-
-[794] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 144. Barbosa no Catal. das
-Rainh. p. 237.& seqq.
-
-[795] Monarq. Lusit. liv.13. cap.20. Sousa allegad. tom.1. p.141.
-
-[796] Monarq. allegad.
-
-[797] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 257.
-
-[798] Sous. Histor. Genealog. tom 1. p. 185. Monarq. Lusit liv. 16.
-cap. 31. e tom. 6. p. 178. Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 62.
-
-[799] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 176. Monarq. Lusit. liv. 16.
-cap. 48.
-
-[800] Cardos. a 6 de Junh.
-
-[801] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 28.
-
-[802] Ibid. cap. 29. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 177. Moreir.
-Theatr. Geneal. da Casa dos Sous. p. 319. diz, que este D. Affonso
-Diniz naõ fora bastardo.
-
-[803] Brand. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. Emprez. Militar. p. 13.
-Benedict. Lusit. part. 2. p. 322.
-
-[804] Sous. Histor. Geneal. tom. 1 p. 177. Malt. Port. tom. 1. liv. 2.
-cap. 6. n. 71.
-
-[805] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e no Prol. da part.5. Veja-se
-tambem a Leitaõ Ferr. nas Notic. Chronol. n. 71.
-
-[806] Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e cap. 36.
-
-[807] Idem ibid. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 179.
-
-[808] Cornej. Chronic. da Ord. tom 2. p. 61. Esperança Histor. Serafic.
-liv. 5. cap. 9.
-
-[809] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 180.
-
-[810] Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 210.
-
-[811] Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 286.
-
-[812] Monarq. Lusit. tom. 6. p. 271. e tom. 5. p. 39. e 270. Agiol.
-Lusit. no primeiro de Janeiro. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p 237.
-
-[813] Idem ibid. p. 254. e seg. Rodrig. Mend. da Silv. Catal. Real.
-Monarq. Lusitan. liv. 18. cap. 48.
-
-[814] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 280.
-
-[815] Idem ibid. p. 281.
-
-[816] Salazar Casa de Lara tom. 1. liv. 3. cap. 8. §. 3. Torre do Tombo
-liv. 3. delRey D. Diniz fol. 34. e fol. 36.
-
-[817] Garibay tom. 2. liv. 14. cap. 5. e 6. Barbos. no Catal. das
-Rainh. p. 279.
-
-[818] Monarq. Lusit. liv. 18. cap. 32.
-
-[819] Zurit. Annaes de Aragaõ tom. 2. liv. 8. cap. 13. 14. e 42.
-
-[820] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 295. Leitaõ Ferreir. Notic.
-Chronol. num. 512. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 383. Garam.
-Philipp. Prudent. p. 142. Far. no Com. de Cam. cant. 3. est. 101.
-
-[821] Faria Epitom. part. 3. cap. 9.
-
-[822] Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 1.
-
-[823] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 387. e seg.
-
-[824] Á cerca da verdadeira Mãy de D. Joaõ, Mestre de Aviz, veja-se
-Joseph Soares da Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. e a D. Antonio
-Caetano de Sousa no tom. 2. da Historia Genealogica da Casa Real
-Portugueza.
-
-[825] Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 431. Monarq. Lusit. tom. 8. p.
-651. Duart. Nun. Descr. de Port. p. 139. Anno Historic. a 14 de Mayo.
-Pint. Ribeir. nos Injust. Success. dos Reys de Leaõ §. 13.
-
-[826] Sous. allegad. p. 427.
-
-[827] Cunh. Histor de Brag. tom. 2. cap. 58. n. 1. Soares da Silva nas
-Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 45. n. 292.
-
-[828] Fernaõ Lopes Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 148. Nunes Chronic.
-do mesmo Rey c. 101.
-
-[829] Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag.103. Vieira tom. 11. num. 622.
-Sous. Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 15. Soares da Silva nas
-Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 75. e segg.
-
-[830] Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p.115. e segg. Duart. Nun.
-Descripç. de Port. p. 144
-
-[831] Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 94. Sous. Histor. de
-S. Doming. liv. 6. cap. 15. p. 332
-
-[832] Nun. de Leaõ na Chron. delRey D. Duarte, e na Descr. de Port. p.
-120. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 3 a 5 de Junh. Sous. Histor. de S.
-Dom. part. 1. liv. 6. cap. 27. e 28. Soar. da Silv. Memor. delRey D.
-Joaõ I. liv. 1. Sousa Histor. Geneal. tom. 2. liv. 3. cap. 6. Vasco
-Mousinho no Affonso Africano cant. 4. est. 52 e segg.
-
-[833] Sousa Histor. Geneal. tom. 5. lib. 6. Per. Chron. dos Carm. tom.
-1. Lorena perseg. p. 405.
-
-[834] Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap 1 Barbos. no Catal. das
-Rainh. Sous. Histor. Genealog. tom. 2.
-
-[835] Faria Europ. Port. tom. 2. part. 3. cap. 2. n. 28. Duarte Nun.
-Descr. de Port. p. 140. Sousa allegad.
-
-[836] Agiolog. Lusitan. tom. 3. a 17 de Junho.
-
-[837] Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p. 661.
-
-[838] Benedict Lusit. tom. 1. p. 381. Per. Chron. dos Carm. tom. 1. n.
-1655. Corog. Port. tom.2. p. 341.
-
-[839] Fr. Luiz de Sous. Chron. de S. Dom. part. 2. liv. 5. Agiol. Dom.
-a 12 de Mayo. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 2. p. 79.
-
-[840] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap 8. e 131. Anno
-Historico a 12, e 13 de Julho. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 4.
-Fonseca Evora gloriosa pag. 96.
-
-[841] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 112. e 213. Goes
-Chron. delRey D. Manoel part. 1. cap. 45. Faria Europ. Port. tom. 2. p.
-492. n. 5. Leitaõ Miscelan. Dialog. 20. p. 632. Osor. de reb. Emmau.
-lib. 1. cap. 1. Fr. Jeron. Rom. Histor. da Ordem Militar de Santiago
-cap. 9. Anno Histor. a 12 de Agosto.
-
-[842] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 282. Sous. Histor. Geneal. tom.
-3. p. 247. Duarte Nun. Descripç. de Port. p. 145. Clensueg. Vid. de S.
-Francisco de Borja liv. 2. cap. 6. e 7. Anno Historico no primeiro de
-Mayo. Barbos. nos Factos da Lusitan. a 21 de Março.
-
-[843] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 293. Barbos. nos Fact. da Lusit.
-tom. 1. p. 108.
-
-[844] Damiaõ de Goes Chron. delRey D.Manoel part. 1. cap. 101. Mariz
-Dial. 4. cap. 22. Telles part. 1. liv. 3. cap. 17. Sousa Histor.
-Geneal. tom. 3. p. 357. Far. Epitom. part. 3. cap. 16 n. 9. Paul. Jor.
-liv. 34. Tarcagnot Histor. del mondo part. 3. liv. 3. p. 170. Ilhescas
-Histor. Pontif. part. 2. liv. 6. cap. 27. §. 1. Sandoval part. 2. liv.
-22. §. 4. Anno Historic. a 12 de Julho.
-
-[845] Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 2. cap. 19.
-Faria Europ. Portug. tom. 2. part. 4. cap 1. n. 57. O Author do Anno
-Historico assina superfluamente o nascimento deste Infante a 5 de
-Julho, tendo já delle feito memoria a 5 de Junho, dia proprio, e
-verdadeiro.
-
-[846] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 2. cap. 42. Agiol. Lusitan.
-tom. 2. p. 658. e 666. Sous. na Histor. Geneal. Barb. nos Factos da
-Lusit.
-
-[847] Barbos. no Catal. das Rainh. p. 391.
-
-[848] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. c. 79. Barbos. no Catal.
-das Rainh. p 388. Rodrig. Mendes da Silv. Catal. Real p. 98. Manoel de
-Galheg. Templo da fama liv. 4. est. 50. Sousa Histor. Geneal. tom. 3.
-p. 421.
-
-[849] Barbos. Catalog. das Rainh. p. 396.
-
-[850] Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 459. Camões cent. 1. Sonet.
-83. Joaõ de Barr. no Panegyric. desta Princeza, que vem no fim das
-Noticias de Sever. Maced. Flores de Hespanh. cap 8. excell. 11.
-Santuar. Marian. tom. 2. Anno Histor. a 10 de Outubro. Duarte Nun,
-Descr. da Port. p. 151.
-
-[851] Os eruditos irmãos Barbos. no Catal. das Rainh. p. 403. e nos
-Fast. da Lusit. tom 1 p. 33. Cam. Eglog. 1. Sá de Miranda na Elegia à
-morte deste Principe. Anton. Ferr. Eglog. 7. Luiz. Pereir. na Elegiada
-cant. 1. p.11.
-
-[852] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 539. Nicol. Anton. na
-Bibliothec. Hisp. Barbos. na Bibliothec. Lusitan. tom. 1. p. 721.
-
-[853] Menezes Port. Restaurad. tom. 1. liv. 11. p. 796. Vieir. tom. 13.
-p. 92. Agiol. Lusit. a 15 de Mayo. Os eruditos irmãos Barbos. no Catal.
-das Rainh. p. 426. e nos Fastos da Lusitan. tom. 1. a 8 de Fevereiro.
-Anno Historico tom. 2. p. 81.
-
-[854] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 281. Anno Historic. tom. 2. p.
-98.
-
-[855] Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 12.
-
-[856] Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p 257. Barbos. nos Fast. da Lusit.
-tom. 1. p. 464.
-
-
-
-
- CAPITULO IX.
-
- _Do Governo antigo, e moderno da Casa Real._
-
-
-1 Ainda que alguns Escritores nossos se inclinassem[857] a que os
-officios, com que se servio a Casa Real até ElRey D. Fernando, fossem
-somente Mordomo da Corte, Alferes, e Trinchante,[858] todavia varios
-outros Officiaes tiveraõ muitos dos Reys, que lhe precederaõ, dos quaes
-daremos breve informaçaõ por aquella ordem, que nos for lembrando, sem
-darmos exacta preferencia aos taes officios, que requer a grandeza da
-sua dignidade.
-
-2 _Modome Mór._ He entre todos os officios titulares da Casa Real o que
-tem o primeiro lugar. No Regimento, que fez Gomes Annes de Azurara,
-(se acaso naõ foy Martim Affonso de Mello) dos officios Móres do Reino
-por mandado delRey D. Affonso V. que foy o Principe, que reduzio a
-singular ordem a Fidalguia Portuguesa nos empregos de Palacio, se lê,
-que em outras Cortes chamavaõ à preeminencia deste officio _Senescal_,
-que vale o mesmo que _Senex calculi_, ou Presidente das contas,[859]
-porque a seu cargo toca tomallas de todas as despezas dos Reys; porém
-Scipiaõ Amirato affirma, que Senescalco era o Architriclino antigo, e
-que o officio de Mordomo Mór tivera origem no Reino de França, donde se
-derivou a outras Cortes da Europa.
-
-3 Neste Reino devia começar com o Conde D. Henrique; porque em tempo
-delRey D. Affonso seu filho assina, e confirma muitas vezes as doações
-o Mordomo Mór Gonçalo Rodrigues. O que temos por infallivel he, que
-esta dignidade andou sempre nos principaes Senhores de Portugal. ElRey
-D. Diniz honrou com ella a seu filho illegitimo D. Affonso Sanches,
-de quem foy summamente affeiçoado. O Conde D. Nuno Alvares Pereira
-foy Mordomo Mór delRey D. Joaõ I. e assim a tiveraõ outros muitos
-Cavalheros da primeira Nobreza.
-
-4 Além da superintendencia, que o Mordomo Mór tem na Casa Real,
-entende particularmente em receber todos os criados, e moradores
-della; e porque antigamente em lugar do verbo _Tomar_ se dizia
-_Filhar_, conserva ainda hoje esta palavra, chamando-se a estas
-recepções _Filhamentos_. Os Fóros, que ha na Casa Real, em que
-entraõ os novamente filhados saõ elles: _Moços da Camera_, _Moços da
-Guardaroupa_, _Escudeiros Fidalgos_, _Cavalleiros Fidalgos_, _Moços
-Fidalgos_, _Fidalgos Escudeiros_, _Fidalgos Cavalleiros_, _Fidalgos do
-Conselho_.
-
-4 No foro de _Moços Fidalgos_ filha o Mordomo Mór aos filhos, e
-netos dos já filhados, ou a outros, a quem ElRey faz mercê de novo,
-ainda que seus antepassados naõ fossem filhados. O filhamento dos
-primeiros he ordinario, porque naõ se póde negar ao filho do criado
-delRey o foro, e moradia de seu pay. Chegando os Moços Fidalgos a
-vinte annos, os accrescentaõ a _Fidalgos Escudeiros_; e depois sendo
-armados Cavalleiros em algum acto de guerra, lhe daõ foro de _Fidalgos
-Cavalleiros_; porém nisso póde haver dispensa com facilidade. O
-ultimo accrescentamento he de _Fidalgos do Conselho_, porém naõ he
-accrescentamento ordinario, nem os filhos o podem requerer, mas ElRey
-dá este titulo a quem lhe parece, e anda annexo a todos os Arcebispos,
-e Bispos, Priores Móres de Aviz, e Santiago, a todos os Inquisidores
-do Conselho Geral do Santo Officio, a todos os Condes, Desembargadores
-do Paço, Chancelleres da Casa da Supplicaçaõ de Lisboa, e Relaçaõ do
-Porto, e Chanceller Mór, Reitor da Universidade de Coimbra, Governador
-do Algarve, aos Governadores das Praças de Africa, Brasil, e Angola, e
-presentemente o concedeo Sua Magestade aos setenta e dous Mon-Senhores
-Prelados da Santa Igreja Patriarcal.
-
-6 Os moradores da Casa delRey, que naõ entraõ por Moços Fidalgos, saõ
-tomados por _Moços da Camera_, e depois se accrescentaõ a _Escudeiros
-Fidalgos_, e ultimamente a _Cavalleiros_ com a terceira, ou quarta
-parte mais de moradia, conforme suas qualidades. Os Moços da Capella,
-Porteiros, Resposteiros, e toda a mais gente daqui para baixo tem
-accrescentamento ordinario a Escudeiro sómente, e esse menor, e de
-quantia certa.
-
-7 O foro dos _Fidalgos Cavalleiros_, que sómente se dava em algum
-famoso acto militar, mais era dignidade que foro, e começou neste
-Reino a ser accrescentamento ordinario depois da tomada de Alcacere,
-como diz Gomes Annes de Azurara; porque até entaõ como o Reino estava
-sem Conquistas, naõ havia ocasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante
-honra; e os que hiaõ buscalla fóra do Reino, eraõ poucos, e por isso
-esta dignidade era taõ estimada, que todos os Principes daquelle
-tempo a procuravaõ alcançar com grande cuidado: assim lemos que
-para este effeito vieraõ a Hespanha, e Portugal grandes Senhores em
-varios tempos; e os que nesta parte alcançaraõ mayor gloria, foraõ os
-nossos Infantes, filhos delRey D. João I. porque só com este intento
-emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceuta, e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe,
-a de Arzilla.
-
-8 Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas,
-quando alguma Personagem subia ao novo titulo, como fez ElRey D. Pedro
-I. quando creou Conde de Barcellos a D. Joaõ Affonso Tello, seu grande
-privado,[860] para o qual acto mandou fazer cinco cirios, que outros
-tantos homens tiveraõ nas mãos toda a noite, que o Conde velou as armas
-no Convento de S. Domingos de Lisboa, estando postos em duas alas desde
-a Igreja até os Paços do Castello. ElRey D. Affonso V. armou Cavalleiro
-a seu irmaõ o Infante D. Fernando com tanta solemnidade, que o menor
-apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil
-tochas, que levavaõ quatrocentos Cavalleiros, e seiscentos Escudeiros
-dos mais luzidos da Corte todos vestidos de huma libré, e traje.
-
-9 _Camareiro Mór_ he o segundo officio da Casa Real, conforme a
-distribuiçaõ, que lhe assina a Ordenaçaõ do Reino.[861] Chamava-se
-esta dignidade em tempo dos Imperadores Romanos _Primicerius sacri
-cubiculi_. Os Reys Godos intitularaõ ao Camareiro Mór _Comes
-cubicularius_, e havia outros, a que chamavaõ Condes do cubiculo, que
-eraõ os que agora saõ os Gentis-homens da Camera.[862]
-
-10 Esta dignidade começou mais tarde neste Reino, pois no governo
-delRey D. Affonso III. he a primeira vez, que se encontra este titulo
-em Joaõ Fernandes; e antes que a houvesse, fazia este offcio o
-Reposteiro Mór. Sua particular obrigaçaõ he vestir, e despir a pessoa
-delRey, aos pés de cujo leito costumava dormir. Ultimamente andou
-este officio na familia dos Sás, Condes de Penaguiaõ, e Marquezes de
-Abrantes, que exercitava com o titulo de Camarista, ou Gentil-homem da
-Camera em companhia de outros, que todos servem às semanas, e trazem
-chave dourada.[863]
-
-11 _Guarda Mór da Casa._ Desta dignidade se faz mençaõ no Regimento
-dos officios móres delRey D. Affonso V. o qual ordena, que o Guarda
-Mór traga sempre vinte Cavalleiros para guarda da pessoa delRey, que o
-acompanhem em toda a parte. Na Chronica delRey D. Manoel escreve Damiaõ
-de Goes,[864] que o dito Rey, em quanto viveo, tivera sempre guarda da
-Camera, e dos Ginetes, de que muito se prezava. Constava a sobredita
-guarda de vinte e quatro Cavalleiros dos mais assinalados da Corte, que
-dormiaõ no Paço junto da Camera delRey, e na mesma casa dormiaõ tambem
-alguns Moços Fidalgos, e na outra sala outros tantos Moços do monte.
-Na guarda dos Ginetes havia duzentos Cavalleiros muito valentes, que
-armados com lanças, e adargas, acompanhavaõ a ElRey para onde hia.
-
-12 Tanto que ElRey se deitava na cama, antes de se lhe correr a
-cortina, entrava o Guarda Mór, e via a ElRey, e entaõ corria a cortina
-o Sumilher; e sahiaõ para fóra. Fechava o Guarda Mór a porta, e junto
-della se lhe fazia a cama, onde dormia, e mais afastado se seguiaõ as
-camas dos outros Fidalgos da guarda. Pela manhã, quando ElRey chamava,
-entrava o Guarda Mór com o Sumilher; este levantava a cortina, e o
-Guarda Mór assistia ao vestir delRey. Este costume se usou até o
-tempo delRey D Sebastiaõ,[865] e o officio expirou em Pedro de Mendoça
-Furtado no reinado delRey D. Joaõ IV. que depois naõ se tornou mais a
-prover.
-
-13 _Reposteiro Mór._ Chamavaõ os Romanos a este officio _Comes
-Castrensis_, e presidia aos Castrensianos, que punhaõ a meza ao
-Imperador; aos Lampadarios, que tratavaõ das luzes, que de noite havia
-no Paço; aos Cellarios, que tinhaõ cuidado na despensa, e a outros
-muitos. Neste Reino serve de chegar a cadeira, ou almofada a ElRey,
-quando se assenta, ou poem de joelhos; e preside aos Reposteiros,
-cujos officios provê. Anda hoje esta dignidade na Casa do Conde de
-Castello-Melhor, que a herdou por morte de Bernardim de Tavora.
-
-14 _Veador da Casa._ O primeiro Veador, de que ha noticia neste
-Reino, he de Egas Moniz em tempo do invicto Rey D. Affonso Henriques;
-e os mais, que se lhe seguiraõ, foraõ sempre Cavalheros de grande
-caracter.[866] Estava a seu cargo naõ só o governo total das oxarias,
-mas grande parte do regimen da Casa Real, porque servia inteiramente
-o officio de Mordomo Mór, quando este por qualquer ausencia, ou
-molestia faltava no Paço: assim o determinou ElRey D. Affonfo V. no
-seu Regimento,[867] e se vê tambem no da Fazenda,[868] estylo, que em
-muitos Reinos he estabelecido.[869]
-
-15 Ha muitos exemplos de servirem os Veadores o officio de Mordomo Mór,
-como foy Vasco Annes Corte-Real pelos annos 507, 512, e 515; Ruy Lopes
-em 527, e 529; D. Francisco de Sousa em 541, Thomé de Sousa em 551, D.
-Diogo Lopes de Lima em 570, e Damiaõ Borges em 579, sendo estes tempos
-comprehendidos nos governos dos Senhores Reys D. Manoel, D. Joaõ III.
-D. Sebastiaõ, e D. Henrique. Na mesma fórma continuou Francisco Barreto
-no tempo delRey Filippe II.
-
-16 He verdade que servindo o Veador Francisco Barreto de Mordomo Mór,
-se moveraõ entre elle, e o proprietario varias duvidas. Primeira sobre
-qual delles havia de levar o ordenado de Mordomo Mór. Segunda como se
-havia de dizer nos Alvarás: _Eu ElRey faço saber a vós F. meu Mordomo
-Mór_; ou _F. meu Veador, que hora servis de meu Mordomo Mór_. Terceira,
-se quando tornava a servir o Mordomo Mór, lhe havia de entregar
-o Veador as Consultas, e mais papeis, que, quando tinha servido,
-despachara, ou se haviaõ de ficar em seu poder. Resolveo-se que ambos
-levassem o ordenado de Mordomo Mór; que nos Alvarás se dissese:
-_Veador, que servis de Mordomo Mór_; e que os papeis fossem todos para
-o Cartorio, em que costumavaõ estar.
-
-17 Em todo o tempo dos Senhores Reys D. Joaõ IV., e D. Affonso VI.
-governavaõ os Veadores às semanas pela precisa, e continua assistencia,
-que faziaõ no Paço, assistindo aos comeres de Suas Magestades, e naõ
-mandando os ditos Senhores fazer nem ainda para si cousa alguma,
-que naõ fosse ordenando-o vocalmente ao Veador de semana, e este
-aos Officiaes subalternos. Quando as pessoas Reaes estavaõ doentes,
-eraõ obrigados a assistir nas juntas dos Medicos, para verem o que
-lhe mandavaõ comer, e receitar. Aos Veadores tocava o mando de todos
-os Officiaes pertencentes à meza delRey: elles tinhaõ o governo dos
-Moços da Camera: a seu cargo estava a enfermaria, onde se curavaõ os
-criados pobres; e nas jornadas, que os Reys faziaõ, corriaõ com todos
-os gastos inteiramente, e era totalmente sua a disposiçaõ. No governo
-do Serenissimo Senhor D. Pedro II. como se servia com os Camaristas,
-e comia pela Casa da Rainha, e as despezas ordinarias se faziaõ pela
-do Infantado, quasi ficaraõ sem exercicio os Veadores. Anda hoje este
-officio nas Casas dos illustrissimos Condes do Redondo, e Assumar, e D.
-Francisco Xavier de Sousa.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[857] Naõ fazem mençaõ de outros Officiaes até o dito tempo Fr. Antonio
-Brandaõ, Ruy de Pina, e Duarte Nunes, sendo estes dos mais principaes
-Chronistas entre os nossos.
-
-[858] Os que contaõ em hum dos tres officios ao Trinchante, he porque
-entendem que isto significava _Dapifer_; mas enganaõ-se, porque este
-officio corresponde ao de Veador, entre o qual, e o de Mordomo Mór naõ
-havia antigamente differença. Danet. in Diction. antiq. Roman. verb.
-_Comes._ Castr. Palat. Ducange verb. _Dapifer_.
-
-[859] Veja-se a Bluteau no vocab. _Mordomo Mór_, e _Senescal_, e a Gil
-Gonçalves Davila no Theatro de las grandezas de Madrid p. 313. Nunes de
-Castro no livro _Solo Madrid es Corte_ liv. 1. cap. 10. Villasboas na
-Nobiliarq. Port. cap 12. Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 481. Solan.
-Succo de Pegas tom. 2. p. 376. verb. _Æconomus_.
-
-[860] Faria na Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 4. num. 22.
-
-[861] Orden. liv. 3. tit. 5. no princip.
-
-[862] Petr. Pantin. de Offic. Regis domus Gothor. Garm. Theatr. de
-Hesp. tom. 3. p. 143 e 223.
-
-[863] Vide Gil Gonçalv. Theatr. de las grandez, de Madrid p. 315.
-Peg. à Orden. tit. 13. liv. 3. tit. 5. gloss. 2. n. 64. Barbos. à
-dit. Orden. n. 2. Carv. in cap. Raynald. de test. part. 1. n. 364.
-Villasboas Nobiliarq. Port. cap. 12.
-
-[864] Goes part. 4. cap. 84.
-
-[865] Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 552. Lim. Geograf. Histor.tom.
-1. p. 444. Veja-se a Argote no Discurso da Montaria Real cap. 6. e a D.
-Franc. Xavier de Garma no Theatr. Univ. de Hesp. t. 3. c. 14.
-
-[866] Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 5. e liv. 10. cap. 4. Chron. del Rey
-D.Joaõ I. cap. 68.
-
-[867] No tit. de Mordomo Mór.
-
-[868] Cap. 241.
-
-[869] L’Etat de la France, e de la Gran Bretaña. Ethiquetas de Hespanha.
-
-
-
-
- CAPITULO X.
-
- _Dos Officiaes, e ordem, com que se assistia à meza dos Reys._
-
-
-1 Costumavaõ os Senhores Reys deste Reino comer ordinariamente em
-publico, e com magestoso apparato desde o tempo delRey D. Affonso V.
-que imitou a seu tio o Infante D. Pedro.[870] Assistia à meza hum
-_Trinchante_, que cortava. Até o tempo delRey D. Joaõ III. foy hum
-só, depois se accrescentou mais outro, e no reinado delRey D. Joaõ
-IV. houveraõ tres Trinchantes de tres differentes Casas. Hoje anda na
-de D. Antonio Alvares da Cunha, Senhor da Taboa, e na de D.Joseph de
-Vasconcellos e Sousa, que herdou este officio por casar com huma filha
-herdeira de Diogo de Brito Coutinho.[871] Á maõ direita do Trinchante
-ficava o _Uchaõ_, e junto com elle o Servidor da toalha. Da parte
-esquerda se seguia o _Mantieiro_.
-
-2 Traziaõ os Moços da Camera as iguarias, vindo diante o _Prestes
-da Cozinha_, que he hum accrescentado, e nas festas grandes o
-_Mestre-Sala_. Davaõ-se os pratos ao Servidor da toalha, que os punha
-na meza, e o Uchaõ os chegava para o Trinchante por ordem, conforme
-se havia de comer. Depois de trinchados os que eraõ para iso, fazia a
-salva o Servidor da toalha, e o Trinchante os chegava a ElRey; e tanto
-que ElRey comia, os tirava o Mantieiro, e metia outros, e novamente
-guardanapo.
-
-3 _Uchaõ_ he o que tinha cuidado de mandar guardar a caça na ucharia,
-ou dispensa da Casa Real, e por isso parece que se lhe deu o nome
-de Uchaõ, tomado de _Uccello_, que em italiano significa passaro. O
-officio de _Copeiro Mór_, a que os Godos chamavaõ Conde das Escancias,
-ou _Comes scanciarum_, que he o mesmo, que se dissessemos Conde das
-bebidas, he o que dá o pucaro de agua a ElRey para beber, e anda hoje
-este officio na Casa do Conde de Villa-Flor. Quando ElRey lhe fazia
-sinal, hia buscar o pucaro à porta da casa, onde ElRey comia, e lho
-entregava o Copeiro menor; e tornando a entrar acompanhado do mesmo
-Copeiro, e dous Porteiros da cana, que faziaõ suas cortezias, e se
-punhaõ de joelhos, chegava o Copeiro Mór à meza, dava o pucaro a ElRey,
-que acabando de beber, o tomava, estando até entaõ inclinado sobre a
-meza, tendo a salva debaixo do pucaro. Depois se levantava, e tres pés
-atraz fazia a cortezia, e dava o pucaro ao Copeiro menor, que o levava
-à copa acompanhado dos Porteiros.
-
-4 Nas solemnidades grandes se fazia este acto com muito mayor
-ceremonia; porque hiaõ diante os Porteiros da maça dous e dous, os
-Reys de armas, Arautos, e Passavantes, o Porteiro Mór, Mestre-Sala,
-Veador da Casa, os Védores da Fazenda, e detraz de todos o Mordomo Mór,
-e todos hiaõ descubertos até o estrado, onde faziaõ suas cortezias.
-Os Védores da Fazenda tiravaõ os chapeos no meyo da sala, e o Mordomo
-Mór até o fazer da cortezia, que juntamente a fazia, e tirava o
-chapeo, e neste tempo se tocavaõ os intrumentos musicos. Este mesmo
-acompanhamento se fazia nas primeiras, e ultimas iguarias, que vinhaõ
-à meza, e quando traziaõ a fruta.[872] Todos estes Officiaes, que
-assitiaõ à meza, levavaõ certas iguarias de gajes da copa, as quaes
-eraõ de tanta importancia, que mandando ElRey D. Filippe II. que lhas
-dessem a dinheiro, se lhes arbitrarão por ellas grossos ordenados.
-
-5 Todos os Senhores, que assistiaõ à meza, estavaõ em pé encostados à
-parede, e nenhum dos Grandes tinha assento, porém cubriaõ-se os que
-tinhaõ esse privilegio. Á roda da meza estavaõ de joelhos os Moços
-Fidalgos; e quando no fim vinha a confeiteira, repartia ElRey com elles
-dos doces, e frutas.[873] Em quanto os Reys comiaõ, costumavaõ praticar
-com os Fidalgos, principalmente com aquelles, que tinhaõ andado fóra
-do Reino; e com os doutos, que sempre estavaõ presentes, se excitavaõ
-questões curiosas, e uteis.
-
-6 Muitas vezes nos Domingos, e dias Santos jantavaõ, e ceavaõ com
-musicas; e nas Festas principaes com atabales, e trombetas. Vespera de
-Natal consoava ElRey em publico com todo o estado, e entretanto davaõ
-de cear a todos os Escudeiros, e Fidalgos, que estavaõ na sala. Depois
-mandavaõ de consoar às Damas, e aos Officiaes delRey se lhes mandava
-a suas casas. Os Moços da Camera consoavão na Guarda-reposta, e aqui
-mesmo se dava consoadas aos Capellães, e daqui para baixo até os moços
-da estribeira, e do monte.
-
-7 O fausto, e grandeza, com que ElRey D. Joaõ II. celebrou as vodas
-de seu filho o Principe D. Affonso com a Senhora Dona Isabel,
-especialmente nos banquetes, que deu em Evora, foraõ taõ notaveis,
-que nos obriga a transcrever o mais raro delles pelas formaes palavras
-do seu Chronista Garcia de Resende cap. 113. o qual diz: _Logo à
-entrada, da meza veyo huma grande carreta dourada, e traziaõ-na dous
-grandes boys assados inteiros com cornos, e mãos, e pés dourados, e o
-carro vinha cheyo de muitos carneiros assados inteiros com os cornos
-dourados, e vinha tudo posto num cadafalso taõ baixo com rodetas
-no fundo delle, que naõ se viaõ, que os boys pareciao vivos, e que
-andavaõ. E diante vinha hum Moço Fidalgo com huma aguilhada na maõ,
-picando os boys, que parecia que andavaõ, e levavaõ a carreta, e vinha
-vestido como carreteiro com hum pelote, e hum gaibaõ de veludo branco
-forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia proprio
-carreteiro, e assim foy oferecer os boys, e carneiros à Princeza,
-e feito o serviço, os tornou a virar com sua aguilhada por toda a
-sala até sahir fóra, e deixou tudo ao povo, que com grande grita, e
-prazer foraõ espedaçados, e levava cada hum quanto mais podia. E assim
-vieraõ juntamente a todas as mezas muitos pavões assados com os rabos
-inteiros, e os pescoços, e cabeça com toda sua penna, que pareceraõ
-muito bem, por serem muitos, e outras muitas sortes de aves, e caças,
-manjares, e frutas, tudo em muito grande abundancia, e muita perfeiçaõ._
-
-8 A ultima vez, que as Magestades Portuguezas comeraõ em publico, foy
-quando veyo de Alemanha a Rainha Dona Maria Anna de Austria. A primeira
-cea, e jantar se deu na casa da galé, e foy de grande esplendor,
-disposiçaõ, asseyo, e apparato. Tinha a meza de comprido quatorze
-palmos e meyo, e de largo seis e meyo. Constava de quatro cubertas de
-vinte e hum pratos cada huma: as tres primeiras de cozinha, e a ultima
-de doces, e frutas. A disposiçaõ era nesta formalidade, segundo o
-mappa, que vimos em casa do Excellentissimo Conde do Redondo.
-
- K K K K
-
- X +-----------------------+ Z
- | A B |
- | |
- X | C E |Y Z
- | |Y
- | * * |
- X | D G H F | Z
- +-----------------------+
- I L M N O P Q I
- X S V T V V T V R Z
-
-
- A Lugar do talher delRey Nosso Senhor.
-
- B Lugar do talher da Rainha nossa Senhora.
-
- C Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Francisco.
-
- D Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Antonio.
-
- E Lugar do guardanapo da Senhora Infanta Dona Francisca.
-
- F Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Manoel.
-
- G Primeiro aviamento de trinchar.
-
- H Segundo aviamento de trinchar.
-
- I Moços Fidalgos com abanos.
-
- L Lugar do Veador.
-
- M Lugar do Mantieiro.
-
- N Lugar do primeiro Trinchante.
-
- O Lugar do segundo Trinchante.
-
- P Lugar do Servidor da toalha.
-
- Q Lugar do Mestre-Sala.
-
- R Lugar do Copeiro Mór.
-
- S Lugar do Escrivaõ da cozinha.
-
- TT Dous Moços da Camera com pratinhos.
-
- VV Moços da Camera, que servem à Meza.
- XX Lugar dos Titulos.
-
- ZZ Lugar dos Officiaes da Casa.
-
- YY Fysico Mór, e Cirurgião Mór.
-
- KK Lugar das Senhoras, que acompanharaõ a Rainha nossa Senhora.
-
- ** Girandulas, ou serpentinas de luzes.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[870] Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 125. Soares da Silva nas
-Memorias delRey D. Joaõ I. p. 366.
-
-[871] Lim. Geograf. Histor. tom. 1. p. 511. Sous. Grandes de Portug. p.
-279.
-
-[872] Garcia de Resend. Chron. delRey D.Joaõ II. cap. 123.
-
-[873] Goes Chron. delRey D. Manoel part. 4. cap. 84.
-
-
-
-
- CAPITULO XI.
-
- _Do acompanhamento, com que os Reys sahiaõ pela Cidade, e caminhavaõ
- com a Corte._
-
-
-1 Quando os Reys caminhavaõ pela Cidade, hiaõ nesta fórma: Os Porteiros
-da cana, e os Reys de armas precediaõ a todos a cavallo, e descubertos.
-Depois os Moços da estribeira tambem descubertos. Seguia-se o
-Estribeiro Mór a cavallo, e cuberto. Dahi a espaço a pessoa delRey; e
-atrás delle todos os Fidalgos a cavallo cubertos sem ordem. Só havendo
-algum Infante, ou Senhor grande, hia este mais chegado à Pessoa delRey,
-conforme o parentesco. Sendo dia solemne, hiaõ os trombetas, e timbales
-diante delRey.
-
-2 Na Cidade naõ usaraõ alguns Reys de guarda. ElRey D. Joaõ II. e
-ElRey D. Manoel a traziaõ: já ElRey D. Joaõ III. muitas vezes usava
-sahir fóra só com dous Porteiros da cana diante de si, a que alludio
-Francisco de Sá e Miranda, quando disse:[874]
-
- _Que se póde ir mais à vante
- Com quanto alcança o sentido,
- Sem ferro, ou fogo, que espante,
- Com duas canas diante
- His amado, e his temido._
-
-ElRey D. Sebastiaõ pelos muitos estrangeiros, que havia em Lisboa,
-introduzio a guarda de pé de Alabardeiros Portuguezes, e naõ Tedescos,
-com seu Capitaõ Fidalgo dos principaes. ElRey Filippe II. admittio
-guarda Tedesca, e a deixou ao Archiduque Alberto, depois do qual se
-continuou com os Governadores, e Vice-Reys. ElRey D. Joaõ IV. fez duas
-Companhias de guarda, huma de Alemães, outra de Portuguezes, como
-explica o douto, e diligente Padre D. Luiz de Lima.[875]
-
-3 Tinhaõ por costume os Senhores Reys ir fóra todos os Domingos depois
-de jantar ver correr a carreira, e algumas vezes elles mesmos a
-corriaõ.[876] Para isto se ajuntavaõ além dos familiares do Paço muita
-outra gente dos contornos, onde ElRey estava, e corriaõ diante delle a
-cavallo. Eraõ os Reys taõ benignos, e humanos, que quando hiaõ pelas
-ruas, e viaõ alguns homens nobres à porta, se detinhaõ, e fallavaõ com
-elles.[877] Honravaõ tanto a seus criados, que a alguns hiaõ levar
-a suas casas em dia de noivado: assim se lê delRey D. Joaõ III. que
-recebendo-se nos Paços dos Estáos (hoje da Inquisiçaõ) Dona Maria de
-Menezes com o avô de D. Antaõ de Almada, sahio ElRey acompanhando-a,
-atravessou o Rocio, e chegou até à esquina das casas de D. Braz da
-Silveira; e apontando para as dos Almadas, lhe disse galantemente:
-_Dona Maria, até aqui cheguey para vos mostrar as vossas casas, porque
-vos naõ enganassem, e levassem a outras._[878]
-
-4 Quando ElRey hia fóra da Corte, o acompanhavaõ ordinariamente os
-moradores da sua Casa, Conselho de Estado, e outra muita gente, que
-o seguia, assim por este respeito, como por seus requerimentos, e
-despachos; pelo que em qualquer parte, que a Corte estava, havia tanta
-frequencia, como em huma boa Cidade, e por isso ordenaraõ que a Corte
-trouxesse comsigo todos os Officiaes assim politicos, como de justiça,
-que saõ necessarios para o governo de huma Republica. Eraõ estes o
-Aposentador Mór, Almotacé Mór, Correyo Mór, Corregedores do Crime da
-Corte, Corregedores do Civel com seus Officiaes de justiça inferiores.
-
-5 O Aposentador Mór tem por obrigaçaõ ir diante da Corte hum, ou dous
-dias, para ter prevenido o alojamento delRey; porque he costume antigo
-neste Reino aposentarem os moradores de qualquer povo a ElRey, e sua
-Corte, dando a metade das casas para se recolherem os que acompanhaõ a
-ElRey. Esta distribuiçaõ de aposentos faz o Aposentador Mór, e he Juiz
-de todas as duvidas, que sobre esta materia occorrerem. Hoje anda este
-Officio na Casa dos illustrissimos Condes de Santiago.[879]
-
-6 Ao Almotacé Mór pertence prover a Corte, onde quer que estiver, de
-mantimentos, e para isso tem grande jurisdiçaõ, que se extende cinco
-leguas da Corte. Antes que ElRey faça jornada para alguma parte, manda
-adiante fazer promptos os mantimentos, e convocar certo numero de
-Regatões, que chamaõ da Corte, cujos officios elle dá, os quaes tem
-por obrigaçaõ prover a Corte de caça, e do mais preciso, com tanto que
-naõ tragaõ os mantimentos dos povos cinco leguas à roda do lugar, onde
-a Corte está; e para ser provida melhor, quando a Corte está fóra de
-Lisboa, se quita meya ciza a quaesquer outros Regatões, a que fóra das
-cinco leguas trazem mantimentos. Anda este cargo de Almotacé Mór em
-Joaõ Gonçalves da Camera Coutinho.[880]
-
-7 Ao Correyo Mór compete prover de cavalgaduras para os moradores
-da Corte caminharem, e pôr as postas ordinarias no Reino; e quando
-ElRey corre a posta, serve elle de Postilhaõ. Despacha os Correyos
-ordinarios de pé, e cavallo, assim para o Reino, como para fóra delle.
-A propiedade deste officio concedeo D. Filippe II. e confirmou ElRey D.
-Joaõ de juro e herdade à Familia dos Matas.[881] Nestas jornadas usavaõ
-os Reys às vezes de guarda cavalleiros, e particularmente a trazia
-ElRey D. Joaõ II. a quem sempre acompanhava o Capitaõ dos Ginetes com
-ella. ElRey D. Manoel lhe accrescentou o numero, que faziaõ duzentos
-Cavalleiros, que com o mesmo Capitaõ lhe precediaõ sempre.
-
-8 Com a mudança de governo houve tambem mudanças na formalidade da
-guarda Real. Para idéa da que hoje se pratica nas funções solemnes,
-mostraremos brevemente a ordem, com que as Pessoas Reaes caminharaõ de
-Elvas para o Caya em 19 de janeiro de 1729 para as reciprocas entregas,
-e desposorios dos Principes, e Princezas. Principiava aquelle vistoso
-acompanhamento por mais de quarenta coches dos Fidalgos titulares
-do Reino, a mayor parte delles tirados a seis frizões. Seguia-se
-huma partida de quinze Cavalleiros com hum Alferes, vinte e quatro
-trombetas, e atabaleiros da Casa Real vestidos de veludo carmesim
-apassamanados de galões de ouro. Logo os cavallos de maõ dos Infantes
-D. Francisco, e D. Antonio cubertos de telizes de veludo verde bordados
-de ouro, e trinta delRey, do Principe, e do seu Estribeiro Mór. Depois
-marchava hum Tenente com quinze cavallos, e logo doze postilhões
-de gabinete com fardas de panno encarnado com alamares de prata.
-Seguiaõ-se muitos coches, e berlindas, em que hiaõ muitos Officiaes
-do Paço de mayor graduaçaõ. Logo os coches de respeito dos Infantes,
-da Princeza, do Principe, e delRey, e ultimamente o coche magnifico,
-em que hia a Familia Real, e atrás delle muitos moços da estribeira a
-cavallo, e sete berlindas com as Camareiras Móres, e outras Senhoras,
-e cento e trinta seges da Familia, e no fim de tudo hum esquadraõ de
-guarda com quinhentos cavallos, que desde Lisboa foraõ acompanhando a
-ElRey, e governavaõ quatro Fidalgos da primeira Nobreza. Naõ fallamos
-na magnificencia, e magestosa pompa desta jornada mais extensamente,
-porque se póde ver nos Authores allegados;[882] só advertimos, que
-para esta funçaõ mandou ElRey que a libré antiga da Serenissima Casa
-de Bragança, que era de panno silvado de verde e branco guarnecida de
-galões de prata, se mudasse sómente para a sua Casa Real, da Rainha, e
-Principes do Brasil na cor, de que usaraõ os antigos Reys, que era de
-panno encarnado com os cabos, e vesteas azuis agaloadas de prata, e aos
-Archeiros da guarda da mesma cor com a differença de serem os galões de
-ouro.[883]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[874] Sá de Mirand. Epist. 1.
-
-[875] Lim. Geogr. Histor. part. 1. p. 399.
-
-[876] Goes Chronic. delRey D. Manoel p. 341.
-
-[877] Clede tom. 3. pag. mihi 421. na vida delRey D. Joaõ II.
-
-[878] Sous. Histor. Geneal. tom. 4. p. 258.
-
-[879] Veja-se a Pegas à Orden. t. 13 add. t. 5. gloss. 2. num. 100.
-Far. no Epitom. pag. mihi 665. Villasb. na Nobiliarq. Port. cap. 12.
-Lima Geogr. Histor. tom. 1. pag. 337. Navarret. Conservac. de las
-Monarq. cap. 20.
-
-[880] Orden. liv. 1. tit. 18.
-
-[881] Corogr. Portug. tom. 3. p. 390.
-
-
-
-
- CAPITULO XII.
-
- _Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das principaes
- coutadas do Reino._
-
-
-1 O Exercicio da caça assim de volateria, como de montaria foy
-sempre a mais ordinaria recreaçaõ dos Reys Portuguezes, para a qual
-mantinhaõ com grande pompa Officiaes, e Caçadores, que fossem destros,
-e intelligentes em semelhantes artes.[884] Do Infante D. Duarte,
-filho delRey D. Manoel, se conta,[885] que era nelle taõ dominante
-este divertimento, que naõ reparava em descommodo algum só para matar
-hum veado, chegando muitas vezes a dormir vestido no campo exposto à
-inclemencia do tempo. Continuou este passatempo até o reinado delRey D.
-Sebastiaõ; depois conforme o genio, e inclinaçaõ dos Principes assim
-hia crescendo, ou diminuindo.
-
-2 Quanto aos Officiaes para este ministerio, he o _Monteiro Mór_ o que
-preside aos mais ministros da caça, o qual aceita todos os Monteiros de
-cavallo, e de pé, e moços do monte, de que ElRey se serve. Havia tambem
-_Caçador Mór_ para a caça de volateria, e _Falcoeiro Mór_ para a que se
-fazia com falcões. Hoje todas estas tres occupações unidas ao officio
-de Monteiro Mór andaõ na Familia dos Mellos.[886]
-
-3 As coutadas antigas do Reino em tempo delRey D. Affonso V. occupavaõ
-grande quantidade de terra, e por isso pediraõ os povos a ElRey D.
-Joaõ II. nas Cortes de Montemór o Novo, que descoutasse parte dellas
-para os campos se poderem aproveitar, e se escusarem os damnos, que as
-caças silvestres faziaõ nas sementeiras. ElRey como Principe taõ amante
-de seus vassallos o consentio, e descoutou muitas terras. O mesmo fez
-ElRey D. Manoel nas Cortes de Lisboa de 1498,[4] e Filippe II. no anno
-1594,[887] descoutou as montarias de Palmella, a de Montemór o Novo, a
-de Montemor o Velho, e a de Aveiro, ordenando que naõ houvesse mais
-coutadas que as de Lisboa, Cintra, Collares, Almeirim, e Salvaterra.
-
-4 A coutada de Lisboa principiava das portas de Santo Antaõ, estrada
-direita até o Lugar de Bemfica, e de Bemfica até Agualva, e da Agualva
-a S. Marcos, e de S. Marcos a Oeiras, e daqui direito ao mar. As de
-Cintra, e Collares tinhaõ duas leguas em circuito ao redor de cada
-huma das ditas Villas. As de Almeirim, e Salvaterra principiava a sua
-demarcaçaõ de Santo Eustacio direito pela estrada de aguas vivas acima
-até as Simalhas, e dahi atravessando até a ribeira de Muja por cima da
-mouta das Corvas, e atravessando a dita ribeira para o Zebro, e arneiro
-dos Cruzentes, e daqui às Bezerras: dahi atravessando a ribeira da
-Lamarosa direito às Cortezinhas, e das Cortezinhas à Erra, depois pela
-estrada de Coruche, e pela mesma estrada abaixo até S. Romaõ, e logo a
-Santo Estevaõ, atravessando a ribeira de Canha direito para as casas de
-Belmonte, e dahi ao longo das terras do Duque até a ponta da mata de
-Payo Real, que parte as lavouras, e daqui pela banda do Tejo a Santo
-Eustacio.[888]
-
-5 Naõ obstante isto, ficou sempre conservando as montarias de
-_Santarem_, que constaõ de muito mais de vinte e seis matas, com outras
-de particulares: as de _Alenquer_, as de _Obidos_ com quinze matas,
-e outras particulares: as de _Leiria_ com o famoso pinhal de quatro
-leguas de comprido, e huma de largo: as de _Pombal_, as de _Coimbra_,
-as de _Coruche_, as de _Benavente_, e as de _Alcacere do Sal_, onde
-junto ao rio, que vay para a dita Villa, ha hum pinhal de huma legua de
-comprido, e de largo hum quarto de legua bastecida de muita caça.
-
-6 As mais notaveis coutadas, que servem hoje de divertimento aos
-Principes de Portugal, são as dos sitios de _Alcantara_, e _Belém_
-abundantes de perdizes, lebres, coelhos, e gamos: a de_Cintra_, que se
-extende por dilatados bosques, cujo sitio excede em qualidades a todos
-os do Reino, e chega até a Villa de Cascaes, fertil todo o seu terreno
-de perdizes, lebres, coelhos, e de certa especie de caça de arribação,
-que a fertiliza nos mezes de Setembro, e Outubro. Ao Sul da serra de
-Cintra da parte opposta do rio corre a serra da Arrabida, taõ povoada
-de todo o genero de caça, e em particular de veados, que além de serem
-os mayores de toda a Hespanha, excedem em quantidade a outras coutadas
-do Reino, com tanto commodo para os Caçadores, quantas saõ as quintas,
-e casas de campo, que tem o seu assento nos vistosos, e fertilissimos
-sitios de Azeitaõ, Cezimbra, e Calhariz, situadas nas margens, e
-visinhanças da mesma serra.
-
-7 Para o tempo de Inverno he a celebre coutada de _Pancas_, tres leguas
-de Lisboa da outra banda do rio, taõ fertil de todo o genero de caça,
-que em pouca distancia da terra costuma entreter muitos Caçadores.
-Tanta he a abundancia, e variedade, que no mesmo tempo se occupaõ os
-Monteiros em correr à lança grandes javalis, e generosos veados, e os
-Caçadores em tirar às perdizes, correr às lebres, e matar os coelhos,
-além de outra muita caça de arribaçaõ, que concorre às lagoas, e
-pantanos daquelle sitio. Com pouca mais distancia de leguas no termo da
-grande Villa de Setubal nas ribeiras do rio Sado estaõ as duas grandes
-coutadas do _Pinheiro_, e _Palma_, notaveis pela abundancia de veados,
-e porcos montezes muito pingues, e grande quantidade de perdizes,
-lebres, coelhos, e outras variedades de caças.
-
-8 Apartadas de Lisboa dez, e quatorze leguas se seguem as Reaes
-Casas de campo de _Salvaterra_, e _Almeirim_, que pelo Tejo acima se
-communicaõ por mar, sendo o caminho de terra facil, ameno, e commodo
-pelo assento, e concurso de muitos lugares vistosos, que em toda
-aquella distancia se vaõ continuando por huma povoaçaõ successiva, onde
-a Corte se entretinha todos os annos por espaço de quarenta dias com
-diversos exercicios de passatempo.[889] Saõ ferteis de veados, porcos,
-e toda a especie de caça; commodas para as montarias de cavallo; faceis
-para as caçadas de lança, e de espigarda; abundantes nas volaterias;
-dispostas para o entretenimento das Damas com tal commodidade, que
-dos mesmos coches vem alancear os porcos, matar os veados, correr
-as lebres, apanhar os coelhos. e voar as aves tão suavemente, e sem
-fadiga, que na mayor distancia se escusa todo o desvelo, porque a
-fecundidade do sitio facilita os exercicios igualmente a quem os vê, e
-a quem os segue.
-
-9 De mais destas grandes coutadas se aparta de Lisboa em distancia de
-trinta leguas aquella mais celebre da Serenissima Casa de Bragança,
-que com o nome de _Tapada_ tem o seu assento em _Villa Viçosa_, aonde
-os javalis saõ ferozes, e muitos, e em grande quantidade os veados,
-e muita caça miuda, que ainda sendo o sitio fertil por natureza, os
-sustenta por maravilha.[890] Porém melhor que todas he a _Tapada
-Real de Mafra_, depois que se acabaraõ de fechar os seus muros
-pela circumvalaçaõ de tres leguas, servindo para mayor grandeza, e
-divertimento as Ermidas, bosques, rios, pontes, e outras officinas, que
-ha dentro do seu circuito, tudo igualmente magnifico, e perfeito.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[882] Sous. Histor. Geneal. tom. 8. p. 286. Barbos. nos Fast. da Lusit.
-tom 1. p. 229.
-
-[883] Veja-se o livrinho Francez intitulado: _Description de la Ville
-de Lisbonne_ pag. 82.
-
-[884] Diogo Fernandes na Arte da caça de altanaria pag. 4.
-
-[885] Dam. de Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. cap. 78. Sous.
-Histor. Geneal. tom. 3. p. 424.
-
-[886] Vide Solano Succo de Peg. tom. 3. p. 413. Cabedo decis. 90. part.
-2. Ord. liv. 3. tit. 5. e gloss. 2. n. 115. Villasboas Nobiliarq.
-Portug. cap. 12.
-
-[887] Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 26.
-
-[888] Veja-se o Regimento do Monteiro Mór.
-
-[889] Luiz Mendes de Vasconcel. no Sitio de Lisboa p. 207. Nicol. de
-Oliveir nas Grandez. de Lisb. trat. 2. cap. 5. Brand. Monarq. Lusit.
-liv. 16. cap. 41 e liv. 18 cap. 2. Sous. Histor. de S. Doming. part. 2.
-pag. 256.
-
-[890] Sous. Histor. Geneal. tom. 5. p. 559. e tom. 6. p. 408.
-
-
-
-
- CAPITULO XIII.
-
- _Do estylo, com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ
- recebidos pelos nossos Reys, e do modo, com que estes assistem no acto
- das Cortes._
-
-
-1 Dos estylos, que os Reys tinhaõ no recebimento de outros grandes
-Principes, que vinhaõ ao Reino, ha poucos exemplos, por serem raras as
-vezes, que isto aconteceo em Portugal; e ainda que algumas memorias
-referem, que ElRey D. Affonso II. de Castella veyo a este Reino pedir
-a ElRey D. Affonso IV. o soccorro, com que o foy ajudar na batalha
-de Tarifa, com tudo naõ se escrevem as ceremonias, que neste acto
-passaraõ. E quando ElRey D. Pedro de Castella expulso fóra do Reino por
-seu irmaõ veyo a Portugal valerse delRey D. Pedro I. naõ se vio com
-elle; porque como os nossos Principes em razaõ, e respeito de estado
-o naõ quizeraõ ajudar, evitaraõ as vistas, e o mandaraõ acompanhar
-sómente por alguns Fidalgos principaes do Reino até à raya de Galiza;
-porém he facil de entender que em semelhantes occasiões seriaõ tratados
-nos recebimentos das Cidades com as mesmas ceremonias dos Reys
-naturaes, pois assim em Castella, e em França se fez o mesmo aos Reys
-deste Reino.
-
-2 Em tempo delRey D. Fernando veyo a este Reino Aymon, Conde de
-Cambrix, Infante de Inglaterra, trazendo comsigo a Infanta Dona Isabel
-sua mulher, e filha delRey D. Pedro de Castella, por cujo respeito o
-Conde pertendia aquelle Reino. Chegados os Infantes a Lisboa, ElRey os
-foy visitar à náo, e desembarcados foraõ fazer oraçaõ à Sé, indo todos
-a pé, e levando ElRey a Infanta pelo braço. Á vinda montaraõ todos a
-cavallo, e ElRey, por ser grande cortezaõ, levou a infanta de redea até
-S. Domingos, onde havia ordenado que pousassem.[891]
-
-3 No anno de 1670 veyo à Corte de Lisboa o Graõ Duque de Toscana Cosme
-III. e se aposentou no Collegio de Santo Antaõ. Fallou com ElRey D.
-Pedro em audiencia particular com a formalidade seguinte: Entrou às
-oito horas da noite pelo picadeiro da Corte Real em hum coche de
-respeito de Sua Alteza, e D. Joaõ de Sousa, Védor da Casa Real, o veyo
-buscar com doze Moços da Camera com tochas; e depois de responder ao
-cumprimento de D. Joaõ de Sousa, mandou cubrir os Moços da Camera; e
-subindo pela escada recondita, o veyo buscar huns poucos de degráos
-abaixo o Gentil-homem da Camera, que estava de semana, do Principe
-Regente, a cuja presença o conduzio, e em cuja Camera estava huma cama
-rica de téla azul, hum bofete cuberto, e huma cadeira. O Principe
-Regente o recebeo com agrado, dando os passos necessarios para chegar
-ao meyo da casa; e tornando para o seu lugar, disse ao Graõ Duque:
-_Cubra-se V. Alteza_; e no discurso da conversaçaõ lhe deu sempre o
-tratamento de Vós, e o Graõ Duque ao Principe Regente o de Magestade.
-Os Gentis-homens da Camera sahiraõ para fóra; e quando o Duque se
-despedio, o Principe deu os mesmos passos, e elle foy acompanhado da
-mesma fórma, que no principio.[892]
-
-4 Tambem no anno de 1688 veyo incognito a Lisboa o Principe Jorge
-Augusto de Saxonia, que depois foy Rey Augusto II. de Polonia, e
-fallou a ElRey D. Pedro com quasi a mesma formalidade.[893]
-
-5 O recebimento dos Embaixadores se fazia com muita solemnidade.
-Mandava-os ElRey acompanhar ao Paço no dia da audiencia por Fidalgos
-da primeira Nobreza, segundo a graduaçaõ, e grandeza dos Principes,
-de que eraõ enviados; e entrando pela casa, onde ElRey os esperava,
-se levantava ElRey da cadeira, e punha a maõ no chapeo, e tornava
-a abaixalla; e encostando-se no braço da cadeira, lhe vinhaõ os
-Embaixadores beijar a maõ, e lhes tomava as cartas de crença, e em
-pé os ouvia até os despedir. Depois para tratar dos negocios, a que
-vinhaõ, se lhes dava audiencia em casa particular em cadeira raza com
-alcatifa por cima.[894]
-
-6 As Cortes em Portugal correspondem às Assembleas de França, Dietas de
-Alemanha, e Parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos tres Estados do
-Reino, Ecclesiastico, Nobreza, e Povo, aos quaes costuma ElRey convocar
-para as determinações publicas, e de grandes interesses. Juntaõ-se as
-pessoas dos tres Estados em huma sala ricamente adornada: na cabeceira
-della se levanta hum estrado de seis degráos com a elevaçaõ de sete
-palmos, que he para o throno delRey: na parte inferior arrimados
-à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem
-os chamados, que saõ os Titulos, Prelados, Senhores de terras, e
-Procuradores das Cidades, e Villas.
-
-7 Principia este acto com a assistencia delRey, o qual costuma vir
-com oppa rossagante de brocado, e Cetro de ouro na maõ. Vem diante
-delle o Condestavel do Reino com o estoque levantado, e mais adiante o
-Alferes Mór com a bandeira Real enrolada, precedendo os Reys de armas,
-Arautos, e Passavantes vestidos em cottas, onde se vê bordado o escudo
-do Reino. A estes antecedem os Porteiros com maças de prata; e se o
-acto he de juramento de algum Principe, precedem a tudo os atabales,
-e clarins. Chegando ElRey à cadeira, se accommodaõ todos nos seus
-assentos determinados.
-
-
-_Preferencia dos Procuradores das Cidades, e Villas do Reino, que tem
-assento em acto de Cortes._
-
- _Bancos._
-
- 1 Porto, Evora, Lisboa, Coimbra, Santarem, Elvas.
- 2 Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves.
- 3 Lagos, Faro, Leiria, Béja, Guimarães, Estremoz, Olivença.
- 4 Portalegre, Bragança, Thomar, Montemór o Novo, Covilhã, Setubal,
- Miranda.
- 5 Ponte de Lima, Vianna, Foz de Lima, Villa-Real, Moura, Montemór o
- Velho.
- 6 Cintra, Torres Novas, Alenquer, Obidos, Alcacere, Almada.
- 7 Niza, Torres Vedras, Castellobranco, Aveiro.
- 8 Mouraõ, Serpa, Villa do Conde, Trancozo.
- 9 Aviz, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé.
- 10 Alter do Chaõ, Freixo de Espada à cinta, Valença, Monçaõ, Alegrete.
- 11 Castello Rodrigo, Castello de Vide, Penamacor, Marvaõ, Certã.
- 12 Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Mayor.
- 13 Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmella, Cabeço de
- Vide.
- 14 Barcellos, Coruche, Monsanto, Gravaõ, Panoias, Ourem.
- 15 Arrayolos, Ourique, Albofeira, Borba, Portel.
- 16 Atouguia, Monsarás, Villa Viçosa, Penela, Santiago de Cacem.
- 17 Vianna junto de Evora, Villa-Nova de Cerveira, Porto de Mós,
- Pombal.
- 18 Alvito, Mertola.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[891] Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 2. cap. 5. n. 63.
-
-[892] Sousa Histor. Geneal. tom. 2. p. 441.
-
-[893] Sousa Histor. Genealog. tom 7 p. 694.
-
-[894] Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 77. p. 50. vers.
-Chron. delRey D. Joaõ III. part. 1. Cap. 25. Far. na Europ. Port. part.
-4. cap. 2. n. 26.
-
-
-
-
- CAPITULO XIV.
-
- _Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys._
-
-
-1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da
-gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas
-mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e
-acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta
-ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa
-era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de
-pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos
-misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom
-tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que
-introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre
-o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando
-faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.[895]
-
-2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey
-D. Fernando,[896] até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da
-Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,[897] conservando-se
-porém ainda até o tempo delRey D. Manoel o luto de burel branco,
-porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se
-vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.[898]
-Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se
-despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia
-se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos
-de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo
-tempo os sinos.
-
-3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva
-seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava
-huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo
-luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno
-acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que
-lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais
-publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns
-degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro
-Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para o
-povo, dizia tres vezes em voz alta: _Ouvide_, _ouvide_, _ouvide._ Logo
-o primeiro Vereador dizia estas palavras, que levava escritas: _Choray,
-povo, choray a morte do vosso Rey, que vos governou com justiça, e amor
-de pay_. E subindo o escudo sobre a cabeça, o deixava cahir em terra, e
-se quebrava. Com as mesmas circunstancias se repetia a mesma ceremonia
-pelos outros Vereadores, levantando ao mesmo tempo o povo grandes
-clamores, e prantos. Depois caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ
-ao funeral, que tambem se fazia com aquella expressaõ de pena, e dor,
-que merecia a grandeza da perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de
-Resende, e outros Chronistas antigos, que as descrevem com miudeza.
-
-4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da
-Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas
-mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa
-os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro
-no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no
-Rocio.[899] As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se
-tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe
-D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de
-Resende;[900] porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se
-executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas
-breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:[901]
-
- _Tot mundi Principes, tanta potentia:
- In ictu oculi clauduntur omnia._
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[895] Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 44. e liv. 22. cap. 52.
-
-[896] Ibid.
-
-[897] Ibid.
-
-[898] Soar. da Silv. Memorias delRey D. Joaõ I. n. 153.
-
-[899] Monarq. Lusitan. part 7. liv. 5. cap 1. Far. Europ Portug tom. 2.
-part. 1. cap. 6.
-
-[900] Resend. cap. 131. e 133.
-
-[901] Drexelio no Prodrom. æternitat. cap. 3. §. 3. n. 4.
-
- FIM.
-
-
-
-
-INDICE DAS COUSAS NOTAVEIS _deste primeiro Tomo._
-
-=A=
-
-
-_Abrantes_, antigamente se chamava _Tubuci_, pagin. 29.
-
-_Abundancia_ da Provincia do Minho, 47.
-
-_Academia Real_ da Historia Portuguesa por quem foy instituida, 353.
-
-_Açumar_, ou Alegrete se chamava _Ad septem aras_, 28.
-
-_D. Affonso VI._ Rey de Castella, suas conquistas, 271.
-
-_D. Affonso Henriques_ onde nasceo, 286. Alcançou milagrosamente saude
-da Senhora de Carquere por supplicas de Egas Moniz, 287. Elle mesmo se
-armou Cavalleiro na Igreja Cathedral de Çamora, _ibid._ Excluio sua mãy
-do Governo por força de armas, _ibid._ Ganhou huma batalha na Veiga
-de Valdevez, _ibid._ Triunfou de cinco Reys Mouros confederados no
-campo de Ourique, onde lhe appareceo Christo crucificado, dando-lhe o
-Escudo das Armas de Portugal, 288. He acclamado Rey pelo seu exercito,
-cujo titulo confirmou o Papa Alexandre III. 289. Mostra-se a verdade
-da appariçaõ de Christo, _ibid._ Responde se aos argumentos oppostos,
-290. Offerece D. Affonso Henriques por liberal tributo à Sé Apostolica
-dous marcos de ouro, 291. E a Santa Maria de Claraval cinco escudos
-cada ano, 292. Edificou cento e cincoenta Templos, _ibid._ Inftituio
-as Ordens Militares da Aza, e de Aviz, _ibid._ Casou com a Rainha
-Dona Mafalda, _ibid._ Filhos que teve, _ibid._, e 378. Sua morte, e
-sepultura, 293.
-
-_D. Affonso II._ Rey de Portugal chamado o _Gordo_, quando, e onde
-nasceo, 296. Foy livre prodigiosamente de hum achaque por virtude de
-Santa Senhorinha, _ibid._ Teve grande parte na victoria das Navas
-contra os Mouros, auxiliando a ElRey de Castella, _ibid._ Intentou
-usurpar as terras que eraõ de suas irmãs, _ibid._ Conquistou aos Mouros
-Alcacer do Sal, e defendeo Elvas, _ibid._ Filhos que teve, 384. Quando
-morreo, e onde jaz seu corpo, 297.
-
-_D. Affonso III._ Rey de Portugal, chamado o _Bolonhez_, casou com a
-Condessa Matilde, 299. Conquistou o Algarve, _ibid._ Reduzio a seu
-dominio algumas terras de Andaluzia, 300. Repudiou sua legitima mulher,
-e casou com Dona Brites filha natural delRey D. Affonso de Castella,
-_ibid._ Disturbios que houve no Reino por este motivo, _ibid._ Fez
-violencias ao Estado Ecclesiastico, mas sujeitou-se às Censuras dos
-Pontifices, 301. Edificou os Conventos de S. Domingos de Lisboa,
-o de Elvas, e Santa Clara de Santarem, _ibid._ Alimpou o Reino de
-facinorosos, _ibid._ Filhos que teve, 385. Quando morreo, e onde jaz,
-301.
-
-_D. Affonso IV._ Rey de Portugal chamado o _Bravo_, quando nasceo,
-306. Com quem casou, _ibid._ Foy excessivo no exercicio da caça,
-_ibid._ Ajudou na batalha do Salado a ElRey de Castella, 307. Fez por
-duas vezes mudar os Estudos publicos de Lisboa para Coimbra, _ibid._
-Reedificou a Sé, estabelecendo nella varias Capellanias, _ibid._
-Consentio que matassem a Dona Ignez de Castro, _ibid._ Filhos que teve,
-389. Quando morreo, e onde jaz, 307.
-
-_D. Affonso V._ Rey de Portugal chamado o _Africano_, quando nasceo,
-320. Onde foy acclamado Rey, _ibid._ Dá batalha ao Infante D. Pedro
-seu irmaõ em o sitio de Alfarrobeira, 321. Passou a Africa onde ganhou
-muitas Praças aos Mouros, de que se lhe originou o titulo de Africano,
-322. Com quem casou, _ibid._ Contendeo com D. Fernando de Aragaõ que
-o desbaratou na batalha de Toro, _ibid._ Passou a França a varias
-negociações, e intenta ir ver os Lugares Santos de Jerusalem, 323. Foy
-muy liberal, e o primeiro que ajuntou livraria em Palacio, _ibid._
-Filhos que teve, 400. Onde morreo, e onde jaz, 324.
-
-_D. Affonso VI._ Rey de Portugal chamado o _Victorioso_, quando nasceo,
-346. Foy acclamado Rey, e quando tomou posse, _ibid._ Alcançou contra
-Castella muitas victorias, especialmente a do Amexial, Canal, e Montes
-claros, _ibid._ Entregou-se todo às disposições de hum Antonio Conti,
-que o desencaminhava, 347. Casou com a Princeza Dona Maria Francisca
-Isabel de Saboya, _ibid._ Separou-se della por nullidade do Matrimonio,
-_ibid._ Foy deposto do governo, e em seu lugar se admittio o Principe
-D. Pedro seu irmaõ, _ibid._ Onde morreo, e onde jaz, 348.
-
-_Aguas celenas_, povoaçaõ antiga, onde ficava, 5. --_Flavias_, onde
-existiu, 6. --_Layas, ibid._
-
-_Agualva_, antigamente se chamou _Ceciliana_, 28.
-
-_Alanos_, seu dominio, 256.
-
-_Albofeira_, terra do Algarve, 37.
-
-_Alcacere do Sal_ antigamente _Salacia_, 29. He ganhada aos Mouros por
-ElRey D. Affonso II. 297.
-
-_Alcoutim_, onde existe, 37.
-
-_Alentejo_. Descreve-se esta Provincia, 72.
-
-_Alenquer_, antigamente se chamava _Jerabrica_ 28.
-
-_Alfayates_, Praça na Beira, 40.
-
-_Algarve_. Descreve-se esta Provincia, 77.
-
-_Almeida_, Praça na Beira, 40.
-
-_Almorol_, antigamente _Moro_, 29.
-
-_Alpalhaõ_, antigamente _Fraxinum_, 28.
-
-_Alvor_, antigamente chamado _Portus Anibalis_, 36.
-
-_Ambracia_, povoaçaõ antiga, 7.
-
-_Anibal_, suas acções em Portugal, 238.
-
-_D. Antonio_ Prior do Crato, de quem foy filho, e se oppoem à successaõ
-do Reino de Portugal, 337. Foy acclamado Rey em Santarem, 339. Entrou
-em Lisboa com o mesmo titulo, _ibid._ He destruido pelo Duque de Alva
-na ponte de Alcantara junto a Lisboa, _ibid._ Morreo em Pariz. _ibid._
-
-_Araduca_, povoaçaõ antiga, 7.
-
-_Araducta_, onde existia esta povoaçaõ, 8.
-
-_Aramenha_, antigamente _Medrobica_, 29.
-
-_Arcadio, e Honorio._ No governo destes Imperadores se acabou o dominio
-dos Romanos em Portugal, 244.
-
-_Armas de Portugal_, foraõ dadas por Christo ao primeiro Rey D. Affonso
-Henriques, 288.
-
-_Aricio Pretorio_, onde existio, 8.
-
-_Aroche_, povoaçaõ antiga, 8.
-
-_Arrayolos_, antigamente _Calantica_, 28.
-
-_Arrifana_, sua enteada, 36.
-
-_Atributus_ especiaes dos Portuguezes, 218.
-
-_Aveiro_. Descreve se a sua barra, 31.
-
-_Aves_ que ha no Reino, 164.
-
-_Azeite_ que ha em Portugal, 162.
-
-_Azeviche_ em que parte do Reino se acha, 175.
-
-
-=B=
-
-_Balfa_, Cidade antiga, 9.
-
-_Banquete publico_ que nas vodas do Principe D. Affonso fez ElRey D.
-Joaõ II. 430.
-
-_Barbaros_ quando invadiraõ Portugal, 254.
-
-_Barros_ excellentes que ha no Reino, 175.
-
-_Batalha_. Dos Arcos de Valdevez, 287. Do campo de Ourique, 288. A do
-Arganhal, 293. Das Navas, 296. De Alcacer do Sal, 297. A do Salado,
-307. A de Aljubarrota, 315. A de Alcantara junto a Lisboa, 339. A do
-Montijo, 344. A do Ameixial, Canal, e Montes claros, 346. A de Almança,
-350.
-
-_Baucio Capeto_, insigne Capitaõ da Turdetania, 237.
-
-_Béja_, antigamente se chamava _Paz Julia_, 29. Costume antigo que
-havia nos moradores desta Cidade quando cazavaõ seus filhos, 2l5.
-
-_Benis_, povoaçaõ antiga, 10.
-
-_Beira._ Descreve-se esta Provincia, 59.
-
-_Benavente_, antigamente se chamava _Aricio Pretorio_, 28.
-
-_Becelga_, Cidade antiga, 10.
-
-_Braga_, antigamente _Brachara Augusta_, 28.
-
-_Bragança_, seu sitio, 41.
-
-_Britenia_, povoaçaõ antiga, 10.
-
-
-=C=
-
-_Cabo de Espichel_, 35.
-
-_Caça_, e seu exercicio, 216. e 438.
-
-_Caldelas_, antiga povoaçaõ, 11.
-
-_Cale_ que significa, 3.
-
-_Callantia_, povoaçaõ antiga, 10.
-
-_Calliabria_, povoaçaõ antiga, 11.
-
-_Cambeto_, povoaçaõ antiga, 11.
-
-_Camareiro Mór_, sua obrigaçaõ, 424.
-
-_Caminha_, sua barra, 29.
-
-_Campos Elysios_ se na verdade os houve, e onde existiraõ, 12.
-
-_Campo Mayor_, sua Praça, 38.
-
-_Canace_, Cidade antiga do Algarve, 14.
-
-_Capara_, povoaçaõ antiga, 14.
-
-_Catalogo_ Chronologico dos Reys das Asturias que governaraõ Portugal,
-273.
-
-_Cauca_, povoaçaõ antiga, 15.
-
-_Cava_, ou _Florinda_, foy causa da ruina de Hespanha, 259.
-
-_Castro-Marim_, sua foz, 37.
-
-_Cartagineses_, quando entraraõ em Portugal, 236.
-
-_Cascaes_, seu porto, 32.
-
-_Ceciliana_, onde existio esta povoaçaõ, 15.
-
-_Chaves_, como se chamava antigamente, 28.
-
-_Christo crucificado_, apparece no Campo de Ourique a ElRey D. Affonso
-Henriques, 289.
-
-_Collipo_, foy Cidade antiga, onde hoje está Leiria, 18.
-
-_Coitadas_ do Reino, 438.
-
-_Comarcas._ De quantas consta a Provincia do Minho, 51. A de Tras os
-Montes, 57. A da Beira, 61. A da Estremadura, 70 A do Alentejo, 75. A
-do Algarve, 79.
-
-_Conceiçaõ da Senhora_, erecta em Padroeira do Reino, 345.
-
-_Copeiro Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 429.
-
-_Cortes._ Modo com que se celebraõ, 444.
-
-_Costumes dos Portuguezes._ Saõ naturalmente esforçados, e valerosos,
-201. Leaes a seus Soberanos, 202. Conquistadores, 204. Zelosos, e
-constantes na Religiaõ, 205. Aptos para as sciencias, 206. Pouco
-inclinados a aprender linguas estrangeiras, 208. Saõ pomposos nas
-occasiões publicas, _ibid._ Saõ imitadores das modas estrangeiras, 209.
-Nos trages saõ inconstantes, 210. Saõ muy namorados, 212. Muito dados à
-caça, 216. E ao combate de touros, _ibid._ Amaõ a Poezia, e a Musica,
-217.
-
-
-=D=
-
-_Descripçaõ_ circular do Reino, 29.
-
-_D. Diniz_ Rey de Portugal, chamado o _Lavrador_, quando nasceo, 302.
-Quando foy acclamado Rey, _ibid._ Casou com a Rainha Santa Isabel,
-303. Incorporou no Padroado Real todas as fazendas que havia doado
-injustamente, _ibid._ Teve discordias com seu irmaõ, _ibid._ Separou
-a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ de Castella, 304. Instituio
-em Lisboa a primeira Universidade de letras, _ibid._ Fundou o Real
-Mosteiro de Odivellas, e o de Santa Clara de Coimbra, e Villa do
-Conde, 304. Teve em summo gráo as virtudes da Justiça, verdade, e
-liberalidade, 305. Instituio rezarem-se no Paço as Horas Canonicas,
-_ibid._ Instituio a Ordem Militar de Christo, _ibid._ Foy chamado o
-_Pay da Patria_, e o _Lavrador_ pelo affecto que tinha à Agricultura,
-_ibid._ Teve no Reino algumas guerras civis, 306. Quantos filhos teve,
-387. Sua morte, e sepultura, 306.
-
-_D. Duarte_ Rey de Portugal chamado o _Eloquente_, onde, e quando
-nasceo, 318. Foy muito dado ao estudo das letras, _ibid._ Quando foy
-acclamado, e quando casou, _ibid._ Quiz resgatar seu irmaõ D. Fernando
-mas frustradamente, 319. Filhos que teve, 397. Sua morte, e sepultura,
-320.
-
-
-=E=
-
-_Eburobricio_, onde existio esta antiga povoaçaõ, 20.
-
-_Egas Moniz_ foy Ayo delRey D. Affonso Henriques, suas virtudes, 288.
-
-_Egitania_, Cidade antiga, 19.
-
-_Egoas_ que concebiaõ do vento, se as havia em Portugal, 97.
-
-_Elvas_, sua Praça, 38.
-
-_Embaixadores_, como eraõ recebidos, 442.
-
-_Empreza das mulheres_, foy huma insigne vitoria que alcançaraõ as
-Portuguezas do Minho contra os Cartaginezes, 238.
-
-_Eremitica vida_, teve principio na Provincia do Minho, 50.
-
-_Ervas_ medicinaes que ha em Portugal, 167.
-
-_Eritrea_, onde existio, 19.
-
-_Esposende_, sua barra, 30.
-
-_Estoi_, antigamente Ossonoba, 29.
-
-_Estrangeiros_, estimados dos Portuguezes, 209.
-
-_Estremadura._ Descreve-se esta Provincia, 67.
-
-_Evandria_, povoaçaõ antiga, 20.
-
-_Evora_, Cidade antigamente chamada _Liberalitas Julia_, 28.
-
-
-=F=
-
-_Faro_, sua barra, 37.
-
-_Fenices_, quando entraraõ em Portugal, 236.
-
-_Feira_, Villa antigamente chamada _Lancobriga_, 29
-
-_D. Fernando_ Rey de Portugal, chamado o _Formoso_, quando nasceo,
-309. A sua brandura o fez cair em muitas desordens, 310. Reedificou
-as Praças do Reino, _ibid._ Seus casamentos, _ibid._ Fez pazes com
-ElRey de Castella, 312. Cercou Lisboa de novos muros, _ibid._ Mudou
-a Universidade de Coimbra para Lisboa, _ibid._ Filhos que teve, 392.
-Quando morreo, 313.
-
-_D. Fernando_ filho delRey D. Joaõ I. ficou em refens na Praça de
-Tangere, 396. Morreo em Berberia, e jaz na Batalha, _ibid._
-
-_Fertilidade_ do Reino em geral, 160.
-
-_Fidalgos Portuguezes_, saõ reputados por vãos, 208.
-
-_Filippe II. III. IV._ Reys de Portugal, suas acções que obraraõ neste
-Reino, 340.
-
-_Filhamentos_, que cousa he, 422.
-
-_Filhos_ dos Senhores Reys Portuguezes, 376. até 420.
-
-_Flaviobriga_, povoaçaõ antiga, 20.
-
-_Flores_ de varias especies que nascem em Portugal, 167.
-
-_Florinda_ filha do Conde D. Juliaõ foy causa da destruiçaõ de
-Hespanha, 259.
-
-_Fome_ extraordinaria que houve na Hespanha, 235.
-
-_Fontes_ notaveis que ha em Portugal, 148.
-
-_Foro dos Limicos_, povoaçaõ antiga, 21. --_Dos Narbassos_, outra
-antiga povoação, _ibid._
-
-_Foros_ que ha na Casa Real, 422.
-
-_Frutas_ de varias castas que ha em Portugal, 164.
-
-
-=G=
-
-_Genio Portuguez._ Vide _Costumes_.
-
-_Gerabrica._ Vide _Jerabrica_.
-
-_Godos_, quando começaraõ a dominar em Portugal, 255. Catalogo dos Reys
-que governaraõ neste Reino, 263.
-
-_Governo_ antigo, e moderno da Casa Real, 421.
-
-_Guarda Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 425.
-
-_Guarda Real_, 433.
-
-_Guimarães_ cercada, e por quem, 288. Foy a antiga _Araduca_, 7.
-
-
-=H=
-
-_Dom Henrique_ Conde de Portugal quem foy, 282. Com quem casou, 284.
-Quando passou a Jerusalem, 285. Batalhas que venceo, 286. Filhos que
-teve, 376. Sua morte, e sepultura, 286.
-
-_D. Henrique_ Cardeal he acclamado Rey, 336. Sua morte, e sepultura,
-338.
-
-
-=I=
-
-_Jantar_ esplendido que deu o Senhor Rey D. Joaõ V. quando se desposou
-com a Serenissima Rainha Dona Maria Anna de Austria, 431.
-
-_Iberos_ Hespanhoes se foraõ primarios descendentes de Tubal, 222.
-
-_Idanha_, antigamente _Ægedita_, 28.
-
-_Jerabrica_, povoaçaõ antiga dos Romanos, 21.
-
-_Igrejas Cathedraes_ na Provincia do Minho, 50. Em Tras os Montes, 56.
-Na Beira, 61. Na Estremadura, 69. No Alentejo, 74. No Algarve, 78.
-
-_Incendio_ notavel que houve nos Pyrineos, 235.
-
-_D. Joaõ I._ Rey de Portugal chamado de _Boa memoria_, quando nasceo, e
-de quem era filho, 314. Antes de ser Rey matou ao Conde Joaõ Fernandes
-Andeiro, _ibid._ Foy declarado pelo povo Defensor, e Governador do
-Reino, _ibid._ Foy acclamado Rey em acto de Cortes, 315. Triunfou dos
-Castelhanos na famosa batalha de Aljubarrota, _ibid._ Com quem casou,
-316. Foy expugnar Ceuta, _ibid._ Mandou supprimir a antiga computaçaõ
-da Era de Cesar, e que se usasse da Epoca do Nascimento de Christo,
-_ibid._ Erigio em Metropolitana a Cathedral de Lisboa, 317. Templos que
-edificou, _ibid._ Obras insignes que fez, _ibid._ Filhos que teve, 393.
-Sua morte, e sepultura, 318.
-
-_D. Joaõ II._ Rey de Portugal chamado _Perfeito_, quando nasceo, 324.
-Com quem casou, _ibid._ Quando foy acclamado Rey, _ibid._ Mandou
-degolar ao Duque de Bragança, por ser comprehendido em huma conjuraçaõ
-contra elle, 325. Seu caracter, _ibid._ Foy opposto aos jogadores,
-326. Templos que edificou, _ibid._ Dispoz a formalidade de Coro na
-sua Capella, _ibid._ Descobrimentos que se fizeraõ em seu tempo,
-_ibid._ Filhos que teve, 401. Sua morte, 327. Jaz seu corpo na Batalha
-incorrupto, _ibid._
-
-_D.Joaõ III._ Rey de Portugal chamado _Piedoso_, quando nasceo, 330.
-Quando, e onde foy acclamado Rey, 331. Fez muitas conquistas na India,
-e largou muitas Praças de Africa aos Mouros, _ibid._ Introduzio no
-Reino o Tribunal da Inquisiçaõ, _ibid._ Reformou muitas Religiões, e
-admittio em Portugal a dos Jesuitas, _ibid._ Removeo a Universidade
-para Coimbra, _ibid._ Obras insignes que fez, 332. Com quem casou, 369.
-Filhos que teve, 407. Sua morte, e sepultura, 332.
-
-_D. Joaõ IV._ Rey de Portugal chamado _Restaurador_, quando nasceo,
-343. Com quem casou, _ibid._ Foy acclamado Rey em Lisboa, 344. Alcançou
-muitas vitorias contra os Castelhanos, _ibid._ Castigou os cabeças de
-varias conjurações, 345. Institue muitos Tribunaes, _ibid._ Tomou em
-acto de Cortes por Protectora do Reino a Maria Santissima da Conceiçaõ,
-_ibid._ Filhos que teve, 413. Sua morte, e sepultura, 346.
-
-_D. Joaõ V._ Rey de Portugal _Fidelissimo_, quando nasceo, 350. Em que
-dia foy acclamado Rey, _ibid._ Celebra pazes com Castella, _ibid._ Com
-quem casou, 351. Erigio em Basilica Patriarcal a sua Real Capella, 352.
-Mandou hum grande soccorro a favor da Igreja contra o Turco, _ibid._
-Instituio a Academia Real da Historia Portugueza, 353. Erigio varios
-Bispados de novo, _ibid._ Templos, e edificios que fabricou, 354.
-Obteve do Papa Benedicto XIV. o indulto de poderem os Sacerdotes dos
-seus Dominios celebrar cada hum tres Missas no dia da Commemoraçaõ dos
-Fieis defuntos, 355. Filhos que teve, 419. Morte, e sepultura, 355.
-
-_D. Joseph I._ Rey de Portugal _Fidelissimo_, quando nasceo, 357.
-Quando foy acclamado Rey, 356. Quando, e com quem casou, 357. Leys
-que tem promulgado, _ibid._ Restaura o exercicio das letras com
-melhores methodos, extinguindo o magisterio aos Jesuitas, _ibid._ No
-extraordinario terremoto de Lisboa, se houve magnanimamente, 358.
-Escapou milagrosamente de tres tiros com que o queriaõ matar, 358. Faz
-justiçar os delinquentes no Caes de Belém, _ibid._ Resiste às Tropas
-Castelhanas que injustamente invadiraõ Portugal _ibid._ Admitte para
-Generalissimo das suas Armas ao Conde Soberano de Lippe Guilherme de
-Schaumburg, 359. Filhos que tem, 420.
-
-_Julio Cesar_ veyo à conquista de Portugal, 242.
-
-
-=L=
-
-_Lacobriga_ povoaçaõ antiga onde hoje he Lagos, 21.
-
-_Lagos_, seu porto, 36.
-
-_Lagoas_ mais notaveis que ha no Reino, 81.
-
-_Lamego_, antigamente _Lama_, 29.
-
-_Legoas_ que tem Portugal de comprido, e de largo, 2.
-
-_Leiria_, antigamente _Collipo_, 28.
-
-_Lingua Portugueza._ A primeira que se fallou em Portugal foy a dos
-Turdulos que Tubal communicou, 193. Muitos se capacitaõ que fora a
-Hebraica, outros a Vasconça, ou Biscainha, _ibid._ Conforme foraõ as
-Nações que dominaraõ em Portugal, assim foy a lingua que se fallou,
-194. Pela entrada dos Godos entrou tambem neste Reino a lingua
-Portugueza, _ibid._ He misturada com vocabulos de outros idiomas, 196.
-No tempo delRey D. Diniz começou a adquirir mayor perfeiçaõ, _ibid._
-Participa de todas as circunstancias para ser perfeita, _ibid. & seq._
-
-_Lisboa_, antigamente _Olisipo_, ou _Fælicitas Julia_, 29. Descreve-se
-a sua barra, 32. Todos os seus portos pelo Tejo, 33.
-
-
-=M=
-
-_Magneto_, Cidade antiga, 22.
-
-_D. Manoel_ Rey de Portugal, chamado _Venturoso_, quando nasceo, 327.
-Quando foy coroado, 328. Embaixadas que mandou ao Papa Alexandre VI.
-_ibid._ E a Leaõ X. 330. Expulsou fora do Reino aos Judeos, _ibid._ Com
-quem casou, _ibid._ Accrescentou ao seu Imperio muitas terras da India,
-que no seu tempo se descobriraõ, 329. Libertou o Estado Ecclesiastico
-de muitos tributos, _ibid._ Foy jurado Rey de Castella, _ibid._ Templos
-que fundou, _ibid._ Filhos que teve, 403. Sua morte, e sepultura, 330.
-
-_Mappa_ do que comprehendem as seis Provincias de Portugal, 80.
-
-_Marco_ de ouro, e prata que valor tem tido em todos os Reinados, 192.
-
-_Merobriga_, povoaçaõ antiga, 22.
-
-_Mertola_ onde existe, 38.
-
-_Mestre-Sala_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 428.
-
-_Mineraes_ que ha no Reino, 169.
-
-_Minho._ Descreve-se esta Provincia, 45.
-
-_Miranda do Douro_, antigamente _Concia_ 28. Seu sitio, 41.
-
-_Moedas_ de varios metaes que se tem lavrado em Portugal, 177.
-
-_Mondego_, sua barra, 31.
-
-_Monsanto_, 39.
-
-_Montes_ que ha no Reino, 81.
-
-_Monteiro Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 438.
-
-_Mordomo Mór_, sua dignidade, e obrigaçaõ, 421.
-
-_Morte_ dos Reys como se publicava, 446.
-
-_Moura_, antigamente _Arucitana_, 28.
-
-_Mouros_, quando invadiraõ a Portugal, 269.
-
-_Mulheres Portuguezas_, seu valor, 238.
-
-_Municipios_ o que eraõ, e quantos havia em Portugal, 44.
-
-
-=N=
-
-_Nabancia_, povoaçaõ antiga junto a Thomar, 23.
-
-_Nomes Latinos_ de algumas povoações de Portugal, 28.
-
-_Norba Cesarea_, onde existio, 23.
-
-_Numancia_, onde existio esta famosa Cidade, 23.
-
-_D. Nuno Alvares Pereira_ Condestavel de Portugal. Suas proezas, 315.
-
-
-=O=
-
-_Obidos_, sua grande lagoa, 133.
-
-_Obobriga_, povoaçaõ antiga, 24.
-
-_Octaviano Augusto_ conciliou a paz em Portugal, 262.
-
-_Odemira_, sua barra, 36.
-
-_Ordens Militares_ que instituio ElRey D. Affonso, 292.
-
-_Ossel_, onde existio, 24.
-
-_Ossonoba_, foy povoaçaõ antiga no Algarve, 25.
-
-_Ourique_, celebre campo do Alentejo onde ElRey D. Affonso Henriques
-alcançou huma grande vitoria contra os Mouros, 288.
-
-
-=P=
-
-_Panonias_, onde existio esta antiga povoaçaõ, 26.
-
-_Pederneira_, sua enseada, 32.
-
-_Pedras preciosas_, que se achaõ em muitas terras de Portugal, 172.
-
-_D. Pedro I._ Rey de Portugal, chamado _Justiceiro_, quando nasceo,
-308. Quando foy acclamado, _ibid._ Vingança que tomou dos que mataraõ
-Dona Ignez de Castro, _ibid._ Demonstraçaõ publica que fez de ser Dona
-Ignez sua legitima mulher, 309. Caracter deste Rey, _ibid._ Filhos que
-teve, 390. Sua morte, e sepultura, 309.
-
-_D. Pedro II._ Rey de Portugal, chamado _Pacifico_, quando nasceo, 348.
-Quando se intitulou Rey, _ibid._ Seus casamentos, _ibid._ Seu caracter,
-349. Bispados que de novo erigio, _ibid._ Entrou na grande alliança com
-o Imperador, Inglaterra, e Hollanda, _ibid._ Rompe guerra com Castella
-para onde foy em pessoa por introduzir Carlos III. Rey de Hespanha,
-_ibid._ Filhos que teve, 415. Sua morte, e sepultura, 350.
-
-_Peixe_, abundancia delle que ha em Portugal, 168.
-
-_Penagarcia_, Seu Castello, 39.
-
-_Penamacor_, seu Castello, 39.
-
-_Pertendentes_ de Portugal quaes foraõ depois do Cardeal Henrique, 337.
-
-_Pineto_, povoaçaõ antiga, 26.
-
-_Portalegre_, antigamente _Amæa_, 28.
-
-_Porto_, antigamente _Calem_, 28. Sua barra, 31.
-
-_Portos_ que ha no Tejo, 34.
-
-_Portuguezes_, seu genio, e costumes, 201. Attributos proprios, 218.
-
-_Povoadores_ primeiros de Portugal, 225.
-
-_Pretores Romanos_ no governo de Portugal, 241.
-
-_Provincias_ antigas, e modernas de Portugal, 43.
-
-_Punhete_, antigamente _Moro_, 29.
-
-
-=R=
-
-_Rainhas_ de Portugal, 362. & seq.
-
-_Reys_ das Austurias que governaraõ Portugal, 273.
-
-_Reposteiro Mór_, sua dignidade, 426.
-
-_Rios._ Do Minho, 48. De Tras os Montes, 56. Da Beira, 60. Da
-Estremadura, 68. Do Alentejo, 73. Do Algarve, 78. Dos mais notaveis que
-ha no Reino, 99. _& seq._
-
-_D. Rodrigo_ ultimo Rey Godo, sua ruina, 259.
-
-_Romanos_, quando invadiraõ, e se senhorearaõ de Portugal, 241.
-
-_Rosmaninhal_, sua Praça, 38.
-
-
-=S=
-
-_Sabugal_, seu Castello, 40.
-
-_Sagres_, sua enseada, 36.
-
-_Sal_, abundancia della que ha em Portugal, 176.
-
-_Salacia_, onde existio esta povoaçaõ, 26.
-
-_Salvaterra da Beira_, seu Castello, 39.
-
-_D. Sancho I._ Rey de Portugal, chamado _Povoador_, quando nasceo, 293.
-Com quem casou, _ibid._ Acções que obrou antes de Rey, 294. Quando foy
-acclamado, _ibid._ Conquistou o Algarve, _ibid._ Templos, e edificios
-que erigio, 295. Filhos que teve, 379. Sua morte, e sepultura, 295.
-
-_D. Sancho II._ Rey de Portugal, chamado _Capelo_, quando nasceo, 298.
-Quando entrou a governar, _ibid._ Recuperou muitas Praças do Alentejo
-que os Mouros nos tinhaõ usurpado, _ibid._ Opprimio muito o Estado
-Ecclesiastico, por cujo motivo Innocencio IV. o depoz do governo,
-_ibid._ Substituio-lhe seu irmaõ D. Affonso, 299. Recolheo-se a Toledo
-onde morreo, _ibid._
-
-_Santarem_, antigamente _Scalabis_, ou _Præsidium Julium_, 29.
-
-_Santiago de Cacem_, antigamente _Merobriga_, 29.
-
-_D. Sebastiaõ_ Rey de Portugal, chamado o _Desejado_, quando nasceo,
-333. Quando tomou posse do Reino, _ibid._ Seu caracter, _ibid._ Passou
-a Africa a primeira vez, 334. Foy segunda vez soccorrer a Hamet,
-onde ficou destruido, e todo o seu exercito, 335. Jaz seu corpo com
-incerteza no Convento de Belém, _ibid._
-
-_Secca_ extraordinaria que houve na Hespanha, 235.
-
-_Serras_ que ha no Reino, 81.
-
-_Setubal_, antigamente _Cetobriga_, 28. Sua barra, 36. Foy fundada por
-Tubal, 224.
-
-_Sines_, seu surgidouro, 36.
-
-_Suevos_, Catalogo dos seus Reys que governaraõ Portugal, 261.
-
-
-=T=
-
-_Talabrica_, foy povoaçaõ onde hoje he Aveiro, 27.
-
-_Tapada_ de Mafra, e Villa Viçosa, 441.
-
-_Tavira_, antigamente chamada _Balsa_, 28. Sua barra, 37.
-
-_Templos_ que os Portuguezes erigiraõ ao Imperador Octaviano Augusto,
-253.
-
-_Trage Portuguez_, 210.
-
-_Tras os Montes._ Descreve-se esta Provincia, 55.
-
-_Trigo_ que ha em Portugal, 160.
-
-_Trinchante_, sua dignidade, 428.
-
-_Tubal_, seus descendentes foraõ os primeiros povoadores de Portugal,
-222.
-
-_Tubuci_, povoaçaõ antiga, 27.
-
-_Tuntobriga_, onde existio esta povoaçaõ, 27.
-
-
-=U=
-
-_Vaca_, povoçaõ antiga, 27.
-
-_Valença_, fronteira a Cidade de Tuy, 41.
-
-_Uchaõ_, que occupaçaõ era na Casa Real, 429.
-
-_Veador da Casa_, sua dignidade, 426.
-
-_Viana de Caminha_, descreve-se a sua barra, 30. ----_Do Conde_, sua
-barra, _ibid._
-
-_Villas_ de que consta a Provincia do Minho, 52. A de Tras os Montes,
-56. A da Beira, 63. A da Estremadura, 71. A do Alentejo, 75. A do
-Algarve, 79.
-
-_Vinho_ que ha em Portugal, 162.
-
-_Viola_, instrumento proprio dos Portuguezes, 217.
-
-
- =FIM.=
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- =LICENÇAS=
-
-
- Do Santo Officio.
-
-Pódem-se reimprimir os cinco Tomos, de que se faz menção, e depois
-voltaráõ conferidos para se dar licença que corraõ, sem a qual naõ
-correraõ. Lisboa, 23 de Abril de 1762.
-
-_Trigoso._ _Lima._
-
-
-Do Ordinario.
-
-Póde-se reimprimir os Tomos de que trata a petiçaõ, e depois tornem
-para se dar licença para correr. Lisboa, 23 de Abril de 1762.
-
-_D. J. Arceb. Lacedemonia._
-
-
-Do Desembargo do Paço.
-
-Que se possaõ reimprimir, e depois de impressos tornaraõ conferidos
-para as licenças de correr. Lisboa, 24 de Abril de 1762.
-
-_Carvalho._ _Emaús._ _D. Velho._ _Affonseca._
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E
-MODERNO, TOMO 1 (OF 3) ***
-
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- Mappa de Portugal, by Joao Bautista de Castro—A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3)</span>, by João Bautista de Castro</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Mappa de Portugal antigo, e moderno, tomo 1 (of 3)</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>Parte I, II</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: João Bautista de Castro</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: January 25, 2023 [eBook #69878]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E MODERNO, TOMO 1 (OF 3)</span> ***</div>
-
-
-
-<h1>MAPPA<br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL</span></h1>
-
-<p class="center">ANTIGO, E MODERNO</p>
-
-<p class="center small">PELO PADRE</p>
-
-<p class="center big">JOAÕ BAUTISTA</p>
-
-<p class="center">DE CASTRO,</p>
-
-<p class="center small">Beneficiado na Santa Basilica Patriarcal de Lisboa.</p>
-
-<p class="center big">TOMO PRIMEIRO.</p>
-
-<p class="center">PARTE I. E II.</p>
-
-<p class="center"><i>Nesta segunda ediçaõ revisto, e augmentado pelo seu mesmo Author: e
-contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que
-toca à sua Historia Secular, e Politica.</i></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
-<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa">
-</span></p>
-<p class="center p2 big">LISBOA,</p>
-
-<p class="center">Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno.</p>
-<hr class="r5">
-<p class="center small">M.DCC.LXII.</p>
-
-<p class="center small"><i>Com as licenças necessarias, e Privilegio Real.</i><span class="pagenum" id="Page_ii">[Pg ii]</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002">
-<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Imagem decorativa">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO_A_OBRA">INTRODUCÇAÕ Á OBRA.</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Entrey</span> na laboriosa empreza deste Mappa naõ só para instruir aos
-Nacionaes principiantes, mas especialmente para informar com
-individuaçaõ sincéra aos estrangeiros do estado verdadeiro do nosso
-Paiz; considerando, que só assim poderiamos atalhar os continuos erros,
-e descuidos, que se observaõ ainda nos Authores modernos, que sem
-conhecimento das nossas terras chegaõ a fallar de Portugal.</p>
-
-<p>Elles attribuem esta ignorancia à falta de quem lhes communique huma
-exacta Geografia do nosso Continente, e ao menos hum epitome historico
-das mais importantes, e publicas acções. Atrevi-me a cultivar este
-meu projecto, naõ obstante verme suspenso com o embaraço de naõ ter
-cabedal sufficiente para desempenhar a idéa; porém como ha assumptos,
-cuja utilidade unida à boa intençaõ do Escritor<span class="pagenum" id="Page_iii">[Pg iii]</span> costuma supprir os
-defeitos da Obra, cheguey a publicar cinco partes, que correndo pelo
-mundo, tiveraõ a felicidade do benigno acolhimento que experimentaraõ
-dos curiosos.<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a></p>
-
-<p>Agora porém que se fez precisa esta nova, e segunda ediçaõ por falta de
-exemplares da primeira, achey conveniente augmentalla com opportunos
-retoques, e novas especies proprias do assumpto; entre as quaes me
-pareceo indispensavel fazer algumas observações sobre o Mappa.</p>
-
-<p>Com razaõ disse Justo Lipsio<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> que o invento dos Mappas fora a mais
-engenhosa idéa em que os homens tinhaõ dado; pois em breve espaço, e a
-huma vista nos mostra todo o mundo, e por elle conhecemos o sitio, e
-grandeza de cada Reino, Provincia, ou Lugar. Attribue-se esta invençaõ
-aos Egypcios, e particularmente a ElRey Sesostris, como diz Diodoro
-Siculo<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> posto que Diogenes dê a primazia a Anaximandro<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> discipulo
-de Thales Milesio.</p>
-
-<p>Porém ou fosse hum, ou outro, he infallivel que os Mappas naquelle
-tempo naõ eraõ delineados, como agora saõ as Cartas Geograficas,
-mas eraõ humas Taboas dispostas em columnas, em que se demarcava a
-altura das terras; assim como vemos nas de Ptolomeu, e nas chamadas
-Theodosianas.<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> Depois se foraõ<span class="pagenum" id="Page_iv">[Pg iv]</span> expressando em globos, ou esferas, de
-que faz mençaõ o mesmo Ptolomeu,<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> e de Roma se divulgou este uso para
-todas as mais terras do Universo.</p>
-
-<p>Costumaõ pois os Mappas ser ordinariamente delineados em dous circulos,
-que representaõ dous meyos globos com huma linha que os atravessa
-pelo meyo, que significa a Equinocial, e elles o globo terrestre
-expressado em plano. No alto está o Polo Arctico, a que tambem chamaõ
-Polo Septentrional, ou do Norte. Na parte mais infima está outro Polo
-chamado Antarctico, ou do Sul. Á maõ direita fica o Oriente, e à
-esquerda o Occidente.</p>
-
-<p>Para cada huma das partes da Equinocial correm outras duas linhas, que
-significaõ os Tropicos. A que está para a parte do Norte he o Tropico
-de Cancro; e a que está para a parte do Sul he o de Capricornio. A
-linha que corre obliquamente de hum dos Tropicos para o outro, cortando
-a Equinocial, significa a Ecliptica; ainda que esta naõ se pinta em
-todos os Mappas.</p>
-
-<p>As linhas, ou riscos que correm de Norte a Sul, denotaõ os gráos de
-longitude, e as que correm de Nascente a Poente, cortaõ, e mostraõ os
-gráos de latitude, os quaes começaõ da linha Equinocial, e acabaõ de
-huma parte do Norte, da outra no Sul. De modo, que da Equinocial para
-o Norte ficaõ oito linhas das sobreditas, as quaes estaõ distantes
-huma<span class="pagenum" id="Page_v">[Pg v]</span> da outra 10. gráos; e assim denotaõ os 90. gráos, que ha da linha
-Equinocial ao Norte. Na mesma fórma se contaõ outras tantas linhas da
-Equinocial para o Sul.</p>
-
-<p>Estas linhas, em que se mostraõ os gráos, tambem costumaõ escreverse
-pela orla dos Mappas; e advirta-se que as linhas de Norte-Sul, ou
-Meridianos, sempre se vaõ chegando humas a outras cada vez mais, quanto
-mais se vaõ chegando para algum dos Polos: e assim desde que passaõ da
-Equinocial, nunca os gráos tem a mesma quantidade; donde he certo, que
-as terras, que estaõ v. g. debaixo do circulo Arctico, naõ podem estar
-entre si taõ remotas, como as que estaõ debaixo da Equinocial, ou de
-cada num dos Tropicos.</p>
-
-<p>O mais util dos Mappas he a intelligencia da sua graduaçaõ; para o
-que se ha de saber, que o gráo he o espaço de 18. leguas.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> E foy
-necessario inventar a conta dos gráos, para declarar a parte onde está
-arrumada a Cidade, ou Lugar que queremos saber, e onde o havemos buscar
-no Mappa; e para isto he preciso naõ só o gráo de altura, ou latitude,
-mas o de Leste-Oeste, ou de longitude.</p>
-
-<p>Chama-se gráo de latitude, porque ainda que o Mundo seja redondo, e nos
-globos naõ haja mais largura que comprimento, com tudo como estes gráos
-se contém da linha para cada hum dos Polos, a este respeito se diz esta
-a largura, ou latitude do mundo; e contém<span class="pagenum" id="Page_vi">[Pg vi]</span> sómente a quarta parte do
-comprimento. Desorte que tendo o mundo 360. gráos de comprimento, ou de
-Leste-Oeste, tem só da linha para o Norte 90., e outros tantos da linha
-para o Sul.</p>
-
-<p>Os gráos de altura começaõ da linha; desorte que se estivermos 18.
-leguas affastados da linha para o Norte, diremos que estamos em hum
-gráo de altura do Polo da parte do Norte: e se estivermos 36. leguas,
-diremos que estamos em dous gráos de altura do Polo; e daqui por diante
-até 90. gráos: e do mesmo modo da parte do Sul. Chamaõ-se gráos de
-altura do Polo, porque assim como elles vaõ crescendo, assim se vay
-levantando para nós o Polo sobre o Horizonte.</p>
-
-<p>Saõ os gráos de longitude, ou comprimento 360., e porque de Oriente
-para Occidente, ou vice versa, naõ ha final algum fixo, a respeito
-do qual se podessem assentar os gráos, e começar a conta delles,
-de consentimento de homens sabios, huns assentaraõ o principio, e
-fim desses gráos na Ilha do Corvo, outros na de Tenarife; porém
-modernamente o estabeleceraõ na Ilha do Ferro, que he a mais Occidental
-das Canarias, e corre do Occidente para o Oriente.<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p>
-
-<p>Para assentar estas distancias, e gráos, foy necessario o conhecimento
-dos eclipses da Lua; porque como sejaõ no mesmo ponto em toda a parte,
-Ptolomeu, e outros companheiros<span class="pagenum" id="Page_vii">[Pg vii]</span> desejosos de alcançar quantos gráos
-huma terra ficava mais oriental que outra, nos tempos em que haviaõ
-succeder os eclipses se hiaõ àquelles lugares, e observavaõ a hora da
-noite, que nelles era o eclipse, e sabida ella, ficavaõ entendendo
-quanto huma terra estava mais oriental que outra; porque aquelles
-lugares onde o eclipse apparecia mais tarde, he certo que ficavaõ
-mais orientaes, pois nelles mais cedo anoitece, que nos outros mais
-occidentaes.</p>
-
-<p>Todavia parece que nestes gráos, e no assento dos lugares, e terras a
-respeito delles naõ póde haver muita certeza; porque ella naõ podia
-acharse senaõ pela dita experiencia, que naõ seria possivel fazerse em
-todos os lugares; e menos naquelles que depois se descobriraõ. Assim
-advertimos que nos Mappas se acha entre huns, e outros diversidade nos
-gráos de longitude, porque huns principiando por differente Meridiano
-poem os lugares em mais, outros em menos gráos. Vê-se isto nesta
-observaçaõ que fiz sobre a longitude de Lisboa, segundo as Cartas
-Geograficas de varios Authores.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_viii">[Pg viii]</span></p>
-
-<p class="center caption"><i>Altura de Polo de Lisboa conforme diversos Geografos nas Cartas de
-Portugal.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th class="tdr">Latitud.</th><th class="tdr">Longit.</th><th class="tdr">Carta Geografica de</th></tr>
-<tr><td class="tdr">gr. m.</td><td class="tdr">gr. m.</td><td></td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 58.</td><td class="tdr">7. 12.</td><td class="tdr">Fernando Alvares Seco.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 26.</td><td class="tdr">9. 54.</td><td class="tdr">Mons. Sanson.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 33.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Du-Val.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 53.</td><td class="tdr">10. 5.</td><td class="tdr">Pedro Mortier.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 55.</td><td class="tdr">5. 15.</td><td class="tdr">Francisco Halma.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">7. 45.</td><td class="tdr">Carlos Allard.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">10. 14.</td><td class="tdr">Joaõ de Ram.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">7. 42.</td><td class="tdr">Nicoláo Vischer.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 35.</td><td class="tdr">7. 37.</td><td class="tdr">P. Placido Agostinho.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">12.&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;</td><td class="tdr"> Joaõ Bautista Lavanha.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 35.</td><td class="tdr">9. 52.</td><td class="tdr">Joaõ Bautista Nolim.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">8. 6.</td><td class="tdr">Mons. Tailot.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 50.</td><td class="tdr">9. 45.</td><td class="tdr">Jacome Canteli.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">12.&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;</td><td class="tdr"> Gaspar Baillieu.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">9. 12.</td><td class="tdr">Joaõ Bautista Homannu.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">7.&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;</td><td class="tdr"> Pedro Teixeira.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 48.</td><td class="tdr">9. 15.</td><td class="tdr">Manoel Pimentel.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 45.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Capassi.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 39.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Dechales.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">38. 40.</td><td class="tdr">......</td><td class="tdr">P. Ricciolo, e Tosca.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">39. 38.</td><td class="tdr">5. 10.</td><td class="tdr">Petavio.</td></tr>
-</table>
-
-<p>Desorte que em todas as Cartas Geograficas se encontra differença
-nas longitudes. Advirto que para a formatura d’este Mappa me vali da
-Carta de Joaõ Bautista Homannu impressa no anno de 1736, por ser a que
-mais se ajusta às<span class="pagenum" id="Page_ix">[Pg ix]</span> computações da Arte de navegar do nosso insigne
-Cosmografo Manoel Pimentel, tidas pelas mais exactas.</p>
-
-<p>Da intelligencia do gráo de longitude em que estiver algum lugar,
-segue-se o effeito de se saber quanto está oriental, ou occidental a
-respeito de outros, e quantas leguas ha de hum a outro, estando na
-mesma altura de Polo, contando 18. leguas por cada gráo nas terras
-que ficaõ perto da linha. Segue-se tambem saberse quanto nasce, ou se
-poem o Sol mais cedo em huma terra, que em outra; pois naquella que
-está mais oriental hum gráo que outra, nasce, e se poem o Sol primeiro
-quatro minutos de hora: e na que está mais oriental 15. gráos, nasce,
-e se poem o Sol huma hora primeiro. Isto se entende em iguaes alturas
-do Polo; por quanto póde huma terra ser mais occidental que outra,
-e nascer-lhe muito mais cedo o Sol no Veraõ, por causa da sua mayor
-altura do Polo.</p>
-
-<p>Mayores effeitos resultaõ do conhecimento dos gráos de latitude; porque
-se sabe se o lugar está muito chegado à linha, ou pelo contrario ao
-Norte; se a terra será quente, temperada, ou fria: se a gente será
-alva, negra, ou morena, segundo a observaçaõ ordinaria fundada na mayor
-visinhança, ou distancia do Sol. Tambem fica manifesta a quantidade dos
-dias do anno; porque quanto menos saõ os gráos de altura, tanto mais
-saõ iguaes os dias com as noites.</p>
-
-<p>Finalmente do conhecimento do gráo de<span class="pagenum" id="Page_x">[Pg x]</span> longitude, e latitude juntamente
-resulta numa apta noticia para buscar no Mappa a terra que sabemos está
-em tal gráo, e as leguas que dista huma da outra. Mas porque he util
-saber a diversidade que ha de medidas itinerarias, conforme as varias
-accepções das Provincias, informarey dellas com a melhor exacçaõ que me
-foy possivel extrahir dos Authores.</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><td class="tdl"><i>Braça Portugueza.</i></td><td class="tdl">10. palmos de craveira, ou 6.
-pés, ou 80. polegadas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Covado Portuguez.</i></td><td class="tdl">3. palmos, ou 2. pés Portuguezes</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Dedo.</i></td><td class="tdl">4. grãos de cevada lateralmente
-unidos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Gráo em Portugal.</i></td><td class="tdl">18. leguas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Em Alemanha</i></td><td class="tdl">10. leguas das grandes: 12. das
-medianas: 15. das pequenas,
-conforme diz Briecio; porém
-segundo Cluverio em Alemanha
-hum gráo da Esfera corresponde
-na terra a 5. leguas das
-grandes, ou a 10. das medianas,
-ou a 15. das pequenas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Em Italia.</i></td><td class="tdl">60. milhas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Em França.</i></td><td class="tdl">20. leguas das grandes, e 25.
-das commuas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Em Inglaterra.</i></td><td class="tdl">27. leguas das grandes: 50. das
-medianas: 60. das pequenas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Legua Portugueza.</i></td><td class="tdl">28168. palmos craveiros, ou
-2818. braças de 10. palmos<span class="pagenum" id="Page_xi">[Pg xi]</span> cada huma, ou 3000. milhas Italicas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Alemã grande.</i></td><td class="tdl">6000. passos geometricos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Mediana.</i></td><td class="tdl">5000. passos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Pequena.</i> </td><td class="tdl">4000. passos, segundo Briecio.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Italica.</i> </td><td class="tdl">1000. passos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Franceza.</i> </td><td class="tdl">3000. passos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Ingleza.</i> </td><td class="tdl">2181. passos geometricos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Castelhana.</i> </td><td class="tdl">O mesmo que a Portugueza.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Milha.</i> </td><td class="tdl">1000. passos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Palmo craveiro</i> </td><td class="tdl">8. polegadas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Passo commum</i> </td><td class="tdl">4. palmos e meyo, ou 3. pés.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Andante.</i> </td><td class="tdl">3. palmos, ou dous pés.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Geometrico</i></td><td class="tdl">7. palmos e meyo de craveira escassos, ou 5. pés geometricos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Pé Portuguez.</i></td><td class="tdl">12. polegadas, ou palmo e meyo de craveira.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Francez.</i> </td><td class="tdl">O mesmo.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Polegada.</i> </td><td class="tdl">10. pontos, ou linhas.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Toeza.</i></td><td class="tdl">6. pés Regios. He propriamente medida Franceza.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Vara Portugueza.</i></td><td class="tdl">5. palmos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl">—<i>Valenciana.</i> </td><td class="tdl">4. palmos.</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Verga.</i> </td><td class="tdl">10. pés geometricos.</td></tr>
-</table>
-
-<p>Entendida a configuraçaõ dos Mappas, ou Cartas Geograficas universaes,
-facilmente se entendem as particulares; as quaes se forem<span class="pagenum" id="Page_xii">[Pg xii]</span> de hum
-Reino, se chamaõ Corograficas; e se representarem huma só Provincia, ou
-Cidade, se chamaõ Topograficas. Nestas, para se saber a distancia que
-ha de hum lugar a outro, o modo mais facil he applicar no Mappa hum pé
-do campasso ao centro da cifrasinha, que em todos os lugares costuma
-vir expressada na sua verdadeira situaçaõ local, e o outro pé à outra
-terra; e depois transferindo assim o compasso aberto ao petipé, ou
-escala das leguas, que se poem na parte mais desembaraçada da Carta,
-este lhe mostrará a distancia.</p>
-
-<p>Porém se a distancia dos lugares achados for mayor na abertura do
-compasso, que a graduaçaõ do petipé, entaõ se tomará neste huma
-distancia arbitraria de 10. ou 20. leguas, e transferindo o compasso ao
-corpo do Mappa, irá regulando por linha recta de hum a outro lugar, até
-fazer justa a mediçaõ.</p>
-
-<p>Ha outros modos de achar a distancia de hum lugar a outro, sabidas
-as suas latitudes, e longitudes verdadeiras, os quaes modos ensina a
-Trignometria por via das Taboadas dos senos, e tangentes. Tambem pelo
-quarto de circulo de reduçaõ, sabidas as differenças das latitudes, e
-longitudes, he muito facil, e exacto, cujo uso se póde ver na Arte de
-navegar do famoso Manoel Pimentel.</p>
-
-<p>Pelo exame, e calculo destes modos formey as Taboas Topograficas,
-e itinerarias das principaes terras de Portugal, advertindo que as
-distancias das leguas de hum lugar a outro em as ditas Taboas saõ
-tiradas por linha<span class="pagenum" id="Page_xiii">[Pg xiii]</span> recta, conformando-me com as Cartas Geograficas de
-Pedro Teixeira, e Joaõ Bautista Homannu, como já disse.</p>
-
-<p>No mais estou certo, que assim como descubro defeitos nas Obras dos
-outros, naõ ficarey tambem isento da censura, e reparos que os doutos
-me fizerem, a cujo racionavel juizo me submeto; esperando que as
-suas advertencias me sirvaõ de instrucçaõ para a emenda. Sobre tudo
-protesto naõ haver escrito nesta Obra palavra, ou clausula que naõ seja
-totalmente sujeita à correcçaõ da Santa Igreja Catholica Romana, a cujo
-infallivel dictame rendo de boa vontade o meu entendimento.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003">
-<img src="images/003.jpg" class="w10" alt="Imagem decorativa">
-</span></p>
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Veja-se ao P. Azeved. no Trat. <i>Ilias in nuce</i> pag.
-52.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Lips. lib. 2. epist. 51.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Diod. Sicul. l. 1. sect .2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Laertius in ejus vita.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Ælian. l. 3. c. 28. apud Cellar. lib. 1. c. 1. Geograph.
-antiq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Ptolom. lib. 1. c. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Pimentel na Arte de Navegaçaõ part. 1. c. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Vallemont nos Elem. da Histor. l. 2. c. 3.</p>
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_xiv">[Pg xiv]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="INDICE"><span class="big">INDICE</span><br>DOS CAPITULOS DESTE<br><span class="small">primeiro Tomo.</span></h2>
-</div>
-
-
-
-
-<p class="center caption">PARTE I.</p>
-
-
-<table class="autotable">
-<tr><td class="page"><a href="#CAPITULO_I">Cap. I.</a></td><td><i>Da situaçaõ, etymologia, e clima
- deste Reino</i>, <a href="#Page_1">Pag. 1.</a></td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_II">Cap. II.</a></td><td><i>Memorias de algumas Povoações que
- existiraõ em Portugal, as quaes ou se mudaraõ
- em outras, ou totalmente se extinguiraõ</i>, <a href="#Page_5">5</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_III">Cap. III.</a></td><td><i>Descripçaõ circular pela margem
- maritima, e raya terrestre</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_IV">Cap. IV.</a></td><td><i>Divisaõ antiga</i>, <a href="#Page_42">42</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_V">Cap. V.</a></td><td><i>Divisaõ moderna pelas Provincias</i>, <a href="#Page_45">45</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_VI">Cap. VI.</a></td><td><i>Dos Montes, Promontorios, e serras
- de mayor nome</i>, <a href="#Page_81">81</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_VII">Cap. VII.</a></td><td><i>Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais
- consideraveis</i>, <a href="#Page_99">99</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_VIII">Cap. VIII.</a></td><td><i>Das Fontes mais notaveis</i>, <a href="#Page_148">148</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_IX">Cap. IX.</a></td><td><i>Das Caldas</i>, <a href="#Page_156">156</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_X">Cap. X.</a></td><td><i>Da Fertilidade do Reino em commum</i>,
- <a href="#Page_160">160</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_XI">Cap. XI.</a></td><td><i>Dos Mineraes</i>, <a href="#Page_169">169</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_XII">Cap. XII.</a></td><td><i>Das Moedas de ouro, prata, e cobre
- antigas, e modernas que se tem lavrado
- em Portugal até o presente</i>, <a href="#Page_177">177</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_XIII">Cap.</a></td><td>XIII. <i>Da lingua Portugueza</i>, <a href="#Page_193">193</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#CAPITULO_XIV">Cap. XIV.</a></td><td><i>Do genio, e costumes dos Portuguezes</i>,
- <a href="#Page_201">201</a>.</td></tr>
-</table><p>
-<span class="pagenum" id="Page_xv">[Pg xv]</span></p>
-
-
-<p class="center caption">PARTE II.</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><td class="page"><a href="#2_CAPITULO_I">Cap. I.</a></td><td><i>Memorias dos primeiros Povoadores
- da antiga Lusitania</i>, <a href="#Page_221">221</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_II">Cap. II.</a></td><td><i>Estado da Lusitania com a invasaõ
- dos Fenices, e Cartaginezes</i>, <a href="#Page_236">236</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_III">Cap. III.</a></td><td><i>Conducta dos Portuguezes no governo
- dos Romanos</i>, <a href="#Page_240">240</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_IV">Cap. IV.</a></td><td><i>Entrada das Nações barbaras, e dominio
- dos Godos</i>, <a href="#Page_254">254</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_V">Cap. V.</a></td><td><i>Invasaõ, e dominio dos Mouros</i>, <a href="#Page_269">269</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VI">Cap. VI.</a></td><td><i>Erecção do Senhorio de Portugal separado
- dos mais dominios de Hespanha, e
- estabelecimento dos Soberanos Monarcas
- Portuguezes</i>, <a href="#Page_281">281</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VII">Cap. VII.</a></td><td><i>Catalogo das Serenissimas Rainhas
- de Portugal</i>, <a href="#Page_362">362</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_VIII">Cap. VIII.</a></td><td><i>Dos filhos legitimos, e illegitimos
- dos soberanos Reys de Portugal</i>, <a href="#Page_376">376</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_IX">Cap. IX.</a></td><td><i>Do governo antigo, e moderno da Casa
- Real</i>, <a href="#Page_421">421</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_X">Cap. X.</a></td><td><i>Dos Officiaes, e ordem com que se assistia
- à mesa dos Reys</i>, <a href="#Page_428">428</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XI">Cap. XI.</a></td><td><i>Do acompanhamento com que os Reys
- sabiaõ pela Cidade, e caminhavaõ com a
- Corte,</i> <a href="#Page_433">433</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XII">Cap. XII.</a></td><td><i>Dos Officiaes destinados para a caça,
- e montaria, e das Coutadas do Reino,</i> <a href="#Page_437">437</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XIII">Cap. XIII.</a></td><td><i>Do estylo com que os Principes, e
- Embaixadores estrangeiros eraõ recebidos
- pelos nossos Reys, e do modo com que estes
- assistem no acto de Cortes</i>, <a href="#Page_442">442</a>.</td></tr>
-<tr><td><a href="#2_CAPITULO_XIV">Cap. XIV.</a></td><td><i>Das ceremonias, e estylo que se praticava
- nas mortes dos Reys</i>, <a href="#Page_446">446</a>.
-</table>
-<p>
-<span class="pagenum" id="Page_xvi">[Pg xvi]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004">
-<img src="images/004.jpg" class="w75" alt="Reyno de Portugal">
-</span></p>
-<p class="center caption">Reyno de Portugal<br></p>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005">
-<img src="images/005.jpg" class="w25" alt="Imagem decorativa">
-</span></p>
-<p class="center"><span class="big">MAPPA</span><br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL.</span></p>
-
-
-
-<hr class="tb">
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_I">CAPITULO I.<br><span class="small">
-<i>Da situaçaõ, etymologia, e clima deste Reino.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Na</span> parte mais occidental da Europa, como coroa de toda a Hespanha,
-sitio estabelecido da clemencia do Ceo para cabeça do mais dilatado
-Imperio, está collocado o famoso Reino de Portugal entre o parallelo
-de 37, e 42 gráos de latitude septentrional, e entre os 9, e 13
-gráos de longitude,<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> cuja distancia intermedia reduzida a leguas,
-commensuradas pela margem<span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span> maritima, vem a fazer 100 no seu justo
-comprimento, e 35 na sua mayor largura. De circumferencia tem 285
-leguas: as 135 de ribeira maritima, respeitando alguns angulos; e as
-150 de raya terrestre, conforme a Geografia Blaviana.<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a></p>
-
-<p>2 Este calculo vay formado na hypotesi de que damos 18 leguas a cada
-gráo do Meridiano, e 14 a cada gráo do parallelo; e que o Reino tem de
-latitude 5 gráos com alguns minutos, e 3 de longitude.</p>
-
-<p>3 As partes, ou limites confinantes saõ estes: Galiza fica-lhe ao
-Norte, ou Septentriaõ; a costa do Algarve ao Sul, ou Meyo dia; o mar
-Oceano, chamado de Portugal, pelo Occidente; e Castella a velha, Leaõ,
-e Andaluzia confinaõ pelo Oriente.</p>
-
-<p>4 O primeiro nome, que teve este Reino, foy o de <i>Lusitania</i>,
-querendo os mais dos Geografos, e Historiadores que Luso, ou Lysias,
-filho de Baco, fosse o que pelos annos 800 do diluvio universal lhe
-conferisse o nome, deduzido com pouca differença do seu proprio.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a>
-Porém este systema taõ constantemente recebido, e patrocinado padece as
-contradições, que occasionaõ as fabulas, em que se funda.</p>
-
-<p>5 Quem quizer dar credito ao doutissimo Samuel Bocharto,<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> a palavra
-<i>Lusitania</i> he vocabulo Fenicio, derivado da raiz <i>Luz</i>, que
-se interpreta <i>Amydgdalum</i>, isto he, <i>Amendoa</i>, dos quaes
-frutos foy sempre fertil Portugal:<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> e como os Fenices costumavaõ
-dar nome às terras, que habitavaõ, conforme os frutos, de que eraõ
-mais abundantes,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> naõ parecia improvavel, nem incongruente esta
-conjectura, por ser estabelecida em<span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span> historia verdadeira, se acaso naõ
-tivera tambem a objecçaõ de serem os Fenices os que só povoaraõ a costa
-do cabo de S. Vicente, que naquelle tempo naõ se chamava Lusitania, mas
-Celtica.</p>
-
-<p>6 Mons. de La Clede<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> tem por etymologia mais certa deduzir a palavra
-<i>Lusitania</i> dos antigos povos chamados <i>Lusos</i>, que habitaraõ
-este nosso continente, a qual na lingua Celtica significava homem de
-alta, e robusta disposiçaõ, vocabulo conveniente ao valor, e esforço
-dos antigos Portuguezes.</p>
-
-<p>7 Quanto ao nome de <i>Portugal</i>, por naõ darmos derivaçaõ antiga a
-hum vocabulo moderno, temos por mais certo que se deduzio da povoaçaõ
-chamada <i>Cale</i>, que antigamente houve na margem austral do rio
-Douro, fronteira à Cidade do Porto: a qual povoaçaõ pela frequencia
-das gentes, que alli concorriaõ, se foy fazendo affamada. Depois com
-o progresso do tempo se deu este mesmo nome à Cidade do Porto, que se
-fundou defronte; e como a fortuna tambem favorece aos lugares, desde o
-anno 1057 pouco mais, ou menos, como quer Estaço, ou 1069 como dizem
-outros, se extendeo a todo o Reino aquelle nome de Portugal, que era
-proprio de huma só Cidade.<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a></p>
-
-<p>8 Naõ averiguamos se a palavra <i>Cale</i>, como quer Joaõ Salgado de
-Araujo,<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> foy imposta por aquelles Gregos, que fizeraõ transito a
-estas partes com o Principe Meneláo, e fundaraõ huma povoaçaõ na foz
-do Douro com o nome de <i>Cale</i>, que significa <i>Porto ameno, e
-seguro</i>; porque naõ sabemos que haja historia verdadeira, em que
-esta memoria se possa fundar. Da mesma fórma rejeitamos todas<span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span> as mais
-etymologias, como improvaveis, e nugatorias.</p>
-
-<p>9 Inclue-se Portugal no clima sexto, e principio do setimo, e por
-isso he o seu mayor dia de 15 horas: mostrando-se neste breve espaço
-de terra, taõ benigna a inclinaçaõ do Ceo, que em algumas das nossas
-Provincias tempera de sorte os extremos do frio, e do calor, que faz
-confundir os tempos com suavissima equivocaçaõ.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Com esta favoravel
-temperança influem Sagittario, Capricornio, e Piscis com taõ feliz
-aspecto, respirando neste Reino ares taõ benevolos, que o constituem
-patria de todos; pois vemos que as gentes das mais remotas partes do
-mundo attrahidas da benignidade deste clima, para aqui vem, e aqui
-vivem longo tempo satisfeitos, sem estranharem a mudança dos ares, nem
-com a saudade da patria, nem com a ausencia de seus patricios.</p>
-
-<p>10 Deste influxo celeste nasce a fertilidade de terreno taõ fecundo
-em todo o genero de frutos, summamente encarecidos dos Escritores
-antigos:<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> e se agora naõ experimentamos taõ grande abundancia, he
-porque nas comarcas do Reino se poupaõ mais ao trabalho da cultura com
-a esperança da providencia alheya: e quando as terras estaõ vagas,
-e ociosas, naõ podem corresponder a seus donos com fertilidades
-sufficientes.<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> Sanson, e Joaõ Bapt. Hom. Mappa de Port.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Geograf. Blavian.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Plin. lib. 1. c. 3. Resend. lib. 1. de Antiq Maced. Flor.
-de Hesp. c. 13. Exc. 3. n. 1. Baudrand. Diccion. Geogr. Brito Monarc.
-Lusit. p. 1. lib. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Bochart. l. 1. c. 35. Geogr. Sacr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Ludov. Robert. Map. Comerc. t. 2. pag. 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Hoffm. Diccion. verb. <i>Lusit.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> De La Cled. Histor. de Portug. tom. 1. p. 6. mihi.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Cellar. na Geogr. antig. tom. 1. lib. 2. c. 1. § 49.
-Argot. Antig. de Brag. liv. 2. c. 7. e 9. Estaç. Antig. de Portug. c.
-92. n. 2. Marian. Hist. de Hesp. tom. 1. lib. 1. c. 4. Lima Geogr. de
-Portug. t. 1. pag. 188.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Araujo Mart. Lusit. Certam. 1. art. 8. pag. 83. Torniel.
-ad ann. 1331. num. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Maced. Excel. de Port. cap. 1. Excel. 5. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Strab. lib. 5. Polyb. lib. 38. Athen. lib. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Mallet. Descrip. del Univ. tom. 4. pag. 175.</p>
-
-</div></div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_II">CAPITULO II.<br><span class="small"><i>Memorias de algumas Povoações, que existiraõ em Portuga1, as quaes
-ou se mudaraõ em outras, ou totalmente se extinguiraõ.</i></span></h2>
-</div>
-
-<p>1 Esta respeitosa noticia, a que Plinio<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> dá o titulo de sagrada,
-he conveniente saberse, naõ só para se conferir melhor o moderno com
-o antigo, mas para se conhecer a excellencia dos lugares, a honra
-que tiveraõ, a situaçaõ em que existiraõ, que tudo assás contribue
-para a verdadeira Geografia, e Historia do Reino. He bem verdade, que
-a antiguidade dos tempos, e a incuria dos homens fez perder muitas
-memorias, que nos podiaõ servir de muito; e outros as involveraõ
-em fabulas, que naõ nos servem de nada. Assim que, quanto nos for
-possivel, manifestaremos a posiçaõ mais verosimil de alguns lugares
-notaveis de Portugal, especialmente do tempo dos Romanos, que os
-Vandalos, e Mouros arruinaraõ, demoliraõ, e escureceraõ.</p>
-
-<p>2 <i>Aguas Celenas</i>, <i>Cilinas</i>, ou <i>Celanas</i>. Era
-povoaçaõ, que esteve na Provincia do Minho. Lembraõ-se della
-Ptolomeu,<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> e Antonino em seu Itinerario no segundo caminho de
-Braga para Astorga. Dos Geografos modernos querem huns<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> que fosse
-onde está hoje o Lugar de <i>Faõ</i>, meya legua acima da barra do
-rio Cávado da parte do Sul, e onde se celebrou o famoso Concilio
-contra os Priscilianistas,<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> em que presidio S. Toribio em tempo de S.
-Leaõ Papa. Outros porém<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a> o constituem em Barcellos, persuadidos
-da semelhança do vocabulo do rio <i>Celano</i>, que por alli passa,
-chamado hoje <i>Cávado</i>; porém estas conjecturas saõ muy falliveis
-para estabelecer a Geografia verdadeira. Tenho por mais certo o sitio
-que constitue Antonino, que he quatro legoas antes de chegar ao Padraõ,
-como bem explica o Padre Mestre Flores na <i>Espanha sagrada tom. 15.
-pag. 75</i>.</p>
-
-<p>3 <i>Aguas Flavias.</i> Todos concordaõ na verdadeira situaçaõ desta
-terra, que era onde vemos hoje a Villa de <i>Chaves</i>.<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> Dizem
-que tomou este nome dos banhos, que alli havia, e do Imperador
-Flavio Vespasiano, a quem se dedicara huma notavel inscripçaõ. Foy
-colonia dos Romanos muy frequentada, e ennobrecida por elles, como
-larga, e eruditamente mostra o insigne indagador de antiguidades<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a>
-Lusitanicas, o Reverendo D. Jeronymo Contador de Argote. Veja-se tambem
-o Padre Mestre Flores allegado.</p>
-
-<p>4 <i>Aguas Layas</i>, ou <i>Leenas</i>. Na Carta Geografica de
-Abrahaõ Ortelio achamos demarcado este lugar com o nome de <i>Aquæ
-Leæ Turudorum</i> quasi em 41 gráos de latitude, e 12 de longitude.
-Alguns<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> querem que estivessem entre as Villas de <i>Monçaõ</i>, e
-<i>Valladares</i>: o que naõ póde ser pela arrumaçaõ daquelle insigne
-Geografo. Nosso famoso Argote persuade-se com razaõ<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> que esta era
-a Cidade de <i>Lais</i>, capital dos povos Turolicos, e que existira,
-onde hoje chamaõ a Freguezia de S. Martinho de <i>Lanhozo</i>, termo da
-Villa de Caminha.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p>
-
-<p>5 <i>Ambracia.</i> O Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> diz que
-esta Cidade estivera no sitio de <i>Barcellos</i>, a qual foy fundaçaõ
-dos Gregos. Funda-se na authoridade de Rodrigo Caro,<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> que diz que
-a <i>Ambracia</i> em Portugal, onde foy martyrizado Santo Epitecto,
-estava em hum lugar perto de Braga. Porém o Author do Agiologio
-Lusitano, seguindo a Sandoval, naõ assente a isso,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> porque diz
-que he Placencia. Finalmente Joaõ Salgado de Araujo no <i>liv. 1.
-dos Successos militares pag. 5. v.</i> diz que Ambracia estivera em
-Grecia, onde hoje chamaõ Larta: o mesmo diz Poyares no <i>Diccionario
-Geografico</i> com Cellario na <i>Geografia antiga l. 2. c. 13. §.
-177.</i></p>
-
-<p>6 <i>Araduca.</i> Convem alguns dos Geografos<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> que estivesse esta
-Cidade collocada onde hoje vemos a nobre Villa de <i>Guimarães</i>. E
-seguindo esta opiniaõ Manoel de Faria, fallando da sobredita Villa de
-Guimarães, diz:<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Na aldeya d’ Araduca celebrada</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Pela rara belleza das pastoras.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>O mesmo diz Filippe de la Gandara nas <i>Armas, e Triunfos de Galiza
-cap. 17. num. 3.</i> Porém Gaspar Estaço<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> segue o contrario, e o
-intenta provar com a arrumaçaõ, que lhe dá Ptolomeu na altura de 41
-gráos, e 50 minutos, e com 17 leguas e meya da boca do Douro, distancia
-muy differente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8
-leguas sómente. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> diz que o que antigamente foy
-<i>Araduca</i>, he hoje <i>Amarante</i>:<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span> e já houve quem disse que era
-<i>Aljubarrota</i>. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a
-antiga Araduca, mas por ora basta o que está dito. Vejaõ os curiosos ao
-Padre Mestre Flores, Author moderno, <i>tom. 15. da España sagrada pag.
-286</i>.</p>
-
-<p>7 <i>Araducta.</i> Conforme a situaçaõ do Mappa de Abrahaõ Ortelio,
-parece ser a <i>Arouca</i>, que hoje existe.</p>
-
-<p>8 <i>Aravor.</i> O Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a> quer que fosse
-esta huma Cidade em tempo dos Imperadores Trajano, e Adriano, em cujo
-sitio está hoje a Villa de <i>Marialva</i>; porém esta noticia só neste
-Author a achámos.</p>
-
-<p>9 <i>Aricio Pretorio</i>, ou <i>Ayre</i>. Desta povoaçaõ se faz memoria
-no Itinerario de Antonino Pio na terceira Via militar que hia de Lisboa
-para Merida, e se persuadem Resende, e Vasconcellos,<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> que existia
-nas ribeiras do Tejo, onde hoje está Benavente; porém como advertio Fr.
-Bernardo de Brito, o sitio de Benavente tem algumas particularidades,
-que naõ se compadecem com as confrontações do Itinerario de Antonino.
-Gaspar Barreirros tem para si<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> que distava huma legua de Coruche,
-onde agora está a Villa de <i>Erra</i>; porém Jorge Cardoso<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a> diz
-que estivera esta povoaçaõ duas leguas affastada de Abrantes, onde
-chamaõ <i>Alvéga</i>, porque neste sitio ha vestigios antigos, que
-assim o persuadem. Na Carta Geografica de Ortelio vemos demarcada
-<i>Aricio</i> entre a Feira, e Arouca; e na altura de <i>Benavente</i>,
-ou <i>Salvaterra</i> se vê <i>Aritium Prætorium</i>, em que parece
-convir com Resende.</p>
-
-<p>10 <i>Aroche.</i> Consta ser esta huma notavel Cidade, sobre cujas
-ruinas se levantou depois a Villa de Moura no Alentejo, como
-eruditamente provaõ<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> Fr. Manoel de Sá,<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a> e Resende com alguns cippos
-alli descobertos.</p>
-
-<p>11 <i>Aunona.</i> O Doutor D. Joaõ Ferreras<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a> persuade-se que esta
-Cidade estava situada na Provincia do Minho junto ao rio Ave; porém
-nosso Argote<a id="FNanchor_42" href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a> naõ he desta opiniaõ.</p>
-
-<p>12 <i>Auranca.</i> Existio esta povoaçaõ naõ longe do rio Vouga, 9
-leguas de Coimbra, segundo nos informaõ Brandaõ na Monarquia liv. 10.
-c. 18., e Jorge Cardoso no Agiologio.<a id="FNanchor_43" href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a></p>
-
-<p>13 <i>Balsa.</i> Tem para si o famoso antiquario Resende<a id="FNanchor_44" href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a> que
-estivera esta Cidade no Algarve, onde agora reside <i>Tavira</i>;
-mas, segundo Ptolomeu, e Ortelio, parece ser <i>Castro-marim</i>.
-Todavia Christovaõ Cellario segue a conjectura de Resende;<a id="FNanchor_45" href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a> e Gaspar
-Barreiros em hum manuscrito diz que he a aldea chamada <i>Simine</i>.
-Porém ou Balsa seja Castro-marim, ou Tavira, o certo he que no termo
-de Beja na horta chamada do Bacello, naõ longe de <i>Baleizam</i>,
-achou no anno de 1742 o incansavel Padre Fr. Francisco de Oliveira
-Religioso Dominico, grande imitador de Resende no descobrimento das
-antiguidades do nosso Reino, hum cippo Romano sepulchral de Cayo Blosio
-Saturnino habitador de Balsa erecto a sua filha; cuja inscripçaõ vem
-no <i>2. tom.</i> do <i>Diccionario Geografico</i> do P. Cardoso <i>a
-pag. 23.</i> e na Gazeta de 20 de Setembro de 1742. Donde sem muita
-violencia se póde conjecturar pela semelhança do nome, que Balsa
-estivera no sitio de Baleizam. Naõ me intrometo nesta antigualha;
-a qual acabaremos de entender, quando o sobredito Religioso Fr.
-Francisco, nosso amigo, divulgar as antiguidades, e grandezas desta
-Provincia, de que tem junto grosso cabedal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p>
-
-<p>14 <i>Benis.</i> Por algumas congruencias parece ao laborioso D.
-Jeronymo Contador de Argote<a id="FNanchor_46" href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a> que era esta huma Cidade Episcopal
-existente perto da Villa de Caminha.</p>
-
-<p>15 <i>Beselga.</i> Dentro dos termos de Thomar, e Torres-novas existio
-esta povoaçaõ com titulo, e grandeza de Cidade. Hoje he hum lugar
-pobre, e pequeno, que para memoria lamentavel do que foy, ainda
-conserva o appellido em hum monte fronteiro, a que os moradores chamaõ
-<i>Monte da Cividade</i>. Muitas ruinas antigas se descubriraõ nestes
-contornos, de que se prova a sua verdadeira situaçaõ, como se persuade
-Cardoso.<a id="FNanchor_47" href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a> Fr. Leaõ de Santo Thomás persuade-se que he <i>Agueda</i>,
-huma legua de Thomar.</p>
-
-<p>16 <i>Britonia.</i> Grande controversia ha entre os Geografos sobre a
-verdadeira situaçaõ desta Cidade. Que ella foy povoaçaõ florentissima
-em tempo dos Suevos, e Godos, e gozou a honra de Cathedral com Bispos
-dentro de Hespanha, he infallivel. Os Authores Castelhanos querem que
-ella estivesse em Galiza, onde hoje está Oviedo, ou Mondonhedo, de
-que os despersuade Jorge Cardoso.<a id="FNanchor_48" href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a> Muitos dos nossos insistem,<a id="FNanchor_49" href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a>
-em que esta Cidade estivera no sitio de <i>Britiandos</i>, Abbadia de
-Ponte de Lima. O Author da Corografia Portugueza a constitue no Lugar
-da Freguezia de S. Martinho de <i>Birtello</i>, termo da Villa da Ponte
-da Barca.<a id="FNanchor_50" href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a> Ultimamente o incançavel, e erudito Padre Argote convem
-em que existio junto do rio Lima,<a id="FNanchor_51" href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a> fundando-se em mais provaveis
-documentos.</p>
-
-<p>17 <i>Calantia.</i> Querem que existisse esta povoaçaõ no Alentejo,
-e no mesmo terreno de <i>Arrayolos</i>,<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> dando-lhe por fundadores os
-Celtas.<a id="FNanchor_52" href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p>
-
-<p>18 <i>Caldelas.</i> Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe
-hum Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia<a id="FNanchor_53" href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a>
-houvera alli antigamente a Cidade <i>Caldede</i>. E junto da Ermida de
-S. Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores,
-que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do
-sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de
-pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus
-moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre,
-das quaes confessa Jorge Cardoso<a id="FNanchor_54" href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a> conservava huma com a effigie de
-Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.</p>
-
-<p>19 <i>Caliabria.</i> Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio
-na Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que
-dista huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente,
-a cujo sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ
-<i>Calabre</i>. As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua
-grandeza, como bem diz a <i>Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24.</i></p>
-
-<p>20 <i>Cambeto.</i> O doutissimo Padre Argote intenta mostrar<a id="FNanchor_55" href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a>
-que esta Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de
-<i>Cambezes</i> no Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da
-antiga Lusitania, composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o
-nome de <i>Cambetum Lubenorum</i> na altura de 41 gráos de latitude, e
-13 de longitude, que deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que
-do Minho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p>
-
-<p>21 <i>Campos Elysios.</i> Anda introduzida nas Historias de Hespanha
-a antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso
-temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura
-o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade
-com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos<a id="FNanchor_56" href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a>
-collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova,
-e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores<a id="FNanchor_57" href="#Footnote_57" class="fnanchor">[57]</a> querem huns
-que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na
-Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados <i>Lysirias</i>,
-como se dissessemos <i>Elysirios</i> ou <i>Elysirias</i>; porém o certo
-he que naõ estiveraõ em parte alguma de Hespanha.</p>
-
-<p>22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo
-o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ
-as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas.
-O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,<a id="FNanchor_58" href="#Footnote_58" class="fnanchor">[58]</a> o qual
-introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do
-clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel
-conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia,
-que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p>
-
-<p>23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,<a id="FNanchor_59" href="#Footnote_59" class="fnanchor">[59]</a> que os Gregos,
-offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ
-a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros
-vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo
-Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais
-Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,<a id="FNanchor_60" href="#Footnote_60" class="fnanchor">[60]</a>
-que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece
-significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque
-conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano<a id="FNanchor_61" href="#Footnote_61" class="fnanchor">[61]</a> comprova
-o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra
-cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.</p>
-
-<p>24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece
-celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel
-expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente
-assegura<a id="FNanchor_62" href="#Footnote_62" class="fnanchor">[62]</a> tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o
-quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos
-Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso,
-que a nossa vulgata chama do <i>Deleite</i>, substituindo assim a voz
-<i>Eden</i>, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.<a id="FNanchor_63" href="#Footnote_63" class="fnanchor">[63]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span></p>
-
-<p>25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos
-Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,<a id="FNanchor_64" href="#Footnote_64" class="fnanchor">[64]</a> a quem seguiraõ os mais,
-que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso
-sagrado, de que faz memoria Moysés.<a id="FNanchor_65" href="#Footnote_65" class="fnanchor">[65]</a> A causa porém, que commoveo
-ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por
-seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso
-distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem,
-conforme allega Moysés Barcepha,<a id="FNanchor_66" href="#Footnote_66" class="fnanchor">[66]</a> e Malvenda.<a id="FNanchor_67" href="#Footnote_67" class="fnanchor">[67]</a> Com esta breve
-demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos
-inteiramente das nossas Provincias.</p>
-
-<p>26 <i>Canace</i>, ou <i>Canali</i>. Conforme diz Rodrigo Caro,<a id="FNanchor_68" href="#Footnote_68" class="fnanchor">[68]</a>
-foy esta huma Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos
-collocada na carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de
-Faria escreveo ao Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que
-a Cidade de <i>Canace</i> estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde
-chamaõ Val de Infante, quatro leguas affastada de Evora.<a id="FNanchor_69" href="#Footnote_69" class="fnanchor">[69]</a> Hauberto
-tambem a constitue junto de Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade
-Basiliense, que padecera aqui martyrio.<a id="FNanchor_70" href="#Footnote_70" class="fnanchor">[70]</a></p>
-
-<p>27 <i>Capara</i>. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta
-Cidade junto de Evora,<a id="FNanchor_71" href="#Footnote_71" class="fnanchor">[71]</a> porque, segundo a melhor conjectura, foy
-Cidade habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a
-poem quasi na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra
-dos limites de Portugal, e como diz Argaes,<a id="FNanchor_72" href="#Footnote_72" class="fnanchor">[72]</a> pertence ao Bispado de
-Placencia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p>
-
-<p>28 <i>Carmona.</i> O Author da Benedictina Lusitana diz,<a id="FNanchor_73" href="#Footnote_73" class="fnanchor">[73]</a> que
-cinco leguas de Braga, junto à estrada, que vay para Vianna, duas
-leguas pouco mais, ou menos, antes della ao pé de hum monte existira
-antigamente huma povoaçaõ grande com o nome de <i>Carmona</i>, cujas
-ruinas, e vestigios se vaõ de quando em quando descubrindo.</p>
-
-<p>29 <i>Cauca.</i> Tenho para mim que padeceo engano Jorge Cardoso<a id="FNanchor_74" href="#Footnote_74" class="fnanchor">[74]</a> em
-collocar esta Cidade no sitio de Villapouca de Aguiar, entre Chaves,
-e Villa-Real, a quem seguiraõ Macedo,<a id="FNanchor_75" href="#Footnote_75" class="fnanchor">[75]</a> e outros; porque mais me
-accommodo ao exame do estudiosissimo Argote,<a id="FNanchor_76" href="#Footnote_76" class="fnanchor">[76]</a> e tambem porque vejo
-no Mappa de Ortelio arrumada esta Cidade na altura de 41 gráos de
-latitude, e perto de 15 de longitude, naõ pouco distante de Segovia.</p>
-
-<p>30 <i>Ceciliana.</i> O Itinerario de Antonino sitúa esta povoaçaõ entre
-Setubal, e Alcacer do Sal. Plinio lhe chama <i>Castra Ceciliana</i>,
-talvez deduzido de Cecilio Metelo, que deu nome a este Lugar. Huns
-querem que seja hoje Agualva, tres leguas de Setubal, outros Alcaçovas,
-o que naõ póde ser. D. Francisco Manoel diz que he ou a Galvea, ou Agua
-de Moura. Com o mesmo nome de <i>Castra Celicis</i> vejo huma povoaçaõ
-situada na Carta de Abrahaõ Ortelio junto de Meribriga, que he em 38
-gráos, e 5 minutos de latitude, e 12 gráos, e 5 minutos de longitude, e
-outra quasi na mesma latitude, e 14 gráos de longitude.</p>
-
-<p>31 <i>Celiobriga.</i> Foy o que agora he <i>Celorico de Basto</i>, ou
-nas suas visinhanças. Consta da inscripçaõ, que se achou em huma pedra
-na Igreja de Santa Senhorinha de Basto, que allega Argote nas Memorias
-do Arcebispado de Braga.<a id="FNanchor_77" href="#Footnote_77" class="fnanchor">[77]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p>
-
-<p>32 <i>Centocellas.</i> Defende Jorge Cardoso<a id="FNanchor_78" href="#Footnote_78" class="fnanchor">[78]</a> a situaçaõ
-desta Cidade junto ao rio Zezere no Bispado da Guarda, e perto de
-<i>Belmonte</i>, onde permanece huma Ermida de S. Cornelio, proxima
-a huma torre quadrada de obra Romana, onde diz estivera prezo este
-Santo; o que tambem confirma Joaõ Salgado de Araujo no liv. 3. das
-guerras da Provincia da Beira pag. 100.: porém o Padre Fr. Antonio
-da Purificaçaõ,<a id="FNanchor_79" href="#Footnote_79" class="fnanchor">[79]</a> e os incansaveis Antiquarios Argote, e Leal<a id="FNanchor_80" href="#Footnote_80" class="fnanchor">[80]</a>
-mostraõ com evidencia ser erro de Cardoso.</p>
-
-<p>33 <i>Cinania.</i> Desta Cidade faz mençaõ Valerio Maximo,<a id="FNanchor_81" href="#Footnote_81" class="fnanchor">[81]</a>
-encarecendo muito o valor de seus moradores, e dizendo, que ficava
-na Lusitania. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_82" href="#Footnote_82" class="fnanchor">[82]</a> e seu abbreviador Manoel
-de Faria<a id="FNanchor_83" href="#Footnote_83" class="fnanchor">[83]</a> mostraõ que estivera fundada junto de <i>Roriz</i>.
-Pertende porém Gaspar Estaço mostrar,<a id="FNanchor_84" href="#Footnote_84" class="fnanchor">[84]</a> e o Padre Henrique de Abreu
-no discurso, que faz sobre esta Cidade, que estivera junto da Serra
-do Maraõ,<a id="FNanchor_85" href="#Footnote_85" class="fnanchor">[85]</a> onde ha passagem aos que vaõ da Beira para o Minho pela
-estrada, que da Villa de Teixeira vay a Amarante. Aqui ao pé da serra
-está a Villa de Mejaõ frio, e huma legua pela ribeira do Douro acima
-está o Lugar de Cidadelhe, e ao Norte ha ruinas de grande povoaçaõ:
-aqui prova o dito Author foy Cinania. Jorge Cardoso<a id="FNanchor_86" href="#Footnote_86" class="fnanchor">[86]</a> a poem na
-eminencia de hum monte sobre o rio Ave, legua e meya distante de
-Guimarães. O Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_87" href="#Footnote_87" class="fnanchor">[87]</a> a descobrio entre
-Lanhoso, e o Couto de Pedralva. Modernamente o Padre D. Jeronymo nas
-Memorias eruditissimas de Braga<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span><a id="FNanchor_88" href="#Footnote_88" class="fnanchor">[88]</a> confessa, que he incerta a precisa
-situaçaõ de Cinania.</p>
-
-<p>34 <i>Cetobriga.</i> Foy huma Cidade do Gentilismo, em cujas ruinas
-se fundou a Villa de Setubal. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_89" href="#Footnote_89" class="fnanchor">[89]</a> seguindo a
-Floriaõ do Campo, e a outros, diz, que fora fundada, e povoada por
-Tubal o anno 145 depois do diluvio, e lhe chamara <i>Cethubala</i>,
-ou <i>Cætum-Tubalis</i>, que quer dizer ajuntamento de Tubal, de cujo
-nome com pouca mudança se deduzio <i>Setubal</i>. Porém André de
-Resende,<a id="FNanchor_90" href="#Footnote_90" class="fnanchor">[90]</a> e Diogo de Paiva dizem, que naõ póde ser; antes o Paiva
-com tenacidade a constitue em Andaluzia. O que temos por mais provavel
-he o que diz o famoso Resende, que houve duas povoações deste nome:
-a antiga, onde agora está o sitio chamado Troya, que naquelle tempo
-se dizia <i>Cetobriga</i>, e significava Cidade de muito, e grande
-peixe; porque <i>Briga</i> na lingua dos antigos Lusitanos queria dizer
-Cidade, ou fortaleza, e <i>Cete</i> peixes grandes. Desta opiniaõ
-he Gaspar Barreiros,<a id="FNanchor_91" href="#Footnote_91" class="fnanchor">[91]</a> o qual affirma, que no seu tempo havia no
-sitio desta Troya vestigios de humas salgadeiras, em que seccavaõ o
-peixe, porque se fazia aqui huma grande pescaria delle; e que debaixo
-da agua se mostravaõ ainda ruinas de edificios, cousa, que tambem
-testifica Resende. Extincta finalmente a antiga <i>Setubal</i>, ou
-<i>Cetobriga</i> na geral destruiçaõ de Hespanha, se passaraõ alguns
-moradores dos que restaraõ para defronte, e principiaraõ a povoar nova
-colonia naquelle sitio, intitulando-a da mesma fórma <i>Cetobriga</i>.
-Correndo depois o tempo, se veyo a chamar <i>Cetobala</i>, e dahi
-<i>Cetubala</i>, e hoje <i>Setubal</i>. Desta opiniaõ he Luiz
-Nunes,<a id="FNanchor_92" href="#Footnote_92" class="fnanchor">[92]</a> Christovaõ Cellario,<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span><a id="FNanchor_93" href="#Footnote_93" class="fnanchor">[93]</a> e convem no mesmo Villalpando
-<i>in Ezechielem tom. 2. p. 16.</i> Affirma tambem o allegado Resende,
-que no sitio de Troya, ou antiga Cetobriga está por cima da porta
-da Igreja de Nossa Senhora huma cabeça de carneiro em pedra, e lhe
-parece que houvera alli hum templo de Jupiter. De outras pedras alli
-descubertas faz tambem memoria o sobredito Antiquario.</p>
-
-<p>35 <i>Collipo.</i> Foy esta Cidade Municipio Romano, e nas suas ruinas
-se levantou a Cidade de <i>Leiria</i>, como he constante entre todos os
-Geografos.<a id="FNanchor_94" href="#Footnote_94" class="fnanchor">[94]</a></p>
-
-<p>36 <i>Concordia.</i> Teve esta Cidade seu assento huma legua affastada
-de Thomar para o Occidente, onde se descobrem ainda vestigios de sua
-antiguidade. Ptolomeu se lembra desta povoaçaõ, pondo-a na Lusitania,
-e quasi com elle concordaõ Bivar,<a id="FNanchor_95" href="#Footnote_95" class="fnanchor">[95]</a> Plinio, e outros.<a id="FNanchor_96" href="#Footnote_96" class="fnanchor">[96]</a> Houve
-outra Concordia junto ao rio Guadiana, que antigamente se chamou
-Bertobriga, Bocoris, ou Nortobriga, de que falla Pedro de Medina.<a id="FNanchor_97" href="#Footnote_97" class="fnanchor">[97]</a>
-Jorge Cardoso<a id="FNanchor_98" href="#Footnote_98" class="fnanchor">[98]</a> diz, que guardava em seu poder algumas moedas achadas
-no sitio da primeira Concordia, que bem provaõ a antiga certeza desta
-povoaçaõ. Author ha, que diz he <i>Tentugal</i>.</p>
-
-<p>37 <i>Contraleucos</i> conforme Ortelio; ou <i>Catraleucus</i> segundo
-Ptolomeu, foy povoaçaõ Romana, de cujas ruinas se erigio a Villa
-do Crato, como o mostra Fr. Leaõ de Santo Thomás na <i>Benedictina
-Lusitana</i>. Outros querem que seja Castello-branco. Verdade seja que
-esta povoaçaõ, no conceito de<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span> D. Francisco Manoel he huma das que por
-nenhum modo saõ hoje por nós conhecidas.</p>
-
-<p>38 <i>Egitania.</i> Foy no sitio de Idanha a velha huma Cidade
-nobilissima em tempo dos Romanos, e Municipio seu muy estimado. O
-Doutor Manoel Pereira da Silva Leal, dignissimo Academico Regio,
-escreve della eruditamente nas Memorias da Guarda.<a id="FNanchor_99" href="#Footnote_99" class="fnanchor">[99]</a></p>
-
-<p>39 <i>Eminio.</i> Hoje he o Lugar de <i>Agueda</i> no termo de Aveiro.
-Foy povoaçaõ notavel da Lusitania, e Cidade Episcopal. Teve Prelados,
-de que se acha a memoria de Gelasio pelos annos 411 de Christo,
-e de Possidonio pelos annos 589. Ortelio lhe dá tambem o nome de
-<i>Colubria</i>. O Academico Manoel Pereira da Silva Leal<a id="FNanchor_100" href="#Footnote_100" class="fnanchor">[100]</a> pertende
-mostrar que naõ tivera Bispos, como alguns affirmaraõ. Fallaõ della
-Plino, e Ptolomeu <i>apud Cellarium l. 2. c. 1. §. 9.</i></p>
-
-<p>40 <i>Equabona.</i> He hoje a Villa de Coina. Por aqui continuava a
-primeira via militar dos Romanos, que hia de Lisboa para Merida.</p>
-
-<p>41 <i>Eritreia</i>, ou <i>Erythia</i>. Encontramos muito embaraçada
-entre os Authores a situaçaõ desta Ilha. Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_101" href="#Footnote_101" class="fnanchor">[101]</a>
-seguindo a Pomponio Mela,<a id="FNanchor_102" href="#Footnote_102" class="fnanchor">[102]</a> diz, que estivera na Costa de Portugal,
-e que havendo aqui pelos annos de Christo 582 hum grande terremoto,
-se apartara da terra firme, e o que ficou he ao que agora chamamos
-<i>Berlengas</i>, talvez deduzido da palavra <i>Londobris</i>, que
-tambem lhe dá Ortelio. Esta opiniaõ seguem Resende, Baudrand, Luiz
-Marinho de Azevedo, e outros, que este allega.<a id="FNanchor_103" href="#Footnote_103" class="fnanchor">[103]</a></p>
-
-<p>42 Porém Diogo de Paiva<a id="FNanchor_104" href="#Footnote_104" class="fnanchor">[104]</a> persuadido com a geral confusaõ de alguns
-Authores em naõ distinguirem<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> a Ilha Erythia da de Cadis, e Tarteso,
-he de contrario parecer. Os Romanos tiveraõ o abuso de chamar come
-mesmo nome de Cadis as outras Ilhas, que estavaõ immediatas a ella, da
-maneira que se chamaõ hoje ilhas de Cabo-Verde, e das Canarias todas as
-que se conservaõ sujeitas às duas principaes, como cabeças de todas as
-outras suffraganeas, como bem observa o Marquez de Montejar nas suas
-eruditas Disquisições;<a id="FNanchor_105" href="#Footnote_105" class="fnanchor">[105]</a> e assim he infallivel ser diversa esta Ilha
-das outras, e o mostraõ Salmacio, Rufo Festo Avieno, Samuel Bocharto,
-Rodrigo Caro, Christovaõ Cellario, e outros.<a id="FNanchor_106" href="#Footnote_106" class="fnanchor">[106]</a></p>
-
-<p>43 <i>Eburobricio.</i> Questionaõ os Geografos sobre a verdadeira
-situaçaõ desta terra. Diogo Mendes de Vasconcellos, e Gaspar
-Barreiros<a id="FNanchor_107" href="#Footnote_107" class="fnanchor">[107]</a> dizem, que estivera no sitio, onde hoje está <i>Evora
-de Alcobaça</i>; porém Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_108" href="#Footnote_108" class="fnanchor">[108]</a> reprovando a
-Vasconcellos, diz que fora em <i>Alfezeiraõ</i>; mas em outra parte
-duvída.<a id="FNanchor_109" href="#Footnote_109" class="fnanchor">[109]</a> Mons. de La Clede<a id="FNanchor_110" href="#Footnote_110" class="fnanchor">[110]</a> no Mappa da antiga Lusitania
-nenhuma duvida poem em situar a <i>Alfezeiraõ</i> no mesmo lugar de
-<i>Eburobricio</i>, e quasi na mesma altura se conformaõ os mappas
-de Ortelio, e Cellario. Do antigo templo, que houve aqui dedicado
-a Neptuno pelo famoso Capitaõ Decio Junio Bruto, consta a grande
-resistencia, que os seus moradores fizeraõ ao poder Romano pelos annos
-130 antes de Christo Senhor nosso vir ao mundo.<a id="FNanchor_111" href="#Footnote_111" class="fnanchor">[111]</a></p>
-
-<p>44 <i>Evandria.</i> He Olivença. Antonino lhe chama Evandriana.</p>
-
-<p>45 <i>Flaviobriga.</i> O Doutor Joaõ de Barros na Descripçaõ do Minho
-tem para si que estivera esta povoaçaõ<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> no sitio de <i>Favayos</i>,
-Villa da Provincia Transmontana, onde affirma que vira letreiros, que
-assim o testemunhavaõ. Foy huma das Cidades, que edificou ElRey Brigo.</p>
-
-<p>46 <i>Foro dos Limicos.</i> Era huma Cidade collocada junto do rio
-Lima. O Padre Argote persuade-se que estivera no sitio, a que hoje
-chamaõ <i>Santo Estevaõ da Faxa</i>.<a id="FNanchor_112" href="#Footnote_112" class="fnanchor">[112]</a></p>
-
-<p>47 <i>Foro dos Narbassos.</i> Foy Cidade cabeça de huns Póvos assim
-chamados, que existio perto de Braga, conforme a conjectura do
-incansavel Argote.<a id="FNanchor_113" href="#Footnote_113" class="fnanchor">[113]</a></p>
-
-<p>48 <i>Gerabrica</i>, ou <i>Jerabrica.</i> Segundo a Geografia de
-Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_114" href="#Footnote_114" class="fnanchor">[114]</a> esteve esta Cidade situada onde vemos
-hoje a Villa de <i>Póvos</i>. Prova-o este Author com o Itinerario
-de Antonino, o qual assina de Lisboa a Jerabrica trinta mil passos,
-que fazem as sete leguas, que se contaõ desta Cidade àquella Villa.
-Porém Gaspar Estaço, Gaspar Barreiros, e Brandaõ mostraõ com o mesmo
-Itinerario, que <i>Jerabrica</i> foy o que hoje he <i>Alamquer</i>.<a id="FNanchor_115" href="#Footnote_115" class="fnanchor">[115]</a></p>
-
-<p>49 <i>Lacobriga.</i> Em tempo dos Romanos foy Cidade muy famosa, e
-lembra-se della Baptista Mantuano,<a id="FNanchor_116" href="#Footnote_116" class="fnanchor">[116]</a> quando diz, que erigira o
-Senado desta povoaçaõ sete estatuas a Ardiboro, Capitaõ insigne do
-Imperador Valentiniano, as quaes prostraraõ os Vandalos, quando a
-tomaraõ. Das suas ruinas se edificou a Cidade de <i>Lagos</i> no
-Algarve, e neste sitio vemos collocada a sua arrumaçaõ no Mappa de</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p>
-
-<p>Ortelio, e de Pomponio Mela, com quem se conforma Vasconcellos,<a id="FNanchor_117" href="#Footnote_117" class="fnanchor">[117]</a>
-donde parece receber engano Vasco Mousinho de Quevedo, equivocando
-Lagos com Lamego,<a id="FNanchor_118" href="#Footnote_118" class="fnanchor">[118]</a> e a mesma equivocaçaõ encontro em Gabriel
-Pereira,<a id="FNanchor_119" href="#Footnote_119" class="fnanchor">[119]</a> porque une os póvos da Serra da Estrella com os de
-Lacobriga, que sendo Lagos, eraõ Provincias muy distantes. Talvez
-que tudo proceda de se equivocarem com outra povoaçaõ, que ficava
-junto de Lamego, porém mais encostada para o mar, a que Ortelio chama
-<i>Langobrica</i>, que Vasconcellos tem pela Villa da <i>Feira</i>. Ha
-quem diga que <i>Lacobriga</i> he a Villa de <i>Abrantes</i>, outros do
-<i>Landroal</i>, e Joaõ de Mariana diz, que he a Villa de <i>Alvor</i>,
-fundada por Anibal. Parece a outros ser Santiago de Cacem, como diz D.
-Francisco Manoel na carta 62. da centuria 3.</p>
-
-<p>50 <i>Magneto.</i> Foy na opiniaõ de alguns huma Cidade em tempo de
-Romanos, e existio onde hoje chamaõ <i>Santa Maria de Meinedo</i>, que
-he hum Lugar do Bispado do Porto.<a id="FNanchor_120" href="#Footnote_120" class="fnanchor">[120]</a></p>
-
-<p>51 <i>Merobriga.</i> De duas povoações com este mesmo nome achamos
-memoria em Portugal: huma no sitio, onde está Montemór o velho; outra
-em Santiago de Cacem. Consta da Carta Geografica de Abrahaõ Ortelio.
-Plinio as confunde; porém nosso Resende assenta, que a verdadeira foy
-onde agora he <i>Santiago de Cacem</i>.<a id="FNanchor_121" href="#Footnote_121" class="fnanchor">[121]</a> Aqui se venera na Matriz
-a notavel reliquia do Santo Lenho, que D. Bataza lhe deixou. Tambem na
-escada exterior da casa da Camera se vê a inscripçaõ do famoso Medico
-Cassio Januario natural de Beja. Resende se persuade, que esta terra
-fora conquistada aos Mouros por D. Bataza; o que naõ foy assim, como
-declara Brandaõ na Monarquia liv. 16. cap. 35.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p>
-
-<p>52 <i>Myrtilis Julia</i>. Esteve esta famosa Cidade, e Municipio no
-sitio de <i>Mertola</i>. He indubitavel. Antonino assina 36000 passos
-até Béja, que saõ nove leguas das nossas, distancia verdadeira, que
-ha de huma a outra parte. Quasi todos os Geografos se conformaõ nesta
-situaçaõ.<a id="FNanchor_122" href="#Footnote_122" class="fnanchor">[122]</a></p>
-
-<p>53 <i>Moro</i> foy huma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de
-cujas ruinas a mayor parte dos Geografos dizem se levantou o Castello
-de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundaçaõ
-dos Arabes. Cuidaõ alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, ou
-Tancos, ou Payo de Pelle. Estrabo no <i>liv. 3. da sua Geografia</i> se
-lembra della, quando disse que M. Bruto fizera de Moro fronteira para
-conquistar os Lusitanos.</p>
-
-<p>54 <i>Nabancia.</i> Era huma povoaçaõ, que ficava para a parte do
-Nascente da Villa de <i>Thomar</i>, onde affirmaõ nascera a gloriosa
-Virgem, e Martyr Santa Iria.<a id="FNanchor_123" href="#Footnote_123" class="fnanchor">[123]</a> Na divisaõ dos Bispados, que fez
-Wamba, se lhe dá o nome de <i>Naba</i>,<a id="FNanchor_124" href="#Footnote_124" class="fnanchor">[124]</a> conforme a intelligencia
-de Argote.</p>
-
-<p>55 <i>Norba Cesarea.</i> O Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, governando
-a Praça de Alfayates na Beira, diz, que descubrira os claros vestigios
-desta Cidade entre Alafões, e Salvaterra, e entre os rios Elja, e
-Ponsul, onde chamaõ os Toulões.<a id="FNanchor_125" href="#Footnote_125" class="fnanchor">[125]</a> Hoje he <i>Alcantara</i>.</p>
-
-<p>56 <i>Numancia.</i> Naõ he facil julgar o verdadeiro sitio desta famosa
-Cidade pela nimia variedade de opiniões, que achamos nos Escritores.
-Nenhum melhor que o eruditissimo Argote<a id="FNanchor_126" href="#Footnote_126" class="fnanchor">[126]</a> soube aclarar esta
-confusaõ, distinguindo tres Cidades com este<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> proprio nome; e com bons
-fundamentos mostra que nenhuma existio no sitio, em que alguns dos
-nossos Authores pertendem anciosamente collocalla, que he onde chamaõ
-<i>Nemaõ</i>, meya legua distante da Villa do Freixo junto ao Douro;
-e saõ deste parecer Brito, Brandaõ, Cardoso, e Joaõ Salgado de Araujo
-com mayor tenacidade,<a id="FNanchor_127" href="#Footnote_127" class="fnanchor">[127]</a> a cujos fundamentos responde bem o sobredito
-Padre Argote.</p>
-
-<p>57 <i>Obobriga.</i> Padeceo erro o Author da Corografia Portugueza<a id="FNanchor_128" href="#Footnote_128" class="fnanchor">[128]</a>
-em collocar esta povoaçaõ na Villa de <i>Monçaõ</i>: mais ajustada
-congruencia tem em dizer que foy <i>Orosia</i>, posto que o insigne
-Argote o tem por fabula.<a id="FNanchor_129" href="#Footnote_129" class="fnanchor">[129]</a></p>
-
-<p>58 <i>Ossel</i>, ou <i>Osset</i>. Tambem naõ lidaõ pouco os
-Historiadores, e Geografos em averiguar a genuina situaçaõ local
-desta Cidade. Fr. Bernardo de Brito tem para si que estivera no Valle
-Ossella, tres leguas distante de Arouca, Bispado de Lamego;<a id="FNanchor_130" href="#Footnote_130" class="fnanchor">[130]</a> e
-accrescenta, que neste sitio achara vestigios daquelle notavel Templo,
-onde havia a Pia baptismal milagrosa, e que no meyo de huns cumulos
-de pedra estava huma cova feita ao comprido, cuberta de silvas, a
-que chamavaõ o banho, onde parece que naquella consumida reliquia
-perseverava ainda a tradiçaõ do tal prodigio.</p>
-
-<p>59 Todavia Fr. Antonio da Purificaçaõ mostra<a id="FNanchor_131" href="#Footnote_131" class="fnanchor">[131]</a> que esta terra teve
-sua existencia naõ longe de Viseu: que na sua principal Igreja houvera
-huma reliquia de Santo Estevaõ muito milagrosa: que ainda no seu tempo
-havia huma Ermida de fabrica antiquissima: que pouco adiante para a
-parte do mar está huma fonte, que chamaõ das virtudes: que mais para
-baixo estaõ naquelles contornos huns campos<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> chamados de <i>Assem</i>,
-que bem mostra ser vocabulo derivado de <i>Ossem</i>.</p>
-
-<p>60 Jorge Cardoso<a id="FNanchor_132" href="#Footnote_132" class="fnanchor">[132]</a> julga que ficava Osset junto de Agueda, e que
-era Cidade taõ forte, que a ella se fora refugiar Santo Hermenigildo
-o anno 581 para rebater a furia de Leovigildo, como dizem alguns
-Historiadores.<a id="FNanchor_133" href="#Footnote_133" class="fnanchor">[133]</a> D. Joseph de Santa Maria Carthusiano, Vigario do
-Convento de Nossa Senhora de las Cuevas em Sevilha, sahio à luz o anno
-de 1630 com hum livro sobre a situaçaõ de <i>Ossel</i>, e a colloca
-na Betica, seguindo a opiniaõ de Rodrigo Caro, a que Joaõ Franco
-Barreto lhe responde na Historia dos Bispos de Evora cap. 11. 12. 13.
-Porém huma das razões, que ha para desfazer estas conjecturas, he a
-authoridade de S. Maximo, que expressamente diz ficava a tal povoaçaõ,
-e Bautisterio no Bispado de <i>Pax Augusta</i>,<a id="FNanchor_134" href="#Footnote_134" class="fnanchor">[134]</a> que he Badajoz.</p>
-
-<p>61 <i>Ossonoba</i>, a que Plinio chama <i>Lusturia</i>,<a id="FNanchor_135" href="#Footnote_135" class="fnanchor">[135]</a> e
-Bocharto<a id="FNanchor_136" href="#Footnote_136" class="fnanchor">[136]</a> interpreta Fortaleza de Baal, esteve nas visinhanças de
-Faro no Algarve, onde hoje chamaõ <i>Estoy</i>. Foy Cidade famosa,
-e nobre, pois teve Cadeira Episcopal, como se collige de alguns
-Concilios, em que se vem assinados varios Bispos com o titulo de
-Ussonobenses, os quaes numéra o Catalogo dos Bispos do Algarve, que
-vem no fim das suas Constituições. Em tempo dos Romanos foy Republica.
-Consta de hum cippo, que está na muralha da fortificaçaõ de Faro, cujas
-letras se podem ver em Resende, e Grutero.<a id="FNanchor_137" href="#Footnote_137" class="fnanchor">[137]</a> Strabo<a id="FNanchor_138" href="#Footnote_138" class="fnanchor">[138]</a> lhe chama
-Sonoba, se acaso naõ he outro Lugar, como escrupuliza Bocharto. Na
-invasaõ dos Mouros padeceo<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> naõ só a ruina das suas fabricas, e muros,
-mas do nome, porque lhe chamaraõ <i>Exubona</i>. Duarte Nunes,<a id="FNanchor_139" href="#Footnote_139" class="fnanchor">[139]</a>
-e o Padre Poyares naõ distinguem Estoy de Estombar, sendo elles
-taõ diversos. D. Rodrigo da Cunha,<a id="FNanchor_140" href="#Footnote_140" class="fnanchor">[140]</a> e Jorge Cardoso cahiraõ na
-mesma confusaõ, sendo que este emendou o erro, retratando-o em outro
-lugar.<a id="FNanchor_141" href="#Footnote_141" class="fnanchor">[141]</a></p>
-
-<p>62 <i>Panonias.</i> Foy huma Cidade, que no tempo dos Romanos
-existio no terreno de Villa-Real, onde hoje está a Aldea chamada o
-<i>Assento</i>, da Freguezia de S. Pedro de Val de nogueiras: assim o
-mostra largamente o Reverendo Padre Argote.<a id="FNanchor_142" href="#Footnote_142" class="fnanchor">[142]</a></p>
-
-<p>63 <i>Pineto.</i> Era outra Cidade situada no lugar, que hoje chamaõ
-<i>Val de telhas</i>, cinco leguas distante da Villa de Chaves, e foy
-povoaçaõ Romana, como affirma o mesmo erudito Argote.<a id="FNanchor_143" href="#Footnote_143" class="fnanchor">[143]</a></p>
-
-<p>64 <i>Salacia.</i> De duas Cidades com este mesmo nome achamos memorias
-que existiraõ em nosso continente: huma cinco leguas de Braga, no
-sitio, onde chamaõ <i>Salamonde</i>; assim o prova Argote<a id="FNanchor_144" href="#Footnote_144" class="fnanchor">[144]</a>
-com o Itinerario de Antonino: a outra Salacia esteve onde hoje
-vemos <i>Alcacer do Sal</i>, e foy Cidade, que os Romanos chamaraõ
-Imperatoria, honra, que lhe deu Augusto Cesar, fazendo-a tambem
-Municipio.<a id="FNanchor_145" href="#Footnote_145" class="fnanchor">[145]</a></p>
-
-<p>65 <i>Scalabis.</i> He sem controversia a Villa de Santarem, a que os
-Romanos tambem chamaraõ <i>Julium Præsidium</i>. Em tempo dos Godos
-mudou o nome de Scalabis no que hoje possue, adquirindo-o da Santa
-Virgem, e Martyr Irena, cujo tumulo, naõ sem mysterio se conserva nas
-aguas do Tejo defronte<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> de Santarem, o qual melhor pronunciado he o
-mesmo que <i>Santa-Irene</i>.</p>
-
-<p>66 <i>Talabrica.</i> Quasi todos os Geografos convem em ser esta Cidade
-collocada antigamente onde está hoje <i>Aveiro</i>;<a id="FNanchor_146" href="#Footnote_146" class="fnanchor">[146]</a> só Rodrigo
-Mendes da Silva, seguindo a Floriaõ do Campo,<a id="FNanchor_147" href="#Footnote_147" class="fnanchor">[147]</a> diz que Aveiro naõ
-foy a <i>Talabrica</i>, mas sim a <i>Labara</i>, o que naõ he provavel,
-porque Labara he hum Lugar pequeno sobre o mar no termo do Porto.
-Duarte Nunes a constitue junto de Aveiro na ribeira do Vouga onde ha
-o lugar chamado Cacîa, e na parte da Ermida de S. Juliaõ; com quem se
-conforma Gaspar Barreiros pag. 51.</p>
-
-<p>67 <i>Tubuci</i> foy povoaçaõ dos Romanos, de cujas ruinas, conforme
-diz Resende, se erigio Abrantes, e se comprova com o Itinerario de
-Antonino; o qual na segunda via militar, que descreve de Lisboa para
-Merida, assina de Scalabis a Tubuci trinta e dous mil passos, que fazem
-as oito leguas, que ha de Santarem a Abrantes. Alguns attribuem Tubuci
-a Tancos.</p>
-
-<p>68 <i>Tuntobriga.</i> Foy huma Cidade, que pertencia à Chancellaria de
-Braga, e de que se naõ sabe mais que o nome.</p>
-
-<p>69 <i>Vacca.</i> Persuade-se Jorge Cardoso no tom. 2. do Agiologio pag.
-65. que esta antiga Cidade estivesse onde hoje vemos erecta a de Viseu;
-porém Plinio, e Ptolomeu naõ fazem della mençaõ. O Author da Corografia
-Portugueza diz, que por tradiçaõ a Cidade antiga chamada <i>Vacca</i>
-estivera onde hoje he a Villa de Vouga na Comarca de Aveiro: porém
-quando trata da Cidade de Viseu, traslada tudo que achou em Jorge
-Cardoso, convindo com elle em ser Viseu a antiga Vacca.</p>
-
-<p>70 Outras muitas povoações existiraõ em nosso<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> Reino em tempo dos
-Romanos, que se achaõ mencionadas nas Taboas de Ptolomeu, e Cartas de
-outros Geografos, posto que nós naõ conhecemos, nem lhe podemos saber o
-verdadeiro significado, mais que por conjectura, assim como fez Argote
-com algumas da Provincia Bracarense. Das que sem muita controversia
-podemos declarar situadas em varias partes do nosso continente, saõ as
-que numeraõ Resende, e Vasconcellos, a saber:</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><td><i>Ad septem Aras</i></td><td> Açumar, ou Alegrete.</td></tr>
-<tr><td><i>Amæa</i></td><td> Portalegre.</td></tr>
-<tr><td><i>Aquæ Flaviæ</i></td><td> Chaves.</td></tr>
-<tr><td><i>Aritium Prætorium</i></td><td> Benavente.</td></tr>
-<tr><td><i>Arucitana</i></td><td> Moura</td></tr>
-<tr><td><i>Balsa</i></td><td> Tavira.</td></tr>
-<tr><td><i>Bracara Augusta</i></td><td> Braga.</td></tr>
-<tr><td><i>Brætoleum</i></td><td> Vianna de Caminha.</td></tr>
-<tr><td><i>Budua</i></td><td> Botova, ou Ouguella.</td></tr>
-<tr><td><i>Calantica</i></td><td> Arrayolos.</td></tr>
-<tr><td><i>Calem</i></td><td> Porto.</td></tr>
-<tr><td><i>Ceciliana</i></td><td> Agualva, ou Agua de Moira.</td></tr>
-<tr><td><i>Cellium</i></td><td> Ceice junto de Thomar.</td></tr>
-<tr><td><i>Cetobriga</i></td><td> Setubal.</td></tr>
-<tr><td><i>Collipo</i></td><td> Leiria.</td></tr>
-<tr><td><i>Concia</i></td><td> Miranda do Douro.</td></tr>
-<tr><td><i>Conimbrica</i></td><td> Condeixa a velha.</td></tr>
-<tr><td><i>Ebora</i>, ou <i>Liberalitas Julia</i></td><td> Evora.</td></tr>
-<tr><td><i>Eburobritium</i></td><td> Evora d’Alcobaça.</td></tr>
-<tr><td><i>Elteri</i></td><td> Alter do Chaõ.</td></tr>
-<tr><td><i>Eminium</i></td><td> Agueda.</td></tr>
-<tr><td><i>Equabona</i></td><td> Coina.</td></tr>
-<tr><td><i>Forum Limicorum</i></td><td> Ponte de Lima.</td></tr>
-<tr><td><i>Fraxinum</i></td><td> Alpalhaõ, ou Gaviaõ.</td></tr>
-<tr><td><i>Helvij</i></td><td> Elvas.</td></tr>
-<tr><td><i>Jerabrica</i></td><td> Póvos, ou Alenquer.</td></tr>
-<tr><td><i>Igædita</i></td><td> Idanha, ou Guarda.</td></tr>
-<tr><td><i>Lacobrica</i></td><td> Lagos.<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></td></tr>
-<tr><td><i>Lama</i>, ou <i>Lameca</i></td><td> Lamego.</td></tr>
-<tr><td><i>Lancobrica</i></td><td> Feira.</td></tr>
-<tr><td><i>Malceca</i></td><td> Marateca.</td></tr>
-<tr><td><i>Matusaro</i></td><td> Ponte de Sor.</td></tr>
-<tr><td><i>Medobrica</i></td><td> Aramenha.</td></tr>
-<tr><td><i>Merobriga</i></td><td> Santiago de Cacem.</td></tr>
-<tr><td><i>Moro</i></td><td> Almorol, ou Punhete.</td></tr>
-<tr><td><i>Myrtilis Julia</i></td><td> Mertola.</td></tr>
-<tr><td><i>Næbia</i></td><td> Neiva.</td></tr>
-<tr><td><i>Olisipo</i>, ou <i>Fælicitas Julia</i></td><td> Lisboa.</td></tr>
-<tr><td><i>Ossonoba</i></td><td> Estoi junto de Faro.</td></tr>
-<tr><td><i>Pax Julia</i></td><td> Beja.</td></tr>
-<tr><td><i>Portus Anibalis</i></td><td> Villanova de Portimaõ.</td></tr>
-<tr><td><i>Salacia</i>, ou <i>Urbs Imperatoria</i></td><td> Alcacer do Sal.</td></tr>
-<tr><td><i>Saurium</i></td><td> Soure.</td></tr>
-<tr><td><i>Scalabis</i>, ou <i>Julium Præsidiũ</i></td><td> Santarem.</td></tr>
-<tr><td><i>Serpa</i></td><td> Serpa.</td></tr>
-<tr><td><i>Talabrica</i></td><td> Aveiro.</td></tr>
-<tr><td><i>Tubuci</i></td><td> Abrantes.</td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Plin lib. 8. Epist. 24. <i>Revertere gloriam veterem,
-&amp; hanc ipsam senectutem, quæ in homine venerabilis, in urbibus sacra
-est</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Ptolom. apud Cellar. lib. 2 cap. 1. Geogr. antiq. Veja-se
-Botelho no Alfonso liv. 3. est. 77.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. pag. 627. Corog. Port. tom.
-1. p. 310. Argot. Antig. de Brag. t. 1. c. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Villalob. Nobiliarch. Portug. pag. 89. Corogr. Port. t.
-1. pag. 296.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Resend. lib. 1. Antiq. Lusit. Cellar. Georgr. antiq. lib.
-2. c. 1. §. 51. Vasæus Chronic. Hispan. pag. 254. Gruter. pag. 156. n.
-4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Argot. Antig. de Brag. t. 1. lib. 2. c. 3. 4. 5. Et de
-antiq. Convent. Brachar. lib. 1. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Gaspar Barreir. na Corogr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. tom. 1. pag. 323.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Cunha Histor. Eccl. de Brag. part 1. c. 19. Villasboas
-Nobil. Port. pag. 79.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Rodr. Caro in notis ad Dextr. ann. 265. <i>Ambrasia in
-Lusitania S. Epitectus ejusdem Civitatis civis, &amp; Pontifex Martyr
-Christi</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Agiol. Lusit. tom. 3. pag 38.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> O Campo Chron. p. 1. lib. 3. c. 27. Argot. Antig. de
-Brag. t. 1. lib. 2. c. 6. n. 513. D. Franc. Man. Cent. 3. Cart. 62. p.
-425.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Faria Fonte de Aganip. p. 2. Eclog. 4. Est. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Estaç. nas Antig. de Port. c. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Monarc. Lusit. liv. 2. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Corogr. Portug tom. 2. pag. 308.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> Resend. de Antiq. Lusit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Gasp. Barr. na Corogr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Cardos. no Agiol. tom. 3. p. 371.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Sá Mem. Hist. part. 2 p. 1. &amp; seq. Resend. de antiq. lib.
-4. pag. mihi 171.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Ferreras Histor. de Hesp. part 3. ad ann. 466</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_42" href="#FNanchor_42" class="label">[42]</a> Argot. Antig. de Braga tom. 1. p. 376.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_43" href="#FNanchor_43" class="label">[43]</a> Cardos. Agiol Lusit. tom. 2. p. 344.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_44" href="#FNanchor_44" class="label">[44]</a> Res. lib. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_45" href="#FNanchor_45" class="label">[45]</a> Cellar. lib 2. Geogr. antiq. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_46" href="#FNanchor_46" class="label">[46]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. lib. 2. c. 6. n 516.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_47" href="#FNanchor_47" class="label">[47]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. V. Argais na
-Poblacion Ecclesiast. de Hespanh. ad ann. 893.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_48" href="#FNanchor_48" class="label">[48]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_49" href="#FNanchor_49" class="label">[49]</a> Monarq. Lus. l. 7. c. 23. Fr. Leaõ Benedict. tr. 2. p. 2.
-c. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_50" href="#FNanchor_50" class="label">[50]</a> Corogr. Port. t. 1. p. 237.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_51" href="#FNanchor_51" class="label">[51]</a> Argot. Mem. de Brag. t. 2. p. 682.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_52" href="#FNanchor_52" class="label">[52]</a> Vasconc. in not. ad Resend. lib. 1. p. 258. Rodr. Mend.
-Poblac. gen. de Hesp. p. 135. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62. Corogr.
-Port. t. 2. p. 525. Agiol. Lus. tom. 3. p. 86. Cardoso no Diccion.
-Geogr. tom. 1. p. 487.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_53" href="#FNanchor_53" class="label">[53]</a> Corogr. Port. tom. 3. p. 175.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_54" href="#FNanchor_54" class="label">[54]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 761.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_55" href="#FNanchor_55" class="label">[55]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p.316.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_56" href="#FNanchor_56" class="label">[56]</a> Rodr. Car. Antig. de Sevilh. Caram. Explicac. Mystic. de
-las armas de Hespanh. p. 72.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_57" href="#FNanchor_57" class="label">[57]</a> Heit. Pint. in Ezech. cap. 13. Maced. Flor. de Hespanh.
-cap. 1. exc. 6. Far. Epit. p. 4. lib. 5. cap. 4. Becan. in Hermat.
-p. 229. Luiz Mar. Antig. de Lisb. D. Franc. Man. cent. 3. cart. 62.
-Corogr. Port. tom. 1. p. 209. Lacerd. in l. 6. Virgil. Æneid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_58" href="#FNanchor_58" class="label">[58]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Elysium in campum, terrarumque ultima tandem</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Dii te transmittent, stat flavus ubi Rhadamanthus</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Existitque viris, ubi vita, facilima durans</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Non hyemis vis multa: nives non ingruit imber</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Stridula, sed semper Zephyrorum flamina mittit</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Ingens Oceanus, senimina grata virorum.</i></span><br>
-</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 10em;">Homer. Odyss. d. vers. 113.</span><br>
-</p>
-
-
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_59" href="#FNanchor_59" class="label">[59]</a> S. Gregor. Nazianz. orat. 20. p. 333. <i>Paradisi
-videlicet nostri speciem quandam animo intuentes, atque ex Mosaicis,
-ut opinor, nostrisque libris, tametsi in nomine nonnihil discreparit,
-aliis tamen vocabulis, hoc ipsum indicantes.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_60" href="#FNanchor_60" class="label">[60]</a> Proclus in Hesiod. fol. 27. <i>Beatorum insulas cum dicit
-Paradisum, aut campum Elysium significare videtur, sic dictum, quod
-corpora servet indissolubilia.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_61" href="#FNanchor_61" class="label">[61]</a> Bechman. de origin. ling. Latin. p. 333.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_62" href="#FNanchor_62" class="label">[62]</a> S. Justin. in Cohortat. ad Græcos p. 27. <i>Permulta esse
-à Poeta, ex Divinis quoque Prophetarum libris in opus suum relata...
-Deinde verò, ut Paradisi effigiem Alcinoi horti conservarent, fecit
-illos florentes, &amp; frugum ubertate scatentes.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_63" href="#FNanchor_63" class="label">[63]</a> Div. Hieron. in Genes. cap. 2. vers. 15.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_64" href="#FNanchor_64" class="label">[64]</a> Strab. de Situ Orbis lib. 3. p. mihi 143.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_65" href="#FNanchor_65" class="label">[65]</a> Genes. 5.23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_66" href="#FNanchor_66" class="label">[66]</a> Barcepha de Paradis. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_67" href="#FNanchor_67" class="label">[67]</a> Malvend. de Parad. lib. 1. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_68" href="#FNanchor_68" class="label">[68]</a> Rodrig. Car. ad ann. Christ. 419.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_69" href="#FNanchor_69" class="label">[69]</a> Benedict. Lusit. tom. 1. pag. 304.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_70" href="#FNanchor_70" class="label">[70]</a> Haub. Chron. ad ann. 420.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_71" href="#FNanchor_71" class="label">[71]</a> Haubert. ad ann. 86.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_72" href="#FNanchor_72" class="label">[72]</a> Argaes Poblacion Eccles. de Hesp. tom. 1. fol. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_73" href="#FNanchor_73" class="label">[73]</a> Benedict. Lus. tom. 2. p. 109.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_74" href="#FNanchor_74" class="label">[74]</a> Cardos. Agiol. Lus. tom. 1. p. 172.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_75" href="#FNanchor_75" class="label">[75]</a> Maced Flor. de Hesp. excel. 10. n. 3. P. Purific Chronic.
-de S. Agost. p. 2. liv. 7. tit. 1. § 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_76" href="#FNanchor_76" class="label">[76]</a> Argot. Antig. de Brag. part. 1. p. 377.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_77" href="#FNanchor_77" class="label">[77]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 1. p. 318.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_78" href="#FNanchor_78" class="label">[78]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 338.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_79" href="#FNanchor_79" class="label">[79]</a> Purific. Chron. August. tom. 1. p. 215. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_80" href="#FNanchor_80" class="label">[80]</a> Argot. Mem. de Brag. tom. 2. p. 694. Leal, Mem. do
-Bispad. da Guard. part. 1. tit. 3. cap. 2. n. 202. 203. 204.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_81" href="#FNanchor_81" class="label">[81]</a> Valer. Maxim. l. 6. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_82" href="#FNanchor_82" class="label">[82]</a> Monarq. Lusit. part. 1. liv. 3. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_83" href="#FNanchor_83" class="label">[83]</a> Far. Epitom. p. 110. part. 2. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_84" href="#FNanchor_84" class="label">[84]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_85" href="#FNanchor_85" class="label">[85]</a> P. Abreu no fim da vida de S. Quiteria p. 307.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_86" href="#FNanchor_86" class="label">[86]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p. 320. e tom. 3. p. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_87" href="#FNanchor_87" class="label">[87]</a> Corog. Port. tom. 1. p. 162.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_88" href="#FNanchor_88" class="label">[88]</a> Argot. Mem. de Brag. p. 386. e 457.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_89" href="#FNanchor_89" class="label">[89]</a> Monarq. Lusit. p. 1. cap. 3. Heit Pint. in Ezech. cap.
-27. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_90" href="#FNanchor_90" class="label">[90]</a> Resend. l. 4. de Antiq. p. mihi 216. Paiv. no Exame de
-Antiguid. p. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_91" href="#FNanchor_91" class="label">[91]</a> Barreir. Corograf. p. 63.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_92" href="#FNanchor_92" class="label">[92]</a> Luiz Nunes cap. 38.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_93" href="#FNanchor_93" class="label">[93]</a> Cellario Geograf. Antiq. liv. 2. cap. 1 § 16.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_94" href="#FNanchor_94" class="label">[94]</a> Plin. liv. 1. cap. 24. Gruter. p. 1155. Vasconcel lib. 5.
-de Eborensi Municip. p. mihi 24. Duarte Nun. Deser. de Portug. p. 13.
-Brandaõ t. 3. Cardos. no Agiol. t. 2. p. 374. Barreiros na Corograf. p.
-50. v.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_95" href="#FNanchor_95" class="label">[95]</a> Bivar ad ann. 145.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_96" href="#FNanchor_96" class="label">[96]</a> Plin. liv. 4. cap. 22. Benedict. Lusit. part. 4. trat. 2.
-p. 173. Abreu Vid. de S. Quiter. p. 203.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_97" href="#FNanchor_97" class="label">[97]</a> Medin. l. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_98" href="#FNanchor_98" class="label">[98]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 3. p. 760. &amp; tom. 1. p. 457.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_99" href="#FNanchor_99" class="label">[99]</a> Leal, Mem. do Bisp. da Guard. p. 14. &amp; seq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_100" href="#FNanchor_100" class="label">[100]</a> Id. Dissertaç. Exegetic. not. 5. n 28.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_101" href="#FNanchor_101" class="label">[101]</a> Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 26.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_102" href="#FNanchor_102" class="label">[102]</a> Mela liv. 5. cap. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_103" href="#FNanchor_103" class="label">[103]</a> Resend lib. 2. Antiq. p. 66. mihi. Baudrand. Diction.
-Geogr. verb. <i>Erythia.</i> Marinh. de Azeved. Antiguid. de Lisb. p.
-105.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_104" href="#FNanchor_104" class="label">[104]</a> Paiv. Exam. de Antig. p. 42.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_105" href="#FNanchor_105" class="label">[105]</a> Montejar, Antig. de Hesp. part. 2 disquis. 5. §. 2. cap.
-2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_106" href="#FNanchor_106" class="label">[106]</a> Salmac. Exercit. Plinian. p. 284. Avien. in Oris
-maritim. vers. 308. Bochart. Geograf. Sacr. p. 679. Car. Antig. de
-Sevilh. l. 3. cap. 25. Cellar. Geogr. antiq. liv. 2. cap 1. §. 127.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_107" href="#FNanchor_107" class="label">[107]</a> Vasconcel. in Annotat. ad Resend. Barreir. Corograf. p.
-50.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_108" href="#FNanchor_108" class="label">[108]</a> Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_109" href="#FNanchor_109" class="label">[109]</a> Ibid. l. 5. cap. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_110" href="#FNanchor_110" class="label">[110]</a> De La Cled. Hist. de Portug. tom. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_111" href="#FNanchor_111" class="label">[111]</a> Monarq. ut supr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_112" href="#FNanchor_112" class="label">[112]</a> Argot. nas antiguid. da Chancellar. de Brag. p. 128.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_113" href="#FNanchor_113" class="label">[113]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. liv. 2. cap. 6. n. 525.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_114" href="#FNanchor_114" class="label">[114]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_115" href="#FNanchor_115" class="label">[115]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 87. Barreir. Corog. tit.
-de Talaver. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_116" href="#FNanchor_116" class="label">[116]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Dicitur Ardiburi posuisse Lacobriga septem</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Victori toties statuas, totiesque per illum</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Eruta Wandalicis bello insurgente procellis.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 10em;">Mantuan. in Agelaric.</span><br>
-</p>
-
-
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_117" href="#FNanchor_117" class="label">[117]</a> Vasconcel. Descript. Regn. Lusitan. p. 797.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_118" href="#FNanchor_118" class="label">[118]</a> Mousinh. no Afric. cant 3. est. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_119" href="#FNanchor_119" class="label">[119]</a> Gabr. Pereir. na Ulyss. cant. 8. est. 146.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_120" href="#FNanchor_120" class="label">[120]</a> Argot. Mem. de Brag. liv. 4. cap. 4. p. 670.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_121" href="#FNanchor_121" class="label">[121]</a> Resend. de Antiq. Lusit. lib. 4. p. mihi 188. e 209.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_122" href="#FNanchor_122" class="label">[122]</a> Andr. Schotti, Isaac Vosio, Plinio, Antonin, e outros
-apud Cellar. lib. 2. cap. 1. §. 20. Geograf. antiq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_123" href="#FNanchor_123" class="label">[123]</a> Monarq. liv. 9. cap. 27. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 68.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_124" href="#FNanchor_124" class="label">[124]</a> Argot. Mem. do Arc. de Brag. p. 649.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_125" href="#FNanchor_125" class="label">[125]</a> P. Henriq. de Abreu, Vid. de S. Quiter. p. 203.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_126" href="#FNanchor_126" class="label">[126]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. l. 2. cap. 14. dissert.
-3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_127" href="#FNanchor_127" class="label">[127]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2 &amp; 16. cap. 45. Cardos.
-Agiol. Lusitan. tom. 2. a 20 de Abril, &amp; tom. 3. p. 726. Arauj. nos
-Success. Milit p. 109. &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_128" href="#FNanchor_128" class="label">[128]</a> Corograf. Port. tom. 1. p. 210.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_129" href="#FNanchor_129" class="label">[129]</a> Argot. Mem. do Arceb. de Brag. p. 396.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_130" href="#FNanchor_130" class="label">[130]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_131" href="#FNanchor_131" class="label">[131]</a> Purific. Chronic. August. tom. 1. p. 134. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_132" href="#FNanchor_132" class="label">[132]</a> Cardos. Agiol. Lusit. tom. 2. p. 546.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_133" href="#FNanchor_133" class="label">[133]</a> Fr Leaõ de S. Thom. Benedictin. Lusit. tom. 2 p. 279.
-Saavedr. Coron. Gotic. part. 1. cap 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_134" href="#FNanchor_134" class="label">[134]</a> S. Max. ad an. 550. <i>Prope Osset oppidum Lusitaniæ
-in Diœcesi Pacis Augustæ fontes Baptismatis in pervigilio Paschatis
-excitantur</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_135" href="#FNanchor_135" class="label">[135]</a> Plin. l. 3. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_136" href="#FNanchor_136" class="label">[136]</a> Bochart. Geogr. Sacr. lib 1. cap. 34. tom. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_137" href="#FNanchor_137" class="label">[137]</a> Resend. l. 4. p. 201. Gruter. p. 274.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_138" href="#FNanchor_138" class="label">[138]</a> Strab. liv. 3. p. 99.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_139" href="#FNanchor_139" class="label">[139]</a> Nun. Descr. de Portug. pag. 13. Poyar. Diccion. Geogr.
-pag. 184.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_140" href="#FNanchor_140" class="label">[140]</a> Rodrig. da Cunh. Hist. de Brag. part. 2. cap. 61.
-Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 1. Prolog. § 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_141" href="#FNanchor_141" class="label">[141]</a> Id. Card. tom. 2. Agiol. p. 10. Vide etiam Argaes
-Dialog. 3. cap. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_142" href="#FNanchor_142" class="label">[142]</a> Argot. Memor. do Arceb. de Brag. p. 325.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_143" href="#FNanchor_143" class="label">[143]</a> Id. ibid. p. 359.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_144" href="#FNanchor_144" class="label">[144]</a> Ibid. p. 370.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_145" href="#FNanchor_145" class="label">[145]</a> Plin. lib. 4. cap. 22. Barreir. Corogr. p. 63.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_146" href="#FNanchor_146" class="label">[146]</a> Cellar. Geogr. antiq. lib. 2. cap. 1. §. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_147" href="#FNanchor_147" class="label">[147]</a> Mend. da Silv. Poblac. gen. de Hesp.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_III">CAPITULO III.<br><span class="small"><i>Descripçaõ circular pela margem maritima, e raya terrestre.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-<p>1 Antes de entrarmos a ver o Reino interiormente, faremos pela parte
-de fóra hum giro, ou descripçaõ hydrografica, e geografica, rodeando-o
-todo, e informando dos principaes portos, surgidouros, e praças
-fronteiras, de que consta. Principiando pois pela margem septentrional,
-o primeiro porto, que se nos offerece, he</p>
-
-<p>2 <i>Caminha</i>. Fica esta barra sobre o rio Minho, e he o termo, que
-divide Portugal de Galiza, ficando-lhe opposta a Villa da Guarda, e os
-Lugares<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> de Tamugem, Rosal, e outros dos Galegos. Na entrada tem huma
-Ilha, onde está o forte de Nossa Senhora da Insoa. Faz esta Ilha duas
-barras pequenas: huma para o Norte, e he perigosa: outra para o Sul; e
-continuando a distancia de tres leguas para o Meyo dia, segue-se</p>
-
-<p>3 <i>Viana</i> na foz do rio Lima: he barra estreita, e da parte de
-fóra da ponta do Norte ha hum recife, que corre ao Sul, e dá capacidade
-para ancorarem embarcações naõ muito grandes, porque hoje está mais
-entupida de arêas. Sobre a barra tem hum Castello com cinco baluartes,
-dous revelins, e defronte da mesma barra tem mais huma plataforma para
-sua defensa. Daqui se continúa até</p>
-
-<p>4 <i>Esposende</i>, que dista de Viana tres leguas para o Sul.
-Nesta barra, onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de
-embarcações grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças
-escaças de agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o
-rio Cávado por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando
-aquella para a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar,
-quasi meya legua da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte
-a Sul hum quarto de legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ
-<i>Cavallos de Faõ</i>, entre os quaes, e a terra podem bordejar
-navios, pois tem cinco, ou seis braças de fundo em preamar. O Author
-da Corografia Portugueza tom. 1. pag. 310. diz, que este era o porto,
-em que se carregavaõ de ouro as frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual
-veja-se tambem a Antonio de Sousa de Macedo nas Flores de Hespanha cap.
-4. excel. 2. O mais certo he, que foy este o porto, donde sahiaõ as
-armadas dos Romanos para fazerem as suas conquistas. Vindo caminhando
-para o Sul o espaço de tres leguas, segue-se a</p>
-
-<p>5 <i>Villa do Conde</i>. Dá entrada a esta barra a foz<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> do rio Ave,
-porém estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes
-delineado pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay
-correndo a marinha até o</p>
-
-<p>6 <i>Porto</i>, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o
-porto de Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro,
-e fica distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma
-da parte do Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira
-ordinaria de entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua
-cheya, sendo navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno
-sempre he perigosa pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ.
-Perto da entrada da barra para a parte do Norte está o Castello de S.
-João da Foz em quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos.
-Hum dos seus lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e
-no outro lado opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim.
-Aqui se termina a Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto
-sempre para o Sul o espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra
-da Beira, que he</p>
-
-<p>7 <i>Aveiro</i>. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da
-Cidade tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e
-quatro palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre
-da ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia
-de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no
-ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias,
-onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o
-genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste,
-encontramos a barra do</p>
-
-<p>8 <i>Mondego</i>. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca
-da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do forte
-meya legua<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span> na Costa fica a Villa de <i>Boarcos</i>, onde tambem ha
-surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia
-de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da
-Estremadura a</p>
-
-<p>9 <i>Pederneira</i>. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e
-caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja
-de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo
-concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de
-duas leguas está</p>
-
-<p>10 <i>Selir</i>, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à
-Villa de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos,
-por onde entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma
-enseada, que terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e
-patachos. De Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas,
-segue-se</p>
-
-<p>11 <i>Peniche</i>, onde tambem chamaõ <i>Cabo de Carvoeiro</i>. Fica,
-estando a maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da
-banda do Norte he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em
-seis, ou sete braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de
-Peniche estaõ duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que
-chamaõ as <i>Berlengas</i>, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de
-Peniche para o Sul, caminhando onze leguas, está a <i>Ericeira</i>, e a
-pouco espaço o <i>Cabo da Roca</i>. Para diante mais duas leguas está
-<i>Cascaes</i>, onde ha capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito
-até vinte braças de alto. Daqui proseguindo interposto o espaço de duas
-leguas, se encontra o famoso porto de</p>
-
-<p>12 <i>Lisboa</i>. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo
-de duas fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e
-S. Lourenço,<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em
-distancia huma da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo
-cada passo. Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta
-barra 2500 passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa
-dos cachopos, que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a
-qual se divide em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a
-fortaleza de S. Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay
-por entre os cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S.
-Lourenço, chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem
-500 braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra
-dentro, a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey
-D. Manoel, fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena
-distancia de huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de
-Lisboa: mas como o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum
-grande seyo, fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que
-naõ continue na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que
-ha desde a barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th class="w50">Portos do Tejo da parte do Sul.</th><th>Portos do Tejo da parte do Norte.</th></tr>
-<tr><td>Trafaria. </td><td>S. Giaõ.</td></tr>
-<tr><td>Portinho de Costa. </td><td>Oeiras.</td></tr>
-<tr><td>Torre velha. </td><td>Caxias.</td></tr>
-<tr><td>Porto brandaõ. </td><td>Carcavelos.</td></tr>
-<tr><td>Manatega. </td><td>Paço d’Arcos.</td></tr>
-<tr><td>Alfansina. </td><td>Cartuxa.</td></tr>
-<tr><td>Arrabida. </td><td>Boa Viagem.</td></tr>
-<tr><td>Arialva. </td><td>Santa Catharina.</td></tr>
-<tr><td>Fonte da pipa. </td><td>Pedrouços.</td></tr>
-<tr><td>Cassilhas. </td><td>Belém.<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></td></tr>
-<tr><td>Caramujo. </td><td>Junqueira.</td></tr>
-<tr><td>Motella. </td><td>Santo Amaro.</td></tr>
-<tr><td>Oliveirinha. </td><td>Alcantara.</td></tr>
-<tr><td>Corroyos. </td><td>Pampulha.</td></tr>
-<tr><td>Santa Martha. </td><td>Santos velhos.</td></tr>
-<tr><td>Talaminho. </td><td>Caes do Tojo.</td></tr>
-<tr><td>Amora. </td><td>A Dizima.</td></tr>
-<tr><td>Rio dos Judeos. </td><td>Remolares.</td></tr>
-<tr><td>Arrentella. </td><td>Corpo Santo.</td></tr>
-<tr><td>Seixal. </td><td>Caes da Pedra.</td></tr>
-<tr><td>Rosario. </td><td>Alfama.</td></tr>
-<tr><td>Porto dos PP. Paulistas. </td><td>Caes do Carvaõ.</td></tr>
-<tr><td>Aldeya. </td><td>Bica do Sapato.</td></tr>
-<tr><td>Cabo da Linha. </td><td>Santa Apollonia.</td></tr>
-<tr><td>Coina. </td><td>Cruz da Pedra.</td></tr>
-<tr><td>Fornos delRey. </td><td>Madre de Deos.</td></tr>
-<tr><td>Palhaes. </td><td>Xabregas.</td></tr>
-<tr><td>A Telha. </td><td>Grilo.</td></tr>
-<tr><td>A Verderena. </td><td>Beato Antonio.</td></tr>
-<tr><td>Barreiro. </td><td>Poço do Bispo.</td></tr>
-<tr><td>Lavradio. </td><td>A Martinha.</td></tr>
-<tr><td>Barra a barra. </td><td>Braço de prata.</td></tr>
-<tr><td>Alhos vedros. </td><td>Cabo rubo.</td></tr>
-<tr><td>Moita. </td><td>Unho de D. Garcia.</td></tr>
-<tr><td>Esteiro furado. </td><td>Marvilla.</td></tr>
-<tr><td>Sarilhos grandes. </td><td>Olivaes.</td></tr>
-<tr><td>Sarilhos pequenos. </td><td>Sacavem.</td></tr>
-<tr><td>Aldeya Galega. </td><td rowspan="9" class="top">Aqui desagua este rio no Tejo por huma grande boca, fazendo huma profundissima foz; e ficando quasi ao Norte da Cidade,
-volta contra o Noroeste, onde se encontraõ os vistosos portos de <i>Unhos</i>, <i>Frielas</i>, <i>Mealhada</i>, <i>Granja</i>,
-<i>Marnotas</i>, <i>Santo Antonio do Tojal, &amp;c</i>. Continuando pela marinha direita, segue-se:<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></td></tr>
-<tr><td>Lançada.</td></tr>
-<tr><td>Quinta de D. Maria. </td></tr>
-<tr><td>Samouco. </td></tr>
-<tr><td>Alcouxete. </td></tr>
-<tr><td>Barroca d’Alva. </td></tr>
-<tr><td>Pancas. </td></tr>
-<tr><td>Çamora Correa. </td></tr>
-<tr><td>Benavente. </td></tr>
-
-
-<tr><td>Salvaterra. </td><td>Massaroca.</td></tr>
-<tr><td>Escaroupim. </td><td>Santa Iria.</td></tr>
-<tr><td>Mugem. </td><td>Povoa.</td></tr>
-<tr><td>Santa Martha. </td><td>Alverca.</td></tr>
-<tr><td>Almeirim. </td><td>Alhandra.</td></tr>
-<tr><td>Chamusca. </td><td>Villa-Franca.</td></tr>
-<tr><td>Pinheiro. </td><td>Póvos.</td></tr>
-<tr><td>Moita. </td><td>Castanheira.</td></tr>
-<tr><td>Barca. </td><td>Villa-Nova.</td></tr>
-<tr><td>Brito. </td><td>Azambuja.</td></tr>
-<tr><td>Santa Margarida. </td><td>Casa branca.</td></tr>
-<tr><td>Crucifixo. </td><td>Valada.</td></tr>
-<tr><td rowspan="12" class="top">&amp;c.</td><td> Porto de Mugem.</td></tr>
- <tr><td>Santarem.</td></tr>
- <tr><td>Azinhaga.</td></tr>
- <tr><td>Labruja.</td></tr>
- <tr><td>Cardiga.</td></tr>
- <tr><td>Barquinha.</td></tr>
- <tr><td>Tancos.</td></tr>
- <tr><td>Payo de pelles.</td></tr>
- <tr><td>Praya.</td></tr>
- <tr><td>Punhete.</td></tr>
- <tr><td>Redemoinhos.</td></tr>
- <tr><td>Abrantes.</td></tr>
-</table>
-
-<p>Tornando agora a seguir o progresso da marinha do Oceano Lusitanico,
-prosegue a Costa da Roca de Cintra até o</p>
-
-<p>13 <i>Cabo de Espichel</i> na distancia de oito leguas ao Sudueste.
-Em outro tempo se chamou Promontorio Barbarico, habitaçaõ dos póvos
-Sarrios. No cimo desta serra está hum Templo dedicado à milagrosa
-Imagem de Nossa Senhora do Cabo. Pouco mais para diante huma legua está</p>
-
-<p>14 <i>Cezimbra</i>, em que ha fortaleza, e se póde surgir. Daqui à
-Arrabida ha duas leguas, e junto<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> della a <i>Torre de Outaõ</i>, e huma
-enseada para setias, e barcos de tres vélas. Na distancia de huma boa
-legua para Leste se offerece a barra de</p>
-
-<p>15 <i>Setubal</i>, que tem em preamar cinco braças, e em baixamar vinte
-e seis palmos. Faz aqui o Oceano huma grande enseada, e vem nella
-mergulhar suas correntes o rio Sadaõ. Distante de Setubal quinze leguas
-fica</p>
-
-<p>16 <i>Sines</i> já no Reino, e Provincia do Algarve, onde ha surgidouro
-em dez, ou quinze braças. Vay daqui correndo a Costa ao Sul vinte
-leguas até o Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro; mas neste
-caminho mais tres leguas se vê a</p>
-
-<p>17 <i>Ilha do Pessegueiro</i>, antigamente chamada Petanio, como diz
-Joaõ de Mariana liv. 1. cap. 21. entre a qual, e a terra ha surgidouro
-em duas, e tres braças. Para diante ao Sul mais duas leguas está a
-barra de</p>
-
-<p>18 <i>Odemira</i>, capaz sómente de caravelas, e tem duas varas de
-fundo. Caminhando-se para diante sete leguas, está</p>
-
-<p>19 <i>Arrifana</i>, onde ha huma enseada, na qual se póde surgir em
-oito até doze braças. Segue-se em distancia de cinco leguas o Cabo de
-S. Vicente, e na pequena distancia de huma legua para o Lesueste está</p>
-
-<p>20 <i>Sagres</i>, que da parte de Leste em huma enseada abrigada tem
-surgidouro com quatorze, e quinze braças de fundo. Cinco leguas para
-diante continúa</p>
-
-<p>21 <i>Lagos</i>. Tem hum porto capaz de receber grandes armadas em
-sete para oito braças de fundo, e defendido da fortaleza chamada da
-<i>Bandeira</i>, bem guarnecida de artelharia, encontrando-se por esta
-Costa outras muitas fortalezas, que a defendem. Naõ está muito longe de
-Lagos a foz de</p>
-
-<p>22 <i>Alvor</i>. Foy na opiniaõ verosimil fundaçaõ de Anibal, chamada
-<i>Portos Anibalis</i>. Navega-se da sua<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> foz até à Villa em lanchas.
-Defronte de Alvor meya legua ao mar está huma pedra, que naõ apparece
-senaõ em baixamar de aguas vivas. Huma legua para Leste segue-se</p>
-
-<p>23 <i>Villa-Nova de Portimaõ</i>, em cuja barra por causa dos bancos
-de arêa moviveis se naõ entra sem Piloto pratico. Tem na entrada dous
-fortes, hum ao Poente chamado de Santa Catharina, e outro ao Nascente,
-a que chamaõ de S. Joaõ, com duas batarias. Terá a barra de preamar
-vinte e tres palmos, e de baixamar dez, com que tem capacidade para
-bastantes embarcações grandes. Daqui se navega até Sylves, que lhe
-dista duas leguas, mas sómente se póde ir em barcos, porque esta bahia
-tem só meya legua de comprimento capaz. Descobre-se logo</p>
-
-<p>14 <i>Albofeira</i>, onde está o Cabo de Carvoeiro, e nelle hum forte
-da Senhora da Incarnaçaõ. Daqui tres leguas para Leste está a Villa de
-Albofeira no fundo de huma enseada feita por dous cabos, hum da parte
-de Leste, outro de Oeste. Segue-se</p>
-
-<p>25 <i>Faro</i>, a entrada de cuja barra he estreita, e fica para a
-parte de Leste da Cidade, da qual dista legua e meya. Mais adiante
-cinco leguas vemos.</p>
-
-<p>26 <i>Tavira</i>, cuja barra terá de surgidouro cinco braças de fundo,
-e he defendida por duas fortalezas bem artilhadas. Está para diante a
-Villa de Cacella, e logo mais tres leguas, continuando a mesma Costa do
-Algarve, está ultimamente</p>
-
-<p>27 <i>Castro-Marim</i> defronte de Ayamonte, que lhe fica da outra
-parte do rio Guadiana, o qual desemboca por aqui no mar Oceano, e
-separa o Reino do Algarve de Andaluzia. Costeando, e subindo por este
-rio cinco leguas com os olhos ao Norte, vemos a Villa de</p>
-
-<p>28 <i>Alcoutim</i>, ultima do Reino do Algarve, e fronteira a S. Lucar
-do Guadiana. Tem seu Castello, e recinto de muros antigos em terreno
-levantado.<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> Pouco mais para cima entra o rio Vascaõ no Guadiana, e
-separa o Algarve do Campo de Ourique. Segue-se a Praça de</p>
-
-<p>29 <i>Mertola</i> já no Alentejo, e junto ao Guadiana, onde tem tres
-váos, o do Carvoeiro, o dos Moinhos, e o das Vacas. Seguindo para cima
-a margem do Guadiana, encontramos na distancia de seis leguas a Praça,
-e Villa de</p>
-
-<p>30 <i>Serpa</i>, a qual com as de <i>Moura</i>, <i>Mouraõ</i>,
-<i>Olivença</i>, <i>Ouguela</i> e <i>Noudar</i> estaõ no destricto de
-Andaluzia em huma lisonja, ou cotovelo de terra, que alli se fórma da
-parte direita, pondo-nos voltados ao Norte, deixando à maõ esquerda
-o Guadiana, cujas terras ficaraõ sendo nossas desde o anno de 1297
-pela concordata, ou tratado de Alcanisses, que fez ElRey D. Diniz com
-ElRey D. Fernando IV. de Castella. Pela margem do mesmo Guadiana está
-<i>Jurumenha</i>, e depois segue-se</p>
-
-<p>31 <i>Elvas</i>, fronteira a Badajoz, donde dista tres leguas, e duas
-da ribeira do Caya, que divide Castella de Portugal. He Praça bem
-fortificada, e de notavel aqueducto. Para diante logo duas leguas está
-a Praça de</p>
-
-<p>32 <i>Campo-Mayor</i> em huma grande planicie muy bem fortificada
-ao moderno com lago de agua nativa no seu fosso. Daqui para diante
-seguem-se <i>Arronches</i>, <i>Alegrete</i>, <i>Portalegre</i>,
-<i>Marvaõ</i>, <i>Castello de Vide</i>, e <i>Montalvaõ</i>, Praças
-todas fronteiras de Castella. Faz por aqui o Tejo a separaçaõ das duas
-Provincias Alentejo, e Beira, entrando, ou correndo por entre Malpica,
-e Monforte. Passando o Tejo, a primeira Praça, que se encontra na
-Beira, indo por esta parte, he</p>
-
-<p>33 <i>Rosmaninhal</i>, que de huma parte está fortificada com o Tejo,
-e de outro lado com o rio Elja, que faz aqui sua foz. No demais he
-cercada de espessura, que a faz muy defensavel. Para diante duas leguas
-junto ao rio Elja está a Villa de</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span></p>
-
-<p>34 <i>Segura</i> com seu Castello pequeno, porém que descortina bem o
-campo. Vem por aqui o Elja fazendo a raya terminativa de Portugal, e
-Castella de Norte a Sul. Adiante para o Norte legua e meya está a Villa
-de</p>
-
-<p>35 <i>Salvaterra da Beira</i> com Castello forte bem descortinado, e
-guarnecido de presidio. Tem opposta a Villa de Sarça, e tambem mais
-para dentro a Villa de Alcantara, Praça de armas Castelhana, que
-se oppoem às tres Villas nossas Salvaterra, Segura, e Rosmaninhal.
-Nas costas de Salvaterra cinco leguas fica <i>Idanha nova</i>, cuja
-aspereza de sitio serve de fortaleza. Caminhando tres leguas para o
-Nascente, segue-se</p>
-
-<p>36 <i>Penagarcia</i> com Castello forte sobre penhasco. Tem humas
-montanhas, que lhe servem de grande defensa, e confiança contra
-qualquer temeridade inimiga, que intentar invadirnos por aqui. Nas
-costas de Penagarcia está situada</p>
-
-<p>37 <i>Idanha a velha</i> quasi em peninsula, que fórma o rio Ponsul:
-he sitio doentio, mas tem muros fortes. Na distancia de huma legua
-segue-se a Villa de</p>
-
-<p>38 <i>Monsanto</i> com seu Castello fundado em hum monte das mais raras
-asperezas, e altura, que dizem ha em Hespanha, porque se despenha a
-todos os lados por mais de meya legua. Tem esta Villa a singularidade
-de que sendo sitiada desde donde lhe podem deitar o cordaõ, póde
-para dentro delle lavrar paõ, vinho, e azeite para se sustentar, sem
-o inimigo lho poder impedir: por isso entre os Castelhanos anda hum
-adagio, que diz: <i>Monsanto, Monsanto, orejas de mulo, el que te
-ganare, ganar puede el mundo</i>; e já os Romanos a tiveraõ sete annos
-de cerco. Tem por opposto o Castello de Trebejo. Passadas tres leguas,
-segue-se ao Norte.</p>
-
-<p>39 <i>Penamacor</i>, cuja Villa, e Castello está sobre hum eminente
-penhasco, e he por sitio inexpugnavel.<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> Oppoemse-lhe o Castello de
-Elges. A tres leguas de Penamacor está a Villa do</p>
-
-<p>40 <i>Sabugal</i> com muito bom Castello, e detrás delle a Villa de
-Sortelha inexpugnavel. Do Tejo até perto do Sabugal se corre a raya com
-Castella de Norte a Sul, e desde o Lugar de Meimaõ corre Leste Oeste
-pela serra de Malcata até o Lugar de Lagiosa, quatro leguas do Sabugal.
-De Lagiosa até o Douro corre a raya Nornordeste a Susudueste, e onde
-começa a fazerse esta raya fica a Villa, e Praça de</p>
-
-<p>41 <i>Alfayates</i>, tres leguas do Sabugal. Sendo Governador desta
-Praça o Capitaõ Braz Garcia Mascarenhas, foy cercada com gyro de 4680
-pés geometricos, excepto as voltas dos baluartes, que tem altura
-de vinte e cinco pés. Foy obra de importancia. Tem por oppostos os
-Castellos de Payo, e Albergaria. Seguem-se <i>Villar-Mayor</i>, e
-<i>Castello Mendo</i>, duas leguas em distancia hum do outro, indo
-sempre ao Norte. Outras duas para diante está <i>Castello Bom</i>, e
-mais outras duas a Praça de</p>
-
-<p>42 <i>Almeida</i>, a quem faz frente Cidade Rodrigo. He das melhores
-Praças do Reino. Está em huma campina raza, que se descobre por
-alcance de vista desde huma legua; e com ser terra chã, se descobrem
-della terras de onze Bispados, Lamego, Guarda, Coimbra, Viseu, Braga,
-Miranda, Porto, Coria, Ciudad Rodrigo, Placencia, e Salamanca. Na mayor
-eminencia tem sua fortaleza, que domina bastantemente o terreno. Tres
-leguas para o Norte segue-se</p>
-
-<p>43 <i>Castel-Rodrigo</i> em sitio alto, e forte. Tem esta Villa as
-armas Reaes deste Reino ao revés o elmo para baixo, por naõ querer
-dar entrada a ElRey D. Joaõ I. passando por alli para Chaves, porque
-seus moradores seguiaõ o partido da Rainha de Castella Dona Brites.
-Acabada de costear a Provincia da Beira, se passa aqui o Douro, que a
-divide de<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> Tras os Montes, onde vemos logo o <i>Castello d’Alva</i>, e
-<i>Freixo de Espadacinta</i> em sitio baixo, mas com cinco torres, e
-fortaleza grandiosa. Segue-se o <i>Mogadouro</i>, a <i>Bemposta</i>,
-<i>Penas-Royas</i>, <i>Algoso</i>, terras todas fronteiras do Reino de
-Leaõ. Depois segue-se</p>
-
-<p>44 <i>Miranda do Douro</i> collocada sobre asperos penhascos, a quem
-o rio, que lhe dá o nome, a separa pelo Nascente de Castella. Tem
-bom Castello com artelharia, e faz frente a Carvalhaes. Segue-se
-<i>Vimioso</i>, <i>Outeiro</i>, cinco leguas cada huma de Miranda; e
-contaremos nove, se passarmos daqui Nornoroeste a</p>
-
-<p>45 <i>Bragança</i>, a qual existe nas margens do rio Fervença, que a
-aparta da raya de Galiza, tendo por opposta a Puebla de Senabria na
-distancia de quatro leguas. Seguem-se já na raya de Galiza</p>
-
-<p>46 <i>Vinhaes</i>, <i>Monforte do Rio livre</i>, <i>Chaves</i>,
-<i>Montalegre</i>; e avisinhando pelo rio Lima, deixando a serra do
-Maraõ, e entrando na do Gerez, em cujo encontro se dividem as duas
-Provincias Minho, e Tras os Montes, se avistaõ nesta linha alguns
-Castellos, como o de <i>Lanhoso</i> em correspondencia da fortaleza
-de Araujo; o <i>Castello da Nobrega</i> com as terras de Entrimo por
-fronteiras; o <i>Castello de Lindoso</i>, a quem se oppoem o Lugar
-de Ferreiros; o <i>Castello Laboreiro</i>, que tem por opposto o da
-Lobeira, tudo na raya de Galiza fronteira do Minho. Segue-se a Villa de</p>
-
-<p>47 <i>Melgaço</i> com excellente Castello, a quem se oppoem os
-Lugares Crecente, Fornelos, e outros. Legua e meya para diante
-<i>Valladares</i>, que tem oppostos em Galiza os Lugares de Cella, e
-Marcella. Outra legua e meya está <i>Monçaõ</i> em sitio eminente. Huma
-legua para diante segue-se <i>Lapella</i>, e outra</p>
-
-<p>48 <i>Valença</i> fronteira à Cidade de Tuy. Logo outras duas leguas se
-offerece <i>Villa-Nova de Cerveira</i>, fundada, e cercada de muros de
-cantaria. Oppoem-se<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> ao Lugar da Barca de Goyaõ, presidio Galiziano;
-e daqui outras duas leguas se encontra outra vez com <i>Caminha</i>,
-donde principiámos o gyro desta demarcaçaõ.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_IV">CAPITULO IV.<br><span class="small"><i>Divisaõ antiga.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Muitas foraõ as repartições, que antigamente houve neste nosso Paiz.
-Antes de conquistarem, e habitar Hespanha os Cartaginezes, e Romanos,
-toda ella estava dividida em muitas Provincias de póvos agrestes, que
-debaixo do nome geral de Ibéros se dividiaõ em Turdetanos, Celtas,
-Cantabros, Turdulos, e infinitos outros, de que depois trataremos.
-Vieraõ os Cartaginezes, e como se confederaraõ com a mayor parte
-daquellas gentes, conservaraõ as repartições das suas Comarcas.</p>
-
-<p>2 Porém tanto que os Romanos metteraõ o pé em Hespanha, e começaraõ a
-contender com os Cartaginezes sobre o dominio das terras, que foy pelos
-annos 557 da fundaçaõ de Roma, dividiraõ toda ella em duas partes, a
-que chamaraõ Hespanha citerior, e Hespanha ulterior.<a id="FNanchor_148" href="#Footnote_148" class="fnanchor">[148]</a> A citerior
-ficava para a parte de Italia, ou mais oriental ao rio Ebro, e foy a
-que os Romanos mais habitaraõ: a ulterior he a que ficava para o lado
-occidental do mesmo rio, e ficou na sujeiçaõ dos Cartaginezes. Todavia
-esta repartiçaõ se variava pela Republica Romana, conforme parecia aos
-seus interesses, accrescentando,<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> ou diminuindo as terras de huma, ou
-de outra parte.</p>
-
-<p>3 Acabou finalmente Octaviano Augusto de vencer na celebrada guerra
-Cantabrica aquelles Póvos, e mudando-lhes o governo, e limites,
-dividio a Hespanha em tres Provincias, a saber: <i>Lusitanica</i>,
-<i>Betica</i>, e <i>Tarraconense</i>. A Lusitanica incluia a mayor
-parte do que hoje chamamos Portugal, com outras muitas terras, que hoje
-pertencem ao Reino de Leaõ, e Provincia da Estremadura Castelhana. O
-rio Douro a separava pelo lado septentrional da Tarraconense; pelo
-oriental huma linha, que sahia do Douro quasi naquella parte, donde se
-incorpora com o rio Pisuerga, a qual linha descia a buscar o Guadiana,
-e este depois dividia a Lusitania da Betica até entrar no Oceano, cuja
-costa cercava o restante da Lusitania.</p>
-
-<p>4 Nesta divisaõ de Augusto se confundiraõ os limites da primitiva
-Lusitania; porque elles começavaõ na foz do rio Tejo, e desde alli
-corria até o cabo de <i>Finis terræ</i>, e aquelle espaço depois
-situado entre os rios Tejo, e Guadiana, a que hoje chamamos Alentejo,
-e Algarve, naõ se chamava Lusitania, mas sim Celtica. Da mesma fórma
-padeceraõ alteraçaõ os confins da Betica, e Tarraconense, e daqui nasce
-a confusaõ entre os Authores como bem advertio o estudiosissimo Padre
-Argote.<a id="FNanchor_149" href="#Footnote_149" class="fnanchor">[149]</a></p>
-
-<p>5 Corria o anno de Christo 118, quando o Imperador Elio Adriano,
-visitando as terras do seu Imperio, dividio a Hespanha em seis
-Provincias: Tarraconense, Cartaginense, Betica, Lusitania, Galiza,
-e Tingitania; e nesta divisaõ a Provincia do Minho ficava fóra da
-Lusitania, e se incluia na de Galiza, como bem mostra Floriaõ do Campo
-com<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> particularidade, e certeza.<a id="FNanchor_150" href="#Footnote_150" class="fnanchor">[150]</a> Constantino Magno fez outra
-divisaõ em sete Provincias, mas sem alterar as demarcações anteriores.
-Outras divisões querem alguns que fizessem os Romanos, mas saõ dubias.</p>
-
-<p>6 O que temos por certo he, que os Romanos além destas repartições
-tinhaõ dividida cada huma das Provincias em Chancellarias, a
-que chamavaõ <i>Conventos Juridicos</i>, collocados nas Cidades
-mais insignes da Provincia, às quaes acudiaõ os póvos da Comarca
-para administraçaõ da justiça. Destes Conventos Juridicos, a que
-correspondem hoje as nossas Relações, havia quatorze em toda Hespanha:
-as que tocaraõ às nossas terras, foraõ tres: <i>Braga</i>, <i>Béja</i>,
-e <i>Santarem</i>.</p>
-
-<p>7 Havia tambem algumas Cidades privilegiadas com o titulo de
-<i>Municipios</i>. Colonias eraõ aquellas, que tinhaõ sido fundadas
-por familias Romanas, e taes foraõ em nosso terreno <i>Béja</i>, e
-<i>Santarem</i>, além de outras tres, que hoje nos naõ pertencem, e
-gozavaõ seus Cidadãos do privilegio de Cidadãos Romanos. Municipios
-eraõ os que se governavaõ por Leys proprias, e estes foraõ
-<i>Lisboa</i>, <i>Evora</i>, <i>Mertola</i>, e <i>Alcacer do Sal</i>.</p>
-
-<p>8 Extincto o dominio Romano, invadiraõ os Barbaros as Hespanhas o anno
-de 409 depois de Christo, e daqui por diante se alteraraõ notavelmente
-os limites das nossas Provincias em todas as subsequentes sujeições
-até o reinado delRey D. Fernando o Magno, o qual falleceo no anno de
-1067, deixando repartido entre seus filhos as terras dos seus dominios;
-e cabendo as de Portugal a ElRey D. Garcia, desde entaõ se principiou
-a chamar Portugal<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> o que era Lusitania. Declaradas pois as divisões
-antigas, passemos a expressar as modernas.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_148" href="#FNanchor_148" class="label">[148]</a> Tit. Liv. lib. 36. cap. 28. Mela lib. 2. cap. 6. Solin.
-cap. 23. Strab. lib. 3. pag. 166.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_149" href="#FNanchor_149" class="label">[149]</a> P. Argot. Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 38. e nas
-Mem. do Arceb. de Brag. pag. 40. e 41.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_150" href="#FNanchor_150" class="label">[150]</a> Isaac Vossio nas Notas a Pompon. Mela liv. 2. cap. 6.
-Flor. do Camp. liv. 1 cap. 3. Moral. liv. 7. cap. 2. Osorius ao Prolog.
-de reb Emman. Resend. Antiq. lib. 3. Estaç. Antig. de Portug. cap. 19.
-e 20. Plin. lib. 4. cap. 20. Volaterran. Geograph. lib. 1. Barreir.
-Corograf. pag. 90. Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 168. vers.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_V">CAPITULO V.<br><span class="small"><i>Divisaõ moderna pelas Provincias.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Presentemente se divide Portugal em seis Provincias, ou Regiões: duas
-ficaõ na parte septentrional, e se chamaõ <i>Entre Douro e Minho</i>, e
-<i>Tras os Montes</i>: duas no coraçaõ do Reino, chamadas <i>Beira</i>,
-e <i>Estremadura</i>: e outras duas na parte Meridional, a que chamaõ
-<i>Alentejo</i>, e <i>Algarve</i>, que tambem logra o titulo de Reino.
-Cada Provincia destas se subdivide em Comarcas, ou Ouvidorias, para boa
-administraçaõ da justiça; e cada Comarca tem debaixo da sua jurisdiçaõ
-certo numero de Villas, e Lugares, em que existem seus Juizes, que
-governaõ subordinados aos Corregedores das Comarcas. Supposta esta
-prejacente noticia, entremos a descrever a primeira Regiaõ da parte do
-Norte, chamada</p>
-
-
-<h3><i>Provincia do Minho.</i></h3>
-
-<p>2 Como esta Provincia está encerrada entre as famosas correntes dos
-dous rios Douro, e Minho no Occidente septentrional de Hespanha,
-da tal situaçaõ tomou nome de Entre Douro, e Minho, que em Latim
-se diz <i>Interamnensis</i>, ou <i>Duriminea</i>. Quasi todos os
-Geografos<a id="FNanchor_151" href="#Footnote_151" class="fnanchor">[151]</a> lhe daõ de<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span> comprido de Norte a Sul dezoito leguas, e de
-Nascente a Poente doze de largo na sua mayor largura, porque em algumas
-partes naõ tem mais que oito.</p>
-
-<p>3 Confina esta Provincia da banda do Meyo dia com o rio Douro, que
-a separa da Beira: da banda do Occidente parte com o mar Oceano,
-começando em S. Joaõ da Foz, e acabando na Villa de Caminha, onde o
-rio Minho divide Portugal de Galiza. Dahi para cima, que he a parte do
-Norte, vay pelo dito rio até o termo da Villa de Monçaõ, e alli passa o
-termo de Galiza o rio Minho, e se reparte por marcos até o Castello de
-Castro-Laboreiro, que saõ doze leguas desde a Villa de Caminha. Dalli
-atravessa o resto pelo monte do Gerez, que está da parte do Nascente, e
-vay pela terra de Barrozo até à ponte de Cavez, que está no rio Tamega,
-e dahi pelo rio abaixo até à Villa de Amarante; e deixando o rio, vay
-pelo monte do Bayaõ dar no Douro, donde começámos.</p>
-
-<p>4 O clima he o mais temperado, porque está entre o parallelo de 41 e
-42 gráos de altura do Polo Arctico. Daqui nasce, que sendo taõ pequena
-esta Regiaõ, he summamente fertil; e a benignidade dos seus ares, a
-affluencia dos seus rios, as abundancias, e delicias dos seus campos
-comprovaõ a fama do seu admiravel temperamento; donde se animou a dizer
-Manoel de Faria,<a id="FNanchor_152" href="#Footnote_152" class="fnanchor">[152]</a> que se no mundo houve Campos Elysios, existiraõ
-nesta Provincia; e se os naõ houve, merecia que sómente os houvesse
-nella, se he que este titulo se deve dar a sitio ameno, e delicioso.</p>
-
-<p>5 Assim o vemos, porque a mayor parte desta Provincia está sempre
-cheya de arvoredos de todo o genero, que organizaõ hum continuado
-bosque perpetuo, e muy aprazivel, composto de loureiros,<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span> azinheiros,
-platanos, buxos, murtas, teixos, pinheiros, e ciprestes, que todos nem
-de Inverno perdem a folha, além de castanheiros, carvalhos, sovereiros,
-e outras arvores, donde se criaõ as mais robustas madeiras do
-mundo,<a id="FNanchor_153" href="#Footnote_153" class="fnanchor">[153]</a> taõ ferteis, que ha castanheiro, que dá trinta, e quarenta
-alqueires de castanha, e ainda hum moyo, como affirma Joaõ Salgado de
-Araujo:<a id="FNanchor_154" href="#Footnote_154" class="fnanchor">[154]</a> pé de vide em latada, ou em arvore, que dá pipa de vinho:
-pé de nogueira, que dá moyo de noz: larangeira, que dá cinco carros
-de laranja: pé de carvalho, que dá meyo moyo de bolota; e alguns taõ
-grandes, que naõ o abrangem quatro homens, como he na quinta de Mouro
-de S. Joaõ de Ataens da Villa de Pica de Regalados. Testifica o Doutor
-Joaõ de Barros na Descripçaõ, que fez desta Provincia, capitulo 7, que
-vira hum, em cujo oco cabiaõ cincoenta cabras, e outro, onde cabiaõ dez
-homens a cavallo, dando por testimunha ao Marquez de Villa-Real, que
-foy huma das pessoas, que entrara dentro, o que parece encarecimento,
-posto que o mesmo escreve Manoel de Faria.<a id="FNanchor_155" href="#Footnote_155" class="fnanchor">[155]</a></p>
-
-<p>6 Esta abundancia he igual em tudo. De boys, e vacas sustenta
-quatrocentos mil, e mais de hum milhaõ de ovelhas, e carneiros, segundo
-dizem Duarte Nunes,<a id="FNanchor_156" href="#Footnote_156" class="fnanchor">[156]</a> e outros. O Doutor Joaõ de Barros, sendo
-Ouvidor de Braga o anno de 1500 e tantos, diz, que por ordem delRey
-mandara fazer a conta do gado, que havia só no termo daquella Cidade,
-e achara treze mil cabeças de gado meudo, e de boys, e vacas onze
-mil. A mesma fecundidade corresponde a todo o genero de caça, carnes,
-e peixes, tudo de excellente sabor, principalmente havendo tantos
-rios povoados de gostosos salmões, lampreas,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> trutas, salmonetes,
-sáveis, bogas, e tainhas, com infinitos outros igualmente admiraveis.
-Criaõ-se tambem todo o genero de legumes, e hortaliça: tem muito mel, e
-lacticinios, muito milho, o paõ que basta, e até minas de ouro, prata,
-ferro, e estanho. Lavra-se o linho mais fino, de que se fabrîca o panno
-branco muy estimado na Europa. Só azeite ha pouco nesta Provincia, naõ
-porque a terra deixe de criar oliveiras, mas porque naõ as plantaõ;
-porque lisongeados os seus naturaes com o prestimo, e sabor do chamado
-unto, de que usaõ tanto nos guizados, como às vezes nas luzes,
-esqueceraõ-se de as cultivar.</p>
-
-<p>7 Saõ seus habitadores de fecundissima propagaçaõ, e larga vida; e
-até nos tempos, que a natureza constitue estereis, saõ aqui fecundas
-as mulheres. Muitos exemplos, e casos ajuntou para confirmaçaõ desta
-raridade, e excellencia Gaspar Estaço,<a id="FNanchor_157" href="#Footnote_157" class="fnanchor">[157]</a> e Antonio de Sousa de
-Macedo.<a id="FNanchor_158" href="#Footnote_158" class="fnanchor">[158]</a> Basta dizer, que da gente innumeravel, que naõ póde
-sustentar este Paiz, se tem povoado o mundo, e com especialidade o
-Brasil, e as Minas, e que he mais a gente, que a terra, onde naõ ha
-parte alguma, em que se naõ ouça tanger algum sino, e cantar hum
-galo.<a id="FNanchor_159" href="#Footnote_159" class="fnanchor">[159]</a> Parece toda a Provincia huma Cidade continuada.</p>
-
-<p>8 Conduz muito para esta geral fertilidade a grande copia de boas
-aguas, que, como se esta Regiaõ fora toda perenne tanque, assim brota,
-e rega seus campos, e pomares por vinte e cinco mil fontes,<a id="FNanchor_160" href="#Footnote_160" class="fnanchor">[160]</a> e
-innumeraveis rios grandes, e pequenos; sendo os de mayor nome os
-seguintes: <i>Ave</i>, <i>Basto</i>, <i>Benade</i>, <i>Biturim</i>,
-<i>Cabraõ</i>, <i>Caldas</i>, <i>Campanhaõ</i>, <i>Cávado</i>,
-<i>Celho</i>, <i>Celinho</i>, <i>Coa</i>, <i>Cosme</i>, <i>Coura</i>,
-<i>Deiriz,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> este</i>, <i>Dolo</i>, <i>Douro</i>, <i>Enfesta</i>,
-<i>Ensalde</i>, <i>Fato</i>, <i>Ferreira</i>, <i>Fulias</i>,
-<i>Gadanha</i>, <i>Gifães</i>, <i>Gogim</i>, <i>Herdeiro</i>,
-<i>Homem</i>, <i>Landim</i>, <i>Lavoreiro</i>, <i>Leça</i>,
-<i>Lima</i>, <i>Locia</i>, <i>Maçarelos</i> <i>Mejavelhas</i>,
-<i>Melres</i>, <i>Minho</i>, <i>Moles</i>, <i>Mouro</i>, <i>Neiva</i>,
-<i>Olo</i>, <i>Ovelha</i>, <i>Ouvir</i>, <i>Pontido</i>, <i>Prado</i>,
-<i>Ramada</i>, <i>Rellas</i>, <i>Siguelos</i>, <i>Sousa</i>,
-<i>Tamega</i>, <i>Taveira</i>, <i>Teixeira</i>, <i>Torto</i>,
-<i>Trovella</i>, <i>Tua</i>, <i>Valengo</i>, <i>Vargeas</i>,
-<i>Veadões</i>, <i>Vez</i>, <i>Vizella</i>, <i>Zezere pequeno</i>, e
-outros, que se diffundem nos capitaes.</p>
-
-<p>9 Duzentas saõ as pontes de cantaria, a que estes rios obedecem, e
-as mais famosas a de <i>Cavez</i> muy larga, e muy alta, com cinco
-arcos de pedras taõ admiravelmente lavradas, que todas saõ de hum
-tamanho: a de <i>Mondim</i> com seis arcos: a de <i>Amarante</i> feita
-por diligencias de S. Gonçalo; e outras muitas. Contaõse-lhe seis
-portos de mar capazes de receber navios: <i>Caminha</i>, <i>Viana</i>,
-<i>Esposende</i>, <i>Leça</i>, <i>Villa do Conde</i>, <i>Porto</i>.</p>
-
-<p>10 As Praças de armas cercadas, e acastelladas saõ dezaseis:
-<i>Porto</i>, <i>S. Joaõ da Foz</i>, <i>Villa do Conde</i>,
-<i>Viana</i>, <i>Caminha</i>, <i>Villa-Nova</i>, <i>Valença</i>,
-<i>Lapela</i>, <i>Monçaõ</i>, <i>Melgaço</i>, <i>Castelo Lavoreiro</i>,
-<i>Lindozo</i>, <i>Nobrega</i>, <i>Lanhozo</i>, <i>Aguiar de
-Pena</i>, <i>Celorico de Basto</i>; e pelo Certaõ tem: <i>Braga</i>,
-<i>Guimarães</i>, <i>Ponte de Lima</i>, e <i>Barcellos</i>, de todas as
-quaes se faz pleito, e omenagem. E segundo o calculo de Joaõ Salgado
-de Araujo,<a id="FNanchor_161" href="#Footnote_161" class="fnanchor">[161]</a> tinha no anno de 1644 seis mil homens capazes de tomar
-armas. Mas pelo que toca ao militar, accrescento huma singularidade
-desta Provincia, e he, que pelos muitos rios menores, que comprehende,
-pontes delles, barcas dos mayores, e grande abundancia de bosques, sem
-duvida que causará huma grande difficuldade para se deixar penetrar
-de inimigos; e já estes embaraços remiraõ muitas vezes este Paiz da
-invasaõ dos Romanos, aos quaes lhe custou tempo, trabalho, e gente a
-sua conquista,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> quando tudo rendiaõ suas armas entaõ vitoriosas contra
-as mais nações do mundo todo.</p>
-
-<p>11 Pelo que pertence ao estado Ecclesiastico, ha nesta Provincia duas
-Igrejas Cathedraes: <i>Braga</i> Arcebispado, e <i>Porto</i> Bispado.
-Cinco Collegiadas: <i>Guimarães</i>, <i>Barcellos</i>, <i>Valença</i>,
-<i>Cedofeita</i>, <i>Viana</i>. Paroquias, conforme o calculo de
-alguns Authores,<a id="FNanchor_162" href="#Footnote_162" class="fnanchor">[162]</a> tem 1460, e de outros tem 1500.<a id="FNanchor_163" href="#Footnote_163" class="fnanchor">[163]</a> Conventos,
-e Mosteiros de diversas Ordens mais de 150. De Ermidas, e Igrejas
-naõ Paroquiaes hum grande numero. Corpos de Santos, que venera, tem
-quatorze. Santos nacionaes tem grande quantidade: <i>S. Damazo</i>,
-<i>S. Gonçalo de Amarante</i>, <i>S. Torcato</i>, <i>S. Pedro de
-Rates</i>, <i>S. Gerardo</i>, <i>S. Vitouro</i>, <i>S. Frutuoso</i>,
-<i>S. Martinho de Dume</i>, <i>S. Rozendo</i>, <i>Santa Senhorinha</i>,
-<i>Santa Suzana</i>, <i>o Irmaõ Pedro de Basto</i>, e outros muitos, de
-que o Agiologio Lusitano faz memoria. De homens insignes já em letras,
-já em armas tem produzido, e produz numero grandissimo, de que nós,
-quando fallarmos das suas patrias particulares, nos lembraremos.</p>
-
-<p>12 Naõ he para esquecer huma excellente gloria, que esta Provincia tem,
-qual he darse nella principio à vida Eremitica muitos annos antes que
-S. Paulo primeiro Ermitaõ a introduzisse no Reino; pois sendo S. Felix
-o que deu sepultura a S. Pedro de Rates, como consta das suas Lições, e
-que vivia nos desertos desta Provincia em hum alto monte de S. Miguel
-de Laundos, Abbadia da Villa de Esposende,<a id="FNanchor_164" href="#Footnote_164" class="fnanchor">[164]</a> fica precedendo S.
-Felix a S. Paulo o que vay do anno 46, em que morreo S. Pedro de Rates,
-ao de 300 em que floreceo S. Paulo. A causa porém, que houve para
-chamar a S.<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> Paulo primeiro Ermitaõ, veja-se no Agiologio Lusitano tom.
-1.</p>
-
-<p>13 Divide-se finalmente esta Provincia em seis Comarcas, que vem a
-ser: <i>Guimarães</i>, <i>Braga</i>, <i>Porto</i>, <i>Viana</i>,
-<i>Barcellos</i>, e <i>Valença</i>. Cada huma dellas tem varias
-povoações debaixo de sua jurisdiçaõ. Tudo desta Provincia resumio
-nestas duas estancias a Musa de hum engenho Hespanhol:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Entre Duero, y Miño la primera</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Porcion del Reyno, en rios muy bañada,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Donde</i> Braga <i>magnanima prospéra</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De los Brachatos hija sublimada.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Al Romano dificil, y guerrera:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>A los de Porto altiva, y respetada:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De Augusto honor, Juridico Convento,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Corte Sueva, y Arçobispal assiento.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Del Duero ilustra el margen atractivo</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Porto, <i>que de Gatelo pueblo raro</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Dandole a Portugal nombre preclaro.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Guimarães <i>Villa es noble, y primitivo</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Solio de Reys Lusos. Tiene claro</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Timbre</i> Puente de Lima: <i>altas bellezas</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Viana, <i>de partido ambas cabeças.</i></span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p>
-
-<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia do Minho.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td rowspan="5">I. Guimarães Correiçaõ consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Aguiar da Penha, Amarante,
-Canaveses, Guimarães,
-Povoa.</td></tr>
-<tr><td>19 Concelhos.</td><td>Atey, Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Santa Cruz de Riba Tamega, Felgueiras, Gestaço, Gouvea
-de Riba Tamega, Hermello, S. Joaõ de Rey, Lanhoso, Mondim, Montelongo, Ribeira de Pena, Ribeira de Soás, Roças, Serva, Vieira, Villaboa da Roda, Unhaõ.</td></tr>
-<tr><td>14 Coutos.</td><td>Abbadim, Fonte Arcada, Mancelos, Moreira de Rey, Parada de Bouro, Pedraido,Pombeiro, Pousadela,
-Refoyos de Basto, Taboado, Tibães, Travanca, Tugas, Vimieiro.</td></tr>
-
-<tr><td>4 Honras.</td><td>Cepães, Meinedo, Ovelha, Villacahiz.</td></tr>
-
-<tr class="bb"><td>1 Julgado.</td><td>Lagiosa.<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span></td></tr>
-<tr><td rowspan="3">II. Viana Correiçaõ consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Arcos de Valdevez, Monçaõ, Ponte da Barca, Ponte
-de Lima, Prado, Viana, Villanova de Cerveira.</td></tr>
-<tr><td>12 Concelhos.</td><td>Albergaria de Penella, Bouro, Coura, Entre Homem e Cávado, Geraz do Lima, Lindoso, Santa Martha do
-Bouro, Santo Estevaõ da Faxa, Soajó, Souto de Rebordaõs, Villa Garcia, Pica de Regalados.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>15 Coutos.</td><td>Aboim da Nobrega, Azevedo, Baldreu, Boilhosa, Bouro, Cervães ou Villar de Areas, S. Fins, Freiriz,
-Luzio, Manhente, Nogueira, Queimada, Sabariz, Souto, Rendufe.</td></tr>
-<tr><td rowspan="5">III. Barcellos Ouvidoria consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Barcellos, Castro Laboreiro, Esposende, Famelicaõ,
-Melgaço, Rates, Villa do Conde.</td></tr>
-<tr><td>3 Concelhos.</td><td>Larim, Portella das Cabras, Villachã.</td></tr>
-<tr><td>5 Coutos.</td><td>Cornelã, Fragoso, Gondufe, Palmeira, Villar de Frades.</td></tr>
-<tr><td>1 Julgado.</td><td>Vermoim.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>1 Honra.</td><td>Fralães.<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></td></tr>
-<tr><td rowspan="2">IV. Valença Ouvidoria consta de</td><td>3 Villas.</td><td>Caminha, Valença, Valadares.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>2 Coutos.</td><td>Feães, Paderne.</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">V. Braga Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Braga.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>13 Coutos.</td><td>Arentim, Cabaços, Cambezes, Capareiros, Dornelas, Ervededo, Feitosa, Goivães,
-Moure, Pedralva, Provesende, Pulha, Ribatua.</td></tr>
-<tr><td rowspan="5">VI. Porto Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Porto.</td></tr>
-<tr><td>3 Villas.</td><td>Melres, Povoa de Varzim, Villanova.</td></tr>
-<tr><td>13 Concelhos.</td><td>Aguiar de Sousa, Avintes, Bayaõ, Bemviver, Gaya, Gondomar, Lousada, Maya, Penafiel de Sousa, Penaguiaõ,
-Portocarreiro, Refoyos de Ribadave, Soalhães.</td></tr>
-<tr><td>7 Coutos.</td><td>Ansede, Entre ambos os rios, Ferreira, Meinedo, Paço de Sousa, Pendorada, Villaboa de Quires.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>6 Behetr. e Honras.</td><td>Baltar, Barbosa, Frasaõ, Gallegos, Louredo, Sabrosa.</td></tr>
-</table>
-
-<p>
-<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p>
-
-
-<h3><i>Provincia de Tras os Montes.</i></h3>
-
-<p>1 A Segunda Regiaõ, ou Provincia do Reino, he chamada <i>Tras os
-Montes</i>, porque do Reino de Galiza até o Douro de Norte a Sul
-atravessaõ huns montes muy altos, que parece estaõ cercando a Provincia
-do Minho, como fazem os Alpes a Italia; e saõ de tanta eminencia estes
-montes, que em muitas partes tem huma legua de subida aspera, como se
-experimenta nas serranias do Gerez, e altura do Maraõ; e assim havendo
-respeito ao Minho, fica esta Provincia além daquelles montes, que lhe
-deraõ o nome.</p>
-
-<p>2 Sua demarcaçaõ costuma fazerse da Portela de Homem pela banda do
-Norte até à ponte de Cavez; e continuando do Poente pelo rio Tamega
-até entrar no Douro, faz este a divisaõ com a Provincia da Beira até
-Vilvestre. Daqui olhando para o Norte, o mesmo rio Douro a aparta do
-Reino de Leaõ até quatro leguas depois de se chegar a Miranda; e daqui
-por divisas, e marcos até dar no rio Maçaõ naõ longe de Maid, onde
-inclina a Poente com a serra chamada de Teixeira, e as de Senabria, e
-Gerez até vir incorporarse onde começou.</p>
-
-<p>3 O commum dos Geografos<a id="FNanchor_165" href="#Footnote_165" class="fnanchor">[165]</a> dá a esta Provincia trinta leguas de
-comprido, e vinte de largo; porém o Abbade de Pera<a id="FNanchor_166" href="#Footnote_166" class="fnanchor">[166]</a> diz, que naõ
-fizeraõ boa mediçaõ; porque da Portella de Homem até Urros defronte de
-Vilvestre saõ trinta e quatro leguas, e de Canavezes até o rio Maçaõ
-fazem trinta e seis (he erro, porque verdadeiramente naõ devem ser mais
-que vinte e seis conforme os Mappas de Fernaõ Alvares Seco, e Pedro
-Teixeira) e assim lhe dá de circuito cento e trinta leguas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p>
-
-<p>4 Muito mal se informou Floriaõ do Campo naõ só na demarcaçaõ, que
-dá a esta Provincia, mas em dizer que he terra infrutifera; porque
-supposto naõ ser taõ fertil como Entre Douro e Minho, a verdade he
-haver aqui muitos valles deliciosos, e muitas Villas abastadas de paõ,
-vinho, azeite, mel, frutas, gados, caças, legumes, e sedas. Tal he a
-Villa de Chaves muy amena, na qual habitaraõ os Romanos muito tempo,
-por ser boa terra, e Villa-Real e outros muitos Lugares desta Regiaõ:
-só de frutas de espinho naõ tem abundancia.</p>
-
-<p>5 O clima naõ ha duvida, que he frio em extremo: tem nove mezes de
-Inverno, e tres de Veraõ ardentissimo, por naõ ser arejada do Norte,
-que embaça nas montanhas, e com tudo he terra sadia, e de boas aguas,
-excepto em Bragança, e Miranda, que saõ pessimas. Os rios mais
-nomeados saõ estes: <i>Angueira</i>, <i>Alvedrinha</i>, <i>Azibo</i>,
-<i>Beça</i>, <i>Corgo</i>, <i>Caldo</i>, <i>Calvo</i>, <i>Douro</i>,
-<i>Fervença</i>, <i>Frio</i>, <i>Fresno</i>, <i>Lobos</i>,
-<i>Maçaõ</i>, <i>Mente</i>, <i>Pinhaõ</i>, <i>Rabaçal</i>,
-<i>Sabor</i>, <i>Tamega</i>, <i>Tinhella</i>, <i>Tua</i>,
-<i>Tuella</i>, <i>Villariça</i>, <i>Vellarva</i>, <i>Zacharias</i>.
-Fontes medicinaes tem quarenta e tres.</p>
-
-<p>6 A gente, que habita esta Provincia, he pela mayor parte robusta, e
-corpulenta: as pessoas nobres saõ dotadas de grande primor, e brio;
-muy valentes, e honrados; aptos para a guerra, e tem grande exercicio
-da gineta, e brida, em que fazem sumptuosas festas. Saõ muy devotos
-da Igreja, e veneraõ com estimaçaõ a seus Ministros: conservaõ as
-amizades, e com os estranhos saõ attenciosos. As mulheres nobres tem
-grande recolhimento, as outras ajudaõ a cultivar as terras a seus
-maridos, e às vezes mais trabalhaõ ellas que elles: em fim diz o Abbade
-Joaõ Salgado de Araujo, que naõ se sabe desta Provincia vicio algum
-nativo della.</p>
-
-<p>7 Inclue esta Provincia duas Cidades: <i>Miranda</i>, que tem Bispo,
-e <i>Bragança</i>, que o naõ tem. Ha tres Igrejas, que parecem
-Collegiadas: <i>Chaves,<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> illa-Real</i>, e <i>Torre de Moncorvo</i>,
-e consta de muitas Abbadias, Reitorias, e Vigairarias. As Villas,
-que tem fortalezas confinantes com Galiza, e Castella, saõ estas:
-<i>Montalegre</i>, <i>Erveredo</i>, <i>Chaves</i>, <i>Monforte do
-rio livre</i>, <i>Bragança</i>, <i>Outeiro</i>, <i>Miranda</i>,
-<i>Folgoso</i>, <i>Penas de Royas</i>, <i>Mogadouro</i>, <i>Freixo de
-Espadacinta</i>, e de todas se dá omenagem.</p>
-
-<p>8 Divide-se finalmente esta Provincia em quatro Correições:
-<i>Moncorvo</i>, <i>Miranda</i>, <i>Bragança</i>, e <i>Villa-Real</i>.
-Servem de epitome das suas grandezas estas duas Oitavas:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Tras los Montes la porcion segunda</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De heroicas poblaciones adornada,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Donde</i> Miranda <i>Episcopal se funda</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Sobre peñascos bien encastillada.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>DelRey Brigo</i> Bragança <i>hija segunda,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De la Inez bella, como desdichada,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Talamo, en llano delicioso brilla,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>De esclarecidos Duques alta silla.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Entre otras Villas sale floreciente</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>La</i> Torre de Moncorvo; <i>la apacible</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;">Villa-Flor: Mirandela <i>con gran puente:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Belica</i> Chaves, Villa-Real <i>plausible,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;">Freixo de Espadacinta <i>muy valiente,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;">Alfandega da Fé <i>apeticible,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;">Mascareñas <i>en frutas deliciosa</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Fertil</i> Chacim, <i>y en trato generosa.</i></span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p>
-
-<p class="center p2 caption"><i>Comarcas da Provincia de Tras os Montes.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td>I. Torre do Moncorvo Correiçaõ consta de</td><td>26 Villas.
-</td><td>Abreiro, Agua revez, Alfandega da Fé, Anciães, Castro-Vicente, Chacim, Cortiços, Frechas, Freixiel, Freixo de Espadacinta
-Lamas de Orelhaõ, Linhares, Moncorvo, Mirandella, Monforte de rio livre, Mós, Murça de Panoya, Nuzellos, Pinhovelo, Sampayo,
-Sezulfe, Torre de D. Chama, Valdasnes, Villas-boas, Villaflor, Villarinho da Castanheira.</td></tr>
-<tr class="bt"><td rowspan="2">II. Miranda. Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Miranda.</td></tr>
-<tr><td>
-14 Villas.</td><td>Algoso, Azinhoso, Bemposta, Carrocedo, Failde,Frieira, Mogadoiro, Penas de Royas, Rebordainhos,
-Sanseriz, Val de Passó, Vilar seco da Lomba, Vimioso, Vinhaes.</td></tr>
-<tr class="bt"><td rowspan="2">III. Bragança Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Bragança.</td></tr>
-<tr><td>10 Villas.</td><td>Chaves, Ervedosa, Gustey, Montalegre, Outeiro, Rebordãos, Ruivães, Val de Nogueira, Val de Prados,
-Villafranca.<span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></td></tr>
-<tr class="bt"><td rowspan="2">IV. Villa-Real Ouvidoria consta de</td><td>9 Villas, e Coutos.</td><td>Alijó, Dornellas, Ervededo,
-Favayos, Lordelo, S. Mamede de Riba-Tua, Provezende, Ranhados, Villa-Real.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>2 Honras.</td><td>Gallegos, Sobrosa.</td></tr>
-</table>
-
-
-<h3><i>Provincia da Beira.</i></h3>
-
-<p>1 Quasi no coraçaõ do Reino está situada esta Provincia, e com a
-extensaõ de trinta e quatro leguas desde Punhete até Villa-Nova do
-Porto; e se contarmos de Buarcos até Val de la mula, saõ trinta e seis,
-e de Punhete até a foz do Agueda saõ quarenta e cinco, e da foz do
-Douro até Rosmaninhal fazem cincoenta e huma. Por esta demarcaçaõ, que
-o Abbade de Pera tem por certa, e exacta, vem a ter esta Provincia de
-circumferencia duzentas leguas pouco mais, ou menos, com o que torce
-para costear a Estremadura; porém commummente se lhe dá trinta e seis
-leguas de comprido, e outro tanto de largo, e assim fórma huma figura
-quasi quadrada, tendo algumas entradas em Alentejo, e Estremadura
-Lusitana.</p>
-
-<p>2 Confina pelo Oriente com a Estremadura Castelhana, e Leoneza, e parte
-da Provincia de Tras os Montes, cujos limites continúa pelo Norte com
-os da Regiaõ de Entre Douro, e Minho. Pelo Occidente recebe as aguas
-do Oceano, e pelo Meyo Dia confina com a Estremadura de Portugal, e
-Alentejo. Chama-se Beira, ou porque seus primeiros habitadores se
-chamavaõ Berones, como diz Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_167" href="#Footnote_167" class="fnanchor">[167]</a> ou porque
-respeitando-se a sua<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> situaçaõ, por ser toda cercada de agua dos rios
-Douro, Tejo, Coa, e Oceano, significa o mesmo que Margem, Borda, ou
-Beira.<a id="FNanchor_168" href="#Footnote_168" class="fnanchor">[168]</a> Joaõ Salgado diz, que o seu verdadeiro nome he <i>Vera</i>,
-que se converteo em Beira.</p>
-
-<p>3 Reparte-se em duas largas porções de terra: huma, que se diffunde
-desde a Serra da Estrella até o rio Tejo, e se diz <i>Beira baixa</i>:
-outra, que desde a mesma Serra se espalha até o rio Douro, e desde
-a Cidade de Coimbra até a do Porto, que aqui se diz Beiramar, e no
-restante <i>Beira alta</i>.<a id="FNanchor_169" href="#Footnote_169" class="fnanchor">[169]</a> Esta dilatada extensaõ de terreno
-grangeou a esta Provincia o honroso titulo de Principado, que desde o
-anno de 1734 anda nos netos primogenitos dos Monarcas Portuguezes.<a id="FNanchor_170" href="#Footnote_170" class="fnanchor">[170]</a></p>
-
-<p>4 He terra muy fertil de centeyo, milho, castanha, vinho, gados, caças,
-e gostosos peixes, produzindo a amenidade deste Paiz toda a diversidade
-de saborosissimas frutas, especialmente os celebrados verdeaes de
-Inverno, ajudando muito para esta abundancia a grande copia de aguas
-de fontes, e rios, sendo os mais nomeados os seguintes: <i>Agueda</i>,
-<i>Alva</i>, <i>Alfusqueiro</i>, <i>Aravil</i>, <i>Arda</i>,
-<i>Balsamaõ</i>, <i>Berosa</i>, <i>Ceira</i>, <i>Coa</i>, <i>Daõ</i>,
-<i>Dansos</i>, <i>Douro</i>, <i>Elja</i>, <i>Freixiandas</i>,
-<i>Lomba</i>, <i>Lorveo</i>, <i>Marnel</i>, <i>Mondego</i>,
-<i>Paiva</i>, <i>Ponsul</i>, <i>Ramalhoso</i>, <i>Sardaõ</i>,
-<i>Soberbo</i>, <i>Tourões</i>, <i>Tripeiro</i>, <i>Veroza</i>,
-<i>Vouga</i>, <i>Xudruro</i>, <i>Zezere</i>.</p>
-
-<p>5 Tem produzido esta Provincia homens famosissimos. Daqui foy ElRey
-Wamba, e o valeroso Viriato, posto que Entre Douro e Minho contenda
-sobre a naturalidade deste segundo; porque diz o Gerudense, que os
-Soldados, que aquelle insigne Capitaõ trazia comsigo, eraõ Duriminios.
-Os mais daquelles celebrados aventureiros, que foraõ a Inglaterra<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span> em
-defensa das doze Damas motejadas de feyas, daqui eraõ naturaes, como
-tambem o foraõ oito Reys Portuguezes, dous Sanchos, tres Affonsos, D.
-Pedro, D. Fernando, e D. Duarte; e por naõ se gloriar só do nascimento,
-honra-se naõ pouco de ser conservatorio de tres corpos veneraveis, e
-Regios, como he o delRey D. Affonso Henriques, da Rainha Santa Isabel,
-e de D. Sancho I, e tambem do delRey D. Rodrigo, ultimo Rey Godo.</p>
-
-<p>6 Manoel de Faria mal affecto porém à gente desta Regiaõ, com injurioso
-conceito critíca absolutamente a todos os nacionaes della de pedintes,
-e de pouco asseados.<a id="FNanchor_171" href="#Footnote_171" class="fnanchor">[171]</a> O defeito particular de alguns individuos
-naõ deve ser motivo para deteriorar a opiniaõ commua de huma Provincia
-inteira. Eu bem sey que já Fr. Bernardo de Brito,<a id="FNanchor_172" href="#Footnote_172" class="fnanchor">[172]</a> tratando dos
-antigos habitadores da Serra da Estrella, chamados Herminios, diz,
-que eraõ homens asperos, e duros de condiçaõ, indomitos pelas armas,
-muy rusticos no traje, e modo de vestir, amigos de roubar o alheyo,
-e pouco fieis no que tratavaõ; porém a cultura dos tempos, e a mesma
-experiencia tem mostrado quanto se deve desvanecer este conceito, pois
-o que vemos hoje nos seus naturaes, principalmente nos da primeira
-esfera, he hum animo valente, e brioso, amigos de buscar honras, e
-fortuna, ou pela carreira das letras, ou das armas, em que tem feito
-progressos de grande credito para todo o Reino.</p>
-
-<p>7 Continuando a descrever suas grandezas, incluem-se nesta Provincia
-cinco Cidades; quatro com Bispo: <i>Coimbra</i>, <i>Viseu</i>,
-<i>Lamego</i>, <i>Guarda</i>; e <i>Aveiro</i> modernamente erecta
-em Cidade, que o naõ tem. Divide-se em nove Comarcas: de quatro saõ
-cabeças as quatro Cidades; e das cinco he: <i>Castello-Branco,<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span>
-inhel</i>, <i>Esgueira</i>, <i>Montemór o velho</i>, e <i>Feira</i>.
-Tem duzentas e trinta e quatro Villas, das quaes cincoenta e oito saõ
-acastelladas, além das cinco Cidades. As que confinaõ com Castella saõ
-estas: <i>Castello-Branco</i>, que no anno de 1704 foy accommettida de
-Castelhanos, e fica opposta à Villa de Herrera: <i>Rosmaninhal</i>,
-<i>Segura</i>, <i>Salvaterra da Beira</i>, que todas tres se oppoem
-à Villa de Alcantara, Praça de armas de Castella: <i>Penagarcia</i>,
-<i>Idanha a velha</i>, <i>Monsanto</i> defensavel por natureza,
-<i>Proença</i>, <i>Belmonte</i>, <i>Penamacor</i>, <i>Sabugal</i>,
-<i>Sortelha</i>, <i>Alfayates</i>, <i>Villar-Mayor</i>, <i>Castello
-Mendo</i>, <i>Castello Bom</i>, <i>Almeida</i>, <i>Pinhel</i>,
-<i>Castello Rodrigo</i>.</p>
-
-<p>8 Tem mais de sete mil homens, que podem tomar armas: ha nesta
-Provincia a mayor porçaõ das Comendas deste Reino: sustenta mais de
-quarenta e quatro Conventos de Religiosos de varias Ordens, e vinte e
-tres de Religiosas: muitas Igrejas com Coro, em que se reza o Officio
-Divino: innumeraveis Abbadias, e Ermidas. Huma das singularidades,
-de que se póde gloriar, he comprehender as duas mais admiraveis
-officinas da virtude, e letras, que tem o Reino, quaes saõ Bussaco,
-e a Universidade de Coimbra, donde tem sahido Varões portentosos na
-santidade, e nas sciencias. Comprehendemos tudo succintamente nas
-seguintes estancias:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Es Beira, la tercera Region, que ostenta</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De Viriato el nombre formidable,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Donde</i> Coimbra <i>Episcopal se assienta</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De Mondego en la orilla deleitable.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Produxo siete Reyes opulenta</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Grande en lo noble en letras admirable:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Yaze Obispal</i> Viseu <i>en gran llanura</i></span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Del infeliz Rodrigo sepultura.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;">Lamego, <i>Episcopal sale gallarda</i>,</span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Aveiro <i>en territorio es abundante.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Sobre peñascos asperos la</i> Guarda</span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Con Iglesia Pastoral luze brillante.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Sin Mitra</i> Idaña, <i>solo el timbre guarda,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que de Wamba adquiriò patria elegante;</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Mas poblacion la nueva Idaña tiene,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que en el sitio cercano se contiene.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;">Castello-Branco <i>entre otras cobra fama:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Tentugal <i>por la fuente, que ay en ella,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Montemayor <i>de Brigo obra se acclama,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Fuerte</i> Almeida, <i>que en armas tiene estrella.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Celorico <i>el laurel de Apolo enrama:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Por sus Duques</i> Lafões, <i>y</i> Avero <i>es bella:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Cobillan <i>goza celebre fortuna</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De la Cava fatal illustre cuna.</i></span><br>
-</p>
-
-
-<p class="center caption"><i>Comarcas da Provincia da Beira.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td rowspan="3">I.Coimbra Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Coimbra.</td></tr>
-<tr><td>32 Villas.</td><td>Alvaiazere, Ançã, Anciaõ, Arganil, Avó, Bobadella, Botaõ, Buarcos, Cantanhede, Carvalho, Celavisa,
-Cernache, Santa Comba-Daõ, Coja, Santa Christina, Esgueira, Fadeira, Fajaõ, Goes, Mira, Miranda
-do Corvo, Pena-Cova, Pereira, Podentes, Pombalinho, Pombeiro, Rabaçal, Redondos, Tentugal, Vacariça,
-Villanova de Anços, Villanova de Monçarros.<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></td></tr>
-<tr class="bb"><td>1 Cidade.</td><td>Aveiro.</td></tr>
-<tr><td rowspan="3">II. Esgueira Provedoria consta de</td><td>26 Villas.</td><td>Aguieira, Anadia, Angeja, Assequins, Avelãs de caminho,
-Avelãs de cima, Bemposta, Brunhido, Eixo, Estarreja, Ferreiros, Ilhávo, S. Lourenço do Bairro, Oiz da Ribeira, Oliveira do Bairro,
-Paos, Prestimo, Recardães, Sangalhos, Segadães, Serem, Sousa, Trofa, Villarinho do Bairro, Vagos, Vouga.</td></tr>
-<tr><td>1 Concelho.</td><td>Fermedo.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>1 Couto.</td><td>Esteve.</td></tr>
-<tr><td rowspan="4">III. Viseu Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Viseu.</td></tr>
-<tr><td>22 Villas.</td><td>Alva, Banho, Candosa, Coja, Enfias, Ferreira d’Aves, Lagares, Mortagoa, Nogueira, Oliveira do Conde, Oliveira
-de Frades, Oliveira do Hospital, Penalva d’Alva, Perselada, Reriz, Sabugosa, Sandomil, Santa Comba-Daõ, S. Pedro do Sul, Taboa, Trapa, Tondela.</td></tr>
-<tr><td>30 Concelhos.</td><td>Azere, Azurara, Barreiro, Besteiros, Canas de Sabugosa, Canas de Senhorim, Currellos,
-Folhadal, Foz de Piodaõ, Gafanhaõ, Guardaõ, Gulfar S. Joaõ de Areas, S. Joaõ do Monte, Lafões, Mões, Mouraz,
-Ovoa, Penalva do Castello, Pinheiro de Azere, Povolide, Ranhados, Sataõ, Senhorim, Sever, Silvares, Sinde, Tavares, Treixedo, Villacova de Subavó.
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>2 Coutos.</td><td>Maceiradaõ, Moimenta.<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></td></tr>
-<tr class="bb"><td>IV. Feira Ouvidoria consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Cambra, Castanheira, Feira, Ovar, Pereira de Susaõ.</td></tr>
-<tr><td rowspan="3">V. Lamego Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Lamego.</td></tr>
-<tr><td>32 Villas.</td><td>Arcos, Armamar, Arouca, Barcos, Britiande, Castello, Castrodairo, Chavães,
-S. Cosmado, Fantello, Fragoas, Goujim, Granja do Tedo, Lalim, Lazarim, Leomil, Longa, Lumiares, Moimenta da Beira, Mondim,
-Nagosa, Parada do Bispo, Passó, Pendilho, Sande, Taboaço, Tarouca, Valdigem, Varzea da serra, Veanha, Villacova, Villaseca.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>20 Concelhos.</td><td>Alvarenga, Aregos, Barqueiros Cabril, Caria, Couto da Ermida, S. Christovaõ da Nogueira, Ferreiros, S. Martinho de Mouros, Mossaõ,
-Paiva, Parada de Ester, Pera e Peva, Pezo da Regoa, Pinheiro, Rezende, Sanfins, Sinfaes, Teixeira, Tendaes.<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span>
-</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">VI. Pinhel Correiçaõ consta de</td><td>54 Villas.</td><td>
-Aguiar, Alfaiates, Algodres, Almeida, Almendra, Castanheira, Casteiçaõ, Castello bom, Castello melhor, Castello mendo, Castello-Rodrigo,
-Cedavim, Cinco Villas, Ervedosa, Escalhaõ, Figueiró da Granja, Fonte Arcada, Fornos, Guilheiro, Horta, S. Joaõ da Pesqueira, Lamegal, Langroiva, Marialva,
-Matança, Meda, Moreira, Muxagata, Nemaõ, Paradella, Paredes, Penaverde, Penedono, Penella, Pinhel, Ponto, Povoa, Ranhados,
-Reigada, Sernancelhe, Sindim, Soutelo, Souto, Tavora, Touça, Trancoso, Trovões, Valença do Douro, Val de coelha, Vallongo, Vargeas, Veloso, Villanova de Foscoa, Villar mayor.
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>1 Concelho.</td><td>Carapito.</td></tr>
-<tr><td rowspan="3">VII. Guarda Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Guarda.</td></tr>
-<tr><td>29 Villas.</td><td>Açores, Alvoco da Serra,Baraçal, Cabra, Castro verde, Cea, Celorico, Codeceiro Covilhã, Folgosinho, Forno-Telheiro, Gouvea, Jarmello, Lagos, Linhares,
-Loriga, Lourosa, Manteigas Santa Marinha, Mello, Mesquitella, Midões, Oliveirinha, Seixo, S. Romaõ, Torrozello, Vallazim, Valhelhas, Villacova.
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>1 Couto.</td><td>Mosteiro.<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></td></tr>
-<tr class="bb"><td>VIII. Castello-Branco Correiçaõ consta de</td><td>22 Villas.</td><td>
-Alpedrinha, Atalaya, Belmonte, Bemposta, Castello-Branco, Castelo novo, Idanha nova, Idanha velha, Monsanto, Penagarcia, Penamacor,
-Proença a velha, Rosmaninhal, Sabugal, Salvaterra do Estremo, Sarzedas, Segura, Sortelha, Touro, S. Vicente, Villa velha do Rodaõ, Zibreira.
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>IX. Montemor o velho Ouvidoria consta de</td><td>5 Villas.</td><td>Louriçal, Louzã, Montemor o velho, Penella, Serpins.
-</td></tr></table>
-
-
-<h3><i>Provincia da Estremadura.</i></h3>
-
-<p>1 Esta Provincia se fórma de huma faxa de terra, que corre desde a boca
-do rio Mondego até o caudaloso Tejo, e continúa pela Comarca de Setubal
-até entestar com Santiago de Cacem. Comprehende em toda esta longitude,
-conforme huns, quarenta leguas; e segundo outros, trinta e tres. De
-largo huns lhe daõ dezoito, outros dezaseis<a id="FNanchor_173" href="#Footnote_173" class="fnanchor">[173]</a> leguas na sua mayor
-largura; porém se lançarmos huma linha de Cascaes até a Pampilhosa,
-acharemos trinta e seis leguas de latitude. Pelo Occidente o mar Oceano
-a termina: pelo Meyo dia confina com o Alentejo a travez, e pelo Norte
-com a Beira.</p>
-
-<p>2 He o clima desta Regiaõ o mais saudavel, e temperado de todo o Reino,
-porque a benignidade<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> do Ceo faz aqui ser insensiveis aquellas estações
-do tempo, que gradualmente succedem humas às outras com mudança suave;
-e assim participando quasi sempre de ar puro, e Ceo sereno, produz
-nella a natureza com abundancia os frutos de todos os generos. Fertil
-he de azeites, bastando só a Villa de Santarem para prover o Reino,
-e suas Conquistas: fertil he de vinhos, e dos melhores, chamados de
-barra a barra, taõ estimados das nações Septentrionaes: fertil he de
-frutas, das quaes sómente a Villa de Collares todo o anno provê a
-Corte de Lisboa e se conduzem para outras muitas terras da Europa. De
-trigo, legumes, e hortaliças tem o que lhe basta. Cria caças de toda a
-especie, e das mais gostosas, porque comprehende as melhores coutadas
-do Reino. Peixe em abundancia, e saborosissimo; e finalmente sem
-exaggeraçaõ podemos dizer, que he a Provincia mais fertil, e farta de
-Portugal, concorrendo tambem as outras com os seus productos para mais
-a fertilizar, e enriquecer, tratando-a verdadeiramente como Rainha,
-pois existe no meyo do Reino coroada de todas.</p>
-
-<p>3 Muito conduz para toda esta abundancia os seus famosos portos,
-especialmente o de Lisboa, por onde todos os annos entraõ as ricas
-frotas do Brasil, e em pouco mais tempo as preciosas mercadorias da
-Asia, e quasi todos os dias innumeraveis embarcações estrangeiras
-para commodidade do commercio, que he nesta Provincia o mayor de
-todo o Reino. Conduz tambem naõ pouco a grande copia de boas aguas
-de suas fontes, e rios, os quaes, segundo seu mayor nome, saõ
-estes: <i>Aguas livres</i>, <i>Alcantara</i>, <i>Alferradede</i>,
-<i>Alfusqueiro</i>, <i>Aljés</i>, <i>Alpiaça</i>, <i>Alviella</i>,
-<i>Arunca</i>, <i>Barcarena</i>, <i>Bezelga</i>, <i>Broya</i>,
-<i>Cadavás</i>, <i>Cambra</i>, <i>Canha</i>, <i>Castelãos</i>,
-<i>Cera</i>, <i>Caranque</i>, <i>Chileiros</i>, <i>Crins</i>,
-<i>Esporaõ</i>, <i>Guardaõ</i>, <i>Lago</i>, <i>Lena</i>, <i>Liten</i>,
-<i>Liça</i>, <i>Liz</i>, <i>Montijo</i>, <i>Nabaõ</i>, <i>Pernes</i>,
-<i>Rezes</i>, <i>Sado</i>, <i>Sizandro</i>, <i>Tejo</i>, <i>Val de
-lobos</i>, <i>Unhaes</i>, <i>Zezere</i>,<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> a que podemos accrescentar
-por singularidade as virtuosas aguas das que chamamos Caldas, que nesta
-Provincia existem as de melhor fama.</p>
-
-<p>4 Quanto ao estado Ecclesiastico, tem duas Igrejas Cathedraes:
-<i>Lisboa</i>, que logra a dignidade de Patriarcado; e <i>Leiria</i> a
-de Bispado. Numeraõ-se-lhe quatrocentas e sessenta e duas Paroquias,
-além de outras muitas Igrejas, que o naõ saõ. Tres insignes
-Collegiadas: <i>Santa Maria Mayor</i> em Lisboa, <i>Nossa Senhora
-da Misericordia</i> em Ourem, e <i>Santa Maria da Alcaçova</i> em
-Santarem, com outras, que o parecem, como na Igreja de Santo Antonio de
-Lisboa, Santo Antonio do Tojal, &amp;c. Dous grandes Priorados das Ordens
-Militares: de <i>Santiago</i> em Palmella, de <i>Christo</i> em Thomar.
-Seis Templos Regios os mais insignes: <i>Alcobaça</i>, <i>Batalha</i>,
-<i>Belém</i>, <i>Mafra</i>, <i>Thomar</i>, <i>S. Vicente de Fóra</i>.
-Conventos, e Mosteiros mais de cento e setenta. Hum supremo Tribunal do
-Santo Officio. E finalmente he onde com mayor culto, asseyo, e grandeza
-se executaõ todas as festividades, funções Ecclesiasticas, e Officios
-Divinos, augmentando-se mais a devoçaõ com os prodigiosos Santuarios,
-que encerra cheyos de continuadas maravilhas.</p>
-
-<p>5 As sciencias nos seus frenquentados Collegios, e Academias: as artes
-liberaes nas suas grandes, e opulentas fabricas: a politica, o trato,
-e a civilidade florecem nesta Regiaõ: até o idioma se pronuncía com
-mayor pureza, e cadencia do que nas outras Provincias; pois nella
-reside a Corte de Lisboa, que como Princeza de todas as do mundo, como
-lhe chamou o nosso Poeta, infunde qualidades para a melhor cultura, e
-perfeiçaõ. Finalmente</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Es la quarta Provincia Estremadura,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que contiene a</i> Lisboa, <i>donde cria,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Del claro lis beviendo la dulçura</i></span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Con Episcopal Baculo</i> Leiria.</span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>La Villa de</i> Batalla <i>se assegura</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">De Reyes Portuguezes urna umbria.</span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Santarem <i>con portentos se corona,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Y de aver sido throno Real blasona.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Con gran juridicion</i> Thomar <i>se ofrece</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Al dulce Naban, que sus campos baña.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Alenquer <i>del Alano permanece</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Fundacion en frutifera campaña.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Cintra <i>del quinto Alonso patria crece.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Primera poblacion sale de España,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Setubal <i>al mar grande dirigida</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Morada de Tubal apetecida.</i></span><br>
-</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia da Estremadura.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt bb"><td>I. Lisboa Capital do Reino consta de</td><td>41 Paroquias.</td><td>
-Senhora da Ajuda, Santo André, Senhora dos Anjos, S. Bartholomeu, Santa Catharina, Chagas de Jesus, S. Christovaõ, Senhora da Conceiçaõ, Santa Cruz do
-Castello, Senhora da Encarnaçaõ, Santa Engracia, Santo Estevaõ, S. Joaõ da Praça, S. Jorge, S. Joseph, Santa Isabel,
-S. Juliaõ, Santa Justa, Senhora do Loreto, S. Lourenço, S. Mamede, Santa Maria, Santa Maria Magdalena, Santa Marinha, S. Martinho,
-Senhora dos Martyres, Senhora das Mercês, S. Miguel, S. Nicolao, Patriarcal, S. Paulo,
-S. Pedro, Senhora da Pena, Santissimo Sacramento, Salvador, Santiago, Santos, S. Sebastiaõ, Senhora do Soccorro, S. Thomé, S. Vicente.<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span>
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>II. Torres Vedras Correiçaõ consta de</td><td>18 Villas.</td><td>Alhandra, Alverca, Arruda,
-Bellas, Cadaval, Cascaes, Castanheira, Chilleiros, Collares, Enxara dos Cavalleiros,
-Ericeira, Lourinhã, Mafra, Povos, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras, Villa Franca de Xira, Villa Verde.
-</td></tr>
-<tr class="bb"><td>III. Alanquer Ouvidoria consta de</td><td>8 Villas.</td><td>Aldea Galega da Merciana,
-Alenquer, Caldas, Chamusca, Cintra, Obidos, Salir do Porto, Ulme.</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">IV. Leiria Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Leiria.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>11 Villas.</td><td>Alcobaça, Alfeizeraõ, Aljubarrota, Alpedriz, Alvorninha, Atouguia, Batalha, S. Catharina, Cella, Coz, Ega,
-Evora de Alcobaça, S. Martinho, Mayorga, Pederneira, Peniche, Pombal, Redinha, Salir do Mato, Soure, Turquel.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>V. Thomar Correiçaõ consta de</td><td>28 Villas.</td><td>
-Abiul, Abrantes, Aguas Bellas, Aguda, Alvaro, Alváres, Amendoa, Aréga, Assinceira, Atalaia, Chaõ de couce, Dornes, Ferreira, Figueirò
-dos vinhos, Maçãs de caminho, Maçaõ, Pampilhosa, Payo de pelle, Pedrogaõ grande, Pias, Ponte de Sor, Punhete, Pussos, Sardoal,
-Sovereira formosa, Tancos, Thomar, Villa de Rey.<span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></td></tr>
-<tr class="bb"><td>VI. Ourem Ouvidoria consta de</td><td>7 Villas.</td><td>Aguda, Avelar, Chaõ de Couce, Maçãs de D. Maria,
-Ourem, Porto de Moz, Pousaflores.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>VII. Santarem Correiçaõ consta de</td><td>15 Villas.</td><td>Alcanede, Alcoentre, Almeirim,
-Aveiras de cima, Aveiras de baixo, Azambuja, Azambugeira, Erra, Golegã, Lamarosa, Montargil,
-Mugem, Salvaterra de Mangos, Santarem, Torresnovas.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>VIII. Setubal Correiçaõ consta de</td><td>16 Villas.</td><td>Alcacer do Sal, Alcochete,
-Aldea Gallega, Alhosvedros, Almada, Barreiro, Cabrella, Çamora Correya, Canha, Coina, Grandola, Lavradio, Moita, Palmela, Setubal,
-Sezimbra.</td></tr>
-</table>
-
-
-<h3><i>Provincia do Alentejo.</i></h3>
-
-<p>1 Chama-se esta Provincia <i>Alentejo</i>, respeitando as outras
-Provincias de Portugal, que ficaõ ao Norte do rio Tejo; mas isto
-he conforme a divisaõ politica, e naõ fisica. Dilata-se entre os
-limites da Estremadura Castelhana, Reino do Algarve, mar Oceano,
-Tejo, e Guadiana, quasi em fórma quadrada, pelo que lhe daõ muitos
-trinta e quatro leguas de huma, e outra parte;<a id="FNanchor_174" href="#Footnote_174" class="fnanchor">[174]</a> porém o seu mayor
-comprimento pelo certaõ saõ trinta e nove<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> leguas, pela costa vinte
-e oito, e tendo pela margem do Tejo trinta e cinco de largura, se
-estreita, e reduz na raya do Algarve a vinte e huma.<a id="FNanchor_175" href="#Footnote_175" class="fnanchor">[175]</a></p>
-
-<p>2 He o seu terreno pela mayor parte plano, posto que o atravessaõ
-algumas serras, a de Ossa, Caldeiraõ, Portalegre, Montemuro, Marvaõ,
-e outras, donde nascem fontes, e rios, naõ em tanta abundancia,
-como nas outras Provincias, porque tambem o ardente Sol no Veraõ
-consome aqui muito sua humidade, mas todavia sempre se lhe numeraõ
-de mayor nome os seguintes: <i>Abrilongo</i>, <i>Alcarapinha</i>,
-<i>Alcaraviça</i>, <i>Alcarache</i>, <i>Algale</i>, <i>Anheloura</i>,
-<i>Aramenho</i>, <i>Aviz</i>, <i>Benavile</i>, <i>Bonafide</i>,
-<i>Botova</i>, <i>Cabaça</i>, <i>Caya</i>, <i>Cayola</i>,
-<i>Campilhas</i>, <i>Canha</i>, <i>Carreiras</i>, <i>Cobrinhas</i>,
-<i>Corbes</i>, <i>Corona</i>, <i>Dejebe</i>, <i>Detença</i>,
-<i>Enxarrama</i>, <i>Erra</i>, <i>Ervedal</i>, <i>Figueiró</i>,
-<i>Fonte boa</i>, <i>Galego</i>, <i>Guadiana</i>, <i>Lavra</i>,
-<i>Lamarosa</i>, <i>Leça</i>, <i>Limas</i>, <i>Lixoza</i>,
-<i>Lucefece</i>, <i>Machede</i>, <i>Marataca</i>, <i>Mourinho</i>,
-<i>Niza</i>, <i>Odemira</i>, <i>Odivellas</i>, <i>Odivor</i>,
-<i>Peramança</i>, <i>Regalvo</i>, <i>S. Romaõ</i>, <i>Sarrazola</i>,
-<i>Seda</i>, <i>Sever</i>, <i>Severa</i>, <i>Sor</i>, <i>Sorraya</i>,
-<i>Taleigaõ</i>, <i>Tejo</i>, <i>Tera</i>, <i>Terjes</i>,
-<i>Videgaõ</i>, <i>Xever</i>, <i>Xevora</i>, <i>Xola</i>,
-<i>Xouxou</i>, <i>Zata</i>.</p>
-
-<p>3 He fertilissima, pois correspondem os frutos com grande abundancia.
-De trigo diz Macedo,<a id="FNanchor_176" href="#Footnote_176" class="fnanchor">[176]</a> que só a Freguezia da Cathedral de Evora dá
-ao dizimo cada anno setecentos moyos, com a circunstancia de que os
-lavradores naõ cultivaõ todas as terras capazes de sementeira, senaõ
-escolhem algumas, a que chamaõ folhas, para fazerem a lavoura de tres
-em tres annos; isto he, a que se semeou este anno, naõ se torna a
-affolhar, senaõ passados tres annos; porque se Alentejo cultivasse
-annualmente todas as dilatadas campinas, e charnecas, que tem, daria
-trigo, centeyo, e cevada para todo o mundo.<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span> A esta abundancia attendeo
-Camões, quando cantou:<a id="FNanchor_177" href="#Footnote_177" class="fnanchor">[177]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>E vós tambem, ò terras Transtaganas,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Affamadas co dom da flava Ceres.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>4 Além dos trigos he abundante de boas frutas, azeite, vinho, mel,
-cera, lãs, caças, gados, excellentes queijos, finos marmores,
-affamados, e cheirosos barros; de sorte que esta Provincia naõ
-necessita de cousa alguma, que em si naõ tenha com abundancia: até
-peixe colhe abundantemente da ribeira do Sado, que entra no rio de
-Alcacere, e na da Fonte Santa, que está no caminho de Estremoz, além de
-outros rios, que temos nomeado.</p>
-
-<p>5 Ha em Alentejo quatro Cidades: <i>Evora</i>, que tem Arcebispo:
-<i>Elvas</i>, e <i>Portalegre</i>, que tem Bispos: <i>Beja</i> que
-o naõ tem. Contaõ-se mais de cem Villas: dous grandes Priorados das
-Ordens Militares, de <i>Aviz</i>, e de <i>Malta</i>. Divide-se em oito
-Comarcas, que saõ: <i>Evora</i>, <i>Béja</i>, <i>Campo de Ourique</i>,
-<i>Villa Viçosa</i>, <i>Elvas</i>, <i>Portalegre</i>, <i>Crato</i>,
-<i>Aviz</i>, das quaes algumas saõ Ouvidorias.</p>
-
-<p>6 Sempre nesta Provincia floreceraõ homens de singulares engenhos: em
-tempos antigos Aprigio, Isidoro Pacense, e outros muitos: nos mais
-proximos aos nossos André de Resende, o Padre Maldonado, o Padre
-Manoel de Goes, o Doutor Pedro Nunes, rarissimo na Mathematica,
-Thomaz Rodrigues, insigne Medico, além de muitos outros em todas as
-faculdades. E no valor teve tambem homens assinalados, como foy D. Payo
-Peres Correa, Josué Portuguez, D. Nuno Alvares Pereira, D. Vasco da
-Gama, primeiro descubridor das Indias, os quaes bastaõ para credito da
-Provincia. Tudo se recopila nestas duas estancias.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Sigue quinta Region la de Alentejo,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Cuya cabeça, y Metropolitana</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Es</i> Evora, <i>de Roma claro espejo,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Del gran Giraldo gloria soberana.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Tiene noble dominio, y fiel consejo</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Portalegre <i>risueña Diocesana.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Elvas <i>con Mitra luze venerable,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Siendo por su Castillo inexpugnable.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;">Béja <i>Ciudad insigne se publíca,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Y el precioso licor de Baco enseña.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Entre otras Villas</i> Estremoz <i>muy rica</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Es invencible, y fuerte</i> Jurumeña.</span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Por sus inclytos Nobles a Belona</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Montemayor <i>el Nuevo el ser dedica.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;">Villa Viçosa <i>en llano está florido</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Templo de Proserpina, y de Cupido.</i></span><br>
-</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><i>Comarcas da Provincia do Alentejo.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td rowspan="2">I. Evora Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Evora.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>11 Villas.</td><td>Aguias, Alcaçovas, Canal, Estremoz, Lavre, Montemór o novo, Montoito, Pavîa, Redondo, Viana, Vimieiro.
-</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">II. Béja Ouvidoria consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Béja.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>18 Villas.</td><td>Agua de Peixes, Aguiar, Albergaria dos Fuzos, Alvito, Beringel, Faro, Ferreira,
-Ficalho, Frades, Moura, Odemira, Oriolas, Serpa, Torraõ, Vidigueira, Villa-Alva, Villanova de Alvito, Villa-Ruiva.<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span>
-<tr class="bb"><td>III. Campo d’Ourique Ouvidoria consta de</td><td>15 Villas.</td><td>Aljustrel, Almodovar, Alvalade, Castro verde, Collos,
-Entradas, Gravaõ, Mertola, Messejana, Ourique, Padrões, Panoyas, Santiago de Cacem, Sines, Villanova de mil fontes.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>IV. Villa-Viçosa Ouvidoria consta de</td><td>14 Villas.</td><td>Alter do chaõ, Arrayolos, Borba, Chancellaria, Evoramonte, Lagomel, Margem,
-Monsarás, Monforte, Portel, Souzel, Villa-Boim, Villa-Viçosa, Villa-Fernando.</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">V. Elvas Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Elvas.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>6 Villas.</td><td>Barbacena, Campo Mayor, Mouraõ, Olivença, Ouguela, Terena.</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">VI. Portalegre Correiçaõ consta de</td><td>1 Cidade.</td><td>Portalegre.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>12 Villas.</td><td>Alegrete, Alpalhaõ, Arronches, Assumar, Arez, Castello de Vide, Marvaõ, Meadas,
-Montalvaõ, Niza, Povoa, Villaflor.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>VII. Crato Ouvidoria consta de</td><td>12 Villas.</td><td>Amieira, Belver, Cardigos, Carvoeiro, Certã, Crato,
-Envendos, S. Joaõ de Gafete, Oleiros, Pedrogaõ pequeno, Proença a nova, Tolosa.<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></td></tr>
-<tr class="bb"><td>VIII. Aviz Ouvidoria consta de</td><td>17 Villas.</td><td>Alandroal, Alter Pedroso, Aviz, Benavente, Benavilla,
-Cabeço de Vide, Cabeçaõ, Cano, Coruche, Figueira, Fronteira, Galveas, Jurumenha, Mora, Noudar, Seda, Veiros.</td></tr>
-</table>
-
-
-<h3><i>Provincia, e Reino do Algarve.</i></h3>
-
-<p>1 Fórma esta Regiaõ do Algarve hum dos principaes angulos da Peninsula
-Lusitana no Cabo de S. Vicente com a concurrencia das linhas
-Meridional, e Occidental até a foz do Guadiana. Daõ-lhe os Geografos
-vinte e sete leguas de comprido, e nove de largo. Os Mouros lhe
-chamaraõ Algarve, que quer dizer <i>Terra Occidental</i>,<a id="FNanchor_178" href="#Footnote_178" class="fnanchor">[178]</a> mas
-outros interpretaõ <i>Terra plana, e fertil</i>; porque sem embargo
-de comprehender algumas serras pelo certaõ, occupa pela costa do mar
-planicies muy ferteis, e deliciosas.</p>
-
-<p>2 Constitue-se Reino forte, e separado de Portugal pelos montes
-Caldeiraõ, e Monchique, e de Andaluzia pelo rio Guadiana; de sorte,
-que a sua situaçaõ he a mais vantajosa de todas as nossas Provincias.
-Sua primeira conquista foy intentada por ElRey D. Affonso Henriques:
-continuou-a com grandes progressos ElRey D. Sancho I., e a acabou
-de conseguir ElRey D. Affonso III. ficando desde entaõ o Reino do
-Algarve incorporado com permanencia na Coroa de Portugal, que organiza
-suas Reaes armas com a orla dos sete castellos dourados em campo
-vermelho.<span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span><a id="FNanchor_179" href="#Footnote_179" class="fnanchor">[179]</a> 3 Consta de quatro Cidades: <i>Faro</i>, onde hoje
-está a Sé Cathedral; <i>Silves</i>, donde foy mudada; <i>Tavira</i>,
-e <i>Lagos</i>. Tem mais doze Villas, a saber: <i>Albofeira</i>,
-<i>Alcoutim</i>, <i>Aljezur</i>, <i>Alvor</i>, <i>Cassella</i>,
-<i>Castro-Marim</i>, <i>Loulé</i>, <i>Odeseixe</i>, <i>Paderne</i>,
-<i>Sagres</i>, <i>Villa de Bispo</i>, <i>Villa nova</i>. Tem dous
-Promontorios o Cabo de S. Vicente, e o de Santa Maria. Tem cem pontes
-de pedra, sessenta e duas pias de bautizar, e outras particularidades,
-que reservamos para lugar mais proprio.</p>
-
-<p>4 Faz ser esta Provincia abundante com especialidade a grande copia
-de figos, passas, e amendoas, de que se extrahem todos os annos
-por negocio para differentes partes de Levante, Italia, e Flandes
-consideraveis sommas; e assim como em outras terras estaõ semeados os
-campos de trigo, cevada, e centeyo, esta os tem cubertos de vinhas,
-amendoeiras, figueiras, e tambem palmeiras, de cujos ramos tecem seus
-moradores varias curiosidades.<a id="FNanchor_180" href="#Footnote_180" class="fnanchor">[180]</a> A pescaria de atum naõ serve de
-pequeno lucro, e com que fazem hum grave negocio. Os rios, que cortaõ,
-e regaõ este Reino, saõ muitos, porém pequenos, sendo os de mayor nome
-o <i>Adoleite</i>, <i>Belixari</i>, <i>Guadiana</i>, <i>Lampas</i>, e
-<i>Vascaõ</i>.</p>
-
-<p>5 Seus habitadores saõ esforçados, e aptos para a guerra; e já em
-tempos antigos venceraõ valerosamente ao Capitaõ Romano Sergio Galba.
-Saõ muy dados à sciencia maritima, e se prezaõ muito de que no seu
-terreno escolhessem o primeiro Patriarca, e Fundador de Hespanha
-<i>Tubal</i>, e o famoso <i>Hercules</i> os seus jazigos, se he certo
-o que diz Fr. Bernardo de Brito. Divide-se finalmente o Algarve em
-duas Comarcas, conforme a Geografia moderna do Padre D. Luiz de
-Lima, e vem a ser: <i>Lagos</i>, e <i>Tavira</i>. Tem sete fontes
-medicinaes: tres Praças de armas, que saõ: <i>Lagos</i>, <i>Faro</i>,
-<i>Castro-Marim</i>, bem fortificadas com quatro mil homens de
-guarniçaõ; e<span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span> até o presente numera quarenta Governadores, ou Capitães
-Generaes com o segundo Marquez de Louriçal D. Francisco de Menezes seu
-actual, e benemerito Governador.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>El Reyno del Algarbe es la postrera</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Porcion, cuyas Ciudades son</i> Tavira</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>DelRey Brigo gallarda Primavera,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Donde herido del viento el mar suspira.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Faro <i>Obispal adorna su ribera,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Al Oceano fuerte</i> Lagos <i>mira.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Con poca vezindad nombre difuso</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Alcança</i> Sylves <i>Paraiso Luso</i>.</span><br>
-</p>
-
-<p class="center caption"><i>Comarcas da Provincia, e Reino do Algarve.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td rowspan="2">I. Lagos Correiçaõ consta de</td><td>2 Cidades.</td><td>Lagos, Silves.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>7 Villas.</td><td>Aljezur, Alvor, Odeseixe, Paderne, Sagres, Villanova de Portimaõ, Villa do Bispo.</td></tr>
-<tr><td rowspan="2">II. Tavira Correiçaõ consta de</td><td>2 Cidades.</td><td>Tavira, Faro.</td></tr>
-<tr class="bb"><td>5 Villas.</td><td>Albufeira, Alcoutim, Cacella, Castro-Marim, Loulé.<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></td></tr>
-</table>
-
-<p class="center caption p2">MAPPA<br><i>Do que comprehendem as seis Provincias de Portugal.</i></p>
-<table class="autotable">
-<tr><th>Provincias</th><th>Minho.</th><th>Tr. os M.</th><th>Beira.</th><th>Estrem.</th><th>Alentej.</th><th>Algarv.</th></tr>
-<tr><td>Comarcas. </td><td class="tdc"> 6 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 8 </td><td class="tdc"> 2 </td></tr>
-<tr><td>Cidades. </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 5 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 4 </td></tr>
-<tr><td>Villas. </td><td class="tdc">26 </td><td class="tdc">50 </td><td class="tdc">234 </td><td class="tdc">114 </td><td class="tdc">100 </td><td class="tdc">12 </td></tr>
-<tr><td>Patriac. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td></tr>
-<tr><td>Arcebisp. </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr>
-<tr><td>Bispados. </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 4 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 2 </td><td class="tdc"> 1 </td></tr>
-<tr><td>Inquisiç. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr>
-<tr><td>Univers. </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td><td class="tdc"> 1 </td><td class="tdc">... </td></tr>
-<tr><td>Paroquias. </td><td class="tdc">1500 </td><td class="tdc">620 </td><td class="tdc">1090 </td><td class="tdc">460 </td><td class="tdc">350 </td><td class="tdc">67 </td></tr>
-<tr><td>Cid. capit. </td><td class="tdc">Porto. </td><td class="tdc">Miranda. </td><td class="tdc">Coimb. </td><td class="tdc">Lisboa. </td><td class="tdc">Evora. </td><td class="tdc">Faro. </td></tr>
-<tr><td>Pr. d’ arm. </td><td class="tdc">Viana. </td><td class="tdc">Chaves. </td><td class="tdc">Alm. </td><td class="tdc">Lisboa. </td><td class="tdc">Elvas. </td><td class="tdc">Lagos. </td></tr>
-<tr><td>L. de comp. </td><td class="tdc">18 </td><td class="tdc">34 </td><td class="tdc">36 </td><td class="tdc">40 </td><td class="tdc">39 </td><td class="tdc">28 </td></tr>
-<tr><td>L. de largo.</td><td class="tdc">12 </td><td class="tdc">26 </td><td class="tdc">36 </td><td class="tdc">18 </td><td class="tdc">35 </td><td class="tdc"> 8 </td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_151" href="#FNanchor_151" class="label">[151]</a> Duarte Nun. Descripç. de Port. cap. 28. Joaõ de Barr.
-na Descripç. do Minho cap. 6. Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap.
-2. a. 4. Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1.
-Geograf. Blavian. Cost. Corogr. Port. tom. 1. c. 1. Lim. Geogr. Histor.
-tom. 1. pag. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_152" href="#FNanchor_152" class="label">[152]</a> Far. no Epitom. part. 4. cap. 5. n. 4. Maced. Flor. de
-Hesp. cap. 1. excel. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_153" href="#FNanchor_153" class="label">[153]</a> D. Franc. Man. Epanafor. 4. p. 518.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_154" href="#FNanchor_154" class="label">[154]</a> Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap.
-1. pag. 3. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_155" href="#FNanchor_155" class="label">[155]</a> Far. Epitom p. 4. cap. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_156" href="#FNanchor_156" class="label">[156]</a> Nun. Descripç. de Portug. cap. 28. e 29. Vasconcell. in
-Descript. Lusitan.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_157" href="#FNanchor_157" class="label">[157]</a> Estaç. Antig. de Portug. cap. 72.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_158" href="#FNanchor_158" class="label">[158]</a> Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_159" href="#FNanchor_159" class="label">[159]</a> Joaõ Salgad. Success. Milit. pag 3. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_160" href="#FNanchor_160" class="label">[160]</a> Maced. Flor. de Hesp. cap. 2. excel. 3. Barbos. de
-Potestat. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. Gil Gonsal. de Avil. no
-Theatro de las grandez. de Madrid. p. 500.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_161" href="#FNanchor_161" class="label">[161]</a> Arauj. Success. Milit. liv. 1. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_162" href="#FNanchor_162" class="label">[162]</a> August. Barb. de Potest. Episcop. part. 1. tit. 3. cap.
-8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_163" href="#FNanchor_163" class="label">[163]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. Lim. Geogr.
-Histor. tom. 2. pag. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_164" href="#FNanchor_164" class="label">[164]</a> Corograf. Portug. tom. 1. p. 313. Padilha. Histor.
-Eccles. cent. 1. cap. 16. Monarq. Lusitan. part. 3. liv. 8. cap. 32.
-Rodrig. Mend. da Silv. na Descripç. de Portug.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_165" href="#FNanchor_165" class="label">[165]</a> Colmenar. Delices du Port. tom. 4. pag. 713. Lim.
-Geograf. Histor. tom. 2. p. 61.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_166" href="#FNanchor_166" class="label">[166]</a> Arauj. Success. Milit. p. 68. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_167" href="#FNanchor_167" class="label">[167]</a> Brit. na Geograf. Lusitan. cap. 4. Fr. Man. da Esper. na
-1. part. da Histor. Serafic. liv. 4. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_168" href="#FNanchor_168" class="label">[168]</a> Poyar Diccionar. Geogr. p. 76. Lim. Geograf. Histor.
-tom. 2. p. 83.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_169" href="#FNanchor_169" class="label">[169]</a> Fr. Man. da Roch. Portug. renascid. part. 1. p. 109.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_170" href="#FNanchor_170" class="label">[170]</a> Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 8. p. 354.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_171" href="#FNanchor_171" class="label">[171]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. pag. 3. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_172" href="#FNanchor_172" class="label">[172]</a> Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_173" href="#FNanchor_173" class="label">[173]</a> Geograf. Blavian. Mendes da Silv. Mons. de La Clede tom.
-2. pag. mihi 59. Corograf. Portug. tom. 3 Lim. Geogr. Histor. tom. 2.
-p. 136. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. p. 160.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_174" href="#FNanchor_174" class="label">[174]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. Rodrig.
-Mend. da Silv. na Descripç. de Portug. Geograf. Blavian. tom. de
-Hespanh. pag. 403.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_175" href="#FNanchor_175" class="label">[175]</a> Abbad. de Per. Success. Milit. p. 179.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_176" href="#FNanchor_176" class="label">[176]</a> Sousa de Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_177" href="#FNanchor_177" class="label">[177]</a> Cam. cant. 3 est.62.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_178" href="#FNanchor_178" class="label">[178]</a> Colmen. Delices de Hesp. tom. 4. p. 809.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_179" href="#FNanchor_179" class="label">[179]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_180" href="#FNanchor_180" class="label">[180]</a> Rodrig. Mend. da Silv. Descripç. de Hesp.</p>
-
-</div></div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VI">CAPITULO VI.<br><span class="small"><i>Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<p>1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem,
-e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres
-Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias
-partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ
-descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes
-chamou Athlantes o famoso Caramuel,<a id="FNanchor_181" href="#Footnote_181" class="fnanchor">[181]</a> pois com sua altivez pertendem
-coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais
-affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga.</p>
-
-<p>2 <i>Abelheira.</i> Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura
-em o Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem
-com a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a
-muitos gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de
-grande virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia
-de Tras os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de
-edificios Arabes.</p>
-
-<p>3 <i>Aboboreira.</i> Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de
-Gouvea. He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de
-ambito, que occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita
-caça que alli se cria.</p>
-
-<p>4 <i>Achada.</i> Começa esta serra desde a ribeira de<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> Cascaes, e se
-vay unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ
-obstante admittir cultura pelas suas raizes.</p>
-
-<p>5 <i>Açor.</i> Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na
-Beira, que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil,
-occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e
-lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve.</p>
-
-<p>6 <i>Albardos.</i> Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo
-de Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem
-alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ
-Senhores de todos os limites desta serra.</p>
-
-<p>7 <i>Alcaçovas.</i> Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca
-de Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se
-descobrem povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz<a id="FNanchor_182" href="#Footnote_182" class="fnanchor">[182]</a>
-ser provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre,
-segundo se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros
-vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre
-Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta
-serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar,
-e onde se cria abundancia de caça, e de gado.</p>
-
-<p>8 <i>Alcubertas.</i> Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se
-descobre huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra
-brilhante, que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a
-mistura da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados,
-e grutescos.</p>
-
-<p>9 <i>Aleidões.</i> Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola,
-estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e
-consta de muitas<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span> carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli
-se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel.</p>
-
-<p>10 <i>Algáres.</i> Principia esta serra a descobrirse huma legua
-distante da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando
-contra o Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço
-de duas leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os
-Romanos extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona,
-que separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A <i>Corografia
-Portugueza no tom. 3. pag. 336.</i> refere outras circunstancias desta
-serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico.</p>
-
-<p>11 <i>Alpedreira.</i> Fica no Arcebispado de Evora, e se communica
-com a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas
-concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para
-sementeira de centeyo.</p>
-
-<p>12 <i>Alqueidaõ.</i> He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria.
-A sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho.
-Cria tambem alguma caça miuda.</p>
-
-<p>13 <i>Altar de Trevim.</i> He huma serra que fica no termo da Louzã,
-demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas
-Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem
-muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados
-que por alli pastaõ.</p>
-
-<p>14 <i>Alvaõ.</i> Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães.
-He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato
-rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e
-lebres.</p>
-
-<p>15 <i>Alvayazere.</i> Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de
-Coimbra. He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido.
-Cria muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span>
-da sua flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy
-espaçosa, onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber.
-Suppoem-se que seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no
-cimo da serra se descobrem.</p>
-
-<p>16 <i>Airó.</i> Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos,
-tem bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada
-por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota
-imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo,
-de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca
-distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S.
-Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha,
-Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com
-sinaes de predestinado.</p>
-
-<p>17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar
-de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e
-antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso
-caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo
-89. onde diz: <i>Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que
-passou</i>, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho,
-que com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do
-Convento o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de
-ninguem; dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella
-ave canora, quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria
-parecem instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este
-caso na Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1.
-Toda esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor
-vinho de enforcado, que deste genero ha no Reino.</p>
-
-<p>18 <i>Amarella.</i> He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio
-da do Gerez. Descobrem-se da<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span> sua mayor altura muitas povoações
-distantes, e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar;
-alargando-se tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve
-de termo. Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados,
-por cujo motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer
-montaria em tempos determinados, por obrigaçaõ.</p>
-
-<p>19 <i>Amoreira.</i> Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites
-de Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas
-povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras
-negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras
-de primor.</p>
-
-<p>20 <i>Anciam.</i> Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal,
-e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais
-eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito
-alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto
-aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem
-que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui
-se vê huma grande lapa chamada <i>Algar da agua</i> aberta em hum
-penhasco taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens.
-Cria tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O
-Author da Corografia chama a esta serra a Carreira.<a id="FNanchor_183" href="#Footnote_183" class="fnanchor">[183]</a></p>
-
-<p>21 <i>Araceli.</i> He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora,
-que tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes
-admitte cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas
-medicinaes, a agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto
-Daro, de cujas bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem
-para<span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span> o prato, e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha
-aqui muita caça de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se
-tira bastante mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada,
-e se adora a imagem da Senhora com o titulo de <i>Araceli</i>, que deu
-nome à serra.</p>
-
-<p>22 <i>Arada.</i> Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres
-leguas de comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na
-planicie da sua mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da
-Coelheira. Consta toda esta serra de mato real, onde se cria muita
-caça, até aguias, e hervas medicinaes.</p>
-
-<p>23 <i>Arga.</i> Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.<a id="FNanchor_184" href="#Footnote_184" class="fnanchor">[184]</a>
-Divide ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu
-terreno antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do
-seu ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras.
-Tem esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem
-ver na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.<a id="FNanchor_185" href="#Footnote_185" class="fnanchor">[185]</a></p>
-
-<p>24 <i>Arrabida.</i> He esta serra huma aspera montanha da Estremadura,
-que corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo
-espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por
-sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a
-banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do
-Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita,
-e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra,
-está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia
-Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de
-Alcantara.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<p>25 Conforme diz Gaspar Barreiros<a id="FNanchor_186" href="#Footnote_186" class="fnanchor">[186]</a> o nome de Arrabida he derivado
-da antiga <i>Arabriga</i>, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual
-demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que
-o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr.
-Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,<a id="FNanchor_187" href="#Footnote_187" class="fnanchor">[187]</a> os quaes a derivaõ
-do nome <i>Errabundus</i>; porque os que subiaõ a esta serra, sempre
-erravaõ o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,<a id="FNanchor_188" href="#Footnote_188" class="fnanchor">[188]</a> que os
-Mouros, quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma
-significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer
-penitencia.</p>
-
-<p>26 Os Romanos chamaraõ a esta serra <i>Promontorio Barbarico</i>;
-ou porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para
-Roma muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ
-os seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e
-aos conductores barbaros, como diz André de Resende;<a id="FNanchor_189" href="#Footnote_189" class="fnanchor">[189]</a> ou porque
-os povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e
-rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.<a id="FNanchor_190" href="#Footnote_190" class="fnanchor">[190]</a></p>
-
-<p>27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico,
-se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou
-antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli
-templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de
-bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se
-descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco
-caso dellas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span></p>
-
-<p>28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha,
-que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com
-miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo
-da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap.
-5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo
-mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que
-vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo
-Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou
-seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel
-circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem
-da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à
-maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ,
-e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou
-frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa,
-presentemente arruinado, e extincto.</p>
-
-<p>29 <i>Atalaya.</i> Ha no Reino tres serras com este nome; duas na
-Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de
-canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma
-caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem
-hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada
-com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ
-de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade
-muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia
-da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas
-abundante de lenha, e caça miuda.</p>
-
-<p>30 <i>Barregudo.</i> He huma serra, que fica no termo de Torres
-Vedras, e que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de
-Montejunto. Adquire<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span> nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos
-negros se encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e
-huma casta de areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se
-deixa cultivar com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar.</p>
-
-<p>31 <i>Barris.</i> He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente
-da Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas
-hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum
-admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem
-suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se
-criaõ.</p>
-
-<p>32 <i>Besteiros.</i> He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa
-pela distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma
-fonte de agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria
-mato rasteiro, e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em
-abundancia. Pastaõ nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso.</p>
-
-<p>33 <i>Bornes de Monte mel</i> fica no termo de Braga, e tem duas leguas
-de comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial
-della he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro,
-povoações de treze Bispados.</p>
-
-<p>34 <i>Borralheira.</i> Daõ este nome a huma serra, que com bastante
-eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No
-mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa
-mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ,
-os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem
-atemorisaraõ aos moradores.<a id="FNanchor_191" href="#Footnote_191" class="fnanchor">[191]</a> O Diccionario Geografico, naõ fazendo
-mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia
-de Tras<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span> os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem
-cousa notavel.</p>
-
-<p>35 <i>Bussaco.</i> Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e
-he parte da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o
-Nordeste, e meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente
-pelo espaço de tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do
-Reino; porque para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella,
-e a de Castello Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas.
-Para a parte do Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que
-lhe ficaõ quarenta leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de
-Grijó, affastada quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura
-apontar com o dedo para terras de sete Bispados, estando os dias claros.</p>
-
-<p>36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento<a id="FNanchor_192" href="#Footnote_192" class="fnanchor">[192]</a> ao nome desta
-serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum
-Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de
-Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira
-habitaçaõ, e que de <i>Sublaco</i> vieraõ a alterar a palavra,
-vertendo-a em <i>Bussaco</i>.</p>
-
-<p>37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de
-arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas
-fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por
-engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello.
-Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços,
-que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida
-contemplativa.<a id="FNanchor_193" href="#Footnote_193" class="fnanchor">[193]</a></p>
-
-<p>38 <i>Cabreira</i>. Fica na Provincia de Tras os Montes,<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> e tem duas
-leguas de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que
-recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio
-Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda
-de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos
-consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz
-Cardoso.</p>
-
-<p>39 <i>Cantaro.</i> No mais alto da serra da Estrella se levanta huma
-eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que
-chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua
-Corografia,<a id="FNanchor_194" href="#Footnote_194" class="fnanchor">[194]</a> costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho,
-que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua
-para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta
-montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais
-que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa <i>Escura</i>.</p>
-
-<p>40 <i>Caramullo.</i> Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu,
-e diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome
-de Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais
-alto deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros,
-ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos
-homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto
-para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze
-leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os
-tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas.</p>
-
-<p>41 <i>Carpento.</i> Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou
-o Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes
-penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> raiz deste monte
-está hum sitio chamado o <i>Abismo</i>. He huma cova como hum poço de
-quatro varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais
-dizem, que se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha
-por huma mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque
-ninguem até agora se animou a descobrillo.</p>
-
-<p>41 <i>Cintra.</i> Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma
-das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a
-organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés
-de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes;
-mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina,
-elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se
-descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas,
-que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada
-esta serra <i>Promontorio da Lua</i>, donde Camões veyo a dizer:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>E nas serras da Lua conhecidas</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Subjuga a fria Cintra o duro braço.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta
-serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o
-Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol,
-e à Lua; e porque a esta chamavaõ <i>Cynthia</i>, se derivou della o
-nome de <i>Cintra</i>.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>De</i> Cynthia <i>tomou</i> Cintra <i>celebrada</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>O nome que em rochedos he famosa.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Diola nombre un gran templo, que aun expone</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>De Cynthia tan magnifico, y notable,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que ser pudo d’el risco ala oportuna</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Casa del Sol el templo de la Luna.</i></span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p>
-
-<p>44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ,
-referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando
-tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes
-naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde
-o Montejunto com a serra de Cintra.<a id="FNanchor_195" href="#Footnote_195" class="fnanchor">[195]</a> E o nosso grande Poeta
-Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio
-<i>Artabro</i>,<a id="FNanchor_196" href="#Footnote_196" class="fnanchor">[196]</a> o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos,
-he o Cabo de <i>Finis terræ</i>. Quem quizer mais largas informações
-desta serra, lea os Authores abaixo nomeados.<a id="FNanchor_197" href="#Footnote_197" class="fnanchor">[197]</a></p>
-
-<p>45 <i>Estrella.</i> Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy
-antigamente conhecida com o nome de monte <i>Herminio</i>, que queria
-dizer aspero, e intratavel.<a id="FNanchor_198" href="#Footnote_198" class="fnanchor">[198]</a> Hoje conserva o de Estrella, porque
-dizem ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra
-hum ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que
-aparta Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de
-neve, que por isso disse hum nosso Poeta:<a id="FNanchor_199" href="#Footnote_199" class="fnanchor">[199]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que he de Herminia senhor serra nevada,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Onde o quente Veraõ nunca começa.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre
-as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica
-nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã:<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> do Sueste as de
-Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as
-Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra
-nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos
-outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes.</p>
-
-<p>47 <i>Falperra.</i> Fica esta serra servindo de atalaya à Villa
-de Aguiar da Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das
-fertilidades do ameno valle, em que existe.<a id="FNanchor_200" href="#Footnote_200" class="fnanchor">[200]</a></p>
-
-<p>48 <i>S. Gens.</i> Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra,
-que tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto
-della, da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por
-Theodomiro Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de
-Religiosos Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que
-he parte da serra de Ossa, e summamente alta.<a id="FNanchor_201" href="#Footnote_201" class="fnanchor">[201]</a></p>
-
-<p>49 <i>Gerez.</i> Os antigos chamaraõ a esta serra <i>Juressum</i>, que
-Antonio de Sousa de Macedo<a id="FNanchor_202" href="#Footnote_202" class="fnanchor">[202]</a> diz ser deduzido dos tres celebres
-Geriões, que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito.
-Principia algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte,
-e caminhando encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa
-elevaçaõ, e por algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a
-habitaõ cabras montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes
-he aprazivel. O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte
-dous especiaes capitulos.<a id="FNanchor_203" href="#Footnote_203" class="fnanchor">[203]</a></p>
-
-<p>50 <i>Guardunha.</i> Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella,
-e em sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas
-povoações, arvores,<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra
-<i>Guardunha</i> he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha;
-porque sendo os moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se
-foraõ refugiar a esta serra para se defenderem delles.<a id="FNanchor_204" href="#Footnote_204" class="fnanchor">[204]</a></p>
-
-<p>51 <i>Hermello.</i> He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e
-no cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio
-Bruto.</p>
-
-<p>52 <i>Labruja,</i> ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos
-caminhantes. Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima
-para Valença.<a id="FNanchor_205" href="#Footnote_205" class="fnanchor">[205]</a></p>
-
-<p>53 <i>Louzã.</i> He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno
-está cuberta de neve.<a id="FNanchor_206" href="#Footnote_206" class="fnanchor">[206]</a></p>
-
-<p>54 <i>Maraõ.</i> Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ
-abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira,
-e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande
-penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.<a id="FNanchor_207" href="#Footnote_207" class="fnanchor">[207]</a>
-Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia
-da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro,
-Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro,
-de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da
-Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar
-desde a rocha de Cintra.<a id="FNanchor_208" href="#Footnote_208" class="fnanchor">[208]</a></p>
-
-<p>55 <i>Marvaõ.</i> Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de
-ouro, e de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se
-havemos de dar credito a Resende.<a id="FNanchor_209" href="#Footnote_209" class="fnanchor">[209]</a></p>
-
-<p>56 <i>Minde.</i> Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do
-Norte para o Sul, e da parte Meridional<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span> nasce hum pequeno rio, que faz
-sua corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_210" href="#Footnote_210" class="fnanchor">[210]</a> naõ distingue
-esta serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de
-Faria.<a id="FNanchor_211" href="#Footnote_211" class="fnanchor">[211]</a></p>
-
-<p>57 <i>Monchique</i>, ou <i>Monsico</i>. Levanta-se no Algarve com
-eminencia tal, que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com
-abundancia de agua admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se
-descobre a mayor parte do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de
-final aos navegantes para demandarem seguramente a nossa barra; de
-sorte que principia de Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur.
-Alguns Authores lhe daõ o nome de <i>Sico</i>, ou seco por antifrase.
-Resende diz que he braço da Serra Morena.<a id="FNanchor_212" href="#Footnote_212" class="fnanchor">[212]</a></p>
-
-<p>58 <i>Monte do figo.</i> No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho
-existe esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera
-subida, em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de
-legua. Em cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores
-de todas as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se
-levanta outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume
-está huma Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e
-para remedio de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera
-alli o Arcanjo S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu
-nome, que por este motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o
-primeiro que avistaõ os navegantes, que vem das Indias de Castella,
-muitas leguas ao mar, por ser de immensa altura.</p>
-
-<p>59 <i>Montejunto.</i> Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se
-extende esta serra, a que antigamente<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> chamavaõ monte <i>Tagro</i>,
-de que talvez se originaria o nome de <i>Tagarro</i> a huma povoaçaõ
-edificada nas suas vizinhanças.<a id="FNanchor_213" href="#Footnote_213" class="fnanchor">[213]</a> Dizem alguns,<a id="FNanchor_214" href="#Footnote_214" class="fnanchor">[214]</a> que he a mais
-alta serra de Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e
-de altura meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa
-agua. Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro
-Convento dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel
-Fr. Sueiro Gomes.<a id="FNanchor_215" href="#Footnote_215" class="fnanchor">[215]</a></p>
-
-<p>60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro,
-escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,<a id="FNanchor_216" href="#Footnote_216" class="fnanchor">[216]</a> e em outra
-obra<a id="FNanchor_217" href="#Footnote_217" class="fnanchor">[217]</a> nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade,
-e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ.
-O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de
-azeviche.<a id="FNanchor_218" href="#Footnote_218" class="fnanchor">[218]</a></p>
-
-<p>61 <i>Monte do Minhoto.</i> Junto ao rio Zezere está esta serra, muy
-alta, e povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a
-parte do rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella,
-e hum poço de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem<a id="FNanchor_219" href="#Footnote_219" class="fnanchor">[219]</a> que
-antigamente houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava
-humas contas a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio
-para muitas enfermidades.</p>
-
-<p>62 <i>Monte-Muro.</i> Está junto a Evora, e he parte da serra de
-Besteiros: os antigos lhe chamaraõ <i>Mons Maurus</i>. Toma grande
-distancia de terra, mas em<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> si he aspero; e da mesma grosseria, e
-rusticidade participa a gente, que o habita.</p>
-
-<p>63 <i>Ossa.</i> Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo
-espaço de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se
-de muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria
-o nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.<a id="FNanchor_220" href="#Footnote_220" class="fnanchor">[220]</a> Comprehende
-em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares,
-Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes
-fontes, que della procedem.</p>
-
-<p>64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e
-parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de
-S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas
-abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ
-fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de
-Infantes verdadeira Thebaida Portugueza.</p>
-
-<p>65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento
-se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que
-chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na
-<i>Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v.</i> Descobrem-se tambem
-nesta serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre,
-e almagre.</p>
-
-<p>66 <i>Pomares</i>. Antigamente se chamou <i>Monte de Venus</i>. Está
-junto a Evora, onde agora se chama o<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span> Lugar de Pomares. Foy muy celebre
-pelos trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.<a id="FNanchor_221" href="#Footnote_221" class="fnanchor">[221]</a> Da sepultura
-de Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora
-gloriosa pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma.</p>
-
-<p>67 <i>Sandonho.</i> Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de
-outra serra chamada Falperra.</p>
-
-<p>Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda
-encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de
-outros.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_181" href="#FNanchor_181" class="label">[181]</a> Caram. no seu Philip. Prud. Proem. §. 1. n. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_182" href="#FNanchor_182" class="label">[182]</a> Sousa na Histor. de S. Domingos part. 3. liv. 3. cap.
-20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_183" href="#FNanchor_183" class="label">[183]</a> Monarq. Lusit. tom. 1. na Geogr. Resende liv. 1. de
-Antiq. Corograf. Port. tom. 2. pag. 89.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_184" href="#FNanchor_184" class="label">[184]</a> Ptolom. lib. 2. Geogr. tab. 2. Corograf. Portug. tom. 1.
-p. 282. Argote de Antiq. Bracar. lib. 1. cap. 3. e nas Memor. de Braga
-tom. 1. lib. 1. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_185" href="#FNanchor_185" class="label">[185]</a> Corograf. loc. supr. citat. Cardoso Diccion. Geogr. tom.
-1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_186" href="#FNanchor_186" class="label">[186]</a> Barreir. na Corograf. pag. 62. Santuar. Marian. tom. 2.
-pag. 465.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_187" href="#FNanchor_187" class="label">[187]</a> Piedad. Chron. da Arrab. part. 1. liv. 1. cap. 5. Brito
-de Mello Chron. da Arrab. m. s. p. 1. c. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_188" href="#FNanchor_188" class="label">[188]</a> Gonzag. de Origin. Relig. Seraph. part. 3. pag. 1123.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_189" href="#FNanchor_189" class="label">[189]</a> Resende lib. 1. de Antiquit. pag. mihi 37.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_190" href="#FNanchor_190" class="label">[190]</a> Monarq. Lus. liv. 1. c. 28.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_191" href="#FNanchor_191" class="label">[191]</a> Santuar. Marian. tom. 3. pag. 255.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_192" href="#FNanchor_192" class="label">[192]</a> Chron. dos Carmel. Descalç. part. 2. liv. 4. c. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_193" href="#FNanchor_193" class="label">[193]</a> Idem tom. 2. pag. 76. Bened. Lusit. tom. 2. pag. 283.
-Corogr. Port. tom. 2. pag. 69. Diccion. Geogr. de Cardos. tom. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_194" href="#FNanchor_194" class="label">[194]</a> Corograf. Portug. tom. 2. pag. 76.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_195" href="#FNanchor_195" class="label">[195]</a> <i>Mons vero Tagrus, cujus Varro meminit, meo quidem
-judicio ille idem est, quem nos Sintreum vocamus, &amp; à, quo Lunæ
-promontorium in mare prorumpit millia passuum ab Olisipone plus,
-minusve, quod nostris hodie</i> Rocham <i>appellari placuit, &amp;c.</i>
-Goes <i>tract. de Olisipone.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_196" href="#FNanchor_196" class="label">[196]</a> Botelho no Alfonso l. 1. est 7. da impress. de Roma.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_197" href="#FNanchor_197" class="label">[197]</a> Resende lib. 1. de Antiq. Monarq. Lus. liv. 1. c. 22. e
-liv. 5. c. 15. Duart. Nun. Descripç. de Portug. c. 10. Faria sobre a
-Ode 1. de Cam. Franc. d’Almeida Jordaõ em especial Relaçaõ que imprimio
-desta serra no an. de 1748.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_198" href="#FNanchor_198" class="label">[198]</a> Monarq. Lus. t. 1. liv 4. cap. 1. Esperança tom 1. da
-Chronic. p. 421. Resende de Antiq. lib. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_199" href="#FNanchor_199" class="label">[199]</a> Maced. no Olisip. cant. 4. est. II.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_200" href="#FNanchor_200" class="label">[200]</a> Carv. Corogr. Portug. tom. 1. p. 171.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_201" href="#FNanchor_201" class="label">[201]</a> Corograf. Portug. tom. 1. pag. 168. &amp; tom. 2. pag. 447.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_202" href="#FNanchor_202" class="label">[202]</a> Maced. Olisip. cant. 2. est. 18.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_203" href="#FNanchor_203" class="label">[203]</a> Argot. Antiguid. de Brag. p. 372.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_204" href="#FNanchor_204" class="label">[204]</a> Santuar. Marian. tom. 3. p. 59. Corograf. Portug. tom.
-2. p. 412.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_205" href="#FNanchor_205" class="label">[205]</a> Corograf. Portug. tom 1. p. 204.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_206" href="#FNanchor_206" class="label">[206]</a> Leit. nas Miscelan. pag. 15.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_207" href="#FNanchor_207" class="label">[207]</a> Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 106.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_208" href="#FNanchor_208" class="label">[208]</a> Sousa, Chronic. de S. Dom. part. 3. pag. 189.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_209" href="#FNanchor_209" class="label">[209]</a> Resend. liv. 1. de Antiquitat.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_210" href="#FNanchor_210" class="label">[210]</a> Monarq. Lusitan. liv. 11. cap. 30. e na Geogr. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_211" href="#FNanchor_211" class="label">[211]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 3. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_212" href="#FNanchor_212" class="label">[212]</a> Resend. lib. 1. Antiquit. Vide Agiolog. Lusit. tom. 2.
-pag. 654. Far. no Epitom. part. 4. cap. 9. Diccionar. Geogr. tom. 1.
-verb. <i>Algarve</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_213" href="#FNanchor_213" class="label">[213]</a> Fr. Luiz de Sous. Histor. de S. Dom. part 1. liv. 1.
-cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_214" href="#FNanchor_214" class="label">[214]</a> Far. na Europ. Portug. part. 3. tom. 3. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_215" href="#FNanchor_215" class="label">[215]</a> Santuar. Marian. tom. 2. p. 215.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_216" href="#FNanchor_216" class="label">[216]</a> Plin. Columel. e outros apud Mayol. part. 1. colloq. 7.
-Fonseca na Medic. Lusit. disp. 2. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_217" href="#FNanchor_217" class="label">[217]</a> Recreaçaõ Proveit. part. 1. colloq. 4. p. 254. Veja-se
-tambem Gerundens. no Paralipoemn. da Histor. de Hesp. lib. 1. pag.
-6. Kormanni tract. de Virgin jure cap. 12. Resend. lib. 1. Bernard.
-Florest. tom. 4. p. 267. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_218" href="#FNanchor_218" class="label">[218]</a> Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_219" href="#FNanchor_219" class="label">[219]</a> Santuar. Marian. tom. 3. p. 425.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_220" href="#FNanchor_220" class="label">[220]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Es nombre desta horrifica montaña</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>El de la que fue patria de Centauros,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que contra el Cielo puestos en campaña</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Amontonaron Oëtas, Pindos, Tauros.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>El nombre desta finalmente es Ossa,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que aun aora escalar los Cielos osa.</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 10em;">Faria na 4. p. da Fonte de Aganipe Eglog. 5.</span><br>
-</p>
-
-
-</div>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VII">CAPITULO VII.<br><span class="small"><i>Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 He tanta a abundancia de rios, que fertilizaõ, e regaõ nossas
-Provincias, que por este motivo deu Estrabo à Lusitania o titulo de
-feliz.<a id="FNanchor_222" href="#Footnote_222" class="fnanchor">[222]</a> Dos capitaes, e de alguns, que se diffundem nelles, faremos
-huma succinta, e hydrografica narraçaõ pelo mesmo estylo, que vamos
-observando.</p>
-
-<p>2 <i>Abbadia.</i> Passando por Alcobaça, vay inundar os campos da Villa
-de Mayorga.</p>
-
-<p>3 <i>Abrancalha,</i> ou <i>Abrancuida</i>. He ribeira, que corre
-distante de Abrantes huma legua para o Norte, fertilizando com suas
-aguas muitos pomares, e hortas deliciosas.</p>
-
-<p>4 <i>Abrilongo.</i> Entra no rio Sévera, ou Xévora<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> junto da Villa de
-Ouguella, e cria muy gostoso peixe, por serem suas aguas frigidissimas.
-Veja-se o que dizemos do Botova.</p>
-
-<p>5 <i>Agualva.</i> Ribeira, que passa junto da Villa de Bellas.</p>
-
-<p>6 <i>Agua santa.</i> He hum grande ribeiro, que nasce da serra de Ossa,
-e se mete no rio Tera.</p>
-
-<p>7 <i>Aguas livres.</i> He huma formosa ribeira de abundantes aguas,
-que corre pela Freguezia de Bellas, termo de Lisboa. Em algumas partes
-he caudalosa, e naõ se passa sem ponte, como he no lugar chamado Ninha
-a Pastora, e no forte da Cruz quebrada. Saõ conduzidas estas aguas
-para Lisboa em soberbo, e forte aqueducto, que por ora descreveremos
-brevemente.</p>
-
-<p>8 Tem elle o seu primeiro manancial nesta ribeira em distancia de boa
-meya legua da ponte, a que alguns chamaõ de Bellas. A abundancia de
-agua neste nascimento por si só vence os tres principaes chafarizes
-de Alfama, que ha na Cidade. Manifestou-se pois este famoso aqueducto
-para se pôr prompto em 6 de Agosto de 1732; e logo ao principio da
-ribeira em distancia de 1800 palmos se lhe introduzio huma boa fonte,
-a que chamaõ a Fonte santa do Leaõ; e continuando o aqueducto ao lado
-direito da ribeira, (que logo a atravessou junto ao nascimento, que
-fica à parte do Poente) caminha até avistar a ponte de Caranque, e aqui
-se aparta da mesma ribeira para o Lugar da Porcalhota, encostando-se ao
-oiteiro de S. Braz.</p>
-
-<p>9 Neste progresso vay mais para diante recolher a agua, que lança a
-fonte chamada de S. Braz para a parte da Porcalhota, e logo atravessa
-por baixo da estrada junto à quinta do Galvaõ proximamente à Ermida
-de Santo Antonio da mesma quinta, donde salvando sobre huma ponte a
-ribeira, que passa por dentro da dita quinta, se inclina a buscar a
-raiz do Lugar da Fragoza; e continuando pela<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span> mesma encosta até o Lugar
-de Calhariz, fronteiro à Freguezia de Bemfica, se vay prolongando
-por defronte do Convento de S. Domingos até o monte, que chamaõ das
-tres Cruzes, donde se passa a ribeira de Alcantara para se introduzir
-no Bairo alto, recolhendo por este caminho (que he o da mais baixa
-nivelaçaõ, que permittia o calice, em que a agua deve cahir no dito
-bairro) varias fontes, que se vaõ encontrando, e descubrindo nos
-alicerces da mesma obra.</p>
-
-<p>10 A fórma deste aqueducto he de hum corredor, ou mina artificial
-de sete palmos de largo, e quatorze de alto, a que naõ chegou algum
-dos aqueductos Romanos. Tem pelo meyo hum passeyo de tres palmos de
-vaõ, fabricado de finissimo lagedo, e a cada lado hum encanamento de
-marmore, que recebem ambos quarenta e duas manilhas de agua em palmo e
-meyo de boca, e palmo e quarto de alto.</p>
-
-<p>11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua
-horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta
-se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como
-por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto
-se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto
-algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o
-antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na
-utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ
-inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de
-seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira.</p>
-
-<p>12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ
-introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a
-este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous
-montes,<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e
-forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa,
-em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado
-manuscrito, intitulado: <i>Fabrica, que falta a Lisboa</i>, o qual
-vimos, e se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.</p>
-
-<p>13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas
-para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer
-ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós
-vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada
-de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos
-naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto
-appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as
-da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz
-Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra
-desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ
-nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes
-embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ
-V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para
-a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel
-da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade
-merece imortaes elogios.</p>
-
-<p>14 <i>Agueda.</i> Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum,
-que passa por Agueda, e este he o <i>Emineum</i> dos antigos, que vay
-morrer em Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de
-Riba-Coa. Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay
-à ponte da Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos
-montes em Vilvestre entra no Douro.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p>
-
-<p>15 <i>Aguilhaõ.</i> Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes,
-e com arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos
-peixes, especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas
-margens ha copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente
-agradavel, e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se
-atravessar por tres pontes de páo, e huma de cantaria.</p>
-
-<p>16 <i>Alborrel.</i> Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando
-Aremanha, e divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos
-barbos.</p>
-
-<p>17 <i>Alcantara.</i> Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e
-se mete no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos
-no livro, que compoz, intitulado: <i>Sitio de Lisboa</i>, mostra de
-quanta utilidade seria communicarse este rio com o de Sacavem, do qual
-naõ dista mais que legua e meya para que ficando dentro deste circulo
-Lisboa, conseguisse o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no
-mundo. Neste sitio está a fabrica Real da Polvora reedificada por
-Antonio Cremer.</p>
-
-<p>18 <i>Alcaraviça.</i> He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos
-Gallegos no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas
-fontes taõ abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas.</p>
-
-<p>19 <i>Alcarabouça.</i> Provê este rio de bastante peixe a Villa de
-Ficalho, por onde corre quatro leguas distante de Serpa.</p>
-
-<p>20 <i>Alcarapinha.</i> Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz.
-Suas aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche.</p>
-
-<p>21 <i>Alcarque.</i> Conforme a Geografia Blaviana he rio, que no seu
-Mappa vem assinado na Provincia do Alentejo.</p>
-
-<p>22 <i>Alcarrache.</i> He huma Ribeira, que nasce em Castella na serra
-de Santa Maria, e vem sahir ao termo de Mouraõ, trazendo de jornada
-quinze leguas;<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> até que engrossada sua corrente com as aguas de outros
-ribeiros, e fazendo trabalhar muitos moinhos, vay morrer no Guadiana.
-Pescaõ-se nelle excellentes, e grandes barbos, e outros peixes mais
-miudos: e se vadea por duas boas pontes de pedra.</p>
-
-<p>23 <i>Alcoa</i>, antigamente <i>Coa</i>. He o que unindo-se com o
-chamado <i>Baça</i>, deu nome ao sitio de <i>Alcobaça</i>, onde os
-Religiosos Bernardos tem o famoso, e magnifico templo, que alli fez
-edificar o Santo Rey D. Affonso Henriques.</p>
-
-<p>24 <i>Alcofra.</i> He rio caudaloso da Beira no termo de Lafões, e que
-se mete no Alfusqueiro. As suas margens estaõ cheias de carvalhos, e
-castanheiros enlaçados com muitas vides, de que se faz o bom vinho de
-embarrado. Cria saborosas trutas, e se deixa vadear por quatro pontes
-de páo.</p>
-
-<p>25 <i>Alenquer.</i> Nasce ao pé da serra de Montejunto, e caminhando
-Norte Sul o espaço de huma legua vem buscar nome à Villa de Alenquer.
-Aqui fertiliza as suas quintas, e hortas com a abundancia de suas aguas
-saudaveis, e aos seus moradores com a copia das suas trutas, barbos, e
-bogas; até que incorporado com o rio de Ota se mete no Tejo junto de
-Villanova da Rainha.</p>
-
-<p>26 <i>Alferradede.</i> He ribeira, que rega muitos pomares, e hortas do
-termo da Villa do Sardoal, e vay morrer ao Tejo.</p>
-
-<p>27 <i>Alfusqueiro.</i> Passa este rio junto do Lugar dos Ferreiros,
-termo da Villa de Vouga, e tem huma grande ponte de hum só olhal, muito
-alta, fabricada de cantaria. Discorre tambem pela Villa de Assequins, e
-vay descançar no rio Vouga.</p>
-
-<p>28 <i>Algés.</i> Nasce este rio em hum oiteiro, que fica defronte do
-Lugar de Monsanto, termo de Lisboa; e augmentado com as aguas de hum
-regato, que brota por cima de Outorella, entra a fertilizar a quinta
-das Romeiras até ir mergulharse no mar pelo pé do forte da Conceiçaõ,
-onde está huma ponte<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> de pedra, que parte com a nobre quinta do Duque
-de Cadaval.</p>
-
-<p>29 <i>Algodea.</i> Banha, e fecunda esta ribeira as hortas, e pomares,
-que ficaõ fóra da Villa de Setubal: depois entra no Sado.</p>
-
-<p>30 <i>Alja</i>, ou <i>Alje</i>. He huma caudalosa, e arrebatada
-ribeira, que discorre pela Villa de Arega, cinco leguas de Thomar, e
-se vay esconder no rio Zezere. Pescaõ-se nelle excellentes trutas, e
-outros peixes muy gostosos. Os antigos lhe chamavaõ ribeira fria.</p>
-
-<p>31 <i>Almaceda.</i> He rio, que cerca a Villa de Sarzedas, e entra no
-Ocreza sempre arrebatado.</p>
-
-<p>32 <i>Almansor.</i> Divide esta ribeira do Alentejo os limites da
-Freguezia de Nossa Senhora da Repreza, dos de Santa Sofia; e chegando
-até o termo de Montemor o Novo, onde troca o nome pelo de Canha, se
-esconde no Tejo perto de Benavente; deixando com a benignidade das suas
-aguas ferteis os pomares, e as terras por onde passa.</p>
-
-<p>33 <i>Almonda.</i> Tem sua origem este rio na serra d’Aire, legua
-e meya da Villa de Torres Novas. Saõ as aguas no seu nascimento, e
-matriz, taõ claras, e he tanto o peixe, que se cria nellas, que ainda
-que o pégo he fundo, se está vendo de cima das barreiras andarem
-a saltar: por isso he aqui muy aprazivel a pescaria. Os Romanos
-acharaõ neste rio muita semelhança com o Mondego, por cuja causa lhe
-chamaraõ <i>Alius munda</i>, donde se originou com pouca corrupçaõ
-<i>Almonda</i>. Mete-se no Tejo junto do Lugar da Azinhaga, como
-bem o diz o Reverendo Padre Luiz Cardoso no Diccionario Geografico,
-emendando-me.</p>
-
-<p>34 <i>Alpiaça.</i> He rio da Estremadura, que nasce perto da Villa
-de Ulme; de inverno corre arrebatado, e cria excellentes barbos, e
-fataças. Mete-se no Tejo.</p>
-
-<p>35 <i>Alpreade.</i> Nasce esta ribeira na serra da Gardunha,<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> e
-correndo sempre desasocegada, vay acabar no rio Ponsul, passando por
-quatro pontes de pedra, e fazendo trabalhar trinta e quatro azenhas,
-tres lagares, e hum pizaõ. Cria muitas trutas, e bordallos.</p>
-
-<p>36 <i>Alva.</i> Este rio tem o nascimento na serra da Estrella; e
-fazendo logo seu caminho ao Poente por baixo de hum monte, discorrendo
-em algumas partes muy claro, vem cercar as Villas de Arganil, Coja,
-Pombeiro, Penalva, Sandomil, Villa Cova de Subavó, e S. Romaõ, onde
-tem duas pontes, huma chamada de Peramol, pela qual vay o caminho de
-Veraõ para a Covilhã, outra de cantaria lavrada, na estrada, que vay
-para Valezim. Pescaõ-se nelle boas bogas, trutas, lampreas, e saveis.
-Finalmente entrando no Mondego rico de outras ribeiras, acaba no Oceano.</p>
-
-<p>37 <i>Alvar.</i> Nasce esta ribeira na serra de Montemel pela parte do
-Lugar de Covellas; e passando junto da Villa da Alfandega da Fé, vem
-ao Lugar de Santa Justa, donde caminhando quatro leguas, desagua na
-ribeira Vellarva.</p>
-
-<p>38 <i>Alvaro.</i> No termo da Villa de Alvaro pela banda do Sul tem seu
-nascimento esta ribeira; que dá o nome à Villa; e passando por duas
-pontes de pedra, rodea o monte da Villa, e se mete no Zezere, fazendo
-parecer aquella povoaçaõ huma peninsula.</p>
-
-<p>39 <i>Alviella.</i> A boa opiniaõ que fiz da Corografia Portugueza
-composta pelo Padre Antonio Carvalho, me obrigou seguirlhe as pizadas
-em muitas noticias, que delle tirey, e a elle me refiro. Entre ellas
-foy a maravilhosa voragem, ou sorvedouro que diz acontecer nos olhos
-de agua em a nascente deste rio de Alviella; mas como o Reverendo
-Padre Luiz Cardoso, natural de Pernes, pode examinar melhor esta
-particularidade, e a reconhece agora no Diccionario Geografico por
-fabulosa, he justo que<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> eu nesta segunda impressaõ do meu Mappa,
-agradecendo-lhe a advertencia, melhore a noticia.</p>
-
-<p>40 Nasce pois este rio nas vertentes da serra do Patello junto do Lugar
-da Louriceira, debaixo de hum grande rochedo; e logo em seu nascimento
-vem com abundancia de peixes, especialmente bordalos, engrossando-se
-com varios ribeiros até desembocar no Tejo junto ao Lugar do Reguengo.
-Cria outras muitas castas de peixes saborosos em todo o tempo: faz
-moer muitos moinhos, e lagares de azeite; e as suas ribeiras, e
-margens estaõ cheias de arvoredo silvestre, e frutifero, que as fazem
-vistosissimas. Sujeita-se porém a oito pontes; e dá abrigo a bastante
-caça miuda de arribaçaõ.</p>
-
-<p>41 <i>Almioso.</i> He huma ribeira da Estremadura que nascendo pobre
-no Troviscal, vay desaguar caudaloso no fim da cerca dos Religiosos
-Capuchos da Certã. Cria muitos peixes miudos, e admitte algumas pontes.
-As suas margens saõ incultas por fragosas, mas entre as suas areas se
-acha ouro.</p>
-
-<p>42 <i>Analoura</i>, ou <i>Anhaloura</i>. Nasce entre as Villas de
-Borba, e Villa Viçosa, rega a Villa de Veiros, e misturada com a
-ribeira de Fronteira, vay engrossar a de Sauzel, e entraõ ambas por
-Aviz, até desembocar no Sorraya.</p>
-
-<p>43 <i>Ancora.</i> As aguas deste rio que nascem na serra de Arga,
-dividem o Concelho de Caminha do de Viana. Dizem que adquirira o nome,
-que possue, desde que ElRey Ramiro II. lançara nelle sua mulher Dona
-Urraca atada em huma ancora para ir mais depressa ao fundo. Authores ha
-que tem isto por fabula. Morre finalmente no mar junto de Caminha, onde
-fórma huma pequena barra com o fortim da Lagarteira.</p>
-
-<p>44 <i>Anços</i>, antigamente <i>Anceo</i>. Vem da Redinha banhar a
-Villa de Soure, e dar nome a Villanova de Anços; e junto com outras
-correntes se mete no Mondego a baixo de Coimbra.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p>
-
-<p>45 <i>Aravil.</i> Nasce junto de Castellobranco, e morre no Tejo. Pelo
-Inverno corre arrebatado, e no Veraõ secca. He constante levar nas suas
-correntes algum ouro, e por isso procurado de gandaeiros.</p>
-
-<p>46 <i>Arcaõ.</i> Nasce no celebre olho de agua Borbolegaõ na Villa de
-Grandola, e se mete no Sado acima de Alcacer.</p>
-
-<p>47 <i>Ardila</i>, ou <i>Ardita</i>. He huma ribeira furiosa da Villa
-de Moura. Fazem-na opulenta as enchentes das ribeiras Brunhos, e
-Lavandeira. Desemboca no Guadiana, passando primeiro pela Villa de
-Noudar, que a deixa quasi reduzida a Ilha, juntando-se, com a ribeira
-da Murtiga.</p>
-
-<p>48 <i>Arestal.</i> He huma lagoa profunda, que fica na Beira, e na
-serra do seu mesmo nome. Em todo o anno lança agua para todas as
-partes, e faz nascer della dous ribeiros. Dizem que se communica com o
-mar.</p>
-
-<p>49 <i>Arunca.</i> Nasce na ribeira de Gaya, e augmentando-se com as
-aguas de outras ribeiras, vay correndo até à Villa de Pombal pelo
-espaço de tres leguas, fertilizando de caminho muitos pomares, e
-quintas. Antes de se meter no Mondego, passa pelas Villas de Soure, e
-Villanova de Anços. No tempo de Inverno se enfurece, e corre com tanto
-impeto, que leva comsigo searas, e edificios. Os antigos lhe chamaraõ
-Tapiço.<a id="FNanchor_223" href="#Footnote_223" class="fnanchor">[223]</a></p>
-
-<p>50 <i>Asturãos.</i> Rio do Minho, que nasce no sitio de Azevosa com
-muita humildade, e continuando com a mesma brandura, vay acabar no
-Lima, deixando de si saudades nas deliciosas, e frescas margens por
-onde passou.</p>
-
-<p>51 <i>Ave.</i> Procede da serra de Agra, e de huma ribeira, a que
-chamaõ da Lage; e unindo-se com hum regato ao pé da serra de Cabreira,
-já com bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span>
-de Barrozo, e quatro leguas antes de entrar no Oceano, divide o
-Arcebispado de Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Bairaõ,
-e de S. Tyrso, e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo
-de Guimarães o Vizella, ou Avizella, que passa por Pombeiro, caminha
-apressadamente por baixo de varias pontes muito boas, e finalmente
-vay sepultarse no mar por entre a Villa de Conde, e Azurara. O Padre
-Vasconcellos, como traductor de Duarte Nunes, o faz erradamente, como
-elle, nascer junto de Guimarães, como bem repara Fr. Leaõ de Santo
-Thomaz.<a id="FNanchor_224" href="#Footnote_224" class="fnanchor">[224]</a> Em algumas partes corre com tanta doçura, e suavidade, que
-obrigou a cantar delle Manoel de Faria:<a id="FNanchor_225" href="#Footnote_225" class="fnanchor">[225]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>De donde ouvindo estava o som divino,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que faz correndo o Ave crystallino.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Todas as terras, por onde este rio passa, e vay regando, saõ
-deliciosas, e elle abundante de barbos muy grandes, e saborosissimos.</p>
-
-<p>52 <i>Aviz.</i> He huma ribeira, que nasce acima de Monforte, e
-passando pela Villa de Fronteira, e outras terras, em que recebe varios
-riachos, com que se engrossa, chega à Villa de Aviz onde adquire o
-nome, e passa por huma ponte de boa fabrica, até ir acabar ao Tejo
-incorporado com o Sorraga, e Divor.</p>
-
-<p>53 <i>Azibo.</i> Com forças medianas discorre pelos limites da Villa de
-Chacim, sete leguas de Moncorvo. Principia no Lugar de Podense, termo
-de Bragança, e depois de caminhar quasi sete leguas, vay introduzirse
-no rio Sabor por cima da ponte de Remondes, limite da Villa de
-Castro-Vicente.</p>
-
-<p>54 <i>Baça.</i> Este rio, juntando-se com outro chamado Coa, nasce da
-parte Oriental de Alcobaça, e<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span> fazendo volta para o Occidente, rega por
-grande espaço os fertilissimos campos de Mayorca, e Abbadia, até que
-junto da Villa da Pederneira se mergulha no Oceano.</p>
-
-<p>55 <i>Balocas.</i> Ribeira, que se mete no rio Alva.</p>
-
-<p>56 <i>Balsemaõ.</i> Em distancia de quatro leguas da Cidade de Lamego
-nasce este rio na serra da Rosa, mas elle o naõ parece; porque tanto
-que póde correr, caminha furioso, rompendo, e lavrando pedras com tal
-estrondo, que ensurdece ainda pelo Veraõ, quando leva menos agua. Vay
-à ponte de Lamego, atravessando o sitio da mayor fertilidade, a que
-chamaõ da Ribeira, e se mergulha impetuoso no Douro juntamente com o
-Baroza com quem se havia communicado. Antigamente lhe chamavaõ Unguio.</p>
-
-<p>57 <i>Barcarena.</i> Nasce esta ribeira nos limites de Bellas termo
-de Lisboa, e fertilizando os Lugares da Agualva, e de Laveiras, aqui
-se esconde no Tejo por baixo do Convento da Cartuxa. Faz trabalhar
-com a sua agua no sitio de Barcarena a magestosa fabrica da polvora
-reedificada no anno de 1729 pelo Hollandez Antonio Cremer.</p>
-
-<p>58 <i>Baroza</i>. Nasce este rio de dous principios: hum he no monte
-de S. Joaõ de Tarouca, e nasce muy bravo, mordendo pedras até a ponte
-de Mondim, que muitas vezes derruba. Mais para baixo lhe entra outro
-braço, que nasce em Barcia da Serra, donde chega a Lazarim à ponte de
-Baroza. Baixa aos campos de Tarouca muito brando, mas com a aprasivel
-serenidade solapa nocivo terras, e campos muito bons, e os leva. Unido
-vay a Ucanha adornar a nobre ponte da Torre, muy grandiosa, e adiante
-lhe entra a ribeira de Salzedas, com que em fim morre no Douro.</p>
-
-<p>59 <i>Barroco.</i> Nasce este rio na serra da Arada em a Beira, e
-fazendo varias voltas, e passagens, se precipita por entre penhas no
-escuro pego do Vouraõ<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span> até ir acabar no Vouga. As suas margens saõ
-deliciosas pelas grandes sombras de arvoredos com que convida aos
-passageiros.</p>
-
-<p>60 <i>Basegueda</i>, ou <i>Besadega.</i> Tem o seu nascimento este rio
-na serra Marvana, tres leguas distante de Penamacor, onde tem huma
-ponte de cantaria com cinco olhaes. A sua corrente he muy socegada,
-excepto no Inverno, que corre arrebatada. Cria excellentes trutas, e
-rega pelas suas margens vistosos, e frescos arvoredos; e deixando-nos
-saudades com as suas areas de ouro, vay morrer Castelhano em o rio Erga.</p>
-
-<p>61 <i>Beça.</i> He rio do Minho, e nasce em Tras os Montes; corre
-sempre arrebatado, e furioso por penedia, e por isso he infrutifera a
-sua corrente. Depois de caminhar seis leguas, se mete no Tamega com
-bastante copia de boas bogas, e trutas.</p>
-
-<p>62 <i>Bezelga.</i> Nasce junto da Villa de Ourem; e correndo mais de
-legua e meya, vay descançar no rio Nabaõ por entre Thomar, e Cinceira.</p>
-
-<p>63 <i>Biturim.</i> Entra no Douro pela Provincia do Minho.</p>
-
-<p>64 <i>Borbolegaõ.</i> He este hum celebre olho de agua, que nasce na
-Villa de Grandola, e passa pela natural ponte dos Aivados, que suas
-mesmas aguas formaraõ galantemente em huma rocha. Mais para baixo vaõ
-taõ violentas no sitio chamado Diabroria, que fazem moer a hum moinho
-entre dia, e noite moyo e meyo de trigo. Neste olho de agua, que será
-do tamanho de huma roda de carro, se lança de alto hum homem a pique, e
-cravando-se nelle até os peitos, o impeto das aguas o faz vir pouco a
-pouco para cima, até que arremeça com elle na margem com tanta furia,
-como se fora huma leve cortiça. O mesmo faz a qualquer pezado madeiro,
-que lhe lançaõ. Dentro nelle se ouve estrondo como o que faz na costa o
-mar bravo. Finalmente vay morrer no Oceano pela Villa de Sines.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p>
-
-<p>65 <i>Botova.</i> O nascimento deste rio he nas serras de Albuquerque,
-e se augmenta com as enchentes do Xévora, que nascendo ao pé da serra
-de S. Mamede, e correndo pelos penhascos do monte chamado dos Sete,
-passa por S. Juliaõ da Codiceira, onde recolhe as aguas do Abrilongo.
-Desta sorte juntos vaõ communicarse com o Guadiana à vista da Cidade de
-Badajoz. Deste rio faz mençaõ Antonino em o seu Itinerario com o nome
-de <i>Budua</i>.</p>
-
-<p>66 <i>Brescos.</i> Na Freguezia de Santo André, termo da Villa de
-Santiago de Cacém, existe esta lagoa que tem de circuito meya legua,
-cujo especial peixe, que delle se tira em abundancia, se arrenda todos
-os annos. Muitas pessoas distinctas vaõ fazer alli por divertimento
-suas pescarias. Devemos esta noticia ao M. R. Padre Fr. Francisco de
-Oliveira Dominicano, que por carta nos communicou.</p>
-
-<p>67 <i>Briteiros.</i> Nasce no Minho na Freguezia, e Coito de Pedralva,
-e fenece no Ave. No seu principio he pobre, mas enriquecido com varias
-levadas, se faz rio opulento, cheyo de muitas trutas, e escalhos
-saborosissimos.</p>
-
-<p>68 <i>Bugaõ.</i> Tem este rio a sua origem na Freguezia de Santiago de
-Villa-Chã, termo da Villa da Barca, e se mete no Lima arrebaradamente.
-Todo o peixe, que nelle se cria, he de admiravel gosto.</p>
-
-<p>69 <i>Cabraõ.</i> He hum pequeno regato, que corre pela Freguezia
-de S. Lourenço, termo da Villa dos Arcos de Valdevez. Com a pouca
-enchente, que leva, caminha com arrebatada furia, e passando pela
-ponte de cantaria, a que chamaõ do Rodalho, divide as aguas do Lima,
-onde finaliza. Criaõ-se nelle boas trutas, porém tambem naõ lhe faltaõ
-sanguisugas.</p>
-
-<p>70 <i>Cabrella.</i> He ribeira do Alentejo, que nasce nas Silveiras
-termo de Montemor. Recolhe as correntes de outras duas ribeiras
-chamadas da Safira, e S. Romaõ, que lhe ficaõ ao Nascente, e da parte<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span>
-do Norte se engrossa com outras duas, e se mete no mar com o nome de
-Marateca. O seu curso em partes he furioso, pelo embaraço que lhe fazem
-as penedias por onde corre.</p>
-
-<p>71 <i>Cachoeiras.</i> Nasce na Comarca de Alenquer formado de varios
-regatos, e vay acabar no Tejo entre a Villa nova da Rainha, e a
-Castanheira. Tem duas pontes huma de páo, outra de pedra no Lugar do
-Carregado.</p>
-
-<p>72 <i>Cadavai.</i> He ribeira, que fertiliza as hortas no termo da
-Villa do Sardoal, e se mete no Tejo.</p>
-
-<p>73 <i>Caldo.</i> Corre pela Villa de Monte alegre na Provincia
-Transmontana, provendo de peixe os seus habitadores.</p>
-
-<p>74 <i>Cambas.</i> He pequeno rio, que entra no Zezere.</p>
-
-<p>75 <i>Campanhaõ.</i> Entra no Douro.</p>
-
-<p>76 <i>Campilhas.</i> Entra no rio Sadaõ muy corpulento em Alvalade.</p>
-
-<p>77 <i>Caná.</i> Faz delle mençaõ Macedo.<a id="FNanchor_226" href="#Footnote_226" class="fnanchor">[226]</a></p>
-
-<p>78 <i>Canal.</i> He ribeira da serra de Ossa, donde procede, e
-enriquece a ribeira de Tera.</p>
-
-<p>79 <i>Canha.</i> Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o
-novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de
-Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa
-Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com
-huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos
-depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ
-occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte,
-onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está
-taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738
-correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro,<span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span> natural da
-mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada
-no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e
-era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa
-certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do
-Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra
-na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das
-Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de
-1759.</p>
-
-<p>80 <i>Carbuncas</i>, ou <i>Cabruncas</i>. Nasce na serra de Freixedas
-do Bispado de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante
-com o Danços caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego.</p>
-
-<p>81 <i>Carcedo.</i> Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha,
-sem dizer onde nasce, ou por onde corre.</p>
-
-<p>82 <i>Cardeira.</i> Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo
-de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no
-Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma
-Cidade de Béja.</p>
-
-<p>83 <i>Carnide.</i> He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay
-buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas,
-vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira.</p>
-
-<p>84 <i>Castelãos.</i> Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de
-Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio
-Crins, que se mete no Mondego.</p>
-
-<p>85 <i>Cávado</i>, a quem os Romanos chamavaõ <i>Celando</i>, e Ptolomeu
-appellida <i>Cavus</i>. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na
-Serra do Gerez, segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber
-outras ribeiras, especialmente o chamado <i>Homem</i>, cerca, e poem
-em Peninsula as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga.
-Rega<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span> com suas aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte;
-os muros de Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no
-mar por entre Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta
-para o Norte quasi do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito
-sua força as marés. Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que
-acerca deste rio fez o Reverendo Padre Argote.<a id="FNanchor_227" href="#Footnote_227" class="fnanchor">[227]</a> Pescaõ-se neste
-rio muitos salmões, relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ
-tambem nelle amethystos, jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas
-as pontes por onde se deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que
-existe na Freguezia de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos
-de cantaria, obra Romana; e por aqui fazia transito huma das vias
-militares que sahiaõ de Braga para Astorga.</p>
-
-<p>86 <i>Cá-vay.</i> Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy
-distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles.</p>
-
-<p>87 <i>Caya.</i> Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte
-chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo
-dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar
-Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya
-antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy
-conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer
-a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento
-mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes
-entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias.</p>
-
-<p>88 <i>Cayde.</i> He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio
-perto da Vila de Guimarães, e se mete no Celho.</p>
-
-<p>89 <i>Ceife.</i> Ribeira, que corre pela Freguezia de<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> Santa Margarida
-do termo da Villa de Proença a velha.</p>
-
-<p>90 <i>Cellinho.</i> Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com
-o Celho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de
-Sercedelo para se intrometter com o Ave.</p>
-
-<p>91 <i>Celano.</i> O mesmo que o <i>Cávado</i>.</p>
-
-<p>91 <i>Celho.</i> Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de
-Guimarães, e conduzido com o augmento de outros riachos, vay passando
-triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deos, a de
-Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vay esconder no rio Ave por
-baixo da ponte de Servás, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de
-Penouços deraõ as aguas deste rio de beber às Tropas Portuguezas, e
-Castelhanas, que se acharaõ na batalha da Veiga das Favas.</p>
-
-<p>93 <i>Ceiça.</i> Ribeira, que entra no Nabaõ, e nasce no termo da Villa
-das Pias.</p>
-
-<p>94 <i>Cerdeira.</i> Ribeira, que corre pela Villa de Coja, e entra no
-Alva.</p>
-
-<p>95 <i>Ceras</i>, antigamente <i>Ceres</i>. Entra no Nabaõ.</p>
-
-<p>96 <i>Cértoma.</i> Nasce no Couto da Vacarissa perto do Bussaco, e vay
-acabar no Agadaõ muy soberbo. As suas aguas antigamente eraõ pessimas:
-depois que tiveraõ a felicidade de beber dellas Santa Isabel, ficaraõ
-com tal virtude, que até os gados que alli bebem, saõ as suas carnes de
-melhor sabor que os de outra parte.<a id="FNanchor_228" href="#Footnote_228" class="fnanchor">[228]</a></p>
-
-<p>97 <i>Ceira.</i> Rega as Villas de Goes, e Cerpins, fertilizando seus
-campos, e enriquecendo seus moradores de grãos de ouro, que suas
-correntes levaõ.</p>
-
-<p>98 <i>Chança.</i> Esta ribeira fica distante meya legua da Villa de
-Ficalho, e divide por esta parte o nosso Reino do de Castella.</p>
-
-<p>99 <i>Chinches.</i> Corre ao Norte da Cidade de Elvas<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> por hum
-amenissimo valle povoado de fresquissimo arvoredo, hortas, e pomares,
-e repartindo os montes de Nossa Senhora da Graça, e do Castello. Visto
-este rio da Cidade, faz huma agradavel perspectiva.</p>
-
-<p>100 <i>Chileiros.</i> Nasce este rio na lagoa de Malveira, Lugar da
-Freguezia de Alcainça, termo da Villa de Cintra; e discorrendo pelas
-margens do monte Malhamartello, passa por baixo da estrada Real de
-Mafra, onde se augmenta com os riachos Sexeira, e Pinheiro, que lhe
-daõ forças para cortar com mayor efficacia o alto monte chamado de
-Moncharro. Depois entra pelas terras da Freguezia da Igreja nova, e
-passa pelos Lugares de Moinhos, Granja, Lage, e Farello, onde recebe
-as aguas do ribeiro <i>Bocco</i> da banda do Sul, e da mesma parte
-recolhe outro, que nasce na fonte de Danços. Daqui vay caminhando até
-o moinho das Peras pardas, onde se lhe introduzem as correntes do rio
-Mouraõ, e as do Almargem do Bispo. Alli faz hum salto, de cujo impulso
-formaõ as aguas hum profundo poço, que está sempre provido de muito,
-e bom peixe; e metendo-se pelas Freguezias de Chileiros, e Carvoeira,
-vay até à Igreja de Nossa Senhora do Porto occultarse no mar. Tem este
-rio mais de quatro leguas de comprido, em cuja distancia fertiliza boas
-terras, que todas se fabricaõ. Da Mouxeira para baixo vay banhando
-deliciosas planicies cheias de muitas vinhas, que só a Freguezia da
-Carvoeira dizima hum anno por outro trezentas pipas de vinho. Criaõ-se
-nelle muitos bordallos, mugens, e fataças, que entraõ pela foz, quando
-se rompe com as cheias.</p>
-
-<p>101 <i>Chouchou.</i> He ribeira, que banha a Villa de Serpa.</p>
-
-<p>102 <i>Coa.</i> No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre
-junto de Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que
-nasce na serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span> nosso Reino
-por Folgosinho. Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates,
-e concordaõ em se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos
-lhe chamavaõ <i>Cuda</i>, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ
-o nome de Cudanos, e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para
-tingir lãs, e caldear ferro; porém pessimas para se beber, porque
-causaõ melancolia, e dores de cabeça.</p>
-
-<p>103 <i>Cobres.</i> Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e
-unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde
-perdem o nome.</p>
-
-<p>104 <i>Corgo.</i> Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de
-Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os
-Romanos lhe chamavaõ <i>Corrugo</i>.</p>
-
-<p>105 <i>Corona.</i> Em distancia de huma legua de Grandola corre este
-rio pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos
-termos de Grandola, e Alvalade.</p>
-
-<p>106 <i>Coura.</i> Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca
-juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos,
-formando duas barras, e a ilha Insoa.</p>
-
-<p>107 <i>Criz.</i> He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual
-passando pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego.</p>
-
-<p>108 <i>Daõ.</i> Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul,
-ficando-lhe da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao
-Poente, vay ao Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas
-dos Bispados de Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros,
-e por baixo da Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no
-Mondego.</p>
-
-<p>109 <i>Danços.</i> Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da
-Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o
-Mondego.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p>
-
-<p>110 <i>Davino.</i> Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte
-do Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto
-da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de
-fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte
-de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique.</p>
-
-<p>111 <i>Degebe</i>, ou <i>Odigebe</i>. Nasce este rio na herdade do
-Passo, Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres
-pontes em outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte
-por onde passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a
-Villa do Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns
-pégos, ou poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que
-na sua lingua significa fosso, ou cisterna.<a id="FNanchor_229" href="#Footnote_229" class="fnanchor">[229]</a></p>
-
-<p>112 <i>Deste.</i> Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos
-para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte
-de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se
-chamava <i>Aleste</i>.</p>
-
-<p>113 <i>Diabroria.</i> He huma lagoa, que ha no termo da Villa de
-Grandola por baixo do olho de agua chamado <i>Borbolegaõ</i>, de que
-já fallamos, a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha
-de huma altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum,
-nem se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de
-peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa
-de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e
-meyo de paõ.<a id="FNanchor_230" href="#Footnote_230" class="fnanchor">[230]</a></p>
-
-<p>114 <i>Douro.</i> Conforme as melhores informações nasce este grande
-rio nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos
-antigamente<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> eraõ chamados <i>Duraços</i>. Surte de huma portentosa
-lagoa, e descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de
-Leaõ, onde se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este
-augmento chega a Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando
-primeiro por Miranda, e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios
-Coa, Tua, Pinheiro, Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até
-ir lançarse no mar em S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste
-rio, que quando nelle se introduzem as aguas dos outros, posto que
-opulentos, naõ fazem demonstraçaõ alguma na sua entrada.</p>
-
-<p>115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre
-precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo
-de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e
-por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as
-terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes.
-Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera
-sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ
-da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça
-a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o
-Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer
-navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e
-resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que
-se deixou da empreza começada.</p>
-
-<p>116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no
-lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde,
-como affirma o grande Argote.<a id="FNanchor_231" href="#Footnote_231" class="fnanchor">[231]</a> O Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques, fallando deste rio, diz, que as<span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span> suas aguas tem virtude
-deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis
-para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas
-causa melancolia, e dores de cabeça.</p>
-
-<p>117 <i>Elja</i>, ou <i>Elga</i>. Corre direito ao Sul, e passa por
-entre Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de
-Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara.</p>
-
-<p>118 <i>Enfesta.</i> Pequeno ribeiro, que desagua no Minho.</p>
-
-<p>119 <i>Enguias.</i> Corre esta ribeira por hum Lugar do seu nome, que
-fica no termo da Villa de Belmonte.</p>
-
-<p>120 <i>Enxarrama</i>, ou <i>Xarrama</i>, nasce do ribeiro do Louredo,
-e se junta depois com o da Lage perto do Convento do Espinheiro de
-Evora. Tem sete pontes pequenas, e huma grande. A primeira da Cidade
-para o Espinheiro: a segunda no caminho que conduz para Villa Viçosa: a
-terceira na estrada para Béja: a quarta da quinta do Sande: a quinta a
-dos fornos da cal: a sexta a que vay para Portel: a setima do Louredo:
-a oitava grande, e sumptuosa, que fica da parte do Norte da Villa do
-Torraõ. Por ella passa quem vay para Alcacer do Sal, e para Alcaçovas,
-ficando no meyo desta o grande ribeiro das Banhas. Depois finalmente
-que desagua na ribeira do Sado, vay com ella o Enxarrama meterse no rio
-de Alcacer do Sal.</p>
-
-<p>121 <i>Enxurro.</i> Corre perto da Villa da Pederneira este ribeiro,
-que lhe serve de grande utilidade.</p>
-
-<p>122 <i>Erra.</i> Rega esta ribeira os campos de Coruche, e nella se
-mete a do Odivor.</p>
-
-<p>123 <i>Escura.</i> He huma lagoa assim chamada, e muy celebre no mais
-aspero da serra da Estrella, que tem muitos passos de circuito, e
-consta de aguas tristes, e verdenegras, a que nunca se lhe achou fundo,
-nem cria cousa alguma. Quando o mar anda bravo, se embravece tambem a
-agua da lagoa, dando<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> bramidos a modo de trovaõ, que se ouvem dalli
-muitas leguas; donde querem dizer os naturaes que se communica com o
-mar, naõ obstante estar delle muito affastado, e serem doces as suas
-aguas; porque affirma Joaõ Vaseu teremse-lhe achado mastros de navio.
-Perto desta lagoa nascem os celebres rios Mondego, Zezere, e Alva.</p>
-
-<p>124 Mons. Marvellú, que teve a curiosidade de ver, e observar o melhor
-deste Reino para a sua Historia natural que intentava compor, escreve
-nas suas Memorias,<a id="FNanchor_232" href="#Footnote_232" class="fnanchor">[232]</a> que subindo, e penetrando a altura desta serra,
-e fazendo lançar dentro da lagoa Escura hum moço atado com huma corda,
-observara este, que tendo andado cento e cincoenta passos, sentira que
-as aguas puxavaõ fortemente por elle; donde se póde inferir, que as
-aguas, que alli formaõ aquelle lago, tem alguma abertura, ou voragem
-por onde desaguaõ impetuosamente.</p>
-
-<p>125 <i>Esporaõ.</i> Nasce na Povoa da Margem da parte do Sul do
-Concelho de Guardaõ, e se mete no Criz.</p>
-
-<p>126 <i>Fervença.</i> Banha a Cidade de Bragança.</p>
-
-<p>127 <i>Figueiró.</i> He ribeira, que se diffunde pela Villa de Niza, e
-nasce na serra de Portalegre.</p>
-
-<p>128 <i>Filvida.</i> Corre pelo Concelho de Sever, e faz parte da
-divisaõ dos Bispados de Viseu, e Coimbra.</p>
-
-<p>129 <i>Folques.</i> He huma ribeira de Arganil, que entra no Alva.</p>
-
-<p>130 <i>Freixiandas.</i> Discorre por Alvayazere.</p>
-
-<p>131 <i>Freixo.</i> Atravessa este grande ribeiro a mata da Bardeira
-da Villa do Vimieiro. Passa por entre Selmes, e Cuba, Aldeas no termo
-de Béja. Corre sempre por penedias, de que procede criar singulares
-bordalos.</p>
-
-<p>132 <i>Fresno.</i> Mantem, e fertiliza este rio a Cidade<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> de Miranda,
-a quem cerca pela parte do Occidente, e onde he recebido em ponte de
-pedra lavrada. Ha aqui proxima huma fonte, cuja agua vem por arcos
-conduzida do Lugar de Villarinho.</p>
-
-<p>133 <i>Fulias.</i> Desagua no Minho.</p>
-
-<p>134 <i>Gafaria.</i> Entra no Douro.</p>
-
-<p>135 <i>Garcia menino.</i> He hum celebre pego, cujas aguas enriquecem o
-rio Sadaõ, e onde se acha em todo o anno muito peixe, especialmente as
-nomeadas tainhas de boca vermelha.</p>
-
-<p>136 <i>Germunde.</i> Entra no Douro.</p>
-
-<p>137 <i>Gobe.</i> Entra no Guadiana da parte de Portugal.</p>
-
-<p>138 <i>Grefões.</i> D. Francisco Manoel cuida que he o Celando, que nós
-appropriamos ao Cávado. Veja-se o Padre Poyares no Diccionario pag. 347.</p>
-
-<p>139 <i>Gogim.</i> Faz este rio com suas aguas, que banhaõ a Freguezia
-do Salvador de Sabadim, Comarca de Viana, augmentar grandemente o rio
-Vez, com o qual se incorpora.</p>
-
-<p>140 <i>Guadiana.</i> Nasce quatro leguas de Montiel em huma lagoa
-chamada Roidera na terra de Alhambra; e sumindo-se junto de
-Argamansilha, resurge dalli sete leguas perto de Daimiel, onde chamaõ
-os olhos do Guadiana; e correndo do Oriente para Poente, entra em
-Estremadura. Chegando a Medalhim, muda seu curso para Meyo dia até
-chegar huma legua antes de Merida, donde torna ao Poente, banhando seus
-muros, e os do Castello de Lobon, e Cidade de Badajoz, a huma legua da
-qual, e duas da Cidade de Elvas, divide os termos de ambas por huma
-parte, e o rio Caya por outra.</p>
-
-<p>141 O nome proprio antigo de Guadiana foy <i>Ana</i>, derivado,
-conforme a opiniaõ de alguns, de <i>Sic-ano</i>, que dizem ser Rey de
-Hespanha; porém, segundo Samuel Bocharto,<a id="FNanchor_233" href="#Footnote_233" class="fnanchor">[233]</a> he palavra Syriaca,<span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span>
-a qual significa ovelha, porque nas margens deste rio se apascentaõ
-grandes rebanhos desse gado. Os Mouros lhe chamaõ <i>Guad-hana</i>, que
-quer dizer cousa, que se esconde. Entra em fim em Portugal abundante de
-aguas de outros menores rios, que se lhe introduzem, e perdem nelle o
-nome. Continúa seu curso, dividindo a antiga Betica da Lusitania, e se
-lança no Oceano Athlantico entre Ayamonte, e Castro-Marim.</p>
-
-<p>141 Enobrecem-no tres formosas pontes, a de Merida, Badajoz, e
-Olivença. Nesta ponte mandou ElRey D. Joaõ II. edificar huma torre de
-tres sobrados com suas janellas, e seteiras, que defendiaõ a passagem
-do rio. Depois a mandou reedificar ElRey D. Manoel, ficando huma das
-mais galhardas, e formosas pontes de todo o Reino por sua fortaleza,
-arquitectura, e fabrica, a qual assenta sobre os penhascos do rio,
-que naquella parte corre alcantilado sobre dezoito arcos, e tudo he
-passo importantissimo para soccorrer Olivença, em que os passageiros
-pagavaõ certo direito, que já naõ permanece. No principio das ultimas
-guerras de Castella, que aconteceraõ o anno de 1709, a arruinaraõ os
-Castelhanos. Fr. Bernardo de Brito na Geografia de Portugal, fallando
-das aguas deste rio, diz, que costumaõ fazer negra a farinha do trigo,
-que com ellas se moe. Tem ellas virtude diuretica, e deobstruente, como
-nos diz o <i>Aquilegio Medicinal</i>.</p>
-
-<p>145 <i>Herdeiro.</i> Corre este rio chegado aos muros de Guimarães.
-Traz sua origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal, que chamaõ
-d’Entre as vinhas, na Freguezia de S. Pedro de Azurey. Tem huma só
-ponte de pedra lavrada, que chamaõ de Santa Luzia, mais magestosa
-do que convinha à pobreza das suas aguas. Vay acabar no rocio de S.
-Lazaro, aonde ajudando-o outro regato, vaõ ambos incorporarse com o
-Celho no Lugar do Reboto.</p>
-
-<p>144 <i>Homem.</i> Tem seu berço na serra do Gerez,<span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span> e no sitio chamado
-<i>Lamas de homem</i>. Dalli correndo direito ao Poente precipitado
-por entre penedias, vay engrossando com os cabedaes de outras ribeiras
-até se despenhar estrondosamente na Portela de Homem; donde voltando
-a corrente para o Meyo dia dentro do espaço de meya legua, torna a
-enriquecerse com as aguas de treze rios, com as quaes muito mais
-poderoso vay desembocar no rio Cávado a huma legua de Braga.</p>
-
-<p>145 <i>Jarda.</i> Ribeira bem conhecida no termo de Lisboa, e na
-Freguezia de Bellas, por onde corre.</p>
-
-<p>146 <i>Inha.</i> He huma ribeira muy impetuosa, que corre de altos
-precipicios, e onde se criaõ aguias. Mete-se no Douro.</p>
-
-<p>147 <i>Jocete.</i> Mete-se no Guadiana.</p>
-
-<p>148 <i>Isna.</i> Divide os termos das Villas da Certã, e Abrantes.</p>
-
-<p>149 <i>Junqueira.</i> Rio, que desagua na enseada da Villa de Sines.</p>
-
-<p>150 <i>Lamas.</i> A Geografia Blaviana o assina no Alentejo.</p>
-
-<p>151 <i>Lampas.</i> Entra no Guadiana da parte de Portugal.</p>
-
-<p>152 <i>Laurede.</i> Tambem entra no Guadiana da mesma parte.</p>
-
-<p>153 <i>Lavandeiras.</i> Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo
-fosso a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para
-ir desembocar no Guadiana.</p>
-
-<p>154 <i>Leça.</i> Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros
-lhe descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois
-de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em
-Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio
-tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy
-muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes
-de pedra boas, e<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em
-Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente
-Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na
-Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part.
-2. Poema 8.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>El Leça, que por hondo, y fresco valle</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Corriendo con sociego grave, y blando</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Occupa, angosta, y tortuosa calle</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Con los nombres de Lethes, y Celando;</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Pero si del olvido se appellida,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Quien una vez le vê, já mas le olvida.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado
-de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na
-Geografia de Braga.</p>
-
-<p>155 <i>Lena.</i> Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até
-Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano.</p>
-
-<p>156 <i>Lima.</i> He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme
-Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte
-de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de
-outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_234" href="#Footnote_234" class="fnanchor">[234]</a>
-deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he <i>Limia</i> em
-Galiza, a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas,
-que tem, chamadas em Grego <i>Lymnas</i>, e em Latim <i>Lymum</i>,
-donde se derivou <i>Lima</i> em Portuguez.</p>
-
-<p>153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou
-<i>Belion</i> e depois <i>Lethes</i>. Assim cantou o mellifluo
-Bernardes na Eglog. 7.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Junto do Lima claro, e fresco rio,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que Lethes se chamou antigamente.</i></span><br>
-</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p>
-<p>A causa deste nome <i>Lethes</i>, que significa esquecimento, foy pela
-sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas
-passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ
-seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo
-ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse
-desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.</p>
-
-<p>158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao
-idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida
-já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ
-perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio <i>Lethes</i>. De tudo
-vimos a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio
-<i>Lima</i> fosse em algum tempo chamado <i>Lethes</i>, nem por isso
-tem dependencia com o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os
-Authores abaixo;<a id="FNanchor_235" href="#Footnote_235" class="fnanchor">[235]</a> porque este nome <i>Lethes</i> se acha imposto a
-outros rios illustres, como diz Claudiano:<a id="FNanchor_236" href="#Footnote_236" class="fnanchor">[236]</a> e todos os rios, que
-tem adquirido semelhante nome, he porque houve nelles motivos, ainda
-que incognitos, de especial esquecimento, e taes saõ os que sinala
-Estrabo<a id="FNanchor_237" href="#Footnote_237" class="fnanchor">[237]</a> em Macedonia, e em Candia, sem que por este principio haja
-dependencia, que faça perverter o certo com o fabuloso.</p>
-
-<p>159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio
-Floro,<a id="FNanchor_238" href="#Footnote_238" class="fnanchor">[238]</a> que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo,
-crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos
-era elle o verdadeiro <i>Lethes</i>; respondemos, que este conceito era
-futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava,<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span> para
-lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra
-parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma,
-para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle
-atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores:
-e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella
-repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia
-o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento;
-no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229.
-contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que
-no Prologo do seu <i>Filippe Prudente</i>, fallando do Lima, attribue
-às suas aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a
-fabula. O certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só
-parece que corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos,
-que o vem, de que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse
-D. Francisco Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne
-Botelho, e o Padre Reys.<a id="FNanchor_239" href="#Footnote_239" class="fnanchor">[239]</a></p>
-
-<p>160 <i>Liria.</i> He ribeira de Castellobranco.</p>
-
-<p>161 <i>Lis.</i> Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica
-numa legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a
-Cidade, e o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde
-estaõ os arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena.</p>
-
-<p>161 <i>Lixosa.</i> Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem
-circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre,
-fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa,
-porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra
-pelo Crato,<span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span> onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros
-de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de
-Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as
-ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento.
-Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum
-grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma
-só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de
-Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de
-peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada.</p>
-
-<p>163 <i>Lobos.</i> Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo
-de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a
-Mirandella.</p>
-
-<p>164 <i>Lousaõ.</i> He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte
-do Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie.</p>
-
-<p>165 <i>Locía.</i> He hum pequeno regato, que passa pelo meyo da Villa
-de Amarante.</p>
-
-<p>166 <i>Lucefece.</i> Nasce na serra d’Ossa, e correndo junto da Villa
-de Terena da parte do Norte, fertilizando o Alandroal, e Redondo, se
-vay meter no Guadiana.</p>
-
-<p>167 <i>Maçaõ.</i> Nasce perto da serra chamada Teixeira, e entra no
-Douro.</p>
-
-<p>168 <i>Maratéca.</i> He huma das grandes ribeiras do Alentejo naõ muito
-longe da Agualva. Por ella se passa para a Moita.</p>
-
-<p>169 <i>Marcabron.</i> Serve esta ribeira de separar os termos de Villa
-Alva, e o de Villa de Frades. Por outra parte divide os limites de Béja
-dos de Villa Ruiva, e Alvito: mete-se no de Odivellas, que vay parar ao
-Sado.</p>
-
-<p>170 <i>Marnel.</i> Discorre pelo lado meridional da Villa de Vouga.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span></p>
-
-<p>171 <i>Mendo-Marques.</i> No termo de Arrayolos, e no sitio da
-Freguezia de S. Gregorio corre esta ribeira.</p>
-
-<p>172 <i>Mente</i>, ou <i>Rabaçal</i>. He rio, que nasce perto de Pentes,
-Lugar de Galiza, e rega o termo da Villa de Monforte, donde caminha
-para o Tua, no qual se mergulha junto ao Lugar de Chellas em Mirandella
-depois de caminhar doze leguas. Pescaõ-se nelle boas trutas.</p>
-
-<p>173 <i>Merce.</i> He huma ribeira, que nasce junto do Lugar de Val de
-Prados, termo de Bragança; e correndo perto da Villa de Cortiços, passa
-por huma ponte de dous arcos, para se ir incorporar com o Tua.</p>
-
-<p>174 <i>Minho.</i> Para diante do Lima tres leguas ao Norte corre
-o Minho quasi taõ opulento como o Douro. Estrabo lhe dá o nome de
-<i>Benis</i>. Nasce perto da Cidade de Lugo, e caminhando o espaço de
-trinta e seis leguas, rega em Portugal as Villas de Melgaço, Monçaõ,
-Valença, Cerveira, e vem fenecer no mar entre a Cidade de Tuy, e a
-Villa de Caminha. Dizem que o chamarse Minho he por causa da cor,
-que as suas aguas recebem do fundo, que tiraõ hum pouco a vermelho:
-outros o attribuem ao vermelhaõ, que nasce nelle; porém Joaõ Salgado na
-Hydrografia deste rio diz, que se deriva da fonte Minhaõ, onde nasce,
-quatro leguas ao Norte de Lugo. Fallaõ deste rio os Authores abaixo
-allegados.<a id="FNanchor_240" href="#Footnote_240" class="fnanchor">[240]</a></p>
-
-<p>175 <i>Mondego.</i> Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo
-pela Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e
-recreyo nos<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span> campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno,
-e passar pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar
-o porto de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões,
-quando cantou:<a id="FNanchor_241" href="#Footnote_241" class="fnanchor">[241]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Vaõ as serenas aguas</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Do Mondego descendo,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>E mansamente até o mar naõ paraõ.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno
-se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco
-Mousinho veyo a dizer:<a id="FNanchor_242" href="#Footnote_242" class="fnanchor">[242]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Mondego no Veraõ sereno, e brando,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Té lá onde na foz, que vay buscando,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Paga de suas aguas o tributo.</i><a id="FNanchor_243" href="#Footnote_243" class="fnanchor">[243]</a></span><br>
-</p>
-
-<p>176 <i>Montijo.</i> He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum
-bom porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e
-navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por
-isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes
-com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa.</p>
-
-<p>177 <i>Mós.</i> He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de
-Mós. Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de
-legua afastado da Villa tem ponte de tres arcos.</p>
-
-<p>178 <i>Murtigaõ.</i> Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina.</p>
-
-<p>179 <i>Nabaõ</i>, antigamente chamado <i>Nava de Juncoso</i>.<a id="FNanchor_244" href="#Footnote_244" class="fnanchor">[244]</a>
-Corre este venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome
-de venturoso, naõ só porque<span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span> deu fama, e nome à insigne Cidade de
-Nabancia, que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas
-porque ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o
-bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou
-o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia;
-donde Fr. Joaõ Felix disse:<a id="FNanchor_245" href="#Footnote_245" class="fnanchor">[245]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Qui sacra mærenti corpora vexit aqua.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e
-entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da
-Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e
-engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos
-no Tejo junto à Villa de Punhete.</p>
-
-<p>180 <i>Neiva.</i> Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem
-fertilizando os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois
-de se sujeitar a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ
-dista muito de Viana. Duarte Nunes diz,<a id="FNanchor_246" href="#Footnote_246" class="fnanchor">[246]</a> que este rio se mete
-no Cávado, para ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém
-outros<a id="FNanchor_247" href="#Footnote_247" class="fnanchor">[247]</a> emendaõ esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que
-temos expendido; porque as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ
-para a parte do Norte muito mais adiante, donde o rio desemboca.</p>
-
-<p>181 <i>Niza.</i> Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na
-serra de Portalegre.</p>
-
-<p>182 <i>Noeime.</i> Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na
-fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa
-ao<span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span> Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e
-se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá
-Joaõ Salgado de Araujo pag. 108.</p>
-
-<p>183 <i>Obidos.</i> No termo desta Villa está a celebre lagoa, que
-tem de Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres
-quartos de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de
-mar que humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta
-Cruz a barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe
-tanto de area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios,
-dous pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo
-arrabalde de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o
-terceiro vem das Caldas.</p>
-
-<p>184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda
-a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos,
-solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas,
-berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as
-duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando
-todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e
-juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito.</p>
-
-<p>185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da
-Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso
-do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve
-o gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina
-de pedra, que diz: <i>O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino
-ElRey D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy
-feita.</i> Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: <i>O
-Magnanimo Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e
-D. Manoel jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p>
-
-<p>186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada,
-simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara
-meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do
-mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa
-corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais
-aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro
-de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o
-Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas
-Reaes com a mayor parte da Corte.</p>
-
-<p>187 <i>Ocreza.</i> He huma ribeira, que corre junto da Villa de
-Sarzedas.</p>
-
-<p>188 <i>Odemira.</i> Banha Villa nova de Mil fontes no Algarve, e a
-pouco espaço se mete no mar.</p>
-
-<p>189 <i>Odiége.</i> Fórma-se de duas ribeiras nas Freguezias de S.
-Brissos, termo de Montemór o novo, e de S. Sebastiaõ da Gesteira, termo
-de Evora. Tem ponte, e passada ella, se vê no alto de hum oiteiro da
-parte do Sul a milagrosa fonte da Senhora da Esperança das Alcaçovas,
-de que fallaõ o <i>Santuario Mariano tom. 6. pag. 320.</i> e o
-<i>Diccionario Geografico</i> de Cardoso <i>tom. 1. pag. 143.</i></p>
-
-<p>190 <i>Odivelas.</i> Nasce na serra de Portel, e vay regar a Villa
-de Alvito. Tem duas pontes, huma da banda do Sul no caminho que faz
-o correio desta Villa para Béja, donde dista cinco leguas: outra em
-Villa Ruiva na estrada por onde se vay desta Villa para Evora: esta
-ponte foy fabrica dos Romanos, por ser transito da via militar de Evora
-para Béja. Para diante da Aldea de Alfundaõ separa o termo de Béja do
-Torraõ, e incorporado com a ribeira do Marcabron, vay morrer ao Sado.</p>
-
-<p>191 <i>Odivor.</i> Fertiliza pela parte do Norte os campos da Villa
-das Aguias; e discorrendo pelo termo de Arrayolos, tem na Freguezia de
-Santa Anna duas pontes, e dá movimento a sete moinhos.<span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span> Esta ribeira he
-a mesma que a de Arrayolos.</p>
-
-<p>192 <i>Olivença.</i> Passa esta ribeira pelo termo da Villa de seu
-nome. Alguns dizem, que nasce nas serras de Salvaterra, outros na de
-Salva Leon; mas sempre concluem, que tem sua origem em Castella, cujas
-correntes fazem apartar aquelle Reino do nosso: mete-se no Guadiana.</p>
-
-<p>193 <i>Olho de Pedralva.</i> He huma pequena ribeira, que nasce de huma
-fonte no Lugar de Pedralva, termo da Villa de S. Lourenço do Bairro,
-Bispado de Coimbra.</p>
-
-<p>194 <i>Orãos.</i> He hum dos rios, que banhaõ a Villa de Soure, e vem
-da Villa de Pombal para se meter no Mondego.</p>
-
-<p>195 <i>Paiva.</i> Nasce este rio em o sitio de Nossa Senhora da Lapa;
-e chegando à Freguezia de S. Martinho do Gafanhaõ, divide o Bispado
-de Lamego do de Viseu: depois correndo até o Castello de Paiva,
-perde o nome, entrando no Douro cançado de ter andado doze leguas.
-Escreve delle Jorge Cardoso,<a id="FNanchor_248" href="#Footnote_248" class="fnanchor">[248]</a> donde tirou o que diz a Corografia
-Portugueza.<a id="FNanchor_249" href="#Footnote_249" class="fnanchor">[249]</a></p>
-
-<p>196 <i>Palhas.</i> He hum rio, que corre por Villar-Mayor, conforme
-vemos no Mappa de Joaõ Bautista Lavanha.</p>
-
-<p>197 <i>Paul.</i> Rio, que entra no Zezere.</p>
-
-<p>198 <i>Pega.</i> Ribeira, que corre perto da Villa de Pinhel, e desagua
-no Coa.</p>
-
-<p>199 <i>Pedonde.</i> Nasce em Arouca abundante de gostosas lampreas, e
-acaba no Douro.</p>
-
-<p>200 <i>Pera.</i> He rio menor que o Zezere onde se embebe; cerca a
-Villa de Pedrogaõ, e utiliza a de Figueiró com a copia de seu peixe.
-Deste rio se lembra Camões.<a id="FNanchor_250" href="#Footnote_250" class="fnanchor">[250]</a></p>
-
-<p>201 <i>Pera-manca.</i> Tem seu nascimento nas vinhas<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span> de Evora, e corre
-junto da cerca dos Capuchos de Valverde, e se mete no Odiege depois de
-passar por huma ponte.</p>
-
-<p>202 <i>Pernes.</i> Esta famosa ribeira deu o nome, ou o tomou do
-Lugar, que fica no termo de Alcanede: he abundante de agua, e assim a
-communica por muitos moinhos, que anima, e a muitas hortas, e pomares,
-que fertiliza. A agua da levada, que corre mais junto da ponte, dizem,
-que por intercessaõ de hum Bispo, que por alli passara, lhe infundio
-virtude para sarar toda a casta de chagas. Cria bom peixe, e desagua no
-Tejo.</p>
-
-<p>203 <i>Pias.</i> Dá esta fertilissima ribeira nome a huma Villa, e
-nasce em hum lago junto da Ermida de S. Marcos dentro da quinta chamada
-da Figueira de huns formosos olhos de agua; e costeando a serra de
-Monchite, se mete no Nabaõ, fertilizando em tal fórma as terras, por
-onde corre, que lhes faz duplicar dentro de hum anno todo o genero de
-frutos.</p>
-
-<p>204 <i>Piodaõ.</i> Corta pelo meyo o Concelho de Vide de Foz de Piodaõ,
-e entra no Alva.</p>
-
-<p>205 <i>Pipa.</i> Rega pela parte do Norte a Villa da Arruda.</p>
-
-<p>206 <i>Pisco.</i> Pela parte do Oriente da Villa de Langroiva corre
-este rio, que fertiliza seus campos de paõ, azeite, e frutas.</p>
-
-<p>207 <i>Ponsul.</i> De tal fórma cerca a Villa de Idanha a velha, que
-a reduz a Peninsula. Em distancia de huma legua para o Nascente de
-Castellobranco tem ponte.</p>
-
-<p>208 <i>Pontega.</i> Passa pelas Freguezias de S. Gregorio, e Nossa
-Senhora da Consolaçaõ, termo de Arrayolos, e se mete no Odivor.</p>
-
-<p>209 <i>Quarteira.</i> Este rio he do Algarve, e corre junto a Faro.</p>
-
-<p>210 <i>Rabaçal.</i> He o mesmo que o rio <i>Mente</i>.</p>
-
-<p>211 <i>Ramalhoso.</i> Ribeiro, que passa pela Villa de S. Vicente, e
-seu termo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p>
-
-<p>212 <i>Regalvo.</i> Desagua na enseada da Villa de Sines.</p>
-
-<p>213 <i>Rezes.</i> Ribeira do termo do Sardoal.</p>
-
-<p>214 <i>Riba-Pinhel.</i> Nasce perto da Igreja de Nossa Senhora da
-Lagoa: começa sua corrente pelo termo da Guarda encaminhado ao Sul:
-passa ao termo de Jarmelo direito ao Nascente, e torna a voltar para
-o Norte por entre Jarmejo, e Castello-Mendo. Vay à ponte de Pinhel, e
-huma legua adiante entra no Coa.</p>
-
-<p>215 <i>Ribeira de Freixas.</i> He hum pequeno rio, que corre meya legua
-distante da Villa de Trancozo.</p>
-
-<p>216 <i>Ribeira dos Gallegos.</i> Corre pelo termo da Villa de Vinhaes,
-e junto da Freguezia de Santa Cecilia dos Casares, onde se pescaõ
-muitas, e boas trutas.</p>
-
-<p>217 <i>Ribeira da Murta.</i> No termo de Alvaiazere discorre esta
-ribeira pela Freguezia de S. Pedro do Rego, e divide este termo do da
-Villa das Pias.</p>
-
-<p>218 <i>Rio das Maçãs.</i> He huma ribeira, que corre junto à Villa de
-Collares.</p>
-
-<p>219 <i>Rio Mourinho.</i> Passa pelo termo de Montemór o Novo, e por
-junto do Convento dos Religiosos Paulistas, que os provê de grandes
-pardelhas.</p>
-
-<p>220 <i>Rio Tinto.</i> Corre huma legua distante do Porto. Chama-se
-tinto, porque quando foy a geral destruiçaõ de Hespanha, mataraõ
-os Cidadãos do Porto tantos Mouros, que o sangue chegou a tingir a
-agua.<a id="FNanchor_251" href="#Footnote_251" class="fnanchor">[251]</a> Mete-se no Douro.</p>
-
-<p>221 <i>S. Romaõ.</i> Nasce na Freguezia de S. Martinho das Amoreiras,
-termo de Ourique. Corre pelas Villas de Alvalade, Garvaõ, e termo de
-Panoyas, até desaguar no porto delRey, termo da Villa de Alcacer do Sal.</p>
-
-<p>222 <i>Sabor.</i> Nasce por cima do Lugar de Rabal, que fica na
-raya de Galiza, mas he termo de Bragança,<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> donde dista duas leguas.
-Discorre sempre por altas, e alcantiladas penedias, até chegar aos
-confins da Villa de Castro Vicente; e depois de ter andado dezaseis
-leguas, e obedecer a cinco pontes, algumas de cantaria, e de perfeita
-arquitectura, com orgulho desagua no Douro.</p>
-
-<p>223 <i>Sacavem.</i> Este rio, que discorre pelo Lugar de seu nome duas
-leguas distante de Lisboa, desemboca no Tejo, e faz huma profundissima
-foz, na qual podem entrar os mayores navios deste porto; e ficando
-quasi ao Norte da Cidade, volta contra o Noroeste, navegando-se até
-a Mealhada, e da sua ribeira se levantaõ huns montes, que a cultura
-tem feito apraziveis, os quaes se vaõ estendendo com huma larga volta
-contra o Poente, levando sempre ao pé hum fundo valle aberto por muitas
-partes com regatos, que por elle correm. Por ordem delRey D. Joaõ. V.
-se reformou a barca da passagem deste rio pela admiravel idéa do nosso
-insigne Maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os
-passageiros.</p>
-
-<p>224 <i>Sadaõ</i>, ou <i>Sado</i>. O nascimento deste rio foy ignorado
-por Duarte Nunes na Descripçaõ de Portugal; porém Joaõ Salgado de
-Araujo diz, que nasce nas faldas da serra de Monchique junto à Villa
-de Almodovar, e passando por Ourique, recebe as ribeiras de Aivados,
-Gracido, Ferrarias, Campilhas, Figueira, Roxo, e Garcia menino, onde
-faz hum grande lago, e mais para diante outro, que chamaõ de Santa
-Margarida, até que copioso vay acabar em Setubal. André de Resende
-ignorando-lhe tambem o principio, e dando-lhe o nome de Callipode,
-que o tirou de Ptolomeu, diz que depois de se ajuntarem as torrentes
-do Enxarrama, Santa Detença, e Odivellas acima de Porto de Rey, he
-que se começa a chamar Sado; nome que usurpa pela demora que faz no
-esteiro de Alcacere, antigamente Salacia; e por naõ viver muito tempo
-soberbo,<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span> e desvanecido com tanto roubo, morre dahi a pouco em Setubal,
-formando-lhe huma grande foz, e bahia. He navegavel este rio por doze
-leguas até Porto de Rey; e as terras por onde passa, adornadas de
-muitas fontes, e arvoredos, ficaõ ferteis, e e cheias de nata para
-corresponderem abundantes na breve producçaõ dos seus frutos.</p>
-
-<p>225 <i>Safrins.</i> Corre em distancia de meya legua da Villa de
-Ferreira, e a provê de bordalos taõ bons, que se mandaõ dar aos doentes.</p>
-
-<p>226 <i>Sarmenha.</i> He huma ribeira, que dista do rio Douro duas
-leguas, e nasce nas raizes da serra do Maraõ.</p>
-
-<p>227 <i>Sarrazola.</i> Caudalosa ribeira, que banha Benavilla, huma
-legua distante de Aviz.</p>
-
-<p>228 <i>Seda.</i> Nasce esta ribeira nas serras de Portalegre, e rega a
-Villa, a que dá o nome.</p>
-
-<p>229 <i>Sertima.</i> Rio, que corre pelo termo da Villa de S. Lourenço
-do Bairro, e que se augmenta com muitos ribeiros, que fertilizaõ o
-mesmo termo.</p>
-
-<p>230 <i>Sequa.</i> Divide, ou corta pelo meyo a Cidade de Tavira, o qual
-nascendo do sertaõ, faz este transito por huma boa ponte de sete arcos.</p>
-
-<p>231 <i>Sever</i>, ou <i>Severa</i>. Tem sua origem na serra de S.
-Mamede no Alentejo, e com as fontes, que se despenhaõ das serras de S.
-Braz, e Portalegre, se faz copioso. Desta sorte correndo pela Villa de
-Ouguela, paga seu tributo ao Tejo junto a Villa Velha, onde se pescaõ
-as mais excellentes trutas. O Padre Poyares no Diccionario Geografico
-lhe dá o fim no Guadiana à vista de Badajoz.</p>
-
-<p>232 <i>Silveira.</i> Pequena ribeira, que se despenha da serra d’Ossa
-da banda do Sul.</p>
-
-<p>233 <i>Sizandro.</i> Principia a descubrirse na Sapataria de huma
-fonte chamada Sizandro, e vem cercar Torres-Vedras, que para mayor
-commodidade se atravessa com cinco pontes.</p>
-
-<p>234 <i>Sobrena.</i> He huma ribeira do Alentejo, que<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> nasce entre
-Viana, e Villa nova da Baronia, a qual regando os seus pomares, se mete
-em Odivellas.</p>
-
-<p>235 <i>Sorraya.</i> He huma ribeira, que pela parte do Sul banha a
-Villa de Erra.</p>
-
-<p>236 <i>Sor.</i> He huma caudalosa ribeira, que banha a Villa da Ponte
-de Sor pela banda do Oriente, e se mete no Tejo ao pé de Coruche. Os
-Romanos fundaraõ aqui huma grandissima ponte, para por ella fazerem a
-estrada de Santarem para Merida.</p>
-
-<p>237 <i>Sordo.</i> Na Freguezia de Santa Eulalia da Comieira do Concelho
-de Penaguiaõ corre este rio da parte do Norte; e passando pelo Lugar de
-Relvas, se vay esconder no Corgo.</p>
-
-<p>238 <i>Sozeis.</i> Dista esta ribeira duas leguas de Evora no caminho
-de Béja, e se recolhe no Enxarrama.</p>
-
-<p>239 <i>Sousa.</i> Nasce junto à Igreja de Moura entre o Mosteiro de
-Pombeiro, e o de Cramos; e daqui descendo a fertilizar todas as terras,
-a que vay dando nome por espaço de oito leguas, vay acabar no Douro
-defronte do Lugar de Arnelas, duas leguas acima do Porto.</p>
-
-<p>240 <i>Soberbo.</i> Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo,
-depois que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo
-no caes de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela
-conjuração em que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ
-corresse mais com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que
-fazia alto na venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar
-o rio Soberbo. Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ
-perto de Trancoso, e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros
-pequenos rios alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do
-Abbade, divide os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe,
-e o Mosteiro da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte
-de madeira se<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de
-pedra se diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte,
-marcha por entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro
-de S. Pedro das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte
-de pedra, onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o
-Lugar de Taboaço, e daqui caminha para o Douro.<a id="FNanchor_252" href="#Footnote_252" class="fnanchor">[252]</a></p>
-
-<p>241 <i>Sul.</i> Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e
-consente vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante
-D. Luiz, que foy Senhor do Concelho de Lafões.</p>
-
-<p>242 <i>Tamega.</i> He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza
-junto da serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou
-o nome. Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra
-pela Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes
-da Villa em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do
-letreiro, que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve
-Grutero, e Argote,<a id="FNanchor_253" href="#Footnote_253" class="fnanchor">[253]</a> e vem a ser:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">IMP. CÆS. NERVÆ.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">TRAIANO. AUG. GER.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">DACICO. PONT. MAX.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">TRIB. POT. CONS. V. P. P.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">AQUIFLAVIENSES</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">PONTEM LAPIDEUM.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">D. S. F. C.</span><br>
-</p>
-
-<p>Quer dizer: <i>Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico
-Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ
-Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p>
-
-<p>243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita
-antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: <i>Pontem
-lapideum</i>; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos
-para Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte
-tem já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com
-noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e
-dois de alto.</p>
-
-<p>244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem
-outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim
-à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco
-mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante
-ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de
-Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho
-I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de
-Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de
-hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se
-lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos
-de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do
-que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando
-pouco a pouco.</p>
-
-<p>245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que
-referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,<a id="FNanchor_254" href="#Footnote_254" class="fnanchor">[254]</a> e foy dividirem-se
-suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do
-glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando
-lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga.</p>
-
-<p>245 <i>Taveiró.</i> He ribeira, que banha as Villas da<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> Bemposta da
-Beira, e de Castello-Novo, e entra no Ponsul.</p>
-
-<p>247 <i>Tedo.</i> Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o
-ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo
-de Santo Adriaõ.</p>
-
-<p>248 <i>Teja.</i> Provê esta ribeira de peixe a Villa de Nomaõ.</p>
-
-<p>249 <i>Tejo.</i> Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy
-celebrado o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais
-rios do Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca:
-outros o fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de
-Albarracin; e discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia
-da Estremadura Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo,
-Talavera de la Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe
-as correntes de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama,
-Mançanares, e Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por
-Santarem descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto
-de mundo: e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de
-ouro,<a id="FNanchor_255" href="#Footnote_255" class="fnanchor">[255]</a> nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia,
-fica semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas
-riquezas, que todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra
-nas opulentas frotas do Brasil.</p>
-
-<p>250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar
-em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria,
-sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy
-visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado
-Celio, com a mayor<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos,
-como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se
-separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da
-Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno
-1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se
-abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se
-fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,<a id="FNanchor_256" href="#Footnote_256" class="fnanchor">[256]</a> que o
-Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem
-os Authores abaixo allegados.<a id="FNanchor_257" href="#Footnote_257" class="fnanchor">[257]</a></p>
-
-<p>251 <i>Temitólas.</i> Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay
-direito ao Douro.</p>
-
-<p>252 <i>Tera.</i> Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que
-olha para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por
-onde se vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana.</p>
-
-<p>253 <i>Terena.</i> Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a
-huma Villa, e mete-se no Guadiana.</p>
-
-<p>254 <i>Tinhella.</i> Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da
-Villa de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça
-de Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua.</p>
-
-<p>255 <i>Tourões.</i> Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do
-Rio Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ,
-entra no Agueda abaixo de Escarigo.</p>
-
-<p>256 <i>Trancaõ.</i> He huma ribeira no termo de Lisboa,<span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span> que passando
-pelo Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a
-grande quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal,
-entrando-lhe pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo
-de Inverno vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro
-trabalhar muitas azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas.</p>
-
-<p>257 <i>Trogalha.</i> Corre entre Sarzedas, e Castellobranco, e entra no
-Tejo.</p>
-
-<p>258 <i>Trovella.</i> Fertiliza os Coutos de Correlhã, e o da Feitosa
-pouco distante de Ponte de Lima.</p>
-
-<p>259 <i>Tua.</i> Nasce em Galiza proximo ao Lugar de Pias: corre por
-Mirandella, onde he recebido em ponte de dezanove arcos de cantaria; e
-fertilizando muitas terras, vay fenecer no Douro no porto de Foz-Tua.</p>
-
-<p>260 <i>Vade.</i> Fertiliza com saborosas trutas o termo da Villa da
-Ponte da Barca.</p>
-
-<p>261 <i>Val de Abrahaõ.</i> Pequena ribeira, que nasce, e desce da serra
-d’Ossa da parte do Sul.</p>
-
-<p>262 <i>Val de Lobos.</i> Ribeira, que passa por hum Lugar da Freguezia
-de Bellas, e faz animar muitas azenhas, e fertilizar muitos pomares.</p>
-
-<p>263 <i>Valdouro.</i> Corre esta ribeira huma legua distante da Villa de
-Ferreira, e a enriquece de grandes bordalos, e pardelhas.</p>
-
-<p>264 <i>Valla.</i> Discorre junto da Villa de Mayorga, e com prejuizo de
-hum formoso campo, que pelo Inverno padece suas inundações.</p>
-
-<p>265 <i>Varche.</i> Meya legua distante da Cidade de Elvas corre este
-ribeiro pelo valle de seu mesmo nome.</p>
-
-<p>266 <i>Varzeas.</i> Faz dividir Melgaço de Galiza pela parte do
-Oriente, e desagua no Minho.</p>
-
-<p>267 <i>Vascaõ.</i> Corre por Alcoutim, e entra no Guadiana, separando o
-Reino do Algarve de Campo de Ourique.</p>
-
-<p>268 <i>Vez.</i> Banha este rio primeiramente o Val<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> de Poldros, termo
-da Villa dos Arcos, onde nasce nas montanhas de Penella; e continuando
-seu caminho pelos campos de Valdevez, a que dá nome, vay logo perdello
-dahi a huma legua, por se misturar com o Lima junto de S. Pedro do
-Souto, posto que já caudaloso com os muitos regatos, que entraõ nelle.</p>
-
-<p>269 <i>Vellarva.</i> He huma ribeira, que rega o Lugar de Santa Justa,
-que fica no termo de Alfandega da Fé, onde desagua a ribeira Alvar.</p>
-
-<p>270 <i>Velariça.</i> Nasce na serra de Montemel acima do Lugar da
-Burga, termo de Bragança. Despenha-se pela serra até parar em hum
-valle, a que dá o nome, e por elle detido o espaço de seis leguas,
-fertiliza todo aquelle terreno bastantemente. Depois vay pagar o
-tributo ao Sabor meya legua acima do Douro.</p>
-
-<p>271 <i>Vereza.</i> No cimo da serra da Gardunha nasce esta ribeira, e
-vem logo refrescando o Lugar do Louriçal, que fica no termo da Villa de
-S. Vicente, e vay avistar Castellobranco, passando por boa ponte.</p>
-
-<p>272 <i>Videgaõ.</i> Passa esta ribeira naõ muy distante da Villa de
-Cabeço de Vide, fertilizando muitas hortas, e pomares.</p>
-
-<p>273 <i>Vide.</i> Cerca esta ribeira a Villa de Castello de Vide.</p>
-
-<p>274 <i>Vizella.</i> Fórma-se de tres regatos, que nascem no Concelho de
-Monte-Longo; e lavando com suas aguas a Aldeya de Arricanha, se mistura
-com o Ave, e perdem ambos o nome, mergulhando-se no mar pela Villa
-do Conde. Alguns lhe chamaõ <i>Avizella</i>. Delle cantou Manoel de
-Faria:<a id="FNanchor_258" href="#Footnote_258" class="fnanchor">[258]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Corre el Visela amado</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Progresso sonoroso,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>O crystalino parto de una peña,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>A ser favor de un prado.</i></span><br>
-</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p>
-<p>275 <i>Unhaes.</i> Pequeno ribeiro, que passa pelo pé da Villa de
-Alvares, e se mete no Zezere.</p>
-
-<p>276 <i>Voliarça.</i> Nasce esta ribeira na Freguezia de S. Brissos,
-termo de Béja, e correndo de Poente a Nascente, se mete no Guadiana,
-passando primeiro entre Béja, e Cuba, da qual dista huma legua.</p>
-
-<p>277 <i>Vouga.</i> Assinaõ o nascimento deste rio na fonte da Senhora
-da Lapa, ou na serra de Alcoba. Daqui vem descendo ao Mosteiro de S.
-Bento, que ha em Ferreira de Aves, pela parte do Poente; rega muitos
-Lugares, até que misturado com os rios Sul, e Agueda, entra em Aveiro
-com bastante soberba, segundo diz Fr. Joaõ Felix na Isagoge:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Amnibus innumeris, Agathoque superbus in æquor</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2.5em;"><i>Piscoso latè gurgite Vacca fluit.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Tem huma grandiosa ponte, acabada no anno de 1713 por ordem do
-Fidelissimo Rey D. Joaõ V.</p>
-
-<p>278 <i>Xever</i>, <i>Xevera</i>, <i>Xeverete</i>, e <i>Xola</i>. Saõ
-ribeiras, que procedem da serra de Portalegre.</p>
-
-<p>279 <i>Xudruro.</i> Ribeiro, que nasce na fonte Freja do Concelho do
-Guardaõ, e fertiliza muito o Lugar de Janardo.</p>
-
-<p>280 <i>Zacharias.</i> Com este nome corre huma ribeira pelo termo da
-Villa de Alfandega da Fé sujeita a huma ponte de quatro arcos, e tem
-seu nascimento na serra de Sambade, que outros chamaõ de Montemel.
-Tendo corrido seis leguas, vay acabar no rio Sabor junto do Lugar dos
-Picões.</p>
-
-<p>281 <i>Zezere.</i> A este rio chama Camões caudaloso, e na verdade o
-he com as enchentes de outros, que entraõ nelle. Nasce na serra da
-Estrella sobre a Villa de Manteigas pela parte de Levante; e dando
-volta ao Poente, recebendo varios rios, e ribeiros, enfadado da jornada
-se vay a Sudoeste, e se torna para o Sul receber outros riachos, e dá
-entrada ao Nabaõ, que com o ribeiro da Cortiça, e<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> regatos daquelles
-montes fertiliza Thomar. Na Aldea da Mata se deixa atravessar com a
-barca da Esteveira: e pela famosa ponte do Cabril, que faz a divisaõ
-dos termos de Pedrogaõ grande, e pequeno. Vay finalmente acabar em
-Punhete, mergulhando-se no Tejo com tanto impeto, que na distancia de
-mil e quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul, e sabor doce
-das suas aguas, como bem advertem Resende, e outros.</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_221" href="#FNanchor_221" class="label">[221]</a> Monarq. Lusit. tom 1. liv. 4. c. 8. Vasconcel. lib. 5.
-de Ebor. Municip.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_222" href="#FNanchor_222" class="label">[222]</a> Strab. apud Resend. lib. 2. de Antiquit. tit. de Flumin.
-Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_223" href="#FNanchor_223" class="label">[223]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 1. pag. 305.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_224" href="#FNanchor_224" class="label">[224]</a> Fr. Leaõ, Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 15. Monarq.
-Lusit. liv. 14. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_225" href="#FNanchor_225" class="label">[225]</a> Far. Font. de Aganip. part. 4. Eglog. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_226" href="#FNanchor_226" class="label">[226]</a> Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 2. excel. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_227" href="#FNanchor_227" class="label">[227]</a> Argot. nas Memor. do Arcebispado de Braga tom. 2. pag.
-865.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_228" href="#FNanchor_228" class="label">[228]</a> Cardoso Diccion. Geogr. tom. 2. pag. 613.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_229" href="#FNanchor_229" class="label">[229]</a> Fonseca Evor. glor. p. 89. fin.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_230" href="#FNanchor_230" class="label">[230]</a> Corograf. Port. tom. 3. p. 336. Bluteau tom. 1. do
-Suplem. ao Vocab. p. 315.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_231" href="#FNanchor_231" class="label">[231]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancellar. de Braga pag. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_232" href="#FNanchor_232" class="label">[232]</a> Mem. instr. tom. 1. pag. 204.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_233" href="#FNanchor_233" class="label">[233]</a> Bochart. Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 35.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_234" href="#FNanchor_234" class="label">[234]</a> Brit. Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_235" href="#FNanchor_235" class="label">[235]</a> Virgil. liv. 7. Æneid. Silio Italico liv. 1. Lactancio
-Firmiano lib. 7. c. 22. de Div. Instit. &amp; alii.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_236" href="#FNanchor_236" class="label">[236]</a> Claudian. liv. 2. de Raptu Proserpinæ p. 218.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_237" href="#FNanchor_237" class="label">[237]</a> Strab. lib. 10. e 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_238" href="#FNanchor_238" class="label">[238]</a> Lucio Flor. liv. 2. cap. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_239" href="#FNanchor_239" class="label">[239]</a> Botelh. no 7. do Alfonso est. 31. Reys em a Nota 124. da
-Epistol. ad Jametem.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_240" href="#FNanchor_240" class="label">[240]</a> Plinio lib. 33. cap. 7. Vitruvio lib. 7. cap. 9. Strab.
-lib. 3. Pompon. Mella lib. 3. cap. 1. Bochart. tom. 2. p. 626. Nicol.
-de Santa Maria na Chron. dos Coneg. Regrant. liv. 6. cap. 1. Maced.
-Poema Olisip. cant. 2. est. 80. Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p.
-40. D. Francisc. Xavier da Garma no Theatro de Hespanh. tom. 1. p. 76.
-Argot. Mem. de Brag. p. 105. e nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p.
-32. e outros, que deixo de allegar.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_241" href="#FNanchor_241" class="label">[241]</a> Cam. Canc. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_242" href="#FNanchor_242" class="label">[242]</a> Mousinh. cant. 3. est. 38. do African.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_243" href="#FNanchor_243" class="label">[243]</a> Veja-se a Monarq. Lusitan. p. 4. liv. 4 cap. 18. Joaõ
-Salgad. Success. Milit. p. 106. Corograf. Portug. tom. 2. pag. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_244" href="#FNanchor_244" class="label">[244]</a> Brand. na Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_245" href="#FNanchor_245" class="label">[245]</a> Fr. Joaõ Fel. na Isagoge pag. 35.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_246" href="#FNanchor_246" class="label">[246]</a> Duart. Nun. Descripç. de Port.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_247" href="#FNanchor_247" class="label">[247]</a> Araujo Success. Milit. liv. 1. cap. 1. Benedictin.
-Lusit. tom. 2. p. 109.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_248" href="#FNanchor_248" class="label">[248]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 3. p. 573.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_249" href="#FNanchor_249" class="label">[249]</a> Costa, Corograf. Portug. tom. 3. p. 260.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_250" href="#FNanchor_250" class="label">[250]</a> Cam. Canç. 12. est. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_251" href="#FNanchor_251" class="label">[251]</a> Benedictin. Lusitan. tom. 2. p. 256.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_252" href="#FNanchor_252" class="label">[252]</a> Joaõ Salgad. Success. Milit. p. 108. Cardos. Agiolog.
-Lusit. tom. 2. p. 714. Santuar. Marian. tom. 3. p. 172.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_253" href="#FNanchor_253" class="label">[253]</a> Gruter p. 162. n 4. Argot. nas Antig. da Chancel. de
-Brag. p. 108. e Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_254" href="#FNanchor_254" class="label">[254]</a> Brand. na Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 25. Benedictin.
-Lusit. tom. 2. pag. 299.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_255" href="#FNanchor_255" class="label">[255]</a> Catul. Juven. Estaço, Ovid. e outros apud Macedo nas
-Flor. de Hespanh. cap. 4. excel. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_256" href="#FNanchor_256" class="label">[256]</a> Vasconcell. Histor. de Santar. part. 1. liv. 2. cap. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_257" href="#FNanchor_257" class="label">[257]</a> Plin. liv. 4. cap. 22. &amp; lib. 33. cap. 3. Mela lib. 3.
-cap. 1. Ludovic. Nun. Hispan. illustrat. tom. 3 cap. 35. Rodrig. dos
-Sant Histor. Hispan. part. 1. cap. 3. Resend. lib. 2. de Antiquit.
-Vasconcel. Descr. Lusitan. p. 407. Duart. Nun. Descr. de Portug. p. 33.
-Nicoláo de Oliveir. Grand. de Lisb. p. 21. Joaõ Salgad. Success. Milit.
-p. 175. D. Francisc. Xavier de Garma no Theatr. de Hesp. tom. 1. p. 68.
-e outros muitos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_258" href="#FNanchor_258" class="label">[258]</a> Far. Font. de Aganip. part. 3. Canç. 5.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII.<br><span class="small"><i>Das Fontes mais notaveis.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Neste Capitulo fazemos só memoria daquelas fontes, que por alguma
-particularidade se fazem dignas de admiraçaõ; pois seria intentarmos
-hum quasi impossivel querer dar noticia de todas as que circulaõ
-por nossas terras, sendo verdadeiramente innumeraveis. Nós em outra
-Obra<a id="FNanchor_259" href="#Footnote_259" class="fnanchor">[259]</a> já referimos algumas, e o Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques em o seu curioso <i>Aquilegio</i> faz mençaõ de outras.
-Repetiremos outra vez as mais singulares, pois que assim o pede o
-assumpto, e a ordem, que seguimos, nomeando primeiramente para mayor
-clareza as terras, donde emanaõ, e onde correm.</p>
-
-<p>2 <i>Abrantes.</i> Na distancia de quatro leguas desta Villa sobre
-a ribeira de Sor ha huma fonte, a que chamaõ da Fedegosa, a qual
-nascendo em mineral de enxofre tem qualidades frescas, e sara muitos
-achaques, que peccaõ em quentura. E no seu termo junto da Ermida de
-nossa Senhora do Tojo ha outra fonte de taõ excellente agua, que a
-mandaõ<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> buscar para os doentes beber: e accrescentaõ os moradores huma
-cousa (diz a Corografia Portugueza, que para mim he incrivel) e vem a
-ser: que havendo algumas differenças sobre quem ha de encher primeiro,
-visivelmente se diminue a agua na mesma fonte.<a id="FNanchor_260" href="#Footnote_260" class="fnanchor">[260]</a></p>
-
-<p>3 <i>Aguiar de Sousa.</i> Na Freguezia de S. Mamede de Val-Longo ha no
-mais alto da montanha hum poço muy profundo, que de Inverno secca-se, e
-de Veraõ tem tanta abundancia de agua frigidissima, que serve naõ só de
-regalo à gente, mas tambem aos milhos, que com ella se regaõ.</p>
-
-<p>4 <i>Alandroal.</i> A fonte desta Villa he memoravel pela grande copia
-de agua, que expulsa, a qual dizem que se lhe communica de hum rio
-subterraneo. Formou aqui a natureza huma larga concavidade, a que os
-moradores chamaõ <i>Algar</i>, em cujo fundo se acha hum poço com bocal
-feito ao picaõ, e delle sahe huma levada de agua muito grande.<a id="FNanchor_261" href="#Footnote_261" class="fnanchor">[261]</a>
-Nesta mesma Villa, na estrada, que vay para Terena, ha outra fonte, que
-naõ corre de Inverno, senaõ no Estio.<a id="FNanchor_262" href="#Footnote_262" class="fnanchor">[262]</a></p>
-
-<p>5 <i>Alcacer do Sal.</i> Na herdade das Praxanas, distante duas grandes
-leguas da Villa, existe huma fonte, cuja agua he buscada de muitas
-leguas para remedio contra o mal da pedra; e tem as mesmas virtudes da
-que ha na Villa de Almada.</p>
-
-<p>6 <i>Alcanede.</i> No termo desta Villa, e no Lugar dos Amiaes debaixo
-corre huma fonte, que bebendo da sua agua qualquer pessoa, que tiver
-sanguisugas na garganta, immediatamente lhas faz expellir, e se
-comprova com muitas experiencias.</p>
-
-<p>7 <i>Aljustrel.</i> Em distancia de meya legua desta Villa, chegado
-à Ermida de S. Joaõ do Deserto, ha huma fonte de agua taõ azeda, que
-ninguem a bebe, nem ainda os animaes; porém tomada como<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> medicina,
-serve de excellente vomitorio, e boa para lançar fóra sezões.</p>
-
-<p>8 <i>Almada.</i> Nesta Villa ha huma fonte, cuja agua tem conhecida
-virtude para os achaques de pedra, e areas.<a id="FNanchor_263" href="#Footnote_263" class="fnanchor">[263]</a></p>
-
-<p>9 <i>Amarante</i>. No campo chamado da Feitoria, que fica defronte do
-Convento de S. Gonçalo desta Villa, brota huma Fonte abundantes aguas,
-que tambem tem notoria analogia, e semelhante virtude à de Almada.</p>
-
-<p>10 <i>Ançaõ.</i> Nesta Villa se acha huma fonte, que lança de Veraõ
-agua frigidissima, e pelo Inverno tepida. Tambem por experiencia se tem
-observado, que a sua agua bebida facilita os partos, e preserva dos
-achaques de pedra, e outras enfermidades.</p>
-
-<p>11 <i>Armamar.</i> Huma fonte ha no termo desta Villa, que tem virtude
-as suas aguas para varias enfermidades. No sitio, onde nasce, ha muitas
-pedrinhas quadradas semelhantes àquellas, que vem da India, e se
-attribue, que a virtude, que tem a agua, será communicada das pedras.</p>
-
-<p>12 <i>Batalha.</i> Perto desta Villa ha huma fonte no Lugar das
-Brancas, cuja agua com facilidade, e em breve tempo se transmuta em sal.</p>
-
-<p>13 <i>Besteiros.</i> Fica este Lugar no termo da Villa de Anciães, e
-aqui existe huma fonte de agua taõ delgada, que com ella naõ se póde
-fabricar azeite.</p>
-
-<p>14 <i>Braga.</i> Em distancia de hum quarto de legua desta Cidade,
-na quinta dos Religiosos de Santo Agostinho corre de huma fonte agua
-taõ fria, que no tempo mais ardente do Veraõ mal se póde aturar a maõ
-dentro della nem ainda em quanto se reza huma Ave Maria; e em poucos
-minutos reduz a vinagre hum frasco de vinho, se o meterem dentro della.</p>
-
-<p>15 <i>Bragança.</i> Além de outras fontes, que ha<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> nesta Cidade
-notaveis, ha huma na quinta de Val de flores, que a sua agua he
-efficacissima para facilitar a digestaõ, e abrir a vontade de comer.</p>
-
-<p>16 <i>Cadima.</i> Ha aqui neste Lugar, que fica em distancia de
-Tentugal duas leguas, a celebre fonte chamada <i>Fervença</i>, de que
-fallaõ muitos Authores,<a id="FNanchor_264" href="#Footnote_264" class="fnanchor">[264]</a> a qual sorve quanto lhe deitaõ dentro da
-voragem, que sempre está em continua fervura. A causa deste fenomeno
-he, porque alli ha alguma occulta cataracta, ou precipicio, como bem
-explica o doutissimo Feijó.<a id="FNanchor_265" href="#Footnote_265" class="fnanchor">[265]</a> Tambem na Freguezia de S. Mamede,
-termo de Alcacer do Sal, donde dista quatro leguas, está da parte do
-Poente hum grande olho de agua, que corre para o rio Sado, o qual sorve
-tudo quanto lhe lançaõ dentro: chamaõ-lhe a <i>Anceira</i>.</p>
-
-<p>17 <i>Caldezes.</i> Fica este Lugar no Concelho da Povoa de Lanhoso, e
-tem huma fonte chamada do <i>Tojal</i> da qual sahem misturadas com a
-agua muitas pedras quadradas, como já dissemos das de Armamar, e que
-tem a mesma virtude alexifarmaca.</p>
-
-<p>18 <i>Cano.</i> Junto desta Villa ha huma fonte, a que chamaõ dos
-<i>Olhos</i>, porque em seu nascimento está sempre a agua fervendo,
-e tem a particularidade de converter sua agua facilmente em pedra as
-cousas, que lhe lançaõ dentro.</p>
-
-<p>19 <i>Castello de Vide.</i> Entre a grande quantidade de fontes, que
-regaõ esta Villa, pois passaõ de trezentas, ha especialmente huma no
-arrebalde, que chamaõ da <i>Mealhada</i>, com a excellente virtude de
-livrar de dores nefriticas aos que costumaõ beber da sua agua: e no
-termo da Villa de Oiteiro ha outra, que dizem ter a propriedade, e
-natureza do vinho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span></p>
-
-<p>20 <i>Coimbra.</i> Perto desta Cidade, e no meyo da estrada
-poucas leguas antes de chegar a ella, está a celebre fonte de
-<i>Alcabedeque</i> huma das mais copiosas, que ha no Reino, cujo nome
-lhe deraõ os Mouros pela sua virtude, pois Alcabedeque na lingua Arabe
-quer dizer <i>Agua de Deos</i>. Elles que lhe sabiaõ o prestimo mais do
-que nós, a estimavaõ tanto, que fizeraõ junto della hum forte para a
-guardar. Veja-se a <i>Corografia Portugueza no tom. 2. pag. 34.</i></p>
-
-<p>21 <i>Covilhã.</i> Na cerca dos Religiosos de S. Francisco desta Villa
-está huma fonte de agua frigidissima; e já tem acontecido algumas vezes
-acharem convertido em vinagre o vinho, que mandavaõ aqui resfriar.</p>
-
-<p>22 <i>Envendros.</i> Existe huma fonte no sitio do Alpalhaõ, termo
-desta Villa, cuja agua bebida no lugar em que brota, he ingrata
-ao gosto, mas estando em casa, se faz de bom sabor. Attribuem os
-moradores, que a causa de se viver aqui muito, e com saude, procede da
-boa qualidade desta agua.</p>
-
-<p>23 <i>Ervedal.</i> Quasi chegado à estrada, que vay do Ervedal para
-Benavilla, termo de Aviz, corre huma fonte, que no mez de Outubro
-secca, e vindo Março torna a correr, e dura todo o Estio, por mais
-ardente que seja. Reduz tambem a pedra quanto lhe deitaõ dentro.<a id="FNanchor_266" href="#Footnote_266" class="fnanchor">[266]</a></p>
-
-<p>24 <i>Estremoz.</i> A fonte da Lagoa, que ha na herdade dos Alens
-no termo desta Villa, tem a mesma analogia que a antecedente, pois
-secca-se de Inverno, e corre de Veraõ.</p>
-
-<p>25 <i>Ferreirim.</i> Huma legua distante de Lamego, na cerca do
-Convento de Santo Antonio de Ferreirim, ha huma fonte de agua taõ fria,
-que tambem converte promptamente o vinho em vinagre.</p>
-
-<p>26 <i>Freixeda.</i> Este Lugar, que fica no termo de Miranda,
-comprehende com admiraçaõ huma fonte<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> de agua muito fria, e taõ
-corrosiva, que consome no espaço de meya hora a carne, que se lhe lança
-dentro, deixando os ossos esburgados.</p>
-
-<p>27 <i>Grandola.</i> Da serra dos Algarves, que dista huma legua desta
-Villa, manaõ dous olhos de agua com duas propriedades bem contrarias,
-sendo irmãs no nascimento; porque as que sahem para a parte do Sul, saõ
-excellentes, e as que correm para o Norte, naõ ha quem as possa beber,
-e por isso lhe chamaõ agua azeda. De outro olho de agua, que sahe com
-mayor abundancia, se tem observado, que toda a terra, que banha a sua
-corrente, fica infrutifera, deixando tambem hum fortissimo gelo, por
-onde passa.</p>
-
-<p>28 <i>Guarda.</i> Por baixo da Cruz da Faya nos limites desta Cidade
-emana huma fonte de agua fria com qualidades taõ nocivas, que passaõ a
-mortiferas.</p>
-
-<p>29 <i>Guardaõ.</i> Fertilissimo he este Concelho de aguas admiraveis:
-tal he a fonte da Pipa junte da Povoa da Longera, a do Lugar das
-Paredes, a fonte das Amexieiras, a chamada das Donas, e outras de
-singular qualidade, que refere a Corografia Portugueza.<a id="FNanchor_267" href="#Footnote_267" class="fnanchor">[267]</a></p>
-
-<p>30 <i>Guimarães.</i> Afastado da Villa para o Sul fica a milagrosa
-fonte de S. Gualter, cuja virtude para varias enfermidades faz attrahir
-muita gente, que ou bebendo, ou lavando-se em sua agua, experimentaõ
-conhecida melhoria.</p>
-
-<p>31 <i>Marmellos.</i> He este hum Lugar, que fica no termo da Villa de
-Lamas de Orelhaõ, onde existe huma fonte de igual virtude curativa de
-varias enfermidades, que a experiencia tem mostrado infallivel.</p>
-
-<p>32 <i>Massouco.</i> Junto da Igreja Matriz deste Lugar, que he do
-termo da Villa de Freixo de Espadacinta,<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> ha huma fonte, a que
-chamaõ do <i>Xido</i>, a qual principia a correr do mez de Março por
-diante: e tem os moradores feito observaçaõ, que se o anno ha de ser
-fertil, expulsa muy pouca agua; e quando ha de ser esteril, brota com
-abundancia; e desta fórma vem a ser hum quasi reportorio para as gentes
-daquelles contornos.</p>
-
-<p>33 <i>Monchique.</i> Com a mesma propriedade ha outra fonte neste
-Lugar, que fica no Algarve, a qual em Dezembro totalmente se secca. De
-igual singularidade se admira outra em Monforte, meya legua distante da
-Villa, a qual se secca no mez de Setembro, e em Mayo torna a rebentar
-com grande torrente. Em Monsanto tambem corre outra com as mesmas
-circunstancias do tempo.</p>
-
-<p>34 <i>Olmos.</i> A fonte chamada do <i>Gogo</i>, que fica no termo
-desta Villa, lança agua de fórma, que faz fio como clara de ovo, e
-affirma-se ter virtudes medicinaes.</p>
-
-<p>35 <i>Ouguella.</i> Bebem os moradores desta Villa a agua de huma
-fonte, que dizem naõ cria cousa viva dentro em si, senaõ sómente rãs.
-Saõ presentaneas para matar sanguisugas, e lombrigas. Se por acaso, ou
-inadvertencia poem a cozer legumes com esta agua, he escusado gastar
-tempo, porque nunca os coze.</p>
-
-<p>36 <i>Santarem.</i> Nos limites desta Villa, e no Lugar de Rio-Mayor ha
-hum olho de agua salgada seis leguas distante do mar.</p>
-
-<p>37 <i>Sardoal.</i> Aqui ha a fonte de Penha, que tem a circunstancia de
-naõ correr, senaõ tambem de Veraõ, e seccarse pelo Inverno. Tal he a
-providencia de Deos.</p>
-
-<p>38 <i>Serra da Estrella.</i> Emana do sitio chamado Valderosim huma
-fonte de agua taõ fria, que em pouco espaço de tempo transmuta em
-vinagre o vinho, quando o querem resfriar.</p>
-
-<p>39 <i>Setubal.</i> Tem a praça desta Villa huma formosa<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> fonte, cuja
-agua he petrificante; por isso o seu aqueducto he aberto, para se
-desintupir desembaraçadamente.</p>
-
-<p>40 <i>Thomar.</i> Em a Freguezia dos Formiguaes, que he do termo desta
-insigne Villa, e no Lugar da Quebrada rebenta de Inverno huma fonte com
-alguns olhos de agua, pelos quaes sahem alguns ouriços de castanha, naõ
-havendo dalli a tres leguas castanheiros.</p>
-
-<p>41 <i>Valverde.</i> Só em dia de S. Joaõ Bautista lança agua huma fonte
-chamada por este motivo <i>Santa</i>, que existe neste Lugar do termo
-da Villa da Alfandega da Fé.</p>
-
-<p>42 <i>Vinhaes.</i> Affirma-se que a melhor agua, que ha na Provincia
-de Tras os Montes, he a que existe no rocio desta Villa em huma fonte
-admiravel. Por mais que se beba della, nunca offende o estomago, e
-facilita muito a exclusaõ de areas, e pedra. No Lugar dos Casares,
-termo da dita Villa, ha outra fonte de agua taõ fria, que metendo-lhe
-dentro hum quarto de carneiro, o come todo sem lhe deixar mais que os
-ossos; e naõ faz damno aos moradores que della bebem.</p>
-
-<p>43 <i>Urros.</i> Chamaõ à fonte, que ha nesta Abbadia da Comarca da
-Villa de Moncorvo, a fonte Santa, porque dizem que Santo Apollinario a
-fizera rebentar neste sitio; e muita gente se aproveita de suas aguas
-para algumas molestias, usando dellas com fé: mas naõ consiste aqui só
-a maravilha, porque estando huma legua distante do Douro, se communica
-de sorte com elle, que tambem se altera, quando elle se ensoberbece.</p>
-
-<p>44 Com estas, e outras innumeraveis fontes enriqueceo a Providencia
-divina este nosso terreno, encontrando-se pelas Provincias do Reino
-aguas nativas de exquisitas propriedades, que se a alguns dos Leitores,
-ou estranhos, ou forasteiros, fizerem duvida, offerecemos a fé, e
-credito dos mesmos naturaes,<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> que o affirmaõ, quando a verdade desta
-sincera narraçaõ naõ baste; pois o nosso objecto por agora naõ attende
-a sondar, nem a averiguar os occultos arcanos da natureza, como
-cousa impropria ao intento Geografico. O Doutor Francisco da Fonseca
-Henriques escreveo deste assumpto hum livro, que intitulou <i>Aquilegio
-Medicinal</i>, a que os curiosos podem recorrer.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_259" href="#FNanchor_259" class="label">[259]</a> Recreaçaõ Proveitosa part. 1. p. 309. &amp; seq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_260" href="#FNanchor_260" class="label">[260]</a> Corograf. Portug. tom. 3. p. 190.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_261" href="#FNanchor_261" class="label">[261]</a> Novaes na Relaçaõ dos Bisp. de Elv.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_262" href="#FNanchor_262" class="label">[262]</a> Fonseca, Aquileg. p. 194.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_263" href="#FNanchor_263" class="label">[263]</a> Duart. Nun. Descripç. de Port. pag. 31. Vasconcell. ib.
-pag. 4O4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_264" href="#FNanchor_264" class="label">[264]</a> Monarq. Lusitan. tom. 1. liv 2. cap. 5. Resend. lib. 2.
-de Antiquit. Duart. Nun. Descripç. de Portug. pag. 30. Costa, Corograf.
-Portug. tom. 2. pag. 85. Caram. no seu Philipp. Prud. Proem. §. 1. num.
-3. Plinio lib. 2. cap. 103.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_265" href="#FNanchor_265" class="label">[265]</a> Feijó, Theatr. Critic. tom. 9. pag. 43.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_266" href="#FNanchor_266" class="label">[266]</a> Leit. nas Miscelan. pag. 347.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_267" href="#FNanchor_267" class="label">[267]</a> Corograf. Portug. tom. 2. pag. 192.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_IX">CAPITULO IX.<br><span class="small"><i>Das Caldas.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Da abundancia das aguas saudaveis procede o beneficio dos banhos,
-ou Caldas, de que o Reino tambem goza, de cujo assumpto, supposto
-escreveraõ alguns dos nossos,<a id="FNanchor_268" href="#Footnote_268" class="fnanchor">[268]</a> daremos informaçaõ das mais
-especiaes, por naõ defraudarmos deste apontamento o nosso Mappa.</p>
-
-<p>2 <i>Alcafache.</i> Huma legua de Viseu, e no termo de Azurara nascem
-de huma fonte, que está chegada ao rio Daõ, aguas sulfureas, que fazem
-o mesmo effeito com sua virtude medicinal, como as de S. Pedro do Sul,
-ainda transferidas para outras partes distantes.</p>
-
-<p>3 <i>Alvor.</i> Afastado quatro leguas desta Villa no Lugar de
-Monchique estaõ huns banhos medicinaes, onde se foy curar ElRey D. Joaõ
-II. de huma hydropezia.</p>
-
-<p>4 <i>Anciães</i>. Junto ao Lugar do Pombal, termo da Villa de Anciães,
-ha humas Caldas, que nascem de huma fonte em serra aspera, e as suas
-aguas saõ<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> sulfureas, que tomadas em banhos servem para debilidades
-de nervos, estupores, vertigens, e outros achaques desta classe: ha
-occasiões, em que a experiencia tem mostrado bastar ao doente hum só
-banho para sarar de todo.</p>
-
-<p>5 <i>Aregos.</i> No Concelho de Aregos, Comarca de Lamego, ha muitas
-Caldas da mesma natureza que as referidas.</p>
-
-<p>6 <i>Cascaes.</i> As Caldas desta Villa estaõ na quinta do Estoril
-junto ao Convento dos Religiosos de Santo Antonio: nascem de tres olhos
-de agua, e servem para paralyzias, rheumatismos, convulsões, e para
-todas as queixas espurias, e de calor.</p>
-
-<p>7 <i>Chaves.</i> Para achaques frios de nervos saõ estas as melhores
-Caldas do Reino. Nascem entre a muralha da Praça, e o rio Tamega:
-procedem de mineraes de enxofre, caparrosa, salitre, e pedra hume. Os
-Romanos usavaõ muito dellas para as suas molestias.</p>
-
-<p>8 <i>Covilhã.</i> No termo desta Villa, e no Lugar chamado Unhães da
-serra ha Caldas procedidas de huma fonte de agua sulfurea, presentanea
-para achaques frios de juntas, e nervos.</p>
-
-<p>9 <i>Evendros.</i> Debaixo de hum penedo nesta Villa brota hum chorro
-de agua mais que tepida, a qual tomada em banhos tem grande virtude
-para achaques frios, e cutaneos.</p>
-
-<p>10 <i>Favayos.</i> Estaõ no termo desta Villa humas Caldas, que nascem
-de mineraes de enxofre, e usaõ os naturaes dellas para quaesquer
-molestias, que padecem, porque para todas encontraõ virtude naquellas
-aguas.</p>
-
-<p>11 <i>Gerez.</i> Nesta serra ha algumas aguas calidas, e sulfureas, que
-tem prestimo para achaques frios de nervos.</p>
-
-<p>12 <i>Guimarães.</i> Estaõ estas Caldas na Freguezia de S. Miguel,
-distante huma legua da Villa, e se compoem das aguas calidas, que
-nascem de huma<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> fonte por sete olhos: applicaõ-se a achaques frios.</p>
-
-<p>13 <i>Lagiosa.</i> No areal do rio Daõ, que corre por esta Freguezia
-duas leguas afastada de Viseu, se acha em qualquer parte delle agua
-tepida, e sulfurea, tomando muita gente os banhos na abertura de covas,
-que costumaõ abrir na mesma area, e saõ admiraveis para frialdades.</p>
-
-<p>14 <i>Leiria.</i> Brotaõ no rocio desta Cidade duas fontes, que parecem
-numa só pela uniaõ, e lançaõ dous tornos de agua differentes, porque
-hum he frio, outro tepido, e delles se formaõ as Caldas, boas para
-achaques frios.</p>
-
-<p>15 <i>Lisboa.</i> Entre os chafarizes delRey, e dos Páos estaõ estas
-Caldas, chamadas vulgarmente os banhos das Alcaçarias: saõ estas aguas
-admiraveis para intemperanças quentes das entranhas, e mais partes
-do corpo. A continuaçaõ dos enfermos, que a ellas concorrem sempre,
-acreditaõ muito o seu prestimo.</p>
-
-<p>16 <i>Longroiva</i>, e <i>Monçaõ</i>. Participaõ estas Villas de
-suas Caldas admiraveis para enfermidades frias, e para convulsões,
-estupores, paralyzias, e vertigens.</p>
-
-<p>17 <i>Obidos.</i> Chamaõ-se os banhos, que ha junto desta Villa,
-Caldas da Rainha, porque a Rainha Dona Leonor, mulher delRey D. Joaõ
-II. mandou fazer alli Hospital para os enfermos se curarem. Vem as
-suas aguas por mineraes de enxofre, e salitre, infundindo-lhe tal
-virtude para differentes achaques, como a experiencia frequentadissima
-o publica. ElRey D. Joaõ V. tomou aqui banhos em Agosto de 1742 com a
-assistencia de toda a Corte, e continuou nos dous annos seguintes para
-remedio do ataque da paralyzia, que lhe debilitou a parte esquerda.
-Vendo porém o quanto estava destruido o edificio, o mandou reedificar
-desde o anno de 1747 com toda a magnificencia, e commodidade para os
-doentes, que alli vaõ curarse naquelle verdadeiramente<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> Regio Hospital.
-Diogo Patulhet, Francez, Sargento mór da Artelharia, mas muito
-curioso, e de grandes experiencias Medicas, compoz no anno de 1752 hum
-excellente livro de observações destas Caldas, a cujas aguas justamente
-intitula divinas, e os seus banhos prodigiosa Piscina.</p>
-
-<p>18 <i>S. Pedro do Sul.</i> Tambem estas Caldas saõ famosas. Ficaõ tres
-leguas distantes de Viseu, e se compoem de aguas sulfureas, e nitrosas,
-e taõ calidas, que metendo-se no lugar, onde nascem, qualquer animal,
-logo o pellaõ. Servem para estupores, paralyzias, e outros achaques.
-ElRey D. Affonso Henriques tomou aqui banhos, e delles ha huma
-Descripçaõ impressa em livro de quarto muito boa, e erudita.</p>
-
-<p>19 <i>Pena-garcia.</i> Na Comarca de Castellobranco, e na raiz da serra
-de Pena-garcia se admiraõ varias fontes de agua tepida com a prodigiosa
-virtude de sarar varias enfermidades, ou bebida, ou applicada em banhos.</p>
-
-<p>20 <i>Penaguiaõ.</i> Neste Concelho ha duas Caldas sulfureas, que
-remedeaõ achaques frios de nervos.</p>
-
-<p>21 <i>Ponte de Cavez.</i> Ao pé desta ponte ha hum nascimento de agua
-com a mesma virtude, que as que nascem de mineraes sulfureos.</p>
-
-<p>22 <i>Nossa Senhora do Pranto.</i> No termo da Villa de Montemór o
-velho, e no Lugar da Azenha ha as Caldas de Nossa Senhora do Pranto,
-cujas aguas saõ salitrosas, e sulfureas, e com a mesma virtude analoga,
-que já temos referido.</p>
-
-<p>23 <i>Ribeira do Boy.</i> Estas Caldas estaõ no termo da Villa de
-Touro, Comarca de Castellobranco: compoem-se de aguas sulfureas, onde
-se tem descuberto remedio para estupores, e debilidades de nervos.</p>
-
-<p>24 <i>Villar da Veiga.</i> Na Freguezia de Santa Anna, que está neste
-Lugar situado no monte Gerez, ha pouco tempo se descubriraõ estas
-Caldas, que dizem<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> saõ as melhores do Reino. Veja-se ao Reverendo Padre
-Argote.<a id="FNanchor_269" href="#Footnote_269" class="fnanchor">[269]</a></p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_268" href="#FNanchor_268" class="label">[268]</a> Jacob de Castr. Histor. Medic. Fonsec. Aquileg. Medicin.
-Curv. na Polyanth. &amp;c. Vasconcel. Descript. Lusit. p. 402. Duart. Nun.
-cap. 12.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_X">CAPITULO X.<br><span class="small"><i>Da Fertilidade do Reino em commum.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Quando fallámos de cada Provincia em particular, dissemos a benigna
-qualidade do sitio, e clima favoravel, que pertencia a cada huma; e
-pelo que vimos, naõ ha em Portugal palmo de terra, que seja esteril
-em quasi todo genero de frutos. Os Authores antigos naõ só lhe daõ o
-titulo de Paiz pingue, senaõ do mais delicioso do mundo;<a id="FNanchor_270" href="#Footnote_270" class="fnanchor">[270]</a> e porque
-esta verdade necessita de mais individual expressaõ para inteirar
-o conceito dos estranhos, comecemos pelos mantimentos, e pelo mais
-preciso.</p>
-
-<p>2 <i>Trigo.</i> Todos os nossos Escritores affirmaõ,<a id="FNanchor_271" href="#Footnote_271" class="fnanchor">[271]</a> que em
-outro tempo houve mais trigo no Reino, que no tempo de agora; e já
-Luiz Nunes na sua Lusitania,<a id="FNanchor_272" href="#Footnote_272" class="fnanchor">[272]</a> comparando sómente Santarem com
-Sicilia, naõ quiz que esta Villa cedesse àquelle Reino na secundidade
-deste producto. Esta abundancia naõ só de Santarem, mas de outras
-muitas terras nossas puderaõ os naturaes experimentalla da mesma sorte
-presentemente, se naõ houvera tanta extracçaõ de farinhas para as
-Conquistas, e houvera mais applicaçaõ para a agricultura. Tambem este
-ponto he muy lamentado pelos zelosos da patria.<a id="FNanchor_273" href="#Footnote_273" class="fnanchor">[273]</a></p>
-
-<p>3 A verdade he, que temos muitas terras baldias,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> que se quizeramos
-aproveitarnos dellas, cultivando-as, daria-mos trigo a todo o mundo. No
-Reino do Algarve ha grandes valles, e fertilissimos, porém devolutos.
-No Alentejo ha charnecas, que nunca viraõ arado, nem enxada, e por
-causa da ociosidade se achaõ infrutiferas, que de si o naõ saõ; e neste
-sentido se deve entender o Padre Mariana, que chama a esta Provincia
-esteril.<a id="FNanchor_274" href="#Footnote_274" class="fnanchor">[274]</a> Na mesma Provincia, e no sitio das Vendas Novas, que he
-terreno de area solta, e até aqui tida por infrutifera, desde que ElRey
-D. Joaõ V. mandou fabricar alli hum grande Palacio no anno de 1728, se
-principiou a plantar vinhas, pomares, e hortas muito boas, de que se
-colhe grande renda.</p>
-
-<p>4 Certos Authores<a id="FNanchor_275" href="#Footnote_275" class="fnanchor">[275]</a> dizem, que se abrirem o lamaraõ de Sacavem até
-Alverca com vallos por dentro, e fizerem diques pela parte do rio,
-dará paõ para meya Lisboa, e linho canamo para enxarcias, e amarras. O
-mesmo se poderá fazer em outras muitas partes do Reino, onde se achaõ
-lamarões, sapaes, e terras alagadiças, tomando o exemplo dos Romanos,
-Venezianos, e Senhores de Ferrara, os quaes, como diz Botero,<a id="FNanchor_276" href="#Footnote_276" class="fnanchor">[276]</a>
-assim o executaraõ com as lagoas Pontinas, campos de Polesene, e valles
-de Comachio em grande proveito de seus vassallos, e interesse dos
-direitos Reaes. Deste projecto se aproveitou em outro tempo ElRey D.
-Sancho I. que se honrou muito de ser chamado o <i>Lavrador</i>,<a id="FNanchor_277" href="#Footnote_277" class="fnanchor">[277]</a> e
-o mesmo cuidado teve ElRey D. Joaõ II.</p>
-
-<p>5 Sem embargo de toda esta negligencia, ou ociosidade, que naõ he
-defeito das terras, mas dos homens, se naõ houvera tanta gente
-superflua estrangeira, que habita em nosso Reino, e a grandeza<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> de
-herdades particulares, teria elle para os naturaes paõ superabundante,
-e do melhor da Europa, principalmente do Alentejo, e termo de Lisboa,
-onde vemos ainda assim as melhores tercenas, ou celeiros de toda a
-Europa com a provisaõ deste genero de alimento. Nas outras Provincias,
-onde naõ ha tanta abundancia de trigo, suppre o milho, a castanha, a
-cevada, e o centeyo, de que fazem farinha, e se sustentaõ.</p>
-
-<p>6 <i>Azeite.</i> He tanta a abundancia de azeite, que escusamos repetir
-o que neste particular affirmaõ nossos Escritores,<a id="FNanchor_278" href="#Footnote_278" class="fnanchor">[278]</a> principalmente
-da fertilidade, e bondade, que ha deste genero em Santarem, Abrantes,
-Thomar, Torres-Novas, Montemór o Novo, Coimbra, Evora, Moura, Elvas,
-Béja, Beringel, termo de Lisboa, e na Torre de Moncorvo, onde só o
-dizimo importa mais de seiscentos almudes, gastando-se na fabrica do
-sabaõ dous mil cantaros, e provendo-se Galiza, e outras terras de
-Castella do muito, que daqui levaõ.</p>
-
-<p>7 <i>Vinho.</i> Deste producto soccorre o nosso Reino a muitos dos
-estranhos, principalmente das partes Septentrionaes, porque aos
-Portuguezes lhes he impossivel dar consumo à grande copia de vinhos,
-que todos os annos recolhem das Provincias, sendo os mais gabados
-os de Alvor, Béja, Villa de Frades, Vidigueira, Cuba, Peramanca,
-Alcochete, Almada, Caparica, Carcavelos, Camarate, Oeiras, Ourem,
-Lamego, Monçaõ, deixando os da Beira, e Tras os Montes taõ excellentes,
-que os naõ tem melhores todo o mundo, sendo todos estes ordinariamente
-bem incorporados, e com especialidade os tintos, que tem força para
-lotar os outros. Os Francezes, e Inglezes gostaõ muito dos vinhos
-extrahidos do Lugar chamado Barra a barra, que fica da<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span> outra banda de
-Lisboa; porque dizem, que saõ mais delicados, e menos cubertos,<a id="FNanchor_279" href="#Footnote_279" class="fnanchor">[279]</a>
-e por isso conduzem muitos de Alhos vedros, e outras terras para as
-suas; naõ deixando de se admirar de que nós naõ estimemos o licor de
-Baco, tanto como elles, e que as fontes sejaõ ordinariamente as que
-nos mataõ a sede, e naõ as vides. Os peyores vinhos do Reino saõ os
-do Minho, chamados verdes,<a id="FNanchor_280" href="#Footnote_280" class="fnanchor">[280]</a> porque duraõ pouco; e ou pela sua
-aspereza lhe chamaõ de enforcado, (ou talvez porque lançaõ as vides, e
-cachos pendurados nas arvores,) donde veyo a dizer o sentencioso Sá de
-Miranda, alludindo ao dito de Cineas:<a id="FNanchor_281" href="#Footnote_281" class="fnanchor">[281]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Depois nos Olmos mostrado,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Nunca vi, disse, enforcado,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que a forca, assim merecesse.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>8 <i>Carnes.</i> Da grande copia em todo o genero de gados, que ha
-no Reino, ninguem duvída. O grande consumo, que se faz delles no
-provimento de armadas, e frotas, e a consideravel extracçaõ de lãs para
-o negocio do Norte, e Inglaterra, bastava para prova desta opulencia,
-se já o naõ tiveramos mostrado só na fecundidade da Provincia do
-Minho. No que se deve reparar he no sabor, e mimo das <i>Vacas</i>,
-e <i>Vitellas</i> da Beira: <i>Carneiros</i>, <i>Cordeiros</i>, e
-<i>Leitões</i> do Alentejo: <i>Cabritos</i> da serra de Cintra,
-e Caldeiraõ, sem omittir a preciosa provisaõ do <i>Leite</i>,
-<i>Natas</i>, <i>Manteigas</i> e <i>Queijos</i> muito melhores que
-os Flamengos, e Parmazanos: nem nos esquecermos dos excellentes
-<i>Presuntos</i> da Beira, e <i>Chacina</i> do Alentejo.</p>
-
-<p>9 E que diremos da montaria, e caça Real? Sem encarecimento Castella
-naõ a tem melhor. Admiraveis saõ as <i>Corças</i>, e <i>Cervos</i> da
-serra do Algarve: os<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> <i>Veados</i> das serras de Mertola, Portel,
-Almeirim, Arrabida, Cintra, e tapada de Villa Viçosa: <i>Javalis</i>
-da Tapada, Pinheiro, serras de Portel, Vascaõ, Grandola, e Alcacer:
-<i>Lebres</i>, e <i>Coelhos</i> das Berlengas, Alcantara, e Nossa
-Senhora do Cabo, pelo especial gosto, que lhe causa o pasto do perrexil.</p>
-
-<p>10 <i>Aves.</i> Deixando a grande creaçaõ das domesticas, que em
-grandes ninhadas, e bandos vemos por todo o Reino em abundancia,
-<i>Galinhas</i>, <i>Patos</i>, <i>Pombos</i>, e <i>Perús</i>, naõ
-ha cousa como os <i>Perdigotos</i>, e <i>Perdizes</i> do termo de
-Lisboa, das serras de Cintra, Beira, e Caldeiraõ: <i>Tordos</i> de
-Thomar, e do Alentejo, <i>Taralhões</i> de Cezimbra, <i>Rolas</i> de
-Alcacer, <i>Adens</i>, e <i>Galeirões</i> dos Paús de Palma, Obidos,
-e Benavente, com outros varios bandos de passaros de arribaçaõ, que
-com o cibato das nossas terras se fazem muito mais saborosos que os
-<i>Hortolanos</i> de Pariz. Aqui se póde aggregar a quantidade grande
-de canoras, e vistosas aves, os <i>Rouxinoes</i>, <i>Pintasilgos</i>,
-<i>Chamarizes</i>, <i>Codornizes</i>, <i>Cochichos</i>,
-<i>Lavercos</i>, <i>Verdelhões</i>, <i>Tentilhões</i>, <i>Melros</i>,
-<i>Pintarroxos</i>, <i>Tutinegras</i>, e outros mil suaves passarinhos,
-que pelos bosques, e ramos dos alemos, choupos, freixos, loureiros,
-e outros arvoredos espessos divertem os olhos, e os ouvidos com
-excellente musica natural em distinctos córos.</p>
-
-<p>11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de
-Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que
-nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por
-toda a parte admiraveis <i>Laranjas da China</i>, <i>doces</i>, e
-<i>bicaes</i>, a que os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de
-Portugal: prodigiosas <i>Limas</i> da serra d’Ossa, <i>Limões</i>
-em Colares, Cintra, Peninha, Loures, Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto
-do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de Cacem; e as admiraveis
-<i>Cidras</i> do Landroal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span></p>
-
-<p>12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as <i>Camoezas</i> de
-Thomar, Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas
-<i>Peras</i> de muitas castas, e nomes: <i>De Rey</i>, <i>de
-Conde</i>, <i>Bergamotas</i>, <i>Bojardas</i>, <i>Cornicabras</i>,
-<i>Carvalhaes</i>, <i>Conforto</i>, <i>Flamengas</i>, <i>Gervasias</i>,
-<i>Codornos</i>, <i>de Rio frio</i>, <i>Engonxo</i>, <i>de S.
-Bento</i>, <i>de Bom Christaõ</i>, <i>Virgulosas</i>, e <i>Lambe-lhe
-os dedos</i>, com as formosas, e appetitosas <i>Maçãs de Abrantes</i>,
-<i>Baunezas</i>, <i>Leirioas</i>, <i>Melapios</i>, <i>Repinaldos</i>,
-<i>Verdeaes</i>, e até <i>Rainetas de França</i> na Villa de Mafra, com
-outras muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a
-Reinos estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos
-pomares de regadio muy deliciosos.</p>
-
-<p>13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço,
-que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes saõ
-as <i>Cerejas</i> de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas
-de <i>Saco</i> da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as <i>Ginjas
-garrafaes</i> de Lamego, Borba, e Alenquer: as <i>Frutas novas</i>,
-e <i>Ameixas reinoes</i> de Montemór o Novo, com as <i>Brancas</i>,
-<i>Saragoçanas</i>, e <i>Abrunhos</i> de Cintra, Collares, Azeitaõ, e
-Cezimbra: os gentis <i>Figos lampos</i>, e <i>Perinhas de cheiro</i>
-do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos <i>Damascos</i>,
-<i>Alperches</i>, e <i>Pessegos</i> de tantas castas em Abrantes, Aviz,
-Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas <i>Amoras</i>,
-e <i>Morangos</i>, e das bellas <i>Uvas moscateis de Jesus</i>,
-<i>Tamaras</i>, <i>Ferraes</i>, <i>Diagalves</i>, e <i>Malvazias</i> de
-Punhete: do chamado singular <i>Bastardo</i> de Cassilhas, Barreiro, e
-Almada, com os seus excellentes, e incomparaveis <i>Figos brancos</i>:
-dos selectos <i>Melões</i> da Vellariça, Chamusca, Arrayolos,
-Benavente, e Muxagata: das doces, e vermelhas <i>Melancias</i> de
-Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e Chamusca: das <i>Romãs</i>,
-<i>Marmellos</i>, e <i>Gamboas</i> de Santarem, com a quantidade sem
-numero de <i>Castanhas verdes</i>, e <i>piladas</i> da Beira, e Minho:<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span>
-de <i>Amendoas</i>, <i>Passas</i>, <i>Figos</i>, e <i>Alfarrobas</i>
-do Algarve, principalmente de Estoy: <i>Nozes</i>, <i>Sorvas</i>,
-<i>Nesperas</i>, e <i>Avelãs</i> da Estremadura: <i>Bolotas</i>,
-<i>Azeitonas</i>, e <i>Pinhões</i> do Alentejo, sem fazermos caso dos
-<i>Medronhos</i>, <i>Murtinhos</i>, <i>Camarinhas</i>, e <i>Amoras de
-silva</i>, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas
-charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas <i>Tuberas da terra</i>,
-de que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou
-feitas à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas.</p>
-
-<p>14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar
-as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma
-haverá <i>Couves</i> taõ grandes, e <i>Nabos</i> taõ monstruosos, que
-se possaõ igualar com as da Beira, especialmente as <i>Murcianas</i> de
-Azeitaõ, e Setubal: <i>Repolhos</i> da Villa do Conde: <i>Cardos</i>
-das hortas de Béja, e Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito
-menos com a riqueza, regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas,
-tendo só Lisboa em si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta
-especie naõ cabe na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa
-fertilidade de legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas
-comestiveis, e aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir
-os balsamos, as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ
-mais curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das
-hervas, e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,<a id="FNanchor_282" href="#Footnote_282" class="fnanchor">[282]</a>
-naõ haver terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que
-Portugal, ainda no mais escabroso das suas serras.</p>
-
-<p>15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a
-diligencia da cultura o <i>Alecrim</i>, a <i>Arruda</i>, o <i>Aypo</i>,
-a <i>Argentina</i>, a <i>Alfavaca de cobra</i>,<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> os <i>Almeirões</i>,
-os <i>Agrões</i>, a <i>Agrimonia</i>, a <i>Artemija</i>, a
-<i>Avenca</i>, as <i>Azedas</i>, a <i>Bisnaga</i>, a <i>Borragem</i>,
-o <i>Cardo santo</i>, a <i>Carqueja</i>, a <i>Celidonia</i>,
-a <i>Centaurea</i>, a <i>Congossa</i>, a <i>Douradinha</i>,
-a <i>Dormideira</i>, o <i>Endro</i>, o <i>Ensayaõ</i>, a
-<i>Erva cidreira</i>, a <i>Erva doce</i>, a <i>Escabiosa</i>,
-a <i>Escorcioneira</i>, a <i>Eufrazia</i>, o <i>Funcho</i>, a
-<i>Filipendola</i>, o <i>Gilbarbeiro</i> a <i>Hepatica</i>, a
-<i>Hera</i>, o <i>Hyssopo</i>, o <i>Jaro</i>, a <i>Labaça</i>,
-o <i>Lirio</i>, a <i>Lingua de Vaca</i>, a <i>Losna</i>, a
-<i>Macela</i>, a <i>Malva</i>, o <i>Malvaisco</i>, a <i>Mangerona</i>,
-o <i>Mastruço</i>, o <i>Marroyo</i>, o <i>Meimendro</i>, o
-<i>Millefolio</i>, a <i>Moleirinha</i>, a <i>Murta</i>, o <i>Nardo
-celtico</i>, a <i>Neveda</i>, o <i>Oregaõ</i>, a <i>Ortelã</i>,
-as <i>Papoilas</i>, a <i>Peonia</i>, a <i>Pimpinella</i>,
-os <i>Poejos</i>, a <i>Rabaça</i>, o <i>Rosmaninho</i>, a
-<i>Salgadeira</i>, a <i>Salsa</i>, o <i>Saramago</i>, a
-<i>Segurelha</i>, a <i>Sanguinaria</i>, a <i>Semprenoiva</i>,
-a <i>Serpentina</i>, a <i>Solda</i>, a <i>Tamargueira</i>, a
-<i>Tanchagem</i>, o <i>Tomilho</i>, o <i>Trevo</i>, o <i>Trovisco</i>,
-a <i>Valeriana</i>, o <i>Verbasco</i>, a <i>Versa</i>, a
-<i>Veronica</i>, a <i>Viola</i>, e outras de experimentada virtude,
-e prestimo,<a id="FNanchor_283" href="#Footnote_283" class="fnanchor">[283]</a> de que tambem os multiplicados enxames de abelhas
-se aproveitaõ para a fabrica do mel nos excellentes colmeares,
-principalmente nas serras de Serpa, Portel, termo de Palmella, e toda
-a Provincia de Tras os Montes, que costuma repartir com os visinhos:
-naõ sendo menos util a copiosa colheita do <i>Linho</i>, <i>Grã</i>, e
-<i>Esparto</i> das Provincias do Minho, Beira, Estremadura, e Algarve,
-de que tanto se aproveitaõ as Nações estrangeiras.</p>
-
-<p>16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a
-natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de
-infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas,
-outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle, que no
-tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com o esmalte,
-e fragrancia das <i>Boninas</i>, <i>Junquilhos</i>, <i>Mosquetas</i>,
-<i>Lirios</i>, <i>Madresilva</i>,<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> <i>Legacaõ</i>, <i>Azareiro</i>,
-<i>Giesta</i>, <i>Murta</i>, <i>Flor de laranja</i>, e outra muita
-diversidade, que exhalando agradavel cheiro, nascem, e se criaõ em
-qualquer prado, compondo hum continuado ramalhete; porque a industria
-da arte nas cercas, e nos jardins tem em todo o anno constante o
-Abril, e florecente a Primavera com vistoso matiz de <i>Amarantos</i>,
-<i>Ambretas</i>, <i>Amores perfeitos</i>, <i>Angelicas</i>,
-<i>Aquilegias</i>, <i>Araras</i>, <i>Assucenas</i>, <i>Artemijas</i>,
-<i>Azareiros</i>, <i>Anemolas</i>, <i>Bordões de S. Joseph</i>,
-<i>Botões de ouro</i>, <i>Barboletas</i>, <i>Caracoleiros</i>,
-<i>Caxias</i>, <i>Cravos</i>, <i>Cravinas</i>, <i>Disciplinas</i>,
-<i>Ervilhas de cheiro</i>, <i>Esporas</i>, <i>Flores pombinhas</i>,
-<i>Flores do Cabo de boa esperança</i>, <i>Flores de Liz</i>,
-<i>Girasoes</i>, <i>Goivos</i>, <i>Jasmins</i>, <i>Jacintos</i>,
-<i>Junquilhos</i>, <i>Lilazes</i>, <i>Malmequeres da sessia</i>,
-<i>Malvas da India</i>, <i>Maravilhas</i>, <i>Mauritanas</i>,
-<i>Margaritas</i>, <i>Melindres</i>, <i>Mogarins</i>, <i>Narcisos</i>,
-<i>Noturnos</i>, <i>Novelos</i>, <i>Orelhas de Urso</i>,
-<i>Papagayos</i>, <i>Papoulas da India</i>, <i>Perpetuas</i>,
-<i>Piramides</i>, <i>Primaveras</i>, <i>Rainunculos</i>, <i>Rosas</i>,
-<i>Saudades</i>, <i>Selindres</i>, <i>Suspiros</i>, <i>Tulipas</i>,
-<i>Valverdes</i>, e <i>Violas</i>, com as frondosas latadas de
-<i>Caracoes</i>, <i>Trepadeiras</i>, <i>Chagas</i>, e <i>Martyrios</i>,
-e o verde adorno dos crespos, e cheirosos <i>Mangericões</i>.</p>
-
-<p>17 Quanto ao <i>Peixe</i>, além de o gabar Marineo Siculo,<a id="FNanchor_284" href="#Footnote_284" class="fnanchor">[284]</a> e
-Botero,<a id="FNanchor_285" href="#Footnote_285" class="fnanchor">[285]</a> tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e
-muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado,
-e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está
-regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores,
-merecendo especial memoria os deliciosos <i>Salmões</i> do Minho:
-as gabadas <i>Azevias</i> de Alhandra: os raros <i>Solhos</i>, e
-<i>Tainhas</i> do Sado: os saboros <i>Saveis</i>, e <i>Lampreas</i>
-do Mondego, e Coa: as <i>Douradas</i>, <i>Escolares</i>, e
-<i>Atum</i> do Algarve: os <i>Salmonetes</i>, <i>Linguados</i>,
-<i>Redovalhos</i>, <i>Bezugos</i>, e <i>Sardas</i> de Setubal: as
-admiraveis <i>Trutas</i>,<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> e <i>Mugens</i> da Beira, e Minho: as
-selectas <i>Bogas</i>, <i>Barbos</i>, e <i>Escalhos</i> de Alviella:
-os <i>Ruivos</i> de S. Joaõ da Foz, e Villa do Conde: as famosas
-<i>Pescadas</i>, e <i>Curvinas</i> de Cezimbra, Cascaes, Ericeira,
-Caminha, e Esposende: os <i>Congros</i>, e <i>Roballos</i> de Peniche,
-e Buarcos: os <i>Safios</i>, <i>Eirozes</i>, <i>Cachuchos</i>,
-e <i>Gorazes</i> do Tejo. E deixando de particularizar outras
-innumeraveis especies de peixe, que os rios, ribeiras, e lagoas nos
-tributaõ com a fecunda pescaria de <i>Sardinhas</i>, e <i>Carapáos</i>,
-e os celebrados <i>Camarões</i> de Villa-Franca, com os saborosos
-cardumes de <i>Ostras</i>, <i>Bribigões</i>, e mais Mariscos de Aveiro,
-e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de mantimentos, e
-regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a fazer hum
-todo admiravel contra o que diz Virgilio, que <i>non omnis fert omnia
-tellus</i>, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta
-opulenta Peninsula.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_269" href="#FNanchor_269" class="label">[269]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. pag. 382.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_270" href="#FNanchor_270" class="label">[270]</a> Strab. lib. 3. Athen. lib. 4. Gymnosoph. Polyb. lib. 38.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_271" href="#FNanchor_271" class="label">[271]</a> Apud Duart. Nun. Descripç. de Port.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_272" href="#FNanchor_272" class="label">[272]</a> <i>Jactitet se Cereris dono Sicilia, nihil video cur
-Santareno præferantur.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_273" href="#FNanchor_273" class="label">[273]</a> Duart. Nun. Descripç. de Portug. cap. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_274" href="#FNanchor_274" class="label">[274]</a> P. Marian. Histor. de Hesp. liv 10. p. 1. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_275" href="#FNanchor_275" class="label">[275]</a> Luiz Mendes de Vasconcel no Sitio de Lisb. O A. dos
-Serões do Principe part 1. disc. 6. § 9. Sever. de Far. Notic. de
-Portug. disc. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_276" href="#FNanchor_276" class="label">[276]</a> Boter. de Ration. Stat. lib. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_277" href="#FNanchor_277" class="label">[277]</a> Nun. na Vid. de Sancho I.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_278" href="#FNanchor_278" class="label">[278]</a> Duart. Nun. Descripçaõ de Portugal cap. 25. Fr. Nicol.
-de Oliv. Grand. de Lisb. tract. 1. cap. 4. Maced. nas Flor. de Hespanh.
-cap. 3. excel. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_279" href="#FNanchor_279" class="label">[279]</a> Le Baron de Lahontan tom. 3. Voiages de Portug. p. 208.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_280" href="#FNanchor_280" class="label">[280]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 8. n. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_281" href="#FNanchor_281" class="label">[281]</a> Sá de Miranda cart. 2. est. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_282" href="#FNanchor_282" class="label">[282]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 193. e 216.
-Barlamont no Elixir do Univ. cap. 4. e 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_283" href="#FNanchor_283" class="label">[283]</a> Gabr. Grisley Desengan. da Medicin. Duart. Nun.
-Descripç. de Port. Vigier Histor. das Plant.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_284" href="#FNanchor_284" class="label">[284]</a> Marin. Sicul. de Reb. Hispan. lib. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_285" href="#FNanchor_285" class="label">[285]</a> Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. pag. 14.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XI">CAPITULO XI.<br><span class="small"><i>Dos Mineraes.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 A tanta fertilidade, e mimo de especies sensitivas, e vegetaveis,
-como temos summariamente mostrado haver neste nosso Reino, quiz Deos
-tambem ajuntarlhe as estimaveis riquezas de preciosos mineraes. Os
-de ouro, e prata saõ muito antigos em toda a Hespanha, como refere
-a Escritura sagrada;<a id="FNanchor_286" href="#Footnote_286" class="fnanchor">[286]</a> e taõ naturaes em o nosso Portugal, como
-affirma Plinio,<a id="FNanchor_287" href="#Footnote_287" class="fnanchor">[287]</a> e o confirma Estrabo,<a id="FNanchor_288" href="#Footnote_288" class="fnanchor">[288]</a> rendendo ao Senado de
-Roma cada anno dos<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span> direitos, que se tiravaõ das minas de Asturias,
-Portugal, e Galiza, trinta mil marcos de ouro: sendo este sem duvida
-o unico attractivo, e reclamo, que chamou de taõ longe os Frigios,
-Fenices, Tyrios, Carthaginezes, e Romanos a fazernos guerra, e
-tributarios à sua cubiça.</p>
-
-<p>2 Mas deixando a lembrança das minas antigas, como as de que faz
-mençaõ Justino<a id="FNanchor_289" href="#Footnote_289" class="fnanchor">[289]</a> que havia na Provincia do Minho, e as que houve na
-Freguezia de S. Mamede de Val-Longo do Concelho de Aguiar de Sousa,
-e no Lugar de Villa-Verde, termo de Mirandella,<a id="FNanchor_290" href="#Footnote_290" class="fnanchor">[290]</a> e no termo de
-Grandola, e no sitio de Alfarella da Provincia de Tras os Montes, e no
-Lugar do Seixo naõ longe de Anciães,<a id="FNanchor_291" href="#Footnote_291" class="fnanchor">[291]</a> e em outras muitas partes do
-Reino, esgotadas pela ambiçaõ dos Romanos.</p>
-
-<p>3 He certo que no anno de 1290 concedeo ElRey D. Diniz privilegios
-aos que tiravaõ ouro na Adiça, junto à foz do Tejo entre Almada, e
-Cezimbra, que era a officina mais antiga, donde se tirava ouro neste
-Reino em grande copia. Os mesmos privilegios concederaõ os mais Reys
-até ElRey D. Manoel, em cujo tempo com o descubrimento das riquezas da
-Asia foraõ diminuindo as extracções das minas de Portugal, como tudo
-conta a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_292" href="#Footnote_292" class="fnanchor">[292]</a></p>
-
-<p>4 Tambem no anno de 1628 se descubrio no Lugar de Paramio, tres leguas
-da Cidade de Bragança, huma mina de prata taõ fina, que de oito arrobas
-de pissarra ficavaõ na fundiçaõ seis de prata; e havia tanta quantidade
-della, que promettia o Superintendente oito arrobas cada dia livres
-para ElRey.<a id="FNanchor_293" href="#Footnote_293" class="fnanchor">[293]</a> Bem sabido he, e celebrado pelos antigos o purissimo
-ouro, que se tirava de entre as areas do Tejo,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span><a id="FNanchor_294" href="#Footnote_294" class="fnanchor">[294]</a> e tambem naõ he
-para esquecer o Cetro, que ElRey D. Joaõ III. mandou fazer do ouro
-extrahido das mesmas areas, o qual Cetro affirma Duarte Nunes,<a id="FNanchor_295" href="#Footnote_295" class="fnanchor">[295]</a> que
-muitas vezes vira nas mãos dos nossos Monarcas em occasiaõ de Cortes, e
-que ainda se conserva no Thesouro Regio.</p>
-
-<p>5 Se nós fizermos huma natural reflexaõ acerca do muito, que nossos
-primeiros Reys dispendiaõ, já com o sustento de grandes exercitos em
-continuas campanhas; já com grossas armadas; já na erecçaõ de Templos,
-e Palacios sumptuosos; nos thesouros riquissimos, que deixavaõ a seus
-filhos; nas distribuições generosas, e soccorros poderosissimos, com
-que ajudavaõ a muitos Principes Catholicos,<a id="FNanchor_296" href="#Footnote_296" class="fnanchor">[296]</a> sem que naquelle
-tempo houvesse tanta renda dos direitos Reaes, nem o descubrimento das
-riquezas da Asia tivesse ainda contribuido com seus thesouros para
-supprir estes gastos, forçosamente devemos inferir, que em Portugal
-havia opulentas minas. Este pensamento confirma com bastante erudiçaõ o
-Doutor Fr. Serafim de Freitas,<a id="FNanchor_297" href="#Footnote_297" class="fnanchor">[297]</a> dizendo, que antes do descubrimento
-da India naõ havia Reino na Europa mais opulento que Portugal: por isso
-com elevado episodio, e sabio fundamento introduzio o erudito Botelho
-na infancia de Portugal a idade preciosa de ouro,<a id="FNanchor_298" href="#Footnote_298" class="fnanchor">[298]</a> que o singular
-Camões no cant. 9. e 10. attribuio ao tempo, e governo do sempre
-saudoso Rey D. Manoel.</p>
-
-<p>6 Esta observaçaõ he só por huma natural conjectura; porque he
-infallivel haver sempre muitas<span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span> minas de ouro, e prata por todo
-o Reino, como ainda ha na Villa de Borba, Béja, Evora, no termo
-de Barcellos, e Thomar, em Tras os Montes, e em outras partes
-conhecidas,<a id="FNanchor_299" href="#Footnote_299" class="fnanchor">[299]</a> as quaes naõ se praticaõ hoje por certa razaõ de
-Estado, que aponta Plinio<a id="FNanchor_300" href="#Footnote_300" class="fnanchor">[300]</a> nas de Italia, e Duarte Nunes,<a id="FNanchor_301" href="#Footnote_301" class="fnanchor">[301]</a>
-e as Memorias instructivas de hum viajor nas de Portugal: ou tambem
-porque com o descubrimento das Minas da America no Estado do Brasil
-taõ fecundas, e com as mais modernas de diamantes, descubertas no
-Serro do Frio, de cujos riquissimos transportes resulta ao Reino taõ
-copioso lucro, (pois chega a vinte milhões de cruzados o que nos vem
-todos os annos das Minas,) attrahidos desta fertilidade, e opulencia os
-Portuguezes, se esqueceraõ do que tinhaõ mais perto.</p>
-
-<p>7 Naõ só enriqueceo a natureza o Reino de ouro, e prata, mas tambem
-de pedras preciosas. No monte do Oiteiro, que cerca a Villa de Borba,
-achaõ-se finissimas <i>Turquezas</i>, as quaes naõ saõ de cor verde,
-como disse Duarte Nunes,<a id="FNanchor_302" href="#Footnote_302" class="fnanchor">[302]</a> e por sua informaçaõ Manoel de Faria,
-e a Corografia Portugueza,<a id="FNanchor_303" href="#Footnote_303" class="fnanchor">[303]</a> mas sim de cor azul opaco, segundo
-bem adverte, e emenda o Padre Bluteau.<a id="FNanchor_304" href="#Footnote_304" class="fnanchor">[304]</a> Na ribeira de Bellas,
-pouco distante de Lisboa, e principalmente no Lugar do Suimo, ha
-muita quantidade das pedras preciosas chamadas <i>Jacinthos</i>, que
-na cor arremedaõ muito à flor Bemmequer.<a id="FNanchor_305" href="#Footnote_305" class="fnanchor">[305]</a> No Algarve achaõ-se
-<i>Rubís</i>. Na serra de Cintra ha minas de <i>Magnetes</i>, ou pedras
-de cevar,<a id="FNanchor_306" href="#Footnote_306" class="fnanchor">[306]</a> de que os estrangeiros se tem aproveitado mais do que
-nós. E<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span> no rio Cávado apparecem <i>Amethystos</i>, <i>Jacinthos</i> e
-<i>Crystaes</i> finissimos.</p>
-
-<p>8 Tudo isto he muy conforme com o que dizem Botero, e Gil Gonçalves
-de Avila,<a id="FNanchor_307" href="#Footnote_307" class="fnanchor">[307]</a> que em Portugal naõ só ha muitas minas de preciosos
-metaes, mas muitas pedras preciosas; donde Fr. Marcos de Guadalaxara
-Xivier, tratando da nova França, diz,<a id="FNanchor_308" href="#Footnote_308" class="fnanchor">[308]</a> que naquella terra se achaõ
-<i>Diamantes</i> semelhantes aos que ha no Tejo: e isto naõ póde causar
-duvida, quando sabemos que na Real Capella de Villa-Viçosa ha huma
-Custodia, cuja pedraria, de que está cravejada, foy toda extrahida das
-minas de seus contornos.<a id="FNanchor_309" href="#Footnote_309" class="fnanchor">[309]</a></p>
-
-<p>9 De <i>Cobre</i> se descubrio no anno de 1620 na serra de Grandola
-huma mina muito boa. De <i>Estanho</i>, e muito fino temos em Amarante,
-Bouzella, S. Pedro do Sul, Belmonte, e em outras partes,<a id="FNanchor_310" href="#Footnote_310" class="fnanchor">[310]</a> que nós
-vimos no anno de 1736 pela diligencia de Monsieur Damy. De <i>Ferro</i>
-ha bastante copia nas Villas de Penella, e Thomar;<a id="FNanchor_311" href="#Footnote_311" class="fnanchor">[311]</a> e affirma o
-erudito Severim de Faria,<a id="FNanchor_312" href="#Footnote_312" class="fnanchor">[312]</a> que he o melhor ferro do mundo, pois
-delle se costumaõ fabricar espingardas muy estimadas de todos os
-Principes. O <i>Crystal</i> em muitas partes deste Reino se acha em
-pedaços; e refere Duarte Nunes,<a id="FNanchor_313" href="#Footnote_313" class="fnanchor">[313]</a> que na Villa do Crato havia no seu
-tempo poços, donde se tirava grande quantidade. O mesmo se acha nas
-montanhas de S. Mamede de Val-Longo, termo de Aguiar de Sousa, e em S.
-Vicente de Caldellas, termo de Pica de Regalados.<a id="FNanchor_314" href="#Footnote_314" class="fnanchor">[314]</a></p>
-
-<p>10 No Concelho de Gondomar na Freguezia de S. Christovaõ de Rio-Tinto
-ha minas de <i>Talco</i> taõ<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> bom, que se conduz por negocio para
-muitas partes. <i>Chumbo</i> se extrahe de Aremenha. Que diremos das
-grandes cantarias de tantas variedades de pedras, quantas vemos em todo
-o Reino? Os marmores brancos taõ admiraveis, que se tiraõ da Villa
-de Estremoz: os pretos de Cintra: os vermelhos, azuis, amarellos, e
-pardos de Pedro Pinheiro, com os quaes se fabricou o Real Templo de
-Mafra, que, com o adorno de tanta diversidade de pedras, bem podemos
-dizer, que he huma joya preciosa, ou hum vistoso ramalhete, em que está
-unida a robustez com a delicadeza, o natural com o artificioso. Com
-igual estimaçaõ vemos os pórfidos de Setubal, e os celebrados marmores
-da serra da Arrabida, e os de Montes Claros, e os de Villa Viçosa,
-dos quaes se tem aproveitado ainda os melhores edificios de terras
-estranhas.<a id="FNanchor_315" href="#Footnote_315" class="fnanchor">[315]</a></p>
-
-<p>11 Naõ longe de Coimbra ha huma casta de pedra muy clara, e lustrosa,
-mas taõ branda, que basta qualquer prego sem maceta para a lavrar.<a id="FNanchor_316" href="#Footnote_316" class="fnanchor">[316]</a>
-Outra mais admiravel se produz no Lugar das Antas, termo da Villa da
-Arruda, com a qual costumaõ ladrilhar os fornos, em que se coze o paõ;
-porque tem ella tal virtude, e calor intrinseco, que basta receber pela
-manhã a quentura sufficiente, para a conservar todo o dia, sem ser
-necessario renovar-se o fogo, ou administrarlhe mais lenha.<a id="FNanchor_317" href="#Footnote_317" class="fnanchor">[317]</a> A esta
-especie podemos ajuntar as pedras molares de Cezimbra, e Porto de Mós,
-e as admiraveis pederneiras de espingarda, que ha por Alcantara junto
-de Lisboa, com todas as suas pedreiras matrizes de muita differença de
-pedra, que com a falta de curiosidade inda ignoramos.</p>
-
-<p>12 Poucas terras levaráõ vantagem à nossa na<span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span> producçaõ dos
-<i>Barros</i> finos, aptos para a fabrica de cousas domesticas.
-Entre todos merece o primeiro lugar o barro vermelho, e odorifero
-de Estremoz, de que se fazem preciosos pucaros, os quaes naõ só tem
-a galantaria de ficarem prezos, e pendurados nos beiços, quando por
-elles se bebe, mas tem a virtude bezoartica, e alexifarmaca, com que
-se extenuaõ as qualidades do veneno,<a id="FNanchor_318" href="#Footnote_318" class="fnanchor">[318]</a> pelo que he bem merecida
-a estimaçaõ, que em toda a parte lograõ. Em Roma no Museo do Padre
-Kirker, e Bonani, que se conserva no Collegio dos Padres Jesuitas,
-os vimos com especial recato; e em muitos gabinetes de Monsenhores,
-e Principes de Italia constituem naõ pequeno adorno. Depois destes
-seguem-se os de Lisboa, chamados pucaros da Maya, ou do Romaõ, feitos
-com summa delicadeza, e formosura especialmente aquelles, a que chamaõ
-de alètria, de hum barro tambem odorifero, com os quaes lá lhe achou
-huma bella analogia o discreto Camões<a id="FNanchor_319" href="#Footnote_319" class="fnanchor">[319]</a> para comparar as formosas
-Damas Lisbonenses. Os de Montermór o Novo, Sardoal, Aveiro, e Pombal
-saõ fabricados de barros igualmente selectos, naõ sendo para desprezar
-a louça de barro, que se fabrica na Villa das Caldas.</p>
-
-<p>13 De <i>Azeviche</i> ha muitos mineraes, mayormente na Villa da
-Batalha, de que se fazem curiosos brinquinhos, e figuinhas, as quaes
-trazidas à vista dizem que saõ contra o quebranto, e fantasmas
-melancolicas:<a id="FNanchor_320" href="#Footnote_320" class="fnanchor">[320]</a> por isso rara he a criança neste Reino, que naõ ande
-armada de muitas destas figas contra o máo olhado. O Padre Eusebio
-Nieremberg<a id="FNanchor_321" href="#Footnote_321" class="fnanchor">[321]</a> approva a virtude natural do azeviche para este
-effeito, mas condemna a effigie.</p>
-
-<p>14 A formosura do <i>Coral</i> nos contribue muitas<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> vezes o mar de
-Peniche, lançando-o pelas prayas em ramos, e esgalhos bem galantes, de
-que temos visto alguns. O <i>Vermelhaõ</i> se colhe no rio Minho, donde
-tomou o nome, e de que falla Justino.<a id="FNanchor_322" href="#Footnote_322" class="fnanchor">[322]</a> No tempo delRey D. Manoel se
-descubriraõ minas de vermelhaõ, e de <i>Azougue</i>.<a id="FNanchor_323" href="#Footnote_323" class="fnanchor">[323]</a> O cheiroso
-<i>Ambar</i> acha-se algumas vezes pelos areaes de Troya defronte
-de Setubal, que o mar lança fóra, quando tem andado tempestuoso. O
-<i>Salitre</i> naõ falta pelas grutas de Alcantara.<a id="FNanchor_324" href="#Footnote_324" class="fnanchor">[324]</a></p>
-
-<p>15 O <i>Sal</i> se coalha copiosamente nas muitas marinhas, que ha em
-Aveiro, Santo Antonio do Tojal, e em Setubal, bastando só os direitos
-Reaes destas salinas de Setubal para satisfazerem aos Hollandezes
-os milhões, que se obrigou o Reino a pagarlhe pelo Tratado da liga
-defensiva, concluindo-se o anno de 1703 o seu ultimo pagamento.
-Bastante prova he desta fertilidade o grande numero de navios
-estrangeiros, que continuamente vemos em nossos portos a fazerem
-carregações do sal, que lá nas suas terras naõ tem: e he isto taõ
-antigo, que affirma Pedro de Mariz<a id="FNanchor_325" href="#Footnote_325" class="fnanchor">[325]</a> verse em tempo delRey D.
-Pedro I. nos portos de Lisboa, e Setubal muitas vezes quatrocentos, e
-quinhentos navios a esta carga, e outras nossas mercadorias. Seguia-se
-tratarmos agora do Commercio do Reino; mas como reservamos esta
-noticia para quando descrevermos Lisboa, primario archivo de todas as
-grandezas, e trafegos de Portugal, passemos à averiguaçaõ das moedas,
-que se tem lavrado, com toda a sua diversidade, e valor.</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_286" href="#FNanchor_286" class="label">[286]</a> 1 Machab. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_287" href="#FNanchor_287" class="label">[287]</a> Plinio lib 33. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_288" href="#FNanchor_288" class="label">[288]</a> Strab. lib. 3. de Situ Orbis: <i>Nec in alia parte
-terrarum tot sæculis hæc fertilitas.</i> Plin. alleg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_289" href="#FNanchor_289" class="label">[289]</a> Justin. lib. 44.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_290" href="#FNanchor_290" class="label">[290]</a> Costa, Corograf. Port. tom. 1. p. 374 e 452.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_291" href="#FNanchor_291" class="label">[291]</a> Ibid. tom. 3. p. 337. Argot. Antig. da Chancel. de Brag.
-p. 224. e 332.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_292" href="#FNanchor_292" class="label">[292]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_293" href="#FNanchor_293" class="label">[293]</a> Ibid. Monarq. Lusit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_294" href="#FNanchor_294" class="label">[294]</a> Silio Italico, Martial, e outros apud Maced. Flor. de
-Hespanh. cap. 4. excel 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_295" href="#FNanchor_295" class="label">[295]</a> Duarte Nun. Descripç. de Portug. cap. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_296" href="#FNanchor_296" class="label">[296]</a> Resend Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 61. Marian. lib.
-25. c. 11. Osor. liv. 2. de Reb. Emman. Andrad Chron. delRey D. Joaõ
-III. part 3. cap. 15.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_297" href="#FNanchor_297" class="label">[297]</a> Freitas de Justo Imperio Lusit. cap. 16. <i>Ita ut ante
-Indiæ explorationem nullum ex Europæis Regnum opulentius Lusitano
-inveniretur.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_298" href="#FNanchor_298" class="label">[298]</a> Botelh. no Alfonso da impressaõ de Salamanc. ann. 1731
-liv. 10. est. 76. &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_299" href="#FNanchor_299" class="label">[299]</a> Far. na Europ. Portug. tom. 3 part. 3. cap. 8. n. 10.
-Corograf. Port. tom. 3. p. 171.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_300" href="#FNanchor_300" class="label">[300]</a> Plin. lib. 33. c. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_301" href="#FNanchor_301" class="label">[301]</a> Duart Nun Descripç. de Port. cap. 14. Memor. instruct
-tom. 1. p. 210.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_302" href="#FNanchor_302" class="label">[302]</a> Duart Nun. Descripç. de Portug. p. 44.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_303" href="#FNanchor_303" class="label">[303]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. p. 183. Corograf. Port.
-tom. 2. p. 513.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_304" href="#FNanchor_304" class="label">[304]</a> Bluteau, Vocab. verb. <i>Turqueza</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_305" href="#FNanchor_305" class="label">[305]</a> Corograf. Portug. tom. 3. pag. 52. Blut. verb.
-<i>Jacintho</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_306" href="#FNanchor_306" class="label">[306]</a> Memor. instruct. tom. 1. pag. 112.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_307" href="#FNanchor_307" class="label">[307]</a> Boter. Relaç. Univ. part. 1. liv. 1. Avila, Grand de
-Madrid. liv. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_308" href="#FNanchor_308" class="label">[308]</a> Xivier part. 5. Pontif. lib. 3. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_309" href="#FNanchor_309" class="label">[309]</a> Serões do Princip. part. 1. disc. 6. § 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_310" href="#FNanchor_310" class="label">[310]</a> Corogr. Port. tom 2. p. 393.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_311" href="#FNanchor_311" class="label">[311]</a> Duart Nun. Descr. de Port. p. 42.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_312" href="#FNanchor_312" class="label">[312]</a> Sever. Notic. de Port. disc. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_313" href="#FNanchor_313" class="label">[313]</a> Duart. Nun Descripç. de Port. p. 42.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_314" href="#FNanchor_314" class="label">[314]</a> Corogr. Port. tom. 1. p. 244. e 374. Monarq Lusit. liv.
-16. cap. 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_315" href="#FNanchor_315" class="label">[315]</a> Duart. Nun. Descripç. de Portug. p. 45. Luiz Mendes no
-Sitio de Lisb. p. 192.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_316" href="#FNanchor_316" class="label">[316]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. p. 183.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_317" href="#FNanchor_317" class="label">[317]</a> Rodrig. Mend. da Silv. na Poblac. gener. de Hesp. p.
-130. e Duart. Nunes ut supr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_318" href="#FNanchor_318" class="label">[318]</a> Aldrovand. in Musæo Metal. lib. 2. pag. 229. Curvo na
-Polyanth. p. 592. mihi n. 15. Fonseca no Aquil. p 210.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_319" href="#FNanchor_319" class="label">[319]</a> Cam. cart. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_320" href="#FNanchor_320" class="label">[320]</a> Dioscorid. lib. 5. cap. 103. Plin. liv. 25. cap. 10. S.
-August. de Civit. Dei cap. 91.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_321" href="#FNanchor_321" class="label">[321]</a> Nieremb. Filosof. Natur.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_322" href="#FNanchor_322" class="label">[322]</a> Justin. lib. 44. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_323" href="#FNanchor_323" class="label">[323]</a> Monarq. Lusit. tom. 5. p. 80.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_324" href="#FNanchor_324" class="label">[324]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. p. 216.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_325" href="#FNanchor_325" class="label">[325]</a> Mariz Dialog. 3. cap. 6.</p>
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XII">CAPITULO XII.<br><span class="small"><i>Das Moedas de ouro, prata, e cobre antigas; e modernas, que se tem
-lavrado em Portugal.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 As moedas mais antigas, de que ha noticia em o nosso Reino, saõ as
-do famoso Sertorio, Capitaõ Romano, o qual vindo a Portugal no anno
-83 antes de Christo com o projecto de se fazer senhor de Hespanha,
-mandou bater moedas. Tinhaõ de huma parte esculpido o seu rosto de meyo
-perfil, e da outra banda a figura de huma corça, como offerece huma
-estampada o erudito Chantre de Evora Manoel Severim de Faria.<a id="FNanchor_326" href="#Footnote_326" class="fnanchor">[326]</a> Era
-ella de prata do tamanho de seis vintens, e semelhante a esta foraõ
-achadas outras. Foy isto muito antes dos Imperadores Romanos.</p>
-
-<p>2 Com a morte porém de Sertorio, ficando a nossa Lusitania reduzida
-a Provincia sujeita ao Imperio Romano, o dinheiro que entaõ corria
-nestas partes, era o mesmo de Roma; e ainda que se achaõ algumas moedas
-daquelle tempo abertas em algumas Cidades, e terras nossas, era por
-especial privilegio dos Imperadores, dos quaes se tem descuberto em
-todas as nossas Provincias muita quantidade das de ouro, prata, e
-cobre, como referem o mencionado Severim, e outros.<a id="FNanchor_327" href="#Footnote_327" class="fnanchor">[327]</a></p>
-
-<p>3 Acabado o Imperio dos Romanos, seguiraõ-se os Godos; e desde o anno
-411 de Christo até o de<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span> 570, que he o em que governou Leovigildo com
-poder absoluto, tambem naõ ha memoria de moeda alguma. De Leovigildo
-até D. Rodrigo, ultimo Rey Godo, achaõ-se algumas, ainda que mal
-abertas, de ouro, e prata, como as expressa o allegado Severim no §. 3.
-Fr. Bernardo de Brito diz, que no tempo do Rey Godo Flavio Recaredo, o
-qual morreo pelos annos de Christo 601 havia moedas de ouro, e prata
-batidas em diversas partes da Lusitania; e que além da que refere
-Ambrosio de Morales batida em Evora com seu rosto de ambas as partes, e
-a letra de seu nome com a outra ELBORA. JUSTOS; conservava elle em seu
-poder outra de ouro baixo com seu rosto esculpido grosseiramente, e no
-reverso huma Cruz com esta letra OLISBONA, PIUS. Donde se deixa ver,
-que havia em Lisboa officina de bater moeda em tempo deste Rey. Tambem
-diz que vira outra do Rey Svintila, de ouro, batida na Cidade de Evora,
-com seu rosto de huma parte, e ao redor SVINTILA REX: da outra banda
-huma Cruz com esta bordadura: EBORA VICTOR. Vencedor em Evora. Sem
-embargo de que o Padre Argote diga, que naõ vira em Author algum moeda
-de prata do tempo dos Godos.<a id="FNanchor_328" href="#Footnote_328" class="fnanchor">[328]</a></p>
-
-<p>4 Seguiraõ-se depois os Mouros no anno de 714, ou 716, e introduziraõ
-as suas moedas por toda a Hespanha em todos os tres generos de
-metal, ouro, prata, e cobre, de que se tem achado ainda algumas,
-principalmente no Alentejo, e terras do Algarve, e nós vimos bastantes
-de prata com certos caracteres Arabicos, que se descubriraõ em Loulé.
-Hum dos dinheiros, de que usavaõ os Mouros, era chamado Maravedi, e
-permaneceo tanto em Hespanha, que até o reinado delRey D. Fernando
-I. de Leaõ todas as computações das contas se faziaõ por<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> maravedis,
-assim como nós as fazemos agora pela valia de reis. Pouco depois se
-estabeleceo a Monarquia Portugueza com Reys proprios, e das moedas, que
-estes mandaraõ lavrar, e das que presentemente correm, faremos huma
-resumida memoria pelo estylo, que observamos.</p>
-
-<p>5 <i>Alfonsim</i>. Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Affonso IV. que
-delle tomou o nome, com o consentimento do Clero, e Povo.<a id="FNanchor_329" href="#Footnote_329" class="fnanchor">[329]</a> Era
-de tres qualidades, cobre, prata, e ouro: o Alfonsim de cobre valia
-pouco mais de hum real dos nossos: o de prata era do tamanho de hum
-tostaõ, e valia pouco mais de quarenta reis. Tinha de huma parte sobre
-o nome <i>Alfo</i> huma coroa, e por baixo do nome delRey havia humas,
-que tinhaõ a letra <i>L</i>, por serem abertas em Lisboa, outras a
-letra <i>P</i>, por serem feitas no Porto, e pela orla tinhaõ esta
-inscripçaõ: <i>Adjutorium nostrum in nomine Domini</i>. O mesmo se lia
-da outra parte, onde estavaõ os cinco escudos do Reino postos em Cruz.
-O Alfonsim de ouro valia quinhentos e tantos reis.<a id="FNanchor_330" href="#Footnote_330" class="fnanchor">[330]</a> Todas estas
-moedas tinhaõ o mesmo cunho.</p>
-
-<p>6 <i>Aureo</i>. Foy moeda, que correo no tempo delRey D. Sancho II.
-pelos annos 1240, como se acha em escrituras publicas. O Reverendo
-Padre Fr. Francisco de Santa Maria em hum Tratado, que fez das moedas
-de Portugal, e anda incorporado no tom. 4. da Historia Genealogica da
-Casa Real a pag. 261. he de parecer, que esta moeda fosse daquellas
-mesmas dobras de ouro, que fez lavrar ElRey D. Sancho I. com a sua
-figura armado a cavallo, com a espada na maõ, e a letra: <i>Sancius Rex
-Portugaliæ</i> de huma banda, e da outra os cinco escudos em Cruz, que
-nós chamamos quinas, e dentro em cada hum cinco dinheiros naõ mais,
-e a letra à<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span> roda: <i>In nomine Patris, &amp; Filii, &amp; Spiritus Sancti.
-Amen</i>;<a id="FNanchor_331" href="#Footnote_331" class="fnanchor">[331]</a> e sendo esta tal moeda, valia o tal Aureo pouco mais de
-cento e vinte reis da nossa moeda corrente, e he a mais antiga, que se
-acha no Reino.</p>
-
-<p>7 <i>Barbuda</i>, ou <i>Celada</i>. Foy moeda de prata muito ligada,
-que mandou lavrar ElRey D. Fernando com o valor de 36 reis. De huma
-parte tinha hum capacete com viseira, e peito de malha, a que tudo
-chamavaõ Barbuda, ou Celada, donde tomou o nome, e em cima huma
-coroa, e pela orla da moeda a letra: <i>Si Dominus mihi adjutor,
-non timebo</i>: da outra parte huma Cruz da Ordem de Christo, que
-tomava todo o vaõ, e no meyo da Cruz hum escudo pequeno com as quinas
-de Portugal, e nos angulos da Cruz quatro castellos, e em roda a
-letra: <i>Fernandus Rex Portugaliæ, Alg.</i> No tom. 4. da Historia
-Genealogica da Casa Real vem aberta a sua figura, cuja circumferencia
-se póde ver melhor, que por informaçaõ dos Authores, os quaes discrepaõ
-muito nas medidas da sua grandeza.</p>
-
-<p>8 <i>Calvario.</i> Era certa moeda de ouro de 22 quilates, e tambem
-chamavaõ cruzados, que mandou lavrar ElRey D. Joaõ III. com o valor de
-quatrocentos reis, que depois subio a seiscentos reis. Tinha de huma
-parte a Cruz sobre o monte Calvario, que daqui tomou o nome, com a
-letra em roda: <i>In hoc signo vinces</i>: da outra banda o escudo Real
-coroado, e a letra: <i>Joann. III. Port. &amp; Algarb. R. D. Guin.</i></p>
-
-<p>9 <i>Ceitil.</i> Mandou lavrar esta moeda de cobre ElRey D. Joaõ I.,
-ou na occasiaõ em que tomou a Cidade de Ceuta aos Mouros, como dizem
-alguns Authores, ou porque era cada dinheiro destes a sexta parte de
-hum real de cobre, e por isso ceitil he o mesmo, que sextil, e esta nos
-parece a mais verdadeira<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> deducçaõ. Lavraraõ-na os Reys successores até
-ElRey D. Sebastiaõ.<a id="FNanchor_332" href="#Footnote_332" class="fnanchor">[332]</a></p>
-
-<p>10 <i>Conceiçaõ.</i> Esta moeda mandou lavrar ElRey D. Joaõ IV. em
-ouro, e em prata no anno de 1648. A de ouro valia doze mil reis: tinha
-de huma parte a effigie da Senhora da Conceiçaõ com tres symbolos deste
-Mysterio por cada lado, e em circulo as letras: <i>Tutelaris Regni</i>:
-da outra parte estavaõ as armas Reaes no meyo de huma Cruz da Ordem de
-Christo, e na cercadura: <i>Joannes IIII. D. G. Portugaliæ, &amp; Algarbiæ
-Rex</i>. A de prata tinha o mesmo cunho, mas era de mayor diametro, que
-os cruzados novos, e corria com o valor de seiscentos reis. A origem,
-que houve para se cunhar esta moeda, foy assim:</p>
-
-<p>11 Depois que o felicissimo Rey D. Joaõ IV. fez tributario o Reino de
-Portugal à Conceiçaõ da Senhora em cincoenta cruzados de ouro cada
-anno, applicados para a sua Real Capella de Villa Viçosa, jurando, e
-tomando neste Mysterio a Senhora por Protectora do Reino em Cortes do
-anno de 1646<a id="FNanchor_333" href="#Footnote_333" class="fnanchor">[333]</a> tratou logo de lhe pagar o tributo em moeda especial,
-e para isso mandou abrir a França hum cunho da fórma, que temos dito,
-o qual trouxe, e fez Antonio Ruiter, a quem se deu tres mil reis, que
-dispendeo com a abertura do ferro, como consta do liv. 1. do Registo
-da Casa da Moeda pag. 256. vers. donde inserimos, que o primeiro anno,
-em que ElRey fez a sobredita offerta, seria no anno de 1648, por ser
-este anno o que se vê expresso na sobredita moeda, a qual desde o anno
-de 1651 principiou a ser moeda corrente pela ley, que sahio para isso.
-E sem embargo de que no tom. 4. da Historia Genealogica da Casa Real
-pag. 287. se diga, que humas,<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> e outras moedas corriaõ com pezo de huma
-onça, foy equivocaçaõ; porque da mesma ley, que vem no dito tomo a pag.
-359. se vê, que as de ouro corriaõ com o pezo de doze oitavas, e valiaõ
-por doze mil reis; e as de prata com pezo de huma onça, e corriaõ por
-seis tostões: e pezo de doze oitavas he onça e meya.</p>
-
-<p>12 ElRey D. Affonso VI. continuou tambem a mandar lavrar as sobreditas
-moedas em todo o tempo do seu governo, e da mesma sorte ElRey D. Pedro
-II. e nesta moeda se fazia a offerta de vinte e quatro mil reis no dia
-da festa da Conceiçaõ, em cujo dia trazem pendente ao pescoço os tres
-Officiaes, que administraõ a Casa da Senhora, huma das taes moedas. No
-anno porém de 1685 teve fim a fabrica destas moedas, porque desde entaõ
-nunca mais se lavrarão, entregando-se os referidos vinte e quatro mil
-reis em outra qualquer moeda para a despeza da festa de Villa Viçosa.</p>
-
-<p>13 <i>Coroa.</i> Foy moeda de ouro, que mandou lavrar ElRey D. Duarte
-com o valor de 216 reis. ElRey D. Manoel tambem a mandou lavrar, e
-valia 120 reis: chamava-se <i>Meya coroa</i>. Este preço conservou até
-o reinado delRey D. Joaõ III. e ElRey D. Sebastiaõ.<a id="FNanchor_334" href="#Footnote_334" class="fnanchor">[334]</a></p>
-
-<p>14 <i>Cruzado.</i> Quando o Papa Pio II. mandou a Bulla da Cruzada para
-a guerra santa contra os Turcos, ordenou ElRey D. Affonso V. que se
-lavrasse huma moeda de ouro subido de 24. quilates, e que se chamasse
-cruzado em reverencia da Bulla, e com o valor de 400 reis. Tinha de
-huma parte a Cruz de S. Jorge com a letra: <i>Adjutorium nostrum in
-nomine Domini</i>; e da outra o escudo Real com a coroa sobre a Cruz
-da Ordem de Aviz com estas letras: <i>Cruzatus Alphonsi Quinti R.</i>
-Manoel de Faria<span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span><a id="FNanchor_335" href="#Footnote_335" class="fnanchor">[335]</a> mostra que vio huma moeda destas com differente
-cunho. No anno de 1561 valia cada cruzado destes 500 reis, e depois
-foraõ subindo ao valor de 600 reis, e deste ao de 640.<a id="FNanchor_336" href="#Footnote_336" class="fnanchor">[336]</a></p>
-
-<p>15 Presentemente correm cruzados novos de ouro, que mandou lavrar
-ElRey D. Joaõ V. desde o anno de 1718 com o valor intrinseco de 400
-reis, e na estimaçaõ commua de 480. Por Decreto de 8 de Fevereiro de
-1730 mandou o mesmo Senhor que se lavrasse nas Minas quartos de escudo
-de ouro com o valor extrinseco de 400 reis cada hum, e intrinseco de
-375 reis, tendo de huma banda o retrato delRey, e da outra na parte
-superior huma coroa Real, na inferior a era, em que se fabricaõ, e na
-circumferencia o nome delRey. A esta moeda chamamos cruzado, dos quaes
-já naõ ha muitos.</p>
-
-<p>16 ElRey D. Joaõ IV. mandou lavrar cruzados de prata com o valor de 400
-reis, e meyos cruzados com 200 reis de valia. Depois foraõ subindo até
-o reinado delRey D. Pedro II. que levantou os cruzados a seis tostões,
-e os meyos cruzados a tres tostões, mandando tambem lavrar cruzados
-novos de prata com o valor de 480, e meyos cruzados com o de 240, a
-que presentemente chamamos doze vintens, e que ainda correm nos nossos
-tempos.</p>
-
-<p>17 <i>Dinheiro.</i> Foy moeda de cobre, que tinha de huma banda a Cruz
-da Ordem de Christo com duas estrellas, e duas meyas luas nos vaõs, e
-a letra <i>A. Rex Portugaliæ</i>: da outra parte tinha as cinco quinas
-com a letra: <i>Algarbii</i>. Valia hum ceitil menos hum decimo. Destes
-dinheiros faz mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. §. 17.</p>
-
-<p>18 <i>Dobra.</i> Moeda de ouro de varias castas: <i>Portuguezas</i>,
-<i>Castelhanas</i>, <i>Mouriscas</i>, ou <i>Barbariscas</i>. As
-Portuguezas chamavaõ-se <i>Cruzadas</i>, que mandou lavrar ElRey D.
-Diniz com o valor de 270 reis: outras<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> se chamaõ <i>Dobras delRey D.
-Pedro</i>, e valiaõ 147 reis. Das Dobras Castelhanas havia humas, que
-se chamavaõ da <i>Banda</i>, por serem lavradas por ElRey D. Affonso
-XI. de Castella, e tinhaõ de huma parte a banda, insignia da Ordem
-Militar, que o mesmo Rey instituio, e valiaõ 216 reis: com este nome
-faz dellas mençaõ a Ordenaçaõ velha liv. 4. tit. 1. Tambem se chamavaõ
-<i>Valedias</i>, porque valiaõ, e corriaõ em Portugal. Havia outras
-dobras com o nome de <i>Dona Branca</i>, e outras <i>Sevilhanas</i>,
-que mandou bater em Sevilha ElRey D. Affonso o <i>Sabio</i>, e valiaõ
-600 reis. Tinhaõ de huma parte ElRey armado a cavallo com a espada na
-maõ, e a letra em roda: <i>Dominus mihi adjutor</i>: da outra parte
-as armas de Castella, e Leão com o letreiro: <i>Alfons. R. Castellæ,
-&amp; Leg</i>.<a id="FNanchor_337" href="#Footnote_337" class="fnanchor">[337]</a> As <i>Mouriscas</i>, ou <i>Barbariscas</i> valiaõ 270
-reis. ElRey D. Pedro I. mandou lavrar <i>Meyas dobras</i> com o valor
-de 73 reis e meyo.</p>
-
-<p>19 <i>Ducataõ de ouro.</i> Quando ElRey D. Sebastiaõ foy a Guadalupe,
-mandou lavrar esta moeda: huma com o valor de quarenta mil reis, outra
-de trinta, outra de dez cruzados.<a id="FNanchor_338" href="#Footnote_338" class="fnanchor">[338]</a></p>
-
-<p>20 <i>Engenhoso.</i> Foy moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D.
-Sebastiaõ no anno de 1562 com o valor de 500 reis. Tinha de huma parte
-a Cruz com a letra: <i>In hoc signo vinces</i>; e da outra banda
-o escudo do Reino com a letra: <i>Sebastian. I. Rex Portugal.</i>
-Chamou-se esta moeda do Engenhoso, por assim se chamar Joaõ Gonçalves,
-natural de Guimarães, que fez o cunho. Ordenou o elle de sorte, que as
-moedas sahiaõ fundidas de pezo, e com hum circulo ao redor para naõ se
-poderem cercear.<a id="FNanchor_339" href="#Footnote_339" class="fnanchor">[339]</a></p>
-
-<p>21 <i>Escudo.</i> Moeda de ouro com muita liga, que mandou fazer ElRey
-D. Duarte com a valia de 90 reis. ElRey D. Manoel a mandou desfazer.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p>
-
-<p>22 <i>Espadim.</i> Houve neste Reino moedas com este mesmo nome de
-tres castas. <i>Espadins de ouro</i> mandou-os lavrar ElRey D. Joaõ II.
-com o valor de 320 reis. Tinha de huma parte o escudo do Reino com a
-letra: <i>Adjutorium nostrum in nomine Domini</i>; e do reverso huma
-espada empunhada com a ponta para cima, e em circulo o nome delRey. Em
-tempo delRey D. Manoel valia 500 reis. <i>Espadins de prata</i>, que
-mandou abrir ElRey D. Affonso V. com o mesmo cunho que os de ouro, só
-com a differença de ter a ponta da espada voltada para baixo. Chamou-se
-Espadim em memoria da Ordem da Espada, que instituio para a Conquista
-de Fez, como diz Severim.<a id="FNanchor_340" href="#Footnote_340" class="fnanchor">[340]</a> Valiaõ 24 reis. <i>Espadins de cobre</i>
-prateados mandou bater ElRey D. Joaõ II. com o valor de quatro reis.</p>
-
-<p>23 <i>Forte.</i> Com este nome mandou lavrar ElRey D. Diniz huma moeda
-de prata com o valor de dous vintens, ou quarenta reis; e meyos Fortes,
-que valiaõ hum vintem. Tinha hum, e outro de huma parte o habito de
-Christo com a letra: <i>Dionysius Rex Portugal. &amp; Algarb.</i> da outra
-parte as armas do Reino, e a letra: <i>Ajutorium nostrum in nomine
-Domini</i>. Houve outros Fortes, e meyos Fortes, que fez bater ElRey D.
-Fernando em preço de 29 reis, que depois abateo a 16.</p>
-
-<p>24 <i>Frizante.</i> Foy moeda de prata, que corria no tempo de nossos
-primeiros Reys, mas naõ se sabe de que valor era. A Monarquia Lusitana
-faz mençaõ desta moeda.<a id="FNanchor_341" href="#Footnote_341" class="fnanchor">[341]</a></p>
-
-<p>25 <i>Gentil.</i> ElRey D. Fernando mandou lavrar esta moeda de ouro,
-mas de quatro castas. Havia Gentil de hum ponto, e valia 162 reis:
-Gentil de dous pontos 144 reis: Gentil de tres pontos 126 reis: Gentil
-de quatro pontos 116 reis. Fr. Antonio<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> da Purificaçaõ<a id="FNanchor_342" href="#Footnote_342" class="fnanchor">[342]</a> diz, que o
-Gentil delRey D. Fernando valia 720 reis.</p>
-
-<p>26 <i>Grave.</i> Moeda de prata, que mandou bater ElRey D. Fernando do
-tamanho de meyo tostaõ, e valia 21 real. Tinha de huma parte a letra
-<i>F</i>, primeira do seu nome, e sobre ella huma coroa dentro em hum
-escudo, e nos lados duas Cruzes, com a letra na orla: <i>Si Dominus
-mihi adjutor</i>. No reverso tinha a Cruz de S. Jorge sobre hum escudo
-rodeado de quatro castellos, e o nome do Rey na cercadura.</p>
-
-<p>27 <i>Indios.</i> Mandou ElRey D. Manoel no anno de 1499 lavrar esta
-moeda de prata com o valor de 33 reis em memoria do descubrimento da
-India. Tinha de huma parte a Cruz da Ordem de Christo com o letreiro:
-<i>In hoc signo vinces</i>; e da outra parte as armas do Reino com a
-letra: <i>Primus Emanuel</i>.</p>
-
-<p>28 <i>Justo.</i> Esta moeda era de ouro, que mandou fazer ElRey D.
-Joaõ II. e valia 600 reis. De huma parte tinha o escudo Real já com as
-quinas direitas sem a Cruz de Aviz, e o nome delRey na cercadura; e no
-reverso tinha a effigie delRey sentado em hum throno com a espada na
-maõ entre dous ramos de palma, e a letra em roda: <i>Justus ut palma
-florebit</i>.</p>
-
-<p>29 <i>Leal.</i> Era moeda de prata, que mandou fazer ElRey D. Joaõ
-II. com valor de doze reis. Tinha de huma parte a letra <i>Leal</i>
-por baixo de huma Cruz; e da outra parte o escudo do Reino com o nome
-delRey na orla.</p>
-
-<p>30 <i>Livra.</i> Foy moeda lavrada em varios reinados, e de varias
-castas, donde procede a alteraçaõ de seu valor. A <i>Livra de ouro</i>
-em tempo delRey D. Diniz valia oito vintens: o mesmo valor tinha já
-no reinado delRey D. Affonso III. No tempo delRey D. Joaõ I. valiaõ
-pouco mais de 82 reis. A <i>Livra<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> de prata</i> era de dous generos:
-<i>Antigas</i>, e <i>novas</i>. Havia livras antigas, por cada huma das
-quaes se haviaõ de pagar setecentas das novas, e assim valia cada huma
-das antigas 36 reis: e havia tambem livras antigas, por cada huma das
-quaes se pagava quinhentas das novas, e entaõ valia cada huma 25 reis.
-A <i>Livra de cobre</i> era de tres sortes; porque havia livra de dez
-soldos, que valiaõ tres reis e meyo: livras de dez livras pequenas, e
-valiaõ meyo real: livras de tres livras e meya, que valiaõ real e meyo,
-e corriaõ até o anno de 1407.</p>
-
-<p>31 <i>Maravedim</i>, ou <i>Morabitino</i>. Foy moeda, que introduziraõ
-no Reino os Mouros Almoravides, ou Morabitos, que significa
-<i>Fieis</i>, segundo o mostra Aldrete.<a id="FNanchor_343" href="#Footnote_343" class="fnanchor">[343]</a> Havia maravedim de ouro,
-que mandou lavrar ElRey D. Sancho I. com o valor de 500 reis. Tinha
-de huma parte a effigie delRey a cavalo com a espada nua na maõ, e
-pela orladura: <i>In nomine Patris, &amp; Filii, &amp; Spiritus Sancti.</i>
-No reverso tinha o escudo Real, e o nome delRey em gyro. Os maravedís
-Mouriscos naõ tinhaõ mais que huns caracteres, ou attributos de Deos de
-huma parte, e da outra, o nome do Principe, que os mandara abrir. Houve
-tambem maravedís de prata, que corriaõ com o valor de 27 reis.</p>
-
-<p>32 <i>Mealha.</i> Naõ era moeda, que tivesse cunho particular, mas era
-metade da moeda, que chamavaõ <i>Dinheiro</i>, e valia meyo ceitil.</p>
-
-<p>33 <i>Nomeada.</i> Moeda de prata, que fez lavrar ElRey D. Joaõ I. e
-seu filho ElRey D. Duarte. Naõ se sabe o que valia. Tinha de huma banda
-a Cruz de S. Jorge com a letra: <i>Dominus adjutor fortis</i>; e da
-outra o escudo do Reino com o nome delRey na circumferencia.</p>
-
-<p>34 <i>Patacaõ.</i> Era moeda de cobre com o valor<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> de dez reis, que
-mandou fazer ElRey D. Joaõ III. Tinha de huma parte o escudo Real
-coroado com o nome delRey, e da outra parte a letra <i>X</i>, com a
-inscripçaõ: <i>Rex Quintusdecimus</i>. Havia tambem meyos patacões com
-a letra <i>V</i>, que valiaõ cinco reis. ElRey D. Sebastiaõ reduzio
-esta moeda ao valor de tres reis.</p>
-
-<p>35 <i>Peças.</i> Moeda de ouro, que corria no tempo do Infante D.
-Pedro, Duque de Coimbra. ElRey D. Joaõ II. a mandou desfazer.</p>
-
-<p>36 <i>Pé-Terra.</i> Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Fernando com
-o valor de 216 reis.</p>
-
-<p>37 <i>Pilarte.</i> Foy moeda de prata, que lavrou ElRey D. Fernando
-com o valor de treze reis, e dous ceitis. O nome de Pilarte foy
-posto em attençaõ, ou memoria dos pagens dos soldados estrangeiros,
-que lhe levavaõ os capacetes, ou barbudas, a que o Francez chama
-<i>Pilartes</i>.</p>
-
-<p>38 <i>Portuguez.</i> ElRey D. Manoel, do ouro, que lhe vinha das
-Conquistas da Asia, fez lavrar humas moedas, que se chamaraõ
-<i>Portuguezes</i> de 500 ducados cada huma, e depois mandou lavrar
-outras, que valiaõ quatro mil reis. Destas houve tanta copia, que nas
-praças naõ se pagava por quasi todo o Reino com outra moeda, senaõ
-com a chamada Portuguezes de ouro.<a id="FNanchor_344" href="#Footnote_344" class="fnanchor">[344]</a> Tinha de huma parte a Cruz da
-Ordem de Christo, e a letra em roda: <i>In hoc signo vinces</i>; e da
-outra o escudo Real coroado com as letras: <i>E. R. P. A. C. U. A. D.
-G.</i> que queriaõ dizer: <i>Emmanuel Rex Portugaliæ, Algarb. q. Citra,
-Ultra Afric. Dommus Guineæ.</i> Tinha outro letreiro por fóra junto à
-garfila, ou orla: <i>C. C. N. E. A. P. I.</i> que dizia: <i>Comercio,
-Conquista, Navegaçaõ, Ethiopia, Arabia, Persia, India.</i> ElRey D.
-Joaõ III. tambem os mandou lavrar da mesma fórma. ElRey D. Joaõ V.
-mandou lavrar em Lisboa no anno de 1718 <i>Portuguezes<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> de ouro</i>
-de 22 quilates, e com o valor de 19200 cada Portuguez, os quaes foraõ
-sómente para se lançar nos alicerses da Real Igreja de Mafra. Tambem
-ElRey D. Manoel mandou fabricar <i>Portuguezes de prata</i> no anno de
-1504, e valia cada hum 400 reis. A estes Portuguezes depois resuscitou
-ElRey D. Joaõ IV., e ElRey D. Pedro II. chamando-lhe <i>Cruzados</i>.</p>
-
-<p>39 <i>Quatro vintens.</i> Mandou lavrar esta moeda de prata ElRey D.
-Joaõ III. que de huma parte tem o nome do Rey com coroa, e o numero
-LXXX. e na orla a letra: <i>Rex Portug. &amp; Algarb.</i> Da outra parte
-tem a Cruz de S. Jorge com a sabida inscripçaõ: <i>In hoc signo
-vinces.</i></p>
-
-<p>40 <i>Real.</i> Esta moeda a mandou lavrar em prata varias vezes ElRey
-D. Joaõ I. sempre com o mesmo valor, mas cada vez de menor pezo. Os
-primeiros valiaõ nove dinheiros, os segundos seis dinheiros. Até o
-tempo delRey D. Manoel corriaõ Reaes de prata com o valor de vinte
-reis, e outros de trinta. ElRey D. Joaõ III. tambem os mandou lavrar
-com o valor de quarenta reis, e com os mesmos cunhos da moeda de quatro
-vintens, mudando o numero 80 em 40. A mesma moeda fez lavrar D. Joaõ
-IV. e he o chamado meyo tostaõ, que hoje corre. Havia Real de cobre de
-varias sortes: huns tinhaõ mistura de estanho, com que ficavaõ mais
-claros, e se chamavaõ <i>Reaes brancos</i>. Mandou lavrallos ElRey D.
-Duarte, e D. Affonso V. Os que se lavraraõ antes do anno de 1446 valiaõ
-dez ceitis. Havia outros Reaes chamados <i>Pretos</i>, por serem de
-cobre puro, e valiaõ pouco mais de hum ceitil. ElRey D. Joaõ II. para
-desterrar tanta confusaõ de Reaes, fez lavrar Real de cobre de seis
-ceitis. O mesmo fizeraõ seus Successores até ElRey D. Joaõ III. Tinhaõ
-de huma parte hum <i>R</i>, debaixo de huma coroa, e da outra o escudo
-do Reino com o nome delRey na orla. ElRey D. Sebastiaõ fez lavrar
-<i>Meyos<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> Reaes</i> com a valia de tres ceitis: tinha de huma banda hum
-<i>S</i> coroado, e da outra hum <i>R</i> entre dous pontos.</p>
-
-<p>41 <i>Sinquinho.</i> Moeda de prata delRey D. Joaõ II. e D. Manoel:
-valia cinco reis. O delRey D. Manoel tinha de huma parte os cinco
-escudos do Reino em Cruz com as letras: <i>Emmanuel P. R. &amp; Al.</i> da
-outra huma malta com a mesma letra. Tambem ElRey D. Joaõ IV. fez lavrar
-Sinquinhos de prata.</p>
-
-<p>42 <i>Soldo.</i> Foy moeda das mais antigas do Reino lavrada em ouro,
-prata, e cobre. A de ouro valia oito reales, ou dezaseis vintens: a de
-prata dez reis: a de cobre hum real. Este soldo em tempo delRey D. Joaõ
-I. chamava-se <i>Moeda-Febre</i>.</p>
-
-<p>43 <i>Talento.</i> Corria esta moeda no governo delRey D. Sancho I. no
-anno de 1188, e valia quatro ducados, ou cruzados, e era de ouro.</p>
-
-<p>44 <i>Tornezes.</i> Moeda de prata em tempo delRey D. Pedro I. Tinha de
-huma parte a cabeça delRey com barba comprida, e a letra: <i>Petrus Rex
-Portugal. &amp; Algarbii</i>: da outra banda o escudo do Reino, e na orla
-a letra: <i>Deus adjuva me</i>. Valia treze reis. ElRey D. Fernando
-tambem lavrou <i>Tornezes</i>, que valiaõ oito soldos, ou quatorze reis.</p>
-
-<p>45 <i>Tostaõ.</i> ElRey D. Manoel mandou bater esta moeda em ouro, e
-em prata. A de ouro era o quarto de ouro dos <i>Portuguezes</i>: a de
-prata valia cem reis. Tinha de hum lado a Cruz da Ordem de Christo
-com a letra: <i>In hoc signo vinces</i>; e do outro as armas do Reino
-com coroa, e o nome do Rey na orladura. Mandou lavrar tambem <i>Meyos
-tostões</i> com os mesmos cunhos, e letras, e valiaõ cincoenta reis.</p>
-
-<p>46 <i>S. Vicente.</i> Moeda de ouro, que fez lavrar ElRey D. Joaõ III.
-com o valor de mil reis. Tinha de huma parte a imagem de S. Vicente com
-huma náo na maõ esquerda, e hum ramo de palma na direita com a letra:
-<i>Zelator Fidei usque ad mortem</i>:<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> da outra parte o escudo Real com
-a letra: <i>Joan. III. Rex Portug. &amp; Algarb.</i></p>
-
-<p>47 <i>Vintem.</i> Moeda de prata, que teve principio no tempo delRey
-D. Affonso V. e todos os mais Reys continuaraõ a mandar lavrar, ainda
-que com a fórma, e figura mudada, mas sempre com o valor de vinte reis.
-Em tempo dos Reys Filippes houve a moeda de meyo vintem em prata, que
-valia dez reis.</p>
-
-
-<p class="center p2 caption"><i>Dinheiro, que presentemente corre.</i></p>
-<table class="autotable">
-<tr><th>Em ouro.</th><th>Valor.</th><th>Pezo.</th></tr>
-<tr><td>Dobraõ de </td><td class="tdr">24U000 </td><td class="tdr">15 oitavas.</td></tr>
-<tr><td>Meyo dobraõ de </td><td class="tdr">12U800 </td><td class="tdr">1 onça.</td></tr>
-<tr><td>Dobra de 4 escudos </td><td class="tdr">6U400 </td><td class="tdr">4 oitavas.</td></tr>
-<tr><td>Meya dobra de 2 esc. </td><td class="tdr">3U200 </td><td class="tdr">2 oitavas.</td></tr>
-<tr><td>Moeda de ouro de </td><td class="tdr">4U800 </td><td class="tdr">3 oitavas.</td></tr>
-<tr><td>Meya moeda </td><td class="tdr">2U400 </td><td class="tdr">oitava e meya.</td></tr>
-<tr><td>Escudo </td><td class="tdr">1U600 </td><td class="tdr">1 oitava.</td></tr>
-<tr><td>Quarto de moeda </td><td class="tdr">1U200 </td><td class="tdr">54 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Meyo escudo </td><td class="tdr">U800 </td><td class="tdr"> meya oitava.</td></tr>
-<tr><td>Cruzado novo </td><td class="tdr">U480 </td><td class="tdr">21 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Quarto de escudo </td><td class="tdr">U400 </td><td class="tdr">18 grãos.</td></tr></table>
-<table class="autotable p2">
-<tr><th>Em prata.</th><th>Valor.</th><th>Pezo.</th></tr>
-<tr><td>Cruzado novo </td><td class="tdr">480 </td><td class="tdr">4 oitavas 59 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Doze vintens </td><td class="tdr">240 </td><td class="tdr">2 oitavas 29 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Seis vintens </td><td class="tdr">120 </td><td class="tdr">1 oitava 14 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Tostaõ </td><td class="tdr">100 </td><td class="tdr">1 oitava.</td></tr>
-<tr><td>Tres vintens </td><td class="tdr">60 </td><td class="tdr">43 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Meyo tostaõ </td><td class="tdr">50 </td><td class="tdr">36 grãos.</td></tr>
-<tr><td>Vintem </td><td class="tdr">20 </td><td class="tdr">17 grãos.</td></tr></table>
-<table class="autotable p2">
-<tr><th>Em cobre.</th><th>Valor.</th></tr>
-<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">10 reis.</td></tr>
-<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">5 reis.</td></tr>
-<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">3 reis.</td></tr>
-<tr><td>Moeda de</td><td class="tdr">1 real e meyo.</td></tr></table><p>
-<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p>
-
-<p>Por Ley do anno de 1732 prohibio ElRey D. Joaõ V. que se lavrassem
-Dobrões de doze mil e oitocentos, Moedas de quatro mil e oitocentos,
-nem outras, que excedaõ o valor de seis mil e quatrocentos reis; e que
-em todas, assim nas que corriaõ, como nas que se lavrassem, se pozesse
-a sarrilha, que tem as de prata.</p>
-
-<p class="center p2 caption">
- <i>Noticia, do valor, que tem tido o marco de ouro, e prata
- neste Reino em varios governos.</i></p>
-<table class="autotable">
-<tr><th>Rey.</th><th> Metal.</th><th> Valor.</th></tr>
-<tr><td>D. Sancho I. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 6U480.</td></tr>
-<tr><td>D. Pedro I. </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 7U380.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> U945.</td></tr>
-<tr><td>D. Fernando </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> U900.</td></tr>
-<tr><td>D. Joaõ I. </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U600.</td></tr>
-<tr><td>D. Affonso V. </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 1U260.</td></tr>
-<tr><td>D. Manoel </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U280.</td></tr>
-<tr><td>D. Joaõ III. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 30U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 2U600.</td></tr>
-<tr><td>D. Sebastiaõ </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U400.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 2U680.</td></tr>
-<tr><td>D. Henrique </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 40U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 4U000.</td></tr>
-<tr><td>D. Joaõ IV. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 42U240.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 51U200.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 55U680.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 80U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 3U600.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 4U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 5U000.</td></tr>
-<tr><td>D. Affonso VI. </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 4U400.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem </td><td class="tdr"> 4U600.</td></tr>
-<tr><td>D. Pedro II. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 85U312.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Idem</td><td class="tdr"> 96U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata</td><td class="tdr"> 5U600.</td></tr>
-<tr><td>D. Joaõ V. </td><td class="tdr"> Ouro</td><td class="tdr"> 96U000.</td></tr>
-<tr><td>Idem </td><td class="tdr"> Prata </td><td class="tdr"> 5U600.</td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_326" href="#FNanchor_326" class="label">[326]</a> Manoel Severim de Faria Notic. de Portug. disc. 4. §. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_327" href="#FNanchor_327" class="label">[327]</a> Idem ibid Far. Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 11.
-Argot. Memor. do Arcebisp. de Brag. tom. 3. no Supplem. ao liv. 4. pag.
-LVII. Sousa na Histor. Geneal. tom. 4. p. 107.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_328" href="#FNanchor_328" class="label">[328]</a> Argot. ut supr. pag. LX. Monarq. Lusit. l. 6. c. 19. 21.
-e 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_329" href="#FNanchor_329" class="label">[329]</a> Chronic. delRey D. Fernand. cap. 58.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_330" href="#FNanchor_330" class="label">[330]</a> Fr. Anton. da Purificaç. Chronic. de S. Agost. part. 2
-liv. 7. tit. 6. §. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_331" href="#FNanchor_331" class="label">[331]</a> Monarq. Lusitan. liv. 10. cap. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_332" href="#FNanchor_332" class="label">[332]</a> Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 4. § 27. Cunha,
-Histor. Eccl. de Lisb. tom. 1. p. 2. cap. 20. Far. na Europ. Port. tom.
-3 part. 4. cap. 11. n 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_333" href="#FNanchor_333" class="label">[333]</a> Brandaõ na Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 23. part. 6.
-Maced. Eva, c Ave part. 2. cap. 15. n. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_334" href="#FNanchor_334" class="label">[334]</a> Fr. Anton. da Purific. allegad. e o illustr. Cunha na
-Histor. Eccles. de Lisb. allegad. Ordenaç. delRey D. Man. liv. 4. tit.
-1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_335" href="#FNanchor_335" class="label">[335]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. II. n. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_336" href="#FNanchor_336" class="label">[336]</a> Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. tom. 1. part. 2. cap.
-20 n. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_337" href="#FNanchor_337" class="label">[337]</a> Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. part. 2. cap. 20. n. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_338" href="#FNanchor_338" class="label">[338]</a> Fr. Manoel dos Sant. Histor. Sebast. p. 488.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_339" href="#FNanchor_339" class="label">[339]</a> Barbos, Remiss. à Ord. tit. 21. liv. 4. p. 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_340" href="#FNanchor_340" class="label">[340]</a> Manoel Severim de Far. Notic. de Portug. disc. 4. §. 29.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_341" href="#FNanchor_341" class="label">[341]</a> Monarq. Lusit. p. 3. in Append. n. 16.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_342" href="#FNanchor_342" class="label">[342]</a> Purific. Chronic. de S. Agost. allegada.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_343" href="#FNanchor_343" class="label">[343]</a> Aldret. no Thesouro da lingua Castelh. vide etiam
-Bochart. in Geograf. Sacra no principio da sua vida.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_344" href="#FNanchor_344" class="label">[344]</a> Far. no Comm. das Lusiad. de Cam. cant. 1. p. 115.</p>
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII.<br><span class="small"><i>Da Lingua Portugueza.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou
-Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes
-multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou
-Andaluzia;<a id="FNanchor_345" href="#Footnote_345" class="fnanchor">[345]</a> porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade.
-Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,<a id="FNanchor_346" href="#Footnote_346" class="fnanchor">[346]</a> outros a Caldaica, ou
-alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira
-a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua
-primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha.</p>
-
-<p>2 Filippe de la Gandara julga<a id="FNanchor_347" href="#Footnote_347" class="fnanchor">[347]</a> que era idioma particular, e
-distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que
-usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de
-Brito,<a id="FNanchor_348" href="#Footnote_348" class="fnanchor">[348]</a> que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o
-tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal
-lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula,
-porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto
-viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera
-Plinio.<a id="FNanchor_349" href="#Footnote_349" class="fnanchor">[349]</a></p>
-
-<p>3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a
-estas partes muitas gentes de<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> outras nações;<a id="FNanchor_350" href="#Footnote_350" class="fnanchor">[350]</a> e como as linguas
-entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ
-os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que
-ainda conservamos, e retemos.<a id="FNanchor_351" href="#Footnote_351" class="fnanchor">[351]</a> Depois vieraõ os Romanos, e para
-expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que
-duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar.</p>
-
-<p>4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e
-espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;<a id="FNanchor_352" href="#Footnote_352" class="fnanchor">[352]</a> e
-confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e
-estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e
-guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz
-a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes
-alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.<a id="FNanchor_353" href="#Footnote_353" class="fnanchor">[353]</a></p>
-
-<p>5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos,
-Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia,
-França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da
-pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto
-Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em
-nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.<a id="FNanchor_354" href="#Footnote_354" class="fnanchor">[354]</a> Verdade he que os
-Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter
-em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos;
-porém como era gente mal<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> disciplinada, misturou de tal fórma hum
-com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e
-impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos
-fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que
-introduzio o Bispo Ulfilas,<a id="FNanchor_355" href="#Footnote_355" class="fnanchor">[355]</a> especialmente nos livros sagrados, e
-Ecclesiasticos.</p>
-
-<p>6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e
-perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso
-Author muito erudito<a id="FNanchor_356" href="#Footnote_356" class="fnanchor">[356]</a> diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando
-livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os
-Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se
-conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio
-Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar
-que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto
-muitas dicções, que principiaõ por <i>al</i>, e <i>xa</i>, e as que
-finalizaõ em <i>z</i>, como observou o insigne Joaõ de Barros?<a id="FNanchor_357" href="#Footnote_357" class="fnanchor">[357]</a></p>
-
-<p>7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco
-dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza
-Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo
-complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio
-o discreto Bembo,<a id="FNanchor_358" href="#Footnote_358" class="fnanchor">[358]</a> tratando da alteraçaõ, que tinha havido na
-lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que
-governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como
-o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente
-sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal
-matiz, disse<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> o Padre Joaõ de Mariana,<a id="FNanchor_359" href="#Footnote_359" class="fnanchor">[359]</a> que a lingua Portugueza era
-mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas
-em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma,
-que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos
-compatriotas.<a id="FNanchor_360" href="#Footnote_360" class="fnanchor">[360]</a></p>
-
-<p>8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria<a id="FNanchor_361" href="#Footnote_361" class="fnanchor">[361]</a>
-que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse
-respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo,
-e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita
-differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa<a id="FNanchor_362" href="#Footnote_362" class="fnanchor">[362]</a> transcreve huma
-carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha
-Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente
-o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas,
-e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio
-Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo
-resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza.</p>
-
-<p>9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos
-aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre
-as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de
-palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que
-saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se
-encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a
-unica palavra <i>Saudade</i> sabe exprimir com muito mayor força,
-e energia a constancia<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> do amor ausente; e com a voz <i>Magoa</i>
-a penetrante dor do sentimento. Para fallar em todo o genero de
-assumptos tem a extensaõ necessaria de vocabulos, e modos abundantes:
-por isso disse bem o Tito Livio Portuguez Joaõ de Barros,<a id="FNanchor_363" href="#Footnote_363" class="fnanchor">[363]</a> que se
-Aristoteles fora nosso natural, naõ fora buscar lingua emprestada para
-escrever na Filosofia, e em todas outras materias, de que tratou; e se
-lhe faltara algum termo succinto, fizera o que vemos em muitas partes
-aos presentes, que quando carecem de termos Theologaes os Theologos
-para entendimento real da cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos,
-Mathematicos, Juristas, e Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na
-introducçaõ de vozes novas naõ só he licito, mas preciso.</p>
-
-<p>10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido,
-e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora
-temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste
-subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos
-deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua
-Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author<a id="FNanchor_364" href="#Footnote_364" class="fnanchor">[364]</a> que a Portugueza
-he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se
-nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a
-gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais
-vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ
-parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,<a id="FNanchor_365" href="#Footnote_365" class="fnanchor">[365]</a> mas muito mais
-semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.<a id="FNanchor_366" href="#Footnote_366" class="fnanchor">[366]</a> E assim
-como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras:
-<i>Lascarim</i>, <i>Chatino</i>, <i>Zumbaya</i>, e outras muitas,
-que nos saõ já domesticas,<span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span> da mesma sorte tiveramos conquistado
-inteiramente a lingua Latina, cujos vocabulos ainda assim tem
-degenerado taõ pouco no idioma Portuguez, que sem violencia podem nelle
-comporse muitos discursos com a mesma conformidade com a Latina,<a id="FNanchor_367" href="#Footnote_367" class="fnanchor">[367]</a> o
-que naõ succederá facilmente às outras locuções, que se prezaõ de serem
-seus dialectos.</p>
-
-<p>11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se
-poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave;
-porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas,
-como saõ: <i>d</i>, <i>n</i>, <i>t</i>, <i>x</i>, assim como ouvimos a
-muitas linguas da Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante
-de muitos Authores graves Castelhanos,<a id="FNanchor_368" href="#Footnote_368" class="fnanchor">[368]</a> que affirmaõ haver na
-lingua Portugueza esta mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella
-aptissima, e notoria facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e
-fallaõ com cadencia todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o
-que naõ he taõ factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ
-com a sua verdadeira pronunciaçaõ.<a id="FNanchor_369" href="#Footnote_369" class="fnanchor">[369]</a></p>
-
-<p>12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso
-dipthongo <i>aõ</i>, corruptamente deduzido do <i>om</i> Francez, e
-Gallego, em que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as
-dicções, que hoje terminamos em <i>aõ</i>, excepto os da Provincia
-do Minho, que pela mayor visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso.
-A quem se faz mais difficil articular este dipthongo, he à gente
-Castelhana, porque tem o costume, de finalizar com a letra <i>n</i>
-quasi todas as palavras, que nós acabamos<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> em <i>m</i>. Este embaraço
-pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de Mello da Fonseca no
-seu <i>Antidoto da lingua Portugueza</i>, cujo arbitrio naõ foy bem
-aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque este proprio
-mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito com o <i>am</i>
-dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de verbos, e
-com tudo a defende Quintiliano;<a id="FNanchor_370" href="#Footnote_370" class="fnanchor">[370]</a> nem deixa de parecer grave, e
-suave a cadencia Latina com estas terminações, que com mayor facilidade
-suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte advertimos<a id="FNanchor_371" href="#Footnote_371" class="fnanchor">[371]</a>
-para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza.</p>
-
-<p>13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto,
-e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com
-especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas
-Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos
-por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua
-para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,<a id="FNanchor_372" href="#Footnote_372" class="fnanchor">[372]</a>
-allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: <i>Si
-alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta
-los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian,
-commummente por la mayor parte eran en aquella lengua</i>. De maneira,
-que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal
-a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem
-Provençaes,<a id="FNanchor_373" href="#Footnote_373" class="fnanchor">[373]</a> assim na Hespanha era reputada mais propria para a
-Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes,
-por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo
-porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas
-publicas,<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no
-idioma Portuguez.<a id="FNanchor_374" href="#Footnote_374" class="fnanchor">[374]</a></p>
-
-<p>14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem
-he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que
-se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para
-que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda
-das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já
-mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras
-Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ
-entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que
-as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa
-pureza.</p>
-
-<p>15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P.
-Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia
-emendar,) disse onde imprimiraõ <i>Devoçaõ</i>, lea-se <i>Devaçaõ</i>;
-mas o primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem
-mostrado nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra
-<i>Homem</i>, e outras assim semelhantes se escrevaõ sem <i>H</i>,
-como os Italianos. O melhor he seguir a mediania, como fazem os
-doutos, cujo exemplo he só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ,
-e estravagancia, assim como fez certo Author moderno, (posto que
-engenhoso) em huma nova orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous
-<i>rr</i> no principio da dicçaõ,<a id="FNanchor_375" href="#Footnote_375" class="fnanchor">[375]</a> contra toda a norma, e costume
-dos eruditos. Outras muitas propriedades, e predicados da nossa lingua
-observou curiosamente o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no
-discurso, que temos allegado.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_345" href="#FNanchor_345" class="label">[345]</a> Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_346" href="#FNanchor_346" class="label">[346]</a> Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin.
-Siculo, Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio
-Dextro p. 103.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_347" href="#FNanchor_347" class="label">[347]</a> Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_348" href="#FNanchor_348" class="label">[348]</a> Monarq. Lusit. ut supr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_349" href="#FNanchor_349" class="label">[349]</a> Plin. lib. 3. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_350" href="#FNanchor_350" class="label">[350]</a> Strab. lib. 1. &amp; lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_351" href="#FNanchor_351" class="label">[351]</a> Resend. lib. 1. Antiq. e nas Notas ao Poem. de S.
-Vicent. liv. 2. not. 44. Far na Europ. Port. tom. 3. part 4. cap. 9.
-Matut. ut sup. §. 5. Joaõ Franco Barreto na Ortogr. Port. Luiz Martinho
-nas Antiguid. de Lisb. liv. 1. c. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_352" href="#FNanchor_352" class="label">[352]</a> Resend. lib. 3. Antiquit. <i>Abiere tandem in Romanorum
-mores Lusitani, &amp; civilitatem, linguamque Latinam, sicut &amp; Turdetani
-accepere.</i> Aldret. nas Antiguid. de Hesp. liv. 1. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_353" href="#FNanchor_353" class="label">[353]</a> Manoel Severim de Faria Notic. de Port. disc. 5. §. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_354" href="#FNanchor_354" class="label">[354]</a> Kirquer de Turri Babel lib 3. p. 131. <i>Ex adventu
-Gothorum, Alanorum, Vandalorum ingentem corruptionem passa, quaternas
-alias peperit, Italicam, Gallicam, Hispanicam, Lusitanicam.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_355" href="#FNanchor_355" class="label">[355]</a> Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 9. cap. 18. Yañes
-liv. 2. p. 644. de la Era, y Fechas de Hesp.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_356" href="#FNanchor_356" class="label">[356]</a> Martinh. de Mendoç. Disc. Philolog. contr. P. Feijó
-impress. em Madrid ann. 1727.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_357" href="#FNanchor_357" class="label">[357]</a> Joaõ de Barr. Dialog. do louv. da nossa linguag. p. 56.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_358" href="#FNanchor_358" class="label">[358]</a> Bemb. nas Pros. liv. 1. p. 16. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_359" href="#FNanchor_359" class="label">[359]</a> Marian. Histor. de Hesp. lib. 1. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_360" href="#FNanchor_360" class="label">[360]</a> Veja-se a Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap.
-9. e no Comm. das Rim. de Cam. tom. 4. part 2. pag. 81. Brit. Chronic.
-de Cister liv. 6. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_361" href="#FNanchor_361" class="label">[361]</a> Idem Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_362" href="#FNanchor_362" class="label">[362]</a> Sousa no Agiolog. Lusit. tom. 4. pag. 58. Veja-se o
-Apparat. da Histor. Geneal. do mesmo Author tom. 1. p. 208. e a Leitaõ
-Ferreira nas Noticias Chronolog. n. 574.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_363" href="#FNanchor_363" class="label">[363]</a> Joaõ de Barr. Dialog ut supr. pag. 55.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_364" href="#FNanchor_364" class="label">[364]</a> Gregor. Lop. Madeira no Disc. del monte Santo de Granad.
-part. 2. cap. 19. p. 70.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_365" href="#FNanchor_365" class="label">[365]</a> Camões Cant. 1. Lusiad. est. 33.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_366" href="#FNanchor_366" class="label">[366]</a> Kirquer de Turri Babel lib. 3. cap. 1. p. 131.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_367" href="#FNanchor_367" class="label">[367]</a> Joaõ de Barros, Manoel de Far. Joaõ Franco Barreto já
-allegados. Manoel Severim de Far. Disc. var. disc. 2. Macedo nas Flores
-de Hespanh. cap 22 excel. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_368" href="#FNanchor_368" class="label">[368]</a> Marian. Histor. de Hesp. liv. 1. cap. 5. Lope da Vega na
-Descr. da Tapada, e na Dorot. act. 2. scen. 2. pag. 40.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_369" href="#FNanchor_369" class="label">[369]</a> Veja-se a Faria no Prologo do tom. 1. da Europ. Port. e
-a D. Bernarda Ferreira na España libertada cant. 1. est. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_370" href="#FNanchor_370" class="label">[370]</a> Quintil. lib. 9. cap. ult.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_371" href="#FNanchor_371" class="label">[371]</a> No Espelho da Eloquencia §.7. n.4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_372" href="#FNanchor_372" class="label">[372]</a> Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_373" href="#FNanchor_373" class="label">[373]</a> Bembo nas Pros. pag. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_374" href="#FNanchor_374" class="label">[374]</a> Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na
-Monarq. Port. liv. 16. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_375" href="#FNanchor_375" class="label">[375]</a> Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier
-de Oliv. Cart. 7. p. 54.</p>
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV.<br><span class="small"><i>Do Genio, e costumes Portuguezes.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no
-assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e
-inclinações das gentes de qualquer Paiz:<a id="FNanchor_376" href="#Footnote_376" class="fnanchor">[376]</a> por isso depois de ter
-dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras
-especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso
-intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus
-habitadores.</p>
-
-<p>2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua
-primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por
-agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos,
-e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e
-intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem
-elles nossos progenitores.<a id="FNanchor_377" href="#Footnote_377" class="fnanchor">[377]</a> Com a melhor cultura, e Religiaõ se
-melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada
-de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do
-tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço,
-espirito, valentia, e gloria militar.</p>
-
-<p>3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ
-os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os
-antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> nos
-Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo
-affirmou,<a id="FNanchor_378" href="#Footnote_378" class="fnanchor">[378]</a> que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes
-os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio,
-Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos,
-e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,<a id="FNanchor_379" href="#Footnote_379" class="fnanchor">[379]</a> cujos testimunhos,
-e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor
-grandeza, e indubitavel.</p>
-
-<p>4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor,
-que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso
-da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das
-acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima
-o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este
-brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para
-o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais
-de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,<a id="FNanchor_380" href="#Footnote_380" class="fnanchor">[380]</a>
-excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas
-tanto souberaõ engrandecer.</p>
-
-<p>5 A <i>Lealdade a seus Principes soberanos</i> he outra admiravel
-prenda, de que só os corações Portuguezes<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> podem blazonar com grande
-singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ
-salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos
-para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já
-mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do
-doutissimo Thomás Bosio,<a id="FNanchor_381" href="#Footnote_381" class="fnanchor">[381]</a> natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de
-outros gravissimos Authores.<a id="FNanchor_382" href="#Footnote_382" class="fnanchor">[382]</a> Ardem os Portuguezes no amor do seu
-Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o
-receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.<a id="FNanchor_383" href="#Footnote_383" class="fnanchor">[383]</a></p>
-
-<p>6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar,
-e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa
-constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio
-della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e
-padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos;
-de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que
-disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta<a id="FNanchor_384" href="#Footnote_384" class="fnanchor">[384]</a> ao Rey de
-Melinde:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Crês tu que se este nosso ajuntamento</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De Soldados naõ fora Lusitano,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que durara elle tanto obediente</i></span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span><span style="margin-left: 2em;"><i>Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Crês tu que já naõ foraõ levantados</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Contra seu Capitaõ, se os resistira,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Fazendo-se piratas obrigados</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De desesperaçaõ, de fome, de ira?</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Grandemente por certo estaõ provados,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Pois que nenhum trabalho grande os tira</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Daquella Portugueza alta excellencia</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De lealdade firme, e obediencia.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave
-authoridade.<a id="FNanchor_385" href="#Footnote_385" class="fnanchor">[385]</a> E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes
-de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos,
-e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy
-bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar
-o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo
-servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo
-taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na
-correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional,
-se observa sempre inviolavel.<a id="FNanchor_386" href="#Footnote_386" class="fnanchor">[386]</a></p>
-
-<p>7 O heroico titulo de <i>Conquistador</i> he huma das excellencias
-felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez.
-Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os
-Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com
-inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o
-brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes
-da sua execuçaõ residia no sublime<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span> peito, e mente Regia de nossos
-antigos Principes o mesmo glorioso projecto.<a id="FNanchor_387" href="#Footnote_387" class="fnanchor">[387]</a> Por este meyo se
-vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos;
-fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente
-propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos
-remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas,
-com outras muitas Ilhas consideraveis,<a id="FNanchor_388" href="#Footnote_388" class="fnanchor">[388]</a> naõ havendo no mundo
-clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem
-triunfantes.<a id="FNanchor_389" href="#Footnote_389" class="fnanchor">[389]</a></p>
-
-<p>8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o
-genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ,
-e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa
-erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles
-foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos
-muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse
-livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas
-terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e
-Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé
-Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> do
-Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos
-Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:<a id="FNanchor_390" href="#Footnote_390" class="fnanchor">[390]</a> elles saõ
-finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que
-o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e
-piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he
-preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.</p>
-
-<p>9 Nas <i>Sciencias</i> supposto que antigamente floreceraõ nellas
-alguns Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,<a id="FNanchor_391" href="#Footnote_391" class="fnanchor">[391]</a>
-com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos
-mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa
-capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das
-armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas,
-e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a
-tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes
-valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares,
-Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das
-sciencias, como lamentou Camões,<a id="FNanchor_392" href="#Footnote_392" class="fnanchor">[392]</a> e Francisco de Sá de Miranda:<a id="FNanchor_393" href="#Footnote_393" class="fnanchor">[393]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Dizem dos nossos passados</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que os mais naõ sabiaõ ler,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Eraõ bons, eraõ ousados,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Eu naõ gabo o naõ saber.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se
-conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis,
-nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares,
-porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que
-instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey
-D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde
-continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando
-infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou
-Camões na. 97. do 3.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Fez primeiro em Coimbra exercitarse</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>O valeroso officio de Minerva,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>E de Helicona as Musas fez passarse</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>A pizar do Mondego a fertil herva.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Quanto póde de Athenas desejarse,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Aqui as capellas dá tecidas de ouro,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>De Baccaro, e do sempre verde louro.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais
-evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em
-toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados.
-Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas
-utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o
-uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ
-primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias
-descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito,
-a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo,<span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span> e Joseph, Medicos delRey
-D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual
-abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique
-inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ
-nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel
-de Faria.<a id="FNanchor_394" href="#Footnote_394" class="fnanchor">[394]</a></p>
-
-<p>12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas
-estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais
-se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e
-nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece
-que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia
-mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela
-precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles
-povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da
-Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e
-Camões.<a id="FNanchor_395" href="#Footnote_395" class="fnanchor">[395]</a></p>
-
-<p>13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente
-Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que
-gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas
-ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ
-fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados por
-vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian<a id="FNanchor_396" href="#Footnote_396" class="fnanchor">[396]</a> disse:
-<i>Que serian famosos, si non fuessen fumosos</i>; porém naõ póde
-deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o
-eruditissimo Feijó,<a id="FNanchor_397" href="#Footnote_397" class="fnanchor">[397]</a> toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza
-naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> do seu
-espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos,
-he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ,
-que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu
-patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo
-com maõ generosa, e liberal. <i>Para mi tengo colegido que los Nobles
-de Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que
-dizen</i>: disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.</p>
-
-<p>14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros<a id="FNanchor_398" href="#Footnote_398" class="fnanchor">[398]</a> por naçaõ
-extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só
-estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora
-em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da
-honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que
-nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos
-não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura,
-brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras
-nos introduziraõ;<a id="FNanchor_399" href="#Footnote_399" class="fnanchor">[399]</a> porém este conceito naõ se compadece com o que
-ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos
-fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com
-aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem
-os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos
-nossos Poetas antigos,<a id="FNanchor_400" href="#Footnote_400" class="fnanchor">[400]</a> dizendo:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Se hum estranho à terra vem,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Dizeis todos em geral:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Nunca aqui chegou ninguem;</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>E do vosso natural</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Nada vos parece bem.</i></span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Em fim que por natureza,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>E constelaçaõ do clima,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Esta naçaõ Portugueza</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>O nada estrangeiro estima,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>O muito dos seuss despreza.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco
-Rodrigues Lobo no fim da <i>Egloga 1.</i></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Ouvir qualquer estrangeiro</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Fallar de seus naturaes,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Dá delles taõ bons sinaes,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que o naõ tem por verdadeiro.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Falem-vos n’um natural,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Dizeis faltas que naõ tem;</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Mente o outro para bem,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Nós mentimos para mal.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos
-proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos
-nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e
-mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D.
-Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos,
-que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D.
-Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de
-traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de
-ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.<a id="FNanchor_401" href="#Footnote_401" class="fnanchor">[401]</a> Neste mesmo
-reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar
-as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ
-a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de
-Miranda.<a id="FNanchor_402" href="#Footnote_402" class="fnanchor">[402]</a> Concorreo depois a communicaçaõ das<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> gentes de outros
-paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos
-seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse,
-e deplorou Simaõ Machado.<a id="FNanchor_403" href="#Footnote_403" class="fnanchor">[403]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Vellos-heis, disse, à Franceza,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Depois disso à Castelhana,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Hoje andaõ à Bolonheza,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Á manhã à Sevilhana,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>E já nunca à Portugueza.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Por isso qualquer profano</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Nos toma para entremez,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Porque fazemos cada anno</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Té no traje Portuguez</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Mais mudanças que hum cigano.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ tomamos isto em grosso,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Vestimos por tantos modos</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Cada hora, que dizer posso,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que naõ temos traje nosso,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Porque o tomamos de todos.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e
-na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque
-dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande
-rebuço às pessoas mal intencionadas;<a id="FNanchor_404" href="#Footnote_404" class="fnanchor">[404]</a> porém a boa commodidade, que
-este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde
-justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que
-se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem
-a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ
-a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar
-esta introducçaõ.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Vereis mancebinhos de arte</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Com espada em talabarte,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ ha mais Italiano, etc.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o
-adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas
-compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ
-IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D.
-Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ
-domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste
-genero de compostura ha cada dia differentes novidades.</p>
-
-<p>17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente
-conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em
-certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo:
-<i>Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e
-essa parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa
-natureza que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli
-as gentes dessas qualidades.</i><a id="FNanchor_405" href="#Footnote_405" class="fnanchor">[405]</a> Derretidos de amor nos chamaõ
-os Castelhanos; mas este affecto foy, e he sempre exercitado por
-aquelle teor, e modo, que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções
-decorosamente galantes. As venerações, e cultos do amor candido saõ
-taõ antigos em Portugal, que já em tempo dos Cartaginezes havia templo
-em Villa Viçosa dedicado a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e
-chamavaõ <i>Endovelico</i>, hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os
-seus sacrificios, offerecendo no principio de cada mez por victima hum
-cordeiro branco,<a id="FNanchor_406" href="#Footnote_406" class="fnanchor">[406]</a> para mostrarem o sincero, e racionavel exercicio
-da mais poderosa paixaõ da alma.<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> Daqui se infere, que na chamma
-do amor Portuguez naõ ha fumo de torpeza: por isso Valerio Maximo
-reprehendeo asperamente a Q. Metelo Pio por delinquir nos excessos
-de Venus dentro da Provincia Lusitana, que só amava os furores de
-Marte.<a id="FNanchor_407" href="#Footnote_407" class="fnanchor">[407]</a> Assim o deraõ a entender tambem aquelles Cavalleiros da
-Ordem Militar dos Namorados, que na celebre batalha de Algibarrota
-obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta contemplaçaõ das suas
-Damas;<a id="FNanchor_408" href="#Footnote_408" class="fnanchor">[408]</a> e por desafronta de outras passaraõ a Londres no anno de
-1390 os doze celebrados Portuguezes, que com gloria, e lustre da patria
-ficaraõ vencedores.<a id="FNanchor_409" href="#Footnote_409" class="fnanchor">[409]</a> Foraõ finalmente os Palacios dos Reys sempre
-escolas universaes da fina galantaria. Celebravaõ-se saráos, e festins
-entre Damas, e galantes nas vodas, nascimentos de Principes, e vindas
-de Embaixadores, e a este exemplo o faziaõ os particulares com toda
-a modestia. Hoje está muy sincopada, ou, para melhor dizer, extincta
-a galantaria;<a id="FNanchor_410" href="#Footnote_410" class="fnanchor">[410]</a> donde o grande Sá de Miranda<a id="FNanchor_411" href="#Footnote_411" class="fnanchor">[411]</a> dizia já no seu
-tempo:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Traspozeraõ os amores,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>E deixaraõ o Paço às cegas.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes
-mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade,
-e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os
-estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente
-se admiraõ, e estranhaõ.<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> As mulheres civis raras vezes sahem de
-casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ
-acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta,
-mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial
-genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente
-usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje
-todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na
-formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de
-todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ
-vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada
-desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns
-unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro;
-porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito
-a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de
-ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello,
-e olhos pretos com graça, e viveza.</p>
-
-<p>19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho
-naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como
-violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas
-para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos,
-adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de
-linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos
-annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva,
-quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho,
-chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua
-companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma
-moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas
-della, e<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ
-fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia
-saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas
-varas de panno para o enxoval da noiva.<a id="FNanchor_412" href="#Footnote_412" class="fnanchor">[412]</a> Desta sorte ajudaõ huns
-aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes
-festas, e banquetes.</p>
-
-<p>20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os
-moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339,
-dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos,
-e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador)
-Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com
-toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e
-outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do
-acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que
-dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo
-que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta
-de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na <i>Monarquia
-Lusitana liv. 18. cap. 30.</i> accrescentando: que este costume que
-agora pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ
-de ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno
-cheyo de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella
-boa idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando
-nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.</p>
-
-<p>21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade
-dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado,
-e de<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo
-ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa
-honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se
-recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote
-proporcionado aos bens, que lhe competem.</p>
-
-<p>22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos,
-quando vieraõ a Lisboa,<a id="FNanchor_413" href="#Footnote_413" class="fnanchor">[413]</a> introduziraõ o da altenaria, que se
-pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente
-Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais
-proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D.
-Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos
-em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza
-dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da
-espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo
-as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da
-péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes
-passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas
-publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro
-aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo.</p>
-
-<p>23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o
-combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem
-do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem
-com muito apparato, e magnificencia.<a id="FNanchor_414" href="#Footnote_414" class="fnanchor">[414]</a> Esta he só a occasiaõ em
-que os estrangeiros dizem<a id="FNanchor_415" href="#Footnote_415" class="fnanchor">[415]</a> que podem à sua vontade ver as Damas
-Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites;<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> mas todavia he este
-genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o
-horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das
-suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes
-fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias,
-e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a
-cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes.</p>
-
-<p>24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje
-anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir
-o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo
-versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros
-laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de
-Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ <i>Viola</i>, he propriamente
-Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos,
-a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com
-aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto
-da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre
-huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que
-convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he
-com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando
-grandeza, vaidade, e desperdicio.</p>
-
-<p>25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum
-grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque
-estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a
-Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns
-sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu
-genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores
-nossos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p>
-
-<p>Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.<a id="FNanchor_416" href="#Footnote_416" class="fnanchor">[416]</a></p>
-
-<p>Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento
-do seu proprio.<a id="FNanchor_417" href="#Footnote_417" class="fnanchor">[417]</a></p>
-
-<p>Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o
-seu companheiro.<a id="FNanchor_418" href="#Footnote_418" class="fnanchor">[418]</a></p>
-
-<p>He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira
-gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem
-alguma, que ver a outrem com vantagem.<a id="FNanchor_419" href="#Footnote_419" class="fnanchor">[419]</a></p>
-
-<p>Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e
-todos nada para alguem.<a id="FNanchor_420" href="#Footnote_420" class="fnanchor">[420]</a></p>
-
-<p>Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer
-cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba.</p>
-
-<p>Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos
-tormentos.</p>
-
-<p>Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna.</p>
-
-<p>Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente
-Portugueza.</p>
-
-<p>A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes
-substituio a adoraçaõ pelo decoro.</p>
-
-<p>Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania.</p>
-
-<p>Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos,
-senaõ à grandeza dos corações.</p>
-
-<p>Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza.</p>
-
-<p>Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao
-espirito o que outras Nações à copia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span></p>
-
-<p>A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da
-fama, que de sujeita a seus favores.</p>
-
-<p>A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela
-ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ.</p>
-
-<p>Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles.</p>
-
-<p>Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito.</p>
-
-<p>Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a
-affabilidade dos Principes.</p>
-
-<p>Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera
-insoportaveis.</p>
-
-<p>As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas
-nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres.</p>
-
-<p>Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada,
-fiando vidas assim como linho.</p>
-
-<p>Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que
-todos.</p>
-
-<p>He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que
-luzaõ os que nascem nella.</p>
-
-<p>He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir,
-tragallo logo, para que naõ luza.</p>
-
-<p>Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ
-achou fundo com o entendimento.</p>
-
-<p>Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais
-huma pedra à fabrica da Igreja.</p>
-
-<p>Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o
-escudo.</p>
-
-<p>Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para
-trazerem no nome a luz do mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span></p>
-
-<p>Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para
-outros.</p>
-
-<p>O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada,
-onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento.</p>
-
-<p>Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado.</p>
-
-<p>A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer.</p>
-
-<p>Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança
-de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos
-sem suspeita aos Authores abaixo citados,<a id="FNanchor_421" href="#Footnote_421" class="fnanchor">[421]</a> e outros, que allega
-Hoffman,<a id="FNanchor_422" href="#Footnote_422" class="fnanchor">[422]</a> porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes
-o grande Camões em hum dos seus Cantos.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Por mais que da fortuna andem as rodas</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa)</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Honra, valor, e fama gloriosa.</i></span><br>
-</p>
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_376" href="#FNanchor_376" class="label">[376]</a> Bentivoglio tom. 4. Relac. p. 86.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_377" href="#FNanchor_377" class="label">[377]</a> Resend. liv. 1. de Antiquit. <i>Neque tunc quidem malos,
-neque modo nobis erubescendos.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_378" href="#FNanchor_378" class="label">[378]</a> Diodor. Sicul. lib. 6. cap 9. e Boem. de morib. gent.
-lib. 3. cap 25. e Fern. Nun. no Commento à Copla 48. de Juan de Mena.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_379" href="#FNanchor_379" class="label">[379]</a> Justin. lib. 44. Bos. lib. 5. cap 23. e outros apud
-Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 14. per totum Justo Lipsio lib. 5.
-Epist. 66. Famian. Strad. de bel. Belgico lib 4. pag. mihi 188.
-Boter. nas Relaç. p. 2. liv. 4. p. 93. e 101. Joaõ Bautista Moreli na
-Reducion, y Restaur. de Port. p. 15. e 183. Garibay tom. 4. liv. 35.
-cap. 16. Fr. Anton. de S. Roman. Histor. da India liv. 1. cap. 16.
-Sandoval Histor. de Carl. V. part. 2. liv. 22. §. 4. Marian. Hist de
-Hesp. tom. 1. liv. 10. cap. 13. Lope da Vega na Arcad. liv. 3. p. 109.
-Dos nossos veja-se a Gaspar Estaço nas Antig. de Port cap. 74. Monarq.
-Lusit. tom. 3. liv. 10. cap. 15. Bento Pereira na Pallas togata, &amp;
-armata clas. 4. p. 319. Fr. Francisc. de Maced. no Propugn. Lusit.
-part. 1. cap. 6. p. 146. Far. nos Comm. das Lusiad. p. 245. Fr. Manoel
-Hom. no Memor. das arm. cap. 37.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_380" href="#FNanchor_380" class="label">[380]</a> Cam. Cant. 1. est. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_381" href="#FNanchor_381" class="label">[381]</a> Bosio tom. 1. de Signis Eccles. Dei cap. 1. lib 8
-<i>Nulla natio ab orbe condito præter Lusitanicam reperitur, quæ per
-tot sæcula civilibus bellis minùs adversùs Reges suos fuerit commota.
-Imò nunquam commota adversùs Reges communi decreto constitutos... Hanc
-laudem deberi Lusitanica genti, ut Regum suorum studiosissima fuerit...
-Catholicis hoc Lusitanis ab orbis exordio divinitùs est concessum, ut
-nunquam Reges suos communi decreto constitutos armis petiverint.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_382" href="#FNanchor_382" class="label">[382]</a> Barr. decad. 4. liv. 1. cap. 6. Duart. Nun. na Vida
-delRey D. Sancho II. e na Descripç de Port. cap. 85. Monarq. Lusit.
-liv. 1. cap. 20. Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 15. n. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_383" href="#FNanchor_383" class="label">[383]</a> Cam. cant. 10. est. 148.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_384" href="#FNanchor_384" class="label">[384]</a> Idem cant. 5. est. 71. e 82. das Lusiad.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_385" href="#FNanchor_385" class="label">[385]</a> Franc. de Monçon Espejo de Princip. lib. 1. cap. 89.
-Zurita tom 5. liv. 3. cap 30. Gil Gonçalv. d’Avila Grandez. de Madr.
-liv. 4. Marian. Histor. de Hespanh tom. 1. liv. 10. cap. 13. e liv. 12.
-cap. 4. Joaõ Baptista Moreli na Reducion, y Restaur. de Port. pag. 39.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_386" href="#FNanchor_386" class="label">[386]</a> Veja-se a Macedo nas Flores de Hespanh. cap. 13. per
-totum. Monarq. Lusitan. part. 4. pag. 165. Miguel Leit. nas Miscel. p.
-47.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_387" href="#FNanchor_387" class="label">[387]</a> Cam. cant 8. est. 70.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_388" href="#FNanchor_388" class="label">[388]</a> Bos. de Sign. Eccl. tom. 1. lib. 8. sign 32. cap. 1. n
-2. 3. 4. <i>Nulla unquam gens, ex quo mundus est productus, tot maria
-transmitit, ac tàm longè dissitas terras obivit, ut Lusitanica....
-Nulla unquam gens ab humani generis exordio in tot, ac tàm longè
-positis oris sedes fixit, coloniasque deduxit, ut gens Lusitanica.
-Videbatur hoc esse Romanorum, vel etiam Macedonum, Phœnicumque: sed
-his proculdubiò Lusitani superiores. Romani namque Colonias nullibi
-posuerunt, nisi intra Imperii sui confinia, quæ non protendebantur
-ultra gradus nonaginta ab Occidente in Orientem; Lusitanorum verò sunt
-ultra gradus 250. Nulla unquam natio tàm remota regna, terrasque in
-suam potestatem redigit, ut Lusitanica. Plures quidem plura, sed non
-adeo longinqua. Igitur Lusitani non modò remotissimas oras adierunt, &amp;
-in hoc omnibus præcellunt, sed et in iis domos posuerunt, amplius etiam
-subegerunt imperio suo.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_389" href="#FNanchor_389" class="label">[389]</a> Bucanan. e Scaliger. apud Freit. de Just. Imper. pag.
-29. 82. e 83. Maced no Olisip. p. 24. est. 60. Cam. cant. 1. est. 8. e
-cant. 7. est. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_390" href="#FNanchor_390" class="label">[390]</a> Freit. de Just. Imper. Lusit. cap. 18. n. 12. 13. e
-14. Bosio de Sign. Eccles. tom. 1. lib. 4. cap 2. pag. mihi 245.
-<i>Toti Lusitanicæ genti debetur hæc laus, ut nobis ad remotissimas
-oras, &amp; antiquis invias, facillimus, ac tutus fuerit aditus apertus,
-ita ut Christiana in amplissimis regionibus religio longè, latèque
-potuerit disseminari.</i> Aubert. Miræus in Politica Ecclesiast. liv.
-2. cap. 15. <i>Lusitanis itaque in Indiam commigrantibus, &amp; Imperio
-latè propagato, Christi cultus, ac reverentia per vastissimum illum
-Asia tractum sese erigere cœpit.</i> Gerard Mercat. in Tabula Lusit.
-Marian. tom. 1. liv. 10. cap. 13. Joaõ Pinto Ribeiro, Desengano ao
-parecer enganoso Gil Gonçalv. d’Avil. Grandez. de Madrid: <i>Siendo(los
-Portuguezes) los primeros hombres, que seminaron en el Indo la semilla
-de la palabra Divina, aumentada con el riego de su sangre, haziendo se
-mas gloriosos con las palmas del martyrio.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_391" href="#FNanchor_391" class="label">[391]</a> Maced. nas Flor. de Hesp. cap. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_392" href="#FNanchor_392" class="label">[392]</a> Cam. est. 95. do 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_393" href="#FNanchor_393" class="label">[393]</a> Sá de Miranda na epist. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_394" href="#FNanchor_394" class="label">[394]</a> Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 8. e no Comm.
-do Cant 5. de Cam. est. 25. e Joaõ de Barr. Decad 1. liv 4. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_395" href="#FNanchor_395" class="label">[395]</a> Idem ibid. liv. 3. cap. 5. Camões Cant. 5. est. 77.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_396" href="#FNanchor_396" class="label">[396]</a> Gracian part 3. do Criticon cris. 8</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_397" href="#FNanchor_397" class="label">[397]</a> Feijó tom. 6. do Theatr. Critic. disc. 3. §. 4. n. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_398" href="#FNanchor_398" class="label">[398]</a> Mervelleux Memoir. instr. tom. 1. pag. 86. Gracian. no
-Critic. ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_399" href="#FNanchor_399" class="label">[399]</a> D. Franc. Man. na Visita das Font. pag. 218.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_400" href="#FNanchor_400" class="label">[400]</a> Simaõ Machad. na. Comed. de Alfeo p. 72. Veja-se tambem
-a Man. de Far. na Font. de Agan. part. 3. Ode 15. est. 11. Franc. Rod.
-Lobo Eglog. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_401" href="#FNanchor_401" class="label">[401]</a> Faria no Comm. das Lusiad. Cant. 2. est. 97.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_402" href="#FNanchor_402" class="label">[402]</a> Idem nos Com. das Rim. de Cam. Eglog. 1. est. 2.
-Francisc. Nun. de Velasco no Dialog. 11. Sá de Mirand. cart. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_403" href="#FNanchor_403" class="label">[403]</a> Simaõ Machado na Comed. de Alfeo part. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_404" href="#FNanchor_404" class="label">[404]</a> Description de la Ville de Lisbone pag. 92.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_405" href="#FNanchor_405" class="label">[405]</a> Sor. Mar. de la Antigual. 12. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_406" href="#FNanchor_406" class="label">[406]</a> Monarq. Lusit. part. 1. liv. 2. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_407" href="#FNanchor_407" class="label">[407]</a> Valer. Maxim. lib. 9. cap 1. n. 5. <i>En ubi ista?
-Non in Græcia, neque in Asia, quarum luxuria severitas ipsa corrumpi
-poterat; sed in horrida, et bellicosa Provincia, cum præsertim
-acerrimus hostis Sertorius Romanorum exercituum oculos Lusitanis telis
-perstringeret.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_408" href="#FNanchor_408" class="label">[408]</a> Fr. Jacinto de Deos no Escudo dos Cavall. §. 59.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_409" href="#FNanchor_409" class="label">[409]</a> Cam. Lusiad. cap. 6. est. 43. &amp; seq. e seu Commentador
-Manoel de Faria tom. 2. pag. 113.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_410" href="#FNanchor_410" class="label">[410]</a> D. Franc. de Port. na Arte de Galantaria, e D. Francisc.
-Man. na Visit. das Fontes p. 279.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_411" href="#FNanchor_411" class="label">[411]</a> Sá de Miranda cart. 2. est. 76.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_412" href="#FNanchor_412" class="label">[412]</a> Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_413" href="#FNanchor_413" class="label">[413]</a> Figueiroa na Plaça Univ. disc. 12. §. 2. n. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_414" href="#FNanchor_414" class="label">[414]</a> Veja-se a Blauteau no Vocab. verb. <i>Tourear</i>, e a
-Colmenar. nas Delicias de Portug. pag. 857.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_415" href="#FNanchor_415" class="label">[415]</a> Memoires pour un Voyageur tom. 2. p. 131.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_416" href="#FNanchor_416" class="label">[416]</a> Far. tom. 3 da Asia p 1. c. 1. n. 15.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_417" href="#FNanchor_417" class="label">[417]</a> Ibid. tom. 1. c. 5. parr. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_418" href="#FNanchor_418" class="label">[418]</a> Ibid. cap. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_419" href="#FNanchor_419" class="label">[419]</a> Idem tom. 1. da Asia part. 4. c. 1. n. 2</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_420" href="#FNanchor_420" class="label">[420]</a> Ibid. part. 2. c. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_421" href="#FNanchor_421" class="label">[421]</a> Justo Lipsio na epist. 96. do liv. 5. Andr. Scot. na
-Bibliotheca Hispanica tom. 2. clas. 9. &amp; tom. 3. clas. 2. Bosio tom.
-3. de Sign. Eccles. lib. 8. cap. 1. Cæsar de Bello Gallico lib. 3.
-Fr. Jeronym. Rom. Republic. do mund. liv. 4. cap. 18. Magin. in nova
-Geograp. §. <i>Portugalenses</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_422" href="#FNanchor_422" class="label">[422]</a> Hoffman. Diccion. verb. <i>Portugallia</i>. Veja-se
-tambem a Mons. de la Hontan, Mervelleux, Davity, Maffeu Historia da
-India, Sanson, Moreri, Coronelli, e outros muitos, que por brevidade
-deixo de allegar.</p>
-
-</div></div>
-<hr class="tb">
-<p><span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span></p>
-<p class="center xbig">FIM DA PRIMEIRA PARTE.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-
-
-
-<p class="center"><span class="big">MAPPA</span><br><span class="small">DE</span><br><span class="xbig">PORTUGAL.</span></p>
-
-
-<p class="center big">PARTE II.</p>
-<hr class="tb">
-
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_I">CAPITULO I.<br><span class="small"><i>Memorias dos primeiros Povoadores da antiga Lusitania.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Entramos nesta segunda parte do nosso Mappa com a laboriosa
-averiguaçaõ de hum dos pontos historicos mais difficil do seculo
-primeiro Lusitanico. Os Antiquarios Hespanhoes, e commummente os doutos
-convem uniformes em que dos descendentes de Jafet, terceiro filho
-do Patriarca Noé, (entre os quaes se repartio<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span> a povoaçaõ de toda a
-Europa, e parte da Asia depois do universal diluvio,) coubera a Tubal,
-seu quinto filho, plantar, e propagar Hespanha.</p>
-
-<p>2 Modernamente D. Francisco Xavier da Garma<a id="FNanchor_423" href="#Footnote_423" class="fnanchor">[423]</a> pretendeo excluillo do
-continente Hespanhol, substituindo em seu lugar por primeiro Povoador
-delle a Tharsis, sobrinho de Tubal, filho de seu irmaõ Javan, e neto
-de Jafet: porém esta opinião já seguida antecedentemente por outros,
-desfaz com razões mais provaveis o erudito Padre Joseph Moret da
-Companhia de Jesus.<a id="FNanchor_424" href="#Footnote_424" class="fnanchor">[424]</a></p>
-
-<p>3 Assentando pois que os Hespanhoes, e por consequencia os Lusitanos
-se originaõ de Tubal, vista a grande authoridade dos Escritores, que
-o affirmaõ,<a id="FNanchor_425" href="#Footnote_425" class="fnanchor">[425]</a> nasce daqui hum reparo, e vem a ser: que dizendo
-Josefo,<a id="FNanchor_426" href="#Footnote_426" class="fnanchor">[426]</a> procederem os Iberos de Tubal, e interpretando S.
-Jeronymo, Santo Isidoro,<a id="FNanchor_427" href="#Footnote_427" class="fnanchor">[427]</a> e outros aos Iberos pelos Hespanhoes,
-todavia como na Asia se achaõ tambem semelhantes povos Iberos desde
-aquelles primeiros tempos, duvida-se justamente quaes devem ser
-reputados por primarios descendentes de Tubal?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span></p>
-
-<p>4 Os Authores, que se persuadem fora o mundo povoado pouco a pouco, e
-principiara do Oriente, estendendo-se os povos à medida, que a gente
-crescia, dizem, que a Iberia Hespanhola, ou Occidental, foy Colonia dos
-Iberos Asiaticos.<a id="FNanchor_428" href="#Footnote_428" class="fnanchor">[428]</a> A outros porém se lhes faz mais verosimel que
-os Hespanhoes levassem à Asia por transmigraçaõ o nome de Iberos;<a id="FNanchor_429" href="#Footnote_429" class="fnanchor">[429]</a>
-donde Rufo Festo Avieno veyo a dizer:<a id="FNanchor_430" href="#Footnote_430" class="fnanchor">[430]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>......Asper Iberus</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Hic agit: hic olim Tyrrhenide pulsus ab ora</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Cespitis Eoi tenuit sola.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>5 Esta opiniaõ parece que se conforma mais com o sentido natural do
-Genesis, que no capitulo 10. dá a entender como os primeiros netos
-de Noé logo se dividiraõ a povoar o mundo; e cabendo à familia de
-Tubal lançar os alicerses, e estabelecer os limites de Hespanha,
-veyo positivamente a ella, ou fosse por mar em pequenas embarcações,
-passando da Armenia ao Egypto, do Egypto a Africa, e daqui atravessando
-o Estreito de Gibraltar até o Promontorio, que depois se chamou Sacro;
-ou fosse por terra, caminhando do Egypto a Jerusalem pela Natolia,
-depois penetrando a Tartaria, Hungria, Alemanha, França, Hespanha, e
-Portugal, sem lhe ser necessario por este caminho passar braço algum de
-mar consideravel; ou finalmente transitando por outra qualquer via, que
-lhe destinasse a Providencia, para soccorrer a necessidade da segunda
-povoaçaõ do genero humano com viagem, que<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span> fosse prudente, e naõ
-temeraria, como bem adverte o erudito Yañes.</p>
-
-<p>6 Collocado já Tubal, e sua familia nestas partes Occidentaes da Europa
-pelos annos 150 depois do diluvio, conforme a melhor Chronologia,<a id="FNanchor_431" href="#Footnote_431" class="fnanchor">[431]</a>
-resta saber em que parte da Hespanha fez o seu primeiro assento?
-Nisto, por mais que se intente indagar, naõ póde haver certeza; porque
-o grande Abulense, julgando ser esta entrada pelos montes Pyrineos,
-attribue a Pamplona a primazia das fundações de Tubal em todo este
-tracto Hispanico,<a id="FNanchor_432" href="#Footnote_432" class="fnanchor">[432]</a> Floriaõ do Campo a Andaluzia,<a id="FNanchor_433" href="#Footnote_433" class="fnanchor">[433]</a> Martim
-de Viciana a Valença,<a id="FNanchor_434" href="#Footnote_434" class="fnanchor">[434]</a> Joseph Moret a Tafalla,<a id="FNanchor_435" href="#Footnote_435" class="fnanchor">[435]</a> outros a
-Toledo,<a id="FNanchor_436" href="#Footnote_436" class="fnanchor">[436]</a> e Fr. Bernardo de Brito, Heitor Pinto, e outros muitos
-a Setubal em Portugal.<a id="FNanchor_437" href="#Footnote_437" class="fnanchor">[437]</a> Mais facil será crer (diz Manoel de
-Faria judiciosamente) ter sido Tubal fundador de muitas povoações
-na Hespanha, que o assegurar a primazia de alguma entre todas;<a id="FNanchor_438" href="#Footnote_438" class="fnanchor">[438]</a>
-e deste parecer foy o erudito Malvenda, que já allegámos. Todavia o
-insigne Commentador de Virgilio Francisco de Lacerda, allegado por
-Luiz Marinho de Azevedo, diz, que da Lusitania sahiraõ os primeiros
-fundadores de Hespanha<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span><a id="FNanchor_439" href="#Footnote_439" class="fnanchor">[439]</a> a estabelecer povoações em varias partes
-della.</p>
-
-<p>7 O certo he, que dos tempos immediatos à primitiva povoaçaõ de
-Portugal, até que as armas Cartaginezas, e Romanas abriraõ o caminho à
-communicaçaõ das gentes occidentaes da Europa, naõ pode a Historia dar
-hum passo, senaõ às escuras, e com a vehemente suspeita de claudicar na
-verdade; porque alguns Escritores fundados em documentos ou apocrifos,
-ou de pouca authoridade, e exame, constituiraõ em Hespanha, e Portugal
-com demaziada, e incauta crença o governo de alguns Reys duvidosos,
-como foy Ibero, Jubalda, Briga, Beto, e outros, de que naõ ha historia
-verdadeira. Sómente consta, que havia em nossas terras alguns Regulos,
-como foy Lucinio, Culca, Gorgoris, Abides, Argantonio, Theron,
-Mandonio, e alguns outros, de que fazem memoria Authores veridicos.<a id="FNanchor_440" href="#Footnote_440" class="fnanchor">[440]</a></p>
-
-<p>8 Tambem temos por certo, que naquelles principios todo este nosso
-Continente estava occupado de varios povos, cada hum com seu nome,
-costumes, e usos differentes, formando distinctas especies de pequenas
-Republicas com suas leys, especialmente desde o governo de Gorgoris,
-ou Gorgaris. Naõ será relaçaõ importuna communicarmos aqui hum breve
-monumento destes povos primitivos para melhor intelligencia da Historia.</p>
-
-<p>9 <i>Abobricenses</i>; ou <i>Aobricenses</i>. Habitavaõ pouco distantes
-de Chaves.<a id="FNanchor_441" href="#Footnote_441" class="fnanchor">[441]</a> A Hoffmani lhe parece<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span> que eraõ os da Villa do Conde, e
-a Joaõ de Barros os da Nobrega, ou Valdevez.</p>
-
-<p>10 <i>Amaienses.</i> Eraõ povos da Lusitania.<a id="FNanchor_442" href="#Footnote_442" class="fnanchor">[442]</a></p>
-
-<p>11 <i>Amfilocos.</i> Habitavaõ na Cidade Amfiloquia, que estava na
-Provincia de Galiza, a que hoje chamaõ Orente, a qual no tempo dos
-Romanos veyo a pertencer à Chancellaria de Braga.<a id="FNanchor_443" href="#Footnote_443" class="fnanchor">[443]</a> Da vida de
-Alexandre Magno escrita pelo segundo Xenofonte Arriano Nicomediense,
-consta que os Amfilocos naõ estavaõ muy distantes da Ambracia,<a id="FNanchor_444" href="#Footnote_444" class="fnanchor">[444]</a>
-que, conforme alguns,<a id="FNanchor_445" href="#Footnote_445" class="fnanchor">[445]</a> foy Barcellos. Ortelio colloca os Amfilocos
-entre os Calaicos, e os Bracaros.</p>
-
-<p>12 <i>Ancodeos.</i> Povos nacionaes, que viviaõ nas visinhanças do
-monte Gerez.<a id="FNanchor_446" href="#Footnote_446" class="fnanchor">[446]</a></p>
-
-<p>13 <i>Arevácos.</i> Procediaõ dos Celtiberos, e eraõ os ultimos povos,
-em que se terminava Galiza junto do Douro.<a id="FNanchor_447" href="#Footnote_447" class="fnanchor">[447]</a></p>
-
-<p>14 <i>Artabros</i>, que depois se chamaraõ <i>Arrotebras</i>, occupavaõ
-desde o Promontorio Celtico até os Astures.<a id="FNanchor_448" href="#Footnote_448" class="fnanchor">[448]</a></p>
-
-<p>15 <i>Astures.</i> Occupavaõ a Provincia de Tras os Montes, e eraõ
-notaveis mineiros.<a id="FNanchor_449" href="#Footnote_449" class="fnanchor">[449]</a></p>
-
-<p>16 <i>Barbaros</i>, ou <i>Sarrios.</i> Habitavaõ por toda a serra da
-Arrabida até Lisboa, ou todo aquelle tracto de terra, que fica entre o
-Tejo, e Setubal. Viviaõ sem ley, sem policia, e com pouca, ou nenhuma
-Religiaõ. Sustentavaõ-se dos frutos, que a terra produzia, e da caça,
-que na montanha apanhavaõ. Este modo de viver barbaro, e agreste os
-fazia taõ rigidos, que naõ só tiveraõ sanguinolentas<span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span> guerras com
-os Celtas seus visinhos, mas fizeraõ huma das mayores resistencias,
-que experimentou Julio Cesar na conquista da Lusitania. No anno 501
-antes de Christo, vendo que a patria os naõ podia manter com a sua
-multiplicaçaõ, determinaraõ que todos os moços até à idade de quarenta
-annos fossem buscar outras terras desoccupadas, em que viver; e depois
-de varios transes foraõ cultivar muita parte da Beira, principalmente
-aquellas terras, que se extendem por algumas leguas à roda do rio
-Soberbo.<a id="FNanchor_450" href="#Footnote_450" class="fnanchor">[450]</a></p>
-
-<p>17 <i>Bardulos</i>, ou <i>Vardulos.</i> Habitavaõ onde agora se chama
-Guipuscoa. Plinio diz, que os Bardulos eraõ os mesmos, que os Turdulos
-da Lusitania. Baudrand diz, que eraõ diversos huns dos outros.</p>
-
-<p>18 <i>Belitanos.</i> O mesmo que Lusitanos.</p>
-
-<p>19 <i>Berones.</i> Querem alguns<a id="FNanchor_451" href="#Footnote_451" class="fnanchor">[451]</a> conjecturar que habitavaõ na
-Provincia da Beira, sendo que o Padre Argote<a id="FNanchor_452" href="#Footnote_452" class="fnanchor">[452]</a> naõ convem nisso.
-Baudrand, e Hoffmani dizem, que eraõ povos sujeitos aos Celtiberos, e a
-sua principal Cidade era onde hoje está Trejo.</p>
-
-<p>20 <i>Bibalos.</i> Conforme Joaõ de Barros<a id="FNanchor_453" href="#Footnote_453" class="fnanchor">[453]</a> habitavaõ em Val de
-Bouro na Provincia do Minho. O Padre Argote os situa nas visinhanças
-de Orense, e fóra do territorio de Portugal;<a id="FNanchor_454" href="#Footnote_454" class="fnanchor">[454]</a> porém Resende he de
-parecer que a palavra <i>Bibalos</i> naõ era nome de povos, mas de
-Cidade,<a id="FNanchor_455" href="#Footnote_455" class="fnanchor">[455]</a> porque assim o diz expressamente a inscripçaõ da ponte de
-Chaves sobre o Tamega, na qual estaõ gravados os nomes dos povos de
-todas aquellas Comarcas, que concorreraõ para trabalharem nella: mas
-nisto achamos pouca razaõ a Resende; porque ainda que a tal inscripçaõ<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span>
-diga <i>Civitates X.</i> he sem duvida que as Cidades naõ haviaõ de ir
-trabalhar na ponte, mas sim os moradores das taes Cidades, os quaes
-pela mayor parte seriaõ os daquellas visinhanças de Chaves, como bem
-adverte Frey Bernardo de Brito.<a id="FNanchor_456" href="#Footnote_456" class="fnanchor">[456]</a> Finalmente Baudrand diz, que
-estiveraõ situados junto do rio Lima.</p>
-
-<p>21 <i>Bracaros.</i> Ficavaõ estes povos na Provincia do Minho, e era
-nome generico, que abraçava outros muitos povos particulares,<a id="FNanchor_457" href="#Footnote_457" class="fnanchor">[457]</a> e
-comprehendia povoações muito notaveis, como era Braga, Porto, Ponte de
-Lima, Neiva, Caminha, e outros.<a id="FNanchor_458" href="#Footnote_458" class="fnanchor">[458]</a></p>
-
-<p>22 <i>Calaicos.</i> Eraõ de duas especies, Bracarios, e Lucenses: os
-primeiros existiaõ na Provincia de Tras os Montes, os segundos no
-Minho, e Reino de Galiza, onde hoje he Compostella.</p>
-
-<p>23 <i>Callenses.</i> Habitavaõ na Cidade de Gaya fronteira ao Porto.</p>
-
-<p>24 <i>Caperenses.</i> Lembraõ-se Resende, e Baudrand por boas
-conjecturas de existirem estes povos na Estremadura Lusitana entre
-Merida, e Placencia.<a id="FNanchor_459" href="#Footnote_459" class="fnanchor">[459]</a></p>
-
-<p>25 <i>Celerinos.</i> Eraõ os povos, que habitavaõ na Cidade Celiobriga,
-a qual, conforme a indagaçaõ do Padre Argote, ficava ou em Celorico
-de Basto, ou nas suas visinhanças.<a id="FNanchor_460" href="#Footnote_460" class="fnanchor">[460]</a> Baudrand, allegando a Sanson,
-julga que os Celerinos eraõ os habitadores de Barcellos. Na ponte de
-Chaves, mandada fazer pelo Imperador Vespasiano, vem assinados os
-Celerinos, os quaes eraõ povos daquella Comarca de Chaves, parte dos
-quaes ficava em Portugal, parte em Galiza.</p>
-
-<p>26 <i>Celtas.</i> Existiaõ na Provincia do Alentejo,<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span> e confinavaõ da
-parte do Meyo dia com os Turdetanos, da banda do Norte com o Tejo: pelo
-Occidente lhe ficava a ribeira de Canha, tendo tambem por visinhos
-os Barbaros da Arrabida. Eraõ as suas principaes povoações Elvas,
-Estremoz, Villa Viçosa, e Evora. Havia na Andaluzia outros Celtas,
-porém diversos destes.<a id="FNanchor_461" href="#Footnote_461" class="fnanchor">[461]</a></p>
-
-<p>27 <i>Celtiberos.</i> Eraõ povos, que se originaraõ dos Celtas do
-Alentejo, os quaes passando-se para Andaluzia, e confederando-se com
-os que habitavaõ pelas ribeiras do Ebro, deraõ origem aos Celtiberos,
-gente muy conhecida em toda a Hespanha por valerosa, e que fizeraõ
-forte resistencia aos Romanos, e Cartaginezes. Delles fallaõ muitos dos
-Authores antigos allegados.<a id="FNanchor_462" href="#Footnote_462" class="fnanchor">[462]</a></p>
-
-<p>28 <i>Cerenecos.</i> Povos, que habitavaõ onde hoje chamaõ Concelho de
-Thuyas junto a Canavezes.<a id="FNanchor_463" href="#Footnote_463" class="fnanchor">[463]</a></p>
-
-<p>29 <i>Cinesios.</i> Viviaõ junto dos Ostidanienses.</p>
-
-<p>30 <i>Colarnos.</i> Eraõ visinhos dos Turdulos modernos, e occupavaõ
-aquella parte da Estremadura, que está entre os rios Tejo, e Odivor.</p>
-
-<p>31 <i>Curetes.</i> Habitavaõ no Algarve, fundaraõ Sylves, e vieraõ a
-Hespanha quasi no tempo de Tubal.<a id="FNanchor_464" href="#Footnote_464" class="fnanchor">[464]</a></p>
-
-<p>32 <i>Grayos</i>, ou <i>Gravios.</i> Tinhaõ sua habitaçaõ na Provincia
-do Minho, e nesta mesma Provincia viverão os <i>Gronios</i>.<a id="FNanchor_465" href="#Footnote_465" class="fnanchor">[465]</a>
-Alguns Historiadores querem que os primitivos Grayos, e todos os mais
-povoadores desta Provincia daquelles primeiros seculos fossem de naçaõ
-Grega;<a id="FNanchor_466" href="#Footnote_466" class="fnanchor">[466]</a> porém temos por mais provavel, que todas, quantas noticias
-se nos offerecem nas Historias de fundações Gregas, e nomes<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span> Gregos
-anteriores ao ultimo anno do reinado de Argantonio, saõ fabulosas;
-pois consta de Herodoro, o mais antigo Historiador daquelles tempos,
-serem os Fenices os primeiros Gregos, que emprenderaõ de proposito o
-descubrimento de novas terras, até chegarem a Hespanha em tempo, que
-ainda reinava Argantonio, que foy 543 annos antes de Christo.<a id="FNanchor_467" href="#Footnote_467" class="fnanchor">[467]</a></p>
-
-<p>33 <i>Herminios.</i> Tinhaõ sua habitaçaõ na serra da Estrella da
-Provincia da Beira.<a id="FNanchor_468" href="#Footnote_468" class="fnanchor">[468]</a></p>
-
-<p>34 <i>Ibéros.</i> Este nome era generico a todos os Hespanhoes.</p>
-
-<p>35 <i>Labricanos.</i> Residiaõ junto das ribeiras do Ave por aquella
-parte, em que se lança no mar pela Villa do Conde.<a id="FNanchor_469" href="#Footnote_469" class="fnanchor">[469]</a></p>
-
-<p>36 <i>Lancienses.</i> Estavaõ naquellas partes da Provincia da Beira,
-que se extende do Norte para o Meyo dia, do Ponsul até o Tejo; e do
-Oriente ao Occidente, do Elja até o Zezere.</p>
-
-<p>37 <i>Limicos.</i> Viviaõ junto das margens do Lima.<a id="FNanchor_470" href="#Footnote_470" class="fnanchor">[470]</a></p>
-
-<p>38 <i>Luancos</i>, ou <i>Lubenos</i>. Habitavaõ na Provincia do Minho,
-mas ignora-se a paragem certa.</p>
-
-<p>39 <i>Lusos</i> ou <i>Lusitanos</i>. Possuiaõ terras entre o Tejo, e
-o Douro, e occupavaõ tambem todo o lado Occidental, que corre desde
-a foz do Douro até o Promontorio Celtico, e pelo lado Septentrional
-desde este Promontorio até adiante da Corunha. O nome de Lusitanos era
-universal, porque comprehendia outros muitos povos, como Celtiberos,
-Turdulos, Vetones, &amp;c.</p>
-
-<p>40 <i>Narbassos.</i> Eraõ visinhos dos Vacceos, e viviaõ<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span> junto a
-Freixo de Espadacinta.<a id="FNanchor_471" href="#Footnote_471" class="fnanchor">[471]</a></p>
-
-<p>41 <i>Nemetates.</i> Existiaõ na Provincia de Tras os Montes desde
-Bragança até o monte Gerez, separando-os de Galiza o rio Lima. No Mappa
-de Ortelio os vemos situados junto de Araduca, passando-lhe pelo meyo o
-Tamega.</p>
-
-<p>42 <i>Ostidanienses.</i> Occupavaõ aquelle angulo de terra, que
-se termina no Cabo de S. Vicente pelo espaço naõ mais que de duas
-leguas.<a id="FNanchor_472" href="#Footnote_472" class="fnanchor">[472]</a></p>
-
-<p>43 <i>Pesures.</i> Estes povos eraõ pouco conhecidos; por isso na
-inscripçaõ da ponte de Alcantara estaõ no ultimo lugar. Tinhaõ a sua
-habitação na Covilhã, e Castellobranco, e parte da serra da Estrella.
-Naõ saõ os mesmos, a que Resende chama <i>Meidobrigenses</i>, ou
-<i>Plumbarios.</i><a id="FNanchor_473" href="#Footnote_473" class="fnanchor">[473]</a> O Padre Bluteau diz, que elles saõ oriundos dos
-antigos Celtas, e que o nome Pesures era ignominioso, pois significava
-gente cobarde, e nisto concorda com a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_474" href="#Footnote_474" class="fnanchor">[474]</a></p>
-
-<p>44 <i>Sarrios.</i> Eraõ os barbaros da Arrabida.</p>
-
-<p>45 <i>Seurbos.</i> Povos, que viviaõ pouco acima de Braga.</p>
-
-<p>46 <i>Tamacanos.</i> Viviaõ nas margens do Tamega pelo sitio, onde elle
-entra no Douro.<a id="FNanchor_475" href="#Footnote_475" class="fnanchor">[475]</a></p>
-
-<p>47 <i>Transcudanos.</i> Pelos annos de 560 pouco mais, ou menos antes
-de Christo, deixando alguns dos Turdulos antigos a costa maritima,
-em que viviaõ, foraõ habitar aquelle espaço de terra, que se extende
-de Norte a Sul entre os rios Coa, e Agueda; e pela situaçaõ, em que
-ficaraõ além do Coa, se vieraõ a chamar povos Transcudanos.<a id="FNanchor_476" href="#Footnote_476" class="fnanchor">[476]</a></p>
-
-<p>48 <i>Turdetanos.</i> Possuiaõ a mayor parte do Algarve,<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span> e do
-Alentejo, e era tudo o que vay de Béja até Sines. Foraõ reputados por
-insignes guerreiros até à segunda guerra Punica. Eraõ engenhosos,
-tinhaõ politica, e amavaõ as sciencias com fruto, e cultura.
-Prezavaõ-se de ter leys escritas em verso, e todas as suas antiguidades
-conservadas em livros de seis mil annos anteriores; mas cada anno
-constava só de tres mezes. Estrabo os julga taõ opulentos, e ricos, que
-escreve tinhaõ até nas estrebarias argolas de prata.<a id="FNanchor_477" href="#Footnote_477" class="fnanchor">[477]</a></p>
-
-<p>49 <i>Turdulos</i>. Eraõ de duas especies, huns antigos, outros
-modernos. Os Turdulos antigos foy a gente mais veterana, e nobre da
-Lusitania: tinhaõ por domicilio todas as terras, que estaõ do Norte ao
-Meyo dia entre o Tejo, e o Douro, das quaes eraõ as principaes Lisboa,
-Santarem, Alfeizeraõ, Coimbra, Leiria, Aveiro, Lamego, e Viseu. Os
-Turdulos modernos tinhaõ o Tejo pela parte do Norte: pelo Meyo dia
-confinavaõ com os Celtas, e nos costumes pouco se differençavaõ huns
-dos outros. Christovaõ Cellario<a id="FNanchor_478" href="#Footnote_478" class="fnanchor">[478]</a> situa os Turdulos no Alentejo, e
-em parte do Algarve com pouca distancia dos Turdetanos. Samuel Bocharto
-confunde huns com outros.<a id="FNanchor_479" href="#Footnote_479" class="fnanchor">[479]</a></p>
-
-<p>50 <i>Turolos</i>. Habitavaõ nas margens do rio Minho da parte
-esquerda, onde está a Freguezia de S. Martinho de Lanhelas.<a id="FNanchor_480" href="#Footnote_480" class="fnanchor">[480]</a></p>
-
-<p>51 <i>Tyrios</i>. Eraõ povos, que antes dos Cartaginenses vieraõ com os
-Celtas acommetter aos Iberos.<a id="FNanchor_481" href="#Footnote_481" class="fnanchor">[481]</a></p>
-
-<p>52 <i>Vacceos</i>. Tinhaõ a sua habitação entre Coimbra, e o Porto, e
-tomaraõ o nome do rio Vouga.<a id="FNanchor_482" href="#Footnote_482" class="fnanchor">[482]</a></p>
-
-<p>53 <i>Vetones</i>. Viviaõ junto do Tejo na Estremadura entre os povos
-da Lusitania.<a id="FNanchor_483" href="#Footnote_483" class="fnanchor">[483]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span></p>
-
-<p>54 Todos estes povos, ou os mais delles, independentes huns dos outros
-se governavaõ conforme as leys, e costumes particulares, que tinhaõ.
-Nas guerras elegiaõ seus Capitães, a que obedeciaõ com tanta efficacia,
-que desprezavaõ a vida, se acaso aquelles morriaõ na batalha.
-Armavaõ-se regularmente com duas espadas, huma comprida, outra mais
-curta, ao modo das nossas espadas, e adagas, que ainda alcançámos ver.
-Os naturaes da serra da Estrella foraõ os primeiros, que a inventaraõ;
-donde veyo a cantar o nosso Botelho:<a id="FNanchor_484" href="#Footnote_484" class="fnanchor">[484]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Van muchos del confin, y heroico assiento,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que ilustra la altivez del monte Herminio:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>La espada Lusitana, que es su invento,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Manejaban con fuerte predominio.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>55 Usavaõ tambem de huma certa especie de pequeno escudo, que mais
-propriamente era broquel, que adarga, a que chamavaõ <i>Cetras</i>,
-segundo explica Diogo Mendes de Vasconcellos nos Escolios de Resende; e
-batendo huns nos outros, faziaõ hum tripudio sonoramente horrivel.<a id="FNanchor_485" href="#Footnote_485" class="fnanchor">[485]</a>
-Assim cantou delles Silio Italico:<a id="FNanchor_486" href="#Footnote_486" class="fnanchor">[486]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">- - - - - -<i>Misit dives Gallæcia pubem,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Barbara nunc patriis ululantem carmina linguis,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Nunc pedis alterno percussa verbere terra,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Ad numerum resonas gaudentem plaudere cetras.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Em parte o quiz imitar Botelho:<a id="FNanchor_487" href="#Footnote_487" class="fnanchor">[487]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_234">[Pg 234]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Vinieron los Calaicos, a quien lavan</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Las dos orlas del Miño difundido,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Y sus antiguas cetras los muravan,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que servieron un tiempo a su alarido.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Em dizer este Poeta que as cetras, ou escudos os muravaõ, ou cubriaõ
-todos, naõ se conforma com a advertencia critica de Vasconcellos.</p>
-
-<p>56 Solemnizavaõ com louvores, e festas, a que chamavaõ
-<i>Gymnopodia</i>, aos que morriaõ pelejando;<a id="FNanchor_488" href="#Footnote_488" class="fnanchor">[488]</a> e nas mayores
-solemnidades faziaõ o sacrificio das <i>Hecatombas</i>, que era matar
-cem animaes de huma mesma especie.<a id="FNanchor_489" href="#Footnote_489" class="fnanchor">[489]</a> Adoravaõ a Marte, Minerva,
-e Hercules; donde parece, (diz de la Clede)<a id="FNanchor_490" href="#Footnote_490" class="fnanchor">[490]</a> que a veneraçaõ, e
-culto, que elles davaõ a Hercules, póde servir de huma prova da vinda,
-que este Heroe fez a Portugal, para livrar muitos de seus habitadores
-da oppressaõ de varios tyrannos, e fundar aquelle famoso Templo no
-Cabo de S. Vicente, chamado Promontorio Sacro, onde se adorava o Sol
-com ritos, e ceremonias Egypciacas, e donde o mesmo Hercules se mandou
-sepultar.</p>
-
-<p>57 Áquellas tres divindades fabulosas offereciaõ em sacrificio as
-mãos direitas dos seus prizioneiros de guerra, que elles cortavaõ ao
-pé dos altares; e da observaçaõ, que faziaõ nas abertas entranhas dos
-mesmos inimigos, prognosticavaõ bons, ou máos successos para as suas
-batalhas.<a id="FNanchor_491" href="#Footnote_491" class="fnanchor">[491]</a></p>
-
-<p>58 Nas doenças, e enfermidades servia de Medico todo aquelle, que tinha
-experiencia do remedio prestante, e concernente à queixa. Para isso
-costumavaõ expôr os enfermos nas portas das casas, ou nos transitos
-das ruas, para que o passageiro<span class="pagenum" id="Page_235">[Pg 235]</span> applicasse o que soubesse, e fosse
-opportuno pela observaçaõ, que tivesse feito em outra semelhante
-molestia;<a id="FNanchor_492" href="#Footnote_492" class="fnanchor">[492]</a> e destas bem sortidas experiencias sacou depois
-Hypocrates documentos, e aforismos admiraveis para a sua medicina.<a id="FNanchor_493" href="#Footnote_493" class="fnanchor">[493]</a></p>
-
-<p>59 Com estes, e outros usos viviaõ os mais dos Lusitanos na sua
-primitiva liberdade, quando acontecendo aquella extraordinaria secca,
-e fome, de que faz mençaõ Justino, e as Historias de Hespanha,<a id="FNanchor_494" href="#Footnote_494" class="fnanchor">[494]</a>
-poz em incrivel consternaçaõ toda a terra. Despovoou-se o Alentejo, o
-Algarve, e parte da Estremadura, e foraõ seus habitadores refugiarse
-nas serras da Beira, e Minho, como mais ferteis, e frescas; outros
-foraõ para Italia: taõ grande, e continuada foy a calamidade, que
-padeciaõ, posto que Vaseu duvída muito della.<a id="FNanchor_495" href="#Footnote_495" class="fnanchor">[495]</a></p>
-
-<p>60 Applacou finalmente o Ceo sua ira, e restituidos à patria os
-ausentes, e saudosos de tanto tempo, vieraõ tambem entre os nacionaes
-muitos dos Gallos Celtas. Depois acontecendo pelos annos 1380 do
-diluvio, conforme Vaseu, aquelle memoravel incendio nos montes
-Pyreneos, que penetrando até as cavernas da terra, causou horrorosos
-tremores, e fez descubrir muitas minas de ouro, e prata,<a id="FNanchor_496" href="#Footnote_496" class="fnanchor">[496]</a>
-divulgou-se a noticia desta fluente riqueza, a qual com a vehemencia da
-sua virtude attrahindo de taõ longe a ambiçaõ dos Fenices, foy causa
-de expedirem promptamente huma grosta armada, que aportou na Ilha de
-Cadiz, e daqui vindo costeando as<span class="pagenum" id="Page_236">[Pg 236]</span> margens maritimas das nossas terras,
-ancorou no Algarve.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_423" href="#FNanchor_423" class="label">[423]</a> Garma no Theatr. Univ. de Hesp. tom. 1. c. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_424" href="#FNanchor_424" class="label">[424]</a> Moret, Anales de Navarra, tom. 1. no Append. §. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_425" href="#FNanchor_425" class="label">[425]</a> Strabo, Anselmo Laurunense, Lyra, Abulens. Delrio,
-Alapide, e outros apud Malvend. de Anti-Christo lib. 6. cap. 22.
-Genebrad. Chronol. lib. 1. p. 31. Arias Montan. in Isai 66. v. 19.
-Villalp. in cap. 27. Ezech. v. 13. Sá ibid. Heitor Pint. ib. c. 38. v.
-2. Torniello, Annales Sacri ad ann. 1931. n. 22. Pineda lib. 4. de reb.
-Salom. cap. 15. § 7. Bent Per. in Genes. tom. 2. liv. 15. Marin. Sicul.
-lib. 6. cap. 1. Vasæus, Chronic. Hisp. tom. 1. ann. 143. Munster,
-Cosmograf. liv. 2. p. 56. D. Rodr. Arceb. de Toled. liv. 1. cap. 3.
-Flor. do Camp. liv. 1. cap. 4. Garibay tom. 1. liv. 4. cap 4. Escolan.
-Hist. de Valenç. liv. 1. cap. 4. Henao, Antig. de Cantabr. liv. 1. c.
-1. Pined. Monarq. Eccles. liv. 1. cap. 18. §. 4. Matut. Prosap. de
-Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. Aldret Orig. da ling. Castelh. liv. 2.
-cap. 15. Clericat. etá 2. del mondo pag. 7. Marian. liv. 1. c. 1. c. 7.
-Kircher de Arc. Noé cap. 9. Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap
-1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_426" href="#FNanchor_426" class="label">[426]</a> Jofeph. de Antiq. lib. 1. cap. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_427" href="#FNanchor_427" class="label">[427]</a> D. Hieron quæst. Hebraic. in Genes. 10. &amp; in cap. 32.
-Ezech. S. Isidor. lib. 9. cap. 2. Origin. Euseb. lib. 9. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_428" href="#FNanchor_428" class="label">[428]</a> Melancthon in Chron. allegado por Joaõ Guilherme
-Stukio nos Scholios in Periplum Pont. Euxini de Arriano pag. 32. e
-144. Plin. Strab. Marc. Varr. Arias Montan. apud Hoffman. in Diction.
-verb. <i>Thubal</i>, &amp; <i>Iberus</i>. Torniel. ad ann. 1931. ainda que
-duvidoso. Marian. liv. 1 c. 7. Volaterr. liv. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_429" href="#FNanchor_429" class="label">[429]</a> Moret, Anales de Navarra, tom. 1. liv. l. cap. 1.
-Nicefor. liv.8. cap 34. Yañes España en la S. Bibl. part. 1. cap. 2. n.
-5. e 6. e cap. 3. n. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_430" href="#FNanchor_430" class="label">[430]</a> Avien. in Descript. Orbis vers. 882.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_431" href="#FNanchor_431" class="label">[431]</a> Far. tom. 1. da Europ. Port. part. 1. cap. 1. n. 5.
-Yañes España en la S. Biblia part. 1. cap. 3. n. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_432" href="#FNanchor_432" class="label">[432]</a> Abulens. super Genes. cap. 10. <i>Tubal, à quo Hispani,
-iste sedem posuit in descensu montis Pyrinæi apud locum, qui dicitur
-Pampilona.</i> O mesmo repete sobre o Prologo da Biblia, que se chama
-<i>Epistola ad Paulinum</i>, cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_433" href="#FNanchor_433" class="label">[433]</a> Flor. do Camp. liv. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_434" href="#FNanchor_434" class="label">[434]</a> Vician. liv. 1. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_435" href="#FNanchor_435" class="label">[435]</a> Padr. Moret, Anales de Navarra tom 1. p. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_436" href="#FNanchor_436" class="label">[436]</a> Apud Yañes ut supr. n. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_437" href="#FNanchor_437" class="label">[437]</a> Brit. Monarq. Lusit. p. 1. l. 1 c. 3. Heyt. Pint. in
-cap. 27. Ezech. p. 247. <i>Prima Urbis Hispaniæ, ut aiunt, appellata
-est Thubal, ab ipso conditore nomine desumpto, quam viri docti eam
-dicunt esse, que nunc Setubal appellatur in hac nostra Lusitania sita
-ad Occidentem.</i> Diego de Colmenar. na Histor. de Segovia cap. 1.
-<i>Dize-se, que fundó Tubal al lado meridional del rio Tajo sobre
-el grande Oceano un pueblo, que nombró Setubal, nombre al parecer
-compuesto en honra del S. Seth, su 10. abuelo, hijo de Adan.</i> Matut.
-Prosap. de Christ. edad. 2. cap. 3. §. 3. e outros apud Fr. Bernard. da
-Silva na Def. da Monarq. Lusit. part. 1. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_438" href="#FNanchor_438" class="label">[438]</a> Faria ut supr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_439" href="#FNanchor_439" class="label">[439]</a> Lacerd. in Virgil. apud L. Mar lib. 1. cap. 15. Antig.
-de Lisb. <i>Ab Lusitania exuberante gente dissipati in reliquam
-Hispaniam sunt, &amp; tanquam in colonias deducti.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_440" href="#FNanchor_440" class="label">[440]</a> Livius. lib. 3. decad. 4. Macrob. liv. 1. Saturn. Polyb.
-lib. 3. apud Resend. lib. 3. Antiq. Herodot. lib. 1. cap. 42. Plin.
-liv. 7. cap. 48.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_441" href="#FNanchor_441" class="label">[441]</a> Idem liv. 4. cap. 20. Mela liv. 3. cap. 1. Resend. liv.
-1. de Antiq. Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9. Argot. Memor. do Arcebisp.
-de Brag. p. 177. e 373.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_442" href="#FNanchor_442" class="label">[442]</a> Resend. liv. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_443" href="#FNanchor_443" class="label">[443]</a> Strab. liv. 3. Justin. liv. ult. cap ultim Resend. liv.
-1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_444" href="#FNanchor_444" class="label">[444]</a> Arrian. res gestar. Alex. liv. 2. <i>Sed Geryonis Regnum
-in continenti fuisse circa Ambraciam, &amp; Amphilocos, indeque Herculem
-boves abegisse</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_445" href="#FNanchor_445" class="label">[445]</a> Veja se a prim. parte do nosso Mappa cap. 2. n. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_446" href="#FNanchor_446" class="label">[446]</a> Argot nas Antig. da Chancel. de Brag. p. 132.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_447" href="#FNanchor_447" class="label">[447]</a> Plin. lib. 3 cap. 3. Baudrand.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_448" href="#FNanchor_448" class="label">[448]</a> Mela liv. 3. cap. 1. Strab. liv. 3. Plin. lib. 4. cap.
-20. Argot nas Memor do Arceb. de Brag. pag. 184. Flores na Espanha
-sagrada tom. 15. pag. 26</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_449" href="#FNanchor_449" class="label">[449]</a> Strab. liv. 3. Argot. ut supr. p. 149. Monarq. Lusit.
-part. 1. cap. 4. da Geograf. Martial lib. 10. Epigram. 16</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_450" href="#FNanchor_450" class="label">[450]</a> Pimentel, Notic. Academic. de 2 de Janeir. de 1727.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_451" href="#FNanchor_451" class="label">[451]</a> Brit. na Geogr. c. 4. Flor. do Camp. Histor. de Hespan.
-liv 2. cap. 10. Plin. liv. 4. cap. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_452" href="#FNanchor_452" class="label">[452]</a> Argot. nas Memor. de Brag. p. 450.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_453" href="#FNanchor_453" class="label">[453]</a> Joaõ de Barr. nas Antig. do Minho cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_454" href="#FNanchor_454" class="label">[454]</a> Argot. ut supr liv. 1. cap 14. n. 285.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_455" href="#FNanchor_455" class="label">[455]</a> Resend. lib. 1. de Antiguit. <i>Sed hæc potius Civitatum
-sunt nomina.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_456" href="#FNanchor_456" class="label">[456]</a> Brit. na Monarq. Lusit. liv. 5. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_457" href="#FNanchor_457" class="label">[457]</a> Vasæus tom. 1. Chron. pag. 64. Argot. ut supr. p. 155.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_458" href="#FNanchor_458" class="label">[458]</a> Brit. na Geogr. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_459" href="#FNanchor_459" class="label">[459]</a> Resend. lib. 1. Antiq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_460" href="#FNanchor_460" class="label">[460]</a> Plin. lib. 3. cap. 3. Resend. lib. 1. Argot. nas Memor.
-de Brag. tom. 1. p. 157. e 317.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_461" href="#FNanchor_461" class="label">[461]</a> Brito na Geograf. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_462" href="#FNanchor_462" class="label">[462]</a> Diodor. lib. 6. Strab. lib.4. Plin. lib. 3. cap. 1. Liv.
-lib. 5. Flor liv. 2. cap. 17. Lucan. lib. 4. v. 10. Silius Italic. lib.
-3. v. 340. Catul. Epigr. 40. Marrial lib. 4. Epigr. 55.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_463" href="#FNanchor_463" class="label">[463]</a> Argot. nas Memor. de Brag. p. 157.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_464" href="#FNanchor_464" class="label">[464]</a> Justin. lib. 44. Strab. lib. 3. Gerund. lib. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_465" href="#FNanchor_465" class="label">[465]</a> Mela lib. 3. cap. 1. Brit. na Geogr. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_466" href="#FNanchor_466" class="label">[466]</a> Plin. lib. 4. cap. 20. Estaço nas Antiguid. c. 9.
-Resend. lib. 1. <i>Græcorum sobolis omina.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_467" href="#FNanchor_467" class="label">[467]</a> Herod. lib. 1. cap. 163. <i>Hi Phocenses primi Græcorum
-longinquis navigationibus usi sunt. Adriamque simul, &amp; Tyrrheniam,
-Iberiam, atque Tartesum occuparunt.</i> Pausan lib. 2. pag. mihi 144.
-Plin. lib. 7. c. 48. Valer. M. x. lib. 8. cap. 13. Vasæus tom. 1. Chron
-ann. 129 ab urbe condita.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_468" href="#FNanchor_468" class="label">[468]</a> Monarq Lusit. tom. 1. liv. 4. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_469" href="#FNanchor_469" class="label">[469]</a> Ibid p. 322.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_470" href="#FNanchor_470" class="label">[470]</a> Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. p. 128.
-Resend. lib. 1. Antiq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_471" href="#FNanchor_471" class="label">[471]</a> Argot nas Memor. de Brag. p. 160. e 322.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_472" href="#FNanchor_472" class="label">[472]</a> Ortel. no Mappa da Lusitan. Cellar. Geogr. antiq. lib.
-2. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_473" href="#FNanchor_473" class="label">[473]</a> Brit. na Geograf. cap. 4. Clede na Histor. de Port. tom.
-1. liv. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_474" href="#FNanchor_474" class="label">[474]</a> Bluteau, Vocabul. verb. <i>Pesures</i>. Monarq. Lusit.
-liv. 1. cap. 28.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_475" href="#FNanchor_475" class="label">[475]</a> Argot. Memor. de Brag. pag. 161.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_476" href="#FNanchor_476" class="label">[476]</a> Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 30. Pimentel, Notic. da
-Academ. de 2 de Jan. de 1727. Vasconcel. nos Schol. a Resend.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_477" href="#FNanchor_477" class="label">[477]</a> Baudrand in Diction. Geograp.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_478" href="#FNanchor_478" class="label">[478]</a> Cellar. Geograf. liv. 2. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_479" href="#FNanchor_479" class="label">[479]</a> Bochart. Geograph. Sacr. liv. 1. cap. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_480" href="#FNanchor_480" class="label">[480]</a> Argot. Mem. de Braga tom. 1. p. 162.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_481" href="#FNanchor_481" class="label">[481]</a> Ibid. p. 60.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_482" href="#FNanchor_482" class="label">[482]</a> Agiol. Lusit. tom. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_483" href="#FNanchor_483" class="label">[483]</a> Resend lib. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_484" href="#FNanchor_484" class="label">[484]</a> Botelho no Alphonso liv. 3. oitav. 88. Vide Just.
-Lipsium lib. 3. de Militia Roman. Dialog. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_485" href="#FNanchor_485" class="label">[485]</a> Vasconcel in Schol. ad lib. 1. Resend. de Antiq.
-<i>Cùm enim Cetras resonas,</i> (explica o texto de Silio) <i>hoc est
-tinnitum, &amp; sonitum edentes vocet, manifestè innuit esse illa parva
-scuta, quæ Bluqueria dicuntur ex ligno fabrefacta, atque ære contecta,
-quæ clarissimum sonitum inter se collisa edunt; quod coriaceis illis, &amp;
-maioribus scutis, seu parmis nequaquam convenire potest</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_486" href="#FNanchor_486" class="label">[486]</a> Silius Ital lib 3. vers. 346.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_487" href="#FNanchor_487" class="label">[487]</a> Botelh. no Alphons. liv. 3. est. 90.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_488" href="#FNanchor_488" class="label">[488]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_489" href="#FNanchor_489" class="label">[489]</a> Ibid. liv. 5. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_490" href="#FNanchor_490" class="label">[490]</a> De la Clede, Histor. de Portug. tom. 1. pag. mihi 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_491" href="#FNanchor_491" class="label">[491]</a> Alexand. ab Alexand. lib 6. cap. 26. <i>Lusitanis vetus
-mos erat, ex intestinis hominum extæ prospicere, atque inde omina, &amp;
-divinationes captare, abscissasque captivorum dextras pro munere diis
-offerre.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_492" href="#FNanchor_492" class="label">[492]</a> Bohem. lib. 3. cap. 25. de Vetustis Lusitanorum moribus.
-<i>Ægrotos vetusto ritu Ægyptiorum in plateis deponunt, ut qui eo morbi
-genere tentati sunt, commone facere eos valeat.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_493" href="#FNanchor_493" class="label">[493]</a> Garm. no Theatr. Univ. de España tom. 1. p. 195.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_494" href="#FNanchor_494" class="label">[494]</a> Justin. liv. 44. cap. ult. Marian. tom. 1. liv. 1. cap
-14. Monarq. Lusit. liv. 1. cap. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_495" href="#FNanchor_495" class="label">[495]</a> Vasæus tom. 1. Chron. ann. 1250. <i>Circa hunc annum
-ponunt admirabilem illam siccitatem... quod mihi quidem non sit
-verissimile, quia nulla ejus rei memoria in veterum libris reperitur,
-qui rem tam stupendam, ac raram proculdubio non tacuissent.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_496" href="#FNanchor_496" class="label">[496]</a> Diodot. Sicul. liv. 1. Arist. de mirab. auscult. Monarq.
-Lusit. liv. 1. cap. 26.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_II">CAPITULO II.<br><span class="small"><i>Estado da Lusitania com a invasaõ dos Fenices, e Cartaginezes.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Tanto que a armada Fenicia surgio no porto de Tavira, saltaraõ logo
-em terra os novos estrangeiros, e introduzindo-se por ella dentro,
-chegaraõ a invadir, e assolar Andaluzia, onde obrigaraõ os povos a
-que lhe trabalhassem na extracçaõ dos preciosos metaes, usando com
-elles inesperadas desattenções. Os Andaluzes achando-se por este modo
-turbados, e opprimidos, pediraõ soccorro aos Portuguezes Turdetanos
-seus visinhos. Declarou-se a guerra, fizeraõ-se promptos os batalhões,
-e logo neste primeiro combate principiou a brilhar o esforço Lusitano
-com a vitoria, que alcançou do Africano poder; porém o demasiado
-descuido dos Andaluzes fez eclipsar algum tanto a fama dos alliados;
-porque deixando respirar quasi à porta as forças do inimigo, pode este
-conquistar a Betica, paiz fertil, rico, e agradavel.</p>
-
-<p>2 Por este tempo, que foy pouco mais, ou menos 589 annos antes de
-Christo, querem alguns Chronistas<a id="FNanchor_497" href="#Footnote_497" class="fnanchor">[497]</a> que Nabucodonosor viesse, ou
-mandasse em alguns navios fornecidos de gente valerosa acometter os
-Tyrios, e Fenices, que occupavaõ a garganta do Oceano no estreito
-de Gibraltar, e que estes valendo-se do esforço dos Turdetanos,
-quebrantaraõ<span class="pagenum" id="Page_237">[Pg 237]</span> os projectos do soberbo Rey; porém esta expediçaõ he
-tida por duvidosa no exame da critica mais exacta.<a id="FNanchor_498" href="#Footnote_498" class="fnanchor">[498]</a> O certo he,
-que humas esquadras de gente estrangeira vieraõ inquietar os Fenices:
-que os Turdetanos tomaraõ armas para os defender: que os Fenices em
-recompensa deste soccorro atacaraõ a seus bemfeitores: e que estes
-castigaraõ aquella vil ingratidaõ, expulsando-os naõ só da Betica, mas
-da Ilha de Cadiz.</p>
-
-<p>3 Vendo-se os Fenices expulsos, e destroçados, foy o seu remanente
-buscar soccorro, e refugio a Sidonia, Cidade capital da Fenicia, e
-lá formando sufficientes reclutas, conduzio hum importante corpo de
-exercito, que commandava Mezerbal venturoso, e perito soldado. Começou
-a litigar com os Turdetanos, os quaes animados com o agigantado valor,
-e sciencia militar do inclyto Baucio Capeto, a quem Mariana chama
-Principe,<a id="FNanchor_499" href="#Footnote_499" class="fnanchor">[499]</a> fizeraõ tal destroço no inimigo, que o proprio Mezerbal
-para salvar a vida lhe foy preciso desamparar o campo, e junto ao rio
-Gaudalete<a id="FNanchor_500" href="#Footnote_500" class="fnanchor">[500]</a> deixou nas mãos de Baucio a segurança da vitoria com os
-preciosos despojos, que depois se expozeraõ como trofeos honorificos
-pendurados nas paredes dos Templos.</p>
-
-<p>4 Dissimulou Mezerbal o estrago, ou a pena dos seus effeitos, e para
-mayor disfarce fez treguas com os Turdetanos. Pendentes ellas, e à
-sombra da paz mandou pedir a Cartago novos subsidios, com os quaes
-mais animoso, rompendo a suspensaõ das armas, atacou os Turdetanos, e
-os expedio da Betica. Retira-se Baucio à Lusitania, e os Turdetanos
-naõ querendo exporse a outra ruina, determinaraõ deixar a patria.
-Passaraõ o Guadiana, e o Tejo, padecendo nesta marcha muitos embaraços,
-porque os Gallegos pertenderaõ impedirlhes o passo<span class="pagenum" id="Page_238">[Pg 238]</span> misturados com
-Gregos, e Celtas; porém brilhando nesta resistencia o espirito
-varonil das matronas Portuguezas, triunfaraõ os Turdetanos de seus
-inimigos, e a vitoria ficou famosa com o titulo honroso de <i>Empreza
-das mulheres</i>, produzindo-se por meyo della a tranquillidade na
-Provincia do Minho.<a id="FNanchor_501" href="#Footnote_501" class="fnanchor">[501]</a></p>
-
-<p>5 Em quanto estas acções se obravaõ na Lusitania, foraõ os Fenices
-sacudidos da Betica pelos Cartaginezes; e reforçados estes com as
-tropas auxiliares, que lhe vinhaõ de Cartago, se foraõ fazendo
-poderosissimos na conducta de Amilcar, Hasdrubal, Hymilcon, Hanon,
-e outros valerosos Capitães, principalmente Anibal, os quaes,
-estabelecendo pazes com os Lusitanos, experimentaraõ quanto era melhor
-a amizade com elles, que a desavença. Em muitas facções de perigo
-se valiaõ do valor dos nossos, e os nossos conservando sua alliança
-alcançaraõ vitorias dos Tyrios, e outros povos de Chipre, que vinhaõ
-com o designio de invadir a Lusitania com hostilidades, e insultos.</p>
-
-<p>6 Passaremos agora em silencio os successos de alguns annos, porque a
-narraçaõ abbreviada, que expendemos, mais permitte à penna voos, que
-rasgos. Já os Romanos invejosos da fortuna, que dava conhecida vantagem
-ao poder dos Cartaginezes, tinhaõ publicado guerra contra elles; e
-provando alternativamente as armas em varios recontros, chegaraõ a ver
-mayor que a de Cartago a força Romana. Porém Anibal ainda assim com
-huma ousadia incomparavel, querendo resarcir tanto de reputaçaõ, quanto
-havia perdido de gente, partindo de Hespanha se introduz no coraçaõ de
-Italia à custa de immensos riscos a combater com os Romanos.</p>
-
-<p>7 Constavaõ suas tropas, além de Africanos,<span class="pagenum" id="Page_239">[Pg 239]</span> de hum grande numero
-de Lusitana soldadesca, Vetones, Turdulos, e Celtas, da qual era
-Commandante Viriato I. A qualidade do exercito augmentou a intrepidez
-do coraçaõ de Anibal, e em todas as operações de brio, e honra nomeava
-os Lusitanos, que sempre valentes lhe corresponderaõ à idéa, e
-desempenharaõ o conceito; e assim foraõ elles os que contribuiraõ para
-o mayor numero das suas vitorias.<a id="FNanchor_502" href="#Footnote_502" class="fnanchor">[502]</a> Elles foraõ os que em credito
-da robustez, e constancia de animo supportaraõ com admiravel paciencia
-a fome, a sede, e todas as fadigas de Marte; bastando a impraticavel
-passagem dos Alpes, em que até a mesma natureza venceraõ, como emula,
-para evidente demonstraçaõ do seu esforço.</p>
-
-<p>8 Escolhida pois Italia para theatro da guerra, principiou Anibal a
-assombrar os Romanos; e sendo muitas, e repetidas as batalhas, em
-que os nossos occupavaõ sempre as testas dos exercitos, como lugares
-mais arriscados, vencendo os Consules Cneyo Servilio, Cayo Flaminio,
-Lucio Emilio, e Cayo Terencio, nenhuma grangeou para a fama nome de
-mayor permanencia, que a chamada batalha de Canas; na qual depois do
-primeiro Viriato ter morto seis mil Romanos, lhe tirou a vida o Consul
-Paulo Emilio, cuja perda resarciraõ os nossos incitados da indignaçaõ,
-e vingança, chegando a escalar cincoenta mil soldados inimigos em
-recompensa de hum só Viriato.<a id="FNanchor_503" href="#Footnote_503" class="fnanchor">[503]</a></p>
-
-<p>9 Sem duvida esta batalha de Canas (assim chamada pelo sitio, em que se
-deu) teria sido o ultimo rayo de Roma, se Anibal soubesse aproveitarse
-da vitoria; porém este insigne Capitaõ em vez de marchar no seguimento
-da sua felicidade para acabar de prostrar as forças Romanas já tibias,
-se retira a Capua, onde com desgraçado ocio fez adormecer<span class="pagenum" id="Page_240">[Pg 240]</span> o heroico
-alento com os mimos daquella Cidade.<a id="FNanchor_504" href="#Footnote_504" class="fnanchor">[504]</a></p>
-
-<p>10 Com este enorme descuido de Anibal cobraraõ os Romanos novas
-esperanças de salvarem a patria mais animosos, quanto mais
-desfalecidos. Renovaõ os Consules suas tropas, Scipiaõ triunfa dos
-Cartaginezes, e reduz a seu dominio toda Cartago. Empenhaõ os dous
-valerosos Capitães em argumento de armas as ultimas forças, e vendo
-Anibal titubear o conflicto da sua parte, houve por bem eximirse do
-risco, pondo azas nos pés; e depois tirando-se a si proprio a vida, por
-naõ cahir nas redes da contraria traiçaõ, Scipiaõ mereceo à fortuna
-alcançar huma taõ importante vitoria, que os Lusitanos partidarios
-de Anibal lhe venderaõ bem cara; e destruindo por huma vez as armas
-Africanas, que mais de trezentos annos subjugaraõ Hespanha, constituio
-senhora dominante da nossa Peninsula a famosa Roma.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_497" href="#FNanchor_497" class="label">[497]</a> Strab. liv. 15. Monarq. Lusitan. liv. 1. cap. 28. Yañes
-España en la S. Biblia part. 1. cap. 15. n. 3. e outros muitos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_498" href="#FNanchor_498" class="label">[498]</a> Estaço nas Antig. de Port. cap 33. n. 4. Paiv. Exame de
-antiguid. p. 120. Bochart. na Geograf. Sacr. liv. 1. cap. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_499" href="#FNanchor_499" class="label">[499]</a> Marian. tom. 1. liv. 1 cap. 18.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_500" href="#FNanchor_500" class="label">[500]</a> Flor. do Camp. lib. 2. cap. 29.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_501" href="#FNanchor_501" class="label">[501]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. cap. 4. Far. Europ. Port. tom. 1.
-part. 1. cap. 9. num. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_502" href="#FNanchor_502" class="label">[502]</a> Liv. decad. 3. lib. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_503" href="#FNanchor_503" class="label">[503]</a> Sil. Ital. lib. 10. Resend. lib. 3. de Antiquit.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_III">CAPITULO III.<br><span class="small"><i>Conducta dos Portuguezes no governo dos Romanos.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Assim continuava a soberania Romana em dominar Hespanha, que sendo
-até o anno 534 da fundaçaõ de Roma huma só Provincia Consular, pelos
-annos porém de 557 da mesma fundaçaõ, e 196 antes de Christo, foy
-dividida em duas Provincias Pretorias, ou Proconsulares, chamadas
-<i>Ulterior</i>, e <i>Citerior.</i> Naquella se comprehendia a Betica,<span class="pagenum" id="Page_241">[Pg 241]</span>
-e a Lusitania, isto he, Andaluzia, e Portugal: na Citerior todas as
-mais partes de Hespanha.<a id="FNanchor_505" href="#Footnote_505" class="fnanchor">[505]</a></p>
-
-<p>2 Para exacto governo dellas eraõ enviados de Roma varios Pretores, ou
-Governadores fortalecidos com legiões de gente militar para presidio
-das terras, que hiaõ conquistando; porém como os Lusitanos mal soffriaõ
-o jugo Romano, foy preciso ao respeito dos Senadores para nos sujeitar
-à obediencia mandar tambem o Consul Cataõ Censorino, o qual usando
-de affabilidade, dominou os corações da nossa gente até o ultimo dia
-do seu governo, pois tanto que Scipiaõ Nasica lhe succedeo, logo se
-revoltaraõ como leões indomitos contra elle.</p>
-
-<p>3 Inconstante fortuna experimentou Nasica no principio da sua Pretura;
-porém no fim a logrou taõ favoravel à custa dos nossos, que a sorte,
-mais que o esforço, o fez vencedor de cento e trinta e quatro
-bandeiras.<a id="FNanchor_506" href="#Footnote_506" class="fnanchor">[506]</a> Mas naõ perdendo os Lusitanos já mais o acordo na
-desgraça presente, e appellando para o primeiro conflicto, souberaõ
-vingar a perda passada com destruiçaõ total do exercito Romano, que
-governava Lucio Emilio,<a id="FNanchor_507" href="#Footnote_507" class="fnanchor">[507]</a> ruina, que por muitos dias continuos foy
-deplorada dentro em Roma, e até a vingança, que depois meditaraõ, foy
-mal succedida.</p>
-
-<p>4 Continuavaõ os Pretores, e Consules o governo da Hespanha, os quaes
-ou abatidos, ou vitoriosos, sempre confessavaõ por formidaveis as armas
-Lusitanas, custando-lhe cada palmo de nosso terreno adquirido rios de
-sangue Romano. Entre os nossos Capitães, que deixaraõ resplandecente
-nome na veneravel duraçaõ da memoria, foraõ <i>Apimano</i>,
-<i>Cesaron</i>, <i>Chancheno</i>, <i>Viriato</i>, e <i>Sertorio</i>,
-cujas gloriosas<span class="pagenum" id="Page_242">[Pg 242]</span> proezas occupaõ até as Historias dos que pertenderaõ
-diminuirlhe a fama.</p>
-
-<p>5 Aquelle espantoso terror, que o brio dos Lusitanos tinha semeada em
-Roma, chegou a produzir tal impressaõ nos animos de todos, que não
-havia nem Tribuno, nem Pretor, que se quizesse encarregar da guerra de
-Hespanha; e por acudirem pelo credito da Naçaõ, buscaraõ o caminho do
-ludibrio, que foy o da aleivosia, naõ sem escandalo do mundo. Assim se
-experimentou na morte de Viriato II. pela perfidia de Quinto Servilio,
-e na de Sertorio pela de Marco Perpenna.<a id="FNanchor_508" href="#Footnote_508" class="fnanchor">[508]</a></p>
-
-<p>6 Seria alheyo da brevidade, que promettemos, particularizar acções,
-e successos dos Lusitanos: todas taõ benemeritas da honra, e da
-eternidade, como indignas de fama as que os Romanos obravaõ em nossos
-Paizes; e muitas vezes com o dolo, e malicia em taõ vulgarizadas
-operações, que mal podiaõ occultar a ignominia, que dellas lhes
-resultava, como aconteceo com Servio Galba, reprehendido no Capitolio
-pelas manifestas aleivosias, que usava com a gente Portugueza.<a id="FNanchor_509" href="#Footnote_509" class="fnanchor">[509]</a></p>
-
-<p>7 Mais de duzentos annos tardou a conquista da Lusitania; e depois que
-se achavaõ nossas forças já lassas, e vigoroso o poder Romano, ainda
-assim foy preciso ao prudente Conselho dos Senadores para acabar de
-conquistar Hespanha determinar que se expedissem em diversos tempos
-dous famosissimos Imperadores, Julio Cesar, e Octaviano Augusto.
-Aquelle sendo o mayor guerreiro do mundo, padeceo innumeraveis
-resistencias dos nossos. Que cuidados, e desconfianças naõ causaraõ
-a Cesar os habitadores da serra da Estrella? Prenderaõ-lhe os
-Embaixadores, zombaraõ delles, e se naõ usara Cesar<span class="pagenum" id="Page_243">[Pg 243]</span> de alguns
-estratagemas, nem lhe domara a ferocidade, nem os vencera.<a id="FNanchor_510" href="#Footnote_510" class="fnanchor">[510]</a></p>
-
-<p>8 Pouco tempo durava esta sujeiçaõ, porque os nossos com obediencia
-forçada, ainda que com forças diminutas, a cada passo se estavaõ
-rebelando contra os presidios Romanos, querendo antes expôr as vidas
-aos mayores empenhos da guerra, que renderem-se a quem lhe queria
-supear a liberdade; e como já tinhaõ perdido as esperanças ao socego da
-paz, era inconquistavel o seu animo, e orgulho.</p>
-
-<p>9 Seguiraõ-se os incendios tambem na Hespanha das guerras civis entre
-Cesar, e Pompeo, e entaõ se acabou de ver que se ficavaõ triunfantes
-aquellas bandeiras, a cuja sombra militavaõ Portuguezes. Veyo
-finalmente Octaviano Augusto, e conseguida huma paz universal, se
-viraõ os Lusitanos totalmente sujeitos ao jugo do Imperio Romano. Em
-agradecimento desta tranquillidade offereceraõ muitas povoações nossas
-nas fabricas de alguns Templos, eternos elogios, que por acreditarem a
-duraçaõ, ainda o tempo gastando-lhe as pedras, lhe naõ pode consumir a
-memoria.</p>
-
-<p>10 Dentro deste feliz, e pacifico silencio nasceo ao mundo a salvaçaõ
-delle Christo bem nosso; e depois de ter completado Octaviano trinta e
-seis annos de Imperio formal, se lhe seguio Tiberio, e successivamente
-outros Imperadores sempre com o dominio das nossas terras, as quaes com
-a cubiça dos legados fluctuavaõ em mares de turbulencia. Rompiaõ-se os
-montes para se desentranharem das suas veas o ouro, e a prata.</p>
-
-<p>11 Alguns destes disturbios da ambiçaõ fez serenar a prudencia de
-Vespasiano, e de seu filho Tito, os quaes com generosa, e liberal
-affabilidade illustraraõ o Reino com obras, os vassallos com
-beneficios. A aspereza dos caminhos se vio reduzida a<span class="pagenum" id="Page_244">[Pg 244]</span> planicies
-suaves; os rios caudalosos vadeados com pontes magnificas; e toda a
-Lusitania para o seu bom regimen dividida em tres Comarcas, cinco
-Colonias, e tres Municipios.</p>
-
-<p>12 Foraõ passando os annos, e as vidas de outros Imperadores, a quem
-nossos antepassados reconheceraõ vassallagem, até que no Imperio de
-Galieno começou a descahir a grandeza Romana,<a id="FNanchor_511" href="#Footnote_511" class="fnanchor">[511]</a> experimentando
-mais lamentavel estrago em tempo de Arcadio, e Honorio pela invasaõ
-dos barbaros de Alemanha, que discorrendo sem piedade por todas as
-Provincias da sujeiçaõ de Roma, entraraõ a sepultar nas ruinas, que
-abrirão suas espadas, as glorias da Monarquia Imperial por tantos
-seculos triunfante, mas agora opprimida, e arrastada pelo decreto fatal
-da Providencia. Será conveniente antes que entremos a informar do
-estabelecimento do novo dominio, formar hum Catalogo chronologico dos
-Pretores, e Consules, que nos governaraõ, noticia, que em obsequio, e
-beneficio da Historia, se fará estimavel aos estudiosos.</p>
-
-
-<p class="center caption"><i>Catalogo chronologico aos Pretores, Consules, e Pro-Consules
-Romanos, que vieraõ governar Hespanha desde a sua primeira divisaõ em
-Ulterior, e Citerior até o Nascimento de Christo Senhor nosso.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th>Ant. de Chr.</th><th>Fund. de Roma</th><th></th></tr>
-<tr><td class="tdr">196</td><td class="tdr">557</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Elio, ou Helvio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cneyo Sempronio Tuditano.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">195</td><td class="tdr">558</td><td class="tdl">Na Ulterior, quinto Fabio Buteo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Quinto Minucio Thermo.<span class="pagenum" id="Page_245">[Pg 245]</span></td></tr>
-<tr><td class="tdr">194</td><td class="tdr"> 559</td><td class="tdl">Na Ulterior Appio Claudio Nero.</td></tr>
-<tr><td class="tdr"> </td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Paulo, ou Publio Manlio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr"></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Com estes dous Pretores veyo tambem neste anno o Consul Marco Porcio
-Cataõ Censorino, o qual teve o governo em toda a Hespanha, e com felicidade, porque os Lisbonenses, e os de
-toda a sua Comarca lhe levantaraõ alguns padrões honorificos, e elle recolhendo-se a Roma riquissimo, introduzio
-no thesouro publico mais de quatrocentos mil cruzados em ouro, e prata, que extrahio das nossas terras; e para
-ter estas seguras na sua ausencia, antes que partisse mandou derribar os muros
-a quatrocentas Cidades, e Lugares fortes.<a id="FNanchor_512" href="#Footnote_512" class="fnanchor">[512]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr"> 192</td><td class="tdr"> 560</td><td class="tdl">Na Ulterior Publio Cornelio Scipiaõ Nasica.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl"> Na Citerior Sexto Digicio.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> <td class="tdl">Tiveraõ os Portuguezes neste governo grandes batalhas com os Romanos, e estes andavaõ taõ desconfiados, e Nasica
-taõ temeroso do valor Lusitano, que chegou a fazer votos a Jupiter pela vitoria, a qual com effeito alcançou, porque
-a fome, e fadiga dos nossos debilitou muito o nosso exercito, e com tudo custou-lhe sete mil e novecentos Romanos, que morreraõ no conflicto.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">191</td><td class="tdr"> 561</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Fulvio Nobilior.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td> Na Citerior Cayo Flaminio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">190</td><td class="tdr"> 562</td><td class="tdl">Na Ulterior Appio Atilio Serrano.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Bebio Pamfilo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">189</td><td class="tdr"> 563</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Emilio Paulo.<span class="pagenum" id="Page_246">[Pg 246]</span></td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cayo Flaminio reconduzido.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Venceraõ os Lusitanos ao Pretor Emilio, matando-lhe seis mil Romanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">188</td><td class="tdr"> 564</td><td class="tdl">Ficaraõ reconduzidos os mesmos Pretores,
- e Lucio Emilio alcançou vitoria
- dos Portuguezes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">187</td><td class="tdr"> 565</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Bebio Divite.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Plaucio Hipseo.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Lucio Bebio morreo em Marselha antes
- de chegar a Hespanha, e assim os
- Consules mandaraõ para a Pretura de
- Portugal a Publio Junio Bruto.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">186</td><td class="tdr"> 566</td><td class="tdl">Na Ulterior Cayo Catinio.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Manlio Acidino.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">185</td><td class="tdr"> 567</td><td class="tdl">Os mesmos reconduzidos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">184</td><td class="tdr"> 568</td><td class="tdl">Na Ulterior Cayo Calfurnio Pison.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Lucio Quincio Crispino.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Os Lusitanos unidos com os Celtiberos
- ganharaõ a estes dous Pretores huma
- batalha, em que lhe mataraõ cinco mil
- homens.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">183</td><td class="tdr"> 569</td><td class="tdl">Os mesmos reconduzidos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">182</td><td class="tdr"> 570</td><td class="tdl">Na Ulterior Paulo, ou Publio Sempronio Longo.
- </td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Aulo Terencio Varro.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">181</td><td class="tdr"> 571</td><td class="tdl">Ficaraõ reconduzidos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">180</td><td class="tdr"> 572</td><td class="tdl">Na Ulterior Publio Manlio.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Q. Fulvio Falco.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">178</td><td class="tdr"> 574</td><td class="tdl">Na Ulterior Lucio Posthumio Albino.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Tiberio Sempronio Graco.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">O Pretor Posthumio teve huma grande
-batalha com os Bracarenses, a quem
-venceo depois de huma grande derrota
- no seu exercito.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">176</td><td class="tdr"> 576</td><td class="tdl">Na Ulterior Tito Fonteyo Capito.<span class="pagenum" id="Page_247">[Pg 247]</span></td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Ticinio Curvo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">174</td><td class="tdr"> 578</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Cornelio Scipiaõ.
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Publio Licinio Crasso.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Estes dous Pretores naõ chegaraõ a vir
- a Hespanha, e assim foraõ reconduzidos
- os antecedentes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">173</td><td class="tdr"> 579</td><td class="tdl">Na Ulterior ignora-se quem fosse neste
- anno o Pretor.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Appio Claudio Cento.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">172</td><td class="tdr"> 580</td><td class="tdl">Na Ulterior Cneyo Servilio Cepio.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Publio Furio Filo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">171</td><td class="tdr"> 581</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Macieno.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Cneyo Fabio Buteo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">170</td><td class="tdr"> 582</td><td class="tdl">Na Ulterior Spurio Lucrecio.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Na Citerior Marco Junio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">169</td><td class="tdr"> 583</td><td class="tdl">Neste anno determinaraõ os Consules
- que houvesse na Hespanha huma só Pretura,
- ou Provincia, e assim elegeraõ para
- Pretor a Lucio Canuleyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">167</td><td class="tdr"> 585</td><td class="tdl">Claudio, ou Marco Marcelo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">166</td><td class="tdr"> 586</td><td class="tdl">Publio Fonteyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">165</td><td class="tdr"> 587</td><td class="tdl">Neste anno tornaraõ a dividir Hespanha
- em duas Preturas, e para a Ulterior
- veyo Cayo Licinio Nerva, e para a Citerior
- Cneyo Fulvio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">153</td><td class="tdr"> 599</td><td class="tdl">Na Ulterior Marco Manilio.
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Neste governo floreceo hum insigne
- Capitaõ Bracaranse, chamado Apimano,
- a quem se seguio Cesaron, que ambos
- aterraraõ os Romanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">152</td><td class="tdr"> 600</td><td class="tdl">Neste anno, conforme Orosio, foy
- Pretor Sergio Galba; mas Apiano Alexandrino
- diz que era Calfurnio Pison.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">151</td><td class="tdr"> 601</td><td class="tdl">Neste anno foy Hespanha Provincia
- Consular, e para seu governo vieraõ os
- Consules Q. Fulvio, e Tito Anio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">149</td><td class="tdr">603</td><td class="tdl">Lucio Luculo, e Albo Posthumio
-Consules tiveraõ com os Celtiberos, e<span class="pagenum" id="Page_248">[Pg 248]</span>
- Vacceos algumas batalhas taõ mal succedidas,
- que causou em Roma tanto
- medo, que naõ havia quem quizesse vir
- militar para Hespanha; até que Publio
- Scipiaõ Emilitano, offerecendo-se voluntario,
- persuadio a muitos a que viessem.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">No governo destes Consules diz Paulo
- Orosio, que acontecera aquella vil
- traição, que fez Servio Galba aos Portuguezes
- do Algarve,<a id="FNanchor_513" href="#Footnote_513" class="fnanchor">[513]</a> e que refere
- a Monarquia Lusitana.<a id="FNanchor_514" href="#Footnote_514" class="fnanchor">[514]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">145</td><td class="tdr"> 607</td><td class="tdl">No governo dos Consules Cneyo Cornelio
- Lentulo, e L. Mumio principiou
- a florecer o esforçado valor do segundo
- Viriato, dando mayor credito ao valor
- dos Portuguezes com as repetidas vitorias,
- que alcançava dos Romanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">144</td><td class="tdr"> 608</td><td class="tdl">C. Vetilio, ou Marco Vetilio, Pretor
- da Hespanha Ulterior, foy vencido
- por Viriato.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">143</td><td class="tdr"> 609</td><td class="tdl">Cayo Plaucio, Pretor da Hespanha
- Ulterior, tambem vencido por Viriato
- em muitas batalhas.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">142</td><td class="tdr"> 610</td><td class="tdl">Claudio Unimano vencido por Viriato
- com grande infamia dos Romanos.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">Neste governo obraraõ prodigios os
- Portuguezes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">141</td><td class="tdr"> 611</td><td class="tdl">Cayo Nigidio, a quem huns daõ o titulo
- de Pretor, outros de Consul, ficou
- vencido por Viriato no campo de Viseu
- em humas grandes vallas, que abrio para
- isso. Taõ atemorizados tinhaõ aos Romanos
- estes prosperos successos de Viriato,
- que lhes foy preciso para esta
- conquista de Hespanha duplicar os soccorros<span class="pagenum" id="Page_249">[Pg 249]</span>
- com exercitos Consulares.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">140</td><td class="tdr"> 612</td><td class="tdl">Q. Fabio Consul usou crueldades com
- os Portuguezes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">139</td><td class="tdr"> 613</td><td class="tdl">Q. Fabio Proconsul expugnou muitas
- Cidades da Lusitania.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">138</td><td class="tdr"> 614</td><td class="tdl">O mesmo reconduzido, e juntamente
- os Consules Cayo Lelio o <i>Sabio</i>, e Q.
- Servilio Cepio, que foy author do assassinio,
- e morte de Viriato;<a id="FNanchor_515" href="#Footnote_515" class="fnanchor">[515]</a> e Joaõ
- de Barros diz, que Viriato fora morto
- no Lumiar, termo de Lisboa.<a id="FNanchor_516" href="#Footnote_516" class="fnanchor">[516]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">137</td><td class="tdr"> 615</td><td class="tdl">M. Pompilio na Hespanha Citerior.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">136</td><td class="tdr"> 616</td><td class="tdl">Decio Junio Bruto Consul fez pazes
- com os Lusitanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">135</td><td class="tdr"> 617</td><td class="tdl">Neste anno sendo Proconsul o mesmo
- Decio, ou Decimo Junio Bruto, sujeitou
- ao seu dominio quasi toda a Lusitania,
- e na passagem do rio Lima lhe aconteceo
- com os soldados, que naõ queriaõ
- passar, o que fica referido na primeira
- parte pag. 127. fallando daquelle
- rio. A mayor resistencia, que experimentou
- este Proconsul, foy a que lhe
- fez a Cidade de Cinania.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">134</td><td class="tdr"> 618</td><td class="tdl">Neste anno vieraõ a Hespanha o Consul
- Q. Furio, e os Proconsules Q. Metello,
- e Q. Pomponio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">133</td><td class="tdr"> 619</td><td class="tdl">M. Emilio Lepido Proconsul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">132</td><td class="tdr"> 620</td><td class="tdl">Scipiaõ Africano Consul com C. Fulvio
- Flaco poz hum apertado cerco a
- Numancia.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">131</td><td class="tdr"> 621</td><td class="tdl">Neste anno vendo-se os Numantinos
- taõ fortemente cercados pelos Romanos,
- determinaraõ pôr fogo à Cidade,
- e morrer antes todos, que entregarem-se.<span class="pagenum" id="Page_250">[Pg 250]</span>
- Assim o executaraõ de sorte, que os
- Romanos naõ acharaõ cousa, de que
- triunfar, mais que do nome de Numancia.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">130</td><td class="tdr"> 622</td><td class="tdl">Neste anno, e em alguns dos seguintes
- vieraõ a Hespanha varios Pretores,
- e Consules, cujos annos de seus governos
- naõ se podem produzir em chronologia
- certa.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">107</td><td class="tdr"> 645</td><td class="tdl">Q. Servilio Cepio, ou Scipiaõ, triunfou
- dos Portuguezes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">103</td><td class="tdr"> 649</td><td class="tdl">Venceraõ os Lusitanos aos exercitos
- dos Consules P. Rutilio Rufo, e C.
- Manlio.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">100</td><td class="tdr"> 652</td><td class="tdl">C. Mario IV. e Q. Luctacio Consules
- ficaraõ vencidos dos Lusitanos, e a
- Hespanha Ulterior em grande paz.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">97</td><td class="tdr"> 655</td><td class="tdl">Lucio Cornelio Dolabella Proconsul
- da Hespanha Ulterior triunfa dos Lusitanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">92</td><td class="tdr"> 660</td><td class="tdl">Publio Licinio Crasso Proconsul triunfa
- dos Lusitanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">79</td><td class="tdr"> 673</td><td class="tdl">Neste anno floreceo o valor do Capitaõ
- Q. Sertorio, que fugindo de Sylla,
- seu inimigo Romano, veyo a Hespanha,
- e conciliando a vontade, e animo dos
- Portuguezes, venceo a muitos Capitães
- Romanos. Edificou varias obras em Portugal,
- principalmente Evora.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">75</td><td class="tdr"> 677</td><td class="tdl">Neste anno veyo a Hespanha Pompeo
- Magno, a quem Sertorio venceo com
- grande credito dos Portuguezes.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">69</td><td class="tdr"> 683</td><td class="tdl">Foy morto Sertorio em Evora atraiçoadamente
- por M. Perpenna, e outros
- conjurados.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">68</td><td class="tdr"> 684</td><td class="tdl">Com a morte de Sertorio conseguio
- Pompeo que quasi todas as Cidades de
- Hespanha se lhe entregassem, ainda que<span class="pagenum" id="Page_251">[Pg 251]</span>
- à força de armas, e com bastante resistencia
- de outras.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">67</td><td class="tdr"> 685</td><td class="tdl">Publio Pison Proconsul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">62</td><td class="tdr"> 690</td><td class="tdl">Neste anno veyo a Hespanha com titulo
- de Legado hum nobre mancebo
- Romano, chamado Cneyo Pison, ao
- qual mataraõ publicamente huns soldados
- Hespanhoes por industria de Pompeo.
- Tambem aconteceo neste anno
- hum notavel tremor de terra na costa de
- Portugal, e Galiza, com que se arruinaraõ
- muitos Lugares.<a id="FNanchor_517" href="#Footnote_517" class="fnanchor">[517]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">60</td><td class="tdr"> 692</td><td class="tdl">Q. Calidio com titulo de Pretor de
- Hespanha destruio muitas companhias
- de Lusitanos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">59</td><td class="tdr"> 693</td><td class="tdl">Na Hespanha Ulterior Tuberon Pretor.
- Veyo por seu Questor C. Julio Cesar.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">58</td><td class="tdr"> 694</td><td class="tdl">Na Hespanha Ulterior C. Julio Cesar
- Pretor fez sujeitar ao Imperio Romano
- a Lusitania, e Galiza; e recolhendo-se
- a Roma, foy feito Consul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">57</td><td class="tdr"> 695</td><td class="tdl">Veyo Pompeo a Hespanha, que ao
- depois administrou por Legados.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">56</td><td class="tdr"> 696</td><td class="tdl">Publio Lentulo Pretor.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">54</td><td class="tdr"> 698</td><td class="tdl">Q. Metello Nepos Proconsul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">53</td><td class="tdr">699</td><td class="tdl">Q. Cecilio Dentato. Houve em Portugal
- tanta fartura, que os mantimentos
- se davaõ quasi de graça.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">52</td><td class="tdr"> 700</td><td class="tdl">Q. Cecilio Metello Neto.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">50</td><td class="tdr"> 702</td><td class="tdl">Tuberon Proconsul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">47</td><td class="tdr"> 705</td><td class="tdl">Foy nomeado Pompeo para Pretor de
-ambas as Provincias de Hespanha, as
- quaes administrou por Legados, que
- foraõ Petreyo, Afranio, e M. Varro. Neste anno andavaõ em grande calor as<span class="pagenum" id="Page_252">[Pg 252]</span>
- guerras civis entre Pompeo, e Julio Cesar.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">46</td><td class="tdr"> 706</td><td class="tdl">Sendo Julio Cesar Consul, e Dictador,
- regeraõ ambas as Hespanhas Q.
- Cassio a Ulterior, e o Proconsul M. Lepido
- a Citerior.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">44</td><td class="tdr"> 708</td><td class="tdl">Q. Cassio Longino Propretor da Hespanha
- Ulterior summamente avaro, e
- cruel.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">43</td><td class="tdr"> 709</td><td class="tdl">C. Trebonio Proconsul.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">42</td><td class="tdr"> 710</td><td class="tdl">Q. Fabio Consul triunfou na Hespanha.
- Neste anno pelejando Julio Cesar
- contra os filhos de Pompeo, alcançou
- delles o triunfo junto da Cidade de Munda
- no Reino de Granada, em que os
- Portuguezes mostraraõ grande fidelidade
- a Pompeo.<a id="FNanchor_518" href="#Footnote_518" class="fnanchor">[518]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">40</td><td class="tdr"> 712</td><td class="tdl">Q. Pelio Proconsul triunfa na Hepanha.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">39</td><td class="tdr"> 713</td><td class="tdl">M. Emilio Lepido tambem alcançou
- vitoria na Hespanha.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">37</td><td class="tdr"> 715</td><td class="tdl">Tomaõ os Lusitanos a Era de Cesar.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">35</td><td class="tdr"> 717</td><td class="tdl">Cneyo Domicio Calvino Proconsul
- triunfa.</td></tr>
-<tr><td></td><td class="tdr"> </td><td class="tdl">C. Norbano Flaco Proconsul triunfa.
-<tr><td class="tdr">31</td><td class="tdr"> 721</td><td class="tdl">C. Asinio Polion, discipulo de M.
- Tulio, ficou governando Hespanha na
- ausencia de Julio Cesar.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">26</td><td class="tdr"> 726</td><td class="tdl">Vendo o Imperador Octaviano Augusto
- o pouco, que as armas Romanas
- tinhaõ conseguido em Hespanha pelo espaço
- de duzentos annos, determinou vir
- em pessoa, e dentro em quatro annos
- conciliou a paz em toda a Hespanha. Estando
- em Tarragona, gozou hum pleno<span class="pagenum" id="Page_253">[Pg 253]</span>
- dominio da honra Imperial. Muitos
- povos Portuguezes lhe dedicaraõ templos,
- e estatuas pelas mercês, e privilegios,
- que lhes concedeo, singularizando-se
- Evora, Mertola, Lisboa, e
- Santarem, mudando todas os seus nomes,
- que tinhaõ, em outro, que dissesse respeito
- aos favores recebidos; e assim Evora
- se principiou a chamar <i>Liberalitas Julia</i>,
- Mertola <i>Mirtilis Julia</i>, Lisboa <i>Felicitas
- Julia</i>, Santarem <i>Julium Præsidium</i>.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">2</td><td class="tdr"> 750</td><td class="tdl">Neste anno mandou o dito Imperador,
- estando em Tarragona, publicar o
- edicto geral para se alistar toda a gente,
- que havia no mundo sujeita ao Imperio
- Romano, e pagar certo tributo, que
- era trinta e seis reis cada pessoa em reconhecimento
- da vassallagem. De Portuguezes
- se alistaraõ cinco contos e sessenta
- e oito mil pessoas cabeças de familias,
- cuja ordem se passou nas Chancellarias
- do Reino, chamadas entaõ Conventos
- Juridicos, e eraõ <i>Merida</i>, que
- hoje está fóra do territorio de Portugal;
- <i>Béja</i>, à qual acudia o povo de Alentejo,
- e Algarve; <i>Braga</i> para o povo do
- Minho, e Tras os Montes; <i>Santarem</i>
- para o da Beira, e Estremadura.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1</td><td class="tdr"> 751</td><td class="tdl">Neste anno se fez famoso hum Portuguez
- do Minho, chamado <i>Corocota</i>, que
- com certo numero de vadios inquietou
- varias terras, e o Imperador promettendo
- tres mil cruzados a quem o apanhasse,
- elle mesmo se lhe veyo offerecer, e
- o Imperador perdoando-lhe, o admittio
- para sua guarda.</td></tr>
-<tr><td> </td><td> </td><td class="tdl">Depois do Nascimento de Christo até<span class="pagenum" id="Page_254">[Pg 254]</span>
- os Godos naõ ha cousa memoravel, que
- pertença à Lusitania, mais que o acharse
- em huma socegada paz na obediencia dos
- Romanos. Até os tempos dos Imperadores
- Maximiniano, e Diocleciano durou
- o governo de Hespanha em Pretores,
- e Proconsules: no de Constantino
- houve outro estylo, porque se instituio
- hum Vigario do Imperio, a que obedeciaõ
- todos os Legados, e Regedores das
- Provincias, e o tal Vigario ainda reconhecia
- por Superior ao Prefeito do Pretorio,
- que residia em França, por estar
- no meyo das terras da sua jurisdicçaõ.
- Depois se começou a governar por Condes.
- Havia tambem alguns Regulos, ou
- Fidalgos, Senhores de Cidades, subditos
- ao Imperio Romano, qual foy Ont
- Comero, pay de Santa Engracia, e no
- tempo dos Godos Castinaldo, Principe
- de Nabancia, e Cathelio, Senhor de
- Norba Cesarea, e pay das Santas nove
- irmãs.<a id="FNanchor_519" href="#Footnote_519" class="fnanchor">[519]</a></td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_504" href="#FNanchor_504" class="label">[504]</a> Valer. Maxim. lib. 9. Just. Lipsio lib. 4. de Magnitud.
-Roman. cap. 5. Tarselin. Epitom. Historic. lib. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_505" href="#FNanchor_505" class="label">[505]</a> Strab lib. 3. Liv. decad. 4. lib. 3. Plin. lib. 3. c.
-3. Guid. Pancirol Notitia Dignit. utriusq. Imper. c. 66. Robortel. de
-Provinc. Roman. Vasæus tom. 1. cap. 8. n. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_506" href="#FNanchor_506" class="label">[506]</a> Monarq. Lusitan. liv 2. cap. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_507" href="#FNanchor_507" class="label">[507]</a> Oros. liv. 4. cap. 19. Liv. decad. 4. lib. 6. Moral.
-lib. 7. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_508" href="#FNanchor_508" class="label">[508]</a> <i>Tantus metus Romanas omnes invasit; ut nemo
-inveniretur, qui vel Tribunus, vel Legatus ire in eam Provinciam
-vellet.</i> Vasæus tom. 1. cap. 12. Liv. decad. 3. lib. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_509" href="#FNanchor_509" class="label">[509]</a> Orosius lib. 4. cap. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_510" href="#FNanchor_510" class="label">[510]</a> Monarq. Lusitan. liv. 4. cap. 2. e 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_511" href="#FNanchor_511" class="label">[511]</a> Monarq. Lusitan. liv. 5. cap. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_512" href="#FNanchor_512" class="label">[512]</a> Liv. decad. 3. lib. 7. Jul. Front. l. 1. c. 1. Val. Max.
-l. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_513" href="#FNanchor_513" class="label">[513]</a> Oros. l. 4. c. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_514" href="#FNanchor_514" class="label">[514]</a> Monarq. Lusit. liv. 2. c. 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_515" href="#FNanchor_515" class="label">[515]</a> Vide Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_516" href="#FNanchor_516" class="label">[516]</a> Joaõ de Barr. na Descripçaõ do Minho cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_517" href="#FNanchor_517" class="label">[517]</a> Monarq. Lusitan. liv. 3. cap. 30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_518" href="#FNanchor_518" class="label">[518]</a> Vid. Monarq. Lusit. liv. 4. cap. 17. e 18. Vas. tom. 1.
-cap. 12. Resend. lib. 3. Antiquit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_519" href="#FNanchor_519" class="label">[519]</a> Veja-se a Cujac. liv. 8. cap. 25. Observ. a Vaseu tom.
-1. Chron. cap. 13. Resend. lib. 3. de Antiq. Monarq. Lusit. part. 1.
-liv. 4. cap. 30. e liv. 5. cap. 18. 21. e 24.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_IV">CAPITULO IV.<br><span class="small"><i>Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador
-Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho
-Eucherio,<span class="pagenum" id="Page_255">[Pg 255]</span> o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas
-gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas <i>Vandalos</i>,
-<i>Suevos</i>, <i>Alanos</i>, e <i>Selingos</i>, os quaes depois de
-terem saqueado Roma, e destruido grande parte de França, invadiraõ
-nossas terras com huma expediçaõ taõ barbara, talando campos, e
-edificios, que igualavaõ a colera com a crueldade.<a id="FNanchor_520" href="#Footnote_520" class="fnanchor">[520]</a></p>
-
-<p>2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca
-dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que
-aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ
-a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,<a id="FNanchor_521" href="#Footnote_521" class="fnanchor">[521]</a> que corresponde aos
-annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que
-esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a
-tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que
-os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade,
-arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao
-Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes
-barbaros se encaminhavaõ.</p>
-
-<p>3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ;
-e por naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos
-com o seu Rey <i>Gunderico</i>, ou <i>Mondigelesio</i>, occuparaõ
-Andaluzia, que delles adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus
-Reys <i>Resplandiano</i>, e <i>Hermenerico</i> possuiraõ a Lusitania,
-e Galiza, ficando Asturias, e Biscaya permanecendo na sujeiçaõ
-Romana.<a id="FNanchor_522" href="#Footnote_522" class="fnanchor">[522]</a></p>
-
-<p>4 Morto <i>Resplandiano</i> se lhe seguio <i>Atáces</i>, o qual
-estribando seu atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte
-da Lusitania, foy accommetter<span class="pagenum" id="Page_256">[Pg 256]</span> <i>Hermenerico</i>, Rey dos Suevos, a
-quem tomou algumas terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava
-existente no sitio de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que
-agora existe, obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.</p>
-
-<p>5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces;
-convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no
-Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos,
-e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo
-porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua
-filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas
-consideraveis.<a id="FNanchor_523" href="#Footnote_523" class="fnanchor">[523]</a> Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro,
-occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que
-seguiaõ o partido Romano.</p>
-
-<p>6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo
-accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces
-pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito
-pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com
-taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a
-Atáces.</p>
-
-<p>7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ
-a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser
-feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com
-tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os
-Portuguezes a chamar Suevos.<a id="FNanchor_524" href="#Footnote_524" class="fnanchor">[524]</a> Passaõ os Vandalos para Africa em
-numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na
-Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_257">[Pg 257]</span></p>
-
-<p>8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos,
-quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey
-dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto
-a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo,
-para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de
-Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.</p>
-
-<p>9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos
-Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e
-nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada
-eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ
-lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os
-Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.</p>
-
-<p>10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de
-naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a
-França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos
-descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e
-padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.</p>
-
-<p>11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que
-seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como
-a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle
-o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente
-feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o
-principado da Lusitania, e dos Suevos.</p>
-
-<p>12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey
-Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus
-antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e
-reconhecimento, em que vivia.<span class="pagenum" id="Page_258">[Pg 258]</span> Lisongeado Theodorico desta attençaõ,
-houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha,
-a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que
-inficionou todo o Reino,<a id="FNanchor_525" href="#Footnote_525" class="fnanchor">[525]</a> na qual foraõ permanecendo outros Reys
-até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que
-abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ
-vivido noventa annos.</p>
-
-<p>13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias,
-que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira,
-voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o
-Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,<a id="FNanchor_526" href="#Footnote_526" class="fnanchor">[526]</a> principiando daqui para
-diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.</p>
-
-<p>14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ
-continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras
-Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys
-Godos.<a id="FNanchor_527" href="#Footnote_527" class="fnanchor">[527]</a> Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de
-successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve
-revelaçaõ divina,<a id="FNanchor_528" href="#Footnote_528" class="fnanchor">[528]</a> foy escolhido Vamba, natural, e habitador de
-Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o
-dispotico exercicio da sua agricultura.</p>
-
-<p>15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e
-elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel,
-respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ
-seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois
-ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra,
-foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ<span class="pagenum" id="Page_259">[Pg 259]</span> Rey de toda
-Hespanha<a id="FNanchor_529" href="#Footnote_529" class="fnanchor">[529]</a> na Era de 710.<a id="FNanchor_530" href="#Footnote_530" class="fnanchor">[530]</a></p>
-
-<p>16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar
-Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum
-accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a
-Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o
-Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,<a id="FNanchor_531" href="#Footnote_531" class="fnanchor">[531]</a>
-acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que
-Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.</p>
-
-<p>17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois
-Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte
-humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte
-lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o
-Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.<a id="FNanchor_532" href="#Footnote_532" class="fnanchor">[532]</a></p>
-
-<p>18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados
-acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ
-desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por
-appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por
-conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte
-da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde,
-chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura:
-affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe
-prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se
-passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou
-Egilona, formosa Princeza de Africa,<span class="pagenum" id="Page_260">[Pg 260]</span> a quem a braveza das ondas fizera
-por hum incidente arribar a Hespanha.<a id="FNanchor_533" href="#Footnote_533" class="fnanchor">[533]</a></p>
-
-<p>19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com
-seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle
-se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros,
-por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e
-conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter
-Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente
-Monarquia dos Godos.</p>
-
-<p>20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que
-corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas
-circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros
-com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous
-annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que
-os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem
-Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer
-destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ
-que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo
-alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em
-parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e
-que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o
-que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.<a id="FNanchor_534" href="#Footnote_534" class="fnanchor">[534]</a> E porque os
-Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos
-delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_261">[Pg 261]</span></p>
-<p class="center caption p2"><i>Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e
-Galiza.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr>
-<tr><td class="tdr">409</td><td><i>Hermerico</i>, ou <i>Hermenerico</i>. Teve guerras
-com os Alanos. Depois dos Vandalos
-passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo
-o Reino de Portugal da fórma, que hoje
-está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza.
-Morreo em Merida de huma doença,
-que lhe durou sete annos, e governou trinta
-e dous.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">440</td><td><i>Rechila</i>, filho do antecedente. Fora Principe
-perfeito, se naõ seguira o Arrianismo.
-Com prosperidade, e paz governou sete annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">448</td><td><i>Reciario</i>, filho de Rechila. Teve alguns
-emulos no principio do seu reinado: casou
-com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou,
-e destruio os Vascões: passou a França
-a visitar seu sogro, e na retirada conquistou
-muitas terras de Hespanha. S. Balconio,
-Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo.
-Na Cidade do Porto foy degollado
-por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha
-verdadeira dos Suevos. Governou nove
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">457</td><td><i>Maldra</i>, ou <i>Masdra</i>. Foy eleito na Cidade
-de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do
-Reino; mas padeceo as opposições, que lhe
-fez <i>Franta</i>, que os do partido contrario
-introduziraõ no governo, e elle governou tres
-annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado
-<i>Frumario</i>, que reinou tyrannicamente
-dous annos, e a Masdra se seguio</td></tr>
-<tr><td class="tdr">464</td><td><i>Remismundo</i>, a quem Santo Isidoro chama
-<i>Arismundo</i>, filho de Masdra. Ficou prevalecendo<span class="pagenum" id="Page_262">[Pg 262]</span>
-o seu reinado entre os dous precedentes
-Contendores. Foy cativo, e prezo por
-ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio
-em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante
-naõ he muy certa a successaõ dos Reys
-Suevos por se interromper a sua serie com a
-morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito<a id="FNanchor_535" href="#Footnote_535" class="fnanchor">[535]</a>
-dá por incertos a <i>Theodulo</i>, <i>Veremundo</i>,
-<i>Miro</i>, <i>Pharamiro</i>. Filippe de la Gandara,<a id="FNanchor_536" href="#Footnote_536" class="fnanchor">[536]</a>
-seguindo o Chronicon de Marco Maximo,
-assina depois de Remismundo a <i>Hermenerico</i>
-no anno 556 com o governo de quasi
-cincoenta annos: a <i>Rechila II.</i> <i>Reciario II.</i>
-a quem S. Martinho Dumiense converteo à
-Fé Catholica, e a <i>Ariamiro</i>, ou</td></tr>
-<tr><td class="tdr">560</td><td><i>Theodomiro</i>, filho de Reciario. Converteo-se
-à Fé juntamente com seu pay, e foy grande
-defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se
-no seu tempo o primeiro Concilio
-Bracarense. Os annos do seu governo saõ
-muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue
-o allegado Gandara, diz que reinou vinte e
-quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu
-Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem
-lhe assina dez annos de governo, e parece
-o mais provavel. O Padre Argote lhe dá
-o nome de Theodomiro Junior, porque antes
-delle diz que houvera outro Theodomiro
-Senior.<a id="FNanchor_537" href="#Footnote_537" class="fnanchor">[537]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">570</td><td><i>Miro</i>, ou <i>Ariamiro</i>. Foy excellente Principe
-em piedade, e Religiaõ. Fez convocar
-em Braga o segundo Concilio para desterrar
-alguns abusos, e governou treze annos. Aqui
-ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey,
-que alguns confundem com Theodomiro, e<span class="pagenum" id="Page_263">[Pg 263]</span>
-por isso naõ se ajusta entre os Authores a
-chronologia como deve ser.<a id="FNanchor_538" href="#Footnote_538" class="fnanchor">[538]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">583</td><td><i>Eborico</i>, ou <i>Eurico</i>. Succedeo no governo
-ao antecedente. Foy logo despojado do Reino
-por <i>Andéca</i>, padrasto de Eburico, o qual
-para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe
-fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro
-de Dume, e professar. Esta violencia vingou
-pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo,
-obrigando tambem a Andéca a se ordenar de
-Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou
-posse de todas as riquezas do Reino, o qual
-no poder dos Suevos tinha durado em ambas
-as fortunas cento e setenta e sete annos.</td></tr>
-</table>
-
-<p>Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma
-serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto
-em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.<a id="FNanchor_539" href="#Footnote_539" class="fnanchor">[539]</a> Este
-Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel
-nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir
-na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim
-exclue a <i>Frantan</i>, <i>Fumario</i>, e <i>Andéca</i>, numerando
-sómente oito Reys Suevos legitimos, e verdadeiros.</p>
-
-<p class="center caption p2"><i>Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e
-Portugal.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr>
-<tr><td class="tdr">411</td><td><i>Ataulfo</i>. Foy o primeiro Rey Godo, que
-teve dominio em Hespanha. Suceedeo a
-Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do<span class="pagenum" id="Page_264">[Pg 264]</span>
-Imperador Honorio, aquem este deu em dote
-as terras de Hespanha com o designio de
-expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações
-Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se
-com brandura no governo, foy desobedecido
-pelos seus, e por elles morto em
-companhia de sete filhos. Dizem huns que
-governara cinco annos, outros seis.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">416</td><td><i>Sigirico.</i> Era valeroso Capitaõ, e por isso
-elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos
-termos de paz; e naõ se contentando os
-Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ
-a vida. Governou hum anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">416</td><td><i>Walia.</i> Começou a governar com o projecto
-de conquistar Africa: perdeo huma grande
-armada: retira-se a Barcelona, faz pazes
-com Honorio, e depois guerra aos Vandalos,
-e os vence. Morre em Tolosa, tendo
-governado tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">419</td><td><i>Theodoredo</i>, ou <i>Theodorico</i>. Fez guerra aos
-Romanos, e morreo na cruelissima batalha
-dos campos Catalaunicos, cahindo de hum
-cavallo. Governou trinta e tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">452</td><td><i>Thurismundo</i>, filho de Theodoredo. Foy
-morto por industria de seus irmãos. Governou
-hum anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">453</td><td><i>Theuderico</i>, irmaõ de Thurismundo. Venceo,
-e matou a Reciario, Rey dos Suevos,
-e em Braga fez grandes hostilidades. Foy
-morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">466</td><td><i>Eurico.</i> Deu leys escritas aos Godos, expulsou
-aos Romanos de Hespanha, conquistou,
-e saqueou muitas terras de Portugal.
-Neste tempo se achava Hespanha dividida em
-tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza,
-parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era
-dos Godos: os Romanos eraõ senhores das<span class="pagenum" id="Page_265">[Pg 265]</span>
-Provincias de Cartagena, e Carpentana com
-o restante da Lusitania. Depois de algumas
-vitorias morreo em Arlés de França, e governou
-dezasete annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr"> 483</td><td><i>Alarico II.</i> filho de Eurico. Litigou com
-Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha
-junto a Carcasona perdeo com ella a
-vida. Governou vinte e tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">506</td><td><i>Gesalico</i>, ou <i>Gesaleuco</i> ou <i>Gensalarico</i>, filho
-illegitimo de Alarico. Foy acclamado
-pelos Godos na menoridade de Amalarico.
-Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em
-França; e sendo vencido por Theodorico,
-Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro
-legitimo, morreo de melancolia. Governou
-quatro annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">511</td><td><i>Theudorico II.</i> Tendo reinado dezoito annos
-em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem
-huns que como Rey verdadeiro, outros
-só como tutor, ou administrador de seu neto.
-Governou quinze annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">526</td><td><i>Amalarico</i>, filho de Alarico. Teve por mulher
-a Crotilde, Princeza Catholica, filha
-de Clodoveo, Rey de França; mas como o
-marido era Arriano, padeceo com elle grandes
-trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ,
-matando-o, e destruindo muitas povoações
-de Hespanha. Governou cinco annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">531</td><td><i>Theudo</i>, ou <i>Theudio</i>, ou <i>Teudis</i>. Tinha sido
-tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha:
-outros o fazem descendente delRey
-Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio
-o governo dos Romanos em Hespanha quanto
-aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio
-por hum homem, que se fingia bobo.
-Governou dezasete annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">548</td><td><i>Theudiselo</i>, ou <i>Theudisclo</i>. Foy Arriano, e
-hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o<span class="pagenum" id="Page_266">[Pg 266]</span>
-mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete.
-Governou hum anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">549</td><td><i>Agila.</i> Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito
-Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos
-dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ
-em Merida. Governou cinco annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">554</td><td><i>Athanagildo.</i> De Capitaõ, que se havia rebelado,
-ficou com o Reino dos Godos. Morreo
-em Toledo, e governou quatorze annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">567</td><td><i>Liuva</i>, ou <i>Luiva</i>. Depois de reinar hum
-anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ
-Leovigildo, e elle se retira às terras,
-que tinha em França. Governou hum anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">568</td><td><i>Leovigildo.</i> Alcançou muitas vitorias dos
-Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas,
-foy o primeiro, que usou de insignias Reaes,
-throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras
-com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio,
-e fez martyrizar em Sevilha depois
-de huma apertada prizaõ. Governou dezoito
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">586</td><td><i>Flavio Recaredo</i>, filho de Leovigildo, e sobrinho
-de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou
-a heresia de Arrio das terras de Hespanha,
-e governou quinze annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">601</td><td><i>Liuva II.</i> filho de Recaredo, que alguns
-querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico.
-Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe
-com tyrannia a vida. Governou
-dous annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">603</td><td><i>Witerico.</i> Renovou em seu governo a perfidia
-de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ
-pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe
-immunda sepultura. Governou seis annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">610</td><td><i>Gundemaro.</i> Foy defensor da immunidade
-Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou
-dous annos.<span class="pagenum" id="Page_267">[Pg 267]</span></td></tr>
-<tr><td class="tdr">612</td><td><i>Sisebuto.</i> No principio do seu reinado constrangeo
-aos Judeos a que seguissem a Ley de
-Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para
-França. Acabou de lançar fóra de Portugal
-aos Romanos, que ainda se conservavaõ
-neste tempo por toda a costa do Algarve, e
-entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel.
-Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em
-Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou
-oito annos e meyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">621</td><td><i>Flavio Suyntila</i>, filho de Recaredo. Destruio
-os Imperiaes, e sujeitou ao dominio
-Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios,
-e crueldades de fórma, que o Concilio
-Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro,
-o excommungou, e a sua mulher, e filhos.
-Os Vice-Godos o privaraõ do Reino.
-Governou dez annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">631</td><td><i>Sisenando.</i> Foy sublimado ao throno por favor
-de Dagoberto, Rey de França, a quem
-deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ
-para acabar o grande Templo de S.
-Diniz. Governou quatro annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">636</td><td><i>Chintila.</i> Por votos uniformes da Nobreza
-foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado
-Regio sua descendencia, convocou alguns
-Concilios para estabelecer o seu intento.
-Governou tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">640</td><td><i>Tulga.</i> Viveo pouco, porém fez obras de
-grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em
-Toledo com grande sentimento, e saudade de
-todos. Governou dous annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">642</td><td><i>Chindasuindo.</i> Entrou a governar por violencia,
-continuou com justiça de forte, que
-soube temperar o arduo do principio com
-o suave do progresso. Convocou em Toledo
-Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ
-entre Toro, e Torresilhas, onde está<span class="pagenum" id="Page_268">[Pg 268]</span>
-enterrado. Governou seis annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">649</td><td><i>Recesuindo</i>, filho do antecedente. Entrou a
-governar sem contradiçaõ, e com justiça.
-Governou vinte e tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">672</td><td><i>Wamba</i>, ou <i>Bamba</i>. Foy eleito, e ungido
-Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas
-contra aquelles povos, que se queriaõ
-eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos
-triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma
-coroa por outra: repudiou o Reino, e
-deixando a purpura pelo habito de Religioso,
-acabou santamente. Governou sete annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">680</td><td><i>Ervigio.</i> Obteve o Cetro por industrias,
-que maquinou em vida de Bamba. Governou
-sete annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">687</td><td><i>Egica</i>, ou <i>Egiza</i>, genro de Ervigio. Tomou
-por companheiro a seu filho Witiza, e
-obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade.
-Divide o governo entre si, e o filho,
-dando a este o dominio de Portugal, e Galiza,
-e elle ficando com o restante da Hespanha.
-Governou dez annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">701</td><td><i>Witiza.</i> Tanto que subio ao Throno, fez
-estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se
-a todo o genero de vicios, chegou ao extremo
-da maldade, e tyrannia, mandando tirar
-os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia
-pacifico no governo de Cordova. Concedeo
-varios privilegios aos Judeos, e depois
-de outras muitas perversidades, que o fizeraõ
-aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou
-dez annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">711</td><td><i>D. Rodrigo</i>, filho de Theodofredo, e neto
-de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios
-ao antecessor. Os amores, que teve com
-Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa
-da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se<span class="pagenum" id="Page_269">[Pg 269]</span>
-por conducta do Conde offendido
-no desprezo de sua filha hum grande corpo de
-exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo,
-e todo o poder dos Godos, que havia
-durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta
-annos.<a id="FNanchor_540" href="#Footnote_540" class="fnanchor">[540]</a></td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_520" href="#FNanchor_520" class="label">[520]</a> Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5.
-pag. 113.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_521" href="#FNanchor_521" class="label">[521]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_522" href="#FNanchor_522" class="label">[522]</a> Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e
-triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron.
-Gotic. tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_523" href="#FNanchor_523" class="label">[523]</a> Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi
-224.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_524" href="#FNanchor_524" class="label">[524]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_525" href="#FNanchor_525" class="label">[525]</a> Morales lib. 11. cap. 33.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_526" href="#FNanchor_526" class="label">[526]</a> Vasæus Chron. tom. 1. p. 39.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_527" href="#FNanchor_527" class="label">[527]</a> Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_528" href="#FNanchor_528" class="label">[528]</a> Faria na Europa Portug. tom. 1. part. 3. cap. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_529" href="#FNanchor_529" class="label">[529]</a> Monarq. Lusit, liv. 6. cap. 25.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_530" href="#FNanchor_530" class="label">[530]</a> Morales liv. 12. cap. 40. e 41.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_531" href="#FNanchor_531" class="label">[531]</a> Berganç. Antig. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 6. n. 67.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_532" href="#FNanchor_532" class="label">[532]</a> Castilh. liv. 2. disc. 10. Monarq. Lusit. ut supr. cap.
-30.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_533" href="#FNanchor_533" class="label">[533]</a> Garibay liv. 36. Clede tom. 1. liv. 3. pag. mihi 309.
-Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_534" href="#FNanchor_534" class="label">[534]</a> Argot. Memor. do Arcebispad. de Brag. liv. 5. cap. 2.
-num. 367.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_535" href="#FNanchor_535" class="label">[535]</a> Monarq. Lusitan. liv. 5 cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_536" href="#FNanchor_536" class="label">[536]</a> Gandar Triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. liv. 7. cap.
-7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_537" href="#FNanchor_537" class="label">[537]</a> Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_538" href="#FNanchor_538" class="label">[538]</a> Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la
-Era, y Fechas de España.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_539" href="#FNanchor_539" class="label">[539]</a> Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_V">CAPITULO V.<br><span class="small"><i>Invasaõ, e dominio dos Mouros.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete
-em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor
-computaçaõ,<a id="FNanchor_541" href="#Footnote_541" class="fnanchor">[541]</a> e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz
-Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os
-seus dias junto a Viseu,<a id="FNanchor_542" href="#Footnote_542" class="fnanchor">[542]</a> entraraõ os Arabes a executar com todo
-o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous
-annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao
-dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias,<span class="pagenum" id="Page_270">[Pg 270]</span> que
-pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos
-Africanos.<a id="FNanchor_543" href="#Footnote_543" class="fnanchor">[543]</a></p>
-
-<p>2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle
-improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel,
-vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias
-a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e
-Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando
-estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais
-proximas ao Oceano.<a id="FNanchor_544" href="#Footnote_544" class="fnanchor">[544]</a></p>
-
-<p>3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da
-antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,<a id="FNanchor_545" href="#Footnote_545" class="fnanchor">[545]</a> que com as breves
-reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias.
-Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador
-Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle
-ausente,<a id="FNanchor_546" href="#Footnote_546" class="fnanchor">[546]</a> com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus
-hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe
-aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à
-empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga,
-noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou
-accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil
-Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.<a id="FNanchor_547" href="#Footnote_547" class="fnanchor">[547]</a></p>
-
-<p>4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos
-Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e
-concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso,<span class="pagenum" id="Page_271">[Pg 271]</span> filho de
-D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey
-Godo,<a id="FNanchor_548" href="#Footnote_548" class="fnanchor">[548]</a> se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo,
-o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o
-desposou com sua filha Ermesenda.</p>
-
-<p>5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo,
-e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e
-recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino,
-libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando
-com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os
-nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.<a id="FNanchor_549" href="#Footnote_549" class="fnanchor">[549]</a></p>
-
-<p>6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum
-Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias
-segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia
-dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e
-intimando as suas leys.<a id="FNanchor_550" href="#Footnote_550" class="fnanchor">[550]</a></p>
-
-<p>7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila,
-seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta
-gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que
-resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações
-dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na
-obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia
-de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio, D.
-Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que ElRey
-D. Affonso <i>o Casto</i>, reforçado com mayor poder, se avançou desde
-as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor
-presidio,<span class="pagenum" id="Page_272">[Pg 272]</span> e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do
-Minho, e Beira, por onde passara.</p>
-
-<p>8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos,
-sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ
-todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém
-este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com
-este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado
-das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e
-mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D.
-Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento.</p>
-
-<p>9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de
-seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do
-valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras
-de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso
-Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos
-soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de
-expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado
-Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo
-Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e
-destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos
-seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em
-Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas
-Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho,
-podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e
-guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de
-Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de
-Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon
-de Vaseu.<span class="pagenum" id="Page_273">[Pg 273]</span> <i>Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que
-em tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal.</i></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th>Ann. de Chr.</th><th></th></tr>
-<tr><td class="tdr">738</td><td><i>D. Affonso I.</i> chamado o <i>Catholico</i>, filho
-do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey
-D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias,
-que depois da perda de Hespanha teve
-dominio sobre os Portuguezes, e conquistou
-aos Mouros terras de nosso paiz: fundou,
-e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">757</td><td><i>D. Froila</i>, ou <i>Fruela</i>, filho de D. Affonso.
-Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe
-conquistou Béja, Setubal, e outras terras de
-Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto
-seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando
-com esta crueldade todas as boas obras,
-que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico
-de Hespanha, e no seu tempo succedeo
-a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal.
-Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado
-na Igreja de Oviedo, que elle fundou.
-Governou onze annos e meyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">768</td><td><i>D. Aurelio</i>, filho de D. Fruela. Serenou
-com prudencia num grande tumulto de escravos,
-que se levantaraõ contra seus senhores.
-Governou seis annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">774</td><td><i>D. Silo.</i> Succedeo na Coroa, por casar com
-Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico.
-Teve paz com os Sarracenos, e só com os
-Gallegos teve huma guerra, em que venceo.
-Entrou poderosamente na Cidade de Merida,
-donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o
-depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de
-Pravia, onde elle está enterrado, com huma<span class="pagenum" id="Page_274">[Pg 274]</span>
-inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho,
-que diz, e se lê por todos os lados: <i>Silo Princeps
-fecit</i>. Governou nove annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">783</td><td><i>D. Mauregato.</i> Obteve a Coroa por usurpaçaõ;
-porque a Rainha Adosinda pertendeo
-que os Grandes de Hespanha acclamassem
-por successor a D. Affonso, seu sobrinho,
-filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato,
-filho bastardo de D. Affonso o <i>Catholico</i>
-havido em huma Moura, anhelando
-tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen,
-Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem,
-se o soccorresse na sua pertençaõ.
-Foy o promettimento dar-lhe todos os annos
-cem donzellas de tributo, cincoenta nobres,
-e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher
-em Asturias, Portugal, e Galiza. D.
-Joseph Pellizer,<a id="FNanchor_551" href="#Footnote_551" class="fnanchor">[551]</a> a quem segue D. Joaõ
-de Ferreras,<a id="FNanchor_552" href="#Footnote_552" class="fnanchor">[552]</a> quizeraõ persuadir que este
-Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera
-ao Mouro o tributo annual das cem
-donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ,
-segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,<a id="FNanchor_553" href="#Footnote_553" class="fnanchor">[553]</a>
-e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.<a id="FNanchor_554" href="#Footnote_554" class="fnanchor">[554]</a>
-Governou cinco annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">789</td><td><i>D. Bermudo I.</i> filho de D. Fruela. Sendo
-Diacono, e destinado à Igreja, por instancias
-dos Grandes do Reino entrou a governar.
-Naõ quiz contribuir aos Governadores
-Mouros com o tributo das cem donzellas.
-Depois de haver governado tres annos, e oito
-mezes, renunciou o Reino em D. Affonso,
-filho de seu primo D. Fruela, e passou
-a buscar o habito de Monge no Mosteiro de
-Sahagum, onde viveo muitos annos.<span class="pagenum" id="Page_275">[Pg 275]</span></td></tr>
-<tr><td class="tdr">791</td><td><i>D. Affonso II.</i> chamado o <i>Casto</i>. Encarregando-se
-do governo, que lhe cedeo D. Bermudo,
-começou a se fazer temido dos Mouros.
-Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou
-as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra,
-Braga, e outros Lugares. Mahamet
-fez pazes com elle, e o servia como vassallo.
-Em seu tempo se descubrio o corpo do
-glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou
-edificar huma Igreja com magnificencia Real.
-Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta
-e hum annos; porém a Clave Historial
-do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina
-trinta e quatro.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">842</td><td><i>D. Ramiro I.</i> filho delRey D. Bermudo.
-Logo no principio do seu reinado se levantou
-contra elle hum Conde das Asturias, chamado
-Nepociano, a quem venceo, e castigou,
-mandando-lhe tirar os olhos, supplicio
-ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual
-ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego,
-Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho.
-Aqui poz por Governador a seu tio o
-Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos
-pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ
-irremediavelmente por falta de mantimentos,
-resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos,
-e meninos haviaõ ficar expostos ao furor
-dos tyrannos, fossem elles mesmos os que
-sacrificassem a innocencia por victima da sua
-honra: e assim cada hum degollou por suas
-proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo
-a acommetter desesperadamente aos Mouros,
-os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo
-modo de pelejar, se deraõ por vencidos
-à custa de setenta mil que pereceraõ. No
-outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo
-novo motivo para a admiraçaõ, vendo<span class="pagenum" id="Page_276">[Pg 276]</span>
-que todos os degollados viviaõ resuscitados
-milagrosamente. Referem este caso nossos
-Historiadores,<a id="FNanchor_555" href="#Footnote_555" class="fnanchor">[555]</a> e parece que o acredita
-a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece
-nesta Villa. No seu Castello está hum
-antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas
-letras carcomidas, bem se percebe da contextura
-ser narraçaõ deste prodigio. Havendo
-finalmente D. Ramiro governado sete annos,
-e oito mezes, morreo no primeiro de
-Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja
-de Oviedo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">850</td><td><i>D. Ordonho I.</i> filho de D. Ramiro, a quem
-succedeo com universal applauso, por ser
-Principe de grande valor, e talento. Serenou
-huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e
-venceo ao renegado Musa, de grande nome
-entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy
-temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras
-terras de Portugal. Morreo de gota, e
-governou dezaseis annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">866</td><td><i>D. Affonso III.</i> chamado o <i>Magno</i> pelas
-grandes vitorias, que alcançou dos Mouros,
-e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas,
-que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se,
-e os Barbaros oppondo-lhe fortes
-exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou
-dos outros. Em Portugal reedificou
-muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto,
-Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações
-domesticas, e sabendo que os seus mesmos
-filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos
-naõ vencer a elles naquella violencia, se
-venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a<span class="pagenum" id="Page_277">[Pg 277]</span>
-D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e
-Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal,
-ficando elle só com a espada contra os
-Mouros, de quem ainda alcançou vitorias.
-Governou quarenta e quatro annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">910</td><td><i>D. Garcia.</i> Entrou a governar bem, explicando
-o seu valor na vitoria, que teve dos
-Mouros em Talavera, prendendo ao General
-Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou
-tres annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">913</td><td><i>D. Ordonho II.</i> Morto D. Garcia, foy acclamado
-Rey pelos Bispos, e Principaes do
-Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era
-a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ,
-e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ.
-Poz grande terror aos Barbaros, de fórma
-que ElRey de Merida lhe veyo render
-vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes,
-que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ
-rebellar, mandou-os vir a Tejares junto
-do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar
-com elles materias importantes; mas dissimuladamente
-os prendeo, e os fez degollar. Governou
-nove annos, e meyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">923</td><td><i>D. Froila II.</i> Naõ se conta deste Rey acçaõ
-contra os Mouros, antes o culpaõ de
-tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo,
-e desterrar a Fronimio, Bispo de
-Leaõ, por terem seguido as partes do Infante
-D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos
-vassallos. Morreo de lepra, e governou hum
-anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">924</td><td><i>D. Affonso IV.</i> Entrando a governar, e conhecendo-se
-inutil, renunciou o dominio em
-seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida
-Monastica no Convento Benedictino de Sahagum.
-Depois passados seis mezes, largando
-o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ,<span class="pagenum" id="Page_278">[Pg 278]</span>
-e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro,
-passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou
-a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe
-mandou tirar os olhos, e prender até acabar
-seus dias. Os annos do seu governo, e tempo
-do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco
-de Bergança,<a id="FNanchor_556" href="#Footnote_556" class="fnanchor">[556]</a> e Fr. Manoel da Rocha.<a id="FNanchor_557" href="#Footnote_557" class="fnanchor">[557]</a></td></tr>
-<tr><td class="tdr">931</td><td><i>D. Ramiro II.</i> Depois de prender a seu irmaõ,
-e seus sobrinhos, determinou fazer
-cruel guerra aos Mouros, como com effeito
-fez taõ felizmente, que sempre os venceo.
-Ajudando-o visivelmente Santiago, matou
-junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns
-Historiadores<a id="FNanchor_558" href="#Footnote_558" class="fnanchor">[558]</a> dizem, que morrera
-sendo Religioso. Governou dezanove annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">950</td><td><i>D. Ordonho III.</i> Foy filho de D. Ramiro,
-e Principe valeroso, e prudente. Casou com
-a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual
-querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe
-a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou
-aos Gallegos, que se haviaõ levantado,
-e passando a Portugal, chegou até Lisboa,
-que entrou sem embaraço, saqueando os mais
-lugares, que estavaõ em poder dos Mouros.
-Governou cinco annos e meyo.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">955</td><td><i>D. Sancho I.</i> chamado o <i>Gordo</i>, porque
-na verdade o era, e foy motivo para ser deposto
-do throno, e subir em seu lugar o Infante
-D. Ordonho, filho de D. Affonso IV.
-intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves,
-e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho
-a Cordova, e alcançando lá remedio à
-sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses,
-valendo-se delRey Abderramen, que<span class="pagenum" id="Page_279">[Pg 279]</span>
-com hum exercito de Mouros fez com que
-D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ.
-Os Condes, que governavaõ as terras do Minho,
-e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey;
-mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem
-fidelidade, em cujo acto hum dos Condes
-lhe deu peçonha, de que morreo. Governou
-doze annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">967</td><td><i>D. Ramiro III.</i> Tomou a investidura do
-Reino, tendo cinco annos de idade, e começou
-este governo pelas direcções de sua mãy,
-e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou
-dos Mouros o corpo do glorioso S.
-Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo
-Sanches huma armada de Normandos,
-que aportou em Galiza. Tratando com pouca
-attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza,
-estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante
-D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a
-15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos
-rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio
-o argumento. Governou dezaseis annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">985</td><td><i>D. Bermudo II.</i> chamado o <i>Gotoso.</i> Foy pouco
-afortunado, pois encontrou sempre muy
-poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal
-tudo que hia desde a corrente do Douro
-até o Algarve estava sujeito aos Mouros,
-e só a pequena Comarca de Entre Douro, e
-Minho com algumas terras da Beira estavaõ
-na obediencia delRey D. Bermudo. Unido
-com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia
-Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor,
-que o obrigou a fugir para Cordova,
-deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos.
-Morreo arrependido de suas culpas
-em Galiza, e governou quatorze annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">999</td><td><i>D. Affonso V.</i> filho de D. Bermudo. Succedeo
-na Coroa, tendo cinco annos de idade.<span class="pagenum" id="Page_280">[Pg 280]</span>
-Foy Principe muy pio, e caritativo. Com
-intentos de destruir os Mouros passou a Viseu,
-onde elles tinhaõ as mayores forças, e
-resistencia, e os cercou apertadamente; mas
-chegando-se perto das muralhas, huma seta
-disparada das suas ameyas o atravessou, e
-fez levantar o sitio. Governou vinte e sete
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1027</td><td><i>D. Bermudo III.</i> filho de D. Affonso. Foy
-Principe de grande animo, porém infeliz,
-porque nas guerras, que teve com seu cunhado
-D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se
-na batalha do Carrion por entre as
-armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez
-annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1038</td><td><i>D. Fernando</i> o <i>Magno</i>. Por morte de seu
-cunhado tomou posse do Reino de Leaõ.
-Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas
-terras desde o Douro até o Mondego. Depois
-de muitas vitorias mereceo que o glorioso
-Santo Isidro lhe revelasse o fim dos
-seus dias; e antes de morrer repartio seus
-Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou
-Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia
-Galiza, e Portugal. Governou vinte e
-nove annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1067</td><td><i>D. Garcia.</i> No seu governo se deixou este
-Principe levar das lisonjas de hum seu valido,
-chamado Verna, que foy causa de se
-descontentarem os illustres Portuguezes, e
-Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ
-armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle
-todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais
-velho, o metteo em prizões, e o Reino de
-Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando
-por entaõ incorporado na Coroa de Castella.
-Governou quatro annos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1071</td><td><i>D. Sancho II</i> Perseguio fortemente a seus<span class="pagenum" id="Page_281">[Pg 281]</span>
-irmãos, e querendo usurpar tambem do poder
-de sua irmã Dona Urraca a Cidade de
-Çamora, que poz em apertado cerco, hum
-Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou
-com huma lança. Governou hum anno.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">1072</td><td><i>D. Affonso VI.</i> Teve o titulo de Imperador,
-e reinou em Castella, Leaõ, Portugal,
-e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados
-Principes de Hespanha, e o que conquistou
-mais terras aos Mouros, aos quaes
-atropelou com o valor do celebrado Cid.
-Distribuio o governo de algumas Comarcas
-de Portugal por illustres pessoas. O Conde
-D. Sisnando governava as terras de entre
-Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca.
-O Conde D. Nuno Mendes a Provincia
-do Minho, a quem succedeo o illustrissimo
-Conde D. Henrique, gloriosa origem dos
-Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos
-só como epitome o Capitulo seguinte.</td></tr>
-</table>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_540" href="#FNanchor_540" class="label">[540]</a> Veja-se Loays. nos Concil. de Hesp. Coronelli no
-Prodrom. part. 4. p. 465. Vasæu tom. 1. Chron p. 39. Resend. lib. 3. de
-Antiq. Marian. Histor. de Hesp. part. 1. Savedr. Coron. Gotica. Gandar.
-nas Palm y Triunf. de Galiza part. 2. Berganz. Antig. de Hesp part. 1.
-liv. 1. Yañes España en la S. Biblia part 1. cap. 19. pag 224.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_541" href="#FNanchor_541" class="label">[541]</a> D. Rodrig, Arceb. liv. 1. cap. 255. Histor. Gen. de
-Hesp. part. 2. cap. 55. Moral. liv. 12. cap. 69. Berganç. Antiguid. de
-Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 13. n. 212. Yañes de la Era, y Fechas de
-España lib. 2. cap. 29. p. 482. Chronic. Albendense seguido por Marian.
-part. 1. liv. 6. cap. 23. Monarq. Lusit. liv. 7 cap. 2. concorda no
-anno, mas discrepa no dia, porque assenta que foy no meyo de Outubro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_542" href="#FNanchor_542" class="label">[542]</a> Væseus Chron. tom. 1. p. 113. Monarq. Lusitan. liv.
-7. cap. 3. p. 386. Aqui affirma Brito, que na Igreja de S. Miguel
-do Fetal, que está fóra dos muros de Viseu, vira a sepultura de D.
-Rodrigo, mas já naõ tinha os ossos delRey, por haver annos, que os
-haviaõ, trasladado para Castella, e naõ diz onde se depositaraõ.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_543" href="#FNanchor_543" class="label">[543]</a> Moret. Anales liv. 3. cap. 4. e no tom. 1. Append. §. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_544" href="#FNanchor_544" class="label">[544]</a> Ferrer. ad ann. 713. n. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_545" href="#FNanchor_545" class="label">[545]</a> Fr. Franc. Sota Chron. de los Princip. de las Astur.
-liv. 3. cap. 42. n. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_546" href="#FNanchor_546" class="label">[546]</a> Isidor. Pacens. apud Brit. na Monarq. Lusit. liv. 7.
-cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_547" href="#FNanchor_547" class="label">[547]</a> Monge de Silos apud Bergança nas Antiguid. de Hesp.
-part. 1. liv. 2. cap. 1. n. 7. Vasæus Chron. tom. 1. ad ann. 716.
-Marian. part. 1. liv. 7. cap. 1. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_548" href="#FNanchor_548" class="label">[548]</a> Salazar Histor. da Casa de Lara liv. 2. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_549" href="#FNanchor_549" class="label">[549]</a> Ferrer. tom. 4. na Dedicat.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_550" href="#FNanchor_550" class="label">[550]</a> Monarq. Lusitan. liv. 7. Bergança part. 1. liv. 2. cap.
-1. num. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_551" href="#FNanchor_551" class="label">[551]</a> Pellizer Anal. p. 401.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_552" href="#FNanchor_552" class="label">[552]</a> Ferrer. tom. 4. p. 108.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_553" href="#FNanchor_553" class="label">[553]</a> Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_554" href="#FNanchor_554" class="label">[554]</a> Bergança part. 1. das Antiguid. de Hesp. liv. 2. cap. 3.
-n. 35.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_555" href="#FNanchor_555" class="label">[555]</a> Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 14. Benedict. Lusit tom. 1.
-trat. 2. part. 2. cap. 6. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Port. n 52. Paes
-Viegas nos Princip. de Portug. liv. 6. p. 219. Agiolog. Lusit. tom. 3.
-p. 801. Ann. Historic. tom. 2. p. 257.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_556" href="#FNanchor_556" class="label">[556]</a> Berganç. part. 1. das Antig. de Hesp. liv. 3. cap. 6. n.
-65.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_557" href="#FNanchor_557" class="label">[557]</a> Rocha Portug. Renascid. part. 2. n. 124. &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_558" href="#FNanchor_558" class="label">[558]</a> Apud Berganç. ut supr. cap. 12. n. 138.</p>
-
-</div></div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VI">CAPITULO VI.<br><span class="small"><i>Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de
-Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes.</i></span></h2></div>
-
-
-<p>Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada
-dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e
-Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D.
-Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das
-conquisquistas<span class="pagenum" id="Page_282">[Pg 282]</span> delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas
-o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote
-naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo
-inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido
-tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com
-huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado,
-como já entramos a ver.</p>
-
-
-<h3><i>Conde D. Henrique.</i></h3>
-
-<p>2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste
-illustrissimo Conde. O primeiro: <i>Qual he a sua origem?</i> Naõ menos
-que seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se
-podem ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.<a id="FNanchor_560" href="#Footnote_560" class="fnanchor">[559]</a> A mais
-certa, e verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he
-a que faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques
-de Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre
-<i>Exemplar Floriacense</i>, que se achou em França na livraria do
-Convento de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ
-no anno de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em
-tempo do proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida
-por texto indubitavel.</p>
-
-<p>3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo
-grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,<a id="FNanchor_561" href="#Footnote_561" class="fnanchor">[560]</a> fomos encontrar
-huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de
-Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo
-Agostinho,<span class="pagenum" id="Page_283">[Pg 283]</span> e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ
-com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na
-cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que
-ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras
-clausulas, a seguinte:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><i>Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don
-Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su
-Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de
-los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla,
-&amp;c.</i></p>
-</div>
-
-<p>4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste
-epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande
-Brandaõ,<a id="FNanchor_562" href="#Footnote_562" class="fnanchor">[561]</a> diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas
-nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais:
-Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ,
-digna de reparo, dizendo: <i>En lo que toca a ser su padre el Conde D.
-Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de
-Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo.</i></p>
-
-<p>5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no
-Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que
-o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,<a id="FNanchor_563" href="#Footnote_563" class="fnanchor">[562]</a> em
-que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita
-reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos
-communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ
-anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos
-curiosos,<span class="pagenum" id="Page_284">[Pg 284]</span> e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de
-Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.</p>
-
-<p>6 O segundo ponto difficultoso he: <i>Se a Rainha Dona Teresa, mulher
-do Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de
-Leaõ?</i> A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso
-sendo casado com Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora
-Dona Teresa, foy depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio
-VII. como consta da sua Carta, ou Breve, que principia: <i>Dici non
-potest</i>, escrita ao mesmo D. Affonso, por se contrahir sem dispensa
-do parentesco, que a dita Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D.
-Affonso, o qual foy casado seis vezes.</p>
-
-<p>7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda
-Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por
-sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,<a id="FNanchor_564" href="#Footnote_564" class="fnanchor">[563]</a> objecçaõ forçosa,
-com que argumenta Manoel de Faria.<a id="FNanchor_565" href="#Footnote_565" class="fnanchor">[564]</a> Porém isto naõ obsta; porque
-além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso
-tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a
-entender Baronio,<a id="FNanchor_566" href="#Footnote_566" class="fnanchor">[565]</a> he certo que os filhos havidos de matrimonios
-separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos
-legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte
-Ribeiro.<a id="FNanchor_567" href="#Footnote_567" class="fnanchor">[566]</a> Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo
-erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar
-já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.<a id="FNanchor_568" href="#Footnote_568" class="fnanchor">[567]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_285">[Pg 285]</span></p>
-
-<p>8 A terceira difficuldade he: <i>Saber o anno, em que entrou o
-Conde D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ
-em dote?</i> Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph
-Barbosa<a id="FNanchor_569" href="#Footnote_569" class="fnanchor">[568]</a> que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental
-Genealogico D. Antonio Caetano<a id="FNanchor_570" href="#Footnote_570" class="fnanchor">[569]</a> he de parecer que viera no anno
-antecedente; e outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à
-segunda parte, o dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras
-os Montes, e em Galiza naõ comprehendia terra alguma, como affirma
-o Chronista Brandaõ,<a id="FNanchor_571" href="#Footnote_571" class="fnanchor">[570]</a> contra o que alguns disseraõ. Este era o
-estado de Portugal, que o valeroso Conde augmentou depois com as outras
-terras, que foy ganhando aos Mouros, por onde livremente podia.</p>
-
-<p>9 O quarto ponto difficultoso he: <i>Se o Reino de Portugal foy dado
-ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo?</i> Os Authores
-Castelhanos dizem que sim;<a id="FNanchor_572" href="#Footnote_572" class="fnanchor">[571]</a> porém o certo he que foy dado
-independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella.
-Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,<a id="FNanchor_573" href="#Footnote_573" class="fnanchor">[572]</a>
-e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;<a id="FNanchor_574" href="#Footnote_574" class="fnanchor">[573]</a> porque naõ se
-descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste
-contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy
-hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita
-soberania.</p>
-
-<p>10 A quinta difficuldade he: <i>Saber em que tempo foy o Conde D.
-Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver
-entrado em Portugal?</i> Brandaõ<span class="pagenum" id="Page_286">[Pg 286]</span> diz,<a id="FNanchor_575" href="#Footnote_575" class="fnanchor">[574]</a> que depois, e no anno de
-1103. Manoel de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava
-casado,<a id="FNanchor_576" href="#Footnote_576" class="fnanchor">[575]</a> e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II.
-Author daquella expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por
-segura a sentença de Brandaõ.</p>
-
-<p>11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que
-resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas
-vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor
-fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da
-Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo
-muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com
-egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao
-descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta
-e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na
-Sé de Braga.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonso Henriques, I. Rey.</i></h3>
-
-<p>12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso,
-e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey
-D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que
-passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza,
-naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.</p>
-
-<p>13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e
-Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o
-melhor calculo;<a id="FNanchor_577" href="#Footnote_577" class="fnanchor">[576]</a> e sendo seu nascimento festejado, assim como
-era util, moderou o contentamento de<span class="pagenum" id="Page_287">[Pg 287]</span> pays, e vassallos hum defeito
-corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda<a id="FNanchor_578" href="#Footnote_578" class="fnanchor">[577]</a> passou
-logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo,
-e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da
-purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o
-por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a
-Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de
-que parece duvidar Mons. de la Clede.<a id="FNanchor_579" href="#Footnote_579" class="fnanchor">[578]</a></p>
-
-<p>14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade,
-quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria
-sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando
-as insignias militares do altar do Salvador.<a id="FNanchor_580" href="#Footnote_580" class="fnanchor">[579]</a> Passados dous annos,
-considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro,
-intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que
-até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho
-excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha,
-que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho
-de 1128.</p>
-
-<p>15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio
-de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou
-pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas
-infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;<a id="FNanchor_581" href="#Footnote_581" class="fnanchor">[580]</a>
-porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a
-Villa de<span class="pagenum" id="Page_288">[Pg 288]</span> Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto
-aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente
-ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua
-palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ
-querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz
-havia feito, dizem,<a id="FNanchor_582" href="#Footnote_582" class="fnanchor">[581]</a> que este fora a Toledo com mulher, e filhos
-presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta
-do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente
-satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.</p>
-
-<p>16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ
-prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado,
-passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe
-poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir
-os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys
-Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de
-quatrocentos mil combatentes.<a id="FNanchor_583" href="#Footnote_583" class="fnanchor">[582]</a></p>
-
-<p>17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento
-de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia
-Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si
-hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da
-sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas.
-Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a
-que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139,
-a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey<span class="pagenum" id="Page_289">[Pg 289]</span> D. Affonso de
-Castella,<a id="FNanchor_584" href="#Footnote_584" class="fnanchor">[583]</a> e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179
-pela Bulla, que começa: <i>Manifestis probatum est argumentis.</i><a id="FNanchor_585" href="#Footnote_585" class="fnanchor">[584]</a></p>
-
-<p>18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do
-mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte,
-passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de
-Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,<a id="FNanchor_586" href="#Footnote_586" class="fnanchor">[585]</a> além de hum
-grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste
-admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que
-abaixo allegamos,<a id="FNanchor_587" href="#Footnote_587" class="fnanchor">[586]</a> naõ sendo digno de se ler neste particular
-o Padre Mariana,<a id="FNanchor_588" href="#Footnote_588" class="fnanchor">[587]</a> que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das
-suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ
-authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui
-mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as
-cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco,<span class="pagenum" id="Page_290">[Pg 290]</span> e que a orla dos
-Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando
-por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.</p>
-
-<p>19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ
-os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos
-responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de
-hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do
-juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica
-delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por
-mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no
-cap. 15.: <i>E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle
-mesmo deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na
-mesma, maneira que disse o Ermitaõ.</i> Camões, que morreo muito antes
-da vinda do Rey Filippe, o cantou tambem no <i>Cant. 3. oitava 45. e
-46</i>. O letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal
-do campo de Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André
-de Resende, como elle o confessa no <i>liv. 4. de Antiquit</i>. faz
-memoria desta appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores
-antiquissimos.</p>
-
-<p>20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente
-santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo;
-donde Sá de Miranda na <i>Carta 5. est. 9.</i> disse fallando de
-Coimbra:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Cidade rica do Santo</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Corpo do seu Rey primeiro,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Que inda vimos com espanto,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Há taõ pouco tempo inteiro,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Dos annos que podem tanto.</i></span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_291">[Pg 291]</span></p>
-
-<p>Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea
-ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja
-de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da
-integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao
-projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a
-instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo
-processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais
-urgentes.</p>
-
-<p>21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco
-escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta
-variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem
-embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a
-substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos
-modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant.
-3. desde a est. 153.</p>
-
-<p>22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de
-Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar.
-Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se
-achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario
-a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello
-pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo a
-transcreve Brito na Chronica de Cister <i>livro 3. cap. 5.</i> e outras
-muitas que se podem ver na mesma Chronica <i>l. 3. c. 6.</i> e na
-<i>Monarquia Lusitan. liv. 8 c. 26.</i> e na <i>Historia Ecclesiast. de
-Lisboa part. 2. cap. 56.</i></p>
-
-<p>23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se
-D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ
-à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo
-feudatario, mas liberal tributo, dous marcos<span class="pagenum" id="Page_292">[Pg 292]</span> de ouro,<a id="FNanchor_589" href="#Footnote_589" class="fnanchor">[588]</a> cujo
-reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de
-vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta
-escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza,
-tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando
-magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e
-cincoenta,<a id="FNanchor_590" href="#Footnote_590" class="fnanchor">[589]</a> dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e
-liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo
-Portugal.<a id="FNanchor_591" href="#Footnote_591" class="fnanchor">[590]</a></p>
-
-<p>24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de
-Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de
-S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados
-com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e
-libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e
-Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte
-Reys, e dous Imperadores.</p>
-
-<p>25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo
-III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou
-com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente
-setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou
-o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo
-governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de
-Santa Cruz de Coimbra com<span class="pagenum" id="Page_293">[Pg 293]</span> grande veneraçaõ, obrando Deos por elle
-alguns prodigios, como se podem ver no argumento 10. do <i>Apparato
-Historico</i>, que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio
-em Roma no anno de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe
-tece vinte e sete elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas
-mais conspicuas em virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os
-merecimentos deste santo Rey premiados com a eterna felicidade.</p>
-
-
-<h3><i>D. Sancho I. segundo Rey.</i></h3>
-
-<p>26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com
-os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos
-mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das
-armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou
-na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito
-Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria,
-e defendido seu pay.<a id="FNanchor_592" href="#Footnote_592" class="fnanchor">[591]</a> De vinte e hum annos casou com Dona Dulce,
-filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo
-vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens
-por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem
-presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.</p>
-
-<p>27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia
-da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ
-taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do
-sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do
-Guadalquivir.<a id="FNanchor_593" href="#Footnote_593" class="fnanchor">[592]</a> Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda<span class="pagenum" id="Page_294">[Pg 294]</span>
-com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal,
-quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ
-posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e
-desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo
-primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes
-offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se
-prezou ser seu especial bemfeitor.<a id="FNanchor_594" href="#Footnote_594" class="fnanchor">[593]</a></p>
-
-<p>28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das honras
-funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra aos 9 de
-Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de idade, como bem
-diz Brandaõ,<a id="FNanchor_595" href="#Footnote_595" class="fnanchor">[594]</a> e naõ trinta e oito, como dizem outros.<a id="FNanchor_596" href="#Footnote_596" class="fnanchor">[595]</a> Logo
-solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou em convertella em
-utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar edificios, fundar
-Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, acções, que lhe
-grangearaõ os honrosos cognomes de <i>Povoador</i>,<a id="FNanchor_597" href="#Footnote_597" class="fnanchor">[596]</a> e <i>Pay
-da Patria</i>,<a id="FNanchor_598" href="#Footnote_598" class="fnanchor">[597]</a> manifestando-se muito mais a sua piedade, e
-grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta
-prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia
-offerta até do que ainda esperava ter.<a id="FNanchor_599" href="#Footnote_599" class="fnanchor">[598]</a></p>
-
-<p>29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em
-direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal
-veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho
-conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral
-com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino,
-intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno<span class="pagenum" id="Page_295">[Pg 295]</span> 1188 até 1190.<a id="FNanchor_600" href="#Footnote_600" class="fnanchor">[599]</a>
-Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras
-de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou
-no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho
-resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome
-attenuado muito as forças.<a id="FNanchor_601" href="#Footnote_601" class="fnanchor">[600]</a></p>
-
-<p>30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos
-povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais
-populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ
-só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,<a id="FNanchor_602" href="#Footnote_602" class="fnanchor">[601]</a>
-sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas,
-e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de
-Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular
-bemfeitor,<a id="FNanchor_603" href="#Footnote_603" class="fnanchor">[602]</a> acabando todos de ver o governo, e a piedade deste
-Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas
-de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos,
-pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa
-Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no
-Mosteiro de Lorvaõ.<a id="FNanchor_604" href="#Footnote_604" class="fnanchor">[603]</a> Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em
-Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27
-de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em
-Santa Cruz de Coimbra.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonfo II. terceiro Rey.</i></h3>
-
-<p>31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na
-morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso<span class="pagenum" id="Page_296">[Pg 296]</span>
-no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de
-idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por
-se ter recebido no anno 1201.<a id="FNanchor_605" href="#Footnote_605" class="fnanchor">[604]</a> Havia nascido em Coimbra a 23 de
-Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum
-achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa
-Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de
-Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o
-liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.<a id="FNanchor_606" href="#Footnote_606" class="fnanchor">[605]</a></p>
-
-<p>32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo
-generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste
-nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia
-alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e
-Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas
-as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de
-outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero
-de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes
-alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se
-appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho
-de 1212.<a id="FNanchor_607" href="#Footnote_607" class="fnanchor">[606]</a></p>
-
-<p>33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e
-assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu
-pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte
-fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas;
-e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a
-patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.<a id="FNanchor_608" href="#Footnote_608" class="fnanchor">[607]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_297">[Pg 297]</span></p>
-
-<p>34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte
-differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes
-chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima
-armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e
-levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de
-Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ
-D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo
-do insigne Chronista Brandaõ),<a id="FNanchor_609" href="#Footnote_609" class="fnanchor">[608]</a> ajudado com outros Commendadores
-das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado
-conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de
-armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes,
-que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia,
-que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys
-de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos
-depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.</p>
-
-<p>35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel
-para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados,
-renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de
-ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e
-venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos
-Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande
-credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de
-idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março
-de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_298">[Pg 298]</span></p>
-
-
-<h3><i>D. Sancho II. quarto Rey.</i></h3>
-
-<p>36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de
-1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude.
-Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara
-do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem
-de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos
-Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos
-que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso
-exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por
-esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe
-mandou.<a id="FNanchor_610" href="#Footnote_610" class="fnanchor">[609]</a></p>
-
-<p>37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o
-anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e
-Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur,
-Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes
-prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado
-Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras
-Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ
-dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida
-tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.<a id="FNanchor_611" href="#Footnote_611" class="fnanchor">[610]</a> Porém vendo
-o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame
-do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda
-inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia <i>Grandi non
-immerito</i>,<a id="FNanchor_612" href="#Footnote_612" class="fnanchor">[611]</a> substituindo em seu lugar por Governador a seu
-irmão<span class="pagenum" id="Page_299">[Pg 299]</span> D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de
-França.</p>
-
-<p>38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum
-consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho
-infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D.
-Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor,
-marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as
-censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia
-de D. Affonso,<a id="FNanchor_613" href="#Footnote_613" class="fnanchor">[612]</a> desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo
-a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos
-elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude
-com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella
-dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente
-cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da
-eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis
-de idade, e vinte e cinco de governo.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonso III. quinto Rey.</i></h3>
-
-<p>39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no
-anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha,
-sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou
-criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de
-certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245,
-alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou
-no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de
-1250 o conseguio quasi plenamente,<span class="pagenum" id="Page_300">[Pg 300]</span><a id="FNanchor_614" href="#Footnote_614" class="fnanchor">[613]</a> e em que se distinguio muito o
-insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.</p>
-
-<p>40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha
-occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles
-Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso
-depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas
-terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e
-Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.<a id="FNanchor_615" href="#Footnote_615" class="fnanchor">[614]</a></p>
-
-<p>41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo,
-estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;<a id="FNanchor_616" href="#Footnote_616" class="fnanchor">[615]</a> porém no meyo
-de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e
-perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a
-Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda
-delRey D. Affonso <i>Sabio</i> de Castella no anno de 1253, motivo de
-haver tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ
-o povo, e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira
-mulher. Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse
-dispensar com ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano
-IV. e ficou o Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia
-contumacia.<a id="FNanchor_617" href="#Footnote_617" class="fnanchor">[616]</a></p>
-
-<p>42 Alguns Escritores se enganaraõ<a id="FNanchor_618" href="#Footnote_618" class="fnanchor">[617]</a> em dizer que o Reino do Algarve
-fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente
-provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,<a id="FNanchor_619" href="#Footnote_619" class="fnanchor">[618]</a> porque só<span class="pagenum" id="Page_301">[Pg 301]</span> consta que os Reys
-de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de
-1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia
-de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267
-se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o
-Infante D. Diniz levou a D. Affonso o <i>Sabio</i> contra os Mouros.</p>
-
-<p>43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias,
-tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que
-dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu
-respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual
-reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico,
-continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou
-XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer
-obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.<a id="FNanchor_620" href="#Footnote_620" class="fnanchor">[619]</a></p>
-
-<p>44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta<a id="FNanchor_621" href="#Footnote_621" class="fnanchor">[620]</a>
-equivocadamente lhe chamasse <i>Bravo</i>, foy ElRey D. Affonso de
-notavel governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do
-Reino, fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de
-Elvas, e Santa Clara de Santarem.<a id="FNanchor_622" href="#Footnote_622" class="fnanchor">[621]</a> Alimpou o Reino de facinorosos,
-estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de
-1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy
-depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se
-trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_302">[Pg 302]</span></p>
-<p><i>D. Diniz sexto Rey.</i></p>
-
-<p>45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o
-Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu
-padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros
-desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por
-ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno
-Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso,
-e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D.
-Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.<a id="FNanchor_623" href="#Footnote_623" class="fnanchor">[622]</a></p>
-
-<p>46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro
-annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a
-Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu
-avô<a id="FNanchor_624" href="#Footnote_624" class="fnanchor">[623]</a> contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a
-Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo
-D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas
-em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando
-a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o
-novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem
-mágoa, e sentimento da Rainha.</p>
-
-<p>47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como
-era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta
-honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura
-com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das
-fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as
-mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_303">[Pg 303]</span></p>
-
-<p>48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a
-Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste
-mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico,
-e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando
-a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem
-as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este
-cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou,
-mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy
-Mirandela, e outros.</p>
-
-<p>49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ,
-foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio
-dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra
-vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real
-todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava
-dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: <i>Que justamente se tirava
-o que injustamente se concedera.</i><a id="FNanchor_625" href="#Footnote_625" class="fnanchor">[624]</a> Passou esta Ley em Coimbra
-a 26 de Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o
-Chanceller Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos
-grandes serviços, que tinha feito ao Reino.</p>
-
-<p>50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão
-D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois
-dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara
-o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter
-nascido antes, e por isso illegitimo,<a id="FNanchor_626" href="#Footnote_626" class="fnanchor">[625]</a> com este motivo chegaraõ
-a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente,
-o fez convir em composições,<span class="pagenum" id="Page_304">[Pg 304]</span> intervindo tambem na reconciliaçaõ dos
-dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria,
-ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha
-Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de
-1287.</p>
-
-<p>51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse
-a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como
-era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa
-a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao
-IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,<a id="FNanchor_627" href="#Footnote_627" class="fnanchor">[626]</a> e continuando os
-estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados
-todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse
-para Coimbra no anno 1308.</p>
-
-<p>52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que
-prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente
-ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas
-nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;<a id="FNanchor_628" href="#Footnote_628" class="fnanchor">[627]</a> e porque esta
-limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ
-menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade,
-dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito
-cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de
-naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S.
-Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e
-Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes
-dous participantes da sua liberalidade.</p>
-
-<p>53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em<span class="pagenum" id="Page_305">[Pg 305]</span> muitas virtudes, e em
-tres excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na <i>Justiça</i>,
-<i>Verdade</i>, e <i>Liberalidade</i>. Pela primeira foy eleito Juiz
-arbitro em companhia delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey
-D. Fernando de Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de
-Castella, e Leaõ, em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de
-Aragaõ sem queixa de nenhuma das partes, e compoz outras differenças,
-que havia entre os Reys de Castella, e Aragaõ.</p>
-
-<p>54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous
-Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho
-deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia,
-porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima
-esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,<a id="FNanchor_629" href="#Footnote_629" class="fnanchor">[628]</a> e naõ
-houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas,
-e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a
-seu filho sem offensa de seus vassallos.</p>
-
-<p>55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas
-Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem
-Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no
-seu tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o
-cognome de <i>Lavrador</i>, aos quaes chamava nervos da Republica, e
-por este augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem <i>Pay da
-Patria</i>. Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou
-por seu Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a
-guerra.</p>
-
-<p>58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos<span class="pagenum" id="Page_306">[Pg 306]</span> com seu filho o
-Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja,
-que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo
-irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ
-com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo
-em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo
-vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco,
-dez mezes, e vinte dias.<a id="FNanchor_630" href="#Footnote_630" class="fnanchor">[629]</a> Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de
-Odivellas em soberbo mausoleo.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonso IV. setimo Rey</i>.</h3>
-
-<p>57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro
-de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia,
-contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra,
-conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco
-Leitaõ Ferreira.<a id="FNanchor_631" href="#Footnote_631" class="fnanchor">[630]</a> Desde a primeira idade mostrou o aspero natural,
-de que era dotado. Casou em Mayo de 1309<a id="FNanchor_632" href="#Footnote_632" class="fnanchor">[631]</a> com a Senhora Dona
-Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se
-celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.</p>
-
-<p>58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando
-entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo
-capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava
-por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe
-causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero,
-de fórma que por elle grangeou o epitheto de <i>Bravo</i>, emprendeo
-acções arduas, e teve grandes<span class="pagenum" id="Page_307">[Pg 307]</span> discordias com seu pay, e seu sobrinho
-D. Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.<a id="FNanchor_633" href="#Footnote_633" class="fnanchor">[632]</a></p>
-
-<p>59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de
-ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha
-do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada,
-cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do
-valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.<a id="FNanchor_634" href="#Footnote_634" class="fnanchor">[633]</a> Fez por duas vezes
-mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra
-para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de
-1354,<a id="FNanchor_635" href="#Footnote_635" class="fnanchor">[634]</a> concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.</p>
-
-<p>60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé
-com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem;
-hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na
-sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito,
-o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à
-formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o
-Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo
-de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e
-de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na
-Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte
-do Evangelho, e na Capella Mór<a id="FNanchor_636" href="#Footnote_636" class="fnanchor">[635]</a>.</p>
-
-
-<h3><i>D. Pedro I. oitavo Rey.</i></h3>
-
-<p>61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita
-variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico
-Francisco<span class="pagenum" id="Page_308">[Pg 308]</span> Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que
-ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na
-antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.<a id="FNanchor_637" href="#Footnote_637" class="fnanchor">[636]</a> Tanto
-que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de
-1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias,
-cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona
-Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ
-tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com
-o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro
-Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ
-os aggressores daquella innocente morte.</p>
-
-<p>62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia
-promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da
-morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança,
-e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a
-beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com
-fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas
-costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.<a id="FNanchor_638" href="#Footnote_638" class="fnanchor">[637]</a> Parece que este
-excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto de
-<i>Justiceiro</i>, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia
-mudou para o cognome de <i>Cruel</i>, de que os deixou desenganados o
-Plataõ Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:<a id="FNanchor_639" href="#Footnote_639" class="fnanchor">[638]</a></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><i>Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel
-inclinaçaõ.</i></p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_309">[Pg 309]</span></p>
-
-<p>63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a
-legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher,
-fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando
-lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto
-apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a
-boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava,
-administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro.
-Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as
-dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.</p>
-
-<p>64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o
-genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por
-outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de
-fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e
-unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado,
-soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte
-diziaõ, que <i>taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha
-visto Portugal, nem esperava de os tornar a ver</i>. Achando-se na
-Villa de Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda
-feira pela madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos;
-reinou nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em
-Alcobaça junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.</p>
-
-
-<h3><i>D. Fernando, nono Rey.</i></h3>
-
-<p>65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345,
-vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando,
-conforme a Chronologia mais bem averiguada.<span class="pagenum" id="Page_310">[Pg 310]</span><a id="FNanchor_640" href="#Footnote_640" class="fnanchor">[639]</a> A natureza o dotou
-de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos
-era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.<a id="FNanchor_641" href="#Footnote_641" class="fnanchor">[640]</a> O genio,
-e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou
-Camões,<a id="FNanchor_642" href="#Footnote_642" class="fnanchor">[641]</a> e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta
-brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar,
-e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.</p>
-
-<p>66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando
-vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e
-opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros,
-que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.<a id="FNanchor_643" href="#Footnote_643" class="fnanchor">[642]</a> Cuidou logo em reedificar as
-Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo
-mercês com profusa liberalidade.</p>
-
-<p>67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D.
-Pedro o <i>Cruel</i>, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique,
-como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa
-como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de
-Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha
-Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e
-damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio
-XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no
-ultimo de Março de 1371.<a id="FNanchor_644" href="#Footnote_644" class="fnanchor">[643]</a></p>
-
-<p>68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao
-forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da
-Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando
-pretextos para lhe<span class="pagenum" id="Page_311">[Pg 311]</span> annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por
-mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo
-apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.<a id="FNanchor_645" href="#Footnote_645" class="fnanchor">[644]</a> Joaõ Lourenço da Cunha
-se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já
-militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos
-crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.</p>
-
-<p>69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua
-palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ
-da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey
-Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança,
-filha delRey D. Pedro o <i>Cruel</i>, se intitulava Rey de Castella, e
-pertendia a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique
-delRey D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ,
-entrou por Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a
-espada, sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.</p>
-
-<p>70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas
-povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos
-moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,<a id="FNanchor_646" href="#Footnote_646" class="fnanchor">[645]</a> esteve perto de
-destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento
-de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta
-oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os
-Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.<a id="FNanchor_647" href="#Footnote_647" class="fnanchor">[646]</a> Achava-se
-ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente,
-vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo,
-e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e<span class="pagenum" id="Page_312">[Pg 312]</span> elle com
-tanto descuido, como diz Manoel de Faria,<a id="FNanchor_648" href="#Footnote_648" class="fnanchor">[647]</a> sem dar providencia, ou
-remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com
-soberba descuberta por falta da opposiçaõ.</p>
-
-<p>71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com
-toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ
-promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes
-ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ
-entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente
-aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do
-Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas
-embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos
-artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D.
-Fernando.<a id="FNanchor_649" href="#Footnote_649" class="fnanchor">[648]</a></p>
-
-<p>72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas
-militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas
-de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros
-muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo
-de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375.
-Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria,
-Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as
-Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse
-mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no
-anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos
-estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.<a id="FNanchor_650" href="#Footnote_650" class="fnanchor">[649]</a> Inventou novos
-arbitrios sobre a utilidade do commercio,<span class="pagenum" id="Page_313">[Pg 313]</span><a id="FNanchor_651" href="#Footnote_651" class="fnanchor">[650]</a> e fez varias mercês com
-liberalidade regia.</p>
-
-<p>73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e
-rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e
-padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos
-Castelhanos,<a id="FNanchor_652" href="#Footnote_652" class="fnanchor">[651]</a> concluindo-se finalmente com o casamento de Dona
-Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que
-se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade
-de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade
-trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove
-mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de
-Santarem.</p>
-
-
-<h3><i>D. Joaõ I. decimo Rey.</i></h3>
-
-<p>74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes
-inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na
-Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse
-recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor
-ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha
-Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho
-capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder,
-mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e
-Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos
-successores.<a id="FNanchor_653" href="#Footnote_653" class="fnanchor">[652]</a></p>
-
-<p>75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela
-grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes
-Andeiro, seu<span class="pagenum" id="Page_314">[Pg 314]</span> escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os
-negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes
-julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia
-ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre
-de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D.
-Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que
-obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear
-a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto
-escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios
-Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de
-1383.<a id="FNanchor_654" href="#Footnote_654" class="fnanchor">[653]</a></p>
-
-<p>76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento
-do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que
-publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do
-Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego
-começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter
-contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o
-grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do
-nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo
-sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem
-fazer nada depois de perder bastante gente.<a id="FNanchor_655" href="#Footnote_655" class="fnanchor">[654]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_315">[Pg 315]</span></p>
-
-<p>77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes
-algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso
-Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante
-Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de
-Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas
-nove horas da manhã,<a id="FNanchor_656" href="#Footnote_656" class="fnanchor">[655]</a> tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete
-annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,<a id="FNanchor_657" href="#Footnote_657" class="fnanchor">[656]</a> ou vinte
-e oito, conforme outros,<a id="FNanchor_658" href="#Footnote_658" class="fnanchor">[657]</a> ou, o que temos por mais certo, vinte e
-sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito
-para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras
-com as efficazes razões, que allegou neste caso.<a id="FNanchor_659" href="#Footnote_659" class="fnanchor">[658]</a></p>
-
-<p>78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores
-cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo
-primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a
-occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella,
-reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella
-continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel
-exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre,
-e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta
-mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por
-isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada,
-e gloriosa em todas as memorias,<a id="FNanchor_660" href="#Footnote_660" class="fnanchor">[659]</a> e succedida a 14<span class="pagenum" id="Page_316">[Pg 316]</span> de Agosto de
-1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.</p>
-
-<p>79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a
-Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com
-esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos
-tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum
-tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ
-de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo
-finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.</p>
-
-<p>80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo
-ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para
-cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte
-vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza
-conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia,
-que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey
-de Portugal, e do Algarve o de <i>Senhor de Ceuta</i>.<a id="FNanchor_661" href="#Footnote_661" class="fnanchor">[660]</a></p>
-
-<p>81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se
-muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que
-resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas,
-mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ
-da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o
-anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para
-isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,<a id="FNanchor_662" href="#Footnote_662" class="fnanchor">[661]</a> que parece só teve
-pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi
-todos os Escritores.<span class="pagenum" id="Page_317">[Pg 317]</span><a id="FNanchor_663" href="#Footnote_663" class="fnanchor">[662]</a> Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I.
-de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem
-Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.</p>
-
-<p>82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com
-igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy
-uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre
-Joaõ das Regras.<a id="FNanchor_664" href="#Footnote_664" class="fnanchor">[663]</a> Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou
-à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa
-Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,<a id="FNanchor_665" href="#Footnote_665" class="fnanchor">[664]</a>
-servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios
-sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa
-da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara
-do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa
-Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada
-junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para
-que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino
-os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os
-Loyos.<a id="FNanchor_666" href="#Footnote_666" class="fnanchor">[665]</a></p>
-
-<p>83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas,
-e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim.
-Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que
-depois revogou naõ sem escandalo.<a id="FNanchor_667" href="#Footnote_667" class="fnanchor">[666]</a> Finalmente no dia 14 de Agosto
-de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do<span class="pagenum" id="Page_318">[Pg 318]</span> Sol,
-exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido
-setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e
-oito annos, quatro mezes, e oito dias.<a id="FNanchor_668" href="#Footnote_668" class="fnanchor">[667]</a> Foy seu corpo depositado na
-Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy
-transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da
-Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve
-Fr. Luiz de Sousa.<a id="FNanchor_669" href="#Footnote_669" class="fnanchor">[668]</a></p>
-
-
-<h3><i>D. Duarte, undecimo Rey.</i></h3>
-
-<p>84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia
-nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e
-adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy
-destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy
-eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos
-homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em
-cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem
-alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e
-sciencia.<a id="FNanchor_670" href="#Footnote_670" class="fnanchor">[669]</a></p>
-
-<p>85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove
-mezes, e quatorze dias,<a id="FNanchor_671" href="#Footnote_671" class="fnanchor">[670]</a> e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433
-nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428
-com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno,
-começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez
-por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey
-seu pay.<span class="pagenum" id="Page_319">[Pg 319]</span><a id="FNanchor_672" href="#Footnote_672" class="fnanchor">[671]</a> Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ
-dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o
-luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou
-fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte,
-que os obrigava a empenhos,<a id="FNanchor_673" href="#Footnote_673" class="fnanchor">[672]</a> excepto aquelles Fidalgos, que por
-turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.</p>
-
-<p>85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque
-os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças;
-e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do
-Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D.
-Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e
-ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as
-vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou
-em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros
-de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo
-Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo
-acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,<a id="FNanchor_674" href="#Footnote_674" class="fnanchor">[673]</a>
-determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D.
-Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer
-o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o
-Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade
-de Ceuta.<a id="FNanchor_675" href="#Footnote_675" class="fnanchor">[674]</a></p>
-
-<p>87 Mons. de la Clede<a id="FNanchor_676" href="#Footnote_676" class="fnanchor">[675]</a> accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo
-do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo,
-e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o<span class="pagenum" id="Page_320">[Pg 320]</span> desejo de procurar
-tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas
-infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada,
-que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e
-apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ
-todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino,
-occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco
-Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas
-as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só
-para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas
-para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e
-abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz
-fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo
-vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco
-annos, e vinte e seis dias.<a id="FNanchor_677" href="#Footnote_677" class="fnanchor">[676]</a> Jaz no Convento da Batalha.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonso V. duodecimo Rey.</i></h3>
-
-<p>88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de
-Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis
-annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado
-logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à
-disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia
-do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor
-do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo
-entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações,
-e de que existem memorias taõ lastimosas.<a id="FNanchor_678" href="#Footnote_678" class="fnanchor">[677]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_321">[Pg 321]</span></p>
-
-<p>89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com
-applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso
-entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de
-Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira,
-de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya
-de grandes, e honrodas expressões,<a id="FNanchor_679" href="#Footnote_679" class="fnanchor">[678]</a> encommendando-lhe, acabado o
-acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si
-totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a
-Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.</p>
-
-<p>90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a
-felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey,
-o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que
-o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe
-encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas
-quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao
-Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o
-Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo
-de 1449.<a id="FNanchor_680" href="#Footnote_680" class="fnanchor">[679]</a></p>
-
-<p>91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no
-convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros
-Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este
-Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta
-empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém
-ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa,
-onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança;<span class="pagenum" id="Page_322">[Pg 322]</span>
-e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas
-de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer
-no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade
-ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou
-a de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia
-de <i>Africano</i>, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o
-<i>daquem, e dalém mar em Africa</i>.</p>
-
-<p>92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a
-Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma
-unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella
-se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da
-Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de
-vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta
-successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha
-no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora
-Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia
-a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey
-Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.</p>
-
-<p>93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque
-nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua
-sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ
-para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição,
-como lhe attribue Camões,<a id="FNanchor_681" href="#Footnote_681" class="fnanchor">[680]</a> mas sim razão justificada, sem embargo
-de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente
-seu filho o Principe D. Joaõ.</p>
-
-<p>94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou
-ElRey logo a França no<span class="pagenum" id="Page_323">[Pg 323]</span> mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do
-seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou
-ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o
-mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu
-filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey
-de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de
-Novembro do proprio anno.<a id="FNanchor_682" href="#Footnote_682" class="fnanchor">[681]</a></p>
-
-<p>95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo
-o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque
-ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar
-a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a
-governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa
-alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade
-Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso<a id="FNanchor_683" href="#Footnote_683" class="fnanchor">[682]</a> fora entre os
-Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de
-honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho.
-quando lhe succedeo: <i>Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e
-caminhos de Portugal</i>; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha
-dado.</p>
-
-<p>96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande
-propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e
-favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de
-Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na
-lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito
-vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne
-Latino,<a id="FNanchor_684" href="#Footnote_684" class="fnanchor">[683]</a> que morreo sem fazer cousa alguma<span class="pagenum" id="Page_324">[Pg 324]</span> por embaraços de
-molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções
-se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado
-de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento
-de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da
-parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento
-de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na
-mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481,
-em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete
-mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e
-dezanove dias.<a id="FNanchor_685" href="#Footnote_685" class="fnanchor">[684]</a> Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.</p>
-
-
-<h3><i>D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.</i></h3>
-
-<p>97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova
-a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado
-Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria
-quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471
-recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com
-irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa
-conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade
-promettia.<a id="FNanchor_686" href="#Footnote_686" class="fnanchor">[685]</a></p>
-
-<p>98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres
-dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy
-esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento
-aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que
-se sabiaõ distinguir<span class="pagenum" id="Page_325">[Pg 325]</span> pela sua capacidade, e talento, as honrava, e
-premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente
-do povo.</p>
-
-<p>99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos
-da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e
-dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes
-extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente
-punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II.
-mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia
-reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ
-mereciaõ tanto rigor,<a id="FNanchor_687" href="#Footnote_687" class="fnanchor">[686]</a> sendo na verdade o Duque Cavalheiro,
-conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem
-adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.<a id="FNanchor_688" href="#Footnote_688" class="fnanchor">[687]</a></p>
-
-<p>100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu
-a conhecer em varias occasiões;<a id="FNanchor_689" href="#Footnote_689" class="fnanchor">[688]</a> de hum engenho muy vivo, e
-desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe
-que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio
-alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que
-havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo
-occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas
-dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que
-lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou
-a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.<a id="FNanchor_690" href="#Footnote_690" class="fnanchor">[689]</a></p>
-
-<p>101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ
-desfez muitos abusos, e fez<span class="pagenum" id="Page_326">[Pg 326]</span> com que se evitassem as casas de jogo,
-mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou
-aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.<a id="FNanchor_691" href="#Footnote_691" class="fnanchor">[690]</a>
-Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o
-que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo.
-Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez
-todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal,
-se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar
-dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.</p>
-
-<p>102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua
-Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de
-Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus
-de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento,
-onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem
-em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando
-à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do
-Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos,
-e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias
-Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra
-a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa
-Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.</p>
-
-<p>103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns
-Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o
-ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na
-generosidade, e na Religião foy singularissimo,<span class="pagenum" id="Page_327">[Pg 327]</span> recto, admiravel,
-pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em
-25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado
-veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou
-quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de
-Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu
-corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal,
-que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.<a id="FNanchor_692" href="#Footnote_692" class="fnanchor">[691]</a></p>
-
-
-<h3><i>D. Manoel decimo quarto Rey.</i></h3>
-
-<p>104 Parece, como bem disse o nosso Homero,<a id="FNanchor_693" href="#Footnote_693" class="fnanchor">[692]</a> que Deos tinha
-escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o
-mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo
-propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta
-Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi
-milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o
-Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja
-mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel
-circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente
-o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,<a id="FNanchor_694" href="#Footnote_694" class="fnanchor">[693]</a> que o verdadeiro dia
-natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque
-a letra Dominical daquelle anno, que foy <i><b>A</b></i>, assim o
-insinua, prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos
-os que collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_328">[Pg 328]</span></p>
-
-<p>105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D.
-Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança
-de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta
-felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem
-tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de
-1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes
-na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz,
-que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de
-Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.<a id="FNanchor_695" href="#Footnote_695" class="fnanchor">[694]</a></p>
-
-<p>106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim
-despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao
-Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem
-pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os
-Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes
-concedeo,<a id="FNanchor_696" href="#Footnote_696" class="fnanchor">[695]</a> e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em
-gloria, e renda.</p>
-
-<p>107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar
-fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ
-converter à Fé de Christo;<a id="FNanchor_697" href="#Footnote_697" class="fnanchor">[696]</a> e logo em Outubro do anno 1497 recebeo
-por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso,
-filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando,
-e Dona Isabel.</p>
-
-<p>108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste
-Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta
-impossibilidade,<span class="pagenum" id="Page_329">[Pg 329]</span> segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para
-provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel
-foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então
-se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou
-de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II.
-havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro,
-que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut,
-e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal,
-naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os
-Venezianos.<a id="FNanchor_698" href="#Footnote_698" class="fnanchor">[697]</a></p>
-
-<p>109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da
-Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e
-innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos
-Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os
-fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo
-muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros
-poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia,
-India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do
-Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado
-Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais
-vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco
-livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.</p>
-
-<p>110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella
-em 28 de Abril de 1498,<a id="FNanchor_699" href="#Footnote_699" class="fnanchor">[698]</a> cuja posse, e titulo brevemente possuio
-pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira
-daquelle Reino. Fundou Templos, que<span class="pagenum" id="Page_330">[Pg 330]</span> podem competir com os melhores
-de Roma.<a id="FNanchor_700" href="#Footnote_700" class="fnanchor">[699]</a> Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal
-perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em
-que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.<a id="FNanchor_701" href="#Footnote_701" class="fnanchor">[700]</a> Agradecido
-aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz
-religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X.
-entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo
-na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso
-dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha
-com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante
-em Roma.<a id="FNanchor_702" href="#Footnote_702" class="fnanchor">[701]</a> Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse,
-parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores
-que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;<a id="FNanchor_703" href="#Footnote_703" class="fnanchor">[702]</a>
-e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de
-Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos
-Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes,
-e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito
-dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle
-mandou edificar para seu jazigo.</p>
-
-
-<h3><i>D. Joaõ III. decimo quinto Rey.</i></h3>
-
-<p>111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III.
-que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel
-pela horrivel tempestade, que houve no Reino de<span class="pagenum" id="Page_331">[Pg 331]</span> trovões, rayos, e
-coriscos.<a id="FNanchor_704" href="#Footnote_704" class="fnanchor">[703]</a> Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o
-acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do
-seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e
-generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a
-estimaçaõ de todos os Principes da Europa.</p>
-
-<p>112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as
-conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna
-memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa
-quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que
-tanto se lamenta Manoel de Faria,<a id="FNanchor_705" href="#Footnote_705" class="fnanchor">[704]</a> e a cujo consentimento attribue
-o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta
-acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da
-Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ
-descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a
-Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas
-partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da
-conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa,
-e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo
-aquelles Religiosos.</p>
-
-<p>113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos
-publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534
-conforme dizem huns,<a id="FNanchor_706" href="#Footnote_706" class="fnanchor">[705]</a> e segundo outros no de 1537,<a id="FNanchor_707" href="#Footnote_707" class="fnanchor">[706]</a> mandando
-vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de
-letras, que havia<span class="pagenum" id="Page_332">[Pg 332]</span> na Europa,<a id="FNanchor_708" href="#Footnote_708" class="fnanchor">[707]</a> de sorte que restabeleceo em Coimbra
-a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel
-affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas
-para as artes, e sciencias.<a id="FNanchor_709" href="#Footnote_709" class="fnanchor">[708]</a></p>
-
-<p>114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de
-Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando
-em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso
-aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio
-Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy
-a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.<a id="FNanchor_710" href="#Footnote_710" class="fnanchor">[709]</a>
-Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da
-Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber
-escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia,
-que <i>mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com
-o que alcançava na vitoria</i>. Finalmente assim nas cousas da paz,
-como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para
-beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro
-conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica.
-Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco
-annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos,
-e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ
-muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida
-por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_333">[Pg 333]</span></p>
-
-
-<h3><i>D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey.</i></h3>
-
-<p>115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza
-Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a
-20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou
-herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona
-Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do
-Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes
-em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da
-Religiaõ Christã.</p>
-
-<p>116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum
-grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear
-emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que
-chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em
-20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das
-armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em
-todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados,
-então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas
-acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de
-Faria.<a id="FNanchor_711" href="#Footnote_711" class="fnanchor">[710]</a></p>
-
-<p>117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar
-todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se
-lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista
-de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar
-se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a
-lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe
-accendiaõ no peito<span class="pagenum" id="Page_334">[Pg 334]</span> deliberações temerarias. Praticou-as, passando
-primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e
-Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os
-barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.</p>
-
-<p>118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos,
-e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey,
-offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ
-para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes,
-que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto
-de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para
-Portugal.<a id="FNanchor_712" href="#Footnote_712" class="fnanchor">[711]</a> Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens,
-dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos
-Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que
-havia no Reino, mas sem exercicio militar.</p>
-
-<p>119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar,
-diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava
-porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de
-cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a
-cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves,
-eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e
-lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis
-pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica
-ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com
-certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar
-por elle, delirio, que com teimosa<span class="pagenum" id="Page_335">[Pg 335]</span> tradiçaõ permaneceo bastante
-tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer
-verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens
-outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de
-la Clede assenta,<a id="FNanchor_713" href="#Footnote_713" class="fnanchor">[712]</a> que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere,
-mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos
-Escritores naõ admittem.</p>
-
-<p>120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ;
-porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e
-impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey
-extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se
-a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ
-com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos
-chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D.
-Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia
-com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,<a id="FNanchor_714" href="#Footnote_714" class="fnanchor">[713]</a> o qual
-dia assim:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Nec dicas falli Regem qui vivere credit,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 2em;"><i>Pro lege extincto mors quasi vita fuit.</i></span><br>
-</p>
-
-
-<h3><i>D. Henrique, decimo setimo Rey.</i></h3>
-
-<p>121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a
-Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal
-D. Henrique, filho delRey D. Manoel,<span class="pagenum" id="Page_336">[Pg 336]</span> que entaõ se achava na avançada
-idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512
-em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy
-pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para
-o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade,
-soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim
-foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos
-de Sacerdote.<a id="FNanchor_715" href="#Footnote_715" class="fnanchor">[714]</a></p>
-
-<p>122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e
-successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais
-gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que
-dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já
-decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem
-pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de
-successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim,
-que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora
-herança, que a todos lhes pertencesse.</p>
-
-<p>123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que
-pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros
-pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de
-França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D.
-Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa
-sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que
-fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da
-pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos
-descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_337">[Pg 337]</span></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><td rowspan="5" class="top">ElRei D. Manoel entre outros filhos teve
-</td><td>A Infanta Dona Isabel Imperatriz, que casou com Carlos V. Imperador, e teve a</td><td colspan="2">Filippe II.
-Rey de Castella 1. pertendente</td></tr>
-<tr><td>A Infanta Dona Brites, que casou com D. Carlos Duque de Saboya, e teve a</td><td colspan="2" class="top"> Manoel Filisberto
-Duque de Saboya, e Principe de Piemõte 2. pertendente.</td></tr>
-<tr><td>O Infante D. Luiz Duque de Béja naõ casou, mas de Violante Gomes, chamada a <i>Pelicana</i>, teve a
-</td><td colspan="2" class="top">D. Antonio Prior do Crato, 3. pertendente.</td></tr>
-
-<tr><td rowspan="2">O Infante D. Duarte Duque de Guimarães casou com Dona Isabel filha de D. Jayme Duque de Bragança, e teve a </td><td class="top">D. Maria, q casou com o Principe de Parma, de quem teve a</td><td class="top">Rainucio Principe de Parma, e 4. pertendente.</td></tr>
-<tr><td colspan="2">D. Catharina que casou com D. Joaõ Duque de Bragança 5. pertendente.</td></tr>
-</table><p>
-<span class="pagenum" id="Page_338">[Pg 338]</span></p>
-
-<p>Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya
-por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois
-já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo
-o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego;
-de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ
-em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona
-Catharina.</p>
-
-<p>124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim
-nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores
-para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois
-passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa,
-veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de
-idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na
-mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ
-com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido
-seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe
-mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa
-da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem
-passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da
-Bemaventurança.</p>
-
-<p>125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a
-usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum
-seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou
-talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando
-viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às
-cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.</p>
-
-<p>126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a
-sua pertençaõ; e adquirindo<span class="pagenum" id="Page_339">[Pg 339]</span> algum sequito de gente popular, esta o
-acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,<a id="FNanchor_716" href="#Footnote_716" class="fnanchor">[715]</a> e logo passando-se
-a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da
-Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a
-intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.</p>
-
-<p>127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa
-executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito
-de mais de vinte mil homens,<a id="FNanchor_717" href="#Footnote_717" class="fnanchor">[716]</a> e dous mil gastadores, commandados
-pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem
-resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas
-junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de
-Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do
-Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões
-Portuguezes,<a id="FNanchor_718" href="#Footnote_718" class="fnanchor">[717]</a> e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois
-varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.</p>
-
-<p>128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno
-damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ
-as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com
-tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy
-à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força
-de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem
-esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa
-consciencia.<a id="FNanchor_719" href="#Footnote_719" class="fnanchor">[718]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_340">[Pg 340]</span></p>
-<div class="blockquot">
-
-<p><i>D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo
-oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos.</i></p>
-</div>
-
-<p>129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se
-celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde
-fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até
-alli se tinha visto.<a id="FNanchor_720" href="#Footnote_720" class="fnanchor">[719]</a> Começou a tratar os Portuguezes com muita
-affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando
-os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos
-passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella
-violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de
-recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey
-Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu
-filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13
-de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado,
-e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos,
-governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.</p>
-
-<p>130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que
-havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte
-annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os
-seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes
-a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir
-o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay.
-Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou
-a morte, que lhe sobreveyo em Madrid<span class="pagenum" id="Page_341">[Pg 341]</span> no ultimo de Março de 1621 com
-quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz
-no Convento do Escurial.</p>
-
-<p>131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de
-1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com
-grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas;
-porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu
-Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e
-privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo
-em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o
-Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar
-para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas,
-que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas
-desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ
-Escritores, que as referem.<a id="FNanchor_721" href="#Footnote_721" class="fnanchor">[720]</a></p>
-
-<p>132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da
-commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo
-Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça
-para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo
-direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina,
-filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a
-todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se
-vivera, havia de ser Rey,<a id="FNanchor_722" href="#Footnote_722" class="fnanchor">[721]</a> mas tambem por ser o Serenissimo Duque
-natural do Reino, e o mayor<span class="pagenum" id="Page_342">[Pg 342]</span> Senhor delle, a quem por suas qualidades
-verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das
-oppressões, que padecia.</p>
-
-<p>133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes
-quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ
-ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se
-presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de
-Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a
-fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel
-de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e
-ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de
-Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro
-Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,<a id="FNanchor_723" href="#Footnote_723" class="fnanchor">[722]</a> ambos interessados
-na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se
-enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de
-dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos
-exorbitantes.</p>
-
-<p>134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais
-a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro
-de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de
-varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e
-zelosos da patria,<a id="FNanchor_724" href="#Footnote_724" class="fnanchor">[723]</a> convidando tambem a outros com todo o segredo,
-se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ
-nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou
-por interpreza.<span class="pagenum" id="Page_343">[Pg 343]</span> Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os
-incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito
-com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na
-Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV.,
-acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor
-do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da
-sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.</p>
-
-
-<h3><i>D. João IV. vigesimo primeiro Rey.</i></h3>
-
-<p>135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e
-restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza
-ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de
-Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ
-em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares
-Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo
-Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se
-experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e
-festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,<a id="FNanchor_725" href="#Footnote_725" class="fnanchor">[724]</a>
-sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze
-dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando
-todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados
-Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.<a id="FNanchor_726" href="#Footnote_726" class="fnanchor">[725]</a></p>
-
-<p>136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as
-expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que
-foy<span class="pagenum" id="Page_344">[Pg 344]</span> em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria
-do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do
-Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as
-Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente
-com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender,
-e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando
-seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura
-debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era
-necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de
-papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o
-Reino à sua obediencia.<a id="FNanchor_727" href="#Footnote_727" class="fnanchor">[726]</a></p>
-
-<p>137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e
-fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas
-do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França,
-Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ
-com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os
-Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados,
-experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas,
-que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de
-Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o
-intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras
-muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do
-Reino.</p>
-
-<p>138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das
-nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança
-da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais
-do ouro, que do ferro; e corrompendo<span class="pagenum" id="Page_345">[Pg 345]</span> com elle algumas pessoas suas
-affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra
-ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e
-degolados<a id="FNanchor_728" href="#Footnote_728" class="fnanchor">[727]</a> a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça
-do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de
-Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos;
-sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D.
-Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos
-estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre
-livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ
-tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo
-convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos,
-foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.</p>
-
-<p>139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo,
-estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos
-Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do
-Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do
-Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do
-Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta
-cruzados cada anno,<a id="FNanchor_729" href="#Footnote_729" class="fnanchor">[728]</a> e em 25 de Março do proprio anno jurou, e
-declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora
-nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando
-intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando
-tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.<a id="FNanchor_730" href="#Footnote_730" class="fnanchor">[729]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_346">[Pg 346]</span></p>
-
-<p>140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta
-suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de
-Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e
-dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias.
-Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.</p>
-
-
-<h3><i>D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey.</i></h3>
-
-<p>141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21
-de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando
-subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay;
-mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua
-Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora
-do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados
-seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de
-idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.<a id="FNanchor_731" href="#Footnote_731" class="fnanchor">[730]</a></p>
-
-<p>142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua
-vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde
-de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da
-Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos
-a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo
-Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os
-bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias
-com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim
-se vio nas celebres batalhas do <i>Amexial</i>, do <i>Canal</i>, e
-de <i>Montes claros</i>, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu
-valor, e sciencia militar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_347">[Pg 347]</span></p>
-
-<p>143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico
-da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum
-accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do
-corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui
-se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua
-Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas
-indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu
-agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe
-fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a
-Bahia.</p>
-
-<p>144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca
-Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ
-se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade
-delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ
-aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança
-a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do
-matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença
-da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real
-propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha
-pelas razões forçosas, que allegaraõ,<a id="FNanchor_732" href="#Footnote_732" class="fnanchor">[731]</a> e que para evitar mayores
-damnos na Monarquia avocasse a si o governo.</p>
-
-<p>145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen,
-ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy
-recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D.
-Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27
-de<span class="pagenum" id="Page_348">[Pg 348]</span> Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello
-da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para
-os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no
-Convento de Belem.<a id="FNanchor_733" href="#Footnote_733" class="fnanchor">[732]</a></p>
-
-
-<h3><i>D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey.</i></h3>
-
-<p>146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo
-Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino,
-cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto
-que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D.
-Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já
-na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a
-nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria
-Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou
-Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ
-houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha
-espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a
-segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.</p>
-
-<p>147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em
-fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do
-Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ
-augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo
-com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza
-dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior,
-nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas<span class="pagenum" id="Page_349">[Pg 349]</span> do seu
-tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para
-com todos, e amante das pessoas virtuosas.</p>
-
-<p>148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom
-regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia
-mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco,
-Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à
-dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em
-todos os empregos de grande experiencia.</p>
-
-<p>149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e
-defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se
-desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado
-da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda,
-a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo
-do Imperador,<a id="FNanchor_732a" href="#Footnote_732a" class="fnanchor">[732a]</a> o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por este
-ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou aqui
-ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e pomposa
-entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com elle ElRey
-D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de introduzir em
-Castella.</p>
-
-<p>150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso
-exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias
-Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara,
-Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey,
-penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em
-2 de Julho de 1706.<a id="FNanchor_734" href="#Footnote_734" class="fnanchor">[733]</a></p>
-
-
-
-<p>151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal<span class="pagenum" id="Page_350">[Pg 350]</span> em 17 de Novembro de
-1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel
-contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco
-mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz
-legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de
-1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o
-Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois
-do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a
-seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias:
-reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de
-vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra.</p>
-
-
-<h3>D. Joaõ V. vigesimo quarto Rey.</h3>
-
-<p>152 Por falecimento do Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria lhe
-succedeo no Throno seu filho ElRey D. Joaõ V. tendo dezasete annos de
-idade, contados desde 22 de Outubro de 1689, em que nasceo na Cidade de
-Lisboa. Foy acclamado no primeiro de Janeiro de 1707, felicitando-lhe
-com repetidos obsequios a exaltaçaõ à Coroa naõ só os seus vassallos,
-mas todos os Principes da Europa.</p>
-
-<p>153 Começando logo a dirigir suas acções pelo caminho, e maximas da
-herocidade, ratificou a grande alliança, que ElRey seu pay celebrara
-contra Hespanha; mas esta liga fez experimentar ao nosso exercito em 25
-de Março de 1707 a mesma fortuna das Tropas alliadas: porque depois de
-termos vencido valerosamente a batalha de Almança na fronteira do Reino
-de Valença, melhorou o inimigo com tanta vantagem os seus esquadrões,
-que o Duque de Baruvic nos prizionou treze Regimentos<span class="pagenum" id="Page_351">[Pg 351]</span> à custa de hum
-grande destroço da sua gente.<a id="FNanchor_735" href="#Footnote_735" class="fnanchor">[734]</a></p>
-
-<p>154 No seguinte anno de 1708, elegendo S. Magestade para esposa
-a Serenissima Archiduqueza Dona Maria Anna de Austria, filha do
-Imperador Leopoldo I. nomeou ao Conde de Villar-Mayor por Embaixador
-extraordinario à Corte de Viena para esta negociaçaõ; e conduzida a
-Serenissima Rainha pelo mesmo Conde, chegou à barra de Lisboa em 26 de
-Outubro do mesmo anno, e a 22 de Dezembro fez sua entrada publica por
-entre dezanove arcos triunfaes custosamente ornados, e hum innumeravel
-concurso de gente, que com as repetidas demonstrações de alegria faziaõ
-aquella funçaõ mais plausivel, e vistosa.</p>
-
-<p>155 A guerra com Castella hia continuando, em que os nossos Generaes
-davaõ evidentes provas do seu valor, e sciencia em varios choques,
-cercos, e outros movimentos bellicos, recuperando algumas Praças, que
-o inimigo nos havia usurpado, quando tudo se suspendeo pelo Tratado
-da paz, que entre as tres Coroas de França, Hespanha, e Portugal se
-celebrou na Cidade de Utreck em o anno de 1713, e se publicou em Lisboa
-a 6 de Abril de 1715.</p>
-
-<p>156 Estabelecida assim a paz no Reino, fez a vigilancia de Monarca
-taõ augusto, que nas terras do seu dominio prosperamente florecessem,
-e se gozassem os frutos da mesma paz por meyo de utilissimas leys,
-extincçaõ de abusos, perfeição de costumes, e outras muitas disposições
-produzidas da sua perspicaz advertencia, e Regios pensamentos. O zelo
-da Religiaõ, o amor das letras, a observancia da justiça, o cuidado, e
-cultura da sua Monarquia foy todo o seu desvelo. . 157 Do zelo, culto,
-e respeito da Religiaõ sobejaõ<span class="pagenum" id="Page_352">[Pg 352]</span> provas, e testimunhos; pois bastando o
-incansavel excesso, com que se empregou o seu generoso, e pio animo, à
-maneira de outro Salomaõ, nas sumptuosas fabricas de Templos divinos,
-fazendo contribuir para elles os mais preciosos marmores nobremente
-pulidos, parecendo-lhe ainda pouca toda a profusaõ do dispendio,
-excedeo a todo este cuidado o incessante desejo, e a incansavel ancia
-de engrandecer, e augmentar cada vez mais o obsequio, e respeito da
-mesma Religiaõ, e a formalidade magestosa de seus ritos, e cultos.</p>
-
-<p>158 Este projecto naõ só Christianissimo, mas Regio, o elevou à
-generosa obra da erecçaõ da Santa Igreja Patriarcal, onde vemos entre a
-pomposa grandeza, e reverente devoçaõ celebraremse os Officios divinos,
-e todas as funções Ecclesiasticas perfeitissimamente, ornando este
-excellentissimo Collegio Patriarcal de pessoas mais esclarecidas em
-sangue, e letras, a que conferio muitas preeminencias, e honras, e a
-que ajuntou grandes rendas, conforme a jerarquia das suas Dignidades.
-E para que a grandeza, e jurisdiçaõ desta Santa igreja fosse mais
-ampla, fez supprimir o Arcebispado de Lisboa Oriental pela Bulla do
-Santissimo Papa Benedicto XIV. intimada no primeiro de Setembro de
-1741, ficando desde entaõ havendo hum só Cabido Patriarcal em todo o
-territorio, e Diocese de Lisboa, que até este tempo estava dividida em
-dous Arcebispados, erigindo tambem nos Paços dos antigos Arcebispos de
-Lisboa hum Seminario para se educarem os estudantes, que houverem de
-servir na Santa Igreja Patriarcal.</p>
-
-<p>159 Incitado do mesmo zelo da Religiaõ, e a rogos do Summo Pontifice
-Clemente XI. mandou o nosso magnanimo Rey duas vezes soccorrer Italia
-contra o formidavel poder Othomano, devendo-se à esquadra Portugueza,
-que se compunha de seis náos de guerra, dous burlotes, e huma tartana,
-a<span class="pagenum" id="Page_353">[Pg 353]</span> gloria de embaraçar ella só a terrivel força de vinte e duas
-sultanas, e outras tantas náos de Barbaria, com que o Graõ Baxá vinha
-sobre Corfú, e Veneza, fazendo o terror das nossas armas retirallo
-injuriosamente para a Moréa com a perda de cinco mil Turcos; e deixando
-desassombrados, e seguros os portos naõ só daquella Republica, mas de
-toda Italia em Agosto de 1717, ficou nosso Monarca na vitoria deste
-conflicto naval constituido arbitro dos que o tem sido do mundo.<a id="FNanchor_736" href="#Footnote_736" class="fnanchor">[735]</a></p>
-
-<p>160 O amor das letras se vê na util erecçaõ da Academia da Historia,
-que teve o seu principio em 8 de Dezembro de 1720, compondo-a dos
-homens mais eruditos do Reino, e a cujas Conferencias permittio a
-honra da sua Real presença repetidas vezes. Para a celebre Academia
-dos Arcades, que ha em Roma, comprou novo domicilio, para se fazerem
-as suas assembleas com melhor commodidade. Em todas as Provincias do
-Reino ordenou que houvessem Academias militares, para que florecesse
-a sciencia Mathematica; e para a da Jurisprudencia erigio tambem
-na Universidade de Evora tres Cadeiras do Direito Civil, e duas do
-Canonico, excedendo para prova deste affecto naõ só o amparo, que os
-eruditos achavaõ na sua benignidade, nem a grande collecçaõ de livros
-selectos, com que formou huma das mayores Bibliothecas da Europa, mas a
-vasta comprehensaõ das mesmas sciencias, e a continua liçaõ dos mesmos
-livros.</p>
-
-<p>161 Naõ he possivel caber na curta esfera deste Mappa a expressaõ
-de acções taõ grandes, que obrou ElRey D. João V.: os maravilhosos
-edificios<span class="pagenum" id="Page_354">[Pg 354]</span> de Templos, Palacios, e casas de campo; a utilissima, e
-sumptuosa construcçaõ do aqueducto de Lisboa; o desafogo das suas ruas;
-a melhor commodidade da navegaçaõ do Tejo; a introducçaõ de novas
-fabricas; o augmento dos arsenaes; e sobre tudo o da propagaçaõ da
-Fé em todas as suas Conquistas, com a recta observancia da justiça,
-saõ acções taõ notaveis, e tantas, que justamente poderá questionar a
-posteridade, se foraõ obradas por hum só Heroe, ou por muitos: mas que
-muito se no augusto, e magnanimo peito deste Monarca residiaõ juntos
-elevadamente os espiritosos brios de todos os Monarcas Lusitanos, e de
-fórma o animavaõ, que o faziaõ exceder a todos;<a id="FNanchor_737" href="#Footnote_737" class="fnanchor">[736]</a> ajuntando-se a
-todos estes dotes a magestosa presença, e bem proporcionada estatura
-de seu galhardo corpo, que, ainda disfarçado, mal podia encubrir o
-respeito de Soberano.</p>
-
-<p>162 Com toda esta felicidade padeceo todavia ElRey a 10 de Mayo de
-1742 hum fortissimo ataque de paralysia, que lhe debilitou a parte
-esquerda do corpo; mas com os banhos das Caldas, chamadas da Rainha,
-para onde foy em 9 de Julho do dito anno, e com a applicaçaõ de outros
-remedios adquirio alguma melhoria, mas naõ aquella total saude, que os
-seus vassallos desejavaõ. Assim foy continuando com grande constancia
-de animo o prolongado tormento da sua queixa, que sem embargo de lhe
-embaraçar os passos para andar, naõ lhos pode impedir ao progresso da
-sua devoçaõ, e piedade.</p>
-
-<p>163 Com esta assistia de continuo na tribuna da Santa Igreja
-Patriarcal, adorando, e deprecando a<span class="pagenum" id="Page_355">[Pg 355]</span> Deos nos muitos sacrificios de
-Missas que ouvia, e Officios que rezava. A elle devem as Almas detidas
-no Purgatorio o grande suffragio, que por indulto Apostolico obteve da
-Santidade de Benedicto XIV. expedido em Roma aos 21 de Agosto de 1748,
-para que no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos podessem todos os
-Sacerdotes dos seus dominios celebrar tres Missas. Este grande animo,
-e fervor de espirito, com que favorecia as Almas, foy nelle sempre
-inseparavel, dispendendo caritativo no frequente beneficio dos seus
-suffragios grosso, e innumeravel cabedal. Destas acções taõ pias, e
-magnanimas persuadido o Pontifice Benedicto XIV. lhe concedeo a 23 de
-Dezembro do mesmo anno de 1748 para si, e seus successores o titulo de
-<i>Fidelissimo</i>.</p>
-
-<p>164 Chegando finalmente o prazo ultimo de seus dias, os terminou em
-Lisboa aos 31 de Julho de 1750, e foy viver na Bemaventurança em
-premio das virtudes que exercitou; tendo-se primeiramente disposto, e
-preparado como Catholico com todos os Sacramentos da Igreja. Jaz seu
-corpo no Templo de S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>165 A inclyta Naçaõ Portugueza deu ao publico em Roma numa demonstraçaõ
-do seu reverente obsequio à saudosa memoria de taõ grande Monarca:
-celebrou na Real Igreja de Santo Antonio as solemnes exequias com
-aquella magnificencia, e esplendor, que eraõ devidas às excelsas
-prerogativas de hum Principe taõ benemerito da Sé Apostolica: para isto
-fez erigir hum sumptuoso Mausoleo com engenhoso artificio pela idéa do
-Architecto Portuguez Manoel Rodrigues dos Santos, ornado de primorosas
-figuras, medalhas, e epigrafes; concluindo-se todo o apparato lugubre
-com a seguinte inscripçaõ:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_356">[Pg 356]</span></p>
-
-<p class="center">
-JOANNI V.<br>
-<br>
-<i>Lusitaniæ Regi Fidelissimo,</i><br>
-<i>Pio, Victori, Pacifico.</i><br>
-<i>Christianæ rei ubicumque terrarum Orbi, &amp; Gentium</i><br>
-<i>Propagatori.</i><br>
-<i>Bonarum artium, omniumque Disciplinarum</i><br>
-<i>Parenti vindici, Mæcenati munificentissimo.</i><br>
-<i>Qui</i><br>
-<i>Feralibus bellorum dissidiis, aut consilio restinctis,</i><br>
-<i>Aut virtute sublatis,</i><br>
-<i>Pacis artes, publica Sacerdotia,</i><br>
-<i>Ecclesiæ majestatem, dignitatemque</i><br>
-<i>Post Constantini Magni memoriam,</i><br>
-<i>Quam qui maxime ornavit, auxit, amplificavit.</i><br>
-<i>Principi Optimo</i><br>
-<i>Deque omnium Nationum ordinibus benemerentissimo</i><br>
-<i>Lusitani D. N. M. Q. Ejus.</i><br>
-</p>
-
-
-<h3><i> D. Joseph I. vigesimo quinto Rey.</i></h3>
-
-<p>166 He o Fidelissimo Senhor D. Joseph Monarca presentemente reinante,
-augusto successor de seu grande Pay D. Joaõ V. Foy acclamado Rey na
-Cidade de Lisboa em huma segunda feira de tarde aos 7 de Setembro de
-1750 com festivos applausos de seus vassallos. Para esta ceremonia chea
-de grande alegria, se levantou huma varanda magnifica no terreiro do
-Paço junto a Palacio, a qual começando da sala dos Tedescos, por onde
-tinha a entrada, rematava no torreaõ do Forte com quarenta palmos de
-largo, e trezentos e setenta de comprido, sustida em dezaseis altas
-columnas ligadas com huma balaustrada que fazia face ao mesmo terreiro,
-e revestido tudo com o mais precioso ornato, que soube idear o bom
-gosto.</p>
-
-<p>167 Tanto que subio ao Throno, e empunhou o Cetro, fez ver que existia
-vivamente naõ só na<span class="pagenum" id="Page_357">[Pg 357]</span> magestade da Pessoa, e clemencia do genio, mas
-na generosidade das acções, reproduzido o coraçaõ magnanimo de seu
-memoravel Pay. Este bom conceito annunciaraõ seus vassallos desde o
-dia 6 de Junho de 1714, em que este Monarca vio a primeira luz do
-mundo, onde havia ser o primeiro brilhante Astro da esfera Lusitana.
-Para segurar a successaõ Regia casou em 19 de Janeiro de 1729 com a
-Serenissima Princeza das Asturias D. Maria Anna Victoria, filha delRey
-Catholico Filippe V., e da Rainha D. Isabel Farnese sua segunda mulher.</p>
-
-<p>168 Logo nos primeiros passos do seu Reinado mostrou o grande zelo
-de conservar os seus povos em paz, justiça, e prosperidade: e como
-estes atributos naõ se podem estabelecer sem o recto manejo de bons
-Ministros, cuidou em os eleger competentes, e de alta comprehensaõ aos
-interesses politicos, e economicos do Estado. Com esta providencia
-se dispozeraõ as negociações da Marinha, do Commercio, e de todos os
-Tribunaes naquelle melhorado regimen, que o Reino experimenta; ajudando
-ao bom exito de tudo as justissimas Leys, que em utilidade do bem
-publico tem promulgado.</p>
-
-<p>169 Para augmentar o Commercio, e Navegaçaõ, de que resultaõ opulencias
-mayores que as da natureza, ordenou que os despachos fossem promptos,
-evitando demoras na expediçaõ dos Tribunaes. Exaltou, e renovou o
-exercicio das bellas letras com a reforma de melhores Methodos;
-dispondo que fossem educados seus vassallos principalmente os Nobres;
-fundando para este effeito Collegio onde se aprendaõ todas as uteis, e
-estimaveis profissões das Artes, abolindo por Decreto de 29 de Julho
-de 1759 o magisterio aos Jesuitas, e a liçaõ da Arte do Padre Manoel
-Alvares.</p>
-
-<p>170 Nos extraordinarios accidentes do terremoto, e incendio, que
-fatalmente destruiraõ Lisboa no anno de 1755, se vio a grandeza do
-coraçaõ deste<span class="pagenum" id="Page_358">[Pg 358]</span> augusto Monarca; porque conservando-se inalteravel
-em hum caso taõ repentino, e horrendo, em que vacilaraõ os mayores
-talentos, elle se applicou pio, e providente a soccorrer, e acautelar
-a consternaçaõ, do afflicto Povo: e como se fora pequeno este empenho,
-intentou d’entre as cinzas de Lisboa abrazada reproduzir outra de
-novo com mayores vantagens, excedendo nas circustancias a grandeza de
-Trajano.<a id="FNanchor_738" href="#Footnote_738" class="fnanchor">[737]</a></p>
-
-<p>171 Com igual constancia de animo tolerou aquelle barbaro desacato, com
-que a aleivosia, rompendo as obrigações da fidelidade Portugueza, se
-atreveo a insultar a sua veneravel Pessoa em a noite de 3 de Setembro
-de 1758. Mas a Providencia de Deos, salvando-lhe com prodigio a vida,
-fez que naõ ficassem sem castigo os perfidos delinquentes, fazendo-os
-justiçar a 13 de Janeiro do seguinte anno em o Caes de Belém; porque o
-Principe, que dissimula a malicia, reina só no nome; o que a castiga,
-reina no nome, e no officio.</p>
-
-<p>172 Ainda naõ havia bem descançado de punir traições, e acautelarse de
-insultos, quando os Reys Catholico, e Christianissimo com o <i>Pacto
-de Familia</i>, que entre si estipularaõ, querendo por força que nos
-declarassemos contra Inglaterra, invadiraõ, e atacaraõ com cavilozos
-pretextos algumas das nossas Praças Trasmontanas; commetendo o Marquez
-de Sarria, e outros Generaes Castelhanos muitas hostilidades desde 8,
-15, e 21 de Mayo de 1762, em que se introduziraõ em Miranda, Bragança
-e Chaves, e em cujas acções tem perturbado a paz publica, e fé dos
-Tratados estabelecidos com a antiga solemnidade.</p>
-
-<p>173 Porém como da nossa parte milita a justiça, e a razaõ, espera ElRey
-Fidelissimo triunfar do<span class="pagenum" id="Page_359">[Pg 359]</span> poder, e industria de seus inimigos. Para
-este bom exito mandou fazer promptas as suas Tropas, cujo total mando,
-e manejo entregou plenamente ao Conde Soberano de Lippa Guilherme de
-Schaumburg, Cavalleiro da Real Ordem Prussiana da Aguia Negra, Pessoa
-que ElRey da Grã Bretanha, como nosso Alliado, elegeo, por ser de
-huma distincta reputaçaõ, e de conhecido valor, e fama nas guerras da
-Europa. Sua Magestade Fidelissima o nomeou Marechal General dos seus
-Exercitos, e Director geral de todas as suas Tropas por Decreto de 3 de
-Julho de 1762.</p>
-
-<p>174 Toda esta boa razaõ, e justiça, em que se estriba a nossa
-defensa, fez persuadir tambem ao Principe Carlos Luiz Federico Duque
-de Meckelburgo, Streliz, Principe de Vandalia, a que passasse dos
-exercitos Britanicos onde era Marechal de Campo, para as Tropas delRey
-Fidelissimo, o qual logo o nomeou Coronel General de hum Regimento de
-Cavallaria, a que deu titulo de Meckelburgo. Naõ só prometem estas
-antecedencias felicidades às Armas Portuguezas, mas animo. Será cada
-coraçaõ Portuguez hum escudo à vida, e gloria de nosso Augusto Monarca,
-o qual em militares campanhas amedrentará com o ecco do seu valor
-dilatados climas do Universo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_360">[Pg 360]</span></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th><i>N.</i></th><th><i>Nome.</i> </th><th><i>Cognome.</i></th><th><i>Patria.</i></th><th><i>Nasc.</i></th><th><i>Coroaç.</i></th><th>
-<i> Ann. que reinou.</i> </th><th><i>Ann. que viveo.</i></th><th><i>Anno da morte.</i></th><th> <i>Lugar da morte.</i></th><th> <i>Lugar da sepultura</i> </th>
-</tr>
-<tr><td class="tdr">1</td><td>D. Affonso I. </td><td>Conquistador.</td><td>Guimarães. </td><td>1109 </td><td>1128 </td><td> 57 </td><td> 76 </td><td>1185</td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">2</td><td>D. Sancho I. </td><td>Povoador. </td><td>Coimbra </td><td>1154 </td><td>1185 </td><td> 26 </td><td> 57 </td><td>1211</td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">3</td><td>D. Affonso II. </td><td>Gordo. </td><td>Coimbra. </td><td>1185 </td><td>1211 </td><td> 12 </td><td> 38 </td><td>1223</td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">4</td><td>D. Sancho II. </td><td>Capello. </td><td>Coimbra. </td><td>1202 </td><td>1223 </td><td> 25 </td><td> 46 </td><td>1248</td><td>Toledo. </td><td>Sé de Toledo. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">5</td><td>D. Affonso III.</td><td>Bolonhez. </td><td>Coimbra. </td><td>1210 </td><td>1246 </td><td> 32 </td><td> 69 </td><td>1279</td><td>Lisboa. </td><td>Alcobaça. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">6</td><td>D. Diniz </td><td>Lavrador. </td><td>Lisboa. </td><td>1261 </td><td>1279 </td><td> 46 </td><td> 63 </td><td>1325</td><td>Santarem. </td><td>Odivelas. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">7</td><td>D. Affonso IV. </td><td>Bravo. </td><td>Coimbra. </td><td>1291 </td><td>1325 </td><td> 32 </td><td> 66 </td><td>1357</td><td>Lisboa. </td><td>Sé de Lisboa. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">8</td><td>D. Pedro I. </td><td>Justiceiro. </td><td>Coimbra. </td><td>1320 </td><td>1357 </td><td> 9 </td><td> 46 </td><td>1367</td><td>Estremoz. </td><td>Alcobaça. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">9</td><td>D. Fernando. </td><td>Formoso. </td><td>Coimbra. </td><td>1345 </td><td>1367 </td><td> 16 </td><td> 38 </td><td>1383</td><td>Lisboa. </td><td>Santarem. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">10</td><td>D. Joaõ I. </td><td>Boa memoria.</td><td>Lisboa. </td><td>1357 </td><td>1385 </td><td> 48 </td><td> 76 </td><td>1433</td><td>Lisboa. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">11</td><td>D. Duarte. </td><td>Eloquente. </td><td>Viseu. </td><td>1391 </td><td>1433 </td><td> 5 </td><td> 46 </td><td>1438</td><td>Thomar. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">12</td><td>D. Affonso V. </td><td>Africano. </td><td>Cintra. </td><td>1432 </td><td>1438 </td><td> 43 </td><td> 49 </td><td>1481</td><td>Cintra. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">13</td><td>D. Joaõ II. </td><td>Perfeito. </td><td>Lisboa. </td><td>1455 </td><td>1481 </td><td> 14 </td><td> 40 </td><td>1495</td><td>Alvor. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">14</td><td>D. Manoel. </td><td>Venturoso </td><td>Alcochete. </td><td>1469 </td><td>1495 </td><td> 26 </td><td> 52 </td><td>1521</td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">15</td><td>D. Joaõ III. </td><td>Piedoso. </td><td>Lisboa. </td><td>1502 </td><td>1521 </td><td> 35 </td><td> 55 </td><td>1557</td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">16</td><td>D. Sebastiaõ. </td><td>Desejado. </td><td>Lisboa. </td><td>1554 </td><td>1557 </td><td> 21 </td><td> 24 </td><td>1578</td><td>Africa. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">17</td><td>D. Henrique. </td><td>Casto. </td><td>Almeirim. </td><td>1512 </td><td>1578 </td><td> 1 </td><td> 68 </td><td>1580</td><td>Almeirim. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">18</td><td>D. Filippe II. </td><td>Prudente. </td><td>Valhadolid.</td><td>1527 </td><td>1581 </td><td> 18 </td><td> 71 </td><td>1598</td><td>Escurial. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">19</td><td>D. Filippe III.</td><td>Pio. </td><td>Madrid. </td><td>1578 </td><td>1598 </td><td> 23 </td><td> 43 </td><td>1621</td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">20</td><td>D. Filippe IV. </td><td>Grande. </td><td>Valhadolid.</td><td>1605 </td><td>1621 </td><td> 19 </td><td> 60 </td><td>1665</td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">21</td><td>D. Joaõ IV. </td><td>Restaurador.</td><td>Villa Viços.</td><td> 1604 </td><td>1640 </td><td> 15 </td><td> 51 </td><td>1656</td><td>Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra </td></tr>
-<tr><td class="tdr">22</td><td>D. Affonso VI. </td><td>Vitorioso. </td><td>Lisboa. </td><td>1643 </td><td>1656 </td><td> 11 </td><td> 40 </td><td>1683</td><td> Cintra. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">23</td><td>D. Pedro II. </td><td>Pacifico. </td><td>Lisboa. </td><td>1648 </td><td>1667 </td><td> 39 </td><td> 58 </td><td>1706</td><td>Alcantara.</td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">24</td><td>D. Joaõ V. </td><td>Fidelissimo.</td><td>Lisboa. </td><td>1689 </td><td>1706 </td><td> 44 </td><td> 60 </td><td>1750</td><td> Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">25</td><td>D. Joseph I. </td><td>Fidelissimo.</td><td>Lisboa. </td><td>1714 </td><td>1750 <td colspan="5"> </td></tr>
-</table><p>
-<span class="pagenum" id="Page_361">[Pg 361]</span></p>
-
-
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_560" href="#FNanchor_560" class="label">[559]</a> Rib. de Maced. na Geneal. do Conde D. Henr.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_561" href="#FNanchor_561" class="label">[560]</a> Sousa. Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 1. pag.
-31.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_562" href="#FNanchor_562" class="label">[561]</a> Brand na Monarq. liv. 11. cap. 38.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_563" href="#FNanchor_563" class="label">[562]</a> Apud Maced. allegad. e Far. no tom. 2. da Europ. Port.
-part. 1. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_564" href="#FNanchor_564" class="label">[563]</a> Exempl. Flor. <i>Alteram filiam, sed non ex conjugali
-thoro natam Ainrico.. dedit.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_565" href="#FNanchor_565" class="label">[564]</a> Far. Com. de Cam. Cant 3. est 25.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_566" href="#FNanchor_566" class="label">[565]</a> Baron. tom. 11. ad an. 1080 <i>Constat enim à Rege
-Catholico Alphonso... uxorem diversam à consanguinea defunctæ conjugis
-accepisse.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_567" href="#FNanchor_567" class="label">[566]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 13. fin. Ribeir. de Maced.
-allegad</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_568" href="#FNanchor_568" class="label">[567]</a> Barbos. Catal. das Rainhas de Port. pag. 7. Vide etiam
-Sous. na Hist. Genealog. tom. 1. pag. 33. Berganç. Antiguid. de Hesp.
-part. 1. liv. 5. n. 451.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_569" href="#FNanchor_569" class="label">[568]</a> Barbos. ut supr. p. 37.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_570" href="#FNanchor_570" class="label">[569]</a> Sousa ut supr. p. 32.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_571" href="#FNanchor_571" class="label">[570]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_572" href="#FNanchor_572" class="label">[571]</a> Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 13. cap. 20.
-Garibay tom. 2. liv. 13. cap. 11. Ortiz, Anales de Sevilla liv. 2. p.
-205. Garma Theatr. univers. de Hesp. tom. 3. pag. 288.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_573" href="#FNanchor_573" class="label">[572]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 38.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_574" href="#FNanchor_574" class="label">[573]</a> Brochado na conta de 13 de Mayo de 1723 das Mem. Academ.
-Veja-se tambem a Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_575" href="#FNanchor_575" class="label">[574]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_576" href="#FNanchor_576" class="label">[575]</a> Far. no Com. de Cam. Cant. 3. est. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_577" href="#FNanchor_577" class="label">[576]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 79. &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_578" href="#FNanchor_578" class="label">[577]</a> Estaço nas Antig. de Port. cap. 12. n 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_579" href="#FNanchor_579" class="label">[578]</a> Monarq Lusit. liv. 9. cap. 8. Mariz Dialog. 2. cap 3.
-Duart. Nun. Chronic. do Conde D Henriq. Telles Chronic. da Comp. part.
-1. liv. 1. cap. 16. n 4. Far. na Europ. tom. 2. part 1. cap. 3. n 4.
-Maced. Excel de Port. cap. 21. excel. unic. n 9. Vasconc. Anac. Maced.
-Propugn. Lusitan. Galic. confut. 20. §. 1. Clede Hist. de Port. tom. 2.
-p. 67.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_580" href="#FNanchor_580" class="label">[579]</a> Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_581" href="#FNanchor_581" class="label">[580]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 16.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_582" href="#FNanchor_582" class="label">[581]</a> Brit. na Chronic. de Cister part 1. liv. 3. cap. 4. Cam.
-Lusiad. cant. 3. est. 35. Benedict. Lusit. tom. 2. p. 275. Monarq.
-Lusit. liv. 9. cap 19. Toscan. Paral. devar. illustr. cap. 26. Maced.
-Flor. de Hesp. cap. 12. excel. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_583" href="#FNanchor_583" class="label">[582]</a> Resend. lib. 4. Antiq. <i>Tantas congregavit copias, ut
-millia quadringenta exercitus superaret.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_584" href="#FNanchor_584" class="label">[583]</a> Horat. Tursellin. Epitom. Histor. liv. 8. ad ann. 1140.
-<i>Itaque victoriis ingens ab Alphonso Rege Castellæ, Rex Lusitaniæ
-appellatur.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_585" href="#FNanchor_585" class="label">[584]</a> Conserva-se na Torre do Tombo tit. 1. p. 1. dos Breves.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_586" href="#FNanchor_586" class="label">[585]</a> Monarq Lusit. liv. 10. cap. 5. Sousa Histor. Geneal. tom
-1. das Prov. n. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_587" href="#FNanchor_587" class="label">[586]</a> Cam. Lusiad. cant. 3. est. 45 e seg. e seu Commentador
-Manoel de Far. Brit. Chron. de Cist. liv. 3. c. 2. Monarq. Lusit.
-liv. 10. cap. 5. Paes Viegas nos Princ. de Port. liv. 4. Resend.
-liv. 4 de Antiq. Dam. de Goes in Descript. Olisip. Man. da Cost.
-celebre Jurista, na Oraçaõ funeb. delRey D. Joaõ III. em 25 de Junho
-de 1557, e impressa em Coimbr. ann. 1558. Osor. de reb. Emm. l. 8. &amp;
-de Nobil l. 3. Vasconc. Anacephal. n. 5. Freit. de just. Imp. Lusit.
-cap. 18. n. 16. Duart. Galv. na Chronic. deste Rey cap. 15. e outros,
-que allega o Doutor Joseph Pinto Pereira no Appar. Histor de argum.
-sanctit. Reg. Alphons. Henr. arg. 1. Os Authores Estrangeiros saõ os
-seguintes: Thom. Boss. de Sign. Eccles. tom. 2. l. 7. c. 7. Beyerlinck
-verb. <i>Apparitio</i>. Delr. Disquis. magic. lib. 2 quæst 26. sect.
-5. Thyræus de Christi apparition. impersona lib. cap. 3. Rosignol de
-actib. virtut. lib.1. cap. 16. Bagat. de admir. orb. Christian tom.
-2. lib 5. cap. 1. n. 45. Petra sancta in Tesseris gentilic. Jarric.
-Thesaur. rer. indic. p. 2. cap 3. Birag. Histor del Port. part. 13.
-Tracagnot. Histor. Ital. Morel. Reduccion de Port. part. 1. n. 10. e
-outros, que allega D. Anton. Caetano de Sousa no tom. 4. do Agiolog.
-Lusit. a 25 de Julho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_588" href="#FNanchor_588" class="label">[587]</a> Marian. liv. 10. cap. 17. tom. 1. Histor. de Hespanh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_589" href="#FNanchor_589" class="label">[588]</a> Brit. Chron. de Cister l. 3. cap. 4. e 5. Manriq. Annal.
-Cisterc. ann. 1142. cap. 4. Brand. Monarq. liv. 11. cap. 4. liv. 16.
-cap. ult. e liv. 19. cap. ultim. Maced. de Div. tutelar. p. 240. Maced.
-Philipp. Portug. cap. 19. Velasc. Justa Acclam. part. 1. §. 4. n. 24.
-Baron. ad ann. 1144. in Lucio II. Aguirre tom. 3. Concil. ad ann. 1144.
-n. 92.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_590" href="#FNanchor_590" class="label">[589]</a> Mariz. Dialog. 2. cap. 7. Garibay liv. 34. cap. 14.
-Mend. da Silv. Catal. Real §. 59. Mendoça in Viridar. lib. 6. or. 3.
-num. 67. Vieg. in Apocalyps. cap. 21. sect. 5. num. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_591" href="#FNanchor_591" class="label">[590]</a> Brit. Chron. de Cister liv. 3. cap. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_592" href="#FNanchor_592" class="label">[591]</a> Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_593" href="#FNanchor_593" class="label">[592]</a> Idem ibid. cap. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_594" href="#FNanchor_594" class="label">[593]</a> Monarq. Lusit. liv. 11. cap. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_595" href="#FNanchor_595" class="label">[594]</a> Brand. ibid. l. 12. c. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_596" href="#FNanchor_596" class="label">[595]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 80.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_597" href="#FNanchor_597" class="label">[596]</a> Monarq. liv. 12. cap. 1. e 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_598" href="#FNanchor_598" class="label">[597]</a> Ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_599" href="#FNanchor_599" class="label">[598]</a> Idem ibid cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_600" href="#FNanchor_600" class="label">[599]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. c. 7. e no fim do Prologo da
-quarta parte.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_601" href="#FNanchor_601" class="label">[600]</a> Idem cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_602" href="#FNanchor_602" class="label">[601]</a> Clede tom. 2. pag. mihi 165.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_603" href="#FNanchor_603" class="label">[602]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 31.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_604" href="#FNanchor_604" class="label">[603]</a> Ibid. cap. 35. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. das Prov.
-n. 10. Cled. tom. 1. p. 166.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_605" href="#FNanchor_605" class="label">[604]</a> Barbos. Catal. das Rainh. de Port. p. 143.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_606" href="#FNanchor_606" class="label">[605]</a> Brand. na Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 27.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_607" href="#FNanchor_607" class="label">[606]</a> Cled. tom. 2. Histoir. de Port. p. 174.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_608" href="#FNanchor_608" class="label">[607]</a> Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 1. cap. 7. n. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_609" href="#FNanchor_609" class="label">[608]</a> Brand. Monarq. liv. 13. cap. 10. e liv. 14. cap. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_610" href="#FNanchor_610" class="label">[609]</a> Bzovius tom. 13. Annal. ad ann. 1225. apud Barbos.
-Catalog. das Rainh. p. 160.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_611" href="#FNanchor_611" class="label">[610]</a> Sá de Mirand. cart. 5. est. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_612" href="#FNanchor_612" class="label">[611]</a> Monarq. Lusit. liv. 14 cap. 25.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_613" href="#FNanchor_613" class="label">[612]</a> Monarq. Lusit. liv. 14. cap. 29.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_614" href="#FNanchor_614" class="label">[613]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_615" href="#FNanchor_615" class="label">[614]</a> Ibid. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_616" href="#FNanchor_616" class="label">[615]</a> Ibid. cap. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_617" href="#FNanchor_617" class="label">[616]</a> Cunh. Catalog. dos Bisp. do Port. part. 2. c. 12.
-Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_618" href="#FNanchor_618" class="label">[617]</a> Barbud. Emprezas Militar. p. 12. e outros.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_619" href="#FNanchor_619" class="label">[618]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. pag. 61. e seqq. Brand. na
-4. part. da Monarq. Lusit. e liv. 16. cap 41. Lim. Geograf. Histor.
-tom. 2. p. 288. &amp; seq. Far. Epitom. part. 4. cap. 8.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_620" href="#FNanchor_620" class="label">[619]</a> Far. na Europ. Port. tom. 2. part. 2. c. 1. n. 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_621" href="#FNanchor_621" class="label">[620]</a> Cam. cant. 3. est. 94.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_622" href="#FNanchor_622" class="label">[621]</a> Esperanç. Histor. Serafic. part. 1. liv. 5. cap. 11.
-Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 47.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_623" href="#FNanchor_623" class="label">[622]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 1. 2. e 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_624" href="#FNanchor_624" class="label">[623]</a> Ibid. cap. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_625" href="#FNanchor_625" class="label">[624]</a> Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_626" href="#FNanchor_626" class="label">[625]</a> Far. Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 2. n. 7. Monarq
-Lusit. liv. 16. cap. 50.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_627" href="#FNanchor_627" class="label">[626]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 72. ep. 320. Sous. tom. 1.
-das Provas da Histor. Geneal. p. 74.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_628" href="#FNanchor_628" class="label">[627]</a> Monarq. Lusit. liv. 17. cap. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_629" href="#FNanchor_629" class="label">[628]</a> Far. Europ. tom. 2. p. 2. cap. 2. n. 20. Monarq. liv.
-18. cap. 2. Barbud. Emprez. Milit. pag. 17. vers.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_630" href="#FNanchor_630" class="label">[629]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr. num
-310.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_631" href="#FNanchor_631" class="label">[630]</a> Ibid. num. 312.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_632" href="#FNanchor_632" class="label">[631]</a> Monarq. Lusit. tom. 7. Liv. 3. cap. 3. num. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_633" href="#FNanchor_633" class="label">[632]</a> Ruy de Pin. Chron. cap 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_634" href="#FNanchor_634" class="label">[633]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 1. p. 306.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_635" href="#FNanchor_635" class="label">[634]</a> Leit. Ferr. Notic. Chron. n. 321. e 333.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_636" href="#FNanchor_636" class="label">[635]</a> Monarq. Lusit. part. 7. liv. 10. cap. 22. e 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_637" href="#FNanchor_637" class="label">[636]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol. da Universid. de Coimbr.
-num. 404.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_638" href="#FNanchor_638" class="label">[637]</a> Nunes de Leaõ Chronic. delRey D. Pedro fol. 179.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_639" href="#FNanchor_639" class="label">[638]</a> Sá Elegia à morte do Principe D. Joaõ pag. mihi 277.
-Vide Barbud. nas Emprez. Milit. pag. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_640" href="#FNanchor_640" class="label">[639]</a> Ferrei. Notic. Chronolog. de Coimbr. n. 495 &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_641" href="#FNanchor_641" class="label">[640]</a> Fern. Lop. Chron. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_642" href="#FNanchor_642" class="label">[641]</a> Cam. Lusiad. cant. 3. est. 138.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_643" href="#FNanchor_643" class="label">[642]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_644" href="#FNanchor_644" class="label">[643]</a> Nunes de Leaõ na Chronic. deste Rey.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_645" href="#FNanchor_645" class="label">[644]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. liv. 22. cap. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_646" href="#FNanchor_646" class="label">[645]</a> Cam. cant. 3. est. 138.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_647" href="#FNanchor_647" class="label">[646]</a> Monarq. Lusitan. tom. 8. liv. 22. cap. 24. Barbud.
-Emprez. Militar. pag. 32.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_648" href="#FNanchor_648" class="label">[647]</a> Far. no Comm. da est. 138. do cant. 3. de Cam.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_649" href="#FNanchor_649" class="label">[648]</a> Monarq. Lusitan. part. 8. liv. 22. cap. 26.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_650" href="#FNanchor_650" class="label">[649]</a> Notic. Chronol. da Univ. de Coimbr. n. 438.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_651" href="#FNanchor_651" class="label">[650]</a> Monarq. Lusitan. part. 8. p. 211.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_652" href="#FNanchor_652" class="label">[651]</a> Idem ibid. liv. 22. cap. 47.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_653" href="#FNanchor_653" class="label">[652]</a> Idem ibid. liv. 23. cap. 4. Pufendorf, Introduct. a la
-Histoire tom. 1. cap. 3. p. 128.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_654" href="#FNanchor_654" class="label">[653]</a> Fern. Lopes Chronic. deste Rey cap. 14. Monarq. Lusit.
-part. 8. p. 460. Silv Memor. delRey D. João I. tom. 1. p. 116. Quanto
-ao dia, mez, e anno natalicio delRey D. Joaõ I. ha muita variedade
-entre os Chronistas: ninguem investigou melhor este ponto que o
-Academico Francisco Leitaõ Ferreira nas eruditas Noticias Chronologicas
-da Universidade de Coimbra desde o num. 623. para diante, a qual
-assenta, seguindo a Fernaõ Lopes, que o Mestre de Aviz nascera aos 15
-de Abril de 1358; porém nós seguimos a opiniaõ commummente recebida,
-e approvada pelo Academico Joseph Soares da Silva tom. 1. p. 64. das
-Memorias deste Rey.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_655" href="#FNanchor_655" class="label">[654]</a> Fr. Man. dos Sant. na 8. part. da Monarq. Lusit. liv.
-23. cap. 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_656" href="#FNanchor_656" class="label">[655]</a> Notic. Chronol. da Univ. n. 534.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_657" href="#FNanchor_657" class="label">[656]</a> Soar. da Silv. nas Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. c.
-42. n. 281.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_658" href="#FNanchor_658" class="label">[657]</a> Lim. Geograf. Histor. tom. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_659" href="#FNanchor_659" class="label">[658]</a> Monarq. Lusit. part. 8. liv. 23. cap. 29.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_660" href="#FNanchor_660" class="label">[659]</a> Fern. Lop. Chron. delRey D. Joaõ I. part. 2. cap. 37.
-pag. 91. Monarq. Lusit. part 8. liv. 23. c. 40. Clede, Histoir. de
-Portug. tom. 3. liv. 10. Pufendorf, Introduct. a la Histoir. tom. 1.
-cap 3. Teixeir. Vida de D. Nun. Alvar. Pereir. liv. 3. n. 173. p. 359.
-Conde da Ericeira Vida delRey D. Joaõ I. liv. 2. p. 200. e liv. 3. p.
-230. Sá Memor. Historic. do Carmo part. 1. pag 82.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_661" href="#FNanchor_661" class="label">[660]</a> Soares da Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. pag. 1505.
-Leit. Ferr. Notic. Chronol. n. 733.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_662" href="#FNanchor_662" class="label">[661]</a> Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. num. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_663" href="#FNanchor_663" class="label">[662]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag. 23. Far. Europ.
-Portug. tom. 2. part. 3. cap. 1. Mariz Dialog. 4. Silv. Memor. delRey D
-Joaõ I. tom. 4. document. 19. p. 140. Argot. Memor. de Brag. tom. 3. p.
-36.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_664" href="#FNanchor_664" class="label">[663]</a> Soar. da Silv. allegado p. 267.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_665" href="#FNanchor_665" class="label">[664]</a> Sous. allegad. tom. 2. p. 24.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_666" href="#FNanchor_666" class="label">[665]</a> Soar. da Silv. Mem. delRey D. Joaõ I. liv. 2. cap. 104.
-e 105.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_667" href="#FNanchor_667" class="label">[666]</a> Anno Histor. tom. 2. 14. de Agost. Teixeir. Vida do
-Condestav. p. 589.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_668" href="#FNanchor_668" class="label">[667]</a> Soar. da Silv. Memor. delRey D Joaõ I. tom. 1. cap. 53.
-p. 270.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_669" href="#FNanchor_669" class="label">[668]</a> Sousa na Histor. de S. Doming part. 2. fol. 330.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_670" href="#FNanchor_670" class="label">[669]</a> D. Anton. Caetan. de Sousa no tom. 1. das Prov. p. 529.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_671" href="#FNanchor_671" class="label">[670]</a> Fern. Lop. Chronic. delRey D. Joaõ I. part. 2. pag. 323.
-col. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_672" href="#FNanchor_672" class="label">[671]</a> Clede Histoir. de Portug. tom. 3. p. 203.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_673" href="#FNanchor_673" class="label">[672]</a> Far. tom. 2. da Europ. part. 3. cap. 2. n. 7. Cled.
-Histoir. de Portug. tom. 3. p. 205.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_674" href="#FNanchor_674" class="label">[673]</a> Idem ibid. p. 233.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_675" href="#FNanchor_675" class="label">[674]</a> Duart. Nun. de Leaõ cap. 18. Soar. da Silv. Memor.
-delRey D. Joaõ I. pag. 494.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_676" href="#FNanchor_676" class="label">[675]</a> Cled. Histor. de Portug. tom. 3. p. 233.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_677" href="#FNanchor_677" class="label">[676]</a> Notic. Chronolog da Univers. de Coimbr. n. 750.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_678" href="#FNanchor_678" class="label">[677]</a> Far. na Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 3. n. 14. &amp;
-seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_679" href="#FNanchor_679" class="label">[678]</a> Sous. tom. 1. das Prov. da Histor. Genealog. n. 17.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_680" href="#FNanchor_680" class="label">[679]</a> Ruy de Pin. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 21. e 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_681" href="#FNanchor_681" class="label">[680]</a> Cam. cant. 4. est. 57.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_682" href="#FNanchor_682" class="label">[681]</a> Garc. de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 16. e
-17. Duart. Nun. Chron. delRey D. Affonso V. cap. 62.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_683" href="#FNanchor_683" class="label">[682]</a> Faria no Comm. de Cam. cant. 4. est. 57.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_684" href="#FNanchor_684" class="label">[683]</a> Idem no Epitom. part. 3. cap. 13. n. 24. Pint. Ribeir.
-no Trat. da Prefer. das letr. às armas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_685" href="#FNanchor_685" class="label">[684]</a> Garibay Damiaõ de Goes, Barbuda, Ferreras, e outros apud
-Leit. Ferreir. Notic. Chron. da Universid. de Coimbr. n. 861.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_686" href="#FNanchor_686" class="label">[685]</a> Garc. de Resende na Vida deste Rey cap. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_687" href="#FNanchor_687" class="label">[686]</a> Zerit. Anal. liv. 20. cap. 44. Sousa Histor. Geneal.
-tom. 5. liv. 6. cap. 7. p. 455.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_688" href="#FNanchor_688" class="label">[687]</a> Telles da Silv. de reb. gest. Joann. II. pag. 92. <i>Sed
-in universum æstimanti sanè fuit meliori facto dignus.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_689" href="#FNanchor_689" class="label">[688]</a> Garcia de Resend. na vida deste Rey cap. 50., 76., e
-146. Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 3. cap. 4. n. 98.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_690" href="#FNanchor_690" class="label">[689]</a> Resende cap. 167.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_691" href="#FNanchor_691" class="label">[690]</a> Resende cap. 109 Sá de Mirand. cart. 2. est. 39. Telles
-da Silv. de reb. gest. Joann II. pag. 33.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_692" href="#FNanchor_692" class="label">[691]</a> Garcia de Resende cap. 211. e 213. Dam. de Goes Chronic.
-delRey D. Manoel p. 1 cap. 1. Fonseca na Evora gloriosa p. 97.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_693" href="#FNanchor_693" class="label">[692]</a> Cam. nas Lusiad. cant. 4. est. 66.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_694" href="#FNanchor_694" class="label">[693]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronolog. num. 905. &amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_695" href="#FNanchor_695" class="label">[694]</a> Goes Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_696" href="#FNanchor_696" class="label">[695]</a> Idem ibid. cap. 17. Faria tom. 2. da Europ. Port. part.
-4. cap. 1. n. 10. Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 185.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_697" href="#FNanchor_697" class="label">[696]</a> Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap. 18. e 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_698" href="#FNanchor_698" class="label">[697]</a> Pufendorf Introduct. à la Histoir. tom. 1. cap.3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_699" href="#FNanchor_699" class="label">[698]</a> Far. Europ. Port. tom. 2. part. 4. cap. 1. n. 23. Sous.
-Histor. Geneal. tom. 3. p. 226.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_700" href="#FNanchor_700" class="label">[699]</a> Goes part. 4. cap. 85.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_701" href="#FNanchor_701" class="label">[700]</a> Far. no cant. 1. das Lusiad. pag. 111.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_702" href="#FNanchor_702" class="label">[701]</a> Descrevem esta Embaixada largamente Damiaõ de Goes na
-Chronica delRey D. Manoel part. 3. desde o cap. 55. Osor. de reb.
-Emman. Ann. Hist. a 12 de Fever.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_703" href="#FNanchor_703" class="label">[702]</a> Leit. Ferr. Notic. Chronol.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_704" href="#FNanchor_704" class="label">[703]</a> Goes na Chronic. delRey D.Manoel part. 1. cap. 62. Far.
-na Europ. Port. tom. 2 part. 4. cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_705" href="#FNanchor_705" class="label">[704]</a> Idem ibid. n. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_706" href="#FNanchor_706" class="label">[705]</a> Cabed. de Patron. cap.47. Cunha no Catal. dos Bisp. do
-Port. p. 451. Fr. Anton. da Purific. na 2. part. da Chron. liv. 7. tit.
-1. §. 3. fol. 215. Faria na Vida de Camões, que vem no principio do
-Corrimento das Rimas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_707" href="#FNanchor_707" class="label">[706]</a> Leitaõ Ferr. Notic. Chronol. n. 1150.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_708" href="#FNanchor_708" class="label">[707]</a> Bento Pereir. de Academ. n. 111. Maced. nas Flor. de
-Hespanh. cap. 8. excel. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_709" href="#FNanchor_709" class="label">[708]</a> Bossius de Sign. Eccles. tom. 1. liv. 5. cap. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_710" href="#FNanchor_710" class="label">[709]</a> Faria allegad. na Europ. Port. Sousa Histor. Genealog.
-tom. 3. p. 488.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_711" href="#FNanchor_711" class="label">[710]</a> Faria na Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 8.
-Veja-se tambem o Anno Historico a 4 de Agosto.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_712" href="#FNanchor_712" class="label">[711]</a> Far. Europ. Port. tom. 3. part. 1. cap. 1. n. 39. Sousa
-Histor. Genealog. tom. 3. p. 591. Lima Success. de Port. cap. 30. Anno
-Histor. a 23 de Junh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_713" href="#FNanchor_713" class="label">[712]</a> Clede tom. 5. pag 496.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_714" href="#FNanchor_714" class="label">[713]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 3. pag. 594. Anno Histor. a
-5 de Agosto num. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_715" href="#FNanchor_715" class="label">[714]</a> Damiaõ de Goes 3. part. da Chronic. delRey D. Manoel
-cap. 27. Barbos. nos Fast. da Lusit. a 31 de Janeiro §. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_716" href="#FNanchor_716" class="label">[715]</a> Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 1. cap. 3 n. 20. Sousa
-Histor. Geneal. tom. 3. pag. 376. Torres de Lima nos Successos de
-Portug. part. 1. cap.33.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_717" href="#FNanchor_717" class="label">[716]</a> Herrer. liv. 3. §. 52. diz que eraõ cem mil homens.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_718" href="#FNanchor_718" class="label">[717]</a> Fr. Man. Hom. na Disposiçaõ das Arm. Castelhan. cap 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_719" href="#FNanchor_719" class="label">[718]</a> Bonacin. tom. 2. Restitut. disp. 2. quæst. ult. sect. 1.
-punct. ultim. §. 2. Sá verb. <i>Bellum</i> n. 8. Suar. de Charit. disp.
-13. de Bello sect. 6. n. 4. 5 &amp; 6. Vasq. in l. 2. disp. 64. cap. 3.
-Molin. de Justit. tom. 1. tract. 2. disp. 103. n. 2. &amp; 11. etc.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_720" href="#FNanchor_720" class="label">[719]</a> Faria Europa Portug. tom. 3. part. 2. cap. 1. n. 15.
-Anno Historic. a 29 de Junho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_721" href="#FNanchor_721" class="label">[720]</a> Faria Europ. Port. Joaõ Pinto Ribeiro na Usurpaçaõ de
-Portug. Joaõ Bapt. Morelli na Restituiçaõ de Portug part. 1. Maced.
-Lusit. liberat. D. Francisco Man. Eco politic. O Author da Arte de
-furtar cap. 17. que supponho he Joaõ Pinto Ribeiro, e outros muitos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_722" href="#FNanchor_722" class="label">[721]</a> Velasco na Justa Acclamaç part. 2. punct. 1. §. 1. Joaõ
-Salgad. no Marte Port. certam. 2. art. 5. Portug. restaurad. liv. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_723" href="#FNanchor_723" class="label">[722]</a> D. Francisc. Man. Epanafor. 1. pag. 21. 42. 74. O Abbade
-de Vertot nas Revolutions de Portugal pag. mihi 81.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_724" href="#FNanchor_724" class="label">[723]</a> O Padre Anton. dos Reys in Epist. ad Jamet. Nota 115.
-traz hum Catalogo dos Fidalgos confederados para a acclamaçaõ delRey
-D. Joaõ IV. e saõ mais dos quarenta, que refere o tomo 1. do Portug.
-Restaurad. pag.98. Sousa Histor. Genealog. tom. 7.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_725" href="#FNanchor_725" class="label">[724]</a> Almeid. Restaur. prodigiosa part. 2. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_726" href="#FNanchor_726" class="label">[725]</a> <i>Hæc mutatio dexteræ Excelsi est.</i> Psalm. 76. vers.
-11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_727" href="#FNanchor_727" class="label">[726]</a> Morelli na Restituiç. de Portug. pag. 114.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_728" href="#FNanchor_728" class="label">[727]</a> D. Franc. Manoel no Manifesto de Portug. Sousa Histor.
-Genealog. tom. 7. p. 162. Vieir. Histor. do futuro pag. 94. &amp; seqq.
-Portug. Restaur. tom. 2. Evor. glor. p. 166. Ann. Histor. a 29 Agosto.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_729" href="#FNanchor_729" class="label">[728]</a> Monarq. Lusit. part. 6. liv. 19. cap. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_730" href="#FNanchor_730" class="label">[729]</a> Sous. Hist. Geneal. tom. 7. p. 204.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_731" href="#FNanchor_731" class="label">[730]</a> Catastrofe de Portug. pag. 77.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_732" href="#FNanchor_732" class="label">[731]</a> Catastrofe de Port. pag. 225.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_733" href="#FNanchor_733" class="label">[732]</a> Portug. Restaurad. part. 2. pag. 919.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_732a" href="#FNanchor_732a" class="label">[732a]</a> Clede tom. 8. pag. 533.</p>
-
-</div>
-
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_734" href="#FNanchor_734" class="label">[733]</a> Sousa Histor. Genealog. tom. 7. pag. 639.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_735" href="#FNanchor_735" class="label">[734]</a> Clede tom. 8. pag.535. Anno Histor. tom. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_736" href="#FNanchor_736" class="label">[735]</a> Franc. Botelho no Alfonso da impressaõ de Salamanc. de
-1741. liv. 1. est. 6.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Roma, de quien fue throno el mundo intero,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Buscó tu auxilio en riesgo furibundo,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Y fuiste con tu armada, oh Real guerrero,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Arbitro de los arbitros del mundo.</i></span><br>
-</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_737" href="#FNanchor_737" class="label">[736]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>...Lysiae reliquos nunc adspice Reges,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Ut collata videns illorum insignia gesta</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Joannes gestis, quantum caput efferat omnes</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Hic suber agnoseas.......</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Padre Antonio dos Reys no Enthusiasmo Poetico prope finem.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_738" href="#FNanchor_738" class="label">[737]</a> <i>Magnum hoc tuum, non erga homines modo, sed erga
-tecta ipsa meritum, sistere ruinas, solitudinem pellere, ingentia
-opera, eodem quo extructa sunt animo, ab interitu vendicare.</i> Plin.
-in Panegyr. Trajani.</p>
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_362">[Pg 362]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VII">CAPITULO VII.<br><span class="small"><i>Catalogo das Serenissimas Rainhas de Portugal.</i></span></h2>
-</div>
-
-<p>O preclarissimo titulo de Rainha neste Reino he mais antigo que o dos
-Reys; porque foy costume daquelles primeiros Monarcas de Leaõ dar em
-vida titulo de Reys aos filhos, e de Rainhas às filhas para ficar assim
-nelles mais estabelecida, e segura a successaõ Real;<a id="FNanchor_739" href="#Footnote_739" class="fnanchor">[738]</a> e ainda que
-alguns erradamente disseraõ, que o illustrissimo Conde D. Henrique
-assentara o senhorio de Portugal debaixo do titulo de Condado,<a id="FNanchor_740" href="#Footnote_740" class="fnanchor">[739]</a>
-ninguem até agora duvidou que sua mulher a Senhora Dona Teresa, como
-filha, que era delRey D. Affonso de Castella, deixasse de se chamar
-sempre Rainha, e naõ Condessa; e do mesmo modo se chamaraõ Rainhas
-suas filhas, cujo estylo se praticou neste Reino até D. Sancho I.<a id="FNanchor_741" href="#Footnote_741" class="fnanchor">[740]</a>
-do qual tempo até este nosso tomaraõ o nome de Infantes, o que naõ
-entendendo alguns Historiadores Flamengos, attribuiraõ a ambiçaõ
-chamarse Rainha, e naõ Condessa a Senhora Dona Teresa, filha delRey D.
-Affonso I. que casou com o Conde de Flandes Filippe de Alsacia.<a id="FNanchor_742" href="#Footnote_742" class="fnanchor">[741]</a>
-Isto supposto, entremos a executar o promettido.</p>
-
-<p>2 <i>Dona Teresa</i>, mulher do Conde D. Henrique, era filha delRey
-D. Affonso VI. de Leaõ, e herdeira de seus Estados, Senhora de
-notavel formosura.<span class="pagenum" id="Page_363">[Pg 363]</span> Casou com o illustrissimo Conde no anno de 1093,
-trazendo em dote todo o Reino de Portugal, que ella governou dezaseis
-annos depois da morte do Conde seu marido, como senhora proprietaria
-delle;<a id="FNanchor_743" href="#Footnote_743" class="fnanchor">[742]</a> e porque se aproveitava dos conselhos de hum Cavalhero
-Galego, chamado D. Fernando Peres, Conde de Trastamara, quizeraõ muitos
-dizer<a id="FNanchor_744" href="#Footnote_744" class="fnanchor">[743]</a> que a Rainha Dona Teresa contrahira segundo casamento com o
-tal Conde; porém he certo que tal naõ houve, como efficazmente prova o
-erudito Padre D. Joseph Barbosa.<a id="FNanchor_745" href="#Footnote_745" class="fnanchor">[744]</a> Fundou a Igreja de S. Pedro de
-Rates na Cidade de Braga: fez varias doações às Sés de Braga, Porto, e
-Coimbra: admittio em Portugal os Cavalleiros Templarios; e finalmente
-morreo em o primeiro de Novembro de 1130. Jaz na Capella mór da Sé de
-Braga.</p>
-
-<p>3 <i>Dona Mafalda</i>, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e
-Moriana, casou com D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal,
-no anno de 1146. Fundou, e dotou hum Hospital na Villa de Canavezes
-para nove passageiros, e peregrinos terem nelle agazalho com todo o
-commodo possivel: unio-lhe as rendas da ponte, que mandou fabricar
-grandiosamente. Edificou a Igreja de Santa Maria de Sobre-Tamaga, e o
-Morteiro da Costa de Guimarães, que deu aos Conegos Regulares de Santo
-Agostinho, e hoje possuem os Religiosos de S. Jeronymo. Faleceo a 4 de
-Novembro de 1157, e está sepultada no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra
-junto de seu marido.<a id="FNanchor_746" href="#Footnote_746" class="fnanchor">[745]</a></p>
-
-<p>4 <i>Dona Dulce</i> foy filha de D. Ramon Berenguer,<span class="pagenum" id="Page_364">[Pg 364]</span> Conde de
-Barcelona, e Principe de Aragaõ. Casou com ElRey D. Sancho I. no anno
-de 1175, confirmou com ElRey seu marido algumas doações pias, e morreu
-em Coimbra no primeiro de Setembro de 1198. Está sepultada no Mosteiro
-de Santa Cruz da mesma Cidade.<a id="FNanchor_747" href="#Footnote_747" class="fnanchor">[746]</a></p>
-
-<p>5 <i>Dona Urraca</i> era filha de D. Affonso IX. Rey de Castella. Casou
-com D. Affonso II. de Portugal no anno de 1201. Teve a felicidade
-de receber em seu Palacio a S. Francisco, e aos cinco Martyres de
-Marrocos; e sendo trazidos seus corpos a Coimbra, os foy buscar, e
-deu sitio para se fundar na mesma Cidade o primeiro Convento de S.
-Francisco em o Reino. Viveo com exemplar virtude, e mereceu que Deos
-lhe revelasse o dia de sua morte, que foy a 3 de Novembro de 1220. Jaz
-no Mosteiro de Alcobaça.<a id="FNanchor_748" href="#Footnote_748" class="fnanchor">[747]</a></p>
-
-<p>6 <i>Dona Brites</i> filha delRey D. Affonso X. de Castella, chamado o
-<i>Sabio</i>, e ella Princeza de singular perfeiçaõ, e prudencia, casou
-com D. Affonso III. de Portugal no anno de 1253. Fundou o Hospital dos
-Meninos Orfãos de Lisboa, e o Convento de S. Francisco de Estremoz.
-O mayor louvor, que se lhe póde dar, he a grande fidelidade, que
-mostrou a ElRey D. Affonso seu pay, socorrendo-o com seus thesouros.
-Morreu em 27 de Outubro de 1303, e está sepultada no Real Mosteiro de
-Alcobaça.<a id="FNanchor_749" href="#Footnote_749" class="fnanchor">[748]</a></p>
-
-<p>7 <i>Santa Isabel</i> foy filha delRey D. Pedro III. de Aragaõ,
-chamado o <i>Grande</i>. Casou com ElRey D. Diniz em 24 de Junho de
-1282. Instituio com seu marido a Igreja, e Festa do Espirito Santo em
-Alenquer. Fundou a Capella de Nossa Senhora da<span class="pagenum" id="Page_365">[Pg 365]</span> Conceiçaõ no Convento
-da Trindade de Lisboa. Por morte de seu marido se recolheo ao Mosteiro
-de Santa Clara de Coimbra, tambem fundaçaõ sua, onde viveo com taõ
-grandes evidencias de santidade, obrando Deos por sua intercessaõ
-muitos prodigios em vida, e depois de sua morte, que alcançou ser
-numerada no Catalogo dos Santos por Urbano VIII. em 25 de Mayo de 1625.
-Partio desta vida a gozar da eterna em 4 de Julho de 1336. Está seu
-veneravel corpo no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.<a id="FNanchor_750" href="#Footnote_750" class="fnanchor">[749]</a></p>
-
-<p>8 <i>Dona Brites</i> filha de D. Sancho IV. Rey de Castella, chamado o
-<i>Bravo</i>, casou com D. Affonso IV. de Portugal em 12 de Setembro de
-1309. Instituio na Sé de Lisboa as Mercearias, que chamaõ de Affonso
-IV. por concorrer tambem seu marido para esta instituiçaõ. Morreo em
-Lisboa no anno de 1359 a 25 de Outubro. Jaz na antiga Sé de Lisboa.<a id="FNanchor_751" href="#Footnote_751" class="fnanchor">[750]</a></p>
-
-<p>9 <i>Dona Constança</i> foy filha de D. Joaõ Manoel, Duque de Peñafiel,
-Marquez de Vilhena. Casou no anno de 1340 com ElRey D. Pedro I. sendo
-ainda Infante, e foy sua primeira mulher. Morreo de parto do Infante
-D. Fernando a 13 de Novembro de 1345. Está sepultada no Convento de S.
-Francisco de Santarem.<a id="FNanchor_752" href="#Footnote_752" class="fnanchor">[751]</a></p>
-
-<p>10 <i>Dona Ignez de Castro</i> foy filha de D. Pedro Fernandes de
-Castro, grande Senhor em Galiza. Casou com o Principe D. Pedro no
-anno de 1354 occultamente. Fundou a Capella, em que está sepultado S.
-Gervaz na Paroquia da Villa de Basto. Por mandado delRey D. Affonso
-IV. foy morta com grande tyrannia, e injustiça aos 7 de Janeiro de
-1355. Passados dous annos, declarou ElRey D.<span class="pagenum" id="Page_366">[Pg 366]</span> Pedro que havia sido sua
-legitima mulher, e como a tal a fez sepultar em Alcobaça com insignias
-Reaes, onde jaz em primoroso tumulo.<a id="FNanchor_753" href="#Footnote_753" class="fnanchor">[752]</a></p>
-
-<p>11 <i>Dona Leonor Telles</i>, filha de Martim Affonso Tello de Menezes,
-casou com ElRey D. Fernando, que se namorou della, e a recebeo no
-anno de 1371 contra o parecer de todos, porque a usurpou a seu marido
-Joaõ Lourenço da Cunha, com quem estava casada, sem embargo de alguns
-dizerem que indevidamente em razaõ de affinidade, e sem dispensa.
-Em vida de seu marido foy causa dos excessos escandalosos de Joaõ
-Fernandes Andeiro, Conde de Ourem. Passou-se a Castella, e morreo em
-Tordesilhas a 27 de Abril de 1386. Jaz no Convento de Valhadolid.<a id="FNanchor_754" href="#Footnote_754" class="fnanchor">[753]</a></p>
-
-<p>12 <i>Dona Filippa de Lancastro</i> foy filha do Duque de Lancastro
-Joaõ de Gante. Casou com ElRey D. Joaõ I. de Portugal a 2 de Fevereiro
-de 1387. Edificou a Igreja de S. Francisco de Leiria, e fez muitas
-obras pias, e acções de caridade, por ser huma Senhora de grande
-virtude. Morreo no Lugar de Sacavem aos 18 de Julho de 1415, para onde
-tinha ido por causa da peste, e dalli foy conduzida para Odivellas,
-onde se fizeraõ as exequias, e depois se transferio para o Convento
-da Batalha, onde agora jaz. He fama, que na hora do seu transito a
-consolara Maria Santissima com a incomparavel graça da sua vista, cujo
-favor parece que se faz provavel, porque dalli a hum anno foy achado
-seu corpo incorrupto, e cheiroso.<a id="FNanchor_755" href="#Footnote_755" class="fnanchor">[754]</a></p>
-
-<p>13 <i>Dona Leonor</i> era filha delRey D. Fernando I. de Aragaõ.
-Casou com ElRey D. Duarte a 22 de<span class="pagenum" id="Page_367">[Pg 367]</span> Setembro de 1428. Deixou-a
-ElRey seu marido por tutora, e Governadora do Reino na menoridade
-delRey D. Affonso seu filho, o que naõ consentindo os Infantes seus
-cunhados, houveraõ discordias grandes entre elles, e a Rainha, até
-que ultimamente largou o governo ao Infante D. Pedro, e se foy para
-Castella, onde morreo em Toledo a 18 de Fevereiro de 1445, sendo depois
-seu corpo conduzido para o Convento da Batalha, onde jaz.<a id="FNanchor_756" href="#Footnote_756" class="fnanchor">[755]</a></p>
-
-<p>14 <i>Dona Isabel</i> foy filha do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra,
-Regente do Reino. Casou com ElRey D. Affonso V. em 6 de Mayo de 1448,
-sendo que o insigne Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa diz, que
-fora no anno antecedente, e o prova com escritura authentica. Mandou
-edificar hum Convento para os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista,
-e he o que se vê hoje no sitio de Xabregas. Morreo finalmente em 2 de
-Dezembro de 1455 na Cidade de Evora, e jaz no Convento da Batalha.<a id="FNanchor_757" href="#Footnote_757" class="fnanchor">[756]</a></p>
-
-<p>15 Bem se pudera unir a este Catalogo a pouco venturosa Rainha <i>Dona
-Joanna</i>, filha delRey D. Henrique IV. de Castella, de quem foy
-jurada herdeira, e casou em Mayo de 1475 com ElRey D. Affonso V.;
-mas como este matrimonio naõ se consumou, porque lhe embaraçaraõ a
-dispensa de parentesco a Rainha de Aragaõ, e ElRey D. Fernando o
-<i>Catholico</i> seu marido, por isso he infelizmente exclusa da ordem
-das Rainhas de Portugal, sem embargo de que conservou até à morte
-estado de Rainha, e lhe chamavaõ a <i>Excellente Senhora</i>. Morreo em
-Lisboa nos Paços do Castello no anno de 1530. Jaz no Mosteiro de Santa
-Clara.<a id="FNanchor_758" href="#Footnote_758" class="fnanchor">[757]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_368">[Pg 368]</span></p>
-
-<p>16 <i>Dona Leonor</i> filha do Infante D. Fernando, Duque de Viseu,
-casou com ElRey D. Joaõ II. a 22 de Janeiro de 1470. Foy Princeza
-adornada de singular formosura, e virtudes admiraveis. Governou o
-Reino em tempo, que ElRey D. Manoel seu irmaõ esteve em Castella.
-Fundou o Mosteiro da Madre de Deos de Lisboa, e o adornou de preciosas
-Reliquias, e de huma estimavel Imagem. Tambem edificou o Mosteiro da
-Annunciada no primeiro sitio, que teve junto ao Castello, e o Hospital
-das Caldas no termo de Obidos, chamadas por seu respeito da Rainha.
-Instituio a Irmandade da Misericordia de Lisboa, donde emanaraõ todas
-as mais de Hespanha. Estabeleceo cinco Mercearias na Igreja de Santa
-Maria de Obidos, e outras tantas em Nossa Senhora da Graça de Torres
-Vedras. Faleceo em Lisboa a 17 de Novembro de 1525, deixando de si, e
-de suas virtuosissimas acções saudosas, e eternas memorias, que entre
-as Princezas Portuguezas he recommendavel por singular. Está sepultada
-no claustro do Mosteiro da Madre de Deos à porta do Refeitorio em
-sepultura raza.<a id="FNanchor_759" href="#Footnote_759" class="fnanchor">[758]</a></p>
-
-<p>17 <i>Dona Isabel</i>, filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona
-Isabel, casou primeiramente com o Principe D. Affonso, filho delRey
-D. Joaõ II. de Portugal, aquelle, que depois de estar casado com esta
-Senhora naõ mais que seis mezes, acabou lastimosamente a vida junto a
-Santarem. Como do Principe lhe naõ ficaraõ filhos, tornou a casar com
-ElRey D. Manoel em Outubro de 1497, e passando a Castella, foy jurada
-Princeza herdeira daquelle Reino juntamente com ElRey seu marido; e
-indo a Aragaõ para serem tambem jurados alli, morreo em Çaragoça de
-parto do Principe D. Miguel aos 24 de Agosto de 1498. Jaz no Coro das
-Religiosas<span class="pagenum" id="Page_369">[Pg 369]</span> de Santa Isabel a Real de Toledo.<a id="FNanchor_760" href="#Footnote_760" class="fnanchor">[759]</a></p>
-
-<p>18 <i>Dona Maria</i> era filha dos mesmos Reys Catholicos, e foy a
-segunda mulher delRey D. Manoel seu cunhado, com quem casou em 30 de
-Outubro de 1500. Foy Senhora de notavel governo. Fundou nas Berlengas
-o Convento dos Monges de S. Jeronymo, que depois se mudaraõ para Val
-bem feito. Morreo em Lisboa a 7 de Março de 1517. Está sepultada no
-Convento de Belém.<a id="FNanchor_761" href="#Footnote_761" class="fnanchor">[760]</a></p>
-
-<p>19 <i>Dona Leonor</i>, terceira mulher delRey D. Manoel, filha delRey
-Filippe I. de Castella, casou em 24 de Novembro de 1518. Foy Senhora
-muito formosa. Deu principio ao Mosteiro de Nossa Senhora da Assumpçaõ
-de Faro das Religiosas de Santa Clara. Por morte delRey D. Manoel
-voltou para Castella, e passou a segundas vodas com ElRey Francisco I.
-de França. Faleceo em Talavera junto a Badajoz em 18 de Fevereiro de
-1558. Jaz no Pantheon do Escurial.<a id="FNanchor_762" href="#Footnote_762" class="fnanchor">[761]</a></p>
-
-<p>20 <i>Dona Catharina</i>, filha delRey D. Filippe I. de Castella, casou
-com ElRey D. Joaõ III. em 5 de Fevereiro de 1525. Foy Senhora de muita
-bondade, zelosa do augmento da Religiaõ, e adornada de huma singular
-prudencia. Governou felizmente o Reino por morte de seu marido na
-minoridade delRey D. Sebastiaõ seu neto. Teve huma natural perspicacia
-na boa eleiçaõ dos Ministros. Fundou o Convento de Val bem feito de
-Monges Jeronymos, e o Mosteiro de Freiras de S. Francisco na Cidade de
-Faro, e a Paroquial Igreja de Santa Catharina de Lisboa. Instituio no
-Convento de S. Domingos da mesma Cidade huma Cadeira de Moral com renda
-para trinta Clerigos assistirem às lições, que ainda hoje se practica
-no mesmo Convento. Dotou o Collegio dos Meninos Orfãos. Estabeleceo<span class="pagenum" id="Page_370">[Pg 370]</span>
-no Convento de Belém vinte Mercearias para Cavalleiros pobres, que
-tivessem servido em Africa, ou nas Conquistas, e quatro na Capella do
-Santo Christo de Cintra. Alcançou de Roma a instituiçaõ do Tribunal do
-Santo Officio em Goa. Faleceo a 12 de Fevereiro de 1578 na Cidade de
-Lisboa, e jaz no Real Mosteiro de Belém.<a id="FNanchor_763" href="#Footnote_763" class="fnanchor">[762]</a></p>
-
-<p>21 <i>Dona Anna de Austria</i>, filha do imperador Maximiliano II. foy
-a quarta mulher de Filippe II. com quem casou a 12 de Novembro de 1570,
-sendo sua sobrinha. Foy fecunda, e virtuosa. Morreo em Badajoz a 26 de
-Outubro de 1580, e jaz no Escurial.<a id="FNanchor_764" href="#Footnote_764" class="fnanchor">[763]</a></p>
-
-<p>22 <i>Dona Margarida de Austria</i>, filha de Carlos Archiduque de
-Austria, casou com Filippe III. em 18 de Abril de 1599. Morreo no
-Escurial a 3 de Outubro de 1611, e jaz sepultada no Pantheon do mesmo
-Escurial.<a id="FNanchor_765" href="#Footnote_765" class="fnanchor">[764]</a></p>
-
-<p>23 <i>Dona Isabel de Borbon</i>, filha de Henrique IV. Rey de França,
-foy a primeira mulher de Filippe IV. com quem casou no anno de 1615, e
-morreo a 6 de Outubro de 1664. Jaz no Escurial.<a id="FNanchor_766" href="#Footnote_766" class="fnanchor">[765]</a></p>
-
-<p>24 <i>Dona Luiza Francisca de Gusmaõ</i>, filha de D. Joaõ Manoel Peres
-de Gusmaõ, oitavo Duque de Medina Sidonia, casou com o Serenissimo
-Senhor D. Joaõ, oitavo Duque de Bragança, e depois Rey de Portugal em
-12 de Janeiro de 1633. Foy Princeza de espirito altivo, e de admiraveis
-virtudes. A restauraçaõ de Portugal esteve pendente da sua industria,
-e magnanima resoluçaõ, com que soube persuadir taõ grande empreza ao
-Duque seu marido. Este fiou sempre della os negocios mais arduos do
-Reino, e ella o governou depois da morte delRey na minoridade de D.
-Affonso VI. seu filho,<span class="pagenum" id="Page_371">[Pg 371]</span> em cujo tempo fez resplandecer no Throno todas
-as grandes qualidades de hum Soberano. Introduzio neste Reino a Ordem
-da Descalcez de Santo Agostinho, e fundou dous Conventos no Valle de
-Xabregas para os Religiosos, e Religiosas desta Ordem. Tambem fundou o
-Convento dos Religiosos Dominicos Irlandezes ao Corpo Santo, e o dos
-Carmelitas Descalços aos Torneiros. Excitada de mayores pensamentos se
-recolheo ao Mosteiro das Religiosas Descalças de Santo Agostinho, que
-havia fundado no sitio do Grilo, onde totalmente se esqueceo de que
-tivesse reinado, e a 27 de Fevereiro de 1666 faleceo, deixando de suas
-virtudes eterna memoria, e jaz sepultada no Mosteiro do Grilo.<a id="FNanchor_767" href="#Footnote_767" class="fnanchor">[766]</a></p>
-
-<p>25 <i>Dona Maria Francisca Isabel de Saboya</i>, filha de Carlos Amadeo
-de Saboya, Duque de Neomurs, casou primeiramente com ElRey D. Affonso
-VI. de Portugal em 27 de Junho de 1666; porém como este matrimonio
-foy julgado por nullo, tornou esta Princeza a casar segunda vez, e se
-recebeo com seu cunhado o Principe Regente, que depois foy Rey D. Pedro
-II. precedendo para isto dispensa do Pontifice, e se celebraraõ estas
-segundas vodas em 2 de Abril de 1668. Foy esta Senhora de estremada
-formosura, e dotada de muita prudencia, e por isso conservou com seu
-marido hum amor muy reciproco. Mandou fazer a Capella de S. Francisco
-de Sales na Igreja dos Padres do Oratorio de Lisboa, e no Noviciado da
-Cotovia dos Padres da Companhia mandou edificar a Capella da Conceiçaõ.
-Fundou o Mosteiro das Religiosas Capuchinhas Francezas do Santo
-Crucifixo em Lisboa. Morreo a 27 de<span class="pagenum" id="Page_372">[Pg 372]</span> Dezembro de 1683 na quinta do
-Conde de Sarzedas em Palhavã, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro,
-que edificou.<a id="FNanchor_768" href="#Footnote_768" class="fnanchor">[767]</a></p>
-
-<p>26 <i>Dona Maria Sofia Isabel de Neoburg</i>, Filha do Eleitor Palatino
-do Rhim Filippe Vilhelmo, foy a segunda mulher delRey D. Pedro II. com
-quem se recebeo em 11 de Agosto de 1687. Foy Princeza muito benigna, e
-caritativa, em cujos actos se exercitava continuamente. Venerou muito
-a Religiaõ da Companhia de Jesus, e foy muy devota de S. Francisco
-Xavier, em cujo obsequio mandou edificar hum Collegio para os seus
-Padres na Cidade de Béja, ao qual dotou grandiosamente. Morreo no Paço
-da Corte-Real a 4 de Agosto de 1699, e está sepultada no Convento de S.
-Vicente de Fóra.<a id="FNanchor_769" href="#Footnote_769" class="fnanchor">[768]</a></p>
-
-<p>27 <i>Dona Maria Anna de Austria</i>, filha do Imperador Leopoldo I.
-casou em 27 de Outubro de 1708 com ElRey D. Joaõ V. Era Princeza muy
-affavel, e por isso estimada de seus vassallos: muy devota, muy pia, e
-exercitada na cultura das principaes linguas da Europa. Quando ElRey
-seu esposo passou ao Alentejo no anno de 1716, ficou esta Senhora com o
-governo do Reino, em o qual mostrou a sua rara capacidade, prudencia,
-e justiça, virtudes, que praticou com a mesma incumbencia na molestia
-delRey. Soube medir as suas acções, e distribuir o tempo com ordem
-inalteravel. Concorreo para se extinguirem os theatros profanos das
-Comedias, e para exemplo de occupaçaõ mais segura visitava os Templos
-com frequencia. Em final da sua verdadeira piedade, e Religiaõ fundou
-o Convento dos Carmelitas Descalços Alemães em Lisboa, dedicado a
-S. Joaõ Nepomuceno, cuja nova Igreja se benzeo a 6 de Mayo de 1741.
-A todos<span class="pagenum" id="Page_373">[Pg 373]</span> estes habitos de taõ grandes virtudes, que esta augusta
-Heroina praticou com edificaçaõ, se ajuntaõ os repetidos actos de
-caridade, com que remediava generosa, e liberalmente os pobres. Parece
-que o exercicio destes pios, e santos impulsos era hereditario da
-augustissima Casa de Austria, a qual em toda a Igreja Catholica se
-singulariza em religiosa piedade, e em benigna clemencia, sem embargo
-que para a execuçaõ de tantas virtuosas perfeições nunca a Magestade
-desta perfeitissima Princeza necessitou de estimulo, nem de exemplo. Em
-fim foraõ as suas virtudes, e attributos tantos, e taes, que excedendo
-a todos os elogios, mal poderaõ caber nas breves clausulas desta nossa
-humilde expressaõ. Faleceo no palacio de Belém aos 14 de Agosto de
-1754, e foy seu corpo sepultado na Igreja dos Carmelitas Descalços
-Alemães que ella mandara edificar.</p>
-
-<p>28 <i>Dona Maria Anna Victoria</i>, filha delRey Catholico Filippe
-V., e da Rainha Dona Isabel Farnese, casou em 19 de Janeiro de 1729
-com ElRey Fidelissimo D. Joseph I. He Princeza dotada de huma natural
-vivacidade, a qual se nos bosques faz admirar as Ninfas, e as Deosas
-com os seus tiros, he igualmente fervorosa nos seus retiros, e cheia
-de grande devoçaõ, e piedade. O primoroso Templo de S. Francisco de
-Paula he hum grande testemunho da sua grandeza; nem a sua inviolavel
-soberania necessita de ser elogiada, para ser immortal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_374">[Pg 374]</span></p>
-
-<table class="autotable">
-<tr><th> <i>N.</i></th><th> <i>Nome.</i></th><th> <i>Naçaõ.</i></th><th><i>Ann. em q̃ casou.</i></th><th> <i>Marido.</i> </th><th>
-<i>Filhos.</i></th><th><i>Anno em que morreo.</i></th><th><i>Lugar da morte.</i></th><th><i>Lugar da sepultura.</i></th> </tr>
-<tr><td class="tdr">1</td><td>D. Teresa. </td><td>Castelhana.</td><td> 1093 </td><td>D. Henrique.</td><td>4 </td><td> 1130 </td><td>... </td><td>Sé de Braga. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">2</td><td>D. Mafalda. </td><td>Saboyana. </td><td> 1146 </td><td>D. Affonso I. </td><td> 7 </td><td> 1157 </td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">3</td><td>D. Dulce. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1175 </td><td>D. Sancho I. </td><td> 11 </td><td> 1198 </td><td>Coimbra. </td><td>Santa Cruz de Coimbra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">4</td><td>D. Urraca. </td><td>Castelhana.</td><td> 1201 </td><td>D. Affonso II. </td><td>4 </td><td> 1220 </td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">5</td><td class="top">D. Brites. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1253 </td><td class="top">D. Affonso III.</td><td class="top"> 7 </td><td class="top"> 1303 </td><td class="top">... </td><td class="top">Alcobaça. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">6</td><td>Santa Isabel. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1282 </td><td>D. Diniz. </td><td> 2 </td><td> 1336 </td><td>Estremoz. </td><td>Santa Clara de Coimbra.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">7</td><td class="top">D. Brites. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1309 </td><td>D. Affonso IV. </td><td class="top"> 7 </td><td class="top"> 1359 </td><td class="top">Lisboa. </td><td class="top">Sé de Lisboa. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">8</td><td class="top">D. Constança. </td><td class="top">Castelhana.</td><td class="top"> 1340 </td><td class="top">D. Pedro I. </td><td class="top">3 </td><td class="top"> 1345 </td><td class="top">Santarem. </td><td>S. Francisco de Santarem. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">9</td><td>D. Ignez. </td><td>Castelhana.</td><td> 1354 </td><td>D. Pedro I. </td><td> 4 </td><td> 1355 </td><td>Coimbra. </td><td>Alcobaça.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">10</td><td>D. Leonor. </td><td>Portugueza.</td><td> 1371 </td><td>D. Fernando. </td><td> 3 </td><td> 1386 </td><td>Tordesilhas. </td><td>Valhadolid.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">11</td><td>D. Filippa. </td><td>Ingleza. </td><td> 1387 </td><td>D. Joaõ I. </td><td> 8 </td><td> 1415 </td><td>Odivelas. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">12</td><td>D. Leonor. </td><td>Aragoneza. </td><td> 1428 </td><td>D. Duarte. </td><td> 9 </td><td> 1445 </td><td>Toledo. </td><td>Batalha.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">13</td><td>D. Isabel. </td><td>Portugueza.</td><td> 1448 </td><td>D. Affonso V. </td><td>3 </td><td> 1455 </td><td>Evora. </td><td>Batalha. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">14</td><td>D. Leonor. </td><td>Portugueza.</td><td> 1470 </td><td>D. Joaõ II. </td><td> 1 </td><td> 1525 </td><td>Lisboa. </td><td>Madre de Deos.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">15</td><td>D. Isabel. </td><td>Castelhana.</td><td> 1497 </td><td>D. Manoel. </td><td> 1 </td><td> 1598 </td><td>Saragoça. </td><td>Santa Isabel de Toledo.
-</td></tr>
-<tr><td class="tdr">16</td><td>D. Maria. </td><td>Castelhana.</td><td> 1500 </td><td>D. Manoel. </td><td> 10 </td><td> 1517 </td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">17</td><td>D. Leonor. </td><td>Flamenga. </td><td> 1518 </td><td>D. Manoel. </td><td>2 </td><td> 1558 </td><td>Badajoz. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">18</td><td>D. Catharina. </td><td>Castelhana.</td><td> 1525 </td><td>D. Joaõ III. </td><td>9 </td><td> 1578 </td><td>Lisboa. </td><td>Belém. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">19</td><td>D. Anna. </td><td>Castelhana.</td><td> 1570 </td><td>D. Filippe II. </td><td> 3 </td><td> 1580 </td><td>Badajoz. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">20</td><td>D. Margarida. </td><td>Alemã. </td><td> 1599 </td><td>D. Filippe III.</td><td>7 </td><td> 1611 </td><td>Escurial. </td><td>Escurial.</td></tr>
-<tr><td class="tdr">21</td><td>D. Isabel. </td><td>Franceza. </td><td> 1615 </td><td>D. Filippe IV. </td><td> 7 </td><td> 1664 </td><td>Madrid. </td><td>Escurial. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">22</td><td>D. Luiza. </td><td>Castelhana.</td><td> 1633 </td><td>D. Joaõ IV. </td><td> 7 </td><td> 1666 </td><td>Lisboa. </td><td>Grilo. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">23</td><td class="top">D. Maria Francisca.</td><td class="top">Franceza. </td><td class="top"> 1668 </td><td class="top">D. Pedro II. </td><td class="top"> 1 </td><td class="top"> 1683 </td><td class="top">Palhavã. </td><td class="top">Francezinhas. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">24</td><td>D. Maria Sofia. </td><td>Alemã. </td><td> 1687 </td><td>D. Pedro II. </td><td> 7 </td><td> 1699 </td><td>Lisboa. </td><td>S. Vicente de Fóra. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">25</td><td>D. Maria Anna. </td><td>Alemã. </td><td> 1708 </td><td>D. Joaõ V. </td><td> 6 </td><td> 1754 </td><td>Lisboa. </td><td>S. Joaõ Nepomuceno. </td></tr>
-<tr><td class="tdr">26</td><td>D. Maria Anna. </td><td>Castelhana.</td><td> 1729 </td><td>D. Joseph I. </td><td>4</td><td colspan="3"></td></tr>
-</table>
-<p><span class="pagenum" id="Page_375">[Pg 375]</span>
-</p>
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_739" href="#FNanchor_739" class="label">[738]</a> Mariz Dialog. 2. pag. mihi 42.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_740" href="#FNanchor_740" class="label">[739]</a> Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 11. pag. 34.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_741" href="#FNanchor_741" class="label">[740]</a> Sousa Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 1. cap. 11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_742" href="#FNanchor_742" class="label">[741]</a> Marchanc. liv. 2. Descripç. de Fland. Veja-se a Monarq.
-Lusit. liv. 11. cap. 37.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_743" href="#FNanchor_743" class="label">[742]</a> Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 29.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_744" href="#FNanchor_744" class="label">[743]</a> Conde D. Pedro no seu Nobiliario tit. 4. Estaç. nas
-Antiguid. de Port. cap. 21. n. 5.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_745" href="#FNanchor_745" class="label">[744]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 87.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_746" href="#FNanchor_746" class="label">[745]</a> Vide Joaõ Bap. Lavanh. nas Notas do Conde D Pedro tit.
-7. Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. c. 19. Goes part. 4. cap 71. Estaço
-nas Antiguid. de Port. cap. 25. num. 21. Corogr. Portug. tom. 1. p.
-135. Barbos. Catalog. das Rainh. p. 110. Sous. Histor. Genea. tom. 1.
-pag. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_747" href="#FNanchor_747" class="label">[746]</a> Barbud. Emprez. Militar. pag. 7. Benedict. Lusit. tom.
-2. p. 318. Duarte Ribeiro p. 301. part. 1. Barbos. Catalog. das Rainh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_748" href="#FNanchor_748" class="label">[747]</a> Idem ibid. p. 143. Esperança na Histor. Serafica tom. 1.
-liv. 2. cap. 28. num. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_749" href="#FNanchor_749" class="label">[748]</a> Idem tom. 2. liv. 1 cap. 15. Monarq. Lusit. liv. 15.
-cap. 16. e liv. 16. cap. 32. e liv. 18. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_750" href="#FNanchor_750" class="label">[749]</a> Lacerda na Vida desta Santa. Mendoça in Viridar. liv. 6.
-Barbos. Catalog. das Rainhas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_751" href="#FNanchor_751" class="label">[750]</a> Duarte Nun. Chronic. delRey D. Affonso IV. p. 172. Sous.
-Histor. Genealog. tom. 1. p. 307.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_752" href="#FNanchor_752" class="label">[751]</a> Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_753" href="#FNanchor_753" class="label">[752]</a> Duart. Nun. Chronic. delRey D. Pedro, Mariz Dialog. 3.
-cap. 3. Caram. Philipp. Prud. p. 138. Barbos. no Catalog. das Rainh. e
-Sousa tambem allegado na Histor. Geneal. tom. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_754" href="#FNanchor_754" class="label">[753]</a> Monarq. Lusit. tom. 8. p. 147. Vejaõ-se tambem as
-razões, que allegou o Doutor Joaõ das Regras, e se achaõ na 8. part. da
-Monarq. Lusitan. pag. 651.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_755" href="#FNanchor_755" class="label">[754]</a> Sous. Histor. de S. Doming. part. 1. liv. 6. cap. 25.
-Barbos. no Catal. das Rainh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_756" href="#FNanchor_756" class="label">[755]</a> Damiaõ de Goes, Chron. do Princip. D. Joaõ cap. 17.
-Agiolog. Lusit. tom. 3.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_757" href="#FNanchor_757" class="label">[756]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. Sous. Hist. Geneal. tom.
-3. p. 64. Chronic. dos Padres Loyos liv. 2. cap. 26.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_758" href="#FNanchor_758" class="label">[757]</a> Sous. Hist. Geneal. tom. 3. p. 67. Histor. Seraf. part.
-3. liv. 3. cap. 16. n. 528.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_759" href="#FNanchor_759" class="label">[758]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 3. pag. 139. Goes Chron.
-delRey D. Manoel part. 4. cap. 26. p. 282. Santuar. Marian. tom. 2. p.
-329. e tom. 7. p. 219. Duart. Nun. Descripç. de Port. cap. 77.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_760" href="#FNanchor_760" class="label">[759]</a> Damiaõ de Goes na Chronic. delRey D. Man. part. 1. cap.
-46. Barbos. no Catalog. p. 383.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_761" href="#FNanchor_761" class="label">[760]</a> Idem ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_762" href="#FNanchor_762" class="label">[761]</a> Barbos. nos Factos da Lusit. a 25. de Fevereiro p. 664.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_763" href="#FNanchor_763" class="label">[762]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p 404. e o Doutor Ignacio
-Barbosa seu irmaõ nos Fast. da Lusit. a 12 de Fevereir. p. 511. Sous.
-Histor. Genealog. tom. 3. p. 525.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_764" href="#FNanchor_764" class="label">[763]</a> Barbos. allegad. Les Delices de l’Espagne tom. 2. p. 285</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_765" href="#FNanchor_765" class="label">[764]</a> Ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_766" href="#FNanchor_766" class="label">[765]</a> Ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_767" href="#FNanchor_767" class="label">[766]</a> Os irmãos Barbos. hum no Catal. das Rainh. e outro nos
-Fast. da Lusit. tom. 1. p. 691. Sousa Histor. Geneal. tom. 7. p. 247.
-Catastrof. de Port. p. 133. Passarel. de Bell. Lusit. L’Abbé de Vertot
-Histoir. des Revolut. de Portug. pag. mihi 52. e 152. Santuar. Marian.
-tom. 7. pag. 10. e 132.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_768" href="#FNanchor_768" class="label">[767]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 725. e segg. Barbos. no
-Catalog. das Rainh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_769" href="#FNanchor_769" class="label">[768]</a> Iidem ibid.</p>
-
-</div></div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_376">[Pg 376]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_VIII">CAPITULO VIII.<br><span class="small"><i>Dos Filhos legitimos, e illegitimos dos soberanos Reys de
-Portugal.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-<p>Neste Reino assim como a succesaõ dos Serenissimos Reys se introduzio
-por via de morgado, conforme o uso de Castella, tambem o portentoso
-Heroe D. Affonso Henriques depois de acclamado Rey deu o mesmo Regio
-titulo a seus filhos,<a id="FNanchor_770" href="#Footnote_770" class="fnanchor">[769]</a> e se costumou até ElRey D. Affonso II. que
-a todos chamou Infantes, o qual titulo nos primogenitos igualmente com
-seus irmãos durou até o tempo delRey D. Duarte, que à imitaçaõ dos
-Reys de Inglaterra ordenou, que seu filho D. Affonso V. fosse chamado
-Principe, e foy o primeiro, que em Portugal começou a intitularse
-assim.<a id="FNanchor_771" href="#Footnote_771" class="fnanchor">[770]</a> O mesmo tratamento de Princeza tinha tambem a filha delRey,
-que nascia primeiro, em quanto naõ havia filho varaõ. Os outros filhos
-se chamavaõ Infantes; porém os filhos destes tinhaõ só o tratamento de
-Senhores. Isto supposto, daremos huma breve noticia de todos os filhos,
-que os Senhores Reys de Portugal tiveraõ.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos do Conde D. Henrique.</i></h3>
-
-<p>1 <i>ElRey</i> D. <i>Affonso Henriques</i>, de quem já dissemos no
-Capitulo VI. num. 12.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Dona Sancha Henriques</i> casou com<span class="pagenum" id="Page_377">[Pg 377]</span> Fernaõ Mendes de
-Bragança, chamado o <i>Bravo</i>, Fidalgo aventureiro, que se achou
-na batalha do Campo de Ourique. Era Senhor de Bragança, e naõ teve
-filhos.<a id="FNanchor_772" href="#Footnote_772" class="fnanchor">[771]</a></p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Urraca</i> nasceo em Guimarães antes que seu irmaõ
-D. Affonso Henriques. Casou com D. Bermudo Paes de Trava, Conde de
-Trastamara, de que nasceraõ duas filhas, de huma das quaes procedem os
-Viscondes de Villa-Nova de Cerveira, e outras Familias illustres.<a id="FNanchor_773" href="#Footnote_773" class="fnanchor">[772]</a></p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Teresa</i> casou com D. Sancho Nunes de Barbosa,
-descendente do Conde D. Nuno de Cella-Nova, como diz Brandaõ liv. 10.
-cap. 20.</p>
-
-<p>Teve mais outros dous filhos, de que naõ se sabe o nome, e morreraõ de
-pouca idade.</p>
-
-<p>5 Fóra do matrimonio teve de huma mulher nobre a <i>D. Pedro
-Affonso</i>, valerosissimo Capitaõ, como o deu a conhecer em varias
-batalhas, em que se achou com seu irmaõ D. Affonso Henriques. Em
-França, onde ElRey o mandou como Embaixador, teve grande estimaçaõ;
-e com a amizade, que lá teve com S. Bernardo, voltando a Portugal,
-e dando noticia a seu irmaõ do Santo, foy causa principal, para que
-ElRey fundasse o insigne Convento de Alcobaça, no qual D. Pedro se
-recolheo, assistindo-lhe ElRey com toda a Corte no dia, que tomou o
-habito. Morreo mais honradamente ainda do que tinha vivido, porque
-deixou de ser Principe para ser Santo. Nunca se quiz ordenar de Missa,
-julgando-se indigno de exercicio taõ soberano. Faleceo a 9 de Mayo de
-1169. Jaz em Alcobaça ao pé do Altar mór da parte do Evangelho.<a id="FNanchor_774" href="#Footnote_774" class="fnanchor">[773]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_378">[Pg 378]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Affonso Henriques.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Infante D. Henrique</i>, filho primogenito, nasceo a 5 de Março
-de 1147, e faleceo de poucos annos.</p>
-
-<p>2 <i>ElRey D. Sancho</i>, que lhe succedeo na Coroa.</p>
-
-<p>3 O <i>Infante D. Joaõ</i>. Deste naõ consta mais que morrera a 25 de
-Agosto.<a id="FNanchor_775" href="#Footnote_775" class="fnanchor">[774]</a></p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Urraca</i> nasceo no anno de 1148. Casou no de 1160
-com D. Fernando II. Rey de Leaõ; mas por causa de parentesco o Papa fez
-dissolver este matrimonio no anno de 1171. Manoel de Faria diz, que
-àcerca deste divorcio se fizera hum Concilio em Salamanca. Morreo a 16
-de Outubro.<a id="FNanchor_776" href="#Footnote_776" class="fnanchor">[775]</a></p>
-
-<p>5 <i>A Infanta Dona Mafalda</i>. No anno de 1160 esteve contratada para
-casar com D. Affonso II. de Aragaõ; mas nunca sahio de Portugal, nem
-o casamento se ajustou, por falecer esta Infanta pouco depois do tal
-contrato.<a id="FNanchor_777" href="#Footnote_777" class="fnanchor">[776]</a></p>
-
-<p>6 <i>A Infanta Dona Teresa</i>, a quem os Flamengos chamaõ
-<i>Mathilde</i>, casou com Filippe I. de Alsacia, Conde de Flandres,
-em Agosto de 1184, o qual morrendo no sitio de Acre no anno de 1191,
-ficou a Infanta governando aquelles seus Estados com muita prudencia.
-Depois passou a segundo matrimonio, e o celebrou com Eudo III.
-Duque de Borgonha no anno de 1194; mas foraõ separados por causa de
-parentesco no anno seguinte, e a Infanta passados alguns annos morreo
-desastradamente affogada em huma lagoa a 6 de Mayo de 1218. Jaz no
-Convento de Claraval em Borgonha.<a id="FNanchor_778" href="#Footnote_778" class="fnanchor">[777]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_379">[Pg 379]</span></p>
-
-<p>7 <i>A Infanta Dona Sancha.</i> Naõ consta mais que morreo a 14 de
-Fevereiro.</p>
-
-<p>8 Fóra do legitimo matrimonio teve a <i>Fernando Affonso</i>, Alferes
-Mór do Reino, e a <i>D. Affonso</i>, Mestre da insigne Ordem de Rhodes.
-Foy muito valeroso; e renunciando a dignidade, passou a Portugal, onde
-morreo, e jaz sepultado na igreja de S. Joaõ da Villa de Santarem.<a id="FNanchor_779" href="#Footnote_779" class="fnanchor">[778]</a></p>
-
-<p>9 <i>Dona Teresa Affonso.</i> Naõ consente o Doutor Brandaõ<a id="FNanchor_780" href="#Footnote_780" class="fnanchor">[779]</a> que
-ElRey D. Affonso Henriques tivesse esta filha, porque naõ vira memoria
-della em escrituras authenticas; porém D. Antonio Caetano de Sousa diz,
-que a houvera ElRey em Elvira Gualter.<a id="FNanchor_781" href="#Footnote_781" class="fnanchor">[780]</a></p>
-
-<p>10 Teve mais a <i>Dona Urraca Affonso</i>, que casou com D. Pedro
-Affonso Viegas, neto de D. Egas Moniz.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Sancho I.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Constança</i> nasceo em Mayo de 1182, e morreo a 3
-de Agosto de 1202.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Beata Teresa</i>. Estando casada com ElRey D. Affonso
-IX. de Leaõ, e já com tres filhos, foy separada pelo Papa Celestino
-III. no anno de 1195 por causa do parentesco, e casar sem preceder
-dispensa. Voltou para Portugal, e restaurando o Mosteiro de Lorvaõ,
-collocando nelle Freiras da Ordem de Cister, professou o mesmo
-Instituto, e nelle morreo santamente a 17 de Junho de 1250. Passados
-trezentos annos, foy achado seu corpo incorrupto, por cujo motivo,
-e pelos milagres, que obrava, o Papa Clemente XI. lhe confirmou<span class="pagenum" id="Page_380">[Pg 380]</span> o
-culto de Beata por Bulla de 23 de Dezembro de 1705, e no anno de 1724
-approvou, e concedeo o Officio proprio para todo o Reino de Portugal.
-Jaz seu veneravel corpo na Capella mór da Igreja de Lorvaõ.<a id="FNanchor_782" href="#Footnote_782" class="fnanchor">[781]</a></p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Beata Sancha</i> foy Senhora de Alenquer, onde fundou
-hum Convento da Ordem de S. Francisco em vida do mesmo Santo, e foy o
-primeiro desta Ordem, que houve em Portugal. Tambem fundou a Igreja da
-Redonda na mesma Villa, e o Mosteiro de Celas em Coimbra, onde fez vida
-Monacal, e morreo a 13 de Março de 1229, e neste Mosteiro he venerada
-pelos Fieis, e resplandece em milagres, tributando-lhe os Fieis os
-mesmos cultos, que a sua gloriosa irmã a Beata Teresa.<a id="FNanchor_783" href="#Footnote_783" class="fnanchor">[782]</a></p>
-
-<p>4 <i>O Infante D. Affonso</i>, que lhe succedeo no Throno.</p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Pedro</i> nasceo a 23 de Março de 1187. Por
-desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Affonso, sahio do Reino, e
-foy militar nos exercitos delRey de Leaõ. Depois se passou para a Corte
-delRey de Marrocos, e servio nas tropas do Imperador Miramolim, e de
-lá fez transito para Aragaõ, onde casou no anno 1228 com Aurembiaux,
-Condessa de Urgel, a qual morrendo sem lhe ficarem filhos, deixou a D.
-Pedro seu marido por herdeiro de seus Estados, que depois elle trocou
-com ElRey D. Jayme I. pela Ilha de Malhorca, que havia conquistado
-aos Mouros; e naõ tendo D. Pedro armas para a defender delles, lha
-restituio, e houve delle a Cidade de Segorbe, Morelha, e outras
-Praças. Ajudou tambem este Infante a Guilherme de Mongrio, Prelado de
-Tarragona, a ganhar a Ilha de Iviça, que possuiaõ os Mouros no anno
-1230. Finalmente faleceo a 2 de Junho do<span class="pagenum" id="Page_381">[Pg 381]</span> anno 1258, deixando dous
-filhos bastardos, D. Rodrigo insigne em letras, e D. Fernando.<a id="FNanchor_784" href="#Footnote_784" class="fnanchor">[783]</a></p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo a 24 de Março de 1188. Foy
-Principe de altos pensamentos. No anno de 1211 casou com a Princeza
-Joanna, filha do Imperador Balduino de Constantinopla, e herdeira dos
-Estados de Flandres. Deu grandes mostras do seu valor na batalha de
-Bovinas, em que se achou militando por parte do Imperador Othon IV,
-e Joaõ I. Rey de Inglaterra contra Filippe Augusto, Rey de França; e
-sendo o Infante prezo, o levaraõ para o Castello de Louvre, onde esteve
-alguns annos. Depois de livre ajudou a Rainha Dona Branca de França
-contra Pedro, Duque de Bertanha, e outros Potentados, que embaraçavaõ
-àquella Senhora a tutoria delRey S. Luiz seu filho. Morreo em fim na
-Cidade de Noyon a 26 de Julho de 1233, e está sepultado na Abbadia de
-Market junto a Lila.<a id="FNanchor_785" href="#Footnote_785" class="fnanchor">[784]</a></p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Henrique</i> nasceo no anno de 1189, e morreo a 8 de
-Dezembro, e naõ ha delle mais memoria.<a id="FNanchor_786" href="#Footnote_786" class="fnanchor">[785]</a></p>
-
-<p>8 <i>O Infante D. Raymundo</i> faleceo a 9 de Março.</p>
-
-<p>9 <i>A Infanta Dona Mafalda</i> casou com Henrique I. de Castella no
-anno de 1215; porém sendo este casamento julgado nullo, por serem
-parentes em gráo prohibido, foraõ separados; e voltando a Infanta para
-Portugal, se recolheo ao Mosteiro de Arouca de Freiras Benedictinas,
-que ella reformou com as da Ordem de Cister; e aqui tomando o habito
-viveo em continuo exercicio de virtudes, e morreo com opiniaõ de Santa
-no primeiro de Mayo de 1256. Jaz no Mosteiro de Arouca.<a id="FNanchor_787" href="#Footnote_787" class="fnanchor">[786]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_382">[Pg 382]</span></p>
-
-<p>10 <i>A Infanta Dona Branca</i> foy Senhora da Cidade de Guadalaxara
-em Castella; mas naõ se sabe porque titulo lhe veyo aquelle dominio.
-Foy muito devota da Religiaõ dos Pregadores, e por isso lhe fundou em
-Coimbra o Convento de S. Domingos o velho no Arnado, de que por causa
-das enchentes do Mondego naõ ha vestigios, só sim do campanario, como
-ainda havia no tempo do Author da Benedictina Lusitana. Morreo aos 17
-de Novembro de 1240. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.<a id="FNanchor_788" href="#Footnote_788" class="fnanchor">[787]</a></p>
-
-<p>11 <i>A Infanta Dona Berenguella</i>, ou <i>Berengaria</i> casou no
-anno de 1213 com ElRey Valdemaro II. de Dinamarca, a quem chamaraõ o
-<i>Vitorioso</i>, e de quem teve tres filhos, e huma filha. Morreo no
-primeiro de Abril de 1220.<a id="FNanchor_789" href="#Footnote_789" class="fnanchor">[788]</a></p>
-
-<p>12 Fóra do matrimonio teve os seguintes filhos. <i>D. Martim
-Sanches</i>, que nasceo de huma Fidalga chamada Dona Maria Annes, ou
-Ayres de Tornellos. Por differenças, que teve com seu irmão ElRey D.
-Affonso II se passou a Castella, e ElRey D. Affonso de Leaõ seu cunhado
-lhe fez grandes mercês, e honras. Lá casou com Dona Ello, ou Olaya,
-filha do Conde D. Pedro Fernandes de Castro, e naõ teve descendencia.
-Jaz em Cosinos terra de Campos.<a id="FNanchor_790" href="#Footnote_790" class="fnanchor">[789]</a></p>
-
-<p>13 <i>Dona Urraca Sanches</i> irmã do antecedente foy Senhora muito
-virtuosa. Casou com o neto de D. Egas Moniz, e a Infanta Dona Mafalda a
-nomeou sua testamenteira.</p>
-
-<p>14 Teve mais ElRey D. Sancho de outra Fidalga chamada Dona Maria Paes
-da Ribeira a <i>D. Rodrigo Sanches</i>, do qual consta que morrera
-valerosamente<span class="pagenum" id="Page_383">[Pg 383]</span> em 7 de Julho de 1245 em huma contenda, que tivera
-com D. Martim Gil de Soverosa sobre reciprocas dependencias; e vindo
-mortalmente ferido, espirou à porta do Convento de Grijó de Conegos
-Regrantes, onde pozeraõ huma Cruz de pedra para memoria.<a id="FNanchor_791" href="#Footnote_791" class="fnanchor">[790]</a></p>
-
-<p>15 <i>D. Gil Sanches</i>. Dizem huns sómente que naõ casara; outros
-accrescentaõ que fora Clerigo, e que morrera a 14 de Setembro de
-1236.<a id="FNanchor_792" href="#Footnote_792" class="fnanchor">[791]</a></p>
-
-<p>16 <i>D. Nuno Sanches</i> morreo de tenra idade.</p>
-
-<p>17 <i>Dona Mayor Sanches</i> tambem morreo menina.</p>
-
-<p>18 <i>Dona Constança Sanches</i>. Ha tradiçaõ que vivera no Mosteiro
-das Donas de Santa Cruz, que estava junto ao proprio Convento dos
-Religiosos, e que possuira grandes rendas, as quaes soube distribuir
-com piedade, e grandeza. Dizem que lhe appareceraõ os gloriosos S.
-Francisco, e Santo Antonio, e que morrera com opiniaõ de Santa a 8 de
-Agosto de 1269. Seu corpo foy achado inteiro, e incorrupto em tempo
-delRey D. Manoel. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.<a id="FNanchor_793" href="#Footnote_793" class="fnanchor">[792]</a></p>
-
-<p>19 <i>Dona Teresa Sanches</i> foy a segunda mulher de D. Affonso Telles
-de Menezes, Rico-Homem, e Senhor de Albuquerque, e outras muitas
-terras. Deste fecundo consorcio procedem muitas Casas illustres de
-Portugal, como a dos Menezes, Cantanhede, Tarouca, e outras.<a id="FNanchor_794" href="#Footnote_794" class="fnanchor">[793]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_384">[Pg 384]</span></p>
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Affonso II.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Infante D. Sancho</i> successor.</p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo a 5 de Mayo de 1210, e succedeo a
-seu irmaõ, entrando a governar ainda em vida delle.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Leonor</i> nasceo no anno de 1211, e casou no de
-1229 com Valdemaro III. Rey de Dinamarca, e naõ de Dacia, como diz
-eruditamente D. Antonio Caetano de Sousa, emendando a Brandaõ, e outros
-Escritores. Morreo de parto a 13 de Mayo de 1231, e naõ deixou sucessaõ
-alguma, como bem mostra D. Joseph Barbosa contra o Bispo Caramuel. Está
-sepultada esta Infanta em Ringstad.<a id="FNanchor_795" href="#Footnote_795" class="fnanchor">[794]</a></p>
-
-<p>4 <i>O Infante D. Fernando</i>, a quem chamaraõ o Infante de Serpa,
-porque foy Senhor desta Villa. Passou a Castella, e lá militou
-contra os Mouros valerosamente, por cujas acções ElRey D. Fernando
-o <i>Santo</i> o casou no anno de 1241 com a Senhora de Balvas Dona
-Sancha Fernandes de Lara, filha do Conde de Lara. Naõ consta de certo
-quando morreo, nem onde está enterrado.<a id="FNanchor_796" href="#Footnote_796" class="fnanchor">[795]</a></p>
-
-<p>5 Fóra do matrimonio teve o sobredito Rey a <i>D. Joaõ Affonso</i>, do
-qual naõ ha mais memoria, que a que se infere da inscripçaõ de huma
-sepultura collocada no Mosteiro de Alcobaça à porta do Capitulo da
-parte de fóra da banda esquerda, por onde consta que morrera no anno de
-1234.<a id="FNanchor_797" href="#Footnote_797" class="fnanchor">[796]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_385">[Pg 385]</span></p>
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Affonso III.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Branca</i> nasceo a 28 de Fevereiro de 1259 na
-Villa de Guimarães. Foy Senhora de Montemór o Velho, de Campo-Mayor, e
-de outras terras, e foy Abbadessa do Mosteiro de Lorvaõ, onde procedia
-com tanto exemplo, que lhe deraõ em Burgos o governo do Mosteiro das
-Huelgas, de cujo dominio, e obediencia pendiaõ doze Mosteiros. Naõ se
-sabe quando morreo.<a id="FNanchor_798" href="#Footnote_798" class="fnanchor">[797]</a></p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Fernando</i> naõ se sabe quando nasceo. Morreo ainda
-menino em Lisboa no anno de 1262, e jaz em Alcobaça.</p>
-
-<p>3 <i>O Infante D. Diniz</i> que succedeo na Coroa.</p>
-
-<p>4 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo a 8 de Fevereiro de 1263. Foy
-Senhor de Portalegre, Castello de Vide, Marvaõ, Arronches, e outras
-terras. Por desavenças, que teve com seu irmaõ ElRey D. Diniz,
-passou-se a Castella, e lá seguio a Corte, casando com a infanta Dona
-Violante Manoel, filha do infante D. Manoel, Senhor de Escalona, e
-filho do Santo D. Fernando III. Rey de Castella. Morreo em Lisboa
-a 2 de Novembro de 1312. Jaz em S. Domingos de Lisboa collocado em
-hum tumulo na parede por cima da porta, que hia do cruzeiro para a
-Sacristia.<a id="FNanchor_799" href="#Footnote_799" class="fnanchor">[798]</a></p>
-
-<p>5 <i>A Infanta Dona Sancha</i> nasceo a 2 de Fevereiro de 1264.
-Perfilhou-a sua tia Dona Constança Sanches, e lhe largou muitas terras,
-que possuia. Tendo naõ mais que cinco annos, foy com a Rainha sua
-mãy a Castella, e estando em Sevilha morreo no anno de 1302. Jaz em
-Alcobaça.<a id="FNanchor_800" href="#Footnote_800" class="fnanchor">[799]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_386">[Pg 386]</span></p>
-
-<p>6 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Novembro de 1265. Viveo
-Religiosa no Mosteiro das Donas de Santa Cruz de Coimbra, e aqui morreo
-com opiniaõ de santidade a 6 de Junho de 1304. Jaz em Santa Cruz de
-Coimbra.<a id="FNanchor_801" href="#Footnote_801" class="fnanchor">[800]</a></p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Vicente</i> nasceo a 22 de Janeiro de 1268. Morreu em
-Lisboa, e jaz em Alcobaça.<a id="FNanchor_802" href="#Footnote_802" class="fnanchor">[801]</a></p>
-
-<p>8 Além destes filhos teve fóra do matrimonio seguintes: <i>D. Affonso
-Diniz</i>, que nasceo de Maria Peres da Enxara, e casou com Dona Maria
-Ribeira, donde procedem os Sousas da Casa de Arronches.<a id="FNanchor_803" href="#Footnote_803" class="fnanchor">[802]</a></p>
-
-<p>9 <i>D. Martim Affonso Chichorro</i>. O Chronista Fr. Antonio Brandaõ,
-diz que a mãy deste Senhor fora huma filha do Alcaide, ou Governador
-de Faro, muito formosa, de quem nosso Rey D. Affonso se namorara; e
-que casando D. Martim na Casa dos Sousas, foy progenitor dos Sousas da
-Familia dos Marquezes das Minas; porém naõ assegura esta origem com
-certeza.<a id="FNanchor_804" href="#Footnote_804" class="fnanchor">[803]</a></p>
-
-<p>10 <i>D. Fernando Affonso</i>. Foy Cavalleiro Templario, e filho de
-Dona Chamoa Gomes, filha do Conde D. Gomes Nunes. Os Freires de Veles o
-mataraõ em Evora, e jaz sepultado na Igreja de S. Braz de Lisboa.<a id="FNanchor_805" href="#Footnote_805" class="fnanchor">[804]</a></p>
-
-<p>11 <i>D. Gil Affonso</i>. Foy tambem Cavalleiro Templario, e Ballio da
-Igreja de S. Braz de Lisboa, onde está sepultado.</p>
-
-<p>12 <i>D. Rodrigo Affonso</i>. Parece que Fr. Antonio Brandaõ dá a
-entender, que ElRey D. Affonso tivera dous filhos com este mesmo nome.
-Vejaõ-se os lugares citados.<a id="FNanchor_806" href="#Footnote_806" class="fnanchor">[805]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_387">[Pg 387]</span></p>
-
-<p>13 <i>Dona Leonor Affonso.</i> Foy esta Senhora casada duas vezes:
-a primeira com D. Estevaõ Annes, filho de D. Joaõ Garcia de Sousa,
-chamado o <i>Pinto</i>. Por morte de D. Estevaõ tornou a casar com D.
-Gonçalo Garcia de Sousa, Alferes Mór delRey D. Affonso, a quem tambem
-fez Conde. De nenhum destes matrimonios teve filhos Dona Leonor.<a id="FNanchor_807" href="#Footnote_807" class="fnanchor">[806]</a></p>
-
-<p>14 <i>Dona Urraca Affonso</i> casou com D. Pedro Annes, que governava a
-Provincia de Tras os Montes.<a id="FNanchor_808" href="#Footnote_808" class="fnanchor">[807]</a></p>
-
-<p>15 <i>Dona Leonor Affonso</i>. Foy Religiosa no Mosteiro de Santa Clara
-de Santarem, e alli resplandeceo em grandes actos de virtude.<a id="FNanchor_809" href="#Footnote_809" class="fnanchor">[808]</a></p>
-
-<p>16 <i>Dona Urraca Affonso</i>. Viveo, e morreo no Mosteiro de Lorvaõ
-em 4 de Novembro de 1281. Jaz no mesmo Convento em sepultura ha pouco
-descuberta.<a id="FNanchor_810" href="#Footnote_810" class="fnanchor">[809]</a> O grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa
-numera mais outro filho a ElRey D. Affonso III. e diz que foy o
-<i>Infante D. Henrique Affonso</i>, mas poem-no em duvida. O Padre D.
-Luiz de Lima<a id="FNanchor_811" href="#Footnote_811" class="fnanchor">[810]</a> entre os filhos bastardos deste Rey assina tambem a
-<i>D. Pedro Affonso</i>, de que naõ achamos noticia em outra parte.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos del Rey D. Diniz.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Constança</i> nasceo a 5 de Janeiro de 1290, e no
-de 1302 casou com D. Fernando IV. Rey de Castella, de que teve dous
-filhos, cuja descendencia se póde ver em D. Antonio Caetano de Sousa.
-Morreo a 18 de Novembro de 1313.<a id="FNanchor_812" href="#Footnote_812" class="fnanchor">[811]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_388">[Pg 388]</span></p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> successor.</p>
-
-<p>3 Teve mais fóra do matrimonio de differentes mulheres os seguintes
-filhos. <i>D. Affonso Sanches</i> nascido de Dona Aldonça Rodrigues
-Telha. Foy muito querido de seu pay, o qual o fez seu Mordomo Mór, e
-Senhor da Villa do Conde, e outras muitas terras. Esta nimia affeiçaõ
-causou tal inveja a seu irmaõ D. Affonso, que o perseguio fortemente
-depois que principiou a governar. Casou com Dona Teresa Martins,
-filha do Conde de Barcellos, e fundou com sua mulher o Mosteiro de
-Santa Clara da Villa do Conde, dotando-o grandiosamente. Faleceo
-no anno de 1329,e jaz sepultado no mesmo Mosteiro com opiniaõ de
-virtuoso. Ha tradiçaõ, que depois de morto apparecera com sua mulher às
-Religiosas do seu Mosteiro, animando-as em huma occasiaõ de guerra em
-Castella.<a id="FNanchor_813" href="#Footnote_813" class="fnanchor">[812]</a> Deste matrimonio descendem por allianças muitas Familias
-illustres deste Reino.</p>
-
-<p>4 <i>D. Pedro Affonso</i> havido em Dona Garcia Froyas, mulher de
-qualidade, natural de Torres Vedras. Foy o sobredito D. Pedro Conde de
-Barcellos, Alferes Mór do Reino, Mordomo Mór da Infanta Dona Brites, e
-possuio muitas terras, com cujo dominio, e rendas conservava huma casa
-magnifica. ElRey D. Diniz seu pay o estimava muito, e elle o merecia
-pelo seu valor, e letras. Compoz o celebre Nobiliario, em que descreve
-a origem de quasi todas as Familias de Hespanha, e he estimavel, por
-naõ haver outro deste genero mais antigo. Casou tres vezes, mas naõ
-teve descendencia. Morreo no anno de 1354, e jaz enterrado no Convento
-de S. Joaõ de Tarouca da Ordem de Cister. A estatura do seu corpo tinha
-de comprido onze palmos.<a id="FNanchor_814" href="#Footnote_814" class="fnanchor">[813]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_389">[Pg 389]</span></p>
-
-<p>5 <i>D. Pedro Affonso.</i> Este foy outro filho delRey D. Diniz, e
-casou com Dona Maria Mendes. Muitos se enganaraõ com este D. Pedro,
-fazendo-o Author do famoso Nobiliario, o que desfaz facilmente o
-insigne D. Antonio Caetano de Sousa.<a id="FNanchor_815" href="#Footnote_815" class="fnanchor">[814]</a></p>
-
-<p>6 <i>D. Joaõ Affonso</i>. Foy legitimado a 13 de Abril de 1317, e
-nascido de Maria Pires, mulher de qualidade. Foy Mordomo Mór da Rainha
-Santa Isabel, e ElRey D. Affonso, irmaõ deste D. Joaõ, o mandou
-degollar a 4 de Junho de 1325.<a id="FNanchor_816" href="#Footnote_816" class="fnanchor">[815]</a></p>
-
-<p>7 <i>D. Fernaõ Sanches</i>. ElRey seu pay lhe fez muitas mercês. Casou
-com Dona Froilhe Annes de Briteiros.</p>
-
-<p>8 <i>Dona Maria Affonso</i> havida em Dona Marinha Gomes, mulher nobre
-de Lisboa, e que fundou a Igreja de Santa Marinha. Casou com D. Joaõ de
-Lacerda, de quem houve descendencia.<a id="FNanchor_817" href="#Footnote_817" class="fnanchor">[816]</a></p>
-
-<p>9 <i>Dona Maria Affonso</i>. Foy Freira em Odivellas, e faleceo no anno
-de 1320 com opiniaõ de virtuosa.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Affonso IV.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Maria</i> nasceo no anno de 1313, e no de 1328
-casou com ElRey de Castella D. Affonso XI. a quem soffreo muitas
-desattenções originadas dos illicitos amores, que elle havia contrahido
-com Dona Leonor Nunes de Gusmaõ. Morto seu marido, voltou ella para
-Portugal, e em Evora faleceo a 18 de Janeiro de 1357, porém seu corpo
-foy trasladado para a Capella dos Reys em Sevilha, onde jaz junto
-delRey seu marido.<a id="FNanchor_818" href="#Footnote_818" class="fnanchor">[817]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_390">[Pg 390]</span></p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo no anno de 1315 na Villa de
-Penella, e morreo menino na mesma Villa. Jaz sepultado em S. Domingos
-de Santarem.<a id="FNanchor_819" href="#Footnote_819" class="fnanchor">[818]</a></p>
-
-<p>3 <i>O Infante D. Diniz</i> nasceo em Santarem a 12 de Janeiro de 1317,
-e dahi a hum anno morreo, e jaz em Alcobaça.</p>
-
-<p>4 <i>O Infante D. Pedro</i> successor.</p>
-
-<p>5 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo a 21 de Dezembro do anno de 1324,
-e dahi a dous annos morreo. Jaz no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.</p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Joaõ</i> nasceo a 23 de Setembro de 1326, e morreo a
-21 de Junho de 1327. Está sepultado em Odivellas.</p>
-
-<p>7 <i>A Infanta Dona Leonor</i> nasceo no anno de 1328, e no de 1347
-casou com ElRey de Aragaõ D. Pedro IV. Morreo na Villa de Exerica no
-ultimo de Outubro de 1348.<a id="FNanchor_820" href="#Footnote_820" class="fnanchor">[819]</a></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Pedro I.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Maria</i> nasceo a 6 de Abril de 1342 na Cidade
-de Evora. Casou na mesma Cidade a 3 de Fevereiro de 1354 com D.
-Fernando, Infante de Aragaõ; e passando-se para aquelle Reino, logrou
-poucos annos a uniaõ de seu marido, pois no de 1363 o mandou matar
-aleivosamente ElRey D. Pedro de Aragaõ seu irmaõ. Voltou a Infanta para
-Portugal, e vivendo na Villa de Aveiro, alli faleceo, e descançaõ suas
-cinzas no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.<a id="FNanchor_821" href="#Footnote_821" class="fnanchor">[820]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_391">[Pg 391]</span></p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Luiz</i> naõ teve mais que oito dias de vida.</p>
-
-<p>3 <i>O Infante D. Fernando</i> successor.</p>
-
-<p>4 De sua segunda mulher Dona Ignez de Castro teve os seguintes filhos.
-<i>O Infante D. Affonso</i> faleceo de tenra idade.</p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Joaõ</i> casou a primeira vez com Dona Maria Telles
-de Menezes no anno de 1376, irmã de sua cunhada; porém induzido por
-esta, que era a Rainha Dona Leonor, matou injustamente sua mulher, por
-cujo crime, passando-se a Castella, ElRey D. Henrique II. o fez Conde
-de Valença, e lhe deu o senhorio de outras terras, e sua filha bastarda
-Dona Constança, com quem casou. Morto seu irmaõ ElRey D. Fernando,
-temendo-se ElRey D. Joaõ de Castella, que pertendia o Reino de Portugal
-pela Rainha Dona Brites sua mulher, que levantassem os Portuguezes por
-seu Rey ao infante D. Joaõ, o mandou prender, e na prisaõ morreo. Jaz
-no Convento de Santo Estevaõ de Salamanca.<a id="FNanchor_822" href="#Footnote_822" class="fnanchor">[821]</a></p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Diniz</i>. Por naõ querer beijar a maõ a sua cunhada
-a Rainha Dona Leonor, sahio de Portugal, e passou-se para Castella,
-onde ElRey D. Henrique o casou com huma filha bastarda, chamada
-Dona Joanna. Jaz no Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe, em cuja
-sepultura se lê o titulo de Rey de Portugal pela pertençaõ, que tinha
-ao Reino.<a id="FNanchor_823" href="#Footnote_823" class="fnanchor">[822]</a></p>
-
-<p>8 Fóra do matrimonio teve a <i>D. Joaõ</i>, Mestre</p>
-
-<p>7 <i>A Infanta Dona Brites</i> casou no anno de 1377 com D. Sancho,
-Conde de Albuquerque, filho bastardo delRey D. Affonso XI. de Castella,
-donde procede huma dilatada, e Real descendencia. Está sepultada na Sé
-de Burgos.<a id="FNanchor_824" href="#Footnote_824" class="fnanchor">[823]</a></p>
-
-<p>8 Fóra do matrimonio teve a D. Joaõ, Mestre<span class="pagenum" id="Page_392">[Pg 392]</span> de Aviz, havido em huma
-nobre Senhora de Galiza, chamada Dona Teresa Lourenço, e depois foy
-Rey.<a id="FNanchor_825" href="#Footnote_825" class="fnanchor">[824]</a></p>
-
-<p>9 Teve ElRey D. Pedro mais outra filha bastarda, a que naõ se sabe o
-nome, mas consta que se criara no Mosteiro de Santa Clara de Coimbra.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Fernando.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Infante D. Pedro</i>, que morreo menino.</p>
-
-<p>2 <i>O Infante D. Affonso</i> tambem morreo de pouca idade.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta D. Brites</i> nasceo em Coimbra no anno de 1372. Casou
-a 14 de Mayo de 1383 na Cidade de Badajoz com ElRey D. Joaõ I. de
-Castella, precedendo dispensa Pontificia no gráo do parentesco, que
-havia entre os esposos, e celebrando-se esta funçaõ com grande pompa, e
-magnificencia. Pouco durou esta uniaõ, porque morrendo ElRey no anno de
-1390, ficou a Rainha Dona Brites sem filhos, e desamparada de parentes,
-e amigos em Portugal, e Castella. Em Portugal, porque ElRey D. Joaõ I.
-seu tio havia tomado posse do Reino, contrariando para mayor força a
-sua legitimidade; e em Castella era mal aceita por causa das guerras,
-que entaõ houve na pertençaõ de Portugal. Sem embargo desta afflicçaõ,
-em que se via, considerando-se na flor dos seus annos, e formosissima,
-sendo procurada para segundas vodas pelo Duque de Austria, foy esta
-Princeza taõ virtuosa, e prudente, que mandou dizer aos Embaixadores,
-que as mulheres como ella naõ casavaõ duas vezes; de cuja<span class="pagenum" id="Page_393">[Pg 393]</span> resposta
-ficaraõ admirados. Morreo em fim na Villa de Madrigal.<a id="FNanchor_826" href="#Footnote_826" class="fnanchor">[825]</a></p>
-
-<p>4 Fóra do matrimonio teve a <i>Dona Isabel</i>, que nasceo no anno de
-1364, e no de 1378 casou em Burgos com D. Affonso, Conde de Gijon,
-e Noronha, filho bastardo delRey D. Henrique II. de Castella. Deste
-matrimonio procedem muitas Familias illustres deste nosso Reino, os
-Condes de Monsanto, Marquezes de Cascaes, os Condes de Valladares, os
-de Arcos, os de Villa Verde, os Marquezes de Angeja, os de Marialva,
-os Condes de Cantanhede, os Senhores de Ilhavo, etc. Por morte de seu
-marido voltou esta Senhora para Portugal, onde seu tio ElRey D. Joaõ I.
-lhe fez muitas mercês.<a id="FNanchor_827" href="#Footnote_827" class="fnanchor">[826]</a></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ I.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Branca</i> nasceo em Lisboa a 13 de Julho de
-1388, e morreo no de 1389. Jaz na Basilica de Santa Maria, antiga
-Metropolitana de Lisboa, junto delRey D. Affonso IV. seu bisavô.</p>
-
-<p>2. <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo em Santarem a 30 de Julho de
-1390. Foy jurado successor do Reino. Viveo dez annos, porque faleceo
-a 22 de Dezembro de 1400. Jaz na Cathedral de Braga em hum tumulo de
-bronze dourado, que lhe mandou de Borgonha a Infanta Dona Isabel sua
-irmã.<a id="FNanchor_828" href="#Footnote_828" class="fnanchor">[827]</a></p>
-
-<p>3 <i>O Infante D. Duarte</i> successor.</p>
-
-<p>4 <i>O Infante D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 9 de<span class="pagenum" id="Page_394">[Pg 394]</span> Dezembro de
-1392. Foy Duque de Coimbra, e Senhor de Montemór o Velho, e outras
-terras do Infantado. Casou com Dona Isabel de Aragaõ, filha do Conde
-de Urgel D. Jayme II. no anno de 1429. Foy este Principe illustre na
-paz, e na guerra. No anno de 1424 sahio de Portugal, e fazendo huma
-larga peregrinaçaõ na companhia de alguns Fidalgos, vio as Cortes
-dos principaes Soberanos da Europa, Africa, e Asia. Na do Imperador
-Sigismundo se demorou mais tempo, a quem ajudou na guerra contra os
-Turcos. Naõ foy só excellente na disciplina militar, porque tambem
-cultivou o seu engenho com as letras divinas, e humanas, e foy perito
-nas linguas estrangeiras, e versado nas artes liberaes. Ficou por
-tutor delRey D. Affonso V. seu sobrinho, e no governo do Reino se
-houve com singular prudencia, mas com inveja de muitos emulos, cuja
-ambiçaõ nunca pode saciar. Sahindo ElRey da idade pupilar, e tomando
-o governo do seu Reino, em lugar das graças, que houvera de dar ao
-Infante seu tutor, tio, e sogro, o desterrou; e pelas calumnias de seu
-irmaõ D. Affonso, Conde de Barcellos, e de outros seus inimigos, vindo
-o Infante a Santarem para se desculpar, ElRey lhe sahio ao encontro
-com hum exercito. Poz-se o Infante em natural defensa com alguma gente
-da sua facçaõ, deu-se a vergonhosa batalha chamada da Alfarrobeira,
-e nella foy morto o Infante atrevidamente do tiro de huma destinada
-setta a 20 de Mayo de 1449. Foy sepultado na igreja de Alverca, e daqui
-trasladaraõ o corpo para Abrantes, depois para Santo Eloy de Lisboa, e
-de Lisboa para a Batalha, onde jaz. Teve seis filhos, que foraõ: <i>D.
-Pedro</i>, Condestavel de Portugal, e acclamado Rey de Aragaõ. <i>D.
-Joaõ</i>, chamado de Coimbra. <i>Dona Isabel</i>, Rainha de Portugal,
-mulher delRey D. Affonso V. <i>Dona Brites</i>, que casou em Flandes
-com Adolfo de Cleves, Senhor de Revestein. <i>Dona Filippa</i>, que<span class="pagenum" id="Page_395">[Pg 395]</span>
-morreo recolhida em Odivellas. <i>D. Jayme</i>, Arcebispo de Lisboa, e
-depois Cardeal do titulo de Santo Eustaquio.<a id="FNanchor_829" href="#Footnote_829" class="fnanchor">[828]</a></p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Henrique</i> nasceo na Cidade do Porto a 4 de Março
-de 1394. Foy Duque de Viseu, e Mestre da Ordem Militar de Christo, em
-gloria da qual peleijou contra os infieis em muitas occasiões, dando
-sempre mostras de seu grande valor. Desde a flor dos seus primeiros
-annos se applicou tanto às Mathematicas, que a puras contemplações, e
-igual constancia de quarenta annos, emprendendo novos descubrimentos
-de Ceos, terras, e climas differentes, deu a conhecer ao mundo o que
-o mesmo mundo ignorava. Além de tanto valor, e sciencia era dotado
-de hum heroico espirito, vida santa, e pura, até que acabou como
-virtuoso em Sagres do Reino do Algarve a 13 de Novembro de 1460. Jaz na
-Batalha.<a id="FNanchor_830" href="#Footnote_830" class="fnanchor">[829]</a></p>
-
-<p>6 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Evora a 21 de Fevereiro de
-1397, e a 10 de Janeiro de 1430 se recebeo com D. Filippe III. o
-<i>Bom</i>, Duque de Borgonha, e Conde de Flandes, em cujo dia, para
-que fosse celebrado com mayor solemnidade, instituio o Duque a Ordem
-Militar do Tusaõ de ouro na Cidade de Bruges, onde se festejaraõ as
-vodas com huma rara, e extraordinaria magnificencia. Teve esta Princeza
-tal dom de conselho, que nenhuma acçaõ executava seu marido sem o seu
-parecer, ainda nas resoluções militares; porque além do grande juizo,
-e prudencia, existia nella hum valor verdadeiramente varonil, como em
-algumas occasiões o mostrou. Morreo a 17 de Dezembro de 1471, e jaz no
-Convento da Cartuxa de Dijon,<span class="pagenum" id="Page_396">[Pg 396]</span> Cidade capital daquelle Estado.<a id="FNanchor_831" href="#Footnote_831" class="fnanchor">[830]</a></p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. João</i> nasceo em Santarem a 13 de Janeiro de 1400.
-Casou no anno de 1424 com a Infanta Dona Isabel sua sobrinha, e filha
-de D. Affonso, primeiro Duque de Bragança, seu irmaõ. Era o Infante
-terceiro Condestavel de Portugal, Mestre da Ordem de Santiago, e
-Principe muy prudente, valeroso, e bemquisto de todos. Morreo na Villa
-de Alcacer do Sal a 18 de Outubro de 1442, e jaz no Templo da Batalha
-na mesma Capella delRey seu pay.</p>
-
-<p>8 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Santarem a 29 de Setembro de
-1402. Foy Mestre de Aviz com o titulo de Administrador, e Governador
-perpetuo da dita Ordem. A sua vida sempre foy de procedimento naõ só
-inculpavel, mas exemplar, pelo continuo exercicio de virtudes, com que
-se fazia amado de todos. Sendo dado em refens aos Mouros até lhes ser
-entregue a Cidade de Ceuta por concerto, que os Portuguezes fizeraõ com
-os barbaros na infeliz jornada de Tangere em tempo delRey D. Duarte,
-padeceo ignominias, e injurias naquelle cativeiro com huma paciencia
-santa, até que morreo depois de seis annos de escravidaõ a 5 de Junho
-de 1443. obrando Deos por intercessaõ deste Santo Infante muitos
-prodigios. Jaz no Convento da Batalha.<a id="FNanchor_832" href="#Footnote_832" class="fnanchor">[831]</a><a id="FNanchor_833" href="#Footnote_833" class="fnanchor">[832]</a></p>
-
-<p>9 Sendo ElRey D. Joaõ ainda Mestre de Aviz teve antes de casar o
-<i>Senhor D. Affonso</i>, primeiro Duque de Bragança, que nasceo no
-Castello de<span class="pagenum" id="Page_397">[Pg 397]</span> Veiros do Alentejo no anno de 1370, e havido em Dona Ignez
-Pires, mulher nobre, a qual depois foy Commendadeira de Santos. Casou
-a 8 de Novembro de 1401 com a Senhora Dona Brites Pereira, Condessa
-de Barcellos, filha unica do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, de
-cujo feliz consorcio descende, como de tronco glorioso, a Serenissima
-Casa de Bragança hoje reinante. Morreo na Villa de Chaves em o mez
-de Dezembro de 1461. Foy sepultado na Igreja dos Capuchos da mesma
-Villa.<a id="FNanchor_834" href="#Footnote_834" class="fnanchor">[833]</a></p>
-
-<p>10 <i>A Senhora Dona Brites</i> naõ se sabe quando nasceo; porém
-casou a 26 de Novembro de 1405 com Thomaz Fitz, Conde de Arundel em
-Inglaterra, onde foy esta Senhora recebida com pomposa magnificencia.
-Deste casamento naõ teve successaõ, e pela morte de seu marido passou
-a segundas vodas no anno de 1415 com Gilberto Talbot, Baraõ de
-Irchenfield, de que tambem ficou viuva no anno de 1419. Ignora-se o
-anno, em que morreo.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Duarte.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Infante D. Joaõ</i> nasceo em Lisboa em Outubro de 1429, e
-morreo de tenra idade.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Dona Filippa</i> nasceo em Santarem a 27 de Novembro de
-1430, e morreo a 24 de Março de 1439 ameaçada de peste.</p>
-
-<p>3 <i>O Principe D. Affonso</i> successor.</p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 7 de Dezembro de 1432 na Villa
-do Sardoal, e naõ teve mais que hum dia de vida.</p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Almeirim<span class="pagenum" id="Page_398">[Pg 398]</span> a 17 de Novembro de
-1433, e no de 1438 foy jurado Principe successor do Reino. Era Duque
-de Viseu, Condestavel do Reino, Senhor de Béja, e de outras muitas
-terras. Casou nas Alcaçovas com a Infanta Dona Brites, filha de seu
-tio o Infante D. João no anno de 1447. Como o Infante era de elevados
-espiritos, sahio do Reino occultamente, e foy ter a Ceuta com a idéa
-de ser alli Fronteiro; porém ElRey D. Affonso seu irmaõ o fez voltar
-ao Reino, e depois se servio do seu valor na jornada, e expugnaçaõ de
-Africa. Morreo em Setubal a 18 de Setembro de 1470, e jaz no Mosteiro
-da Conceiçaõ de Béja, que a infanta sua mulher fundara. Desta Real
-uniaõ nasceraõ o<i>Senhor D. Joaõ</i>, o <i>Senhor D. Diogo</i>, o
-<i>Senhor D. Duarte</i>, o <i>Senhor Rey D. Manoel</i>, a <i>Rainha
-Dona Leonor</i>, a <i>Duqueza Dona Isabel</i>, communicando-se tambem
-por via deste casamento o Regio sangue dos Serenissimos Senhores Duques
-de Bragança a quasi todos os soberanos Principes da Europa.<a id="FNanchor_835" href="#Footnote_835" class="fnanchor">[834]</a></p>
-
-<p>6 <i>Infanta Dona Leonor</i> nasceo em Torres Vedras a 18 de Setembro
-do anno 1434. Casou com o Imperador Federico III. no anno de 1451,
-e a 16 de Março de 1452 o Papa Nicoláo V. a recebeo em Roma, e a
-coroou Imperatriz a 19 do mesmo mez; e passando depois a Alemanha, foy
-coroada Rainha de Hungria, e Bohemia. Foy esta Princeza igualmente
-muito formosa, e discreta, cujos predicados fazia realçar mais com
-huma singular modestia, que era o atractivo de todos a amarem, e
-respeitarem. Faleceo em Neustadt a 3 de Setembro de 1467. Jaz no
-Mosteiro de Cister da mesma Cidade.<a id="FNanchor_836" href="#Footnote_836" class="fnanchor">[835]</a></p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Duarte</i> nasceo em Alenquer a 12 de Julho de 1435,
-e morreo de tenra idade.</p>
-
-<p>8 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo a 25 de Novembro<span class="pagenum" id="Page_399">[Pg 399]</span> de 1435.
-Esteve desposada com D. Carlos, Principe de Navarra, e com ElRey de
-Inglaterra Duarte IV. mas nenhum casamento se effetuou. Foy Princeza de
-muitas virtudes, e com tanta applicaçaõ ao exercicio das letras, que
-chegou a traduzir em Portuguez o livro da perfeiçaõ dos Monges, que
-em Latim compoz S. Lourenço Justiniano. Morreo no Mosteiro de Santa
-Clara de Lisboa com opiniaõ de virtuosa aos 17 de Junho de 1463. Jaz no
-Convento de Santo Eloy desta Cidade.<a id="FNanchor_837" href="#Footnote_837" class="fnanchor">[836]</a></p>
-
-<p>9 <i>A Infanta Dona Joanna</i> nasceo no fim de Março de 1439 na quinta
-do Monte Olivete da Villa de Almada. Casou com Henrique IV. de Castella
-a 21 de Mayo de 1455. Foy muito formosa, e naturalmente alegre, e
-esperta, donde se lhe originaraõ as calumnias, de que a arguiraõ. Teve
-huma unica filha, que foy a Princeza Dona Joanna, jurada herdeira de
-Castella, a quem a fortuna, que lhe usurpou o Reino, contentou com
-o nome de <i>Excellente Senhora</i>. Morreo a Rainha Dona Joanna em
-Madrid a 13 de Junho de 1475. Foy sepultada no Mosteiro de S. Francisco
-da mesma Villa, cuja sepultura está hoje desfeita.<a id="FNanchor_838" href="#Footnote_838" class="fnanchor">[837]</a></p>
-
-<p>10 Ainda que Manoel de Faria tem por certo que ElRey D. Duarte naõ
-tivera mais filhos fóra do matrimonio, os Genealogicos mais indagadores
-affirmaõ, que tivera a <i>D. João Manoel</i>, nascido de Dona Joanna
-Manoel, Dama da Rainha Dona Leonor. Criou-se em casa do inconquistavel,
-e grande D. Nuno Alvares Pereira, e de quatorze annos tomou o habito
-da Religiaõ do Carmo em Lisboa, e aqui foy Prior, e Provincial, donde
-a merecimentos das suas virtudes foy elevado à dignidade de Bispo de
-Ceuta, depois Bispo da Guarda. ElRey D. Affonso V. seu irmaõ o fez
-tambem seu Capellaõ<span class="pagenum" id="Page_400">[Pg 400]</span> Mór, e se aproveitou muito da sua prudencia,
-virtude, e conselhos. Morreo em Lisboa, e jaz no Convento do Carmo da
-mesma Cidade na Casa do Capitulo velho, como nos mostra o moderno, e
-insigne Chronista desta Religiaõ; e naõ na Sé de Lisboa, como escreve o
-Author da Corografia Portugueza.<a id="FNanchor_839" href="#Footnote_839" class="fnanchor">[838]</a> Daqui procedem os illustrissimos
-Condes de Atalaya.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Affonso V.</i></h3>
-
-
-<p>1 O <i>Principe D. Joaõ</i> nasceo em Cintra a 29 de Janeiro do anno de
-1451, e morreo de tenra idade.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Beata Joanna</i> nasceo em Lisboa a 6 de Fevereiro de
-1452. Foy de singular virtude, e admiravel formosura, por cujas prendas
-muitos Principes a pertenderaõ para esposa; mas repudiando a todos,
-viveo em perpetua castidade. Consagrando-se toda a Deos, tomou o habito
-de Religiosa de S. Domingos no Mosteiro de Jesus de Aveiro no anno de
-1475, onde vivendo dezoito annos em continuo exercicio de todas as
-virtudes, em que floreceo, acabou o circulo dos seus dias neste mundo
-a 12 de Mayo de 1490. Jaz sepultada no mesmo Mosteiro em hum primoroso
-tumulo, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. para onde se
-trasladaraõ as veneraveis Reliquias em 22 de Outubro de 1711, por
-ordem delRey D. Joaõ V. O mesmo Senhor D. Pedro II. alcançou do Papa
-Innocencio XI. o culto de Beata desde 4 de Abril do anno de 1693.<a id="FNanchor_840" href="#Footnote_840" class="fnanchor">[839]</a></p>
-
-<p>3 <i>O Principe D. Joaõ</i> successor.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_401">[Pg 401]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ II.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Principe D. Affonso</i> nasceo em Lisboa a 18 de Mayo do anno
-1475. Casou com a Princesa Dona Isabel, filha delRey D. Fernando
-o <i>Catholico</i>, a 23 de Novembro de 1490. Nas suas vodas se
-fizeraõ as mayores festas, e demonstrações de alegria em variedade de
-espectaculos, profusaõ monstruosa de manjares, e invenções exquisitas
-de bailes, quaes nunca se viraõ, nem ouviraõ; porém como se toda
-aquella magnificencia, divertimento, e grandeza fora feita por jogo, e
-brinco da fortuna, dentro de poucos dias se mudou em subitos prantos, e
-lutos, porque este Principe na florida idade de dezaseis annos, casado
-de sete mezes, cahindo de hum cavallo, em que risonho corria pelas
-margens do Tejo junto a Santarem, se fez em pedaços; e deitado sobre a
-humilde cama de feno na choça de hum pobre pescador, exhalou a alma a
-13 de Julho de 1491, nos braços delRey seu Pay, da Rainha sua Mãy, e da
-Princeza sua Esposa, desfeitos todos em lagrimas, e sentimento por taõ
-lastimosa fatalidade. Jaz na Batalha na Casa do Capitulo.<a id="FNanchor_841" href="#Footnote_841" class="fnanchor">[840]</a></p>
-
-<p>2 Teve fóra do matrimonio a <i>D. Jorge</i>, que nasceo em Abrantes a
-12 de Agosto de 1481. Foy sua mãy Dona Anna de Mendonça, Dama da Rainha
-Dona Joanna, e Senhora muito nobre, e taõ estimada, e querida delRey,
-que a seu respeito (diz o Author do Anno Historico) mandou erigir o
-Mosteiro de Santos o Novo, e a nomeou Commendadeira<span class="pagenum" id="Page_402">[Pg 402]</span> perpetua, onde
-faleceo virtuosamente no anno de 1545. Naõ foy menor o amor, que ElRey
-teve a este filho, o qual se criou em casa da Senhora Dona Joanna sua
-tia; e falecendo esta Princeza, o trouxe para o Paço a Rainha sua
-madrasta, e o conduzio a Evora, onde ElRey estava, o Bispo do Porto.
-Foy esperallo fóra da Cidade o Principe Affonso seu irmaõ com toda a
-Nobreza, mandou-o seu pay tratar de Excellencia, mas por lisonja lhe
-fallavaõ por Alteza. Quiz ElRey deixallo por successor do Reino, ao
-que se oppoz a Rainha, por ser em prejuizo de seu irmaõ D. Manoel, a
-quem de direito tocava, e tambem naõ quiz vir nisso o Papa Alexandre
-VI. havendo por esta causa grandes discordias entre ElRey, e a Rainha.
-Mas como ElRey naõ pode conseguir o que desejava, fez a D. Jorge o
-mayor Senhor, que havia em Hespanha, porque quiz que succedesse aos
-bens de seu bisavô o infante D. Pedro, e assim ficou sendo Duque de
-Coimbra, Senhor de Montemór o Velho, Marquez de Torres Novas, Mestre
-das Ordens de Santiago, e Aviz, e Senhor de outras muitas rendas. Morto
-ElRey, foraõ muitos Fidalgos a Villa-Nova buscar o Senhor D. Jorge, e
-o conduziraõ a Montemór o Novo, onde estava ElRey D. Manoel. Foy logo
-em direitura apearse ao Paço vestido de burel, e assim subio a beijar
-a maõ a ElRey; e o Prior do Crato D. Diogo de Almeida, que era seu
-Ayo, pegando-lhe pela maõ, se pozeraõ ambos de joelhos, e o entregou
-a ElRey seu tio, fazendo-lhe huma eloquente oraçaõ, em que lhe dizia
-como ElRey defunto lho deixara encommendado. ElRey D. Manoel lhe fez
-grandes honras, e lhe deu casa no Paço. Contava já o Senhor D. Jorge
-vinte annos de idade, quando ElRey o casou com Dona Brites de Vilhena,
-filha de D. Alvaro, irmaõ do Duque de Bragança D. Fernando II. e deste
-matrimonio descende a illustre Familia dos Alencastres.<span class="pagenum" id="Page_403">[Pg 403]</span> Morreo o
-Senhor D. Jorge no anno de 1550, e jaz no Convento de Palmella.<a id="FNanchor_842" href="#Footnote_842" class="fnanchor">[841]</a></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Manoel.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Principe D. Miguel da Paz</i> foy filho da primeira mulher a
-Rainha Dona Isabel. Nasceo na Cidade de Saragoça a 24 de Agosto de
-1498. Foy jurado Principe herdeiro de Castella, e de Portugal. Naõ
-viveo mais que dous annos, porque a 20 de Junho de 1500 expirou na
-mesma Cidade, onde jaz.</p>
-
-<p>2 <i>O Principe D. Joaõ</i>, filho da segunda mulher a Rainha Dona
-Maria, foy successor do Reino.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Lisboa a 24 de Outubro de
-1503. Foy rara a formosura, com que a dotou a natureza. Casou em
-Sevilha com o Imperador Carlos V. a 11 de Março de 1526. As suas
-virtudes foraõ mayores que os seus elogios, e estes foraõ innumeraveis.
-Adoeceo em Toledo, e aqui expirou no primeiro de Mayo de 1539. Foy
-conduzido o cadaver da imperatriz pelo Marquez de Lombay a ser
-sepultado na Cathedral da Cidade de Granada; e como fosse preciso para
-aquella entrega abrirse o caixaõ, chegando-se o Marquez a tirar a
-toalha, que cubria o macilento rosto, vendo-o taõ demudado, e espantoso
-à vista, foy causa do prodigioso desengano do Marquez, porque dalli se
-converteo em hum S. Francisco de Borja, cujo resplandor de virtudes
-illustrou tanto a Companhia de Jesus. No mesmo dia desta portentosa
-transformaçaõ,<span class="pagenum" id="Page_404">[Pg 404]</span> que foy a 7 de Mayo do sobredito anno, vio a grande
-serva de Deos Soror Francisca de Jesus, Abbadessa do Mosteiro de
-Gandia, estando em oração, sahir do Purgatorio a alma da Imperatriz
-assistida de alguns Anjos. A 4 de Fevereiro de 1574 foy trasladado
-o corpo para o Escurial, onde jaz. Deste consorcio nasceo ElRey D.
-Filippe II.<a id="FNanchor_843" href="#Footnote_843" class="fnanchor">[842]</a></p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Brites</i> nasceo em Lisboa a 31 de Dezembro de
-1504. Casou com Carlos III. Duque de Saboya a 29 de Setembro de 1521.
-Foy esta Princeza ornada de grandes virtudes, pelas quaes era muito
-amada de seu esposo, e tida por huma singular Heroina daquelles tempos.
-Morreo em Niza, Cidade de Saboya, a 8 de Janeiro de 1538.<a id="FNanchor_844" href="#Footnote_844" class="fnanchor">[843]</a></p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Luiz</i> nasceo em Abrantes a 3 de Março de 1506. Foy
-este Principe Duque de Béja, Condestavel de Portugal, Administrador do
-Priorado do Crato, e ornado de tantas virtudes, que, como diz Damiaõ
-de Goes, para a natureza cumprir de todo com os dotes, que lhe deu,
-lhe havia de conceder tambem occasiões para poder conquistar mayores
-Reinos, e Senhorios do que Alexandre, porque para a execuçaõ disso lhe
-sobejou animo. Assim se vio na famosa expediçaõ, e conquista de Tunes,
-que o Imperador Carlos V. seu cunhado fez no anno de 1535, onde se
-achou o Infante D. Luiz governando o celebre Galeaõ <i>Botafogo</i>,
-e Armada auxiliar, que ElRey D. Joaõ III. mandou ao Imperador,
-devendo-se à animosa deliberaçaõ do Infante cortarse a fortissima
-cadea, que atravessava o porto da Goleta, de que tanta gloria se
-seguio à Christandade, credito à Naçaõ Portugueza, e fama ao valor
-do Infante. Além destas prendas teve<span class="pagenum" id="Page_405">[Pg 405]</span> hum sublime engenho, que com o
-exercicio das artes liberaes, ensinadas pelo grande Mestre Pedro Nunes,
-soube adquirir hum lugar eminente na Republica das letras. Na Religiaõ
-foy exemplar, e taõ pio, como o testifica o Mosteiro das Maltezas de
-Estremoz, que elle edificou, e outras acções de caridade. Finalmente
-faleceo na quinta de Marvilla junto a Lisboa a 27 de Novembro de 1555,
-e jaz em Belém. De Violante Gomes, chamada a <i>Pelicana</i>, donzella
-humilde, mas de rara formosura, a qual morreo professa no Mosteiro de
-Almoster, teve ao <i>Senhor D. Antonio</i>, que foy Prior do Crato.<a id="FNanchor_845" href="#Footnote_845" class="fnanchor">[844]</a></p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo em Abrantes a 5 de Junho de
-1507. Foy Duque da Guarda, e Principe de condiçaõ sincera, muito
-animoso, amigo da verdade, e dizia o que entendia sem o rebuço da
-politica adulaçaõ. Foy muito dado à lição da Historia verdadeira,
-e naõ fabulosa, e por ajuntar quantas Chronicas havia escritas em
-qualquer lingua que fosse, gastou grosso cabedal. Mandou fazer huma
-arvore genealogica illuminada pelo mais insigne Pintor, que havia
-em Flandes, e constava desde Noé até ElRey D. Manoel seu pay. Casou
-com Dona Guiomar Coutinho, filha herdeira do Conde de Marialva D.
-Francisco Coutinho, e morreo em Abrantes a 7 de Novembro de 1534. Jaz
-em Belém.<a id="FNanchor_846" href="#Footnote_846" class="fnanchor">[845]</a></p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Affonso</i> nasceo em Evora a 23 de Abril de 1509.
-O Papa Leaõ X. o creou Cardeal<span class="pagenum" id="Page_406">[Pg 406]</span> Diacono de Santa Luzia. Foy Bispo da
-Guarda, e de Viseu, Arcebispo de Lisboa, e o primeiro Prelado, que
-nestes Reinos ordenou se lesse o Cathecismo da Doutrina christã nas
-Igrejas aos meninos, e que nas Paroquias houvesse livros, onde se
-assentassem, e escrevessem os nomes dos bautizados, e casados, sendo
-elle o que muitas vezes conferia estes, e os mais Sacramentos com
-grande caridade. Foy muito dado à lição dos livros, e teve por Mestres
-aos insignes Ayres Barbosa, e Pedro Margalho. Morreo em Lisboa a 21 de
-Abril de 1540, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_847" href="#Footnote_847" class="fnanchor">[846]</a></p>
-
-<p>8 <i>O Infante D. Henrique</i>, Cardeal, que succedeo no Throno.</p>
-
-<p>9 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo conforme a conjectura do
-incansavel D. Joseph Barbosa entre o anno de 1511, e 1513. Morreo em
-Evora no anno de 1513 e jaz em Belém.<a id="FNanchor_848" href="#Footnote_848" class="fnanchor">[847]</a></p>
-
-<p>10 <i>O Infante D. Duarte</i> nasceo em Lisboa a 7 de Setembro de 1515.
-Desde os primeiros annos foy muito inclinado às letras, nas quaes
-fez bons progressos, ajudado da portentosa memoria, que tinha, e das
-bem ordenadas instrucções de seu Mestre o celebrado, e erudito André
-de Resende. Na musica foy destro, e sciente, e no exercicio da caça
-incansavel. Casou em Villa Viçosa a 23 de Abril de 1537 com a Senhora
-Dona Isabel, filha de D. Jayme, quarto Duque de Bragança, de cujo
-matrimonio nasceraõ a Senhora <i>Dona Maria</i>, Princeza de Parma, e
-a Senhora <i>Dona Catharina</i>. Antes deste Infante falecer, predisse
-elle mesmo o dia da sua morte, que foy a 20 de Outubro de 154O. Jaz em
-Belém.<a id="FNanchor_849" href="#Footnote_849" class="fnanchor">[848]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_407">[Pg 407]</span></p>
-
-<p>11 <i>O Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 9 de Setembro de
-1516. Morreo logo, e jaz em Belém. Deste parto ficou a Rainha Dona
-Maria taõ mal, que tambem faleceo dahi a pouco tempo; e tornando ElRey
-D. Manoel a casar com a Rainha Dona Leonor, teve della</p>
-
-<p>12 <i>O Infante D. Carlos</i>, que nasceo em Evora a 18 de Fevereiro de
-1520. Morreo em Lisboa a 15 de Abril de 1521, e jaz em Belém.</p>
-
-<p>13 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Lisboa a 8 de Junho de 1521.
-Era Princeza, que em gentileza, e virtudes excedeo as melhores do
-seu tempo. Seu Palacio era huma universidade de mulheres singulares
-em letras, e outras artes de engenho, a quem presidia a famosa Dama
-Toledana, chamada Luiza Sigea, cuja erudiçaõ fez aturdir a Europa.
-Fundou o Mosteiro de Nossa Senhora da Luz, huma legua distante de
-Lisboa, e o sumptuso Hospital alli vizinho: o Mosteiro da Incarnaçaõ de
-Commendadeiras de Aviz em Lisboa, e em Evora o Mosteiro de Santa Helena
-do Monte Calvario, e em Torres Vedras o Convento de Nossa Senhora dos
-Anjos para os Religiosos Arrabidos, alcançando da Sé Apostolica para
-esta Igreja o Jubileo da Porciuncula <i>in perpetuum</i>. Morreo a 10
-de Outubro de 1577. Jaz no Convento da Luz.<a id="FNanchor_850" href="#Footnote_850" class="fnanchor">[849]</a></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ III.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Principe D. Affonso</i> nasceo em Almeirim a 24 de Fevereiro de
-1526. Faleceo passados poucos dias, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_851" href="#Footnote_851" class="fnanchor">[850]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_408">[Pg 408]</span></p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Coimbra a 15 de Outubro de
-1527. Casou com D. Filippe, Principe de Castella, e se celebraraõ as
-vodas em Salamanca a 15 de Novembro de 1543. Morreo de parto a 12 de
-Julho de 1545, estando em Valhadolid. Jaz no Escurial.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo em Lisboa a 28 de Abril de 1529.
-Morreo de poucos mezes, e jaz em Belém.</p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Brites</i> nasceo em Lisboa a 15 de Fevereiro de
-1530, e morreo de tenra idade. Jaz em Belém.</p>
-
-<p>5 <i>O Principe D. Manoel</i> nasceo em Alvito no primeiro de Novembro
-de 1531. Faleceo em Evora a 14 de Abril de 1537, e jaz em Belém.</p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Filippe</i> nasceo em Evora a 25 de Março de 1533.
-Foy jurado Principe herdeiro do Reino. Viveo pouco, porque faleceo a
-29 de Abril de 1539. Jaz em Belém na mesma sepultura de seu irmaõ D.
-Affonso.</p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Diniz</i> nasceo em Evora a 26 de Abril de 1535, e na
-mesma Cidade morreo no primeiro de Janeiro de 1537. Jaz em Belém.</p>
-
-<p>8 <i>O Principe D. Joaõ</i> nasceo em Evora a 3 de Junho de 1537. Foy
-jurado Principe herdeiro nas Cortes, que se celebraraõ em Almeirim a 30
-de Março de 1544. Casou com a Princeza Dona Joanna de Austria, filha do
-Imperador Carlos V. e se recebeo por procuraçaõ na Cidade de Toro a 11
-de Janeiro de 1552, e no fim de Novembro do mesmo anno entrou por Elvas
-em Portugal. Gil Gonzales Davila faz honorifica memoria desta Princeza
-no cap. 9. das Grandezas de Madrid, mas discreta na Chronologia, que
-seguimos. Deste augusto thalamo nasceo <i>D. Sebastiaõ</i> que sendo
-Principe de esperanças, depois foy Rey de pouca ventura. Morreo em fim
-o Principe D. Joaõ a 2 de Janeiro de 1554, e jaz em Belém em magnifico
-mausoleo.<span class="pagenum" id="Page_409">[Pg 409]</span> Mereceraõ as bellas prendas, e saudosa memoria deste
-Principe serem eternizadas na mais illustre, e canora Egloga do Homero
-Portuguez, e nas citharas de outros insignes Poetas daquelle tempo.<a id="FNanchor_852" href="#Footnote_852" class="fnanchor">[851]</a></p>
-
-<p>9 <i>O Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 9 de Março de 1539, e
-morreo a 20 de Janeiro de 1540. Jaz em Belém.</p>
-
-<p>10 Fóra do matrimonio teve ElRey a <i>D. Duarte</i>, que nasceo no
-anno de 1521. Foy sua mãy Dona Isabel Muniz, moça da Camera da Rainha
-Dona Leonor, e filha de hum Alcaide de Lisboa, homem honrado, a quem
-chamavaõ o <i>Carrança</i>, e ella depois foy Freira de Santa Clara do
-Porto. Criou-se D. Duarte no Convento de S. Jeronymo, chamado da Costa,
-junto de Guimarães, e aqui estudou com exemplar progresso as boas
-letras, e costumes. Mandou-o ElRey buscar ao dito Convento com grande
-ostentaçaõ, e trazello a Cintra, onde estava a Corte; porém sendo
-preciso a ElRey vir a Lisboa, tanto que D. Duarte chegou a Cintra,
-foy o Conde da Castanheira buscallo, e o conduzio a Lisboa, e ElRey
-o veyo esperar ao Convento de S. Domingos de Bemfica, onde o recebeo
-com grandes honras, e expressões de alegria. Foy D. Duarte Arcebispo
-de Braga, muy pio, e muy versado nos estudos de Filosofia, Theologia,
-e ambos os Direitos. Começou a escrever em lingua Latina a Historia
-dos Reys de Portugal, de que deixou elegantemente composta a delRey D.
-Affonso Henriques, da qual fazem memoria D. Nicoláo Antonio, e o Abbade
-de Sever. Morreo na flor dos seus annos a 11 de Novembro de 1543. Jaz
-em Belém.<a id="FNanchor_853" href="#Footnote_853" class="fnanchor">[852]</a></p>
-
-<p>11 <i>D. Manoel</i> morreo menino.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_410">[Pg 410]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Filippe II.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Principe D. Carlos</i> nasceo a 12 de Julho de 1545. Os
-Castelhanos lhe chamaõ o <i>Infeliz</i>; porque sendo de genio
-turbulento, o pay temeroso das extravagancias do filho, naõ desapprovou
-os meyos, que lhe assinaraõ para lhe abreviar a vida, e assim veyo a
-acabar violentamente em 24 de Junho de 1568. Foy filho da sua primeira
-mulher.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Dona Isabel</i> nasceo a 12 de Agosto de 1566. Casou com
-o Archiduque Alberto no anno de 1599, e sem successaõ morreo a 29 de
-Novembro de 1633.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo a 10 de Outubro de 1567. Casou
-com o Duque de Saboya Carlos Manoel no anno de 1585, e morreo a 6 de
-Novembro de 1597. Estes dous foraõ filhos do terceiro matrimonio.</p>
-
-<p>4 <i>O Principe D. Fernando</i> nasceo a 4 de Dezembro de 1571, e
-morreo a 18 de Outubro de 1578.</p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Carlos Lourenço</i> nasceo a 12 de Agosto de 1573.
-Morreo a 30 de Julho de 1582.</p>
-
-<p>6 <i>O Principe D. Diogo</i> nasceu a 12 de Julho de 1575, e morreo a
-21 de Novembro de 1582.</p>
-
-<p>7 <i>O Principe D. Filippe</i>, que lhe succedeo.</p>
-
-<p>8 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Março de 1580, e morreo a
-4 de Agosto de 1583. Estes cinco foraõ filhos do quarto matrimonio.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Filippe III.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Anna Mauricia de Austria</i>, Rainha de França,
-nasceo em Valhadolid a 22 de Setembro de 1601. Casou com Luiz XIII.<span class="pagenum" id="Page_411">[Pg 411]</span>
-Rey de França no anno de 1615, morreo a 14 de Mayo de 1643, jaz em S.
-Diniz. Deste matrimonio nasceraõ Luiz XIV. Rey de França, e Filippe de
-França, Duque de Orleans.</p>
-
-<p>2 <i>O Principe D. Filippe</i> successor.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo em Valhadolid a 18 de Agosto de
-1606. Casou com o Imperador de Alemanha D. Fernando III. e morreo a 13
-de Mayo de 1646.</p>
-
-<p>4 O <i>Infante D. Carlos</i> nasceo em Madrid a 14 de Setembro de 1607,
-e morreo a 13 de Julho de 1632.</p>
-
-<p>5 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo no Escurial a 16 de Mayo de 1609.
-O Papa Paulo V. o creou Cardeal a 29 de Julho de 1619, naõ tendo mais
-que dez annos, e lhe deu logo o governo do Arcebispado de Toledo, e o
-fez Capitaõ General dos Paizes baixos, onde morreo a 9 de Novembro de
-1641.</p>
-
-<p>6 <i>A Infanta Dona Margarida</i> nasceo em Lerma a 25 de Mayo de 1610,
-e morreo a 11 de Março de 1617.</p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Affonso Mauricio</i> nasceo no Escurial a 22 de
-Setembro de 1611, morreo a 16 de Setembro de 1612.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Filippe IV.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Margarida Maria</i> nasceo a 14 de Agosto de 1621,
-e morreo no mesmo dia.</p>
-
-<p>2 <i>A Infanta Dona Maria Margarida</i> nasceo a 25 de Novembro de
-1623, e morreo a 22 de Dezembro do mesmo anno.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Maria</i> nasceo a 21 de Novembro de 1625, e morreo
-a 21 de Julho de 1627.</p>
-
-<p>4 <i>O Principe D. Balthasar Carlos</i> nasceo a 17 de<span class="pagenum" id="Page_412">[Pg 412]</span> Outubro de
-1629. Foy muito festejado o seu nascimento. Morreo a 9 de Outubro de
-1646.</p>
-
-<p>5 <i>A Infanta Dona Isabel Teresa dos Santos</i> morreo no primeiro de
-Novembro de 1627.</p>
-
-<p>6 <i>A Infanta Dona Anna Antonia</i> nasceo a 17 de Janeiro de 1635, e
-morreo a 5 de Dezembro de 1636.</p>
-
-<p>7 <i>A Infanta Dona Maria Teresa</i>, Rainha de França, nasceo a 20 de
-Setembro de 1638. Casou com ElRey de França Luiz XIV. a 4 de Julho de
-1660, e morreo em Versalhes a 30 de Julho de 1683. Todos estes foraõ
-filhos do primeiro matrimonio; e do segundo teve.</p>
-
-<p>8 <i>A Infanta Dona Margarida Maria Teresa</i>, que nasceo a 12 de
-Julho de 1651. Casou com o Imperador Leopoldo no anno de 1666, e morreo
-a 12 de Março de 1673.</p>
-
-<p>9 <i>A Infanta Dona Maria Ambrosia</i> morreo menina a 21 de Dezembro
-de 1659.</p>
-
-<p>10 <i>O Principe D. Filippe Prospero</i> nasceo a 20 de Novembro de
-1657, e morreo no primeiro de Novembro de 1661.</p>
-
-<p>11 <i>O Infante D. Fernando</i> nasceo a 22 de Dezembro de 1658, e
-morreo a 22 de Outubro de 1659.</p>
-
-<p>12 <i>O Principe Carlos II.</i> successor no Throno, nasceo a 6 de
-Novembro de 1661, e casando duas vezes, morreo sem successaõ no
-primeiro de Novembro de 1700.</p>
-
-<p>13 Fóra do matrimonio teve a <i>D. Joaõ de Austria</i>, que nasceo a 7
-de Abril de 1629, e teve por mãy Dona Maria Calderon. Foy Graõ Prior
-de Malta em Castella, Vice-Rey de Sicilia, Governador de Flandes,
-General de todas as forças maritimas da Monarquia de Castella, primeiro
-Ministro delRey Carlos II. e hum dos mais valerosos soldados daquelle
-seculo. Morreo a 17 de Setembro de 1679, e jaz no Escurial.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_413">[Pg 413]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ IV.</i></h3>
-
-<p>1 O <i>Principe D. Theodosio</i> nasceo em Villa Viçosa a 8 de
-Fevereiro de 1634. Foy jurado Principe de Portugal a 28 de Janeiro
-de 1641, e segundo as memorias felicissimas, que existem delle, foy
-certamente hum portento da natureza, e da graça, sabendo accrescentar,
-e augmentar os dotes de huma, e outra com as prendas adquiridas na
-continuada, e illustre occupaçaõ das virtudes. Acabou na flor da sua
-idade a 15 de Mayo de 1653, e jaz em Belém.<a id="FNanchor_854" href="#Footnote_854" class="fnanchor">[853]</a></p>
-
-<p>2 <i>A Senhora Dona Anna</i> nasceo em Villa Viçosa a 21 de Janeiro de
-l635. No mesmo dia expirou, e jaz no Coro das Religiosas do Mosteiro
-das Chagas da mesma Villa.</p>
-
-<p>3 <i>A Infanta Dona Joanna</i> nasceo em Villa Viçosa a 18 de Setembro
-de 1636. Morreo a 17 de Novembro de 1653, e jaz em Belém.</p>
-
-<p>4 <i>A Infanta Dona Catharina</i> nasceo em Villa Viçosa a 25 de
-Novembro de 1638. Casou com Carlos II. Rey de Inglaterra em 18 de
-Mayo de 1661. Padeceo em Londres com varonil paciencia fortissimos
-contratempos, culpando-a o Parlamento de querer introduzir em
-Inglaterra a Religiaõ Catholica, por cujo motivo intentarão darlhe
-veneno, de que a innocencia de sua virtuosa vida a livrou, até que
-passados sete annos depois da morte de seu marido, voltou para
-Portugal, e chegou a Lisboa a 20 de Janeiro de 1693. No anno de 1704,
-quando ElRey D. Pedro seu irmão passou à Beira, ficou governando o
-Reino com grande satisfaçaõ de todos;<span class="pagenum" id="Page_414">[Pg 414]</span> mas a 31 de Dezembro de 1705
-deixou com sua morte a todos saudosos. Jaz em Belém.<a id="FNanchor_855" href="#Footnote_855" class="fnanchor">[854]</a></p>
-
-<p>5 <i>O Senhor D. Manoel</i> nasceo em Villa Viçosa a 6 de Setembro de
-1640, e logo morreo. Jaz no Convento de Santo Agostinho da mesma Villa.</p>
-
-<p>6 <i>O Infante D. Affonso</i> successor.</p>
-
-<p>7 <i>O Infante D. Pedro</i>, que succedeo a ElRey D. Affonso seu irmaõ.</p>
-
-<p>8 Fóra do matrimonio teve a <i>Senhora Dona Maria</i>, que nasceo no
-anno de 1643. Criou-se em casa do Secretario Antonio Cavide, ao qual
-passou Alvará a Rainha Dona Luiza de tutor, curador, e administrador
-da pessoa, e bens da dita Senhora. De casa do sobredito Secretario
-foy para o Mosteiro de Carnide no anno de 1649, onde vestio o habito
-da Religiaõ de Santa Teresa, mas naõ professou. Nunca veyo à Corte em
-publico; porém indo às Caldas, foy acompanhada de Antonio Alvares da
-Cunha, e de sua irmã a Condessa de Villa-Flor. ElRey D. Joaõ a declarou
-por filha, e lhe deixou feita a mercê da Commenda mayor de Santiago,
-e das Villas de Torres Vedras, e Colares, cujas disposições foraõ
-todas inteiramente satisfeitas pela Rainha Regente, e o Serenissimo
-Rey D. Affonso, os quaes em todos os Decretos, Alvarás, e Cartas, em
-que fallavaõ nella, lhe chamavaõ <i>Dona Maria, muito amada, e prezada
-irmã</i>, sem o titulo de Infanta; porque, como elegantemente prova o
-Doutor Chronista Fr. Antonio Brandaõ,<a id="FNanchor_856" href="#Footnote_856" class="fnanchor">[855]</a> nunca em Portugal se deu
-aos filhos illegitimos o titulo de Infante. Fez esta Senhora varios, e
-grandiosos donativos ao Mosteiro, em que viveo, até que aos cincoenta
-annos da sua idade acabou esta vida a 6 de Fevereiro de 1693. Jaz no
-Coro debaixo do mesmo Mosteiro.<a id="FNanchor_857" href="#Footnote_857" class="fnanchor">[856]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_415">[Pg 415]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Pedro II.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Infanta Dona Isabel</i>, filha do primeiro matrimonio, nasceo
-em Lisboa a 6 de Janeiro de 1669. Foy jurada Princeza herdeira do
-Reino, e esteve desposada com o Duque de Saboya Victorio Amadeo; mas a
-intempestiva morte embaraçou este desejado consorcio, porque a Infanta
-faleceo 21 de Outubro de 1690. Jaz no Mosteiro do Santo Crucifixo de
-Capuchas Francezas junto da Rainha Dona Maria Francisca sua mãy.</p>
-
-<p>2 Do segundo matrimonio teve o <i>Principe D. Joaõ</i> que nasceo em
-Lisboa a 30 de Agosto de 1688, e morreo a 17 de Setembro do mesmo anno.
-Jaz em S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>3 <i>O Serenissimo Principe D. Joaõ</i> succesor na Coroa.</p>
-
-<p>4 <i>O Serenissimo Infante D. Francisco</i> nasceo em Lisboa a 25 de
-Mayo de 1691. Foy Graõ Prior do Crato, e fez o officio de Condestavel
-do Reino nas Cortes de 1697, e no Auto do levantamento delRey D. Joaõ
-V. seu irmaõ. Possuio as grandes, e opulentas Casas do Infantado, e da
-Feira, com outras muitas rendas, jurisdições, e prerogativas. Deveo-lhe
-a sciencia Nautica hum particular desvelo, como se fora seu professor,
-e não menos todo o manejo bellico, para que tinha natural viveza, e
-propensaõ. A caça foy todo o seu divertimento, em que era perito,
-destro, destemido, e incansavel, por cujo motivo mais era habitador
-do campo, que da Corte. Teve entranhavel devoçaõ com a Imagem da
-Senhora da Atalaya, a quem tributou liberaes offertas; e aos Religiosos
-Capuchos da Conceiçaõ lhes mandou edificar hum Hospicio junto do seu
-Palacio da Bemposta de Lisboa, delineado pela simetria do Convento da
-Arrabida. Achando-se finalmente<span class="pagenum" id="Page_416">[Pg 416]</span> na quinta de Bernardo Freire, meya
-legua distante das Caldas da Rainha, para onde tinha hido acompanhar a
-ElRey, faleceo de hum volvulo a 21 de Julho de 1742. Jaz em S. Vicente
-de Fóra.</p>
-
-<p>5 <i>O Serenissimo Infante D. Antonio</i> nasceo em Lisboa a 15 de
-Março de 1694. Participou logo da natureza attributos verdadeiramente
-Reaes; porque a bizarria da sua magestosa presença, revestida de hum
-soberano agrado, e de numa seria affabilidade, era a fortissima cadea
-de ouro, com que atava suavemente a todos, para que o amassem; mas
-muito mais poderoso attractivo para o nosso affecto eraõ aquellas
-nobres prendas do animo, e alma, que brilhavaõ grandemente em todas
-as suas acções, e inculcavaõ a grandeza do seu espirito heroicamente
-generoso, sublime, pio, e benigno. Faleceo finalmente a 20 de Outubro
-de 1757 em Alcantara na quinta chamada da Tapada. Jaz em Belém.</p>
-
-<p>6 <i>A Senhora Infanta Dona Teresa</i> nasceo em Lisboa a 24 de
-Fevereiro de 1696. ElRey seu Pay ajustou casalla com o Archiduque
-Carlos, mas desfez este ajuste a morte da Infanta, que foy buscar ao
-Ceo outra coroa mais perduravel em 16 de Fevereiro de 1704. Jaz em S.
-Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>7 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Manoel</i> nasceo em Lisboa a
-3 de Agosto de 1697. Para mostrar que no sangue Real Portuguez naõ
-estava adormecida aquella natural aversaõ contra os sequazes da seita
-de Mafoma, levado de hum sobrenatural impulso, e ardor militar, que
-o naõ soffria conter nos limites da patria, naõ contando mais que
-dezasete annos de idade, sahindo occultamente do porto de Lisboa em
-4 de Novembro de 1715, passou a Hollanda, e daqui a Hungria, onde
-militando sempre ao lado do famoso Principe Eugenio nas perigosas
-batalhas de Peterwaradin, Temeswar, e Belgrado, obrou com tanto valor,
-e desembaraço, que mais<span class="pagenum" id="Page_417">[Pg 417]</span> parecia Mestre, que discipulo de Marte. Depois
-de serenadas as campanhas, e passando a ver algumas Cortes da Europa,
-adquirindo ao seu augusto nome immortal fama, se restituio a Portugal
-no anno de 1723, fazendo com as suas gloriosas proezas, que as Musas
-tivessem heroico assumpto para os elogios, e as virtudes exercicio nos
-seus louvaveis, e generosos empregos.</p>
-
-<p>9 <i>A Senhora Infanta Dona Francisca</i> nasceo em Lisboa a 30 de
-Janeiro de 1699. Ornou-a a natureza liberalmente em gráo supremo de
-huma formosura magestosa, alegre, affavel; de hum genio compassivo,
-pio, magnifico; e por todos estes, e outros muitos virtuosos predicados
-dominava esta Princeza o coraçaõ de todos, attrahindo a Nobreza, e o
-povo a amalla, e adoralla tanto, que arrebatando-a o Ceo em 15 de Julho
-de 1756, ainda cá na terra a saudade existe viva em nossa memoria.
-Jazem as suas cinzas em S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>9 Teve ElRey D. Pedro fóra do matrimonio a <i>Senhora Dona Luiza</i>,
-que nasceo a 9 de Janeiro de 1679. Criou-se em casa do Secretario
-de Estado Francisco Correa de Lacerda, e de oito annos passou a viver
-recolhida no Mosteiro de Carnide em companhia de sua tia a Senhora Dona
-Maria. Em 14 de Mayo de 1695 se recebeo na Ermida de Nossa Senhora das
-Necessidades com o Duque D. Luiz Ambrosio de Mello, filho do Duque de
-Cadaval D. Nuno Alvares Pereira de Mello; porém morrendo o Duque D.
-Luiz a 13 de Novembro de 1700, e ficando a Senhora Dona Luiza viuva, e
-sem filhos, tornou a casar em 16 de Setembro de 1702 com seu cunhado
-o Duque D. Jayme, do qual tambem naõ teve successaõ. Faleceo a 23 de
-Dezembro de 1732, e jaz no Mosteiro de S. Joaõ Evangelista da Cidade de
-Evora.</p>
-
-<p>10 <i>O Senhor D. Miguel</i> nasceo em Lisboa a 15 de Outubro de 1699.
-Criou-se em casa do Secretario<span class="pagenum" id="Page_418">[Pg 418]</span> das Mercês Bartholomeu de Sousa Mexia,
-onde aprendeo as bellas letras, como se houvera de as professar; e
-unindo à intelligencia das artes liberaes outros muitos dotes heroicos,
-conseguio justamente fazerse crédor de huma estimaçaõ universal.
-ElRey D. Joaõ V. o reconheceo por seu irmaõ, e ordenou se lhe désse
-tratamento de Alteza, fazendo-lhe muitas honras devidas ao seu sublime
-nascimento. Casou em 30 de Janeiro de 1715 com Dona Luiza Casimira de
-Sousa, herdeira da illustrissima Casa de Arronches, a quem ElRey D.
-Joaõ V. fez a mercê das honras de Duqueza. Deste plausivel matrimonio
-nasceo em 11 de Novembro de 1716 a Senhora <i>Dona Joanna Perpetua</i>,
-a quem ElRey D. Joaõ V. concedeo as honras de Duqueza, e casou em 20 de
-Setembro de 1738 com o quarto Marquez de Cascaes D. Luiz, que morrendo
-em 14 de Março de 1745, ficou esta Senhora viuva, e sem successaõ.
-<i>O Senhor D. Pedro de Bragança</i>, Duque de Lafões, nasceo em 19
-de Janeiro de 1718, foy Regedor das Justiças da Casa da Supplicaçaõ,
-em que entrou no anno de 1749, e falleceo no de 1761, e o <i>Senhor
-D. Joaõ de Bragança</i> nasceo em 6 de Março de 1719. Morreo em fim o
-Senhor D. Miguel desgraçadamente, naufragando no Tejo em 13 de Janeiro
-de 1724, e apparecendo o corpo a 5 de Fevereiro, foy conduzido ao
-Convento de Santa Catharina de Ribamar, da Provincia da Arrabida, onde
-jaz.</p>
-
-<p>11 <i>O Senhor D. Jofeph</i> nasceo a 6 de Mayo de 1703. Foy sagrado
-Arcebispo de Braga a 5 de Fevereiro de 1741 pelo Eminentissimo Cardeal
-Patriarca, e a 23 de Julho do referido anno fez a sua entrada publica
-naquella Cidade com grandes festas, obsequios, e alegrias de seus
-Cidadãos, onde depois de hum feliz governo acabou os seus dias.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_419">[Pg 419]</span></p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Joaõ V.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Serenissima Princeza Dona Maria Barbara</i> nasceo em Lisboa a 4
-de Dezembro de 1711. Desde a abençoada indole dos seus primeiros annos
-se instruio com tanta perfeiçaõs nos solidos dictames da prudencia, e
-das virtudes, que ainda hoje possue a gloria de ser venerada por huma
-das Princezas mais benemeritas da attençaõ entre as expectaveis da
-Europa. No anno de 1729, a 19 de Janeiro se desposou com o Serenissimo
-Senhor D. Fernando, Principe das Asturias, passando a viver em Castella
-com seu Regio esposo em reciproco affecto, e universal contentamento
-dos Hespanhoes, até que a 27 de Agosto de 1758 foy gozar da eterna
-Bemaventurança, como as suas virtudes nos persuadem.</p>
-
-<p>2 <i>O Principe D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 19 de Outubro de 1712.
-Naõ viveo mais que dous annos, e dez dias, porque a 29 de Outubro de
-1714 foy para o Ceo, e jaz seu corpo em S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>3 <i>O Serenissimo Principe D. Jofeph</i> successor na Coroa, e hoje
-felizmente reinante.</p>
-
-<p>4 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Carlos</i> nasceo em Lisboa a 2
-de Mayo de 1716, e dando evidentes mostras de huma vasta capacidade
-para acções heroicas, a sua intempestiva morte, supposto que succedida
-depois de huma larga enfermidade, deixou a todos magoados em 30 de
-Março de 1736. Jaz em S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>5 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Pedro</i> nasceo em Lisboa a 5 de
-Julho de 1717. Sua Magestade o collocou na alta dignidade de Graõ Prior
-do Crato, pondo nesta forma em praxe o grande conceito, que merece o
-relevante de suas admiraveis prendas. A 6 de Junho de 1760 se recebeo
-com a Serenissima Senhora<span class="pagenum" id="Page_420">[Pg 420]</span> Dona Maria Princesa da Beira, e herdeira
-do Reino, sua sobrinha, na Capella Real de Nossa Senhora da Ajuda. De
-cujo consorcio nasceo a 21 de Agosto do anno seguinte pelas 10 horas
-da noite o Serenissimo Principe <i>D. Jofeph Francisco Xavier</i>,
-e foy bautizado na Igreja do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda pelo
-Cardeal Patriarca D. Francisco Saldanha, festejando-se tudo com muitos
-repiques, e luminarias.</p>
-
-<p>6 <i>O Serenissimo Senhor Infante D. Alexandre</i> nasceo a 24 de
-Setembro de 1723, e morreo de bexigas a 2 de Agosto de 1728. Jaz no
-Convento de S. Vicente de Fóra.</p>
-
-<p>7 Teve o Senhor D. João V, fóra do matrimonio ao <i>Senhor D.
-Antonio</i>, que nasceo em o primeiro de Outubro de 1714, ao <i>Senhor
-D. Gaspar</i> em 8 de Outubro de 1716, o qual a 24 de Agosto de 1758
-foy sagrado Arcebispo de Braga, onde felizmente governa com o exemplo,
-e justiça, de que nasce o affecto que todas as suas ovelhas lhe
-tributaõ. Ao <i>Senhor D. Joseph</i> que nasceo a 8 de Setembro de
-1720, e foy erecto em Inquisidor Geral pela Bulla <i>Cum Officium</i>
-de Benedicto XIV. de 15 de Março de 1758.</p>
-
-<hr class="tb">
-
-
-<h3><i>Filhos delRey D. Jofeph I.</i></h3>
-
-<p>1 A <i>Serenissima Senhora Princeza da Beira Dona Maria Francisca</i>
-nasceo a 17 de Dezembro de 1734, de quem já fallámos. A <i>Serenissima
-Senhora Infanta Dona Maria Anna</i>, que nasceo a 7 de Outubro de 1736.
-A <i>Serenissima Senhora Infanta Dona Maria Francisca Dorothea</i>, que
-nasceo a 21 de Setembro de 1739. A <i>Serenissima Senhora Infanta Dona
-Maria Francisca Benedicta</i>, que nasceo a 25 de Julho de 1746.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_770" href="#FNanchor_770" class="label">[769]</a> Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 10.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_771" href="#FNanchor_771" class="label">[770]</a> Estaço nas Antiguid. de Portug. cap. 12. n. 9. Duart.
-Nun. Descripç. de Portug. cap. 89. Alvar. Ferr. de Vera Orig. da Nobr.
-cap. 6. Monarq. Lusit. liv. 8. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_772" href="#FNanchor_772" class="label">[771]</a> Monarq. Lusitan. liv. 9. cap. 23.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_773" href="#FNanchor_773" class="label">[772]</a> Idem liv. 8. cap. 27. Sousa Histor. Genealog. tom. 1.
-pag. 40</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_774" href="#FNanchor_774" class="label">[773]</a> Caram. Philip Prud. lib. 1 p.14. Monarq. Lusit. liv. l0.
-cap. 33. e liv. 11. cap. 1. Sousa Histor. Genealog. tom. 1. pag. 40. e
-seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_775" href="#FNanchor_775" class="label">[774]</a> Monarquia liv. 10. cap. 19. Vide Fastos da Lusit. tom.
-1. pag 189.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_776" href="#FNanchor_776" class="label">[775]</a> Faria no Epitom. part. 3 cap. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_777" href="#FNanchor_777" class="label">[776]</a> Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 42. Duarte Nun. Chronic.
-delRey D. Affons. Henriq. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 61.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_778" href="#FNanchor_778" class="label">[777]</a> Barbos. no Catalog. das Rainhas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_779" href="#FNanchor_779" class="label">[778]</a> Cardos. Agiolog. Lusitan. tom. 2. Sousa Histor.
-Genealog. tom. 1. pag. 61.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_780" href="#FNanchor_780" class="label">[779]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 10. cap. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_781" href="#FNanchor_781" class="label">[780]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 1. pag. 63.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_782" href="#FNanchor_782" class="label">[781]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 126. Cardos. Agiolog.
-Lusit. tom. 3. a 17 de Junh. Sous. Histor. Genealog. tom. 1. p. 109.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_783" href="#FNanchor_783" class="label">[782]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. e Sousa allegad. na
-Histor. Geneal. tom. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_784" href="#FNanchor_784" class="label">[783]</a> Barbos. no Catalog. das Rainh. p. 127. Sousa Histor.
-Geneal. tom. 1. p. 100.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_785" href="#FNanchor_785" class="label">[784]</a> Ibid. p. 103. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 35. p 232.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_786" href="#FNanchor_786" class="label">[785]</a> Barbos. allegad. p. 127.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_787" href="#FNanchor_787" class="label">[786]</a> Monarq. Lusit. tom. 4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor.
-Geneal. tom. 1. liv. 1. cap. 9. Caram. Philipp. Prud. lib. 1. pag. 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_788" href="#FNanchor_788" class="label">[787]</a> Barbos. Catal. das Rainh. p. 127. Monarq. Lusitan. tom.
-4. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. cap. 9. Benedict.
-Lusitan. tom. 2. p. 318. Garibay tom. 4. liv. 34. c. 15.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_789" href="#FNanchor_789" class="label">[788]</a> Barbos. no Catal. das Rainhas p. 134. Sous. Histor.
-Geneal. tom. 1. p. 125.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_790" href="#FNanchor_790" class="label">[789]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 89. Benedictin. Lusit.
-tom. 2. p. 318. Mariz Dial. 2. p. 93. Monarq. Lusit. liv. 13. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_791" href="#FNanchor_791" class="label">[790]</a> Monarq. Lusitan. liv. 14. cap. 24. Corograf. Port. tom.
-2. p. 171.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_792" href="#FNanchor_792" class="label">[791]</a> Monarq. Lusitan. liv. 12. cap. 21. Sous. Histor.
-Genealog. tom. 1. p. 91.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_793" href="#FNanchor_793" class="label">[792]</a> Monarq. Lusitan. liv. 15. cap. 35. Barbos. no Catalog.
-das Rainh. p. 129. Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 92.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_794" href="#FNanchor_794" class="label">[793]</a> Monarq. Lusit. liv. 12. cap. 21.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_795" href="#FNanchor_795" class="label">[794]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 144. Barbosa no Catal.
-das Rainh. p. 237.&amp; seqq.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_796" href="#FNanchor_796" class="label">[795]</a> Monarq. Lusit. liv.13. cap.20. Sousa allegad. tom.1.
-p.141.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_797" href="#FNanchor_797" class="label">[796]</a> Monarq. allegad.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_798" href="#FNanchor_798" class="label">[797]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 257.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_799" href="#FNanchor_799" class="label">[798]</a> Sous. Histor. Genealog. tom 1. p. 185. Monarq. Lusit
-liv. 16. cap. 31. e tom. 6. p. 178. Cardos. Agiol. Lusit. tom. 1. p.
-62.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_800" href="#FNanchor_800" class="label">[799]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 176. Monarq. Lusit.
-liv. 16. cap. 48.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_801" href="#FNanchor_801" class="label">[800]</a> Cardos. a 6 de Junh.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_802" href="#FNanchor_802" class="label">[801]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 28.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_803" href="#FNanchor_803" class="label">[802]</a> Ibid. cap. 29. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 177.
-Moreir. Theatr. Geneal. da Casa dos Sous. p. 319. diz, que este D.
-Affonso Diniz naõ fora bastardo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_804" href="#FNanchor_804" class="label">[803]</a> Brand. Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. Emprez. Militar.
-p. 13. Benedict. Lusit. part. 2. p. 322.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_805" href="#FNanchor_805" class="label">[804]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1 p. 177. Malt. Port. tom. 1.
-liv. 2. cap. 6. n. 71.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_806" href="#FNanchor_806" class="label">[805]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e no Prol. da part.5.
-Veja-se tambem a Leitaõ Ferr. nas Notic. Chronol. n. 71.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_807" href="#FNanchor_807" class="label">[806]</a> Monarq. Lusit. liv. 15. cap. 29. e cap. 36.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_808" href="#FNanchor_808" class="label">[807]</a> Idem ibid. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 179.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_809" href="#FNanchor_809" class="label">[808]</a> Cornej. Chronic. da Ord. tom 2. p. 61. Esperança Histor.
-Serafic. liv. 5. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_810" href="#FNanchor_810" class="label">[809]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 180.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_811" href="#FNanchor_811" class="label">[810]</a> Lima Geograf. Histor. tom. 1. p. 210.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_812" href="#FNanchor_812" class="label">[811]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 1. p. 286.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_813" href="#FNanchor_813" class="label">[812]</a> Monarq. Lusit. tom. 6. p. 271. e tom. 5. p. 39. e 270.
-Agiol. Lusit. no primeiro de Janeiro. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p
-237.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_814" href="#FNanchor_814" class="label">[813]</a> Idem ibid. p. 254. e seg. Rodrig. Mend. da Silv. Catal.
-Real. Monarq. Lusitan. liv. 18. cap. 48.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_815" href="#FNanchor_815" class="label">[814]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 280.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_816" href="#FNanchor_816" class="label">[815]</a> Idem ibid. p. 281.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_817" href="#FNanchor_817" class="label">[816]</a> Salazar Casa de Lara tom. 1. liv. 3. cap. 8. §. 3. Torre
-do Tombo liv. 3. delRey D. Diniz fol. 34. e fol. 36.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_818" href="#FNanchor_818" class="label">[817]</a> Garibay tom. 2. liv. 14. cap. 5. e 6. Barbos. no Catal.
-das Rainh. p. 279.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_819" href="#FNanchor_819" class="label">[818]</a> Monarq. Lusit. liv. 18. cap. 32.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_820" href="#FNanchor_820" class="label">[819]</a> Zurit. Annaes de Aragaõ tom. 2. liv. 8. cap. 13. 14. e
-42.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_821" href="#FNanchor_821" class="label">[820]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 295. Leitaõ Ferreir.
-Notic. Chronol. num. 512. Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 383. Garam.
-Philipp. Prudent. p. 142. Far. no Com. de Cam. cant. 3. est. 101.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_822" href="#FNanchor_822" class="label">[821]</a> Faria Epitom. part. 3. cap. 9.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_823" href="#FNanchor_823" class="label">[822]</a> Monarq. Lusitan. liv. 16. cap. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_824" href="#FNanchor_824" class="label">[823]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 387. e seg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_825" href="#FNanchor_825" class="label">[824]</a> Á cerca da verdadeira Mãy de D. Joaõ, Mestre de Aviz,
-veja-se Joseph Soares da Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. e a D.
-Antonio Caetano de Sousa no tom. 2. da Historia Genealogica da Casa
-Real Portugueza.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_826" href="#FNanchor_826" class="label">[825]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 1. p. 431. Monarq. Lusit.
-tom. 8. p. 651. Duart. Nun. Descr. de Port. p. 139. Anno Historic. a 14
-de Mayo. Pint. Ribeir. nos Injust. Success. dos Reys de Leaõ §. 13.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_827" href="#FNanchor_827" class="label">[826]</a> Sous. allegad. p. 427.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_828" href="#FNanchor_828" class="label">[827]</a> Cunh. Histor de Brag. tom. 2. cap. 58. n. 1. Soares da
-Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 45. n. 292.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_829" href="#FNanchor_829" class="label">[828]</a> Fernaõ Lopes Chronica delRey D. Joaõ I. cap. 148. Nunes
-Chronic. do mesmo Rey c. 101.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_830" href="#FNanchor_830" class="label">[829]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 2. pag.103. Vieira tom. 11.
-num. 622. Sous. Histor. de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 15. Soares da
-Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 75. e segg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_831" href="#FNanchor_831" class="label">[830]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p.115. e segg. Duart.
-Nun. Descripç. de Port. p. 144</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_832" href="#FNanchor_832" class="label">[831]</a> Silv. Memor. delRey D. Joaõ I. liv. 1. cap. 94. Sous.
-Histor. de S. Doming. liv. 6. cap. 15. p. 332</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_833" href="#FNanchor_833" class="label">[832]</a> Nun. de Leaõ na Chron. delRey D. Duarte, e na Descr. de
-Port. p. 120. Cardos. Agiolog. Lusit. tom. 3 a 5 de Junh. Sous. Histor.
-de S. Dom. part. 1. liv. 6. cap. 27. e 28. Soar. da Silv. Memor. delRey
-D. Joaõ I. liv. 1. Sousa Histor. Geneal. tom. 2. liv. 3. cap. 6. Vasco
-Mousinho no Affonso Africano cant. 4. est. 52 e segg.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_834" href="#FNanchor_834" class="label">[833]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 5. lib. 6. Per. Chron. dos
-Carm. tom. 1. Lorena perseg. p. 405.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_835" href="#FNanchor_835" class="label">[834]</a> Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap 1 Barbos. no
-Catal. das Rainh. Sous. Histor. Genealog. tom. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_836" href="#FNanchor_836" class="label">[835]</a> Faria Europ. Port. tom. 2. part. 3. cap. 2. n. 28.
-Duarte Nun. Descr. de Port. p. 140. Sousa allegad.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_837" href="#FNanchor_837" class="label">[836]</a> Agiolog. Lusitan. tom. 3. a 17 de Junho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_838" href="#FNanchor_838" class="label">[837]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 2. p. 661.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_839" href="#FNanchor_839" class="label">[838]</a> Benedict Lusit. tom. 1. p. 381. Per. Chron. dos Carm.
-tom. 1. n. 1655. Corog. Port. tom.2. p. 341.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_840" href="#FNanchor_840" class="label">[839]</a> Fr. Luiz de Sous. Chron. de S. Dom. part. 2. liv. 5.
-Agiol. Dom. a 12 de Mayo. Sous. Histor. Geneal. tom. 3. cap. 2. p. 79.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_841" href="#FNanchor_841" class="label">[840]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap 8. e
-131. Anno Historico a 12, e 13 de Julho. Sous. Histor. Geneal. tom. 3.
-cap. 4. Fonseca Evora gloriosa pag. 96.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_842" href="#FNanchor_842" class="label">[841]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 112. e
-213. Goes Chron. delRey D. Manoel part. 1. cap. 45. Faria Europ. Port.
-tom. 2. p. 492. n. 5. Leitaõ Miscelan. Dialog. 20. p. 632. Osor. de
-reb. Emmau. lib. 1. cap. 1. Fr. Jeron. Rom. Histor. da Ordem Militar de
-Santiago cap. 9. Anno Histor. a 12 de Agosto.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_843" href="#FNanchor_843" class="label">[842]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 282. Sous. Histor.
-Geneal. tom. 3. p. 247. Duarte Nun. Descripç. de Port. p. 145.
-Clensueg. Vid. de S. Francisco de Borja liv. 2. cap. 6. e 7. Anno
-Historico no primeiro de Mayo. Barbos. nos Factos da Lusitan. a 21 de
-Março.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_844" href="#FNanchor_844" class="label">[843]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 293. Barbos. nos Fact.
-da Lusit. tom. 1. p. 108.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_845" href="#FNanchor_845" class="label">[844]</a> Damiaõ de Goes Chron. delRey D.Manoel part. 1. cap. 101.
-Mariz Dial. 4. cap. 22. Telles part. 1. liv. 3. cap. 17. Sousa Histor.
-Geneal. tom. 3. p. 357. Far. Epitom. part. 3. cap. 16 n. 9. Paul. Jor.
-liv. 34. Tarcagnot Histor. del mondo part. 3. liv. 3. p. 170. Ilhescas
-Histor. Pontif. part. 2. liv. 6. cap. 27. §. 1. Sandoval part. 2. liv.
-22. §. 4. Anno Historic. a 12 de Julho.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_846" href="#FNanchor_846" class="label">[845]</a> Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 2. cap.
-19. Faria Europ. Portug. tom. 2. part. 4. cap 1. n. 57. O Author do
-Anno Historico assina superfluamente o nascimento deste Infante a 5
-de Julho, tendo já delle feito memoria a 5 de Junho, dia proprio, e
-verdadeiro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_847" href="#FNanchor_847" class="label">[846]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 2. cap. 42. Agiol.
-Lusitan. tom. 2. p. 658. e 666. Sous. na Histor. Geneal. Barb. nos
-Factos da Lusit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_848" href="#FNanchor_848" class="label">[847]</a> Barbos. no Catal. das Rainh. p. 391.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_849" href="#FNanchor_849" class="label">[848]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. c. 79. Barbos. no
-Catal. das Rainh. p 388. Rodrig. Mendes da Silv. Catal. Real p. 98.
-Manoel de Galheg. Templo da fama liv. 4. est. 50. Sousa Histor. Geneal.
-tom. 3. p. 421.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_850" href="#FNanchor_850" class="label">[849]</a> Barbos. Catalog. das Rainh. p. 396.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_851" href="#FNanchor_851" class="label">[850]</a> Sous. Histor. Genealog. tom. 3. p. 459. Camões cent.
-1. Sonet. 83. Joaõ de Barr. no Panegyric. desta Princeza, que vem no
-fim das Noticias de Sever. Maced. Flores de Hespanh. cap 8. excell.
-11. Santuar. Marian. tom. 2. Anno Histor. a 10 de Outubro. Duarte Nun,
-Descr. da Port. p. 151.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_852" href="#FNanchor_852" class="label">[851]</a> Os eruditos irmãos Barbos. no Catal. das Rainh. p. 403.
-e nos Fast. da Lusit. tom 1 p. 33. Cam. Eglog. 1. Sá de Miranda na
-Elegia à morte deste Principe. Anton. Ferr. Eglog. 7. Luiz. Pereir. na
-Elegiada cant. 1. p.11.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_853" href="#FNanchor_853" class="label">[852]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 539. Nicol. Anton. na
-Bibliothec. Hisp. Barbos. na Bibliothec. Lusitan. tom. 1. p. 721.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_854" href="#FNanchor_854" class="label">[853]</a> Menezes Port. Restaurad. tom. 1. liv. 11. p. 796. Vieir.
-tom. 13. p. 92. Agiol. Lusit. a 15 de Mayo. Os eruditos irmãos Barbos.
-no Catal. das Rainh. p. 426. e nos Fastos da Lusitan. tom. 1. a 8 de
-Fevereiro. Anno Historico tom. 2. p. 81.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_855" href="#FNanchor_855" class="label">[854]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p. 281. Anno Historic.
-tom. 2. p. 98.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_856" href="#FNanchor_856" class="label">[855]</a> Monarq. Lusitan. liv. 8. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_857" href="#FNanchor_857" class="label">[856]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 7. p 257. Barbos. nos Fast.
-da Lusit. tom. 1. p. 464.</p>
-
-</div></div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_421">[Pg 421]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_IX">CAPITULO IX.<br><span class="small"><i>Do Governo antigo, e moderno da Casa Real.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<p>1 Ainda que alguns Escritores nossos se inclinassem<a id="FNanchor_858" href="#Footnote_858" class="fnanchor">[857]</a> a que os
-officios, com que se servio a Casa Real até ElRey D. Fernando, fossem
-somente Mordomo da Corte, Alferes, e Trinchante,<a id="FNanchor_859" href="#Footnote_859" class="fnanchor">[858]</a> todavia varios
-outros Officiaes tiveraõ muitos dos Reys, que lhe precederaõ, dos quaes
-daremos breve informaçaõ por aquella ordem, que nos for lembrando, sem
-darmos exacta preferencia aos taes officios, que requer a grandeza da
-sua dignidade.</p>
-
-<p>2 <i>Modome Mór.</i> He entre todos os officios titulares da Casa
-Real o que tem o primeiro lugar. No Regimento, que fez Gomes Annes
-de Azurara, (se acaso naõ foy Martim Affonso de Mello) dos officios
-Móres do Reino por mandado delRey D. Affonso V. que foy o Principe,
-que reduzio a singular ordem a Fidalguia Portuguesa nos empregos de
-Palacio, se lê, que em outras Cortes chamavaõ à preeminencia deste
-officio <i>Senescal</i>, que vale o mesmo que <i>Senex calculi</i>, ou
-Presidente das contas,<a id="FNanchor_860" href="#Footnote_860" class="fnanchor">[859]</a> porque<span class="pagenum" id="Page_422">[Pg 422]</span> a seu cargo toca tomallas de todas
-as despezas dos Reys; porém Scipiaõ Amirato affirma, que Senescalco era
-o Architriclino antigo, e que o officio de Mordomo Mór tivera origem no
-Reino de França, donde se derivou a outras Cortes da Europa.</p>
-
-<p>3 Neste Reino devia começar com o Conde D. Henrique; porque em tempo
-delRey D. Affonso seu filho assina, e confirma muitas vezes as doações
-o Mordomo Mór Gonçalo Rodrigues. O que temos por infallivel he, que
-esta dignidade andou sempre nos principaes Senhores de Portugal. ElRey
-D. Diniz honrou com ella a seu filho illegitimo D. Affonso Sanches,
-de quem foy summamente affeiçoado. O Conde D. Nuno Alvares Pereira
-foy Mordomo Mór delRey D. Joaõ I. e assim a tiveraõ outros muitos
-Cavalheros da primeira Nobreza.</p>
-
-<p>4 Além da superintendencia, que o Mordomo Mór tem na Casa Real,
-entende particularmente em receber todos os criados, e moradores
-della; e porque antigamente em lugar do verbo <i>Tomar</i> se dizia
-<i>Filhar</i>, conserva ainda hoje esta palavra, chamando-se a estas
-recepções <i>Filhamentos</i>. Os Fóros, que ha na Casa Real, em que
-entraõ os novamente filhados saõ elles: <i>Moços da Camera</i>,
-<i>Moços da Guardaroupa</i>, <i>Escudeiros Fidalgos</i>, <i>Cavalleiros
-Fidalgos</i>, <i>Moços Fidalgos</i>, <i>Fidalgos Escudeiros</i>,
-<i>Fidalgos Cavalleiros</i>, <i>Fidalgos do Conselho</i>.</p>
-
-<p>4 No foro de <i>Moços Fidalgos</i> filha o Mordomo Mór aos filhos, e
-netos dos já filhados, ou a outros, a quem ElRey faz mercê de novo,
-ainda que seus antepassados naõ fossem filhados. O filhamento dos
-primeiros he ordinario, porque naõ se póde negar ao filho do criado
-delRey o foro, e moradia de seu pay. Chegando os Moços Fidalgos a
-vinte annos, os accrescentaõ a <i>Fidalgos Escudeiros</i>; e depois
-sendo armados Cavalleiros em algum acto de guerra, lhe daõ foro
-de <i>Fidalgos Cavalleiros</i>; porém nisso póde haver dispensa
-com facilidade. O ultimo<span class="pagenum" id="Page_423">[Pg 423]</span> accrescentamento he de <i>Fidalgos do
-Conselho</i>, porém naõ he accrescentamento ordinario, nem os filhos
-o podem requerer, mas ElRey dá este titulo a quem lhe parece, e anda
-annexo a todos os Arcebispos, e Bispos, Priores Móres de Aviz, e
-Santiago, a todos os Inquisidores do Conselho Geral do Santo Officio,
-a todos os Condes, Desembargadores do Paço, Chancelleres da Casa da
-Supplicaçaõ de Lisboa, e Relaçaõ do Porto, e Chanceller Mór, Reitor
-da Universidade de Coimbra, Governador do Algarve, aos Governadores
-das Praças de Africa, Brasil, e Angola, e presentemente o concedeo Sua
-Magestade aos setenta e dous Mon-Senhores Prelados da Santa Igreja
-Patriarcal.</p>
-
-<p>6 Os moradores da Casa delRey, que naõ entraõ por Moços Fidalgos,
-saõ tomados por <i>Moços da Camera</i>, e depois se accrescentaõ a
-<i>Escudeiros Fidalgos</i>, e ultimamente a <i>Cavalleiros</i> com a
-terceira, ou quarta parte mais de moradia, conforme suas qualidades. Os
-Moços da Capella, Porteiros, Resposteiros, e toda a mais gente daqui
-para baixo tem accrescentamento ordinario a Escudeiro sómente, e esse
-menor, e de quantia certa.</p>
-
-<p>7 O foro dos <i>Fidalgos Cavalleiros</i>, que sómente se dava em algum
-famoso acto militar, mais era dignidade que foro, e começou neste
-Reino a ser accrescentamento ordinario depois da tomada de Alcacere,
-como diz Gomes Annes de Azurara; porque até entaõ como o Reino estava
-sem Conquistas, naõ havia ocasiaõ, senaõ rara, de alcançar semelhante
-honra; e os que hiaõ buscalla fóra do Reino, eraõ poucos, e por isso
-esta dignidade era taõ estimada, que todos os Principes daquelle
-tempo a procuravaõ alcançar com grande cuidado: assim lemos que
-para este effeito vieraõ a Hespanha, e Portugal grandes Senhores em
-varios tempos; e os que nesta parte alcançaraõ mayor gloria, foraõ os
-nossos Infantes, filhos delRey D. João I. porque<span class="pagenum" id="Page_424">[Pg 424]</span> só com este intento
-emprenderaõ a expugnaçaõ de Ceuta, e ElRey D. Joaõ II. sendo Principe,
-a de Arzilla.</p>
-
-<p>8 Dava-se tambem esta dignidade em tempo de paz, e com grandes festas,
-quando alguma Personagem subia ao novo titulo, como fez ElRey D. Pedro
-I. quando creou Conde de Barcellos a D. Joaõ Affonso Tello, seu grande
-privado,<a id="FNanchor_861" href="#Footnote_861" class="fnanchor">[860]</a> para o qual acto mandou fazer cinco cirios, que outros
-tantos homens tiveraõ nas mãos toda a noite, que o Conde velou as armas
-no Convento de S. Domingos de Lisboa, estando postos em duas alas desde
-a Igreja até os Paços do Castello. ElRey D. Affonso V. armou Cavalleiro
-a seu irmaõ o Infante D. Fernando com tanta solemnidade, que o menor
-apparato desta pompa foy precederem diante deste magnifico acto mil
-tochas, que levavaõ quatrocentos Cavalleiros, e seiscentos Escudeiros
-dos mais luzidos da Corte todos vestidos de huma libré, e traje.</p>
-
-<p>9 <i>Camareiro Mór</i> he o segundo officio da Casa Real, conforme a
-distribuiçaõ, que lhe assina a Ordenaçaõ do Reino.<a id="FNanchor_862" href="#Footnote_862" class="fnanchor">[861]</a> Chamava-se
-esta dignidade em tempo dos Imperadores Romanos <i>Primicerius sacri
-cubiculi</i>. Os Reys Godos intitularaõ ao Camareiro Mór <i>Comes
-cubicularius</i>, e havia outros, a que chamavaõ Condes do cubiculo,
-que eraõ os que agora saõ os Gentis-homens da Camera.<a id="FNanchor_863" href="#Footnote_863" class="fnanchor">[862]</a></p>
-
-<p>10 Esta dignidade começou mais tarde neste Reino, pois no governo
-delRey D. Affonso III. he a primeira vez, que se encontra este titulo
-em Joaõ Fernandes; e antes que a houvesse, fazia este offcio o
-Reposteiro Mór. Sua particular obrigaçaõ he vestir, e despir a pessoa
-delRey, aos pés de<span class="pagenum" id="Page_425">[Pg 425]</span> cujo leito costumava dormir. Ultimamente andou
-este officio na familia dos Sás, Condes de Penaguiaõ, e Marquezes de
-Abrantes, que exercitava com o titulo de Camarista, ou Gentil-homem da
-Camera em companhia de outros, que todos servem às semanas, e trazem
-chave dourada.<a id="FNanchor_864" href="#Footnote_864" class="fnanchor">[863]</a></p>
-
-<p>11 <i>Guarda Mór da Casa.</i> Desta dignidade se faz mençaõ no
-Regimento dos officios móres delRey D. Affonso V. o qual ordena, que o
-Guarda Mór traga sempre vinte Cavalleiros para guarda da pessoa delRey,
-que o acompanhem em toda a parte. Na Chronica delRey D. Manoel escreve
-Damiaõ de Goes,<a id="FNanchor_865" href="#Footnote_865" class="fnanchor">[864]</a> que o dito Rey, em quanto viveo, tivera sempre
-guarda da Camera, e dos Ginetes, de que muito se prezava. Constava a
-sobredita guarda de vinte e quatro Cavalleiros dos mais assinalados
-da Corte, que dormiaõ no Paço junto da Camera delRey, e na mesma casa
-dormiaõ tambem alguns Moços Fidalgos, e na outra sala outros tantos
-Moços do monte. Na guarda dos Ginetes havia duzentos Cavalleiros muito
-valentes, que armados com lanças, e adargas, acompanhavaõ a ElRey para
-onde hia.</p>
-
-<p>12 Tanto que ElRey se deitava na cama, antes de se lhe correr a
-cortina, entrava o Guarda Mór, e via a ElRey, e entaõ corria a cortina
-o Sumilher; e sahiaõ para fóra. Fechava o Guarda Mór a porta, e junto
-della se lhe fazia a cama, onde dormia, e mais afastado se seguiaõ as
-camas dos outros Fidalgos da guarda. Pela manhã, quando ElRey chamava,
-entrava o Guarda Mór com o Sumilher; este levantava a cortina, e o
-Guarda Mór assistia ao vestir delRey. Este costume se usou até<span class="pagenum" id="Page_426">[Pg 426]</span> o
-tempo delRey D Sebastiaõ,<a id="FNanchor_866" href="#Footnote_866" class="fnanchor">[865]</a> e o officio expirou em Pedro de Mendoça
-Furtado no reinado delRey D. Joaõ IV. que depois naõ se tornou mais a
-prover.</p>
-
-<p>13 <i>Reposteiro Mór.</i> Chamavaõ os Romanos a este officio <i>Comes
-Castrensis</i>, e presidia aos Castrensianos, que punhaõ a meza ao
-Imperador; aos Lampadarios, que tratavaõ das luzes, que de noite havia
-no Paço; aos Cellarios, que tinhaõ cuidado na despensa, e a outros
-muitos. Neste Reino serve de chegar a cadeira, ou almofada a ElRey,
-quando se assenta, ou poem de joelhos; e preside aos Reposteiros,
-cujos officios provê. Anda hoje esta dignidade na Casa do Conde de
-Castello-Melhor, que a herdou por morte de Bernardim de Tavora.</p>
-
-<p>14 <i>Veador da Casa.</i> O primeiro Veador, de que ha noticia neste
-Reino, he de Egas Moniz em tempo do invicto Rey D. Affonso Henriques;
-e os mais, que se lhe seguiraõ, foraõ sempre Cavalheros de grande
-caracter.<a id="FNanchor_867" href="#Footnote_867" class="fnanchor">[866]</a> Estava a seu cargo naõ só o governo total das oxarias,
-mas grande parte do regimen da Casa Real, porque servia inteiramente
-o officio de Mordomo Mór, quando este por qualquer ausencia, ou
-molestia faltava no Paço: assim o determinou ElRey D. Affonfo V. no
-seu Regimento,<a id="FNanchor_868" href="#Footnote_868" class="fnanchor">[867]</a> e se vê tambem no da Fazenda,<a id="FNanchor_869" href="#Footnote_869" class="fnanchor">[868]</a> estylo, que em
-muitos Reinos he estabelecido.<a id="FNanchor_870" href="#Footnote_870" class="fnanchor">[869]</a></p>
-
-<p>15 Ha muitos exemplos de servirem os Veadores o officio de Mordomo Mór,
-como foy Vasco Annes Corte-Real pelos annos 507, 512, e 515; Ruy Lopes
-em 527, e 529; D. Francisco de Sousa em 541, Thomé de Sousa em 551, D.
-Diogo<span class="pagenum" id="Page_427">[Pg 427]</span> Lopes de Lima em 570, e Damiaõ Borges em 579, sendo estes tempos
-comprehendidos nos governos dos Senhores Reys D. Manoel, D. Joaõ III.
-D. Sebastiaõ, e D. Henrique. Na mesma fórma continuou Francisco Barreto
-no tempo delRey Filippe II.</p>
-
-<p>16 He verdade que servindo o Veador Francisco Barreto de Mordomo Mór,
-se moveraõ entre elle, e o proprietario varias duvidas. Primeira sobre
-qual delles havia de levar o ordenado de Mordomo Mór. Segunda como
-se havia de dizer nos Alvarás: <i>Eu ElRey faço saber a vós F. meu
-Mordomo Mór</i>; ou <i>F. meu Veador, que hora servis de meu Mordomo
-Mór</i>. Terceira, se quando tornava a servir o Mordomo Mór, lhe havia
-de entregar o Veador as Consultas, e mais papeis, que, quando tinha
-servido, despachara, ou se haviaõ de ficar em seu poder. Resolveo-se
-que ambos levassem o ordenado de Mordomo Mór; que nos Alvarás se
-dissese: <i>Veador, que servis de Mordomo Mór</i>; e que os papeis
-fossem todos para o Cartorio, em que costumavaõ estar.</p>
-
-<p>17 Em todo o tempo dos Senhores Reys D. Joaõ IV., e D. Affonso VI.
-governavaõ os Veadores às semanas pela precisa, e continua assistencia,
-que faziaõ no Paço, assistindo aos comeres de Suas Magestades, e naõ
-mandando os ditos Senhores fazer nem ainda para si cousa alguma,
-que naõ fosse ordenando-o vocalmente ao Veador de semana, e este
-aos Officiaes subalternos. Quando as pessoas Reaes estavaõ doentes,
-eraõ obrigados a assistir nas juntas dos Medicos, para verem o que
-lhe mandavaõ comer, e receitar. Aos Veadores tocava o mando de todos
-os Officiaes pertencentes à meza delRey: elles tinhaõ o governo dos
-Moços da Camera: a seu cargo estava a enfermaria, onde se curavaõ os
-criados pobres; e nas jornadas, que os Reys faziaõ, corriaõ com todos
-os gastos inteiramente, e era totalmente<span class="pagenum" id="Page_428">[Pg 428]</span> sua a disposiçaõ. No governo
-do Serenissimo Senhor D. Pedro II. como se servia com os Camaristas,
-e comia pela Casa da Rainha, e as despezas ordinarias se faziaõ pela
-do Infantado, quasi ficaraõ sem exercicio os Veadores. Anda hoje este
-officio nas Casas dos illustrissimos Condes do Redondo, e Assumar, e D.
-Francisco Xavier de Sousa.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_858" href="#FNanchor_858" class="label">[857]</a> Naõ fazem mençaõ de outros Officiaes até o dito tempo
-Fr. Antonio Brandaõ, Ruy de Pina, e Duarte Nunes, sendo estes dos mais
-principaes Chronistas entre os nossos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_859" href="#FNanchor_859" class="label">[858]</a> Os que contaõ em hum dos tres officios ao Trinchante, he
-porque entendem que isto significava <i>Dapifer</i>; mas enganaõ-se,
-porque este officio corresponde ao de Veador, entre o qual, e o de
-Mordomo Mór naõ havia antigamente differença. Danet. in Diction. antiq.
-Roman. verb. <i>Comes.</i> Castr. Palat. Ducange verb. <i>Dapifer</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_860" href="#FNanchor_860" class="label">[859]</a> Veja-se a Bluteau no vocab. <i>Mordomo Mór</i>, e
-<i>Senescal</i>, e a Gil Gonçalves Davila no Theatro de las grandezas
-de Madrid p. 313. Nunes de Castro no livro <i>Solo Madrid es Corte</i>
-liv. 1. cap. 10. Villasboas na Nobiliarq. Port. cap 12. Lima Geograf.
-Histor. tom. 1. p. 481. Solan. Succo de Pegas tom. 2. p. 376. verb.
-<i>Æconomus</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_861" href="#FNanchor_861" class="label">[860]</a> Faria na Europ. Port. tom. 2. part. 2. cap. 4. num. 22.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_862" href="#FNanchor_862" class="label">[861]</a> Orden. liv. 3. tit. 5. no princip.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_863" href="#FNanchor_863" class="label">[862]</a> Petr. Pantin. de Offic. Regis domus Gothor. Garm.
-Theatr. de Hesp. tom. 3. p. 143 e 223.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_864" href="#FNanchor_864" class="label">[863]</a> Vide Gil Gonçalv. Theatr. de las grandez, de Madrid p.
-315. Peg. à Orden. tit. 13. liv. 3. tit. 5. gloss. 2. n. 64. Barbos.
-à dit. Orden. n. 2. Carv. in cap. Raynald. de test. part. 1. n. 364.
-Villasboas Nobiliarq. Port. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_865" href="#FNanchor_865" class="label">[864]</a> Goes part. 4. cap. 84.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_866" href="#FNanchor_866" class="label">[865]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 552. Lim. Geograf.
-Histor.tom. 1. p. 444. Veja-se a Argote no Discurso da Montaria Real
-cap. 6. e a D. Franc. Xavier de Garma no Theatr. Univ. de Hesp. t. 3.
-c. 14.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_867" href="#FNanchor_867" class="label">[866]</a> Monarq. Lusit. liv. 9. cap. 5. e liv. 10. cap. 4. Chron.
-del Rey D.Joaõ I. cap. 68.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_868" href="#FNanchor_868" class="label">[867]</a> No tit. de Mordomo Mór.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_869" href="#FNanchor_869" class="label">[868]</a> Cap. 241.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_870" href="#FNanchor_870" class="label">[869]</a> L’Etat de la France, e de la Gran Bretaña. Ethiquetas de
-Hespanha.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_X">CAPITULO X.<br><span class="small"><i>Dos Officiaes, e ordem, com que se assistia à meza dos Reys.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-<p>1 Costumavaõ os Senhores Reys deste Reino comer ordinariamente em
-publico, e com magestoso apparato desde o tempo delRey D. Affonso V.
-que imitou a seu tio o Infante D. Pedro.<a id="FNanchor_871" href="#Footnote_871" class="fnanchor">[870]</a> Assistia à meza hum
-<i>Trinchante</i>, que cortava. Até o tempo delRey D. Joaõ III. foy
-hum só, depois se accrescentou mais outro, e no reinado delRey D. Joaõ
-IV. houveraõ tres Trinchantes de tres differentes Casas. Hoje anda na
-de D. Antonio Alvares da Cunha, Senhor da Taboa, e na de D.Joseph de
-Vasconcellos e Sousa, que herdou este officio por casar com huma filha
-herdeira de Diogo de Brito Coutinho.<a id="FNanchor_872" href="#Footnote_872" class="fnanchor">[871]</a> Á maõ direita do Trinchante
-ficava o <i>Uchaõ</i>, e junto com elle o Servidor da toalha. Da parte
-esquerda se seguia o <i>Mantieiro</i>.</p>
-
-<p>2 Traziaõ os Moços da Camera as iguarias, vindo diante o <i>Prestes
-da Cozinha</i>, que he hum accrescentado, e nas festas grandes o
-<i>Mestre-Sala</i>. Davaõ-se os pratos ao Servidor da toalha, que os
-punha<span class="pagenum" id="Page_429">[Pg 429]</span> na meza, e o Uchaõ os chegava para o Trinchante por ordem,
-conforme se havia de comer. Depois de trinchados os que eraõ para iso,
-fazia a salva o Servidor da toalha, e o Trinchante os chegava a ElRey;
-e tanto que ElRey comia, os tirava o Mantieiro, e metia outros, e
-novamente guardanapo.</p>
-
-<p>3 <i>Uchaõ</i> he o que tinha cuidado de mandar guardar a caça na
-ucharia, ou dispensa da Casa Real, e por isso parece que se lhe deu
-o nome de Uchaõ, tomado de <i>Uccello</i>, que em italiano significa
-passaro. O officio de <i>Copeiro Mór</i>, a que os Godos chamavaõ
-Conde das Escancias, ou <i>Comes scanciarum</i>, que he o mesmo, que
-se dissessemos Conde das bebidas, he o que dá o pucaro de agua a ElRey
-para beber, e anda hoje este officio na Casa do Conde de Villa-Flor.
-Quando ElRey lhe fazia sinal, hia buscar o pucaro à porta da casa,
-onde ElRey comia, e lho entregava o Copeiro menor; e tornando a entrar
-acompanhado do mesmo Copeiro, e dous Porteiros da cana, que faziaõ
-suas cortezias, e se punhaõ de joelhos, chegava o Copeiro Mór à meza,
-dava o pucaro a ElRey, que acabando de beber, o tomava, estando até
-entaõ inclinado sobre a meza, tendo a salva debaixo do pucaro. Depois
-se levantava, e tres pés atraz fazia a cortezia, e dava o pucaro ao
-Copeiro menor, que o levava à copa acompanhado dos Porteiros.</p>
-
-<p>4 Nas solemnidades grandes se fazia este acto com muito mayor
-ceremonia; porque hiaõ diante os Porteiros da maça dous e dous, os
-Reys de armas, Arautos, e Passavantes, o Porteiro Mór, Mestre-Sala,
-Veador da Casa, os Védores da Fazenda, e detraz de todos o Mordomo Mór,
-e todos hiaõ descubertos até o estrado, onde faziaõ suas cortezias.
-Os Védores da Fazenda tiravaõ os chapeos no meyo da sala, e o Mordomo
-Mór até o fazer da cortezia, que juntamente a fazia, e tirava o<span class="pagenum" id="Page_430">[Pg 430]</span>
-chapeo, e neste tempo se tocavaõ os intrumentos musicos. Este mesmo
-acompanhamento se fazia nas primeiras, e ultimas iguarias, que vinhaõ
-à meza, e quando traziaõ a fruta.<a id="FNanchor_873" href="#Footnote_873" class="fnanchor">[872]</a> Todos estes Officiaes, que
-assitiaõ à meza, levavaõ certas iguarias de gajes da copa, as quaes
-eraõ de tanta importancia, que mandando ElRey D. Filippe II. que lhas
-dessem a dinheiro, se lhes arbitrarão por ellas grossos ordenados.</p>
-
-<p>5 Todos os Senhores, que assistiaõ à meza, estavaõ em pé encostados à
-parede, e nenhum dos Grandes tinha assento, porém cubriaõ-se os que
-tinhaõ esse privilegio. Á roda da meza estavaõ de joelhos os Moços
-Fidalgos; e quando no fim vinha a confeiteira, repartia ElRey com elles
-dos doces, e frutas.<a id="FNanchor_874" href="#Footnote_874" class="fnanchor">[873]</a> Em quanto os Reys comiaõ, costumavaõ praticar
-com os Fidalgos, principalmente com aquelles, que tinhaõ andado fóra
-do Reino; e com os doutos, que sempre estavaõ presentes, se excitavaõ
-questões curiosas, e uteis.</p>
-
-<p>6 Muitas vezes nos Domingos, e dias Santos jantavaõ, e ceavaõ com
-musicas; e nas Festas principaes com atabales, e trombetas. Vespera de
-Natal consoava ElRey em publico com todo o estado, e entretanto davaõ
-de cear a todos os Escudeiros, e Fidalgos, que estavaõ na sala. Depois
-mandavaõ de consoar às Damas, e aos Officiaes delRey se lhes mandava
-a suas casas. Os Moços da Camera consoavão na Guarda-reposta, e aqui
-mesmo se dava consoadas aos Capellães, e daqui para baixo até os moços
-da estribeira, e do monte.</p>
-
-<p>7 O fausto, e grandeza, com que ElRey D. Joaõ II. celebrou as vodas
-de seu filho o Principe D. Affonso com a Senhora Dona Isabel,
-especialmente nos banquetes, que deu em Evora, foraõ taõ<span class="pagenum" id="Page_431">[Pg 431]</span> notaveis,
-que nos obriga a transcrever o mais raro delles pelas formaes palavras
-do seu Chronista Garcia de Resende cap. 113. o qual diz: <i>Logo à
-entrada, da meza veyo huma grande carreta dourada, e traziaõ-na dous
-grandes boys assados inteiros com cornos, e mãos, e pés dourados, e o
-carro vinha cheyo de muitos carneiros assados inteiros com os cornos
-dourados, e vinha tudo posto num cadafalso taõ baixo com rodetas
-no fundo delle, que naõ se viaõ, que os boys pareciao vivos, e que
-andavaõ. E diante vinha hum Moço Fidalgo com huma aguilhada na maõ,
-picando os boys, que parecia que andavaõ, e levavaõ a carreta, e vinha
-vestido como carreteiro com hum pelote, e hum gaibaõ de veludo branco
-forrado de brocado, e assim a carapuça, que de longe parecia proprio
-carreteiro, e assim foy oferecer os boys, e carneiros à Princeza,
-e feito o serviço, os tornou a virar com sua aguilhada por toda a
-sala até sahir fóra, e deixou tudo ao povo, que com grande grita,
-e prazer foraõ espedaçados, e levava cada hum quanto mais podia. E
-assim vieraõ juntamente a todas as mezas muitos pavões assados com
-os rabos inteiros, e os pescoços, e cabeça com toda sua penna, que
-pareceraõ muito bem, por serem muitos, e outras muitas sortes de aves,
-e caças, manjares, e frutas, tudo em muito grande abundancia, e muita
-perfeiçaõ.</i></p>
-
-<p>8 A ultima vez, que as Magestades Portuguezas comeraõ em publico, foy
-quando veyo de Alemanha a Rainha Dona Maria Anna de Austria. A primeira
-cea, e jantar se deu na casa da galé, e foy de grande esplendor,
-disposiçaõ, asseyo, e apparato. Tinha a meza de comprido quatorze
-palmos e meyo, e de largo seis e meyo. Constava de quatro cubertas de
-vinte e hum pratos cada huma: as tres primeiras de cozinha, e a ultima
-de doces, e frutas. A disposiçaõ era nesta formalidade, segundo o
-mappa, que vimos em casa do Excellentissimo Conde do Redondo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_432">[Pg 432]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006">
-<img src="images/006.png" class="w50" alt="Lugar na mesa">
-</span></p>
-<p class="poetry">
- A Lugar do talher delRey Nosso Senhor.
-<br><br>
- B Lugar do talher da Rainha nossa Senhora.
-<br><br>
- C Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Francisco.
-<br><br>
- D Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Antonio.
-<br><br>
- E Lugar do guardanapo da Senhora Infanta Dona Francisca.
-<br><br>
- F Lugar do guardanapo do Senhor Infante D. Manoel.
-<br><br>
- G Primeiro aviamento de trinchar.
-<br><br>
- H Segundo aviamento de trinchar.
-<br><br>
- I Moços Fidalgos com abanos.
-<br><br>
- L Lugar do Veador.
-<br><br>
- M Lugar do Mantieiro.
-<br><br>
- N Lugar do primeiro Trinchante.
-<br><br>
- O Lugar do segundo Trinchante.
-<br><br>
- P Lugar do Servidor da toalha.
-<br><br>
- Q Lugar do Mestre-Sala.
-<br><br>
- R Lugar do Copeiro Mór.
-<br><br>
- S Lugar do Escrivaõ da cozinha.
-<br><br>
- TT Dous Moços da Camera com pratinhos.
-<br><br>
- VV Moços da Camera, que servem à Meza.<span class="pagenum" id="Page_433">[Pg 433]</span>
-<br><br> XX Lugar dos Titulos.
-<br><br>
- ZZ Lugar dos Officiaes da Casa.
-<br><br>
- YY Fysico Mór, e Cirurgião Mór.
-<br><br>
- KK Lugar das Senhoras, que acompanharaõ a Rainha nossa Senhora.
-<br><br>
- ** Girandulas, ou serpentinas de luzes.
-</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_871" href="#FNanchor_871" class="label">[870]</a> Nun. Chronic. delRey D. Affonso V. cap. 125. Soares da
-Silva nas Memorias delRey D. Joaõ I. p. 366.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_872" href="#FNanchor_872" class="label">[871]</a> Lim. Geograf. Histor. tom. 1. p. 511. Sous. Grandes de
-Portug. p. 279.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_873" href="#FNanchor_873" class="label">[872]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D.Joaõ II. cap. 123.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_874" href="#FNanchor_874" class="label">[873]</a> Goes Chron. delRey D. Manoel part. 4. cap. 84.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XI">CAPITULO XI.<br><span class="small"><i>Do acompanhamento, com que os Reys sahiaõ pela Cidade, e caminhavaõ
-com a Corte.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<p>1 Quando os Reys caminhavaõ pela Cidade, hiaõ nesta fórma: Os Porteiros
-da cana, e os Reys de armas precediaõ a todos a cavallo, e descubertos.
-Depois os Moços da estribeira tambem descubertos. Seguia-se o
-Estribeiro Mór a cavallo, e cuberto. Dahi a espaço a pessoa delRey; e
-atrás delle todos os Fidalgos a cavallo cubertos sem ordem. Só havendo
-algum Infante, ou Senhor grande, hia este mais chegado à Pessoa delRey,
-conforme o parentesco. Sendo dia solemne, hiaõ os trombetas, e timbales
-diante delRey.</p>
-
-<p>2 Na Cidade naõ usaraõ alguns Reys de guarda. ElRey D. Joaõ II. e
-ElRey D. Manoel a traziaõ: já ElRey D. Joaõ III. muitas vezes usava
-sahir fóra só com dous Porteiros da cana diante de si, a que alludio
-Francisco de Sá e Miranda, quando disse:<a id="FNanchor_875" href="#Footnote_875" class="fnanchor">[874]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Que se póde ir mais à vante</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Com quanto alcança o sentido,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Sem ferro, ou fogo, que espante,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Com duas canas diante</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>His amado, e his temido.</i></span><br>
-</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_434">[Pg 434]</span></p>
-<p>ElRey D. Sebastiaõ pelos muitos estrangeiros, que havia em Lisboa,
-introduzio a guarda de pé de Alabardeiros Portuguezes, e naõ Tedescos,
-com seu Capitaõ Fidalgo dos principaes. ElRey Filippe II. admittio
-guarda Tedesca, e a deixou ao Archiduque Alberto, depois do qual se
-continuou com os Governadores, e Vice-Reys. ElRey D. Joaõ IV. fez duas
-Companhias de guarda, huma de Alemães, outra de Portuguezes, como
-explica o douto, e diligente Padre D. Luiz de Lima.<a id="FNanchor_876" href="#Footnote_876" class="fnanchor">[875]</a></p>
-
-<p>3 Tinhaõ por costume os Senhores Reys ir fóra todos os Domingos depois
-de jantar ver correr a carreira, e algumas vezes elles mesmos a
-corriaõ.<a id="FNanchor_877" href="#Footnote_877" class="fnanchor">[876]</a> Para isto se ajuntavaõ além dos familiares do Paço muita
-outra gente dos contornos, onde ElRey estava, e corriaõ diante delle a
-cavallo. Eraõ os Reys taõ benignos, e humanos, que quando hiaõ pelas
-ruas, e viaõ alguns homens nobres à porta, se detinhaõ, e fallavaõ com
-elles.<a id="FNanchor_878" href="#Footnote_878" class="fnanchor">[877]</a> Honravaõ tanto a seus criados, que a alguns hiaõ levar
-a suas casas em dia de noivado: assim se lê delRey D. Joaõ III. que
-recebendo-se nos Paços dos Estáos (hoje da Inquisiçaõ) Dona Maria de
-Menezes com o avô de D. Antaõ de Almada, sahio ElRey acompanhando-a,
-atravessou o Rocio, e chegou até à esquina das casas de D. Braz da
-Silveira; e apontando para as dos Almadas, lhe disse galantemente:
-<i>Dona Maria, até aqui cheguey para vos mostrar as vossas casas,
-porque vos naõ enganassem, e levassem a outras.</i><a id="FNanchor_879" href="#Footnote_879" class="fnanchor">[878]</a></p>
-
-<p>4 Quando ElRey hia fóra da Corte, o acompanhavaõ ordinariamente os
-moradores da sua Casa, Conselho de Estado, e outra muita gente, que
-o seguia, assim por este respeito, como por seus requerimentos, e
-despachos; pelo que em qualquer parte, que a Corte estava, havia tanta
-frequencia,<span class="pagenum" id="Page_435">[Pg 435]</span> como em huma boa Cidade, e por isso ordenaraõ que a Corte
-trouxesse comsigo todos os Officiaes assim politicos, como de justiça,
-que saõ necessarios para o governo de huma Republica. Eraõ estes o
-Aposentador Mór, Almotacé Mór, Correyo Mór, Corregedores do Crime da
-Corte, Corregedores do Civel com seus Officiaes de justiça inferiores.</p>
-
-<p>5 O Aposentador Mór tem por obrigaçaõ ir diante da Corte hum, ou dous
-dias, para ter prevenido o alojamento delRey; porque he costume antigo
-neste Reino aposentarem os moradores de qualquer povo a ElRey, e sua
-Corte, dando a metade das casas para se recolherem os que acompanhaõ a
-ElRey. Esta distribuiçaõ de aposentos faz o Aposentador Mór, e he Juiz
-de todas as duvidas, que sobre esta materia occorrerem. Hoje anda este
-Officio na Casa dos illustrissimos Condes de Santiago.<a id="FNanchor_880" href="#Footnote_880" class="fnanchor">[879]</a></p>
-
-<p>6 Ao Almotacé Mór pertence prover a Corte, onde quer que estiver, de
-mantimentos, e para isso tem grande jurisdiçaõ, que se extende cinco
-leguas da Corte. Antes que ElRey faça jornada para alguma parte, manda
-adiante fazer promptos os mantimentos, e convocar certo numero de
-Regatões, que chamaõ da Corte, cujos officios elle dá, os quaes tem
-por obrigaçaõ prover a Corte de caça, e do mais preciso, com tanto que
-naõ tragaõ os mantimentos dos povos cinco leguas à roda do lugar, onde
-a Corte está; e para ser provida melhor, quando a Corte está fóra de
-Lisboa, se quita meya ciza a quaesquer outros Regatões, a que fóra das
-cinco leguas trazem mantimentos. Anda este cargo de Almotacé Mór em
-Joaõ Gonçalves da Camera Coutinho.<a id="FNanchor_881" href="#Footnote_881" class="fnanchor">[880]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_436">[Pg 436]</span></p>
-
-<p>7 Ao Correyo Mór compete prover de cavalgaduras para os moradores
-da Corte caminharem, e pôr as postas ordinarias no Reino; e quando
-ElRey corre a posta, serve elle de Postilhaõ. Despacha os Correyos
-ordinarios de pé, e cavallo, assim para o Reino, como para fóra delle.
-A propiedade deste officio concedeo D. Filippe II. e confirmou ElRey D.
-Joaõ de juro e herdade à Familia dos Matas.<a id="FNanchor_882" href="#Footnote_882" class="fnanchor">[881]</a> Nestas jornadas usavaõ
-os Reys às vezes de guarda cavalleiros, e particularmente a trazia
-ElRey D. Joaõ II. a quem sempre acompanhava o Capitaõ dos Ginetes com
-ella. ElRey D. Manoel lhe accrescentou o numero, que faziaõ duzentos
-Cavalleiros, que com o mesmo Capitaõ lhe precediaõ sempre.</p>
-
-<p>8 Com a mudança de governo houve tambem mudanças na formalidade da
-guarda Real. Para idéa da que hoje se pratica nas funções solemnes,
-mostraremos brevemente a ordem, com que as Pessoas Reaes caminharaõ de
-Elvas para o Caya em 19 de janeiro de 1729 para as reciprocas entregas,
-e desposorios dos Principes, e Princezas. Principiava aquelle vistoso
-acompanhamento por mais de quarenta coches dos Fidalgos titulares
-do Reino, a mayor parte delles tirados a seis frizões. Seguia-se
-huma partida de quinze Cavalleiros com hum Alferes, vinte e quatro
-trombetas, e atabaleiros da Casa Real vestidos de veludo carmesim
-apassamanados de galões de ouro. Logo os cavallos de maõ dos Infantes
-D. Francisco, e D. Antonio cubertos de telizes de veludo verde bordados
-de ouro, e trinta delRey, do Principe, e do seu Estribeiro Mór. Depois
-marchava hum Tenente com quinze cavallos, e logo doze postilhões
-de gabinete com fardas de panno encarnado com alamares de prata.
-Seguiaõ-se muitos coches, e berlindas, em que hiaõ<span class="pagenum" id="Page_437">[Pg 437]</span> muitos Officiaes
-do Paço de mayor graduaçaõ. Logo os coches de respeito dos Infantes,
-da Princeza, do Principe, e delRey, e ultimamente o coche magnifico,
-em que hia a Familia Real, e atrás delle muitos moços da estribeira a
-cavallo, e sete berlindas com as Camareiras Móres, e outras Senhoras,
-e cento e trinta seges da Familia, e no fim de tudo hum esquadraõ de
-guarda com quinhentos cavallos, que desde Lisboa foraõ acompanhando a
-ElRey, e governavaõ quatro Fidalgos da primeira Nobreza. Naõ fallamos
-na magnificencia, e magestosa pompa desta jornada mais extensamente,
-porque se póde ver nos Authores allegados;<a id="FNanchor_883" href="#Footnote_883" class="fnanchor">[882]</a> só advertimos, que
-para esta funçaõ mandou ElRey que a libré antiga da Serenissima Casa
-de Bragança, que era de panno silvado de verde e branco guarnecida de
-galões de prata, se mudasse sómente para a sua Casa Real, da Rainha, e
-Principes do Brasil na cor, de que usaraõ os antigos Reys, que era de
-panno encarnado com os cabos, e vesteas azuis agaloadas de prata, e aos
-Archeiros da guarda da mesma cor com a differença de serem os galões de
-ouro.<a id="FNanchor_884" href="#Footnote_884" class="fnanchor">[883]</a></p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_875" href="#FNanchor_875" class="label">[874]</a> Sá de Mirand. Epist. 1.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_876" href="#FNanchor_876" class="label">[875]</a> Lim. Geogr. Histor. part. 1. p. 399.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_877" href="#FNanchor_877" class="label">[876]</a> Goes Chronic. delRey D. Manoel p. 341.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_878" href="#FNanchor_878" class="label">[877]</a> Clede tom. 3. pag. mihi 421. na vida delRey D. Joaõ II.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_879" href="#FNanchor_879" class="label">[878]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 4. p. 258.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_880" href="#FNanchor_880" class="label">[879]</a> Veja-se a Pegas à Orden. t. 13 add. t. 5. gloss. 2. num.
-100. Far. no Epitom. pag. mihi 665. Villasb. na Nobiliarq. Port. cap.
-12. Lima Geogr. Histor. tom. 1. pag. 337. Navarret. Conservac. de las
-Monarq. cap. 20.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_881" href="#FNanchor_881" class="label">[880]</a> Orden. liv. 1. tit. 18.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_882" href="#FNanchor_882" class="label">[881]</a> Corogr. Portug. tom. 3. p. 390.</p>
-
-</div></div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XII">CAPITULO XII.<br><span class="small"><i>Dos Officiaes destinados para a caça, e montaria, e das principaes
-coutadas do Reino.</i></span></h2>
-</div>
-
-<p>1 O Exercicio da caça assim de volateria, como de montaria foy
-sempre a mais ordinaria recreaçaõ dos Reys Portuguezes, para a qual
-mantinhaõ<span class="pagenum" id="Page_438">[Pg 438]</span> com grande pompa Officiaes, e Caçadores, que fossem destros,
-e intelligentes em semelhantes artes.<a id="FNanchor_885" href="#Footnote_885" class="fnanchor">[884]</a> Do Infante D. Duarte,
-filho delRey D. Manoel, se conta,<a id="FNanchor_886" href="#Footnote_886" class="fnanchor">[885]</a> que era nelle taõ dominante
-este divertimento, que naõ reparava em descommodo algum só para matar
-hum veado, chegando muitas vezes a dormir vestido no campo exposto à
-inclemencia do tempo. Continuou este passatempo até o reinado delRey D.
-Sebastiaõ; depois conforme o genio, e inclinaçaõ dos Principes assim
-hia crescendo, ou diminuindo.</p>
-
-<p>2 Quanto aos Officiaes para este ministerio, he o <i>Monteiro Mór</i>
-o que preside aos mais ministros da caça, o qual aceita todos os
-Monteiros de cavallo, e de pé, e moços do monte, de que ElRey se
-serve. Havia tambem <i>Caçador Mór</i> para a caça de volateria, e
-<i>Falcoeiro Mór</i> para a que se fazia com falcões. Hoje todas estas
-tres occupações unidas ao officio de Monteiro Mór andaõ na Familia dos
-Mellos.<a id="FNanchor_887" href="#Footnote_887" class="fnanchor">[886]</a></p>
-
-<p>3 As coutadas antigas do Reino em tempo delRey D. Affonso V. occupavaõ
-grande quantidade de terra, e por isso pediraõ os povos a ElRey D.
-Joaõ II. nas Cortes de Montemór o Novo, que descoutasse parte dellas
-para os campos se poderem aproveitar, e se escusarem os damnos, que as
-caças silvestres faziaõ nas sementeiras. ElRey como Principe taõ amante
-de seus vassallos o consentio, e descoutou muitas terras. O mesmo fez
-ElRey D. Manoel nas Cortes de Lisboa de 1498,[4] e Filippe II. no anno
-1594,<a id="FNanchor_888" href="#Footnote_888" class="fnanchor">[887]</a> descoutou as montarias de Palmella, a de Montemór o Novo, a
-de Montemor o Velho,<span class="pagenum" id="Page_439">[Pg 439]</span> e a de Aveiro, ordenando que naõ houvesse mais
-coutadas que as de Lisboa, Cintra, Collares, Almeirim, e Salvaterra.</p>
-
-<p>4 A coutada de Lisboa principiava das portas de Santo Antaõ, estrada
-direita até o Lugar de Bemfica, e de Bemfica até Agualva, e da Agualva
-a S. Marcos, e de S. Marcos a Oeiras, e daqui direito ao mar. As de
-Cintra, e Collares tinhaõ duas leguas em circuito ao redor de cada
-huma das ditas Villas. As de Almeirim, e Salvaterra principiava a sua
-demarcaçaõ de Santo Eustacio direito pela estrada de aguas vivas acima
-até as Simalhas, e dahi atravessando até a ribeira de Muja por cima da
-mouta das Corvas, e atravessando a dita ribeira para o Zebro, e arneiro
-dos Cruzentes, e daqui às Bezerras: dahi atravessando a ribeira da
-Lamarosa direito às Cortezinhas, e das Cortezinhas à Erra, depois pela
-estrada de Coruche, e pela mesma estrada abaixo até S. Romaõ, e logo a
-Santo Estevaõ, atravessando a ribeira de Canha direito para as casas de
-Belmonte, e dahi ao longo das terras do Duque até a ponta da mata de
-Payo Real, que parte as lavouras, e daqui pela banda do Tejo a Santo
-Eustacio.<a id="FNanchor_889" href="#Footnote_889" class="fnanchor">[888]</a></p>
-
-<p>5 Naõ obstante isto, ficou sempre conservando as montarias de
-<i>Santarem</i>, que constaõ de muito mais de vinte e seis matas, com
-outras de particulares: as de <i>Alenquer</i>, as de <i>Obidos</i>
-com quinze matas, e outras particulares: as de <i>Leiria</i> com o
-famoso pinhal de quatro leguas de comprido, e huma de largo: as de
-<i>Pombal</i>, as de <i>Coimbra</i>, as de <i>Coruche</i>, as de
-<i>Benavente</i>, e as de <i>Alcacere do Sal</i>, onde junto ao rio,
-que vay para a dita Villa, ha hum pinhal de huma legua de comprido, e
-de largo hum quarto de legua bastecida de muita caça.</p>
-
-<p>6 As mais notaveis coutadas, que servem hoje<span class="pagenum" id="Page_440">[Pg 440]</span> de divertimento aos
-Principes de Portugal, são as dos sitios de <i>Alcantara</i>, e
-<i>Belém</i> abundantes de perdizes, lebres, coelhos, e gamos: a
-de<i>Cintra</i>, que se extende por dilatados bosques, cujo sitio
-excede em qualidades a todos os do Reino, e chega até a Villa de
-Cascaes, fertil todo o seu terreno de perdizes, lebres, coelhos, e
-de certa especie de caça de arribação, que a fertiliza nos mezes de
-Setembro, e Outubro. Ao Sul da serra de Cintra da parte opposta do rio
-corre a serra da Arrabida, taõ povoada de todo o genero de caça, e em
-particular de veados, que além de serem os mayores de toda a Hespanha,
-excedem em quantidade a outras coutadas do Reino, com tanto commodo
-para os Caçadores, quantas saõ as quintas, e casas de campo, que tem o
-seu assento nos vistosos, e fertilissimos sitios de Azeitaõ, Cezimbra,
-e Calhariz, situadas nas margens, e visinhanças da mesma serra.</p>
-
-<p>7 Para o tempo de Inverno he a celebre coutada de <i>Pancas</i>, tres
-leguas de Lisboa da outra banda do rio, taõ fertil de todo o genero
-de caça, que em pouca distancia da terra costuma entreter muitos
-Caçadores. Tanta he a abundancia, e variedade, que no mesmo tempo se
-occupaõ os Monteiros em correr à lança grandes javalis, e generosos
-veados, e os Caçadores em tirar às perdizes, correr às lebres, e matar
-os coelhos, além de outra muita caça de arribaçaõ, que concorre às
-lagoas, e pantanos daquelle sitio. Com pouca mais distancia de leguas
-no termo da grande Villa de Setubal nas ribeiras do rio Sado estaõ as
-duas grandes coutadas do <i>Pinheiro</i>, e <i>Palma</i>, notaveis
-pela abundancia de veados, e porcos montezes muito pingues, e grande
-quantidade de perdizes, lebres, coelhos, e outras variedades de caças.</p>
-
-<p>8 Apartadas de Lisboa dez, e quatorze leguas se seguem as Reaes
-Casas de campo de <i>Salvaterra</i>, e <i>Almeirim</i>, que pelo
-Tejo acima se communicaõ<span class="pagenum" id="Page_441">[Pg 441]</span> por mar, sendo o caminho de terra facil,
-ameno, e commodo pelo assento, e concurso de muitos lugares vistosos,
-que em toda aquella distancia se vaõ continuando por huma povoaçaõ
-successiva, onde a Corte se entretinha todos os annos por espaço
-de quarenta dias com diversos exercicios de passatempo.<a id="FNanchor_890" href="#Footnote_890" class="fnanchor">[889]</a> Saõ
-ferteis de veados, porcos, e toda a especie de caça; commodas para as
-montarias de cavallo; faceis para as caçadas de lança, e de espigarda;
-abundantes nas volaterias; dispostas para o entretenimento das Damas
-com tal commodidade, que dos mesmos coches vem alancear os porcos,
-matar os veados, correr as lebres, apanhar os coelhos. e voar as
-aves tão suavemente, e sem fadiga, que na mayor distancia se escusa
-todo o desvelo, porque a fecundidade do sitio facilita os exercicios
-igualmente a quem os vê, e a quem os segue.</p>
-
-<p>9 De mais destas grandes coutadas se aparta de Lisboa em distancia de
-trinta leguas aquella mais celebre da Serenissima Casa de Bragança, que
-com o nome de <i>Tapada</i> tem o seu assento em <i>Villa Viçosa</i>,
-aonde os javalis saõ ferozes, e muitos, e em grande quantidade os
-veados, e muita caça miuda, que ainda sendo o sitio fertil por
-natureza, os sustenta por maravilha.<a id="FNanchor_891" href="#Footnote_891" class="fnanchor">[890]</a> Porém melhor que todas he a
-<i>Tapada Real de Mafra</i>, depois que se acabaraõ de fechar os seus
-muros pela circumvalaçaõ de tres leguas, servindo para mayor grandeza,
-e divertimento as Ermidas, bosques, rios, pontes, e outras officinas,
-que ha dentro do seu circuito, tudo igualmente magnifico, e perfeito.</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_883" href="#FNanchor_883" class="label">[882]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 8. p. 286. Barbos. nos Fast.
-da Lusit. tom 1. p. 229.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_884" href="#FNanchor_884" class="label">[883]</a> Veja-se o livrinho Francez intitulado: <i>Description de
-la Ville de Lisbonne</i> pag. 82.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_885" href="#FNanchor_885" class="label">[884]</a> Diogo Fernandes na Arte da caça de altanaria pag. 4.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_886" href="#FNanchor_886" class="label">[885]</a> Dam. de Goes Chron. delRey D. Manoel part. 3. cap. 78.
-Sous. Histor. Geneal. tom. 3. p. 424.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_887" href="#FNanchor_887" class="label">[886]</a> Vide Solano Succo de Peg. tom. 3. p. 413. Cabedo decis.
-90. part. 2. Ord. liv. 3. tit. 5. e gloss. 2. n. 115. Villasboas
-Nobiliarq. Portug. cap. 12.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_888" href="#FNanchor_888" class="label">[887]</a> Damiaõ de Goes Chronic. delRey D. Manoel part. 1. cap.
-26.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_889" href="#FNanchor_889" class="label">[888]</a> Veja-se o Regimento do Monteiro Mór.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_890" href="#FNanchor_890" class="label">[889]</a> Luiz Mendes de Vasconcel. no Sitio de Lisboa p. 207.
-Nicol. de Oliveir nas Grandez. de Lisb. trat. 2. cap. 5. Brand. Monarq.
-Lusit. liv. 16. cap. 41 e liv. 18 cap. 2. Sous. Histor. de S. Doming.
-part. 2. pag. 256.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_891" href="#FNanchor_891" class="label">[890]</a> Sous. Histor. Geneal. tom. 5. p. 559. e tom. 6. p. 408.</p>
-
-</div></div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_442">[Pg 442]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XIII">CAPITULO XIII.<br><span class="small"><i>Do estylo, com que os Principes, e Embaixadores estrangeiros eraõ
-recebidos pelos nossos Reys, e do modo, com que estes assistem no acto
-das Cortes.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-<p>1 Dos estylos, que os Reys tinhaõ no recebimento de outros grandes
-Principes, que vinhaõ ao Reino, ha poucos exemplos, por serem raras as
-vezes, que isto aconteceo em Portugal; e ainda que algumas memorias
-referem, que ElRey D. Affonso II. de Castella veyo a este Reino pedir
-a ElRey D. Affonso IV. o soccorro, com que o foy ajudar na batalha
-de Tarifa, com tudo naõ se escrevem as ceremonias, que neste acto
-passaraõ. E quando ElRey D. Pedro de Castella expulso fóra do Reino por
-seu irmaõ veyo a Portugal valerse delRey D. Pedro I. naõ se vio com
-elle; porque como os nossos Principes em razaõ, e respeito de estado
-o naõ quizeraõ ajudar, evitaraõ as vistas, e o mandaraõ acompanhar
-sómente por alguns Fidalgos principaes do Reino até à raya de Galiza;
-porém he facil de entender que em semelhantes occasiões seriaõ tratados
-nos recebimentos das Cidades com as mesmas ceremonias dos Reys
-naturaes, pois assim em Castella, e em França se fez o mesmo aos Reys
-deste Reino.</p>
-
-<p>2 Em tempo delRey D. Fernando veyo a este Reino Aymon, Conde de
-Cambrix, Infante de Inglaterra, trazendo comsigo a Infanta Dona Isabel
-sua mulher, e filha delRey D. Pedro de Castella, por cujo respeito o
-Conde pertendia aquelle Reino. Chegados os Infantes a Lisboa, ElRey os<span class="pagenum" id="Page_443">[Pg 443]</span>
-foy visitar à náo, e desembarcados foraõ fazer oraçaõ à Sé, indo todos
-a pé, e levando ElRey a Infanta pelo braço. Á vinda montaraõ todos a
-cavallo, e ElRey, por ser grande cortezaõ, levou a infanta de redea até
-S. Domingos, onde havia ordenado que pousassem.<a id="FNanchor_892" href="#Footnote_892" class="fnanchor">[891]</a></p>
-
-<p>3 No anno de 1670 veyo à Corte de Lisboa o Graõ Duque de Toscana Cosme
-III. e se aposentou no Collegio de Santo Antaõ. Fallou com ElRey D.
-Pedro em audiencia particular com a formalidade seguinte: Entrou às
-oito horas da noite pelo picadeiro da Corte Real em hum coche de
-respeito de Sua Alteza, e D. Joaõ de Sousa, Védor da Casa Real, o veyo
-buscar com doze Moços da Camera com tochas; e depois de responder ao
-cumprimento de D. Joaõ de Sousa, mandou cubrir os Moços da Camera; e
-subindo pela escada recondita, o veyo buscar huns poucos de degráos
-abaixo o Gentil-homem da Camera, que estava de semana, do Principe
-Regente, a cuja presença o conduzio, e em cuja Camera estava huma cama
-rica de téla azul, hum bofete cuberto, e huma cadeira. O Principe
-Regente o recebeo com agrado, dando os passos necessarios para chegar
-ao meyo da casa; e tornando para o seu lugar, disse ao Graõ Duque:
-<i>Cubra-se V. Alteza</i>; e no discurso da conversaçaõ lhe deu sempre
-o tratamento de Vós, e o Graõ Duque ao Principe Regente o de Magestade.
-Os Gentis-homens da Camera sahiraõ para fóra; e quando o Duque se
-despedio, o Principe deu os mesmos passos, e elle foy acompanhado da
-mesma fórma, que no principio.<a id="FNanchor_893" href="#Footnote_893" class="fnanchor">[892]</a></p>
-
-<p>4 Tambem no anno de 1688 veyo incognito a Lisboa o Principe Jorge
-Augusto de Saxonia, que depois foy Rey Augusto II. de Polonia, e
-fallou<span class="pagenum" id="Page_444">[Pg 444]</span> a ElRey D. Pedro com quasi a mesma formalidade.<a id="FNanchor_894" href="#Footnote_894" class="fnanchor">[893]</a></p>
-
-<p>5 O recebimento dos Embaixadores se fazia com muita solemnidade.
-Mandava-os ElRey acompanhar ao Paço no dia da audiencia por Fidalgos
-da primeira Nobreza, segundo a graduaçaõ, e grandeza dos Principes,
-de que eraõ enviados; e entrando pela casa, onde ElRey os esperava,
-se levantava ElRey da cadeira, e punha a maõ no chapeo, e tornava
-a abaixalla; e encostando-se no braço da cadeira, lhe vinhaõ os
-Embaixadores beijar a maõ, e lhes tomava as cartas de crença, e em
-pé os ouvia até os despedir. Depois para tratar dos negocios, a que
-vinhaõ, se lhes dava audiencia em casa particular em cadeira raza com
-alcatifa por cima.<a id="FNanchor_895" href="#Footnote_895" class="fnanchor">[894]</a></p>
-
-<p>6 As Cortes em Portugal correspondem às Assembleas de França, Dietas de
-Alemanha, e Parlamentos de Inglaterra. Compõem-se dos tres Estados do
-Reino, Ecclesiastico, Nobreza, e Povo, aos quaes costuma ElRey convocar
-para as determinações publicas, e de grandes interesses. Juntaõ-se as
-pessoas dos tres Estados em huma sala ricamente adornada: na cabeceira
-della se levanta hum estrado de seis degráos com a elevaçaõ de sete
-palmos, que he para o throno delRey: na parte inferior arrimados
-à parede se põem bancos, e pelo corpo da sala, para se sentarem
-os chamados, que saõ os Titulos, Prelados, Senhores de terras, e
-Procuradores das Cidades, e Villas.</p>
-
-<p>7 Principia este acto com a assistencia delRey, o qual costuma vir
-com oppa rossagante de brocado, e Cetro de ouro na maõ. Vem diante
-delle o Condestavel do Reino com o estoque levantado, e mais adiante o
-Alferes Mór com a bandeira Real enrolada, precedendo os Reys de armas,
-Arautos,<span class="pagenum" id="Page_445">[Pg 445]</span> e Passavantes vestidos em cottas, onde se vê bordado o escudo
-do Reino. A estes antecedem os Porteiros com maças de prata; e se o
-acto he de juramento de algum Principe, precedem a tudo os atabales,
-e clarins. Chegando ElRey à cadeira, se accommodaõ todos nos seus
-assentos determinados.</p>
-
-
-<p class="center caption"><i>Preferencia dos Procuradores das Cidades, e Villas do Reino, que tem
-assento em acto de Cortes.</i></p>
-
-<p class="center caption"><i>Bancos.</i></p>
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">1&#160; Porto, Evora, Lisboa, Coimbra, Santarem, Elvas.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">2&#160; Tavira, Guarda, Viseu, Braga, Lamego, Silves.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">3&#160; Lagos, Faro, Leiria, Béja, Guimarães, Estremoz, Olivença.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">4&#160; Portalegre, Bragança, Thomar, Montemór o Novo, Covilhã, Setubal, Miranda.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">5&#160; Ponte de Lima, Vianna, Foz de Lima, Villa-Real, Moura, Montemór o Velho.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">6&#160; Cintra, Torres Novas, Alenquer, Obidos, Alcacere, Almada.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">7&#160; Niza, Torres Vedras, Castellobranco, Aveiro.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">8&#160; Mouraõ, Serpa, Villa do Conde, Trancozo.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">9&#160; Aviz, Arronches, Pinhel, Abrantes, Loulé.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">10&#160; Alter do Chaõ, Freixo de Espada à cinta, Valença, Monçaõ, Alegrete.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">11&#160; Castello Rodrigo, Castello de Vide, Penamacor, Marvaõ, Certã.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">12&#160; Crato, Fronteira, Monforte, Veiros, Campo Mayor.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">13&#160; Caminha, Torre de Moncorvo, Castro Marinho, Palmella, Cabeço de Vide.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">14&#160; Barcellos, Coruche, Monsanto, Gravaõ, Panoias, Ourem.</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_446">[Pg 446]</span><span style="margin-left: 1em;">15&#160; Arrayolos, Ourique, Albofeira, Borba, Portel.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">16&#160; Atouguia, Monsarás, Villa Viçosa, Penela, Santiago de Cacem.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">17&#160; Vianna junto de Evora, Villa-Nova de Cerveira, Porto de Mós, Pombal. </span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">18&#160; Alvito, Mertola.</span><br>
-</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_892" href="#FNanchor_892" class="label">[891]</a> Far. Europ. Portug. tom. 2. part. 2. cap. 5. n. 63.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_893" href="#FNanchor_893" class="label">[892]</a> Sousa Histor. Geneal. tom. 2. p. 441.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_894" href="#FNanchor_894" class="label">[893]</a> Sousa Histor. Genealog. tom 7 p. 694.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_895" href="#FNanchor_895" class="label">[894]</a> Garcia de Resend. Chron. delRey D. Joaõ II. cap. 77. p.
-50. vers. Chron. delRey D. Joaõ III. part. 1. Cap. 25. Far. na Europ.
-Port. part. 4. cap. 2. n. 26.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="2_CAPITULO_XIV">CAPITULO XIV.<br><span class="small"><i>Das ceremonias, e estylo, que se praticava nas mortes dos Reys.</i></span></h2>
-</div>
-
-
-
-<p>1 Havia costume antigamente em Portugal, deduzido desde o tempo da
-gentilidade, tanto que morria alguem, conduzirem a preço certas
-mulheres, chamadas pranteadeiras, para virem assistir aos defuntos, e
-acompanhallos até à cova, chorando, e pranteando sobre elles. Por esta
-ceremonia começava a demonstraçaõ do sentimento; e quando a pessoa
-era Real, se executava com muito mayor excesso, e mayor numero de
-pranteadeiras, ou carpideiras, as quaes entre as lagrimas, e os gemidos
-misturavaõ louvores do defunto, que se era Rey, diziaõ delle o bom
-tratamento, que fizera ao seu povo, que o naõ vexara com tributos, que
-introduzira tanto dinheiro no thesouro, accrescentando tanto mais sobre
-o que herdara; e com estes, e outros elogios gritando, e soluçando
-faziaõ mais lustuoso aquelle Regio funeral.<a id="FNanchor_896" href="#Footnote_896" class="fnanchor">[895]</a></p>
-
-<p>2 Assim consta que se fizera no enterro delRey D. Diniz, e no delRey
-D. Fernando,<a id="FNanchor_897" href="#Footnote_897" class="fnanchor">[896]</a> até que no tempo delRey D. Joaõ I. fez o Senado da
-Camera de Lisboa extinguir semelhante costume,<a id="FNanchor_898" href="#Footnote_898" class="fnanchor">[897]</a> conservando-se
-porém ainda até o tempo delRey<span class="pagenum" id="Page_447">[Pg 447]</span> D. Manoel o luto de burel branco,
-porque o primeiro luto negro, que se usou neste Reino, foy o que se
-vestio na morte da Senhora Dona Filippa, tia delRey D. Manoel.<a id="FNanchor_899" href="#Footnote_899" class="fnanchor">[898]</a>
-Isto supposto, tanto que falecia algum dos Reys Portuguezes, se
-despachavaõ logo Correyos para as Comarcas do Reino, com a qual noticia
-se levantavaõ nas Cathedraes, e Paroquias tumulos de madeira cubertos
-de lutos para se fazerem os Officios, e funeraes, dobrando ao mesmo
-tempo os sinos.</p>
-
-<p>3 Depois sahia em dia determinado da Casa do Senado a comitiva
-seguinte: A principal pessoa hia a cavallo vestida de luto, e levava
-huma bandeira negra ao hombro, que arrastava até o chaõ. Com o mesmo
-luto, e da mesma sorte o seguiaõ os tres Vereadores daquelle anno
-acompanhados de toda a Nobreza, e assistidos de tres Ministros, que
-lhes levavaõ tres escudos pretos; e caminhando para a parte mais
-publica do lugar, onde já estava prevenido hum estrado com alguns
-degráos, cuberto tudo de pannos negros, se subia nelle o primeiro
-Vereador com hum escudo preto nas mãos, e voltado hum pregoeiro para
-o povo, dizia tres vezes em voz alta: <i>Ouvide</i>, <i>ouvide</i>,
-<i>ouvide.</i> Logo o primeiro Vereador dizia estas palavras, que
-levava escritas: <i>Choray, povo, choray a morte do vosso Rey, que
-vos governou com justiça, e amor de pay</i>. E subindo o escudo sobre
-a cabeça, o deixava cahir em terra, e se quebrava. Com as mesmas
-circunstancias se repetia a mesma ceremonia pelos outros Vereadores,
-levantando ao mesmo tempo o povo grandes clamores, e prantos. Depois
-caminhavaõ para a Igreja, na qual assistiaõ ao funeral, que tambem se
-fazia com aquella expressaõ de pena, e dor, que merecia a grandeza da
-perda. Veja-se a Damiaõ de Goes, Garcia de Resende, e outros Chronistas
-antigos, que as descrevem com miudeza.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_448">[Pg 448]</span></p>
-
-<p>4 Na Corte se fazia este acto com mayor pompa, porque ao Alferes da
-Cidade pertencia levar a bandeira, aos Vereadores varas pretas nas
-mãos, a dous Juizes do Crime, e hum do Civel o levarem sobre a cabeqa
-os tres escudos, que pela referida ordem se quebravaõ, o primeiro
-no taboleiro da Sé, o segundo no meyo da rua nova, o terceiro no
-Rocio.<a id="FNanchor_900" href="#Footnote_900" class="fnanchor">[899]</a> As mayores demonstrações de sentimento, que neste Reino se
-tem feito por pessoas Reaes, foraõ as que se viraõ na morte do Principe
-D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. refere-as por extenso Garcia de
-Resende;<a id="FNanchor_901" href="#Footnote_901" class="fnanchor">[900]</a> porém as de mayor formalidade, e pompa foraõ as que se
-executaraõ no enterro delRey D. Joaõ I. vindo-se a concluir tudo nas
-breves, e verdadeiras clausulas desta sentença:<a id="FNanchor_902" href="#Footnote_902" class="fnanchor">[901]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Tot mundi Principes, tanta potentia:</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>In ictu oculi clauduntur omnia.</i></span><br>
-</p>
-
-
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_896" href="#FNanchor_896" class="label">[895]</a> Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 44. e liv. 22. cap. 52.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_897" href="#FNanchor_897" class="label">[896]</a> Ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_898" href="#FNanchor_898" class="label">[897]</a> Ibid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_899" href="#FNanchor_899" class="label">[898]</a> Soar. da Silv. Memorias delRey D. Joaõ I. n. 153.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_900" href="#FNanchor_900" class="label">[899]</a> Monarq. Lusitan. part 7. liv. 5. cap 1. Far. Europ
-Portug tom. 2. part. 1. cap. 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_901" href="#FNanchor_901" class="label">[900]</a> Resend. cap. 131. e 133.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_902" href="#FNanchor_902" class="label">[901]</a> Drexelio no Prodrom. æternitat. cap. 3. §. 3. n. 4.</p>
-</div>
-</div>
-
-<p class="center p4">FIM.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_449">[Pg 449]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="INDICE_DAS_COUSAS_NOTAVEIS_deste_primeiro_Tomo">INDICE DAS COUSAS NOTAVEIS <br><i>deste primeiro Tomo.</i></h2>
-</div>
-
-<p class="center caption"><b>A</b></p>
-
-
-<p><i>Abrantes</i>, antigamente se chamava <i>Tubuci</i>, pagin. <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Abundancia</i> da Provincia do Minho, <a href="#Page_47">47</a>.</p>
-
-<p><i>Academia Real</i> da Historia Portuguesa por quem foy instituida,
-<a href="#Page_353">353</a>.</p>
-
-<p><i>Açumar</i>, ou Alegrete se chamava <i>Ad septem aras</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso VI.</i> Rey de Castella, suas conquistas, <a href="#Page_271">271</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso Henriques</i> onde nasceo, <a href="#Page_286">286</a>. Alcançou milagrosamente
-saude da Senhora de Carquere por supplicas de Egas Moniz, <a href="#Page_287">287</a>. Elle
-mesmo se armou Cavalleiro na Igreja Cathedral de Çamora, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i>
-Excluio sua mãy do Governo por força de armas, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i> Ganhou
-huma batalha na Veiga de Valdevez, <i><a href="#Page_287">ibid.</a></i> Triunfou de cinco
-Reys Mouros confederados no campo de Ourique, onde lhe appareceo
-Christo crucificado, dando-lhe o Escudo das Armas de Portugal, <a href="#Page_288">288</a>. He
-acclamado Rey pelo seu exercito, cujo titulo confirmou o Papa Alexandre
-III. <a href="#Page_289">289</a>. Mostra-se a verdade da appariçaõ de Christo, <i><a href="#Page_289">ibid.</a></i>
-Responde se aos argumentos oppostos, <a href="#Page_290">290</a>. Offerece D. Affonso Henriques
-por liberal tributo à Sé Apostolica dous marcos de ouro, <a href="#Page_291">291</a>. E a
-Santa Maria de Claraval cinco escudos cada ano, <a href="#Page_292">292</a>. Edificou cento e
-cincoenta Templos, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i> Inftituio<span class="pagenum" id="Page_450">[Pg 450]</span> as Ordens Militares da Aza,
-e de Aviz, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i> Casou com a Rainha Dona Mafalda, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i>
-Filhos que teve, <i><a href="#Page_292">ibid.</a></i>, e <a href="#Page_378">378</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_293">293</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso II.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Gordo</i>, quando, e
-onde nasceo, <a href="#Page_296">296</a>. Foy livre prodigiosamente de hum achaque por virtude
-de Santa Senhorinha, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i> Teve grande parte na victoria das
-Navas contra os Mouros, auxiliando a ElRey de Castella, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i>
-Intentou usurpar as terras que eraõ de suas irmãs, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i>
-Conquistou aos Mouros Alcacer do Sal, e defendeo Elvas, <i><a href="#Page_296">ibid.</a></i>
-Filhos que teve, <a href="#Page_384">384</a>. Quando morreo, e onde jaz seu corpo, <a href="#Page_297">297</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso III.</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Bolonhez</i>,
-casou com a Condessa Matilde, <a href="#Page_299">299</a>. Conquistou o Algarve, <i><a href="#Page_299">ibid.</a></i>
-Reduzio a seu dominio algumas terras de Andaluzia, <a href="#Page_300">300</a>. Repudiou sua
-legitima mulher, e casou com Dona Brites filha natural delRey D.
-Affonso de Castella, <i><a href="#Page_300">ibid.</a></i> Disturbios que houve no Reino por
-este motivo, <i><a href="#Page_300">ibid.</a></i> Fez violencias ao Estado Ecclesiastico, mas
-sujeitou-se às Censuras dos Pontifices, <a href="#Page_301">301</a>. Edificou os Conventos
-de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, e Santa Clara de Santarem,
-<i><a href="#Page_301">ibid.</a></i> Alimpou o Reino de facinorosos, <i><a href="#Page_301">ibid.</a></i> Filhos que
-teve, <a href="#Page_385">385</a>. Quando morreo, e onde jaz, <a href="#Page_301">301</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso IV.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Bravo</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_306">306</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_306">ibid.</a></i> Foy excessivo no exercicio
-da caça, <i><a href="#Page_306">ibid.</a></i> Ajudou na batalha do Salado a ElRey de Castella,
-<a href="#Page_307">307</a>. Fez por duas vezes mudar os Estudos publicos de Lisboa para
-Coimbra, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Reedificou a Sé, estabelecendo nella varias
-Capellanias, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Consentio que matassem a Dona Ignez de
-Castro, <i><a href="#Page_307">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_389">389</a>. Quando morreo, e onde jaz,
-<a href="#Page_307">307</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso V.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Africano</i>,<span class="pagenum" id="Page_451">[Pg 451]</span>
-quando nasceo, <a href="#Page_320">320</a>. Onde foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_320">ibid.</a></i> Dá batalha ao
-Infante D. Pedro seu irmaõ em o sitio de Alfarrobeira, <a href="#Page_321">321</a>. Passou a
-Africa onde ganhou muitas Praças aos Mouros, de que se lhe originou o
-titulo de Africano, <a href="#Page_322">322</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_322">ibid.</a></i> Contendeo com D.
-Fernando de Aragaõ que o desbaratou na batalha de Toro, <i><a href="#Page_322">ibid.</a></i>
-Passou a França a varias negociações, e intenta ir ver os Lugares
-Santos de Jerusalem, <a href="#Page_323">323</a>. Foy muy liberal, e o primeiro que ajuntou
-livraria em Palacio, <i><a href="#Page_323">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_400">400</a>. Onde morreo, e
-onde jaz, <a href="#Page_324">324</a>.</p>
-
-<p><i>D. Affonso VI.</i> Rey de Portugal chamado o <i>Victorioso</i>,
-quando nasceo, <a href="#Page_346">346</a>. Foy acclamado Rey, e quando tomou posse,
-<i><a href="#Page_346">ibid.</a></i> Alcançou contra Castella muitas victorias, especialmente
-a do Amexial, Canal, e Montes claros, <i><a href="#Page_346">ibid.</a></i> Entregou-se todo
-às disposições de hum Antonio Conti, que o desencaminhava, <a href="#Page_347">347</a>. Casou
-com a Princeza Dona Maria Francisca Isabel de Saboya, <i><a href="#Page_347">ibid.</a></i>
-Separou-se della por nullidade do Matrimonio, <i><a href="#Page_347">ibid.</a></i> Foy deposto
-do governo, e em seu lugar se admittio o Principe D. Pedro seu irmaõ,
-<i><a href="#Page_347">ibid.</a></i> Onde morreo, e onde jaz, <a href="#Page_348">348</a>.</p>
-
-<p><i>Aguas celenas</i>, povoaçaõ antiga, onde ficava, <a href="#Page_5">5</a>.
-—<i>Flavias</i>, onde existiu, <a href="#Page_6">6</a>. —<i>Layas, <a href="#Page_6">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Agualva</i>, antigamente se chamou <i>Ceciliana</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Alanos</i>, seu dominio, <a href="#Page_256">256</a>.</p>
-
-<p><i>Albofeira</i>, terra do Algarve, <a href="#Page_37">37</a>.</p>
-
-<p><i>Alcacere do Sal</i> antigamente <i>Salacia</i>, <a href="#Page_29">29</a>. He ganhada aos
-Mouros por ElRey D. Affonso II. <a href="#Page_297">297</a>.</p>
-
-<p><i>Alcoutim</i>, onde existe, <a href="#Page_37">37</a>.</p>
-
-<p><i>Alentejo</i>. Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_72">72</a>.</p>
-
-<p><i>Alenquer</i>, antigamente se chamava <i>Jerabrica</i> <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Alfayates</i>, Praça na Beira, <a href="#Page_40">40</a>.</p>
-
-<p><i>Algarve</i>. Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_77">77</a>.</p>
-
-<p><i>Almeida</i>, Praça na Beira, <a href="#Page_40">40</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_452">[Pg 452]</span></p>
-
-<p><i>Almorol</i>, antigamente <i>Moro</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Alpalhaõ</i>, antigamente <i>Fraxinum</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Alvor</i>, antigamente chamado <i>Portus Anibalis</i>, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Ambracia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_7">7</a>.</p>
-
-<p><i>Anibal</i>, suas acções em Portugal, <a href="#Page_238">238</a>.</p>
-
-<p><i>D. Antonio</i> Prior do Crato, de quem foy filho, e se oppoem à
-successaõ do Reino de Portugal, <a href="#Page_337">337</a>. Foy acclamado Rey em Santarem,
-<a href="#Page_339">339</a>. Entrou em Lisboa com o mesmo titulo, <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i> He destruido
-pelo Duque de Alva na ponte de Alcantara junto a Lisboa, <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i>
-Morreo em Pariz. <i><a href="#Page_339">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Araduca</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_7">7</a>.</p>
-
-<p><i>Araducta</i>, onde existia esta povoaçaõ, <a href="#Page_8">8</a>.</p>
-
-<p><i>Aramenha</i>, antigamente <i>Medrobica</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Arcadio, e Honorio.</i> No governo destes Imperadores se acabou o
-dominio dos Romanos em Portugal, <a href="#Page_244">244</a>.</p>
-
-<p><i>Armas de Portugal</i>, foraõ dadas por Christo ao primeiro Rey D.
-Affonso Henriques, <a href="#Page_288">288</a>.</p>
-
-<p><i>Aricio Pretorio</i>, onde existio, <a href="#Page_8">8</a>.</p>
-
-<p><i>Aroche</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_8">8</a>.</p>
-
-<p><i>Arrayolos</i>, antigamente <i>Calantica</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Arrifana</i>, sua enteada, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Atributus</i> especiaes dos Portuguezes, <a href="#Page_218">218</a>.</p>
-
-<p><i>Aveiro</i>. Descreve se a sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p>
-
-<p><i>Aves</i> que ha no Reino, <a href="#Page_164">164</a>.</p>
-
-<p><i>Azeite</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_162">162</a>.</p>
-
-<p><i>Azeviche</i> em que parte do Reino se acha, <a href="#Page_175">175</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>B</b></p>
-
-<p><i>Balfa</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_9">9</a>.</p>
-
-<p><i>Banquete publico</i> que nas vodas do Principe D. Affonso fez ElRey
-D. Joaõ II. <a href="#Page_430">430</a>.</p>
-
-<p><i>Barbaros</i> quando invadiraõ Portugal, <a href="#Page_254">254</a>.</p>
-
-<p><i>Barros</i> excellentes que ha no Reino, <a href="#Page_175">175</a>.</p>
-
-<p><i>Batalha</i>. Dos Arcos de Valdevez, <a href="#Page_287">287</a>. Do campo<span class="pagenum" id="Page_453">[Pg 453]</span> de Ourique,
-<a href="#Page_288">288</a>. A do Arganhal, <a href="#Page_293">293</a>. Das Navas, <a href="#Page_296">296</a>. De Alcacer do Sal, <a href="#Page_297">297</a>. A do
-Salado, <a href="#Page_307">307</a>. A de Aljubarrota, <a href="#Page_315">315</a>. A de Alcantara junto a Lisboa, <a href="#Page_339">339</a>.
-A do Montijo, <a href="#Page_344">344</a>. A do Ameixial, Canal, e Montes claros, <a href="#Page_346">346</a>. A de
-Almança, <a href="#Page_350">350</a>.</p>
-
-<p><i>Baucio Capeto</i>, insigne Capitaõ da Turdetania, <a href="#Page_237">237</a>.</p>
-
-<p><i>Béja</i>, antigamente se chamava <i>Paz Julia</i>, <a href="#Page_29">29</a>. Costume
-antigo que havia nos moradores desta Cidade quando cazavaõ seus filhos,
-<a href="#Page_215">215</a>.</p>
-
-<p><i>Benis</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p>
-
-<p><i>Beira.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_59">59</a>.</p>
-
-<p><i>Benavente</i>, antigamente se chamava <i>Aricio Pretorio</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Becelga</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p>
-
-<p><i>Braga</i>, antigamente <i>Brachara Augusta</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Bragança</i>, seu sitio, <a href="#Page_41">41</a>.</p>
-
-<p><i>Britenia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>C</b></p>
-
-<p><i>Cabo de Espichel</i>, <a href="#Page_35">35</a>.</p>
-
-<p><i>Caça</i>, e seu exercicio, <a href="#Page_216">216</a>. e <a href="#Page_438">438</a>.</p>
-
-<p><i>Caldelas</i>, antiga povoaçaõ, <a href="#Page_11">11</a>.</p>
-
-<p><i>Cale</i> que significa, <a href="#Page_3">3</a>.</p>
-
-<p><i>Callantia</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_10">10</a>.</p>
-
-<p><i>Calliabria</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_11">11</a>.</p>
-
-<p><i>Cambeto</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_11">11</a>.</p>
-
-<p><i>Camareiro Mór</i>, sua obrigaçaõ, <a href="#Page_424">424</a>.</p>
-
-<p><i>Caminha</i>, sua barra, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Campos Elysios</i> se na verdade os houve, e onde existiraõ, <a href="#Page_12">12</a>.</p>
-
-<p><i>Campo Mayor</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p>
-
-<p><i>Canace</i>, Cidade antiga do Algarve, <a href="#Page_14">14</a>.</p>
-
-<p><i>Capara</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_14">14</a>.</p>
-
-<p><i>Catalogo</i> Chronologico dos Reys das Asturias que governaraõ
-Portugal, <a href="#Page_273">273</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_454">[Pg 454]</span></p>
-
-<p><i>Cauca</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_15">15</a>.</p>
-
-<p><i>Cava</i>, ou <i>Florinda</i>, foy causa da ruina de Hespanha, <a href="#Page_259">259</a>.</p>
-
-<p><i>Castro-Marim</i>, sua foz, <a href="#Page_37">37</a>.</p>
-
-<p><i>Cartagineses</i>, quando entraraõ em Portugal, <a href="#Page_236">236</a>.</p>
-
-<p><i>Cascaes</i>, seu porto, <a href="#Page_32">32</a>.</p>
-
-<p><i>Ceciliana</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_15">15</a>.</p>
-
-<p><i>Chaves</i>, como se chamava antigamente, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Christo crucificado</i>, apparece no Campo de Ourique a ElRey D.
-Affonso Henriques, <a href="#Page_289">289</a>.</p>
-
-<p><i>Collipo</i>, foy Cidade antiga, onde hoje está Leiria, <a href="#Page_18">18</a>.</p>
-
-<p><i>Coitadas</i> do Reino, <a href="#Page_438">438</a>.</p>
-
-<p><i>Comarcas.</i> De quantas consta a Provincia do Minho, <a href="#Page_51">51</a>. A de Tras
-os Montes, <a href="#Page_57">57</a>. A da Beira, <a href="#Page_61">61</a>. A da Estremadura, <a href="#Page_70">70</a> A do Alentejo, <a href="#Page_75">75</a>.
-A do Algarve, <a href="#Page_79">79</a>.</p>
-
-<p><i>Conceiçaõ da Senhora</i>, erecta em Padroeira do Reino, <a href="#Page_345">345</a>.</p>
-
-<p><i>Copeiro Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_429">429</a>.</p>
-
-<p><i>Cortes.</i> Modo com que se celebraõ, <a href="#Page_444">444</a>.</p>
-
-<p id="costume"><i>Costumes dos Portuguezes.</i> Saõ naturalmente esforçados, e
-valerosos, <a href="#Page_201">201</a>. Leaes a seus Soberanos, <a href="#Page_202">202</a>. Conquistadores, <a href="#Page_204">204</a>.
-Zelosos, e constantes na Religiaõ, <a href="#Page_205">205</a>. Aptos para as sciencias, <a href="#Page_206">206</a>.
-Pouco inclinados a aprender linguas estrangeiras, <a href="#Page_208">208</a>. Saõ pomposos nas
-occasiões publicas, <i><a href="#Page_208">ibid.</a></i> Saõ imitadores das modas estrangeiras,
-<a href="#Page_209">209</a>. Nos trages saõ inconstantes, <a href="#Page_210">210</a>. Saõ muy namorados, <a href="#Page_212">212</a>. Muito
-dados à caça, <a href="#Page_216">216</a>. E ao combate de touros, <i><a href="#Page_216">ibid.</a></i> Amaõ a Poezia,
-e a Musica, <a href="#Page_217">217</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>D</b></p>
-
-<p><i>Descripçaõ</i> circular do Reino, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>D. Diniz</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Lavrador</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_302">302</a>. Quando foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_302">ibid.</a></i><span class="pagenum" id="Page_455">[Pg 455]</span> Casou com a Rainha
-Santa Isabel, <a href="#Page_303">303</a>. Incorporou no Padroado Real todas as fazendas
-que havia doado injustamente, <i><a href="#Page_303">ibid.</a></i> Teve discordias com seu
-irmaõ, <i><a href="#Page_303">ibid.</a></i> Separou a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ de
-Castella, <a href="#Page_304">304</a>. Instituio em Lisboa a primeira Universidade de letras,
-<i><a href="#Page_304">ibid.</a></i> Fundou o Real Mosteiro de Odivellas, e o de Santa Clara
-de Coimbra, e Villa do Conde, <a href="#Page_304">304</a>. Teve em summo gráo as virtudes da
-Justiça, verdade, e liberalidade, <a href="#Page_305">305</a>. Instituio rezarem-se no Paço as
-Horas Canonicas, <i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Instituio a Ordem Militar de Christo,
-<i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Foy chamado o <i>Pay da Patria</i>, e o <i>Lavrador</i>
-pelo affecto que tinha à Agricultura, <i><a href="#Page_305">ibid.</a></i> Teve no Reino
-algumas guerras civis, <a href="#Page_306">306</a>. Quantos filhos teve, <a href="#Page_387">387</a>. Sua morte, e
-sepultura, <a href="#Page_306">306</a>.</p>
-
-<p><i>D. Duarte</i> Rey de Portugal chamado o <i>Eloquente</i>, onde, e
-quando nasceo, <a href="#Page_318">318</a>. Foy muito dado ao estudo das letras, <i><a href="#Page_318">ibid.</a></i>
-Quando foy acclamado, e quando casou, <i><a href="#Page_318">ibid.</a></i> Quiz resgatar seu
-irmaõ D. Fernando mas frustradamente, <a href="#Page_319">319</a>. Filhos que teve, <a href="#Page_397">397</a>. Sua
-morte, e sepultura, <a href="#Page_320">320</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>E</b></p>
-
-<p><i>Eburobricio</i>, onde existio esta antiga povoaçaõ, <a href="#Page_20">20</a>.</p>
-
-<p><i>Egas Moniz</i> foy Ayo delRey D. Affonso Henriques, suas virtudes,
-<a href="#Page_288">288</a>.</p>
-
-<p><i>Egitania</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_19">19</a>.</p>
-
-<p><i>Egoas</i> que concebiaõ do vento, se as havia em Portugal, <a href="#Page_97">97</a>.</p>
-
-<p><i>Elvas</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p>
-
-<p><i>Embaixadores</i>, como eraõ recebidos, <a href="#Page_442">442</a>.</p>
-
-<p><i>Empreza das mulheres</i>, foy huma insigne vitoria que alcançaraõ as
-Portuguezas do Minho contra os Cartaginezes, <a href="#Page_238">238</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_456">[Pg 456]</span></p>
-
-<p><i>Eremitica vida</i>, teve principio na Provincia do Minho, <a href="#Page_50">50</a>.</p>
-
-<p><i>Ervas</i> medicinaes que ha em Portugal, <a href="#Page_167">167</a>.</p>
-
-<p><i>Eritrea</i>, onde existio, <a href="#Page_19">19</a>.</p>
-
-<p><i>Esposende</i>, sua barra, <a href="#Page_30">30</a>.</p>
-
-<p><i>Estoi</i>, antigamente Ossonoba, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Estrangeiros</i>, estimados dos Portuguezes, <a href="#Page_209">209</a>.</p>
-
-<p><i>Estremadura.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_67">67</a>.</p>
-
-<p><i>Evandria</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_20">20</a>.</p>
-
-<p><i>Evora</i>, Cidade antigamente chamada <i>Liberalitas Julia</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>F</b></p>
-
-<p><i>Faro</i>, sua barra, <a href="#Page_37">37</a>.</p>
-
-<p><i>Fenices</i>, quando entraraõ em Portugal, <a href="#Page_236">236</a>.</p>
-
-<p><i>Feira</i>, Villa antigamente chamada <i>Lancobriga</i>, <a href="#Page_29">29</a></p>
-
-<p><i>D. Fernando</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Formoso</i>,
-quando nasceo, <a href="#Page_309">309</a>. A sua brandura o fez cair em muitas desordens,
-<a href="#Page_310">310</a>. Reedificou as Praças do Reino, <i><a href="#Page_310">ibid.</a></i> Seus casamentos,
-<i><a href="#Page_310">ibid.</a></i> Fez pazes com ElRey de Castella, <a href="#Page_312">312</a>. Cercou Lisboa de
-novos muros, <i><a href="#Page_312">ibid.</a></i> Mudou a Universidade de Coimbra para Lisboa,
-<i><a href="#Page_312">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_392">392</a>. Quando morreo, <a href="#Page_313">313</a>.</p>
-
-<p><i>D. Fernando</i> filho delRey D. Joaõ I. ficou em refens na Praça de
-Tangere, <a href="#Page_396">396</a>. Morreo em Berberia, e jaz na Batalha, <i><a href="#Page_396">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Fertilidade</i> do Reino em geral, <a href="#Page_160">160</a>.</p>
-
-<p><i>Fidalgos Portuguezes</i>, saõ reputados por vãos, <a href="#Page_208">208</a>.</p>
-
-<p><i>Filippe II. III. IV.</i> Reys de Portugal, suas acções que obraraõ
-neste Reino, <a href="#Page_340">340</a>.</p>
-
-<p><i>Filhamentos</i>, que cousa he, <a href="#Page_422">422</a>.</p>
-
-<p><i>Filhos</i> dos Senhores Reys Portuguezes, <a href="#Page_376">376</a>. até <a href="#Page_420">420</a>.</p>
-
-<p><i>Flaviobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_20">20</a>.</p>
-
-<p><i>Flores</i> de varias especies que nascem em Portugal, <a href="#Page_167">167</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_>457">[Pg 457]</span></p>
-
-<p><i>Florinda</i> filha do Conde D. Juliaõ foy causa da destruiçaõ de
-Hespanha, <a href="#Page_259">259</a>.</p>
-
-<p><i>Fome</i> extraordinaria que houve na Hespanha, <a href="#Page_235">235</a>.</p>
-
-<p><i>Fontes</i> notaveis que ha em Portugal, <a href="#Page_148">148</a>.</p>
-
-<p><i>Foro dos Limicos</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_21">21</a>. —<i>Dos Narbassos</i>,
-outra antiga povoação, <i><a href="#Page_21">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Foros</i> que ha na Casa Real, <a href="#Page_422">422</a>.</p>
-
-<p><i>Frutas</i> de varias castas que ha em Portugal, <a href="#Page_164">164</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>G</b></p>
-
-<p><i>Genio Portuguez.</i> Vide <i><a href="#costume">Costumes</a></i>.</p>
-
-<p><i>Gerabrica.</i> Vide <i><a href="#jera">Jerabrica</a></i>.</p>
-
-<p><i>Godos</i>, quando começaraõ a dominar em Portugal, <a href="#Page_255">255</a>. Catalogo dos
-Reys que governaraõ neste Reino, <a href="#Page_263">263</a>.</p>
-
-<p><i>Governo</i> antigo, e moderno da Casa Real, <a href="#Page_421">421</a>.</p>
-
-<p><i>Guarda Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_425">425</a>.</p>
-
-<p><i>Guarda Real</i>, <a href="#Page_433">433</a>.</p>
-
-<p><i>Guimarães</i> cercada, e por quem, <a href="#Page_288">288</a>. Foy a antiga <i>Araduca</i>,
-<a href="#Page_7">7</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>H</b></p>
-
-<p><i>Dom Henrique</i> Conde de Portugal quem foy, <a href="#Page_282">282</a>. Com quem casou,
-<a href="#Page_284">284</a>. Quando passou a Jerusalem, <a href="#Page_285">285</a>. Batalhas que venceo, <a href="#Page_286">286</a>. Filhos
-que teve, <a href="#Page_376">376</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_286">286</a>.</p>
-
-<p><i>D. Henrique</i> Cardeal he acclamado Rey, <a href="#Page_336">336</a>. Sua morte, e
-sepultura, <a href="#Page_338">338</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>I</b></p>
-
-<p><i>Jantar</i> esplendido que deu o Senhor Rey D. Joaõ V. quando se
-desposou com a Serenissima Rainha Dona Maria Anna de Austria, <a href="#Page_431">431</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_458">[Pg 458]</span></p>
-
-<p><i>Iberos</i> Hespanhoes se foraõ primarios descendentes de Tubal, <a href="#Page_222">222</a>.</p>
-
-<p><i>Idanha</i>, antigamente <i>Ægedita</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p id="jera"><i>Jerabrica</i>, povoaçaõ antiga dos Romanos, <a href="#Page_21">21</a>.</p>
-
-<p><i>Igrejas Cathedraes</i> na Provincia do Minho, <a href="#Page_50">50</a>. Em Tras os Montes,
-<a href="#Page_56">56</a>. Na Beira, <a href="#Page_61">61</a>. Na Estremadura, <a href="#Page_69">69</a>. No Alentejo, <a href="#Page_74">74</a>. No Algarve, <a href="#Page_78">78</a>.</p>
-
-<p><i>Incendio</i> notavel que houve nos Pyrineos, <a href="#Page_235">235</a>.</p>
-
-<p><i>D. Joaõ I.</i> Rey de Portugal chamado de <i>Boa memoria</i>, quando
-nasceo, e de quem era filho, <a href="#Page_314">314</a>. Antes de ser Rey matou ao Conde Joaõ
-Fernandes Andeiro, <i><a href="#Page_314">ibid.</a></i> Foy declarado pelo povo Defensor, e
-Governador do Reino, <i><a href="#Page_314">ibid.</a></i> Foy acclamado Rey em acto de Cortes,
-<a href="#Page_315">315</a>. Triunfou dos Castelhanos na famosa batalha de Aljubarrota,
-<i><a href="#Page_315">ibid.</a></i> Com quem casou, <a href="#Page_316">316</a>. Foy expugnar Ceuta, <i><a href="#Page_315">ibid.</a></i>
-Mandou supprimir a antiga computaçaõ da Era de Cesar, e que se usasse
-da Epoca do Nascimento de Christo, <i><a href="#Page_315">ibid.</a></i> Erigio em Metropolitana
-a Cathedral de Lisboa, <a href="#Page_317">317</a>. Templos que edificou, <i><a href="#Page_317">ibid.</a></i> Obras
-insignes que fez, <i><a href="#Page_317">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_393">393</a>. Sua morte, e
-sepultura, <a href="#Page_318">318</a>.</p>
-
-<p><i>D. Joaõ II.</i> Rey de Portugal chamado <i>Perfeito</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_324">324</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_324">ibid.</a></i> Quando foy acclamado Rey,
-<i><a href="#Page_324">ibid.</a></i> Mandou degolar ao Duque de Bragança, por ser comprehendido
-em huma conjuraçaõ contra elle, <a href="#Page_325">325</a>. Seu caracter, <i><a href="#Page_325">ibid.</a></i> Foy
-opposto aos jogadores, <a href="#Page_326">326</a>. Templos que edificou, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Dispoz
-a formalidade de Coro na sua Capella, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Descobrimentos que
-se fizeraõ em seu tempo, <i><a href="#Page_326">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_401">401</a>. Sua morte,
-<a href="#Page_327">327</a>. Jaz seu corpo na Batalha incorrupto, <i><a href="#Page_327">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>D.Joaõ III.</i> Rey de Portugal chamado <i>Piedoso</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_330">330</a>. Quando, e onde foy acclamado Rey, <a href="#Page_331">331</a>. Fez muitas
-conquistas na India, e largou muitas Praças de Africa aos Mouros,
-<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i><span class="pagenum" id="Page_459">[Pg 459]</span> Introduzio no Reino o Tribunal da Inquisiçaõ,
-<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Reformou muitas Religiões, e admittio em Portugal a
-dos Jesuitas, <i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Removeo a Universidade para Coimbra,
-<i><a href="#Page_331">ibid.</a></i> Obras insignes que fez, <a href="#Page_332">332</a>. Com quem casou, <a href="#Page_369">369</a>. Filhos
-que teve, <a href="#Page_407">407</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_332">332</a>.</p>
-
-<p><i>D. Joaõ IV.</i> Rey de Portugal chamado <i>Restaurador</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_343">343</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_343">ibid.</a></i> Foy acclamado Rey em Lisboa,
-<a href="#Page_344">344</a>. Alcançou muitas vitorias contra os Castelhanos, <i><a href="#Page_344">ibid.</a></i>
-Castigou os cabeças de varias conjurações, <a href="#Page_345">345</a>. Institue muitos
-Tribunaes, <i><a href="#Page_345">ibid.</a></i> Tomou em acto de Cortes por Protectora do Reino
-a Maria Santissima da Conceiçaõ, <i><a href="#Page_345">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_413">413</a>. Sua
-morte, e sepultura, <a href="#Page_346">346</a>.</p>
-
-<p><i>D. Joaõ V.</i> Rey de Portugal <i>Fidelissimo</i>, quando nasceo,
-<a href="#Page_350">350</a>. Em que dia foy acclamado Rey, <i><a href="#Page_350">ibid.</a></i> Celebra pazes com
-Castella, <i><a href="#Page_350">ibid.</a></i> Com quem casou, <a href="#Page_351">351</a>. Erigio em Basilica
-Patriarcal a sua Real Capella, <a href="#Page_352">352</a>. Mandou hum grande soccorro a favor
-da Igreja contra o Turco, <i><a href="#Page_352">ibid.</a></i> Instituio a Academia Real da
-Historia Portugueza, <a href="#Page_353">353</a>. Erigio varios Bispados de novo, <i><a href="#Page_353">ibid.</a></i>
-Templos, e edificios que fabricou, <a href="#Page_354">354</a>. Obteve do Papa Benedicto XIV.
-o indulto de poderem os Sacerdotes dos seus Dominios celebrar cada hum
-tres Missas no dia da Commemoraçaõ dos Fieis defuntos, <a href="#Page_355">355</a>. Filhos que
-teve, <a href="#Page_419">419</a>. Morte, e sepultura, <a href="#Page_355">355</a>.</p>
-
-<p><i>D. Joseph I.</i> Rey de Portugal <i>Fidelissimo</i>, quando nasceo,
-<a href="#Page_357">357</a>. Quando foy acclamado Rey, <a href="#Page_356">356</a>. Quando, e com quem casou, <a href="#Page_357">357</a>. Leys
-que tem promulgado, <i><a href="#Page_357">ibid.</a></i> Restaura o exercicio das letras com
-melhores methodos, extinguindo o magisterio aos Jesuitas, <i><a href="#Page_357">ibid.</a></i>
-No extraordinario terremoto de Lisboa, se houve magnanimamente, <a href="#Page_358">358</a>.
-Escapou milagrosamente de tres tiros com que o<span class="pagenum" id="Page_460">[Pg 460]</span> queriaõ matar, <a href="#Page_358">358</a>.
-Faz justiçar os delinquentes no Caes de Belém, <i><a href="#Page_358">ibid.</a></i> Resiste às
-Tropas Castelhanas que injustamente invadiraõ Portugal <i><a href="#Page_358">ibid.</a></i>
-Admitte para Generalissimo das suas Armas ao Conde Soberano de Lippe
-Guilherme de Schaumburg, <a href="#Page_359">359</a>. Filhos que tem, <a href="#Page_420">420</a>.</p>
-
-<p><i>Julio Cesar</i> veyo à conquista de Portugal, <a href="#Page_242">242</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>L</b></p>
-
-<p><i>Lacobriga</i> povoaçaõ antiga onde hoje he Lagos, <a href="#Page_21">21</a>.</p>
-
-<p><i>Lagos</i>, seu porto, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Lagoas</i> mais notaveis que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p>
-
-<p><i>Lamego</i>, antigamente <i>Lama</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Legoas</i> que tem Portugal de comprido, e de largo, <a href="#Page_2">2</a>.</p>
-
-<p><i>Leiria</i>, antigamente <i>Collipo</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Lingua Portugueza.</i> A primeira que se fallou em Portugal foy a
-dos Turdulos que Tubal communicou, <a href="#Page_193">193</a>. Muitos se capacitaõ que fora
-a Hebraica, outros a Vasconça, ou Biscainha, <i><a href="#Page_193">ibid.</a></i> Conforme
-foraõ as Nações que dominaraõ em Portugal, assim foy a lingua que se
-fallou, <a href="#Page_194">194</a>. Pela entrada dos Godos entrou tambem neste Reino a lingua
-Portugueza, <i><a href="#Page_194">ibid.</a></i> He misturada com vocabulos de outros idiomas,
-<a href="#Page_196">196</a>. No tempo delRey D. Diniz começou a adquirir mayor perfeiçaõ,
-<i><a href="#Page_196">ibid.</a></i> Participa de todas as circunstancias para ser perfeita,
-<i><a href="#Page_196">ibid.</a> &amp; seq.</i></p>
-
-<p><i>Lisboa</i>, antigamente <i>Olisipo</i>, ou <i>Fælicitas Julia</i>,
-<a href="#Page_29">29</a>. Descreve-se a sua barra, <a href="#Page_32">32</a>. Todos os seus portos pelo Tejo, <a href="#Page_33">33</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_461">[Pg 461]</span></p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>M</b></p>
-
-<p><i>Magneto</i>, Cidade antiga, <a href="#Page_22">22</a>.</p>
-
-<p><i>D. Manoel</i> Rey de Portugal, chamado <i>Venturoso</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_327">327</a>. Quando foy coroado, <a href="#Page_328">328</a>. Embaixadas que mandou ao Papa
-Alexandre VI. <i><a href="#Page_328">ibid.</a></i> E a Leaõ X. <a href="#Page_330">330</a>. Expulsou fora do Reino aos
-Judeos, <i><a href="#Page_330">ibid.</a></i> Com quem casou, <i><a href="#Page_330">ibid.</a></i> Accrescentou ao seu
-Imperio muitas terras da India, que no seu tempo se descobriraõ, <a href="#Page_329">329</a>.
-Libertou o Estado Ecclesiastico de muitos tributos, <i><a href="#Page_329">ibid.</a></i> Foy
-jurado Rey de Castella, <i><a href="#Page_309">ibid.</a></i> Templos que fundou, <i><a href="#Page_329">ibid.</a></i>
-Filhos que teve, <a href="#Page_403">403</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_330">330</a>.</p>
-
-<p><i>Mappa</i> do que comprehendem as seis Provincias de Portugal, <a href="#Page_80">80</a>.</p>
-
-<p><i>Marco</i> de ouro, e prata que valor tem tido em todos os Reinados,
-<a href="#Page_192">192</a>.</p>
-
-<p><i>Merobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_22">22</a>.</p>
-
-<p><i>Mertola</i> onde existe, <a href="#Page_38">38</a>.</p>
-
-<p><i>Mestre-Sala</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_428">428</a>.</p>
-
-<p><i>Mineraes</i> que ha no Reino, <a href="#Page_169">169</a>.</p>
-
-<p><i>Minho.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_45">45</a>.</p>
-
-<p><i>Miranda do Douro</i>, antigamente <i>Concia</i> <a href="#Page_28">28</a>. Seu sitio, <a href="#Page_41">41</a>.</p>
-
-<p><i>Moedas</i> de varios metaes que se tem lavrado em Portugal, <a href="#Page_177">177</a>.</p>
-
-<p><i>Mondego</i>, sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p>
-
-<p><i>Monsanto</i>, <a href="#Page_39">39</a>.</p>
-
-<p><i>Montes</i> que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p>
-
-<p><i>Monteiro Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_438">438</a>.</p>
-
-<p><i>Mordomo Mór</i>, sua dignidade, e obrigaçaõ, <a href="#Page_421">421</a>.</p>
-
-<p><i>Morte</i> dos Reys como se publicava, <a href="#Page_446">446</a>.</p>
-
-<p><i>Moura</i>, antigamente <i>Arucitana</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Mouros</i>, quando invadiraõ a Portugal, <a href="#Page_269">269</a>.</p>
-
-<p><i>Mulheres Portuguezas</i>, seu valor, <a href="#Page_238">238</a>.</p>
-
-<p><i>Municipios</i> o que eraõ, e quantos havia em Portugal, <a href="#Page_44">44</a>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_462">[Pg 462]</span></p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>N</b></p>
-
-<p><i>Nabancia</i>, povoaçaõ antiga junto a Thomar, <a href="#Page_23">23</a>.</p>
-
-<p><i>Nomes Latinos</i> de algumas povoações de Portugal, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Norba Cesarea</i>, onde existio, <a href="#Page_23">23</a>.</p>
-
-<p><i>Numancia</i>, onde existio esta famosa Cidade, <a href="#Page_23">23</a>.</p>
-
-<p><i>D. Nuno Alvares Pereira</i> Condestavel de Portugal. Suas proezas,
-<a href="#Page_315">315</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>O</b></p>
-
-<p><i>Obidos</i>, sua grande lagoa, <a href="#Page_133">133</a>.</p>
-
-<p><i>Obobriga</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_24">24</a>.</p>
-
-<p><i>Octaviano Augusto</i> conciliou a paz em Portugal, <a href="#Page_262">262</a>.</p>
-
-<p><i>Odemira</i>, sua barra, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Ordens Militares</i> que instituio ElRey D. Affonso, <a href="#Page_292">292</a>.</p>
-
-<p><i>Ossel</i>, onde existio, <a href="#Page_24">24</a>.</p>
-
-<p><i>Ossonoba</i>, foy povoaçaõ antiga no Algarve, <a href="#Page_25">25</a>.</p>
-
-<p><i>Ourique</i>, celebre campo do Alentejo onde ElRey D. Affonso
-Henriques alcançou huma grande vitoria contra os Mouros, <a href="#Page_288">288</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>P</b></p>
-
-<p><i>Panonias</i>, onde existio esta antiga povoaçaõ, <a href="#Page_26">26</a>.</p>
-
-<p><i>Pederneira</i>, sua enseada, <a href="#Page_32">32</a>.</p>
-
-<p><i>Pedras preciosas</i>, que se achaõ em muitas terras de Portugal, <a href="#Page_172">172</a>.</p>
-
-<p><i>D. Pedro I.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Justiceiro</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_308">308</a>. Quando foy acclamado, <i><a href="#Page_308">ibid.</a></i> Vingança que tomou dos
-que mataraõ Dona Ignez de Castro, <i><a href="#Page_308">ibid.</a></i> Demonstraçaõ publica<span class="pagenum" id="Page_463">[Pg 463]</span>
-que fez de ser Dona Ignez sua legitima mulher, <a href="#Page_309">309</a>. Caracter deste Rey,
-<i><a href="#Page_309">ibid.</a></i> Filhos que teve, <a href="#Page_390">390</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_309">309</a>.</p>
-
-<p><i>D. Pedro II.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Pacifico</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_348">348</a>. Quando se intitulou Rey, <i><a href="#Page_348">ibid.</a></i> Seus casamentos,
-<i><a href="#Page_348">ibid.</a></i> Seu caracter, <a href="#Page_349">349</a>. Bispados que de novo erigio,
-<i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Entrou na grande alliança com o Imperador, Inglaterra,
-e Hollanda, <i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Rompe guerra com Castella para onde foy em
-pessoa por introduzir Carlos III. Rey de Hespanha, <i><a href="#Page_349">ibid.</a></i> Filhos
-que teve, <a href="#Page_415">415</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_350">350</a>.</p>
-
-<p><i>Peixe</i>, abundancia delle que ha em Portugal, <a href="#Page_168">168</a>.</p>
-
-<p><i>Penagarcia</i>, Seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p>
-
-<p><i>Penamacor</i>, seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p>
-
-<p><i>Pertendentes</i> de Portugal quaes foraõ depois do Cardeal Henrique,
-<a href="#Page_337">337</a>.</p>
-
-<p><i>Pineto</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_26">26</a>.</p>
-
-<p><i>Portalegre</i>, antigamente <i>Amæa</i>, <a href="#Page_28">28</a>.</p>
-
-<p><i>Porto</i>, antigamente <i>Calem</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_31">31</a>.</p>
-
-<p><i>Portos</i> que ha no Tejo, <a href="#Page_34">34</a>.</p>
-
-<p><i>Portuguezes</i>, seu genio, e costumes, <a href="#Page_201">201</a>. Attributos proprios,
-<a href="#Page_218">218</a>.</p>
-
-<p><i>Povoadores</i> primeiros de Portugal, <a href="#Page_225">225</a>.</p>
-
-<p><i>Pretores Romanos</i> no governo de Portugal, <a href="#Page_241">241</a>.</p>
-
-<p><i>Provincias</i> antigas, e modernas de Portugal, <a href="#Page_43">43</a>.</p>
-
-<p><i>Punhete</i>, antigamente <i>Moro</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>R</b></p>
-
-<p><i>Rainhas</i> de Portugal, <a href="#Page_362">362</a>. &amp; seq.</p>
-
-<p><i>Reys</i> das Austurias que governaraõ Portugal, <a href="#Page_273">273</a>.</p>
-
-<p><i>Reposteiro Mór</i>, sua dignidade, <a href="#Page_426">426</a>.</p>
-
-<p><i>Rios.</i> Do Minho, <a href="#Page_48">48</a>. De Tras os Montes, <a href="#Page_56">56</a>. Da Beira, <a href="#Page_60">60</a>. Da
-Estremadura, <a href="#Page_68">68</a>. Do Alentejo, <a href="#Page_73">73</a>. Do Algarve, <a href="#Page_78">78</a>. Dos mais notaveis que
-ha no Reino, <a href="#Page_99">99</a>. <i>&amp; seq.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_464">[Pg 464]</span></p>
-
-<p><i>D. Rodrigo</i> ultimo Rey Godo, sua ruina, <a href="#Page_259">259</a>.</p>
-
-<p><i>Romanos</i>, quando invadiraõ, e se senhorearaõ de Portugal, <a href="#Page_241">241</a>.</p>
-
-<p><i>Rosmaninhal</i>, sua Praça, <a href="#Page_38">38</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>S</b></p>
-
-<p><i>Sabugal</i>, seu Castello, <a href="#Page_40">40</a>.</p>
-
-<p><i>Sagres</i>, sua enseada, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Sal</i>, abundancia della que ha em Portugal, <a href="#Page_176">176</a>.</p>
-
-<p><i>Salacia</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_26">26</a>.</p>
-
-<p><i>Salvaterra da Beira</i>, seu Castello, <a href="#Page_39">39</a>.</p>
-
-<p><i>D. Sancho I.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Povoador</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_293">293</a>. Com quem casou, <i><a href="#Page_293">ibid.</a></i> Acções que obrou antes de
-Rey, <a href="#Page_294">294</a>. Quando foy acclamado, <i><a href="#Page_294">ibid.</a></i> Conquistou o Algarve,
-<i><a href="#Page_294">ibid.</a></i> Templos, e edificios que erigio, <a href="#Page_295">295</a>. Filhos que teve,
-<a href="#Page_379">379</a>. Sua morte, e sepultura, <a href="#Page_295">295</a>.</p>
-
-<p><i>D. Sancho II.</i> Rey de Portugal, chamado <i>Capelo</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_298">298</a>. Quando entrou a governar, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i> Recuperou muitas
-Praças do Alentejo que os Mouros nos tinhaõ usurpado, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i>
-Opprimio muito o Estado Ecclesiastico, por cujo motivo Innocencio IV.
-o depoz do governo, <i><a href="#Page_298">ibid.</a></i> Substituio-lhe seu irmaõ D. Affonso,
-<a href="#Page_299">299</a>. Recolheo-se a Toledo onde morreo, <i><a href="#Page_299">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Santarem</i>, antigamente <i>Scalabis</i>, ou <i>Præsidium
-Julium</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>Santiago de Cacem</i>, antigamente <i>Merobriga</i>, <a href="#Page_29">29</a>.</p>
-
-<p><i>D. Sebastiaõ</i> Rey de Portugal, chamado o <i>Desejado</i>, quando
-nasceo, <a href="#Page_333">333</a>. Quando tomou posse do Reino, <i><a href="#Page_333">ibid.</a></i> Seu caracter,
-<i><a href="#Page_333">ibid.</a></i> Passou a Africa a primeira vez, <a href="#Page_334">334</a>. Foy segunda vez
-soccorrer a Hamet, onde ficou destruido, e todo o seu exercito, <a href="#Page_335">335</a>.
-Jaz seu corpo com incerteza no Convento de Belém, <i><a href="#Page_335">ibid.</a></i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_465">[Pg 465]</span></p>
-
-<p><i>Secca</i> extraordinaria que houve na Hespanha, <a href="#Page_235">235</a>.</p>
-
-<p><i>Serras</i> que ha no Reino, <a href="#Page_81">81</a>.</p>
-
-<p><i>Setubal</i>, antigamente <i>Cetobriga</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_36">36</a>. Foy
-fundada por Tubal, <a href="#Page_224">224</a>.</p>
-
-<p><i>Sines</i>, seu surgidouro, <a href="#Page_36">36</a>.</p>
-
-<p><i>Suevos</i>, Catalogo dos seus Reys que governaraõ Portugal, <a href="#Page_261">261</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>T</b></p>
-
-<p><i>Talabrica</i>, foy povoaçaõ onde hoje he Aveiro, <a href="#Page_27">27</a>.</p>
-
-<p><i>Tapada</i> de Mafra, e Villa Viçosa, <a href="#Page_441">441</a>.</p>
-
-<p><i>Tavira</i>, antigamente chamada <i>Balsa</i>, <a href="#Page_28">28</a>. Sua barra, <a href="#Page_37">37</a>.</p>
-
-<p><i>Templos</i> que os Portuguezes erigiraõ ao Imperador Octaviano
-Augusto, <a href="#Page_253">253</a>.</p>
-
-<p><i>Trage Portuguez</i>, <a href="#Page_210">210</a>.</p>
-
-<p><i>Tras os Montes.</i> Descreve-se esta Provincia, <a href="#Page_55">55</a>.</p>
-
-<p><i>Trigo</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_160">160</a>.</p>
-
-<p><i>Trinchante</i>, sua dignidade, <a href="#Page_428">428</a>.</p>
-
-<p><i>Tubal</i>, seus descendentes foraõ os primeiros povoadores de
-Portugal, <a href="#Page_222">222</a>.</p>
-
-<p><i>Tubuci</i>, povoaçaõ antiga, <a href="#Page_27">27</a>.</p>
-
-<p><i>Tuntobriga</i>, onde existio esta povoaçaõ, <a href="#Page_27">27</a>.</p>
-
-
-<p class="center caption p2"><b>U</b></p>
-
-<p><i>Vaca</i>, povoçaõ antiga, <a href="#Page_27">27</a>.</p>
-
-<p><i>Valença</i>, fronteira a Cidade de Tuy, <a href="#Page_41">41</a>.</p>
-
-<p><i>Uchaõ</i>, que occupaçaõ era na Casa Real, <a href="#Page_429">429</a>.</p>
-
-<p><i>Veador da Casa</i>, sua dignidade, <a href="#Page_426">426</a>.</p>
-
-<p><i>Viana de Caminha</i>, descreve-se a sua barra, <a href="#Page_30">30</a>. ——<i>Do
-Conde</i>, sua barra, <i><a href="#Page_30">ibid.</a></i></p>
-
-<p><i>Villas</i> de que consta a Provincia do Minho, <a href="#Page_52">52</a>. A de Tras os
-Montes, <a href="#Page_56">56</a>. A da Beira, <a href="#Page_63">63</a>. A da<span class="pagenum" id="Page_466">[Pg 466]</span> Estremadura, <a href="#Page_71">71</a>. A do Alentejo, <a href="#Page_75">75</a>. A
-do Algarve, <a href="#Page_79">79</a>.</p>
-
-<p><i>Vinho</i> que ha em Portugal, <a href="#Page_162">162</a>.</p>
-
-<p><i>Viola</i>, instrumento proprio dos Portuguezes, <a href="#Page_217">217</a>.</p>
-
-
-<p class="center p4" ><b>FIM.</b></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007">
-<img src="images/007.jpg" class="w25" alt="imagem decorativa">
-</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="LICENCAS"><b>LICENÇAS</b></h2>
-</div>
-
-
-<p class="center big p2">Do Santo Officio.</p>
-
-<p>Pódem-se reimprimir os cinco Tomos, de que se faz menção, e depois
-voltaráõ conferidos para se dar licença que corraõ, sem a qual naõ
-correraõ. Lisboa, 23 de Abril de 1762.</p>
-
-<p class="center"><i>Trigoso.</i> <i>Lima.</i></p>
-
-
-<p class="center big p2">Do Ordinario.</p>
-
-<p>Póde-se reimprimir os Tomos de que trata a petiçaõ, e depois tornem
-para se dar licença para correr. Lisboa, 23 de Abril de 1762.</p>
-
-<p class="center"><i>D. J. Arceb. Lacedemonia.</i></p>
-
-
-<p class="center big p2">Do Desembargo do Paço.</p>
-
-<p>Que se possaõ reimprimir, e depois de impressos tornaraõ conferidos
-para as licenças de correr. Lisboa, 24 de Abril de 1762.</p>
-
-<p class="center"><i>Carvalho.</i> <i>Emaús.</i> <i>D. Velho.</i> <i>Affonseca.</i></p>
-
-
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>MAPPA DE PORTUGAL ANTIGO, E MODERNO, TOMO 1 (OF 3)</span> ***</div>
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
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-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
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-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
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-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
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-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
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-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
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-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
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-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
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