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Principe Dom Pedro Governador, e Regente... - d - -Author: Rafael Bluteau - -Contributor: João da Costa - -Release Date: December 21, 2022 [eBook #69596] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the - Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by National Library of Portugal - (Biblioteca Nacional de Portugal).) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA -DAS AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA *** - - - - - - INSTRVCÇAM - SOBRE A CVLTVRA - das Amoreiras, & criaçaõ dos Bichos da seda, - - _DIRIGIDA_ - - A conseruaçaõ, & augmento das manufacturas - da seda, - - _ESTABELECIDAS_ - - Pelo muito alto, & poderoso Principe - DOM PEDRO - GOVERNADOR, E REGENTE - dos Reinos de Portugal, - - _E commetidas á direcçaõ_ - - DE D. LVIS DE MENEZES - Conde da Eiriceira, & Veedor da fazenda Real, - - Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV, - Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia, - Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade - da Raynha Mãy de Inglaterra, & Calificador - do S. Officio no Reino de Portugal. - - [Illustração] - - EM LISBOA. - Na Officina de Ioam da Costa. - Com todas as litenças necetiarias. 1679. - - - - - [Illustração] - - - - - AO - PRINCIPE - NOSSO SENHOR. - SENHOR. - - -_Sigo o discreto dictame de Parisatis[1] Rainha de Persia, que -costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com -palauras de seda._ - -_Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com -que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste -liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da -seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque -de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode -grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ -destes insectos._ - -_Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, & -a Arte, a natureza nas Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta -differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza, -naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que -se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba -o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem -os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com -muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio -das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas -as Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade, -com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como -aduirtio[2] Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo -modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ -as Artes com a munificencia dos Princepes._ - -_Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o zelo, cõ -que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção das sciencias, -& das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a conseruaçaõ, -& augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ perfeito, -como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia para o -estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto mais -que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos olhos os -exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa._ - -_A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa -atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous Mõges[3] -vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente -dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, & -quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as -Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de -dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ casulo, que forma de si mesmo, -architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis, -sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè -se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera._ - -_Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia, -pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais -Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha -naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão -padecendo as rusticas oppressoẽs do mesmo jugo._ - -_Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos della, -os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a Persia, -deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à criação -dos bichos, & à Arte da seda._ - -_Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China -se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China -a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí -pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas, que delle -nauegão os Castelhanos à America._ - -_A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas riquissimas -de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, Cafilas de -seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & Esmirna nas -muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores Imperios da -Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura._ - -_Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais -Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor; por elles -passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda, -que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia, -aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se -cõmunicou a toda Italia._ - -_Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta -abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em -rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a -nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras -muitas de Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque -assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao -recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor -despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior._ - -_Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de cõseguida -a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse huma -junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro na -cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do -decreto com que se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são -as seguintes._ El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção das -sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio para -euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs de ouro -a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser conueniente -esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza dos pouos -do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as experiencias, -& conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a nossos -subditos, &c. - -_França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por -hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua -riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda, -he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc, -Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias, -creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, & -dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das -sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a Italia, & -Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por -toda Europa._ - -_A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura, -& hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas -fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos._ - -_Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa -semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o -mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de -Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda._ - -_A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão mister -clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de 45. -graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se fas; -he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos até -45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia da -Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da -China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45. -ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no meio das -duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da -calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos -bichos._ - -_Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està -situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de -Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de -Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a -seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos, -dõde se segue, que produzir à Portugal com abundancia esta excellente -materia._ - -_Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na Prouincia -de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais setentrional -deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas Prouincias -mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, Algarue, & -Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem experimentado esta -verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, & tẽperado Ceo, -que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem tirado dos bichos, -que se criarão nas casas, em que se deu principio âs manufacturas, he -mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor seda de Italia._ - -_Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em -abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca, -porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas -terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria; -& se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar -as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna, -achando tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como -pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, & -seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, & -terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem -nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs -de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens -pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si, -a quarta parte da que ha mister para as suas manufacturas._ - -_A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de -contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os -Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas -manufacturas._ - -_A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios -fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz -com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão -luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque -as cores que se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras, -mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes -Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que -estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus -argumentos._ - -_A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose -neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento -das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros, -infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com manîfesta -destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua -entrada, & sahida do açucar, & do tabaco._ - -_Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey -Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas -em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa -ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, & Holandezes não -virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos -os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a -futilidade desta objecção, porque no tempo que a tranquilidade da -paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, & -Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, & trigos -de França._ - -_A indigencia, & a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, & sociedade -humana, & foi effeito da diuina[4] Prouidencia, que algũas terras -careceßem dos mãtimẽtos, & regalos, de que outras abundaõ, paraque -com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais remotas -Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa com o -Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar, que -he o mais delicioso mimo da terra, & austerse do tabaco, que he o mais -attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos -ares, & sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de -produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ -em algumas partes do Reino de Sìcilia, & em taõ pequena cantidade, que -naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia._ - -_O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao do -Brazil na quantidade, & qualidade, & porque em todos os Emporios do -mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar -do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia, -verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste -seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar -do Brazil he infaliuel mas que tambẽ he certissimo o lucro desta -venda._[5] - -_Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo de -alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, & he -que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das -sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da -folha._ - -_Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos -que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino, -dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey -de Castella, & se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de -amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de -seda, que os direitos da que se fabricar no Reino & suas conquistas, -com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa -excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de -todos os direitos da alfandega._ - -_Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura -prudencia, & porque os bons principios saõ o presagio das venturas -que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a -publica vtilidade dos futuros progreßos._ - -_A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, & regula os orbes -da sua Monarquia, agradece esta era, & successiuamente agradecerà a -Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação._ - -_Huma das maiores felicidades de hum Reino, he que o Rei se enriqueça -sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda; procura V. A. -este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos, & quererá o Ceo, -que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em realidade, as ditas, -que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu seculo dourado._ - -_Assim o espero, & peço a V. A. queira aceitar com agrado este pequeno -trabalho, que entre os estudos mais serios, & proprios da minha -profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que -teria de ver esta materia praticada em lingoa Portugueza, pella grande -vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo, -com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A. -outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que -neste liurinho se encerrão._ - -_Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de Constantinopla -os prodigiosos segredos da natureza na criação dos bichos da seda, -fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de presente,[6] -prometendolhe outras maiores para o futuro, & para mim as maiores, que -podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua beneuolencia, -& protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que estrangeiro -no sãgue, sou Portuguez no amor, & se a Inglaterra deuo o nacimẽto, -a França a criaçam, & a Italia, o habito, da sagrada Religiam que -professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares -beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento, de sejo de -vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, & no obsequio. -Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, & -todas os seus vassallos desejamos._ - - - De V. A. o menor Capellaõ, & Orador. - - D. RAFAEL BLVTEAV. - - Clerigo Regular da diuina Prouidencia. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] Parisatis mãy de Cyro, Rey de Persia. - -[2] Vt fruges sub grata aëris temperie proficiunt; sic scientiæ, & -artes sub dominantium liberalitate, honorificentia, benignitate. -_Plutarch lib. 2. de virtute, & fortuna Alexandri._ - -[3] Telȩ sericȩ ætate Iustiniani Imperatoris cȩptȩ, quæ priùs à -Persicis mercatoribus tantùm deferebantur, cum ignorarent quomodo -fierent, nec scirent fila esse vermium. Cæterùm originem illius duo -Monachi ex India Byzantium profecti, declararunt, fœtumque illorum -vermium, oua nimirũ peregrina attulerunt, & in fimo collocata in vermes -transformarũt, & mori folijs aluerũt, indeque naturâ magistrâ ipsis -filnm reddentibus, sericum confecerunt. _Zonaras 3. Annal. tom. 3. p. -95._ - -[4] Effecit Deus, vt alter alteriûs indigeremus, vt sic nos quoque -conjungeret; quoniam amicitias maximas facit vsus, & indigentia, -propterea nec omnia vbique gigni permisit, vt inde etiam cogeret -permisceri, _Chrisost. hom. 34. in 1. ad Corinth._ - -[5] Ex ea merce negotiatores, vel maximum capiunt emolumentnm, siquidem -nauibus quotannis in Europam euecta, certissimo compendio longè, -latéque diu enditur. - -_Maffæus in libro secundo historiarum Indicarum, mihi pag. 68._ - -[6] Eos Monacos Iustinianus, in præsentia, muneribus; de cætero -magnis pollicitationibus ad illud præstandum confirmauit. _Procopius -Cæsariensis, & ex eo Zonaras 3. Annalium tom. 3._ - - - - - [Illustração] - - - - - LICENÇAS. - - -Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ, -vimos este Liuro intitulado: _Instrucção sobre a cultura das amoreiras, -& criação dos bichos da seda_, composto pello P. D. Rafael Bluteau, -Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia, Calificador do S. -Officio, & muito conhecido nesta Corte, por seu singular engenho, -& admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos della, & não achamos -contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, & bons costumes. He pequeno -o Liuro na materia, pello que trata de hum bichinho, não conhecido de -muitos, & pouco estimado de quasi todos, & he muito grande na calidade, -porque a se obseruarẽ bem os documẽtos, que dà o Author, he certo -resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que por falta das manufacturas -se vè taõ exhausto, & diminuido de dinheiro, com gèral dor de todos os -zelosos do seu acrecentamento; & quando a obra por si só naõ fora de -tanta estimação, o seria pella elegancia com que o Author a escreue, -com clareza, verdade, & compendiosas regras, & nam duuidamos, que o -particular gosto, com que a lemos, abranja a todos os que a lerem, & -assim nos parece muito digna de se dar à estampa, para que o Reyno -logre as prosperidades, que ella lhe promete, & o Autor o nome de -zeloso, & amante do Reyno de Portugal, que he o de que mais se preza, -& com que em parte lhe quer pagar os aplausos, & affecto, com que o -ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina Prouidencia aos 28. dias -do mez de Março de 1679 annos. - - _D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia, - Doutor na sagrada Theologia._ - - _D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia, Doutor - na sagrada Theologia._ - - -_Consultores Clericorum Regularium._ - -Hoc opus inscriptum (_Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & -criação dos bichos da seda_) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo. nostræ -Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, & juxta -assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur, -quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes -litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis -sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678. - - _D. Leonardus Duardus Consultor C. R._ - _D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R._ - _D. Michael Pignatellus Consultor C. R._ - - _D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius._ - - * * * * * - -Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a _Instrucção -sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, que cõpoz -o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo Regular Theatino da -Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de Inglaterra, & Qualificador -do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ conhecido, que naõ só nas -Naçoens estrangeiras, como he para elle a nossa, mas até na propria -patria he celebrado seu talento, por peregrino; naõ contẽ o Tratado -cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou bons costumes; antes cõ elle seu -Author, não só instrue, mas anima as almas cõ muitos documentos para a -virtude, & aos Portuguezes cõ muitas liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ -porque ainda que este estiuera por hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ -bichinho, pode a industria humana ajudada da Prouidencia Diuina, não -sô sustentar, mas enriquecer a Monarchia, cõ o que ficarà immortal -seu nome na nossa memoria, pois nũca dirà Portugal de seu engenho, o -que disse da arte do bicho da seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus -Epigramas: _Epigram 178._ - - _Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse, - Fila mei fati duco, necemque neo._ - -Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678. - - _O Doutor Fr. Gregorio de Iesus._ - - * * * * * - -Vista a informação, podese imprimir a _Instrucção sobre a cultura -das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, Author o P. D. Raphael -Bluteau, & impressa tornarà para se conferir, & se dar licença, para -correr, & sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678. - - _Manoel de Magalhaens de Menezes._ - _Manoel Pimentel de Sousa._ - _Manoel de Moura Manoel._ - _Fr. Valerio de S. Raymundo._ - - * * * * * - -Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678. - - _Fr. C. Bispo de Martyria._ - - - SENHOR. - -Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os -argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ -demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por -origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra, -no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da -prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A. -mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10. -de 1679. - - _Antonio Vellez Caldeira._ - - * * * * * - -Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, & Ordirio, & -depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar & conferir, & sem -isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679. - - _Marquez P._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._ - - Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21. - de Iunho de 1679. - - _Fr. C. Bispo de Martyria._ - - Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679. - - _Magalhaens de Menezes._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._ - - - - - [Illustração] - - - - - ADVERTENCIA - - AOS - - PORTVGVEZES - - -As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as -bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão -no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as -inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o -descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de -donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria, -& felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que -nellas se exercitão. - -Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso -a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus -Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre -se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em -que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue -ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se -cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios -exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que -escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para -que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio. -Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos -genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della -se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a -ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos. - -As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte -chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras -duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais -misteriosa, he a arte da seda. - -A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos; -o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os -misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios. - -Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação -à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta -em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està -introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os -senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas -cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras -para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias, -& das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa -mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta -arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores, -nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas -vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos -Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras. - -As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras; -chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados, -labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem -tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, & -para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o -ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios, -retratos da gloria, & hospicios da Diuindade. - -Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da -seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas -amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça -de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta -em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho, -ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo -semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem -campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação -dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa -occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas, -que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão -a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ -mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que -lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com -esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas -pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas -manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, & -teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno, -& suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que -poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se -se occuparem neste exercicio. - -Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos -os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres, -a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, & -riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas -plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas -de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque -as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as -larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras -estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa, -ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades. -Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue, -que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se -começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a -propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe -as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias -onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As -amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario -occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico -pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França, -& Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, & -vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas, -que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes -dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda -d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco, -seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos, -ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras, -nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil -amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou -laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente -com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza -mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se -euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito -que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà -Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, & -todas seraõ admiradoras da sua opulencia. - -Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os -artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que -saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes, -& na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos -antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o -Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos, -folhas de amoreiras, & bichos de seda. - -Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais -sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis -de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em -que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com -perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda, -nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes -emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ -desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em -que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu -ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as -manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas, -venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às -penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que -pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à -constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se -anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com -que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos -merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ -ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das -suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, & -ineuitauel embaraço. - -Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue -ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos -soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ -os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto -isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ -do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto, -solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda, -com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta -Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de -hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a -terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças -que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os -animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão -por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a -terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua -fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por -sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa -maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da -nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que -conheceo superior, ao seu poder. - -Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando -du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, & -companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita -virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do -Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento -do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento -desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella -com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente. - -De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus -principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas, -que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança -nos hombros de tres Atlantes. - -As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por -debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do -bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he -nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, & -perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de -hum pequeno mundo. - -Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como -os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear -de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares, -em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, & -telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os -progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal -mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel, -ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do -successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito. - -Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de -exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa -mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte, -he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, & -admiração, à intelligencia dos Sabios. - -O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão -profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por -curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as -Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo. - -Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia -de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação -do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a -transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor. - -Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam. -Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da -cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ, -mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author -da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o -Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita? -fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum -instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua -palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz, -& sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da -verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos -Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes -reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este -bichinho basta. - -Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto -admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o -principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ -de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de -maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente -distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se -cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ -physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos -obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas, -hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que -cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a -propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira, -& assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem -o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo, -se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em -quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso -insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho, -as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o -ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a -borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro, -como o ouo. - -No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana, -& a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque -como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura -a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do -diuino. - -Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas -entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o -calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella. - -Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo -o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no -silencio viue, & com os estrondos, morre. - -No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys, -que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo -se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem -o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue -na aluura. - -O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho -da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da -paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro, -deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua -sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos -da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos -discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em -cada jeroglifico, se significa hũa virtude. - -Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida, -& morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia, -& o desengano das vaidades do mundo. - -Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para -vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas -entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra as -injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em -preciosas roupas, os seus proprios alimentos. - -Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para -cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que -se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a -prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam -no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão. - -Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho da seda, -nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como -elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande -rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para -seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum -outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado. - -Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de -pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das -pompas humanas, porque a riqueza das sedas que laura, nam he outra -cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir, -que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se -reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade -da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das -artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na -eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam -reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a -mais importante aduertẽcia, das que se encerrão nesta introducção, fiz -as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como -desejoso do bem das Almas. - - - D. RAFAEL BLVTEAV - - Clerigo Regular Theatino da - diuina Prouidencia. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[7] Artes bonorum fontes esse aiuunt. _Xenophon. de institut. Cyri lib. -7._ - -[8] Artes non ornamenta solum Reipublicȩ sunt, sed etiam auxilia, & -fulcra. _Lipsius in lib. de Cruce in præfat. ad barb. ord._ - -[9] _Xenophon, in œconomico._ - -[10] In Belgio, Sericum crudum, quod magna copia ex Italia, & -Regionibus Orientalibus, prȩcæteris verò ex Persia Societatis Indiæ -Orientalis defertur (vt secundum rei veritatem à multis obseruatũ est) -amplius, quam duodecim millia hominum occupat, qui tantummodo in eo -separando, & glomerando occupantur. _Schookius in Belg. fœder. lib. 7. -cap. 19._ - -[11] Aquila Auis solaris est acuti visus, ita vt in summo Aere existẽs, -quæ in terra subsident videat. _Etzler. in Isagog. physic. cap. 4._ - - - - - [Illustração] - - - - - INDEX - - DOS PRINCIPAES AVTHORES, que escreueram o nacimento, criação, vida, & - propriedades do bicho da seda. - - -_Plinio, histor. natural. liu. 10. cap. 23._ - -_Ieronimo Vida, Bispo de Alba, em dous Liuros, que tem composto em -versos hexametros_, de Bõbice. - -_Vlysses Aldourando, no seu Liuro_ de Insectis. - -_Simão Maiolo, Bispo de Vulturara, no seu Liuro intitulado_, Dies -Caniculares, _no Colloquio quinto_. - -_Luis de Granada da Ordem de S. Domingos, na introducçam do symbolo da -Fè, p. 1. cap. 21._ - -_Gaspar Kiokio, Iurisconsulto Alemaõ nos Tratados, que fez_ de Ærario, -_liu. 2. cap. 6_. - -_E Christouão Pellero, nos Cõmentarios que fez sobre os mesmos -Tratados._ - -_Thomas Garzoni, Author Italiano, no Liuro chamado_, Piazza Vniuersale, -_liu. 4. cap. 1_. - -_E Christouaõ Isnardo; em hum Liuro cõposto em Idioma Francez, impresso -em Paris no anno de 1665._ - -_Este vltimo Author, escreueo sobre a cultura das amoreiras, & criaçam -dos bichos da seda, mais clara, diffusa, & methodicamente, que todos -os mais, & por isso delle se tirou a maior parte das noticias, que se -encerram nos seguintes Capitulos._ - - - - - [Illustração] - - - - - INDEX - - DOS CAPITULOS, QVE contem este Liuro. - - - I. PARTE. - - Cap. I. _Das differenças das amoreiras, & das suas excellencias._ - - Cap. II. _Varios modos de plantar as amoreiras brancas, & pretas._ - - Cap. III. _Modo de transplantar as aruores nascidas por semente._ - - Cap. IV. _Modo de plãtar as amoreiras por mergulho._ - - Cap. V. _Modo de plãtar as amoreiras por estaca._ - - Cap. UI. _Modo de plãtar as amoreiras por enxerto._ - - Cap. VII. _Como se deuem entreter as amoreiras._ - - Cap. UIII. _Modo de colher a semente das amoreiras, para a semear._ - - - II. PARTE. - - Cap. I. _Do lugar proprio para criar os bichos._ - - Cap. II. _Regra para conhecer, & escolher os melhores grãos, & fazer - sahir os bichos._ - - Cap. III. _Das mudas dos bichos, & como conuemtratalos no tẽpo dellas._ - - Cap. IU. _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._ - - Cap. V. _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe - podem aplicar._ - - Cap. VI. _Segredo para fazer nacer sem semente, muitos bichos da seda, - que daraõ excellẽtes grãos com abundancia._ - - Cap. UII. _Modo de fazer sobir, & fiar os bichos da seda._ - - Cap. UIII. _Do tempo em que os casulos se haõ de tirar dos ramos._ - - - III. PARTE. - - Cap. I. _Do modo com que se deuem aparelhar os casulos para delles - tirar a seda, & como se podem conseruar muito tẽpo, impedindo que as - borboletas naõ os furem._ - - Cap. II. _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas para - que ponhaõ a semente._ - - Cap. III. _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumentos para - tirar a seda._ - - Cap. vlt. _Do barbilho, & do modo de o aparelhar._ - - - - - [Illustração] - - - - - INSTRVCÇAM - - SOBRE A CULTURA das amoreiras, & criação dos bichos da seda. - - - - - I. PARTE. - - - - - CAPITVLO I. - - _Das differenças, & propriedades das amoreiras._ - - -Como o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica -aruore, cujas folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto -dos primeiro Capitulo deste Tratado. - -Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras. -A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto, -porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que -as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a -casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome -de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras. - -Posto que as folhas de hũas, & outras, siruaõ à nutritura dos bichos, -as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por -quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de -melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha -vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ -dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ -cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais -facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a -experiencia tem mostrado ser a seda dos bichos, que se sustentaõ da -folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia -tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras -pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só -plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as -folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas, -duas brancas. - -Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores, -que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens, quanto à -fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os -seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades. - -Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores -fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a -todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ, -que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos -grosseiros. - -A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir -ao ornato do mundo, izentou esta aruore de toda a sorte de animaes -immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as -outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este -attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica -desta nobre planta. - -He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem -copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem -incommodar as aruores. - -A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza, -bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes -criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que -de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel. - -As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado, -& o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos, -capoens, & toda a sorte de Aues. - - - - - CAPITVLO II. - - _Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas._ - - -Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore. - -Primeiro, por semẽte tirada das amoras. - -Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à -terra. - -Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar. - -Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer -outras aruores proprias para sofrer o enxerto. - -Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado, -defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, & -estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de -hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos. - -O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho -em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes, algũa -outra planta. - -Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea -que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he -bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se -semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras -quaesquer Aues. - -Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente. - -Primeira: Abril, & Mayo. - -Segunda Iulho, & Agosto. - -E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira. - -A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he -possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro, -& sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a -outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com -instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos. - -Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre -nòs saõ inuteis. - - - - - CAPITVLO III. - - _Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente._ - - -Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer, -& trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de -Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua, -ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque -as raizes. Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a -demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes. - -Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar -cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que -se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto, -meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais, -tres ramos. - -E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à -grossura de hum braço, se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem -pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto, -& exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as -aruores, a outo pés de alto. - -Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias -distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em -lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se -terà o mesmo cuidado de as cultiuar. - -E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo -(como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de -Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se -deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril. - -Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores, -deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he -conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua, -que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ -nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo a apodrecer, lhe seruẽ -de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras -immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito. - -Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos -mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o -tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para -as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos -primeiros annos. - -A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores, -mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que -na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, & -crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas, -junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas. - -Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde -se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres -braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o -tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ mais junta, naõ deixaõ de -crecer da mesma sorte. - - - - - CAPITVLO IV. - - _Modo de plantar as amoreiras por mergulho._ - - -Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder -melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder -ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa -receber a substancia della, fazendo sahir à superficie da terra hum, -ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o -anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa -estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado; -he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que -lance raizes. - -Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto -da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que -quer florecer. - -No anno seguinte, quando se entender, que o ramo mergulhado tem -lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou -se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica -dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar -do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo -anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a -enfraqueceiâ. - - - - - CAPITVLO V. - - _Modo de plantar as amoreiras por estaca._ - - -As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente, -& mergulho. - -Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ -dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha -sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas -na parte por onde se cortar, para que metido na terra, o ramo saya -direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes. - -Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas, -hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres -botoens do ramo. - -He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra, -de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de -trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o -tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem regalos, quando for -necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario -podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà. - - - - - CAPITVLO VI. - - _Modo de plantar as amoreiras por enxerto._ - - -Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as -brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ -enxertar em quaesquer outras aruores. - -Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores, -o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os -enxertos das outras aruores, serue às amoreiras. - -He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas -que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais -nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas -extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde, -redõda, & nam manchada. - - - - - CAPITVLO VII. - - _Como se deuem entreter as amoreiras._ - - -Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito -annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os -annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os -ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim -de fazer a aruore copada, & mais facil de colher a folha. - -O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde -haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô -cinco, ou seis, os melhor situados na aruore. - -No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores, -& em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja -igual, & formada sô de tres branchas principaes. - -He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres -branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem, -se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco -principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se -cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre -o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos -ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na -forma, que se terà feito às branchas. - -Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem -sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as -extremidades dos ramos, & meter nelles enxertos de bõs garfos, & -quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he -mais vtil, que necessario. - -Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a -qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais -tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro, -maiores que todas as outras. - -As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a -comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas. Com -tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a -dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha, -lhe faz algũas vezes dano. - -Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte, -estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he -natural de Sicilia. - -Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o -alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas -aruores, ou colher de todas com moderação, porque ainda que o colher -a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de -melhor substancia, & vem em maior abũdancia. - -He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha, -& o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos -vltimos dias, por duas razoens. - -Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue -guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de -formar a seda. - -Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe -tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para -semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que -algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas, -por serem muito pequenas. - -Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro -que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com -industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das -aruores, & à roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com -agoa morna em hum dia bom, & de Sol. - -Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher -a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos -pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou -ramo grãde. - -Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello -pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das -aruores, para que caya sobre elles. - -Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra, -pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o -que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes, -& se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos. - -Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, & -cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que -se separarem muito da aruore. - -Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer, que -necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos -ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha, -por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres, -ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore. - -O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he -mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os -ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum -bom dia, da Lua noua, ou por não perder a folha daquelle anno, nos -mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo. - -Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às -amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de -fruto. - -Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque -separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles, -se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se -conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa. - -Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer, -porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa, -he de grande prejuizo às aruores. - -Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo -chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não -tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos -bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela. - -Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar em terra -laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de -tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica -planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores, -que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França, -no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de -Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos -proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas. - -Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda. - -Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem -as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer -nellas. - -Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra -pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar -até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando -a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os -graõs, & criou os bichos. - - - - - CAPITVLO VLT. - - _Modo de colher a semente das aruores, para as semear._ - - -As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de -amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou -pretas. - -As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras, -& de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das -amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como -fica dito. - -Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas -a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as -melhores. - -As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na -forma seguinte. - -Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de -pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,) -& abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as -amoras maduras. - -He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo -no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a -semente. - -Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa -meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco, -ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para -euitar a podridão. - -Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma -peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as -mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o -que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar -cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente, -porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està -nadando em cima. - -Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho, -& se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se -limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na -sesão, & forma, que fica dito no _Capitulo II._ onde tambẽ se disse, -que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, & -postas a amadurecer o tempo necessario. - -Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros -lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas, -por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado, -de amoras podres. - -Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em -hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo, -he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil. - -Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com -as amoras pretas, que se comem cõmumente. - -De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade, -em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza. - -Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar -as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre -a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens. - -Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os -Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens. - -Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os -ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que -os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho. - -Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação, -tiraráõ della tres grãdes ventagens. - -Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver -crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando -sahem, como obras das nossas mãos. - -Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque -he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual -grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode -tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar -estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior. - -Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem -as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que -obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do -Mercador. - -E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma -razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu. - -Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens -da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos. - -Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a -consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ -aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho, -& com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na -posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem -à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram. - -Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de -tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os -frutos, & as riquezas? - -Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as -terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos, -& agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm -muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na -terra, em que viuimos. - -Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta -rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha, -depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os -bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem -produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto. - -A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em -algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a -memoria do tempo em que foram plantadas. - -Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda, -affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes, -os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos -homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam -singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas -aruores a seda. - -Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram -trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França, -como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de -criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão -agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais -lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos. - - [Illustração] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[12] In Trapobane sericum, sine cultu, ex arboribus detrahitur à -Bombycibus confectum. _Linschot cap. 23. in commentar nauigationum._ - - - - - [Illustração] - - - - - II. PARTE. - - CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda. - - - - - CAPITVLO I. - - _Do lugar proprio para criar os bichos._ - - -Para fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum -lugar cõmodo, em que se alimentẽ sete semanas, que tem de vida, ao -menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em -lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum -genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em -camaras claras, & liures ao vento. - -Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte -das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar -liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos -dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados. - -He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar -todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara, -galinhas, frangos, ou pardais. - -Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes, -partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, & -nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, & -huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se -pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder -andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter -escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas. - -Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam -cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo -sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do -taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam. - -Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de -quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros. - -As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa -sô vez a despeza destes partileiros. - -He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza -delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os -bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he -considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito. - -As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de -partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como -seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas -postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a -todos os bichos, & passaros, que os comem. - -A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe -fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a -vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros -semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que -serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos, -suposto que sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano. - - - - - CAPITVLO II. - - _Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os - bichos._ - - -Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de -Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para -conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas, -& se lãçar bem de humor luzente, he sinal de bondade. - -Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha. - -Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade -se poem, em os tirar, como ordinario trato della. - -Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa. - -Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das -borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo -pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como -tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja -seda nam tem a bondade ordinaria. - -Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de -correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram. - -Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta -mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he, -quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as -sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado. - -Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para -hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco, -ou seis pequenas. - -Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo -que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas -razoens. - -Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as -amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as -amoras lhe communicaõ demasiada humidade. - -A segunda he, porque os bichos sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais -facil com calor artificial. - -Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os -benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de -hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao -Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o -tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde -a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem -folhas capazes de se colherem. - -Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ -cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba -a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa -abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se -meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta -sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, & -mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha -de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre -ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas -folhas. - -Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente -sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos -taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles. - -Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde -basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas. - - - - - CAPITVLO III. - - _Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas._ - - -Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos; -em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, & -saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que -se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão. - -Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim -até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura, -como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas. - -Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou -lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que -tiuerem necessidade. - -A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros -naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas frescas, -& limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho, -metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por -euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos -primeiros dias. - -O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão -pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no -mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os -bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais -espaço, quando crecem. - -Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir -mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos. - -Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza -nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar -os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou -seis dias, os tornam a mudar. - -Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os -dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias. - -As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar, -& os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos -nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir -separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes -no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres -vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, & -quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior -parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço considerauel sem -comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe -guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes, -porque lhe faz fazer a seda mais forte. - -Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem -segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem -dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os -faz entropecer, estando chegados a subir. - -A melhor preuençam cõtra este dano, he começalos a criar com -abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou -quarenta & cinco dias. - - - - - CAPITVLO IV. - - _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._ - - -As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho, -ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa -cousa lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua. - -A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para -os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, & -recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que -se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha -molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm -a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de -secos ao lume, & os sacudiràm para fazer correr a agoa das folhas, que -tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão -nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou -panos, para que acabem de se secar de todo. - -Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de -folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar, -se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela -muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras, -se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas, como as que se colhem com -orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos -nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos -necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que -roer nas folhas, que tem debaixo de si. - -A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde -nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas -amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ -menos danosos aos bichos, os renouos, que brotaõ do tronco da -amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno. - -Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam -cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem -tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem. - -Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for -possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos; -para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para -os bichos, porque as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao -sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia. - -Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos, -& nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, & -em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ -tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho. - - - - - CAPITVLO V. - - _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem - aplicar._ - - -Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, & -outras accidentaes. - -As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ -a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias -sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns -dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa -de algũa quebra nos bichos. - -As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà -calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ; -do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende. - -Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio. - -Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem -fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ -caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o -vento. - -Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, & -janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas, -porque lhe causaõ muito calor. - -Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum -pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom -serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas -folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas. - -E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando -estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca -folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe -deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até -que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão. - -Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à -mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar, -melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir -sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais -a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha, -se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso, -beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo -de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as -brazas. - -Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, & -apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores, -despertam, alegrão, & sarão aos bichos. - -Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que -os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou -vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro, -como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se -estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes -cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes. - -O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que -mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão -saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os -tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal. - -As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam -boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto -lhe durar este achaque, porque isto os mata. - -He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita -quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de -armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo -não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir -algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas, -que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa -doenças nas mudas. - -Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar -o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que -estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que -começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe -occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, & -depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de -tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos -casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar, -se naõ desinquietàraõ os bichos. - -Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ -crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os -poderà liurar o cuidado, que se terà delles. - -As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou -pella difficuldade de ter boa folha. - -Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de -caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma, -que tenho dito. - -Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que -fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto, -ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na -caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, & -poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os -aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande -sobresalto. - -Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ, -quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando -se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario -separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com -esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas -mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam -mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous, -antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, & -das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os -dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima -declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos -às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, & -passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão; -& em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes -que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se -nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto -daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por -quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa. - -Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas -dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a -penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que -se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar, -que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros. - -Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles -serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta -destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais, -para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de -mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà. - -Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando -que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma -doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a -melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha. - -Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes, -nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito -danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de -porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os -bichos, he peçonha. - -Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para -nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer, -em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de -alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas -amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser -esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas -no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa -para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem -a criação, & nam dos que vendem a semente. - -Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se -experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que -naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se -seruissem das das outras Naçoens. - -Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno -poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos -estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas, -que nos vem de fora. - - - - - CAPITVLO VI. - - _Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que - daràm excellẽtes graõs com abũdancia._ - - -Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a -Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos -Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente. - -No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha -das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte -dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua, -nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm -de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias, -dar à vacca folhas de amoreira. - -Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite -da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos, -que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas -ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em -hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam -sinta o fedor. - -Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta -corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de -amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se -criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos -quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores, -que os dos outros bichos. - -Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de -alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà -preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue, -carne, & ossos da vitella, como fica declarado. - -Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca -despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem. - -O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta -marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de -_Bombice_. - -Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[13] - - _Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci, - Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus - Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes - Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;_ - - _Interea stabulis tantum illi pinguia mori - Sufficiunt folia, & lactenti cortice ramos. - Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis - Bombicem fractis condensam erumpere costis, - Atque globos toto tinearum efferuere tergo, - Et veluti putres passim concrescere fungos._ - - - - - CAPITVLO VII. - - _Modo para fazer sobir, & tecer os bichos da seda._ - - -O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente, -quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, & se bem -repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra, -com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, & as folhas que se deixaõ -sobre a semente, & o papel furado, para obrigar os bichos a sahir, -tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos -deixaram. - -Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda -aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de -sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca, -para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas. - -De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos -fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para -se agasalharem, começaràõ a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou -industria dos que tem cuidado de os criar. - -Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em -estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer, -por estes sinaes. - -Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, & quasi transparente como hum -Alambre, como se verà, tomando-os na mão, & pondo os à luz do Sol de -dia, ou ao lume da candea de noite. - -Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde, -a hũa côr de ouro, em que se representa a seda, que elles tem no esta -mago. - -Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo. - -Quarto, andaõ de hũa parte, & outra, por meyo dos outros, sem se lhe -dar de comer, & leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à -lenha, & fiar a sua seda. - -Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, & perfeição, he precizo -ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos -dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide, -medronho, vime, feto, ou de outras plantas, ou heruas, que não tenhão -humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando -sobem, ou quando cahem. - -Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme -à capacidade do lugar, & os estenderàõ sobre folhas de papel muito -limpas, no plano da mesma casinha. - -Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, & -muitas vezes, de dia, & de noite, & jà naõ teram mais o cuidado de os -alimpar, nem de os mudar. - -Mas sô lhe abriram as portas, & janellas nos dias de calma para os -refrescar, & se se leuãtar algum vento frio, & desabrido, as tornaram a -fechar para os defender das asperezas do tempo. - -Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se -a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, & se ficarem muito -poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar -as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, & com o papel, -deixando as taboas limpas, & os poram em outra casinha vazia sobre -outro papel nouo, & limpo, & lhe daram outras folhas frescas como -d’antes. - -Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior -parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente -se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, & o -mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos. - -Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala -vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que -necessitam de ar fresco, & liure de toda a corrupção. - -Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de -passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de -cinco, ou seis dias, & quando se encolherem, & se fizerem vermelhos, os -porâm em papeliços, para os ajudar a fiar. - -E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a -quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão -de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, & fragmẽtos da lenha, -de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os -casulos desta casta de bichos, para fazer semente, porque os que della -sahirem, teràm a mesma falta, & quasi todos seràm curtos, & pequenos. - - - - - CAPITVLO VIII. - - _Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha._ - - -No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que -he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, & se cobre -quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, & nos seguintes, vai -espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, & -juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes -fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de -comprimento. - -Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os -casulos da lenha, & os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo -mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais -diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria -hũa grande perda, para os que os criarão. - - - - - [Illustração] - - - - - III. PARTE. - - - - - CAPITVLO I. - - _Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, & - conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ._ - - -Se os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande -abũdancia da nouidade, nam tiuerem tempo, nem commodo, para tirar a -seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ -tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as -quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas -mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos -nos seus casulos. - -Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao -maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas -mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm os casulos, & os -cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais -depressa. - -Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem -os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que -fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que -nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada, -tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho -transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem, nem -toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda. - -Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno -o que se hauia de fazer com o calor do Sol. - -Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum -forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido, -& se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os -bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do -forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm -estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em -cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, & -os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de -matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos -dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos. - -Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para -os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da -humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo dentro delles -por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica -embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas -vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura. - -Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està -a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para -preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia -torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou -alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem os apertaraõ nos -cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he -preciso, para a extinçaõ dos bichos. - - - - - CAPITVLO II. - - _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque - ponham a semente._ - - -Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas, -que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ -os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de -verdemar saõ os melhores. - -Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem -casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas. - -Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada -casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo -brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir, -serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue -para o nosso intento. - -Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ -cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado. - -Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por -huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são -rombos por ambas as partes. - -Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de -parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer, -que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como -se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para -duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a -do que sò se vnir com huma. - -Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a -seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem -casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que -os bichos sahião trãsformados em borboletas. - -As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres -vezes maior. - -Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque -baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não -fazem. - -Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ -delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou -sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez -serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as -virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois -apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente. - -Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia, -quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião, -prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente. - -Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os -tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para -os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão, -mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, & -sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores, -seriaõ muito bonspara este effeito. - -Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem -como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor -de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da -mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos, -& estes não prestão para nada. - -De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção -mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem -dentro de si, & com elles morrem. - -Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas, -grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem -aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos -mesmos bichos viuos. - -Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, & -enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; & -as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio. - -Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de -ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs -inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas -temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio -congela os grãos, & a humidade os corrompe. - -Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os -grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà -em huma casa esta rica semente. - -Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa -com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma -vitella morta, na forma, que fica declarado no _Capitulo 6. da -2. parte_ porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, & -actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, & -tudo acaba. - - - - - CAPITVLO III. - - _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a - seda._ - - -Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma roda, ou -dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de -Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às -mais prouincias do Reyno. - -Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, & -experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta -materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, & -apurar a industria das fiandeiras. - -O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o -tacho nam ha de ser muito profundo, nem muito largo. - -A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez -polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo, -paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do -tacho. - -Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer, -porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede, -quando està feruendo. - -Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser -fina, ou forte; para a fitaria, a seda deue ser muito delgada, & outo -fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios -ao menos. - -Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ -os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade. - - - - - CAP. VLTIMO. - - _Do Barbilho, & do modo de o aparelhar._ - - -O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que -chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu -casulo. - -Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que -se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar, -& juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os -desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar. - -Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas -he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este -effeito, faraõ primeiro o que se segue. - -Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os -bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a -meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer -outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias; -cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se -faça mais aluo. - -Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que -os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram. - -Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella -clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita. - -Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz -tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os -fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os -fiar com mais facilidade. - -Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos -tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura, -outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre. - -Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda, -tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de -mortos, aproueita. - - [Illustração] - - - - - [Illustração] - - - - - AMPLISSIMIS FRATRIBVS - - D. D. FERDINANDO - MASCARENIÆ. - Comiti à Turre. - ET - D. D. FRANCISCO - MASCARENIÆ. - Comiti Cocolini. - - -_Hactenus publicæ studui vtilitati, nunc vestræ seruire cupio -oblectationi; cũ emim his quisque rebus delectetur, quibus quodam -natura ductu incumbit, quid jucundius afficiat liber ali ingenio -juuenes, quam fructus artium liberalium? O pes, auitum stemma, -generosus sanguis, & Aulæ oblectamenta, vobis sunt post studia, omnes -quippe animi affectus, vni voluistis fieri sapientiæ vectigales. -Percurrendo amænioris litteraturæ curriculo, vix Ætas alijs integra -sufficit, vestra vobis satis fuit Adolescentia; cum Musis versamini, -vt sororibus, cum Apolline loquimini, vt fratre; & dum alter alterum -eruditâ contẽtione transcendere studetis, domus vestræ fiunt, domicilia -doctrinarũ, scientiarũ Augustalia, & bipartitum Vlyssiponis Athenæum._ - -_Quibus attentè perspectis, vt aliquid libellus hic complecteretur, -quod ad vestrum palatum faceret, perneceßariũ esse arbitratus sum, -vt quæ de Mororum cultura, & Bombicum educatione, sparsi in vulgus, -plebeio sermone, humilique stylo, eadem vobis nobiliore dicendi -charactere depicta sisterem._ - -_Mirabimini prudẽtiam in Moro, in Bombice industriam, & in vtroque, -recondita naturæ solerter operantis arcana._ - -_Quid moro sapientius? Arborũ postrema germinat morus, vt fructificet -securior, fœtusq; suos haud euocat in lucem, nisi extorri hyeme, -exanimis Aquilonibus, & prouecto jam vere._ - -_Quid industrius Bombice? vno Bombix instrumento, ore scilicet, innatum -sericum deducit in fila, carminat in lanugines, contorquet in mæandros, -congerit in stamina. cogit in glomos; describit orbes sine circino, -sine penicillo colores inducit, & sine vllo aduentitio apparatu, -domunculam instruit, Cæsarum Palatijs splendidiorem._ - -_Tanti tamen, & tam strenui Artificis opera omnia sunt posthuma, haud e -nim e a absoluit, nisi sepultus; verùm, quia (vt dici solet) excellens -in arte non debet mori, prodit é pensili tumulo rediuiuus, ipsi -inuidendus Phœnici; nam ex reptanti Eruca, alatus Papilio, nobilior -resurgit, quàm vixerat._ - -_In Moro, & Bombice, natura fortunam imitatur, summa imis, & ima summis -miscentem; Morus, Abor regia, fit vermiculi pabulum; Bombix, ignobilis -vermiculus, ejectamentis suis Reges vestit._ - -_Vitam exorditur Bombix cum vere, vt parentur homini elagantia -indumenta, dum se terra circumtegit florenti chlamyde._ - -_Editus in lucem, solis pascitur frondibus arboris, cui adscribitur -sapientia, in hoc Adamo prudentior, quod Arboris sapientiæ folia -comedit, integro, intactoq; fructu. Operosissimus Bombix, propria in -pelle non quiescit, paucis enim diebus quater ponit exuuias, abjicitque -pellem, vt exuat torpẽtem desidiâ senectam._ - -_Omni tamen labore supersedet, ceditque vitâ, si fortè, sonus ingens -obtuderit operãtem, debetur enim & opifici silentium, & operi -admiratio, resque ipsa postulat, vt ad Bombicis ingeniosa molimina, -orbis attonitus immutescat._ - -_Non ideò sordidus Bõbix, quia vermis, nam seruat vrbes ab otij tabe, -innumeras exercens operas, Regnaque sine hoc verme sunt cadauera, vt -pote nuda, quia sine ornatu; exanguia, quia sine diuitijs, emedullata, -quia sine viribus; vires quippe Regnorum ex diuitijs existunt, -ingentes verò diuitias affert Bombix eximijs suis operibus, & filis -auricoloribus auream suis alumnis retexit ætatem._ - -_Quod alij vermes eripiunt mortuis, viuis reponit hic vermis, & -corrosarum in sepulchro vestium damna resarcit, nouis, pretiosisque -textis._ - -_Quid plura? totum se Bombix exhaurit, vt hominem ditet, viscerumque -suorum Clotho, tenuissima ducit fila, vt vitam protrahat in Reipublicæ -beneficium. Hæc ego: Reliqua à magistri mei calamo, cũ Poeticen -doceret in Collegio Flexiensi: Secundis auribus accipite, quæ Gallus -hic Olor cecinit de mori, Bombicis que natura; dudũ est, quod hæc -carmina diem aspexere, sed nunc verè proferuntur ad lucem, quia ad -vos. Enim verô, omnia in vobis, pulchrâ quadam, & vnanimi æmulatione -collucent, natalium splendor, jubar Sapiẽtiæ, fulgor ingenij, fulgetra -eruditionis, & irradiantium ornamenta virtutum._ - -_Omnes denique lucis fontes in vos deriuastis, vt Patri respondeatis, -qui omnes in se colligit Heroas; imò omnibus antecellit, fortior -Achille, Marte bellacior, sapientior Socrate, perspicacior Vlysse, -Hercule laboriosior, facundior Mercurio, grauior Catone, & Apolline -benignior._ - -_Quapropter, mihi videmini illæ duæ stellæ, circa Solem de nouo -deprehensæ, quæ à Mathematicis nũcupãtur, comes Solis, haud enim solùm -estis, tituli dignitate Comites, & comites suauitate morũ, sed estis -& comites solis, nam excellẽtissimum Fronteriæ Marchionem Parentem -vestrũ, pleno gradu comitamini in stadio virtutis, & gloriæ._ - -_Valete, & viuite paribus animis, & honoribus, quando quidem illam -fælicitatem, quam Ethnicus Ausonius[14] vidit in syderibus illis -germanis, Castore, & Polluce, adumbratam, in vobis re comprobatam omnes -demiramur._ - - - Humillimus, & addictissimus feruus. - - D. RAPHAEL BLVTEAVIVS. - - Clericus Regularis Theatinus. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[14] Virtutis, & fortitudinis protendunt influxum. _Ausonius de Castor. -& Pollu._ - - - - - [Illustração] - - - - - LAVDES MORI, - - ET - - BOMBICIS. - - - _Laus Mori._ - - Romulidas, Myrtus[15] Paphia exornauit, ouantes; - Pura triumphales decorauit Laurea Põpas: - Prima dedit Quercus seruati præmia ciuis: - Sumit Idumæam præpes victoria Palmam: - Ast ea,[16] quȩ nutu superis dominatur & imis - Fortunæ stolidas, quæ scit, contundere vires, - Quæque adamantæi domitrix prudẽtia fati, - Vnã ex Arboribus voluit sibi crescere morũ: - Hãc amat, hâc cingit canẽtia tẽpora fronde, - Vẽturi en agedum, secura, ignaraque corda, - Prospicite, & dubiæ casus prænoscite sortis. - Si pudor insanis, morus sapit, illa doloso - Nil temerè credit zephyro, nam veris adulti - Iam certum expectãs solẽ, nõ germinat ante - Frigoris infesti, quam cuncta recesserit aura: - Tum floretq; viretq; simul, longæq; repẽdit - Dãna moræ, atq; vnâ totã se nocte profũdit. - Viderat Æmoniâ nudam quam vesper ab[17] Oetâ, - Proximus[18] Idæo de vertice cernit Eous - Frondosã, & pariter grauidã, partuq; leuatã. - Sic properat tenerũ germen, ne frigidus aer - Manè coquat; medione die ne torreat ȩstus. - Insidias cæli ne tunc vereare sereni - Ampliùs, & vasto quæ cæca pericula Ponto: - Vt bene subductam deducas nauita Pinum, - Sint tibi[19] Vergiliȩ, videas cũ germina mori. - Quin vbi dilectis cultoribus annua Poma - Reddidit, hybernis ne frondibus incubet Auster, - Aduerso pugnãs Boreæ, & certamine fratrũ, - Collisi inter se frangantur in arbore rami, - Sponte sua capitis sacri deponit honorem. - Vtque minus fiat sæuis obnoxia ventis - Iratique Iouis telo, fugit ardua, Morus, - Morus in antiquis arbor gratissima lucis. - Ad Lunæ radios hâc ludunt sæpe sub vmbra - Cõsertȩ Satyris Nymphȩ, plaudũtq; choreas, - Sæpe legit fœtus[20] Ægle formosa caducos, - Ebria[21] Sileno queis sublinat ora jacenti. - Poma gerit morus triplici distincta colore, - Nã paribus spatijs albẽtq; rubentq; nigrẽtq; - At color ille parum lætus, qui fructibus ater, - Omina sanguineis nec sunt nisi tristia moris; - Quid te nigra mouent? niger est[22] Phæbeius oscen, - Nec tamen augurio quicquam fælicius illo, - Solis vbi nitido veniens spectatur ab ortu. - Astrorũ & somnimater, nox alma, quadrigis - Inuehitur nigris: ebeno tumet India nigro: - Laudamus nigros oculos, nigrumq; capillũ, - Ac nigras violas,[23] fului editus imbre metalli - Deperijt nigros Cepheæ Virginis artus. - Quod vero funesta putãt de sanguine mora, - In vulgum has sparsit[24] Babylonia fabula nugas; - Dat meritas igitur pænas & pẽdet Arachne, - Inuisique operis casso est addicta labori; - Non quod Palladiæ cõtenderit ȩmula telæ, - Mortalisq; Deam justas stimularit in iras, - Sed potius geminæ quod per mẽdacia cædis - Inuidiâ morũ, miserosq; onerauit Amores, - Assyrio tingens lugentia poma cruore. - Adde quod & nostris Regionibus alba leguntur, - Antiquis ignara Italis, cæloque latino. - Iam nec Pæoniæ, jam nec succus Panaceæ - Dictamniq; feris, notissima gramina, capris, - Iudice me, moris certare salubribus ausint. - Nec mihi[25] Moly tuum referas, herbamq; potentem - Capte oculis vates; à Moris plura petuntur - Prȩsidia, & plures illis natura creatrix - Vi quadam occultâ cõcessit pellere morbos. - His ideò[26] Catius finiri prandia jussit, - Cecropio Catius sapientũ primus in horto; - Inde fit ad noxas ægri prope corporis õnes - Panchrestos,[27] vero perhibent vt nomine Graij. - Mororum infuso coalescunt vulnera succo: - Auribus, atque ori prodest, aluoq; moranti, - Languentemque leuat stomachũ, capitisque dolorem. - Discutit & veteres panos, & tormina sedat. - Vipereo est hostis generi, tetrisque venenis, - Thessala, quæ tellus, quæque in mala pocula gignit, - Vncta prometheo cautes mæotica tabo. - Arboris ejusdem folijs medicabere tritis - Artubus ambustis, & diri morsibus hydri. - Saucius hoc nosset[28] magni præceptor Achillis, - Nõ Deus optasset lethum, nec Lemnia tanto - Saxa fatigasset gemitu[29] Pæantius heros. - Hirsuto hinc alitur spectãdus corpore Bombyx; - Nascũnturq; domi, quæ quõdã à littore rubro - Mollia distincti mittebant vellera seres. - Radicis sileo varios, & corticis vsus, - Morborũ auxilijs hæc tota est nobilis Arbor, - Mæonijsque cani non dignior vlla camænis. - - -_Laus Bombicis._ - - Qvò me Phœbe, rapis? quas hinc sublatus in auras, - Aera per liquidũ, rapidis circumuehor alis? - Vos ne adeo[30] Serum intueor mollissima Regna - Lanificos cõplexa greges, agnosco parẽtem - Bombycemq; sinu recubantẽ molliter albo. - Te quoque,[31] quam memorant primã euoluisse nitentes - Folliculos, vnde in paruæ collecta figuram - Alitis, ignotas pennâ trepidante per auras - Tinea carpsit iter, dulcesq; animãte susurros - Ore, poli lætis resonarunt æquora bombis. - Ten igitur vermis video nutricula,[32] Thisbe, - Errantẽue sinu placidè amplexaris alunum, - Scilicet, hũc morus ramo frõdente tenellum - Excipit, & claras magnũ trãsmittit ad Artes. - Namque vbi ter pigro renouauit corpora somno, - Iam senium increpitans, & pleni pondera ventris, - Continuò, tanta est edendi gloria fili, - Exercetur, & effundit quæsita per Æuum - Stamina, ditis opes vteri, suspensaq; densos - Fila regens inter ramos, atque ordine ducẽs, - Mille legit, relegitque vias, & circinat orbes - Sponte sua donec niueo se carcere claudat. - Mox autem interior circũ vndique stamina densat, - Albentiq; Thoro immoriens glomeratur in ouum. - Sed neq; tũ tineȩ vllus honos, aut gloria filo, - Pãphila ni modicos Bõbicũ euoluere folles, - Aut aperire caui docuisset tegmina linthei. - En etiã digitis prætentat mollibus oram - Educitque globo, lucisque emittit in auras - Rursus aui similem, sed te ne subdola captet - Et dulcem pullis Philomela immitibus escã, - Auferat, Ah vereor! melius cõcluse latebis, - Hanc sine necquiquam modulis, crispoque susurro - Blãdiri, & tenues disperdere carmẽ in auras, - Ni facias, rostro implebit crudelior alui - Ingluuiẽ, ac viuo viua abdet corpora busto. - Cætera quinetiam volucrũ lætissima turba - Gaudet in incautos vermes inuadere, sedDij - Dij prohibete nefas, recreet mage carmine dulci, - Vnguibus abstineat. Niueo jam plurima surgunt - Bombici tabulata, gradus aulæque per altos - Mille. Prius pubes stabulãtem rustica ramis - In nemora alta videns errare, ignara silebat, - Hic vbi nascenti Seres dominantur Eoo, - Deterior donec paulatim & de color, artes - Extudit, & duros homines emollijt ætas; - Fortunate nimis, diuũq; hominũq; superba - Gloria, centeno reparans tua funera fœtu; - Viue sacris Bombix decus admirabile Templis, - Viue ducũ, Regumq; augustis addite pallis, - Nec tua lanigeræ superabunt fila bidentes - Tergoribus niueis, quãuis sua vellera laudet - Hispalis, & magno Tyrios incocta rubores - Mutaris[33] Milete, olim tibi[34] Phrixea cedẽt, - Tu quoque ne[35] Biturix contra tua mollia jactes - Vellera, nec facies, etenim jam vilia sordent. - - [Illustração] - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[15] Myrtus Paphia, quia Veneri sacra, Venus autem in vrbe Paphia, -celeberrimo in Templo colebatur. - -[16] Morus quippe est sapientiæ symbolum, non enim ante germinat, quam -frigus penitus fugatum esse cognouerit, & fætum celerrimè grandit ac -maturat, ne caloris aduentantis injuriâ lædi possit. - -[17] Oeta Æmonia, siue Thessalica, est enim mons Thessaliȩ in Græcia, -in quo monte, vt inquit Seruius, stellæ videntur occidere. - -[18] Sicut de monte Ida nasci. - -[19] Vergiliæ seu Pleiades, sunt septẽ stellȩ ante genua Tauri quæ ortu -suo primæ nauigationis tempus ostendunt. - -[20] Ægle fuit Nympha hoc nomine, vna Naiadum. - -[21] Sileno, id est Bacchi nutritio, quem in antro jacentem pueri -deridebant. - -[22] Aquila Ioui Sacra. - -[23] Perseus, Iouis filius, ex Danae, quam Iupiter commutatus in -speciem aurei imbris vitiauit. Hic Andromedam, Cephei, Regis Æthiopum, -filiam, vxorem duxir. - -[24] Pyramus, adolescens Babylonius, mutuo Thisbes amore captus, vbi -ejus domo ex pacto egressæ, cruentatã reperit vestem, ratus esse -deuoratam, gladio se sub moro interfecit; illa autem superueniens, -multa gemens & querens, eidem gladio incubuit. Morus autem fructus -antea candidos in nigrum colorem mutauit. - -[25] Moly est herba Homeri carmine celeberrima. - -[26] Cato inter Grȩcos sapientissimus scripsit librum de re rustica. - -[27] Medicamentum quod ad omnes morbos conducit. - -[28] Chiron, Achillis Pædagogus, in medicina peritissimus, sagittâ -hydræ lerneæ veneno imbutà vulneratus, durissimis cruciatibus -conficiebatur morique optabat, sed non poterat, quod vtroque parente -immortali natus fuisset. - -[29] Vulcanus Iouis filius è cælo deturbatus in lemnum Insulam. - -[30] Seres sunt populi Scythiæ Asiaticæ à Sera vrbe dicti, apud quos -arbores lanam tenuissimam, ex qua vestimenta serica fiebant, proferre -creditæ sunt, quia vermes eandem lanuginem producentes nutrierunt. - -[31] Pamphila, Coa mulier, quæ prima telas Bombicum rediri, rursusque -texere inuenit. - -[32] Thisbe, id est morus, quia hæc arbor fuit conscia amorum Thisbes. - -[33] Miletus, Ciuitas Asiȩ, vbi tingebantur lanæ pretiosissimæ. - -[34] Vellus aureum quod Phrixus in Templo suspendit. - -[35] Biturix, Ciuitas Galliæ Aquitanicȩ. - - - - - ERRATAS. EMMENDAS. - - - Pag. Reg. - 12. 11. & que - 14. 2. Outoubro Outubro. - 27. vltim. infali,uel infaliuel - 56. vltim. po do - 69. 3. com elle como elle, - 118. 2. â inteira a inteira - 129. 1. ajudas ajuda. - 214. vltim. sepulus sepultus - 219. 15. comites comes - 221. 6. contendere contundere - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA DAS -AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Instrucçam sobre a cultura das amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>dirigida a conservaçaõ, & augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro Governador, e Regente... d</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Rafael Bluteau</p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Contributor: João da Costa</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: December 21, 2022 [eBook #69596]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA DAS AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA</span> ***</div> -<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p> - - -<h1><span class="big">INSTRVCÇAM</span><br> -SOBRE A CVLTVRA<br> -<span class="small">das Amoreiras, & criaçaõ dos Bichos da seda,</span></h1> -<p class="center"><span class="big"> -<i>DIRIGIDA</i></span> -<br> -A conseruaçaõ, & augmento das manufacturas<br> -da seda,<br> -</p> -<p class="center"><span class="big"> -<i>ESTABELECIDAS</i></span><br> -<br> -Pelo muito alto, & poderoso Principe<br> -<span class="big">DOM PEDRO</span><br> -GOVERNADOR, E REGENTE<br> -dos Reinos de Portugal,<br> -</p> -<p class="center"> -<i>E commetidas á direcçaõ</i><br> -<br> -<span class="big">DE D. LVIS DE MENEZES</span><br> -Conde da Eiriceira, & Veedor da fazenda Real,<br> -<br> -<span class="big">Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV,</span><br> -Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia, -Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade -da Raynha Mãy de Inglaterra, & Calificador -do S. Officio no Reino de Portugal.<br> -</p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img000"> -<img src="images/000.jpg" class="w10" alt="Decorative image"> -</span></p> -<p class="center"> -EM LISBOA.<br> -Na Officina de Ioam da Costa.<br> -<span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span><span class="small">Com todas as litenças necetiarias. 1679.</span><br> -</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> -<img src="images/001.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> - - -<h2> -AO<br> -<span class="big">PRINCIPE</span><br> -NOSSO SENHOR.<br> -<span class="big">SENHOR.</span><br> -</h2> - - -</div> - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Sigo</span> o discreto dictame de Parisatis<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> Rainha de Persia, que -costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com -palauras de seda.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p> - -<p><i>Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com -que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste -liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da -seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque -de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode -grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ -destes insectos.</i></p> - -<p><i>Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, -& a Arte, a natureza nas<span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span> Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta -differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza, -naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que -se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba -o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem -os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com -muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio -das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas -as<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade, -com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como -aduirtio<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo -modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ -as Artes com a munificencia dos Princepes.</i></p> - -<p><i>Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o -zelo, cõ que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span> -das sciencias, & das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a -conseruaçaõ, & augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ -perfeito, como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia -para o estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto -mais que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos -olhos os exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa.</i></p> - -<p><i>A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa -atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span> Mõges<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> -vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente -dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, & -quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as -Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de -dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> casulo, que forma de si mesmo, -architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis, -sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè -se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera.</i></p> - -<p><i>Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia, -pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais -Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha -naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão -padecendo as<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span> rusticas oppressoẽs do mesmo jugo.</i></p> - -<p><i>Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos -della, os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a -Persia, deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à -criação dos bichos, & à Arte da seda.</i></p> - -<p><i>Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China -se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China -a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí -pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas,<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> que delle -nauegão os Castelhanos à America.</i></p> - -<p><i>A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas -riquissimas de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, -Cafilas de seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & -Esmirna nas muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores -Imperios da Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura.</i></p> - -<p><i>Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais -Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor;<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span> por elles -passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda, -que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia, -aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se -cõmunicou a toda Italia.</i></p> - -<p><i>Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta -abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em -rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a -nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras -muitas de<span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span> Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque -assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao -recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor -despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior.</i></p> - -<p><i>Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de -cõseguida a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse -huma junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro -na cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do -decreto com que<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são -as seguintes.</i> El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção -das sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio -para euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs -de ouro a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser -conueniente esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza -dos pouos do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as -experiencias, & conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a -nossos subditos, &c.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p> - -<p><i>França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por -hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua -riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda, -he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc, -Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias, -creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, & -dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das -sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span> Italia, & -Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por -toda Europa.</i></p> - -<p><i>A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura, -& hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas -fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos.</i></p> - -<p><i>Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa -semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o -mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de -Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p> - -<p><i>A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão -mister clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de -45. graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se -fas; he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos -até 45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia -da Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da -China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45. -ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span> meio das -duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da -calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos -bichos.</i></p> - -<p><i>Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està -situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de -Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de -Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a -seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos, -dõde se segue, que produzir à Portugal<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span> com abundancia esta excellente -materia.</i></p> - -<p><i>Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na -Prouincia de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais -setentrional deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas -Prouincias mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, -Algarue, & Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem -experimentado esta verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, -& tẽperado Ceo, que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem -tirado dos bichos,<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> que se criarão nas casas, em que se deu principio -âs manufacturas, he mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor -seda de Italia.</i></p> - -<p><i>Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em -abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca, -porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas -terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria; -& se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar -as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna, -achando<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como -pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, & -seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, & -terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem -nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs -de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens -pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si, -a quarta parte da que ha mister<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span> para as suas manufacturas.</i></p> - -<p><i>A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de -contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os -Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas -manufacturas.</i></p> - -<p><i>A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios -fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz -com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão -luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque -as cores que<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span> se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras, -mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes -Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que -estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus -argumentos.</i></p> - -<p><i>A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose -neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento -das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros, -infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> manîfesta -destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua -entrada, & sahida do açucar, & do tabaco.</i></p> - -<p><i>Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey -Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas -em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa -ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, & Holandezes não -virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos -os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a -futilidade desta<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> objecção, porque no tempo que a tranquilidade da -paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, & -Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, & trigos -de França.</i></p> - -<p><i>A indigencia, & a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, & -sociedade humana, & foi effeito da diuina<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Prouidencia, que algũas -terras careceßem dos mãtimẽtos, & regalos, de que outras<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> abundaõ, -paraque com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais -remotas Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa -com o Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar, -que he o mais delicioso mimo da terra, & austerse do tabaco, que he o -mais attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos -ares, & sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de -produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ -em algumas partes do Reino de Sìcilia,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> & em taõ pequena cantidade, que -naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia.</i></p> - -<p><i>O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao -do Brazil na quantidade, & qualidade, & porque em todos os Emporios do -mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar -do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia, -verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste -seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar -do Brazil he infaliuel mas que tambẽ<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> he certissimo o lucro desta -venda.</i><a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p> - -<p><i>Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo -de alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, & -he que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das -sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da -folha.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></p> - -<p><i>Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos -que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino, -dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey -de Castella, & se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de -amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de -seda, que os direitos da que se fabricar no Reino & suas conquistas, -com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa -excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de -todos<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> os direitos da alfandega.</i></p> - -<p><i>Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura -prudencia, & porque os bons principios saõ o presagio das venturas -que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a -publica vtilidade dos futuros progreßos.</i></p> - -<p><i>A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, & regula os -orbes da sua Monarquia, agradece esta era, & successiuamente agradecerà -a Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação.</i></p> - -<p><i>Huma das maiores felicidades<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> de hum Reino, he que o Rei se -enriqueça sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda; -procura V. A. este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos, -& quererá o Ceo, que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em -realidade, as ditas, que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu -seculo dourado.</i></p> - -<p><i>Assim o espero, & peço a V. A. queira aceitar com agrado este -pequeno trabalho, que entre os estudos mais serios, & proprios da minha -profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que -teria de ver esta materia praticada<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span> em lingoa Portugueza, pella grande -vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo, -com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A. -outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que -neste liurinho se encerrão.</i></p> - -<p><i>Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de -Constantinopla os prodigiosos segredos da natureza na criação dos -bichos da seda, fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de -presente,<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> prometendolhe outras maiores para o futuro, & para<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> mim as -maiores, que podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua -beneuolencia, & protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que -estrangeiro no sãgue, sou Portuguez no amor, & se a Inglaterra deuo o -nacimẽto, a França a criaçam, & a Italia, o habito, da sagrada Religiam -que professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares -beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento,<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span> de sejo de -vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, & no obsequio. -Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, & -todas os seus vassallos desejamos.</i></p> - - -<p class="right"> -De V. A. o menor Capellaõ, & Orador.<br> -<br> -<span class="smcap">D. Rafael Blvteav.</span><br> -Clerigo Regular da diuina Prouidencia.<br> -</p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Parisatis mãy de Cyro, Rey de Persia.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Vt fruges sub grata aëris temperie proficiunt; sic -scientiæ, & artes sub dominantium liberalitate, honorificentia, -benignitate. <i>Plutarch lib. 2. de virtute, & fortuna Alexandri.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Telȩ sericȩ ætate Iustiniani Imperatoris cȩptȩ, quæ priùs -à Persicis mercatoribus tantùm deferebantur, cum ignorarent quomodo -fierent, nec scirent fila esse vermium. Cæterùm originem illius duo -Monachi ex India Byzantium profecti, declararunt, fœtumque illorum -vermium, oua nimirũ peregrina attulerunt, & in fimo collocata in vermes -transformarũt, & mori folijs aluerũt, indeque naturâ magistrâ ipsis -filnm reddentibus, sericum confecerunt. <i>Zonaras 3. Annal. tom. 3. p. -95.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Effecit Deus, vt alter alteriûs indigeremus, vt sic nos -quoque conjungeret; quoniam amicitias maximas facit vsus, & indigentia, -propterea nec omnia vbique gigni permisit, vt inde etiam cogeret -permisceri, <i>Chrisost. hom. 34. in 1. ad Corinth.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Ex ea merce negotiatores, vel maximum capiunt emolumentnm, -siquidem nauibus quotannis in Europam euecta, certissimo compendio -longè, latéque diu enditur.</p> - -<p><i>Maffæus in libro secundo historiarum Indicarum, mihi pag. 68.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Eos Monacos Iustinianus, in præsentia, muneribus; de -cætero magnis pollicitationibus ad illud præstandum confirmauit. -<i>Procopius Cæsariensis, & ex eo Zonaras 3. Annalium tom. 3.</i></p> - -</div> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002"> -<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="LICENCAS">LICENÇAS.</h2> -</div> - - -<p>Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ, -vimos este Liuro intitulado: <i>Instrucção sobre a cultura das -amoreiras, & criação dos bichos da seda</i>, composto pello P. D. -Rafael Bluteau, Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia, -Calificador do S. Officio, & muito conhecido nesta Corte, por seu -singular engenho, & admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos -della, & não achamos contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, & -bons costumes. He pequeno o Liuro na materia, pello que trata de hum -bichinho, não conhecido de muitos, & pouco estimado de quasi todos, & -he muito grande na calidade, porque a se obseruarẽ bem os documẽtos, -que dà o Author, he certo resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que -por falta das manufacturas se vè taõ exhausto, & diminuido de dinheiro, -com gèral dor de todos os zelosos do seu acrecentamento; & quando a -obra por si só naõ fora de tanta estimação, o seria pella elegancia com -que o Author a escreue, com clareza, verdade, & compendiosas regras, -& nam duuidamos, que o particular gosto, com que a lemos, abranja -a todos os que a lerem, & assim nos parece muito digna de se dar à -estampa, para que o Reyno logre as prosperidades, que ella lhe promete, -& o Autor o nome de zeloso, & amante do Reyno de Portugal, que he o -de que mais se preza, & com que em parte lhe quer pagar os aplausos, -& affecto, com que o ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina -Prouidencia aos 28. dias do mez de Março de 1679 annos.</p> - -<div class="blockquot"> - -<p><i>D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina -Prouidencia, Doutor na sagrada Theologia.</i></p> - -<p><i>D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia, -Doutor na sagrada Theologia.</i></p> -</div> - -<hr class="tb"> -<p class="center"><i>Consultores Clericorum Regularium.</i></p> - -<p>Hoc opus inscriptum (<i>Instrucção sobre a cultura das amoreiras, -& criação dos bichos da seda</i>) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo. -nostræ Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, & juxta -assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur, -quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes -litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis -sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678.</p> - -<div class="blockquot"><p class="p0"> -<i>D. Leonardus Duardus Consultor C. R.</i><br> -<i>D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R.</i><br> -<i>D. Michael Pignatellus Consultor C. R.</i><br> -</p> - - - -<p class="right"><i>D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius.</i></p> -</div> - -<hr class="tb"> - -<p>Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a -<i>Instrucção sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da -seda</i>, que cõpoz o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo -Regular Theatino da Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de -Inglaterra, & Qualificador do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ -conhecido, que naõ só nas Naçoens estrangeiras, como he para elle -a nossa, mas até na propria patria he celebrado seu talento, por -peregrino; naõ contẽ o Tratado cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou -bons costumes; antes cõ elle seu Author, não só instrue, mas anima as -almas cõ muitos documentos para a virtude, & aos Portuguezes cõ muitas -liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ porque ainda que este estiuera por -hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ bichinho, pode a industria humana -ajudada da Prouidencia Diuina, não sô sustentar, mas enriquecer a -Monarchia, cõ o que ficarà immortal seu nome na nossa memoria, pois -nũca dirà Portugal de seu engenho, o que disse da arte do bicho da -seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus Epigramas: <i>Epigram 178.</i></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse,</i></span><br> -<span style="margin-left: 3em;"><i>Fila mei fati duco, necemque neo.</i></span><br> -</p> - -<p>Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678.</p> - -<p class="right"> -<i>O Doutor Fr. Gregorio de Iesus.</i><br> -</p> - -<hr class="tb"> - -<p>Vista a informação, podese imprimir a <i>Instrucção sobre a cultura das -amoreiras, & criação dos bichos da seda</i>, Author o P. D. Raphael -Bluteau, & impressa tornarà para se conferir, & se dar licença, para -correr, & sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678.</p> -<div class="blockquot"> -<p class="p0"> -<i>Manoel de Magalhaens de Menezes.</i><br> -<i>Manoel Pimentel de Sousa.</i><br> -<i>Manoel de Moura Manoel.</i><br> -<i>Fr. Valerio de S. Raymundo.</i><br> -</p> - -<hr class="tb"> - -<p>Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678.</p> - -<p class="right"> -<i>Fr. C. Bispo de Martyria.</i><br> -</p> -<hr class="tb"> - -<p class="center big">SENHOR.</p> - -<p>Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os -argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ -demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por -origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra, -no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da -prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A. -mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10. -de 1679.</p> - -<p class="right"> -<i>Antonio Vellez Caldeira.</i><br> -</p> - -<hr class="tb"> - -<p>Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, & Ordirio, & -depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar & conferir, & sem -isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679.</p> - -<p class="right"> -<i>Marquez P.</i>    <i>Roxas.</i>    <i>Basto.</i>    <i>Rego.</i><br> -</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21. -de Iunho de 1679.</p> - -<p class="right"> -<i>Fr. C. Bispo de Martyria.</i><br> -</p> - -<p>Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.</p> - -<p class="right"> -<i>Magalhaens de Menezes.</i>    <i>Roxas.</i>    <i>Basto.</i>    <i>Rego.</i><br> -</p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002b"> -<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="ADVERTENCIA"><span class="big">ADVERTENCIA</span><br><span class="small">AOS</span><br><span class="big">PORTVGVEZES</span></h2> -</div> - - - -<p>As artes<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as -bases das Republicas, & as columnas<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> dos Imperios; humas se empenhão -no sustento da vida, como a agricultura;<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> outras se armão contra as -inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o -descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de -donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria, -& felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que -nellas se exercitão.</p> - -<p>Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso -a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus -Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens,<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> mas sempre -se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em -que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue -ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se -cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios -exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que -escreue<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para -que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio. -Mas<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos -genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della -se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a -ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.</p> - -<p>As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte -chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras -duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais -misteriosa, he a arte da seda.</p> - -<p>A Nobreza desta arte serue de<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> estimulo à altiua inclinação dos Pouos; -o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os -misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.</p> - -<p>Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação -à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta -em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està -introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os -senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> muitas -cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras -para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias, -& das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa -mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta -arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores, -nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas -vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos -Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p> - -<p>As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras; -chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados, -labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem -tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, & -para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o -ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios, -retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.</p> - -<p>Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> da -seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas -amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça -de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta -em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho, -ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo -semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem -campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação -dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> hũa -occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas, -que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão -a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> se contaõ -mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que -lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com -esta mesma<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas -pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas -manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, & -teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno, -& suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que -poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se -se occuparem neste exercicio.</p> - -<p>Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos -os mais officios dependẽtes<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> das manufacturas, prometem aos pobres, -a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, & -riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas -plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas -de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque -as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as -larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras -estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa, -ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span> para destruir as nouidades. -Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue, -que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se -começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a -propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe -as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias -onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As -amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario -occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas;<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span> o publico -pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França, -& Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, & -vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas, -que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes -dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda -d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco, -seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos, -ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> -nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil -amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou -laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente -com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza -mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se -euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito -que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà -Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> & -todas seraõ admiradoras da sua opulencia.</p> - -<p>Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os -artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que -saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes, -& na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos -antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o -Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos, -folhas de amoreiras, & bichos de seda.</p> - -<p>Os bons Ministros dos Princepes,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> saõ como as Aguias,<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> que da mais -sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis -de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em -que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com -perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda, -nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes -emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> -desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em -que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu -ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as -manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas, -venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às -penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que -pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à -constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se -anticipa<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span> a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com -que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos -merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ -ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das -suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, & -ineuitauel embaraço.</p> - -<p>Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue -ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos -soldados; tambẽ na prudente<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ -os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto -isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ -do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto, -solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda, -com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta -Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de -hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a -terra em que<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span> exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças -que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os -animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão -por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a -terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua -fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por -sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa -maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da -nação Portugueza,<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span> que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que -conheceo superior, ao seu poder.</p> - -<p>Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando -du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, & -companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita -virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do -Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento -do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento -desta fabrica,<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span> não reparando ambos em contribuir largamente para ella -com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.</p> - -<p>De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus -principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas, -que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança -nos hombros de tres Atlantes.</p> - -<p>As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por -debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> do -bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he -nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, & -perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de -hum pequeno mundo.</p> - -<p>Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como -os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear -de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares, -em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, & -telas, breuemente<span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span> trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os -progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal -mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel, -ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do -successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.</p> - -<p>Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de -exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa -mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte, -he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos<span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span> de contemplação, & -admiração, à intelligencia dos Sabios.</p> - -<p>O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão -profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por -curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as -Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.</p> - -<p>Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia -de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação -do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> Magos, a -transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.</p> - -<p>Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam. -Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da -cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ, -mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author -da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o -Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita? -fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum -instrumento,<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span> edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua -palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz, -& sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da -verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos -Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes -reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este -bichinho basta.</p> - -<p>Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto -admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza,<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span> porque o -principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ -de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de -maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente -distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se -cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ -physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos -obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas, -hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span> que -cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a -propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira, -& assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem -o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo, -se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em -quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso -insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho, -as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo,<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span> porque o -ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a -borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro, -como o ouo.</p> - -<p>No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana, -& a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque -como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura -a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do -diuino.</p> - -<p>Por virtude do Espirito Santo,<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span> tomou o Verbo Eterno carne nas -entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o -calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.</p> - -<p>Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo -o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no -silencio viue, & com os estrondos, morre.</p> - -<p>No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys, -que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo -se transfigurou,<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span> & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem -o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue -na aluura.</p> - -<p>O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho -da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da -paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro, -deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua -sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos -da immortalidade. Mas he tempo que acabe,<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span> & acabo aduirtindo aos -discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em -cada jeroglifico, se significa hũa virtude.</p> - -<p>Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida, -& morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia, -& o desengano das vaidades do mundo.</p> - -<p>Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para -vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas -entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> as -injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em -preciosas roupas, os seus proprios alimentos.</p> - -<p>Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para -cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que -se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a -prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam -no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.</p> - -<p>Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> da seda, -nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como -elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande -rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para -seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum -outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado.</p> - -<p>Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de -pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das -pompas humanas, porque a riqueza das sedas<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span> que laura, nam he outra -cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir, -que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se -reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade -da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das -artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na -eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam -reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a -mais importante aduertẽcia, das que se encerrão<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span> nesta introducção, fiz -as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como -desejoso do bem das Almas.</p> - - -<p class="right"> -<span class="smcap">D. Rafael Blvteav</span><br> -Clerigo Regular Theatino da diuina Prouidencia.<br> -</p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Artes bonorum fontes esse aiuunt. <i>Xenophon. de -institut. Cyri lib. 7.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Artes non ornamenta solum Reipublicȩ sunt, sed etiam -auxilia, & fulcra. <i>Lipsius in lib. de Cruce in præfat. ad barb. -ord.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> <i>Xenophon, in œconomico.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> In Belgio, Sericum crudum, quod magna copia ex Italia, -& Regionibus Orientalibus, prȩcæteris verò ex Persia Societatis Indiæ -Orientalis defertur (vt secundum rei veritatem à multis obseruatũ est) -amplius, quam duodecim millia hominum occupat, qui tantummodo in eo -separando, & glomerando occupantur. <i>Schookius in Belg. fœder. lib. -7. cap. 19.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Aquila Auis solaris est acuti visus, ita vt in summo Aere -existẽs, quæ in terra subsident videat. <i>Etzler. in Isagog. physic. -cap. 4.</i></p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003"> -<img src="images/003.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="INDEX">INDEX</h2> -</div> - -<p class="center"><span class="big">DOS PRINCIPAES AVTHORES</span>, que escreueram o nacimento, criação, vida, & -propriedades do bicho da seda.</p> - - -<p><i>Plinio, histor. natural. liu. 10. cap. 23.</i></p> - -<p><i>Ieronimo Vida, Bispo de Alba, em dous Liuros, que tem composto em -versos hexametros</i>, de Bõbice.</p> - -<p><i>Vlysses Aldourando, no seu Liuro</i> de Insectis.</p> - -<p><i>Simão Maiolo, Bispo de Vulturara,<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> no seu Liuro intitulado</i>, Dies -Caniculares, <i>no Colloquio quinto</i>.</p> - -<p><i>Luis de Granada da Ordem de S. Domingos, na introducçam do symbolo -da Fè, p. 1. cap. 21.</i></p> - -<p><i>Gaspar Kiokio, Iurisconsulto Alemaõ nos Tratados, que fez</i> de -Ærario, <i>liu. 2. cap. 6</i>.</p> - -<p><i>E Christouão Pellero, nos Cõmentarios que fez sobre os mesmos -Tratados.</i></p> - -<p><i>Thomas Garzoni, Author Italiano, no Liuro chamado</i>, Piazza -Vniuersale, <i>liu. 4. cap. 1</i>.</p> - -<p><i>E Christouaõ Isnardo; em hum Liuro cõposto em Idioma Francez, -impresso em Paris no anno de 1665.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p> - -<p><i>Este vltimo Author, escreueo sobre a cultura das amoreiras, & -criaçam dos bichos da seda, mais clara, diffusa, & methodicamente, que -todos os mais, & por isso delle se tirou a maior parte das noticias, -que se encerram nos seguintes Capitulos.</i></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004"> -<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="INDEX2">INDEX</h2> -</div> -<p class="center"><span class="big">DOS CAPITULOS, QVE</span> contem este Liuro.</p> - - - -<p class="center big"><a href="#I_PARTE">I. PARTE.</a></p> - -<div class="blockquot"> - -<p><a href="#CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Das differenças das amoreiras, & das suas excellencias.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Varios modos de plantar as amoreiras brancas, & pretas.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Modo de transplantar as aruores nascidas por semente.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_IV">Cap. IV.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> por mergulho.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_V">Cap. V.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras por estaca.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_VI">Cap. UI.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras por enxerto.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_VII">Cap. VII.</a> <i>Como se deuem entreter as amoreiras.</i></p> - -<p><a href="#CAPITVLO_VLT">Cap. UIII.</a> <i>Modo de colher a semente das amoreiras, para a -semear.</i></p> -</div> - - -<p class="center big"><a href="#II_PARTE">II. PARTE.</a></p> - -<div class="blockquot"> - -<p><a href="#2CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Do lugar proprio para criar os bichos.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Regra para conhecer, & escolher os melhores grãos, & -fazer<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span> sahir os bichos.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Das mudas dos bichos, & como conuemtratalos no tẽpo -dellas.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_IV">Cap. IU.</a> <i>Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_V">Cap. V.</a> <i>Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe -podem aplicar.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_VI">Cap. VI.</a> <i>Segredo para fazer nacer sem semente, muitos bichos da -seda, que daraõ excellẽtes grãos com abundancia.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_VII">Cap. UII.</a> <i>Modo de fazer sobir, & fiar os bichos da seda.</i></p> - -<p><a href="#2CAPITVLO_VIII">Cap. UIII.</a> <i>Do tempo em que os casulos se haõ de tirar dos ramos.</i></p> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p> - - -<p class="center big"><a href="#III_PARTE">III. PARTE.</a></p> - -<div class="blockquot"> - -<p><a href="#3CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Do modo com que se deuem aparelhar os casulos para delles -tirar a seda, & como se podem conseruar muito tẽpo, impedindo que as -borboletas naõ os furem.</i></p> - -<p><a href="#3CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas -para que ponhaõ a semente.</i></p> - -<p><a href="#3CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumentos para -tirar a seda.</i></p> - -<p><a href="#3CAP_VLTIMO">Cap. vlt.</a> <i>Do barbilho, & do modo de o aparelhar.</i></p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005"> -<img src="images/005.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="INSTRVCCAM">INSTRVCÇAM<br>SOBRE A CULTURA das amoreiras, & criação dos bichos da seda.</h2> -</div> - -<h3 class="nobreak" id="I_PARTE">I. PARTE.</h3> -<hr class="tb"> -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Das differenças, & propriedades das amoreiras.</i></p> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Como</span> o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica -aruore, cujas<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span> folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto -dos primeiro Capitulo deste Tratado.</p> - -<p>Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras. -A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto, -porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que -as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a -casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome -de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.</p> - -<p>Posto que as folhas de hũas, &<span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span> outras, siruaõ à nutritura dos bichos, -as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por -quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de -melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha -vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ -dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ -cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais -facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a -experiencia tem mostrado ser a seda<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> dos bichos, que se sustentaõ da -folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia -tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras -pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só -plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as -folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas, -duas brancas.</p> - -<p>Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores, -que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens,<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span> quanto à -fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os -seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades.</p> - -<p>Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores -fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a -todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ, -que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos -grosseiros.</p> - -<p>A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir -ao ornato do mundo, izentou<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> esta aruore de toda a sorte de animaes -immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as -outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este -attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica -desta nobre planta.</p> - -<p>He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem -copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem -incommodar as aruores.</p> - -<p>A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza,<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span> -bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes -criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que -de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.</p> - -<p>As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado, -& o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos, -capoens, & toda a sorte de Aues.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas.</i></p> - - -<p>Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore.</p> - -<p>Primeiro, por semẽte tirada das amoras.</p> - -<p>Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à -terra.</p> - -<p>Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p> - -<p>Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer -outras aruores proprias para sofrer o enxerto.</p> - -<p>Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado, -defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, & -estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de -hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.</p> - -<p>O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho -em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes,<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span> algũa -outra planta.</p> - -<p>Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea -que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he -bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se -semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras -quaesquer Aues.</p> - -<p>Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.</p> - -<p>Primeira: Abril, & Mayo.</p> - -<p>Segunda Iulho, & Agosto.</p> - -<p>E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p> - -<p>A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he -possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro, -& sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a -outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com -instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.</p> - -<p>Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre -nòs saõ inuteis.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente.</i></p> - - -<p>Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer, -& trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de -Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua, -ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque -as raizes.<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a -demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.</p> - -<p>Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar -cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que -se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto, -meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais, -tres ramos.</p> - -<p>E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à -grossura de hum braço,<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem -pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto, -& exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as -aruores, a outo pés de alto.</p> - -<p>Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias -distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em -lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se -terà o mesmo cuidado de as cultiuar.</p> - -<p>E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span> -(como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de -Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se -deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril.</p> - -<p>Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores, -deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he -conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua, -que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ -nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> a apodrecer, lhe seruẽ -de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras -immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.</p> - -<p>Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos -mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o -tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para -as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos -primeiros annos.</p> - -<p>A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores,<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span> -mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que -na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, & -crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas, -junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.</p> - -<p>Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde -se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres -braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o -tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span> mais junta, naõ deixaõ de -crecer da mesma sorte.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_IV">CAPITVLO IV.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por mergulho.</i></p> - - -<p>Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder -melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder -ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa -receber a substancia della, fazendo sahir à<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> superficie da terra hum, -ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o -anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa -estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado; -he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que -lance raizes.</p> - -<p>Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto -da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que -quer florecer.</p> - -<p>No anno seguinte, quando se<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> entender, que o ramo mergulhado tem -lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou -se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica -dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar -do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo -anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a -enfraqueceiâ.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_V">CAPITVLO V.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por estaca.</i></p> - - -<p>As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente, -& mergulho.</p> - -<p>Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ -dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha -sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas -na parte por onde se<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> cortar, para que metido na terra, o ramo saya -direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes.</p> - -<p>Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas, -hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres -botoens do ramo.</p> - -<p>He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra, -de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de -trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o -tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span> regalos, quando for -necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario -podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VI">CAPITVLO VI.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por enxerto.</i></p> - - -<p>Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as -brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ -enxertar em quaesquer<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> outras aruores.</p> - -<p>Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores, -o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os -enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.</p> - -<p>He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas -que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais -nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas -extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde, -redõda, & nam manchada.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VII">CAPITVLO VII.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Como se deuem entreter as amoreiras.</i></p> - - -<p>Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito -annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os -annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os -ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim -de fazer a aruore copada, &<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> mais facil de colher a folha.</p> - -<p>O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde -haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô -cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.</p> - -<p>No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores, -& em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja -igual, & formada sô de tres branchas principaes.</p> - -<p>He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres -branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem,<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> -se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco -principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se -cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre -o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos -ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na -forma, que se terà feito às branchas.</p> - -<p>Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem -sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as -extremidades dos ramos, &<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> meter nelles enxertos de bõs garfos, & -quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he -mais vtil, que necessario.</p> - -<p>Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a -qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais -tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro, -maiores que todas as outras.</p> - -<p>As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a -comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas.<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> Com -tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a -dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha, -lhe faz algũas vezes dano.</p> - -<p>Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte, -estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he -natural de Sicilia.</p> - -<p>Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o -alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas -aruores, ou colher de<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span> todas com moderação, porque ainda que o colher -a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de -melhor substancia, & vem em maior abũdancia.</p> - -<p>He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha, -& o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos -vltimos dias, por duas razoens.</p> - -<p>Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue -guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de -formar a seda.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p> - -<p>Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe -tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para -semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que -algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas, -por serem muito pequenas.</p> - -<p>Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro -que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com -industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das -aruores, & à<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span> roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com -agoa morna em hum dia bom, & de Sol.</p> - -<p>Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher -a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos -pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou -ramo grãde.</p> - -<p>Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello -pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das -aruores, para que caya sobre elles.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p> - -<p>Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra, -pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o -que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes, -& se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.</p> - -<p>Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, & -cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que -se separarem muito da aruore.</p> - -<p>Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer,<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> que -necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos -ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha, -por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres, -ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.</p> - -<p>O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he -mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os -ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum -bom dia, da Lua noua, ou por não perder<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> a folha daquelle anno, nos -mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.</p> - -<p>Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às -amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de -fruto.</p> - -<p>Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque -separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles, -se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se -conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p> - -<p>Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer, -porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa, -he de grande prejuizo às aruores.</p> - -<p>Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo -chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não -tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos -bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela.</p> - -<p>Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span> em terra -laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de -tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica -planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores, -que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França, -no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de -Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos -proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.</p> - -<p>Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span></p> - -<p>Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem -as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer -nellas.</p> - -<p>Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra -pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar -até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando -a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os -graõs, & criou os bichos.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VLT">CAPITVLO VLT.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de colher a semente das aruores, para as semear.</i></p> - - -<p>As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de -amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou -pretas.</p> - -<p>As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras, -& de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span> das -amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como -fica dito.</p> - -<p>Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas -a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as -melhores.</p> - -<p>As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na -forma seguinte.</p> - -<p>Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de -pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,) -& abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> cayão as -amoras maduras.</p> - -<p>He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo -no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a -semente.</p> - -<p>Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa -meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco, -ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para -euitar a podridão.</p> - -<p>Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma -peneira muito fina, & molhada,<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as -mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o -que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar -cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente, -porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està -nadando em cima.</p> - -<p>Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho, -& se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se -limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear<span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span> na -sesão, & forma, que fica dito no <i>Capitulo II.</i> onde tambẽ se -disse, que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por -abano, & postas a amadurecer o tempo necessario.</p> - -<p>Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros -lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas, -por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado, -de amoras podres.</p> - -<p>Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em -hum vazo de agoa, &<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo, -he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.</p> - -<p>Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com -as amoras pretas, que se comem cõmumente.</p> - -<p>De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade, -em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.</p> - -<p>Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar -as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre -a mais geral,<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.</p> - -<p>Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os -Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.</p> - -<p>Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os -ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que -os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.</p> - -<p>Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação, -tiraráõ della tres grãdes ventagens.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p> - -<p>Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver -crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando -sahem, como obras das nossas mãos.</p> - -<p>Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque -he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual -grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode -tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar -estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p> - -<p>Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem -as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que -obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do -Mercador.</p> - -<p>E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma -razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.</p> - -<p>Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens -da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.</p> - -<p>Deste erro, que justamẽte deueser<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> condenado de todos, nos liura a -consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ -aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho, -& com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na -posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem -à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.</p> - -<p>Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de -tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os -frutos, & as riquezas?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p> - -<p>Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as -terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos, -& agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm -muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na -terra, em que viuimos.</p> - -<p>Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta -rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha, -depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span> -bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem -produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.</p> - -<p>A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em -algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a -memoria do tempo em que foram plantadas.</p> - -<p>Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda, -affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes, -os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado,<span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span> & ajuda dos -homens,<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam -singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas -aruores a seda.</p> - -<p>Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram -trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França, -como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de -criar os bichos; & as aruores, que se plantârão<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> naquelle tempo, estão -agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais -lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006"> -<img src="images/006.jpg" class="w10" alt="Decorative image"> -</span></p> - - - -<div class="footnotes"><h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> In Trapobane sericum, sine cultu, ex arboribus -detrahitur à Bombycibus confectum. <i>Linschot cap. 23. in commentar -nauigationum.</i></p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007"> -<img src="images/007.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> - -<h3 class="nobreak" id="II_PARTE">II. PARTE.</h3> - -<p class="center">CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.</p> - - -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Do lugar proprio para criar os bichos.</i></p> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_p.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Para</span> fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum -lugar cõmodo, em que se alimentẽ<span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span> sete semanas, que tem de vida, ao -menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em -lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum -genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em -camaras claras, & liures ao vento.</p> - -<p>Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte -das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar -liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos -dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p> - -<p>He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar -todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara, -galinhas, frangos, ou pardais.</p> - -<p>Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes, -partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, & -nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, & -huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se -pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span> -andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter -escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.</p> - -<p>Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam -cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo -sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do -taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam.</p> - -<p>Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de -quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p> - -<p>As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa -sô vez a despeza destes partileiros.</p> - -<p>He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza -delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os -bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he -considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito.</p> - -<p>As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de -partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span> -seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas -postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a -todos os bichos, & passaros, que os comem.</p> - -<p>A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe -fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a -vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros -semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que -serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos, -suposto que<span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span> sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os -bichos.</i></p> - - -<p>Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de -Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para -conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas, -& se lãçar<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> bem de humor luzente, he sinal de bondade.</p> - -<p>Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.</p> - -<p>Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade -se poem, em os tirar, como ordinario trato della.</p> - -<p>Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.</p> - -<p>Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das -borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo -pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span> -tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja -seda nam tem a bondade ordinaria.</p> - -<p>Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de -correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.</p> - -<p>Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta -mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he, -quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as -sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span></p> - -<p>Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para -hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco, -ou seis pequenas.</p> - -<p>Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo -que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas -razoens.</p> - -<p>Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as -amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as -amoras lhe communicaõ demasiada humidade.</p> - -<p>A segunda he, porque os bichos<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais -facil com calor artificial.</p> - -<p>Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os -benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de -hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao -Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o -tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde -a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem -folhas capazes de se colherem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p> - -<p>Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ -cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba -a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa -abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se -meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta -sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, & -mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha -de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span> -ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas -folhas.</p> - -<p>Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente -sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos -taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.</p> - -<p>Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde -basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas.</i></p> - - -<p>Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos; -em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, & -saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que -se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p> - -<p>Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim -até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura, -como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas.</p> - -<p>Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou -lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que -tiuerem necessidade.</p> - -<p>A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros -naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> frescas, -& limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho, -metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por -euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos -primeiros dias.</p> - -<p>O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão -pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no -mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os -bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais -espaço, quando crecem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p> - -<p>Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir -mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.</p> - -<p>Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza -nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar -os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou -seis dias, os tornam a mudar.</p> - -<p>Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os -dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p> - -<p>As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar, -& os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos -nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir -separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes -no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres -vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, & -quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior -parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> considerauel sem -comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe -guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes, -porque lhe faz fazer a seda mais forte.</p> - -<p>Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem -segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem -dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os -faz entropecer, estando chegados a subir.</p> - -<p>A melhor preuençam cõtra este<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> dano, he começalos a criar com -abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou -quarenta & cinco dias.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_IV">CAPITVLO IV.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras.</i></p> - - -<p>As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho, -ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa -cousa<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.</p> - -<p>A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para -os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, & -recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que -se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha -molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm -a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de -secos ao lume, & os sacudiràm para<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span> fazer correr a agoa das folhas, que -tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão -nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou -panos, para que acabem de se secar de todo.</p> - -<p>Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de -folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar, -se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela -muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras, -se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas,<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> como as que se colhem com -orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos -nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos -necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que -roer nas folhas, que tem debaixo de si.</p> - -<p>A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde -nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas -amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ -menos danosos aos bichos, os renouos,<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> que brotaõ do tronco da -amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.</p> - -<p>Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam -cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem -tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.</p> - -<p>Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for -possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos; -para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para -os bichos, porque<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao -sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.</p> - -<p>Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos, -& nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, & -em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ -tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_V">CAPITVLO V.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem -aplicar.</i></p> - - -<p>Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, & -outras accidentaes.</p> - -<p>As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ -a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias -sem comer, ficam<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns -dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa -de algũa quebra nos bichos.</p> - -<p>As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà -calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ; -do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.</p> - -<p>Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.</p> - -<p>Quando se leuanta algum vento<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> frio, & desabrido, conuem ter a caza bem -fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ -caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o -vento.</p> - -<p>Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, & -janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas, -porque lhe causaõ muito calor.</p> - -<p>Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum -pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom -serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> estam, & darlhe nouas -folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.</p> - -<p>E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando -estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca -folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe -deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até -que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.</p> - -<p>Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à -mudar lhe as camas, & perfumar<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> os partileiros, & se ouuer lugar, -melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir -sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais -a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha, -se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso, -beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo -de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as -brazas.</p> - -<p>Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> & -apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores, -despertam, alegrão, & sarão aos bichos.</p> - -<p>Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que -os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou -vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro, -como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se -estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes -cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span></p> - -<p>O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que -mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão -saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os -tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.</p> - -<p>As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam -boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto -lhe durar este achaque, porque isto os mata.</p> - -<p>He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span> -quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de -armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo -não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir -algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas, -que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa -doenças nas mudas.</p> - -<p>Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar -o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que -estiuerem por ser este o tẽpo<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> da força do seu trabalho, em que -começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe -occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, & -depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de -tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos -casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar, -se naõ desinquietàraõ os bichos.</p> - -<p>Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ -crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> quaes os -poderà liurar o cuidado, que se terà delles.</p> - -<p>As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou -pella difficuldade de ter boa folha.</p> - -<p>Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de -caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma, -que tenho dito.</p> - -<p>Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que -fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto, -ou chouriço fritos,<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na -caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, & -poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os -aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande -sobresalto.</p> - -<p>Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ, -quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando -se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario -separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> que se acharem com -esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas -mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam -mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous, -antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, & -das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os -dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima -declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos -às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar,<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> borrifando os, & -passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão; -& em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes -que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se -nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto -daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por -quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.</p> - -<p>Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> bordas -dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a -penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que -se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar, -que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.</p> - -<p>Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles -serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta -destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais, -para que a criaçam se faça com a desejada<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span> quantidade; meia onça de -mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.</p> - -<p>Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando -que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma -doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a -melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.</p> - -<p>Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes, -nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito -danoso aos bichos,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span> como faz o fumo de couros queimados, de sedas de -porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os -bichos, he peçonha.</p> - -<p>Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para -nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer, -em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de -alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas -amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser -esta malicia tam refinada, como a<span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span> dos que vendem as sementes assadas -no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa -para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem -a criação, & nam dos que vendem a semente.</p> - -<p>Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se -experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que -naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se -seruissem das das outras Naçoens.</p> - -<p>Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span> Reyno -poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos -estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas, -que nos vem de fora.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VI">CAPITVLO VI.</h4> -</div> - - -<p class="center"><i>Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que -daràm excellẽtes graõs com abũdancia.</i></p> - - - -<p>Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> da seda, suprirà a -Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos -Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.</p> - -<p>No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha -das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte -dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua, -nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm -de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias,<span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span> -dar à vacca folhas de amoreira.</p> - -<p>Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite -da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos, -que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas -ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em -hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam -sinta o fedor.</p> - -<p>Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta -corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> folhas de -amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se -criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos -quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores, -que os dos outros bichos.</p> - -<p>Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de -alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà -preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue, -carne, & ossos da vitella, como fica declarado.</p> - -<p>Esta experiencia se pode fazer<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> com muita facilidade, & cõ pouca -despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.</p> - -<p>O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta -marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de -<i>Bombice</i>.</p> - -<p>Eis aqui os versos do Author,<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> para satisfação dos curiosos.</p> - - -<div class="footnotes"><h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;</i></span><br> -<br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Interea stabulis tantum illi pinguia mori</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Sufficiunt folia, & lactenti cortice ramos.</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Bombicem fractis condensam erumpere costis,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Atque globos toto tinearum efferuere tergo,</i></span><br> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Et veluti putres passim concrescere fungos.</i></span><br> -</p> - - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span></p> - -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VII">CAPITVLO VII.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Modo para fazer sobir, & tecer os bichos da seda.</i></p> - - -<p>O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente, -quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, & se bem -repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra, -com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, & as folhas que se deixaõ -sobre a semente, & o papel furado,<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> para obrigar os bichos a sahir, -tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos -deixaram.</p> - -<p>Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda -aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de -sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca, -para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas.</p> - -<p>De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos -fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para -se agasalharem, começaràõ<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span> a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou -industria dos que tem cuidado de os criar.</p> - -<p>Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em -estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer, -por estes sinaes.</p> - -<p>Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, & quasi transparente como hum -Alambre, como se verà, tomando-os na mão, & pondo os à luz do Sol de -dia, ou ao lume da candea de noite.</p> - -<p>Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde, -a hũa côr de ouro, em<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> que se representa a seda, que elles tem no esta -mago.</p> - -<p>Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo.</p> - -<p>Quarto, andaõ de hũa parte, & outra, por meyo dos outros, sem se lhe -dar de comer, & leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à -lenha, & fiar a sua seda.</p> - -<p>Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, & perfeição, he precizo -ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos -dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide, -medronho, vime, feto, ou<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> de outras plantas, ou heruas, que não tenhão -humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando -sobem, ou quando cahem.</p> - -<p>Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme -à capacidade do lugar, & os estenderàõ sobre folhas de papel muito -limpas, no plano da mesma casinha.</p> - -<p>Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, & -muitas vezes, de dia, & de noite, & jà naõ teram mais o cuidado de os -alimpar, nem de os mudar.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p> - -<p>Mas sô lhe abriram as portas, & janellas nos dias de calma para os -refrescar, & se se leuãtar algum vento frio, & desabrido, as tornaram a -fechar para os defender das asperezas do tempo.</p> - -<p>Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se -a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, & se ficarem muito -poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar -as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, & com o papel, -deixando as taboas limpas, & os poram em outra casinha vazia sobre -outro<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> papel nouo, & limpo, & lhe daram outras folhas frescas como -d’antes.</p> - -<p>Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior -parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente -se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, & o -mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos.</p> - -<p>Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala -vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que -necessitam de ar fresco, & liure de toda a corrupção.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p> - -<p>Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de -passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de -cinco, ou seis dias, & quando se encolherem, & se fizerem vermelhos, os -porâm em papeliços, para os ajudar a fiar.</p> - -<p>E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a -quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão -de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, & fragmẽtos da lenha, -de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os -casulos desta<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> casta de bichos, para fazer semente, porque os que della -sahirem, teràm a mesma falta, & quasi todos seràm curtos, & pequenos.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VIII">CAPITVLO VIII.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha.</i></p> - - -<p>No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que -he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, & se cobre -quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, &<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> nos seguintes, vai -espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, & -juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes -fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de -comprimento.</p> - -<p>Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os -casulos da lenha, & os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo -mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais -diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria -hũa grande perda, para os que os criarão.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img008"> -<img src="images/008.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> - - -<h3 class="nobreak" id="III_PARTE">III. PARTE.</h3> - -<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, & -conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ.</i></p> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_s2.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Se</span> os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande -abũdancia da nouidade, nam tiuerem<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> tempo, nem commodo, para tirar a -seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ -tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as -quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas -mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos -nos seus casulos.</p> - -<p>Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao -maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas -mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> os casulos, & os -cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais -depressa.</p> - -<p>Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem -os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que -fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que -nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada, -tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho -transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem,<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> nem -toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.</p> - -<p>Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno -o que se hauia de fazer com o calor do Sol.</p> - -<p>Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum -forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido, -& se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os -bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do -forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span> -estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em -cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, & -os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de -matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos -dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos.</p> - -<p>Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para -os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da -humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span> dentro delles -por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica -embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas -vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.</p> - -<p>Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està -a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para -preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia -torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou -alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> os apertaraõ nos -cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he -preciso, para a extinçaõ dos bichos.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4> -</div> - - -<p class="center"><i>Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque -ponham a semente.</i></p> - - - -<p>Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas, -que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ -os casulos,<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de -verdemar saõ os melhores.</p> - -<p>Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem -casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.</p> - -<p>Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada -casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo -brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir, -serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue -para o<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> nosso intento.</p> - -<p>Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ -cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.</p> - -<p>Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por -huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são -rombos por ambas as partes.</p> - -<p>Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de -parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer, -que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> a perda, como -se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para -duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a -do que sò se vnir com huma.</p> - -<p>Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a -seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem -casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que -os bichos sahião trãsformados em borboletas.</p> - -<p>As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres -vezes maior.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span></p> - -<p>Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque -baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não -fazem.</p> - -<p>Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ -delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou -sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez -serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as -virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois -apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> porão a semente.</p> - -<p>Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia, -quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião, -prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.</p> - -<p>Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os -tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para -os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão, -mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, & -sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> hum pouco mayores, -seriaõ muito bonspara este effeito.</p> - -<p>Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem -como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor -de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da -mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos, -& estes não prestão para nada.</p> - -<p>De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção -mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem -dentro de si, &<span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span> com elles morrem.</p> - -<p>Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas, -grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem -aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos -mesmos bichos viuos.</p> - -<p>Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, & -enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; & -as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.</p> - -<p>Por esta razão, não os guardaràm<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> junto das cheminés, em que de -ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs -inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas -temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio -congela os grãos, & a humidade os corrompe.</p> - -<p>Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os -grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà -em huma casa esta rica semente.</p> - -<p>Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> -com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma -vitella morta, na forma, que fica declarado no <i>Capitulo 6. da -2. parte</i> porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, & -actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, & -tudo acaba.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a -seda.</i></p> - - -<p>Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> roda, ou -dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de -Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às -mais prouincias do Reyno.</p> - -<p>Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, & -experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta -materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, & -apurar a industria das fiandeiras.</p> - -<p>O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o -tacho nam ha de ser muito<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span> profundo, nem muito largo.</p> - -<p>A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez -polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo, -paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do -tacho.</p> - -<p>Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer, -porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede, -quando està feruendo.</p> - -<p>Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser -fina, ou forte; para a fitaria, a<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> seda deue ser muito delgada, & outo -fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios -ao menos.</p> - -<p>Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ -os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<h4 class="nobreak" id="3CAP_VLTIMO">CAP. VLTIMO.</h4> -</div> - -<p class="center"><i>Do Barbilho, & do modo de o aparelhar.</i></p> - - -<p>O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda,<span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span> a que -chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu -casulo.</p> - -<p>Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que -se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar, -& juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os -desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.</p> - -<p>Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas -he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este -effeito, faraõ primeiro o que se segue.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p> - -<p>Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os -bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a -meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer -outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias; -cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se -faça mais aluo.</p> - -<p>Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que -os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span></p> - -<p>Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella -clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.</p> - -<p>Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz -tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os -fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os -fiar com mais facilidade.</p> - -<p>Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos -tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> dobadoura, -outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.</p> - -<p>Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda, -tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de -mortos, aproueita.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img009"> -<img src="images/009.jpg" class="w15" alt="Decorative image"> -</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img010"> -<img src="images/010.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="AMPLISSIMIS_FRATRIBVS">AMPLISSIMIS FRATRIBVS</h2> -</div> - -<p class="center"> -<span class="big">D. D. FERDINANDO</span><br> -MASCARENIÆ.<br>Comiti à Turre.<br> -ET<br> -<span class="big">D. D. FRANCISCO</span><br> -MASCARENIÆ.<br> -Comiti Cocolini.<br> -</p> - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_h.jpg" width="100" height="113" alt=""> -</div> - -<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Hactenus</span> -publicæ studui vtilitati, nunc vestræ seruire cupio -oblectationi; cũ emim his quisque rebus delectetur, quibus quodam -natura ductu incumbit,<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> quid jucundius afficiat liber ali ingenio -juuenes, quam fructus artium liberalium? O pes, auitum stemma, -generosus sanguis, & Aulæ oblectamenta, vobis sunt post studia, omnes -quippe animi affectus, vni voluistis fieri sapientiæ vectigales. -Percurrendo amænioris litteraturæ curriculo, vix Ætas alijs integra -sufficit, vestra vobis satis fuit Adolescentia; cum Musis versamini, -vt sororibus, cum Apolline loquimini, vt fratre; & dum alter alterum -eruditâ contẽtione transcendere studetis, domus vestræ fiunt, -domicilia doctrinarũ, scientiarũ Augustalia, & bipartitum<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> Vlyssiponis -Athenæum.</i></p> - -<p><i>Quibus attentè perspectis, vt aliquid libellus hic complecteretur, -quod ad vestrum palatum faceret, perneceßariũ esse arbitratus sum, -vt quæ de Mororum cultura, & Bombicum educatione, sparsi in vulgus, -plebeio sermone, humilique stylo, eadem vobis nobiliore dicendi -charactere depicta sisterem.</i></p> - -<p><i>Mirabimini prudẽtiam in Moro, in Bombice industriam, & in vtroque, -recondita naturæ solerter operantis arcana.</i></p> - -<p><i>Quid moro sapientius? Arborũ postrema germinat morus, vt fructificet -securior, fœtusq; suos haud<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> euocat in lucem, nisi extorri hyeme, -exanimis Aquilonibus, & prouecto jam vere.</i></p> - -<p><i>Quid industrius Bombice? vno Bombix instrumento, ore scilicet, -innatum sericum deducit in fila, carminat in lanugines, contorquet -in mæandros, congerit in stamina. cogit in glomos; describit orbes -sine circino, sine penicillo colores inducit, & sine vllo aduentitio -apparatu, domunculam instruit, Cæsarum Palatijs splendidiorem.</i></p> - -<p><i>Tanti tamen, & tam strenui Artificis opera omnia sunt posthuma, -haud e nim e a absoluit, nisi sepultus; verùm, quia (vt dici solet)<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> -excellens in arte non debet mori, prodit é pensili tumulo rediuiuus, -ipsi inuidendus Phœnici; nam ex reptanti Eruca, alatus Papilio, -nobilior resurgit, quàm vixerat.</i></p> - -<p><i>In Moro, & Bombice, natura fortunam imitatur, summa imis, & ima -summis miscentem; Morus, Abor regia, fit vermiculi pabulum; Bombix, -ignobilis vermiculus, ejectamentis suis Reges vestit.</i></p> - -<p><i>Vitam exorditur Bombix cum vere, vt parentur homini elagantia -indumenta, dum se terra circumtegit florenti chlamyde.</i></p> - -<p><i>Editus in lucem, solis pascitur<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> frondibus arboris, cui adscribitur -sapientia, in hoc Adamo prudentior, quod Arboris sapientiæ folia -comedit, integro, intactoq; fructu. Operosissimus Bombix, propria in -pelle non quiescit, paucis enim diebus quater ponit exuuias, abjicitque -pellem, vt exuat torpẽtem desidiâ senectam.</i></p> - -<p><i>Omni tamen labore supersedet, ceditque vitâ, si fortè, sonus -ingens obtuderit operãtem, debetur enim & opifici silentium, & operi -admiratio, resque ipsa postulat, vt ad Bombicis ingeniosa molimina, -orbis attonitus immutescat.</i></p> - -<p><i>Non ideò sordidus Bõbix, quia<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> vermis, nam seruat vrbes ab otij -tabe, innumeras exercens operas, Regnaque sine hoc verme sunt cadauera, -vt pote nuda, quia sine ornatu; exanguia, quia sine diuitijs, -emedullata, quia sine viribus; vires quippe Regnorum ex diuitijs -existunt, ingentes verò diuitias affert Bombix eximijs suis operibus, & -filis auricoloribus auream suis alumnis retexit ætatem.</i></p> - -<p><i>Quod alij vermes eripiunt mortuis, viuis reponit hic vermis, & -corrosarum in sepulchro vestium damna resarcit, nouis, pretiosisque -textis.</i></p> - -<p><i>Quid plura? totum se Bombix<span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span> exhaurit, vt hominem ditet, viscerumque -suorum Clotho, tenuissima ducit fila, vt vitam protrahat in Reipublicæ -beneficium. Hæc ego: Reliqua à magistri mei calamo, cũ Poeticen -doceret in Collegio Flexiensi: Secundis auribus accipite, quæ Gallus -hic Olor cecinit de mori, Bombicis que natura; dudũ est, quod hæc -carmina diem aspexere, sed nunc verè proferuntur ad lucem, quia ad -vos. Enim verô, omnia in vobis, pulchrâ quadam, & vnanimi æmulatione -collucent, natalium splendor, jubar Sapiẽtiæ, fulgor ingenij, fulgetra -eruditionis, & irradiantium ornamenta virtutum.</i></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span></p> - -<p><i>Omnes denique lucis fontes in vos deriuastis, vt Patri respondeatis, -qui omnes in se colligit Heroas; imò omnibus antecellit, fortior -Achille, Marte bellacior, sapientior Socrate, perspicacior Vlysse, -Hercule laboriosior, facundior Mercurio, grauior Catone, & Apolline -benignior.</i></p> - -<p><i>Quapropter, mihi videmini illæ duæ stellæ, circa Solem de nouo -deprehensæ, quæ à Mathematicis nũcupãtur, comes Solis, haud enim solùm -estis, tituli dignitate Comites, & comites suauitate morũ, sed estis -& comites solis, nam excellẽtissimum Fronteriæ Marchionem<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span> Parentem -vestrũ, pleno gradu comitamini in stadio virtutis, & gloriæ.</i></p> - -<p><i>Valete, & viuite paribus animis, & honoribus, quando quidem illam -fælicitatem, quam Ethnicus Ausonius<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> vidit in syderibus illis -germanis, Castore, & Polluce, adumbratam, in vobis re comprobatam omnes -demiramur.</i></p> - - -<p class="right">Humillimus, & addictissimus feruus. -<br>D. RAPHAEL BLVTEAVIVS. -<br>Clericus Regularis Theatinus.<br> -</p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Virtutis, & fortitudinis protendunt influxum. <i>Ausonius -de Castor. & Pollu.</i></p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img011"> -<img src="images/011.jpg" class="w25" alt="Decorative image"> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="LAVDES_MORI">LAVDES MORI,<br><span class="small">ET</span><br>BOMBICIS.</h2> -</div> - - -<h3><i>Laus Mori.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Romulidas, Myrtus<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> Paphia exornauit, ouantes;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Pura triumphales decorauit Laurea Põpas:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Prima dedit Quercus seruati præmia ciuis:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sumit Idumæam præpes victoria Palmam:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ast ea,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> quȩ nutu superis dominatur & imis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Fortunæ stolidas, quæ scit, contundere vires,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span><span style="margin-left: 1em;">Quæque adamantæi domitrix prudẽtia fati,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vnã ex Arboribus voluit sibi crescere morũ:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Hãc amat, hâc cingit canẽtia tẽpora fronde,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vẽturi en agedum, secura, ignaraque corda,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Prospicite, & dubiæ casus prænoscite sortis.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Si pudor insanis, morus sapit, illa doloso</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nil temerè credit zephyro, nam veris adulti</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Iam certum expectãs solẽ, nõ germinat ante</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Frigoris infesti, quam cuncta recesserit aura:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Tum floretq; viretq; simul, longæq; repẽdit</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Dãna moræ, atq; vnâ totã se nocte profũdit.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Viderat Æmoniâ nudam quam vesper ab<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> Oetâ,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Proximus<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Idæo de vertice cernit Eous</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Frondosã, & pariter grauidã, partuq; leuatã.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sic properat tenerũ germen, ne frigidus aer</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Manè coquat; medione die ne torreat ȩstus.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Insidias cæli ne tunc vereare sereni</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ampliùs, & vasto quæ cæca pericula Ponto:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vt bene subductam deducas nauita Pinum,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span><span style="margin-left: 1em;">Sint tibi<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> Vergiliȩ, videas cũ germina mori.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Quin vbi dilectis cultoribus annua Poma</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Reddidit, hybernis ne frondibus incubet Auster,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Aduerso pugnãs Boreæ, & certamine fratrũ,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Collisi inter se frangantur in arbore rami,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sponte sua capitis sacri deponit honorem.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vtque minus fiat sæuis obnoxia ventis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Iratique Iouis telo, fugit ardua, Morus,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Morus in antiquis arbor gratissima lucis.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ad Lunæ radios hâc ludunt sæpe sub vmbra</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Cõsertȩ Satyris Nymphȩ, plaudũtq; choreas,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sæpe legit fœtus<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a> Ægle formosa caducos,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ebria<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> Sileno queis sublinat ora jacenti.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Poma gerit morus triplici distincta colore,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nã paribus spatijs albẽtq; rubentq; nigrẽtq;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">At color ille parum lætus, qui fructibus ater,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Omina sanguineis nec sunt nisi tristia moris;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Quid te nigra mouent? niger est<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> Phæbeius oscen,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nec tamen augurio quicquam fælicius illo,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span><span style="margin-left: 1em;">Solis vbi nitido veniens spectatur ab ortu.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Astrorũ & somnimater, nox alma, quadrigis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Inuehitur nigris: ebeno tumet India nigro:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Laudamus nigros oculos, nigrumq; capillũ,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ac nigras violas,<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> fului editus imbre metalli</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Deperijt nigros Cepheæ Virginis artus.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Quod vero funesta putãt de sanguine mora,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">In vulgum has sparsit<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a> Babylonia fabula nugas;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Dat meritas igitur pænas & pẽdet Arachne,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Inuisique operis casso est addicta labori;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Non quod Palladiæ cõtenderit ȩmula telæ,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mortalisq; Deam justas stimularit in iras,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sed potius geminæ quod per mẽdacia cædis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Inuidiâ morũ, miserosq; onerauit Amores,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Assyrio tingens lugentia poma cruore.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Adde quod & nostris Regionibus alba leguntur,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span><span style="margin-left: 1em;">Antiquis ignara Italis, cæloque latino.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Iam nec Pæoniæ, jam nec succus Panaceæ</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Dictamniq; feris, notissima gramina, capris,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Iudice me, moris certare salubribus ausint.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nec mihi<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> Moly tuum referas, herbamq; potentem</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Capte oculis vates; à Moris plura petuntur</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Prȩsidia, & plures illis natura creatrix</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vi quadam occultâ cõcessit pellere morbos.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">His ideò<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> Catius finiri prandia jussit,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Cecropio Catius sapientũ primus in horto;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Inde fit ad noxas ægri prope corporis õnes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Panchrestos,<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> vero perhibent vt nomine Graij.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mororum infuso coalescunt vulnera succo:</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Auribus, atque ori prodest, aluoq; moranti,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Languentemque leuat stomachũ, capitisque dolorem.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Discutit & veteres panos, & tormina sedat.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vipereo est hostis generi, tetrisque venenis,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span><span style="margin-left: 1em;">Thessala, quæ tellus, quæque in mala pocula gignit,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vncta prometheo cautes mæotica tabo.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Arboris ejusdem folijs medicabere tritis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Artubus ambustis, & diri morsibus hydri.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Saucius hoc nosset<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> magni præceptor Achillis,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nõ Deus optasset lethum, nec Lemnia tanto</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Saxa fatigasset gemitu<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> Pæantius heros.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Hirsuto hinc alitur spectãdus corpore Bombyx;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nascũnturq; domi, quæ quõdã à littore rubro</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mollia distincti mittebant vellera seres.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Radicis sileo varios, & corticis vsus,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Morborũ auxilijs hæc tota est nobilis Arbor,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mæonijsque cani non dignior vlla camænis.</span><br> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span></p> -<h3><i>Laus Bombicis.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Qvò me Phœbe, rapis? quas hinc sublatus in auras,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Aera per liquidũ, rapidis circumuehor alis?</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vos ne adeo<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> Serum intueor mollissima Regna</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Lanificos cõplexa greges, agnosco parẽtem</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Bombycemq; sinu recubantẽ molliter albo.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Te quoque,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> quam  memorant primã euoluisse nitentes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Folliculos, vnde in paruæ collecta figuram</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Alitis, ignotas pennâ trepidante per auras</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Tinea carpsit iter, dulcesq; animãte susurros</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ore, poli lætis resonarunt æquora bombis.</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span><span style="margin-left: 1em;">Ten igitur vermis video nutricula,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> Thisbe,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Errantẽue sinu placidè amplexaris alunum,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Scilicet, hũc morus ramo frõdente tenellum</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Excipit, & claras magnũ trãsmittit ad Artes.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Namque vbi ter pigro renouauit corpora somno,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Iam senium increpitans, & pleni pondera ventris,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Continuò, tanta est edendi gloria fili,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Exercetur, & effundit quæsita per Æuum</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Stamina, ditis opes vteri, suspensaq; densos</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Fila regens inter ramos, atque ordine ducẽs,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mille legit, relegitque vias, & circinat orbes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sponte sua donec niueo se carcere claudat.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mox autem interior circũ vndique stamina densat,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Albentiq; Thoro immoriens glomeratur in ouum.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Sed neq; tũ tineȩ vllus honos, aut gloria filo,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Pãphila ni modicos Bõbicũ euoluere folles,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Aut aperire caui docuisset tegmina linthei.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">En etiã digitis prætentat mollibus oram</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Educitque globo, lucisque emittit in auras</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Rursus aui similem, sed te ne subdola captet</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Et dulcem pullis Philomela immitibus escã,</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span><span style="margin-left: 1em;">Auferat, Ah vereor! melius cõcluse latebis,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Hanc sine necquiquam modulis, crispoque susurro</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Blãdiri, & tenues disperdere carmẽ in auras,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ni facias, rostro implebit crudelior alui</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Ingluuiẽ, ac viuo viua abdet corpora busto.</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Cætera quinetiam volucrũ lætissima turba</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Gaudet in incautos vermes inuadere, sedDij</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Dij prohibete nefas, recreet mage carmine dulci,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vnguibus abstineat. Niueo jam plurima surgunt</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Bombici tabulata, gradus aulæque per altos</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mille. Prius pubes stabulãtem rustica ramis</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">In nemora alta videns errare, ignara silebat,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Hic vbi nascenti Seres dominantur Eoo,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Deterior donec paulatim & de color, artes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Extudit, & duros homines emollijt ætas;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Fortunate nimis, diuũq; hominũq; superba</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Gloria, centeno reparans tua funera fœtu;</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Viue sacris Bombix decus admirabile Templis,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Viue ducũ, Regumq; augustis addite pallis,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Nec tua lanigeræ superabunt fila bidentes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Tergoribus niueis, quãuis sua vellera laudet</span><br> -<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span><span style="margin-left: 1em;">Hispalis, & magno Tyrios incocta rubores</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Mutaris<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> Milete, olim tibi<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> Phrixea cedẽt,</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Tu quoque ne<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> Biturix contra tua mollia jactes</span><br> -<span style="margin-left: 1em;">Vellera, nec facies, etenim jam vilia sordent.</span><br> -</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img012"> -<img src="images/012.jpg" class="w15" alt="Decorative image"> -</span></p> - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> Myrtus Paphia, quia Veneri sacra, Venus autem in vrbe -Paphia, celeberrimo in Templo colebatur.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Morus quippe est sapientiæ symbolum, non enim ante -germinat, quam frigus penitus fugatum esse cognouerit, & fætum -celerrimè grandit ac maturat, ne caloris aduentantis injuriâ lædi -possit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Oeta Æmonia, siue Thessalica, est enim mons Thessaliȩ in -Græcia, in quo monte, vt inquit Seruius, stellæ videntur occidere.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Sicut de monte Ida nasci.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Vergiliæ seu Pleiades, sunt septẽ stellȩ ante genua Tauri -quæ ortu suo primæ nauigationis tempus ostendunt.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Ægle fuit Nympha hoc nomine, vna Naiadum.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Sileno, id est Bacchi nutritio, quem in antro jacentem -pueri deridebant.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Aquila Ioui Sacra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Perseus, Iouis filius, ex Danae, quam Iupiter commutatus -in speciem aurei imbris vitiauit. Hic Andromedam, Cephei, Regis -Æthiopum, filiam, vxorem duxir.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Pyramus, adolescens Babylonius, mutuo Thisbes amore -captus, vbi ejus domo ex pacto egressæ, cruentatã reperit vestem, ratus -esse deuoratam, gladio se sub moro interfecit; illa autem superueniens, -multa gemens & querens, eidem gladio incubuit. Morus autem fructus -antea candidos in nigrum colorem mutauit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Moly est herba Homeri carmine celeberrima.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Cato inter Grȩcos sapientissimus scripsit librum de re -rustica.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Medicamentum quod ad omnes morbos conducit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Chiron, Achillis Pædagogus, in medicina peritissimus, -sagittâ hydræ lerneæ veneno imbutà vulneratus, durissimis cruciatibus -conficiebatur morique optabat, sed non poterat, quod vtroque parente -immortali natus fuisset.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Vulcanus Iouis filius è cælo deturbatus in lemnum -Insulam.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Seres sunt populi Scythiæ Asiaticæ à Sera vrbe dicti, -apud quos arbores lanam tenuissimam, ex qua vestimenta serica fiebant, -proferre creditæ sunt, quia vermes eandem lanuginem producentes -nutrierunt.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Pamphila, Coa mulier, quæ prima telas Bombicum rediri, -rursusque texere inuenit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> Thisbe, id est morus, quia hæc arbor fuit conscia amorum -Thisbes.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Miletus, Ciuitas Asiȩ, vbi tingebantur lanæ -pretiosissimæ.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Vellus aureum quod Phrixus in Templo suspendit.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Biturix, Ciuitas Galliæ Aquitanicȩ.</p> - -</div> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop"> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="ERRATAS_EMMENDAS">ERRATAS. EMMENDAS.</h2> -</div> - - -<table class="autotable"> -<tr><th>Pag.</th><th>Reg.</th><th></th><th></th></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_12">12.</a></td><td class="tdc">11.</td><td class="tdc">&</td><td class="tdc">que</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_14">14.</a></td><td class="tdc">2.</td><td class="tdc">Outoubro</td><td class="tdc">Outubro.</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_27">27.</a></td><td class="tdc">vltim.</td><td class="tdc">infali,uel</td><td class="tdc">infaliuel</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_56">56.</a></td><td class="tdc">vltim.</td><td class="tdc">po</td><td class="tdc">do</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_69">69.</a></td><td class="tdc">3.</td><td class="tdc">com elle</td><td class="tdc">como elle,</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_118">118.</a></td><td class="tdc">2.</td><td class="tdc">â inteira</td><td class="tdc">a inteira</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_120">129.</a></td><td class="tdc">1.</td><td class="tdc">ajudas</td><td class="tdc">ajuda.</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_214">214.</a></td><td class="tdc">vltim.</td><td class="tdc">sepulus</td><td class="tdc">sepultus</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_219">219.</a></td><td class="tdc">15.</td><td class="tdc">comites</td><td class="tdc">comes</td></tr> -<tr><td class="tdc"><a href="#Page_221">221.</a></td><td class="tdc">6.</td><td class="tdc">contendere</td><td class="tdc">contundere</td></tr> -</table> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA DAS AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. 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Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/69596-h/images/000.jpg b/old/69596-h/images/000.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index d5ed507..0000000 --- a/old/69596-h/images/000.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/001.jpg b/old/69596-h/images/001.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 925f20f..0000000 --- a/old/69596-h/images/001.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/002.jpg b/old/69596-h/images/002.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3b71fd6..0000000 --- a/old/69596-h/images/002.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/003.jpg b/old/69596-h/images/003.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 4396432..0000000 --- a/old/69596-h/images/003.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/004.jpg b/old/69596-h/images/004.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index e9394c1..0000000 --- a/old/69596-h/images/004.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/005.jpg b/old/69596-h/images/005.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index c936c7c..0000000 --- a/old/69596-h/images/005.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/006.jpg b/old/69596-h/images/006.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 22a20b4..0000000 --- a/old/69596-h/images/006.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/007.jpg b/old/69596-h/images/007.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index c095f2f..0000000 --- a/old/69596-h/images/007.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/008.jpg b/old/69596-h/images/008.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 24abd4d..0000000 --- a/old/69596-h/images/008.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/009.jpg b/old/69596-h/images/009.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3444138..0000000 --- a/old/69596-h/images/009.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/010.jpg b/old/69596-h/images/010.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 49f783a..0000000 --- a/old/69596-h/images/010.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/011.jpg b/old/69596-h/images/011.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2e189ab..0000000 --- a/old/69596-h/images/011.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/012.jpg b/old/69596-h/images/012.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index dda9aaf..0000000 --- a/old/69596-h/images/012.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/cover.jpg b/old/69596-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 4bd22f2..0000000 --- a/old/69596-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/dc_c.jpg b/old/69596-h/images/dc_c.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 26f2a52..0000000 --- a/old/69596-h/images/dc_c.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/dc_h.jpg b/old/69596-h/images/dc_h.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index d2d95f1..0000000 --- a/old/69596-h/images/dc_h.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/dc_p.jpg b/old/69596-h/images/dc_p.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index d1e9a87..0000000 --- a/old/69596-h/images/dc_p.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/dc_s.jpg b/old/69596-h/images/dc_s.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index fd310f5..0000000 --- a/old/69596-h/images/dc_s.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69596-h/images/dc_s2.jpg b/old/69596-h/images/dc_s2.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 8ed67f0..0000000 --- a/old/69596-h/images/dc_s2.jpg +++ /dev/null |
