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-The Project Gutenberg eBook of Instrucçam sobre a cultura das
-amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda, by Rafael Bluteau
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
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-using this eBook.
-
-Title: Instrucçam sobre a cultura das amoreiras, & criaçaõ dos bichos
- da seda
- dirigida a conservaçaõ, & augmento das manufacturas da seda,
- estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro Governador, e Regente...
- d
-
-Author: Rafael Bluteau
-
-Contributor: João da Costa
-
-Release Date: December 21, 2022 [eBook #69596]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the
- Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA
-DAS AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA ***
-
-
-
-
-
- INSTRVCÇAM
- SOBRE A CVLTVRA
- das Amoreiras, & criaçaõ dos Bichos da seda,
-
- _DIRIGIDA_
-
- A conseruaçaõ, & augmento das manufacturas
- da seda,
-
- _ESTABELECIDAS_
-
- Pelo muito alto, & poderoso Principe
- DOM PEDRO
- GOVERNADOR, E REGENTE
- dos Reinos de Portugal,
-
- _E commetidas á direcçaõ_
-
- DE D. LVIS DE MENEZES
- Conde da Eiriceira, & Veedor da fazenda Real,
-
- Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV,
- Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,
- Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade
- da Raynha Mãy de Inglaterra, & Calificador
- do S. Officio no Reino de Portugal.
-
- [Illustração]
-
- EM LISBOA.
- Na Officina de Ioam da Costa.
- Com todas as litenças necetiarias. 1679.
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- AO
- PRINCIPE
- NOSSO SENHOR.
- SENHOR.
-
-
-_Sigo o discreto dictame de Parisatis[1] Rainha de Persia, que
-costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com
-palauras de seda._
-
-_Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com
-que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste
-liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da
-seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque
-de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode
-grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ
-destes insectos._
-
-_Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, &
-a Arte, a natureza nas Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta
-differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza,
-naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que
-se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba
-o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem
-os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com
-muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio
-das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas
-as Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade,
-com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como
-aduirtio[2] Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo
-modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ
-as Artes com a munificencia dos Princepes._
-
-_Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o zelo, cõ
-que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção das sciencias,
-& das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a conseruaçaõ,
-& augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ perfeito,
-como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia para o
-estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto mais
-que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos olhos os
-exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa._
-
-_A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa
-atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous Mõges[3]
-vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente
-dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, &
-quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as
-Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de
-dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ casulo, que forma de si mesmo,
-architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis,
-sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè
-se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera._
-
-_Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia,
-pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais
-Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha
-naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão
-padecendo as rusticas oppressoẽs do mesmo jugo._
-
-_Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos della,
-os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a Persia,
-deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à criação
-dos bichos, & à Arte da seda._
-
-_Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China
-se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China
-a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí
-pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas, que delle
-nauegão os Castelhanos à America._
-
-_A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas riquissimas
-de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, Cafilas de
-seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & Esmirna nas
-muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores Imperios da
-Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura._
-
-_Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais
-Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor; por elles
-passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda,
-que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia,
-aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se
-cõmunicou a toda Italia._
-
-_Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta
-abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em
-rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a
-nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras
-muitas de Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque
-assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao
-recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor
-despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior._
-
-_Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de cõseguida
-a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse huma
-junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro na
-cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do
-decreto com que se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são
-as seguintes._ El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção das
-sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio para
-euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs de ouro
-a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser conueniente
-esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza dos pouos
-do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as experiencias,
-& conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a nossos
-subditos, &c.
-
-_França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por
-hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua
-riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda,
-he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc,
-Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias,
-creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, &
-dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das
-sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a Italia, &
-Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por
-toda Europa._
-
-_A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura,
-& hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas
-fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos._
-
-_Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa
-semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o
-mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de
-Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda._
-
-_A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão mister
-clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de 45.
-graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se fas;
-he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos até
-45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia da
-Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da
-China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45.
-ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no meio das
-duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da
-calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos
-bichos._
-
-_Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està
-situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de
-Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de
-Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a
-seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos,
-dõde se segue, que produzir à Portugal com abundancia esta excellente
-materia._
-
-_Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na Prouincia
-de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais setentrional
-deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas Prouincias
-mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, Algarue, &
-Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem experimentado esta
-verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, & tẽperado Ceo,
-que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem tirado dos bichos,
-que se criarão nas casas, em que se deu principio âs manufacturas, he
-mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor seda de Italia._
-
-_Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em
-abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca,
-porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas
-terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria;
-& se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar
-as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna,
-achando tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como
-pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, &
-seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, &
-terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem
-nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs
-de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens
-pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si,
-a quarta parte da que ha mister para as suas manufacturas._
-
-_A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de
-contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os
-Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas
-manufacturas._
-
-_A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios
-fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz
-com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão
-luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque
-as cores que se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras,
-mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes
-Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que
-estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus
-argumentos._
-
-_A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose
-neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento
-das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros,
-infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com manîfesta
-destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua
-entrada, & sahida do açucar, & do tabaco._
-
-_Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey
-Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas
-em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa
-ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, & Holandezes não
-virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos
-os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a
-futilidade desta objecção, porque no tempo que a tranquilidade da
-paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, &
-Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, & trigos
-de França._
-
-_A indigencia, & a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, & sociedade
-humana, & foi effeito da diuina[4] Prouidencia, que algũas terras
-careceßem dos mãtimẽtos, & regalos, de que outras abundaõ, paraque
-com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais remotas
-Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa com o
-Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar, que
-he o mais delicioso mimo da terra, & austerse do tabaco, que he o mais
-attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos
-ares, & sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de
-produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ
-em algumas partes do Reino de Sìcilia, & em taõ pequena cantidade, que
-naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia._
-
-_O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao do
-Brazil na quantidade, & qualidade, & porque em todos os Emporios do
-mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar
-do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia,
-verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste
-seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar
-do Brazil he infaliuel mas que tambẽ he certissimo o lucro desta
-venda._[5]
-
-_Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo de
-alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, & he
-que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das
-sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da
-folha._
-
-_Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos
-que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino,
-dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey
-de Castella, & se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de
-amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de
-seda, que os direitos da que se fabricar no Reino & suas conquistas,
-com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa
-excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de
-todos os direitos da alfandega._
-
-_Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura
-prudencia, & porque os bons principios saõ o presagio das venturas
-que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a
-publica vtilidade dos futuros progreßos._
-
-_A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, & regula os orbes
-da sua Monarquia, agradece esta era, & successiuamente agradecerà a
-Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação._
-
-_Huma das maiores felicidades de hum Reino, he que o Rei se enriqueça
-sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda; procura V. A.
-este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos, & quererá o Ceo,
-que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em realidade, as ditas,
-que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu seculo dourado._
-
-_Assim o espero, & peço a V. A. queira aceitar com agrado este pequeno
-trabalho, que entre os estudos mais serios, & proprios da minha
-profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que
-teria de ver esta materia praticada em lingoa Portugueza, pella grande
-vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo,
-com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A.
-outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que
-neste liurinho se encerrão._
-
-_Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de Constantinopla
-os prodigiosos segredos da natureza na criação dos bichos da seda,
-fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de presente,[6]
-prometendolhe outras maiores para o futuro, & para mim as maiores, que
-podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua beneuolencia,
-& protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que estrangeiro
-no sãgue, sou Portuguez no amor, & se a Inglaterra deuo o nacimẽto,
-a França a criaçam, & a Italia, o habito, da sagrada Religiam que
-professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares
-beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento, de sejo de
-vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, & no obsequio.
-Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, &
-todas os seus vassallos desejamos._
-
-
- De V. A. o menor Capellaõ, & Orador.
-
- D. RAFAEL BLVTEAV.
-
- Clerigo Regular da diuina Prouidencia.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] Parisatis mãy de Cyro, Rey de Persia.
-
-[2] Vt fruges sub grata aëris temperie proficiunt; sic scientiæ, &
-artes sub dominantium liberalitate, honorificentia, benignitate.
-_Plutarch lib. 2. de virtute, & fortuna Alexandri._
-
-[3] Telȩ sericȩ ætate Iustiniani Imperatoris cȩptȩ, quæ priùs à
-Persicis mercatoribus tantùm deferebantur, cum ignorarent quomodo
-fierent, nec scirent fila esse vermium. Cæterùm originem illius duo
-Monachi ex India Byzantium profecti, declararunt, fœtumque illorum
-vermium, oua nimirũ peregrina attulerunt, & in fimo collocata in vermes
-transformarũt, & mori folijs aluerũt, indeque naturâ magistrâ ipsis
-filnm reddentibus, sericum confecerunt. _Zonaras 3. Annal. tom. 3. p.
-95._
-
-[4] Effecit Deus, vt alter alteriûs indigeremus, vt sic nos quoque
-conjungeret; quoniam amicitias maximas facit vsus, & indigentia,
-propterea nec omnia vbique gigni permisit, vt inde etiam cogeret
-permisceri, _Chrisost. hom. 34. in 1. ad Corinth._
-
-[5] Ex ea merce negotiatores, vel maximum capiunt emolumentnm, siquidem
-nauibus quotannis in Europam euecta, certissimo compendio longè,
-latéque diu enditur.
-
-_Maffæus in libro secundo historiarum Indicarum, mihi pag. 68._
-
-[6] Eos Monacos Iustinianus, in præsentia, muneribus; de cætero
-magnis pollicitationibus ad illud præstandum confirmauit. _Procopius
-Cæsariensis, & ex eo Zonaras 3. Annalium tom. 3._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- LICENÇAS.
-
-
-Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ,
-vimos este Liuro intitulado: _Instrucção sobre a cultura das amoreiras,
-& criação dos bichos da seda_, composto pello P. D. Rafael Bluteau,
-Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia, Calificador do S.
-Officio, & muito conhecido nesta Corte, por seu singular engenho,
-& admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos della, & não achamos
-contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, & bons costumes. He pequeno
-o Liuro na materia, pello que trata de hum bichinho, não conhecido de
-muitos, & pouco estimado de quasi todos, & he muito grande na calidade,
-porque a se obseruarẽ bem os documẽtos, que dà o Author, he certo
-resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que por falta das manufacturas
-se vè taõ exhausto, & diminuido de dinheiro, com gèral dor de todos os
-zelosos do seu acrecentamento; & quando a obra por si só naõ fora de
-tanta estimação, o seria pella elegancia com que o Author a escreue,
-com clareza, verdade, & compendiosas regras, & nam duuidamos, que o
-particular gosto, com que a lemos, abranja a todos os que a lerem, &
-assim nos parece muito digna de se dar à estampa, para que o Reyno
-logre as prosperidades, que ella lhe promete, & o Autor o nome de
-zeloso, & amante do Reyno de Portugal, que he o de que mais se preza,
-& com que em parte lhe quer pagar os aplausos, & affecto, com que o
-ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina Prouidencia aos 28. dias
-do mez de Março de 1679 annos.
-
- _D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,
- Doutor na sagrada Theologia._
-
- _D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia, Doutor
- na sagrada Theologia._
-
-
-_Consultores Clericorum Regularium._
-
-Hoc opus inscriptum (_Instrucção sobre a cultura das amoreiras, &
-criação dos bichos da seda_) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo. nostræ
-Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, & juxta
-assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur,
-quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes
-litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis
-sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678.
-
- _D. Leonardus Duardus Consultor C. R._
- _D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R._
- _D. Michael Pignatellus Consultor C. R._
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- _D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius._
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- * * * * *
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-Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a _Instrucção
-sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, que cõpoz
-o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo Regular Theatino da
-Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de Inglaterra, & Qualificador
-do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ conhecido, que naõ só nas
-Naçoens estrangeiras, como he para elle a nossa, mas até na propria
-patria he celebrado seu talento, por peregrino; naõ contẽ o Tratado
-cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou bons costumes; antes cõ elle seu
-Author, não só instrue, mas anima as almas cõ muitos documentos para a
-virtude, & aos Portuguezes cõ muitas liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ
-porque ainda que este estiuera por hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ
-bichinho, pode a industria humana ajudada da Prouidencia Diuina, não
-sô sustentar, mas enriquecer a Monarchia, cõ o que ficarà immortal
-seu nome na nossa memoria, pois nũca dirà Portugal de seu engenho, o
-que disse da arte do bicho da seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus
-Epigramas: _Epigram 178._
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- _Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse,
- Fila mei fati duco, necemque neo._
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-Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678.
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- _O Doutor Fr. Gregorio de Iesus._
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- * * * * *
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-Vista a informação, podese imprimir a _Instrucção sobre a cultura
-das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, Author o P. D. Raphael
-Bluteau, & impressa tornarà para se conferir, & se dar licença, para
-correr, & sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678.
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- _Manoel de Magalhaens de Menezes._
- _Manoel Pimentel de Sousa._
- _Manoel de Moura Manoel._
- _Fr. Valerio de S. Raymundo._
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- * * * * *
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-Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678.
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- _Fr. C. Bispo de Martyria._
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- SENHOR.
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-Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os
-argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ
-demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por
-origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra,
-no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da
-prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A.
-mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10.
-de 1679.
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- _Antonio Vellez Caldeira._
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- * * * * *
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-Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, & Ordirio, &
-depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar & conferir, & sem
-isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679.
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- _Marquez P._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._
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- Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21.
- de Iunho de 1679.
-
- _Fr. C. Bispo de Martyria._
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- Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.
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- _Magalhaens de Menezes._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._
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- [Illustração]
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- ADVERTENCIA
-
- AOS
-
- PORTVGVEZES
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-As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as
-bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão
-no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as
-inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o
-descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de
-donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria,
-& felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que
-nellas se exercitão.
-
-Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso
-a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus
-Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre
-se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em
-que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue
-ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se
-cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios
-exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que
-escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para
-que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio.
-Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos
-genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della
-se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a
-ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.
-
-As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte
-chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras
-duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais
-misteriosa, he a arte da seda.
-
-A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos;
-o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os
-misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.
-
-Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação
-à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta
-em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està
-introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os
-senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas
-cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras
-para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias,
-& das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa
-mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta
-arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores,
-nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas
-vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos
-Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.
-
-As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras;
-chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados,
-labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem
-tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, &
-para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o
-ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios,
-retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.
-
-Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da
-seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas
-amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça
-de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta
-em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho,
-ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo
-semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem
-campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação
-dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa
-occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas,
-que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão
-a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ
-mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que
-lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com
-esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas
-pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas
-manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, &
-teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno,
-& suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que
-poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se
-se occuparem neste exercicio.
-
-Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos
-os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres,
-a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, &
-riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas
-plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas
-de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque
-as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as
-larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras
-estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa,
-ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades.
-Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue,
-que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se
-começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a
-propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe
-as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias
-onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As
-amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario
-occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico
-pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França,
-& Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, &
-vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas,
-que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes
-dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda
-d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco,
-seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos,
-ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras,
-nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil
-amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou
-laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente
-com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza
-mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se
-euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito
-que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà
-Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, &
-todas seraõ admiradoras da sua opulencia.
-
-Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os
-artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que
-saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes,
-& na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos
-antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o
-Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos,
-folhas de amoreiras, & bichos de seda.
-
-Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais
-sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis
-de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em
-que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com
-perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda,
-nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes
-emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ
-desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em
-que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu
-ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as
-manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas,
-venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às
-penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que
-pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à
-constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se
-anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com
-que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos
-merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ
-ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das
-suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, &
-ineuitauel embaraço.
-
-Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue
-ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos
-soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ
-os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto
-isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ
-do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto,
-solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda,
-com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta
-Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de
-hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a
-terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças
-que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os
-animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão
-por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a
-terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua
-fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por
-sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa
-maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da
-nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que
-conheceo superior, ao seu poder.
-
-Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando
-du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, &
-companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita
-virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do
-Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento
-do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento
-desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella
-com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.
-
-De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus
-principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas,
-que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança
-nos hombros de tres Atlantes.
-
-As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por
-debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do
-bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he
-nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, &
-perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de
-hum pequeno mundo.
-
-Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como
-os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear
-de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares,
-em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, &
-telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os
-progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal
-mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel,
-ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do
-successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.
-
-Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de
-exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa
-mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte,
-he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, &
-admiração, à intelligencia dos Sabios.
-
-O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão
-profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por
-curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as
-Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.
-
-Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia
-de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação
-do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a
-transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.
-
-Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam.
-Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da
-cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ,
-mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author
-da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o
-Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita?
-fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum
-instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua
-palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz,
-& sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da
-verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos
-Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes
-reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este
-bichinho basta.
-
-Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto
-admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o
-principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ
-de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de
-maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente
-distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se
-cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ
-physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos
-obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas,
-hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que
-cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a
-propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira,
-& assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem
-o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo,
-se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em
-quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso
-insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho,
-as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o
-ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a
-borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro,
-como o ouo.
-
-No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana,
-& a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque
-como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura
-a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do
-diuino.
-
-Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas
-entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o
-calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.
-
-Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo
-o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no
-silencio viue, & com os estrondos, morre.
-
-No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys,
-que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo
-se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem
-o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue
-na aluura.
-
-O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho
-da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da
-paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro,
-deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua
-sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos
-da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos
-discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em
-cada jeroglifico, se significa hũa virtude.
-
-Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida,
-& morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia,
-& o desengano das vaidades do mundo.
-
-Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para
-vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas
-entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra as
-injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em
-preciosas roupas, os seus proprios alimentos.
-
-Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para
-cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que
-se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a
-prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam
-no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.
-
-Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho da seda,
-nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como
-elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande
-rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para
-seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum
-outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado.
-
-Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de
-pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das
-pompas humanas, porque a riqueza das sedas que laura, nam he outra
-cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir,
-que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se
-reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade
-da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das
-artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na
-eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam
-reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a
-mais importante aduertẽcia, das que se encerrão nesta introducção, fiz
-as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como
-desejoso do bem das Almas.
-
-
- D. RAFAEL BLVTEAV
-
- Clerigo Regular Theatino da
- diuina Prouidencia.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[7] Artes bonorum fontes esse aiuunt. _Xenophon. de institut. Cyri lib.
-7._
-
-[8] Artes non ornamenta solum Reipublicȩ sunt, sed etiam auxilia, &
-fulcra. _Lipsius in lib. de Cruce in præfat. ad barb. ord._
-
-[9] _Xenophon, in œconomico._
-
-[10] In Belgio, Sericum crudum, quod magna copia ex Italia, &
-Regionibus Orientalibus, prȩcæteris verò ex Persia Societatis Indiæ
-Orientalis defertur (vt secundum rei veritatem à multis obseruatũ est)
-amplius, quam duodecim millia hominum occupat, qui tantummodo in eo
-separando, & glomerando occupantur. _Schookius in Belg. fœder. lib. 7.
-cap. 19._
-
-[11] Aquila Auis solaris est acuti visus, ita vt in summo Aere existẽs,
-quæ in terra subsident videat. _Etzler. in Isagog. physic. cap. 4._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- INDEX
-
- DOS PRINCIPAES AVTHORES, que escreueram o nacimento, criação, vida, &
- propriedades do bicho da seda.
-
-
-_Plinio, histor. natural. liu. 10. cap. 23._
-
-_Ieronimo Vida, Bispo de Alba, em dous Liuros, que tem composto em
-versos hexametros_, de Bõbice.
-
-_Vlysses Aldourando, no seu Liuro_ de Insectis.
-
-_Simão Maiolo, Bispo de Vulturara, no seu Liuro intitulado_, Dies
-Caniculares, _no Colloquio quinto_.
-
-_Luis de Granada da Ordem de S. Domingos, na introducçam do symbolo da
-Fè, p. 1. cap. 21._
-
-_Gaspar Kiokio, Iurisconsulto Alemaõ nos Tratados, que fez_ de Ærario,
-_liu. 2. cap. 6_.
-
-_E Christouão Pellero, nos Cõmentarios que fez sobre os mesmos
-Tratados._
-
-_Thomas Garzoni, Author Italiano, no Liuro chamado_, Piazza Vniuersale,
-_liu. 4. cap. 1_.
-
-_E Christouaõ Isnardo; em hum Liuro cõposto em Idioma Francez, impresso
-em Paris no anno de 1665._
-
-_Este vltimo Author, escreueo sobre a cultura das amoreiras, & criaçam
-dos bichos da seda, mais clara, diffusa, & methodicamente, que todos
-os mais, & por isso delle se tirou a maior parte das noticias, que se
-encerram nos seguintes Capitulos._
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- [Illustração]
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- INDEX
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- DOS CAPITULOS, QVE contem este Liuro.
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- I. PARTE.
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- Cap. I. _Das differenças das amoreiras, & das suas excellencias._
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- Cap. II. _Varios modos de plantar as amoreiras brancas, & pretas._
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- Cap. III. _Modo de transplantar as aruores nascidas por semente._
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- Cap. IV. _Modo de plãtar as amoreiras por mergulho._
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- Cap. V. _Modo de plãtar as amoreiras por estaca._
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- Cap. UI. _Modo de plãtar as amoreiras por enxerto._
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- Cap. VII. _Como se deuem entreter as amoreiras._
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- Cap. UIII. _Modo de colher a semente das amoreiras, para a semear._
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-
- II. PARTE.
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- Cap. I. _Do lugar proprio para criar os bichos._
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- Cap. II. _Regra para conhecer, & escolher os melhores grãos, & fazer
- sahir os bichos._
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- Cap. III. _Das mudas dos bichos, & como conuemtratalos no tẽpo dellas._
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- Cap. IU. _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._
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- Cap. V. _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe
- podem aplicar._
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- Cap. VI. _Segredo para fazer nacer sem semente, muitos bichos da seda,
- que daraõ excellẽtes grãos com abundancia._
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- Cap. UII. _Modo de fazer sobir, & fiar os bichos da seda._
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- Cap. UIII. _Do tempo em que os casulos se haõ de tirar dos ramos._
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- III. PARTE.
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- Cap. I. _Do modo com que se deuem aparelhar os casulos para delles
- tirar a seda, & como se podem conseruar muito tẽpo, impedindo que as
- borboletas naõ os furem._
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- Cap. II. _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas para
- que ponhaõ a semente._
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- Cap. III. _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumentos para
- tirar a seda._
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- Cap. vlt. _Do barbilho, & do modo de o aparelhar._
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- [Illustração]
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- INSTRVCÇAM
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- SOBRE A CULTURA das amoreiras, & criação dos bichos da seda.
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- I. PARTE.
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- CAPITVLO I.
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- _Das differenças, & propriedades das amoreiras._
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-Como o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica
-aruore, cujas folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto
-dos primeiro Capitulo deste Tratado.
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-Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras.
-A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto,
-porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que
-as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a
-casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome
-de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.
-
-Posto que as folhas de hũas, & outras, siruaõ à nutritura dos bichos,
-as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por
-quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de
-melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha
-vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ
-dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ
-cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais
-facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a
-experiencia tem mostrado ser a seda dos bichos, que se sustentaõ da
-folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia
-tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras
-pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só
-plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as
-folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas,
-duas brancas.
-
-Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores,
-que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens, quanto à
-fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os
-seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades.
-
-Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores
-fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a
-todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ,
-que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos
-grosseiros.
-
-A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir
-ao ornato do mundo, izentou esta aruore de toda a sorte de animaes
-immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as
-outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este
-attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica
-desta nobre planta.
-
-He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem
-copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem
-incommodar as aruores.
-
-A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza,
-bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes
-criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que
-de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.
-
-As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado,
-& o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos,
-capoens, & toda a sorte de Aues.
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- CAPITVLO II.
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- _Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas._
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-Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore.
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-Primeiro, por semẽte tirada das amoras.
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-Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à
-terra.
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-Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar.
-
-Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer
-outras aruores proprias para sofrer o enxerto.
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-Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado,
-defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, &
-estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de
-hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.
-
-O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho
-em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes, algũa
-outra planta.
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-Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea
-que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he
-bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se
-semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras
-quaesquer Aues.
-
-Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.
-
-Primeira: Abril, & Mayo.
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-Segunda Iulho, & Agosto.
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-E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.
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-A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he
-possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro,
-& sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a
-outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com
-instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.
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-Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre
-nòs saõ inuteis.
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- CAPITVLO III.
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- _Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente._
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-Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer,
-& trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de
-Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua,
-ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque
-as raizes. Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a
-demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.
-
-Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar
-cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que
-se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto,
-meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais,
-tres ramos.
-
-E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à
-grossura de hum braço, se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem
-pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto,
-& exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as
-aruores, a outo pés de alto.
-
-Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias
-distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em
-lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se
-terà o mesmo cuidado de as cultiuar.
-
-E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo
-(como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de
-Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se
-deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril.
-
-Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores,
-deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he
-conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua,
-que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ
-nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo a apodrecer, lhe seruẽ
-de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras
-immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.
-
-Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos
-mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o
-tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para
-as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos
-primeiros annos.
-
-A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores,
-mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que
-na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, &
-crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas,
-junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.
-
-Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde
-se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres
-braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o
-tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ mais junta, naõ deixaõ de
-crecer da mesma sorte.
-
-
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- CAPITVLO IV.
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- _Modo de plantar as amoreiras por mergulho._
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-
-Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder
-melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder
-ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa
-receber a substancia della, fazendo sahir à superficie da terra hum,
-ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o
-anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa
-estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado;
-he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que
-lance raizes.
-
-Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto
-da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que
-quer florecer.
-
-No anno seguinte, quando se entender, que o ramo mergulhado tem
-lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou
-se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica
-dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar
-do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo
-anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a
-enfraqueceiâ.
-
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- CAPITVLO V.
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- _Modo de plantar as amoreiras por estaca._
-
-
-As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente,
-& mergulho.
-
-Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ
-dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha
-sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas
-na parte por onde se cortar, para que metido na terra, o ramo saya
-direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes.
-
-Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas,
-hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres
-botoens do ramo.
-
-He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra,
-de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de
-trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o
-tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem regalos, quando for
-necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario
-podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà.
-
-
-
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- CAPITVLO VI.
-
- _Modo de plantar as amoreiras por enxerto._
-
-
-Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as
-brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ
-enxertar em quaesquer outras aruores.
-
-Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores,
-o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os
-enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.
-
-He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas
-que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais
-nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas
-extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde,
-redõda, & nam manchada.
-
-
-
-
- CAPITVLO VII.
-
- _Como se deuem entreter as amoreiras._
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-Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito
-annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os
-annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os
-ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim
-de fazer a aruore copada, & mais facil de colher a folha.
-
-O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde
-haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô
-cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.
-
-No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores,
-& em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja
-igual, & formada sô de tres branchas principaes.
-
-He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres
-branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem,
-se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco
-principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se
-cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre
-o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos
-ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na
-forma, que se terà feito às branchas.
-
-Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem
-sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as
-extremidades dos ramos, & meter nelles enxertos de bõs garfos, &
-quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he
-mais vtil, que necessario.
-
-Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a
-qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais
-tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro,
-maiores que todas as outras.
-
-As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a
-comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas. Com
-tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a
-dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha,
-lhe faz algũas vezes dano.
-
-Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte,
-estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he
-natural de Sicilia.
-
-Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o
-alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas
-aruores, ou colher de todas com moderação, porque ainda que o colher
-a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de
-melhor substancia, & vem em maior abũdancia.
-
-He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha,
-& o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos
-vltimos dias, por duas razoens.
-
-Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue
-guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de
-formar a seda.
-
-Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe
-tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para
-semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que
-algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas,
-por serem muito pequenas.
-
-Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro
-que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com
-industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das
-aruores, & à roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com
-agoa morna em hum dia bom, & de Sol.
-
-Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher
-a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos
-pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou
-ramo grãde.
-
-Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello
-pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das
-aruores, para que caya sobre elles.
-
-Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra,
-pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o
-que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes,
-& se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.
-
-Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, &
-cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que
-se separarem muito da aruore.
-
-Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer, que
-necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos
-ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha,
-por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres,
-ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.
-
-O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he
-mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os
-ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum
-bom dia, da Lua noua, ou por não perder a folha daquelle anno, nos
-mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.
-
-Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às
-amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de
-fruto.
-
-Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque
-separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles,
-se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se
-conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.
-
-Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer,
-porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa,
-he de grande prejuizo às aruores.
-
-Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo
-chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não
-tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos
-bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela.
-
-Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar em terra
-laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de
-tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica
-planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores,
-que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França,
-no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de
-Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos
-proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.
-
-Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda.
-
-Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem
-as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer
-nellas.
-
-Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra
-pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar
-até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando
-a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os
-graõs, & criou os bichos.
-
-
-
-
- CAPITVLO VLT.
-
- _Modo de colher a semente das aruores, para as semear._
-
-
-As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de
-amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou
-pretas.
-
-As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras,
-& de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das
-amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como
-fica dito.
-
-Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas
-a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as
-melhores.
-
-As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na
-forma seguinte.
-
-Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de
-pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,)
-& abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as
-amoras maduras.
-
-He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo
-no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a
-semente.
-
-Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa
-meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco,
-ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para
-euitar a podridão.
-
-Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma
-peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as
-mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o
-que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar
-cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente,
-porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està
-nadando em cima.
-
-Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho,
-& se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se
-limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na
-sesão, & forma, que fica dito no _Capitulo II._ onde tambẽ se disse,
-que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, &
-postas a amadurecer o tempo necessario.
-
-Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros
-lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas,
-por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado,
-de amoras podres.
-
-Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em
-hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo,
-he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.
-
-Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com
-as amoras pretas, que se comem cõmumente.
-
-De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade,
-em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.
-
-Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar
-as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre
-a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.
-
-Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os
-Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.
-
-Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os
-ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que
-os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.
-
-Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação,
-tiraráõ della tres grãdes ventagens.
-
-Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver
-crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando
-sahem, como obras das nossas mãos.
-
-Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque
-he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual
-grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode
-tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar
-estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.
-
-Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem
-as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que
-obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do
-Mercador.
-
-E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma
-razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.
-
-Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens
-da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.
-
-Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a
-consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ
-aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho,
-& com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na
-posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem
-à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.
-
-Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de
-tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os
-frutos, & as riquezas?
-
-Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as
-terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos,
-& agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm
-muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na
-terra, em que viuimos.
-
-Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta
-rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha,
-depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os
-bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem
-produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.
-
-A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em
-algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a
-memoria do tempo em que foram plantadas.
-
-Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda,
-affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes,
-os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos
-homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam
-singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas
-aruores a seda.
-
-Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram
-trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França,
-como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de
-criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão
-agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais
-lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.
-
- [Illustração]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[12] In Trapobane sericum, sine cultu, ex arboribus detrahitur à
-Bombycibus confectum. _Linschot cap. 23. in commentar nauigationum._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- II. PARTE.
-
- CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.
-
-
-
-
- CAPITVLO I.
-
- _Do lugar proprio para criar os bichos._
-
-
-Para fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum
-lugar cõmodo, em que se alimentẽ sete semanas, que tem de vida, ao
-menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em
-lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum
-genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em
-camaras claras, & liures ao vento.
-
-Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte
-das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar
-liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos
-dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados.
-
-He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar
-todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara,
-galinhas, frangos, ou pardais.
-
-Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes,
-partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, &
-nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, &
-huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se
-pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder
-andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter
-escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.
-
-Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam
-cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo
-sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do
-taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam.
-
-Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de
-quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.
-
-As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa
-sô vez a despeza destes partileiros.
-
-He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza
-delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os
-bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he
-considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito.
-
-As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de
-partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como
-seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas
-postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a
-todos os bichos, & passaros, que os comem.
-
-A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe
-fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a
-vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros
-semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que
-serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos,
-suposto que sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.
-
-
-
-
- CAPITVLO II.
-
- _Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os
- bichos._
-
-
-Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de
-Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para
-conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas,
-& se lãçar bem de humor luzente, he sinal de bondade.
-
-Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.
-
-Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade
-se poem, em os tirar, como ordinario trato della.
-
-Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.
-
-Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das
-borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo
-pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como
-tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja
-seda nam tem a bondade ordinaria.
-
-Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de
-correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.
-
-Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta
-mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he,
-quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as
-sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.
-
-Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para
-hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco,
-ou seis pequenas.
-
-Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo
-que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas
-razoens.
-
-Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as
-amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as
-amoras lhe communicaõ demasiada humidade.
-
-A segunda he, porque os bichos sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais
-facil com calor artificial.
-
-Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os
-benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de
-hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao
-Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o
-tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde
-a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem
-folhas capazes de se colherem.
-
-Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ
-cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba
-a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa
-abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se
-meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta
-sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, &
-mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha
-de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre
-ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas
-folhas.
-
-Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente
-sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos
-taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.
-
-Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde
-basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.
-
-
-
-
- CAPITVLO III.
-
- _Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas._
-
-
-Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos;
-em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, &
-saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que
-se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão.
-
-Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim
-até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura,
-como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas.
-
-Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou
-lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que
-tiuerem necessidade.
-
-A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros
-naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas frescas,
-& limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho,
-metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por
-euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos
-primeiros dias.
-
-O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão
-pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no
-mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os
-bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais
-espaço, quando crecem.
-
-Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir
-mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.
-
-Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza
-nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar
-os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou
-seis dias, os tornam a mudar.
-
-Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os
-dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias.
-
-As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar,
-& os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos
-nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir
-separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes
-no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres
-vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, &
-quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior
-parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço considerauel sem
-comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe
-guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes,
-porque lhe faz fazer a seda mais forte.
-
-Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem
-segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem
-dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os
-faz entropecer, estando chegados a subir.
-
-A melhor preuençam cõtra este dano, he começalos a criar com
-abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou
-quarenta & cinco dias.
-
-
-
-
- CAPITVLO IV.
-
- _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._
-
-
-As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho,
-ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa
-cousa lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.
-
-A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para
-os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, &
-recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que
-se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha
-molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm
-a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de
-secos ao lume, & os sacudiràm para fazer correr a agoa das folhas, que
-tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão
-nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou
-panos, para que acabem de se secar de todo.
-
-Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de
-folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar,
-se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela
-muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras,
-se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas, como as que se colhem com
-orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos
-nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos
-necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que
-roer nas folhas, que tem debaixo de si.
-
-A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde
-nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas
-amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ
-menos danosos aos bichos, os renouos, que brotaõ do tronco da
-amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.
-
-Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam
-cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem
-tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.
-
-Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for
-possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos;
-para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para
-os bichos, porque as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao
-sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.
-
-Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos,
-& nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, &
-em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ
-tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.
-
-
-
-
- CAPITVLO V.
-
- _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem
- aplicar._
-
-
-Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, &
-outras accidentaes.
-
-As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ
-a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias
-sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns
-dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa
-de algũa quebra nos bichos.
-
-As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà
-calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ;
-do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.
-
-Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.
-
-Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem
-fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ
-caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o
-vento.
-
-Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, &
-janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas,
-porque lhe causaõ muito calor.
-
-Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum
-pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom
-serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas
-folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.
-
-E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando
-estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca
-folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe
-deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até
-que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.
-
-Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à
-mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar,
-melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir
-sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais
-a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha,
-se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso,
-beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo
-de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as
-brazas.
-
-Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, &
-apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores,
-despertam, alegrão, & sarão aos bichos.
-
-Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que
-os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou
-vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro,
-como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se
-estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes
-cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.
-
-O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que
-mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão
-saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os
-tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.
-
-As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam
-boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto
-lhe durar este achaque, porque isto os mata.
-
-He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita
-quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de
-armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo
-não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir
-algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas,
-que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa
-doenças nas mudas.
-
-Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar
-o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que
-estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que
-começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe
-occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, &
-depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de
-tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos
-casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar,
-se naõ desinquietàraõ os bichos.
-
-Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ
-crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os
-poderà liurar o cuidado, que se terà delles.
-
-As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou
-pella difficuldade de ter boa folha.
-
-Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de
-caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma,
-que tenho dito.
-
-Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que
-fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto,
-ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na
-caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, &
-poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os
-aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande
-sobresalto.
-
-Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ,
-quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando
-se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario
-separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com
-esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas
-mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam
-mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous,
-antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, &
-das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os
-dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima
-declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos
-às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, &
-passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão;
-& em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes
-que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se
-nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto
-daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por
-quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.
-
-Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas
-dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a
-penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que
-se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar,
-que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.
-
-Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles
-serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta
-destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais,
-para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de
-mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.
-
-Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando
-que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma
-doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a
-melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.
-
-Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes,
-nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito
-danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de
-porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os
-bichos, he peçonha.
-
-Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para
-nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer,
-em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de
-alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas
-amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser
-esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas
-no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa
-para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem
-a criação, & nam dos que vendem a semente.
-
-Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se
-experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que
-naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se
-seruissem das das outras Naçoens.
-
-Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno
-poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos
-estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas,
-que nos vem de fora.
-
-
-
-
- CAPITVLO VI.
-
- _Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que
- daràm excellẽtes graõs com abũdancia._
-
-
-Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a
-Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos
-Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.
-
-No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha
-das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte
-dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua,
-nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm
-de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias,
-dar à vacca folhas de amoreira.
-
-Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite
-da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos,
-que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas
-ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em
-hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam
-sinta o fedor.
-
-Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta
-corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de
-amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se
-criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos
-quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores,
-que os dos outros bichos.
-
-Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de
-alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà
-preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue,
-carne, & ossos da vitella, como fica declarado.
-
-Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca
-despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.
-
-O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta
-marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de
-_Bombice_.
-
-Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[13]
-
- _Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci,
- Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus
- Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes
- Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;_
-
- _Interea stabulis tantum illi pinguia mori
- Sufficiunt folia, & lactenti cortice ramos.
- Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis
- Bombicem fractis condensam erumpere costis,
- Atque globos toto tinearum efferuere tergo,
- Et veluti putres passim concrescere fungos._
-
-
-
-
- CAPITVLO VII.
-
- _Modo para fazer sobir, & tecer os bichos da seda._
-
-
-O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente,
-quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, & se bem
-repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra,
-com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, & as folhas que se deixaõ
-sobre a semente, & o papel furado, para obrigar os bichos a sahir,
-tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos
-deixaram.
-
-Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda
-aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de
-sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca,
-para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas.
-
-De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos
-fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para
-se agasalharem, começaràõ a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou
-industria dos que tem cuidado de os criar.
-
-Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em
-estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer,
-por estes sinaes.
-
-Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, & quasi transparente como hum
-Alambre, como se verà, tomando-os na mão, & pondo os à luz do Sol de
-dia, ou ao lume da candea de noite.
-
-Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde,
-a hũa côr de ouro, em que se representa a seda, que elles tem no esta
-mago.
-
-Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo.
-
-Quarto, andaõ de hũa parte, & outra, por meyo dos outros, sem se lhe
-dar de comer, & leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à
-lenha, & fiar a sua seda.
-
-Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, & perfeição, he precizo
-ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos
-dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide,
-medronho, vime, feto, ou de outras plantas, ou heruas, que não tenhão
-humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando
-sobem, ou quando cahem.
-
-Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme
-à capacidade do lugar, & os estenderàõ sobre folhas de papel muito
-limpas, no plano da mesma casinha.
-
-Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, &
-muitas vezes, de dia, & de noite, & jà naõ teram mais o cuidado de os
-alimpar, nem de os mudar.
-
-Mas sô lhe abriram as portas, & janellas nos dias de calma para os
-refrescar, & se se leuãtar algum vento frio, & desabrido, as tornaram a
-fechar para os defender das asperezas do tempo.
-
-Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se
-a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, & se ficarem muito
-poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar
-as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, & com o papel,
-deixando as taboas limpas, & os poram em outra casinha vazia sobre
-outro papel nouo, & limpo, & lhe daram outras folhas frescas como
-d’antes.
-
-Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior
-parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente
-se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, & o
-mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos.
-
-Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala
-vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que
-necessitam de ar fresco, & liure de toda a corrupção.
-
-Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de
-passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de
-cinco, ou seis dias, & quando se encolherem, & se fizerem vermelhos, os
-porâm em papeliços, para os ajudar a fiar.
-
-E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a
-quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão
-de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, & fragmẽtos da lenha,
-de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os
-casulos desta casta de bichos, para fazer semente, porque os que della
-sahirem, teràm a mesma falta, & quasi todos seràm curtos, & pequenos.
-
-
-
-
- CAPITVLO VIII.
-
- _Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha._
-
-
-No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que
-he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, & se cobre
-quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, & nos seguintes, vai
-espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, &
-juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes
-fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de
-comprimento.
-
-Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os
-casulos da lenha, & os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo
-mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais
-diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria
-hũa grande perda, para os que os criarão.
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- III. PARTE.
-
-
-
-
- CAPITVLO I.
-
- _Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, &
- conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ._
-
-
-Se os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande
-abũdancia da nouidade, nam tiuerem tempo, nem commodo, para tirar a
-seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ
-tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as
-quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas
-mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos
-nos seus casulos.
-
-Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao
-maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas
-mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm os casulos, & os
-cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais
-depressa.
-
-Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem
-os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que
-fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que
-nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada,
-tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho
-transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem, nem
-toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.
-
-Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno
-o que se hauia de fazer com o calor do Sol.
-
-Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum
-forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido,
-& se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os
-bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do
-forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm
-estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em
-cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, &
-os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de
-matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos
-dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos.
-
-Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para
-os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da
-humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo dentro delles
-por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica
-embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas
-vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.
-
-Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està
-a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para
-preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia
-torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou
-alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem os apertaraõ nos
-cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he
-preciso, para a extinçaõ dos bichos.
-
-
-
-
- CAPITVLO II.
-
- _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque
- ponham a semente._
-
-
-Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas,
-que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ
-os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de
-verdemar saõ os melhores.
-
-Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem
-casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.
-
-Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada
-casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo
-brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir,
-serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue
-para o nosso intento.
-
-Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ
-cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.
-
-Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por
-huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são
-rombos por ambas as partes.
-
-Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de
-parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer,
-que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como
-se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para
-duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a
-do que sò se vnir com huma.
-
-Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a
-seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem
-casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que
-os bichos sahião trãsformados em borboletas.
-
-As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres
-vezes maior.
-
-Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque
-baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não
-fazem.
-
-Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ
-delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou
-sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez
-serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as
-virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois
-apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente.
-
-Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia,
-quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião,
-prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.
-
-Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os
-tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para
-os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão,
-mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, &
-sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores,
-seriaõ muito bonspara este effeito.
-
-Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem
-como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor
-de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da
-mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos,
-& estes não prestão para nada.
-
-De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção
-mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem
-dentro de si, & com elles morrem.
-
-Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas,
-grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem
-aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos
-mesmos bichos viuos.
-
-Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, &
-enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; &
-as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.
-
-Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de
-ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs
-inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas
-temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio
-congela os grãos, & a humidade os corrompe.
-
-Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os
-grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà
-em huma casa esta rica semente.
-
-Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa
-com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma
-vitella morta, na forma, que fica declarado no _Capitulo 6. da
-2. parte_ porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, &
-actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, &
-tudo acaba.
-
-
-
-
- CAPITVLO III.
-
- _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a
- seda._
-
-
-Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma roda, ou
-dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de
-Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às
-mais prouincias do Reyno.
-
-Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, &
-experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta
-materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, &
-apurar a industria das fiandeiras.
-
-O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o
-tacho nam ha de ser muito profundo, nem muito largo.
-
-A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez
-polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo,
-paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do
-tacho.
-
-Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer,
-porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede,
-quando està feruendo.
-
-Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser
-fina, ou forte; para a fitaria, a seda deue ser muito delgada, & outo
-fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios
-ao menos.
-
-Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ
-os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade.
-
-
-
-
- CAP. VLTIMO.
-
- _Do Barbilho, & do modo de o aparelhar._
-
-
-O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que
-chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu
-casulo.
-
-Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que
-se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar,
-& juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os
-desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.
-
-Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas
-he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este
-effeito, faraõ primeiro o que se segue.
-
-Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os
-bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a
-meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer
-outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias;
-cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se
-faça mais aluo.
-
-Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que
-os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.
-
-Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella
-clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.
-
-Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz
-tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os
-fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os
-fiar com mais facilidade.
-
-Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos
-tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura,
-outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.
-
-Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda,
-tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de
-mortos, aproueita.
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- AMPLISSIMIS FRATRIBVS
-
- D. D. FERDINANDO
- MASCARENIÆ.
- Comiti à Turre.
- ET
- D. D. FRANCISCO
- MASCARENIÆ.
- Comiti Cocolini.
-
-
-_Hactenus publicæ studui vtilitati, nunc vestræ seruire cupio
-oblectationi; cũ emim his quisque rebus delectetur, quibus quodam
-natura ductu incumbit, quid jucundius afficiat liber ali ingenio
-juuenes, quam fructus artium liberalium? O pes, auitum stemma,
-generosus sanguis, & Aulæ oblectamenta, vobis sunt post studia, omnes
-quippe animi affectus, vni voluistis fieri sapientiæ vectigales.
-Percurrendo amænioris litteraturæ curriculo, vix Ætas alijs integra
-sufficit, vestra vobis satis fuit Adolescentia; cum Musis versamini,
-vt sororibus, cum Apolline loquimini, vt fratre; & dum alter alterum
-eruditâ contẽtione transcendere studetis, domus vestræ fiunt, domicilia
-doctrinarũ, scientiarũ Augustalia, & bipartitum Vlyssiponis Athenæum._
-
-_Quibus attentè perspectis, vt aliquid libellus hic complecteretur,
-quod ad vestrum palatum faceret, perneceßariũ esse arbitratus sum,
-vt quæ de Mororum cultura, & Bombicum educatione, sparsi in vulgus,
-plebeio sermone, humilique stylo, eadem vobis nobiliore dicendi
-charactere depicta sisterem._
-
-_Mirabimini prudẽtiam in Moro, in Bombice industriam, & in vtroque,
-recondita naturæ solerter operantis arcana._
-
-_Quid moro sapientius? Arborũ postrema germinat morus, vt fructificet
-securior, fœtusq; suos haud euocat in lucem, nisi extorri hyeme,
-exanimis Aquilonibus, & prouecto jam vere._
-
-_Quid industrius Bombice? vno Bombix instrumento, ore scilicet, innatum
-sericum deducit in fila, carminat in lanugines, contorquet in mæandros,
-congerit in stamina. cogit in glomos; describit orbes sine circino,
-sine penicillo colores inducit, & sine vllo aduentitio apparatu,
-domunculam instruit, Cæsarum Palatijs splendidiorem._
-
-_Tanti tamen, & tam strenui Artificis opera omnia sunt posthuma, haud e
-nim e a absoluit, nisi sepultus; verùm, quia (vt dici solet) excellens
-in arte non debet mori, prodit é pensili tumulo rediuiuus, ipsi
-inuidendus Phœnici; nam ex reptanti Eruca, alatus Papilio, nobilior
-resurgit, quàm vixerat._
-
-_In Moro, & Bombice, natura fortunam imitatur, summa imis, & ima summis
-miscentem; Morus, Abor regia, fit vermiculi pabulum; Bombix, ignobilis
-vermiculus, ejectamentis suis Reges vestit._
-
-_Vitam exorditur Bombix cum vere, vt parentur homini elagantia
-indumenta, dum se terra circumtegit florenti chlamyde._
-
-_Editus in lucem, solis pascitur frondibus arboris, cui adscribitur
-sapientia, in hoc Adamo prudentior, quod Arboris sapientiæ folia
-comedit, integro, intactoq; fructu. Operosissimus Bombix, propria in
-pelle non quiescit, paucis enim diebus quater ponit exuuias, abjicitque
-pellem, vt exuat torpẽtem desidiâ senectam._
-
-_Omni tamen labore supersedet, ceditque vitâ, si fortè, sonus ingens
-obtuderit operãtem, debetur enim & opifici silentium, & operi
-admiratio, resque ipsa postulat, vt ad Bombicis ingeniosa molimina,
-orbis attonitus immutescat._
-
-_Non ideò sordidus Bõbix, quia vermis, nam seruat vrbes ab otij tabe,
-innumeras exercens operas, Regnaque sine hoc verme sunt cadauera, vt
-pote nuda, quia sine ornatu; exanguia, quia sine diuitijs, emedullata,
-quia sine viribus; vires quippe Regnorum ex diuitijs existunt,
-ingentes verò diuitias affert Bombix eximijs suis operibus, & filis
-auricoloribus auream suis alumnis retexit ætatem._
-
-_Quod alij vermes eripiunt mortuis, viuis reponit hic vermis, &
-corrosarum in sepulchro vestium damna resarcit, nouis, pretiosisque
-textis._
-
-_Quid plura? totum se Bombix exhaurit, vt hominem ditet, viscerumque
-suorum Clotho, tenuissima ducit fila, vt vitam protrahat in Reipublicæ
-beneficium. Hæc ego: Reliqua à magistri mei calamo, cũ Poeticen
-doceret in Collegio Flexiensi: Secundis auribus accipite, quæ Gallus
-hic Olor cecinit de mori, Bombicis que natura; dudũ est, quod hæc
-carmina diem aspexere, sed nunc verè proferuntur ad lucem, quia ad
-vos. Enim verô, omnia in vobis, pulchrâ quadam, & vnanimi æmulatione
-collucent, natalium splendor, jubar Sapiẽtiæ, fulgor ingenij, fulgetra
-eruditionis, & irradiantium ornamenta virtutum._
-
-_Omnes denique lucis fontes in vos deriuastis, vt Patri respondeatis,
-qui omnes in se colligit Heroas; imò omnibus antecellit, fortior
-Achille, Marte bellacior, sapientior Socrate, perspicacior Vlysse,
-Hercule laboriosior, facundior Mercurio, grauior Catone, & Apolline
-benignior._
-
-_Quapropter, mihi videmini illæ duæ stellæ, circa Solem de nouo
-deprehensæ, quæ à Mathematicis nũcupãtur, comes Solis, haud enim solùm
-estis, tituli dignitate Comites, & comites suauitate morũ, sed estis
-& comites solis, nam excellẽtissimum Fronteriæ Marchionem Parentem
-vestrũ, pleno gradu comitamini in stadio virtutis, & gloriæ._
-
-_Valete, & viuite paribus animis, & honoribus, quando quidem illam
-fælicitatem, quam Ethnicus Ausonius[14] vidit in syderibus illis
-germanis, Castore, & Polluce, adumbratam, in vobis re comprobatam omnes
-demiramur._
-
-
- Humillimus, & addictissimus feruus.
-
- D. RAPHAEL BLVTEAVIVS.
-
- Clericus Regularis Theatinus.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[14] Virtutis, & fortitudinis protendunt influxum. _Ausonius de Castor.
-& Pollu._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- LAVDES MORI,
-
- ET
-
- BOMBICIS.
-
-
- _Laus Mori._
-
- Romulidas, Myrtus[15] Paphia exornauit, ouantes;
- Pura triumphales decorauit Laurea Põpas:
- Prima dedit Quercus seruati præmia ciuis:
- Sumit Idumæam præpes victoria Palmam:
- Ast ea,[16] quȩ nutu superis dominatur & imis
- Fortunæ stolidas, quæ scit, contundere vires,
- Quæque adamantæi domitrix prudẽtia fati,
- Vnã ex Arboribus voluit sibi crescere morũ:
- Hãc amat, hâc cingit canẽtia tẽpora fronde,
- Vẽturi en agedum, secura, ignaraque corda,
- Prospicite, & dubiæ casus prænoscite sortis.
- Si pudor insanis, morus sapit, illa doloso
- Nil temerè credit zephyro, nam veris adulti
- Iam certum expectãs solẽ, nõ germinat ante
- Frigoris infesti, quam cuncta recesserit aura:
- Tum floretq; viretq; simul, longæq; repẽdit
- Dãna moræ, atq; vnâ totã se nocte profũdit.
- Viderat Æmoniâ nudam quam vesper ab[17] Oetâ,
- Proximus[18] Idæo de vertice cernit Eous
- Frondosã, & pariter grauidã, partuq; leuatã.
- Sic properat tenerũ germen, ne frigidus aer
- Manè coquat; medione die ne torreat ȩstus.
- Insidias cæli ne tunc vereare sereni
- Ampliùs, & vasto quæ cæca pericula Ponto:
- Vt bene subductam deducas nauita Pinum,
- Sint tibi[19] Vergiliȩ, videas cũ germina mori.
- Quin vbi dilectis cultoribus annua Poma
- Reddidit, hybernis ne frondibus incubet Auster,
- Aduerso pugnãs Boreæ, & certamine fratrũ,
- Collisi inter se frangantur in arbore rami,
- Sponte sua capitis sacri deponit honorem.
- Vtque minus fiat sæuis obnoxia ventis
- Iratique Iouis telo, fugit ardua, Morus,
- Morus in antiquis arbor gratissima lucis.
- Ad Lunæ radios hâc ludunt sæpe sub vmbra
- Cõsertȩ Satyris Nymphȩ, plaudũtq; choreas,
- Sæpe legit fœtus[20] Ægle formosa caducos,
- Ebria[21] Sileno queis sublinat ora jacenti.
- Poma gerit morus triplici distincta colore,
- Nã paribus spatijs albẽtq; rubentq; nigrẽtq;
- At color ille parum lætus, qui fructibus ater,
- Omina sanguineis nec sunt nisi tristia moris;
- Quid te nigra mouent? niger est[22] Phæbeius oscen,
- Nec tamen augurio quicquam fælicius illo,
- Solis vbi nitido veniens spectatur ab ortu.
- Astrorũ & somnimater, nox alma, quadrigis
- Inuehitur nigris: ebeno tumet India nigro:
- Laudamus nigros oculos, nigrumq; capillũ,
- Ac nigras violas,[23] fului editus imbre metalli
- Deperijt nigros Cepheæ Virginis artus.
- Quod vero funesta putãt de sanguine mora,
- In vulgum has sparsit[24] Babylonia fabula nugas;
- Dat meritas igitur pænas & pẽdet Arachne,
- Inuisique operis casso est addicta labori;
- Non quod Palladiæ cõtenderit ȩmula telæ,
- Mortalisq; Deam justas stimularit in iras,
- Sed potius geminæ quod per mẽdacia cædis
- Inuidiâ morũ, miserosq; onerauit Amores,
- Assyrio tingens lugentia poma cruore.
- Adde quod & nostris Regionibus alba leguntur,
- Antiquis ignara Italis, cæloque latino.
- Iam nec Pæoniæ, jam nec succus Panaceæ
- Dictamniq; feris, notissima gramina, capris,
- Iudice me, moris certare salubribus ausint.
- Nec mihi[25] Moly tuum referas, herbamq; potentem
- Capte oculis vates; à Moris plura petuntur
- Prȩsidia, & plures illis natura creatrix
- Vi quadam occultâ cõcessit pellere morbos.
- His ideò[26] Catius finiri prandia jussit,
- Cecropio Catius sapientũ primus in horto;
- Inde fit ad noxas ægri prope corporis õnes
- Panchrestos,[27] vero perhibent vt nomine Graij.
- Mororum infuso coalescunt vulnera succo:
- Auribus, atque ori prodest, aluoq; moranti,
- Languentemque leuat stomachũ, capitisque dolorem.
- Discutit & veteres panos, & tormina sedat.
- Vipereo est hostis generi, tetrisque venenis,
- Thessala, quæ tellus, quæque in mala pocula gignit,
- Vncta prometheo cautes mæotica tabo.
- Arboris ejusdem folijs medicabere tritis
- Artubus ambustis, & diri morsibus hydri.
- Saucius hoc nosset[28] magni præceptor Achillis,
- Nõ Deus optasset lethum, nec Lemnia tanto
- Saxa fatigasset gemitu[29] Pæantius heros.
- Hirsuto hinc alitur spectãdus corpore Bombyx;
- Nascũnturq; domi, quæ quõdã à littore rubro
- Mollia distincti mittebant vellera seres.
- Radicis sileo varios, & corticis vsus,
- Morborũ auxilijs hæc tota est nobilis Arbor,
- Mæonijsque cani non dignior vlla camænis.
-
-
-_Laus Bombicis._
-
- Qvò me Phœbe, rapis? quas hinc sublatus in auras,
- Aera per liquidũ, rapidis circumuehor alis?
- Vos ne adeo[30] Serum intueor mollissima Regna
- Lanificos cõplexa greges, agnosco parẽtem
- Bombycemq; sinu recubantẽ molliter albo.
- Te quoque,[31] quam memorant primã euoluisse nitentes
- Folliculos, vnde in paruæ collecta figuram
- Alitis, ignotas pennâ trepidante per auras
- Tinea carpsit iter, dulcesq; animãte susurros
- Ore, poli lætis resonarunt æquora bombis.
- Ten igitur vermis video nutricula,[32] Thisbe,
- Errantẽue sinu placidè amplexaris alunum,
- Scilicet, hũc morus ramo frõdente tenellum
- Excipit, & claras magnũ trãsmittit ad Artes.
- Namque vbi ter pigro renouauit corpora somno,
- Iam senium increpitans, & pleni pondera ventris,
- Continuò, tanta est edendi gloria fili,
- Exercetur, & effundit quæsita per Æuum
- Stamina, ditis opes vteri, suspensaq; densos
- Fila regens inter ramos, atque ordine ducẽs,
- Mille legit, relegitque vias, & circinat orbes
- Sponte sua donec niueo se carcere claudat.
- Mox autem interior circũ vndique stamina densat,
- Albentiq; Thoro immoriens glomeratur in ouum.
- Sed neq; tũ tineȩ vllus honos, aut gloria filo,
- Pãphila ni modicos Bõbicũ euoluere folles,
- Aut aperire caui docuisset tegmina linthei.
- En etiã digitis prætentat mollibus oram
- Educitque globo, lucisque emittit in auras
- Rursus aui similem, sed te ne subdola captet
- Et dulcem pullis Philomela immitibus escã,
- Auferat, Ah vereor! melius cõcluse latebis,
- Hanc sine necquiquam modulis, crispoque susurro
- Blãdiri, & tenues disperdere carmẽ in auras,
- Ni facias, rostro implebit crudelior alui
- Ingluuiẽ, ac viuo viua abdet corpora busto.
- Cætera quinetiam volucrũ lætissima turba
- Gaudet in incautos vermes inuadere, sedDij
- Dij prohibete nefas, recreet mage carmine dulci,
- Vnguibus abstineat. Niueo jam plurima surgunt
- Bombici tabulata, gradus aulæque per altos
- Mille. Prius pubes stabulãtem rustica ramis
- In nemora alta videns errare, ignara silebat,
- Hic vbi nascenti Seres dominantur Eoo,
- Deterior donec paulatim & de color, artes
- Extudit, & duros homines emollijt ætas;
- Fortunate nimis, diuũq; hominũq; superba
- Gloria, centeno reparans tua funera fœtu;
- Viue sacris Bombix decus admirabile Templis,
- Viue ducũ, Regumq; augustis addite pallis,
- Nec tua lanigeræ superabunt fila bidentes
- Tergoribus niueis, quãuis sua vellera laudet
- Hispalis, & magno Tyrios incocta rubores
- Mutaris[33] Milete, olim tibi[34] Phrixea cedẽt,
- Tu quoque ne[35] Biturix contra tua mollia jactes
- Vellera, nec facies, etenim jam vilia sordent.
-
- [Illustração]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[15] Myrtus Paphia, quia Veneri sacra, Venus autem in vrbe Paphia,
-celeberrimo in Templo colebatur.
-
-[16] Morus quippe est sapientiæ symbolum, non enim ante germinat, quam
-frigus penitus fugatum esse cognouerit, & fætum celerrimè grandit ac
-maturat, ne caloris aduentantis injuriâ lædi possit.
-
-[17] Oeta Æmonia, siue Thessalica, est enim mons Thessaliȩ in Græcia,
-in quo monte, vt inquit Seruius, stellæ videntur occidere.
-
-[18] Sicut de monte Ida nasci.
-
-[19] Vergiliæ seu Pleiades, sunt septẽ stellȩ ante genua Tauri quæ ortu
-suo primæ nauigationis tempus ostendunt.
-
-[20] Ægle fuit Nympha hoc nomine, vna Naiadum.
-
-[21] Sileno, id est Bacchi nutritio, quem in antro jacentem pueri
-deridebant.
-
-[22] Aquila Ioui Sacra.
-
-[23] Perseus, Iouis filius, ex Danae, quam Iupiter commutatus in
-speciem aurei imbris vitiauit. Hic Andromedam, Cephei, Regis Æthiopum,
-filiam, vxorem duxir.
-
-[24] Pyramus, adolescens Babylonius, mutuo Thisbes amore captus, vbi
-ejus domo ex pacto egressæ, cruentatã reperit vestem, ratus esse
-deuoratam, gladio se sub moro interfecit; illa autem superueniens,
-multa gemens & querens, eidem gladio incubuit. Morus autem fructus
-antea candidos in nigrum colorem mutauit.
-
-[25] Moly est herba Homeri carmine celeberrima.
-
-[26] Cato inter Grȩcos sapientissimus scripsit librum de re rustica.
-
-[27] Medicamentum quod ad omnes morbos conducit.
-
-[28] Chiron, Achillis Pædagogus, in medicina peritissimus, sagittâ
-hydræ lerneæ veneno imbutà vulneratus, durissimis cruciatibus
-conficiebatur morique optabat, sed non poterat, quod vtroque parente
-immortali natus fuisset.
-
-[29] Vulcanus Iouis filius è cælo deturbatus in lemnum Insulam.
-
-[30] Seres sunt populi Scythiæ Asiaticæ à Sera vrbe dicti, apud quos
-arbores lanam tenuissimam, ex qua vestimenta serica fiebant, proferre
-creditæ sunt, quia vermes eandem lanuginem producentes nutrierunt.
-
-[31] Pamphila, Coa mulier, quæ prima telas Bombicum rediri, rursusque
-texere inuenit.
-
-[32] Thisbe, id est morus, quia hæc arbor fuit conscia amorum Thisbes.
-
-[33] Miletus, Ciuitas Asiȩ, vbi tingebantur lanæ pretiosissimæ.
-
-[34] Vellus aureum quod Phrixus in Templo suspendit.
-
-[35] Biturix, Ciuitas Galliæ Aquitanicȩ.
-
-
-
-
- ERRATAS. EMMENDAS.
-
-
- Pag. Reg.
- 12. 11. & que
- 14. 2. Outoubro Outubro.
- 27. vltim. infali,uel infaliuel
- 56. vltim. po do
- 69. 3. com elle como elle,
- 118. 2. â inteira a inteira
- 129. 1. ajudas ajuda.
- 214. vltim. sepulus sepultus
- 219. 15. comites comes
- 221. 6. contendere contundere
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- Instrvcçam Sobre a Cvltvra Das Amoreiras, &amp; Criação Dos Bichos Da Seda por Rafael Blvteav—A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Instrucçam sobre a cultura das amoreiras, &amp; criaçaõ dos bichos da seda</span>, by Rafael Bluteau</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Instrucçam sobre a cultura das amoreiras, &amp; criaçaõ dos bichos da seda</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>dirigida a conservaçaõ, &amp; augmento das manufacturas da seda, estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro Governador, e Regente... d</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Rafael Bluteau</p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Contributor: João da Costa</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: December 21, 2022 [eBook #69596]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA DAS AMOREIRAS, &AMP; CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA</span> ***</div>
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p>
-
-
-<h1><span class="big">INSTRVCÇAM</span><br>
-SOBRE A CVLTVRA<br>
-<span class="small">das Amoreiras, &amp; criaçaõ dos Bichos da seda,</span></h1>
-<p class="center"><span class="big">
-<i>DIRIGIDA</i></span>
-<br>
-A conseruaçaõ, &amp; augmento das manufacturas<br>
-da seda,<br>
-</p>
-<p class="center"><span class="big">
-<i>ESTABELECIDAS</i></span><br>
-<br>
-Pelo muito alto, &amp; poderoso Principe<br>
-<span class="big">DOM PEDRO</span><br>
-GOVERNADOR, E REGENTE<br>
-dos Reinos de Portugal,<br>
-</p>
-<p class="center">
-<i>E commetidas á direcçaõ</i><br>
-<br>
-<span class="big">DE D. LVIS DE MENEZES</span><br>
-Conde da Eiriceira, &amp; Veedor da fazenda Real,<br>
-<br>
-<span class="big">Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV,</span><br>
-Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,
-Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade
-da Raynha Mãy de Inglaterra, &amp; Calificador
-do S. Officio no Reino de Portugal.<br>
-</p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img000">
-<img src="images/000.jpg" class="w10" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<p class="center">
-EM LISBOA.<br>
-Na Officina de Ioam da Costa.<br>
-<span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span><span class="small">Com todas as litenças necetiarias. 1679.</span><br>
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
-<img src="images/001.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-
-<h2>
-AO<br>
-<span class="big">PRINCIPE</span><br>
-NOSSO SENHOR.<br>
-<span class="big">SENHOR.</span><br>
-</h2>
-
-
-</div>
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Sigo</span> o discreto dictame de Parisatis<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> Rainha de Persia, que
-costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com
-palauras de seda.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p>
-
-<p><i>Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com
-que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste
-liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da
-seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque
-de todas as vtilidades, que a industria &amp; trabalho dos homens, pode
-grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, &amp; à criaçaõ
-destes insectos.</i></p>
-
-<p><i>Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza,
-&amp; a Arte, a natureza nas<span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span> Minas, &amp; a Arte nas Manufacturas, com esta
-differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza,
-naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, &amp; trabalhos, com que
-se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, &amp; se perturba
-o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem
-os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com
-muito menòr gasto &amp; trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio
-das Artes se procurão, &amp; sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas
-as<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> Artes, muito deue Portugal ao cuidado, &amp; generosa liberalidade,
-com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como
-aduirtio<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo
-modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ
-as Artes com a munificencia dos Princepes.</i></p>
-
-<p><i>Em todas as historias, antigas, &amp; modernas, celebra a fama o
-zelo, cõ que os Reys, &amp; os Emperadores solicitàrão a introducção<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span>
-das sciencias, &amp; das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a
-conseruaçaõ, &amp; augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ
-perfeito, como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia
-para o estabelecimento desta Arte taõ nobre, &amp; tão vtil ao Reino; quãto
-mais que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos
-olhos os exẽplos dos maiores Potentados da Asia &amp; da Europa.</i></p>
-
-<p><i>A cultura, &amp; criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa
-atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous<span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span> Mõges<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a>
-vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente
-dos bichos, &amp; mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, &amp;
-quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as
-Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de
-dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> casulo, que forma de si mesmo,
-architecto, &amp; hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis,
-sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè
-se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera.</i></p>
-
-<p><i>Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia,
-pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais
-Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha
-naquelle tempo perdida a antiga policia, &amp; França, &amp; Hespanha estauão
-padecendo as<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span> rusticas oppressoẽs do mesmo jugo.</i></p>
-
-<p><i>Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos
-della, os mais polidos, &amp; melhor gouernados, a saber a China, &amp; a
-Persia, deuião jà então, &amp; deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à
-criação dos bichos, &amp; à Arte da seda.</i></p>
-
-<p><i>Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, &amp; da China
-se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China
-a troco da seda, &amp; hoje passa huma grande parte da prata do Potossí
-pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas,<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> que delle
-nauegão os Castelhanos à America.</i></p>
-
-<p><i>A Persia, mete na India a troco de prata, &amp; ouro, Cafilas
-riquissimas de seda, &amp; por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes,
-Cafilas de seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, &amp;
-Esmirna nas muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores
-Imperios da Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura.</i></p>
-
-<p><i>Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais
-Prouincias que dominarão, à Scitia, &amp; a toda a Asia menor;<span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span> por elles
-passou a Hespanha, &amp; se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda,
-que se conhecia em Europa, &amp; elles leuarão esta cultura a Sicilia,
-aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, &amp; dali se
-cõmunicou a toda Italia.</i></p>
-
-<p><i>Em Sicilia, &amp; principalmente em Messina, se cultiua com tanta
-abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em
-rama, mais de hum milhão &amp; meio de patacas todos os annos, &amp; assim a
-nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, &amp; outras
-muitas de<span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span> Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque
-assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, &amp; ao
-recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor
-despeza, &amp; trabalho, &amp; cõ lucro incõparauelmẽte maior.</i></p>
-
-<p><i>Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de
-cõseguida a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse
-huma junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro
-na cultura das Amoreiras, &amp; logo na criação dos bichos, as palauras do
-decreto com que<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são
-as seguintes.</i> El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção
-das sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio
-para euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs
-de ouro a terras estrangeiras para a compra das sedas, &amp; por ser
-conueniente esta introducção ao decoro publico, à occupação, &amp; riqueza
-dos pouos do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, &amp; ver as
-experiencias, &amp; conhecer por estas a facilidade, &amp; vtilidade que virà a
-nossos subditos, &amp;c.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p>
-
-<p><i>França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por
-hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua
-riqueza; &amp; suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda,
-he o trato cõmum, &amp; a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc,
-Prouença, &amp; Delfinado, &amp; da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias,
-creceo o numero da gente, &amp; as Cidades dobrarão o numero das casas, &amp;
-dos habitadores, &amp; se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das
-sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span> Italia, &amp;
-Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por
-toda Europa.</i></p>
-
-<p><i>A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura,
-&amp; hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, &amp; para muitas
-fabricas, que tem de excelentes veludos, &amp; damascos.</i></p>
-
-<p><i>Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa
-semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, &amp; o
-mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de
-Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p>
-
-<p><i>A producção das amoreiras, &amp; a criação dos bichos da seda, hão
-mister clima temperado, &amp; daqui nace, que entre os Tropicos, &amp; fora de
-45. graos ao Norte se não faz esta criação, &amp; se em algumas partes se
-fas; he com grande trabalho, &amp; com pouco fruto. Depois de 25. graos
-até 45. se dâ com abundancia esta producção, &amp; daqui vem a abundancia
-da Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da
-China na Prouincia de Nanchim, &amp; nas mais que correm de 25. até 45.
-ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span> meio das
-duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, &amp; da
-calma de 25. são as mais benignas, &amp; as mais abundantes na criação dos
-bichos.</i></p>
-
-<p><i>Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està
-situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, &amp; Murcia, de
-Messina, &amp; Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, &amp; da Prouincia de
-Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a
-seda, &amp; com menos cuidado, &amp; trabalho, se dão, &amp; se crião os bichos,
-dõde se segue, que produzir à Portugal<span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span> com abundancia esta excellente
-materia.</i></p>
-
-<p><i>Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na
-Prouincia de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais
-setentrional deste Reino, &amp; daqui se pode colher, o que serà, nas
-Prouincias mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo,
-Algarue, &amp; Estremadura, &amp; jà de dous annos a esta parte se tem
-experimentado esta verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno,
-&amp; tẽperado Ceo, que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem
-tirado dos bichos,<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> que se criarão nas casas, em que se deu principio
-âs manufacturas, he mais forte, mais fina, &amp; rende mais, que a melhor
-seda de Italia.</i></p>
-
-<p><i>Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em
-abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca,
-porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas
-terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria;
-&amp; se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar
-as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, &amp; Esmirna,
-achando<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como
-pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, &amp;
-seis mezes menos, &amp; menos gasto de conboys, &amp; riscos de Piratas, &amp;
-terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, &amp; fazendas que meterem
-nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs
-de si, antes de cultiuar, &amp; laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens
-pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si,
-a quarta parte da que ha mister<span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span> para as suas manufacturas.</i></p>
-
-<p><i>A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de
-contrariedades, &amp; sendo as manufacturas da seda vteis a todos os
-Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas
-manufacturas.</i></p>
-
-<p><i>A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios
-fantasmas da propria conueniẽcia, &amp; do mesmo modo que cada Planeta luz
-com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão
-luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque
-as cores que<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span> se vem no ar, não sempre são intrinsecas, &amp; verdadeiras,
-mas sô superficiaes, &amp; apparentes, aos olhos dos mais perspicazes
-Ministros de V. A. parecerão aereas, &amp; fantasticas as cores, com que
-estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus
-argumentos.</i></p>
-
-<p><i>A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose
-neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento
-das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros,
-infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> manîfesta
-destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua
-entrada, &amp; sahida do açucar, &amp; do tabaco.</i></p>
-
-<p><i>Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey
-Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas
-em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa
-ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, &amp; Holandezes não
-virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos
-os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a
-futilidade desta<span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span> objecção, porque no tempo que a tranquilidade da
-paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, &amp;
-Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, &amp; trigos
-de França.</i></p>
-
-<p><i>A indigencia, &amp; a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, &amp;
-sociedade humana, &amp; foi effeito da diuina<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Prouidencia, que algũas
-terras careceßem dos mãtimẽtos, &amp; regalos, de que outras<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> abundaõ,
-paraque com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais
-remotas Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa
-com o Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar,
-que he o mais delicioso mimo da terra, &amp; austerse do tabaco, que he o
-mais attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos
-ares, &amp; sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de
-produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ
-em algumas partes do Reino de Sìcilia,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> &amp; em taõ pequena cantidade, que
-naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia.</i></p>
-
-<p><i>O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao
-do Brazil na quantidade, &amp; qualidade, &amp; porque em todos os Emporios do
-mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar
-do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia,
-verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste
-seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar
-do Brazil he infaliuel mas que tambẽ<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> he certissimo o lucro desta
-venda.</i><a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p>
-
-<p><i>Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo
-de alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, &amp;
-he que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das
-sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da
-folha.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></p>
-
-<p><i>Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos
-que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino,
-dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey
-de Castella, &amp; se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de
-amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de
-seda, que os direitos da que se fabricar no Reino &amp; suas conquistas,
-com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa
-excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de
-todos<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> os direitos da alfandega.</i></p>
-
-<p><i>Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura
-prudencia, &amp; porque os bons principios saõ o presagio das venturas
-que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a
-publica vtilidade dos futuros progreßos.</i></p>
-
-<p><i>A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, &amp; regula os
-orbes da sua Monarquia, agradece esta era, &amp; successiuamente agradecerà
-a Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação.</i></p>
-
-<p><i>Huma das maiores felicidades<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> de hum Reino, he que o Rei se
-enriqueça sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda;
-procura V. A. este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos,
-&amp; quererá o Ceo, que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em
-realidade, as ditas, que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu
-seculo dourado.</i></p>
-
-<p><i>Assim o espero, &amp; peço a V. A. queira aceitar com agrado este
-pequeno trabalho, que entre os estudos mais serios, &amp; proprios da minha
-profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que
-teria de ver esta materia praticada<span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span> em lingoa Portugueza, pella grande
-vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo,
-com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A.
-outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que
-neste liurinho se encerrão.</i></p>
-
-<p><i>Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de
-Constantinopla os prodigiosos segredos da natureza na criação dos
-bichos da seda, fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de
-presente,<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> prometendolhe outras maiores para o futuro, &amp; para<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> mim as
-maiores, que podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua
-beneuolencia, &amp; protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que
-estrangeiro no sãgue, sou Portuguez no amor, &amp; se a Inglaterra deuo o
-nacimẽto, a França a criaçam, &amp; a Italia, o habito, da sagrada Religiam
-que professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares
-beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento,<span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span> de sejo de
-vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, &amp; no obsequio.
-Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, &amp;
-todas os seus vassallos desejamos.</i></p>
-
-
-<p class="right">
-De V. A. o menor Capellaõ, &amp; Orador.<br>
-<br>
-<span class="smcap">D. Rafael Blvteav.</span><br>
-Clerigo Regular da diuina Prouidencia.<br>
-</p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Parisatis mãy de Cyro, Rey de Persia.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Vt fruges sub grata aëris temperie proficiunt; sic
-scientiæ, &amp; artes sub dominantium liberalitate, honorificentia,
-benignitate. <i>Plutarch lib. 2. de virtute, &amp; fortuna Alexandri.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Telȩ sericȩ ætate Iustiniani Imperatoris cȩptȩ, quæ priùs
-à Persicis mercatoribus tantùm deferebantur, cum ignorarent quomodo
-fierent, nec scirent fila esse vermium. Cæterùm originem illius duo
-Monachi ex India Byzantium profecti, declararunt, fœtumque illorum
-vermium, oua nimirũ peregrina attulerunt, &amp; in fimo collocata in vermes
-transformarũt, &amp; mori folijs aluerũt, indeque naturâ magistrâ ipsis
-filnm reddentibus, sericum confecerunt. <i>Zonaras 3. Annal. tom. 3. p.
-95.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Effecit Deus, vt alter alteriûs indigeremus, vt sic nos
-quoque conjungeret; quoniam amicitias maximas facit vsus, &amp; indigentia,
-propterea nec omnia vbique gigni permisit, vt inde etiam cogeret
-permisceri, <i>Chrisost. hom. 34. in 1. ad Corinth.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Ex ea merce negotiatores, vel maximum capiunt emolumentnm,
-siquidem nauibus quotannis in Europam euecta, certissimo compendio
-longè, latéque diu enditur.</p>
-
-<p><i>Maffæus in libro secundo historiarum Indicarum, mihi pag. 68.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> Eos Monacos Iustinianus, in præsentia, muneribus; de
-cætero magnis pollicitationibus ad illud præstandum confirmauit.
-<i>Procopius Cæsariensis, &amp; ex eo Zonaras 3. Annalium tom. 3.</i></p>
-
-</div>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002">
-<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="LICENCAS">LICENÇAS.</h2>
-</div>
-
-
-<p>Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ,
-vimos este Liuro intitulado: <i>Instrucção sobre a cultura das
-amoreiras, &amp; criação dos bichos da seda</i>, composto pello P. D.
-Rafael Bluteau, Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia,
-Calificador do S. Officio, &amp; muito conhecido nesta Corte, por seu
-singular engenho, &amp; admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos
-della, &amp; não achamos contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, &amp;
-bons costumes. He pequeno o Liuro na materia, pello que trata de hum
-bichinho, não conhecido de muitos, &amp; pouco estimado de quasi todos, &amp;
-he muito grande na calidade, porque a se obseruarẽ bem os documẽtos,
-que dà o Author, he certo resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que
-por falta das manufacturas se vè taõ exhausto, &amp; diminuido de dinheiro,
-com gèral dor de todos os zelosos do seu acrecentamento; &amp; quando a
-obra por si só naõ fora de tanta estimação, o seria pella elegancia com
-que o Author a escreue, com clareza, verdade, &amp; compendiosas regras,
-&amp; nam duuidamos, que o particular gosto, com que a lemos, abranja
-a todos os que a lerem, &amp; assim nos parece muito digna de se dar à
-estampa, para que o Reyno logre as prosperidades, que ella lhe promete,
-&amp; o Autor o nome de zeloso, &amp; amante do Reyno de Portugal, que he o
-de que mais se preza, &amp; com que em parte lhe quer pagar os aplausos,
-&amp; affecto, com que o ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina
-Prouidencia aos 28. dias do mez de Março de 1679 annos.</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><i>D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina
-Prouidencia, Doutor na sagrada Theologia.</i></p>
-
-<p><i>D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia,
-Doutor na sagrada Theologia.</i></p>
-</div>
-
-<hr class="tb">
-<p class="center"><i>Consultores Clericorum Regularium.</i></p>
-
-<p>Hoc opus inscriptum (<i>Instrucção sobre a cultura das amoreiras,
-&amp; criação dos bichos da seda</i>) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo.
-nostræ Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, &amp; juxta
-assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur,
-quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes
-litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis
-sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678.</p>
-
-<div class="blockquot"><p class="p0">
-<i>D. Leonardus Duardus Consultor C. R.</i><br>
-<i>D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R.</i><br>
-<i>D. Michael Pignatellus Consultor C. R.</i><br>
-</p>
-
-
-
-<p class="right"><i>D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius.</i></p>
-</div>
-
-<hr class="tb">
-
-<p>Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a
-<i>Instrucção sobre a cultura das amoreiras, &amp; criação dos bichos da
-seda</i>, que cõpoz o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo
-Regular Theatino da Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de
-Inglaterra, &amp; Qualificador do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ
-conhecido, que naõ só nas Naçoens estrangeiras, como he para elle
-a nossa, mas até na propria patria he celebrado seu talento, por
-peregrino; naõ contẽ o Tratado cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou
-bons costumes; antes cõ elle seu Author, não só instrue, mas anima as
-almas cõ muitos documentos para a virtude, &amp; aos Portuguezes cõ muitas
-liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ porque ainda que este estiuera por
-hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ bichinho, pode a industria humana
-ajudada da Prouidencia Diuina, não sô sustentar, mas enriquecer a
-Monarchia, cõ o que ficarà immortal seu nome na nossa memoria, pois
-nũca dirà Portugal de seu engenho, o que disse da arte do bicho da
-seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus Epigramas: <i>Epigram 178.</i></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 3em;"><i>Fila mei fati duco, necemque neo.</i></span><br>
-</p>
-
-<p>Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678.</p>
-
-<p class="right">
-<i>O Doutor Fr. Gregorio de Iesus.</i><br>
-</p>
-
-<hr class="tb">
-
-<p>Vista a informação, podese imprimir a <i>Instrucção sobre a cultura das
-amoreiras, &amp; criação dos bichos da seda</i>, Author o P. D. Raphael
-Bluteau, &amp; impressa tornarà para se conferir, &amp; se dar licença, para
-correr, &amp; sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678.</p>
-<div class="blockquot">
-<p class="p0">
-<i>Manoel de Magalhaens de Menezes.</i><br>
-<i>Manoel Pimentel de Sousa.</i><br>
-<i>Manoel de Moura Manoel.</i><br>
-<i>Fr. Valerio de S. Raymundo.</i><br>
-</p>
-
-<hr class="tb">
-
-<p>Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678.</p>
-
-<p class="right">
-<i>Fr. C. Bispo de Martyria.</i><br>
-</p>
-<hr class="tb">
-
-<p class="center big">SENHOR.</p>
-
-<p>Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os
-argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ
-demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por
-origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra,
-no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da
-prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A.
-mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10.
-de 1679.</p>
-
-<p class="right">
-<i>Antonio Vellez Caldeira.</i><br>
-</p>
-
-<hr class="tb">
-
-<p>Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, &amp; Ordirio, &amp;
-depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar &amp; conferir, &amp; sem
-isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679.</p>
-
-<p class="right">
-<i>Marquez P.</i>&#160; &#160; <i>Roxas.</i>&#160; &#160; <i>Basto.</i>&#160; &#160; <i>Rego.</i><br>
-</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21.
-de Iunho de 1679.</p>
-
-<p class="right">
-<i>Fr. C. Bispo de Martyria.</i><br>
-</p>
-
-<p>Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.</p>
-
-<p class="right">
-<i>Magalhaens de Menezes.</i>&#160; &#160; <i>Roxas.</i>&#160; &#160; <i>Basto.</i>&#160; &#160; <i>Rego.</i><br>
-</p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002b">
-<img src="images/002.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="ADVERTENCIA"><span class="big">ADVERTENCIA</span><br><span class="small">AOS</span><br><span class="big">PORTVGVEZES</span></h2>
-</div>
-
-
-
-<p>As artes<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> liberaes, &amp; mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as
-bases das Republicas, &amp; as columnas<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> dos Imperios; humas se empenhão
-no sustento da vida, como a agricultura;<span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span> outras se armão contra as
-inuasoens dos inimigos, como a milicia; &amp; outras se desuelão para o
-descubrimento, &amp; conquista de terras estranhas, como a nautica; de
-donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria,
-&amp; felicidade, quãto maior he o numero, &amp; a perfeição das artes; que
-nellas se exercitão.</p>
-
-<p>Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso
-a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus
-Argonautas, &amp; Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens,<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> mas sempre
-se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em
-que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue
-ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, &amp; conhecendo-se
-cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios
-exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que
-escreue<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para
-que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio.
-Mas<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos
-genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della
-se occasiona hũa perpetua, &amp; quasi natural ociosidade no pouo, &amp; a
-ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.</p>
-
-<p>As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte
-chamão lanificas) saõ laã, linho, &amp; seda, mas deixando as primeiras
-duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, &amp; a mais
-misteriosa, he a arte da seda.</p>
-
-<p>A Nobreza desta arte serue de<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> estimulo à altiua inclinação dos Pouos;
-o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, &amp; os
-misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.</p>
-
-<p>Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação
-à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta
-em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està
-introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os
-senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, &amp; em<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> muitas
-cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras
-para adorno das suas cazas, &amp; das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias,
-&amp; das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, &amp; que cousa
-mais nobre, que a seda, que he o objecto, &amp; a materia, sobre que esta
-arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores,
-nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas
-vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos
-Monarchas nos Diademas; &amp; aos Pontifices, nas Tiaras.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p>
-
-<p>As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras;
-chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados,
-labirintos sem confusaõ, &amp; nas ondas dos chamalotes, mares sem
-tormentas, &amp; sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, &amp;
-para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o
-ornato dos Templos, &amp; dos Altares, &amp; o adorno dos mesmos Sanctuarios,
-retratos da gloria, &amp; hospicios da Diuindade.</p>
-
-<p>Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> da
-seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas
-amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça
-de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta
-em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho,
-ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo
-semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem
-campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação
-dos bichos, se podem occupar em tirar, &amp; dobar a seda, &amp; esta he<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> hũa
-occupaçaõ honesta, &amp; vtil, principalmente a muitas mulheres honradas,
-que em outros exercicios de maior trabalho, &amp; de menos proueito, gastão
-a vista, a saude, &amp; a vida. Nas Prouincias de Flandes,<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> se contaõ
-mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que
-lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com
-esta mesma<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas
-pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas
-manufacturas, &amp; crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, &amp;
-teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno,
-&amp; suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que
-poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se
-se occuparem neste exercicio.</p>
-
-<p>Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, &amp; todos
-os mais officios dependẽtes<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> das manufacturas, prometem aos pobres,
-a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, &amp;
-riquezas, porque muito mais facil, &amp; proueitosa he a cultura destas
-plantas, que a das oliueiras, &amp; larangeiras, em que muitas cazas
-de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque
-as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, &amp; as
-larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, &amp; hũas, &amp; outras
-estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa,
-ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente<span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span> para destruir as nouidades.
-Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, &amp; tam breue,
-que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se
-começar com ella, a criaçam de muitos bichos, &amp; a natureza lhe deu a
-propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe
-as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias
-onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As
-amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario
-occupar a melhor, nos mõtes, &amp; ainda entre as areas;<span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span> o publico
-pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França,
-&amp; Italia, &amp; os particulares podem cercar dellas as suas quintas, &amp;
-vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas,
-que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes
-dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, &amp; em algũas partes da banda
-d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco,
-seis, &amp; até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos,
-ao mesmo passo que crecerem, &amp; se cobrirem de folhas as amoreiras,<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span>
-nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil
-amoreiras, seràm muito maiores, &amp; mais certos, que os de hum oliual, ou
-laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente
-com a cultura das amoreiras, &amp; criaçam dos bichos, se farà a Nobreza
-mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, &amp; a ociosidade desterrada, se
-euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito
-que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà
-Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria,<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> &amp;
-todas seraõ admiradoras da sua opulencia.</p>
-
-<p>Nas maõs de Deos, os mais debeis, &amp; despreziueis sogeitos, saõ os
-artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que
-saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes,
-&amp; na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; &amp; se Deos
-antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, &amp; gafanhotos, pode o
-Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, &amp; com bichos,
-folhas de amoreiras, &amp; bichos de seda.</p>
-
-<p>Os bons Ministros dos Princepes,<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> saõ como as Aguias,<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> que da mais
-sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis
-de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em
-que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com
-perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda,
-nesta Corte apenas conhecido, &amp; com igual agudeza preuio os grandes
-emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, &amp; multiplicaçaõ<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span>
-desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em
-que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu
-ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as
-manufacturas, &amp; para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas,
-venceo tantas opposiçoens, &amp; se offereceo martyr do bem publico às
-penalidades de tantos, tam varios, &amp; taõ impertinentes cuidados, que
-pode seruir de exemplar ao zelo, &amp; amor da partia, de admiraçaõ à
-constãcia, &amp; de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se
-anticipa<span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span> a fama em applaudir as virtudes militares, &amp; politicas, com
-que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos
-merecido, &amp; se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ
-ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das
-suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, &amp;
-ineuitauel embaraço.</p>
-
-<p>Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue
-ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos
-soldados; tambẽ na prudente<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ
-os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto
-isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ
-do zelo, habilidade, &amp; desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto,
-solicitado, &amp; adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda,
-com taõ euidentes experiencias, &amp; cõ taõ felice successo, que toda esta
-Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de
-hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a
-terra em que<span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span> exercitaõ as suas virtudes, &amp; entre as muitas differenças
-que ha entre os homens, &amp; os animaes, hũa das principaes, he que os
-animaes achaõ a sua patria, &amp; os homens a escolhem; aquelles achão
-por patria a terra, em que nacẽ, &amp; estes escolhem por sua patria, a
-terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua
-fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por
-sua patria, &amp; està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa
-maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da
-nação Portugueza,<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span> que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que
-conheceo superior, ao seu poder.</p>
-
-<p>Cõ generosa, &amp; discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando
-du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, &amp;
-companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita
-virtude, &amp; prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do
-Reyno, &amp; Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, &amp; zelo do augmento
-do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento
-desta fabrica,<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span> não reparando ambos em contribuir largamente para ella
-com sua fazendas, para que a de S. A. &amp; dos seus vassallos se acrecente.</p>
-
-<p>De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus
-principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas,
-que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança
-nos hombros de tres Atlantes.</p>
-
-<p>As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, &amp; por
-debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> do
-bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he
-nouelo; nas dobadouras, he meada, &amp; assim crece a seda em quantidade, &amp;
-perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de
-hum pequeno mundo.</p>
-
-<p>Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como
-os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear
-de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares,
-em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, &amp;
-telas, breuemente<span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span> trabalharàõ outros cincoẽta, &amp; se correspõderẽ os
-progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal
-mais sedas, que lãas, &amp; os que agora julgaõ esta empresa impossiuel,
-ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do
-successo, &amp; a sua vtilidade, na importancia do proueito.</p>
-
-<p>Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de
-exercicio à nobreza, &amp; tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa
-mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte,
-he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos<span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span> de contemplação, &amp;
-admiração, à intelligencia dos Sabios.</p>
-
-<p>O nacimento, criaçam, &amp; vida dos bichos da seda, encerrão em si tão
-profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, &amp; por
-curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as
-Damas, os Philosofos, &amp; mais doutos Theologos do mundo.</p>
-
-<p>Os principaes artigos, &amp; misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia
-de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação
-do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> Magos, a
-transfiguração, a morte, &amp; Resurreiçãõ do Senhor.</p>
-
-<p>Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam.
-Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, &amp; partos da
-cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ,
-mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author
-da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o
-Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita?
-fia, tece, &amp; edifica, fia sem mãos, sem braços tece, &amp; sem algum
-instrumento,<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span> edifica o seu domicilio, &amp; se com a efficacia da sua
-palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz,
-&amp; sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da
-verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, &amp; jà que nas luzes dos
-Astros, &amp; nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes
-reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este
-bichinho basta.</p>
-
-<p>Adoramos a Deos, hum na essencia, &amp; trino nas pessoas; &amp; neste insecto
-admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza,<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span> porque o
-principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ
-de mostarda, do ouo nace hum bicho, &amp; do bicho hũa borboleta; de
-maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente
-distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se
-cõmunicão os suppositos, &amp; com tudo a substancia, &amp; os suppositos saõ
-physicamente a mesma essencia, &amp; esta essencia nos tres suppositos
-obra por differentes modos &amp; do mesmo modo, que nas pessoas diuinas,
-hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span> que
-cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a
-propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, &amp; na terceira,
-&amp; assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem
-o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo,
-se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em
-quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso
-insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho,
-as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo,<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span> porque o
-ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a
-borboleta, &amp; o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro,
-como o ouo.</p>
-
-<p>No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana,
-&amp; a diuina; &amp; no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque
-como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura
-a humildade do ser humano, &amp; no volatil, se simboliza a sublimidade do
-diuino.</p>
-
-<p>Por virtude do Espirito Santo,<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span> tomou o Verbo Eterno carne nas
-entranhas de huma Virgem; &amp; a semente dos bichos se anima, ou com o
-calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.</p>
-
-<p>Christo entre palhas naceo, &amp; o bicho da seda entre folhas nace; naceo
-o Senhor no mais profũdo silencio da noite, &amp; o bicho da seda no
-silencio viue, &amp; com os estrondos, morre.</p>
-
-<p>No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, &amp; saõ sabios os Reys,
-que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo
-se transfigurou,<span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span> &amp; ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem
-o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue
-na aluura.</p>
-
-<p>O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, &amp; o bicho
-da seda, que a todos dà de vestir, viue, &amp; morre nù, retratto da
-paciencia, &amp; da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, &amp; no sepulcro,
-deixou as mortalhas, &amp; o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua
-sepultado, &amp; nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, &amp; trofeos
-da immortalidade. Mas he tempo que acabe,<span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span> &amp; acabo aduirtindo aos
-discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, &amp; em
-cada jeroglifico, se significa hũa virtude.</p>
-
-<p>Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida,
-&amp; morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia,
-&amp; o desengano das vaidades do mundo.</p>
-
-<p>Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para
-vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas
-entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> as
-injurias do tempo, &amp; para remedear necessidades alheas, conuerte em
-preciosas roupas, os seus proprios alimentos.</p>
-
-<p>Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para
-cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que
-se prende, &amp; se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a
-prizam, &amp; sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam
-no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.</p>
-
-<p>Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho<span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span> da seda,
-nas asperezas da penitencia? &amp; qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como
-elle em hũa cella sem porta, &amp; sem janella, jejuando com tam grande
-rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para
-seu sustento, &amp; tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum
-outro mundo, morto na apparencia, &amp; na realidade sepultado.</p>
-
-<p>Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de
-pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das
-pompas humanas, porque a riqueza das sedas<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span> que laura, nam he outra
-cousa, que o excremento das folhas, que come, &amp; para nos aduertir,
-que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se
-reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade
-da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das
-artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na
-eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam
-reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a
-mais importante aduertẽcia, das que se encerrão<span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span> nesta introducção, fiz
-as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, &amp; remato com esta, como
-desejoso do bem das Almas.</p>
-
-
-<p class="right">
-<span class="smcap">D. Rafael Blvteav</span><br>
-Clerigo Regular Theatino da diuina Prouidencia.<br>
-</p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> Artes bonorum fontes esse aiuunt. <i>Xenophon. de
-institut. Cyri lib. 7.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> Artes non ornamenta solum Reipublicȩ sunt, sed etiam
-auxilia, &amp; fulcra. <i>Lipsius in lib. de Cruce in præfat. ad barb.
-ord.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> <i>Xenophon, in œconomico.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> In Belgio, Sericum crudum, quod magna copia ex Italia,
-&amp; Regionibus Orientalibus, prȩcæteris verò ex Persia Societatis Indiæ
-Orientalis defertur (vt secundum rei veritatem à multis obseruatũ est)
-amplius, quam duodecim millia hominum occupat, qui tantummodo in eo
-separando, &amp; glomerando occupantur. <i>Schookius in Belg. fœder. lib.
-7. cap. 19.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> Aquila Auis solaris est acuti visus, ita vt in summo Aere
-existẽs, quæ in terra subsident videat. <i>Etzler. in Isagog. physic.
-cap. 4.</i></p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003">
-<img src="images/003.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="INDEX">INDEX</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><span class="big">DOS PRINCIPAES AVTHORES</span>, que escreueram o nacimento, criação, vida, &amp;
-propriedades do bicho da seda.</p>
-
-
-<p><i>Plinio, histor. natural. liu. 10. cap. 23.</i></p>
-
-<p><i>Ieronimo Vida, Bispo de Alba, em dous Liuros, que tem composto em
-versos hexametros</i>, de Bõbice.</p>
-
-<p><i>Vlysses Aldourando, no seu Liuro</i> de Insectis.</p>
-
-<p><i>Simão Maiolo, Bispo de Vulturara,<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> no seu Liuro intitulado</i>, Dies
-Caniculares, <i>no Colloquio quinto</i>.</p>
-
-<p><i>Luis de Granada da Ordem de S. Domingos, na introducçam do symbolo
-da Fè, p. 1. cap. 21.</i></p>
-
-<p><i>Gaspar Kiokio, Iurisconsulto Alemaõ nos Tratados, que fez</i> de
-Ærario, <i>liu. 2. cap. 6</i>.</p>
-
-<p><i>E Christouão Pellero, nos Cõmentarios que fez sobre os mesmos
-Tratados.</i></p>
-
-<p><i>Thomas Garzoni, Author Italiano, no Liuro chamado</i>, Piazza
-Vniuersale, <i>liu. 4. cap. 1</i>.</p>
-
-<p><i>E Christouaõ Isnardo; em hum Liuro cõposto em Idioma Francez,
-impresso em Paris no anno de 1665.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p>
-
-<p><i>Este vltimo Author, escreueo sobre a cultura das amoreiras, &amp;
-criaçam dos bichos da seda, mais clara, diffusa, &amp; methodicamente, que
-todos os mais, &amp; por isso delle se tirou a maior parte das noticias,
-que se encerram nos seguintes Capitulos.</i></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004">
-<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="INDEX2">INDEX</h2>
-</div>
-<p class="center"><span class="big">DOS CAPITULOS, QVE</span> contem este Liuro.</p>
-
-
-
-<p class="center big"><a href="#I_PARTE">I. PARTE.</a></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><a href="#CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Das differenças das amoreiras, &amp; das suas excellencias.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Varios modos de plantar as amoreiras brancas, &amp; pretas.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Modo de transplantar as aruores nascidas por semente.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_IV">Cap. IV.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> por mergulho.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_V">Cap. V.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras por estaca.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_VI">Cap. UI.</a> <i>Modo de plãtar as amoreiras por enxerto.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_VII">Cap. VII.</a> <i>Como se deuem entreter as amoreiras.</i></p>
-
-<p><a href="#CAPITVLO_VLT">Cap. UIII.</a> <i>Modo de colher a semente das amoreiras, para a
-semear.</i></p>
-</div>
-
-
-<p class="center big"><a href="#II_PARTE">II. PARTE.</a></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Do lugar proprio para criar os bichos.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Regra para conhecer, &amp; escolher os melhores grãos, &amp;
-fazer<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span> sahir os bichos.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Das mudas dos bichos, &amp; como conuemtratalos no tẽpo
-dellas.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_IV">Cap. IU.</a> <i>Modo de colher, &amp; conseruar as folhas das amoreiras.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_V">Cap. V.</a> <i>Das doenças dos bichos da seda, &amp; dos remedios, que se lhe
-podem aplicar.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_VI">Cap. VI.</a> <i>Segredo para fazer nacer sem semente, muitos bichos da
-seda, que daraõ excellẽtes grãos com abundancia.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_VII">Cap. UII.</a> <i>Modo de fazer sobir, &amp; fiar os bichos da seda.</i></p>
-
-<p><a href="#2CAPITVLO_VIII">Cap. UIII.</a> <i>Do tempo em que os casulos se haõ de tirar dos ramos.</i></p>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p>
-
-
-<p class="center big"><a href="#III_PARTE">III. PARTE.</a></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><a href="#3CAPITVLO_I">Cap. I.</a> <i>Do modo com que se deuem aparelhar os casulos para delles
-tirar a seda, &amp; como se podem conseruar muito tẽpo, impedindo que as
-borboletas naõ os furem.</i></p>
-
-<p><a href="#3CAPITVLO_II">Cap. II.</a> <i>Como se deuem escolher os casulos, &amp; vnir as borboletas
-para que ponhaõ a semente.</i></p>
-
-<p><a href="#3CAPITVLO_III">Cap. III.</a> <i>Da forma do forno, dobadoura, &amp; outros instrumentos para
-tirar a seda.</i></p>
-
-<p><a href="#3CAP_VLTIMO">Cap. vlt.</a> <i>Do barbilho, &amp; do modo de o aparelhar.</i></p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005">
-<img src="images/005.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="INSTRVCCAM">INSTRVCÇAM<br>SOBRE A CULTURA das amoreiras, &amp; criação dos bichos da seda.</h2>
-</div>
-
-<h3 class="nobreak" id="I_PARTE">I. PARTE.</h3>
-<hr class="tb">
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Das differenças, &amp; propriedades das amoreiras.</i></p>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Como</span> o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica
-aruore, cujas<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span> folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto
-dos primeiro Capitulo deste Tratado.</p>
-
-<p>Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, &amp; outras negras.
-A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto,
-porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que
-as negras, &amp; menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a
-casca, &amp; a madeira mais branca, &amp; he a razam, porque conseruam o nome
-de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.</p>
-
-<p>Posto que as folhas de hũas, &amp;<span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span> outras, siruaõ à nutritura dos bichos,
-as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por
-quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, &amp; delicadas, &amp; de
-melhor gosto, &amp; alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha
-vinte dias primeiro, que as outras, &amp; se anticipa com ellas a criaçaõ
-dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ
-cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, &amp; se cultiuão mais
-facil, &amp; breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a
-experiencia tem mostrado ser a seda<span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span> dos bichos, que se sustentaõ da
-folha destas amoreiras, mais fina, &amp; de mais valor. Porém a experiẽcia
-tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras
-pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só
-plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as
-folhas, &amp; suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas,
-duas brancas.</p>
-
-<p>Ella aruore he a mais fermosa, &amp; a mais vtil de todas as aruores,
-que seruem ao ornato dos cãpos, &amp; ao proueito dos homens,<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span> quanto à
-fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os
-seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, &amp; grãdes Cidades.</p>
-
-<p>Os seus troncos nam differem dos choupos, &amp; de todas as outras aruores
-fortes, &amp; resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a
-todo genero de obras de terra, &amp; mar, &amp; alguns naturalistas escreuẽ,
-que a sua casca serue para fazer cordas, &amp; para hũa fabrica de panos
-grosseiros.</p>
-
-<p>A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir
-ao ornato do mundo, izentou<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> esta aruore de toda a sorte de animaes
-immundos, &amp; venenosos, que comem as folhas, &amp; os frutos de todas as
-outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este
-attributo, &amp; este priuilegio da natureza, he propriedade especifica
-desta nobre planta.</p>
-
-<p>He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem
-copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem
-incommodar as aruores.</p>
-
-<p>A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza,<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span>
-bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes
-criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que
-de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.</p>
-
-<p>As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado,
-&amp; o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos,
-capoens, &amp; toda a sorte de Aues.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Varios modas de plantar as amoreiras brancas, &amp; pretas.</i></p>
-
-
-<p>Ha quatro modos de plãtar, &amp; criar esta vtil aruore.</p>
-
-<p>Primeiro, por semẽte tirada das amoras.</p>
-
-<p>Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à
-terra.</p>
-
-<p>Terceiro, por estacas, &amp; ramos cortados, &amp; plantados em outro lugar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<p>Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer
-outras aruores proprias para sofrer o enxerto.</p>
-
-<p>Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado,
-defendido, &amp; abrigado dos ventos frios, &amp; em terra cauada, mouida, &amp;
-estercada com esterco meudo, &amp; depois lançarlhe a semente na altura de
-hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.</p>
-
-<p>O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho
-em agoa clara, &amp; nam se meta, ou junto, ou entre as sementes,<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span> algũa
-outra planta.</p>
-
-<p>Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea
-que impede, que a plãta saya; &amp; por conseruar a humidade da terra, he
-bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, &amp; se se
-semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras
-quaesquer Aues.</p>
-
-<p>Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.</p>
-
-<p>Primeira: Abril, &amp; Mayo.</p>
-
-<p>Segunda Iulho, &amp; Agosto.</p>
-
-<p>E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p>
-
-<p>A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, &amp; outra sesaõ, se he
-possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro,
-&amp; sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a
-outra, &amp; depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, &amp; deuem regar com
-instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.</p>
-
-<p>Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, &amp; neues, que entre
-nòs saõ inuteis.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente.</i></p>
-
-
-<p>Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer,
-&amp; trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de
-Abril, Iunho, &amp; Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua,
-ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque
-as raizes.<span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span> Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a
-demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.</p>
-
-<p>Nos mezes de Março, &amp; Abril seguintes, he necessario podar, &amp; cortar
-cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que
-se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto,
-meyo palmo sômente, &amp; quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais,
-tres ramos.</p>
-
-<p>E como cõ este cuidado, &amp; beneficio, chegarem à altura de seis pés, &amp; à
-grossura de hum braço,<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem
-pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto,
-&amp; exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as
-aruores, a outo pés de alto.</p>
-
-<p>Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias
-distantes, &amp; lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em
-lugares serrados, &amp; defendidos, com distancias proporcionadas, &amp; se
-terà o mesmo cuidado de as cultiuar.</p>
-
-<p>E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span>
-(como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de
-Setẽbro, Outubro, &amp; Nouembro, que he o tempo em que hũas, &amp; outras se
-deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, &amp; Abril.</p>
-
-<p>Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores,
-deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he
-conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua,
-que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, &amp; se lançaràõ
-nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> a apodrecer, lhe seruẽ
-de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, &amp; quaesquer outras
-immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.</p>
-
-<p>Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, &amp; nos
-mezes seguintes de Iulho, &amp; Agosto, para que peguem bem, &amp; cercar o
-tronco da aruore de alguns paos, &amp; espinhos, da altura de hum pé para
-as defender nos primeiros mezes, &amp; se mouerà, &amp; trabalharà a terra nos
-primeiros annos.</p>
-
-<p>A mà, &amp; a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores,<span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span>
-mas a seca, &amp; ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que
-na humida, nos valles, &amp; junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, &amp;
-crecem mais facilmente; &amp; nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas,
-junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.</p>
-
-<p>Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde
-se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres
-braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, &amp; o
-tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span> mais junta, naõ deixaõ de
-crecer da mesma sorte.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_IV">CAPITVLO IV.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por mergulho.</i></p>
-
-
-<p>Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, &amp; se poder
-melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder
-ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa
-receber a substancia della, fazendo sahir à<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> superficie da terra hum,
-ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o
-anno seguinte, &amp; junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa
-estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado;
-he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que
-lance raizes.</p>
-
-<p>Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto
-da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que
-quer florecer.</p>
-
-<p>No anno seguinte, quando se<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> entender, que o ramo mergulhado tem
-lançado raizes, se cortarà da aruore, &amp; se deixarà no mesmo lugar, ou
-se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica
-dito, até seis, ou outo pés de alto, &amp; se se deixar ficar no lugar
-do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo
-anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, &amp; a
-enfraqueceiâ.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_V">CAPITVLO V.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por estaca.</i></p>
-
-
-<p>As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente,
-&amp; mergulho.</p>
-
-<p>Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ
-dous annos flor, &amp; fruto, &amp; que haja ao menos outo annos, que tenha
-sahido da aruore, &amp; sẽdo possiuel seja torto, &amp; tenha duas pontas
-na parte por onde se<span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span> cortar, para que metido na terra, o ramo saya
-direito, &amp; o pé entre torto, &amp; possa formar duas raizes.</p>
-
-<p>Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas,
-hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres
-botoens do ramo.</p>
-
-<p>He conueniente fender, &amp; abrir a ponta deste ramo, que entra na terra,
-de tres, ou quatro polegadas, &amp; meter entre as fenda algũs graõs de
-trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o
-tronco, &amp; o farâõ pegar mais facilmente, conuem<span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span> regalos, quando for
-necessario, até se entender que tem raizes, &amp; crecendo he necessario
-podalos, &amp; cultiualos, como fica dito, &amp; diante se dirà.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VI">CAPITVLO VI.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de plantar as amoreiras por enxerto.</i></p>
-
-
-<p>Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as
-brancas, enxertando nellas garfos das brancas, &amp; aonde faltaõ, se podẽ
-enxertar em quaesquer<span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span> outras aruores.</p>
-
-<p>Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores,
-o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os
-enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.</p>
-
-<p>He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, &amp; daquellas
-que dam a mais fermosa, &amp; a melhor folha, escolhendo os garfos mais
-nouos, &amp; que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, &amp; mais nas
-extremidades da aruore, que no meyo, &amp; que tenham a folha muito verde,
-redõda, &amp; nam manchada.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VII">CAPITVLO VII.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Como se deuem entreter as amoreiras.</i></p>
-
-
-<p>Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito
-annual, &amp; ter grandes, &amp; fermosas aruores, he de as limpar todos os
-annos das branchas, &amp; ramos mal formados, &amp; secos, cortar, &amp; podar os
-ramos, que se separão muito das aruores, &amp; desiguaes aos outros, a fim
-de fazer a aruore copada, &amp;<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> mais facil de colher a folha.</p>
-
-<p>O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde
-haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, &amp; branchas, deixando sô
-cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.</p>
-
-<p>No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores,
-&amp; em situação triangular, &amp; igual, a fim que a producçaõ da aruore seja
-igual, &amp; formada sô de tres branchas principaes.</p>
-
-<p>He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres
-branchas, tudo o que estiuer seco, &amp; as branchas, que se cortarem,<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span>
-se forem grossas, a dous, &amp; tres pés de longo da aruore, &amp; tronco
-principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, &amp; se
-cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre
-o interior; &amp; se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos
-ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na
-forma, que se terà feito às branchas.</p>
-
-<p>Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem
-sahirem manchadas, &amp; de pouca substancia, serâ bom cortar as
-extremidades dos ramos, &amp;<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> meter nelles enxertos de bõs garfos, &amp;
-quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he
-mais vtil, que necessario.</p>
-
-<p>Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, &amp; negras, a
-qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais
-tenra, &amp; de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro,
-maiores que todas as outras.</p>
-
-<p>As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a
-comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas.<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> Com
-tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a
-dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha,
-lhe faz algũas vezes dano.</p>
-
-<p>Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte,
-estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he
-natural de Sicilia.</p>
-
-<p>Onde ha copia de amoreiras, &amp; mais folhas, do que he necessario para o
-alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas
-aruores, ou colher de<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span> todas com moderação, porque ainda que o colher
-a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de
-melhor substancia, &amp; vem em maior abũdancia.</p>
-
-<p>He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, &amp; mais grossa a folha,
-&amp; o fruto maior, &amp; em grande quantidade, para dar aos bichos nos
-vltimos dias, por duas razoens.</p>
-
-<p>Primeira porque sendo as folhas melhores, &amp; mais substanciaes, se deue
-guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de
-formar a seda.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p>
-
-<p>Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, &amp; não lhe
-tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, &amp; serue para
-semente de aruores, &amp; para ceuar as Aues; &amp; muitas vezes sucede, que
-algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas,
-por serem muito pequenas.</p>
-
-<p>Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, &amp; se animão primeiro
-que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com
-industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das
-aruores, &amp; à<span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span> roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, &amp; regando as com
-agoa morna em hum dia bom, &amp; de Sol.</p>
-
-<p>Das aruores nouas, &amp; (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher
-a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, &amp; dos
-pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou
-ramo grãde.</p>
-
-<p>Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello
-pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, &amp; poẽ lançois ao pé das
-aruores, para que caya sobre elles.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p>
-
-<p>Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra,
-pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o
-que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes,
-&amp; se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.</p>
-
-<p>Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, &amp;
-cortar tudo o que nella ha de ramos secos, &amp; podar todos os ramos, que
-se separarem muito da aruore.</p>
-
-<p>Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer,<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> que
-necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos
-ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, &amp; perder a folha,
-por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres,
-ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.</p>
-
-<p>O melhor modo de cortar para as melhorar, &amp; o que se vza em Sicilia, he
-mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, &amp; cortar os
-ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum
-bom dia, da Lua noua, ou por não perder<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> a folha daquelle anno, nos
-mezes de Mayo, &amp; Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.</p>
-
-<p>Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às
-amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de
-fruto.</p>
-
-<p>Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque
-separada dos ramos, se pode guardar dous dias, &amp; conseruada nelles,
-se perde em poucas horas, &amp; se nam quizerem separala dos ramos, se
-conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p>
-
-<p>Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer,
-porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa,
-he de grande prejuizo às aruores.</p>
-
-<p>Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo
-chuuoso, ou que promete chuua, &amp; guardala em lugares frescos, mas não
-tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos
-bichos, &amp; quando està humida, he remedio darlhe ar, &amp; mouela.</p>
-
-<p>Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar<span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span> em terra
-laurada, cauada, &amp; estercada, &amp; he vtil fazerlhe este beneficio de
-tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica
-planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores,
-que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França,
-no Delfinado, Langadoc, Prouença, &amp; outras Prouincias, por ordem de
-Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos
-proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.</p>
-
-<p>Primeiro, criando os bichos, &amp; tirãdo a seda.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span></p>
-
-<p>Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem
-as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer
-nellas.</p>
-
-<p>Terceiro, dando a folha, &amp; caza para a criação dos bichos, &amp; outra
-pessoa dando os graõs, &amp; tomando o cuidado de os criar, &amp; sustentar
-até formarem os casulos, &amp; seda, cuja quantidade se separa, ficando
-a ametade para o senhor da caza, &amp; aruores, &amp; outra para quem deu os
-graõs, &amp; criou os bichos.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="CAPITVLO_VLT">CAPITVLO VLT.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de colher a semente das aruores, para as semear.</i></p>
-
-
-<p>As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de
-amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou
-pretas.</p>
-
-<p>As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras,
-&amp; de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto<span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span> das
-amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como
-fica dito.</p>
-
-<p>Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas
-a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as
-melhores.</p>
-
-<p>As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na
-forma seguinte.</p>
-
-<p>Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de
-pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,)
-&amp; abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> cayão as
-amoras maduras.</p>
-
-<p>He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo
-no chão, se enchem de terra, &amp; area, de que depois se não distingue a
-semente.</p>
-
-<p>Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa
-meza estendidas, &amp; em caza alta, &amp; de sobrado, onde se deixaràõ cinco,
-ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para
-euitar a podridão.</p>
-
-<p>Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma
-peneira muito fina, &amp; molhada,<span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span> &amp; se espremeràõ, &amp; amassaràõ bem com as
-mãos, para separar as sementes das amoras, &amp; depois se tomarà tudo o
-que fica no fundo do saco, ou na peneira, &amp; se lançarà em hum alguidar
-cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente,
-porque deceao fundo da agoa, &amp; tudo o mais que fica das amoras, està
-nadando em cima.</p>
-
-<p>Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho,
-&amp; se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se
-limparà de todo o pô, que tiuer, &amp; se guardarà para se semear<span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span> na
-sesão, &amp; forma, que fica dito no <i>Capitulo II.</i> onde tambẽ se
-disse, que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por
-abano, &amp; postas a amadurecer o tempo necessario.</p>
-
-<p>Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, &amp; outros
-lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas,
-por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado,
-de amoras podres.</p>
-
-<p>Mas he facil de conhecer, &amp; separar a boa de mà semente, metendo-a em
-hum vazo de agoa, &amp;<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo,
-he a boa, &amp; a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.</p>
-
-<p>Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com
-as amoras pretas, que se comem cõmumente.</p>
-
-<p>De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade,
-em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.</p>
-
-<p>Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar
-as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, &amp; foi sempre
-a mais geral,<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> nobre, &amp; vtil occupaçaõ dos homens.</p>
-
-<p>Os antigos a começaraõ, &amp; cõ ella se deuertiraõ no deserto os
-Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.</p>
-
-<p>Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os
-ocios dos estudos, &amp; a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que
-os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.</p>
-
-<p>Todos os que seguirẽ este louuauel costume, &amp; esta nobre occupação,
-tiraráõ della tres grãdes ventagens.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p>
-
-<p>Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver
-crecer, &amp; de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando
-sahem, como obras das nossas mãos.</p>
-
-<p>Segunda, o interesse, &amp; proueito, que resulta deste trabalho, porque
-he certo, &amp; consta pella experiencia, que em dous campos de igual
-grandeza, &amp; bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode
-tirar fruto, &amp; proueito, &amp; outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar
-estas, he menor a ametade, &amp; o proueito he quatro vezes maior.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p>
-
-<p>Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem
-as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que
-obrão, &amp; trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do
-Mercador.</p>
-
-<p>E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma
-razam, &amp; justiça, com que nòs viuemos ao seu.</p>
-
-<p>Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, &amp; se descuidaõ os homens
-da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.</p>
-
-<p>Deste erro, que justamẽte deueser<span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span> condenado de todos, nos liura a
-consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, &amp; seguiraõ
-aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho,
-&amp; com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na
-posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, &amp; todos pello que deuem
-à sociedade ciuil, &amp; à terra em que nacéram.</p>
-
-<p>Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de
-tantas Ilhas, Terras, &amp; Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os
-frutos, &amp; as riquezas?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p>
-
-<p>Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as
-terras, que possuimos, &amp; assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos,
-&amp; agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm
-muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na
-terra, em que viuimos.</p>
-
-<p>Digamos finalmente os louuores, &amp; encomios, que dam os Authores a esta
-rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha,
-depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, &amp; no mesmo tempo, que os<span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span>
-bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, &amp; sem
-produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, &amp; fruto.</p>
-
-<p>A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, &amp; em
-algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a
-memoria do tempo em que foram plantadas.</p>
-
-<p>Os que escreuem as excellencias desta aruore, &amp; dos bichos da seda,
-affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes,
-os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado,<span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span> &amp; ajuda dos
-homens,<a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam
-singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas
-aruores a seda.</p>
-
-<p>Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, &amp; dez annos, que foram
-trazidos a Grecia, &amp; Italia, &amp; na Prouincia de Prouança em França,
-como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de
-criar os bichos; &amp; as aruores, que se plantârão<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> naquelle tempo, estão
-agora com toda a sua força, &amp; vigor, saõ as mais fermosas, as mais
-lucratiuas, &amp; as menos sogeitas ao rigor dos tempos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006">
-<img src="images/006.jpg" class="w10" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-
-
-<div class="footnotes"><h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> In Trapobane sericum, sine cultu, ex arboribus
-detrahitur à Bombycibus confectum. <i>Linschot cap. 23. in commentar
-nauigationum.</i></p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007">
-<img src="images/007.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-<h3 class="nobreak" id="II_PARTE">II. PARTE.</h3>
-
-<p class="center">CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.</p>
-
-
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Do lugar proprio para criar os bichos.</i></p>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_p.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Para</span> fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum
-lugar cõmodo, em que se alimentẽ<span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span> sete semanas, que tem de vida, ao
-menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em
-lugares mais estreitos, &amp; em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum
-genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em
-camaras claras, &amp; liures ao vento.</p>
-
-<p>Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte
-das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar
-liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos
-dias tempestuosos, &amp; frios estejaõ abrigados.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p>
-
-<p>He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, &amp; he preciso cerrar
-todos os buracos de ratos, &amp; impedir, que não entrem na camara,
-galinhas, frangos, ou pardais.</p>
-
-<p>Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes,
-partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, &amp;
-nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, &amp;
-huns sobre outros em distãcia de hum couado, &amp; pello meyo da caza, se
-pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, &amp; outros, capaz de poder<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span>
-andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, &amp; para poder meter
-escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.</p>
-
-<p>Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam
-cayam, &amp; para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo
-sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do
-taboleiro alto, fiquem no baixo, &amp; se nam percam.</p>
-
-<p>Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de
-quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p>
-
-<p>As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa
-sô vez a despeza destes partileiros.</p>
-
-<p>He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, &amp; limpeza
-delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os
-bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he
-considerauel, &amp; toda a casta de papel serue a este effeito.</p>
-
-<p>As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de
-partileiros, &amp; taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como<span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span>
-seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas
-postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a
-todos os bichos, &amp; passaros, que os comem.</p>
-
-<p>A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, &amp; o fumo não lhe
-fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a
-vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, &amp; outros
-semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que
-serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos,
-suposto que<span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span> sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Regras para conhecer, &amp; escolher os melhores graõs, &amp; fazer sahir os
-bichos.</i></p>
-
-
-<p>Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, &amp; de
-Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, &amp; muito redondos, &amp; para
-conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas,
-&amp; se lãçar<span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span> bem de humor luzente, he sinal de bondade.</p>
-
-<p>Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.</p>
-
-<p>Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade
-se poem, em os tirar, como ordinario trato della.</p>
-
-<p>Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.</p>
-
-<p>Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das
-borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo
-pezo, &amp; quebrada lança a mesma humidade, &amp; nam tem seruiço algum, como<span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span>
-tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja
-seda nam tem a bondade ordinaria.</p>
-
-<p>Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de
-correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.</p>
-
-<p>Os primeiros a enganàr, &amp; ser enganados, sam os que fazẽ trato desta
-mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he,
-quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as
-sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span></p>
-
-<p>Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para
-hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco,
-ou seis pequenas.</p>
-
-<p>Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo
-que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas
-razoens.</p>
-
-<p>Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, &amp; antes que as
-amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, &amp; as
-amoras lhe communicaõ demasiada humidade.</p>
-
-<p>A segunda he, porque os bichos<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais
-facil com calor artificial.</p>
-
-<p>Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os
-benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de
-hora, &amp; depois lançalos sobre hum linho branco, &amp; polos a enxugar ao
-Sol, se nam for muito ardente, &amp; ao fogo em distancia proporcionada: o
-tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde
-a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem
-folhas capazes de se colherem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p>
-
-<p>Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ
-cerrada, &amp; limpa, com algodam pellas extremidades, &amp; em que sô caiba
-a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, &amp; se porâ a caixa
-abrigada, &amp; aonde haja fogo se for em terra, &amp; tempo frio, &amp; nella se
-meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, &amp; estando desta
-sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, &amp;
-mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha
-de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, &amp; sobre<span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span>
-ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, &amp; se peguem nas
-folhas.</p>
-
-<p>Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente
-sobem, &amp; se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, &amp; se passaràm aos
-taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.</p>
-
-<p>Esta preuençam de fogo, &amp; vinho, se escuza nas terras quentes, aonde
-basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Das mudas dos bichos, &amp; como conuem tratalos no tempo dellas.</i></p>
-
-
-<p>Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos;
-em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, &amp;
-saõ como immoueis, ou doentes, &amp; não comem até mudar as pelles, o que
-se conhece, quando parecem mais brancos, &amp; mais curtos do que erão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p>
-
-<p>Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, &amp; assim
-até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura,
-como de hũa pena de pato, &amp; o comprimento de duas polegadas.</p>
-
-<p>Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou
-lhe dar de comer, porque hũa, &amp; outra cousa se deue fazer sempre que
-tiuerem necessidade.</p>
-
-<p>A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros
-naõ muito juntos huns dos outros, &amp; darlhes a comer folhas<span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span> frescas,
-&amp; limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho,
-metendo sempre folhas nos lugares vazios, &amp; junto aos bichos, por
-euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos
-primeiros dias.</p>
-
-<p>O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão
-pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, &amp; no
-mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os
-bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais
-espaço, quando crecem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p>
-
-<p>Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir
-mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.</p>
-
-<p>Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, &amp; que a caza
-nam esteja exposta a ventos frios; &amp; nas terras frias, se fazem secar
-os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, &amp; depois de cinco, ou
-seis dias, os tornam a mudar.</p>
-
-<p>Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, &amp; tocar cõ os
-dedos, nẽ de os expor, &amp; costumar ao ar, em bons dias.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p>
-
-<p>As pessoas, que nam tem tempo &amp; cõmodidade de mudar os bichos de lugar,
-&amp; os separar antes que se mudem, he necessario separalos, &amp; mudalos
-nas mudas, &amp; obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir
-separando, &amp; darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes
-no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres
-vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, &amp;
-quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior
-parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço<span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span> considerauel sem
-comer, quando estão chegados ao tempo de subir, &amp; para este tempo lhe
-guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes,
-porque lhe faz fazer a seda mais forte.</p>
-
-<p>Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem
-segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, &amp; humidas, &amp; naõ conuem
-dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os
-faz entropecer, estando chegados a subir.</p>
-
-<p>A melhor preuençam cõtra este<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> dano, he começalos a criar com
-abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou
-quarenta &amp; cinco dias.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_IV">CAPITVLO IV.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo de colher, &amp; conseruar as folhas das amoreiras.</i></p>
-
-
-<p>As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho,
-ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa
-cousa<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.</p>
-
-<p>A folha guardada doze, ou quinze horas, &amp; até dous dias, he melhor para
-os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, &amp;
-recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que
-se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha
-molhada, &amp; he preciso esperar, que se seque, &amp; para este effeito, poràm
-a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de
-secos ao lume, &amp; os sacudiràm para<span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span> fazer correr a agoa das folhas, que
-tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão
-nesta agitaçam; &amp; depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou
-panos, para que acabem de se secar de todo.</p>
-
-<p>Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de
-folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar,
-se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, &amp; he preciso mouela
-muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras,
-se esquentaõ, &amp; ficam humidas, &amp; molhadas,<span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span> como as que se colhem com
-orvalho, ou chuua, &amp; porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos
-nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos
-necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, &amp; elles acharàm que
-roer nas folhas, que tem debaixo de si.</p>
-
-<p>A folha das aruores situadas em lugares humidos, &amp; sombrios, aonde
-nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas
-amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; &amp; naõ saõ
-menos danosos aos bichos, os renouos,<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> que brotaõ do tronco da
-amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.</p>
-
-<p>Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam
-cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem
-tabaco de fumo, &amp; que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.</p>
-
-<p>Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for
-possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, &amp; para os bichos;
-para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; &amp; para
-os bichos, porque<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> as folhas se colherám inteiras, &amp; nam tomaràm o mao
-sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.</p>
-
-<p>Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos,
-&amp; nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, &amp;
-em menos de meya hora se esquentam, &amp; ficam molhadas, como se foraõ
-tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_V">CAPITVLO V.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Das doenças dos bichos da seda, &amp; dos remedios, que se lhe podem
-aplicar.</i></p>
-
-
-<p>Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, &amp;
-outras accidentaes.</p>
-
-<p>As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ
-a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias
-sem comer, ficam<span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span> sem mouimento, &amp; como adormecidos, &amp; se apartaõ huns
-dos outros, quanto podem; &amp; estas mudas, ainda que naturaes, sam causa
-de algũa quebra nos bichos.</p>
-
-<p>As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà
-calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ;
-do mao trato, que se lhe dà; &amp; do mao cheiro, que os offende.</p>
-
-<p>Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.</p>
-
-<p>Quando se leuanta algum vento<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> frio, &amp; desabrido, conuem ter a caza bem
-fechada, &amp; no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, &amp; naõ
-caruoens, &amp; cerrar todas as portas, &amp; janellas por onde pode entrar o
-vento.</p>
-
-<p>Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, &amp;
-janellas, para os refrescar, &amp; cõ lhe mudar muitas vezes as camas,
-porque lhe causaõ muito calor.</p>
-
-<p>Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum
-pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, &amp; bom
-serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> estam, &amp; darlhe nouas
-folhas, &amp; não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.</p>
-
-<p>E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando
-estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca
-folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe
-deu, &amp; bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até
-que elles mesmos acordẽ do letargo, &amp; madorna, em que estão.</p>
-
-<p>Se os bichos não medrarem, &amp; se muitos delles morrerem, bom ser à
-mudar lhe as camas, &amp; perfumar<span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span> os partileiros, &amp; se ouuer lugar,
-melhor serà, mudalos para outra caza, &amp; com particular cuidado, hir
-sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, &amp; mais
-a meudo, do que se costumaua, para os espertar, &amp; naõ lhe dar folha,
-se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso,
-beijuim, &amp; outros cheiros, &amp; heruas cheirosas do campo, ou com o fumo
-de toucinho magro, presuntos, &amp; chouriços fritos, ou postos sobre as
-brazas.</p>
-
-<p>Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, &amp; hum calhao,<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> &amp;
-apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, &amp; vapores,
-despertam, alegrão, &amp; sarão aos bichos.</p>
-
-<p>Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que
-os bichos estiuerem, as paredes, &amp; os taboleiros, com vinho, ou
-vinagre, &amp; esfregar tudo com eruas, &amp; folhas de aruores, de bõ cheiro,
-como funcho, alecrim, louro, &amp; outras semelhãtes, principalmente se
-estiuerem doentes, &amp; se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes
-cheiros seriam inuteis, &amp; poderiam prejudicar, por serem fortes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span></p>
-
-<p>O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que
-mastigam, &amp; tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão
-saõs, &amp; muito mais, quãdo estão doentes, &amp; por isso estes taes nam os
-tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.</p>
-
-<p>As moças, &amp; mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam
-boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto
-lhe durar este achaque, porque isto os mata.</p>
-
-<p>He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita<span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span>
-quietação, &amp; que seja em parte donde não se oução de perto tiros de
-armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, &amp; sobre tudo
-não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir
-algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, &amp; cadeiras, ou outras cousas,
-que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa
-doenças nas mudas.</p>
-
-<p>Em quanto os bichos começarem a fiar, &amp; tecer a sua seda &amp; a formar
-o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que
-estiuerem por ser este o tẽpo<span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span> da força do seu trabalho, em que
-começaõ a encolher o corpo, &amp; as pernas, &amp; qualquer mouimẽto, que lhe
-occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, &amp;
-depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de
-tecer, &amp; se reduzem â figura de hũa faua, &amp; a maior parte rebentaõ nos
-casulos, que depois ficaõ molles, &amp; naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar,
-se naõ desinquietàraõ os bichos.</p>
-
-<p>Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ
-crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> quaes os
-poderà liurar o cuidado, que se terà delles.</p>
-
-<p>As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou
-pella difficuldade de ter boa folha.</p>
-
-<p>Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, &amp; nam de
-caruoens, como fica declarado, &amp; as folhas se poderàõ secar na forma,
-que tenho dito.</p>
-
-<p>Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que
-fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto,
-ou chouriço fritos,<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> ou postos sobre as brazas, &amp; fazendo entrar na
-caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, &amp;
-poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os
-aliuia muito, &amp; o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande
-sobresalto.</p>
-
-<p>Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ,
-quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, &amp; quando
-se achão molhados por baixo com humidade amarella, &amp; he necessario
-separar os doentes dos saõs, &amp; logo lançar fora os<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> que se acharem com
-esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas
-mui inchadas, &amp; negras nas estremidades, &amp; as nodoas do corpo auultam
-mais, &amp; sam differentes das dos outros bichos, &amp; hũ dia, ou dous,
-antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, &amp;
-das pernas, &amp; suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os
-dos mais, antes que a inchação seja grande, &amp; vzãdo dos remedios acima
-declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos
-às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar,<span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span> borrifando os, &amp;
-passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão;
-&amp; em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes
-que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se
-nam molhem, &amp; que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto
-daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por
-quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.</p>
-
-<p>Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas<span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span> bordas
-dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a
-penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que
-se tenha delles, &amp; a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar,
-que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.</p>
-
-<p>Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, &amp; para elles
-serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, &amp; para suprir a falta
-destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais,
-para que a criaçam se faça com a desejada<span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span> quantidade; meia onça de
-mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.</p>
-
-<p>Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando
-que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, &amp; escuros, tem a mesma
-doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a
-melhor de todas, &amp; ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.</p>
-
-<p>Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes,
-nam haja certas eruas, sementes, &amp; cascas, que fazem hum cheiro muito
-danoso aos bichos,<span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span> como faz o fumo de couros queimados, de sedas de
-porco, cabelos, &amp; pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os
-bichos, he peçonha.</p>
-
-<p>Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para
-nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer,
-em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de
-alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas
-amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos &amp; vem a ser
-esta malicia tam refinada, como a<span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span> dos que vendem as sementes assadas
-no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa
-para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem
-a criação, &amp; nam dos que vendem a semente.</p>
-
-<p>Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, &amp; isto muitas vezes se
-experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que
-naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, &amp; forçosamente se
-seruissem das das outras Naçoens.</p>
-
-<p>Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste<span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span> Reyno
-poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos
-estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, &amp; juntamente as sedas,
-que nos vem de fora.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VI">CAPITVLO VI.</h4>
-</div>
-
-
-<p class="center"><i>Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que
-daràm excellẽtes graõs com abũdancia.</i></p>
-
-
-
-<p>Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> da seda, suprirà a
-Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos
-Authores, &amp; que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.</p>
-
-<p>No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha
-das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, &amp; antes d’ella parir, vinte
-dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua,
-nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm
-de beber, &amp; depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias,<span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span>
-dar à vacca folhas de amoreira.</p>
-
-<p>Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite
-da mãy, &amp; a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, &amp; das mãos,
-que deitaràm fora, &amp; não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas
-ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; &amp; as tripas, em
-hũa gamela de pao, &amp; a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam
-sinta o fedor.</p>
-
-<p>Toda esta mestura de carnes, ossos, &amp; sangue, se corromperà, &amp; desta
-corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> folhas de
-amoreira, em que naturalmente se pegão, &amp; passados aos taboleiros, se
-criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos
-quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores,
-que os dos outros bichos.</p>
-
-<p>Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de
-alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà
-preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue,
-carne, &amp; ossos da vitella, como fica declarado.</p>
-
-<p>Esta experiencia se pode fazer<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> com muita facilidade, &amp; cõ pouca
-despeza, &amp; serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.</p>
-
-<p>O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta
-marauilhosa obra da arte, &amp; da natureza, no seu segundo Liuro de
-<i>Bombice</i>.</p>
-
-<p>Eis aqui os versos do Author,<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> para satisfação dos curiosos.</p>
-
-
-<div class="footnotes"><h4>NOTAS DE RODAPÉ:</h4>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;</i></span><br>
-<br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Interea stabulis tantum illi pinguia mori</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Sufficiunt folia, &amp; lactenti cortice ramos.</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Bombicem fractis condensam erumpere costis,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Atque globos toto tinearum efferuere tergo,</i></span><br>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Et veluti putres passim concrescere fungos.</i></span><br>
-</p>
-
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span></p>
-
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VII">CAPITVLO VII.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Modo para fazer sobir, &amp; tecer os bichos da seda.</i></p>
-
-
-<p>O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente,
-quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, &amp; se bem
-repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra,
-com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, &amp; as folhas que se deixaõ
-sobre a semente, &amp; o papel furado,<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> para obrigar os bichos a sahir,
-tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos
-deixaram.</p>
-
-<p>Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda
-aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de
-sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca,
-para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas.</p>
-
-<p>De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos
-fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para
-se agasalharem, começaràõ<span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span> a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou
-industria dos que tem cuidado de os criar.</p>
-
-<p>Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em
-estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer,
-por estes sinaes.</p>
-
-<p>Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, &amp; quasi transparente como hum
-Alambre, como se verà, tomando-os na mão, &amp; pondo os à luz do Sol de
-dia, ou ao lume da candea de noite.</p>
-
-<p>Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde,
-a hũa côr de ouro, em<span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span> que se representa a seda, que elles tem no esta
-mago.</p>
-
-<p>Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo.</p>
-
-<p>Quarto, andaõ de hũa parte, &amp; outra, por meyo dos outros, sem se lhe
-dar de comer, &amp; leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à
-lenha, &amp; fiar a sua seda.</p>
-
-<p>Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, &amp; perfeição, he precizo
-ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos
-dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide,
-medronho, vime, feto, ou<span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span> de outras plantas, ou heruas, que não tenhão
-humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando
-sobem, ou quando cahem.</p>
-
-<p>Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme
-à capacidade do lugar, &amp; os estenderàõ sobre folhas de papel muito
-limpas, no plano da mesma casinha.</p>
-
-<p>Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, &amp;
-muitas vezes, de dia, &amp; de noite, &amp; jà naõ teram mais o cuidado de os
-alimpar, nem de os mudar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p>
-
-<p>Mas sô lhe abriram as portas, &amp; janellas nos dias de calma para os
-refrescar, &amp; se se leuãtar algum vento frio, &amp; desabrido, as tornaram a
-fechar para os defender das asperezas do tempo.</p>
-
-<p>Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se
-a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, &amp; se ficarem muito
-poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar
-as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, &amp; com o papel,
-deixando as taboas limpas, &amp; os poram em outra casinha vazia sobre
-outro<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> papel nouo, &amp; limpo, &amp; lhe daram outras folhas frescas como
-d’antes.</p>
-
-<p>Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior
-parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente
-se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, &amp; o
-mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos.</p>
-
-<p>Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala
-vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que
-necessitam de ar fresco, &amp; liure de toda a corrupção.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span></p>
-
-<p>Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de
-passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de
-cinco, ou seis dias, &amp; quando se encolherem, &amp; se fizerem vermelhos, os
-porâm em papeliços, para os ajudar a fiar.</p>
-
-<p>E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a
-quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão
-de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, &amp; fragmẽtos da lenha,
-de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os
-casulos desta<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> casta de bichos, para fazer semente, porque os que della
-sahirem, teràm a mesma falta, &amp; quasi todos seràm curtos, &amp; pequenos.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="2CAPITVLO_VIII">CAPITVLO VIII.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha.</i></p>
-
-
-<p>No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que
-he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, &amp; se cobre
-quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, &amp;<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> nos seguintes, vai
-espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, &amp;
-juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes
-fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de
-comprimento.</p>
-
-<p>Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os
-casulos da lenha, &amp; os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo
-mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais
-diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria
-hũa grande perda, para os que os criarão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img008">
-<img src="images/008.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-
-<h3 class="nobreak" id="III_PARTE">III. PARTE.</h3>
-
-<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_I">CAPITVLO I.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, &amp;
-conserualos muito tempo, &amp; impedir que as borboletas nam os furẽ.</i></p>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_s2.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Se</span> os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande
-abũdancia da nouidade, nam tiuerem<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> tempo, nem commodo, para tirar a
-seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ
-tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as
-quatro horas da tarde, tornando-os a pór, &amp; tirar tres dias, sẽpre nas
-mesmas horas, &amp; por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos
-nos seus casulos.</p>
-
-<p>Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao
-maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, &amp; nestas mesmas
-mantas, &amp; cobertores muito quentes, recolherâm<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> os casulos, &amp; os
-cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais
-depressa.</p>
-
-<p>Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, &amp; ouue quem
-os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que
-fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que
-nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, &amp; aparelhada,
-tem a mesma bõdade, &amp; perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho
-transformado em faua, se seca, &amp; se mirra de maneira, que naõ tem,<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> nem
-toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.</p>
-
-<p>Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno
-o que se hauia de fazer com o calor do Sol.</p>
-
-<p>Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum
-forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido,
-&amp; se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os
-bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do
-forno muito bem tapado, &amp; chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm<span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span>
-estalar os bichos, &amp; ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em
-cinzas quentes, &amp; logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, &amp;
-os enuoluerâm em cobertores muito quentes, &amp; este calor os acabarâ de
-matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos
-dos bichos tornaram a viuer, &amp; furaram os casulos.</p>
-
-<p>Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para
-os secar, &amp; endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da
-humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo<span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span> dentro delles
-por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica
-embebida a seda, &amp; assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas
-vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.</p>
-
-<p>Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està
-a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, &amp; para
-preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia
-torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou
-alcofas, &amp; naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> os apertaraõ nos
-cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he
-preciso, para a extinçaõ dos bichos.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_II">CAPITVLO II.</h4>
-</div>
-
-
-<p class="center"><i>Como se deuem escolher os casulos, &amp; vnir as borboletas paraque
-ponham a semente.</i></p>
-
-
-
-<p>Escolheraõ os casulos mais tesos, &amp; mais corados, porque as borboletas,
-que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ
-os casulos,<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> com tanto que a cor seja viua &amp; sobida, porem os de cor de
-verdemar saõ os melhores.</p>
-
-<p>Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem
-casulos de borboletas machos, &amp; outros cem de borboletas femeas.</p>
-
-<p>Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada
-casulo o bicho se moua, solto, &amp; desapegado, o que conheceraõ sacudindo
-brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir,
-serà sinal, que està podre, &amp; pegado à seda, &amp; neste estado naõ serue
-para o<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> nosso intento.</p>
-
-<p>Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ
-cumpridinhos, &amp; agudos por ambas as extremidades do ouado.</p>
-
-<p>Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, &amp; saõ mais redondos por
-huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, &amp; a maior parte são
-rombos por ambas as partes.</p>
-
-<p>Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, &amp; porão de
-parte os dos machos, &amp; das femeas em igual cantidade; &amp; se acontecer,
-que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande<span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span> a perda, como
-se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para
-duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a
-do que sò se vnir com huma.</p>
-
-<p>Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, &amp; não furarão de todo a
-seda, mas sò a superficie della, &amp; farão como contas ou coroas de cem
-casulos cada huma, &amp; as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que
-os bichos sahião trãsformados em borboletas.</p>
-
-<p>As femeas seram muito mais aluas, que os machos, &amp; terão o ventre tres
-vezes maior.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span></p>
-
-<p>Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque
-baterào as azas, cõ muita pressa, &amp; esperteza, o que as femeas não
-fazem.</p>
-
-<p>Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ
-delicadeza, sem os apertar, &amp; os porão sobre folhas de papel, ou
-sobre estamenhas velhas &amp; outros panos, que não tem pelo, &amp; talvez
-serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, &amp; como as
-virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois
-apartaram os machos, &amp; os deitarão, &amp; as femeas<span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span> porão a semente.</p>
-
-<p>Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia,
-quer de noite, &amp; não mais, porque a demaziada dilação desta vnião,
-prejudicaria à perfeição, &amp; multiplicação da semente.</p>
-
-<p>Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os
-tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, &amp; para
-os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão,
-mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, &amp;
-sem talho, &amp; se os vintens del Rey D. Manoel forão<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> hum pouco mayores,
-seriaõ muito bonspara este effeito.</p>
-
-<p>Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem
-como verdes, &amp; depois vermelhos, &amp; pouco a pouco vão tomando huma cor
-de pardo escuro, que sempre conseruão, &amp; esta vltima cor he o sinal da
-mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos,
-&amp; estes não prestão para nada.</p>
-
-<p>De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção
-mais, &amp; outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem
-dentro de si, &amp;<span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span> com elles morrem.</p>
-
-<p>Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas,
-grillos, &amp; osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem
-aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos
-mesmos bichos viuos.</p>
-
-<p>Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, &amp;
-enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; &amp;
-as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, &amp; do frio.</p>
-
-<p>Por esta razão, não os guardaràm<span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span> junto das cheminés, em que de
-ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs
-inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, &amp; humidos, mas
-temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio
-congela os grãos, &amp; a humidade os corrompe.</p>
-
-<p>Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, &amp; se conseruarão os
-grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, &amp; se perpetuarà
-em huma casa esta rica semente.</p>
-
-<p>Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span>
-com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma
-vitella morta, na forma, que fica declarado no <i>Capitulo 6. da
-2. parte</i> porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, &amp;
-actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, &amp;
-tudo acaba.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="3CAPITVLO_III">CAPITVLO III.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Da forma do forno, dobadoura, &amp; outros instrumẽtos para a tirar a
-seda.</i></p>
-
-
-<p>Em tirar a seda do casulo, &amp; passala a meadas com huma<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> roda, ou
-dobadoura, &amp; hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de
-Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às
-mais prouincias do Reyno.</p>
-
-<p>Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, &amp;
-experiencia, do que cõ a liçaõ, &amp; discurso, tratarei com breuidade esta
-materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, &amp;
-apurar a industria das fiandeiras.</p>
-
-<p>O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, &amp; do vento, &amp; o
-tacho nam ha de ser muito<span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span> profundo, nem muito largo.</p>
-
-<p>A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez
-polegadas mais abaixo do fundo do tacho, &amp; afastada delle hum palmo,
-paraque o fumo se perca &amp; se consuma no forno ao redor do fundo do
-tacho.</p>
-
-<p>Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer,
-porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, &amp; o mesmo succede,
-quando està feruendo.</p>
-
-<p>Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser
-fina, ou forte; para a fitaria, a<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> seda deue ser muito delgada, &amp; outo
-fios bastaõ, mas para os panos, &amp; veludos, se deuem ajuntar doze fios
-ao menos.</p>
-
-<p>Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ
-os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, &amp; em mayor cantidade.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<h4 class="nobreak" id="3CAP_VLTIMO">CAP. VLTIMO.</h4>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Do Barbilho, &amp; do modo de o aparelhar.</i></p>
-
-
-<p>O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda,<span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span> a que
-chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu
-casulo.</p>
-
-<p>Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que
-se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar,
-&amp; juntamente todos os casulos furados pellos bichos, &amp; todos os
-desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.</p>
-
-<p>Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas
-he preciso cardalo, &amp; depois tiralo na roda, cu na roca, &amp; para este
-effeito, faraõ primeiro o que se segue.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p>
-
-<p>Ajuntaraõ todas estas reliquias, &amp; sobejos da seda, tiraraõ della os
-bichos que acharem, &amp; a limparão de toda a immundicia, &amp; depois a
-meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer
-outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias;
-cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, &amp; que o barbilho se
-faça mais aluo.</p>
-
-<p>Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, &amp; se dissoluerà a goma, que
-os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span></p>
-
-<p>Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella
-clara, passada por hum pano, &amp; purgada das cinzas, com que foi feita.</p>
-
-<p>Ferueràm os casulos meya hora, &amp; depois de desfeita a goma, que os faz
-tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, &amp; as molheres os
-fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os
-fiar com mais facilidade.</p>
-
-<p>Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos
-tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> dobadoura,
-outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.</p>
-
-<p>Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda,
-tudo he milagroso em quanto viuem, &amp; tudo o que delles fica, depois de
-mortos, aproueita.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img009">
-<img src="images/009.jpg" class="w15" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img010">
-<img src="images/010.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="AMPLISSIMIS_FRATRIBVS">AMPLISSIMIS FRATRIBVS</h2>
-</div>
-
-<p class="center">
-<span class="big">D. D. FERDINANDO</span><br>
-MASCARENIÆ.<br>Comiti à Turre.<br>
-ET<br>
-<span class="big">D. D. FRANCISCO</span><br>
-MASCARENIÆ.<br>
-Comiti Cocolini.<br>
-</p>
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_h.jpg" width="100" height="113" alt="">
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Hactenus</span>
-publicæ studui vtilitati, nunc vestræ seruire cupio
-oblectationi; cũ emim his quisque rebus delectetur, quibus quodam
-natura ductu incumbit,<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> quid jucundius afficiat liber ali ingenio
-juuenes, quam fructus artium liberalium? O pes, auitum stemma,
-generosus sanguis, &amp; Aulæ oblectamenta, vobis sunt post studia, omnes
-quippe animi affectus, vni voluistis fieri sapientiæ vectigales.
-Percurrendo amænioris litteraturæ curriculo, vix Ætas alijs integra
-sufficit, vestra vobis satis fuit Adolescentia; cum Musis versamini,
-vt sororibus, cum Apolline loquimini, vt fratre; &amp; dum alter alterum
-eruditâ contẽtione transcendere studetis, domus vestræ fiunt,
-domicilia doctrinarũ, scientiarũ Augustalia, &amp; bipartitum<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> Vlyssiponis
-Athenæum.</i></p>
-
-<p><i>Quibus attentè perspectis, vt aliquid libellus hic complecteretur,
-quod ad vestrum palatum faceret, perneceßariũ esse arbitratus sum,
-vt quæ de Mororum cultura, &amp; Bombicum educatione, sparsi in vulgus,
-plebeio sermone, humilique stylo, eadem vobis nobiliore dicendi
-charactere depicta sisterem.</i></p>
-
-<p><i>Mirabimini prudẽtiam in Moro, in Bombice industriam, &amp; in vtroque,
-recondita naturæ solerter operantis arcana.</i></p>
-
-<p><i>Quid moro sapientius? Arborũ postrema germinat morus, vt fructificet
-securior, fœtusq; suos haud<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> euocat in lucem, nisi extorri hyeme,
-exanimis Aquilonibus, &amp; prouecto jam vere.</i></p>
-
-<p><i>Quid industrius Bombice? vno Bombix instrumento, ore scilicet,
-innatum sericum deducit in fila, carminat in lanugines, contorquet
-in mæandros, congerit in stamina. cogit in glomos; describit orbes
-sine circino, sine penicillo colores inducit, &amp; sine vllo aduentitio
-apparatu, domunculam instruit, Cæsarum Palatijs splendidiorem.</i></p>
-
-<p><i>Tanti tamen, &amp; tam strenui Artificis opera omnia sunt posthuma,
-haud e nim e a absoluit, nisi sepultus; verùm, quia (vt dici solet)<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span>
-excellens in arte non debet mori, prodit é pensili tumulo rediuiuus,
-ipsi inuidendus Phœnici; nam ex reptanti Eruca, alatus Papilio,
-nobilior resurgit, quàm vixerat.</i></p>
-
-<p><i>In Moro, &amp; Bombice, natura fortunam imitatur, summa imis, &amp; ima
-summis miscentem; Morus, Abor regia, fit vermiculi pabulum; Bombix,
-ignobilis vermiculus, ejectamentis suis Reges vestit.</i></p>
-
-<p><i>Vitam exorditur Bombix cum vere, vt parentur homini elagantia
-indumenta, dum se terra circumtegit florenti chlamyde.</i></p>
-
-<p><i>Editus in lucem, solis pascitur<span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span> frondibus arboris, cui adscribitur
-sapientia, in hoc Adamo prudentior, quod Arboris sapientiæ folia
-comedit, integro, intactoq; fructu. Operosissimus Bombix, propria in
-pelle non quiescit, paucis enim diebus quater ponit exuuias, abjicitque
-pellem, vt exuat torpẽtem desidiâ senectam.</i></p>
-
-<p><i>Omni tamen labore supersedet, ceditque vitâ, si fortè, sonus
-ingens obtuderit operãtem, debetur enim &amp; opifici silentium, &amp; operi
-admiratio, resque ipsa postulat, vt ad Bombicis ingeniosa molimina,
-orbis attonitus immutescat.</i></p>
-
-<p><i>Non ideò sordidus Bõbix, quia<span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span> vermis, nam seruat vrbes ab otij
-tabe, innumeras exercens operas, Regnaque sine hoc verme sunt cadauera,
-vt pote nuda, quia sine ornatu; exanguia, quia sine diuitijs,
-emedullata, quia sine viribus; vires quippe Regnorum ex diuitijs
-existunt, ingentes verò diuitias affert Bombix eximijs suis operibus, &amp;
-filis auricoloribus auream suis alumnis retexit ætatem.</i></p>
-
-<p><i>Quod alij vermes eripiunt mortuis, viuis reponit hic vermis, &amp;
-corrosarum in sepulchro vestium damna resarcit, nouis, pretiosisque
-textis.</i></p>
-
-<p><i>Quid plura? totum se Bombix<span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span> exhaurit, vt hominem ditet, viscerumque
-suorum Clotho, tenuissima ducit fila, vt vitam protrahat in Reipublicæ
-beneficium. Hæc ego: Reliqua à magistri mei calamo, cũ Poeticen
-doceret in Collegio Flexiensi: Secundis auribus accipite, quæ Gallus
-hic Olor cecinit de mori, Bombicis que natura; dudũ est, quod hæc
-carmina diem aspexere, sed nunc verè proferuntur ad lucem, quia ad
-vos. Enim verô, omnia in vobis, pulchrâ quadam, &amp; vnanimi æmulatione
-collucent, natalium splendor, jubar Sapiẽtiæ, fulgor ingenij, fulgetra
-eruditionis, &amp; irradiantium ornamenta virtutum.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span></p>
-
-<p><i>Omnes denique lucis fontes in vos deriuastis, vt Patri respondeatis,
-qui omnes in se colligit Heroas; imò omnibus antecellit, fortior
-Achille, Marte bellacior, sapientior Socrate, perspicacior Vlysse,
-Hercule laboriosior, facundior Mercurio, grauior Catone, &amp; Apolline
-benignior.</i></p>
-
-<p><i>Quapropter, mihi videmini illæ duæ stellæ, circa Solem de nouo
-deprehensæ, quæ à Mathematicis nũcupãtur, comes Solis, haud enim solùm
-estis, tituli dignitate Comites, &amp; comites suauitate morũ, sed estis
-&amp; comites solis, nam excellẽtissimum Fronteriæ Marchionem<span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span> Parentem
-vestrũ, pleno gradu comitamini in stadio virtutis, &amp; gloriæ.</i></p>
-
-<p><i>Valete, &amp; viuite paribus animis, &amp; honoribus, quando quidem illam
-fælicitatem, quam Ethnicus Ausonius<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> vidit in syderibus illis
-germanis, Castore, &amp; Polluce, adumbratam, in vobis re comprobatam omnes
-demiramur.</i></p>
-
-
-<p class="right">Humillimus, &amp; addictissimus feruus.
-<br>D. RAPHAEL BLVTEAVIVS.
-<br>Clericus Regularis Theatinus.<br>
-</p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Virtutis, &amp; fortitudinis protendunt influxum. <i>Ausonius
-de Castor. &amp; Pollu.</i></p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img011">
-<img src="images/011.jpg" class="w25" alt="Decorative image">
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="LAVDES_MORI">LAVDES MORI,<br><span class="small">ET</span><br>BOMBICIS.</h2>
-</div>
-
-
-<h3><i>Laus Mori.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Romulidas, Myrtus<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a> Paphia exornauit, ouantes;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Pura triumphales decorauit Laurea Põpas:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Prima dedit Quercus seruati præmia ciuis:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sumit Idumæam præpes victoria Palmam:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ast ea,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> quȩ nutu superis dominatur &amp; imis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Fortunæ stolidas, quæ scit, contundere vires,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span><span style="margin-left: 1em;">Quæque adamantæi domitrix prudẽtia fati,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vnã ex Arboribus voluit sibi crescere morũ:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Hãc amat, hâc cingit canẽtia tẽpora fronde,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vẽturi en agedum, secura, ignaraque corda,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Prospicite, &amp; dubiæ casus prænoscite sortis.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Si pudor insanis, morus sapit, illa doloso</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nil temerè credit zephyro, nam veris adulti</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Iam certum expectãs solẽ, nõ germinat ante</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Frigoris infesti, quam cuncta recesserit aura:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Tum floretq; viretq; simul, longæq; repẽdit</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Dãna moræ, atq; vnâ totã se nocte profũdit.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Viderat Æmoniâ nudam quam vesper ab<a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> Oetâ,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Proximus<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a> Idæo de vertice cernit Eous</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Frondosã, &amp; pariter grauidã, partuq; leuatã.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sic properat tenerũ germen, ne frigidus aer</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Manè coquat; medione die ne torreat ȩstus.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Insidias cæli ne tunc vereare sereni</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ampliùs, &amp; vasto quæ cæca pericula Ponto:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vt bene subductam deducas nauita Pinum,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span><span style="margin-left: 1em;">Sint tibi<a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> Vergiliȩ, videas cũ germina mori.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Quin vbi dilectis cultoribus annua Poma</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Reddidit, hybernis ne frondibus incubet Auster,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Aduerso pugnãs Boreæ, &amp; certamine fratrũ,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Collisi inter se frangantur in arbore rami,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sponte sua capitis sacri deponit honorem.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vtque minus fiat sæuis obnoxia ventis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Iratique Iouis telo, fugit ardua, Morus,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Morus in antiquis arbor gratissima lucis.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ad Lunæ radios hâc ludunt sæpe sub vmbra</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Cõsertȩ Satyris Nymphȩ, plaudũtq; choreas,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sæpe legit fœtus<a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a> Ægle formosa caducos,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ebria<a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> Sileno queis sublinat ora jacenti.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Poma gerit morus triplici distincta colore,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nã paribus spatijs albẽtq; rubentq; nigrẽtq;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">At color ille parum lætus, qui fructibus ater,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Omina sanguineis nec sunt nisi tristia moris;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Quid te nigra mouent? niger est<a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a> Phæbeius oscen,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nec tamen augurio quicquam fælicius illo,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span><span style="margin-left: 1em;">Solis vbi nitido veniens spectatur ab ortu.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Astrorũ &amp; somnimater, nox alma, quadrigis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Inuehitur nigris: ebeno tumet India nigro:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Laudamus nigros oculos, nigrumq; capillũ,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ac nigras violas,<a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> fului editus imbre metalli</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Deperijt nigros Cepheæ Virginis artus.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Quod vero funesta putãt de sanguine mora,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">In vulgum has sparsit<a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a> Babylonia fabula nugas;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Dat meritas igitur pænas &amp; pẽdet Arachne,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Inuisique operis casso est addicta labori;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Non quod Palladiæ cõtenderit ȩmula telæ,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mortalisq; Deam justas stimularit in iras,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sed potius geminæ quod per mẽdacia cædis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Inuidiâ morũ, miserosq; onerauit Amores,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Assyrio tingens lugentia poma cruore.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Adde quod &amp; nostris Regionibus alba leguntur,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span><span style="margin-left: 1em;">Antiquis ignara Italis, cæloque latino.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Iam nec Pæoniæ, jam nec succus Panaceæ</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Dictamniq; feris, notissima gramina, capris,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Iudice me, moris certare salubribus ausint.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nec mihi<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a> Moly tuum referas, herbamq; potentem</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Capte oculis vates; à Moris plura petuntur</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Prȩsidia, &amp; plures illis natura creatrix</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vi quadam occultâ cõcessit pellere morbos.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">His ideò<a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> Catius finiri prandia jussit,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Cecropio Catius sapientũ primus in horto;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Inde fit ad noxas ægri prope corporis õnes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Panchrestos,<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> vero perhibent vt nomine Graij.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mororum infuso coalescunt vulnera succo:</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Auribus, atque ori prodest, aluoq; moranti,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Languentemque leuat stomachũ, capitisque dolorem.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Discutit &amp; veteres panos, &amp; tormina sedat.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vipereo est hostis generi, tetrisque venenis,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span><span style="margin-left: 1em;">Thessala, quæ tellus, quæque in mala pocula gignit,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vncta prometheo cautes mæotica tabo.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Arboris ejusdem folijs medicabere tritis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Artubus ambustis, &amp; diri morsibus hydri.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Saucius hoc nosset<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> magni præceptor Achillis,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nõ Deus optasset lethum, nec Lemnia tanto</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Saxa fatigasset gemitu<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> Pæantius heros.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Hirsuto hinc alitur spectãdus corpore Bombyx;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nascũnturq; domi, quæ quõdã à littore rubro</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mollia distincti mittebant vellera seres.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Radicis sileo varios, &amp; corticis vsus,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Morborũ auxilijs hæc tota est nobilis Arbor,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mæonijsque cani non dignior vlla camænis.</span><br>
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span></p>
-<h3><i>Laus Bombicis.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Qvò me Phœbe, rapis? quas hinc sublatus in auras,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Aera per liquidũ, rapidis circumuehor alis?</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vos ne adeo<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> Serum intueor mollissima Regna</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Lanificos cõplexa greges, agnosco parẽtem</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Bombycemq; sinu recubantẽ molliter albo.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Te quoque,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> quam&#160; memorant primã euoluisse nitentes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Folliculos, vnde in paruæ collecta figuram</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Alitis, ignotas pennâ trepidante per auras</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Tinea carpsit iter, dulcesq; animãte susurros</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ore, poli lætis resonarunt æquora bombis.</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span><span style="margin-left: 1em;">Ten igitur vermis video nutricula,<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> Thisbe,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Errantẽue sinu placidè amplexaris alunum,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Scilicet, hũc morus ramo frõdente tenellum</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Excipit, &amp; claras magnũ trãsmittit ad Artes.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Namque vbi ter pigro renouauit corpora somno,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Iam senium increpitans, &amp; pleni pondera ventris,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Continuò, tanta est edendi gloria fili,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Exercetur, &amp; effundit quæsita per Æuum</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Stamina, ditis opes vteri, suspensaq; densos</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Fila regens inter ramos, atque ordine ducẽs,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mille legit, relegitque vias, &amp; circinat orbes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sponte sua donec niueo se carcere claudat.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mox autem interior circũ vndique stamina densat,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Albentiq; Thoro immoriens glomeratur in ouum.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Sed neq; tũ tineȩ vllus honos, aut gloria filo,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Pãphila ni modicos Bõbicũ euoluere folles,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Aut aperire caui docuisset tegmina linthei.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">En etiã digitis prætentat mollibus oram</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Educitque globo, lucisque emittit in auras</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Rursus aui similem, sed te ne subdola captet</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Et dulcem pullis Philomela immitibus escã,</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span><span style="margin-left: 1em;">Auferat, Ah vereor! melius cõcluse latebis,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Hanc sine necquiquam modulis, crispoque susurro</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Blãdiri, &amp; tenues disperdere carmẽ in auras,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ni facias, rostro implebit crudelior alui</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Ingluuiẽ, ac viuo viua abdet corpora busto.</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Cætera quinetiam volucrũ lætissima turba</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Gaudet in incautos vermes inuadere, sedDij</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Dij prohibete nefas, recreet mage carmine dulci,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vnguibus abstineat. Niueo jam plurima surgunt</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Bombici tabulata, gradus aulæque per altos</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mille. Prius pubes stabulãtem rustica ramis</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">In nemora alta videns errare, ignara silebat,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Hic vbi nascenti Seres dominantur Eoo,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Deterior donec paulatim &amp; de color, artes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Extudit, &amp; duros homines emollijt ætas;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Fortunate nimis, diuũq; hominũq; superba</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Gloria, centeno reparans tua funera fœtu;</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Viue sacris Bombix decus admirabile Templis,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Viue ducũ, Regumq; augustis addite pallis,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Nec tua lanigeræ superabunt fila bidentes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Tergoribus niueis, quãuis sua vellera laudet</span><br>
-<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span><span style="margin-left: 1em;">Hispalis, &amp; magno Tyrios incocta rubores</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Mutaris<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> Milete, olim tibi<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> Phrixea cedẽt,</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Tu quoque ne<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> Biturix contra tua mollia jactes</span><br>
-<span style="margin-left: 1em;">Vellera, nec facies, etenim jam vilia sordent.</span><br>
-</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img012">
-<img src="images/012.jpg" class="w15" alt="Decorative image">
-</span></p>
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> Myrtus Paphia, quia Veneri sacra, Venus autem in vrbe
-Paphia, celeberrimo in Templo colebatur.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Morus quippe est sapientiæ symbolum, non enim ante
-germinat, quam frigus penitus fugatum esse cognouerit, &amp; fætum
-celerrimè grandit ac maturat, ne caloris aduentantis injuriâ lædi
-possit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Oeta Æmonia, siue Thessalica, est enim mons Thessaliȩ in
-Græcia, in quo monte, vt inquit Seruius, stellæ videntur occidere.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> Sicut de monte Ida nasci.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Vergiliæ seu Pleiades, sunt septẽ stellȩ ante genua Tauri
-quæ ortu suo primæ nauigationis tempus ostendunt.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Ægle fuit Nympha hoc nomine, vna Naiadum.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Sileno, id est Bacchi nutritio, quem in antro jacentem
-pueri deridebant.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Aquila Ioui Sacra.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Perseus, Iouis filius, ex Danae, quam Iupiter commutatus
-in speciem aurei imbris vitiauit. Hic Andromedam, Cephei, Regis
-Æthiopum, filiam, vxorem duxir.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Pyramus, adolescens Babylonius, mutuo Thisbes amore
-captus, vbi ejus domo ex pacto egressæ, cruentatã reperit vestem, ratus
-esse deuoratam, gladio se sub moro interfecit; illa autem superueniens,
-multa gemens &amp; querens, eidem gladio incubuit. Morus autem fructus
-antea candidos in nigrum colorem mutauit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Moly est herba Homeri carmine celeberrima.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> Cato inter Grȩcos sapientissimus scripsit librum de re
-rustica.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> Medicamentum quod ad omnes morbos conducit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Chiron, Achillis Pædagogus, in medicina peritissimus,
-sagittâ hydræ lerneæ veneno imbutà vulneratus, durissimis cruciatibus
-conficiebatur morique optabat, sed non poterat, quod vtroque parente
-immortali natus fuisset.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Vulcanus Iouis filius è cælo deturbatus in lemnum
-Insulam.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> Seres sunt populi Scythiæ Asiaticæ à Sera vrbe dicti,
-apud quos arbores lanam tenuissimam, ex qua vestimenta serica fiebant,
-proferre creditæ sunt, quia vermes eandem lanuginem producentes
-nutrierunt.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> Pamphila, Coa mulier, quæ prima telas Bombicum rediri,
-rursusque texere inuenit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> Thisbe, id est morus, quia hæc arbor fuit conscia amorum
-Thisbes.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Miletus, Ciuitas Asiȩ, vbi tingebantur lanæ
-pretiosissimæ.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> Vellus aureum quod Phrixus in Templo suspendit.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> Biturix, Ciuitas Galliæ Aquitanicȩ.</p>
-
-</div>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop">
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="ERRATAS_EMMENDAS">ERRATAS. EMMENDAS.</h2>
-</div>
-
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-<table class="autotable">
-<tr><th>Pag.</th><th>Reg.</th><th></th><th></th></tr>
-<tr><td class="tdc"><a href="#Page_12">12.</a></td><td class="tdc">11.</td><td class="tdc">&amp;</td><td class="tdc">que</td></tr>
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA DAS AMOREIRAS, &AMP; CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA</span> ***</div>
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-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
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-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
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-<div style='display:block; margin:1em 0'>
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-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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-</div>
-
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-</div>
-
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-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
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-</div>
-
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-
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-</div>
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-</div>
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Binary files differ
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deleted file mode 100644
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ