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-The Project Gutenberg eBook of Instrucçam sobre a cultura das
-amoreiras, & criaçaõ dos bichos da seda, by Rafael Bluteau
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Instrucçam sobre a cultura das amoreiras, & criaçaõ dos bichos
- da seda
- dirigida a conservaçaõ, & augmento das manufacturas da seda,
- estabelecidas pelo... Principe Dom Pedro Governador, e Regente...
- d
-
-Author: Rafael Bluteau
-
-Contributor: João da Costa
-
-Release Date: December 21, 2022 [eBook #69596]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the
- Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INSTRUCÇAM SOBRE A CULTURA
-DAS AMOREIRAS, & CRIAÇAÕ DOS BICHOS DA SEDA ***
-
-
-
-
-
- INSTRVCÇAM
- SOBRE A CVLTVRA
- das Amoreiras, & criaçaõ dos Bichos da seda,
-
- _DIRIGIDA_
-
- A conseruaçaõ, & augmento das manufacturas
- da seda,
-
- _ESTABELECIDAS_
-
- Pelo muito alto, & poderoso Principe
- DOM PEDRO
- GOVERNADOR, E REGENTE
- dos Reinos de Portugal,
-
- _E commetidas á direcçaõ_
-
- DE D. LVIS DE MENEZES
- Conde da Eiriceira, & Veedor da fazenda Real,
-
- Pelo P. D. RAFAEL BLVTEAV,
- Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,
- Doutor na sagrada Theologia, Prégador da Magestade
- da Raynha Mãy de Inglaterra, & Calificador
- do S. Officio no Reino de Portugal.
-
- [Illustração]
-
- EM LISBOA.
- Na Officina de Ioam da Costa.
- Com todas as litenças necetiarias. 1679.
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- AO
- PRINCIPE
- NOSSO SENHOR.
- SENHOR.
-
-
-_Sigo o discreto dictame de Parisatis[1] Rainha de Persia, que
-costumaua dizer, que com os Principes naõ se ha de falar, senaõ com
-palauras de seda._
-
-_Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com
-que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste
-liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da
-seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque
-de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode
-grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ
-destes insectos._
-
-_Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, &
-a Arte, a natureza nas Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta
-differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza,
-naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que
-se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba
-o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem
-os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com
-muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio
-das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas
-as Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade,
-com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como
-aduirtio[2] Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo
-modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ
-as Artes com a munificencia dos Princepes._
-
-_Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o zelo, cõ
-que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção das sciencias,
-& das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a conseruaçaõ,
-& augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ perfeito,
-como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia para o
-estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto mais
-que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos olhos os
-exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa._
-
-_A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa
-atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous Mõges[3]
-vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente
-dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, &
-quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as
-Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de
-dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ casulo, que forma de si mesmo,
-architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis,
-sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè
-se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera._
-
-_Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia,
-pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais
-Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha
-naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão
-padecendo as rusticas oppressoẽs do mesmo jugo._
-
-_Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos della,
-os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a Persia,
-deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à criação
-dos bichos, & à Arte da seda._
-
-_Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China
-se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China
-a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí
-pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas, que delle
-nauegão os Castelhanos à America._
-
-_A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas riquissimas
-de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, Cafilas de
-seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & Esmirna nas
-muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores Imperios da
-Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura._
-
-_Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais
-Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor; por elles
-passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda,
-que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia,
-aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se
-cõmunicou a toda Italia._
-
-_Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta
-abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em
-rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a
-nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras
-muitas de Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque
-assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao
-recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor
-despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior._
-
-_Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de cõseguida
-a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse huma
-junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro na
-cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do
-decreto com que se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são
-as seguintes._ El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção das
-sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio para
-euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs de ouro
-a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser conueniente
-esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza dos pouos
-do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as experiencias,
-& conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a nossos
-subditos, &c.
-
-_França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por
-hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua
-riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda,
-he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc,
-Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias,
-creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, &
-dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das
-sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a Italia, &
-Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por
-toda Europa._
-
-_A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura,
-& hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas
-fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos._
-
-_Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa
-semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o
-mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de
-Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda._
-
-_A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão mister
-clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de 45.
-graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se fas;
-he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos até
-45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia da
-Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da
-China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45.
-ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no meio das
-duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da
-calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos
-bichos._
-
-_Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està
-situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de
-Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de
-Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a
-seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos,
-dõde se segue, que produzir à Portugal com abundancia esta excellente
-materia._
-
-_Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na Prouincia
-de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais setentrional
-deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas Prouincias
-mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, Algarue, &
-Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem experimentado esta
-verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, & tẽperado Ceo,
-que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem tirado dos bichos,
-que se criarão nas casas, em que se deu principio âs manufacturas, he
-mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor seda de Italia._
-
-_Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em
-abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca,
-porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas
-terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria;
-& se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar
-as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna,
-achando tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como
-pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, &
-seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, &
-terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem
-nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs
-de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens
-pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si,
-a quarta parte da que ha mister para as suas manufacturas._
-
-_A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de
-contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os
-Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas
-manufacturas._
-
-_A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios
-fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz
-com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão
-luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque
-as cores que se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras,
-mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes
-Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que
-estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus
-argumentos._
-
-_A mais forçosarazão de que se quizerão valer, foi, que prohibindose
-neste Reino, (como serà preciso, depois do perfeito estabelecimento
-das manufacturas da seda) todos as sedas dos Reinos estrangeiros,
-infaliuelmente faltaria a saca das drogas do Brasil, com manîfesta
-destruiçaõ do comercio, que ate agora se sustentou pella continua
-entrada, & sahida do açucar, & do tabaco._
-
-_Semelhãte objecção a esta se fez aos Ministros del Rey
-Christianissimo, quando por ordem daquella Magestade, forão prohibidas
-em França as manufacturas dos outros Reinos; porque com zelosa
-ignorancia lhe foi representado, que os Ingrezes, & Holandezes não
-virião mais a França buscaros vinhos, nem os trigos, com que todos
-os annos carregauão suas frotas: mas deu a experiencia a conhecer a
-futilidade desta objecção, porque no tempo que a tranquilidade da
-paz deixa liure o comercio destas Naçoẽs, não cessão os Ingrezes, &
-Holandezes de carregar infinitas embarcaçoens com os vinhos, & trigos
-de França._
-
-_A indigencia, & a necessidade saõ os fundamentos da vniaõ, & sociedade
-humana, & foi effeito da diuina[4] Prouidencia, que algũas terras
-careceßem dos mãtimẽtos, & regalos, de que outras abundaõ, paraque
-com os vinculos do comercio se vnissem os habitadores das mais remotas
-Regioens do mundo; logo he taõ infaliuel, o comercio da Europa com o
-Brazil, que de duas huma, ou quererà a Europa passarse de açucar, que
-he o mais delicioso mimo da terra, & austerse do tabaco, que he o mais
-attractiuo feitiço da natureza; ou com huma prodigiosa mudança dos
-ares, & sobre natural melhor a dos climas, se farà a Europa capaz de
-produzir o que ateagora naõ produzio desde o principio do mundo, senaõ
-em algumas partes do Reino de Sìcilia, & em taõ pequena cantidade, que
-naõ sei se he sufficiente para prouer a ametade d’Italia._
-
-_O açucar pois das Barbadas (Ilhas da America) he muito inferior ao do
-Brazil na quantidade, & qualidade, & porque em todos os Emporios do
-mundo, as drogas mais finas, saõ as mais appetecidas, sempre o açucar
-do Brazil, terà sobre todo o mais, huma incontrastauel preferencia,
-verdade taõ certa, que hum dos mais celebres historiadores deste
-seculo escreueo ha mais de sessenta ãnos, que naõ sò a venda do açucar
-do Brazil he infaliuel mas que tambẽ he certissimo o lucro desta
-venda._[5]
-
-_Com outra razaõ taõ futil como a primeira, condena o aparente zelo de
-alguns, o estabelecimento das manufacturas da seda neste Reino, & he
-que cessando nas alfandegas os direitos que se pagaõ da entrada das
-sedas estrangeiras, naõ hauerà dinheiro, com que pagar os filhos da
-folha._
-
-_Mas facilmente remedearà V. A. este inconueniente com os direitos
-que se pagaraõ a V. A. de toda a seda que se fabricar no seu Reino,
-dandose a V. A. hum tanto por cada arratel, conforme se paga a el Rey
-de Castella, & se se plantarem neste Reino cinco ou seis milhoens de
-amoreiras, daqui a poucos annos hauerà huma taõ grande abundancia de
-seda, que os direitos da que se fabricar no Reino & suas conquistas,
-com os da que se repartirà com os Reinos estrangeiros, importaraõ hũa
-excessiuamente maior summa de dinheiro, que a que hoje se tira de
-todos os direitos da alfandega._
-
-_Tem os Ministros de V. A. ponderado estas razoens com madura
-prudencia, & porque os bons principios saõ o presagio das venturas
-que se seguẽ, no felice exordio desta empreza, todos estaõ preuendo a
-publica vtilidade dos futuros progreßos._
-
-_A V. A. pois, como suprema intelligencia, que moue, & regula os orbes
-da sua Monarquia, agradece esta era, & successiuamente agradecerà a
-Posteridade os victoriosos impulsos desta gloriosa determinação._
-
-_Huma das maiores felicidades de hum Reino, he que o Rei se enriqueça
-sem empobrecer aos pouos; com as manufacturas da seda; procura V. A.
-este bem comum, como verdadeiro pay dos seus vassalos, & quererá o Ceo,
-que no Reinado de V. A. logremos Portuguezes em realidade, as ditas,
-que os Poetas fabulosamente attribuirão ao seu seculo dourado._
-
-_Assim o espero, & peço a V. A. queira aceitar com agrado este pequeno
-trabalho, que entre os estudos mais serios, & proprios da minha
-profissão, tomei, por se me significar da parte de V. A. o gosto, que
-teria de ver esta materia praticada em lingoa Portugueza, pella grande
-vtilidade que della resultarià ao Reino; não esperando eu do desuelo,
-com que desejo de me empregar, em tudo, o que toca ao seruiço de V. A.
-outro premio, que o ver effeituados os tão proueitosos documentos, que
-neste liurinho se encerrão._
-
-_Aos dous Religiosos, que primeiro mostràraõ na Corte de Constantinopla
-os prodigiosos segredos da natureza na criação dos bichos da seda,
-fezo Emperador Iustiniano consideraueis merces de presente,[6]
-prometendolhe outras maiores para o futuro, & para mim as maiores, que
-podere receber da Real grandeza de V. A. serâm a da sua beneuolencia,
-& protecçam, junta com o conhecimento, de que ainda que estrangeiro
-no sãgue, sou Portuguez no amor, & se a Inglaterra deuo o nacimẽto,
-a França a criaçam, & a Italia, o habito, da sagrada Religiam que
-professo, em Portugal deuo à summa piedade de V. A. tam singulares
-beneficios, que em demonstraçam do meu agradecimento, de sejo de
-vencer todos os vassallos de V. A. no affecto, no zelo, & no obsequio.
-Deos guarde a Real pessoa de V. A. como estes Reynos haõ mister, &
-todas os seus vassallos desejamos._
-
-
- De V. A. o menor Capellaõ, & Orador.
-
- D. RAFAEL BLVTEAV.
-
- Clerigo Regular da diuina Prouidencia.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] Parisatis mãy de Cyro, Rey de Persia.
-
-[2] Vt fruges sub grata aëris temperie proficiunt; sic scientiæ, &
-artes sub dominantium liberalitate, honorificentia, benignitate.
-_Plutarch lib. 2. de virtute, & fortuna Alexandri._
-
-[3] Telȩ sericȩ ætate Iustiniani Imperatoris cȩptȩ, quæ priùs à
-Persicis mercatoribus tantùm deferebantur, cum ignorarent quomodo
-fierent, nec scirent fila esse vermium. Cæterùm originem illius duo
-Monachi ex India Byzantium profecti, declararunt, fœtumque illorum
-vermium, oua nimirũ peregrina attulerunt, & in fimo collocata in vermes
-transformarũt, & mori folijs aluerũt, indeque naturâ magistrâ ipsis
-filnm reddentibus, sericum confecerunt. _Zonaras 3. Annal. tom. 3. p.
-95._
-
-[4] Effecit Deus, vt alter alteriûs indigeremus, vt sic nos quoque
-conjungeret; quoniam amicitias maximas facit vsus, & indigentia,
-propterea nec omnia vbique gigni permisit, vt inde etiam cogeret
-permisceri, _Chrisost. hom. 34. in 1. ad Corinth._
-
-[5] Ex ea merce negotiatores, vel maximum capiunt emolumentnm, siquidem
-nauibus quotannis in Europam euecta, certissimo compendio longè,
-latéque diu enditur.
-
-_Maffæus in libro secundo historiarum Indicarum, mihi pag. 68._
-
-[6] Eos Monacos Iustinianus, in præsentia, muneribus; de cætero
-magnis pollicitationibus ad illud præstandum confirmauit. _Procopius
-Cæsariensis, & ex eo Zonaras 3. Annalium tom. 3._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- LICENÇAS.
-
-
-Por ordem dos muito Reuerendos Padres Consultores de nossa Religiaõ,
-vimos este Liuro intitulado: _Instrucção sobre a cultura das amoreiras,
-& criação dos bichos da seda_, composto pello P. D. Rafael Bluteau,
-Clerigo Regular, Theatino da diuina Prouidencia, Calificador do S.
-Officio, & muito conhecido nesta Corte, por seu singular engenho,
-& admirauel eloquencia, nos melhores pulpitos della, & não achamos
-contenha cousa algũa contra a nossa S. Fè, & bons costumes. He pequeno
-o Liuro na materia, pello que trata de hum bichinho, não conhecido de
-muitos, & pouco estimado de quasi todos, & he muito grande na calidade,
-porque a se obseruarẽ bem os documẽtos, que dà o Author, he certo
-resultaràõ grandes vtilidades ao Reyno, que por falta das manufacturas
-se vè taõ exhausto, & diminuido de dinheiro, com gèral dor de todos os
-zelosos do seu acrecentamento; & quando a obra por si só naõ fora de
-tanta estimação, o seria pella elegancia com que o Author a escreue,
-com clareza, verdade, & compendiosas regras, & nam duuidamos, que o
-particular gosto, com que a lemos, abranja a todos os que a lerem, &
-assim nos parece muito digna de se dar à estampa, para que o Reyno
-logre as prosperidades, que ella lhe promete, & o Autor o nome de
-zeloso, & amante do Reyno de Portugal, que he o de que mais se preza,
-& com que em parte lhe quer pagar os aplausos, & affecto, com que o
-ouuem. Lisboa em o Conuento de N. S. da Diuina Prouidencia aos 28. dias
-do mez de Março de 1679 annos.
-
- _D. Luis Maria Sacchi, Clerigo Regular Theatino da Diuina Prouidencia,
- Doutor na sagrada Theologia._
-
- _D. Nicolao Barby, Clerigo Regula Theatino Diuina Prouidencia, Doutor
- na sagrada Theologia._
-
-
-_Consultores Clericorum Regularium._
-
-Hoc opus inscriptum (_Instrucção sobre a cultura das amoreiras, &
-criação dos bichos da seda_) à P. D. Raphaele Bluteau Anglo. nostræ
-Congregationis Theologo, Lusitano idiomate compositum, & juxta
-assertionem Patrum, quibus id cõmisimus approbatum, vt Typis mandetur,
-quoad nos spectat, facultatem concedimus. In quorum fidem præsentes
-litteras, manû propria subscriptas, solito nostræ Congregationis
-sigillo firmauimus. Romæ die 2. Nouembris 1678.
-
- _D. Leonardus Duardus Consultor C. R._
- _D. Emmanuel de Puteo Consultor C. R._
- _D. Michael Pignatellus Consultor C. R._
-
- _D. Ioannes Augustinus Griti, Secretarius._
-
- * * * * *
-
-Por ordem dos Senhores do Cõselho geral do S. Officio, vi a _Instrucção
-sobre a cultura das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, que cõpoz
-o M. R. P. Doutor D. Raphael Bluteau, Clerigo Regular Theatino da
-Diuina Prouidẽcia, Prégador da Rainha mãy de Inglaterra, & Qualificador
-do S. Officio em este Reyno, sogeito taõ conhecido, que naõ só nas
-Naçoens estrangeiras, como he para elle a nossa, mas até na propria
-patria he celebrado seu talento, por peregrino; naõ contẽ o Tratado
-cousa, que offenda a nossa S. Fè, ou bons costumes; antes cõ elle seu
-Author, não só instrue, mas anima as almas cõ muitos documentos para a
-virtude, & aos Portuguezes cõ muitas liçoẽs para o augmento do bẽ cõmũ
-porque ainda que este estiuera por hũ fio, mostra que cõ os fios de hũ
-bichinho, pode a industria humana ajudada da Prouidencia Diuina, não
-sô sustentar, mas enriquecer a Monarchia, cõ o que ficarà immortal
-seu nome na nossa memoria, pois nũca dirà Portugal de seu engenho, o
-que disse da arte do bicho da seda, Ioão Ouuen no liu. 2. dos seus
-Epigramas: _Epigram 178._
-
- _Arte mea pereo, tumulũ mihi fabricor ipse,
- Fila mei fati duco, necemque neo._
-
-Este he o meu parecer. Carmo 8. de Nouẽbro de 1678.
-
- _O Doutor Fr. Gregorio de Iesus._
-
- * * * * *
-
-Vista a informação, podese imprimir a _Instrucção sobre a cultura
-das amoreiras, & criação dos bichos da seda_, Author o P. D. Raphael
-Bluteau, & impressa tornarà para se conferir, & se dar licença, para
-correr, & sem ella não correrà. Lisboa 8. de Nouẽbro 1678.
-
- _Manoel de Magalhaens de Menezes._
- _Manoel Pimentel de Sousa._
- _Manoel de Moura Manoel._
- _Fr. Valerio de S. Raymundo._
-
- * * * * *
-
-Podese imprimir. Lisboa 17. de Nouembro de 1678.
-
- _Fr. C. Bispo de Martyria._
-
-
- SENHOR.
-
-Este Tratado, não só he digno de impressaõ, mas necessario; os
-argumentos da vtilidade priuada, donde resulta a publica, saõ
-demõstraçoẽs visiueis. O seu Author, ainda que estrangeiro por
-origẽ, he bẽ nacional nos affectos, empregando o que estudou fóra,
-no edificio deste alicerse, aonde ha de estribar hũa grãde parte da
-prosperidade do Reyno, o que o faz digno de hum singular louuor, V. A.
-mandarà, o que mais conuier a seu Real seruiço. Lisboa de Feuereiro 10.
-de 1679.
-
- _Antonio Vellez Caldeira._
-
- * * * * *
-
-Qve se possa imprimir, vistas as licenças do S. Officio, & Ordirio, &
-depois de impresso rornarà à Mesa, para se taixar & conferir, & sem
-isso não correrà. Lisboa 11. de Feuereiro de 1679.
-
- _Marquez P._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._
-
- Visto estar cõforme com o Original, pode correr este Liuro. Lisboa 21.
- de Iunho de 1679.
-
- _Fr. C. Bispo de Martyria._
-
- Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.
-
- _Magalhaens de Menezes._ _Roxas._ _Basto._ _Rego._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- ADVERTENCIA
-
- AOS
-
- PORTVGVEZES
-
-
-As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as
-bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão
-no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as
-inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o
-descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de
-donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria,
-& felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que
-nellas se exercitão.
-
-Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso
-a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus
-Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre
-se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em
-que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue
-ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se
-cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios
-exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que
-escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para
-que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio.
-Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos
-genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della
-se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a
-ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.
-
-As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte
-chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras
-duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais
-misteriosa, he a arte da seda.
-
-A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos;
-o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os
-misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.
-
-Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação
-à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta
-em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està
-introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os
-senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas
-cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras
-para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias,
-& das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa
-mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta
-arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores,
-nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas
-vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos
-Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.
-
-As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras;
-chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados,
-labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem
-tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, &
-para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o
-ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios,
-retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.
-
-Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da
-seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas
-amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça
-de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta
-em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho,
-ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo
-semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem
-campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação
-dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa
-occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas,
-que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão
-a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ
-mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que
-lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com
-esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas
-pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas
-manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, &
-teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno,
-& suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que
-poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se
-se occuparem neste exercicio.
-
-Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos
-os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres,
-a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, &
-riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas
-plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas
-de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque
-as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as
-larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras
-estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa,
-ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades.
-Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue,
-que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se
-começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a
-propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe
-as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias
-onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As
-amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario
-occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico
-pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França,
-& Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, &
-vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas,
-que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes
-dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda
-d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco,
-seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos,
-ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras,
-nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil
-amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou
-laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente
-com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza
-mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se
-euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito
-que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà
-Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, &
-todas seraõ admiradoras da sua opulencia.
-
-Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os
-artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que
-saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes,
-& na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos
-antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o
-Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos,
-folhas de amoreiras, & bichos de seda.
-
-Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais
-sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis
-de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em
-que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com
-perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda,
-nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes
-emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ
-desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em
-que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu
-ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as
-manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas,
-venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às
-penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que
-pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à
-constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se
-anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com
-que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos
-merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ
-ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das
-suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, &
-ineuitauel embaraço.
-
-Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue
-ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos
-soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ
-os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto
-isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ
-do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto,
-solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda,
-com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta
-Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de
-hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a
-terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças
-que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os
-animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão
-por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a
-terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua
-fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por
-sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa
-maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da
-nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que
-conheceo superior, ao seu poder.
-
-Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando
-du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, &
-companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita
-virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do
-Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento
-do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento
-desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella
-com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.
-
-De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus
-principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas,
-que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança
-nos hombros de tres Atlantes.
-
-As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por
-debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do
-bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he
-nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, &
-perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de
-hum pequeno mundo.
-
-Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como
-os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear
-de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares,
-em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, &
-telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os
-progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal
-mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel,
-ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do
-successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.
-
-Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de
-exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa
-mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte,
-he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, &
-admiração, à intelligencia dos Sabios.
-
-O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão
-profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por
-curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as
-Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.
-
-Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia
-de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação
-do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a
-transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.
-
-Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam.
-Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da
-cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ,
-mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author
-da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o
-Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita?
-fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum
-instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua
-palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz,
-& sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da
-verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos
-Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes
-reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este
-bichinho basta.
-
-Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto
-admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o
-principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ
-de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de
-maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente
-distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se
-cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ
-physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos
-obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas,
-hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que
-cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a
-propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira,
-& assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem
-o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo,
-se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em
-quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso
-insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho,
-as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o
-ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a
-borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro,
-como o ouo.
-
-No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana,
-& a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque
-como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura
-a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do
-diuino.
-
-Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas
-entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o
-calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.
-
-Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo
-o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no
-silencio viue, & com os estrondos, morre.
-
-No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys,
-que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo
-se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem
-o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue
-na aluura.
-
-O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho
-da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da
-paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro,
-deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua
-sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos
-da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos
-discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em
-cada jeroglifico, se significa hũa virtude.
-
-Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida,
-& morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia,
-& o desengano das vaidades do mundo.
-
-Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para
-vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas
-entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra as
-injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em
-preciosas roupas, os seus proprios alimentos.
-
-Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para
-cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que
-se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a
-prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam
-no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.
-
-Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho da seda,
-nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como
-elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande
-rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para
-seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum
-outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado.
-
-Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de
-pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das
-pompas humanas, porque a riqueza das sedas que laura, nam he outra
-cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir,
-que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se
-reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade
-da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das
-artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na
-eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam
-reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a
-mais importante aduertẽcia, das que se encerrão nesta introducção, fiz
-as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como
-desejoso do bem das Almas.
-
-
- D. RAFAEL BLVTEAV
-
- Clerigo Regular Theatino da
- diuina Prouidencia.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[7] Artes bonorum fontes esse aiuunt. _Xenophon. de institut. Cyri lib.
-7._
-
-[8] Artes non ornamenta solum Reipublicȩ sunt, sed etiam auxilia, &
-fulcra. _Lipsius in lib. de Cruce in præfat. ad barb. ord._
-
-[9] _Xenophon, in œconomico._
-
-[10] In Belgio, Sericum crudum, quod magna copia ex Italia, &
-Regionibus Orientalibus, prȩcæteris verò ex Persia Societatis Indiæ
-Orientalis defertur (vt secundum rei veritatem à multis obseruatũ est)
-amplius, quam duodecim millia hominum occupat, qui tantummodo in eo
-separando, & glomerando occupantur. _Schookius in Belg. fœder. lib. 7.
-cap. 19._
-
-[11] Aquila Auis solaris est acuti visus, ita vt in summo Aere existẽs,
-quæ in terra subsident videat. _Etzler. in Isagog. physic. cap. 4._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- INDEX
-
- DOS PRINCIPAES AVTHORES, que escreueram o nacimento, criação, vida, &
- propriedades do bicho da seda.
-
-
-_Plinio, histor. natural. liu. 10. cap. 23._
-
-_Ieronimo Vida, Bispo de Alba, em dous Liuros, que tem composto em
-versos hexametros_, de Bõbice.
-
-_Vlysses Aldourando, no seu Liuro_ de Insectis.
-
-_Simão Maiolo, Bispo de Vulturara, no seu Liuro intitulado_, Dies
-Caniculares, _no Colloquio quinto_.
-
-_Luis de Granada da Ordem de S. Domingos, na introducçam do symbolo da
-Fè, p. 1. cap. 21._
-
-_Gaspar Kiokio, Iurisconsulto Alemaõ nos Tratados, que fez_ de Ærario,
-_liu. 2. cap. 6_.
-
-_E Christouão Pellero, nos Cõmentarios que fez sobre os mesmos
-Tratados._
-
-_Thomas Garzoni, Author Italiano, no Liuro chamado_, Piazza Vniuersale,
-_liu. 4. cap. 1_.
-
-_E Christouaõ Isnardo; em hum Liuro cõposto em Idioma Francez, impresso
-em Paris no anno de 1665._
-
-_Este vltimo Author, escreueo sobre a cultura das amoreiras, & criaçam
-dos bichos da seda, mais clara, diffusa, & methodicamente, que todos
-os mais, & por isso delle se tirou a maior parte das noticias, que se
-encerram nos seguintes Capitulos._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- INDEX
-
- DOS CAPITULOS, QVE contem este Liuro.
-
-
- I. PARTE.
-
- Cap. I. _Das differenças das amoreiras, & das suas excellencias._
-
- Cap. II. _Varios modos de plantar as amoreiras brancas, & pretas._
-
- Cap. III. _Modo de transplantar as aruores nascidas por semente._
-
- Cap. IV. _Modo de plãtar as amoreiras por mergulho._
-
- Cap. V. _Modo de plãtar as amoreiras por estaca._
-
- Cap. UI. _Modo de plãtar as amoreiras por enxerto._
-
- Cap. VII. _Como se deuem entreter as amoreiras._
-
- Cap. UIII. _Modo de colher a semente das amoreiras, para a semear._
-
-
- II. PARTE.
-
- Cap. I. _Do lugar proprio para criar os bichos._
-
- Cap. II. _Regra para conhecer, & escolher os melhores grãos, & fazer
- sahir os bichos._
-
- Cap. III. _Das mudas dos bichos, & como conuemtratalos no tẽpo dellas._
-
- Cap. IU. _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._
-
- Cap. V. _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe
- podem aplicar._
-
- Cap. VI. _Segredo para fazer nacer sem semente, muitos bichos da seda,
- que daraõ excellẽtes grãos com abundancia._
-
- Cap. UII. _Modo de fazer sobir, & fiar os bichos da seda._
-
- Cap. UIII. _Do tempo em que os casulos se haõ de tirar dos ramos._
-
-
- III. PARTE.
-
- Cap. I. _Do modo com que se deuem aparelhar os casulos para delles
- tirar a seda, & como se podem conseruar muito tẽpo, impedindo que as
- borboletas naõ os furem._
-
- Cap. II. _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas para
- que ponhaõ a semente._
-
- Cap. III. _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumentos para
- tirar a seda._
-
- Cap. vlt. _Do barbilho, & do modo de o aparelhar._
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- [Illustração]
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- INSTRVCÇAM
-
- SOBRE A CULTURA das amoreiras, & criação dos bichos da seda.
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- I. PARTE.
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- CAPITVLO I.
-
- _Das differenças, & propriedades das amoreiras._
-
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-Como o fundamẽto principal da seda, depende das amoreiras, esta rica
-aruore, cujas folhas seruem de sustento aos bichos, serà o assumpto
-dos primeiro Capitulo deste Tratado.
-
-Duas sortes de amoreiras se conhecem, hũas brancas, & outras negras.
-A differença, que as primeiras fazem das segũdas, começa pello fruto,
-porque produzem cõmumente amoras brancas, ou pardas, mais pequenas que
-as negras, & menos saborosas; as folhas saõ de hum verde mais claro, a
-casca, & a madeira mais branca, & he a razam, porque conseruam o nome
-de brancas, ainda que algũas produzão amoras negras.
-
-Posto que as folhas de hũas, & outras, siruaõ à nutritura dos bichos,
-as folhas das amoreiras brãcas se preferẽ às das amoreiras negras, por
-quatro razoẽs. Primeira, porque saõ mais tenras, & delicadas, & de
-melhor gosto, & alimẽto aos bichos: Segunda, porque produzem a folha
-vinte dias primeiro, que as outras, & se anticipa com ellas a criaçaõ
-dos bichos, de vinte dias, às calmas do mez de Iunho, que lhe saõ
-cõtrarias: Terceira, porque ellas aruores crecẽ, & se cultiuão mais
-facil, & breuemente, que as outras: Quarta, porque em algũas terras, a
-experiencia tem mostrado ser a seda dos bichos, que se sustentaõ da
-folha destas amoreiras, mais fina, & de mais valor. Porém a experiẽcia
-tem mostrado, que a seda de Portugal, aõde sô se vza das amoreiras
-pretas, he melhor, que a mais fina de Italia, como que se podem só
-plantar as amoreiras brancas, pela segunda calidade de anticiparem as
-folhas, & suposta esta razam se podem pôr entre dez amoreiras pretas,
-duas brancas.
-
-Ella aruore he a mais fermosa, & a mais vtil de todas as aruores,
-que seruem ao ornato dos cãpos, & ao proueito dos homens, quanto à
-fermosura, o proua bem a sua vista, quanto à vtilidade, o manifestaõ os
-seus effeitos, que saõ a vnica riqueza de muitas, & grãdes Cidades.
-
-Os seus troncos nam differem dos choupos, & de todas as outras aruores
-fortes, & resistem à agoa mais que todas, donde se segue, que seruẽ a
-todo genero de obras de terra, & mar, & alguns naturalistas escreuẽ,
-que a sua casca serue para fazer cordas, & para hũa fabrica de panos
-grosseiros.
-
-A natureza prouida na criaçam dos bichos da seda, que hauiam de seruir
-ao ornato do mundo, izentou esta aruore de toda a sorte de animaes
-immundos, & venenosos, que comem as folhas, & os frutos de todas as
-outras aruores, porque nenhum se vio jà mais nas amoreiras; este
-attributo, & este priuilegio da natureza, he propriedade especifica
-desta nobre planta.
-
-He esta aruore taõ fertil na producção de seus ramos, que quem tem
-copia de amoreiras, tem lenha em grande abundancia para o fogo, sem
-incommodar as aruores.
-
-A riqueza das suas folhas he tal, que duas aruores de justa grandeza,
-bastaõ para o sustẽto de meya onça de graõs de bichos, os quaes
-criandose mediocremente, produzem seis, ou sete arrateis de seda, que
-de ordinario se vende por tres mil reis, o arratel.
-
-As suas folhas, saõ o melhor alimento, que a terra produz para o gado,
-& o seu fruto o melhor, que se conhece para seuar galinhas, frangos,
-capoens, & toda a sorte de Aues.
-
-
-
-
- CAPITVLO II.
-
- _Varios modas de plantar as amoreiras brancas, & pretas._
-
-
-Ha quatro modos de plãtar, & criar esta vtil aruore.
-
-Primeiro, por semẽte tirada das amoras.
-
-Segundo, por mergulho dos ramos, que sahem ao pé da aruore, junto à
-terra.
-
-Terceiro, por estacas, & ramos cortados, & plantados em outro lugar.
-
-Quarto, por enxerto de amoreiras brãcas em pretas, ou em quaesquer
-outras aruores proprias para sofrer o enxerto.
-
-Quanto ao primeiro modo, he conueniente que seja em lugar fechado,
-defendido, & abrigado dos ventos frios, & em terra cauada, mouida, &
-estercada com esterco meudo, & depois lançarlhe a semente na altura de
-hum dedo, de sorte que os graõs fejão bem cubertos.
-
-O mesmo effeito produzem as amoras inteiras, postas hũa noyte de molho
-em agoa clara, & nam se meta, ou junto, ou entre as sementes, algũa
-outra planta.
-
-Se a terra he humida, nam he necessario regalas, porque cria hũa codea
-que impede, que a plãta saya; & por conseruar a humidade da terra, he
-bom cubrir o lugar, aonde està a semente, cõ palha, ou jũco, & se se
-semear na Primauera, conuem defender o lugar de Pardais, ou outras
-quaesquer Aues.
-
-Ha duas sezoens proprias para esta cultura, por semente.
-
-Primeira: Abril, & Mayo.
-
-Segunda Iulho, & Agosto.
-
-E em Portugal se pode anticipar, de hum mez a primeira.
-
-A sesaõ da Primauera, he a melhor; em hũa, & outra sesaõ, se he
-possiuel, se deue escolher no quarto crescente da Lua hum dia claro,
-& sereno; meterseham as sementes em distancia de quatro pés de hũa a
-outra, & depois de pegadas em dias quentes, se pôdem, & deuem regar com
-instrumentos de arame, que tenham os buracos meudos.
-
-Nas terras frias, ha outras cautelas, contra giadas, & neues, que entre
-nòs saõ inuteis.
-
-
-
-
- CAPITVLO III.
-
- _Modo de transplantar as amoreiras, nascidas por semente._
-
-
-Depois de plantadas as amoras (como fica dito) he necessario mouer,
-& trabalhar a terra, pello menos tres vezes cada anno, nos mezes de
-Abril, Iunho, & Agosto, quando a terra esteja, humida ou pella chuua,
-ou pello orualho, mas de sorte, que este trabalho da terra, nam toque
-as raizes. Quando for necessario, se regaràõ sómente, porque a
-demasiada agoa, nam faça apodrecer as raizes.
-
-Nos mezes de Março, & Abril seguintes, he necessario podar, & cortar
-cõ hum instrumento muito fino, os ramos que os troncos lançarem, o que
-se continuar à todos os annos, cortandose tambẽ o tronco no mais alto,
-meyo palmo sômente, & quando for crescẽdo, se lhe deixaràõ ao mais,
-tres ramos.
-
-E como cõ este cuidado, & beneficio, chegarem à altura de seis pés, & à
-grossura de hum braço, se transplantaràõ nos lugares aonde se quizerem
-pôr, aduertindo quese se houuerem de transplantar em campo descuberto,
-& exposto a todo o genero de animaes, serà conueniente deixar crecer as
-aruores, a outo pés de alto.
-
-Isto mesmo, se obseruarà com as aruores, que vierem de Prouincias
-distantes, & lugares estrãgeiros; se vierẽ pequenas, se meteràõ em
-lugares serrados, & defendidos, com distancias proporcionadas, & se
-terà o mesmo cuidado de as cultiuar.
-
-E se vierem da grandeza de seis, ou outo pès, as transplantaràõ logo
-(como fica dito) fazendo, se puder ser, que cheguem nos mezes de
-Setẽbro, Outubro, & Nouembro, que he o tempo em que hũas, & outras se
-deuem transplãtar, ou ao menos nas Luas nouas de Março, & Abril.
-
-Quando se transplantarem, se abriràõ cauas à proporçaõ das aruores,
-deixando as aruores mais na superficie, que no fundo da terra; mas he
-conueniente, que as cauas sejaõ mais altas, porque a agoa da chuua,
-que nellas entrar, farà pegar mais fortemente as raizes, & se lançaràõ
-nas cauas eruas arrancadas do campo, que vindo a apodrecer, lhe seruẽ
-de esterco; mas estas eruas, naõ tenhaõ raizes, & quaesquer outras
-immundicias, saõ proprias para o mesmo effeito.
-
-Serà necessario regalas no mesmo tempo, que se metem na terra, & nos
-mezes seguintes de Iulho, & Agosto, para que peguem bem, & cercar o
-tronco da aruore de alguns paos, & espinhos, da altura de hum pé para
-as defender nos primeiros mezes, & se mouerà, & trabalharà a terra nos
-primeiros annos.
-
-A mà, & a boa terra he igualmente fructifera para estas aruores,
-mas a seca, & ligeira mais propria para a bõdade da folha, ainda que
-na humida, nos valles, & junto a Ribeiras, saõ mayores as aruores, &
-crecem mais facilmente; & nisto tem as amoreiras a natureza das vinhas,
-junto das quaes vem com perfeiçaõ, sem serẽ danosas às vinhas.
-
-Os lugares mais expostos ao Sol, saõ os melhores. Em toda a parte, onde
-se puzerem, se lhe darà distancia de hũas a outras, de duas, ou tres
-braças ao menos, porque naturalmente esta aruore he muito copada, & o
-tronco muito grosso; mas ainda que se ponhaõ mais junta, naõ deixaõ de
-crecer da mesma sorte.
-
-
-
-
- CAPITVLO IV.
-
- _Modo de plantar as amoreiras por mergulho._
-
-
-Avara, ou ramo da amoreira, que estiuer mais perto da terra, & se poder
-melhor dobrar, se meterà na terra o mais distante da aruore, que puder
-ser, sem se arrancar da aruore, nem quebrar, de sorte, que nam possa
-receber a substancia della, fazendo sahir à superficie da terra hum,
-ou dous botoens do mesmo ramo, que poderiaõ produzir outros ramos o
-anno seguinte, & junto do lugar onde se deixarem de fora, se meterà hũa
-estaca, a qual dentro da terra se atarà ao ramo com hum junco molhado;
-he necessario regar esta planta, como fica dito das sementes, até que
-lance raizes.
-
-Esta sorte de planta por mergulho, se farà no outono, no vltimo quarto
-da Lua, ou na Primauera, a tempo que a aruore comece a mostrar, que
-quer florecer.
-
-No anno seguinte, quando se entender, que o ramo mergulhado tem
-lançado raizes, se cortarà da aruore, & se deixarà no mesmo lugar, ou
-se passarà a outro, para depois se transplantar, cultiuada como fica
-dito, até seis, ou outo pés de alto, & se se deixar ficar no lugar
-do mergulho se cortarà sẽpre o ramo do tronco da aruore, no segundo
-anno, porque de outra sorte tirarà a si a substancia da aruore, & a
-enfraqueceiâ.
-
-
-
-
- CAPITVLO V.
-
- _Modo de plantar as amoreiras por estaca._
-
-
-As amoreiras nacem com a mesma facilidade por estaca, que por semente,
-& mergulho.
-
-Quando a amoreira quizer florecer se cortarà hum ramo, que desse jâ
-dous annos flor, & fruto, & que haja ao menos outo annos, que tenha
-sahido da aruore, & sẽdo possiuel seja torto, & tenha duas pontas
-na parte por onde se cortar, para que metido na terra, o ramo saya
-direito, & o pé entre torto, & possa formar duas raizes.
-
-Estes ramos se meterâõ na terra em regos, como se plantam as vinhas,
-hum pouco profundos, nam deixando fora da terra mais que dous, ou tres
-botoens do ramo.
-
-He conueniente fender, & abrir a ponta deste ramo, que entra na terra,
-de tres, ou quatro polegadas, & meter entre as fenda algũs graõs de
-trigo, ou ceuada, porque vindo a humedecerse, conseruarâm fresco o
-tronco, & o farâõ pegar mais facilmente, conuem regalos, quando for
-necessario, até se entender que tem raizes, & crecendo he necessario
-podalos, & cultiualos, como fica dito, & diante se dirà.
-
-
-
-
- CAPITVLO VI.
-
- _Modo de plantar as amoreiras por enxerto._
-
-
-Onde ha amoreiras pretas, este he o mais facil meyo de hauer as
-brancas, enxertando nellas garfos das brancas, & aonde faltaõ, se podẽ
-enxertar em quaesquer outras aruores.
-
-Os modos dos enxertos, sam os cõmuns, que se tem cõ as outras aruores,
-o tẽpo mais proprio he na Primauera, mas todo o tempo que serue para os
-enxertos das outras aruores, serue às amoreiras.
-
-He necessario escolher o garfo das aruores mais velhas, & daquellas
-que dam a mais fermosa, & a melhor folha, escolhendo os garfos mais
-nouos, & que estaõ na aruore mais expostos ao meio dia, & mais nas
-extremidades da aruore, que no meyo, & que tenham a folha muito verde,
-redõda, & nam manchada.
-
-
-
-
- CAPITVLO VII.
-
- _Como se deuem entreter as amoreiras._
-
-
-Todas as precauçoens necessarias para tirar da amoreiras hum proueito
-annual, & ter grandes, & fermosas aruores, he de as limpar todos os
-annos das branchas, & ramos mal formados, & secos, cortar, & podar os
-ramos, que se separão muito das aruores, & desiguaes aos outros, a fim
-de fazer a aruore copada, & mais facil de colher a folha.
-
-O primeiro anno, que as aruores seràõ transplantadas ao lugar, aonde
-haõ de ficar, se deuem cortar todos os ramos, & branchas, deixando sô
-cinco, ou seis, os melhor situados na aruore.
-
-No anno seguinte, destes cinco ramos, se deixaraõ sò tres os melhores,
-& em situação triangular, & igual, a fim que a producçaõ da aruore seja
-igual, & formada sô de tres branchas principaes.
-
-He bom cortar na estremidade do tronco principal, entre as tres
-branchas, tudo o que estiuer seco, & as branchas, que se cortarem,
-se forem grossas, a dous, & tres pés de longo da aruore, & tronco
-principal, a fim de que vindo a secar, naõ se cõmunique à aruore, & se
-cortaràõ de alto abaixo, por dar queda à agoa da chuua, que naõ penetre
-o interior; & se as branchas cortadas tiuerẽ no anno seguinte muitos
-ramos, se cortaràõ sem deixar a cada huma mais que dous, ou tres na
-forma, que se terà feito às branchas.
-
-Se depois de dous annos, as folhas que as nouas aruores produzirem
-sahirem manchadas, & de pouca substancia, serâ bom cortar as
-extremidades dos ramos, & meter nelles enxertos de bõs garfos, &
-quanto mais garfos lhe enxertarem, serà melhor, mas este enxerto he
-mais vtil, que necessario.
-
-Ha hũa especie de amoreiras; como terceiras, entra brancas, & negras, a
-qual tem a folha mais larga, que a das outras, differente em côr, mais
-tenra, & de melhor gosto aos bichos. As amoras saõ de hum pardo escuro,
-maiores que todas as outras.
-
-As folhas destas amoreiras sam mais naturaes aos bichos, mas não a
-comem com tanto apetite, como as folhas das amoreiras brancas. Com
-tudo he conueniente ter algũas aruores desta terceira especie, para a
-dar aos bichos na vltima muda, porque o muito que comem da outra folha,
-lhe faz algũas vezes dano.
-
-Além de que, a experiencia tem mostrado que fazem a seda mais forte,
-estas amoreiras se chamão cõmumente de Hespanha, posto que a planta he
-natural de Sicilia.
-
-Onde ha copia de amoreiras, & mais folhas, do que he necessario para o
-alimento dos bichos, he cõueniente deixar de colher a folha de algũas
-aruores, ou colher de todas com moderação, porque ainda que o colher
-a folha, nam trata mal as aruores, no anno seguinte, as folhas saõ de
-melhor substancia, & vem em maior abũdancia.
-
-He conueniente, deixar as aruores que tẽ melhor, & mais grossa a folha,
-& o fruto maior, & em grande quantidade, para dar aos bichos nos
-vltimos dias, por duas razoens.
-
-Primeira porque sendo as folhas melhores, & mais substanciaes, se deue
-guardar para a vltima muda dos bichos, quando estão mais perto de
-formar a seda.
-
-Segunda, porque tendo as amoreiras quantidade de amoras, & não lhe
-tirando logo a folha, chega o fruto a toda a perfeição, & serue para
-semente de aruores, & para ceuar as Aues; & muitas vezes sucede, que
-algũas aruores carregão tanto de fruto, que he inutil colher as folhas,
-por serem muito pequenas.
-
-Como succede, que alguns annos, os bichos sahem, & se animão primeiro
-que as aruores tenham folha capaz para o seu sustento, se pode com
-industria apressar a folha, metendo esterco meudo dentro da raiz das
-aruores, & à roda do pé, na Lua noua de Feuereiro, & regando as com
-agoa morna em hum dia bom, & de Sol.
-
-Das aruores nouas, & (se puder ser) tambem das velhas, se deue colher
-a folha, com tal ordẽ, que se nam quebrem os ramos grandes, & dos
-pequenos se nam devem cortar, os que estão na extremidade da vara, ou
-ramo grãde.
-
-Os mais curiosos da cultura das aruores, fazem cortar as folhas pello
-pé, com hũa thesoura, por saluar os ramos, & poẽ lançois ao pé das
-aruores, para que caya sobre elles.
-
-Mas quem tem muita criação de bichos, não pode guardar esta regra,
-pella muita folha de que necessita. Mas sempre he necessario, guardar o
-que fica dito sobre os ramos, pondo cuidado em não quebrar os grandes,
-& se se quebrão, conuem cortalos por baixo, donde saõ fendidos.
-
-Quando a folha de toda a aruore he colhida, deue visitarse a aruore, &
-cortar tudo o que nella ha de ramos secos, & podar todos os ramos, que
-se separarem muito da aruore.
-
-Quem quizer cortar as aruores, ou por velhas, ou por lhe parecer, que
-necessitão deste beneficio, o não deue fazer pello tronco, mas pellos
-ramos; porque pello tronco, he totalmente renouala, & perder a folha,
-por alguns annos, porque nem he boa para os bichos, os primeiros tres,
-ou quatro annos da aruore noua, nem se pode tirar sem dano da aruore.
-
-O melhor modo de cortar para as melhorar, & o que se vza em Sicilia, he
-mandar subir à aruore hum homem com hũa fouce de pé longo, & cortar os
-ramos mais distantes, até onde pode alcançar, no mez de Março em hum
-bom dia, da Lua noua, ou por não perder a folha daquelle anno, nos
-mezes de Mayo, & Iunho, ao mesmo tempo, que a folha se vai colhendo.
-
-Os homens practicos na Agricultura, fazem isto mesmo, não só às
-amoreiras, que he a aruore mais vtil, mais a toda a forte de aruores de
-fruto.
-
-Se se cortarem os ramos cõ folha, conuem cortarlha logo, porque
-separada dos ramos, se pode guardar dous dias, & conseruada nelles,
-se perde em poucas horas, & se nam quizerem separala dos ramos, se
-conseruarà metendo os ramos em vazos de agoa.
-
-Não conuem colher as folhas, quando choue, nem logo depois de chouer,
-porque tem mostrado a experiẽcia, que colhidas, ou cortadas com agoa,
-he de grande prejuizo às aruores.
-
-Por euitar este inconueniente, conuem ter folha de resto em tẽpo
-chuuoso, ou que promete chuua, & guardala em lugares frescos, mas não
-tão humidos, que se humedeça a folha, porque humida, he danosa aos
-bichos, & quando està humida, he remedio darlhe ar, & mouela.
-
-Emfim as amoreiras, como todas as outras aruores, amão estar em terra
-laurada, cauada, & estercada, & he vtil fazerlhe este beneficio de
-tẽpos em tempos: Guardandose esta regra na agricultura desta rica
-planta, se tirarà hum proueito inestimauel, se criaràm boas aruores,
-que duraràõ seculos, como experimentamos nas quese plantarão em França,
-no Delfinado, Langadoc, Prouença, & outras Prouincias, por ordem de
-Henrique IU. que hoje se cõseruão perfeitas com grande vtilidade dos
-proprietarios, os quaes tirão de tres modos o interesse dellas.
-
-Primeiro, criando os bichos, & tirãdo a seda.
-
-Segũdo, alugando as aruores, ou vendendo a folha, sogeitandose quem
-as aluga, ao dano considerauel, que por descuido, ou malicia se fizer
-nellas.
-
-Terceiro, dando a folha, & caza para a criação dos bichos, & outra
-pessoa dando os graõs, & tomando o cuidado de os criar, & sustentar
-até formarem os casulos, & seda, cuja quantidade se separa, ficando
-a ametade para o senhor da caza, & aruores, & outra para quem deu os
-graõs, & criou os bichos.
-
-
-
-
- CAPITVLO VLT.
-
- _Modo de colher a semente das aruores, para as semear._
-
-
-As amoreiras brancas, produzem de ordinario grande quantidade de
-amoras, particularmente as brãcas, cujas amoras saõ pardas escuras, ou
-pretas.
-
-As amoras de que se houuer de tirar a semente, se deuem colher maduras,
-& de aruores, de que se nam colhesse folha, porque o fruto das
-amoreiras de que se colheo a folha, não chega a inteira perfeição, como
-fica dito.
-
-Todas as amoras de amoreira branca, que tem semente (porque nem todas
-a tem) saõ boas, mas as amoras pretas de amoreiras brancas, saõ as
-melhores.
-
-As amoras, de que se houuer de guardar a semente, se deuem colher na
-forma seguinte.
-
-Estenderse-hà hum lançol de pouco valor, ao pé da aruore (digo de
-pouco valor, porque as nodoas das amoras, saõ difficeis de tirar,)
-& abanarse-ha a amoreira sobre elle, o que baste para que cayão as
-amoras maduras.
-
-He conueniente, que sejão colhidas sobre hum lançol, porque cahindo
-no chão, se enchem de terra, & area, de que depois se não distingue a
-semente.
-
-Colhidas do lançol, se passaràm a hum taboleiro, ou se poràõ sobre hũa
-meza estendidas, & em caza alta, & de sobrado, onde se deixaràõ cinco,
-ou seis dias para amadurecerem bem, mouendo as todos os dias para
-euitar a podridão.
-
-Passados os seis dias, se meteràm em hum saco molhado, ou em huma
-peneira muito fina, & molhada, & se espremeràõ, & amassaràõ bem com as
-mãos, para separar as sementes das amoras, & depois se tomarà tudo o
-que fica no fundo do saco, ou na peneira, & se lançarà em hum alguidar
-cheo de agoa clara, no qual em breve espaço se distinguirà a semente,
-porque deceao fundo da agoa, & tudo o mais que fica das amoras, està
-nadando em cima.
-
-Depois de colhida a semente, se estenderà sobre hũa toalha de linho,
-& se porâ hũa hora sómente ao Sol, donde depois de passada a hora se
-limparà de todo o pô, que tiuer, & se guardarà para se semear na
-sesão, & forma, que fica dito no _Capitulo II._ onde tambẽ se disse,
-que basta semear as amoras, que tenhão semente, colhidas por abano, &
-postas a amadurecer o tempo necessario.
-
-Quem quizer escuzar este trabalho, pode mandar vir de Sicilia, & outros
-lugares de Italia, as sementes, ainda que ordinariamente não são boas,
-por duas razoẽs, ou por muito velhas, ou por serẽ colhidas sem cuidado,
-de amoras podres.
-
-Mas he facil de conhecer, & separar a boa de mà semente, metendo-a em
-hum vazo de agoa, & a que depois de tres horas cahir no fundo do vazo,
-he a boa, & a que ficar em cima, se lançarà fora, como inutil.
-
-Tudo o que fica dito das amoras de amoreiras brancas, se pode obrar com
-as amoras pretas, que se comem cõmumente.
-
-De todas estas quatro sortes, se criaràõ amoreiras em grande cãtidade,
-em tempo breue, sem trabalho, nem considerauel despeza.
-
-Para conclusaõ desta Primeira Parte, em que tratei do modo de plantar
-as amoreiras, aduirto que a cultiuação destas aruores, he, & foi sempre
-a mais geral, nobre, & vtil occupaçaõ dos homens.
-
-Os antigos a começaraõ, & cõ ella se deuertiraõ no deserto os
-Anacoretas, como os mais Religiosos no principio de suas instituiçoens.
-
-Das obras de S. Ieronimo colhemos, que entre-tinha nesta occupação os
-ocios dos estudos, & a encomendaua a hum de seus Discipulos, para que
-os frutos de que se sustentaua, fossem merecidos pello seu trabalho.
-
-Todos os que seguirẽ este louuauel costume, & esta nobre occupação,
-tiraráõ della tres grãdes ventagens.
-
-Primeira, a satisfaçaõ que teràõ de plantar as aruores, de as ver
-crecer, & de colher os frutos dellas, que nos sam mais saborosos quando
-sahem, como obras das nossas mãos.
-
-Segunda, o interesse, & proueito, que resulta deste trabalho, porque
-he certo, & consta pella experiencia, que em dous campos de igual
-grandeza, & bondade, hum plantado de todas as aruores de que se pode
-tirar fruto, & proueito, & outro sô de amoreiras, o custo de cultiuar
-estas, he menor a ametade, & o proueito he quatro vezes maior.
-
-Terceira, porque a cultiuaçam destas aruores, he vtil, nam sò a quem
-as plantou, mas a hum numero taõ grande de pessoas, como saõ as que
-obrão, & trabalhaõ nas sedas, desde a criação dos bichos até a tenda do
-Mercador.
-
-E os vindouros viuiràõ agradecidos ao nosso trabalho, com a mesma
-razam, & justiça, com que nòs viuemos ao seu.
-
-Cõmumente se desprezam no mundo, as plantas, & se descuidaõ os homens
-da cultura dellas, pella desconfiança, que tem, de lhe colher os frutos.
-
-Deste erro, que justamẽte deueser condenado de todos, nos liura a
-consideração do que deuemos a nossos Auôs, que se tiueraõ, & seguiraõ
-aquella opiniaõ, nam lograramos hoje, o que elles com o seu trabalho,
-& com a sua cultura nos deixaram. Somos obrigados todos a cuidar na
-posteridade, os pays pello que deuẽ aos filhos, & todos pello que deuem
-à sociedade ciuil, & à terra em que nacéram.
-
-Por que trabalhos passaram os antigos Portuguezes, no descobrimento de
-tantas Ilhas, Terras, & Reynos, de que hoje lograõ seus sucessores os
-frutos, & as riquezas?
-
-Mais para nós, que para si, cultiuàraõ os primeiros descobridores as
-terras, que possuimos, & assim como, nôs abençoamos os seus trabalhos,
-& agradecemos o seu cuidado, assim os que vierem depois de nôs, teràm
-muito, que nos agradecer, em lhe deixarmos hũa vtilidade certa na
-terra, em que viuimos.
-
-Digamos finalmente os louuores, & encomios, que dam os Authores a esta
-rica planta, a que chamão symbolo da prudencia, porque produz a folha,
-depois que passaõ as inclemencias do Inuerno, & no mesmo tempo, que os
-bichos (a cujo sustento a natureza a criou) começão a se animar, & sem
-produzir flor, produz mais fecunda que as outras, folha, & fruto.
-
-A sua duraçam he tam grande, que se lhe nam sabe termo, em Italia, & em
-algũas Prouincias de França, ha amoreiras tam antigas, que se perdeo a
-memoria do tempo em que foram plantadas.
-
-Os que escreuem as excellencias desta aruore, & dos bichos da seda,
-affirmão, que vieraõ das Prouincias Orientaes, em algũas das quaes,
-os bichos formão a seda nas campanhas, sem cuidado, & ajuda dos
-homens,[12] porque naquellas partes fauorece o Ceo esta criaçam com tam
-singular prouidencia, que nam choue no tempo, em que os bichos fazẽ nas
-aruores a seda.
-
-Estes mesmos Authores escreuem, que ha cento, & dez annos, que foram
-trazidos a Grecia, & Italia, & na Prouincia de Prouança em França,
-como mais vesinha de Italia, ha cem annos, que se introduzio o vzo de
-criar os bichos; & as aruores, que se plantârão naquelle tempo, estão
-agora com toda a sua força, & vigor, saõ as mais fermosas, as mais
-lucratiuas, & as menos sogeitas ao rigor dos tempos.
-
- [Illustração]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[12] In Trapobane sericum, sine cultu, ex arboribus detrahitur à
-Bombycibus confectum. _Linschot cap. 23. in commentar nauigationum._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- II. PARTE.
-
- CONTEM O MODO DE criar os bichos, até tirar a seda.
-
-
-
-
- CAPITVLO I.
-
- _Do lugar proprio para criar os bichos._
-
-
-Para fazer hũa copiosa criação de bichos de seda, se deue preparar hum
-lugar cõmodo, em que se alimentẽ sete semanas, que tem de vida, ao
-menos nos vltimos trinta dias, porque nos primeiros, se podem criar em
-lugares mais estreitos, & em quaesquer camaras, a que não fazem nenhum
-genero de dano, como não sejão sotaõs, ou lugares humidos, mas em
-camaras claras, & liures ao vento.
-
-Conuem que as camaras, se for possiuel, tenhão janellas hũas defronte
-das outras, algũas ao meyo dia, porque nos dias calmosos entre o ar
-liuremente, mas tambem que tenhão vidraças, ou encerados porque nos
-dias tempestuosos, & frios estejaõ abrigados.
-
-He necessario, que não haja nenhum mao cheiro, & he preciso cerrar
-todos os buracos de ratos, & impedir, que não entrem na camara,
-galinhas, frangos, ou pardais.
-
-Na camara destinada a esta criação, se armaràm junto das paredes,
-partileiros da altura, que se quizer, segundo a criação que se faz, &
-nelles se meteràm taboleiros diuididos huns dos outros, meyo palmo, &
-huns sobre outros em distãcia de hum couado, & pello meyo da caza, se
-pode tambem armar, deixando espaço entre hũs, & outros, capaz de poder
-andar liuremẽte a pessoa, que tiuer cuidado delles, & para poder meter
-escadas para sobir aos taboleiros mais altos, a lhe meter folhas.
-
-Os taboleiros, tenhão as bordas altas, para impedir, que os bichos nam
-cayam, & para maior preuẽçam, he conueniente que os taboleiros debaixo
-sejão maiores, que os primeiros, porque vindo a cahir os bichos do
-taboleiro alto, fiquem no baixo, & se nam percam.
-
-Os partileiros, sobre que se ham de armar os taboleiros, em altura de
-quinze pés, podẽ ter seis ordẽs de taboleiros.
-
-As pessoas que costumão fazer esta criação todos os annos, fazẽ por hũa
-sô vez a despeza destes partileiros.
-
-He bom pôr sobre elles, papeis, assim para a conseruaçam, & limpeza
-delles, como para a facilidade, que com elles se tem em mudar os
-bichos, quando he necessario; muitos escuzão esta despeza a qual nam he
-considerauel, & toda a casta de papel serue a este effeito.
-
-As pessoas pobres, a que falta a cõmodidade de caza separada, de
-partileiros, & taboleiros, fazem a criaçam sobre a mesma caza, como
-seja de taboado, dentro de arcas, cestos, alcofas, ou sobre taboas
-postas de parede a parede, sem outro cuidado mais, que de os guardar a
-todos os bichos, & passaros, que os comem.
-
-A frequente entrada de gẽte nas cazas, o fogo, & o fumo não lhe
-fazem dano, o que lhe faz dano, he o grande estrondo de sinos, a
-vesinhança de officios mecanicos, como Ferradores, Ferreiros, & outros
-semelhantes, que lhe causaõ o mesmo dano, que os trouoens, pello que
-serà conueniente de os apartar, o mais que puder ser, destes estrondos,
-suposto que sendo nascidos entre elles, lhe naõ fazem dano.
-
-
-
-
- CAPITVLO II.
-
- _Regras para conhecer, & escolher os melhores graõs, & fazer sahir os
- bichos._
-
-
-Os melhores graõs, sam os que vem de Sicilia, do Leuante, & de
-Hespanha; sam pequenos, pardos escuros, & muito redondos, & para
-conhecer sesaõ mortos, ou falsificados, se quebrara hum entre as vnhas,
-& se lãçar bem de humor luzente, he sinal de bondade.
-
-Os graõs de Piemonte, nam saõ tam bons, como os de Hespanha.
-
-Os de Bolonha saõ iguaes na bondade, pello cuidado, que naquella Cidade
-se poem, em os tirar, como ordinario trato della.
-
-Os de Messina saõ os que mais se estimaõ em Europa.
-
-Em conhecer os graõs ha algũa difficuldade, porque a semente das
-borboletas, que se nam jũtarão com os machos, tem a mesma cor, o mesmo
-pezo, & quebrada lança a mesma humidade, & nam tem seruiço algum, como
-tambem a semente feita de borboletas, sahidas de casulos pequenos, cuja
-seda nam tem a bondade ordinaria.
-
-Para euitar estes inconueniẽtes, he preciso, valerse de
-correspondencias fieis, nos lugares aonde se compram.
-
-Os primeiros a enganàr, & ser enganados, sam os que fazẽ trato desta
-mercancia, porque comprão quantidades grandes; o mais seguro he,
-quando se encontram nouidades boasde bichos, ter cuidado de guardar as
-sementes, na forma, que se dirà no fim deste Tratado.
-
-Nam he necessario guardar, senão a quãtidade, que se pode criar; para
-hũa onça de graõs, bastaràõ duas, ou tres amoreiras grandes, ou cinco,
-ou seis pequenas.
-
-Posto que os graõs dos bichos da seda, se animão de si mesmos, logo
-que o calor da Primauera os aquenta, he conueniente cobrilos, por duas
-razoens.
-
-Primeira, por anticipar a criação às calmas de Iunho, & antes que as
-amoras sejam maduras, porque a folha he mais difficil de colher, & as
-amoras lhe communicaõ demasiada humidade.
-
-A segunda he, porque os bichos sayam hum mesmo tẽpo, o que he mais
-facil com calor artificial.
-
-Para euitar este inconueniente, costumão em algũas partes, depois de os
-benzer nas Igrejas, metelos em bom vinho, o espaço de meyo quarto de
-hora, & depois lançalos sobre hum linho branco, & polos a enxugar ao
-Sol, se nam for muito ardente, & ao fogo em distancia proporcionada: o
-tempo conueniente, he a Lua noua de Abril, mas nas terras quentes, aõde
-a folha se anticipa, a regra principal he, quando as amoreiras tiuerem
-folhas capazes de se colherem.
-
-Depois que os graõs estiuerem secos, se meteràõ em hũa caixa bẽ
-cerrada, & limpa, com algodam pellas extremidades, & em que sô caiba
-a quãtidade dos graõs, que se quizerem cobrir, & se porâ a caixa
-abrigada, & aonde haja fogo se for em terra, & tempo frio, & nella se
-meterà a caixa em hũ cubertor de papa, ou de pano, & estando desta
-sorte dous, ou tres dias, se verà que os bichos começão a se animar, &
-mouer sobreo algodaõ, o que visto, se meterà sobre a boceta, hũa folha
-de papel branco com buracos, por onde possaõ caber os bichos, & sobre
-ella folhas de amoreiras, até que os bichos subaõ, & se peguem nas
-folhas.
-
-Tanto que as folhas estiuerem cubertas dos bichos, que naturalmente
-sobem, & se pegam nellas, se tiraràõ com as folhas, & se passaràm aos
-taboleiros, aonde se ha de continuar a criaçaõ delles.
-
-Esta preuençam de fogo, & vinho, se escuza nas terras quentes, aonde
-basta a das caixas cubertas em cazas abrigadas.
-
-
-
-
- CAPITVLO III.
-
- _Das mudas dos bichos, & como conuem tratalos no tempo dellas._
-
-
-Os bichos mudão quatro vezes desde o nacimento, até formarẽ os casulos;
-em cada hũa destas mudas, dormem o espaço de tres, ou quatro dias, &
-saõ como immoueis, ou doentes, & não comem até mudar as pelles, o que
-se conhece, quando parecem mais brancos, & mais curtos do que erão.
-
-Depois que mudão, comem outo dias, até tornar a segunda muda, & assim
-até a quarta, em que chegaõ a toda a sua grandeza, que he a grossura,
-como de hũa pena de pato, & o comprimento de duas polegadas.
-
-Acabadas as mudas, nam ha regra a guardar, para os mudar de cama ou
-lhe dar de comer, porque hũa, & outra cousa se deue fazer sempre que
-tiuerem necessidade.
-
-A ordem, he passalos dos taboleiros, em que estam, a outros taboleiros
-naõ muito juntos huns dos outros, & darlhes a comer folhas frescas,
-& limpas de todo o pô, colhidas ao Sol, porque nam tenham orualho,
-metendo sempre folhas nos lugares vazios, & junto aos bichos, por
-euitar que se nam juntem huns com os outros o que não he danoso nos
-primeiros dias.
-
-O modo de os mudar dos taboleiros, he com as folhas, em que estão
-pegados, hum quarto de hora, depois que estão pegados nellas, & no
-mesmo tempo meter folhas frescas no lugar donde os tiram, para os
-bichos, que ficam, porque estas mudanças se fazem para lhe dar mais
-espaço, quando crecem.
-
-Os mais curiosos tem agulhas grossas de prata, ou latam, para os hir
-mudando, em quanto ha perigo, de os mudar com os dedos.
-
-Tres, ou quatro dias depois de animados, conuem mudalos, & que a caza
-nam esteja exposta a ventos frios; & nas terras frias, se fazem secar
-os taboleiros ao fogo, para lhe tirar a humidade, & depois de cinco, ou
-seis dias, os tornam a mudar.
-
-Quando os bichos sam grandes, naõ ha perigo de os mudar, & tocar cõ os
-dedos, nẽ de os expor, & costumar ao ar, em bons dias.
-
-As pessoas, que nam tem tempo & cõmodidade de mudar os bichos de lugar,
-& os separar antes que se mudem, he necessario separalos, & mudalos
-nas mudas, & obseruar com cuidado, quando sahem dellas, para os hir
-separando, & darlhe de comer logo, porque sahem com apetite, duas vezes
-no dia, quãdo sahem da primeira muda; quando da segunda, o mesmo; tres
-vezes no dia se lhe darà de comer, quando sahem da terceira muda, &
-quãdo da quarta, todas as vezes, que se virem as folhas pella maior
-parte comidas, porque lhe he danoso estarem sepaço considerauel sem
-comer, quando estão chegados ao tempo de subir, & para este tempo lhe
-guardaràm as amoreiras melhores, que tenhaõ as folhas mais fortes,
-porque lhe faz fazer a seda mais forte.
-
-Deue obseruarse, que algumas amoreiras, antes do S Ioam, produzem
-segunda ordem de folhas, que sam muito tenras, & humidas, & naõ conuem
-dar destas aos bichos, porque a demasiada substancia, que lhes daõ, os
-faz entropecer, estando chegados a subir.
-
-A melhor preuençam cõtra este dano, he começalos a criar com
-abundancia de boa folha, porque faràm a seda em seis semanas, ou
-quarenta & cinco dias.
-
-
-
-
- CAPITVLO IV.
-
- _Modo de colher, & conseruar as folhas das amoreiras._
-
-
-As folhas das amoreiras, se deuem colher depois do Sol secar o orualho,
-ou a agoa de chuua, em tempo chuuoso, porque aos bichos da seda, nenhũa
-cousa lhe faz maior dano, que folhas molhadas do orualho, ou da chuua.
-
-A folha guardada doze, ou quinze horas, & até dous dias, he melhor para
-os bichos, do que se se lhe der logo, depois de tirada da aruore, &
-recen-colhida. E se não ouuer outra folha, que lhe dar, mais que a que
-se colher em tẽpo de chuua, melhor he fazelos jejuar, que darlhe folha
-molhada, & he preciso esperar, que se seque, & para este effeito, poràm
-a folha entre dous lançois, ou entre dous panos de linho, depois de
-secos ao lume, & os sacudiràm para fazer correr a agoa das folhas, que
-tambem por este modo se secaràm mais da depressa, com o vento que tomão
-nesta agitaçam; & depois de sacudidas as estenderàõ sobre camas, ou
-panos, para que acabem de se secar de todo.
-
-Quãdo se vé, que tẽpo ameaça chuua, conuem fazer hũa boa prouisaõ de
-folha, para dous, ou tres dias, que he o tempo, que se pode guardar,
-se estiuer em lugar fresco, em que corra o ar, & he preciso mouela
-muitas vezes no dia, porque as folhas amontoadas hũas sobre as outras,
-se esquentaõ, & ficam humidas, & molhadas, como as que se colhem com
-orvalho, ou chuua, & porque esta sua humidade faz muito mal aos bichos
-nam podem servir, senam depois de enxutas; entre tanto, se os bichos
-necessitarem de folha, se lhe reuolueràm as camas, & elles acharàm que
-roer nas folhas, que tem debaixo de si.
-
-A folha das aruores situadas em lugares humidos, & sombrios, aonde
-nam chegam os rayos do Sol, faz mal aos bichos, como tambem as folhas
-amarellas, ou manchadas de pardo escuro, como lentilhas; & naõ saõ
-menos danosos aos bichos, os renouos, que brotaõ do tronco da
-amoreira, ou dos ramos mais grossos do mesmo anno.
-
-Conuem, que os que colhem a folha, tenhaõ as maõs limpas, que nam
-cheirem a cebollas, nẽ alhos, que antes de a hir colher nam tomem
-tabaco de fumo, & que naõ quebrem os ramos, quando a colhem.
-
-Naõ colheràõ as folhas, às mãos cheas, mas folha por folha (se for
-possiuel,) porque assim conuem para as amoreiras, & para os bichos;
-para as amoreiras, porque nam se arrancarâm os renouos do anno; & para
-os bichos, porque as folhas se colherám inteiras, & nam tomaràm o mao
-sabor dos ramos, com que se roção, quando se apanhão com violencia.
-
-Em conclusaõ, poràõ as folhas em sacos, ou em cestos muito limpos,
-& nam as apertaràm muito, porque apertadas se quebraõ facilmente, &
-em menos de meya hora se esquentam, & ficam molhadas, como se foraõ
-tomadas da aruore, em tempo de chuva, ou com orvalho.
-
-
-
-
- CAPITVLO V.
-
- _Das doenças dos bichos da seda, & dos remedios, que se lhe podem
- aplicar._
-
-
-Os bichos estam sogeitos a dous generos de doenças, hũas naturaes, &
-outras accidentaes.
-
-As naturaes, saõ as quatro mudas, que fazem até o tempo, em que começaõ
-a fazera seda; em cada muda, deixam a pelle, estam tres, ou quatro dias
-sem comer, ficam sem mouimento, & como adormecidos, & se apartaõ huns
-dos outros, quanto podem; & estas mudas, ainda que naturaes, sam causa
-de algũa quebra nos bichos.
-
-As suas doenças accidentaes saõ causadas do rigor dos tempos; da mà
-calidade da folha; da pouco sadia situaçaõ do lugar, em que se criaõ;
-do mao trato, que se lhe dà; & do mao cheiro, que os offende.
-
-Em quanto ao rigor do tempo, a calma lhe faz mais mal, que o frio.
-
-Quando se leuanta algum vento frio, & desabrido, conuem ter a caza bem
-fechada, & no meyo della alguns fogareiros, com brazas acezas, & naõ
-caruoens, & cerrar todas as portas, & janellas por onde pode entrar o
-vento.
-
-Ao excesso da calma, se remedearà com abrir todas as portas, &
-janellas, para os refrescar, & cõ lhe mudar muitas vezes as camas,
-porque lhe causaõ muito calor.
-
-Se tal-vez deixarem de comer, ou se as folhas, que se lhe deram de hum
-pasto a outro, naõ forem comidas, não se lhe deue dar outras, & bom
-serà mudalos do taboleiro, ou partileiro em que estam, & darlhe nouas
-folhas, & não lhe pór outras, até que não sejão bem comidas.
-
-E se não estiuerem em estado, que se possa bolir nelles, como quando
-estão na muda, em que não comem, por adormecidos, ou doentes, pouca
-folha se lhe deue dar, ou nenhũa, até naõ acabarem de roer a que se lhe
-deu, & bom he deixalos neste estado, sem lhe fazer mouimento algum, até
-que elles mesmos acordẽ do letargo, & madorna, em que estão.
-
-Se os bichos não medrarem, & se muitos delles morrerem, bom ser à
-mudar lhe as camas, & perfumar os partileiros, & se ouuer lugar,
-melhor serà, mudalos para outra caza, & com particular cuidado, hir
-sẽpre apartando os doẽtes, darlhe a melhor folha, mas pouca, & mais
-a meudo, do que se costumaua, para os espertar, & naõ lhe dar folha,
-se não tiuerem comido a que tem debaixo de si, perfumalos cõ encenso,
-beijuim, & outros cheiros, & heruas cheirosas do campo, ou com o fumo
-de toucinho magro, presuntos, & chouriços fritos, ou postos sobre as
-brazas.
-
-Tambem os perfumaràm pondo no lume hum ferro, & hum calhao, &
-apagando-o com vinho, ou vinagre, ou maluasia: Estes fumos, & vapores,
-despertam, alegrão, & sarão aos bichos.
-
-Por esta mesma razam, bom serà borrifar algũas vezes a caza, em que
-os bichos estiuerem, as paredes, & os taboleiros, com vinho, ou
-vinagre, & esfregar tudo com eruas, & folhas de aruores, de bõ cheiro,
-como funcho, alecrim, louro, & outras semelhãtes, principalmente se
-estiuerem doentes, & se morrerem muitos, porque de outra sorte, estes
-cheiros seriam inuteis, & poderiam prejudicar, por serem fortes.
-
-O bafo, dos que tiuerem comido alhos, cebollas, ou porros, ou dos que
-mastigam, & tomão tabaco de fumo, he danoso aos bichos, quãdo estão
-saõs, & muito mais, quãdo estão doentes, & por isso estes taes nam os
-tocaràm, nem bolirâm com as folhas, nem quem andar com sal.
-
-As moças, & mulheres, que andarem com suas menstruas purgaçoens, nam
-boliràm nos bichos, nem entraràm nas cazas, em que estiuerem, em quanto
-lhe durar este achaque, porque isto os mata.
-
-He necessario que nas cazas, em que esta criação se fizer, haja muita
-quietação, & que seja em parte donde não se oução de perto tiros de
-armas de fogo, nem sons de sinos, tambores, ou trombetas, & sobre tudo
-não se dem pancadas grandes na caza donde estiuerem, deixando cahir
-algũa cousa de pezo, arrastrando bofetes, & cadeiras, ou outras cousas,
-que abalaõ os sobrados, porque qualquer destes estrondos, lhes causa
-doenças nas mudas.
-
-Em quanto os bichos começarem a fiar, & tecer a sua seda & a formar
-o seu casulo, naõ façaõ bolir os estrados, ou partileiros, em que
-estiuerem por ser este o tẽpo da força do seu trabalho, em que
-começaõ a encolher o corpo, & as pernas, & qualquer mouimẽto, que lhe
-occasionarẽ, lhe faz quebrar o fio da seda, com que tecẽ o casulo, &
-depois andaõ buscando o fio em quãto o naõ achaõ, passa o tempo de
-tecer, & se reduzem â figura de hũa faua, & a maior parte rebentaõ nos
-casulos, que depois ficaõ molles, & naõ daõ a seda, que hauiaõ de dar,
-se naõ desinquietàraõ os bichos.
-
-Das grandes chuuas com trouoens, que sobreuem, quando os bichos saõ
-crecidos, se lhe origina a maior parte das doenças, das quaes os
-poderà liurar o cuidado, que se terà delles.
-
-As chuuas, sô lhe saõ danosas, pella grande humidade, que lhes causa ou
-pella difficuldade de ter boa folha.
-
-Esta humidade se pode remediar cõ fogareiros de brazas acezas, & nam de
-caruoens, como fica declarado, & as folhas se poderàõ secar na forma,
-que tenho dito.
-
-Pello que toca aos trouoens, em algum modo se pode euitar o dano, que
-fazem aos bichos, perfumando os com o cheiro de talhadas de presumto,
-ou chouriço fritos, ou postos sobre as brazas, & fazendo entrar na
-caza, em que se criaõ, muitas pessoas, que farâm algum leue rumor, &
-poderàm reuoluer os bichos, em quanto durarem os trouoens, isto os
-aliuia muito, & o estrondo dos trouoens nam os apanha com tam grande
-sobresalto.
-
-Sinaes das doenças, são quando se fazẽ amarellos, quando inchaõ,
-quando sam luzidios, ou quando tem nodoas, como de pisaduras, & quando
-se achão molhados por baixo com humidade amarella, & he necessario
-separar os doentes dos saõs, & logo lançar fora os que se acharem com
-esta humidade, a estes bichos, chama o vulgo, Porcas; tem as pernas
-mui inchadas, & negras nas estremidades, & as nodoas do corpo auultam
-mais, & sam differentes das dos outros bichos, & hũ dia, ou dous,
-antes que este humor delles distille, sam muito molles da barriga, &
-das pernas, & suposto que se lhe pode dar algum aliuio, apartando os
-dos mais, antes que a inchação seja grande, & vzãdo dos remedios acima
-declarados, porque assim escapariam alguns; mais acertado he deitalos
-às gallinhas, do que gastar o tempo em os currar, borrifando os, &
-passando os pello vinagre, ou por outras agoas que os Authores apontão;
-& em todo o cazo, he absolutamente preciso, separalos dos saõs, antes
-que a agoa, que distillam, lhes saya da barriga, para que os mais se
-nam molhem, & que as folhas, a que a agoa chegar, nam tomem o mao gosto
-daquella humidade, que he todo o mal, que pode fazer aos bichos, por
-quanto esta enfermidade nam se communica, porque nam he contagiosa.
-
-Tambem se deuem pôr de parte, os que de ordinario andão pellas bordas
-dos taboleiros, ainda que nam estejaõ em termos de fazer muda porque a
-penas podem chegar à quarta muda sem rebentarem por grande cuidado, que
-se tenha delles, & a causa porque chegam a viuer tanto, he o muito ar,
-que tomaõ, andando pellas estremidades dos taboleiros.
-
-Eu para mim entẽdo, que a doença dos bichos, he incurauel, & para elles
-serem de algum proueito, os deitaràõ às galinhas, & para suprir a falta
-destes bichos inuteis, he forçoso, preuenirse cõ alguma semente mais,
-para que a criaçam se faça com a desejada quantidade; meia onça de
-mais, em dezouto, ou vinte onças, bastarà.
-
-Os que nunca criàram bichos, se poderàõ facilmente enganar, imaginando
-que alguns bichos, que naturalmente sam pardos, & escuros, tem a mesma
-doença, que os a que chamão porcas, mas esta casta de bichos, he a
-melhor de todas, & ha muitos delles nos graõs, que vem de Hespanha.
-
-Quando perfumarẽ os bichos, tomaràõ sentido, que entre os perfumes,
-nam haja certas eruas, sementes, & cascas, que fazem hum cheiro muito
-danoso aos bichos, como faz o fumo de couros queimados, de sedas de
-porco, cabelos, & pelos de outros animaes, porque tudo isto, para os
-bichos, he peçonha.
-
-Passo em silencio muitas outras cousas venenosas para os bichos, para
-nam dar noticias de hũ mal, que os mal intencionados poderàõ fazer,
-em dano dos que fazem esta criaçam, porque he tam grande a malicia de
-alguns, que de proposito vam borrifar de noite as folhas nas mesmas
-amoreiras, com certas agoas, que empeçonhentão os bichos & vem a ser
-esta malicia tam refinada, como a dos que vendem as sementes assadas
-no forno, ou lauadas cõ agoa feruente, com a qual misturão algũa boa
-para que se entenda, que se nam sahe toda à luz, he falta dos que fazem
-a criação, & nam dos que vendem a semente.
-
-Isto pratica a gente de hũ Reyno para outro, & isto muitas vezes se
-experimentou na semente, que se mandou para França, sô a fim de que
-naquelle Reyno nam houuesse abundancia de sedas, & forçosamente se
-seruissem das das outras Naçoens.
-
-Por isso ensinarei no seguinte Capitulo, o modo com que neste Reyno
-poderà hauer daqui em diante, tão boa semente, como nos Reynos
-estrangeiros, para que possamos escuzar a sua, & juntamente as sedas,
-que nos vem de fora.
-
-
-
-
- CAPITVLO VI.
-
- _Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que
- daràm excellẽtes graõs com abũdancia._
-
-
-Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a
-Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos
-Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.
-
-No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha
-das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte
-dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua,
-nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm
-de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias,
-dar à vacca folhas de amoreira.
-
-Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite
-da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos,
-que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas
-ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em
-hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam
-sinta o fedor.
-
-Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta
-corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de
-amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se
-criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos
-quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores,
-que os dos outros bichos.
-
-Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de
-alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà
-preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue,
-carne, & ossos da vitella, como fica declarado.
-
-Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca
-despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.
-
-O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta
-marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de
-_Bombice_.
-
-Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[13]
-
- _Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci,
- Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus
- Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes
- Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;_
-
- _Interea stabulis tantum illi pinguia mori
- Sufficiunt folia, & lactenti cortice ramos.
- Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis
- Bombicem fractis condensam erumpere costis,
- Atque globos toto tinearum efferuere tergo,
- Et veluti putres passim concrescere fungos._
-
-
-
-
- CAPITVLO VII.
-
- _Modo para fazer sobir, & tecer os bichos da seda._
-
-
-O Fazer a sede, he tam natural aos bichos, que apenas sahem da semente,
-quando começam a deitar do estamago hum fiosinho de seda, & se bem
-repararmos, veremos as casquinhas da semente pegadas hũa com outra,
-com hũas sedinhas quasi imperceptiueis, & as folhas que se deixaõ
-sobre a semente, & o papel furado, para obrigar os bichos a sahir,
-tambem ficam pegadas pella tecidura dos raminhos da seda, que os bichos
-deixaram.
-
-Por onde consta, que em quanto, viuem, sempre tem este fio de seda
-aparelhado para se pegarem, quãdo querem, porque ainda que depois de
-sobidos, se deixem cahir, sempre lhes fica a ponta da seda na boca,
-para tornarem a pegar, assim como fazem as aranhas.
-
-De maneira, que tanto que chegar o tempo destinado para os bichos
-fazerem a seda, elles mesmos, em achando lugar proporcionado para
-se agasalharem, começaràõ a fazer o seu casulo, sem arte algũa, ou
-industria dos que tem cuidado de os criar.
-
-Pouco mais, ou menos de doze dias depois da quarta muda, se achaõ em
-estado de dar principio à sua obra, o que se pode facilmẽte conhecer,
-por estes sinaes.
-
-Primeiro, o corpo se lhe faz mais claro, & quasi transparente como hum
-Alambre, como se verà, tomando-os na mão, & pondo os à luz do Sol de
-dia, ou ao lume da candea de noite.
-
-Segundo, os circulos, que tem à roda do corpo, passaõ de hũa côr verde,
-a hũa côr de ouro, em que se representa a seda, que elles tem no esta
-mago.
-
-Terceiro, o bico da boca, se lhe faz mais agudo.
-
-Quarto, andaõ de hũa parte, & outra, por meyo dos outros, sem se lhe
-dar de comer, & leuãtando a cabecinha, dão mostras de querer hir à
-lenha, & fiar a sua seda.
-
-Primeiro que os bichos cheguẽ a esta madureza, & perfeição, he precizo
-ter nos partileiros as casinhas, ou cabanas armadas, com ramos
-dobrados, a modo de arco, os quaes seràõ de giesta, ou louro, vide,
-medronho, vime, feto, ou de outras plantas, ou heruas, que não tenhão
-humidade algũa nem espinhos, que possaõ offender os bichos, quando
-sobem, ou quando cahem.
-
-Em cada casinha poràõ a quantidade dos bichos, que parecer cõforme
-à capacidade do lugar, & os estenderàõ sobre folhas de papel muito
-limpas, no plano da mesma casinha.
-
-Desde entaõ começaràm a lhe dar pouco de comer, mas boas folhas, &
-muitas vezes, de dia, & de noite, & jà naõ teram mais o cuidado de os
-alimpar, nem de os mudar.
-
-Mas sô lhe abriram as portas, & janellas nos dias de calma para os
-refrescar, & se se leuãtar algum vento frio, & desabrido, as tornaram a
-fechar para os defender das asperezas do tempo.
-
-Tres dias depois, que os bichos tiuerem principiado o seu casulo, se
-a maior parte delles estiuer trabalhando na lenha, & se ficarem muito
-poucos no chaõ da casinha, tomaràõ estes poucos, guardandose de abalar
-as casinhas, os tirarâõ juntamente com suas camas, & com o papel,
-deixando as taboas limpas, & os poram em outra casinha vazia sobre
-outro papel nouo, & limpo, & lhe daram outras folhas frescas como
-d’antes.
-
-Esta limpeza das casinhas tres, ou quatro dias, depois de sobir a maior
-parte dos bichos, he muito necessaria, porque a folha, que cõtinuamente
-se poem para sustento dos que ficaõ em baixo, faz as camas maiores, & o
-mao cheiro, que dellas sahe, offende os bichos.
-
-Além de que sempre arrebentão alguns nas camas, cuja podridão exhala
-vapores mui danosos aos bichos, principalmẽte naquelle tempo, em que
-necessitam de ar fresco, & liure de toda a corrupção.
-
-Em quanto aos bichos preguiçosos, que tardão em sobir, depois de
-passados a outra cabana, se lhe diminuirà o comer pello espaço de
-cinco, ou seis dias, & quando se encolherem, & se fizerem vermelhos, os
-porâm em papeliços, para os ajudar a fiar.
-
-E se nam houuer tempo, ou se nam tiuerem paciencia para fazer a
-quantidade de papeliços, que basta os porâm todos sobre hum montão
-de cauacos de vime, ou de outros pedacinhos, & fragmẽtos da lenha,
-de que se compuzeram as cabanas, aduertindo que nam serue guardar os
-casulos desta casta de bichos, para fazer semente, porque os que della
-sahirem, teràm a mesma falta, & quasi todos seràm curtos, & pequenos.
-
-
-
-
- CAPITVLO VIII.
-
- _Do tempo, em que os casulos se hão de tirar da lenha._
-
-
-No primeiro dia, que o bicho começa a fiar, forma a sua anafaya, que
-he como hũa tea de aranha, no segundo começa o seu casulo, & se cobre
-quasi todo de seda; no terceiro, não se vé jà, & nos seguintes, vai
-espessando a sua obra, sem nũca quebrar o fio, que he tão delgado, &
-juntamente tão comprido, que nam he hyperbole dizer, que com hum destes
-fios, se pode cingir hũa grande Cidade, porque tem quasi duas legoas de
-comprimento.
-
-Suposto isto, depois de outo, ou dez dias, tiraràõ cõ destreza os
-casulos da lenha, & os guardaràõ em cestos, ou alcofas; daràõ algũ tẽpo
-mais aos vagarosos, mas tambem não esperaràõ, que os que foram mais
-diligentes na tecidura do seu casulo, o cheguem a furar, porque feria
-hũa grande perda, para os que os criarão.
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- III. PARTE.
-
-
-
-
- CAPITVLO I.
-
- _Como se deuem aparelhar os casulos, para delles tirar a seda, &
- conserualos muito tempo, & impedir que as borboletas nam os furẽ._
-
-
-Se os que criaram os bichos, por falta de fiandeiras, ou pella grande
-abũdancia da nouidade, nam tiuerem tempo, nem commodo, para tirar a
-seda dos casulos, quatro, ou cinco dias, depois que os casulos forẽ
-tirados dos ramos, poràm os casulos ao Sol, desde o meio dia até as
-quatro horas da tarde, tornando-os a pór, & tirar tres dias, sẽpre nas
-mesmas horas, & por este modo os ardores do Sol, affogaràm os bichos
-nos seus casulos.
-
-Tambem poderàm pôr em parte separada dos casulos, algumas mantas, ao
-maior calor do Sol, quatro ou cinco horas ao menos, & nestas mesmas
-mantas, & cobertores muito quentes, recolherâm os casulos, & os
-cobriràm, porque com este calor abafadiço, os bichos morrerâm mais
-depressa.
-
-Depois disto, os casulos se poderàõ guardar muito tempo, & ouue quem
-os guardou mais de cinco annos, ficando a seda tam boa, como a que
-fora tirada quinze dias, depois de acabada a criaçaõ; verdade he que
-nam parece tam lustrosa nas meadas, mas depois de tinta, & aparelhada,
-tem a mesma bõdade, & perfeiçaõ que a outra, porque no casulo, o bicho
-transformado em faua, se seca, & se mirra de maneira, que naõ tem, nem
-toma mais humidade algũa, com que possa fazer dano â seda.
-
-Em tempo pois chuuoso, ou cheo de neuoas, se farâ com o calor do forno
-o que se hauia de fazer com o calor do Sol.
-
-Porâm os casulos em cestos, alcofas, ou sacos velhos, dentro de hum
-forno mediocremente quẽte, como quando se tira o pão depois de cozido,
-& se quatro, ou cinco horas de Sol, eram precisas para fazer morrer os
-bichos, para este mesmo effeito, bastarà hum quarto de hora do calor do
-forno muito bem tapado, & chegando os ouuidos â boca do forno, ouuirâm
-estalar os bichos, & ranger nos seus casulos, como formigas lançadas em
-cinzas quentes, & logo immediatamente tirarâm os casulos do forno, &
-os enuoluerâm em cobertores muito quentes, & este calor os acabarâ de
-matar a todos, porque se ficarem os casulos ao ar descoberto, muitos
-dos bichos tornaram a viuer, & furaram os casulos.
-
-Depois disto, estenderam os casulos sobre taboas ao ar, ou ao Sol, para
-os secar, & endurecer, porque alguns delles ficão fofos, em razam da
-humidade que lhe cõmunicaram os bichos, que estalãdo dentro delles
-por força do calor, deixaõ ir de si huma agoa, ou humor, com que fica
-embebida a seda, & assim postos ao Sol, ou ao Ar, os reuolueraõ muitas
-vezes cada dia, para que tornem a recuperar a sua primeira tesura.
-
-Primeiro que metaõ os casulos no forno, tiraraõ o barbilho, que està
-a roda delles, como os dedos, sem lhe chegar com as vnhas, & para
-preseruar os casulos mais altos, do calor do forno, que os poderia
-torrar, poraõ hum panno de linho, ou folhas de papel sobre os cestos ou
-alcofas, & naõ amontoaraõ os cazulos em cantidade nem os apertaraõ nos
-cestos, paraque todos igualmente sintaõ os effeitos do calor, que he
-preciso, para a extinçaõ dos bichos.
-
-
-
-
- CAPITVLO II.
-
- _Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque
- ponham a semente._
-
-
-Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas,
-que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ
-os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de
-verdemar saõ os melhores.
-
-Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem
-casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.
-
-Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada
-casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo
-brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir,
-serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue
-para o nosso intento.
-
-Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ
-cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.
-
-Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por
-huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são
-rombos por ambas as partes.
-
-Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de
-parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer,
-que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como
-se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para
-duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a
-do que sò se vnir com huma.
-
-Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a
-seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem
-casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que
-os bichos sahião trãsformados em borboletas.
-
-As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres
-vezes maior.
-
-Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque
-baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não
-fazem.
-
-Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ
-delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou
-sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez
-serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as
-virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois
-apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente.
-
-Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia,
-quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião,
-prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.
-
-Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os
-tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para
-os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão,
-mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, &
-sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores,
-seriaõ muito bonspara este effeito.
-
-Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem
-como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor
-de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da
-mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos,
-& estes não prestão para nada.
-
-De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção
-mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem
-dentro de si, & com elles morrem.
-
-Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas,
-grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem
-aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos
-mesmos bichos viuos.
-
-Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, &
-enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; &
-as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.
-
-Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de
-ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs
-inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas
-temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio
-congela os grãos, & a humidade os corrompe.
-
-Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os
-grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà
-em huma casa esta rica semente.
-
-Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa
-com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma
-vitella morta, na forma, que fica declarado no _Capitulo 6. da
-2. parte_ porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, &
-actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, &
-tudo acaba.
-
-
-
-
- CAPITVLO III.
-
- _Da forma do forno, dobadoura, & outros instrumẽtos para a tirar a
- seda._
-
-
-Em tirar a seda do casulo, & passala a meadas com huma roda, ou
-dobadoura, & hũ tacho de agoa quente, jà saõ as camponezas rusticas de
-Tras-os-montes, taõ peritas, que facilmente podem ensinar esta arte às
-mais prouincias do Reyno.
-
-Mas porque semelhantes exercicios melhor se aprendem com a vista, &
-experiencia, do que cõ a liçaõ, & discurso, tratarei com breuidade esta
-materia, apontãdo só alguns particulares, para aliuiar o trabalho, &
-apurar a industria das fiandeiras.
-
-O forno se ha de fazer em lugar abrigado da chuua, & do vento, & o
-tacho nam ha de ser muito profundo, nem muito largo.
-
-A portinha, por onde sa ha de por a lenha no forno, se farà dez
-polegadas mais abaixo do fundo do tacho, & afastada delle hum palmo,
-paraque o fumo se perca & se consuma no forno ao redor do fundo do
-tacho.
-
-Os cazulos se poraõ na agoa hum pouco antes, que comece a feruer,
-porque na agoa fria, a goma dos casulos se dissolue, & o mesmo succede,
-quando està feruendo.
-
-Ajũtarà á fiandeira dez ou doze fios, cõforme a seda houuer de ser
-fina, ou forte; para a fitaria, a seda deue ser muito delgada, & outo
-fios bastaõ, mas para os panos, & veludos, se deuem ajuntar doze fios
-ao menos.
-
-Fiarà com a mayor presteza que for possiuel, porque quanto menos estaõ
-os casulos na agoa, sahe a seda com mayor lustre, & em mayor cantidade.
-
-
-
-
- CAP. VLTIMO.
-
- _Do Barbilho, & do modo de o aparelhar._
-
-
-O Barbilho, propriamẽte falãdo, he a quella primeira seda, a que
-chamaõ anafaya, que os bichos fiaõ primeiro que comecem a tecer o seu
-casulo.
-
-Porem de baixo desta palaura, barbilho, se entende toda a seda, que
-se tira com os dedos do redor dos casulos, quando se daõ a fiar,
-& juntamente todos os casulos furados pellos bichos, & todos os
-desperdiços da seda, que a fiãdeira naõ pode inteiramente tirar.
-
-Este genero de seda, naõ pode ser fiado em meadas na dobadoura, mas
-he preciso cardalo, & depois tiralo na roda, cu na roca, & para este
-effeito, faraõ primeiro o que se segue.
-
-Ajuntaraõ todas estas reliquias, & sobejos da seda, tiraraõ della os
-bichos que acharem, & a limparão de toda a immundicia, & depois a
-meterão em molho em agoa clara, dentro de hum alquidar, ou em qualquer
-outro vazo de barro, ou cobre, pelo espaço de tres, ou quarto dias;
-cada dia mudaràm a agoa para que nam se corrompa, & que o barbilho se
-faça mais aluo.
-
-Nesta agoa os casulos se faràm mais moles, & se dissoluerà a goma, que
-os bichos communicàram aos casulos, quando os tecéram.
-
-Depois poràm tudo junto a feruer dentro de hũa caldeira, em barella
-clara, passada por hum pano, & purgada das cinzas, com que foi feita.
-
-Ferueràm os casulos meya hora, & depois de desfeita a goma, que os faz
-tam tesos, como pergaminho, os lauarâm com agoa clara, & as molheres os
-fiaràm com o fuso, ou com a roda, mas primeiro os faràm cardar, para os
-fiar com mais facilidade.
-
-Com este fio de barbilho muito delgadamente fiado, se podem tecer panos
-tam finos, como os que se fazem com a seda, tirada na dobadoura,
-outros fazem delle retroz para cozer, dandolhe o lustre.
-
-Finalmente para conclusam desta obra, digamos que nos bichos da seda,
-tudo he milagroso em quanto viuem, & tudo o que delles fica, depois de
-mortos, aproueita.
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- AMPLISSIMIS FRATRIBVS
-
- D. D. FERDINANDO
- MASCARENIÆ.
- Comiti à Turre.
- ET
- D. D. FRANCISCO
- MASCARENIÆ.
- Comiti Cocolini.
-
-
-_Hactenus publicæ studui vtilitati, nunc vestræ seruire cupio
-oblectationi; cũ emim his quisque rebus delectetur, quibus quodam
-natura ductu incumbit, quid jucundius afficiat liber ali ingenio
-juuenes, quam fructus artium liberalium? O pes, auitum stemma,
-generosus sanguis, & Aulæ oblectamenta, vobis sunt post studia, omnes
-quippe animi affectus, vni voluistis fieri sapientiæ vectigales.
-Percurrendo amænioris litteraturæ curriculo, vix Ætas alijs integra
-sufficit, vestra vobis satis fuit Adolescentia; cum Musis versamini,
-vt sororibus, cum Apolline loquimini, vt fratre; & dum alter alterum
-eruditâ contẽtione transcendere studetis, domus vestræ fiunt, domicilia
-doctrinarũ, scientiarũ Augustalia, & bipartitum Vlyssiponis Athenæum._
-
-_Quibus attentè perspectis, vt aliquid libellus hic complecteretur,
-quod ad vestrum palatum faceret, perneceßariũ esse arbitratus sum,
-vt quæ de Mororum cultura, & Bombicum educatione, sparsi in vulgus,
-plebeio sermone, humilique stylo, eadem vobis nobiliore dicendi
-charactere depicta sisterem._
-
-_Mirabimini prudẽtiam in Moro, in Bombice industriam, & in vtroque,
-recondita naturæ solerter operantis arcana._
-
-_Quid moro sapientius? Arborũ postrema germinat morus, vt fructificet
-securior, fœtusq; suos haud euocat in lucem, nisi extorri hyeme,
-exanimis Aquilonibus, & prouecto jam vere._
-
-_Quid industrius Bombice? vno Bombix instrumento, ore scilicet, innatum
-sericum deducit in fila, carminat in lanugines, contorquet in mæandros,
-congerit in stamina. cogit in glomos; describit orbes sine circino,
-sine penicillo colores inducit, & sine vllo aduentitio apparatu,
-domunculam instruit, Cæsarum Palatijs splendidiorem._
-
-_Tanti tamen, & tam strenui Artificis opera omnia sunt posthuma, haud e
-nim e a absoluit, nisi sepultus; verùm, quia (vt dici solet) excellens
-in arte non debet mori, prodit é pensili tumulo rediuiuus, ipsi
-inuidendus Phœnici; nam ex reptanti Eruca, alatus Papilio, nobilior
-resurgit, quàm vixerat._
-
-_In Moro, & Bombice, natura fortunam imitatur, summa imis, & ima summis
-miscentem; Morus, Abor regia, fit vermiculi pabulum; Bombix, ignobilis
-vermiculus, ejectamentis suis Reges vestit._
-
-_Vitam exorditur Bombix cum vere, vt parentur homini elagantia
-indumenta, dum se terra circumtegit florenti chlamyde._
-
-_Editus in lucem, solis pascitur frondibus arboris, cui adscribitur
-sapientia, in hoc Adamo prudentior, quod Arboris sapientiæ folia
-comedit, integro, intactoq; fructu. Operosissimus Bombix, propria in
-pelle non quiescit, paucis enim diebus quater ponit exuuias, abjicitque
-pellem, vt exuat torpẽtem desidiâ senectam._
-
-_Omni tamen labore supersedet, ceditque vitâ, si fortè, sonus ingens
-obtuderit operãtem, debetur enim & opifici silentium, & operi
-admiratio, resque ipsa postulat, vt ad Bombicis ingeniosa molimina,
-orbis attonitus immutescat._
-
-_Non ideò sordidus Bõbix, quia vermis, nam seruat vrbes ab otij tabe,
-innumeras exercens operas, Regnaque sine hoc verme sunt cadauera, vt
-pote nuda, quia sine ornatu; exanguia, quia sine diuitijs, emedullata,
-quia sine viribus; vires quippe Regnorum ex diuitijs existunt,
-ingentes verò diuitias affert Bombix eximijs suis operibus, & filis
-auricoloribus auream suis alumnis retexit ætatem._
-
-_Quod alij vermes eripiunt mortuis, viuis reponit hic vermis, &
-corrosarum in sepulchro vestium damna resarcit, nouis, pretiosisque
-textis._
-
-_Quid plura? totum se Bombix exhaurit, vt hominem ditet, viscerumque
-suorum Clotho, tenuissima ducit fila, vt vitam protrahat in Reipublicæ
-beneficium. Hæc ego: Reliqua à magistri mei calamo, cũ Poeticen
-doceret in Collegio Flexiensi: Secundis auribus accipite, quæ Gallus
-hic Olor cecinit de mori, Bombicis que natura; dudũ est, quod hæc
-carmina diem aspexere, sed nunc verè proferuntur ad lucem, quia ad
-vos. Enim verô, omnia in vobis, pulchrâ quadam, & vnanimi æmulatione
-collucent, natalium splendor, jubar Sapiẽtiæ, fulgor ingenij, fulgetra
-eruditionis, & irradiantium ornamenta virtutum._
-
-_Omnes denique lucis fontes in vos deriuastis, vt Patri respondeatis,
-qui omnes in se colligit Heroas; imò omnibus antecellit, fortior
-Achille, Marte bellacior, sapientior Socrate, perspicacior Vlysse,
-Hercule laboriosior, facundior Mercurio, grauior Catone, & Apolline
-benignior._
-
-_Quapropter, mihi videmini illæ duæ stellæ, circa Solem de nouo
-deprehensæ, quæ à Mathematicis nũcupãtur, comes Solis, haud enim solùm
-estis, tituli dignitate Comites, & comites suauitate morũ, sed estis
-& comites solis, nam excellẽtissimum Fronteriæ Marchionem Parentem
-vestrũ, pleno gradu comitamini in stadio virtutis, & gloriæ._
-
-_Valete, & viuite paribus animis, & honoribus, quando quidem illam
-fælicitatem, quam Ethnicus Ausonius[14] vidit in syderibus illis
-germanis, Castore, & Polluce, adumbratam, in vobis re comprobatam omnes
-demiramur._
-
-
- Humillimus, & addictissimus feruus.
-
- D. RAPHAEL BLVTEAVIVS.
-
- Clericus Regularis Theatinus.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[14] Virtutis, & fortitudinis protendunt influxum. _Ausonius de Castor.
-& Pollu._
-
-
-
-
- [Illustração]
-
-
-
-
- LAVDES MORI,
-
- ET
-
- BOMBICIS.
-
-
- _Laus Mori._
-
- Romulidas, Myrtus[15] Paphia exornauit, ouantes;
- Pura triumphales decorauit Laurea Põpas:
- Prima dedit Quercus seruati præmia ciuis:
- Sumit Idumæam præpes victoria Palmam:
- Ast ea,[16] quȩ nutu superis dominatur & imis
- Fortunæ stolidas, quæ scit, contundere vires,
- Quæque adamantæi domitrix prudẽtia fati,
- Vnã ex Arboribus voluit sibi crescere morũ:
- Hãc amat, hâc cingit canẽtia tẽpora fronde,
- Vẽturi en agedum, secura, ignaraque corda,
- Prospicite, & dubiæ casus prænoscite sortis.
- Si pudor insanis, morus sapit, illa doloso
- Nil temerè credit zephyro, nam veris adulti
- Iam certum expectãs solẽ, nõ germinat ante
- Frigoris infesti, quam cuncta recesserit aura:
- Tum floretq; viretq; simul, longæq; repẽdit
- Dãna moræ, atq; vnâ totã se nocte profũdit.
- Viderat Æmoniâ nudam quam vesper ab[17] Oetâ,
- Proximus[18] Idæo de vertice cernit Eous
- Frondosã, & pariter grauidã, partuq; leuatã.
- Sic properat tenerũ germen, ne frigidus aer
- Manè coquat; medione die ne torreat ȩstus.
- Insidias cæli ne tunc vereare sereni
- Ampliùs, & vasto quæ cæca pericula Ponto:
- Vt bene subductam deducas nauita Pinum,
- Sint tibi[19] Vergiliȩ, videas cũ germina mori.
- Quin vbi dilectis cultoribus annua Poma
- Reddidit, hybernis ne frondibus incubet Auster,
- Aduerso pugnãs Boreæ, & certamine fratrũ,
- Collisi inter se frangantur in arbore rami,
- Sponte sua capitis sacri deponit honorem.
- Vtque minus fiat sæuis obnoxia ventis
- Iratique Iouis telo, fugit ardua, Morus,
- Morus in antiquis arbor gratissima lucis.
- Ad Lunæ radios hâc ludunt sæpe sub vmbra
- Cõsertȩ Satyris Nymphȩ, plaudũtq; choreas,
- Sæpe legit fœtus[20] Ægle formosa caducos,
- Ebria[21] Sileno queis sublinat ora jacenti.
- Poma gerit morus triplici distincta colore,
- Nã paribus spatijs albẽtq; rubentq; nigrẽtq;
- At color ille parum lætus, qui fructibus ater,
- Omina sanguineis nec sunt nisi tristia moris;
- Quid te nigra mouent? niger est[22] Phæbeius oscen,
- Nec tamen augurio quicquam fælicius illo,
- Solis vbi nitido veniens spectatur ab ortu.
- Astrorũ & somnimater, nox alma, quadrigis
- Inuehitur nigris: ebeno tumet India nigro:
- Laudamus nigros oculos, nigrumq; capillũ,
- Ac nigras violas,[23] fului editus imbre metalli
- Deperijt nigros Cepheæ Virginis artus.
- Quod vero funesta putãt de sanguine mora,
- In vulgum has sparsit[24] Babylonia fabula nugas;
- Dat meritas igitur pænas & pẽdet Arachne,
- Inuisique operis casso est addicta labori;
- Non quod Palladiæ cõtenderit ȩmula telæ,
- Mortalisq; Deam justas stimularit in iras,
- Sed potius geminæ quod per mẽdacia cædis
- Inuidiâ morũ, miserosq; onerauit Amores,
- Assyrio tingens lugentia poma cruore.
- Adde quod & nostris Regionibus alba leguntur,
- Antiquis ignara Italis, cæloque latino.
- Iam nec Pæoniæ, jam nec succus Panaceæ
- Dictamniq; feris, notissima gramina, capris,
- Iudice me, moris certare salubribus ausint.
- Nec mihi[25] Moly tuum referas, herbamq; potentem
- Capte oculis vates; à Moris plura petuntur
- Prȩsidia, & plures illis natura creatrix
- Vi quadam occultâ cõcessit pellere morbos.
- His ideò[26] Catius finiri prandia jussit,
- Cecropio Catius sapientũ primus in horto;
- Inde fit ad noxas ægri prope corporis õnes
- Panchrestos,[27] vero perhibent vt nomine Graij.
- Mororum infuso coalescunt vulnera succo:
- Auribus, atque ori prodest, aluoq; moranti,
- Languentemque leuat stomachũ, capitisque dolorem.
- Discutit & veteres panos, & tormina sedat.
- Vipereo est hostis generi, tetrisque venenis,
- Thessala, quæ tellus, quæque in mala pocula gignit,
- Vncta prometheo cautes mæotica tabo.
- Arboris ejusdem folijs medicabere tritis
- Artubus ambustis, & diri morsibus hydri.
- Saucius hoc nosset[28] magni præceptor Achillis,
- Nõ Deus optasset lethum, nec Lemnia tanto
- Saxa fatigasset gemitu[29] Pæantius heros.
- Hirsuto hinc alitur spectãdus corpore Bombyx;
- Nascũnturq; domi, quæ quõdã à littore rubro
- Mollia distincti mittebant vellera seres.
- Radicis sileo varios, & corticis vsus,
- Morborũ auxilijs hæc tota est nobilis Arbor,
- Mæonijsque cani non dignior vlla camænis.
-
-
-_Laus Bombicis._
-
- Qvò me Phœbe, rapis? quas hinc sublatus in auras,
- Aera per liquidũ, rapidis circumuehor alis?
- Vos ne adeo[30] Serum intueor mollissima Regna
- Lanificos cõplexa greges, agnosco parẽtem
- Bombycemq; sinu recubantẽ molliter albo.
- Te quoque,[31] quam memorant primã euoluisse nitentes
- Folliculos, vnde in paruæ collecta figuram
- Alitis, ignotas pennâ trepidante per auras
- Tinea carpsit iter, dulcesq; animãte susurros
- Ore, poli lætis resonarunt æquora bombis.
- Ten igitur vermis video nutricula,[32] Thisbe,
- Errantẽue sinu placidè amplexaris alunum,
- Scilicet, hũc morus ramo frõdente tenellum
- Excipit, & claras magnũ trãsmittit ad Artes.
- Namque vbi ter pigro renouauit corpora somno,
- Iam senium increpitans, & pleni pondera ventris,
- Continuò, tanta est edendi gloria fili,
- Exercetur, & effundit quæsita per Æuum
- Stamina, ditis opes vteri, suspensaq; densos
- Fila regens inter ramos, atque ordine ducẽs,
- Mille legit, relegitque vias, & circinat orbes
- Sponte sua donec niueo se carcere claudat.
- Mox autem interior circũ vndique stamina densat,
- Albentiq; Thoro immoriens glomeratur in ouum.
- Sed neq; tũ tineȩ vllus honos, aut gloria filo,
- Pãphila ni modicos Bõbicũ euoluere folles,
- Aut aperire caui docuisset tegmina linthei.
- En etiã digitis prætentat mollibus oram
- Educitque globo, lucisque emittit in auras
- Rursus aui similem, sed te ne subdola captet
- Et dulcem pullis Philomela immitibus escã,
- Auferat, Ah vereor! melius cõcluse latebis,
- Hanc sine necquiquam modulis, crispoque susurro
- Blãdiri, & tenues disperdere carmẽ in auras,
- Ni facias, rostro implebit crudelior alui
- Ingluuiẽ, ac viuo viua abdet corpora busto.
- Cætera quinetiam volucrũ lætissima turba
- Gaudet in incautos vermes inuadere, sedDij
- Dij prohibete nefas, recreet mage carmine dulci,
- Vnguibus abstineat. Niueo jam plurima surgunt
- Bombici tabulata, gradus aulæque per altos
- Mille. Prius pubes stabulãtem rustica ramis
- In nemora alta videns errare, ignara silebat,
- Hic vbi nascenti Seres dominantur Eoo,
- Deterior donec paulatim & de color, artes
- Extudit, & duros homines emollijt ætas;
- Fortunate nimis, diuũq; hominũq; superba
- Gloria, centeno reparans tua funera fœtu;
- Viue sacris Bombix decus admirabile Templis,
- Viue ducũ, Regumq; augustis addite pallis,
- Nec tua lanigeræ superabunt fila bidentes
- Tergoribus niueis, quãuis sua vellera laudet
- Hispalis, & magno Tyrios incocta rubores
- Mutaris[33] Milete, olim tibi[34] Phrixea cedẽt,
- Tu quoque ne[35] Biturix contra tua mollia jactes
- Vellera, nec facies, etenim jam vilia sordent.
-
- [Illustração]
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[15] Myrtus Paphia, quia Veneri sacra, Venus autem in vrbe Paphia,
-celeberrimo in Templo colebatur.
-
-[16] Morus quippe est sapientiæ symbolum, non enim ante germinat, quam
-frigus penitus fugatum esse cognouerit, & fætum celerrimè grandit ac
-maturat, ne caloris aduentantis injuriâ lædi possit.
-
-[17] Oeta Æmonia, siue Thessalica, est enim mons Thessaliȩ in Græcia,
-in quo monte, vt inquit Seruius, stellæ videntur occidere.
-
-[18] Sicut de monte Ida nasci.
-
-[19] Vergiliæ seu Pleiades, sunt septẽ stellȩ ante genua Tauri quæ ortu
-suo primæ nauigationis tempus ostendunt.
-
-[20] Ægle fuit Nympha hoc nomine, vna Naiadum.
-
-[21] Sileno, id est Bacchi nutritio, quem in antro jacentem pueri
-deridebant.
-
-[22] Aquila Ioui Sacra.
-
-[23] Perseus, Iouis filius, ex Danae, quam Iupiter commutatus in
-speciem aurei imbris vitiauit. Hic Andromedam, Cephei, Regis Æthiopum,
-filiam, vxorem duxir.
-
-[24] Pyramus, adolescens Babylonius, mutuo Thisbes amore captus, vbi
-ejus domo ex pacto egressæ, cruentatã reperit vestem, ratus esse
-deuoratam, gladio se sub moro interfecit; illa autem superueniens,
-multa gemens & querens, eidem gladio incubuit. Morus autem fructus
-antea candidos in nigrum colorem mutauit.
-
-[25] Moly est herba Homeri carmine celeberrima.
-
-[26] Cato inter Grȩcos sapientissimus scripsit librum de re rustica.
-
-[27] Medicamentum quod ad omnes morbos conducit.
-
-[28] Chiron, Achillis Pædagogus, in medicina peritissimus, sagittâ
-hydræ lerneæ veneno imbutà vulneratus, durissimis cruciatibus
-conficiebatur morique optabat, sed non poterat, quod vtroque parente
-immortali natus fuisset.
-
-[29] Vulcanus Iouis filius è cælo deturbatus in lemnum Insulam.
-
-[30] Seres sunt populi Scythiæ Asiaticæ à Sera vrbe dicti, apud quos
-arbores lanam tenuissimam, ex qua vestimenta serica fiebant, proferre
-creditæ sunt, quia vermes eandem lanuginem producentes nutrierunt.
-
-[31] Pamphila, Coa mulier, quæ prima telas Bombicum rediri, rursusque
-texere inuenit.
-
-[32] Thisbe, id est morus, quia hæc arbor fuit conscia amorum Thisbes.
-
-[33] Miletus, Ciuitas Asiȩ, vbi tingebantur lanæ pretiosissimæ.
-
-[34] Vellus aureum quod Phrixus in Templo suspendit.
-
-[35] Biturix, Ciuitas Galliæ Aquitanicȩ.
-
-
-
-
- ERRATAS. EMMENDAS.
-
-
- Pag. Reg.
- 12. 11. & que
- 14. 2. Outoubro Outubro.
- 27. vltim. infali,uel infaliuel
- 56. vltim. po do
- 69. 3. com elle como elle,
- 118. 2. â inteira a inteira
- 129. 1. ajudas ajuda.
- 214. vltim. sepulus sepultus
- 219. 15. comites comes
- 221. 6. contendere contundere
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-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This website includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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