summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/old/68985-0.txt
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to 'old/68985-0.txt')
-rw-r--r--old/68985-0.txt2280
1 files changed, 0 insertions, 2280 deletions
diff --git a/old/68985-0.txt b/old/68985-0.txt
deleted file mode 100644
index 79a2551..0000000
--- a/old/68985-0.txt
+++ /dev/null
@@ -1,2280 +0,0 @@
-The Project Gutenberg eBook of Infanta, by Manuel de Figueiredo
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Infanta
- tragédia
-
-Author: Manuel de Figueiredo
-
-Release Date: September 13, 2022 [eBook #68985]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTA ***
-
-
-
-
-
-INFANTA
-
-
-
-
-DO AUTOR
-
-
- ORAÇÃO DA RAÇA 1918
- INFANTA 1921
-
-
- _a seguir_:
-
- O REI LUZIADA
-
-
- EDIÇÕES LUSITANIA
- _Rua Arco do Limoeiro, 17, 1.ᵒ-Lisboa_
-
- _Todos os direitos reservados_
-
-
-
-
- INFANTA
-
- TRAGEDIA POR
-
- MANUEL DE FIGUEIREDO
-
-_Diz a Lenda que certo Poeta se apaixonou por uma filha do Rei D.
-Manuel I, o Venturoso. Chamava-se a Princeza, Beatriz e o Poeta,
-Bernardim._
-
-_A Infanta foi Duqueza de Saboia, e, exilada no seu Ducado humilde e
-pobre, deu provas de grande engenho e sabedoria, mas a sua vida, dizem
-as Chrónicas e a Lenda foi triste e saudosa_...
-
- * * * * *
-
-_Este livro não é, nem mesmo em sua origem, a historia do amor do Poeta
-e da Princeza, ou uma evocação da côrte manuelina._
-
-_Só depois de abstractamente ter «vivído» o sonho das Descobertas e das
-Conquistas, e de ter encontrado, para mim, o seu significado, procurei
-as personagens, fixei os seus valores, defini as suas atitudes e os
-seus gestos._
-
-_Tem portanto este livro um sentido mais alto e mais profundo. É a
-Tragédia d'um momento que passou e a crença, a fé, a certeza, n'um
-momento que ha-de vir. É o triumpho eterno da Raça perante o Mundo, os
-Homens, e o Destino._
-
- * * * * *
-
-_Não fiz nem quiz fazer theatro. As personagens têem um sentido mais
-symbolico do que humano._
-
-_A minha Alma viveu o momento passado e visionou o momento futuro:--o
-Triumpho espiritual da Raça!_
-
-
-
-
-DRAMATIS PERSONAE
-
-
- INFANTA
- POETA
- NAUTA
- ASTROLOGO
- PINTOR
- UM BANDARRA
- O PHYSICO D'EL-REI
-
-AIAS, NOBRES, PAGENS, GENTE DO POVO, MARITIMOS, MULHERES, SOLDADOS E
-VELHOS.
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Salla ampla, forrada d'Arrazes, abrindo para uma larga arcaria
-praticável. Por entre as columnatas e os rendilhados da balaústrada,
-avista-se o rio espraiado e colorido. Hora de sol-poente. Na distancia,
-terras em bruma.
-
-PINTOR--_na arcaria_
-
-O Céu está um boqueirão de fogo. E no movimento constante do vai-vem
-das aguas, os reflexos de luz estão bailando como se fôra um bailado de
-pedrarias a arder.
-
-Sinto que os meus olhos enlouquecem de tanta luz, de tanta côr...
-
-POETA--_que se aproximou_
-
-Olha antes, álêm, os galeões que hão-de levar a Princeza!
-
-Sem vellas, lembram ossadas...
-
-Envolvem-nos as sombras, e as sombras são caricias de abandono e
-esquecimento, adormecendo meus olhos magoados...
-
-PINTOR--_surprêso_
-
-Para que continuar sonhando?...
-
-POETA--_n'uma exaltação quási desvairada_
-
-Sonhar é bem differente!
-
-É crear um mundo nosso, onde uma só alma exista, e n'essa alma, a
-alegria e a dôr do Universo. É modelar o nosso sonho numa imagem,
-e nessa imagem viver milhares de vidas!... Vivê-las encantado n'um
-momento, soffrê-las perdidamente até á loucura, resurgi-las depois em
-novas formas, para de novo as soffrer e exaltar!...
-
-O sonho que é attingido, que se deixa tocar, desfaz-se, aniquila-se, em
-esquecimento, em abandono.
-
-Para viverem, meus sonhos em cada hora se transformam.
-
-A imagem é sempre a mesma, é sempre Ella; n'Ella os encarno e lhes dou
-vida...
-
-PINTOR
-
-E é assim que pouco a pouco vai morrendo o amor desvairado
-d'outr'ora?...
-
-POETA--_sereno, quasi indifferente_
-
-Adormecendo, dizei antes, que morrer é apenas um gesto; o vôo
-necessário para uma vida maior.
-
-Morre-se na vida infinitamente. Morre-se sempre para viver... até ser
-attingida a luz final, suprema, em que vida e sonho se confundem...
-
-Na imagem, na sua imagem mystica, dulcissima, o meu amor é sempre o
-mesmo; na alma, maior, sempre maior...
-
-PINTOR
-
-Mas para que soffrer, agora que vai partir, tão doidamente?
-
-POETA--_muito calmo_
-
-Para a remir em minha dôr! Exalta-la no meu coração--altar do seu
-sacrificio!
-
-Para a santificar na minha alma!
-
-_n'uma mudança brusca_
-
-Conheces bem as terras para onde vai. Por lá andaste, peregrino annos e
-annos e d'ellas tens dito maravilhas...
-
-PINTOR
-
-Minhas palavras, de tão pouco que dizem, são quási mentirosas...
-
-POETA
-
-Eu nunca sahí d'esta cidade de maravilha e de encanto, mas n'ella tenho
-sentido, vivido, o mundo inteiro!
-
-_em exaltação_
-
-Que importa o mundo?! As maravilhas estranhas de que fallais que
-importam?
-
-A vida estonteante, allucinada, que me cerca, tem para mim, agora,
-a indifferença da morte e é de agonia a alegria em que vivo! Ando a
-enterrar a toda a hora as minhas dôres. Sou um eterno coveiro, e cavo
-fundo, fundo, mas os sonhos--ai de mim!--tambem teem alma!
-
-Como hei-de enterrar minhas saudades!?
-
-_com dolorosa serenidade_
-
-Vai partir... Longe, alguem a espera!... E vai tê-la em seus braços,
-possui-la!...
-
-Amar, é a dor mais forte e mais profunda, a dor que humanisa a creatura
-e a torna mulher.
-
-Ella será mulher tambem... Mas a sua alma--eu sei, eu sinto--estará
-longe, estará distante, indecisa, como receosa de acordar para a vida,
-receosa de adormecer na morte!
-
-_n'um esforço de recordar, materialisando_
-
-Nunca os seus olhos serenos, suavissimos, de princeza e de menina, me
-olharam. Se os encontro, fogem, receosos...
-
-Não sei o que elles buscam olhando os longes?! Ficam vagos, anciosos,
-illuminados, distantes... Olhar immenso, olhar profundo, visionario, de
-sonho, d'amor e de triumpho!
-
-Nunca os seus olhos me olharam assim! Parecem sorver a luz! Embebem-se
-de luz como o céu ao acordar; são sombras de soes os olhos d'ella!
-Prendem-se na distancia, e assim presos, de encantados, por largo tempo
-nada vêem! E como ella fica então queda e hieratica!
-
-_dolorosamente_
-
-Para a sonhar de novo, em nova forma, anniquilo a minha carne,
-despedaço-a!
-
-Nunca mais a verei olhando os longes, assim immaterial, assim divina...
-
-Vai partir... Um principe a espera... Para que veio até mim quem tão
-alto nasceu?!
-
-PINTOR--_suavemente_
-
-E para que tão alto erguer os olhos? Há, na Terra, imagens que são
-sombras; lindas para ver, não para sonhar!...
-
-_Fóra, vozes, entrecortadas, gritam_
-
-O POVO
-
-A armada!--A armada que volta!--A frota toda!--A nau S. Bento!--Santa
-Maria da Barca!--O galeão maior!--Deus os levou, Deus os trouxe na
-sua guarda!--Deus é Pae!--Deus é bom!--Pela Virgem Mãe!--Pelas Cinco
-Chagas!--Milagre!--Milagre!--A armada!--A frota toda!--A armada!--Vinde
-ver!--Milagre!--Milagre!--Deus os salvou!--Deus os trouxe na sua mão...
-
-_Continuam vozes_
-
-PINTOR
-
-Não ouves?...
-
-_indo á arcaria_
-
-Na frota que entra a todo o pano, de tão vermelhas que veem, as vellas
-lembram enormes labaredas!...
-
-POETA--_longe, distante, com dôr que tenta visionar para soffrer,
-continuando intimos pensamentos_
-
-Há-de tocá-la!... Há-de beijá-la... Far-se-há carne tambem a sua
-alma!...
-
-_ao pintor, que de novo se aproximou_
-
-Aquellas vozes?!
-
-PINTOR
-
-De longe que estavas nem me ouviste... A frota grande que volta e entra
-a barra:--o povo, de joelhos, rezando na praia.
-
-Escuta... vem gente...
-
-POETA--_depois de curta hesitação, indo á arcaria, dominado_
-
-Encantamento da morte!
-
-_Pagens afastam o largo reposteiro de brocado. Entram, lentamente, a
-Infanta, suas aias e alguns nobres. O Poeta e o Pintor, de joelhos,
-beijam as mãos á Princeza--esguia, branca, serena, triumphal._
-
-INFANTA
-
-É «Frol de la mar» que vem entrando?
-
-PINTOR
-
-Se os meus olhos não mentem, julgo ser...
-
-UM NOBRE--_na arcaria_
-
-O galeão maior... Santhiago... Santa Maria da Barca... A nau São
-Bento... Toda a frota.
-
-UMA AIA
-
-A Senhora ouviu os nossos rogos pelos que andavam perdidos por sôbre as
-aguas do mar...
-
-OUTRA AIA
-
-Levou-os e trouxe-os em sua guarda...
-
-INFANTA--_que lentamente se aproximara da arcaria, depois de um longo
-silencio, com deslumbramento e mysticismo_.
-
-É mais, muito mais do que uma armada entrando de novo a barra!
-
-Ha almas n'aquellas vellas:--sinto-as, vivem, palpitam em mim!
-
-_exaltando-se_
-
-São como mãos do Destino aquellas naus! Ellas andam buscando, a toda
-a hora, o mundo maior que Deus creou! Andam buscando, perdidas entre
-as ondas, os reinos da luz e do mystério, os reinos das pedrarias e do
-oiro!
-
-Errantes, sem rumo, á aventura, foram quebrando o feitiço ás ilhas
-perdidas do mar! As ilhas, castellos encantados, que, por nossa voz,
-despertam a cantar! São como nossas mãos aquellas naus!
-
-Dia a dia, andam realizando o nosso sonho! Abrindo nossos olhos
-deslumbrados ante horizontes novos e estranhos! Por ellas,
-transfigurado, o mundo acorda, desperta, da noite negra! Por ellas o
-mar e a terra são maiores! Por ellas o céu tem mais estrellas!
-
-São como mãos do Destino aquellas naus! São como nossas mãos! São como
-mãos de Deus!
-
-_nos olhares deslumbrados da côrte passam, por momentos, as palavras da
-Infanta._
-
-_Ao Poeta_
-
-Que faz alêm, na praia, o povo?!
-
-POETA
-
-Chora saudades...
-
-INFANTA
-
-Chorar?! E de joelhos?!...
-
-POETA
-
-Rezam...
-
-INFANTA--_quási com violencia_
-
-Mas para que rezar, chorando?! Eu rezo erguendo um cantico em minha
-alma deslumbrada.
-
-Se fossem esquifes as caravellas e as naus, como rezar? Como rezar
-pelos mortos?
-
-Só o sol é triumphante e glorioso! E é n'aquella luz de poente,
-n'aquelle céu em fogo, triumphal, supremo, que eu rezo a minha oração.
-
-Em vez de cantarem a morte gloriosa, rezam pedindo a vida humilde que
-renuncia ao sonho creador... Ajoelham-se... Cegam os olhos, baixam-nos
-para a terra, quando os deviam abrir á luz e erguê-los para o Céu!
-
-UMA AIA
-
-Perdoai, mas o povo, Senhora, é simples demais para comprehender...
-
-INFANTA
-
-Mas não para sentir! As arvores não veem o sol, mas sentem-no e
-adoram-no, e para elle estendem sempre seus ramos, e para elle vão
-crescendo sempre, para mais o sentir e adorar!
-
-A intelligencia vê, o sentimento adivinha!
-
-E o mundo, por nós, é maior, mais bello, em cada dia! Communga em nós a
-toda a hora, e por nós se redime e engrandece!
-
-_olhando vagamente em seu redor_
-
-Olho os montes d'alem, aquellas terras, o rio e a casaria e tudo que
-me cerca, tudo, tudo, tem para mim o encantamento de um mysterio
-no maravilhoso de uma revelação. Tudo ri e canta e vibra e se
-espiritualiza em reflexos!
-
-Só o povo chora e reza! Sente dôr o povo? São de dôr as suas orações?
-Em vez de entoar canticos reza ladainhas?
-
-_á côrte_
-
-E vós?! Acaso não sentis como eu tambem? Olhando as náus, só vêdes
-náus?!
-
-_sahindo fóra, á arcaria_
-
-Olhai agora. Vêde, como ellas vêem! A Cruz n'aquellas vellas ganhou
-azas. Está mais perto do Céu, é mais divina!
-
-_com violencia_
-
-Não sentis em verdade como eu?
-
-Não olhais para aquellas naus como milagres de Deus?!
-
-Não comprehendeis que é um mundo de phantasmas, tenebroso, horrendo,
-sombrio, que desappareceu, illuminado por nova luz, por nossa luz?
-Que o novo mundo que nasce em novos povos, em novas terras, em novos
-ideais, é nossa creação?!
-
-_em exaltação crescente, com violencia maior, n'uma alucinação_
-
-Onde estão os mares de sangue? Os mares de fogo? Os deuses infernais,
-os gigantes disformes, horrorosos, os negros boqueirões dos abysmos
-profundos?! Ilhas de morte! terras de fogo! brumas eternas! onde
-estais?!... onde estais?!...
-
-UMA AIA--_baixo, a outra aia_
-
-Como desvaira...
-
-POETA--_a meia voz, ao pintor_
-
-E sempre longe... cada vez mais longe de nós!...
-
-INFANTA--_mais calma, continuando_
-
-É um mundo de sangue e de morte, creado pelos homens, que desapparece.
-É um mundo novo de vidas novas que nasce, e em que se ergue bem alta,
-na tragedia suprema de luctar e vencer, a luz de Deus!
-
-Os deuses infernais onde estão elles?!
-
-São como nossas mãos, são como mãos de Deus, aquellas naus!...
-
-POETA
-
-Mas ha cadaveres, Senhora, boiando no mar...
-
-INFANTA
-
-Que importa triumphar ou morrer, quando, na morte e na victoria, se
-reza o mesmo cantico, vivendo o mesmo sonho?! Se, para alem da morte, a
-alma continua, e da vida ficou, em rasto triumphal, uma Via-Lactea de
-Herois, perpetuando...
-
-_ao pintor_
-
-Fixai bem a armada...
-
-PINTOR
-
-Meus olhos, em seu deslumbramento, estão cegos, Senhora!
-
-_Movimento entre o povo, sussurro, vozes..._
-
-UMA VOZ--_atona, sombria_
-
-Dia e noite, ha uma estrada de luar por sobre as águas... São os mortos
-que vão a enterrar... São os mortos, amantes das vagas... Cortejo de
-naufragos, por cyrios de luar alumiados...
-
-Olhae, olhae agora... É a estrada da Morte que a armada vem seguindo...
-
-INFANTA--_com horror_
-
-O agoiro...
-
-UMA AIA
-
-Vinde, Senhora, não lhe deis ouvidos.
-
-UM NOBRE
-
-Que os pagens o mandem afastar...
-
-INFANTA--_em grande exaltação_
-
-Que o afastem. Que se cale. Que ninguem o ouça. Mente!... Mente!...
-
-_caindo em si, n'uma mudança brusca, novamente serena_
-
-Calai-vos. Eu quero ouvir, quero entendê-lo. Como disse elle? Cortejo
-de naufragos...
-
-A VOZ--_novamente_
-
-Mas qual rumo seguir? Olhai! não vedes?! É a Morte que vem por
-timoneira...
-
-_A luz, pouco a pouco, torna-se crepuscular. O rio escurece. As terras,
-na distancia, desapparecem na bruma._
-
-VOZES DO POVO--_desencontradas_
-
-Cala-te!--Cala-te!--Mau agoiro!--Pelas Cinco Chagas!...--Pela Virgem
-Mãe!...--Misericordia!--Misericordia!...
-
-INFANTA
-
-O povo nem o olha; tem-lhe medo!
-
-De rastos, de joelhos, a gritar misericordia! Que estranho e desvairado
-está o povo!
-
-O «BANDARRA»--_afastando-se_
-
-Mas para que rezais?... para que chorais?!
-
-Olhai o sol, olhai a luz! É tudo oiro... é tudo oiro!... O despertar
-não tarda, mas ainda não veio...
-
-Por que chorais? É tudo oiro... Toca a cantar... toca a bailar, que
-ainda é folia...
-
-Olhai!... porque rezaes?! Bailai!... Bailai!...
-
-VOZES DO POVO--_a distancia, entrecortadas_
-
-Por Santhiago!--Pela Virgem Mãe!...--Misericordia!--Christo,
-ouvi-nos!--Christo, valei-nos!--Christo, ajudai-nos!--Ave agoirenta!...
-
-INFANTA
-
-Que tem o povo? Que loucura a d'elle! Que estranha voz! Quem o entendeu?
-
-_olhando em roda_
-
-Ninguem?! E mestre Lopo onde está? Ide chamá-lo...
-
-_ao Poeta e ao Pintor_
-
-Ficai...
-
-_a um fidalgo_
-
-Trazei-mo aqui.
-
-A VOZ DO «BANDARRA»--_ainda mais distante_
-
-Porque rezais? É tudo oiro... é tudo oiro... Toca a cantar... Ide
-bailar... Toca a cantar que ainda é folia!...
-
-_Curto silencio. A tarde continua escurecendo._
-
-INFANTA--_recordando, como n'um sonho_
-
-Quando eu, criança ainda, ia com El-Rei meu Pae ver chegar as naus,
-o povo não rezava, não chorava... Cantava e ria o povo; e era ainda
-cantando que resava! Agora chora!... Porque estranha loucura chora o
-povo agora?! Que vê, que sente, elle?!
-
-A terra tem o mesmo encanto e a mesma alegria o céu! É o mesmo scenario
-de magia. E o povo chora... e o povo reza...
-
-Parece não vêr o que o cerca; fica como cego a ouvir o agoureiro.
-Chamam-lhe a Ave-agoirenta; receiam-no, temem-no, acreditam n'elle!
-
-Mas que verdade, teem, acaso, as suas fallas?! A sua voz, fria e
-distante, lembra morte, é certo. É uma voz d'alem tumulo, d'alem
-vida--prophetica! Ainda a julgo estar ouvindo!...
-
-UMA AIA
-
-Desviai de vós, Senhora, tão negro imaginar. Para que recordar palavras
-doidas? Para que estar, Senhora, a dar-lhe ouvidos?!
-
-INFANTA--_impressionada_
-
-Palavras doidas sim, palavras doidas!... Se não fôra o tom da sua voz!
-Como ella é fria, fria, e lembra a Morte!
-
-UM VELHO PHYSICO--_rudemente_
-
-A Morte não vê, não falla, não ouve. É cega, é surda, é muda a Morte!
-Para que estar, Senhora, imaginando que ella pode fallar na voz de um
-doido?
-
-Eu, que sou physico d'El-Rei, e já um velho, a quem a morte de manso
-vem tomando, por vezes, estudando as caveiras interrogo-me!
-
-Olho-as bem... Vejo n'ellas o meu dia de amanhã, e não as olho com
-horror; pelo contrario, vejo-as com amor, com simpathia... e até,
-recordando as minhas dôres, acaricio-as!
-
-As orbitas não teem olhos; as boccas não teem lingua; os ouvidos são
-buracos apenas. Não podem ouvir, nem ver, nem fallar!
-
-Porque, Senhora!? Porque a Morte é paz, socego, anulamento; é nada...
-Os mortos dormem e não querem que os acordem. Que se importam elles dos
-vivos, se repousam!?... Deixai a voz do doido...
-
-INFANTA--_serenamente_
-
-Porque só olhaes e interrogaes caveiras não podeis comprehender os
-mysterios que nos cercam. Só mestre Lopo, que lê nos astros, poderá
-dizer toda a verdade.
-
-_Docemente, na distancia, os sinos tocam as Trindades._
-
-Ave-Marias! Rezemos...
-
-_pondo as mãos, em prece, mysticamente_
-
-E um anjo do Senhor, cheio de luz, desceu dos Céus á Terra e disse:
-«Ave-Maria cheia de graça, o Senhor é comtigo...»
-
-_Silencio. A corte ajoelha e reza por momentos; os pagens, acendem
-luzes._
-
-INFANTA--_finda a oração, indo á arcaria_
-
-Como é grande a calma religiosa d'esta hora!
-
-Como anoiteceu depressa! A terra dorme já em sombra e bruma. Só o rio e
-o céu teem ainda luz!
-
-PINTOR
-
-Tudo adormece em silencio, tudo dorme...
-
-Só eu fico ancioso esperando a madrugada! Tenho ancia de luz como as
-flores e as aves! As sombras são negras, entristecem-me; fico como
-cego. Só no sol, só nas côres, sinto a vida e tenho alegria e ancia de
-viver.
-
-POETA
-
-A luz só a adoro, só a sinto, no adormecer suave d'esta hora, em que a
-natureza inteira está tambem de mãos postas a rezar!
-
-Luz que queima, que enlouquece, e tudo revela, tudo acorda, eu a
-maldigo!
-
-Luz que é fogo em minha alma, e maravilha em meus olhos, eu a odeio.
-
-Mas esta, em que a saudade se deixou cruxificar, e tem mãos de mysterio
-e acaricia, e vem de manso afagar meus olhos, embalando meu sonho pela
-noite fora, e em negrumes abafa minha dôr, dando-me paz, serenidade,
-calma, esta, Senhora minha, eu a adoro, eu a bendigo.
-
-INFANTA
-
-Mas porque odiar assim a luz, assim a vida?
-
-POETA--_com intensão_
-
-Porque acorda... Porque tece feitiços de loucura... Porque illumina,
-revela, transfigura. Porque cria sonhos. Imagens que são reaes e que se
-afastam, que vemos e não podemos alcançar...
-
-Odeio a luz, Senhora, porque ella illumina o meu soffrer, e entra em
-meu coração e abre-o de par em par ao soffrimento!
-
-Porque estendo os braços, anciosos, loucos, e meus braços se perdem no
-ar!...
-
-Vejo o meu sonho e não o alcanço... Tenho-o junto a mim e está
-distante... E soffro mais ainda!
-
-Antes a noite! Vejo-o, sinto-o, palpita e vive em mim, como se meu
-coração ganhasse azas e em meu peito ficassem a bater, como a quererem
-livrarem-no da Morte, antes da Morte vir e lhe tocar!
-
-INFANTA
-
-Mas se sonhais... O sonho é pensamento, não se vê, nem se alcança, só
-pode ser imaginar...
-
-POETA--_muito calmo_
-
-Senhora, perdoai... Tendes razão, por certo. Mas foram meus olhos, de
-encantados, que peccaram, foram meus olhos que sonharam primeiro.
-
-Elles viram, sentiram, deslumbraram-se. Que culpa teem elles?!
-Depois... minha alma enlouquecida, encheu-se de sombras e de dôr!
-
-E a Dôr é a grande alma do Universo, que entrando em nós toma-nos todo,
-torna-nos meninos em seus braços, e fica a embalar-nos para a Morte, a
-cantar e a chorar!...
-
-Senhora, por muito alto que estais, perdoae ter-vos fallado de mim...
-
-_Um longo silencio._
-
-VOZES DO POVO--_mais dolorosas, mais espaçadas, mais distantes_
-
-Pela Virgem Mãe...--Por Santhiago...--Miserere
-nobis...--Misericordia!...
-
-INFANTA--_com forçada naturalidade, como querendo, fallando, affastar
-seus pensamentos_
-
-E sempre o povo!... Escutai... ainda se ouve... Só o sinto rezar, só o
-ouço chorar!... Assim só se reza pelos mortos...
-
-Mestre Lopo entende o povo?!
-
-POETA
-
-Mestre Lopo nunca vê o povo. Foge da multidão com horror, quasi com
-medo.
-
-Sosinho, em silencio, olha as estrellas toda a noite. E levado por
-ellas, em seus roteiros, é um caminheiro do céu, a desvendar segredos
-de Deus!
-
-INFANTA
-
-Oh! quem me dera ver como elle vê! Desvendar o mysterio... mas eu olho
-o céu e nada vejo.
-
-O PHYSICO
-
-Comprehender estrellas, em verdade vos digo, Senhora, que não entendo.
-Parece-me phantasia ou loucura de astrologo.
-
-POETA
-
-Olhá-las e escutá-las!... Quantas vezes meus olhos, pela noite, as teem
-ouvido...
-
-UMA AIA
-
-Que dizem ellas?
-
-POETA--_indiferente_
-
-Trovas... Talvez as minhas...
-
-_O vozear do povo toma-se mais intenso._
-
-INFANTA
-
-O povo... o povo, que desvairado está! Que loucura a d'elle! Não o
-entendo, nunca o vi assim!
-
-UM NOBRE
-
-Chora e reza, mas acreditae, Senhora, que não sabe porque o faz. Chora
-e reza como poderia cantar e bailar...
-
-INFANTA
-
-O povo é adivinho,--todos dizem... Sente apenas. O povo chora; soffre.
-Reza; tem medo. A alma do povo é de presagios.
-
-_A mestre Lopo, que entra_
-
-Bemvindo sejaes Mestre Lopo.
-
-ASTROLOGO--_ajoelhando e beijando-lhe a mão_
-
-Em que vos posso servir, Senhora Infanta?
-
-INFANTA
-
-Dizendo-me o que dizem as estrellas...
-
-ASTROLOGO--_hesitando_
-
-O que dizem?! Em verdade vos digo, Senhora, que não sei.
-
-INFANTA
-
-Porque não dizer a verdade?! Porque fingir não saber?!
-
-_vincando as palavras, com intenção_
-
-Não ha presagios negros pelo céu?...
-
-ASTROLOGO--_mais hesitante ainda_
-
-Presagios!... Muito ao longe, talvez... De distantes que estão ainda os
-não poude comprehender.
-
-INFANTA
-
-Mas porque chora o povo?
-
-Porque reza chorando? Porque, de joelhos, pede misericordia? Porque em
-grita desvairada, louco, transfigurado, parece ver naufragios?! É a
-armada que entra triumphal e dir-se-hia estar vendo entrar esquifes...
-
-E o agoireiro! Mestre Lopo, dizei-me, se sabeis, que sentido querem ter
-as suas fallas?
-
-ASTROLOGO
-
-Não sei, não sei!... O povo sente, Senhora, e eu só sei comprehender os
-mystérios do céu.
-
-O povo sente a morte já?! Ainda está longe, muito longe, mas foi isso
-que o agoireiro quiz dizer.
-
-A armada vai fundear, e o povo bailará ao redor dos que chegaram... O
-povo é bailador. Ainda é folia.
-
-Bailará á luz dos archotes, dos brandões, logo, no terreiro. E o
-agoireiro julgará ver, não archotes, mas cyrios...
-
-INFANTA--_serenamente_
-
-Quereis dizer... É a Morte que vem?!
-
-ASTROLOGO
-
-De manso, a rastejar... E vem tão linda! Cobrem-na brocados,
-pedrarias... Nem parece ella! Mas não me deis ouvidos, que isto diz o
-povo e não estrellas...
-
-_A Princesa pouco a pouco transfigurou-se; parece nem vêr, nem ouvir._
-
-_Approxima-se de novo da arcaria. O povo está silencioso. A côrte
-segue-a. Hierática e serena, fita longamente as naus, negras e vagas,
-levemente tocadas pela luz quási extinta do crepusculo._
-
-INFANTA--_violentamente_
-
-Dominar! vencer!--razão suprema, humana, do destino dos homens sobre a
-terra. Transfiguração do triumpho em soffrimento, exaltação da morte
-pela morte, da alma pela vida!
-
-Vencer o mar, desvendar os mysterios, por ancia de luctar e renuncia
-de viver a vida passageira, vencendo da morte o esquecimento! Ha uma
-Via-Lactea de guerreiros mortos a envolver o mundo, um enterro de
-naufragos a povoar o mar!
-
-Por nós o mar tornou-se Humano!
-
-Por nós o mundo é já Divino!?...
-
-_Silencio profundo de assombro e de terror, como se mãos mysteriosas,
-invisiveis, a todos prendessem. Immobilidade completa: nem um gesto;
-olhares que a medo se interrogam._
-
-_A vida arrasta-se sem fim; momentos são horas._
-
-_Sem ruído, entra um pagem; queda-se surpreso por instantes, olha em
-roda, e, lentamente, de manso, acerca-se da aia; fallam baixo, muito
-baixo._
-
-A AIA--_hesitante, approximando-se da Infanta, a custo, como receando_
-
-El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para seroar...
-
-_A Infanta não a ouve; continúa extática. O silencio é agora maior e
-mais pesado._
-
-A AIA--_mais hesitante, mais baixo_
-
-Senhora, perdoae... mas El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para
-seroar...
-
-_Numa immobilidade de estatua, a Princeza continúa olhando as naus._
-
-_Silenciosas, inconscientes e hesitantes, como somnambulas, dominadas,
-as aias afastam-se, abrindo alas. A Infanta desperta. Olha, cansada,
-os que a rodeiam. Interroga-os com um olhar: comprehende, tem um gesto
-vago de recusa, fixa mais uma vez o rio e os longes, e, deixando-se ir
-como arrastada, sahe, seguida da côrte. Os pagens levam os candelabros.
-A luz do crepusculo é extinta. Só negrumes. Nas columnatas bruxoleam
-vagos clarões._
-
-A VOZ DO BANDARRA--_fóra_
-
-Bailai, bailai, que ainda é folia!!...
-
-Acendei cyrios... Trazei mais cyrios... Acendei mais...
-
-_O povo, com os que desembarcaram das naus, canta e dança, no terreiro,
-á luz d'archotes._
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Uma das sallas da camara da Infanta, abrindo sobre o rio por duas
-grandes janellas abertas de par em par.
-
-Forram-na brocados de seda branca e oiro palido; veludos doirados
-cobrem os coxins. Na parede da esquerda, ao centro, sobre um estrado,
-uma cadeira de espaldar alto, coberta de pano de oiro, tendo por
-fundo uma tapeçaria armoriada e, a encimá-la, um docel de lhama. Mesa
-rendilhada de marfim e embutidos d'oiro, ao centro, sobre uma alcatifa
-oriental.
-
-Á direita e á esquerda portas cobertas por damascos brancos, brazonados.
-
- * * * * *
-
-É uma salla de luar em que o outomno deixou cair as folhas...
-
-_Aias trabalham afanosas, em silencio, dobrando grandes peças de
-brocado d'oiro, de lhama prateada, de sedas damascadas. Outras,
-sentadas nos degraus do estrado, escolhem joias, que passam de mão em
-mão, e que a aia Leonor--pequenina como feita para o dedal--entrega á
-princeza.--Escurece._
-
-_Uma das aias canta em surdina_:
-
- «_Estava a bella Infanta_»
- «_No seu jardim assentada_»
- «_Com o pente d'oiro fino_»
- «_Seus cabellos penteava._»
- «_Deitou os olhos ao mar_»
- «_Viu vir uma nobre armada;_»
- «_Capitão que n'ella vinha_»
- «_Muito bem que a governava._»
-
-INFANTA--_com abandono, deixando cair lentamente pedras soltas, uma a
-uma, na mão da aia_
-
-São como gottas de sangue estes rubis... Pedaços de céu estas
-saphiras... Lágrimas de estrella os diamantes...
-
-UMA AIA--_acercando-se da janella aberta_
-
-Já vai anoitecendo... É sempre o rio o mais lindo vitral a esta hora.
-
-INFANTA
-
-O entardecer é feito de vitrais...
-
-A AIA
-
-Até o casario, em reflexos, parece feito de crystal.
-
-OUTRA AIA
-
-E o luar já vem de manso. Para os lados d'alem, por traz d'aquellas
-serras, ha uma luz azulada, um vago clarão...
-
-OUTRA AIA
-
-Arrefece.
-
-_á Infanta_
-
-Que a aragem fresca e leve, que vem do mar a esta hora, vos não faça
-mal, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Socegai...
-
-Lisboa, ao luar, é uma cidade d'almas, acaricia.
-
-_bruscamente_
-
-O mar, Leonor, quando fez mal?
-
-_reparando num collar de esmeraldas que a aia segura, pegando n'elle,
-e passando-as uma a uma pelos dedos, como contas de um rosario, depois
-de um momento de silencio, como se fallasse para si, sonhando alto_
-
-Ha vagas mais verdes e mais lindas ainda que estas esmeraldas... Eu
-gosto das esmeraldas porque me lembram o mar. O mar é verde, sempre
-verde; eu nunca vi o mar azul,--azul é o céu e o rio.
-
-Olhar o mar não é ir vê-lo de longe, é ir até elle, até bem junto
-d'elle, é vê-lo e senti-lo em cada vaga que vem bater na penedia e
-desfeita se espraia pela areia... É vê-lo soffrer! É vê-lo luctar!
-Ondas que veem, que se espraiam, que vão, que voltam, que luctam
-sempre, e não repousam e não descançam em eterno soffrer!...
-
-_Silencio. Voltando-se para a aia Leonor_
-
-Tu tambem vês, Leonor, como os mais, o mar azul?
-
-Tu tambem crês que o mar, o verdadeiro mar, é aquelle que se estende
-sereno até ao horizonte distante, azul, muito azul?
-
-A AIA
-
-Eu vejo o mar azul...
-
-INFANTA
-
-Tu olhas o céu no mar, diz antes, mas diz tambem que nunca viste o mar.
-
-A AIA
-
-Eu nunca soube ver como vós, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Por que tens medo de ir até á praia e de estar junto d'elle, como eu,
-quando as vagas veem umas sobre outras, enormes como vellas ao vento,
-bramindo, rugindo... São mãos potentosas, gigantes, que se desfazem em
-espuma.
-
-Nunca olhaste de frente as vagas?! Nunca as viste, Leonor, em
-transparencia?! Pois são verdes, mais verdes e mais lindas ainda que
-estas esmeraldas!
-
-A AIA
-
-Eu nunca soube ver o mar...
-
-_depois de um silencio, procurando n'um anel de opala os reflexos, e
-mostrando-a á princeza_
-
-Como é mysteriosa e tentadora! Se as pedrarias tivessem vida ... se
-ellas morressem ... eu diria que tinham escolhido as opalas para
-sarcophagos das suas cores...
-
-OUTRA AIA
-
-Trazem desgraça as opalas. São como maus olhados... Teem fogo ...
-queimam...
-
-INFANTA
-
-São lindas! São phosphorescentes como o mar em noites negras!... Mas
-escurece... Os pagens que tragam os candelabros. O nauta, dentro em
-pouco, estará comnosco...
-
-UMA AIA
-
-Já ha luar. O rio e o ceu estão de lhama...
-
-INFANTA
-
-Pouzem as minhas joias; não as guardem...
-
-A AIA
-
-E o diadema?
-
-INFANTA--_atenta_
-
-Tambem... pousai tudo... deixai ficar...
-
-_levantando-se e acercando-se dos vitrais, após curto silencio_
-
-Tantas luzes, alem, subindo a encosta! Quasi se apagam... scintillam
-mais, agora... Vão em filha... par a par...
-
-_chamando a aia_
-
-Repara, Leonor. O que será?
-
-A AIA--_hesitante_
-
-Talvez o Santo Viatico... talvez procissão... Mas o rio está tão lindo!
-
-Olhai antes o rio...
-
-INFANTA--_já não a ouvindo, attenta, em expressão de dôr_
-
-Mas ouve-se cantar. Não ouves? Cantam ou rezam?
-
-A AIA-_insistindo_
-
-Olhai antes o rio... aquellas naus...
-
-INFANTA--_sem a ouvir_
-
-Porque será, Leonor, que os cantos de hoje são tristes, sempre
-tristes?! Porque foge o povo do sol e só canta e baila pela noite, como
-hontem?!
-
-Parece ter medo da luz e só gostar de se esconder nas sombras...
-Os seus bailados, á luz dos archotes, lembram rondas de mortos, de
-phantasmas...
-
-E se mestre Lopo tivesse razão?
-
-_agarrando-se á aia, com horror_
-
-Não respondes? Tambem tu acreditas, Leonor?!
-
-_em grande exaltação_
-
-Acaso as caravellas mentem?! Acaso os mundos novos não existem, e são
-alucinações e são chimeras?!
-
-_depois de um silencio_
-
-E as novas estrellas!? Que dizem ellas? Quem as ouve? Quem as procura
-entender?
-
-Leonor, tu não respondes!... Tambem tu julgas?! Tambem tu
-acreditas?!...
-
-A AIA--_meigamente_
-
-Mas socegai... Bem sabeis... eu não sei.
-
-INFANTA--_repentinamente calma, noutro tom_
-
-Olha a sombra d'aquellas naus, alem. São sombras d'azas, voam sempre!
-
-Mestre Lopo engana-se, as estrellas enganam-no.
-
-_Ouve-se de novo o canto, mais distintamente:--é como um côro_
-
-Aquellas luzes, aquelle canto, fazem-me mal. Fechem os vitrais por
-agora...
-
-A AIA--_baixo, a outra aia, emquanto a Infanta volta para a cadeira de
-espaldar_
-
-Não percebeu... Rezemos baixo... É um homem da armada, um mareante, que
-vai a enterrar...
-
-A OUTRA AIA--_com desalento_
-
-Mais um!... Mais um!... E já são tantos!
-
-_Batidos pelo luar os vitrais illuminam-se._
-
-INFANTA
-
-Como são lindos assim, estes vitrais!
-
-A AIA--_depois de um momento, como a findar as orações_
-
-Lembram até, pela suavidade do colorido, as illuminuras do vosso livro
-d'horas...
-
-INFANTA
-
-O luar que as illumina é um luar de reflexos, um luar d'aguas. Abrem
-sobre o rio...
-
-As janellas d'este paço estão mais altas que as de nenhum outro; quando
-d'ellas me acerco eu vejo o mundo!... e sinto-o e ouço-o palpitar em
-seus anceios--coração do Homem e de Deus!
-
-_n'um recordar enternecido, saudosissimo_
-
-Deitam sobre o rio as janellas d'este paço... E foi d'ellas, de junto
-d'esses vitrais, que eu ainda tamanina, de olhos muito abertos,
-deslumbrados, vi chegar as naus e caravellas que foram um dia em busca
-do imperio, por mares distantes... ignorados... mysteriosos...
-
-_em recolhimento de intimos pensamentos, passando pelos dedos as
-perolas do collar_
-
-É um rosario de saudades o meu collar... São contas de saudade as
-minhas perolas...
-
- * * * * *
-
-_Os olhos da princeza, fixos, pasmados, revêem o passado. As aias
-trocam olhares, fallam a medo... Um silencio de vida adormecida._
-
-_De repente, distinctamente, gritos da multidão, ululante, desvairada,
-fanatica, sanguinaria._
-
-A MULTIDÃO
-
-Á morte!--Á morte!...--Herejes malditos!--Filhos de Satanaz!...--Perros
-tinhosos!--Bruxos de perdição!--Malditos!--Malditos!--Por Jesus
-Christo!--Pelos nossos filhos!--Á morte!--Á morte!...
-
-UMA AIA--_abrindo uma das janellas, espreitando receosa, e fechando-a
-em seguida_
-
-O povo anda perseguindo mais uma vez os Christãos-Novos...
-
-INFANTA--_com soffrimento e como despertando d'um grande sonho_
-
-Os Christãos-Novos! Julgara ter ouvido gritos de combate em terras de
-além-mar...
-
-_Muito de manso entram os pagens com os candelabros; fallam baixo as
-aias. Um grande silencio religioso_.
-
-UMA AIA--_á Infanta_
-
-O nauta aguarda, Senhora, as vossas ordens...
-
-INFANTA
-
-Entregaste-lhe as minhas prendas? E ao pintor? E ao poeta?
-
-_a um signal afirmativo da aia_
-
-Que venham em bôa hora!
-
-_As aias, sem ruido, todas de branco, veem cercar a Infanta,
-sentando-se uma a uma nos degraus do estrado. Sobre a mesa, dispersas,
-brilham as pedrarias. Á luz dos candelabros os diamantes do diadema
-scintillam em fogo vivo. A cruz, a esphera, e as quinas dos vitrais,
-em coloridos suavissimos, são brazões de luar, brazonando o Infinito_.
-
-_Entram o Nauta, o Astrologo, o Pintor, o Poeta e alguns nobres_.
-
-O NAUTA--_ajoelhando, tirando a espada da bainha e pousando-a no degrau
-do estrado_
-
-É vossa a minha espada...
-
-INFANTA
-
-Que São Jorge proteja a tua espada...
-
-PINTOR--_beijando a mão á princesa_
-
-As minhas graças, Senhora, pelas mercês e honras que de vós recebi.
-
-INFANTA
-
-Uma lembrança...
-
-POETA--_ajoelhando_
-
-Bendita sejais, Senhora, eternamente, entre as mulheres...
-
-INFANTA
-
-Uma lembrança...
-
-ASTROLOGO
-
-As minhas bençãos vão para vós, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Que Deus as confirme... Queria que viesseis para ouvir tambem, e
-ouvindo, dizer ás estrellas, a grande, a eterna prophecia.
-
-_fitando-o_
-
-Não acreditais?!
-
-_Ao nauta_
-
-Travara-se o combate... Contai...
-
-_Silencio. Todos cercam o estrado; só o nauta fica frente á Infanta_.
-
-O NAUTA--_alheado_
-
-Como dizer-vos?... Era como se o mar, desobediente a Deus, entrasse
-pela terra dentro em furia insana... Cada homem, Senhora, era uma onda
-potentosa, gigante e indomavel.
-
-INFANTA--_enlevada_
-
-Somos como o mar! O mar humanizou-se em nós... Temos a voz do mar em
-nossas almas, temos a força das ondas em nossos braços!...
-
-_silencio_
-
-Ias dizendo...
-
-NAUTA
-
-Que tão grande era a força dos guerreiros que dir-se-hia que a força do
-mar estava n'elles! Os que ficaram na armada não fallavam, e eu mesmo,
-por mim, não sei se viviam. Eu não sabia onde estava, se no céu, se na
-terra, ao ver tanta façanha! Não sentia o corpo, e ainda agora penso se
-não foi sonho ou visão tudo o que vi!
-
-Em nosso redor só havia gritos:--gritos de triumpho, gritos de
-dôr, gritos de morte! Por São Jorge os nossos abriam clareiras na
-multidão alucinada. Por Christo tocavam as trombetas, abafando o canto
-plangente, o choro louco, das mulheres, das crianças e dos velhos.
-As lanças e as espadas reluziam ao sol como rubis, mas o sangue não
-abafava o grito agudo e frio do bater dos ferros, do chocar das
-laminas! Gritos, só gritos, Senhora, em meu redor!
-
-De repente, entre as gentes no combate, avistei o grande Capitão,
-cercado, perdido, abandonado, entre as lanças dos cavalleiros arabes...
-Quantas lanças? Não sei! Mas eram muitas, todas cruzadas! Era como um
-silveiral de lanças em seu redor... Lanças que caíram uma a uma, como
-se fôra tojo a ser rossado!
-
-INFANTA
-
-Deixai a batalha... Em nossos braços os montantes sempre foram foices
-de rossar lanças... Já de volta ao galeão, o Guerreiro dizia-vos?...
-
-O NAUTA
-
-Que o imperio ainda estava por formar... Que ia mais alem do que
-julgavamos. E disse então d'esta guiza, ainda me lembro, ainda me
-parece tê-lo em minha frente, estar a ouvi-lo:
-
---Tenho que obedecer á voz do meu Destino. Escutar o sonho que me chama
-para novos soffrimentos, maiores feitos. Em mãos de infieis estão
-ainda os Logares Santos. Milhares de homens lá foram para arranca-los
-ás profanações e nunca Deus quiz que seus desejos fossem realizados.
-Só um povo de gigantes e de eleitos pode remir as Terras Santas. E
-nunca um povo lá foi, só foram homens, crentes peregrinos, sonhadores
-guerreiros, de terras diferentes e estranhas! Eis o Imperio que eu
-quero formar. Imperio eterno de redempção eterna! Os mundos novos não
-bastam. Este Imperio é grande para os homens, não para Deus! Fechar os
-mares em nossas mãos foi empreza facil. A empreza maior é a de maior
-sacrificio. Esquecerei até ao fim a dôr e o soffrimento dos homens,
-porque morrer é não realizar o sonho idealizado... Não vamos para a
-conquista de mais terras;--vamos buscar a eternidade!
-
-ASTROLOGO
-
-Vã gloria a dos homens!... Louco engano de cuidarem eterna a fama de um
-momento.
-
-INFANTA
-
-A alma dos povos vive sempre, passa de geração em geração.
-
-ASTROLOGO
-
-E a memoria dos homens passa breve...
-
-INFANTA
-
-Os crentes não esquecem.
-
-_ao nauta_
-
-Ias dizendo...
-
-NAUTA--_sereno, mas vincando as palavras quasi violentamente_
-
-Que era maior ainda, em sonho, em força e em audacia do que o sonho dos
-cruzados, o sonho do guerreiro! Ligar todo o Imperio, e sobre elle
-estender, em benção de eterna protecção, a sombra suavissima da Cruz,
-bem alta alevantada nas terras remidas dos Santos Logares!... O Imperio
-de Christo sobre a Terra!
-
-INFANTA--_ás aias, numa exaltação de deslumbramento e mysticismo_
-
-Abri os vitrais para que o mundo ouça tambem...
-
-ASTROLOGO
-
-Ou para que chegue a este paço, o canto fatal dos Reis-cegos...
-
-O NAUTA--_violentamente_
-
-Cantaram, é certo... É lenda velha que elles annunciam a morte dos
-eleitos.
-
-_exaltando-se_
-
-A lenda cumprir-se-ha talvez, mas que importa?! O Imperio já está
-formado, já existe. É nosso o mar oriental e ocidental, de lés a lés,
-de cabo a cabo, e por essa costa fóra, ao brazeiro do sol, mil padrões
-de gloria, marcam os roteiros onde chegaram naus, caravellas, mareantes!
-
-Os mortos mandam eternamente na terra. As almas dos herois e dos santos
-não morrem; vivem em alma junto dos homens e de Deus! O sonho da vida
-continúa na morte e cada brazão das quinas é feito de almas:--o sonho
-d'um santo ou de um heroi!...
-
-POETA
-
-O brazão fatal das Cinco Chagas...
-
-ASTROLOGO
-
-Calvario eterno, de soffrimento eterno, em que a alma deste povo, dia a
-dia, anda a ser crucificada...
-
-INFANTA--_bruscamente_
-
-Deixai os presagios...
-
-_ao nauta_
-
-Contai a vizão...
-
-_Pelas janellas abertas entra o luar em grandes manchas azuladas_.
-
-NAUTA--_serenamente, seguro de si, numa certeza religiosa_
-
-Como Eleito do Destino, já na conquista da cidade, por graça de
-Deus, lhe fôra dado vêr Santhiago a seu lado, combatendo os moiros,
-de armadura branca e de vermelha cruz no manto branco. Havia uma
-Via-Lactea de conchas luminosas a marcar o roteiro do santo; e n'essas
-estrellas, o Guerreiro vira naus e caravellas! Esta foi a visão
-primeira, ante-manhã; depois rubro do sol, aureolado de sol, faiscante
-de sol, entrara na cidade...
-
-_após curto silencio_
-
-Agora o milagre não foi só para o Guerreiro; nós vimos tambem, eu vi
-tambem. No céu, para o horizonte, para os lados onde fica a Terra
-Santa, uma cruz immensa de sangue gottejante, abriu os braços... Enchia
-o céu... como se o céu fosse a vella maior de uma nau! Tangeu o côro
-das trombetas, ressoou pelo ar o estrondo das bombardas... E nós vimos,
-e eu vi, até ser sol-poente, a Cruz a gotejar no ceu azul e immenso a
-marcar-nos o caminho que o Guerreiro horas antes traçara. Foi então,
-Senhora, que eu, nós todos que o cercavamos, nos sentimos como elle,
-eleitos cavalleiros, mysticos cruzados, ungidos pelo Destino!...
-
-_á côrte_
-
-É esta a nossa fé:--se ousais nega-la, mentis aos homens e mentis a
-Deus!
-
-_Silencio profundo e longo. A Infanta tem o olhar distante e vago
-preso ao céu. As aias, baixo, murmuram orações. O nauta, olhar de
-illuminado, é como cego... O silencio parece não ter fim. O luar, é
-branco, muito branco._
-
-POETA--_baixo, acercando-se do astrologo_
-
-A cruz a gottejar!... Repara na noite: o luar cahe como agua das fontes
-e é mais branco e mais frio do que um marmore...
-
-ASTROLOGO
-
-Cadaveres rosados e quentes onde os vistes, amigo?
-
-INFANTA--_como despertando, n'uma exaltação_
-
-Não acreditais? Negais tambem?! Negais tudo, até os milagres!? Não
-acreditais tambem n'elles?!... Negais?!...
-
-ASTROLOGO--_sereno_
-
-Eu creio e porque creio, Senhora, entendo bem... Ha mortos no mar,
-mortos na terra!... Vã cubiça e vã gloria, levou-nos á loucura...
-
-NAUTA
-
-Cavar leiras de terra, como quem cava sepulturas, é destino dos homens,
-mas nunca o foi dum povo.
-
-ASTROLOGO--_continuando, como se não tivesse ouvido o nauta_
-
-A antiga fé está perdida. Os herois, deslumbrando-se com os seus
-feitos, imaginam-se santos!...
-
-_com vehemencia_
-
-Porque vencem os homens julgam vencer o proprio Deus! Dantes morriam em
-santidade nos conventos, longe do mundo, e chorando e rezando remiam o
-homem!
-
-Mas era d'antes... Agora...
-
-NAUTA--_desabridamente_
-
-Morrem a lutar, a batalhar...
-
-ASTROLOGO--_sereno_
-
-A matar... a escravisar...
-
-INFANTA
-
-Imaginais então?
-
-ASTROLOGO
-
-Que é de sangue como a cruz gottejante, este imperio, o nosso imperio,
-Senhora!
-
-NAUTA--_num grito_
-
-Por minha fé o juro... Mentis!...
-
-_Silencio de espanto, prolongado e doloroso. Olhares que receiam
-encontrar-se; gestos que receiam acordar o silencio; estatuas..._
-
-INFANTA--_suavemente, n'uma exaltação mystica, n'uma oração_
-
-Sangue bemdicto, porque vive eternamente e revive a cada hora, em
-novas estrellas, novos mundos, novos povos!
-
-_em exaltação maior, levantando-se_
-
-Sangue bemdicto porque floresce. É sangue de sacrificio; almas dadas a
-Deus para remir outras almas, corpos dados ao mar para buscar outras
-vidas!...
-
-_Com a cabeça deitada para traz, os braços erguidos, as mãos em concha,
-tocando-se ao de leve, como ofertando rithualmente um calix_:
-
-Sangue que eu adoro e que eu bemdigo...
-
-ASTROLOGO--_n'uma immobilidade de estatua, com firmesa_
-
-Sangue de morte e vã gloria que uma sombra negra envolve, perde e
-esquece...
-
-NAUTA--_como louco_
-
-Mentira!... Traição!... Mentira!...
-
-INFANTA--_estatica, hirta, desce os degraus do estrado. Olha em roda
-como petrificada; fitando o Astrologo, friamente, quasi serena_
-
-E para alem dessa sombra, se Ella existe?...
-
-ASTROLOGO
-
-É tudo sombra; nada sei, nada vejo, para além...
-
-INFANTA
-
-Nada mais dizem as estrellas?!
-
-ASTROLOGO--_frio, vincando as palavras_
-
-Nada mais.
-
-INFANTA--_com infinito orgulho_
-
-Pouco dizem... e o nosso Imperio transfigurou o mundo!
-
-ASTROLOGO
-
-As maldições do Destino não perdoam...
-
-INFANTA--_quasi violentamente_
-
-O Destino, por nós, já foi vencido.
-
-ASTROLOGO--_sereno, fitando-a_
-
-Os homens enganam-se...
-
-_A côrte entreolha-se, vazia. A Infanta acerca-se do diadema. Pega
-n'elle quasi a medo. Os seus dedos esguios mal lhe tocam. Beija-o.
-Sempre hirta e estática, junto da janella aberta, frente á noite,
-ergue-o em sacrificio, em elevação, ergue-o bem alto! O luar
-escorre-lhe pelos braços. As pedrarias scintillam intensamente. Em
-sagração, como se fosse poisá-lo em pedra d'ara, colloca-o nos seus
-cabellos negros. Assim coroada, não vê, não ouve. O sonho encarnou-se
-no seu coração em soffrimento amargurado. Em face da certeza do
-Astrologo, ella busca uma certeza maior que a domine._
-
-INFANTA--_n'uma vibração profunda, intensissima--a sua alma frente a
-frente ao destino de milhares d'almas, abrangendo n'uma vizão a vida
-toda, o passado e o futuro, echo perdido duma voz prophetica_:
-
-E as estrellas mentem!...
-
-_Queda-se estática; o luar embranquece-a como um marmore. Ha claridades
-deslumbrantes e extranhas nos seus olhos muito abertos, sempre fixos._
-
- * * * * *
-
-_Estremece como labareda batida pelo vento: desmaia. Os olhos sempre
-abertos, sempre fixos._
-
-_As aias amparam-na, aflictas, emquanto a côrte sae desordenada,
-buscando o physico. Os pagens approximam luzes; cerram os vitrais._
-
- * * * * *
-
-_Na Infanta os reflexos são aureolas; divinisam-na..._
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Um alto de collina, arido, de hervas maninhas e rasteiras, tendo ao
-centro um cruzeiro tosco de granito escuro.
-
-Manhã de sol fulgurante e quente.
-
-Da direita alta vem um carreiro estreito, que cortando a scena de
-lado a lado, segue até ao rio, que se estende da esquerda ao fundo,
-espraiado e muito azul, em grande perspectiva, até ao mar.
-
-Ha uma nevoa azulada envolvendo os montes distantes da margem oposta,
-suavisando-lhes os contornos dos cabeços.
-
-Entre as naus e caravellas, mais junto da praia, um galeão; nos
-mastros, sem vellas, estandartes reaes e mil bandeiras...
-
-Junto ao cruzeiro, gente do povo, em grupo, conversando.
-
-UMA MULHER--_que chega_
-
-Ainda estão na igreja. El-Rei, a côrte toda, commungou. Mas a Senhora
-Infanta, bastava vê-la, de joelhos, de mãos postas a rezar, era mesmo
-uma santinha!
-
-OUTRA MULHER
-
-Pois se ella é tão linda!
-
-OUTRA MULHER
-
-E sempre tão triste que até faz dó!
-
-UM MARITIMO--_como procurando dar ternura á sua voz forte e
-enternecendo-se pouco a pouco_
-
-Pois haviam de a vêr como eu a vi, um dia, junto ao mar. Então ella
-estava alegre e o mar estava mau.
-
-O mar é como os homens, tem tambem as suas zangas, os seus ralhos. As
-ondas cresciam sempre, tão grandes como torres e vinham avançando pela
-praia dentro, cada vez mais, cada vez mais... E a Senhora Infanta a
-olhá-las de frente e tão esquecida, que uma vaga mais forte a molhou
-toda! E ella sem se mexer, sempre quêda a olhá-las, assim a modos como
-uma santa no altar!
-
-A Senhora Infanta não tem medo do mar. Se a deixassem era capaz de
-ir como nós á aventura... Quem a viu como eu a vi nesse dia, e não
-soubesse quem ella era, havia de cuidar que tinha nascido no mar--que
-tinha sido embalada, não por aias, mas por ondas!
-
-OUTRO MARITIMO--_com enthusiasmo e ternura_
-
-E sempre foi assim! Ainda tamanina, quando chegavam as naus--as que
-tinham ido sem rumo e traziam novas terras a esta terra--já a Senhora
-Infanta ao lado de El-Rei as ficava a olhar, de olhos muito abertos,
-cheios de riso. E queria saber tudo--como fôra, o que viramos, como
-eram as nossas terras, onde ficavam... o que nos acontecera...--e a
-ouvir-nos contar nossa aventura, os seus olhos enchiam-se ainda mais de
-riso.
-
-UMA MULHER
-
-Pois agora vai triste. Eu vi-a passar para a igreja. Não olhava, não
-sorria... Os olhos muito abertos, olhando sempre em frente, muito
-brilhantes... até me fez chorar... Nunca vi olhos assim! E toda de
-branco! Parecia enfeitiçada!...
-
-UM VELHO
-
-Deixai lá... Ella tambem gosta desta loucura em que vivemos. Nunca se
-importou a Senhora Infanta dos que morrem no mar, dos que lá ficam
-nessas terras distantes a combater! Morrem: deixá-lo! A Senhora
-Infanta é como as mais; não se importa!...
-
-VOZES
-
-Calai-vos! Calai-vos!--Ave de mau agoiro!--Nós tambem temos filhos! Nós
-tambem temos mortos!...
-
-O VELHO
-
-Mas não chorais como eu...
-
-VOZES
-
-Calai-vos... Calai-vos!...
-
-OUTRO VELHO--_com violencia_
-
-É assim, é assim mesmo. Quem se importa já da terra!? Quem a lavra e
-a amanha com amor? É esta Babilonia que nos perde! Aqui é a torre de
-Babel. Só se vê estrangeiros, só se ouvem linguas estranhas que ninguem
-entende e que--Deus louvado!--nem parecem de gente!
-
-D'antes a nossa terra era só nossa, tinha as portas fechadas por
-castellos. Agora é de todos... Perros malditos!
-
-UM MARITIMO
-
-Porque fosteis então batalhar em terra alheia?...
-
-OS DOIS VELHOS
-
-Para servir a Deus e a El-Rei; e El-Rei ia comnosco, e tambem
-batalhava!...
-
-UMA MULHER
-
-Ouvi. Tocam os sinos... El-Rei, a côrte toda, vai saír... vão, até
-embarcar, em procissão.
-
-_O grupo vai augmentando; junta-se mais povo._
-
-OUTRA MULHER
-
-A Senhora Infanta vai como morta! Chamais doido a quem diz verdades.
-Não acreditais, mas é assim. Não sou Ave-agoirenta, não; mas isto é um
-enterro.
-
-OUTRA MULHER
-
-É o castigo de Deus! Andamos levados pelo Demo, sempre a tentar ao
-Senhor...
-
-VOZES
-
-Calai-vos!... Calai-vos!...
-
-UMA MULHER--_da frente do grupo_
-
-Já sahiram da igreja... lá sae El-Rei... a Rainha, os Principes...
-
-OUTRA VOZ
-
-E a Senhora Infanta vem á frente, reparai... vêde se não é como eu
-dizia. Vai a enterrar, vai como morta...
-
-O Senhor Bispo vem tambem... Atraz a cleresia, toda a côrte...
-
-OUTRA MULHER
-
-É uma procissão... é um enterro...
-
-UM VELHO
-
-Sabeis as prophecias?
-
-VOZES
-
-Contai... dizei... contai...
-
-O VELHO--_hesitante_
-
-No céu, para os que sabem lêr nos astros, ha presagios maus! Quem não
-tem visto estes dias a lua ao nascer tinta de sangue?! É sangue de
-infieis, sangue de moirama ou sangue nosso? Ninguem sabe... ninguem!...
-
-E diz-se que hade vir um Principe de tentação para nos perder. Um
-Principe loiro como o sol, que nos ha-de tentar! E com elle nós iremos
-todos, a cantar, buscar a morte! Os infieis serão na mão do Senhor
-o seu instrumento de castigo! O Senhor castigará nossa soberba com
-aquelles que abatemos!...
-
-VOZES
-
-Piedade, Senhor!...--Tende compaixão de
-nós!...--Misericordia!...--Piedade!...
-
-O VELHO
-
-E o castigo do Senhor será terrivel e a sua colera não terá limites
-porque judeus, feitos Christãos, andam a blasphemar o Santo Nome de
-Deus!
-
-VOZES
-
-Malditos sejam!...--Santo é o Nome de Deus!--Que as penas do inferno
-sejam poucas para elles...--Que sejam malditos!--Mil vezes malditos!
-
-O VELHO--_continuando_
-
-E as aguas secarão nas levadas e nas fontes... E o sol queimará os
-milharais e as searas; e as vides ficarão secas e mirradas... Os gados
-não terão pastos, os homens não terão pão, e a peste os levará...
-
-VOZES--_desvairadas, amarguradas, agonisantes_
-
-Calai-vos!...--Maldição!...--Piedade!...--Maldição!...--Antes a
-morte...--Vêr morrer os nossos filhos...--Piedade!--Piedade!--Maldição!
-
-O VELHO--_continuando a custo_
-
-E será então que um rei virá--rei estranho, gente inimiga, homens
-d'armas--conquistar este reino de cadaveres...
-
-Será então que um rei virá matar um Rei que não morre... a quem a Morte
-não matou...
-
-VOZES--_de soffrimento, de desespero, de confiança e de odio_
-
-Maldição!...--Piedade!--Piedade!--Que Deus seja comnosco...--Que
-os herejes sejam mortos!...--Que sejam malditos!--Que sejam
-queimados...--Que Christo reine em nossos corações!--Que a Sua lei
-seja cumprida!...--Deus é comnosco!...--Deus é Pae!...--Deus é bom...
-
-UM MARITIMO MOÇO--_com vehemencia_
-
-Quem sabe o que é do dia d'amanhã... Esses horrores que dizeis quem os
-prophetisou? Quem pode dizer o destino dos homens e pode conhecer a
-vontade de Deus? Só quem não andou embarcado e não viu os Mundos Novos
-que são nossos, essas terras estranhas por nós descobertas, só quem não
-sahiu deste torrão de terra abençoado para servir a Deus e a El-Rei
-n'esse imperio imenso que fica para alem,
-
-_apontando_
-
-para as bandas donde nasce o sol; só quem não luctou com o mar e o
-venceu, pode acreditar nas negras prophecias!...
-
-VOZES
-
-Dizes bem...--É assim mesmo.--Dizes bem...
-
-O MARITIMO
-
-Deixai, que o mundo é nosso, porque nós o descobrimos e lhe demos vida
-por nossas vidas! O mundo é nosso filho, tem o nosso sangue!
-
-_As mulheres rezam baixo._
-
-VOZES
-
-Dizes bem...--É assim... é assim...
-
-UMA MULHER
-
-Ouvi como o povo canta em redor da Princeza... E Ella nem os ouve, nem
-os vê.
-
-O MARITIMO
-
-Os olhos dos marinheiros andam sempre errantes... No mar os olhos
-não se prendem, que o mar é todo igual. Só á noite as estrellas do
-ceu prendem os olhos! A Senhora Infanta é como nós; tem olhos de
-marinheiro, olhos errantes!
-
-_Silencio. Uma nuvem ligeira escureceu o sol, assombreando a terra._
-
-A VOZ DO «BANDARRA»--_não muito longe_
-
-Cautella, Senhor Rei!... Cuidado!... O mar nunca perdôa, os mortos
-nunca esquecem! Olhai que ides tambem a naufragar... Nós todos somos
-naufragos, cadaveres para o mar!...
-
-VOZES--_entre o povo aqui e alem_
-
-Senhor Deus misericordia! Pae do Céu misericordia!--Por nossos
-filhos... Por El-Rei...--Miserere nobis!--Misericordia! Misericordia!
-
-UMA MULHER
-
-El-Rei parou... todo o cortejo... seguem... continuam...
-
-OUTRA MULHER
-
-Que a Virgem Nossa Senhora proteja a Senhora Infanta!...
-
-_As mulheres ajoelham; os homens descobrem-se e alto, em côro:--Avé
-Maria, cheia de graça..._
-
-_Mestre Lopo, o astrologo, o poeta e o pintor apparecem pela direita,
-a caminho da praia. Ao verem o povo de joelhos, param e descobrem-se.
-Rezam tambem. Acabada a oração põem-se de novo a caminho; o poeta
-fica..._
-
-PINTOR--_voltando-se_
-
-Ficais aqui?
-
-POETA--_docemente_
-
-Para que ir comvosco?!
-
-Eu ando agora a viver o sonho d'Ella!... Em tudo que me cerca eu vejo-a
-sempre, mais pura, mais santa, mais perfeita! D'aqui eu vejo o mar e o
-mar é a sua alma, a nossa alma, o sonho maior que transfigurou o mundo
-e sobre o mundo ficará eternamente! O sonho creador e redemptor!...
-
-ASTROLOGO
-
-Já não acreditais nas prophecias?
-
-POETA
-
-O sonho é a unica certeza em face dos homens e do Destino...
-
-ASTROLOGO
-
-E nas estrellas?...
-
-POETA
-
-Mentem tambem. Mentiram sempre... Ella o disse, Ella o revelou ás
-nossas almas!...
-
-_O pintor e o astrologo afastam-se apressados. O poeta, lentamente,
-aproxima-se do cruzeiro._
-
-VOZES
-
-Afastem-se!...--Abram alas!...--Já ahi vem
-El-Rei...--Afastem-se...--Abram alas...
-
-_Os grupos afastam-se em silencio, abrindo alas. Pela esquerda, rodeada
-das suas aias, toda de branco, hierática, serena, suavissima, sem um
-gesto, sem um sorriso, e d'um olhar divino, triumphal--olhar cheio de
-visões gloriosas, de claridades infinitas, de sonhos revelados, e de
-certezas eternas--apparece a Infanta..._
-
-_Os homens descobrem-se, as mulheres atiram flores ao caminho, juncam o
-caminho de flores, e quêdos; silenciosos, ficam a olhá-la, espantados,
-como se estivessem em face d'um milagre, d'uma apparição divina!_
-
-VOZES DOS MARITIMOS
-
-Viva a Senhora Infanta!--Viva a nossa Princeza!--Que Deus guarde a
-nossa Santinha!--Que Nossa Senhora a proteja! Que os anjos a levem em
-sua guarda!--Como vai linda!...--Como Ella vai!...--Que a estrella
-do norte seja seu guia... Que as ondas a embalem...--Viva a nossa
-Princeza!--Viva a Senhora Infanta!...
-
-_As vellas vão pouco a pouco subindo nos mastros e, como azas enormes,
-enchem o céu._
-
-_Junto ao cruzeiro, alheio, indifferente, distante, o Poeta continua
-olhando os longes..._
-
-
-
-
- ACABOU DE SE IMPRIMIR
- ESTE LIVRO
- NAS OFICINAS GRAFICAS
- DA RUA FORMOSA, NUMERO 50,
- DA CIDADE DE LISBOA,
- NOBRE E LEAL,
- AOS QUATORZE DIAS DO MEZ
- DE NOVEMBRO
- DO ANO DA GRAÇA DE
- MCMXXI
-
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTA ***
-
-Updated editions will replace the previous one--the old editions will
-be renamed.
-
-Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
-law means that no one owns a United States copyright in these works,
-so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the
-United States without permission and without paying copyright
-royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
-of this license, apply to copying and distributing Project
-Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
-concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
-and may not be used if you charge for an eBook, except by following
-the terms of the trademark license, including paying royalties for use
-of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for
-copies of this eBook, complying with the trademark license is very
-easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
-of derivative works, reports, performances and research. Project
-Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may
-do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected
-by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark
-license, especially commercial redistribution.
-
-START: FULL LICENSE
-
-THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
-PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
-
-To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
-distribution of electronic works, by using or distributing this work
-(or any other work associated in any way with the phrase "Project
-Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
-Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
-www.gutenberg.org/license.
-
-Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
-Gutenberg-tm electronic works
-
-1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
-electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
-and accept all the terms of this license and intellectual property
-(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
-the terms of this agreement, you must cease using and return or
-destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
-possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
-Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
-by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
-person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
-1.E.8.
-
-1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
-used on or associated in any way with an electronic work by people who
-agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
-things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
-even without complying with the full terms of this agreement. See
-paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
-agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
-1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
-United States and you are located in the United States, we do not
-claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
-displaying or creating derivative works based on the work as long as
-all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
-that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
-free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
-works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
-Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
-comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
-same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
-you share it without charge with others.
-
-1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
-what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
-in a constant state of change. If you are outside the United States,
-check the laws of your country in addition to the terms of this
-agreement before downloading, copying, displaying, performing,
-distributing or creating derivative works based on this work or any
-other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
-representations concerning the copyright status of any work in any
-country other than the United States.
-
-1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
-
-1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
-immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
-prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
-on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
-phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
-performed, viewed, copied or distributed:
-
- This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
- most other parts of the world at no cost and with almost no
- restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
- under the terms of the Project Gutenberg License included with this
- eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
- United States, you will have to check the laws of the country where
- you are located before using this eBook.
-
-1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
-derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
-contain a notice indicating that it is posted with permission of the
-copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
-the United States without paying any fees or charges. If you are
-redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
-Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
-either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
-obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
-trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
-with the permission of the copyright holder, your use and distribution
-must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
-
-1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
-License terms from this work, or any files containing a part of this
-work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
-
-1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
-electronic work, or any part of this electronic work, without
-prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
-active links or immediate access to the full terms of the Project
-Gutenberg-tm License.
-
-1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
-compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
-any word processing or hypertext form. However, if you provide access
-to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
-other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
-version posted on the official Project Gutenberg-tm website
-(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
-to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
-of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
-Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
-full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.
-
-1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
-performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
-unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
-
-1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
-access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
-provided that:
-
-* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
- the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
- you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
- to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
- agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
- within 60 days following each date on which you prepare (or are
- legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
- payments should be clearly marked as such and sent to the Project
- Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
- Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
- Literary Archive Foundation."
-
-* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
- you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
- does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
- License. You must require such a user to return or destroy all
- copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
- all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
- works.
-
-* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
-
-* You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg-tm works.
-
-1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
-Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
-are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
-from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of
-the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set
-forth in Section 3 below.
-
-1.F.
-
-1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
-effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
-works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
-Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
-electronic works, and the medium on which they may be stored, may
-contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
-or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
-intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
-other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
-cannot be read by your equipment.
-
-1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
-of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
-Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
-Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
-liability to you for damages, costs and expenses, including legal
-fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
-LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
-PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
-TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
-LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
-INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
-DAMAGE.
-
-1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
-defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
-receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
-written explanation to the person you received the work from. If you
-received the work on a physical medium, you must return the medium
-with your written explanation. The person or entity that provided you
-with the defective work may elect to provide a replacement copy in
-lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
-or entity providing it to you may choose to give you a second
-opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
-the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
-without further opportunities to fix the problem.
-
-1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
-in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
-
-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
-warranties or the exclusion or limitation of certain types of
-damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
-violates the law of the state applicable to this agreement, the
-agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
-limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
-unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
-remaining provisions.
-
-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
-trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
-providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
-accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
-production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
-electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
-including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
-the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
-or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
-additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
-Defect you cause.
-
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation's website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without
-widespread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This website includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.