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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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-The Project Gutenberg eBook of Infanta, by Manuel de Figueiredo
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Infanta
- tragédia
-
-Author: Manuel de Figueiredo
-
-Release Date: September 13, 2022 [eBook #68985]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTA ***
-
-
-
-
-
-INFANTA
-
-
-
-
-DO AUTOR
-
-
- ORAÇÃO DA RAÇA 1918
- INFANTA 1921
-
-
- _a seguir_:
-
- O REI LUZIADA
-
-
- EDIÇÕES LUSITANIA
- _Rua Arco do Limoeiro, 17, 1.ᵒ-Lisboa_
-
- _Todos os direitos reservados_
-
-
-
-
- INFANTA
-
- TRAGEDIA POR
-
- MANUEL DE FIGUEIREDO
-
-_Diz a Lenda que certo Poeta se apaixonou por uma filha do Rei D.
-Manuel I, o Venturoso. Chamava-se a Princeza, Beatriz e o Poeta,
-Bernardim._
-
-_A Infanta foi Duqueza de Saboia, e, exilada no seu Ducado humilde e
-pobre, deu provas de grande engenho e sabedoria, mas a sua vida, dizem
-as Chrónicas e a Lenda foi triste e saudosa_...
-
- * * * * *
-
-_Este livro não é, nem mesmo em sua origem, a historia do amor do Poeta
-e da Princeza, ou uma evocação da côrte manuelina._
-
-_Só depois de abstractamente ter «vivído» o sonho das Descobertas e das
-Conquistas, e de ter encontrado, para mim, o seu significado, procurei
-as personagens, fixei os seus valores, defini as suas atitudes e os
-seus gestos._
-
-_Tem portanto este livro um sentido mais alto e mais profundo. É a
-Tragédia d'um momento que passou e a crença, a fé, a certeza, n'um
-momento que ha-de vir. É o triumpho eterno da Raça perante o Mundo, os
-Homens, e o Destino._
-
- * * * * *
-
-_Não fiz nem quiz fazer theatro. As personagens têem um sentido mais
-symbolico do que humano._
-
-_A minha Alma viveu o momento passado e visionou o momento futuro:--o
-Triumpho espiritual da Raça!_
-
-
-
-
-DRAMATIS PERSONAE
-
-
- INFANTA
- POETA
- NAUTA
- ASTROLOGO
- PINTOR
- UM BANDARRA
- O PHYSICO D'EL-REI
-
-AIAS, NOBRES, PAGENS, GENTE DO POVO, MARITIMOS, MULHERES, SOLDADOS E
-VELHOS.
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Salla ampla, forrada d'Arrazes, abrindo para uma larga arcaria
-praticável. Por entre as columnatas e os rendilhados da balaústrada,
-avista-se o rio espraiado e colorido. Hora de sol-poente. Na distancia,
-terras em bruma.
-
-PINTOR--_na arcaria_
-
-O Céu está um boqueirão de fogo. E no movimento constante do vai-vem
-das aguas, os reflexos de luz estão bailando como se fôra um bailado de
-pedrarias a arder.
-
-Sinto que os meus olhos enlouquecem de tanta luz, de tanta côr...
-
-POETA--_que se aproximou_
-
-Olha antes, álêm, os galeões que hão-de levar a Princeza!
-
-Sem vellas, lembram ossadas...
-
-Envolvem-nos as sombras, e as sombras são caricias de abandono e
-esquecimento, adormecendo meus olhos magoados...
-
-PINTOR--_surprêso_
-
-Para que continuar sonhando?...
-
-POETA--_n'uma exaltação quási desvairada_
-
-Sonhar é bem differente!
-
-É crear um mundo nosso, onde uma só alma exista, e n'essa alma, a
-alegria e a dôr do Universo. É modelar o nosso sonho numa imagem,
-e nessa imagem viver milhares de vidas!... Vivê-las encantado n'um
-momento, soffrê-las perdidamente até á loucura, resurgi-las depois em
-novas formas, para de novo as soffrer e exaltar!...
-
-O sonho que é attingido, que se deixa tocar, desfaz-se, aniquila-se, em
-esquecimento, em abandono.
-
-Para viverem, meus sonhos em cada hora se transformam.
-
-A imagem é sempre a mesma, é sempre Ella; n'Ella os encarno e lhes dou
-vida...
-
-PINTOR
-
-E é assim que pouco a pouco vai morrendo o amor desvairado
-d'outr'ora?...
-
-POETA--_sereno, quasi indifferente_
-
-Adormecendo, dizei antes, que morrer é apenas um gesto; o vôo
-necessário para uma vida maior.
-
-Morre-se na vida infinitamente. Morre-se sempre para viver... até ser
-attingida a luz final, suprema, em que vida e sonho se confundem...
-
-Na imagem, na sua imagem mystica, dulcissima, o meu amor é sempre o
-mesmo; na alma, maior, sempre maior...
-
-PINTOR
-
-Mas para que soffrer, agora que vai partir, tão doidamente?
-
-POETA--_muito calmo_
-
-Para a remir em minha dôr! Exalta-la no meu coração--altar do seu
-sacrificio!
-
-Para a santificar na minha alma!
-
-_n'uma mudança brusca_
-
-Conheces bem as terras para onde vai. Por lá andaste, peregrino annos e
-annos e d'ellas tens dito maravilhas...
-
-PINTOR
-
-Minhas palavras, de tão pouco que dizem, são quási mentirosas...
-
-POETA
-
-Eu nunca sahí d'esta cidade de maravilha e de encanto, mas n'ella tenho
-sentido, vivido, o mundo inteiro!
-
-_em exaltação_
-
-Que importa o mundo?! As maravilhas estranhas de que fallais que
-importam?
-
-A vida estonteante, allucinada, que me cerca, tem para mim, agora,
-a indifferença da morte e é de agonia a alegria em que vivo! Ando a
-enterrar a toda a hora as minhas dôres. Sou um eterno coveiro, e cavo
-fundo, fundo, mas os sonhos--ai de mim!--tambem teem alma!
-
-Como hei-de enterrar minhas saudades!?
-
-_com dolorosa serenidade_
-
-Vai partir... Longe, alguem a espera!... E vai tê-la em seus braços,
-possui-la!...
-
-Amar, é a dor mais forte e mais profunda, a dor que humanisa a creatura
-e a torna mulher.
-
-Ella será mulher tambem... Mas a sua alma--eu sei, eu sinto--estará
-longe, estará distante, indecisa, como receosa de acordar para a vida,
-receosa de adormecer na morte!
-
-_n'um esforço de recordar, materialisando_
-
-Nunca os seus olhos serenos, suavissimos, de princeza e de menina, me
-olharam. Se os encontro, fogem, receosos...
-
-Não sei o que elles buscam olhando os longes?! Ficam vagos, anciosos,
-illuminados, distantes... Olhar immenso, olhar profundo, visionario, de
-sonho, d'amor e de triumpho!
-
-Nunca os seus olhos me olharam assim! Parecem sorver a luz! Embebem-se
-de luz como o céu ao acordar; são sombras de soes os olhos d'ella!
-Prendem-se na distancia, e assim presos, de encantados, por largo tempo
-nada vêem! E como ella fica então queda e hieratica!
-
-_dolorosamente_
-
-Para a sonhar de novo, em nova forma, anniquilo a minha carne,
-despedaço-a!
-
-Nunca mais a verei olhando os longes, assim immaterial, assim divina...
-
-Vai partir... Um principe a espera... Para que veio até mim quem tão
-alto nasceu?!
-
-PINTOR--_suavemente_
-
-E para que tão alto erguer os olhos? Há, na Terra, imagens que são
-sombras; lindas para ver, não para sonhar!...
-
-_Fóra, vozes, entrecortadas, gritam_
-
-O POVO
-
-A armada!--A armada que volta!--A frota toda!--A nau S. Bento!--Santa
-Maria da Barca!--O galeão maior!--Deus os levou, Deus os trouxe na
-sua guarda!--Deus é Pae!--Deus é bom!--Pela Virgem Mãe!--Pelas Cinco
-Chagas!--Milagre!--Milagre!--A armada!--A frota toda!--A armada!--Vinde
-ver!--Milagre!--Milagre!--Deus os salvou!--Deus os trouxe na sua mão...
-
-_Continuam vozes_
-
-PINTOR
-
-Não ouves?...
-
-_indo á arcaria_
-
-Na frota que entra a todo o pano, de tão vermelhas que veem, as vellas
-lembram enormes labaredas!...
-
-POETA--_longe, distante, com dôr que tenta visionar para soffrer,
-continuando intimos pensamentos_
-
-Há-de tocá-la!... Há-de beijá-la... Far-se-há carne tambem a sua
-alma!...
-
-_ao pintor, que de novo se aproximou_
-
-Aquellas vozes?!
-
-PINTOR
-
-De longe que estavas nem me ouviste... A frota grande que volta e entra
-a barra:--o povo, de joelhos, rezando na praia.
-
-Escuta... vem gente...
-
-POETA--_depois de curta hesitação, indo á arcaria, dominado_
-
-Encantamento da morte!
-
-_Pagens afastam o largo reposteiro de brocado. Entram, lentamente, a
-Infanta, suas aias e alguns nobres. O Poeta e o Pintor, de joelhos,
-beijam as mãos á Princeza--esguia, branca, serena, triumphal._
-
-INFANTA
-
-É «Frol de la mar» que vem entrando?
-
-PINTOR
-
-Se os meus olhos não mentem, julgo ser...
-
-UM NOBRE--_na arcaria_
-
-O galeão maior... Santhiago... Santa Maria da Barca... A nau São
-Bento... Toda a frota.
-
-UMA AIA
-
-A Senhora ouviu os nossos rogos pelos que andavam perdidos por sôbre as
-aguas do mar...
-
-OUTRA AIA
-
-Levou-os e trouxe-os em sua guarda...
-
-INFANTA--_que lentamente se aproximara da arcaria, depois de um longo
-silencio, com deslumbramento e mysticismo_.
-
-É mais, muito mais do que uma armada entrando de novo a barra!
-
-Ha almas n'aquellas vellas:--sinto-as, vivem, palpitam em mim!
-
-_exaltando-se_
-
-São como mãos do Destino aquellas naus! Ellas andam buscando, a toda
-a hora, o mundo maior que Deus creou! Andam buscando, perdidas entre
-as ondas, os reinos da luz e do mystério, os reinos das pedrarias e do
-oiro!
-
-Errantes, sem rumo, á aventura, foram quebrando o feitiço ás ilhas
-perdidas do mar! As ilhas, castellos encantados, que, por nossa voz,
-despertam a cantar! São como nossas mãos aquellas naus!
-
-Dia a dia, andam realizando o nosso sonho! Abrindo nossos olhos
-deslumbrados ante horizontes novos e estranhos! Por ellas,
-transfigurado, o mundo acorda, desperta, da noite negra! Por ellas o
-mar e a terra são maiores! Por ellas o céu tem mais estrellas!
-
-São como mãos do Destino aquellas naus! São como nossas mãos! São como
-mãos de Deus!
-
-_nos olhares deslumbrados da côrte passam, por momentos, as palavras da
-Infanta._
-
-_Ao Poeta_
-
-Que faz alêm, na praia, o povo?!
-
-POETA
-
-Chora saudades...
-
-INFANTA
-
-Chorar?! E de joelhos?!...
-
-POETA
-
-Rezam...
-
-INFANTA--_quási com violencia_
-
-Mas para que rezar, chorando?! Eu rezo erguendo um cantico em minha
-alma deslumbrada.
-
-Se fossem esquifes as caravellas e as naus, como rezar? Como rezar
-pelos mortos?
-
-Só o sol é triumphante e glorioso! E é n'aquella luz de poente,
-n'aquelle céu em fogo, triumphal, supremo, que eu rezo a minha oração.
-
-Em vez de cantarem a morte gloriosa, rezam pedindo a vida humilde que
-renuncia ao sonho creador... Ajoelham-se... Cegam os olhos, baixam-nos
-para a terra, quando os deviam abrir á luz e erguê-los para o Céu!
-
-UMA AIA
-
-Perdoai, mas o povo, Senhora, é simples demais para comprehender...
-
-INFANTA
-
-Mas não para sentir! As arvores não veem o sol, mas sentem-no e
-adoram-no, e para elle estendem sempre seus ramos, e para elle vão
-crescendo sempre, para mais o sentir e adorar!
-
-A intelligencia vê, o sentimento adivinha!
-
-E o mundo, por nós, é maior, mais bello, em cada dia! Communga em nós a
-toda a hora, e por nós se redime e engrandece!
-
-_olhando vagamente em seu redor_
-
-Olho os montes d'alem, aquellas terras, o rio e a casaria e tudo que
-me cerca, tudo, tudo, tem para mim o encantamento de um mysterio
-no maravilhoso de uma revelação. Tudo ri e canta e vibra e se
-espiritualiza em reflexos!
-
-Só o povo chora e reza! Sente dôr o povo? São de dôr as suas orações?
-Em vez de entoar canticos reza ladainhas?
-
-_á côrte_
-
-E vós?! Acaso não sentis como eu tambem? Olhando as náus, só vêdes
-náus?!
-
-_sahindo fóra, á arcaria_
-
-Olhai agora. Vêde, como ellas vêem! A Cruz n'aquellas vellas ganhou
-azas. Está mais perto do Céu, é mais divina!
-
-_com violencia_
-
-Não sentis em verdade como eu?
-
-Não olhais para aquellas naus como milagres de Deus?!
-
-Não comprehendeis que é um mundo de phantasmas, tenebroso, horrendo,
-sombrio, que desappareceu, illuminado por nova luz, por nossa luz?
-Que o novo mundo que nasce em novos povos, em novas terras, em novos
-ideais, é nossa creação?!
-
-_em exaltação crescente, com violencia maior, n'uma alucinação_
-
-Onde estão os mares de sangue? Os mares de fogo? Os deuses infernais,
-os gigantes disformes, horrorosos, os negros boqueirões dos abysmos
-profundos?! Ilhas de morte! terras de fogo! brumas eternas! onde
-estais?!... onde estais?!...
-
-UMA AIA--_baixo, a outra aia_
-
-Como desvaira...
-
-POETA--_a meia voz, ao pintor_
-
-E sempre longe... cada vez mais longe de nós!...
-
-INFANTA--_mais calma, continuando_
-
-É um mundo de sangue e de morte, creado pelos homens, que desapparece.
-É um mundo novo de vidas novas que nasce, e em que se ergue bem alta,
-na tragedia suprema de luctar e vencer, a luz de Deus!
-
-Os deuses infernais onde estão elles?!
-
-São como nossas mãos, são como mãos de Deus, aquellas naus!...
-
-POETA
-
-Mas ha cadaveres, Senhora, boiando no mar...
-
-INFANTA
-
-Que importa triumphar ou morrer, quando, na morte e na victoria, se
-reza o mesmo cantico, vivendo o mesmo sonho?! Se, para alem da morte, a
-alma continua, e da vida ficou, em rasto triumphal, uma Via-Lactea de
-Herois, perpetuando...
-
-_ao pintor_
-
-Fixai bem a armada...
-
-PINTOR
-
-Meus olhos, em seu deslumbramento, estão cegos, Senhora!
-
-_Movimento entre o povo, sussurro, vozes..._
-
-UMA VOZ--_atona, sombria_
-
-Dia e noite, ha uma estrada de luar por sobre as águas... São os mortos
-que vão a enterrar... São os mortos, amantes das vagas... Cortejo de
-naufragos, por cyrios de luar alumiados...
-
-Olhae, olhae agora... É a estrada da Morte que a armada vem seguindo...
-
-INFANTA--_com horror_
-
-O agoiro...
-
-UMA AIA
-
-Vinde, Senhora, não lhe deis ouvidos.
-
-UM NOBRE
-
-Que os pagens o mandem afastar...
-
-INFANTA--_em grande exaltação_
-
-Que o afastem. Que se cale. Que ninguem o ouça. Mente!... Mente!...
-
-_caindo em si, n'uma mudança brusca, novamente serena_
-
-Calai-vos. Eu quero ouvir, quero entendê-lo. Como disse elle? Cortejo
-de naufragos...
-
-A VOZ--_novamente_
-
-Mas qual rumo seguir? Olhai! não vedes?! É a Morte que vem por
-timoneira...
-
-_A luz, pouco a pouco, torna-se crepuscular. O rio escurece. As terras,
-na distancia, desapparecem na bruma._
-
-VOZES DO POVO--_desencontradas_
-
-Cala-te!--Cala-te!--Mau agoiro!--Pelas Cinco Chagas!...--Pela Virgem
-Mãe!...--Misericordia!--Misericordia!...
-
-INFANTA
-
-O povo nem o olha; tem-lhe medo!
-
-De rastos, de joelhos, a gritar misericordia! Que estranho e desvairado
-está o povo!
-
-O «BANDARRA»--_afastando-se_
-
-Mas para que rezais?... para que chorais?!
-
-Olhai o sol, olhai a luz! É tudo oiro... é tudo oiro!... O despertar
-não tarda, mas ainda não veio...
-
-Por que chorais? É tudo oiro... Toca a cantar... toca a bailar, que
-ainda é folia...
-
-Olhai!... porque rezaes?! Bailai!... Bailai!...
-
-VOZES DO POVO--_a distancia, entrecortadas_
-
-Por Santhiago!--Pela Virgem Mãe!...--Misericordia!--Christo,
-ouvi-nos!--Christo, valei-nos!--Christo, ajudai-nos!--Ave agoirenta!...
-
-INFANTA
-
-Que tem o povo? Que loucura a d'elle! Que estranha voz! Quem o entendeu?
-
-_olhando em roda_
-
-Ninguem?! E mestre Lopo onde está? Ide chamá-lo...
-
-_ao Poeta e ao Pintor_
-
-Ficai...
-
-_a um fidalgo_
-
-Trazei-mo aqui.
-
-A VOZ DO «BANDARRA»--_ainda mais distante_
-
-Porque rezais? É tudo oiro... é tudo oiro... Toca a cantar... Ide
-bailar... Toca a cantar que ainda é folia!...
-
-_Curto silencio. A tarde continua escurecendo._
-
-INFANTA--_recordando, como n'um sonho_
-
-Quando eu, criança ainda, ia com El-Rei meu Pae ver chegar as naus,
-o povo não rezava, não chorava... Cantava e ria o povo; e era ainda
-cantando que resava! Agora chora!... Porque estranha loucura chora o
-povo agora?! Que vê, que sente, elle?!
-
-A terra tem o mesmo encanto e a mesma alegria o céu! É o mesmo scenario
-de magia. E o povo chora... e o povo reza...
-
-Parece não vêr o que o cerca; fica como cego a ouvir o agoureiro.
-Chamam-lhe a Ave-agoirenta; receiam-no, temem-no, acreditam n'elle!
-
-Mas que verdade, teem, acaso, as suas fallas?! A sua voz, fria e
-distante, lembra morte, é certo. É uma voz d'alem tumulo, d'alem
-vida--prophetica! Ainda a julgo estar ouvindo!...
-
-UMA AIA
-
-Desviai de vós, Senhora, tão negro imaginar. Para que recordar palavras
-doidas? Para que estar, Senhora, a dar-lhe ouvidos?!
-
-INFANTA--_impressionada_
-
-Palavras doidas sim, palavras doidas!... Se não fôra o tom da sua voz!
-Como ella é fria, fria, e lembra a Morte!
-
-UM VELHO PHYSICO--_rudemente_
-
-A Morte não vê, não falla, não ouve. É cega, é surda, é muda a Morte!
-Para que estar, Senhora, imaginando que ella pode fallar na voz de um
-doido?
-
-Eu, que sou physico d'El-Rei, e já um velho, a quem a morte de manso
-vem tomando, por vezes, estudando as caveiras interrogo-me!
-
-Olho-as bem... Vejo n'ellas o meu dia de amanhã, e não as olho com
-horror; pelo contrario, vejo-as com amor, com simpathia... e até,
-recordando as minhas dôres, acaricio-as!
-
-As orbitas não teem olhos; as boccas não teem lingua; os ouvidos são
-buracos apenas. Não podem ouvir, nem ver, nem fallar!
-
-Porque, Senhora!? Porque a Morte é paz, socego, anulamento; é nada...
-Os mortos dormem e não querem que os acordem. Que se importam elles dos
-vivos, se repousam!?... Deixai a voz do doido...
-
-INFANTA--_serenamente_
-
-Porque só olhaes e interrogaes caveiras não podeis comprehender os
-mysterios que nos cercam. Só mestre Lopo, que lê nos astros, poderá
-dizer toda a verdade.
-
-_Docemente, na distancia, os sinos tocam as Trindades._
-
-Ave-Marias! Rezemos...
-
-_pondo as mãos, em prece, mysticamente_
-
-E um anjo do Senhor, cheio de luz, desceu dos Céus á Terra e disse:
-«Ave-Maria cheia de graça, o Senhor é comtigo...»
-
-_Silencio. A corte ajoelha e reza por momentos; os pagens, acendem
-luzes._
-
-INFANTA--_finda a oração, indo á arcaria_
-
-Como é grande a calma religiosa d'esta hora!
-
-Como anoiteceu depressa! A terra dorme já em sombra e bruma. Só o rio e
-o céu teem ainda luz!
-
-PINTOR
-
-Tudo adormece em silencio, tudo dorme...
-
-Só eu fico ancioso esperando a madrugada! Tenho ancia de luz como as
-flores e as aves! As sombras são negras, entristecem-me; fico como
-cego. Só no sol, só nas côres, sinto a vida e tenho alegria e ancia de
-viver.
-
-POETA
-
-A luz só a adoro, só a sinto, no adormecer suave d'esta hora, em que a
-natureza inteira está tambem de mãos postas a rezar!
-
-Luz que queima, que enlouquece, e tudo revela, tudo acorda, eu a
-maldigo!
-
-Luz que é fogo em minha alma, e maravilha em meus olhos, eu a odeio.
-
-Mas esta, em que a saudade se deixou cruxificar, e tem mãos de mysterio
-e acaricia, e vem de manso afagar meus olhos, embalando meu sonho pela
-noite fora, e em negrumes abafa minha dôr, dando-me paz, serenidade,
-calma, esta, Senhora minha, eu a adoro, eu a bendigo.
-
-INFANTA
-
-Mas porque odiar assim a luz, assim a vida?
-
-POETA--_com intensão_
-
-Porque acorda... Porque tece feitiços de loucura... Porque illumina,
-revela, transfigura. Porque cria sonhos. Imagens que são reaes e que se
-afastam, que vemos e não podemos alcançar...
-
-Odeio a luz, Senhora, porque ella illumina o meu soffrer, e entra em
-meu coração e abre-o de par em par ao soffrimento!
-
-Porque estendo os braços, anciosos, loucos, e meus braços se perdem no
-ar!...
-
-Vejo o meu sonho e não o alcanço... Tenho-o junto a mim e está
-distante... E soffro mais ainda!
-
-Antes a noite! Vejo-o, sinto-o, palpita e vive em mim, como se meu
-coração ganhasse azas e em meu peito ficassem a bater, como a quererem
-livrarem-no da Morte, antes da Morte vir e lhe tocar!
-
-INFANTA
-
-Mas se sonhais... O sonho é pensamento, não se vê, nem se alcança, só
-pode ser imaginar...
-
-POETA--_muito calmo_
-
-Senhora, perdoai... Tendes razão, por certo. Mas foram meus olhos, de
-encantados, que peccaram, foram meus olhos que sonharam primeiro.
-
-Elles viram, sentiram, deslumbraram-se. Que culpa teem elles?!
-Depois... minha alma enlouquecida, encheu-se de sombras e de dôr!
-
-E a Dôr é a grande alma do Universo, que entrando em nós toma-nos todo,
-torna-nos meninos em seus braços, e fica a embalar-nos para a Morte, a
-cantar e a chorar!...
-
-Senhora, por muito alto que estais, perdoae ter-vos fallado de mim...
-
-_Um longo silencio._
-
-VOZES DO POVO--_mais dolorosas, mais espaçadas, mais distantes_
-
-Pela Virgem Mãe...--Por Santhiago...--Miserere
-nobis...--Misericordia!...
-
-INFANTA--_com forçada naturalidade, como querendo, fallando, affastar
-seus pensamentos_
-
-E sempre o povo!... Escutai... ainda se ouve... Só o sinto rezar, só o
-ouço chorar!... Assim só se reza pelos mortos...
-
-Mestre Lopo entende o povo?!
-
-POETA
-
-Mestre Lopo nunca vê o povo. Foge da multidão com horror, quasi com
-medo.
-
-Sosinho, em silencio, olha as estrellas toda a noite. E levado por
-ellas, em seus roteiros, é um caminheiro do céu, a desvendar segredos
-de Deus!
-
-INFANTA
-
-Oh! quem me dera ver como elle vê! Desvendar o mysterio... mas eu olho
-o céu e nada vejo.
-
-O PHYSICO
-
-Comprehender estrellas, em verdade vos digo, Senhora, que não entendo.
-Parece-me phantasia ou loucura de astrologo.
-
-POETA
-
-Olhá-las e escutá-las!... Quantas vezes meus olhos, pela noite, as teem
-ouvido...
-
-UMA AIA
-
-Que dizem ellas?
-
-POETA--_indiferente_
-
-Trovas... Talvez as minhas...
-
-_O vozear do povo toma-se mais intenso._
-
-INFANTA
-
-O povo... o povo, que desvairado está! Que loucura a d'elle! Não o
-entendo, nunca o vi assim!
-
-UM NOBRE
-
-Chora e reza, mas acreditae, Senhora, que não sabe porque o faz. Chora
-e reza como poderia cantar e bailar...
-
-INFANTA
-
-O povo é adivinho,--todos dizem... Sente apenas. O povo chora; soffre.
-Reza; tem medo. A alma do povo é de presagios.
-
-_A mestre Lopo, que entra_
-
-Bemvindo sejaes Mestre Lopo.
-
-ASTROLOGO--_ajoelhando e beijando-lhe a mão_
-
-Em que vos posso servir, Senhora Infanta?
-
-INFANTA
-
-Dizendo-me o que dizem as estrellas...
-
-ASTROLOGO--_hesitando_
-
-O que dizem?! Em verdade vos digo, Senhora, que não sei.
-
-INFANTA
-
-Porque não dizer a verdade?! Porque fingir não saber?!
-
-_vincando as palavras, com intenção_
-
-Não ha presagios negros pelo céu?...
-
-ASTROLOGO--_mais hesitante ainda_
-
-Presagios!... Muito ao longe, talvez... De distantes que estão ainda os
-não poude comprehender.
-
-INFANTA
-
-Mas porque chora o povo?
-
-Porque reza chorando? Porque, de joelhos, pede misericordia? Porque em
-grita desvairada, louco, transfigurado, parece ver naufragios?! É a
-armada que entra triumphal e dir-se-hia estar vendo entrar esquifes...
-
-E o agoireiro! Mestre Lopo, dizei-me, se sabeis, que sentido querem ter
-as suas fallas?
-
-ASTROLOGO
-
-Não sei, não sei!... O povo sente, Senhora, e eu só sei comprehender os
-mystérios do céu.
-
-O povo sente a morte já?! Ainda está longe, muito longe, mas foi isso
-que o agoireiro quiz dizer.
-
-A armada vai fundear, e o povo bailará ao redor dos que chegaram... O
-povo é bailador. Ainda é folia.
-
-Bailará á luz dos archotes, dos brandões, logo, no terreiro. E o
-agoireiro julgará ver, não archotes, mas cyrios...
-
-INFANTA--_serenamente_
-
-Quereis dizer... É a Morte que vem?!
-
-ASTROLOGO
-
-De manso, a rastejar... E vem tão linda! Cobrem-na brocados,
-pedrarias... Nem parece ella! Mas não me deis ouvidos, que isto diz o
-povo e não estrellas...
-
-_A Princesa pouco a pouco transfigurou-se; parece nem vêr, nem ouvir._
-
-_Approxima-se de novo da arcaria. O povo está silencioso. A côrte
-segue-a. Hierática e serena, fita longamente as naus, negras e vagas,
-levemente tocadas pela luz quási extinta do crepusculo._
-
-INFANTA--_violentamente_
-
-Dominar! vencer!--razão suprema, humana, do destino dos homens sobre a
-terra. Transfiguração do triumpho em soffrimento, exaltação da morte
-pela morte, da alma pela vida!
-
-Vencer o mar, desvendar os mysterios, por ancia de luctar e renuncia
-de viver a vida passageira, vencendo da morte o esquecimento! Ha uma
-Via-Lactea de guerreiros mortos a envolver o mundo, um enterro de
-naufragos a povoar o mar!
-
-Por nós o mar tornou-se Humano!
-
-Por nós o mundo é já Divino!?...
-
-_Silencio profundo de assombro e de terror, como se mãos mysteriosas,
-invisiveis, a todos prendessem. Immobilidade completa: nem um gesto;
-olhares que a medo se interrogam._
-
-_A vida arrasta-se sem fim; momentos são horas._
-
-_Sem ruído, entra um pagem; queda-se surpreso por instantes, olha em
-roda, e, lentamente, de manso, acerca-se da aia; fallam baixo, muito
-baixo._
-
-A AIA--_hesitante, approximando-se da Infanta, a custo, como receando_
-
-El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para seroar...
-
-_A Infanta não a ouve; continúa extática. O silencio é agora maior e
-mais pesado._
-
-A AIA--_mais hesitante, mais baixo_
-
-Senhora, perdoae... mas El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para
-seroar...
-
-_Numa immobilidade de estatua, a Princeza continúa olhando as naus._
-
-_Silenciosas, inconscientes e hesitantes, como somnambulas, dominadas,
-as aias afastam-se, abrindo alas. A Infanta desperta. Olha, cansada,
-os que a rodeiam. Interroga-os com um olhar: comprehende, tem um gesto
-vago de recusa, fixa mais uma vez o rio e os longes, e, deixando-se ir
-como arrastada, sahe, seguida da côrte. Os pagens levam os candelabros.
-A luz do crepusculo é extinta. Só negrumes. Nas columnatas bruxoleam
-vagos clarões._
-
-A VOZ DO BANDARRA--_fóra_
-
-Bailai, bailai, que ainda é folia!!...
-
-Acendei cyrios... Trazei mais cyrios... Acendei mais...
-
-_O povo, com os que desembarcaram das naus, canta e dança, no terreiro,
-á luz d'archotes._
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Uma das sallas da camara da Infanta, abrindo sobre o rio por duas
-grandes janellas abertas de par em par.
-
-Forram-na brocados de seda branca e oiro palido; veludos doirados
-cobrem os coxins. Na parede da esquerda, ao centro, sobre um estrado,
-uma cadeira de espaldar alto, coberta de pano de oiro, tendo por
-fundo uma tapeçaria armoriada e, a encimá-la, um docel de lhama. Mesa
-rendilhada de marfim e embutidos d'oiro, ao centro, sobre uma alcatifa
-oriental.
-
-Á direita e á esquerda portas cobertas por damascos brancos, brazonados.
-
- * * * * *
-
-É uma salla de luar em que o outomno deixou cair as folhas...
-
-_Aias trabalham afanosas, em silencio, dobrando grandes peças de
-brocado d'oiro, de lhama prateada, de sedas damascadas. Outras,
-sentadas nos degraus do estrado, escolhem joias, que passam de mão em
-mão, e que a aia Leonor--pequenina como feita para o dedal--entrega á
-princeza.--Escurece._
-
-_Uma das aias canta em surdina_:
-
- «_Estava a bella Infanta_»
- «_No seu jardim assentada_»
- «_Com o pente d'oiro fino_»
- «_Seus cabellos penteava._»
- «_Deitou os olhos ao mar_»
- «_Viu vir uma nobre armada;_»
- «_Capitão que n'ella vinha_»
- «_Muito bem que a governava._»
-
-INFANTA--_com abandono, deixando cair lentamente pedras soltas, uma a
-uma, na mão da aia_
-
-São como gottas de sangue estes rubis... Pedaços de céu estas
-saphiras... Lágrimas de estrella os diamantes...
-
-UMA AIA--_acercando-se da janella aberta_
-
-Já vai anoitecendo... É sempre o rio o mais lindo vitral a esta hora.
-
-INFANTA
-
-O entardecer é feito de vitrais...
-
-A AIA
-
-Até o casario, em reflexos, parece feito de crystal.
-
-OUTRA AIA
-
-E o luar já vem de manso. Para os lados d'alem, por traz d'aquellas
-serras, ha uma luz azulada, um vago clarão...
-
-OUTRA AIA
-
-Arrefece.
-
-_á Infanta_
-
-Que a aragem fresca e leve, que vem do mar a esta hora, vos não faça
-mal, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Socegai...
-
-Lisboa, ao luar, é uma cidade d'almas, acaricia.
-
-_bruscamente_
-
-O mar, Leonor, quando fez mal?
-
-_reparando num collar de esmeraldas que a aia segura, pegando n'elle,
-e passando-as uma a uma pelos dedos, como contas de um rosario, depois
-de um momento de silencio, como se fallasse para si, sonhando alto_
-
-Ha vagas mais verdes e mais lindas ainda que estas esmeraldas... Eu
-gosto das esmeraldas porque me lembram o mar. O mar é verde, sempre
-verde; eu nunca vi o mar azul,--azul é o céu e o rio.
-
-Olhar o mar não é ir vê-lo de longe, é ir até elle, até bem junto
-d'elle, é vê-lo e senti-lo em cada vaga que vem bater na penedia e
-desfeita se espraia pela areia... É vê-lo soffrer! É vê-lo luctar!
-Ondas que veem, que se espraiam, que vão, que voltam, que luctam
-sempre, e não repousam e não descançam em eterno soffrer!...
-
-_Silencio. Voltando-se para a aia Leonor_
-
-Tu tambem vês, Leonor, como os mais, o mar azul?
-
-Tu tambem crês que o mar, o verdadeiro mar, é aquelle que se estende
-sereno até ao horizonte distante, azul, muito azul?
-
-A AIA
-
-Eu vejo o mar azul...
-
-INFANTA
-
-Tu olhas o céu no mar, diz antes, mas diz tambem que nunca viste o mar.
-
-A AIA
-
-Eu nunca soube ver como vós, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Por que tens medo de ir até á praia e de estar junto d'elle, como eu,
-quando as vagas veem umas sobre outras, enormes como vellas ao vento,
-bramindo, rugindo... São mãos potentosas, gigantes, que se desfazem em
-espuma.
-
-Nunca olhaste de frente as vagas?! Nunca as viste, Leonor, em
-transparencia?! Pois são verdes, mais verdes e mais lindas ainda que
-estas esmeraldas!
-
-A AIA
-
-Eu nunca soube ver o mar...
-
-_depois de um silencio, procurando n'um anel de opala os reflexos, e
-mostrando-a á princeza_
-
-Como é mysteriosa e tentadora! Se as pedrarias tivessem vida ... se
-ellas morressem ... eu diria que tinham escolhido as opalas para
-sarcophagos das suas cores...
-
-OUTRA AIA
-
-Trazem desgraça as opalas. São como maus olhados... Teem fogo ...
-queimam...
-
-INFANTA
-
-São lindas! São phosphorescentes como o mar em noites negras!... Mas
-escurece... Os pagens que tragam os candelabros. O nauta, dentro em
-pouco, estará comnosco...
-
-UMA AIA
-
-Já ha luar. O rio e o ceu estão de lhama...
-
-INFANTA
-
-Pouzem as minhas joias; não as guardem...
-
-A AIA
-
-E o diadema?
-
-INFANTA--_atenta_
-
-Tambem... pousai tudo... deixai ficar...
-
-_levantando-se e acercando-se dos vitrais, após curto silencio_
-
-Tantas luzes, alem, subindo a encosta! Quasi se apagam... scintillam
-mais, agora... Vão em filha... par a par...
-
-_chamando a aia_
-
-Repara, Leonor. O que será?
-
-A AIA--_hesitante_
-
-Talvez o Santo Viatico... talvez procissão... Mas o rio está tão lindo!
-
-Olhai antes o rio...
-
-INFANTA--_já não a ouvindo, attenta, em expressão de dôr_
-
-Mas ouve-se cantar. Não ouves? Cantam ou rezam?
-
-A AIA-_insistindo_
-
-Olhai antes o rio... aquellas naus...
-
-INFANTA--_sem a ouvir_
-
-Porque será, Leonor, que os cantos de hoje são tristes, sempre
-tristes?! Porque foge o povo do sol e só canta e baila pela noite, como
-hontem?!
-
-Parece ter medo da luz e só gostar de se esconder nas sombras...
-Os seus bailados, á luz dos archotes, lembram rondas de mortos, de
-phantasmas...
-
-E se mestre Lopo tivesse razão?
-
-_agarrando-se á aia, com horror_
-
-Não respondes? Tambem tu acreditas, Leonor?!
-
-_em grande exaltação_
-
-Acaso as caravellas mentem?! Acaso os mundos novos não existem, e são
-alucinações e são chimeras?!
-
-_depois de um silencio_
-
-E as novas estrellas!? Que dizem ellas? Quem as ouve? Quem as procura
-entender?
-
-Leonor, tu não respondes!... Tambem tu julgas?! Tambem tu
-acreditas?!...
-
-A AIA--_meigamente_
-
-Mas socegai... Bem sabeis... eu não sei.
-
-INFANTA--_repentinamente calma, noutro tom_
-
-Olha a sombra d'aquellas naus, alem. São sombras d'azas, voam sempre!
-
-Mestre Lopo engana-se, as estrellas enganam-no.
-
-_Ouve-se de novo o canto, mais distintamente:--é como um côro_
-
-Aquellas luzes, aquelle canto, fazem-me mal. Fechem os vitrais por
-agora...
-
-A AIA--_baixo, a outra aia, emquanto a Infanta volta para a cadeira de
-espaldar_
-
-Não percebeu... Rezemos baixo... É um homem da armada, um mareante, que
-vai a enterrar...
-
-A OUTRA AIA--_com desalento_
-
-Mais um!... Mais um!... E já são tantos!
-
-_Batidos pelo luar os vitrais illuminam-se._
-
-INFANTA
-
-Como são lindos assim, estes vitrais!
-
-A AIA--_depois de um momento, como a findar as orações_
-
-Lembram até, pela suavidade do colorido, as illuminuras do vosso livro
-d'horas...
-
-INFANTA
-
-O luar que as illumina é um luar de reflexos, um luar d'aguas. Abrem
-sobre o rio...
-
-As janellas d'este paço estão mais altas que as de nenhum outro; quando
-d'ellas me acerco eu vejo o mundo!... e sinto-o e ouço-o palpitar em
-seus anceios--coração do Homem e de Deus!
-
-_n'um recordar enternecido, saudosissimo_
-
-Deitam sobre o rio as janellas d'este paço... E foi d'ellas, de junto
-d'esses vitrais, que eu ainda tamanina, de olhos muito abertos,
-deslumbrados, vi chegar as naus e caravellas que foram um dia em busca
-do imperio, por mares distantes... ignorados... mysteriosos...
-
-_em recolhimento de intimos pensamentos, passando pelos dedos as
-perolas do collar_
-
-É um rosario de saudades o meu collar... São contas de saudade as
-minhas perolas...
-
- * * * * *
-
-_Os olhos da princeza, fixos, pasmados, revêem o passado. As aias
-trocam olhares, fallam a medo... Um silencio de vida adormecida._
-
-_De repente, distinctamente, gritos da multidão, ululante, desvairada,
-fanatica, sanguinaria._
-
-A MULTIDÃO
-
-Á morte!--Á morte!...--Herejes malditos!--Filhos de Satanaz!...--Perros
-tinhosos!--Bruxos de perdição!--Malditos!--Malditos!--Por Jesus
-Christo!--Pelos nossos filhos!--Á morte!--Á morte!...
-
-UMA AIA--_abrindo uma das janellas, espreitando receosa, e fechando-a
-em seguida_
-
-O povo anda perseguindo mais uma vez os Christãos-Novos...
-
-INFANTA--_com soffrimento e como despertando d'um grande sonho_
-
-Os Christãos-Novos! Julgara ter ouvido gritos de combate em terras de
-além-mar...
-
-_Muito de manso entram os pagens com os candelabros; fallam baixo as
-aias. Um grande silencio religioso_.
-
-UMA AIA--_á Infanta_
-
-O nauta aguarda, Senhora, as vossas ordens...
-
-INFANTA
-
-Entregaste-lhe as minhas prendas? E ao pintor? E ao poeta?
-
-_a um signal afirmativo da aia_
-
-Que venham em bôa hora!
-
-_As aias, sem ruido, todas de branco, veem cercar a Infanta,
-sentando-se uma a uma nos degraus do estrado. Sobre a mesa, dispersas,
-brilham as pedrarias. Á luz dos candelabros os diamantes do diadema
-scintillam em fogo vivo. A cruz, a esphera, e as quinas dos vitrais,
-em coloridos suavissimos, são brazões de luar, brazonando o Infinito_.
-
-_Entram o Nauta, o Astrologo, o Pintor, o Poeta e alguns nobres_.
-
-O NAUTA--_ajoelhando, tirando a espada da bainha e pousando-a no degrau
-do estrado_
-
-É vossa a minha espada...
-
-INFANTA
-
-Que São Jorge proteja a tua espada...
-
-PINTOR--_beijando a mão á princesa_
-
-As minhas graças, Senhora, pelas mercês e honras que de vós recebi.
-
-INFANTA
-
-Uma lembrança...
-
-POETA--_ajoelhando_
-
-Bendita sejais, Senhora, eternamente, entre as mulheres...
-
-INFANTA
-
-Uma lembrança...
-
-ASTROLOGO
-
-As minhas bençãos vão para vós, Senhora!
-
-INFANTA
-
-Que Deus as confirme... Queria que viesseis para ouvir tambem, e
-ouvindo, dizer ás estrellas, a grande, a eterna prophecia.
-
-_fitando-o_
-
-Não acreditais?!
-
-_Ao nauta_
-
-Travara-se o combate... Contai...
-
-_Silencio. Todos cercam o estrado; só o nauta fica frente á Infanta_.
-
-O NAUTA--_alheado_
-
-Como dizer-vos?... Era como se o mar, desobediente a Deus, entrasse
-pela terra dentro em furia insana... Cada homem, Senhora, era uma onda
-potentosa, gigante e indomavel.
-
-INFANTA--_enlevada_
-
-Somos como o mar! O mar humanizou-se em nós... Temos a voz do mar em
-nossas almas, temos a força das ondas em nossos braços!...
-
-_silencio_
-
-Ias dizendo...
-
-NAUTA
-
-Que tão grande era a força dos guerreiros que dir-se-hia que a força do
-mar estava n'elles! Os que ficaram na armada não fallavam, e eu mesmo,
-por mim, não sei se viviam. Eu não sabia onde estava, se no céu, se na
-terra, ao ver tanta façanha! Não sentia o corpo, e ainda agora penso se
-não foi sonho ou visão tudo o que vi!
-
-Em nosso redor só havia gritos:--gritos de triumpho, gritos de
-dôr, gritos de morte! Por São Jorge os nossos abriam clareiras na
-multidão alucinada. Por Christo tocavam as trombetas, abafando o canto
-plangente, o choro louco, das mulheres, das crianças e dos velhos.
-As lanças e as espadas reluziam ao sol como rubis, mas o sangue não
-abafava o grito agudo e frio do bater dos ferros, do chocar das
-laminas! Gritos, só gritos, Senhora, em meu redor!
-
-De repente, entre as gentes no combate, avistei o grande Capitão,
-cercado, perdido, abandonado, entre as lanças dos cavalleiros arabes...
-Quantas lanças? Não sei! Mas eram muitas, todas cruzadas! Era como um
-silveiral de lanças em seu redor... Lanças que caíram uma a uma, como
-se fôra tojo a ser rossado!
-
-INFANTA
-
-Deixai a batalha... Em nossos braços os montantes sempre foram foices
-de rossar lanças... Já de volta ao galeão, o Guerreiro dizia-vos?...
-
-O NAUTA
-
-Que o imperio ainda estava por formar... Que ia mais alem do que
-julgavamos. E disse então d'esta guiza, ainda me lembro, ainda me
-parece tê-lo em minha frente, estar a ouvi-lo:
-
---Tenho que obedecer á voz do meu Destino. Escutar o sonho que me chama
-para novos soffrimentos, maiores feitos. Em mãos de infieis estão
-ainda os Logares Santos. Milhares de homens lá foram para arranca-los
-ás profanações e nunca Deus quiz que seus desejos fossem realizados.
-Só um povo de gigantes e de eleitos pode remir as Terras Santas. E
-nunca um povo lá foi, só foram homens, crentes peregrinos, sonhadores
-guerreiros, de terras diferentes e estranhas! Eis o Imperio que eu
-quero formar. Imperio eterno de redempção eterna! Os mundos novos não
-bastam. Este Imperio é grande para os homens, não para Deus! Fechar os
-mares em nossas mãos foi empreza facil. A empreza maior é a de maior
-sacrificio. Esquecerei até ao fim a dôr e o soffrimento dos homens,
-porque morrer é não realizar o sonho idealizado... Não vamos para a
-conquista de mais terras;--vamos buscar a eternidade!
-
-ASTROLOGO
-
-Vã gloria a dos homens!... Louco engano de cuidarem eterna a fama de um
-momento.
-
-INFANTA
-
-A alma dos povos vive sempre, passa de geração em geração.
-
-ASTROLOGO
-
-E a memoria dos homens passa breve...
-
-INFANTA
-
-Os crentes não esquecem.
-
-_ao nauta_
-
-Ias dizendo...
-
-NAUTA--_sereno, mas vincando as palavras quasi violentamente_
-
-Que era maior ainda, em sonho, em força e em audacia do que o sonho dos
-cruzados, o sonho do guerreiro! Ligar todo o Imperio, e sobre elle
-estender, em benção de eterna protecção, a sombra suavissima da Cruz,
-bem alta alevantada nas terras remidas dos Santos Logares!... O Imperio
-de Christo sobre a Terra!
-
-INFANTA--_ás aias, numa exaltação de deslumbramento e mysticismo_
-
-Abri os vitrais para que o mundo ouça tambem...
-
-ASTROLOGO
-
-Ou para que chegue a este paço, o canto fatal dos Reis-cegos...
-
-O NAUTA--_violentamente_
-
-Cantaram, é certo... É lenda velha que elles annunciam a morte dos
-eleitos.
-
-_exaltando-se_
-
-A lenda cumprir-se-ha talvez, mas que importa?! O Imperio já está
-formado, já existe. É nosso o mar oriental e ocidental, de lés a lés,
-de cabo a cabo, e por essa costa fóra, ao brazeiro do sol, mil padrões
-de gloria, marcam os roteiros onde chegaram naus, caravellas, mareantes!
-
-Os mortos mandam eternamente na terra. As almas dos herois e dos santos
-não morrem; vivem em alma junto dos homens e de Deus! O sonho da vida
-continúa na morte e cada brazão das quinas é feito de almas:--o sonho
-d'um santo ou de um heroi!...
-
-POETA
-
-O brazão fatal das Cinco Chagas...
-
-ASTROLOGO
-
-Calvario eterno, de soffrimento eterno, em que a alma deste povo, dia a
-dia, anda a ser crucificada...
-
-INFANTA--_bruscamente_
-
-Deixai os presagios...
-
-_ao nauta_
-
-Contai a vizão...
-
-_Pelas janellas abertas entra o luar em grandes manchas azuladas_.
-
-NAUTA--_serenamente, seguro de si, numa certeza religiosa_
-
-Como Eleito do Destino, já na conquista da cidade, por graça de
-Deus, lhe fôra dado vêr Santhiago a seu lado, combatendo os moiros,
-de armadura branca e de vermelha cruz no manto branco. Havia uma
-Via-Lactea de conchas luminosas a marcar o roteiro do santo; e n'essas
-estrellas, o Guerreiro vira naus e caravellas! Esta foi a visão
-primeira, ante-manhã; depois rubro do sol, aureolado de sol, faiscante
-de sol, entrara na cidade...
-
-_após curto silencio_
-
-Agora o milagre não foi só para o Guerreiro; nós vimos tambem, eu vi
-tambem. No céu, para o horizonte, para os lados onde fica a Terra
-Santa, uma cruz immensa de sangue gottejante, abriu os braços... Enchia
-o céu... como se o céu fosse a vella maior de uma nau! Tangeu o côro
-das trombetas, ressoou pelo ar o estrondo das bombardas... E nós vimos,
-e eu vi, até ser sol-poente, a Cruz a gotejar no ceu azul e immenso a
-marcar-nos o caminho que o Guerreiro horas antes traçara. Foi então,
-Senhora, que eu, nós todos que o cercavamos, nos sentimos como elle,
-eleitos cavalleiros, mysticos cruzados, ungidos pelo Destino!...
-
-_á côrte_
-
-É esta a nossa fé:--se ousais nega-la, mentis aos homens e mentis a
-Deus!
-
-_Silencio profundo e longo. A Infanta tem o olhar distante e vago
-preso ao céu. As aias, baixo, murmuram orações. O nauta, olhar de
-illuminado, é como cego... O silencio parece não ter fim. O luar, é
-branco, muito branco._
-
-POETA--_baixo, acercando-se do astrologo_
-
-A cruz a gottejar!... Repara na noite: o luar cahe como agua das fontes
-e é mais branco e mais frio do que um marmore...
-
-ASTROLOGO
-
-Cadaveres rosados e quentes onde os vistes, amigo?
-
-INFANTA--_como despertando, n'uma exaltação_
-
-Não acreditais? Negais tambem?! Negais tudo, até os milagres!? Não
-acreditais tambem n'elles?!... Negais?!...
-
-ASTROLOGO--_sereno_
-
-Eu creio e porque creio, Senhora, entendo bem... Ha mortos no mar,
-mortos na terra!... Vã cubiça e vã gloria, levou-nos á loucura...
-
-NAUTA
-
-Cavar leiras de terra, como quem cava sepulturas, é destino dos homens,
-mas nunca o foi dum povo.
-
-ASTROLOGO--_continuando, como se não tivesse ouvido o nauta_
-
-A antiga fé está perdida. Os herois, deslumbrando-se com os seus
-feitos, imaginam-se santos!...
-
-_com vehemencia_
-
-Porque vencem os homens julgam vencer o proprio Deus! Dantes morriam em
-santidade nos conventos, longe do mundo, e chorando e rezando remiam o
-homem!
-
-Mas era d'antes... Agora...
-
-NAUTA--_desabridamente_
-
-Morrem a lutar, a batalhar...
-
-ASTROLOGO--_sereno_
-
-A matar... a escravisar...
-
-INFANTA
-
-Imaginais então?
-
-ASTROLOGO
-
-Que é de sangue como a cruz gottejante, este imperio, o nosso imperio,
-Senhora!
-
-NAUTA--_num grito_
-
-Por minha fé o juro... Mentis!...
-
-_Silencio de espanto, prolongado e doloroso. Olhares que receiam
-encontrar-se; gestos que receiam acordar o silencio; estatuas..._
-
-INFANTA--_suavemente, n'uma exaltação mystica, n'uma oração_
-
-Sangue bemdicto, porque vive eternamente e revive a cada hora, em
-novas estrellas, novos mundos, novos povos!
-
-_em exaltação maior, levantando-se_
-
-Sangue bemdicto porque floresce. É sangue de sacrificio; almas dadas a
-Deus para remir outras almas, corpos dados ao mar para buscar outras
-vidas!...
-
-_Com a cabeça deitada para traz, os braços erguidos, as mãos em concha,
-tocando-se ao de leve, como ofertando rithualmente um calix_:
-
-Sangue que eu adoro e que eu bemdigo...
-
-ASTROLOGO--_n'uma immobilidade de estatua, com firmesa_
-
-Sangue de morte e vã gloria que uma sombra negra envolve, perde e
-esquece...
-
-NAUTA--_como louco_
-
-Mentira!... Traição!... Mentira!...
-
-INFANTA--_estatica, hirta, desce os degraus do estrado. Olha em roda
-como petrificada; fitando o Astrologo, friamente, quasi serena_
-
-E para alem dessa sombra, se Ella existe?...
-
-ASTROLOGO
-
-É tudo sombra; nada sei, nada vejo, para além...
-
-INFANTA
-
-Nada mais dizem as estrellas?!
-
-ASTROLOGO--_frio, vincando as palavras_
-
-Nada mais.
-
-INFANTA--_com infinito orgulho_
-
-Pouco dizem... e o nosso Imperio transfigurou o mundo!
-
-ASTROLOGO
-
-As maldições do Destino não perdoam...
-
-INFANTA--_quasi violentamente_
-
-O Destino, por nós, já foi vencido.
-
-ASTROLOGO--_sereno, fitando-a_
-
-Os homens enganam-se...
-
-_A côrte entreolha-se, vazia. A Infanta acerca-se do diadema. Pega
-n'elle quasi a medo. Os seus dedos esguios mal lhe tocam. Beija-o.
-Sempre hirta e estática, junto da janella aberta, frente á noite,
-ergue-o em sacrificio, em elevação, ergue-o bem alto! O luar
-escorre-lhe pelos braços. As pedrarias scintillam intensamente. Em
-sagração, como se fosse poisá-lo em pedra d'ara, colloca-o nos seus
-cabellos negros. Assim coroada, não vê, não ouve. O sonho encarnou-se
-no seu coração em soffrimento amargurado. Em face da certeza do
-Astrologo, ella busca uma certeza maior que a domine._
-
-INFANTA--_n'uma vibração profunda, intensissima--a sua alma frente a
-frente ao destino de milhares d'almas, abrangendo n'uma vizão a vida
-toda, o passado e o futuro, echo perdido duma voz prophetica_:
-
-E as estrellas mentem!...
-
-_Queda-se estática; o luar embranquece-a como um marmore. Ha claridades
-deslumbrantes e extranhas nos seus olhos muito abertos, sempre fixos._
-
- * * * * *
-
-_Estremece como labareda batida pelo vento: desmaia. Os olhos sempre
-abertos, sempre fixos._
-
-_As aias amparam-na, aflictas, emquanto a côrte sae desordenada,
-buscando o physico. Os pagens approximam luzes; cerram os vitrais._
-
- * * * * *
-
-_Na Infanta os reflexos são aureolas; divinisam-na..._
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-Um alto de collina, arido, de hervas maninhas e rasteiras, tendo ao
-centro um cruzeiro tosco de granito escuro.
-
-Manhã de sol fulgurante e quente.
-
-Da direita alta vem um carreiro estreito, que cortando a scena de
-lado a lado, segue até ao rio, que se estende da esquerda ao fundo,
-espraiado e muito azul, em grande perspectiva, até ao mar.
-
-Ha uma nevoa azulada envolvendo os montes distantes da margem oposta,
-suavisando-lhes os contornos dos cabeços.
-
-Entre as naus e caravellas, mais junto da praia, um galeão; nos
-mastros, sem vellas, estandartes reaes e mil bandeiras...
-
-Junto ao cruzeiro, gente do povo, em grupo, conversando.
-
-UMA MULHER--_que chega_
-
-Ainda estão na igreja. El-Rei, a côrte toda, commungou. Mas a Senhora
-Infanta, bastava vê-la, de joelhos, de mãos postas a rezar, era mesmo
-uma santinha!
-
-OUTRA MULHER
-
-Pois se ella é tão linda!
-
-OUTRA MULHER
-
-E sempre tão triste que até faz dó!
-
-UM MARITIMO--_como procurando dar ternura á sua voz forte e
-enternecendo-se pouco a pouco_
-
-Pois haviam de a vêr como eu a vi, um dia, junto ao mar. Então ella
-estava alegre e o mar estava mau.
-
-O mar é como os homens, tem tambem as suas zangas, os seus ralhos. As
-ondas cresciam sempre, tão grandes como torres e vinham avançando pela
-praia dentro, cada vez mais, cada vez mais... E a Senhora Infanta a
-olhá-las de frente e tão esquecida, que uma vaga mais forte a molhou
-toda! E ella sem se mexer, sempre quêda a olhá-las, assim a modos como
-uma santa no altar!
-
-A Senhora Infanta não tem medo do mar. Se a deixassem era capaz de
-ir como nós á aventura... Quem a viu como eu a vi nesse dia, e não
-soubesse quem ella era, havia de cuidar que tinha nascido no mar--que
-tinha sido embalada, não por aias, mas por ondas!
-
-OUTRO MARITIMO--_com enthusiasmo e ternura_
-
-E sempre foi assim! Ainda tamanina, quando chegavam as naus--as que
-tinham ido sem rumo e traziam novas terras a esta terra--já a Senhora
-Infanta ao lado de El-Rei as ficava a olhar, de olhos muito abertos,
-cheios de riso. E queria saber tudo--como fôra, o que viramos, como
-eram as nossas terras, onde ficavam... o que nos acontecera...--e a
-ouvir-nos contar nossa aventura, os seus olhos enchiam-se ainda mais de
-riso.
-
-UMA MULHER
-
-Pois agora vai triste. Eu vi-a passar para a igreja. Não olhava, não
-sorria... Os olhos muito abertos, olhando sempre em frente, muito
-brilhantes... até me fez chorar... Nunca vi olhos assim! E toda de
-branco! Parecia enfeitiçada!...
-
-UM VELHO
-
-Deixai lá... Ella tambem gosta desta loucura em que vivemos. Nunca se
-importou a Senhora Infanta dos que morrem no mar, dos que lá ficam
-nessas terras distantes a combater! Morrem: deixá-lo! A Senhora
-Infanta é como as mais; não se importa!...
-
-VOZES
-
-Calai-vos! Calai-vos!--Ave de mau agoiro!--Nós tambem temos filhos! Nós
-tambem temos mortos!...
-
-O VELHO
-
-Mas não chorais como eu...
-
-VOZES
-
-Calai-vos... Calai-vos!...
-
-OUTRO VELHO--_com violencia_
-
-É assim, é assim mesmo. Quem se importa já da terra!? Quem a lavra e
-a amanha com amor? É esta Babilonia que nos perde! Aqui é a torre de
-Babel. Só se vê estrangeiros, só se ouvem linguas estranhas que ninguem
-entende e que--Deus louvado!--nem parecem de gente!
-
-D'antes a nossa terra era só nossa, tinha as portas fechadas por
-castellos. Agora é de todos... Perros malditos!
-
-UM MARITIMO
-
-Porque fosteis então batalhar em terra alheia?...
-
-OS DOIS VELHOS
-
-Para servir a Deus e a El-Rei; e El-Rei ia comnosco, e tambem
-batalhava!...
-
-UMA MULHER
-
-Ouvi. Tocam os sinos... El-Rei, a côrte toda, vai saír... vão, até
-embarcar, em procissão.
-
-_O grupo vai augmentando; junta-se mais povo._
-
-OUTRA MULHER
-
-A Senhora Infanta vai como morta! Chamais doido a quem diz verdades.
-Não acreditais, mas é assim. Não sou Ave-agoirenta, não; mas isto é um
-enterro.
-
-OUTRA MULHER
-
-É o castigo de Deus! Andamos levados pelo Demo, sempre a tentar ao
-Senhor...
-
-VOZES
-
-Calai-vos!... Calai-vos!...
-
-UMA MULHER--_da frente do grupo_
-
-Já sahiram da igreja... lá sae El-Rei... a Rainha, os Principes...
-
-OUTRA VOZ
-
-E a Senhora Infanta vem á frente, reparai... vêde se não é como eu
-dizia. Vai a enterrar, vai como morta...
-
-O Senhor Bispo vem tambem... Atraz a cleresia, toda a côrte...
-
-OUTRA MULHER
-
-É uma procissão... é um enterro...
-
-UM VELHO
-
-Sabeis as prophecias?
-
-VOZES
-
-Contai... dizei... contai...
-
-O VELHO--_hesitante_
-
-No céu, para os que sabem lêr nos astros, ha presagios maus! Quem não
-tem visto estes dias a lua ao nascer tinta de sangue?! É sangue de
-infieis, sangue de moirama ou sangue nosso? Ninguem sabe... ninguem!...
-
-E diz-se que hade vir um Principe de tentação para nos perder. Um
-Principe loiro como o sol, que nos ha-de tentar! E com elle nós iremos
-todos, a cantar, buscar a morte! Os infieis serão na mão do Senhor
-o seu instrumento de castigo! O Senhor castigará nossa soberba com
-aquelles que abatemos!...
-
-VOZES
-
-Piedade, Senhor!...--Tende compaixão de
-nós!...--Misericordia!...--Piedade!...
-
-O VELHO
-
-E o castigo do Senhor será terrivel e a sua colera não terá limites
-porque judeus, feitos Christãos, andam a blasphemar o Santo Nome de
-Deus!
-
-VOZES
-
-Malditos sejam!...--Santo é o Nome de Deus!--Que as penas do inferno
-sejam poucas para elles...--Que sejam malditos!--Mil vezes malditos!
-
-O VELHO--_continuando_
-
-E as aguas secarão nas levadas e nas fontes... E o sol queimará os
-milharais e as searas; e as vides ficarão secas e mirradas... Os gados
-não terão pastos, os homens não terão pão, e a peste os levará...
-
-VOZES--_desvairadas, amarguradas, agonisantes_
-
-Calai-vos!...--Maldição!...--Piedade!...--Maldição!...--Antes a
-morte...--Vêr morrer os nossos filhos...--Piedade!--Piedade!--Maldição!
-
-O VELHO--_continuando a custo_
-
-E será então que um rei virá--rei estranho, gente inimiga, homens
-d'armas--conquistar este reino de cadaveres...
-
-Será então que um rei virá matar um Rei que não morre... a quem a Morte
-não matou...
-
-VOZES--_de soffrimento, de desespero, de confiança e de odio_
-
-Maldição!...--Piedade!--Piedade!--Que Deus seja comnosco...--Que
-os herejes sejam mortos!...--Que sejam malditos!--Que sejam
-queimados...--Que Christo reine em nossos corações!--Que a Sua lei
-seja cumprida!...--Deus é comnosco!...--Deus é Pae!...--Deus é bom...
-
-UM MARITIMO MOÇO--_com vehemencia_
-
-Quem sabe o que é do dia d'amanhã... Esses horrores que dizeis quem os
-prophetisou? Quem pode dizer o destino dos homens e pode conhecer a
-vontade de Deus? Só quem não andou embarcado e não viu os Mundos Novos
-que são nossos, essas terras estranhas por nós descobertas, só quem não
-sahiu deste torrão de terra abençoado para servir a Deus e a El-Rei
-n'esse imperio imenso que fica para alem,
-
-_apontando_
-
-para as bandas donde nasce o sol; só quem não luctou com o mar e o
-venceu, pode acreditar nas negras prophecias!...
-
-VOZES
-
-Dizes bem...--É assim mesmo.--Dizes bem...
-
-O MARITIMO
-
-Deixai, que o mundo é nosso, porque nós o descobrimos e lhe demos vida
-por nossas vidas! O mundo é nosso filho, tem o nosso sangue!
-
-_As mulheres rezam baixo._
-
-VOZES
-
-Dizes bem...--É assim... é assim...
-
-UMA MULHER
-
-Ouvi como o povo canta em redor da Princeza... E Ella nem os ouve, nem
-os vê.
-
-O MARITIMO
-
-Os olhos dos marinheiros andam sempre errantes... No mar os olhos
-não se prendem, que o mar é todo igual. Só á noite as estrellas do
-ceu prendem os olhos! A Senhora Infanta é como nós; tem olhos de
-marinheiro, olhos errantes!
-
-_Silencio. Uma nuvem ligeira escureceu o sol, assombreando a terra._
-
-A VOZ DO «BANDARRA»--_não muito longe_
-
-Cautella, Senhor Rei!... Cuidado!... O mar nunca perdôa, os mortos
-nunca esquecem! Olhai que ides tambem a naufragar... Nós todos somos
-naufragos, cadaveres para o mar!...
-
-VOZES--_entre o povo aqui e alem_
-
-Senhor Deus misericordia! Pae do Céu misericordia!--Por nossos
-filhos... Por El-Rei...--Miserere nobis!--Misericordia! Misericordia!
-
-UMA MULHER
-
-El-Rei parou... todo o cortejo... seguem... continuam...
-
-OUTRA MULHER
-
-Que a Virgem Nossa Senhora proteja a Senhora Infanta!...
-
-_As mulheres ajoelham; os homens descobrem-se e alto, em côro:--Avé
-Maria, cheia de graça..._
-
-_Mestre Lopo, o astrologo, o poeta e o pintor apparecem pela direita,
-a caminho da praia. Ao verem o povo de joelhos, param e descobrem-se.
-Rezam tambem. Acabada a oração põem-se de novo a caminho; o poeta
-fica..._
-
-PINTOR--_voltando-se_
-
-Ficais aqui?
-
-POETA--_docemente_
-
-Para que ir comvosco?!
-
-Eu ando agora a viver o sonho d'Ella!... Em tudo que me cerca eu vejo-a
-sempre, mais pura, mais santa, mais perfeita! D'aqui eu vejo o mar e o
-mar é a sua alma, a nossa alma, o sonho maior que transfigurou o mundo
-e sobre o mundo ficará eternamente! O sonho creador e redemptor!...
-
-ASTROLOGO
-
-Já não acreditais nas prophecias?
-
-POETA
-
-O sonho é a unica certeza em face dos homens e do Destino...
-
-ASTROLOGO
-
-E nas estrellas?...
-
-POETA
-
-Mentem tambem. Mentiram sempre... Ella o disse, Ella o revelou ás
-nossas almas!...
-
-_O pintor e o astrologo afastam-se apressados. O poeta, lentamente,
-aproxima-se do cruzeiro._
-
-VOZES
-
-Afastem-se!...--Abram alas!...--Já ahi vem
-El-Rei...--Afastem-se...--Abram alas...
-
-_Os grupos afastam-se em silencio, abrindo alas. Pela esquerda, rodeada
-das suas aias, toda de branco, hierática, serena, suavissima, sem um
-gesto, sem um sorriso, e d'um olhar divino, triumphal--olhar cheio de
-visões gloriosas, de claridades infinitas, de sonhos revelados, e de
-certezas eternas--apparece a Infanta..._
-
-_Os homens descobrem-se, as mulheres atiram flores ao caminho, juncam o
-caminho de flores, e quêdos; silenciosos, ficam a olhá-la, espantados,
-como se estivessem em face d'um milagre, d'uma apparição divina!_
-
-VOZES DOS MARITIMOS
-
-Viva a Senhora Infanta!--Viva a nossa Princeza!--Que Deus guarde a
-nossa Santinha!--Que Nossa Senhora a proteja! Que os anjos a levem em
-sua guarda!--Como vai linda!...--Como Ella vai!...--Que a estrella
-do norte seja seu guia... Que as ondas a embalem...--Viva a nossa
-Princeza!--Viva a Senhora Infanta!...
-
-_As vellas vão pouco a pouco subindo nos mastros e, como azas enormes,
-enchem o céu._
-
-_Junto ao cruzeiro, alheio, indifferente, distante, o Poeta continua
-olhando os longes..._
-
-
-
-
- ACABOU DE SE IMPRIMIR
- ESTE LIVRO
- NAS OFICINAS GRAFICAS
- DA RUA FORMOSA, NUMERO 50,
- DA CIDADE DE LISBOA,
- NOBRE E LEAL,
- AOS QUATORZE DIAS DO MEZ
- DE NOVEMBRO
- DO ANO DA GRAÇA DE
- MCMXXI
-
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK INFANTA ***
-
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@@ -1,2903 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html>
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- Infanta, by Manuel de Figueiredo—A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Infanta</span>, by Manuel de Figueiredo</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Infanta</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>tragédia</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Manuel de Figueiredo</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 13, 2022 [eBook #68985]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INFANTA</span> ***</div>
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p>
-
-
-<h1>INFANTA</h1>
-
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="DO_AUTOR">DO AUTOR</h2>
-</div>
-
-
-<table class="autotable">
-<tr><td class="tdl">
-<span class="smcap">Oração da Raça</span></td><td class="tdr">1918</td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<span class="smcap">Infanta</span></td><td class="tdr">1921</td></tr>
-<tr><td class="tdc" colspan="2">
-<i>a seguir</i>:</td></tr>
-<tr><td class="tdl" colspan="2">
-<span class="smcap">O Rei Luziada</span></td></tr>
-</table>
-
-
-<p class="center p2">
-EDIÇÕES LUSITANIA<br />
-<i>Rua Arco do Limoeiro, 17, 1.ᵒ-Lisboa</i></p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">
-<i>Todos os direitos reservados</i><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p>
-
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p class="center xbig">
-INFANTA<br />
-</p>
-<p class="center p2">
-TRAGEDIA POR<br />
-</p><p class="center big">
-MANUEL DE FIGUEIREDO<br />
-</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p>
-</div>
-
-<p><i>Diz a Lenda que certo Poeta se apaixonou por uma
-filha do Rei D. Manuel I, o Venturoso. Chamava-se a
-Princeza, Beatriz e o Poeta, Bernardim.</i></p>
-
-<p><i>A Infanta foi Duqueza de Saboia, e, exilada no seu
-Ducado humilde e pobre, deu provas de grande engenho
-e sabedoria, mas a sua vida, dizem as Chrónicas
-e a Lenda foi triste e saudosa</i>...</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Este livro não é, nem mesmo em sua origem, a historia
-do amor do Poeta e da Princeza, ou uma evocação
-da côrte manuelina.</i></p>
-
-<p><i>Só depois de abstractamente ter «vivído» o sonho das
-Descobertas e das Conquistas, e de ter encontrado,
-para mim, o seu significado, procurei as personagens,<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span>
-fixei os seus valores, defini as suas atitudes e os seus
-gestos.</i></p>
-
-<p><i>Tem portanto este livro um sentido mais alto e mais
-profundo. É a Tragédia d'um momento que passou
-e a crença, a fé, a certeza, n'um momento que ha-de
-vir. É o triumpho eterno da Raça perante o Mundo,
-os Homens, e o Destino.</i></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Não fiz nem quiz fazer theatro. As personagens
-têem um sentido mais symbolico do que humano.</i></p>
-
-<p><i>A minha Alma viveu o momento passado e visionou
-o momento futuro:—o Triumpho espiritual da Raça!</i></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="DRAMATIS_PERSONAE">DRAMATIS PERSONAE</h2>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-INFANTA<br />
-POETA<br />
-NAUTA<br />
-ASTROLOGO<br />
-PINTOR<br />
-UM BANDARRA<br />
-O PHYSICO D'EL-REI<br />
-</p>
-
-<p class="poetry">AIAS, NOBRES, PAGENS, GENTE DO POVO,
-MARITIMOS, MULHERES, SOLDADOS E VELHOS.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
- <img src="images/001.jpg" class="w50" alt="" />
-</span></p>
-</div>
-
-
-<p>Salla ampla, forrada d'Arrazes, abrindo
-para uma larga arcaria praticável. Por
-entre as columnatas e os rendilhados da balaústrada,
-avista-se o rio espraiado e colorido.
-Hora de sol-poente. Na distancia, terras em
-bruma.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p>
-
-<p class="p2">PINTOR—<i>na arcaria</i></p>
-
-<p>O Céu está um boqueirão de fogo. E no movimento
-constante do vai-vem das aguas, os reflexos de luz
-estão bailando como se fôra um bailado de pedrarias
-a arder.</p>
-
-<p>Sinto que os meus olhos enlouquecem de tanta luz, de
-tanta côr...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>que se aproximou</i></p>
-
-<p>Olha antes, álêm, os galeões que hão-de levar a
-Princeza!</p>
-
-<p>Sem vellas, lembram ossadas...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p>
-
-<p>Envolvem-nos as sombras, e as sombras são caricias
-de abandono e esquecimento, adormecendo meus olhos
-magoados...</p>
-
-<p class="p2">PINTOR—<i>surprêso</i></p>
-
-<p>Para que continuar sonhando?...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>n'uma exaltação quási desvairada</i></p>
-
-<p>Sonhar é bem differente!</p>
-
-<p>É crear um mundo nosso, onde uma só alma exista,
-e n'essa alma, a alegria e a dôr do Universo. É modelar
-o nosso sonho numa imagem, e nessa imagem
-viver milhares de vidas!... Vivê-las encantado n'um
-momento, soffrê-las perdidamente até á loucura, resurgi-las
-depois em novas formas, para de novo as
-soffrer e exaltar!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span></p>
-
-<p>O sonho que é attingido, que se deixa tocar, desfaz-se,
-aniquila-se, em esquecimento, em abandono.</p>
-
-<p>Para viverem, meus sonhos em cada hora se transformam.</p>
-
-<p>A imagem é sempre a mesma, é sempre Ella; n'Ella os
-encarno e lhes dou vida...</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>E é assim que pouco a pouco vai morrendo o amor
-desvairado d'outr'ora?...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>sereno, quasi indifferente</i></p>
-
-<p>Adormecendo, dizei antes, que morrer é apenas um
-gesto; o vôo necessário para uma vida maior.</p>
-
-<p>Morre-se na vida infinitamente. Morre-se sempre para
-viver... até ser attingida a luz final, suprema, em que
-vida e sonho se confundem...</p>
-
-<p>Na imagem, na sua imagem mystica, dulcissima, o<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span>
-meu amor é sempre o mesmo; na alma, maior, sempre
-maior...</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Mas para que soffrer, agora que vai partir, tão doidamente?</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>muito calmo</i></p>
-
-<p>Para a remir em minha dôr! Exalta-la no meu coração—altar
-do seu sacrificio!</p>
-
-<p>Para a santificar na minha alma!</p>
-
-<p><i>n'uma mudança brusca</i></p>
-
-<p>Conheces bem as terras para onde vai. Por lá andaste,
-peregrino annos e annos e d'ellas tens dito maravilhas...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Minhas palavras, de tão pouco que dizem, são quási
-mentirosas...</p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Eu nunca sahí d'esta cidade de maravilha e de encanto,
-mas n'ella tenho sentido, vivido, o mundo inteiro!</p>
-
-<p><i>em exaltação</i></p>
-
-<p>Que importa o mundo?! As maravilhas estranhas de
-que fallais que importam?</p>
-
-<p>A vida estonteante, allucinada, que me cerca, tem para
-mim, agora, a indifferença da morte e é de agonia a
-alegria em que vivo! Ando a enterrar a toda a hora
-as minhas dôres. Sou um eterno coveiro, e cavo fundo,
-fundo, mas os sonhos—ai de mim!—tambem teem
-alma!</p>
-
-<p>Como hei-de enterrar minhas saudades!?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p>
-
-<p><i>com dolorosa serenidade</i></p>
-
-<p>Vai partir... Longe, alguem a espera!... E vai tê-la em
-seus braços, possui-la!...</p>
-
-<p>Amar, é a dor mais forte e mais profunda, a dor que
-humanisa a creatura e a torna mulher.</p>
-
-<p>Ella será mulher tambem... Mas a sua alma—eu sei,
-eu sinto—estará longe, estará distante, indecisa, como
-receosa de acordar para a vida, receosa de adormecer
-na morte!</p>
-
-<p><i>n'um esforço de recordar, materialisando</i></p>
-
-<p>Nunca os seus olhos serenos, suavissimos, de princeza
-e de menina, me olharam. Se os encontro, fogem, receosos...</p>
-
-<p>Não sei o que elles buscam olhando os longes?! Ficam
-vagos, anciosos, illuminados, distantes... Olhar immenso,
-olhar profundo, visionario, de sonho, d'amor e de
-triumpho!</p>
-
-<p>Nunca os seus olhos me olharam assim! Parecem sorver
-a luz! Embebem-se de luz como o céu ao acordar;<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span>
-são sombras de soes os olhos d'ella! Prendem-se na
-distancia, e assim presos, de encantados, por largo tempo
-nada vêem! E como ella fica então queda e hieratica!</p>
-
-<p><i>dolorosamente</i></p>
-
-<p>Para a sonhar de novo, em nova forma, anniquilo a
-minha carne, despedaço-a!</p>
-
-<p>Nunca mais a verei olhando os longes, assim immaterial,
-assim divina...</p>
-
-<p>Vai partir... Um principe a espera... Para que veio
-até mim quem tão alto nasceu?!</p>
-
-<p class="p2">PINTOR—<i>suavemente</i></p>
-
-<p>E para que tão alto erguer os olhos? Há, na Terra,
-imagens que são sombras; lindas para ver, não para
-sonhar!...</p>
-
-<p><i>Fóra, vozes, entrecortadas, gritam</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p>
-
-<p class="p2">O POVO</p>
-
-<p>A armada!—A armada que volta!—A frota toda!—A
-nau S. Bento!—Santa Maria da Barca!—O galeão
-maior!—Deus os levou, Deus os trouxe na sua guarda!—Deus
-é Pae!—Deus é bom!—Pela Virgem Mãe!—Pelas
-Cinco Chagas!—Milagre!—Milagre!—A armada!—A
-frota toda!—A armada!—Vinde ver!—Milagre!—Milagre!—Deus
-os salvou!—Deus os trouxe na sua
-mão...</p>
-
-<p><i>Continuam vozes</i></p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Não ouves?...</p>
-
-<p><i>indo á arcaria</i></p>
-
-<p>Na frota que entra a todo o pano, de tão vermelhas
-que veem, as vellas lembram enormes labaredas!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>longe, distante, com dôr que tenta visionar
-para soffrer, continuando intimos pensamentos</i></p>
-
-<p>Há-de tocá-la!... Há-de beijá-la... Far-se-há carne
-tambem a sua alma!...</p>
-
-<p><i>ao pintor, que de novo se aproximou</i></p>
-
-<p>Aquellas vozes?!</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>De longe que estavas nem me ouviste... A frota
-grande que volta e entra a barra:—o povo, de joelhos,
-rezando na praia.</p>
-
-<p>Escuta... vem gente...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>depois de curta hesitação, indo á arcaria,
-dominado</i></p>
-
-<p>Encantamento da morte!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p>
-
-<p><i>Pagens afastam o largo reposteiro de brocado. Entram,
-lentamente, a Infanta, suas aias e alguns nobres. O Poeta
-e o Pintor, de joelhos, beijam as mãos á Princeza—esguia,
-branca, serena, triumphal.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>É «Frol de la mar» que vem entrando?</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Se os meus olhos não mentem, julgo ser...</p>
-
-<p class="p2">UM NOBRE—<i>na arcaria</i></p>
-
-<p>O galeão maior... Santhiago... Santa Maria da
-Barca... A nau São Bento... Toda a frota.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>A Senhora ouviu os nossos rogos pelos que andavam
-perdidos por sôbre as aguas do mar...</p>
-
-<p class="p2">OUTRA AIA</p>
-
-<p>Levou-os e trouxe-os em sua guarda...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>que lentamente se aproximara da arcaria,
-depois de um longo silencio, com deslumbramento
-e mysticismo</i>.</p>
-
-<p>É mais, muito mais do que uma armada entrando
-de novo a barra!</p>
-
-<p>Ha almas n'aquellas vellas:—sinto-as, vivem, palpitam
-em mim!</p>
-
-<p><i>exaltando-se</i></p>
-
-<p>São como mãos do Destino aquellas naus! Ellas andam<span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span>
-buscando, a toda a hora, o mundo maior que Deus
-creou! Andam buscando, perdidas entre as ondas, os
-reinos da luz e do mystério, os reinos das pedrarias e
-do oiro!</p>
-
-<p>Errantes, sem rumo, á aventura, foram quebrando o
-feitiço ás ilhas perdidas do mar! As ilhas, castellos
-encantados, que, por nossa voz, despertam a cantar!
-São como nossas mãos aquellas naus!</p>
-
-<p>Dia a dia, andam realizando o nosso sonho! Abrindo
-nossos olhos deslumbrados ante horizontes novos e estranhos!
-Por ellas, transfigurado, o mundo acorda,
-desperta, da noite negra! Por ellas o mar e a terra
-são maiores! Por ellas o céu tem mais estrellas!</p>
-
-<p>São como mãos do Destino aquellas naus! São como
-nossas mãos! São como mãos de Deus!</p>
-
-<p><i>nos olhares deslumbrados da côrte passam, por momentos,
-as palavras da Infanta.</i></p>
-
-<p><i>Ao Poeta</i></p>
-
-<p>Que faz alêm, na praia, o povo?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Chora saudades...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Chorar?! E de joelhos?!...</p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Rezam...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>quási com violencia</i></p>
-
-<p>Mas para que rezar, chorando?! Eu rezo erguendo
-um cantico em minha alma deslumbrada.</p>
-
-<p>Se fossem esquifes as caravellas e as naus, como rezar?
-Como rezar pelos mortos?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span></p>
-
-<p>Só o sol é triumphante e glorioso! E é n'aquella luz
-de poente, n'aquelle céu em fogo, triumphal, supremo,
-que eu rezo a minha oração.</p>
-
-<p>Em vez de cantarem a morte gloriosa, rezam pedindo
-a vida humilde que renuncia ao sonho creador...
-Ajoelham-se... Cegam os olhos, baixam-nos para a
-terra, quando os deviam abrir á luz e erguê-los para
-o Céu!</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>Perdoai, mas o povo, Senhora, é simples demais
-para comprehender...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Mas não para sentir! As arvores não veem o sol,
-mas sentem-no e adoram-no, e para elle estendem sempre<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span>
-seus ramos, e para elle vão crescendo sempre,
-para mais o sentir e adorar!</p>
-
-<p>A intelligencia vê, o sentimento adivinha!</p>
-
-<p>E o mundo, por nós, é maior, mais bello, em cada
-dia! Communga em nós a toda a hora, e por nós se
-redime e engrandece!</p>
-
-<p><i>olhando vagamente em seu redor</i></p>
-
-<p>Olho os montes d'alem, aquellas terras, o rio e a casaria
-e tudo que me cerca, tudo, tudo, tem para mim o
-encantamento de um mysterio no maravilhoso de uma
-revelação. Tudo ri e canta e vibra e se espiritualiza em
-reflexos!</p>
-
-<p>Só o povo chora e reza! Sente dôr o povo? São de
-dôr as suas orações? Em vez de entoar canticos reza
-ladainhas?</p>
-
-<p><i>á côrte</i></p>
-
-<p>E vós?! Acaso não sentis como eu tambem? Olhando
-as náus, só vêdes náus?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span></p>
-
-<p><i>sahindo fóra, á arcaria</i></p>
-
-<p>Olhai agora. Vêde, como ellas vêem! A Cruz n'aquellas
-vellas ganhou azas. Está mais perto do Céu, é mais
-divina!</p>
-
-<p><i>com violencia</i></p>
-
-<p>Não sentis em verdade como eu?</p>
-
-<p>Não olhais para aquellas naus como milagres de Deus?!</p>
-
-<p>Não comprehendeis que é um mundo de phantasmas,
-tenebroso, horrendo, sombrio, que desappareceu, illuminado
-por nova luz, por nossa luz? Que o novo
-mundo que nasce em novos povos, em novas terras,
-em novos ideais, é nossa creação?!</p>
-
-<p><i>em exaltação crescente, com violencia maior, n'uma alucinação</i></p>
-
-<p>Onde estão os mares de sangue? Os mares de fogo?
-Os deuses infernais, os gigantes disformes, horrorosos,
-os negros boqueirões dos abysmos profundos?! Ilhas
-de morte! terras de fogo! brumas eternas! onde
-estais?!... onde estais?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span></p>
-
-<p class="p2">UMA AIA—<i>baixo, a outra aia</i></p>
-
-<p>Como desvaira...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>a meia voz, ao pintor</i></p>
-
-<p>E sempre longe... cada vez mais longe de nós!...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>mais calma, continuando</i></p>
-
-<p>É um mundo de sangue e de morte, creado pelos
-homens, que desapparece. É um mundo novo de vidas
-novas que nasce, e em que se ergue bem alta, na tragedia
-suprema de luctar e vencer, a luz de Deus!</p>
-
-<p>Os deuses infernais onde estão elles?!</p>
-
-<p>São como nossas mãos, são como mãos de Deus,
-aquellas naus!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Mas ha cadaveres, Senhora, boiando no mar...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Que importa triumphar ou morrer, quando, na
-morte e na victoria, se reza o mesmo cantico, vivendo
-o mesmo sonho?! Se, para alem da morte, a alma continua,
-e da vida ficou, em rasto triumphal, uma Via-Lactea
-de Herois, perpetuando...</p>
-
-<p><i>ao pintor</i></p>
-
-<p>Fixai bem a armada...</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Meus olhos, em seu deslumbramento, estão cegos,
-Senhora!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span></p>
-
-<p><i>Movimento entre o povo, sussurro, vozes...</i></p>
-
-<p class="p2">UMA VOZ—<i>atona, sombria</i></p>
-
-<p>Dia e noite, ha uma estrada de luar por sobre as
-águas... São os mortos que vão a enterrar... São os
-mortos, amantes das vagas... Cortejo de naufragos, por
-cyrios de luar alumiados...</p>
-
-<p>Olhae, olhae agora... É a estrada da Morte que a
-armada vem seguindo...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>com horror</i></p>
-
-<p>O agoiro...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>Vinde, Senhora, não lhe deis ouvidos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span></p>
-
-<p class="p2">UM NOBRE</p>
-
-<p>Que os pagens o mandem afastar...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>em grande exaltação</i></p>
-
-<p>Que o afastem. Que se cale. Que ninguem o ouça.
-Mente!... Mente!...</p>
-
-<p><i>caindo em si, n'uma mudança brusca, novamente serena</i></p>
-
-<p>Calai-vos. Eu quero ouvir, quero entendê-lo. Como
-disse elle? Cortejo de naufragos...</p>
-
-<p class="p2">A VOZ—<i>novamente</i></p>
-
-<p>Mas qual rumo seguir? Olhai! não vedes?! É a
-Morte que vem por timoneira...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p>
-
-<p><i>A luz, pouco a pouco, torna-se crepuscular. O rio escurece.
-As terras, na distancia, desapparecem na bruma.</i></p>
-
-<p class="p2">VOZES DO POVO—<i>desencontradas</i></p>
-
-<p>Cala-te!—Cala-te!—Mau agoiro!—Pelas Cinco
-Chagas!...—Pela Virgem Mãe!...—Misericordia!—Misericordia!...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>O povo nem o olha; tem-lhe medo!</p>
-
-<p>De rastos, de joelhos, a gritar misericordia! Que estranho
-e desvairado está o povo!</p>
-
-<p class="p2">O «BANDARRA»—<i>afastando-se</i></p>
-
-<p>Mas para que rezais?... para que chorais?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span></p>
-
-<p>Olhai o sol, olhai a luz! É tudo oiro... é tudo oiro!...
-O despertar não tarda, mas ainda não veio...</p>
-
-<p>Por que chorais? É tudo oiro... Toca a cantar...
-toca a bailar, que ainda é folia...</p>
-
-<p>Olhai!... porque rezaes?! Bailai!... Bailai!...</p>
-
-<p class="p2">VOZES DO POVO—<i>a distancia, entrecortadas</i></p>
-
-<p>Por Santhiago!—Pela Virgem Mãe!...—Misericordia!—Christo,
-ouvi-nos!—Christo, valei-nos!—Christo,
-ajudai-nos!—Ave agoirenta!...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Que tem o povo? Que loucura a d'elle! Que estranha
-voz! Quem o entendeu?</p>
-
-<p><i>olhando em roda</i></p>
-
-<p>Ninguem?! E mestre Lopo onde está? Ide chamá-lo...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p>
-
-<p><i>ao Poeta e ao Pintor</i></p>
-
-<p>Ficai...</p>
-
-<p><i>a um fidalgo</i></p>
-
-<p>Trazei-mo aqui.</p>
-
-<p class="p2">A VOZ DO «BANDARRA»—<i>ainda mais distante</i></p>
-
-<p>Porque rezais? É tudo oiro... é tudo oiro...
-Toca a cantar... Ide bailar... Toca a cantar que ainda
-é folia!...</p>
-
-<p><i>Curto silencio. A tarde continua escurecendo.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>recordando, como n'um sonho</i></p>
-
-<p>Quando eu, criança ainda, ia com El-Rei meu Pae
-ver chegar as naus, o povo não rezava, não chorava...
-Cantava e ria o povo; e era ainda cantando que resava!<span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span>
-Agora chora!... Porque estranha loucura chora o
-povo agora?! Que vê, que sente, elle?!</p>
-
-<p>A terra tem o mesmo encanto e a mesma alegria
-o céu! É o mesmo scenario de magia. E o povo
-chora... e o povo reza...</p>
-
-<p>Parece não vêr o que o cerca; fica como cego a ouvir
-o agoureiro. Chamam-lhe a Ave-agoirenta; receiam-no,
-temem-no, acreditam n'elle!</p>
-
-<p>Mas que verdade, teem, acaso, as suas fallas?! A
-sua voz, fria e distante, lembra morte, é certo. É uma
-voz d'alem tumulo, d'alem vida—prophetica! Ainda a
-julgo estar ouvindo!...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>Desviai de vós, Senhora, tão negro imaginar.
-Para que recordar palavras doidas? Para que estar,
-Senhora, a dar-lhe ouvidos?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>impressionada</i></p>
-
-<p>Palavras doidas sim, palavras doidas!... Se não
-fôra o tom da sua voz! Como ella é fria, fria, e lembra
-a Morte!</p>
-
-<p class="p2">UM VELHO PHYSICO—<i>rudemente</i></p>
-
-<p>A Morte não vê, não falla, não ouve. É cega, é
-surda, é muda a Morte! Para que estar, Senhora, imaginando
-que ella pode fallar na voz de um doido?</p>
-
-<p>Eu, que sou physico d'El-Rei, e já um velho, a quem
-a morte de manso vem tomando, por vezes, estudando
-as caveiras interrogo-me!</p>
-
-<p>Olho-as bem... Vejo n'ellas o meu dia de amanhã, e
-não as olho com horror; pelo contrario, vejo-as com
-amor, com simpathia... e até, recordando as minhas
-dôres, acaricio-as!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span></p>
-
-<p>As orbitas não teem olhos; as boccas não teem
-lingua; os ouvidos são buracos apenas. Não podem
-ouvir, nem ver, nem fallar!</p>
-
-<p>Porque, Senhora!? Porque a Morte é paz, socego,
-anulamento; é nada... Os mortos dormem e não
-querem que os acordem. Que se importam elles dos
-vivos, se repousam!?... Deixai a voz do doido...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>serenamente</i></p>
-
-<p>Porque só olhaes e interrogaes caveiras não podeis
-comprehender os mysterios que nos cercam. Só mestre
-Lopo, que lê nos astros, poderá dizer toda a verdade.</p>
-
-<p><i>Docemente, na distancia, os sinos tocam as Trindades.</i></p>
-
-<p>Ave-Marias! Rezemos...</p>
-
-<p><i>pondo as mãos, em prece, mysticamente</i></p>
-
-<p>E um anjo do Senhor, cheio de luz, desceu dos Céus
-á Terra e disse: «Ave-Maria cheia de graça, o Senhor
-é comtigo...»</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span></p>
-
-<p><i>Silencio. A corte ajoelha e reza por momentos; os pagens,
-acendem luzes.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>finda a oração, indo á arcaria</i></p>
-
-<p>Como é grande a calma religiosa d'esta hora!</p>
-
-<p>Como anoiteceu depressa! A terra dorme já em sombra
-e bruma. Só o rio e o céu teem ainda luz!</p>
-
-<p class="p2">PINTOR</p>
-
-<p>Tudo adormece em silencio, tudo dorme...</p>
-
-<p>Só eu fico ancioso esperando a madrugada! Tenho
-ancia de luz como as flores e as aves! As sombras são
-negras, entristecem-me; fico como cego. Só no sol, só
-nas côres, sinto a vida e tenho alegria e ancia de
-viver.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>A luz só a adoro, só a sinto, no adormecer suave
-d'esta hora, em que a natureza inteira está tambem de
-mãos postas a rezar!</p>
-
-<p>Luz que queima, que enlouquece, e tudo revela, tudo
-acorda, eu a maldigo!</p>
-
-<p>Luz que é fogo em minha alma, e maravilha em meus
-olhos, eu a odeio.</p>
-
-<p>Mas esta, em que a saudade se deixou cruxificar, e tem
-mãos de mysterio e acaricia, e vem de manso afagar
-meus olhos, embalando meu sonho pela noite fora, e
-em negrumes abafa minha dôr, dando-me paz, serenidade,
-calma, esta, Senhora minha, eu a adoro, eu a
-bendigo.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Mas porque odiar assim a luz, assim a vida?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>com intensão</i></p>
-
-<p>Porque acorda... Porque tece feitiços de loucura...
-Porque illumina, revela, transfigura. Porque cria sonhos.
-Imagens que são reaes e que se afastam, que vemos e
-não podemos alcançar...</p>
-
-<p>Odeio a luz, Senhora, porque ella illumina o meu
-soffrer, e entra em meu coração e abre-o de par em
-par ao soffrimento!</p>
-
-<p>Porque estendo os braços, anciosos, loucos, e meus
-braços se perdem no ar!...</p>
-
-<p>Vejo o meu sonho e não o alcanço... Tenho-o junto
-a mim e está distante... E soffro mais ainda!</p>
-
-<p>Antes a noite! Vejo-o, sinto-o, palpita e vive em mim,
-como se meu coração ganhasse azas e em meu peito
-ficassem a bater, como a quererem livrarem-no da
-Morte, antes da Morte vir e lhe tocar!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Mas se sonhais... O sonho é pensamento, não se
-vê, nem se alcança, só pode ser imaginar...</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>muito calmo</i></p>
-
-<p>Senhora, perdoai... Tendes razão, por certo. Mas
-foram meus olhos, de encantados, que peccaram, foram
-meus olhos que sonharam primeiro.</p>
-
-<p>Elles viram, sentiram, deslumbraram-se. Que culpa teem
-elles?! Depois... minha alma enlouquecida, encheu-se
-de sombras e de dôr!</p>
-
-<p>E a Dôr é a grande alma do Universo, que entrando
-em nós toma-nos todo, torna-nos meninos em seus
-braços, e fica a embalar-nos para a Morte, a cantar e
-a chorar!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span></p>
-
-<p>Senhora, por muito alto que estais, perdoae ter-vos
-fallado de mim...</p>
-
-<p><i>Um longo silencio.</i></p>
-
-<p class="p2">VOZES DO POVO—<i>mais dolorosas, mais espaçadas,
-mais distantes</i></p>
-
-<p>Pela Virgem Mãe...—Por Santhiago...—Miserere
-nobis...—Misericordia!...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>com forçada naturalidade, como querendo,
-fallando, affastar seus pensamentos</i></p>
-
-<p>E sempre o povo!... Escutai... ainda se ouve...
-Só o sinto rezar, só o ouço chorar!... Assim só se
-reza pelos mortos...</p>
-
-<p>Mestre Lopo entende o povo?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Mestre Lopo nunca vê o povo. Foge da multidão
-com horror, quasi com medo.</p>
-
-<p>Sosinho, em silencio, olha as estrellas toda a noite.
-E levado por ellas, em seus roteiros, é um caminheiro
-do céu, a desvendar segredos de Deus!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Oh! quem me dera ver como elle vê! Desvendar o
-mysterio... mas eu olho o céu e nada vejo.</p>
-
-<p class="p2">O PHYSICO</p>
-
-<p>Comprehender estrellas, em verdade vos digo, Senhora,
-que não entendo. Parece-me phantasia ou loucura
-de astrologo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Olhá-las e escutá-las!... Quantas vezes meus olhos,
-pela noite, as teem ouvido...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>Que dizem ellas?</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>indiferente</i></p>
-
-<p>Trovas... Talvez as minhas...</p>
-
-<p><i>O vozear do povo toma-se mais intenso.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>O povo... o povo, que desvairado está! Que loucura
-a d'elle! Não o entendo, nunca o vi assim!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span></p>
-
-<p class="p2">UM NOBRE</p>
-
-<p>Chora e reza, mas acreditae, Senhora, que não sabe
-porque o faz. Chora e reza como poderia cantar e
-bailar...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>O povo é adivinho,—todos dizem... Sente apenas.
-O povo chora; soffre. Reza; tem medo. A alma do
-povo é de presagios.</p>
-
-<p><i>A mestre Lopo, que entra</i></p>
-
-<p>Bemvindo sejaes Mestre Lopo.</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>ajoelhando e beijando-lhe a mão</i></p>
-
-<p>Em que vos posso servir, Senhora Infanta?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Dizendo-me o que dizem as estrellas...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>hesitando</i></p>
-
-<p>O que dizem?! Em verdade vos digo, Senhora, que
-não sei.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Porque não dizer a verdade?! Porque fingir não
-saber?!</p>
-
-<p><i>vincando as palavras, com intenção</i></p>
-
-<p>Não ha presagios negros pelo céu?...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>mais hesitante ainda</i></p>
-
-<p>Presagios!... Muito ao longe, talvez... De distantes
-que estão ainda os não poude comprehender.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Mas porque chora o povo?</p>
-
-<p>Porque reza chorando? Porque, de joelhos, pede misericordia?
-Porque em grita desvairada, louco, transfigurado,
-parece ver naufragios?! É a armada que entra
-triumphal e dir-se-hia estar vendo entrar esquifes...</p>
-
-<p>E o agoireiro! Mestre Lopo, dizei-me, se sabeis, que
-sentido querem ter as suas fallas?</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Não sei, não sei!... O povo sente, Senhora, e eu
-só sei comprehender os mystérios do céu.</p>
-
-<p>O povo sente a morte já?! Ainda está longe, muito
-longe, mas foi isso que o agoireiro quiz dizer.</p>
-
-<p>A armada vai fundear, e o povo bailará ao redor dos
-que chegaram... O povo é bailador. Ainda é folia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span></p>
-
-<p>Bailará á luz dos archotes, dos brandões, logo, no terreiro.
-E o agoireiro julgará ver, não archotes, mas
-cyrios...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>serenamente</i></p>
-
-<p>Quereis dizer... É a Morte que vem?!</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>De manso, a rastejar... E vem tão linda! Cobrem-na
-brocados, pedrarias... Nem parece ella! Mas não me
-deis ouvidos, que isto diz o povo e não estrellas...</p>
-
-<p><i>A Princesa pouco a pouco transfigurou-se; parece nem
-vêr, nem ouvir.</i></p>
-
-<p><i>Approxima-se de novo da arcaria. O povo está silencioso.
-A côrte segue-a. Hierática e serena, fita longamente
-as naus, negras e vagas, levemente tocadas pela
-luz quási extinta do crepusculo.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>violentamente</i></p>
-
-<p>Dominar! vencer!—razão suprema, humana, do
-destino dos homens sobre a terra. Transfiguração do
-triumpho em soffrimento, exaltação da morte pela morte,
-da alma pela vida!</p>
-
-<p>Vencer o mar, desvendar os mysterios, por ancia de
-luctar e renuncia de viver a vida passageira, vencendo
-da morte o esquecimento! Ha uma Via-Lactea de guerreiros
-mortos a envolver o mundo, um enterro de naufragos
-a povoar o mar!</p>
-
-<p>Por nós o mar tornou-se Humano!</p>
-
-<p>Por nós o mundo é já Divino!?...</p>
-
-<p><i>Silencio profundo de assombro e de terror, como se mãos
-mysteriosas, invisiveis, a todos prendessem. Immobilidade
-completa: nem um gesto; olhares que a medo se interrogam.</i></p>
-
-<p><i>A vida arrasta-se sem fim; momentos são horas.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span></p>
-
-<p><i>Sem ruído, entra um pagem; queda-se surpreso por instantes,
-olha em roda, e, lentamente, de manso, acerca-se
-da aia; fallam baixo, muito baixo.</i></p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>hesitante, approximando-se da Infanta, a
-custo, como receando</i></p>
-
-<p>El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para
-seroar...</p>
-
-<p><i>A Infanta não a ouve; continúa extática. O silencio é
-agora maior e mais pesado.</i></p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>mais hesitante, mais baixo</i></p>
-
-<p>Senhora, perdoae... mas El-Rei, meu Senhor e vosso
-Pae, espera-vos para seroar...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span></p>
-
-<p><i>Numa immobilidade de estatua, a Princeza continúa
-olhando as naus.</i></p>
-
-<p><i>Silenciosas, inconscientes e hesitantes, como somnambulas,
-dominadas, as aias afastam-se, abrindo alas.
-A Infanta desperta. Olha, cansada, os que a rodeiam.
-Interroga-os com um olhar: comprehende, tem um gesto
-vago de recusa, fixa mais uma vez o rio e os longes,
-e, deixando-se ir como arrastada, sahe, seguida da côrte.
-Os pagens levam os candelabros. A luz do crepusculo
-é extinta. Só negrumes. Nas columnatas bruxoleam vagos
-clarões.</i></p>
-
-<p class="p2">A VOZ DO BANDARRA—<i>fóra</i></p>
-
-<p>Bailai, bailai, que ainda é folia!!...</p>
-
-<p>Acendei cyrios... Trazei mais cyrios... Acendei
-mais...</p>
-
-<p><i>O povo, com os que desembarcaram das naus, canta e
-dança, no terreiro, á luz d'archotes.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002">
- <img src="images/002.jpg" class="w50" alt="" />
-</span></p>
-</div>
-
-
-<p>Uma das sallas da camara da Infanta,
-abrindo sobre o rio por duas grandes
-janellas abertas de par em par.</p>
-
-<p>Forram-na brocados de seda branca e oiro
-palido; veludos doirados cobrem os coxins.
-Na parede da esquerda, ao centro, sobre um
-estrado, uma cadeira de espaldar alto, coberta
-de pano de oiro, tendo por fundo uma tapeçaria
-armoriada e, a encimá-la, um docel de
-lhama. Mesa rendilhada de marfim e embutidos
-d'oiro, ao centro, sobre uma alcatifa
-oriental.</p>
-
-<p>Á direita e á esquerda portas cobertas por
-damascos brancos, brazonados.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>É uma salla de luar em que o outomno deixou
-cair as folhas...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p>
-
-<p><i>Aias trabalham afanosas, em silencio, dobrando grandes
-peças de brocado d'oiro, de lhama prateada, de sedas
-damascadas. Outras, sentadas nos degraus do estrado,
-escolhem joias, que passam de mão em mão, e que a
-aia Leonor—pequenina como feita para o dedal—entrega
-á princeza.—Escurece.</i></p>
-
-<p><i>Uma das aias canta em surdina</i>:</p>
-
-<p class="poetry">
-«<i>Estava a bella Infanta</i>»<br />
-«<i>No seu jardim assentada</i>»<br />
-«<i>Com o pente d'oiro fino</i>»<br />
-«<i>Seus cabellos penteava.</i>»<br />
-«<i>Deitou os olhos ao mar</i>»<br />
-«<i>Viu vir uma nobre armada;</i>»<br />
-«<i>Capitão que n'ella vinha</i>»<br />
-«<i>Muito bem que a governava.</i>»<br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>com abandono, deixando cair lentamente
-pedras soltas, uma a uma, na mão da aia</i></p>
-
-<p>São como gottas de sangue estes rubis... Pedaços
-de céu estas saphiras... Lágrimas de estrella os diamantes...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA—<i>acercando-se da janella aberta</i></p>
-
-<p>Já vai anoitecendo... É sempre o rio o mais lindo
-vitral a esta hora.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>O entardecer é feito de vitrais...</p>
-
-<p class="p2">A AIA</p>
-
-<p>Até o casario, em reflexos, parece feito de crystal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p>
-
-<p class="p2">OUTRA AIA</p>
-
-<p>E o luar já vem de manso. Para os lados d'alem, por
-traz d'aquellas serras, ha uma luz azulada, um vago
-clarão...</p>
-
-<p class="p2">OUTRA AIA</p>
-
-<p>Arrefece.</p>
-
-<p><i>á Infanta</i></p>
-
-<p>Que a aragem fresca e leve, que vem do mar a esta
-hora, vos não faça mal, Senhora!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Socegai...</p>
-
-<p>Lisboa, ao luar, é uma cidade d'almas, acaricia.</p>
-
-<p><i>bruscamente</i></p>
-
-<p>O mar, Leonor, quando fez mal?</p>
-
-<p><i>reparando num collar de esmeraldas que a aia segura,<span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span>
-pegando n'elle, e passando-as uma a uma pelos dedos,
-como contas de um rosario, depois de um momento de
-silencio, como se fallasse para si, sonhando alto</i></p>
-
-<p>Ha vagas mais verdes e mais lindas ainda que estas
-esmeraldas... Eu gosto das esmeraldas porque me
-lembram o mar. O mar é verde, sempre verde; eu
-nunca vi o mar azul,—azul é o céu e o rio.</p>
-
-<p>Olhar o mar não é ir vê-lo de longe, é ir até elle, até
-bem junto d'elle, é vê-lo e senti-lo em cada vaga que
-vem bater na penedia e desfeita se espraia pela areia...
-É vê-lo soffrer! É vê-lo luctar! Ondas que veem, que
-se espraiam, que vão, que voltam, que luctam sempre,
-e não repousam e não descançam em eterno soffrer!...</p>
-
-<p><i>Silencio. Voltando-se para a aia Leonor</i></p>
-
-<p>Tu tambem vês, Leonor, como os mais, o mar azul?</p>
-
-<p>Tu tambem crês que o mar, o verdadeiro mar, é aquelle
-que se estende sereno até ao horizonte distante, azul,
-muito azul?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span></p>
-
-<p class="p2">A AIA</p>
-
-<p>Eu vejo o mar azul...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Tu olhas o céu no mar, diz antes, mas diz tambem
-que nunca viste o mar.</p>
-
-<p class="p2">A AIA</p>
-
-<p>Eu nunca soube ver como vós, Senhora!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Por que tens medo de ir até á praia e de estar junto
-d'elle, como eu, quando as vagas veem umas sobre
-outras, enormes como vellas ao vento, bramindo, rugindo...
-São mãos potentosas, gigantes, que se desfazem
-em espuma.</p>
-
-<p>Nunca olhaste de frente as vagas?! Nunca as viste,<span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span>
-Leonor, em transparencia?! Pois são verdes, mais verdes
-e mais lindas ainda que estas esmeraldas!</p>
-
-<p class="p2">A AIA</p>
-
-<p>Eu nunca soube ver o mar...</p>
-
-<p><i>depois de um silencio, procurando n'um anel de opala
-os reflexos, e mostrando-a á princeza</i></p>
-
-<p>Como é mysteriosa e tentadora! Se as pedrarias tivessem
-vida ... se ellas morressem ... eu diria que tinham
-escolhido as opalas para sarcophagos das suas cores...</p>
-
-<p class="p2">OUTRA AIA</p>
-
-<p>Trazem desgraça as opalas. São como maus olhados...
-Teem fogo ... queimam...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>São lindas! São phosphorescentes como o mar em
-noites negras!...<span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span>
-Mas escurece... Os pagens que tragam os candelabros.
-O nauta, dentro em pouco, estará comnosco...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA</p>
-
-<p>Já ha luar. O rio e o ceu estão de lhama...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Pouzem as minhas joias; não as guardem...</p>
-
-<p class="p2">A AIA</p>
-
-<p>E o diadema?</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>atenta</i></p>
-
-<p>Tambem... pousai tudo... deixai ficar...</p>
-
-<p><i>levantando-se e acercando-se dos vitrais, após curto
-silencio</i></p>
-
-<p>Tantas luzes, alem, subindo a encosta! Quasi se apagam...<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span>
-scintillam mais, agora... Vão em filha... par
-a par...</p>
-
-<p><i>chamando a aia</i></p>
-
-<p>Repara, Leonor. O que será?</p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>hesitante</i></p>
-
-<p>Talvez o Santo Viatico... talvez procissão... Mas
-o rio está tão lindo!</p>
-
-<p>Olhai antes o rio...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>já não a ouvindo, attenta, em expressão
-de dôr</i></p>
-
-<p>Mas ouve-se cantar. Não ouves? Cantam ou rezam?</p>
-
-<p class="p2">A AIA-<i>insistindo</i></p>
-
-<p>Olhai antes o rio... aquellas naus...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>sem a ouvir</i></p>
-
-<p>Porque será, Leonor, que os cantos de hoje são
-tristes, sempre tristes?! Porque foge o povo do sol e só
-canta e baila pela noite, como hontem?!</p>
-
-<p>Parece ter medo da luz e só gostar de se esconder nas
-sombras... Os seus bailados, á luz dos archotes, lembram
-rondas de mortos, de phantasmas...</p>
-
-<p>E se mestre Lopo tivesse razão?</p>
-
-<p><i>agarrando-se á aia, com horror</i></p>
-
-<p>Não respondes? Tambem tu acreditas, Leonor?!</p>
-
-<p><i>em grande exaltação</i></p>
-
-<p>Acaso as caravellas mentem?! Acaso os mundos novos
-não existem, e são alucinações e são chimeras?!</p>
-
-<p><i>depois de um silencio</i></p>
-
-<p>E as novas estrellas!? Que dizem ellas? Quem as ouve?
-Quem as procura entender?</p>
-
-<p>Leonor, tu não respondes!... Tambem tu julgas?!
-Tambem tu acreditas?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>meigamente</i></p>
-
-<p>Mas socegai... Bem sabeis... eu não sei.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>repentinamente calma, noutro tom</i></p>
-
-<p>Olha a sombra d'aquellas naus, alem. São sombras
-d'azas, voam sempre!</p>
-
-<p>Mestre Lopo engana-se, as estrellas enganam-no.</p>
-
-<p><i>Ouve-se de novo o canto, mais distintamente:—é como
-um côro</i></p>
-
-<p>Aquellas luzes, aquelle canto, fazem-me mal. Fechem
-os vitrais por agora...</p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>baixo, a outra aia, emquanto a Infanta
-volta para a cadeira de espaldar</i></p>
-
-<p>Não percebeu... Rezemos baixo... É um homem
-da armada, um mareante, que vai a enterrar...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p>
-
-<p class="p2">A OUTRA AIA—<i>com desalento</i></p>
-
-<p>Mais um!... Mais um!... E já são tantos!</p>
-
-<p><i>Batidos pelo luar os vitrais illuminam-se.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Como são lindos assim, estes vitrais!</p>
-
-<p class="p2">A AIA—<i>depois de um momento, como a findar as
-orações</i></p>
-
-<p>Lembram até, pela suavidade do colorido, as illuminuras
-do vosso livro d'horas...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>O luar que as illumina é um luar de reflexos, um
-luar d'aguas. Abrem sobre o rio...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p>
-
-<p>As janellas d'este paço estão mais altas que as de
-nenhum outro; quando d'ellas me acerco eu vejo o
-mundo!... e sinto-o e ouço-o palpitar em seus anceios—coração
-do Homem e de Deus!</p>
-
-<p><i>n'um recordar enternecido, saudosissimo</i></p>
-
-<p>Deitam sobre o rio as janellas d'este paço... E foi
-d'ellas, de junto d'esses vitrais, que eu ainda tamanina,
-de olhos muito abertos, deslumbrados, vi chegar as
-naus e caravellas que foram um dia em busca do
-imperio, por mares distantes... ignorados... mysteriosos...</p>
-
-<p><i>em recolhimento de intimos pensamentos, passando pelos
-dedos as perolas do collar</i></p>
-
-<p>É um rosario de saudades o meu collar... São contas
-de saudade as minhas perolas...</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Os olhos da princeza, fixos, pasmados, revêem o passado.
-As aias trocam olhares, fallam a medo... Um
-silencio de vida adormecida.</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span></p>
-
-<p><i>De repente, distinctamente, gritos da multidão, ululante,
-desvairada, fanatica, sanguinaria.</i></p>
-
-<p class="p2">A MULTIDÃO</p>
-
-<p>Á morte!—Á morte!...—Herejes malditos!—Filhos de
-Satanaz!...—Perros tinhosos!—Bruxos de perdição!—Malditos!—Malditos!—Por
-Jesus Christo!—Pelos
-nossos filhos!—Á morte!—Á morte!...</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA—<i>abrindo uma das janellas, espreitando
-receosa, e fechando-a em seguida</i></p>
-
-<p>O povo anda perseguindo mais uma vez os Christãos-Novos...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>com soffrimento e como despertando
-d'um grande sonho</i></p>
-
-<p>Os Christãos-Novos! Julgara ter ouvido gritos de
-combate em terras de além-mar...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p>
-
-<p><i>Muito de manso entram os pagens com os candelabros;
-fallam baixo as aias. Um grande silencio religioso</i>.</p>
-
-<p class="p2">UMA AIA—<i>á Infanta</i></p>
-
-<p>O nauta aguarda, Senhora, as vossas ordens...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Entregaste-lhe as minhas prendas? E ao pintor?
-E ao poeta?</p>
-
-<p><i>a um signal afirmativo da aia</i></p>
-
-<p>Que venham em bôa hora!</p>
-
-<p><i>As aias, sem ruido, todas de branco, veem cercar a Infanta,
-sentando-se uma a uma nos degraus do estrado.
-Sobre a mesa, dispersas, brilham as pedrarias. Á luz dos
-candelabros os diamantes do diadema scintillam em fogo
-vivo. A cruz, a esphera, e as quinas dos vitrais, em<span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span>
-coloridos suavissimos, são brazões de luar, brazonando
-o Infinito</i>.</p>
-
-<p><i>Entram o Nauta, o Astrologo, o Pintor, o Poeta e
-alguns nobres</i>.</p>
-
-<p class="p2">O NAUTA—<i>ajoelhando, tirando a espada da bainha
-e pousando-a no degrau do estrado</i></p>
-
-<p>É vossa a minha espada...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Que São Jorge proteja a tua espada...</p>
-
-<p class="p2">PINTOR—<i>beijando a mão á princesa</i></p>
-
-<p>As minhas graças, Senhora, pelas mercês e honras
-que de vós recebi.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Uma lembrança...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>ajoelhando</i></p>
-
-<p>Bendita sejais, Senhora, eternamente, entre as mulheres...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Uma lembrança...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>As minhas bençãos vão para vós, Senhora!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Que Deus as confirme... Queria que viesseis para
-ouvir tambem, e ouvindo, dizer ás estrellas, a grande,
-a eterna prophecia.</p>
-
-<p><i>fitando-o</i></p>
-
-<p>Não acreditais?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-<p><i>Ao nauta</i></p>
-
-<p>Travara-se o combate... Contai...</p>
-
-<p><i>Silencio. Todos cercam o estrado; só o nauta fica frente
-á Infanta</i>.</p>
-
-<p class="p2">O NAUTA—<i>alheado</i></p>
-
-<p>Como dizer-vos?... Era como se o mar, desobediente
-a Deus, entrasse pela terra dentro em furia
-insana... Cada homem, Senhora, era uma onda
-potentosa, gigante e indomavel.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>enlevada</i></p>
-
-<p>Somos como o mar! O mar humanizou-se em nós...
-Temos a voz do mar em nossas almas, temos a força
-das ondas em nossos braços!...</p>
-
-<p><i>silencio</i></p>
-
-<p>Ias dizendo...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p>
-
-<p class="p2">NAUTA</p>
-
-<p>Que tão grande era a força dos guerreiros que
-dir-se-hia que a força do mar estava n'elles! Os que
-ficaram na armada não fallavam, e eu mesmo, por
-mim, não sei se viviam. Eu não sabia onde estava, se
-no céu, se na terra, ao ver tanta façanha! Não sentia o
-corpo, e ainda agora penso se não foi sonho ou visão
-tudo o que vi!</p>
-
-<p>Em nosso redor só havia gritos:—gritos de triumpho,
-gritos de dôr, gritos de morte! Por São Jorge os nossos
-abriam clareiras na multidão alucinada. Por Christo
-tocavam as trombetas, abafando o canto plangente, o
-choro louco, das mulheres, das crianças e dos velhos.
-As lanças e as espadas reluziam ao sol como rubis,
-mas o sangue não abafava o grito agudo e frio do bater
-dos ferros, do chocar das laminas! Gritos, só gritos,
-Senhora, em meu redor!</p>
-
-<p>De repente, entre as gentes no combate, avistei o grande<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span>
-Capitão, cercado, perdido, abandonado, entre as lanças
-dos cavalleiros arabes... Quantas lanças? Não sei!
-Mas eram muitas, todas cruzadas! Era como um silveiral
-de lanças em seu redor... Lanças que caíram uma
-a uma, como se fôra tojo a ser rossado!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Deixai a batalha... Em nossos braços os montantes
-sempre foram foices de rossar lanças... Já de volta
-ao galeão, o Guerreiro dizia-vos?...</p>
-
-<p class="p2">O NAUTA</p>
-
-<p>Que o imperio ainda estava por formar... Que ia
-mais alem do que julgavamos. E disse então d'esta
-guiza, ainda me lembro, ainda me parece tê-lo em
-minha frente, estar a ouvi-lo:</p>
-
-<p>—Tenho que obedecer á voz do meu Destino. Escutar
-o sonho que me chama para novos soffrimentos, maiores<span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span>
-feitos. Em mãos de infieis estão ainda os Logares
-Santos. Milhares de homens lá foram para arranca-los
-ás profanações e nunca Deus quiz que seus desejos
-fossem realizados. Só um povo de gigantes e de eleitos
-pode remir as Terras Santas. E nunca um povo lá foi,
-só foram homens, crentes peregrinos, sonhadores guerreiros,
-de terras diferentes e estranhas! Eis o Imperio
-que eu quero formar. Imperio eterno de redempção
-eterna! Os mundos novos não bastam. Este Imperio é
-grande para os homens, não para Deus! Fechar os
-mares em nossas mãos foi empreza facil. A empreza
-maior é a de maior sacrificio. Esquecerei até ao fim a
-dôr e o soffrimento dos homens, porque morrer é não
-realizar o sonho idealizado... Não vamos para a conquista
-de mais terras;—vamos buscar a eternidade!</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Vã gloria a dos homens!... Louco engano de cuidarem
-eterna a fama de um momento.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>A alma dos povos vive sempre, passa de geração
-em geração.</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>E a memoria dos homens passa breve...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Os crentes não esquecem.</p>
-
-<p><i>ao nauta</i></p>
-
-<p>Ias dizendo...</p>
-
-<p class="p2">NAUTA—<i>sereno, mas vincando as palavras quasi
-violentamente</i></p>
-
-<p>Que era maior ainda, em sonho, em força e em
-audacia do que o sonho dos cruzados, o sonho do<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span>
-guerreiro! Ligar todo o Imperio, e sobre elle estender,
-em benção de eterna protecção, a sombra suavissima
-da Cruz, bem alta alevantada nas terras remidas dos
-Santos Logares!... O Imperio de Christo sobre a
-Terra!</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>ás aias, numa exaltação de deslumbramento
-e mysticismo</i></p>
-
-<p>Abri os vitrais para que o mundo ouça tambem...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Ou para que chegue a este paço, o canto fatal dos
-Reis-cegos...</p>
-
-<p class="p2">O NAUTA—<i>violentamente</i></p>
-
-<p>Cantaram, é certo... É lenda velha que elles annunciam
-a morte dos eleitos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p>
-
-<p><i>exaltando-se</i></p>
-
-<p>A lenda cumprir-se-ha talvez, mas que importa?! O
-Imperio já está formado, já existe. É nosso o mar oriental
-e ocidental, de lés a lés, de cabo a cabo, e por essa
-costa fóra, ao brazeiro do sol, mil padrões de gloria,
-marcam os roteiros onde chegaram naus, caravellas,
-mareantes!</p>
-
-<p>Os mortos mandam eternamente na terra. As almas
-dos herois e dos santos não morrem; vivem em alma
-junto dos homens e de Deus! O sonho da vida continúa
-na morte e cada brazão das quinas é feito de
-almas:—o sonho d'um santo ou de um heroi!...</p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>O brazão fatal das Cinco Chagas...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Calvario eterno, de soffrimento eterno, em que a
-alma deste povo, dia a dia, anda a ser crucificada...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>bruscamente</i></p>
-
-<p>Deixai os presagios...</p>
-
-<p><i>ao nauta</i></p>
-
-<p>Contai a vizão...</p>
-
-<p><i>Pelas janellas abertas entra o luar em grandes manchas
-azuladas</i>.</p>
-
-<p class="p2">NAUTA—<i>serenamente, seguro de si, numa certeza
-religiosa</i></p>
-
-<p>Como Eleito do Destino, já na conquista da cidade,
-por graça de Deus, lhe fôra dado vêr Santhiago a seu
-lado, combatendo os moiros, de armadura branca e de
-vermelha cruz no manto branco. Havia uma Via-Lactea
-de conchas luminosas a marcar o roteiro do santo; e
-n'essas estrellas, o Guerreiro vira naus e caravellas! Esta
-foi a visão primeira, ante-manhã; depois rubro do sol,
-aureolado de sol, faiscante de sol, entrara na cidade...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></p>
-
-<p><i>após curto silencio</i></p>
-
-<p>Agora o milagre não foi só para o Guerreiro; nós vimos
-tambem, eu vi tambem. No céu, para o horizonte, para
-os lados onde fica a Terra Santa, uma cruz immensa
-de sangue gottejante, abriu os braços... Enchia o
-céu... como se o céu fosse a vella maior de uma nau!
-Tangeu o côro das trombetas, ressoou pelo ar o estrondo
-das bombardas... E nós vimos, e eu vi, até ser sol-poente,
-a Cruz a gotejar no ceu azul e immenso a marcar-nos
-o caminho que o Guerreiro horas antes traçara.
-Foi então, Senhora, que eu, nós todos que o cercavamos,
-nos sentimos como elle, eleitos cavalleiros, mysticos
-cruzados, ungidos pelo Destino!...</p>
-
-<p><i>á côrte</i></p>
-
-<p>É esta a nossa fé:—se ousais nega-la, mentis aos homens
-e mentis a Deus!</p>
-
-<p><i>Silencio profundo e longo. A Infanta tem o olhar distante
-e vago preso ao céu. As aias, baixo, murmuram<span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span>
-orações. O nauta, olhar de illuminado, é como cego...
-O silencio parece não ter fim. O luar, é branco, muito
-branco.</i></p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>baixo, acercando-se do astrologo</i></p>
-
-<p>A cruz a gottejar!... Repara na noite: o luar cahe
-como agua das fontes e é mais branco e mais frio do
-que um marmore...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Cadaveres rosados e quentes onde os vistes,
-amigo?</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>como despertando, n'uma exaltação</i></p>
-
-<p>Não acreditais? Negais tambem?! Negais tudo, até
-os milagres!? Não acreditais tambem n'elles?!... Negais?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span></p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>sereno</i></p>
-
-<p>Eu creio e porque creio, Senhora, entendo bem...
-Ha mortos no mar, mortos na terra!... Vã cubiça e
-vã gloria, levou-nos á loucura...</p>
-
-<p class="p2">NAUTA</p>
-
-<p>Cavar leiras de terra, como quem cava sepulturas,
-é destino dos homens, mas nunca o foi dum povo.</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>continuando, como se não tivesse
-ouvido o nauta</i></p>
-
-<p>A antiga fé está perdida. Os herois, deslumbrando-se
-com os seus feitos, imaginam-se santos!...</p>
-
-<p><i>com vehemencia</i></p>
-
-<p>Porque vencem os homens julgam vencer o proprio
-Deus! Dantes morriam em santidade nos conventos,<span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span>
-longe do mundo, e chorando e rezando remiam o
-homem!</p>
-
-<p>Mas era d'antes... Agora...</p>
-
-<p class="p2">NAUTA—<i>desabridamente</i></p>
-
-<p>Morrem a lutar, a batalhar...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>sereno</i></p>
-
-<p>A matar... a escravisar...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Imaginais então?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span></p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Que é de sangue como a cruz gottejante, este imperio,
-o nosso imperio, Senhora!</p>
-
-<p class="p2">NAUTA—<i>num grito</i></p>
-
-<p>Por minha fé o juro... Mentis!...</p>
-
-<p><i>Silencio de espanto, prolongado e doloroso. Olhares que
-receiam encontrar-se; gestos que receiam acordar o silencio;
-estatuas...</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>suavemente, n'uma exaltação mystica,
-n'uma oração</i></p>
-
-<p>Sangue bemdicto, porque vive eternamente e revive<span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span>
-a cada hora, em novas estrellas, novos mundos, novos
-povos!</p>
-
-<p><i>em exaltação maior, levantando-se</i></p>
-
-<p>Sangue bemdicto porque floresce. É sangue de sacrificio;
-almas dadas a Deus para remir outras almas,
-corpos dados ao mar para buscar outras vidas!...</p>
-
-<p><i>Com a cabeça deitada para traz, os braços erguidos, as
-mãos em concha, tocando-se ao de leve, como ofertando
-rithualmente um calix</i>:</p>
-
-<p>Sangue que eu adoro e que eu bemdigo...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>n'uma immobilidade de estatua, com
-firmesa</i></p>
-
-<p>Sangue de morte e vã gloria que uma sombra negra
-envolve, perde e esquece...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p>
-
-<p class="p2">NAUTA—<i>como louco</i></p>
-
-<p>Mentira!... Traição!... Mentira!...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>estatica, hirta, desce os degraus do
-estrado. Olha em roda como petrificada; fitando o Astrologo,
-friamente, quasi serena</i></p>
-
-<p>E para alem dessa sombra, se Ella existe?...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>É tudo sombra; nada sei, nada vejo, para além...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA</p>
-
-<p>Nada mais dizem as estrellas?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>frio, vincando as palavras</i></p>
-
-<p>Nada mais.</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>com infinito orgulho</i></p>
-
-<p>Pouco dizem... e o nosso Imperio transfigurou o
-mundo!</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>As maldições do Destino não perdoam...</p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>quasi violentamente</i></p>
-
-<p>O Destino, por nós, já foi vencido.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span></p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO—<i>sereno, fitando-a</i></p>
-
-<p>Os homens enganam-se...</p>
-
-<p><i>A côrte entreolha-se, vazia. A Infanta acerca-se do diadema.
-Pega n'elle quasi a medo. Os seus dedos esguios
-mal lhe tocam. Beija-o. Sempre hirta e estática, junto
-da janella aberta, frente á noite, ergue-o em sacrificio,
-em elevação, ergue-o bem alto! O luar escorre-lhe pelos
-braços. As pedrarias scintillam intensamente. Em sagração,
-como se fosse poisá-lo em pedra d'ara, colloca-o nos
-seus cabellos negros. Assim coroada, não vê, não ouve.
-O sonho encarnou-se no seu coração em soffrimento
-amargurado. Em face da certeza do Astrologo, ella busca
-uma certeza maior que a domine.</i></p>
-
-<p class="p2">INFANTA—<i>n'uma vibração profunda, intensissima—a
-sua alma frente a frente ao destino de milhares<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span>
-d'almas, abrangendo n'uma vizão a vida toda, o passado
-e o futuro, echo perdido duma voz prophetica</i>:</p>
-
-<p>E as estrellas mentem!...</p>
-
-<p><i>Queda-se estática; o luar embranquece-a como um marmore.
-Ha claridades deslumbrantes e extranhas nos seus
-olhos muito abertos, sempre fixos.</i></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Estremece como labareda batida pelo vento: desmaia.
-Os olhos sempre abertos, sempre fixos.</i></p>
-
-<p><i>As aias amparam-na, aflictas, emquanto a côrte sae
-desordenada, buscando o physico. Os pagens approximam
-luzes; cerram os vitrais.</i></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p><i>Na Infanta os reflexos são aureolas; divinisam-na...</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003">
- <img src="images/003.jpg" class="w50" alt="" />
-</span></p>
-</div>
-
-<p>Um alto de collina, arido, de hervas maninhas
-e rasteiras, tendo ao centro um
-cruzeiro tosco de granito escuro.</p>
-
-<p>Manhã de sol fulgurante e quente.</p>
-
-<p>Da direita alta vem um carreiro estreito, que
-cortando a scena de lado a lado, segue até ao
-rio, que se estende da esquerda ao fundo,
-espraiado e muito azul, em grande perspectiva,
-até ao mar.</p>
-
-<p>Ha uma nevoa azulada envolvendo os montes
-distantes da margem oposta, suavisando-lhes
-os contornos dos cabeços.</p>
-
-<p>Entre as naus e caravellas, mais junto da
-praia, um galeão; nos mastros, sem vellas,
-estandartes reaes e mil bandeiras...</p>
-
-<p>Junto ao cruzeiro, gente do povo, em grupo,
-conversando.</p>
-
-<hr class="tb" />
-<p><span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span></p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER—<i>que chega</i></p>
-
-<p>Ainda estão na igreja. El-Rei, a côrte toda, commungou.
-Mas a Senhora Infanta, bastava vê-la, de
-joelhos, de mãos postas a rezar, era mesmo uma
-santinha!</p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>Pois se ella é tão linda!</p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>E sempre tão triste que até faz dó!</p>
-
-<p class="p2">UM MARITIMO—<i>como procurando dar ternura á
-sua voz forte e enternecendo-se pouco a pouco</i></p>
-
-<p>Pois haviam de a vêr como eu a vi, um dia, junto
-ao mar. Então ella estava alegre e o mar estava mau.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span></p>
-
-<p>O mar é como os homens, tem tambem as suas zangas,
-os seus ralhos. As ondas cresciam sempre, tão grandes
-como torres e vinham avançando pela praia dentro,
-cada vez mais, cada vez mais... E a Senhora Infanta
-a olhá-las de frente e tão esquecida, que uma vaga
-mais forte a molhou toda! E ella sem se mexer, sempre
-quêda a olhá-las, assim a modos como uma santa
-no altar!</p>
-
-<p>A Senhora Infanta não tem medo do mar. Se a deixassem
-era capaz de ir como nós á aventura... Quem a
-viu como eu a vi nesse dia, e não soubesse quem ella
-era, havia de cuidar que tinha nascido no mar—que
-tinha sido embalada, não por aias, mas por ondas!</p>
-
-<p class="p2">OUTRO MARITIMO—<i>com enthusiasmo e ternura</i></p>
-
-<p>E sempre foi assim! Ainda tamanina, quando chegavam
-as naus—as que tinham ido sem rumo e traziam
-novas terras a esta terra—já a Senhora Infanta<span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span>
-ao lado de El-Rei as ficava a olhar, de olhos muito
-abertos, cheios de riso. E queria saber tudo—como
-fôra, o que viramos, como eram as nossas terras, onde
-ficavam... o que nos acontecera...—e a ouvir-nos
-contar nossa aventura, os seus olhos enchiam-se ainda
-mais de riso.</p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER</p>
-
-<p>Pois agora vai triste. Eu vi-a passar para a igreja.
-Não olhava, não sorria... Os olhos muito abertos,
-olhando sempre em frente, muito brilhantes... até me
-fez chorar... Nunca vi olhos assim! E toda de branco!
-Parecia enfeitiçada!...</p>
-
-<p class="p2">UM VELHO</p>
-
-<p>Deixai lá... Ella tambem gosta desta loucura em
-que vivemos. Nunca se importou a Senhora Infanta dos
-que morrem no mar, dos que lá ficam nessas terras<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span>
-distantes a combater! Morrem: deixá-lo! A Senhora
-Infanta é como as mais; não se importa!...</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Calai-vos! Calai-vos!—Ave de mau agoiro!—Nós
-tambem temos filhos! Nós tambem temos mortos!...</p>
-
-<p class="p2">O VELHO</p>
-
-<p>Mas não chorais como eu...</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Calai-vos... Calai-vos!...</p>
-
-<p class="p2">OUTRO VELHO—<i>com violencia</i></p>
-
-<p>É assim, é assim mesmo. Quem se importa já da
-terra!? Quem a lavra e a amanha com amor? É esta<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span>
-Babilonia que nos perde! Aqui é a torre de Babel.
-Só se vê estrangeiros, só se ouvem linguas estranhas
-que ninguem entende e que—Deus louvado!—nem
-parecem de gente!</p>
-
-<p>D'antes a nossa terra era só nossa, tinha as portas fechadas
-por castellos. Agora é de todos... Perros
-malditos!</p>
-
-<p class="p2">UM MARITIMO</p>
-
-<p>Porque fosteis então batalhar em terra alheia?...</p>
-
-<p>OS DOIS VELHOS</p>
-
-<p>Para servir a Deus e a El-Rei; e El-Rei ia comnosco,
-e tambem batalhava!...</p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER</p>
-
-<p>Ouvi. Tocam os sinos... El-Rei, a côrte toda, vai
-saír... vão, até embarcar, em procissão.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p>
-
-<p><i>O grupo vai augmentando; junta-se mais povo.</i></p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>A Senhora Infanta vai como morta! Chamais doido
-a quem diz verdades. Não acreditais, mas é assim. Não
-sou Ave-agoirenta, não; mas isto é um enterro.</p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>É o castigo de Deus! Andamos levados pelo Demo,
-sempre a tentar ao Senhor...</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Calai-vos!... Calai-vos!...</p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER—<i>da frente do grupo</i></p>
-
-<p>Já sahiram da igreja... lá sae El-Rei... a Rainha,
-os Principes...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span></p>
-
-<p class="p2">OUTRA VOZ</p>
-
-<p>E a Senhora Infanta vem á frente, reparai... vêde
-se não é como eu dizia. Vai a enterrar, vai como
-morta...</p>
-
-<p>O Senhor Bispo vem tambem... Atraz a cleresia,
-toda a côrte...</p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>É uma procissão... é um enterro...</p>
-
-<p class="p2">UM VELHO</p>
-
-<p>Sabeis as prophecias?</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Contai... dizei... contai...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p>
-
-<p class="p2">O VELHO—<i>hesitante</i></p>
-
-<p>No céu, para os que sabem lêr nos astros, ha presagios
-maus! Quem não tem visto estes dias a lua ao
-nascer tinta de sangue?! É sangue de infieis, sangue
-de moirama ou sangue nosso? Ninguem sabe... ninguem!...</p>
-
-<p>E diz-se que hade vir um Principe de tentação para
-nos perder. Um Principe loiro como o sol, que nos ha-de
-tentar! E com elle nós iremos todos, a cantar, buscar
-a morte! Os infieis serão na mão do Senhor o seu
-instrumento de castigo! O Senhor castigará nossa
-soberba com aquelles que abatemos!...</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Piedade, Senhor!...—Tende compaixão de nós!...—Misericordia!...—Piedade!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span></p>
-
-<p class="p2">O VELHO</p>
-
-<p>E o castigo do Senhor será terrivel e a sua colera
-não terá limites porque judeus, feitos Christãos, andam
-a blasphemar o Santo Nome de Deus!</p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Malditos sejam!...—Santo é o Nome de Deus!—Que
-as penas do inferno sejam poucas para elles...—Que
-sejam malditos!—Mil vezes malditos!</p>
-
-<p class="p2">O VELHO—<i>continuando</i></p>
-
-<p>E as aguas secarão nas levadas e nas fontes...
-E o sol queimará os milharais e as searas; e as vides
-ficarão secas e mirradas... Os gados não terão pastos,
-os homens não terão pão, e a peste os levará...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p>
-
-<p class="p2">VOZES—<i>desvairadas, amarguradas, agonisantes</i></p>
-
-<p>Calai-vos!...—Maldição!...—Piedade!...—Maldição!...—Antes
-a morte...—Vêr morrer os nossos
-filhos...—Piedade!—Piedade!—Maldição!</p>
-
-<p class="p2">O VELHO—<i>continuando a custo</i></p>
-
-<p>E será então que um rei virá—rei estranho, gente
-inimiga, homens d'armas—conquistar este reino de
-cadaveres...</p>
-
-<p>Será então que um rei virá matar um Rei que não
-morre... a quem a Morte não matou...</p>
-
-<p class="p2">VOZES—<i>de soffrimento, de desespero, de confiança
-e de odio</i></p>
-
-<p>Maldição!...—Piedade!—Piedade!—Que Deus
-seja comnosco...—Que os herejes sejam mortos!...—Que
-sejam malditos!—Que sejam queimados...—Que<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span>
-Christo reine em nossos corações!—Que a Sua
-lei seja cumprida!...—Deus é comnosco!...—Deus
-é Pae!...—Deus é bom...</p>
-
-<p class="p2">UM MARITIMO MOÇO—<i>com vehemencia</i></p>
-
-<p>Quem sabe o que é do dia d'amanhã... Esses
-horrores que dizeis quem os prophetisou? Quem pode
-dizer o destino dos homens e pode conhecer a vontade
-de Deus? Só quem não andou embarcado e não viu
-os Mundos Novos que são nossos, essas terras estranhas
-por nós descobertas, só quem não sahiu deste torrão
-de terra abençoado para servir a Deus e a El-Rei n'esse
-imperio imenso que fica para alem,</p>
-
-<p><i>apontando</i></p>
-
-<p>para as bandas donde nasce o sol; só quem não luctou
-com o mar e o venceu, pode acreditar nas negras
-prophecias!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span></p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Dizes bem...—É assim mesmo.—Dizes bem...</p>
-
-<p class="p2">O MARITIMO</p>
-
-<p>Deixai, que o mundo é nosso, porque nós o descobrimos
-e lhe demos vida por nossas vidas! O mundo
-é nosso filho, tem o nosso sangue!</p>
-
-<p><i>As mulheres rezam baixo.</i></p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Dizes bem...—É assim... é assim...</p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER</p>
-
-<p>Ouvi como o povo canta em redor da Princeza...
-E Ella nem os ouve, nem os vê.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span></p>
-
-<p class="p2">O MARITIMO</p>
-
-<p>Os olhos dos marinheiros andam sempre errantes...
-No mar os olhos não se prendem, que o mar é todo
-igual. Só á noite as estrellas do ceu prendem os olhos!
-A Senhora Infanta é como nós; tem olhos de marinheiro,
-olhos errantes!</p>
-
-<p><i>Silencio. Uma nuvem ligeira escureceu o sol, assombreando
-a terra.</i></p>
-
-<p class="p2">A VOZ DO «BANDARRA»—<i>não muito longe</i></p>
-
-<p>Cautella, Senhor Rei!... Cuidado!... O mar nunca
-perdôa, os mortos nunca esquecem! Olhai que ides
-tambem a naufragar... Nós todos somos naufragos,
-cadaveres para o mar!...</p>
-
-<p class="p2">VOZES—<i>entre o povo aqui e alem</i></p>
-
-<p>Senhor Deus misericordia! Pae do Céu misericordia!—Por<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span>
-nossos filhos... Por El-Rei...—Miserere
-nobis!—Misericordia! Misericordia!</p>
-
-<p class="p2">UMA MULHER</p>
-
-<p>El-Rei parou... todo o cortejo... seguem... continuam...</p>
-
-<p class="p2">OUTRA MULHER</p>
-
-<p>Que a Virgem Nossa Senhora proteja a Senhora
-Infanta!...</p>
-
-<p><i>As mulheres ajoelham; os homens descobrem-se e alto,
-em côro:—Avé Maria, cheia de graça...</i></p>
-
-<p><i>Mestre Lopo, o astrologo, o poeta e o pintor apparecem
-pela direita, a caminho da praia. Ao verem o povo de<span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span>
-joelhos, param e descobrem-se. Rezam tambem. Acabada
-a oração põem-se de novo a caminho; o poeta fica...</i></p>
-
-<p class="p2">PINTOR—<i>voltando-se</i></p>
-
-<p>Ficais aqui?</p>
-
-<p class="p2">POETA—<i>docemente</i></p>
-
-<p>Para que ir comvosco?!</p>
-
-<p>Eu ando agora a viver o sonho d'Ella!... Em tudo que
-me cerca eu vejo-a sempre, mais pura, mais santa, mais
-perfeita! D'aqui eu vejo o mar e o mar é a sua alma,
-a nossa alma, o sonho maior que transfigurou o mundo
-e sobre o mundo ficará eternamente! O sonho creador
-e redemptor!...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>Já não acreditais nas prophecias?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>O sonho é a unica certeza em face dos homens e
-do Destino...</p>
-
-<p class="p2">ASTROLOGO</p>
-
-<p>E nas estrellas?...</p>
-
-<p class="p2">POETA</p>
-
-<p>Mentem tambem. Mentiram sempre... Ella o disse,
-Ella o revelou ás nossas almas!...</p>
-
-<p><i>O pintor e o astrologo afastam-se apressados. O poeta,
-lentamente, aproxima-se do cruzeiro.</i></p>
-
-<p class="p2">VOZES</p>
-
-<p>Afastem-se!...—Abram alas!...—Já ahi vem
-El-Rei...—Afastem-se...—Abram alas...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p>
-
-<p><i>Os grupos afastam-se em silencio, abrindo alas. Pela
-esquerda, rodeada das suas aias, toda de branco, hierática,
-serena, suavissima, sem um gesto, sem um sorriso,
-e d'um olhar divino, triumphal—olhar cheio de visões
-gloriosas, de claridades infinitas, de sonhos revelados,
-e de certezas eternas—apparece a Infanta...</i></p>
-
-<p><i>Os homens descobrem-se, as mulheres atiram flores ao
-caminho, juncam o caminho de flores, e quêdos; silenciosos,
-ficam a olhá-la, espantados, como se estivessem
-em face d'um milagre, d'uma apparição divina!</i></p>
-
-<p class="p2">VOZES DOS MARITIMOS</p>
-
-<p>Viva a Senhora Infanta!—Viva a nossa Princeza!—Que
-Deus guarde a nossa Santinha!—Que Nossa Senhora
-a proteja! Que os anjos a levem em sua guarda!—Como
-vai linda!...—Como Ella vai!...—Que a<span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span>
-estrella do norte seja seu guia... Que as ondas a embalem...—Viva
-a nossa Princeza!—Viva a Senhora
-Infanta!...</p>
-
-<p><i>As vellas vão pouco a pouco subindo nos mastros e,
-como azas enormes, enchem o céu.</i></p>
-
-<p><i>Junto ao cruzeiro, alheio, indifferente, distante, o Poeta
-continua olhando os longes...</i></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p>
-
-
-
-
-<p class="p4 center">
-ACABOU DE SE IMPRIMIR<br />
-ESTE LIVRO<br />
-NAS OFICINAS GRAFICAS<br />
-DA RUA FORMOSA, NUMERO 50,<br />
-DA CIDADE DE LISBOA,<br />
-NOBRE E LEAL,<br />
-AOS QUATORZE DIAS DO MEZ<br />
-DE NOVEMBRO<br />
-DO ANO DA GRAÇA DE<br />
-MCMXXI<br />
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter transnote">
-<h2 class="nobreak" id="Notas">Notas</h2>
-
-
-<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p>
-</div>
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>INFANTA</span> ***</div>
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-</div>
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
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-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
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-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
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-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
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-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
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-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
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-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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deleted file mode 100644
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--- a/old/68985-h/images/001.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
index b084e40..0000000
--- a/old/68985-h/images/002.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
index e9ef657..0000000
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
index 39a2e50..0000000
--- a/old/68985-h/images/cover.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ