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-The Project Gutenberg eBook of A brazileira de Prazins:, by Camilo
-Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: A brazileira de Prazins:
- scenas do Minho.
-
-Author: Camilo Castelo Branco
-
-Release Date: September 4, 2022 [eBook #68905]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- Hathi Trust Digital Library.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A BRAZILEIRA DE
-PRAZINS: ***
-
-
- COLECÇÃO LUSITÂNIA
-
-
-
-
- CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
-
-
-
- A BRAZILEIRA DE PRAZINS
-
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-
-[Illustração: Camillo Castello Branco]
-
-
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-
- CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
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-
-
- A BRAZILEIRA DE PRAZINS
-
- SCENAS DO MINHO
-
-
-
-
- Edição conforme a 1ª, revista pelo Auctor
-
-
-
-
- LIVRARIA LÉLO, LIMITADA--EDITORA
-
- 144, Rua das Carmelitas--PORTO
-
- AILLAUD & LÉLOS, Limitada--R. N. do Carmo, 80 a 84--LISBOA
-
-
-
-
-INDICE
-INTRODUCÇÃO
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-CAPITULO XIII
-CAPITULO XIV
-CAPITULO XV
-CAPITULO XVI
-CAPITULO XVII
-CAPITULO XVIII
-CAPITULO XIX
-CAPITULO XX
-CONCLUSÃO
-P.S.
-
-
-
-
-INTRODUCÇÃO
-
-
-Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos
-livros antigos--a mais dispendiosa--leva-me o dinheiro que me sobra da
-botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de
-pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me
-illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro em
-uma caturrice academica.
-
-Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo
-de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de
-malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina
-_missaes_ todos os livros grandes; aos pequenos chama _cartilhas_.
-Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os
-livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu todos--que
-escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Elles,
-gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me seductores como ao leitor
-delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de
-cold-cream, pulverisada de bismutho.
-
-Havia sermonarios latinos, um _Marco Marullo_, tres rhetoricas, muitas
-theologias moraes, um _Euclides_, commentarios de versões litteraes de
-Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma
-versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro
-_Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de
-Horacio, por industria de Francisco da Costa_, impresso em 1639.
-
-Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga,
-havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para
-padre, morrêra ethico; que o seu homem--Deus lhe falle n'alma--mandára
-calear o quarto onde o estudante acabára, e atirou para as lojas tudo o
-que era do defunto--trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto
-seccamente do extincto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão
-fagueira o ventre gravido de uma gata malteza que lhe resbunava no
-regaço, passando-lhe pela cara a cauda em attritos d'uma flacidez de
-arminho. E eu que dedico aos bichos um affecto nostalgico, uma
-sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus
-saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho
-com uma meiguice antiga--a das meninas da minha mocidade que piscavam.
-Onde isto vai!
-
-A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento,
-offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se
-chamava _Velhaca_--ajuntou com a satisfação de quem completa um
-esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da _Velhaca_,
-fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu familiarmente,
-e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que
-a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, me disse serem
-do tempo dos Affonsinhos.--Porque o seu sogro, accrescentou, era um asno
-ás direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum;
-e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres
-vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando á heresia um anexim de
-limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos
-peccados que entram pela bocca.
-
-Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda
-mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de
-paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o _Bom senso_ do
-cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a
-esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza--a
-Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e
-contentes para os mysterios da eternidade.
-
-
-Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros,
-preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com
-folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do
-gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o
-_Entendimento literal e constrviçam_ até paginas 154, e aqui achei um
-quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra
-esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do
-papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:
-
-
-_José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a
-Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a
-pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar.
-Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer,
-endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao
-pé de ti._
-
- Martha.
-
-
-Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para
-interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem
-n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me
-logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr
-dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume,
-está escripto o nome do possuidor--_José Dias de Villalva_, e a carta
-é dirigida a um _José_. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra
-a carta.
-
-Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um
-anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o
-seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando
-morreu.--Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria
-da Fonte.
-
---Pois elle amou a Maria da Fonte?--perguntei com ardente curiosidade
-historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das
-suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu:
-
---Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os
-da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos
-escrivães, sabe vm.^cê?--Acho que foi então ou por perto. E
-ajuntou:--Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a
-Martha...
-
---Martha?--disse eu com a satisfação de vêr confirmada a assignatura
-do bilhete.
-
-Vm.^cê conhece-a?
-
---Não conheço.
-
---É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem
-quinze quintas entre grandes e pequenas.
-
---Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
-
---Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada
-ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota,
-salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma
-pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico
-d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho.
-Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do
-Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de
-borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.
-
-Interrompi com interesse de artista:
-
---Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu
-cunhado?
-
---Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu
-cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que
-Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses
-casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu
-tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos
-estudos e sabe todas essas trapalhadas.--E n'um tom de noticia
-festival:--Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim
-que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
-
---Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
-
-Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á
-nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson,
-escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem
-orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora!
-
-
-Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo
-Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com
-elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.
-
-Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que
-tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve
-mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração
-mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous
-annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado.
-Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos
-peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a
-arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.
-
-Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por
-todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os
-panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que
-prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço--casos que
-a pobre Natureza e o periodico chamado _Esculapio_ só de per si não
-poderiam explicar.
-
-O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em
-linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão
-previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes,
-sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande
-milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se
-restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira
-estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle
-negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos
-leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois,
-accrescentou:--Deus fez o supremo milagre da sciencia para centuplicar
-as forças á natureza enfraquecida.--O theologo enrugou
-scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:--O snr. reitor
-foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de Alexandre
-Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.--O
-reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o
-pulpito.
-
-Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a
-dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns
-esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que
-pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se?
-perguntei.
-
---Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me
-que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá
-vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas
-reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não
-lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador?
-
-Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou
-affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas
-recordações, disse:
-
---Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O meu
-pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não
-o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr,
-é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo
-morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle
-nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente.
-Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra,
-afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao
-golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha
-está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de
-Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna
-aureola a sua phantastica Virginia.
-
---Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores
-que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu
-immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei
-que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e
-a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do
-que isto...
-
-O cura interrompeu:--Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece
-bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem
-de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram
-intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na
-escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor
-fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias
-depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as
-ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me
-envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de
-fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha
-Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou
-que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das
-novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de
-Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas,
-não encontrára caso imitante.--E, dando-me o bilhete de Martha: Este
-quarto de papel é o exordio de uma agonia original.
-
-
-Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias
-sentimentaes--detestavel especie archeologica que ninguem tolera,--farei
-quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores
-de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, bravias como sêrro
-de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar bonina, sequer folhinha
-de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A Aurora a chorar! de que
-tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra n'uma idéa a sua
-certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os
-bigodes tingem-se; mas as phrases--madeixas do espirito--são
-refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes.
-
-
-
-
-I
-
-
-Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um
-irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no
-espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes
-encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de
-Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando
-embarcou, e o resto para elle--«5$400 réis, dizia, é que o maroto,
-podre de rico, me mandou em vinte annos!»
-
-A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte,
-e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro,
-mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José
-Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz
-estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e
-amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem
-puxar pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam
-quasi nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da
-alma que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram
-soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os
-psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o
-penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a ordenação--uma
-coisa que se fazia com uma perna ás costas, diziam certos vigarios--sem
-precisão absoluta de puxar pelas memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o
-filho do _latim_ que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr.
-Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e
-prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não
-desconhecia o crochet e ensinava raparigas para se distrahir.
-
-No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez
-a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de
-cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois
-folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito
-séria com proposito de mulher e ares muito sonsos--diziam as outras,
-que lhe chamavam a _songuinha_. Os outros estudantes, rapazolas
-vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa
-nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios
-ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a
-Martha--chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias,
-arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa,
-indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na
-barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de
-abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do
-quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica,
-pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito
-musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo
-exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira.
-
-Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe
-aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha.
-Queixou-se a Fr. Roque.
-
-O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de
-esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou
-a Martha.
-
---Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, cachopa?--perguntou
-o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, orbiculares, com as hastes
-oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que
-era o José de Villalva:
-
---Foi este?
-
---Esse nunca me disse nada--respondeu com a voz tremula, toda vermelha,
-a rapariga.
-
---Foi este?
-
-Martha não ergueu os olhos nem respondeu.
-
---Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é
-que algum embarrou por ti.
-
---Eu não me queixei...--murmurou a interrogada.
-
-Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do
-alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um
-canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam
-á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem
-espreita, quando ella subia a escada.
-
-O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não
-porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um
-justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que
-gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a
-primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque,
-averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que
-não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o
-sacerdocio--uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se
-dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no
-fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma
-noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro
-n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem
-lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e
-mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle
-desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma
-tenda por motivos de architectura--um martyrio de artista. Invejas. Por
-causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da
-Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha
-padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a
-cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega,
-dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto.
-
-Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do
-Salamondi e o _Grito das almas_, decifrava menos mal umas sentenças
-velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas
-demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por
-pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua
-benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe
-ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas
-velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o
-bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas.
-
---Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo
-cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.
-
-A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao
-estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua
-saude fraca, um pelém.
-
-N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão
-de Prazins, de um modo quasi original.
-
---Você quanto deve, ó tio Simeão?--perguntou.
-
---Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas?
-
---Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto
-e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de
-andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.
-
---É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua--um conto e
-quinhentos e pico.
-
---Quanto é o pico?
-
---Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao
-mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na
-feira dos 13.
-
---Você quer fazer um cambalacho?--tornou o pedreiro recuando o chapéu
-para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros.
-
---Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer
-comprar-me o lameiro da azenha--não vendo.
-
---Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim.
-Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a
-dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho
-que eu não lhe quero uma de X.
-
---Você falla serio, ó sôr Zeferino?
-
---Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata.
-
---Ora bem--entendamo'-nos--é a rapariga que você quer, a rapariga
-estreme, sem dote nem escriptura?
-
---Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
-
---A rapariga é sua.
-
-
-Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a
-vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela
-torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo
-debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem
-gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez
-crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos,
-arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos
-da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase.
-Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas
-salas, entre homens da melhor polpa e casca social--uns que mandaram
-ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do _Journal
-des Dames_ que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o
-arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra
-parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de
-senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne
-constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o
-_substratum_ da compra de negras a milhares:--comprar uma branca, das
-que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto
-feito em Prazins--eis a differença--por parte do pedreiro era um
-heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o
-seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados
-em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem
-d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram
-assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina
-de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina,
-não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O
-defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por
-jejuns, lhe converse com a alma.
-
-
-
-
-II
-
-
-Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira
-via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis
-para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava
-a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,--que já tinha para os
-feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas
-quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se
-ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle
-chegar.
-
---Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!--exclamou o Simeão, e
-foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo Thyrso e
-ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do
-mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado gordo--a
-rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua, d'uma grande
-pacificação somnolenta--perguntou-lhe se queria vender as quintas dos
-frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda
-com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe que não vendia para
-não transmittir ao comprador a excommunhão que arranjára comprando
-bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em materia e raios do
-Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franklin. Continuava a
-perguntar a toda a gente se sabiam de conventos á venda, ou quintas ahi
-para quarenta mil cruzados.
-
-O Zeferino das Lamellas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o
-negocio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para
-se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de
-abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:
-
---Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda
-não sabe que vem ahi o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e
-conventos?
-
-E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de coiro em
-que tinha recibos da decima, um aviso da junta de parochia para pagar a
-congrua, uma conta de azeviche contra maus olhados, uma oração
-manuscripta contra as maleitas, um officio antigo que o nomeava regedor,
-de que fôra demittido pelos Cabraes, uma velha resalva de recrutamento,
-uns versos que elle recitara no natal, em um Auto do nascimento do
-Menino, onde elle fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa
-Barbara, muito cebaceo, com um lustro azulado de graxa e a carta do
-Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.
-
---Você ainda não ouviu fallar d'esta carta!?--perguntou com
-sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.--Não
-se falla n'outra causa. Toda a gente sabe que vem ahi do Brazil o meu
-Feliciano para comprar quintas.
-
---Já me constou--disse o pedreiro,--mas você roe a corda á conta
-d'isso, acho eu...--E como o lavrador hesitasse:--O negocio da
-rapariga está feito ou não está feito? Os homens conhecem-se pela
-palavra e os bois pelos cornos. Ponha p'ra'hi o que tem no interior.
-
-O Simeão mascava, torcia-se, mettia com dois dedos a carta estafada na
-carteira e resmungava:
-
---Você, emfim, isto é um modo de fallar, como o outro que diz; você
-bem entende que ... sim...
-
---O que eu entendo physicamente fallando é que você não me dá a
-rapariga.
-
---Deixe vêr, deixe vêr o que diz o meu irmão--tartamudeava.
-
---Sabe você que mais?--volveu iracundo o architecto dando com o ôlho
-do machado n'um canhoto.--Você é de má casta. Não tem palavra nem
-vergonha n'essa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da
-Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada...--Allusão pungente a
-um tio do Simeão, o Bernabé, capitão das maltas de salteadores que
-infestaram em 1835 aquella serra.
-
---Veja lá como falla...--interrompeu o lavrador ferido na sua
-linhagem.--Você não me deite a perder...
-
-E o outro, n'um impeto de consciencia robusta:
-
---Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em
-contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças
-seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi
-depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu
-alma de cantaro?--E n'uma irritação crescente:--Se você não fosse um
-velho, dava-lhe com este machado na caveira.--É muito esbandalhado nos
-gestos, com sarcasmo:--Guarde a filha que eu hei de achar mulher muito
-melhor que ella pelo preço, ouviu você? que leve o diabo a burra e
-mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De
-você não póde sahir cousa boa; e mais da mãe que ella teve, que já
-lá está a dar contas...
-
-E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito
-de ordem e paz:
-
---Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?
-
---Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do Reguengo
-de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A
-songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada
-de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao
-estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre
-d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não
-quizeste?--e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o
-interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de
-insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.--E continuava:--Quem lhe
-déra dois pontapés, n'elle a mais n'ella!--e muito rubro de colera
-dava pancadaria nas pedras, nas raizes nodosas dos castanheiros, e
-mettia grande terror no animo do Simeão quando faiscava lume nos
-calhaos com a percussão do machado.
-
-Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se
-o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma
-matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as
-esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador
-chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a
-Martha o ouvisse.
-
-Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o
-porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe
-tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume,
-desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio
-ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo
-com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços
-provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino,
-muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia
-sarcastico:
-
---Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar
-os miolos á cara de você.
-
-Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante--que os cães
-não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:--que
-venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas
-canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a
-fazer meia com a cesta do novello no braço.
-
---Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na lingua--advertiu o José
-Dias com uma serenidade de máo agouro--quando eu lhe ladrar então se
-fará com o machado para mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que
-mais quer você, homem? Siga o seu caminho.
-
---O meu caminho? o meu caminho é este--disse batendo com o machado na
-terra.--Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja tolo.
-
-A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se
-valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina
-dos bebedos, e berrava:
-
---Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço
-d'asno?
-
-E o estudante, já amarello:
-
---Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe
-que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com
-elle.
-
---Ó alma do diabo!--exclamou o pedreiro crescendo para o caçador.
-
-N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira,
-que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao
-assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da
-nadega esquerda.
-
-O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de
-leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega
-direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os
-focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos
-cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a
-cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a
-accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella
-sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada;
-mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o
-cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não
-sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem
-ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis,
-exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao
-sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente
-innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de
-riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a
-rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante
-retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O
-Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido:
-
---Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças,
-seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as
-calças, e não se afflija...
-
-O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro
-lhe replicou:
-
---Vá você!
-
-E metteu-se em casa como quem receava contra-replica menos suja e mais
-dura.
-
-
-
-
-III
-
-
-O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimáo, um major de cavallaria,
-convencionado em Evora-monte, miguelista intransigente, mas cordato.
-Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso benedictino. Fr.
-Gervasio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão
-monastica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza.
-Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de
-toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque
-dispunha de dentadura insufficiente. Tinha outro signal ruidoso de
-vida--era um pigarro de catarrhal chronica, arrancado dos gorgomilos com
-tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado,
-no 5.° acto de um drama de costumes. A velha creada da cozinha, muito
-flatulenta, nunca pudéra affazer-se ás explosões d'aquella garganta
-escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido asperrimo de pavão lhe
-feria os ouvidos, reboando nos concavos tectos dos salões, a mulher
-estremecia e raras vezes deixava de resmungar:--Que mêdo! credo! diabos
-leve a esgana do home, Deus me perdôe!
-
-De dois em dois mezes appareciam em Barrimáo dous egressos de
-Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de fr. Gervasio.
-Juntavam-se os tres amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com
-intercadencias mudas de poetica tristeza, commemoravam os seus
-conventuaes fallecidos, rezavam juntos pelos seus breviarios
-benedictinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com
-o recolhimento prescripto pela Regra do patriarcha. Ahi, pegava de puxar
-por elles a natureza objectiva, e dava-lhe horas de salutar esquecimento
-do passado irreparavel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos
-engarrafados, traiçoeiros, da companhia, em que fr. Gervasio derretia a
-prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado era farta e a sua
-bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso.
-
-O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como era
-solteiro e quinquagenario, fazia de conta que os bens lhe haviam de
-sobejar á vida, vendendo os allodiaes e empenhando, se necessario
-fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas
-para as miseraveis 1000 libras que o snr. D. Miguel recebia annualmente
-de donativos de monarchas e dos seus partidarios portuguezes.[1]
-Festejava dispendiosamente os natalicios do rei, convidando a jantar os
-realistas notaveis da comarca; e, contando os annos da proscripção, ia
-calculando a patente que lhe competia quando o soberano legitimo se
-restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e
-atrophiados nas aldeias, o general Povoas, o Bernardino, o Magessi, o
-Montalegre, o José Marcellino. Mas as cartas quem lh'as redigia era o
-mano frade, recheando-as de trechos de politica de pulpito--resultado
-das suas digestões morosas, contemplativas--que serviram de ornamento
-nas columnas do _Portugal velho_, periodico miguelista da época.
-
-N'aquelle anno, por meado de 1845, espalhára-se no ambiente dos
-realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o
-snr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anceio
-d'aquelles vagos anhelos que estremeciam as nações pagans ao
-visinhar-se o prophetisado apparecimento do Messias. Affirmam-no os
-Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do
-principe proscripto. Fr. Gervasio recebia do alto da provincia cartas
-mysteriosas d'uns padres que parochiavam na Povoa de Lanhoso e Vieira.
-Era alli o foco latente do apostolado. N'aquelles estabulos de
-ignorancia supersticiosa é que devia apparecer, pelos modos, o presepio
-do novo redemptor. Citavam-se prophecias apocalypticas de frades que
-estavam inteiros sob as lages das claustras. Convergiam áquelle ponto
-missionarios de aspectos seraphicos, olhando para as estrellas como os
-magos e os pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmão e
-dizia-lhe: «Elle ha coisa...»
-
---Mas muito grande!--corroborava o major com cabeçadas affirmativas
-muito exageradas.
-
---A Russia move-se, é o que é--affirmou fr. Gervasio, correlacionando
-a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocratica da Russia.
-
-Em um d'estes dialogos, em que havia desabafos, exuberancias de jubilo,
-interveio o Zeferino das Lamellas, o pedreiro afilhado do major. Vinha
-contar o caso do Simeão de Prazins e a péga que teve com os cães do
-Dias de Villalva. Mostrava a calça remendada--que por pouco lhe não
-entravam no coiro os cães--dizia, e protestava vingar-se. O egresso
-pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais o estudante; que se
-fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defeza do
-throno e do altar. E o major:
-
---Estamos chegados a ellas, Zeferino.
-
-E o pedreiro, esfregando as mãos coreaceas, que ringiam como duas lixas
-friccionadas:
-
---A elles, snr. padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedil-a ao
-velho!
-
-O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamellas, tinha sido alferes do 17 de
-linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberaes do concelho por
-pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido
-alguns mezes. Sequestraram-lhe os bens; e o filho que já era muito
-barbado e não tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, applacadas
-as furias dos vencedores e restabelecida a justiça, restituiram ao
-Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes sahiu do seu esconderijo, e
-recolheu-se a casa com a espada muito cheia de verdete, dizendo que
-havia de laval-a no sangue dos malhados. Em 1838, dia de natal,
-embebedou-se despropositadamente e sahiu para a rua a dar vivas ao snr.
-D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e affectos ás velhas
-instituições, responderam aos vivas com um enthusiasmo homicida. O
-Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a niza de saragoça,
-poz a barretina com os amarellos muito oxidados, e, á frente d'um grupo
-de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça do concelho afim de
-offerecer batalha campal ás auctoridades. Além da espada do caudilho,
-havia na jolda tres espingardas reiunas; o restante eram foices de
-gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma
-lamina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já engrossada
-por outros bebedos encontrados nas tavernas do transito, chegou â porta
-do morgado de Barrimáo, e a clamorosos brados elegeram-o general. Já
-se ouvia tocar a rebate em diversas torres, á discrição dos garotos
-destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que
-recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O
-egresso veio a uma janella que abria sobre o atrio, e tentou
-dissuadil-os do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de
-patriotismo--dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes,
-faminto de vingança, bradava que estivera quinze mezes escondido, que
-lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas aos Trêpas e aos
-Andrades de Santo Thyrso, uns malhados, cujas cabeças havia de deixar
-espetadas em pinheiros.
-
-Na villa ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incendio. Alguns
-vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção ás freguezias
-d'onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Villalva, o pai do
-José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte á
-auctoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Thyrso, já se ouvia
-alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos
-prolongados que punham eccos nas margens tortuosas do rio Ave. Os
-liberaes de Santo Thyrso rodearam o administrador, armados, com os seus
-criados. Os negociantes com medo de saque tambem sahiram de clavinas. As
-familias nas janellas faziam clamores, n'uma grande desolação.
-N'aquella villa lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto,
-e havia velhos que presencearam outra semelhante no tempo dos francezes.
-O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o
-morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o
-morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é
-porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas,
-enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios,
-os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam
-militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta.
-Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja
-vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a
-mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á
-descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero
-humano:--uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não
-preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito
-communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar
-e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca,
-pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe _vivas_.
-Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade
-compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á
-volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela
-allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros
-o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez
-de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de
-fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e
-uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por
-causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de
-campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida,
-casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia,
-presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto,
-e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre
-Casimiro, o _General Defensor das cinco chagas_.
-
-Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os
-relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na
-vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo
-Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras
-alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos.
-
-A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além,
-ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito
-caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse
-em se metter á ponte.
-
---Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem
-tem de largar os sócos a fugir--avisava, porque sabia que os de lá
-eram _têzos_, e vinham todos armados.
-
-O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a
-ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns
-facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas
-da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos
-de aguardente.--Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da
-ponto abaixo!--protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com
-as cronhas no balcão.
-
-Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes
-atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o
-n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia,
-olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado
-pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada
-nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o
-snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe.
-
---Que não estava; eu sou o chefe--disse o Gaspar.
-
---Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á
-frente d'este bom povo enganado--ponderou a auctoridade.--E vocemecê
-quem é?--perguntou ao chefe.
-
---Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que
-perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o
-perseguiram e lhe roubaram os seus bens.
-
-O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era
-discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco
-medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões.
-Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que
-ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta
-verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de
-suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio,
-trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma
-bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote
-acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um
-palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se _aos seus
-apriscos_, á honrada labutação _dos seus mesteres_, e a não
-perturbarem com _demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima
-inviolabilidade das instituições_. Quando o funccionario fechou a
-parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente
-comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu
-ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!»
-
-A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as
-costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os
-liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com
-um sonoro estrondo de marcha cadenciada.
-
-Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e
-Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.
-
-Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos,
-tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do
-rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia
-levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela
-retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das
-mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se
-espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com
-baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de
-1834--um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias.
-
-Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e
-solemne dos de Santo Thyrso,--é agora, rapazes!--exclamaram,
-desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as
-suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente
-esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da
-primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam
-gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu
-homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a
-voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que
-sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas.
-
-Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que
-fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos
-de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem
-cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio
-dos pinhaes e carvalheiras.
-
-O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e
-lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais
-feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um
-pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte
-Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que
-o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia
-ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém,
-quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do
-monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus
-homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do
-ex-sargento Lopes--uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da
-collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O
-dia de juizo!
-
-O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia
-esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a
-espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e
-provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por
-perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no
-lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó
-rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais
-velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram
-desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a
-instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de
-saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas,
-aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de
-dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo.
-
---Ó alma do diabo!--dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a arma
-com zagalotes para lhe atirar.--Vou matar aquelle pato bravo!
-
-E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:
-
---Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os
-cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer
-afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle
-tem á espada! Aquillo é que é!
-
-A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se
-derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave
-espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se
-apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes
-d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e,
-vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das
-Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada,
-bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!»
-
-Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido.
-
-Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D.
-Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em
-impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a
-lamina da espada nos ossos dos malhados.
-
-Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a
-banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os
-olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua
-sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o
-esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no
-punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na
-resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se
-môva--como dizia o frade de Barrimáo.
-
-
-[Nota de rodapé 1: Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855
-recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a
-esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho
-que a pag. 254-255 dos seus _Apontamentos para a Historia
-contemporanea_, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte
-periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem
-de Lisboa da _commissão alimenticia_, 1.000 francos mensaes que com
-toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que
-annualmente lhe manda o _duque de Modena_ e 6.000 francos do _imperador
-Fernando d'Austria_, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns
-extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a
-400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia
-domestica." _Chegando apenas para a despeza domestica_ de D. Miguel,
-72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um
-dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e
-reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.]
-
-
-
-
-IV
-
-
-Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O
-Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu
-ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel
-estava no seu reino, e--o que mais era--muito perto d'alli. Que não se
-podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo
-entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S.
-Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada
-ultimamente pelo monarcha legitimo--explicava. O major Bezerra era
-commendador da ordem e conhecia a cifra:--que escrevesse francamente. E,
-desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o
-filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a
-impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do
-segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai:
-
---Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda...
-
-O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e
-convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se
-contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso
-pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago
-desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho,
-muita aguardente, e desatou a berrar o _Rei-chegou_.
-
-O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração
-realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se
-estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e
-de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou:
-
---Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!
-
-Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino.
-Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de
-esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava
-apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas
-encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão
-ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de
-si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o
-perdeu de vista, murmurou:--Valha-te o diabo, banaboia!
-
-O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de
-Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do
-fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre
-Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe
-noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro
-contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo
-quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal
-empregado!--que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás
-caldas de Vizella á bomba quente.
-
-Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe
-confidencias:--que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia
-ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a
-acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até
-Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a
-patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as
-mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da
-algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e
-sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,--que o
-mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro
-annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol
-quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do
-Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam
-dinheiro, O fidalgo recusou:--que não estava auctorisado a receber
-donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do
-Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora
-infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
-
-A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita.
-Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S.
-Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos
-Antonio de Faria Rebello.[2] Que pouquissimas pessoas o tinham visto,
-porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando
-entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do
-antigo exercito carlista, outros de Inglaterra.
-
-Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major
-Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não
-confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas
-e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que
-accrescentou:--e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o
-Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes
-tu?--rematou o morgado--aqui anda marosca. O que tratam é de se
-abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo
-Christovão é um asno chapado.
-
---Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino--aconselhou o egresso--que digam
-alguma coisa.
-
-Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar
-alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava
-devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não
-estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu
-throno usurpado.
-
---Deixa-te de asneiras, Zeferino--dizia o fidalgo ao afilhado com as
-cartas na mão--el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado
-pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem
-caia com uma de X para o alevantamento que é uma comedella.
-
-O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel
-estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de
-troquilha de burros em feira:
-
---Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente
-coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda.
-
---O Cerveira Lobo! olha que borrachão!--disse o frade.
-
---Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle--accrescentou o
-morgado.
-
---Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle--objectou o
-pedreiro.--Ouvi-lh'o eu.
-
---Não duvido...--explicou o frade--que o snr. D. Miguel gostava de
-grandes patifes...
-
-O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão
-certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão
-em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que
-só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo
-retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois
-que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de
-Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de
-Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera
-a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras
-graças a diversos clerigos e leigos.
-
---Que te parece isto?--perguntou o morgado ao frade.
-
---Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas,
-se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e
-que me perdôe sua magestade fidelissima...
-
-Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um
-collaborador da _Nação_. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel
-em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma
-agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella...
-
---Quer dizer--reflexionou o frade--que o tal impostor é um Baptista, o
-precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o
-simulacro ... que palpem,--e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o
-umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar á volta do outro. Que o
-que fosse soaria, e não cahisse o mano Zeferino na estulticia de se
-comprometter sem que os generaes portuguezes sahissem á rua.
-
-Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de
-pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma
-dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o
-Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido
-illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem
-sahira das minas da casa-solar em Vermuim.
-
-Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á
-distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de
-bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre
-o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral
-quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com
-alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da
-Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de
-Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se
-arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada
-uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella
-hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para
-as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um
-desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o
-reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das
-miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se
-namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de
-roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus
-desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido
-açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no
-Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando
-entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos
-formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham
-terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver
-abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito
-importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle,
-colerico:--que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de
-casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E,
-apontando-lhe para os cinco filhos:
-
---Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem
-nojo!--Tinha estas equidades em jejum.
-
-E ella:
-
---Mais nojo me fazem as borracheiras de você!
-
-E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava
-alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e
-perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles
-pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo
-estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á
-garrafeira.
-
-D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para
-o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma
-elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca
-muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e
-estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que
-aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle.
-Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de
-Loulé.
-
-Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado
-pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na
-janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da
-sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e
-dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o
-saudavam;--Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!--Tenha v. s.ª muito boas
-tardes, snr. morgado!--E elle, almofaçando as barbas conspurcadas de
-vomito:--Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; que tal é a anca?
-Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os quadris, o grande
-coldre!--As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo,
-porque eram suas caseiras; mas commentavam:--Que levasse o diabo o
-piteireiro do fidalgo!--que a fidalga fizera bem era se pisgar com o
-doutor dos Pombaes.--Quer não--contrariava uma lavradeira idosa--foi
-má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! uma desgraça!
-Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as
-meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao confêsso nem sabem
-a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se enfeitava para o
-estudante das Quintans que andava por lá feito caçador, e que o
-morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se
-dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que desgraça, ó
-môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha tempos na
-taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais
-á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com as mãos! Ao
-que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era
-rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas
-fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um
-respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos
-governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó
-senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o!
-E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a
-beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas
-lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava
-sempre cheia de frades das ordens ricas...
-
---Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de
-frades de ordens ricas--dizia o José Dias de Villalva.--Muito cheias de
-frades aquellas fidalgas, hein?
-
---Ahi vens tu com as tuas alicantinas--retrucava, pronostica e solemne,
-a tia Rosa de Carude.--É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é
-melhor que então, pois não foste? As fidalgas d'hoje em dia
-presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... Isto agora é
-que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus,
-as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e creavam os
-seus filhos.
-
---Os filhos dos frades?--perguntava o Dias.
-
---Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! Ainda
-bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo.
-
-
-A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a
-opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude,
-toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé,
-que mettia em casa--uma diversão á embriaguez, quando não exercia as
-duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata
-visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos
-Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com
-ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se
-por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao
-irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada
-amiga.
-
-Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos
-Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante,
-quando alguns membros da sociedade dos _Divodignos_ padeceram o
-supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em
-38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus
-em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam
-arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem
-fazia prosa na _Gazeta litteraria_ do Porto,--scenas dramaticas em que
-se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos
-negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando
-os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E
-depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de
-gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.
-
-A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra,
-d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez
-eburnea, esmaecida, _airs évaporés_, um sorriso nobre de ironia
-rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza,
-ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo
-de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a
-libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da
-educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na
-presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e
-tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os
-meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr
-sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de
-dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição,
-trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora
-do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de
-socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por
-isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que
-lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora.
-Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera
-ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias
-lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle
-flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria
-de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel
-e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos,
-roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não
-tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;--que, se não fosse
-isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em
-se matar, mas...
-
---Os filhinhos...--atalhou Adolpho sentimentalmente.
-
---Não, snr.--acudiu a dama de Carlota Joaquina--não são os filhos. O
-coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o
-amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento,
-aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde
-que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não
-peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a
-differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e
-em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam
-não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas
-tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d
-este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são
-d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida--a
-aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.
-
-Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler
-achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da
-Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos.
-
---Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!--dizia Adolpho á
-irmã.--Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco
-annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no
-Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me
-penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade,
-nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um
-coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio
-devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a
-existencia?
-
-Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse
-garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a
-poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça
-dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães.
-
-D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a
-separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O
-bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua
-alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.
-
---Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella,
-requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada
-ao casal.--Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como
-se, depois de declamar uma _Contemplação_ de Lamartine, tivesse de
-recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse.
-
-D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de
-Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras,
-pondo sempre no alto do papel: _Jesus, Maria, José_. Andava nos trinta
-a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne.
-O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella
-applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua
-affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura
-de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára
-para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a
-e dirigil-a na separação do marido por justiça.
-
-O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a
-questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres
-e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era
-córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da
-mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia
-a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca--e conhecia
-até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios
-de religião, estragado por essas nações.
-
-D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava
-começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande
-esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de
-mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão
-luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da
-mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de
-litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai!
-Pariz!--exclamava--Se eu então me passaria pela mente que havia de vir
-de Pariz para Amarante!
-
-
---Elle porta-se muito serio--dizia D. Andreza ao padre Rocha. Ella é
-que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?
-
---Acho, acho...--confirmava o capellão.--D'aqui rebenta coisa, minha
-senhora; rebenta, v. ex.ª verá...
-
-E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O
-delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira
-de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias
-escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia
-a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a
-encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se
-por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta
-casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No
-andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço
-amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas
-baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na
-fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do
-sol nascente.
-
-Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite,
-partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e
-pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de
-senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo,
-com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de
-Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois
-arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.
-
-
-[Nota de rodapé 2: Como seria de máo gosto inventar este episodio,
-imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas
-por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim
-Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido,
-com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa
-contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo--D. Miguel, as
-revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a
-confiança.
-
-Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão
-celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se
-chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da
-Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria,
-preparando as suas _Memorias_, que devem esclarecer as obscuridades
-originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos
-trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a
-face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: _Eu
-apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor
-occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe
-perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se
-deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo
-de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a
-ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o
-mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso
-accrescentar_...[3]]
-
-[Nota de rodapé 3: Carta de 11 de novembro de 1882.]
-
-
-
-
-V
-
-
-Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em
-roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado
-sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro--um
-desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes
-hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a
-depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta
-annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas
-grisalhas,--olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As
-filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella
-Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o
-minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas,
-tinham amantes--uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange
-Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães.
-Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai
-não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não
-eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de
-alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes
-amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque
-de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos,
-possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com
-senhoras--canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam,
-nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de
-matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava.
-Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era
-das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais
-nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe,
-chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego
-desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham
-mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como
-quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para
-recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas
-momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher.
-
-Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além
-dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de
-Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que
-lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas.
-Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira.
-Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;--que bebesse, que
-se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com
-vaidade de fino:
-
---A quem elle o vem dizer!
-
-Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel--«o meu velho
-amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto.
-
---Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de
-Chaves:--Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos
-marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um
-quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco
-sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era
-d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe
-tinha medo quando elle fazia aquellas partes.
-
---O vinho do Porto é o diabo!--dizia o alferes com uma grande
-experiencia d'essas façanhas incruentas--é o diabo!
-
-O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera
-em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir
-para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei.
-As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de
-uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos
-verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos
-ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava
-fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de
-soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial
-interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda.
-Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a
-Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á
-paizana.
-
-Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu
-padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei
-estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e
-dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os
-generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada.
-
-O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho
-amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar.
-
-Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão
-d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar.
-Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e
-dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que
-participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco
-da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões.
-
---Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um
-prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste?
-Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho
-cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não,
-trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.
-
-Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho
-nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana.
-
-
-O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:--Idéas não
-me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se
-escreve, quero dizer...
-
---Ortographia?
-
---É como diz, padre Rocha, ortographia.
-
-Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava
-no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não
-se mettia n'isso; e accrescentava:--elle, o rei, aqui ha treze annos
-sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle
-estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe
-escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão
-no hombro:--E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia,
-S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim,
-pense lá... Nós cá estamos ás ordens.
-
-O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e
-honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do
-seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira.
-Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua,
-julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;--por fim
-convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns
-disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e
-as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em
-que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal,
-elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o
-proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos
-d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse
-tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e
-tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos.
-
-A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta
-foi que escrevesse:--«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o
-que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás
-ordens del-rei meu senhor.»
-
-O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a
-D. Andreza,--porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio da
-esparrela que querem armar ao parvo do homem.»
-
-
-A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios,
-explicações. Que estava uma obra profunda--dizia o fidalgo instruido
-em fim nas obscuresas do estylo.
-
-E, tirando seis pintos do bolso do colete:
-
---Ahi tem para o seu rapé, merece-os.
-
-O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás
-necessidades do snr. D. Miguel.
-
---É um realista ás direitas, padre, um grande realista!--E, guardando
-os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um calice de
-1817.
-
---Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade--dizia o padre
-Rocha.
-
---Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não
-ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai
-commigo, e póde logo vir despachado. Pois então?
-
---Está dito!--e o padre com um regosijo muito comico, e o calice
-aromatico de baixo do nariz:--Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó
-snr. tenente-coronel!
-
---Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não tenha
-duvida. Isto vai tudo mudar!--E carregava-lhe forte no 1817.--Arre!
-estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que me tem levado os
-diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com a espada! Ha-de
-haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás vezes ao meu amigo
-D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel Alcaide davam cacetada
-nos malhados que aquillo não era bonito. Pois agora, padre Rocha,
-hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! môcada de metter os
-tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles por uma vez! uma
-forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! meu camarada
-Telles Jordão! tu é que a sabias toda!»
-
-O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O
-padre despediu-se.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma
-sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras,
-macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril.
-Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de
-Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das
-crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito
-excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o
-pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no
-outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios,
-esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias--o retrato de D.
-João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal
-sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando
-parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os
-expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de
-antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a
-oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta,
-de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio _en bon point_, um
-bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma
-bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra
-estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de
-chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao
-lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria
-amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com
-brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas
-janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava
-estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem
-vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres
-brancos muito inchados e as azas abertas.
-
-Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na
-couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros
-largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro,
-um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos.
-Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu
-na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e
-um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças,
-e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a
-mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de
-communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa,
-meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar,
-fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:
-
---Vossa magestade passou bem?
-
---Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.
-
---Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas
-para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou
-dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás
-nove e meia.
-
---Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu essas
-ordens e quem manda aqui é elle.
-
-Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua
-magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A
-creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de
-prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de
-sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um
-grande tinteiro de chumbo com pennas de pato.
-
---Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, real
-senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a...
-
-E o real senhor:
-
---Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer
-homem.
-
---Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
-
-Ella descobriu a travessa a rir-se:
-
---Vossa magestade diz que gosta...
-
---Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a
-dizer--comei-me.
-
-E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
-
-Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava
-muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que
-no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão
-branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos
-sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha
-de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O
-terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto,
-porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a
-cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre
-o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede
-um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do
-Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos--capellão-mór
-d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
-
-A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia
-particularmente ao abbade:--Este senhor, pelo que come, parece que tem
-passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha
-n'aquelle bandulho!--e dizia que lhe dava vontade de chorar,
-lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade
-contava que lêra no _Deus o quer_, do visconde de Arlincourt, que o
-snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para
-almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade
-aquillo--que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a
-fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos
-sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que
-elle rejeitara.
-
-Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S.
-magestade barrava-as de manteiga nacional,--preferia a manteiga do seu
-paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé
-do porco nas tripas tambem portuguezas--tudo do seu paiz. Que rei, que
-patriota!--meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra,
-esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.
-
-No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de
-contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na
-cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de
-fumo que se espiralavam até ao tecto.
-
-A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
-
---Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
-
---O...?
-
---Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
-
---Que suba.
-
-O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito
-realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
-
-A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:--Ó coisa! Mal
-diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
-
-E a outra, benzendo-se:--Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja
-você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros,
-e por signal que nunca m'os pagou!
-
---Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o
-que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem!
-Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho
-d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está
-conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no
-domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.
-
---E que rico panno!
-
---Pois vês-ahi...
-
-Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento--que levasse o
-diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas d'aquellas,
-para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira
-da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E elle?--perguntava--almoçou bem?
-
---Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal
-d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu
-agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na
-villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham
-p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta
-pergunta á moça traz agua no bico.
-
---E tu que respondeste, moça?
-
---Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de
-confesso...
-
---Andaste bem.
-
-Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da
-escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva--um, aprumado
-na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto.
-
---Pede licença na sua casa, dom Prior?--disse el-rei.
-
-O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano
-apressou-se a erguel-o.
-
-Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes.
-
---Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor!
-
---Póde e deve que o mando eu.
-
-E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina:
-
---Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a
-quem vossa real magestade fez barão de Bouro...
-
---Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro...
-
---Perfeito cavalheiro--attestou o Nunes.
-
---Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa
-magestade.
-
-El-rei leu alto:
-
-
-_Amigo Dom Prior de Guimarães.--Um realista do concelho de Famalicão
-chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e
-velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como
-portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e
-tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que
-o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso
-entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e
-senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util,
-já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S.
-M. F., queira transmittir-m'as_...
-
-
---Estou-me recordando--dizia o principe pausando as suas
-reminiscencias--_Cerveira Lobo_ ... _tenente-coronel de dragões_... O
-Cerveira, o meu amigo Cerveira...
-
---Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os
-liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o
-Albuquerque--lembrou o Nunes, o visconde Nunes--V. magestade lembra-se?
-
---Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que
-espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira.
-
-Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido
-do outro:
-
---Isto corre mal...
-
---Porque?!
-
---Se o homem cá vem, o meu _grande amigo_...
-
---Recebel-o como o teu _grande amigo_...
-
---Se me falla em particularidades ...
-
---Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e
-disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre
-bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas
-correm perfeitamente.--Ouviam-se os passos do abbade.--Tem dinheiro,
-elle tem muito dinheiro, ouviste?
-
-Entrou o abbade.
-
---Só duas palavras. E leu: _S. Magestade recebe com muito prazer a
-carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo_.
-
---Muito bem,--approvou el-rei.--Hoje á noite, com todos os resguardos
-que urgem as cautelas.
-
---Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma carta--annunciou
-Senhorinha--só a entrega em mão propria ao snr. abbade.
-
---Que entrasse.
-
-O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios.
-
-Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a
-honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas,
-de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus
-haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor.
-
-E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda
-escarlate. E o Caneta muito pontual.
-
---Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade.
-
---Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo.
-
-Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham
-ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi
-apalpar o embrulho, e muito baixinho:
-
---Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês?
-
-O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi
-possivel. Nem parecia um rei!
-
-
-
-
-VII
-
-
-As sete da noite a soirée do monarcha de Calvos compunha-se do visconde
-Nunes, seu secretario privado e brigadeiro de infanteria, do abbade
-capellão-mór de el-rei, de dois reitores, conegos despachados, e o
-ex-sargento-mór de Rio Caldo nomeado capitão-mór de Lanhoso. Estavam
-todos em pé resistindo á licença de se sentarem. A cadeira de sola
-estava com o principe encostada ao relogio; e, na mesa central, papeis,
-o tinteiro de chumbo, o _Novo Principe_, de Gama e Castro, a _Besta
-esfolada_ e o _Punhal dos corcundas_, do bispo fr. Fortunato. Em cima
-das caixas do milho estavam em meio alqueire com feijões brancos
-destinados ás tripas, e dois folles vasios que a Senhorinha tencionava
-encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos
-folles resbunava um gato enroscado.
-
-Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.
-
-Ás oito horas annunciaram-se os adventicios. O barão de Bouro entrou
-primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto n'uma
-gravata enchumaçada, preta, de cordãosinho de arame, sem laço,
-atacando os lobulos das orelhas, um pouco reintrante na altura dos
-gorgomilos. Usava oculos de oiro quadrados, e uma pêra grisalha; de
-resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de
-abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; de cós das
-calças, côr de gemma de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha
-com o retrato de D. Miguel aos vinte e dous annos, a uma peça de oiro
-com a mesma real effigie. No peito da camisa, entre as lapellas do
-collete de velludo côr de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado,
-em miniatura, enygma convencional dos cavalleiros de S. Miguel da Ala,
-obra patriota do ourives Novaes, pai do poeta Faustino.
-
-De pés elle, entrou o Zeferino das Lamellas, muito enfiado, n'um
-spasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de niza de panno azul com
-botões amarellos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos
-do alhardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das
-botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante.
-
-O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco á mão esquiva de sua
-magestade. Por de traz d'elle, o Zeferino ajoelhára batendo com ambas
-as rotulas no taboado. O barão ia fallar, quando o rei, reparando no
-outro, disse:
-
---Levante-se, homem! Isto aqui não é capella.
-
-O pedreiro teimava, achava-se bem n'aquella postura que o dispensava de
-procurar outra.
-
---Sua magestade manda-o levantar--disse o visconde Nunes.
-
-Ergueu-se, e n'um impeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira,
-quando o capellão-mór lhe observou que as cartas se entregavam ao
-secretario.
-
-O barão expoz que não pudéra resistir aos pedidos que aquelle honrado
-legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a
-entrar sósinho á presença d'el-rei, seu amo. Que era filho de um
-bravo alferes, o Gaspar das Lamellas, que em 1838, á frente de 300
-homens, atacára a villa de Santo Thyrso, dando vivas a el-rei. Contou a
-façanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes,
-e que por causa d'isso entrévecera e nunca mais se levantou.
-
---Oh!--interjecionou compungidamente o monarcha.--Eu ignorava esse
-notavel ataque ... estava em Roma, sem noticias... Digno homem o meu
-honrado e bravo ... como se chama seu pai?
-
---Saberá vossa magestade que se chama Gaspar Ferreira.
-
-E o rei:
-
---Visconde, escreva na lista.
-
-O Nunes sentou-se á mesa, pedindo venia a sua magestade que ditou:
-
---_Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infanteria, com vencimento
-desde 1838_. Escreva á margem: _Batalha de Santo Thyrso_. E voltando-se
-para Zeferino que ladeava para a parede:
-
---Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá
-soldo dos sete annos passados.
-
-O Zeferino abriu a bôca para dizer o que quer que fosse.
-
---A carta do meu velho amigo Teixeira?--perguntou o rei ao visconde
-Nunes.
-
---_Cerveira_, perdôe vossa magestade, Cerveira Lobo.
-
---Ah! sim ... Cerveira Lobo.
-
-Abriu, leu para si, passou a carta ao secretario, e commentando
-exultante:
-
---Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens
-assim dedicados, o triumpho é certo. Posso dizer com o grande vate
-Camões:
-
-
- _E dir-me-heis qual é mais excellente
- Se ser do mundo rei, se de tal gente._
-
-
-Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas,
-olhou com espanto para o outro, que lhe disse á puridade,
-discretamente:
-
---Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim!
-
-El-rei proseguiu:
-
---Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno
-d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista:
-_Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros_.
-Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso,
-sentou-se a escrever--e que conversassem.
-
-O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro
-e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas.
-
-Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas,
-muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa.
-Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava
-passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da
-altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto,
-troncos de giestas como a sua coxa--e mostrava--; tinha apanhado de
-raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava
-pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira
-sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na
-clareira; e mal elle apontou, _pumba_! metteu-lhe tres zagalotes no
-quadril.
-
---A gente a fallar incommóda talvez el-rei...--observou o barão de
-Bouro.
-
---Podem conversar á vontade, que não me incommodam.
-
---Aquillo é que é cabeça!--disse baixinho, tocado, um dos conegos a
-outro conego.
-
-Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos,
-com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de
-olhos.--A virar! a virar!--Carminavam-se os conegos. O dom Prior de
-Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois
-_padres Marcos_, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S.
-Gens de Calvos, dizia do outro:
-
---Forte bebedo!
-
-O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e emquanto os padres n'um
-crescendo palavroso, expluiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o
-secretario privado curvou-se sobre o hombro de el-rei e segredou-lhe:
-
---Carrega-lhe!
-
---Ora!...
-
---Quanto?
-
---2.
-
---3. Anda-me. 3.
-
---Será muito!...
-
---Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.
-
-E, em voz alta e voltado para o grupo:
-
---El-rei pergunta se o snr. Conde de Quadros tem familia, se tem senhora
-e filhos.
-
-O Bezerra perguntou ao Zeferino.
-
---Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o
-fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada;
-mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido
-com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára.
-
---Desgraças!--disse o capelão-mór--desgraças! A corrupção dos
-tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se
-lhe ha-de dar.
-
-Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto.
-
-O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os
-periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e
-muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a
-idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria
-mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes.
-
-Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes.
-Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha,
-cuidadosamente recortada.
-
-O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em
-quatro a folha do almaço e sobrescriptou--_Ao conde de Quadros, general
-do Exercito real_.
-
-N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes,
-fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua
-magestade.»
-
---Eu vou fallar a el-rei--disse Nunes com satisfatoria condescendencia.
-
-Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco
-inclinado, e fallou-lhe baixo.
-
---Sim--respondeu o monarcha.
-
---Está servido, snr. barão--communicou o secretario, e foi registar no
-livro das mercês, proferindo em voz alta: _Sua magestade há por bem
-nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em attenção aos
-serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira_.
-
---Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór--disse o barão de Bouro ao
-pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.
-
---Levante-se, amigo--disse o principe.--Aqui tem a resposta da carta do
-meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este
-sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é
-dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com
-outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo
-pessoalmente. Adeus.
-
-A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não
-voltarem as costas á magestade.
-
-A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a
-cela prompta, e que o frango com arroz não esperava--que era preciso
-comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre
-com el-rei e com o abbade.
-
-O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir
-pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de
-romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao
-outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde
-entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma
-congestão de jubilo.
-
-O Cerveira estava a dormir a sesta.
-
---Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!--informou um
-caseiro.--Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os
-coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada
-e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança,
-dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a
-breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como
-um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como
-puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez
-por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é
-muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos
-pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá
-como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de
-perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de
-renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os
-pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem
-amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O
-homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe
-ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até
-elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e
-aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião.
-Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco
-réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o
-estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o
-serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas
-fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por
-esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem
-paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha,
-mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me
-parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé
-em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus
-nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que
-isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco
-que aturar a seu pai que tambem as agarra muito _profeitas_! Olhe você
-como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso!
-Aquillo só com meio almude no bucho!
-
---Não é tanto assim--atalhou o sargento-mór de Lamellas.--Não lhe
-digo que meu pai não tivesse algum graieiro na aza; mas o que elle fez
-não era você capaz de o fazer, tio Manoel.
-
---Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me
-emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se
-algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a
-dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus
-quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual
-Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso
-de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era
-tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a
-trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta
-das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par de _mel_ cruzados,
-ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava
-quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou
-não é?
-
---Isso acabou--respondeu com desdem, irritado.--Agora não a queria nem
-que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu digo, tio
-Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas brevemente
-o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir.
-
---Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem
-capazorio, honrado...
-
---Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir
-uma janella--lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir.
-
-E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo:
-
---Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa
-com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!...
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua
-intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o
-sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e
-lia: _Ao conde de Quadros, general da exercito real_.--Isto que diabo
-é?
-
---É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos
-escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez.
-O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das
-Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi
-despachado coronel por el-rei.
-
---O teu pai?! coronel!...
-
---É como diz.
-
---Ora essa! ... coronel! caramba!--disse despeitado; parecia-lhe iniqua
-a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos analogos d'el-rei;
-as injustiças d'algumas patentes superiores desde 1828 até á
-convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo. Parecia que a sua
-razão immergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo
-acima, queria duvidar da authenticidade de um D. Miguel que fazia
-sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes que passára das
-milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e plausivel em si
-as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as mercês feitas
-aos dous plebeus... Caramba!--Uma intermittencia de juizo. Emfim, abrira
-a carta e lêra para si com uma custosa interpretação, ora
-aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.
-
-A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada,
-illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do
-convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel
-authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito
-bem; era assim; e então a assignatura--_Miguel, Rei_--era tal qual.
-Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela mudança
-subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a
-carta.
-
-O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da
-nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que
-lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não
-estava assaz bebedo para confidencias.--Conta lá o que te aconteceu,
-Zeferino--e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda.
-
-O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do
-rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando
-ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu,
-peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo
-Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros
-tinha filhos.
-
-O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua
-assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo
-phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse
-na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não
-havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo
-D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o
-plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a
-intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer
-recebera a sua carta.
-
---Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do
-snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o--esclareceu Zeferino.
-
---Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo.
-
---Prompto, senhor.
-
---Mas, se vais para casa, passa pelos Pombaes e dá parte ao padre Rocha
-que preciso fallar-lhe hoje á noite ou ámanhã cêdo.
-
-
-O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes civicos do
-tenente-coronel. Repugnava-lhe o ebrio e professava uma sincera
-compaixão pelo homem.
-
-Pouco depois do sol nado, o capellão de D. Andreza estava em Quadros
-com um grande interesse. Queria salvar o visinho d'uma ratoeira armada
-ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o principe proscripto
-estava no concelho da Povoa de Lanhoso.
-
-Chegára um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho
-copiosamente, um bicho muito antigo, invulneravel, que não se afogava
-em pouca genebra.
-
---Não ha duvida, padre Rocha! Cá está o homem!--exclamou o fidalgo.
-
---Máo!--disse comsigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as
-inhalações alcoolicas do bafo.--Então é certo, snr. tenente-coronel?
-
---Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general a
-conde. Veja.
-
---Oh! sim? muitos parabens, snr. conde, muitos parabens! Quanto
-folgo!--e lia o sobrescripto.
-
---Póde abrir e leia alto.
-
---Muito boa fórma de lettra, sim senhor... É do proprio punho do snr.
-D. Miguel?
-
---Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal
-qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?--perguntava com a botija
-inclinada sobre o calice.
-
---Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza
-ás dez horas.
-
---Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito
-soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta
-escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz a _Nação_ que elle andava a
-estudar lá por fóra.
-
---Se dá licença, leio--interrompeu o padre com impaciencia curiosa.
-
---Vá lá!--e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão.
-
-
-_Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e
-general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não
-podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o
-li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta._
-
-
---Hein?--interrompeu o Cerveira.
-
---Muito bem--e proseguiu lendo:
-
-
-_Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque
-não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me
-acompanhou nas alegrias da minha mocidade._
-
-
---Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas
-rasgadas quando éramos rapazes?
-
---Sim, snr., v. ex.ª tinha-m'o dito.
-
---Ora ahi tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas!--e recordava-se com
-os olhos n'um spasmo entre a saudade e as iniciativas da borracheira.
-
---Continúo, se v. ex.ª permitte.
-
---Ande lá... Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo!--disse com
-tristeza, muito abatido. Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia
-ancias de abraçal-o, e dizer-lhe: «Regenere-se!»
-
---Ande lá. Leia, que o melhor está p'ra baixo.
-
-
-_Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui
-para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a
-resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem,
-emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas
-negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em
-Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome.
-Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter
-sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás
-deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos
-abraçar e chamar para meu lado._
-
-
-O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lagrimas que
-destacavam no rubor da epiderme.
-
---Então que é isso? São lagrimas de alegria?--perguntou o padre.--Se
-são, deixe-as correr.
-
---Qual alegria! estou velho... Já não posso fazer nada a favor
-d'el-rei... Este pulso...--e retezava o braço. O padre
-assustava-se.--Ora leia para baixo, que está ahi uma passagem muito
-bonita.
-
-
-_Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel
-dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da
-carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras
-sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame
-general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram
-acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento
-de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia
-geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro
-de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição._
-
-
---Foi assim!--exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O Saldanha era
-meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar á sua
-presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu
-(batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre, eu, aqui onde
-me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as profundas dos
-infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D. Miguel I e que
-elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos; e o
-patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos,
-quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me _estupido_. E eu, vai não
-vai, estive a mandal-o...
-
-Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a
-leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.
-
---Ande lá.
-
-
-_Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não
-foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos
-como vós, bem poucos, mas que valem um reino._
-
-
---Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha.
-
-Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que
-o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era
-qualquer pedaço de asno. Continuou:
-
-
-_Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa
-carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos
-dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso
-que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos
-meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta
-de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu
-cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em
-poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente
-de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma
-insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e
-de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar,
-comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os
-opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria._
-
-_Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo;
-mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem
-apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens
-n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a
-tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o
-peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu
-valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna
-tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o
-dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso
-Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de
-maio de 1845._
-
- _Miguel, Rey._
-
-
-Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha.
-Quando o Cerveira lhe perguntou:--que tal? o que dizia elle?--dobrava a
-carta vagarosamente, encolhia os hombros e respondia:--Em fim ... não
-sei...
-
---Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra
-não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou
-não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre?
-
---Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que
-deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza...
-
---De que é o rei que me escreve?
-
---Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo.
-
---O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem
-o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas
-deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como
-elle estar em Calvos.
-
---Bem!--atalhou o Rocha apressado, erguendo-se--quando vai v. exc.ª a
-Calvos?
-
---Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no
-sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou
-beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me
-ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.
-
-O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D.
-Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á
-fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre
-idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á
-mão armada.
-
---Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o
-dinheiro?--reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada.
-
---É o que eu vou saber.
-
-
-
-
-IX
-
-
-N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o
-padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava
-sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés
-turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso
-lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção;
-deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os
-desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia
-muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito
-tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S.
-Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á
-direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas
-provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva
-enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe
-conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o
-principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa--não me
-recordo qual era a mitra.
-
-A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade
-obsequiadora[4]; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios
-politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com
-severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria
-de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores
-illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi
-indecifraveis codices.
-
-Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a
-sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha,
-perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao
-reverendo dono da casa. Foi logo recebido.
-
---Que todas as horas eram livres para receber os amigos.
-
-Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram
-bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro
-realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das
-suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a
-exigir que lhe respondessem a verdade.
-
---Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra
-maneira. Que quer saber, padre Rocha?
-
---Se o snr. D. Miguel está em Portugal.
-
---Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.--E abrindo uma gaveta,
-extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um
-papel que mostrou.--Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel
-de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito.
-Que mais quer saber?
-
---Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.
-
---Bem sei--preveniu o padre Luiz.--Essa mesma pergunta me fez ha dias o
-Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o
-Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o snr. D. Miguel
-está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso. Propalam-o certos
-padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos
-impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se
-não é para alarmar o governo ou lograr incautos...
-
---É isso mesmo: lograr incautos--interrompeu o Rocha e contou o que se
-estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do supposto D.
-Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo tencionava levar no
-proximo sabbado ao impostor.
-
---Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido
-legitimista--alvitrou o paleographo.
-
---Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma
-imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui
-irei para Braga entender-me com o governador civil.
-
---Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave
-á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas
-traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga,
-abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante
-quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está
-escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho
-compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda
-hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha,
-faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo
-d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora,
-visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um
-emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas
-está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As
-patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam
-pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi
-outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal
-podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos
-liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas
-postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve
-dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver
-galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei.
-O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre
-Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para
-nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á
-legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete:
-estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.
-
-
-O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do
-conselheiro João Elias,--uma victima burlesca de troça dos
-setembristas--era o Marques Murta, uma gigantesca actividade phrenetica
-n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da
-perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal, agradavel, com
-uns requintes de delicadeza de bom tom.
-
-O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos
-succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até
-além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira
-Lobo com os tres contos.
-
---Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com os
-tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar
-ás necessidades da monarchia;--opinou o secretario sorridente.
-
-O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já
-não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel
-l.° ou de D, Maria 2.ª.
-
---Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso
-intelligente, habitual.--Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta
-hora ha-de estar na cadeia de Braga.
-
-Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de
-infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por
-um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio
-convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o
-concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma
-qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta
-da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao
-sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do
-arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á
-porta principal, e uns berros formidaveis:
-
---Abra! abra! se não vai dentro a porta!
-
-O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um
-cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas
-espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do
-hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as
-calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada.
-
---Que é?--regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito
-offegante.
-
---Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa
-magestade na adega antes que arrombem a porta.
-
-As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra
-de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A
-Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não
-acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro,
-muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos
-grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua
-Mãe Santissima e a alma da tia _Jacintra do Reimundles_ que estava
-inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real
-hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender;
-enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao
-Bom Jesus do Monte e ao _martyle São Trocatles_, se os livrassem
-d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela
-mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada
-abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por
-duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre
-as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O
-abbade muito afflicto:
-
---Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e
-deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se
-vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!
-
-O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela
-parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam,
-enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as,
-cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de
-ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se
-escancaravam com estridor.
-
-Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente
-os quartos e recantos.
-
---Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o
-_Pilula_ do 8,--queremos o rei e algumas botijas de genebra. A
-garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr.
-D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude.
-
---O snr. está a mangar!--disse o abbade afinando pelo tom da
-chalaça.--Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só
-lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.
-
---Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda
-tambem o az do mesmo naipe.
-
---Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu sargento!--propoz
-o 24.
-
---Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade,
-vamos á genebra, á adega. Mêxa-se.
-
---A genebra está cá em cima--observou o abbade um pouco enfiado.
-
---Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que
-temos pressa. Abra a porta da adega.
-
---Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer--resoluto, com um ar
-ironico de condescendencia, sem receio.--Os senhores tem coisas! Onde
-diabo procuram o snr. D. Miguel!--E descia, pedindo a chave á
-Senhorinha.
-
-A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento:
-
---Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um
-machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!
-
---Não é preciso, camarada--acudiu o abbade.--Aqui está a chave. Eu
-abro. Entrem, procurem á vontade.
-
-O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da
-adega:--Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o
-subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem
-um archote.
-
---Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa--disse o abbade Marcos,
-contrafazendo o seu terror.
-
-E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na
-latrina, seu derradeiro refugio.
-
-A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo
-com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.
-
---Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você
-cá traz, mulher!
-
---É emquanto não péga bem a torcida--explicou a creada caminhando
-atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a
-claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade
-que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os
-nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias.
-
-E o 14:--Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco!
-Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o
-sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na
-sachristia--e dava piparotes na barriga do padre.
-
-O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma
-denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz
-das pipas!
-
---Ha-de ser ratos--conjecturou o abbade, tremulo, engasgado.
-
---Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241--disse o sargento.
-
-Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a
-dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.
-
---Que diabo tem a velha?!--perguntou o Pilula.--Dão-lhe estupores,
-hein?
-
---É flato, costuma-lhe a dar--elucidou o abbade.--O 24 voltára-se a
-vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das pipas. O
-abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito:
-
---Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram
-enganados a minha casa.--E caminhou ara a porta com a luz.
-
---Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me
-esses ratos.
-
-O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram
-por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se
-um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu
-uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.
-
---Oh!--bradou o Pilula!--muito bem apparecido n'esta funcção, snr. D.
-Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de cima um bocado de
-cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra baixo, real senhor!
-
-O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:
-
---Parece o padre eterno, ó meu sargento!
-
---Com quem elle se parece é com o _Remexido_ do Algarve,--affirmava o
-14.
-
---Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do
-governador civil--concluiu o sargento com seriedade imponente.
-
---Este senhor?... não...--disse o abbade com as mãos postas.[5]
-
---Não seja asno!--volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É
-um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua
-laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de
-camisa.
-
---Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu quarto--supplicou o
-abbade.
-
---Sim, que se arranje com guardas á vista.--E acompanhou-os á saleta.
-
-Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um
-gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do
-paletó.
-
-O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa.
-Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:
-
---Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E
-leu alto:
-
-_Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e
-que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente._
-
-E na primeira pagina.
-
-_Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos,
-capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães_. E perguntava ao
-abbade:--Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens!
-
-Em seguida:
-
-_Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado
-d'el-rei._
-
---_Torquato Nunes_! recordava o Pilula.--Eu parece-me que conheço este
-diabo de o vêr em Braga no _Café_ da Açucena na Cruz de Pedra.
-_Nunes_! um pelintra. Onde está o visconde que lhe queria dar um
-cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga--e enrolava os papeis. A
-gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar,
-amigo D. Prior de Guimarães.
-
-Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro,
-com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na
-residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a
-cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o
-abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da
-aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as
-arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela
-mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á
-residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das
-Botelhas de Braga.
-
---Que sim, que levára; pudéra não levar!
-
---Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou
-disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem.
-
---Veja lá se o prendem, visconde--acautelou o abbade.
-
---O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu!
-
-
-[Nota de rodapé 4: O auctor teve relações muito saudosas com este
-venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de
-St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse
-tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e
-haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava
-os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona,
-gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.]
-
-[Nota de rodapé 5: São as textuaes palavras e a attitude do padre,
-significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua
-paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a
-escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo.
-(Informação de _Ferreira de Andrade_).]
-
-
-
-
-X
-
-
-O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de
-manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então
-para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras
-pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de
-azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos
-arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á
-hospedaria dos _Dous amigos_. O Cerveira vestia casaca no trinque muito
-lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao
-pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas
-do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria,
-afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de
-polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes
-rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de
-pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que
-parecia _pantominice das comedias_, dizia o Zeferino.
-
-Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á
-mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que
-desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos
-visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas
-mandavam-lhe bilhetes.
-
-Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto
-por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras
-Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a
-Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas,
-ratices suas em Braga, quando era rapaz.--Que fizera um destrôço nas
-primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira;
-e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde.
-Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo,
-que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo
-civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e
-ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se
-parecia bastante com elle.
-
-O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o
-official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os
-olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos
-n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou:
-
---E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso?
-
---Elle diz que é--respondeu o tenente--Veremos o que se averigua no
-governo civil.
-
---Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres falsos--disse
-emphaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira
-olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do Zeferino, muito
-enfiados ambos.
-
---Está tudo perdido!--disse dolentemente o fidalgo--El-rei preso!... E
-não se levanta este Minho a livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se
-lhe posso fallar. Dentro de tres dias entro em Braga com dez mil homens
-e arrazo a cadeia.
-
-Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar.
-
-O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas
-Bragas--a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes
-proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;--a liberal,
-muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e
-empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga,
-o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito
-rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro
-e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito
-grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do
-Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois,
-commandante da brigada dos Seresinos.
-
-Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com
-muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe
-passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do
-Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma
-d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota
-Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava
-aos seus:--É?--uns encolhiam os hombros, outros negavam gesticulando. E
-elle, com intimativa:--Pois saibam que é!--O Manoel de Magalhães dizia
-ao ouvido do Henrique Freire:
-
---Deixa-o fallar, que está idiota.
-
-O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de
-cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção
-rara:--Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao
-alcance da canalha. Descance vossencia.
-
-Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o
-Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva
-Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz
-de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da
-casaca azul com botões amarellos.
-
-D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A
-soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha
-d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e
-affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade
-afflictiva.--Que se parecia ... e ia jurar que era elle!--quando um
-realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde,
-disse com um desdem de achincalhação:
-
---Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
-
---Quem é? quem é?--perguntavam todos.
-
---É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido,
-e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas.
-
-O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha:
-
---Ouviste, ó Zeferino?
-
---Estou banzado!--murmurou o outro.
-
---Olha que espiga! 3 contos! hein?
-
---Raios parta o diabo!--disse o pedreiro, n'uma synthese condensada da
-sua incommensuravel angustia.
-
-Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o
-de parte e dizia-lhe:
-
---Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de
-V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da
-vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos
-fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve
-do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr.
-Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo,
-então desembainhará a sua espada.
-
-O Cerveira, abraçando-o:
-
---Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha...
-
-
-O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte
-foi transferido para a Relação do Porto.
-
-O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros:
-Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.[6]
-
-Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai
-chamavam-lhe o Norberto _das facadas_, quando já era velho, e meirinho
-geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha _facadas_ lhe
-vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres
-facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que
-pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O
-certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da
-diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola.
-
-Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma
-edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do
-Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa,
-concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos
-Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por
-incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo
-disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle
-fazia n'uma toada monotona de quem reza.[7]
-
-O Verissimo era _Mesquita_ pela mãe, que não conhecera. Tambem florira
-da cêpa illustre dos _Mesquitas de Villar de Maçada_; mas o Norberto,
-achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a
-mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da
-Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso.
-
-Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a
-jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma
-vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na
-Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores
-assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra
-exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em
-infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em
-uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e,
-apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um
-bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente
-aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado
-pelo desaire de coxear.
-
-Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo,
-onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A
-sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como
-ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia
-de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no
-ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de
-meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença,
-arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e
-citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas
-côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez
-das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma
-cidade.
-
-O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia
-um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a
-cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar.
-
-A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833
-gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do
-snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites,
-n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca.
-Mandava cantar _Te-Deum_ na egreja de Alvações assim que no paiz
-vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os
-realistas, a contar por cada _Te-Deum_ de Alvações, entravam no Porto
-ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra.
-D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques
-voltára a casaca.
-
-Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado.
-Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa
-farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo
-acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira.
-Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha
-exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser
-padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida
-socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos,
-tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua
-residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis;
-um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande
-estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se
-não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse
-escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas.
-Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma.
-
-D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;--que seu sexto avô
-tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente
-abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos
-sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de
-padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e
-pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os
-condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo
-arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte
-descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no
-futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas
-condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.
-
-Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro
-moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso
-encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes
-Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram
-inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O
-Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda
-mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.
-
-Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de
-Sousa Reis, o _Remexido_, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous
-ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao
-formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada
-para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o
-preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram
-para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de
-capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu
-heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia
-Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida
-emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general
-Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou
-ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada
-tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu
-general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas
-carreiras abertas--uma que levava á gloria, outra á sepultura,--que
-tambem era uma gloria morrer pela patria.
-
-José Joaquim, o _Remexido_, era um bem figurado homem de trinta e oito
-annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro,
-e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das
-theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e
-humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de
-Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas
-visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou
-entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de
-homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas
-searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe
-multiplicavam o amor e os cuidados.
-
-Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia,
-onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a
-liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que
-por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa
-Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más
-idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más,
-perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou
-para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do
-rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais
-uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão
-affoita quanto cruel.
-
-Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás
-praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns
-cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas
-montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos
-annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos
-vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na
-familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa,
-depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se
-ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna,
-precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou
-Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a
-pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do
-guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle
-atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os
-inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da
-sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem
-gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve
-e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se
-contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da
-guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e
-descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra,
-chamado a _Portella da corte das velhas_. Ahi o atacou uma columna de
-caçadores 5. O _Remexido_, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer
-matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as
-bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em
-Faro.
-
-O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e
-elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos
-generaes de que rezam os fastos militares.
-
-O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella
-ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como
-não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas
-algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa.
-Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles
-andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os
-quatro vintens diarios e o vintem do municio!
-
-Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu
-por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na
-cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28.
-D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava
-empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa
-com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava
-por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo
-de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do
-Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem
-tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade.
-Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com
-advogados miguelistas, que o estimavam muito.
-
-A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do
-snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho.
-
-No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas,
-complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao
-sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D.
-Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de
-ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos
-annos de sua magestade.
-
-Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas
-redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo
-_capitão-Verissimo_. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos na
-Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já
-sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito
-escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e
-as partes fugiam d'elle.
-
-O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e,
-como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um
-tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era
-boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a
-comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos
-tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense
-na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o
-capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado.
-Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O
-capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de
-peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de
-religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu _Sosia_, do
-snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou
-as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e
-impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o
-Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande
-ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas
-nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o
-fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um
-sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o
-_Malagueta_, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, uma
-raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas.
-Travaram-se de razões. O _Malagueta_ correu sobre elle com um punhal.
-Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se.
-
-A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no
-suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos
-vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João
-Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do
-primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado,
-não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania
-queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo
-resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo
-Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no
-Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de
-resvalar pela _montanha russa_, dava umas risadas argentinas, batia as
-palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da
-argolinha.
-
-Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha
-morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous
-filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de
-camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor
-que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe
-as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado
-com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão
-honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava
-resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que
-pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha.
-
---Se os não tens--disse o Torquato--minha mulher tem um cordão que
-pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou buscal-o
-ámanhã.--E accrescentou, de excellente humor;--Deus permitta que na
-terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de dentes que não
-tenhas mãos nem queixos a medir.
-
-Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações
-esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos
-a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes
-esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e
-Orestes.
-
-O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar,
-muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella
-desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de
-um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas,
-sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da
-companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de
-Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões
-de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos.
-
-Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na
-tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito
-laraxenta--que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava;
-que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar
-o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada.
-
---Nós deviamos ir todos para o Brazil--lembrou o Torquato, que tinha
-meditado n'um recolhimento extraordinario.
-
---E chelpa?--perguntou a Libania.
-
---Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis.
-
---Boa!...--disse o outro.--Bem se vê que as duas garrafas deram o que
-podiam dar--uma fantazia de um conto de réis. Por dous tostões é
-barato.
-
---Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não
-estou bebedo, palavra de honra!
-
-Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de
-vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do
-Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um
-charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade.
-
---Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?
-
---Começas bem. Temos asneira.
-
---Máo! não me falles á mão.
-
---Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei,
-e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª
-os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta.
-
---Adeus minha vida!--retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã
-conversaremos.
-
---Deixa fallar o homem!--interveio a Libania.--Ora diga lá, ó sê
-Nunes.
-
-O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos,
-removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto
-Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da
-Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a
-um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno
-piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma
-das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho.
-
-Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para
-Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha
-visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no
-Porto:--Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá
-estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na
-cama.
-
-O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos
-seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de
-Lanhoso.
-
-
-[Nota de rodapé 6: Segundo as informações textuaes do já referido
-José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do
-preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo
-a varias perguntas disse:
-
-"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos
-amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito
-realista;
-
-"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por
-uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o
-serviço;
-
-"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára
-parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o
-convidára no fim para sua casa;
-
-"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra,
-depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava
-ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle
-era em tudo um fac-simile);
-
-"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma
-hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe
-respondêra com uma evasiva.
-
- _Auctoridade_
-
-"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão?
-
- _Preso_ (cynico)
-
-"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da
-commodidade que se lhe offerecia;
-
-"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como
-coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade
-de seu capellão-mór, ao que annuira;
-
-"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença
-nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares,
-consummados realistas, no que concordara;
-
-"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute,
-um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão,
-commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até
-prelazias--o que elle tudo lhes concedeu de bom grado.
-
- _Auctoridade_
-
-E depois?
-
- _Preso_
-
-"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella
-commoda situação, _maxime_ quando as suas finanças estavam no maior
-apuro."]
-
-[Nota de rodapé 7: _Nota erudita_. A historia, aliás exacta, que o
-fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada
-no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira
-d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito
-e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a
-Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte
-do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe
-que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai
-vós primeiro."--Se vossa alteza me engana,--volveu o cortezão--ditoso
-engano é esse.--E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo,
-submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra.
-El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso
-para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem
-este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe
-mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.
-
-E assim lhe foi debuxado o escudo: _Em campo verde uma ribeira de prata
-ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega
-outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este
-braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma
-estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de
-liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos_.
-A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.
-
-Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de
-tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo
-dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo
-chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir
-da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas
-elegantes.]
-
-
-
-
-XI
-
-
-O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso,
-circumvagava uns olhares cautelosos:--se ninguem o ouviria?--perguntava
-ao abbade Marcos.
-
-E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,--pôde
-fallar, que estou sósinho. Que é?
-
---D. Miguel I está em Portugal--disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com
-uma voz guttural.
-
---Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
-
---Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira
-Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta
-provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão
-disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o
-levantamento ha-de começar por aqui.
-
---Que me diz você, amigo Torquato?--sacudia os braços, fazia estalar
-os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação
-extatica--que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que
-apparecesse...--É preciso trabalhar, preparar os animos...
-
---_Chiton_!--acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o nariz. Nada de
-espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á lingua,
-esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus amigos
-quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem; não se
-dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de Pombeiro e
-com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do Bom
-Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece.
-
---Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias
-do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está
-nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein?
-
---É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa,
-que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra
-vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e
-el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei!
-
-Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas
-palpebras inflammadas do abbade.
-
---Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude
-d'el-rei!
-
---Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!--Que ia vêr a
-mulher e que voltava já.
-
-Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na
-Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas.
-
-Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela
-provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O
-bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes
-pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos
-havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um
-barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de
-namorado no _Medico fingido_, um entremez coisa rica, que era de um
-homem malhar de costas n'aquelle chão a rir--que se elle quizesse vêr
-as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira
-de casa do abbade.
-
-
-O scenario para a representação do _Medico fingido_ arranjou-se na
-eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras
-entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres
-portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de
-cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por
-postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes
-lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro
-descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por
-bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em
-zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com
-cercadura de cruzinhas:--era obra de Chêta, um trôlha inspirado que
-já tinha pintado um painel das _Alminhas_, onde havia almas do sexo
-fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a
-bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia
-á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha
-ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai,
-havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que
-tinha vindo com o _galan_, o filho do estalajadeiro da Povoa.
-
-O Verissimo foi admittido aos camarins onde estavam sentados em caixas
-de milho e na salgadeira, os figurantes á espera da sua vez, já
-vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Mathilde, amante de
-_Almenio_, uma ingenua, a protogonista da peça, _a doente namorada_,
-que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o _medico fingido_. Este
-papel fôra confiado a um latagão official de carpinteiro, com os
-pulsos cabelludos e os nós dos dedos com umas protuberancias callosas
-que pareciam castanhas piladas antigas. Nas maçãs do rosto mascarrára
-duas zonas de carmim, que pareciam a distancia umas chagas de mendigo de
-romaria aperfeiçoadas. Trajava um vestido de setim branco da fidalga
-velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos
-annos de D. João VI. O peito chato do carpinteiro ficava á altura dos
-quadris da fidalga, e as claviculas espipavam as hombreiras do corpête,
-prendendo os movimentos ao desgraçado _Mathilde_. Posto que a scena
-fosse a _Casa de Astolfo_, pai da doente fingida, a velhaca estava de
-chapéu de palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito
-amarellecidas do môfo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso
-as pernas que se deixavam vêr até cima do jarrete, cingidas de fitas
-cruzadas que subiam d'uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de
-proposito e em concordancia com os angulos reintrantes e salientes dos
-pés. Era o grotesco do horror. A creada de _Mathilde_, a _Laberca_,
-tambem vestia de setim azul-ferrete, um pouco menos antigo, emprestimo
-das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando para os
-entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque: obedecia mais á
-caracterisação natural. Na cabeça usava touca de folhos com laços de
-fita escarlate e nos pés os butes do amo com ponteira de verniz; elle
-era o creado do juiz de direito substituto; gosava creditos de
-representar papeis de lacaia fazendo rebentar a gente.
-
-O Verissimo fez os seus cumprimentos ás duas damas, e manteve uma
-seriedade verdadeiramente real. O _Almenio_ era o filho do estalajadeiro
-da Povoa de Lanhoso, o Rêlhas. Calças brancas, quinzena de velludilho,
-bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e oculos. Disse ao
-Verissimo que punha os oculos para fingir de medico. Estava a um canto o
-gallego, o _Gonçalo_, aguadeiro da casa. Como não havia em Calvos o
-costume rigoroso dos aguadeiros, o trôlha ensaiador vestiu-o de
-almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa,
-com uma monteira comprada em Tuy. A cara era ao proprio, d'uma verdade
-typica. O _Pantufo_, um saloio rico que queria casar com _Mathilde_, e
-foi bigodeado pelo fingido medico, vestia a melhor andaina de fato do
-presidente da camara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade
-das suas funcções impedia de representar; mas emprestava a roupa e a
-intelligencia dramatologica. Havia mais duas figuras, o _Falsete_, e o
-_Astolfo_, que se estavam vestindo lá dentro, por detraz d'um ripado,
-que os deixava vêr em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas,
-emquanto o trôlha lhes rebocava de vermelhão as caras.
-
-O Nunes atravessára a eira, e endireitára para o palheiro, quando lhe
-disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe.
-Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o
-Verissimo, e sahiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma
-physionomia cheia de alvoroço, de surpreza.
-
-Entrou pela residencia, muito esbofado:
-
---Ó abbade, já esteve na eira do Gonçalves?
-
---Não; estou a acabar de jantar, e lá vou vêr essa borracheira da
-comedia. Você vem aganado!
-
---Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fóra que lá está na
-eira.
-
---Aqui veio um rapazola da Povoa pedir-me uma cadeira ha coisa de meia
-hora para um fidalgo que tinha vindo com elle. Perguntei-lhe quem era o
-fidalgo. Diga que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de
-casaco chama-lhe fidalgo.
-
---Venha já d'ahi comigo... Por quem é, não se demore... Ó abbade,
-lembra-se de vêr el-rei em Braga ha treze annos!
-
---Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão tres vezes.
-
---E, se o vir agora, conhece-o?...
-
---Parece-me que sim--o padre limpava á pressa os beiços amarellos dos
-ovos do arroz dôce.--Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou
-temos carraspana, amigo Nunes?
-
---Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como
-quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas.
-
---Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco?
-
---Venha de lá isso.--Bebeu d'um trago, e pediu outro:--Agora, á saude
-de el-rei! á saude d'aquelle que talvez esteja bem perto de nós! a cem
-passos!
-
---Toque!--exclamou o abbade.
-
-Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não
-olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião
-viesse muito a geito.
-
---Você está a sonhar, homem!
-
-Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava
-em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro
-lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos
-de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada,
-muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os
-que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o
-publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e
-elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as
-fallas:--Canalha brava, calaide-vos ahi!--Uma balburdia que parecia um
-theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da eira,
-dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido, como
-a pedir desculpa.
-
---É entrudo, dizia, é entrudo, senhor!
-
-Quando appareceu o padre na cancella da eira, houve silencio com algumas
-fungadellas de riso das cachopas, e recomeçou a comedia em obsequio ao
-abbade e á Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram
-alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera
-muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao
-abbade, perguntando-lhe se conhecia aquelle senhor.
-
---Não conheço,--e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o
-disfarce:--Você adivinhou. É elle...
-
---Que me diz, abbade?
-
---É elle.
-
-O Verissimo déra tres passos para accender um cigarro no de um musico
-que estava sentado n'um bombo.
-
---É elle!--repetiu o abbade.--Você não o viu coxear?
-
---Falle baixo, falle baixo, e não olhe muito para elle, que eu já o vi
-deitar-nos os olhos,--acautelou o Nunes.
-
---Também eu ...
-
-Estalou n'este momento uma gargalhada geral. Verissimo tambem se riu, e
-deu palmas.
-
---Olha! olha! a dar palmas!--notou o abbade com transporte. Aquillo
-sensibilisou-o até ás lagrimas! O snr. D. Miguel I a dar palmas ás
-figuras do _Medico fingido_ na eira do Gonçalves em S Gens de Calvos!
-Tocante!
-
-A risada geral e as palmas e os apupos não eram rigorosamente uma
-ovação ao auctor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na scena
-l.ª o _Astolfo_ pede carinhosamente á filha que côma alguma coisa.
-Mathilde diz que não póde, _que não está em si; que lhe acuda, que
-lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos_.
-
-O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica
-que diz: _Finge desmaio, e Astolfo a sustem nos braços_. Mas ou porque
-se antecipasse a desmaiar, ou porque _Astolfo_ se demorasse a amparal-a,
-_Mathilde_ escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do
-palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão,
-arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até á cintura. Ora a _Mathilde_
-não usava calcinhas. Um escandalo.
-
-Verissimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente á sua
-pessoa. A natureza rebentou por elle fóra n'umas casquinadas convulsas
-que poderiam custar-lhe uma môcada, se a deflagração do riso não
-fosse geral.
-
-_Mathilde_ fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou á scena.
-O ensaiador, o trôlha, sahiu ao terreiro a explicar ao publico a
-suspensão do entremez n'estas palavras:--Aquelle alma do diabo despiu
-a farpella, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês póde ir á
-sua vida que não ha hoje treato.
-
-Começou a debandar o auditorio em grande algazarra. Verissimo parecia
-esperar que o galã, o Rêlhas Junior, se despisse para se retirar. O
-Gonçalves perguntava-lhe:--e que tal esteve a chalaça, senhor! Má mez
-pr'ó homem, que se mais tivesse mais punha ó léo!--e voltando-se para
-o abbade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distancia:--ó snr.
-abbade! coisa assim não consta! Eu, se me succedesse uma d'aquellas,
-mettia a cabeça n'um folle.
-
---São acasos, disse Verissimo com indulgencia.--Não se lembrou que
-estava vestido de senhora.
-
-O abbade ganhou animo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro
-cerimoniosamente, e disse:
-
---O entremez não presta para nada. Se o homem não cahisse, ninguem se
-ria.--Provavelmente...--assentiu o Verissimo, correspondendo á cortezia
-do Torquato Nunes que parecia aproximar-se mais acanhado.--Estes casos
-de escorregar, accrescentou o desconhecido, acontecem nos primeiros
-theatros do mundo e até nas salas onde se dança; e de ordinario as
-senhoras que desastradamente cahem são verdadeiras senhoras. É muito
-peor e mais melindroso.
-
-O abbade e o Nunes com muitos gestos affirmativos--que sim, que era
-muito peor, e mais melindroso, muito mais.
-
-Derivou a conversação para as bellezas naturaes do Minho. O
-desconhecido sentia ter vindo no inverno, quando apenas se adivinhavam
-as pompas da primavera.
-
-Principiava a choviscar. O abbade offereceu a sua casa ao forasteiro,
-emquanto não estiava a chuva. Verissimo acceitou por momentos, visto
-que não se prevenira com guarda-chuva--um traste que detestava. Os
-aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadencias, varejados pelo sul;
-por fim, as christãs da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos
-declives como escarceus a despenharem-se, fechou-se o horisonte sem uma
-nesga, e a chuva não parava. O abbade não permittiu que o hospede
-sahisse com tal tempo e já perto da noite.
-
-Durante a ceia, appareceram algumas raparigas mascaradas com lençoes,
-abraçando a Senhorinha que servia á mesa, e dizendo em falsete
-pilherias ao Nunes a quem chamavam _Trocatles_ e _précurador de causas
-perdidas_. Verissimo mostrava-se contente e dizia:
-
---Bom povo! excellente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal,
-e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações
-do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por
-tributos, esmagados pelo peso dos empregados publicos que são o
-flagello de Portugal...
-
-O padre escutava-o com religiosa attenção; o Nunes beliscava a côxa
-do abbade que tomára a presidencia da mesa e puzera o hospede á sua
-direita.
-
-No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mão, e de pé, disse que
-fazia uma saude ao seu hospede, porque lhe parecia que tinha a honra de
-beber á saude de um realista, d'um partidario de sua magestade o snr.
-D. Miguel 1.° que Deus guardasse! O hospede agradeceu, declarando que
-mesmo n'uma roda de liberaes não negaria os seus sentimentos politicos:
-que era realista, e como tal brindava á saude de todos os amigos do
-principe proscripto.
-
-O Nunes dava canelões intelligentes e ás vezes dolorosos no abbade,
-que o encarava de esconso como quem diz:--percebo; não faça de mim
-asno; sei que estou fallando com el-rei.
-
-A creada deu parte que estava prompta a cama;--quando _Vossoria_
-quizer--disse ella ao hospede. Verissimo sorriu-se agradavelmente:
-
---Que incommodo estou dando a esta excellente familia... Irei
-descançar, snr. abbade, e snr. Torquato ... parece-me que lhe ouvi
-chamar _Torquato_...
-
---Nunes Elias, um creado de vossa...--e susteve-se.
-
-Dizia-lhe depois o abbade no quinteiro:--Você ia-se estendendo, Nunes!
-Esteve por um triz a dizer, _um criado de vossa magestade_, não esteve?
-
---Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que está
-el-rei n'esta casa!--E com transporte olhando para as janellas:--Onde
-está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei amado dos portuguezes, na
-pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto parece um sonho!
-
-
-A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez
-nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede
-se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a
-bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de
-ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros
-ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria
-indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos,
-tratando-o sempre por _senhor_,--o _senhor_ isto, o _senhor_
-aquillo--entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis,
-e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já o conhecia.--Bom
-é que elle se vá persuadindo que não somos patêgos--dizia o abbade
-ao Nunes.--Sim, bom é que se persuada ... você percebe... E piscava
-com esperteza.
-
---Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é
-que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos
-aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui
-estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu
-sangue!»
-
---Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não
-vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a
-caça.
-
-O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o
-obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante
-de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o _Punhal dos Corcundas_,
-a _Defesa de Portugal_ do padre Alvito Buela, a _Besta esfolada_, os
-_Burros_, e o _Novo Principe_. O Verissimo levou-os para o seu quarto,
-excepto os _Burros_; disse que não gostava de poesia. Fallou com louvor
-do padre José Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura--columnas
-do altar e do throno, que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na
-phalange realista. Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido
-pessoalmente.--Que sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe
-proscripto, se lhe fizessem semelhante pergunta.
-
---Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse
-vêr el-rei!...--meditou o abbade com a sua grande perspicacia
-observadora.
-
---Decerto...--concordava o Verissimo indolentemente.--Mas quem tem agora
-esperanças de vêr D. Miguel em Portugal?
-
---Eu, senhor, eu!--respondeu o padre batendo na arca do peito com as
-mãos ambas--Eu!
-
-O Verissimo folheava o _Punhal dos Corcundas_, e parecia não perceber a
-vehemencia do padre.
-
---Bons desejos, bons desejos do caro abbade...
-
---E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca
-deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o
-retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as
-suas reaes mãos!--Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos,
-chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo
-continuava a folhear o _Punhal dos Corcundas_.
-
---Então viu-o, abbade?
-
---Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.
-
---Ainda se recorda das suas feições?
-
---Perfeitamente.
-
---Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado...
-
---Conhecia, conhecia...
-
-O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo.
-Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca
-electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era
-impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o
-braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:
-
---Eil-o! eil-o!
-
---Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não
-sou quem pensa!
-
---Estou como devo estar deante do meu rei!--teimou o abbade, com os
-dous joelhos no sobrado.
-
---Levante-se que vem gente!--dizia o outro, ouvindo passos na escada.
-
-Era o Nunes.
-
---Entre, amigo!--disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia
-licença.
-
-Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por
-levantal-o.
-
---Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés d'el-rei!--exclamou o
-padre.
-
-E o outro, ajoelhando:
-
---Eu já o sabia, real senhor!
-
-
-Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos,
-segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou
-abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia
-com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D.
-Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto,
-o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que
-o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que
-seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com
-chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze
-praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão.
-
-O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom
-lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com
-um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas
-e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do
-outro, considerava-se perdido.--Pobre Libania!--deplorava, quando ella
-souber que eu estou na Relação!
-
-Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que
-não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a
-Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me
-não prenderem--accrescentava muito confiado na lei e na sua
-actividade.--Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo,
-porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia
-ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis.
-
---Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de
-degredo--atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca
-experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do
-seu quarto.
-
-Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste,
-com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada.
-
-Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do
-Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do
-sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se
-antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma
-forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso
-de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até
-Almeida e d'Almeida _p'ra diente_ alma sempre!
-
-Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella
-sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o
-Gravito para a forca--elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso
-alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829.
-
-A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua
-do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias
-já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas
-a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou
-para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato
-Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D.
-Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara
-de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por
-ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes
-mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o
-processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores,
-suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão
-extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e
-evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do
-preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia
-á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as
-testemunhas citadas--os padres suspeitos de frequentarem a residencia de
-Calvos--nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do
-aggravante.
-
-E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:--Que aggravado era o
-aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de
-primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes,
-pois que _nenhuma_ testemunha depozéra que o aggravante se inculcasse
-_D. Miguel_ para perturbar a _ordem constituida_, chamando o povo á
-revolta; e das respostas do aggravante no interrogatorio a que procedeu
-a auctoridade administrativa constava que o preso quasi que _fôra
-obrigado_ por um _clerigo estupido e esturrado miguelista_ a deixar-se
-chamar _D. Miguel l.°_; mas não constava nem se provava que o
-aggravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir
-valores aos seus _estupidos cortezãos_; _o que decerto_ praticaria um
-_gamenho_ decidido a fingir-se _D. Miguel_ para os espoliar. Que a
-pronuncia fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que
-_nada_ se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra
-por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuos _alarves_ a
-quem o supposto _monarcha_ fazia mercês de commendas, de titulos, de
-patentes e até de mitras, sem que d'ahi resultasse alvoroto nem _leve
-perturbação_ na ordem publica, nem mesmamente damno para os
-mencionados _burros_ que pediam as mercês, e que deviam ser
-pronunciados em primeira instancia, se a _côrte de S. Gens de Calvos_,
-não fosse uma _farça de entrudo_.
-
-E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator,
-addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras
-selvaticas do Minho se espalhassem muitos _Migueis_ d'aquella casta e
-feitio até que os novos _Sebastianistas_ se convencessem de que
-_somente assim_ poderiam arranjar um _Miguel_ que lhes désse
-commendas, titulos, postos militares e prelazias.
-
-Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito
-do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram
-por unanimidade.
-
-Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia,
-Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do
-carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas
-desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz,
-deixou-se ser mulher--chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso,
-no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens
-extraordinarios.
-
-O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a
-casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso,
-com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz.
-
-O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a
-divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas.
-Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de
-permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este
-tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o
-trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades,
-mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o.
-O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro
-lhe dava--que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato
-Leite, a rir:
-
---Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem.
-Devia esfolar essas cavalgaduras!
-
-O Verissimo recuava muito agradecido.
-
-O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na
-nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes
-Elias.
-
-Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de
-solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações.
-Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a
-mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias.
-Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das
-Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo
-frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em
-quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos
-Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o
-Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao
-reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite,
-cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas
-de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal,
-muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos
-José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com
-o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia
-com as conspirações da viella da Neta--aquelle baluarte da Liberdade
-que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado,
-muito á franceza;--tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma
-loja de modas, d'um café e d'uma taberna,--o vitalismo soez e chato da
-decadencia.
-
-Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes,
-mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade
-civica da rua das Flores e das Congostas.
-
-Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque,
-José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe
-_patriota_, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e
-disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a
-desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar,
-n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o
-conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias
-espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam
-armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O
-conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica.
-
-Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram
-promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da
-refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a
-retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza
-precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de
-infanteria,--previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois
-tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados
-pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os
-batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o
-encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a
-gritos de _Viva a Rainha_ se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem
-elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando _vivas
-á Carta Constitucional_. Eram a obra da prudencia e do conselheiro
-Fortunato Leite.
-
-Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois
-tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna
-do visconde de Vinhaes;--que tinham repugnancia de pelejar cara a cara
-com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José
-Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de
-dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de
-Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre
-Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque
-aos dinheiros das snr.ªs Botelhas.
-
-Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da
-comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não
-desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao
-seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio
-até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas
-das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de
-sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco.
-
-Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas
-e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o
-Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro
-cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade.
-O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a
-Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos
-tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com
-vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma
-direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um
-jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre--um anjo curvado e
-deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um
-chorão--publicava:
-
-
-_Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e
-respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença,
-hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas
-Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de
-consternação pede desculpa de cumprimentos._
-
-
-O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte,
-accrescentava: _A exc.^ma snrª D. Libania, que todos choramos com seu
-exc.^mo viuvo, era uma senhora de esmeradissima educação, pertencia á
-illustre familia dos Covas;--modêlo no tracto insinuante com que
-captivava o respeito e a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que
-tiveram a fortuna de a conhecer. Receba s. exc.ª o snr.
-conselheiro-director os nossos mais sentidos pesames pela desgraça que
-acaba de o ferir implacavelmente_.
-
-
-Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e
-d'alma.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de
-réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem.
-Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór
-e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que
-era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar
-com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua
-paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia
-esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da
-rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres,
-voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava
-cavalgadura--que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é o
-que elle sabia.
-
-Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre
-em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da
-romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de
-madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em
-quanto o velho tosquenejava a dormitar.
-
-O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira
-ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite,
-dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e
-poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era
-um dos primeiros casamentos do concelho.
-
-O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella
-tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a
-não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a
-victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o
-sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a
-pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma
-santa de jaspe--um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras.
-
-O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa.
-Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai
-as palavras do amado e o Simeão:--Ora venha de lá esse abraço, amigo
-e sê Zé!--e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a
-sua filha _como se quer_.
-
-Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo,
-que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe
-principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da
-Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o
-diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a
-Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao
-homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade
-de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente
-disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda,
-atirando-se ao rio Ave.
-
-E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando
-já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e
-onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a
-cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente
-este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a
-impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido _má
-mulher_ a mãe de Martha. _De má arvore mim fructo_--era toda a sua
-philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações
-physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo.
-
-O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o
-de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas
-dizia-lhe a ella em particular:--Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que
-sim, ouviste? E ella:--Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo!
-
-A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a
-sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa
-fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os
-santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao
-domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias,
-confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas
-o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas
-no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua
-mãe:--Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento,
-se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o
-matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o
-expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina.
-Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que
-não esperava nada da sua religião,--um habito de tregeitos de mãos e
-de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam
-guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira
-missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese
-dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o
-fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos
-fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o
-pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de
-Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais
-um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames
-dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia
-encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor
-d'ella.
-
-
-As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas.
-
-Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre
-Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando
-que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar
-por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz
-pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um
-carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e
-estivera, _vai não vai, ó pernas p'ra que te quero_, lembrando-se se
-seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do
-Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e
-morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se
-sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra
-mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto
-apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a
-chapada do luar;--era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da
-ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de
-homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a
-olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito
-devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se
-cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o
-operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de
-Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao
-luar como um espelho.
-
-O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro
-edificante, muito piedoso, chamado _Armas da Castidade_. O mystico filho
-de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico,
-cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra
-Martha. _Conhecia-lhe o leito_, dizia elle. É o mais que se póde dizer
-sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.
-
-Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do
-escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava
-esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle
-tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos.
-Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um
-conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a
-vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella
-e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do
-patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando
-viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe
-dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno
-seguinte--affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com as
-bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a
-Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas
-trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas
-na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia
-crystallisou no pantheon dos martyres do amor.
-
-Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da
-esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma
-cantiga d'esse tempo:
-
-
- _Ó mar, se queres,
- Tem dó de mim._
-
-
-Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor
-não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e
-fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a
-imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um
-grande romantico--uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle
-pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia
-d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha
-lido as _Confissões de um filho do seculo_, aquella torrente de
-lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada.
-
-Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas
-ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio
-era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar
-d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por
-causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe
-rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se
-fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á
-cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias,
-espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira
-dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira
-Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as
-mãos ensopadas nas banhas da victima.
-
-
-O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a
-descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A
-Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os
-milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam
-as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas
-diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o
-exemplo á filha.--Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa
-de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do
-Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado;
-que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz
-que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um
-homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos
-carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma
-calumnia.
-
-Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o
-filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e
-fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de
-Prazins:--Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas
-do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus
-pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus
-parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
-
-O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito
-aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que
-principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da
-alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção
-lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia
-dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o
-gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das
-chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio.
-Pedia-lhe conselhos--que arranjasse modo de elle poder casar com a
-Martha.--Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria
-remediar o mal que fiz.
-
-A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva,
-uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com
-um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do
-instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono,
-lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a
-miudo:--Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua
-fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais
-mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O
-brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos
-contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.--A Martha escondia-se a
-chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe--o suicidio; e
-punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que
-parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados.
-
-O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já
-o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a
-familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das
-saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.--Que o seu
-amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas
-que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem
-recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
-
-De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado,
-e ralava-o:--que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião
-tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como
-sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda
-a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era
-o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se
-por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava
-_forgado_, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar
-matto oito dias, que elle perdia o cio.
-
-Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu
-restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai,
-que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a
-Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a
-mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a
-Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas
-já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da
-Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em
-emprezas mais difficeis.
-
-Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria
-a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada:
-
-
- _Ó mar, se queres.
- Tem dó de mim._
-
-
-Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D.
-Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a
-juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas
-eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em
-Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da
-Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha
-communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e
-conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da
-ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que
-representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia
-momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa.
-Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a
-mastigar os ligados do José Dias.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os
-motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos
-communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a
-origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da
-canalha». Elle disse _que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas
-não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos
-bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres_.[8]
-As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada
-do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas
-avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação
-dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que
-vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração
-das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição
-nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi
-uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com
-o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os
-jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era
-o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e
-nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o
-lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que
-impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido
-pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a
-alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto
-Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas
-impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos
-gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição
-de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da
-fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo.
-
-O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular,
-nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a
-rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de _Notre-Dame_,
-agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de
-tres freguezias, e pegou a dar _morras_ aos Cabraes com applauso
-universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este
-expediente estatistico com canastro:--que os Cabraes e os seus
-empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á
-Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e
-em casa dos regedores; que era preciso queimar-as _papelêtas_ e matar
-os cabralistas.
-
-Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as
-vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos
-papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão.
-Zeferino nomeára-se _chefre_ da gentalha embriagada nas adegas
-arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores
-que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno
-anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia
-de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida
-aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de
-Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou,
-pelo menos, preso e degredado como cabralista.
-
-Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de
-Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um
-outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações
-largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho
-estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José
-pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não--que nunca tinha
-feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que
-podiam fazer era tirar-lhe o governo.
-
-José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que
-o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da
-guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos
-na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra--que fugisse para
-Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da
-Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o
-sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia
-illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a
-espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso.
-
---Está você preso por cabralista!--intimou o pedreiro, deitando-lhe a
-mão á lapella da véstia; e voltado para a turba:--Rapazes, cercaide a
-casa; tudo que estiver, preso!
-
---Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o
-regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:--Ah seu Zeferino, seu
-Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra
-historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados,
-mestre Zeferino...
-
---Não me cante!--bradou o das Lamellas com furiosos arremêssos.--Está
-preso, e mexa-se já para a cadeia.
-
---Você não pôde prender-me, mestre Zeferino--contrariou a auctoridade
-dentro da lei--Vá buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do
-governador civil.
-
---Já não ha governador civil!--explicou o caudilho--Agora são outros
-governos, seu asno! Quem reina é o snr. D. Miguel l.° E você não me
-esteja ahi a fanfar, que eu já o não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com
-dez milhões de diabos!
-
-O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares
-de homens e rapazes que davam _vivas_ a D. Miguel, ás leis novas, á
-santa religião e _morras_ aos cabralistas. Quando queimavam os papeis,
-um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante que não
-convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem _morras_ ao governo
-e vivas á religião. N'esta barafunda, o regedor preso entre meia duzia
-de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do
-Folipo, comprehendera um acêno do taverneiro e fugira pelos quintaes.
-Metteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O
-José Dias, receando que o perseguissem em Caldellas, refugiara-se
-também em Braga e alistou-se no batalhão dos serezinos commandado pelo
-conego Mont'Alverne.
-
-
-N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio
-de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as
-guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou
-quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta
-a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns
-cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O
-Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:--que não se fosse
-sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle.
-
-Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos
-nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas
-almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo
-de poeta sugado pelos vampiros do _spleen_. Dizia, porém, que tinha
-febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de
-monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á
-miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para
-não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa
-inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos
-arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono
-da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus
-vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor
-d'ella os seus caixeiros, os feitores e--o que mais é--as suas
-escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano
-_Pudicicio_. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao
-parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;--que trabalhava
-muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao
-corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos
-ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que
-vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe
-namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia
-_seixo_. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet:
-_Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres_.
-
-A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que
-Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do
-brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza
-das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer
-amar de um homem de quarenta e sete annos--intacto de mais a mais. O
-presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma
-desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou
-a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira
-da possibilidade de ser mulher de seu tio, _se adregasse gostar d'ella_.
-Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio,
-suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo
-ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto,
-apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano
-sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno
-dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em
-pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz
-mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava.
-Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José
-Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os
-rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de
-dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do
-Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e
-ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos,
-anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou.
-
-Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio.
-Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e
-com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico
-lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas
-desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o
-tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o
-desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de
-saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do
-padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que
-cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando
-elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem
-mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de
-tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai,
-protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
-
-O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza
-estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido
-na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e
-fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
-
-José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos
-da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio
-não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os
-seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os
-agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e
-com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo.
-Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa
-recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o,
-ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai,
-em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de
-consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos
-compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia
-de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.--Que a viuva,
-dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus
-pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela
-palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença,
-se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher,
-allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que
-elle levára para o casal não valia dois caracoes.--Emfim, concluia, se
-o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver,
-faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal...
-E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na
-salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio.
-
---O vigario aprende o _padre-nosso_, dizia o de Caldellas.
-
-Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e
-presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao
-soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude.
-Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez
-de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao
-Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a
-Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia,
-e tambem com o oleo de figado de bacalháo.
-
-A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um
-affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o
-implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em
-armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o
-José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro
-chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de
-Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para
-deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o
-regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como
-cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á
-tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o _Metro_, tinha-o
-convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e
-avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a
-pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se
-quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito
-doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:--Que
-não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que
-perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo
-Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava _ethego_ e
-mais mez menos mez esticava a canella.
-
-Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma
-resolução suicida:--Se não casar com elle n'este mundo, casarei no
-outro.
-
---Que te leve o diabo!--resmungava o Simeão, riçando phreneticamente
-as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do leito:--Olha,
-menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo não póde ir longe.
-Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se
-quizeres...
-
---Valha-me nossa Senhora!--murmurava Martha, pondo os olhos na
-litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.--Quem me dera
-morrer.
-
-A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no
-segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com
-accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias
-amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela
-auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os
-medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da
-estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na
-sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado
-n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais
-desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle
-estaria rijo.
-
-A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um
-berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á
-Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas
-concordavam:--que diabos levasse a mulher que o tolhêra!
-
-O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o
-deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr
-a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de
-morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia
-tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas,
-incendido pela febre.
-
-Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações
-calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia
-seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis
-esforços.
-
-Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e
-voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José
-lhe escrevia--poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres
-esperanças.
-
-Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a
-mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a
-Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da
-desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para
-a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:--bem me fio eu n'isso.
-
-Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro;
-mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao
-irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não
-podia escrever.
-
-Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na _Introducção_
-d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe
-lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção,
-um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha,
-mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo
-cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns
-accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que
-fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como
-em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas
-cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á
-alcôva.
-
-
-Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao
-pai quem tinha morrido.
-
-Elle respondeu serenamente:--Dizem que foi o Dias que está com Deus.
-Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.--Martha deu um grande
-grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos.
-Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se
-suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem.
-Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que
-correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella
-cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os
-sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova
-chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o
-irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a
-companhia d'elles algum tempo.
-
-Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle,
-quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está
-bom», observava-lhe com azedumes:--Deixe-a chorar, deixe-a chorar!--E
-voltando-se para a irmã:--A estupidez é cruel!
-
-
-[Nota de rodapé 8: _Carta dirigida ao cavalheiro José Hume_. Versão
-de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.]
-
-
-
-
-XV
-
-
-O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois,
-cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder
-o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta.
-Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua
-importancia no anno em que governára a freguezia--o respeito dos
-rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo
-em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do
-seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de
-Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão,
-o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que
-era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus
-cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.
-
-Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com
-alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances
-amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães,
-quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas
-barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a
-resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro;
-foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a
-inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave,
-e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o
-seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel
-Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao
-palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado
-com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho
-copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde
-faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das
-suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde,
-José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o
-Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do
-batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que
-arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante
-de ordens do general,--dois homens gentilmente valorosos;--o coronel
-Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje
-padre.
-
-A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A
-garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro,
-n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte,
-esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma
-formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que
-o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava
-matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira
-Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com
-gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a
-sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um
-camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre
-general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do
-batalhão do Populo.
-
-O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho
-Leal,[9] um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé
-politica, antipoda da sua forte intelligencia--uma especie de poeta
-medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás
-instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes
-camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...
-
---Que ha?--perguntou o quartel-mestre general.
-
---Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa
-Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em
-outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.
-
-O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o
-Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o
-hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades,
-capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o
-que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo--escreve o snr.
-Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: _Isso não
-vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis_.»
-Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar
-os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir
-tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou
-Guimarães e entrou na estrada de Amarante.
-
-Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos
-outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia
-seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda
-embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu
-estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho
-Leal: ...«_A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se
-importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu,
-vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e
-trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar
-«superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem
-homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste)
-dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da
-gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia,
-de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com
-eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e
-outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que
-estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que
-muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa
-combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos
-Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente
-mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que
-já na Praça da Oliveira estava muita gente armada_.»[10]
-
-E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens
-que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e
-retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado
-por Guizot com credenciais de Costa Cabral.
-
-O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora
-d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma
-botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado
-que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do
-pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a
-despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão
-borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira
-affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote
-largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino
-perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo
-acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo
-que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o
-Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I.
-
-Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do
-quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em
-hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco
-e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O
-Victorino notava-lhe que elle bebia de mais--que o calor da genebra não
-se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça--que era um
-perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; mas queixava-se de dôres
-nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com somno, e
-que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz
-tartamuda:--Este ladrão d'este inglez metto-lhe a espada até aos
-copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã!
-
-O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu
-á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de
-que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia
-agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á
-retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e
-pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo
-dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e
-o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.
-
-O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos
-braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume
-do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito
-vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um
-ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado;
-não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos
-com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia
-alcoolica.
-
-A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho
-Leal: _N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em
-marcha com uma apoplexia fulminante o P...[11] Coitado! quando me lembra
-isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu
-a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de
-que--mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei
-muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e
-o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado
-velho_.[12]
-
-Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da
-noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da
-manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram
-cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um
-retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta,
-repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de
-angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de
-barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que
-lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos
-afincada como garra nas correias da pasta.
-
-O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com
-dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto
-defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas,
-intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que
-foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar
-o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D.
-Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro;
-que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos
-processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do
-administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o
-baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as
-roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as
-caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto
-de réis em ouro.
-
---Toma!--disse um dos jornaleiros--um conto de réis! E inclinando-se á
-orelha d'outro jornaleiro:--Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o
-monte ... e topamos o morto...
-
---Que pechincha!...
-
-Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.
-
-O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em
-Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes
-realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e
-entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:--Eu sempre
-te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de
-Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo.
-Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado
-que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de
-Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de
-mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias
-anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume
-no olho, homem, lume no olho!
-
---Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!--protestava o
-pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.--Se me
-matarem ... até lh'o agradeço!--E com desalento: Sou o maior infeliz e
-desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não
-tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal,
-digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma
-forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e
-não me passa d'aqui!--e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos
-como quem apanha uma pulga.
-
-
-Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as
-espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo.
-Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de
-coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado
-a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar
-um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as
-espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as
-condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu
-o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade
-impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a
-demissão.
-
-Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida
-e á morte, se chamava _infeliz_ e _desgraçado_, o destino implacavel
-preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma
-insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia
-á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de
-D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D.
-Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito
-vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas,
-tocando o _Rei-chegou_: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e
-vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta,
-cantando o _Bemdito_. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo
-Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes
-com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a
-_Cana-verde_ e _Agua leva o regadinho_. Em um d'esses bergantins com
-pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque,
-mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella,
-vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos
-soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em
-Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da
-noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu
-com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama
-atordoado.
-
---Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas
-Lamellas com o regedor.
-
-Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um
-socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em
-frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas
-cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e
-entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a
-escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.
-
-O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou.
-O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle
-quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo
-exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle
-não podia defendel-a porque estava tolhido.
-
-O Zeferino perguntou pacificamente:
-
---E o Simeão que dizia?
-
---Não dizia nada. Eu é que lhe disse... _Arrieiros somos, na estrada
-andamos_, visinho Simeão.
-
-O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na
-cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas
-compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:
-
---Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ...
-Que leve o diabo tudo...--E, passados alguns segundos de recolhida
-angustia:--Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz
-que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na
-cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você
-bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da
-minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse
-mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me
-levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta
-dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no
-corpo...
-
---Homem--atalhou o pai com juizo--não fosses tu lá a Prazins embirrar
-com o brazileiro...
-
---Eu tenho a minha paixão--objectou o filho com transporte--tinha cá
-dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe
-fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim,
-estou perdido...
-
-Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o
-Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do
-Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz
-acutilados.
-
-
-Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor
-tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta
-solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro
-comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão
-sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous
-lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos
-brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa,
-invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e
-andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel
-a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido
-juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a
-respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á
-conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera
-atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e
-mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella
-estivesse fina, casava com o tio.
-
---E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.
-
---Pois então!... Tomára-a elle já.
-
---Emfim--tornou o Bento--você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho
-cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi,
-mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com
-mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...
-
---Tem bô estomago, é o que é--confirmou o Belchior da Rechousa.
-
-O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias
-ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra
-da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se
-vingar.
-
---Emfim--disse o Belchior--você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o
-que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.
-
---Isso cá da minha parte foi chalaça...--defendia-se o Simeão, quando
-tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no
-caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que
-caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão
-e derrubou-o.
-
-Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam
-dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro
-abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada
-fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou--aqui d'el-rei
-ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade,
-encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões.
-Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de
-sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua
-rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de
-vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O
-Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e
-disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe
-dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e
-levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O
-caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o
-cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos,
-levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes
-trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi
-necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro
-puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e
-alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a
-confissão.
-
-Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai
-estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D.
-Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o
-confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa
-curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se
-que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia
-opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um
-pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o
-Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma
-diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com
-medo á malta do Zeferino.
-
-O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a
-cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça
-um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em
-tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio
-quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de
-cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao
-irmão:--Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle
-sangue.--E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu
-quarto,--que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria
-retiral-a do espectaculo dos paroxismos.
-
-Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do _Bemdito_ e
-o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e
-pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.
-
-Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a
-alcôva:--quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino
-das Lamellas. Juro que não foi outro.--Esta affirmativa cravou-lhe no
-coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir
-pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a
-deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza
-conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse
-o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que
-lhe estava a rapar a cabeça.
-
-Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia
-assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava
-arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um
-bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto
-onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o
-pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.
-
-O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara
-um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da
-Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio
-de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe
-pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e
-Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio
-passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito
-na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o
-levava a mal, pelo contrario.
-
-Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha
-estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça,
-bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O
-padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando.
-Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a
-cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na
-ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a.
-Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre
-Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo,
-um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada,
-mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do
-Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno
-lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo.
-
-Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos
-ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua
-seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á
-romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos
-opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e
-a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do
-seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e
-do pai.
-
-O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a
-filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O
-Feliciano acudiu:
-
---Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É
-minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo.
-
---Eu morria contente--balbuciou o Simeão lacrimoso--se ella fosse sua
-mulher...
-
-Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza
-olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para
-o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano
-esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha,
-aconchegando-a de si, com muita ternura:
-
---Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço...
-
-Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o
-leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em
-convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza
-e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas
-n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta.
-
-O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára
-a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano
-disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia;
-era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e
-tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam
-o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a
-affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe
-vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella
-não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno
-entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque.
-
-
---Elle disse que o melhor era casar-se--lembrou o Feliciano ao padre
-Osorio.
-
-
-[Nota de rodapé 9: Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares
-d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".]
-
-[Nota de rodapé 10: Carta de 10 de junho de 1877.]
-
-[Nota de rodapé 11: Quando Pinho Leal publicar as suas _Memorias_,
-então se saberá o verdadeiro nome do morto.]
-
-[Nota de rodapé 12: Carta citada.]
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Relatava o vigario de Caldellas:
-
---O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não
-era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto
-á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a
-ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o
-prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento
-de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se
-minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que
-quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao
-casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite
-nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos,
-choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano
-me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e
-tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a
-castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas
-ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as
-impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito
-escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me
-aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o
-operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a
-consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são
-condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças
-climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins
-eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que
-direito ia eu estragar aquelle excellente organismo?
-
-Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e
-costumes dos maridos sertanejos do Minho.
-
-O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim
-como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da
-defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos
-nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse
-contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam
-prova. Não quiz.--Depois é que me dão cabo do canastro;--dizia com um
-dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção
-primaria.
-
-No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má
-lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de
-escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do
-pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios,
-consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida
-encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas
-onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de
-duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com
-dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de
-Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a
-forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas,
-quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira,
-embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina
-ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com
-petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão
-tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto.
-
-Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar
-com a sobrinha.
-
-O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado
-augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da
-janella. E por fim ameaçava-o--_que se casasse com a Martha, não a
-havia de gosar muito tempo_. O Feliciano mostrou a carta ao irmão.
-Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O
-brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a
-vingança ao cabo--bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra
-de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei
-o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico,
-inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o
-brazileiro ao mano, n'um grande mysterio.
-
-Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de
-olhos estrabicos, d'alcunha o _Alma-negra_, um que o tinha avisado,
-quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera
-relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros
-apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao
-seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão
-como rato.
-
-O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em
-um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher
-e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde
-que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em
-segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas
-por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:--Elle bem sabe a
-quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse...
-
-
-O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o
-compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que
-lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de
-uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso.
-
---É aqui, disse o Melro.
-
-O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro
-tachas: _Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a
-quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa,
-dizima a Deus, para partilhas_. O Feliciano leu, retirou-se apressado
-para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre
-Melro respondeu:
-
---Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho
-a casa...
-
-Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna
-que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a
-lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez
-a comprasse para a dar a um afilhado ...
-
---Ao teu pequeno?!--perguntavam.
-
---Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas!
-
---Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a
-mim pagar-te um quarteirão d'aguardente--encareceu um pedreiro.--Anda
-agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que riqueza! Parece um
-mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que case com a Martha. Lá
-o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que dá cada
-arranco...
-
---O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão--disse o Melro.--O Simeão
-tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a leve o diabo! Eu, se
-fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu compadre ... não devo
-dizer nada. Que se governem.
-
-
-O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a
-taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:--A casa
-do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...
-
---Credo!--exclamou a mulher com as mãos na cabeça.--Nossa Senhora nos
-acuda!
-
---Leva rumor!--e punha o dedo no nariz.
-
---Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que
-penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...
-
---Já te disse que me não cantes--e relançava-lhe o seu formidavel
-olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o
-cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede
-uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse
-mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e
-descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois,
-voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.
-
---Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!--insistia a mulher, limpando os
-olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da
-Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava
-as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina
-rouca:
-
-
- _Leva ávante, portuguezes,
- Leva ávante, e não temer_...
-
-
---Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.
-
-E o Melro n'uma distracção lyrica:
-
-
- _Pela santa liberdade,
- Triumphar ou padecer_...
-
-
-Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da
-culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero
-impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão
-em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do
-cano.--Está suja--disse elle--dá cá um todo--nada de aguardente.
-
---Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!
-
---Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!--E
-poz-se a assobiar a _Luizinha_. Enroscou algodão embebido em aguardente
-no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem
-brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o
-ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibillo egual. Parecia
-satisfeito, e cantarolava, _mezza voce_:
-
-
- _Agora, agora, agora,
- Luizinha, agora._
-
-
-Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia,
-introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes,
-acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que
-o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente.
-Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com
-polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou
-a aresta da pederneira que faiscava.
-
---Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!--soluçava a mulher.
-
-E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um
-_sfogato_:
-
-
- _E viva a nossa rainha,
- Luizinha,
- Que é uma linda capitôa_...
-
-
---Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e
-uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.
-
-A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus
-de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e
-regougou:--Máo! ... máo!...
-
-Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no
-sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora
-ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta
-ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.
-
-
- _Agora, agora, agora,
- Luizinha, agora._
-
-
-Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias
-vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao
-ponto.
-
-A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos
-a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O
-_Alma negra_ fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou
-enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da _Maria da
-Fonte_.--Ora agora--disse elle--ouvistes? porta da cozinha e a cancella
-da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.
-
---Vai com Nossa Senhora--disse a mulher--e poz-se de joelhos a uma
-estampa do Bom Jesus a rezar muitos _Padre-nossos_, a fio.
-
-Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão
-pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma
-estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem
-ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás
-vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das
-carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se
-avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro
-estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio
-da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha
-d'aquelle homem que ia matar outro--chamal-o á janella e varal-o á
-traição com uma bala.--Era o traçado.
-
---Que raio de escuro!--dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.
-
-Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao _Fiat_
-genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não
-escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua
-individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão
-pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem
-feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas
-tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do
-visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se
-não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades,
-encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as
-patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem
-venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata,
-chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por
-entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a
-esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.
-
-O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes
-e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos
-gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas,
-rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões.
-Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia
-intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia
-engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das
-familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do _faubourg
-Saint-Honoré_, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.
-
-Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
-Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.
-
-O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante
-pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.
-Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra de _porta_, e o
-banqueiro recolhêra com as paradas que estavam _dentro_, quando tirou a
-contraria _de cara_.
-
---Que não admittia ladroeiras!
-
-E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito
-de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram
-cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros;
-que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem
-queria roubar que fosse para a Terra Negra.
-
-A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos
-cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra
-Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a
-sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o
-Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois
-galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu
-a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando
-entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de
-caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao
-mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e,
-vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços,
-quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o
-Zeferino.
-
-
-Quando, á meia noute, o _Alma-negra_ entrava em casa pela porta do
-quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom
-Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a
-tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o
-bafo.
-
-O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida
-e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem
-estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do
-Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina
-imagem. O marido objectava contra o milagre--que o compadre não lhe
-dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a
-mulher--que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então
-na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.
-
-Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o
-compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:
-
---Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os
-outros não matam elle, hein?
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario
-de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho
-veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas
-carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito
-faceiro, dizia ao Feliciano:--Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa
-com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta
-para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si
-quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.
-
-O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe
-percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam
-nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir
-equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos
-intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o
-portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.
-
-A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim
-da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou
-do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:--A senhora
-ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?
-
---E se eu morrer adiante de ti?--perguntou D. Thereza risonha.
-
---Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe--e
-abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar--eu ... eu morro, ou endoudeço.
-Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai,
-cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão
-acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como
-ella acabou.
-
-D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que
-se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e
-ricos.--Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um
-pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de
-sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida
-airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe
-trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em
-novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo;
-porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio,
-pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do
-Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações
-de uma indole artificialmente delicada.
-
-O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:--Ella
-quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia
-nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um
-pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia
-entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas
-parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha,
-como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça
-parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de
-uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica
-franceza desde 1835 a 1845--tudo o que ha de mais falso e tolo na
-litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de
-Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa
-de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar
-no thalamo conjugal com o arganaz do tio.
-
-
-Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a
-missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do
-Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma
-perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio
-collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza.
-queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via
-faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que
-se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a
-deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela
-vida de seu irmão.
-
-A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico,
-precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas
-não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse
-deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio
-d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á
-filha:
-
---São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.
-
-Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera,
-n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a
-nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um
-paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a
-leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão
-que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão
-coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua
-sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera
-que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio
-então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais
-chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como
-estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza.
-Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario,
-virginalmente.
-
-
-D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio.
-Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao
-vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito
-carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas
-d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no
-rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os
-sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se
-evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido
-tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma
-sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo
-os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos.
-Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu
-mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do
-amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do
-que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias.
-Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos
-seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala.
-Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella
-depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a
-transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio,
-depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com
-ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços
-com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com
-os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na
-sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a
-fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa
-estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.
-
-Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do
-brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se
-sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão
-phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco
-fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das
-impurezas alheias.
-
-O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco
-recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades
-occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um
-velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha
-era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as
-impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas
-produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse,
-que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o
-habito.--Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto,
-quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha
-como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um
-filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos
-nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente!
-
-
-Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para
-dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse
-hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de
-que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do
-Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia
-raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa.
-Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e
-professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas
-desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao
-padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia
-fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo
-da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe.
-
-O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos
-epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a
-chamar-lhe _José, seu Josésinho_. Passada a nevrose, quando ela
-imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe
-chamar _Josésinho_. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e
-dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:--que era
-hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão,
-esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas,
-consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que
-a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali
-epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um
-estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente
-se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez
-intercorrente.
-
---Ella está gravida--observou o vigario de Caldellas.--Parece que este
-facto denota uma tal ou qual normalidade de consciencia, uma concepção
-racional dos deveres de esposa...
-
---Não denota nada--refutou o medico.--Faça de conta que é uma
-somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não
-ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega
-que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes
-do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para
-Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra
-n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a
-perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao
-espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os
-desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao
-primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens,
-veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas,
-concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já
-n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a
-mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o
-tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de
-fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena
-tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem
-paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha
-vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos
-nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a
-paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto
-embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se
-avenham: a verdade é esta.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão
-almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela
-revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e
-disse que queria seguir os sermões,--que precisava de salvar a sua
-alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de
-religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as
-devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não
-deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que
-fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas
-enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso
-conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a
-primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca.
-
---Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella--dizia o
-padre-mestre.
-
-Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em
-Requião.
-
-O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes
-sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em
-Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China;
-depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria,
-sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica,
-Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio
-dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos
-suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito,
-aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu
-somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle
-caminho--que _não calhava p'r'á prédega_.
-
-O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da _Escada do
-céo pelas escarpas do Golgotha_ e da _Via seraphica para o reino dos
-Cherubins_, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito
-realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que
-tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis,
-quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem
-amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar
-as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: _E
-o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia
-dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus
-bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas
-lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te
-perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu
-filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe_! E infantilisava o timbre
-da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os
-braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no
-geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e
-braços: _Mãe, ó mãe_! E todas as que tinham perdido filhinhos
-desatavam n'um berreiro.
-
-O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina
-digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era
-forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos
-diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em
-esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu,
-Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus
-competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado
-Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis--verdadeira
-superfluidade.--Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o
-ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza
-chamava-se _Mamona_. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe o
-oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores--_oleo de
-Mamona_. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos _demonios
-incubos_. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses
-devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam,
-mesmo contra a vontade da mulher, _rem habere cum ilta_. E as
-mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam
-indignadas:--Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!--e benziam-se,
-cuspinhando nos calcanhares umas das outras.
-
-Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito,
-era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo,
-peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos
-dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos
-sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de
-prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria
-cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do
-seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do
-inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á
-omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a
-reducção da mãe de José Dias.
-
-Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do _Peccador
-convertido ao caminho da verdade_, obra do seu conventual varatojano
-frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação.
-Chamava-lhe elle o _seu balde de tirar almas do profundo poço do
-enxofre infernal_ Todas as beatas se consideravam mais ou menos
-empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato.
-
-Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro.
-Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita
-esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz
-confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa
-seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que
-parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre
-Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que
-Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora,
-esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo
-das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus
-tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.
-
-Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas
-saburrentas e gretadas das beatas--que enguliam aquella farinha triga
-como quem devora sevamente um Deus--cá fóra armavam-se no adro dois
-taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de
-guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes,
-sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados,
-expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo
-injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de
-subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do
-templo, ouvia-se cá de fóra:--Arre, bebeda!--Cala-te ahi, calhamaço!
-
-A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em
-brochura e encadernadas dos missionarios, constava da _Regra de S.
-Bento_, da _Missão augmentada_, da _Missão abreviada_, das _Piedosas
-meditações_, das _Horas do christão_, do _Mez de Maria_, do _Mez de
-Jesus_ e do _Livro de Santa Barbara_. Havia tambem _Novenas_,
-_Via-sacras_ com estampas d'um horror sacrilego, uns Christos que
-pareciam manipansos do Bihé. Seguia-se a camada dos _Escapularios_; uns
-eram de _N. S. do Carmo_, de _N. S. das Dôres_, da _Conceição_;
-outros do _Preciosissimo sangue de Jesus_, do _Coração_ do mesmo, da
-_Santissima Trindade_ e de _S. Francisco_. Tinham grande sahida os
-_Cordões_ do mesmo santo, e as _Correias de S. Agostinho_, com um
-botão de ôsso, a apertar na cintura,--arnez impenetravel ao diabo, por
-causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para ôsso muito
-admiraveis, quasi como as da carne, mas no sentido inverso--ella
-attrahindo o cão tinhoso, e elle repulsando-o. De _Santo Agostinho_ e
-do _Anjo da Guarda_ também havia _Rezas_ enfiadas em metal, ou em
-cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande
-profusão: as medalhas mais procuradas eram as do _Coração de Maria_,
-do _Coração de Jesus_, do _Anjo da Guarda_ e de _Santa Thereza_, a 10
-réis.
-
-As _corôas_, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram
-diversas no tamanho e na nomenclatura: as _seraphicas_ com sete
-_mysterios_, e cada mysterio com dez _Ave-Marias_; as da _S. da
-Conceição_ com doze _Aves_ e tres _mysterios_:--uma certa conta que
-os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas.
-Havia algumas que se aguentavam com os _Rosarios de quinze mysterios_, e
-a _Corôa dos nove coros dos Anjos_, e a do _Preciosissimo sangue e
-coração de Jesus_. Mas o grande consumo era de _contas de azeviche_,
-refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é
-legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio
-a meio.
-
-Martha, a beata, a senhora _brazileira de Prazins_, como lhe chamavam as
-regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado;
-mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o
-_Peccador convertido ao caminho da verdade_, edição do seu confessor
-varatojano, fr. João de Borba da Montanha.
-
-São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por
-Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante,
-suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia,
-solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades,
-reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no
-espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o
-padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no
-_Peccador convertido_, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado
-_Resistencia ás tentações contra a castidade_. Fortalecia esta
-hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe
-apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o
-na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a
-não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao
-confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado,
-fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por
-vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do
-varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia,
-a _Resistencia ás tentações contra a castidade_.
-
-A oração dizia assim:
-
-_Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que
-me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que
-não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei
-aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos,
-filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu
-amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para
-conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre
-milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque
-innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes?
-Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só
-servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro,
-desfalleço, se vos não acho._
-
-_Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso,
-são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de
-Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus
-cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo,
-bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as
-admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que
-será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre
-correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que
-magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que
-suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não
-serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces
-são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre
-cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces
-do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta,
-nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são
-assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua
-que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o
-jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e
-tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de
-flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes
-da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo,
-se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade
-ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que
-fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a
-minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia
-de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente,
-lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da
-mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma
-parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus
-olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes
-escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as
-palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da
-cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos
-escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos
-busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos,
-todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e
-por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e
-jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a
-outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando
-a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza,
-que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes,
-celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó
-peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem
-vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta
-para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale,
-porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não
-tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a
-sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos
-dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua
-composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o
-Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu
-amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque
-sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de
-amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel.
-Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas
-da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor_...
-
-
-Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um
-arrobamento de _preghiera_. Aquelles dizeres, alinhavados pelo
-varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do
-poema dramatico da _Sulamita_ no «Cantico dos Canticos»--os trêchos
-mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de
-todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza
-de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza
-madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades.
-D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de
-meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se
-fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes
-principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas
-correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o
-figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.
-
-Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser
-tangivel, o seu unico termo de comparação--o José Dias, esposo da sua
-alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade.
-Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que
-a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez
-marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos
-cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro
-com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações
-voluptuosas da sua alma e do seu corpo.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser
-grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano
-desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser
-malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do
-inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de
-alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior
-parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem
-e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem
-se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não
-desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era
-que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no
-tecto.
-
---Pois é isso...--atalhava o varatojano.
-
---É isso quê, snr. frei João?--perguntava o marido.
-
-O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado
-pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a
-occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma
-alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do
-inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o
-latim--uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia
-a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente
-aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio
-incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de
-Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a
-brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O
-padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em
-golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso
-reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha
-alguma duvida a pôr.
-
---Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o
-vigario.--Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o
-ente perverso que faz soffrer a pobre Martha...
-
---_O diabo, filho de Deus_!--interrompeu o varatojano, levando as
-mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma blasfemia
-enorme... Santo nome de Jesus! O _diabo filho de Deus_! Anathema!
-
---Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!--contraveio sereno e
-risonho o outro.
-
---A logica? a logica de Calvino, de Voltaire.
-
---Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario
-bracharense. Creador não é pai?
-
---É sim, e d'ahi?
-
---Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de
-Deus; logo: Deus é pai do diabo.
-
---_Distinguo_!--contrariou o varatojano.
-
-E o vigario, sem attender á interrupção escolastica:
-
---Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio
-é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o
-diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da
-Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo?
-
---_Distinguo_!--insistiu o varatojano apoiado nas velhas formulas da
-dialectica esmagadora--Deus creou os anjos; d'estes houve alguns que se
-rebellaram contra o seu creador, e foram precipitados do céo: são os
-espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos não desceram ás trevas
-inferiores, e permanecem para flagello do genero humano no ar
-caliginoso. _Aer caliginosus est quasi carcer dœmonibus usque in diem
-judicii_, diz S. Agostinho. Deus permitte que os demonios vexem as
-creaturas, pelo bem que póde resultar ás creaturas d'esse vexame. É o
-que se colhe do Evangelho de S. João: _Omnia per ipsum facta sunt_. Por
-tanto, Deus permitte o mal? logo: este mal é bom, por que Deus é o
-Summo Bem. Verdade é que os males não são bens...
-
---Ia eu dizer...--atalhou o padre Osorio; ao que o missionario acudiu
-prestes e victoriosamente:
-
---Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz:
-_Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine
-bono_. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; _id est_, permitte
-o demonio como exercitação saudavel do genero humano. _Melius
-judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere_,
-diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A
-divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi
-resulta.» _Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos
-Angelos propler bona quæ ex eis elicit_. São doze as causas por que
-Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira:
-para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro
-atormentado; segunda...
-
---Estou convencido, snr. frei João--atalhou o vigario,--vossa
-reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso que Deus permitte
-demonios flagellantes para depurar com elles os peccadores,--uns e
-outros creaturas da sua divina justiça.
-
---É isso mesmo.
-
---O espirito do máo homem--do peccador que é em si um demonio interno,
-depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos creaturas do seu
-divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que
-azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as mortificações
-como caricias. Rico pai!--E accrescentou com amargura:--Ah! meu frei
-João, receio muito que as superstições venham a desabar o
-catholicismo que deve a sua existencia á victoria que alcançou sobre
-as mentiras da idolatria com as armas da verdade. _Ego sum veritas_.
-
-Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio,
-quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de
-despedida em casa da brazileira.
-
-Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei
-João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na
-quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas
-filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma
-vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros,
-catando as proprias pulgas e as vidas alheias.
-
-Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo.
-Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas
-nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo
-lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo
-Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo
-Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos
-grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano,
-mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas.
-
-Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz
-de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O
-exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e
-aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus
-que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem
-oração, não sahiam do corpo:» _Hoc genus demoniorum in nullo potest
-exire nisi oratione et jejuino_. O Feliciano dizia que sim, que jejuava;
-mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos;
-começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e
-do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na
-sua familia.
-
-Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os
-fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos,
-e bastava-lhe citar os seguintes:
-
-Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E
-mostrava o texto: _quando patiens audit quasdam voces se vocantes_. Por
-que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio
-lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano
-confundia-o com o latim. _Quando quis non potuit gustare panem aut
-carnem_. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra do
-diabo, por que o livro dizia,--bem vê--mostrava frei João ao padre
-Osorio: _Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho_.
-Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a
-certeza:--_Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret_. Havia um
-artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão incuba
-de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de
-repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias
-do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha
-n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do _Signal_ decimo
-terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu _Brognolo_, e vai em
-latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar
-intelligencia:--_Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest,
-quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse_.--Aqui é
-onde bate o ponto!--dizia frei João martellando com o dedo indicador na
-pagina indecente.
-
---Mas não será essa visão o introito de uma alienação
-mental?--perguntava o de Caldellas.--Não vê, padre João, que esta
-rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da
-sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica...
-
---Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio--replicou o egresso.
-Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.--E folheou o Brognolo, até
-encontrar o texto triumphal.
-
---Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio.
-
-O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: _Os demonios
-acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico
-com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde.
-Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas
-enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as
-membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos
-causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de
-melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio_, etc.
-
---O padre Osorio está-se a rir?!--invectivou fr. João abespinhado.
-Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade de S. Thiago
-d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era muito seguro em
-materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico nas suas predicas,
-e que dava mais importancia á quina do que aos santos milagrosos na
-cura das maleitas.
-
---Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo
-pôdre--obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada
-indignação o missionario.--A respeito da enfermidade de Martha, sou a
-dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem
-banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos,
-que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é
-filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a
-não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro
-senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras
-vezes a sciencia vence--o demonio da demencia hereditaria que a não se
-curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta.
-Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos,
-ouvisse a opinião dos medicos.
-
---Eu sei o que dizem os medicos--e sorria com menospreço da pobre
-medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que
-não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou,
-e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve
-ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos?
-Nega que Jesus Christo expulsava demonios?
-
---Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos...
-
---E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses _factos_ a que o
-padre Osorio chama _historias_; não são historias, são factos.
-
---Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não
-são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então!
-
-A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios
-ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo,
-exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos.
-Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um
-ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde
-a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação
-da governanta, que lhe dizia:
-
---A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar
-uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim,
-como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas
-e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José
-Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José
-Alves?
-
---E depois?
-
---Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das
-rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos
-braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o
-quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que
-foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com
-o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos...
-
-O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe
-disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres
-parochiaes, e observou-lhe:
-
---Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr.
-Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o
-padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um
-giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir
-distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa.
-
-O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas
-que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem
-curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque
-estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na
-batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por
-morte do pai;--que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que
-partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a
-respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de
-comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque
-em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que
-levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.
-
---Que sim, que comprasse o Manual do Raspail--concordou o padre Osorio,
-e sahiu muito cançado--dizia elle á irmã--de lidar com as duas
-cavalgaduras.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com
-frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo
-dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia
-uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola:
-seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com
-a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de
-pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena
-com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e
-ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em
-conformidade com a rubrica de Brognolo--_com grave aspecto e voz
-horrivel_, diz o demonómano. Começou por exercitar o _Preceito
-provativo_, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou,
-fazendo estremecer Martha: _In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est
-minister Christi_... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos
-espiritos immundos, _vet vobis spiritis immundis_, que, se estavam no
-corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a,
-ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus
-lhe fosse permittido _eo modo quod a Deo juerit permissum_. Martha
-estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do
-latim do padre senão _demonio_ e _espiritos immundos_. Nunca lhe tinham
-dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe
-n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater
-o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos
-de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições,
-succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha
-condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da
-demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo
-suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as
-lagrimas lhe explodiram n'uma torrente.
-
-Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e
-poz-lhe o _Preceito lenitivo_: «Que a vexação cessasse
-immediatamente--impunha elle aos demonios malditos--e toda a afflicção
-causada por elles» _et omnia afflictio a vobis causata_. E atacou logo
-os demonios com o _Preceito instructivo_ «que immediatamente a
-prostrassem na presença d'elle, se ella estava possessa» _et statim
-coram me illam prosternatis_. Martha, com effeito, estava prostrada, com
-a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epileptico, e o
-collo e o tronco hirtos n'uma inflexibilidade tetanica.
-
---Não ha que duvidar--disse o exorcista ao marido e ao pai da
-possessa.--Levem-na d'aqui e depois continuaremos.
-
-Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que
-passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que
-não queria mais confessar-se com elle.
-
---Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla;
-é o demonio que me teme!--exclamou o exorcista com uma santa basofia,
-refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo
-que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua
-defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera
-que lhe fizessem as rezas.
-
-Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista,
-carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge.
-Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os _Preceitos
-que a creatura vexada pôde pôr ao demonio_. Martha, de joelhos, diante
-do oratorio, leu: _Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus,
-redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se
-humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus,
-que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu
-corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo_.
-
-O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com
-um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:
-
---Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo!
-
-Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano--o maldito
-serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te,
-Satanaz!
-
-E lançou mão do gladio das _Objurgações_. As objurgações são
-perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. _Dize, maldito
-demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que
-foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te
-perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça
-de Deus_? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece
-n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se?
-_Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare_?
-
-O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que
-se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços
-cruzados no peito e olhos no Christo, declamou:
-
-_Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in
-eis ignem accende_. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os
-corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois:
-_Dominus vobiscum_.
-
---_É de co espirituó_--respondeu o Simeão, que sabia ajudar á missa.
-
-Seguiram-se varios _Oremos_ e deprecações, e a _Ladainha de Nossa
-Senhora_; mais outros _Oremus_, e a _detestação_ da energumena, uma
-estirada que principiava: _E tu, demonio maldito, com que auctoridade
-intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por modo algum_? Martha
-rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem estar de joelhos; que
-tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e
-formidavel no seu ministerio--que não, que não se ia deitar, que não
-lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus pés! Elle então, segundo
-a rubrica do livro director, _sentou-se, cobriu-se, voz grave e
-horrivel, virado contra o demonio, como juiz para tal réo já
-convencido_, aspergiu a possessa de agua-benta, ululando: _Asperge me,
-Domine_ ... e recommendou aos circumstantes que apagassem duas velas, e
-não dessem palavra. Profundo silencio. Ouvia-se apenas o zumbido das
-moscas que se esvoaçavam do tecto attrahidas pelo calor da luz unica e
-pousavam na fronte chagada do Christo. O recinto era espaçoso e quasi
-em trevas. A vela, encoberta pelas curvas lateraes do oratorio, não
-alumiava senão o curto espaço da projecção em que Martha, retrahida
-n'um terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos labios, como
-se quizesse abafar os suspiros.
-
-Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em
-nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de _immundo_,
-affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais
-desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento;
-parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia
-com o Brognolo: _Se não estiver quieta, póde-a prender com uma
-estola_. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista
-levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: _Exurge, Christe!
-adjuva nos_! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos!
-
-O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem
-acôrdo.
-
---Victoria!--exclamou o exorcista--victoria!
-
-E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr.
-Feliciano: _O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou
-de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S.
-Marcos:--Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu
-no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual diz
-o texto: Et factus est sicut mortuus_. Depois, com jubilo, limpando o
-suor:
-
---Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do
-travesseiro.
-
-Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida
-do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista
-que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero,
-respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito,
-Carlos Baucio, na _Arte do exorcista_, legisla: «que os exorcistas não
-ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo
-mulher (_propter periculum_), pois que as mulheres nem com o signal da
-cruz se devem tocar--_Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ_.
-
-Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava
-risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com
-frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para
-o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de
-madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava
-com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do
-inferno e mais os exorcismos.
-
-Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D.
-Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove
-horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que
-a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma
-mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a
-correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da
-fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho
-obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das
-scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não
-tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de
-estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado
-pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou
-umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da
-casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto
-chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da
-estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias;
-outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos
-estridentes.
-
-O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe
-passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e
-disse-lhes com um racionalismo brutal:
-
---Ah grandes coiras!
-
-
-
-
-CONCLUSÃO
-
-
-Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro
-conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do
-vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava
-n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a
-defendesse do missionario.
-
-D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava
-a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma
-benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de
-José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque
-era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não
-se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas
-organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha
-estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em
-que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a
-alma de José Alves, como quem conta um caso trivial.
-
-Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns
-segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum
-de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a
-vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a
-beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha
-como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a
-brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo.
-
-Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a
-torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios.
-Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no
-sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á
-madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o
-seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim
-em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem
-juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande
-piedade, porque se convenceu então que estava perdida.
-
-O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a
-preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu
-repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os
-jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se
-casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações,
-olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que,
-tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar
-viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa
-recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e
-tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as
-condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua
-physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete
-annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado
-satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era
-funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as
-anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer
-estereis as dementes.
-
-Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que
-o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves,
-o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo
-ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da
-porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois
-d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á
-porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas,
-abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em
-contacto de um rosto amado. O nome de _José_ realçava com uma nitidez
-jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em
-esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe
-fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um
-argumento a favor das _Manifestações visiveis_, em que o fluido, o
-_perispirito_ se apresenta semi-material, com as fórmas vagas do corpo,
-quasi tangivel ao _medium_.
-
-O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de
-casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando
-fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se
-reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou
-menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não
-a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus
-pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe
-doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações
-arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam
-madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é
-que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um
-vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco
-Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D.
-Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do
-Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para
-se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do
-tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava
-nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças
-e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua
-familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal,
-Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o
-morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão,
-vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na
-tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás
-pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam
-os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos,
-quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte.
-
-A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus
-visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde
-que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já
-ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha
-quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações,
-e--o que mais é--ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos
-delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O
-padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e
-falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr
-acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr
-nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha.
-Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a
-dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de
-torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar
-que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez
-do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de
-instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes,
-excepto no maior numero das hystericas com erothismo.
-
-Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem
-serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde
-continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai
-educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham
-nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas.
-E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando
-regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem,
-dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos,
-escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da
-imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica
-menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para
-clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento.
-Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas
-violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro
-para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres
-reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas
-hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E
-o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo
-de dez por cento.
-
---Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu--dizia-me ha trez
-mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho
-escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de
-cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata
-de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas.
-
---Tem 84 annos--continuou o vigario de Caldellas--veio a pé de sua
-casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe
-outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a
-pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a
-frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda
-muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os
-papagaios viviam cento e cincoenta annos.
-
-
-
-
-P.S.
-
-
-Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta
-narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja
-responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo
-que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é
-meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da
-tolice, retiro tudo.
-
-Se o meu condescendente informador me permitte, ouso dizer-lhe--para nos
-esquivarmos ambos ás insidias da critica portugueza--que a demencia de
-Martha não é extremamente original nem o meu romance uma singularidade
-incontroversa. O que, sem disputa, é original, é duvidar eu de que o
-sou.
-
-Em um _Conto_ de Charles Nodier, auctor remoto que se perde no
-crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu
-quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole,
-pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe.
-
-Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita
-de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe
-flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de
-ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda,
-quando andava a recolher as flores dilectas para o _bouquet_ das nupcias
-com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e expirou.
-
-As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia
-de ambas--uma especie de resurreição do amado. No que ellas
-diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai
-no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal
-alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha
-quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado
-sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em
-amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida
-organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil
-de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma
-d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não
-ha nodoa de plagiato no meu livrinho--uma coisa original como o peccado.
-
-O leitor pergunta:
-
---Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance?
-Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise
-o individuo ou a especie?
-
-Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende
-reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em
-nome do patriarcha Voltaire, que _deixaremos este mundo tolo e máo, tal
-qual era quando cá entramos_.
-
-
- S. Miguel de Seide, dezembro de 1882.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A BRAZILEIRA DE PRAZINS: ***
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- The Project Gutenberg eBook of A brazileira de Prazins,
- by Camilo Castelo Branco.
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A brazileira de Prazins:</span>, by Camilo Castelo Branco</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A brazileira de Prazins:</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>scenas do Minho.</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Camilo Castelo Branco</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 4, 2022 [eBook #68905]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A BRAZILEIRA DE PRAZINS:</span> ***</div>
-
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/prazins_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h3>COLECÇÃO LUSITÂNIA</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h3>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h2>A BRAZILEIRA DE PRAZINS</h2>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 400px;">
-<img src="images/inner_cover.jpg" width="400" alt="" />
-</div>
-
-<div class="figcenter" style="width: 400px;">
-<img src="images/prazins_frontispiece.jpg" width="400" alt="" />
-<div class="caption">
-<p>Camillo Castello Branco</p>
-</div></div>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h2>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h2>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h1>A BRAZILEIRA DE PRAZINS</h1>
-
-<h3>SCENAS DO MINHO</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h5>Edição conforme a 1ª, revista pelo Auctor</h5>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h4>LIVRARIA LÉLO, LIMITADA&mdash;EDITORA</h4>
-
-<h4>144, Rua das Carmelitas&mdash;PORTO</h4>
-
-<h5>AILLAUD &amp; LÉLOS, Limitada&mdash;R. N. do Carmo, 80 a 84&mdash;LISBOA</h5>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind">
-<a href="#INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a><br />
-CAPITULO <a href="#I">I</a><br />
-CAPITULO <a href="#II">II</a><br />
-CAPITULO <a href="#III">III</a><br />
-CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br />
-CAPITULO <a href="#V">V</a><br />
-CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br />
-CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br />
-CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br />
-CAPITULO <a href="#X">X</a><br />
-CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br />
-CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br />
-<a href="#CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a><br />
-<a href="#PS">P.S.</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura01.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a></h4>
-
-<p>
-Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos
-livros antigos&mdash;a mais dispendiosa&mdash;leva-me o dinheiro que me
-sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes
-orgias de pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e
-me illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro
-em uma caturrice academica.
-</p>
-<p>
-Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo
-de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de
-malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina
-<i>missaes</i> todos os livros grandes; aos pequenos chama
-<i>cartilhas</i>. Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença
-que eu visse os livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu
-todos&mdash;que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de
-bibliomano. Elles, gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me
-seductores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da
-mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismutho.
-</p>
-<p>
-Havia sermonarios latinos, um <i>Marco Marullo</i>, tres rhetoricas, muitas
-theologias moraes, um <i>Euclides</i>, commentarios de versões litteraes de
-Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma
-versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro
-<i>Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de
-Horacio, por industria de Francisco da Costa</i>, impresso em 1639.
-</p>
-<p>
-Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga,
-havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para
-padre, morrêra ethico; que o seu homem&mdash;Deus lhe falle
-n'alma&mdash;mandára calear o quarto onde o estudante acabára, e
-atirou para as lojas tudo o que era do defunto&mdash;trastes, roupa e
-livralhada. Contou-me isto seccamente do extincto cunhado, ao mesmo
-tempo que roçava com a mão fagueira o ventre gravido de uma gata
-malteza que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em
-attritos d'uma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um
-affecto nostalgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me
-retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me
-piscava um olho com uma meiguice antiga&mdash;a das meninas da minha
-mocidade que piscavam. Onde isto vai!
-</p>
-<p>
-A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento,
-offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se
-chamava <i>Velhaca</i>&mdash;ajuntou com a satisfação de quem completa
-um esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da
-<i>Velhaca</i>, fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu
-familiarmente, e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de
-1816 e 1817 que a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado,
-me disse serem do tempo dos Affonsinhos.&mdash;Porque o seu sogro,
-accrescentou, era um asno ás direitas que comprava a bula para poder
-comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar
-heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e,
-ajuntando á heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que
-quer que fosse a respeito dos peccados que entram pela bocca.
-</p>
-<p>
-Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda
-mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de
-paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o <i>Bom senso</i> do
-cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a
-esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza&mdash;a
-Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e
-contentes para os mysterios da eternidade.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros,
-preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com
-folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do
-gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o
-<i>Entendimento literal e constrviçam</i> até paginas 154, e aqui achei um
-quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra
-esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do
-papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a
-Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a
-pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar.
-Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer,
-endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao
-pé de ti.</i>
-</p>
-
-<p style="margin-left: 60%;">Martha.</p></blockquote>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para
-interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem
-n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me
-logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr
-dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume,
-está escripto o nome do possuidor&mdash;<i>José Dias de Villalva</i>, e a
-carta é dirigida a um <i>José</i>. Conclui ser o cunhado da viuva quem
-recebêra a carta.
-</p>
-<p>
-Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um
-anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o
-seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando
-morreu.&mdash;Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria
-da Fonte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois elle amou a Maria da Fonte?&mdash;perguntei com ardente
-curiosidade historica, para esclarecer a minha patria com um episodio
-romanesco das suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os
-da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos
-escrivães, sabe vm.<sup>cê</sup>?&mdash;Acho que foi então ou por perto. E
-ajuntou:&mdash;Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a
-Martha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Martha?&mdash;disse eu com a satisfação de vêr confirmada a
-assignatura do bilhete.
-</p>
-<p>
-Vm.<sup>cê</sup> conhece-a?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não conheço.
-</p>
-<p>
-&mdash;É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem
-quinze quintas entre grandes e pequenas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada
-ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota,
-salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma
-pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico
-d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho.
-Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do
-Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de
-borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem.
-</p>
-<p>
-Interrompi com interesse de artista:
-</p>
-<p>
-&mdash;Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu
-cunhado?
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu
-cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que
-Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses
-casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu
-tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos
-estudos e sabe todas essas trapalhadas.&mdash;E n'um tom de noticia
-festival:&mdash;Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim
-que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
-</p>
-<p>
-&mdash;Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
-</p>
-<p>
-Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á
-nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson,
-escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem
-orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo
-Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com
-elle uma indagação de curiosidades sentimentaes.
-</p>
-<p>
-Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que
-tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve
-mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração
-mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous
-annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado.
-Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos
-peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a
-arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.
-</p>
-<p>
-Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por
-todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os
-panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que
-prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço&mdash;casos que
-a pobre Natureza e o periodico chamado <i>Esculapio</i> só de per si não
-poderiam explicar.
-</p>
-<p>
-O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em
-linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão
-previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes,
-sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande
-milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se
-restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira
-estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle
-negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos
-leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois,
-accrescentou:&mdash;Deus fez o supremo milagre da sciencia para
-centuplicar as forças á natureza enfraquecida.&mdash;O theologo
-enrugou scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:&mdash;O
-snr. reitor foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de
-Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e
-melhor.&mdash;O reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais
-frequentou o pulpito.
-</p>
-<p>
-Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a
-dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns
-esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que
-pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se?
-perguntei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me
-que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá
-vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas
-reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não
-lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador?
-</p>
-<p>
-Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou
-affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas
-recordações, disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O
-meu pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não
-o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr,
-é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo
-morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle
-nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente.
-Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra,
-afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao
-golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha
-está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de
-Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna
-aureola a sua phantastica Virginia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores
-que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu
-immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei
-que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e
-a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do
-que isto...
-</p>
-<p>
-O cura interrompeu:&mdash;Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece
-bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem
-de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram
-intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na
-escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor
-fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias
-depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as
-ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me
-envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de
-fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha
-Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou
-que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das
-novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de
-Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas,
-não encontrára caso imitante.&mdash;E, dando-me o bilhete de Martha: Este
-quarto de papel é o exordio de uma agonia original.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias
-sentimentaes&mdash;detestavel especie archeologica que ninguem
-tolera,&mdash;farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e
-refugando as flores de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas,
-bravias como sêrro de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar
-bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A
-Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra
-n'uma idéa a sua certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade
-de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as phrases&mdash;madeixas do
-espirito&mdash;são refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura02.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="I">I</a></h4>
-
-<p>
-Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um
-irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no
-espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes
-encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de
-Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando
-embarcou, e o resto para elle&mdash;«5$400 réis, dizia, é que o maroto,
-podre de rico, me mandou em vinte annos!»
-</p>
-<p>
-A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte,
-e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro,
-mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José
-Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz
-estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e
-amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar
-pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam quasi
-nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da alma
-que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram
-soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os
-psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o
-penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a
-ordenação&mdash;uma coisa que se fazia com uma perna ás costas,
-diziam certos vigarios&mdash;sem precisão absoluta de puxar pelas
-memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o filho do <i>latim</i> que lhe
-ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr. Roque. Este padre-mestre
-tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e prendas de costura, marcava,
-fizera um pavão de missanga, não desconhecia o crochet e ensinava
-raparigas para se distrahir.
-</p>
-<p>
-No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez
-a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de
-cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois
-folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito
-séria com proposito de mulher e ares muito sonsos&mdash;diziam as outras,
-que lhe chamavam a <i>songuinha</i>. Os outros estudantes, rapazolas
-vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa
-nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios
-ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a
-Martha&mdash;chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias,
-arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa,
-indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na
-barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de
-abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do
-quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica,
-pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito
-musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo
-exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira.
-</p>
-<p>
-Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe
-aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha.
-Queixou-se a Fr. Roque.
-</p>
-<p>
-O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de
-esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou
-a Martha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo,
-cachopa?&mdash;perguntou o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos,
-orbiculares, com as hastes oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para
-o primeiro da fileira que era o José de Villalva:
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi este?
-</p>
-<p>
-&mdash;Esse nunca me disse nada&mdash;respondeu com a voz tremula, toda
-vermelha, a rapariga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi este?
-</p>
-<p>
-Martha não ergueu os olhos nem respondeu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é
-que algum embarrou por ti.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não me queixei...&mdash;murmurou a interrogada.
-</p>
-<p>
-Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do
-alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um
-canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam
-á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem
-espreita, quando ella subia a escada.
-</p>
-<p>
-O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não
-porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um
-justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que
-gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a
-primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque,
-averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que
-não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o
-sacerdocio&mdash;uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se
-dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no
-fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma
-noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro
-n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem
-lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e
-mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle
-desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma
-tenda por motivos de architectura&mdash;um martyrio de artista. Invejas.
-Por causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da
-Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha
-padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a
-cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega,
-dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto.
-</p>
-<p>
-Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do
-Salamondi e o <i>Grito das almas</i>, decifrava menos mal umas sentenças
-velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas
-demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por
-pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua
-benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe
-ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas
-velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o
-bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo
-cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.
-</p>
-<p>
-A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao
-estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua
-saude fraca, um pelém.
-</p>
-<p>
-N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão
-de Prazins, de um modo quasi original.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você quanto deve, ó tio Simeão?&mdash;perguntou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas?
-</p>
-<p>
-&mdash;Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto
-e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de
-andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua&mdash;um conto e
-quinhentos e pico.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quanto é o pico?
-</p>
-<p>
-&mdash;Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao
-mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na
-feira dos 13.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você quer fazer um cambalacho?&mdash;tornou o pedreiro recuando o
-chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer
-comprar-me o lameiro da azenha&mdash;não vendo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim.
-Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a
-dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho
-que eu não lhe quero uma de X.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você falla serio, ó sôr Zeferino?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora bem&mdash;entendamo'-nos&mdash;é a rapariga que você quer, a
-rapariga estreme, sem dote nem escriptura?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
-</p>
-<p>
-&mdash;A rapariga é sua.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a
-vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela
-torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo
-debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem
-gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez
-crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos,
-arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos
-da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase.
-Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas
-salas, entre homens da melhor polpa e casca social&mdash;uns que mandaram
-ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do <i>Journal
-des Dames</i> que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o
-arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra
-parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de
-senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne
-constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o
-<i>substratum</i> da compra de negras a milhares:&mdash;comprar uma branca,
-das que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto
-feito em Prazins&mdash;eis a differença&mdash;por parte do pedreiro era um
-heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o
-seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados
-em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem
-d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram
-assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina
-de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina,
-não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O
-defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por
-jejuns, lhe converse com a alma.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura03.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="II">II</a></h4>
-
-<p>
-Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira
-via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis
-para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava
-a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,&mdash;que já tinha para os
-feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas
-quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se
-ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle
-chegar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!&mdash;exclamou o
-Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo
-Thyrso e ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o
-dono do mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado
-gordo&mdash;a rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua,
-d'uma grande pacificação somnolenta&mdash;perguntou-lhe se queria
-vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como
-um homem que acorda com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe
-que não vendia para não transmittir ao comprador a excommunhão que
-arranjára comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em
-materia e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de
-Franklin. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos
-á venda, ou quintas ahi para quarenta mil cruzados.
-</p>
-<p>
-O Zeferino das Lamellas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o
-negocio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para
-se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de
-abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:
-</p>
-<p>
-&mdash;Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda
-não sabe que vem ahi o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e
-conventos?
-</p>
-<p>
-E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de coiro em
-que tinha recibos da decima, um aviso da junta de parochia para pagar a
-congrua, uma conta de azeviche contra maus olhados, uma oração
-manuscripta contra as maleitas, um officio antigo que o nomeava regedor,
-de que fôra demittido pelos Cabraes, uma velha resalva de recrutamento,
-uns versos que elle recitara no natal, em um Auto do nascimento do
-Menino, onde elle fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa
-Barbara, muito cebaceo, com um lustro azulado de graxa e a carta do
-Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você ainda não ouviu fallar d'esta carta!?&mdash;perguntou com
-sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a
-desdobrar.&mdash;Não se falla n'outra causa. Toda a gente sabe que vem
-ahi do Brazil o meu Feliciano para comprar quintas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já me constou&mdash;disse o pedreiro,&mdash;mas você roe a
-corda á conta d'isso, acho eu...&mdash;E como o lavrador
-hesitasse:&mdash;O negocio da rapariga está feito ou não está feito?
-Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha p'ra'hi
-o que tem no interior.
-</p>
-<p>
-O Simeão mascava, torcia-se, mettia com dois dedos a carta estafada na
-carteira e resmungava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você, emfim, isto é um modo de fallar, como o outro que diz; você
-bem entende que ... sim...
-</p>
-<p>
-&mdash;O que eu entendo physicamente fallando é que você não me dá a
-rapariga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe vêr, deixe vêr o que diz o meu irmão&mdash;tartamudeava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe você que mais?&mdash;volveu iracundo o architecto dando com o
-ôlho do machado n'um canhoto.&mdash;Você é de má casta. Não tem palavra nem
-vergonha n'essa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da
-Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada...&mdash;Allusão pungente a
-um tio do Simeão, o Bernabé, capitão das maltas de salteadores que
-infestaram em 1835 aquella serra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja lá como falla...&mdash;interrompeu o lavrador ferido na sua
-linhagem.&mdash;Você não me deite a perder...
-</p>
-<p>
-E o outro, n'um impeto de consciencia robusta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em
-contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças
-seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi
-depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu
-alma de cantaro?&mdash;E n'uma irritação crescente:&mdash;Se você
-não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira.&mdash;É
-muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:&mdash;Guarde a filha que eu
-hei de achar mulher muito melhor que ella pelo preço, ouviu você? que
-leve o diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz.
-Livrei-me de boa espiga. De você não póde sahir cousa boa; e mais da
-mãe que ella teve, que já lá está a dar contas...
-</p>
-<p>
-E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito
-de ordem e paz:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do
-Reguengo de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A
-songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada
-de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao
-estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre
-d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não
-quizeste?&mdash;e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o
-interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de
-insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.&mdash;E
-continuava:&mdash;Quem lhe déra dois pontapés, n'elle a mais
-n'ella!&mdash;e muito rubro de colera dava pancadaria nas pedras, nas
-raizes nodosas dos castanheiros, e mettia grande terror no animo do
-Simeão quando faiscava lume nos calhaos com a percussão do machado.
-</p>
-<p>
-Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se
-o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma
-matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as
-esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador
-chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a
-Martha o ouvisse.
-</p>
-<p>
-Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o
-porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe
-tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume,
-desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio
-ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo
-com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços
-provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino,
-muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia
-sarcastico:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar
-os miolos á cara de você.
-</p>
-<p>
-Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante&mdash;que os cães
-não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:&mdash;que
-venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas
-canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a
-fazer meia com a cesta do novello no braço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na
-lingua&mdash;advertiu o José Dias com uma serenidade de máo
-agouro&mdash;quando eu lhe ladrar então se fará com o machado para
-mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que mais quer você, homem?
-Siga o seu caminho.
-</p>
-<p>
-&mdash;O meu caminho? o meu caminho é este&mdash;disse batendo com o
-machado na terra.&mdash;Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja
-tolo.
-</p>
-<p>
-A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se
-valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina
-dos bebedos, e berrava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço
-d'asno?
-</p>
-<p>
-E o estudante, já amarello:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe
-que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com
-elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó alma do diabo!&mdash;exclamou o pedreiro crescendo para o caçador.
-</p>
-<p>
-N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira,
-que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao
-assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da
-nadega esquerda.
-</p>
-<p>
-O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de
-leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega
-direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os
-focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos
-cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a
-cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a
-accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella
-sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada;
-mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o
-cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não
-sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem
-ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis,
-exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao
-sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente
-innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de
-riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a
-rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante
-retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O
-Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças,
-seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as
-calças, e não se afflija...
-</p>
-<p>
-O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro
-lhe replicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá você!
-</p>
-<p>
-E metteu-se em casa como quem receava contra-replica menos suja e mais
-dura.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura04.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="III">III</a></h4>
-
-<p>
-O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimáo, um major de cavallaria,
-convencionado em Evora-monte, miguelista intransigente, mas cordato.
-Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso benedictino. Fr.
-Gervasio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão
-monastica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza.
-Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de
-toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque
-dispunha de dentadura insufficiente. Tinha outro signal ruidoso de
-vida&mdash;era um pigarro de catarrhal chronica, arrancado dos
-gorgomilos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de
-um estrangulado, no 5.° acto de um drama de costumes. A velha creada da
-cozinha, muito flatulenta, nunca pudéra affazer-se ás explosões
-d'aquella garganta escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido
-asperrimo de pavão lhe feria os ouvidos, reboando nos concavos tectos
-dos salões, a mulher estremecia e raras vezes deixava de
-resmungar:&mdash;Que mêdo! credo! diabos leve a esgana do home, Deus me
-perdôe!
-</p>
-<p>
-De dois em dois mezes appareciam em Barrimáo dous egressos de
-Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de fr. Gervasio.
-Juntavam-se os tres amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com
-intercadencias mudas de poetica tristeza, commemoravam os seus
-conventuaes fallecidos, rezavam juntos pelos seus breviarios
-benedictinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com
-o recolhimento prescripto pela Regra do patriarcha. Ahi, pegava de puxar
-por elles a natureza objectiva, e dava-lhe horas de salutar esquecimento
-do passado irreparavel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos
-engarrafados, traiçoeiros, da companhia, em que fr. Gervasio derretia a
-prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado era farta e a sua
-bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso.
-</p>
-<p>
-O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como era
-solteiro e quinquagenario, fazia de conta que os bens lhe haviam de
-sobejar á vida, vendendo os allodiaes e empenhando, se necessario
-fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas
-para as miseraveis 1000 libras que o snr. D. Miguel recebia annualmente
-de donativos de monarchas e dos seus partidarios portuguezes.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a>
-Festejava dispendiosamente os natalicios do rei, convidando a jantar os
-realistas notaveis da comarca; e, contando os annos da proscripção, ia
-calculando a patente que lhe competia quando o soberano legitimo se
-restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e
-atrophiados nas aldeias, o general Povoas, o Bernardino, o Magessi, o
-Montalegre, o José Marcellino. Mas as cartas quem lh'as redigia era o
-mano frade, recheando-as de trechos de politica de pulpito&mdash;resultado
-das suas digestões morosas, contemplativas&mdash;que serviram de ornamento
-nas columnas do <i>Portugal velho</i>, periodico miguelista da época.
-</p>
-<p>
-N'aquelle anno, por meado de 1845, espalhára-se no ambiente dos
-realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o
-snr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anceio
-d'aquelles vagos anhelos que estremeciam as nações pagans ao
-visinhar-se o prophetisado apparecimento do Messias. Affirmam-no os
-Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do
-principe proscripto. Fr. Gervasio recebia do alto da provincia cartas
-mysteriosas d'uns padres que parochiavam na Povoa de Lanhoso e Vieira.
-Era alli o foco latente do apostolado. N'aquelles estabulos de
-ignorancia supersticiosa é que devia apparecer, pelos modos, o presepio
-do novo redemptor. Citavam-se prophecias apocalypticas de frades que
-estavam inteiros sob as lages das claustras. Convergiam áquelle ponto
-missionarios de aspectos seraphicos, olhando para as estrellas como os
-magos e os pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmão e
-dizia-lhe: «Elle ha coisa...»
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas muito grande!&mdash;corroborava o major com cabeçadas
-affirmativas muito exageradas.
-</p>
-<p>
-&mdash;A Russia move-se, é o que é&mdash;affirmou fr. Gervasio,
-correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocratica da
-Russia.
-</p>
-<p>
-Em um d'estes dialogos, em que havia desabafos, exuberancias de jubilo,
-interveio o Zeferino das Lamellas, o pedreiro afilhado do major. Vinha
-contar o caso do Simeão de Prazins e a péga que teve com os cães do
-Dias de Villalva. Mostrava a calça remendada&mdash;que por pouco lhe não
-entravam no coiro os cães&mdash;dizia, e protestava vingar-se. O egresso
-pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais o estudante; que se
-fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defeza do
-throno e do altar. E o major:
-</p>
-<p>
-&mdash;Estamos chegados a ellas, Zeferino.
-</p>
-<p>
-E o pedreiro, esfregando as mãos coreaceas, que ringiam como duas lixas
-friccionadas:
-</p>
-<p>
-&mdash;A elles, snr. padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedil-a ao
-velho!
-</p>
-<p>
-O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamellas, tinha sido alferes do 17 de
-linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberaes do concelho por
-pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido
-alguns mezes. Sequestraram-lhe os bens; e o filho que já era muito
-barbado e não tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, applacadas
-as furias dos vencedores e restabelecida a justiça, restituiram ao
-Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes sahiu do seu esconderijo, e
-recolheu-se a casa com a espada muito cheia de verdete, dizendo que
-havia de laval-a no sangue dos malhados. Em 1838, dia de natal,
-embebedou-se despropositadamente e sahiu para a rua a dar vivas ao snr.
-D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e affectos ás velhas
-instituições, responderam aos vivas com um enthusiasmo homicida. O
-Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a niza de saragoça,
-poz a barretina com os amarellos muito oxidados, e, á frente d'um grupo
-de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça do concelho afim de
-offerecer batalha campal ás auctoridades. Além da espada do caudilho,
-havia na jolda tres espingardas reiunas; o restante eram foices de
-gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma
-lamina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já engrossada
-por outros bebedos encontrados nas tavernas do transito, chegou â porta
-do morgado de Barrimáo, e a clamorosos brados elegeram-o general. Já
-se ouvia tocar a rebate em diversas torres, á discrição dos garotos
-destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que
-recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O
-egresso veio a uma janella que abria sobre o atrio, e tentou
-dissuadil-os do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de
-patriotismo&mdash;dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes,
-faminto de vingança, bradava que estivera quinze mezes escondido, que
-lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas aos Trêpas e aos
-Andrades de Santo Thyrso, uns malhados, cujas cabeças havia de deixar
-espetadas em pinheiros.
-</p>
-<p>
-Na villa ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incendio. Alguns
-vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção ás freguezias
-d'onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Villalva, o pai do
-José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte á
-auctoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Thyrso, já se ouvia
-alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos
-prolongados que punham eccos nas margens tortuosas do rio Ave. Os
-liberaes de Santo Thyrso rodearam o administrador, armados, com os seus
-criados. Os negociantes com medo de saque tambem sahiram de clavinas. As
-familias nas janellas faziam clamores, n'uma grande desolação.
-N'aquella villa lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto,
-e havia velhos que presencearam outra semelhante no tempo dos francezes.
-O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o
-morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o
-morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é
-porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas,
-enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios,
-os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam
-militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta.
-Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja
-vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a
-mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á
-descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero
-humano:&mdash;uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não
-preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito
-communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar
-e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca,
-pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe <i>vivas</i>.
-Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade
-compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á
-volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela
-allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros
-o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez
-de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de
-fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e
-uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por
-causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de
-campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida,
-casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia,
-presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto,
-e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre
-Casimiro, o <i>General Defensor das cinco chagas</i>.
-</p>
-<p>
-Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os
-relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na
-vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo
-Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras
-alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos.
-</p>
-<p>
-A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além,
-ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito
-caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse
-em se metter á ponte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem
-tem de largar os sócos a fugir&mdash;avisava, porque sabia que os de lá
-eram <i>têzos</i>, e vinham todos armados.
-</p>
-<p>
-O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a
-ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns
-facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas
-da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos de
-aguardente.&mdash;Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da
-ponto abaixo!&mdash;protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com
-as cronhas no balcão.
-</p>
-<p>
-Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes
-atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o
-n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia,
-olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado
-pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada
-nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o
-snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que não estava; eu sou o chefe&mdash;disse o Gaspar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á
-frente d'este bom povo enganado&mdash;ponderou a auctoridade.&mdash;E
-vocemecê quem é?&mdash;perguntou ao chefe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que
-perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o
-perseguiram e lhe roubaram os seus bens.
-</p>
-<p>
-O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era
-discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco
-medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões.
-Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que
-ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta
-verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de
-suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio,
-trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma
-bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote
-acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um
-palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se <i>aos seus
-apriscos</i>, á honrada labutação <i>dos seus mesteres</i>, e a não
-perturbarem com <i>demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima
-inviolabilidade das instituições</i>. Quando o funccionario fechou a
-parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente
-comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu
-ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!»
-</p>
-<p>
-A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as
-costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os
-liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com
-um sonoro estrondo de marcha cadenciada.
-</p>
-<p>
-Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e
-Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.
-</p>
-<p>
-Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos,
-tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do
-rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia
-levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela
-retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das
-mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se
-espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com
-baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de
-1834&mdash;um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias.
-</p>
-<p>
-Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e
-solemne dos de Santo Thyrso,&mdash;é agora, rapazes!&mdash;exclamaram,
-desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as
-suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente
-esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da
-primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam
-gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu
-homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a
-voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que
-sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas.
-</p>
-<p>
-Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que
-fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos
-de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem
-cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio
-dos pinhaes e carvalheiras.
-</p>
-<p>
-O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e
-lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais
-feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um
-pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte
-Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que
-o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia
-ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém,
-quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do
-monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus
-homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do
-ex-sargento Lopes&mdash;uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da
-collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O
-dia de juizo!
-</p>
-<p>
-O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia
-esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a
-espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e
-provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por
-perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no
-lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó
-rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais
-velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram
-desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a
-instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de
-saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas,
-aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de
-dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó alma do diabo!&mdash;dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a
-arma com zagalotes para lhe atirar.&mdash;Vou matar aquelle pato bravo!
-</p>
-<p>
-E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os
-cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer
-afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle
-tem á espada! Aquillo é que é!
-</p>
-<p>
-A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se
-derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave
-espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se
-apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes
-d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e,
-vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das
-Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada,
-bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!»
-</p>
-<p>
-Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido.
-</p>
-<p>
-Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D.
-Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em
-impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a
-lamina da espada nos ossos dos malhados.
-</p>
-<p>
-Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a
-banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os
-olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua
-sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o
-esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no
-punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na
-resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se
-môva&mdash;como dizia o frade de Barrimáo.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a>Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855
-recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a
-esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho
-que a pag. 254-255 dos seus <i>Apontamentos para a Historia
-contemporanea</i>, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte
-periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de
-Lisboa da <i>commissão alimenticia</i>, 1.000 francos mensaes que com toda
-a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente
-lhe manda o <i>duque de Modena</i> e 6.000 francos do <i>imperador
-Fernando d'Austria</i>, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns
-extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a
-400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia
-domestica." <i>Chegando apenas para a despeza domestica</i> de D. Miguel,
-72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um
-dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e
-reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura05.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="IV">IV</a></h4>
-
-<p>
-Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O
-Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu
-ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel
-estava no seu reino, e&mdash;o que mais era&mdash;muito perto d'alli.
-Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu
-primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S.
-Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada
-ultimamente pelo monarcha legitimo&mdash;explicava. O major Bezerra era
-commendador da ordem e conhecia a cifra:&mdash;que escrevesse
-francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro
-o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O
-pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não
-participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda...
-</p>
-<p>
-O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e
-convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se
-contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso
-pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago
-desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho,
-muita aguardente, e desatou a berrar o <i>Rei-chegou</i>.
-</p>
-<p>
-O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração
-realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se
-estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e
-de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!
-</p>
-<p>
-Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino.
-Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de
-esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava
-apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas
-encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão
-ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de
-si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o
-perdeu de vista, murmurou:&mdash;Valha-te o diabo, banaboia!
-</p>
-<p>
-O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de
-Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do
-fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre
-Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe
-noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro
-contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo
-quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal
-empregado!&mdash;que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás
-caldas de Vizella á bomba quente.
-</p>
-<p>
-Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe
-confidencias:&mdash;que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia
-ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a
-acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até
-Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a
-patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as
-mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da
-algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e
-sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,&mdash;que o
-mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro
-annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol
-quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do
-Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam
-dinheiro, O fidalgo recusou:&mdash;que não estava auctorisado a receber
-donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do
-Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora
-infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua.
-</p>
-<p>
-A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita.
-Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S.
-Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos
-Antonio de Faria Rebello.<a name="FNanchor_2_1" id="FNanchor_2_1"></a><a href="#Footnote_2_1" class="fnanchor">[2]</a> Que pouquissimas pessoas o tinham visto,
-porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando
-entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do
-antigo exercito carlista, outros de Inglaterra.
-</p>
-<p>
-Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major
-Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não
-confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas
-e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que
-accrescentou:&mdash;e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram
-o Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes
-tu?&mdash;rematou o morgado&mdash;aqui anda marosca. O que tratam é de se
-abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo
-Christovão é um asno chapado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino&mdash;aconselhou o
-egresso&mdash;que digam alguma coisa.
-</p>
-<p>
-Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar
-alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava
-devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não
-estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu
-throno usurpado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa-te de asneiras, Zeferino&mdash;dizia o fidalgo ao afilhado
-com as cartas na mão&mdash;el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo
-foi codilhado pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja
-palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que é uma
-comedella.
-</p>
-<p>
-O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel
-estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de
-troquilha de burros em feira:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente
-coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Cerveira Lobo! olha que borrachão!&mdash;disse o frade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle&mdash;accrescentou
-o morgado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle&mdash;objectou o
-pedreiro.&mdash;Ouvi-lh'o eu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não duvido...&mdash;explicou o frade&mdash;que o snr. D. Miguel
-gostava de grandes patifes...
-</p>
-<p>
-O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão
-certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão
-em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que
-só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo
-retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois
-que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de
-Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de
-Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera
-a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras
-graças a diversos clerigos e leigos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que te parece isto?&mdash;perguntou o morgado ao frade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres;
-mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e
-que me perdôe sua magestade fidelissima...
-</p>
-<p>
-Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um
-collaborador da <i>Nação</i>. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel
-em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma
-agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer dizer&mdash;reflexionou o frade&mdash;que o tal impostor é
-um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o
-marfim, e mais o simulacro ... que palpem,&mdash;e, pondo as duas mãos
-engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar
-á volta do outro. Que o que fosse soaria, e não cahisse o mano
-Zeferino na estulticia de se comprometter sem que os generaes
-portuguezes sahissem á rua.
-</p>
-<p>
-Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de
-pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma
-dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o
-Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido
-illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem
-sahira das minas da casa-solar em Vermuim.
-</p>
-<p>
-Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á
-distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de
-bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre
-o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral
-quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com
-alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da
-Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de
-Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se
-arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada
-uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella
-hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para
-as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um
-desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o
-reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das
-miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se
-namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de
-roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus
-desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido
-açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no
-Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando
-entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos
-formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham
-terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver
-abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito
-importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle,
-colerico:&mdash;que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de
-casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E,
-apontando-lhe para os cinco filhos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem
-nojo!&mdash;Tinha estas equidades em jejum.
-</p>
-<p>
-E ella:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mais nojo me fazem as borracheiras de você!
-</p>
-<p>
-E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava
-alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e
-perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles
-pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo
-estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á
-garrafeira.
-</p>
-<p>
-D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para
-o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma
-elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca
-muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e
-estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que
-aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle.
-Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de
-Loulé.
-</p>
-<p>
-Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado
-pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na
-janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da
-sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e
-dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o
-saudavam;&mdash;Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!&mdash;Tenha v. s.ª
-muito boas tardes, snr. morgado!&mdash;E elle, almofaçando as barbas
-conspurcadas de vomito:&mdash;Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo;
-que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os
-quadris, o grande coldre!&mdash;As cachopas não respondiam; safavam-se
-com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas
-commentavam:&mdash;Que levasse o diabo o piteireiro do
-fidalgo!&mdash;que a fidalga fizera bem era se pisgar com o doutor dos
-Pombaes.&mdash;Quer não&mdash;contrariava uma lavradeira
-idosa&mdash;foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças!
-uma desgraça! Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se
-emborracham, e as meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao
-confêsso nem sabem a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se
-enfeitava para o estudante das Quintans que andava por lá feito
-caçador, e que o morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José
-Alho, e até se dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que
-desgraça, ó môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha
-tempos na taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao
-Alho e mais á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com
-as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando
-eu era rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas
-fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um
-respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos
-governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó
-senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o!
-E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a
-beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas
-lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava
-sempre cheia de frades das ordens ricas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar
-cheias de frades de ordens ricas&mdash;dizia o José Dias de
-Villalva.&mdash;Muito cheias de frades aquellas fidalgas, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vens tu com as tuas alicantinas&mdash;retrucava, pronostica e
-solemne, a tia Rosa de Carude.&mdash;É o que tu estudas, meu
-valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas
-d'hoje em dia presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos...
-Isto agora é que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo,
-valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam
-frades e creavam os seus filhos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os filhos dos frades?&mdash;perguntava o Dias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti!
-Ainda bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a
-opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude,
-toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé,
-que mettia em casa&mdash;uma diversão á embriaguez, quando não exercia as
-duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata
-visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos
-Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com
-ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se
-por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao
-irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada
-amiga.
-</p>
-<p>
-Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos
-Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante,
-quando alguns membros da sociedade dos <i>Divodignos</i> padeceram o
-supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em
-38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus
-em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam
-arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem
-fazia prosa na <i>Gazeta litteraria</i> do Porto,&mdash;scenas dramaticas
-em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos
-negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando
-os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E
-depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de
-gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro.
-</p>
-<p>
-A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra,
-d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez
-eburnea, esmaecida, <i>airs évaporés</i>, um sorriso nobre de ironia
-rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza,
-ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo
-de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a
-libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da
-educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na
-presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e
-tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os
-meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr
-sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de
-dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição,
-trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora
-do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de
-socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por
-isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que
-lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora.
-Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera
-ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias
-lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle
-flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria
-de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel
-e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos,
-roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não
-tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;&mdash;que, se não fosse
-isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em
-se matar, mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Os filhinhos...&mdash;atalhou Adolpho sentimentalmente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, snr.&mdash;acudiu a dama de Carlota Joaquina&mdash;não são os
-filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o
-amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento,
-aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde
-que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não
-peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a
-differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e
-em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam
-não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas
-tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d
-este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são
-d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida&mdash;a
-aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa.
-</p>
-<p>
-Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler
-achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da
-Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!&mdash;dizia Adolpho á
-irmã.&mdash;Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco
-annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no
-Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me
-penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade,
-nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um
-coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio
-devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a
-existencia?
-</p>
-<p>
-Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse
-garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a
-poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça
-dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães.
-</p>
-<p>
-D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a
-separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O
-bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua
-alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella,
-requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao
-casal.&mdash;Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como
-se, depois de declamar uma <i>Contemplação</i> de Lamartine, tivesse de
-recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse.
-</p>
-<p>
-D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de
-Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras,
-pondo sempre no alto do papel: <i>Jesus, Maria, José</i>. Andava nos trinta
-a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne.
-O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella
-applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua
-affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura
-de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára
-para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a
-e dirigil-a na separação do marido por justiça.
-</p>
-<p>
-O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a
-questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres
-e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era
-córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da
-mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia
-a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca&mdash;e conhecia
-até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios
-de religião, estragado por essas nações.
-</p>
-<p>
-D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava
-começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande
-esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de
-mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão
-luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da
-mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de
-litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai!
-Pariz!&mdash;exclamava&mdash;Se eu então me passaria pela mente que havia
-de vir de Pariz para Amarante!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-&mdash;Elle porta-se muito serio&mdash;dizia D. Andreza ao padre Rocha.
-Ella é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Acho, acho...&mdash;confirmava o capellão.&mdash;D'aqui rebenta
-coisa, minha senhora; rebenta, v. ex.ª verá...
-</p>
-<p>
-E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O
-delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira
-de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias
-escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia
-a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a
-encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se
-por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta
-casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No
-andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço
-amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas
-baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na
-fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do
-sol nascente.
-</p>
-<p>
-Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite,
-partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e
-pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de
-senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo,
-com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de
-Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois
-arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_2_1" id="Footnote_2_1"></a><a href="#FNanchor_2_1"><span class="label">[2]</span></a>Como seria de máo gosto inventar este episodio,
-imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas
-por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim
-Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido,
-com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa
-contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo&mdash;D. Miguel, as
-revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a
-confiança.
-</p>
-<p>
-Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão
-celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se
-chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da
-Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria,
-preparando as suas <i>Memorias</i>, que devem esclarecer as obscuridades
-originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos
-trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a
-face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: <i>Eu
-apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor
-occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe
-perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se
-deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo
-de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a
-ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o
-mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso
-accrescentar</i>...<a name="FNanchor_3_1" id="FNanchor_3_1"></a><a href="#Footnote_3_1" class="fnanchor">[3]</a></p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_3_1" id="Footnote_3_1"></a><a href="#FNanchor_3_1"><span class="label">[3]</span></a>Carta de 11 de novembro de 1882.</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura06.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="V">V</a></h4>
-
-<p>
-Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em
-roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado
-sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro&mdash;um
-desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes
-hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a
-depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta
-annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas
-grisalhas,&mdash;olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As
-filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella
-Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o
-minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas,
-tinham amantes&mdash;uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange
-Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães.
-Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai
-não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não
-eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de
-alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes
-amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque
-de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos,
-possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com
-senhoras&mdash;canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam,
-nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de
-matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava.
-Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era
-das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais
-nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe,
-chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego
-desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham
-mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como
-quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para
-recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas
-momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher.
-</p>
-<p>
-Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além
-dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de
-Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que
-lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas.
-Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira.
-Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;&mdash;que bebesse, que
-se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com
-vaidade de fino:
-</p>
-<p>
-&mdash;A quem elle o vem dizer!
-</p>
-<p>
-Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel&mdash;«o meu velho
-amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de
-Chaves:&mdash;Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos
-marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um
-quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco
-sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era
-d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe
-tinha medo quando elle fazia aquellas partes.
-</p>
-<p>
-&mdash;O vinho do Porto é o diabo!&mdash;dizia o alferes com uma grande
-experiencia d'essas façanhas incruentas&mdash;é o diabo!
-</p>
-<p>
-O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera
-em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir
-para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei.
-As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de
-uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos
-verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos
-ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava
-fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de
-soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial
-interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda.
-Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a
-Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á
-paizana.
-</p>
-<p>
-Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu
-padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei
-estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e
-dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os
-generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada.
-</p>
-<p>
-O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho
-amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar.
-</p>
-<p>
-Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão
-d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar.
-Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e
-dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que
-participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco
-da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões.
-</p>
-<p>
-&mdash;Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um
-prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste?
-Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho
-cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não,
-trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.
-</p>
-<p>
-Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho
-nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:&mdash;Idéas não
-me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se
-escreve, quero dizer...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ortographia?
-</p>
-<p>
-&mdash;É como diz, padre Rocha, ortographia.
-</p>
-<p>
-Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava
-no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não
-se mettia n'isso; e accrescentava:&mdash;elle, o rei, aqui ha treze annos
-sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle
-estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe
-escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão
-no hombro:&mdash;E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia,
-S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim,
-pense lá... Nós cá estamos ás ordens.
-</p>
-<p>
-O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e
-honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do
-seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira.
-Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua,
-julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;&mdash;por fim
-convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns
-disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e
-as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em
-que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal,
-elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o
-proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos
-d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse
-tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e
-tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos.
-</p>
-<p>
-A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta
-foi que escrevesse:&mdash;«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o
-que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás
-ordens del-rei meu senhor.»
-</p>
-<p>
-O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a
-D. Andreza,&mdash;porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio
-da esparrela que querem armar ao parvo do homem.»
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios,
-explicações. Que estava uma obra profunda&mdash;dizia o fidalgo instruido
-em fim nas obscuresas do estylo.
-</p>
-<p>
-E, tirando seis pintos do bolso do colete:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi tem para o seu rapé, merece-os.
-</p>
-<p>
-O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás
-necessidades do snr. D. Miguel.
-</p>
-<p>
-&mdash;É um realista ás direitas, padre, um grande realista!&mdash;E,
-guardando os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um
-calice de 1817.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade&mdash;dizia o
-padre Rocha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não
-ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai
-commigo, e póde logo vir despachado. Pois então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está dito!&mdash;e o padre com um regosijo muito comico, e o calice
-aromatico de baixo do nariz:&mdash;Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó
-snr. tenente-coronel!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não
-tenha duvida. Isto vai tudo mudar!&mdash;E carregava-lhe forte no
-1817.&mdash;Arre! estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que
-me tem levado os diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com
-a espada! Ha-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás
-vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel
-Alcaide davam cacetada nos malhados que aquillo não era bonito. Pois
-agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor!
-môcada de metter os tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles
-por uma vez! uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah!
-meu camarada Telles Jordão! tu é que a sabias toda!»
-</p>
-<p>
-O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O
-padre despediu-se.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura07.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="VI">VI</a></h4>
-
-<p>
-Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma
-sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras,
-macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril.
-Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de
-Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das
-crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito
-excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o
-pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no
-outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios,
-esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias&mdash;o retrato de
-D. João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal
-sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando
-parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os
-expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de
-antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a
-oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta,
-de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio <i>en bon point</i>,
-um bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma
-bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra
-estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de
-chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao
-lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria
-amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com
-brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas
-janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava
-estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem
-vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres
-brancos muito inchados e as azas abertas.
-</p>
-<p>
-Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na
-couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros
-largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro,
-um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos.
-Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu
-na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e
-um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças,
-e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a
-mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de
-communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa,
-meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar,
-fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vossa magestade passou bem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas
-para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou
-dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás
-nove e meia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu
-essas ordens e quem manda aqui é elle.
-</p>
-<p>
-Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua
-magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A
-creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de
-prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de
-sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um
-grande tinteiro de chumbo com pennas de pato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso,
-real senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a...
-</p>
-<p>
-E o real senhor:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer
-homem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Credo! faz muita differença ... mesmo muita...
-</p>
-<p>
-Ella descobriu a travessa a rir-se:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vossa magestade diz que gosta...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a
-dizer&mdash;comei-me.
-</p>
-<p>
-E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra.
-</p>
-<p>
-Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava
-muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que
-no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão
-branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos
-sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha
-de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O
-terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto,
-porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a
-cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre
-o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede
-um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do
-Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos&mdash;capellão-mór
-d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães.
-</p>
-<p>
-A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia
-particularmente ao abbade:&mdash;Este senhor, pelo que come, parece que tem
-passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha
-n'aquelle bandulho!&mdash;e dizia que lhe dava vontade de chorar,
-lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade
-contava que lêra no <i>Deus o quer</i>, do visconde de Arlincourt, que o
-snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para
-almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade
-aquillo&mdash;que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a
-fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos
-sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que
-elle rejeitara.
-</p>
-<p>
-Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S.
-magestade barrava-as de manteiga nacional,&mdash;preferia a manteiga do seu
-paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé
-do porco nas tripas tambem portuguezas&mdash;tudo do seu paiz. Que rei, que
-patriota!&mdash;meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra,
-esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça.
-</p>
-<p>
-No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de
-contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na
-cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de
-fumo que se espiralavam até ao tecto.
-</p>
-<p>
-A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles.
-</p>
-<p>
-&mdash;O...?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde....
-</p>
-<p>
-&mdash;Que suba.
-</p>
-<p>
-O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito
-realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva.
-</p>
-<p>
-A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:&mdash;Ó coisa! Mal
-diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles!
-</p>
-<p>
-E a outra, benzendo-se:&mdash;Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja
-você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros,
-e por signal que nunca m'os pagou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o
-que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem!
-Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho
-d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está
-conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no
-domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul.
-</p>
-<p>
-&mdash;E que rico panno!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois vês-ahi...
-</p>
-<p>
-Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento&mdash;que
-levasse o diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas
-d'aquellas, para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de
-mais na feira da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E
-elle?&mdash;perguntava&mdash;almoçou bem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal
-d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu
-agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na
-villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham
-p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta
-pergunta á moça traz agua no bico.
-</p>
-<p>
-&mdash;E tu que respondeste, moça?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de
-confesso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Andaste bem.
-</p>
-<p>
-Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da
-escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva&mdash;um, aprumado
-na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pede licença na sua casa, dom Prior?&mdash;disse el-rei.
-</p>
-<p>
-O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano
-apressou-se a erguel-o.
-</p>
-<p>
-Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor!
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde e deve que o mando eu.
-</p>
-<p>
-E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina:
-</p>
-<p>
-&mdash;Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a
-quem vossa real magestade fez barão de Bouro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Perfeito cavalheiro&mdash;attestou o Nunes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa
-magestade.
-</p>
-<p>
-El-rei leu alto:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Amigo Dom Prior de Guimarães.&mdash;Um realista do concelho de Famalicão
-chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e
-velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como
-portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e
-tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que
-o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso
-entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e
-senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util,
-já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S.
-M. F., queira transmittir-m'as</i>...</p></blockquote>
-
-<p>
-&mdash;Estou-me recordando&mdash;dizia o principe pausando as suas
-reminiscencias&mdash;<i>Cerveira Lobo</i> ... <i>tenente-coronel de
-dragões</i>... O Cerveira, o meu amigo Cerveira...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os
-liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o
-Albuquerque&mdash;lembrou o Nunes, o visconde Nunes&mdash;V. magestade
-lembra-se?
-</p>
-<p>
-&mdash;Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que
-espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira.
-</p>
-<p>
-Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido
-do outro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto corre mal...
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se o homem cá vem, o meu <i>grande amigo</i>...
-</p>
-<p>
-&mdash;Recebel-o como o teu <i>grande amigo</i>...
-</p>
-<p>
-&mdash;Se me falla em particularidades ...
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e
-disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre
-bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas
-correm perfeitamente.&mdash;Ouviam-se os passos do abbade.&mdash;Tem
-dinheiro, elle tem muito dinheiro, ouviste?
-</p>
-<p>
-Entrou o abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só duas palavras. E leu: <i>S. Magestade recebe com muito prazer a
-carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem,&mdash;approvou el-rei.&mdash;Hoje á noite, com todos os
-resguardos que urgem as cautelas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma
-carta&mdash;annunciou Senhorinha&mdash;só a entrega em mão propria ao
-snr. abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que entrasse.
-</p>
-<p>
-O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios.
-</p>
-<p>
-Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a
-honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas,
-de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus
-haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor.
-</p>
-<p>
-E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda
-escarlate. E o Caneta muito pontual.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo.
-</p>
-<p>
-Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham
-ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi
-apalpar o embrulho, e muito baixinho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês?
-</p>
-<p>
-O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi
-possivel. Nem parecia um rei!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura08.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="VII">VII</a></h4>
-
-<p>
-As sete da noite a soirée do monarcha de Calvos compunha-se do visconde
-Nunes, seu secretario privado e brigadeiro de infanteria, do abbade
-capellão-mór de el-rei, de dois reitores, conegos despachados, e o
-ex-sargento-mór de Rio Caldo nomeado capitão-mór de Lanhoso. Estavam
-todos em pé resistindo á licença de se sentarem. A cadeira de sola
-estava com o principe encostada ao relogio; e, na mesa central, papeis,
-o tinteiro de chumbo, o <i>Novo Principe</i>, de Gama e Castro, a <i>Besta
-esfolada</i> e o <i>Punhal dos corcundas</i>, do bispo fr. Fortunato. Em
-cima das caixas do milho estavam em meio alqueire com feijões brancos
-destinados ás tripas, e dois folles vasios que a Senhorinha tencionava
-encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos
-folles resbunava um gato enroscado.
-</p>
-<p>
-Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.
-</p>
-<p>
-Ás oito horas annunciaram-se os adventicios. O barão de Bouro entrou
-primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto n'uma
-gravata enchumaçada, preta, de cordãosinho de arame, sem laço,
-atacando os lobulos das orelhas, um pouco reintrante na altura dos
-gorgomilos. Usava oculos de oiro quadrados, e uma pêra grisalha; de
-resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de
-abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; de cós das
-calças, côr de gemma de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha
-com o retrato de D. Miguel aos vinte e dous annos, a uma peça de oiro
-com a mesma real effigie. No peito da camisa, entre as lapellas do
-collete de velludo côr de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado,
-em miniatura, enygma convencional dos cavalleiros de S. Miguel da Ala,
-obra patriota do ourives Novaes, pai do poeta Faustino.
-</p>
-<p>
-De pés elle, entrou o Zeferino das Lamellas, muito enfiado, n'um
-spasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de niza de panno azul com
-botões amarellos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos
-do alhardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das
-botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante.
-</p>
-<p>
-O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco á mão esquiva de sua
-magestade. Por de traz d'elle, o Zeferino ajoelhára batendo com ambas
-as rotulas no taboado. O barão ia fallar, quando o rei, reparando no
-outro, disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Levante-se, homem! Isto aqui não é capella.
-</p>
-<p>
-O pedreiro teimava, achava-se bem n'aquella postura que o dispensava de
-procurar outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sua magestade manda-o levantar&mdash;disse o visconde Nunes.
-</p>
-<p>
-Ergueu-se, e n'um impeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira,
-quando o capellão-mór lhe observou que as cartas se entregavam ao
-secretario.
-</p>
-<p>
-O barão expoz que não pudéra resistir aos pedidos que aquelle honrado
-legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a
-entrar sósinho á presença d'el-rei, seu amo. Que era filho de um
-bravo alferes, o Gaspar das Lamellas, que em 1838, á frente de 300
-homens, atacára a villa de Santo Thyrso, dando vivas a el-rei. Contou a
-façanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes,
-e que por causa d'isso entrévecera e nunca mais se levantou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh!&mdash;interjecionou compungidamente o monarcha.&mdash;Eu
-ignorava esse notavel ataque ... estava em Roma, sem noticias... Digno
-homem o meu honrado e bravo ... como se chama seu pai?
-</p>
-<p>
-&mdash;Saberá vossa magestade que se chama Gaspar Ferreira.
-</p>
-<p>
-E o rei:
-</p>
-<p>
-&mdash;Visconde, escreva na lista.
-</p>
-<p>
-O Nunes sentou-se á mesa, pedindo venia a sua magestade que ditou:
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infanteria, com
-vencimento desde 1838</i>. Escreva á margem: <i>Batalha de Santo
-Thyrso</i>. E voltando-se para Zeferino que ladeava para a parede:
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá
-soldo dos sete annos passados.
-</p>
-<p>
-O Zeferino abriu a bôca para dizer o que quer que fosse.
-</p>
-<p>
-&mdash;A carta do meu velho amigo Teixeira?&mdash;perguntou o rei ao
-visconde Nunes.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Cerveira</i>, perdôe vossa magestade, Cerveira Lobo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! sim ... Cerveira Lobo.
-</p>
-<p>
-Abriu, leu para si, passou a carta ao secretario, e commentando
-exultante:
-</p>
-<p>
-&mdash;Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com
-homens assim dedicados, o triumpho é certo. Posso dizer com o grande vate
-Camões:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>E dir-me-heis qual é mais excellente</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Se ser do mundo rei, se de tal gente.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas,
-olhou com espanto para o outro, que lhe disse á puridade,
-discretamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim!
-</p>
-<p>
-El-rei proseguiu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno
-d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista:
-<i>Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros</i>.
-Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso,
-sentou-se a escrever&mdash;e que conversassem.
-</p>
-<p>
-O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro
-e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas.
-</p>
-<p>
-Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas,
-muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa.
-Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava
-passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da
-altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto,
-troncos de giestas como a sua coxa&mdash;e mostrava&mdash;; tinha apanhado
-de raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava
-pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira
-sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na
-clareira; e mal elle apontou, <i>pumba</i>! metteu-lhe tres zagalotes no
-quadril.
-</p>
-<p>
-&mdash;A gente a fallar incommóda talvez el-rei...&mdash;observou o barão
-de Bouro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Podem conversar á vontade, que não me incommodam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquillo é que é cabeça!&mdash;disse baixinho, tocado, um dos conegos
-a outro conego.
-</p>
-<p>
-Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos,
-com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de
-olhos.&mdash;A virar! a virar!&mdash;Carminavam-se os conegos. O dom Prior
-de Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois
-<i>padres Marcos</i>, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S.
-Gens de Calvos, dizia do outro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Forte bebedo!
-</p>
-<p>
-O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e emquanto os padres n'um
-crescendo palavroso, expluiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o
-secretario privado curvou-se sobre o hombro de el-rei e segredou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Carrega-lhe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quanto?
-</p>
-<p>
-&mdash;2.
-</p>
-<p>
-&mdash;3. Anda-me. 3.
-</p>
-<p>
-&mdash;Será muito!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.
-</p>
-<p>
-E, em voz alta e voltado para o grupo:
-</p>
-<p>
-&mdash;El-rei pergunta se o snr. Conde de Quadros tem familia, se tem
-senhora e filhos.
-</p>
-<p>
-O Bezerra perguntou ao Zeferino.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o
-fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada;
-mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido
-com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desgraças!&mdash;disse o capelão-mór&mdash;desgraças! A corrupção
-dos tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se
-lhe ha-de dar.
-</p>
-<p>
-Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto.
-</p>
-<p>
-O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os
-periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e
-muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a
-idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria
-mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes.
-</p>
-<p>
-Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes.
-Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha,
-cuidadosamente recortada.
-</p>
-<p>
-O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em
-quatro a folha do almaço e sobrescriptou&mdash;<i>Ao conde de Quadros,
-general do Exercito real</i>.
-</p>
-<p>
-N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes,
-fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua
-magestade.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu vou fallar a el-rei&mdash;disse Nunes com satisfatoria
-condescendencia.
-</p>
-<p>
-Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco
-inclinado, e fallou-lhe baixo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim&mdash;respondeu o monarcha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está servido, snr. barão&mdash;communicou o secretario, e foi
-registar no livro das mercês, proferindo em voz alta: <i>Sua magestade
-há por bem nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em
-attenção aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór&mdash;disse o barão de
-Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao
-homem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Levante-se, amigo&mdash;disse o principe.&mdash;Aqui tem a resposta
-da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este
-sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é
-dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com
-outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo
-pessoalmente. Adeus.
-</p>
-<p>
-A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não
-voltarem as costas á magestade.
-</p>
-<p>
-A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a
-cela prompta, e que o frango com arroz não esperava&mdash;que era preciso
-comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre
-com el-rei e com o abbade.
-</p>
-<p>
-O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir
-pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de
-romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao
-outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde
-entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma
-congestão de jubilo.
-</p>
-<p>
-O Cerveira estava a dormir a sesta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!&mdash;informou um
-caseiro.&mdash;Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os
-coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada
-e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança,
-dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a
-breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como
-um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como
-puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez
-por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é
-muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos
-pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá
-como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de
-perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de
-renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os
-pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem
-amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O
-homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe
-ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até
-elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e
-aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião.
-Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco
-réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o
-estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o
-serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas
-fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por
-esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem
-paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha,
-mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me
-parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé
-em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus
-nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que
-isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco
-que aturar a seu pai que tambem as agarra muito <i>profeitas</i>! Olhe você
-como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso!
-Aquillo só com meio almude no bucho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é tanto assim&mdash;atalhou o sargento-mór de
-Lamellas.&mdash;Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graieiro na
-aza; mas o que elle fez não era você capaz de o fazer, tio Manoel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me
-emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se
-algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a
-dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus
-quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual
-Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso
-de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era
-tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a
-trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta
-das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par de <i>mel</i> cruzados,
-ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava
-quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou
-não é?
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso acabou&mdash;respondeu com desdem, irritado.&mdash;Agora não a
-queria nem que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu
-digo, tio Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas
-brevemente o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem
-capazorio, honrado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir
-uma janella&mdash;lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir.
-</p>
-<p>
-E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa
-com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura09.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="VIII">VIII</a></h4>
-
-<p>
-Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua
-intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o
-sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e
-lia: <i>Ao conde de Quadros, general da exercito real</i>.&mdash;Isto que
-diabo
-é?
-</p>
-<p>
-&mdash;É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos
-escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez.
-O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das
-Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi
-despachado coronel por el-rei.
-</p>
-<p>
-&mdash;O teu pai?! coronel!...
-</p>
-<p>
-&mdash;É como diz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa! ... coronel! caramba!&mdash;disse despeitado;
-parecia-lhe iniqua a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos
-analogos d'el-rei; as injustiças d'algumas patentes superiores desde
-1828 até á convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo.
-Parecia que a sua razão immergida, restaurada depois de duas horas bem
-roncadas, de papo acima, queria duvidar da authenticidade de um D.
-Miguel que fazia sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes
-que passára das milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e
-plausivel em si as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as
-mercês feitas aos dous plebeus... Caramba!&mdash;Uma intermittencia de
-juizo. Emfim, abrira a carta e lêra para si com uma custosa
-interpretação, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.
-</p>
-<p>
-A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada,
-illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do
-convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel
-authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito
-bem; era assim; e então a assignatura&mdash;<i>Miguel, Rei</i>&mdash;era
-tal qual. Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela
-mudança subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente
-a carta.
-</p>
-<p>
-O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da
-nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que
-lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não
-estava assaz bebedo para confidencias.&mdash;Conta lá o que te aconteceu,
-Zeferino&mdash;e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda.
-</p>
-<p>
-O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do
-rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando
-ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu,
-peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo
-Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros
-tinha filhos.
-</p>
-<p>
-O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua
-assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo
-phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse
-na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não
-havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo
-D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o
-plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a
-intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer
-recebera a sua carta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do
-snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o&mdash;esclareceu Zeferino.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Prompto, senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, se vais para casa, passa pelos Pombaes e dá parte ao padre
-Rocha que preciso fallar-lhe hoje á noite ou ámanhã cêdo.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes civicos do
-tenente-coronel. Repugnava-lhe o ebrio e professava uma sincera
-compaixão pelo homem.
-</p>
-<p>
-Pouco depois do sol nado, o capellão de D. Andreza estava em Quadros
-com um grande interesse. Queria salvar o visinho d'uma ratoeira armada
-ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o principe proscripto
-estava no concelho da Povoa de Lanhoso.
-</p>
-<p>
-Chegára um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho
-copiosamente, um bicho muito antigo, invulneravel, que não se afogava
-em pouca genebra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ha duvida, padre Rocha! Cá está o homem!&mdash;exclamou o
-fidalgo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Máo!&mdash;disse comsigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as
-inhalações alcoolicas do bafo.&mdash;Então é certo, snr. tenente-coronel?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general
-a conde. Veja.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! sim? muitos parabens, snr. conde, muitos parabens! Quanto
-folgo!&mdash;e lia o sobrescripto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde abrir e leia alto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito boa fórma de lettra, sim senhor... É do proprio punho do snr.
-D. Miguel?
-</p>
-<p>
-&mdash;Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal
-qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?&mdash;perguntava com a botija
-inclinada sobre o calice.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza
-ás dez horas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito
-soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta
-escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz a <i>Nação</i> que elle andava a
-estudar lá por fóra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se dá licença, leio&mdash;interrompeu o padre com impaciencia
-curiosa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá lá!&mdash;e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão.
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e
-general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não
-podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o
-li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-&mdash;Hein?&mdash;interrompeu o Cerveira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem&mdash;e proseguiu lendo:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque
-não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me
-acompanhou nas alegrias da minha mocidade.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-&mdash;Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas
-rasgadas quando éramos rapazes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, snr., v. ex.ª tinha-m'o dito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora ahi tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas!&mdash;e
-recordava-se com os olhos n'um spasmo entre a saudade e as iniciativas da
-borracheira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Continúo, se v. ex.ª permitte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande lá... Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo!&mdash;disse com
-tristeza, muito abatido. Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia
-ancias de abraçal-o, e dizer-lhe: «Regenere-se!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande lá. Leia, que o melhor está p'ra baixo.
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui
-para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a
-resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem,
-emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas
-negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em
-Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome.
-Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter
-sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás
-deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos
-abraçar e chamar para meu lado.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lagrimas que
-destacavam no rubor da epiderme.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então que é isso? São lagrimas de alegria?&mdash;perguntou o
-padre.&mdash;Se são, deixe-as correr.
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual alegria! estou velho... Já não posso fazer nada a favor
-d'el-rei... Este pulso...&mdash;e retezava o braço. O padre
-assustava-se.&mdash;Ora leia para baixo, que está ahi uma passagem muito
-bonita.
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel
-dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da
-carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras
-sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame
-general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram
-acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento
-de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia
-geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro
-de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-&mdash;Foi assim!&mdash;exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O
-Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me
-chamar á sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha
-espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre,
-eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as
-profundas dos infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D.
-Miguel I e que elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram
-estarrecidos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de
-todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me
-<i>estupido</i>. E eu, vai não vai, estive a mandal-o...
-</p>
-<p>
-Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a
-leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande lá.
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não
-foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos
-como vós, bem poucos, mas que valem um reino.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-&mdash;Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha.
-</p>
-<p>
-Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que
-o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era
-qualquer pedaço de asno. Continuou:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa
-carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos
-dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso
-que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos
-meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta
-de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu
-cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em
-poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente
-de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma
-insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e
-de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar,
-comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os
-opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria.</i>
-</p>
-<p>
-<i>Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo;
-mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem
-apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens
-n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a
-tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o
-peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu
-valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna
-tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o
-dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso
-Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de
-maio de 1845.</i>
-</p>
-<p style="margin-left: 60%;"><i>Miguel, Rey.</i></p>
-</blockquote>
-
-<p>
-Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha.
-Quando o Cerveira lhe perguntou:&mdash;que tal? o que dizia
-elle?&mdash;dobrava a carta vagarosamente, encolhia os hombros e
-respondia:&mdash;Em fim ... não sei...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra
-não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou
-não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que
-deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza...
-</p>
-<p>
-&mdash;De que é o rei que me escreve?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem
-o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas
-deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como
-elle estar em Calvos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem!&mdash;atalhou o Rocha apressado, erguendo-se&mdash;quando vai
-v. exc.ª a Calvos?
-</p>
-<p>
-&mdash;Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no
-sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou
-beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me
-ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.
-</p>
-<p>
-O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D.
-Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á
-fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre
-idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á
-mão armada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o
-dinheiro?&mdash;reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o que eu vou saber.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura10.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="IX">IX</a></h4>
-
-<p>
-N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o
-padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava
-sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés
-turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso
-lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção;
-deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os
-desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia
-muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito
-tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S.
-Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á
-direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas
-provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva
-enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe
-conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o
-principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa&mdash;não me
-recordo qual era a mitra.
-</p>
-<p>
-A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade
-obsequiadora<a name="FNanchor_4_1" id="FNanchor_4_1"></a><a href="#Footnote_4_1" class="fnanchor">[4]</a>; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios
-politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com
-severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria
-de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores
-illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi
-indecifraveis codices.
-</p>
-<p>
-Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a
-sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha,
-perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao
-reverendo dono da casa. Foi logo recebido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que todas as horas eram livres para receber os amigos.
-</p>
-<p>
-Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram
-bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro
-realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das
-suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a
-exigir que lhe respondessem a verdade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra
-maneira. Que quer saber, padre Rocha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se o snr. D. Miguel está em Portugal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.&mdash;E abrindo uma gaveta,
-extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um
-papel que mostrou.&mdash;Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel
-de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito.
-Que mais quer saber?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem sei&mdash;preveniu o padre Luiz.&mdash;Essa mesma pergunta me
-fez ha dias o Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro
-de Braga, o Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o
-snr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso.
-Propalam-o certos padres, não sei com que alcance. A estupidez tem
-intuitos impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo
-boato, se não é para alarmar o governo ou lograr incautos...
-</p>
-<p>
-&mdash;É isso mesmo: lograr incautos&mdash;interrompeu o Rocha e contou
-o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do
-supposto D. Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo
-tencionava levar no proximo sabbado ao impostor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido
-legitimista&mdash;alvitrou o paleographo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma
-imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui
-irei para Braga entender-me com o governador civil.
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave
-á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas
-traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga,
-abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante
-quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está
-escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho
-compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda
-hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha,
-faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo
-d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora,
-visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um
-emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas
-está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As
-patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam
-pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi
-outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal
-podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos
-liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas
-postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve
-dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver
-galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei.
-O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre
-Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para
-nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á
-legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete:
-estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do
-conselheiro João Elias,&mdash;uma victima burlesca de troça dos
-setembristas&mdash;era o Marques Murta, uma gigantesca actividade
-phrenetica n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com
-a bossa da perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal,
-agradavel, com uns requintes de delicadeza de bom tom.
-</p>
-<p>
-O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos
-succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até
-além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira
-Lobo com os tres contos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com
-os tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar
-ás necessidades da monarchia;&mdash;opinou o secretario sorridente.
-</p>
-<p>
-O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já
-não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel
-l.° ou de D, Maria 2.ª.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso
-intelligente, habitual.&mdash;Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta
-hora ha-de estar na cadeia de Braga.
-</p>
-<p>
-Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de
-infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por
-um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio
-convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o
-concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma
-qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta
-da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao
-sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do
-arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á
-porta principal, e uns berros formidaveis:
-</p>
-<p>
-&mdash;Abra! abra! se não vai dentro a porta!
-</p>
-<p>
-O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um
-cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas
-espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do
-hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as
-calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é?&mdash;regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito
-offegante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa
-magestade na adega antes que arrombem a porta.
-</p>
-<p>
-As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra
-de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A
-Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não
-acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro,
-muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos
-grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua
-Mãe Santissima e a alma da tia <i>Jacintra do Reimundles</i> que estava
-inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real
-hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender;
-enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao
-Bom Jesus do Monte e ao <i>martyle São Trocatles</i>, se os livrassem
-d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela
-mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada
-abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por
-duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre
-as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O
-abbade muito afflicto:
-</p>
-<p>
-&mdash;Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e
-deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se
-vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!
-</p>
-<p>
-O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela
-parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam,
-enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as,
-cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de
-ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se
-escancaravam com estridor.
-</p>
-<p>
-Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente
-os quartos e recantos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o
-<i>Pilula</i> do 8,&mdash;queremos o rei e algumas botijas de genebra. A
-garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr.
-D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude.
-</p>
-<p>
-&mdash;O snr. está a mangar!&mdash;disse o abbade afinando pelo tom da
-chalaça.&mdash;Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só
-lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda
-tambem o az do mesmo naipe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu
-sargento!&mdash;propoz o 24.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade,
-vamos á genebra, á adega. Mêxa-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;A genebra está cá em cima&mdash;observou o abbade um pouco enfiado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que
-temos pressa. Abra a porta da adega.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer&mdash;resoluto, com um ar
-ironico de condescendencia, sem receio.&mdash;Os senhores tem coisas! Onde
-diabo procuram o snr. D. Miguel!&mdash;E descia, pedindo a chave á
-Senhorinha.
-</p>
-<p>
-A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um
-machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é preciso, camarada&mdash;acudiu o abbade.&mdash;Aqui está a
-chave. Eu abro. Entrem, procurem á vontade.
-</p>
-<p>
-O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da
-adega:&mdash;Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o
-subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem
-um archote.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa&mdash;disse o abbade Marcos,
-contrafazendo o seu terror.
-</p>
-<p>
-E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na
-latrina, seu derradeiro refugio.
-</p>
-<p>
-A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo
-com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você
-cá traz, mulher!
-</p>
-<p>
-&mdash;É emquanto não péga bem a torcida&mdash;explicou a creada caminhando
-atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a
-claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade
-que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os
-nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias.
-</p>
-<p>
-E o 14:&mdash;Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco!
-Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o
-sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na
-sachristia&mdash;e dava piparotes na barriga do padre.
-</p>
-<p>
-O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma
-denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz
-das pipas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha-de ser ratos&mdash;conjecturou o abbade, tremulo, engasgado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241&mdash;disse o
-sargento.
-</p>
-<p>
-Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a
-dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que diabo tem a velha?!&mdash;perguntou o Pilula.&mdash;Dão-lhe
-estupores, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;É flato, costuma-lhe a dar&mdash;elucidou o abbade.&mdash;O 24
-voltára-se a vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das
-pipas. O abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame
-estava feito:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram
-enganados a minha casa.&mdash;E caminhou ara a porta com a luz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me
-esses ratos.
-</p>
-<p>
-O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram
-por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se
-um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu
-uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh!&mdash;bradou o Pilula!&mdash;muito bem apparecido n'esta
-funcção, snr. D. Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de
-cima um bocado de cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra
-baixo, real senhor!
-</p>
-<p>
-O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece o padre eterno, ó meu sargento!
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem elle se parece é com o <i>Remexido</i> do
-Algarve,&mdash;affirmava o 14.
-</p>
-<p>
-&mdash;Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do
-governador civil&mdash;concluiu o sargento com seriedade imponente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Este senhor?... não...&mdash;disse o abbade com as mãos postas.<a name="FNanchor_5_1" id="FNanchor_5_1"></a><a href="#Footnote_5_1" class="fnanchor">[5]</a>
-</p>
-<p>
-&mdash;Não seja asno!&mdash;volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel.
-É um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua
-laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de
-camisa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu
-quarto&mdash;supplicou o abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, que se arranje com guardas á vista.&mdash;E acompanhou-os á
-saleta.
-</p>
-<p>
-Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um
-gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do
-paletó.
-</p>
-<p>
-O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa.
-Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E
-leu alto:
-</p>
-<p>
-<i>Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e
-que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente.</i>
-</p>
-<p>
-E na primeira pagina.
-</p>
-<p>
-<i>Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos,
-capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães</i>. E perguntava ao
-abbade:&mdash;Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens!
-</p>
-<p>
-Em seguida:
-</p>
-<p>
-<i>Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado
-d'el-rei.</i>
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Torquato Nunes</i>! recordava o Pilula.&mdash;Eu parece-me que
-conheço este diabo de o vêr em Braga no <i>Café</i> da Açucena na
-Cruz de Pedra. <i>Nunes</i>! um pelintra. Onde está o visconde que lhe
-queria dar um cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga&mdash;e
-enrolava os papeis. A gente precisa conhecer os titulares novos para os
-respeitar e acatar, amigo D. Prior de Guimarães.
-</p>
-<p>
-Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro,
-com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na
-residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a
-cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o
-abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da
-aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as
-arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela
-mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á
-residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das
-Botelhas de Braga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que sim, que levára; pudéra não levar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou
-disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja lá se o prendem, visconde&mdash;acautelou o abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_4_1" id="Footnote_4_1"></a><a href="#FNanchor_4_1"><span class="label">[4]</span></a>O auctor teve relações muito saudosas com este
-venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de
-St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse
-tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e
-haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava
-os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona,
-gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_5_1" id="Footnote_5_1"></a><a href="#FNanchor_5_1"><span class="label">[5]</span></a>São as textuaes palavras e a attitude do padre,
-significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua
-paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a
-escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo.
-(Informação de <i>Ferreira de Andrade</i>).</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura11.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="X">X</a></h4>
-
-<p>
-O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de
-manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então
-para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras
-pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de
-azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos
-arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á hospedaria
-dos <i>Dous amigos</i>. O Cerveira vestia casaca no trinque muito
-lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao
-pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas
-do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria,
-afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de
-polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes
-rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de
-pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que
-parecia <i>pantominice das comedias</i>, dizia o Zeferino.
-</p>
-<p>
-Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á
-mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que
-desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos
-visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas
-mandavam-lhe bilhetes.
-</p>
-<p>
-Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto
-por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras
-Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a
-Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas,
-ratices suas em Braga, quando era rapaz.&mdash;Que fizera um destrôço nas
-primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira;
-e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde.
-Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo,
-que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo
-civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e
-ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se
-parecia bastante com elle.
-</p>
-<p>
-O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o
-official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os
-olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos
-n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou:
-</p>
-<p>
-&mdash;E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle diz que é&mdash;respondeu o tenente&mdash;Veremos o que se
-averigua no governo civil.
-</p>
-<p>
-&mdash;Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres
-falsos&mdash;disse emphaticamente um professor de latim, com um sorriso
-pedante. O Cerveira olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do
-Zeferino, muito enfiados ambos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está tudo perdido!&mdash;disse dolentemente o
-fidalgo&mdash;El-rei preso!... E não se levanta este Minho a
-livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se lhe posso fallar. Dentro de
-tres dias entro em Braga com dez mil homens e arrazo a cadeia.
-</p>
-<p>
-Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar.
-</p>
-<p>
-O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas
-Bragas&mdash;a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes
-proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;&mdash;a
-liberal, muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e
-empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga,
-o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito
-rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro
-e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito
-grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do
-Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois,
-commandante da brigada dos Seresinos.
-</p>
-<p>
-Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com
-muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe
-passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do
-Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma
-d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota
-Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava
-aos seus:&mdash;É?&mdash;uns encolhiam os hombros, outros negavam
-gesticulando. E elle, com intimativa:&mdash;Pois saibam que é!&mdash;O
-Manoel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa-o fallar, que está idiota.
-</p>
-<p>
-O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de
-cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção
-rara:&mdash;Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao
-alcance da canalha. Descance vossencia.
-</p>
-<p>
-Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o
-Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva
-Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz
-de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da
-casaca azul com botões amarellos.
-</p>
-<p>
-D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A
-soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha
-d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e
-affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade
-afflictiva.&mdash;Que se parecia ... e ia jurar que era elle!&mdash;quando
-um realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde,
-disse com um desdem de achincalhação:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem é? quem é?&mdash;perguntavam todos.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido,
-e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas.
-</p>
-<p>
-O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ouviste, ó Zeferino?
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou banzado!&mdash;murmurou o outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha que espiga! 3 contos! hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Raios parta o diabo!&mdash;disse o pedreiro, n'uma synthese
-condensada da sua incommensuravel angustia.
-</p>
-<p>
-Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o
-de parte e dizia-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de
-V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da
-vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos
-fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve
-do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr.
-Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo,
-então desembainhará a sua espada.
-</p>
-<p>
-O Cerveira, abraçando-o:
-</p>
-<p>
-&mdash;Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte
-foi transferido para a Relação do Porto.
-</p>
-<p>
-O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros:
-Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.<a name="FNanchor_6_1" id="FNanchor_6_1"></a><a href="#Footnote_6_1" class="fnanchor">[6]</a>
-</p>
-<p>
-Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai
-chamavam-lhe o Norberto <i>das facadas</i>, quando já era velho, e meirinho
-geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha <i>facadas</i>
-lhe vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres
-facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que
-pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O
-certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da
-diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola.
-</p>
-<p>
-Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma
-edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do
-Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa,
-concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos
-Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por
-incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo
-disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle
-fazia n'uma toada monotona de quem reza.<a name="FNanchor_7_1" id="FNanchor_7_1"></a><a href="#Footnote_7_1" class="fnanchor">[7]</a>
-</p>
-<p>
-O Verissimo era <i>Mesquita</i> pela mãe, que não conhecera. Tambem florira
-da cêpa illustre dos <i>Mesquitas de Villar de Maçada</i>; mas o Norberto,
-achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a
-mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da
-Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso.
-</p>
-<p>
-Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a
-jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma
-vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na
-Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores
-assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra
-exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em
-infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em
-uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e,
-apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um
-bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente
-aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado
-pelo desaire de coxear.
-</p>
-<p>
-Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo,
-onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A
-sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como
-ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia
-de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no
-ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de
-meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença,
-arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e
-citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas
-côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez
-das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma
-cidade.
-</p>
-<p>
-O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia
-um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a
-cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar.
-</p>
-<p>
-A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833
-gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do
-snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites,
-n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca.
-Mandava cantar <i>Te-Deum</i> na egreja de Alvações assim que no paiz
-vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os
-realistas, a contar por cada <i>Te-Deum</i> de Alvações, entravam no Porto
-ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra.
-D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques
-voltára a casaca.
-</p>
-<p>
-Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado.
-Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa
-farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo
-acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira.
-Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha
-exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser
-padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida
-socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos,
-tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua
-residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis;
-um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande
-estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se
-não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse
-escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas.
-Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma.
-</p>
-<p>
-D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;&mdash;que seu sexto avô
-tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente
-abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos
-sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de
-padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e
-pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os
-condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo
-arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte
-descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no
-futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas
-condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.
-</p>
-<p>
-Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro
-moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso
-encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes
-Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram
-inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O
-Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda
-mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.
-</p>
-<p>
-Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de
-Sousa Reis, o <i>Remexido</i>, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous
-ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao
-formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada
-para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o
-preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram
-para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de
-capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu
-heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia
-Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida
-emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general
-Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou
-ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada
-tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu
-general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas carreiras
-abertas&mdash;uma que levava á gloria, outra á sepultura,&mdash;que
-tambem era uma gloria morrer pela patria.
-</p>
-<p>
-José Joaquim, o <i>Remexido</i>, era um bem figurado homem de trinta e oito
-annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro,
-e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das
-theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e
-humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de
-Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas
-visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou
-entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de
-homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas
-searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe
-multiplicavam o amor e os cuidados.
-</p>
-<p>
-Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia,
-onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a
-liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que
-por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa
-Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más
-idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más,
-perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou
-para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do
-rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais
-uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão
-affoita quanto cruel.
-</p>
-<p>
-Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás
-praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns
-cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas
-montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos
-annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos
-vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na
-familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa,
-depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se
-ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna,
-precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou
-Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a
-pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do
-guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle
-atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os
-inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da
-sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem
-gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve
-e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se
-contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da
-guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e
-descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra,
-chamado a <i>Portella da corte das velhas</i>. Ahi o atacou uma columna de
-caçadores 5. O <i>Remexido</i>, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer
-matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as
-bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em
-Faro.
-</p>
-<p>
-O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e
-elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos
-generaes de que rezam os fastos militares.
-</p>
-<p>
-O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella
-ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como
-não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas
-algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa.
-Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles
-andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os
-quatro vintens diarios e o vintem do municio!
-</p>
-<p>
-Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu
-por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na
-cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28.
-D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava
-empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa
-com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava
-por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo
-de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do
-Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem
-tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade.
-Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com
-advogados miguelistas, que o estimavam muito.
-</p>
-<p>
-A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do
-snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho.
-</p>
-<p>
-No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas,
-complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao
-sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D.
-Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de
-ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos
-annos de sua magestade.
-</p>
-<p>
-Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas
-redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo
-<i>capitão-Verissimo</i>. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos
-na Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já
-sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito
-escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e
-as partes fugiam d'elle.
-</p>
-<p>
-O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e,
-como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um
-tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era
-boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a
-comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos
-tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense
-na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o
-capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado.
-Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O
-capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de
-peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de
-religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu <i>Sosia</i>, do
-snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou
-as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e
-impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o
-Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande
-ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas
-nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o
-fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um
-sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o
-<i>Malagueta</i>, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante,
-uma raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas.
-Travaram-se de razões. O <i>Malagueta</i> correu sobre elle com um punhal.
-Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se.
-</p>
-<p>
-A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no
-suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos
-vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João
-Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do
-primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado,
-não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania
-queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo
-resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo
-Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no
-Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de
-resvalar pela <i>montanha russa</i>, dava umas risadas argentinas, batia as
-palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da
-argolinha.
-</p>
-<p>
-Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha
-morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous
-filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de
-camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor
-que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe
-as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado
-com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão
-honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava
-resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que
-pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se os não tens&mdash;disse o Torquato&mdash;minha mulher tem um
-cordão que pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou
-buscal-o ámanhã.&mdash;E accrescentou, de excellente humor;&mdash;Deus
-permitta que na terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de
-dentes que não tenhas mãos nem queixos a medir.
-</p>
-<p>
-Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações
-esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos
-a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes
-esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e
-Orestes.
-</p>
-<p>
-O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar,
-muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella
-desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de
-um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas,
-sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da
-companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de
-Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões
-de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos.
-</p>
-<p>
-Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na
-tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito
-laraxenta&mdash;que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava;
-que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar
-o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nós deviamos ir todos para o Brazil&mdash;lembrou o Torquato, que
-tinha meditado n'um recolhimento extraordinario.
-</p>
-<p>
-&mdash;E chelpa?&mdash;perguntou a Libania.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis.
-</p>
-<p>
-&mdash;Boa!...&mdash;disse o outro.&mdash;Bem se vê que as duas garrafas
-deram o que podiam dar&mdash;uma fantazia de um conto de réis. Por dous
-tostões é barato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não
-estou bebedo, palavra de honra!
-</p>
-<p>
-Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de
-vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do
-Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um
-charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?
-</p>
-<p>
-&mdash;Começas bem. Temos asneira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Máo! não me falles á mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei,
-e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª
-os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus minha vida!&mdash;retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã
-conversaremos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa fallar o homem!&mdash;interveio a Libania.&mdash;Ora diga lá,
-ó sê Nunes.
-</p>
-<p>
-O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos,
-removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto
-Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da
-Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a
-um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno
-piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma
-das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho.
-</p>
-<p>
-Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para
-Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha
-visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no
-Porto:&mdash;Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá
-estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na
-cama.
-</p>
-<p>
-O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos
-seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de
-Lanhoso.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_6_1" id="Footnote_6_1"></a><a href="#FNanchor_6_1"><span class="label">[6]</span></a>Segundo as informações textuaes do já referido
-José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do
-preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo
-a varias perguntas disse:
-</p>
-<p>
-"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos
-amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito
-realista;
-</p>
-<p>
-"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por
-uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o
-serviço;
-</p>
-<p>
-"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára
-parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o
-convidára no fim para sua casa;
-</p>
-<p>
-"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra,
-depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava
-ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle
-era em tudo um fac-simile);
-</p>
-<p>
-"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma
-hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe
-respondêra com uma evasiva.
-</p>
-
-<p style="margin-left: 30%;"><i>Auctoridade</i></p>
-
-<p>
-"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão?
-</p>
-
-<p style="margin-left: 30%;"><i>Preso</i> (cynico)</p>
-
-<p>
-"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da
-commodidade que se lhe offerecia;
-</p>
-<p>
-"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como
-coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade
-de seu capellão-mór, ao que annuira;
-</p>
-<p>
-"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença
-nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares,
-consummados realistas, no que concordara;
-</p>
-<p>
-"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute,
-um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão,
-commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até
-prelazias&mdash;o que elle tudo lhes concedeu de bom grado.
-</p>
-
-<p style="margin-left: 30%;"><i>Auctoridade</i></p>
-
-<p>
-E depois?
-</p>
-
-<p style="margin-left: 30%;"><i>Preso</i></p>
-
-<p>
-"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella
-commoda situação, <i>maxime</i> quando as suas finanças estavam no maior
-apuro."</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_7_1" id="Footnote_7_1"></a><a href="#FNanchor_7_1"><span class="label">[7]</span></a><i>Nota erudita</i>. A historia, aliás exacta, que o
-fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada
-no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira
-d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito
-e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a
-Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte
-do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe que
-o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai vós
-primeiro."&mdash;Se vossa alteza me engana,&mdash;volveu o
-cortezão&mdash;ditoso engano é esse.&mdash;E, mettendo-se á vala espapada
-de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço
-de fóra. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente
-pulso para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes
-lêssem este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe
-mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.
-</p>
-<p>
-E assim lhe foi debuxado o escudo: <i>Em campo verde uma ribeira de prata
-ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega
-outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este
-braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma
-estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de
-liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos</i>.
-A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.
-</p>
-<p>
-Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de
-tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo
-dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo
-chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir
-da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas
-elegantes.</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura12.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XI">XI</a></h4>
-
-<p>
-O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso,
-circumvagava uns olhares cautelosos:&mdash;se ninguem o
-ouviria?&mdash;perguntava ao abbade Marcos.
-</p>
-<p>
-E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,&mdash;pôde
-fallar, que estou sósinho. Que é?
-</p>
-<p>
-&mdash;D. Miguel I está em Portugal&mdash;disse, curvando-se-lhe ao ouvido,
-com uma voz guttural.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira
-Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta
-provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão
-disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o
-levantamento ha-de começar por aqui.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me diz você, amigo Torquato?&mdash;sacudia os braços, fazia
-estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação
-extatica&mdash;que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que
-apparecesse...&mdash;É preciso trabalhar, preparar os animos...
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Chiton</i>!&mdash;acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o
-nariz. Nada de espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á
-lingua, esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus
-amigos quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem;
-não se dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de
-Pombeiro e com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do
-Bom Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias
-do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está
-nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa,
-que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra
-vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e
-el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei!
-</p>
-<p>
-Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas
-palpebras inflammadas do abbade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude
-d'el-rei!
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!&mdash;Que ia vêr a
-mulher e que voltava já.
-</p>
-<p>
-Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na
-Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas.
-</p>
-<p>
-Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela
-provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O
-bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes
-pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos
-havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um
-barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de
-namorado no <i>Medico fingido</i>, um entremez coisa rica, que era de um
-homem malhar de costas n'aquelle chão a rir&mdash;que se elle quizesse vêr
-as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira
-de casa do abbade.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O scenario para a representação do <i>Medico fingido</i> arranjou-se na
-eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras
-entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres
-portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de
-cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por
-postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes
-lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro
-descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por
-bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em
-zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com
-cercadura de cruzinhas:&mdash;era obra de Chêta, um trôlha inspirado que
-já tinha pintado um painel das <i>Alminhas</i>, onde havia almas do sexo
-fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a
-bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia
-á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha
-ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai,
-havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que
-tinha vindo com o <i>galan</i>, o filho do estalajadeiro da Povoa.
-</p>
-<p>
-O Verissimo foi admittido aos camarins onde estavam sentados em caixas
-de milho e na salgadeira, os figurantes á espera da sua vez, já
-vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Mathilde, amante de
-<i>Almenio</i>, uma ingenua, a protogonista da peça, <i>a doente
-namorada</i>, que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o <i>medico
-fingido</i>. Este papel fôra confiado a um latagão official de
-carpinteiro, com os pulsos cabelludos e os nós dos dedos com umas
-protuberancias callosas que pareciam castanhas piladas antigas. Nas
-maçãs do rosto mascarrára duas zonas de carmim, que pareciam a
-distancia umas chagas de mendigo de romaria aperfeiçoadas. Trajava um
-vestido de setim branco da fidalga velha de Rio Caldo, feito em 1824
-para um baile que houve em Braga aos annos de D. João VI. O peito chato
-do carpinteiro ficava á altura dos quadris da fidalga, e as claviculas
-espipavam as hombreiras do corpête, prendendo os movimentos ao
-desgraçado <i>Mathilde</i>. Posto que a scena fosse a <i>Casa de
-Astolfo</i>, pai da doente fingida, a velhaca estava de chapéu de
-palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito
-amarellecidas do môfo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso
-as pernas que se deixavam vêr até cima do jarrete, cingidas de fitas
-cruzadas que subiam d'uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de
-proposito e em concordancia com os angulos reintrantes e salientes dos
-pés. Era o grotesco do horror. A creada de <i>Mathilde</i>, a
-<i>Laberca</i>, tambem vestia de setim azul-ferrete, um pouco menos
-antigo, emprestimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em
-quando para os entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque:
-obedecia mais á caracterisação natural. Na cabeça usava touca de
-folhos com laços de fita escarlate e nos pés os butes do amo com
-ponteira de verniz; elle era o creado do juiz de direito substituto;
-gosava creditos de representar papeis de lacaia fazendo rebentar a
-gente.
-</p>
-<p>
-O Verissimo fez os seus cumprimentos ás duas damas, e manteve uma
-seriedade verdadeiramente real. O <i>Almenio</i> era o filho do
-estalajadeiro da Povoa de Lanhoso, o Rêlhas. Calças brancas, quinzena
-de velludilho, bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e
-oculos. Disse ao Verissimo que punha os oculos para fingir de medico.
-Estava a um canto o gallego, o <i>Gonçalo</i>, aguadeiro da casa. Como
-não havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trôlha
-ensaiador vestiu-o de almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e
-em mangas de camisa, com uma monteira comprada em Tuy. A cara era ao
-proprio, d'uma verdade typica. O <i>Pantufo</i>, um saloio rico que
-queria casar com <i>Mathilde</i>, e foi bigodeado pelo fingido medico,
-vestia a melhor andaina de fato do presidente da camara, um apaixonado
-pelos entremezes, que a gravidade das suas funcções impedia de
-representar; mas emprestava a roupa e a intelligencia dramatologica.
-Havia mais duas figuras, o <i>Falsete</i>, e o <i>Astolfo</i>, que se
-estavam vestindo lá dentro, por detraz d'um ripado, que os deixava vêr
-em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, emquanto o trôlha
-lhes rebocava de vermelhão as caras.
-</p>
-<p>
-O Nunes atravessára a eira, e endireitára para o palheiro, quando lhe
-disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe.
-Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o
-Verissimo, e sahiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma
-physionomia cheia de alvoroço, de surpreza.
-</p>
-<p>
-Entrou pela residencia, muito esbofado:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó abbade, já esteve na eira do Gonçalves?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não; estou a acabar de jantar, e lá vou vêr essa borracheira da
-comedia. Você vem aganado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fóra que lá está na
-eira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui veio um rapazola da Povoa pedir-me uma cadeira ha coisa de meia
-hora para um fidalgo que tinha vindo com elle. Perguntei-lhe quem era o
-fidalgo. Diga que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de
-casaco chama-lhe fidalgo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha já d'ahi comigo... Por quem é, não se demore... Ó abbade,
-lembra-se de vêr el-rei em Braga ha treze annos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão tres vezes.
-</p>
-<p>
-&mdash;E, se o vir agora, conhece-o?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece-me que sim&mdash;o padre limpava á pressa os beiços amarellos
-dos ovos do arroz dôce.&mdash;Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou
-temos carraspana, amigo Nunes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como
-quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco?
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha de lá isso.&mdash;Bebeu d'um trago, e pediu
-outro:&mdash;Agora, á saude de el-rei! á saude d'aquelle que talvez
-esteja bem perto de nós! a cem passos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Toque!&mdash;exclamou o abbade.
-</p>
-<p>
-Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não
-olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião
-viesse muito a geito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você está a sonhar, homem!
-</p>
-<p>
-Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava
-em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro
-lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos
-de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada,
-muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os
-que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o
-publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e
-elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as
-fallas:&mdash;Canalha brava, calaide-vos ahi!&mdash;Uma balburdia que
-parecia um theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da
-eira, dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido,
-como a pedir desculpa.
-</p>
-<p>
-&mdash;É entrudo, dizia, é entrudo, senhor!
-</p>
-<p>
-Quando appareceu o padre na cancella da eira, houve silencio com algumas
-fungadellas de riso das cachopas, e recomeçou a comedia em obsequio ao
-abbade e á Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram
-alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera
-muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao
-abbade, perguntando-lhe se conhecia aquelle senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não conheço,&mdash;e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o
-disfarce:&mdash;Você adivinhou. É elle...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que me diz, abbade?
-</p>
-<p>
-&mdash;É elle.
-</p>
-<p>
-O Verissimo déra tres passos para accender um cigarro no de um musico
-que estava sentado n'um bombo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É elle!&mdash;repetiu o abbade.&mdash;Você não o viu coxear?
-</p>
-<p>
-&mdash;Falle baixo, falle baixo, e não olhe muito para elle, que eu já o vi
-deitar-nos os olhos,&mdash;acautelou o Nunes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Também eu ...
-</p>
-<p>
-Estalou n'este momento uma gargalhada geral. Verissimo tambem se riu, e
-deu palmas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! olha! a dar palmas!&mdash;notou o abbade com transporte.
-Aquillo sensibilisou-o até ás lagrimas! O snr. D. Miguel I a dar palmas ás
-figuras do <i>Medico fingido</i> na eira do Gonçalves em S Gens de Calvos!
-Tocante!
-</p>
-<p>
-A risada geral e as palmas e os apupos não eram rigorosamente uma
-ovação ao auctor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na scena
-l.ª o <i>Astolfo</i> pede carinhosamente á filha que côma alguma coisa.
-Mathilde diz que não póde, <i>que não está em si; que lhe acuda, que
-lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos</i>.
-</p>
-<p>
-O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica
-que diz: <i>Finge desmaio, e Astolfo a sustem nos braços</i>. Mas ou porque
-se antecipasse a desmaiar, ou porque <i>Astolfo</i> se demorasse a
-amparal-a, <i>Mathilde</i> escorregou de costas sobre o barro ainda fresco
-do palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão,
-arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até á cintura. Ora a <i>Mathilde</i>
-não usava calcinhas. Um escandalo.
-</p>
-<p>
-Verissimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente á sua
-pessoa. A natureza rebentou por elle fóra n'umas casquinadas convulsas
-que poderiam custar-lhe uma môcada, se a deflagração do riso não
-fosse geral.
-</p>
-<p>
-<i>Mathilde</i> fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou á scena.
-O ensaiador, o trôlha, sahiu ao terreiro a explicar ao publico a
-suspensão do entremez n'estas palavras:&mdash;Aquelle alma do diabo despiu
-a farpella, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês póde ir á
-sua vida que não ha hoje treato.
-</p>
-<p>
-Começou a debandar o auditorio em grande algazarra. Verissimo parecia
-esperar que o galã, o Rêlhas Junior, se despisse para se retirar. O
-Gonçalves perguntava-lhe:&mdash;e que tal esteve a chalaça, senhor! Má mez
-pr'ó homem, que se mais tivesse mais punha ó léo!&mdash;e voltando-se para
-o abbade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distancia:&mdash;ó
-snr. abbade! coisa assim não consta! Eu, se me succedesse uma d'aquellas,
-mettia a cabeça n'um folle.
-</p>
-<p>
-&mdash;São acasos, disse Verissimo com indulgencia.&mdash;Não se lembrou
-que estava vestido de senhora.
-</p>
-<p>
-O abbade ganhou animo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro
-cerimoniosamente, e disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;O entremez não presta para nada. Se o homem não cahisse,
-ninguem se ria.&mdash;Provavelmente...&mdash;assentiu o Verissimo,
-correspondendo á cortezia do Torquato Nunes que parecia aproximar-se
-mais acanhado.&mdash;Estes casos de escorregar, accrescentou o
-desconhecido, acontecem nos primeiros theatros do mundo e até nas salas
-onde se dança; e de ordinario as senhoras que desastradamente cahem
-são verdadeiras senhoras. É muito peor e mais melindroso.
-</p>
-<p>
-O abbade e o Nunes com muitos gestos affirmativos&mdash;que sim, que era
-muito peor, e mais melindroso, muito mais.
-</p>
-<p>
-Derivou a conversação para as bellezas naturaes do Minho. O
-desconhecido sentia ter vindo no inverno, quando apenas se adivinhavam
-as pompas da primavera.
-</p>
-<p>
-Principiava a choviscar. O abbade offereceu a sua casa ao forasteiro,
-emquanto não estiava a chuva. Verissimo acceitou por momentos, visto
-que não se prevenira com guarda-chuva&mdash;um traste que detestava. Os
-aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadencias, varejados pelo sul;
-por fim, as christãs da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos
-declives como escarceus a despenharem-se, fechou-se o horisonte sem uma
-nesga, e a chuva não parava. O abbade não permittiu que o hospede
-sahisse com tal tempo e já perto da noite.
-</p>
-<p>
-Durante a ceia, appareceram algumas raparigas mascaradas com lençoes,
-abraçando a Senhorinha que servia á mesa, e dizendo em falsete
-pilherias ao Nunes a quem chamavam <i>Trocatles</i> e <i>précurador de
-causas perdidas</i>. Verissimo mostrava-se contente e dizia:
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom povo! excellente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal,
-e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações
-do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por
-tributos, esmagados pelo peso dos empregados publicos que são o
-flagello de Portugal...
-</p>
-<p>
-O padre escutava-o com religiosa attenção; o Nunes beliscava a côxa
-do abbade que tomára a presidencia da mesa e puzera o hospede á sua
-direita.
-</p>
-<p>
-No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mão, e de pé, disse que
-fazia uma saude ao seu hospede, porque lhe parecia que tinha a honra de
-beber á saude de um realista, d'um partidario de sua magestade o snr.
-D. Miguel 1.° que Deus guardasse! O hospede agradeceu, declarando que
-mesmo n'uma roda de liberaes não negaria os seus sentimentos politicos:
-que era realista, e como tal brindava á saude de todos os amigos do
-principe proscripto.
-</p>
-<p>
-O Nunes dava canelões intelligentes e ás vezes dolorosos no abbade,
-que o encarava de esconso como quem diz:&mdash;percebo; não faça de mim
-asno; sei que estou fallando com el-rei.
-</p>
-<p>
-A creada deu parte que estava prompta a cama;&mdash;quando <i>Vossoria</i>
-quizer&mdash;disse ella ao hospede. Verissimo sorriu-se agradavelmente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que incommodo estou dando a esta excellente familia... Irei
-descançar, snr. abbade, e snr. Torquato ... parece-me que lhe ouvi
-chamar <i>Torquato</i>...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunes Elias, um creado de vossa...&mdash;e susteve-se.
-</p>
-<p>
-Dizia-lhe depois o abbade no quinteiro:&mdash;Você ia-se estendendo, Nunes!
-Esteve por um triz a dizer, <i>um criado de vossa magestade</i>, não
-esteve?
-</p>
-<p>
-&mdash;Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que
-está el-rei n'esta casa!&mdash;E com transporte olhando para as
-janellas:&mdash;Onde está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei
-amado dos portuguezes, na pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto
-parece um sonho!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez
-nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede
-se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a
-bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de
-ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros
-ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria
-indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos,
-tratando-o sempre por <i>senhor</i>,&mdash;o <i>senhor</i> isto, o
-<i>senhor</i> aquillo&mdash;entendia que se aproximava do tratamento que
-se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já
-o conhecia.&mdash;Bom é que elle se vá persuadindo que não somos
-patêgos&mdash;dizia o abbade ao Nunes.&mdash;Sim, bom é que se
-persuada ... você percebe... E piscava com esperteza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é
-que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos
-aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui
-estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu
-sangue!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não
-vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a
-caça.
-</p>
-<p>
-O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o
-obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante
-de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o <i>Punhal dos
-Corcundas</i>, a <i>Defesa de Portugal</i> do padre Alvito Buela, a
-<i>Besta esfolada</i>, os <i>Burros</i>, e o <i>Novo Principe</i>. O
-Verissimo levou-os para o seu quarto, excepto os <i>Burros</i>; disse
-que não gostava de poesia. Fallou com louvor do padre José Agostinho e
-de Fr. Fortunato de S. Boaventura&mdash;columnas do altar e do throno,
-que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na phalange realista.
-Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido pessoalmente.&mdash;Que
-sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe proscripto, se lhe
-fizessem semelhante pergunta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse
-vêr el-rei!...&mdash;meditou o abbade com a sua grande perspicacia
-observadora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Decerto...&mdash;concordava o Verissimo indolentemente.&mdash;Mas
-quem tem agora esperanças de vêr D. Miguel em Portugal?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, senhor, eu!&mdash;respondeu o padre batendo na arca do peito com
-as mãos ambas&mdash;Eu!
-</p>
-<p>
-O Verissimo folheava o <i>Punhal dos Corcundas</i>, e parecia não perceber
-a vehemencia do padre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons desejos, bons desejos do caro abbade...
-</p>
-<p>
-&mdash;E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca
-deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o
-retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as
-suas reaes mãos!&mdash;Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos,
-chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo
-continuava a folhear o <i>Punhal dos Corcundas</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então viu-o, abbade?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda se recorda das suas feições?
-</p>
-<p>
-&mdash;Perfeitamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Conhecia, conhecia...
-</p>
-<p>
-O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo.
-Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca
-electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era
-impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o
-braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eil-o! eil-o!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não
-sou quem pensa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou como devo estar deante do meu rei!&mdash;teimou o abbade, com
-os dous joelhos no sobrado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Levante-se que vem gente!&mdash;dizia o outro, ouvindo passos na
-escada.
-</p>
-<p>
-Era o Nunes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Entre, amigo!&mdash;disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia
-licença.
-</p>
-<p>
-Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por
-levantal-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés
-d'el-rei!&mdash;exclamou o padre.
-</p>
-<p>
-E o outro, ajoelhando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu já o sabia, real senhor!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos,
-segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura13.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XII">XII</a></h4>
-
-<p>
-Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou
-abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia
-com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D.
-Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto,
-o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que
-o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que
-seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com
-chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze
-praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão.
-</p>
-<p>
-O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom
-lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com
-um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas
-e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do
-outro, considerava-se perdido.&mdash;Pobre Libania!&mdash;deplorava, quando
-ella souber que eu estou na Relação!
-</p>
-<p>
-Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que
-não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a
-Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me
-não prenderem&mdash;accrescentava muito confiado na lei e na sua
-actividade.&mdash;Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo,
-porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia
-ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de
-degredo&mdash;atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca
-experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do
-seu quarto.
-</p>
-<p>
-Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste,
-com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada.
-</p>
-<p>
-Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do
-Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do
-sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se
-antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma
-forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso
-de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até
-Almeida e d'Almeida <i>p'ra diente</i> alma sempre!
-</p>
-<p>
-Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella
-sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o
-Gravito para a forca&mdash;elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso
-alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829.
-</p>
-<p>
-A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua
-do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias
-já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas
-a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou
-para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato
-Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D.
-Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara
-de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por
-ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes
-mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o
-processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores,
-suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão
-extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e
-evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do
-preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia
-á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as
-testemunhas citadas&mdash;os padres suspeitos de frequentarem a residencia
-de Calvos&mdash;nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do
-aggravante.
-</p>
-<p>
-E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:&mdash;Que aggravado era o
-aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de
-primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes,
-pois que <i>nenhuma</i> testemunha depozéra que o aggravante se
-inculcasse <i>D. Miguel</i> para perturbar a <i>ordem constituida</i>,
-chamando o povo á revolta; e das respostas do aggravante no
-interrogatorio a que procedeu a auctoridade administrativa constava que
-o preso quasi que <i>fôra obrigado</i> por um <i>clerigo estupido e
-esturrado miguelista</i> a deixar-se chamar <i>D. Miguel l.°</i>; mas
-não constava nem se provava que o aggravante se aproveitasse de tal
-fraude e impostura para extorquir valores aos seus <i>estupidos
-cortezãos</i>; <i>o que decerto</i> praticaria um <i>gamenho</i>
-decidido a fingir-se <i>D. Miguel</i> para os espoliar. Que a pronuncia
-fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que
-<i>nada</i> se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez
-obra por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuos
-<i>alarves</i> a quem o supposto <i>monarcha</i> fazia mercês de
-commendas, de titulos, de patentes e até de mitras, sem que d'ahi
-resultasse alvoroto nem <i>leve perturbação</i> na ordem publica, nem
-mesmamente damno para os mencionados <i>burros</i> que pediam as
-mercês, e que deviam ser pronunciados em primeira instancia, se a
-<i>côrte de S. Gens de Calvos</i>, não fosse uma <i>farça de
-entrudo</i>.
-</p>
-<p>
-E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator,
-addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras
-selvaticas do Minho se espalhassem muitos <i>Migueis</i> d'aquella casta e
-feitio até que os novos <i>Sebastianistas</i> se convencessem de que
-<i>somente assim</i> poderiam arranjar um <i>Miguel</i> que lhes désse
-commendas, titulos, postos militares e prelazias.
-</p>
-<p>
-Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito
-do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram
-por unanimidade.
-</p>
-<p>
-Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia,
-Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do
-carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas
-desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz,
-deixou-se ser mulher&mdash;chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso,
-no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens
-extraordinarios.
-</p>
-<p>
-O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a
-casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso,
-com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz.
-</p>
-<p>
-O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a
-divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas.
-Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de
-permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este
-tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o
-trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades,
-mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o.
-O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro
-lhe dava&mdash;que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato
-Leite, a rir:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem.
-Devia esfolar essas cavalgaduras!
-</p>
-<p>
-O Verissimo recuava muito agradecido.
-</p>
-<p>
-O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na
-nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes
-Elias.
-</p>
-<p>
-Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de
-solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações.
-Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a
-mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias.
-Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das
-Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo
-frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em
-quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos
-Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o
-Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao
-reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite,
-cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas
-de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal,
-muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos
-José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com
-o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia
-com as conspirações da viella da Neta&mdash;aquelle baluarte da Liberdade
-que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado,
-muito á franceza;&mdash;tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma
-loja de modas, d'um café e d'uma taberna,&mdash;o vitalismo soez e chato da
-decadencia.
-</p>
-<p>
-Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes,
-mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade
-civica da rua das Flores e das Congostas.
-</p>
-<p>
-Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque,
-José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe
-<i>patriota</i>, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e
-disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a
-desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar,
-n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o
-conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias
-espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam
-armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O
-conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica.
-</p>
-<p>
-Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram
-promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da
-refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a
-retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza
-precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de
-infanteria,&mdash;previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois
-tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados
-pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os
-batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o
-encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a
-gritos de <i>Viva a Rainha</i> se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem
-elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando <i>vivas
-á Carta Constitucional</i>. Eram a obra da prudencia e do conselheiro
-Fortunato Leite.
-</p>
-<p>
-Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois
-tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna
-do visconde de Vinhaes;&mdash;que tinham repugnancia de pelejar cara a cara
-com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José
-Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de
-dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de
-Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre
-Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque
-aos dinheiros das snr.ªs Botelhas.
-</p>
-<p>
-Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da
-comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não
-desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao
-seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio
-até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas
-das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de
-sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco.
-</p>
-<p>
-Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas
-e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o
-Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro
-cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade.
-O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a
-Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos
-tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com
-vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma
-direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um
-jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre&mdash;um anjo curvado e
-deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um
-chorão&mdash;publicava:
-</p>
-
-<blockquote><p>
-<i>Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e
-respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença,
-hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas
-Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de
-consternação pede desculpa de cumprimentos.</i>
-</p></blockquote>
-
-<p>
-O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte,
-accrescentava: <i>A exc.<sup>ma</sup> snrª D. Libania, que todos
-choramos com seu exc.<sup>mo</sup> viuvo, era uma senhora de
-esmeradissima educação, pertencia á illustre familia dos
-Covas;&mdash;modêlo no tracto insinuante com que captivava o respeito e
-a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que tiveram a fortuna de a
-conhecer. Receba s. exc.ª o snr. conselheiro-director os nossos mais
-sentidos pesames pela desgraça que acaba de o ferir
-implacavelmente</i>.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e
-d'alma.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura14.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XIII">XIII</a></h4>
-
-<p>
-O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de
-réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem.
-Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór
-e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que
-era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar
-com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua
-paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia
-esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da
-rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres,
-voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava
-cavalgadura&mdash;que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é
-o que elle sabia.
-</p>
-<p>
-Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre
-em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da
-romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de
-madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em
-quanto o velho tosquenejava a dormitar.
-</p>
-<p>
-O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira
-ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite,
-dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e
-poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era
-um dos primeiros casamentos do concelho.
-</p>
-<p>
-O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella
-tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a
-não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a
-victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o
-sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a
-pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma
-santa de jaspe&mdash;um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras.
-</p>
-<p>
-O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa.
-Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai
-as palavras do amado e o Simeão:&mdash;Ora venha de lá esse abraço, amigo
-e sê Zé!&mdash;e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a
-sua filha <i>como se quer</i>.
-</p>
-<p>
-Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo,
-que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe
-principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da
-Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o
-diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a
-Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao
-homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade
-de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente
-disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda,
-atirando-se ao rio Ave.
-</p>
-<p>
-E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando
-já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e
-onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a
-cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente
-este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a
-impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido <i>má
-mulher</i> a mãe de Martha. <i>De má arvore mim fructo</i>&mdash;era toda
-a sua philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações
-physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo.
-</p>
-<p>
-O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o
-de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas
-dizia-lhe a ella em particular:&mdash;Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que
-sim, ouviste? E ella:&mdash;Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo!
-</p>
-<p>
-A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a
-sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa
-fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os
-santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao
-domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias,
-confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas
-o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas
-no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua
-mãe:&mdash;Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento,
-se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o
-matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o
-expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina.
-Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que
-não esperava nada da sua religião,&mdash;um habito de tregeitos de mãos e
-de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam
-guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira
-missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese
-dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o
-fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos
-fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o
-pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de
-Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais
-um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames
-dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia
-encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor
-d'ella.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas.
-</p>
-<p>
-Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre
-Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando
-que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar
-por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz
-pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um
-carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e
-estivera, <i>vai não vai, ó pernas p'ra que te quero</i>, lembrando-se se
-seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do
-Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e
-morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se
-sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra
-mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto
-apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a
-chapada do luar;&mdash;era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro
-da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de
-homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a
-olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito
-devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se
-cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o
-operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de
-Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao
-luar como um espelho.
-</p>
-<p>
-O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro
-edificante, muito piedoso, chamado <i>Armas da Castidade</i>. O mystico
-filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico,
-cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra
-Martha. <i>Conhecia-lhe o leito</i>, dizia elle. É o mais que se póde dizer
-sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito.
-</p>
-<p>
-Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do
-escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava
-esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle
-tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos.
-Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um
-conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a
-vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella
-e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do
-patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando
-viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe
-dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno
-seguinte&mdash;affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com
-as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a
-Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas
-trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas
-na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia
-crystallisou no pantheon dos martyres do amor.
-</p>
-<p>
-Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da
-esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma
-cantiga d'esse tempo:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Ó mar, se queres,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Tem dó de mim.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor
-não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e
-fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a
-imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um
-grande romantico&mdash;uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle
-pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia
-d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha
-lido as <i>Confissões de um filho do seculo</i>, aquella torrente de
-lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada.
-</p>
-<p>
-Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas
-ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio
-era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar
-d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por
-causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe
-rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se
-fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á
-cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias,
-espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira
-dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira
-Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as
-mãos ensopadas nas banhas da victima.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a
-descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A
-Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os
-milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam
-as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas
-diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o
-exemplo á filha.&mdash;Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa
-de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do
-Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado;
-que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz
-que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um
-homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos
-carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma
-calumnia.
-</p>
-<p>
-Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o
-filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e
-fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de
-Prazins:&mdash;Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas
-do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus
-pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus
-parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
-</p>
-<p>
-O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito
-aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que
-principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da
-alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção
-lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia
-dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o
-gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das
-chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio.
-Pedia-lhe conselhos&mdash;que arranjasse modo de elle poder casar com a
-Martha.&mdash;Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria
-remediar o mal que fiz.
-</p>
-<p>
-A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva,
-uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com
-um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do
-instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono,
-lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a
-miudo:&mdash;Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua
-fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais
-mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O
-brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos
-contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.&mdash;A Martha escondia-se a
-chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe&mdash;o suicidio; e
-punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que
-parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados.
-</p>
-<p>
-O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já
-o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a
-familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das
-saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.&mdash;Que o seu
-amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas
-que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem
-recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
-</p>
-<p>
-De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado,
-e ralava-o:&mdash;que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião
-tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como
-sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda
-a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era
-o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se
-por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava
-<i>forgado</i>, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar
-matto oito dias, que elle perdia o cio.
-</p>
-<p>
-Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu
-restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai,
-que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a
-Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a
-mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a
-Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas
-já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da
-Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em
-emprezas mais difficeis.
-</p>
-<p>
-Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria
-a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Ó mar, se queres.</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Tem dó de mim.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D.
-Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a
-juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas
-eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em
-Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da
-Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha
-communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e
-conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da
-ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que
-representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia
-momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa.
-Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a
-mastigar os ligados do José Dias.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura15.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XIV">XIV</a></h4>
-
-<p>
-Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os
-motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos
-communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a
-origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da
-canalha». Elle disse <i>que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas
-não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos
-bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres</i>.<a name="FNanchor_8_1" id="FNanchor_8_1"></a><a href="#Footnote_8_1" class="fnanchor">[8]</a>
-As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada
-do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas
-avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação
-dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que
-vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração
-das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição
-nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi
-uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com
-o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os
-jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era
-o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e
-nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o
-lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que
-impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido
-pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a
-alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto
-Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas
-impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos
-gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição
-de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da
-fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo.
-</p>
-<p>
-O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular,
-nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a
-rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de <i>Notre-Dame</i>,
-agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de
-tres freguezias, e pegou a dar <i>morras</i> aos Cabraes com applauso
-universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este
-expediente estatistico com canastro:&mdash;que os Cabraes e os seus
-empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á
-Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e
-em casa dos regedores; que era preciso queimar-as <i>papelêtas</i> e matar
-os cabralistas.
-</p>
-<p>
-Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as
-vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos
-papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão.
-Zeferino nomeára-se <i>chefre</i> da gentalha embriagada nas adegas
-arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores
-que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno
-anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia
-de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida
-aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de
-Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou,
-pelo menos, preso e degredado como cabralista.
-</p>
-<p>
-Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de
-Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um
-outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações
-largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho
-estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José
-pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não&mdash;que nunca tinha
-feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que
-podiam fazer era tirar-lhe o governo.
-</p>
-<p>
-José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que
-o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da
-guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos
-na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra&mdash;que fugisse para
-Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da
-Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o
-sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia
-illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a
-espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está você preso por cabralista!&mdash;intimou o pedreiro,
-deitando-lhe a mão á lapella da véstia; e voltado para a
-turba:&mdash;Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!
-</p>
-<p>
-&mdash;Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o
-regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:&mdash;Ah seu Zeferino,
-seu Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra
-historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados,
-mestre Zeferino...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não me cante!&mdash;bradou o das Lamellas com furiosos
-arremêssos.&mdash;Está preso, e mexa-se já para a cadeia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você não pôde prender-me, mestre Zeferino&mdash;contrariou a
-auctoridade dentro da lei&mdash;Vá buscar primeiro uma ordem do meu
-administrador ou do governador civil.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já não ha governador civil!&mdash;explicou o
-caudilho&mdash;Agora são outros governos, seu asno! Quem reina é o
-snr. D. Miguel l.° E você não me esteja ahi a fanfar, que eu já o
-não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com dez milhões de diabos!
-</p>
-<p>
-O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares
-de homens e rapazes que davam <i>vivas</i> a D. Miguel, ás leis novas,
-á santa religião e <i>morras</i> aos cabralistas. Quando queimavam os
-papeis, um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante
-que não convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem
-<i>morras</i> ao governo e vivas á religião. N'esta barafunda, o
-regedor preso entre meia duzia de jornaleiros que discutiam as leis
-velhas e as novas na taverna do Folipo, comprehendera um acêno do
-taverneiro e fugira pelos quintaes. Metteu-se ao caminho de Braga, onde
-estava o general conde das Antas. O José Dias, receando que o
-perseguissem em Caldellas, refugiara-se também em Braga e alistou-se no
-batalhão dos serezinos commandado pelo conego Mont'Alverne.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio
-de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as
-guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou
-quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta
-a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns
-cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O
-Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:&mdash;que não se fosse
-sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle.
-</p>
-<p>
-Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos
-nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas
-almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo
-de poeta sugado pelos vampiros do <i>spleen</i>. Dizia, porém, que tinha
-febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de
-monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á
-miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para
-não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa
-inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos
-arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono
-da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus
-vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor
-d'ella os seus caixeiros, os feitores e&mdash;o que mais é&mdash;as suas
-escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano
-<i>Pudicicio</i>. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao
-parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;&mdash;que trabalhava
-muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao
-corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos
-ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que
-vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe
-namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia
-<i>seixo</i>. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet:
-<i>Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres</i>.
-</p>
-<p>
-A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que
-Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do
-brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza
-das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer
-amar de um homem de quarenta e sete annos&mdash;intacto de mais a mais. O
-presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma
-desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou
-a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da
-possibilidade de ser mulher de seu tio, <i>se adregasse gostar d'ella</i>.
-Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio,
-suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo
-ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto,
-apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano
-sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno
-dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em
-pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz
-mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava.
-Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José
-Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os
-rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de
-dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do
-Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e
-ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos,
-anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou.
-</p>
-<p>
-Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio.
-Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e
-com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico
-lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas
-desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o
-tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o
-desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de
-saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do
-padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que
-cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando
-elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem
-mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de
-tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai,
-protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
-</p>
-<p>
-O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza
-estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido
-na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e
-fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
-</p>
-<p>
-José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos
-da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio
-não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os
-seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os
-agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e
-com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo.
-Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa
-recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o,
-ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai,
-em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de
-consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos
-compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia
-de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.&mdash;Que a viuva,
-dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus
-pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela
-palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença,
-se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher,
-allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que
-elle levára para o casal não valia dois caracoes.&mdash;Emfim, concluia, se
-o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver,
-faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal...
-E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na
-salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio.
-</p>
-<p>
-&mdash;O vigario aprende o <i>padre-nosso</i>, dizia o de Caldellas.
-</p>
-<p>
-Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e
-presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao
-soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude.
-Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez
-de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao
-Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a
-Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia,
-e tambem com o oleo de figado de bacalháo.
-</p>
-<p>
-A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um
-affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o
-implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em
-armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o
-José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro
-chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de
-Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para
-deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o
-regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como
-cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á
-tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o <i>Metro</i>, tinha-o
-convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e
-avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a
-pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se
-quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito
-doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:&mdash;Que
-não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que
-perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo
-Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava <i>ethego</i>
-e mais mez menos mez esticava a canella.
-</p>
-<p>
-Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma
-resolução suicida:&mdash;Se não casar com elle n'este mundo, casarei no
-outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que te leve o diabo!&mdash;resmungava o Simeão, riçando
-phreneticamente as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do
-leito:&mdash;Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo
-não póde ir longe. Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar
-depois com um fidalgo, se quizeres...
-</p>
-<p>
-&mdash;Valha-me nossa Senhora!&mdash;murmurava Martha, pondo os olhos na
-litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.&mdash;Quem me
-dera morrer.
-</p>
-<p>
-A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no
-segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com
-accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias
-amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela
-auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os
-medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da
-estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na
-sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado
-n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais
-desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle
-estaria rijo.
-</p>
-<p>
-A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um
-berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á
-Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas
-concordavam:&mdash;que diabos levasse a mulher que o tolhêra!
-</p>
-<p>
-O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o
-deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr
-a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de
-morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia
-tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas,
-incendido pela febre.
-</p>
-<p>
-Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações
-calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia
-seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis
-esforços.
-</p>
-<p>
-Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e
-voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José
-lhe escrevia&mdash;poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres
-esperanças.
-</p>
-<p>
-Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a
-mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a
-Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da
-desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para
-a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:&mdash;bem me fio eu n'isso.
-</p>
-<p>
-Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro;
-mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao
-irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não
-podia escrever.
-</p>
-<p>
-Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na <i>Introducção</i>
-d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe
-lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção,
-um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha,
-mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo
-cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns
-accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que
-fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como
-em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas
-cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á
-alcôva.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao
-pai quem tinha morrido.
-</p>
-<p>
-Elle respondeu serenamente:&mdash;Dizem que foi o Dias que está com Deus.
-Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.&mdash;Martha deu um
-grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos
-campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se
-suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem.
-Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que
-correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella
-cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os
-sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova
-chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o
-irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a
-companhia d'elles algum tempo.
-</p>
-<p>
-Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle,
-quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está
-bom», observava-lhe com azedumes:&mdash;Deixe-a chorar, deixe-a
-chorar!&mdash;E voltando-se para a irmã:&mdash;A estupidez é cruel!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_8_1" id="Footnote_8_1"></a><a href="#FNanchor_8_1"><span class="label">[8]</span></a><i>Carta dirigida ao cavalheiro José Hume</i>. Versão
-de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura16.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XV">XV</a></h4>
-
-<p>
-O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois,
-cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder
-o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta.
-Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua
-importancia no anno em que governára a freguezia&mdash;o respeito dos
-rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo
-em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do
-seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de
-Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão,
-o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que
-era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus
-cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça.
-</p>
-<p>
-Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com
-alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances
-amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães,
-quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas
-barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a
-resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro;
-foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a
-inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave,
-e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o
-seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel
-Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao
-palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado
-com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho
-copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde
-faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das
-suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde,
-José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o
-Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do
-batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que
-arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante
-de ordens do general,&mdash;dois homens gentilmente valorosos;&mdash;o
-coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é
-hoje padre.
-</p>
-<p>
-A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A
-garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro,
-n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte,
-esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma
-formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que
-o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava
-matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira
-Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com
-gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a
-sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um
-camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre
-general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do
-batalhão do Populo.
-</p>
-<p>
-O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho
-Leal,<a name="FNanchor_9_1" id="FNanchor_9_1"></a><a href="#Footnote_9_1" class="fnanchor">[9]</a> um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé
-politica, antipoda da sua forte intelligencia&mdash;uma especie de poeta
-medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás
-instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes
-camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ha?&mdash;perguntou o quartel-mestre general.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa
-Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em
-outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.
-</p>
-<p>
-O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o
-Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o
-hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades,
-capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o
-que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo&mdash;escreve o snr.
-Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: <i>Isso não
-vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis</i>.»
-Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar
-os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir
-tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou
-Guimarães e entrou na estrada de Amarante.
-</p>
-<p>
-Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos
-outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia
-seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda
-embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu
-estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho
-Leal: ...«<i>A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se
-importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu,
-vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e
-trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar
-«superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem
-homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste)
-dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da
-gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia,
-de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com
-eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e
-outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que
-estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que
-muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa
-combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos
-Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente
-mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que
-já na Praça da Oliveira estava muita gente armada</i>.»<a name="FNanchor_10_1" id="FNanchor_10_1"></a><a href="#Footnote_10_1" class="fnanchor">[10]</a>
-</p>
-<p>
-E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens
-que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e
-retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado
-por Guizot com credenciais de Costa Cabral.
-</p>
-<p>
-O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora
-d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma
-botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado
-que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do
-pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a
-despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão
-borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira
-affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote
-largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino
-perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo
-acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo
-que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o
-Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I.
-</p>
-<p>
-Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do
-quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em
-hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco
-e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O
-Victorino notava-lhe que elle bebia de mais&mdash;que o calor da genebra
-não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na
-cabeça&mdash;que era um perigo. O Cerveira dizia que estava affeito;
-mas queixava-se de dôres nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se
-podia lamber com somno, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua
-cama. E abaixando a voz tartamuda:&mdash;Este ladrão d'este inglez
-metto-lhe a espada até aos copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã!
-</p>
-<p>
-O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu
-á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de
-que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia
-agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á
-retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e
-pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo
-dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e
-o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.
-</p>
-<p>
-O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos
-braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume
-do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito
-vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um
-ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado;
-não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos
-com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia
-alcoolica.
-</p>
-<p>
-A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho
-Leal: <i>N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em
-marcha com uma apoplexia fulminante o P...<a name="FNanchor_11_1" id="FNanchor_11_1"></a><a href="#Footnote_11_1" class="fnanchor">[11]</a> Coitado! quando me lembra
-isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu
-a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de
-que&mdash;mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote,
-poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim);
-e o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado
-velho</i>.<a name="FNanchor_12_1" id="FNanchor_12_1"></a><a href="#Footnote_12_1" class="fnanchor">[12]</a>
-</p>
-<p>
-Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da
-noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da
-manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram
-cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um
-retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta,
-repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de
-angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de
-barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que
-lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos
-afincada como garra nas correias da pasta.
-</p>
-<p>
-O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com
-dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto
-defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas,
-intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que
-foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar
-o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D.
-Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro;
-que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos
-processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do
-administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o
-baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as
-roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as
-caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto
-de réis em ouro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Toma!&mdash;disse um dos jornaleiros&mdash;um conto de réis! E
-inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:&mdash;Ó Tonio, se temos ido mais
-cedo para o monte ... e topamos o morto...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que pechincha!...
-</p>
-<p>
-Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa.
-</p>
-<p>
-O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em
-Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes
-realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e
-entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:&mdash;Eu sempre
-te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de
-Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo.
-Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado
-que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de
-Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de
-mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias
-anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume
-no olho, homem, lume no olho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da
-casta!&mdash;protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado
-punhadas aereas.&mdash;Se me matarem ... até lh'o agradeço!&mdash;E
-com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do
-sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de
-estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você
-verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor
-d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa
-d'aqui!&mdash;e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem
-apanha uma pulga.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as
-espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo.
-Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de
-coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado
-a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar
-um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as
-espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as
-condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu
-o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade
-impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a
-demissão.
-</p>
-<p>
-Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á
-morte, se chamava <i>infeliz</i> e <i>desgraçado</i>, o destino implacavel
-preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma
-insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia
-á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de
-D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D.
-Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito
-vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas,
-tocando o <i>Rei-chegou</i>: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e
-vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta,
-cantando o <i>Bemdito</i>. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo
-Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes
-com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a
-<i>Cana-verde</i> e <i>Agua leva o regadinho</i>. Em um d'esses bergantins
-com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque,
-mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella,
-vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos
-soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em
-Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da
-noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu
-com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama
-atordoado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas
-Lamellas com o regedor.
-</p>
-<p>
-Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um
-socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em
-frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas
-cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e
-entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a
-escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas.
-</p>
-<p>
-O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou.
-O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle
-quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo
-exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle
-não podia defendel-a porque estava tolhido.
-</p>
-<p>
-O Zeferino perguntou pacificamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;E o Simeão que dizia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não dizia nada. Eu é que lhe disse... <i>Arrieiros somos, na estrada
-andamos</i>, visinho Simeão.
-</p>
-<p>
-O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na
-cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas
-compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ...
-Que leve o diabo tudo...&mdash;E, passados alguns segundos de recolhida
-angustia:&mdash;Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz
-que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na
-cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você
-bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da
-minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse
-mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me
-levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta
-dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no
-corpo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem&mdash;atalhou o pai com juizo&mdash;não fosses tu lá a
-Prazins embirrar com o brazileiro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu tenho a minha paixão&mdash;objectou o filho com
-transporte&mdash;tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta
-espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe
-você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido...
-</p>
-<p>
-Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o
-Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do
-Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz
-acutilados.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor
-tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta
-solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro
-comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão
-sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous
-lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos
-brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa,
-invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e
-andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel
-a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido
-juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a
-respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á
-conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera
-atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e
-mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella
-estivesse fina, casava com o tio.
-</p>
-<p>
-&mdash;E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então!... Tomára-a elle já.
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim&mdash;tornou o Bento&mdash;você ha-de perdoar que eu lhe diga
-o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu
-não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com
-mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem bô estomago, é o que é&mdash;confirmou o Belchior da Rechousa.
-</p>
-<p>
-O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias
-ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra
-da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se
-vingar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim&mdash;disse o Belchior&mdash;você tinha-lh'a dado por quinze
-centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso cá da minha parte foi chalaça...&mdash;defendia-se o Simeão,
-quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no
-caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que
-caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão
-e derrubou-o.
-</p>
-<p>
-Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam
-dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro
-abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada
-fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou&mdash;aqui d'el-rei
-ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade,
-encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões.
-Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de
-sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua
-rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de
-vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O
-Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e
-disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe
-dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e
-levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O
-caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o
-cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos,
-levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes
-trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi
-necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro
-puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e
-alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a
-confissão.
-</p>
-<p>
-Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai
-estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D.
-Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o
-confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa
-curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se
-que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia
-opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um
-pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o
-Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma
-diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com
-medo á malta do Zeferino.
-</p>
-<p>
-O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a
-cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça
-um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em
-tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio
-quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de
-cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao
-irmão:&mdash;Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle
-sangue.&mdash;E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu
-quarto,&mdash;que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria
-retiral-a do espectaculo dos paroxismos.
-</p>
-<p>
-Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do <i>Bemdito</i> e
-o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e
-pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.
-</p>
-<p>
-Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a
-alcôva:&mdash;quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino
-das Lamellas. Juro que não foi outro.&mdash;Esta affirmativa cravou-lhe no
-coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir
-pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a
-deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza
-conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse
-o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que
-lhe estava a rapar a cabeça.
-</p>
-<p>
-Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia
-assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava
-arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um
-bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto
-onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o
-pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.
-</p>
-<p>
-O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara
-um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da
-Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio
-de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe
-pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e
-Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio
-passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito
-na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o
-levava a mal, pelo contrario.
-</p>
-<p>
-Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha
-estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça,
-bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O
-padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando.
-Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a
-cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na
-ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a.
-Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre
-Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo,
-um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada,
-mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do
-Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno
-lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo.
-</p>
-<p>
-Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos
-ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua
-seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á
-romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos
-opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e
-a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do
-seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e
-do pai.
-</p>
-<p>
-O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a
-filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O
-Feliciano acudiu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É
-minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu morria contente&mdash;balbuciou o Simeão lacrimoso&mdash;se ella
-fosse sua mulher...
-</p>
-<p>
-Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza
-olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para
-o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano
-esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha,
-aconchegando-a de si, com muita ternura:
-</p>
-<p>
-&mdash;Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço...
-</p>
-<p>
-Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o
-leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em
-convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza
-e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas
-n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta.
-</p>
-<p>
-O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára
-a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano
-disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia;
-era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e
-tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam
-o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a
-affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe
-vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella
-não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno
-entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-&mdash;Elle disse que o melhor era casar-se&mdash;lembrou o Feliciano ao
-padre Osorio.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_9_1" id="Footnote_9_1"></a><a href="#FNanchor_9_1"><span class="label">[9]</span></a>Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares
-d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_10_1" id="Footnote_10_1"></a><a href="#FNanchor_10_1"><span class="label">[10]</span></a>Carta de 10 de junho de 1877.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_11_1" id="Footnote_11_1"></a><a href="#FNanchor_11_1"><span class="label">[11]</span></a>Quando Pinho Leal publicar as suas <i>Memorias</i>,
-então se saberá o verdadeiro nome do morto.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p class="nind"><a name="Footnote_12_1" id="Footnote_12_1"></a><a href="#FNanchor_12_1"><span class="label">[12]</span></a>Carta citada.</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura17.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XVI">XVI</a></h4>
-
-<p>
-Relatava o vigario de Caldellas:
-</p>
-<p>
-&mdash;O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não
-era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto
-á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a
-ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o
-prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento
-de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se
-minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que
-quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao
-casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite
-nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos,
-choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano
-me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e
-tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a
-castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas
-ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as
-impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito
-escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me
-aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o
-operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a
-consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são
-condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças
-climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins
-eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que
-direito ia eu estragar aquelle excellente organismo?
-</p>
-<p>
-Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e
-costumes dos maridos sertanejos do Minho.
-</p>
-<p>
-O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim
-como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da
-defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos
-nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse
-contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam
-prova. Não quiz.&mdash;Depois é que me dão cabo do canastro;&mdash;dizia
-com um dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção
-primaria.
-</p>
-<p>
-No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má
-lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de
-escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do
-pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios,
-consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida
-encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas
-onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de
-duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com
-dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de
-Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a
-forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas,
-quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira,
-embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina
-ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com
-petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão
-tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto.
-</p>
-<p>
-Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar
-com a sobrinha.
-</p>
-<p>
-O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado
-augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da
-janella. E por fim ameaçava-o&mdash;<i>que se casasse com a Martha, não a
-havia de gosar muito tempo</i>. O Feliciano mostrou a carta ao irmão.
-Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O
-brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a
-vingança ao cabo&mdash;bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra
-de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei
-o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico,
-inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o
-brazileiro ao mano, n'um grande mysterio.
-</p>
-<p>
-Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de
-olhos estrabicos, d'alcunha o <i>Alma-negra</i>, um que o tinha avisado,
-quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera
-relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros
-apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao
-seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão
-como rato.
-</p>
-<p>
-O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em
-um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher
-e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde
-que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em
-segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas
-por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:&mdash;Elle bem sabe a
-quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o
-compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que
-lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de
-uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso.
-</p>
-<p>
-&mdash;É aqui, disse o Melro.
-</p>
-<p>
-O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro
-tachas: <i>Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a
-quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa,
-dizima a Deus, para partilhas</i>. O Feliciano leu, retirou-se apressado
-para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre
-Melro respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho
-a casa...
-</p>
-<p>
-Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna
-que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a
-lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez
-a comprasse para a dar a um afilhado ...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ao teu pequeno?!&mdash;perguntavam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa
-como a mim pagar-te um quarteirão d'aguardente&mdash;encareceu um
-pedreiro.&mdash;Anda agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que
-riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que
-case com a Martha. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos!
-Isso diz que dá cada arranco...
-</p>
-<p>
-&mdash;O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão&mdash;disse o
-Melro.&mdash;O Simeão tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a
-leve o diabo! Eu, se fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu
-compadre ... não devo dizer nada. Que se governem.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a
-taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:&mdash;A
-casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...
-</p>
-<p>
-&mdash;Credo!&mdash;exclamou a mulher com as mãos na cabeça.&mdash;Nossa
-Senhora nos acuda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Leva rumor!&mdash;e punha o dedo no nariz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que
-penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já te disse que me não cantes&mdash;e relançava-lhe o seu formidavel
-olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o
-cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede
-uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse
-mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e
-descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois,
-voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!&mdash;insistia a mulher, limpando
-os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da
-Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava
-as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina
-rouca:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Leva ávante, portuguezes,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Leva ávante, e não temer</i>...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-&mdash;Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.
-</p>
-<p>
-E o Melro n'uma distracção lyrica:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Pela santa liberdade,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Triumphar ou padecer</i>...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da
-culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero
-impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão
-em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do
-cano.&mdash;Está suja&mdash;disse elle&mdash;dá cá um todo&mdash;nada de
-aguardente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces!
-</p>
-<p>
-&mdash;Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez
-diabos!&mdash;E poz-se a assobiar a <i>Luizinha</i>. Enroscou algodão
-embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o
-interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da
-zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um
-sibillo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, <i>mezza voce</i>:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Agora, agora, agora,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Luizinha, agora.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia,
-introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes,
-acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que
-o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente.
-Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com
-polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou
-a aresta da pederneira que faiscava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!&mdash;soluçava a mulher.
-</p>
-<p>
-E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um
-<i>sfogato</i>:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>E viva a nossa rainha,</i></span><br />
-<span class="i6"><i>Luizinha,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Que é uma linda capitôa</i>...</span>
-</div></div>
-
-<p>
-&mdash;Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e
-uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto.
-</p>
-<p>
-A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus
-de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e
-regougou:&mdash;Máo! ... máo!...
-</p>
-<p>
-Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no
-sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora
-ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta
-ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2"><i>Agora, agora, agora,</i></span><br />
-<span class="i2"><i>Luizinha, agora.</i></span>
-</div></div>
-
-<p>
-Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias
-vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao
-ponto.
-</p>
-<p>
-A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos
-a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O
-<i>Alma negra</i> fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou
-enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da <i>Maria da
-Fonte</i>.&mdash;Ora agora&mdash;disse elle&mdash;ouvistes? porta da
-cozinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vai com Nossa Senhora&mdash;disse a mulher&mdash;e poz-se de joelhos
-a uma estampa do Bom Jesus a rezar muitos <i>Padre-nossos</i>, a fio.
-</p>
-<p>
-Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão
-pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma
-estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem
-ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás
-vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das
-carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se
-avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro
-estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio
-da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha
-d'aquelle homem que ia matar outro&mdash;chamal-o á janella e varal-o á
-traição com uma bala.&mdash;Era o traçado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que raio de escuro!&mdash;dizia, esbarrando nos espinheiros
-perfurantes.
-</p>
-<p>
-Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao <i>Fiat</i>
-genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não
-escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua
-individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão
-pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem
-feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas
-tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do
-visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se
-não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades,
-encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as
-patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem
-venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata,
-chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por
-entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a
-esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.
-</p>
-<p>
-O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes
-e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos
-gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas,
-rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões.
-Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia
-intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia
-engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das
-familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do <i>faubourg
-Saint-Honoré</i>, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões.
-</p>
-<p>
-Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
-Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte.
-</p>
-<p>
-O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante
-pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.
-Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra de <i>porta</i>, e o
-banqueiro recolhêra com as paradas que estavam <i>dentro</i>, quando tirou
-a contraria <i>de cara</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que não admittia ladroeiras!
-</p>
-<p>
-E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito
-de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram
-cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros;
-que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem
-queria roubar que fosse para a Terra Negra.
-</p>
-<p>
-A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos
-cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra
-Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a
-sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o
-Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois
-galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu
-a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando
-entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de
-caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao
-mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e,
-vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços,
-quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o
-Zeferino.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Quando, á meia noute, o <i>Alma-negra</i> entrava em casa pela porta do
-quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom
-Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a
-tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o
-bafo.
-</p>
-<p>
-O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida
-e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem
-estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do
-Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina
-imagem. O marido objectava contra o milagre&mdash;que o compadre não lhe
-dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a
-mulher&mdash;que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então
-na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.
-</p>
-<p>
-Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o
-compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:
-</p>
-<p>
-&mdash;Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os
-outros não matam elle, hein?
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura18.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XVII">XVII</a></h4>
-
-<p>
-Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario
-de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho
-veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas
-carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito
-faceiro, dizia ao Feliciano:&mdash;Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa
-com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta
-para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si
-quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.
-</p>
-<p>
-O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe
-percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam
-nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir
-equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos
-intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o
-portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.
-</p>
-<p>
-A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim
-da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou
-do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:&mdash;A senhora
-ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?
-</p>
-<p>
-&mdash;E se eu morrer adiante de ti?&mdash;perguntou D. Thereza risonha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe&mdash;e
-abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar&mdash;eu ... eu morro, ou endoudeço.
-Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai,
-cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão
-acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como
-ella acabou.
-</p>
-<p>
-D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que
-se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e
-ricos.&mdash;Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella,
-um pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de
-sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida
-airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe
-trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em
-novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo;
-porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio,
-pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do
-Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações
-de uma indole artificialmente delicada.
-</p>
-<p>
-O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:&mdash;Ella
-quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia
-nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um
-pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia
-entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas
-parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha,
-como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça
-parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de
-uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica
-franceza desde 1835 a 1845&mdash;tudo o que ha de mais falso e tolo na
-litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de
-Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa
-de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar
-no thalamo conjugal com o arganaz do tio.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a
-missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do
-Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma
-perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio
-collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza.
-queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via
-faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que
-se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a
-deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela
-vida de seu irmão.
-</p>
-<p>
-A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico,
-precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas
-não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse
-deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio
-d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á
-filha:
-</p>
-<p>
-&mdash;São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.
-</p>
-<p>
-Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera,
-n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a
-nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um
-paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a
-leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão
-que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão
-coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua
-sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera
-que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio
-então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais
-chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como
-estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza.
-Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario,
-virginalmente.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio.
-Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao
-vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito
-carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas
-d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no
-rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os
-sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se
-evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido
-tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma
-sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo
-os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos.
-Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu
-mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do
-amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do
-que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias.
-Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos
-seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala.
-Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella
-depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a
-transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio,
-depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com
-ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços
-com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com
-os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na
-sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a
-fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa
-estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.
-</p>
-<p>
-Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do
-brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se
-sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão
-phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco
-fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das
-impurezas alheias.
-</p>
-<p>
-O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco
-recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades
-occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um
-velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha
-era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as
-impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas
-produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse,
-que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o
-habito.&mdash;Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto,
-quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha
-como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um
-filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos
-nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente!
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para
-dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse
-hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de
-que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do
-Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia
-raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa.
-Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e
-professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas
-desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao
-padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia
-fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo
-da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe.
-</p>
-<p>
-O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos
-epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a
-chamar-lhe <i>José, seu Josésinho</i>. Passada a nevrose, quando ela
-imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe
-chamar <i>Josésinho</i>. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e
-dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:&mdash;que era
-hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão,
-esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas,
-consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que
-a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali
-epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um
-estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente
-se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez
-intercorrente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella está gravida&mdash;observou o vigario de
-Caldellas.&mdash;Parece que este facto denota uma tal ou qual
-normalidade de consciencia, uma concepção racional dos deveres de
-esposa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não denota nada&mdash;refutou o medico.&mdash;Faça de conta que é
-uma somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não
-ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega
-que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes
-do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para
-Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra
-n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a
-perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao
-espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os
-desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao
-primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens,
-veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas,
-concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já
-n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a
-mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o
-tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de
-fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena
-tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem
-paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha
-vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos
-nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a
-paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto
-embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se
-avenham: a verdade é esta.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura19.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4>
-
-<p>
-Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão
-almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela
-revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e
-disse que queria seguir os sermões,&mdash;que precisava de salvar a sua
-alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de
-religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as
-devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não
-deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que
-fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas
-enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso
-conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a
-primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella&mdash;dizia o
-padre-mestre.
-</p>
-<p>
-Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em
-Requião.
-</p>
-<p>
-O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes
-sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em
-Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China;
-depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria,
-sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica,
-Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio
-dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos
-suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito,
-aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu
-somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle
-caminho&mdash;que <i>não calhava p'r'á prédega</i>.
-</p>
-<p>
-O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da <i>Escada do
-céo pelas escarpas do Golgotha</i> e da <i>Via seraphica para o reino dos
-Cherubins</i>, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito
-realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que
-tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis,
-quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem
-amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar
-as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: <i>E
-o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia
-dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus
-bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas
-lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te
-perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu
-filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe</i>! E infantilisava o timbre
-da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os
-braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no
-geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e
-braços: <i>Mãe, ó mãe</i>! E todas as que tinham perdido filhinhos
-desatavam n'um berreiro.
-</p>
-<p>
-O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina
-digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era
-forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos
-diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em
-esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu,
-Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus
-competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado
-Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis&mdash;verdadeira
-superfluidade.&mdash;Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o
-ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza
-chamava-se <i>Mamona</i>. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe
-o oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores&mdash;<i>oleo de
-Mamona</i>. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos <i>demonios
-incubos</i>. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses
-devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam,
-mesmo contra a vontade da mulher, <i>rem habere cum ilta</i>. E as
-mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam
-indignadas:&mdash;Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!&mdash;e benziam-se,
-cuspinhando nos calcanhares umas das outras.
-</p>
-<p>
-Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito,
-era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo,
-peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos
-dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos
-sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de
-prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria
-cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do
-seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do
-inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á
-omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a
-reducção da mãe de José Dias.
-</p>
-<p>
-Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do <i>Peccador
-convertido ao caminho da verdade</i>, obra do seu conventual varatojano
-frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação.
-Chamava-lhe elle o <i>seu balde de tirar almas do profundo poço do
-enxofre infernal</i> Todas as beatas se consideravam mais ou menos
-empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato.
-</p>
-<p>
-Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro.
-Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita
-esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz
-confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa
-seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que
-parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre
-Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que
-Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora,
-esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo
-das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus
-tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos.
-</p>
-<p>
-Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas
-saburrentas e gretadas das beatas&mdash;que enguliam aquella farinha triga
-como quem devora sevamente um Deus&mdash;cá fóra armavam-se no adro dois
-taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de
-guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes,
-sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados,
-expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo
-injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de
-subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do
-templo, ouvia-se cá de fóra:&mdash;Arre, bebeda!&mdash;Cala-te ahi,
-calhamaço!
-</p>
-<p>
-A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em
-brochura e encadernadas dos missionarios, constava da <i>Regra de S.
-Bento</i>, da <i>Missão augmentada</i>, da <i>Missão abreviada</i>,
-das <i>Piedosas meditações</i>, das <i>Horas do christão</i>, do
-<i>Mez de Maria</i>, do <i>Mez de Jesus</i> e do <i>Livro de Santa
-Barbara</i>. Havia tambem <i>Novenas</i>, <i>Via-sacras</i> com estampas
-d'um horror sacrilego, uns Christos que pareciam manipansos do Bihé.
-Seguia-se a camada dos <i>Escapularios</i>; uns eram de <i>N. S. do
-Carmo</i>, de <i>N. S. das Dôres</i>, da <i>Conceição</i>; outros do
-<i>Preciosissimo sangue de Jesus</i>, do <i>Coração</i> do mesmo, da
-<i>Santissima Trindade</i> e de <i>S. Francisco</i>. Tinham grande
-sahida os <i>Cordões</i> do mesmo santo, e as <i>Correias de S.
-Agostinho</i>, com um botão de ôsso, a apertar na cintura,&mdash;arnez
-impenetravel ao diabo, por causa do botão, que, posto na correia, tem
-virtudes para ôsso muito admiraveis, quasi como as da carne, mas no
-sentido inverso&mdash;ella attrahindo o cão tinhoso, e elle
-repulsando-o. De <i>Santo Agostinho</i> e do <i>Anjo da Guarda</i>
-também havia <i>Rezas</i> enfiadas em metal, ou em cordão,
-simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande profusão:
-as medalhas mais procuradas eram as do <i>Coração de Maria</i>, do
-<i>Coração de Jesus</i>, do <i>Anjo da Guarda</i> e de <i>Santa
-Thereza</i>, a 10 réis.
-</p>
-<p>
-As <i>corôas</i>, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram
-diversas no tamanho e na nomenclatura: as <i>seraphicas</i> com sete
-<i>mysterios</i>, e cada mysterio com dez <i>Ave-Marias</i>; as da <i>S.
-da Conceição</i> com doze <i>Aves</i> e tres
-<i>mysterios</i>:&mdash;uma certa conta que os missionarios lá
-graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se
-aguentavam com os <i>Rosarios de quinze mysterios</i>, e a <i>Corôa dos
-nove coros dos Anjos</i>, e a do <i>Preciosissimo sangue e coração de
-Jesus</i>. Mas o grande consumo era de <i>contas de azeviche</i>,
-refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é
-legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio
-a meio.
-</p>
-<p>
-Martha, a beata, a senhora <i>brazileira de Prazins</i>, como lhe chamavam
-as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado;
-mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o
-<i>Peccador convertido ao caminho da verdade</i>, edição do seu confessor
-varatojano, fr. João de Borba da Montanha.
-</p>
-<p>
-São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por
-Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante,
-suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia,
-solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades,
-reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no
-espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o
-padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no
-<i>Peccador convertido</i>, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado
-<i>Resistencia ás tentações contra a castidade</i>. Fortalecia esta
-hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe
-apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o
-na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a
-não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao
-confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado,
-fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por
-vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do
-varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia,
-a <i>Resistencia ás tentações contra a castidade</i>.
-</p>
-<p>
-A oração dizia assim:
-</p>
-<p>
-<i>Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que
-me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que
-não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei
-aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos,
-filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu
-amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para
-conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre
-milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque
-innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes?
-Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só
-servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro,
-desfalleço, se vos não acho.</i>
-</p>
-<p>
-<i>Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso,
-são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de
-Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus
-cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo,
-bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as
-admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que
-será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre
-correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que
-magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que
-suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não
-serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces
-são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre
-cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces
-do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta,
-nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são
-assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua
-que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o
-jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e
-tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de
-flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes
-da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo,
-se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade
-ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que
-fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a
-minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia
-de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente,
-lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da
-mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma
-parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus
-olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes
-escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as
-palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da
-cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos
-escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos
-busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos,
-todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e
-por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e
-jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a
-outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando
-a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza,
-que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes,
-celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó
-peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem
-vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta
-para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale,
-porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não
-tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a
-sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos
-dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua
-composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o
-Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu
-amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque
-sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de
-amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel.
-Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas
-da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor</i>...
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um
-arrobamento de <i>preghiera</i>. Aquelles dizeres, alinhavados pelo
-varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do poema
-dramatico da <i>Sulamita</i> no «Cantico dos Canticos»&mdash;os trêchos
-mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de
-todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza
-de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza
-madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades.
-D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de
-meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se
-fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes
-principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas
-correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o
-figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne.
-</p>
-<p>
-Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser
-tangivel, o seu unico termo de comparação&mdash;o José Dias, esposo da sua
-alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade.
-Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que
-a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez
-marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos
-cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro
-com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações
-voluptuosas da sua alma e do seu corpo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura20.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XIX">XIX</a></h4>
-
-<p>
-Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser
-grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano
-desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser
-malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do
-inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de
-alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior
-parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem
-e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem
-se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não
-desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era
-que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no
-tecto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois é isso...&mdash;atalhava o varatojano.
-</p>
-<p>
-&mdash;É isso quê, snr. frei João?&mdash;perguntava o marido.
-</p>
-<p>
-O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado
-pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a
-occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma
-alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do
-inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o
-latim&mdash;uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia
-a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente
-aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio
-incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de
-Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a
-brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O
-padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em
-golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso
-reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha
-alguma duvida a pôr.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o
-vigario.&mdash;Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o
-ente perverso que faz soffrer a pobre Martha...
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>O diabo, filho de Deus</i>!&mdash;interrompeu o varatojano,
-levando as mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma
-blasfemia enorme... Santo nome de Jesus! O <i>diabo filho de Deus</i>!
-Anathema!
-</p>
-<p>
-&mdash;Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!&mdash;contraveio sereno
-e risonho o outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;A logica? a logica de Calvino, de Voltaire.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario
-bracharense. Creador não é pai?
-</p>
-<p>
-&mdash;É sim, e d'ahi?
-</p>
-<p>
-&mdash;Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de
-Deus; logo: Deus é pai do diabo.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Distinguo</i>!&mdash;contrariou o varatojano.
-</p>
-<p>
-E o vigario, sem attender á interrupção escolastica:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio
-é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o
-diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da
-Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo?
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Distinguo</i>!&mdash;insistiu o varatojano apoiado nas velhas
-formulas da dialectica esmagadora&mdash;Deus creou os anjos; d'estes
-houve alguns que se rebellaram contra o seu creador, e foram
-precipitados do céo: são os espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos
-não desceram ás trevas inferiores, e permanecem para flagello do
-genero humano no ar caliginoso. <i>Aer caliginosus est quasi carcer
-dœmonibus usque in diem judicii</i>, diz S. Agostinho. Deus permitte
-que os demonios vexem as creaturas, pelo bem que póde resultar ás
-creaturas d'esse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João:
-<i>Omnia per ipsum facta sunt</i>. Por tanto, Deus permitte o mal? logo:
-este mal é bom, por que Deus é o Summo Bem. Verdade é que os males
-não são bens...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ia eu dizer...&mdash;atalhou o padre Osorio; ao que o missionario
-acudiu prestes e victoriosamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz:
-<i>Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine
-bono</i>. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; <i>id est</i>,
-permitte o demonio como exercitação saudavel do genero humano. <i>Melius
-judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere</i>,
-diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A
-divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi
-resulta.» <i>Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos
-Angelos propler bona quæ ex eis elicit</i>. São doze as causas por que
-Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira:
-para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro
-atormentado; segunda...
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou convencido, snr. frei João&mdash;atalhou o
-vigario,&mdash;vossa reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso
-que Deus permitte demonios flagellantes para depurar com elles os
-peccadores,&mdash;uns e outros creaturas da sua divina justiça.
-</p>
-<p>
-&mdash;É isso mesmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O espirito do máo homem&mdash;do peccador que é em si um
-demonio interno, depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos
-creaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é
-como um pai que azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as
-mortificações como caricias. Rico pai!&mdash;E accrescentou com
-amargura:&mdash;Ah! meu frei João, receio muito que as superstições
-venham a desabar o catholicismo que deve a sua existencia á victoria
-que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade.
-<i>Ego sum veritas</i>.
-</p>
-<p>
-Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio,
-quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de
-despedida em casa da brazileira.
-</p>
-<p>
-Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei
-João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na
-quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas
-filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma
-vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros,
-catando as proprias pulgas e as vidas alheias.
-</p>
-<p>
-Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo.
-Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas
-nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo
-lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo
-Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo
-Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos
-grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano,
-mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas.
-</p>
-<p>
-Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz
-de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O
-exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e
-aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus
-que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem
-oração, não sahiam do corpo:» <i>Hoc genus demoniorum in nullo potest
-exire nisi oratione et jejuino</i>. O Feliciano dizia que sim, que jejuava;
-mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos;
-começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e
-do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na
-sua familia.
-</p>
-<p>
-Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os
-fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos,
-e bastava-lhe citar os seguintes:
-</p>
-<p>
-Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E
-mostrava o texto: <i>quando patiens audit quasdam voces se vocantes</i>.
-Por que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio
-lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano
-confundia-o com o latim. <i>Quando quis non potuit gustare panem aut
-carnem</i>. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra
-do diabo, por que o livro dizia,&mdash;bem vê&mdash;mostrava frei João
-ao padre Osorio: <i>Quando quis sanus cibum digerere non potest in
-stomacho</i>. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a
-certeza:&mdash;<i>Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret</i>.
-Havia um artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão
-incuba de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de
-repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias
-do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha
-n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do <i>Signal</i> decimo
-terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu <i>Brognolo</i>, e
-vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar
-intelligencia:&mdash;<i>Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non
-potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur
-esse</i>.&mdash;Aqui é onde bate o ponto!&mdash;dizia frei João
-martellando com o dedo indicador na pagina indecente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas não será essa visão o introito de uma alienação
-mental?&mdash;perguntava o de Caldellas.&mdash;Não vê, padre João, que esta
-rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da
-sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica...
-</p>
-<p>
-&mdash;Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio&mdash;replicou
-o egresso. Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.&mdash;E folheou
-o Brognolo, até encontrar o texto triumphal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio.
-</p>
-<p>
-O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: <i>Os demonios
-acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico
-com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde.
-Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas
-enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as
-membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos
-causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de
-melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio</i>, etc.
-</p>
-<p>
-&mdash;O padre Osorio está-se a rir?!&mdash;invectivou fr. João
-abespinhado. Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade
-de S. Thiago d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era
-muito seguro em materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico
-nas suas predicas, e que dava mais importancia á quina do que aos
-santos milagrosos na cura das maleitas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo
-pôdre&mdash;obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada
-indignação o missionario.&mdash;A respeito da enfermidade de Martha, sou a
-dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem
-banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos,
-que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é
-filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a
-não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro
-senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras
-vezes a sciencia vence&mdash;o demonio da demencia hereditaria que a não se
-curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta.
-Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos,
-ouvisse a opinião dos medicos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu sei o que dizem os medicos&mdash;e sorria com menospreço da pobre
-medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que
-não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou,
-e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve
-ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos?
-Nega que Jesus Christo expulsava demonios?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos...
-</p>
-<p>
-&mdash;E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses <i>factos</i> a
-que o padre Osorio chama <i>historias</i>; não são historias, são factos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não
-são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então!
-</p>
-<p>
-A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios
-ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo,
-exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos.
-Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um
-ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde
-a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação
-da governanta, que lhe dizia:
-</p>
-<p>
-&mdash;A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar
-uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim,
-como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas
-e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José
-Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José
-Alves?
-</p>
-<p>
-&mdash;E depois?
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das
-rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos
-braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o
-quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que
-foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com
-o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos...
-</p>
-<p>
-O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe
-disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres
-parochiaes, e observou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr.
-Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o
-padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um
-giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir
-distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa.
-</p>
-<p>
-O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas
-que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem
-curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque
-estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na
-batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por
-morte do pai;&mdash;que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que
-partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a
-respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de
-comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque
-em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que
-levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que sim, que comprasse o Manual do Raspail&mdash;concordou o padre
-Osorio, e sahiu muito cançado&mdash;dizia elle á irmã&mdash;de lidar com
-as duas cavalgaduras.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura21.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="XX">XX</a></h4>
-
-<p>
-Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com
-frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo
-dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia
-uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola:
-seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com
-a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de
-pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena
-com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e
-ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em
-conformidade com a rubrica de Brognolo&mdash;<i>com grave aspecto e voz
-horrivel</i>, diz o demonómano. Começou por exercitar o <i>Preceito
-provativo</i>, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou,
-fazendo estremecer Martha: <i>In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est
-minister Christi</i>... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos
-espiritos immundos, <i>vet vobis spiritis immundis</i>, que, se estavam no
-corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a,
-ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus
-lhe fosse permittido <i>eo modo quod a Deo juerit permissum</i>. Martha
-estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do
-latim do padre senão <i>demonio</i> e <i>espiritos immundos</i>. Nunca lhe
-tinham dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe
-n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater
-o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos
-de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições,
-succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha
-condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da
-demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo
-suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as
-lagrimas lhe explodiram n'uma torrente.
-</p>
-<p>
-Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e
-poz-lhe o <i>Preceito lenitivo</i>: «Que a vexação cessasse
-immediatamente&mdash;impunha elle aos demonios malditos&mdash;e toda a
-afflicção causada por elles» <i>et omnia afflictio a vobis
-causata</i>. E atacou logo os demonios com o <i>Preceito instructivo</i>
-«que immediatamente a prostrassem na presença d'elle, se ella estava
-possessa» <i>et statim coram me illam prosternatis</i>. Martha, com
-effeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braços
-no paroxismo epileptico, e o collo e o tronco hirtos n'uma
-inflexibilidade tetanica.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não ha que duvidar&mdash;disse o exorcista ao marido e ao pai da
-possessa.&mdash;Levem-na d'aqui e depois continuaremos.
-</p>
-<p>
-Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que
-passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que
-não queria mais confessar-se com elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla;
-é o demonio que me teme!&mdash;exclamou o exorcista com uma santa basofia,
-refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo
-que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua
-defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera
-que lhe fizessem as rezas.
-</p>
-<p>
-Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista,
-carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge.
-Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os <i>Preceitos
-que a creatura vexada pôde pôr ao demonio</i>. Martha, de joelhos, diante
-do oratorio, leu: <i>Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus,
-redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se
-humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus,
-que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu
-corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo</i>.
-</p>
-<p>
-O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com
-um arremesso impaciente, e murmurou soluçante:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo!
-</p>
-<p>
-Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano&mdash;o maldito
-serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te,
-Satanaz!
-</p>
-<p>
-E lançou mão do gladio das <i>Objurgações</i>. As objurgações são
-perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. <i>Dize, maldito
-demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que
-foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te
-perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça
-de Deus</i>? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece
-n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se?
-<i>Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare</i>?
-</p>
-<p>
-O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que
-se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços
-cruzados no peito e olhos no Christo, declamou:
-</p>
-<p>
-<i>Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in
-eis ignem accende</i>. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os
-corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois:
-<i>Dominus vobiscum</i>.
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>É de co espirituó</i>&mdash;respondeu o Simeão, que sabia ajudar
-á missa.
-</p>
-<p>
-Seguiram-se varios <i>Oremos</i> e deprecações, e a <i>Ladainha de
-Nossa Senhora</i>; mais outros <i>Oremus</i>, e a <i>detestação</i> da
-energumena, uma estirada que principiava: <i>E tu, demonio maldito, com
-que auctoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por
-modo algum</i>? Martha rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem
-estar de joelhos; que tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o
-exorcista, severo e formidavel no seu ministerio&mdash;que não, que
-não se ia deitar, que não lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus
-pés! Elle então, segundo a rubrica do livro director, <i>sentou-se,
-cobriu-se, voz grave e horrivel, virado contra o demonio, como juiz para
-tal réo já convencido</i>, aspergiu a possessa de agua-benta,
-ululando: <i>Asperge me, Domine</i> ... e recommendou aos circumstantes
-que apagassem duas velas, e não dessem palavra. Profundo silencio.
-Ouvia-se apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto
-attrahidas pelo calor da luz unica e pousavam na fronte chagada do
-Christo. O recinto era espaçoso e quasi em trevas. A vela, encoberta
-pelas curvas lateraes do oratorio, não alumiava senão o curto espaço
-da projecção em que Martha, retrahida n'um terror, tinha os dedos das
-mãos postas, chegadas aos labios, como se quizesse abafar os suspiros.
-</p>
-<p>
-Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em
-nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de <i>immundo</i>,
-affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais
-desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento;
-parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia
-com o Brognolo: <i>Se não estiver quieta, póde-a prender com uma
-estola</i>. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista
-levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: <i>Exurge, Christe!
-adjuva nos</i>! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos!
-</p>
-<p>
-O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem
-acôrdo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Victoria!&mdash;exclamou o exorcista&mdash;victoria!
-</p>
-<p>
-E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr.
-Feliciano: <i>O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou
-de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S.
-Marcos:&mdash;Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se
-viu no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual
-diz o texto: Et factus est sicut mortuus</i>. Depois, com jubilo, limpando
-o suor:
-</p>
-<p>
-&mdash;Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do
-travesseiro.
-</p>
-<p>
-Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida
-do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista
-que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero,
-respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito,
-Carlos Baucio, na <i>Arte do exorcista</i>, legisla: «que os exorcistas não
-ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo
-mulher (<i>propter periculum</i>), pois que as mulheres nem com o signal da
-cruz se devem tocar&mdash;<i>Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ</i>.
-</p>
-<p>
-Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava
-risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com
-frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para
-o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de
-madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava
-com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do
-inferno e mais os exorcismos.
-</p>
-<p>
-Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D.
-Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove
-horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que
-a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma
-mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a
-correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da
-fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho
-obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das
-scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não
-tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de
-estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado
-pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou
-umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da
-casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto
-chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da
-estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias;
-outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos
-estridentes.
-</p>
-<p>
-O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe
-passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e
-disse-lhes com um racionalismo brutal:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah grandes coiras!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura22.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></h4>
-
-<p>
-Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro
-conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do
-vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava
-n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a
-defendesse do missionario.
-</p>
-<p>
-D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava
-a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma
-benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de
-José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque
-era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não
-se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas
-organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha
-estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em
-que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a
-alma de José Alves, como quem conta um caso trivial.
-</p>
-<p>
-Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns
-segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum
-de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a
-vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a
-beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha
-como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a
-brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo.
-</p>
-<p>
-Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a
-torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios.
-Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no
-sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á
-madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o
-seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim
-em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem
-juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande
-piedade, porque se convenceu então que estava perdida.
-</p>
-<p>
-O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a
-preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu
-repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os
-jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se
-casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações,
-olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que,
-tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar
-viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa
-recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e
-tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as
-condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua
-physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete
-annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado
-satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era
-funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as
-anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer
-estereis as dementes.
-</p>
-<p>
-Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que
-o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves,
-o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo
-ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da
-porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois
-d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á
-porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas,
-abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em
-contacto de um rosto amado. O nome de <i>José</i> realçava com uma nitidez
-jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em
-esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe
-fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um
-argumento a favor das <i>Manifestações visiveis</i>, em que o fluido, o
-<i>perispirito</i> se apresenta semi-material, com as fórmas vagas do
-corpo, quasi tangivel ao <i>medium</i>.
-</p>
-<p>
-O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de
-casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando
-fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se
-reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou
-menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não
-a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus
-pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe
-doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações
-arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam
-madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é
-que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um
-vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco
-Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D.
-Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do
-Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para
-se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do
-tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava
-nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças
-e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua
-familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal,
-Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o
-morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão,
-vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na
-tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás
-pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam
-os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos,
-quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte.
-</p>
-<p>
-A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus
-visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde
-que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já
-ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha
-quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações,
-e&mdash;o que mais é&mdash;ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos
-delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O
-padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e
-falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr
-acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr
-nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha.
-Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a
-dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de
-torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar
-que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez
-do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de
-instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes,
-excepto no maior numero das hystericas com erothismo.
-</p>
-<p>
-Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem
-serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde
-continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai
-educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham
-nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas.
-E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando
-regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem,
-dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos,
-escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da
-imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica
-menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para
-clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento.
-Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas
-violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro
-para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres
-reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas
-hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E
-o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo
-de dez por cento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu&mdash;dizia-me ha
-trez mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho
-escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de
-cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata
-de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem 84 annos&mdash;continuou o vigario de Caldellas&mdash;veio a pé
-de sua casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe
-outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a
-pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a
-frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda
-muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os
-papagaios viviam cento e cincoenta annos.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;">
-<img src="images/figura23.jpg" width="400" height="116" alt="" />
-</div>
-
-<h4><a id="PS">P.S.</a></h4>
-
-<p>
-Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta
-narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja
-responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo
-que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é
-meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da
-tolice, retiro tudo.
-</p>
-<p>
-Se o meu condescendente informador me permitte, ouso
-dizer-lhe&mdash;para nos esquivarmos ambos ás insidias da critica
-portugueza&mdash;que a demencia de Martha não é extremamente original
-nem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa,
-é original, é duvidar eu de que o sou.
-</p>
-<p>
-Em um <i>Conto</i> de Charles Nodier, auctor remoto que se perde no
-crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu
-quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole,
-pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe.
-</p>
-<p>
-Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita
-de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe
-flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de
-ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda,
-quando andava a recolher as flores dilectas para o <i>bouquet</i> das
-nupcias com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e
-expirou.
-</p>
-<p>
-As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia
-de ambas&mdash;uma especie de resurreição do amado. No que ellas
-diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai
-no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal
-alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha
-quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado
-sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em
-amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida
-organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil
-de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma
-d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não
-ha nodoa de plagiato no meu livrinho&mdash;uma coisa original como o
-peccado.
-</p>
-<p>
-O leitor pergunta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance?
-Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise
-o individuo ou a especie?
-</p>
-<p>
-Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende
-reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em
-nome do patriarcha Voltaire, que <i>deixaremos este mundo tolo e máo, tal
-qual era quando cá entramos</i>.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p style="margin-left: 15%;">S. Miguel de Seide, dezembro de 1882.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A BRAZILEIRA DE PRAZINS:</span> ***</div>
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-or any Project Gutenberg&#8482; work, (b) alteration, modification, or
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-Defect you cause.
-</div>
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-
-</html>
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Binary files differ
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deleted file mode 100644
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--- a/old/68905-h/images/figura13.jpg
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Binary files differ
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deleted file mode 100644
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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