diff options
33 files changed, 17 insertions, 15876 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..1c34e62 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #68905 (https://www.gutenberg.org/ebooks/68905) diff --git a/old/68905-0.txt b/old/68905-0.txt deleted file mode 100644 index 5bcf069..0000000 --- a/old/68905-0.txt +++ /dev/null @@ -1,7226 +0,0 @@ -The Project Gutenberg eBook of A brazileira de Prazins:, by Camilo -Castelo Branco - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A brazileira de Prazins: - scenas do Minho. - -Author: Camilo Castelo Branco - -Release Date: September 4, 2022 [eBook #68905] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - Hathi Trust Digital Library.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A BRAZILEIRA DE -PRAZINS: *** - - - COLECÇÃO LUSITÂNIA - - - - - CAMILLO CASTELLO BRANCO - - - - - A BRAZILEIRA DE PRAZINS - - - - -[Illustração: Camillo Castello Branco] - - - - - CAMILLO CASTELLO BRANCO - - - - - A BRAZILEIRA DE PRAZINS - - SCENAS DO MINHO - - - - - Edição conforme a 1ª, revista pelo Auctor - - - - - LIVRARIA LÉLO, LIMITADA--EDITORA - - 144, Rua das Carmelitas--PORTO - - AILLAUD & LÉLOS, Limitada--R. N. do Carmo, 80 a 84--LISBOA - - - - -INDICE -INTRODUCÇÃO -CAPITULO I -CAPITULO II -CAPITULO III -CAPITULO IV -CAPITULO V -CAPITULO VI -CAPITULO VII -CAPITULO VIII -CAPITULO IX -CAPITULO X -CAPITULO XI -CAPITULO XII -CAPITULO XIII -CAPITULO XIV -CAPITULO XV -CAPITULO XVI -CAPITULO XVII -CAPITULO XVIII -CAPITULO XIX -CAPITULO XX -CONCLUSÃO -P.S. - - - - -INTRODUCÇÃO - - -Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos -livros antigos--a mais dispendiosa--leva-me o dinheiro que me sobra da -botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de -pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me -illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro em -uma caturrice academica. - -Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo -de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de -malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina -_missaes_ todos os livros grandes; aos pequenos chama _cartilhas_. -Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os -livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu todos--que -escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Elles, -gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me seductores como ao leitor -delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de -cold-cream, pulverisada de bismutho. - -Havia sermonarios latinos, um _Marco Marullo_, tres rhetoricas, muitas -theologias moraes, um _Euclides_, commentarios de versões litteraes de -Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma -versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro -_Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de -Horacio, por industria de Francisco da Costa_, impresso em 1639. - -Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga, -havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para -padre, morrêra ethico; que o seu homem--Deus lhe falle n'alma--mandára -calear o quarto onde o estudante acabára, e atirou para as lojas tudo o -que era do defunto--trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto -seccamente do extincto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão -fagueira o ventre gravido de uma gata malteza que lhe resbunava no -regaço, passando-lhe pela cara a cauda em attritos d'uma flacidez de -arminho. E eu que dedico aos bichos um affecto nostalgico, uma -sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus -saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho -com uma meiguice antiga--a das meninas da minha mocidade que piscavam. -Onde isto vai! - -A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, -offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se -chamava _Velhaca_--ajuntou com a satisfação de quem completa um -esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da _Velhaca_, -fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu familiarmente, -e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que -a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, me disse serem -do tempo dos Affonsinhos.--Porque o seu sogro, accrescentou, era um asno -ás direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; -e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres -vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando á heresia um anexim de -limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos -peccados que entram pela bocca. - -Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda -mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de -paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o _Bom senso_ do -cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a -esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza--a -Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e -contentes para os mysterios da eternidade. - - -Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros, -preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com -folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do -gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o -_Entendimento literal e constrviçam_ até paginas 154, e aqui achei um -quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra -esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do -papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte: - - -_José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a -Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a -pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. -Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer, -endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao -pé de ti._ - - Martha. - - -Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para -interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem -n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me -logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr -dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume, -está escripto o nome do possuidor--_José Dias de Villalva_, e a carta -é dirigida a um _José_. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra -a carta. - -Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um -anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o -seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando -morreu.--Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria -da Fonte. - ---Pois elle amou a Maria da Fonte?--perguntei com ardente curiosidade -historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das -suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu: - ---Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os -da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos -escrivães, sabe vm.^cê?--Acho que foi então ou por perto. E -ajuntou:--Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a -Martha... - ---Martha?--disse eu com a satisfação de vêr confirmada a assignatura -do bilhete. - -Vm.^cê conhece-a? - ---Não conheço. - ---É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem -quinze quintas entre grandes e pequenas. - ---Bem sei; mas nunca vi essa mulher. - ---Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada -ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota, -salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma -pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico -d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho. -Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do -Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de -borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem. - -Interrompi com interesse de artista: - ---Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu -cunhado? - ---Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu -cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que -Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses -casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu -tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos -estudos e sabe todas essas trapalhadas.--E n'um tom de noticia -festival:--Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim -que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito? - ---Faça-me o favor de lhe não cortar nada. - -Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á -nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson, -escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem -orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora! - - -Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo -Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com -elle uma indagação de curiosidades sentimentaes. - -Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que -tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve -mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração -mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous -annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado. -Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos -peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a -arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga. - -Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por -todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os -panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que -prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço--casos que -a pobre Natureza e o periodico chamado _Esculapio_ só de per si não -poderiam explicar. - -O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em -linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão -previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes, -sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande -milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se -restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira -estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle -negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos -leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, -accrescentou:--Deus fez o supremo milagre da sciencia para centuplicar -as forças á natureza enfraquecida.--O theologo enrugou -scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:--O snr. reitor -foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de Alexandre -Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor.--O -reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o -pulpito. - -Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a -dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns -esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que -pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se? -perguntei. - ---Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me -que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá -vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas -reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não -lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador? - -Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou -affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas -recordações, disse: - ---Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O meu -pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não -o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr, -é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo -morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle -nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. -Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra, -afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao -golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha -está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de -Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna -aureola a sua phantastica Virginia. - ---Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores -que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu -immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei -que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e -a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do -que isto... - -O cura interrompeu:--Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece -bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem -de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram -intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na -escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor -fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias -depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as -ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me -envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de -fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha -Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou -que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das -novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de -Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas, -não encontrára caso imitante.--E, dando-me o bilhete de Martha: Este -quarto de papel é o exordio de uma agonia original. - - -Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias -sentimentaes--detestavel especie archeologica que ninguem tolera,--farei -quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e refugando as flores -de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, bravias como sêrro -de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar bonina, sequer folhinha -de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A Aurora a chorar! de que -tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra n'uma idéa a sua -certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os -bigodes tingem-se; mas as phrases--madeixas do espirito--são -refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes. - - - - -I - - -Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um -irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no -espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes -encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de -Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando -embarcou, e o resto para elle--«5$400 réis, dizia, é que o maroto, -podre de rico, me mandou em vinte annos!» - -A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, -e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, -mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José -Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz -estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e -amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem -puxar pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam -quasi nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da -alma que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram -soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os -psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o -penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a ordenação--uma -coisa que se fazia com uma perna ás costas, diziam certos vigarios--sem -precisão absoluta de puxar pelas memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o -filho do _latim_ que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr. -Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e -prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não -desconhecia o crochet e ensinava raparigas para se distrahir. - -No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez -a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de -cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois -folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito -séria com proposito de mulher e ares muito sonsos--diziam as outras, -que lhe chamavam a _songuinha_. Os outros estudantes, rapazolas -vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa -nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios -ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a -Martha--chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, -arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, -indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na -barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de -abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do -quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica, -pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito -musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo -exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira. - -Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe -aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha. -Queixou-se a Fr. Roque. - -O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de -esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou -a Martha. - ---Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, cachopa?--perguntou -o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, orbiculares, com as hastes -oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que -era o José de Villalva: - ---Foi este? - ---Esse nunca me disse nada--respondeu com a voz tremula, toda vermelha, -a rapariga. - ---Foi este? - -Martha não ergueu os olhos nem respondeu. - ---Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é -que algum embarrou por ti. - ---Eu não me queixei...--murmurou a interrogada. - -Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do -alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um -canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam -á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem -espreita, quando ella subia a escada. - -O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não -porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um -justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que -gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a -primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque, -averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que -não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o -sacerdocio--uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se -dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no -fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma -noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro -n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem -lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e -mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle -desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma -tenda por motivos de architectura--um martyrio de artista. Invejas. Por -causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da -Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha -padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a -cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega, -dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto. - -Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do -Salamondi e o _Grito das almas_, decifrava menos mal umas sentenças -velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas -demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por -pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua -benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe -ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas -velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o -bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas. - ---Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo -cuspo na obreia vermelha para fechar a carta. - -A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao -estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua -saude fraca, um pelém. - -N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão -de Prazins, de um modo quasi original. - ---Você quanto deve, ó tio Simeão?--perguntou. - ---Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas? - ---Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto -e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de -andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo. - ---É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua--um conto e -quinhentos e pico. - ---Quanto é o pico? - ---Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao -mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na -feira dos 13. - ---Você quer fazer um cambalacho?--tornou o pedreiro recuando o chapéu -para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros. - ---Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer -comprar-me o lameiro da azenha--não vendo. - ---Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. -Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a -dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho -que eu não lhe quero uma de X. - ---Você falla serio, ó sôr Zeferino? - ---Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata. - ---Ora bem--entendamo'-nos--é a rapariga que você quer, a rapariga -estreme, sem dote nem escriptura? - ---Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim. - ---A rapariga é sua. - - -Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a -vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela -torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo -debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem -gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez -crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos, -arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos -da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase. -Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas -salas, entre homens da melhor polpa e casca social--uns que mandaram -ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do _Journal -des Dames_ que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o -arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra -parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de -senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne -constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o -_substratum_ da compra de negras a milhares:--comprar uma branca, das -que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto -feito em Prazins--eis a differença--por parte do pedreiro era um -heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o -seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados -em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem -d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram -assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina -de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina, -não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O -defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por -jejuns, lhe converse com a alma. - - - - -II - - -Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira -via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis -para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava -a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,--que já tinha para os -feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas -quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se -ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle -chegar. - ---Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!--exclamou o Simeão, e -foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo Thyrso e -ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do -mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado gordo--a -rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua, d'uma grande -pacificação somnolenta--perguntou-lhe se queria vender as quintas dos -frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda -com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe que não vendia para -não transmittir ao comprador a excommunhão que arranjára comprando -bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em materia e raios do -Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franklin. Continuava a -perguntar a toda a gente se sabiam de conventos á venda, ou quintas ahi -para quarenta mil cruzados. - -O Zeferino das Lamellas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o -negocio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para -se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de -abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras: - ---Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda -não sabe que vem ahi o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e -conventos? - -E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de coiro em -que tinha recibos da decima, um aviso da junta de parochia para pagar a -congrua, uma conta de azeviche contra maus olhados, uma oração -manuscripta contra as maleitas, um officio antigo que o nomeava regedor, -de que fôra demittido pelos Cabraes, uma velha resalva de recrutamento, -uns versos que elle recitara no natal, em um Auto do nascimento do -Menino, onde elle fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa -Barbara, muito cebaceo, com um lustro azulado de graxa e a carta do -Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue. - ---Você ainda não ouviu fallar d'esta carta!?--perguntou com -sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.--Não -se falla n'outra causa. Toda a gente sabe que vem ahi do Brazil o meu -Feliciano para comprar quintas. - ---Já me constou--disse o pedreiro,--mas você roe a corda á conta -d'isso, acho eu...--E como o lavrador hesitasse:--O negocio da -rapariga está feito ou não está feito? Os homens conhecem-se pela -palavra e os bois pelos cornos. Ponha p'ra'hi o que tem no interior. - -O Simeão mascava, torcia-se, mettia com dois dedos a carta estafada na -carteira e resmungava: - ---Você, emfim, isto é um modo de fallar, como o outro que diz; você -bem entende que ... sim... - ---O que eu entendo physicamente fallando é que você não me dá a -rapariga. - ---Deixe vêr, deixe vêr o que diz o meu irmão--tartamudeava. - ---Sabe você que mais?--volveu iracundo o architecto dando com o ôlho -do machado n'um canhoto.--Você é de má casta. Não tem palavra nem -vergonha n'essa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da -Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada...--Allusão pungente a -um tio do Simeão, o Bernabé, capitão das maltas de salteadores que -infestaram em 1835 aquella serra. - ---Veja lá como falla...--interrompeu o lavrador ferido na sua -linhagem.--Você não me deite a perder... - -E o outro, n'um impeto de consciencia robusta: - ---Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em -contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças -seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi -depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu -alma de cantaro?--E n'uma irritação crescente:--Se você não fosse um -velho, dava-lhe com este machado na caveira.--É muito esbandalhado nos -gestos, com sarcasmo:--Guarde a filha que eu hei de achar mulher muito -melhor que ella pelo preço, ouviu você? que leve o diabo a burra e -mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De -você não póde sahir cousa boa; e mais da mãe que ella teve, que já -lá está a dar contas... - -E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito -de ordem e paz: - ---Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu? - ---Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do Reguengo -de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A -songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada -de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao -estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre -d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não -quizeste?--e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o -interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de -insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.--E continuava:--Quem lhe -déra dois pontapés, n'elle a mais n'ella!--e muito rubro de colera -dava pancadaria nas pedras, nas raizes nodosas dos castanheiros, e -mettia grande terror no animo do Simeão quando faiscava lume nos -calhaos com a percussão do machado. - -Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se -o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma -matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as -esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador -chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a -Martha o ouvisse. - -Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o -porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe -tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume, -desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio -ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo -com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços -provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, -muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia -sarcastico: - ---Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar -os miolos á cara de você. - -Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante--que os cães -não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:--que -venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas -canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a -fazer meia com a cesta do novello no braço. - ---Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na lingua--advertiu o José -Dias com uma serenidade de máo agouro--quando eu lhe ladrar então se -fará com o machado para mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que -mais quer você, homem? Siga o seu caminho. - ---O meu caminho? o meu caminho é este--disse batendo com o machado na -terra.--Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja tolo. - -A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se -valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina -dos bebedos, e berrava: - ---Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço -d'asno? - -E o estudante, já amarello: - ---Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe -que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com -elle. - ---Ó alma do diabo!--exclamou o pedreiro crescendo para o caçador. - -N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira, -que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao -assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da -nadega esquerda. - -O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de -leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega -direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os -focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos -cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a -cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a -accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella -sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada; -mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o -cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não -sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem -ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis, -exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao -sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente -innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de -riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a -rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante -retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O -Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido: - ---Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças, -seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as -calças, e não se afflija... - -O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro -lhe replicou: - ---Vá você! - -E metteu-se em casa como quem receava contra-replica menos suja e mais -dura. - - - - -III - - -O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimáo, um major de cavallaria, -convencionado em Evora-monte, miguelista intransigente, mas cordato. -Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso benedictino. Fr. -Gervasio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão -monastica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza. -Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de -toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque -dispunha de dentadura insufficiente. Tinha outro signal ruidoso de -vida--era um pigarro de catarrhal chronica, arrancado dos gorgomilos com -tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado, -no 5.° acto de um drama de costumes. A velha creada da cozinha, muito -flatulenta, nunca pudéra affazer-se ás explosões d'aquella garganta -escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido asperrimo de pavão lhe -feria os ouvidos, reboando nos concavos tectos dos salões, a mulher -estremecia e raras vezes deixava de resmungar:--Que mêdo! credo! diabos -leve a esgana do home, Deus me perdôe! - -De dois em dois mezes appareciam em Barrimáo dous egressos de -Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de fr. Gervasio. -Juntavam-se os tres amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com -intercadencias mudas de poetica tristeza, commemoravam os seus -conventuaes fallecidos, rezavam juntos pelos seus breviarios -benedictinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com -o recolhimento prescripto pela Regra do patriarcha. Ahi, pegava de puxar -por elles a natureza objectiva, e dava-lhe horas de salutar esquecimento -do passado irreparavel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos -engarrafados, traiçoeiros, da companhia, em que fr. Gervasio derretia a -prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado era farta e a sua -bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso. - -O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como era -solteiro e quinquagenario, fazia de conta que os bens lhe haviam de -sobejar á vida, vendendo os allodiaes e empenhando, se necessario -fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas -para as miseraveis 1000 libras que o snr. D. Miguel recebia annualmente -de donativos de monarchas e dos seus partidarios portuguezes.[1] -Festejava dispendiosamente os natalicios do rei, convidando a jantar os -realistas notaveis da comarca; e, contando os annos da proscripção, ia -calculando a patente que lhe competia quando o soberano legitimo se -restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e -atrophiados nas aldeias, o general Povoas, o Bernardino, o Magessi, o -Montalegre, o José Marcellino. Mas as cartas quem lh'as redigia era o -mano frade, recheando-as de trechos de politica de pulpito--resultado -das suas digestões morosas, contemplativas--que serviram de ornamento -nas columnas do _Portugal velho_, periodico miguelista da época. - -N'aquelle anno, por meado de 1845, espalhára-se no ambiente dos -realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o -snr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anceio -d'aquelles vagos anhelos que estremeciam as nações pagans ao -visinhar-se o prophetisado apparecimento do Messias. Affirmam-no os -Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do -principe proscripto. Fr. Gervasio recebia do alto da provincia cartas -mysteriosas d'uns padres que parochiavam na Povoa de Lanhoso e Vieira. -Era alli o foco latente do apostolado. N'aquelles estabulos de -ignorancia supersticiosa é que devia apparecer, pelos modos, o presepio -do novo redemptor. Citavam-se prophecias apocalypticas de frades que -estavam inteiros sob as lages das claustras. Convergiam áquelle ponto -missionarios de aspectos seraphicos, olhando para as estrellas como os -magos e os pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmão e -dizia-lhe: «Elle ha coisa...» - ---Mas muito grande!--corroborava o major com cabeçadas affirmativas -muito exageradas. - ---A Russia move-se, é o que é--affirmou fr. Gervasio, correlacionando -a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocratica da Russia. - -Em um d'estes dialogos, em que havia desabafos, exuberancias de jubilo, -interveio o Zeferino das Lamellas, o pedreiro afilhado do major. Vinha -contar o caso do Simeão de Prazins e a péga que teve com os cães do -Dias de Villalva. Mostrava a calça remendada--que por pouco lhe não -entravam no coiro os cães--dizia, e protestava vingar-se. O egresso -pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais o estudante; que se -fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defeza do -throno e do altar. E o major: - ---Estamos chegados a ellas, Zeferino. - -E o pedreiro, esfregando as mãos coreaceas, que ringiam como duas lixas -friccionadas: - ---A elles, snr. padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedil-a ao -velho! - -O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamellas, tinha sido alferes do 17 de -linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberaes do concelho por -pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido -alguns mezes. Sequestraram-lhe os bens; e o filho que já era muito -barbado e não tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, applacadas -as furias dos vencedores e restabelecida a justiça, restituiram ao -Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes sahiu do seu esconderijo, e -recolheu-se a casa com a espada muito cheia de verdete, dizendo que -havia de laval-a no sangue dos malhados. Em 1838, dia de natal, -embebedou-se despropositadamente e sahiu para a rua a dar vivas ao snr. -D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e affectos ás velhas -instituições, responderam aos vivas com um enthusiasmo homicida. O -Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a niza de saragoça, -poz a barretina com os amarellos muito oxidados, e, á frente d'um grupo -de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça do concelho afim de -offerecer batalha campal ás auctoridades. Além da espada do caudilho, -havia na jolda tres espingardas reiunas; o restante eram foices de -gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma -lamina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já engrossada -por outros bebedos encontrados nas tavernas do transito, chegou â porta -do morgado de Barrimáo, e a clamorosos brados elegeram-o general. Já -se ouvia tocar a rebate em diversas torres, á discrição dos garotos -destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que -recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O -egresso veio a uma janella que abria sobre o atrio, e tentou -dissuadil-os do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de -patriotismo--dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, -faminto de vingança, bradava que estivera quinze mezes escondido, que -lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas aos Trêpas e aos -Andrades de Santo Thyrso, uns malhados, cujas cabeças havia de deixar -espetadas em pinheiros. - -Na villa ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incendio. Alguns -vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção ás freguezias -d'onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Villalva, o pai do -José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte á -auctoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Thyrso, já se ouvia -alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos -prolongados que punham eccos nas margens tortuosas do rio Ave. Os -liberaes de Santo Thyrso rodearam o administrador, armados, com os seus -criados. Os negociantes com medo de saque tambem sahiram de clavinas. As -familias nas janellas faziam clamores, n'uma grande desolação. -N'aquella villa lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, -e havia velhos que presencearam outra semelhante no tempo dos francezes. -O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o -morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o -morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é -porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas, -enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios, -os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam -militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta. -Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja -vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a -mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á -descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero -humano:--uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não -preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito -communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar -e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, -pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe _vivas_. -Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade -compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á -volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela -allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros -o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez -de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de -fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e -uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por -causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de -campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida, -casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia, -presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto, -e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre -Casimiro, o _General Defensor das cinco chagas_. - -Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os -relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na -vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo -Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras -alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos. - -A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além, -ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito -caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse -em se metter á ponte. - ---Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem -tem de largar os sócos a fugir--avisava, porque sabia que os de lá -eram _têzos_, e vinham todos armados. - -O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a -ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns -facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas -da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos -de aguardente.--Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da -ponto abaixo!--protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com -as cronhas no balcão. - -Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes -atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o -n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia, -olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado -pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada -nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o -snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe. - ---Que não estava; eu sou o chefe--disse o Gaspar. - ---Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á -frente d'este bom povo enganado--ponderou a auctoridade.--E vocemecê -quem é?--perguntou ao chefe. - ---Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que -perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o -perseguiram e lhe roubaram os seus bens. - -O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era -discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco -medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões. -Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que -ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta -verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de -suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio, -trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma -bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote -acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um -palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se _aos seus -apriscos_, á honrada labutação _dos seus mesteres_, e a não -perturbarem com _demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima -inviolabilidade das instituições_. Quando o funccionario fechou a -parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente -comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu -ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!» - -A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as -costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os -liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com -um sonoro estrondo de marcha cadenciada. - -Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e -Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha. - -Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, -tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do -rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia -levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela -retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das -mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se -espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com -baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de -1834--um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias. - -Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e -solemne dos de Santo Thyrso,--é agora, rapazes!--exclamaram, -desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as -suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente -esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da -primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam -gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu -homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a -voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que -sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas. - -Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que -fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos -de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem -cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio -dos pinhaes e carvalheiras. - -O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e -lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais -feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um -pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte -Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que -o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia -ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, -quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do -monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus -homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do -ex-sargento Lopes--uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da -collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O -dia de juizo! - -O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia -esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a -espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e -provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por -perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no -lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó -rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais -velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram -desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a -instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de -saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas, -aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de -dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo. - ---Ó alma do diabo!--dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a arma -com zagalotes para lhe atirar.--Vou matar aquelle pato bravo! - -E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai: - ---Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os -cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer -afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle -tem á espada! Aquillo é que é! - -A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se -derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave -espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se -apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes -d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, -vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das -Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, -bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!» - -Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido. - -Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. -Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em -impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a -lamina da espada nos ossos dos malhados. - -Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a -banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os -olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua -sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o -esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no -punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na -resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se -môva--como dizia o frade de Barrimáo. - - -[Nota de rodapé 1: Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 -recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a -esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho -que a pag. 254-255 dos seus _Apontamentos para a Historia -contemporanea_, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte -periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem -de Lisboa da _commissão alimenticia_, 1.000 francos mensaes que com -toda a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que -annualmente lhe manda o _duque de Modena_ e 6.000 francos do _imperador -Fernando d'Austria_, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns -extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a -400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia -domestica." _Chegando apenas para a despeza domestica_ de D. Miguel, -72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um -dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e -reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.] - - - - -IV - - -Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O -Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu -ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel -estava no seu reino, e--o que mais era--muito perto d'alli. Que não se -podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo -entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S. -Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada -ultimamente pelo monarcha legitimo--explicava. O major Bezerra era -commendador da ordem e conhecia a cifra:--que escrevesse francamente. E, -desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro o afilhado, o -filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O pedreiro, a -impar de soberba por tal mensagem, posto que não participasse do -segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai: - ---Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda... - -O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e -convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se -contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso -pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago -desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho, -muita aguardente, e desatou a berrar o _Rei-chegou_. - -O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração -realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se -estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e -de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou: - ---Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro! - -Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. -Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de -esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava -apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas -encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão -ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de -si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o -perdeu de vista, murmurou:--Valha-te o diabo, banaboia! - -O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de -Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do -fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre -Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe -noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro -contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo -quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal -empregado!--que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás -caldas de Vizella á bomba quente. - -Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe -confidencias:--que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia -ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a -acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até -Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a -patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as -mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da -algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e -sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,--que o -mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro -annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol -quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do -Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam -dinheiro, O fidalgo recusou:--que não estava auctorisado a receber -donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do -Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora -infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua. - -A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita. -Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S. -Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos -Antonio de Faria Rebello.[2] Que pouquissimas pessoas o tinham visto, -porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando -entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do -antigo exercito carlista, outros de Inglaterra. - -Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major -Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não -confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas -e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que -accrescentou:--e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram o -Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes -tu?--rematou o morgado--aqui anda marosca. O que tratam é de se -abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo -Christovão é um asno chapado. - ---Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino--aconselhou o egresso--que digam -alguma coisa. - -Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar -alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava -devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não -estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu -throno usurpado. - ---Deixa-te de asneiras, Zeferino--dizia o fidalgo ao afilhado com as -cartas na mão--el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo foi codilhado -pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja palerma, nem -caia com uma de X para o alevantamento que é uma comedella. - -O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel -estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de -troquilha de burros em feira: - ---Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente -coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda. - ---O Cerveira Lobo! olha que borrachão!--disse o frade. - ---Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle--accrescentou o -morgado. - ---Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle--objectou o -pedreiro.--Ouvi-lh'o eu. - ---Não duvido...--explicou o frade--que o snr. D. Miguel gostava de -grandes patifes... - -O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão -certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão -em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que -só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo -retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois -que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de -Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de -Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera -a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras -graças a diversos clerigos e leigos. - ---Que te parece isto?--perguntou o morgado ao frade. - ---Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; mas, -se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e -que me perdôe sua magestade fidelissima... - -Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um -collaborador da _Nação_. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel -em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma -agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella... - ---Quer dizer--reflexionou o frade--que o tal impostor é um Baptista, o -precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o marfim, e mais o -simulacro ... que palpem,--e, pondo as duas mãos engalfinhadas sobre o -umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar á volta do outro. Que o -que fosse soaria, e não cahisse o mano Zeferino na estulticia de se -comprometter sem que os generaes portuguezes sahissem á rua. - -Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de -pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma -dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o -Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido -illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem -sahira das minas da casa-solar em Vermuim. - -Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á -distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de -bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre -o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral -quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com -alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da -Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de -Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se -arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada -uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella -hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para -as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um -desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o -reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das -miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se -namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de -roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus -desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido -açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no -Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando -entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos -formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham -terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver -abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito -importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle, -colerico:--que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de -casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E, -apontando-lhe para os cinco filhos: - ---Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem -nojo!--Tinha estas equidades em jejum. - -E ella: - ---Mais nojo me fazem as borracheiras de você! - -E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava -alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e -perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles -pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo -estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á -garrafeira. - -D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para -o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma -elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca -muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e -estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que -aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle. -Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de -Loulé. - -Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado -pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na -janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da -sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e -dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o -saudavam;--Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!--Tenha v. s.ª muito boas -tardes, snr. morgado!--E elle, almofaçando as barbas conspurcadas de -vomito:--Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; que tal é a anca? -Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os quadris, o grande -coldre!--As cachopas não respondiam; safavam-se com um grande medo, -porque eram suas caseiras; mas commentavam:--Que levasse o diabo o -piteireiro do fidalgo!--que a fidalga fizera bem era se pisgar com o -doutor dos Pombaes.--Quer não--contrariava uma lavradeira idosa--foi -má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! uma desgraça! -Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se emborracham, e as -meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao confêsso nem sabem -a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se enfeitava para o -estudante das Quintans que andava por lá feito caçador, e que o -morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José Alho, e até se -dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que desgraça, ó -môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha tempos na -taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao Alho e mais -á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com as mãos! Ao -que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando eu era -rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas -fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um -respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos -governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó -senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o! -E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a -beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas -lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava -sempre cheia de frades das ordens ricas... - ---Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias de -frades de ordens ricas--dizia o José Dias de Villalva.--Muito cheias de -frades aquellas fidalgas, hein? - ---Ahi vens tu com as tuas alicantinas--retrucava, pronostica e solemne, -a tia Rosa de Carude.--É o que tu estudas, meu valdevinos. Agora é -melhor que então, pois não foste? As fidalgas d'hoje em dia -presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... Isto agora é -que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, valha-me Deus, -as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam frades e creavam os -seus filhos. - ---Os filhos dos frades?--perguntava o Dias. - ---Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! Ainda -bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo. - - -A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a -opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude, -toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, -que mettia em casa--uma diversão á embriaguez, quando não exercia as -duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata -visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos -Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com -ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se -por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao -irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada -amiga. - -Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos -Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante, -quando alguns membros da sociedade dos _Divodignos_ padeceram o -supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em -38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus -em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam -arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem -fazia prosa na _Gazeta litteraria_ do Porto,--scenas dramaticas em que -se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos -negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando -os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E -depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de -gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro. - -A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, -d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez -eburnea, esmaecida, _airs évaporés_, um sorriso nobre de ironia -rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza, -ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo -de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a -libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da -educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na -presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e -tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os -meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr -sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de -dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, -trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora -do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de -socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por -isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que -lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. -Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera -ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias -lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle -flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria -de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel -e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, -roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não -tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;--que, se não fosse -isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em -se matar, mas... - ---Os filhinhos...--atalhou Adolpho sentimentalmente. - ---Não, snr.--acudiu a dama de Carlota Joaquina--não são os filhos. O -coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o -amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento, -aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde -que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não -peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a -differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e -em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam -não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas -tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d -este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são -d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida--a -aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa. - -Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler -achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da -Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos. - ---Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!--dizia Adolpho á -irmã.--Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco -annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no -Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me -penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade, -nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um -coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio -devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a -existencia? - -Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse -garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a -poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça -dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães. - -D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a -separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O -bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua -alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita. - ---Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella, -requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada -ao casal.--Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como -se, depois de declamar uma _Contemplação_ de Lamartine, tivesse de -recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse. - -D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de -Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, -pondo sempre no alto do papel: _Jesus, Maria, José_. Andava nos trinta -a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne. -O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella -applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua -affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura -de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára -para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a -e dirigil-a na separação do marido por justiça. - -O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a -questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres -e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era -córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da -mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia -a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca--e conhecia -até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios -de religião, estragado por essas nações. - -D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava -começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande -esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de -mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão -luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da -mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de -litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai! -Pariz!--exclamava--Se eu então me passaria pela mente que havia de vir -de Pariz para Amarante! - - ---Elle porta-se muito serio--dizia D. Andreza ao padre Rocha. Ella é -que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha? - ---Acho, acho...--confirmava o capellão.--D'aqui rebenta coisa, minha -senhora; rebenta, v. ex.ª verá... - -E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O -delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira -de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias -escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia -a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a -encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se -por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta -casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No -andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço -amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas -baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na -fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do -sol nascente. - -Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite, -partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e -pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de -senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo, -com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de -Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois -arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo. - - -[Nota de rodapé 2: Como seria de máo gosto inventar este episodio, -imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas -por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim -Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, -com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa -contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo--D. Miguel, as -revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a -confiança. - -Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão -celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se -chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da -Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, -preparando as suas _Memorias_, que devem esclarecer as obscuridades -originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos -trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a -face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: _Eu -apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor -occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe -perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se -deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo -de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a -ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o -mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso -accrescentar_...[3]] - -[Nota de rodapé 3: Carta de 11 de novembro de 1882.] - - - - -V - - -Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em -roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado -sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro--um -desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes -hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a -depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta -annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas -grisalhas,--olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As -filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella -Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o -minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas, -tinham amantes--uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange -Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães. -Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai -não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não -eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de -alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes -amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque -de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos, -possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com -senhoras--canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, -nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de -matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava. -Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era -das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais -nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe, -chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego -desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham -mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como -quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para -recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas -momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher. - -Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além -dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de -Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que -lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas. -Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira. -Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;--que bebesse, que -se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com -vaidade de fino: - ---A quem elle o vem dizer! - -Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel--«o meu velho -amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto. - ---Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de -Chaves:--Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos -marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um -quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco -sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era -d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe -tinha medo quando elle fazia aquellas partes. - ---O vinho do Porto é o diabo!--dizia o alferes com uma grande -experiencia d'essas façanhas incruentas--é o diabo! - -O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera -em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir -para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. -As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de -uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos -verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos -ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava -fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de -soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial -interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. -Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a -Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á -paizana. - -Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu -padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei -estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e -dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os -generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada. - -O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho -amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar. - -Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão -d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. -Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e -dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que -participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco -da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões. - ---Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um -prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste? -Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho -cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não, -trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar. - -Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho -nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana. - - -O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:--Idéas não -me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se -escreve, quero dizer... - ---Ortographia? - ---É como diz, padre Rocha, ortographia. - -Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava -no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não -se mettia n'isso; e accrescentava:--elle, o rei, aqui ha treze annos -sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle -estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe -escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão -no hombro:--E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia, -S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim, -pense lá... Nós cá estamos ás ordens. - -O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e -honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do -seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. -Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua, -julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;--por fim -convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns -disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e -as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em -que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal, -elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o -proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos -d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse -tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e -tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos. - -A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta -foi que escrevesse:--«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o -que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás -ordens del-rei meu senhor.» - -O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a -D. Andreza,--porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio da -esparrela que querem armar ao parvo do homem.» - - -A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios, -explicações. Que estava uma obra profunda--dizia o fidalgo instruido -em fim nas obscuresas do estylo. - -E, tirando seis pintos do bolso do colete: - ---Ahi tem para o seu rapé, merece-os. - -O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás -necessidades do snr. D. Miguel. - ---É um realista ás direitas, padre, um grande realista!--E, guardando -os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um calice de -1817. - ---Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade--dizia o padre -Rocha. - ---Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não -ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai -commigo, e póde logo vir despachado. Pois então? - ---Está dito!--e o padre com um regosijo muito comico, e o calice -aromatico de baixo do nariz:--Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó -snr. tenente-coronel! - ---Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não tenha -duvida. Isto vai tudo mudar!--E carregava-lhe forte no 1817.--Arre! -estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que me tem levado os -diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com a espada! Ha-de -haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás vezes ao meu amigo -D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel Alcaide davam cacetada -nos malhados que aquillo não era bonito. Pois agora, padre Rocha, -hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! môcada de metter os -tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles por uma vez! uma -forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! meu camarada -Telles Jordão! tu é que a sabias toda!» - -O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O -padre despediu-se. - - - - -VI - - -Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma -sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras, -macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril. -Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de -Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das -crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito -excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o -pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no -outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios, -esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias--o retrato de D. -João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal -sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando -parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os -expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de -antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a -oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta, -de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio _en bon point_, um -bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma -bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra -estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de -chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao -lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria -amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com -brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas -janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava -estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem -vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres -brancos muito inchados e as azas abertas. - -Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na -couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros -largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro, -um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos. -Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu -na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e -um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, -e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a -mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de -communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, -meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, -fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou: - ---Vossa magestade passou bem? - ---Optimamente, Senhorinha, passei muito bem. - ---Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas -para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou -dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás -nove e meia. - ---Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu essas -ordens e quem manda aqui é elle. - -Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua -magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A -creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de -prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de -sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um -grande tinteiro de chumbo com pennas de pato. - ---Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, real -senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a... - -E o real senhor: - ---Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer -homem. - ---Credo! faz muita differença ... mesmo muita... - -Ella descobriu a travessa a rir-se: - ---Vossa magestade diz que gosta... - ---Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a -dizer--comei-me. - -E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra. - -Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava -muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que -no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão -branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos -sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha -de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O -terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto, -porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a -cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre -o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede -um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do -Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos--capellão-mór -d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães. - -A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia -particularmente ao abbade:--Este senhor, pelo que come, parece que tem -passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha -n'aquelle bandulho!--e dizia que lhe dava vontade de chorar, -lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade -contava que lêra no _Deus o quer_, do visconde de Arlincourt, que o -snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para -almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade -aquillo--que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a -fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos -sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que -elle rejeitara. - -Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S. -magestade barrava-as de manteiga nacional,--preferia a manteiga do seu -paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé -do porco nas tripas tambem portuguezas--tudo do seu paiz. Que rei, que -patriota!--meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, -esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça. - -No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de -contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na -cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de -fumo que se espiralavam até ao tecto. - -A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho: - ---Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles. - ---O...? - ---Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde.... - ---Que suba. - -O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito -realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva. - -A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:--Ó coisa! Mal -diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles! - -E a outra, benzendo-se:--Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja -você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros, -e por signal que nunca m'os pagou! - ---Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o -que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem! -Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho -d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está -conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no -domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul. - ---E que rico panno! - ---Pois vês-ahi... - -Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento--que levasse o -diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas d'aquellas, -para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira -da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E elle?--perguntava--almoçou bem? - ---Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal -d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu -agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na -villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham -p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta -pergunta á moça traz agua no bico. - ---E tu que respondeste, moça? - ---Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de -confesso... - ---Andaste bem. - -Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da -escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva--um, aprumado -na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto. - ---Pede licença na sua casa, dom Prior?--disse el-rei. - -O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano -apressou-se a erguel-o. - -Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes. - ---Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor! - ---Póde e deve que o mando eu. - -E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina: - ---Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a -quem vossa real magestade fez barão de Bouro... - ---Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro... - ---Perfeito cavalheiro--attestou o Nunes. - ---Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa -magestade. - -El-rei leu alto: - - -_Amigo Dom Prior de Guimarães.--Um realista do concelho de Famalicão -chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e -velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como -portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e -tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que -o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso -entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e -senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util, -já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. -M. F., queira transmittir-m'as_... - - ---Estou-me recordando--dizia o principe pausando as suas -reminiscencias--_Cerveira Lobo_ ... _tenente-coronel de dragões_... O -Cerveira, o meu amigo Cerveira... - ---Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os -liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o -Albuquerque--lembrou o Nunes, o visconde Nunes--V. magestade lembra-se? - ---Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que -espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira. - -Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido -do outro: - ---Isto corre mal... - ---Porque?! - ---Se o homem cá vem, o meu _grande amigo_... - ---Recebel-o como o teu _grande amigo_... - ---Se me falla em particularidades ... - ---Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e -disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre -bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas -correm perfeitamente.--Ouviam-se os passos do abbade.--Tem dinheiro, -elle tem muito dinheiro, ouviste? - -Entrou o abbade. - ---Só duas palavras. E leu: _S. Magestade recebe com muito prazer a -carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo_. - ---Muito bem,--approvou el-rei.--Hoje á noite, com todos os resguardos -que urgem as cautelas. - ---Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma carta--annunciou -Senhorinha--só a entrega em mão propria ao snr. abbade. - ---Que entrasse. - -O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios. - -Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a -honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas, -de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus -haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor. - -E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda -escarlate. E o Caneta muito pontual. - ---Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade. - ---Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo. - -Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham -ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi -apalpar o embrulho, e muito baixinho: - ---Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês? - -O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi -possivel. Nem parecia um rei! - - - - -VII - - -As sete da noite a soirée do monarcha de Calvos compunha-se do visconde -Nunes, seu secretario privado e brigadeiro de infanteria, do abbade -capellão-mór de el-rei, de dois reitores, conegos despachados, e o -ex-sargento-mór de Rio Caldo nomeado capitão-mór de Lanhoso. Estavam -todos em pé resistindo á licença de se sentarem. A cadeira de sola -estava com o principe encostada ao relogio; e, na mesa central, papeis, -o tinteiro de chumbo, o _Novo Principe_, de Gama e Castro, a _Besta -esfolada_ e o _Punhal dos corcundas_, do bispo fr. Fortunato. Em cima -das caixas do milho estavam em meio alqueire com feijões brancos -destinados ás tripas, e dois folles vasios que a Senhorinha tencionava -encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos -folles resbunava um gato enroscado. - -Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira. - -Ás oito horas annunciaram-se os adventicios. O barão de Bouro entrou -primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto n'uma -gravata enchumaçada, preta, de cordãosinho de arame, sem laço, -atacando os lobulos das orelhas, um pouco reintrante na altura dos -gorgomilos. Usava oculos de oiro quadrados, e uma pêra grisalha; de -resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de -abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; de cós das -calças, côr de gemma de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha -com o retrato de D. Miguel aos vinte e dous annos, a uma peça de oiro -com a mesma real effigie. No peito da camisa, entre as lapellas do -collete de velludo côr de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, -em miniatura, enygma convencional dos cavalleiros de S. Miguel da Ala, -obra patriota do ourives Novaes, pai do poeta Faustino. - -De pés elle, entrou o Zeferino das Lamellas, muito enfiado, n'um -spasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de niza de panno azul com -botões amarellos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos -do alhardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das -botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante. - -O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco á mão esquiva de sua -magestade. Por de traz d'elle, o Zeferino ajoelhára batendo com ambas -as rotulas no taboado. O barão ia fallar, quando o rei, reparando no -outro, disse: - ---Levante-se, homem! Isto aqui não é capella. - -O pedreiro teimava, achava-se bem n'aquella postura que o dispensava de -procurar outra. - ---Sua magestade manda-o levantar--disse o visconde Nunes. - -Ergueu-se, e n'um impeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira, -quando o capellão-mór lhe observou que as cartas se entregavam ao -secretario. - -O barão expoz que não pudéra resistir aos pedidos que aquelle honrado -legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a -entrar sósinho á presença d'el-rei, seu amo. Que era filho de um -bravo alferes, o Gaspar das Lamellas, que em 1838, á frente de 300 -homens, atacára a villa de Santo Thyrso, dando vivas a el-rei. Contou a -façanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes, -e que por causa d'isso entrévecera e nunca mais se levantou. - ---Oh!--interjecionou compungidamente o monarcha.--Eu ignorava esse -notavel ataque ... estava em Roma, sem noticias... Digno homem o meu -honrado e bravo ... como se chama seu pai? - ---Saberá vossa magestade que se chama Gaspar Ferreira. - -E o rei: - ---Visconde, escreva na lista. - -O Nunes sentou-se á mesa, pedindo venia a sua magestade que ditou: - ---_Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infanteria, com vencimento -desde 1838_. Escreva á margem: _Batalha de Santo Thyrso_. E voltando-se -para Zeferino que ladeava para a parede: - ---Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá -soldo dos sete annos passados. - -O Zeferino abriu a bôca para dizer o que quer que fosse. - ---A carta do meu velho amigo Teixeira?--perguntou o rei ao visconde -Nunes. - ---_Cerveira_, perdôe vossa magestade, Cerveira Lobo. - ---Ah! sim ... Cerveira Lobo. - -Abriu, leu para si, passou a carta ao secretario, e commentando -exultante: - ---Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens -assim dedicados, o triumpho é certo. Posso dizer com o grande vate -Camões: - - - _E dir-me-heis qual é mais excellente - Se ser do mundo rei, se de tal gente._ - - -Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas, -olhou com espanto para o outro, que lhe disse á puridade, -discretamente: - ---Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim! - -El-rei proseguiu: - ---Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno -d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista: -_Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros_. -Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso, -sentou-se a escrever--e que conversassem. - -O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro -e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas. - -Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas, -muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa. -Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava -passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da -altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto, -troncos de giestas como a sua coxa--e mostrava--; tinha apanhado de -raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava -pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira -sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na -clareira; e mal elle apontou, _pumba_! metteu-lhe tres zagalotes no -quadril. - ---A gente a fallar incommóda talvez el-rei...--observou o barão de -Bouro. - ---Podem conversar á vontade, que não me incommodam. - ---Aquillo é que é cabeça!--disse baixinho, tocado, um dos conegos a -outro conego. - -Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos, -com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de -olhos.--A virar! a virar!--Carminavam-se os conegos. O dom Prior de -Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois -_padres Marcos_, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S. -Gens de Calvos, dizia do outro: - ---Forte bebedo! - -O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e emquanto os padres n'um -crescendo palavroso, expluiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o -secretario privado curvou-se sobre o hombro de el-rei e segredou-lhe: - ---Carrega-lhe! - ---Ora!... - ---Quanto? - ---2. - ---3. Anda-me. 3. - ---Será muito!... - ---Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa. - -E, em voz alta e voltado para o grupo: - ---El-rei pergunta se o snr. Conde de Quadros tem familia, se tem senhora -e filhos. - -O Bezerra perguntou ao Zeferino. - ---Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o -fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada; -mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido -com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára. - ---Desgraças!--disse o capelão-mór--desgraças! A corrupção dos -tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se -lhe ha-de dar. - -Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto. - -O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os -periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e -muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a -idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria -mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes. - -Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes. -Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, -cuidadosamente recortada. - -O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em -quatro a folha do almaço e sobrescriptou--_Ao conde de Quadros, general -do Exercito real_. - -N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes, -fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua -magestade.» - ---Eu vou fallar a el-rei--disse Nunes com satisfatoria condescendencia. - -Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco -inclinado, e fallou-lhe baixo. - ---Sim--respondeu o monarcha. - ---Está servido, snr. barão--communicou o secretario, e foi registar no -livro das mercês, proferindo em voz alta: _Sua magestade há por bem -nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em attenção aos -serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira_. - ---Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór--disse o barão de Bouro ao -pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem. - ---Levante-se, amigo--disse o principe.--Aqui tem a resposta da carta do -meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este -sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é -dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com -outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo -pessoalmente. Adeus. - -A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não -voltarem as costas á magestade. - -A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a -cela prompta, e que o frango com arroz não esperava--que era preciso -comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre -com el-rei e com o abbade. - -O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir -pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de -romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao -outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde -entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma -congestão de jubilo. - -O Cerveira estava a dormir a sesta. - ---Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!--informou um -caseiro.--Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os -coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada -e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança, -dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a -breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como -um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como -puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez -por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é -muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos -pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá -como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de -perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de -renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os -pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem -amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O -homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe -ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até -elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e -aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião. -Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco -réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o -estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o -serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas -fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por -esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem -paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha, -mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me -parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé -em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus -nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que -isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco -que aturar a seu pai que tambem as agarra muito _profeitas_! Olhe você -como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso! -Aquillo só com meio almude no bucho! - ---Não é tanto assim--atalhou o sargento-mór de Lamellas.--Não lhe -digo que meu pai não tivesse algum graieiro na aza; mas o que elle fez -não era você capaz de o fazer, tio Manoel. - ---Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me -emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se -algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a -dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus -quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual -Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso -de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era -tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a -trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta -das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par de _mel_ cruzados, -ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava -quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou -não é? - ---Isso acabou--respondeu com desdem, irritado.--Agora não a queria nem -que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu digo, tio -Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas brevemente -o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir. - ---Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem -capazorio, honrado... - ---Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir -uma janella--lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir. - -E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo: - ---Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa -com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!... - - - - -VIII - - -Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua -intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o -sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e -lia: _Ao conde de Quadros, general da exercito real_.--Isto que diabo -é? - ---É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos -escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez. -O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das -Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi -despachado coronel por el-rei. - ---O teu pai?! coronel!... - ---É como diz. - ---Ora essa! ... coronel! caramba!--disse despeitado; parecia-lhe iniqua -a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos analogos d'el-rei; -as injustiças d'algumas patentes superiores desde 1828 até á -convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo. Parecia que a sua -razão immergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo -acima, queria duvidar da authenticidade de um D. Miguel que fazia -sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes que passára das -milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e plausivel em si -as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as mercês feitas -aos dous plebeus... Caramba!--Uma intermittencia de juizo. Emfim, abrira -a carta e lêra para si com uma custosa interpretação, ora -aproximando, ora distanciando o papel dos olhos. - -A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, -illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do -convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel -authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito -bem; era assim; e então a assignatura--_Miguel, Rei_--era tal qual. -Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela mudança -subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a -carta. - -O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da -nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que -lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não -estava assaz bebedo para confidencias.--Conta lá o que te aconteceu, -Zeferino--e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda. - -O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do -rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando -ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, -peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo -Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros -tinha filhos. - -O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua -assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo -phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse -na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não -havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo -D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o -plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a -intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer -recebera a sua carta. - ---Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do -snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o--esclareceu Zeferino. - ---Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo. - ---Prompto, senhor. - ---Mas, se vais para casa, passa pelos Pombaes e dá parte ao padre Rocha -que preciso fallar-lhe hoje á noite ou ámanhã cêdo. - - -O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes civicos do -tenente-coronel. Repugnava-lhe o ebrio e professava uma sincera -compaixão pelo homem. - -Pouco depois do sol nado, o capellão de D. Andreza estava em Quadros -com um grande interesse. Queria salvar o visinho d'uma ratoeira armada -ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o principe proscripto -estava no concelho da Povoa de Lanhoso. - -Chegára um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho -copiosamente, um bicho muito antigo, invulneravel, que não se afogava -em pouca genebra. - ---Não ha duvida, padre Rocha! Cá está o homem!--exclamou o fidalgo. - ---Máo!--disse comsigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as -inhalações alcoolicas do bafo.--Então é certo, snr. tenente-coronel? - ---Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general a -conde. Veja. - ---Oh! sim? muitos parabens, snr. conde, muitos parabens! Quanto -folgo!--e lia o sobrescripto. - ---Póde abrir e leia alto. - ---Muito boa fórma de lettra, sim senhor... É do proprio punho do snr. -D. Miguel? - ---Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal -qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?--perguntava com a botija -inclinada sobre o calice. - ---Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza -ás dez horas. - ---Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito -soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta -escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz a _Nação_ que elle andava a -estudar lá por fóra. - ---Se dá licença, leio--interrompeu o padre com impaciencia curiosa. - ---Vá lá!--e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão. - - -_Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e -general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não -podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o -li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta._ - - ---Hein?--interrompeu o Cerveira. - ---Muito bem--e proseguiu lendo: - - -_Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque -não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me -acompanhou nas alegrias da minha mocidade._ - - ---Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas -rasgadas quando éramos rapazes? - ---Sim, snr., v. ex.ª tinha-m'o dito. - ---Ora ahi tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas!--e recordava-se com -os olhos n'um spasmo entre a saudade e as iniciativas da borracheira. - ---Continúo, se v. ex.ª permitte. - ---Ande lá... Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo!--disse com -tristeza, muito abatido. Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia -ancias de abraçal-o, e dizer-lhe: «Regenere-se!» - ---Ande lá. Leia, que o melhor está p'ra baixo. - - -_Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui -para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a -resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem, -emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas -negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em -Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome. -Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter -sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás -deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos -abraçar e chamar para meu lado._ - - -O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lagrimas que -destacavam no rubor da epiderme. - ---Então que é isso? São lagrimas de alegria?--perguntou o padre.--Se -são, deixe-as correr. - ---Qual alegria! estou velho... Já não posso fazer nada a favor -d'el-rei... Este pulso...--e retezava o braço. O padre -assustava-se.--Ora leia para baixo, que está ahi uma passagem muito -bonita. - - -_Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel -dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da -carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras -sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame -general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram -acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento -de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia -geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro -de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição._ - - ---Foi assim!--exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O Saldanha era -meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar á sua -presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu -(batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre, eu, aqui onde -me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as profundas dos -infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D. Miguel I e que -elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos; e o -patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, -quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me _estupido_. E eu, vai não -vai, estive a mandal-o... - -Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a -leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa. - ---Ande lá. - - -_Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não -foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos -como vós, bem poucos, mas que valem um reino._ - - ---Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha. - -Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que -o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era -qualquer pedaço de asno. Continuou: - - -_Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa -carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos -dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso -que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos -meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta -de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu -cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em -poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente -de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma -insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e -de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar, -comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os -opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria._ - -_Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo; -mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem -apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens -n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a -tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o -peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu -valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna -tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o -dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso -Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de -maio de 1845._ - - _Miguel, Rey._ - - -Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. -Quando o Cerveira lhe perguntou:--que tal? o que dizia elle?--dobrava a -carta vagarosamente, encolhia os hombros e respondia:--Em fim ... não -sei... - ---Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra -não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou -não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre? - ---Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que -deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza... - ---De que é o rei que me escreve? - ---Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo. - ---O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem -o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas -deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como -elle estar em Calvos. - ---Bem!--atalhou o Rocha apressado, erguendo-se--quando vai v. exc.ª a -Calvos? - ---Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no -sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou -beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me -ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto. - -O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D. -Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á -fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre -idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á -mão armada. - ---Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o -dinheiro?--reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada. - ---É o que eu vou saber. - - - - -IX - - -N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o -padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava -sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés -turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso -lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção; -deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os -desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia -muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito -tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S. -Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á -direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas -provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva -enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe -conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o -principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa--não me -recordo qual era a mitra. - -A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade -obsequiadora[4]; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios -politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com -severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria -de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores -illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi -indecifraveis codices. - -Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a -sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha, -perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao -reverendo dono da casa. Foi logo recebido. - ---Que todas as horas eram livres para receber os amigos. - -Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram -bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro -realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das -suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a -exigir que lhe respondessem a verdade. - ---Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra -maneira. Que quer saber, padre Rocha? - ---Se o snr. D. Miguel está em Portugal. - ---Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.--E abrindo uma gaveta, -extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um -papel que mostrou.--Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel -de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito. -Que mais quer saber? - ---Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta. - ---Bem sei--preveniu o padre Luiz.--Essa mesma pergunta me fez ha dias o -Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o -Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o snr. D. Miguel -está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso. Propalam-o certos -padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos -impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se -não é para alarmar o governo ou lograr incautos... - ---É isso mesmo: lograr incautos--interrompeu o Rocha e contou o que se -estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do supposto D. -Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo tencionava levar no -proximo sabbado ao impostor. - ---Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido -legitimista--alvitrou o paleographo. - ---Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma -imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui -irei para Braga entender-me com o governador civil. - ---Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave -á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas -traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga, -abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante -quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está -escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho -compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda -hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha, -faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo -d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora, -visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um -emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas -está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As -patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam -pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi -outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal -podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos -liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas -postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve -dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver -galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei. -O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre -Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para -nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á -legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete: -estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva. - - -O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do -conselheiro João Elias,--uma victima burlesca de troça dos -setembristas--era o Marques Murta, uma gigantesca actividade phrenetica -n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da -perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal, agradavel, com -uns requintes de delicadeza de bom tom. - -O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos -succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até -além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira -Lobo com os tres contos. - ---Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com os -tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar -ás necessidades da monarchia;--opinou o secretario sorridente. - -O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já -não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel -l.° ou de D, Maria 2.ª. - ---Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso -intelligente, habitual.--Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta -hora ha-de estar na cadeia de Braga. - -Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de -infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por -um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio -convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o -concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma -qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta -da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao -sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do -arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á -porta principal, e uns berros formidaveis: - ---Abra! abra! se não vai dentro a porta! - -O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um -cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas -espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do -hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as -calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada. - ---Que é?--regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito -offegante. - ---Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa -magestade na adega antes que arrombem a porta. - -As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra -de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A -Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não -acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro, -muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos -grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua -Mãe Santissima e a alma da tia _Jacintra do Reimundles_ que estava -inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real -hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; -enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao -Bom Jesus do Monte e ao _martyle São Trocatles_, se os livrassem -d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela -mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada -abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por -duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre -as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O -abbade muito afflicto: - ---Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e -deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se -vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor! - -O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela -parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, -enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as, -cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de -ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se -escancaravam com estridor. - -Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente -os quartos e recantos. - ---Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o -_Pilula_ do 8,--queremos o rei e algumas botijas de genebra. A -garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr. -D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude. - ---O snr. está a mangar!--disse o abbade afinando pelo tom da -chalaça.--Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só -lhe posso dar o de copas, que tenho ali um. - ---Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda -tambem o az do mesmo naipe. - ---Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu sargento!--propoz -o 24. - ---Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade, -vamos á genebra, á adega. Mêxa-se. - ---A genebra está cá em cima--observou o abbade um pouco enfiado. - ---Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que -temos pressa. Abra a porta da adega. - ---Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer--resoluto, com um ar -ironico de condescendencia, sem receio.--Os senhores tem coisas! Onde -diabo procuram o snr. D. Miguel!--E descia, pedindo a chave á -Senhorinha. - -A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento: - ---Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um -machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado! - ---Não é preciso, camarada--acudiu o abbade.--Aqui está a chave. Eu -abro. Entrem, procurem á vontade. - -O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da -adega:--Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o -subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem -um archote. - ---Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa--disse o abbade Marcos, -contrafazendo o seu terror. - -E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na -latrina, seu derradeiro refugio. - -A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo -com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna. - ---Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você -cá traz, mulher! - ---É emquanto não péga bem a torcida--explicou a creada caminhando -atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a -claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade -que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os -nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias. - -E o 14:--Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco! -Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o -sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na -sachristia--e dava piparotes na barriga do padre. - -O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma -denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz -das pipas! - ---Ha-de ser ratos--conjecturou o abbade, tremulo, engasgado. - ---Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241--disse o sargento. - -Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a -dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos. - ---Que diabo tem a velha?!--perguntou o Pilula.--Dão-lhe estupores, -hein? - ---É flato, costuma-lhe a dar--elucidou o abbade.--O 24 voltára-se a -vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das pipas. O -abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito: - ---Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram -enganados a minha casa.--E caminhou ara a porta com a luz. - ---Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me -esses ratos. - -O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram -por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se -um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu -uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos. - ---Oh!--bradou o Pilula!--muito bem apparecido n'esta funcção, snr. D. -Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de cima um bocado de -cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra baixo, real senhor! - -O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem: - ---Parece o padre eterno, ó meu sargento! - ---Com quem elle se parece é com o _Remexido_ do Algarve,--affirmava o -14. - ---Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do -governador civil--concluiu o sargento com seriedade imponente. - ---Este senhor?... não...--disse o abbade com as mãos postas.[5] - ---Não seja asno!--volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É -um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua -laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de -camisa. - ---Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu quarto--supplicou o -abbade. - ---Sim, que se arranje com guardas á vista.--E acompanhou-os á saleta. - -Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um -gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do -paletó. - -O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa. -Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças: - ---Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E -leu alto: - -_Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e -que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente._ - -E na primeira pagina. - -_Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos, -capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães_. E perguntava ao -abbade:--Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens! - -Em seguida: - -_Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado -d'el-rei._ - ---_Torquato Nunes_! recordava o Pilula.--Eu parece-me que conheço este -diabo de o vêr em Braga no _Café_ da Açucena na Cruz de Pedra. -_Nunes_! um pelintra. Onde está o visconde que lhe queria dar um -cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga--e enrolava os papeis. A -gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar, -amigo D. Prior de Guimarães. - -Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro, -com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na -residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a -cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o -abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da -aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as -arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela -mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á -residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das -Botelhas de Braga. - ---Que sim, que levára; pudéra não levar! - ---Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou -disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem. - ---Veja lá se o prendem, visconde--acautelou o abbade. - ---O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu! - - -[Nota de rodapé 4: O auctor teve relações muito saudosas com este -venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de -St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse -tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e -haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava -os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona, -gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.] - -[Nota de rodapé 5: São as textuaes palavras e a attitude do padre, -significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua -paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a -escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo. -(Informação de _Ferreira de Andrade_).] - - - - -X - - -O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de -manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então -para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras -pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de -azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos -arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á -hospedaria dos _Dous amigos_. O Cerveira vestia casaca no trinque muito -lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao -pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas -do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria, -afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de -polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes -rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de -pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que -parecia _pantominice das comedias_, dizia o Zeferino. - -Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á -mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que -desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos -visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas -mandavam-lhe bilhetes. - -Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto -por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras -Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a -Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas, -ratices suas em Braga, quando era rapaz.--Que fizera um destrôço nas -primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira; -e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde. -Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, -que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo -civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e -ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se -parecia bastante com elle. - -O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o -official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os -olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos -n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou: - ---E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso? - ---Elle diz que é--respondeu o tenente--Veremos o que se averigua no -governo civil. - ---Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres falsos--disse -emphaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira -olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do Zeferino, muito -enfiados ambos. - ---Está tudo perdido!--disse dolentemente o fidalgo--El-rei preso!... E -não se levanta este Minho a livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se -lhe posso fallar. Dentro de tres dias entro em Braga com dez mil homens -e arrazo a cadeia. - -Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar. - -O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas -Bragas--a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes -proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;--a liberal, -muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e -empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga, -o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito -rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro -e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito -grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do -Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois, -commandante da brigada dos Seresinos. - -Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com -muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe -passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do -Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma -d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota -Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava -aos seus:--É?--uns encolhiam os hombros, outros negavam gesticulando. E -elle, com intimativa:--Pois saibam que é!--O Manoel de Magalhães dizia -ao ouvido do Henrique Freire: - ---Deixa-o fallar, que está idiota. - -O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de -cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção -rara:--Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao -alcance da canalha. Descance vossencia. - -Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o -Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva -Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz -de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da -casaca azul com botões amarellos. - -D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A -soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha -d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e -affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade -afflictiva.--Que se parecia ... e ia jurar que era elle!--quando um -realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde, -disse com um desdem de achincalhação: - ---Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro! - ---Quem é? quem é?--perguntavam todos. - ---É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, -e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas. - -O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha: - ---Ouviste, ó Zeferino? - ---Estou banzado!--murmurou o outro. - ---Olha que espiga! 3 contos! hein? - ---Raios parta o diabo!--disse o pedreiro, n'uma synthese condensada da -sua incommensuravel angustia. - -Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o -de parte e dizia-lhe: - ---Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de -V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da -vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos -fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve -do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr. -Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo, -então desembainhará a sua espada. - -O Cerveira, abraçando-o: - ---Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha... - - -O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte -foi transferido para a Relação do Porto. - -O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros: -Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.[6] - -Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai -chamavam-lhe o Norberto _das facadas_, quando já era velho, e meirinho -geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha _facadas_ lhe -vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres -facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que -pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O -certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da -diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola. - -Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma -edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do -Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa, -concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos -Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por -incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo -disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle -fazia n'uma toada monotona de quem reza.[7] - -O Verissimo era _Mesquita_ pela mãe, que não conhecera. Tambem florira -da cêpa illustre dos _Mesquitas de Villar de Maçada_; mas o Norberto, -achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a -mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da -Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso. - -Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a -jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma -vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na -Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores -assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra -exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em -infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em -uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e, -apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um -bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente -aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado -pelo desaire de coxear. - -Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo, -onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A -sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como -ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia -de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no -ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de -meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença, -arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e -citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas -côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez -das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma -cidade. - -O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia -um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a -cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar. - -A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833 -gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do -snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites, -n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca. -Mandava cantar _Te-Deum_ na egreja de Alvações assim que no paiz -vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os -realistas, a contar por cada _Te-Deum_ de Alvações, entravam no Porto -ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra. -D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques -voltára a casaca. - -Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado. -Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa -farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo -acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira. -Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha -exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser -padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida -socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos, -tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua -residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis; -um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande -estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se -não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse -escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas. -Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma. - -D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;--que seu sexto avô -tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente -abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos -sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de -padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e -pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os -condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo -arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte -descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no -futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas -condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas. - -Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro -moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso -encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes -Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram -inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O -Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda -mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa. - -Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de -Sousa Reis, o _Remexido_, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous -ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao -formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada -para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o -preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram -para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de -capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu -heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia -Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida -emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general -Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou -ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada -tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu -general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas -carreiras abertas--uma que levava á gloria, outra á sepultura,--que -tambem era uma gloria morrer pela patria. - -José Joaquim, o _Remexido_, era um bem figurado homem de trinta e oito -annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro, -e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das -theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e -humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de -Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas -visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou -entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de -homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas -searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe -multiplicavam o amor e os cuidados. - -Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia, -onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a -liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que -por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa -Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más -idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más, -perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou -para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do -rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais -uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão -affoita quanto cruel. - -Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás -praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns -cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas -montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos -annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos -vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na -familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, -depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se -ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, -precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou -Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a -pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do -guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle -atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os -inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da -sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem -gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve -e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se -contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da -guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e -descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra, -chamado a _Portella da corte das velhas_. Ahi o atacou uma columna de -caçadores 5. O _Remexido_, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer -matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as -bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em -Faro. - -O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e -elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos -generaes de que rezam os fastos militares. - -O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella -ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como -não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas -algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa. -Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles -andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os -quatro vintens diarios e o vintem do municio! - -Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu -por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na -cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28. -D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava -empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa -com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava -por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo -de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do -Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem -tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade. -Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com -advogados miguelistas, que o estimavam muito. - -A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do -snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho. - -No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas, -complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao -sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D. -Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de -ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos -annos de sua magestade. - -Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas -redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo -_capitão-Verissimo_. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos na -Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já -sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito -escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e -as partes fugiam d'elle. - -O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e, -como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um -tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era -boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a -comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos -tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense -na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o -capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado. -Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O -capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de -peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de -religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu _Sosia_, do -snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou -as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e -impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o -Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande -ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas -nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o -fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um -sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o -_Malagueta_, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, uma -raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas. -Travaram-se de razões. O _Malagueta_ correu sobre elle com um punhal. -Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se. - -A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no -suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos -vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João -Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do -primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado, -não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania -queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo -resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo -Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no -Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de -resvalar pela _montanha russa_, dava umas risadas argentinas, batia as -palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da -argolinha. - -Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha -morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous -filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de -camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor -que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe -as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado -com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão -honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava -resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que -pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha. - ---Se os não tens--disse o Torquato--minha mulher tem um cordão que -pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou buscal-o -ámanhã.--E accrescentou, de excellente humor;--Deus permitta que na -terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de dentes que não -tenhas mãos nem queixos a medir. - -Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações -esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos -a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes -esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e -Orestes. - -O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar, -muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella -desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de -um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas, -sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da -companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de -Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões -de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos. - -Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na -tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito -laraxenta--que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava; -que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar -o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada. - ---Nós deviamos ir todos para o Brazil--lembrou o Torquato, que tinha -meditado n'um recolhimento extraordinario. - ---E chelpa?--perguntou a Libania. - ---Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis. - ---Boa!...--disse o outro.--Bem se vê que as duas garrafas deram o que -podiam dar--uma fantazia de um conto de réis. Por dous tostões é -barato. - ---Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não -estou bebedo, palavra de honra! - -Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de -vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do -Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um -charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade. - ---Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel? - ---Começas bem. Temos asneira. - ---Máo! não me falles á mão. - ---Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei, -e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª -os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta. - ---Adeus minha vida!--retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã -conversaremos. - ---Deixa fallar o homem!--interveio a Libania.--Ora diga lá, ó sê -Nunes. - -O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos, -removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto -Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da -Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a -um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno -piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma -das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho. - -Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para -Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha -visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no -Porto:--Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá -estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na -cama. - -O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos -seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de -Lanhoso. - - -[Nota de rodapé 6: Segundo as informações textuaes do já referido -José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do -preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo -a varias perguntas disse: - -"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos -amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito -realista; - -"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por -uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o -serviço; - -"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára -parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o -convidára no fim para sua casa; - -"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra, -depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava -ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle -era em tudo um fac-simile); - -"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma -hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe -respondêra com uma evasiva. - - _Auctoridade_ - -"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão? - - _Preso_ (cynico) - -"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da -commodidade que se lhe offerecia; - -"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como -coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade -de seu capellão-mór, ao que annuira; - -"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença -nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares, -consummados realistas, no que concordara; - -"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute, -um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão, -commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até -prelazias--o que elle tudo lhes concedeu de bom grado. - - _Auctoridade_ - -E depois? - - _Preso_ - -"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella -commoda situação, _maxime_ quando as suas finanças estavam no maior -apuro."] - -[Nota de rodapé 7: _Nota erudita_. A historia, aliás exacta, que o -fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada -no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira -d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito -e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a -Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte -do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe -que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai -vós primeiro."--Se vossa alteza me engana,--volveu o cortezão--ditoso -engano é esse.--E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo, -submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra. -El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso -para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem -este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe -mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo. - -E assim lhe foi debuxado o escudo: _Em campo verde uma ribeira de prata -ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega -outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este -braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma -estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de -liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos_. -A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574. - -Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de -tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo -dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo -chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir -da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas -elegantes.] - - - - -XI - - -O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso, -circumvagava uns olhares cautelosos:--se ninguem o ouviria?--perguntava -ao abbade Marcos. - -E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,--pôde -fallar, que estou sósinho. Que é? - ---D. Miguel I está em Portugal--disse, curvando-se-lhe ao ouvido, com -uma voz guttural. - ---Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas! - ---Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira -Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta -provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão -disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o -levantamento ha-de começar por aqui. - ---Que me diz você, amigo Torquato?--sacudia os braços, fazia estalar -os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação -extatica--que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que -apparecesse...--É preciso trabalhar, preparar os animos... - ---_Chiton_!--acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o nariz. Nada de -espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á lingua, -esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus amigos -quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem; não se -dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de Pombeiro e -com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do Bom -Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece. - ---Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias -do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está -nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein? - ---É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa, -que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra -vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e -el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei! - -Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas -palpebras inflammadas do abbade. - ---Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude -d'el-rei! - ---Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!--Que ia vêr a -mulher e que voltava já. - -Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na -Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas. - -Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela -provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O -bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes -pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos -havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um -barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de -namorado no _Medico fingido_, um entremez coisa rica, que era de um -homem malhar de costas n'aquelle chão a rir--que se elle quizesse vêr -as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira -de casa do abbade. - - -O scenario para a representação do _Medico fingido_ arranjou-se na -eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras -entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres -portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de -cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por -postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes -lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro -descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por -bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em -zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com -cercadura de cruzinhas:--era obra de Chêta, um trôlha inspirado que -já tinha pintado um painel das _Alminhas_, onde havia almas do sexo -fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a -bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia -á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha -ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, -havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que -tinha vindo com o _galan_, o filho do estalajadeiro da Povoa. - -O Verissimo foi admittido aos camarins onde estavam sentados em caixas -de milho e na salgadeira, os figurantes á espera da sua vez, já -vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Mathilde, amante de -_Almenio_, uma ingenua, a protogonista da peça, _a doente namorada_, -que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o _medico fingido_. Este -papel fôra confiado a um latagão official de carpinteiro, com os -pulsos cabelludos e os nós dos dedos com umas protuberancias callosas -que pareciam castanhas piladas antigas. Nas maçãs do rosto mascarrára -duas zonas de carmim, que pareciam a distancia umas chagas de mendigo de -romaria aperfeiçoadas. Trajava um vestido de setim branco da fidalga -velha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos -annos de D. João VI. O peito chato do carpinteiro ficava á altura dos -quadris da fidalga, e as claviculas espipavam as hombreiras do corpête, -prendendo os movimentos ao desgraçado _Mathilde_. Posto que a scena -fosse a _Casa de Astolfo_, pai da doente fingida, a velhaca estava de -chapéu de palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito -amarellecidas do môfo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso -as pernas que se deixavam vêr até cima do jarrete, cingidas de fitas -cruzadas que subiam d'uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de -proposito e em concordancia com os angulos reintrantes e salientes dos -pés. Era o grotesco do horror. A creada de _Mathilde_, a _Laberca_, -tambem vestia de setim azul-ferrete, um pouco menos antigo, emprestimo -das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando para os -entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque: obedecia mais á -caracterisação natural. Na cabeça usava touca de folhos com laços de -fita escarlate e nos pés os butes do amo com ponteira de verniz; elle -era o creado do juiz de direito substituto; gosava creditos de -representar papeis de lacaia fazendo rebentar a gente. - -O Verissimo fez os seus cumprimentos ás duas damas, e manteve uma -seriedade verdadeiramente real. O _Almenio_ era o filho do estalajadeiro -da Povoa de Lanhoso, o Rêlhas. Calças brancas, quinzena de velludilho, -bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e oculos. Disse ao -Verissimo que punha os oculos para fingir de medico. Estava a um canto o -gallego, o _Gonçalo_, aguadeiro da casa. Como não havia em Calvos o -costume rigoroso dos aguadeiros, o trôlha ensaiador vestiu-o de -almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa, -com uma monteira comprada em Tuy. A cara era ao proprio, d'uma verdade -typica. O _Pantufo_, um saloio rico que queria casar com _Mathilde_, e -foi bigodeado pelo fingido medico, vestia a melhor andaina de fato do -presidente da camara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade -das suas funcções impedia de representar; mas emprestava a roupa e a -intelligencia dramatologica. Havia mais duas figuras, o _Falsete_, e o -_Astolfo_, que se estavam vestindo lá dentro, por detraz d'um ripado, -que os deixava vêr em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, -emquanto o trôlha lhes rebocava de vermelhão as caras. - -O Nunes atravessára a eira, e endireitára para o palheiro, quando lhe -disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe. -Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o -Verissimo, e sahiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma -physionomia cheia de alvoroço, de surpreza. - -Entrou pela residencia, muito esbofado: - ---Ó abbade, já esteve na eira do Gonçalves? - ---Não; estou a acabar de jantar, e lá vou vêr essa borracheira da -comedia. Você vem aganado! - ---Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fóra que lá está na -eira. - ---Aqui veio um rapazola da Povoa pedir-me uma cadeira ha coisa de meia -hora para um fidalgo que tinha vindo com elle. Perguntei-lhe quem era o -fidalgo. Diga que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de -casaco chama-lhe fidalgo. - ---Venha já d'ahi comigo... Por quem é, não se demore... Ó abbade, -lembra-se de vêr el-rei em Braga ha treze annos! - ---Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão tres vezes. - ---E, se o vir agora, conhece-o?... - ---Parece-me que sim--o padre limpava á pressa os beiços amarellos dos -ovos do arroz dôce.--Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou -temos carraspana, amigo Nunes? - ---Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como -quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas. - ---Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco? - ---Venha de lá isso.--Bebeu d'um trago, e pediu outro:--Agora, á saude -de el-rei! á saude d'aquelle que talvez esteja bem perto de nós! a cem -passos! - ---Toque!--exclamou o abbade. - -Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não -olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião -viesse muito a geito. - ---Você está a sonhar, homem! - -Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava -em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro -lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos -de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada, -muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os -que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o -publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e -elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as -fallas:--Canalha brava, calaide-vos ahi!--Uma balburdia que parecia um -theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da eira, -dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido, como -a pedir desculpa. - ---É entrudo, dizia, é entrudo, senhor! - -Quando appareceu o padre na cancella da eira, houve silencio com algumas -fungadellas de riso das cachopas, e recomeçou a comedia em obsequio ao -abbade e á Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram -alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera -muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao -abbade, perguntando-lhe se conhecia aquelle senhor. - ---Não conheço,--e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o -disfarce:--Você adivinhou. É elle... - ---Que me diz, abbade? - ---É elle. - -O Verissimo déra tres passos para accender um cigarro no de um musico -que estava sentado n'um bombo. - ---É elle!--repetiu o abbade.--Você não o viu coxear? - ---Falle baixo, falle baixo, e não olhe muito para elle, que eu já o vi -deitar-nos os olhos,--acautelou o Nunes. - ---Também eu ... - -Estalou n'este momento uma gargalhada geral. Verissimo tambem se riu, e -deu palmas. - ---Olha! olha! a dar palmas!--notou o abbade com transporte. Aquillo -sensibilisou-o até ás lagrimas! O snr. D. Miguel I a dar palmas ás -figuras do _Medico fingido_ na eira do Gonçalves em S Gens de Calvos! -Tocante! - -A risada geral e as palmas e os apupos não eram rigorosamente uma -ovação ao auctor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na scena -l.ª o _Astolfo_ pede carinhosamente á filha que côma alguma coisa. -Mathilde diz que não póde, _que não está em si; que lhe acuda, que -lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos_. - -O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica -que diz: _Finge desmaio, e Astolfo a sustem nos braços_. Mas ou porque -se antecipasse a desmaiar, ou porque _Astolfo_ se demorasse a amparal-a, -_Mathilde_ escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do -palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão, -arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até á cintura. Ora a _Mathilde_ -não usava calcinhas. Um escandalo. - -Verissimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente á sua -pessoa. A natureza rebentou por elle fóra n'umas casquinadas convulsas -que poderiam custar-lhe uma môcada, se a deflagração do riso não -fosse geral. - -_Mathilde_ fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou á scena. -O ensaiador, o trôlha, sahiu ao terreiro a explicar ao publico a -suspensão do entremez n'estas palavras:--Aquelle alma do diabo despiu -a farpella, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês póde ir á -sua vida que não ha hoje treato. - -Começou a debandar o auditorio em grande algazarra. Verissimo parecia -esperar que o galã, o Rêlhas Junior, se despisse para se retirar. O -Gonçalves perguntava-lhe:--e que tal esteve a chalaça, senhor! Má mez -pr'ó homem, que se mais tivesse mais punha ó léo!--e voltando-se para -o abbade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distancia:--ó snr. -abbade! coisa assim não consta! Eu, se me succedesse uma d'aquellas, -mettia a cabeça n'um folle. - ---São acasos, disse Verissimo com indulgencia.--Não se lembrou que -estava vestido de senhora. - -O abbade ganhou animo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro -cerimoniosamente, e disse: - ---O entremez não presta para nada. Se o homem não cahisse, ninguem se -ria.--Provavelmente...--assentiu o Verissimo, correspondendo á cortezia -do Torquato Nunes que parecia aproximar-se mais acanhado.--Estes casos -de escorregar, accrescentou o desconhecido, acontecem nos primeiros -theatros do mundo e até nas salas onde se dança; e de ordinario as -senhoras que desastradamente cahem são verdadeiras senhoras. É muito -peor e mais melindroso. - -O abbade e o Nunes com muitos gestos affirmativos--que sim, que era -muito peor, e mais melindroso, muito mais. - -Derivou a conversação para as bellezas naturaes do Minho. O -desconhecido sentia ter vindo no inverno, quando apenas se adivinhavam -as pompas da primavera. - -Principiava a choviscar. O abbade offereceu a sua casa ao forasteiro, -emquanto não estiava a chuva. Verissimo acceitou por momentos, visto -que não se prevenira com guarda-chuva--um traste que detestava. Os -aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadencias, varejados pelo sul; -por fim, as christãs da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos -declives como escarceus a despenharem-se, fechou-se o horisonte sem uma -nesga, e a chuva não parava. O abbade não permittiu que o hospede -sahisse com tal tempo e já perto da noite. - -Durante a ceia, appareceram algumas raparigas mascaradas com lençoes, -abraçando a Senhorinha que servia á mesa, e dizendo em falsete -pilherias ao Nunes a quem chamavam _Trocatles_ e _précurador de causas -perdidas_. Verissimo mostrava-se contente e dizia: - ---Bom povo! excellente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal, -e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações -do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por -tributos, esmagados pelo peso dos empregados publicos que são o -flagello de Portugal... - -O padre escutava-o com religiosa attenção; o Nunes beliscava a côxa -do abbade que tomára a presidencia da mesa e puzera o hospede á sua -direita. - -No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mão, e de pé, disse que -fazia uma saude ao seu hospede, porque lhe parecia que tinha a honra de -beber á saude de um realista, d'um partidario de sua magestade o snr. -D. Miguel 1.° que Deus guardasse! O hospede agradeceu, declarando que -mesmo n'uma roda de liberaes não negaria os seus sentimentos politicos: -que era realista, e como tal brindava á saude de todos os amigos do -principe proscripto. - -O Nunes dava canelões intelligentes e ás vezes dolorosos no abbade, -que o encarava de esconso como quem diz:--percebo; não faça de mim -asno; sei que estou fallando com el-rei. - -A creada deu parte que estava prompta a cama;--quando _Vossoria_ -quizer--disse ella ao hospede. Verissimo sorriu-se agradavelmente: - ---Que incommodo estou dando a esta excellente familia... Irei -descançar, snr. abbade, e snr. Torquato ... parece-me que lhe ouvi -chamar _Torquato_... - ---Nunes Elias, um creado de vossa...--e susteve-se. - -Dizia-lhe depois o abbade no quinteiro:--Você ia-se estendendo, Nunes! -Esteve por um triz a dizer, _um criado de vossa magestade_, não esteve? - ---Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que está -el-rei n'esta casa!--E com transporte olhando para as janellas:--Onde -está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei amado dos portuguezes, na -pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto parece um sonho! - - -A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez -nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede -se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a -bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de -ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros -ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria -indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos, -tratando-o sempre por _senhor_,--o _senhor_ isto, o _senhor_ -aquillo--entendia que se aproximava do tratamento que se deve aos reis, -e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já o conhecia.--Bom -é que elle se vá persuadindo que não somos patêgos--dizia o abbade -ao Nunes.--Sim, bom é que se persuada ... você percebe... E piscava -com esperteza. - ---Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é -que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos -aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui -estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu -sangue!» - ---Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não -vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a -caça. - -O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o -obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante -de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o _Punhal dos Corcundas_, -a _Defesa de Portugal_ do padre Alvito Buela, a _Besta esfolada_, os -_Burros_, e o _Novo Principe_. O Verissimo levou-os para o seu quarto, -excepto os _Burros_; disse que não gostava de poesia. Fallou com louvor -do padre José Agostinho e de Fr. Fortunato de S. Boaventura--columnas -do altar e do throno, que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na -phalange realista. Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido -pessoalmente.--Que sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe -proscripto, se lhe fizessem semelhante pergunta. - ---Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse -vêr el-rei!...--meditou o abbade com a sua grande perspicacia -observadora. - ---Decerto...--concordava o Verissimo indolentemente.--Mas quem tem agora -esperanças de vêr D. Miguel em Portugal? - ---Eu, senhor, eu!--respondeu o padre batendo na arca do peito com as -mãos ambas--Eu! - -O Verissimo folheava o _Punhal dos Corcundas_, e parecia não perceber a -vehemencia do padre. - ---Bons desejos, bons desejos do caro abbade... - ---E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca -deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o -retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as -suas reaes mãos!--Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos, -chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo -continuava a folhear o _Punhal dos Corcundas_. - ---Então viu-o, abbade? - ---Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos. - ---Ainda se recorda das suas feições? - ---Perfeitamente. - ---Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado... - ---Conhecia, conhecia... - -O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo. -Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca -electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era -impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o -braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou: - ---Eil-o! eil-o! - ---Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não -sou quem pensa! - ---Estou como devo estar deante do meu rei!--teimou o abbade, com os -dous joelhos no sobrado. - ---Levante-se que vem gente!--dizia o outro, ouvindo passos na escada. - -Era o Nunes. - ---Entre, amigo!--disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia -licença. - -Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por -levantal-o. - ---Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés d'el-rei!--exclamou o -padre. - -E o outro, ajoelhando: - ---Eu já o sabia, real senhor! - - -Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos, -segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde. - - - - -XII - - -Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou -abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia -com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D. -Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto, -o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que -o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que -seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com -chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze -praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão. - -O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom -lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com -um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas -e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do -outro, considerava-se perdido.--Pobre Libania!--deplorava, quando ella -souber que eu estou na Relação! - -Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que -não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a -Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me -não prenderem--accrescentava muito confiado na lei e na sua -actividade.--Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo, -porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia -ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis. - ---Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de -degredo--atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca -experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do -seu quarto. - -Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste, -com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada. - -Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do -Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do -sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se -antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma -forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso -de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até -Almeida e d'Almeida _p'ra diente_ alma sempre! - -Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella -sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o -Gravito para a forca--elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso -alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829. - -A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua -do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias -já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas -a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou -para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato -Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D. -Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara -de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por -ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes -mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o -processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores, -suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão -extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e -evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do -preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia -á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as -testemunhas citadas--os padres suspeitos de frequentarem a residencia de -Calvos--nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do -aggravante. - -E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:--Que aggravado era o -aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de -primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes, -pois que _nenhuma_ testemunha depozéra que o aggravante se inculcasse -_D. Miguel_ para perturbar a _ordem constituida_, chamando o povo á -revolta; e das respostas do aggravante no interrogatorio a que procedeu -a auctoridade administrativa constava que o preso quasi que _fôra -obrigado_ por um _clerigo estupido e esturrado miguelista_ a deixar-se -chamar _D. Miguel l.°_; mas não constava nem se provava que o -aggravante se aproveitasse de tal fraude e impostura para extorquir -valores aos seus _estupidos cortezãos_; _o que decerto_ praticaria um -_gamenho_ decidido a fingir-se _D. Miguel_ para os espoliar. Que a -pronuncia fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que -_nada_ se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez obra -por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuos _alarves_ a -quem o supposto _monarcha_ fazia mercês de commendas, de titulos, de -patentes e até de mitras, sem que d'ahi resultasse alvoroto nem _leve -perturbação_ na ordem publica, nem mesmamente damno para os -mencionados _burros_ que pediam as mercês, e que deviam ser -pronunciados em primeira instancia, se a _côrte de S. Gens de Calvos_, -não fosse uma _farça de entrudo_. - -E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator, -addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras -selvaticas do Minho se espalhassem muitos _Migueis_ d'aquella casta e -feitio até que os novos _Sebastianistas_ se convencessem de que -_somente assim_ poderiam arranjar um _Miguel_ que lhes désse -commendas, titulos, postos militares e prelazias. - -Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito -do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram -por unanimidade. - -Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia, -Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do -carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas -desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz, -deixou-se ser mulher--chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso, -no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens -extraordinarios. - -O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a -casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, -com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz. - -O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a -divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas. -Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de -permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este -tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o -trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, -mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o. -O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro -lhe dava--que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato -Leite, a rir: - ---Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem. -Devia esfolar essas cavalgaduras! - -O Verissimo recuava muito agradecido. - -O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na -nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes -Elias. - -Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de -solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações. -Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a -mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias. -Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das -Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo -frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em -quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos -Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o -Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao -reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite, -cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas -de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, -muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos -José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com -o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia -com as conspirações da viella da Neta--aquelle baluarte da Liberdade -que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado, -muito á franceza;--tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma -loja de modas, d'um café e d'uma taberna,--o vitalismo soez e chato da -decadencia. - -Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, -mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade -civica da rua das Flores e das Congostas. - -Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque, -José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe -_patriota_, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e -disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a -desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar, -n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o -conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias -espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam -armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O -conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica. - -Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram -promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da -refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a -retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza -precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de -infanteria,--previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois -tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados -pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os -batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o -encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a -gritos de _Viva a Rainha_ se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem -elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando _vivas -á Carta Constitucional_. Eram a obra da prudencia e do conselheiro -Fortunato Leite. - -Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois -tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna -do visconde de Vinhaes;--que tinham repugnancia de pelejar cara a cara -com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José -Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de -dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de -Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre -Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque -aos dinheiros das snr.ªs Botelhas. - -Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da -comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não -desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao -seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio -até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas -das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de -sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco. - -Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas -e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o -Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro -cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade. -O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a -Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos -tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com -vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma -direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um -jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre--um anjo curvado e -deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um -chorão--publicava: - - -_Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e -respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, -hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas -Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de -consternação pede desculpa de cumprimentos._ - - -O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte, -accrescentava: _A exc.^ma snrª D. Libania, que todos choramos com seu -exc.^mo viuvo, era uma senhora de esmeradissima educação, pertencia á -illustre familia dos Covas;--modêlo no tracto insinuante com que -captivava o respeito e a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que -tiveram a fortuna de a conhecer. Receba s. exc.ª o snr. -conselheiro-director os nossos mais sentidos pesames pela desgraça que -acaba de o ferir implacavelmente_. - - -Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e -d'alma. - - - - -XIII - - -O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de -réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem. -Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór -e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que -era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar -com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua -paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia -esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da -rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres, -voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava -cavalgadura--que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é o -que elle sabia. - -Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre -em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da -romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de -madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em -quanto o velho tosquenejava a dormitar. - -O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira -ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, -dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e -poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era -um dos primeiros casamentos do concelho. - -O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella -tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a -não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a -victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o -sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a -pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma -santa de jaspe--um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras. - -O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa. -Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai -as palavras do amado e o Simeão:--Ora venha de lá esse abraço, amigo -e sê Zé!--e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a -sua filha _como se quer_. - -Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, -que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe -principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da -Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o -diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a -Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao -homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade -de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente -disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda, -atirando-se ao rio Ave. - -E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando -já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e -onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a -cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente -este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a -impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido _má -mulher_ a mãe de Martha. _De má arvore mim fructo_--era toda a sua -philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações -physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo. - -O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o -de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas -dizia-lhe a ella em particular:--Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que -sim, ouviste? E ella:--Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo! - -A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a -sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa -fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os -santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao -domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias, -confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas -o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas -no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua -mãe:--Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, -se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o -matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o -expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina. -Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que -não esperava nada da sua religião,--um habito de tregeitos de mãos e -de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam -guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira -missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese -dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o -fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos -fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o -pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de -Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais -um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames -dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia -encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor -d'ella. - - -As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas. - -Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre -Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando -que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar -por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz -pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um -carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e -estivera, _vai não vai, ó pernas p'ra que te quero_, lembrando-se se -seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do -Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e -morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se -sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra -mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto -apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a -chapada do luar;--era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro da -ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de -homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a -olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito -devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se -cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o -operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de -Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao -luar como um espelho. - -O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro -edificante, muito piedoso, chamado _Armas da Castidade_. O mystico filho -de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, -cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra -Martha. _Conhecia-lhe o leito_, dizia elle. É o mais que se póde dizer -sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito. - -Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do -escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava -esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle -tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos. -Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um -conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a -vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella -e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do -patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando -viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe -dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno -seguinte--affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com as -bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a -Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas -trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas -na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia -crystallisou no pantheon dos martyres do amor. - -Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da -esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma -cantiga d'esse tempo: - - - _Ó mar, se queres, - Tem dó de mim._ - - -Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor -não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e -fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a -imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um -grande romantico--uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle -pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia -d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha -lido as _Confissões de um filho do seculo_, aquella torrente de -lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada. - -Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas -ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio -era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar -d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por -causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe -rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se -fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á -cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias, -espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira -dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira -Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as -mãos ensopadas nas banhas da victima. - - -O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a -descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A -Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os -milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam -as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas -diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o -exemplo á filha.--Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa -de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do -Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; -que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz -que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um -homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos -carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma -calumnia. - -Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o -filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e -fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de -Prazins:--Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas -do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus -pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus -parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção. - -O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito -aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que -principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da -alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção -lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia -dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o -gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das -chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio. -Pedia-lhe conselhos--que arranjasse modo de elle poder casar com a -Martha.--Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria -remediar o mal que fiz. - -A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva, -uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com -um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do -instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, -lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a -miudo:--Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua -fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais -mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O -brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos -contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.--A Martha escondia-se a -chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe--o suicidio; e -punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que -parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados. - -O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já -o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a -familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das -saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.--Que o seu -amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas -que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem -recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar. - -De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, -e ralava-o:--que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião -tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como -sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda -a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era -o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se -por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava -_forgado_, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar -matto oito dias, que elle perdia o cio. - -Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu -restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, -que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a -Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a -mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a -Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas -já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da -Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em -emprezas mais difficeis. - -Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria -a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada: - - - _Ó mar, se queres. - Tem dó de mim._ - - -Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D. -Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a -juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas -eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em -Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da -Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha -communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e -conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da -ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que -representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia -momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa. -Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a -mastigar os ligados do José Dias. - - - - -XIV - - -Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os -motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos -communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a -origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da -canalha». Elle disse _que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas -não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos -bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres_.[8] -As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada -do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas -avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação -dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que -vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração -das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição -nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi -uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com -o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os -jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era -o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e -nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o -lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que -impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido -pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a -alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto -Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas -impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos -gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição -de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da -fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo. - -O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular, -nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a -rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de _Notre-Dame_, -agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de -tres freguezias, e pegou a dar _morras_ aos Cabraes com applauso -universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este -expediente estatistico com canastro:--que os Cabraes e os seus -empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á -Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e -em casa dos regedores; que era preciso queimar-as _papelêtas_ e matar -os cabralistas. - -Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as -vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos -papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão. -Zeferino nomeára-se _chefre_ da gentalha embriagada nas adegas -arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores -que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno -anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia -de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida -aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de -Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, -pelo menos, preso e degredado como cabralista. - -Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de -Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um -outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações -largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho -estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José -pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não--que nunca tinha -feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que -podiam fazer era tirar-lhe o governo. - -José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que -o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da -guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos -na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra--que fugisse para -Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da -Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o -sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia -illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a -espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso. - ---Está você preso por cabralista!--intimou o pedreiro, deitando-lhe a -mão á lapella da véstia; e voltado para a turba:--Rapazes, cercaide a -casa; tudo que estiver, preso! - ---Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o -regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:--Ah seu Zeferino, seu -Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra -historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados, -mestre Zeferino... - ---Não me cante!--bradou o das Lamellas com furiosos arremêssos.--Está -preso, e mexa-se já para a cadeia. - ---Você não pôde prender-me, mestre Zeferino--contrariou a auctoridade -dentro da lei--Vá buscar primeiro uma ordem do meu administrador ou do -governador civil. - ---Já não ha governador civil!--explicou o caudilho--Agora são outros -governos, seu asno! Quem reina é o snr. D. Miguel l.° E você não me -esteja ahi a fanfar, que eu já o não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com -dez milhões de diabos! - -O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares -de homens e rapazes que davam _vivas_ a D. Miguel, ás leis novas, á -santa religião e _morras_ aos cabralistas. Quando queimavam os papeis, -um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante que não -convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem _morras_ ao governo -e vivas á religião. N'esta barafunda, o regedor preso entre meia duzia -de jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do -Folipo, comprehendera um acêno do taverneiro e fugira pelos quintaes. -Metteu-se ao caminho de Braga, onde estava o general conde das Antas. O -José Dias, receando que o perseguissem em Caldellas, refugiara-se -também em Braga e alistou-se no batalhão dos serezinos commandado pelo -conego Mont'Alverne. - - -N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio -de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as -guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou -quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta -a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns -cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O -Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:--que não se fosse -sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle. - -Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos -nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas -almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo -de poeta sugado pelos vampiros do _spleen_. Dizia, porém, que tinha -febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de -monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á -miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para -não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa -inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos -arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono -da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus -vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor -d'ella os seus caixeiros, os feitores e--o que mais é--as suas -escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano -_Pudicicio_. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao -parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;--que trabalhava -muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao -corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos -ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que -vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe -namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia -_seixo_. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet: -_Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres_. - -A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que -Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do -brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza -das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer -amar de um homem de quarenta e sete annos--intacto de mais a mais. O -presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma -desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou -a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira -da possibilidade de ser mulher de seu tio, _se adregasse gostar d'ella_. -Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio, -suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo -ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto, -apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano -sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno -dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em -pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz -mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava. -Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José -Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os -rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de -dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do -Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e -ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos, -anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou. - -Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. -Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e -com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico -lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas -desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o -tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o -desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de -saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do -padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que -cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando -elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem -mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de -tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai, -protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe. - -O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza -estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido -na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e -fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano. - -José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos -da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio -não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os -seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os -agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e -com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo. -Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa -recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o, -ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai, -em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de -consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos -compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia -de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.--Que a viuva, -dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus -pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela -palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença, -se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher, -allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que -elle levára para o casal não valia dois caracoes.--Emfim, concluia, se -o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver, -faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... -E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na -salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio. - ---O vigario aprende o _padre-nosso_, dizia o de Caldellas. - -Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e -presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao -soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude. -Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez -de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao -Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a -Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia, -e tambem com o oleo de figado de bacalháo. - -A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um -affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o -implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em -armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o -José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro -chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de -Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para -deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o -regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como -cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á -tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o _Metro_, tinha-o -convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e -avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a -pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se -quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito -doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:--Que -não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que -perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo -Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava _ethego_ e -mais mez menos mez esticava a canella. - -Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma -resolução suicida:--Se não casar com elle n'este mundo, casarei no -outro. - ---Que te leve o diabo!--resmungava o Simeão, riçando phreneticamente -as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do leito:--Olha, -menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo não póde ir longe. -Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se -quizeres... - ---Valha-me nossa Senhora!--murmurava Martha, pondo os olhos na -litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.--Quem me dera -morrer. - -A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no -segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com -accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias -amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela -auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os -medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da -estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na -sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado -n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais -desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle -estaria rijo. - -A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um -berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á -Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas -concordavam:--que diabos levasse a mulher que o tolhêra! - -O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o -deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr -a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de -morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia -tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas, -incendido pela febre. - -Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações -calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia -seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis -esforços. - -Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e -voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José -lhe escrevia--poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres -esperanças. - -Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a -mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a -Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da -desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para -a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:--bem me fio eu n'isso. - -Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro; -mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao -irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não -podia escrever. - -Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na _Introducção_ -d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe -lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção, -um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha, -mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo -cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns -accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que -fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como -em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas -cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á -alcôva. - - -Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao -pai quem tinha morrido. - -Elle respondeu serenamente:--Dizem que foi o Dias que está com Deus. -Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.--Martha deu um grande -grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos campos. -Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se -suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. -Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que -correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella -cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os -sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova -chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o -irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a -companhia d'elles algum tempo. - -Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, -quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está -bom», observava-lhe com azedumes:--Deixe-a chorar, deixe-a chorar!--E -voltando-se para a irmã:--A estupidez é cruel! - - -[Nota de rodapé 8: _Carta dirigida ao cavalheiro José Hume_. Versão -de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.] - - - - -XV - - -O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, -cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder -o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. -Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua -importancia no anno em que governára a freguezia--o respeito dos -rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo -em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do -seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de -Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, -o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que -era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus -cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça. - -Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com -alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances -amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, -quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas -barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a -resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; -foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a -inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, -e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o -seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel -Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao -palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado -com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho -copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde -faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das -suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, -José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o -Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do -batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que -arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante -de ordens do general,--dois homens gentilmente valorosos;--o coronel -Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é hoje -padre. - -A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A -garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, -n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, -esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma -formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que -o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava -matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira -Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com -gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a -sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um -camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre -general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do -batalhão do Populo. - -O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho -Leal,[9] um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé -politica, antipoda da sua forte intelligencia--uma especie de poeta -medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás -instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes -camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva... - ---Que ha?--perguntou o quartel-mestre general. - ---Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa -Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em -outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça. - -O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o -Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o -hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades, -capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o -que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo--escreve o snr. -Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: _Isso não -vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis_.» -Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar -os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir -tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou -Guimarães e entrou na estrada de Amarante. - -Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos -outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia -seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda -embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu -estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho -Leal: ...«_A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se -importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu, -vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e -trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar -«superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem -homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) -dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da -gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia, -de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com -eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e -outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que -estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que -muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa -combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos -Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente -mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que -já na Praça da Oliveira estava muita gente armada_.»[10] - -E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens -que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e -retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado -por Guizot com credenciais de Costa Cabral. - -O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora -d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma -botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado -que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do -pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a -despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão -borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira -affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote -largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino -perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo -acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo -que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o -Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I. - -Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do -quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em -hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco -e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O -Victorino notava-lhe que elle bebia de mais--que o calor da genebra não -se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça--que era um -perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; mas queixava-se de dôres -nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com somno, e -que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz -tartamuda:--Este ladrão d'este inglez metto-lhe a espada até aos -copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã! - -O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu -á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de -que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia -agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á -retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e -pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo -dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e -o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio. - -O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos -braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume -do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito -vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um -ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado; -não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos -com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia -alcoolica. - -A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho -Leal: _N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em -marcha com uma apoplexia fulminante o P...[11] Coitado! quando me lembra -isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu -a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de -que--mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei -muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e -o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado -velho_.[12] - -Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da -noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da -manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram -cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um -retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, -repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de -angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de -barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que -lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos -afincada como garra nas correias da pasta. - -O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com -dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto -defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, -intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que -foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar -o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. -Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; -que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos -processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do -administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o -baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as -roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as -caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto -de réis em ouro. - ---Toma!--disse um dos jornaleiros--um conto de réis! E inclinando-se á -orelha d'outro jornaleiro:--Ó Tonio, se temos ido mais cedo para o -monte ... e topamos o morto... - ---Que pechincha!... - -Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa. - -O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em -Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes -realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e -entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:--Eu sempre -te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de -Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. -Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado -que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de -Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de -mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias -anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume -no olho, homem, lume no olho! - ---Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta!--protestava o -pedreiro cortando com o braço e punho fechado punhadas aereas.--Se me -matarem ... até lh'o agradeço!--E com desalento: Sou o maior infeliz e -desgraçado que cobre a rosa do sol! Veja você: ha tres annos que não -tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, -digo-lh'o eu! Você verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma -forca pr'ámor d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e -não me passa d'aqui!--e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos -como quem apanha uma pulga. - - -Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as -espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. -Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de -coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado -a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar -um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as -espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as -condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu -o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade -impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a -demissão. - -Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida -e á morte, se chamava _infeliz_ e _desgraçado_, o destino implacavel -preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma -insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia -á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de -D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. -Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito -vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, -tocando o _Rei-chegou_: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e -vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, -cantando o _Bemdito_. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo -Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes -com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a -_Cana-verde_ e _Agua leva o regadinho_. Em um d'esses bergantins com -pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, -mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, -vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos -soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em -Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da -noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu -com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama -atordoado. - ---Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas -Lamellas com o regedor. - -Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um -socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em -frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas -cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e -entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a -escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas. - -O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. -O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle -quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo -exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle -não podia defendel-a porque estava tolhido. - -O Zeferino perguntou pacificamente: - ---E o Simeão que dizia? - ---Não dizia nada. Eu é que lhe disse... _Arrieiros somos, na estrada -andamos_, visinho Simeão. - -O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na -cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas -compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita: - ---Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... -Que leve o diabo tudo...--E, passados alguns segundos de recolhida -angustia:--Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz -que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na -cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você -bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da -minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse -mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me -levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta -dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no -corpo... - ---Homem--atalhou o pai com juizo--não fosses tu lá a Prazins embirrar -com o brazileiro... - ---Eu tenho a minha paixão--objectou o filho com transporte--tinha cá -dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e elle ... que mal lhe -fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe você que mais?... Assim com'ássim, -estou perdido... - -Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o -Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do -Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz -acutilados. - - -Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor -tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta -solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro -comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão -sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous -lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos -brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, -invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e -andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel -a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido -juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a -respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á -conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera -atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e -mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella -estivesse fina, casava com o tio. - ---E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso. - ---Pois então!... Tomára-a elle já. - ---Emfim--tornou o Bento--você ha-de perdoar que eu lhe diga o que tenho -cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu não vi, -mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com -mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer... - ---Tem bô estomago, é o que é--confirmou o Belchior da Rechousa. - -O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias -ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra -da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se -vingar. - ---Emfim--disse o Belchior--você tinha-lh'a dado por quinze centos. É o -que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz. - ---Isso cá da minha parte foi chalaça...--defendia-se o Simeão, quando -tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no -caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que -caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão -e derrubou-o. - -Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam -dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro -abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada -fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou--aqui d'el-rei -ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade, -encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. -Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de -sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua -rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de -vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O -Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e -disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe -dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e -levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O -caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o -cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos, -levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes -trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi -necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro -puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e -alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a -confissão. - -Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai -estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. -Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o -confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa -curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se -que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia -opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um -pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o -Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma -diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com -medo á malta do Zeferino. - -O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a -cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça -um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em -tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio -quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de -cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao -irmão:--Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle -sangue.--E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu -quarto,--que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria -retiral-a do espectaculo dos paroxismos. - -Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do _Bemdito_ e -o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e -pedia que a deixassem despedir-se de seu pai. - -Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a -alcôva:--quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino -das Lamellas. Juro que não foi outro.--Esta affirmativa cravou-lhe no -coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir -pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a -deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza -conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse -o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que -lhe estava a rapar a cabeça. - -Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia -assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava -arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um -bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto -onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o -pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai. - -O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara -um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da -Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio -de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe -pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e -Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio -passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito -na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o -levava a mal, pelo contrario. - -Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha -estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, -bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O -padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando. -Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a -cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na -ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a. -Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre -Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo, -um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada, -mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do -Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno -lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo. - -Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos -ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua -seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á -romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos -opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e -a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do -seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e -do pai. - -O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a -filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O -Feliciano acudiu: - ---Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É -minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo. - ---Eu morria contente--balbuciou o Simeão lacrimoso--se ella fosse sua -mulher... - -Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza -olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para -o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano -esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha, -aconchegando-a de si, com muita ternura: - ---Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço... - -Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o -leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em -convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza -e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas -n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta. - -O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára -a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano -disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia; -era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e -tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam -o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a -affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe -vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella -não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno -entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque. - - ---Elle disse que o melhor era casar-se--lembrou o Feliciano ao padre -Osorio. - - -[Nota de rodapé 9: Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares -d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".] - -[Nota de rodapé 10: Carta de 10 de junho de 1877.] - -[Nota de rodapé 11: Quando Pinho Leal publicar as suas _Memorias_, -então se saberá o verdadeiro nome do morto.] - -[Nota de rodapé 12: Carta citada.] - - - - -XVI - - -Relatava o vigario de Caldellas: - ---O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não -era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto -á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a -ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o -prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento -de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se -minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que -quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao -casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite -nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos, -choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano -me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e -tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a -castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas -ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as -impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito -escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me -aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o -operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a -consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são -condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças -climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins -eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que -direito ia eu estragar aquelle excellente organismo? - -Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e -costumes dos maridos sertanejos do Minho. - -O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim -como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da -defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos -nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse -contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam -prova. Não quiz.--Depois é que me dão cabo do canastro;--dizia com um -dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção -primaria. - -No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má -lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de -escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do -pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios, -consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida -encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas -onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de -duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com -dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de -Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a -forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas, -quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, -embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina -ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com -petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão -tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto. - -Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar -com a sobrinha. - -O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado -augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da -janella. E por fim ameaçava-o--_que se casasse com a Martha, não a -havia de gosar muito tempo_. O Feliciano mostrou a carta ao irmão. -Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O -brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a -vingança ao cabo--bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra -de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei -o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico, -inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o -brazileiro ao mano, n'um grande mysterio. - -Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de -olhos estrabicos, d'alcunha o _Alma-negra_, um que o tinha avisado, -quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera -relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros -apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao -seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão -como rato. - -O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em -um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher -e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde -que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em -segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas -por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:--Elle bem sabe a -quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse... - - -O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o -compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que -lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de -uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso. - ---É aqui, disse o Melro. - -O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro -tachas: _Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a -quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa, -dizima a Deus, para partilhas_. O Feliciano leu, retirou-se apressado -para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre -Melro respondeu: - ---Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho -a casa... - -Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna -que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a -lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez -a comprasse para a dar a um afilhado ... - ---Ao teu pequeno?!--perguntavam. - ---Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas! - ---Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a -mim pagar-te um quarteirão d'aguardente--encareceu um pedreiro.--Anda -agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que riqueza! Parece um -mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que case com a Martha. Lá -o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que dá cada -arranco... - ---O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão--disse o Melro.--O Simeão -tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a leve o diabo! Eu, se -fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu compadre ... não devo -dizer nada. Que se governem. - - -O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a -taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:--A casa -do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino... - ---Credo!--exclamou a mulher com as mãos na cabeça.--Nossa Senhora nos -acuda! - ---Leva rumor!--e punha o dedo no nariz. - ---Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que -penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!... - ---Já te disse que me não cantes--e relançava-lhe o seu formidavel -olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o -cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede -uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse -mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e -descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, -voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão. - ---Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!--insistia a mulher, limpando os -olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da -Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava -as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina -rouca: - - - _Leva ávante, portuguezes, - Leva ávante, e não temer_... - - ---Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos. - -E o Melro n'uma distracção lyrica: - - - _Pela santa liberdade, - Triumphar ou padecer_... - - -Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da -culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero -impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão -em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do -cano.--Está suja--disse elle--dá cá um todo--nada de aguardente. - ---Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces! - ---Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez diabos!--E -poz-se a assobiar a _Luizinha_. Enroscou algodão embebido em aguardente -no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até sahirem -brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o -ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibillo egual. Parecia -satisfeito, e cantarolava, _mezza voce_: - - - _Agora, agora, agora, - Luizinha, agora._ - - -Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, -introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, -acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que -o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. -Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com -polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou -a aresta da pederneira que faiscava. - ---Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!--soluçava a mulher. - -E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um -_sfogato_: - - - _E viva a nossa rainha, - Luizinha, - Que é uma linda capitôa_... - - ---Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e -uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto. - -A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus -de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e -regougou:--Máo! ... máo!... - -Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no -sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora -ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta -ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala. - - - _Agora, agora, agora, - Luizinha, agora._ - - -Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias -vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao -ponto. - -A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos -a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O -_Alma negra_ fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou -enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da _Maria da -Fonte_.--Ora agora--disse elle--ouvistes? porta da cozinha e a cancella -da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal. - ---Vai com Nossa Senhora--disse a mulher--e poz-se de joelhos a uma -estampa do Bom Jesus a rezar muitos _Padre-nossos_, a fio. - -Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão -pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma -estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem -ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás -vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das -carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se -avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro -estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio -da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha -d'aquelle homem que ia matar outro--chamal-o á janella e varal-o á -traição com uma bala.--Era o traçado. - ---Que raio de escuro!--dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes. - -Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao _Fiat_ -genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não -escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua -individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão -pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem -feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas -tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do -visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se -não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, -encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as -patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem -venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, -chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por -entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a -esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular. - -O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes -e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos -gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, -rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. -Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia -intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia -engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das -familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do _faubourg -Saint-Honoré_, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões. - -Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. -Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte. - -O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante -pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. -Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra de _porta_, e o -banqueiro recolhêra com as paradas que estavam _dentro_, quando tirou a -contraria _de cara_. - ---Que não admittia ladroeiras! - -E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito -de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram -cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; -que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem -queria roubar que fosse para a Terra Negra. - -A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos -cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra -Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a -sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o -Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois -galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu -a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando -entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de -caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao -mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, -vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, -quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o -Zeferino. - - -Quando, á meia noute, o _Alma-negra_ entrava em casa pela porta do -quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom -Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a -tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o -bafo. - -O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida -e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem -estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do -Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina -imagem. O marido objectava contra o milagre--que o compadre não lhe -dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a -mulher--que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então -na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar. - -Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o -compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse: - ---Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os -outros não matam elle, hein? - - - - -XVII - - -Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario -de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho -veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas -carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito -faceiro, dizia ao Feliciano:--Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa -com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta -para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si -quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella. - -O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe -percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam -nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir -equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos -intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o -portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem. - -A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim -da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou -do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:--A senhora -ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim? - ---E se eu morrer adiante de ti?--perguntou D. Thereza risonha. - ---Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe--e -abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar--eu ... eu morro, ou endoudeço. -Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai, -cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão -acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como -ella acabou. - -D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que -se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e -ricos.--Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um -pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de -sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida -airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe -trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em -novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo; -porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, -pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do -Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações -de uma indole artificialmente delicada. - -O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:--Ella -quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia -nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um -pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia -entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas -parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha, -como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça -parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de -uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica -franceza desde 1835 a 1845--tudo o que ha de mais falso e tolo na -litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de -Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa -de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar -no thalamo conjugal com o arganaz do tio. - - -Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a -missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do -Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma -perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio -collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza. -queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via -faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que -se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a -deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela -vida de seu irmão. - -A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico, -precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas -não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse -deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio -d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á -filha: - ---São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno. - -Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera, -n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a -nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um -paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a -leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão -que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão -coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua -sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera -que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio -então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais -chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como -estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza. -Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario, -virginalmente. - - -D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio. -Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao -vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito -carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas -d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no -rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os -sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se -evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido -tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma -sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo -os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos. -Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu -mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do -amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do -que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias. -Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos -seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala. -Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella -depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a -transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, -depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com -ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços -com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com -os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na -sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a -fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa -estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz. - -Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do -brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se -sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão -phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco -fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das -impurezas alheias. - -O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco -recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades -occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um -velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha -era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as -impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas -produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse, -que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o -habito.--Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto, -quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha -como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um -filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos -nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente! - - -Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para -dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse -hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de -que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do -Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia -raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa. -Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e -professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas -desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao -padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia -fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo -da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe. - -O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos -epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a -chamar-lhe _José, seu Josésinho_. Passada a nevrose, quando ela -imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe -chamar _Josésinho_. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e -dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:--que era -hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão, -esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas, -consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que -a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali -epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um -estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente -se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez -intercorrente. - ---Ella está gravida--observou o vigario de Caldellas.--Parece que este -facto denota uma tal ou qual normalidade de consciencia, uma concepção -racional dos deveres de esposa... - ---Não denota nada--refutou o medico.--Faça de conta que é uma -somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não -ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega -que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes -do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para -Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra -n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a -perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao -espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os -desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao -primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens, -veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas, -concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já -n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a -mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o -tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de -fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena -tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem -paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha -vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos -nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a -paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto -embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se -avenham: a verdade é esta. - - - - -XVIII - - -Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão -almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela -revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e -disse que queria seguir os sermões,--que precisava de salvar a sua -alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de -religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as -devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não -deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que -fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas -enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso -conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a -primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca. - ---Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella--dizia o -padre-mestre. - -Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em -Requião. - -O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes -sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em -Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China; -depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria, -sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica, -Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio -dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos -suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito, -aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu -somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle -caminho--que _não calhava p'r'á prédega_. - -O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da _Escada do -céo pelas escarpas do Golgotha_ e da _Via seraphica para o reino dos -Cherubins_, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito -realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que -tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis, -quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem -amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar -as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: _E -o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia -dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus -bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas -lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te -perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu -filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe_! E infantilisava o timbre -da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os -braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no -geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e -braços: _Mãe, ó mãe_! E todas as que tinham perdido filhinhos -desatavam n'um berreiro. - -O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina -digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era -forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos -diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em -esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu, -Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus -competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado -Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis--verdadeira -superfluidade.--Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o -ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza -chamava-se _Mamona_. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe o -oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores--_oleo de -Mamona_. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos _demonios -incubos_. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses -devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam, -mesmo contra a vontade da mulher, _rem habere cum ilta_. E as -mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam -indignadas:--Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!--e benziam-se, -cuspinhando nos calcanhares umas das outras. - -Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito, -era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo, -peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos -dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos -sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de -prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria -cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do -seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do -inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á -omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a -reducção da mãe de José Dias. - -Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do _Peccador -convertido ao caminho da verdade_, obra do seu conventual varatojano -frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação. -Chamava-lhe elle o _seu balde de tirar almas do profundo poço do -enxofre infernal_ Todas as beatas se consideravam mais ou menos -empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato. - -Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro. -Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita -esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz -confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa -seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que -parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre -Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que -Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, -esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo -das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus -tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos. - -Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas -saburrentas e gretadas das beatas--que enguliam aquella farinha triga -como quem devora sevamente um Deus--cá fóra armavam-se no adro dois -taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de -guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes, -sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados, -expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo -injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de -subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do -templo, ouvia-se cá de fóra:--Arre, bebeda!--Cala-te ahi, calhamaço! - -A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em -brochura e encadernadas dos missionarios, constava da _Regra de S. -Bento_, da _Missão augmentada_, da _Missão abreviada_, das _Piedosas -meditações_, das _Horas do christão_, do _Mez de Maria_, do _Mez de -Jesus_ e do _Livro de Santa Barbara_. Havia tambem _Novenas_, -_Via-sacras_ com estampas d'um horror sacrilego, uns Christos que -pareciam manipansos do Bihé. Seguia-se a camada dos _Escapularios_; uns -eram de _N. S. do Carmo_, de _N. S. das Dôres_, da _Conceição_; -outros do _Preciosissimo sangue de Jesus_, do _Coração_ do mesmo, da -_Santissima Trindade_ e de _S. Francisco_. Tinham grande sahida os -_Cordões_ do mesmo santo, e as _Correias de S. Agostinho_, com um -botão de ôsso, a apertar na cintura,--arnez impenetravel ao diabo, por -causa do botão, que, posto na correia, tem virtudes para ôsso muito -admiraveis, quasi como as da carne, mas no sentido inverso--ella -attrahindo o cão tinhoso, e elle repulsando-o. De _Santo Agostinho_ e -do _Anjo da Guarda_ também havia _Rezas_ enfiadas em metal, ou em -cordão, simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande -profusão: as medalhas mais procuradas eram as do _Coração de Maria_, -do _Coração de Jesus_, do _Anjo da Guarda_ e de _Santa Thereza_, a 10 -réis. - -As _corôas_, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram -diversas no tamanho e na nomenclatura: as _seraphicas_ com sete -_mysterios_, e cada mysterio com dez _Ave-Marias_; as da _S. da -Conceição_ com doze _Aves_ e tres _mysterios_:--uma certa conta que -os missionarios lá graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. -Havia algumas que se aguentavam com os _Rosarios de quinze mysterios_, e -a _Corôa dos nove coros dos Anjos_, e a do _Preciosissimo sangue e -coração de Jesus_. Mas o grande consumo era de _contas de azeviche_, -refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é -legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio -a meio. - -Martha, a beata, a senhora _brazileira de Prazins_, como lhe chamavam as -regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; -mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o -_Peccador convertido ao caminho da verdade_, edição do seu confessor -varatojano, fr. João de Borba da Montanha. - -São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por -Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante, -suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia, -solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades, -reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no -espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o -padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no -_Peccador convertido_, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado -_Resistencia ás tentações contra a castidade_. Fortalecia esta -hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe -apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o -na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a -não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao -confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado, -fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por -vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do -varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia, -a _Resistencia ás tentações contra a castidade_. - -A oração dizia assim: - -_Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que -me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que -não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei -aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos, -filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu -amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para -conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre -milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque -innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes? -Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só -servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro, -desfalleço, se vos não acho._ - -_Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso, -são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de -Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus -cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo, -bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as -admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que -será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre -correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que -magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que -suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não -serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces -são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre -cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces -do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, -nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são -assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua -que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o -jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e -tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de -flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes -da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, -se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade -ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que -fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a -minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia -de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente, -lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da -mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma -parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus -olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes -escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as -palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da -cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos -escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos -busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, -todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e -por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e -jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a -outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando -a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, -que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes, -celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó -peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem -vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta -para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale, -porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não -tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a -sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos -dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua -composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o -Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu -amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque -sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de -amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel. -Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas -da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor_... - - -Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um -arrobamento de _preghiera_. Aquelles dizeres, alinhavados pelo -varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do -poema dramatico da _Sulamita_ no «Cantico dos Canticos»--os trêchos -mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de -todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza -de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza -madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades. -D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de -meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se -fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes -principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas -correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o -figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne. - -Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser -tangivel, o seu unico termo de comparação--o José Dias, esposo da sua -alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade. -Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que -a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez -marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos -cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro -com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações -voluptuosas da sua alma e do seu corpo. - - - - -XIX - - -Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser -grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano -desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser -malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do -inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de -alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior -parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem -e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem -se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não -desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era -que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no -tecto. - ---Pois é isso...--atalhava o varatojano. - ---É isso quê, snr. frei João?--perguntava o marido. - -O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado -pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a -occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma -alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do -inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o -latim--uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia -a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente -aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio -incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de -Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a -brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O -padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em -golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso -reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha -alguma duvida a pôr. - ---Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o -vigario.--Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o -ente perverso que faz soffrer a pobre Martha... - ---_O diabo, filho de Deus_!--interrompeu o varatojano, levando as -mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma blasfemia -enorme... Santo nome de Jesus! O _diabo filho de Deus_! Anathema! - ---Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!--contraveio sereno e -risonho o outro. - ---A logica? a logica de Calvino, de Voltaire. - ---Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario -bracharense. Creador não é pai? - ---É sim, e d'ahi? - ---Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de -Deus; logo: Deus é pai do diabo. - ---_Distinguo_!--contrariou o varatojano. - -E o vigario, sem attender á interrupção escolastica: - ---Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio -é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o -diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da -Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo? - ---_Distinguo_!--insistiu o varatojano apoiado nas velhas formulas da -dialectica esmagadora--Deus creou os anjos; d'estes houve alguns que se -rebellaram contra o seu creador, e foram precipitados do céo: são os -espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos não desceram ás trevas -inferiores, e permanecem para flagello do genero humano no ar -caliginoso. _Aer caliginosus est quasi carcer dœmonibus usque in diem -judicii_, diz S. Agostinho. Deus permitte que os demonios vexem as -creaturas, pelo bem que póde resultar ás creaturas d'esse vexame. É o -que se colhe do Evangelho de S. João: _Omnia per ipsum facta sunt_. Por -tanto, Deus permitte o mal? logo: este mal é bom, por que Deus é o -Summo Bem. Verdade é que os males não são bens... - ---Ia eu dizer...--atalhou o padre Osorio; ao que o missionario acudiu -prestes e victoriosamente: - ---Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz: -_Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine -bono_. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; _id est_, permitte -o demonio como exercitação saudavel do genero humano. _Melius -judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere_, -diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A -divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi -resulta.» _Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos -Angelos propler bona quæ ex eis elicit_. São doze as causas por que -Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira: -para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro -atormentado; segunda... - ---Estou convencido, snr. frei João--atalhou o vigario,--vossa -reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso que Deus permitte -demonios flagellantes para depurar com elles os peccadores,--uns e -outros creaturas da sua divina justiça. - ---É isso mesmo. - ---O espirito do máo homem--do peccador que é em si um demonio interno, -depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos creaturas do seu -divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que -azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as mortificações -como caricias. Rico pai!--E accrescentou com amargura:--Ah! meu frei -João, receio muito que as superstições venham a desabar o -catholicismo que deve a sua existencia á victoria que alcançou sobre -as mentiras da idolatria com as armas da verdade. _Ego sum veritas_. - -Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio, -quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de -despedida em casa da brazileira. - -Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei -João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na -quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas -filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma -vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros, -catando as proprias pulgas e as vidas alheias. - -Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo. -Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas -nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo -lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo -Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo -Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos -grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano, -mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas. - -Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz -de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O -exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e -aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus -que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem -oração, não sahiam do corpo:» _Hoc genus demoniorum in nullo potest -exire nisi oratione et jejuino_. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; -mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; -começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e -do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na -sua familia. - -Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os -fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos, -e bastava-lhe citar os seguintes: - -Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E -mostrava o texto: _quando patiens audit quasdam voces se vocantes_. Por -que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio -lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano -confundia-o com o latim. _Quando quis non potuit gustare panem aut -carnem_. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra do -diabo, por que o livro dizia,--bem vê--mostrava frei João ao padre -Osorio: _Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho_. -Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a -certeza:--_Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret_. Havia um -artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão incuba -de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de -repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias -do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha -n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do _Signal_ decimo -terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu _Brognolo_, e vai em -latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar -intelligencia:--_Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, -quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse_.--Aqui é -onde bate o ponto!--dizia frei João martellando com o dedo indicador na -pagina indecente. - ---Mas não será essa visão o introito de uma alienação -mental?--perguntava o de Caldellas.--Não vê, padre João, que esta -rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da -sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica... - ---Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio--replicou o egresso. -Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.--E folheou o Brognolo, até -encontrar o texto triumphal. - ---Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio. - -O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: _Os demonios -acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico -com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. -Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas -enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as -membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos -causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de -melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio_, etc. - ---O padre Osorio está-se a rir?!--invectivou fr. João abespinhado. -Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade de S. Thiago -d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era muito seguro em -materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico nas suas predicas, -e que dava mais importancia á quina do que aos santos milagrosos na -cura das maleitas. - ---Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo -pôdre--obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada -indignação o missionario.--A respeito da enfermidade de Martha, sou a -dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem -banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, -que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é -filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a -não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro -senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras -vezes a sciencia vence--o demonio da demencia hereditaria que a não se -curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta. -Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos, -ouvisse a opinião dos medicos. - ---Eu sei o que dizem os medicos--e sorria com menospreço da pobre -medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que -não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou, -e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve -ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos? -Nega que Jesus Christo expulsava demonios? - ---Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos... - ---E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses _factos_ a que o -padre Osorio chama _historias_; não são historias, são factos. - ---Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não -são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então! - -A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios -ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo, -exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos. -Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um -ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde -a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação -da governanta, que lhe dizia: - ---A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar -uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim, -como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas -e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José -Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José -Alves? - ---E depois? - ---Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das -rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos -braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o -quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que -foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com -o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos... - -O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe -disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres -parochiaes, e observou-lhe: - ---Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr. -Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o -padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um -giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir -distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa. - -O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas -que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem -curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque -estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na -batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por -morte do pai;--que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que -partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a -respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de -comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque -em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que -levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos. - ---Que sim, que comprasse o Manual do Raspail--concordou o padre Osorio, -e sahiu muito cançado--dizia elle á irmã--de lidar com as duas -cavalgaduras. - - - - -XX - - -Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com -frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo -dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia -uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola: -seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com -a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de -pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena -com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e -ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em -conformidade com a rubrica de Brognolo--_com grave aspecto e voz -horrivel_, diz o demonómano. Começou por exercitar o _Preceito -provativo_, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou, -fazendo estremecer Martha: _In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est -minister Christi_... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos -espiritos immundos, _vet vobis spiritis immundis_, que, se estavam no -corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a, -ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus -lhe fosse permittido _eo modo quod a Deo juerit permissum_. Martha -estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do -latim do padre senão _demonio_ e _espiritos immundos_. Nunca lhe tinham -dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe -n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater -o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos -de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições, -succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha -condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da -demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo -suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as -lagrimas lhe explodiram n'uma torrente. - -Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e -poz-lhe o _Preceito lenitivo_: «Que a vexação cessasse -immediatamente--impunha elle aos demonios malditos--e toda a afflicção -causada por elles» _et omnia afflictio a vobis causata_. E atacou logo -os demonios com o _Preceito instructivo_ «que immediatamente a -prostrassem na presença d'elle, se ella estava possessa» _et statim -coram me illam prosternatis_. Martha, com effeito, estava prostrada, com -a face no pavimento, estirando os braços no paroxismo epileptico, e o -collo e o tronco hirtos n'uma inflexibilidade tetanica. - ---Não ha que duvidar--disse o exorcista ao marido e ao pai da -possessa.--Levem-na d'aqui e depois continuaremos. - -Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que -passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que -não queria mais confessar-se com elle. - ---Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla; -é o demonio que me teme!--exclamou o exorcista com uma santa basofia, -refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo -que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua -defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera -que lhe fizessem as rezas. - -Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista, -carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge. -Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os _Preceitos -que a creatura vexada pôde pôr ao demonio_. Martha, de joelhos, diante -do oratorio, leu: _Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus, -redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se -humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus, -que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu -corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo_. - -O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com -um arremesso impaciente, e murmurou soluçante: - ---Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo! - -Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano--o maldito -serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, -Satanaz! - -E lançou mão do gladio das _Objurgações_. As objurgações são -perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. _Dize, maldito -demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que -foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te -perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça -de Deus_? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece -n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se? -_Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare_? - -O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que -se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços -cruzados no peito e olhos no Christo, declamou: - -_Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in -eis ignem accende_. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os -corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois: -_Dominus vobiscum_. - ---_É de co espirituó_--respondeu o Simeão, que sabia ajudar á missa. - -Seguiram-se varios _Oremos_ e deprecações, e a _Ladainha de Nossa -Senhora_; mais outros _Oremus_, e a _detestação_ da energumena, uma -estirada que principiava: _E tu, demonio maldito, com que auctoridade -intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por modo algum_? Martha -rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem estar de joelhos; que -tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e -formidavel no seu ministerio--que não, que não se ia deitar, que não -lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus pés! Elle então, segundo -a rubrica do livro director, _sentou-se, cobriu-se, voz grave e -horrivel, virado contra o demonio, como juiz para tal réo já -convencido_, aspergiu a possessa de agua-benta, ululando: _Asperge me, -Domine_ ... e recommendou aos circumstantes que apagassem duas velas, e -não dessem palavra. Profundo silencio. Ouvia-se apenas o zumbido das -moscas que se esvoaçavam do tecto attrahidas pelo calor da luz unica e -pousavam na fronte chagada do Christo. O recinto era espaçoso e quasi -em trevas. A vela, encoberta pelas curvas lateraes do oratorio, não -alumiava senão o curto espaço da projecção em que Martha, retrahida -n'um terror, tinha os dedos das mãos postas, chegadas aos labios, como -se quizesse abafar os suspiros. - -Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em -nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de _immundo_, -affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais -desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento; -parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia -com o Brognolo: _Se não estiver quieta, póde-a prender com uma -estola_. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista -levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: _Exurge, Christe! -adjuva nos_! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos! - -O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem -acôrdo. - ---Victoria!--exclamou o exorcista--victoria! - -E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr. -Feliciano: _O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou -de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S. -Marcos:--Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se viu -no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual diz -o texto: Et factus est sicut mortuus_. Depois, com jubilo, limpando o -suor: - ---Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do -travesseiro. - -Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida -do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista -que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, -respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito, -Carlos Baucio, na _Arte do exorcista_, legisla: «que os exorcistas não -ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo -mulher (_propter periculum_), pois que as mulheres nem com o signal da -cruz se devem tocar--_Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ_. - -Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava -risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com -frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para -o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de -madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava -com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do -inferno e mais os exorcismos. - -Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D. -Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove -horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que -a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma -mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a -correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da -fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho -obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das -scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não -tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de -estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado -pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou -umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da -casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto -chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da -estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias; -outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos -estridentes. - -O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe -passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e -disse-lhes com um racionalismo brutal: - ---Ah grandes coiras! - - - - -CONCLUSÃO - - -Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro -conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do -vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava -n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a -defendesse do missionario. - -D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava -a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma -benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de -José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque -era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não -se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas -organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha -estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em -que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a -alma de José Alves, como quem conta um caso trivial. - -Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns -segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum -de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a -vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a -beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha -como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a -brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo. - -Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a -torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios. -Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no -sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á -madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o -seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim -em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem -juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande -piedade, porque se convenceu então que estava perdida. - -O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a -preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu -repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os -jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se -casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações, -olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que, -tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar -viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa -recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e -tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as -condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua -physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete -annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado -satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era -funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as -anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer -estereis as dementes. - -Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que -o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves, -o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo -ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da -porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois -d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á -porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, -abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em -contacto de um rosto amado. O nome de _José_ realçava com uma nitidez -jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em -esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe -fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um -argumento a favor das _Manifestações visiveis_, em que o fluido, o -_perispirito_ se apresenta semi-material, com as fórmas vagas do corpo, -quasi tangivel ao _medium_. - -O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de -casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando -fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se -reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou -menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não -a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus -pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe -doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações -arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam -madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é -que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um -vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco -Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D. -Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do -Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para -se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do -tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava -nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças -e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua -familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal, -Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o -morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão, -vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na -tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás -pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam -os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos, -quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte. - -A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus -visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde -que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já -ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha -quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações, -e--o que mais é--ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos -delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O -padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e -falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr -acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr -nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha. -Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a -dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de -torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar -que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez -do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de -instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes, -excepto no maior numero das hystericas com erothismo. - -Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem -serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde -continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai -educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham -nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. -E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando -regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem, -dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, -escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da -imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica -menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para -clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. -Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas -violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro -para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres -reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas -hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E -o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo -de dez por cento. - ---Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu--dizia-me ha trez -mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho -escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de -cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata -de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas. - ---Tem 84 annos--continuou o vigario de Caldellas--veio a pé de sua -casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe -outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a -pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a -frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda -muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os -papagaios viviam cento e cincoenta annos. - - - - -P.S. - - -Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta -narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja -responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo -que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é -meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da -tolice, retiro tudo. - -Se o meu condescendente informador me permitte, ouso dizer-lhe--para nos -esquivarmos ambos ás insidias da critica portugueza--que a demencia de -Martha não é extremamente original nem o meu romance uma singularidade -incontroversa. O que, sem disputa, é original, é duvidar eu de que o -sou. - -Em um _Conto_ de Charles Nodier, auctor remoto que se perde no -crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu -quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole, -pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe. - -Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita -de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe -flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de -ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda, -quando andava a recolher as flores dilectas para o _bouquet_ das nupcias -com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e expirou. - -As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia -de ambas--uma especie de resurreição do amado. No que ellas -diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai -no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal -alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha -quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado -sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em -amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida -organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil -de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma -d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não -ha nodoa de plagiato no meu livrinho--uma coisa original como o peccado. - -O leitor pergunta: - ---Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance? -Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise -o individuo ou a especie? - -Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende -reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em -nome do patriarcha Voltaire, que _deixaremos este mundo tolo e máo, tal -qual era quando cá entramos_. - - - S. Miguel de Seide, dezembro de 1882. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A BRAZILEIRA DE PRAZINS: *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you will have to check the laws of the country where - you are located before using this eBook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that: - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation's website -and official page at www.gutenberg.org/contact - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without -widespread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/68905-0.zip b/old/68905-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 157a309..0000000 --- a/old/68905-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h.zip b/old/68905-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index ab62e1d..0000000 --- a/old/68905-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/68905-h.htm b/old/68905-h/68905-h.htm deleted file mode 100644 index 89800a1..0000000 --- a/old/68905-h/68905-h.htm +++ /dev/null @@ -1,8650 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of A brazileira de Prazins, - by Camilo Castelo Branco. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent:4%; -} - -.nind {text-indent:0%;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - -.blockquote { - margin-left: 5%; - margin-right: 10%; -} - -.chapter-beginning { - margin: auto; - text-align: center; -} - -/* Notes */ -.footnotes {margin-top:2em; border: dashed 1px;} - -.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} - -.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: - none; -} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -.caption {font-weight: normal; - font-size: 90%; - text-align: right; - padding-bottom: 1em;} - -.caption p -{ - text-align: center; - text-indent: 0; - margin: 0.25em 0; -} - -/* Poetry */ -.poem { - margin-left:10%; - margin-right:10%; - text-align: left; -} - -.poem br {display: none;} -.poem { display: inline-block; text-align: left; } -.poem .stanza {margin-top: 1em;margin-bottom:1em;} -.poem span.i2 {display: block; margin-left: 1em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} -.poem span.i6 {display: block; margin-left: 3em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} - - </style> - </head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>A brazileira de Prazins:</span>, by Camilo Castelo Branco</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>A brazileira de Prazins:</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>scenas do Minho.</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Camilo Castelo Branco</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 4, 2022 [eBook #68905]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A BRAZILEIRA DE PRAZINS:</span> ***</div> - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/prazins_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - -<p><br /><br /></p> - -<h3>COLECÇÃO LUSITÂNIA</h3> - -<p><br /><br /></p> - -<h3>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h3> - -<p><br /><br /></p> - -<h2>A BRAZILEIRA DE PRAZINS</h2> - -<p><br /><br /></p> - -<div class="figcenter" style="width: 400px;"> -<img src="images/inner_cover.jpg" width="400" alt="" /> -</div> - -<div class="figcenter" style="width: 400px;"> -<img src="images/prazins_frontispiece.jpg" width="400" alt="" /> -<div class="caption"> -<p>Camillo Castello Branco</p> -</div></div> - -<p><br /><br /></p> - -<h2>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h2> - -<p><br /><br /></p> - -<h1>A BRAZILEIRA DE PRAZINS</h1> - -<h3>SCENAS DO MINHO</h3> - -<p><br /><br /></p> - -<h5>Edição conforme a 1ª, revista pelo Auctor</h5> - -<p><br /><br /></p> - -<h4>LIVRARIA LÉLO, LIMITADA—EDITORA</h4> - -<h4>144, Rua das Carmelitas—PORTO</h4> - -<h5>AILLAUD & LÉLOS, Limitada—R. N. do Carmo, 80 a 84—LISBOA</h5> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"> -<a href="#INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a><br /> -CAPITULO <a href="#I">I</a><br /> -CAPITULO <a href="#II">II</a><br /> -CAPITULO <a href="#III">III</a><br /> -CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br /> -CAPITULO <a href="#V">V</a><br /> -CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br /> -CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br /> -CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br /> -CAPITULO <a href="#X">X</a><br /> -CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br /> -<a href="#CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a><br /> -<a href="#PS">P.S.</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura01.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a></h4> - -<p> -Entre as diversas molestias significativas da minha velhice, o amor aos -livros antigos—a mais dispendiosa—leva-me o dinheiro que me -sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes -orgias de pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e -me illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro -em uma caturrice academica. -</p> -<p> -Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo -de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de -malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina -<i>missaes</i> todos os livros grandes; aos pequenos chama -<i>cartilhas</i>. Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença -que eu visse os livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu -todos—que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de -bibliomano. Elles, gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me -seductores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da -mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismutho. -</p> -<p> -Havia sermonarios latinos, um <i>Marco Marullo</i>, tres rhetoricas, muitas -theologias moraes, um <i>Euclides</i>, commentarios de versões litteraes de -Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma -versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro -<i>Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de -Horacio, por industria de Francisco da Costa</i>, impresso em 1639. -</p> -<p> -Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga, -havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para -padre, morrêra ethico; que o seu homem—Deus lhe falle -n'alma—mandára calear o quarto onde o estudante acabára, e -atirou para as lojas tudo o que era do defunto—trastes, roupa e -livralhada. Contou-me isto seccamente do extincto cunhado, ao mesmo -tempo que roçava com a mão fagueira o ventre gravido de uma gata -malteza que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em -attritos d'uma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um -affecto nostalgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me -retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me -piscava um olho com uma meiguice antiga—a das meninas da minha -mocidade que piscavam. Onde isto vai! -</p> -<p> -A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, -offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se -chamava <i>Velhaca</i>—ajuntou com a satisfação de quem completa -um esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da -<i>Velhaca</i>, fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu -familiarmente, e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de -1816 e 1817 que a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, -me disse serem do tempo dos Affonsinhos.—Porque o seu sogro, -accrescentou, era um asno ás direitas que comprava a bula para poder -comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar -heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e, -ajuntando á heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que -quer que fosse a respeito dos peccados que entram pela bocca. -</p> -<p> -Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda -mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de -paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o <i>Bom senso</i> do -cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a -esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza—a -Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e -contentes para os mysterios da eternidade. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros, -preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com -folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do -gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o -<i>Entendimento literal e constrviçam</i> até paginas 154, e aqui achei um -quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra -esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do -papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte: -</p> - -<blockquote><p> -<i>José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a -Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a -pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. -Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer, -endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao -pé de ti.</i> -</p> - -<p style="margin-left: 60%;">Martha.</p></blockquote> - -<p><br /></p> - -<p> -Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para -interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem -n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me -logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr -dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume, -está escripto o nome do possuidor—<i>José Dias de Villalva</i>, e a -carta é dirigida a um <i>José</i>. Conclui ser o cunhado da viuva quem -recebêra a carta. -</p> -<p> -Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um -anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o -seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando -morreu.—Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria -da Fonte. -</p> -<p> -—Pois elle amou a Maria da Fonte?—perguntei com ardente -curiosidade historica, para esclarecer a minha patria com um episodio -romanesco das suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu: -</p> -<p> -—Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os -da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos -escrivães, sabe vm.<sup>cê</sup>?—Acho que foi então ou por perto. E -ajuntou:—Elle gostava ahi muito d'uma moça, isso é verdade. Era a -Martha... -</p> -<p> -—Martha?—disse eu com a satisfação de vêr confirmada a -assignatura do bilhete. -</p> -<p> -Vm.<sup>cê</sup> conhece-a? -</p> -<p> -—Não conheço. -</p> -<p> -—É a brazileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem -quinze quintas entre grandes e pequenas. -</p> -<p> -—Bem sei; mas nunca vi essa mulher. -</p> -<p> -—Não que ella nunca sae do quarto; está assim a modos de atolambada -ha muito tempo. Credo! ha muitos annos que a não vejo. Dá-lhe a gota, -salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma -pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem meus rico -d'estes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho. -Elle quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do -Brazil todos os annos, vai a pé, e mette ao bolso umas côdeas de -borôa e quatro maçãs para não ir á estalagem. -</p> -<p> -Interrompi com interesse de artista: -</p> -<p> -—Disse-me que ella endoudecera. Foi logo depois da morte do seu -cunhado? -</p> -<p> -—Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu -cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que -Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito p'rámôr d'ella. Esses -casos ha muita gente que lh'os conte. Ha por ahi muito homem do seu -tempo. Pergunte isso ao snr. reitor de Caldellas que andou com elle nos -estudos e sabe todas essas trapalhadas.—E n'um tom de noticia -festival:—Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lh'o mando assim -que estiver creado. Quer que lhe corte as orelhas e o rabito? -</p> -<p> -—Faça-me o favor de lhe não cortar nada. -</p> -<p> -Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa critica de uma dama ingleza á -nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ella, lady Jackson, -escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem -orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excellente senhora! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldellas na feira de Santo -Thyrso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabolar-se com -elle uma indagação de curiosidades sentimentaes. -</p> -<p> -Fazia respeitavel a sua batina sem nodoas o padre Osorio. Parece que -tambem as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve -mocidade, nem as ambições que supprem os dôces affectos do coração -mutilados pelo calculo ou congelados pelo temperamento. Ha trinta e dous -annos que pastoreia uma das mais pobres freguezias do arcebispado. -Prégou alguns annos com applauso dos entendidos e inutilidade dos -peccadores. A rhetorica é a arte de fallar bem; mas os vicios são a -arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga. -</p> -<p> -Como prégava gratuitamente, o vigario de Caldellas era chamado por -todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os -panegyricos dos santos mais ou menos hypotheticos, pediam-lhe que -prégasse da cura milagrosa d'umas maleitas ou d'um leicenço—casos que -a pobre Natureza e o periodico chamado <i>Esculapio</i> só de per si não -poderiam explicar. -</p> -<p> -O vigario subia ao pulpito e improvisava coisas de grande engenho em -linguagem muito singela. Affirmava que Deus era tão bom, tão -previdente, que dera á condição enfermiça do homem forças vitaes, -sobrecellentes que resistiam á destruição; e que a Natureza, grande -milagre do seu Creador, só de per si era bastante para a si mesma se -restaurar. Ora, um abbade rico, bacharel em theologia, que lhe ouvira -estas idéas assaz naturalistas, perguntou-lhe, á puridade, se elle -negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos -leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, -accrescentou:—Deus fez o supremo milagre da sciencia para -centuplicar as forças á natureza enfraquecida.—O theologo -enrugou scientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou:—O -snr. reitor foi ferido da peste do seculo. Está iscado de Voltaire e de -Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e -melhor.—O reitor de Caldellas afastou-se triste, e nunca mais -frequentou o pulpito. -</p> -<p> -Estas informações e o aspecto lhano, harmonico do padre, animaram-me a -dizer-lhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns -esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada em um livro que -pertencera ao seu condiscipulo José Dias de Villalva. Recorda-se? -perguntei. -</p> -<p> -—Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me -que ainda sinto n'este braço o peso enorme da sua face morta, e já lá -vão trinta e cinco annos. É preciso ter na alma dolorosas -reminiscencias para se recordar um amigo morto ha tantissimo tempo, não -lhe parece? Como sabe v. que existiu esse obscuro filho de um lavrador? -</p> -<p> -Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assignatura, gesticulou -affirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas -recordações, disse: -</p> -<p> -—Fui eu que puz esta carta entre as paginas de um livro do Dias. O -meu pobre condiscipulo, quando este papel lhe foi mandado á cama, já não -o podia lêr. Tinha cahido no torpor, na indifferença que, a meu vêr, -é a compaixão da Providencia pelos que morrem amando e não querendo -morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como elle -nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. -Era um commento de Horacio que eu lia nos seus intervallos de modorra, -afim de dar ao meu animo uma folga que me fortalecesse para resistir ao -golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Martha -está no caso de merecer a consagração romantica que Bernardin de -Saint-Pierre usurpou ás dôres verdadeiras, para coroar d'uma eterna -aureola a sua phantastica Virginia. -</p> -<p> -—Não vou tão longe, respondi com a modestia genial dos escriptores -que immortalisam. A brazileira de Prazins não póde contar com o seu -immortalisador em mim, nem me parece bastante fecundo o assumpto. Sei -que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e -a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não ha mais do -que isto... -</p> -<p> -O cura interrompeu:—Vejo que sabe quem é Martha; mas não a conhece -bem. Virginia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem -de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permitte que se abram -intercadencias de luz no espirito para que a saudade rebrilhe na -escuridão da demencia, é incomparavelmente mais funesto que o amor -fulminante. O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias -depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novellas, á custa de lh'as -ouvir analysar com um enthusiasmo digno de melhor emprego, achei-me -envolvido na litteratura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de -fazer presente do meu santo Affonso Maria de Ligorio e da minha -Theologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me prophetisou -que minha irmã havia de morrer doudas a scismar nas patacuadas das -novellas. Ella não morreu douda; mas pensava em romancear a historia de -Martha, porque dizia ella que, tendo lido trezentos volumes de novellas, -não encontrára caso imitante.—E, dando-me o bilhete de Martha: Este -quarto de papel é o exordio de uma agonia original. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Como a exposição do reitor sahiu muito enfeitada de joias -sentimentaes—detestavel especie archeologica que ninguem -tolera,—farei quanto em mim couber por, uma a uma, ir mondando e -refugando as flores de modo que as scenas dramaticas se exponham aridas, -bravias como sêrro de montanha por onde lavrou incendio, sem deixar -bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lagrima. A -Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra -n'uma idéa a sua certidão de idade e uma reliquia testemunhal da idade -de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as phrases—madeixas do -espirito—são refractarias ao rejuvenescimento dos vernizes. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura02.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="I">I</a></h4> - -<p> -Martha era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um -irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no -espaço de vinte annos, lhe mandara tres moedas, com os seguintes -encargos: á mãe 6$000 réis fortes, ás almas do Purgatorio, de -Negrellos, 3$000 réis tambem fortes, que lh'os promettera quando -embarcou, e o resto para elle—«5$400 réis, dizia, é que o maroto, -podre de rico, me mandou em vinte annos!» -</p> -<p> -A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, -e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, -mestre de obras, muito endinheirado e já maduro, appareceu o José -Dias, filho d'um lavrador rico de Villalva, a namoriscal-a. Este rapaz -estudava latim para clerigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e -amarello, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar -pelas memorias. Os padres do Minho, n'aquelle tempo, não puxavam quasi -nada pelas memorias; ordenavam-se tão alheios ás faculdades da alma -que, sem memoria nem entendimento, e ás vezes sem vontade, eram -soffriveis sacerdotes, davam poucas syllabadas no Missal e liam os -psalmos do Breviario com uma grande incerteza do que queria dizer o -penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão facil a -ordenação—uma coisa que se fazia com uma perna ás costas, -diziam certos vigarios—sem precisão absoluta de puxar pelas -memorias, o Joaquim Dias quiz tirar o filho do <i>latim</i> que lhe -ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Fr. Roque. Este padre-mestre -tinha uma irmã paralytica; sabia lêr, e prendas de costura, marcava, -fizera um pavão de missanga, não desconhecia o crochet e ensinava -raparigas para se distrahir. -</p> -<p> -No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Villalva se affez -a reparar na Martha de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de -cabello atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarella com dois -folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito -séria com proposito de mulher e ares muito sonsos—diziam as outras, -que lhe chamavam a <i>songuinha</i>. Os outros estudantes, rapazolas -vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de borôa -nas algibeiras das vesteas de saragoça de varas, e os velhos Virgilios -ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a -Martha—chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, -arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, -indifferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na -barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aquelles embriões de -abbades, como a escada de pedra era ingreme e aberta do lado do -quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alumnas da paralytica, -pela maior parte raparigas entre doze e dezeseis annos, muito -musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo -exercicio dos carrêtos nas safras da lavoira. -</p> -<p> -Martha ia nos quatorze quando o pai a quiz tirar da mestra. Chegára-lhe -aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha. -Queixou-se a Fr. Roque. -</p> -<p> -O egresso, resfolegando honradas coleras e pulverisações de -esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou -a Martha. -</p> -<p> -—Qual foi d'estes tratantes o que implicou comtigo, -cachopa?—perguntou o padre-mestre olhando-a por cima dos oculos, -orbiculares, com as hastes oxidadas d'um cobre antigo. E, apontando para -o primeiro da fileira que era o José de Villalva: -</p> -<p> -—Foi este? -</p> -<p> -—Esse nunca me disse nada—respondeu com a voz tremula, toda -vermelha, a rapariga. -</p> -<p> -—Foi este? -</p> -<p> -Martha não ergueu os olhos nem respondeu. -</p> -<p> -—Então, môça? qual foi dos nove? Dize lá. Tu que te queixaste é -que algum embarrou por ti. -</p> -<p> -—Eu não me queixei...—murmurou a interrogada. -</p> -<p> -Verdadeiramente ella não se queixára. Foi o Zeferino, o filho do -alferes da Lamella, o mestre pedreiro que andando a construir um -canastro na eira do padre-mestre, observára que os estudantes rentavam -á cachopa, e ageitavam-se em attitudes abrejeiradas, como de quem -espreita, quando ella subia a escada. -</p> -<p> -O denunciante ao pai de Martha foi elle, o pedreiro abastado, não -porque o espicaçassem n'essa denuncia o zelo dos bons costumes, e um -justo odio ás concupiscentes espionagens dos rapazes, mas por que -gostava, devéras, da môça. Elle passava já dos trinta e dois e era a -primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor, Fr. Roque, -averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má lingua, que -não andasse a difamar os seus discipulos, que se preparavam para o -sacerdocio—uma coisa séria. O episodio acabaria assim menos mal, se -dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdocio, mais fortes no -fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma -noute, n'um pinhal. O mestre d'obras iniciou-se pelo martyrio obscuro -n'um amor que principiava bastante mal. Elle nunca soube ao certo quem -lhe batêra, e attribuiu a sova a émulos na arte, covardes e -mysteriosos, por causa da construcção de uma egreja que elle -desdenhára, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma -tenda por motivos de architectura—um martyrio de artista. Invejas. -Por causa da Arte padecêra o seu collega Affonso Domingues, o architecto da -Batalha, e João de Castilho, o do convento de Thomar, e já tinha -padecido seu mestre, o Manoel Chasco, a quem inimigos quebraram a -cabeça na feira dos 21, por que elle, desfazendo na obra d'um collega, -dissera que o botaréo d'um cunhal estava torto. -</p> -<p> -Passado tempo, Martha sahiu prompta da mestra. Lia a cartilha do -Salamondi e o <i>Grito das almas</i>, decifrava menos mal umas sentenças -velhas que havia na casa de Prazins, monumentos das ruinas de antigas -demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por -pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua -benção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe -ditava a carta, cheia de lastimas mendigas, mentirosas, historietas -velhacas de penhoras, as grandes decimas, a ferrugem das oliveiras, o -bicho da batata, o gorgulho que pegára no milho, muitas alicantinas. -</p> -<p> -—Que era a vêr se o ladrão mandava alguma coisa, dizia elle, pondo -cuspo na obreia vermelha para fechar a carta. -</p> -<p> -A segunda carta, que ella escreveu já sem pauta, foi a José Dias, ao -estudante, que já não estudava por causa das memorias nocivas á sua -saude fraca, um pelém. -</p> -<p> -N'este tempo já o Zeferino da Lamella se tinha declarado com o Simeão -de Prazins, de um modo quasi original. -</p> -<p> -—Você quanto deve, ó tio Simeão?—perguntou. -</p> -<p> -—Quanto devo? Você quer pagar-me as dividas? -</p> -<p> -—Pôde ser. Você deve á Irmandade de N. Senhora de Negrellos um conto -e cem mil réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Ha-de -andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo. -</p> -<p> -—É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua—um conto e -quinhentos e pico. -</p> -<p> -—Quanto é o pico? -</p> -<p> -—Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao -mercador e um réstito da vacca amarella que comprei ao Tarracha na -feira dos 13. -</p> -<p> -—Você quer fazer um cambalacho?—tornou o pedreiro recuando o -chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos hombros. -</p> -<p> -—Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer -comprar-me o lameiro da azenha—não vendo. -</p> -<p> -—Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. -Você está a fallar c'um home. Pago-lhe as dividas, você não fica a -dever nada, e eu caso com a sua Martha. Póde dar os bens ao outro filho -que eu não lhe quero uma de X. -</p> -<p> -—Você falla serio, ó sôr Zeferino? -</p> -<p> -—Se fallo serio?! Então você não sabe com quem é trata. -</p> -<p> -—Ora bem—entendamo'-nos—é a rapariga que você quer, a -rapariga estreme, sem dote nem escriptura? -</p> -<p> -—Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim. -</p> -<p> -—A rapariga é sua. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Negociára a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarracha a -vacca amarella na feira dos 13. Eis um caso exquisito de aldeia que pela -torpeza parece acontecido n'uma cidade culta. Conversou-se este dialogo -debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem -gorgeado de passaros, com uns tons de luz esverdeada, na dôce placidez -crepuscular de uma tarde de agosto, entre dous homens de tamancos, -arremangados, com os peitos cabelludos a negrejar d'entre os peitilhos -da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na phrase. -Analogas passagens, com estylo pouco melhor, tem sido dramatisadas nas -salas, entre homens da melhor polpa e casca social—uns que mandaram -ensinar ás filhas os verbos francezes e são assignantes do <i>Journal -des Dames</i> que marca ás meninas a balisa até onde póde chegar o -arrojo da lingua franceza e os seus mais avançados destinos. Da outra -parte, homens ricos, de figado engorgitado, fatigados, sedentos de -senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne -constellada de diamantes. É o epilogo de vinte annos de lavra dura, o -<i>substratum</i> da compra de negras a milhares:—comprar uma branca, -das que o amor pobre e o talento esteril não podem negociar. O contracto -feito em Prazins—eis a differença—por parte do pedreiro era um -heroismo: dava o seu dinheiro por aquella mulher; daria mais depressa o -seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados -em corações civilisados, quasi desfeitos. Ora, os pedreiros que vem -d'além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem compram -assim. Fazem o dote economico, comezinho á esposa. Compram uma machina -de propagação, condicionalmente. Se, extincto o comprador, a machina, -não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O -defunto prefere que a sua viuva, adelgaçada e espiritualisada por -jejuns, lhe converse com a alma. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura03.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="II">II</a></h4> - -<p> -Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira -via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis -para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava -a liquidar para vir, emfim, descançar de vez,—que já tinha para os -feijões. Recommendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas -quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se -ainda houvesse conventos á venda, os fosse apalavrando até elle -chegar. -</p> -<p> -—Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos!—exclamou o -Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trêpa de Santo -Thyrso e ao ex-capitão mór de Landim; e, como encontrasse na feira o -dono do mosteiro dos benedictinos, o Pinto Soares, um deputado -gordo—a rhetorica viva do silencio mais facundo que a lingua, -d'uma grande pacificação somnolenta—perguntou-lhe se queria -vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como -um homem que acorda com espirito e um pouco de atheismo, respondeu-lhe -que não vendia para não transmittir ao comprador a excommunhão que -arranjára comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em -materia e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de -Franklin. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos -á venda, ou quintas ahi para quarenta mil cruzados. -</p> -<p> -O Zeferino das Lamellas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o -negocio fechado em um conto, quinhentos e pico, procurou o lavrador para -se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de -abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras: -</p> -<p> -—Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda -não sabe que vem ahi o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e -conventos? -</p> -<p> -E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de coiro em -que tinha recibos da decima, um aviso da junta de parochia para pagar a -congrua, uma conta de azeviche contra maus olhados, uma oração -manuscripta contra as maleitas, um officio antigo que o nomeava regedor, -de que fôra demittido pelos Cabraes, uma velha resalva de recrutamento, -uns versos que elle recitara no natal, em um Auto do nascimento do -Menino, onde elle fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa -Barbara, muito cebaceo, com um lustro azulado de graxa e a carta do -Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue. -</p> -<p> -—Você ainda não ouviu fallar d'esta carta!?—perguntou com -sobranceria impertinente, dando saliva aos dedos para a -desdobrar.—Não se falla n'outra causa. Toda a gente sabe que vem -ahi do Brazil o meu Feliciano para comprar quintas. -</p> -<p> -—Já me constou—disse o pedreiro,—mas você roe a -corda á conta d'isso, acho eu...—E como o lavrador -hesitasse:—O negocio da rapariga está feito ou não está feito? -Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha p'ra'hi -o que tem no interior. -</p> -<p> -O Simeão mascava, torcia-se, mettia com dois dedos a carta estafada na -carteira e resmungava: -</p> -<p> -—Você, emfim, isto é um modo de fallar, como o outro que diz; você -bem entende que ... sim... -</p> -<p> -—O que eu entendo physicamente fallando é que você não me dá a -rapariga. -</p> -<p> -—Deixe vêr, deixe vêr o que diz o meu irmão—tartamudeava. -</p> -<p> -—Sabe você que mais?—volveu iracundo o architecto dando com o -ôlho do machado n'um canhoto.—Você é de má casta. Não tem palavra nem -vergonha n'essa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da -Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada...—Allusão pungente a -um tio do Simeão, o Bernabé, capitão das maltas de salteadores que -infestaram em 1835 aquella serra. -</p> -<p> -—Veja lá como falla...—interrompeu o lavrador ferido na sua -linhagem.—Você não me deite a perder... -</p> -<p> -E o outro, n'um impeto de consciencia robusta: -</p> -<p> -—Você é um safado. É o que lh'eu digo. Não guarda palavra em -contracto que faça. Eu já devia conhecêl-o. Faz para as matanças -seis annos que você justou comigo uma porca por quatro moedas e foi -depois vendel-a ao Antonio do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu -alma de cantaro?—E n'uma irritação crescente:—Se você -não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira.—É -muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:—Guarde a filha que eu -hei de achar mulher muito melhor que ella pelo preço, ouviu você? que -leve o diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. -Livrei-me de boa espiga. De você não póde sahir cousa boa; e mais da -mãe que ella teve, que já lá está a dar contas... -</p> -<p> -E o lavrador com extremada prudencia e na pacatez de um grande espirito -de ordem e paz: -</p> -<p> -—Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu? -</p> -<p> -—Ouvi, que não sou mouco. Ainda hontem a topei na bouça do -Reguengo de palestra com o estudante de Villalva. Espere-lhe a volta. A -songuinha, que não olha direita p'ra um home, que anda alli esmadrigada -de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao -estudante, aquelle páo de encher tripas, que ha-de ser mesmo um padre -d'aquella casta! Olhe se elle lh'a quer para casar... Pois não -quizeste?—e arregaçava a palpebra do olho esquerdo mostrando o -interior inflammado com uns pontos amarellos, purulentos, indicativos de -insufficiente lavagem, um tregeito de garotice.—E -continuava:—Quem lhe déra dois pontapés, n'elle a mais -n'ella!—e muito rubro de colera dava pancadaria nas pedras, nas -raizes nodosas dos castanheiros, e mettia grande terror no animo do -Simeão quando faiscava lume nos calhaos com a percussão do machado. -</p> -<p> -Esta situação promettia acabar pela fuga prudente do pai de Martha, se -o estudante de Villalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma -matilha de coelheiras que ladravam a um porco muito erriçado, que as -esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador -chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a -Martha o ouvisse. -</p> -<p> -Elle não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o -porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe -tinham. O Zeferino, n'outra occasião, segundo o seu costume, -desprezaria a arremettida da matilha; mas, n'aquella conjunctura de odio -ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo -com as mãos cabelludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços -provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, -muito azedo, engelhando na cara uns tregeitos de basofia, dizia -sarcastico: -</p> -<p> -—Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chega faço-lhe saltar -os miolos á cara de você. -</p> -<p> -Que se accommodasse, conciliava pacificamente o estudante—que os cães -não tinham outra falla. E o pedreiro insistente, muito arrogante:—que -venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! e dizia palavradas -canalhas, muito damnado por que vira apparecer a Martha na varanda, a -fazer meia com a cesta do novello no braço. -</p> -<p> -—Ó snr. Zeferino, falle bem, ponha côbro na -lingua—advertiu o José Dias com uma serenidade de máo -agouro—quando eu lhe ladrar então se fará com o machado para -mim. Os cães ladraram-lhe, eu chamei-os, que mais quer você, homem? -Siga o seu caminho. -</p> -<p> -—O meu caminho? o meu caminho é este—disse batendo com o -machado na terra.—Quer você mandar-me embora d'aqui? Ora não seja -tolo. -</p> -<p> -A presença da môça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se -valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina -dos bebedos, e berrava: -</p> -<p> -—Se é homem, venha para cá! Você manda-me sahir d'aqui, seu pedaço -d'asno? -</p> -<p> -E o estudante, já amarello: -</p> -<p> -—Eu não o mando sahir d'ahi, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe -que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com -elle. -</p> -<p> -—Ó alma do diabo!—exclamou o pedreiro crescendo para o caçador. -</p> -<p> -N'isto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadella coelheira, -que aprendêra a morder nas occasiões rezoaveis, atirou-se-lhe ao -assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da -nadega esquerda. -</p> -<p> -O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de -leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nadega -direita. A restante matilha fraternisára com o outro e juntavam os -focinhos num complexo de dentuças minacissimas com os olhos sanguineos -cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a -cainçada, e Martha não sabia se havia de descer para ajudar o pai a -accommodar a bulha, ou se havia de cahir na varanda a rir-se. Ella -sentia-se envergonhada do espectaculo que exhibia a calça esfarrapada; -mas não havia pudor que resistisse áquillo. O pedreiro sabia que o -cão lhe chegara um pouco á calça; mas, no calor da lucta, não -sentira esfriar-se-lhe a pelle descoberta, nem se lembrou que andava sem -ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinaria na cutis, -exposta ao contacto da atmosphera, levou a mão conscienciosamente ao -sitio, e achou em si aquelle specimen obsoleto do Adão primitivamente -innocente. No entanto, Martha, não podendo já comsigo, entalada de -riso, fugira da varanda e atirára-se de bruços sobre a cama, a -rebolar-se, a espernear como se tivesse uma colica. O estudante -retirou-se assobiando á matilha ainda refilada ás nadegas do homem. O -Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente commovido: -</p> -<p> -—Mêtta-se ahi na córte da egua que eu vou-lhe buscar umas calças, -seu Zeferino, ou dá-se-lhe ahi quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as -calças, e não se afflija... -</p> -<p> -O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro -lhe replicou: -</p> -<p> -—Vá você! -</p> -<p> -E metteu-se em casa como quem receava contra-replica menos suja e mais -dura. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura04.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="III">III</a></h4> - -<p> -O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimáo, um major de cavallaria, -convencionado em Evora-monte, miguelista intransigente, mas cordato. -Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso benedictino. Fr. -Gervasio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão -monastica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza. -Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de -toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque -dispunha de dentadura insufficiente. Tinha outro signal ruidoso de -vida—era um pigarro de catarrhal chronica, arrancado dos -gorgomilos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de -um estrangulado, no 5.° acto de um drama de costumes. A velha creada da -cozinha, muito flatulenta, nunca pudéra affazer-se ás explosões -d'aquella garganta escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido -asperrimo de pavão lhe feria os ouvidos, reboando nos concavos tectos -dos salões, a mulher estremecia e raras vezes deixava de -resmungar:—Que mêdo! credo! diabos leve a esgana do home, Deus me -perdôe! -</p> -<p> -De dois em dois mezes appareciam em Barrimáo dous egressos de -Cabeceiras de Basto, companheiros de noviciado de fr. Gervasio. -Juntavam-se os tres amigos em uma intimidade de palestras saudosas. Com -intercadencias mudas de poetica tristeza, commemoravam os seus -conventuaes fallecidos, rezavam juntos pelos seus breviarios -benedictinos; depois, a passo cadencioso, claustral, iam para a mesa com -o recolhimento prescripto pela Regra do patriarcha. Ahi, pegava de puxar -por elles a natureza objectiva, e dava-lhe horas de salutar esquecimento -do passado irreparavel. Gorgolejavam copiosamente os vinhos -engarrafados, traiçoeiros, da companhia, em que fr. Gervasio derretia a -prestação; porque, de resto, a mesa do mano morgado era farta e a sua -bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso. -</p> -<p> -O major Zeferino Bezerra de Castro não tinha grande casa; mas, como era -solteiro e quinquagenario, fazia de conta que os bens lhe haviam de -sobejar á vida, vendendo os allodiaes e empenhando, se necessario -fosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas -para as miseraveis 1000 libras que o snr. D. Miguel recebia annualmente -de donativos de monarchas e dos seus partidarios portuguezes.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a> -Festejava dispendiosamente os natalicios do rei, convidando a jantar os -realistas notaveis da comarca; e, contando os annos da proscripção, ia -calculando a patente que lhe competia quando o soberano legitimo se -restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e -atrophiados nas aldeias, o general Povoas, o Bernardino, o Magessi, o -Montalegre, o José Marcellino. Mas as cartas quem lh'as redigia era o -mano frade, recheando-as de trechos de politica de pulpito—resultado -das suas digestões morosas, contemplativas—que serviram de ornamento -nas columnas do <i>Portugal velho</i>, periodico miguelista da época. -</p> -<p> -N'aquelle anno, por meado de 1845, espalhára-se no ambiente dos -realistas, como um aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o -snr. D. Miguel. O seu enorme partido sentia-se palpitar no anceio -d'aquelles vagos anhelos que estremeciam as nações pagans ao -visinhar-se o prophetisado apparecimento do Messias. Affirmam-no os -Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam o mesmo a respeito do -principe proscripto. Fr. Gervasio recebia do alto da provincia cartas -mysteriosas d'uns padres que parochiavam na Povoa de Lanhoso e Vieira. -Era alli o foco latente do apostolado. N'aquelles estabulos de -ignorancia supersticiosa é que devia apparecer, pelos modos, o presepio -do novo redemptor. Citavam-se prophecias apocalypticas de frades que -estavam inteiros sob as lages das claustras. Convergiam áquelle ponto -missionarios de aspectos seraphicos, olhando para as estrellas como os -magos e os pastores da Palestina. O frade mostrava as cartas ao irmão e -dizia-lhe: «Elle ha coisa...» -</p> -<p> -—Mas muito grande!—corroborava o major com cabeçadas -affirmativas muito exageradas. -</p> -<p> -—A Russia move-se, é o que é—affirmou fr. Gervasio, -correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda autocratica da -Russia. -</p> -<p> -Em um d'estes dialogos, em que havia desabafos, exuberancias de jubilo, -interveio o Zeferino das Lamellas, o pedreiro afilhado do major. Vinha -contar o caso do Simeão de Prazins e a péga que teve com os cães do -Dias de Villalva. Mostrava a calça remendada—que por pouco lhe não -entravam no coiro os cães—dizia, e protestava vingar-se. O egresso -pacificava-o; que deixasse lá a rapariga e mais o estudante; que se -fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai em defeza do -throno e do altar. E o major: -</p> -<p> -—Estamos chegados a ellas, Zeferino. -</p> -<p> -E o pedreiro, esfregando as mãos coreaceas, que ringiam como duas lixas -friccionadas: -</p> -<p> -—A elles, snr. padrinho! A espada vai-se amolar... Vou pedil-a ao -velho! -</p> -<p> -O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamellas, tinha sido alferes do 17 de -linha; e, em 1834, como o perseguissem os liberaes do concelho por -pancadaria e testemunhos falsos nas devassas de 28, andou foragido -alguns mezes. Sequestraram-lhe os bens; e o filho que já era muito -barbado e não tinha modo de vida, fez-se pedreiro. Depois, applacadas -as furias dos vencedores e restabelecida a justiça, restituiram ao -Zeferino as terras devastadas. O ex-alferes sahiu do seu esconderijo, e -recolheu-se a casa com a espada muito cheia de verdete, dizendo que -havia de laval-a no sangue dos malhados. Em 1838, dia de natal, -embebedou-se despropositadamente e sahiu para a rua a dar vivas ao snr. -D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, e affectos ás velhas -instituições, responderam aos vivas com um enthusiasmo homicida. O -Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a niza de saragoça, -poz a barretina com os amarellos muito oxidados, e, á frente d'um grupo -de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabeça do concelho afim de -offerecer batalha campal ás auctoridades. Além da espada do caudilho, -havia na jolda tres espingardas reiunas; o restante eram foices de -gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava uma -lamina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, já engrossada -por outros bebedos encontrados nas tavernas do transito, chegou â porta -do morgado de Barrimáo, e a clamorosos brados elegeram-o general. Já -se ouvia tocar a rebate em diversas torres, á discrição dos garotos -destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem, que -recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente. O -egresso veio a uma janella que abria sobre o atrio, e tentou -dissuadil-os do desvario que mais parecia um excesso de vinho que de -patriotismo—dizia. Não fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, -faminto de vingança, bradava que estivera quinze mezes escondido, que -lhe tinham estragado a sua casa, e que ia pedir contas aos Trêpas e aos -Andrades de Santo Thyrso, uns malhados, cujas cabeças havia de deixar -espetadas em pinheiros. -</p> -<p> -Na villa ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incendio. Alguns -vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção ás freguezias -d'onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Villalva, o pai do -José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte á -auctoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Thyrso, já se ouvia -alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos -prolongados que punham eccos nas margens tortuosas do rio Ave. Os -liberaes de Santo Thyrso rodearam o administrador, armados, com os seus -criados. Os negociantes com medo de saque tambem sahiram de clavinas. As -familias nas janellas faziam clamores, n'uma grande desolação. -N'aquella villa lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, -e havia velhos que presencearam outra semelhante no tempo dos francezes. -O regedor de Villalva dissera que o commandante da guerrilha era o -morgado de Barrimáo. Esta noticia fez augmentar o pavor, porque, se o -morgado, serio, prudente e bravo, acceitára o commando dos populares é -porque a cousa era séria. Os homens de negocio depuzeram as armas, -enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietarios, -os empregados publicos, os officiaes de justiça, alguns que haviam -militado e emigrado, desceram á ponte armados em numero de oitenta. -Outros seguiram vereda differente para passar o rio. A guerrilha cuja -vozeada se aproximava, no trajecto de uma legua, pegou a sua febre a -mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solemne, consagrado á -descida do Filho de Deus, para applacar os barbaros odios do genero -humano:—uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não -preparasse as almas a comprehendel-a e sentil-a. Depois, muito -communicativa, como se vê. Gaspar das Lamellas emborracha-se ao jantar -e faz brindes ao Menino Jesus e ao snr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, -pungem-o saudades do rei, e sahe para o terreiro a dar-lhe <i>vivas</i>. -Outros vinhos em ebulição respondem-lhe n'um grito de sinceridade -compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de tres batalhas á -volta do Porto; entra com elle a convicção em delirio acrisolada pela -allucinação da embriaguez. E o arrojo temerario dos grandes guerreiros -o que ó senão uma embriaguez de gloria, quando não é uma embriaguez -de genebra? Nas guerras civis portuguezas houve ahi um bravo soldado de -fortuna que, no vigor dos annos, ganhára as charlateiras de general e -uma corôa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por -causa da abstinencia, diziam que elle nunca sahira victorioso de -campanha onde não entrasse bebedo. Este general, ao declinar da vida, -casado e abstemio, não deu uma pagina gloriosa á sua historia, -presidiu sem iniciativa, militar nem politica á Junta Suprema do Porto, -e fechou o cyclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre -Casimiro, o <i>General Defensor das cinco chagas</i>. -</p> -<p> -Também no cerebro vinolento do alferes das Lamellas rutilavam os -relampagos da gloria quando, a brandir o gladio ferruginoso, descia, na -vanguarda da guerrilha, o outeiro sobre jacente á Ponte de Santo -Thyrso. Á entrada da ponte de páo havia taverna, com as prateleiras -alinhadas de garrafas da Companhia, com rotulos. -</p> -<p> -A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada d'além, -ao nivel da quinta do mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito -caloteado d'essa vez, disse ao commandante, ao Gaspar, que não cahisse -em se metter á ponte. -</p> -<p> -—Vocês vão cahir ahi n'essa ponte como tordos, o os que não cahirem -tem de largar os sócos a fugir—avisava, porque sabia que os de lá -eram <i>têzos</i>, e vinham todos armados. -</p> -<p> -O cabecilha tinha o seu vinho quasi digerido; a bravura começava a -ceder ás reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado maior, uns -facinoras da quadrilha que tres annos antes infestara as encruzilhadas -da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-o a beber copos de -aguardente.—Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da -ponto abaixo!—protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com -as cronhas no balcão. -</p> -<p> -Entretanto, o administrador do concelho com dous empregados inermes -atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audacia, esperava-o -n'uma attitude pacifica, estupida, um retrahimento de covardia, -olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Elle, empurrado -pelos valentes, collocou-se á frente, na bocca da ponte, com a espada -nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava alli o -snr. morgado de Barrimáo, que desejava fallar-lhe. -</p> -<p> -—Que não estava; eu sou o chefe—disse o Gaspar. -</p> -<p> -—Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria á -frente d'este bom povo enganado—ponderou a auctoridade.—E -vocemecê quem é?—perguntou ao chefe. -</p> -<p> -—Que era o alferes das Lamellas, bem conhecido em toda a parte; que -perguntasse aos malhados de Santo Thyrso, a esses ladrões que o -perseguiram e lhe roubaram os seus bens. -</p> -<p> -O administrador, um bacharel, de cabelleira á Saint-Simon, era -discursivo e não perdia lanço de eloquencia em casos d'um romanesco -medonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo triangulo dos pegões. -Uma rica e funebre paysagem, cortada de um lado pelos cataventos que -ringiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela matta -verde-negra, erriçada de pinheiros gementes. Um pittoresco cheio de -suggestões, d'uma palpitação cyclopica. Depois o enorme auditorio, -trezentas cabeças, fluctuando com as boccas muito escancaradas n'uma -bestialidade feramente spasmodica de lobos espantados por um archote -acceso. O meio era demosthenico, inspirativo. Borbotou-lhe a gôlfos um -palavriado discreto, aconselhando a turba a retirar-se <i>aos seus -apriscos</i>, á honrada labutação <i>dos seus mesteres</i>, e a não -perturbarem com <i>demagogias a pacificação dos animos e a sacratissima -inviolabilidade das instituições</i>. Quando o funccionario fechou a -parlenda, um dos mais bebedos, quer por chalaça, quer por insufficiente -comprehensão dos principios politicos da auctoridade, atirou o chapéu -ao ar e exclamou: «Viva o snr. D. Miguel I, rei de Portugal!» -</p> -<p> -A auctoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Elle voltou as -costas á canalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os -liberaes, logo que o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com -um sonoro estrondo de marcha cadenciada. -</p> -<p> -Capitaneava-os um escrivão de direito, dos 7500, cavalleiro da Torre e -Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha. -</p> -<p> -Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, -tinha pedido vinte homens, e atravessára com elles o Ave, na revolta do -rio, sem ser visto, na bateira do José Pinto Soares. Elle não podia -levar a bem que aquelles patêgos se retirassem sem uma sova pela -retaguarda e outra pela frente. Contava com a debandada pela ladeira das -mattas, e promettia, lá do alto, escorraçal-os de modo que elles se -espetassem entre dois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com -baixa, guardas do tabaco, e socios aposentados das quadrilhas de -1834—um mixto de politicos, de ladrões e martyres das enxovias. -</p> -<p> -Os quatro facinoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme e -solemne dos de Santo Thyrso,—é agora, rapazes!—exclamaram, -desfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as -suas, e avançaram, ponte dentro, n'uma arremettida impetuosamente -esbandalhada, de rodilhão. Uma das balas prostrára um arrieiro da -primeira fila dos liberaes; havia mais alguns feridos que se amparavam -gementes ás guardas da ponte. O bravo do Mindello viu cahir morto o seu -homem, e, contendo a furia das fileiras n'uma disciplina rigorosa, deu a -voz da descarga á primeira, e mandou abrir passagem á immediata, que -sustentava o fogo em quanto a outra carregava as armas. -</p> -<p> -Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da populaça. Viam-se homens que -fugiam a coxearem, atiravam-se ás ribanceiras, escabujando em arrancos -de morte. Os que não tinham espingardas e ainda os que as tinham sem -cartuchame, pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o refugio -dos pinhaes e carvalheiras. -</p> -<p> -O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e -lhe apertava o pescoço. Era o Retrinca de S. Thiago d'Antas, o mais -feroz da sua malta, que se amparava n'elle, quando cahia varado por um -pelouro. Este espectaculo trivial não aterrava o soldado de Ponte -Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas que -o serviram n'essas gloriosas batalhas. Tinha cincoenta annos, e fugia -ganhando a dianteira aos garotos do seu bando destroçado. Porém, -quando elle escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sopé do -monte, desciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus -homens, n'um turbilhão, acossados pelo tiroteio da companhia do -ex-sargento Lopes—uns barbaçudos que pareciam gigantes no tôpo da -collina, e davam uns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O -dia de juizo! -</p> -<p> -O Gaspar arripiou carreira e desfilou por uma varzea alagada que ia -esbeiçar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e a -espada a prumo no punho lhe dava uma caracterisação geitosa e -provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por -perto, chofrando nos pantanos. Alguns homens perseguiam-o chapinando no -lameiral, porque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: «Ó -rapazes, vêde se mataides aquelle diabo que é o cabecilha!» Os mais -velleitos levavam-o esfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram -desapparecer de subito entre uma espessa moita de platanos. D'ahi a -instantes, abeirando-se á ourela do rio, viram a barretina e a niza de -saragoça sobre uns comoros hervecidos; e, a distancia de dez varas, -aquelle bebedo immortal atravessava o rio a nado, n'uma tarde de -dezembro, com a espada nos dentes, e a banda a tiracollo. -</p> -<p> -—Ó alma do diabo!—dizia o Patarro de Monte Cordova, cevando a -arma com zagalotes para lhe atirar.—Vou matar aquelle pato bravo! -</p> -<p> -E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai: -</p> -<p> -—Não lhe atire, ó tio Patarro! É um velho, coitado! Não lhe vê os -cabellos brancos? Aquelle homem não se deve matar. Elle vai morrer -afogado antes de chegar á outra banda. Verá. Que raio de amizade elle -tem á espada! Aquillo é que é! -</p> -<p> -A meio do rio, onde a veia d'agua resvalava mais impetuosa, deixou-se -derivar sem esforço de natação. Mal bracejava. Depois, o Ave -espraiava-se em murmurios de lago dormente, muito barrento, e deixava-se -apégar. O alferes, com agua pela cinta, desatascou-se dos lamaçaes -d'além; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte da Lagoncinha, e, -vencidas duas leguas de chafurdeiros e barrocas, entrava na sua casa das -Lamellas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando a espada, -bradava: «Viva o snr. D. Miguel I!» -</p> -<p> -Depois, sobreveio-lhe um rheumatismo articular, e ficou tolhido. -</p> -<p> -Sete annos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. -Miguel, elle ainda vivia, mas entrevado n'um carrinho, e chorava, em -impotentes arquejos do corpo paralytico, porque não podia amolar a -lamina da espada nos ossos dos malhados. -</p> -<p> -Tinha-a diante dos olhos pendurada n'uma escapula com o boldrié e a -banda. Ás vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ella com os -olhos envidraçados de lagrimas, e pedia que a mettessem na sua -sepultura, que o enterrassem com ella. E enterraram. Espera-se que o -esqueleto d'este legitimista, com as phalanges esburgadas e recurvas no -punho azevrado da espada, resuscite, ao ulular da trombeta, na -resurreição geral das Legitimidades. Ponto é que a Russia se -môva—como dizia o frade de Barrimáo. -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a>Um historiador moderno disse que D. Miguel em 1855 -recebia setenta contos annuaes de donativos. Provavelmente deu causa a -esta liberalidade de cifras um lapso do snr. Joaquim Martins de Carvalho -que a pag. 254-255 dos seus <i>Apontamentos para a Historia -contemporanea</i>, transcreveu de uma carta de Lourenço Viegas o seguinte -periodo:... "Os rendimentos de el-rei compõem-se das 600 libras que vem de -Lisboa da <i>commissão alimenticia</i>, 1.000 francos mensaes que com toda -a exactidão lhe manda o conde de Chambord. 5.000 francos que annualmente -lhe manda o <i>duque de Modena</i> e 6.000 francos do <i>imperador -Fernando d'Austria</i>, tambem annuaes, mas sem época fixa, junto a alguns -extraordinarios da provincia do Minho, fazem subir a renda annual a -400.000 francos, e esta chega apenas para a despeza e economia -domestica." <i>Chegando apenas para a despeza domestica</i> de D. Miguel, -72:000$000, quanto lhe seria necessario para as despezas de fóra? Um -dos zeros do snr. Martins de Carvalho deve passar para a direita do 4, e -reduzir a annuidade do principe a 7.200$000 réis ou 40.000 francos.</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura05.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="IV">IV</a></h4> - -<p> -Do alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O -Christovão Bezerra, ex-capitão mór de Santa Martha de Bouro, escreveu -ao seu parente de Barrimáo. Dizia-lhe que constava que o snr. D. Miguel -estava no seu reino, e—o que mais era—muito perto d'alli. -Que não se podia explicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu -primo entendia a cifra de communicação entre os membros da ordem de S. -Miguel da Ala, instituida pelo snr. D. Affonso Henriques e renovada -ultimamente pelo monarcha legitimo—explicava. O major Bezerra era -commendador da ordem e conhecia a cifra:—que escrevesse -francamente. E, desconfiando do correio, mandou a Santa Martha de Bouro -o afilhado, o filho do alferes Gaspar, com uma carta muito importante. O -pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem, posto que não -participasse do segrede do padrinho que era discreto, disse ao pai: -</p> -<p> -—Ou eu me engano, ou o snr. D. Miguel está por ahi, não tarda... -</p> -<p> -O alferes sentiu uma descarga electrica na columna vertebral e -convulsionou-se extraordinariamente. Fazia lembrar phenomenos que se -contam de movimento galvanico nos paralyticos, colhidos de improviso -pelo terror ou pela exultação; mas o Gaspar, como só tinha o esophago -desempedido, bebeu, com a escorrencia absorvente d'um olho-marinho, -muita aguardente, e desatou a berrar o <i>Rei-chegou</i>. -</p> -<p> -O filho, com a discrição propria d'um agente secreto da restauração -realista, zangou-se com o berreiro civico do pai e perguntou-lhe se -estava bebedo. O velho enthusiasta, ferido no seu coração de vassalo e -de progenitor, teve um honrado intervallo lucido, quando lhe replicou: -</p> -<p> -—Se eu não estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro! -</p> -<p> -Deitou o albardão á egua e partiu para terras de Bouro o Zeferino. -Quando passava defronte da casa do Simeão, em Prazins, olhou de -esguelha, por debaixo da aba do chapéu, para o lavrador que estava -apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas -encatarrhoadas; e, dando de espora á andadeira, deixou cahir o pão -ferrado ao longo da perna. «Qualquer dia, estou-te em cima!» dizia de -si comsigo, ladeando a bêsta em corcovos chibantes. O Simeão, quando o -perdeu de vista, murmurou:—Valha-te o diabo, banaboia! -</p> -<p> -O ex-capitão mór de Santa Martha respondeu ás perguntas do primo de -Barrimáo; e, como o portador se recommendou na qualidade de afilhado do -fidalgo e filho d'um alferes que commandára o ataque de 1838 sobre -Santo Thyrso, o Christovão Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe -noticias d'esse ataque a Santo Thyrso que elle não conhecia. O pedreiro -contou a façanha do pai, a nadar, com a espada nos dentes; e o fidalgo -quando soube que elle estava entrevado, disse pungidamente: Mal -empregado!—que um general romano fizera o mesmo e que o levasse ás -caldas de Vizella á bomba quente. -</p> -<p> -Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe -confidencias:—que D. Miguel estava perto d'alli; mas não recebia -ninguem porque os malhados já o espreitavam em Portugal. Que a -acclamação havia de começar em terras de Bouro, e estender-se até -Lisboa; e que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a -patente do pai ou talvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as -mãos e bamboava-se hilariante na cadeira como um idiota. Tirou da -algibeira da vestia uma saquita de missanga, onde tinha tres peças e -sete pintos. Pôz o dinheiro com estrondo deante do Bezerra,—que o -mandasse a el-rei para as suas despezas; que eu, accrescentou, ha quatro -annos que lhe dou uma moeda d'oiro por anno; elle ha-de saber pelo rol -quem é o Zeferino das Lamellas, por que o padre Luiz de Sousa Couto, do -Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam -dinheiro, O fidalgo recusou:—que não estava auctorisado a receber -donativos, nem os julgava por em quanto necessarios, por que em poder do -Dr. Candido, de Anêlhe, estavam cincoenta contos, dados pela senhora -infanta D. Isabel Maria, para pôr a procissão na rua. -</p> -<p> -A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais explicita. -Contava que D. Miguel estava escondido na residencia do abbade de S. -Gens de Calvos, no conselho da Povoa de Lanhoso, o reverendo Marcos -Antonio de Faria Rebello.<a name="FNanchor_2_1" id="FNanchor_2_1"></a><a href="#Footnote_2_1" class="fnanchor">[2]</a> Que pouquissimas pessoas o tinham visto, -porque sua magestade só se mostraria aos seus amigos fieis quando -entrassem pela Galliza os generaes estrangeiros que se esperavam, uns do -antigo exercito carlista, outros de Inglaterra. -</p> -<p> -Esta noticia dos generaes estranhos beliscou a vaidade nacional do major -Zeferino Bezerra. Parecia-lho impossivel que o principe proscripto não -confiasse na pericia e lealdade do Santa Martha, do Victorino, do Povoas -e Bernardino. Era uma ingratidão, dizia elle ao mano frade, que -accrescentou:—e uma bestialidade. El-rei deve saber o que lhe valeram -o Bourmont e o Pussieux e o Mac-Donnell, no fim da campanha. Sabes -tu?—rematou o morgado—aqui anda marosca. O que tratam é de se -abotoarem com os cincoenta contos da infanta D. Isabel Maria, e o primo -Christovão é um asno chapado. -</p> -<p> -—Escreve-se ao Povoas e ao Bernardino—aconselhou o -egresso—que digam alguma coisa. -</p> -<p> -Os militares realistas responderam que sem duvida estava a levedar -alguma tentativa de restauração; que o Ribeiro Saraiva trabalhava -devéras; que o snr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que não -estava ao reino, nem cá viria senão para se assentar de vez no seu -throno usurpado. -</p> -<p> -—Deixa-te de asneiras, Zeferino—dizia o fidalgo ao afilhado -com as cartas na mão—el-rei ha-de vir; mas não veio. Meu primo -foi codilhado pelo abbade de Calvos, e eu vou-lhe escrever que não seja -palerma, nem caia com uma de X para o alevantamento que é uma -comedella. -</p> -<p> -O pedreiro, não obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel -estava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de -troquilha de burros em feira: -</p> -<p> -—Aposto! Aqui está dinheiro! O fidalgo de Quadros, o snr. tenente -coronel Cerveira Lobo tambem diz que el-rei já por cá anda. -</p> -<p> -—O Cerveira Lobo! olha que borrachão!—disse o frade. -</p> -<p> -—Quem cá está é o rei dos bebedor no corpo d'elle—accrescentou -o morgado. -</p> -<p> -—Mas diz que o snr. D. Miguel I gostava muito d'elle—objectou o -pedreiro.—Ouvi-lh'o eu. -</p> -<p> -—Não duvido...—explicou o frade—que o snr. D. Miguel -gostava de grandes patifes... -</p> -<p> -O primo Christovão redarguiu, magoado na sua esperteza, que era tão -certo estar el-rei em Calvos como era certo ter-lhe beijado a regia mão -em casa do abbade, na noite sempre memoravel de 16 de abril de 1845. Que -só o tinha visto de relance em Braga em 32, mas que o conhecêra pelo -retrato; que até manquejava um pouco, tal e qual, como se sabe, depois -que sua magestade quebrou a perna em 28. Que el-rei nomeara o abbade de -Calvos seu capellão-mór, que déra a mitra de Coimbra ao abbade de -Priscos, e fizera chantre o padre Manoel das Agras, e a elle lhe fizera -a mercê de duas commandas e o titulo de barão de Bouro, afora outras -graças a diversos clerigos e leigos. -</p> -<p> -—Que te parece isto?—perguntou o morgado ao frade. -</p> -<p> -—Parece-me a notoria estupidez do primo Bezerra e mais dos padres; -mas, se o homem que lá está é o D. Miguel, então o estupido é elle, e -que me perdôe sua magestade fidelissima... -</p> -<p> -Escreveu-se novamente ao Povoas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes, um -collaborador da <i>Nação</i>. Responderam-lhe que não havia tal D. Miguel -em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, por que era necessario uma -agitação preparatoria, um simulacro, uma apalpadella... -</p> -<p> -—Quer dizer—reflexionou o frade—que o tal impostor é -um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr o -marfim, e mais o simulacro ... que palpem,—e, pondo as duas mãos -engalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo pollegar -á volta do outro. Que o que fosse soaria, e não cahisse o mano -Zeferino na estulticia de se comprometter sem que os generaes -portuguezes sahissem á rua. -</p> -<p> -Na correnteza d'estas coisas, o Zeferino das Lamellas não trabalhava de -pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos officiaes, e andava n'uma -dobadoira de casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o -Vasco Cerveira Leite, morgado de Quadros, um homem nascido -illustremente, que, desde Evora Monte, não cortára as barbas nem -sahira das minas da casa-solar em Vermuim. -</p> -<p> -Como a sua paixão era inconsolavel com o destino, deu-se á -distracção do alcool; e, porque tinha a consciencia da sua miseria de -bebedo, fechava-se no seu quarto, onde ás vezes cahia amodorrado sobre -o vomito. Imbecilisára-se. Cerveira tinha soffrido um ataque cerebral -quando o brigadeiro José Urbano de Carvalho infamemente se passara com -alguns esquadrões de cavallaria para o centro da divisão do duque da -Terceira, na Chamusca. Elle vira o seu coronel Antonio Cardoso de -Albuquerque dar vivas á carta constitucional e a D. Maria II. Achou-se -arrastado, illaqueado e prisioneiro, quando procurava abrir com a espada -uma sepultura honrosa. Ali se extinguira coberto do opprobrio, n'aquella -hora, o bravo e leal regimento de Chaves que nunca dera um desertor para -as fileiras do inimigo. O tenente-coronel, desde esse dia, foi um -desgraçado incomprehendido que se embriagava para esquecer o -reviramento subito da sua carreira. Depois, a corrente travada das -miserias. Tinha filhos que se emborrachavam como elle, e filhas que se -namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias de -roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chapéus -desabados de sêda preta com borlas e plumas. Sua mãe tinha sido -açafata da apostolica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher no -Ramalhão, e gabava-se de ter sido amada do conde de Villa Flôr. Quando -entrou no vasto e velho casarão de Quadros, teve hysterismos -formidaveis e acordava os eccos das montanhas com gritos que punham -terrores sobrenaturaes na visinhança. O Cerveira Leite poderia viver -abundantemente na côrte, por que os seus rendimentos e foros eram muito -importantes: é o que D. Honorata lhe pedia com lagrimas; mas elle, -colerico:—que não podia encarar os malhados, e não sahiria mais de -casa sem as suas divisas de tenente coronel de dragões. E, -apontando-lhe para os cinco filhos: -</p> -<p> -—Sê boa mãe, trata d'essas creanças que andam ahi porcas que fazem -nojo!—Tinha estas equidades em jejum. -</p> -<p> -E ella: -</p> -<p> -—Mais nojo me fazem as borracheiras de você! -</p> -<p> -E o fidalgo então disciplinava-a militarmente. Quando lhe não dava -alguns pontapés, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba, e -perguntava-lhe se tinha saudades dos bordeis do Ramalhão, aquelles -pagodes reaes. D'esta procacidade esqualida, derivou a um mutismo -estupido. Não lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, contiguo á -garrafeira. -</p> -<p> -D. Honorata Guião teria vinte e oito annos, quando sahiu de Lisboa para -o Minho em 34. Era formosa das finas graças aristocraticas. Uma -elegancia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flôr branca -muito picada das abelhas. Acceitára o major Cerveira, porque era rico e -estadeava na côrte as suas librés. Tinha trinta annos, e dizia-se que -aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito d'elle. -Rosnava-se que o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marquez de -Loulé. -</p> -<p> -Este rapaz de côrte e da intimidade do rei e das infantas, disputado -pelas damas da rainha, era aquelle ebrio encanecido que, debruçado na -janella do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da -sacada, revessava ao caminho publico golfos aziumados de vinhaça, e -dizia garotices de lacaio ás raparigas que passavam medrosas e o -saudavam;—Guarde Deus v. s.ª, snr. fidalgo!—Tenha v. s.ª -muito boas tardes, snr. morgado!—E elle, almofaçando as barbas -conspurcadas de vomito:—Ó brejeira, deixa lá vêr o patriotismo; -que tal é a anca? Não respondes, catraia? Olha como aquella rebola os -quadris, o grande coldre!—As cachopas não respondiam; safavam-se -com um grande medo, porque eram suas caseiras; mas -commentavam:—Que levasse o diabo o piteireiro do -fidalgo!—que a fidalga fizera bem era se pisgar com o doutor dos -Pombaes.—Quer não—contrariava uma lavradeira -idosa—foi má mulher que deixou assim os filhos, cinco creanças! -uma desgraça! Nem as cadellas faziam isso. Os mais velhos já se -emborracham, e as meninas estão quasi mulheres e ainda não foram ao -confêsso nem sabem a doutrina. Que uma d'ellas, a Therezinha, já se -enfeitava para o estudante das Quintans que andava por lá feito -caçador, e que o morgadinho, o snr. Heitor, namorava a filha do José -Alho, e até se dizia que lhe fallára em casamento. Vêde vós que -desgraça, ó môças! Um menino tão rico e tão fidalgo, vi-o aqui ha -tempos na taberna de Villaverde que se não lambia, a pagar vinho ao -Alho e mais á croia da filha, e a comerem todos iscas de bacalháo com -as mãos! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando -eu era rapariguita, aquelles senhores nunca sahiam sem os seus mochillas -fardados e tinham liteiras com as armas reaes pintadas. Faziam mesmo um -respeito! O snr. Rodrigo, pai d'este morgado velho, era d'isto dos -governos lá de Lisboa, e quando vinha vêr as suas quintas, ó -senhores, cahia ahi o poder do mundo de Braga e Guimarães a visital-o! -E as fidalgas? isso então a gente, quando as via, corria logo a -beijar-lhe a mão, e ellas no dia de Paschoa mandavam as cachopas -lenços para a cabeça e regueifas de pão podre. Aquella casa estava -sempre cheia de frades das ordens ricas... -</p> -<p> -—Isso, isso ... eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar -cheias de frades de ordens ricas—dizia o José Dias de -Villalva.—Muito cheias de frades aquellas fidalgas, hein? -</p> -<p> -—Ahi vens tu com as tuas alicantinas—retrucava, pronostica e -solemne, a tia Rosa de Carude.—É o que tu estudas, meu -valdevinos. Agora é melhor que então, pois não foste? As fidalgas -d'hoje em dia presentemente fogem c'os doutores e deixam os filhos... -Isto agora é que é bom ás direitas, pois não é? No tempo antigo, -valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que conheciam -frades e creavam os seus filhos. -</p> -<p> -—Os filhos dos frades?—perguntava o Dias. -</p> -<p> -—Cala-te ahi, bôca damnada! Olha que padre havia de sahir de ti! -Ainda bem que a Martha de Prazins te fez mudar de rumo. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -A fuga da Honorata Guião com o Silveira dos Pombaes não amotinara a -opinião publica escandalisada. A excepção da austera Rosa de Carude, -toda a gente deu razão á fidalga. O Cerveira tinha amigas da ralé, -que mettia em casa—uma diversão á embriaguez, quando não exercia as -duas distracções em uma promiscuidade desaforada. D. Honorata -visitava-se unicamente com a D. Andreza da Silveira, da casa dos -Pombaes, irmã d'um bacharel delegado em Amarante. Chorava muito com -ella e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor se poderia separar-se -por justiça, antes de se atirar a uma cisterna. D. Andreza pediu ao -irmão que viesse ouvir as tristes allegações da sua desgraçada -amiga. -</p> -<p> -Estava Honorata nos trinta e tres annos, quando Silveira a encontrou nos -Pombaes. O delegado era um romantico. Emigrára em 28, sendo estudante, -quando alguns membros da sociedade dos <i>Divodignos</i> padeceram o -supplicio da forca pelo homicidio dos lentes. Completára a formatura em -38 e fôra despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus -em que havia abencerragens e infantas christãs apaixonadas que tocavam -arrabis, banhadas de lua nos revelins dos castellos roqueiros. Tambem -fazia prosa na <i>Gazeta litteraria</i> do Porto,—scenas dramaticas -em que se jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos -negros, cravavam laminas de Toledo ás portas de Dom Fuas, e, cruzando -os braços, rugiam cavernosamente: «Ah! Dom ribaldo, Dom ribaldo!» E -depois, os arrepios d'uma casquinada secca, d'um estridente grasnido de -gaivotas que se espicaçam por sobre o mar banzeiro. -</p> -<p> -A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, -d'uma elegancia de raça afinada nos salões da Bemposta, pallidez -eburnea, esmaecida, <i>airs évaporés</i>, um sorriso nobre de ironia -rebelde á desgraça, com a dupla poesia do martyrio e da belleza, -ultrapassou a encarnação viva dos ideaes do bacharel. Ella tinha pejo -de lhe contar os seus infortunios, a vida crapulosa do marido, a -libertinagem de portas a dentro com as jornaleiras, e o abandono da -educação dos filhos. Andreza é que contava tudo ao mano Adolpho na -presença da martyr. Que o Cerveira se embriagava todas as tardes e -tinha amasias da ultima gentalha que punham e dispunham em casa. Que os -meninos eram creados brutamente; que o mais velho, o Heitor, nem lêr -sabia; porque o pai tambem fazia mal o seu nome. Que tiveram um padre de -dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de lhes dar lição, -trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados, e quando era a hora -do estudo largava a enxó e vinha em mangas de camisa, sem gravata e de -socos para a sala. Que os meninos não lhe tinham respeito nenhum, por -isso o Heitor, quando elle o ameaçou com a palmatoria, respondeu que -lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe graça, e o padre foi-se embora. -Depois, entrou um velho que dava escóla em Guimarães, e os quizera -ensinar com muita paciencia; mas o Heitor e mais o Egas taes arrelias -lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata soffria aquelle -flagello desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da Victoria -de D. Pedro. Era da familia dos Guiões, muito intimos do snr. D. Miguel -e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos, -roubados, de modo que ella, ainda que quizesse fugir ao marido, não -tinha em Lisboa familia que a pudesse sustentar;—que, se não fosse -isso, já teria acabado o seu suplicio, e que muitas vezes pensára em -se matar, mas... -</p> -<p> -—Os filhinhos...—atalhou Adolpho sentimentalmente. -</p> -<p> -—Não, snr.—acudiu a dama de Carlota Joaquina—não são os -filhos. O coração de mãe só se enche do amor aos filhos quando se evapora o -amor aos pais. Eu nunca amei este homem. Imposeram-me o casamento, -aproveitaram-se do despeito que eu sentia pelas ingratidões d'um conde -que eu amava, e casaram-me á pressa. O caracter d'este homem não -peorou com a desgraça da politica; elle é o que sempre foi, com a -differença de que na côrte embriagava-se com os fidalgos, no Alfeite e -em Queluz, e por lá dormia. As mulheres que corrompia ou o corrompiam -não eram minhas creadas nem minhas conhecidas; e, se o eram, eu apenas -tinha a convicção de que elle era um devasso. Tenho cinco filhos d -este homem; mas basta que eu lhe diga, snr. doutor Adolpho, que são -d'elle, são os productos amaldiçoados de uma obrigação estupida—a -aviltadora obrigação de ser mãe quando se é esposa. -</p> -<p> -Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ler -achado nos romances uma razão tão philosophica e concludente da -Justiça com que a mãe pôde aborrecer os filhos. -</p> -<p> -—Sentia vontade de me ajoelhar diante d'ella!—dizia Adolpho á -irmã.—Que formosura e que talento, Andreza! Ó mana, eu viajei cinco -annos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no -Bois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me -penetrasse os intimos seios d'alma! Nunca, por estranha fatalidade, -nunca! Como é que eu sinto aos vinte e oito annos as palpitações d'um -coração que nasce? Que faisca de amor é esta que me lavra um incendio -devastador das alegrias d'alma que ainda hontem me douravam a -existencia? -</p> -<p> -Era o estylo hydropico de Arlincourt; mas é de crêr que exprimisse -garrafalmente a singela e natural commoção que lhe fez a gentileza, a -poesia elegiaca, a magestade inflexa d'aquella mulher a quem a desgraça -dera uma critica moderna e revolucionaria na religião das mães. -</p> -<p> -D. Andreza, escandalisada, cortava-lhe os voadouros perguntando-lhe se a -separação judicial poderia dar meios de subsistencia a Honorata. O -bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do codigo. O estado da sua -alma não lhe consentia folhear a infame prosa com mão jurisperita. -</p> -<p> -—Que havia de estudar a questão; mas que lhe parecia que ella, -requerendo o divorcio, apenas tinha alimentos por não ter trazido nada ao -casal.—Estas phrases eram mastigadas com um tedio, um engulho, como -se, depois de declamar uma <i>Contemplação</i> de Lamartine, tivesse de -recitar dois paragraphos da lei da emphyteuse. -</p> -<p> -D. Andreza era senhora ajuizada, muito séria, educada no convento de -Vairão; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras, -pondo sempre no alto do papel: <i>Jesus, Maria, José</i>. Andava nos trinta -a cinco annos, muito lymphatica e um grande horror aos vicios da carne. -O mano Adolpho conhecia-lhe a indole. Não podia esperar d'ella -applauso, nem sequer condescendencia, e muito menos auxilio á sua -affeição a mulher casada. Andreza concordava com o irmão na formosura -de Honorata; mas observava com um risinho malicioso que o não chamára -para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas sim para aconselhal-a -e dirigil-a na separação do marido por justiça. -</p> -<p> -O doutor Adolpho absteve-se de enthusiasmos, e poz-se a estudar a -questão, em conferencias com o Bento Cardoso, de Guimarães, e o Torres -e Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chavões. Mas o que elle queria era -córar as delongas nos Pombaes, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da -mana e do seu capellão, um realista finorio que sabia da poda, e trazia -a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca—e conhecia -até onde podia chegar a fragilidade de um homem sem solidos principios -de religião, estragado por essas nações. -</p> -<p> -D. Andreza andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava -começo ao processo. A Honorata apparecia-lhe radiosa, com um grande -esmero no trajar, vestidos fóra da moda, mas elegantes, ricos, de -mangas perdidas, com uns decotes que punham nos olhos do capellão -luzernas exquisitas, escrupulos. Adolpho era discreto na presença da -mana. Contava as suas viagens, durante a emigração, citava nomes de -litteratos desconhecidos á fidalga, seus amigos intimos em Pariz; ai! -Pariz!—exclamava—Se eu então me passaria pela mente que havia -de vir de Pariz para Amarante! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -—Elle porta-se muito serio—dizia D. Andreza ao padre Rocha. -Ella é que me parece mais levantada, muito azevieira, não acha? -</p> -<p> -—Acho, acho...—confirmava o capellão.—D'aqui rebenta -coisa, minha senhora; rebenta, v. ex.ª verá... -</p> -<p> -E, com effeito, estava a rebentar, na phrase explosiva do padre Rocha. O -delegado tinha correspondencia diaria com Honorata, mediante uma caseira -de sua mana, irmã d'uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendiarias -escriptas durante a noite trocavam-se de manhã, quando o Adolpho sahia -a respirar os balsamos das ribanceiras orvalhadas. Ás vezes, subia a -encosta até á crista do monte do castello de Vermuim. D'aqui, avistava-se -por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhaes a vasta -casaria pardacenta de Quadros, com dous torreões denticulados. No -andaime de um dos torreões via-se um vulto branco, com o braço -amparado em uma das ameias, e a cabeça encostada á mão como nas -baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o binoculo assestado na -fraga onde estava Adolpho, alaranjado pela primeira resplandecencia do -sol nascente. -</p> -<p> -Ao cabo de duas semanas, sahiram dos dominios da bailada. Uma noite, -partiram de Guimarães, caminho do Porto, dous cavallos do Gaitas, e -pararam na Ponte de Brito. Um dos cavallos era arreiado com selim de -senhora. Por volta da meia noite, Adolpho e Honorata, n'um passo miudo, -com uma anciedade, mixto de exultação e de susto, chegaram á Ponte de -Brito. Elle ajudou-a a sentar-se na sella; cavalgou, disse aos dois -arrieiros o seu destino, e partiram a trote largo. -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_2_1" id="Footnote_2_1"></a><a href="#FNanchor_2_1"><span class="label">[2]</span></a>Como seria de máo gosto inventar este episodio, -imponho-me o dever de affirmar que estas noticias me foram transmittidas -por um illustrado cavalheiro da Povoa de Lanhoso, o snr. José Joaquim -Ferreira de Mello e Andrade, da casa nobillissima das Argas, fallecido, -com mais de oitenta annos de idade, em 1881. Comquanto a imprensa -contemporanea, que eu saiba, não fallasse no pseudo—D. Miguel, as -revelações do ancião de Lanhoso merecem-me e são dignas de toda a -confiança. -</p> -<p> -Além d'isso, consultei o reverendo Casimiro José Vieira, tão -celebrado quando dirigia com mão armada a revolução do Minho, que se -chamou Maria da Fonte. Hoje, com 66 annos de idade, vive na sua casa da -Alegria, no concelho de Felgueiras, ao sopé do monte de Santa Quiteria, -preparando as suas <i>Memorias</i>, que devem esclarecer as obscuridades -originaes da insurreição de duas provincias. Este padre que, aos -trinta annos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a -face com o conde das Antas, respondeu assim á minha consulta: <i>Eu -apenas posso dizer a v. que foi verdade ter estado o tal impostor -occulto em casa do abbade, por que elle mesmo m'o disse; mas nada lhe -perguntei a tal respeito, por me lembrar que elle teria vergonha de se -deixar enganar, depois de lhe ter beijado a mão muitas vezes, no tempo -de estudante e seminarista, quando o snr. D. Miguel esteve em Braga, a -ponto de se ter tomado saliente para o mesmo snr. D. Miguel, como o -mesmo abbade me contou tambem, mas por isso mesmo nada mais posso -accrescentar</i>...<a name="FNanchor_3_1" id="FNanchor_3_1"></a><a href="#Footnote_3_1" class="fnanchor">[3]</a></p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_3_1" id="Footnote_3_1"></a><a href="#FNanchor_3_1"><span class="label">[3]</span></a>Carta de 11 de novembro de 1882.</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura06.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="V">V</a></h4> - -<p> -Seis annos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamellas andava em -roda viva de Barrimáo para Quadros, o Cerveira não tinha alterado -sensivelmente os seus habitos. Estava muito gordo, saude de ferro—um -desmentido triumphante aos follicularios que desacreditam as virtudes -hygienicas, nutrientes do alcool. Os vomitorios quotidianos explicavam a -depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Orçava pelos cincoenta -annos, com um arrogante aspecto marcial, de intensas barbas -grisalhas,—olhos rutilantes afogueados pela calcinação cerebral. As -filhas não mostravam vestigios alguns de educação senhoril. Aquella -Therezinha, que a Rosa de Carude denunciára, fugira para casar com o -minorista das Quintans. As outras duas, muito boçaes e alavradeiradas, -tinham amantes—uns engenheiros e empreiteiros do conde de Clarange -Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimarães. -Ninguem decente as queria para casar porque, além do descredito, o pai -não dava dote; e, desde que a mãe fugira, convenceu-se de que não -eram suas filhas. Heitor e Egas, dous galhardos moços, de jaqueta de -alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com ilhozes -amarellos, tinham eguas travadas que entravam pelas feiras n'um arranque -de rópia e pimponice, que ia tudo razo. De resto, valentes e bebedos, -possantes garanhões de femeaço reles, e muito esquivos a tratarem com -senhoras—canhestros e bestiaes. Roubavam o milho e o vinho; vendiam, -nas mattas distantes, ao desbarato, córtes de madeira e roças de -matto; além d'isso tinham umas pequenas mezadas que o pai lhes dava. -Ainda assim, a casa de Quadros não estava empenhada, prosperava, e era -das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira. Mais -nada. As filhas de Honorata quando, entre si, fallavam da mãe, -chamavam-lhe «aquella desavergonhada»; os rapazes com um desapego -desleixado que poderia fingir dignidade, nem se lembravam que tinham -mãe. Quanto ao pai, esse antes de jantar, era taciturno, casmurro, como -quem se esforça por sacudir um pesadello; e, de tarde, sumia-se para -recomeçar as suas visões luminosas interceptadas pelas trevas -momentaneas da razão. Não se sabe o que elle pensava da mulher. -</p> -<p> -Admittia pouca gente em sua casa e pouquissima á sua presença. Além -dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Villa do Conde, de -Esmoriz e S. Cosme do Valle, apenas recebia o pedreiro das Lamellas que -lhe fizera os canastros e reconstruira algumas paredes desabadas. -Conhecia-lhe o pai, o alferes, desde a batalha de Ponte Ferreira. -Mandava-lhe botijas de genebra e massos de cigarros;—que bebesse, que -se embebedasse, que os tempos não iam para outra coisa. E o alferes com -vaidade de fino: -</p> -<p> -—A quem elle o vem dizer! -</p> -<p> -Ultimamente, fallavam muito da chegada do snr. D. Miguel—«o meu velho -amigo,» dizia o Cerveira, pondo as mãos no peito e os olhos ao tecto. -</p> -<p> -—Venha elle, e vêr-me-has, Zeferino, á frente dos meus dragões de -Chaves:—Relampagueavam-lhe então as pupillas e fazia largos gestos -marciaes, com o braço tremulo como se brandisse a espada, rompendo um -quadrado; montado na phantasia, arqueava as pernas, descahia o tronco -sobre um imaginario cavallo empinado e bufava com tregeitos ferozes. Era -d'um ridiculo lacrymavel. O Zeferino dizia ao pai que ás vezes lhe -tinha medo quando elle fazia aquellas partes. -</p> -<p> -—O vinho do Porto é o diabo!—dizia o alferes com uma grande -experiencia d'essas façanhas incruentas—é o diabo! -</p> -<p> -O Zeferino, na volta de Santa Martha de Bouro, contou-lhe o que soubera -em casa do capitão-mór. O tenente-coronel quiz immediatamente partir -para Lanhoso; mas não tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. -As fardas estavam traçadas, podres com um bafio de rodilhas no fundo de -uma arca; dos galões restava um tecido esbranquiçado com laivos -verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas mãos roido pelos -ratos. Não tinha casaca. Desde a convenção d'Evora Monte, mandava -fazer a Guimarães uns ferragoules de mescla á laia de capote de -soldado para o inverno; de verão, para equilibrar o calor artificial -interno com o da atmosphera, andava em ceroulas e fazia leque da fralda. -Por decencia, fechava-se nos seus aposentos. Mandou chamar um alfaiate a -Braga, o Cambraia da rua do Souto, para se vestir á militar e á -paizana. -</p> -<p> -Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu -padrinho de Barrimáo e mais o frade não acreditavam que el-rei -estivesse em Calvos; que era uma comedella do dr. Candido d'Anêlhe e -dos padres para apanharem cincoenta contos á D. Isabel Maria; que os -generaes do snr. D. Miguel não sabiam de nada. -</p> -<p> -O Cerveira Lobo esfriou. Tambem me parece, dizia, que se o meu velho -amigo D. Miguel ahi estivesse, já me tinha mandado chamar. -</p> -<p> -Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijára a mão -d'el-rei, o pedreiro e o tenente-coronel já não podiam duvidar. -Combinou o fidalgo com Zeferino que partisse elle para Lanhoso, e -dissesse ao capitão-mór que o levasse a Calvos, e o abbade que -participasse a el-rei que estava alli um proprio com uma carta de Vasco -da Cerveira Lobo, tenente-coronel de dragões. -</p> -<p> -—Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, immediatamente, n'um -prompto. Depois, põe-te de joelhos, e entrega-lhe a carta, percebeste? -Tu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho -cá o fardamento. No caso que sua magestade me mande ir vou, se não, -trato de chamar ás armas cinco ou seis mil homens com que posso contar. -</p> -<p> -Zeferino, para evitar questões atrasadoras, não disse nada ao padrinho -nem ao pai, receando as expansões usuaes da carraspana. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O Cerveira dizia ao padre Rocha, capellão de D. Andreza:—Idéas não -me faltam; mas esqueci aquillo que se chama ... sim aquillo com que se -escreve, quero dizer... -</p> -<p> -—Ortographia? -</p> -<p> -—É como diz, padre Rocha, ortographia. -</p> -<p> -Era o exordio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava -no concelho da Povoa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que não -se mettia n'isso; e accrescentava:—elle, o rei, aqui ha treze annos -sabia tanta ortographia como eu; mas agora dizem as gazetas que elle -estudou coisas e coisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe -escrevesse a carta para elle a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a mão -no hombro:—E ouviu, padre? Vá pensando no que quer; uma boa abbadia, -S. Thiago d'Antas, hein? serve-lhe? ou antes quereria ser conego? Emfim, -pense lá... Nós cá estamos ás ordens. -</p> -<p> -O padre era a fina flôr do clero realista. Sensato, intelligente e -honesto. Primeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia-voz a chegada do -seu amigo e rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. -Depois, reparando mais nas attitudes firmes e desempeno da lingua, -julgou-o sandeu, amollecimento cerebral pela alcoolisação;—por fim -convenceu-se de que o pobre homem era enganado e escarnecido por alguns -disfructadores. O padre tinha muita compaixão do fidalgo que a mulher e -as filhas enlameavam torpemente. Elle avisára D. Andreza que, no dia em -que o snr. doutor Adolpho entrasse nos Pombaes pela porta principal, -elle sahiria pela porta travessa; e a fidalga levára tão a mal o -proceder do irmão que pensava em fazer testamento para que os filhos -d'elle e de Honorata lhe não herdassem as quintas. Sabia-se n'esse -tempo que o doutor Adolpho da Silveira era juiz de direito nos Açores e -tinha comsigo uma formosa amante com tres meninos. -</p> -<p> -A unica idéa com que o Cerveira contribuiu para a redacção da carta -foi que escrevesse:—«se vossa magestade precisa de dinheiro, diga o -que quer que eu até onde chegarem as minhas posses está tudo ás -ordens del-rei meu senhor.» -</p> -<p> -O padre Rocha não sé esquivou a collaborar na indromina, dizia elle a -D. Andreza,—porque «eu, pela resposta da carta, hei-de seguir o fio -da esparrela que querem armar ao parvo do homem.» -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir commentarios, -explicações. Que estava uma obra profunda—dizia o fidalgo instruido -em fim nas obscuresas do estylo. -</p> -<p> -E, tirando seis pintos do bolso do colete: -</p> -<p> -—Ahi tem para o seu rapé, merece-os. -</p> -<p> -O capellão não acceitou; pediu que os applicasse por sua intenção ás -necessidades do snr. D. Miguel. -</p> -<p> -—É um realista ás direitas, padre, um grande realista!—E, -guardando os seis pintos, abraçou-o effusivamente e offereceu-lhe um -calice de 1817. -</p> -<p> -—Eu desejaria muito vêr a resposta de sua magestade—dizia o -padre Rocha. -</p> -<p> -—Isso é logo que ella chegar, padre! pois então? Cá entre nós não -ha segredos; e, se o amigo quizer, no caso que el-rei me mande ir, vai -commigo, e póde logo vir despachado. Pois então? -</p> -<p> -—Está dito!—e o padre com um regosijo muito comico, e o calice -aromatico de baixo do nariz:—Quem sabe se eu ainda serei arcebispo, ó -snr. tenente-coronel! -</p> -<p> -—Ora! como dous e dous são quatro! Ha-de ser arcebispo, não -tenha duvida. Isto vai tudo mudar!—E carregava-lhe forte no -1817.—Arre! estou aqui mettido ha doze annos n'estes montes, que -me tem levado os diabos! Tenho 49 annos: mas este punho ainda póde com -a espada! Ha-de haver pancadaria de criar bicho! Olé! Eu dizia ás -vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedvem, e o Matta e o Miguel -Alcaide davam cacetada nos malhados que aquillo não era bonito. Pois -agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe: «É p'ra baixo, real senhor! -môcada de metter os tampos dentro a esses malhados! E acabar com elles -por uma vez! uma forca em cada concelho, real senhor, muitas forcas! Ah! -meu camarada Telles Jordão! tu é que a sabias toda!» -</p> -<p> -O Cerveira começava a gaguejar, a cambalear, e entornava o calice. O -padre despediu-se. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura07.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="VI">VI</a></h4> - -<p> -Na residencia do abbade Marcos Rebello, em S. Gens de Calvos, havia uma -sala com alcova e janellas sobre uma horta arborisada. As pereiras, -macieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no começo de abril. -Alli, n'aquellas frigidas alturas, sopram as ventanias mordentes de -Barroso, do Gerez, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das -crystallisações glaciaes. Fazia frio. Na saleta caiada, muito -excrementicia de moscaria, com tecto de castanho esfumaçado e o -pavimento lurado do caruncho, havia a um lado duas caixas de cereaes, no -outro algumas cadeiras velhas de nogueira de diversos feitios, -esfarpeladas no assento; nas paredes duas lytographias—o retrato de -D. João VI com o olho velhaco e o beiço belfo, e o marquez de Pombal -sentado com o decreto da expulsão dos jesuitas, apontando -parlapatonamente para a barra onde alvejam pannos de navios que levam os -expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada de escarros seccos de -antigas catarrhaes, destacavam molduras de carvalho com dois paineis a -oleo cheios de grêtas, S. Jeronymo no deserto, com uma cara afflicta, -de tic doloroso, e Santo Antonio de Padua, n'um sadio <i>en bon point</i>, -um bom sorriso ingenuo, com o Menino Jesus sentado, muito nutrido, em uma -bola que os agiologos diziam ser o globo terraqueo. No centro da quadra -estava uma banca de pinho pintada a ocre, com uma coberta de cama, de -chita vermelha, com araras, franjada de requifes de lã variegada. Ao -lado da banca, uma cadeira de sola, com espaldar em relevo e pregaria -amarella com verdete; do outro lado havia um fogareiro de ferro com -brazas e uma cesta de vêrga cheia de carvão. Entre as duas pequenas -janellas de rotulas interiores e cachorros de pedra, trabalhava -estrondosamente um relogio de parede com os frisos do mostrador sem -vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna, de ventres -brancos muito inchados e as azas abertas. -</p> -<p> -Dez horas. Abriu-se então a porta da alcova que ringiu ligeiramente na -couceira desengonçada, e sahiu um sujeito de mediana estatura, hombros -largos, barba toda com raras cans, olhos brilhantes, pallido-trigueiro, -um nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta annos. -Sentou-se á brazeira e preparou um cigarro, vagarosamente, que accendeu -na aresta chammejante de uma braza. Com o cigarro ao canto dos labios e -um olho fechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidraças, -e poz fóra a mão a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a -mão com desagrado e fechou a janella. Vinha subindo a escada de -communicação com a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, -meias azues de lã e ourelos achinelados. Pediu licença para entrar, -fez uma mesura de joelhos sem curvar o tronco, e perguntou: -</p> -<p> -—Vossa magestade passou bem? -</p> -<p> -—Optimamente, Senhorinha, passei muito bem. -</p> -<p> -—Estimo muito, real senhor. O snr. abbade foi chamado ás oito horas -para confessar uma fregueza que está a morrer d'uma queda, e deixou -dito que puzesse o almoço a vossa magestade, se elle não chegasse ás -nove e meia. -</p> -<p> -—Quando quizer, Senhorinha, quando quizer, visto que o abbade deu -essas ordens e quem manda aqui é elle. -</p> -<p> -Da cozinha vaporava um perfume de salpicão frito com ovos. Sua -magestade farejava com as narinas anhelantes, n'um forte appetite. A -creada voltou com toalha, guardanapo, loiça da India, talheres de -prata, e uma travessa coberta. Sua magestade, muito familiar, tirou de -sobre a mesa uns cadernos escriptos, cosidos com sêda escarlate, e um -grande tinteiro de chumbo com pennas de pato. -</p> -<p> -—Ora vossa magestade a incommodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso, -real senhor! Não que uma coisa assim! Um rei a... -</p> -<p> -E o real senhor: -</p> -<p> -—Ande lá, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei é um homem como qualquer -homem. -</p> -<p> -—Credo! faz muita differença ... mesmo muita... -</p> -<p> -Ella descobriu a travessa a rir-se: -</p> -<p> -—Vossa magestade diz que gosta... -</p> -<p> -—Sardinhas de escabeche? Se gosto!... Vamos a ellas que estão a -dizer—comei-me. -</p> -<p> -E atirou-se ás sardinhas com uma sofreguidão pelintra. -</p> -<p> -Depois, serviu-lhe rodelas de salpicão com ovos. Sua magestade gostava -muito d'estas comezanas nacionaes. Já tinha comido tripas, e dizia que -no exilio se lembrára muitas vezes d'esta saborosa iguaria com feijão -branco e chispe, que tinha comido em Braga. O abbade de Calvos -sensibilisava-se até ás lagrimas quando via el-rei a esbrugar uma unha -de porco e a limpar as regias barbas oleosas das gorduras suinas. O -terceiro prato era vitella assada. A Senhorinha trazia-lh'a no espêto, -porque sua magestade gostava de ir trinchando finas talhadas, emquanto a -cozinheira, de cocoras ao pé do fogareiro, conservava o espêto sobre -o brazido, a rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real hospede -um vinho branco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, proprietario do -Douro, que estava no segredo do ditoso abbade de Calvos—capellão-mór -d'el-rei e dom prior eleito de Guimarães. -</p> -<p> -A creada assistia muito jovial áquella deglutição formidavel, e dizia -particularmente ao abbade:—Este senhor, pelo que come, parece que tem -passado muitas fominhas! Ninguem hade crêr o que sua magestade atafulha -n'aquelle bandulho!—e dizia que lhe dava vontade de chorar, -lembrando-se das lazeiras que elle tinha apanhado; porque o abbade -contava que lêra no <i>Deus o quer</i>, do visconde de Arlincourt, que o -snr. D. Miguel, em Roma, não tinha ás vezes 10 réis de seu para -almoçar uma chicara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade -aquillo—que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a -fome a ceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassallos pelos -sessenta contos anuaes que lhe offereceram da Casa do Infantado, e que -elle rejeitara. -</p> -<p> -Por fim, vinha o café. As fatias eram torradas ali, no fogareiro. S. -magestade barrava-as de manteiga nacional,—preferia a manteiga do seu -paiz, como a vitela, e o lombo do porco no salpicão portuguez, e o pé -do porco nas tripas tambem portuguezas—tudo do seu paiz. Que rei, que -patriota!—meditava o abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra, -esmoncando-se e aparando as lagrimas ternas no alcobaça. -</p> -<p> -No fim do copioso almoço, el-rei fumava charutos hespanhoes, de -contrabando; desabotoava o colete, dava arrôtos, repoltreava-se na -cadeira de sola um pouco desconfortavel, e vaporava grandes columnas de -fumo que se espiralavam até ao tecto. -</p> -<p> -A Senhorinha veio á beira d'el-rei, e disse baixinho: -</p> -<p> -—Saberá vossa magestade que está ali o snr. Trocatles. -</p> -<p> -—O...? -</p> -<p> -—Ai! Já me esquecia ... o snr. visconde.... -</p> -<p> -—Que suba. -</p> -<p> -O sujeito que entrou era o Torquato Nunes, um sargento do exercito -realista, de S. Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcôva. -</p> -<p> -A cozinheira dizia em baixo á outra creada de fóra:—Ó coisa! Mal -diria eu que ainda havia de chamar visconde ao safardana do Trocatles! -</p> -<p> -E a outra, benzendo-se:—Não que elle, o mundo sempre dá voltas! Veja -você! aquelle moinante que me pediu uma vez dois patacos p'ra cigarros, -e por signal que nunca m'os pagou! -</p> -<p> -—Pois vês-ahi! Foi elle o primeiro que conheceu o snr. D. Miguel, é o -que foi, a sua magestade gosta muito d'elle. Foi feliz o diabo do homem! -Aquillo vai a governo, tu verás; e já ouvi dizer que o sobrinho -d'elle, o padre Zé da Eira, o de Rio Caldo, que é zanagra, está -conego. Limparam-se da carepa, é o que é. A mulher d'elle já botou no -domingo passado a sua saia e jaqué de panno azul. -</p> -<p> -—E que rico panno! -</p> -<p> -—Pois vês-ahi... -</p> -<p> -Entrava n'esta conjunctura o abbade, esfadigado, suarento—que -levasse o diabo a freguezia, que pouco tempo havia de aturar maçadas -d'aquellas, para confessar uma bebeda de uma velha que tinha bebido de -mais na feira da Povoa e cahira d'um valado abaixo. E -elle?—perguntava—almoçou bem? -</p> -<p> -—Ora! não ha que perguntar, senhor! Aquillo, salvo seja, é como a cal -d'uma azenha. É quanto lhe deitarem p'rá tripa. Coisa assim! Subiu -agora p'ra lá o Nunes. Ai! já me esquecia, ó snr. abbade! Olhe que na -villa já perguntaram se cá na casa estavam hospedes, porque vinham -p'ra cá muitas comida. Que não vão elles pegar a desconfiar... Esta -pergunta á moça traz agua no bico. -</p> -<p> -—E tu que respondeste, moça? -</p> -<p> -—Que vinham por cá jantar uns senhores padres, que agora era tempo de -confesso... -</p> -<p> -—Andaste bem. -</p> -<p> -Quando o padre Marcos Rebello subia á sala, pedindo licença a meio da -escada, já o rei e o visconde vinham sahindo da alcôva—um, aprumado -na attitude da magestade, o outro, na do respeito, muito composto. -</p> -<p> -—Pede licença na sua casa, dom Prior?—disse el-rei. -</p> -<p> -O dom prior de Guimarães genuflectiu a perna direita; o soberano -apressou-se a erguel-o. -</p> -<p> -Nada de etiquetas, já lh'o disse duzias de vezes. -</p> -<p> -—Não posso nem devo proceder d'outra maneira, senhor! -</p> -<p> -—Póde e deve que o mando eu. -</p> -<p> -E o abbade, inclinando-se com os brados em cruz sobre a batina: -</p> -<p> -—Saberá vossa magestade que o snr. capitão-mór de Santa Martha, a -quem vossa real magestade fez barão de Bouro... -</p> -<p> -—Bem sei ... aquelle amavel cavalheiro... -</p> -<p> -—Perfeito cavalheiro—attestou o Nunes. -</p> -<p> -—Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas mãos de vossa -magestade. -</p> -<p> -El-rei leu alto: -</p> - -<blockquote><p> -<i>Amigo Dom Prior de Guimarães.—Um realista do concelho de Famalicão -chegou ha pouco a esta casa, afim de que eu escrevesse ao meu nobre e -velho amigo para obter de S. M. licença para lhe apresentar como -portador de uma carta do snr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e -tenente-coronel que foi do regimento de dragões de Chaves. Diz elle que -o snr. D. Miguel fôra amigo pessoal do dito tenente-coronel, e por isso -entende, e eu tambem que será muito ao real agrado do nosso rei e -senhor receber a carta d'este legitimista que nos pôde ser muito util, -já pelo seu nome, como tambem pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. -M. F., queira transmittir-m'as</i>...</p></blockquote> - -<p> -—Estou-me recordando—dizia o principe pausando as suas -reminiscencias—<i>Cerveira Lobo</i> ... <i>tenente-coronel de -dragões</i>... O Cerveira, o meu amigo Cerveira... -</p> -<p> -—Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os -liberaes com a cavallaria e mais o coronel de dragões, o -Albuquerque—lembrou o Nunes, o visconde Nunes—V. magestade -lembra-se? -</p> -<p> -—Perfeitamente. Dom prior, queira escrever ao barão e dizer-lhe que -espero anciosamente a carta do meu amigo Cerveira. -</p> -<p> -Emquanto o abbade ia ao seu quarto escrever, o hospede disse ao ouvido -do outro: -</p> -<p> -—Isto corre mal... -</p> -<p> -—Porque?! -</p> -<p> -—Se o homem cá vem, o meu <i>grande amigo</i>... -</p> -<p> -—Recebel-o como o teu <i>grande amigo</i>... -</p> -<p> -—Se me falla em particularidades ... -</p> -<p> -—Elle não sabe fallar em particularidades. É uma besta, muito rico, e -disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que está sempre -bebedo. Nem elle cá vem, tu verás ... Eu até acho que as coisas -correm perfeitamente.—Ouviam-se os passos do abbade.—Tem -dinheiro, elle tem muito dinheiro, ouviste? -</p> -<p> -Entrou o abbade. -</p> -<p> -—Só duas palavras. E leu: <i>S. Magestade recebe com muito prazer a -carta do snr. tenente-coronel Cerveira Lobo</i>. -</p> -<p> -—Muito bem,—approvou el-rei.—Hoje á noite, com todos os -resguardos que urgem as cautelas. -</p> -<p> -—Um homem, o Caneta de Braga, o chapelleiro com uma -carta—annunciou Senhorinha—só a entrega em mão propria ao -snr. abbade. -</p> -<p> -—Que entrasse. -</p> -<p> -O rei e o visconde metteram-se á alcova, simulando receios. -</p> -<p> -Era uma carta do abbade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a -honra de enviar a el-rei cem peças, donativo que as senhoras Botelhas, -de Braga, offereciam de joelhos a S. M. F. e diziam que todos os seus -haveres estavam as ordens d'el-rei seu senhor. -</p> -<p> -E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de sêda -escarlate. E o Caneta muito pontual. -</p> -<p> -—Queria um recibinho, se lhe não custa, reverendo snr. abbade. -</p> -<p> -—Venha d'ahi que eu passo-lhe o recibo. -</p> -<p> -Os dois sahiram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Elles tinham -ouvido fallar em recibo. O visconde Nunes, esgaziando os olhos, foi -apalpar o embrulho, e muito baixinho: -</p> -<p> -—Arame! peza que tem diabo! é oiro! Começa a pingadeira! Vês? -</p> -<p> -O outro arregalou os olhos e deitou a lingua de fóra quanto lhe foi -possivel. Nem parecia um rei! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura08.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="VII">VII</a></h4> - -<p> -As sete da noite a soirée do monarcha de Calvos compunha-se do visconde -Nunes, seu secretario privado e brigadeiro de infanteria, do abbade -capellão-mór de el-rei, de dois reitores, conegos despachados, e o -ex-sargento-mór de Rio Caldo nomeado capitão-mór de Lanhoso. Estavam -todos em pé resistindo á licença de se sentarem. A cadeira de sola -estava com o principe encostada ao relogio; e, na mesa central, papeis, -o tinteiro de chumbo, o <i>Novo Principe</i>, de Gama e Castro, a <i>Besta -esfolada</i> e o <i>Punhal dos corcundas</i>, do bispo fr. Fortunato. Em -cima das caixas do milho estavam em meio alqueire com feijões brancos -destinados ás tripas, e dois folles vasios que a Senhorinha tencionava -encher de grão para a fornada quando el-rei se recolhesse. Sobre um dos -folles resbunava um gato enroscado. -</p> -<p> -Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira. -</p> -<p> -Ás oito horas annunciaram-se os adventicios. O barão de Bouro entrou -primeiro a passo mesurado, com o peito alto, e o pescoço hirto n'uma -gravata enchumaçada, preta, de cordãosinho de arame, sem laço, -atacando os lobulos das orelhas, um pouco reintrante na altura dos -gorgomilos. Usava oculos de oiro quadrados, e uma pêra grisalha; de -resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada, de -abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; de cós das -calças, côr de gemma de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha -com o retrato de D. Miguel aos vinte e dous annos, a uma peça de oiro -com a mesma real effigie. No peito da camisa, entre as lapellas do -collete de velludo côr de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, -em miniatura, enygma convencional dos cavalleiros de S. Miguel da Ala, -obra patriota do ourives Novaes, pai do poeta Faustino. -</p> -<p> -De pés elle, entrou o Zeferino das Lamellas, muito enfiado, n'um -spasmo, sentindo-se aluir pelos joelhos. Ia de niza de panno azul com -botões amarellos, calça branca espipada com joelheiras pelos atritos -do alhardão. As pernas das calças chegavam apenas a meio cano das -botas, que pelo tamanho dos pés dir-se-iam roubadas a um gigante. -</p> -<p> -O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco á mão esquiva de sua -magestade. Por de traz d'elle, o Zeferino ajoelhára batendo com ambas -as rotulas no taboado. O barão ia fallar, quando o rei, reparando no -outro, disse: -</p> -<p> -—Levante-se, homem! Isto aqui não é capella. -</p> -<p> -O pedreiro teimava, achava-se bem n'aquella postura que o dispensava de -procurar outra. -</p> -<p> -—Sua magestade manda-o levantar—disse o visconde Nunes. -</p> -<p> -Ergueu-se, e n'um impeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira, -quando o capellão-mór lhe observou que as cartas se entregavam ao -secretario. -</p> -<p> -O barão expoz que não pudéra resistir aos pedidos que aquelle honrado -legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque não se atrevia a -entrar sósinho á presença d'el-rei, seu amo. Que era filho de um -bravo alferes, o Gaspar das Lamellas, que em 1838, á frente de 300 -homens, atacára a villa de Santo Thyrso, dando vivas a el-rei. Contou a -façanha de atravessar o Ave a nado em janeiro, com a espada nos dentes, -e que por causa d'isso entrévecera e nunca mais se levantou. -</p> -<p> -—Oh!—interjecionou compungidamente o monarcha.—Eu -ignorava esse notavel ataque ... estava em Roma, sem noticias... Digno -homem o meu honrado e bravo ... como se chama seu pai? -</p> -<p> -—Saberá vossa magestade que se chama Gaspar Ferreira. -</p> -<p> -E o rei: -</p> -<p> -—Visconde, escreva na lista. -</p> -<p> -O Nunes sentou-se á mesa, pedindo venia a sua magestade que ditou: -</p> -<p> -—<i>Gaspar Ferreira, reformado em coronel de infanteria, com -vencimento desde 1838</i>. Escreva á margem: <i>Batalha de Santo -Thyrso</i>. E voltando-se para Zeferino que ladeava para a parede: -</p> -<p> -—Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencerá -soldo dos sete annos passados. -</p> -<p> -O Zeferino abriu a bôca para dizer o que quer que fosse. -</p> -<p> -—A carta do meu velho amigo Teixeira?—perguntou o rei ao -visconde Nunes. -</p> -<p> -—<i>Cerveira</i>, perdôe vossa magestade, Cerveira Lobo. -</p> -<p> -—Ah! sim ... Cerveira Lobo. -</p> -<p> -Abriu, leu para si, passou a carta ao secretario, e commentando -exultante: -</p> -<p> -—Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com -homens assim dedicados, o triumpho é certo. Posso dizer com o grande vate -Camões: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>E dir-me-heis qual é mais excellente</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Se ser do mundo rei, se de tal gente.</i></span> -</div></div> - -<p> -Um dos reitores que estavam na penumbra, lá em baixo ao pé das caixas, -olhou com espanto para o outro, que lhe disse á puridade, -discretamente: -</p> -<p> -—Diz que elle tem estudado o diabo ... até o latim! -</p> -<p> -El-rei proseguiu: -</p> -<p> -—Vou responder por meu proprio punho ao meu nobre amigo. É digno -d'esta e de maiores considerações. Visconde, escreva na lista: -<i>Vasco da Cerveira Lobo, general de cavallaria, e conde de Quadros</i>. -Depois, tirou de uma velha pasta de papellão uma folha de almasso, -sentou-se a escrever—e que conversassem. -</p> -<p> -O abbade, capellão-mór, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro -e pasteis de Guimarães, cavacas do convento dos Remedios e forminhas. -</p> -<p> -Havia mastigação de mandibulas pesadas; as forminhas eram frescas, -muito torriscadas, davam rangidos n'uma trincadeira voluptuosa. -Conversava-se em dous grupos. O sargento-mór de Rio Caldo contava -passagens de caça no Gerez, com emphaticos arremedos, movimentados, da -altaneria. Que o porco bravo viera direito a elle, e cortava matto, -troncos de giestas como a sua coxa—e mostrava—; tinha apanhado -de raspão a cadella, a Ligeira, raça de todos os diabos que o atacava -pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e elle então cahira -sobre a esquerda, e trepara á fraga da Portella, e esperára o porco na -clareira; e mal elle apontou, <i>pumba</i>! metteu-lhe tres zagalotes no -quadril. -</p> -<p> -—A gente a fallar incommóda talvez el-rei...—observou o barão -de Bouro. -</p> -<p> -—Podem conversar á vontade, que não me incommodam. -</p> -<p> -—Aquillo é que é cabeça!—disse baixinho, tocado, um dos conegos -a outro conego. -</p> -<p> -Generalisou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes laconicos, circumspectos, -com um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de -olhos.—A virar! a virar!—Carminavam-se os conegos. O dom Prior -de Guimarães suggeriu uma lembrança graciosa ao barão. Que havia dois -<i>padres Marcos</i>, ambos priores de Guimarães. Mas o legitimo, o de S. -Gens de Calvos, dizia do outro: -</p> -<p> -—Forte bebedo! -</p> -<p> -O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e emquanto os padres n'um -crescendo palavroso, expluiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o -secretario privado curvou-se sobre o hombro de el-rei e segredou-lhe: -</p> -<p> -—Carrega-lhe! -</p> -<p> -—Ora!... -</p> -<p> -—Quanto? -</p> -<p> -—2. -</p> -<p> -—3. Anda-me. 3. -</p> -<p> -—Será muito!... -</p> -<p> -—Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa. -</p> -<p> -E, em voz alta e voltado para o grupo: -</p> -<p> -—El-rei pergunta se o snr. Conde de Quadros tem familia, se tem -senhora e filhos. -</p> -<p> -O Bezerra perguntou ao Zeferino. -</p> -<p> -—Que soubesse sua Magestade, disse o pedreiro, mais animado, que o -fidalgo de Quadros tinha dois rapazes e tres raparigas, uma já casada; -mas que a fidalga, a mulher d'elle, aqui ha annos atraz, tinha fugido -com o doutor dos Pombaes, e nunca mais voltára. -</p> -<p> -—Desgraças!—disse o capelão-mór—desgraças! A corrupção -dos tempos... Se se não acudir quanto antes a isto, não sei que volta se -lhe ha-de dar. -</p> -<p> -Fez-se um silencio condolente. Todos sentiam o caso infausto. -</p> -<p> -O rei continuava a escrever, de vagar, pulindo a frase, boleando os -periodos; achava difficuldades em se medir com as locuções redondas e -muito adjectivadas da rethorica do padre Rocha. Animava-o, porém, a -idéa de que D. Miguel não tinha fama de sabio, e que a sua carta seria -mais verosimil com alguns aleijões grammaticaes. -</p> -<p> -Releu a carta, e accrescentou ás virgulas. Pediu obreia ao Munes. -Acudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, -cuidadosamente recortada. -</p> -<p> -O envelope ainda não tinha subido até Lanhoso. Sua magestade dobrou em -quatro a folha do almaço e sobrescriptou—<i>Ao conde de Quadros, -general do Exercito real</i>. -</p> -<p> -N'esta occasião, o Christovão Bezerra chamou de parte o Nunes, -fallou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: «se for do agrado de sua -magestade.» -</p> -<p> -—Eu vou fallar a el-rei—disse Nunes com satisfatoria -condescendencia. -</p> -<p> -Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco -inclinado, e fallou-lhe baixo. -</p> -<p> -—Sim—respondeu o monarcha. -</p> -<p> -—Está servido, snr. barão—communicou o secretario, e foi -registar no livro das mercês, proferindo em voz alta: <i>Sua magestade -há por bem nomear sargento-mór das Lamellas Zeferino Ferreira, em -attenção aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira</i>. -</p> -<p> -—Vá agradecer a el-rei, snr. sargento-mór—disse o barão de -Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao -homem. -</p> -<p> -—Levante-se, amigo—disse o principe.—Aqui tem a resposta -da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessario que ninguem veja este -sobrescripto. Tome sentido, que ninguem saiba a quem esta carta é -dirigida. Vá com Deus, e estimarei vêl-o aqui, snr. sargento-mór, com -outra carta do meu honrado amigo, emquanto não posso abraçá-lo -pessoalmente. Adeus. -</p> -<p> -A côrte sahiu em recuansos, dando-se mutuos encontrões para não -voltarem as costas á magestade. -</p> -<p> -A creada appareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a -cela prompta, e que o frango com arroz não esperava—que era preciso -comêl-o logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Geava sempre -com el-rei e com o abbade. -</p> -<p> -O Zeferino, que tinha ali a egua e conhecia o caminho, não quiz ir -pernoitar a Santa Martha de Bouro. Havia luar e sahia um rancho de -romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao -outro dia de tarde apeava no sonoro pateo da casa de Quadros por onde -entrára com a egua em grande estropeada, com a cara escandecida n'uma -congestão de jubilo. -</p> -<p> -O Cerveira estava a dormir a sesta. -</p> -<p> -—Apanhou-a hoje d'aquella casta! Como um cacho!—informou um -caseiro.—Mandou apparelhar a poldra castanha do snr. Egas, com os -coldres das pistolas, escanchou-se na sella, com a espada desembainhada -e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: «Avança, -dragões! carrega, esquadrão!» Eu estava a vêr quando o levava a -breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como -um dez!... Depois o snr. Egas e mais o snr. Heitor lá o apearam como -puderam, e foram-n'o pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez -por outra apanhe um pifão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é -muito feio! E depois ninguem se entende com elle. Medra com o suor dos -pobres. Um fona. Que vá para o diabo, que o carregue. Tanto se me dá -como se me deu. Se me mandar embora, boas noutes. Não é capaz de -perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de -renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o matto e os -pinheiros, uma vergonha, porque elle, a dois homens gastadores, que tem -amigas, uma a cada canto, dá cada mez vinte pintos para os dois! O -homem deve ter muita somma de peças enterradas! Qualquer dia cae-lhe -ahi em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até -elle pôr ali o dinheiro á vista. Diz que quer comprar mais terras, e -aqui ha dias offereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião. -Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco -réis que são cinco réis á filha, á D. Therezinha que casou com o -estudante das Quintans. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o -serviço da cozinha. E estão ahi as outras duas, que parecem umas -fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noute por -esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem -paredes para se irem metter com ellas na casa do palheiro. Uma vergonha, -mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me -parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé -em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha, uma toupeira. Deus -nos livre de bebedos! Deus nos livre de bebedos! Você bem sabe o que -isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco -que aturar a seu pai que tambem as agarra muito <i>profeitas</i>! Olhe você -como elle se tolheu quando foi, dia de natal, dar fogo aos de S. Thyrso! -Aquillo só com meio almude no bucho! -</p> -<p> -—Não é tanto assim—atalhou o sargento-mór de -Lamellas.—Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graieiro na -aza; mas o que elle fez não era você capaz de o fazer, tio Manoel. -</p> -<p> -—Ah! isso não, bem o póde dizer, mestre Zeferino. Nunca me -emborrachei, aqui onde me vê com cincoenta annos já feitos; mas, se -algum dia me emborrachar, que ninguem está livre d'isso, prego-me a -dormir e não vou atirar-me ao Ave em dezembro! ágora vou, se Deus -quizer. Vai-se pôr o alma do diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual -Miguel nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier ha-de fazer tanto caso -de seu pai como eu d'aquella bosta que ali está. O que elle devia era -tratar de conservar os terrões, e fazer como você que se pôz a -trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta -das terras. E d'ahi? Você hoje tem o seu par de <i>mel</i> cruzados, -ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava -quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou -não é? -</p> -<p> -—Isso acabou—respondeu com desdem, irritado.—Agora não a -queria nem que elle a dotasse com tres contos; entenda você o que lh'eu -digo, tio Manoel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas -brevemente o saberá. Pouco ha-de viver quem o não vir. -</p> -<p> -—Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem -capazorio, honrado... -</p> -<p> -—Quero cá dizer outra, coisa... Você não entende... E Ouvindo abrir -uma janella—lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir. -</p> -<p> -E afastando-se do caseiro, ia dizendo comsigo: -</p> -<p> -—Que tal está o labroste! Um homem vem de fallar com el-rei, e topa -com uma cavalgadura d'estas! Canalha ordinaria!... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura09.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="VIII">VIII</a></h4> - -<p> -Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua -intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o -sobrescripto com estranheza, e disse que a carta não era para elle; e -lia: <i>Ao conde de Quadros, general da exercito real</i>.—Isto que -diabo -é? -</p> -<p> -—É isso mesmo, fidalgo; isso que ahi está vi-o eu com estes olhos -escrever el-rei o snr. D. Miguel, hontem á noute, das nove para as dez. -O snr. conde é vossa exccellencia mesmo, e eu sou sargento-mór das -Lamellas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi -despachado coronel por el-rei. -</p> -<p> -—O teu pai?! coronel!... -</p> -<p> -—É como diz. -</p> -<p> -—Ora essa! ... coronel! caramba!—disse despeitado; -parecia-lhe iniqua a promoção; mas occorreram-lhe os velhos caprichos -analogos d'el-rei; as injustiças d'algumas patentes superiores desde -1828 até á convenção. E abriu a carta com moderado enthusiasmo. -Parecia que a sua razão immergida, restaurada depois de duas horas bem -roncadas, de papo acima, queria duvidar da authenticidade de um D. -Miguel que fazia sargento-mór um pedreiro, e coronel um reles alferes -que passára das milicias de Barcellos para infanteria. Achava natural e -plausivel em si as charlateiras de general e a corôa de conde; mas as -mercês feitas aos dous plebeus... Caramba!—Uma intermittencia de -juizo. Emfim, abrira a carta e lêra para si com uma custosa -interpretação, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos. -</p> -<p> -A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, -illuminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do -convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um snr. D. Miguel -authentico, o auctor da carta. Conhecia-lhe a lettra. Lembrava-se muito -bem; era assim; e então a assignatura—<i>Miguel, Rei</i>—era -tal qual. Chegou a um certo periodo que devia impressional-o mais pela -mudança subita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente -a carta. -</p> -<p> -O Zeferino esperava a confidencia do contheudo; mas o fidalgo, apesar da -nobilitação do sargento-mór, continuava a consideral-o o pedreiro que -lhe fizera os canastros e reconstruira as paredes da cozinha. Não -estava assaz bebedo para confidencias.—Conta lá o que te aconteceu, -Zeferino—e sentando-se, metteu o saca-rolhas á botija de Hollanda. -</p> -<p> -O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do -rei, as barbas que mettiam respeito: pausava como elle os dizeres, dando -ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, -peorados na fórma, os elogios que o snr. D. Miguel fizera ao seu amigo -Cerveira; que quando estava a escrever, perguntou se o conde de Quadros -tinha filhos. -</p> -<p> -O fidalgo sentia muita sêde. Misturava de meias a genebra com agua -assucarada. E ao passo que lhe'sorriam as alvoradas do seu mundo -phantastico, e as trevas da razão se desteciam, crescia-lhe o interesse -na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não -havia já no seu espirito passageira sombra de duvida. Era o seu amigo -D. Miguel quem estava em S. Gens de Calvos; e, se elle fizera coronel o -plebeu das Lamellas e sargento-mór o pedreiro, foi decerto com a -intenção de o obsequiar a elle, para lhe mostrar com que prazer -recebera a sua carta. -</p> -<p> -—Sua magestade disse-me que estimava lá vêr-me com outra carta do -snr. conde, emquanto não ia lá abraçal-o—esclareceu Zeferino. -</p> -<p> -—Tens de lá ir amanhã. Apparece cêdo. -</p> -<p> -—Prompto, senhor. -</p> -<p> -—Mas, se vais para casa, passa pelos Pombaes e dá parte ao padre -Rocha que preciso fallar-lhe hoje á noite ou ámanhã cêdo. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes civicos do -tenente-coronel. Repugnava-lhe o ebrio e professava uma sincera -compaixão pelo homem. -</p> -<p> -Pouco depois do sol nado, o capellão de D. Andreza estava em Quadros -com um grande interesse. Queria salvar o visinho d'uma ratoeira armada -ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o principe proscripto -estava no concelho da Povoa de Lanhoso. -</p> -<p> -Chegára um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho -copiosamente, um bicho muito antigo, invulneravel, que não se afogava -em pouca genebra. -</p> -<p> -—Não ha duvida, padre Rocha! Cá está o homem!—exclamou o -fidalgo. -</p> -<p> -—Máo!—disse comsigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as -inhalações alcoolicas do bafo.—Então é certo, snr. tenente-coronel? -</p> -<p> -—Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general -a conde. Veja. -</p> -<p> -—Oh! sim? muitos parabens, snr. conde, muitos parabens! Quanto -folgo!—e lia o sobrescripto. -</p> -<p> -—Póde abrir e leia alto. -</p> -<p> -—Muito boa fórma de lettra, sim senhor... É do proprio punho do snr. -D. Miguel? -</p> -<p> -—Leia e verá. É d'elle mesmo. Conheço a assignatura muito bem. Tal -qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?—perguntava com a botija -inclinada sobre o calice. -</p> -<p> -—Muito obrigado a v. ex.a. Tenho de dizer a missa á snr.ª D. Andreza -ás dez horas. -</p> -<p> -—Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito -soffrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta -escripta p'ráhi á tôa, hein? Bem diz a <i>Nação</i> que elle andava a -estudar lá por fóra. -</p> -<p> -—Se dá licença, leio—interrompeu o padre com impaciencia -curiosa. -</p> -<p> -—Vá lá!—e puxou a cadeira e a botija para junto do capellão. -</p> - -<blockquote><p> -<i>Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e -general dos meus exercitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não -podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o -li escripto no final da vossa mais que todas preciosissima carta.</i> -</p></blockquote> - -<p> -—Hein?—interrompeu o Cerveira. -</p> -<p> -—Muito bem—e proseguiu lendo: -</p> - -<blockquote><p> -<i>Muitas vezes me lembrou no desterro de onze annos o vosso nome, porque -não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me -acompanhou nas alegrias da minha mocidade.</i> -</p></blockquote> - -<p> -—Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tinhamos feito pandegas -rasgadas quando éramos rapazes? -</p> -<p> -—Sim, snr., v. ex.ª tinha-m'o dito. -</p> -<p> -—Ora ahi tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas!—e -recordava-se com os olhos n'um spasmo entre a saudade e as iniciativas da -borracheira. -</p> -<p> -—Continúo, se v. ex.ª permitte. -</p> -<p> -—Ande lá... Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo!—disse com -tristeza, muito abatido. Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia -ancias de abraçal-o, e dizer-lhe: «Regenere-se!» -</p> -<p> -—Ande lá. Leia, que o melhor está p'ra baixo. -</p> - -<blockquote><p> -<i>Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui -para aqui enviado, perguntei se ainda ereis vivo. Alegraram-me com a -resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguem, -emquanto o triumpho infallivel da minha justiça dependesse de certas -negociações pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em -Inglaterra, o Ribeiro Saraiva que muito bem deveis conhecer de nome. -Tendo eu sido violentamente accusado pelos meus proprios amigos de ter -sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submetti-me ás -deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos -abraçar e chamar para meu lado.</i> -</p></blockquote> - -<p> -O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lagrimas que -destacavam no rubor da epiderme. -</p> -<p> -—Então que é isso? São lagrimas de alegria?—perguntou o -padre.—Se são, deixe-as correr. -</p> -<p> -—Qual alegria! estou velho... Já não posso fazer nada a favor -d'el-rei... Este pulso...—e retezava o braço. O padre -assustava-se.—Ora leia para baixo, que está ahi uma passagem muito -bonita. -</p> - -<blockquote><p> -<i>Nunca me esqueceu nem já mais esquecerá que ereis o tenente coronel -dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o commandante da -carga solemne que soffreram as tropas liberaes em uma das primeiras -sortidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame -general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram -acabar deshonrosamente na Chamusca os ultimos esquadrões do Regimento -de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes illeso da ignominia -geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que ereis um prisioneiro -de guerra, e aceitaveis as consequencias da vossa posição.</i> -</p></blockquote> - -<p> -—Foi assim!—exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. O -Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me -chamar á sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha -espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas) eu, padre, -eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o diabo a espada para as -profundas dos infernos; que a minha espada tinha-m'a dado o snr. D. -Miguel I e que elle me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram -estarrecidos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de -todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me -<i>estupido</i>. E eu, vai não vai, estive a mandal-o... -</p> -<p> -Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a -leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa. -</p> -<p> -—Ande lá. -</p> - -<blockquote><p> -<i>Desgraçadamente o vosso heroismo e amor á minha causa legitima não -foi muito imitado. Eu perdi a corôa, mas a perda maior foi a de amigos -como vós, bem poucos, mas que valem um reino.</i> -</p></blockquote> - -<p> -—Torne a lêr esse bocado que é cousa muito profunda, ó padre Rocha. -</p> -<p> -Fez-se-lhe a vontade. O Rocha tambem admirava, e de si comsigo dizia que -o rei tinha bom palavriado sentimental, ou que o impostor não era -qualquer pedaço de asno. Continuou: -</p> - -<blockquote><p> -<i>Vou responder com repugnancia e tristeza ás ultimas linhas da vossa -carta em que me offereceis liberalmente recursos. Eu vivo ha doze annos -dos beneficios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso -que m'os prestem hoje. A demora que tem havido no meu apparecimento aos -meus amigos e partidarios não m'a explicam, mas supponho que é falta -de dinheiro. Sei que minha irmã, a senhora infanta D. Isabel Maria, deu -cincoenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em -poder de um doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo e Lima, lente -de Coimbra. Mas o que são cincoenta contos para sustentar uma -insurreição em que ha-de haver necessidade de sustentar, de vestir e -de armar cem mil homens! Vós, meu honrado amigo, que sois militar, -comprehendeis que nada se póde fazer sem que os poderosos, os -opulentos, cooperem com a minha boa mana a senhora D. Isabel Maria.</i> -</p> -<p> -<i>Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de apparecer a tempo; -mas eu necessito de preparar a occasião em que elles promettem -apparecer. Á primeira voz tenho a certeza de levantar 12.000 homens -n'um pequeno circulo de leguas; mas não me atrevo a fazel-o, a -tental-o, sem me vêr bastante provido de recursos, para não recear o -peor dos inimigos que é a necessidade. Por tanto muito amado conde, meu -valoroso general, acceito o vosso emprestimo; e tomarei da vossa fortuna -tres contos de réis que vos recompensarei com o menos, que é o -dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão. Deus Nosso -Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S. Gens de Calvos aos 12 de -maio de 1845.</i> -</p> -<p style="margin-left: 60%;"><i>Miguel, Rey.</i></p> -</blockquote> - -<p> -Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. -Quando o Cerveira lhe perguntou:—que tal? o que dizia -elle?—dobrava a carta vagarosamente, encolhia os hombros e -respondia:—Em fim ... não sei... -</p> -<p> -—Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro isso levo. Pudéra -não! Tudo o que eu tiver até á camisa do corpo. Ou se é amigo ou -não se é amigo, hein? Que diz a isto, padre? -</p> -<p> -—Se quem escreveu esta carta é o snr. D. Miguel, faz v. exc.ª o que -deve porque faz o que póde; mas seria bom ter a certeza... -</p> -<p> -—De que é o rei que me escreve? -</p> -<p> -—Sim ... a prudencia... Ha muito maroto por esse mundo. -</p> -<p> -—O padre está então a lêr! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem -o vêr? Hei-de vêl-o com estes, e ou vil-o fallar primeiro. Mas -deixe-se d'asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no céo como -elle estar em Calvos. -</p> -<p> -—Bem!—atalhou o Rocha apressado, erguendo-se—quando vai -v. exc.ª a Calvos? -</p> -<p> -—Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no -sabbado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou -beijar-lhe a mão e levar-lhe os tres contos. Se faz favor, escreva-me -ahi duas linhas, só duas linhas, a dizer isto. -</p> -<p> -O padre escreveu, e sahiu muito preoccupado. Celebrou a missa a D. -Andreza, e pediu-lhe licença para se ausentar por tres dias. Relatou á -fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre -idiota de alguma cilada á sua imbecilidade, e talvez de um roubo á -mão armada. -</p> -<p> -—Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o -dinheiro?—reflectia D. Andreza, discreta e sensibilisada. -</p> -<p> -—É o que eu vou saber. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura10.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="IX">IX</a></h4> - -<p> -N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o -padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava -sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés -turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso -lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção; -deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os -desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia -muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito -tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S. -Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á -direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas -provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva -enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe -conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o -principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa—não me -recordo qual era a mitra. -</p> -<p> -A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade -obsequiadora<a name="FNanchor_4_1" id="FNanchor_4_1"></a><a href="#Footnote_4_1" class="fnanchor">[4]</a>; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios -politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com -severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria -de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores -illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi -indecifraveis codices. -</p> -<p> -Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a -sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha, -perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao -reverendo dono da casa. Foi logo recebido. -</p> -<p> -—Que todas as horas eram livres para receber os amigos. -</p> -<p> -Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram -bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro -realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das -suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a -exigir que lhe respondessem a verdade. -</p> -<p> -—Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra -maneira. Que quer saber, padre Rocha? -</p> -<p> -—Se o snr. D. Miguel está em Portugal. -</p> -<p> -—Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.—E abrindo uma gaveta, -extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um -papel que mostrou.—Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel -de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito. -Que mais quer saber? -</p> -<p> -—Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta. -</p> -<p> -—Bem sei—preveniu o padre Luiz.—Essa mesma pergunta me -fez ha dias o Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro -de Braga, o Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o -snr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso. -Propalam-o certos padres, não sei com que alcance. A estupidez tem -intuitos impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo -boato, se não é para alarmar o governo ou lograr incautos... -</p> -<p> -—É isso mesmo: lograr incautos—interrompeu o Rocha e contou -o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do -supposto D. Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo -tencionava levar no proximo sabbado ao impostor. -</p> -<p> -—Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido -legitimista—alvitrou o paleographo. -</p> -<p> -—Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma -imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui -irei para Braga entender-me com o governador civil. -</p> -<p> -—Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave -á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas -traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga, -abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante -quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está -escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho -compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda -hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha, -faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo -d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora, -visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um -emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas -está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As -patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam -pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi -outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal -podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos -liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas -postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve -dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver -galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei. -O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre -Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para -nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á -legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete: -estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do -conselheiro João Elias,—uma victima burlesca de troça dos -setembristas—era o Marques Murta, uma gigantesca actividade -phrenetica n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com -a bossa da perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal, -agradavel, com uns requintes de delicadeza de bom tom. -</p> -<p> -O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos -succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até -além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira -Lobo com os tres contos. -</p> -<p> -—Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com -os tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar -ás necessidades da monarchia;—opinou o secretario sorridente. -</p> -<p> -O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já -não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel -l.° ou de D, Maria 2.ª. -</p> -<p> -—Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso -intelligente, habitual.—Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta -hora ha-de estar na cadeia de Braga. -</p> -<p> -Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de -infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por -um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio -convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o -concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma -qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta -da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao -sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do -arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á -porta principal, e uns berros formidaveis: -</p> -<p> -—Abra! abra! se não vai dentro a porta! -</p> -<p> -O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um -cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas -espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do -hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as -calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada. -</p> -<p> -—Que é?—regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito -offegante. -</p> -<p> -—Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa -magestade na adega antes que arrombem a porta. -</p> -<p> -As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra -de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A -Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não -acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro, -muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos -grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua -Mãe Santissima e a alma da tia <i>Jacintra do Reimundles</i> que estava -inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real -hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; -enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao -Bom Jesus do Monte e ao <i>martyle São Trocatles</i>, se os livrassem -d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela -mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada -abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por -duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre -as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O -abbade muito afflicto: -</p> -<p> -—Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e -deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se -vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor! -</p> -<p> -O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela -parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, -enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as, -cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de -ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se -escancaravam com estridor. -</p> -<p> -Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente -os quartos e recantos. -</p> -<p> -—Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o -<i>Pilula</i> do 8,—queremos o rei e algumas botijas de genebra. A -garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr. -D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude. -</p> -<p> -—O snr. está a mangar!—disse o abbade afinando pelo tom da -chalaça.—Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só -lhe posso dar o de copas, que tenho ali um. -</p> -<p> -—Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda -tambem o az do mesmo naipe. -</p> -<p> -—Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu -sargento!—propoz o 24. -</p> -<p> -—Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade, -vamos á genebra, á adega. Mêxa-se. -</p> -<p> -—A genebra está cá em cima—observou o abbade um pouco enfiado. -</p> -<p> -—Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que -temos pressa. Abra a porta da adega. -</p> -<p> -—Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer—resoluto, com um ar -ironico de condescendencia, sem receio.—Os senhores tem coisas! Onde -diabo procuram o snr. D. Miguel!—E descia, pedindo a chave á -Senhorinha. -</p> -<p> -A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento: -</p> -<p> -—Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um -machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado! -</p> -<p> -—Não é preciso, camarada—acudiu o abbade.—Aqui está a -chave. Eu abro. Entrem, procurem á vontade. -</p> -<p> -O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da -adega:—Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o -subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem -um archote. -</p> -<p> -—Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa—disse o abbade Marcos, -contrafazendo o seu terror. -</p> -<p> -E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na -latrina, seu derradeiro refugio. -</p> -<p> -A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo -com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna. -</p> -<p> -—Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você -cá traz, mulher! -</p> -<p> -—É emquanto não péga bem a torcida—explicou a creada caminhando -atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a -claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade -que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os -nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias. -</p> -<p> -E o 14:—Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco! -Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o -sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na -sachristia—e dava piparotes na barriga do padre. -</p> -<p> -O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma -denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz -das pipas! -</p> -<p> -—Ha-de ser ratos—conjecturou o abbade, tremulo, engasgado. -</p> -<p> -—Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241—disse o -sargento. -</p> -<p> -Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a -dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos. -</p> -<p> -—Que diabo tem a velha?!—perguntou o Pilula.—Dão-lhe -estupores, hein? -</p> -<p> -—É flato, costuma-lhe a dar—elucidou o abbade.—O 24 -voltára-se a vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das -pipas. O abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame -estava feito: -</p> -<p> -—Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram -enganados a minha casa.—E caminhou ara a porta com a luz. -</p> -<p> -—Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me -esses ratos. -</p> -<p> -O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram -por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se -um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu -uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos. -</p> -<p> -—Oh!—bradou o Pilula!—muito bem apparecido n'esta -funcção, snr. D. Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de -cima um bocado de cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra -baixo, real senhor! -</p> -<p> -O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem: -</p> -<p> -—Parece o padre eterno, ó meu sargento! -</p> -<p> -—Com quem elle se parece é com o <i>Remexido</i> do -Algarve,—affirmava o 14. -</p> -<p> -—Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do -governador civil—concluiu o sargento com seriedade imponente. -</p> -<p> -—Este senhor?... não...—disse o abbade com as mãos postas.<a name="FNanchor_5_1" id="FNanchor_5_1"></a><a href="#Footnote_5_1" class="fnanchor">[5]</a> -</p> -<p> -—Não seja asno!—volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. -É um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua -laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de -camisa. -</p> -<p> -—Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu -quarto—supplicou o abbade. -</p> -<p> -—Sim, que se arranje com guardas á vista.—E acompanhou-os á -saleta. -</p> -<p> -Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um -gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do -paletó. -</p> -<p> -O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa. -Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças: -</p> -<p> -—Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E -leu alto: -</p> -<p> -<i>Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e -que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente.</i> -</p> -<p> -E na primeira pagina. -</p> -<p> -<i>Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos, -capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães</i>. E perguntava ao -abbade:—Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens! -</p> -<p> -Em seguida: -</p> -<p> -<i>Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado -d'el-rei.</i> -</p> -<p> -—<i>Torquato Nunes</i>! recordava o Pilula.—Eu parece-me que -conheço este diabo de o vêr em Braga no <i>Café</i> da Açucena na -Cruz de Pedra. <i>Nunes</i>! um pelintra. Onde está o visconde que lhe -queria dar um cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga—e -enrolava os papeis. A gente precisa conhecer os titulares novos para os -respeitar e acatar, amigo D. Prior de Guimarães. -</p> -<p> -Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro, -com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na -residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a -cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o -abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da -aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as -arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela -mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á -residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das -Botelhas de Braga. -</p> -<p> -—Que sim, que levára; pudéra não levar! -</p> -<p> -—Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou -disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem. -</p> -<p> -—Veja lá se o prendem, visconde—acautelou o abbade. -</p> -<p> -—O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu! -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_4_1" id="Footnote_4_1"></a><a href="#FNanchor_4_1"><span class="label">[4]</span></a>O auctor teve relações muito saudosas com este -venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de -St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse -tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e -haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava -os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona, -gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_5_1" id="Footnote_5_1"></a><a href="#FNanchor_5_1"><span class="label">[5]</span></a>São as textuaes palavras e a attitude do padre, -significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua -paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a -escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo. -(Informação de <i>Ferreira de Andrade</i>).</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura11.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="X">X</a></h4> - -<p> -O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de -manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então -para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras -pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de -azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos -arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á hospedaria -dos <i>Dous amigos</i>. O Cerveira vestia casaca no trinque muito -lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao -pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas -do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria, -afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de -polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes -rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de -pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que -parecia <i>pantominice das comedias</i>, dizia o Zeferino. -</p> -<p> -Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á -mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que -desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos -visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas -mandavam-lhe bilhetes. -</p> -<p> -Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto -por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras -Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a -Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas, -ratices suas em Braga, quando era rapaz.—Que fizera um destrôço nas -primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira; -e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde. -Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, -que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo -civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e -ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se -parecia bastante com elle. -</p> -<p> -O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o -official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os -olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos -n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou: -</p> -<p> -—E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso? -</p> -<p> -—Elle diz que é—respondeu o tenente—Veremos o que se -averigua no governo civil. -</p> -<p> -—Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres -falsos—disse emphaticamente um professor de latim, com um sorriso -pedante. O Cerveira olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do -Zeferino, muito enfiados ambos. -</p> -<p> -—Está tudo perdido!—disse dolentemente o -fidalgo—El-rei preso!... E não se levanta este Minho a -livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se lhe posso fallar. Dentro de -tres dias entro em Braga com dez mil homens e arrazo a cadeia. -</p> -<p> -Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar. -</p> -<p> -O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas -Bragas—a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes -proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;—a -liberal, muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e -empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga, -o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito -rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro -e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito -grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do -Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois, -commandante da brigada dos Seresinos. -</p> -<p> -Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com -muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe -passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do -Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma -d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota -Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava -aos seus:—É?—uns encolhiam os hombros, outros negavam -gesticulando. E elle, com intimativa:—Pois saibam que é!—O -Manoel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire: -</p> -<p> -—Deixa-o fallar, que está idiota. -</p> -<p> -O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de -cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção -rara:—Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao -alcance da canalha. Descance vossencia. -</p> -<p> -Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o -Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva -Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz -de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da -casaca azul com botões amarellos. -</p> -<p> -D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A -soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha -d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e -affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade -afflictiva.—Que se parecia ... e ia jurar que era elle!—quando -um realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde, -disse com um desdem de achincalhação: -</p> -<p> -—Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro! -</p> -<p> -—Quem é? quem é?—perguntavam todos. -</p> -<p> -—É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, -e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas. -</p> -<p> -O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha: -</p> -<p> -—Ouviste, ó Zeferino? -</p> -<p> -—Estou banzado!—murmurou o outro. -</p> -<p> -—Olha que espiga! 3 contos! hein? -</p> -<p> -—Raios parta o diabo!—disse o pedreiro, n'uma synthese -condensada da sua incommensuravel angustia. -</p> -<p> -Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o -de parte e dizia-lhe: -</p> -<p> -—Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de -V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da -vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos -fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve -do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr. -Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo, -então desembainhará a sua espada. -</p> -<p> -O Cerveira, abraçando-o: -</p> -<p> -—Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte -foi transferido para a Relação do Porto. -</p> -<p> -O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros: -Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.<a name="FNanchor_6_1" id="FNanchor_6_1"></a><a href="#Footnote_6_1" class="fnanchor">[6]</a> -</p> -<p> -Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai -chamavam-lhe o Norberto <i>das facadas</i>, quando já era velho, e meirinho -geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha <i>facadas</i> -lhe vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres -facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que -pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O -certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da -diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola. -</p> -<p> -Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma -edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do -Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa, -concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos -Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por -incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo -disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle -fazia n'uma toada monotona de quem reza.<a name="FNanchor_7_1" id="FNanchor_7_1"></a><a href="#Footnote_7_1" class="fnanchor">[7]</a> -</p> -<p> -O Verissimo era <i>Mesquita</i> pela mãe, que não conhecera. Tambem florira -da cêpa illustre dos <i>Mesquitas de Villar de Maçada</i>; mas o Norberto, -achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a -mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da -Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso. -</p> -<p> -Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a -jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma -vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na -Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores -assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra -exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em -infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em -uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e, -apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um -bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente -aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado -pelo desaire de coxear. -</p> -<p> -Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo, -onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A -sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como -ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia -de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no -ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de -meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença, -arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e -citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas -côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez -das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma -cidade. -</p> -<p> -O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia -um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a -cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar. -</p> -<p> -A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833 -gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do -snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites, -n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca. -Mandava cantar <i>Te-Deum</i> na egreja de Alvações assim que no paiz -vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os -realistas, a contar por cada <i>Te-Deum</i> de Alvações, entravam no Porto -ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra. -D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques -voltára a casaca. -</p> -<p> -Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado. -Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa -farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo -acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira. -Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha -exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser -padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida -socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos, -tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua -residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis; -um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande -estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se -não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse -escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas. -Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma. -</p> -<p> -D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;—que seu sexto avô -tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente -abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos -sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de -padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e -pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os -condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo -arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte -descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no -futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas -condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas. -</p> -<p> -Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro -moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso -encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes -Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram -inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O -Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda -mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa. -</p> -<p> -Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de -Sousa Reis, o <i>Remexido</i>, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous -ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao -formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada -para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o -preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram -para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de -capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu -heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia -Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida -emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general -Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou -ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada -tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu -general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas carreiras -abertas—uma que levava á gloria, outra á sepultura,—que -tambem era uma gloria morrer pela patria. -</p> -<p> -José Joaquim, o <i>Remexido</i>, era um bem figurado homem de trinta e oito -annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro, -e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das -theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e -humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de -Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas -visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou -entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de -homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas -searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe -multiplicavam o amor e os cuidados. -</p> -<p> -Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia, -onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a -liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que -por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa -Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más -idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más, -perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou -para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do -rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais -uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão -affoita quanto cruel. -</p> -<p> -Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás -praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns -cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas -montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos -annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos -vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na -familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, -depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se -ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, -precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou -Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a -pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do -guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle -atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os -inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da -sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem -gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve -e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se -contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da -guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e -descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra, -chamado a <i>Portella da corte das velhas</i>. Ahi o atacou uma columna de -caçadores 5. O <i>Remexido</i>, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer -matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as -bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em -Faro. -</p> -<p> -O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e -elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos -generaes de que rezam os fastos militares. -</p> -<p> -O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella -ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como -não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas -algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa. -Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles -andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os -quatro vintens diarios e o vintem do municio! -</p> -<p> -Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu -por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na -cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28. -D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava -empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa -com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava -por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo -de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do -Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem -tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade. -Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com -advogados miguelistas, que o estimavam muito. -</p> -<p> -A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do -snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho. -</p> -<p> -No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas, -complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao -sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D. -Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de -ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos -annos de sua magestade. -</p> -<p> -Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas -redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo -<i>capitão-Verissimo</i>. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos -na Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já -sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito -escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e -as partes fugiam d'elle. -</p> -<p> -O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e, -como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um -tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era -boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a -comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos -tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense -na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o -capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado. -Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O -capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de -peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de -religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu <i>Sosia</i>, do -snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou -as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e -impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o -Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande -ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas -nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o -fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um -sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o -<i>Malagueta</i>, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, -uma raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas. -Travaram-se de razões. O <i>Malagueta</i> correu sobre elle com um punhal. -Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se. -</p> -<p> -A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no -suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos -vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João -Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do -primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado, -não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania -queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo -resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo -Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no -Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de -resvalar pela <i>montanha russa</i>, dava umas risadas argentinas, batia as -palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da -argolinha. -</p> -<p> -Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha -morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous -filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de -camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor -que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe -as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado -com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão -honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava -resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que -pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha. -</p> -<p> -—Se os não tens—disse o Torquato—minha mulher tem um -cordão que pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou -buscal-o ámanhã.—E accrescentou, de excellente humor;—Deus -permitta que na terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de -dentes que não tenhas mãos nem queixos a medir. -</p> -<p> -Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações -esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos -a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes -esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e -Orestes. -</p> -<p> -O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar, -muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella -desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de -um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas, -sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da -companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de -Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões -de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos. -</p> -<p> -Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na -tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito -laraxenta—que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava; -que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar -o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada. -</p> -<p> -—Nós deviamos ir todos para o Brazil—lembrou o Torquato, que -tinha meditado n'um recolhimento extraordinario. -</p> -<p> -—E chelpa?—perguntou a Libania. -</p> -<p> -—Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis. -</p> -<p> -—Boa!...—disse o outro.—Bem se vê que as duas garrafas -deram o que podiam dar—uma fantazia de um conto de réis. Por dous -tostões é barato. -</p> -<p> -—Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não -estou bebedo, palavra de honra! -</p> -<p> -Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de -vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do -Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um -charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade. -</p> -<p> -—Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel? -</p> -<p> -—Começas bem. Temos asneira. -</p> -<p> -—Máo! não me falles á mão. -</p> -<p> -—Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei, -e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª -os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta. -</p> -<p> -—Adeus minha vida!—retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã -conversaremos. -</p> -<p> -—Deixa fallar o homem!—interveio a Libania.—Ora diga lá, -ó sê Nunes. -</p> -<p> -O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos, -removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto -Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da -Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a -um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno -piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma -das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho. -</p> -<p> -Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para -Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha -visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no -Porto:—Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá -estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na -cama. -</p> -<p> -O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos -seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de -Lanhoso. -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_6_1" id="Footnote_6_1"></a><a href="#FNanchor_6_1"><span class="label">[6]</span></a>Segundo as informações textuaes do já referido -José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do -preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo -a varias perguntas disse: -</p> -<p> -"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos -amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito -realista; -</p> -<p> -"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por -uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o -serviço; -</p> -<p> -"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára -parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o -convidára no fim para sua casa; -</p> -<p> -"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra, -depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava -ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle -era em tudo um fac-simile); -</p> -<p> -"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma -hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe -respondêra com uma evasiva. -</p> - -<p style="margin-left: 30%;"><i>Auctoridade</i></p> - -<p> -"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão? -</p> - -<p style="margin-left: 30%;"><i>Preso</i> (cynico)</p> - -<p> -"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da -commodidade que se lhe offerecia; -</p> -<p> -"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como -coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade -de seu capellão-mór, ao que annuira; -</p> -<p> -"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença -nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares, -consummados realistas, no que concordara; -</p> -<p> -"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute, -um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão, -commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até -prelazias—o que elle tudo lhes concedeu de bom grado. -</p> - -<p style="margin-left: 30%;"><i>Auctoridade</i></p> - -<p> -E depois? -</p> - -<p style="margin-left: 30%;"><i>Preso</i></p> - -<p> -"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella -commoda situação, <i>maxime</i> quando as suas finanças estavam no maior -apuro."</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_7_1" id="Footnote_7_1"></a><a href="#FNanchor_7_1"><span class="label">[7]</span></a><i>Nota erudita</i>. A historia, aliás exacta, que o -fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada -no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira -d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito -e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a -Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte -do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe que -o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai vós -primeiro."—Se vossa alteza me engana,—volveu o -cortezão—ditoso engano é esse.—E, mettendo-se á vala espapada -de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço -de fóra. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente -pulso para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes -lêssem este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe -mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo. -</p> -<p> -E assim lhe foi debuxado o escudo: <i>Em campo verde uma ribeira de prata -ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega -outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este -braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma -estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de -liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos</i>. -A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574. -</p> -<p> -Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de -tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo -dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo -chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir -da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas -elegantes.</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura12.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XI">XI</a></h4> - -<p> -O Torquato, antes de entrar em casa, foi á residencia. Ia mysterioso, -circumvagava uns olhares cautelosos:—se ninguem o -ouviria?—perguntava ao abbade Marcos. -</p> -<p> -E o abbade, entrepondo as cangalhas nas paginas do breviario,—pôde -fallar, que estou sósinho. Que é? -</p> -<p> -—D. Miguel I está em Portugal—disse, curvando-se-lhe ao ouvido, -com uma voz guttural. -</p> -<p> -—Você que me diz?! Como sabe isso? Pataratas! -</p> -<p> -—Chego agora do Porto; estive com o escrivão fidalgo, o Ferreira -Rangel e com o abbade Gonçalo Christovão. El-rei está n'esta -provincia. Desconfia-se que é em Braga, e o José Alvo Balsemão -disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho, porque o -levantamento ha-de começar por aqui. -</p> -<p> -—Que me diz você, amigo Torquato?—sacudia os braços, fazia -estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exultação -extatica—que ia escrever ao abbade de Priscos, que indagasse, que -apparecesse...—É preciso trabalhar, preparar os animos... -</p> -<p> -—<i>Chiton</i>!—acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o -nariz. Nada de espalhafato! Não ferva em pouca agua, abbade. Se dér á -lingua, esbarronda-se o negocio. O rei só ha-de apparecer aos seus -amigos quando os generaes entrarem pela Gallisa. Não falla a ninguem; -não se dá a conhecer. Diz que só fallára em Lisboa com o conde de -Pombeiro e com o Bobadella, e no Porto com o José Antonio, o morgado do -Bom Jardim, e mais com o padre Luiz do Torrão... O abbade conhece. -</p> -<p> -—Pois não conheço? como as minhas mãos; é o vice-rei nas provincias -do norte ... o nosso bom padre Luiz de Souza que pelos modos está -nomeado patriarcha de Lisboa... Que pechincha, hein? -</p> -<p> -—É esse mesmo... Bem! até logo; vou vêr a mulher e os filhos a casa, -que ainda lá não fui. Um abraço, amigo abbade! Parabens! A choldra -vai cahir! Vida nova! D'aqui a um mez está todo esse Minho em armas, e -el-rei á frente dos seus vassallos. Outro abraço, e viva el-rei! -</p> -<p> -Lagrimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas -palpebras inflammadas do abbade. -</p> -<p> -—Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, á saude -d'el-rei! -</p> -<p> -—Parece que me estoira a pelle! Não estou em mim!—Que ia vêr a -mulher e que voltava já. -</p> -<p> -Na noite de sabbado para domingo de carnaval, o Verissimo pernoitou na -Povoa de Lanhoso, na estalagem do Rêlhas. -</p> -<p> -Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela -provincia. Perguntou se por ali não se festejava o entrudo. O -bodegueiro informou que na Povoa havia guerra de laranjadas e ás vezes -pancadaria de senhor Deus misericordia; mas que na freguezia de Calvos -havia comedias nos tres dias de entrudo, por signal que o seu filho, um -barbado que ali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de -namorado no <i>Medico fingido</i>, um entremez coisa rica, que era de um -homem malhar de costas n'aquelle chão a rir—que se elle quizesse vêr -as comedias, podia ir com o seu rapaz, que lhe arranjava lá uma cadeira -de casa do abbade. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O scenario para a representação do <i>Medico fingido</i> arranjou-se na -eira do Gonçalves, muito espaçosa e ageitada, porque as figuras -entravam e sabiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha tres -portas. O palco, barrado de ferro, ainda humido, estava ao abrigo de -cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retezadas nas pontas por -postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns varaes -lançados transversalmente. Havia dous mastros de castanheiro -descascados, afestoados de buxos, alecrim e camelias, coroados por -bandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma listra em -zig-zag pintada a zargão que se ia espiralando pelo pau acima, com -cercadura de cruzinhas:—era obra de Chêta, um trôlha inspirado que -já tinha pintado um painel das <i>Alminhas</i>, onde havia almas do sexo -fraco com grandes têtas lambidas por lavaredas, e um rei coroado com a -bôca aberta no acto de berrar queimado, e tamanha bôca que só cedia -á de um bispo mitrado, muito impertigado, com o seu baculo. O trôlha -ensaiára o entremez, e não entrava, porque lhe tinha morrido o pai, -havia quinze dias, contava elle a um senhor de fóra, desconhecido, que -tinha vindo com o <i>galan</i>, o filho do estalajadeiro da Povoa. -</p> -<p> -O Verissimo foi admittido aos camarins onde estavam sentados em caixas -de milho e na salgadeira, os figurantes á espera da sua vez, já -vestidos. Viam-se os personagens do entremez. Mathilde, amante de -<i>Almenio</i>, uma ingenua, a protogonista da peça, <i>a doente -namorada</i>, que levou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o <i>medico -fingido</i>. Este papel fôra confiado a um latagão official de -carpinteiro, com os pulsos cabelludos e os nós dos dedos com umas -protuberancias callosas que pareciam castanhas piladas antigas. Nas -maçãs do rosto mascarrára duas zonas de carmim, que pareciam a -distancia umas chagas de mendigo de romaria aperfeiçoadas. Trajava um -vestido de setim branco da fidalga velha de Rio Caldo, feito em 1824 -para um baile que houve em Braga aos annos de D. João VI. O peito chato -do carpinteiro ficava á altura dos quadris da fidalga, e as claviculas -espipavam as hombreiras do corpête, prendendo os movimentos ao -desgraçado <i>Mathilde</i>. Posto que a scena fosse a <i>Casa de -Astolfo</i>, pai da doente fingida, a velhaca estava de chapéu de -palhinha com enorme telha enconchada e plumas brancas muito -amarellecidas do môfo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam com isso -as pernas que se deixavam vêr até cima do jarrete, cingidas de fitas -cruzadas que subiam d'uns sapatos de duraque sem tacões, feitos de -proposito e em concordancia com os angulos reintrantes e salientes dos -pés. Era o grotesco do horror. A creada de <i>Mathilde</i>, a -<i>Laberca</i>, tambem vestia de setim azul-ferrete, um pouco menos -antigo, emprestimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em -quando para os entremezes. Não tinha chapéu nem sapatos de duraque: -obedecia mais á caracterisação natural. Na cabeça usava touca de -folhos com laços de fita escarlate e nos pés os butes do amo com -ponteira de verniz; elle era o creado do juiz de direito substituto; -gosava creditos de representar papeis de lacaia fazendo rebentar a -gente. -</p> -<p> -O Verissimo fez os seus cumprimentos ás duas damas, e manteve uma -seriedade verdadeiramente real. O <i>Almenio</i> era o filho do -estalajadeiro da Povoa de Lanhoso, o Rêlhas. Calças brancas, quinzena -de velludilho, bengala de castão de prata, chapéu branco de castor e -oculos. Disse ao Verissimo que punha os oculos para fingir de medico. -Estava a um canto o gallego, o <i>Gonçalo</i>, aguadeiro da casa. Como -não havia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trôlha -ensaiador vestiu-o de almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e -em mangas de camisa, com uma monteira comprada em Tuy. A cara era ao -proprio, d'uma verdade typica. O <i>Pantufo</i>, um saloio rico que -queria casar com <i>Mathilde</i>, e foi bigodeado pelo fingido medico, -vestia a melhor andaina de fato do presidente da camara, um apaixonado -pelos entremezes, que a gravidade das suas funcções impedia de -representar; mas emprestava a roupa e a intelligencia dramatologica. -Havia mais duas figuras, o <i>Falsete</i>, e o <i>Astolfo</i>, que se -estavam vestindo lá dentro, por detraz d'um ripado, que os deixava vêr -em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, emquanto o trôlha -lhes rebocava de vermelhão as caras. -</p> -<p> -O Nunes atravessára a eira, e endireitára para o palheiro, quando lhe -disse o Gonçalves que estava lá dentro um fidalgo de longe. -Encostou-se ao batente da porta, trocou um lance de olhos com o -Verissimo, e sahiu apressadamente, arranjando pelo caminho uma -physionomia cheia de alvoroço, de surpreza. -</p> -<p> -Entrou pela residencia, muito esbofado: -</p> -<p> -—Ó abbade, já esteve na eira do Gonçalves? -</p> -<p> -—Não; estou a acabar de jantar, e lá vou vêr essa borracheira da -comedia. Você vem aganado! -</p> -<p> -—Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fóra que lá está na -eira. -</p> -<p> -—Aqui veio um rapazola da Povoa pedir-me uma cadeira ha coisa de meia -hora para um fidalgo que tinha vindo com elle. Perguntei-lhe quem era o -fidalgo. Diga que não sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas de -casaco chama-lhe fidalgo. -</p> -<p> -—Venha já d'ahi comigo... Por quem é, não se demore... Ó abbade, -lembra-se de vêr el-rei em Braga ha treze annos! -</p> -<p> -—Ora se lembro!... Beijei-lhe a mão tres vezes. -</p> -<p> -—E, se o vir agora, conhece-o?... -</p> -<p> -—Parece-me que sim—o padre limpava á pressa os beiços amarellos -dos ovos do arroz dôce.—Mas isso que quer dizer? Você está doido, ou -temos carraspana, amigo Nunes? -</p> -<p> -—Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrachão, lá como -quizer; mas não se demore que eu estou em brazas vivas. -</p> -<p> -—Ahi vou, ahi vou, não se atrigue. Vai uma pinga do chôco? -</p> -<p> -—Venha de lá isso.—Bebeu d'um trago, e pediu -outro:—Agora, á saude de el-rei! á saude d'aquelle que talvez -esteja bem perto de nós! a cem passos! -</p> -<p> -—Toque!—exclamou o abbade. -</p> -<p> -Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, não -olhar muito de frente para elle, e só deviam fallar-lhe, se a occasião -viesse muito a geito. -</p> -<p> -—Você está a sonhar, homem! -</p> -<p> -Quando entraram á eira, já tinha começado a festa. Verissimo estava -em pé, com a mão direita apoiada nas costas da cadeira. D'um e d'outro -lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores vestidos -de mulheres, e uns rapazes com chalaças de uma graça aparvalhada, -muito local, a que os do palco respondiam á lettra com manguitos, e os -que faziam de mulheres batiam palmadas no trazeiro, voltando-o para o -publico. Cães ladravam ás figuras; os rapazes davam-lhes pauladas e -elles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para poderem perceber as -fallas:—Canalha brava, calaide-vos ahi!—Uma balburdia que -parecia um theatro de cidade de primeira ordem. O tio Gonçalves, o dono da -eira, dizia que estavam todos bebedos, e voltava-se para o desconhecido, -como a pedir desculpa. -</p> -<p> -—É entrudo, dizia, é entrudo, senhor! -</p> -<p> -Quando appareceu o padre na cancella da eira, houve silencio com algumas -fungadellas de riso das cachopas, e recomeçou a comedia em obsequio ao -abbade e á Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram -alguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera -muito sério durante a troça da canalha. Assim o dizia o Gonçalves ao -abbade, perguntando-lhe se conhecia aquelle senhor. -</p> -<p> -—Não conheço,—e acotovelava o Nunes, segredando-lhe com o -disfarce:—Você adivinhou. É elle... -</p> -<p> -—Que me diz, abbade? -</p> -<p> -—É elle. -</p> -<p> -O Verissimo déra tres passos para accender um cigarro no de um musico -que estava sentado n'um bombo. -</p> -<p> -—É elle!—repetiu o abbade.—Você não o viu coxear? -</p> -<p> -—Falle baixo, falle baixo, e não olhe muito para elle, que eu já o vi -deitar-nos os olhos,—acautelou o Nunes. -</p> -<p> -—Também eu ... -</p> -<p> -Estalou n'este momento uma gargalhada geral. Verissimo tambem se riu, e -deu palmas. -</p> -<p> -—Olha! olha! a dar palmas!—notou o abbade com transporte. -Aquillo sensibilisou-o até ás lagrimas! O snr. D. Miguel I a dar palmas ás -figuras do <i>Medico fingido</i> na eira do Gonçalves em S Gens de Calvos! -Tocante! -</p> -<p> -A risada geral e as palmas e os apupos não eram rigorosamente uma -ovação ao auctor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na scena -l.ª o <i>Astolfo</i> pede carinhosamente á filha que côma alguma coisa. -Mathilde diz que não póde, <i>que não está em si; que lhe acuda, que -lhe acuda, porque um suor frio lhe faz perder os sentidos</i>. -</p> -<p> -O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica -que diz: <i>Finge desmaio, e Astolfo a sustem nos braços</i>. Mas ou porque -se antecipasse a desmaiar, ou porque <i>Astolfo</i> se demorasse a -amparal-a, <i>Mathilde</i> escorregou de costas sobre o barro ainda fresco -do palco; e, no acto de se erguer debaixo dos apupos da multidão, -arregaçaram-se-lhe as saias e saiotes até á cintura. Ora a <i>Mathilde</i> -não usava calcinhas. Um escandalo. -</p> -<p> -Verissimo Borges não pôde sustentar a gravidade competente á sua -pessoa. A natureza rebentou por elle fóra n'umas casquinadas convulsas -que poderiam custar-lhe uma môcada, se a deflagração do riso não -fosse geral. -</p> -<p> -<i>Mathilde</i> fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e não voltou á scena. -O ensaiador, o trôlha, sahiu ao terreiro a explicar ao publico a -suspensão do entremez n'estas palavras:—Aquelle alma do diabo despiu -a farpella, e diz que raios o parta, se cá tornar. Vocês póde ir á -sua vida que não ha hoje treato. -</p> -<p> -Começou a debandar o auditorio em grande algazarra. Verissimo parecia -esperar que o galã, o Rêlhas Junior, se despisse para se retirar. O -Gonçalves perguntava-lhe:—e que tal esteve a chalaça, senhor! Má mez -pr'ó homem, que se mais tivesse mais punha ó léo!—e voltando-se para -o abbade que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa distancia:—ó -snr. abbade! coisa assim não consta! Eu, se me succedesse uma d'aquellas, -mettia a cabeça n'um folle. -</p> -<p> -—São acasos, disse Verissimo com indulgencia.—Não se lembrou -que estava vestido de senhora. -</p> -<p> -O abbade ganhou animo, abeirou-se do Gonçalves, cumprimentando o outro -cerimoniosamente, e disse: -</p> -<p> -—O entremez não presta para nada. Se o homem não cahisse, -ninguem se ria.—Provavelmente...—assentiu o Verissimo, -correspondendo á cortezia do Torquato Nunes que parecia aproximar-se -mais acanhado.—Estes casos de escorregar, accrescentou o -desconhecido, acontecem nos primeiros theatros do mundo e até nas salas -onde se dança; e de ordinario as senhoras que desastradamente cahem -são verdadeiras senhoras. É muito peor e mais melindroso. -</p> -<p> -O abbade e o Nunes com muitos gestos affirmativos—que sim, que era -muito peor, e mais melindroso, muito mais. -</p> -<p> -Derivou a conversação para as bellezas naturaes do Minho. O -desconhecido sentia ter vindo no inverno, quando apenas se adivinhavam -as pompas da primavera. -</p> -<p> -Principiava a choviscar. O abbade offereceu a sua casa ao forasteiro, -emquanto não estiava a chuva. Verissimo acceitou por momentos, visto -que não se prevenira com guarda-chuva—um traste que detestava. Os -aguaceiros repetiram-se com pequenas intercadencias, varejados pelo sul; -por fim, as christãs da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos -declives como escarceus a despenharem-se, fechou-se o horisonte sem uma -nesga, e a chuva não parava. O abbade não permittiu que o hospede -sahisse com tal tempo e já perto da noite. -</p> -<p> -Durante a ceia, appareceram algumas raparigas mascaradas com lençoes, -abraçando a Senhorinha que servia á mesa, e dizendo em falsete -pilherias ao Nunes a quem chamavam <i>Trocatles</i> e <i>précurador de -causas perdidas</i>. Verissimo mostrava-se contente e dizia: -</p> -<p> -—Bom povo! excellente povo! Este Minho é o bom coração de Portugal, -e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores corações -do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que são, carregados por -tributos, esmagados pelo peso dos empregados publicos que são o -flagello de Portugal... -</p> -<p> -O padre escutava-o com religiosa attenção; o Nunes beliscava a côxa -do abbade que tomára a presidencia da mesa e puzera o hospede á sua -direita. -</p> -<p> -No fim da ceia, o padre Marcos com o copo na mão, e de pé, disse que -fazia uma saude ao seu hospede, porque lhe parecia que tinha a honra de -beber á saude de um realista, d'um partidario de sua magestade o snr. -D. Miguel 1.° que Deus guardasse! O hospede agradeceu, declarando que -mesmo n'uma roda de liberaes não negaria os seus sentimentos politicos: -que era realista, e como tal brindava á saude de todos os amigos do -principe proscripto. -</p> -<p> -O Nunes dava canelões intelligentes e ás vezes dolorosos no abbade, -que o encarava de esconso como quem diz:—percebo; não faça de mim -asno; sei que estou fallando com el-rei. -</p> -<p> -A creada deu parte que estava prompta a cama;—quando <i>Vossoria</i> -quizer—disse ella ao hospede. Verissimo sorriu-se agradavelmente: -</p> -<p> -—Que incommodo estou dando a esta excellente familia... Irei -descançar, snr. abbade, e snr. Torquato ... parece-me que lhe ouvi -chamar <i>Torquato</i>... -</p> -<p> -—Nunes Elias, um creado de vossa...—e susteve-se. -</p> -<p> -Dizia-lhe depois o abbade no quinteiro:—Você ia-se estendendo, Nunes! -Esteve por um triz a dizer, <i>um criado de vossa magestade</i>, não -esteve? -</p> -<p> -—Por um triz, abbade, que me estendia! Tal é a certeza de que -está el-rei n'esta casa!—E com transporte olhando para as -janellas:—Onde está pernoitando o snr. D. Miguel l.°! o rei -amado dos portuguezes, na pobre residencia de S. Gens de Calvos! Isto -parece um sonho! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -A segunda-feira de entrudo foi um chover desabalado. Não houve entremez -nem se via viva alma no cruzeiro. O abbade não consentiu que o hospede -se retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou á Povoa buscar a -bagagem. Era um bahú de lata amolgado na tampa com um cadeado roído de -ferrugem. O legitimista ainda não tinha dado nome algum, nem os outros -ousavam abrir ensejo a que elle tivesse de o inventar. Seria -indelicadeza obrigal-o a mentir. Além de que, o padre Marcos, -tratando-o sempre por <i>senhor</i>,—o <i>senhor</i> isto, o -<i>senhor</i> aquillo—entendia que se aproximava do tratamento que -se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real hospede que já -o conhecia.—Bom é que elle se vá persuadindo que não somos -patêgos—dizia o abbade ao Nunes.—Sim, bom é que se -persuada ... você percebe... E piscava com esperteza. -</p> -<p> -—Ora, se percebo! O abbade tem andado com uma cabula muito fina. Eu é -que me custa a ter mão em mim. A minha vontade era deitar-me de joelhos -aos pés d'elle, e dizer-lhe: «Real senhor, nada de disfarces! Aqui -estão dois vassallos de vossa magestade que lhe offerecem o seu -sangue!» -</p> -<p> -—Deixe estar, acommodava o padre, deixe estar, Nunes... As coisas não -vão assim... Quando fôr tempo, eu lh'o direi... Nada de espantar a -caça. -</p> -<p> -O Verissimo pediu ao abbade algum livro para se entreter, e não o -obrigar a atural-o. O padre levou-o ao seu quarto onde havia uma estante -de pinho com tres lotes de livros. Mostrou-lhe o <i>Punhal dos -Corcundas</i>, a <i>Defesa de Portugal</i> do padre Alvito Buela, a -<i>Besta esfolada</i>, os <i>Burros</i>, e o <i>Novo Principe</i>. O -Verissimo levou-os para o seu quarto, excepto os <i>Burros</i>; disse -que não gostava de poesia. Fallou com louvor do padre José Agostinho e -de Fr. Fortunato de S. Boaventura—columnas do altar e do throno, -que tinham deixado dois vacuos impreenchiveis na phalange realista. -Perguntou-lhe o abbade se os tinha conhecido pessoalmente.—Que -sim, como as suas mãos... E sorria, como o principe proscripto, se lhe -fizessem semelhante pergunta. -</p> -<p> -—Que prazer teria o padre José Agostinho, se hoje vivesse e pudesse -vêr el-rei!...—meditou o abbade com a sua grande perspicacia -observadora. -</p> -<p> -—Decerto...—concordava o Verissimo indolentemente.—Mas -quem tem agora esperanças de vêr D. Miguel em Portugal? -</p> -<p> -—Eu, senhor, eu!—respondeu o padre batendo na arca do peito com -as mãos ambas—Eu! -</p> -<p> -O Verissimo folheava o <i>Punhal dos Corcundas</i>, e parecia não perceber -a vehemencia do padre. -</p> -<p> -—Bons desejos, bons desejos do caro abbade... -</p> -<p> -—E de quasi toda a nação portugueza, senhor! D. Miguel l.° nunca -deixou de reinar nos corações do seu povo. Eu tenho na minha alma o -retrato d'elle desde que o vi ha treze annos em Braga e lhe beijei as -suas reaes mãos!—Escandecia-se o enthusiasmo, punha as mãos, -chammejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e o Verissimo -continuava a folhear o <i>Punhal dos Corcundas</i>. -</p> -<p> -—Então viu-o, abbade? -</p> -<p> -—Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas mãos. -</p> -<p> -—Ainda se recorda das suas feições? -</p> -<p> -—Perfeitamente. -</p> -<p> -—Ah! se o visse hoje, decerto o não conhecia... Está muito acabado... -</p> -<p> -—Conhecia, conhecia... -</p> -<p> -O abbade sentiu um raio de dramatisação que o vibrou todo. -Eriçaram-se-lhe os cabellos, e coou-lhe pela espinha uma faisca -electrica. Fez um passo atraz, e quando o Verissimo repetiu: «Era -impossivel conhecêl-o» o padre pôz um joelho em terra, estendeu o -braço direito, e com o dedo indicador em riste, exclamou: -</p> -<p> -—Eil-o! eil-o! -</p> -<p> -—Ó abbade! o snr. está allucinado! Por quem é, levante-se! Eu não -sou quem pensa! -</p> -<p> -—Estou como devo estar deante do meu rei!—teimou o abbade, com -os dous joelhos no sobrado. -</p> -<p> -—Levante-se que vem gente!—dizia o outro, ouvindo passos na -escada. -</p> -<p> -Era o Nunes. -</p> -<p> -—Entre, amigo!—disse o abbade, respondendo ao visinho que pedia -licença. -</p> -<p> -Torquato encontrou o abbade de Joelhos e o Verissimo esforçando-se por -levantal-o. -</p> -<p> -—Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos pés -d'el-rei!—exclamou o padre. -</p> -<p> -E o outro, ajoelhando: -</p> -<p> -—Eu já o sabia, real senhor! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Foi assim que se inaugurou a côrte de D. Miguel I em S. Gens de Calvos, -segunda-feira de entrudo de 1845, ás 3 horas da tarde. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura13.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XII">XII</a></h4> - -<p> -Depois, bem sabem, senhores, como aquelle padre Rocha despenhou -abruptamente o desfecho da farça, cuidando que vingava a moral e punia -com degredo o scelerado que infamava o sacratissimo nome de el-rei D. -Miguel. No transito para a Relação, a meia legua, na estrada do Porto, -o Verissimo com delicadas maneiras e o seu aspecto veneravel, obteve que -o sargento da escolta lhe permittisse alugar a mula de um almocreve que -seguia a mesma direcção. Cavalgou na albarda da mula arreatada com -chocalho, sem estribos; empunhou a corda do cabresto, e ladeado de doze -praças do 8, entrou ao cahir da tarde em Famalicão. -</p> -<p> -O Torres de Castellões, o administrador, legitimista no fundo, bom -lavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permittiu-lhe que ceasse com -um amigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o Pylades das horas certas -e incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das phantasias do -outro, considerava-se perdido.—Pobre Libania!—deplorava, quando -ella souber que eu estou na Relação! -</p> -<p> -Como tinha alguma pratica do fôro criminal, o Nunes consolava-o: que -não havia materia para pronuncia; e, quando fôsse pronunciado, a -Relação o despronunciaria. Eu é que vou ser o teu procurador, se me -não prenderem—accrescentava muito confiado na lei e na sua -actividade.—Quanto á phantasia do conto de réis, já não falta tudo, -porque tens as cem peças das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um dia -ou dois, tinhas n'esta santa hora 3:750$000 réis. -</p> -<p> -—Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma sentença de -degredo—atalhou o Verissimo, n'aquella estranha situação, nunca -experimentada, de ouvir os passos da sentinella rentes com a grade do -seu quarto. -</p> -<p> -Ás oito da noite, fechára-se a porta da cadeia, e Nunes sahira triste, -com um pungitivo arrependimento de metter o amigo n'aquella rascada. -</p> -<p> -Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do governo civil do -Porto para a Relação com um mandado do carcereiro na bayoneta do -sargento. Quando sahia do governo civil, já Libania e o Nunes, que se -antecipára a procural-a em Ramalde, o esperavam. A Libania era uma -forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante acceso -de coragem, um sorriso affoito, e disse-lhe muito animosa: Alma até -Almeida e d'Almeida <i>p'ra diente</i> alma sempre! -</p> -<p> -Verissimo occupou o quarto de malta n.° 2, com uma rasgada janella -sobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, d'onde tinha sahido o -Gravito para a forca—elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso -alisar da porta as iniciaes de alguns padecentes com a data de 1829. -</p> -<p> -A Libania e mais o Torquato pernoitaram na estalagem do Cantinho na rua -do Loureiro e passavam o mais do tempo na Relação. Ao fim de seis dias -já o Nunes requeria a soltura do preso, por falta de nota da culpa; mas -a pronuncia chegou ao oitavo dia da comarca da Povoa. O preso aggravou -para a Relação. Era juiz relator do aggravo o conselheiro Fortunato -Leite, natural do Douro, que, quinze annos antes, no reinado de D. -Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devêra a fineza rara -de o avisar na vespera do dia em que lhe havia de cercar a casa por -ordem do facinoroso corregedor de Villa Real, o Albano que os liberaes -mataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o -processo, os appellidos do preso, a naturalidade, os pormenores, -suggeriram-lhe memorias da sua perseguição em 1831, e o salvar-se tão -extraordinariamente pela amizade do meirinho geral. Informou-se e -evidenciou que o Norberto Borges, de Alvações de Corgo, era o pai do -preso. Estava pois salvo o filho do seu bemfeitor, sem grande violencia -á justiça, porque a pronuncia fôra precipitada, irregular, as -testemunhas citadas—os padres suspeitos de frequentarem a residencia -de Calvos—nada depozeram que provasse projectos revolucionarios do -aggravante. -</p> -<p> -E lavrou o accordão muito rocheado de grypho:—Que aggravado era o -aggravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pronuncia de -primeira instancia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiaes, -pois que <i>nenhuma</i> testemunha depozéra que o aggravante se -inculcasse <i>D. Miguel</i> para perturbar a <i>ordem constituida</i>, -chamando o povo á revolta; e das respostas do aggravante no -interrogatorio a que procedeu a auctoridade administrativa constava que -o preso quasi que <i>fôra obrigado</i> por um <i>clerigo estupido e -esturrado miguelista</i> a deixar-se chamar <i>D. Miguel l.°</i>; mas -não constava nem se provava que o aggravante se aproveitasse de tal -fraude e impostura para extorquir valores aos seus <i>estupidos -cortezãos</i>; <i>o que decerto</i> praticaria um <i>gamenho</i> -decidido a fingir-se <i>D. Miguel</i> para os espoliar. Que a pronuncia -fôra iniqua, atabafada apaixonadamente, e sem base, visto que -<i>nada</i> se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas se fez -obra por hypotheses e indicios, fundada em um rei de individuos -<i>alarves</i> a quem o supposto <i>monarcha</i> fazia mercês de -commendas, de titulos, de patentes e até de mitras, sem que d'ahi -resultasse alvoroto nem <i>leve perturbação</i> na ordem publica, nem -mesmamente damno para os mencionados <i>burros</i> que pediam as -mercês, e que deviam ser pronunciados em primeira instancia, se a -<i>côrte de S. Gens de Calvos</i>, não fosse uma <i>farça de -entrudo</i>. -</p> -<p> -E, dilatando-se philosophicamente e chistoso, o juiz relator, -addicionava, aconselhando, que seria bom e proveitoso que nas terras -selvaticas do Minho se espalhassem muitos <i>Migueis</i> d'aquella casta e -feitio até que os novos <i>Sebastianistas</i> se convencessem de que -<i>somente assim</i> poderiam arranjar um <i>Miguel</i> que lhes désse -commendas, titulos, postos militares e prelazias. -</p> -<p> -Os desembargadores, com o seu rapé engatilhado aos narizes, riram muito -do final do accordão, e, sorvidas as pitadas sibillantes, assignaram -por unanimidade. -</p> -<p> -Reformada a sentença e pagas as custas pelo juiz da primeira instancia, -Verissimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escriptorio do -carcereiro Mello para se despedir, encontrou a Libania de Covas -desmaiada de jubilo, nos braços da mulher do chaveiro. Como era feliz, -deixou-se ser mulher—chorou; e quando lhe cumpria dar animo ao preso, -no pateo do governo civil, riu-se com a valentia dos homens -extraordinarios. -</p> -<p> -O conselheiro Leite recommendou ao Nunes procurador que lhe mandasse a -casa o Verissimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, -com maneiras submissas, mas dignas d'um Borges Camêlo infeliz. -</p> -<p> -O desembargador explicou-lhe que o chamára para lhe fazer conhecer a -divida que lhe pagou, posto que as situações fossem muito diversas. -Improperou-lhe serenamente o seu delicto; estygmatisou a acção de -permittir que o julgassem D. Miguel; fallou acerbamente contra este -tyranno parricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o -trilho da honra, o trabalho, e a expiação das suas irregularidades, -mostrando-se digno da compaixão que lhe inspirára, despronunciando-o. -O Verissimo beijou-lhe a mão, e recusou dez pintos que o conselheiro -lhe dava—que, se um dia necessitasse, lh'os pediria. E o Fortunato -Leite, a rir: -</p> -<p> -—Então as bêstas dos abbades sempre cahiram? Fez você muito bem. -Devia esfolar essas cavalgaduras! -</p> -<p> -O Verissimo recuava muito agradecido. -</p> -<p> -O conselheiro Fortunato exerceu uma energica influencia vitalisadora na -nova encerebração de Verissimo Borges e bastante na do Torquato Nunes -Elias. -</p> -<p> -Por medeação do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvará de -solicitador de causas nos auditorios do Porto. Ganhou boas relações. -Era esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a -mulher e os dois filhos. Alugaram casa na rua de Traz as duas familias. -Davam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 réis das -Botelhas, de meias com os salarios de procurador. O Verissimo -frequentava á noite o café das Hortas, jogava o quino e, de vez em -quando, ia ao café da rua de Santo Antonio ouvir os demagogos dos manos -Passos, que o festejava e catequisavam. Dava-se com os Navarros, com o -Almeida Penha, com os Peixotos vidraceiros. Elle, sobpondo ao -reconhecimento os escrupulos de espião, contava ao conselheiro Leite, -cabralista intransigente, os planos dos setembristas, os clubs, as lojas -de carbonarios, as tramoias arranjadas em Braga pelo barão do Casal, -muito setembrista, padre Alves Vicente, de combinação com o Passos -José, com o Faria Guimarães, com o medico Resende, com o Damasio, com -o Alves Martins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia -com as conspirações da viella da Neta—aquelle baluarte da Liberdade -que demorava paredes-meias com os escombros do Deboche, não griphado, -muito á franceza;—tudo acabado hoje em dia, e soterrado debaixo d'uma -loja de modas, d'um café e d'uma taberna,—o vitalismo soez e chato da -decadencia. -</p> -<p> -Verissimo arrecadava uma gratificação, umas seis libras mensaes, -mesquinha paga dos serviços que fazia á ordem, á tranquillidade -civica da rua das Flores e das Congostas. -</p> -<p> -Na contra-revolução de 9 de outubro de 46, quando foi preso o duque, -José Passos encontrou o Verissimo na Praça Nova, chamou-lhe -<i>patriota</i>, pôz-lhe a mão no hombro, sacudiu-o pelas lapellas, e -disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, por que o duque estava a -desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Villar, -n'um restrugir de tempestade, quando o Verissimo e o Nunes procuraram o -conselheiro Fortunato que tiritava de mêdo com as suas enxundias -espapadas entre as filhas, n'uma consternação. Disseram-lhe que se iam -armar para se constituirem sentinellas da segurança do seu bemfeitor. O -conselheiro abraçou-os muito commovido, n'uma excitação apopletica. -</p> -<p> -Depois formaram-se os batalhões nacionaes. Verissimo e Torquato foram -promovidos a tenentes do batalhão da Vista Alegre. Quando foi da -refrega de Valpassos tinham comprehendido intelligentemente que a -retirada de Sá da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza -precursora de uma derrota. Conheciam o perfido espirito do 15 e do 3 de -infanteria,—previram a traição. Tinham pensado maduramente os dois -tenentes, sem enthusiasmo, com a prudencia dos quarenta annos apalpados -pelos revezes de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os -batalhões de linha se passassem para as forças reaes. Travou-se o -encontro de Valpassos. Com os dois regimentos que n'um turbilhão e a -gritos de <i>Viva a Rainha</i> se abraçaram ás vanguardas do Casal, tambem -elles, por debaixo do fogo do seu batalhão, se passaram, dando <i>vivas -á Carta Constitucional</i>. Eram a obra da prudencia e do conselheiro -Fortunato Leite. -</p> -<p> -Quando o barão de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os dois -tenentes apresentados pediram venia ao general para servirem na columna -do visconde de Vinhaes;—que tinham repugnancia de pelejar cara a cara -com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro José -Vieira e do padre José da Lage. A vergonha impunha-lhes o dever de -dourar a mentira. Não lhes pareceu decente irem acutilar nas ruas de -Braga o Christovão Bezerra, de Bouro e o abbade de Calvos e o padre -Manoel das Agras. Não poderiam vêr sem magua a soldadesca a dar saque -aos dinheiros das snr.ªs Botelhas. -</p> -<p> -Ainda assim não puderam esquivar-se a perseguir os realistas da -comitiva de Mac-Donald, desde Villa Real até Sabroso; mas não -desembainharam as espadas, porque o visconde de Vinhaes os admittiu ao -seu quartel-general, e os cadaveres que encontraram pela serra do Mezio -até Sabroso, onde pereceu acutilado o caudilho escossez, eram façanhas -das guardas avançadas. Os dois tenentes não deram nem tiraram gota de -sangue n'esta lucta fratricida. Um triumpho a sêcco. -</p> -<p> -Concluida a guerra civil pelo convenio de Gramido, depositaram as armas -e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhaes, o -Alpendurada, o Carneiro Geraldes, o Joaquim Torquato, o centro -cabralista recommendou-os á consideração magnanima de sua magestade. -O Nunes, como sabia do fôro, foi despachado escrivão de direito para a -Estremadura. Verissimo Borges obteve uma fiscalisação rendosa dos -tabacos e sabão em Traz-os-Montes: depois foi transferido, com -vantagem, para a alfandega de Vianna do Minho; e por ultimo para uma -direcção aduaneira do Ultramar. Ainda vivia ha poucos annos, porque um -jornal da localidade, debaixo de um symbolo funebre—um anjo curvado e -deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas de um -chorão—publicava: -</p> - -<blockquote><p> -<i>Verissimo Borges Camêlo da Mesquita dá parte aos seus numerosos e -respeitaveis amigos que foi Deus servido chamar á sua divina presença, -hoje pelas 5 horas da manhã, sua chorada esposa D. Libania de Covas -Borges da Mesquita, a cujo cadaver, etc. Pelo seu profundo estado de -consternação pede desculpa de cumprimentos.</i> -</p></blockquote> - -<p> -O jornal, depois de uns adjectivos lugubres e velhos como a morte, -accrescentava: <i>A exc.<sup>ma</sup> snrª D. Libania, que todos -choramos com seu exc.<sup>mo</sup> viuvo, era uma senhora de -esmeradissima educação, pertencia á illustre familia dos -Covas;—modêlo no tracto insinuante com que captivava o respeito e -a amizade de todas as pessoas d'esta Ilha, que tiveram a fortuna de a -conhecer. Receba s. exc.ª o snr. conselheiro-director os nossos mais -sentidos pesames pela desgraça que acaba de o ferir -implacavelmente</i>. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Verissimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo e -d'alma. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura14.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XIII">XIII</a></h4> - -<p> -O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tres contos de -réis, foi para as Lamellas, e entrou de noite para que o não vissem. -Elle tinha-se gabado aos visinhos de que estava despachado sargento-mór -e seu pai coronel reformado. Ao José Dias de Villalva e mais ao pai que -era regedor, mandára-lhes dizer que elles brevemente haviam de topar -com o seu homem. Da Martha de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua -paixão nao tinha outro respiradoiro. Além d'isso, nao podia -esquecer-se da nadega exposta pelo cão ás descompostas gargalhadas da -rapariga. Era uma vergonha chronica. E, para remate de desastres, -voltava para as Lamellas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava -cavalgadura—que se deixasse de politica e fosse fazer paredes, que é -o que elle sabia. -</p> -<p> -Constava-lhe de mais a mais que o José Dias, o estudante, estava sempre -em Prazins, e tinha ido com Martha e mais o Simeão ao fogo preso da -romaria de S. Thiago da cruz. Viram-os todos tres a tomar café de -madrugada n'uma barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, em -quanto o velho tosquenejava a dormitar. -</p> -<p> -O pai de José Dias, o Joaquim de Villalva, era um lavrador de primeira -ordem. Lavrava quarenta carros de milho e centeio, uma pipa de azeite, -dez de vinho, muita castanha, tinha tres juntas de bois chibantes e -poldros de creação. O José, meeiro no casal, a não se ordenar, era -um dos primeiros casamentos do concelho. -</p> -<p> -O rapaz amava castamente a Martha com a pudicicia do primeiro amor. Ella -tinha uma formosura meiga, delicada e supplicante. Parecia pedir que a -não immolassem a uma paixão sensual; mas, se o seu amado o exigisse, a -victima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o -sacrificio. Tinha extasis a contemplar-lhe os cabellos loiros e a -pallida face doentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma -santa de jaspe—um quadro paradisiaco sem fructas nem cobras. -</p> -<p> -O José não necessitava pedil-a ao pai na incerteza de uma recusa. -Disse-lhe que ella havia de ser a sua esposa: a creança contou ao pai -as palavras do amado e o Simeão:—Ora venha de lá esse abraço, amigo -e sê Zé!—e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a -sua filha <i>como se quer</i>. -</p> -<p> -Mas os paes do estudante já tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo, -que a môça de Prazins não era fôrma de seu pé. A mãe -principalmente protestava que, emquanto ella fosse viva, a tal filha da -Genoveva de Prazins não havia de ser sua nora, nem que a levasse o -diabo, e Deus lhe perdoasse, se peccava. Justificava-se dizendo que a -Martha era de ruim casta; que a mãe, a Genoveva, dera desgostos ao -homem, pintava a manta nas romarias, andára muito fallada com um frade -de Santo Thyrso, e um dia pegára a dar gritos na egreja; toda a gente -disse que ella tinha o demonio no corpo, e afinal morrêra douda, -atirando-se ao rio Ave. -</p> -<p> -E constava-lhe que o avô d'ella tambem não era escorreito, e quando -já tinha sessenta annos mandára fazer uma sobrepeliz, abrira corda, e -onde houvesse um defunto lá ia com um ripanso á egreja e punha-se a -cantar como os padres. A tia Maria de Villalva tinha inconscientemente -este horror moderno, scientifico da hereditariedade; mas o que mais a -impulsionava na sua resistencia aos rogos do filho era ter sido <i>má -mulher</i> a mãe de Martha. <i>De má arvore mim fructo</i>—era toda -a sua philosophia que se encontra diluida modernamente nas explorações -physio-psychologicas do Janet, do Maudsley e no determinismo. -</p> -<p> -O Joaquim de Villalva, muito instado pelo filho e pelo padre Osorio, o -de Caldellas, promettia fazer o que a sua companheira fizesse: mas -dizia-lhe a ella em particular:—Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que -sim, ouviste? E ella:—Deixa-me cá, homem! Vem barrados. Credo! -</p> -<p> -A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para não perder a -sua missinha no verão ao romper do dia, e garganteava com uma melopêa -fanhosa a via-sacra na quaresma, á volta da egreja; presenteava os -santos dos altares com os mimos da sua lavoira que se leiloavam ao -domingo no adro, dava cama e mesa unctuosa aos missionarias, -confessava-se todos os mezes, e sentia pelas suas visinhas menos beatas -o ineffavel prazer de affirmar que haviam de cahir vestidas e calçadas -no inferno. O filho penetrou-se d'uma idéa trivial a respeito de sua -mãe:—Que os sentimentos religiosos a levariam a dar o consentimento, -se Martha commettesse um d'esses peccados que se remedeiam com o -matrimonio. O padre Osorio dizia-lhe que a intenção era honesta, mas o -expediente mau. Não lhe citou theologos nem preceitos de origem divina. -Argumentou-lhe com a hypothese da pertinaz resistencia da mãe. Que -não esperava nada da sua religião,—um habito de tregeitos de mãos e -de beiços, o automatismo idolatra dos selvagens da America que davam -guinchos mechanicos, prostrando-se por terra, quando ouviram a primeira -missa; que a religião das aldeias, sobre a dos indianos da catechese -dos jesuitas, as vantagens que tinha era a hypocrisia em uns, e o -fanatismo em outros, quando não se ajuntavam ambas as coisas nos mesmos -fieis. O padre Osorio parochiava e conhecia o seu rebanho, joeirando-o -pelos crivos do confessionario. Não conhecia menos a tia Maria de -Villalva. Affirmava que a fragilidade de Martha seria para a velha mais -um motivo de odio e desprezo; por que, na sua cartilha e nos dictames -dos seus directores espirituaes, não se lia nem ouvia que a mãe devia -encobrir a deshonra de uma rapariga casando-a com o seu filho, seductor -d'ella. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -As reflexões do vigario de Caldellas eram optimas mas extemporaneas. -</p> -<p> -Um official de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre -Zeferino, contou-lhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando -que era dia nado, se levantára para ir para a obra; mas que ao passar -por diante da casa do Simeão ouvira duas horas no relogio, e vira luz -pelas frestas de uma janella. Que se puzera á coca debaixo de um -carvalho, a desconfiar que a luz áquella hora não era coisa boa, e -estivera, <i>vai não vai, ó pernas p'ra que te quero</i>, lembrando-se se -seria bruxedo ou alma penada, por que se dizia que a Genoveva do -Simeão, a que se deitara ao rio, não podia entrar no purgatorio, e -morrera com o diabo no corpo, salvo seja. Estava n'isto quando a luz se -sumiu, e se coou pelas frestas d'outra janella, e logo depois n'outra -mais baixa, onde um homem podia chegar, com o cabo d'um machado. N'isto -apagou-se a luz e abriu-se a janella de portadas sem vidros. Dava-lhe a -chapada do luar;—era como se fosse dia. O pedreiro, muito no escuro -da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabeça e depois meio corpo de -homem que se pôz ás cavalleiras do peitoril da janella, quedou-se a -olhar e a escutar a um lado e outro; depois desmontou-se muito -devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se -cahir, ficando em pé. A janella fechou-se, e o José Dias, que o -operario conheceu como se o visse ao meio dia, metteu-se ao caminho de -Villalva, por signal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao -luar como um espelho. -</p> -<p> -O oratoriano Manoel Bernardes, como é notorio, escreveu um livro -edificante, muito piedoso, chamado <i>Armas da Castidade</i>. O mystico -filho de S. Philippe Nery, com duas palavras sãs, d'um realismo seraphico, -cabalmente explicou a situação d'outro José Dias a respeito d'outra -Martha. <i>Conhecia-lhe o leito</i>, dizia elle. É o mais que se póde dizer -sem escandalisar ninguem. Conhecia-lhe o leito. -</p> -<p> -Mas o Zeferino é que sentiu em cheio no peito amante a facada do -escandalo. O official viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava -esquadriando, e, com o rosto entre as mãos, desfazer-se em pranto. Elle -tinha amado aquella rapariga desde que a vira aos treze annos. -Trabalhára e roubára como gallego para a poder comprar ao pai por um -conto e quinhentos e pico. Metteu-se na politica; fez-se sargento-mór a -vêr se se levantava a uma altura em que a Martha o achasse digno d'ella -e superior ao estudante. Desabadas as esperanças com a prisão do -patife de Calvos, scismava ainda em voltar de novo ao campo quando -viesse o D. Miguel authentico, porque o tenente-coronel de Quadros lhe -dizia que el-rei chegava a Portugal na primavera do anno -seguinte—affirmava-lh'o o padre Rocha para o consolar juntamente com -as bebedeiras quotidianas. Tudo acabado, perdido, como se lhe morresse a -Eva do seu paraizo! E por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas -trahidos, como Camões, como Tasso, como Alfred de Musset. As lagrimas -na cara tostada d'aquelle operario tinham o travo das que a poesia -crystallisou no pantheon dos martyres do amor. -</p> -<p> -Depois, levantou-se, limpou as faces á manga da camisa, pegou da -esquadria e continuou a trabalhar, assobiando a musica triste d'uma -cantiga d'esse tempo: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Ó mar, se queres,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Tem dó de mim.</i></span> -</div></div> - -<p> -Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor -não punha a pontaria em Martha. Se deixava de cinzelar a pedra, e -fitava os olhos extaticos n'um immenso vacuo, via passar lucilante a -imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze annos. Um -grande romantico—uma explosão de ideaes que florejavam d'aquelle -pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia -d'estas transigencias com os anjos despenhados. Dir-se-ia que elle tinha -lido as <i>Confissões de um filho do seculo</i>, aquella torrente de -lagrimas ignobeis que lava os pés de uma dissoluta illustrada. -</p> -<p> -Elle, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas -ricas protuberancias osseas do seu grande craneo, a bossa do homicidio -era muito rudimentar. Tinha tido varias occasiões de poder-se gabar -d'essa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes a um pinhal, por -causa das denuncias ao padre mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe -rasgou a calça n'um sitio melindroso, o Zeferino desconfiou que, se -fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado á -cabeça do caçador. Elle queria espesinhar o cadaver de José Dias, -espostejal-o, trincal-o, mascal-o, esmoêl-o, devoral-o, mas á maneira -dos devoristas incolumes que compram um porco já morto na Ribeira -Velha, e o esquartejam com um grande regosijo anthropophago, com as -mãos ensopadas nas banhas da victima. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a -descoberta que fizera n'aquella noite em que se enganára com o luar. A -Martha estava desacreditada na freguezia; as mulheres que sachavam os -milharaes faziam commentarios perpetuos ao texto do pedreiro, recordavam -as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas -diziam que a Brigida Gallinheira, avó da Martha, já tinha dado o -exemplo á filha.—Uma geração de maratonas do alto, dizia a tia Rosa -de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do -Zeferino que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; -que lhe tinham sahido dois casamentos com boas lavradeiras, e elle diz -que havia de ir morrer solteiro ás Pedras Negras, depois de matar um -homem; e houve quem affirmasse que o vira com um bacamarte debaixo dos -carvalhos, por essa noite fóra, defronte da casa do Simeão. Uma -calumnia. -</p> -<p> -Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ella fez dormir o -filho era uma trapeira que não tinha janella por onde saltasse, e -fechava-o de noite por fóra, rogando pragas á serêsma de -Prazins:—Que um raio a partisse e o diabo a levasse para as profundas -do abysmo! Depois ia rezar a corôa com os creados, e rogava a Deus -pelos que andavam sobre as aguas do mar e pelas almas de todos os seus -parentes e visinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção. -</p> -<p> -O José Dias vivia amargurado. Tinha sido creado n'um grande respeito -aos paes, e sentia-se inhabil para lhes reagir. A doença de peito que -principiava a desvigorisar-lhe o corpo, implicava-lhe com a atonia da -alma. Sentia o egoismo indolente dos enfermos minados pela consumpção -lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia -dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o -gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das -chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osorio. -Pedia-lhe conselhos—que arranjasse modo de elle poder casar com a -Martha.—Que eu, dizia com desalento, não vou longe; mas queria -remediar o mal que fiz. -</p> -<p> -A Martha escrevia-lhe para Caldellas, porque a tia Maria de Villalva, -uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre elle com -um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do -instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, -lagrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrario, dizia-lhe a -miudo:—Se o Zé de Villalva não casar comtigo, talvez seja a tua -fortuna, por que póde ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais -mez menos mez elle rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O -brazileiro da Rita Chasca que chegou agora diz que elle tem quatrocentos -contos fortes, p'ra riba, que não p'ra baixo.—A Martha escondia-se a -chorar; e, ás vezes, lembrava-se do fim da mãe—o suicidio; e -punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que -parecia trazer-lhe os gemidos agonisantes de muitos afogados. -</p> -<p> -O Dias fallava-lhe na sua doença, no desfallecimento de forças que já -o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a -familia o via padecer, do odio que começava a ter á mãe, e das -saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Martha.—Que o seu -amigo padre Osorio trabalhava para obter o consentimento do pai; mas -que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ella, mesmo sem -recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar. -</p> -<p> -De tempo a tempo ia vêl-a de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, -e ralava-o:—que a tal croia havia de dar cabo d'elle. O cirurgião -tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6.°. Ella, como -sabia os mandamentos de cór e salteados, entendeu logo, e dizia a toda -a gente que o seu Zé andava assim um pilharengo por causa do 6.°. Era -o resultado de saber a doutrina christã esta decencia no explicar-se -por numeros. As visinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava -<i>forgado</i>, que lhe mettesse uma enxada nas unhas e o puzesse a roçar -matto oito dias, que elle perdia o cio. -</p> -<p> -Decorreram alguns mezes. Com a primavera a saude de José Dias pareceu -restaurar-se. Elle attribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, -que era regedor, a pedido do governador civil que o mandou chamar a -Braga, por intervenção do padre Osorio, dava o consentimento; mas a -mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionarios a -Requião, para a reduzirem ao dever de catholica. O vigario de Caldellas -já tinha prevenido um egresso do Varatojo, fr. João de Borba da -Montanha, das terras de Celorico de Basto, d'uma força prodigiosa em -emprezas mais difficeis. -</p> -<p> -Martha recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamellas digeria -a sua dôr, assobiando a musica da melancolica bailada: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Ó mar, se queres.</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Tem dó de mim.</i></span> -</div></div> - -<p> -Para seu desafôgo, ia a miudo a Quadros saber quando chegaria o snr. D. -Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formára-se a -juncção dos dois partidos hostis aos Cabraes, aproximados pelas -eleições sanguinarias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em -Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da -Povoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha -communicava-lhe as noticias enviadas de Londres pelo Saraiva, e -conseguiu que elle fosse ao Porto receber o gráo de commendador da -ordem de S. Miguel da Ala a casa do João d'Albuquerque, da Insua, que -representava nas provincias do norte o Grão-Mestrado. O Zeferino sentia -momentos de jubilo de tigre que se agacha a medir o salto á presa. -Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a -mastigar os ligados do José Dias. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura15.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XIV">XIV</a></h4> - -<p> -Em março d'aquelle anno, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os -motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na camara dos -communs, lord Bentinck explicou tragicamente, em phrases pomposas, a -origem d'essa revolução, que um desdem indigena chamou «rebellião da -canalha». Elle disse <i>que os Cabraes mandaram construir cemiterios; mas -não os muraram; de modo que entravam n'elles cães, gatos e porcos -bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadaveres</i>.<a name="FNanchor_8_1" id="FNanchor_8_1"></a><a href="#Footnote_8_1" class="fnanchor">[8]</a> -As nações e os naturalistas deviam formar uma idéa assaz agigantada -do tamanho dos gatos portuguezes que desenterravam cadaveres, e das boas -avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exhumação -dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que -vinham do Gerez collaborar com os cães e gatos n'aquella mineração -das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição -nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionaria. Foi -uma reacção, uma batalha social á canzoada e gataria confederadas com -o focinho profanador de porco montez. E d'ahi procedeu escreverem os -jornalistas da Allemanha, um paiz sério, que a revolução do Minho era -o «typo da legalidade». Os cadaveres servidos nos banquetes illegaes e -nocturnos dos javalis, com a convivencia de gatarrões a rosnarem com o -lombo erriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que -impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto prohibido -pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a -alcateia das feras colligadas, o certo é que a insurreição do Alto -Minho talou esta provincia e a transmontana, devastando as papeletas -impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos -gatos e seus cumplices fez soffrer ao capital do paiz uma diminuição -de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o calculo do ministro da -fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um genio no algarismo. -</p> -<p> -O Zeferino das Lamellas, ás primeiras commoções do vulcão popular, -nos arredores de Guimarães, preparou-se; e assim que ouviu repicar a -rebate em Ronfe, cheio de ciumes como o sineiro de <i>Notre-Dame</i>, -agarrou-se á corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de -tres freguezias, e pegou a dar <i>morras</i> aos Cabraes com applauso -universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este -expediente estatistico com canastro:—que os Cabraes e os seus -empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal á -Inglaterra; que esses roes estavam nos cartorios das administrações e -em casa dos regedores; que era preciso queimar-as <i>papelêtas</i> e matar -os cabralistas. -</p> -<p> -Em seguida, invadiram a administração de Santo Thyrso, quebraram as -vidraças dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos -papeis acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalicão. -Zeferino nomeára-se <i>chefre</i> da gentalha embriagada nas adegas -arrombadas dos cabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores -que topassem. Dizia que o Joaquim de Villalva, nas eleições do anno -anterior, muito socadas, cascára no povo e mais os cabos, na assembleia -de Landim, cacetada brava. A bebedeira dos ouvintes dera á perfida -aleivosia do pedreiro vingativo o valor de facto historico. O plano de -Zeferino era abrir opportunidade a que José Dias fosse assassinado ou, -pelo menos, preso e degredado como cabralista. -</p> -<p> -Villalva ficava-lhes a geito, no caminho de Famalicão. O amante de -Martha ouvira grande alarido e vira ao longe a multidão que galgava um -outeiro turbulentamente. Via-se desfraldado no ar, em oscillações -largas, o panno escarlate de uma bandeira: era um pedaço do Velho -estandarte que servia nas procissões de Santa Maria d'Abbade. José -pediu ao pai que fugisse. O regedor disse que não—que nunca tinha -feito mal a ninguem, nem sequer prendêra um refractario: que o mais que -podiam fazer era tirar-lhe o governo. -</p> -<p> -José Dias tinha mêdo ás covardes ameaças do Zeferino; diziam-lhe que -o pedreiro jurára matal-o, e já constava que era elle o chefe da -guerrilha, em que se alistaram todos os ladrões e assassinos conhecidos -na comarca. A mãe empurrava-o pela porta fóra—que fugisse para -Caldellas; que não fosse o diabo armar-lhe alguma trempe por causa da -Martha, da tal bebedinha que não dera cavaco ao pedreiro. Elle deitou o -sellote á egua e fugiu a galope; mas o regedor, com a sua consciencia -illibada, esperou os revoltosos com o Zeferino á frente, brandindo a -espada do pai, que não se desembainhára desde o ataque a Santo Thyrso. -</p> -<p> -—Está você preso por cabralista!—intimou o pedreiro, -deitando-lhe a mão á lapella da véstia; e voltado para a -turba:—Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso! -</p> -<p> -—Os meus filhos sahiram; mas entrem, busquem á vontade disse o -regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente:—Ah seu Zeferino, -seu Zeferino, você não veio aqui p'ra me prender a mim... É outra -historia que você lá sabe. Isto de mulheres são os nossos peccados, -mestre Zeferino... -</p> -<p> -—Não me cante!—bradou o das Lamellas com furiosos -arremêssos.—Está preso, e mexa-se já para a cadeia. -</p> -<p> -—Você não pôde prender-me, mestre Zeferino—contrariou a -auctoridade dentro da lei—Vá buscar primeiro uma ordem do meu -administrador ou do governador civil. -</p> -<p> -—Já não ha governador civil!—explicou o -caudilho—Agora são outros governos, seu asno! Quem reina é o -snr. D. Miguel l.° E você não me esteja ahi a fanfar, que eu já o -não enxergo. Ande lá p'ra cadeia com dez milhões de diabos! -</p> -<p> -O regedor entrou em Villa Nova de Famalicão na onda de alguns milhares -de homens e rapazes que davam <i>vivas</i> a D. Miguel, ás leis novas, -á santa religião e <i>morras</i> aos cabralistas. Quando queimavam os -papeis, um brazileiro setembrista, o Sá Miranda, disse ao commandante -que não convinha por emquanto aclamar D. Miguel; que dessem -<i>morras</i> ao governo e vivas á religião. N'esta barafunda, o -regedor preso entre meia duzia de jornaleiros que discutiam as leis -velhas e as novas na taverna do Folipo, comprehendera um acêno do -taverneiro e fugira pelos quintaes. Metteu-se ao caminho de Braga, onde -estava o general conde das Antas. O José Dias, receando que o -perseguissem em Caldellas, refugiara-se também em Braga e alistou-se no -batalhão dos serezinos commandado pelo conego Mont'Alverne. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -N'este meio tempo, chegou da America o Feliciano Rodrigues Prazins, tio -de Martha. Demorou-se poucos dias. Ganhára medo que o roubassem as -guerrilhas. Foi para o Porto pôr em segurança as suas lettras e voltou -quando a queda dos Cabraes garantia o socego dos capitalistas. Na volta -a Prazins, olhou mais attentamente para a sobrinha, deu-lhe alguns -cordões, e disse ao irmão que não se lhe dava de casar com ella. O -Simeão affirmou logo com um descaramento perdoavel:—que não se fosse -sem resposta o mano que a moça dava o cavaco por elle. -</p> -<p> -Feliciano tinha quarenta e sete annos. Não se parecia com a maioria dos -nossos patricios que regressam do Brazil com uma opulencia de fórmas -almofadadas de carnes sucadas. Era magro esqueleticamente, um organismo -de poeta sugado pelos vampiros do <i>spleen</i>. Dizia, porém, que tinha -febras de aço e nunca tomára remedios de botica. Muito myope, usava de -monoculo redondo n'um aro de bufalo barato. Como era economico até á -miseria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para -não comprar dous; e que, se pudésse, venderia um olho como coisa -inutil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta annos -arredondára trezentos contos. Chegára aos quarenta e sete, ao outono -da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcára nos latibulos da Venus -vagabunda. A sua virgindade era admirada e notoria; depunham a favor -d'ella os seus caixeiros, os feitores e—o que mais é—as suas -escravas. Os seus patricios devassos chamavam-lhe o Feliciano -<i>Pudicicio</i>. Elle não se envergonhava de confessar a sua castidade ao -parocho de Caldellas. Tinha vivido como um dessexuado;—que trabalhava -muito nos seus armazens, que dormia poucas horas, e não dava folga ao -corpo nem péga aos vicios. Originalissimo. Que lhe sahiram casamentos -ricos; mas que elle para ser rico não tinha precisão de mulher; que -vira algumas meninas pobres a namoral-o; mas que desconfiára que lhe -namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo que elle dizia -<i>seixo</i>. N'uma palavra, estava virgem. Elle podia dizer como Hamlet: -<i>Não me deleitam os homem não tão pouco as mulheres</i>. -</p> -<p> -A sobrinha reformára aquella natureza aleijada. Talvez o desdem com que -Martha o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do -brazileiro. Além d'isto, a môça, muito parecida com elle na delgadeza -das fórmas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer -amar de um homem de quarenta e sete annos—intacto de mais a mais. O -presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma -desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Martha acceitou -a dadiva sem enthusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da -possibilidade de ser mulher de seu tio, <i>se adregasse gostar d'ella</i>. -Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma nausea, um quasi odio, -suspeitando-lhe os projectos; e quando elle fugiu para o Porto, com medo -ás guerrilhas, sentiu ella uma satisfação incomparavel. Entretanto, -apezar das más informações do brazileiro da Rita Chasca, o Feliciano -sentia filtrar-se-lhe nas cellulas impollutas do coração o veneno -dôce de uma paixão cheia de condescendencias, pouco superciliosa em -pontos de honra, como quem pensa que no thalamo conjugal não se faz -mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que elle pensava. -Ninguem lhe desdourára a honra da sobrinha, nem o derriço com o José -Dias fazia implicancia á sua honestidade. Elle não tinha os -rudimentos de malicia necessaria para desconfiar que uma menina de -dezeseis annos, creada nos seios da Natureza immaculada de uma aldeia do -Minho, pudesse abrir de noite uma janella, debruçar-se no peitoril e -ajudar a subir um homem. O official do pedreiro é que sabia casos, -anomalias, desde aquella noite em que o luar o enganou. -</p> -<p> -Martha ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. -Irritou-se. Tinha sido creada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e -com uns ares senhoris que desauctorisavam o respeito que o pai, rustico -lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar como as filhas -desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o -tio; que o desenganasse, se quizesse; e, se não quizesse, ella o -desenganaria. A terrivel nota golpeára-lhe o coração cheio de -saudades de José Dias que lhe escrevêra de Braga, por intervenção do -padre Osorio, dando-lhe coragem e esperança no casamento logo que -cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando -elle instava com ella a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem -mais rico de Portugal, abaixo do rei. Martha replicava com tregeitos de -tedio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistencia do pai, -protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe. -</p> -<p> -O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado n'uma tristeza -estupida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido -na serra. A pequena já não queria ir á mesa, mettia-se na cama e -fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano. -</p> -<p> -José Dias e o pai permaneciam em Braga, por que em differentes pontos -da provincia continuavam as agitações miguelistas; o novo ministerio -não tinha força, e o Zeferino das Lamellas nunca depozera as armas. Os -seresinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os -agitadores. José Dias, em uma d'essas sortidas a Villa-Verde, a pé e -com pouca saude, ganhára uma bronchite que o teve de cama largo tempo. -Quando se levantou, n'uma apparente convalescença, a tisica tuberculosa -recrudescia pessimamente caracterisada. O padre Osorio fôra visital-o, -ouvira o medico e sabia que o seu amigo estava perdido. Fallou ao pai, -em particular, no estado do filho. Lembrou-lhe a sua promessa de -consentir no casamento com a pobre Martha, que se perdêra confiada nos -compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniencia -de Martha em casar, se o seu filho tinha de morrer cêdo.—Que a viuva, -dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus -pais. Não comprehendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela -palavra que déra, repetiu que elle pela sua parte concedia a licença, -se a mãe a désse; e justificava-se d'este respeito á mulher, -allegando que a casa de Villalva era toda da sua companheira, e o que -elle levára para o casal não valia dois caracoes.—Emfim, concluia, se -o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, emquanto elle assim estiver, -faça favor de lhe não fallar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... -E um homem que está doente devéras não deve pensar em mulheres, é na -salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osorio. -</p> -<p> -—O vigario aprende o <i>padre-nosso</i>, dizia o de Caldellas. -</p> -<p> -Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aquelles desalentos e -presagios de morte que mezes antes o affligiam. Habituára-se ao -soffrimento; já não tinha memoria das perfeitas delicias da saude. -Quando espectorava sem violencia, e a dyspnea cedia aos xaropes e ao pez -de Borgonha julgava-se em uma quasi completa restauração. Escrevia ao -Osorio e a Martha com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a -Maria Santissima com quem se apegára fervorosamente desde que padecia, -e tambem com o oleo de figado de bacalháo. -</p> -<p> -A repugnancia de Martha, face a face do tio Feliciano, seria um -affrontoso desengano para o millionario, se não interviesse o -implacavel e engenhoso ciume do Zeferino. Este chefe de guerrilha em -armisticio soube que o brazileiro queria casar com a sobrinha e que o -José Dias estava em Braga muito acabado, a dar á casca. O pedreiro -chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brazileiro de -Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para -deitar cêrco ás casas dos realistas, e sujeitára-se a sustentar o -regimento á sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendel-o como -cabralista, e fazel-o pôr á má cara o dinheiro que havia de dar á -tropa. Um dos da malta, visinho do brazileiro, o <i>Metro</i>, tinha-o -convidado para padrinho de um filho. Procurou-o ás escondidas e -avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a -pressa. Queria que a sobrinha tambem fosse. Escrevia-lhe que, se -quizesse ir, compraria casa no Porto. Martha respondia que estava muito -doente, que não podia sahir da cama. O pai chegava a descompôl-a:—Que -não tinha molestia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que -perdesse d'ahi a idéa por que estivera com o doutor Pedrosa, de Santo -Thyrso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava <i>ethego</i> -e mais mez menos mez esticava a canella. -</p> -<p> -Martha respondia com serenidade de alma forte, e escorada n'uma -resolução suicida:—Se não casar com elle n'este mundo, casarei no -outro. -</p> -<p> -—Que te leve o diabo!—resmungava o Simeão, riçando -phreneticamente as suissas. Depois voltava manso e velhaco á beira do -leito:—Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquillo -não póde ir longe. Tu ficas p'r'ahi podre de rica, e podes casar -depois com um fidalgo, se quizeres... -</p> -<p> -—Valha-me nossa Senhora!—murmurava Martha, pondo os olhos na -litographia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas.—Quem me -dera morrer. -</p> -<p> -A tisica do José Dias com as frialdades humidas de novembro entrou no -segundo periodo. Recrudesceram as dôres de peito e a dyspnea, com -accessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com istrias -amarellas, e extrema magreza com repugnancia a todo o alimento. Pela -auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os -medicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incommodidades da -estalagem, e o levasse para casa onde lhe seria mais suave a morte na -sua cama com a assistencia da familia. Foi para Villalva transportado -n'uma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais -desafogado; e que, se ha mais tempo tivessem sahido de Braga, já elle -estaria rijo. -</p> -<p> -A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um -berreiro descommunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas á -Martha, que lhe matára o seu querido filhinho. As visinhas -concordavam:—que diabos levasse a mulher que o tolhêra! -</p> -<p> -O doente affligia-se, chorava como creança, e pedia ao pai que o -deixasse ir para Caldellas, para casa do seu amigo; que não podia vêr -a mãe; que lh'a tirasse de diante dos olhos; e que, se elle tivesse de -morrer, que lh'a não deixassem ir á beira da sua cama. E fazia -tregeitos furiosos, com os olhos a estalar das orbitas escavadas, -incendido pela febre. -</p> -<p> -Chegou o padre Osorio, e o doente applacou-se sob as consolações -calmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia -seguinte para Caldellas; mas nunca mais se levantou, nem fez inuteis -esforços. -</p> -<p> -Osorio não o desamparou. Ia á sua egreja dizer a missa dominical e -voltava para Villalva com as respostas de Martha aos bilhetes que José -lhe escrevia—poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam alegres -esperanças. -</p> -<p> -Toda a influencia de Osorio não conseguiu que o enfermo recebesse a -mãe no seu quarto. Não lhe podia perdoar o odio que ella tinha a -Martha; e bradava que a fazia responsavel perante Deus da deshonra da -desgraçada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos para -a eternidade, e dizia de si comsigo, a beata:—bem me fio eu n'isso. -</p> -<p> -Por fim já não podia escrever, nem levantar a cabeça no travesseiro; -mas perguntava ao Osorio se tinha noticias de Martha; que pedisse ao -irmão que fosse lá, e lhe dissesse que elle estava mais doente, e não -podia escrever. -</p> -<p> -Um d'esses recados motivou o bilhete que se copiou na <i>Introducção</i> -d'este livro, e que o moribundo já não pôde lêr. Desde que a mãe -lhe metteu á força dentro do quarto o vigario com a extrema-uncção, -um homem de opa com a campainha, outro com a agua-benta na caldeirinha, -mais dous com tochas, e outros com a sua devota curiosidade, o moribundo -cahiu na modorra comatosa, e apenas, com longos espaços, tinha uns -accessos sibilantes de ligeira tosse sêcca. Abria então os olhos que -fitava no rosto de Osorio, e ás vezes circumvagava-os espavoridos como -em busca da visão espectral da mãe que o vigario de Caldellas -cuidadosamente e com doloroso constrangimento defendia de entrar á -alcôva. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Villalva. Martha perguntou ao -pai quem tinha morrido. -</p> -<p> -Elle respondeu serenamente:—Dizem que foi o Dias que está com Deus. -Reza-lhe por alma que é o que elle precisa agora.—Martha deu um -grande grito, e com as mãos na cabeça, a correr, deitou a fugir pelos -campos. Ella sabia onde era o remanso fundo do rio Ave em que a mãe se -suicidára. O pai correu atraz d'ella, a gritar, que lhe acudissem. -Fóra d'aldeia, andava uma roça de matto, com muitos jornaleiros que -correram todos atraz de Martha, e a levavam quasi apanhada quando ella -cahiu, a estrebuchar, em convulsões. Conduziram-na para casa com os -sentidos perdidos, e puzeram mulheres a vigial-a na cama. Esta nova -chegou a Caldellas. D. Thereza, a irmã do padre Osorio, foi com o -irmão a Prazins, e convenceram o Simeão a deixar ir a filha para a -companhia d'elles algum tempo. -</p> -<p> -Martha chorava muito, abraçando-se no amigo de José Dias; e elle, -quando o lavrador com impertinencia dizia á filha «está bom, está -bom», observava-lhe com azedumes:—Deixe-a chorar, deixe-a -chorar!—E voltando-se para a irmã:—A estupidez é cruel! -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_8_1" id="Footnote_8_1"></a><a href="#FNanchor_8_1"><span class="label">[8]</span></a><i>Carta dirigida ao cavalheiro José Hume</i>. Versão -de Antonio Pereira dos Reis, 1847, pag. 99.</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura16.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XV">XV</a></h4> - -<p> -O Simeão de Prazins tinha sido antigamente regedor um anno; depois, -cahido o ministerio e o governador civil que o nomeara, voltou ao poder -o Joaquim de Villalva, cartista puritano, com a restauração da Carta. -Duas restaurações boas. O Simeão lembrava-se com saudades da sua -importancia no anno em que governára a freguezia—o respeito dos -rapazes recrutados, as considerações dos taverneiros, que davam jôgo -em casa, das raparigas solteiras que andavam gravidas, a auctoridade do -seu funccionalismo na junta de parochia, etc. Ora, como o Joaquim de -Villalva, desgostoso e doente com a morte do filho, pedira a demissão, -o administrador nomeou a regedoria no de Prazins. O brasileiro achou que -era bom ter de casa a auctoridade para maior segurança dos seus -cabedaes e pessoa. Foi uma desgraça. -</p> -<p> -Depois do convenio de Gramido, Zeferino recolhêra ás Lamellas com -alguns dos seus primitivos legionarios. Elle tinha passado trances -amargos. Ajuntára-se ao aventureiro Reinaldo Mac-Donell, em Guimarães, -quando o escossez descia do Marco de Canavezes para Braga; esteve nas -barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a -resistencia d'aquelles desgraçados illudidos pelo caudilho estrangeiro; -foi dos primeiros a fugir por Carvalho d'Este, a comprehender a -inutilidade da defeza, e por montes e valles deu comsigo em Porto d'Ave, -e d'aqui foi para Guimarães onde se aquartellaram o Mac-Donell com o -seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel -Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-o ao -palacete do visconde da Azenha, onde o escossez se tinha aquartellado -com o seu estado-maior. O Cerveira Lobo estava a beberricar cognac velho -copiosamente sobre uma ceia farta, comida sem sobresaltos. Á mesa, onde -faiscavam os crystaes dos licores, avultavam, scintillando os metaes das -suas fardas, o quartel-mestre general Victorino Tavares, de Fagilde, -José Maria de Abreu, ajudante de ordens, o morgado de Pé de Moura, o -Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, commandante do -batalhão de voluntarios realistas de Oliveira de Azemeis, que -arredondava 42 praças, e seu irmão Antonio Carlos de Castro, ajudante -de ordens do general,—dois homens gentilmente valorosos;—o -coronel Abreu Freire, morgado d'Avança, e o Bandeira de Estarreja que é -hoje padre. -</p> -<p> -A noite era de 27 de dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A -garrafeira da casa do Arco era um calorifico. O Mac-Donell, muito rubro, -n'aquella bebedeira chronica que lhe assistiu na vida e na morte, -esmoía a ceia passeando n'um vasto salão, de braço dado com uma -formosa senhora da casa, D. Emilia Correia Leite d'Almada. Dir-se-ia que -o bravo septuagenario tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava -matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira -Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com -gestos bellicos e as pernas desviadas como se apertasse nas côxas a -sella de um cavallo empinado no fragor da peleja. N'isto entrou um -camarada, ás 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre -general, que o procurava com muita urgencia um capitão de atiradores do -batalhão do Populo. -</p> -<p> -O Victorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho -Leal,<a name="FNanchor_9_1" id="FNanchor_9_1"></a><a href="#Footnote_9_1" class="fnanchor">[9]</a> um robusto e jovialissimo rapaz, de trinta annos, com uma fé -politica, antipoda da sua forte intelligencia—uma especie de poeta -medieval, com um grande amor romantico ás cathedraes e ás -instituições obsoletas e extinctas. Elle tinha muitos d'estes -camaradas visionarios e respeitaveis na sua phalange da Madre-Silva... -</p> -<p> -—Que ha?—perguntou o quartel-mestre general. -</p> -<p> -—Ha que estamos cercados pelos Cabraes. Os nossos piquetes de Santa -Luzia e do Castello já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em -outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça. -</p> -<p> -O Victorino ficou passado de terror, e levou o capitão á sala em que o -Mac-Donell passeava pelo braço de D. Emilia Azenha, e o visconde, o -hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hospedes, conegos, abbades, -capitães-móres, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escossez o -que dissera ao seu quartel-mestre. «O alma do diabo—escreve o snr. -Pinho Leal ficou com a mesma cara imperturbavel, e disse-me: <i>Isso não -vale nada. Tenho tudo prevenido. Mande recolher a gente a quarteis</i>.» -Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar -os bahus para a fuga; e os do estado-maior compelliram o general a fugir -tambem. Era uma hora da noite quando o exercito realista abandonou -Guimarães e entrou na estrada de Amarante. -</p> -<p> -Pinho Leal inventára o ataque dos cabralistas para salvar-se a si e aos -outros da carniçaria inevitavel; porque, ao romper a manhã do dia -seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda -embriagados da sangoeira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu -estylo militarmente pittoresco os veracissimos esclarecimentos de Pinho -Leal: ...«<i>A bêsta do escossez continuava na sua panria sem se -importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua «côrte». Eu, -vendo que de um momento para outro, podiamos ser surpreendidos e -trucidados pelos Cabraes, aproveitando a circumstancia de estar -«superior do dia» e tendo na casa da camara um «supporte» de cem -homens, commandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) -dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da -gente do «supporte» um sargento e quatro soldados da mesma companhia, -de todo o segredo e confiança. Sahi com eles por um bêcco e fui com -eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e -outra no piquete do Castello. Ao mesmo tempo, não sei quem é que -estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que -muito ajudaram o meu plano. O «Triste» em vista da nossa previa -combinação, mandou tocar a reunir e formou o supporte debaixo dos -Arcos da Camara. Eu e os meus cinco homens viemos surrateiramente -mettermo-nos na villa. Fui «passar revista ao supporte» a tempo em que -já na Praça da Oliveira estava muita gente armada</i>.»<a name="FNanchor_10_1" id="FNanchor_10_1"></a><a href="#Footnote_10_1" class="fnanchor">[10]</a> -</p> -<p> -E d'ali, Pinho Leal foi á casa do Arco, afim de salvar aquelles homens -que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e -retardar alguns dias a benemerita morte do general escossez assalariado -por Guizot com credenciais de Costa Cabral. -</p> -<p> -O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava á uma hora -d'aquella noite frigidissima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma -botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado -que punha a tiracollo nas marchas nocturnas. Encheu-o com ajuda do -pedreiro. O tenente-coronel, n'um grande desequilibrio, não acertava a -despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão -borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavallo. O Cerveira -affirmava que se sentia com os seus trinta annos; que andara a trote -largo do seu cavallo treze leguas e não estava cançado. O Zeferino -perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo -acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo -que o general era um asno, e que elle estava resolvido e mais o -Victorino a matal-o como traidor ao snr. D. Miguel I. -</p> -<p> -Moveu-se o exercito em direitura á Lixa. O Cerveira ia no grupo do -quartel-general. Mac-Donell, de vez em quando, regougava monossilabos em -hespanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se ás vezes um pouco -e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O -Victorino notava-lhe que elle bebia de mais—que o calor da genebra -não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na -cabeça—que era um perigo. O Cerveira dizia que estava affeito; -mas queixava-se de dôres nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se -podia lamber com somno, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua -cama. E abaixando a voz tartamuda:—Este ladrão d'este inglez -metto-lhe a espada até aos copos! Palavra d'honra que o mato ámanhã! -</p> -<p> -O Victorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas attribuiu -á embriaguez o embaraço na falla. Entrou a queixar-se o Cerveira de -que estava tonto da cabeça, que se queria apear, por que não podia -agarrar as redeas; e chamava com anciedade o Zeferino que vinha muito á -retaguarda. O quartel-mestre general chamou um ajudante de ordens, e -pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo -dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavallo que estranhava o peso e -o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio. -</p> -<p> -O apopletico ia resvalar, quando os dois officiaes o ampararam nos -braços, n'uma syncope. Um d'elles accende um palito phosphorico no lume -do charuto, e disse que o tenente-coronel tinha o rosto inchado e muito -vermelho. Chamavam-o, sacudiam-no; não dava signal de vida; nem um -ronquido estertoroso. Inclinaram-o sobre um combro de matto molhado; -não lhe acharam pulso; a bôca entortára-se, e os olhos muito abertos -com umas istrias sanguineas. Estava morto, fulminado pela apoplexia -alcoolica. -</p> -<p> -A respeito d'este desastroso remate do ebrio illustre, escrevo Pinho -Leal: <i>N'esta retirada pelas duas ou tres horas da noite, morreu em -marcha com uma apoplexia fulminante o P...<a name="FNanchor_11_1" id="FNanchor_11_1"></a><a href="#Footnote_11_1" class="fnanchor">[11]</a> Coitado! quando me lembra -isto ainda tenho cá meus remorsos de consciencia. Quem sabe se seria eu -a causa da morte d'aquelle pobre diabo? Consola-me porém a certeza de -que—mesma que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, -poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); -e o morto já poucos annos podia durar, pois estava no calçado -velho</i>.<a name="FNanchor_12_1" id="FNanchor_12_1"></a><a href="#Footnote_12_1" class="fnanchor">[12]</a> -</p> -<p> -Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da -noite á beira do cadaver do fidalgo de Quadros. Á claridade fusca da -manhã invernosa viram-lhe o semblante que mettia pavor. Quizeram -cerrar-lhe as palpebras que resistiam á distensão, coriaceas, n'um -retezamento orgastico. A maxilla inferior parecia deslocada e torta, -repuxando a commissura direita dos labios n'um esgar de escarneo ou de -angustia dilacerante. A côr do rosto era agora d'uma amarellidão de -barro, molhado pelo orvalho que se filtrára atravez do lenço com que -lh'o cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexiveis e uma das mãos -afincada como garra nas correias da pasta. -</p> -<p> -O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com -dinheiro em ouro; mas ninguem ousou desabotoar a farda do morto -defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinellas, -intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que -foi dia claro, o Zeferino desceu á egreja proxima, a Margaride, avisar -o parocho que tinha morrido na estrada um fidalgo do exercito do snr. D. -Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; -que se dirigisse ao regedor. A auctoridade, sem as delongas dos -processos legaes, depositou o cinturão com as peças na mão do -administrador, e mandou abrir uma cova no adro da egreja, onde o -baldearam com um responso economico. Passavam jornaleiros para as -roças. Punham as enxadas no chão e encostavam ás mãos callosas as -caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto -de réis em ouro. -</p> -<p> -—Toma!—disse um dos jornaleiros—um conto de réis! E -inclinando-se á orelha d'outro jornaleiro:—Ó Tonio, se temos ido mais -cedo para o monte ... e topamos o morto... -</p> -<p> -—Que pechincha!... -</p> -<p> -Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idyllio em prosa. -</p> -<p> -O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em -Traz-os-Montes os soldados do Vinhaes; depois passou com alguns chefes -realistas para a Junta do Porto; e, acabada a lucta, foi para casa e -entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas caricias:—Eu sempre -te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bebado de -Quadros; que não sahisses a campo sem lá vêr o morgado de Barrimáo. -Agora, pedaço d'asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado -que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de -Villalva, e quizeste agarrar o brazileiro de Prazins que tem agora de -mais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias -anda por ahi a berrar que a Martha e mais tu lhe mataste o filho. Lume -no olho, homem, lume no olho! -</p> -<p> -—Se alguem embarrar por mim, dou-lhe cabo da -casta!—protestava o pedreiro cortando com o braço e punho fechado -punhadas aereas.—Se me matarem ... até lh'o agradeço!—E -com desalento: Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do -sol! Veja você: ha tres annos que não tenho uma migalha de -estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lh'o eu! Você -verá, sôr pai, que ou me matam ou eu acabo n'uma forca pr'ámor -d'aquella rapariga que foi o diabo que m'appareceu, e não me passa -d'aqui!—e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem -apanha uma pulga. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as -espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. -Para as cabeças dos districtos ramificaram-se destacamentos afim de -coadjuvarem a auctoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado -a Famalicão e incumbido de dirigir a diligencia militar que devia dar -um assalto a Lamellas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as -espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as -condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor comprehendeu -o perigo da empreza; pediu que o demittissem; mas a auctoridade -impoz-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a -demissão. -</p> -<p> -Quando o Zeferino, succumbido á carga dos revezes, indifferente á vida e á -morte, se chamava <i>infeliz</i> e <i>desgraçado</i>, o destino implacavel -preparava-lhe novo desastre. Elle, ao romper da manhã, depois de uma -insomnia febril, sonhava que era sargento-mór das Lamellas e assistia -á formatura do regimento de milicias de Barcellos debaixo do solar de -D. Maria Pinheiro. Na janella gothica do velho edificio da época de D. -Affonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exercito -vencedor, em que havia muitas musicas marciaes, de fulgurantes trompas, -tocando o <i>Rei-chegou</i>: e o abbade de Calvos, dentro de um carroção e -vestido de pontifical, borrifava o povo com hyssopadas de agua-benta, -cantando o <i>Bemdito</i>. As tropas estendiam-se até Barcellinhos, e pelo -Cavado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes -com as bandas musicaes de S. Thiago d'Antas e de Ruivães tocando a -<i>Cana-verde</i> e <i>Agua leva o regadinho</i>. Em um d'esses bergantins -com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, -mestre de latim, com os seus oculos, a fazer meia; e ao lado d'ella, -vestida de setim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabellos -soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em -Braga, a Martha de Prazins. Elle estava na ponte, absorto na visão da -noiva que chegava pelo Cavado para se casar quando um visinho lhe bateu -com o cabo da sachola na janella tres pancadas. Saltou da cama -atordoado. -</p> -<p> -—Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas -Lamellas com o regedor. -</p> -<p> -Zeferino ganhou de prompto os desvios d'um pinhal, e por detraz d'um -socalco enxergou o Simeão ao lado do sargento da escolta parar em -frente da sua casa e apontar para as janellas. Ouviu bater estrondosas -cronhadas no portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e -entrarem pela porta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a -escolta a retirar-se com dous homens carregados de armas. -</p> -<p> -O velho alferes, entrevado, estava muito afflicto quando o filho entrou. -O sargento quizera levar-lhe a sua espada; e compadecera-se d'elle -quando o vira a chorar e a dizer-lhe que era um alferes do antigo -exercito, e que o deixasse morrer ao lado da sua espada, já que elle -não podia defendel-a porque estava tolhido. -</p> -<p> -O Zeferino perguntou pacificamente: -</p> -<p> -—E o Simeão que dizia? -</p> -<p> -—Não dizia nada. Eu é que lhe disse... <i>Arrieiros somos, na estrada -andamos</i>, visinho Simeão. -</p> -<p> -O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as mãos afincadas na -cabeça: olhava para o canto em que tivera duas duzias de espingardas -compradas pelo Cerveira Leite, e dizia com resignação contrafeita: -</p> -<p> -—Ellas assim com'ássim já não serviam de nada... A guerra acabou ... -Que leve o diabo tudo...—E, passados alguns segundos de recolhida -angustia:—Veja você, sôr pai! O Simeão dá-me a filha, depois diz -que m'a não dá; isto não se fazia a um homem que põe navalha na -cara... Eu levava a minha vida muito direita, estava muito bem, você -bem sabe; deitei-me a trabalhar quanto podia; e vai depois, por causa da -minha paixão, fiquei areado do juizo, deixei a arte, andei por esse -mundo a gastar á minha custa, ao frio e ao calor, em términos de me -levar o diabo com uma bala; e vai agora o Simeão entra-me pela porta -dentro, leva-me as armas, e, se me pilha, mettia-me uma baioneta no -corpo... -</p> -<p> -—Homem—atalhou o pai com juizo—não fosses tu lá a -Prazins embirrar com o brazileiro... -</p> -<p> -—Eu tenho a minha paixão—objectou o filho com -transporte—tinha cá dentro do peito esta navalha de ponta -espetada; e elle ... que mal lhe fiz eu p'ra me querer mal?... Sabe -você que mais?... Assim com'ássim, estou perdido... -</p> -<p> -Sahiu arrebatadamente e foi para o Monte Cordova conversar com o -Patarro, um velho scelerado que se batêra em Braga com a cavallaria do -Casal e pudéra salvar-se com o sacrificio de tres dedos e do nariz -acutilados. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalicão. O regedor -tinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta -solarenga, torreada, com o brazão dos Brandões, que o brazileiro -comprára a um fidalgo de Afife. O negocio deitára a tarde. Simeão -sahira ao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dous -lavradores d'outra freguezia que montavam eguas andadeiras de muitos -brios. O Simeão cavalgava a sua velha russa, d'uma pachorra mansa, -invulneravel á espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e -andando para traz. Ella não podia manifestar de um modo mais sensivel -a sua repugnancia pelas pressas. O dono gabava-se de só ter cahido -juntamente com ella poucas vezes. Sahiram da feira conversando a -respeito de Martha. Constava aos outros que ella se quizera matar á -conta do José Dias. O Simeão achava que sim, que ella quizera -atirar-se ao rio; mas que estava quasi boa em Caldellas; que o vigario e -mais a irmã lhe tinham dado um geito ao miôlo; e logo que ella -estivesse fina, casava com o tio. -</p> -<p> -—E elle quél-a? — perguntou o Bento de Penso. -</p> -<p> -—Pois então!... Tomára-a elle já. -</p> -<p> -—Emfim—tornou o Bento—você ha-de perdoar que eu lhe diga -o que tenho cá no sentido. O povo diz que o Dias entrava lá de noute. Eu -não vi, mas é o que diz o povo. Ora um home sempre se atriga de casar com -mulher de maus cretos. O seu brazileiro pelos modos é de bô comer... -</p> -<p> -—Tem bô estomago, é o que é—confirmou o Belchior da Rechousa. -</p> -<p> -O Simeão não estranhava estas franquezas muito triviaes nas aldeias -ainda immaculadas do resguardo das conveniencias; mas defendia a honra -da filha, attribuindo ao Zeferino as calumnias que espalhava para se -vingar. -</p> -<p> -—Emfim—disse o Belchior—você tinha-lh'a dado por quinze -centos. É o que diz o povo, e palavra d'home não torna a traz. -</p> -<p> -—Isso cá da minha parte foi chalaça...—defendia-se o Simeão, -quando tres homens, mascarados com lenços, fincando as argolas dos paus no -caminho, saltaram de uma ribanceira, á frente das tres eguas que -caminhavam a passo. Um dos tres jogou uma paulada á cabeça do Simeão -e derrubou-o. -</p> -<p> -Os dois lavradores das eguas travadas deram de calcanhares e pareciam -dois duendes de comedia magica vistos á luz crepuscular. O caseiro -abandonou as sôgas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada -fuga até Famalicão, e á entrada da villa gritou—aqui d'el-rei -ladrões! Contou o successo ao povo alvorotado, acudiu a auctoridade, -encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. -Acharam-o prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de -sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A egua -rilhava entre os dentes e o freio umas vergonteas tenras de tojo, e de -vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhaes enfolipados. O -Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e -disse que tinha o miôlo á vista; não podia durar muito, que lhe -dessem a santa uncção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais proximo e -levaram-o para Prazins promettendo duas de doze a dous jornaleiros. O -caseiro montou a egua para ir a Santo Thyrso chamar o Baptista, o -cirurgião da casa; mas a burra estranhando as esporas dos tamancos, -levantou-se com o cavalleiro, deixou-se cahir sobre os jarretes -trazeiros, voltou-se de lado como quem se ageita para dormir: foi -necessario levantal-a. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro -puxava debaixo do ventre da egua a perna entalada, muito cabelluda; e -alli perto estava a padiola com um velho gemente, agonisante, a pedir a -confissão. -</p> -<p> -Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso á Martha que o pai -estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. -Thereza e o prior acompanharam-a. Quando chegaram, sahia o parocho de o -confessar e tocava o sino ao viatico. Havia uma agitação de angustiosa -curiosidade no povo que confluia á egreja chamado pelo signal. Dizia-se -que eram ladrões que sahiram ao lavrador em S. Thiago d'Antas; havia -opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um -pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamellas o -Patarro de Monte Cordova e mais outro mal encarado; mas todos é uma -diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com -medo á malta do Zeferino. -</p> -<p> -O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a -cama, resfolegando com muita anciedade, gemendo com dôres, e a cabeça -um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em -tres pelo vigario. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio -quando viu a cara ensanguentada do pai, á luz mortiça de uma vela de -cebo n'uma placa de lata. D. Thereza com a Martha nos braços, disse ao -irmão:—Que miseria de casa! Pede luzes e agua para se lavar aquelle -sangue.—E, assim que Martha voltou a si, levou-a para o seu -quarto,—que a viria chamar quando o pai a pudésse vêr. Queria -retiral-a do espectaculo dos paroxismos. -</p> -<p> -Quando chegou a extrema-uncção com o prestito clamoroso do <i>Bemdito</i> e -o tilintar espacejado da campainha, Martha carpia-se em altos gritos, e -pedia que a deixassem despedir-se de seu pai. -</p> -<p> -Ella tinha ouvido dizer a uma das visinhas que lhe invadiram a -alcôva:—quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino -das Lamellas. Juro que não foi outro.—Esta affirmativa cravou-lhe no -coração o remorso de ser ella a causa da morte do pai. Queria ir -pedir-lhe perdão; rogava á sua amiga que pelas chagas de Christo a -deixasse ir ajoelhar-se á beira de seu desgraçado pai. D. Thereza -conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse -o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que -lhe estava a rapar a cabeça. -</p> -<p> -Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia -assistindo ás obras. Vinha aterrado. Disse ao Osorio que já estava -arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um -bando de faccinoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto -onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o -pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai. -</p> -<p> -O cirurgião sahiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara -um pedaço de tegumento, deixando descoberto o craneo que o ferrador da -Terra Negra chamára o miôlo. A hemorrhagia era grande, e havia receio -de commoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe -pôr pannos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Martha e -Thereza não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osorio -passou a noite na saleta attendendo o brazileiro que lhe fallava muito -na sobrinha, na paixão que ella tivera pelo José Dias, e não lh'o -levava a mal, pelo contrario. -</p> -<p> -Ahi pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha -estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, -bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lagrimas. O -padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que elle estivesse agonisando. -Depois aquella agitação esmoreceu n'um dormitar sobresaltado, com a -cabeça no regaço de Martha que brandamente lhe compunha o pacho na -ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repelliu-a. -Fallou no pedreiro que o matára, e recahiu no estado comatoso. O padre -Osorio attribuia aquella somnolencia a derramamento de sangue no craneo, -um symptoma de morte provavel. O cirurgião veio de madrugada, -mandou-lhe deitar sanguesugas atraz das orelhas, e disse ao vigario do -Caldellas que estava mal encarado o negocio; que aquelle diabo de somno -lhe parecia de máo agouro. Que ia vêr uns doentes e voltava logo. -</p> -<p> -Martha fazia muitas promessas á Senhora da Saude; dez voltas de joelhos -ao redor da sua capella, um resplendor de prata, jejuar a pão e agua -seis mezes a fio, não comer carne durante um anno, ir descalça á -romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas sentia-se menos -opprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa d'ella, e -a Maria de Villalva já dizia tambem que fôra ella a causa da morte do -seu filho. Uma desgraçada, que vinha assim a causar a morte do noivo e -do pai. -</p> -<p> -O ferido teve uma intermittencia de repousada vigilia. Olhou para a -filha, e disse-lhe que morria, que a deixava sem pai nem mãe. O -Feliciano acudiu: -</p> -<p> -—Isso não lhe dê cuidado, mano Simeão. Nada lhe ha-de faltar. É -minha sobrinha; não tenho mais ninguem n'este mundo. -</p> -<p> -—Eu morria contente—balbuciou o Simeão lacrimoso—se ella -fosse sua mulher... -</p> -<p> -Fez-se um silencio exquisito. Martha abaixou os olhos; a D. Thereza -olhou para o irmão a vêr o que elle dizia; o padre Osorio olhava para -o brazileiro a vêr como se expressavam as suas idéas; o Feliciano -esperava que os outros dissessem alguma coisa. E então o pai de Martha, -aconchegando-a de si, com muita ternura: -</p> -<p> -—Casas com o teu tio, minha filha? É o ultimo pedido que te faço... -</p> -<p> -Martha fez um gesto affirmativo, e cahiu de joelhos, curvada sobre o -leito, a soluçar; depois, deu um grito e escorregou para o chão, em -convulsões, com o rosto muito escarlate e a bocca a espumar. D. Thereza -e o irmão conduziram-a ao seu quarto. Deitaram-a já socegada, mas -n'uma rigidez insensivel, com a bocca ligeiramente torta. -</p> -<p> -O cirurgião chegava n'esta conjunctura e disse que a rapariga herdára -a molestia da mãe, que eram ataques epilepticos; e ao tio Feliciano -disse-lhe particularmente que o peior da herança não era a epilepsia; -era a demencia que levou a mãe ao suicidio. Que a rapariga era fraca, e -tinha sido creada com umas mimalhices de menina da cidade, que estragam -o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado com ella, não a -affligir, distrahil-a, casal-a, emfim, que seria bom casal-a, e dar-lhe -vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque, e ter cuidado que ella -não apanhasse a lingua entre os dentes; que lhe mettessem um panno -entre os dois queixos, quando lhe désse outro ataque. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -—Elle disse que o melhor era casar-se—lembrou o Feliciano ao -padre Osorio. -</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_9_1" id="Footnote_9_1"></a><a href="#FNanchor_9_1"><span class="label">[9]</span></a>Era o meu actual e pregado amigo Augusto Soares -d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, auctor do "Portugal antigo e moderno".</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_10_1" id="Footnote_10_1"></a><a href="#FNanchor_10_1"><span class="label">[10]</span></a>Carta de 10 de junho de 1877.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_11_1" id="Footnote_11_1"></a><a href="#FNanchor_11_1"><span class="label">[11]</span></a>Quando Pinho Leal publicar as suas <i>Memorias</i>, -então se saberá o verdadeiro nome do morto.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p class="nind"><a name="Footnote_12_1" id="Footnote_12_1"></a><a href="#FNanchor_12_1"><span class="label">[12]</span></a>Carta citada.</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura17.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XVI">XVI</a></h4> - -<p> -Relatava o vigario de Caldellas: -</p> -<p> -—O cerebro do Simeão, se era refractario aos golpes da dignidade, não -era mais sensivel ás commoções das pauladas. Duas vezes feliz quanto -á cabeça: nem honra nem predisposições inflammatorias. Cicatrisou a -ferida; começou a comer gallinhas com a fome de um cannibal e com o -prazer carnivoro d'uma raposa. Dera tacitamente Martha o consentimento -de casar com o tio; esperava em soturno abatimento que a casassem; e, se -minha irmã lhe tocava n'esse assumpto, dizia: «Façam de mim o que -quizerem... Para o que eu hei-de viver ... tanto' me faz...» Quanto ao -casamento, proseguiu o padre Osorio, eu scismava se a primeira noite -nupcial seria a véspera de escandalosas desavenças, arrependimentos, -choradeiras, divorcio, vergonhas, coisas; mas occorria-me que Feliciano -me confessára repetidamente que sahira da sua aldeia aos doze annos e -tornára casto e puro como sahira. E eu então, attendendo a que a -castidade, além de ser em si e virtualmente uma coisa boa, tem umas -ignorancias anatomicas, e umas inconscientes condescendencias com as -impurezas alheias, descançava, tranquillisava o meu espirito -escrupuloso. Uma falsa comprehensão da honra alheia ás vezes me -aconselhava que mandasse o brazileiro conversar sobre o assumpto com o -operario que o luar enganára em certa noite; mas a honra, como a -consciencia, não são quantidades constantes no geral das pessoas; são -condições da alma tão variaveis como a materia exposta ás mudanças -climatericas. Ora as condições mentaes e moraes de Feliciano Prazins -eram as melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que -direito ia eu estragar aquelle excellente organismo? -</p> -<p> -Até aqui o padre Osorio com a sua grande pratica ethnologica dos usos e -costumes dos maridos sertanejos do Minho. -</p> -<p> -O mano lavrador não era mais apontado em melindres de pundonor. Assim -como curára em silencio o coração, golpeado pelas deslealdades da -defunta Genoveva, do mesmo modo se acommodára com os estragos soffridos -nos tegumentos da cabeça. Dizia-lhe o administrador que querelasse -contra o Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam -prova. Não quiz.—Depois é que me dão cabo do canastro;—dizia -com um dom prophetico, e circumspecção admiravel em um homem sem instrucção -primaria. -</p> -<p> -No entanto, Zeferino debatia-se n'um azedume de desesperado, muito má -lingua, insano de paixão, a degenerar para faccinora em theorias de -escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vicio do -pai com sêdes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia allivios, -consolações ineffaveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida -encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas -onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de -duas caras que comprára no tempo em que amealhára dez mil cruzados com -dez annos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de -Famalicão a Landim, perto das Lamellas, jogadores professos, armar a -forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pêgo. Depois das perdas, -quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, -embriagava-se de novo, e n'essas allucinações ia a Prazins, de clavina -ao hombro, com o Tagarro de Monte Cordova, e fallava alto, com -petulancia, para que Martha o ouvisse. O brazileiro e o Simeão -tinham-lhe medo e não abriam as janellas depois do sol-posto. -</p> -<p> -Espalhou-se então a noticia de que o brazileiro ia effectivamente casar -com a sobrinha. -</p> -<p> -O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anonyma, que era um traslado -augmentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da -janella. E por fim ameaçava-o—<i>que se casasse com a Martha, não a -havia de gosar muito tempo</i>. O Feliciano mostrou a carta ao irmão. -Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, damnado de raiva. O -brazileiro entrou a scismar que o scelerado era capaz de levar a -vingança ao cabo—bater-lhe, matal-o. Os tiros desfechados á sua honra -de marido de Martha resvalavam-lhe na coiraça da consciencia: «eu sei -o que faço» dizia elle; mas a idéa de um tiro ao seu physico, -inquietava-o devéras. «É preciso dar cabo d'este ladrão» dizia o -brazileiro ao mano, n'um grande mysterio. -</p> -<p> -Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de -olhos estrabicos, d'alcunha o <i>Alma-negra</i>, um que o tinha avisado, -quando a malta da patuleia tencionava agarral-o. O Melro rompera -relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros -apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hyperbolicamente ao -seu compadre que o Zeferino, quando andára na patuleia, era ladrão -como rato. -</p> -<p> -O Melro era má bisca. Estivera tres annos na Relação como cumplice em -um homicidio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher -e quatro filhos, e não cessava de pedir emprestimos ao compadre desde -que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse em -segredo que quem lhe batêra fôra o Zeferino, com as costas guardadas -por dois pimpões do Monte Cordova. E accrescentou:—Elle bem sabe a -quem as faz. Havia de ser commigo eu com pessoa que me doesse... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o -compadre. Disse-lhe que ia vêr a quinta da Commenda que se vendia; que -lh'a fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de -uma casa com tres janellas e um quintal espaçoso. -</p> -<p> -—É aqui, disse o Melro. -</p> -<p> -O brazileiro poz o monoculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro -tachas: <i>Domingo, ás 10 da manhã, depois da missa, vai á praça a -quem mais dér sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa, -dizima a Deus, para partilhas</i>. O Feliciano leu, retirou-se apressado -para que o não vissem, murmurando quaesquer palavras a que o compadre -Melro respondeu: -</p> -<p> -—Vossoria então está a lêr! Tão certo tivesse eu o céo como tenho -a casa... -</p> -<p> -Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos freguezes da taverna -que o seu compadre ia comprar a quinta da Commenda, e que estivera a -lêr o escripto da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez -a comprasse para a dar a um afilhado ... -</p> -<p> -—Ao teu pequeno?!—perguntavam. -</p> -<p> -—Pois a quem ha-de ser! Aquillo é que é um homem ás direitas! -</p> -<p> -—Elle não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa -como a mim pagar-te um quarteirão d'aguardente—encareceu um -pedreiro.—Anda agora a trabalhar no palacio da Retorta. Que -riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que -case com a Martha. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! -Isso diz que dá cada arranco... -</p> -<p> -—O Zeferino, a fallar a verdade, tem razão—disse o -Melro.—O Simeão tinha-lh'a promettido. Gente sem palavra que a -leve o diabo! Eu, se fosse commigo... Mas, emfim, é irmão do meu -compadre ... não devo dizer nada. Que se governem. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O Melro, ás 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a -taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse á mulher:—A -casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino... -</p> -<p> -—Credo!—exclamou a mulher com as mãos na cabeça.—Nossa -Senhora nos acuda! -</p> -<p> -—Leva rumor!—e punha o dedo no nariz. -</p> -<p> -—Ó Joaquim, ó marido da minha alma, alembra-te dos tres annos que -penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!... -</p> -<p> -—Já te disse que me não cantes—e relançava-lhe o seu formidavel -olhar vêsgo incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o -cachimbo de páo. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede -uma velha clavina. Sentou-se á lareira e disse á mulher que tivesse -mão na candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e -descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, -voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão. -</p> -<p> -—Ó Joaquim, vê lá o que vaes fazer!—insistia a mulher, limpando -os olhos com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno da Maria da -Fonte, despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava -as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e elle cantando n'uma surdina -rouca: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Leva ávante, portuguezes,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Leva ávante, e não temer</i>...</span> -</div></div> - -<p> -—Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos. -</p> -<p> -E o Melro n'uma distracção lyrica: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Pela santa liberdade,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Triumphar ou padecer</i>...</span> -</div></div> - -<p> -Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da -culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um fremito aspero -impedido pelas escorias nitrosas. Pediu á mulher umas febras d'algodão -em rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do -cano.—Está suja—disse elle—dá cá um todo—nada de -aguardente. -</p> -<p> -—Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. Não te desgraces! -</p> -<p> -—Traz aguardente e cala-te, já t'o disse, mulher, com dez -diabos!—E poz-se a assobiar a <i>Luizinha</i>. Enroscou algodão -embebido em aguardente no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o -interior do cano até sahirem brancas e seccas as ultimas farripas da -zaracotea. Soprou novamente e o ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um -sibillo egual. Parecia satisfeito, e cantarolava, <i>mezza voce</i>: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Agora, agora, agora,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Luizinha, agora.</i></span> -</div></div> - -<p> -Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, -introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, -acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que -o desarmador, a caxêta e o fradête trabalhavam harmonicamente. -Levantou o fusil de aço que fez um som rijo na mola e friccionou-o com -polvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou -a aresta da pederneira que faiscava. -</p> -<p> -—Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem!—soluçava a mulher. -</p> -<p> -E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expansão raivosa, n'um -<i>sfogato</i>: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>E viva a nossa rainha,</i></span><br /> -<span class="i6"><i>Luizinha,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Que é uma linda capitôa</i>...</span> -</div></div> - -<p> -—Vai á loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuchos e -uma cabacinha de polvora de escorvar que está ao canto. -</p> -<p> -A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus -de Braga, e ás almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e -regougou:—Máo! ... máo!... -</p> -<p> -Carregou a clavina com a polvora de um cartucho; bateu com a cronha no -sobrado, e deu algumas palmadas na recamara para fazer descer a polvora -ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta -ligeiramente, uma sobre a polvora e a outra sobre a bala. -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2"><i>Agora, agora, agora,</i></span><br /> -<span class="i2"><i>Luizinha, agora.</i></span> -</div></div> - -<p> -Depois, pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias -vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao -ponto. -</p> -<p> -A mulher fôra sentar-se no sobrado, á beira da enxerga de tres filhos -a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O -<i>Alma negra</i> fôra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou -enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da <i>Maria da -Fonte</i>.—Ora agora—disse elle—ouvistes? porta da -cozinha e a cancella da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal. -</p> -<p> -—Vai com Nossa Senhora—disse a mulher—e poz-se de joelhos -a uma estampa do Bom Jesus a rezar muitos <i>Padre-nossos</i>, a fio. -</p> -<p> -Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um céo de carvão -pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma -estrella. Não se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar nem -ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. Ás -vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das -carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toirões e das raposas que se -avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro -estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio -da coruja no campanario distante punham arrepios de medo na espinha -d'aquelle homem que ia matar outro—chamal-o á janella e varal-o á -traição com uma bala.—Era o traçado. -</p> -<p> -—Que raio de escuro!—dizia, esbarrando nos espinheiros -perfurantes. -</p> -<p> -Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao <i>Fiat</i> -genesiaco, se os viandantes não esbarrassem com as arvores e não -escorregassem nos silvêdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua -individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impressão -pantheista das arvores e dos calháos. Que este globo está muito bem -feito. Os transgressores do descanço que Deus estatuiu nas horas -tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do -visinho, que fisgam a moça incauta ou empunham o trabuco homicida, se -não temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades, -encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que são as -patrulhas de Deus. Alguns, porém, protegidos pelo Mephisto a quem -venderam a alma pelo preço da consciencia eleitoral, ou mais barata, -chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por -entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a -esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular. -</p> -<p> -O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhára-se por pinhaes -e carvalheiras; ás vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos -gallos tresnoitados e latir dos cães. Ao fundo das bouças ladeirentas, -rugia o rio Pelle nos açudes das azenhas e nas guardas dos pontilhões. -Lamellas era da parte d'além. Mas o rio, de monte a monte, rugia -intransitavel nas pequenas pontes. Foi á de Landim, uma aldeia -engravatada, onde ainda se avistavam clarões de luz nas vidraças das -familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saráos do <i>faubourg -Saint-Honoré</i>, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijões. -</p> -<p> -Havia também um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco. -Tinha dinheiro lá dentro. Jogava-se o monte. -</p> -<p> -O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, pé ante -pé, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro. -Era elle quem reclamava um quartinho que puzéra de <i>porta</i>, e o -banqueiro recolhêra com as paradas que estavam <i>dentro</i>, quando tirou -a contraria <i>de cara</i>. -</p> -<p> -—Que não admittia ladroeiras! -</p> -<p> -E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaças a respeito -de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram -cavalheiros. O Zeferino replicava que não queria saber de cavalheiros; -que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem -queria roubar que fosse para a Terra Negra. -</p> -<p> -A allusão era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos -cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra -Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta a -sôco e páo; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o -Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois -galhos do baralho com um murro herculeo, phenomenal. O taberneiro abriu -a porta para escoar o turbilhão. Elles sahiram de roldão; e, quando -entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de -caverna. Um, porém, dos que estavam, não sahiu; encostára-se ao -mostrador com as mãos no baixo ventre, gritando que o mataram; e, -vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruços, -quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o -Zeferino. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Quando, á meia noute, o <i>Alma-negra</i> entrava em casa pela porta do -quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom -Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a -tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mãos com o -bafo. -</p> -<p> -O Melro mandou deitar as filhas, e foi á loja contar á mulher, livida -e tremula, como o Zeferino morreu sem elle pôr para isso prego nem -estopa. Ella poz as mãos com transporte e disse que fôra milagre do -Bom Jesus; que estivera tres horas de joelhos diante da sua divina -imagem. O marido objectava contra o milagre—que o compadre não lhe -dava a casa, visto que não fôra elle quem vindimára o Zeferino; e a -mulher—que levasse o demo a casa; que elles tinham vivido até então -na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar. -</p> -<p> -Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o -compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse: -</p> -<p> -—Emfim, você ganha a casa, compadre, porque mátava Zéférino, se os -outros não matam elle, hein? -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura18.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XVII">XVII</a></h4> - -<p> -Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario -de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho -veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas -carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito -faceiro, dizia ao Feliciano:—Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa -com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta -para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si -quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella. -</p> -<p> -O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe -percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam -nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir -equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos -intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o -portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem. -</p> -<p> -A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim -da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou -do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:—A senhora -ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim? -</p> -<p> -—E se eu morrer adiante de ti?—perguntou D. Thereza risonha. -</p> -<p> -—Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe—e -abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar—eu ... eu morro, ou endoudeço. -Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai, -cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão -acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como -ella acabou. -</p> -<p> -D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que -se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e -ricos.—Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, -um pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de -sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida -airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe -trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em -novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo; -porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio, -pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do -Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações -de uma indole artificialmente delicada. -</p> -<p> -O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:—Ella -quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia -nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um -pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia -entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas -parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha, -como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça -parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de -uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica -franceza desde 1835 a 1845—tudo o que ha de mais falso e tolo na -litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de -Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa -de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar -no thalamo conjugal com o arganaz do tio. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a -missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do -Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma -perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio -collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza. -queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via -faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que -se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a -deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela -vida de seu irmão. -</p> -<p> -A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico, -precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas -não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse -deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio -d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á -filha: -</p> -<p> -—São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno. -</p> -<p> -Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera, -n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a -nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um -paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a -leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão -que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão -coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua -sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera -que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio -então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais -chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como -estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza. -Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario, -virginalmente. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio. -Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao -vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito -carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas -d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no -rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os -sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se -evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido -tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma -sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo -os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos. -Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu -mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do -amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do -que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias. -Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos -seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala. -Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella -depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a -transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio, -depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com -ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços -com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com -os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na -sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a -fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa -estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz. -</p> -<p> -Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do -brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se -sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão -phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco -fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das -impurezas alheias. -</p> -<p> -O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco -recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades -occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um -velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha -era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as -impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas -produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse, -que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o -habito.—Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto, -quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha -como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um -filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos -nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente! -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para -dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse -hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de -que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do -Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia -raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa. -Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e -professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas -desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao -padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia -fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo -da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe. -</p> -<p> -O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos -epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a -chamar-lhe <i>José, seu Josésinho</i>. Passada a nevrose, quando ela -imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe -chamar <i>Josésinho</i>. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e -dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:—que era -hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão, -esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas, -consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que -a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali -epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um -estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente -se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez -intercorrente. -</p> -<p> -—Ella está gravida—observou o vigario de -Caldellas.—Parece que este facto denota uma tal ou qual -normalidade de consciencia, uma concepção racional dos deveres de -esposa... -</p> -<p> -—Não denota nada—refutou o medico.—Faça de conta que é -uma somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não -ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega -que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes -do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para -Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra -n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a -perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao -espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os -desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao -primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens, -veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas, -concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já -n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a -mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o -tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de -fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena -tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem -paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha -vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos -nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a -paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto -embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se -avenham: a verdade é esta. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura19.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4> - -<p> -Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requião, os tão -almejados missionarios, interrompidos no seu esteril apostolado pela -revolução da Maria da Fonte. Martha ouviu a noticia com alvoroço, e -disse que queria seguir os sermões,—que precisava de salvar a sua -alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco a respeito de -religião; mas respeitava as crenças alheias, e não contrariava as -devoções da sobrinha. O padre Roque era de parecer que se não -deixasse Martha entrar muito pela mystica; aconselhava o marido que -fosse viajar com a mulher, que a tirasse d'aquella terra, porque as suas -enfermidades não podiam cural-as os sermões nem as hostias. O egresso -conhecia a Pharmacia do varatojano de Borba da Montanha, e sabia que a -primeira receita de frei João era exorcismal-a como demoniaca. -</p> -<p> -—Dão cabo d'ella, vocês verão, dão cabo d'ella—dizia o -padre-mestre. -</p> -<p> -Eram quatro os missionarios que assentaram o vestibulo do paraizo em -Requião. -</p> -<p> -O padre José da Fraga ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes -sacerdotaes, grave e semblante intelligente. Tinha-se ordenado em -Brancanes com o proposito de ir propagar o christianismo na China; -depois, interesses e rogos de familia determinaram-o a ficar na patria, -sem abrir mão da vocação apostolica. Lêra e percebêra Raulica, -Lacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Osorio -dizia-lhe que guardasse as suas perolas para outro auditorio menos -suino. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no pulpito, -aconchegavam-se umas das outras para commodamente tosquenejarem o seu -somno da manhã; e os homens diziam que não o chamava Deus por aquelle -caminho—que <i>não calhava p'r'á prédega</i>. -</p> -<p> -O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia idade, auctor da <i>Escada do -céo pelas escarpas do Golgotha</i> e da <i>Via seraphica para o reino dos -Cherubins</i>, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no exercito -realista, e ordenára-se para herdar uns bens de uma parenta beata que -tinha horror á tropa. Lêra as novellas do Prévost e Madame de Genlis, -quando era furriel. Ficou-lhe d'essas leituras uma linguagem -amellaçada, com interjeições tragicas, e um geito especial de tocar -as mães com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo: <i>E -o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia -dos anjos, quando lá do céo te vê peccar, estende para ti os seus -bracinhos, e diz: Mãe, ó mãe! não peques; mãe, não peques! pelas -lagrimas que por mim choraste, não caias na tentação, porque, se te -perdes, se te afundas no abysmo eterno não tornarás a vêr o teu -filhinho que te chama do céo, mãe, ó mãe</i>! E infantilisava o timbre -da voz, inclinava a um lado a cabeça n'um langor menineiro, estendia os -braços do pulpito abaixo com as mãos abertas, alongava os beiços no -geito da boquinha de criança, e muito mavioso, n'um tremulo de voz e -braços: <i>Mãe, ó mãe</i>! E todas as que tinham perdido filhinhos -desatavam n'um berreiro. -</p> -<p> -O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, d'uma porcaria de sotaina -digna dos agiologios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era -forte na topographia do inferno e nas genealogias, usos e costumes dos -diversos diabos. Affirmava que a legião d'elles se dividia em -esquadras, capitaneadas por Lucifer, principe da Luxuria, por Asmodeu, -Satanaz, Belzebut e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus -competentes vicios. Dava noticia de um caudilho de esquadra, chamado -Behemoth, cujo empenho era bestializar os fieis—verdadeira -superfluidade.—Leviathan capitaneava o esquadrão da Soberba; e o -ministro e secretario de estado encarregado da pasta da Avareza -chamava-se <i>Mamona</i>. A sciencia moderna matou este diabo, extrahiu-lhe -o oleo, e pôl-o ao serviço dos intestinos dos peccadores—<i>oleo de -Mamona</i>. Explicava o padre ás mulheres o que era a corja dos <i>demonios -incubos</i>. Contava casos de algumas que ficaram gravidas d'esses -devassos, e dizia em latim que taes demonios fecundos podiam, -mesmo contra a vontade da mulher, <i>rem habere cum ilta</i>. E as -mulheres, sem pôr mais na carta, farejavam o latim e murmuravam -indignadas:—Tarrenego! Catixa! cruzes, canhoto!—e benziam-se, -cuspinhando nos calcanhares umas das outras. -</p> -<p> -Fr. João de Borba da Montanha, com quanto não frequentasse o pulpito, -era o vulto mais proeminente da missão. Sahira já velho do Varatojo, -peito fraco, um pigarro chronico de catarrho pituitoso, com poucos -dentes, por onde as palavras lhe sahiam assobiadas que nem melro nos -sinceiraes de julho. Por isso o confissionario era a sua faina de -prosperrimas colheitas para o céo, e os exorcismos a sua famosa gloria -cheia de triumphos sobre todas as esquadras dos demonios conhecidos do -seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de mãos dadas, o terror do -inferno; um a explorar diabos no planeta, o outro a enxotal-os. Á -omnipotencia d'este varatojano é que o vigario de Caldellas confiara a -reducção da mãe de José Dias. -</p> -<p> -Este egresso tinha feito á sua custa a terceira edição do <i>Peccador -convertido ao caminho da verdade</i>, obra do seu conventual varatojano -frei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia-encadernação. -Chamava-lhe elle o <i>seu balde de tirar almas do profundo poço do -enxofre infernal</i> Todas as beatas se consideravam mais ou menos -empoçadas, e por 720 mettiam-se no balde de frei João. Barato. -</p> -<p> -Foi este o missionario escolhido por Simeão, de harmonia com o genro. -Martha lembrava-se que o seu José Dias lhe fallára n'elle com muita -esperança em que desfizesse os obstaculos do casamento. Quiz -confessar-se ao varatojano, e revelou para esse acto uma espectativa -seraphica, grande deliberação anciosa, um sobresalto jubiloso em que -parecia influir a cooperação sobrenatural do querido morto. O padre -Osorio entrevia preludios de loucura nas alegres disposições com que -Martha, n'um recolhimento contemplativo, desde o apontar da aurora, -esperava á porta da egreja que chegassem os missionarios com o cortejo -das mulheres encapuchadas, muito ramellosas, estralejando os seus -tamancos ferrados na grade do adro que vedava a passagem aos porcos. -</p> -<p> -Em quanto na egreja, depois da missão, se depunha a hostia nas linguas -saburrentas e gretadas das beatas—que enguliam aquella farinha triga -como quem devora sevamente um Deus—cá fóra armavam-se no adro dois -taboleiros, assentes em tripêças de engonços, com seus pavilhões de -guarda-soes de panninho azul. Algumas mulheres de aspectos repellentes, -sujas da pójeira das jornadas, com os canêllos callosos e encodeados, -expunham nos taboleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo -injuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas á conta de -subornarem freguezas com caramunhas e palavreados. No silencio do -templo, ouvia-se cá de fóra:—Arre, bebeda!—Cala-te ahi, -calhamaço! -</p> -<p> -A exposição bibliographica, feita nos taboleiros, além das obras em -brochura e encadernadas dos missionarios, constava da <i>Regra de S. -Bento</i>, da <i>Missão augmentada</i>, da <i>Missão abreviada</i>, -das <i>Piedosas meditações</i>, das <i>Horas do christão</i>, do -<i>Mez de Maria</i>, do <i>Mez de Jesus</i> e do <i>Livro de Santa -Barbara</i>. Havia tambem <i>Novenas</i>, <i>Via-sacras</i> com estampas -d'um horror sacrilego, uns Christos que pareciam manipansos do Bihé. -Seguia-se a camada dos <i>Escapularios</i>; uns eram de <i>N. S. do -Carmo</i>, de <i>N. S. das Dôres</i>, da <i>Conceição</i>; outros do -<i>Preciosissimo sangue de Jesus</i>, do <i>Coração</i> do mesmo, da -<i>Santissima Trindade</i> e de <i>S. Francisco</i>. Tinham grande -sahida os <i>Cordões</i> do mesmo santo, e as <i>Correias de S. -Agostinho</i>, com um botão de ôsso, a apertar na cintura,—arnez -impenetravel ao diabo, por causa do botão, que, posto na correia, tem -virtudes para ôsso muito admiraveis, quasi como as da carne, mas no -sentido inverso—ella attrahindo o cão tinhoso, e elle -repulsando-o. De <i>Santo Agostinho</i> e do <i>Anjo da Guarda</i> -também havia <i>Rezas</i> enfiadas em metal, ou em cordão, -simplesmente, mais baratinhas. Na especie medalheiro, grande profusão: -as medalhas mais procuradas eram as do <i>Coração de Maria</i>, do -<i>Coração de Jesus</i>, do <i>Anjo da Guarda</i> e de <i>Santa -Thereza</i>, a 10 réis. -</p> -<p> -As <i>corôas</i>, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram -diversas no tamanho e na nomenclatura: as <i>seraphicas</i> com sete -<i>mysterios</i>, e cada mysterio com dez <i>Ave-Marias</i>; as da <i>S. -da Conceição</i> com doze <i>Aves</i> e tres -<i>mysterios</i>:—uma certa conta que os missionarios lá -graduavam com a gafaria espiritual das confessadas. Havia algumas que se -aguentavam com os <i>Rosarios de quinze mysterios</i>, e a <i>Corôa dos -nove coros dos Anjos</i>, e a do <i>Preciosissimo sangue e coração de -Jesus</i>. Mas o grande consumo era de <i>contas de azeviche</i>, -refractarias aos máos olhados; de modo e maneira que, se o azeviche é -legitimo, senhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio -a meio. -</p> -<p> -Martha, a beata, a senhora <i>brazileira de Prazins</i>, como lhe chamavam -as regateiras das drogas da salvação, fornecera-se de tudo em duplicado; -mas sobre todos os devocionarios o da sua leitura dilecta era o -<i>Peccador convertido ao caminho da verdade</i>, edição do seu confessor -varatojano, fr. João de Borba da Montanha. -</p> -<p> -São impenetraveis os segredos revelados no tribunal da penitencia por -Martha ao seu director espiritual. O padre Osorio, não obstante, -suspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consciencia, -solicitada por miudas averiguações do missionario, saudades, -reminiscencias sensualistas, carnalidades que se lhe formalisavam no -espirito dementado, emfim, visões e sonhos com o José Dias. Inferia o -padre a sua conjectura, sabendo que frei João lhe mandára lêr no -<i>Peccador convertido</i>, tres vezes por dia, o capitulo 33, intitulado -<i>Resistencia ás tentações contra a castidade</i>. Fortalecia esta -hypothese ter dito Martha a D. Thereza que a alma de José Dias lhe -apparecia em sonhos; e ás vezes, mesmo acordada, lhe parecia sentil-o -na cama á sua beira; e então mordia o travesseiro para que o tio a -não ouvisse chorar. Póde ser que estas revelações, communicadas ao -confessor, um simplorio incapaz de destrinçar entre doença e peccado, -fossem acompanhadas de particularidades sensitivas que Martha por -vergonha não contava á sua amiga. É certo que a confessada do -varatojano lia, declamando, deante do seu oratorio, tres vezes por dia, -a <i>Resistencia ás tentações contra a castidade</i>. -</p> -<p> -A oração dizia assim: -</p> -<p> -<i>Senhor amorosissimo, não vos escondais, não me deixeis sósinha, que -me cerca o leão para me devorar; os seus rugidos me atormentam para que -não goste as suavidades do vosso amor. Cercarei todo o mundo, subirei -aos ceos, não descançarei emquanto não achar o meu amor. Conjuro-vos, -filhas de Jerusalém, creaturas da terra que, se encontrares o meu -amado, lhe digaes que morro d'amor. E, se quereis os signaes para -conhecêl-o, ouvi. O meu amado é candido e rubicundo, escolhido entre -milhares; candido por divino, e rubicundo por humano, candido porque -innocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde vos escondestes? -Tende compaixão de quem vos busca. Estes signaes que de vós tenho só -servem de avivar-me a saudade, são settas que me ferem; morro, -desfalleço, se vos não acho.</i> -</p> -<p> -<i>Os cabellos da sua cabeça são como o ouro mais puro e mais precioso, -são como palmitos e pretos como o corvo. Se não entendeis, filhas de -Jerusalém, nem eu vo'l'o saberei explicar; o que vos digo e que os seus -cabellos são fortes laços que bastam para prender a todo o mundo, -bastam para abrazar tudo de amor. Ai! amado do meu coração, se as -admirações do que sois abrazam a alma, que vos vê por enigmas, que -será quando vos vir claramente! Os seus olhos são como pombas sobre -correntes de aguas, mansos, puros, suaves, benignos, amorosos. Que -magestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces, que -suaves! Oh dulcissimo amor, já que tanto fechais os olhos para não -serem vistos, ao menos não os fecheis para me não verem! As suas faces -são como canteiros de flores aromaticas, sempre bellas, sempre -cheirosas; passam os dias, os mezes e os annos, e os seculos, e as faces -do meu amor sempre são flores, nem o sol as murcha nem o frio as corta, -nem a agua as corrompe, nem o vento as desfolha; são rosas, são -assucenas, são brancas e encarnadas. Oh! quem me dera uma gota da agua -que as rega, um grão do calor que as vivifica; quem me dera que o -jardineiro que as compõe me quizera semear umas flores no meu jardim e -tomar á sua conta compôl-as e regal-as, que o meu amado gosta muito de -flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo, peixes do mar, viventes -da terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro. Mas que digo, -se este mesmo é o amado a quem busco e não mereço achar! Ó saudade -ardente, ó sede matadora, ó setta penetrante, ó amor escondido! Que -fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho é ser amado, por que a -minha ventura está em vos ter amor, como escondeis o mesmo que me havia -de enamorar? Os seus labios são lirios, que distillam myrra excellente, -lirios de pureza d'onde sahem palavras que inflammam no amor da -mortificação. Oh! se fôra tão ditosa minha alma que recebêra alguma -parte da myrra que distillam teus lirios! Oh! se foram tão felizes meus -olhos que viram a engraçada côr de taes labios! Aonde estaes -escondido, amado do meu coração? Não sahem por esses labios as -palavras com que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da -cidade: «Se algum é pequenino venha para mim?» Logo, como vos -escondeis d'esta pequenina pobre e necessitada que com tanto empenho vos -busca? Suas mãos são como de ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, -todas perfeitas, todas preciosas; mas reparai, filhas de Jerusalém, e -por aqui vos será mais facil conhecêl-o, que, no meio do ouro e -jacintos, tem em cada mão um precioso rubi que a passa de uma para a -outra. O seu peito e entranhas são de marfim ornadas de safiras, dando -a conhecer a côr celeste da safira, a branca do marfim e sua dureza, -que os seus affectos são puros, candidos, castos, virginaes, fortes, -celestiaes e divinos, sinceros, compostos, solidos e constantes. Ó -peito de amor, entranhas de piedade, como assim vos fechaes para quem -vos ama? Aqui deve de haver mysterio! Gostaes talvez de me vêr afflicta -para provar se sou amante! Quereis que me custe muito o que muito vale, -porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez pouco caso do que não -tem preço. Mas aí, amado meu, que, se me não dizeis aonde passaes a -sesta ao meio dia, temo que, andando vagabunda, venha a cahir nas mãos -dos vossos contrarios! A sua apparencia é como a do Libano, a sua -composição como a do cedro; em Judéa o monte mais formoso é o -Libano, no Libano a arvore mais excellente é o cedro: assim é o meu -amado entre os filhos dos homens. A sua garganta é suavissima, porque -sahem por ella as vozes, as respirações do peito, que é archivo de -amores e suavidades; em fim todo é formoso, todo perfeito, todo amavel. -Tal é o meu amado, este é o meu amigo, filhas de Jerusalém, creaturas -da terra; se o achardes, dizei-lhe que morro d'amor</i>... -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -Martha dizia a oração em voz alta, em modulações cantadas, n'um -arrobamento de <i>preghiera</i>. Aquelles dizeres, alinhavados pelo -varatojano, são extractos e imitações das escandecencias erothicas do poema -dramatico da <i>Sulamita</i> no «Cantico dos Canticos»—os trêchos -mais lyricamente sensuaes da antiguidade hebraica. Elles deram o tom de -todas as exaltações nevroticas, desde os extasis hystericos de Thereza -de Jesus até ás allucinações da beata Maria Alacoque e da portugueza -madre Maria do Céo, a cantora dos passarinhos de Villar de Frades. -D'esta peçonha doce, elanguecente, vibratil e enervante, cheia de -meiguices epidermicas de um corpo nú em frouxeis de arminhos, é que se -fizeram uns Manuaes modernos em França por onde as adolescentes -principiam a conversar com Jesus e a comprehendêl-o em linhas -correctas, sob plasticas macias, a esperal-o, a desejal-o, como lh'o -figuram com todas as pulsações, redondezas e flexibilidades da carne. -</p> -<p> -Martha, entre o Deus incomprehensivel e o Christo-homem, via um ser -tangivel, o seu unico termo de comparação—o José Dias, esposo da sua -alma e dominador dos seus nervos reaccendidos e abraseados pela saudade. -Nas apostrophes a Jesus, palpitavam-lhe nitidas as curvas do amante que -a ouvia de entre as nuvens, n'uma clareira azul, com a sua lividez -marmorea e os anneis dos cabellos louros esparsos como nas cabeças dos -cherubins. Tinha aquelle namoro no céo quando abria a pagina do livro -com que o confessor lhe dissera que havia de exorcisar as tentações -voluptuosas da sua alma e do seu corpo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura20.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XIX">XIX</a></h4> - -<p> -Frei João não se entendia já com a sua confessada. Deviam ser -grandemente disparatadas as revelações de Martha para que o varatojano -desconfiasse que ella estava obsessa e que as suas visões deviam ser -malfeitorias de demonio incubo. Feliciano discordava da opinião do -inexoravel exorcista, quando elle o interrogava sobre miudezas de -alcôva. O marido contava singelamente que sua mulher passava a maior -parte do dia a rezar pelo livro no oratorio; que tinha dias de comer bem -e outros dias de não comer nada; que não dava palavra ás creadas, nem -se mettia no governo da casa; que com elle tambem fallava pouco, e não -desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama com elle. Verdade era -que ás vezes elle acordava e a via sentada com os olhos postos no -tecto. -</p> -<p> -—Pois é isso...—atalhava o varatojano. -</p> -<p> -—É isso quê, snr. frei João?—perguntava o marido. -</p> -<p> -O confessor não podia explicar-se. O seu praxiste Brognolio, ampliado -pelo padre-mestre arrabido frei José de Jesus Maria, admoestava-o a -occultar de terceiras pessoas os signaes evidentes da obsessão de uma -alma, sem estar devidamente apparelhado para o combate e na presença do -inimigo. O apparelho, n'este caso, era a estola, a agua-benta, o -latim—uma lingua familiar ao diabo. Além dos preceitos da arte, havia -a inviolabilidade do segredo da confissão; e uma caridade decente -aconselhava que Feliciano ignorasse as tentativas adulteras do demonio -incubo, figurado na pessoa espectral do José Dias. Com o vigario de -Caldellas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a -brazileira de Prazins estava possessa, muito gravemente energumena. O -padre Osorio abriu um sorriso importuno, d'estes que vem de dentro em -golfos involuntarios como a nausea d'um embarcadiço enjoado. O egresso -reparou no tregeito heretico da bocca do padre, e perguntou-lhe se tinha -alguma duvida a pôr. -</p> -<p> -—Uma pequena duvida, snr. frei João, respondeu intemeratamente o -vigario.—Não posso acceitar que o diabo, sendo filho de Deus, seja o -ente perverso que faz soffrer a pobre Martha... -</p> -<p> -—<i>O diabo, filho de Deus</i>!—interrompeu o varatojano, -levando as mãos inclavinhadas á testa. Padre Osorio, o snr. disse uma -blasfemia enorme... Santo nome de Jesus! O <i>diabo filho de Deus</i>! -Anathema! -</p> -<p> -—Anathema á logica, ao raciocinio, por tanto!—contraveio sereno -e risonho o outro. -</p> -<p> -—A logica? a logica de Calvino, de Voltaire. -</p> -<p> -—Não, senhor, a logica do professor que m'a ensinou no seminario -bracharense. Creador não é pai? -</p> -<p> -—É sim, e d'ahi? -</p> -<p> -—Deus é pai de todas as suas creaturas; ora o diabo é creatura de -Deus; logo: Deus é pai do diabo. -</p> -<p> -—<i>Distinguo</i>!—contrariou o varatojano. -</p> -<p> -E o vigario, sem attender á interrupção escolastica: -</p> -<p> -—Se Deus é bom, as suas creaturas não podem ser más; ora, o demonio -é máo: logo, o demonio não póde ser creatura de Deus; mas, se o -diabo não é creatura de Deus, pergunto eu o mesmo que um negro da -Africa perguntava ao missionario: Quem é o pai do diabo? -</p> -<p> -—<i>Distinguo</i>!—insistiu o varatojano apoiado nas velhas -formulas da dialectica esmagadora—Deus creou os anjos; d'estes -houve alguns que se rebellaram contra o seu creador, e foram -precipitados do céo: são os espiritos infernaes. Alguns d'esses anjos -não desceram ás trevas inferiores, e permanecem para flagello do -genero humano no ar caliginoso. <i>Aer caliginosus est quasi carcer -dœmonibus usque in diem judicii</i>, diz S. Agostinho. Deus permitte -que os demonios vexem as creaturas, pelo bem que póde resultar ás -creaturas d'esse vexame. É o que se colhe do Evangelho de S. João: -<i>Omnia per ipsum facta sunt</i>. Por tanto, Deus permitte o mal? logo: -este mal é bom, por que Deus é o Summo Bem. Verdade é que os males -não são bens... -</p> -<p> -—Ia eu dizer...—atalhou o padre Osorio; ao que o missionario -acudiu prestes e victoriosamente: -</p> -<p> -—Mas Deus tira os bens d'esses mesmos males, como diz S. Thomaz: -<i>Bonum invenire potest sine malo, sed malum non potest invenire sine -bono</i>. Logo: Deus permitte o mal como causa do bem; <i>id est</i>, -permitte o demonio como exercitação saudavel do genero humano. <i>Melius -judicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere</i>, -diz D. Agostinho: e S. Thomaz ainda é mais claro e persuasivo: «A -divina sabedoria permitte que os demonios façam mal pelo bem que d'ahi -resulta.» <i>Divina sapientia pennittit aliqua mala tieri per malos -Angelos propler bona quæ ex eis elicit</i>. São doze as causas por que -Deus permitte que os demonios atormentem as creaturas humanas. Primeira: -para que o homem obstinado na culpa seja n'este mundo e no outro -atormentado; segunda... -</p> -<p> -—Estou convencido, snr. frei João—atalhou o -vigario,—vossa reverencia já esclareceu a minha duvida. É o caso -que Deus permitte demonios flagellantes para depurar com elles os -peccadores,—uns e outros creaturas da sua divina justiça. -</p> -<p> -—É isso mesmo. -</p> -<p> -—O espirito do máo homem—do peccador que é em si um -demonio interno, depura-se pela acção de outro demonio externo, ambos -creaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é -como um pai que azorraga o seu filho querido a vêr se elle recebe as -mortificações como caricias. Rico pai!—E accrescentou com -amargura:—Ah! meu frei João, receio muito que as superstições -venham a desabar o catholicismo que deve a sua existencia á victoria -que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. -<i>Ego sum veritas</i>. -</p> -<p> -Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osorio, -quando os outros missionarios chegavam, para assistirem ao jantar de -despedida em casa da brazileira. -</p> -<p> -Fechára-se a missão; os padres iam d'ali para Barcellos; mas frei -João, empenhado em desendemoninhar a pobre Martha, hospedou-se na -quinta da Revolta, em cuja capella celebrava missa e confessava as suas -filhas espirituaes insaciaveis do pão dos anjos, que digeriam n'uma -vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das egrejas e nos soalheiros, -catando as proprias pulgas e as vidas alheias. -</p> -<p> -Frei João andava apercebido com todos os utensilios infestos ao diabo. -Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energumena das mais provadas armas -nos seus triumphos sobre o inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo -lenho, um breve da Marca, a veronica do S. Bento, o Symbolo de Santo -Athanasio, cruzinhas de Jerusalém, veronica com a cabeça de Santo -Anastacio, reliquias de varios santos, umas esquirolas de ossos -grudadas em farrapinhos, orações manuscriptas da lavra do varatojano, -mettidas em saquinhos surrados da transpiração d'outras obsessas. -</p> -<p> -Martha devia jejuar, como preparatorio. Parece que o demonio se compraz -de habitar estomagos confortados na quentura do bôlo alimenticio. O -exorcista jejuava tambem conforme o preceito dos praxistas, e -aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus -que dissera pela bocca de S. Matheus que «taes diabos, sem jejum nem -oração, não sahiam do corpo:» <i>Hoc genus demoniorum in nullo potest -exire nisi oratione et jejuino</i>. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; -mas, ás escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; -começava a revelar idéas egoistas, um cuidado da sua alimentação e -do seu repouso, certo desprezo cynico pela parte que o diabo tomára na -sua familia. -</p> -<p> -Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigario de Caldellas os -fortes symptomas que Martha apresentava de estar possessa. Eram muitos, -e bastava-lhe citar os seguintes: -</p> -<p> -Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigilia. E -mostrava o texto: <i>quando patiens audit quasdam voces se vocantes</i>. -Por que aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osorio -lembrava-lhe que seriam enôjos peculiares da gravidez; mas o varatojano -confundia-o com o latim. <i>Quando quis non potuit gustare panem aut -carnem</i>. Ella digeria com muita difficuldade os alimentos. Era obra -do diabo, por que o livro dizia,—bem vê—mostrava frei João -ao padre Osorio: <i>Quando quis sanus cibum digerere non potest in -stomacho</i>. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a -certeza:—<i>Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret</i>. -Havia um artigo que accentuava as mais fortes presumpções da obsessão -incuba de Martha. Parece que ella no confissionario se accusava de -repugnancias, de concessões violentadas, de resistencias ás caricias -do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha -n'essas luctas da alcova. É o que se deprehende do <i>Signal</i> decimo -terceiro que frei João mostrava com o dêdo no seu <i>Brognolo</i>, e -vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar -intelligencia:—<i>Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non -potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur -esse</i>.—Aqui é onde bate o ponto!—dizia frei João -martellando com o dedo indicador na pagina indecente. -</p> -<p> -—Mas não será essa visão o introito de uma alienação -mental?—perguntava o de Caldellas.—Não vê, padre João, que esta -rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da -sua vida passada? Não a vê tão cahida, tão melancolica... -</p> -<p> -—Os melancolicos são os mais vexados pelo demonio—replicou -o egresso. Veja Galeno e Avicena, que aqui vem citados.—E folheou -o Brognolo, até encontrar o texto triumphal. -</p> -<p> -—Aqui tem; leia, verá que a demencia póde ser obra do demonio. -</p> -<p> -O padre Osorio leu com uma grande ignorancia curiosa: <i>Os demonios -acommettem mais os melancolicos. Primeiro, porque o humor melancolico -com difficuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. -Segundo, porque o humor melancolico é mais apto para gerar diversas -enfermidades incuraveis, porque, se é muito enxuto, offende as -membranas do cerebro e faz ao homem doudo; se offende os ventriculos -causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e odios; e estes effeitos de -melancolia muitas vezes os costuma causar o demonio</i>, etc. -</p> -<p> -—O padre Osorio está-se a rir?!—invectivou fr. João -abespinhado. Sabe o snr. que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abbade -de S. Thiago d'Antas que o snr. padre vigario de Caldellas não era -muito seguro em materia de fé; que tinha um bocado de fedor heretico -nas suas predicas, e que dava mais importancia á quina do que aos -santos milagrosos na cura das maleitas. -</p> -<p> -—Se isso fede a heresia, então, snr. frei João, estou de todo -pôdre—obtemperou Osorio, e continuou deixando impar de espantada -indignação o missionario.—A respeito da enfermidade de Martha, sou a -dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem -banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, -que a internassem n'um hospital de alienadas, porque esta mulher é -filha de uma douda, é neta de outros doudos, e pouco ha-de viver quem a -não vir de todo mentecapta. Além de herege sou propheta, meu caro -senhor frei João. A sua energumena tem infelizmente o demonio que raras -vezes a sciencia vence—o demonio da demencia hereditaria que a não se -curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a agua benta. -Seria bom que vossa reverencia, antes de pôr á prova os exorcismos, -ouvisse a opinião dos medicos. -</p> -<p> -—Eu sei o que dizem os medicos—e sorria com menospreço da pobre -medicina. Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remedio que -não inventei, mas que a egreja de nosso Senhor Jesus Christo me deixou, -e que elle mesmo, o divino Mestre usou, como o senhor padre Osorio deve -ter lido nos seus Evangelhos ... ou nega a auctoridade dos Evangelhos? -Nega que Jesus Christo expulsava demonios? -</p> -<p> -—Não senhor, eu sei a historia da legião que se metteu nos porcos... -</p> -<p> -—E outras; os livros sagrados estão cheios d'esses <i>factos</i> a -que o padre Osorio chama <i>historias</i>; não são historias, são factos. -</p> -<p> -—Ah! snr. frei João! Jesus Christo, a sua vida e os seus milagres não -são historia? não pertencem á historia? Máo é isso então! -</p> -<p> -A polemica prolongou-se um tanto azeda; Osorio escandalisava os pios -ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no céo, -exclamava com S. Paulo que era necessario que houvesse escandalos. -Interrompera-os o brazileiro dizendo que a sua sobrinha estava com um -ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcôva para onde -a tinham levado em braços, e o padre Osorio ficou ouvindo a revelação -da governanta, que lhe dizia: -</p> -<p> -—A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar -uns lenços por agua quando ella entrou no pomar sem fazer caso de mim, -como se ali não estivesse viva alma. E vae depois poz-se a cortar rosas -e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José -Alves. V. S.ª não me dirá quem diacho, Deus me perdôe, é este José -Alves? -</p> -<p> -—E depois? -</p> -<p> -—Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das -rosas muito chegado á cara e d'ahi a pouco cahiu para o lado a dar aos -braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamol-a para o -quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que -foi derriço que ella teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com -o arenque do tio contra vontade... É o que tem estes casamentos... -</p> -<p> -O padre Osorio não illucidou a governante. Assim que o Feliciano lhe -disse que se iam lêr os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres -parochiaes, e observou-lhe: -</p> -<p> -—Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, snr. -Prazins. O demonio que ella tem é a doença. Faça o que lhe disse o -padre mestre Roque que é um velho illustrado e virtuoso. Vá dar um -giro com ella. Leve-a á capital; demore-se por lá; e, quando a vir -distrahida, contente e com bom appetite, volte para sua casa. -</p> -<p> -O brazileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas -que o frade se lhe mettera em casa, e dizia que não se ia embora sem -curar ella. Accrescentou que não podia agora sahir do Minho porque -estava á espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na -batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por -morte do pai;—que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que -partia com a d'elle, e havia outro brazileiro que a trazia d'olho. Que a -respeito da sobrinha tencionava leval-a a banhos do mar, e havia de -comprar o Manual do Raspail, a vêr o que elle dizia da molestia, porque -em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que -levasse o diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos. -</p> -<p> -—Que sim, que comprasse o Manual do Raspail—concordou o padre -Osorio, e sahiu muito cançado—dizia elle á irmã—de lidar com -as duas cavalgaduras. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura21.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="XX">XX</a></h4> - -<p> -Martha estava no quarto, onde tinha o seu oratorio de pau preto com -frizos dourados, e dentro uma antiga esculptura em marfim d'um Christo -dignamente representado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia -uma vela de cêra benzida. Frei João entrára de sobrepeliz e estola: -seguiam-no o Feliciano com uma vela de arratel acceza, e o Simeão com -a caldeirinha da agua-benta. Martha, com um pavor na vista, tremia, de -pé, encostada á commoda. O exorcista sentou-se, e chamou a energumena -com um gesto imperativo de cabeça. Ella aproximou-se hesitante e -ajoelhou. Fr. João compoz o semblante e deu á voz uma toada lugubre em -conformidade com a rubrica de Brognolo—<i>com grave aspecto e voz -horrivel</i>, diz o demonómano. Começou por exercitar o <i>Preceito -provativo</i>, a vêr se havia effectivamente demonio. E então bradou, -fazendo estremecer Martha: <i>In nomine Jesu Christi. Ego Joannes est -minister Christi</i>... Vinha a dizer, em vulgar, ao demonio ou aos -espiritos immundos, <i>vet vobis spiritis immundis</i>, que, se estavam no -corpo d'aquella creatura, dessem logo um signal evidente, ou vexando-a, -ou movendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus -lhe fosse permittido <i>eo modo quod a Deo juerit permissum</i>. Martha -estava retranzida d'um sagrado horror, posto que não percebesse do -latim do padre senão <i>demonio</i> e <i>espiritos immundos</i>. Nunca lhe -tinham dito que ella estava endemoninhada, e á sua mentalidade faltava-lhe -n'este alance a força convincente e a energia da palavra para combater -o engano do seu confessor. Não tinha vigor de caracter nem rudimentos -de intelligencia para reagir. Educada em melhores condições, -succumbiria com a mesma vontade inerte sob a violencia do confessor. Ha -condescendentes humildades mais vergonhosas sem o diagnostico da -demencia que as desculpe. Ella estava de joelhos; mas, não podendo -suster-se, sentou-se n'um arfar de suspiros, anciada, até que as -lagrimas lhe explodiram n'uma torrente. -</p> -<p> -Frei João fez um tregeito de satisfação, um agouro de victoria, e -poz-lhe o <i>Preceito lenitivo</i>: «Que a vexação cessasse -immediatamente—impunha elle aos demonios malditos—e toda a -afflicção causada por elles» <i>et omnia afflictio a vobis -causata</i>. E atacou logo os demonios com o <i>Preceito instructivo</i> -«que immediatamente a prostrassem na presença d'elle, se ella estava -possessa» <i>et statim coram me illam prosternatis</i>. Martha, com -effeito, estava prostrada, com a face no pavimento, estirando os braços -no paroxismo epileptico, e o collo e o tronco hirtos n'uma -inflexibilidade tetanica. -</p> -<p> -—Não ha que duvidar—disse o exorcista ao marido e ao pai da -possessa.—Levem-na d'aqui e depois continuaremos. -</p> -<p> -Martha, passado o lethargo, disse ao tio que mal se lembrava do que -passára no oratorio com o snr. frei João; mas que lhe tinha mêdo, que -não queria mais confessar-se com elle. -</p> -<p> -—Cada vez mais provado que está obsessa. Já não é ella quem falla; -é o demonio que me teme!—exclamou o exorcista com uma santa basofia, -refutando as vacillações um pouco scepticas do brazileiro; ao passo -que o Simeão asseverava que a filha tinha o demonio; porque a sua -defunta mulher tambem o tinha, e se deitára ao rio porque nunca quizera -que lhe fizessem as rezas. -</p> -<p> -Ao outro dia, vencidas as repugnancias de Martha, continuou o exorcista, -carranqueando cada vez mais e pondo vibrações horrorosas na larynge. -Deu-lhe a ella o seu Brognolo para que lêsse em voz alta os <i>Preceitos -que a creatura vexada pôde pôr ao demonio</i>. Martha, de joelhos, diante -do oratorio, leu: <i>Demonio maldito, eu como racional creatura de Deus, -redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar se -humanou, cheia de fé, te mando em virtude do santissimo nome de Jesus, -que logo me obedeças e me atormentes levemente, ou fazendo tremer o meu -corpo ou lançando-o em terra, deixando me em meu juizo</i>. -</p> -<p> -O corpo de Martha visivelmente tremia; ella deu o livro ao exorcista com -um arremesso impaciente, e murmurou soluçante: -</p> -<p> -—Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Christo! -</p> -<p> -Frei João sorriu-se, e resmuneou á orelha do Feliciano—o maldito -serve-se do nome de Christo para me afastar! Eu vou escangalhar-te, -Satanaz! -</p> -<p> -E lançou mão do gladio das <i>Objurgações</i>. As objurgações são -perguntas feitas ao diabo, á má cara, e latinamente. <i>Dize, maldito -demonio, serpente insidiosa, conheces que existe Deus? Conheces que -foste creado anjo allumiado de muitas prendas, e que pela tua soberba te -perdestes? Sabes que, repulso do paraiso, perdeste para sempre a graça -de Deus</i>? Pergunta-lha a final, depois de muitas injurias, se reconhece -n'elle um ministro de Deus, e como ousará a não manifestar-se? -<i>Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare</i>? -</p> -<p> -O demonio não respondeu ainda; mas o frade ia apertal-o, mandando que -se ajoelhassem todos. Elle então, n'uma postura seraphica, braços -cruzados no peito e olhos no Christo, declamou: -</p> -<p> -<i>Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores in -eis ignem accende</i>. Pedia ao Espirito Santo que descesse a encher os -corações dos seus fieis, e abrazal-os no fogo do seu amor. Depois: -<i>Dominus vobiscum</i>. -</p> -<p> -—<i>É de co espirituó</i>—respondeu o Simeão, que sabia ajudar -á missa. -</p> -<p> -Seguiram-se varios <i>Oremos</i> e deprecações, e a <i>Ladainha de -Nossa Senhora</i>; mais outros <i>Oremus</i>, e a <i>detestação</i> da -energumena, uma estirada que principiava: <i>E tu, demonio maldito, com -que auctoridade intentas possuir jamais meu corpo ou molestar-me por -modo algum</i>? Martha rejeitou o livro, e disse que não podia lêr nem -estar de joelhos; que tinha vágados e que se queria ir deitar. Mas o -exorcista, severo e formidavel no seu ministerio—que não, que -não se ia deitar, que não lhe fugia, que se puzesse de joelhos a seus -pés! Elle então, segundo a rubrica do livro director, <i>sentou-se, -cobriu-se, voz grave e horrivel, virado contra o demonio, como juiz para -tal réo já convencido</i>, aspergiu a possessa de agua-benta, -ululando: <i>Asperge me, Domine</i> ... e recommendou aos circumstantes -que apagassem duas velas, e não dessem palavra. Profundo silencio. -Ouvia-se apenas o zumbido das moscas que se esvoaçavam do tecto -attrahidas pelo calor da luz unica e pousavam na fronte chagada do -Christo. O recinto era espaçoso e quasi em trevas. A vela, encoberta -pelas curvas lateraes do oratorio, não alumiava senão o curto espaço -da projecção em que Martha, retrahida n'um terror, tinha os dedos das -mãos postas, chegadas aos labios, como se quizesse abafar os suspiros. -</p> -<p> -Passados minutos, o exorcista começou a conjurar e ligar o demonio em -nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo, tratando-o de <i>immundo</i>, -affrontando-o bravamente com epithetos que deviam offender o mais -desbragado patife. Martha fez um movimento de afflictivo desabrimento; -parecia querer fugir; mas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia -com o Brognolo: <i>Se não estiver quieta, póde-a prender com uma -estola</i>. Feitas novas e mais terriveis conjurações, o exorcista -levantou-se com pavorosa solemnidade, e exclamou: <i>Exurge, Christe! -adjuva nos</i>! Levanta-te, Christo, e auxilia-nos! -</p> -<p> -O egresso continuava as evocações ao Christo, quando Martha cahiu sem -acôrdo. -</p> -<p> -—Victoria!—exclamou o exorcista—victoria! -</p> -<p> -E, mostrando ao brazileiro uma pagina do livro: ouça lá, snr. -Feliciano: <i>O signal mais certo de que o demonio obedeceu e se retirou -de todo é o que a sagrada Escriptura nos expõe no capitulo IX de S. -Marcos:—Deixar a creatura por terra algum tempo como morta. Isto se -viu no endemoninhado surdo e mudo que Christo nosso bem curou, e do qual -diz o texto: Et factus est sicut mortuus</i>. Depois, com jubilo, limpando -o suor: -</p> -<p> -—Podem leval-a, deitem-na, ponham-lhe as reliquias todas debaixo do -travesseiro. -</p> -<p> -Os dois não podiam facilmente levantal-a; na rigidez, como empedernida -do corpo, parecia collada ao pavimento. O brazileiro pedia ao exorcista -que a amparasse por um dos braços; mas o frade, artista austero, -respondeu que lhe era defêso pôr mãos nas possessas. E, de feito, -Carlos Baucio, na <i>Arte do exorcista</i>, legisla: «que os exorcistas não -ponham as mãos physicamente sobre a creatura, principalmente sendo -mulher (<i>propter periculum</i>), pois que as mulheres nem com o signal da -cruz se devem tocar—<i>Mulieres nec signo crucis sunt tangendæ</i>. -</p> -<p> -Martha passára a noite muito agitada, febril, com delirio; dava -risadinhas muito argentinas, fallava no José Alves; sacudia a roupa com -frenesi, e, quando emergia do torpôr, sentava-se no leito a olhar para -o tio, com uma fixidez repellente. Feliciano não se deitára, e de -madrugada disse ao irmão que fosse chamar o medico, que a Martha estava -com um febrão; e que levasse o diabo o frade para as profundas do -inferno e mais os exorcismos. -</p> -<p> -Já quando era dia, o brazileiro foi descançar um pouco na cama de D. -Thereza, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. Ás nove -horas, a governante foi acordal-o, muito alvoroçada, para lhe dizer que -a snr.ª D. Martha tinha sahido sósinha ao nascer do sol e que uma -mulher a encontrára já perto da casa do vigario de Caldellas, a -correr, que parecia uma doudinha. Fr. João recebeu tambem a nova da -fuga, quando acabava de dizer missa em acção de graças pelo triumpho -obtido sobre o demonio. O medico chegava ao mesmo tempo, e informado das -scenas dos exorcismos, disse ao varatojano injurias que o frade não -tinha dito ao diabo; chamou ao brazileiro e ao irmão corja de -estupidos, e partiu para Caldellas com o Feliciano. O frade, insultado -pelo medico, e pelos modos bruscos e desabridos do brazileiro, citou -umas palavras de Jesus que manda sacudir o pó das sandalia no limiar da -casa dos impios, e foi-se embora. Seguiram-o algumas beatas n'um alto -chôro por longo espaço: e, quando elle desappareceu no cotovello da -estrada, houve d'ellas que arrancavam cabellos, cheios de lendias; -outras davam-se bofetadas, e as mais hystericas guinchavam uivos -estridentes. -</p> -<p> -O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando ellas lhe -passaram á porta a chorar, atraz do missionario, sahiu fóra, e -disse-lhes com um racionalismo brutal: -</p> -<p> -—Ah grandes coiras! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura22.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></h4> - -<p> -Martha regressou com D. Thereza, alguns dias depois. O brazileiro -conveio no tratamento hydropathico da esposa; e a compadecida irmã do -vigario offereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abraçava -n'ella com medo imbecil, a pedir-lhe que a não deixasse, que a -defendesse do missionario. -</p> -<p> -D. Thereza assistiu ao nascimento da primeira filha de Martha. Imaginava -a irmã do vigario que no espirito da mãe se havia de operar uma -benigna mudança; que o amor á filha seria diversão á saudade de -José Alves; mas a medicina não esperava alteração sensivel, porque -era materia corrente nos tratados alienistas que um cerebro lesado não -se restaura sob a impressão do amor maternal que só actua nas -organisações normaes. Porém, D. Thereza não podia crer que Martha -estivesse confirmadamente louca, posto que nas suas conversações em -que, raras vezes, se interessava, disparatasse, affirmando que via a -alma de José Alves, como quem conta um caso trivial. -</p> -<p> -Quando lhe mostraram a filha recem-nascida, contemplou-a alguns -segundos; mas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum -de contentamento. A amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a -vêr se lhe espertava o coração. Punha-lh'a nos braços, dava-lh'a a -beijar. Martha cedia com tristeza e constrangimento, beijando a filha -como se fôra uma creança alheia. A ama ia dizer ás creadas que a -brazileira era uma cafra, que não podia vêr o anginho do céo. -</p> -<p> -Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tres dias antes do ataque, a -torvação de Martha manifestava-se com extravagancias, delirios. -Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava no -sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Thereza, á -madrinha de sua filha, que arranjára aquelle caminho de rosas, porque o -seu José Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim -em Villalva quando casassem, e ella fizera aquelle jardim para passearem -juntos quando elle viesse á noite. D. Thereza encarou-a com uma grande -piedade, porque se convenceu então que estava perdida. -</p> -<p> -O Feliciano, quando ella se fechava no quarto, já sabia que estava a -preparar-se o ataque; ia dormir n'outra cama: necessitava do seu -repouso, dizia elle; tinha de erguer-se cedo para vêr o que faziam os -jornaleiros, e não podia perder as noites. Como o arrependimento de se -casar já o mortificava, evadia-se ás irremediaveis apoquentações, -olhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se ás vezes que, -tendo uma mulher assim doente, não lhe seria muito desagradavel ficar -viuvo. Não obstante, como, passado o ataque epileptico, a esposa -recahia n'uma serena indolencia, n'uma impassibilidade mansa e -tranquilla, o tio ia dormir com ella, tendo sempre em vista as -condições do seu bem estar, as necessidades imperiosas da sua -physiologia. Assim se explica a fecundidade de Martha, que deu em sete -annos cinco filhos a seu marido. O medico já tinha explicado -satisfatoriamente ao padre Osorio que a demencia de Martha era -funccional, e as qualidades reproductoras não tinham que vêr com as -anormalidades cerebraes. A Providencia não teve a bondade de fazer -estereis as dementes. -</p> -<p> -Entretanto, nos tres dias precedentes ás crises epilepticas, parece que -o marido lhe era repulsivo. Dava-se então a revivencia de José Alves, -o seu amado sahia do sepulchro, e transportava-a nas suas azas de anjo -ao paraizo de Prazins. D. Thereza, collando o ouvido á fechadura da -porta, ouvia-a conversar como era dialogo, ficar silenciosa, depois -d'uma interrogação, por largo espaço de tempo; vinha de mansinho á -porta espreitar que a não escutassem. Dizia palavras confusas, -abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os labios postos em -contacto de um rosto amado. O nome de <i>José</i> realçava com uma nitidez -jubilosa, com um timbre de meiguice infantil; e ás vezes, um grito em -esforçado desespêro como se elle se lhe desatasse dos braços para lhe -fugir. Um espiritista da escola de Kardec tiraria d'esta loucura um -argumento a favor das <i>Manifestações visiveis</i>, em que o fluido, o -<i>perispirito</i> se apresenta semi-material, com as fórmas vagas do -corpo, quasi tangivel ao <i>medium</i>. -</p> -<p> -O Feliciano ignorava estas scenas extra-naturaes. Elle, ao sexto anno de -casado, encouraçára-se n'um impenetravel egoismo de avarento, cortando -fundamente por todas as despezas que em vista da sua grande fortuna se -reputavam sovinarias. A medicina já o considerava lunatico, mais ou -menos inficcionado da alienação da mulher. E a loucura que é se não -a exaggeração do caracter? Porque o viam ás vezes atravessar os seus -pinhaes, com o monoculo, gesticulando, e faltando sósinho, chamavam-lhe -doudo. Errada hypothese do vulgo ignorante. Elle fazia operações -arithmeticas em voz alta como os velhos poetas inspirados faziam -madrigaes n'uma declamação rythmica ao ar livre e ao luar. O certo é -que ninguem o apanhava em intervallo escuro para o defraudar n'um -vintem. Comprou, umas após outras, todas as quintas que foram do Vasco -Cerveira Lobo, de Quadros; umas á viuva, e outras aos filhos. A D. -Honorata Guião, casada em segundas nupcias com o desembargador do -Ultramar Adolpho da Silveira, veio á metropole assim que viuvou para -se habilitar herdeira de metade do casal não vinculado do -tenente-coronel. Os filhos Egas e Heitor, sabendo que sua mãe estava -nos Pombaes, com o marido e filhos, tentaram escorraçal-a com ameaças -e insultos, atirando-lhe tiros á janella. O magistrado fugiu com a sua -familia e acompanhou com força armada os actos judiciaes. Afinal, -Honorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brazileiro Prazins; e o -morgado, vendido o seu patrimonio desvinculado, e mais o irmão, -vergonhosamente casados, esfarrapam hoje o resto da torpe existencia na -tavolagem das tavernas. As filhas salvaram-se do naufragio agarradas ás -pranchas dos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam -os seus casaes e as sovavam de pontapés injustos e extemporaneos, -quando se lembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucotte. -</p> -<p> -A brazileira de Prazins tem hoje cincoenta e tres annos. Os seus -visinhos que contam trinta annos, nunca a viram, por que ella, desde -que, em 1848, morreu D. Thereza, nunca mais sahiu do seu quarto. Já -ninguem a vai escutar; mas repete as mesmas palavras do seu amor de ha -quarenta annos, pede que lhe levem flores, tem as mesmas allucinações, -e—o que mais é—ainda tem lagrimas, quando, nos intervallos dos -delirios, entra na angustiosa convicção de que José Dias é morto. O -padre Osorio ainda a procura n'esses periodos de razão bruxuleante e -falla-lhe da irmã por sentir a ineffavel amargura doce de se vêr -acompanhado nas lagrimas. Mas o padre diz que nunca pudéra vêr -nitidamente a linha divisoria entre a razão e a insania de Martha. -Depois do delirio, sobrevem a monomania hypocondriaca. A alma continua a -dormir sem sonhar, sem as allucinações. N'essa segunda crise de -torpor, elle e só elle é admittido ao seu quarto, depois de esperar -que desça da cama ou se embrulhe n'um challe para encobrir a sordidez -do corpête dos vestidos. Este challe é uma scintilla resistente de -instincto feminil que raras vezes se apaga no commum das dementes, -excepto no maior numero das hystericas com erothismo. -</p> -<p> -Martha tem duas filhas casadas e já mães. Ás temporadas, vestem -serenamente os seus trajes domingueiros e vão para casa dos paes, onde -continuam na sáfara dos campos a sua lida de solteiras. O pai -educára-as na lavoira, de pé descalço; e sachola nas unhas. Trabalham -nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas. -E os maridos, cheios de bom senso, já as não procuram. Quando -regressam, recebem-as sem as interrogarem; porque, se as affligem, -dão-lhes vágados e choram. Nos outros filhos intanguidos, -escrofulosos, tristes e sem infancia predomina a diathese da -imbecilidade e a falta de senso-moral que é uma especie pathologica -menos estudada dos alienistas. Entre estes filhos ha um que estudou para -clerigo. Passava por ser o mais escorreito. O pai achava-lhe talento. -Estudou seis annos latim, em Braga, debaixo das mais rigorosas -violencias á sua incapacidade; e quando Feliciano, prodigo de dinheiro -para este filho, e desenganado pelo professor, o mandou buscar com tres -reprovações, elle trazia em uma caixa de lata cinco mil e tantas -hostias com que se prevenira para as suas consagrações de sacerdote. E -o pai foi tão feliz que pôde vender as hostias com o pequeno prejuizo -de dez por cento. -</p> -<p> -—Ahi tem o brazileiro de Prazins, se nunca o viu—dizia-me ha -trez mezes o padre Osorio mostrando-me no mercado de Famalicão um velho -escanifrado, muito escanhoado, direito, com o monoculo fixo, vestido de -cotim, com um guarda-pó sujo, esfarpelado na abotoadura, e uma chibata -de marmeleiro com que sacudia a poeira das calças arregaçadas. -</p> -<p> -—Tem 84 annos—continuou o vigario de Caldellas—veio a pé -de sua casa, que dista d'aqui legua e meia, janta um vintem de arroz, bebe -outro vintem de vinho, tem quinhentos contos, e volta para sua casa a -pé, atravez ou pouco menos das suas quatorze quintas. Com a -frugalidade, com o exercicio e com o seu egoismo sordido viverá ainda -muito tempo, porque o velho Alexandre Dumas disse que os egoistas e os -papagaios viviam cento e cincoenta annos. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="chapter-beginning" style="width: 400px;"> -<img src="images/figura23.jpg" width="400" height="116" alt="" /> -</div> - -<h4><a id="PS">P.S.</a></h4> - -<p> -Com os subsidios ministrados pelo cura de Caldellas compuz esta -narrativa, espraiando-me por accessorios de duvidoso bom senso, cuja -responsabilidade declino dos hombros d'aquelle discreto sacerdote. Tudo -que n'este livro tem bafio de velhas chalaças, ironias e satyras é -meu; e, se alguem por isso me arguir de pouco respeitador do vicio e da -tolice, retiro tudo. -</p> -<p> -Se o meu condescendente informador me permitte, ouso -dizer-lhe—para nos esquivarmos ambos ás insidias da critica -portugueza—que a demencia de Martha não é extremamente original -nem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa, -é original, é duvidar eu de que o sou. -</p> -<p> -Em um <i>Conto</i> de Charles Nodier, auctor remoto que se perde no -crepusculo da litteratura archeologica, ha uma LYDIA que endoudeceu -quando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa indole, -pereceu n'um incendio salvando tres creanças e sua mãe. -</p> -<p> -Lydia enlouquece e cuida que seu esposo está no céo de dia e a visita -de noute. Ella, desde o repontar da aurora, sae ao jardim, e colhe -flores para o brindar quando elle desce do azul com azas de pennas de -ouro. Ao cabo de seis annos d'este sonhar delicioso, a ditosa douda, -quando andava a recolher as flores dilectas para o <i>bouquet</i> das -nupcias com o anjo de cada noute, sentou-se em dulcissima somnolencia e -expirou. -</p> -<p> -As analogias de Lydia e Martha frizam pela visão dominante na demencia -de ambas—uma especie de resurreição do amado. No que ellas -diversificam essencialmente é que uma sonhou seis annos e a outra vai -no trigesimo setimo da sua demencia; Lydia sonhou absorvida na sua ideal -alliança com um celicola, um bem-aventurado com azas de ouro; Martha -quando immerge allucinada no seu lethargo, é a paixão leal ao amado -sempre vivo na terra e no seu coração. Lydia passa as noutes em -amplexos do marido celestial: Martha, sem consciencia da sua vida -organica, tem cinco filhos, como se arrancasse de si a porção ignobil -de seu ser e a rejeitasse ao sêvo sensual do marido resalvando a alma -d'essa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto, parecer que não -ha nodoa de plagiato no meu livrinho—uma coisa original como o -peccado. -</p> -<p> -O leitor pergunta: -</p> -<p> -—Qual é o intuito scientifico, disciplinar, moderno, d'este romance? -Que prova e conclue? Que ha ahi proveitoso como elemento que reorganise -o individuo ou a especie? -</p> -<p> -Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance não pretende -reorganisar coisa nenhuma. E o auctor d'esta obra esteril assevera, em -nome do patriarcha Voltaire, que <i>deixaremos este mundo tolo e máo, tal -qual era quando cá entramos</i>. -</p> - -<p><br /></p> - -<p style="margin-left: 15%;">S. Miguel de Seide, dezembro de 1882.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>A BRAZILEIRA DE PRAZINS:</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg™ License when -you share it without charge with others. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you - are not located in the United States, you will have to check the laws - of the country where you are located before using this eBook. - </div> -</blockquote> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase “Project -Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg™ License. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format -other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg™ website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain -Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works -provided that: -</div> - -<div style='margin-left:0.7em;'> - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation.” - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ - works. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg™ works. - </div> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right -of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> - -</html> diff --git a/old/68905-h/images/figura01.jpg b/old/68905-h/images/figura01.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 8157072..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura01.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura02.jpg b/old/68905-h/images/figura02.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 5ff5ca3..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura02.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura03.jpg b/old/68905-h/images/figura03.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 9609325..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura03.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura04.jpg b/old/68905-h/images/figura04.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 051a069..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura04.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura05.jpg b/old/68905-h/images/figura05.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2c0f5d1..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura05.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura06.jpg b/old/68905-h/images/figura06.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 8057beb..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura06.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura07.jpg b/old/68905-h/images/figura07.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index c806e1a..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura07.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura08.jpg b/old/68905-h/images/figura08.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index e21c5c0..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura08.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura09.jpg b/old/68905-h/images/figura09.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 0eb0afa..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura09.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura10.jpg b/old/68905-h/images/figura10.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ae5b408..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura10.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura11.jpg b/old/68905-h/images/figura11.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 10bf7b4..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura11.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura12.jpg b/old/68905-h/images/figura12.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 23412a0..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura12.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura13.jpg b/old/68905-h/images/figura13.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index a16abe6..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura13.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura14.jpg b/old/68905-h/images/figura14.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 6a468d1..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura14.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura15.jpg b/old/68905-h/images/figura15.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 535e14f..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura15.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura16.jpg b/old/68905-h/images/figura16.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 5ba7003..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura16.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura17.jpg b/old/68905-h/images/figura17.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 91c33e9..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura17.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura18.jpg b/old/68905-h/images/figura18.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 6bad7ec..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura18.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura19.jpg b/old/68905-h/images/figura19.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 885ffca..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura19.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura20.jpg b/old/68905-h/images/figura20.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 77f3e23..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura20.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura21.jpg b/old/68905-h/images/figura21.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ef072be..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura21.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura22.jpg b/old/68905-h/images/figura22.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 47ca276..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura22.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/figura23.jpg b/old/68905-h/images/figura23.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 12edb38..0000000 --- a/old/68905-h/images/figura23.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/inner_cover.jpg b/old/68905-h/images/inner_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 34c8b5f..0000000 --- a/old/68905-h/images/inner_cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/prazins_cover.jpg b/old/68905-h/images/prazins_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2de884d..0000000 --- a/old/68905-h/images/prazins_cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68905-h/images/prazins_frontispiece.jpg b/old/68905-h/images/prazins_frontispiece.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 6831457..0000000 --- a/old/68905-h/images/prazins_frontispiece.jpg +++ /dev/null |
