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-The Project Gutenberg eBook of O Atheneu:, by Raul Pompéia
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O Atheneu:
- Chronica de saudades
-
-Author: Raul Pompéia
-
-Illustrator: Raul Pompéia
-
-Release Date: July 17, 2022 [eBook #68541]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- the Biblioteca Brasiliana USP Digital.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ATHENEU: ***
-
-
-RAUL POMPEIA
-
-
-
-
-
-O
-ATHENEU
-
-
-(CHRONICA DE SAUDADES)
-
-
-
-
-2ª Edição definitiva
-
-(Conforme os originaes e os desenhos deixados pelo autor)
-
-
-
-
-FRANCISCO ALVES & C^ia
-
-RIO DE JANEIRO
-
-168, RUA DO OUVIDOR, 168
-
-S. PAULO
-
-65, RUA DE S. BENTO, 65
-
-BELO HORIZONTE
-
-1055, RUA DA BAHIA, 1055
-
-AILLAUD, ALVES & C^ia
-
-PARIS
-
-96, BOULEVARD MONTPARNASSE, 96
-(LIVRARIA AILLAUD)
-
-LISBOA
-73, RUA GARRETT, 73
-(LIVRARIA BERTRAND)
-
-
-
-
-_Propriedade litteraria e artistica dos editores._
-
-
-
-
-INDICE
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-
-
-
-
-O ATHENEU
-
-
-[Figura 01]
-
-«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pae, á porta do _Atheneu_.
-Coragem para a lucta.
-
-Bastante experimentei depois a verdade d'este aviso, que me despia, num
-gesto, das illusões de criança educada exoticamente na estufa de
-carinho que é o regimen do amor domestico, differente do que se
-encontra fóra, tão differente, que parece o poema dos cuidados
-maternos um artificio sentimental, com a vantagem unica de fazer mais
-sensivel a creatura á impressão rude do primeiro ensinamento, tempera
-brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso.
-Lembramo-nos, entretanto, com saudade hypocrita, dos felizes tempos;
-como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse
-perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que
-nos ultrajam.
-
-Euphemismo, os felizes tempos, euphemismo apenas, igual aos outros que
-nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem
-considerando, a actualidade é a mesma em todas as datas. Feita a
-compensação dos desejos que variam, das aspirações que se
-transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base
-phantastica de esperanças, a actualidade é uma. Sob a coloração
-cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de
-purpura ao crepusculo--a paysagem é a mesma de cada lado beirando a
-estrada da vida.
-
-Eu tinha onze annos.
-
-Frequentara como externo, durante alguns mezes, uma escola familiar do
-Caminho Novo, onde algumas senhoras inglezas, sob a direcção do pae,
-distribuiam educação á infancia como melhor lhes parecia. Entrava ás
-nove horas, timidamente, ignorando as licções com a maior
-regularidade, e bocejava até ás duas, torcendo-me de insipidez sobre
-os carcomidos bancos que o collegio comprara, de pinho e usados,
-lustrosos do contacto da malandragem, de não sei quantas gerações de
-pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação
-gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos mezes de externato;
-com a lembrança de alguns companheiros--um que gostava de fazer rir á
-aula, especie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder,
-nas costas da mão esquerda, uma protuberancia callosa que tinha; outro,
-adamado, elegante, sempre retirado, que vinha á escola de branco,
-engommadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do hombro á cinta
-por botões de madreperola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa
-injuria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que
-os partistas denunciavam ás mestras por duas iniciaes como em
-monogramma.
-
-Leccionou-me depois um professor em domicilio.
-
-Apezar d'este ensaio da vida escolar a que me sujeitou a familia, antes
-da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as
-sensações novas da nova phase. O internato! Destacada do conchego
-placentario da dieta caseira, vinha proximo o momento de se definir a
-minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus ás primeiras
-alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos
-pelotões de chumbo! especie de museu militar de todas as fardas, de
-todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em
-proporções de microscopio, que eu fazia formar a combate como uma
-ameaça tenebrosa ao equilibrio do mundo; que eu fazia guerrear em
-desordenado aperto,--massa tempestuosa das antipathias geographicas,
-encontro definitivo e ebullição dos seculares odios de fronteira e de
-raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providencia
-Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendencias pela concordia
-promiscua das caixas de páu. Força era deixar á ferrugem do abandono
-o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não
-mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a somnolencia
-morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos á sombra
-dos tinhorões, na transparencia adamantina da agua...
-
-Mas um movimento animou-me, primeiro estimulo sério da vaidade:
-distanciava-me da communhão da familia, como um homem! ia por minha
-conta empenhar a lucta dos merecimentos; e a confiança nas proprias
-forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa
-de educação que me devia receber, a noticia veio achar-me em armas
-para a conquista audaciosa do desconhecido.
-
-Um dia, meu pae tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa,
-molhando-me de lagrimas os cabellos e eu parti.
-
-Duas vezes fôra visitar o _Atheneu_ antes da minha installação.
-
-_Atheneu_ era o grande collegio da época. Afamado por um systema de
-nutrida reclame, mantido por um director que de tempos a tempos
-reformava o estabelecimento, pintando-o geitosamente de novidade, como
-os negociantes que liquidara para recomeçar com artigos de ultima
-remessa; o _Atheneu_ desde muito tinha consolidado credito na
-preferencia dos paes, sem levar em conta a sympathia da meninada, a
-cercar de acclamações o bombo vistoso dos annuncios.
-
-O Dr. Aristarcho Argollo de Ramos, da conhecida familia do visconde de
-Ramos, do Norte, enchia o imperio com o seu renome de pedagogo. Eram
-boletins de propaganda pelas provincias, conferencias em diversos pontos
-da cidade, a pedidos, á sustancia, atochando a imprensa dos logarejos,
-caixões, sobre tudo, de livros elementares, fabricados ás pressas com o
-offegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anonymos,
-caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as
-escolas publicas de toda parte com a sua invasão de capas azues,
-roseas, amarellas, em que o nome de Aristarcho, inteiro e sonoro,
-offerecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alphabeto dos confins
-da patria. Os logares que os não procuravam eram um bello dia
-surprehendidos pela enchente, gratuita, espontanea, irresistivel! E não
-havia senão acceitar a farinha d'aquella marca para o pão do espirito.
-
-[Figura 02]
-
-E engordavam as letras, á força, d'aquelle pão. Um
-benemerito. Não admira que em dias de gala, intima ou nacional, festas
-do collegio ou recepções da corôa, o largo peito do grande educador
-desaparecesse sob constellações de pedraria, opulentando a nobreza de
-todos os honorificos berloques.
-
-Nas occasiões de apparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não
-só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de
-grillos: _Atheneu_! _Atheneu_! Aristarcho todo era um annuncio. Os
-gestos, calmos, soberanos, eram de um rei--o autocrata excelso dos
-syllabarios; a pausa hieratica do andar deixava sentir o esforço, a
-cada passo, que elle fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso
-do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação aspera dos
-supercilios de monstro japonez, penetrando de luz as almas
-circumstantes--era a educação da intelligencia; o queixo, severamente
-escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciencias
-limpas--era a educação moral. A propria estatura, na immobilidade do
-gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia d'elle: aqui está um
-grande homem... não vêem os covados de Golias?!... Retorça-se sobre
-tudo isto um par de bigodes, volutas massiças de fios alvos, torneadas
-a capricho, cobrindo os labios, fecho de prata sobre o silencio de ouro,
-que tão bellamente impunha como o retrahimento fecundo do seu
-espirito,--teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do
-illustre director. Em summa, um personagem que, ao primeiro exame,
-produzia-nos a impressão de um enfermo, d'esta enfermidade atroz e
-estranha: a obsessão da propria estatua. Como tardasse a estatua,
-Aristarcho interinamente satisfazia-se com a affluencia dos estudantes
-ricos para o seu instituto. De facto, os educandos do _Atheneu_
-significavam a fina flôr da mocidade brasileira.
-
-A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentaculos através do
-paiz, que não havia familia de dinheiro, enriquecida pela septentrional
-borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de
-honra com a posteridade domestica mandar d'entre seus jovens, um, dois,
-tres representantes abeberar-se á fonte espiritual do _Atheneu_.
-
-Fiados nesta selecção apuradora, que é commum o erro sensato de
-julgar melhores familias as mais ricas, succedia que muitas,
-indifferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os
-filhos. Assim entrei eu.
-
-A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de
-encerramento de trabalhos.
-
-Transformara-se em amphitheatro uma das grandes salas da frente do
-edificio, exactamente a que servia de capella; paredes estucadas de
-sumptuosos relevos, e o tecto aprofundado em largo medalhão, de
-magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos
-deliciosos anginhos, ostentando atrevimentos roseos de carne, agitando os
-minusculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar.
-Desarmado o oratorio, construiram-se bancadas circulares, que encobriam
-o luxo das paredes. Os alumnos occupavam a archibancada. Como a maior
-concorrencia preferia sempre a exhibição dos exercicios gymnasticos,
-solemnisada dias depois do encerramento das aulas, a accommodação
-deixada aos circumstantes era pouco espaçosa; e o publico, paes e
-correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha
-que transbordar da sala da festa para a immediata. Desta ante-sala,
-trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pae ministrava-me informações.
-Diante da archibancada, ostentava-se uma mesa de grosso panno verde e
-borlas de ouro. Lá estava o director, o ministro do imperio, a
-commissão dos premios. Eu via e ouvia. Houve uma allocução commovente
-de Aristarcho; houve discursos de alumnos e mestres; houve cantos,
-poesias declamadas em diversas linguas. O espectaculo communicava-me
-certo prazer respeitoso. O director, ao lado do ministro, de acanhado
-physico, fazia-o incivilmente desapparecer na brutalidade de um
-contraste escandaloso. Em _grande tenue_ dos dias graves, sentava-se,
-elevado no seu orgulho como em um throno. A bella farda negra dos
-alumnos, de botões dourados, infundia-me a consideração timida de um
-militarismo brilhante, apparelhado para as campanhas da sciencia e do
-bem. A letra dos cantos, em côro dos falsetes indisciplinados da
-puberdade; os discursos, visados pelo director, pansudos de sisudez, na
-bocca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da
-burguezia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos
-rodantes de manivella, ou exaggerados, de voz cava e caretas de tragedia
-fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da biblia do
-dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sabias maximas
-do ensino redemptor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do
-estudo, mestres á frente, na investida heroica do obscurantismo,
-agarrando pelos cabellos, derribando, calcando aos pés a Ignorancia e o
-Vicio, miserrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
-
-Um discurso principalmente impressionou-me. Á direita da commissão dos
-premios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tezinho, o
-Venancio, professor do collegio, a quarenta mil réis por materia, mas
-importante, sabendo falar grosso, o timbre de independencia, mestiço de
-bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O
-discurso foi o confronto chapa dos torneios medievaes com o moderno
-certamen das armas da intelligencia; depois, uma prelecção pedagogica,
-tacheada de flôres de rhetorica a martello; e a apologia da vida de
-collegio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação,
-em particular, de Aristarcho e do _Atheneu_. «O mestre perorou
-Venancio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da
-ternura das mães, o guia-zeloso dos primeiros passos, na senda
-escabrosa que vae ás conquistas do saber e da moralidade. Experimentado
-no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxilio ampara-nos
-como a Providencia na terra; escolta-nos assiduo como um anjo de guarda;
-a sua licção prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro.
-Devemos ao pae a existencia do corpo; o mestre cria-nos o espirito
-(sorites de sensação), e o espirito é a força que impelle, o impulso
-que triumpha, o triumpho que nobilita, o ennobrecimento que glorifica,
-e a gloria é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do
-artista, a palma do crente! A familia é o amor no lar, o estado é a
-segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige,
-prepara-nos para a segurança intima inapreciavel da vontade. Acima de
-Aristarcho--Deus! Deus tão sómente; abaixo de Deus--Aristarcho.»
-
-Um ultimo gesto espaçoso, como um jamegão no vacuo, arrematou o rapto
-de eloquencia.
-
-Eu me sentia compenetrado d'aquillo tudo; não tanto por entender bem,
-como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes
-pintadas da ante-sala imitavam porphyro verde; em frente ao portico
-aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar
-superior. Flanqueando a majestosa porta d'esta escada, havia dous
-quadros de alto relevo: á direita, uma allegoria das artes e do estudo;
-á esquerda, as industrias humanas, meninos nús como nos frisos de
-Kaulbach, risonhos, com a ferramenta symbolica--psychologia, pura do
-trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da innocencia. Eram
-meus irmãos! Eu estava a esperar que um d'elles, convidativo, me
-estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria
-o collegio, traducção concreta da allegoria, ronda angelica de
-corações á porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no
-ritual austero da virtude!
-
-Por occasião da festa da gymnastica, voltei ao collegio.
-
-O _Atheneu_ estava situado no Rio Comprido, extremo, ao chegar aos
-morros.
-
-As eminencias de sombria pedra e a vegetação selvatica debruçavam
-sobre o edificio um crepusculo de melancolia, resistente ao proprio sol
-a pino dos meios-dias de Novembro. Esta melancolia era um plagio ao
-detestavel pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de
-Minas. Aristarcho dava-se palmas d'esta tristeza aerea--a atmosphera
-moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior
-luxo da casa, como um appendice minimo da architectura.
-
-No dia da _festa da educação physica_, como rezava o programma
-(programma de arromba, porque o secretario do director tinha o talento
-dos programmas) não percebi a sensação de ermo tão accentuada em
-sitios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento
-faziam sorrir a paysagem. O arvoredo do immenso jardim, entretecido a
-côres por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de
-estranha alegria; os vistosos pannos, em meio da ramagem, fingiam
-flôres collossaes, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos
-fructificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma
-uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pae
-prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.
-
-Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante
-de mim, um sujeito mais proximo fez-me rir; levava de fóra a fralda da
-camisa... Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão
-subia um cheiro forte de canella pisada; através das arvores, com
-intervallos, passavam rajadas de musica, como uma tempestade de
-philarmonicas.
-
-Um ultimo aperto mais rijo, estalando-me as costellas, espremeu-me, por
-um estreito córte de muro, para o espaço livre.
-
-Em frente, um gramal vastissimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes,
-contentes no espaço, com o pittoresco dos tons energicos cantando vivo
-sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados
-apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas
-de estrado com cadeiras quasi exclusivamente occupadas por senhoras,
-fulgindo os vestuarios, em violenta confusão de colorido. Algumas
-protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, á altura da fronte,
-contra a rutilação do dia, num bloco de nuvens que crescia do céu.
-Acima do estrado, balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de
-bambú, projectando franjas longuissimas de sombra pelo campo de relva.
-
-Algumas damas empunhavam binoculos. Na direcção dos binoculos
-distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. «Ahi vêm!
-disse-me meu pae; vão desfilar por diante da princeza.» A princeza
-imperial, Regente nessa época, achava-se á direita em gracioso
-palanque de sarrafos.
-
-Momentos depois adiantavam-se por mim os alumnos do _Atheneu_. Cerca de
-trezentos; produziam-me a impressão do innumeravel. Todos de branco,
-apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os quadris
-e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas livres.
-Ao hombro esquerdo traziam laços distinctivos das turmas. Passaram a
-toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercicios.
-Primeira turma, os _halteres_; segunda, as _massas_; terceira, as
-_barras_.
-
-Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos
-exercicios geraes.
-
-Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispozeram-se em pelotões,
-invadiram o gramal, e, cadenciados pelo rhythmo da banda de collegas,
-que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina,
-produziram as manobras perfeitas de um exercito sob o commando do mais
-raro instructor.
-
-Diante das fileiras, Bataillard, o professor de gymnastica, exultava,
-envergando a altivez do seu successo na extremada elegancia do talhe,
-multiplicando por milagroso desdobramento o compendio inteiro da
-capacidade profissional, exhibida em galeria por uma serie infinita de
-attitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina
-e rija da plastica de musculos a estalar o brim do uniforme, que elle
-trajava branco como os alumnos, ou pela nervosa celeridade dos
-movimentos, effeito electrico de lanterna magica, respeitando-se na
-variedade prodigiosa a unidade da correcção suprema.
-
-Ao peito tilintavam-lhe as agulhetas do commando appensas de cordões
-vermelhos em trança. Elle dava as ordens fortemente, com uma vibração
-penetrante de corneta que dominava á distancia, e sorria á docilidade
-mecanica dos rapazes. Como officiaes subalternos, auxiliavam-no os
-chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo á
-manga distinctivos de fita verde e canutilho.
-
-Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercicios. Musculos do
-braço, musculos do tronco, tendões dos jarretes, a theoria toda do
-_corpore sano_ foi praticada valentemente alli, precisamente, com a
-simultaneidade exacta das extensas machinas. Houve após, o assalto aos
-apparelhos. Os apparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar
-do palanque da Regente. Não posso dar idéa do deslumbramento que me
-ficou d'esta parte. Uma desordem de contorsões, deslocadas e atrevidas;
-uma vertigem de volteios á barra fixa, temeridades acrobaticas ao
-trapezio, ás perchas, ás cordas, ás escadas; pyramides humanas sobre
-as parallelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e
-ostentações vigorosas de thorax; fórmas de estatuaria viva, tremulas
-de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos
-desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisivel apoio; aqui
-e alli uma cabecinha loura, cabellos em desordem cacheados á testa, um
-rosto injectado pela inversão do corpo, labios entre-abertos offegando,
-olhos semi-cerrados para escapar á areia dos sapatos, costas de suor,
-collando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam
-a terra; movimento, enthusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca
-nos uniformes, queimando os ultimos fogos da gloria diurna sobre aquelle
-triumpho espectaculoso da saude, da força, da mocidade.
-
-O professor Bataillard, enrubecido de agitação, rouco de commandar,
-chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistinctamente. Duas bandas
-militares, revezavam-se activamente, communicando a animação á massa
-dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo,
-que me arrastava para o meio dos alumnos, numa leva ardente de
-fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia
-quando alguem me olhava.
-
-Deram fim á festa os saltos, os pareos de carreira, as luctas romanas e
-a distribuição dos premios de gymnastica, que a mão egregia da
-Serenissima Princeza e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam
-sobre os peitos vencedores. Foi de vêr-se os jovens athletas aos pares
-aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva
-com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em
-rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o
-corpo, passo miudo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes,
-prodigalisando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação
-desengonçada de avestruz, chegando esbofados, com placas de poeira na
-cara, ao poste da victoria.
-
-Aristarcho arrebentava de jubilo. Pozera de parte o comedimento soberano
-que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a
-rapaziada, e chapéo de Chile, distribuia-se numa ubiquidade impossivel
-de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os principes com o
-rizinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e ironico, desfeito em
-etiquetas de reverente subdito e cortezão; viam-no bradando ao
-professor de gymnastica, a gesticular com o chapéo seguro pela copa;
-viam-no formidavel, com o perfil leonino rugir sobre um discipulo que
-fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver
-luctado em logar humido, gastando tal vehemencia no ralho, que chegava a
-ser carinhoso.
-
-O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria
-celeripede a frente dos estrados, cheio de comprimentos para os
-convidados especiaes e de interjectivos amaveis para todos. Perpassava
-como uma visão de brim claro, subito extincta para reapparecer mais
-viva noutro ponto. Aquella expansão vencia-nos; elle irradiava de si,
-sobre os alumnos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos
-estandartes de batalha. Roubava-nos dous terços da attenção que os
-exercicios pediam; indemnisava-nos com o equivalente em surprezas de
-vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro
-em roda, por ascensões cobrejantes de gyrandola, que iam ás nuvens, que
-baixavam depois serenamente, diluidas na viração da tarde, que os
-pulmões bebiam. Actor profundo, realisava ao pé da letra, a valer, o
-papel diaphano, subtil, metaphysico, de alma da festa e alma do seu
-instituto.
-
-Uma cousa o entristeceu, um pequenino escandalo. Seu filho Jorge, na
-distribuição dos premios, recusara-se a beijar a mão da princeza,
-como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho!
-Tinha já aos quinze annos as convicções ossificadas na espinha
-inflexivel do caracter! Ninguem mostrou perceber a bravura. Aristarcho,
-porém, chamou o menino á parte. Encarou-o silenciosamente e--nada
-mais. E ninguem mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o
-infeliz, cremado ao fogo d'aquelle olhar! Nesse momento as bandas
-tocavam o hymno da monarchia jurada, ultima verba do programma.
-
-Começava a anoitecer, quando o collegio formou ao toque de recolher.
-Desfilaram acclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando
-alegremente uma canção escolar.
-
-Á noite houve baile nos tres salões inferiores do lance principal do
-edificio e illuminação no jardim.
-
-[Figura 03]
-
-Na occasião em que me ia embora, estavam accendendo luzes variadas de
-Bengala diante da casa. O _Atheneu_, quarenta janellas, resplendentes do
-gaz interior, dava-se ares de encantamento com a illuminação de fóra.
-Erigia-se na escuridão da noite, como immensa muralha de coral
-flammante, como um scenario animado de saphira com horripilações
-errantes de sombra, como um castello phantasma batido de luar verde
-emprestado á selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um
-momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e
-recordações. Um jacto de luz electrica, derivado de fóco invisivel,
-feria a inscripção dourada em arco sobre as janellas centraes, no alto
-do predio. A uma d'ellas, á sacada, Aristarcho mostrava-se. Na
-expressão olympica do semblante transpirava a beatitude de um gozo
-superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da
-immortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim:--luz benigna
-e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Pantheon. A
-contemplação da posteridade em baixo.
-
-Aristarcho tinha momentos d'estes, sinceros. O annuncio confundia-se com
-elle, supprimia-o, substituia-o, e elle gozava como um cartaz que
-experimentasse o enthusiasmo de ser vermelho. Naquelle momento, não era
-simplesmente a alma do seu instituto, era a propria feição palpavel, a
-synthese grosseira do titulo, o rosto, a testada, o prestigio material
-de seu collegio, identico com as letras que luziam em aureola sobre a
-cabeça. As letras, de ouro; elle, immortal: unica differença.
-
-[Figura 04]
-
-Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o
-atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á
-meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre
-pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza
-do ultimo quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na
-segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o
-retrato que me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle--o
-bello bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas,
-photographia estatica, na ventura de um raio electrico.
-
-É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão
-altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o
-prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao
-director do _Atheneu_ e á matricula. O movimento não era mais a
-vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma
-consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de
-solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola.
-Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de
-dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma
-experiencia de dez annos.
-
-O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de
-affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores
-padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O
-genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do
-calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa
-familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da
-altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.
-
-Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma
-entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções
-anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho,
-feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões,
-carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros
-elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém
-rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça
-negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz
-escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.
-
-As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole
-essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de
-hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das
-duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do
-sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no
-reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.
-
-«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.
-
---Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu
-criado» da estricta cortezia.
-
---Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao
-cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...
-
-Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha
-mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director,
-explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer:
-«Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»
-
---Peço licença para defender os meninos bonitos... objectou alguem
-entrando.
-
-Surprehendendo-nos com esta phrase, unctuosamente escoada por um
-sorriso, chegou a senhora do director, D. Emma. Bella mulher em plena
-prosperidade dos trinta annos de Balzac, fórmas alongadas por graciosa
-magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a
-maternidade; olhos negros, pupillas retintas, de uma côr só, que
-pareciam encher o talho folgado das palpebras; de um moreno rosa que
-algumas formosuras possuem, e que seria tambem a côr do jambo, se jambo
-fosse rigorosamente o fructo prohibido. Adiantava-se por movimentos
-oscillados, cadencia de menuetto harmonioso e molle que o corpo
-alternava. Vestia setim preto justo sobre as fórmas, reluzente como
-panno molhado; e o setim vivia com ousada transparencia a vida occulta
-da carne. Esta apparição maravilhou-me.
-
-Houve as apresentações de ceremonia, e a senhora com um nadinha de
-excessivo desembaraço sentou-se no divan perto de mim.
-
---Quantos annos tem? perguntou-me.
-
---Onze annos...
-
---Parece ter seis, com estes lindos cabellos.
-
-Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabello nos
-dedos:
-
---Córte e offereça a mamãe, aconselhou com uma caricia; é a infancia
-que ahi fica, nos cabellos louros... Depois, os filhos nada mais têm
-para as mães...
-
-O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina musica. Olhei
-furtivamente para a senhora. Ella conservava sobre mim as grandes
-pupillas negras, lucidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa
-mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pae, formulou
-sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no
-internato.
-
---Mas o Sergio é dos fortes, disse Aristarcho, apoderando-se da
-palavra. Demais, o meu collegio é apenas maior que o lar domestico. O
-amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilancia são
-mais activos. São as crianças os meus predilectos. Os meus esforços
-mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a familia está
-fóra, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha
-casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os
-detractores...
-
-Enveredando pelo thema querido do elogio proprio e do _Atheneu_, ninguem
-mais pôde falar...
-
-Aristarcho, sentado, de pé, cruzando terriveis passadas,
-immobilisando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de
-_meetings_, clamando como para um auditorio de dez mil pessoas,
-majestoso sempre, alçando os padrões admiraveis, como um leiloeiro, e
-as opulentas facturas, desenrolou, com a memoria de uma ultima
-conferencia, a narrativa dos seus serviços á causa santa da
-instrucção. Trinta annos de tentativas e resultados, esclarecendo como
-um pharol diversas gerações agora influentes no destino do paiz! E as
-reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporaes, o
-que já dava uma benemerencia passavel. Era preciso a introducção do
-methodos novos, suppressão absoluta dos vexames de punição,
-modalidades aperfeiçoadas no systema das recompensas, ageitação dos
-trabalhos, de maneira que seja a escola um paraiso; adopção de normas
-desconhecidas cuja efficacia elle presentia, perspicaz como as aguias.
-Elle havia de crear... um horror, a transformação moral da sociedade!
-
-Uma hora trovejou-lhe á bocca, em sanguinea eloquencia, o genio do
-annuncio. Mirámol-o na inteira expansão oral, como, por occasião das
-festas, na plenitude da sua vivacidade pratica. Contemplavamos (eu com
-aterrado espanto) distendido em grandeza épica--o _homem sandwich_ da
-educação nacional, lardeado entre dous monstruosos cartazes. Ás
-costas, o seu passado incalculavel de trabalhos; sobre o ventre, para a
-frente, o seu futuro: a reclame dos immortaes projectos.
-
-
-
-
-II
-
-
-Abriam-se as aulas a 15 de Fevereiro.
-
-De manhã, á hora regulamentar, compareci.
-
-O director, no escriptorio do estabelecimento, occupava uma cadeira
-rotativa junto á mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro
-abria-se em columnas massiças de escripturação e linhas encarnadas.
-
-Aristarcho, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do collegio,
-conferia, analysava os assentamentos do guarda-livros. De momento a
-momento entravam alumnos. Alguns acompanhados.
-
-A cada entrada, o director lentamente fechava o livro, marcando a pagina
-com um alfange de marfim; fazia gyrar a cadeira e soltava interjeições
-de acolhimento, offerecendo episcopalmente a mão pelluda ao beijo
-contricto e filial dos meninos. Os maiores, em regra, recusavam-se á
-cerimonia e partiam com um simples aperto de mão.
-
-O rapaz desapparecia, levando o sorriso pallido na face, saudoso da
-vadiação ditosa das férias. O pae, o correspondente, o portador,
-despedia-se, depois de banaes comprimentos, ou palavras a respeito do
-estudante, amenisadas pela gracinha da bonhomia superior de Aristarcho,
-que punha habilmente um sujeito fóra de portas com o riso fanhoso e o
-simples modo impellido de segurar-lhe os dedos.
-
-
-[Figura 05]
-
-
-A cadeira gyrava de novo á posição primitiva; o livro da
-escripturação espalmava outra vez as paginas enormes; e a figura
-paternal do educador desmanchava-se, volvendo a simplificar-se na
-esperteza attenta e secca do gerente.
-
-A este vae-vem de attitudes, feição dupla de uma mesma individualidade
-e contingencia commum dos sacerdocios, estava tão habituado o nosso
-director, que nenhum esforço lhe custava a manobra. O especulador e o
-levita ficavam-lhe dentro em camaradagem intima, _bras dessus, bras
-dessous_. Sabiam, sem prejuizo da opportunidade, apparecer por
-alternativa ou simultaneamente; eram como duas almas inconhas num só
-corpo.
-
-Soldavam-se nelle o educador e o emprezario com uma perfeição rigorosa
-de accôrdo, dois lados da mesma medalha: oppostos, mas justapostos.
-
-Quando meu pae entrou commigo, havia no semblante de Aristarcho uma
-pontinha de aborrecimento. Decepção talvez de estatistica; o numero
-dos estudantes novos não compensando o numero dos perdidos, as novas
-entradas não contrabalançando as despezas do fim do anno. Mas a sombra
-de despeito apagou-se logo, como o resto de tunica que apenas tarda a
-sumir-se numa mutação á vista; e foi com uma explosão de
-contentamento que o director nos acolheu.
-
-Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria
-de recepção que queria dispensar. Elle tinha maneiras de todos os
-gráos, segundo a condição social da pessoa. As sympathias verdadeiras
-eram raras. No amago de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que
-se percebia bem. E duramente se marcavam distincções politicas,
-distincções financeiras, distincções baseadas na chronica escolar do
-discipulo, baseadas na razão discreta das notas do guarda-livros. Ás
-vezes, uma criança sentia a alfinetada no geito da mão a beijar. Saía
-indagando comsigo o motivo d'aquillo, que não achava em suas contas
-escolares... O pae estava dois trimestres atrazado.
-
-Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores.
-Effectivamente; Aristarcho levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu
-á sala especial das visitas.
-
-Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as collecções, em armarios,
-dos objectos proprios para facilitar o ensino. Eu via tudo curiosamente,
-sem perder os olhares dos collegas desconhecidos, que me fitavam muito
-ancho na dignidade do uniforme em folha. O edificio fôra caiado e
-pintado durante as férias, como os navios que aproveitam o descanço
-nos portos para uma refórma de apresentação. Das paredes pendiam as
-cartas geographicas, que eu me comprazia de vêr como um itinerario de
-grandes viagens planejadas. Havia estampas coloridas em molduras negras,
-assumptos de historia santa e desenho grosseiro, ou exemplares
-zoologicos e botanicos, que me revelavam direcções de applicação
-estudiosa em que eu contava triumphar. Outros quadros vidraçados
-exhibiam sonoramente regras moraes e conselhos muito meus conhecidos de
-amor á verdade, aos paes, e temor de Deus, que estranhei como um codigo
-de redundancia. Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre--os mais
-numerosos; e se esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade
-incorporea, argamassada de pura essencia de amor e suspiros cortantes de
-sacrificio, ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para mim,
-devotamente, jurava desempenhar á risca. Visitámos o refeitorio,
-adornado de trabalhos a lapis dos alumnos, a cozinha de azulejo, o
-grande pateo interno dos recreios, os dormitorios, a capella... De volta
-á sala de recepção, adjacente á da entrada lateral e fronteira ao
-escriptorio, fui apresentado ao professor Manlio, da aula superior de
-primeiras letras, um homem aprumado, de barba toda, grisalha e cerrada,
-pessoa excellente, desconfiando por systema de todos os meninos.
-
-Durante o tempo da visita, não falou Aristarcho senão das suas luctas,
-suores que lhe custava a mocidade e que não eram justamente apreciados.
-«Um trabalho insano! Moderar, animar, corrigir esta massa de
-caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações;
-encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos impetos;
-amordaçar excessivos ardores; retemperar o animo dos que se dão por
-vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a
-corrupção; desilludir as apparencias seductoras do mal; aproveitar os
-alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos; prevenir a
-depravação dos innocentes; espiar os sitios obscuros; fiscalisar os
-amizades; desconfiar das hypocrisias; ser amoroso, ser violento, ser
-firme; triumphar dos sentimentos de compaixão para ser correcto;
-proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão
-depois... Um labor ingrato, titanico, que extenua a alma, que nos deixa
-acabrunhados ao anoitecer de hoje, para recomeçar com o dia de
-amanhã... Ah! meus amigos, concluiu offegante, não é o espirito que
-me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preoccupação... É o
-caracter! Não é a preguiça o inimigo, é a immoralidade!» Aristarcho
-tinha para esta palavra uma intonação especial, comprimida e terrivel,
-que nunca mais esquece quem a ouviu dos seus labios. «A immoralidade!»
-
-E recuava tragicamente, crispando as mãos. «Ah! mas eu sou tremendo
-quando esta desgraça nos encandalisa. Não! Estejam tranquillos os
-paes! No _Atheneu_, a immoralidade não existe! Velo pela candura das
-crianças, como se fossem, não digo meus filhos: minhas proprias
-filhas! O _Atheneu_ é um collegio moralisado! E eu aviso muito a
-tempo... Eu tenho um codigo... » Neste ponto o director levantou-se de
-salto e mostrou um grande quadro á parede. «Aqui está o nosso codigo.
-Leiam! Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hypothese: o
-caso da immoralidade não está lá. O parricidio não figurava na lei
-grega. Aqui não está a immoralidade. Se a desgraça occorre, a
-justiça é o meu terror e a lei é o meu arbitrio! Briguem depois os
-senhores paes!... »
-
-Affianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em
-superlativo a metaphora sabida das varas verdes. Notando a minha
-perturbação, o director desvaneceu-se em afagos. «Mas para os rapazes
-dignos eu sou um pae!... os máus eu conheço: não são as crianças,
-principalmente como você, o prazer da familia, e que ha de ser, estou
-certo, uma das glorias do _Atheneu_. Deixem estar... » Eu tomei a
-sério a prophecia e fiquei mais calmo.
-
-Quando meu pae saiu, vieram-me lagrimas, que eu tolhi a tempo de ser
-forte. Subi ao salão azul, dormitorio dos medios, onde estava a minha
-cama; mudei de roupa, levei a farda ao numero do deposito geral, meu
-numero. Não tive coragem de affrontar o recreio. Via de longe os
-collegas, poucos áquella hora, passeando em grupos, conversando
-amigavelmente, sem animação, impressionados ainda pelas recordações
-de casa; hesitava em ir ter com elles, embaraçado da estréa das
-calças lanças, como um exaggero comico, e da sensação de nudez á
-nuca, que o córte recente dos cabellos desabrigara era escandalo. João
-Numa, inspector ou bedel, baixote, barrigudo, de oculos escuros,
-movendo-se com vivacidade de bacoro alegre, veio achar-me indeciso, á
-escada do pateo. «Não desce, a brincar?» perguntou bondosamente.
-«Vamos, desça, vá com os outros». O amavel bacoro tomou-me pela mão
-e descemos juntos.
-
-O inspector deixou-me entre dous rapazinhos, que me trataram com
-sympathia.
-
-Ás onze horas, a sineta deu o signal das aulas. Os meus bons
-companheiros, de classes atrazadas, indicaram a sala de ensino superior
-de primeiras letras, que devia ser a minha, e se despediram.
-
-O professor Manlio, a quem eu fôra recommendado, recommendou-me por sua
-vez ao mais sério dos seus discipulos, o honrado Rebello. Rebello era o
-mais velho e tinha oculos escuros como João Numa. O vidro, curvo dos
-oculos cobria-lhe os olhos rigorosamente, monopolisando a attenção no
-interesse unico da mesa do professor. Como se fosse pouco, o zeloso
-estudante fazia concha com as mãos ás temporas, para impedir o
-contrabando evasivo de algum olhar escapado ao monopolio do vidro.
-
-Este luxo de applicação não provinha do simples empenho de fazer
-attitude de exemplar. Rebello soffria da vista, tanto que muito tarde
-podera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benevolo de
-avô; afastou-se um pouco para me dar logar e esqueceu-me incontinente,
-para afundasse na devoradora attenção que era o seu apanagio.
-
-Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de typos
-que me divertia. O Gualterio, miudo, redondo de costas, cabellos
-revoltos, motilidade brusca e caretas de simio--palhaço dos outros,
-como dizia o professor: o Nascimento, o _bicanca_, alongado por um
-modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma fouce; o
-Alvares, moreno, senho carregado, cabelleira espessa e intonsa de vate
-de taverna, violento e estupido, que Manlio atormentava, designando-o
-para o mister das plata-fórmas de bond, com a chapa numerada dos
-recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o
-Almeidinha, claro, translucido, rosto de menina, faces de um rosa
-doentio, que se levantava para ir á pedra com um vagar languido de
-convalescente; o Maurilio, nervoso, insoffrido, fortissimo em taboada:
-cinco vezes tres, vezes dous, noves fora, vezes sete?... lá estava
-Maurilio, tremulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fulgidos
-no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas
-accesas, labios inquietos, physionomia agreste de cabra, canhoto e
-anguloso, incapaz de ficar sentado tres minutos, sempre á mesa do
-professor e sempre enxotado, debulhando um rizinho de pouca vergonha,
-fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bomzinho, aventurando a todo
-ensejo uma tentativa de abraço que Manlio repellia, precavido de
-confianças; Baptista Carlos, raça de bugre, valido, de má cara,
-coçando-se muito, como se o incommodasse a roupa no corpo, alheio ás
-cousas da aula, como se não tivesse nada com aquillo, espreitando
-apenas o professor para aproveitar as distracções e ferir a orelha aos
-vizinhos com uma setta de papel dobrado. Ás vezes a setta do bugre
-ricochetava até á mesa de Manlio. Sensação; suspendiam-se os
-trabalhos; rigoroso inquerito. Em vão, que os partistas temiam-no e
-elle era matreiro e sonso para disfarçar.
-
-Dignos de nota havia ainda o Cruz, timido, enfiado, sempre de orelha em
-pé, olhar covarde de quem foi creado a pancadas, aferrado aos livros,
-forte em doutrina christã, facil como um despertador para desfechar as
-licções de cór, perro como uma cravelha para ceder uma idéa por
-conta propria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o
-venerando Rebello, primeiro da classe, muito intelligente, vencido
-apenas por Maurilio na especialidade dos noves fóra vezes tanto,
-cuidadoso dos exercicios, emulo do Cruz na doutrina, sem competidor na
-analyse, no desenho linear, na cosmographia.
-
-O resto, uma cambadinha indistincta, adormentados nos ultimos bancos,
-confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.
-
-Fui tambem recommendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipathico:
-cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, labios
-humidos, porejando baba, meiguice viscosa de crapula antigo. Era o
-primeiro da aula. Primeiro que fosse do côro dos anjos, no meu conceito
-era a derradeira das creaturas.
-
-Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o
-meu nome. Fiquei tão pallido que Manlio sorriu e perguntou-me brando,
-se queria ir á pedra. Precisava examinar-me.
-
-De pé, vexadissimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de
-vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar
-odioso e timorato do Cruz, os oculos azues do Rebello, o nariz do
-Nascimento, virando de vagar como um leme; esperei a setta do Carlos, o
-quinau do Maurilio, ameaçador, fazendo cócegas ao tecto, com o dedo
-feroz; respirei no ambiente adversa de maldita hora, perfumado pela
-emanação acre das resinas do arvoredo proximo, uma conspiração
-contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até á
-maldade violenta do Alvares. Cambaleei até á pedra, O professor
-interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-se-me do espirito um pavor
-estranho. Acovardou-me o terror supremo das exhibições, imaginando em
-roda a ironia má de todos aquelles rostos desconhecidos. Amparei-me á
-taboa negra, para não cair; fugia-me o sólo aos pés, com a noção do
-momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna!
-liquidando-se a ultima energia... pela melhor das maneiras peiores de
-liquidar-se uma energia.
-
-[Figura 06]
-
-Do que se passou depois, não tenho idéa. A perturbação levou-me a
-consciencia das cousas. Lembro-me que me achei com o Rebello, na
-rouparia, e o Rebello animava-me com um esforço de bondade sincero e
-commovedor.
-
-Rebello retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu
-desastre, emquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a
-considerar a differença d'aquella situação para o ideal de cavallaria
-com que sonhara assombrar o _Atheneu_.
-
-Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que alli estava á
-mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso
-folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o
-arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de
-novo. Ardia-me á face inexplicavel incendio de pudor, constringia-me a
-garganta exquisito aperto, de nausea. Escravisava-me, porém, a
-seducção da novidade. Olhei para os lados com um gesto de culpado;
-não sei que instincto me acordava um sobresalto de remorso. Um simples
-papel, entretanto, borrado na tiragem rapida dos delictos de imprensa.
-Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. «Larga d'ahi! disse com
-brutalidade, isso não é p'ra menino!» E retirou o livrinho.
-
-Esta impressão viva de surpreza curou-me da lembrança do meu triste
-episodio, crescendo-me na imaginação como as visões, absorvendo-me as
-idéas. Zumbia-me aos ouvidos a palavra aterrada de Aristarcho... Sim,
-devia ser isto: um entravamento obscuro de fórmas despidas, roupas
-abertas, um turbilhão de frades bebados, deslocados ao capricho de
-todas as deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a
-sarabanda diabolica sem fim, no empastado negrume da tinta do prelo;
-aqui e alli, o raio branco de uma falha, fulminando o espectaculo e a
-gravura, como o estigma complementar do acaso.
-
-A rouparia occupava grande parte do sub-chão do immenso edificio, entre
-o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos
-lavatorios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco acima num
-friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro
-compartimento, além d'estes, accommodava o arsenal dos apparelhos
-gymnasticos e o dormitorio da criadagem. Da rouparia para o recreio
-central atravessava-se obliguamente o saguão das bacias. Logo a sair ao
-pateo encontrei o benevolo Rebello, que me esperava. Insistiu com um
-requinte importuno de complacencia sobre o meu incidente,
-desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insupportavel.
-Para mudar de conversa, pedi informações acerca do nosso professor.
-Deu-m'as optimas, nem outras daria um alumno exemplar como elle. _Nenhum
-mestre é máu para o bom discipulo_, affirmava uma das maximas da
-parede.
-
-Era hora de descanço; passeavamos, conversando. Falamos dos collegas.
-Vi então, de dentro da brandura patriarchal do Rebello descascar-se uma
-especie de inesperado Thersito, produzindo injurias e maldições. «Uma
-cafila! uma corja! Não imagina, meu caro Sergio. Conte como uma
-desgraça ter de viver com esta gente ». E esbeiçou um labio
-sarcastico para os rapazes que passavam. «Ah! vão as carinhas sonsas,
-generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais peccados na consciencia
-que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada
-pollegada de pelle. Fiem-se nelles. São servis, traidores, brutaes,
-adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Socios de
-bandalheira! Fuja d'elles, fuja d'elles. Cheiram a corrupção, empestam
-de longe. Corja de hypocritas! Immoraes! Cada dia de vida tem-lhes
-vergonha da vespera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a
-generosa mocidade. Com elles mesmos ha de aprender o que são... Aquelle
-é o Malheiro, um grande em gymnastica. Entrou graudo, trazendo para
-cá os bons costumes de quanto collegio por ahi. O pae é official.
-Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro,
-todos o temem, muitos o cercam, os inspectores não podem com elle; o
-director respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... Este
-que passou por nós, olhando muito, é o Candido, com aquelles modos de
-mulher, aquelle arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos...
-Este sujeito... Ha de ser seu conhecido. Mas faço excepções: alli vem
-o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas uma pérola; É a
-mansidão em pessoa. Primeira voz do _Orpheon_, uma vozinha de moça que
-o director adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os
-seraphins. Uma perola!»
-
---Alli está um de joelhos...
-
---De joelhos... Não ha perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é
-o primeiro dia, alli está de joelhos o Franco. Assim atravessa as
-semanas, os mezes, assim o conheço, nesta casa, desde que entrei. De
-joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O director
-chama-lhe cão, diz que tem callos na cara. Se não tivesse callos no
-joelho, não haveria canto do _Atheneu_ que elle não marcasse com o
-sangue de uma penitencia. O pae é de Matto-Grosso; mandou-o para aqui
-com uma carta em que o recommendava como incorrigivel, pedindo
-severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que
-faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sáe nunca... Afastemo-nos
-que ahi vem um grupo de gaiatos.
-
-Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com
-surriadas.
-
-«Viu aquelle da frente, que gritou _calouro_? Se eu dissesse o que se
-conta d'elle... aquelles olhinhos humidos de Senhora das Dôres... Olhe;
-um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.
-
-[Figura 07]
-
-«Isto é uma multidão; é preciso força de cotovellos para romper.
-Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo vivo só e vejo de longe;
-mas vejo. Não póde imaginar. Os genios fazem aqui dous sexos, como se
-fosse uma escola mixta. Os rapazes timidos, ingenuos, sem sangue, são
-brandamente impellidos para o sexo da fraqueza; são dominados,
-festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo
-dos pais, pensam que o collegio é a melhor das vidas, com o acolhimento
-dos mais velhos, entre brejeiro e affectuoso, estão perdidos...
-Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admittir protectores.»
-
-Ia por diante Rebello com os extraordinarios avisos, quando senti
-puxarem-me a blusa. Quasi caí. Voltei-me; vi á distancia uma cara
-amarella, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada para mim,
-esgarçando a bocca em careta de riso cynico. Um sujeito evidentemente
-mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de
-telha e arremessei. O tratante livrou-se, injuriando-me com uma
-gargalhada, e sumiu-se. «Muito bem», applaudiu Rebello. E á pergunta
-que fiz, informou: aquelle desagradavel rapaz era o Barbalho, que havia
-de ser um dia preso como gatuno de joias, nosso companheiro da aula
-primaria, do numero dos esquecidos nos bancos do fundo.
-
-[Figura 08]
-
-O professor Manlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para
-salvar-me das consequencias do escarneo do desastrado incidente da
-primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras de
-animação. Os rapazes foram generosos. Maurilio acariciou-me a cabeça
-mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacavel dos
-argumentos. Só o amarello dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas á
-socapa.
-
-Depois do jantar não tornei a vêr o Rebello. Como frequentava algumas
-aulas extraordinarias do curso superior, recolhia-se a certas horas para
-as salas de cima.
-
-A sala do professor Manlio era ao nivel do pateo, em pavilhão
-independente do edificio principal, com duas outras do curso primario, o
-alojamento da banda de musica e o salão supplementar de recreio,
-vantajoso em dias de chuva. Formando angulo recto com esta casa, uma
-extensa construcção de tijolo e taboas pintadas, sala geral do estudo
-no pavimento terreo e dormitorio em cima, concorria para fechar metade
-do quadrilatero do pateo, que o grande edificio completava,
-estentendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No
-fundo d'esta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro,
-esteril, insipido como a alegria obrigatoria, algumas arvores de
-cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o verdor morto das
-palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que
-soffrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto,
-esgalgado cypreste subia até as gotteiras, tentando fugir pelos
-telhados.
-
-Sem o Rebello, achei-me ahi como perdido, em meio dos rapazes. Os
-conhecidos da aula desappareciam no tumulto que as salas todas
-despejavam.
-
-Nem um só de quem me podesse aproximar. Rente com a parede, para que me
-não dessem attenção, insinuei-me até o logar d'onde o inspector
-Sylvino, um grande magro, de avultado nariz e suissas dilaceradas, olhar
-miudo e vivo como chispas, em orbitas de antro, fiscalisava o recreio,
-graduando a folgança, á mercê de um temivel canhenho. Sentava-se á
-entrada do portão do lavatorio. Um pouco além da cadeira do Sylvino,
-fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro, fresco das
-largas sombras da hora, o movimento dos collegas.
-
-Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando
-irregularmente a dispersão dos alumnos. Eram os pobres novatos que os
-veteranos sovavam á cacholeta, fraternalmente.
-
-Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitencia; em pé, cara contra a
-parede. Como Sylvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para
-arrancar a cabeça e vêr morrer o bichinho na palma da mão.
-Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de máu modo: «Lá
-sei! disse elle. Porque me mandaram.» E continuou a pegar as moscas.
-Franco era um rapazola de quatorze annos, rachitico, de olhos pasmados,
-face livida, palpebras pisadas. Á fronte, com a expressão vaga dos
-olhos e obliquidade dolorida dos supercilios, pousava-lhe uma nevoa de
-afflicção e paciencia, como se vê no _Flos sanctorum_. A parte
-inferior do semblante rebellava-se; um canto dos labios franzia-se em
-contracção constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca.
-Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo
-desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam.
-Uma quéda alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo
-da excomunhão com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as
-manhãs, lendo no refeitorio perante o collegio as notas da vespera.
-
-Os professores já sabiam. Á nota do Franco, sempre má, devia
-seguir-se especial commentario deprimente, que a opinião esperava e
-ouvia com delicia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como elle!
-E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anathema. Não convinha
-expulsar. Uma cousa d'estas aproveita-se como um _bibelot_ do ensino
-intuitivo, explora-se como a miseria do ilota, para a licção fecunda
-do asco. A propria indifferença repugnante da victima é util.
-
-Tres annos havia que o infeliz, num supplicio de pequeninas
-humilhações crueis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das
-virtudes alheias mais que das proprias culpas, alli estava,--cariatide
-forçada no edificio de moralisação do _Atheneu_, exemplar perfeito de
-depravação offerecido ao horror santo dos puros.
-
-Varias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do
-Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me
-encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de subito
-em frente, e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era susceptivel o
-açafrão da cara, perguntava: «Mudou as calças? Um inferno. Até que
-afinal, o meu desespero estourou.
-
-[Figura 09]
-
-Foi á noite, pouco antes da ceia. Estavamos a um canto mal illuminado
-do pateo, quasi sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma
-inexprimivel interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe
-uma bofetada. Meio segundo depois, rolavamos na poeira engalfinhados
-como feras. Uma lucta rapida. Avisaram-nos que vinha o Sylvino. Barbalho
-evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue
-que me corria do nariz.
-
-Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da
-tristeza de hospital dos dormitorios, fundos na sombra do gaz mortiço,
-trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.
-
-Era assim o collegio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
-
-Onde metter a machina dos meus ideaes naquelle mundo de brutalidade, que
-me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes,
-escapando á investigação da minha inexperiencia? Qual o meu destino,
-naquella sociedade que o Rebello descrevera horrorisado, com as meias
-phrases de mysterio, suscitando temores indefinidos, recommendando
-energia, como se colleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a
-norma generosa e sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do
-Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre
-aspecto da solemnidade dos premios, dando-me idéa da legião dos
-soldados do trabalho, que fraternisavam no empenho commum, unidos pelo
-coração e pela vantagem do collectivo esforço. Individualisados na
-debandada do receio, com as observações ainda mais da critica do
-Rebello, bem diverso sentimento inspiravam-me, A reacção do contraste
-induzia-me a um conceito de repugnancia que o habito havia de esmorecer,
-que me tirava lagrimas áquella noite. Ao mesmo tempo opprimia-me o
-presentimento da solidão moral, fazendo adivinhar que as
-preoccupações minimas e as concomitantes surpresas inconfessaveis
-dariam pouco para as e effusões de allivio, a que corresponde o
-conselho, a consolação.
-
-Nada de protector, dissera Rebello, Era o ermo. E, na solidão,
-conspiradas, as adversidades de toda a especie, falsidade traiçoeira
-dos affectos, perseguição da malevolencia, espionagem da vigilancia;
-por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a furia tonante
-de Jupiter-director, o tremendo Aristarcho dos momentos graves.
-
-Lembranças da familia desviaram-me o curso ás reflexões. Não havia
-mais a mão querida para acalentar-me o primeiro somno, nem a oração,
-tão longe nesse momento, que me protegia á noite como um docel de
-amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asylos da miseria
-recolhem.
-
-A convicção do meu triste infortunio lentamente, suavemente,
-anniquilou-me num conforto de prostração e eu dormi.
-
-Pela noite a dentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens
-varias do atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarella
-do Barbalho, a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos
-do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o
-collegio inteiro, mil collegios, arrebatados, num pé de vento, voavam
-leguas a fóra por uma planicie sem termo. Gritavam todos, urravam a
-sabbatina de taboadas com um enthusiasmo de turbilhão. O pó crescia
-em nuvens do sólo; a massa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de
-galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos
-braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurilio,
-crescida, enorme, preta, torcendo, destorcendo os dedos sofregos,
-convulsionados da hysteria do quinau... E eu caía, unico vencido! E o
-tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me,
-calcavam-me, pesados, carregando premios, premios aos cestos!
-
-A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angustia. Cinco horas da
-manhã.
-
-
-
-
-III
-
-
-Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto
-applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso
-labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna
-confecção de mais uma _infancia celebre_, certo não registraria,
-entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de
-consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais
-encontrei tão amargos.
-
-_Natação_ chamava-se o banheiro, construido num terreno das dependencias
-do _Atheneu_, vasta toalha d'agua ao rez de terra, trinta metros sobre
-cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes
-torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de ladrilho, offerecia uma
-inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro.
-Accusava-se ainda mais esta differença de profundidade por dois degráus
-convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças como os
-rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a agua cobria um homem.
-
-[Figura 10]
-
-Por occasião dos intensos calores de Fevereiro e Março e do fim do
-anuo, havia ahi dous banhos por dia. E cada banho era uma festa,
-naquella agua gorda, salobra da transpiração lavada das turmas
-precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação;
-turbulento debate de corpos nús, estreitamente cingidos no calção de
-malha rajado a côres, enleiando-se os rapazes como lampreias, uns
-immergindo, reapparecendo outros, olhos injectados, cabellos a escorrer
-pela cara, vergões na pelle de involuntarias unhadas dos companheiros,
-entre gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores
-agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum
-mais forte chegava.
-
-Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a
-braçadas, levando a hombro a resistencia d'agua; outros se precipitavam
-cabeça para baixo, volteando os pés no ar como cauda de peixe,
-prancheando sem vêr a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas
-ondas de resaca se emborcavam e iam transbordar pelas immediações do
-banheiro alagando tudo.
-
-Ao longo do tanque, corria o muro divisorio, além do qual ficava a
-chacara particular do director. Á distancia, viam-se as janellas de uma
-parte da casa, onde ás vezes eram recolhidos os estudantes enfermos,
-fechadas sempre a venezianas verdes.
-
-Trepada ao muro e meio escondida por uma mouta de bambús e ramos de
-hera, vinha Angela, a canarina, vêr os banhos da tarde. Lançava
-pedrinhas aos rapazes; os rapazes mandavam-lhe beijos e mergulhavam,
-buscando o seixo. Angela, torcendo os pulsos, reclinando-se para traz,
-ria perdidamente um grande riso, desabrochado em corolla de flôr
-através dos dentes alvos.
-
-Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.
-
-Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos
-banhistas em tres turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido
-da fiscalisação permittia que as turmas se confundissem e o inspector
-de serviço, com a varinha destinada aos retardatarios, vigiava,
-affastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos
-marmanjos que as espadanas d'agua acobertavam. Mal tinha eu entrado,
-senti que duas mãos, no fundo prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um
-impulso violento caí de costas; a agua abafou-me os gritos, cobriu-me a
-vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asphyxia, pensei morrer. Sem
-saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, á tôa,
-immerso a desfallecer, quando alguem me amparou. Um grande tomou-me ao
-hombro e me depôz á borda, estendido, vomitando agua. Levei algum
-tempo para me inteirar do que occorrera. Esfreguei por fim os olhos e
-verifiquei que o Sanches me tinha salvo. «Ia afogar-se!» disse elle,
-amparando-me a cabeça emquanto me desempastava os cabellos de cima dos
-olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe effusivamente o que me haviam
-feito. «Perversos!» observou-me o collega com pena, e attribuiu a
-brutalidade a qualquer peste que fugira no atropello dos nadadores,
-desvelando-se em solicitudes por tranquillisar-me. Tive depois motivo
-para crêr que o perverso e a peste fôra-o elle proprio, na intenção
-de fazer valer um bom serviço.
-
-Mas a consequencia immediata do facto foi que forcei a repugnancia que o
-Sanches me causava e me fiz todo gratidão para com elle e intima
-amizade. Curiosa e accidentada tinha de ser essa minha aventura de apego
-e confiança...
-
-No _Atheneu_ formávamos a dous para tudo. Para os exercicios
-gymnasticos, para a entrada na capella no refeitorio, nas aulas, para a
-saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a distribuição do pão
-secco depois do canto. Por amor da regularidade do organisação militar,
-repartiam-se as tres centenas de alumnos em grupos de trinta, sob o
-directo commando de um decurião ou _vigilante_. Os vigilantes eram
-escolhidos por selecção de aristocracia, asseverava Aristarcho.
-Vigilante era o Malheiro, o heróe do trapezio; vigilante era o Ribas, a
-melhor vocalisação do _Orpheon_; vigilante era o Matta, mirrado,
-corcundinha, de espinha quebrada, appellidado o _mascate_, mellifluo no
-trato, nunca punido ninguem sabia por que, reputação de excellente
-porque ninguem se lembrava de verificar, que, entretanto, Rebello
-apontava como chefe da policia secreta do director; vigilante o Saulo,
-que tinha tres distincções na instrucção publica; vigilante Romulo,
-_mestre cook_, por alcunha, uma besta, grandalhão, ultimo na gymnastica
-pela corpulencia bamba, ultimo nas aulas, dispensado do _Orpheon_ pela
-garganta rachada de requinta velha, mas exercendo no collegio, por
-excepção de saliencia na largura chata da sua incapacidade, as
-complexas e delicadas funcções de zabumba da banda. Não sei se este
-geito particular para o bombo, formula musical do annuncio, não sei se
-uma celebre herança que Romulo esperava de afortunados parentes,
-verdade é que entre todos fôra Romulo apurado por Aristarcho para o
-invejavel privilegio de seu futuro genro.
-
-Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um
-criterio que dava ensejo a que o escolhido por valentia á barra fixa
-representava no estudo um papel contristador; vice-versa, outro, como
-Ribas, exemplar nas aulas, magricella e esgotado, mal podia ao trapezio
-vacillar a acrobacia simplificada do prumo.
-
-Sanches era tambem vigilante.
-
-Estes officiaes inferiores da milicia da casa faziam-se tyrannetes por
-delegação da suprema dictadura. Armados de sabres de páu com guardas
-de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma
-ferocidade adoravel. Os sabres puniam summariamente as infracções da
-disciplina na fórma: duas palavras ao serra-fila, perna frouxa, desvio
-notavel do alinhamento. Regimen siberiano, como se vê, do que resultava
-que os vigilantes eram altamente conceituados.
-
-No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de
-influir consideravelmente, a bella importancia collegial do vigilante
-Sanches. Mas outras circumstancias concertaram-se para determinar a nova
-feição das minhas disposições conforme se accentuou depois do
-incidente do banho.
-
-Já me era licito julgar iniciada na convivencia intima da escola.
-Chamado por Manlio a provas, consegui agradar, conquistando uma aura que
-me devia por algum tempo favorecer. Encontrei o Barbalho. Tinha a face
-marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio commetti a injustiça
-de ir deixando o Rebello. Tambem o amavel camarada tinha na bocca um
-máu cheiro que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava
-prendendo a gente com dedos de torquez e soltando os aphorismos a
-queima-roupa. Por seu lado, o venerado collega correspondeu ao
-movimento massando-se commigo e amuando. Durante as aulas, em que nos
-sentavamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada attenção
-e era como se estivesse a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindivel
-necessidade tinha de me falar, então dirigia-me a palavra com a
-habitual affabilidade de joven cura.
-
-Estava acclimado, mas eu me acclimara pelo desalento, como um
-encarcerado no seu carcere.
-
-Depois que sacudi fóra a tranca dos ideaes ingenuos, sentia-me vasio de
-animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderavel da alma: o
-vacuo habitava-me dentro. Premia-me a força das cousas; senti-me
-acovardado. Perdeu-se a licção viril de Rebello: prescindir de
-protectores. Eu desejei um protector, alguem que me valesse, naquelle
-meio hostil e desconhecido, e um valimento directo mais forte do que
-palavras.
-
-Se não houvesse olvidado as praticas, como a assistencia pessoal do
-Rebello, eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como elle
-observara a efffeminação morbida das escolas. Mas a theoria é fragil
-e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A
-lethargia moral pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças,
-á maneira do physico, esperasse realmente pelos dias para caracterisar
-em definitiva a conformação sexual do individuo, sentia-me possuido de
-certa necessidade preguiçosa de amparo, volupia de fraqueza em rigor
-impropria do caracter masculino. Convencido de que a campanha do estudo
-e da energia moral não era precisamente uma cavalgata quotidiana,
-animada pelo clarim da rhetorica, como nas festas, e pelo verso
-emphatico dos hymnos, entristeceu-me a realidade crua. Desilludi-me dos
-bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do
-militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas
-triumphaes; desmoralisava-me o ram-ram estagnado da paz das casernas, o
-prosaismo elementar da fachina.
-
-Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o
-microcosmo do _Atheneu_. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço
-tumultuoso dos companheiros á recreação, a maneira facil de conduzir
-o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade:
-espantava-me a viveza dos _pequenos_, tão pequenos alguns! O braço do
-Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na
-vertigem do momento.
-
-Eu não estudava: a minha conta era, entretanto, regular, por um
-concurso de elementos eventuaes direitos da recente matricula á
-benevolencia, a minha recommendação ao professor Manlio, com os
-retalhos alinhavados de sciencia anterior. Mantinha-me em satisfactoria
-média; mas o risco da decadencia era constante. O methodo constituia o
-peior obstaculo; sem o auxilio de alguem, mais pratico, estava perdido.
-Sanches havia sem duvida de valer-me com a sua capacidade de
-grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que
-desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta
-affeição, empunhando por meu favor o terrivel sabre de vigilante, com
-guardas de couro!
-
-Com effeito não tardou que elle me desse a mão como a Minerva benigna
-de Fenelon.
-
-Entrei pela geographia como em casa minha. As anfractuosidades marginaes
-dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu
-trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e
-affluiam-me para a memoria, abandonando o pendor natural das vertentes;
-as cordilheiras, immensa tropa de amestrados elephantes, arranjavam-se
-em systemas de orographia facillima; reduzia-se o numero das cidades
-principaes do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de
-decorar tanto nome; arredondava-se a quota das populações, perdendo as
-fracções importunas, com prejuizo dos recenseamentos e maior gravame
-dos uteros nacionaes; uma mnemonica feliz ensinava-me a enumeração dos
-estados e das provincias. Graças á destreza do Sanches, não havia
-incidente estudado da superficie terrestre que se me não collasse ao
-cerebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fóra a
-esphera do mundo.
-
-A seu turno a grammatica abria-se como um cofre de confeitos pela
-Paschoa. Setim côr de céu e assucar. Eu escolhia a bel prazer os
-adjectivos, como amendoas adocicadas pelas circumstancias adverbiaes da
-mais agradavel variedade; os amaveis substantivos! voavam-me á roda,
-proprios e appellativos, como creaturinhas de alfenim alado; a
-etymologia, a syntaxe, a prosodia, a orthographia, quatro gráos de
-doçura da mesma gustação. Quando muito, as excepções e os verbos
-irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos
-crespos de chocolate: levados á bocca, saborosissimos.
-
-A historia patria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionarios da
-catechese colonisadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta,
-visões de bondade, recitando escolhidas estrophes do evangelho das
-selvas, mandando adiante, coroados de flôres, pela estrada larga de
-areia branca, os columins alegres, aprendizes da fé e da civilisação,
-acompanhados da turba selvagem do gentio côr de casca de arvores,
-emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contricção de
-fetichismo domado, avultando do seio, do fundo da matta escura, como uma
-marcha phantastica de troncos. Até ás éras da Independencia,
-evocação complicada de sarrafos commemorativos das alvoradas do Rocio
-e de anceios de patriotismo infantil; um principe fundido, cavalgando
-uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda official do Ypiranga;
-mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antonio, as acclamações
-de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em
-vivas ao ramo de café da Domitilla.
-
-Cada pagina era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do
-collega. Graças á habilidade das suas apresentações, apertei a mão
-aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antonio
-Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me
-rapé nos dedos. Conheci de vista Men de Sá, Mauricio de Nassau; vi
-passar o heróe mineiro, calmo, mãos atadas como Christo, barba
-abundante de apostolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e
-vasta, escalvada pelo destino para receber melhor a corôa do martyrio.
-
-[Figura 11]
-
-
-A historia santa revelou-me este épico, quem o diria?--o conego
-Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capitulos como o canto
-profundo das cathedraes. Ouvi suspirar a Crença, o idyllio do Eden, o
-amor primitivo do Genesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnanimo dos
-leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dôr, para o
-trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva
-a envolver a nudez joven de lyrios na tunica de ouro das madeixas,
-cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade, das mães, stigmatisada
-pela maldição de Deus.
-
-E crescia o canto na abóbada e o orgão falava á tradição inteira do
-soffrimento humano supplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em
-suave gorgeio, entoando a elevação dos psalmos, o extase sensual do
-Cantico dos Canticos na bocca da Sulamita, e a seducção de Booz
-enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia tragica de
-Judith, e a serena gloria de Esther, a princeza querida.
-
-Subitamente, entreabriu-se o quadro sonoro para irromper o côro das
-lamentações. Acabavam no ar, luciolas extinctas, os derradeiros sons
-da harpa de David; perdia-se em écos a derradeira antistrophe de
-Salomão; sumiu-se á extremidade do campo a imagem de Ruth, ao braço o
-feixe louro de trigo; entrou a Hebréa sombria na tenda de Holophernes,
-levando nos labios o beijo assassino; cobriu-se a apparição luminosa
-de Esther com o somno da noite de Mardocheu. Era a gamma dolente dos
-terrores. Clamavam as imprecações do diluvio, os desesperos de
-Gommorrha; flammejava no firmamento a espada do anjo de Sennacherib;
-dialogavam em concerto tetrico as supplicas do Egypto, os gemidos de
-Babylonia, as pedras condemnadas de Jerusalem. Vozeava o tenebroso grave
-das prégações dos prophetas. Embalde o fulgor das transfigurações,
-como o livido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta
-nocturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mysterio
-numa escapada de chammas. Nada. A musica solemne era o miserere. Nem o
-clarão da alvorada de Bethlem na Judéa debellava a sombra, nem a
-miragem viva do Thabor. A epopéa agonisava ao rodar do seculo; ecoava
-numa caverna onde havia um tumulo; bradava triumpho um momento pela
-Resurreição do Justo; morria, emfim, lento, lento com a prece dos
-martyres do amphitheatro, com a longinqua prece subterranea dos
-refugiados das Catacumbas.
-
-A doutrina christã, annotada pela proficiencia do explicador, foi
-occasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto,
-rodeado de altares, para todas as creações consagradas da fé. Curioso
-encarar a grandeza do Altissimo; mas havia janellas para o purgatorio a
-que o Sanches se debruçava commigo, cuja vista muito mais seduzia. E o
-preceptor tinha um tempero de uncção na voz e no modo, uma sobranceria
-de director espiritual, que fala do peccado sem macular a bocca. Empunha
-quasi compungido, fincando o olhar no tecto, fazendo estalar os dedos,
-num enlevo de abstracção religiosa; expunha, demorando os incidentes,
-as mais cabelludas manifestações de Satanaz no mundo. Nem ao menos
-dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrario, havia
-como que o capricho de surprehender com as phantasias do Mal e da
-Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demonio tinha
-talvez dous metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma
-vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.
-
-O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oraculos
-obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que
-metade d'aquillo era invenção malvada do Sanches. E quando elle
-punha-se a contar historias de castidade, sem attenção á parvidade da
-materia do preceito theologico, mulher do proximo, Conceição da
-Virgem, terceiro-luxuria, brados ao céu pela sensualidade contra a
-natureza, vantagens moraes do matrimonio, e porque a carne, a innocente
-carne, que eu só conhecia condemnada pela quaresma e pelos monopolistas
-do bacalháu, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando
-rectificava o meu engano, que era outra a carne e guizada de modo
-especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de
-indignação contra as calumnias á santa cartilha do meu devoto credo.
-Mas a cousa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar
-por mim opportunamente.
-
-Na taboada e no desenho linear, eu prescindia do collega mais velho; no
-desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços,
-divertindo-me a geometria miuda como um brinquedo; na taboada e no
-systema metrico, porque perdera as esperanças de passar de mediocre
-como gymnasta de calculos, e resolvera deixar a Maurilio ou a quem quer
-que fosse o primado das cifras.
-
-Em dous mezes tinhamos vencido por alto a materia toda do curso; e, com
-este preparo, sorria-me o agouro de magnifico futuro, quando veio a
-fatalidade desandar a roda.
-
-Referi que Sanches me provocava uma repugnancia de gosma. Depois do caso
-da natação, o reconhecimento predominou sobre a repulsa e eu admitti
-as assiduidades com que de então por diante me quiz beneficiar o
-companheiro. Afinal, porém, tornou-me a apparecer o affastamento
-instinctivo que me separava do rapaz.
-
-Descrente da fraternidade do collegio, cuja personificação
-representava-me o Barbalho, eu temia o alvoroço do recreio.
-Conservar-me na sala das licções era uma medida de prudencia. Estes
-intervallos regulamentares de descanço, aproveitava-os para me adiantar
-no curso. Pois bem, durante estes momentos de applicação excepcional
-em que ficavamos a sós, eu e o grande, definiu-se o fundamento da
-antipathia presentida. A franqueza da convivencia augmentou dia a dia,
-em progresso imperceptivel. Tomávamos logar no mesmo banco. Sanches
-foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro
-d'elle e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de
-cançaço. Para explicar alguma cousa, distanciava-se um pouco;
-tomava-me, então, os dedos e amassava-me até doer a mão, como se
-fosse argilla, cravando-me olhares de raiva injustificada. Volvia
-novamente ás expansões de affecto e a leitura proseguia, passando-me
-elle o braço ao pescoço como um furioso amigo.
-
-Eu deixava tudo, fingindo-me insensivel, com um plano de rompimento em
-idéa, embargado, todavia, pela falta de coragem. Não havia mal
-naquellas maneiras amigas; achava-as, simplesmente, despropositadas e
-importunas, maxime não correspondendo a mais insignificante
-manifestação da minha parte.
-
-Notei que elle variava de attitude quando um inspector mostrava a
-cabeça á entrada da sala e quando pretendia informar-me de alguma
-disciplina transcendente.
-
-Então o mestre singular formalisava-se de gravidade severa e distante.
-Esta inconstancia era o meu alarme. Foi afinal um entretenimento. Eu
-perdia muitas vezes o fio da leitura para attender ás artimanhas
-d'aquella novissima comedia.
-
-Por um dia de muito calor, acabava elle de enunciar como um padre uma
-pagina de religião, os diversos actos de Contricção, de Attricção,
-de Fé, de Esperança, de Caridade, quando propoz que eu lh'os repetisse
-sentado aos seus joelhos. Achei inutil a commodidade e repeti a licção
-passeando pela sala. Que diabo! Aquelle sujeito queria tratar-me
-definitivamente como um bêbê! Com pouco mais lhe daria o excesso de
-extremos para me offerecer uma volta de cueiros! Ah! que se ainda me
-vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem duvida
-nenhuma ha muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha
-pelas ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e ductil como
-um renovo, depois do anniquilamento da primeira decepção. Fui
-transferindo o conflicto.
-
-Ás vezes a minha resistencia passiva desapontava o preceptor. Elle
-encarava-me terrivel, e como quem diz: «perde a protecção de um
-vigilante!», ou disfarçava a impertinencia em riso amarello, numa
-abstracta expressão de physionomia, que era aliás o _facies_, de uma
-idéa fixa.
-
-Os exercidos corporaes effectuavam-se á tarde, uma hora depois do
-jantar, hora excellente, que habituava a digestão a segurar-se no
-estomago e não escorrer pela guela quando os estudantes se balançavam
-a barra-fixa, pelas curvas.
-
-Reconheci o bello campo das manobras quando lá fui pela primeira vez,
-depois da matricula; tive saudade das flammulas sobre o gramal verde.
-Mesmo, porém, desmontada a alegria de encommenda das festas, era um
-sitio amenissimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais
-abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do
-regimen interno.
-
-Findos os exercicios, partia o professor Bataillard, e, guardados por
-dois inspectores, o Sylvino e o João Numa, ou João Numa e o velho
-Margal, venerando invalido hespanhol querido de todos, ou o Margal e o
-_Conselheiro_, tinhamos, os alumnos, um prazo de recreio até cair a
-noite.
-
-Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente,
-vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu
-companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desattento, admirando o
-crepusculo com a testa franzida, na meia abstracção que era o seu
-rictus costumeiro. Estavamos a um rodeio da avenida que circumdava o
-gramal, opposto á cancella onde conversavam os inspectores. Os collegas
-jogavam a barra através da grama, ou se divertiam ao _saut-de-mouton_
-em pontos affastados. Como não apprehendi a pergunta, o Sanches
-repetiu. Escapou-me involuntario o riso... Abarbava-me a mais rara
-especie de pretendente! Eu ria com franqueza, mas abysmado. Era de uma
-extravagancia original aquelle Sanches! Hoje, elle é engenheiro em uma
-estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...
-
-Vendo que não nos podiamos entender, metteu entre nós o esplendor da
-tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unanime a
-respeito.
-
-Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de
-perdel-o. Deu-me as licções sem uma só das intragaveis ternuras.
-Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma
-revolução de caracter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo
-moderado, que me livrasse dos vexames da vida collegial dos pequenos. O
-caso era outro. Sanches comprehendera que a ingenuidade tinha
-contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar á
-carga.
-
-Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.
-
-Inventou uma analyse dos _Lusiadas_, livro de exame, cuja difficuldade
-não cessava de encarecer.
-
-Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava
-criminosamente o sobresalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante
-das estrophes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a
-fumegar alfazema. Barbaro! Havia um trajo de modestia sobre a verdade do
-vocabulo; elle rasgava as tunicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia
-do meneio gracil de cada verso uma brutalidade offensiva. Eu
-acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente victima, e me dava á
-crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A analyse
-aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um
-requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbavel.
-
-Tomava cada periodo, cada oração, altamente, com o ademan sisudo do
-anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois
-o significado, zás! um córte de escalpello, e a phrase rolava morta,
-repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.
-
-Iniciou da mesma forma um curso pittoresco de diccionario. O diccionario
-é o universo. Gaba-se de esclarecimento, mas atordôa, á primeira
-vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas.
-Encarreirados nas paginas consideraveis, os nomes seguem estranhamente
-com a numerosa prole dos derivados, ou sós, _petits-maîtres_ faceiros,
-os gallicismos; vaidosos _dandys_ os de proveniencia albionica.
-Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As
-significações prolongam-se interminas, entrecruzam-se em confusa rêde
-topographica. O inexperiente não conquista um passo na immensa capital
-das palavras. Sanches estava affeito. Penetrou commigo até aos ultimos
-albergues da metropole, até á cloaca maxima dos termos chulos.
-Descarnou-me em caricatura de esqueleto, a circumspecção magistral do
-Lexicon, como polluira a elevação parnasiana do poema.
-
-Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror
-aquella sabedoria de cousas nunca sonhadas. O honrado director
-espiritual percebeu que havia agora um ascendente de dominio que me
-curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de malicia.
-Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de
-possuidor forte. Eu andava num deploravel desmantelo de energia.
-Rebello, de vez em quando, acabrunhava-me, através dos oculos azues,
-com um olhar de desprezo ou condolencia ainda mais aviltante. Meu pae
-vinha vêr-me todas as semanas; eu mostrava os premios de applicação,
-conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receioso dos
-outros, o meu companheiro era quasi exclusivamente Sanches. Sempre
-juntos eu e elle. Sabia-se no Atheneu que elle era meu explicador,
-suppunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas relações.
-
-Comtudo Sanches, como os mal intencionados, fugia dos logares
-concorridos. Gostava de vaguear commigo, á noite, antes da ceia,
-cruzando cem vezes o pateo de pouca luz, cingindo-me nervosamente,
-estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em
-resignado silencio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebello.
-
-Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tacito, Sanches
-precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro erravamos pelo
-saguão das bacias, escuro, humido, rescendendo ao cheiro das toalhas
-mofadas e dos ingredientes dentifricios, solidão favoravel,
-multiplicada pelos obstaculos á vista que offereciam enormes pilares
-quadrados em ordem a sustentar o edificio,--quando, sem transição, o
-companheiro chegou-me a bocca ao rosto e falou baixinho.
-
-Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, collante, como se
-fosse cada syllaba uma lesma, horripilou-me, feito o contacto de um
-supplicio immundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a
-explosão de todo o meu asco por semelhante individuo, e muito calmo,
-desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me
-endefluxara a friagem e... fui buscal-o.
-
-Fóra da zona magnetica em que me captivava o bom amigo, concertaram-se
-os meus instinctos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um
-desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o
-vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do
-rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me,
-temperando o olhar com um brilho de facadas.
-
-A occasião é que não era a melhor para o conflicto. Conveniencias do
-ensino tinham feito dividir-se em duas turmas a aula do professor
-Manlio, e eu fôra incluido na secção confiada ao Sanches, como
-auxiliar idoneo. A consequencia foi o que devia ser. Maltratado e
-condemnado pelo ajudante, provando mal em razão do sobresalto no exame
-de verificação a que me sujeitou o professor, desmoralisado em
-reprehensão solemne com grande regosijo do Sanches, jurei vingança.
-Escandalisaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a
-materia toda em rapida antecipação de estudo. Isto, porém, não
-bastava. Bastasse! foi o meu lemma. E toca a desandar. Fiquei abaixo do
-Barbalho, aliás fóra de classificação decente; fiquei abaixo do
-Alvares. Fui o ultimo da aula! Resultado razoavel, para emprego de uma
-energiazinha que despontava.
-
-Ao mesmo tempo, como os philosophos atribulados, busquei a doce
-consolação dos astros.
-
-Aristarcho iniciara um curso nocturno de cosmographia.
-
-[Figura 12]
-
-Estrellas era com elle. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de
-expulsão, abalançava-se a intrometter-se nas onze varas da camisola,
-de astrologo. E vissem-no, á janella, indicando as constellações,
-impellindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós discipulos,
-não viamos nada; mas admiravamos. Bastava elle delinear sabiamente um
-agrupamento estellino ás alturas, para cada um de nós por seu lado
-ficar mais _a quo_. E voava, fugindo, a poeira phosphorecente.
-
-Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que
-Aristarcho fisgava os astros, quando todos sabem que apontar estrellas
-faz crear verrugas.
-
-Uma vez, muito enthusiasmado, o illustre mestre mostrou-nos o
-Cruzeiro do Sul. Pouco depois, cochichando com o que sabiamos de pontos
-cardeaes, descobrimos que a janella fazia frente para o Norte: não
-atinamos. Aristarcho reconheceu o descuido: não quiz desdizer-se. Lá
-ficou a contra-gosto o Cruzeiro estampado no hemispherio da estrella
-polar.
-
-Eu tomei amor ás cousas do espaço e estudava profundamente a mecanica
-do infinito pelo compendio de Abreu.
-
-Para as noites brumosas, Aristarcho tinha os apparelhos. Uma infinidade
-de machinismos do ensino astronomico, exemplificando o systema solar, a
-theoria dos eclipses, a gravitação dos satellites, as espheras
-concentricas, terrestre e celeste; a de dentro, de cartão lustrado; a
-de fóra, de vidro. Um atravancamento indescriptivel, sobre a mesa, de
-estrellas e arames torcidos, rodas dentadas de latão, lampadas frouxas
-de naphta parodiando o sol. Aristarcho dava á manivella e gyrava tudo.
-Com o _pince-nez_ grosso de tartaruga, á ponta do nariz, dominava o
-tropel dos mundos.
-
-«Vêem, dizia, explicando a natureza, vêem a minha mão aqui?»
-
-Mostrava a mão direita, ao realejo, bella manopla felpuda de fazer
-inveja a Esaú:
-
-«É a mão da Providencia!»
-
-
-
-
-IV
-
-
-Periodo sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma
-banqueta de altar, ou com o alphabeto azul que delinêa o fumo do
-incenso no ar tranquillo, inolvidaveis tregoas de intimo socego em toda
-a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao fundo
-descredito escolar.
-
-A astronomia, como os céus do psalmo, levou-me á contemplação. O
-mal na terra, descripto pelo Sanches com uma pericia de conhecedor e
-praticante, tomou vulto no seio das minhas cogitações. A incredulidade
-primeira acabou em meu espirito, reconhecendo o descalabro d'este val de
-lagrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar á minha
-rehabilitação nos estudos, puz-me a estudar, como Ignacio de Loyola,
-talvez na mesma idade, a rehabilitação do mundo.
-
-Encarnei o peccado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no
-intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu
-exemplo pontifical de virtudes no solio de Roma; mas a verdade é que me
-dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa
-exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal scenographico de
-trabalho, e fraternidade, que eu quizera que fosse a escola, tinha que
-soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era
-o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.
-
-Accresce que predispunha ao enlevo a tristeza oppressa de discipulo máu
-em que eu jazia. E como nos pequenos esforços que tentava para me
-reerguer ninguem dava attenção, deixei-me ficar insensivel, resignado,
-como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciencia em paz, a
-consciencia que é o espectaculo de Deus. Servia-me a crença como um
-colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que
-apezar dos anceios de bemaventurança, eu ia mal no catecismo como no
-resto.
-
-A mais terrivel das instituições do _Atheneu_ não era a famosa
-justiça do arbitrio, não era ainda a _cafua_, asylo das trevas e do
-soluço, sancção das culpas enormes. Era o _Livro das notas_.
-
-Todas as manhãs, infallivelmente, perante o collegio em peso,
-congregado para o primeiro almoço, ás oito horas, o director apparecia
-a uma porta, com a solemnidade tarda das apparições, e abria o
-memorial das partes.
-
-Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rotulo
-vermelho na capa, angulos do mesmo sangue. Na vespera cada professor, na
-ordem do horario, deixava alli a observação relativa á diligencia dos
-seus discipulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as
-sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia,
-avultava, impunha-se a opinião do _Atheneu_. Rainha caprichosa e
-incerta, tyrannisava essa opinião sem correctivo como os tribunaes
-supremos. O temivel noticiario, redigido ao sabor da justiça suspeita
-de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos,
-immoraes, erigia-se em censura irremissivel de reputações. O julgador
-podia ser posto fóra por uma evidenciação concludente dos seus
-defeitos; a diffamação estampada era irrevogavel.
-
-[Figura 13]
-
-E peior é que lavrava o contagio da convicção e surprehendia-se cada
-um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinario
-tal discipulo, tal collega, reforçando-se passivamente o conceito, até
-consummar-se a obra de vilipendio quando, por ultimo, o condemnado, sem
-mais uma suggestão de revolta achava aquillo justo e baixava a cabeça.
-A opinião é um adversario infernal que conta com a cumplicidade,
-emfim, da propria victima.
-
-Com excepção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os
-que dormiam á sombra de uma reputação habilmente arranjada por um
-justo conchavo de trabalho e captivante doçura, havia para todos uma
-espectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um
-mysterio.
-
-Á medida que se desenrolava a gazetilha, as ancias iam serenando. Os
-victimados fugiam, acabrunhados de vergonha, opprimidos sob o castigo
-incalculavel de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de
-ultraje. Passavam junto de Aristarcho ao sair para a tarefa penal de
-escripta. O director, arrepiando uma das coleras olympicas que de um
-momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro ás costas
-do condemnado, aggravante do injuria e escarneo á pena de diffamação.
-O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.
-
-Quando a cousa não dava para coleras, Aristarcho limitava-se a
-sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença cathedratica; ora
-uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e
-breve, ora um conselho amortalhado em funebre dó.
-
-Ás vezes enlaçava com dous dedos o menino pela nuca e o voltava,
-tremente e submisso, para o collegio attento, offerecendo-o ás
-bofetadas da opinião: «Vejam esta cara!...»
-
-A criança, livida, fechava os olhos.
-
-Em compensação, não havia expressamente punições corporaes.
-
-O professor Manlio, sempre considerando a recommendação, poupou-me
-longamente ao castigo formidavel das partes. Perdeu por fim a paciencia
-e fulminou-me.
-
-No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem assucar que me bastasse, o
-resto do café quinado da espectativa (porque Manlio tinha-me
-prevenido), quando ouvi Aristarcho, alargando pausas dramaticas de
-commoção, ler, claro, severo: «O Sr. Sergio tem degenerado...»
-
-Eu havia figurado já na gazetilha do _Atheneu_ com algumas notas de
-louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O director olhou-me
-sombrio.
-
-No fundo do silencio commum do refeitorio, cavou-se um silencio mais
-fundo, como um poço depois de um abysmo. Senti-me devorado por este
-silencio hiante. A congregação justiceira dos collegas voltou-se para
-mim, contra mim. Os vizinhos de logar á mesa affastaram-se dos dois
-lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um
-ruido argentino, horrivel, de colheres á lavagem; os tamarineiros no
-parque ciciavam ao vento.
-
-Aristarcho foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.
-
-A peior hypothese do systema do pelourinho era quando o estudante
-ganhava o callo da habitualidade, um assassinato do pudor, como succedia
-com o Franco.
-
-Dias depois da terrivel nota, voltava eu a figurar com outra má, menos
-philosophicamente redigida, porém aggravada de reincidencia. Aristarcho
-não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma
-d'ellas doia-me intensamente; comtudo não me indignavam. Aquelle
-soffrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição
-actual. Chorava á noite, em segredo, no dormitorio; mas colhia as
-lagrimas numa taça, como fazem os martyres das estampas bentas, e
-offerecia ao céu, em remissão dos meus pobres peccados, com as notas
-más boiando.
-
-No recreio, andava só e calado como um monge. Depois do Sanches não me
-aproximava de nenhum collega, senão incidentemente, por palavras
-indispensaveis. Rebello tentou attrahir-me; ou desviava. Sanches,
-rancoroso, perseguia-me como um demonio. Dizia cousas immundas. «Deixa
-estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.» Na
-qualidade de vigilante levava-me brutalmente á espada. Eu tinha as
-pernas roxas dos golpes; as canellas me incharam. Se Barbalho se lembra
-de vingar a bofetada, creio que me submettia á letra evangelica.
-
-Durante este periodo de depressão contemplativa uma cousa apenas
-magoava-me: não tinha o ar angelico do Ribas, não cantava tão bem
-como elle. Que faria se morresse, entre os anjos, sem saber cantar?
-
-[Figura 14]
-
-Ribas, quinze annos, era feio, magro, lymphatico. Bocca sem labios, de
-velha carpideira, desenhada em angustia--a supplica feita bocca, a prece
-perenne rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto,
-infinitamente, como uma gotta de cêra pelo fuste de um cyrio...
-
-Mas, quando, na capella, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os
-olhos para o medalhão azul do tecto, que sentimento! que doloroso
-encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que
-subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gothico!
-
-E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos
-pés de Maria, alto, tremulo, aereo, como aquelle prodigio celeste de
-garganteio da freira Virginia em um romance do conselheiro Bastos.
-
-Oh! não ser eu angelico como o Ribas! Lembro-me bem de o vêr ao
-banho: tinha as omoplatas magras para fóra, como duas azas!
-
-E eu era feliz nesse tempo, quando invejava o Ribas.
-
-Havia na minha febre religiosa certo numero de reservas, que pareciam o
-germen de futuro _libertino_, como dizem os padres mineiros; eu não
-admittia a confissão, não pensava em communhão, estranhava os
-exaggeros do culto publico, votava antipathia aos homens de batina.
-Santa Rosalia era a minha devoção.
-
-Porque Santa Rosalia? Não havia motivo: era uma pequena imagem em
-cartão, gravura de aço e aguadas de fino colorido, lembrança que me
-dera uma prima, então morta, e eu guardava em memoria amavel.
-
-Era boa a priminha. Mais velha do que eu tres annos, carinhosa, maternal
-commigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como
-uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda
-quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre
-céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmorea pureza, coando
-uma transparencia de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a
-agitação, ignorava a impaciencia. Sabia talvez que ia morrer. Ao
-vêl-a passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador
-americano--leve na terra como o roçar da veste de um anjo, sentia-se
-com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquella criança:
-buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da fórma, sob a
-campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela
-manhã--e a liberdade etherea do sentimento.
-
-Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto
-á pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma
-identidade commovente de traços physionomicos com a pequenina morta.
-Guardei então, como um retrato, Santa Rosalia.
-
-Com a evolução de mysticismo era natural completar-se a consagração
-da estampa; canonisada triumphalmente no concilio ecumenico dos meus
-mais intimos votos.
-
-Era a sala geral do estudo, á beira do pateo central, uma peça
-incommensuravel, muito mais extensa do que larga. De uma das
-extremidades, quem não tivesse extraordinaria vista custaria a
-reconhecer outra pessoa na extremidade opposta. A um lado,
-encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de páu envernisado e os
-bancos. Á parede, em frente, perfilavam-se grandes armarios de portas
-numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; deposito de livros.
-Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono
-pregava um cadeado á portinha e formava um interior á vontade. Uns, os
-futuros _sportmen_, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a
-tesoura, que se atrellavam a pequenos carros de papelão; outros, os
-politicos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes
-precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das pelles;
-outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham
-espiar a efflorescencia das borboletas; os colleccionadores, Ladislaus
-Nettos um dia, fingiam museus mineralogicos, museus botanicos, onde
-abundavam as delicadas rendas seccas de filamentos das folhas
-descamadas; outros davam-se á zoologia e tinham caveiras de
-passarinhos, ovos vasados, cobras em cachaça. Um d'estes ultimos
-soffreu uma decepção. Guardava preciosamente o craneo de não sei que
-phenomenal quadrupede encontrado em excavações de uma horta, quando
-verificou-se que era uma carcassa de gallinha!
-
-Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia
-compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque
-de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro
-accesa. Ao fundo, em dourado _passe-partout_ alojaria Santa Rosalia, a
-padroeira.
-
-O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal
-conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a
-gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama,
-para as escovas e os pentes.
-
-E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração,
-depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus
-fervores, symbolisados num tributo de perfume.
-
-Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as
-enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do
-amor de Maria.
-
-Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do _Atheneu_. Abençoados
-momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do
-corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia
-christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes
-das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do
-estuque.
-
-[Figura 15]
-
-O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças,
-brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com
-medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu.
-Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de
-jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera,
-cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos,
-expirando no ambiente a alma livre do aroma.
-
-Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos
-sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella
-mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das
-miseriazinhas da hora commum.
-
-Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado,
-sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição
-Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam
-pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto
-pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia
-dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando
-o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.
-
-O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença.
-Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae,
-impedindo-lhe ás visitas do costume ao _Atheneu_. Eu pensava nos seus
-soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do
-mysticismo.
-
-A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da
-cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos
-hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu
-passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as
-paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do
-espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na
-modestia curvada dos brutos--annullando-me a mim mesmo na angustia do
-pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do
-farricoco.
-
-[Figura 16]
-
-O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os
-zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.
-
-Triste e feliz.
-
-Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á
-solidão e ao socego.
-
-Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os
-estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós
-empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o
-rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao
-respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se
-não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que
-o não pedissemos ao Anjo...
-
-Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as
-seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota
-esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem
-compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os
-collegas.
-
-O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas,
-guardada a _cache-nez_ nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de
-gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As
-vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella...
-a do hymno...
-
-Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa
-nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao
-meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro
-que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam
-todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a
-do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade
-fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam
-da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas,
-espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o
-conjuncto podia passar por um cantico.
-
-Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.
-
-O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel
-de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa.
-O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico
-parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os
-accordes--produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um
-tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns
-meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas
-primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem
-longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação,
-sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.
-
-Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no
-soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos,
-ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...
-
-Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se
-apresentava habitualmente Aristarcho.
-
-Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas
-trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos
-hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade,
-geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á
-trama concreta das lançadeiras.
-
-Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se,
-porém, o influxo da realeza impalpavel.
-
-Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio
-fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um
-despotismo cruento.
-
-O director manobrava este talento de imperio com a pericia do corredor
-sobre o _pur sang_ sensivel.
-
-A sala geral do estudo tinha innumeras portas. Aristarcho faria
-apparições, de subito, a qualquer das portas, nos momentos em que
-menos se podia contar com elle.
-
-Levava as apparições ás aulas, surprehendendo professores e
-discipulos. Por meio d'este processo de vigilancia de inopinados,
-mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpetuo do flagrante
-como uma atmosphera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de
-todos os bedeis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janellas
-ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim unico de um
-bello dia abril-as bruscamente sobre qualquer machinação clandestina
-da vadiagem. Sorria então no intimo, do effeito pavoroso das
-armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal,
-pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um
-repasto de sangue.
-
-Nos momentos de ira e de exaltações eloquentes é que sabia fazer-se
-em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olympo; era
-como se Jupiter mandasse Mercurio catar á terra os raios já disparados
-e os unisse ao stock inavaliavel dos arsenaes do Etna, para soltar tudo,
-de uma só vez, de uma só colera, num só trovão, anniquilando a
-natureza sob a bombarda omnipotente.
-
-Mas não sómente parodiava elle os furores olympicos. Aquella alma
-ductil de artista sabia decair até á blandicia, até á lagrima a
-proposito.
-
-Jupiter guardava para a opportunidade a caricia de edredon, o gesto
-flexuoso do soberano cysne. Expandia-se ás vezes sobre o _Atheneu_ em
-rompimentos de amor paterno, tão derramado, tão geitosamente sincero,
-que não tinhamos remedio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal
-de enternecimento de filhos.
-
-E admiravamos.
-
-A hora solemne do meio-dia Aristarcho aproveitava para distribuir uma
-merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias,
-incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só
-conselhos. Tambem reprimendas em massa por culpas collectivas,
-arrecadações de cigarros, ou pequenos processos summarios em que se
-averiguava a autoria de delictos importantes, como encher de papel
-picado uma sala, cuspir ás paredes, molhar a privada, e mesmo muito
-mais graves, como num episodio do Franco, que se prende ao periodo beato
-das minhas reminiscencias.
-
-Assistia o Mestre com a attenção de costume á reza cantada, fazendo
-gyrar nos dedos uma medalha do relogio sobre o collete, na abertura do
-fraque. Ao final, depois de um intervallo preparatorio, aperitivo de
-emoções, tomou a palavra num tom solemne de revelação e referiu, com
-toda a grandeza de que era susceptivel, a hypothese, reclamando a
-indignação vingadora do _Atheneu_.
-
-Franco, no domingo da vespera, aproveitando a largura da vigilancia no
-dia vago, fôra vadiar ao jardim. E para tomar agua de um poço ahi
-existente, cuja bomba não funccionava em regra, deliberou, imaginem!
-humedecer a bucha aspiradora com um liquido que Moysés seria capaz de
-obter no arido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem
-que o referido poço fornecia agua para a lavagem dos pratos.
-
-Um murmurio de horror elevou-se das alas de estudantes.
-
-«Adianta-te, Franco», mandou Aristarcho.
-
-Com a insensibilidade petrea que o encouraçava para as humilhações,
-saiu Franco do logar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no
-centro da sala. Alli esteve por alguns segundos, exposto, no meio do
-enorme quadrado de alumnos. Os olhares caíam-lhe em cima, como os
-projectis de um fuzilamento.
-
-O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados
-depois da profanação irremediavel da lympha. Passado este effeito, com
-que contava para a punição moral, o director concluiu o libello.
-Ficassemos tranquillos, estavam puros os labios. Franco tinha sido
-surprehendido por um copeiro que o prendera, e fôra a bomba
-incontinente declarada--interdicta.
-
-Muita gente duvidou da opportunidade da interdicção. Limpavam com asco
-a lingua no lenço, esfregavam a bocca até esfolar.
-
-«O porco! bramia Aristarcho. O grandissimo porco!» repetia como um
-deus fóra de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda.
-Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.
-
-Aristarcho marcou apenas dez paginas de castigo escripto á noite, e
-passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.
-
-Formulado o veredicto, Franco caiu de rotulas no soalho com estampido,
-como se repentinamente se lhe houvesse estalado ás pernas uma mola.
-
-«Ahi não! aqui, tratante!» gritou o director, indicando a porta do
-salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das
-recreações em dia de chuva, que alargava tres boas portas para o pateo
-central. Aristarcho estava perto da do meio.
-
-De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos
-maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos
-rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas seductoras da
-merenda, ficava ainda o condemnado com um reforçozinho de pena.
-Passando por elle, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe
-os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma
-palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos
-com o arremesso dos unicos recursos da sua posição.
-
-Até que um grande, mais estouvado, fel-o cair contra o portal, ferindo
-a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôz-se a chorar.
-
-Os inspectores fiscalisavam o serviço do pão, prevenindo espertezas
-inconvenientes.
-
-Escaparam-lhes os máus tratos.
-
-As desventuras do pobre rapaz e as minhas proprias haviam-me levado para
-o Franco. Eu me constituira para elle um quasi amigo. Franco era
-silencioso, como arreceiado de todos, tristonho, de uma melancolia
-parente da imbecilidade; tinha accessos refreados de raiva, queixas que
-não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos,
-faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nelle
-a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de
-encher de garranchos paginas e paginas. Esta interminavel escripta
-fizera-lhe callos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia
-elle nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra
-si mesmo.
-
-A principio fugia de mim, resmungando cousas indecifraveis. Depois
-acceitou-me. Mas não excediam as suas confidencias o restrictissimo
-limite de uns grunhidos de aversão, historias de desastres pandegos que
-sabia, ingenuas observações a respeito de assumptos infantis,
-referencias de odio aos superiores.
-
-Uma vez recebeu carta da provincia, uma das poucas que lhe chegavam por
-anno. Depois da leitura percebi que tinha lagrimas nos olhos. O pranto
-era-lhe um acontecimento na physionomia, invariavelmente de uma
-pasmaceira de mascara de arame. Interessei-me por aquelle soffrimento;
-elle deu-me a carta a ler. O pae do Franco era um pobre desembargador
-desterrado nos confins de Matto-Grosso, com oito filhos. Uma carta
-dolorosa. Fôra entregue directamente pelo caixeiro do correspondente,
-escapando á curiosidade do director, que gostava de espiar a
-correspondencia dos alumnos. Falava em vir á côrte no fim do anno, com
-todos os sacrificios, falava em encontrar o filho bom menino, educado,
-estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma
-filha, a mais velha, desapparecera do collegio onde estava, em companhia
-de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada tres ou quatro
-dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas á infeliz no
-interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo
-desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não
-tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação
-demente da vergonha.
-
---Como tem descido Sergio, lastimavam os inspectores, palestrando a
-ordem do dia com o director, é o intimo do Franco.
-
-Ainda que isso não fosse rigorosamente exacto, não foi surpreza para
-mim vêr o excommungado convidar-me para uma extraordinaria empreza á
-noite. «Vingar-me da corja!» murmurava, gargarejando um riso
-incompleto e azedo. Isto á tardinha, depois da gymnastica, no mesmo dia
-do processo da bomba.
-
-Conseguira no lusco-fusco escapar á sala onde o haviam encerrado para a
-tarefa das paginas. E juntos eu e elle, porque eu lhe acceitara o
-convite com uma facilidade que ainda hoje não comprehendo, galgámos um
-canto de muro que havia no pateo e saltámos para o jardim florestal.
-
-Em baixo das arvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro
-acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando
-leve e rapido como uma sombra no ar. En o seguia irresistivelmente, como
-sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o. Franco?
-Aonde ia elle? Chegámos ao capinzal a um de cujos lados extremos ficava
-a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um
-deposito de lixo, onde os jardineiros accumulavam as varreduras da
-chacara, negrejando putrefactas, virando estrume ao tempo.
-
-Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silencio e activamente,
-como para não perder aquelle raro estimulo de vontade que o impellia,
-foi examinando o lixo com o pé.
-
-A um canto, entre tocos de bambú, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e
-como em acção mecanica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e
-outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e proseguimos, o Franco
-adiante, leve e rapido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e
-diffuso na nevoa quasi lucida do campo aberto.
-
-Atravessámos o capinzal quasi sumidos entre as altas bandas de capim
-d'Angola, cuja escura vastidão se constellava de vagalumes e vibrava da
-grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o
-Franco parou e me fez parar, «A minha vingança!» disse entre dentes,
-e me indicou a toalha d'agua do grande tanque. A massa liquida, immovel,
-na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche;
-algumas estrellas repetiam-se na superficie negra com uma nitidez
-perfeita.
-
-Com o mesmo modo atarefado de todo aquelle singular emprehendimento, o
-Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e
-desappareceu da minha vista.
-
-Eu ouvi que elle quebrava as garrafas uma por uma. D'ahi a pouco
-reapparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar
-então com o maior socego ao tanque para todos os lados, aqui, alli,
-dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve
-rumor de mergulho borbulhava á flôr d'agua, abrindo-se em circulos
-concentricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais
-claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro
-semeador.
-
-«A minha vingança!» repetiu-me ainda o Franco. «Para o sangue,
-sangue, accrescentou com o rizinho secco. Amanhã rirei da corja!...
-Trouxe-te aqui para que alguem soubesse que eu me vingo!»
-
-Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe á testa.
-
-O justo terror da aventura, era logar vedado, por aquellas horas, só me
-assaltou quando, a pular o muro do pateo, fui cair entre as mãos do
-Sylvino. Nos apuros da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço,
-como um ladrão em flagrante.
-
-Em presença do director, no escriptorio inquisitorial, improvisei uma
-mentira. Foramos colher sapotis, affirmei, explicando á tremenda
-arguição a estranheza da sortida. O director marcou a pena de oito
-paginas. Franco, que andava com um _deficit_ de vinte pelo menos, teve
-de accrescentar mais estas ao passivo insolvavel. Pela vergonha da
-tentativa de furto e no systema dos castigos moraes, addicionou-se a
-observação supplementar: passariamos, os delinquentes, no outro dia,
-as horas do almoço e do jantar, ao refeitorio, de pé, carregando em
-cada mão quantos sapotis coubessem.
-
-Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrario, estava
-nas condições do meu programma de pequeno martyr _ad majorem gloriam_.
-Ao deixar o escriptorio outra cousa preoccupava-me. Ardia de remorsos;
-tinha cacos de garrafa na consciencia. A armadilha sanguinaria de Franco
-obsedava-me como um delicto meu.
-
-Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes
-para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que
-suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma
-febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes
-atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel
-fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos
-medios.
-
-A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas
-cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás
-escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo
-que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma
-inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de
-arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do
-proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a
-ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e
-o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a
-perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo,
-extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice,
-que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em
-summa, de justa desforra...
-
-Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava
-o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.
-
-Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas
-almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns
-affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a
-expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras
-entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De
-espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do
-peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da
-adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração.
-Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a
-pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de
-vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces,
-vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O
-ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da
-exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um
-sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros
-e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco,
-bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as
-camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.
-
-Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres
-collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios
-vermelhos o caminho!
-
-[Figura 17]
-
-Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia;
-beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não
-passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não
-ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão
-azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me
-comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a
-tosse; prosegui.
-
-Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.
-
-A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A
-escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente
-sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no
-estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos
-angulos do estrado do oratorio. Rezei.
-
-Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração.
-Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas,
-que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus
-directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que,
-não posso dizer como, adormeci.
-
-Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do
-Margal e de uma porção de collegas que miravam. «É somnambulo, é
-somnambulo», explicavam.
-
-Esta saída dispensava-me de dizer a que fôra alli; encampei a
-explicação, concordando. «Que horas são? perguntei. Seis horas,
-responderam. Chegamos agora mesmo do banho.» Tinham os cabellos
-empastados sobre os olhos. «E os cacos?!» gritei espavorido. Examinei
-os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via
-sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente
-banheiro, alojado em um dos commodos baixos do _Atheneu_, pelo motivo de
-ter servido seis vezes a agua da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me
-do céu esta solução de aguas sujas, alcançada pela minha prece.
-Dilatou-se-me a alma em ditoso allivio.
-
-Á minha interjeição explosiva de cacos, os collegas suppuzeram
-tontura de somno. Não assim o inspector, que me chamou a indagar. Nova
-mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de
-máu geito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque.
-Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da
-domesticidade, chamou attenção para o numero dos fragmentos; tão
-extraordinaria era a hypothese da intenção perversa que não pegou.
-
-No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a
-pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança.
-Julgando-se compromettido, concentrava-se na insensibilidade de
-carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma
-trovoada de doestos, a _cafua_, um accrescimo ao _deficit_ permanente da
-divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um
-fiasco de tentativa.
-
-Quanto ao requinte da exposição no refeitorio, mãos cheias de
-sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarcho. Concordara em ficar
-de pé; não era pouco. Franco naturalmente submetteu-se e lá esteve,
-braços abertos, a fazer de fructeira no interesse do systema das
-punições moraes. Tanto melhor para o systema.
-
-Á vista da reluctancia, calculou-se em paginas de escripta quanto
-podiam valer dous punhados de sapotis; reducção difficil, que a
-justiça collegial alcançou mathematicamente, pronunciando uma
-condemnação que me daria que fazer até mais de meia-noite.
-
-Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e
-soffrimento. Foi o repentino prenuncio de proxima refórma no interior
-espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrahir de qualquer
-facto a hermeneutica do determinismo, deu-se immediatamente uma
-occorrencia que ponderou muito na transformação.
-
-De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das
-paginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar.
-Pelas dez e meia, o director, antes de sair para casa, veio vêr-nos.
-«Ainda escrevem... estes peraltas?...» disse-nos de enorme altura, á
-guisa de boas-noites, e desappareceu confiando-nos ao amavel João Numa,
-bacoro, inspector das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o
-João não era diligente. Apenas viu partir Aristarcho, trancou a ultima
-porta do _Atheneu_ e foi dormir.
-
-Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de somno que mal podia
-erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cançaço fui despertado por
-sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra
-a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço
-esquerdo para o banco. Um instante depois estava fóra da sala, de um
-pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.
-
-Ao dia immediato saí da cama como de uma metamorphose. Imaginei,
-generalisando errado, que a contemplação era um mal que o mysticismo
-andava traidoramente a degradar-me: a convivencia facil com o Franco era
-a prova. O _Atheneu_ honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só
-depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeiado, mas suppuz-me
-directamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabellos, eu
-registraria neste ponto um phenomeno de horripilação moral.
-
-Fiquei perplexo.
-
-O triumpho na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade
-vencida era o Franco. Entre os dous extremos repugnantes,
-revelavam-se-me tres amostras typicas á linha do bem viver: Rebello, um
-ancião; Ribas, um angelico; Matta, o corcunda, um policia secreta. Para
-angelico decididamente não tinha geito, estava provado, nem omoplatas
-magras; para ancião, não tinha idade, nem oculos azues, nem máu
-halito; para ser o Matta, faltava-me o justo caracter e a corcova...
-Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarcho? Na
-misanthropia senil dos oculos azues?
-
-Salteou-me nisto, ás avessas, o relampago de Damasco: independencia.
-
-
-
-
-V
-
-
-[Figura 18]
-
-Devo, entretanto, é minha ephemeride religiosa a maior somma de
-gratidão. Suavisou-me com a complacencia divina o periodo de vadiação
-profunda e amollecimento hypnotico com que me pesou a atmosphera do
-_Atheneu_. Toda a perseguição de castigos, sem prejuizo da minha
-delicadeza moral resvalava pelo cilicio da penitencia; eu emergia forte
-das provações. Que tranquillidade, na apathia, ter por fiador a Deus!
-
-Iamos á missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o
-director os visse attentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me
-o espirito para o alto e adherir á abóbada como as decorações
-sagradas, ajustar-se estreitamente nos detalhes da architectura do
-templo como o ouro subtil dos douradores, conservar-se lá em cima,
-ávido ainda de ascensão, ambicioso de céu como a baforada dos
-thuribulos.
-
-Havia accessos communicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu
-não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal
-dominadas por um olhar de Aristarcho, de joelhos á frente do collegio e
-mãos cruzadas sobre o castão do unicornio; como certa vez que um cão
-bregeiro e sem principios, mesmo ao elevar-se a santa Particula, entrou
-e escapou-se com o casquete de um fiel contricto. Eu resistia ao riso.
-
-Cantavamos ao côro em dias solemnes. Melhor organisação vocal
-possuiria o _Orpheon_ do que a minha; mas se cantassem os corações em
-vez dos labios, nenhum hymno evolaria mais largo, mais bello que o meu.
-Traziam-nos agua com assucar num jarro de vidro para molhar as cordas
-vocaes. Eu rejeitava esta doçura terrena.
-
-O _Atheneu_ concorria para o brilhantismo das procissões. Eu me
-embrulhava amplamente na opa, encarnada como os sacrificios, que me
-podia enrolar tres vezes: empunhava uma tocha que me martyrisava os
-dedos com os pingos ardentes de cêra. E lá ia, cobiçando ainda a
-força lombar dos mascates para ter ás costas, eu só, aquelles pesados
-andores; invejando o garbo ao presidente da Philarmonica particular
-_Prazer do Rio Comprido_, que vinha após no prestito, com o estandarte
-S. P. M. P. R. C., e o punho athletico de um equilibrista de perchas
-para levar correcto e rijo os balançados guiões.
-
-Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava
-seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela
-porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus...
-e nós para o _Atheneu_ soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a
-cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella
-alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o
-pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se
-para cima na escalada da Gloria.
-
-Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.
-
-Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo,
-que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha
-momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte,
-da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos,
-medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.
-
-Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a
-bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao
-calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.
-
-Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as
-ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços
-finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira
-em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de
-barba, em caracol, cada um para a sua banda.
-
-Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu
-fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de
-um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A
-proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia
-cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste
-colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia,
-illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros
-de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita,
-sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia
-podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.
-
-Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de
-prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da
-Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno
-como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de
-limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios
-fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos
-caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis
-reprobos.
-
-Li a _Nova Floresta_, de Bernardes. O reverendissimo autor veio retocar a
-obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.
-
-Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa,
-hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!
-
-Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a
-revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das
-ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular
-litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na
-prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o
-resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em
-duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores
-inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado
-dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno
-jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para
-o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção
-sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta
-uma miseria de cinco pães?
-
-Ia-se por esta fórma a exaltação dos meus fervores, quando me achei
-envolvido no episodio dos cacos. A attribulação do remorso reaccendeu
-por um momento a chamma decadente; o resultado da minha supplica nesse
-duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a
-decomposição do meu extase. Eu esqueci a circumstancia com a
-ingratidão facil dos pretendentes servidos. E cheguei á conclusão
-audaz.
-
-Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos seculos
-christãos, consegui ao menos ficar á margem. Ignorante do atheismo,
-limitei-me a voltar o rosto aos phantasmas do eterno. Subi ao
-dormitorio, tirei da gaveta Santa Rosalia, guardei a flôr da ultima
-offerenda, secca, porque a minha pontualidade de culto faiscava já,
-depuz-lhe em despedida um osculo, e, sem mais profanação, fil-a baixar
-á sala de estudo, onde lhe commetti o modesto encargo de marcar as
-paginas de um volume. Estava demittida a minha padroeira!
-
-Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-m'a, e eu lamentei
-apenas perder a lembrança da saudosa prima.
-
-Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações á Virgem. Sem
-os hymnos da manhã, sem o sorriso a côres de Santa Rosalia, restava-me
-o Deus dos novissimos, das communhões sacrilegas, o Deus selvagem do
-Barreto. Positivamente não quiz saber do carrasco; alijei a
-metaphysica como um pesadelo. E me achei de novo sósinho no _Atheneu_;
-sósinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compendio,
-panorama da noite consoladora.
-
-E ainda bem, que voltava da crença pela Via-lactea, como para a crença
-fôra. Retirada honrosa de um desengano.
-
-Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois
-da missa; voltava-se á segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias
-santos de guarda occasionavam saídas de vespera. O commissario dos
-generos e despenseiro insistia com o director afrouxasse mais o systema
-de feriados. Os rapazes precisam passear, gryphava elle, com a liberdade
-de mordomo confidente. Aristarcho replicava com a invenção cordata dos
-generos de terceira, elasticidade insensivel dos orçamentos.
-
-Havia, porém, saídas extraordinarias de premio ou de obsequio.
-
-A cada licção julgada boa, o professor assignava um papelucho
-amarello, _bom ponto_, e entregava ao distincto. Dez premios d'estes
-equivaliam a um cartão impresso, _boa nota_, como dez vezes vinte réis
-em cobre valem um nickel de duzentos. O systema decimal applicava-se
-mais á conquista de um diploma honroso, equivalente a um baralho de dez
-cartões de boa nota. Com tal diploma era o estudante candidato á
-condecoração final de uma medalha, de prata ou de ouro, conforme
-fosse mais ou menos optimo nos diversos superlativos do merecimento
-escolar. Reduzia-se assim a papel o valor pessoal, na _clearing-house_
-da directoria; ou, melhor: adaptava-se a theoria de Fox ao processo das
-recompensas, com todos os riscos de um cambio incerto, sujeito aos
-panicos de banca-rota, sem um criterio de justiça a garantir, sob a
-ostentação do papel-moeda, a realidade de um numerario de bem
-aquilatada virtude.
-
-Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se
-uma saída, e isto era o importante, como nos paizes de más finanças:
-desde que o papel tem curso, de que vale o valor?
-
-Inutil é dizer que me não chegavam nunca as saídas de premio. Tanto
-melhor me sabiam as outras.
-
-Durante a primeira quinzena de collegio, o pensamento de um feriado e
-regresso á familia inebriou-me como a anciedade de um ideal fabuloso.
-Quando tornei a vêr os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma
-resurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado
-pela exuberancia de uma alegria mortal. Surprehendia-me a ventura
-incrivel de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade
-cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclysmo temido
-favorecera o meu tecto. Deus permittira, na largueza prodiga da summa
-bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão
-lembrado tecto e a chaminé tranquilla a fumar o _spleen_ infinito das
-cousas immoveis e elevadas.
-
-Com o tempo habituei-me á feliz probabilidade de achar na mesma os
-prezados lares, e ousei nos momentos da scisma collegial fundamentar
-projectos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha
-ausencia e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de
-abrir e devorar exacta e exclusivamente o que me era mais caro.
-
-Não foram, porém, preoccupações pueris de temor, nem prospectos de
-folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de
-Santa Rosalia.
-
-Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de
-botões dourados, parti do _Atheneu_, grave e mudo como um diplomata a
-caminho da conferencia. Ia effectivamente ruminando a mais séria das
-intenções: affrontar uma entrevista franca com meu pae, descrever-lhe
-corajosamente a minha situação no collegio e obter um auxilio para
-reagir.
-
-Meu pae acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus ultimos
-insuccessos. Ficou admirado e consternado. D'ahi o exito completo da
-minha entrevista.
-
-Dias depois, no collegio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o
-Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas; reconquistei
-a benevolencia de Manlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbitrio
-pretencioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa
-affirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarcho e a opinião ainda
-melhor da cartilha, mas havia uma terceira--a rainha propria, que se
-não era tão boa, tão abalisada como as outras, tinha a vantagem alta
-da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarchista.
-
-D'ahi por diante era fatal o condicio entre a independencia e a
-autoridade. Aristarcho tinha de roer. Em compensação, adeus
-esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolencia
-feliz dos tempos beatos!
-
-Para a campanha da reacção, armazenei uma abastança inextinguivel de
-vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo premios e applausos com
-que se diplomavam os grandes estudantes. Habituado á vida do internato,
-nutria a certeza de conseguir sósinho quanto não podera com o amparo
-de um amigo, nem com a ajuda de Deus. No firme proposito de me não
-fazer exemplar nem me applicar ao cobrejamento de habilidades a que o
-papel de modelo obrigava, estabeleci, comtudo, a razoavel mediocridade
-sem compromissos, de um novo programma.
-
-Poucos premios ganhava dos papeluchos amarellos; era contrapeso
-facilitava aos poucos que me vinham a emancipação bohemia do cisco.
-Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do director.
-Aggravo de desdem que se não perdoaria jamais.
-
-Desenvolveu-se nas alturas uma antipathia por mim, que me lisongeava
-como uma das formas da consideração. Chegava eu assim, por trajecto
-muito differente do que sonhara á desejada personificação moral de
-pequeno homem.
-
-Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o
-chefe, na cortina; Barbalho era o _leader_ abertamente. Eu sorria
-vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma á proa de um
-barco.
-
-Este foi o caracter que mantive, depois de tão varias oscillações.
-Porque parece que ás physionomias do caracter chegamos por tentativas,
-semelhante a um estatuario que amoldasse a carne no proprio rosto,
-segundo a plastica de um ideal; ou porque a individualidade moral a
-manifestar-se, ensaia primeiro o vestuario no sortimento psychologico
-das manifestações possiveis.
-
-Reinavam no _Atheneu_ duas perniciosas influencias que contrabalançavam
-efficazmente o porejamento de doutrina a transudar das paredes, nos
-conceitos de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda mesmo a policia
-das apparições ubiquas e subitaneas do director. Cousa difficil de
-precisar, como a disseminação na sociedade, do principio do mal,
-elemento primario do dualismo theogonico. O _meio_, philosophemos, é um
-ouriço invertido: em vez da explosão divergente dos dardos--uma
-convergencia de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes
-cumpre descobrir o meato de passagem, ou acceitar a lucta desigual da
-epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato.
-
-As maximas, o director, a inspecção dos bedeis, por exemplo, eram tres
-espinhos; as referidas influencias eram mais dous. A mocidade ia
-transigindo do melhor geito com as bicudas imposições das
-circumstancias.
-
-Representavam-se as influencias dissolventes por duas especies de
-encarnação, fundidas em hybridismo de disparate--a da fórma feminina
-personificada em Angela, a canarina, ou antes a camareira de D. Emma, e
-a de um encontro de taboas humildes, conjunctadas ás pressas, por
-força do prosaismo incivil de um episodio da economia organica.
-
-Falavam assim á imaginação, impressões de relance, um olhar banhado
-de lascivia, a tempestade galopante das roupas, em desordem de fuga,
-calculada para effeitos de irritação, um descuido de alças afrouxadas
-ao corpinho, um proposito de poças d'agua em dias de chuva, obrigando a
-saias curtas e canellas núas, ora a uma porta em rapida passagem, ora
-através do parque frondoso; ou ao escriptorio, por motivo de recados de
-D. Emma cuja frequencia desesperava o director; ou sobre o muro da
-natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em duetto de idyllio que
-se espiava; ou em graçola aventurada aos inspectores, que se babavam.
-
-Os grandes pilheriavam; os pequenos, sérios, olhavam como quem aprende.
-
-Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vicio á sombra do
-pinho alcatroado, a penuria do fumo, a mendicidade das fumaças
-concedidas por beneplacito de dedicação, a pontinha do _bird's eye_ de
-bocca em bocca, como o chimarrão do Rio Grande, mordida, salivada,
-saboreada com todo o gosto acre do que se esconde e que é vedado, e a
-lembrança solitaria, devastadora das imagens do mal, distantes,
-inalcançadas, dança de flôres doudas ao vento; a correspondencia
-covarde acolhida num intersticio de traves como em asylo de infima
-miseria; as obscenas leituras, e o alvoroço do receio perpetuo, adubo
-caustico de prazer máu; a vaidade de illudir, a secreta mofa, o
-appetite de cupim pela demolição invisivel do que está constituido, a
-urdidura preoccupada, extenuante de uma tramazinha de hypocrisias
-minimas e complicadas--vivescencia vermicular dos estimulos torpes,
-respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um
-buraco, propaganda obscura da lama.
-
-E diluia-se pelos semblantes a pallidez creme, cavavam-se olhares
-vitreos das regiões do impaludismo endemico.
-
-Soavam-me ainda aos ouvidos as predicas de ascetismo do Barreto. Para
-elle o mal era femea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um
-rabo ao coccyx e criava o Satanaz bilontra, immoral e alegre. A cauda do
-demonio do Barreto era de rendas. Na rua do Ouvidor, faria o
-Satanaz--fanfreluche. Uma cousa horrivel, com dous olhos, destinados á
-perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre,
-que, por signal, é batina, não é saia. O mais não passava de
-pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com
-Satanaz sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dous seios,
-uma pantomima do inferno, faceira e traidora, gracioso e comburente,
-d'onde por descuido e por acaso vae-se desprendendo a humanidade, como
-as cobrinhas pyrotechnicas de Pharaó. O menor descuido, desgraça
-eterna!
-
-Contou-me que o porteiro do seminario em que estivera, para não ser
-despedido, fôra intimado a separar-se da propria irmã. Deus, para vir
-ao mundo, tinha severamente elaborado o mysterio excepcional de uma
-virgindade sem mancha. E, se não fossem as prophecias, que não podiam
-ficar compromettidas, o vehiculo a Conceição, por amor da insexual
-pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda
-mais respeitavel pela calva.
-
-A theologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar
-quanta imagem de sorriso viesse pousar-me á idéa. Virando a pagina dos
-fervores, a theoria ficou-me de resto, do Satanaz feminino. Com a pureza
-a mais, natural da idade, ia zombando de Angela e pompas adjacentes.
-Fechado o peito como a paz de Jano, e exteriormente a vaidade me
-amparava.
-
-Para me prevenir ainda mais, veio uma occorrencia provar pelo facto que
-o Barreto tinha razão acerca da influencia feminina; uma occorrencia
-que ensanguentou os annaes do estabelecimento, entristecendo o director,
-embora a final se lhe tornasse agradavel pelo muito que fez falar do
-_Atheneu_.
-
-Tinhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação, que
-precedia a hora da gymnastica. Das bandas da copa, ordinariamente
-socegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.
-
-O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor de lucta, o
-estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de soccorro; mais gritos; a
-voz de Aristarcho aguda, dando ordens como em combate. Estavamos
-attonitos.
-
-De repente vimos assomar á porta, que dominava o pateo sobre a escada
-de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou a
-todos. O homem precipitou-se em dous pulos para o recreio. Trazia um
-ferro na mão gottejando vermelho, uma faca de lamina estreita ou um
-punhal.
-
-«Matou! matou! gritavam da copa; pega o assassino!»
-
-Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa,
-gordinho, livido e tremulo, ao descer a escada, rolou, partindo os
-oculos na pedra.
-
-Aristarcho, a uma janella, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao
-peitoril, desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da
-faca. Os inspectores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como
-loucos.
-
-Inesperadamente reapparece o Sylvino, muito branco, com as suissas mais
-pretas, pelo contraste do medo:
-
-«Esperem! esperem! dizia convulso, como quem traz na algibeira um
-expediente salvador. Esperem!»
-
-Exactamente no meio do pateo abriu as immensas pernas de Rhodes magro, e
-levou á bocca um apito.
-
-Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois de
-dous chilros falhos.
-
-Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem da
-faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se a uma
-parede, «Deixem-me passar, que mato mais um,» rosnava, com a
-physionomia faiscante, «Caminho para mim!» repetia, agitando o ferro
-num fremito de cascaveis.
-
-Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente
-cerco.
-
-«Abre!» rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto de fera,
-arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.
-
-Com a milagrosa destreza do instincto de conservação, cada um
-safou-se como pôde: o perseguido passou como um tiro. «Fugiu!»
-clamavam de todos os lados.
-
-Quando o vimos cair de bruços.
-
-Alguem se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o com
-o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por
-terra.
-
-Era o Bento Alves!... Com uma das mãos, o bravo collega opprimia a cara
-ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por um
-prodigio de vigor, immobilisava-lhe o braço armado. Com o esquerdo
-livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o a pressão de
-um monolitho.
-
-Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversario,
-coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.
-
-De toda parte, acclamavam-no heróe. Á janella, de longe, Aristarcho,
-enthusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de
-vento, sem conseguir dar voz á emoção.
-
-Bento Alves retirou-se com a faca em trophéu, deixando o criminoso sob
-uma pilha de valentes da ultima hora e criados que o suffocavam.
-
-Quando o pobre diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil
-maneiras por cintas de couro, como as mumias no envoltorio de tiras,
-acercou-se d'elle o Sylyino e o aggrediu covardemente com um sermão de
-moral.
-
-Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o
-collegio inteiro o sabia.
-
-O homem da faca era um dos jardineiros do _Atheneu_. Durante o jantar
-enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarcho e o matara.
-Havia algum tempo que disputavam os dous a primazia no coração de
-Angela; uma terrivel pendencia. O criado de Aristarcho julgava-se na
-legitima posse d'esse escrinio de affectos, pela convivencia ao lado da
-bella, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as
-mãos se confundiam como as louças ou na sociedade affectuosa do
-serviço dos aposentos do director e da senhora, permutando entre si
-dichotes assucarados, á flagellação dos tapetes.
-
-O jardineiro, patricio da camareira, dava por si a razão de
-nacionalidade, o facto de haverem chegado á America na mesma turma de
-immigrantes e uma autoação completa de juramentos idoneos da
-seductora.
-
-Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatara; cortam-se. O
-jardineiro cortou. Por mór azedume da situação, dizem que Angela de
-parte a parte estimulava os adversarios declarando a cada um por sua vez
-preferil-o exclusivamente.
-
-Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a victima o objecto das
-attenções.
-
-Era este um rapagão de trinta annos, pardo e sympathico. O assassino
-era mais escuro, especie de andaluz de touradas, baixo, solido, grosso
-como um cepo de açougue.
-
-Apenas desappareceu o criminoso, o collegio inteiro assaltou a escada,
-desejosos de vêr o assassinado. Á porta do refeitorio, porém,
-Aristarcho despachou: «não têm que ver!» Ao mesmo tempo a sineta
-importuna badalava chamando á forma. O professor Bataillard, de branco,
-no cinturão vermelho, appareceu ao lado do director. Os rapazes
-morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dous superiores mais
-odiados.
-
-Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes
-acharam meio de se esgueirar até á copa, e eu tambem com elles.
-
-Desde muito, andava querendo ver um cadaver, espectaculo real, de mãos
-contrahidas, revirados beiços. As carias iconographicas de parede
-deixavam-me impassivel, com as estampas theoricas de cerebros a
-descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas,
-mostrando visceras, figuras humanas de pé, descançando a um quadril,
-movendo a supinação num geito de complacencia passiva, esfolados para
-que lhes vissemos as veias, modelos vivos da sciencia em pose de
-supplicio, constancias de brahmane, como á espera que houvéssemos
-aprendido de cór a circumvolução do sangue, para vestir de novo a
-pelle e os musculos deslocados. Não me bastava.
-
-Nos grandes armarios havia melhor: peças anatomicas de massa, sangrando
-verniz vermelho, legitima hemorrhagia; corações enormes, latejantes,
-humidos á vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de
-cyclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida
-solitaria e inutil da visão; mas olhos que se abriam como fôrmas de
-projectis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo.
-
-Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado,
-simples carinha amarellenta, sombreada de azul em nodoas dispersas, em
-mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flôres a immobilidade do
-ultimo somno. Vira ainda uma velha, na eça elevada, uma opulenta velha
-que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de
-cêra côr de mel, inconsolaveis, espichando compridas chammas, que
-pareciam subir ao tecto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os
-dous pés para dentro, em botinas de panno; e o nariz pronunciando-se
-sob o lenço de rendas.
-
-[Figura 19]
-
-Isto não era ter visto cadaver. Eu queria o cadaver flagrante, despido
-dos artificios de armação e religiosidade, que fazem do defunto
-simples pretexto para um cerimonial de apparato. O que me convinha era o
-galho por terra, ao capricho da quéda, decepado da arvore da
-existencia, tal qual.
-
-O cadaver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço
-dramatico do sangue e do crime, como nos theatros.
-
-Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes,
-abalando-me certo modo de agradavel pavor. A cozinha do _Atheneu_, além
-dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Ás paredes
-scintillava o trem completo de cobre areiado, em linha as peças
-redondas como uma galeria de broqueis. No centro uma comprida mesa
-servia de refeitorio á criadagem.
-
-Naquella occasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas
-pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a
-autoridade e tratava de remover o morto. Aquella gente toda devia ser,
-de costas, a autoridade policial, feição do poder publico que eu não
-discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o
-cadaver sobre uma esteira de sangue.
-
-Guardava ainda a contorsão esquerda da agonia; á bocca fervia-lhe um
-crivo de espuma rosada; trajava collete fechado, calças de casimira
-grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe inteiramente
-abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.
-
-Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dous sujeitos com uma
-rêde. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rêde o
-levaram.
-
-Impressionou-me para sempre o desfallecimento flacido dos membros,
-quando levantaram o cadaver, a molleza da cabeça, rodando nos hombros,
-com um movimento proprio dos que padecem intoleravel angustia, e um
-choque subito para traz que me gelou o sangue, empinando-se o queixo e o
-nó da garganta, rasgando-se a bocca, brusco, como se o ferido vomitasse
-um resto tenaz da vida.
-
-Após a rêde, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei.
-Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguem, passando,
-afagou-me os cabellos: era Angela!
-
---_Morió_, disse, indicando o sangue, arregalando as sobrancelhas, e
-desappareceu com o andar de bamboleio.
-
-Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para
-o demonio culpado de tão horrivel incidente fui de uma benevolencia tal
-de opinião que me nasceram remorsos.
-
-Angela tinha cerca de vinte annos; parecia mais velha pelo
-desenvolvimento das proporções. Grande, carnudo, sanguinea e fogosa,
-era um d'esses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados
-expressamente para esposas da multidão--protestos revolucionarios
-contra o monopolio do thalamo.
-
-Atirada de modos, como o dithyrambo do amor ephemero; vasia como as
-estatuas ôccas; sem sentimentos, material e estupida, possuia,
-entretanto, um segredo satanico de graduar os largos olhos de sepia e
-ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face uma
-alma de superficie, possante, capaz dos altos martyrios da ternura e de
-interpretar os poemas tragicos da dedicação.
-
-Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo de alvura,
-braços perfeitos de princeza, que davam que pensar ao espanador humilde
-no serviço da manhã. Exposta ás soalheiras, revestira-se a côr
-branca do rosto de um moreno calido, tom fugitivo de magnolias fanadas,
-invulneravel aos rigores de ar livre, como deve ter sido outr'ora a
-epiderme do Ceres. Ferissem-lhe a tez os dardos corrosivos da
-insolação, vinha-lhe apenas ao rosto um rubor mais bello, e não lhe
-tirava mais o sol á mocidade da carne do que á propria terra, sob a
-calcinação dos ardores; uma primavera de rosas.
-
-Consciente da formosura, Angela abusava.
-
-[Figura 20]
-
-E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava em ar
-de seriedade os labios humidos; as palpebras, de longas pestanas,
-baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetravel do pudor.
-Convidava á adoração colhendo aos hombros o manto da candura,
-refugiando-se na indifferença hieratica das vestaes. Depois, uma
-pontinha de ingenuo sorrir, olhos fechados ainda; gradação de
-infantilidade que substituia á vestal uma criança esquiva e timida,
-rindo, voltando a cara. Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance,
-uma temeridade de noiva possivel, nada mais, volvendo ao retrahimento
-scismador. Depois, a contemplação confiada; romance inteiro, linha por
-linha, de uma virgindade. Até que subito, meu castissimo Barreto!
-aquella virtude, aquella meiguice, aquella esquiva candura, aquella
-nubilidade melancolica, aquella physionomia honesta, pesarosa talvez de
-ser amavel, fendia-se em dous batentes de porta magica e rodava em
-explosão o sabbath das lascivias.
-
-Os olhos riam, distillando uma lagrima de desejo; as narinas offegavam,
-adejavam tremulas por intervallos, com a vivacidade espasmodica do amor
-das aves; os labios, animados de convulsões tetanicas, balbuciavam
-desafios, promettendo submissão de cadella e a doçura dos sonhos
-orientaes. Dominava então pela offerta abusiva, de repente; abatia-se
-á derradeira humiliação, para attrahir de baixo, como as vertigens.
-Alli estava, por terra, a prostituição da vestal, o hymeneu da
-donzella, a deturpação da innocente, tres servilismos reclamando um
-dono; appetite, appetite para esta orgia rara sem convivas!
-
-Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos,
-sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se á
-concorrencia. Havia lugar para todos á sombra dos cabellos castanhos
-que lhe podiam vestir as copiosas fórmas, fartos, perpetuamente seccos,
-que ella sacudia a correr como uma poeira de feno.
-
-Aquelle modo do olhar, passando, de Angela, clarificou-me a imaginação
-das sombras de terror em que me enleiara o alvoroço do acontecimento da
-tarde e a vista horrivel do cadaver.
-
-Depois da façanha, Bento Alves, o heróe, sumiu-se; commentavam-lhe de
-mais a bravura. Nem aos exercicios do campo compareceu.
-
-Bento Alves era um mysterioso. Mysteriosos são no collegio os que não
-andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas expansões.
-Frequentava as aulas superiores; sem que fosse um estudante de rumuroso
-merito, fazia-se respeitar dos mestres e condiscipulos. Sisudo como
-certos rapazes de intelligencia menor que se arreceiam do ridiculo, não
-sómente pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no
-principalmente pela nomeada de herculeo. Os fortes constituem realmente
-uma fidalguia de privilegios no internato. No tumulto da existencia em
-commum, fundem-se as distincções de classe na democracia do
-colleguismo; as cambiantes de fortuna apagam-se no figurino geral das
-blusas pardas. Os titulos de superioridade prevalecem primitivamente
-no criterio semi-barbaro dos verdes annos; o punho valido chega a fazer
-vantagem sobre a propria vantagem do favoritismo.
-
-Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso,
-proferia exercitar-se á gymnastica sem espectadores. Ás vezes, por
-brinquedo, cingia o braço, a um collega entre o pollegar e o médio e
-fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aquelles que se
-sujeitavam ao formidavel ensaio de tatuagem por compressão,
-acercavam-se, d'ahi por diante, de Bento Alves com os escrupulos da mais
-reservada prudencia.
-
-Entretanto era molle, da preguiça monumental dos animaes pujantes.
-Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu
-socego; desviava os incommodos da convivencia distribuida, transbordante
-dos _estimados_. Não se falava d'elle no _Atheneu_. Limitavam-se a
-temel-o em silencio.
-
-Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade, teve de
-vêr-se heróe á força. Um desespero. Se algum companheiro caía na
-tolice de dizer-lhe alguma cousa relativamente ao crime do jardineiro,
-Bento Alves rasgava a conversa com um monosyllabo de impaciencia,
-encrespando-se como um javali. Apezar de tudo foi o pobre modesto
-percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.
-
-Felizmente o barulho da entrada para o Atheneu de um moço celebre veio
-modificar a odiosa voga.
-
-Acabava de matricular-se Nearcho da Fonseca, pernambucano de illustre
-estirpe.
-
-Apresentou-se com o pae, vulto politico em galarim no tempo. Era um
-mancebo de dezesete annos, rosto cavado, cabellos abundantes, de talento
-não commum, olhar vivo, moroso de importancia, nariz adunco, avançado,
-secco, quasi translucido como um nariz de vidro. Franzino como a infancia
-desvalida, magro como uma prelecção de osteologia, surprehendeu-nos,
-entre outras, uma recommendação a seu respeito, pelo proprio director
-ás barbas do pae:--Nearcho da Fonseca era um grande gymnasta!
-
-Talentoso que fosse, concebiamos, se por nada mais, ao menos pela
-cabelleira... Mas um gymnasta aquelle espectro da necessidade!
-
-A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós esperamos por uma
-exhibição comprobante.
-
-Abalou-se a tribu dos acrobatas, dos athletas; toda a rapaziada de brio,
-o Luiz á frente, que localisava na protuberancia nodosa do biceps o
-pundonor supremo da creatura, preparou na mais vasta admiração um
-aposento consideravel para acolher o confrade.
-
-Formados trezentos, á tarde, diante dos apparelhos, foi em movimento de
-avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia,
-convidar a exhibir-se o grande Nearcho.
-
-Estava presente o director; estava presente o respeitavel progenitor de
-Blondin. O _Atheneu_ olhava.
-
-Nearcho deixou a fórma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, segundo a
-regra, mãos á ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o
-trapezio com o passo medido das emas, imperturbavel como quem sabe
-profundamente a technica do marchar. Perto do apparelho, sempre de mãos
-á cinta, volta a volver! virou-se para o collegio, teso, e quebrou para
-nós um duro salamalek, conservando por segundos a effracção angular
-das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria
-historica do Egypto.
-
-Assumptavamos anciosos.
-
-Depois do comprimento, Nearcho empunhou a barra do trapezio, pollegar
-para baixo, segundo a pragmatica das posições. E fez uma flexão. Ah!
-não sabeis, profanos que sois, quanto vale a flexão dos membros
-superiores! A formula no mundo ideal da mecanica é a alavanca de
-Archimedes; da applicação pratica e contundente é o murro britannico.
-Constate nisto: encolher as munhecas.
-
-Nearcho fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma vira-volta, e
-Nearcho ao trapezio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo
-circumstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearcho arranjou
-mais umas phantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente
-os principios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos,
-suando, com um sorriso triumphal.
-
-Faltava a sorte do fim. Nearcho espichou quanto pôde a lamentavel
-ausencia de musculos e deu-nos... uma _sereia_! A sereia é tudo que ha
-de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em materia
-do apparelhos. O sujeito segura-se ás cordas, levanta os pés da barra,
-mette os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O
-pobre Nearcho, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.
-
-Não empurrou cousa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam á
-altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.
-
-Estava exhibido o acrobata! Nós olhavamos uns para os outros,
-bestificados, em compostura abatida de caras-d'asnos. Aristarcho
-percebeu e reprehendou-nos com o sobrecenho. Nós comprehendemos
-delicadamente: estava alli o respeitavel pae de um collega...
-
-Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabaveis, percorreu as
-fileiras com a electricidade communicativa das acclamações.
-
-Nearcho, altivo, agradeceu com o nariz.
-
-
-
-
-VI
-
-
-O futuro tinha reservado para Nearcho um feixe de melhores palmas, uma
-galhada de louros mais legitimos como tempero de victoria.
-
-O _Gremio Litterario Amor ao Saber_, instituição recente, seria o
-verdadeiro theatro dos seus soberbos alcances.
-
-Duas vezes ao mez congregavam-se os amigos das letras, numa das salas
-de cima; a mesma das licções astronomicas de Aristarcho. Havia ainda
-para illuminar as sessões pedaços de materia cosmica pelos cantos,
-esfrangalhada pela analyse do mestre. Não quer dizer que merecesse as
-eternas luminarias da ironia a benemerita associação.
-
-As suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que
-simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos
-estatutos: podiam os alumnos, todos do _Atheneu_, em silencio humilde,
-mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das litteraturas.
-
-Assistente infallivel, saía cheio com a rhetorica espigada, que ia
-espalmar, prensando no diccionario, conservas de espirito, reliquia
-inapreciavel do Bello.
-
-A difficuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilegio
-de gremista, fazia-me mais a fundo veneral-o.
-
-Nearcho não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento
-muito adiantado. Foi immediatamente proposto, acceito e empossado. Á
-primeira sessão, depois do triumpho ao trapezio, tive occasião de
-aprecial-o á gymnastica do verbo.
-
-Debatia-se este problema, dos inesgotaveis das aggremiações
-congeneres: Quem foi maior, Alexandre ou Cesar? indagação historica
-difficil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.
-
-Nearcho arranjou a cousa a olho e distinguiu-se com a esperada
-galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluencia que lhe angariava
-para sempre o epitheto de facundo. Juxtapôz com o primor de um
-varegista de fazendas--Cesar sobre Alexandre Cesar protestou contra a
-maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artistica; além d'isso
-espetava-o a armadura de Alexandre. Aquillo faria rir a Pompeu no
-armario das legendas e a maledicencia do senado, compromettendo-se a
-seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearcho manteve-o
-inexoravelmente durante o percurso do parallelo critico. Cesar não
-podia contar com os legionarios do bom tempo; alli esteve a fazer
-caretas na sujeição inerme, _anima vilis_ dos documentos. Alexandre,
-que afóra o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais
-paciencia, deixando-se medir até á peroração, com a boa vontade de
-um defunto. Venceu com effeito. Nearcho proclamou-o magno dos magnos,
-diversas pollegadas maior que o temerario do Rubicon.
-
-O _Gremio_ esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo
-mais quem falasse. Tambem havia cinco sessões que eram os pobres
-guerreiros tratados a metro.
-
-Por este memoravel dia arvorou-se Nearcho em notabilidade firmada.
-Esqueceram todos que elle fôra matriculado sob o quasi compromisso de
-não dar um passo que não fosse um salto mortal, não descançar senão
-de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter
-outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da
-percorrida fama. Ficou em olvido a estréa acrobatica. _O Gremio Amor ao
-Saber_ tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.
-
-Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas,
-criticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu orgão, _O Gremio_,
-impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos á vontade os socios
-quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorarios.
-
-Entre os honorarios figurava Aristarcho, presidente, collaborando sempre
-no periodico com a transcripção em avulso das maximas de parede, e
-mandando sempre para a quarta pagina um annuncio garrafal do _Atheneu_,
-que pagava para auxiliar á empreza. Na interessante publicação
-appareciam quadrinhas mysticas do Ribas e sonetos lubricos do Sanches.
-Barreto publicava meditações, especie de _harpa do crente_ em prosa
-arrebentada.
-
-O rodapé-romance era uma imitação d'_O Guarany_, emplumada de
-vocabulos indigenas e assignada--_Aimbiré_.
-
-Nearcho atirou-se á especialidade dos parallelos. Começou logo por
-dous de pancada: Scylla e Mario, Tito e Nero. No expediente promettia-se
-um terceiro curiosissimo: Plutarcho e os beocios.
-
-Esta quéda para as linhas equidistantes, talento aliás de carril
-urbano e annexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o
-extraordinario rapaz.
-
-A eloquencia representava-se no _Gremio_ por uma porção de categorias.
-Cicero tragedia--voz cavernosa, gestos de punhal, que parece clamar de
-dentro do tumulo, que arrepia os cabellos ao auditorio, franzindo com
-fereza o sobr'olho, que, se a rhetorica fosse susceptivel de
-assignatura, accrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: _a mão
-do finado_; Cicero modestia--formulando excellentes cousas,
-atrapalhadamente, no embaraço de um perpetuo _début_, desculpando-se
-muito em todos os exordios e ainda mais em todas as confirmações,
-lagrimas na voz, difficuldade no modo, selecto e engasgado; Cicero
-circumspecção--enunciando-se por phrases cortadas como quem encarreira
-tijolos, homem da regra e da legalidade, calcando os _que_ e os _cujo_,
-longo, demorado, caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que
-realmente é, amigo dos periodos quadrados e vasios como caixões,
-attenuando mais em cada conceito a attenuante do conceito anterior,
-conservador e ultramontano, porque as cousas estabelecidas dispensam de
-pensar, apologista ferrenho de Quintiliano, retardando com intervallos o
-discurso impossivel para provar que divide bem a sua elocução, com
-todos os requisitos da oratoria, pureza, clareza, correcção,
-precisão, menos uma cousa--a idéa; Cicero tempestade--verborrhagico,
-por páus e por pedras, precipitando-se pela fluencia como escadas
-abaixo, accumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno,
-annullando o effeito de assombroso destampatorio pelo assombro do
-destampatorio seguinte, eloquencia suada, offegante, desgrenhada,
-ensurdecedora, pontuada a murros como uma scena de pugilato; Cicero
-franqueza--positivo, indispensavel para o encerramento das discussões,
-dizendo a cousa em duas palavras, em geral grosseiro e mal falante,
-prompto para offerecer ao adversario o encontro em qualquer terreno,
-especie perigosa nas assembléas; Cicero sacerdocio--sacerdotal,
-solemne, orando em tremolo, alçando a testa como uma mitra, pedindo uma
-cathedral para cada proposição, calçando aos pés dous pulpitos em
-vez de sapatos, especie venerada e acatada.
-
-[Figura 21]
-
-Nearcho introduziu o typo ausente do Cicero penetração--incisivo,
-fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha á altura da cara e o
-indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da
-outra mão o logar de cada cousa que diz, mesmo que se não perceba,
-pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vasar
-os olhos ao publico com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em
-frouxos de compaixão pela desgraça de nos não comprehendermos, porcos
-e perolas.
-
-O gesto incisivo, mais a facundia desimpedida, mais o talento historico
-dos parallelos, consagrou a primazia do gremista.
-
-O presidente effectivo da sociedade era o Dr. Claudio, professor da
-casa, homem de capacidade, benevolo para os desgarros de tolice da
-juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que
-faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constancia do chefe era o
-grande elemento de prosperidade do _Amor ao Saber_. O Dr. Claudio
-conduzia os trabalhos com verdadeira pericia de automedonte,
-esclarecia os embroglios, forjava adjectivos de encomio que ia dando a
-cada um por sua vez e a todos os estimáveis consocios, propunha algumas
-theses e achava graça em outras. Nas sessões solemnes pronunciava o
-discurso official.
-
-A maior utilidade do _Gremio_ para mim era a bibliotheca. Uma
-collecção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados
-pela vigilancia cerberesca do Bento Alves, bibliothecario, eleito de
-voto unanime.
-
-Alves era da associação, como quasi todos os alumnos do curso
-superior. Filiava-se ao grupo sympathico dos silenciosos, usufruindo os
-lucros da circumstancia de não ser do regimento a taramela obrigatoria.
-Fóra da bibliotheca, os seus serviços aos intuitos do _Gremio_
-resumiam-se no _apoiado_! consciencioso e firme, á disposição sempre
-da melhor idéa, em questões elevadas, e do mais sabio alvitre em
-questões de ordem.
-
-Alguns rapazes, não do _Gremio_ e que não houvessem, nas letras,
-manifestado grammaticalmente notavel geito para a conjugação
-subrepticia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de
-ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas paginas
-impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo
-da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-pôe das pennas de aço e das
-carrapetas, nem o correr á panellinha das bolas de vidro espiraladas de
-côres, fez-se-me a bibliotheca a recreação habitual.
-
-Esta frequencia angariou-me dous amigos, dous saudosos amigos--Bento
-Alves e Julio Verne.
-
-Ao famoso contador do _Tour du monde_ devo uma multidão numerosa dos
-amaveis phantasmas da primeira imaginação, excentricos como Fogg,
-Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab,
-nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina Barnett, attrahentes como
-Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente,
-luminosa como a neblina dos sonhos, o lendario Nemo da ilha Mysteriosa,
-taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um
-cataclysma lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassallo, seu
-cumplice, seu dominio, patria sombria do expatriado.
-
-Possuia minha litteratura completa de thesouros de meninos, contos de
-Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de
-Simão de Nantua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as
-vacillações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema,
-vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, especie de Pascal de
-mammadeira entre Liliput e Brobdignak; chegara á perfeição de duvidar
-das emprezas de Munchausen. Isto tudo sem falar nos _Lusiadas_ do
-Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilheria do Bertholdo e no
-_Testamento do Gallo_, symbolo aliás muito philosophico da odiosidade
-das successões, que por ventura do herdeiro autorisa o destripamento do
-gallinaceo como a tortura shakspereana de Lear.
-
-Julio Verne foi festejado como uma migração do novidade. Onde quer que
-me levasse o _Forward_ ou o _Duncan_, o _Nautilus_ ou o balão
-_Victoria_, a columbiada da Florida ou cryptogramma de Saknussen, lá ia
-eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como os tres dias de
-Colombo antes da America, respirando no cheiro das encadernações as
-variantes climatericas da leitura, desde as areias africanas até aos
-campos de crystal do Arctico, desde os grandes frios sideraes até a
-aventura do Stromboli.
-
-A amizade do Bento Alves por mim e a que nutri por elle, me faz pensar
-que, mesmo sem o caracter de abatimento que tanto indignava ao Rebello,
-certa effeminação pode existir como um periodo de constituição
-moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque
-me podia valer; porque me respeitava, quasi timido, como se não tivesse
-animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse d'elle os meus
-olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de
-educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquella timidez, em vez
-de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra
-escaldos de agua fria. Interessante é que vago elemento de
-materialidade havia nesta affeição de criança, tal qual se nota era
-amor, prazer do contacto fortuito, de um aperto de mãos, da emanação
-da roupa, como se absorvessemos um pouco do objecto sympathico.
-
-Na bibliotheca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me
-podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e offerecia ao
-_Gremio_, para dispensar-se de m'as dar directamente. No recreio não
-andavamos juntos; mas eu via de longe o amigo, attento, seguindo-me o
-seu colhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o
-pescoço a quem pensasse apenas em me offender; seu irmão adoptivo!
-confirmava.
-
-[Figura 22]
-
-Eu, que desde muito assumira entre os collegas um bello ar de impavida
-altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão
-voluntaria, como se fosse artificial a bravura, á maneira da conhecida
-petulancia feminina.
-
-A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da
-represalia de Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicencia,
-digna d'elles.
-
-Ás vezes na bibliotheca, emquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado
-da mesa central de panno verde, com a mão á fronte e os dedos
-mergulhados nos cabellos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista,
-comprehendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquella
-contemplação traduzia o horror do ridiculo, proverbial em Bento Alves,
-manietando-lhe rijamente uma demonstração effusiva. Não fosse a
-critica uma creatura do tempo, eu poderia achar comica a situação dos
-personagens d'esta scena de platonismo. Não havendo a critica para
-falsear a psychologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como
-o pobre amigo. Ás vezes vinha-lhe á palpebra uma lagrima sem origem.
-
-No movimento geral da existencia do internato, desvelava-se
-caprichosamente; sabia ser de modo inexprimivel, fraternal, paternal,
-quasi digo amante, tanta era a minudencia dos seus cuidados. Não havia
-regalo, d'essas mesquinhas cousas de preço enorme na carestia perpetua
-da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito,
-desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. Á conversa,
-falava da familia no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava
-d'ellas, do tempo passado que não as via, muito claras, de bellos
-olhos, uma de quinze annos, outra de doze; elle tinha dezoito. Falava de
-cuidados hygienicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito
-perto das janellas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em
-tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções
-solidas de sua conformação para reduzir-se á exiguidade balbuciante
-de uma carcassazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e
-apenas, pela febre do ultimo alento, pela necessidade de carregar ainda
-alguns dias um coração, um affecto.
-
-Os estatutos do _Gremio_ marcavam duas occasiões de solemnidade: as
-festas annuaes de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além
-d'estas, as sessões commemorativas que a casa resolvesse.
-
-Para as festas litterarias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande
-estrado, tres mesas que se alinhavam para a directoria, sob um rico
-panno côr de vinho, de ramagens negras, que lembravam tinteiros
-entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente appellidada
-_caranguejola_.
-
-[Figura 23]
-
-Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada
-solavanco, contra o caracter de movel que lhe queriam á força
-impingir, fazia figura em todas as salas do _Atheneu_, conforme as
-exigencias da rhetorica. Localisada a conferencia, a prelecção, a
-pratica solemne, abalava-se a misera e punha-se em caminho, aos
-encontrões, seguindo o fadario de mostrador ambulante de eloquencia.
-Nestas circumstancias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro
-prognostico. Em se movendo a caranguejola, discurseira imminente. Teve
-um dia de razoavel orgulho: d'ella serviu-se no _Atheneu_ o professor
-Hartt, para uma conferencia de anthropologia.
-
-Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquillo significava a
-installação do _Amor ao Saber_, congregou-se o _Atheneu_, unificado no
-mesmo impulso de enthusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem
-o cerimonial das topadas. Despedimos os criados, tomámol-a nós aos
-hombros; levámol-a em ovação.
-
-A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.
-
-Encheu-se de bancos e cadeiras austriacas o vastissimo salão. Ao
-centro, em frente, a mesa da directoria; á esquerda, os convidados; á
-direita, os outros alumnos, o resto, como sé diz das maiorias sem voz
-activa.
-
-Sobre o panno avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretario;
-sobre a tribuna scintillava crystallino o copo das urgencias instantes.
-
-Poucos oradores. Aristarcho, presidente honorario, abriu a sessão com a
-chave do peregrino verbo, recommendando a nova associação como um
-tentamen honroso e de muito fructo para os moços applicados, que teriam
-ensejo de se dar ao cultivo da oratoria e das bellas letras.
-
-Subiu em seguida á tribuna o presidente effectivo.
-
-Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Claudio a critica geral da
-litteratura brasileira: a galhofa de Gregorio de Mattos e Antonio José,
-a epopéa de Durão, o idyllio da escola mineira, a uncção de Sousa
-Caldas e S. Carlos, a influencia de Magalhães, os ensaios do romance
-nacional, a gloria de Gonçalves Dias e José de Alencar.
-
-E passou a estudar a actualidade.
-
-O auditorio que escutava, interessado, mas tranquillo, começou a
-agitar-se.
-
-O orador representava a nação como um charco de vinte provincias
-estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indifferença. Os
-germens da vida perdem-se na vasa profunda; á superficie de coagulos de
-putrefacção, borbulha, espaçadamente, o halito mephitico do miasma,
-fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporisação da
-morte. Os passaros calados fogem; as poucas arvores proximas no ar
-parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo,
-que parece crescer, descendo,--prosperidade melancolica de salgueiros. O
-horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz obliqua, reptil, que
-resvalam, espelhando fachas parallelas, immoveis, sobre o dormir da
-lama.
-
-Por entre os raros canniços, emergem olhos de sapo, meditando a
-vantagem d'aquella paz sombria, indolencia negra, em que chega a ser
-vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em
-busca da femea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de
-suprema dôr nas sociedades que soffrem. Entre nós, a alegria é um
-cadaver. Ao menos se soffressemos... A condição da alma é a
-prostração comatosa de uma inercia morbida. Quem nos dera a tonicidade
-lethal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o
-dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse
-manjar o craneo de Rogerio, ao menos teriamos a tragedia... Nada! A
-condição é o descanço ininterrupto do anniquilamento no plano
-infinito da monotonia. E não é o tecto de braza dos estios tropicaes
-que nos opprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material!
-Que irradiação de escapadas para o pensamento a direcção dos nossos
-astros! O pantano das almas é a fabrica immensa de um grande
-emprezario, organisação de artificio, tão longamente elaborada, que
-dir-se-ia o empenho madreporico de muitos seculos, dissorrando em vez de
-construir. É a obra moralisadora de um reinado longo, é o
-transvasamento de um caracter, alagando a perder de vista a superficie
-moral de um imperio--o desmancho nauseabundo, esplanado, da tyrannia
-molle de um tyranno de sebo!...
-
-Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pae de um
-alumno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não
-sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de
-causas religiosas, conservador em summa, enraivado e militante. O sebo
-da tyrannia caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.
-
-«Protesto!» rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo
-o punho. Não podia admittir que viessem á sua vista ensebar as
-instituições! Por maior desgraça estava tambem presente o Senador
-Rubim, avô de outro alumno, senador de máus bofes, um pae da patria
-padrasto, sem considerações nem papas na lingua.
-
-«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao
-apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.
-
---Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da injuria,
-nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o encarava.
-Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um senador e um
-velho!...
-
---Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho
-enfastiado de insulto. Burro, sim!...
-
-Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos
-idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em
-vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela
-anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam
-de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos
-voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia
-mãos pelo ar que pediam espadas.
-
-Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos
-ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do
-seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á
-polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez
-heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.
-
-Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.
-
-Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu
-sobre o tumulto o badalo da ordem.
-
-O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta,
-esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor
-dos improperios:
-
-«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em
-soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente
-conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora
-sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou
-os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da
-viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o
-panorama.
-
-Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade
-profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho
-do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras,
-dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do
-escandalo collossal do sebo.
-
-A segunda sessão solemne do gremio, comquanto mais pacifica, não foi
-menos importante.
-
-Realisou-se em principios de Outubro, pelas immediações das férias. A
-concorrencia foi maior, compareceram senhoras em grande numero, o que
-não succedera na de installação; houve mais capricho de ornatos na
-sala; forrou-se a tribuna de verde e amarello; inscreveram-se os mais
-aproveitados campeões da oratoria do _Amor ao Saber_. O collegio
-compareceu fardado; a directoria, de casaca.
-
-A conferencia do Dr. Claudio foi subversiva, mas em sentido diverso da
-primeira. Versou não mais sobre a litteratura no Brasil, porém sobre a
-arte em geral:
-
-
-Arte, esthetica, esthesia é a educação do instincto sexual.
-
-A manutenção da existencia individua tem a razão de ser no instincto
-de vitalidade da especie. O momento presente das gerações nada mais é
-que a ligação prolifica do passado com a posteridade. E a razão de
-ser das especies? A indagação não perscruta.
-
-Para que o individuo perdure, momento genesico da existencia especifica
-no tempo, é indispensavel adaptar-se ás imposições do meio
-universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante
-remanso, nem póde sophismar o obstaculo do menor rochedo no alvéu. O
-criterio inconsciente do instincto é o guia da adaptação.
-
-O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do
-enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais commoda para
-morrer, é a selecção do agradavel. Os sentidos são como as antennas
-salvadoras do insecto titubeante; vão ao encontro das impressões,
-avisadores opportunos e cautelosos.
-
-A cada mundo de sensações notaveis corresponde um sentido. Os
-sentidos, theoricamente delimitados, são cinco, multipla
-transformação de processo de um unico--o tacto, exactamente o sentido
-rudimentar das antennas.
-
-Faz-se, tacteando instinctivamente a procura dos agradaveis: agradavel
-visual, agradavel gustativo, agradavel tangivel, em summa. O agradavel
-é essencialmente vital; se é ás vezes funesto, é porque o instincto
-póde ser atraiçoado pelas illusões.
-
-A perfectibilidade evolutiva dos organismos em funcção,
-manifestando-se prodigiosamente complexa, no typo humano, corresponde á
-revelação, na ordem animal, do mysterioso phenomeno personalidade,
-capaz de fazer a critica do instincto, como o instincto faz a critica da
-sensação.
-
-A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no
-homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia,
-simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia
-inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das
-comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as
-peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.
-
-Duas são as representações elementares do agradavel realisado:
-nutrição e amor.
-
-Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de
-progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham,
-tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram
-grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
-
-O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução
-historica da humanidade.
-
-A nutrição reclamou a caçada facil--inventaram-se as armas; o amor
-pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a
-perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os
-elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,--os homens
-tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da
-união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e
-a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que
-havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.
-
-Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos
-leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura
-lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso
-deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens
-levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram
-colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações
-canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do
-abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um
-reflexo vago de escamas,--para morder-lhes á vida.
-
-Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a
-invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as
-escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos,
-olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto
-miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de
-classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.
-
-Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva
-que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo
-tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da
-superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas
-dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões
-nasceram.
-
-Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas
-descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos,
-houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E
-esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da
-tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do
-morticinio.
-
-[Figura 24]
-
-Mas uma lyra ficara da geração primeira de scismadores, e as cordas
-cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéas do Oriente e da
-Grecia. Roubou-se aos sacerdotes tyrannos o monopolio dos deuses para
-jungil-os á atrelagem do metro; que levassem, através dos seculos, o
-carro triumphal da estrophe, onda sonora de vibrações immortaes.
-
-E os esculpidores dos idolos legaram o segredo da fabrica, revelando que
-vinham de um molde de barro aquellas arrogancias de bronze, e que se
-fazem deuses como as amphoras. E os artistas modernos recomeçaram,
-chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram
-em tinta, pelos muros, as visões mysticas da crença.
-
-A nitidez artistica das formas fizera crer aos homens que morava
-realmente um espirito sagrado na porosidade do marmore, e que realmente
-havia em proporções infinitas uma tela de olympos e paraisos, onde as
-côres do anthropomorphismo artistico viviam soberanas, olhando o mundo
-lá em baixo, vasando a urna providencial das penas e das alegrias.
-
-Decaídas as phantasias sentimentaes, reformou-se o aspecto do mundo. Os
-deuses foram banidos como effeitos importunos do sonho. Depois da ordem
-em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A
-fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se industria,
-chamou-se economia politica, chamou-se militarismo. Morte aos fracos!
-Alçando a bandeira negra do darwinismo spartano, a civilisação marcha
-para o futuro, impavida, temeraria, calcando aos pés o preconceito
-artistico da religião e da moralidade.
-
-Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lyra...
-
-Reinou primeiro o marmore e a forma; reinaram as côres e o contorno;
-reinam agora os sons,--a musica e a palavra. Humanisou-se o ideal. O
-hymno dos poetas do marmore, do colorido, que remontava ao firmamento,
-fala agora aos homens, advogado energico do sentimento.
-
-Sonho, sentimento artistico ou contemplação, é o prazer attento da
-harmonia, da symetria, do rhythmo, do accôrdo das impressões, com a
-vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.
-
-A historia do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina
-longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.
-
-Dividindo-se as sensações em cinco especies de sentidos, devem os
-sentimentos corresponder a cinco especies e igualmente as obras de arte.
-
-Da sensação acustica vem a esthesia acustica: sentimento nos sons, nas
-palavras--eloquencia e musica; da sensação da vista, a esthesia
-visual, o sentimento na fórma, no traço e no colorido,--esculptura,
-architectura, pintura; da sensação palatal e olfactiva nasce o
-sentimento do gosto e do perfume,--artes menos consideradas pela
-relativa inferioridade dos seus effeitos. A sensação do tacto,
-secundada por todas as outras, dá logar ao sentimento complexo do amor,
-arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as especies de
-esthesia.
-
-O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da
-esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva
-de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na
-commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido
-da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
-
-Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A
-obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o
-instrumento é a linguagem.
-
-Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e
-poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do
-ouvido, a musica.
-
-Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia
-destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte
-primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se
-desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte
-da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a
-poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de
-imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia
-popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.
-
-Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o
-sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações
-sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do
-pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o
-predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno,
-passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.
-
-Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a
-organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a
-organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e
-proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua
-admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira,
-testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto
-popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo
-accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos
-homens do principio,--a lenda de Adão que o diga,--devia ser do
-individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado
-o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento
-artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é
-simplesmente--a evolução secular do instincto da especie.
-
-Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades,
-das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios
-exasperos homicidas do amor.
-
-A arte é primeiro espontanea, depois intencional.
-
-Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e
-faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia
-primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente,
-por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta,
-a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a
-pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de
-synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o
-romance, feição actual do poema no mundo.
-
-As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a
-poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda
-menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações,
-aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental,
-sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.
-
-O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono
-do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas,
-nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os
-sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que
-correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons
-brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a
-mais vivida animação.
-
-A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas
-repercussões.
-
-O estudo da linguagem demonstra.
-
-A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida
-espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á
-variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica.
-Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade
-infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere
-aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras
-e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do
-preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.
-
-Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento
-fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos
-diccionarios. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de
-consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.
-
-O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma
-phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.
-
-O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre
-é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia
-domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos;
-domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o
-colorido.
-
-Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do
-facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a
-supremacia das artes litterarias,--eloquencia escripta.
-
-A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento;
-influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se
-em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso
-mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro
-igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a
-metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a
-monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.
-
-A musica seguiu á parte a sua evolução.
-
-Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa
-contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o
-metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da
-litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez
-dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes
-medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.
-
-Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem
-architectura, que não há _dies iræ_ nem Miguel-Angelo; hoje que a
-mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma
-primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o
-coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura
-ás quatro difficuldades de um soneto.
-
-Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor,
-a arte é inutil,--inutil como o esplendor corado das petalas sobre a
-fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos
-serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar
-das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do
-enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre,
-porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta
-invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não
-tem por fim agradar.
-
-E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de
-uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria
-perpetuidade da especie?!
-
-Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da
-harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte _sui
-generis_. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da
-justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte
-differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de
-convenção.
-
-Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou
-pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem
-faça flôres, com azas de barata e pernas.
-
-A verdadeira arte, a _arte natural_, não conhece moralidade. Existe
-para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde
-ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em
-chammas, que espectaculo!
-
-Basta que seja artistica.
-
-Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte
-é a superioridade humana--acima dos preceitos que se combatem, acima
-das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga
-como a orgia e como o extase.
-
-E desdenha dos seculos ephemeros.
-
-Á vista da tranquillidade do auditorio, subentende-se que não estavam
-presentes os dous heróes da primeira sessão solemne: o Dr. Zé Lobo
-não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera,
-para não encontrar o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido
-contrario annullam-se.
-
-Havia na sala diversos ouvintes que se distrahiam de perseguir com
-attenção a galopada de hippogrypho, em que se elevava a eloquencia do
-orador.
-
-Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o
-primeiro gymnasta; outro, Barbalho.
-
-A preoccupação de Bento Alves era uma injuria. Entre elle e Malheiro
-havia rixa velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de
-ser bravo. Os proprios prodigios da força e agilidade, applaudidos e
-proclamados pelo _Atheneu_, não davam para saciar a vaidade. De que
-valia ser forte, se era impossivel a applicação do seu esforço para
-affrouxar uma fibra á musculatura do Bento? Ah! não ser possivel por
-suggestão desfiar uma a uma aquellas meadas de arame, reduzir a
-infantilidade debil aquella corpulencia odiosa! Por que não iriam os
-desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue áquella força, a
-vida, gotta a gotta, áquelle vigor de ferro?
-
-Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro
-evitava-o. Era impossivel conservar-se um momento perto do collega, que
-lhe não dessem impetos de assaltal-o.
-
-A façanha da prisão effectuada pelo rival definitivamente retirava-lhe
-a gloria de valoroso unico. Malheiro entrou em melancolia trancada. O
-rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe
-chegava á janella do olhar; o sorriso nos labios não abria a porta.
-Dir-se-ia um frontispicio de lucto.
-
-Ficou a ruminar o projecto de um encontro.
-
-O meu bom amigo, exaggerado em mostrar-se melhor, sempre receioso de
-importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova
-surpreza e agrado. Chegara ao excesso das flôres. A principio, petalas
-de magnolia secca com uma data e uma assignatura, que eu encontrava
-entre folhas de compendio. As petalas começaram a apparecer mais
-frescas e mais vezes; vieram as flôres completas. Um dia, abrindo pela
-manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudencia de um
-ramalhete. Santa Rosalia da minha parte nunca tivera um assim. Que devia
-fazer uma namorada? Acariciei as flôres, muito agradecido, o escondi-as
-antes que vissem.
-
-Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituido fiscal occulto dos meus
-passos.
-
-As circumstancias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho
-pretendia manejar a rivalidade dos dous maiores: um conflicto entre
-Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
-
-O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a
-infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me,
-julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem
-descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de
-tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o
-Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o
-Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o
-casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas.
-O Sergio está desesperado.»
-
-O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda
-de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação
-contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz
-talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão
-de encerramento; em meio da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das
-bodas.»
-
-Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
-
-Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os
-adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o
-movimento e adivinhei mais ou menos.
-
-Quando saímos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me
-um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te
-digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao
-Malheiro.»
-
-Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham
-luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!»
-Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha;
-Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham
-ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem
-sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro
-malhado!»
-
-Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes
-de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só
-attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do
-jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do
-director.
-
-Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os
-contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a
-exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito
-prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de
-Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira
-de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
-
-«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer
-o caso.
-
-Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas
-romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um
-carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de
-propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.
-
-
-
-
-VII
-
-
-O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto
-se póde gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.
-
-
-[Figura 25]
-
-Tinhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a
-toalha esmeraldina do campo e o diorama accidentado das montanhas da
-Tijuca, ostentosas em curvatura toraxica e frentes felpudas de collosso:
-espectaculos de excepção, por momentos, que não modificavam a seccura
-branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pateo central,
-quente, insupportavel de luz, ao fundo d'aquellas altissimas paredes do
-_Atheneu_, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.
-
-Quando se aproxima o tempo das férias, o aborrecimento é maior.
-
-Os rapazes, em grande parte dotados de tendencias animadoras para a vida
-pratica, forgicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A
-folgança fazia época como as modas, metamorphoseando-se depressa como
-uma serie de ensaios.
-
-A peteca não divertia mais, palmeada com estrepito, subindo como
-foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de pennas? Inventavam-se as
-bolas elasticas. Fartavam-se de borracha? Inventavam-se as pequenas
-espheras de vidro. Acabavam-se as espheras? Vinham os jogos de salto
-sobre um tecido de linhas a giz no soalho, ou riscadas a prego na areia,
-a _amarella_, e todas as suas variantes, primeira casa, segunda casa,
-terceira casa, descanço, inferno, céu, levando-se á ponta de pé o
-seixozinho chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos
-jogos de corrida, entre os quaes figurava notavelmente o saudoso e rijo
-_chicote queimado_. Variavam os aspectos da recreação, o pateo central
-animava-se com a revoada das pennas, o estalar elastico das bolas,
-passando como obuzes, ferindo o alvo em pontaria amestrada, o
-formigamento multicôr das espheras de vidro pela terra, com a gritaria
-de todas as vozes do prazer e do alvoroço.
-
-Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como preço as
-pennas, os sellos postaes, os cigarros, o proprio dinheiro. As
-especulações moviam-se como o bem conhecido ophidio das corretagens.
-Havia capitalistas e usurarios, finorios e papalvos, idiotas que se
-encarregavam de levar ao mercado, com a facilidade de que dispunham
-fóra do collegio, fornecimentos inteiros, valiosissimos, de Mallats e
-Guillots que os habeis limpavam com a gentileza de figurões da bolsa, e
-sellos inestimaveis que os colleccionadores praticos desmereciam para
-tirar sem custo; fumantes ebrios de fumo alheio, adquirido facilmente no
-movimento da praça, repimpados á turca sobre os coxins da barata
-fartura.
-
-As transacções eram prohibidas pelo codigo do _Atheneu_. Razão de
-mais para interessar. Da letra da lei, incubados sob a pressão do veto,
-surgiam outros jogos, mais expressamente caracteristicos, dados que
-espirravam como pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos
-bellos trunfos, entremostrando a pansa do rei, o sorriso galhardo do
-valete, a symbolica orelha da sota, a paysagem ridente do az; roletas
-miudas de cavallinhos de chumbo; uma alluvião de fichas em cartão,
-pullulantes como os dados e córadas como os padrões do carteiro.
-
-A principal moeda era o sello.
-
-Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que
-valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço,
-permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa,
-as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.
-
-A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album
-mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de
-especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No
-collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto
-da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a
-fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á
-mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com
-valor corrente para as emergencias.
-
-No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos
-de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se
-valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava
-o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos
-arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de
-prosperidade.
-
-Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de
-fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos
-exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o
-azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a
-Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á
-direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna;
-á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de
-elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó
-canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes
-aladas da fama, os mensageiros da metropole.
-
-Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por
-natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a
-mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade
-infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos,
-ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados,
-lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da
-Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como
-retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo,
-aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha,
-austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e
-republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa
-de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de
-Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois
-de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo,
-triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas;
-do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com
-um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de
-ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei
-Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos
-Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com
-uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes
-mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres,
-todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias
-sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo
-nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades
-dos emigrados da fome.
-
-A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e
-a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo
-de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as
-encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.
-
-A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de
-primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem
-de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á
-extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas
-abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego.
-Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo
-empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um
-bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da
-collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da
-affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do
-adiantamento.
-
-Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a
-correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor
-linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa
-das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se.
-Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a
-cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado
-ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de
-baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas
-tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara
-dos recadinhos em harpa de carcamano.
-
-Havia o genio inventivo no _Atheneu_, esperanças de riqueza, por alguma
-descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de Newton.
-Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilegio para
-explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma mina! Foi assim a
-invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas pancadinhas, tal
-letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os inventores achavam no
-systema dos signaes escriptos a desvantagem de não servir á noite. O
-elemento base d'esta refórma era uma confiança absoluta na surdez dos
-inspectores; aventuroso fundamento, como se provou.
-
-As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos
-sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou
-coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o
-debicar de um pintainho no soalho.
-
-No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava
-a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em
-quando.
-
-Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um
-abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um
-despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a
-rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a
-furia, implacavel como a guerra--oh Havas!--o Sylvino não nos deixou um
-fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira em
-carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o
-vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a
-pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma
-homenagem ao seculo.
-
-A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e
-suspender temporariamente a telegraphia.
-
-De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e
-os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça
-mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria
-blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de
-atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no
-desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na
-imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais
-compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões,
-o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o
-pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas,
-tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de
-bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.
-
-Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O
-aborrecimento imperava.
-
-A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão
-dos ultimos dias.
-
-Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da
-aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames,
-dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento.
-Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.
-
-No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os
-cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e
-abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se
-tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no
-quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas,
-sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto,
-como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com
-uma vibração de fervura.
-
-Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados,
-destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar
-mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas
-paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na
-caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta
-proclamação: _Viva ás férias_! determinando a ansiedade geral, como
-um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo,
-cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos,
-á chegada festiva da boa data.
-
-Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia
-sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.
-
-Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando
-a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo
-pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para
-as bandas do _Atheneu_. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando
-alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro
-caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes
-cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo
-tambem--mas ao alto e lá fóra.
-
-Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a
-inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de
-palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros
-assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas,
-trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel,
-caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre
-de um anno, conforme a psychologia de cada salão.
-
-Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das
-paredes: _salão perola_, o das crianças, policiado por uma velha,
-mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar,
-olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo,
-garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de
-gypaeto sobre um corpo de bruxa; _salão azul_, _amarello_, _verde_,
-_salão floresta_, dos ramos do papel, aos quaes se recolhia a classe
-innumeravel dos médios. O salão dos grandes, independente do edificio,
-sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de _chalet_.
-O chalet fazia vida em separado e mysteriosa.
-
-O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores,
-convenientemente distribuidos.
-
-Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do
-_perola_ batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa
-annos.
-
-A palestra corria desassombrada.
-
-Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas
-e atacavam os assumptos.
-
-No salão dos médios:
-
-«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de
-falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os
-apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...
-
---O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem
-tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher....
-Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, _kakós kai
-ruparós_ com uma estralada...
-
---Ora, directores! emprezarios! fabricantes de sciencia barata e
-prodigios de carregação, com que empulham os papaes basbaques... O que
-querem é a frequencia do negocio... Falem cá em annuncios... Mulher ao
-balcão... Que chamariz, uma carinha seductora! Eu por mim, se fosse
-director, inaugurava um _Kindergarten_ para taludos; uma bonita
-directora á testa e quatro adjunctas amaveis... Não haveria nhonhô
-graudo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de
-pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso
-do meu paiz: estimular á Frœhel as intelligencias perrengues e as
-adolescencias atrazadas...
-
---Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse director,
-teria o cuidado de ser tambem ministro do imperio... Revogava a
-Instrucção Publica e approvava a minha gente por decreto, tudo de
-pancada e com distincção.
-
---Qual! eu, se fosse director, seria safado! Não ha nada neste mundo
-como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam
-da gente, a gente gosta dos meninos e o collegio cresce: _crescite_!...
-D'ahi a pouco tanta matricula, que precisariamos mudar de casa...
-
---Que canalha! Que linguinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal
-d'aquelle typo do _Lyceu Marcello_, que tem na face a costura
-cicatrizada do talho que lhe fez um discipulo em certa aventura com o
-mais pacifico dos utensilios, e que, ainda assim, foi apanhado no
-_Cassino_ deixando aberto num divan o _carnet_ de baile, cuidadosamente
-illustrado de symbolos... pedagogicos.
-
-A palestra no _perola_ era muito mais candida, e, principalmente, nada
-pessoal.
-
-Curso improvisado de obstetrica elementar, pura especulação. Todos
-queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como
-aquellas figuras da licção de Rembrandt. Qual a origem das especies?
-Eram investigadores. Ninguem adiantava um passo. Estava ausente o
-gypaeto, que talvez podesse explicar. Feliz quem póde conhecer a causa
-das cousas! Como é a entrada na vida? Ordem dorica? jonica? composita?
-As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão;
-ninguem penetrava. Desenrolavam-se as theorias domesticas,
-angelico-gynecologicas.
-
-Havia em Paris uma grande empreza de exportação, da qual eram agentes
-em todo o mundo os parteiros, e commissaria central no Rio M.^me
-Durocher. Vinha o genero nos berços, encaixotados, mijadinhos e
-chorosos. Esta theoria tinha o merecimento philosophico de prescindir
-das causas finaes. Os metaphysicos inclinavam-se mais para a
-intervenção da sobre-natureza: por occasião do Natal havia de noite
-uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de
-pimpolhos, para compensar a matança dos innocentes, tão prejudicial no
-tempo de Herodes. Inutil dizer que os referidos innocentes vinham
-outr'ora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciaes da
-revelação, hoje em desuso.
-
-E a academiazinha de investigadores amimava documentos, sorrindo alguns
-da credulidade dos outros, exhibindo em refutação credulidade de
-diverso quilate; alguns, mais positivos, adduzindo observações
-proprias, porque os meninos espiam, offerecendo á opinião dos collegas
-uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o systema como os systemas
-se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio
-commum.
-
-Dous ultimos pareceres concorreram opportunamente para desatar os
-embaraços e a assembléa dispersou-se. Um cearensezinho, de cabello á
-escova, intelligente e silencioso, amigo de responder por um geito
-especial de virar os olhos, senhor de um sorriso desconcertante que
-sabia armar a proposito, falando baixinho e explicito, introduziu no
-debate a descripção minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da
-toilette balnearia das mulheres do sertão na provincia, descendo ao
-rio, de um bello panno sympathico em que o raio do sol nascente
-representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de
-um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro,
-brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruido
-para todas as exigencias praticas da industria paterna. Estava alli a
-ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão.
-Suppondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o
-e concluiu largando o enxurro, espojando-se farto na garotada, como a
-cria da estancia no lodo fresco.
-
-A vadiagem dos dormitorios não consistia só em palestra. Depravados
-pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagancias de
-cynismo.
-
-O Cerqueira, _ratazana_, sujeito comico, cara feita de beiços, rachada
-em bocca como as romans maduras, de mãos enormes como um disfarce de
-pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa,
-escoucinhando uma alegria sincera de mú. Maurilio, o dos quinaus, não
-era exclusivamente o campeão da taboada que conhecemos; tinha outra
-habilidade notavel e prestava-se com applauso a uma experiencia original
-de fluidos inflammaveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos ultimos
-naufragios da nossa costa; um ex-collega escreveu-lhe: Quem os semeia,
-colhe tempestades.
-
-As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado;
-irritadiços todos como feridas; os inspectores a cada passo precisavam
-intervir em conflictos; as importunações andavam em busca das
-susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das
-importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabellos. Viam
-Romulo passar, lançavam-lhe o appellido: _mestre cook_!
-
-Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Romulo! só
-porque lembrava a culinaria, com a carnosidade bamba, fofada dos
-pastellões, ou porque era gordo das enxundias enganadoras dos
-fregistas, dissolução morbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de
-mais volumosa saude? Romulo era simplesmente e completamente o
-confeiteiro das esperanças doces de Aristarcho.
-
-Anafado de apparencia, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o
-que se diz um bom partido. Aristarcho tinha uma filha; saude, fortuna:
-um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.
-
-A Melica, a altiva e requebrada Amalia, lambisgoia, proporções de
-vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de
-princeza. Dous grandes olhos pretos, exaggero dos olhos pretos da mãe,
-tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um bello
-I com dous pingos. Por estes olhos e por sobre os hombros, que tinha
-erguidos e mephistophelicos, derramavam-se desdens sobre tudo e sobre
-todos. Possuia e petiscava a certeza facil de que o _Atheneu_ em peso
-andava caído por ella, e morava no andor imaginario d'aquella idolatria
-de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdens. A eminencia do
-pae sobre aquelle mundozinho desprezivel dava-lhe vida á vangloria, e
-ella gostava de visitar o collegio para ter occasião de exercitar a
-altivez culminante, misturada, do sexo e da gerarchia. Quanto a Romulo,
-era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe attenção.
-Designava-o esplendidamente:--o parvo. Melica era bem conversada e
-preciosa.
-
-Romulo philosophava por Epicuro. Desdens não matam. Havia de bom
-naquella attitude de noivado perenne, uma serie de utilidades: cargo de
-vigilante, privilegios de benevolencia, um jantar de vez em quando com o
-director,--isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas
-boccas, no regimen obrigatorio e destemperado da casa, _menu_
-permanente, inviolavel como a letra das constituições.
-
-Quando vinha Melica ao _Atheneu_, era Romulo o primeiro a aproximar-se,
-o ultimo a ser visto. Aristarcho chamava-o ás vezes e levava a passeio
-com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e
-permittia, quando muito, que Romulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como
-um hippopotamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho
-esperava rir por ultimo ao pae e á filha.
-
-Em um estabelecimento de rumorosa fama como o _Atheneu_ não se podia
-deixar de incluir no quadro das artes a musica de pancadaria.
-
-Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce.
-Estimava-se como cousa somenos a rabequinha do Cunha, choramigas e
-expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como
-uma casa de maternidade, pallido o musico, espichadinho e chlorotico;
-dando ares de graça a linguagem das cravelhas por meio de sons que
-imitavam a quasi aphasia timorata e infantil do Cunha, descambando em
-syncopes, de vez em quando, estendendo guinchos hystericos de amor
-vadio, saltitando _pizzicatos_ como as biqueiras de verniz do Cunha,
-amigo de valsar, agil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas
-tulles.
-
-Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas
-de maestro em effigie, pianista portento que viera parar ao _Atheneu_,
-depois de percorrer a Europa á cata de triumphos, redondo, curto e
-musical como um cylindro de realejo; famoso pela gargalhada soez,
-bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos successos
-do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez secca nos
-estudos, como se a intelligencia lhe houvesse escapado pelos dedos para
-os teclados em deserção definitiva.
-
-[Figura 26]
-
-Mas a predilecção de Aristarcho era pela banda, pela pancadaria, grita
-vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente á janella
-quando o _Atheneu_ passava, dando rebate á admiração das esquinas, o
-estrepito das caixas troando á marcha dobrada como um eco de combates,
-furor infrene, irresistivel, de zabumbada em feira.
-
-A banda tinha casa propria e um professor bem pago. Os instrumentistas
-gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas
-occasiões de festa eram mimoseados, com um brinde de gulodices;
-condecoravam-se com distinctivos de prata, que nem os harmoniosos
-concertantes do _Orpheon_ logravam pilhar.
-
-Ainda na banda graduava-se a predilecção de Aristarcho, segundo a
-importancia de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o ophiclide,
-a trompa, o trombone, o proprio sax, destinados ao mister secundario de
-acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens
-de armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou timidos
-pagens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo regio das
-grandes notas do canto,--valiam menos ainda, na estima do director, que
-na marcação da partitura.
-
-Predilecto era o flautim, florete feito som, tenue, penetrante,
-perfuração de agulhas; predilecta era a requinta, especie de flautim
-rachado, aggressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote,
-augmentativo de requinta, unico apparelho capaz de produzir
-artificialmente a fanhosidade colerica das sogras; o claro oboe, larynge
-metallica de um cantor de epopéas, heroico e bello; o piston frenetico
-e vivo, estandarte á mostra sobre a celeuma, harmonisando,
-centralisando a instrumentação como um regimento de cavalleiros.
-Predilectos porque gritavam mais! Predilecto principalmente o tambor e o
-bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das pelles tezas, que a
-tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que
-sobraçava, no _Atheneu_, Romulo, o graxo Romulo, o nedio, o opulento, o
-carissimo genro das esperanças caras.
-
-Foi exactamente por esta seriação de preferencias acusticas que chegou
-Aristarcho á descoberta do seu favorito. E por acaso.
-
-Durante uma festa escolar, exhibia-se a banda. Distrahe-se o bombo e
-solta fóra de tempo um magnifico tiro, que ia bem á composição
-executada como uma gotta de tinta Monteiro numa aquarella. Metade dos
-ouvintes acreditaram que aquillo era um capricho wagneriano enxertado de
-proposito; outra metade não conteve o riso.
-
-Aristarcho admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar,
-factor grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica. Mas o riso
-dos convidados incommodou-o.
-
-Acabada a festa, mandou vir á presença o artista do estampido.
-Apresenta-se o musico e não sei como se entenderam que, em vez de
-castigo, retirou-se Romulo do gabinete com os foraes vantajosos de genro
-_ad honorem_.
-
-O escandaloso favor suscitou uma reacção de inveja.
-
-Romulo era antipathisado. Para que o não manifestassem excessivamente,
-fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um
-pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulencia das infiltrações
-de gordura solta, desmoronava-se em sôcos. Dos mais fortes vingava-se,
-resmungando intrepidamente.
-
-Para desesperal-o, aproveitavam-se os menores do escuro. Romulo, no
-meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em
-geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a
-vindicta. Vindicta inexoravel.
-
-No decorrer enfadonho das ultimas semanas, foi Romulo escolhido,
-principalmente, para expiatorio do desfastio. _Mestre cook_! via-se
-apregoado por vozes phantasticas, saídas da terra; _mestre cook_! por
-vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado,
-vendo se se lembrava de haver tratado panellas algum dia na vida; a
-unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a accessos
-de raiva. Arremettia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para
-traz, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho,
-deixando rolar adiante aquella ambulancia damnada de elephantiasis.
-
-A uma das vaias estive presente. Romulo marcou-me. Pouco depois
-encontravamo-nos no longo corredor que levava á bibliotheca do
-_Gremio_. Situação embaraçosa. Eu vinha, elle ia. Parar? Recuar?
-Emquanto hesitava, fui-me adiantando. Romulo, de salto, empolgou-me a
-golla da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. «Então, seu
-cachorro (_sic_), diga-me aqui, se é capaz, quem é _mestre_.»
-
-A injuria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura.
-«_Mestre, mestrissimo cook_!» gritei-lhe á barba. Não sei bem do que
-houve. Quando dei por mim, estava estendido em baixo do uma escada.
-Entraram-me na cabeça tres pregos, que havia nos ultimos degráus.
-Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança,
-levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.
-
-Afinal, o dia chegou dos exames primarios.
-
-Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira
-aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino
-secundario.
-
-Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratorio, vestido o altar
-de um reposteiro, e repotreava-se a commissão solemne, da qual faziam
-parte personagens da Instrucção Publica, com o director e os
-professores.
-
-Aristarcho representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros.
-Contas justas: approvação com louvor, cambiando ás vezes para
-distincção simples; atrazo de trimestre, approvação plena com risco
-de simplificação; atrazo de semestre, reprovado.
-
-Havia no _Atheneu_, fóra d'esta regra, alumnos gratuitos, doceis
-creaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objectivo do
-caridade, timidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os
-deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em
-retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque
-caridade que não brilha é caridade em pura perda.
-
-Nas provas do terceiro anno, as distincções foram tão numerosas, que
-me veio ter as mãos uma, sem escandalo aliás, que desde muito perdera
-o medo e começava a quadrar-me a _aisance_ das demonstrações, como um
-mal contaminado do director. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota,
-que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pello
-fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Manlio, louvor;
-Cruz, louvor tambem, graças á especialidade da cartilha, em que era
-provecto, espantando a commissão julgadora com a ladainha toda de Nossa
-Senhora e ameaçando-nos com o calendario de cór. Santo por Santo,
-observações adjacentes, mais a designação das festas moveis e das
-luas, como o proprio doutor Ayer das pilulas catharticas o não faria.
-Gualterio, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o _bicanca_, fungou de
-satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Alvares, distincção.
-Contra a distincção d'este ultimo, o professor Manlio protestou
-surdamente; o bronco do Alvares com distincção! Baptista Carlos, o
-bugre das settas, bomba! Diante da commissão mostrou-se muito
-surprehendido das perguntas, como se tivesse alguma cousa com aquillo;
-Barbalho, bomba. Barbalho pae andava atrazado semestre e meio e Barbalho
-filho não deixou de salvar as apparencias com uma escrupulosa
-collaboração de asneiras. O optimo, o veneravel Rebello não
-compareceu: deixara o collegio, havia mezes, por causa dos olhos.
-
-[Figura 27]
-
-Emquanto na sala verde, emparedada de porphyro polido, esperava, com os
-collegas, que apparecesse á porta o inspector que devia ler o resultado
-do escrutinio, foi-me parar a vista aos quadros de alto relevo, das
-artes e das industrias, os risonhos meninos nús, fraternaes, em gesso
-puro e innocencia. Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos!
-Alguns mezes apenas, desde que vira, á primeira vez, as ideaes
-crianças vivificadas no estuque pelo contagio do enthusiasmo ingenuo,
-ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os interpretasse, aos
-pequenos hypocritas mostrando as nadegas brancas com um reverso igual de
-candura, um por um que os julgasse, e todo aquelle gesso das facezinhas
-rechunchudas córaria de uma sancção geral e esfoladora de palmadas.
-Não me enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres,
-francos, bons, immaculados, saudade ineffavel dos primeiros annos,
-tempos da escola que não voltam mais! E mentiam todos! Cada rosto
-amavel d'aquella infancia era a mascara de uma falsidade, o prospecto de
-uma traição. Vestia-se alli de pureza a malicia corruptora, a
-ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a covardia, a inveja, a
-sensualidade brejeira das caricaturas eroticas, a desconfiança selvagem
-da incapacidade, a emulação deprimida do despeito, da impotencia, o
-collegio, barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre,
-confederação de instinctos em evidencia, paixões, fraquezas,
-vergonhas, que a sociedade exaggera e complica em proporção de escala,
-respeitando o typo embryonario, caracterisando a hora premente, tão
-desagradavel para nós, que só vemos azul o passado, porque é illusão
-e distancia.
-
-Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de
-estudo, forradas de setim escuro as paredes e os grandes armarios. Sobre
-este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lapis: pelo
-sombreado das figuras, das paysagens, pregaram-se, nas molduras de friso
-de ouro, os trabalhos reputados dignos d'esta nobilitação.
-
-Eu fizera o meu successozinho no desenho, e a garatuja evoluira no meu
-traço, de modo a merecer encomios. A principio, o bosquejo simples,
-linear, experiencia da mão; depois, os esbatimentos de tons que
-consegui logo como um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo,
-folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pittoresca da
-escola franceza, como ruinas de páu podre, armadas para os artistas.
-Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão
-deslombado, mostrando as miserias como um mendigo, muita pyramide de
-torre aldeã esboçada nos ultimos planos, muita figurinha vaga de
-camponesa, lenço em triangulo pelas costas, rotundas ancas, saias
-grossas em pregas; sapatões em curva, passei ao desenho das grandes
-cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de
-corcel; cheguei á ousadia de copiar com toda a magnificencia das sedas,
-toda a graça forte do movimento, uma cabra do Thibet!
-
-Depois da distincção do curso primario, foi esta cabra o meu maior
-orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no
-desenho tudo quanto não faziam os discipulos, a cabra thibetana, meio
-metro de altura, era aproximadamente obra prima. Ufanava-me do
-trabalho. Não quiz a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me á
-bella cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima--considerem o
-desespero! exactamente no dia da exposição, de manhã, fui encontral-a
-borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão
-benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei á
-parede o desgraçado papel e desfiz em pedaços o esforço de tantos
-dias de perseverança e carinho.
-
-Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos
-suspensas duas enigmaticas portas de papel rasgado. Estranhavam,
-ignorando que alli estava, interessante, em ultimo capitulo, a historia
-de uma cabra, de uma cruz, drama de desespero e espolio miserando de uma
-obra prima que fôra.
-
-As exposições artisticas eram de dous era dous annos, alternadamente
-com as festas dos premios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de
-papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o
-soalho até ao tecto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a
-oleo, do Altino, risonhas aquarellas accidentando a monotonia cinzenta
-do Faber, do Conté, do _fusain_. Os futuros engenheiros applicavam-se
-ás aguadas de architectura, aos desenhos coloridos de machinas.
-
-Entre as cabeças a crayon retincto, crinas de ginete, felpas de onagro
-lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de
-javalis, que arreganhavam presas, perfis de audacia em collarinhos de
-renda, abas atrevidas de feltro, plumas revoltas, physionomias de
-marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas,
-carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas
-estas caras, avultava uma collecção notavel de retratos do director.
-
-[Figura 28]
-
-O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo
-mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não
-houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se
-na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre
-Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de
-beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões
-aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!
-
-Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção.
-Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando,
-brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a
-concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja
-dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas
-dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo
-um espirro agradavel e desopilante.
-
-Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.
-
-Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas
-molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao
-quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes,
-em momentos de _spleen_, profundo _spleen_ de grandes homens,
-desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E
-vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe
-haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de
-um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um
-naco de apotheose.
-
-E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente.
-«Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós
-somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra,
-gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se
-comprehender e de bem se admirar--de vêr-se applaudido em chusma por
-alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. _Primus inter
-pares_.
-
-Todos, elle proprio, todos acclamando-o.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-No anno seguinte, o _Atheneu_ revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o
-interessante, com as seducções do que é novo, com as projecções
-obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o
-insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de tédio;
-conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos e
-privações.
-
-Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato,
-aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida
-exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na
-infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação,
-que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que
-somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo
-em que preferimos da soirée os _bons bocados_, das toilettes os laços
-de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais
-assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem
-á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes
-modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura
-rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições
-vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não
-me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a
-realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio.
-Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser
-irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta!
-marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da
-administração.
-
-Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o
-collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e
-saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.
-
-No anno anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas
-alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos,
-anchos de militarismo, despendiamos elegancia prodigamente. Eram
-melhores as excursões á montanha. Subiamos aos Dous Irmãos, caminho
-do Corcovado, marchavamos até á Caixa d'agua. Ahi debandavamos, na
-amenissima chapada.
-
-Os passeios eram depois do jantar. A noitinha voltavamos, dando balanço
-ás notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um
-retalho de afogueado crepusculo, um canto de cidade ao longe diluido em
-fumaça côr de perola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra,
-projectis inoffensivos de namoro que na hypothese de andar a gente em
-fórma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao
-vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete--o ciume
-eterno dos serra-filas que a Praia Vermelha conhece.
-
-Os nossos passeios foram mais consideraveis.
-
-Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade
-da linha ferrea.
-
-Ás 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os
-rapazes, que mal haviamos dormido, na excitação das vesperas,
-precipitaram-se dos dormitorios. Ás 3 e pouco estavamos na serra.
-
-Aristarcho rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a
-desfilada como Napoleão nos Alpes.
-
-Passeio nocturno de alegria sem nome. As arvores beiravam a estrada de
-muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu
-limpido. No caminho, trevas de tunnel e agitação confusa das roupas,
-malhada a esmo de placas de luar brando--reptil immenso de cinza e leite
-em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na
-dormencia de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão!
-Subiamos. Pelas abertas do arvoredo devassavamos abysmos; ao fundo, a
-illuminação publica por enfiadas, como rosarios de ouro sobre velludo
-negro.
-
-Á boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o
-farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam successivamente na ordem
-da fórma. Felizes alguns, conseguiram uma gotta de fino Porto, mais
-quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra
-a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch,
-avivando a alegria como um brinde de fogo.
-
-O espaço apparecia mais claro sobre a renda das ramas; as ultimas
-estrellas por entre as folhas emmurcheciam como jasmins, e fechavam-se.
-Aristarcho deu ordens á banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado
-triumphal rasgou o silencio das montanhas espavorindo a noite; o bombo
-de Romulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o
-espiava metendo o bico á beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para
-genro, aturdindo os echos com um repente brutal de alvorada.
-
-Ao passo que nos elevavamos, elevava-se igualmente o dia nos ares.
-Apostava-se a vêr quem primeiro cançava. Cada avanço da luz no
-espaço era como um excitante novo para a jornada, suavisando a doçura
-do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a musica parava,
-ouviamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as
-aguas do Carioca, ciciando queixas poeticas de naiade emparedada.
-
-Avistavamos por hiatos de perspectiva a bahia, o Oceano vastamente
-desdobrado em chammas, extenso cataclysma de lava.
-
-No planalto do Chapéo de Sol parámos. O director convencionou que, ao
-signal de debandar, assaltariamos na carreira o espigão de granito
-empinado á extrema do monte. A rapaziada acclamou a proposta e, com um
-alarido barbaro de peleja, arrojámo-nos á conquista da altura.
-
-Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de S. Fidelis, especialista
-invicto da carreira, corredor de pratica e principios, que de cada exame
-da Instrucção Publica fugia duas vezes á chamada, entendendo que a
-fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção
-artificial dos que não podem correr.
-
-Romulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho,
-suffocado, inanimado, roncando por terra.
-
-Almoçámos ás dez horas, cada um para seu lado, depois da
-distribuição frugal do mantimento. Fartos de paysagem, formámos para
-a descida.
-
-Descida penosa. Tinhamos imprudentemente esgotado as forças na
-folgança. A marcha de volta foi uma miseria. Formámos ainda, mas já
-não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas
-escapavam á cintura, as blusas ás correias; os pés cambavam, mal
-equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bebado.
-
-As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o director,
-segurando-se uns aos outros pelos hombros, seguindo em grupos
-atropellados como carneiros para a matança. Aristarcho, tão lépido
-como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas
-ironias.
-
-Quiz recorrer ao estimulante da musica. Os musicos, derreados, haviam
-deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem
-tambores, nem clarins; apenas Romulo, atraz de todos, trazia o bombo de
-roldão pela estrada como uma pipa.
-
-Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós,
-accendendo reflexos insupportaveis na areia da estrada, emquanto
-reverberava o dia lá em baixo, sobre as casas, pelos jardins nublados
-de vaporisações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a
-florescer das tristes flôres da Paixão da alleluia.
-
-Voltavamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha
-decompôz-se aos poucos. Quando chegámos ao Rio Comprido, iamos por
-bandos dispersos, arquejantes, os de maior folego na vanguarda; depois,
-em cauda interminavel de alquebramento, os mais fracos, até aquelles
-que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspectores buscavam como
-gado perdido.
-
-No portão do _Atheneu_, mãos ás cadeiras, dentinhos brancos á vista,
-esperava-nos Angela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas
-aquella entrada de vencidos, homens e moços.
-
-Quando, tempos passados, annunciou-se o grande pique-nique ao Jardim
-Botânico, certo não foi objecção a lembrança d'este descalabro de
-fadiga. Tinhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao
-jardim. Promptos!
-
-Ao meio-dia, apeava o _Atheneu_ dos bonds especiaes á porta do grande
-parque. Atravessámos cantando um dos hymnos do collegio as arcarias
-elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandámos.
-
-No bosque dos bambús, á esquerda, estavam armadas as longas mesas para
-o banquete das quatro horas. Graças á boa vontade dos paes, prevenidos
-opportunamente, vergavam as taboas, sobre cavalletes, ao peso de uma
-quantidade rabelaiseana de acepipes. Á parte, em cestos, no chão,
-amontoavam-se fructas, caixas e frascos de confeitaria.
-
-Era por um d'esses dias caprichosos, possiveis todo o anno, mais
-frequentes de verão, em que as bategas de chuva fazem alternativa com
-as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que,
-parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.
-
-Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita
-humidade na relva e sob as folhas caidas; ás alamedas de mais sombra,
-via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos furos que cava o
-gottejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no
-intervallo dos nimbos, que não podiam apprehensões de aguaceiro
-entibiar a franqueza de alegria a que estavamos preparados.
-
-A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os
-cannaviaes e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzoes,
-acocoravam-se á beira do açude, como batrachios, emquanto esperavam
-que picasse a probabilidade difficil de um peixe.
-
-Os de espirito calmo buscavam sitios de soledade, iam passear a scisma
-silenciosa; os sentimentaes, com o instincto dos photographos
-paysagistas, ensaiavam, comparavam, applaudiam os melhores pontos de
-vista, ou, simplesmente, dous a dous, intimos, seguiam para longe,
-braços pela cintura, balbuciando dialogos lentos. Os menores corriam,
-armando animadissimos brincos, atiravam-se ás borboletas, iam pelos
-cursos d'agua canalisada através do parque, perseguindo a fuga de um
-graveto, trepido, inalcançavel na evasão rapida da lympha. Nos
-enredamentos obscuros do bosque, exactamente onde o artista grego
-incluiria um satyro, podia-se surprehender sob uma blusa o confiado
-abandono bucolico de outros collegas.
-
-De quando em quando, um signal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se
-a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.
-
-Ás quatro horas a banda de musica assignalou com o hymno nacional o
-grande momento da festa campestre.
-
-De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de
-uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação
-dos logares.
-
-Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.
-
-No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho,
-appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.
-
-Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos
-copeiros...
-
-Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação
-definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos
-frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.
-
-Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na
-aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os
-redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se
-dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da
-existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o
-supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em
-rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos,
-prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do
-peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.
-
-Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas,
-conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás
-nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as
-marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado
-de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef
-com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.
-
-Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do _Atheneu_ de
-proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas
-gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da
-boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.
-
-Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam
-entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os
-criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um
-domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam
-rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira.
-Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em
-aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes,
-erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima
-das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a
-encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho
-recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição
-para os dias de gala. Cerqueira, _ratazana_, curvado, redobrado, sobre o
-prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas,
-como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo,
-com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido;
-suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da
-bacchanal.
-
-Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa
-principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e
-cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava
-improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas
-campestres...
-
-Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se á
-faina grosseira de jantar. Elle, não.
-
-Havia um quarto de hora que andava mysteriosamente por uma aléa de
-bambús, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa,
-arrancando inspiração ao couro cabelludo, passando, nervoso,
-repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguem ousava
-acercar-se, temendo perturbar a elaboração do genio.
-
-Muchôchos adoraveis das brisas, que andaes pela malta, gemedoras
-fontes, que desfiaes á tôa as lagrimas de vossos penares, amaveis
-sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da litteratura
-indigena, sem que vos galardôe uma verba da secretaria do imperio,
-vinde commigo repartir o segredo do vosso encanto! Seductoras rolinhas,
-um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os
-animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações
-vieram. Primeiro, cerimoniosamente, á altura, volteando espiraes de
-urubú sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe ás bicadas sobre
-o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hippogrypho um asno morto.
-O poeta foi registrando as estrophes.
-
-Quadras de rima facil de participios, espancados pelo camartello
-contundente dos agudos.
-
-Sustou-se em toda a linha o furor gastronomico dos rapazes. Ficámos a
-ouvir, surpresos.
-
-Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás;
-surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritys, de
-beija-flôres; todas essas cousas, de que se alimentam versos communs e
-de que morrem á fome os versejadores. Subito, do melhor das quadras,
-exactamente quando o poeta apostrophava o dia sereno e o sol, comparando
-a alegria dos discipulos com o brilho dos prados, e a presença do
-Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das
-nuvens espessadas uma carga d'agua diluvial, unica, sobre o banquete,
-sobre o poeta, sobre a miseranda apostrophe sem culpa.
-
-Venancio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser
-inteiramente desmentido pelas gotteiras e continuou, na guarita, a falar
-enthusiasticamente ao sol, á limpidez do azul.
-
-[Figura 29]
-
-Não querendo desprestigiar o estimavel subalterno, Aristarcho fingia
-acreditar no improviso e, indifferente, deixava cair o aguaceiro. As
-abas do chapéo de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque
-branco desengommava-se em pregas verticaes gottejantes.
-
-Para os rapazes a chuva foi novo signal de desordem. Deixou-se o poeta
-com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida
-aos pratos.
-
-A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de attenuar a violencia
-das aguas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava.
-A philosophia impermeavel do director servia-nos tambem de capa. Que
-chovesse! Era o môlho dos manjares que nos faltava. As fructas lavadas
-luziam com um verniz de frescura que o proprio outomno não possue. O
-vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalisação solemne de
-purpura. O banho opportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez
-das farinhas de recheio. «Acabamos pela sopa, descobriu Nearcho, o
-penetrante, por onde o vulgo principia!»
-
-Qual acabavamos! Ninguem acabou. Succedeu que, com os fundilhos
-molhados, ninguem quiz mais sentar-se. Gyrou o atropello ao redor das
-mesas; os bancos foram repellidos a ponta-pés. Repartia-se o doce sem
-equidade; quem não avançava a tempo ficava sem elle. Dous inspectores,
-João Numa e o _Conselheiro_, a pretexto de decidir uma contenda,
-arranjaram-se com uma caixa de pecegada e desappareceram.
-
-A chuva desculpava a bebida. Era inacreditavel o consumo de brindes.
-Brindes a Aristarcho, brindes aos companheiros, ao Sylvino, ao poeta, ao
-sol, aos temporaes, ao trovão scandinavo; inimigos figadaes, no
-transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente.
-Romulo, já tonto, affastado das mesas, brindava o copeiro que lhe
-arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo tambem,
-tocou-lhe o copo.
-
-Como escurecia, o director fez o clarim chamar á fórma.
-
-Debaixo do aguaceiro que não cessava, o collegio alinhou-se como bem
-pôde. Muitos, queixando-se de saude delicada, obtiveram, dispensa
-d'esta inopportuna disciplina de equilibrio; seguiram adiante para o
-portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular,
-pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo
-rosto em fios sanguineos.
-
-Quando chegámos ao portão, já nos esperavam os bonds especiaes. Do
-outro lado da rua, á entrada do conhecido restaurante, appareceu a
-familia do Aristarcho com alguns professores, que lá tinham jantado. D.
-Emma, pelo braço do Chrysostomo, a Melica altivamente só e
-distanciada.
-
-No collegio, tivemos ordem de subir a descanço nos dormitorios.
-Preventivo louvavel de prudencia, depois dos excessos e da tempestade
-soffrida. O descanço foi simplesmente um prolongamento da pandega do
-passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixámos ao
-salão geral. Aristarcho, reassumindo a dureza olympica da seriedade
-habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendiamos que a
-vida passasse a ser agora um pique-nique perpetuo na desmoralisação.
-Tacitamente negámos e a tranquillidade normal entrou dos eixos.
-
-Não sabiamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça
-uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do
-grande passeio.
-
-Á hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas,
-sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de requiem, tetrico como
-o juizo final, entrou o director.
-
-Pausa preliminar, fremito de sensação pelo refeitorio:
-
-«Tenho a alma triste», começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões
-no horizonte, rostos da tormenta da tarde, faziam fundo ás palavras em
-côro eschyliano.
-
-«Tenho a alma triste. Senhores! A immoralidade entrou nesta casa!
-Recusei-me a dar credito, rendi-me á evidencia»... Com todo o vigor
-tenebroso dos quadros tragicos, historiou-nos uma aventura bregeira. Uma
-carta comica e um encontro marcado no Jardim. «Ah! mas nada me
-escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, illudam-me! Está em meu
-poder um papel, monstruoso corpo de delicto! assignado por um nome de
-mulher! Ha mulheres no _Atheneu_, meus senhores!»
-
-Era uma carta do Candido, assignada Candida.
-
-«Esta mulher, esta cortezã fala-nos da segurança do logar, do socego
-do bosque, da solidão a dous... um poema de pouca vergonha! É muito
-grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me
-agora para dizer sómente: serei inexoravel, formidando! E para
-prevenir: todo aquelle que directa ou indirectamente se acha envolvido
-nesta miseria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar
-espontaneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cumplice
-e como tal: punido!»
-
-Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da
-consciencia e da memoria, ninguem havia, póde-se affirmar, que não
-estivesse implicado na comedia collegial dos sexos, ao menos pelo enredo
-remoto do _ouvi dizer_. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um crime,
-dos grandes na jurisprudencia costumeira. A devassa promettida fazia
-alarma geral. Como prevêr as complicações do processo? Como adivinhar
-o segredo tremendo da lista?
-
-Aristarcho ufanava-se de perspicacia de inquisidor. Sob a saraivada das
-perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se,
-compromettia-se, entregava-se e trahia os outros; nos processos do
-gabinete, os factos floresciam em carymbo, fructificavam em cacho; a
-pesquiza de uma culpa descobria tres, sem contar as ramificações da
-cumplicidade de outiva.
-
-Ao retirar-se, o director deixou na sala uma estupefacção de pavor.
-
-Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobresalto. A guerra
-latente que já me ligava ao director, como as conjuncções
-disjunctivas, exacerbara-se com um episodio gravissimo, rompimento
-decisivo.
-
-A caminho da bibliotheca, no mesmo logar do infeliz encontro com o
-enorme Romulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.
-
-As sympathias do excellente companheiro não tinham diminuido. Durante
-as férias, fôra vêr-me em casa, travando relações com a minha
-familia. Fui recommendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas
-difficuldades da vida collegial, contra o constante perigo da
-camaradagem perniciosa. Durante o mez de Janeiro não nos vimos. Por
-occasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem
-effusões como d'antes, mas evidentemente testemunhado por tremores da
-mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho
-desviar dos olhos, denunciando a reluctancia de movimentos secretos e
-impetuosos. Ás vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura
-accentuava-se-lhe nos traços.
-
-Interessava-me aquella agonia comprimida. Estranha cousa, a amizade que,
-em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a
-incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a
-convivencia fosse um sacrificio e o sacrificio uma necessidade.
-
-Durante os primeiros dias do anno, poucos alumnos chegados, ficavamos
-horas inteiras em companhia. Trouxera-me um presente de livros, com
-dedicatoria a côres, de bella calligraphia, inscripta em rosas
-entrelaçadas de chromo, Recordo-me tambem de um dulcissimo cofre
-dourado de pastilhas e outras ridicularias de amabilidade que me
-offerecia, passado de vergonha pela insignificancia do obsequio.
-Confusamente occorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz
-de conta, e eu levava a seriedade scenica a ponto de galanteal-o,
-occupando-me com o laço da gravata d'elle, com a mecha de cabello que
-lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistinctos
-para vêl-o rir, desesperado de não perceber. Uma das irmãs casara no
-Rio Grande; elle mostrou-me o retrato do noivo, um par de bigodes negros
-descaidos, com a noiva, um rosto oval correcto e puro, o turbilhão
-nevoento dos véus. Deu-me um botão de flôr de laranjeira que tinham
-remettido.
-
-Andavam assim as cousas, em pé de serenidade, quando occorreu a mais
-espantosa mudança.
-
-Não sei que diabo de expressão notei-lhe no semblante, de ordinario
-tão bom. Desvairamento completo. Apenas me reconheceu, atirou-se como
-fizera Romulo e igualmente brutal. Rolámos ao fundo escuro do vão da
-escada. Derribado, contundido, espancado, não descurei da defeza.
-Entrevi na meia obscuridade do recanto um grande sapato embolorado.
-Luctando na poeira, sob o joelho esmagador do assaltante, ataquei-lhe a
-cabeça, a cara, a bocca, a formidaveis golpes de tacão, apurando a
-energia de sola ferrada com a omnipotencia dos extremos. Bento Alves
-deixou-me bruscamente.
-
-Tinhamos luctado em silencio, sem que nada mais se ouvisse do que os
-encontrões pelo soalho. No corredor, entretanto, vimos Aristarcho que
-chegava como em soccorro. Bento Alves passou; immobilisou-o com o olhar
-sem vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicidio e
-desappareceu, tropego, manchado de pó, labios inflammados, desordem nos
-cabellos.
-
-Aristarcho veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o
-adversario, empoeirado e sujo como de rolar sobre escarros.
-
-Respondi-lhe com violencia.
-
-«Insolente!» rugiu o director. Com uma das mãos prendendo-me a blusa,
-a estalar os botões, com a outra pela nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu,
-«Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho
-impudente! Confessa-me tudo ou mato-te.»
-
-Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a
-excitação do primeiro combate; não podia olhar conveniencias de
-respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O
-director arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou:
-«Sergio!ousaste tocar-me!»
-
---Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.
-
---Criança! feriste um velho!
-
-Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.
-
---Fui vilmente injuriado, disse.
-
---Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao proprio pae, e os
-parricidas serão malditos.
-
-O tom commovido d'este final inesperado impressionou-me até o intimo
-d'alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto horrorisado de mim mesmo.
-De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramatica
-do director augmentou-me ainda remorsos. Houve uma reacção de esforço
-moral e desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me ao
-peitoril de uma janella.
-
-Contava certo com um castigo excepcional, uma comminação qualquer do
-celebre codigo do arbitrio, em artigo cujo gráo minimo fosse a
-expulsão solemne.
-
-Esperei um dia, dous dias, tres: o castigo não veio. Soube que Bento
-Alves despedira-se do _Atheneu_ na mesma tarde do extraordinario
-desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso
-especial do afamado systema das punições moraes e que Aristarcho
-delegara ao abutre da minha consciencia o encargo da sua justiça e
-desaffronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma
-vez dous pagadores promptos, só pela futilidade de uma occorrencia,
-desagradavel, não se duvida, mas sem testemunhas.
-
-O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o director
-num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse.
-
-O resentimento, porém, devia ser fundo e a perspectiva tormentosa do
-processo ameaçava-me como o ensejo imminente da desforra.
-
-Não foi possivel dormir tranquillo.
-
-Á hora do primeiro almoço, como promettera, Aristarcho mostrou-se em
-toda a grandeza funebre dos justiçadores. De preto. Calculando
-magnificamente os passos pelos do director, seguiam-no em guarda de
-honra muitos professores. A porta fronteira, mais professores de pé e
-os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.
-
-Tão grande a calada, que se distinguia nitido o tic-toc do relogio, na
-sala de espera, palpitando os ansiados segundos.
-
-Aristarcho soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com
-um bafejo de todo-poderoso.
-
-E, sem exordio:
-
-«Levante-se, Sr. Candido Lima!
-
-«Apresento-lhes, meus senhores, a Sr.ª D. Candida, accrescentou com
-uma ironia desanimada.
-
-[Figura 30]
-
-«Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus collegas!!»
-
-Candido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e
-maneiras difficeis de indolencia e enfado. Atravessou de vagar a sala,
-dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela
-curiosidade publica.
-
-«Levante-se, Sr. Emilio Tourinho...
-
-Este é o cumplice, meus senhores!»
-
-Tourinho era um pouco, mais velho que o outro, porém mais baixo;
-atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um
-só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era
-com effeito o amante.
-
-«Venha ajoelhar-se com o companheiro.»
-
-«Agora, os auxiliares...»
-
-Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarcho no processo. O
-interrogatorio, com o appendice das delações da policia secreta e dos
-timidos, compromettera apenas dez alumnos.
-
-A chamado do director, foram deixando os logares e postando-se de
-joelhos em seguimento dos principaes culpados.
-
-«Estes são os acolytos da vergonha, os co-réos do silencio!»
-
-Candido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a
-furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo
-no inferno.
-
-Prostrados os doze rapazes perante Aristarcho, na passagem alongada
-entre as cabeceiras das mesas, parecia aquillo um ritual desconhecido de
-noivado: a espera da benção para o casal á frente.
-
-Em vez da bênção chovia a colera.
-
-«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia
-ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo
-das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada
-a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem
-as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram
-collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação,
-furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora
-da justiça!...»
-
-Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre
-Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.
-
-Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os
-doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam
-ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.
-
-Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois.
-Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela
-refracção nebulosa do boato.
-
-Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No
-recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
-
-Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente
-em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da
-circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu;
-repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do
-collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a
-paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra,
-metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino
-ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que
-por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra
-o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da
-escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.
-
-Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças
-do motim.
-
-Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do
-refeitorio. Na qualidade de _presos politicos_, victimas de generosa
-sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando,
-outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos
-apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de
-metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro
-os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
-
-Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia
-das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras
-perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar...
-Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim,
-sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a
-escripta... Em summa... mocidade...»
-
-Acabavam de accender a illuminação do _Atheneu_.
-
-Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho
-no pateo. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se
-mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescriptivel, vozear de
-populaça em revolta, silvos, brados, injurias, em que os gritos
-estridulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de
-clamores.
-
-Os inspectores chegaram aterrados a procurar o director, mostrando a
-cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da
-goiabada! Uma velha queixa.
-
-A comida do _Atheneu_ não era pessima.
-
-O razoavel para algumas centenas de tolinhos. Possuia mesmo o condimento
-indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinencia
-insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de figados
-guizados, o anno todo! Ultimamente, havia tres mezes, a _goiabada_ molle
-de bananas, manufactura economica do despenseiro.
-
-Aristarcho empallideceu de despeito. Visava-o directamente a desaforada
-insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espectaculo da justiça
-tremenda. Não quiz, entretanto, arriscar o prestigio. Vimol-o no
-corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a
-acalmar.
-
-Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar...
-expulsar... fallir talvez. O codigo, em letra gothica, na moldura preta,
-lá estava imperioso o formal como a Lei, prescrevendo a desligação
-tambem contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao
-mesmo tempo... Era de mais! era de mais!... Entrava-lhe a justiça pelos
-bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro
-amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquella porqueira
-gothica de justiça!
-
-[Figura 31]
-
-Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do
-coração! «Ah! Tinham motivo... Mas aquillo era patota do
-despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha
-culpa... Era industria secreta a goiabada de bananas!...»
-
-A sineta, chamando á ceia, pacificou os animos. Espalhou-se que
-Aristarcho rendia-se á revolta e ia falar.
-
-Á mesma porta em que apparecera formidavel de manhã, surgiu-nos
-transformado, manso, liso como a propria cordura e a lealdade; altivo,
-comtudo, quanto comportava a submissão.
-
-«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A
-representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme!
-Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão...
-Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até
-hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba
-consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha
-miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu
-para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de
-Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como
-podia eu suspeitar...»
-
-Emquanto o director falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta
-lata vasia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha,
-espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarcho mirava-se nos
-luminosos documentos da sua inteireza. «Legitimo cascão! legitimo
-cascão, meus senhores!» garantia, tamborilando com os nós dos dedos
-numa tampa.
-
-Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão
-subia, em desordem, scintillando reflexos amarrotados do gaz.
-Aristarcho avultava sobre as latas, como o principio salvo da
-autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras
-azeitadas de ternura, e todo resentimento cedia, e nós saudavamos o
-director, grande alli, como sempre, sobre o chammejamento do Flandres.
-
-
-
-
-IX
-
-
-A amnistia dos revolucionarios aproveitou por extensão aos execrandos
-réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarcho
-despediu-os do gabinete com a penitencia de algumas dezenas de paginas
-de escripta e reclusão por tres dias numa sala. Desprestigiava-se a
-lei, salvavam-se, porém, muitas cousas, entre as quaes o credito do
-estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escandalo de um grande
-numero de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa
-cafúa, impossivel, que lá estava o Franco, por exigencia expressa do
-Sylvino, como causador primeiro das inqualificaveis perturbações da
-ordem no _Atheneu_.
-
-Esta resolução agradou-me summamente. Pena seria, em verdade, que
-perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluido
-na historia sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.
-
-Adquirira-o com a transição para as aulas secundarias, onde o
-encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, comprehendemo-nos,
-mutuamente sympathicos, como se um proposito secreto de cousa necessaria
-tivesse guiado o acaso da collocação.
-
-Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificancia quotidiana da
-vida escolar em que a gente se aborrece, é favoravel ao desenvolvimento
-de inclinações mais sérias que as de simples conveniencia menineira.
-O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos
-vicios gera-se tambem o vicio de sentir.
-
-A convivencia do Sanches fôra apenas como o affeiçoamento agglutinante
-de um sinapismo, intoleravel e collado, especie de escravidão
-preguiçosa da inexperiencia e do temor; a amizade de Bento Alvos fôra
-verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito á força,
-commodidade da sujeição voluntaria, vaidade feminina de dominar pela
-fraqueza, todos os elementos de uma fórma passiva de affecto, em que o
-dispendio de energia é nullo, e o sentimento vive de descanço e de
-somno. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a sympathia não se
-argumenta. Faziamos os themas de collaboração; permutavamos
-significados, ninguem ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a
-necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e
-mostrar. Queimava-me o ardor inexplicavel do desinteresse. Egbert
-merecia-me ternuras de irmão mais velho.
-
-Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os
-cabellos castanhos entremeados de louro, uma alteração exotica na
-pronuncia, olhos azues de estrias cinzentas, obliquos, palpebras
-negligentes, quasi a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de
-conversa, em desenho gracioso e largo.
-
-[Figura 32]
-
-Vizinhos ao dormitorio, eu, deitado, esperava que elle dormisse para
-vêl-o dormir e acordava mais cedo para vêl-o acordar. Tudo que nos
-pertencia, era commum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava
-perfeito. Era elegante, déstro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o,
-desde o coração, até á côr da pelle e á correcção das fórmas.
-Nadava como as toninhas. A agua azul fugia-lhe diante em marulho, ou
-subia-lhe aos hombros banhando de um lustre de marfim polido a brancura
-do corpo. Dizia as licções com calma, difficilmente ás vezes,
-embaraçado por aspirações anciosas de asphyxia. Eu mais o prezava nos
-accessos doentios da angustia. Sonhava que elle tinha morrido, que
-deixara bruscamente o _Atheneu_; o sonho despertava-me em susto, e eu,
-com allivio, avistava-o tranquillo, na cama proxima, uma das mãos sob a
-face, compassando a respiração ciciante. No recreio, eramos
-inseparaveis, complementares como duas condições reciprocas de
-existencia. Eu lamentava que uma occorrencia terrivel não viesse de
-qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a coragem do sacrificio,
-trocar-me por elle no perigo, perder-me por uma pessoa de quem nada
-absolutamente desejava. Vinham-me reminiscencias dos exemplos historicos
-de amizade; a comparação pagava bem.
-
-No campo dos exercicios, á tarde, passeavamos juntos, voltas sem fim,
-em palestra sem assumpto, por phrases soltas, estações de borboleta
-sobre as doçuras de um bem estar mutuo, inexprimivel. Falavamos baixo,
-bondosamente, como temendo espantar com a intonação mais alta, mais
-aspera, o favor de um genio benigno que estendia sobre nós a amplidão
-invisivel das azas. _Amor unus erat_.
-
-[Figura 33]
-
-Entravamos pelo gramal. Como ia longe o borborinho de alegria vulgar dos
-companheiros! Nós dous sós! Sentavamo-nos á relva. Eu descançando a
-cabeça aos joelhos d'elle, ou elle aos meus. Calados, arrancavamos
-espiguilhas á grama. O prado era immenso, os extremos escapavam já na
-primeira solução de crepusculo. Olhavamos para cima, para o céu. Que
-céus de transparencia e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se ainda, em
-cauda de ouro, uma lembrança de sol. A cupola funda descortinava-se
-para as montanhas, diluição vasta, tenuissima de arco-iris. Brandos
-reflexos de chamma; depois, o bello azul de panno, depois a
-degeneração dos matizes para a melancolia nocturna, prenunciada pela
-ultima zona de roxo doloroso. Quem nos dera ser aquellas aves, duas, que
-avistavamos na altura, amigas, declinando o vôo para o occaso, destino
-feliz da luz, em pleno dia ainda, quando na terra iam por tudo as
-sombras!
-
-Outras vezes, subiamos ao duplo trapezio. Embalavamo-nos primeiro
-brando, affrontando a caricia rapida do ar. Pouco a pouco augmentava o
-balanço e arriscavamos loucuras de arremesso, assustando o _Atheneu_,
-levados em vertigem, distendidos os braços, pés para frente, cabeça
-para baixo, cabellos desfeitos, ebrios de perigo, ditosos se as cordas
-rompessem e acabassemos os dois, alli, como uma só vida, no mesmo
-arranco.
-
-Liamos muito em companhia. Paginas que não terminavam, de leituras
-delicadas, fecundas em scisma: Robinson Crusoé, a solidão e a
-industria humana; Paulo e Virginia, a solidão e o sentimento.
-Construia-mos risonhas hypotheses: que faria um de nós, vendo-se nos
-apuros de uma ilha deserta?
-
---Eu, por mim, iniciava logo uma furiosa propaganda a favor da
-immigração e ia clamar ás praias, até que me ouvisse o mundo.
-
---Eu faria cousa melhor: decretava preventivamente o casamento
-obrigatorio e punha-me a esperar pelo tempo.
-
-A pastoral de Bernardin de Saint-Pierre foi principalmente o nosso
-enlevo. Parecia-nos ter o poema no coração. _A bahia do Tumulo_, de
-aguas profundas e sombrias, festejada apenas algumas horas pelo sol a
-prumo, em suave tristeza sempre; ao longe, por uma bocaina, a fachada,
-á vista, branca, da igreja rustica de Pamplemousses.
-
-Ideavamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do
-sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideavamos bem as scenas que
-liamos da singela narrativa, almas que se encontram, dous coqueiros
-esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas
-franjadas, ao calor da felicidade e do tropico. Comprehendiamos os
-pequeninos amantes de um anno, confundidos no berço, no somno, na
-innocencia.
-
-Reviviamos o idyllio todo, instinctivo e puro. «Virginie, elle sera
-heureuse!...» Animavamo-nos da animação d'aquellas correrias de
-crianças na liberdade agreste, gozavamos o sentido d'aquella
-topographia de denominações originaes--_Descoberta da amizade_,
-_Lagrimas enxugadas_, ou de allusões á patria distante. Ouviamos
-palmear a revoada dos passaros, disputando ao redor de Virginia, a
-ração de migalhas. Percebiamos sem raciocinios a philosophia sensual
-da mimosa entrevista.
-
-«Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux.
-Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi...
-Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon
-sein et je serai délassé.--Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais
-tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés
-dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours
-ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un
-arbre à l'autre...»
-
-Confrangia-nos, emfim, ao voltar das paginas, a difficuldade cruel das
-objecções de fortuna e de classe, o divorcio das almas irmãs, quando
-os coqueiros ficavam juntos. E a imminencia constrictora do austro, da
-catastrophe, a lua cruenta de presagios sobre um céu de ferro...
-
-E guardavamos do livro, cantico luminoso de amor sobre a surdina escura
-dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, mixto de pezar,
-de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo
-maldito, onde o café floria e o niveo algodão e o verde claro dos
-milhos de uma rega de sangue, altear a imagem phantastica da bondade.
-Virginia coroada; como o capricho omnipotente do sol, formando em gloria
-os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e
-doura.
-
-Com o Egbert experimentei-me ás escondidas no verso. Esboçámos em
-collaboração um romance, episodios medievaes, excessivamente tragicos,
-cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notavel era um combate
-devidamente organisado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal
-maneira a invenção de Schwartz, que ficavamos para todo o sempre, em
-litteratura, a salvo da increpação de não descobrir a polvora.
-
-Quando ouvi-lhe o nome, á chamada, dos compromettidos no processo,
-soffri como a surpreza de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de
-compartir com elle a vergonha.
-
-Qual a especie de cumplicidade que se attribuia? Não quiz saber; fosse
-o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que soffresse, muito
-culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E
-fazia-me estremecer a idéa de que iam maltratar creatura tão mansa,
-tão complacente, tão amavel, feita de sensibilidade e brandura, contra
-quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os
-defeitos, com todas as maculas, na facilidade de perdão das cegueiras
-sentimentaes, estranhezas da preferencia, que envolve tudo, no ser
-querido, a phrase limpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da
-carne.
-
-Quando nos tornámos a vêr, nenhum teve para o outro a minima palavra;
-ficámos a um banco, lado a lado, em expansivo silencio. E nunca,
-depois, nem por allusão distante, nos referimos ao caso. Coincidencia
-instinctiva de um respeito reciproco, odio talvez commum de uma
-recordação ominosa.
-
-Desde o mez de julho do anno anterior, cursava os estudos elementares
-das linguas, alegrando-me a acquisição do vocabulo estrangeiro,
-commercio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a
-civilisação, como se bebesse a realidade do movimento humano nos
-paizes remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditavamos
-como se acredita em romances.
-
-Seguiu-se a massada dos interminaveis themas.
-
-Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenisava o trabalho. As
-paginas sorriam de litteratura, com o sorriso conhecido dos objectos
-familiares.
-
-Os professores eram bons e moderados. O do francez, Mr. Delille, nome de
-poeta applicado a um urso, honrado urso, inoffensivo e benevolo; saudoso
-do terceiro imperio, cujo desastre o deportava para a vida de aventuras
-além mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabello
-denso, luxuriante, ruivo queimado no logar da bocca, mais longe preto,
-atravez do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de
-cachaça e regras de Halbout. O professor de inglez, Dr. Velho Junior,
-nome de contradicção ainda, o melhor dos homens: zeloso, explicador
-detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a occasião, mas que
-excellente occasião de se estimar e querer bem!
-
-A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
-
-O professor Venancio leccionava tambem inglez; escapei-lhe ás garras,
-felizmente: uma fera! chatinho sob o director, terrivel sobre os
-discipulos; a um d'elles arremessou-o contra um registro do gaz,
-quebrando-lhe os dentes. Manlio, além das primeiras letras, regia a
-cadeira especial do portuguez.
-
-Graças ao estudo do outro anno, alcancei soffrivelmente o meu attestado
-de vernaculismo, garantido pela competencia official; graças tambem ás
-tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre frei Ambrosio,
-respeitavel, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a
-ar tinha com a intonação ôcca e funda das missas cantadas, consumidor
-de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a
-Paulo Cordeiro o magnifico idioma do _qui_, _quæ_, _quod_, produzir-me
-espirros uma simples reminiscencia de Sallustio.
-
-Era costume no _Atheneu_ licenciar-se um pouco do regimento da casa a
-estudante de certa ordem, que estivesse em vespera de exame. Saía-se
-então para o jardim com os livros e a commodidade do trabalho a
-bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitavamos, eu e o Egbert, com toda
-vontade, a regalia consuetudinaria. Antes da data memoravel do francez,
-muito passeiámos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille,
-Racine, Molière. O theatro classico dava para grandes effeitos de
-declamação. Quanta tragedia perdida sobre as folhas seccas! Quanto
-gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas á viração
-leviana e passageira!
-
-Um era Augusto, outro Cinna; um Nearcho, outro Poliuto; um Horacio,
-outro Curiacio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero o Burrho, Philinto e
-Alceste, Tartufo e Cleantho. O arvoredo era um scenario deveras.
-Dialogavamos, com toda a força das encarnações dramaticas, a bravura
-cavalheiresca, o civismo romano, as apprehensões de rei ameaçado, o
-heroismo da fé, os arrufos da misanthropia, as sinuosidades do
-hypocrita. Uma estatua de deusa anonyma, de louça esfolada, verde de
-velhice, constituia o auditorio, auditorio attento fixamente, comedido,
-sem demasias do applauso nem reprovação, mas constante e infatigavel.
-
-Para o desempenho dos papeis femininos havia difficuldades; cada um
-queria a parte mais energica do recitativo. Tirava-se a sorte, e,
-segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava som cerimonia as saias de
-qualquer dama e ia perfeita a _toilette_ do sentimento, noivado de
-Chimène, desespero de Camilla, lucto de Paulina, ambição de Agrippina,
-soberania de Esther, astucia de Elmira, dubiedade de Celimène. Outro
-papel custoso de distribuir era o do Burrho, papel honesto, entretanto,
-e altamente sympathico. Ninguem o queria fazer, o virtuoso conselheiro
-de Nero.
-
-Melhor que a prerogativa do estudo livre era uma especie de premio, não
-catalogado nos estatutos, com que Aristarcho gentilmente obsequiava os
-_distinctos_. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! á mesma toalha
-com a princeza Melica, dos olhos grandes.
-
-Quiz o bom fado que obtivessemos, os dous amigos, a prezada nota, e,
-registre-se perenne! examinados pelo professor Courroux, o tremendo
-Catão das bolas pretas, terror universal dos _bichos_!
-
-O director recebeu-me da Instrucção com um abraço contrafeito de
-estylo; percebi que ainda escorria a fistula dos resentimentos.
-Convidado Egbert, força ora que o fosse eu tambem, e o fui, de má
-vontade, por formula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite,
-mas attrahia-me certo numero de curiosidades, por exemplo: vêr como
-comia a Melica, uma cousa de subido interesse.
-
-Lembro-me, entretanto, que havia flôres sobre a mesa, que estava, a
-queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha do
-director.
-
-Uma attenção absorveu-me exclusiva e unica. D. Emma reconheceu-me era
-aquelle pequeno das madeixas compridas! Conversou muito commigo. Um
-fiapo branco pousava-me ao hombro do uniforme; a boa senhora tomou-o
-finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio
-levissimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que
-differença do que era ha dous annos! Tinha idéa do haver estado
-commigo rapidamente, no dia da exposição artistica...
-
-[Figura 34]
-
---Um peraltinha! interrompeu Aristarcho, entre mordaz e condescendente,
-de uma janella a cujo vão conversava com o professor Chrysostomo.
-
-Eu quiz inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me
-prendia a mão nas d'ella, maternalmente, suavemente, de tal modo que me
-prendia a vivacidade tambem, prendia-me todo, como se eu existisse
-apenas naquella mão retida.
-
-Depois da interrupção de Aristarcho, não sei mais nada precisamente
-do que se passou na tarde.
-
-Miragem seductora de branco, fartos cabellos negros colhidos para o alto
-com infinita graça, uma rosa nos cabellos, vermelha como são vermelhos
-os labios e os corações, vermelha como um grito de triumpho. Nada
-mais. Ramalhetes á mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão
-adoravel do branco e a rosa vermelha.
-
-Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuario de neve.
-Serviam-me alguns pratos, muitas caricias; eu devorava as caricias. Não
-ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dous olhos
-perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava tambem, não tenho
-certeza, do outro lado, por entre as flôres, o professor Chrysostomo.
-
-Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer,
-Aristarcho presidia; tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um
-ausente.
-
-De volta ao _Atheneu_, senti-me grande. Crescia-me o peito
-indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação.
-Sentia-me elevado, vinte annos de estatura, um milagre. Examinei então
-os sapatos, a vêr se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos
-symptomas estranhos constatei. Mas uma cousa apenas: olhava agora para
-Egbert como para uma recordação e para o dia de hontem.
-
-D'ahi começou a esfriar o enthusiasmo da nossa fraternidade.
-
-
-
-
-X
-
-
-Bem differente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da
-vespera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrucção Publica. A
-expectativa mortal das chamada; uma insignificancia: o terror academico!
-que nos sobresalta, que nos deprime como o que ha de mais grave. E por
-occasião das provas de francez já não era estreante.
-
-A estréa do primeiro exame foi de fazer febre. Tres dias antes
-pulavam-me as palpitações; o appetite desappareceu; o somno depois do
-appetite; na manhã do acto, as noções mais elementares da materia com
-o appetite e com o somno. Memoria _in albis_.
-
-O professor Manlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava
-mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da rua dos
-Ourives, como os tribunaes ferozes, sem appello; a terrivel campainha
-penetrante da abertura da solemnidade, os reposteiros plumbeos de
-espesso verde, sopesando as armas imperiaes, as formidaveis paredes de
-alvenaria secular. Que barbaridade aquella conspiração toda contra
-mim, contra um, de todos aquelles perfis rebarbativos, continuos, o
-Mattoso, o Neves Leão, as commissões, qual mais poderosa e carrancuda;
-o Conselho da Instrucção no fundo, cousa desconhecida, mythologica,
-entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as
-vozes da nave engrossam de resonancia, emprestando a força moral á
-justiça das commissões, com o prestigio da elevação e do
-inaccessivel; mais alto que tudo, o Ministro do Imperio, o Executivo, o
-Estado, a Ordem social, apparato enorme contra uma criança.
-
-Entrava-se pela rua da Assembléa, para o saguão ladrilhado.
-
-Alli estive não sei que tempo, como um condemnado em oratorio. Em redor
-de mim, morriam de pallidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o
-mais velho de todos, cadaverico, ar de Christo, tinha a barba rente,
-pretissima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim
-velho.
-
-De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saía uma voz, uma
-lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não
-houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem
-consciencia dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de
-tecto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça
-instinctivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros
-opacos de fumaça, côr de pergaminho, coava para o interior um
-crepusculo fatigado, amarellento, que pregava mascaras de ictericia ás
-physionomias.
-
-[Figura 35]
-
-Entre as vidraças e os logares que eram destinados aos examinandos,
-ficava a mesa examinadora: á direita um velho calvo, baixinho, de
-alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da côr
-dos cabellos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno
-volume com o esforço dos myopes, esfregando as paginas ao rosto. Á
-esquerda, um homem de trinta annos, barba rareada por toda a face,
-palpebras inclusive, oculos escuros, cabello secco, caracolando. A
-claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições.
-O terceiro, presidente da commissão, não se via bem, encoberto pela
-urna verde de frisos amarellos.
-
-Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se,
-apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os á
-urna. A urna de folha cantava ironica sob o cair dos numeros,
-sonoramente.
-
-Tirou-se o ponto; momento de angustia ainda...
-
-Depois: estrophe dos Lusiadas! Estavamos livres da expectativa. Não me
-preoccupou mais a difficuldade do ponto.
-
-Depois do ditado, como em relaxamento de cançaço do espirito, esqueci
-o inventario natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Puz-me a
-pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da
-natação, na maneira de rir de Angela, no criado assassinado, no
-processo do assassino, que fôra julgado havia pouco... Tres pancadinhas
-que senti no calcanhar, chamaram-me das distracções.
-
-Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de traz, o queixo de ébano que
-pedia soccorro. «Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem
-directa!»
-
-O ruido d'esta phrase balbuciada, sibilou bem forte para attrahir a
-attenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de
-acudir inteiramente. Além d'isso, precisava cuidar do proprio
-interesse. Deixei o pobre Christo de marfim entregue ao desespero de uma
-lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a
-caneta.
-
-Para a prova oral fui mais animado. A nota da escripta era
-tranquillisadora.
-
-Os exames oraes eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela rua dos
-Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além d'estes,
-enchia-se o saguão da escada com a turba-multa dos assistentes,
-confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades,
-todos os collegios representados, além dos estudantes avulsos de aulas
-particulares, em cujo numero confundiam-se caras suspeitas de
-farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.
-
-O _Atheneu_ era invejado. Victimas do uniforme, os discipulos de
-Aristarcho passeiavam entre os grupos dos collegios rivaes, soffrendo
-dichotes, com uma paciencia recommendada de boa educação.
-
-Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos halitos e um
-cheiro de sarro intoleravel; emplastravam-se de cusparadas as paredes;
-passeiava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; resoavam grandes
-gargalhadas de _ship-chandler_; chasqueava-se a palavrões. Alguns
-rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam
-para o alto, com as costas da mão, chapéos de palha suja, e passeiavam
-gingando. Os mais distinctos davam caminho, repuxando um canto
-desdenhoso de labios, perfilando mais a elegancia.
-
-Um reboliço extraordinario agitou a multidão. Acabava-se de descobrir
-na cal, coberta de epigrammas e rabiscos, uma nova inscripção de muito
-espirito: versalhada satyrica contra o professor Courroux, da mesa de
-francez, rimando em _u_, sempre em _u_, de cima a baixo, com uma
-fertilidade pasmosa de epithetos.
-
-Nem de proposito! na mesma occasião entrava e lançava-se
-precipitadamente pela escada o terrivel professor. «Não o conhece? Lá
-vae!» indicou-me um companheiro mais proximo.
-
---Não o conhecia...
-
-Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se
-sabia felizmente para quem, porque era estrabico. Por elle começou o
-meu improvisado informante, e, conhecendo que eu andava atrazado a
-respeito, não me deixou mais: «Se tem empenho, fura; se não tem,
-babáu. Bancas de peixe! O peixe é caro ás vezes, mas é sempre peixe
-de mercado. Olhe o Meirelles da philosophia, aquelle compridão de barba
-russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da rua dos Arcos; o Simas da
-mesa de geographia, um pançudo appellidado _esphera terrestre_,
-mimoseiem-no com um par de gallos de briga... o Barros Andrade...
-comprem-lhe os pontos... aquelle diabo da rhetorica que me bombeou ha
-dias... falem-lhe nos versos, que não ha suissas mais amaveis. O seu
-director é que os comprehende. Quando entra aqui é uma onça; o
-proprio tecto branco empallidece; levantam-se, saúdam o soberano!
-Agora, ha homens respeitaveis: o velho Moreira, o sympathico Ramiro, de
-sorriso patriarchal...»
-
-Do topo da escada, gritaram para o saguão que ia principiar a chamada
-dos de portuguez.
-
-Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo!
-Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a
-sopapos de ida e volta, segundo o bello costume do tempo.
-
-Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janellas, de velhos
-caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos,
-offerecendo espessuras desiguaes e densidades verdes. Um parapeito de
-ferro em grade dividia o salão por dous lances; o mais espaçoso para
-os assistentes. No outro havia duas mesas de exame: a de mathematicas,
-perto da entrada, a de portuguez, mais adiante, e tão chegadas que se
-fundiam-as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando
-admiraveis effeitos de applicação das sciencias exactas á philologia.
-
-Antes da cerimonia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou,
-deixando cair a bengala. Olharam todos, «Não conhece?» indagou-me o
-officioso companheiro.
-
-Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos
-brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando
-o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro
-Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a
-tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na
-banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia;
-se erram escandalosamente no _tieitch_! Muito depois, apanharam-no
-consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre _tieitch_
-em que tanto se erra?...»
-
-Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me
-no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel
-supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.
-
-[Figura 36]
-
-Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos.
-Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas
-incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão
-fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo,
-fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via
-inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.
-
-Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse;
-não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o
-pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido
-do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do
-arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual
-concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido
-impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue,
-involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo,
-irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã.
-Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa
-tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.
-
-Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora
-extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos
-deslumbramentos.
-
-Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua
-amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma
-selvageria amordaçada de affectos.
-
-Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que
-differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma _terceira pessoa_.
-Eu preferia andar só.
-
-Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o
-dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do
-Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.
-
-Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do
-relaxamento da policia do salão.
-
-O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos
-grandes, o prudente bedel deixava andar.
-
-Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa
-absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção
-de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia
-narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como
-eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam,
-soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e
-rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros,
-bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma
-partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas
-aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que
-adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula
-ou do jantar, um companheiro puxava-me.
-
-Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida
-scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu?
-Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises
-nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo,
-sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante
-do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas!
-exactamente a substancia do afamado mysterio do _chalet_.
-
-A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do
-Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e
-uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas
-e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia
-mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado
-de narigudo.
-
-Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a
-legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da
-terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por
-aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do
-_nada haver_, ou como entendiam outros _nada vêr_. Louvavam-se os
-exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as
-tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito;
-cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo
-passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos
-novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem
-seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma
-historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se
-mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem
-applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica
-obscura do _Atheneu_ redigia-se alli, em termos explicitos e fortes,
-expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das
-commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com
-a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do _chalet_ era esta,
-caracteristica:--Fica revogado o director.
-
-Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era
-normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.
-
-Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a
-terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso
-das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão
-convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres
-convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle,
-novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se
-no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.
-
-Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em
-regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério,
-espantadiço das _femmes qui sortent_; havia os ingenuos, perpetuamente
-infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de
-adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os
-enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos,
-apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original
-da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam
-grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto,
-protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente,
-beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a
-corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da
-graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao
-banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua,
-em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de
-meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de
-desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes
-do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de
-outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de
-conformar-se deploravelmente com a solidão.
-
-Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos,
-morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de
-malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os
-gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma
-superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.
-
-Angela dominava-os a todos; vencia-os.
-
-As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas
-de madeira; por entre as travessas olhavamos.
-
-Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata.
-Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava
-agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por
-igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos,
-ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia
-branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a
-espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos
-para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais,
-emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição
-dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz,
-fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as
-leoas, insensivel e sobranceira.
-
-Cantava.
-
-Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento
-de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente,
-conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em
-que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito
-angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina;
-acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente
-pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.
-
-Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com
-quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando
-uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio
-tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no
-ventre.
-
-E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os
-descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança
-sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade;
-inflammava-se o _chalet_ em conflagrações de enthusiasmo. Se passava
-algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra
-das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.
-
-E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos,
-entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a
-erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer
-graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a
-expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.
-
-Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira
-sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos
-além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar
-fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais
-estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em
-questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes
-torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por
-medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo
-sentinella um durante a ausencia do outro.
-
-Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do
-salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem
-recorrer ás modalidades de expressão--actualmente, virtualmente, que
-o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito
-seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha;
-incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um
-roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição
-odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação
-violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios,
-conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação,
-trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia
-delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez
-soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira
-classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma
-paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante,
-ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve
-remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o
-chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis;
-tambem quem trahisse apanhava.
-
-A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre
-que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata,
-era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro
-fabuloso do Malheiro era a sancção.
-
-Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não
-escaldassem as horas nocturnas ao _chalet_. Ah! o passeio livre do
-jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação
-prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha
-recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada;
-aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo,
-sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para
-subir.
-
-[Figura 37]
-
-Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um
-accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma
-diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que
-me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da
-hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.
-
-Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.
-
-Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de
-maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação
-as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira,
-enfermeirazinha cuidadosa.
-
-Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do
-coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias
-molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo
-escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de
-cousas improvadas!
-
-No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer,
-prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava
-a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo
-opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o
-diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.
-
-Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous
-páus.
-
-Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça.
-Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois,
-do interesse de todos em abafar o negocio.
-
-Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o
-companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal
-pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.
-
-Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa, evoquei a
-memoria da affronta que me devia Romulo. Era justo. Recolhi pouco a
-pouco a corda de lençóes, firmei forte as barras da grade e fui
-dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injuria, que o sangue não lava,
-bem póde lavar uma ducha de enchurro.
-
-Estava vingado!
-
-No outro dia appareceu o gorducho entanguido, encatarrhado, furibundo,
-em chinellos sem meias, calças, camisa de naufrago, miserando, cercado
-pelo espanto de todos e pela galhofa.
-
-Passara a noite sob a janella pedindo misericordia ao sarrafo
-impassivel, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper
-do dia, Aristarcho o foi achar no lastimoso estado.
-
-A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a
-aventura. Fez-se de esquerdo.
-
-«Ora o rapaz!...» exclamou com uma satisfação muito intima.
-
-E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.
-
-
-
-
-XI
-
-
-O Dr. Claudio encetou uma serie de prelecções aos sabbados, á
-imitação das que fazia ás quintas Aristarcho sobre logares communs de
-moralidade. Philosophia, sciencia, litteratura, economia politica,
-pedagogia, biographia, até mesmo politica e hygiene, tudo era assumpto;
-interessantissimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do
-director, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de attenção.
-
-Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a
-genese das rochas, fecundidade infernal do incendio primitivo, do
-granito, do porphyro, primogenitos do fogo; o grande somno millenario
-dos sedimentos, perturbado de convulsões titanicas.
-
-Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica
-de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das
-arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a
-escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das
-metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao
-homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros
-resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando
-as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo
-diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.
-
-Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo,
-lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente,
-a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz.
-Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante,
-que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro.
-Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da
-giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do
-inaccessivel.
-
-Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões
-virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que
-póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira
-a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a
-microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da
-monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis
-da terra.
-
-O homem finalmente--ventre, coração e cerebro, politica, poemas,
-criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector
-immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o
-sol não sente.
-
-Falava uma vez sobre educação.
-
-Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o
-condemna.
-
-É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião
-de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a
-injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as
-linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a
-humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os
-predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam
-as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão
-exacerba as tendencias ingenitas?
-
-Tanto melhor: é a escola da sociedade.
-
-Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso
-que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em
-que se realise o mais cedo.
-
-A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem
-das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.
-
-A energia para affrontal-as é a herança de sangue dos capazes da
-moralidade, felizes na loteria do destino. Os desherdados abatem-se.
-
-Ensaiados no microcosmo do internato, não ha mais surprezas no grande
-mundo lá fora, onde se vão soffrer todas as convivencias, respirar
-todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialectica geral,
-e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde,
-porque a perfidia terra-terra é um dos processos mais efficazes da
-vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quasi sempre a condição
-do exito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma
-redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca
-para as dissoluções babylonicas do instincto; onde o que é nullo,
-fluctua e apparece, como no mar as perolas immersas são ignoradas, e
-sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.
-
-O internato é util; a existencia agita-se como a peneira do garimpeiro:
-o que vale mais e o que vale menos, separam-se.
-
-Cada mocidade representa uma direcção. Hão de vir os disfarces, as
-hypocrisias, as suggestões da habilidade, do esclarecimento
-intellectual; no fundo a direcção do caracter é invariavel. A
-constancia da bussola é uma; temos todos um norte necessario: cada um
-leva ás costas o sobrescripto da sua fatalidade. O collegio não
-illude: os caracteres exhibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O
-que tem de ser, é já. E tanto mais exacto, que o encontro e a
-confusão das classes e das fortunas equipara tudo, supprimindo os
-enganos de apparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior,
-que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.
-
-E não se diga que é um viveiro de máus germens seminario nefasto de
-máus principios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que
-faz a sociedade; o internato a reflecte. A corrupção que alli viceja,
-vae de fóra. Os caracteres que alli triumpham, trazem ao entrar o
-passaporte do successo, como os que se perdem, a marca da condemnação.
-
-O externato é um meio termo falso em materia de educação moral; nem a
-vida exterior impressiona, porque a familia preserva, nem o collegio
-vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivencia
-de mundo á parte, que só a reclusão do grande internato occasiona. O
-internato com a somma dos defeitos possiveis é o ensino pratico da
-virtude, a aprendizagem do ferreiro á forja, habilitação do luctador
-na lucta. Os deuses sacrificam-se; não prevalecem. Os gymnasios são
-para os privilegiados da saude. O rheumatismo deve ser um pessimo
-acrobata. Erro grave combater o internato.
-
-Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se
-multiplique a escola positiva do conflicto social com os máus
-educadores e as companhias perigosas, na communhão corruptora, no
-tédio de claustro, de inacção, de carcere; cumpre que os generosos
-ardores da alma primitiva e ingenua se disciplinem na desillusão crua e
-prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais
-que flanar facilmente, mãos ás costas, fronte ás nuvens, através das
-praças desimpedidas da republica de Platão.
-
-[Figura 38]
-
-Durante a conferencia pensei no Franco. Cada uma das opiniões do
-professor, eu applicava onerosamente ao pobre eleito da desdita,
-pagando por trimestre o seu abandono naquella casa, aluguel do desprezo.
-Lembrava-me do desembargador em Matto-Grosso e da carta que eu lera e da
-irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das
-maneiras, da concentração muda de odios, dos movimentos incompletos de
-revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.
-
-Depois da conferencia fui visital-o.
-
-Estava de cama no salão verde, á direita, perto das janellas. Andava
-adoentado desde a ultima vez que fôra á prisão.
-
-Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatorios;
-sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, á
-distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros
-gradeados daquella especie de immensa adega. O chão era de terra
-batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro humido de cogumelos
-pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista,
-distinguia-se no meio uma especie de gaiola ou capoeira de travessões
-fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma taboa pregada, por
-mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafúa.
-
-Engaiolava-se o condemnado na amavel companhia dos remorsos e da
-execração; ainda em cima, uma tarefa de paginas, para a qual o mais
-difficil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um
-rato no invisivel; ás vezes vinham subir ás pernas do condemnado os
-animaezinhos repugnantes dos logares lobregos. Á soltura surgia o
-preso, pallido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma cousa
-incrivel. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.
-
-Franco saiu doente.
-
-Alguns collegas mostravam interesse por elle. Franco respondia com
-aspereza: não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia
-de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, elles mesmos, o
-Sylvino, Aristarcho, todos os seus algozes! Raciocinava como as victimas
-da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E occultou
-que soffria.
-
-Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se á
-soalheira, ao sereno, de proposito.
-
-Um dia não pôde levantar-se.
-
-Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe nauseas, elle corria á
-janella. Em baixo havia um pé de magnolias, copado como um bosque; elle
-no intervallo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do
-vómito contra as amplas flôres alvas.
-
-Encontrei-o mal.
-
-Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de
-cobertores que os vizinhos haviam cedido, affectava o descuido infantil,
-na physionomia, a indifferença horripilante, suprema dos que não vão
-longe. Fiquei surprehendido e aterrado.
-
-O medico, a chamado de Aristarcho, viera duas vezes. Condemnou a idéa
-de remover-se o doente; recommendou cuidado com as vidraças;
-diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o _recipe_, partindo ambas as
-vezes com a discrição hermetica que faz a importancia da classe.
-
-Perguntei ao Franco como passava. Elle agitou de vagar as palpebras e
-sorriu-se. Nunca lhe conheci tão bello sorriso, sorriso de criança á
-morte. Oito horas da noite. O gaz attenuado produzia effluvios
-contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos
-outros dormitorios, em cujas vidraças espelhantes devia passar
-successivamente a minha sombra. Procurei o director e communiquei-lhe os
-meus terrores.
-
-No dia seguinte, um domingo alegre. Franco estava morto.
-
-O correspondente compareceu em pessoa para as indispensaveis
-providencias. Transferiu-se o corpo para a capella, onde se erigia a
-eça. Aristarcho chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao
-collegio o apparato de um grande enterro, pregão talvez de
-insalubridade.
-
-[Figura 39]
-
-Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado.
-Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espolio da
-morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó
-chinez, uma velha correia sem fivella, uma photographia gorda de mulher
-despindo os seios, cartas á tôa e um maço consideravel de boas notas,
-arranjadas ninguem sabe como, com assignaturas falsas de professores, e
-o nome de Franco, fraude de successo com que o pobre pretendia
-maravilhar o magistrado de Cuyabá.
-
-Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóes um cartão: uma gravura,
-Santa Rosalia! a minha padroeira desapparecida. Morrera talvez
-beijando-a, o pária.
-
-Pouco tempo depois, o _Atheneu_ em festa.
-
-Preparava-se a solemnidade da distribuição biennal dos premios. As
-benemerencias andavam famintas de corôas. Suspenderam-se as aulas. Era
-preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se
-projectava cousa nunca vista. Alguns discipulos tinham prevenido ao
-director, guardavam-lhe uma surpreza: a offerta de um busto de bronze!
-Aristarcho predispunha-se para a surpreza com todas as veras da alma. Um
-busto! era a remuneração que chegava dos impagaveis esforços, a
-sonhada estatua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais
-tarde, offerecer-lhe-iam o abdomen, bella pança metallica e magnifico
-umbigo de bonzo gordo, saliente como um murro; depois, o prolongamento
-do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe offerecessem as
-botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, elle mesmo
-offerecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, accumuladas, as peças do
-seu orgulho, a pilha dos seus anhelos, a estatua! surgida aos poucos da
-sinceridade vagarosa das oblações, como difficilmente a gloria, do
-escrutinio demorado dos tempos.
-
-Devia ser uma solemnidade sem memoria nos fastos da pedagogia
-triumphante, um obelisco de despezas, de luxo, de esplendor, a cuja
-ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpreza, galardão
-das altas qualidades e pirraça suprema á concorrencia dos rivaes.
-
-Não havia sala no _Atheneu_ que comportasse tão vasta festividade; nem
-o proprio logar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o
-pateo central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma
-barraca incalculavel, a maior barraca que a imaginação humana tem
-concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o panno
-emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as
-archibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a
-exhibição dos laureados. Por intermedio do ajudante-general da armada,
-que tinha dous filhos no estabelecimento, podia-se commodamente obter a
-lona.
-
-Durante alguns dias chegaram ao _Atheneu_ cargas immensas de panno.
-Espichavam-se os rolos no pateo, ao longo das paredes. Appareceram em
-seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.
-
-Em meio dos operarios iam e vinham os estudantes, ajudando,
-atrapalhando, ás carreiras, aos saltos, aos gritos, presentindo a
-felicidade do dia solemne. Aristarcho approvava o tumulto; queria
-vêl-os alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de panico;
-alguns rapazes tinham ido para casa, receiosos da febre.
-
-O alvoroço dos preparativos reanimava o _Atheneu_. Em poucos dias
-atravancou-se o pateo de postes e travessões, taboas e pés de serra,
-como um desmedido estaleiro. Os martellos batiam por todos os cantos com
-a crepitação continua dos tiroteios. Desapparecia a terra sob a poeira
-dos páus cortados. Aristarcho fiscalisava o serviço como mestre de
-obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da
-serragem fresca, cheiro de officina, cheiro do trabalho, ouvindo
-attritar os serrotes com um rumor de fabrica, que lembrava os haustos de
-offego do vapor ao vaevem poderoso dos embolos. Havia um prazer especial
-naquillo; crescer do chão em tres dias por honra sua a floresta das
-vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens activos e azafamados;
-cantarem as taboas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como
-um desafio ás exaltações, e prejulgar do effeito total, quando tudo
-fosse belbutina e panninho, e o concurso da população invadisse, e
-assomasse, de um terremoto de acclamações o busto, altaneiro e luzente.
-
-Certo não foi tão nobre o orgulho d'aquelles monarchas das pyramides,
-idiotas macabros e collossaes, architectos inuteis de sepulcros.
-
-Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se
-sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janellas
-do pateo abriam-se para o amphitheatro como tribunas.
-
-Os armadores comprometteram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo
-que póde produzir de apparatoso o bem combinado das côres vivas e os
-apanhados de cassa fluctuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as
-columnatas de papelão; tudo que póde a concordancia assombrosa da
-scenographia e da ripa, armou-se no pateo profusamente.
-
-Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flôres claras. Em
-parte da archibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras.
-Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na taboa dura. As
-abertas de construcção que não podiam ficar assim em osso, foram
-empannadas de velludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos
-assentos havia uma linha de balaustres espiralados de fitas. Em cada
-balaustre um escudo com o nome do um pedagogo celebre. Por delicadeza
-incluiram o nome de Aristarcho varias vezes. Aristarcho não reparou.
-
-Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degráus para um longo
-estrado, fronteiro á entrada do amphitheatro, apoiado á parede da sala
-geral de estudo. Erguia-se alli um throno, sob um docel, para a Princeza
-Regente. De vez em quando, Aristarcho, cançado de tanto mover-se, subia
-ao throno, sentava-se. Fazia-lhe bem o docel por cima. E dava regras aos
-armadores, de lá, como um soberano precavido dictando o esplendor da
-coroação.
-
-Os iniciadores da subscripção do busto haviam concluido a tarefa. Eram
-dous: o Climaco, alumno gratuito, e o professor de desenho. Climaco,
-moço de espirito pratico, não levou muito a ruminar uma feliz idéa. E
-se offerecessemos um busto ao nosso director? Lembrou-se a principio de
-congregar os gratuitos; mas repelliu immediatamente a lembrança por
-inexequivel. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais
-barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram
-frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora
-para outra. Consultasse os collegas, que, se a idéa pegasse, não
-teriam duvida. Alguns mais acanhados assignaram logo; alguns, ainda, dos
-pequenos assignaram sem saber claramente o que significava a cousa. Em
-poucos minutos a existencia da subscripção estava no dominio publico.
-Começou a pressão irresistivel de facto. Que miseria! hesitar por dez
-mil réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho publico de
-agradecimento que a offerta do busto significava? Era uma desfeita ao
-director! Os primeiros signatarios encarniçavam-se com despeito em
-coagir os outros, como se não quizessem ser os unicos sangrados.
-
-Já não era preciso esforço do iniciador. A idéa ganhava terreno por
-si; em dous dias inteirava-se a subscripção. Muitos pegavam á vista;
-os que não tinham dinheiro iam tirar ao escriptorio, e o guarda-livros
-em segredo debitava o valor, despezas diversas, na conta do trimestre.
-
-Diante da facilidade de obter o dinheiro, Climaco resolveu sensatamente
-dispensar do rateio os gratuitos: adheriam com a intenção sincera.
-Razoavel. Quando principiaram os preparativos da solemnidade, já o
-busto, obra de zeloso artista, estava fundido.
-
-No dia 13 de Novembro, ás nove horas, começou a affluencia. O
-amphitheatro do pateo estava fechado ainda. Os convidados que
-appareciam, depois de comprimentar o director, espalhavam-se a passear
-em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento,
-examinando os apparelhos escolares, as cartas de parede, as maximas
-sabias, meditando a seriedade do ensino naquella casa. A aflluencia
-augmentou. Os convites tinham sido distribuidos largamente pela cidade.
-As onze horas era difficil circular no _Atheneu_. A festa principiava
-ás duas. Ao meio-dia franqueou-se o amphitheatro.
-
-Foi como se se houvera aberto o seio de Abrahão. A ultima demão dos
-armadores fôra digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta
-ás archibancadas, no alto, em bambinella, em fachas entrelaçadas,
-balançantes, o côr de rosa dos sorrisos infantis com uma tira
-alaranjada do arrebol; immediatamente depois, uma zona de vivo
-escarlate, ferindo sangue ás veias do mais subido jubilo; aprumavam-se
-as columnatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degráus
-da archibancada, velludo e galões. Perto do throno, elevava-se um
-palanque para o corpo docente; ao lado opposto, symetricamente, outro
-palanque para a banda de musica e para os cantores. Não se via mais o
-tecto de lona: alças enormes de ramaria e flôres enredavam-se ao alto
-em graciosa desordem, flaccidas, pendentes, como um diluvio de primavera
-a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do tecto e o
-tapete pardo, vagava a serenidade obscura das cathedraes e das
-florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam
-guardavam silencio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho,
-cochichos de missa, surdina avelludada, amortecida, como se estivesse
-falando o tapete. A cornija de sanefas vibrava em desconcerto com a
-melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem
-contrastavam ainda mais, abrindo-se á irrupção do dia.
-
-Os alumnos entravam fardados, subiam, abancavam-se á esquerda, fazendo
-tremer o edificio todo de carpintaria. Aristarcho veio ficar á porta.
-Immenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima d'elle
-como para mostral-o. Calças pretas, casaca, peito blindado de
-condecorações, uma fita de dignitario ao pescoço, que o enforcava de
-nobreza. Mirando! A suprema correcção, a envergadura imponente do
-talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma
-umbigada de empafia. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se
-orgulha do commandante. O Mestre invejavel, desempenado, brilhante para
-a festa, como se houvesse engolido um armador.
-
-Ao redor de Aristarcho, ajudantes de ordens, apressavam-se os membros de
-uma commissão de recepção, composta de professores de bella
-presença, e alumnos em condições semelhantes. Realisavam com o
-director um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do
-amphitheatro comprimia-se a multidão dos convidados. Aristarcho e os
-ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os paes, as familias dos de
-mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo
-os mais proximos. Os escolhidos eram levados para as archibancadas de
-cadeiras. Se encontravam nos logares especiaes quem para lá não
-houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a
-familia do visconde de Tres Estrellas não podia ir para as taboas núas.
-Este rigor de etiqueta fazia suar a commissão, embaraçada na massa da
-concorrencia. Aristarcho aproveitava tambem para desforrar-se dos
-pagadores morosos da escripturação. Afinal deu na vista a pescaria dos
-selectos. Houve murmurios, estremecimento de surda revolta; os convites
-eram todos iguaes! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se
-muitos esgueirando sem mais vêr director nem commissionados de
-cortezia.
-
-O amphitheatro encheu-se tumultuariamente.
-
-A Princeza Serenissima, com o augusto esposo, chegou pontual ás duas
-horas, accedendo ao convite que recebera primeiro que ninguem.
-
-As duas e tres minutos, subia á tribuna Aristarcho. Não preciso dizer
-que a _caranguejola_ soffrera mais uma das grandes commoções da
-malfadada existencia. Alli estava, paciente e quadrada, no exercicio
-effectivo de porta-rhetorica. Ficava á direita do solio da princeza e
-diante do _Orpheon_.
-
-[Figura 40]
-
-Aristarcho inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um
-olhar sobre o amphitheatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez
-na vida sentiu-se mal diante de um auditorio. A massa de ouvintes
-apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A côr
-preta das casacas e paletots generalisava-se no espaço como uma
-escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semi-circulo negro, enorme. A
-impressão simultanea do publico impedia-lhe reconhecer uma physionomia
-amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma cousa antes da
-eloquencia rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi
-ter a um objecto que o chamou á consciencia de si mesmo. Diante da
-tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma
-fórma indeterminada, mysteriosamente envolta numa capa de lã verde. A
-surpreza! Era elle, que alli estava encapado na expectativa da
-opportunidade; elle bronze imperterrito, sua effigie, seu estimulo, seu
-exemplo: mais elle até do que elle proprio, a tremer; porque bronze era
-a verdade do seu caracter, que um momento absurdo de fraqueza
-desfigurava e subtrahia. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças
-de flôres, o vigamento, a belbutina, a architectura dos palanques, os
-galões alfinetados, todas as sanefas de panninho, o olhar dos
-discipulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era
-o seu triumpho por seu triumpho, e o embaraço desvaneceu-se. A
-inspiração ferveu-lhe de engulho á guela, vibrou-lhe electrica na
-lingua, e elle falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço
-sobresalente que trouxera, improvisou como Demosthenes, inundou a arena,
-os degráus do throno as ordens todas da archibancada até á oitava,
-com o mais espantoso chorrilho de facundia que se tem feito correr na
-terra.
-
-O assumpto conjectura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de
-apostolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das commendas tinha as
-cicatrizes. As settas que lhe varavam a alma não se podiam vêr bem por
-causa do collete. Avaliava-se pela descripção: devia ser horrivel.
-Depois dos soffrimentos, os serviços.
-
-O educador é como a musica do futuro, que se conhece em um dia para se
-comprehender no outro: a posteridade é que havia do julgar. Quanto ao
-seu passado, nem falemos! não olhava para traz por modestia, para não
-virar monumento, como a mulher de Loth. Com o _Atheneu_ estava
-satisfeito; uma sementeira razoavel; não se fazia rogar para florescer.
-Corações de terra roxa, onde as licções do bem pegavam vivo. Era
-cair a semente e a virtude instantanea espipocava. Uma maravilha,
-aquella horta fecunda! Antes de maldizerem, do hortelão, calumniadores
-e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as
-tronchudas couves, crespas, modestas, serviçaes, as candidas alfaces,
-as sensiveis cebolas de lagrima tão facil quanto sincera, as instruidas
-batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguem
-planta; os alhos, typos eternos, ás vezes porros, da vivacidade bem
-aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas
-beringelas, nem os mastruços innommaveis, nem os agriões amargos, nem
-os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoiraba
-dos banhos, que tem uma flôr galante, mas que afinal é matto. Horta
-paradisiaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos premios
-mostraria.
-
-Podia concluir voltando á vacca fria do louvor em bocca propria;
-preferiu uma simples bomba qualquer de rhetorica, porque o mestriculo
-Venancio ia tambem falar, e, na qualidade de pagem por dedicação,
-disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glorias.
-
-Seguiram-se algumas peças da banda do _Atheneu_ e os hymnos escolares.
-
-Na parte concertante diziam que Aristarcho mandara encartar um solo de
-zabumba para exhibir o genro. Caçoadas.
-
-A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarcho leu um
-relatorio do movimento litterario nos dous ultimos annos. Lembrou o nome
-dos alumnos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e
-convidou o secretario a evocar, por ordem de merecimento, os novos
-premiados. Extensa lista. A cada nome descia um alumno, branco de
-emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.
-
-Á esquerda do throno estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Ex.^mo
-ministro do imperio e varios figurões da Instrucção Publica.
-
-Diante d'elles, a cavalleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pyramide
-verde de corôas de carvalho, papel e arame, e outra de corôas de ouro,
-idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em
-quantidade.
-
-No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente
-encadernados. O premiado recebia tres, dous, um d'aquelles volumes, a
-medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amavel do ministro, e saía
-com tudo, zonzo.
-
-Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos
-diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior
-ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em
-equilibrio até á bancada.
-
-O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.
-
-Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais
-outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches,
-Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o
-Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e
-numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não
-contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça
-distribuida.
-
-Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa
-sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida
-grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella
-estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves
-pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara
-temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou
-simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro
-publico dos «a pedidos».
-
-Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as
-senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes,
-distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da
-formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia
-ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia
-juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas,
-forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora
-de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de
-transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as
-estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia
-altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso
-grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á
-procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril,
-vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas
-bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de
-suissas.
-
-D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz
-alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o
-cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do
-poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja,
-como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se
-percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O
-grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao _Atheneu_ exclusivamente para
-declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo
-obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios,
-teve a palavra.
-
-Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de
-barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o
-palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza
-Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.^mo do imperio,
-ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão
-incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada
-mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora,
-carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como
-patadas, esmagando, rompendo avante.
-
-[Figura 41]
-
-Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas.
-Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a
-poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi
-formidavel.
-
-Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador,
-seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.
-
-Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella
-solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta
-bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A
-propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação
-do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja
-a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio,
-immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle
-mundo! Não importa! Viva o heroismo.
-
-Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para
-corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.
-
-O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde
-o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das
-adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e
-sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem
-monumental do director.
-
-Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma
-metamorphose. Venancio era o seu esculptor.
-
-A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia
-metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia
-inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma
-artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de
-ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos
-desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em
-modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por
-dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias
-comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se,
-mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico,
-rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de
-bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem
-individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.
-
-«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.
-
-Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um
-cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da
-offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda
-estilhaçar-se contra o metal novo.
-
---Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E
-saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira,
-collocou-a sobre a figura.
-
-Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica
-de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo
-da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o
-busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e
-osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa
-d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de
-Aristarcho, que nem ao menos era gente!
-
-Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se,
-atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de
-louros ao busto.
-
-Louvaram todos a magnanimidade da modestia.
-
-Mas o dia acabou insipido para o director. Ruminava confusamente a
-tristeza d'aquella rivalidade nova--o bronze invencivel.
-
-Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestaes?
-
-Que vale a estatua, se não somos nós? A adopção do pedestal nas
-mobilias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da gloria,
-de vez em quando, da gloria effectiva, gloria actual, gloria pratica.
-
-Tinha-se alli a um canto a columna. Era vir a necessidade, nada mais
-facil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se
-immovel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era acceitar a
-verdade amarga.
-
-O monumento prescinde do heróe, não o conhece, demitte-o por
-substituição, sopêa-o, anulla-o.
-
-Com os diabos! Por que ha de ser isto afinal a immortalidade: um pedaço
-de marmore sobre um defunto?!
-
-Á noitinha retiravam-se os convidados, as familias, multidão confusa
-de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem premio,
-os paes odiando o director, olhando como vencidos para os que passavam
-satisfeitos, os outros paes, os collegas do filho, menos infatuados da
-propria victoria que da humilhação alheia.
-
-Humilde, a um canto, á beira da corrente dos que iam, pouco além da
-entrada do amphitheatro, mostraram-me uma familia de lucto--a familia do
-Franco. O desembargador, de chapéo na mão, esquecendo de cobrir-se;
-homem baixo, physionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo,
-olhos miudos, palpebras em bolsa.
-
-Tinha vindo de Matto Grosso um anno mais tarde do que pretendia. O
-correspondente dera a noticia.
-
-Andava agora mostrando á familia o Rio de Janeiro. Viera á festa
-collegial, ao collegio do filho, para distrahir a filha, a raptada, que
-alli estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pallida, delgada,
-num idiotismo sombrio, insanavel de melancolia e mudez, pestanas caidas,
-olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma cousa.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço
-agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo
-gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal.
-Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento
-succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o
-momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...
-
-Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado.
-Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.
-
-Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que
-nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a
-vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da
-sensibilidade--eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um
-perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como
-se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em
-resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes
-do coração quando o sentimento exacerba-se--a sensualidade dissolvente
-dos sons.
-
-Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade
-morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas
-crescidas, fugia solta.
-
-E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das
-paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle
-rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados,
-negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me
-tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe
-fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente
-clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra
-no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase
-fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças
-confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens,
-enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano
-obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena
-atmosphera...
-
-Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto,
-sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas
-brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares
-achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam
-na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o
-torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para
-descer aos escaleres...
-
-Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras
-arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das
-mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta
-collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num
-ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas.
-No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias
-compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna
-ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do
-coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas,
-rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se
-suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que
-dançavam na brisa a lembrança choreographica da _soirée_ mais
-recente.
-
-Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando
-ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no
-seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com
-uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos,
-empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para
-distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os
-olhos.
-
-Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar
-no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como
-derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena,
-aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens
-do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as
-cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a
-verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia
-cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de
-Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem
-tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha
-signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na
-coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem
-ella.
-
-Cessava a musica...
-
-As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava
-simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe,
-gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente,
-attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro,
-tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas
-infimas da vida pulverisadas na luz...
-
-A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de
-musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar
-se eu dormia, saber como passava agora.
-
-[Figura 42]
-
-Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no
-seu carinho de enfermeira, de mãe.
-
-Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se.
-Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos
-aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas
-seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as
-palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia
-d'aquella attenção.
-
-Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me
-a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um
-diadema de felicidade.
-
-Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os
-mais suaves vapores do narcotismo oriental.
-
-Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a
-saude.
-
-Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois
-da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem
-menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa,
-levando a familia. Eu ficara no _Atheneu_, confiado ao director, como a
-um correspondente.
-
-Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o
-_Atheneu_ deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto.
-Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras
-amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com
-alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais
-teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam
-o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava
-um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores
-reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.
-
-Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella
-restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o
-deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.
-
-Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que
-debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros,
-começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um
-sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do
-aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse
-de chumbo.
-
-Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no
-corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na
-enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da
-natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi
-para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar,
-que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.
-
-A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral,
-com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as
-outras peças.
-
-A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de
-delirio, como uma irmã de caridade.
-
-Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca.
-Fôra-lhe prohibida a entrada.
-
-Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao
-reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão
-bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo
-esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da
-dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso
-queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú,
-que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar
-no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como
-uma sombra por um chão de paina.
-
-Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em
-um ninho.
-
-Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre.
-Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos,
-gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se
-como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas
-desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe
-quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira.
-Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha,
-alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se,
-insensivelmente, evaporava-se.
-
-Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa,
-ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A
-amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que
-acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma
-brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de
-execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons
-profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma
-enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final,
-sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer;
-fórma sem materia, turba de espiritos aereos.
-
-A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me
-até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra.
-Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um
-muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro;
-depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia,
-a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor
-revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim
-aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da
-hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do
-campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas,
-que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço!
-Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve
-enlace; tocava-me com o quadril em descanço.
-
-Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura,
-inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando
-os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em
-affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.
-
-Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da
-boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava
-agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim.
-Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as
-recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as
-linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento
-uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para
-aquella inercia intensa, avassallando.
-
-Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume
-insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a
-situação. A convalescença progredia; era um desgosto.
-
-No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu
-passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma,
-uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel
-presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos
-cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á
-noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto
-nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto
-olhar.
-
-O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira
-visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana.
-Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria,
-reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento
-limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das
-alturas a crepitação das estrellas ardendo.
-
-Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo,
-entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma
-insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada.
-O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que
-acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho,
-pelas paredes.
-
-Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no
-fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e
-pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de
-tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na
-região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.
-
-Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar
-da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.
-
-Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.
-
-«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade.
-Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais
-preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a
-actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra
-covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza
-afrouxa.
-
-Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes
-de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o!
-salvar o naufrago do tempo.
-
-Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das
-acções.
-
-Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a
-despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira
-prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não
-mentir é simples.
-
-... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são
-mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia
-que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um
-vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre
-os ricos.
-
-A agitação não me faz bem.
-
-Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de
-ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das
-fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se,
-desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que
-foge.
-
-Dou-te a minha benção...»
-
-Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a
-carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente,
-como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da
-palma o gozo immortal da viva verdade.
-
-[Figura 43]
-
-«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o
-amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á
-noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos
-essas cousas.
-
-Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que
-se aproximam são os mais traidores...»
-
-A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a
-entranhada familiaridade dos casaes.
-
-Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio,
-meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande,
-vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem
-causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.
-
-Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do
-peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.
-
-Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e
-olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de
-olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas
-historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da
-bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na
-garganta como um collar sonoro.
-
-Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao
-collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido,
-inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor.
-Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair
-sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo
-tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em
-sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.
-
-E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria
-vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os
-ultimos dias...
-
-E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...
-
-Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri
-violentamente a janella. O _Atheneu_ ardia.
-
-As chammas elevavam-se por cima do _chalet_, na direcção do edificio
-principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da
-parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por
-um clarão côr de cobre.
-
-Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.
-
-As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da
-enfermaria.
-
-Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de
-pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o
-primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais
-enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez
-não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De
-repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas
-reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello,
-com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até
-ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha
-velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar
-irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o
-fazendeiro: «Tenho visto peiores.»
-
-Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o
-discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu
-filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina
-complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente,
-vendo-o apresentar-se em casa, evadido.
-
-Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou
-esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.
-
-Ardia effectivamente o _Atheneu_. Transpuz a correr a porta de
-communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.
-
-Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte
-dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos
-restantes andavam como doudos, incertos, gritando: _fogo_!
-
-Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas
-bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao
-redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para
-salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.
-
-O incendio principiara no saguão das bacias.
-
-Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção
-de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas,
-reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.
-
-O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta
-consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando
-sobre o _Atheneu_, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a
-altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem
-metros acima.
-
-O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações,
-clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito
-da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um
-sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.
-
-O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios
-clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.
-
-Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam
-fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos
-do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a
-atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa
-arvore sacudida.
-
-Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os
-desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de
-descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas.
-Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente
-desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis,
-as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio
-despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras
-lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a
-vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo
-chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas
-cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do
-incendio, moviam-se os bombeiros.
-
-Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada,
-capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma
-de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas,
-entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado,
-cortando o vigamento, destruindo a mobilia.
-
-Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a
-chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços
-miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de
-ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia
-sapecada.
-
-A frente do _Atheneu_ apresentava o aspecto mais terrivel. De varios
-pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas
-erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por
-braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no
-alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas,
-pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do
-primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo
-as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na
-tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das
-saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.
-
-Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados
-arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que
-vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As
-imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam
-enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio,
-como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio,
-com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo
-um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra
-de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro
-pulha.
-
-O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era
-uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do
-Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo.
-Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos
-profissionaes do esguicho.
-
-No sinistro do _Atheneu_ a cousa foi evidente. Depois das bombas, a
-violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das
-entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto.
-Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas,
-carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se
-boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros,
-como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis,
-precipitando-se no sumidouro.
-
-No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.
-
-«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!--Dizem que foi
-proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde
-estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam
-que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do
-tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e
-aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras
-do estabelecimento e do luxo do director.
-
-A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da
-cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero
-de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com
-bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo
-exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa
-desolação.
-
-Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero
-não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas
-importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em
-minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos.
-Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de
-sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.
-
-Acceitava o rigor da sorte.
-
-
-Et comme il voit en nous des âmes peu communes
-Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.
-
-
-Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera.
-Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas
-salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo.
-Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as
-paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes
-de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras
-queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de
-janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção
-continua de muitas idades de ruina.
-
-[Figura 44]
-
-Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de
-vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes,
-apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre
-que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.
-
-Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra
-propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o
-encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do
-attentado.
-
-Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.
-
-Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho,
-tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques.
-Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director
-muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e
-compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel,
-absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte
-enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda
-envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho
-carregado.
-
-Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora.
-Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de
-crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos
-excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao
-monopolio da magoa. O _Atheneu_ devastado! O seu trabalho perdido, a
-conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um
-homem aquillo; era um _de profundis_.
-
-Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria,
-apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras,
-queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia,
-gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da
-historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo
-ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas,
-espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos
-negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de
-outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de
-uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...
-
-Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua
-obra.
-
-Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras
-recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a
-occasião passageira dos factos, mas sobretudo--o funeral para sempre
-das horas.
-
-
-Rio de Janeiro--Março de 1888.
-
-
-
-
-FIN
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ATHENEU: ***
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- The Project Gutenberg eBook of O Atheneu by Raul Pompéia.
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- h1,h2,h3,h4,h5,h6 {
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Atheneu:</span>, by Raul Pompéia</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
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-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Atheneu:</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>Chronica de saudades</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Raul Pompéia</p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Illustrator: Raul Pompéia</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: July 17, 2022 [eBook #68541]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by the Biblioteca Brasiliana USP Digital.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O ATHENEU:</span> ***</div>
-
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/atheneu_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/atheneu_frontispiece01.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/atheneu_frontispiece02.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h2>RAUL POMPEIA</h2>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h1>O<br />
-ATHENEU</h1>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h3>(CHRONICA DE SAUDADES)</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h4>2<sup>ª</sup> Edição definitiva</h4>
-
-<h5>(Conforme os originaes e os desenhos deixados pelo autor)</h5>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<div class="center">
-<table border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" summary="" >
-<tr><td align="center">FRANCISCO ALVES &amp; C<sup>ia</sup></td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">AILLAUD, ALVES &amp; C<sup>ia</sup></td></tr>
-<tr><td align="center">RIO DE JANEIRO</td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">PARIS</td></tr>
-<tr><td align="center">168, RUA DO OUVIDOR, 168</td>
-<td align="center">&nbsp;&nbsp;&nbsp;</td>
-<td align="center">96, BOULEVARD MONTPARNASSE, 96</td></tr>
-<tr><td align="center">S. PAULO</td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">(LIVRARIA AILLAUD)</td></tr>
-<tr><td align="center">65, RUA DE S. BENTO, 65</td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">LISBOA</td></tr>
-<tr><td align="center">BELO HORIZONTE</td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">73, RUA GARRETT, 73</td></tr>
-<tr><td align="center">1055, RUA DA BAHIA, 1055</td>
-<td align="center">&nbsp;</td>
-<td align="center">(LIVRARIA BERTRAND)</td></tr>
-</table></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h5><i>Propriedade litteraria e artistica dos editores.</i></h5>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind">
-CAPITULO <a href="#I">I</a><br />
-CAPITULO <a href="#II">II</a><br />
-CAPITULO <a href="#III">III</a><br />
-CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br />
-CAPITULO <a href="#V">V</a><br />
-CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br />
-CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br />
-CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br />
-CAPITULO <a href="#X">X</a><br />
-CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XII">XII</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>O ATHENEU</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="I">I</a></h4>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura01.jpg" width="200" height="300" alt="" />
-</div>
-<p>
-«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pae, á porta do <i>Atheneu</i>.
-Coragem para a lucta.
-</p>
-<p>
-Bastante experimentei depois a verdade d'este aviso, que me despia, num
-gesto, das illusões de criança educada exoticamente na estufa de
-carinho que é o regimen do amor domestico, differente do que se
-encontra fóra, tão differente, que parece o poema dos cuidados
-maternos um artificio sentimental, com a vantagem unica de fazer mais
-sensivel a creatura á impressão rude do primeiro ensinamento, tempera
-brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso.
-Lembramo-nos, entretanto, com saudade hypocrita, dos felizes tempos;
-como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse
-perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que
-nos ultrajam.
-</p>
-<p>
-Euphemismo, os felizes tempos, euphemismo apenas, igual aos outros que
-nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem
-considerando, a actualidade é a mesma em todas as datas. Feita a
-compensação dos desejos que variam, das aspirações que se
-transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base
-phantastica de esperanças, a actualidade é uma. Sob a coloração
-cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de
-purpura ao crepusculo&mdash;a paysagem é a mesma de cada lado beirando a
-estrada da vida.
-</p>
-<p>
-Eu tinha onze annos.
-</p>
-<p>
-Frequentara como externo, durante alguns mezes, uma escola familiar do
-Caminho Novo, onde algumas senhoras inglezas, sob a direcção do pae,
-distribuiam educação á infancia como melhor lhes parecia. Entrava ás
-nove horas, timidamente, ignorando as licções com a maior
-regularidade, e bocejava até ás duas, torcendo-me de insipidez sobre
-os carcomidos bancos que o collegio comprara, de pinho e usados,
-lustrosos do contacto da malandragem, de não sei quantas gerações de
-pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação
-gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos mezes de externato;
-com a lembrança de alguns companheiros&mdash;um que gostava de fazer rir á
-aula, especie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder,
-nas costas da mão esquerda, uma protuberancia callosa que tinha; outro,
-adamado, elegante, sempre retirado, que vinha á escola de branco,
-engommadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do hombro á cinta
-por botões de madreperola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa
-injuria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que
-os partistas denunciavam ás mestras por duas iniciaes como em
-monogramma.
-</p>
-<p>
-Leccionou-me depois um professor em domicilio.
-</p>
-<p>
-Apezar d'este ensaio da vida escolar a que me sujeitou a familia, antes
-da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as
-sensações novas da nova phase. O internato! Destacada do conchego
-placentario da dieta caseira, vinha proximo o momento de se definir a
-minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus ás primeiras
-alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos
-pelotões de chumbo! especie de museu militar de todas as fardas, de
-todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em
-proporções de microscopio, que eu fazia formar a combate como uma
-ameaça tenebrosa ao equilibrio do mundo; que eu fazia guerrear em
-desordenado aperto,&mdash;massa tempestuosa das antipathias geographicas,
-encontro definitivo e ebullição dos seculares odios de fronteira e de
-raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providencia
-Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendencias pela concordia
-promiscua das caixas de páu. Força era deixar á ferrugem do abandono
-o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não
-mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a somnolencia
-morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos á sombra
-dos tinhorões, na transparencia adamantina da agua...
-</p>
-<p>
-Mas um movimento animou-me, primeiro estimulo sério da vaidade:
-distanciava-me da communhão da familia, como um homem! ia por minha
-conta empenhar a lucta dos merecimentos; e a confiança nas proprias
-forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa
-de educação que me devia receber, a noticia veio achar-me em armas
-para a conquista audaciosa do desconhecido.
-</p>
-<p>
-Um dia, meu pae tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa,
-molhando-me de lagrimas os cabellos e eu parti.
-</p>
-<p>
-Duas vezes fôra visitar o <i>Atheneu</i> antes da minha installação.
-</p>
-<p>
-<i>Atheneu</i> era o grande collegio da época. Afamado por um systema de
-nutrida reclame, mantido por um director que de tempos a tempos
-reformava o estabelecimento, pintando-o geitosamente de novidade, como
-os negociantes que liquidara para recomeçar com artigos de ultima
-remessa; o <i>Atheneu</i> desde muito tinha consolidado credito na
-preferencia dos paes, sem levar em conta a sympathia da meninada, a
-cercar de acclamações o bombo vistoso dos annuncios.
-</p>
-<p>
-O Dr. Aristarcho Argollo de Ramos, da conhecida familia do visconde de
-Ramos, do Norte, enchia o imperio com o seu renome de pedagogo. Eram
-boletins de propaganda pelas provincias, conferencias em diversos pontos
-da cidade, a pedidos, á sustancia, atochando a imprensa dos logarejos,
-caixões, sobre tudo, de livros elementares, fabricados ás pressas com o
-offegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anonymos,
-caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as
-escolas publicas de toda parte com a sua invasão de capas azues,
-roseas, amarellas, em que o nome de Aristarcho, inteiro e sonoro,
-offerecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alphabeto dos confins
-da patria. Os logares que os não procuravam eram um bello dia
-surprehendidos pela enchente, gratuita, espontanea, irresistivel! E não
-havia senão acceitar a farinha d'aquella marca para o pão do espirito.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura02.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-E engordavam as letras, á força, d'aquelle pão. Um
-benemerito. Não admira que em dias de gala, intima ou nacional, festas
-do collegio ou recepções da corôa, o largo peito do grande educador
-desaparecesse sob constellações de pedraria, opulentando a nobreza de
-todos os honorificos berloques.
-</p>
-<p>
-Nas occasiões de apparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não
-só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de
-grillos: <i>Atheneu</i>! <i>Atheneu</i>! Aristarcho todo era um annuncio.
-Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei&mdash;o autocrata excelso dos
-syllabarios; a pausa hieratica do andar deixava sentir o esforço, a
-cada passo, que elle fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso
-do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação aspera dos
-supercilios de monstro japonez, penetrando de luz as almas
-circumstantes&mdash;era a educação da intelligencia; o queixo, severamente
-escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciencias
-limpas&mdash;era a educação moral. A propria estatura, na immobilidade do
-gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia d'elle: aqui está um
-grande homem... não vêem os covados de Golias?!... Retorça-se sobre
-tudo isto um par de bigodes, volutas massiças de fios alvos, torneadas
-a capricho, cobrindo os labios, fecho de prata sobre o silencio de ouro,
-que tão bellamente impunha como o retrahimento fecundo do seu
-espirito,&mdash;teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do
-illustre director. Em summa, um personagem que, ao primeiro exame,
-produzia-nos a impressão de um enfermo, d'esta enfermidade atroz e
-estranha: a obsessão da propria estatua. Como tardasse a estatua,
-Aristarcho interinamente satisfazia-se com a affluencia dos estudantes
-ricos para o seu instituto. De facto, os educandos do <i>Atheneu</i>
-significavam a fina flôr da mocidade brasileira.
-</p>
-<p>
-A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentaculos através do
-paiz, que não havia familia de dinheiro, enriquecida pela septentrional
-borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de
-honra com a posteridade domestica mandar d'entre seus jovens, um, dois,
-tres representantes abeberar-se á fonte espiritual do <i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Fiados nesta selecção apuradora, que é commum o erro sensato de
-julgar melhores familias as mais ricas, succedia que muitas,
-indifferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os
-filhos. Assim entrei eu.
-</p>
-<p>
-A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de
-encerramento de trabalhos.
-</p>
-<p>
-Transformara-se em amphitheatro uma das grandes salas da frente do
-edificio, exactamente a que servia de capella; paredes estucadas de
-sumptuosos relevos, e o tecto aprofundado em largo medalhão, de
-magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos
-deliciosos anginhos, ostentando atrevimentos roseos de carne, agitando os
-minusculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar.
-Desarmado o oratorio, construiram-se bancadas circulares, que encobriam
-o luxo das paredes. Os alumnos occupavam a archibancada. Como a maior
-concorrencia preferia sempre a exhibição dos exercicios gymnasticos,
-solemnisada dias depois do encerramento das aulas, a accommodação
-deixada aos circumstantes era pouco espaçosa; e o publico, paes e
-correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha
-que transbordar da sala da festa para a immediata. Desta ante-sala,
-trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pae ministrava-me informações.
-Diante da archibancada, ostentava-se uma mesa de grosso panno verde e
-borlas de ouro. Lá estava o director, o ministro do imperio, a
-commissão dos premios. Eu via e ouvia. Houve uma allocução commovente
-de Aristarcho; houve discursos de alumnos e mestres; houve cantos,
-poesias declamadas em diversas linguas. O espectaculo communicava-me
-certo prazer respeitoso. O director, ao lado do ministro, de acanhado
-physico, fazia-o incivilmente desapparecer na brutalidade de um
-contraste escandaloso. Em <i>grande tenue</i> dos dias graves, sentava-se,
-elevado no seu orgulho como em um throno. A bella farda negra dos
-alumnos, de botões dourados, infundia-me a consideração timida de um
-militarismo brilhante, apparelhado para as campanhas da sciencia e do
-bem. A letra dos cantos, em côro dos falsetes indisciplinados da
-puberdade; os discursos, visados pelo director, pansudos de sisudez, na
-bocca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da
-burguezia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos
-rodantes de manivella, ou exaggerados, de voz cava e caretas de tragedia
-fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da biblia do
-dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sabias maximas
-do ensino redemptor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do
-estudo, mestres á frente, na investida heroica do obscurantismo,
-agarrando pelos cabellos, derribando, calcando aos pés a Ignorancia e o
-Vicio, miserrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
-</p>
-<p>
-Um discurso principalmente impressionou-me. Á direita da commissão dos
-premios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tezinho, o
-Venancio, professor do collegio, a quarenta mil réis por materia, mas
-importante, sabendo falar grosso, o timbre de independencia, mestiço de
-bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O
-discurso foi o confronto chapa dos torneios medievaes com o moderno
-certamen das armas da intelligencia; depois, uma prelecção pedagogica,
-tacheada de flôres de rhetorica a martello; e a apologia da vida de
-collegio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação,
-em particular, de Aristarcho e do <i>Atheneu</i>. «O mestre perorou
-Venancio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da
-ternura das mães, o guia-zeloso dos primeiros passos, na senda
-escabrosa que vae ás conquistas do saber e da moralidade. Experimentado
-no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxilio ampara-nos
-como a Providencia na terra; escolta-nos assiduo como um anjo de guarda;
-a sua licção prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro.
-Devemos ao pae a existencia do corpo; o mestre cria-nos o espirito
-(sorites de sensação), e o espirito é a força que impelle, o impulso
-que triumpha, o triumpho que nobilita, o ennobrecimento que glorifica,
-e a gloria é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do
-artista, a palma do crente! A familia é o amor no lar, o estado é a
-segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige,
-prepara-nos para a segurança intima inapreciavel da vontade. Acima de
-Aristarcho&mdash;Deus! Deus tão sómente; abaixo de Deus&mdash;Aristarcho.»
-</p>
-<p>
-Um ultimo gesto espaçoso, como um jamegão no vacuo, arrematou o rapto
-de eloquencia.
-</p>
-<p>
-Eu me sentia compenetrado d'aquillo tudo; não tanto por entender bem,
-como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes
-pintadas da ante-sala imitavam porphyro verde; em frente ao portico
-aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar
-superior. Flanqueando a majestosa porta d'esta escada, havia dous
-quadros de alto relevo: á direita, uma allegoria das artes e do estudo;
-á esquerda, as industrias humanas, meninos nús como nos frisos de
-Kaulbach, risonhos, com a ferramenta symbolica&mdash;psychologia, pura do
-trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da innocencia. Eram
-meus irmãos! Eu estava a esperar que um d'elles, convidativo, me
-estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria
-o collegio, traducção concreta da allegoria, ronda angelica de
-corações á porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no
-ritual austero da virtude!
-</p>
-<p>
-Por occasião da festa da gymnastica, voltei ao collegio.
-</p>
-<p>
-O <i>Atheneu</i> estava situado no Rio Comprido, extremo, ao chegar aos
-morros.
-</p>
-<p>
-As eminencias de sombria pedra e a vegetação selvatica debruçavam
-sobre o edificio um crepusculo de melancolia, resistente ao proprio sol
-a pino dos meios-dias de Novembro. Esta melancolia era um plagio ao
-detestavel pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de
-Minas. Aristarcho dava-se palmas d'esta tristeza aerea&mdash;a atmosphera
-moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior
-luxo da casa, como um appendice minimo da architectura.
-</p>
-<p>
-No dia da <i>festa da educação physica</i>, como rezava o programma
-(programma de arromba, porque o secretario do director tinha o talento
-dos programmas) não percebi a sensação de ermo tão accentuada em
-sitios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento
-faziam sorrir a paysagem. O arvoredo do immenso jardim, entretecido a
-côres por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de
-estranha alegria; os vistosos pannos, em meio da ramagem, fingiam
-flôres collossaes, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos
-fructificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma
-uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pae
-prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.
-</p>
-<p>
-Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante
-de mim, um sujeito mais proximo fez-me rir; levava de fóra a fralda da
-camisa... Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão
-subia um cheiro forte de canella pisada; através das arvores, com
-intervallos, passavam rajadas de musica, como uma tempestade de
-philarmonicas.
-</p>
-<p>
-Um ultimo aperto mais rijo, estalando-me as costellas, espremeu-me, por
-um estreito córte de muro, para o espaço livre.
-</p>
-<p>
-Em frente, um gramal vastissimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes,
-contentes no espaço, com o pittoresco dos tons energicos cantando vivo
-sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados
-apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas
-de estrado com cadeiras quasi exclusivamente occupadas por senhoras,
-fulgindo os vestuarios, em violenta confusão de colorido. Algumas
-protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, á altura da fronte,
-contra a rutilação do dia, num bloco de nuvens que crescia do céu.
-Acima do estrado, balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de
-bambú, projectando franjas longuissimas de sombra pelo campo de relva.
-</p>
-<p>
-Algumas damas empunhavam binoculos. Na direcção dos binoculos
-distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. «Ahi vêm!
-disse-me meu pae; vão desfilar por diante da princeza.» A princeza
-imperial, Regente nessa época, achava-se á direita em gracioso
-palanque de sarrafos.
-</p>
-<p>
-Momentos depois adiantavam-se por mim os alumnos do <i>Atheneu</i>.
-Cerca de trezentos; produziam-me a impressão do innumeravel. Todos de
-branco, apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os
-quadris e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas
-livres. Ao hombro esquerdo traziam laços distinctivos das turmas.
-Passaram a toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos
-exercicios. Primeira turma, os <i>halteres</i>; segunda, as
-<i>massas</i>; terceira, as <i>barras</i>.
-</p>
-<p>
-Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos
-exercicios geraes.
-</p>
-<p>
-Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispozeram-se em pelotões,
-invadiram o gramal, e, cadenciados pelo rhythmo da banda de collegas,
-que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina,
-produziram as manobras perfeitas de um exercito sob o commando do mais
-raro instructor.
-</p>
-<p>
-Diante das fileiras, Bataillard, o professor de gymnastica, exultava,
-envergando a altivez do seu successo na extremada elegancia do talhe,
-multiplicando por milagroso desdobramento o compendio inteiro da
-capacidade profissional, exhibida em galeria por uma serie infinita de
-attitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina
-e rija da plastica de musculos a estalar o brim do uniforme, que elle
-trajava branco como os alumnos, ou pela nervosa celeridade dos
-movimentos, effeito electrico de lanterna magica, respeitando-se na
-variedade prodigiosa a unidade da correcção suprema.
-</p>
-<p>
-Ao peito tilintavam-lhe as agulhetas do commando appensas de cordões
-vermelhos em trança. Elle dava as ordens fortemente, com uma vibração
-penetrante de corneta que dominava á distancia, e sorria á docilidade
-mecanica dos rapazes. Como officiaes subalternos, auxiliavam-no os
-chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo á
-manga distinctivos de fita verde e canutilho.
-</p>
-<p>
-Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercicios. Musculos do
-braço, musculos do tronco, tendões dos jarretes, a theoria toda do
-<i>corpore sano</i> foi praticada valentemente alli, precisamente, com a
-simultaneidade exacta das extensas machinas. Houve após, o assalto aos
-apparelhos. Os apparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar
-do palanque da Regente. Não posso dar idéa do deslumbramento que me
-ficou d'esta parte. Uma desordem de contorsões, deslocadas e atrevidas;
-uma vertigem de volteios á barra fixa, temeridades acrobaticas ao
-trapezio, ás perchas, ás cordas, ás escadas; pyramides humanas sobre
-as parallelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e
-ostentações vigorosas de thorax; fórmas de estatuaria viva, tremulas
-de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos
-desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisivel apoio; aqui
-e alli uma cabecinha loura, cabellos em desordem cacheados á testa, um
-rosto injectado pela inversão do corpo, labios entre-abertos offegando,
-olhos semi-cerrados para escapar á areia dos sapatos, costas de suor,
-collando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam
-a terra; movimento, enthusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca
-nos uniformes, queimando os ultimos fogos da gloria diurna sobre aquelle
-triumpho espectaculoso da saude, da força, da mocidade.
-</p>
-<p>
-O professor Bataillard, enrubecido de agitação, rouco de commandar,
-chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistinctamente. Duas bandas
-militares, revezavam-se activamente, communicando a animação á massa
-dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo,
-que me arrastava para o meio dos alumnos, numa leva ardente de
-fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia
-quando alguem me olhava.
-</p>
-<p>
-Deram fim á festa os saltos, os pareos de carreira, as luctas romanas e
-a distribuição dos premios de gymnastica, que a mão egregia da
-Serenissima Princeza e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam
-sobre os peitos vencedores. Foi de vêr-se os jovens athletas aos pares
-aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva
-com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em
-rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o
-corpo, passo miudo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes,
-prodigalisando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação
-desengonçada de avestruz, chegando esbofados, com placas de poeira na
-cara, ao poste da victoria.
-</p>
-<p>
-Aristarcho arrebentava de jubilo. Pozera de parte o comedimento soberano
-que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a
-rapaziada, e chapéo de Chile, distribuia-se numa ubiquidade impossivel
-de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os principes com o
-rizinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e ironico, desfeito em
-etiquetas de reverente subdito e cortezão; viam-no bradando ao
-professor de gymnastica, a gesticular com o chapéo seguro pela copa;
-viam-no formidavel, com o perfil leonino rugir sobre um discipulo que
-fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver
-luctado em logar humido, gastando tal vehemencia no ralho, que chegava a
-ser carinhoso.
-</p>
-<p>
-O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria
-celeripede a frente dos estrados, cheio de comprimentos para os
-convidados especiaes e de interjectivos amaveis para todos. Perpassava
-como uma visão de brim claro, subito extincta para reapparecer mais
-viva noutro ponto. Aquella expansão vencia-nos; elle irradiava de si,
-sobre os alumnos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos
-estandartes de batalha. Roubava-nos dous terços da attenção que os
-exercicios pediam; indemnisava-nos com o equivalente em surprezas de
-vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro
-em roda, por ascensões cobrejantes de gyrandola, que iam ás nuvens, que
-baixavam depois serenamente, diluidas na viração da tarde, que os
-pulmões bebiam. Actor profundo, realisava ao pé da letra, a valer, o
-papel diaphano, subtil, metaphysico, de alma da festa e alma do seu
-instituto.
-</p>
-<p>
-Uma cousa o entristeceu, um pequenino escandalo. Seu filho Jorge, na
-distribuição dos premios, recusara-se a beijar a mão da princeza,
-como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho!
-Tinha já aos quinze annos as convicções ossificadas na espinha
-inflexivel do caracter! Ninguem mostrou perceber a bravura. Aristarcho,
-porém, chamou o menino á parte. Encarou-o silenciosamente e&mdash;nada
-mais. E ninguem mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o
-infeliz, cremado ao fogo d'aquelle olhar! Nesse momento as bandas
-tocavam o hymno da monarchia jurada, ultima verba do programma.
-</p>
-<p>
-Começava a anoitecer, quando o collegio formou ao toque de recolher.
-Desfilaram acclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando
-alegremente uma canção escolar.
-</p>
-<p>
-Á noite houve baile nos tres salões inferiores do lance principal do
-edificio e illuminação no jardim.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 250px;">
-<img src="images/figura03.jpg" width="250" height="150" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Na occasião em que me ia embora, estavam accendendo luzes variadas de
-Bengala diante da casa. O <i>Atheneu</i>, quarenta janellas,
-resplendentes do gaz interior, dava-se ares de encantamento com a
-illuminação de fóra. Erigia-se na escuridão da noite, como immensa
-muralha de coral flammante, como um scenario animado de saphira com
-horripilações errantes de sombra, como um castello phantasma batido de
-luar verde emprestado á selva intensa dos romances cavalheirescos,
-despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros
-e recordações. Um jacto de luz electrica, derivado de fóco invisivel,
-feria a inscripção dourada em arco sobre as janellas centraes, no alto
-do predio. A uma d'ellas, á sacada, Aristarcho mostrava-se. Na
-expressão olympica do semblante transpirava a beatitude de um gozo
-superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da
-immortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim:&mdash;luz
-benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Pantheon. A
-contemplação da posteridade em baixo.
-</p>
-<p>
-Aristarcho tinha momentos d'estes, sinceros. O annuncio confundia-se com
-elle, supprimia-o, substituia-o, e elle gozava como um cartaz que
-experimentasse o enthusiasmo de ser vermelho. Naquelle momento, não era
-simplesmente a alma do seu instituto, era a propria feição palpavel, a
-synthese grosseira do titulo, o rosto, a testada, o prestigio material
-de seu collegio, identico com as letras que luziam em aureola sobre a
-cabeça. As letras, de ouro; elle, immortal: unica differença.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura04.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o
-atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á
-meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre
-pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do ultimo
-quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na segunda;
-conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que
-me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle&mdash;o bello
-bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas,
-photographia estatica, na ventura de um raio electrico.
-</p>
-<p>
-É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão
-altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o
-prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao
-director do <i>Atheneu</i> e á matricula. O movimento não era mais a
-vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma
-consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de
-solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola.
-Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de
-dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma
-experiencia de dez annos.
-</p>
-<p>
-O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de
-affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores
-padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O
-genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do
-calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa
-familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da
-altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.
-</p>
-<p>
-Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma
-entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções
-anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho,
-feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões,
-carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros
-elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém
-rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça
-negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz
-escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.
-</p>
-<p>
-As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole
-essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de
-hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das
-duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do
-sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no
-reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.
-</p>
-<p>
-«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu
-criado» da estricta cortezia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao
-cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...
-</p>
-<p>
-Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha
-mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director,
-explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer:
-«Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»
-</p>
-<p>
-&mdash;Peço licença para defender os meninos bonitos... objectou alguem
-entrando.
-</p>
-<p>
-Surprehendendo-nos com esta phrase, unctuosamente escoada por um
-sorriso, chegou a senhora do director, D. Emma. Bella mulher em plena
-prosperidade dos trinta annos de Balzac, fórmas alongadas por graciosa
-magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a
-maternidade; olhos negros, pupillas retintas, de uma côr só, que
-pareciam encher o talho folgado das palpebras; de um moreno rosa que
-algumas formosuras possuem, e que seria tambem a côr do jambo, se jambo
-fosse rigorosamente o fructo prohibido. Adiantava-se por movimentos
-oscillados, cadencia de menuetto harmonioso e molle que o corpo
-alternava. Vestia setim preto justo sobre as fórmas, reluzente como
-panno molhado; e o setim vivia com ousada transparencia a vida occulta
-da carne. Esta apparição maravilhou-me.
-</p>
-<p>
-Houve as apresentações de ceremonia, e a senhora com um nadinha de
-excessivo desembaraço sentou-se no divan perto de mim.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quantos annos tem? perguntou-me.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onze annos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Parece ter seis, com estes lindos cabellos.
-</p>
-<p>
-Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabello nos
-dedos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Córte e offereça a mamãe, aconselhou com uma caricia; é a infancia
-que ahi fica, nos cabellos louros... Depois, os filhos nada mais têm
-para as mães...
-</p>
-<p>
-O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina musica. Olhei
-furtivamente para a senhora. Ella conservava sobre mim as grandes
-pupillas negras, lucidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa
-mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pae, formulou
-sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no
-internato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas o Sergio é dos fortes, disse Aristarcho, apoderando-se da
-palavra. Demais, o meu collegio é apenas maior que o lar domestico. O
-amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilancia são
-mais activos. São as crianças os meus predilectos. Os meus esforços
-mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a familia está
-fóra, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha
-casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os
-detractores...
-</p>
-<p>
-Enveredando pelo thema querido do elogio proprio e do <i>Atheneu</i>,
-ninguem mais pôde falar...
-</p>
-<p>
-Aristarcho, sentado, de pé, cruzando terriveis passadas,
-immobilisando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de
-<i>meetings</i>, clamando como para um auditorio de dez mil pessoas,
-majestoso sempre, alçando os padrões admiraveis, como um leiloeiro, e
-as opulentas facturas, desenrolou, com a memoria de uma ultima
-conferencia, a narrativa dos seus serviços á causa santa da
-instrucção. Trinta annos de tentativas e resultados, esclarecendo como
-um pharol diversas gerações agora influentes no destino do paiz! E as
-reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporaes, o
-que já dava uma benemerencia passavel. Era preciso a introducção do
-methodos novos, suppressão absoluta dos vexames de punição,
-modalidades aperfeiçoadas no systema das recompensas, ageitação dos
-trabalhos, de maneira que seja a escola um paraiso; adopção de normas
-desconhecidas cuja efficacia elle presentia, perspicaz como as aguias.
-Elle havia de crear... um horror, a transformação moral da sociedade!
-</p>
-<p>
-Uma hora trovejou-lhe á bocca, em sanguinea eloquencia, o genio do
-annuncio. Mirámol-o na inteira expansão oral, como, por occasião das
-festas, na plenitude da sua vivacidade pratica. Contemplavamos (eu com
-aterrado espanto) distendido em grandeza épica&mdash;o <i>homem
-sandwich</i> da educação nacional, lardeado entre dous monstruosos
-cartazes. Ás costas, o seu passado incalculavel de trabalhos; sobre o
-ventre, para a frente, o seu futuro: a reclame dos immortaes projectos.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="II">II</a></h4>
-
-<p>
-Abriam-se as aulas a 15 de Fevereiro.
-</p>
-<p>
-De manhã, á hora regulamentar, compareci.
-</p>
-<p>
-O director, no escriptorio do estabelecimento, occupava uma cadeira
-rotativa junto á mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro
-abria-se em columnas massiças de escripturação e linhas encarnadas.
-</p>
-<p>
-Aristarcho, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do collegio,
-conferia, analysava os assentamentos do guarda-livros. De momento a
-momento entravam alumnos. Alguns acompanhados.
-</p>
-<p>
-A cada entrada, o director lentamente fechava o livro, marcando a pagina
-com um alfange de marfim; fazia gyrar a cadeira e soltava interjeições
-de acolhimento, offerecendo episcopalmente a mão pelluda ao beijo
-contricto e filial dos meninos. Os maiores, em regra, recusavam-se á
-cerimonia e partiam com um simples aperto de mão.
-</p>
-<p>
-O rapaz desapparecia, levando o sorriso pallido na face, saudoso da
-vadiação ditosa das férias. O pae, o correspondente, o portador,
-despedia-se, depois de banaes comprimentos, ou palavras a respeito do
-estudante, amenisadas pela gracinha da bonhomia superior de Aristarcho,
-que punha habilmente um sujeito fóra de portas com o riso fanhoso e o
-simples modo impellido de segurar-lhe os dedos.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura05.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-A cadeira gyrava de novo á posição primitiva; o livro da
-escripturação espalmava outra vez as paginas enormes; e a figura
-paternal do educador desmanchava-se, volvendo a simplificar-se na
-esperteza attenta e secca do gerente.
-</p>
-<p>
-A este vae-vem de attitudes, feição dupla de uma mesma individualidade
-e contingencia commum dos sacerdocios, estava tão habituado o nosso
-director, que nenhum esforço lhe custava a manobra. O especulador e o
-levita ficavam-lhe dentro em camaradagem intima, <i>bras dessus, bras
-dessous</i>. Sabiam, sem prejuizo da opportunidade, apparecer por
-alternativa ou simultaneamente; eram como duas almas inconhas num só
-corpo.
-</p>
-<p>
-Soldavam-se nelle o educador e o emprezario com uma perfeição rigorosa
-de accôrdo, dois lados da mesma medalha: oppostos, mas justapostos.
-</p>
-<p>
-Quando meu pae entrou commigo, havia no semblante de Aristarcho uma
-pontinha de aborrecimento. Decepção talvez de estatistica; o numero
-dos estudantes novos não compensando o numero dos perdidos, as novas
-entradas não contrabalançando as despezas do fim do anno. Mas a sombra
-de despeito apagou-se logo, como o resto de tunica que apenas tarda a
-sumir-se numa mutação á vista; e foi com uma explosão de
-contentamento que o director nos acolheu.
-</p>
-<p>
-Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria
-de recepção que queria dispensar. Elle tinha maneiras de todos os
-gráos, segundo a condição social da pessoa. As sympathias verdadeiras
-eram raras. No amago de cada sorriso morava-lhe um segredo de frieza que
-se percebia bem. E duramente se marcavam distincções politicas,
-distincções financeiras, distincções baseadas na chronica escolar do
-discipulo, baseadas na razão discreta das notas do guarda-livros. Ás
-vezes, uma criança sentia a alfinetada no geito da mão a beijar. Saía
-indagando comsigo o motivo d'aquillo, que não achava em suas contas
-escolares... O pae estava dois trimestres atrazado.
-</p>
-<p>
-Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores.
-Effectivamente; Aristarcho levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu
-á sala especial das visitas.
-</p>
-<p>
-Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as collecções, em armarios,
-dos objectos proprios para facilitar o ensino. Eu via tudo curiosamente,
-sem perder os olhares dos collegas desconhecidos, que me fitavam muito
-ancho na dignidade do uniforme em folha. O edificio fôra caiado e
-pintado durante as férias, como os navios que aproveitam o descanço
-nos portos para uma refórma de apresentação. Das paredes pendiam as
-cartas geographicas, que eu me comprazia de vêr como um itinerario de
-grandes viagens planejadas. Havia estampas coloridas em molduras negras,
-assumptos de historia santa e desenho grosseiro, ou exemplares
-zoologicos e botanicos, que me revelavam direcções de applicação
-estudiosa em que eu contava triumphar. Outros quadros vidraçados
-exhibiam sonoramente regras moraes e conselhos muito meus conhecidos de
-amor á verdade, aos paes, e temor de Deus, que estranhei como um codigo
-de redundancia. Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre&mdash;os mais
-numerosos; e se esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade
-incorporea, argamassada de pura essencia de amor e suspiros cortantes de
-sacrificio, ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para mim,
-devotamente, jurava desempenhar á risca. Visitámos o refeitorio,
-adornado de trabalhos a lapis dos alumnos, a cozinha de azulejo, o
-grande pateo interno dos recreios, os dormitorios, a capella... De volta
-á sala de recepção, adjacente á da entrada lateral e fronteira ao
-escriptorio, fui apresentado ao professor Manlio, da aula superior de
-primeiras letras, um homem aprumado, de barba toda, grisalha e cerrada,
-pessoa excellente, desconfiando por systema de todos os meninos.
-</p>
-<p>
-Durante o tempo da visita, não falou Aristarcho senão das suas luctas,
-suores que lhe custava a mocidade e que não eram justamente apreciados.
-«Um trabalho insano! Moderar, animar, corrigir esta massa de
-caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações;
-encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos impetos;
-amordaçar excessivos ardores; retemperar o animo dos que se dão por
-vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a
-corrupção; desilludir as apparencias seductoras do mal; aproveitar os
-alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos; prevenir a
-depravação dos innocentes; espiar os sitios obscuros; fiscalisar os
-amizades; desconfiar das hypocrisias; ser amoroso, ser violento, ser
-firme; triumphar dos sentimentos de compaixão para ser correcto;
-proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão
-depois... Um labor ingrato, titanico, que extenua a alma, que nos deixa
-acabrunhados ao anoitecer de hoje, para recomeçar com o dia de
-amanhã... Ah! meus amigos, concluiu offegante, não é o espirito que
-me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preoccupação... É o
-caracter! Não é a preguiça o inimigo, é a immoralidade!» Aristarcho
-tinha para esta palavra uma intonação especial, comprimida e terrivel,
-que nunca mais esquece quem a ouviu dos seus labios. «A immoralidade!»
-</p>
-<p>
-E recuava tragicamente, crispando as mãos. «Ah! mas eu sou tremendo
-quando esta desgraça nos encandalisa. Não! Estejam tranquillos os
-paes! No <i>Atheneu</i>, a immoralidade não existe! Velo pela candura das
-crianças, como se fossem, não digo meus filhos: minhas proprias
-filhas! O <i>Atheneu</i> é um collegio moralisado! E eu aviso muito a
-tempo... Eu tenho um codigo... » Neste ponto o director levantou-se de
-salto e mostrou um grande quadro á parede. «Aqui está o nosso codigo.
-Leiam! Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hypothese: o
-caso da immoralidade não está lá. O parricidio não figurava na lei
-grega. Aqui não está a immoralidade. Se a desgraça occorre, a
-justiça é o meu terror e a lei é o meu arbitrio! Briguem depois os
-senhores paes!... »
-</p>
-<p>
-Affianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em
-superlativo a metaphora sabida das varas verdes. Notando a minha
-perturbação, o director desvaneceu-se em afagos. «Mas para os rapazes
-dignos eu sou um pae!... os máus eu conheço: não são as crianças,
-principalmente como você, o prazer da familia, e que ha de ser, estou
-certo, uma das glorias do <i>Atheneu</i>. Deixem estar... » Eu tomei a
-sério a prophecia e fiquei mais calmo.
-</p>
-<p>
-Quando meu pae saiu, vieram-me lagrimas, que eu tolhi a tempo de ser
-forte. Subi ao salão azul, dormitorio dos medios, onde estava a minha
-cama; mudei de roupa, levei a farda ao numero do deposito geral, meu
-numero. Não tive coragem de affrontar o recreio. Via de longe os
-collegas, poucos áquella hora, passeando em grupos, conversando
-amigavelmente, sem animação, impressionados ainda pelas recordações
-de casa; hesitava em ir ter com elles, embaraçado da estréa das
-calças lanças, como um exaggero comico, e da sensação de nudez á
-nuca, que o córte recente dos cabellos desabrigara era escandalo. João
-Numa, inspector ou bedel, baixote, barrigudo, de oculos escuros,
-movendo-se com vivacidade de bacoro alegre, veio achar-me indeciso, á
-escada do pateo. «Não desce, a brincar?» perguntou bondosamente.
-«Vamos, desça, vá com os outros». O amavel bacoro tomou-me pela mão
-e descemos juntos.
-</p>
-<p>
-O inspector deixou-me entre dous rapazinhos, que me trataram com
-sympathia.
-</p>
-<p>
-Ás onze horas, a sineta deu o signal das aulas. Os meus bons
-companheiros, de classes atrazadas, indicaram a sala de ensino superior
-de primeiras letras, que devia ser a minha, e se despediram.
-</p>
-<p>
-O professor Manlio, a quem eu fôra recommendado, recommendou-me por sua
-vez ao mais sério dos seus discipulos, o honrado Rebello. Rebello era o
-mais velho e tinha oculos escuros como João Numa. O vidro, curvo dos
-oculos cobria-lhe os olhos rigorosamente, monopolisando a attenção no
-interesse unico da mesa do professor. Como se fosse pouco, o zeloso
-estudante fazia concha com as mãos ás temporas, para impedir o
-contrabando evasivo de algum olhar escapado ao monopolio do vidro.
-</p>
-<p>
-Este luxo de applicação não provinha do simples empenho de fazer
-attitude de exemplar. Rebello soffria da vista, tanto que muito tarde
-podera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benevolo de
-avô; afastou-se um pouco para me dar logar e esqueceu-me incontinente,
-para afundasse na devoradora attenção que era o seu apanagio.
-</p>
-<p>
-Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de typos
-que me divertia. O Gualterio, miudo, redondo de costas, cabellos
-revoltos, motilidade brusca e caretas de simio&mdash;palhaço dos outros,
-como dizia o professor: o Nascimento, o <i>bicanca</i>, alongado por um
-modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma fouce; o
-Alvares, moreno, senho carregado, cabelleira espessa e intonsa de vate
-de taverna, violento e estupido, que Manlio atormentava, designando-o
-para o mister das plata-fórmas de bond, com a chapa numerada dos
-recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o
-Almeidinha, claro, translucido, rosto de menina, faces de um rosa
-doentio, que se levantava para ir á pedra com um vagar languido de
-convalescente; o Maurilio, nervoso, insoffrido, fortissimo em taboada:
-cinco vezes tres, vezes dous, noves fora, vezes sete?... lá estava
-Maurilio, tremulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fulgidos
-no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas
-accesas, labios inquietos, physionomia agreste de cabra, canhoto e
-anguloso, incapaz de ficar sentado tres minutos, sempre á mesa do
-professor e sempre enxotado, debulhando um rizinho de pouca vergonha,
-fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bomzinho, aventurando a todo
-ensejo uma tentativa de abraço que Manlio repellia, precavido de
-confianças; Baptista Carlos, raça de bugre, valido, de má cara,
-coçando-se muito, como se o incommodasse a roupa no corpo, alheio ás
-cousas da aula, como se não tivesse nada com aquillo, espreitando
-apenas o professor para aproveitar as distracções e ferir a orelha aos
-vizinhos com uma setta de papel dobrado. Ás vezes a setta do bugre
-ricochetava até á mesa de Manlio. Sensação; suspendiam-se os
-trabalhos; rigoroso inquerito. Em vão, que os partistas temiam-no e
-elle era matreiro e sonso para disfarçar.
-</p>
-<p>
-Dignos de nota havia ainda o Cruz, timido, enfiado, sempre de orelha em
-pé, olhar covarde de quem foi creado a pancadas, aferrado aos livros,
-forte em doutrina christã, facil como um despertador para desfechar as
-licções de cór, perro como uma cravelha para ceder uma idéa por
-conta propria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o
-venerando Rebello, primeiro da classe, muito intelligente, vencido
-apenas por Maurilio na especialidade dos noves fóra vezes tanto,
-cuidadoso dos exercicios, emulo do Cruz na doutrina, sem competidor na
-analyse, no desenho linear, na cosmographia.
-</p>
-<p>
-O resto, uma cambadinha indistincta, adormentados nos ultimos bancos,
-confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.
-</p>
-<p>
-Fui tambem recommendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipathico:
-cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, labios
-humidos, porejando baba, meiguice viscosa de crapula antigo. Era o
-primeiro da aula. Primeiro que fosse do côro dos anjos, no meu conceito
-era a derradeira das creaturas.
-</p>
-<p>
-Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o
-meu nome. Fiquei tão pallido que Manlio sorriu e perguntou-me brando,
-se queria ir á pedra. Precisava examinar-me.
-</p>
-<p>
-De pé, vexadissimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de
-vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar
-odioso e timorato do Cruz, os oculos azues do Rebello, o nariz do
-Nascimento, virando de vagar como um leme; esperei a setta do Carlos, o
-quinau do Maurilio, ameaçador, fazendo cócegas ao tecto, com o dedo
-feroz; respirei no ambiente adversa de maldita hora, perfumado pela
-emanação acre das resinas do arvoredo proximo, uma conspiração
-contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até á
-maldade violenta do Alvares. Cambaleei até á pedra, O professor
-interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-se-me do espirito um pavor
-estranho. Acovardou-me o terror supremo das exhibições, imaginando em
-roda a ironia má de todos aquelles rostos desconhecidos. Amparei-me á
-taboa negra, para não cair; fugia-me o sólo aos pés, com a noção do
-momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna!
-liquidando-se a ultima energia... pela melhor das maneiras peiores de
-liquidar-se uma energia.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura06.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Do que se passou depois, não tenho idéa. A perturbação levou-me a
-consciencia das cousas. Lembro-me que me achei com o Rebello, na
-rouparia, e o Rebello animava-me com um esforço de bondade sincero e
-commovedor.
-</p>
-<p>
-Rebello retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu
-desastre, emquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a
-considerar a differença d'aquella situação para o ideal de cavallaria
-com que sonhara assombrar o <i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que alli estava á
-mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso
-folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o
-arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de
-novo. Ardia-me á face inexplicavel incendio de pudor, constringia-me a
-garganta exquisito aperto, de nausea. Escravisava-me, porém, a
-seducção da novidade. Olhei para os lados com um gesto de culpado;
-não sei que instincto me acordava um sobresalto de remorso. Um simples
-papel, entretanto, borrado na tiragem rapida dos delictos de imprensa.
-Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. «Larga d'ahi! disse com
-brutalidade, isso não é p'ra menino!» E retirou o livrinho.
-</p>
-<p>
-Esta impressão viva de surpreza curou-me da lembrança do meu triste
-episodio, crescendo-me na imaginação como as visões, absorvendo-me as
-idéas. Zumbia-me aos ouvidos a palavra aterrada de Aristarcho... Sim,
-devia ser isto: um entravamento obscuro de fórmas despidas, roupas
-abertas, um turbilhão de frades bebados, deslocados ao capricho de
-todas as deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a
-sarabanda diabolica sem fim, no empastado negrume da tinta do prelo;
-aqui e alli, o raio branco de uma falha, fulminando o espectaculo e a
-gravura, como o estigma complementar do acaso.
-</p>
-<p>
-A rouparia occupava grande parte do sub-chão do immenso edificio, entre
-o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos
-lavatorios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco acima num
-friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro
-compartimento, além d'estes, accommodava o arsenal dos apparelhos
-gymnasticos e o dormitorio da criadagem. Da rouparia para o recreio
-central atravessava-se obliguamente o saguão das bacias. Logo a sair ao
-pateo encontrei o benevolo Rebello, que me esperava. Insistiu com um
-requinte importuno de complacencia sobre o meu incidente,
-desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insupportavel.
-Para mudar de conversa, pedi informações acerca do nosso professor.
-Deu-m'as optimas, nem outras daria um alumno exemplar como elle. <i>Nenhum
-mestre é máu para o bom discipulo</i>, affirmava uma das maximas da
-parede.
-</p>
-<p>
-Era hora de descanço; passeavamos, conversando. Falamos dos collegas.
-Vi então, de dentro da brandura patriarchal do Rebello descascar-se uma
-especie de inesperado Thersito, produzindo injurias e maldições. «Uma
-cafila! uma corja! Não imagina, meu caro Sergio. Conte como uma
-desgraça ter de viver com esta gente ». E esbeiçou um labio
-sarcastico para os rapazes que passavam. «Ah! vão as carinhas sonsas,
-generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais peccados na consciencia
-que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada
-pollegada de pelle. Fiem-se nelles. São servis, traidores, brutaes,
-adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Socios de
-bandalheira! Fuja d'elles, fuja d'elles. Cheiram a corrupção, empestam
-de longe. Corja de hypocritas! Immoraes! Cada dia de vida tem-lhes
-vergonha da vespera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a
-generosa mocidade. Com elles mesmos ha de aprender o que são... Aquelle
-é o Malheiro, um grande em gymnastica. Entrou graudo, trazendo para
-cá os bons costumes de quanto collegio por ahi. O pae é official.
-Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro,
-todos o temem, muitos o cercam, os inspectores não podem com elle; o
-director respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... Este
-que passou por nós, olhando muito, é o Candido, com aquelles modos de
-mulher, aquelle arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos...
-Este sujeito... Ha de ser seu conhecido. Mas faço excepções: alli vem
-o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas uma pérola; É a
-mansidão em pessoa. Primeira voz do <i>Orpheon</i>, uma vozinha de moça que
-o director adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os
-seraphins. Uma perola!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Alli está um de joelhos...
-</p>
-<p>
-&mdash;De joelhos... Não ha perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é
-o primeiro dia, alli está de joelhos o Franco. Assim atravessa as
-semanas, os mezes, assim o conheço, nesta casa, desde que entrei. De
-joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O director
-chama-lhe cão, diz que tem callos na cara. Se não tivesse callos no
-joelho, não haveria canto do <i>Atheneu</i> que elle não marcasse com o
-sangue de uma penitencia. O pae é de Matto-Grosso; mandou-o para aqui
-com uma carta em que o recommendava como incorrigivel, pedindo
-severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que
-faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sáe nunca... Afastemo-nos
-que ahi vem um grupo de gaiatos.
-</p>
-<p>
-Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com
-surriadas.
-</p>
-<p>
-«Viu aquelle da frente, que gritou <i>calouro</i>? Se eu dissesse o que se
-conta d'elle... aquelles olhinhos humidos de Senhora das Dôres... Olhe;
-um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura07.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-«Isto é uma multidão; é preciso força de cotovellos para romper.
-Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo vivo só e vejo de longe;
-mas vejo. Não póde imaginar. Os genios fazem aqui dous sexos, como se
-fosse uma escola mixta. Os rapazes timidos, ingenuos, sem sangue, são
-brandamente impellidos para o sexo da fraqueza; são dominados,
-festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo
-dos pais, pensam que o collegio é a melhor das vidas, com o acolhimento
-dos mais velhos, entre brejeiro e affectuoso, estão perdidos...
-Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admittir protectores.»
-</p>
-<p>
-Ia por diante Rebello com os extraordinarios avisos, quando senti
-puxarem-me a blusa. Quasi caí. Voltei-me; vi á distancia uma cara
-amarella, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada para mim,
-esgarçando a bocca em careta de riso cynico. Um sujeito evidentemente
-mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de
-telha e arremessei. O tratante livrou-se, injuriando-me com uma
-gargalhada, e sumiu-se. «Muito bem», applaudiu Rebello. E á pergunta
-que fiz, informou: aquelle desagradavel rapaz era o Barbalho, que havia
-de ser um dia preso como gatuno de joias, nosso companheiro da aula
-primaria, do numero dos esquecidos nos bancos do fundo.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura08.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-O professor Manlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para
-salvar-me das consequencias do escarneo do desastrado incidente da
-primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras de
-animação. Os rapazes foram generosos. Maurilio acariciou-me a cabeça
-mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacavel dos
-argumentos. Só o amarello dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas á
-socapa.
-</p>
-<p>
-Depois do jantar não tornei a vêr o Rebello. Como frequentava algumas
-aulas extraordinarias do curso superior, recolhia-se a certas horas para
-as salas de cima.
-</p>
-<p>
-A sala do professor Manlio era ao nivel do pateo, em pavilhão
-independente do edificio principal, com duas outras do curso primario, o
-alojamento da banda de musica e o salão supplementar de recreio,
-vantajoso em dias de chuva. Formando angulo recto com esta casa, uma
-extensa construcção de tijolo e taboas pintadas, sala geral do estudo
-no pavimento terreo e dormitorio em cima, concorria para fechar metade
-do quadrilatero do pateo, que o grande edificio completava,
-estentendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No
-fundo d'esta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro,
-esteril, insipido como a alegria obrigatoria, algumas arvores de
-cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o verdor morto das
-palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que
-soffrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto,
-esgalgado cypreste subia até as gotteiras, tentando fugir pelos
-telhados.
-</p>
-<p>
-Sem o Rebello, achei-me ahi como perdido, em meio dos rapazes. Os
-conhecidos da aula desappareciam no tumulto que as salas todas
-despejavam.
-</p>
-<p>
-Nem um só de quem me podesse aproximar. Rente com a parede, para que me
-não dessem attenção, insinuei-me até o logar d'onde o inspector
-Sylvino, um grande magro, de avultado nariz e suissas dilaceradas, olhar
-miudo e vivo como chispas, em orbitas de antro, fiscalisava o recreio,
-graduando a folgança, á mercê de um temivel canhenho. Sentava-se á
-entrada do portão do lavatorio. Um pouco além da cadeira do Sylvino,
-fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro, fresco das
-largas sombras da hora, o movimento dos collegas.
-</p>
-<p>
-Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando
-irregularmente a dispersão dos alumnos. Eram os pobres novatos que os
-veteranos sovavam á cacholeta, fraternalmente.
-</p>
-<p>
-Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitencia; em pé, cara contra a
-parede. Como Sylvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para
-arrancar a cabeça e vêr morrer o bichinho na palma da mão.
-Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de máu modo: «Lá
-sei! disse elle. Porque me mandaram.» E continuou a pegar as moscas.
-Franco era um rapazola de quatorze annos, rachitico, de olhos pasmados,
-face livida, palpebras pisadas. Á fronte, com a expressão vaga dos
-olhos e obliquidade dolorida dos supercilios, pousava-lhe uma nevoa de
-afflicção e paciencia, como se vê no <i>Flos sanctorum</i>. A parte
-inferior do semblante rebellava-se; um canto dos labios franzia-se em
-contracção constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca.
-Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo
-desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam.
-Uma quéda alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo
-da excomunhão com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as
-manhãs, lendo no refeitorio perante o collegio as notas da vespera.
-</p>
-<p>
-Os professores já sabiam. Á nota do Franco, sempre má, devia
-seguir-se especial commentario deprimente, que a opinião esperava e
-ouvia com delicia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como elle!
-E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anathema. Não convinha
-expulsar. Uma cousa d'estas aproveita-se como um <i>bibelot</i> do ensino
-intuitivo, explora-se como a miseria do ilota, para a licção fecunda
-do asco. A propria indifferença repugnante da victima é util.
-</p>
-<p>
-Tres annos havia que o infeliz, num supplicio de pequeninas
-humilhações crueis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das
-virtudes alheias mais que das proprias culpas, alli estava,&mdash;cariatide
-forçada no edificio de moralisação do <i>Atheneu</i>, exemplar perfeito de
-depravação offerecido ao horror santo dos puros.
-</p>
-<p>
-Varias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do
-Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me
-encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de subito
-em frente, e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era susceptivel o
-açafrão da cara, perguntava: «Mudou as calças? Um inferno. Até que
-afinal, o meu desespero estourou.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura09.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Foi á noite, pouco antes da ceia. Estavamos a um canto mal illuminado
-do pateo, quasi sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma
-inexprimivel interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe
-uma bofetada. Meio segundo depois, rolavamos na poeira engalfinhados
-como feras. Uma lucta rapida. Avisaram-nos que vinha o Sylvino. Barbalho
-evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue
-que me corria do nariz.
-</p>
-<p>
-Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da
-tristeza de hospital dos dormitorios, fundos na sombra do gaz mortiço,
-trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.
-</p>
-<p>
-Era assim o collegio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
-</p>
-<p>
-Onde metter a machina dos meus ideaes naquelle mundo de brutalidade, que
-me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes,
-escapando á investigação da minha inexperiencia? Qual o meu destino,
-naquella sociedade que o Rebello descrevera horrorisado, com as meias
-phrases de mysterio, suscitando temores indefinidos, recommendando
-energia, como se colleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a
-norma generosa e sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do
-Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre
-aspecto da solemnidade dos premios, dando-me idéa da legião dos
-soldados do trabalho, que fraternisavam no empenho commum, unidos pelo
-coração e pela vantagem do collectivo esforço. Individualisados na
-debandada do receio, com as observações ainda mais da critica do
-Rebello, bem diverso sentimento inspiravam-me, A reacção do contraste
-induzia-me a um conceito de repugnancia que o habito havia de esmorecer,
-que me tirava lagrimas áquella noite. Ao mesmo tempo opprimia-me o
-presentimento da solidão moral, fazendo adivinhar que as
-preoccupações minimas e as concomitantes surpresas inconfessaveis
-dariam pouco para as e effusões de allivio, a que corresponde o
-conselho, a consolação.
-</p>
-<p>
-Nada de protector, dissera Rebello, Era o ermo. E, na solidão,
-conspiradas, as adversidades de toda a especie, falsidade traiçoeira
-dos affectos, perseguição da malevolencia, espionagem da vigilancia;
-por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a furia tonante
-de Jupiter-director, o tremendo Aristarcho dos momentos graves.
-</p>
-<p>
-Lembranças da familia desviaram-me o curso ás reflexões. Não havia
-mais a mão querida para acalentar-me o primeiro somno, nem a oração,
-tão longe nesse momento, que me protegia á noite como um docel de
-amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asylos da miseria
-recolhem.
-</p>
-<p>
-A convicção do meu triste infortunio lentamente, suavemente,
-anniquilou-me num conforto de prostração e eu dormi.
-</p>
-<p>
-Pela noite a dentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens
-varias do atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarella
-do Barbalho, a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos
-do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o
-collegio inteiro, mil collegios, arrebatados, num pé de vento, voavam
-leguas a fóra por uma planicie sem termo. Gritavam todos, urravam a
-sabbatina de taboadas com um enthusiasmo de turbilhão. O pó crescia
-em nuvens do sólo; a massa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de
-galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos
-braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurilio,
-crescida, enorme, preta, torcendo, destorcendo os dedos sofregos,
-convulsionados da hysteria do quinau... E eu caía, unico vencido! E o
-tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me,
-calcavam-me, pesados, carregando premios, premios aos cestos!
-</p>
-<p>
-A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angustia. Cinco horas da
-manhã.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="III">III</a></h4>
-
-<p>
-Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto
-applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso
-labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna
-confecção de mais uma <i>infancia celebre</i>, certo não registraria,
-entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de
-consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais
-encontrei tão amargos.
-</p>
-<p>
-<i>Natação</i> chamava-se o banheiro, construido num terreno das
-dependencias do <i>Atheneu</i>, vasta toalha d'agua ao rez de terra,
-trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e
-alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de
-ladrilho, offerecia uma inclinação, baixando gradualmente de um
-extremo para outro. Accusava-se ainda mais esta differença de
-profundidade por dois degráus convenientemente dispostos para que
-tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto
-a agua cobria um homem.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura10.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Por occasião dos intensos calores de Fevereiro e Março e do fim do
-anuo, havia ahi dous banhos por dia. E cada banho era uma festa,
-naquella agua gorda, salobra da transpiração lavada das turmas
-precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação;
-turbulento debate de corpos nús, estreitamente cingidos no calção de
-malha rajado a côres, enleiando-se os rapazes como lampreias, uns
-immergindo, reapparecendo outros, olhos injectados, cabellos a escorrer
-pela cara, vergões na pelle de involuntarias unhadas dos companheiros,
-entre gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores
-agrupados no raso, dando-se as mãos em cacho, espavoridos, se algum
-mais forte chegava.
-</p>
-<p>
-Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a
-braçadas, levando a hombro a resistencia d'agua; outros se precipitavam
-cabeça para baixo, volteando os pés no ar como cauda de peixe,
-prancheando sem vêr a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas
-ondas de resaca se emborcavam e iam transbordar pelas immediações do
-banheiro alagando tudo.
-</p>
-<p>
-Ao longo do tanque, corria o muro divisorio, além do qual ficava a
-chacara particular do director. Á distancia, viam-se as janellas de uma
-parte da casa, onde ás vezes eram recolhidos os estudantes enfermos,
-fechadas sempre a venezianas verdes.
-</p>
-<p>
-Trepada ao muro e meio escondida por uma mouta de bambús e ramos de
-hera, vinha Angela, a canarina, vêr os banhos da tarde. Lançava
-pedrinhas aos rapazes; os rapazes mandavam-lhe beijos e mergulhavam,
-buscando o seixo. Angela, torcendo os pulsos, reclinando-se para traz,
-ria perdidamente um grande riso, desabrochado em corolla de flôr
-através dos dentes alvos.
-</p>
-<p>
-Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.
-</p>
-<p>
-Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos
-banhistas em tres turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido
-da fiscalisação permittia que as turmas se confundissem e o inspector
-de serviço, com a varinha destinada aos retardatarios, vigiava,
-affastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos
-marmanjos que as espadanas d'agua acobertavam. Mal tinha eu entrado,
-senti que duas mãos, no fundo prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um
-impulso violento caí de costas; a agua abafou-me os gritos, cobriu-me a
-vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asphyxia, pensei morrer. Sem
-saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, á tôa,
-immerso a desfallecer, quando alguem me amparou. Um grande tomou-me ao
-hombro e me depôz á borda, estendido, vomitando agua. Levei algum
-tempo para me inteirar do que occorrera. Esfreguei por fim os olhos e
-verifiquei que o Sanches me tinha salvo. «Ia afogar-se!» disse elle,
-amparando-me a cabeça emquanto me desempastava os cabellos de cima dos
-olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe effusivamente o que me haviam
-feito. «Perversos!» observou-me o collega com pena, e attribuiu a
-brutalidade a qualquer peste que fugira no atropello dos nadadores,
-desvelando-se em solicitudes por tranquillisar-me. Tive depois motivo
-para crêr que o perverso e a peste fôra-o elle proprio, na intenção
-de fazer valer um bom serviço.
-</p>
-<p>
-Mas a consequencia immediata do facto foi que forcei a repugnancia que o
-Sanches me causava e me fiz todo gratidão para com elle e intima
-amizade. Curiosa e accidentada tinha de ser essa minha aventura de apego
-e confiança...
-</p>
-<p>
-No <i>Atheneu</i> formávamos a dous para tudo. Para os exercicios
-gymnasticos, para a entrada na capella no refeitorio, nas aulas, para a
-saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a distribuição do pão
-secco depois do canto. Por amor da regularidade do organisação
-militar, repartiam-se as tres centenas de alumnos em grupos de trinta,
-sob o directo commando de um decurião ou <i>vigilante</i>. Os
-vigilantes eram escolhidos por selecção de aristocracia, asseverava
-Aristarcho. Vigilante era o Malheiro, o heróe do trapezio; vigilante
-era o Ribas, a melhor vocalisação do <i>Orpheon</i>; vigilante era o
-Matta, mirrado, corcundinha, de espinha quebrada, appellidado o
-<i>mascate</i>, mellifluo no trato, nunca punido ninguem sabia por que,
-reputação de excellente porque ninguem se lembrava de verificar, que,
-entretanto, Rebello apontava como chefe da policia secreta do director;
-vigilante o Saulo, que tinha tres distincções na instrucção publica;
-vigilante Romulo, <i>mestre cook</i>, por alcunha, uma besta,
-grandalhão, ultimo na gymnastica pela corpulencia bamba, ultimo nas
-aulas, dispensado do <i>Orpheon</i> pela garganta rachada de requinta
-velha, mas exercendo no collegio, por excepção de saliencia na largura
-chata da sua incapacidade, as complexas e delicadas funcções de
-zabumba da banda. Não sei se este geito particular para o bombo,
-formula musical do annuncio, não sei se uma celebre herança que Romulo
-esperava de afortunados parentes, verdade é que entre todos fôra
-Romulo apurado por Aristarcho para o invejavel privilegio de seu futuro
-genro.
-</p>
-<p>
-Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um
-criterio que dava ensejo a que o escolhido por valentia á barra fixa
-representava no estudo um papel contristador; vice-versa, outro, como
-Ribas, exemplar nas aulas, magricella e esgotado, mal podia ao trapezio
-vacillar a acrobacia simplificada do prumo.
-</p>
-<p>
-Sanches era tambem vigilante.
-</p>
-<p>
-Estes officiaes inferiores da milicia da casa faziam-se tyrannetes por
-delegação da suprema dictadura. Armados de sabres de páu com guardas
-de couro, tomavam a sério a investidura do mando e eram em geral de uma
-ferocidade adoravel. Os sabres puniam summariamente as infracções da
-disciplina na fórma: duas palavras ao serra-fila, perna frouxa, desvio
-notavel do alinhamento. Regimen siberiano, como se vê, do que resultava
-que os vigilantes eram altamente conceituados.
-</p>
-<p>
-No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de
-influir consideravelmente, a bella importancia collegial do vigilante
-Sanches. Mas outras circumstancias concertaram-se para determinar a nova
-feição das minhas disposições conforme se accentuou depois do
-incidente do banho.
-</p>
-<p>
-Já me era licito julgar iniciada na convivencia intima da escola.
-Chamado por Manlio a provas, consegui agradar, conquistando uma aura que
-me devia por algum tempo favorecer. Encontrei o Barbalho. Tinha a face
-marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio commetti a injustiça
-de ir deixando o Rebello. Tambem o amavel camarada tinha na bocca um
-máu cheiro que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava
-prendendo a gente com dedos de torquez e soltando os aphorismos a
-queima-roupa. Por seu lado, o venerado collega correspondeu ao
-movimento massando-se commigo e amuando. Durante as aulas, em que nos
-sentavamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada attenção
-e era como se estivesse a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindivel
-necessidade tinha de me falar, então dirigia-me a palavra com a
-habitual affabilidade de joven cura.
-</p>
-<p>
-Estava acclimado, mas eu me acclimara pelo desalento, como um
-encarcerado no seu carcere.
-</p>
-<p>
-Depois que sacudi fóra a tranca dos ideaes ingenuos, sentia-me vasio de
-animo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponderavel da alma: o
-vacuo habitava-me dentro. Premia-me a força das cousas; senti-me
-acovardado. Perdeu-se a licção viril de Rebello: prescindir de
-protectores. Eu desejei um protector, alguem que me valesse, naquelle
-meio hostil e desconhecido, e um valimento directo mais forte do que
-palavras.
-</p>
-<p>
-Se não houvesse olvidado as praticas, como a assistencia pessoal do
-Rebello, eu notaria talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como elle
-observara a efffeminação morbida das escolas. Mas a theoria é fragil
-e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A
-lethargia moral pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças,
-á maneira do physico, esperasse realmente pelos dias para caracterisar
-em definitiva a conformação sexual do individuo, sentia-me possuido de
-certa necessidade preguiçosa de amparo, volupia de fraqueza em rigor
-impropria do caracter masculino. Convencido de que a campanha do estudo
-e da energia moral não era precisamente uma cavalgata quotidiana,
-animada pelo clarim da rhetorica, como nas festas, e pelo verso
-emphatico dos hymnos, entristeceu-me a realidade crua. Desilludi-me dos
-bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do
-militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas
-triumphaes; desmoralisava-me o ram-ram estagnado da paz das casernas, o
-prosaismo elementar da fachina.
-</p>
-<p>
-Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o
-microcosmo do <i>Atheneu</i>. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço
-tumultuoso dos companheiros á recreação, a maneira facil de conduzir
-o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade:
-espantava-me a viveza dos <i>pequenos</i>, tão pequenos alguns! O braço do
-Sanches vinha assim salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na
-vertigem do momento.
-</p>
-<p>
-Eu não estudava: a minha conta era, entretanto, regular, por um
-concurso de elementos eventuaes direitos da recente matricula á
-benevolencia, a minha recommendação ao professor Manlio, com os
-retalhos alinhavados de sciencia anterior. Mantinha-me em satisfactoria
-média; mas o risco da decadencia era constante. O methodo constituia o
-peior obstaculo; sem o auxilio de alguem, mais pratico, estava perdido.
-Sanches havia sem duvida de valer-me com a sua capacidade de
-grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que
-desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta
-affeição, empunhando por meu favor o terrivel sabre de vigilante, com
-guardas de couro!
-</p>
-<p>
-Com effeito não tardou que elle me desse a mão como a Minerva benigna
-de Fenelon.
-</p>
-<p>
-Entrei pela geographia como em casa minha. As anfractuosidades marginaes
-dos continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu
-trabalho; os rios dispensavam detalhes complicados dos meandros e
-affluiam-me para a memoria, abandonando o pendor natural das vertentes;
-as cordilheiras, immensa tropa de amestrados elephantes, arranjavam-se
-em systemas de orographia facillima; reduzia-se o numero das cidades
-principaes do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de
-decorar tanto nome; arredondava-se a quota das populações, perdendo as
-fracções importunas, com prejuizo dos recenseamentos e maior gravame
-dos uteros nacionaes; uma mnemonica feliz ensinava-me a enumeração dos
-estados e das provincias. Graças á destreza do Sanches, não havia
-incidente estudado da superficie terrestre que se me não collasse ao
-cerebro como se fosse minha cabeça, por dentro, o que é por fóra a
-esphera do mundo.
-</p>
-<p>
-A seu turno a grammatica abria-se como um cofre de confeitos pela
-Paschoa. Setim côr de céu e assucar. Eu escolhia a bel prazer os
-adjectivos, como amendoas adocicadas pelas circumstancias adverbiaes da
-mais agradavel variedade; os amaveis substantivos! voavam-me á roda,
-proprios e appellativos, como creaturinhas de alfenim alado; a
-etymologia, a syntaxe, a prosodia, a orthographia, quatro gráos de
-doçura da mesma gustação. Quando muito, as excepções e os verbos
-irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos
-crespos de chocolate: levados á bocca, saborosissimos.
-</p>
-<p>
-A historia patria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionarios da
-catechese colonisadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta,
-visões de bondade, recitando escolhidas estrophes do evangelho das
-selvas, mandando adiante, coroados de flôres, pela estrada larga de
-areia branca, os columins alegres, aprendizes da fé e da civilisação,
-acompanhados da turba selvagem do gentio côr de casca de arvores,
-emplumados, sarapintados de mil tintas, em respeitosa contricção de
-fetichismo domado, avultando do seio, do fundo da matta escura, como uma
-marcha phantastica de troncos. Até ás éras da Independencia,
-evocação complicada de sarrafos commemorativos das alvoradas do Rocio
-e de anceios de patriotismo infantil; um principe fundido, cavalgando
-uma data, mostrando no lenço aos povos a legenda official do Ypiranga;
-mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo Antonio, as acclamações
-de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar em
-vivas ao ramo de café da Domitilla.
-</p>
-<p>
-Cada pagina era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do
-collega. Graças á habilidade das suas apresentações, apertei a mão
-aos mais truculentos figurões do passado, aos mais poderosos. Antonio
-Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI deixou-me
-rapé nos dedos. Conheci de vista Men de Sá, Mauricio de Nassau; vi
-passar o heróe mineiro, calmo, mãos atadas como Christo, barba
-abundante de apostolo das gentes, um toque de sol na fronte lisa e
-vasta, escalvada pelo destino para receber melhor a corôa do martyrio.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura11.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-A historia santa revelou-me este épico, quem o diria?&mdash;o conego
-Roquette! E eu bebi a embriaguez musical dos capitulos como o canto
-profundo das cathedraes. Ouvi suspirar a Crença, o idyllio do Eden, o
-amor primitivo do Genesis, invejado dos anjos, sob o olhar magnanimo dos
-leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dôr, para o
-trabalho; Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva
-a envolver a nudez joven de lyrios na tunica de ouro das madeixas,
-cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade, das mães, stigmatisada
-pela maldição de Deus.
-</p>
-<p>
-E crescia o canto na abóbada e o orgão falava á tradição inteira do
-soffrimento humano supplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em
-suave gorgeio, entoando a elevação dos psalmos, o extase sensual do
-Cantico dos Canticos na bocca da Sulamita, e a seducção de Booz
-enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia tragica de
-Judith, e a serena gloria de Esther, a princeza querida.
-</p>
-<p>
-Subitamente, entreabriu-se o quadro sonoro para irromper o côro das
-lamentações. Acabavam no ar, luciolas extinctas, os derradeiros sons
-da harpa de David; perdia-se em écos a derradeira antistrophe de
-Salomão; sumiu-se á extremidade do campo a imagem de Ruth, ao braço o
-feixe louro de trigo; entrou a Hebréa sombria na tenda de Holophernes,
-levando nos labios o beijo assassino; cobriu-se a apparição luminosa
-de Esther com o somno da noite de Mardocheu. Era a gamma dolente dos
-terrores. Clamavam as imprecações do diluvio, os desesperos de
-Gommorrha; flammejava no firmamento a espada do anjo de Sennacherib;
-dialogavam em concerto tetrico as supplicas do Egypto, os gemidos de
-Babylonia, as pedras condemnadas de Jerusalem. Vozeava o tenebroso grave
-das prégações dos prophetas. Embalde o fulgor das transfigurações,
-como o livido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta
-nocturna; Ezequiel tinha a visão do Eterno; Elias visitava o Mysterio
-numa escapada de chammas. Nada. A musica solemne era o miserere. Nem o
-clarão da alvorada de Bethlem na Judéa debellava a sombra, nem a
-miragem viva do Thabor. A epopéa agonisava ao rodar do seculo; ecoava
-numa caverna onde havia um tumulo; bradava triumpho um momento pela
-Resurreição do Justo; morria, emfim, lento, lento com a prece dos
-martyres do amphitheatro, com a longinqua prece subterranea dos
-refugiados das Catacumbas.
-</p>
-<p>
-A doutrina christã, annotada pela proficiencia do explicador, foi
-occasião de dobrado ensino que muito me interessou. Era o céu aberto,
-rodeado de altares, para todas as creações consagradas da fé. Curioso
-encarar a grandeza do Altissimo; mas havia janellas para o purgatorio a
-que o Sanches se debruçava commigo, cuja vista muito mais seduzia. E o
-preceptor tinha um tempero de uncção na voz e no modo, uma sobranceria
-de director espiritual, que fala do peccado sem macular a bocca. Empunha
-quasi compungido, fincando o olhar no tecto, fazendo estalar os dedos,
-num enlevo de abstracção religiosa; expunha, demorando os incidentes,
-as mais cabelludas manifestações de Satanaz no mundo. Nem ao menos
-dourava os chifres, que me não fizessem medo; pelo contrario, havia
-como que o capricho de surprehender com as phantasias do Mal e da
-Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demonio tinha
-talvez dous metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma
-vez, que não é tão feio o dito, como o pintam.
-</p>
-<p>
-O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oraculos
-obscuros. Eu não acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que
-metade d'aquillo era invenção malvada do Sanches. E quando elle
-punha-se a contar historias de castidade, sem attenção á parvidade da
-materia do preceito theologico, mulher do proximo, Conceição da
-Virgem, terceiro-luxuria, brados ao céu pela sensualidade contra a
-natureza, vantagens moraes do matrimonio, e porque a carne, a innocente
-carne, que eu só conhecia condemnada pela quaresma e pelos monopolistas
-do bacalháu, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando
-rectificava o meu engano, que era outra a carne e guizada de modo
-especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um pedacinho de
-indignação contra as calumnias á santa cartilha do meu devoto credo.
-Mas a cousa interessava e eu ia colhendo as informações para julgar
-por mim opportunamente.
-</p>
-<p>
-Na taboada e no desenho linear, eu prescindia do collega mais velho; no
-desenho, porque achava graça em percorrer os caprichosos traços,
-divertindo-me a geometria miuda como um brinquedo; na taboada e no
-systema metrico, porque perdera as esperanças de passar de mediocre
-como gymnasta de calculos, e resolvera deixar a Maurilio ou a quem quer
-que fosse o primado das cifras.
-</p>
-<p>
-Em dous mezes tinhamos vencido por alto a materia toda do curso; e, com
-este preparo, sorria-me o agouro de magnifico futuro, quando veio a
-fatalidade desandar a roda.
-</p>
-<p>
-Referi que Sanches me provocava uma repugnancia de gosma. Depois do caso
-da natação, o reconhecimento predominou sobre a repulsa e eu admitti
-as assiduidades com que de então por diante me quiz beneficiar o
-companheiro. Afinal, porém, tornou-me a apparecer o affastamento
-instinctivo que me separava do rapaz.
-</p>
-<p>
-Descrente da fraternidade do collegio, cuja personificação
-representava-me o Barbalho, eu temia o alvoroço do recreio.
-Conservar-me na sala das licções era uma medida de prudencia. Estes
-intervallos regulamentares de descanço, aproveitava-os para me adiantar
-no curso. Pois bem, durante estes momentos de applicação excepcional
-em que ficavamos a sós, eu e o grande, definiu-se o fundamento da
-antipathia presentida. A franqueza da convivencia augmentou dia a dia,
-em progresso imperceptivel. Tomávamos logar no mesmo banco. Sanches
-foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro
-d'elle e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de
-cançaço. Para explicar alguma cousa, distanciava-se um pouco;
-tomava-me, então, os dedos e amassava-me até doer a mão, como se
-fosse argilla, cravando-me olhares de raiva injustificada. Volvia
-novamente ás expansões de affecto e a leitura proseguia, passando-me
-elle o braço ao pescoço como um furioso amigo.
-</p>
-<p>
-Eu deixava tudo, fingindo-me insensivel, com um plano de rompimento em
-idéa, embargado, todavia, pela falta de coragem. Não havia mal
-naquellas maneiras amigas; achava-as, simplesmente, despropositadas e
-importunas, maxime não correspondendo a mais insignificante
-manifestação da minha parte.
-</p>
-<p>
-Notei que elle variava de attitude quando um inspector mostrava a
-cabeça á entrada da sala e quando pretendia informar-me de alguma
-disciplina transcendente.
-</p>
-<p>
-Então o mestre singular formalisava-se de gravidade severa e distante.
-Esta inconstancia era o meu alarme. Foi afinal um entretenimento. Eu
-perdia muitas vezes o fio da leitura para attender ás artimanhas
-d'aquella novissima comedia.
-</p>
-<p>
-Por um dia de muito calor, acabava elle de enunciar como um padre uma
-pagina de religião, os diversos actos de Contricção, de Attricção,
-de Fé, de Esperança, de Caridade, quando propoz que eu lh'os repetisse
-sentado aos seus joelhos. Achei inutil a commodidade e repeti a licção
-passeando pela sala. Que diabo! Aquelle sujeito queria tratar-me
-definitivamente como um bêbê! Com pouco mais lhe daria o excesso de
-extremos para me offerecer uma volta de cueiros! Ah! que se ainda me
-vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem duvida
-nenhuma ha muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha
-pelas ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e ductil como
-um renovo, depois do anniquilamento da primeira decepção. Fui
-transferindo o conflicto.
-</p>
-<p>
-Ás vezes a minha resistencia passiva desapontava o preceptor. Elle
-encarava-me terrivel, e como quem diz: «perde a protecção de um
-vigilante!», ou disfarçava a impertinencia em riso amarello, numa
-abstracta expressão de physionomia, que era aliás o <i>facies</i>, de uma
-idéa fixa.
-</p>
-<p>
-Os exercidos corporaes effectuavam-se á tarde, uma hora depois do
-jantar, hora excellente, que habituava a digestão a segurar-se no
-estomago e não escorrer pela guela quando os estudantes se balançavam
-a barra-fixa, pelas curvas.
-</p>
-<p>
-Reconheci o bello campo das manobras quando lá fui pela primeira vez,
-depois da matricula; tive saudade das flammulas sobre o gramal verde.
-Mesmo, porém, desmontada a alegria de encommenda das festas, era um
-sitio amenissimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais
-abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do
-regimen interno.
-</p>
-<p>
-Findos os exercicios, partia o professor Bataillard, e, guardados por
-dois inspectores, o Sylvino e o João Numa, ou João Numa e o velho
-Margal, venerando invalido hespanhol querido de todos, ou o Margal e o
-<i>Conselheiro</i>, tinhamos, os alumnos, um prazo de recreio até cair a
-noite.
-</p>
-<p>
-Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente,
-vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu
-companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desattento, admirando o
-crepusculo com a testa franzida, na meia abstracção que era o seu
-rictus costumeiro. Estavamos a um rodeio da avenida que circumdava o
-gramal, opposto á cancella onde conversavam os inspectores. Os collegas
-jogavam a barra através da grama, ou se divertiam ao <i>saut-de-mouton</i>
-em pontos affastados. Como não apprehendi a pergunta, o Sanches
-repetiu. Escapou-me involuntario o riso... Abarbava-me a mais rara
-especie de pretendente! Eu ria com franqueza, mas abysmado. Era de uma
-extravagancia original aquelle Sanches! Hoje, elle é engenheiro em uma
-estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...
-</p>
-<p>
-Vendo que não nos podiamos entender, metteu entre nós o esplendor da
-tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unanime a
-respeito.
-</p>
-<p>
-Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de
-perdel-o. Deu-me as licções sem uma só das intragaveis ternuras.
-Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma
-revolução de caracter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo
-moderado, que me livrasse dos vexames da vida collegial dos pequenos. O
-caso era outro. Sanches comprehendera que a ingenuidade tinha
-contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar á
-carga.
-</p>
-<p>
-Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.
-</p>
-<p>
-Inventou uma analyse dos <i>Lusiadas</i>, livro de exame, cuja difficuldade
-não cessava de encarecer.
-</p>
-<p>
-Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava
-criminosamente o sobresalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante
-das estrophes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a
-fumegar alfazema. Barbaro! Havia um trajo de modestia sobre a verdade do
-vocabulo; elle rasgava as tunicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia
-do meneio gracil de cada verso uma brutalidade offensiva. Eu
-acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente victima, e me dava á
-crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A analyse
-aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um
-requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbavel.
-</p>
-<p>
-Tomava cada periodo, cada oração, altamente, com o ademan sisudo do
-anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois
-o significado, zás! um córte de escalpello, e a phrase rolava morta,
-repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.
-</p>
-<p>
-Iniciou da mesma forma um curso pittoresco de diccionario. O diccionario
-é o universo. Gaba-se de esclarecimento, mas atordôa, á primeira
-vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas.
-Encarreirados nas paginas consideraveis, os nomes seguem estranhamente
-com a numerosa prole dos derivados, ou sós, <i>petits-maîtres</i> faceiros,
-os gallicismos; vaidosos <i>dandys</i> os de proveniencia albionica.
-Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As
-significações prolongam-se interminas, entrecruzam-se em confusa rêde
-topographica. O inexperiente não conquista um passo na immensa capital
-das palavras. Sanches estava affeito. Penetrou commigo até aos ultimos
-albergues da metropole, até á cloaca maxima dos termos chulos.
-Descarnou-me em caricatura de esqueleto, a circumspecção magistral do
-Lexicon, como polluira a elevação parnasiana do poema.
-</p>
-<p>
-Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror
-aquella sabedoria de cousas nunca sonhadas. O honrado director
-espiritual percebeu que havia agora um ascendente de dominio que me
-curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de malicia.
-Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de
-possuidor forte. Eu andava num deploravel desmantelo de energia.
-Rebello, de vez em quando, acabrunhava-me, através dos oculos azues,
-com um olhar de desprezo ou condolencia ainda mais aviltante. Meu pae
-vinha vêr-me todas as semanas; eu mostrava os premios de applicação,
-conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receioso dos
-outros, o meu companheiro era quasi exclusivamente Sanches. Sempre
-juntos eu e elle. Sabia-se no Atheneu que elle era meu explicador,
-suppunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas relações.
-</p>
-<p>
-Comtudo Sanches, como os mal intencionados, fugia dos logares
-concorridos. Gostava de vaguear commigo, á noite, antes da ceia,
-cruzando cem vezes o pateo de pouca luz, cingindo-me nervosamente,
-estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando em
-resignado silencio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebello.
-</p>
-<p>
-Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tacito, Sanches
-precipitou um desenlace. Por uma tarde de aguaceiro erravamos pelo
-saguão das bacias, escuro, humido, rescendendo ao cheiro das toalhas
-mofadas e dos ingredientes dentifricios, solidão favoravel,
-multiplicada pelos obstaculos á vista que offereciam enormes pilares
-quadrados em ordem a sustentar o edificio,&mdash;quando, sem transição, o
-companheiro chegou-me a bocca ao rosto e falou baixinho.
-</p>
-<p>
-Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, collante, como se
-fosse cada syllaba uma lesma, horripilou-me, feito o contacto de um
-supplicio immundo. Fingi não ter ouvido; mas houve intimamente a
-explosão de todo o meu asco por semelhante individuo, e muito calmo,
-desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me
-endefluxara a friagem e... fui buscal-o.
-</p>
-<p>
-Fóra da zona magnetica em que me captivava o bom amigo, concertaram-se
-os meus instinctos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um
-desconhecido. Sacrificava-se de golpe o amigo, o explicador e o
-vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro depois do
-rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me,
-temperando o olhar com um brilho de facadas.
-</p>
-<p>
-A occasião é que não era a melhor para o conflicto. Conveniencias do
-ensino tinham feito dividir-se em duas turmas a aula do professor
-Manlio, e eu fôra incluido na secção confiada ao Sanches, como
-auxiliar idoneo. A consequencia foi o que devia ser. Maltratado e
-condemnado pelo ajudante, provando mal em razão do sobresalto no exame
-de verificação a que me sujeitou o professor, desmoralisado em
-reprehensão solemne com grande regosijo do Sanches, jurei vingança.
-Escandalisaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a
-materia toda em rapida antecipação de estudo. Isto, porém, não
-bastava. Bastasse! foi o meu lemma. E toca a desandar. Fiquei abaixo do
-Barbalho, aliás fóra de classificação decente; fiquei abaixo do
-Alvares. Fui o ultimo da aula! Resultado razoavel, para emprego de uma
-energiazinha que despontava.
-</p>
-<p>
-Ao mesmo tempo, como os philosophos atribulados, busquei a doce
-consolação dos astros.
-</p>
-<p>
-Aristarcho iniciara um curso nocturno de cosmographia.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura12.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Estrellas era com elle. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de
-expulsão, abalançava-se a intrometter-se nas onze varas da camisola,
-de astrologo. E vissem-no, á janella, indicando as constellações,
-impellindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós discipulos,
-não viamos nada; mas admiravamos. Bastava elle delinear sabiamente um
-agrupamento estellino ás alturas, para cada um de nós por seu lado
-ficar mais <i>a quo</i>. E voava, fugindo, a poeira phosphorecente.
-</p>
-<p>
-Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que
-Aristarcho fisgava os astros, quando todos sabem que apontar estrellas
-faz crear verrugas.
-</p>
-<p>
-Uma vez, muito enthusiasmado, o illustre mestre mostrou-nos o
-Cruzeiro do Sul. Pouco depois, cochichando com o que sabiamos de pontos
-cardeaes, descobrimos que a janella fazia frente para o Norte: não
-atinamos. Aristarcho reconheceu o descuido: não quiz desdizer-se. Lá
-ficou a contra-gosto o Cruzeiro estampado no hemispherio da estrella
-polar.
-</p>
-<p>
-Eu tomei amor ás cousas do espaço e estudava profundamente a mecanica
-do infinito pelo compendio de Abreu.
-</p>
-<p>
-Para as noites brumosas, Aristarcho tinha os apparelhos. Uma infinidade
-de machinismos do ensino astronomico, exemplificando o systema solar, a
-theoria dos eclipses, a gravitação dos satellites, as espheras
-concentricas, terrestre e celeste; a de dentro, de cartão lustrado; a
-de fóra, de vidro. Um atravancamento indescriptivel, sobre a mesa, de
-estrellas e arames torcidos, rodas dentadas de latão, lampadas frouxas
-de naphta parodiando o sol. Aristarcho dava á manivella e gyrava tudo.
-Com o <i>pince-nez</i> grosso de tartaruga, á ponta do nariz, dominava o
-tropel dos mundos.
-</p>
-<p>
-«Vêem, dizia, explicando a natureza, vêem a minha mão aqui?»
-</p>
-<p>
-Mostrava a mão direita, ao realejo, bella manopla felpuda de fazer
-inveja a Esaú:
-</p>
-<p>
-«É a mão da Providencia!»
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IV">IV</a></h4>
-
-<p>
-Periodo sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma
-banqueta de altar, ou com o alphabeto azul que delinêa o fumo do
-incenso no ar tranquillo, inolvidaveis tregoas de intimo socego em toda
-a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao fundo
-descredito escolar.
-</p>
-<p>
-A astronomia, como os céus do psalmo, levou-me á contemplação. O
-mal na terra, descripto pelo Sanches com uma pericia de conhecedor e
-praticante, tomou vulto no seio das minhas cogitações. A incredulidade
-primeira acabou em meu espirito, reconhecendo o descalabro d'este val de
-lagrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar á minha
-rehabilitação nos estudos, puz-me a estudar, como Ignacio de Loyola,
-talvez na mesma idade, a rehabilitação do mundo.
-</p>
-<p>
-Encarnei o peccado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no
-intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu
-exemplo pontifical de virtudes no solio de Roma; mas a verdade é que me
-dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa
-exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal scenographico de
-trabalho, e fraternidade, que eu quizera que fosse a escola, tinha que
-soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era
-o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.
-</p>
-<p>
-Accresce que predispunha ao enlevo a tristeza oppressa de discipulo máu
-em que eu jazia. E como nos pequenos esforços que tentava para me
-reerguer ninguem dava attenção, deixei-me ficar insensivel, resignado,
-como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciencia em paz, a
-consciencia que é o espectaculo de Deus. Servia-me a crença como um
-colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que
-apezar dos anceios de bemaventurança, eu ia mal no catecismo como no
-resto.
-</p>
-<p>
-A mais terrivel das instituições do <i>Atheneu</i> não era a famosa
-justiça do arbitrio, não era ainda a <i>cafua</i>, asylo das trevas e do
-soluço, sancção das culpas enormes. Era o <i>Livro das notas</i>.
-</p>
-<p>
-Todas as manhãs, infallivelmente, perante o collegio em peso,
-congregado para o primeiro almoço, ás oito horas, o director apparecia
-a uma porta, com a solemnidade tarda das apparições, e abria o
-memorial das partes.
-</p>
-<p>
-Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rotulo
-vermelho na capa, angulos do mesmo sangue. Na vespera cada professor, na
-ordem do horario, deixava alli a observação relativa á diligencia dos
-seus discipulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as
-sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia,
-avultava, impunha-se a opinião do <i>Atheneu</i>. Rainha caprichosa e
-incerta, tyrannisava essa opinião sem correctivo como os tribunaes
-supremos. O temivel noticiario, redigido ao sabor da justiça suspeita
-de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos,
-immoraes, erigia-se em censura irremissivel de reputações. O julgador
-podia ser posto fóra por uma evidenciação concludente dos seus
-defeitos; a diffamação estampada era irrevogavel.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 300px;">
-<img src="images/figura13.jpg" width="300" height="300" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-E peior é que lavrava o contagio da convicção e surprehendia-se cada
-um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinario
-tal discipulo, tal collega, reforçando-se passivamente o conceito, até
-consummar-se a obra de vilipendio quando, por ultimo, o condemnado, sem
-mais uma suggestão de revolta achava aquillo justo e baixava a cabeça.
-A opinião é um adversario infernal que conta com a cumplicidade,
-emfim, da propria victima.
-</p>
-<p>
-Com excepção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os
-que dormiam á sombra de uma reputação habilmente arranjada por um
-justo conchavo de trabalho e captivante doçura, havia para todos uma
-espectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um
-mysterio.
-</p>
-<p>
-Á medida que se desenrolava a gazetilha, as ancias iam serenando. Os
-victimados fugiam, acabrunhados de vergonha, opprimidos sob o castigo
-incalculavel de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de
-ultraje. Passavam junto de Aristarcho ao sair para a tarefa penal de
-escripta. O director, arrepiando uma das coleras olympicas que de um
-momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro ás costas
-do condemnado, aggravante do injuria e escarneo á pena de diffamação.
-O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.
-</p>
-<p>
-Quando a cousa não dava para coleras, Aristarcho limitava-se a
-sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença cathedratica; ora
-uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e
-breve, ora um conselho amortalhado em funebre dó.
-</p>
-<p>
-Ás vezes enlaçava com dous dedos o menino pela nuca e o voltava,
-tremente e submisso, para o collegio attento, offerecendo-o ás
-bofetadas da opinião: «Vejam esta cara!...»
-</p>
-<p>
-A criança, livida, fechava os olhos.
-</p>
-<p>
-Em compensação, não havia expressamente punições corporaes.
-</p>
-<p>
-O professor Manlio, sempre considerando a recommendação, poupou-me
-longamente ao castigo formidavel das partes. Perdeu por fim a paciencia
-e fulminou-me.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem assucar que me bastasse, o
-resto do café quinado da espectativa (porque Manlio tinha-me
-prevenido), quando ouvi Aristarcho, alargando pausas dramaticas de
-commoção, ler, claro, severo: «O Sr. Sergio tem degenerado...»
-</p>
-<p>
-Eu havia figurado já na gazetilha do <i>Atheneu</i> com algumas notas de
-louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O director olhou-me
-sombrio.
-</p>
-<p>
-No fundo do silencio commum do refeitorio, cavou-se um silencio mais
-fundo, como um poço depois de um abysmo. Senti-me devorado por este
-silencio hiante. A congregação justiceira dos collegas voltou-se para
-mim, contra mim. Os vizinhos de logar á mesa affastaram-se dos dois
-lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um
-ruido argentino, horrivel, de colheres á lavagem; os tamarineiros no
-parque ciciavam ao vento.
-</p>
-<p>
-Aristarcho foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.
-</p>
-<p>
-A peior hypothese do systema do pelourinho era quando o estudante
-ganhava o callo da habitualidade, um assassinato do pudor, como succedia
-com o Franco.
-</p>
-<p>
-Dias depois da terrivel nota, voltava eu a figurar com outra má, menos
-philosophicamente redigida, porém aggravada de reincidencia. Aristarcho
-não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma
-d'ellas doia-me intensamente; comtudo não me indignavam. Aquelle
-soffrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição
-actual. Chorava á noite, em segredo, no dormitorio; mas colhia as
-lagrimas numa taça, como fazem os martyres das estampas bentas, e
-offerecia ao céu, em remissão dos meus pobres peccados, com as notas
-más boiando.
-</p>
-<p>
-No recreio, andava só e calado como um monge. Depois do Sanches não me
-aproximava de nenhum collega, senão incidentemente, por palavras
-indispensaveis. Rebello tentou attrahir-me; ou desviava. Sanches,
-rancoroso, perseguia-me como um demonio. Dizia cousas immundas. «Deixa
-estar, jurava entre dentes, que ainda hei de tirar-te a vergonha.» Na
-qualidade de vigilante levava-me brutalmente á espada. Eu tinha as
-pernas roxas dos golpes; as canellas me incharam. Se Barbalho se lembra
-de vingar a bofetada, creio que me submettia á letra evangelica.
-</p>
-<p>
-Durante este periodo de depressão contemplativa uma cousa apenas
-magoava-me: não tinha o ar angelico do Ribas, não cantava tão bem
-como elle. Que faria se morresse, entre os anjos, sem saber cantar?
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura14.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Ribas, quinze annos, era feio, magro, lymphatico. Bocca sem labios, de
-velha carpideira, desenhada em angustia&mdash;a supplica feita bocca, a
-prece perenne rasgada em beiços sobre dentes; o queixo fugia-lhe pelo
-rosto, infinitamente, como uma gotta de cêra pelo fuste de um cyrio...
-</p>
-<p>
-Mas, quando, na capella, mãos postas ao peito, de joelhos, voltava os
-olhos para o medalhão azul do tecto, que sentimento! que doloroso
-encanto! que piedade! um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que
-subia, que furava o céu como a extrema agulha de um templo gothico!
-</p>
-<p>
-E depois cantava as orações com a doçura feminina de uma virgem aos
-pés de Maria, alto, tremulo, aereo, como aquelle prodigio celeste de
-garganteio da freira Virginia em um romance do conselheiro Bastos.
-</p>
-<p>
-Oh! não ser eu angelico como o Ribas! Lembro-me bem de o vêr ao
-banho: tinha as omoplatas magras para fóra, como duas azas!
-</p>
-<p>
-E eu era feliz nesse tempo, quando invejava o Ribas.
-</p>
-<p>
-Havia na minha febre religiosa certo numero de reservas, que pareciam o
-germen de futuro <i>libertino</i>, como dizem os padres mineiros; eu não
-admittia a confissão, não pensava em communhão, estranhava os
-exaggeros do culto publico, votava antipathia aos homens de batina.
-Santa Rosalia era a minha devoção.
-</p>
-<p>
-Porque Santa Rosalia? Não havia motivo: era uma pequena imagem em
-cartão, gravura de aço e aguadas de fino colorido, lembrança que me
-dera uma prima, então morta, e eu guardava em memoria amavel.
-</p>
-<p>
-Era boa a priminha. Mais velha do que eu tres annos, carinhosa, maternal
-commigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como
-uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda
-quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre
-céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmorea pureza, coando
-uma transparencia de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a
-agitação, ignorava a impaciencia. Sabia talvez que ia morrer. Ao
-vêl-a passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador
-americano&mdash;leve na terra como o roçar da veste de um anjo, sentia-se
-com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquella criança:
-buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da fórma, sob a
-campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela
-manhã&mdash;e a liberdade etherea do sentimento.
-</p>
-<p>
-Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto
-á pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma
-identidade commovente de traços physionomicos com a pequenina morta.
-Guardei então, como um retrato, Santa Rosalia.
-</p>
-<p>
-Com a evolução de mysticismo era natural completar-se a consagração
-da estampa; canonisada triumphalmente no concilio ecumenico dos meus
-mais intimos votos.
-</p>
-<p>
-Era a sala geral do estudo, á beira do pateo central, uma peça
-incommensuravel, muito mais extensa do que larga. De uma das
-extremidades, quem não tivesse extraordinaria vista custaria a
-reconhecer outra pessoa na extremidade opposta. A um lado,
-encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de páu envernisado e os
-bancos. Á parede, em frente, perfilavam-se grandes armarios de portas
-numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; deposito de livros.
-Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono
-pregava um cadeado á portinha e formava um interior á vontade. Uns, os
-futuros <i>sportmen</i>, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a
-tesoura, que se atrellavam a pequenos carros de papelão; outros, os
-politicos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes
-precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das pelles;
-outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham
-espiar a efflorescencia das borboletas; os colleccionadores, Ladislaus
-Nettos um dia, fingiam museus mineralogicos, museus botanicos, onde
-abundavam as delicadas rendas seccas de filamentos das folhas
-descamadas; outros davam-se á zoologia e tinham caveiras de
-passarinhos, ovos vasados, cobras em cachaça. Um d'estes ultimos
-soffreu uma decepção. Guardava preciosamente o craneo de não sei que
-phenomenal quadrupede encontrado em excavações de uma horta, quando
-verificou-se que era uma carcassa de gallinha!
-</p>
-<p>
-Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia
-compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque
-de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro
-accesa. Ao fundo, em dourado <i>passe-partout</i> alojaria Santa Rosalia, a
-padroeira.
-</p>
-<p>
-O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal
-conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a
-gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama,
-para as escovas e os pentes.
-</p>
-<p>
-E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração,
-depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus
-fervores, symbolisados num tributo de perfume.
-</p>
-<p>
-Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as
-enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do
-amor de Maria.
-</p>
-<p>
-Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do <i>Atheneu</i>. Abençoados
-momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do
-corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia
-christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes
-das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do
-estuque.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura15.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças,
-brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com
-medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu.
-Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de
-jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera,
-cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos,
-expirando no ambiente a alma livre do aroma.
-</p>
-<p>
-Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos
-sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella
-mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das
-miseriazinhas da hora commum.
-</p>
-<p>
-Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado,
-sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição
-Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam
-pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto
-pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia
-dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando
-o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.
-</p>
-<p>
-O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença.
-Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae,
-impedindo-lhe ás visitas do costume ao <i>Atheneu</i>. Eu pensava nos seus
-soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do
-mysticismo.
-</p>
-<p>
-A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da
-cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos
-hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu
-passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as
-paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do
-espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na
-modestia curvada dos brutos&mdash;annullando-me a mim mesmo na angustia do
-pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do
-farricoco.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura16.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os
-zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.
-</p>
-<p>
-Triste e feliz.
-</p>
-<p>
-Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á
-solidão e ao socego.
-</p>
-<p>
-Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os
-estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós
-empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o
-rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao
-respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se
-não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que
-o não pedissemos ao Anjo...
-</p>
-<p>
-Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as
-seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota
-esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem
-compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os
-collegas.
-</p>
-<p>
-O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas,
-guardada a <i>cache-nez</i> nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de
-gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As
-vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella...
-a do hymno...
-</p>
-<p>
-Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa
-nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao
-meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro
-que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam
-todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a
-do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade
-fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam
-da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas,
-espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o
-conjuncto podia passar por um cantico.
-</p>
-<p>
-Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.
-</p>
-<p>
-O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel
-de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa.
-O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico
-parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os
-accordes&mdash;produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um
-tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns
-meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas
-primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem
-longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação,
-sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.
-</p>
-<p>
-Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no
-soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos,
-ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...
-</p>
-<p>
-Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se
-apresentava habitualmente Aristarcho.
-</p>
-<p>
-Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas
-trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos
-hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade,
-geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á
-trama concreta das lançadeiras.
-</p>
-<p>
-Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se,
-porém, o influxo da realeza impalpavel.
-</p>
-<p>
-Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio
-fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um
-despotismo cruento.
-</p>
-<p>
-O director manobrava este talento de imperio com a pericia do corredor
-sobre o <i>pur sang</i> sensivel.
-</p>
-<p>
-A sala geral do estudo tinha innumeras portas. Aristarcho faria
-apparições, de subito, a qualquer das portas, nos momentos em que
-menos se podia contar com elle.
-</p>
-<p>
-Levava as apparições ás aulas, surprehendendo professores e
-discipulos. Por meio d'este processo de vigilancia de inopinados,
-mantinha no estabelecimento por toda parte o risco perpetuo do flagrante
-como uma atmosphera de susto. Fazia mais com isso que a espionagem de
-todos os bedeis. Chegava o capricho a ponto de deixar algumas janellas
-ou portas como votadas a fechamento para sempre, com o fim unico de um
-bello dia abril-as bruscamente sobre qualquer machinação clandestina
-da vadiagem. Sorria então no intimo, do effeito pavoroso das
-armadilhas, e cofiava os majestosos bigodes brancos de marechal,
-pausadamente, como lambe o jaguar ao focinho a pregustação de um
-repasto de sangue.
-</p>
-<p>
-Nos momentos de ira e de exaltações eloquentes é que sabia fazer-se
-em verdade divino. Era mais que uma revelação temerosa do Olympo; era
-como se Jupiter mandasse Mercurio catar á terra os raios já disparados
-e os unisse ao stock inavaliavel dos arsenaes do Etna, para soltar tudo,
-de uma só vez, de uma só colera, num só trovão, anniquilando a
-natureza sob a bombarda omnipotente.
-</p>
-<p>
-Mas não sómente parodiava elle os furores olympicos. Aquella alma
-ductil de artista sabia decair até á blandicia, até á lagrima a
-proposito.
-</p>
-<p>
-Jupiter guardava para a opportunidade a caricia de edredon, o gesto
-flexuoso do soberano cysne. Expandia-se ás vezes sobre o <i>Atheneu</i> em
-rompimentos de amor paterno, tão derramado, tão geitosamente sincero,
-que não tinhamos remedio senão replicar no mesmo tom, por um madrigal
-de enternecimento de filhos.
-</p>
-<p>
-E admiravamos.
-</p>
-<p>
-A hora solemne do meio-dia Aristarcho aproveitava para distribuir uma
-merenda de conselhos, depois do canto e antes de outra de fatias,
-incomparavelmente mais bem recebida. Muitas vezes não eram só
-conselhos. Tambem reprimendas em massa por culpas collectivas,
-arrecadações de cigarros, ou pequenos processos summarios em que se
-averiguava a autoria de delictos importantes, como encher de papel
-picado uma sala, cuspir ás paredes, molhar a privada, e mesmo muito
-mais graves, como num episodio do Franco, que se prende ao periodo beato
-das minhas reminiscencias.
-</p>
-<p>
-Assistia o Mestre com a attenção de costume á reza cantada, fazendo
-gyrar nos dedos uma medalha do relogio sobre o collete, na abertura do
-fraque. Ao final, depois de um intervallo preparatorio, aperitivo de
-emoções, tomou a palavra num tom solemne de revelação e referiu, com
-toda a grandeza de que era susceptivel, a hypothese, reclamando a
-indignação vingadora do <i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Franco, no domingo da vespera, aproveitando a largura da vigilancia no
-dia vago, fôra vadiar ao jardim. E para tomar agua de um poço ahi
-existente, cuja bomba não funccionava em regra, deliberou, imaginem!
-humedecer a bucha aspiradora com um liquido que Moysés seria capaz de
-obter no arido deserto, sem milagre mesmo e sem Horeb. Agora considerem
-que o referido poço fornecia agua para a lavagem dos pratos.
-</p>
-<p>
-Um murmurio de horror elevou-se das alas de estudantes.
-</p>
-<p>
-«Adianta-te, Franco», mandou Aristarcho.
-</p>
-<p>
-Com a insensibilidade petrea que o encouraçava para as humilhações,
-saiu Franco do logar e de cabeça baixa, como um cão, foi parar no
-centro da sala. Alli esteve por alguns segundos, exposto, no meio do
-enorme quadrado de alumnos. Os olhares caíam-lhe em cima, como os
-projectis de um fuzilamento.
-</p>
-<p>
-O que mais indignava, era pensar que se havia comido em pratos lavados
-depois da profanação irremediavel da lympha. Passado este effeito, com
-que contava para a punição moral, o director concluiu o libello.
-Ficassemos tranquillos, estavam puros os labios. Franco tinha sido
-surprehendido por um copeiro que o prendera, e fôra a bomba
-incontinente declarada&mdash;interdicta.
-</p>
-<p>
-Muita gente duvidou da opportunidade da interdicção. Limpavam com asco
-a lingua no lenço, esfregavam a bocca até esfolar.
-</p>
-<p>
-«O porco! bramia Aristarcho. O grandissimo porco!» repetia como um
-deus fóra de si. Em redor todos apoiavam a energia da corrigenda.
-Resolveu-se, porém, deixar com vida o criminoso.
-</p>
-<p>
-Aristarcho marcou apenas dez paginas de castigo escripto á noite, e
-passar de joelhos as horas de recreio, a começar da presente.
-</p>
-<p>
-Formulado o veredicto, Franco caiu de rotulas no soalho com estampido,
-como se repentinamente se lhe houvesse estalado ás pernas uma mola.
-</p>
-<p>
-«Ahi não! aqui, tratante!» gritou o director, indicando a porta do
-salão. Cantava-se a oração do meio-dia, como sabem, na casa das
-recreações em dia de chuva, que alargava tres boas portas para o pateo
-central. Aristarcho estava perto da do meio.
-</p>
-<p>
-De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos
-maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos
-rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas seductoras da
-merenda, ficava ainda o condemnado com um reforçozinho de pena.
-Passando por elle, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe
-os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma
-palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos
-com o arremesso dos unicos recursos da sua posição.
-</p>
-<p>
-Até que um grande, mais estouvado, fel-o cair contra o portal, ferindo
-a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôz-se a chorar.
-</p>
-<p>
-Os inspectores fiscalisavam o serviço do pão, prevenindo espertezas
-inconvenientes.
-</p>
-<p>
-Escaparam-lhes os máus tratos.
-</p>
-<p>
-As desventuras do pobre rapaz e as minhas proprias haviam-me levado para
-o Franco. Eu me constituira para elle um quasi amigo. Franco era
-silencioso, como arreceiado de todos, tristonho, de uma melancolia
-parente da imbecilidade; tinha accessos refreados de raiva, queixas que
-não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos,
-faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nelle
-a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de
-encher de garranchos paginas e paginas. Esta interminavel escripta
-fizera-lhe callos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia
-elle nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra
-si mesmo.
-</p>
-<p>
-A principio fugia de mim, resmungando cousas indecifraveis. Depois
-acceitou-me. Mas não excediam as suas confidencias o restrictissimo
-limite de uns grunhidos de aversão, historias de desastres pandegos que
-sabia, ingenuas observações a respeito de assumptos infantis,
-referencias de odio aos superiores.
-</p>
-<p>
-Uma vez recebeu carta da provincia, uma das poucas que lhe chegavam por
-anno. Depois da leitura percebi que tinha lagrimas nos olhos. O pranto
-era-lhe um acontecimento na physionomia, invariavelmente de uma
-pasmaceira de mascara de arame. Interessei-me por aquelle soffrimento;
-elle deu-me a carta a ler. O pae do Franco era um pobre desembargador
-desterrado nos confins de Matto-Grosso, com oito filhos. Uma carta
-dolorosa. Fôra entregue directamente pelo caixeiro do correspondente,
-escapando á curiosidade do director, que gostava de espiar a
-correspondencia dos alumnos. Falava em vir á côrte no fim do anno, com
-todos os sacrificios, falava em encontrar o filho bom menino, educado,
-estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma
-filha, a mais velha, desapparecera do collegio onde estava, em companhia
-de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada tres ou quatro
-dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas á infeliz no
-interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo
-desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não
-tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação
-demente da vergonha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como tem descido Sergio, lastimavam os inspectores, palestrando a
-ordem do dia com o director, é o intimo do Franco.
-</p>
-<p>
-Ainda que isso não fosse rigorosamente exacto, não foi surpreza para
-mim vêr o excommungado convidar-me para uma extraordinaria empreza á
-noite. «Vingar-me da corja!» murmurava, gargarejando um riso
-incompleto e azedo. Isto á tardinha, depois da gymnastica, no mesmo dia
-do processo da bomba.
-</p>
-<p>
-Conseguira no lusco-fusco escapar á sala onde o haviam encerrado para a
-tarefa das paginas. E juntos eu e elle, porque eu lhe acceitara o
-convite com uma facilidade que ainda hoje não comprehendo, galgámos um
-canto de muro que havia no pateo e saltámos para o jardim florestal.
-</p>
-<p>
-Em baixo das arvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro
-acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando
-leve e rapido como uma sombra no ar. En o seguia irresistivelmente, como
-sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o. Franco?
-Aonde ia elle? Chegámos ao capinzal a um de cujos lados extremos ficava
-a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um
-deposito de lixo, onde os jardineiros accumulavam as varreduras da
-chacara, negrejando putrefactas, virando estrume ao tempo.
-</p>
-<p>
-Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silencio e activamente,
-como para não perder aquelle raro estimulo de vontade que o impellia,
-foi examinando o lixo com o pé.
-</p>
-<p>
-A um canto, entre tocos de bambú, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e
-como em acção mecanica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e
-outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e proseguimos, o Franco
-adiante, leve e rapido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e
-diffuso na nevoa quasi lucida do campo aberto.
-</p>
-<p>
-Atravessámos o capinzal quasi sumidos entre as altas bandas de capim
-d'Angola, cuja escura vastidão se constellava de vagalumes e vibrava da
-grita intensa dos grilos e do clamor dos sapos. Diante da natação o
-Franco parou e me fez parar, «A minha vingança!» disse entre dentes,
-e me indicou a toalha d'agua do grande tanque. A massa liquida, immovel,
-na calma da noite, tinha o aspecto de lustrosa calçada de azeviche;
-algumas estrellas repetiam-se na superficie negra com uma nitidez
-perfeita.
-</p>
-<p>
-Com o mesmo modo atarefado de todo aquelle singular emprehendimento, o
-Franco acercou-se de mim, tirou-me as garrafas que me dera e
-desappareceu da minha vista.
-</p>
-<p>
-Eu ouvi que elle quebrava as garrafas uma por uma. D'ahi a pouco
-reapparecia, trazendo as abas da blusa em regaço. E começou a lançar
-então com o maior socego ao tanque para todos os lados, aqui, alli,
-dispersamente, como semeando, as lascas do vidro que partira. Um breve
-rumor de mergulho borbulhava á flôr d'agua, abrindo-se em circulos
-concentricos os reflexos do céu. Eu vi muitas vezes contra o albor mais
-claro do muro fronteiro, passando, repassando, a sombra do sinistro
-semeador.
-</p>
-<p>
-«A minha vingança!» repetiu-me ainda o Franco. «Para o sangue,
-sangue, accrescentou com o rizinho secco. Amanhã rirei da corja!...
-Trouxe-te aqui para que alguem soubesse que eu me vingo!»
-</p>
-<p>
-Ao falar mostrava-me o lenço que enxugara o sangue do golpe á testa.
-</p>
-<p>
-O justo terror da aventura, era logar vedado, por aquellas horas, só me
-assaltou quando, a pular o muro do pateo, fui cair entre as mãos do
-Sylvino. Nos apuros da alhada, mal vi o Franco seguro pelo pescoço,
-como um ladrão em flagrante.
-</p>
-<p>
-Em presença do director, no escriptorio inquisitorial, improvisei uma
-mentira. Foramos colher sapotis, affirmei, explicando á tremenda
-arguição a estranheza da sortida. O director marcou a pena de oito
-paginas. Franco, que andava com um <i>deficit</i> de vinte pelo menos, teve
-de accrescentar mais estas ao passivo insolvavel. Pela vergonha da
-tentativa de furto e no systema dos castigos moraes, addicionou-se a
-observação supplementar: passariamos, os delinquentes, no outro dia,
-as horas do almoço e do jantar, ao refeitorio, de pé, carregando em
-cada mão quantos sapotis coubessem.
-</p>
-<p>
-Todo o requinte de punição não me deu cuidado; pelo contrario, estava
-nas condições do meu programma de pequeno martyr <i>ad majorem gloriam</i>.
-Ao deixar o escriptorio outra cousa preoccupava-me. Ardia de remorsos;
-tinha cacos de garrafa na consciencia. A armadilha sanguinaria de Franco
-obsedava-me como um delicto meu.
-</p>
-<p>
-Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes
-para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que
-suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma
-febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes
-atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel
-fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos
-medios.
-</p>
-<p>
-A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas
-cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás
-escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo
-que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma
-inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de
-arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do
-proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a
-ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e
-o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a
-perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo,
-extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice,
-que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em
-summa, de justa desforra...
-</p>
-<p>
-Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava
-o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.
-</p>
-<p>
-Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas
-almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns
-affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a
-expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras
-entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De
-espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do
-peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da
-adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração.
-Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a
-pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de
-vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces,
-vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O
-ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da
-exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um
-sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros
-e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco,
-bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as
-camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.
-</p>
-<p>
-Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres
-collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios
-vermelhos o caminho!
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura17.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia;
-beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não
-passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não
-ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão
-azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me
-comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a
-tosse; prosegui.
-</p>
-<p>
-Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.
-</p>
-<p>
-A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A
-escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente
-sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no
-estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos
-angulos do estrado do oratorio. Rezei.
-</p>
-<p>
-Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração.
-Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas,
-que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus
-directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que,
-não posso dizer como, adormeci.
-</p>
-<p>
-Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do
-Margal e de uma porção de collegas que miravam. «É somnambulo, é
-somnambulo», explicavam.
-</p>
-<p>
-Esta saída dispensava-me de dizer a que fôra alli; encampei a
-explicação, concordando. «Que horas são? perguntei. Seis horas,
-responderam. Chegamos agora mesmo do banho.» Tinham os cabellos
-empastados sobre os olhos. «E os cacos?!» gritei espavorido. Examinei
-os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via
-sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente
-banheiro, alojado em um dos commodos baixos do <i>Atheneu</i>, pelo motivo
-de ter servido seis vezes a agua da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me
-do céu esta solução de aguas sujas, alcançada pela minha prece.
-Dilatou-se-me a alma em ditoso allivio.
-</p>
-<p>
-Á minha interjeição explosiva de cacos, os collegas suppuzeram
-tontura de somno. Não assim o inspector, que me chamou a indagar. Nova
-mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de
-máu geito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque.
-Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da
-domesticidade, chamou attenção para o numero dos fragmentos; tão
-extraordinaria era a hypothese da intenção perversa que não pegou.
-</p>
-<p>
-No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a
-pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança.
-Julgando-se compromettido, concentrava-se na insensibilidade de
-carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma
-trovoada de doestos, a <i>cafua</i>, um accrescimo ao <i>deficit</i>
-permanente da divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser
-punido por um fiasco de tentativa.
-</p>
-<p>
-Quanto ao requinte da exposição no refeitorio, mãos cheias de
-sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarcho. Concordara em ficar
-de pé; não era pouco. Franco naturalmente submetteu-se e lá esteve,
-braços abertos, a fazer de fructeira no interesse do systema das
-punições moraes. Tanto melhor para o systema.
-</p>
-<p>
-Á vista da reluctancia, calculou-se em paginas de escripta quanto
-podiam valer dous punhados de sapotis; reducção difficil, que a
-justiça collegial alcançou mathematicamente, pronunciando uma
-condemnação que me daria que fazer até mais de meia-noite.
-</p>
-<p>
-Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e
-soffrimento. Foi o repentino prenuncio de proxima refórma no interior
-espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrahir de qualquer
-facto a hermeneutica do determinismo, deu-se immediatamente uma
-occorrencia que ponderou muito na transformação.
-</p>
-<p>
-De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das
-paginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar.
-Pelas dez e meia, o director, antes de sair para casa, veio vêr-nos.
-«Ainda escrevem... estes peraltas?...» disse-nos de enorme altura, á
-guisa de boas-noites, e desappareceu confiando-nos ao amavel João Numa,
-bacoro, inspector das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o
-João não era diligente. Apenas viu partir Aristarcho, trancou a ultima
-porta do <i>Atheneu</i> e foi dormir.
-</p>
-<p>
-Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de somno que mal podia
-erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cançaço fui despertado por
-sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra
-a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço
-esquerdo para o banco. Um instante depois estava fóra da sala, de um
-pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.
-</p>
-<p>
-Ao dia immediato saí da cama como de uma metamorphose. Imaginei,
-generalisando errado, que a contemplação era um mal que o mysticismo
-andava traidoramente a degradar-me: a convivencia facil com o Franco era
-a prova. O <i>Atheneu</i> honrava-me, por esse tempo, com um conceito que
-só depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeiado, mas suppuz-me
-directamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabellos, eu
-registraria neste ponto um phenomeno de horripilação moral.
-</p>
-<p>
-Fiquei perplexo.
-</p>
-<p>
-O triumpho na escola podia ser o Sanches; em compensação, a humildade
-vencida era o Franco. Entre os dous extremos repugnantes,
-revelavam-se-me tres amostras typicas á linha do bem viver: Rebello, um
-ancião; Ribas, um angelico; Matta, o corcunda, um policia secreta. Para
-angelico decididamente não tinha geito, estava provado, nem omoplatas
-magras; para ancião, não tinha idade, nem oculos azues, nem máu
-halito; para ser o Matta, faltava-me o justo caracter e a corcova...
-Onde estava o dever? Na cartilha? Na opinião de Aristarcho? Na
-misanthropia senil dos oculos azues?
-</p>
-<p>
-Salteou-me nisto, ás avessas, o relampago de Damasco: independencia.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="V">V</a></h4>
-
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura18.jpg" width="200" height="300" alt="" />
-</div>
-<p>
-Devo, entretanto, é minha ephemeride religiosa a maior somma de
-gratidão. Suavisou-me com a complacencia divina o periodo de vadiação
-profunda e amollecimento hypnotico com que me pesou a atmosphera do
-<i>Atheneu</i>. Toda a perseguição de castigos, sem prejuizo da minha
-delicadeza moral resvalava pelo cilicio da penitencia; eu emergia forte
-das provações. Que tranquillidade, na apathia, ter por fiador a Deus!
-</p>
-<p>
-Iamos á missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para que o
-director os visse attentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas fugir-me
-o espirito para o alto e adherir á abóbada como as decorações
-sagradas, ajustar-se estreitamente nos detalhes da architectura do
-templo como o ouro subtil dos douradores, conservar-se lá em cima,
-ávido ainda de ascensão, ambicioso de céu como a baforada dos
-thuribulos.
-</p>
-<p>
-Havia accessos communicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu
-não tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço, mal
-dominadas por um olhar de Aristarcho, de joelhos á frente do collegio e
-mãos cruzadas sobre o castão do unicornio; como certa vez que um cão
-bregeiro e sem principios, mesmo ao elevar-se a santa Particula, entrou
-e escapou-se com o casquete de um fiel contricto. Eu resistia ao riso.
-</p>
-<p>
-Cantavamos ao côro em dias solemnes. Melhor organisação vocal
-possuiria o <i>Orpheon</i> do que a minha; mas se cantassem os corações em
-vez dos labios, nenhum hymno evolaria mais largo, mais bello que o meu.
-Traziam-nos agua com assucar num jarro de vidro para molhar as cordas
-vocaes. Eu rejeitava esta doçura terrena.
-</p>
-<p>
-O <i>Atheneu</i> concorria para o brilhantismo das procissões. Eu me
-embrulhava amplamente na opa, encarnada como os sacrificios, que me
-podia enrolar tres vezes: empunhava uma tocha que me martyrisava os
-dedos com os pingos ardentes de cêra. E lá ia, cobiçando ainda a
-força lombar dos mascates para ter ás costas, eu só, aquelles pesados
-andores; invejando o garbo ao presidente da Philarmonica particular
-<i>Prazer do Rio Comprido</i>, que vinha após no prestito, com o estandarte
-S. P. M. P. R. C., e o punho athletico de um equilibrista de perchas
-para levar correcto e rijo os balançados guiões.
-</p>
-<p>
-Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava
-seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela
-porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus...
-e nós para o <i>Atheneu</i> soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a
-cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella
-alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o
-pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se
-para cima na escalada da Gloria.
-</p>
-<p>
-Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.
-</p>
-<p>
-Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo,
-que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha
-momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte,
-da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos,
-medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.
-</p>
-<p>
-Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a
-bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao
-calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.
-</p>
-<p>
-Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as
-ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços
-finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira
-em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de
-barba, em caracol, cada um para a sua banda.
-</p>
-<p>
-Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu
-fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de
-um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A
-proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia
-cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste
-colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia,
-illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros
-de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita,
-sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia
-podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.
-</p>
-<p>
-Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de
-prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da
-Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno
-como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de
-limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios
-fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos
-caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis
-reprobos.
-</p>
-<p>
-Li a <i>Nova Floresta</i>, de Bernardes. O reverendissimo autor veio
-retocar a obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.
-</p>
-<p>
-Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa,
-hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!
-</p>
-<p>
-Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a
-revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das
-ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular
-litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na
-prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o
-resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em
-duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores
-inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado
-dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno
-jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para
-o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção
-sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta
-uma miseria de cinco pães?
-</p>
-<p>
-Ia-se por esta fórma a exaltação dos meus fervores, quando me achei
-envolvido no episodio dos cacos. A attribulação do remorso reaccendeu
-por um momento a chamma decadente; o resultado da minha supplica nesse
-duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a
-decomposição do meu extase. Eu esqueci a circumstancia com a
-ingratidão facil dos pretendentes servidos. E cheguei á conclusão
-audaz.
-</p>
-<p>
-Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos seculos
-christãos, consegui ao menos ficar á margem. Ignorante do atheismo,
-limitei-me a voltar o rosto aos phantasmas do eterno. Subi ao
-dormitorio, tirei da gaveta Santa Rosalia, guardei a flôr da ultima
-offerenda, secca, porque a minha pontualidade de culto faiscava já,
-depuz-lhe em despedida um osculo, e, sem mais profanação, fil-a baixar
-á sala de estudo, onde lhe commetti o modesto encargo de marcar as
-paginas de um volume. Estava demittida a minha padroeira!
-</p>
-<p>
-Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-m'a, e eu lamentei
-apenas perder a lembrança da saudosa prima.
-</p>
-<p>
-Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações á Virgem. Sem
-os hymnos da manhã, sem o sorriso a côres de Santa Rosalia, restava-me
-o Deus dos novissimos, das communhões sacrilegas, o Deus selvagem do
-Barreto. Positivamente não quiz saber do carrasco; alijei a
-metaphysica como um pesadelo. E me achei de novo sósinho no <i>Atheneu</i>;
-sósinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compendio,
-panorama da noite consoladora.
-</p>
-<p>
-E ainda bem, que voltava da crença pela Via-lactea, como para a crença
-fôra. Retirada honrosa de um desengano.
-</p>
-<p>
-Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois
-da missa; voltava-se á segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias
-santos de guarda occasionavam saídas de vespera. O commissario dos
-generos e despenseiro insistia com o director afrouxasse mais o systema
-de feriados. Os rapazes precisam passear, gryphava elle, com a liberdade
-de mordomo confidente. Aristarcho replicava com a invenção cordata dos
-generos de terceira, elasticidade insensivel dos orçamentos.
-</p>
-<p>
-Havia, porém, saídas extraordinarias de premio ou de obsequio.
-</p>
-<p>
-A cada licção julgada boa, o professor assignava um papelucho
-amarello, <i>bom ponto</i>, e entregava ao distincto. Dez premios d'estes
-equivaliam a um cartão impresso, <i>boa nota</i>, como dez vezes vinte réis
-em cobre valem um nickel de duzentos. O systema decimal applicava-se
-mais á conquista de um diploma honroso, equivalente a um baralho de dez
-cartões de boa nota. Com tal diploma era o estudante candidato á
-condecoração final de uma medalha, de prata ou de ouro, conforme
-fosse mais ou menos optimo nos diversos superlativos do merecimento
-escolar. Reduzia-se assim a papel o valor pessoal, na <i>clearing-house</i>
-da directoria; ou, melhor: adaptava-se a theoria de Fox ao processo das
-recompensas, com todos os riscos de um cambio incerto, sujeito aos
-panicos de banca-rota, sem um criterio de justiça a garantir, sob a
-ostentação do papel-moeda, a realidade de um numerario de bem
-aquilatada virtude.
-</p>
-<p>
-Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se
-uma saída, e isto era o importante, como nos paizes de más finanças:
-desde que o papel tem curso, de que vale o valor?
-</p>
-<p>
-Inutil é dizer que me não chegavam nunca as saídas de premio. Tanto
-melhor me sabiam as outras.
-</p>
-<p>
-Durante a primeira quinzena de collegio, o pensamento de um feriado e
-regresso á familia inebriou-me como a anciedade de um ideal fabuloso.
-Quando tornei a vêr os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma
-resurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado
-pela exuberancia de uma alegria mortal. Surprehendia-me a ventura
-incrivel de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade
-cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclysmo temido
-favorecera o meu tecto. Deus permittira, na largueza prodiga da summa
-bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão
-lembrado tecto e a chaminé tranquilla a fumar o <i>spleen</i> infinito das
-cousas immoveis e elevadas.
-</p>
-<p>
-Com o tempo habituei-me á feliz probabilidade de achar na mesma os
-prezados lares, e ousei nos momentos da scisma collegial fundamentar
-projectos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha
-ausencia e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de
-abrir e devorar exacta e exclusivamente o que me era mais caro.
-</p>
-<p>
-Não foram, porém, preoccupações pueris de temor, nem prospectos de
-folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de
-Santa Rosalia.
-</p>
-<p>
-Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de
-botões dourados, parti do <i>Atheneu</i>, grave e mudo como um diplomata a
-caminho da conferencia. Ia effectivamente ruminando a mais séria das
-intenções: affrontar uma entrevista franca com meu pae, descrever-lhe
-corajosamente a minha situação no collegio e obter um auxilio para
-reagir.
-</p>
-<p>
-Meu pae acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus ultimos
-insuccessos. Ficou admirado e consternado. D'ahi o exito completo da
-minha entrevista.
-</p>
-<p>
-Dias depois, no collegio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o
-Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas; reconquistei
-a benevolencia de Manlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbitrio
-pretencioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa
-affirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarcho e a opinião ainda
-melhor da cartilha, mas havia uma terceira&mdash;a rainha propria, que se
-não era tão boa, tão abalisada como as outras, tinha a vantagem alta
-da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarchista.
-</p>
-<p>
-D'ahi por diante era fatal o condicio entre a independencia e a
-autoridade. Aristarcho tinha de roer. Em compensação, adeus
-esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolencia
-feliz dos tempos beatos!
-</p>
-<p>
-Para a campanha da reacção, armazenei uma abastança inextinguivel de
-vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo premios e applausos com
-que se diplomavam os grandes estudantes. Habituado á vida do internato,
-nutria a certeza de conseguir sósinho quanto não podera com o amparo
-de um amigo, nem com a ajuda de Deus. No firme proposito de me não
-fazer exemplar nem me applicar ao cobrejamento de habilidades a que o
-papel de modelo obrigava, estabeleci, comtudo, a razoavel mediocridade
-sem compromissos, de um novo programma.
-</p>
-<p>
-Poucos premios ganhava dos papeluchos amarellos; era contrapeso
-facilitava aos poucos que me vinham a emancipação bohemia do cisco.
-Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do director.
-Aggravo de desdem que se não perdoaria jamais.
-</p>
-<p>
-Desenvolveu-se nas alturas uma antipathia por mim, que me lisongeava
-como uma das formas da consideração. Chegava eu assim, por trajecto
-muito differente do que sonhara á desejada personificação moral de
-pequeno homem.
-</p>
-<p>
-Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o
-chefe, na cortina; Barbalho era o <i>leader</i> abertamente. Eu sorria
-vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma á proa de um
-barco.
-</p>
-<p>
-Este foi o caracter que mantive, depois de tão varias oscillações.
-Porque parece que ás physionomias do caracter chegamos por tentativas,
-semelhante a um estatuario que amoldasse a carne no proprio rosto,
-segundo a plastica de um ideal; ou porque a individualidade moral a
-manifestar-se, ensaia primeiro o vestuario no sortimento psychologico
-das manifestações possiveis.
-</p>
-<p>
-Reinavam no <i>Atheneu</i> duas perniciosas influencias que
-contrabalançavam efficazmente o porejamento de doutrina a transudar das
-paredes, nos conceitos de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda
-mesmo a policia das apparições ubiquas e subitaneas do director. Cousa
-difficil de precisar, como a disseminação na sociedade, do principio
-do mal, elemento primario do dualismo theogonico. O <i>meio</i>,
-philosophemos, é um ouriço invertido: em vez da explosão divergente
-dos dardos&mdash;uma convergencia de pontas ao redor. Através dos
-embaraços pungentes cumpre descobrir o meato de passagem, ou acceitar a
-lucta desigual da epiderme contra as puas. Em geral, prefere-se o meato.
-</p>
-<p>
-As maximas, o director, a inspecção dos bedeis, por exemplo, eram tres
-espinhos; as referidas influencias eram mais dous. A mocidade ia
-transigindo do melhor geito com as bicudas imposições das
-circumstancias.
-</p>
-<p>
-Representavam-se as influencias dissolventes por duas especies de
-encarnação, fundidas em hybridismo de disparate&mdash;a da fórma feminina
-personificada em Angela, a canarina, ou antes a camareira de D. Emma, e
-a de um encontro de taboas humildes, conjunctadas ás pressas, por
-força do prosaismo incivil de um episodio da economia organica.
-</p>
-<p>
-Falavam assim á imaginação, impressões de relance, um olhar banhado
-de lascivia, a tempestade galopante das roupas, em desordem de fuga,
-calculada para effeitos de irritação, um descuido de alças afrouxadas
-ao corpinho, um proposito de poças d'agua em dias de chuva, obrigando a
-saias curtas e canellas núas, ora a uma porta em rapida passagem, ora
-através do parque frondoso; ou ao escriptorio, por motivo de recados de
-D. Emma cuja frequencia desesperava o director; ou sobre o muro da
-natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em duetto de idyllio que
-se espiava; ou em graçola aventurada aos inspectores, que se babavam.
-</p>
-<p>
-Os grandes pilheriavam; os pequenos, sérios, olhavam como quem aprende.
-</p>
-<p>
-Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vicio á sombra do
-pinho alcatroado, a penuria do fumo, a mendicidade das fumaças
-concedidas por beneplacito de dedicação, a pontinha do <i>bird's eye</i> de
-bocca em bocca, como o chimarrão do Rio Grande, mordida, salivada,
-saboreada com todo o gosto acre do que se esconde e que é vedado, e a
-lembrança solitaria, devastadora das imagens do mal, distantes,
-inalcançadas, dança de flôres doudas ao vento; a correspondencia
-covarde acolhida num intersticio de traves como em asylo de infima
-miseria; as obscenas leituras, e o alvoroço do receio perpetuo, adubo
-caustico de prazer máu; a vaidade de illudir, a secreta mofa, o
-appetite de cupim pela demolição invisivel do que está constituido, a
-urdidura preoccupada, extenuante de uma tramazinha de hypocrisias
-minimas e complicadas&mdash;vivescencia vermicular dos estimulos torpes,
-respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um
-buraco, propaganda obscura da lama.
-</p>
-<p>
-E diluia-se pelos semblantes a pallidez creme, cavavam-se olhares
-vitreos das regiões do impaludismo endemico.
-</p>
-<p>
-Soavam-me ainda aos ouvidos as predicas de ascetismo do Barreto. Para
-elle o mal era femea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um
-rabo ao coccyx e criava o Satanaz bilontra, immoral e alegre. A cauda do
-demonio do Barreto era de rendas. Na rua do Ouvidor, faria o
-Satanaz&mdash;fanfreluche. Uma cousa horrivel, com dous olhos, destinados á
-perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre,
-que, por signal, é batina, não é saia. O mais não passava de
-pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com
-Satanaz sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dous seios,
-uma pantomima do inferno, faceira e traidora, gracioso e comburente,
-d'onde por descuido e por acaso vae-se desprendendo a humanidade, como
-as cobrinhas pyrotechnicas de Pharaó. O menor descuido, desgraça
-eterna!
-</p>
-<p>
-Contou-me que o porteiro do seminario em que estivera, para não ser
-despedido, fôra intimado a separar-se da propria irmã. Deus, para vir
-ao mundo, tinha severamente elaborado o mysterio excepcional de uma
-virgindade sem mancha. E, se não fossem as prophecias, que não podiam
-ficar compromettidas, o vehiculo a Conceição, por amor da insexual
-pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda
-mais respeitavel pela calva.
-</p>
-<p>
-A theologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar
-quanta imagem de sorriso viesse pousar-me á idéa. Virando a pagina dos
-fervores, a theoria ficou-me de resto, do Satanaz feminino. Com a pureza
-a mais, natural da idade, ia zombando de Angela e pompas adjacentes.
-Fechado o peito como a paz de Jano, e exteriormente a vaidade me
-amparava.
-</p>
-<p>
-Para me prevenir ainda mais, veio uma occorrencia provar pelo facto que
-o Barreto tinha razão acerca da influencia feminina; uma occorrencia
-que ensanguentou os annaes do estabelecimento, entristecendo o director,
-embora a final se lhe tornasse agradavel pelo muito que fez falar do
-<i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Tinhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação, que
-precedia a hora da gymnastica. Das bandas da copa, ordinariamente
-socegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.
-</p>
-<p>
-O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor de lucta, o
-estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de soccorro; mais gritos; a
-voz de Aristarcho aguda, dando ordens como em combate. Estavamos
-attonitos.
-</p>
-<p>
-De repente vimos assomar á porta, que dominava o pateo sobre a escada
-de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou a
-todos. O homem precipitou-se em dous pulos para o recreio. Trazia um
-ferro na mão gottejando vermelho, uma faca de lamina estreita ou um
-punhal.
-</p>
-<p>
-«Matou! matou! gritavam da copa; pega o assassino!»
-</p>
-<p>
-Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa,
-gordinho, livido e tremulo, ao descer a escada, rolou, partindo os
-oculos na pedra.
-</p>
-<p>
-Aristarcho, a uma janella, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao
-peitoril, desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da
-faca. Os inspectores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como
-loucos.
-</p>
-<p>
-Inesperadamente reapparece o Sylvino, muito branco, com as suissas mais
-pretas, pelo contraste do medo:
-</p>
-<p>
-«Esperem! esperem! dizia convulso, como quem traz na algibeira um
-expediente salvador. Esperem!»
-</p>
-<p>
-Exactamente no meio do pateo abriu as immensas pernas de Rhodes magro, e
-levou á bocca um apito.
-</p>
-<p>
-Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois de
-dous chilros falhos.
-</p>
-<p>
-Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem da
-faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se a uma
-parede, «Deixem-me passar, que mato mais um,» rosnava, com a
-physionomia faiscante, «Caminho para mim!» repetia, agitando o ferro
-num fremito de cascaveis.
-</p>
-<p>
-Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente
-cerco.
-</p>
-<p>
-«Abre!» rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto de fera,
-arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.
-</p>
-<p>
-Com a milagrosa destreza do instincto de conservação, cada um
-safou-se como pôde: o perseguido passou como um tiro. «Fugiu!»
-clamavam de todos os lados.
-</p>
-<p>
-Quando o vimos cair de bruços.
-</p>
-<p>
-Alguem se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o com
-o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por
-terra.
-</p>
-<p>
-Era o Bento Alves!... Com uma das mãos, o bravo collega opprimia a cara
-ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por um
-prodigio de vigor, immobilisava-lhe o braço armado. Com o esquerdo
-livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o a pressão de
-um monolitho.
-</p>
-<p>
-Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversario,
-coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.
-</p>
-<p>
-De toda parte, acclamavam-no heróe. Á janella, de longe, Aristarcho,
-enthusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de
-vento, sem conseguir dar voz á emoção.
-</p>
-<p>
-Bento Alves retirou-se com a faca em trophéu, deixando o criminoso sob
-uma pilha de valentes da ultima hora e criados que o suffocavam.
-</p>
-<p>
-Quando o pobre diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil
-maneiras por cintas de couro, como as mumias no envoltorio de tiras,
-acercou-se d'elle o Sylyino e o aggrediu covardemente com um sermão de
-moral.
-</p>
-<p>
-Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o
-collegio inteiro o sabia.
-</p>
-<p>
-O homem da faca era um dos jardineiros do <i>Atheneu</i>. Durante o jantar
-enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarcho e o matara.
-Havia algum tempo que disputavam os dous a primazia no coração de
-Angela; uma terrivel pendencia. O criado de Aristarcho julgava-se na
-legitima posse d'esse escrinio de affectos, pela convivencia ao lado da
-bella, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as
-mãos se confundiam como as louças ou na sociedade affectuosa do
-serviço dos aposentos do director e da senhora, permutando entre si
-dichotes assucarados, á flagellação dos tapetes.
-</p>
-<p>
-O jardineiro, patricio da camareira, dava por si a razão de
-nacionalidade, o facto de haverem chegado á America na mesma turma de
-immigrantes e uma autoação completa de juramentos idoneos da
-seductora.
-</p>
-<p>
-Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatara; cortam-se. O
-jardineiro cortou. Por mór azedume da situação, dizem que Angela de
-parte a parte estimulava os adversarios declarando a cada um por sua vez
-preferil-o exclusivamente.
-</p>
-<p>
-Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a victima o objecto das
-attenções.
-</p>
-<p>
-Era este um rapagão de trinta annos, pardo e sympathico. O assassino
-era mais escuro, especie de andaluz de touradas, baixo, solido, grosso
-como um cepo de açougue.
-</p>
-<p>
-Apenas desappareceu o criminoso, o collegio inteiro assaltou a escada,
-desejosos de vêr o assassinado. Á porta do refeitorio, porém,
-Aristarcho despachou: «não têm que ver!» Ao mesmo tempo a sineta
-importuna badalava chamando á forma. O professor Bataillard, de branco,
-no cinturão vermelho, appareceu ao lado do director. Os rapazes
-morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dous superiores mais
-odiados.
-</p>
-<p>
-Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes
-acharam meio de se esgueirar até á copa, e eu tambem com elles.
-</p>
-<p>
-Desde muito, andava querendo ver um cadaver, espectaculo real, de mãos
-contrahidas, revirados beiços. As carias iconographicas de parede
-deixavam-me impassivel, com as estampas theoricas de cerebros a
-descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas,
-mostrando visceras, figuras humanas de pé, descançando a um quadril,
-movendo a supinação num geito de complacencia passiva, esfolados para
-que lhes vissemos as veias, modelos vivos da sciencia em pose de
-supplicio, constancias de brahmane, como á espera que houvéssemos
-aprendido de cór a circumvolução do sangue, para vestir de novo a
-pelle e os musculos deslocados. Não me bastava.
-</p>
-<p>
-Nos grandes armarios havia melhor: peças anatomicas de massa, sangrando
-verniz vermelho, legitima hemorrhagia; corações enormes, latejantes,
-humidos á vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de
-cyclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida
-solitaria e inutil da visão; mas olhos que se abriam como fôrmas de
-projectis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo.
-</p>
-<p>
-Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado,
-simples carinha amarellenta, sombreada de azul em nodoas dispersas, em
-mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flôres a immobilidade do
-ultimo somno. Vira ainda uma velha, na eça elevada, uma opulenta velha
-que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de
-cêra côr de mel, inconsolaveis, espichando compridas chammas, que
-pareciam subir ao tecto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os
-dous pés para dentro, em botinas de panno; e o nariz pronunciando-se
-sob o lenço de rendas.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura19.jpg" width="350" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Isto não era ter visto cadaver. Eu queria o cadaver flagrante, despido
-dos artificios de armação e religiosidade, que fazem do defunto
-simples pretexto para um cerimonial de apparato. O que me convinha era o
-galho por terra, ao capricho da quéda, decepado da arvore da
-existencia, tal qual.
-</p>
-<p>
-O cadaver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço
-dramatico do sangue e do crime, como nos theatros.
-</p>
-<p>
-Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes,
-abalando-me certo modo de agradavel pavor. A cozinha do <i>Atheneu</i>,
-além dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Ás paredes
-scintillava o trem completo de cobre areiado, em linha as peças
-redondas como uma galeria de broqueis. No centro uma comprida mesa
-servia de refeitorio á criadagem.
-</p>
-<p>
-Naquella occasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas
-pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a
-autoridade e tratava de remover o morto. Aquella gente toda devia ser,
-de costas, a autoridade policial, feição do poder publico que eu não
-discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o
-cadaver sobre uma esteira de sangue.
-</p>
-<p>
-Guardava ainda a contorsão esquerda da agonia; á bocca fervia-lhe um
-crivo de espuma rosada; trajava collete fechado, calças de casimira
-grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe inteiramente
-abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.
-</p>
-<p>
-Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dous sujeitos com uma
-rêde. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rêde o
-levaram.
-</p>
-<p>
-Impressionou-me para sempre o desfallecimento flacido dos membros,
-quando levantaram o cadaver, a molleza da cabeça, rodando nos hombros,
-com um movimento proprio dos que padecem intoleravel angustia, e um
-choque subito para traz que me gelou o sangue, empinando-se o queixo e o
-nó da garganta, rasgando-se a bocca, brusco, como se o ferido vomitasse
-um resto tenaz da vida.
-</p>
-<p>
-Após a rêde, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei.
-Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguem, passando,
-afagou-me os cabellos: era Angela!
-</p>
-<p>
-&mdash;<i>Morió</i>, disse, indicando o sangue, arregalando as
-sobrancelhas, e desappareceu com o andar de bamboleio.
-</p>
-<p>
-Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para
-o demonio culpado de tão horrivel incidente fui de uma benevolencia tal
-de opinião que me nasceram remorsos.
-</p>
-<p>
-Angela tinha cerca de vinte annos; parecia mais velha pelo
-desenvolvimento das proporções. Grande, carnudo, sanguinea e fogosa,
-era um d'esses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados
-expressamente para esposas da multidão&mdash;protestos revolucionarios
-contra o monopolio do thalamo.
-</p>
-<p>
-Atirada de modos, como o dithyrambo do amor ephemero; vasia como as
-estatuas ôccas; sem sentimentos, material e estupida, possuia,
-entretanto, um segredo satanico de graduar os largos olhos de sepia e
-ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face uma
-alma de superficie, possante, capaz dos altos martyrios da ternura e de
-interpretar os poemas tragicos da dedicação.
-</p>
-<p>
-Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo de alvura,
-braços perfeitos de princeza, que davam que pensar ao espanador humilde
-no serviço da manhã. Exposta ás soalheiras, revestira-se a côr
-branca do rosto de um moreno calido, tom fugitivo de magnolias fanadas,
-invulneravel aos rigores de ar livre, como deve ter sido outr'ora a
-epiderme do Ceres. Ferissem-lhe a tez os dardos corrosivos da
-insolação, vinha-lhe apenas ao rosto um rubor mais bello, e não lhe
-tirava mais o sol á mocidade da carne do que á propria terra, sob a
-calcinação dos ardores; uma primavera de rosas.
-</p>
-<p>
-Consciente da formosura, Angela abusava.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura20.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava em ar
-de seriedade os labios humidos; as palpebras, de longas pestanas,
-baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetravel do pudor.
-Convidava á adoração colhendo aos hombros o manto da candura,
-refugiando-se na indifferença hieratica das vestaes. Depois, uma
-pontinha de ingenuo sorrir, olhos fechados ainda; gradação de
-infantilidade que substituia á vestal uma criança esquiva e timida,
-rindo, voltando a cara. Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance,
-uma temeridade de noiva possivel, nada mais, volvendo ao retrahimento
-scismador. Depois, a contemplação confiada; romance inteiro, linha por
-linha, de uma virgindade. Até que subito, meu castissimo Barreto!
-aquella virtude, aquella meiguice, aquella esquiva candura, aquella
-nubilidade melancolica, aquella physionomia honesta, pesarosa talvez de
-ser amavel, fendia-se em dous batentes de porta magica e rodava em
-explosão o sabbath das lascivias.
-</p>
-<p>
-Os olhos riam, distillando uma lagrima de desejo; as narinas offegavam,
-adejavam tremulas por intervallos, com a vivacidade espasmodica do amor
-das aves; os labios, animados de convulsões tetanicas, balbuciavam
-desafios, promettendo submissão de cadella e a doçura dos sonhos
-orientaes. Dominava então pela offerta abusiva, de repente; abatia-se
-á derradeira humiliação, para attrahir de baixo, como as vertigens.
-Alli estava, por terra, a prostituição da vestal, o hymeneu da
-donzella, a deturpação da innocente, tres servilismos reclamando um
-dono; appetite, appetite para esta orgia rara sem convivas!
-</p>
-<p>
-Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos,
-sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se á
-concorrencia. Havia lugar para todos á sombra dos cabellos castanhos
-que lhe podiam vestir as copiosas fórmas, fartos, perpetuamente seccos,
-que ella sacudia a correr como uma poeira de feno.
-</p>
-<p>
-Aquelle modo do olhar, passando, de Angela, clarificou-me a imaginação
-das sombras de terror em que me enleiara o alvoroço do acontecimento da
-tarde e a vista horrivel do cadaver.
-</p>
-<p>
-Depois da façanha, Bento Alves, o heróe, sumiu-se; commentavam-lhe de
-mais a bravura. Nem aos exercicios do campo compareceu.
-</p>
-<p>
-Bento Alves era um mysterioso. Mysteriosos são no collegio os que não
-andam a atravancar o espaço com as gatimanhas das suas expansões.
-Frequentava as aulas superiores; sem que fosse um estudante de rumuroso
-merito, fazia-se respeitar dos mestres e condiscipulos. Sisudo como
-certos rapazes de intelligencia menor que se arreceiam do ridiculo, não
-sómente pela sisudez impunha-se ao respeito. Consideravam-no
-principalmente pela nomeada de herculeo. Os fortes constituem realmente
-uma fidalguia de privilegios no internato. No tumulto da existencia em
-commum, fundem-se as distincções de classe na democracia do
-colleguismo; as cambiantes de fortuna apagam-se no figurino geral das
-blusas pardas. Os titulos de superioridade prevalecem primitivamente
-no criterio semi-barbaro dos verdes annos; o punho valido chega a fazer
-vantagem sobre a propria vantagem do favoritismo.
-</p>
-<p>
-Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava o pulso,
-proferia exercitar-se á gymnastica sem espectadores. Ás vezes, por
-brinquedo, cingia o braço, a um collega entre o pollegar e o médio e
-fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo dolorido. Aquelles que se
-sujeitavam ao formidavel ensaio de tatuagem por compressão,
-acercavam-se, d'ahi por diante, de Bento Alves com os escrupulos da mais
-reservada prudencia.
-</p>
-<p>
-Entretanto era molle, da preguiça monumental dos animaes pujantes.
-Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu
-socego; desviava os incommodos da convivencia distribuida, transbordante
-dos <i>estimados</i>. Não se falava d'elle no <i>Atheneu</i>. Limitavam-se
-a temel-o em silencio.
-</p>
-<p>
-Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade, teve de
-vêr-se heróe á força. Um desespero. Se algum companheiro caía na
-tolice de dizer-lhe alguma cousa relativamente ao crime do jardineiro,
-Bento Alves rasgava a conversa com um monosyllabo de impaciencia,
-encrespando-se como um javali. Apezar de tudo foi o pobre modesto
-percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.
-</p>
-<p>
-Felizmente o barulho da entrada para o Atheneu de um moço celebre veio
-modificar a odiosa voga.
-</p>
-<p>
-Acabava de matricular-se Nearcho da Fonseca, pernambucano de illustre
-estirpe.
-</p>
-<p>
-Apresentou-se com o pae, vulto politico em galarim no tempo. Era um
-mancebo de dezesete annos, rosto cavado, cabellos abundantes, de talento
-não commum, olhar vivo, moroso de importancia, nariz adunco, avançado,
-secco, quasi translucido como um nariz de vidro. Franzino como a infancia
-desvalida, magro como uma prelecção de osteologia, surprehendeu-nos,
-entre outras, uma recommendação a seu respeito, pelo proprio director
-ás barbas do pae:&mdash;Nearcho da Fonseca era um grande gymnasta!
-</p>
-<p>
-Talentoso que fosse, concebiamos, se por nada mais, ao menos pela
-cabelleira... Mas um gymnasta aquelle espectro da necessidade!
-</p>
-<p>
-A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós esperamos por uma
-exhibição comprobante.
-</p>
-<p>
-Abalou-se a tribu dos acrobatas, dos athletas; toda a rapaziada de brio,
-o Luiz á frente, que localisava na protuberancia nodosa do biceps o
-pundonor supremo da creatura, preparou na mais vasta admiração um
-aposento consideravel para acolher o confrade.
-</p>
-<p>
-Formados trezentos, á tarde, diante dos apparelhos, foi em movimento de
-avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia,
-convidar a exhibir-se o grande Nearcho.
-</p>
-<p>
-Estava presente o director; estava presente o respeitavel progenitor de
-Blondin. O <i>Atheneu</i> olhava.
-</p>
-<p>
-Nearcho deixou a fórma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, segundo a
-regra, mãos á ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o
-trapezio com o passo medido das emas, imperturbavel como quem sabe
-profundamente a technica do marchar. Perto do apparelho, sempre de mãos
-á cinta, volta a volver! virou-se para o collegio, teso, e quebrou para
-nós um duro salamalek, conservando por segundos a effracção angular
-das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria
-historica do Egypto.
-</p>
-<p>
-Assumptavamos anciosos.
-</p>
-<p>
-Depois do comprimento, Nearcho empunhou a barra do trapezio, pollegar
-para baixo, segundo a pragmatica das posições. E fez uma flexão. Ah!
-não sabeis, profanos que sois, quanto vale a flexão dos membros
-superiores! A formula no mundo ideal da mecanica é a alavanca de
-Archimedes; da applicação pratica e contundente é o murro britannico.
-Constate nisto: encolher as munhecas.
-</p>
-<p>
-Nearcho fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma vira-volta, e
-Nearcho ao trapezio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo
-circumstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearcho arranjou
-mais umas phantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente
-os principios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos,
-suando, com um sorriso triumphal.
-</p>
-<p>
-Faltava a sorte do fim. Nearcho espichou quanto pôde a lamentavel
-ausencia de musculos e deu-nos... uma <i>sereia</i>! A sereia é tudo que ha
-de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente ostentoso em materia
-do apparelhos. O sujeito segura-se ás cordas, levanta os pés da barra,
-mette os pés pelas mãos e de cabeça para a terra empurra o ventre. O
-pobre Nearcho, desbarrigado, não tinha ventre para empurrar.
-</p>
-<p>
-Não empurrou cousa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam á
-altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.
-</p>
-<p>
-Estava exhibido o acrobata! Nós olhavamos uns para os outros,
-bestificados, em compostura abatida de caras-d'asnos. Aristarcho
-percebeu e reprehendou-nos com o sobrecenho. Nós comprehendemos
-delicadamente: estava alli o respeitavel pae de um collega...
-</p>
-<p>
-Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabaveis, percorreu as
-fileiras com a electricidade communicativa das acclamações.
-</p>
-<p>
-Nearcho, altivo, agradeceu com o nariz.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VI">VI</a></h4>
-
-<p>
-O futuro tinha reservado para Nearcho um feixe de melhores palmas, uma
-galhada de louros mais legitimos como tempero de victoria.
-</p>
-<p>
-O <i>Gremio Litterario Amor ao Saber</i>, instituição recente, seria o
-verdadeiro theatro dos seus soberbos alcances.
-</p>
-<p>
-Duas vezes ao mez congregavam-se os amigos das letras, numa das salas
-de cima; a mesma das licções astronomicas de Aristarcho. Havia ainda
-para illuminar as sessões pedaços de materia cosmica pelos cantos,
-esfrangalhada pela analyse do mestre. Não quer dizer que merecesse as
-eternas luminarias da ironia a benemerita associação.
-</p>
-<p>
-As suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais que
-simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos
-estatutos: podiam os alumnos, todos do <i>Atheneu</i>, em silencio humilde,
-mariscar o que fossem deixando os segadores do trigal das litteraturas.
-</p>
-<p>
-Assistente infallivel, saía cheio com a rhetorica espigada, que ia
-espalmar, prensando no diccionario, conservas de espirito, reliquia
-inapreciavel do Bello.
-</p>
-<p>
-A difficuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilegio
-de gremista, fazia-me mais a fundo veneral-o.
-</p>
-<p>
-Nearcho não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento
-muito adiantado. Foi immediatamente proposto, acceito e empossado. Á
-primeira sessão, depois do triumpho ao trapezio, tive occasião de
-aprecial-o á gymnastica do verbo.
-</p>
-<p>
-Debatia-se este problema, dos inesgotaveis das aggremiações
-congeneres: Quem foi maior, Alexandre ou Cesar? indagação historica
-difficil evidentemente de levar a cabo sem o auxilio da trena.
-</p>
-<p>
-Nearcho arranjou a cousa a olho e distinguiu-se com a esperada
-galhardia. Falou durante hora e meia com uma fluencia que lhe angariava
-para sempre o epitheto de facundo. Juxtapôz com o primor de um
-varegista de fazendas&mdash;Cesar sobre Alexandre Cesar protestou contra a
-maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artistica; além d'isso
-espetava-o a armadura de Alexandre. Aquillo faria rir a Pompeu no
-armario das legendas e a maledicencia do senado, compromettendo-se a
-seriedade secular do homem que foi, viu e venceu... Nearcho manteve-o
-inexoravelmente durante o percurso do parallelo critico. Cesar não
-podia contar com os legionarios do bom tempo; alli esteve a fazer
-caretas na sujeição inerme, <i>anima vilis</i> dos documentos. Alexandre,
-que afóra o capacete, via-se ainda maiorzinho que o outro, teve mais
-paciencia, deixando-se medir até á peroração, com a boa vontade de
-um defunto. Venceu com effeito. Nearcho proclamou-o magno dos magnos,
-diversas pollegadas maior que o temerario do Rubicon.
-</p>
-<p>
-O <i>Gremio</i> esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se, não havendo
-mais quem falasse. Tambem havia cinco sessões que eram os pobres
-guerreiros tratados a metro.
-</p>
-<p>
-Por este memoravel dia arvorou-se Nearcho em notabilidade firmada.
-Esqueceram todos que elle fôra matriculado sob o quasi compromisso de
-não dar um passo que não fosse um salto mortal, não descançar senão
-de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas, não ter
-outro recreio que não fosse a corda bamba, por não destoar da
-percorrida fama. Ficou em olvido a estréa acrobatica. <i>O Gremio Amor ao
-Saber</i> tomou-o a si, em posse exclusiva, como um orgulho.
-</p>
-<p>
-Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas,
-criticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu orgão, <i>O Gremio</i>,
-impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos á vontade os socios
-quites e ainda, por maior riqueza de harmonias, os honorarios.
-</p>
-<p>
-Entre os honorarios figurava Aristarcho, presidente, collaborando sempre
-no periodico com a transcripção em avulso das maximas de parede, e
-mandando sempre para a quarta pagina um annuncio garrafal do
-<i>Atheneu</i>, que pagava para auxiliar á empreza. Na interessante
-publicação appareciam quadrinhas mysticas do Ribas e sonetos lubricos
-do Sanches. Barreto publicava meditações, especie de <i>harpa do
-crente</i> em prosa arrebentada.
-</p>
-<p>
-O rodapé-romance era uma imitação d'<i>O Guarany</i>, emplumada de
-vocabulos indigenas e assignada&mdash;<i>Aimbiré</i>.
-</p>
-<p>
-Nearcho atirou-se á especialidade dos parallelos. Começou logo por
-dous de pancada: Scylla e Mario, Tito e Nero. No expediente promettia-se
-um terceiro curiosissimo: Plutarcho e os beocios.
-</p>
-<p>
-Esta quéda para as linhas equidistantes, talento aliás de carril
-urbano e annexos muares, foi mais uma razão de prestigio para o
-extraordinario rapaz.
-</p>
-<p>
-A eloquencia representava-se no <i>Gremio</i> por uma porção de
-categorias. Cicero tragedia&mdash;voz cavernosa, gestos de punhal, que
-parece clamar de dentro do tumulo, que arrepia os cabellos ao auditorio,
-franzindo com fereza o sobr'olho, que, se a rhetorica fosse susceptivel
-de assignatura, accrescentaria ao fim de cada discurso pesadamente: <i>a
-mão do finado</i>; Cicero modestia&mdash;formulando excellentes cousas,
-atrapalhadamente, no embaraço de um perpetuo <i>début</i>,
-desculpando-se muito em todos os exordios e ainda mais em todas as
-confirmações, lagrimas na voz, difficuldade no modo, selecto e
-engasgado; Cicero circumspecção&mdash;enunciando-se por phrases
-cortadas como quem encarreira tijolos, homem da regra e da legalidade,
-calcando os <i>que</i> e os <i>cujo</i>, longo, demorado, caprichoso em
-mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é, amigo dos periodos
-quadrados e vasios como caixões, attenuando mais em cada conceito a
-attenuante do conceito anterior, conservador e ultramontano, porque as
-cousas estabelecidas dispensam de pensar, apologista ferrenho de
-Quintiliano, retardando com intervallos o discurso impossivel para
-provar que divide bem a sua elocução, com todos os requisitos da
-oratoria, pureza, clareza, correcção, precisão, menos uma
-cousa&mdash;a idéa; Cicero tempestade&mdash;verborrhagico, por páus e
-por pedras, precipitando-se pela fluencia como escadas abaixo,
-accumulando avalanches como uma liquidação boreal do inverno,
-annullando o effeito de assombroso destampatorio pelo assombro do
-destampatorio seguinte, eloquencia suada, offegante, desgrenhada,
-ensurdecedora, pontuada a murros como uma scena de pugilato; Cicero
-franqueza&mdash;positivo, indispensavel para o encerramento das
-discussões, dizendo a cousa em duas palavras, em geral grosseiro e mal
-falante, prompto para offerecer ao adversario o encontro em qualquer
-terreno, especie perigosa nas assembléas; Cicero
-sacerdocio&mdash;sacerdotal, solemne, orando em tremolo, alçando a
-testa como uma mitra, pedindo uma cathedral para cada proposição,
-calçando aos pés dous pulpitos em vez de sapatos, especie venerada e
-acatada.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura21.jpg" width="350" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Nearcho introduziu o typo ausente do Cicero penetração&mdash;incisivo,
-fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha á altura da cara e o
-indicador em croque, marcando precisamente no ar, no soalho, na palma da
-outra mão o logar de cada cousa que diz, mesmo que se não perceba,
-pasmando de não ser entendido, impacientando-se até ao desejo de vasar
-os olhos ao publico com as pontas da sua clareza, ou derreando-se em
-frouxos de compaixão pela desgraça de nos não comprehendermos, porcos
-e perolas.
-</p>
-<p>
-O gesto incisivo, mais a facundia desimpedida, mais o talento historico
-dos parallelos, consagrou a primazia do gremista.
-</p>
-<p>
-O presidente effectivo da sociedade era o Dr. Claudio, professor da
-casa, homem de capacidade, benevolo para os desgarros de tolice da
-juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que
-faltara a uma sessão por menosprezo. Esta constancia do chefe era o
-grande elemento de prosperidade do <i>Amor ao Saber</i>. O Dr. Claudio
-conduzia os trabalhos com verdadeira pericia de automedonte,
-esclarecia os embroglios, forjava adjectivos de encomio que ia dando a
-cada um por sua vez e a todos os estimáveis consocios, propunha algumas
-theses e achava graça em outras. Nas sessões solemnes pronunciava o
-discurso official.
-</p>
-<p>
-A maior utilidade do <i>Gremio</i> para mim era a bibliotheca. Uma
-collecção de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados
-pela vigilancia cerberesca do Bento Alves, bibliothecario, eleito de
-voto unanime.
-</p>
-<p>
-Alves era da associação, como quasi todos os alumnos do curso
-superior. Filiava-se ao grupo sympathico dos silenciosos, usufruindo os
-lucros da circumstancia de não ser do regimento a taramela obrigatoria.
-Fóra da bibliotheca, os seus serviços aos intuitos do <i>Gremio</i>
-resumiam-se no <i>apoiado</i>! consciencioso e firme, á disposição sempre
-da melhor idéa, em questões elevadas, e do mais sabio alvitre em
-questões de ordem.
-</p>
-<p>
-Alguns rapazes, não do <i>Gremio</i> e que não houvessem, nas letras,
-manifestado grammaticalmente notavel geito para a conjugação
-subrepticia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito de
-ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas paginas
-impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante o jogo
-da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-pôe das pennas de aço e das
-carrapetas, nem o correr á panellinha das bolas de vidro espiraladas de
-côres, fez-se-me a bibliotheca a recreação habitual.
-</p>
-<p>
-Esta frequencia angariou-me dous amigos, dous saudosos amigos&mdash;Bento
-Alves e Julio Verne.
-</p>
-<p>
-Ao famoso contador do <i>Tour du monde</i> devo uma multidão numerosa dos
-amaveis phantasmas da primeira imaginação, excentricos como Fogg,
-Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro Nab,
-nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina Barnett, attrahentes como
-Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente,
-luminosa como a neblina dos sonhos, o lendario Nemo da ilha Mysteriosa,
-taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando que um
-cataclysma lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassallo, seu
-cumplice, seu dominio, patria sombria do expatriado.
-</p>
-<p>
-Possuia minha litteratura completa de thesouros de meninos, contos de
-Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria de
-Simão de Nantua; estudara profundamente pelas aventuras de Gulliver as
-vacillações da vida, onde, mal acabamos de zombar da pequenez extrema,
-vem sobre nós o ludibrio da extrema grandeza, especie de Pascal de
-mammadeira entre Liliput e Brobdignak; chegara á perfeição de duvidar
-das emprezas de Munchausen. Isto tudo sem falar nos <i>Lusiadas</i> do
-Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilheria do Bertholdo e no
-<i>Testamento do Gallo</i>, symbolo aliás muito philosophico da odiosidade
-das successões, que por ventura do herdeiro autorisa o destripamento do
-gallinaceo como a tortura shakspereana de Lear.
-</p>
-<p>
-Julio Verne foi festejado como uma migração do novidade. Onde quer que
-me levasse o <i>Forward</i> ou o <i>Duncan</i>, o <i>Nautilus</i> ou o
-balão <i>Victoria</i>, a columbiada da Florida ou cryptogramma de
-Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido como
-os tres dias de Colombo antes da America, respirando no cheiro das
-encadernações as variantes climatericas da leitura, desde as areias
-africanas até aos campos de crystal do Arctico, desde os grandes frios
-sideraes até a aventura do Stromboli.
-</p>
-<p>
-A amizade do Bento Alves por mim e a que nutri por elle, me faz pensar
-que, mesmo sem o caracter de abatimento que tanto indignava ao Rebello,
-certa effeminação pode existir como um periodo de constituição
-moral. Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque
-me podia valer; porque me respeitava, quasi timido, como se não tivesse
-animo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse d'elle os meus
-olhos. A primeira vez que me deu um presente, gracioso livro de
-educação, retirou-se corado, como quem foge. Aquella timidez, em vez
-de alertar, enternecia-me, a mim que aliás devia estar prevenido contra
-escaldos de agua fria. Interessante é que vago elemento de
-materialidade havia nesta affeição de criança, tal qual se nota era
-amor, prazer do contacto fortuito, de um aperto de mãos, da emanação
-da roupa, como se absorvessemos um pouco do objecto sympathico.
-</p>
-<p>
-Na bibliotheca, Bento Alves escolhia-me as obras: imaginava as que me
-podiam interessar; e propunha a compra, ou as comprava e offerecia ao
-<i>Gremio</i>, para dispensar-se de m'as dar directamente. No recreio não
-andavamos juntos; mas eu via de longe o amigo, attento, seguindo-me o
-seu colhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o
-pescoço a quem pensasse apenas em me offender; seu irmão adoptivo!
-confirmava.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura22.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Eu, que desde muito assumira entre os collegas um bello ar de impavida
-altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão
-voluntaria, como se fosse artificial a bravura, á maneira da conhecida
-petulancia feminina.
-</p>
-<p>
-A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da
-represalia de Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicencia,
-digna d'elles.
-</p>
-<p>
-Ás vezes na bibliotheca, emquanto eu lia, Alves olhava-me do outro lado
-da mesa central de panno verde, com a mão á fronte e os dedos
-mergulhados nos cabellos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar a vista,
-comprehendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquella
-contemplação traduzia o horror do ridiculo, proverbial em Bento Alves,
-manietando-lhe rijamente uma demonstração effusiva. Não fosse a
-critica uma creatura do tempo, eu poderia achar comica a situação dos
-personagens d'esta scena de platonismo. Não havendo a critica para
-falsear a psychologia por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como
-o pobre amigo. Ás vezes vinha-lhe á palpebra uma lagrima sem origem.
-</p>
-<p>
-No movimento geral da existencia do internato, desvelava-se
-caprichosamente; sabia ser de modo inexprimivel, fraternal, paternal,
-quasi digo amante, tanta era a minudencia dos seus cuidados. Não havia
-regalo, d'essas mesquinhas cousas de preço enorme na carestia perpetua
-da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu proveito,
-desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. Á conversa,
-falava da familia no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs; falava
-d'ellas, do tempo passado que não as via, muito claras, de bellos
-olhos, uma de quinze annos, outra de doze; elle tinha dezoito. Falava de
-cuidados hygienicos meus, mudar de cama no salão azul, que estava muito
-perto das janellas, e isto havia de ser nocivo... Outras ninharias, em
-tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das proporções
-solidas de sua conformação para reduzir-se á exiguidade balbuciante
-de uma carcassazinha de avó, minguada de velhice, animada, ainda e
-apenas, pela febre do ultimo alento, pela necessidade de carregar ainda
-alguns dias um coração, um affecto.
-</p>
-<p>
-Os estatutos do <i>Gremio</i> marcavam duas occasiões de solemnidade: as
-festas annuaes de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além
-d'estas, as sessões commemorativas que a casa resolvesse.
-</p>
-<p>
-Para as festas litterarias, levava-se ao pavilhão do recreio um grande
-estrado, tres mesas que se alinhavam para a directoria, sob um rico
-panno côr de vinho, de ramagens negras, que lembravam tinteiros
-entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente appellidada
-<i>caranguejola</i>.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura23.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada
-solavanco, contra o caracter de movel que lhe queriam á força
-impingir, fazia figura em todas as salas do <i>Atheneu</i>, conforme as
-exigencias da rhetorica. Localisada a conferencia, a prelecção, a
-pratica solemne, abalava-se a misera e punha-se em caminho, aos
-encontrões, seguindo o fadario de mostrador ambulante de eloquencia.
-Nestas circumstancias não era uma simples tribuna, era um verdadeiro
-prognostico. Em se movendo a caranguejola, discurseira imminente. Teve
-um dia de razoavel orgulho: d'ella serviu-se no <i>Atheneu</i> o professor
-Hartt, para uma conferencia de anthropologia.
-</p>
-<p>
-Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquillo significava a
-installação do <i>Amor ao Saber</i>, congregou-se o <i>Atheneu</i>,
-unificado no mesmo impulso de enthusiasmo, e pela primeira vez a tribuna
-marchou sem o cerimonial das topadas. Despedimos os criados, tomámol-a
-nós aos hombros; levámol-a em ovação.
-</p>
-<p>
-A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.
-</p>
-<p>
-Encheu-se de bancos e cadeiras austriacas o vastissimo salão. Ao
-centro, em frente, a mesa da directoria; á esquerda, os convidados; á
-direita, os outros alumnos, o resto, como sé diz das maiorias sem voz
-activa.
-</p>
-<p>
-Sobre o panno avinhado de ramagens, abria-se a pasta do secretario;
-sobre a tribuna scintillava crystallino o copo das urgencias instantes.
-</p>
-<p>
-Poucos oradores. Aristarcho, presidente honorario, abriu a sessão com a
-chave do peregrino verbo, recommendando a nova associação como um
-tentamen honroso e de muito fructo para os moços applicados, que teriam
-ensejo de se dar ao cultivo da oratoria e das bellas letras.
-</p>
-<p>
-Subiu em seguida á tribuna o presidente effectivo.
-</p>
-<p>
-Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Claudio a critica geral da
-litteratura brasileira: a galhofa de Gregorio de Mattos e Antonio José,
-a epopéa de Durão, o idyllio da escola mineira, a uncção de Sousa
-Caldas e S. Carlos, a influencia de Magalhães, os ensaios do romance
-nacional, a gloria de Gonçalves Dias e José de Alencar.
-</p>
-<p>
-E passou a estudar a actualidade.
-</p>
-<p>
-O auditorio que escutava, interessado, mas tranquillo, começou a
-agitar-se.
-</p>
-<p>
-O orador representava a nação como um charco de vinte provincias
-estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indifferença. Os
-germens da vida perdem-se na vasa profunda; á superficie de coagulos de
-putrefacção, borbulha, espaçadamente, o halito mephitico do miasma,
-fermentado ao sol, subindo a denegrir o céu, com a vaporisação da
-morte. Os passaros calados fogem; as poucas arvores proximas no ar
-parado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desanimo vegetativo,
-que parece crescer, descendo,&mdash;prosperidade melancolica de salgueiros.
-O horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz obliqua, reptil, que
-resvalam, espelhando fachas parallelas, immoveis, sobre o dormir da
-lama.
-</p>
-<p>
-Por entre os raros canniços, emergem olhos de sapo, meditando a
-vantagem d'aquella paz sombria, indolencia negra, em que chega a ser
-vigor de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em
-busca da femea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito de
-suprema dôr nas sociedades que soffrem. Entre nós, a alegria é um
-cadaver. Ao menos se soffressemos... A condição da alma é a
-prostração comatosa de uma inercia morbida. Quem nos dera a tonicidade
-lethal de uma vasca. Trituramos a vida por igual como um osso; roemos o
-dia, pacientes, de rojo, sobre o ventre, como cães ao pasto. Fosse
-manjar o craneo de Rogerio, ao menos teriamos a tragedia... Nada! A
-condição é o descanço ininterrupto do anniquilamento no plano
-infinito da monotonia. E não é o tecto de braza dos estios tropicaes
-que nos opprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima material!
-Que irradiação de escapadas para o pensamento a direcção dos nossos
-astros! O pantano das almas é a fabrica immensa de um grande
-emprezario, organisação de artificio, tão longamente elaborada, que
-dir-se-ia o empenho madreporico de muitos seculos, dissorrando em vez de
-construir. É a obra moralisadora de um reinado longo, é o
-transvasamento de um caracter, alagando a perder de vista a superficie
-moral de um imperio&mdash;o desmancho nauseabundo, esplanado, da tyrannia
-molle de um tyranno de sebo!...
-</p>
-<p>
-Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pae de um
-alumno, devoto jurado e confirmado das instituições, irmão de não
-sei quantas ordens terceiras, primo de todos os conventos, advogado de
-causas religiosas, conservador em summa, enraivado e militante. O sebo
-da tyrannia caiu-lhe nos melindres como um pingo de vela benta.
-</p>
-<p>
-«Protesto!» rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas e erguendo
-o punho. Não podia admittir que viessem á sua vista ensebar as
-instituições! Por maior desgraça estava tambem presente o Senador
-Rubim, avô de outro alumno, senador de máus bofes, um pae da patria
-padrasto, sem considerações nem papas na lingua.
-</p>
-<p>
-«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao
-apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da
-injuria, nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o
-encarava. Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um
-senador e um velho!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho
-enfastiado de insulto. Burro, sim!...
-</p>
-<p>
-Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos
-idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em
-vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela
-anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam
-de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos
-voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia
-mãos pelo ar que pediam espadas.
-</p>
-<p>
-Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos
-ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do
-seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á
-polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez
-heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.
-</p>
-<p>
-Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.
-</p>
-<p>
-Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu
-sobre o tumulto o badalo da ordem.
-</p>
-<p>
-O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta,
-esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor
-dos improperios:
-</p>
-<p>
-«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em
-soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente
-conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora
-sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou
-os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da
-viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o
-panorama.
-</p>
-<p>
-Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade
-profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho
-do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras,
-dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do
-escandalo collossal do sebo.
-</p>
-<p>
-A segunda sessão solemne do gremio, comquanto mais pacifica, não foi
-menos importante.
-</p>
-<p>
-Realisou-se em principios de Outubro, pelas immediações das férias. A
-concorrencia foi maior, compareceram senhoras em grande numero, o que
-não succedera na de installação; houve mais capricho de ornatos na
-sala; forrou-se a tribuna de verde e amarello; inscreveram-se os mais
-aproveitados campeões da oratoria do <i>Amor ao Saber</i>. O collegio
-compareceu fardado; a directoria, de casaca.
-</p>
-<p>
-A conferencia do Dr. Claudio foi subversiva, mas em sentido diverso da
-primeira. Versou não mais sobre a litteratura no Brasil, porém sobre a
-arte em geral:
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-Arte, esthetica, esthesia é a educação do instincto sexual.
-</p>
-<p>
-A manutenção da existencia individua tem a razão de ser no instincto
-de vitalidade da especie. O momento presente das gerações nada mais é
-que a ligação prolifica do passado com a posteridade. E a razão de
-ser das especies? A indagação não perscruta.
-</p>
-<p>
-Para que o individuo perdure, momento genesico da existencia especifica
-no tempo, é indispensavel adaptar-se ás imposições do meio
-universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante
-remanso, nem póde sophismar o obstaculo do menor rochedo no alvéu. O
-criterio inconsciente do instincto é o guia da adaptação.
-</p>
-<p>
-O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até o movimento do
-enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição mais commoda para
-morrer, é a selecção do agradavel. Os sentidos são como as antennas
-salvadoras do insecto titubeante; vão ao encontro das impressões,
-avisadores opportunos e cautelosos.
-</p>
-<p>
-A cada mundo de sensações notaveis corresponde um sentido. Os
-sentidos, theoricamente delimitados, são cinco, multipla
-transformação de processo de um unico&mdash;o tacto, exactamente o sentido
-rudimentar das antennas.
-</p>
-<p>
-Faz-se, tacteando instinctivamente a procura dos agradaveis: agradavel
-visual, agradavel gustativo, agradavel tangivel, em summa. O agradavel
-é essencialmente vital; se é ás vezes funesto, é porque o instincto
-póde ser atraiçoado pelas illusões.
-</p>
-<p>
-A perfectibilidade evolutiva dos organismos em funcção,
-manifestando-se prodigiosamente complexa, no typo humano, corresponde á
-revelação, na ordem animal, do mysterioso phenomeno personalidade,
-capaz de fazer a critica do instincto, como o instincto faz a critica da
-sensação.
-</p>
-<p>
-A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no
-homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia,
-simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia
-inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das
-comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as
-peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.
-</p>
-<p>
-Duas são as representações elementares do agradavel realisado:
-nutrição e amor.
-</p>
-<p>
-Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de
-progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham,
-tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram
-grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
-</p>
-<p>
-O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução
-historica da humanidade.
-</p>
-<p>
-A nutrição reclamou a caçada facil&mdash;inventaram-se as armas; o amor
-pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a
-perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os
-elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,&mdash;os homens
-tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da
-união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e
-a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que
-havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.
-</p>
-<p>
-Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos
-leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura
-lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso
-deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens
-levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram
-colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações
-canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do
-abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um
-reflexo vago de escamas,&mdash;para morder-lhes á vida.
-</p>
-<p>
-Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a
-invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as
-escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos,
-olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto
-miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de
-classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.
-</p>
-<p>
-Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva
-que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo
-tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da
-superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas
-dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões
-nasceram.
-</p>
-<p>
-Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas
-descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos,
-houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E
-esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da
-tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do
-morticinio.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 150px;">
-<img src="images/figura24.jpg" width="150" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Mas uma lyra ficara da geração primeira de scismadores, e as cordas
-cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéas do Oriente e da
-Grecia. Roubou-se aos sacerdotes tyrannos o monopolio dos deuses para
-jungil-os á atrelagem do metro; que levassem, através dos seculos, o
-carro triumphal da estrophe, onda sonora de vibrações immortaes.
-</p>
-<p>
-E os esculpidores dos idolos legaram o segredo da fabrica, revelando que
-vinham de um molde de barro aquellas arrogancias de bronze, e que se
-fazem deuses como as amphoras. E os artistas modernos recomeçaram,
-chamando a religião ao atelier, como um modelo de hora paga; e gravaram
-em tinta, pelos muros, as visões mysticas da crença.
-</p>
-<p>
-A nitidez artistica das formas fizera crer aos homens que morava
-realmente um espirito sagrado na porosidade do marmore, e que realmente
-havia em proporções infinitas uma tela de olympos e paraisos, onde as
-côres do anthropomorphismo artistico viviam soberanas, olhando o mundo
-lá em baixo, vasando a urna providencial das penas e das alegrias.
-</p>
-<p>
-Decaídas as phantasias sentimentaes, reformou-se o aspecto do mundo. Os
-deuses foram banidos como effeitos importunos do sonho. Depois da ordem
-em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre. A
-fatalidade nutrição foi erigida em principio: chamou-se industria,
-chamou-se economia politica, chamou-se militarismo. Morte aos fracos!
-Alçando a bandeira negra do darwinismo spartano, a civilisação marcha
-para o futuro, impavida, temeraria, calcando aos pés o preconceito
-artistico da religião e da moralidade.
-</p>
-<p>
-Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lyra...
-</p>
-<p>
-Reinou primeiro o marmore e a forma; reinaram as côres e o contorno;
-reinam agora os sons,&mdash;a musica e a palavra. Humanisou-se o ideal. O
-hymno dos poetas do marmore, do colorido, que remontava ao firmamento,
-fala agora aos homens, advogado energico do sentimento.
-</p>
-<p>
-Sonho, sentimento artistico ou contemplação, é o prazer attento da
-harmonia, da symetria, do rhythmo, do accôrdo das impressões, com a
-vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação transformada.
-</p>
-<p>
-A historia do desenvolvimento humano nada mais é do que uma disciplina
-longa de sensações. A obra de arte é a manifestação do sentimento.
-</p>
-<p>
-Dividindo-se as sensações em cinco especies de sentidos, devem os
-sentimentos corresponder a cinco especies e igualmente as obras de arte.
-</p>
-<p>
-Da sensação acustica vem a esthesia acustica: sentimento nos sons, nas
-palavras&mdash;eloquencia e musica; da sensação da vista, a esthesia
-visual, o sentimento na fórma, no traço e no colorido,&mdash;esculptura,
-architectura, pintura; da sensação palatal e olfactiva nasce o
-sentimento do gosto e do perfume,&mdash;artes menos consideradas pela
-relativa inferioridade dos seus effeitos. A sensação do tacto,
-secundada por todas as outras, dá logar ao sentimento complexo do amor,
-arte das artes, arte matriz, razão de ser de todas as especies de
-esthesia.
-</p>
-<p>
-O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da
-esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva
-de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na
-commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido
-da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
-</p>
-<p>
-Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A
-obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o
-instrumento é a linguagem.
-</p>
-<p>
-Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e
-poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do
-ouvido, a musica.
-</p>
-<p>
-Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia
-destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte
-primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se
-desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte
-da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a
-poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de
-imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia
-popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.
-</p>
-<p>
-Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o
-sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações
-sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do
-pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o
-predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno,
-passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.
-</p>
-<p>
-Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a
-organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a
-organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e
-proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua
-admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira,
-testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto
-popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo
-accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos
-homens do principio,&mdash;a lenda de Adão que o diga,&mdash;devia ser do
-individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado
-o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento
-artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é
-simplesmente&mdash;a evolução secular do instincto da especie.
-</p>
-<p>
-Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades,
-das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios
-exasperos homicidas do amor.
-</p>
-<p>
-A arte é primeiro espontanea, depois intencional.
-</p>
-<p>
-Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e
-faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia
-primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente,
-por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta,
-a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a
-pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de
-synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o
-romance, feição actual do poema no mundo.
-</p>
-<p>
-As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a
-poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda
-menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações,
-aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental,
-sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.
-</p>
-<p>
-O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono
-do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas,
-nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os
-sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que
-correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons
-brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a
-mais vivida animação.
-</p>
-<p>
-A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas
-repercussões.
-</p>
-<p>
-O estudo da linguagem demonstra.
-</p>
-<p>
-A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida
-espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á
-variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica.
-Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade
-infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere
-aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras
-e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do
-preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.
-</p>
-<p>
-Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento
-fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos
-diccionarios. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de
-consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.
-</p>
-<p>
-O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma
-phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.
-</p>
-<p>
-O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre
-é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia
-domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos;
-domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o
-colorido.
-</p>
-<p>
-Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do
-facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a
-supremacia das artes litterarias,&mdash;eloquencia escripta.
-</p>
-<p>
-A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento;
-influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se
-em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso
-mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro
-igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a
-metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a
-monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.
-</p>
-<p>
-A musica seguiu á parte a sua evolução.
-</p>
-<p>
-Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa
-contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o
-metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da
-litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez
-dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes
-medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.
-</p>
-<p>
-Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem
-architectura, que não há <i>dies iræ</i> nem Miguel-Angelo; hoje que a
-mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma
-primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o
-coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura
-ás quatro difficuldades de um soneto.
-</p>
-<p>
-Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor,
-a arte é inutil,&mdash;inutil como o esplendor corado das petalas sobre a
-fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos
-serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar
-das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do
-enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre,
-porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta
-invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não
-tem por fim agradar.
-</p>
-<p>
-E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de
-uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria
-perpetuidade da especie?!
-</p>
-<p>
-Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da
-harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte <i>sui
-generis</i>. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da
-justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte
-differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de
-convenção.
-</p>
-<p>
-Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou
-pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem
-faça flôres, com azas de barata e pernas.
-</p>
-<p>
-A verdadeira arte, a <i>arte natural</i>, não conhece moralidade. Existe
-para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde
-ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em
-chammas, que espectaculo!
-</p>
-<p>
-Basta que seja artistica.
-</p>
-<p>
-Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte
-é a superioridade humana&mdash;acima dos preceitos que se combatem, acima
-das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga
-como a orgia e como o extase.
-</p>
-<p>
-E desdenha dos seculos ephemeros.
-</p>
-<p>
-Á vista da tranquillidade do auditorio, subentende-se que não estavam
-presentes os dous heróes da primeira sessão solemne: o Dr. Zé Lobo
-não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera,
-para não encontrar o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido
-contrario annullam-se.
-</p>
-<p>
-Havia na sala diversos ouvintes que se distrahiam de perseguir com
-attenção a galopada de hippogrypho, em que se elevava a eloquencia do
-orador.
-</p>
-<p>
-Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o
-primeiro gymnasta; outro, Barbalho.
-</p>
-<p>
-A preoccupação de Bento Alves era uma injuria. Entre elle e Malheiro
-havia rixa velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de
-ser bravo. Os proprios prodigios da força e agilidade, applaudidos e
-proclamados pelo <i>Atheneu</i>, não davam para saciar a vaidade. De que
-valia ser forte, se era impossivel a applicação do seu esforço para
-affrouxar uma fibra á musculatura do Bento? Ah! não ser possivel por
-suggestão desfiar uma a uma aquellas meadas de arame, reduzir a
-infantilidade debil aquella corpulencia odiosa! Por que não iriam os
-desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue áquella força, a
-vida, gotta a gotta, áquelle vigor de ferro?
-</p>
-<p>
-Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro
-evitava-o. Era impossivel conservar-se um momento perto do collega, que
-lhe não dessem impetos de assaltal-o.
-</p>
-<p>
-A façanha da prisão effectuada pelo rival definitivamente retirava-lhe
-a gloria de valoroso unico. Malheiro entrou em melancolia trancada. O
-rosto moreno amorenou-se mais; a animação de um brilho não lhe
-chegava á janella do olhar; o sorriso nos labios não abria a porta.
-Dir-se-ia um frontispicio de lucto.
-</p>
-<p>
-Ficou a ruminar o projecto de um encontro.
-</p>
-<p>
-O meu bom amigo, exaggerado em mostrar-se melhor, sempre receioso de
-importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova
-surpreza e agrado. Chegara ao excesso das flôres. A principio, petalas
-de magnolia secca com uma data e uma assignatura, que eu encontrava
-entre folhas de compendio. As petalas começaram a apparecer mais
-frescas e mais vezes; vieram as flôres completas. Um dia, abrindo pela
-manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudencia de um
-ramalhete. Santa Rosalia da minha parte nunca tivera um assim. Que devia
-fazer uma namorada? Acariciei as flôres, muito agradecido, o escondi-as
-antes que vissem.
-</p>
-<p>
-Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituido fiscal occulto dos meus
-passos.
-</p>
-<p>
-As circumstancias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho
-pretendia manejar a rivalidade dos dous maiores: um conflicto entre
-Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
-</p>
-<p>
-O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a
-infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me,
-julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem
-descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de
-tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o
-Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o
-Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o
-casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas.
-O Sergio está desesperado.»
-</p>
-<p>
-O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda
-de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação
-contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz
-talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão
-de encerramento; em meio da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das
-bodas.»
-</p>
-<p>
-Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
-</p>
-<p>
-Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os
-adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o
-movimento e adivinhei mais ou menos.
-</p>
-<p>
-Quando saímos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me
-um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te
-digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao
-Malheiro.»
-</p>
-<p>
-Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham
-luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!»
-Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha;
-Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham
-ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem
-sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro
-malhado!»
-</p>
-<p>
-Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes
-de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só
-attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do
-jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do
-director.
-</p>
-<p>
-Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os
-contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a
-exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito
-prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de
-Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira
-de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
-</p>
-<p>
-«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer
-o caso.
-</p>
-<p>
-Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas
-romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um
-carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de
-propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VII">VII</a></h4>
-
-<p>
-O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto
-se póde gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 150px;">
-<img src="images/figura25.jpg" width="150" height="250" alt="" />
-</div>
-<p>
-Tinhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a
-toalha esmeraldina do campo e o diorama accidentado das montanhas da
-Tijuca, ostentosas em curvatura toraxica e frentes felpudas de collosso:
-espectaculos de excepção, por momentos, que não modificavam a seccura
-branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pateo central,
-quente, insupportavel de luz, ao fundo d'aquellas altissimas paredes do
-<i>Atheneu</i>, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.
-</p>
-<p>
-Quando se aproxima o tempo das férias, o aborrecimento é maior.
-</p>
-<p>
-Os rapazes, em grande parte dotados de tendencias animadoras para a vida
-pratica, forgicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A
-folgança fazia época como as modas, metamorphoseando-se depressa como
-uma serie de ensaios.
-</p>
-<p>
-A peteca não divertia mais, palmeada com estrepito, subindo como
-foguete, caindo a rodopiar sobre o cocar de pennas? Inventavam-se as
-bolas elasticas. Fartavam-se de borracha? Inventavam-se as pequenas
-espheras de vidro. Acabavam-se as espheras? Vinham os jogos de salto
-sobre um tecido de linhas a giz no soalho, ou riscadas a prego na areia,
-a <i>amarella</i>, e todas as suas variantes, primeira casa, segunda casa,
-terceira casa, descanço, inferno, céu, levando-se á ponta de pé o
-seixozinho chato em arriscada viagem de pulos. Era depois a vez dos
-jogos de corrida, entre os quaes figurava notavelmente o saudoso e rijo
-<i>chicote queimado</i>. Variavam os aspectos da recreação, o pateo central
-animava-se com a revoada das pennas, o estalar elastico das bolas,
-passando como obuzes, ferindo o alvo em pontaria amestrada, o
-formigamento multicôr das espheras de vidro pela terra, com a gritaria
-de todas as vozes do prazer e do alvoroço.
-</p>
-<p>
-Depois havia os jogos de parada, em que circulavam como preço as
-pennas, os sellos postaes, os cigarros, o proprio dinheiro. As
-especulações moviam-se como o bem conhecido ophidio das corretagens.
-Havia capitalistas e usurarios, finorios e papalvos, idiotas que se
-encarregavam de levar ao mercado, com a facilidade de que dispunham
-fóra do collegio, fornecimentos inteiros, valiosissimos, de Mallats e
-Guillots que os habeis limpavam com a gentileza de figurões da bolsa, e
-sellos inestimaveis que os colleccionadores praticos desmereciam para
-tirar sem custo; fumantes ebrios de fumo alheio, adquirido facilmente no
-movimento da praça, repimpados á turca sobre os coxins da barata
-fartura.
-</p>
-<p>
-As transacções eram prohibidas pelo codigo do <i>Atheneu</i>. Razão de
-mais para interessar. Da letra da lei, incubados sob a pressão do veto,
-surgiam outros jogos, mais expressamente caracteristicos, dados que
-espirravam como pipocas, naipes em leque, que se abriam orgulhosos dos
-bellos trunfos, entremostrando a pansa do rei, o sorriso galhardo do
-valete, a symbolica orelha da sota, a paysagem ridente do az; roletas
-miudas de cavallinhos de chumbo; uma alluvião de fichas em cartão,
-pullulantes como os dados e córadas como os padrões do carteiro.
-</p>
-<p>
-A principal moeda era o sello.
-</p>
-<p>
-Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que
-valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço,
-permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa,
-as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.
-</p>
-<p>
-A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album
-mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de
-especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No
-collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto
-da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a
-fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á
-mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com
-valor corrente para as emergencias.
-</p>
-<p>
-No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos
-de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se
-valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava
-o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos
-arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de
-prosperidade.
-</p>
-<p>
-Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de
-fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos
-exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o
-azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a
-Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á
-direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna;
-á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de
-elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó
-canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes
-aladas da fama, os mensageiros da metropole.
-</p>
-<p>
-Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por
-natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a
-mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade
-infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos,
-ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados,
-lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da
-Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como
-retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo,
-aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha,
-austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e
-republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa
-de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de
-Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois
-de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo,
-triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas;
-do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com
-um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de
-ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei
-Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos
-Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com
-uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes
-mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres,
-todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias
-sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo
-nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades
-dos emigrados da fome.
-</p>
-<p>
-A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e
-a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo
-de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as
-encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.
-</p>
-<p>
-A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de
-primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem
-de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á
-extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas
-abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego.
-Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo
-empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um
-bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da
-collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da
-affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do
-adiantamento.
-</p>
-<p>
-Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a
-correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor
-linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa
-das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se.
-Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a
-cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado
-ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de
-baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas
-tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara
-dos recadinhos em harpa de carcamano.
-</p>
-<p>
-Havia o genio inventivo no <i>Atheneu</i>, esperanças de riqueza, por
-alguma descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de
-Newton. Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um
-privilegio para explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma
-mina! Foi assim a invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas
-pancadinhas, tal letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os
-inventores achavam no systema dos signaes escriptos a desvantagem de
-não servir á noite. O elemento base d'esta refórma era uma confiança
-absoluta na surdez dos inspectores; aventuroso fundamento, como se
-provou.
-</p>
-<p>
-As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos
-sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou
-coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o
-debicar de um pintainho no soalho.
-</p>
-<p>
-No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava
-a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em
-quando.
-</p>
-<p>
-Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um
-abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um
-despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a
-rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a
-furia, implacavel como a guerra&mdash;oh Havas!&mdash;o Sylvino não nos
-deixou um fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira
-em carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o
-vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a
-pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma
-homenagem ao seculo.
-</p>
-<p>
-A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e
-suspender temporariamente a telegraphia.
-</p>
-<p>
-De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e
-os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça
-mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria
-blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de
-atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no
-desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na
-imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais
-compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões,
-o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o
-pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas,
-tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de
-bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.
-</p>
-<p>
-Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O
-aborrecimento imperava.
-</p>
-<p>
-A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão
-dos ultimos dias.
-</p>
-<p>
-Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da
-aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames,
-dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento.
-Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.
-</p>
-<p>
-No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os
-cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e
-abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se
-tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no
-quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas,
-sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto,
-como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com
-uma vibração de fervura.
-</p>
-<p>
-Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados,
-destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar
-mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas
-paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na
-caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta
-proclamação: <i>Viva ás férias</i>! determinando a ansiedade geral, como
-um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo,
-cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos,
-á chegada festiva da boa data.
-</p>
-<p>
-Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia
-sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.
-</p>
-<p>
-Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando
-a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo
-pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para
-as bandas do <i>Atheneu</i>. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando
-alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro
-caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes
-cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo
-tambem&mdash;mas ao alto e lá fóra.
-</p>
-<p>
-Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a
-inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de
-palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros
-assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas,
-trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel,
-caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre
-de um anno, conforme a psychologia de cada salão.
-</p>
-<p>
-Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das
-paredes: <i>salão perola</i>, o das crianças, policiado por uma velha,
-mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar,
-olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo,
-garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de
-gypaeto sobre um corpo de bruxa; <i>salão azul</i>, <i>amarello</i>,
-<i>verde</i>, <i>salão floresta</i>, dos ramos do papel, aos quaes se
-recolhia a classe innumeravel dos médios. O salão dos grandes,
-independente do edificio, sobre o estudo geral, conhecia-se pela
-denominação amena de <i>chalet</i>. O chalet fazia vida em separado e
-mysteriosa.
-</p>
-<p>
-O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores,
-convenientemente distribuidos.
-</p>
-<p>
-Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do
-<i>perola</i> batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa
-annos.
-</p>
-<p>
-A palestra corria desassombrada.
-</p>
-<p>
-Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas
-e atacavam os assumptos.
-</p>
-<p>
-No salão dos médios:
-</p>
-<p>
-«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de
-falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os
-apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...
-</p>
-<p>
-&mdash;O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem
-tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher....
-Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, <i>kakós kai
-ruparós</i> com uma estralada...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, directores! emprezarios! fabricantes de sciencia barata e
-prodigios de carregação, com que empulham os papaes basbaques... O que
-querem é a frequencia do negocio... Falem cá em annuncios... Mulher ao
-balcão... Que chamariz, uma carinha seductora! Eu por mim, se fosse
-director, inaugurava um <i>Kindergarten</i> para taludos; uma bonita
-directora á testa e quatro adjunctas amaveis... Não haveria nhonhô
-graudo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de
-pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso
-do meu paiz: estimular á Frœhel as intelligencias perrengues e as
-adolescencias atrazadas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse
-director, teria o cuidado de ser tambem ministro do imperio... Revogava a
-Instrucção Publica e approvava a minha gente por decreto, tudo de
-pancada e com distincção.
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! eu, se fosse director, seria safado! Não ha nada neste
-mundo como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos
-gostam da gente, a gente gosta dos meninos e o collegio cresce:
-<i>crescite</i>!... D'ahi a pouco tanta matricula, que precisariamos
-mudar de casa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que canalha! Que linguinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal
-d'aquelle typo do <i>Lyceu Marcello</i>, que tem na face a costura
-cicatrizada do talho que lhe fez um discipulo em certa aventura com o
-mais pacifico dos utensilios, e que, ainda assim, foi apanhado no
-<i>Cassino</i> deixando aberto num divan o <i>carnet</i> de baile,
-cuidadosamente illustrado de symbolos... pedagogicos.
-</p>
-<p>
-A palestra no <i>perola</i> era muito mais candida, e, principalmente, nada
-pessoal.
-</p>
-<p>
-Curso improvisado de obstetrica elementar, pura especulação. Todos
-queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como
-aquellas figuras da licção de Rembrandt. Qual a origem das especies?
-Eram investigadores. Ninguem adiantava um passo. Estava ausente o
-gypaeto, que talvez podesse explicar. Feliz quem póde conhecer a causa
-das cousas! Como é a entrada na vida? Ordem dorica? jonica? composita?
-As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão;
-ninguem penetrava. Desenrolavam-se as theorias domesticas,
-angelico-gynecologicas.
-</p>
-<p>
-Havia em Paris uma grande empreza de exportação, da qual eram agentes
-em todo o mundo os parteiros, e commissaria central no Rio M.<sup>me</sup>
-Durocher. Vinha o genero nos berços, encaixotados, mijadinhos e
-chorosos. Esta theoria tinha o merecimento philosophico de prescindir
-das causas finaes. Os metaphysicos inclinavam-se mais para a
-intervenção da sobre-natureza: por occasião do Natal havia de noite
-uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de
-pimpolhos, para compensar a matança dos innocentes, tão prejudicial no
-tempo de Herodes. Inutil dizer que os referidos innocentes vinham
-outr'ora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciaes da
-revelação, hoje em desuso.
-</p>
-<p>
-E a academiazinha de investigadores amimava documentos, sorrindo alguns
-da credulidade dos outros, exhibindo em refutação credulidade de
-diverso quilate; alguns, mais positivos, adduzindo observações
-proprias, porque os meninos espiam, offerecendo á opinião dos collegas
-uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o systema como os systemas
-se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio
-commum.
-</p>
-<p>
-Dous ultimos pareceres concorreram opportunamente para desatar os
-embaraços e a assembléa dispersou-se. Um cearensezinho, de cabello á
-escova, intelligente e silencioso, amigo de responder por um geito
-especial de virar os olhos, senhor de um sorriso desconcertante que
-sabia armar a proposito, falando baixinho e explicito, introduziu no
-debate a descripção minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da
-toilette balnearia das mulheres do sertão na provincia, descendo ao
-rio, de um bello panno sympathico em que o raio do sol nascente
-representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de
-um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro,
-brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruido
-para todas as exigencias praticas da industria paterna. Estava alli a
-ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão.
-Suppondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o
-e concluiu largando o enxurro, espojando-se farto na garotada, como a
-cria da estancia no lodo fresco.
-</p>
-<p>
-A vadiagem dos dormitorios não consistia só em palestra. Depravados
-pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagancias de
-cynismo.
-</p>
-<p>
-O Cerqueira, <i>ratazana</i>, sujeito comico, cara feita de beiços, rachada
-em bocca como as romans maduras, de mãos enormes como um disfarce de
-pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa,
-escoucinhando uma alegria sincera de mú. Maurilio, o dos quinaus, não
-era exclusivamente o campeão da taboada que conhecemos; tinha outra
-habilidade notavel e prestava-se com applauso a uma experiencia original
-de fluidos inflammaveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos ultimos
-naufragios da nossa costa; um ex-collega escreveu-lhe: Quem os semeia,
-colhe tempestades.
-</p>
-<p>
-As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado;
-irritadiços todos como feridas; os inspectores a cada passo precisavam
-intervir em conflictos; as importunações andavam em busca das
-susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das
-importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabellos. Viam
-Romulo passar, lançavam-lhe o appellido: <i>mestre cook</i>!
-</p>
-<p>
-Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Romulo! só
-porque lembrava a culinaria, com a carnosidade bamba, fofada dos
-pastellões, ou porque era gordo das enxundias enganadoras dos
-fregistas, dissolução morbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de
-mais volumosa saude? Romulo era simplesmente e completamente o
-confeiteiro das esperanças doces de Aristarcho.
-</p>
-<p>
-Anafado de apparencia, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o
-que se diz um bom partido. Aristarcho tinha uma filha; saude, fortuna:
-um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.
-</p>
-<p>
-A Melica, a altiva e requebrada Amalia, lambisgoia, proporções de
-vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de
-princeza. Dous grandes olhos pretos, exaggero dos olhos pretos da mãe,
-tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um bello
-I com dous pingos. Por estes olhos e por sobre os hombros, que tinha
-erguidos e mephistophelicos, derramavam-se desdens sobre tudo e sobre
-todos. Possuia e petiscava a certeza facil de que o <i>Atheneu</i> em peso
-andava caído por ella, e morava no andor imaginario d'aquella idolatria
-de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdens. A eminencia do
-pae sobre aquelle mundozinho desprezivel dava-lhe vida á vangloria, e
-ella gostava de visitar o collegio para ter occasião de exercitar a
-altivez culminante, misturada, do sexo e da gerarchia. Quanto a Romulo,
-era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe attenção.
-Designava-o esplendidamente:&mdash;o parvo. Melica era bem conversada e
-preciosa.
-</p>
-<p>
-Romulo philosophava por Epicuro. Desdens não matam. Havia de bom
-naquella attitude de noivado perenne, uma serie de utilidades: cargo de
-vigilante, privilegios de benevolencia, um jantar de vez em quando com o
-director,&mdash;isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas
-boccas, no regimen obrigatorio e destemperado da casa, <i>menu</i>
-permanente, inviolavel como a letra das constituições.
-</p>
-<p>
-Quando vinha Melica ao <i>Atheneu</i>, era Romulo o primeiro a
-aproximar-se, o ultimo a ser visto. Aristarcho chamava-o ás vezes e
-levava a passeio com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava
-adiante e permittia, quando muito, que Romulo a seguisse cabisbaixo e
-mudo, como um hippopotamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o
-gorducho esperava rir por ultimo ao pae e á filha.
-</p>
-<p>
-Em um estabelecimento de rumorosa fama como o <i>Atheneu</i> não se podia
-deixar de incluir no quadro das artes a musica de pancadaria.
-</p>
-<p>
-Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce.
-Estimava-se como cousa somenos a rabequinha do Cunha, choramigas e
-expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como
-uma casa de maternidade, pallido o musico, espichadinho e chlorotico;
-dando ares de graça a linguagem das cravelhas por meio de sons que
-imitavam a quasi aphasia timorata e infantil do Cunha, descambando em
-syncopes, de vez em quando, estendendo guinchos hystericos de amor
-vadio, saltitando <i>pizzicatos</i> como as biqueiras de verniz do Cunha,
-amigo de valsar, agil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas
-tulles.
-</p>
-<p>
-Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas
-de maestro em effigie, pianista portento que viera parar ao <i>Atheneu</i>,
-depois de percorrer a Europa á cata de triumphos, redondo, curto e
-musical como um cylindro de realejo; famoso pela gargalhada soez,
-bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos successos
-do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez secca nos
-estudos, como se a intelligencia lhe houvesse escapado pelos dedos para
-os teclados em deserção definitiva.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 150px;">
-<img src="images/figura26.jpg" width="150" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Mas a predilecção de Aristarcho era pela banda, pela pancadaria, grita
-vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente á janella
-quando o <i>Atheneu</i> passava, dando rebate á admiração das esquinas, o
-estrepito das caixas troando á marcha dobrada como um eco de combates,
-furor infrene, irresistivel, de zabumbada em feira.
-</p>
-<p>
-A banda tinha casa propria e um professor bem pago. Os instrumentistas
-gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas
-occasiões de festa eram mimoseados, com um brinde de gulodices;
-condecoravam-se com distinctivos de prata, que nem os harmoniosos
-concertantes do <i>Orpheon</i> logravam pilhar.
-</p>
-<p>
-Ainda na banda graduava-se a predilecção de Aristarcho, segundo a
-importancia de sonoridade dos timbres. O grave bombardão, o ophiclide,
-a trompa, o trombone, o proprio sax, destinados ao mister secundario de
-acompanhamento, recuando, como lacaios, na encenação sonora, homens
-de armas servilmente bravos nas investidas brilhantes, ou timidos
-pagens, arrepanhando o abandono de caudas escapadas ao luxo regio das
-grandes notas do canto,&mdash;valiam menos ainda, na estima do director,
-que na marcação da partitura.
-</p>
-<p>
-Predilecto era o flautim, florete feito som, tenue, penetrante,
-perfuração de agulhas; predilecta era a requinta, especie de flautim
-rachado, aggressiva como a vibração do dardo das serpentes; o fagote,
-augmentativo de requinta, unico apparelho capaz de produzir
-artificialmente a fanhosidade colerica das sogras; o claro oboe, larynge
-metallica de um cantor de epopéas, heroico e bello; o piston frenetico
-e vivo, estandarte á mostra sobre a celeuma, harmonisando,
-centralisando a instrumentação como um regimento de cavalleiros.
-Predilectos porque gritavam mais! Predilecto principalmente o tambor e o
-bombo tonante, primazia do estrondo, a trovoada das pelles tezas, que a
-tormenta sobraça nos arroubos de carnaval canalha dos seus dias e que
-sobraçava, no <i>Atheneu</i>, Romulo, o graxo Romulo, o nedio, o opulento,
-o carissimo genro das esperanças caras.
-</p>
-<p>
-Foi exactamente por esta seriação de preferencias acusticas que chegou
-Aristarcho á descoberta do seu favorito. E por acaso.
-</p>
-<p>
-Durante uma festa escolar, exhibia-se a banda. Distrahe-se o bombo e
-solta fóra de tempo um magnifico tiro, que ia bem á composição
-executada como uma gotta de tinta Monteiro numa aquarella. Metade dos
-ouvintes acreditaram que aquillo era um capricho wagneriano enxertado de
-proposito; outra metade não conteve o riso.
-</p>
-<p>
-Aristarcho admirava o bombo em solo, solidão das salvas em pleno mar,
-factor grandioso de sonoridade que o Zé Pereira multiplica. Mas o riso
-dos convidados incommodou-o.
-</p>
-<p>
-Acabada a festa, mandou vir á presença o artista do estampido.
-Apresenta-se o musico e não sei como se entenderam que, em vez de
-castigo, retirou-se Romulo do gabinete com os foraes vantajosos de genro
-<i>ad honorem</i>.
-</p>
-<p>
-O escandaloso favor suscitou uma reacção de inveja.
-</p>
-<p>
-Romulo era antipathisado. Para que o não manifestassem excessivamente,
-fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um
-pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulencia das infiltrações
-de gordura solta, desmoronava-se em sôcos. Dos mais fortes vingava-se,
-resmungando intrepidamente.
-</p>
-<p>
-Para desesperal-o, aproveitavam-se os menores do escuro. Romulo, no
-meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte, mostrando o punho. Em
-geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a
-vindicta. Vindicta inexoravel.
-</p>
-<p>
-No decorrer enfadonho das ultimas semanas, foi Romulo escolhido,
-principalmente, para expiatorio do desfastio. <i>Mestre cook</i>! via-se
-apregoado por vozes phantasticas, saídas da terra; <i>mestre cook</i>! por
-vozes do espaço, rouquenhas ou esganiçadas. Sentava-se acabrunhado,
-vendo se se lembrava de haver tratado panellas algum dia na vida; a
-unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a accessos
-de raiva. Arremettia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para
-traz, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho,
-deixando rolar adiante aquella ambulancia damnada de elephantiasis.
-</p>
-<p>
-A uma das vaias estive presente. Romulo marcou-me. Pouco depois
-encontravamo-nos no longo corredor que levava á bibliotheca do
-<i>Gremio</i>. Situação embaraçosa. Eu vinha, elle ia. Parar? Recuar?
-Emquanto hesitava, fui-me adiantando. Romulo, de salto, empolgou-me a
-golla da blusa. Sacudia a ponto de macerar-me o peito. «Então, seu
-cachorro (<i>sic</i>), diga-me aqui, se é capaz, quem é <i>mestre</i>.»
-</p>
-<p>
-A injuria equilibrou-me do espanto. Estava tudo perdido. Deitei bravura.
-«<i>Mestre, mestrissimo cook</i>!» gritei-lhe á barba. Não sei bem do que
-houve. Quando dei por mim, estava estendido em baixo do uma escada.
-Entraram-me na cabeça tres pregos, que havia nos ultimos degráus.
-Ponderando que tinha no futuro tempo de sobra para vingança,
-levantei-me e sacudi da roupa a poeira humilhante da derrota.
-</p>
-<p>
-Afinal, o dia chegou dos exames primarios.
-</p>
-<p>
-Provas de formalidade para as transições do curso elementar: primeira
-aula, para a segunda, segunda para a terceira, terceira para o ensino
-secundario.
-</p>
-<p>
-Levavam-se assentos e mesas para o salão do oratorio, vestido o altar
-de um reposteiro, e repotreava-se a commissão solemne, da qual faziam
-parte personagens da Instrucção Publica, com o director e os
-professores.
-</p>
-<p>
-Aristarcho representava, na mesa, o voto pensado do guarda-livros.
-Contas justas: approvação com louvor, cambiando ás vezes para
-distincção simples; atrazo de trimestre, approvação plena com risco
-de simplificação; atrazo de semestre, reprovado.
-</p>
-<p>
-Havia no <i>Atheneu</i>, fóra d'esta regra, alumnos gratuitos, doceis
-creaturas, escolhidas a dedo para o papel de complemento objectivo do
-caridade, timidos como se os abatesse o peso do beneficio; com todos os
-deveres, nenhum direito, nem mesmo o de não prestar para nada. Em
-retorno, os professores tinham obrigação de os fazer brilhar, porque
-caridade que não brilha é caridade em pura perda.
-</p>
-<p>
-Nas provas do terceiro anno, as distincções foram tão numerosas, que
-me veio ter as mãos uma, sem escandalo aliás, que desde muito perdera
-o medo e começava a quadrar-me a <i>aisance</i> das demonstrações, como um
-mal contaminado do director. Fiz um figurão, apanhei a deliciosa nota,
-que levei a mostrar em casa, como um bichinho raro, mimando-lhe o pello
-fino, beijocando-lhe a focinheira. Sanches teve louvor; Manlio, louvor;
-Cruz, louvor tambem, graças á especialidade da cartilha, em que era
-provecto, espantando a commissão julgadora com a ladainha toda de Nossa
-Senhora e ameaçando-nos com o calendario de cór. Santo por Santo,
-observações adjacentes, mais a designação das festas moveis e das
-luas, como o proprio doutor Ayer das pilulas catharticas o não faria.
-Gualterio, palhaço, foi reprovado. Nascimento, o <i>bicanca</i>, fungou de
-satisfação: plenamente. Negrão, Almeidinha, Alvares, distincção.
-Contra a distincção d'este ultimo, o professor Manlio protestou
-surdamente; o bronco do Alvares com distincção! Baptista Carlos, o
-bugre das settas, bomba! Diante da commissão mostrou-se muito
-surprehendido das perguntas, como se tivesse alguma cousa com aquillo;
-Barbalho, bomba. Barbalho pae andava atrazado semestre e meio e Barbalho
-filho não deixou de salvar as apparencias com uma escrupulosa
-collaboração de asneiras. O optimo, o veneravel Rebello não
-compareceu: deixara o collegio, havia mezes, por causa dos olhos.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura27.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Emquanto na sala verde, emparedada de porphyro polido, esperava, com os
-collegas, que apparecesse á porta o inspector que devia ler o resultado
-do escrutinio, foi-me parar a vista aos quadros de alto relevo, das
-artes e das industrias, os risonhos meninos nús, fraternaes, em gesso
-puro e innocencia. Senti-me velho. Que longa viagem de desenganos!
-Alguns mezes apenas, desde que vira, á primeira vez, as ideaes
-crianças vivificadas no estuque pelo contagio do enthusiasmo ingenuo,
-ronda feliz do trabalho... Agora, um por um que os interpretasse, aos
-pequenos hypocritas mostrando as nadegas brancas com um reverso igual de
-candura, um por um que os julgasse, e todo aquelle gesso das facezinhas
-rechunchudas córaria de uma sancção geral e esfoladora de palmadas.
-Não me enganavam mais os pequeninos patifes. Eram infantis, alegres,
-francos, bons, immaculados, saudade ineffavel dos primeiros annos,
-tempos da escola que não voltam mais! E mentiam todos! Cada rosto
-amavel d'aquella infancia era a mascara de uma falsidade, o prospecto de
-uma traição. Vestia-se alli de pureza a malicia corruptora, a
-ambição grosseira, a intriga, a bajulação, a covardia, a inveja, a
-sensualidade brejeira das caricaturas eroticas, a desconfiança selvagem
-da incapacidade, a emulação deprimida do despeito, da impotencia, o
-collegio, barbaria de humanidade incipiente, sob o fetichismo do Mestre,
-confederação de instinctos em evidencia, paixões, fraquezas,
-vergonhas, que a sociedade exaggera e complica em proporção de escala,
-respeitando o typo embryonario, caracterisando a hora premente, tão
-desagradavel para nós, que só vemos azul o passado, porque é illusão
-e distancia.
-</p>
-<p>
-Para a exposição dos desenhos foram retiradas as carteiras da sala de
-estudo, forradas de setim escuro as paredes e os grandes armarios. Sobre
-este fundo, alfinetaram-se as folhas de Carson, manchadas a lapis: pelo
-sombreado das figuras, das paysagens, pregaram-se, nas molduras de friso
-de ouro, os trabalhos reputados dignos d'esta nobilitação.
-</p>
-<p>
-Eu fizera o meu successozinho no desenho, e a garatuja evoluira no meu
-traço, de modo a merecer encomios. A principio, o bosquejo simples,
-linear, experiencia da mão; depois, os esbatimentos de tons que
-consegui logo como um matiz de nuvem; depois, as vistas de campo,
-folhagem rendilhada em bicos, pardieiros em demolição pittoresca da
-escola franceza, como ruinas de páu podre, armadas para os artistas.
-Depois de muito moinho velho, muita vivenda de palha, muito casarão
-deslombado, mostrando as miserias como um mendigo, muita pyramide de
-torre aldeã esboçada nos ultimos planos, muita figurinha vaga de
-camponesa, lenço em triangulo pelas costas, rotundas ancas, saias
-grossas em pregas; sapatões em curva, passei ao desenho das grandes
-cópias, pedaços de rosto humano, cabeças completas, cabeças de
-corcel; cheguei á ousadia de copiar com toda a magnificencia das sedas,
-toda a graça forte do movimento, uma cabra do Thibet!
-</p>
-<p>
-Depois da distincção do curso primario, foi esta cabra o meu maior
-orgulho. Retocada pelo professor, que tinha o bom gosto de fazer no
-desenho tudo quanto não faziam os discipulos, a cabra thibetana, meio
-metro de altura, era aproximadamente obra prima. Ufanava-me do
-trabalho. Não quiz a sorte que me alegrasse por muito. Negaram-me á
-bella cabra a moldura dos bons trabalhos; ainda em cima&mdash;considerem o
-desespero! exactamente no dia da exposição, de manhã, fui encontral-a
-borrada por uma cruz de tinta, larga, de alto a baixo, que a mão
-benigna de um desconhecido traçara. Sem pensar mais nada, arranquei á
-parede o desgraçado papel e desfiz em pedaços o esforço de tantos
-dias de perseverança e carinho.
-</p>
-<p>
-Quando os visitantes invadiram a sala, notaram na linha dos trabalhos
-suspensas duas enigmaticas portas de papel rasgado. Estranhavam,
-ignorando que alli estava, interessante, em ultimo capitulo, a historia
-de uma cabra, de uma cruz, drama de desespero e espolio miserando de uma
-obra prima que fôra.
-</p>
-<p>
-As exposições artisticas eram de dous era dous annos, alternadamente
-com as festas dos premios. Conseguia-se assim uma quantidade fabulosa de
-papel riscado para maior riqueza das galerias. Cobria-se o metim desde o
-soalho até ao tecto. Havia de tudo, não só desenhos. Alguns quadros a
-oleo, do Altino, risonhas aquarellas accidentando a monotonia cinzenta
-do Faber, do Conté, do <i>fusain</i>. Os futuros engenheiros applicavam-se
-ás aguadas de architectura, aos desenhos coloridos de machinas.
-</p>
-<p>
-Entre as cabeças a crayon retincto, crinas de ginete, felpas de onagro
-lanzudo, inclinando o funil das orelhas, cerdosas frontes hirsutas de
-javalis, que arreganhavam presas, perfis de audacia em collarinhos de
-renda, abas atrevidas de feltro, plumas revoltas, physionomias de
-marujo, selvagens, arrepiadas, num sopro de borrasca, barbas incultas,
-carapuça esmurrada sobre a testa, cachimbo aos dentes; entre todas
-estas caras, avultava uma collecção notavel de retratos do director.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura28.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo
-mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não
-houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se
-na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre
-Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de
-beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões
-aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!
-</p>
-<p>
-Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção.
-Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando,
-brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a
-concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja
-dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas
-dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo
-um espirro agradavel e desopilante.
-</p>
-<p>
-Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.
-</p>
-<p>
-Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas
-molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao
-quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes,
-em momentos de <i>spleen</i>, profundo <i>spleen</i> de grandes homens,
-desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E
-vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe
-haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de
-um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um
-naco de apotheose.
-</p>
-<p>
-E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente.
-«Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós
-somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra,
-gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se
-comprehender e de bem se admirar&mdash;de vêr-se applaudido em chusma por
-alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. <i>Primus inter
-pares</i>.
-</p>
-<p>
-Todos, elle proprio, todos acclamando-o.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VIII">VIII</a></h4>
-
-<p>
-No anno seguinte, o <i>Atheneu</i> revelou-se-me noutro aspecto.
-Conhecera-o interessante, com as seducções do que é novo, com as
-projecções obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio;
-conhecera-o insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de
-tédio; conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos
-e privações.
-</p>
-<p>
-Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato,
-aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida
-exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na
-infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação,
-que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que
-somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo
-em que preferimos da soirée os <i>bons bocados</i>, das toilettes os laços
-de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais
-assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem
-á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes
-modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura
-rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições
-vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não
-me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a
-realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio.
-Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser
-irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta!
-marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da
-administração.
-</p>
-<p>
-Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o
-collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e
-saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.
-</p>
-<p>
-No anno anterior, os passeios tinham sido insignificantes, marchas
-alegres pelo arrabalde. Vinham ao peitoril as mocinhas, e nós todos,
-anchos de militarismo, despendiamos elegancia prodigamente. Eram
-melhores as excursões á montanha. Subiamos aos Dous Irmãos, caminho
-do Corcovado, marchavamos até á Caixa d'agua. Ahi debandavamos, na
-amenissima chapada.
-</p>
-<p>
-Os passeios eram depois do jantar. A noitinha voltavamos, dando balanço
-ás notas de sensações, um deslumbramento verde de floresta, um
-retalho de afogueado crepusculo, um canto de cidade ao longe diluido em
-fumaça côr de perola, ou o olhar de uma dama e o sorriso de outra,
-projectis inoffensivos de namoro que na hypothese de andar a gente em
-fórma têm o defeito da incerteza, se vêm expressamente a nós, se ao
-vizinho, e a nós apenas por uma casualidade de ricochete&mdash;o ciume
-eterno dos serra-filas que a Praia Vermelha conhece.
-</p>
-<p>
-Os nossos passeios foram mais consideraveis.
-</p>
-<p>
-Primeiro ao Corcovado, assalto ao gigante, hoje domado pela vulgaridade
-da linha ferrea.
-</p>
-<p>
-Ás 2 horas da noite, troaram os tambores como em quartel assaltado. Os
-rapazes, que mal haviamos dormido, na excitação das vesperas,
-precipitaram-se dos dormitorios. Ás 3 e pouco estavamos na serra.
-</p>
-<p>
-Aristarcho rompia a marcha, valente como um mancebo, animando a
-desfilada como Napoleão nos Alpes.
-</p>
-<p>
-Passeio nocturno de alegria sem nome. As arvores beiravam a estrada de
-muros de sombra num e noutro ponto rendada de frestas para o céu
-limpido. No caminho, trevas de tunnel e agitação confusa das roupas,
-malhada a esmo de placas de luar brando&mdash;reptil immenso de cinza e
-leite em vagarosa subida. Que sonho de cócegas experimentaria o colosso, na
-dormencia de pedra que o prostrava ainda, espezinhado pela invasão!
-Subiamos. Pelas abertas do arvoredo devassavamos abysmos; ao fundo, a
-illuminação publica por enfiadas, como rosarios de ouro sobre velludo
-negro.
-</p>
-<p>
-Á boa altura, acampamos para o café. Criados que nos precediam com o
-farnel, improvisaram um balcão, e nos serviam successivamente na ordem
-da fórma. Felizes alguns, conseguiram uma gotta de fino Porto, mais
-quente que o café, reforçando com um banho interno de conforto contra
-a umidade da altitude e da hora, inflamando a coragem como um punch,
-avivando a alegria como um brinde de fogo.
-</p>
-<p>
-O espaço apparecia mais claro sobre a renda das ramas; as ultimas
-estrellas por entre as folhas emmurcheciam como jasmins, e fechavam-se.
-Aristarcho deu ordens á banda. A subida recomeçou em festa, um dobrado
-triumphal rasgou o silencio das montanhas espavorindo a noite; o bombo
-de Romulo trovejou robusto, com imensa admiração da passarada que o
-espiava metendo o bico á beira dos ninhos, que o cobiçava talvez para
-genro, aturdindo os echos com um repente brutal de alvorada.
-</p>
-<p>
-Ao passo que nos elevavamos, elevava-se igualmente o dia nos ares.
-Apostava-se a vêr quem primeiro cançava. Cada avanço da luz no
-espaço era como um excitante novo para a jornada, suavisando a doçura
-do alvorecer todo o esforço da ascensão. Quando a musica parava,
-ouviamos na alvenaria do grande encanamento, pelos respiradouros, as
-aguas do Carioca, ciciando queixas poeticas de naiade emparedada.
-</p>
-<p>
-Avistavamos por hiatos de perspectiva a bahia, o Oceano vastamente
-desdobrado em chammas, extenso cataclysma de lava.
-</p>
-<p>
-No planalto do Chapéo de Sol parámos. O director convencionou que, ao
-signal de debandar, assaltariamos na carreira o espigão de granito
-empinado á extrema do monte. A rapaziada acclamou a proposta e, com um
-alarido barbaro de peleja, arrojámo-nos á conquista da altura.
-</p>
-<p>
-Chegou na frente o Tonico, meninote nervoso, de S. Fidelis, especialista
-invicto da carreira, corredor de pratica e principios, que de cada exame
-da Instrucção Publica fugia duas vezes á chamada, entendendo que a
-fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção
-artificial dos que não podem correr.
-</p>
-<p>
-Romulo fez a asneira de tentar o espigão; ficou a meio caminho,
-suffocado, inanimado, roncando por terra.
-</p>
-<p>
-Almoçámos ás dez horas, cada um para seu lado, depois da
-distribuição frugal do mantimento. Fartos de paysagem, formámos para
-a descida.
-</p>
-<p>
-Descida penosa. Tinhamos imprudentemente esgotado as forças na
-folgança. A marcha de volta foi uma miseria. Formámos ainda, mas já
-não havia quem olhasse para o alinhamento. As correias frouxas
-escapavam á cintura, as blusas ás correias; os pés cambavam, mal
-equilibrados no calçado, bambeavam os joelhos passadas de bebado.
-</p>
-<p>
-As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o director,
-segurando-se uns aos outros pelos hombros, seguindo em grupos
-atropellados como carneiros para a matança. Aristarcho, tão lépido
-como na subida, estimulava o seu povinho, chasqueando compadecidas
-ironias.
-</p>
-<p>
-Quiz recorrer ao estimulante da musica. Os musicos, derreados, haviam
-deixado os instrumentos na carroça da matalotagem que vinha longe. Nem
-tambores, nem clarins; apenas Romulo, atraz de todos, trazia o bombo de
-roldão pela estrada como uma pipa.
-</p>
-<p>
-Por maior tormento, fundia-se a soalheira em chumbo ardente sobre nós,
-accendendo reflexos insupportaveis na areia da estrada, emquanto
-reverberava o dia lá em baixo, sobre as casas, pelos jardins nublados
-de vaporisações de estio, sobre a vegetação das montanhas, a
-florescer das tristes flôres da Paixão da alleluia.
-</p>
-<p>
-Voltavamos de um dia alegre como soldados batidos. A ordem de marcha
-decompôz-se aos poucos. Quando chegámos ao Rio Comprido, iamos por
-bandos dispersos, arquejantes, os de maior folego na vanguarda; depois,
-em cauda interminavel de alquebramento, os mais fracos, até aquelles
-que ficavam pelo chão como enfermos, e que os inspectores buscavam como
-gado perdido.
-</p>
-<p>
-No portão do <i>Atheneu</i>, mãos ás cadeiras, dentinhos brancos á vista,
-esperava-nos Angela, fresca e forte, e recebia com uma vaia de risadas
-aquella entrada de vencidos, homens e moços.
-</p>
-<p>
-Quando, tempos passados, annunciou-se o grande pique-nique ao Jardim
-Botânico, certo não foi objecção a lembrança d'este descalabro de
-fadiga. Tinhamos almoçado na montanha; tratava-se agora de ir jantar ao
-jardim. Promptos!
-</p>
-<p>
-Ao meio-dia, apeava o <i>Atheneu</i> dos bonds especiaes á porta do grande
-parque. Atravessámos cantando um dos hymnos do collegio as arcarias
-elevadas de palmas. Junto ao lago da avenida, debandámos.
-</p>
-<p>
-No bosque dos bambús, á esquerda, estavam armadas as longas mesas para
-o banquete das quatro horas. Graças á boa vontade dos paes, prevenidos
-opportunamente, vergavam as taboas, sobre cavalletes, ao peso de uma
-quantidade rabelaiseana de acepipes. Á parte, em cestos, no chão,
-amontoavam-se fructas, caixas e frascos de confeitaria.
-</p>
-<p>
-Era por um d'esses dias caprichosos, possiveis todo o anno, mais
-frequentes de verão, em que as bategas de chuva fazem alternativa com
-as mais sadias expansões de sol, deliciosos e traidores, em que,
-parece, a alma feminina se faz clima com as incertezas de pranto e riso.
-</p>
-<p>
-Chovera uma vez ao partirmos, outra vez em viagem; havia no jardim muita
-humidade na relva e sob as folhas caidas; ás alamedas de mais sombra,
-via-se a areia crivada recentemente dos pequeninos furos que cava o
-gottejar do arvoredo. Mas eram tão claros os trechos de bom tempo, no
-intervallo dos nimbos, que não podiam apprehensões de aguaceiro
-entibiar a franqueza de alegria a que estavamos preparados.
-</p>
-<p>
-A rapaziada dispersou-se pelos gramados para a montanha, para os
-cannaviaes e pomares de ingresso vedado. Alguns, munidos de anzoes,
-acocoravam-se á beira do açude, como batrachios, emquanto esperavam
-que picasse a probabilidade difficil de um peixe.
-</p>
-<p>
-Os de espirito calmo buscavam sitios de soledade, iam passear a scisma
-silenciosa; os sentimentaes, com o instincto dos photographos
-paysagistas, ensaiavam, comparavam, applaudiam os melhores pontos de
-vista, ou, simplesmente, dous a dous, intimos, seguiam para longe,
-braços pela cintura, balbuciando dialogos lentos. Os menores corriam,
-armando animadissimos brincos, atiravam-se ás borboletas, iam pelos
-cursos d'agua canalisada através do parque, perseguindo a fuga de um
-graveto, trepido, inalcançavel na evasão rapida da lympha. Nos
-enredamentos obscuros do bosque, exactamente onde o artista grego
-incluiria um satyro, podia-se surprehender sob uma blusa o confiado
-abandono bucolico de outros collegas.
-</p>
-<p>
-De quando em quando, um signal de clarim. Tocava-se a reunir e fazia-se
-a distribuição das gulodices. Muitos não compareciam.
-</p>
-<p>
-Ás quatro horas a banda de musica assignalou com o hymno nacional o
-grande momento da festa campestre.
-</p>
-<p>
-De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de
-uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação
-dos logares.
-</p>
-<p>
-Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.
-</p>
-<p>
-No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho,
-appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.
-</p>
-<p>
-Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos
-copeiros...
-</p>
-<p>
-Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação
-definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos
-frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.
-</p>
-<p>
-Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na
-aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os
-redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se
-dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da
-existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o
-supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em
-rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos,
-prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do
-peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.
-</p>
-<p>
-Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas,
-conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás
-nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as
-marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado
-de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef
-com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.
-</p>
-<p>
-Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do <i>Atheneu</i> de
-proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas
-gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da
-boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.
-</p>
-<p>
-Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam
-entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os
-criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um
-domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam
-rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira.
-Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em
-aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes,
-erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima
-das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a
-encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho
-recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição para os
-dias de gala. Cerqueira, <i>ratazana</i>, curvado, redobrado, sobre o
-prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas,
-como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo,
-com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido;
-suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da
-bacchanal.
-</p>
-<p>
-Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa
-principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e
-cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava
-improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas
-campestres...
-</p>
-<p>
-Outros professores, que tinham concorrido ao piquenique, davam-se á
-faina grosseira de jantar. Elle, não.
-</p>
-<p>
-Havia um quarto de hora que andava mysteriosamente por uma aléa de
-bambús, esfiapando as barbicas, a gaforina, palpando a testa,
-arrancando inspiração ao couro cabelludo, passando, nervoso,
-repassando, espiado furtivamente pela nossa admiração. Ninguem ousava
-acercar-se, temendo perturbar a elaboração do genio.
-</p>
-<p>
-Muchôchos adoraveis das brisas, que andaes pela malta, gemedoras
-fontes, que desfiaes á tôa as lagrimas de vossos penares, amaveis
-sabiás cantores, que viveis de plantão na palmeira da litteratura
-indigena, sem que vos galardôe uma verba da secretaria do imperio,
-vinde commigo repartir o segredo do vosso encanto! Seductoras rolinhas,
-um pouco da vossa ternura! Vividos colibris, a mim! que sois como os
-animados tropos no poema frondoso da floresta... E as inspirações
-vieram. Primeiro, cerimoniosamente, á altura, volteando espiraes de
-urubú sobre a carniça; depois, de chofre, caindo-lhe ás bicadas sobre
-o estro. O estro entorpecido acordou. Fez-se hippogrypho um asno morto.
-O poeta foi registrando as estrophes.
-</p>
-<p>
-Quadras de rima facil de participios, espancados pelo camartello
-contundente dos agudos.
-</p>
-<p>
-Sustou-se em toda a linha o furor gastronomico dos rapazes. Ficámos a
-ouvir, surpresos.
-</p>
-<p>
-Murmuraram as brisas; as fontes correram; tomaram a palavra os sabiás;
-surgiram palmeiras em repuxo; houve revoadas de juritys, de
-beija-flôres; todas essas cousas, de que se alimentam versos communs e
-de que morrem á fome os versejadores. Subito, do melhor das quadras,
-exactamente quando o poeta apostrophava o dia sereno e o sol, comparando
-a alegria dos discipulos com o brilho dos prados, e a presença do
-Mestre com o astro supremo, mal dos improvisos prévios! desata-se das
-nuvens espessadas uma carga d'agua diluvial, unica, sobre o banquete,
-sobre o poeta, sobre a miseranda apostrophe sem culpa.
-</p>
-<p>
-Venancio não se perturbou. Abriu um guarda-chuva para não ser
-inteiramente desmentido pelas gotteiras e continuou, na guarita, a falar
-enthusiasticamente ao sol, á limpidez do azul.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura29.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Não querendo desprestigiar o estimavel subalterno, Aristarcho fingia
-acreditar no improviso e, indifferente, deixava cair o aguaceiro. As
-abas do chapéo de palha murchavam-lhe ao redor da cabeça, o rodaque
-branco desengommava-se em pregas verticaes gottejantes.
-</p>
-<p>
-Para os rapazes a chuva foi novo signal de desordem. Deixou-se o poeta
-com a sua inspiração arrebatadora de bom tempo; recomeçou a investida
-aos pratos.
-</p>
-<p>
-A abóbada de folhagem que nos cobria, em vez de attenuar a violencia
-das aguas, concorria para fazer mais grossos os pingos. Pouco importava.
-A philosophia impermeavel do director servia-nos tambem de capa. Que
-chovesse! Era o môlho dos manjares que nos faltava. As fructas lavadas
-luziam com um verniz de frescura que o proprio outomno não possue. O
-vinho estendia-se pela toalha encharcada numa generalisação solemne de
-purpura. O banho opportuno do banquete vinha temperar a demasiada aridez
-das farinhas de recheio. «Acabamos pela sopa, descobriu Nearcho, o
-penetrante, por onde o vulgo principia!»
-</p>
-<p>
-Qual acabavamos! Ninguem acabou. Succedeu que, com os fundilhos
-molhados, ninguem quiz mais sentar-se. Gyrou o atropello ao redor das
-mesas; os bancos foram repellidos a ponta-pés. Repartia-se o doce sem
-equidade; quem não avançava a tempo ficava sem elle. Dous inspectores,
-João Numa e o <i>Conselheiro</i>, a pretexto de decidir uma contenda,
-arranjaram-se com uma caixa de pecegada e desappareceram.
-</p>
-<p>
-A chuva desculpava a bebida. Era inacreditavel o consumo de brindes.
-Brindes a Aristarcho, brindes aos companheiros, ao Sylvino, ao poeta, ao
-sol, aos temporaes, ao trovão scandinavo; inimigos figadaes, no
-transporte do prazer, reconciliaram-se; Barbalho saudou-me fogosamente.
-Romulo, já tonto, affastado das mesas, brindava o copeiro que lhe
-arranjara uma garrafa; depois brindou a noiva; o criado, bebendo tambem,
-tocou-lhe o copo.
-</p>
-<p>
-Como escurecia, o director fez o clarim chamar á fórma.
-</p>
-<p>
-Debaixo do aguaceiro que não cessava, o collegio alinhou-se como bem
-pôde. Muitos, queixando-se de saude delicada, obtiveram, dispensa
-d'esta inopportuna disciplina de equilibrio; seguiram adiante para o
-portão abrigado do jardim... Após, fomos os outros, em marcha regular,
-pingando de molhados. A fita vermelha dos gorros desbotava-se-nos pelo
-rosto em fios sanguineos.
-</p>
-<p>
-Quando chegámos ao portão, já nos esperavam os bonds especiaes. Do
-outro lado da rua, á entrada do conhecido restaurante, appareceu a
-familia do Aristarcho com alguns professores, que lá tinham jantado. D.
-Emma, pelo braço do Chrysostomo, a Melica altivamente só e
-distanciada.
-</p>
-<p>
-No collegio, tivemos ordem de subir a descanço nos dormitorios.
-Preventivo louvavel de prudencia, depois dos excessos e da tempestade
-soffrida. O descanço foi simplesmente um prolongamento da pandega do
-passeio. Para cessar a desordem, tocou-se a estudo... Baixámos ao
-salão geral. Aristarcho, reassumindo a dureza olympica da seriedade
-habitual, apresentou-se e perguntou asperamente se pretendiamos que a
-vida passasse a ser agora um pique-nique perpetuo na desmoralisação.
-Tacitamente negámos e a tranquillidade normal entrou dos eixos.
-</p>
-<p>
-Não sabiamos que, a essas horas, preparava o segredo da alta justiça
-uma trama de intrigas, que devia estragar em terrores a lembrança do
-grande passeio.
-</p>
-<p>
-Á hora da ceia, na mesma porta em que se lia a gazetilha das aulas,
-sombrio como nunca, vagaroso como os compassos de requiem, tetrico como
-o juizo final, entrou o director.
-</p>
-<p>
-Pausa preliminar, fremito de sensação pelo refeitorio:
-</p>
-<p>
-«Tenho a alma triste», começou, cavernosamente. Uma cinta de trovões
-no horizonte, rostos da tormenta da tarde, faziam fundo ás palavras em
-côro eschyliano.
-</p>
-<p>
-«Tenho a alma triste. Senhores! A immoralidade entrou nesta casa!
-Recusei-me a dar credito, rendi-me á evidencia»... Com todo o vigor
-tenebroso dos quadros tragicos, historiou-nos uma aventura bregeira. Uma
-carta comica e um encontro marcado no Jardim. «Ah! mas nada me
-escapa... tenho cem olhos. Se são capazes, illudam-me! Está em meu
-poder um papel, monstruoso corpo de delicto! assignado por um nome de
-mulher! Ha mulheres no <i>Atheneu</i>, meus senhores!»
-</p>
-<p>
-Era uma carta do Candido, assignada Candida.
-</p>
-<p>
-«Esta mulher, esta cortezã fala-nos da segurança do logar, do socego
-do bosque, da solidão a dous... um poema de pouca vergonha! É muito
-grave o que tenho a fazer. Amanhã é o dia da justiça! Apresento-me
-agora para dizer sómente: serei inexoravel, formidando! E para
-prevenir: todo aquelle que directa ou indirectamente se acha envolvido
-nesta miseria... tenho a lista dos comprometidos... e que negar
-espontaneo auxilio ao procedimento da justiça, será reputado cumplice
-e como tal: punido!»
-</p>
-<p>
-Este convite era um verdadeiro arrastão. Remexendo a gaveta da
-consciencia e da memoria, ninguem havia, póde-se affirmar, que não
-estivesse implicado na comedia collegial dos sexos, ao menos pelo enredo
-remoto do <i>ouvi dizer</i>. Ouvir dizer e não denunciar logo, era um
-crime, dos grandes na jurisprudencia costumeira. A devassa promettida fazia
-alarma geral. Como prevêr as complicações do processo? Como adivinhar
-o segredo tremendo da lista?
-</p>
-<p>
-Aristarcho ufanava-se de perspicacia de inquisidor. Sob a saraivada das
-perguntas, ameaças, promessas, o interrogado perturbava-se,
-compromettia-se, entregava-se e trahia os outros; nos processos do
-gabinete, os factos floresciam em carymbo, fructificavam em cacho; a
-pesquiza de uma culpa descobria tres, sem contar as ramificações da
-cumplicidade de outiva.
-</p>
-<p>
-Ao retirar-se, o director deixou na sala uma estupefacção de pavor.
-</p>
-<p>
-Eu, particularmente, tinha valiosos motivos de sobresalto. A guerra
-latente que já me ligava ao director, como as conjuncções
-disjunctivas, exacerbara-se com um episodio gravissimo, rompimento
-decisivo.
-</p>
-<p>
-A caminho da bibliotheca, no mesmo logar do infeliz encontro com o
-enorme Romulo, achei-me inesperadamente com o Bento Alves.
-</p>
-<p>
-As sympathias do excellente companheiro não tinham diminuido. Durante
-as férias, fôra vêr-me em casa, travando relações com a minha
-familia. Fui recommendado insistidamente ao amigo, que me valesse, nas
-difficuldades da vida collegial, contra o constante perigo da
-camaradagem perniciosa. Durante o mez de Janeiro não nos vimos. Por
-occasião da abertura das aulas, notei-lhe um calor novo de amizade, sem
-effusões como d'antes, mas evidentemente testemunhado por tremores da
-mão ao apertar a minha, embaraços na voz de amoroso errado, bisonho
-desviar dos olhos, denunciando a reluctancia de movimentos secretos e
-impetuosos. Ás vezes mesmo, um reflexo assustador de loucura
-accentuava-se-lhe nos traços.
-</p>
-<p>
-Interessava-me aquella agonia comprimida. Estranha cousa, a amizade que,
-em vez da aproximação franca dos amigos, podia assim produzir a
-incerteza do mal estar, uma situação prolongada de vexame, como se a
-convivencia fosse um sacrificio e o sacrificio uma necessidade.
-</p>
-<p>
-Durante os primeiros dias do anno, poucos alumnos chegados, ficavamos
-horas inteiras em companhia. Trouxera-me um presente de livros, com
-dedicatoria a côres, de bella calligraphia, inscripta em rosas
-entrelaçadas de chromo, Recordo-me tambem de um dulcissimo cofre
-dourado de pastilhas e outras ridicularias de amabilidade que me
-offerecia, passado de vergonha pela insignificancia do obsequio.
-Confusamente occorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz
-de conta, e eu levava a seriedade scenica a ponto de galanteal-o,
-occupando-me com o laço da gravata d'elle, com a mecha de cabello que
-lhe fazia cócega aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistinctos
-para vêl-o rir, desesperado de não perceber. Uma das irmãs casara no
-Rio Grande; elle mostrou-me o retrato do noivo, um par de bigodes negros
-descaidos, com a noiva, um rosto oval correcto e puro, o turbilhão
-nevoento dos véus. Deu-me um botão de flôr de laranjeira que tinham
-remettido.
-</p>
-<p>
-Andavam assim as cousas, em pé de serenidade, quando occorreu a mais
-espantosa mudança.
-</p>
-<p>
-Não sei que diabo de expressão notei-lhe no semblante, de ordinario
-tão bom. Desvairamento completo. Apenas me reconheceu, atirou-se como
-fizera Romulo e igualmente brutal. Rolámos ao fundo escuro do vão da
-escada. Derribado, contundido, espancado, não descurei da defeza.
-Entrevi na meia obscuridade do recanto um grande sapato embolorado.
-Luctando na poeira, sob o joelho esmagador do assaltante, ataquei-lhe a
-cabeça, a cara, a bocca, a formidaveis golpes de tacão, apurando a
-energia de sola ferrada com a omnipotencia dos extremos. Bento Alves
-deixou-me bruscamente.
-</p>
-<p>
-Tinhamos luctado em silencio, sem que nada mais se ouvisse do que os
-encontrões pelo soalho. No corredor, entretanto, vimos Aristarcho que
-chegava como em soccorro. Bento Alves passou; immobilisou-o com o olhar
-sem vista, esgazeado, medonho, de quem acaba de perpetrar um homicidio e
-desappareceu, tropego, manchado de pó, labios inflammados, desordem nos
-cabellos.
-</p>
-<p>
-Aristarcho veio sobre mim. Que explicasse a briga! Eu estava como o
-adversario, empoeirado e sujo como de rolar sobre escarros.
-</p>
-<p>
-Respondi-lhe com violencia.
-</p>
-<p>
-«Insolente!» rugiu o director. Com uma das mãos prendendo-me a blusa,
-a estalar os botões, com a outra pela nuca, ergueu-me ao ar e sacudiu,
-«Desgraçado! desgraçado, torço-te o pescoço! Bandalhozinho
-impudente! Confessa-me tudo ou mato-te.»
-</p>
-<p>
-Em vez de confessar, segurei-lhe o vigoroso bigode. Fervia-me ainda a
-excitação do primeiro combate; não podia olhar conveniencias de
-respeito. Esperneei, contorci-me no espaço como um escorpião pisado. O
-director arremessou-me ao chão. E, modificando o tom, falou:
-«Sergio!ousaste tocar-me!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui primeiro tocado! repliquei fortemente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Criança! feriste um velho!
-</p>
-<p>
-Reparei que havia no chão fios brancos de bigode.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui vilmente injuriado, disse.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! meu filho, ferir a um mestre é como ferir ao proprio pae, e os
-parricidas serão malditos.
-</p>
-<p>
-O tom commovido d'este final inesperado impressionou-me até o intimo
-d'alma. Estava vencido. Fiquei por um minuto horrorisado de mim mesmo.
-De volta do atordoamento, achei-me só no corredor. A saída dramatica
-do director augmentou-me ainda remorsos. Houve uma reacção de esforço
-moral e desatei nervosamente em pranto, chorei a valer, amparando-me ao
-peitoril de uma janella.
-</p>
-<p>
-Contava certo com um castigo excepcional, uma comminação qualquer do
-celebre codigo do arbitrio, em artigo cujo gráo minimo fosse a
-expulsão solemne.
-</p>
-<p>
-Esperei um dia, dous dias, tres: o castigo não veio. Soube que Bento
-Alves despedira-se do <i>Atheneu</i> na mesma tarde do extraordinario
-desvario. Acreditei algum tempo que a minha impunidade era um caso
-especial do afamado systema das punições moraes e que Aristarcho
-delegara ao abutre da minha consciencia o encargo da sua justiça e
-desaffronta. Hoje penso diversamente: não valia a pena perder de uma
-vez dous pagadores promptos, só pela futilidade de uma occorrencia,
-desagradavel, não se duvida, mas sem testemunhas.
-</p>
-<p>
-O caso morreu em segredo de discrição, encontrando-nos eu e o director
-num conchavo bilateral de reserva, como se nada houvesse.
-</p>
-<p>
-O resentimento, porém, devia ser fundo e a perspectiva tormentosa do
-processo ameaçava-me como o ensejo imminente da desforra.
-</p>
-<p>
-Não foi possivel dormir tranquillo.
-</p>
-<p>
-Á hora do primeiro almoço, como promettera, Aristarcho mostrou-se em
-toda a grandeza funebre dos justiçadores. De preto. Calculando
-magnificamente os passos pelos do director, seguiam-no em guarda de
-honra muitos professores. A porta fronteira, mais professores de pé e
-os bedéis ainda, e a multidão bisbilhoteira dos criados.
-</p>
-<p>
-Tão grande a calada, que se distinguia nitido o tic-toc do relogio, na
-sala de espera, palpitando os ansiados segundos.
-</p>
-<p>
-Aristarcho soprou duas vezes através do bigode, inundando o espaço com
-um bafejo de todo-poderoso.
-</p>
-<p>
-E, sem exordio:
-</p>
-<p>
-«Levante-se, Sr. Candido Lima!
-</p>
-<p>
-«Apresento-lhes, meus senhores, a Sr.ª D. Candida, accrescentou com
-uma ironia desanimada.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura30.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-«Para o meio da casa! e curve-se diante dos seus collegas!!»
-</p>
-<p>
-Candido era um grande menino, beiçudo, louro, de olhos verdes e
-maneiras difficeis de indolencia e enfado. Atravessou de vagar a sala,
-dobrando a cabeça, cobrindo o rosto com a manga, castigado pela
-curiosidade publica.
-</p>
-<p>
-«Levante-se, Sr. Emilio Tourinho...
-</p>
-<p>
-Este é o cumplice, meus senhores!»
-</p>
-<p>
-Tourinho era um pouco, mais velho que o outro, porém mais baixo;
-atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um
-só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era
-com effeito o amante.
-</p>
-<p>
-«Venha ajoelhar-se com o companheiro.»
-</p>
-<p>
-«Agora, os auxiliares...»
-</p>
-<p>
-Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarcho no processo. O
-interrogatorio, com o appendice das delações da policia secreta e dos
-timidos, compromettera apenas dez alumnos.
-</p>
-<p>
-A chamado do director, foram deixando os logares e postando-se de
-joelhos em seguimento dos principaes culpados.
-</p>
-<p>
-«Estes são os acolytos da vergonha, os co-réos do silencio!»
-</p>
-<p>
-Candido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a
-furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo
-no inferno.
-</p>
-<p>
-Prostrados os doze rapazes perante Aristarcho, na passagem alongada
-entre as cabeceiras das mesas, parecia aquillo um ritual desconhecido de
-noivado: a espera da benção para o casal á frente.
-</p>
-<p>
-Em vez da bênção chovia a colera.
-</p>
-<p>
-«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia
-ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo
-das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada
-a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem
-as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram
-collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação,
-furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora
-da justiça!...»
-</p>
-<p>
-Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre
-Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.
-</p>
-<p>
-Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os
-doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam
-ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.
-</p>
-<p>
-Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois.
-Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela
-refracção nebulosa do boato.
-</p>
-<p>
-Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No
-recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
-</p>
-<p>
-Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente
-em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da
-circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu;
-repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do
-collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a
-paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra,
-metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino
-ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que
-por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra
-o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da
-escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.
-</p>
-<p>
-Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças
-do motim.
-</p>
-<p>
-Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do
-refeitorio. Na qualidade de <i>presos politicos</i>, victimas de generosa
-sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando,
-outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos
-apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de
-metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro
-os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
-</p>
-<p>
-Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia
-das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras
-perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar...
-Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim,
-sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a
-escripta... Em summa... mocidade...»
-</p>
-<p>
-Acabavam de accender a illuminação do <i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho
-no pateo. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se
-mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescriptivel, vozear de
-populaça em revolta, silvos, brados, injurias, em que os gritos
-estridulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de
-clamores.
-</p>
-<p>
-Os inspectores chegaram aterrados a procurar o director, mostrando a
-cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da
-goiabada! Uma velha queixa.
-</p>
-<p>
-A comida do <i>Atheneu</i> não era pessima.
-</p>
-<p>
-O razoavel para algumas centenas de tolinhos. Possuia mesmo o condimento
-indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinencia
-insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de figados
-guizados, o anno todo! Ultimamente, havia tres mezes, a <i>goiabada</i>
-molle de bananas, manufactura economica do despenseiro.
-</p>
-<p>
-Aristarcho empallideceu de despeito. Visava-o directamente a desaforada
-insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espectaculo da justiça
-tremenda. Não quiz, entretanto, arriscar o prestigio. Vimol-o no
-corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a
-acalmar.
-</p>
-<p>
-Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar...
-expulsar... fallir talvez. O codigo, em letra gothica, na moldura preta,
-lá estava imperioso o formal como a Lei, prescrevendo a desligação
-tambem contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao
-mesmo tempo... Era de mais! era de mais!... Entrava-lhe a justiça pelos
-bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro
-amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquella porqueira
-gothica de justiça!
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 300px;">
-<img src="images/figura31.jpg" width="300" height="300" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do
-coração! «Ah! Tinham motivo... Mas aquillo era patota do
-despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha
-culpa... Era industria secreta a goiabada de bananas!...»
-</p>
-<p>
-A sineta, chamando á ceia, pacificou os animos. Espalhou-se que
-Aristarcho rendia-se á revolta e ia falar.
-</p>
-<p>
-Á mesma porta em que apparecera formidavel de manhã, surgiu-nos
-transformado, manso, liso como a propria cordura e a lealdade; altivo,
-comtudo, quanto comportava a submissão.
-</p>
-<p>
-«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A
-representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme!
-Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão...
-Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até
-hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba
-consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha
-miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu
-para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de
-Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como
-podia eu suspeitar...»
-</p>
-<p>
-Emquanto o director falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta
-lata vasia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha,
-espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarcho mirava-se nos
-luminosos documentos da sua inteireza. «Legitimo cascão! legitimo
-cascão, meus senhores!» garantia, tamborilando com os nós dos dedos
-numa tampa.
-</p>
-<p>
-Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão
-subia, em desordem, scintillando reflexos amarrotados do gaz.
-Aristarcho avultava sobre as latas, como o principio salvo da
-autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras
-azeitadas de ternura, e todo resentimento cedia, e nós saudavamos o
-director, grande alli, como sempre, sobre o chammejamento do Flandres.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IX">IX</a></h4>
-
-<p>
-A amnistia dos revolucionarios aproveitou por extensão aos execrandos
-réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarcho
-despediu-os do gabinete com a penitencia de algumas dezenas de paginas
-de escripta e reclusão por tres dias numa sala. Desprestigiava-se a
-lei, salvavam-se, porém, muitas cousas, entre as quaes o credito do
-estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escandalo de um grande
-numero de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa
-cafúa, impossivel, que lá estava o Franco, por exigencia expressa do
-Sylvino, como causador primeiro das inqualificaveis perturbações da
-ordem no <i>Atheneu</i>.
-</p>
-<p>
-Esta resolução agradou-me summamente. Pena seria, em verdade, que
-perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluido
-na historia sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.
-</p>
-<p>
-Adquirira-o com a transição para as aulas secundarias, onde o
-encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, comprehendemo-nos,
-mutuamente sympathicos, como se um proposito secreto de cousa necessaria
-tivesse guiado o acaso da collocação.
-</p>
-<p>
-Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificancia quotidiana da
-vida escolar em que a gente se aborrece, é favoravel ao desenvolvimento
-de inclinações mais sérias que as de simples conveniencia menineira.
-O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos
-vicios gera-se tambem o vicio de sentir.
-</p>
-<p>
-A convivencia do Sanches fôra apenas como o affeiçoamento agglutinante
-de um sinapismo, intoleravel e collado, especie de escravidão
-preguiçosa da inexperiencia e do temor; a amizade de Bento Alvos fôra
-verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito á força,
-commodidade da sujeição voluntaria, vaidade feminina de dominar pela
-fraqueza, todos os elementos de uma fórma passiva de affecto, em que o
-dispendio de energia é nullo, e o sentimento vive de descanço e de
-somno. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a sympathia não se
-argumenta. Faziamos os themas de collaboração; permutavamos
-significados, ninguem ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a
-necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e
-mostrar. Queimava-me o ardor inexplicavel do desinteresse. Egbert
-merecia-me ternuras de irmão mais velho.
-</p>
-<p>
-Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os
-cabellos castanhos entremeados de louro, uma alteração exotica na
-pronuncia, olhos azues de estrias cinzentas, obliquos, palpebras
-negligentes, quasi a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de
-conversa, em desenho gracioso e largo.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 250px;">
-<img src="images/figura32.jpg" width="250" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Vizinhos ao dormitorio, eu, deitado, esperava que elle dormisse para
-vêl-o dormir e acordava mais cedo para vêl-o acordar. Tudo que nos
-pertencia, era commum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava
-perfeito. Era elegante, déstro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o,
-desde o coração, até á côr da pelle e á correcção das fórmas.
-Nadava como as toninhas. A agua azul fugia-lhe diante em marulho, ou
-subia-lhe aos hombros banhando de um lustre de marfim polido a brancura
-do corpo. Dizia as licções com calma, difficilmente ás vezes,
-embaraçado por aspirações anciosas de asphyxia. Eu mais o prezava nos
-accessos doentios da angustia. Sonhava que elle tinha morrido, que
-deixara bruscamente o <i>Atheneu</i>; o sonho despertava-me em susto, e eu,
-com allivio, avistava-o tranquillo, na cama proxima, uma das mãos sob a
-face, compassando a respiração ciciante. No recreio, eramos
-inseparaveis, complementares como duas condições reciprocas de
-existencia. Eu lamentava que uma occorrencia terrivel não viesse de
-qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a coragem do sacrificio,
-trocar-me por elle no perigo, perder-me por uma pessoa de quem nada
-absolutamente desejava. Vinham-me reminiscencias dos exemplos historicos
-de amizade; a comparação pagava bem.
-</p>
-<p>
-No campo dos exercicios, á tarde, passeavamos juntos, voltas sem fim,
-em palestra sem assumpto, por phrases soltas, estações de borboleta
-sobre as doçuras de um bem estar mutuo, inexprimivel. Falavamos baixo,
-bondosamente, como temendo espantar com a intonação mais alta, mais
-aspera, o favor de um genio benigno que estendia sobre nós a amplidão
-invisivel das azas. <i>Amor unus erat</i>.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura33.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Entravamos pelo gramal. Como ia longe o borborinho de alegria vulgar dos
-companheiros! Nós dous sós! Sentavamo-nos á relva. Eu descançando a
-cabeça aos joelhos d'elle, ou elle aos meus. Calados, arrancavamos
-espiguilhas á grama. O prado era immenso, os extremos escapavam já na
-primeira solução de crepusculo. Olhavamos para cima, para o céu. Que
-céus de transparencia e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se ainda, em
-cauda de ouro, uma lembrança de sol. A cupola funda descortinava-se
-para as montanhas, diluição vasta, tenuissima de arco-iris. Brandos
-reflexos de chamma; depois, o bello azul de panno, depois a
-degeneração dos matizes para a melancolia nocturna, prenunciada pela
-ultima zona de roxo doloroso. Quem nos dera ser aquellas aves, duas, que
-avistavamos na altura, amigas, declinando o vôo para o occaso, destino
-feliz da luz, em pleno dia ainda, quando na terra iam por tudo as
-sombras!
-</p>
-<p>
-Outras vezes, subiamos ao duplo trapezio. Embalavamo-nos primeiro
-brando, affrontando a caricia rapida do ar. Pouco a pouco augmentava o
-balanço e arriscavamos loucuras de arremesso, assustando o <i>Atheneu</i>,
-levados em vertigem, distendidos os braços, pés para frente, cabeça
-para baixo, cabellos desfeitos, ebrios de perigo, ditosos se as cordas
-rompessem e acabassemos os dois, alli, como uma só vida, no mesmo
-arranco.
-</p>
-<p>
-Liamos muito em companhia. Paginas que não terminavam, de leituras
-delicadas, fecundas em scisma: Robinson Crusoé, a solidão e a
-industria humana; Paulo e Virginia, a solidão e o sentimento.
-Construia-mos risonhas hypotheses: que faria um de nós, vendo-se nos
-apuros de uma ilha deserta?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, por mim, iniciava logo uma furiosa propaganda a favor da
-immigração e ia clamar ás praias, até que me ouvisse o mundo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu faria cousa melhor: decretava preventivamente o casamento
-obrigatorio e punha-me a esperar pelo tempo.
-</p>
-<p>
-A pastoral de Bernardin de Saint-Pierre foi principalmente o nosso
-enlevo. Parecia-nos ter o poema no coração. <i>A bahia do Tumulo</i>, de
-aguas profundas e sombrias, festejada apenas algumas horas pelo sol a
-prumo, em suave tristeza sempre; ao longe, por uma bocaina, a fachada,
-á vista, branca, da igreja rustica de Pamplemousses.
-</p>
-<p>
-Ideavamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do
-sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideavamos bem as scenas que
-liamos da singela narrativa, almas que se encontram, dous coqueiros
-esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas
-franjadas, ao calor da felicidade e do tropico. Comprehendiamos os
-pequeninos amantes de um anno, confundidos no berço, no somno, na
-innocencia.
-</p>
-<p>
-Reviviamos o idyllio todo, instinctivo e puro. «Virginie, elle sera
-heureuse!...» Animavamo-nos da animação d'aquellas correrias de
-crianças na liberdade agreste, gozavamos o sentido d'aquella
-topographia de denominações originaes&mdash;<i>Descoberta da amizade</i>,
-<i>Lagrimas enxugadas</i>, ou de allusões á patria distante. Ouviamos
-palmear a revoada dos passaros, disputando ao redor de Virginia, a
-ração de migalhas. Percebiamos sem raciocinios a philosophia sensual
-da mimosa entrevista.
-</p>
-<p>
-«Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux.
-Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi...
-Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon
-sein et je serai délassé.&mdash;Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais
-tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés
-dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours
-ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un
-arbre à l'autre...»
-</p>
-<p>
-Confrangia-nos, emfim, ao voltar das paginas, a difficuldade cruel das
-objecções de fortuna e de classe, o divorcio das almas irmãs, quando
-os coqueiros ficavam juntos. E a imminencia constrictora do austro, da
-catastrophe, a lua cruenta de presagios sobre um céu de ferro...
-</p>
-<p>
-E guardavamos do livro, cantico luminoso de amor sobre a surdina escura
-dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, mixto de pezar,
-de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo
-maldito, onde o café floria e o niveo algodão e o verde claro dos
-milhos de uma rega de sangue, altear a imagem phantastica da bondade.
-Virginia coroada; como o capricho omnipotente do sol, formando em gloria
-os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e
-doura.
-</p>
-<p>
-Com o Egbert experimentei-me ás escondidas no verso. Esboçámos em
-collaboração um romance, episodios medievaes, excessivamente tragicos,
-cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notavel era um combate
-devidamente organisado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal
-maneira a invenção de Schwartz, que ficavamos para todo o sempre, em
-litteratura, a salvo da increpação de não descobrir a polvora.
-</p>
-<p>
-Quando ouvi-lhe o nome, á chamada, dos compromettidos no processo,
-soffri como a surpreza de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de
-compartir com elle a vergonha.
-</p>
-<p>
-Qual a especie de cumplicidade que se attribuia? Não quiz saber; fosse
-o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que soffresse, muito
-culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E
-fazia-me estremecer a idéa de que iam maltratar creatura tão mansa,
-tão complacente, tão amavel, feita de sensibilidade e brandura, contra
-quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os
-defeitos, com todas as maculas, na facilidade de perdão das cegueiras
-sentimentaes, estranhezas da preferencia, que envolve tudo, no ser
-querido, a phrase limpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da
-carne.
-</p>
-<p>
-Quando nos tornámos a vêr, nenhum teve para o outro a minima palavra;
-ficámos a um banco, lado a lado, em expansivo silencio. E nunca,
-depois, nem por allusão distante, nos referimos ao caso. Coincidencia
-instinctiva de um respeito reciproco, odio talvez commum de uma
-recordação ominosa.
-</p>
-<p>
-Desde o mez de julho do anno anterior, cursava os estudos elementares
-das linguas, alegrando-me a acquisição do vocabulo estrangeiro,
-commercio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a
-civilisação, como se bebesse a realidade do movimento humano nos
-paizes remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditavamos
-como se acredita em romances.
-</p>
-<p>
-Seguiu-se a massada dos interminaveis themas.
-</p>
-<p>
-Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenisava o trabalho. As
-paginas sorriam de litteratura, com o sorriso conhecido dos objectos
-familiares.
-</p>
-<p>
-Os professores eram bons e moderados. O do francez, Mr. Delille, nome de
-poeta applicado a um urso, honrado urso, inoffensivo e benevolo; saudoso
-do terceiro imperio, cujo desastre o deportava para a vida de aventuras
-além mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabello
-denso, luxuriante, ruivo queimado no logar da bocca, mais longe preto,
-atravez do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de
-cachaça e regras de Halbout. O professor de inglez, Dr. Velho Junior,
-nome de contradicção ainda, o melhor dos homens: zeloso, explicador
-detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a occasião, mas que
-excellente occasião de se estimar e querer bem!
-</p>
-<p>
-A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
-</p>
-<p>
-O professor Venancio leccionava tambem inglez; escapei-lhe ás garras,
-felizmente: uma fera! chatinho sob o director, terrivel sobre os
-discipulos; a um d'elles arremessou-o contra um registro do gaz,
-quebrando-lhe os dentes. Manlio, além das primeiras letras, regia a
-cadeira especial do portuguez.
-</p>
-<p>
-Graças ao estudo do outro anno, alcancei soffrivelmente o meu attestado
-de vernaculismo, garantido pela competencia official; graças tambem ás
-tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre frei Ambrosio,
-respeitavel, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a
-ar tinha com a intonação ôcca e funda das missas cantadas, consumidor
-de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a
-Paulo Cordeiro o magnifico idioma do <i>qui</i>, <i>quæ</i>, <i>quod</i>,
-produzir-me espirros uma simples reminiscencia de Sallustio.
-</p>
-<p>
-Era costume no <i>Atheneu</i> licenciar-se um pouco do regimento da casa a
-estudante de certa ordem, que estivesse em vespera de exame. Saía-se
-então para o jardim com os livros e a commodidade do trabalho a
-bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitavamos, eu e o Egbert, com toda
-vontade, a regalia consuetudinaria. Antes da data memoravel do francez,
-muito passeiámos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille,
-Racine, Molière. O theatro classico dava para grandes effeitos de
-declamação. Quanta tragedia perdida sobre as folhas seccas! Quanto
-gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas á viração
-leviana e passageira!
-</p>
-<p>
-Um era Augusto, outro Cinna; um Nearcho, outro Poliuto; um Horacio,
-outro Curiacio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero o Burrho, Philinto e
-Alceste, Tartufo e Cleantho. O arvoredo era um scenario deveras.
-Dialogavamos, com toda a força das encarnações dramaticas, a bravura
-cavalheiresca, o civismo romano, as apprehensões de rei ameaçado, o
-heroismo da fé, os arrufos da misanthropia, as sinuosidades do
-hypocrita. Uma estatua de deusa anonyma, de louça esfolada, verde de
-velhice, constituia o auditorio, auditorio attento fixamente, comedido,
-sem demasias do applauso nem reprovação, mas constante e infatigavel.
-</p>
-<p>
-Para o desempenho dos papeis femininos havia difficuldades; cada um
-queria a parte mais energica do recitativo. Tirava-se a sorte, e,
-segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava som cerimonia as saias de
-qualquer dama e ia perfeita a <i>toilette</i> do sentimento, noivado de
-Chimène, desespero de Camilla, lucto de Paulina, ambição de Agrippina,
-soberania de Esther, astucia de Elmira, dubiedade de Celimène. Outro
-papel custoso de distribuir era o do Burrho, papel honesto, entretanto,
-e altamente sympathico. Ninguem o queria fazer, o virtuoso conselheiro
-de Nero.
-</p>
-<p>
-Melhor que a prerogativa do estudo livre era uma especie de premio, não
-catalogado nos estatutos, com que Aristarcho gentilmente obsequiava os
-<i>distinctos</i>. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! á mesma
-toalha com a princeza Melica, dos olhos grandes.
-</p>
-<p>
-Quiz o bom fado que obtivessemos, os dous amigos, a prezada nota, e,
-registre-se perenne! examinados pelo professor Courroux, o tremendo
-Catão das bolas pretas, terror universal dos <i>bichos</i>!
-</p>
-<p>
-O director recebeu-me da Instrucção com um abraço contrafeito de
-estylo; percebi que ainda escorria a fistula dos resentimentos.
-Convidado Egbert, força ora que o fosse eu tambem, e o fui, de má
-vontade, por formula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite,
-mas attrahia-me certo numero de curiosidades, por exemplo: vêr como
-comia a Melica, uma cousa de subido interesse.
-</p>
-<p>
-Lembro-me, entretanto, que havia flôres sobre a mesa, que estava, a
-queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha do
-director.
-</p>
-<p>
-Uma attenção absorveu-me exclusiva e unica. D. Emma reconheceu-me era
-aquelle pequeno das madeixas compridas! Conversou muito commigo. Um
-fiapo branco pousava-me ao hombro do uniforme; a boa senhora tomou-o
-finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio
-levissimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que
-differença do que era ha dous annos! Tinha idéa do haver estado
-commigo rapidamente, no dia da exposição artistica...
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura34.jpg" width="200" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-&mdash;Um peraltinha! interrompeu Aristarcho, entre mordaz e
-condescendente, de uma janella a cujo vão conversava com o professor
-Chrysostomo.
-</p>
-<p>
-Eu quiz inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me
-prendia a mão nas d'ella, maternalmente, suavemente, de tal modo que me
-prendia a vivacidade tambem, prendia-me todo, como se eu existisse
-apenas naquella mão retida.
-</p>
-<p>
-Depois da interrupção de Aristarcho, não sei mais nada precisamente
-do que se passou na tarde.
-</p>
-<p>
-Miragem seductora de branco, fartos cabellos negros colhidos para o alto
-com infinita graça, uma rosa nos cabellos, vermelha como são vermelhos
-os labios e os corações, vermelha como um grito de triumpho. Nada
-mais. Ramalhetes á mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão
-adoravel do branco e a rosa vermelha.
-</p>
-<p>
-Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuario de neve.
-Serviam-me alguns pratos, muitas caricias; eu devorava as caricias. Não
-ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dous olhos
-perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava tambem, não tenho
-certeza, do outro lado, por entre as flôres, o professor Chrysostomo.
-</p>
-<p>
-Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer,
-Aristarcho presidia; tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um
-ausente.
-</p>
-<p>
-De volta ao <i>Atheneu</i>, senti-me grande. Crescia-me o peito
-indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação.
-Sentia-me elevado, vinte annos de estatura, um milagre. Examinei então
-os sapatos, a vêr se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos
-symptomas estranhos constatei. Mas uma cousa apenas: olhava agora para
-Egbert como para uma recordação e para o dia de hontem.
-</p>
-<p>
-D'ahi começou a esfriar o enthusiasmo da nossa fraternidade.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="X">X</a></h4>
-
-<p>
-Bem differente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da
-vespera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrucção Publica. A
-expectativa mortal das chamada; uma insignificancia: o terror academico!
-que nos sobresalta, que nos deprime como o que ha de mais grave. E por
-occasião das provas de francez já não era estreante.
-</p>
-<p>
-A estréa do primeiro exame foi de fazer febre. Tres dias antes
-pulavam-me as palpitações; o appetite desappareceu; o somno depois do
-appetite; na manhã do acto, as noções mais elementares da materia com
-o appetite e com o somno. Memoria <i>in albis</i>.
-</p>
-<p>
-O professor Manlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava
-mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da rua dos
-Ourives, como os tribunaes ferozes, sem appello; a terrivel campainha
-penetrante da abertura da solemnidade, os reposteiros plumbeos de
-espesso verde, sopesando as armas imperiaes, as formidaveis paredes de
-alvenaria secular. Que barbaridade aquella conspiração toda contra
-mim, contra um, de todos aquelles perfis rebarbativos, continuos, o
-Mattoso, o Neves Leão, as commissões, qual mais poderosa e carrancuda;
-o Conselho da Instrucção no fundo, cousa desconhecida, mythologica,
-entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as
-vozes da nave engrossam de resonancia, emprestando a força moral á
-justiça das commissões, com o prestigio da elevação e do
-inaccessivel; mais alto que tudo, o Ministro do Imperio, o Executivo, o
-Estado, a Ordem social, apparato enorme contra uma criança.
-</p>
-<p>
-Entrava-se pela rua da Assembléa, para o saguão ladrilhado.
-</p>
-<p>
-Alli estive não sei que tempo, como um condemnado em oratorio. Em redor
-de mim, morriam de pallidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o
-mais velho de todos, cadaverico, ar de Christo, tinha a barba rente,
-pretissima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim
-velho.
-</p>
-<p>
-De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saía uma voz, uma
-lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não
-houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem
-consciencia dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de
-tecto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça
-instinctivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros
-opacos de fumaça, côr de pergaminho, coava para o interior um
-crepusculo fatigado, amarellento, que pregava mascaras de ictericia ás
-physionomias.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura35.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Entre as vidraças e os logares que eram destinados aos examinandos,
-ficava a mesa examinadora: á direita um velho calvo, baixinho, de
-alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da côr
-dos cabellos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno
-volume com o esforço dos myopes, esfregando as paginas ao rosto. Á
-esquerda, um homem de trinta annos, barba rareada por toda a face,
-palpebras inclusive, oculos escuros, cabello secco, caracolando. A
-claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições.
-O terceiro, presidente da commissão, não se via bem, encoberto pela
-urna verde de frisos amarellos.
-</p>
-<p>
-Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se,
-apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os á
-urna. A urna de folha cantava ironica sob o cair dos numeros,
-sonoramente.
-</p>
-<p>
-Tirou-se o ponto; momento de angustia ainda...
-</p>
-<p>
-Depois: estrophe dos Lusiadas! Estavamos livres da expectativa. Não me
-preoccupou mais a difficuldade do ponto.
-</p>
-<p>
-Depois do ditado, como em relaxamento de cançaço do espirito, esqueci
-o inventario natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Puz-me a
-pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da
-natação, na maneira de rir de Angela, no criado assassinado, no
-processo do assassino, que fôra julgado havia pouco... Tres pancadinhas
-que senti no calcanhar, chamaram-me das distracções.
-</p>
-<p>
-Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de traz, o queixo de ébano que
-pedia soccorro. «Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem
-directa!»
-</p>
-<p>
-O ruido d'esta phrase balbuciada, sibilou bem forte para attrahir a
-attenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de
-acudir inteiramente. Além d'isso, precisava cuidar do proprio
-interesse. Deixei o pobre Christo de marfim entregue ao desespero de uma
-lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a
-caneta.
-</p>
-<p>
-Para a prova oral fui mais animado. A nota da escripta era
-tranquillisadora.
-</p>
-<p>
-Os exames oraes eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela rua dos
-Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além d'estes,
-enchia-se o saguão da escada com a turba-multa dos assistentes,
-confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades,
-todos os collegios representados, além dos estudantes avulsos de aulas
-particulares, em cujo numero confundiam-se caras suspeitas de
-farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.
-</p>
-<p>
-O <i>Atheneu</i> era invejado. Victimas do uniforme, os discipulos de
-Aristarcho passeiavam entre os grupos dos collegios rivaes, soffrendo
-dichotes, com uma paciencia recommendada de boa educação.
-</p>
-<p>
-Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos halitos e um
-cheiro de sarro intoleravel; emplastravam-se de cusparadas as paredes;
-passeiava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; resoavam grandes
-gargalhadas de <i>ship-chandler</i>; chasqueava-se a palavrões. Alguns
-rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam
-para o alto, com as costas da mão, chapéos de palha suja, e passeiavam
-gingando. Os mais distinctos davam caminho, repuxando um canto
-desdenhoso de labios, perfilando mais a elegancia.
-</p>
-<p>
-Um reboliço extraordinario agitou a multidão. Acabava-se de descobrir
-na cal, coberta de epigrammas e rabiscos, uma nova inscripção de muito
-espirito: versalhada satyrica contra o professor Courroux, da mesa de
-francez, rimando em <i>u</i>, sempre em <i>u</i>, de cima a baixo, com uma
-fertilidade pasmosa de epithetos.
-</p>
-<p>
-Nem de proposito! na mesma occasião entrava e lançava-se
-precipitadamente pela escada o terrivel professor. «Não o conhece? Lá
-vae!» indicou-me um companheiro mais proximo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não o conhecia...
-</p>
-<p>
-Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se
-sabia felizmente para quem, porque era estrabico. Por elle começou o
-meu improvisado informante, e, conhecendo que eu andava atrazado a
-respeito, não me deixou mais: «Se tem empenho, fura; se não tem,
-babáu. Bancas de peixe! O peixe é caro ás vezes, mas é sempre peixe
-de mercado. Olhe o Meirelles da philosophia, aquelle compridão de barba
-russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da rua dos Arcos; o Simas da
-mesa de geographia, um pançudo appellidado <i>esphera terrestre</i>,
-mimoseiem-no com um par de gallos de briga... o Barros Andrade...
-comprem-lhe os pontos... aquelle diabo da rhetorica que me bombeou ha
-dias... falem-lhe nos versos, que não ha suissas mais amaveis. O seu
-director é que os comprehende. Quando entra aqui é uma onça; o
-proprio tecto branco empallidece; levantam-se, saúdam o soberano!
-Agora, ha homens respeitaveis: o velho Moreira, o sympathico Ramiro, de
-sorriso patriarchal...»
-</p>
-<p>
-Do topo da escada, gritaram para o saguão que ia principiar a chamada
-dos de portuguez.
-</p>
-<p>
-Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo!
-Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a
-sopapos de ida e volta, segundo o bello costume do tempo.
-</p>
-<p>
-Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janellas, de velhos
-caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos,
-offerecendo espessuras desiguaes e densidades verdes. Um parapeito de
-ferro em grade dividia o salão por dous lances; o mais espaçoso para
-os assistentes. No outro havia duas mesas de exame: a de mathematicas,
-perto da entrada, a de portuguez, mais adiante, e tão chegadas que se
-fundiam-as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando
-admiraveis effeitos de applicação das sciencias exactas á philologia.
-</p>
-<p>
-Antes da cerimonia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou,
-deixando cair a bengala. Olharam todos, «Não conhece?» indagou-me o
-officioso companheiro.
-</p>
-<p>
-Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos
-brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando
-o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro
-Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a
-tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na
-banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia;
-se erram escandalosamente no <i>tieitch</i>! Muito depois, apanharam-no
-consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre <i>tieitch</i>
-em que tanto se erra?...»
-</p>
-<p>
-Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me
-no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel
-supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura36.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos.
-Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas
-incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão
-fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo,
-fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via
-inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.
-</p>
-<p>
-Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse;
-não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o
-pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido
-do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do
-arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual
-concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido
-impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue,
-involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo,
-irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã.
-Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa
-tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.
-</p>
-<p>
-Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora
-extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos
-deslumbramentos.
-</p>
-<p>
-Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua
-amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma
-selvageria amordaçada de affectos.
-</p>
-<p>
-Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que
-differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma <i>terceira
-pessoa</i>. Eu preferia andar só.
-</p>
-<p>
-Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o
-dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do
-Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.
-</p>
-<p>
-Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do
-relaxamento da policia do salão.
-</p>
-<p>
-O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos
-grandes, o prudente bedel deixava andar.
-</p>
-<p>
-Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa
-absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção
-de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia
-narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como
-eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam,
-soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e
-rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros,
-bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma
-partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas
-aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que
-adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula
-ou do jantar, um companheiro puxava-me.
-</p>
-<p>
-Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida
-scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu?
-Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises
-nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo,
-sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante
-do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas!
-exactamente a substancia do afamado mysterio do <i>chalet</i>.
-</p>
-<p>
-A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do
-Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e
-uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas
-e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia
-mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado
-de narigudo.
-</p>
-<p>
-Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a
-legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da
-terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por
-aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do
-<i>nada haver</i>, ou como entendiam outros <i>nada vêr</i>. Louvavam-se os
-exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as
-tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito;
-cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo
-passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos
-novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem
-seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma
-historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se
-mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem
-applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica
-obscura do <i>Atheneu</i> redigia-se alli, em termos explicitos e fortes,
-expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das
-commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com
-a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do <i>chalet</i> era esta,
-caracteristica:&mdash;Fica revogado o director.
-</p>
-<p>
-Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era
-normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.
-</p>
-<p>
-Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a
-terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso
-das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão
-convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres
-convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle,
-novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se
-no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.
-</p>
-<p>
-Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em
-regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério,
-espantadiço das <i>femmes qui sortent</i>; havia os ingenuos, perpetuamente
-infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de
-adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os
-enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos,
-apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original
-da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam
-grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto,
-protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente,
-beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a
-corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da
-graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao
-banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua,
-em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de
-meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de
-desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes
-do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de
-outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de
-conformar-se deploravelmente com a solidão.
-</p>
-<p>
-Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos,
-morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de
-malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os
-gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma
-superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.
-</p>
-<p>
-Angela dominava-os a todos; vencia-os.
-</p>
-<p>
-As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas
-de madeira; por entre as travessas olhavamos.
-</p>
-<p>
-Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata.
-Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava
-agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por
-igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos,
-ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia
-branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a
-espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos
-para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais,
-emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição
-dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz,
-fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as
-leoas, insensivel e sobranceira.
-</p>
-<p>
-Cantava.
-</p>
-<p>
-Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento
-de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente,
-conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em
-que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito
-angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina;
-acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente
-pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.
-</p>
-<p>
-Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com
-quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando
-uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio
-tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no
-ventre.
-</p>
-<p>
-E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os
-descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança
-sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade;
-inflammava-se o <i>chalet</i> em conflagrações de enthusiasmo. Se passava
-algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra
-das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.
-</p>
-<p>
-E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos,
-entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a
-erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer
-graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a
-expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.
-</p>
-<p>
-Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira
-sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos
-além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar
-fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais
-estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em
-questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes
-torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por
-medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo
-sentinella um durante a ausencia do outro.
-</p>
-<p>
-Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do
-salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem
-recorrer ás modalidades de expressão&mdash;actualmente, virtualmente, que
-o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito
-seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha;
-incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um
-roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição
-odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação
-violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios,
-conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação,
-trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia
-delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez
-soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira
-classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma
-paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante,
-ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve
-remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o
-chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis;
-tambem quem trahisse apanhava.
-</p>
-<p>
-A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre
-que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata,
-era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro
-fabuloso do Malheiro era a sancção.
-</p>
-<p>
-Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não
-escaldassem as horas nocturnas ao <i>chalet</i>. Ah! o passeio livre do
-jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação
-prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha
-recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada;
-aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo,
-sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para
-subir.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura37.jpg" width="200" height="300" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um
-accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma
-diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que
-me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da
-hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.
-</p>
-<p>
-Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.
-</p>
-<p>
-Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de
-maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação
-as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira,
-enfermeirazinha cuidadosa.
-</p>
-<p>
-Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do
-coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias
-molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo
-escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de
-cousas improvadas!
-</p>
-<p>
-No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer,
-prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava
-a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo
-opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o
-diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.
-</p>
-<p>
-Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous
-páus.
-</p>
-<p>
-Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça.
-Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois,
-do interesse de todos em abafar o negocio.
-</p>
-<p>
-Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o
-companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal
-pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.
-</p>
-<p>
-Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa, evoquei a
-memoria da affronta que me devia Romulo. Era justo. Recolhi pouco a
-pouco a corda de lençóes, firmei forte as barras da grade e fui
-dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injuria, que o sangue não lava,
-bem póde lavar uma ducha de enchurro.
-</p>
-<p>
-Estava vingado!
-</p>
-<p>
-No outro dia appareceu o gorducho entanguido, encatarrhado, furibundo,
-em chinellos sem meias, calças, camisa de naufrago, miserando, cercado
-pelo espanto de todos e pela galhofa.
-</p>
-<p>
-Passara a noite sob a janella pedindo misericordia ao sarrafo
-impassivel, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper
-do dia, Aristarcho o foi achar no lastimoso estado.
-</p>
-<p>
-A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a
-aventura. Fez-se de esquerdo.
-</p>
-<p>
-«Ora o rapaz!...» exclamou com uma satisfação muito intima.
-</p>
-<p>
-E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XI">XI</a></h4>
-
-<p>
-O Dr. Claudio encetou uma serie de prelecções aos sabbados, á
-imitação das que fazia ás quintas Aristarcho sobre logares communs de
-moralidade. Philosophia, sciencia, litteratura, economia politica,
-pedagogia, biographia, até mesmo politica e hygiene, tudo era assumpto;
-interessantissimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do
-director, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de attenção.
-</p>
-<p>
-Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a
-genese das rochas, fecundidade infernal do incendio primitivo, do
-granito, do porphyro, primogenitos do fogo; o grande somno millenario
-dos sedimentos, perturbado de convulsões titanicas.
-</p>
-<p>
-Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica
-de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das
-arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a
-escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das
-metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao
-homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros
-resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando
-as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo
-diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.
-</p>
-<p>
-Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo,
-lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente,
-a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz.
-Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante,
-que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro.
-Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da
-giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do
-inaccessivel.
-</p>
-<p>
-Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões
-virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que
-póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira
-a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a
-microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da
-monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis
-da terra.
-</p>
-<p>
-O homem finalmente&mdash;ventre, coração e cerebro, politica, poemas,
-criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector
-immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o
-sol não sente.
-</p>
-<p>
-Falava uma vez sobre educação.
-</p>
-<p>
-Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o
-condemna.
-</p>
-<p>
-É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião
-de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a
-injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as
-linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a
-humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os
-predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam
-as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão
-exacerba as tendencias ingenitas?
-</p>
-<p>
-Tanto melhor: é a escola da sociedade.
-</p>
-<p>
-Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso
-que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em
-que se realise o mais cedo.
-</p>
-<p>
-A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem
-das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.
-</p>
-<p>
-A energia para affrontal-as é a herança de sangue dos capazes da
-moralidade, felizes na loteria do destino. Os desherdados abatem-se.
-</p>
-<p>
-Ensaiados no microcosmo do internato, não ha mais surprezas no grande
-mundo lá fora, onde se vão soffrer todas as convivencias, respirar
-todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialectica geral,
-e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde,
-porque a perfidia terra-terra é um dos processos mais efficazes da
-vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quasi sempre a condição
-do exito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma
-redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca
-para as dissoluções babylonicas do instincto; onde o que é nullo,
-fluctua e apparece, como no mar as perolas immersas são ignoradas, e
-sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.
-</p>
-<p>
-O internato é util; a existencia agita-se como a peneira do garimpeiro:
-o que vale mais e o que vale menos, separam-se.
-</p>
-<p>
-Cada mocidade representa uma direcção. Hão de vir os disfarces, as
-hypocrisias, as suggestões da habilidade, do esclarecimento
-intellectual; no fundo a direcção do caracter é invariavel. A
-constancia da bussola é uma; temos todos um norte necessario: cada um
-leva ás costas o sobrescripto da sua fatalidade. O collegio não
-illude: os caracteres exhibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O
-que tem de ser, é já. E tanto mais exacto, que o encontro e a
-confusão das classes e das fortunas equipara tudo, supprimindo os
-enganos de apparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior,
-que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.
-</p>
-<p>
-E não se diga que é um viveiro de máus germens seminario nefasto de
-máus principios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que
-faz a sociedade; o internato a reflecte. A corrupção que alli viceja,
-vae de fóra. Os caracteres que alli triumpham, trazem ao entrar o
-passaporte do successo, como os que se perdem, a marca da condemnação.
-</p>
-<p>
-O externato é um meio termo falso em materia de educação moral; nem a
-vida exterior impressiona, porque a familia preserva, nem o collegio
-vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivencia
-de mundo á parte, que só a reclusão do grande internato occasiona. O
-internato com a somma dos defeitos possiveis é o ensino pratico da
-virtude, a aprendizagem do ferreiro á forja, habilitação do luctador
-na lucta. Os deuses sacrificam-se; não prevalecem. Os gymnasios são
-para os privilegiados da saude. O rheumatismo deve ser um pessimo
-acrobata. Erro grave combater o internato.
-</p>
-<p>
-Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se
-multiplique a escola positiva do conflicto social com os máus
-educadores e as companhias perigosas, na communhão corruptora, no
-tédio de claustro, de inacção, de carcere; cumpre que os generosos
-ardores da alma primitiva e ingenua se disciplinem na desillusão crua e
-prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais
-que flanar facilmente, mãos ás costas, fronte ás nuvens, através das
-praças desimpedidas da republica de Platão.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura38.jpg" width="200" height="300" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Durante a conferencia pensei no Franco. Cada uma das opiniões do
-professor, eu applicava onerosamente ao pobre eleito da desdita,
-pagando por trimestre o seu abandono naquella casa, aluguel do desprezo.
-Lembrava-me do desembargador em Matto-Grosso e da carta que eu lera e da
-irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das
-maneiras, da concentração muda de odios, dos movimentos incompletos de
-revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.
-</p>
-<p>
-Depois da conferencia fui visital-o.
-</p>
-<p>
-Estava de cama no salão verde, á direita, perto das janellas. Andava
-adoentado desde a ultima vez que fôra á prisão.
-</p>
-<p>
-Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatorios;
-sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, á
-distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros
-gradeados daquella especie de immensa adega. O chão era de terra
-batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro humido de cogumelos
-pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista,
-distinguia-se no meio uma especie de gaiola ou capoeira de travessões
-fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma taboa pregada, por
-mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafúa.
-</p>
-<p>
-Engaiolava-se o condemnado na amavel companhia dos remorsos e da
-execração; ainda em cima, uma tarefa de paginas, para a qual o mais
-difficil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um
-rato no invisivel; ás vezes vinham subir ás pernas do condemnado os
-animaezinhos repugnantes dos logares lobregos. Á soltura surgia o
-preso, pallido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma cousa
-incrivel. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.
-</p>
-<p>
-Franco saiu doente.
-</p>
-<p>
-Alguns collegas mostravam interesse por elle. Franco respondia com
-aspereza: não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia
-de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, elles mesmos, o
-Sylvino, Aristarcho, todos os seus algozes! Raciocinava como as victimas
-da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E occultou
-que soffria.
-</p>
-<p>
-Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se á
-soalheira, ao sereno, de proposito.
-</p>
-<p>
-Um dia não pôde levantar-se.
-</p>
-<p>
-Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe nauseas, elle corria á
-janella. Em baixo havia um pé de magnolias, copado como um bosque; elle
-no intervallo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do
-vómito contra as amplas flôres alvas.
-</p>
-<p>
-Encontrei-o mal.
-</p>
-<p>
-Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de
-cobertores que os vizinhos haviam cedido, affectava o descuido infantil,
-na physionomia, a indifferença horripilante, suprema dos que não vão
-longe. Fiquei surprehendido e aterrado.
-</p>
-<p>
-O medico, a chamado de Aristarcho, viera duas vezes. Condemnou a idéa
-de remover-se o doente; recommendou cuidado com as vidraças;
-diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o <i>recipe</i>, partindo ambas
-as vezes com a discrição hermetica que faz a importancia da classe.
-</p>
-<p>
-Perguntei ao Franco como passava. Elle agitou de vagar as palpebras e
-sorriu-se. Nunca lhe conheci tão bello sorriso, sorriso de criança á
-morte. Oito horas da noite. O gaz attenuado produzia effluvios
-contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos
-outros dormitorios, em cujas vidraças espelhantes devia passar
-successivamente a minha sombra. Procurei o director e communiquei-lhe os
-meus terrores.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, um domingo alegre. Franco estava morto.
-</p>
-<p>
-O correspondente compareceu em pessoa para as indispensaveis
-providencias. Transferiu-se o corpo para a capella, onde se erigia a
-eça. Aristarcho chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao
-collegio o apparato de um grande enterro, pregão talvez de
-insalubridade.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 250px;">
-<img src="images/figura39.jpg" width="250" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado.
-Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espolio da
-morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó
-chinez, uma velha correia sem fivella, uma photographia gorda de mulher
-despindo os seios, cartas á tôa e um maço consideravel de boas notas,
-arranjadas ninguem sabe como, com assignaturas falsas de professores, e
-o nome de Franco, fraude de successo com que o pobre pretendia
-maravilhar o magistrado de Cuyabá.
-</p>
-<p>
-Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóes um cartão: uma gravura,
-Santa Rosalia! a minha padroeira desapparecida. Morrera talvez
-beijando-a, o pária.
-</p>
-<p>
-Pouco tempo depois, o <i>Atheneu</i> em festa.
-</p>
-<p>
-Preparava-se a solemnidade da distribuição biennal dos premios. As
-benemerencias andavam famintas de corôas. Suspenderam-se as aulas. Era
-preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se
-projectava cousa nunca vista. Alguns discipulos tinham prevenido ao
-director, guardavam-lhe uma surpreza: a offerta de um busto de bronze!
-Aristarcho predispunha-se para a surpreza com todas as veras da alma. Um
-busto! era a remuneração que chegava dos impagaveis esforços, a
-sonhada estatua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais
-tarde, offerecer-lhe-iam o abdomen, bella pança metallica e magnifico
-umbigo de bonzo gordo, saliente como um murro; depois, o prolongamento
-do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe offerecessem as
-botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, elle mesmo
-offerecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, accumuladas, as peças do
-seu orgulho, a pilha dos seus anhelos, a estatua! surgida aos poucos da
-sinceridade vagarosa das oblações, como difficilmente a gloria, do
-escrutinio demorado dos tempos.
-</p>
-<p>
-Devia ser uma solemnidade sem memoria nos fastos da pedagogia
-triumphante, um obelisco de despezas, de luxo, de esplendor, a cuja
-ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpreza, galardão
-das altas qualidades e pirraça suprema á concorrencia dos rivaes.
-</p>
-<p>
-Não havia sala no <i>Atheneu</i> que comportasse tão vasta festividade; nem
-o proprio logar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o
-pateo central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma
-barraca incalculavel, a maior barraca que a imaginação humana tem
-concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o panno
-emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as
-archibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a
-exhibição dos laureados. Por intermedio do ajudante-general da armada,
-que tinha dous filhos no estabelecimento, podia-se commodamente obter a
-lona.
-</p>
-<p>
-Durante alguns dias chegaram ao <i>Atheneu</i> cargas immensas de panno.
-Espichavam-se os rolos no pateo, ao longo das paredes. Appareceram em
-seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.
-</p>
-<p>
-Em meio dos operarios iam e vinham os estudantes, ajudando,
-atrapalhando, ás carreiras, aos saltos, aos gritos, presentindo a
-felicidade do dia solemne. Aristarcho approvava o tumulto; queria
-vêl-os alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de panico;
-alguns rapazes tinham ido para casa, receiosos da febre.
-</p>
-<p>
-O alvoroço dos preparativos reanimava o <i>Atheneu</i>. Em poucos dias
-atravancou-se o pateo de postes e travessões, taboas e pés de serra,
-como um desmedido estaleiro. Os martellos batiam por todos os cantos com
-a crepitação continua dos tiroteios. Desapparecia a terra sob a poeira
-dos páus cortados. Aristarcho fiscalisava o serviço como mestre de
-obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da
-serragem fresca, cheiro de officina, cheiro do trabalho, ouvindo
-attritar os serrotes com um rumor de fabrica, que lembrava os haustos de
-offego do vapor ao vaevem poderoso dos embolos. Havia um prazer especial
-naquillo; crescer do chão em tres dias por honra sua a floresta das
-vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens activos e azafamados;
-cantarem as taboas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como
-um desafio ás exaltações, e prejulgar do effeito total, quando tudo
-fosse belbutina e panninho, e o concurso da população invadisse, e
-assomasse, de um terremoto de acclamações o busto, altaneiro e luzente.
-</p>
-<p>
-Certo não foi tão nobre o orgulho d'aquelles monarchas das pyramides,
-idiotas macabros e collossaes, architectos inuteis de sepulcros.
-</p>
-<p>
-Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se
-sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janellas
-do pateo abriam-se para o amphitheatro como tribunas.
-</p>
-<p>
-Os armadores comprometteram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo
-que póde produzir de apparatoso o bem combinado das côres vivas e os
-apanhados de cassa fluctuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as
-columnatas de papelão; tudo que póde a concordancia assombrosa da
-scenographia e da ripa, armou-se no pateo profusamente.
-</p>
-<p>
-Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flôres claras. Em
-parte da archibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras.
-Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na taboa dura. As
-abertas de construcção que não podiam ficar assim em osso, foram
-empannadas de velludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos
-assentos havia uma linha de balaustres espiralados de fitas. Em cada
-balaustre um escudo com o nome do um pedagogo celebre. Por delicadeza
-incluiram o nome de Aristarcho varias vezes. Aristarcho não reparou.
-</p>
-<p>
-Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degráus para um longo
-estrado, fronteiro á entrada do amphitheatro, apoiado á parede da sala
-geral de estudo. Erguia-se alli um throno, sob um docel, para a Princeza
-Regente. De vez em quando, Aristarcho, cançado de tanto mover-se, subia
-ao throno, sentava-se. Fazia-lhe bem o docel por cima. E dava regras aos
-armadores, de lá, como um soberano precavido dictando o esplendor da
-coroação.
-</p>
-<p>
-Os iniciadores da subscripção do busto haviam concluido a tarefa. Eram
-dous: o Climaco, alumno gratuito, e o professor de desenho. Climaco,
-moço de espirito pratico, não levou muito a ruminar uma feliz idéa. E
-se offerecessemos um busto ao nosso director? Lembrou-se a principio de
-congregar os gratuitos; mas repelliu immediatamente a lembrança por
-inexequivel. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais
-barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram
-frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora
-para outra. Consultasse os collegas, que, se a idéa pegasse, não
-teriam duvida. Alguns mais acanhados assignaram logo; alguns, ainda, dos
-pequenos assignaram sem saber claramente o que significava a cousa. Em
-poucos minutos a existencia da subscripção estava no dominio publico.
-Começou a pressão irresistivel de facto. Que miseria! hesitar por dez
-mil réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho publico de
-agradecimento que a offerta do busto significava? Era uma desfeita ao
-director! Os primeiros signatarios encarniçavam-se com despeito em
-coagir os outros, como se não quizessem ser os unicos sangrados.
-</p>
-<p>
-Já não era preciso esforço do iniciador. A idéa ganhava terreno por
-si; em dous dias inteirava-se a subscripção. Muitos pegavam á vista;
-os que não tinham dinheiro iam tirar ao escriptorio, e o guarda-livros
-em segredo debitava o valor, despezas diversas, na conta do trimestre.
-</p>
-<p>
-Diante da facilidade de obter o dinheiro, Climaco resolveu sensatamente
-dispensar do rateio os gratuitos: adheriam com a intenção sincera.
-Razoavel. Quando principiaram os preparativos da solemnidade, já o
-busto, obra de zeloso artista, estava fundido.
-</p>
-<p>
-No dia 13 de Novembro, ás nove horas, começou a affluencia. O
-amphitheatro do pateo estava fechado ainda. Os convidados que
-appareciam, depois de comprimentar o director, espalhavam-se a passear
-em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento,
-examinando os apparelhos escolares, as cartas de parede, as maximas
-sabias, meditando a seriedade do ensino naquella casa. A aflluencia
-augmentou. Os convites tinham sido distribuidos largamente pela cidade.
-As onze horas era difficil circular no <i>Atheneu</i>. A festa principiava
-ás duas. Ao meio-dia franqueou-se o amphitheatro.
-</p>
-<p>
-Foi como se se houvera aberto o seio de Abrahão. A ultima demão dos
-armadores fôra digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta
-ás archibancadas, no alto, em bambinella, em fachas entrelaçadas,
-balançantes, o côr de rosa dos sorrisos infantis com uma tira
-alaranjada do arrebol; immediatamente depois, uma zona de vivo
-escarlate, ferindo sangue ás veias do mais subido jubilo; aprumavam-se
-as columnatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degráus
-da archibancada, velludo e galões. Perto do throno, elevava-se um
-palanque para o corpo docente; ao lado opposto, symetricamente, outro
-palanque para a banda de musica e para os cantores. Não se via mais o
-tecto de lona: alças enormes de ramaria e flôres enredavam-se ao alto
-em graciosa desordem, flaccidas, pendentes, como um diluvio de primavera
-a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do tecto e o
-tapete pardo, vagava a serenidade obscura das cathedraes e das
-florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam
-guardavam silencio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho,
-cochichos de missa, surdina avelludada, amortecida, como se estivesse
-falando o tapete. A cornija de sanefas vibrava em desconcerto com a
-melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem
-contrastavam ainda mais, abrindo-se á irrupção do dia.
-</p>
-<p>
-Os alumnos entravam fardados, subiam, abancavam-se á esquerda, fazendo
-tremer o edificio todo de carpintaria. Aristarcho veio ficar á porta.
-Immenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima d'elle
-como para mostral-o. Calças pretas, casaca, peito blindado de
-condecorações, uma fita de dignitario ao pescoço, que o enforcava de
-nobreza. Mirando! A suprema correcção, a envergadura imponente do
-talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma
-umbigada de empafia. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se
-orgulha do commandante. O Mestre invejavel, desempenado, brilhante para
-a festa, como se houvesse engolido um armador.
-</p>
-<p>
-Ao redor de Aristarcho, ajudantes de ordens, apressavam-se os membros de
-uma commissão de recepção, composta de professores de bella
-presença, e alumnos em condições semelhantes. Realisavam com o
-director um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do
-amphitheatro comprimia-se a multidão dos convidados. Aristarcho e os
-ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os paes, as familias dos de
-mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo
-os mais proximos. Os escolhidos eram levados para as archibancadas de
-cadeiras. Se encontravam nos logares especiaes quem para lá não
-houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a
-familia do visconde de Tres Estrellas não podia ir para as taboas núas.
-Este rigor de etiqueta fazia suar a commissão, embaraçada na massa da
-concorrencia. Aristarcho aproveitava tambem para desforrar-se dos
-pagadores morosos da escripturação. Afinal deu na vista a pescaria dos
-selectos. Houve murmurios, estremecimento de surda revolta; os convites
-eram todos iguaes! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se
-muitos esgueirando sem mais vêr director nem commissionados de
-cortezia.
-</p>
-<p>
-O amphitheatro encheu-se tumultuariamente.
-</p>
-<p>
-A Princeza Serenissima, com o augusto esposo, chegou pontual ás duas
-horas, accedendo ao convite que recebera primeiro que ninguem.
-</p>
-<p>
-As duas e tres minutos, subia á tribuna Aristarcho. Não preciso dizer
-que a <i>caranguejola</i> soffrera mais uma das grandes commoções da
-malfadada existencia. Alli estava, paciente e quadrada, no exercicio
-effectivo de porta-rhetorica. Ficava á direita do solio da princeza e
-diante do <i>Orpheon</i>.
-</p>
-
-<div class="figleft" style="width: 250px;">
-<img src="images/figura40.jpg" width="250" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Aristarcho inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um
-olhar sobre o amphitheatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez
-na vida sentiu-se mal diante de um auditorio. A massa de ouvintes
-apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A côr
-preta das casacas e paletots generalisava-se no espaço como uma
-escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semi-circulo negro, enorme. A
-impressão simultanea do publico impedia-lhe reconhecer uma physionomia
-amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma cousa antes da
-eloquencia rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi
-ter a um objecto que o chamou á consciencia de si mesmo. Diante da
-tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma
-fórma indeterminada, mysteriosamente envolta numa capa de lã verde. A
-surpreza! Era elle, que alli estava encapado na expectativa da
-opportunidade; elle bronze imperterrito, sua effigie, seu estimulo, seu
-exemplo: mais elle até do que elle proprio, a tremer; porque bronze era
-a verdade do seu caracter, que um momento absurdo de fraqueza
-desfigurava e subtrahia. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças
-de flôres, o vigamento, a belbutina, a architectura dos palanques, os
-galões alfinetados, todas as sanefas de panninho, o olhar dos
-discipulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era
-o seu triumpho por seu triumpho, e o embaraço desvaneceu-se. A
-inspiração ferveu-lhe de engulho á guela, vibrou-lhe electrica na
-lingua, e elle falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço
-sobresalente que trouxera, improvisou como Demosthenes, inundou a arena,
-os degráus do throno as ordens todas da archibancada até á oitava,
-com o mais espantoso chorrilho de facundia que se tem feito correr na
-terra.
-</p>
-<p>
-O assumpto conjectura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de
-apostolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das commendas tinha as
-cicatrizes. As settas que lhe varavam a alma não se podiam vêr bem por
-causa do collete. Avaliava-se pela descripção: devia ser horrivel.
-Depois dos soffrimentos, os serviços.
-</p>
-<p>
-O educador é como a musica do futuro, que se conhece em um dia para se
-comprehender no outro: a posteridade é que havia do julgar. Quanto ao
-seu passado, nem falemos! não olhava para traz por modestia, para não
-virar monumento, como a mulher de Loth. Com o <i>Atheneu</i> estava
-satisfeito; uma sementeira razoavel; não se fazia rogar para florescer.
-Corações de terra roxa, onde as licções do bem pegavam vivo. Era
-cair a semente e a virtude instantanea espipocava. Uma maravilha,
-aquella horta fecunda! Antes de maldizerem, do hortelão, calumniadores
-e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as
-tronchudas couves, crespas, modestas, serviçaes, as candidas alfaces,
-as sensiveis cebolas de lagrima tão facil quanto sincera, as instruidas
-batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguem
-planta; os alhos, typos eternos, ás vezes porros, da vivacidade bem
-aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas
-beringelas, nem os mastruços innommaveis, nem os agriões amargos, nem
-os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoiraba
-dos banhos, que tem uma flôr galante, mas que afinal é matto. Horta
-paradisiaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos premios
-mostraria.
-</p>
-<p>
-Podia concluir voltando á vacca fria do louvor em bocca propria;
-preferiu uma simples bomba qualquer de rhetorica, porque o mestriculo
-Venancio ia tambem falar, e, na qualidade de pagem por dedicação,
-disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glorias.
-</p>
-<p>
-Seguiram-se algumas peças da banda do <i>Atheneu</i> e os hymnos escolares.
-</p>
-<p>
-Na parte concertante diziam que Aristarcho mandara encartar um solo de
-zabumba para exhibir o genro. Caçoadas.
-</p>
-<p>
-A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarcho leu um
-relatorio do movimento litterario nos dous ultimos annos. Lembrou o nome
-dos alumnos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e
-convidou o secretario a evocar, por ordem de merecimento, os novos
-premiados. Extensa lista. A cada nome descia um alumno, branco de
-emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.
-</p>
-<p>
-Á esquerda do throno estava uma longa mesa, a que sentavam-se o
-Ex.<sup>mo</sup> ministro do imperio e varios figurões da Instrucção
-Publica.
-</p>
-<p>
-Diante d'elles, a cavalleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pyramide
-verde de corôas de carvalho, papel e arame, e outra de corôas de ouro,
-idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em
-quantidade.
-</p>
-<p>
-No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente
-encadernados. O premiado recebia tres, dous, um d'aquelles volumes, a
-medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amavel do ministro, e saía
-com tudo, zonzo.
-</p>
-<p>
-Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos
-diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior
-ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em
-equilibrio até á bancada.
-</p>
-<p>
-O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.
-</p>
-<p>
-Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais
-outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches,
-Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o
-Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e
-numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não
-contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça
-distribuida.
-</p>
-<p>
-Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa
-sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida
-grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella
-estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves
-pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara
-temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou
-simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro
-publico dos «a pedidos».
-</p>
-<p>
-Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as
-senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes,
-distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da
-formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia
-ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia
-juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas,
-forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora
-de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de
-transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as
-estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia
-altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso
-grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á
-procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril,
-vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas
-bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de
-suissas.
-</p>
-<p>
-D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz
-alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o
-cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do
-poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja,
-como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se
-percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O
-grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao <i>Atheneu</i> exclusivamente para
-declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo
-obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios,
-teve a palavra.
-</p>
-<p>
-Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de
-barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o
-palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza
-Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.<sup>mo</sup> do imperio,
-ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão
-incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada
-mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora,
-carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como
-patadas, esmagando, rompendo avante.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura41.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas.
-Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a
-poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi
-formidavel.
-</p>
-<p>
-Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador,
-seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.
-</p>
-<p>
-Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella
-solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta
-bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A
-propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação
-do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja
-a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio,
-immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle
-mundo! Não importa! Viva o heroismo.
-</p>
-<p>
-Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para
-corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.
-</p>
-<p>
-O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde
-o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das
-adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e
-sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem
-monumental do director.
-</p>
-<p>
-Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma
-metamorphose. Venancio era o seu esculptor.
-</p>
-<p>
-A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia
-metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia
-inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma
-artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de
-ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos
-desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em
-modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por
-dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias
-comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se,
-mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico,
-rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de
-bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem
-individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.
-</p>
-<p>
-«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.
-</p>
-<p>
-Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um
-cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da
-offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda
-estilhaçar-se contra o metal novo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E
-saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira,
-collocou-a sobre a figura.
-</p>
-<p>
-Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica
-de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo
-da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o
-busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e
-osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa
-d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de
-Aristarcho, que nem ao menos era gente!
-</p>
-<p>
-Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se,
-atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de
-louros ao busto.
-</p>
-<p>
-Louvaram todos a magnanimidade da modestia.
-</p>
-<p>
-Mas o dia acabou insipido para o director. Ruminava confusamente a
-tristeza d'aquella rivalidade nova&mdash;o bronze invencivel.
-</p>
-<p>
-Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestaes?
-</p>
-<p>
-Que vale a estatua, se não somos nós? A adopção do pedestal nas
-mobilias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da gloria,
-de vez em quando, da gloria effectiva, gloria actual, gloria pratica.
-</p>
-<p>
-Tinha-se alli a um canto a columna. Era vir a necessidade, nada mais
-facil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se
-immovel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era acceitar a
-verdade amarga.
-</p>
-<p>
-O monumento prescinde do heróe, não o conhece, demitte-o por
-substituição, sopêa-o, anulla-o.
-</p>
-<p>
-Com os diabos! Por que ha de ser isto afinal a immortalidade: um pedaço
-de marmore sobre um defunto?!
-</p>
-<p>
-Á noitinha retiravam-se os convidados, as familias, multidão confusa
-de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem premio,
-os paes odiando o director, olhando como vencidos para os que passavam
-satisfeitos, os outros paes, os collegas do filho, menos infatuados da
-propria victoria que da humilhação alheia.
-</p>
-<p>
-Humilde, a um canto, á beira da corrente dos que iam, pouco além da
-entrada do amphitheatro, mostraram-me uma familia de lucto&mdash;a familia
-do Franco. O desembargador, de chapéo na mão, esquecendo de cobrir-se;
-homem baixo, physionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo,
-olhos miudos, palpebras em bolsa.
-</p>
-<p>
-Tinha vindo de Matto Grosso um anno mais tarde do que pretendia. O
-correspondente dera a noticia.
-</p>
-<p>
-Andava agora mostrando á familia o Rio de Janeiro. Viera á festa
-collegial, ao collegio do filho, para distrahir a filha, a raptada, que
-alli estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pallida, delgada,
-num idiotismo sombrio, insanavel de melancolia e mudez, pestanas caidas,
-olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma cousa.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XII">XII</a></h4>
-
-<p>
-Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço
-agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo
-gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal.
-Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento
-succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o
-momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...
-</p>
-<p>
-Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado.
-Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.
-</p>
-<p>
-Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que
-nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a
-vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da
-sensibilidade&mdash;eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um
-perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como
-se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em
-resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes
-do coração quando o sentimento exacerba-se&mdash;a sensualidade dissolvente
-dos sons.
-</p>
-<p>
-Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade
-morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas
-crescidas, fugia solta.
-</p>
-<p>
-E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das
-paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle
-rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados,
-negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me
-tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe
-fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente
-clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra
-no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase
-fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças
-confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens,
-enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano
-obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena
-atmosphera...
-</p>
-<p>
-Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto,
-sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas
-brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares
-achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam
-na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o
-torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para
-descer aos escaleres...
-</p>
-<p>
-Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras
-arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das
-mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta
-collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num
-ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas.
-No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias
-compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna
-ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do
-coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas,
-rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se
-suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que
-dançavam na brisa a lembrança choreographica da <i>soirée</i> mais
-recente.
-</p>
-<p>
-Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando
-ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no
-seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com
-uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos,
-empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para
-distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os
-olhos.
-</p>
-<p>
-Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar
-no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como
-derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena,
-aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens
-do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as
-cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a
-verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia
-cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de
-Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem
-tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha
-signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na
-coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem
-ella.
-</p>
-<p>
-Cessava a musica...
-</p>
-<p>
-As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava
-simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe,
-gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente,
-attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro,
-tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas
-infimas da vida pulverisadas na luz...
-</p>
-<p>
-A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de
-musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar
-se eu dormia, saber como passava agora.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 250px;">
-<img src="images/figura42.jpg" width="250" height="250" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no
-seu carinho de enfermeira, de mãe.
-</p>
-<p>
-Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se.
-Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos
-aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas
-seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as
-palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia
-d'aquella attenção.
-</p>
-<p>
-Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me
-a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um
-diadema de felicidade.
-</p>
-<p>
-Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os
-mais suaves vapores do narcotismo oriental.
-</p>
-<p>
-Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a
-saude.
-</p>
-<p>
-Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois
-da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem
-menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa,
-levando a familia. Eu ficara no <i>Atheneu</i>, confiado ao director, como
-a um correspondente.
-</p>
-<p>
-Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o
-<i>Atheneu</i> deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um
-lagarto. Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as
-carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas
-com alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais
-teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam
-o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava
-um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores
-reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.
-</p>
-<p>
-Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella
-restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o
-deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.
-</p>
-<p>
-Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que
-debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros,
-começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um
-sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do
-aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse
-de chumbo.
-</p>
-<p>
-Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no
-corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na
-enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da
-natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi
-para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar,
-que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.
-</p>
-<p>
-A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral,
-com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as
-outras peças.
-</p>
-<p>
-A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de
-delirio, como uma irmã de caridade.
-</p>
-<p>
-Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca.
-Fôra-lhe prohibida a entrada.
-</p>
-<p>
-Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao
-reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão
-bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo
-esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da
-dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso
-queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú,
-que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar
-no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como
-uma sombra por um chão de paina.
-</p>
-<p>
-Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em
-um ninho.
-</p>
-<p>
-Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre.
-Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos,
-gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se
-como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas
-desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe
-quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira.
-Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha,
-alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se,
-insensivelmente, evaporava-se.
-</p>
-<p>
-Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa,
-ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A
-amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que
-acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma
-brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de
-execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons
-profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma
-enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final,
-sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer;
-fórma sem materia, turba de espiritos aereos.
-</p>
-<p>
-A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me
-até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra.
-Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um
-muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro;
-depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia,
-a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor
-revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim
-aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da
-hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do
-campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas,
-que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço!
-Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve
-enlace; tocava-me com o quadril em descanço.
-</p>
-<p>
-Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura,
-inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando
-os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em
-affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.
-</p>
-<p>
-Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da
-boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava
-agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim.
-Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as
-recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as
-linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento
-uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para
-aquella inercia intensa, avassallando.
-</p>
-<p>
-Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume
-insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a
-situação. A convalescença progredia; era um desgosto.
-</p>
-<p>
-No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu
-passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma,
-uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel
-presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos
-cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á
-noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto
-nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto
-olhar.
-</p>
-<p>
-O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira
-visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana.
-Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria,
-reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento
-limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das
-alturas a crepitação das estrellas ardendo.
-</p>
-<p>
-Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo,
-entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma
-insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada.
-O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que
-acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho,
-pelas paredes.
-</p>
-<p>
-Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no
-fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e
-pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de
-tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na
-região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.
-</p>
-<p>
-Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar
-da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.
-</p>
-<p>
-Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.
-</p>
-<p>
-«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade.
-Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais
-preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a
-actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra
-covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza
-afrouxa.
-</p>
-<p>
-Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes
-de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o!
-salvar o naufrago do tempo.
-</p>
-<p>
-Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das
-acções.
-</p>
-<p>
-Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a
-despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira
-prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não
-mentir é simples.
-</p>
-<p>
-... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são
-mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia
-que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um
-vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre
-os ricos.
-</p>
-<p>
-A agitação não me faz bem.
-</p>
-<p>
-Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de
-ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das
-fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se,
-desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que
-foge.
-</p>
-<p>
-Dou-te a minha benção...»
-</p>
-<p>
-Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a
-carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente,
-como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da
-palma o gozo immortal da viva verdade.
-</p>
-
-<div class="figright" style="width: 200px;">
-<img src="images/figura43.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o
-amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á
-noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos
-essas cousas.
-</p>
-<p>
-Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que
-se aproximam são os mais traidores...»
-</p>
-<p>
-A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a
-entranhada familiaridade dos casaes.
-</p>
-<p>
-Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio,
-meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande,
-vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem
-causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.
-</p>
-<p>
-Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do
-peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.
-</p>
-<p>
-Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e
-olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de
-olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas
-historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da
-bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na
-garganta como um collar sonoro.
-</p>
-<p>
-Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao
-collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido,
-inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor.
-Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair
-sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo
-tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em
-sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.
-</p>
-<p>
-E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria
-vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os
-ultimos dias...
-</p>
-<p>
-E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...
-</p>
-<p>
-Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri
-violentamente a janella. O <i>Atheneu</i> ardia.
-</p>
-<p>
-As chammas elevavam-se por cima do <i>chalet</i>, na direcção do edificio
-principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da
-parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por
-um clarão côr de cobre.
-</p>
-<p>
-Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.
-</p>
-<p>
-As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da
-enfermaria.
-</p>
-<p>
-Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de
-pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o
-primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais
-enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez
-não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De
-repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas
-reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello,
-com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até
-ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha
-velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar
-irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o
-fazendeiro: «Tenho visto peiores.»
-</p>
-<p>
-Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o
-discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu
-filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina
-complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente,
-vendo-o apresentar-se em casa, evadido.
-</p>
-<p>
-Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou
-esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.
-</p>
-<p>
-Ardia effectivamente o <i>Atheneu</i>. Transpuz a correr a porta de
-communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.
-</p>
-<p>
-Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte
-dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos
-restantes andavam como doudos, incertos, gritando: <i>fogo</i>!
-</p>
-<p>
-Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas
-bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao
-redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para
-salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.
-</p>
-<p>
-O incendio principiara no saguão das bacias.
-</p>
-<p>
-Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção
-de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas,
-reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.
-</p>
-<p>
-O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta
-consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando
-sobre o <i>Atheneu</i>, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a
-altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem
-metros acima.
-</p>
-<p>
-O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações,
-clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito
-da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um
-sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.
-</p>
-<p>
-O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios
-clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.
-</p>
-<p>
-Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam
-fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos
-do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a
-atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa
-arvore sacudida.
-</p>
-<p>
-Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os
-desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de
-descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas.
-Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente
-desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis,
-as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio
-despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras
-lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a
-vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo
-chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas
-cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do
-incendio, moviam-se os bombeiros.
-</p>
-<p>
-Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada,
-capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma
-de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas,
-entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado,
-cortando o vigamento, destruindo a mobilia.
-</p>
-<p>
-Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a
-chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços
-miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de
-ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia
-sapecada.
-</p>
-<p>
-A frente do <i>Atheneu</i> apresentava o aspecto mais terrivel. De varios
-pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas
-erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por
-braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no
-alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas,
-pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do
-primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo
-as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na
-tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das
-saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.
-</p>
-<p>
-Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados
-arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que
-vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As
-imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam
-enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio,
-como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio,
-com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo
-um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra
-de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro
-pulha.
-</p>
-<p>
-O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era
-uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do
-Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo.
-Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos
-profissionaes do esguicho.
-</p>
-<p>
-No sinistro do <i>Atheneu</i> a cousa foi evidente. Depois das bombas, a
-violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das
-entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto.
-Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas,
-carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se
-boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros,
-como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis,
-precipitando-se no sumidouro.
-</p>
-<p>
-No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.
-</p>
-<p>
-«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!&mdash;Dizem que foi
-proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde
-estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam
-que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do
-tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e
-aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras
-do estabelecimento e do luxo do director.
-</p>
-<p>
-A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da
-cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero
-de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com
-bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo
-exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa
-desolação.
-</p>
-<p>
-Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero
-não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas
-importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em
-minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos.
-Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de
-sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.
-</p>
-<p>
-Acceitava o rigor da sorte.
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">Et comme il voit en nous des âmes peu communes</span><br />
-<span class="i2">Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera.
-Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas
-salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo.
-Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as
-paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes
-de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras
-queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de
-janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção
-continua de muitas idades de ruina.
-</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 350px;">
-<img src="images/figura44.jpg" width="350" height="350" alt="" />
-</div>
-
-<p>
-Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de
-vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes,
-apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre
-que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.
-</p>
-<p>
-Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra
-propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o
-encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do
-attentado.
-</p>
-<p>
-Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.
-</p>
-<p>
-Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho,
-tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques.
-Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director
-muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e
-compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel,
-absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte
-enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda
-envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho
-carregado.
-</p>
-<p>
-Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora.
-Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de
-crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos
-excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao
-monopolio da magoa. O <i>Atheneu</i> devastado! O seu trabalho perdido, a
-conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um
-homem aquillo; era um <i>de profundis</i>.
-</p>
-<p>
-Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria,
-apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras,
-queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia,
-gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da
-historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo
-ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas,
-espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos
-negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de
-outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de
-uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...
-</p>
-<p>
-Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua
-obra.
-</p>
-<p>
-Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras
-recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a
-occasião passageira dos factos, mas sobretudo&mdash;o funeral para sempre
-das horas.
-</p>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<p>Rio de Janeiro&mdash;Março de 1888.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>FIN</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O ATHENEU:</span> ***</div>
-<div style='text-align:left'>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Updated editions will replace the previous one&#8212;the old editions will
-be renamed.
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-forth in Section 3 below.
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-1.F.
-</div>
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-</div>
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-remaining provisions.
-</div>
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-Defect you cause.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-
-</html>
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--- a/old/68541-h/images/figura13.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura14.jpg b/old/68541-h/images/figura14.jpg
deleted file mode 100644
index 6e381e1..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura14.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura15.jpg b/old/68541-h/images/figura15.jpg
deleted file mode 100644
index f1c9153..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura15.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura16.jpg b/old/68541-h/images/figura16.jpg
deleted file mode 100644
index f9ef0b9..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura16.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura17.jpg b/old/68541-h/images/figura17.jpg
deleted file mode 100644
index 8403a0b..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura17.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura18.jpg b/old/68541-h/images/figura18.jpg
deleted file mode 100644
index 412a822..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura18.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura19.jpg b/old/68541-h/images/figura19.jpg
deleted file mode 100644
index 6c6cc90..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura19.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura20.jpg b/old/68541-h/images/figura20.jpg
deleted file mode 100644
index 0e0d104..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura20.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
index afda3d4..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura21.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura22.jpg b/old/68541-h/images/figura22.jpg
deleted file mode 100644
index 47c237a..0000000
--- a/old/68541-h/images/figura22.jpg
+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura23.jpg b/old/68541-h/images/figura23.jpg
deleted file mode 100644
index bfaaccc..0000000
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+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura24.jpg b/old/68541-h/images/figura24.jpg
deleted file mode 100644
index 4f6540e..0000000
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+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura25.jpg b/old/68541-h/images/figura25.jpg
deleted file mode 100644
index bae723d..0000000
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+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura26.jpg b/old/68541-h/images/figura26.jpg
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
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Binary files differ
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deleted file mode 100644
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+++ /dev/null
Binary files differ
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deleted file mode 100644
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+++ /dev/null
Binary files differ
diff --git a/old/68541-h/images/figura33.jpg b/old/68541-h/images/figura33.jpg
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+++ /dev/null
Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ
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Binary files differ