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-The Project Gutenberg eBook of Iracema, by José Martiniano de
-Alencar
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-using this eBook.
-
-Title: Iracema
- com uma noticia biographica do auctor
-
-Author: José Martiniano de Alencar
-
-Release Date: March 30, 2022 [eBook #67740]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- Hathi Trust Digital Library.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK IRACEMA ***
-
-
-BIBLIOTHECA UNIVERSAL
-
-ANTIGA E MODERNA
-
-
-
-
-IRACEMA
-
-
-
-
-POR
-
-JOSÉ DE ALENCAR
-
-
-COM UMA NOTICIA BIOGRAPHICA DO AUCTOR
-
-13ª SERIE--NUMERO 49
-
-
-
-
-LISBOA
-
-COMPANHIA NACIONAL EDITORA
-
-Successora de DAVID CCRAZZI e JUSTINO GUEDES
-
-40--Rua da Atalaya--52
-
-
-FILIAES: Praça de D. Pedro, 137, 1º andar, PORTO
-
-38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro
-
-
-1890
-
-
-
-
-Á TERRA NATAL
-
-UM FILHO AUSENTE
-
-
-
-
-INDICE
-NOTICIA BIOGRAPHICA
-MEU AMIGO
-IRACEMA
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-CAPITULO XIII
-CAPITULO XIV
-CAPITULO XV
-CAPITULO XVI
-CAPITULO XVII
-CAPITULO XVIII
-CAPITULO XIX
-CAPITULO XX
-CAPITULO XXI
-CAPITULO XXII
-CAPITULO XXIII
-CAPITULO XXIV
-CAPITULO XXV
-CAPITULO XXVI
-CAPITULO XXVII
-CAPITULO XXVIII
-CAPITULO XXIX
-CAPITULO XXX
-CAPITULO XXXI
-CAPITULO XXXII
-CAPITULO XXXIII
-NOTAS
-CARTA AO DR. JAGUARIBE
-
-
-
-
-NOTICIA BIOGRAPHICA
-
-
-José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais
-conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de
-janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do
-mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande
-escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode
-ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar.
-O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança
-um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na
-faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de
-bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e
-formar-se na eschola de Olinda.
-
-Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario,
-publicando varios artigos n'um periodico intitulado: _Ensaios_, e
-redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos
-annos de 1840 a 1848.
-
-Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro,
-entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios.
-Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no _Correio Mercantil_ um
-artigo de critica acerca das _Poesias_ de Augusto Zaluar. N'esse mesmo
-anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o
-não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a
-reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no
-_Correio Mercantil_ umas revistas semanaes, intituladas: _Ao correr da
-penna_ assignadas com a sigla _Al_.
-
-Em julho de 1855 sahiu da redacção do _Correio Mercantil_, e passou a
-collaborar no _Jornal do Commercio_, onde escreveu, entre outros
-artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do _Othello_ e
-outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a
-direcção do _Diario do Rio de Janeiro_, que conservou até 1858.
-
-Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por
-tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: _Cartas sobre a
-confederação dos Tamoyos_, e era uma collecção de folhetins que
-haviam sido publicados no _Diario do Rio de Janeiro_, e em que se fazia a
-critica do celebre poema de Gonçalves Dias.
-
-Em 1857, finalmente, sahia o _Guarany_ o famoso romance brazileiro, que
-produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os
-fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista
-brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de
-José de Alencar eram _plus beaux que nature_, que eram uns Indios
-ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que
-representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena.
-Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios
-actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na
-plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os
-guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de
-excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos
-mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia
-com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de
-Fennimore Cooper.
-
-Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono
-dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua,
-romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances
-europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper.
-
-Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para
-sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se
-consagrar a gloria do _Guarany_, até o grande maestro brazileiro Carlos
-Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o _libretto_
-da sua opera o _Guarany_, que é a sua obra prima, a obra prima da
-musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso tempo, que já
-hoje tem fama universal, e é representada com applauso em todos os
-theatros do mundo.
-
-O que, porém, sobretudo se apreciava no _Guarany_, e a esse respeito
-não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do
-estylo, a magnificencia das descripções da natureza.
-
-Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer
-representar uma comedia de valor secundario _Verso e reverso_, dava ao
-theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro
-brazileiro, _O Demonio familiar_. É esta comedia um magnifico estudo
-dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á
-escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na
-demonstração da influencia nefasta do _moleque_ na familia brazileira.
-_O Demonio familiar_ é esse moleque, elemento permanente de discordia e
-de desmoralisação.
-
-O _Guarany_ e o _Demonio familiar_ bastavam para assegurar a gloria de
-um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede
-insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso
-prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes
-fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto
-quanto isso é possivel a obras humanas.
-
-No theatro, pois, ao _Demonio familiar_ e ao _Verso e reverso_
-seguiram-se o _Credito_, e os _Jesuitas_, drama que foi retirado de
-scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se
-representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro
-não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico
-indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de
-um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se
-visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de
-bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel
-retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a
-um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar.
-Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os _Jesuitas_ era
-detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica,
-sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra
-litteraria.
-
-Não desanimou Alencar, e deu á scena as _Azas de um Anjo_, drama que
-se modelava um pouco pela _Dama das Camelias_, com a excepção de que
-no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro
-muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra
-verdadeiramente inepta intitulada _Manual de litteratura_, diz a respeito
-das _Azas de um Anjo_ o seguinte:
-
-"É uma tocante oração em favor da perdida.
-
-"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É
-um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que
-o francez não approvaria."
-
-Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares
-esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que
-resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente
-qualificada.
-
-Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do
-caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e
-_J.S._ acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no
-theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a
-abnegação tão proprias do caracter brazileiro.
-
-José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros
-escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira
-mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior
-ao das _Azas de um Anjo_.
-
-A ultima peça de José de Alencar foi a _Mai_, representada em 1860.
-
-N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça,
-e recebia a carta de conselho.
-
-José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario,
-não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida.
-Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no _Instituto
-Commercial_ do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na
-camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se
-enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do
-partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além
-de consultor do ministerio da justiça, director de secção.
-
-A acção da politica no litterato sente-se na _Guerra dos Mascates_,
-romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo
-um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos
-moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento
-fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta
-intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o
-lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com
-o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo
-que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador
-de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador
-D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco,
-outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de
-Inhomerim, etc., etc.
-
-O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar
-ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como
-injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em
-1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de
-José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém
-pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido
-conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara
-ao lado dos dissidentes.
-
-Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda
-dois dos seus melhores romances: o _Gaúcho_ e _Iracema_. O caracter do
-gaúcho, que adora a sua egua _Morena_, que a entende, que lhe fala e
-que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. _Iracema_ é
-sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de
-Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como
-que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O
-sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida
-homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem
-alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem
-modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever
-responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor
-portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos
-_Jesuitas_. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em
-escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas
-regras mais elementares da philologia.
-
-As _Minas de prata_ passam por ser um dos seus menos bons romances;
-encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de
-que as paizagens da sua provincia descriptas no _Til_, são
-perfeitamente phantasistas; _Ubirajara_, _A pata da Gazella_, _O tronco
-do ipê_, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a
-prejudicaram tambem. O _Sertanejo_, muito criticado por alguns,
-parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle
-descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece
-perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu
-patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que
-ella possa amar, está traçado com vigor.
-
-Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são
-inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o
-seu nome, _Diva_ e _Luciola_, romances moldados pela comedia _Azas de um
-Anjo_ tratam da rehabilitação de peccadoras; _Cinco minutos_, uma das
-suas primeiras obras e a _Viuvinha_ são romances ligeirissimos,
-graciosamente desenhados; a _Senhora_ encerra uma situação fortemente
-dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis
-sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a
-por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher
-deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma
-a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que
-o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto
-prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações.
-
-No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José
-de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a _imagem
-imperial_, e as _Cartas de Erasmo_. Publicou em volume os seus discursos
-parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada
-_Estatistica da provincia do Ceará_.
-
-José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi
-inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de
-completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua
-morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham
-combatido _Senio_, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os
-primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu
-da scena publica.
-
-
-(Do _Diccionario Popular_).
-
-
-
-
-MEU AMIGO
-
-Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da
-varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança
-do casal.
-
-Imagino que é a hora mais ardente da sesta.
-
-O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves
-emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da
-poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas
-mais sublimes expressões do poder creador.
-
-Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que
-figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro
-sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel
-manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para
-refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio,
-e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde.
-
-Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra
-suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem
-occupado.
-
-Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da
-infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno
-volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem
-da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a
-ramagem das aroeiras em flôr.
-
-Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre,
-como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que
-lhe sorri.
-
-O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de
-cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações
-vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na
-varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da
-rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas
-palmas dos coqueiros.
-
-Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.
-
-Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido
-talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição,
-qual sorte será a do livro?
-
-Que lhe falte hospitalidade, não ha temer. As auras de nossos campos
-parecem tão impregnadas d'essa virtude primitiva, que quantas raças
-habitem ahi a inspiram com o halito vital. Receio sim que seja recebido
-como extrangeiro e hospede na terra dos meus.
-
-Se, porém, ao abordar ás plagas do Mocoribe, fôr acolhido pelo bom
-cearense, presado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos
-tempos prosperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra
-de seu pae, a intimidade e conchego da familia.
-
-O nome de outros filhos ennobrece nossa provincia na politica e na
-sciencia; entre elles o meu, hoje apagado, quando o trazia
-brilhantemente aquelle que primeiro o creou. N'este momento mesmo a
-espada heroica de muito bravo cearense vae ceifando no campo da batalha
-ampla messe de gloria.
-
-Quem não pode illustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro,
-na rude toada de seus antigos filhos.
-
-Acolha pois a primeira mostra e offereça-a a nossos patricios a quem é
-dedicada.
-
-Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro: o outro lhe
-direi depois que o tenha lido.
-
-Muita cousa me occorre dizer sobre o assumpto, que talvez devera
-anticipar á leitura da obra, para prevenir a surpreza de alguns e
-responder ás observações ou reparos de outros.
-
-Mas sempre fui avêsso aos prologos; em meu conceito elles fazem á
-obra, o mesmo que o passaro á fructa antes de colhida; roubam as
-primicias do sabor litterario. Por isso me reservo para depois.
-
-Na ultima pagina me encontrará de novo; então conversaremos a gosto,
-em mais liberdade do que teriamos n'este portico do livro, onde as
-etiquetas mandam receber o publico com a gravidade e reverencia devida a
-tão alto senhor.
-
-
-Rio de Janeiro--Maio de 1865.
-
-
- J. de Alencar.
-
-
-
-
-IRACEMA
-
-
-
-I
-
-
-Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas
-frondes da carnaúba:
-
-Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol
-nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros:
-
-Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o
-barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas.
-
-Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao
-fresco terral a grande vela?
-
-Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do
-oceano?
-
-Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar
-em fora:
-
-Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma
-creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam
-irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
-
-A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre
-o marulho das vagas:
-
---Iracema!...
-
-O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra
-fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe
-sobre o giráu, onde folgam as duas innocentes creaturas, companheiras
-de seu infortunio.
-
-N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso.
-
-Que deixára elle na terra do exilio?
-
-Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da
-noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa
-rugitava nos palmares.
-
-Refresca o vento.
-
-O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece
-no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga,
-como o condor, as foscas azas sobre o abysmo.
-
-Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas
-revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas
-auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
-
-Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás
-brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra
-onde revoa.
-
-
-
-
-II
-
-
-Além, muito além d'aquella serra, que ainda azula no horisonte, nasceu
-Iracema:
-
-Iracema, a virgem dos labios de mel, que tinha os cabellos mais negros
-que a aza da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
-
-O favo da jaty não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia
-no bosque como seu halito perfumado.
-
-Mais rapida que a corsa selvagem, a morena virgem corria o sertão e as
-matas do Ipú, onde campeava sua guerreira tribu, da grande nação
-tabajara. O pé gracil e nú, mal rosçando, alisava apenas a verde
-pellucia que vestia a terra com as primeiras aguas.
-
-Um dia, ao pino do sol, ella repousava em um claro da floresta.
-Banhava-lhe o corpo a sombra da oitycica, mais fresca do que o orvalho
-da noite. Os ramos da acacia silvestre esparziam flores sobre seus
-humidos cabellos. Escondidos na folhagem os passaros ameigavam o canto.
-
-Iracema sahiu do banho: o aljofar d'agua ainda a roreja, como á dôce
-mangaba que córou em manhã de chuva. Emquanto repousa empluma das
-pennas do gará as flechas de seu arco; e concerta com o sabiá da mata
-pousado no galho proximo, o canto agreste.
-
-A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto d'ella. Ás vezes
-sobe aos ramos da arvore e de lá chama a virgem pelo seu nome; outras
-remexe o urú de palha matisada, onde traz a selvagem seus perfumes, os
-alvos fios do crautá, as agulhas da jussára com que tece a renda, e as
-tintas de que matisa o algodão.
-
-Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os
-olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
-
-Deante d'ella e todo a contemplal-a, está um guerreiro extranho, se é
-guerreiro e não algum máu espirito da floresta. Tem nas faces o branco
-das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas
-profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
-
-Foi rapido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco
-partiu. Gottas de sangue borbulham na face do desconhecido.
-
-De primeiro impeto, a mão lesta cahiu sobre a cruz da espada; mas logo
-sorrio. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a
-mulher é symbolo de ternura e amor. Soffreu mais d'alma, que da ferida.
-
-O sentimento que elle pôz nos olhos e no rosto, não sei eu. Porem a
-virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro,
-sentida da magoa que causara. A mão que rapida ferira, estancou mais
-rapida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a
-flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando comsigo a ponta
-farpada.
-
-O guerreiro falou:
-
---Quebras commigo a flecha da paz?
-
---Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? D'onde
-vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?
-
---Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus
-irmãos já possuiram, e hoje tem os meus.
-
---Bemvindo seja o extrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das
-aldeias, e á cabana de Araken, pae de Iracema.
-
-
-
-
-III
-
-
-O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta.
-
-Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do
-fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande
-taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros,
-a cabana do Pagé.
-
-O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os
-sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de
-algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava,
-sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.
-
-O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de
-uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora.
-
-Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu
-olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a
-seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras.
-
-As tribus tabajaras, d'além Ibyapaba, falavam de uma nova raça de
-guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e vindos de remota plaga ás
-margens do Mearim. O ancião pensou que fôsse um guerreiro semelhante,
-aquelle que pisava os campos nativos.
-
-Tranquillo, esperou.
-
-A virgem aponta para o extrangeiro e diz:
-
---Elle veiu, pae.
-
---Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken.
-
-Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram
-ambos na cabana.
-
-O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação.
-
-Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de
-provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a
-farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de
-cajú e ananaz.
-
-Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de
-agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro.
-
-Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o
-cachimbo e falou:
-
---Vieste?
-
---Vim: respondeu o desconhecido.
-
---Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras
-tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o.
-Dize, e todos te obedecerão.
-
---Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer
-deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo
-deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.
-
---Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará.
-Araken nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se
-queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu
-hospede escuta.
-
-O extrangeiro disse:
-
---Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do
-Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua
-nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de
-guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua
-patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens
-do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa
-agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque
-estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão
-de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes
-partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras.
-
---Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no
-escuro da mata: respondeu o ancião.
-
-A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite.
-
-
-
-
-IV
-
-
-O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não
-ficou só.
-
-Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de
-Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.
-
---Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante
-a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma.
-
-E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.
-
---Tu me deixas? perguntou Martim.
-
---As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam.
-
---Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á
-cabana do Pagé.
-
---Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o
-segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a
-bebida de Tupan.
-
-O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.
-
-A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da
-alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a
-dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado
-tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.
-
-O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da
-serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo
-Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo
-combate.
-
-O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e
-olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre
-a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do
-Acaraú.
-
-Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de
-Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que
-resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.
-
---Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem
-levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos
-Tabajaras?
-
-O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.
-
---Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr
-seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o
-presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.
-
---Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não
-o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia
-bebe a agua da chuva.
-
---A virgem suspirou:
-
---Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema
-tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da
-matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás
-margens do rio das garças.
-
---Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta
-na cabana de Araken?
-
---O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do
-Ipú.
-
---Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não
-trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos
-Pytiguaras.
-
-Martim voltou á cabana do Pagé.
-
-A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe
-um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os
-murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.
-
-
-
-
-V
-
-
-O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido
-trinado annuncia a aproximação do dia.
-
-Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na
-grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a
-noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva,
-entra furtivamente na cabana.
-
-Eis retroa o boré pela amplidão do valle.
-
-Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram
-todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de
-guerra.
-
---Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos
-as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a
-maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de
-camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e
-sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir
-pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já
-os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e
-com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a
-pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos
-galhos?
-
-O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando
-a fronte, cobre o rubido olhar:
-
---Irapuam falou; disse.
-
-O mais moço dos guerreiros avança:
-
---O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens
-e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra,
-é como o gavião.
-
-Troa e retroa a pocema da guerra.
-
-O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no
-ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.
-
-O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com
-o pé agil ainda e firme.
-
-Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e
-impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo
-nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima
-lucta?
-
-Incertos todos e mudos escutam:
-
---Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam
-cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz
-de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe
-despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão
-implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o
-velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas
-alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude
-renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do
-inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da
-lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos
-emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te
-promette o banquete da victoria.
-
-Desabriu emfim Irapuam a funda colera:
-
---Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego,
-porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme.
-Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira
-voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na
-serra, mais forte que o ribombo do mar.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a
-cabana do Pagé.
-
-Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa
-frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça
-a verde coma da floresta.
-
-O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e
-cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos
-entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum
-dia?
-
-Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e
-lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de
-afflicto.
-
-Iracema parou em face do joven guerreiro:
-
---É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do
-extrangeiro?
-
-Martim pousou brandos olhos na face da virgem:
-
---Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi
-a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago.
-
---Uma noiva te espera?
-
-O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua,
-como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea.
-
---Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem
-mais formosa! murmurou o extrangeiro.
-
---A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde
-se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a
-frescura de seu sorriso.
-
-Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos
-seios que batiam oppressos.
-
-A virgem falou emfim:
-
---A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema
-quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera.
-
-Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé.
-
---Vem! disse a virgem.
-
-Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da
-collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra
-cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro.
-
-Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da
-arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos
-do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira
-á festa da ultima lua.
-
-Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro
-pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa.
-Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha
-do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da
-floresta.
-
-Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu
-no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da
-serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão.
-
-Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho
-licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra.
-Apresentou ao guerreiro a taça agreste.
-
---Bebe!
-
-Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz
-inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os
-dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas
-mais bellas esperanças.
-
-Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo
-e terno o anjo puro dos amores infantis.
-
-Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo
-abandona o tecto paterno e demanda o sertão?
-
-Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva
-a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á
-brisa com o crebro suspiro o doce nome:
-
---Iracema! Iracema!...
-
-Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.
-
-Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e
-ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno
-companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.
-
-O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como
-se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava
-para embeber-se no osculo ardente.
-
-E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para
-deixar-se colher.
-
-Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia,
-travou do arco.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar
-scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas:
-ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis
-que afflavam.
-
-Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um
-passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o
-tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.
-
-Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de
-susto e mais de colera.
-
---Iracema! exclamou o guerreiro recuando.
-
---Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao
-bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.
-
---Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do
-primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para
-seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do
-chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.
-
-A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:
-
---O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva.
-Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o
-acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro
-branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de
-Araken.
-
-A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou
-como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso:
-
---Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao
-guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque
-foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!...
-
---Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais
-longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o
-guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor.
-
---O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do
-Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé.
-
-Rugiu de sanha o chefe tabajara:
-
---A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro
-vae morrer.
-
---A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse
-Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o
-seu povo.
-
---Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.
-
---Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro
-passo, é o passo da morte.
-
-A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O
-chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira
-sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema,
-ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração.
-
-Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais
-vencido das grandes paixões.
-
---A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança
-de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.
-
-Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem
-sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da
-noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a
-abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos
-do extrangeiro.
-
-Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um
-asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a
-cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.
-
-Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da
-noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos
-perigos que iam surgir.
-
---O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das
-arvores: suspirou a virgem.
-
-E afastou-se lentamente.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã
-dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que
-sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do
-cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.
-
-Não sabia onde estava.
-
-Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um
-tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das
-faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas
-folhas do bambú.
-
-Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas,
-nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a
-noite que enluctam os ventos.
-
---As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já
-cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e
-emmudece?
-
-A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a
-haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os
-leques ciciam brandamente:
-
---O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro
-poderá partir com o sol que vem nascendo.
-
---Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então
-a alegria voltará ao seu seio.
-
---A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu.
-Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o
-tronco nú, sem ramas, nem sombras.
-
-Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o
-peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo
-galho do anjico.
-
-O mancebo murmurou:
-
---Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em
-tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de
-teus mimosos labios.
-
-Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:
-
---Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da
-jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.
-
---E Iracema?
-
---Pois que tu morrias!
-
-Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu
-sobre o peito: mas logo se ergueu.
-
---Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos
-Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca
-fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de
-seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve
-abandonar os campos dos Tabajaras.
-
---Deve: respondeu a virgem como um ecco.
-
-Depois a sua voz suspirou:
-
---O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no
-tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e
-dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel
-da assucena.
-
-Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em
-seu labio:
-
---O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.
-
---Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.
-
-Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.
-
---É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de
-Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.
-
---Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.
-
-Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol
-atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um
-faro suspeito.
-
-Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o
-guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema
-caminhou para elle.
-
-O extrangeiro entrou só na cabana.
-
-
-
-
-IX
-
-
-O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança
-pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha.
-
-Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do
-ancião, e abalou o corpo decrepito.
-
---Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.
-
-O velho ficou immovel:
-
---O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz
-correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de
-Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu
-para o Pagé, fale; seu ouvido escuta.
-
---O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte.
-
---O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão
-abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus.
-
-Vieram Cauby e Iracema:
-
---Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da
-sua caça.
-
---O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os
-olhos de seu pae gostam de vêl-o.
-
-O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo:
-
---Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e
-prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o
-guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará.
-
-O somno voltou aos olhos do Pagé.
-
-Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a
-sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro
-do urú de palha trançada.
-
-Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle:
-
---Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem.
-Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.
-
---A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto:
-venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o
-calor e o perfume do seio de Iracema.
-
-Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da
-volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o
-Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza.
-
-O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o
-irmão de Iracema tornou da grande taba.
-
---O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a
-noite. É tempo de partir.
-
-A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken.
-
---Elle vae! murmuraram os labios tremulos.
-
-O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle
-e o mancebo trocaram a fumaça da despedida:
-
---Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken.
-
-O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada
-de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou:
-
---Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé.
-
-Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas
-mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a
-partir.
-
-Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz
-d'elle Iracema.
-
-Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão,
-mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava
-já os preludios da suave endeixa.
-
-A virgem suspirou:
-
---A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas
-tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite.
-
-O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma
-lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os
-ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos.
-
-Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.
-
-O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de
-espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um
-pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite
-escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro.
-
---Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge!
-
-A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas
-assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da
-mesma flôr.
-
-A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o
-tronco de uma palmeira.
-
-
-
-
-X
-
-
-Na cabana silenciosa medita o velho Pagé.
-
-Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes
-olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece
-estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os
-aljofares das lagrimas, que rorejam as faces.
-
-A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os
-verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos
-Tabajaras, Iracema a esqueceu.
-
-Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse
-entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão
-a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça.
-
-Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se
-voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e
-amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração.
-
-Triste d'ella! A gente tupy a chamava jandaia, porque sempre alegre
-estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda,
-desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o
-feio urutão que sómente sabe gemer.
-
-O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso
-das eminencias.
-
-A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite,
-começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez
-illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo.
-
-O velho ergueu a fronte calva:
-
---Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle
-admirado.
-
-A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á
-pergunta do Pagé:
-
---É o grito de guerra do guerreiro Cauby!
-
-Quando o segundo pio da inhuma resoou, Iracema corria na matta, como a
-corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando á campina, que
-recortava o bosque, como um grande lago.
-
-Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado
-em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros
-tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os
-affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes
-empunhadas na mão robusta:
-
-O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera
-simplesmente:
-
---Matae Cauby, antes.
-
-A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo
-tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o
-bramido da onça atacada na furna.
-
---Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á
-cabana: só Araken pode salval-o.
-
-Iracema voltou-se para o guerreiro branco:
-
---Vem!
-
-Elle ficou immovel.
-
---Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo.
-
-Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a
-Irapuam. A sua espada flammejou no ar.
-
---Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se
-aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus
-paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.
-
-O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape.
-Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando
-fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles.
-
-A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus
-braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão
-provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe.
-
-A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o
-combate proseguiu.
-
-De repente o rouco som da inubia reboou pela matta; os filhos da serra
-estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio guerreiro dos Pytiguaras,
-senhores das praias, encombradas de coqueiros. O ecco vinha da grande
-taba, que o inimigo talvez assaltava já.
-
-Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o
-extrangeiro só ficou a filha de Araken.
-
-
-
-
-XI
-
-
-Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante
-da caiçara.
-
-Não vindo elles sahiram a buscal-o.
-
-Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios
-encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio
-das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não
-havia duvidar.
-
-Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o
-extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o guará
-pela orla da mata, quando vae seguindo o rastro da presa escápula,
-assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.
-
-Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e
-não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava
-Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura
-sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven
-guerreiro branco.
-
-Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo.
-
-A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o
-desgostava.
-
---Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam
-veiu buscal-o.
-
---O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o
-rugir do trovão.
-
---O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que
-guarda os sonhos da jurema.
-
---Tua bôcca mente como o ronco da jiboia: exclamou Iracema.
-
-Martim disse:
-
---Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes!
-
-O Pagé falou grave e lento:
-
---Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella
-morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos
-o servirão.
-
-Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito
-da sucury na profundeza do rio.
-
---A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella
-sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras.
-
-O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o
-terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel.
-
---O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas
-veias, tu que ameaças em sua cabana o velho Pagé.
-
-Araken affastou o irmão:
-
---Paz e silencio, Andira.
-
-O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada,
-que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas
-affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes
-alvos e afilados:
-
---Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso d'esta
-mão sêcca e mirrada!
-
---N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe.
-
-O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da
-ariranha.
-
---Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua
-profundeza.
-
-Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana;
-alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito,
-abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia
-arrancado das entranhas do rochedo.
-
-Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz
-nos olhos, e a voz nos labios.
-
---O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam.
-
-O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto
-mergulhou-se nas sombras do crepusculo.
-
-O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana.
-
-Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava,
-que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor,
-como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli.
-
-O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos
-Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder.
-
-Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o
-cachimbo e travou do maracá:
-
---É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão.
-
-Disse e partiu da cabana.
-
-Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos
-em jubilo:
-
---O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará
-mal ao guerreiro branco na cabana de Araken.
-
---Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro
-com asperesa de voz.
-
-Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos
-e queixosos da virgem.
-
---Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella,
-como se fôra o verme da terra?
-
-As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim
-resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu
-raiva de si, e pena d'ella:
-
-Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro
-fremente.
-
---É a voz do Tupan!
-
---Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao
-extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...
-
-Iracema pendeu a fronte abatida:
-
---Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes
-terras, é o canto da virgem branca que te chama!
-
-O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de
-repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o
-sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.
-
-
-
-
-XII
-
-
-O dia ennegreceu; era noite já.
-
-O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com
-ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com
-seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em
-busca do inimigo Pytiguara.
-
-No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a
-esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a
-provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor
-na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava
-seu labio.
-
-O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as
-arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para
-refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como
-o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios
-tremulos.
-
-Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo,
-que prepara o mysterio do sagrado rito.
-
-Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.
-
-Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa.
-O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:
-
---Escutou Iracema, cantar a gaivota?
-
---Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.
-
---É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca
-desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.
-
---As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.
-
-Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se
-chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras,
-seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de
-camarão.
-
-Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a
-respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles
-haviam tomado para si.
-
-O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente,
-emquanto reflectia:
-
---O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu
-hospede!
-
-A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de
-Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a
-cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em
-quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em
-seu camocim.
-
-Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o
-amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no
-momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que
-replicou:
-
---O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque
-ella não falará.
-
---Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus
-campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o
-tigre esfaimado.
-
-Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.
-
---Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me
-querem.
-
-Martim ergueu-se e marchou para a porta.
-
---Onde vae o guerreiro branco?
-
---Adeante de Poty.
-
---O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os
-guerreiros de Irapuam o matarão.
-
---Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece
-que o defendam os velhos e as mulheres.
-
---Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o
-tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam.
-Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas
-d'elles voam alto e direitos como o anajê.
-
---Todo o guerreiro tem seu dia.
-
---Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!
-
-Martim ficou perplexo:
-
---Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as
-falas do guerreiro amigo.
-
-O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na
-dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.
-
-Chamou elle a filha de parte:
-
---Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e
-esconde o extrangeiro no seio da terra.
-
---O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não
-cantou a inhuma.
-
-Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da
-cabana.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta.
-
-O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito
-ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga
-a escuridão, e nada vê do que busca.
-
-A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio.
-
---Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema.
-
-Só o ecco lhe respondeu.
-
---A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e ella
-ama o extrangeiro.
-
-A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a
-margem, e surge fora.
-
---Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão
-na guerra.
-
---Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera.
-
---Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar.
-
---Elle sabe, mandou-me para te ouvir.
-
---As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão
-branco.
-
---Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei
-á presença do extrangeiro.
-
---Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira da
-cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do
-mar.
-
---A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o
-irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e
-salvar?
-
-Poty reflectiu:
-
---Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que a
-elles chegou o guerreiro do mar.
-
-Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o
-extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha
-apasiguado seu furor.
-
---A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva.
-
-A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um
-sopro.
-
---Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo
-escuta na sombra.
-
-As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira
-nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle.
-
-O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que
-elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua
-não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda.
-
-Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as
-sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha.
-
-Araken vendo-a entrar, partiu.
-
-A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro
-christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão
-Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços:
-
---O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o
-protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas
-amigas.
-
---Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos
-dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo
-dos olhos da virgem de Tupan.
-
---Elles fugirão de ti.
-
---Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã.
-
-Martim promoveu o passo.
-
---Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti.
-Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que
-foram.
-
---Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel?
-
---Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta.
-
-O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo.
-Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do
-guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana.
-
-O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava
-gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por
-fora. Cauby entrou.
-
---O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o
-extrangeiro.
-
-A virgem ergue-se de um impeto.
-
---Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda o
-extrangeiro.
-
-O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão.
-
---Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes da
-terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo.
-
-Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta.
-
-Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se
-as vozes iradas de Irapuam e Cauby.
-
---Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede.
-
-N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua
-virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente.
-
---Ouve! É a voz de Tupan.
-
-Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se
-ambos nas entranhas da terra.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do
-espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os
-guiou ao combate, quantas á victoria.
-
-Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma
-feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas
-armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro
-varão tabajara.
-
-Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do
-ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço
-em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o
-inimigo.
-
---O Pagé está na floresta! murmuram elles.
-
---O extrangeiro? pergunta Irapuam.
-
---Na cabana com Iracema.
-
-O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da
-cabana, e com elle seus valentes guerreiros.
-
-O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle
-o espaço de um bote do maracajá.
-
---Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O
-jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só
-o inimigo.
-
---Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente
-guerreiro dos guerreiros tabajaras.
-
-Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape,
-mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram,
-quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.
-
-Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam
-ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.
-
-Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas
-seu ouvido vella no somno.
-
-A voz de Tupan emmudeceu.
-
-Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta
-profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus
-ouvidos:
-
---O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?
-
---É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.
-
-Iracema estremeceu:
-
---Elle fala pela bôcca de Tupan.
-
-Martim respondeu emfim ao Pytiguara.
-
---As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.
-
---Nenhum outro ouvido escuta?
-
---Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!
-
---A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna
-prudente.
-
-Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:
-
---Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.
-
-Martim repelliu docemente a gentil fronte:
-
---Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.
-
---Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o
-guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a
-estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá,
-porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.
-
---Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?
-
---Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da
-floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em
-seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar
-os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.
-
---O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará
-contra si todos os guerreiros tabajaras.
-
---É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como
-zombou quando combatiam cem contra ti.
-
-A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do
-christão:
-
---Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O
-chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro
-como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da
-outra banda cahirá comtigo.
-
---Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão?
-perguntou Martim.
-
---Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da
-festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado,
-e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos
-adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos
-de Iracema, mas não sua alma.
-
-Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu
-corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija
-flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis
-do Pagé.
-
-A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe
-Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:
-
---A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o
-nascimento da lua.
-
-
-
-
-XV
-
-
-Nasceu o dia e expirou.
-
-Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm
-lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que
-esperam a volta da sua mãe ausente.
-
-Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua
-vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura
-dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.
-
-Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e
-fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram
-n'alma. O christão sorri; a virgem palpita; como o sahy, fascinado pela
-serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito
-do guerreiro.
-
-Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o
-espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor.
-
-No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio
-ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o
-coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para
-a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken?
-
-Ninguem o soube.
-
-O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o
-rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr;
-e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus:
-
---Christo!... Christo!...
-
-A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que
-seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas
-veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança
-imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas
-inflammadas que lhe queimam o corpo.
-
-Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a
-imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás
-palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu.
-
-Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração:
-
---Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede
-dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze
-que seu somno seja alegre e feliz.
-
---Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria?
-
-O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé:
-
---A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e
-saborosos!
-
-Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema:
-
---O extrangeiro vae viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca
-mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle quer que o somno já
-feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus irmãos!
-
---O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria
-d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra
-hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema!
-
-A virgem ficou immovel.
-
---Vae e torna com o vinho de Tupan.
-
-Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do
-seio o vaso que alli trazia occulto sob a carioba de algodão
-entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou as
-gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse
-seu corpo desfallecido.
-
-Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que
-alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia
-amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio
-da virgem.
-
-O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e
-illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem.
-
-Iracema se affastara oppressa e suspirosa.
-
-Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem
-resoou docemente.
-
-A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro;
-bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do
-sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro.
-
-Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta
-que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o
-pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o
-primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro
-sorriso da esposa, aurora de fruido amor.
-
-Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho
-continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir.
-
-A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano;
-sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios
-da virgem o beijo que alli se espanejava.
-
---Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu
-d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem
-como o espinho da jurema.
-
-A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e
-inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se
-rapida, e partiu.
-
-As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa.
-
-A jandaia não tornou á cabana.
-
-Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-O alvo disco da lua surgiu no horisonte.
-
-A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do
-guerreiro desmaia a face da esposa.
-
---Jacy!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.
-
-E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto
-da lua nova:
-
-"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus
-filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú.
-
-"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A
-doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da
-joven mãe."
-
-Cae a tarde.
-
-Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda
-não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no
-valle.
-
-Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e
-sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os fogos da
-alegria. Araken está immovel e extactico no seio de uma nuvem de fumo.
-
-Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz
-um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso
-piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as
-recebe com desdem.
-
-Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan
-ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel,
-enche-se do Deus, que o habita:
-
---Tupan!... Tupan!... Tupan!...
-
-Tres vezes o echo ao longe repercutio.
-
-Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor.
-
-Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da
-jurema, que transporta ao céo o valente tabajara.
-
-Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante
-de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir,
-cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil
-guerreiros em um anno não acabarão.
-
-Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras
-deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a
-rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue
-n'aquelle extase.
-
-O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe
-vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e
-como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de
-flôres.
-
-Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite
-cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé,
-que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.
-
-Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do
-bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos
-guerreiros e ouvisse falar os sonhos.
-
-Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim.
-
---Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.
-
---Leva-me onde está Poty, meu irmão.
-
-A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda
-do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura.
-
---Chama teu irmão!
-
-Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta
-cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra.
-
-Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para
-exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração.
-
---Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da
-floresta arrebatou de seus olhos.
-
---Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty;
-todos os guerreiros o invejarão.
-
-Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á
-felicidade do extrangeiro:
-
---Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os
-extrangeiros.
-
-A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o
-espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se
-inquieto, e murmurou ao ouvido do christão:
-
---Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a
-marcha dos guerreiros.
-
-Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu
-coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para
-acalentar a saudade da virgem:
-
---Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada
-passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no
-coração de seu hospede.
-
---Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras,
-para voltar com o socego em seu peito.
-
-Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a
-noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a
-floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no
-céo.
-
-Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema:
-
---Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de
-separar-te d'elle.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:
-
---A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode
-falar.
-
---Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?
-
-Ella pôz os olhos cheios no christão:
-
---Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro.
-
---Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae,
-que te espera.
-
---Araken já não tem filha.
-
-Martim tornou com gesto rudo e severo:
-
---Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva
-de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o
-extrangeiro ingrato.
-
-A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que
-se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu
-em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr,
-cerra em botão o seio perfumado.
-
---Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme
-em seu seio.
-
-Martim estremeceu.
-
---Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema.
-
---O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque
-ella trahio o segredo da jurema.
-
-O christão escondeu as faces á luz.
-
---Deus!... clamou seu labio tremulo.
-
-Permaneceram ambos mudos e quedos.
-
-Afinal disse Poty:
-
---Os guerreiros tabajaras despertam.
-
-O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da
-prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu
-dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que
-seu irmão quizesse partir.
-
-Foi Iracema quem primeiro falou:
-
---Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre
-perigo.
-
-Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a
-selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes
-que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no
-seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava.
-
-Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um
-abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual
-bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate
-a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e
-esperava o momento de morrer defendendo o amigo.
-
-Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio
-da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a
-alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos
-ramos de arvore.
-
---Esposo de Iracema, tua rêde te espera.
-
-A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a
-cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O
-guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem.
-
-Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento
-arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um
-murmurio:
-
---Iracema!
-
-Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.
-
-A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos;
-os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a
-festa do amor e o canto do hymeneo.
-
-Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty
-repercutio no susurro da mata:
-
---O povo tabajara caminha na floresta!
-
-Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a
-tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas
-do esposo, e levou-o atravez da mata.
-
-De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua
-cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se
-embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca.
-
---O que escuta o ouvido do guerreiro Poty?
-
---Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo
-a floresta.
-
---O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o
-seguiremos, como suas azas; disse Iracema.
-
-O chefe sacudio de novo a fronte:
-
---Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro
-partiram já avançam além como as pontas do arco.
-
-A vergonha mordeu o coração de Martim.
-
---Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo,
-que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.
-
-Martim arripiou o passo.
-
---A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão
-só tem uma vida.
-
-O labio de Iracema não fallou: sorrio.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.
-
-O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido
-viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre
-rompe de seu peito cavernoso.
-
-O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como
-a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe.
-
-Eis late o cão selvagem.
-
-Poty solta o grito da alegria:
-
---O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu.
-
-O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna,
-senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores
-guerreiros.
-
-Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas
-de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú
-os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o
-espaço, e a luta se trava face a face.
-
-Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez
-bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois
-tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro
-até ás entranhas.
-
-O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha
-de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da
-irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor
-o inimigo.
-
-Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e
-fallou assim:
-
---Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue
-do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por
-esta mão, não pela tua.
-
-Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror:
-
---Iracema matará seu irmão?
-
---Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua;
-porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não.
-
-Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão
-defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida
-do guerreiro contra os botes do inimigo.
-
-Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu
-valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre
-Irapuam.
-
---Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao
-peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco.
-
---A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty.
-
-O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate
-renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na
-clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o
-peito inerme do adversario.
-
-Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do
-guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço
-cahio desfallecido.
-
-Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por
-Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram
-seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia
-abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne.
-
-Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de
-cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que
-fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era
-o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha.
-
-O pranto orvalhou seu lindo semblante.
-
-Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou
-que sua dor núa se banhasse nas lagrimas.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria
-vendo salvo o guerreiro branco.
-
-O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a
-marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava
-satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim,
-alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna.
-
---Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro
-branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para
-que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado.
-
---Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.
-
---Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a
-elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe
-corramos um para o outro.
-
-Jacaúna deu o signal da partida.
-
-Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde
-bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas.
-
-O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram
-aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte
-da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a
-capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina.
-
-Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava
-as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada
-parecia varrer o céo com a immensa copa.
-
---N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o
-peito ao tronco enorme:
-
---Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça.
-
---O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o
-abandonar.
-
-Depois o chefe assim falou:
-
---Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia
-os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle
-caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar
-perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar,
-alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu
-sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos
-labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez.
-
-Iracema aproximou-se.
-
-A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja
-inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente
-amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o
-singelo canto mavioso.
-
-Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do
-coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras.
-
-
-
-
-XX
-
-
-A lua cresceu.
-
-Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras,
-senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua
-rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para
-si a alegria de hospedar o guerreiro branco.
-
-Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana
-de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de
-Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.
-
-A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se
-retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.
-
---A tristeza mora na alma de Iracema!
-
---A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as
-lagrimas enchem os seus.
-
---Porque chora a filha dos Tabajaras?
-
---Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de
-Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o
-ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já
-tocou as armas tintas do sangue de seus paes.
-
-A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao
-peito d'elle:
-
---Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e
-saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor
-azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.
-
---Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba
-dos inimigos de seu povo.
-
-O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe
-alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua
-fronte guerreira. Martim dissera:
-
---O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.
-
---Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?
-
---Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração
-o chama a outros sitios.
-
---Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te
-fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle
-festeje tua boa vinda.
-
-Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:
-
---Teu irmão te acompanha.
-
---Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe.
-
---Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á
-victoria.
-
---A cabana de Poty ficará deserta e triste.
-
---Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.
-
-O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para
-as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha.
-Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava
-grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca.
-
-Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e
-avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra
-voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça
-que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.
-
-Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás
-margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie
-enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo
-o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado
-Mundahú.
-
-Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes
-mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e
-outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.
-
-Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu
-peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi,
-seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas
-e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas
-saudades d'ella.
-
-Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de
-seu guerreiro o acalentasse.
-
-Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que
-brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a
-refeição.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-Já descia o sol das alturas do céo.
-
-Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as
-saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores,
-da grande nação dos Pytiguaras.
-
-Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era
-uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande
-guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara.
-
-Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da
-tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á
-brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas
-jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os
-murmures do uraçá, que imita os soluços do vento.
-
-Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu
-dos caçadores. Elles occupavam as margens do Soipé, cobertas de
-matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús abundavam.
-Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz da caça.
-
-O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago,
-que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho
-que haviam recebido dos pescadores.
-
-Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoty,
-em cujas margens cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes
-pennachos; mais longe o Iguape, onde a agua faz cintura em torno dos
-comoros de areia.
-
-Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da
-espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva
-do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano.
-
---Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão.
-
---Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens do
-grande rio, que forma um braço do mar, até á margem do rio onde
-habita o jaguar. Elle já esteve no alto do Mocoribe, e de lá viu
-correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos,
-que está o no Mearim.
-
---Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias?
-
---O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica
-triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu
-sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das
-areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro
-das areias dá alegria!
-
---O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo
-o monte das areias.
-
-Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos
-o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez
-a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que
-aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar
-seu collo.
-
-Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus
-passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio
-cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por
-elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra
-como um camocim.
-
-O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar.
-Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não
-tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras
-para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por
-experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára
-emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava.
-
-Poty veiu:
-
---O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber
-seu pensamento.
-
---Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do
-Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as
-grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do
-mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias alliados
-dos Tabajaras, inimigos de tua nação.
-
-O chefe pytiguara meditou e respondeu:
-
---Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da mayr de
-seu irmão.
-
-Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao
-chefe Pytiguara.
-
---A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega
-Iracema. Queres tu que ella se affaste?
-
---Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos
-penetrem mais dentro de tua alma.
-
-A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo
-que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro.
-
---Iracema te escuta.
-
---Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles
-habitar. Que diz teu coração?
-
---O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e
-guerreiro.
-
-O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar
-a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de
-Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes:
-Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da
-taquára.
-
-Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e
-o amigo no copiar que olhava para o nascente.
-
-
-
-
-XXII
-
-
-Poty saudou o amigo e faltou assim:
-
---Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá,
-mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação
-estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle
-que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os
-tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar;
-depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.
-
-Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não
-cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra,
-o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos
-se escureceram.
-
-Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:--Filho, toma o tacape da
-nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra,
-pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de
-seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o
-guerreira Jatobá.
-
-Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de
-sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os
-campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando
-o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus
-olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os
-passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:--Ah! meus tempos passados!
-
-A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então
-passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu
-chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.
-
-Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu
-vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez
-seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias,
-conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle
-ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite
-que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á
-voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque
-nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus
-não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra,
-Maranguab.
-
-O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia
-morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra
-vontade?
-
---O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos
-Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu
-neto.
-
-Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a
-serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o
-curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora.
-
-A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde
-salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são
-frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos
-coqueiros, nas horas da calma.
-
-Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol
-ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o
-genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.
-
---Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e
-trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações.
-
-O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um
-olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:
-
---Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião
-branco junto da narseja.
-
-O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se
-moveu.
-
-Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para
-não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema
-que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na
-folha da taioba favos do mel purissimo.
-
-Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da
-montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham
-deixado o Maranguab.
-
-O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao
-peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu
-corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.
-
-Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera
-de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois
-foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do
-cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.
-
-Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo
-do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso
-funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.
-
-Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os
-animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e
-tornou com seus companheiros á borda do mar.
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos
-do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de
-seu esposo.
-
-A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a
-andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar
-novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema
-achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o
-coração.
-
-Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as
-flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro
-do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas
-as manhãs o coroa de nova grinalda.
-
-Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle,
-para mais sentir o desejo de tornar a elle.
-
-Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia
-a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á
-agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os
-guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam
-essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella
-filha da raça de Tupan.
-
-E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas
-aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e
-amadas pelos guerreiros.
-
-Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab,
-onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as
-fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão,
-e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da
-caça.
-
-Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do
-opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que
-inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys,
-que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras.
-Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali
-espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante,
-endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior
-calma do dia.
-
-Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se
-levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva
-á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a
-chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as
-aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas.
-
-Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba
-ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de
-sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça
-que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das
-flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas
-cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes.
-
-Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço:
-
---Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!
-
---Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.
-
-Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da
-esposa.
-
-Quando se ergueu, Poty falou:
-
-A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o
-segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas
-nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a
-arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo
-d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce
-d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais
-um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de
-Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle
-nada mais deseja senão a morte gloriosa.
-
-Martim unio o peito ao peito de Poty.
-
---O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro
-branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a
-felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a
-baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr
-do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria
-de seu filho e de seu coração.
-
-Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que
-dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor
-negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato
-selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas
-penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar
-levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta
-dos caçadores do Soipé, responderam.
-
-Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo
-ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello
-que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a
-alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.
-
-Voltou Poty.
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo
-as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o
-corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa
-arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos
-guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos.
-
-O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar
-por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de
-Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios.
-
-Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma,
-traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande
-nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:
-
---Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro
-penetra n'alma dos povos.
-
-No braço um gavião:
-
---Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro
-sobre o inimigo.
-
-No pé esquerdo a raiz do coqueiro.
-
---Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme
-do guerreiro sustenta seu corpo.
-
-No pé direito pintou uma aza:
-
---Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não
-tem igual na corrida.
-
-Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre:
-sua voz resoou entre sorrisos:
-
---Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a
-doçura está no peito do mais valente guerreiro.
-
-Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa,
-
---Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa
-de um nome na lingua de sua nação.
-
---O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão.
-
---Coatiyabo! exclamou Iracema.
-
---Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do
-amigo.
-
-Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do
-guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos
-dos chefes illustres.
-
-A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos
-de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram
-as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria,
-resoavam as canções.
-
-Poty cantava:
-
---Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade
-de Coatyabo e Poty.
-
-Acudiu Iracema.
-
---Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é
-Iracema junto a seu esposo.
-
-Os guerreiros disseram:
-
---Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o
-irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua
-sombra protege a relva humilde.
-
-Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o
-festim dos guerreiros.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho
-levaram a amarellecer.
-
-Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava
-cançada.
-
-O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho
-de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o
-colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de
-somno e repouso.
-
-A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as
-caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no
-copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu
-coração resonava.
-
-Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se
-estenderem pela immensidade dos mares.
-
-Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o
-christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus
-irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.
-
-Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas
-brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde
-offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do
-campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no
-horisonte.
-
-Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a
-serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim
-saiu-lhe ao encontro:
-
---A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão
-a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás,
-inimigos de tua e minha raça.
-
---Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com
-seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu
-amigo o traidor Tupinambá.
-
---Quando for tempo teu irmão te dirá.
-
-Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa
-canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia
-suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do
-hymeneo.
-
-Poty, que a viu tão occupada, fallou:
-
---Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o
-ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.
-
---Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que
-faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.
-
-A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as
-palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da
-rocha, sem echo nem rumores.
-
-O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os
-raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da
-terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo
-era maior em sua fronte.
-
-Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por
-Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes
-até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana.
-
-Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com
-respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do
-mensageiro.
-
---O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio
-da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação
-pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as
-garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te
-chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu
-maior guerreiro.
-
---Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não
-pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande
-chefe:--"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não
-mentirás.
-
-O mensageiro partiu.
-
-Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de
-Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que
-bordam as margens de Jacarehy.
-
---O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a combater
-contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus filhos, e
-a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer
-depressa para voltar á tua presença.
-
---Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando
-troa a inubia da guerra.
-
---Tu és grande, como o mar e bom como o céo.
-
-Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do
-nascente.
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros á margem de um lago, que
-havia nos taboleiros.
-
-O christão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a
-tristeza sahiu de seu coração e subiu á fronte.
-
---Meu irmão, disse o chefe, teu pé creou raiz na terra do amor; fica,
-Poty voltará breve.
-
---Teu irmão te acompanha; elle disse, e sua palavra é como a seta de
-teu arco; quando soa, é chegada.
-
---Queres tu que Iracema te acompanhe ás margens do Acaraú?
-
---Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos Pytiguaras não terá
-para ella mais que tristeza e dôr. A filha dos Tabajaras deve ficar.
-
---Que esperas tu então?
-
---Teu irmão se afflige porque a filha dos Tabajaras pode ficar triste e
-abandonar a cabana, sem esperar pela sua volta. Antes de partir elle
-queria socegar o espirito da esposa.
-
-Poty reflectia:
-
---As lagrimas da mulher amollecem o coração do guerreiro, como o
-orvalho da manhã amollece a terra.
-
---Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema.
-
-O christão avançou. Poty mandou-lhe que esperasse; da alvaja do setas
-que Iracema emplumara de pennas vermelhas e preta e suspendera aos
-hombros do esposo, tirou uma.
-
-O chefe pytiguar vibrou o arco: a seta rapida atravessou um goiamum que
-discorria pelas margens do lago, e só parou onde a pluma não a deixou
-mais entrar.
-
-Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada e tornou
-para Coatyabo.
-
---Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui
-verá tua seta, e obedecerá á tua vontade.
-
-Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança,
-o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty.
-
-Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol
-já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio
-pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras
-doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago.
-
-Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum
-trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto.
-
---Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua
-lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer.
-
-A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo,
-nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi
-sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno
-acalentou a dôr em seu peito.
-
-Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou
-á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha
-voltado.
-
-Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde
-outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu
-esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite,
-então recolhia á cabana.
-
-Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos
-guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora
-encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio,
-chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada.
-
-Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da
-Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba:
-
---Iracema! Iracema!...
-
-Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda
-jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a.
-
-A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento.
-Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a
-cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se
-arrependeu de os ter abandonado.
-
-Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em
-torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico
-alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga.
-
-Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no
-tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da
-desventura.
-
-Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis
-teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba
-para agasalhar sua companheira e amiga.
-
-Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave
-não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se
-fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de
-quem a acompanhasse em sua triste solidão.
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas
-praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado.
-
-Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de
-saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua
-graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua
-alma.
-
-Como a secca varzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matisa-se de
-flôres, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e
-sua belleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos.
-
-Martim e seu irmão haviam chegado á taba de Jacaúna, quando soava a
-inubia; elles guiaram ao combate os mil arcos de Poty. Ainda d'essa vez
-os Tabajaras, apesar da alliança dos brancos tapuias do Mearim, foram
-levados de vencida pelos valentes Pytiguaras.
-
-Nunca tão disputada victoria e tão renhida pugna, se pelejou nos
-campos que regam o Acaraú e o Camocim; o valor era igual de parte a
-parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o Deus da guerra não
-tivesse decidido dar estas plagas á raça do guerreiro branco, alliada
-dos Pytiguaras.
-
-Logo apóz a victoria o christão tornára ás praias do mar, onde
-construira sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e
-tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquelle
-sitio tão povoado outrora pela felicidade.
-
-O christão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez,
-quando parece que o tempo não poderá exhaurir o coração. Mas breves
-sóes bastaram para murchar aquellas flôres de um coração exilado da
-patria.
-
-O imbú, filho da serra, se nasceu na varzea porque o vento ou as aves
-trouxeram a semente, vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez
-um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas basta um sopro do mar,
-para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flôres leva-as a
-brisa.
-
-Iracema tambem foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses
-olhos tão amados se turbam com a vista d'ella, e em vez de se encherem
-de sua belleza como outrora, a despedem de si. Mas seus olhos d'ella
-não se cançam de acompanhar á parte e de longe o guerreiro senhor,
-que os fez captivos.
-
-Ai d'ella!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaiba ferida no
-amago, distilla lagrimas em fio.
-
-
-
-
-XXVIII
-
-
-Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus
-olhos buscaram em torno e não a viram.
-
-A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada
-na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que
-rolavam a uma e uma cabiam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia
-o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que
-amadureça o fructo.
-
---O que espreme as lagrimas do coração de Iracema!
-
---Chora o cajueiro quando fica tronco secco e triste. Iracema perdeu sua
-felicidade, depois que te separaste d'ella.
-
---Não estou eu junto a ti?
-
---Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca
-a virgem branca, que te espera.
-
-Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara n'elle o
-tinham ferido no amago.
-
---O guerreiro branco é teu esposo: elle te pertence.
-
-A formosa tabajara sorriu em sua tristeza:
-
---Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu passo
-te guiava para as frescas serras e os alegres taboleiros; teu pé
-gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa.
-Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem
-dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se
-avista a igara que passa.
-
---É a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro
-para as bordas do mar: respondeu o christão.
-
-Iracema continuou:
-
---Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes
-sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar
-quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle
-leve tua voz á cabana de teus paes.
-
---A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana de
-Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.
-
-A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do
-espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr
-tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido
-não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se
-abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os
-cabellos d'aquella que tu amas!
-
---A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a
-alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde
-rama.
-
---Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o abaty
-depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais
-quem o prenda na terra extrangeira.
-
---Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do
-Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?
-
---Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens;
-a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os
-invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco
-irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer
-áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma;
-deve cahir, para que a alegria alumie teu seio.
-
-O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito.
-Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo.
-
-
-
-
-XXIX
-
-
-Poty voltou do banho.
-
-Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi
-encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e
-os braços estendidos para os largos mares.
-
-Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem
-sulcando os verdes mares, impedida pelo vento:
-
---É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o!
-
-O christão suspirou:
-
---São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as
-praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles
-foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com
-os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar.
-
---Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu
-irmão Poty.
-
---Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos
-ao seu encontro.
-
-Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para
-o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim
-que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda
-do inimigo.
-
-O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata
-até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer quando elle
-deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado para os
-altos mares, muito alem do seu destino.
-
-Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre
-os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia
-avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar,
-como vaga lumes perdidos na mata.
-
-Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as
-lindas ribeiras da enseada dos papagaios.
-
-Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate.
-Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem
-recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.
-
-O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus
-amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia.
-Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a
-correnteza do rio.
-
-No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os
-guerreiros do Mearim que brandem o tacape.
-
-Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação
-pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a
-inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como
-elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol.
-
-Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de
-espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e
-se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros
-subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas
-palmas, esperam o momento do combate.
-
-A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o
-primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões
-na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se
-na areia, ou se perdem nos ares.
-
-As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se
-embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas
-flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago.
-
-Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em
-busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem
-manejar.
-
-Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o
-veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha.
-Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou,
-parecendo que a tragára uma baleia.
-
-Veiu a noite, que trouxe o repouso.
-
-Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do
-Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da
-victoria.
-
-N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota
-dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara
-n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba.
-
-
-
-
-XXX
-
-
-Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde
-crescia o coqueiro.
-
-Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas;
-porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo.
-
-A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos
-braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois
-suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e
-amor.
-
---Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento.
-
-A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a
-ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.
-
-O innocente dormia; Iracema suspirava.
-
---A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das
-flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas
-ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a
-colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus
-labios o mel do sorriso.
-
-A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que
-fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela
-areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava
-docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho
-sob a aza materna.
-
-Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de
-Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram
-partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos
-buscaram o semblante do filho.
-
-Volve o rosto para o Mocoribe.
-
---Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão
-tristeza.
-
-Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de
-seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão,
-na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham
-aberto mais para recebel-a.
-
-A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a
-sombra de um guerreiro.
-
-Cauby estava em pé na porta.
-
-A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger
-o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou
-com a voz ainda mais triste:
-
---Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos
-Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe
-comsigo toda a sua alegria.
-
---Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão:
-respondeu a esposa abraçando-o.
-
---O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam
-de vêl-o.
-
-Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da
-creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos,
-disse:
-
---Elle chupou tua alma.
-
-E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se
-animava tocar com receio de offender.
-
-A voz tremula da filha resoou:
-
---Ainda vive Araken sobre a terra?
-
---Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito
-e não se ergueu mais.
-
---Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console.
-
-A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no
-copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da
-jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas
-palavras:
-
---Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby
-lhe dê o abraço da amizade.
-
-Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do
-cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam
-dos olhos e cahiram em bagas.
-
-O rosto de Cauby annuviou-se:
-
---Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste;
-porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam!
-
-Iracema seccou os olhos:
-
---O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do
-Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e
-com elle a alegria á alma da esposa.
-
---O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que
-morava em teus labios.
-
-A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela
-cabana.
-
-
-
-
-XXXI
-
-
-Iracema cantava docemente, embalando a rêde para acalentar o filho.
-
-A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara,
-que vinha das bordas do mar depois da abundante pesca.
-
-A joven mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não
-inquietassem o filho acalentado, e foi ao encontro do irmão:
-
---Cauby vae tornar ás montanhas dos Tabajaras! disse ella com brandura.
-
-O guerreiro annuviou-se:
-
---Tu despedes teu irmão da cabana para que elle não veja a tristeza
-que a enche.
-
---Araken teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e
-morreram como valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua
-vez numerosa prole: filhos de sua velhice, Araken só teve dois. Iracema
-é para elle como a rôla que o caçador tirou do ninho. Só resta o
-guerreiro Cauby ao velho Pagé, para suster seu corpo vergado, e guiar
-seu passo tremulo.
-
---Cauby partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema.
-
---Como vive a estrella da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os
-olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que
-elles não se turvem com tua vista.
-
---Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas elle voltará todas as
-vezes que o cajueiro florescer para sentir em seu coração o filho de
-teu ventre.
-
-Entrou na cabana. Iracema tirou da rêde a creança; e ambos, mãe e
-filho, palpitaram sobre o peito do guerreiro tabajara. Depois Cauby
-passou a porta, e sumio-se entre as arvores.
-
-Iracema, arrastando o passo tremulo, o acompanhou de longe até que o
-perdeu de vista na orla da mata. Ahi parou: quando o grito da jandaia de
-envolta com o choro infantil, a chamou á cabana, a areia fria onde
-esteve sentada, guardou o segredo do pranto que em bebera.
-
-A joven mãe suspendeu o filho á teta; mas a bocca infantil não
-emmudeceu. O leite escasso não apojava o peito.
-
-O sangue da infeliz diluia-se todo nas lagrimas incessantes que não
-estancavam dos olhos; nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro
-licor da vida.
-
-Ella dissolveu a alva cariman e preparou ao fogo o mingáo para nutrir o
-filho. Quando o sol dourou a crista dos montes, partiu para a mata,
-levando ao collo a creança adormecida.
-
-Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros
-caxorrinhos grunhem enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara
-approxima-se de manso. Prepara para o filho um berço da macia rama do
-maracujá; e senta-se perto.
-
-Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios
-mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungio do mel da abelha. Os
-caxorrinhos famintos precipitam-se gulosos e sugam os peitos avaros de
-leite.
-
-Iracema curte dôr, como nunca sentiu; parece que lhe exhaurem a vida;
-mas os seios vão-se entumecendo; apojaram afinal, e o leite, ainda
-rubro do sangue, de que se formou, esguicha.
-
-A feliz mãe arroja de si os caxorrinhos, e cheia de jubilo mata a fome
-ao filho. Elle é agora duas vezes filho de sua dôr, nascido d'ella e
-tambem nutrido.
-
-A filha de Araken sentiu afinal que suas veias se estancavam; e comtudo
-o labio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe
-as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso o sabor
-em sua bocca formosa.
-
-
-
-
-XXXII
-
-
-Descamba o sol.
-
-Japy sae do mato e corre para a porta da cabana.
-
-Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e
-sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do
-esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao
-encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram
-á sua vontade.
-
-Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida,
-e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces
-latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da
-mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a
-mãe e o filho.
-
-Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do Tauape: seu irmão
-Poty, o inseparavel, caminhava a seu lado.
-
-Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de
-vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão
-quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado
-dos Tupinambás.
-
-Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço
-corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se
-pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro
-tapuia.
-
-A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos
-Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham
-levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio.
-
-Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que
-elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já
-lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano.
-
-Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e
-pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os
-olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella.
-
-Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este
-silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos
-logares profundos e sombrios.
-
-Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir
-do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui
-proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão
-parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava
-como o poraquê.
-
---O latido de Japy é de alegria, disse o chefe.
-
---Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o
-guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado
-matado em suas entranhas o fructo do amor?
-
-O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das
-arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o
-filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um
-impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.--Iracema!...
-
-A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com
-esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao
-pae, que o olhava extactico em seu amor.
-
---Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já
-não tinham alimento para dar-lhe!
-
-Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe
-desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então
-como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava
-n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá.
-
-Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos
-braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo
-paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não
-a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera.
-
---Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando
-o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que
-fala entro seus cabellos.
-
-O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos
-baços.
-
-Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo
-verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do
-vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim.
-
-O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e
-foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um
-ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa.
-A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:--Iracema!
-
-Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana
-abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam,
-com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi
-assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os
-campos onde serpeia o rio.
-
-
-
-
-XXXIII
-
-
-O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do
-Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não
-quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.
-
-O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria
-a predestinação de uma raça?
-
-Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe
-promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia
-os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga.
-
-Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e
-são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas
-areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe
-requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas.
-
-A chamma só applacou quando elle tocou a terra onde dormia sua esposa;
-porque n'esse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy
-nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes.
-
-Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar
-com elle a mayri dos christãos. Veio tambem um sacerdote de sua
-religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.
-
-Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não soffria
-elle que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quiz que
-tivessem ambos um só Deus, como tinham um só coração.
-
-Elle recebeu com o baptismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei,
-a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na lingua dos novos irmãos.
-Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde elle viu a luz
-primeiro.
-
-A mayri que Martim erguera á margem do rio, nas praias do Ceará,
-medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o
-bronze sagrados resoou nos valles onde rugia o maracá.
-
-Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu
-amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da
-Mocejana.
-
-Tempo depois, quando veiu Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros
-brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar
-o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.
-
-Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde
-fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa
-tabajara.
-
-Muitas vezes ia sentar-se n'aquellas doces areias, para scismar e
-acalentar no peito a agra saudade.
-
-As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o
-mavioso nome de Iracema.
-
-Tudo passa sobre a terra.
-
-
-
-
-FIM
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-Pag. 10.--_Argumento historico._--Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da
-Parahyba, partiu como capitão-mór de descoberta, levando uma força de
-80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do Jaguaribe e ahi fundou o
-povoado que teve nome de _Nova-Lisboa_.
-
-Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
-
-Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João
-Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos
-para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do
-Jaguaribe, amigos dos Portuguezes.
-
-Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos,
-pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo,
-obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos
-pequenos.
-
-Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome
-Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos
-indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo
-Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella
-capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do
-Amparo em 1611.
-
-Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com
-sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os
-indios do interior e os francezes que infestavam a costa.
-
-Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que
-illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o
-foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos
-indios.
-
-Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes
-cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O
-Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu
-verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe
-foi apenas uma tentativa frustrada.
-
-Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão
-alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo.
-
-Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do
-Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a
-gloria ao Ceará para a dar á sua provincia.
-
-Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr.
-commendador Mello em suas _Biographias_, me parece sufficientemente
-elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão,
-publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina.
-
-Entretanto farei sempre uma observação.
-
-Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da
-historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de
-Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do
-Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha.
-Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o
-conspicuo auctor da _Corographia Brasilica_.
-
-O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente
-affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa
-asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo
-explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da
-expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, _sitio d'aquelle tempo
-e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco_.
-
-Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel
-á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns
-pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano.
-
-Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como
-habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará,
-como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação,
-que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande,
-era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras.
-habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior.
-
-Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão
-Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e
-rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que
-penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua
-alliança firme com os portuguezes.
-
-Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas _memorias
-diarias_ da guerra brasilica do conde de Pernambuco:--1834, Janeiro, 18:
-"Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o fez
-El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que
-era _Pytiguar_, mas das outras residentes em varias aldeias."
-
-Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser
-recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e
-intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.
-
-Pag. 19.--_Onde canta a jandaia._--Diz a tradicção que Ceará
-significa na lingua indigena--_canto de jandaia_.
-
-Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O
-senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona
-uma opinião, nova para mim, que pretende vir _Siará_ da palavra
-_saia_-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas
-margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade,
-usava a lingua tupy da desinencia _iba_; a desinencia _ára_ junta aos
-verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes
-o que tem actualmente o objecto--exp. _Coatyara_--o que
-pinta.--_Jussara_--o que tem espinho.
-
-Ceará é nome composto de _cemo_--cantar forte, clamar, e _ará_,
-pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e não só
-conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua.
-
-Pag. 20.--I. _Giráu._--Na jangada é uma especie de estrado onde
-accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de palha. Em geral é
-qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.
-
-II. _Iracema._--Em guarany significa labios de mel--de _ira_--mel e
-_tembe_ labios. _Tembe_ na composição altera-se em _ceme_, como na
-palavra _ceme-yba_.
-
-III. _Graúna_ é o passaro conhecido de cor negra luzidia.--Seu nome
-vem por corrupção de _guira_ passaro e _una_, abreviação de _pixuna_
-de preto.
-
-IV. _Jaty._--Pequena abelha que fabrica delicioso mel.
-
-Pag. 21.--I. _Ipú._--Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de
-terra muito fertil, que fórma grandes corôas ou ilhas no meio dos
-taboleiros e sertões, e é de preferencia procurada para a cultura.
-D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da provincia.
-
-II. _Tabajaras._--Senhores das aldeias--de
-_taba_--aldeia--e--_jara_--senhor. Essa nação dominava o interior da
-provincia, especialmente a Serra da _Ibyapaba_.
-
-III. _Oitycica._--Arvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que
-derrama sua sombra.
-
-IV. _Gará._--Ave palludal, muito conhecida pelo nome de _guará_. Penso
-eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é--_ig_,
-agua e _ará_, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha.
-
-V. _Ará._--periquito. Os indigenas como augmentativo usavam repetir a
-ultima sillaba da palavra e ás vezes toda a palavra--como _murémuré_.
-_Muré_, frauta--_murémuré_, grande frauta. _Arára_ vinha a ser pois
-o augmentativo de _ará_, e significaria a especie maior do genero.
-
-VI. _Urú._--Cestinho que servia de cofre ás selvagens para guardar
-seus objectos de mais preço e estimação.
-
-VII. _Crautá._--Bromelia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais
-finas que as do linho.
-
-VIII. _Jussara._--Palmeira de grandes espinhos, das quaes se servem
-ainda hoje para dividir os fios da renda.
-
-Pag. 22.--I. _Uiraçaba._--aljava--de _uira_ seta e a
-desinencia--_caba_--cousa propria.
-
-II. _Quebrar a flecha._--Era entre os indigenas a maneira symbolica de
-estabelecerem a paz entre as diversas tribus, ou mesmo entre dois
-guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se extranhe a maneira
-porque o extrangeiro se exprime falando com os selvagens: ao seu
-perfeito conhecimento dos usos e lingua dos indigenas, e sobretudo a
-ter-se conformado com elles a ponto de deixar os trajos europeus e
-pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia que adquiriu entre os
-indios do Ceará.
-
-Pag. 23.--I. _Ibyapaba._--Grande serra que se prolonga ao norte da
-provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martins
-em seu _glossario_ lhe attribue outra etymologia. _Iby_-terra--e
-_pabe_--tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira.
-
-II. _Igaçaba._--de _ig_--agua e a desinencia _çaba_--cousa propria.
-
-Pag. 24.--I. _Vieste._--A saudação usual da hospitalidade era
-esta:--_Erc ioubé_--tu vieste? _pa-aiotu_, vim sim. _Auge-be_, bem
-dito. Veja-se Lery, pag. 286.
-
-II. _Jaguaribe._--maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de
-onças que povoavam suas margens. _Jaguar_--onça--_iba_--desinencia
-para exprimir copia, abundancia.
-
-III. _Martim._--Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz
-o extrangeiro a significação que lhe dá.
-
-IV. _Pytiguaras._--Grande nação de indios que habitava o littoral da
-provincia e estendia-se desde o Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A
-orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que
-se tornou difficil conhecer a etymologia.
-
-_Iby_ significava terra; _iby-tira_ veiu a significar serra, ou terra
-alta. Aos valles chamavam os indigenas _iby-tira-cua_--cintura das
-montanhas. A desinencia _jara_ senhor, accrescentada, formou a palavra
-_Ibyticuara_--que por corrupção deu _Pytiguara_--senhores dos valles.
-
-V. _Mau espirito da floresta._--Os indigenas chamavam a esses espiritos
-_caa-pora_, habitantes da mata, d'onde por corrupção veiu a palavra
-caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado.
-
-Pag. 25.--I. _As mais bellas mulheres._--Este costume da hospitalidade
-americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello
-rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade,
-compunha nas praias de Iperoig o poema da _Virgindade de Maria_, cujos
-versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir.
-
-II. _Jurema._--Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo
-excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas
-e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o
-effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a
-pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. A fabricação d'esse
-licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua
-influencia. _Jurema_ é composto de _ju_-espinho e _rema_ cheiro
-desagradavel.
-
-Pag. 26.--I. _Irapuam._--de _ira_-mel e _apuam_ redondo: é o nome dado
-a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua
-colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome actualmente a _arapuá_. O
-guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado
-pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra.
-Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado
-inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes.
-
-II. _Acaracú._--O nome do rio é _Acaracú_--de _acará_
-garça--_co_--buraco, toca, ninho, e _y_--som dubio entre _i_ e _u_, que
-os portuguezes, ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando
-_agua_. Rio do ninho das garças é pois a traducção de _Acaracú_; e
-o rio das garças a de _Acaraú_. Usou-se aqui da liberdade horaciana
-para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som
-aspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi
-realmente _Acaraú_, que se alterou como tantos outros, pela
-introducção da consoante?
-
-III. _Estrella morta._--A estrella polar, por causa da sua immobilidade;
-orientavam-se por ella os selvagens durante a noite.
-
-IV. _Boicininga._--é a cobra cascavel--de _boia_, cobra e _cininga_
-chocalho.
-
-V. _Oitibó._--é uma ave nocturna, especie de coruja.
-
-Pag. 27.--I. _Espiritos da treva._--A esses espiritos chamavam os
-selvagens _curupira_, meninos máus--de _curumim_, menino, e _pira_
-máu.
-
-II. _Boré._--frauta de bambú,--o mesmo que muré.
-
-III. _Ocara._--praça circular que ficava no centro da taba, cercada
-pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de _oca_,
-casa e a desinencia _ara_, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a
-casa está.
-
-IV. _Potyuara._--comedor de camarão; de _poty_--e _uara_. Nome que por
-desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e
-viviam em grande parte de pesca.
-
-Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de
-seus inimigos.
-
-Pag. 28.--I. _Pocema._--grande alarido que faziam os selvagens nas
-occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da
-alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no
-diccionario de Moraes. Vem de _po_-mão e _cemo_ clamar; clamor das
-mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas
-e das armas.
-
-II. _Andira._--morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige
-logo palavras de despreso ao velho guerreiro.
-
-Pag. 29.--_Aracaty._--Significava este nome bom tempo de _ara_ e
-_catú_. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que
-sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do
-Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do
-verão. D'ahi resultou chamar-se _Aracaty_ o logar de onde vinha a
-monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que
-sopra do mar.
-
-Pag. 32.--I. _Afflar._--Sobre este verbo que introduzi na lingua
-portugueza do latim _afflo_, já escrevi o que entendi em nota de uma
-segunda edição da _Diva_ que brevemente ha de vir á luz.
-
-II. _Anhanga._--Davam os indigenas este nome ao espirito do mal;
-compõe-se de _anho_ atrito, só e _anga_ alma. Espirito só, privado do
-corpo, phantasma.
-
-Pag. 36.--I. _Camocim._--vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos
-mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem _camotim_, e talvez com
-melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da
-phrase _co_ buraco, _ambyra_ defuncto, _anhotim_ enterrar--buraco para
-enterrar o defuncto--_c'am'otim_. O nome dava-se tambem a qualquer pote.
-
-II. _Guabiroba._--Deve ler-se _Andiroba_. Arvore que dá um azeite
-amargo.
-
-III. _Cabellos do sol._--Em tupy _guaraciaba_. Assim chamavam aos
-europeus que tinham os cabellos louros.
-
-Pag. 38.--I. _Moquem._--Do verbo _mocaém_ assar na labareda. Era a
-maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer,
-quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro.
-
-II. _Senhor do caminho._--assim chamavam os indigenas ao guia--de
-_py_, caminho e _guara_, senhor.
-
-Pag. 39.--I. _O dia vae ficar triste._--Os tupys chamavam a tarde
-_carúca_, segundo o diccionario: Segundo Lery, _che caruc
-acy_, significa--"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da
-palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem
-do crepusculo do torvamento do espirito?
-
-II. _Jurupary._--demonio; de _juroboca_ e _apara_ torto, aleijado. O
-bocca torta.
-
-III. _Ubaia._--fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa
-saudavel, de _uba_-fructa e _aia_ saudavel.
-
-Pag. 41.--I. _Jandaia._--Este nome que anda escripto por diversas
-maneiras _nhendaia_, _nhandaia_ e em todas alterado é apenas um
-adjectivo qualificativo do substantivo _ará_. Deriva-se elle das
-palavras _nheng_--falar--_antan_, duro, forte, aspero, e _ara_
-desinencia verbal que exprime o agente--_nh' ant' ara_; substituido o
-_t_ por _d_--e o _r_ por _i_, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se
-traduzirá por periquito grasnador.
-
-Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a
-etymologia que lhe dá a tradicção.
-
-II. _Inhuma._--Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é
-a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A
-orthographia melhor creio ser _anhuma_, talvez de _anho_, só, e _anum_,
-ave agoureira conhecida. Significaria então assim _anum solitario_,
-assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel.
-
-Pag. 42.--_Inubia._--Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as
-tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura.
-
-Pag. 43.--_Guará._--Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta
-palavra do verbo _u_ comer, do qual se forma com o relativo _G_ e a
-desinencia _ara_ o verbal _g-u-ára_ comedor. A syllaba final longa é a
-particula propositiva _ã_ que serve para dar fôrça á palavra.
-
-_G-u-ára-ã_ realmente comedor, voraz.
-
-Pag. 44.--I. _Jiboia._--Cobra conhecida: de _gi_ machado e _boia_ cobra.
-O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante
-ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso.
-
-II. _Sucury._--A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole
-um boi. De _Suu_, animal e _cury_ ou _curu_ roncador. Animal roncador,
-porque de feito o rouco da sucury é medonho.
-
-III. _Se é que tens sangue e não mel._--Allusão que faz o velho
-Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo.
-
-IV. _Ouve seu trovão._--Todo esse episodio do rugido da terra é uma
-astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação
-selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada
-sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com
-a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com
-grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros.
-N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia;
-abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com
-estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos
-caramujos.--O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa.
-
-Pag. 45.--_Abaty n'agua._--Abaty--arroz; Iracema serve-se da imagem do
-arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria.
-
-Pag. 53.--I. _Ubiratan._--Páo ferro, de _ubira_--páo e _antan_ duro.
-
-II. _Maracajá._--Gato selvagem.
-
-III. _Caetetus._--Porco do mato, especie de javali brazileiro. Do
-_caeté_--mato grande e virgem--e _suu_ caça, mudado o _s_ em _t_ na
-composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem.
-
-IV. _Jaguar._--Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem
-inquestionavelmente a mesma etymologia; é o verbal _guara_ e o pronome
-_ja_ nós. Jaguar era pois para os indigenas todos os animaes que os
-devoravam. _Jaguareté_ o grande devorador.
-
-V. _Anajê._--Gavião.
-
-Pag. 55.--_Acauan_, ave inimiga das cobras--de _caa_ pão e _uan_--do
-verbo _u_, que come pão.
-
-Pag. 56.--_Sahy._--Lindo passaro azul.
-
-Pag. 57.--I. _Carioba._--Camisa de algodão, de _cary_ branco e _oba_
-roupa. Tinham tambem a _arassoia_ de _arára_, e _oba_, vestido de
-pennas de arara.
-
-II. _Á cintura da virgem._--Os indigenas chamavam a amante possuida
-_aguaçaba_, de _aba_, homem, _cua_, cintura, _çaba_ cousa propria; a
-mulher que o homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o
-pensamento de Iracema.
-
-Pag. 59.--I. _Jacy._--A lua. De _já_--pronome, nós, e _cy_--mãe.--A
-lua exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por
-elles festejado.
-
-II. _Fogos da alegria._--Chamavam os selvagens _tory_, os fachos ou fogos;
-e _toryba_, a alegria, a festa, a grande copia dos fachos.
-
-Pag. 60.--_Bucan._--Significa uma especie de grelha que os selvagens
-faziam para assar a caça; d'ahi vem o verbo francez _boucaner_. A
-palavra é da lingua tupy.
-
-Pag. 63.--I. _Acoty._--cotia.
-
-II. _Abaeté._--varão abalisado; de _aba_--homem e _eté_--forte,
-egregio.
-
-Pag. 66.--I. _Jacaúna._--jacarandá preto--de _jaca_, abreviação de
-jacarandá, e _una_, preto. Este Jacaúna é o celebre chefe, amigo de
-Martim Soares Moreno.
-
-II. _Coandú._--porco espinho.
-
-III. _Seu collar de guerra._--O collar que os selvagens faziam dos
-dentes dos inimigos vencidos era um brazão e tropheu de valentia.
-
-Pag. 68.--I. _Japy._--significa, nosso pé, de _ja_--pronome, nós e
-_py_ pé.
-
-II. _Ibyapina._--De _Iby_-terra, e _apino_, tosquiar.
-
-III. _Jatobá._--grande arvore real. O logar da scena é o sitio da hoje
-Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão.
-
-Pag. 71.--I. _Meruoca._ De _mera_, mosca, e _oca_, casa. Serra junto do
-Sobral, fertil em mantimentos.
-
-II. _Uruburetama._--patria ou ninho de urubus: serra bastante alta.
-
-III. _Mundahú._--rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama.
-_Mandé_, cilada, e _hu_ rio.
-
-IV. _Potengi._--rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares
-Moreno.
-
-Pag. 72.--I. _As saborosas trahiras._--É o rio Trahiry trinta leguas ao
-norte da capital. De _trahira_, peixe e _y_, rio. Hoje é povoação e
-districto de paz.
-
-II. _Soipé._--paiz da caça. De _Sôo_ caça, e _ipé_ lugar onde.
-Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da
-Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na
-embocadura do rio.
-
-III. _Pacoty._--Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se
-no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás.
-
-IV. _Iguape._--Enseada distante duas leguas de Aquirás. De _Ig_, agua,
-_cua_, cintura e _ipé_, onde.
-
-Pag. 73--I. _Mocoribe._--morro de areia na enseada do mesmo nome a uma
-legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de _Corib_ alegrar e _mo_,
-particula ou abreviatura do verbo _monhang_ fazer, que se junta aos
-verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação
-passiva--exp. _caneon_ affligir-se, _mocaneon_ fazer alguem afflicto.
-
-II. _Rio que forma um braço de mar._--É o _Parnahyba_, rio de Piauhy.
-Vem de Pará. mar, _nhanhe_, correr e _hyba_, braço; braço corrente do
-mar. Geralmente se diz que _Pará_ significa rio e _Paraná_ mar; é
-inteiramente o contrario.
-
-Pag. 74.--I. _Mayr._--cidade. Talvez provenha o nome de _mayr_
-extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição
-ás tabas dos indios.
-
-II. _Brancos tapuias._--em tupy, _tapuitinga_. Nome que os Pytiguaras
-davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. _Tapuia_,
-significa barbaro, inimigo. De _taba_, aldeia e _puyr_, fugir,--os
-fugidos da aldeia.
-
-Pag. 75.--I. _Batuireté._--narseja illustre, de _batuira_ e _eté_.
-Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada
-valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e
-da comarca que ella occupa.
-
-II. _Suas estrellas eram muitas._--Contavam os indigenas os annos pelo
-nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma
-castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade.
-
-III. _Jatobá._--arvore frondosa, talvez de _jetahy_, _oba_, folha e
-_a_, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma
-serra em S. Quiteria.
-
-Pag. 76.--I. _Quixeramobim._--segundo o Dr. Martins traduz-se por essa
-exclamação de saudade. Compõe-se de _Qui_, ah! _xere_, meus,
-_amôbinhé_, outros tempos.
-
-II. _Caminho das garças._--Em tupy _Acarape_, povoação na freguezia
-de Baturité a nove leguas da capital.
-
-III. _Maranguab._--A serra de Maranguape distante cinco leguas da
-capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena
-compõe-se de _maran_ guerrear e _coaub_ sabedor; _maran_ talvez seja
-abreviação de _maramonhang_, fazer guerra, se não é, como eu penso,
-o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr.
-Martins traz etymologia diversa. _Mara_, arvore, _angai_, de nenhuma
-maneira, _guabe_, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao
-objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.
-
-IV. _Pirapora._--Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas
-e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras.
-Provem o nome de _Pira_, peixe, pore, salto: salto do peixe.
-
-Pag. 78.--_O gavião branco_--Batuireté chama assim o guerreiro branco,
-ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo
-a destruição de sua raça pela raça branca.
-
-Pag. 79. II. _Porangaba._--significa belleza. É uma lagoa distante da
-cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas
-margens está a decadente povoação de mesmo nome.
-
-II. _Jererahu._--rio das marrecas; de _jerere_--ou irêrê, marreca, e
-_hu_ agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa,
-com especialidade as bellas laranjas conhecidas por _laranjas de
-Jererahu_.
-
-III. _Sapiranga._--lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas
-da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de _ceça_, olhos
-e _piranga_ vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa
-ophtalmia.
-
-IV. _Murytiapuá._--de _murity_--nome da palmeira mais vulgarmente
-conhecida por burity, e _apuam_, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido.
-
-V. _Aratanha._--de _arára_, ave e _tanha_, dente. Serra mui fertil e
-cultivada em continuação da de Maranguape.
-
-VI. _Pacatuba._--de _paca_ e _tuba_, leito ou couto das pacas. Recente,
-mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha.
-
-VII. _Guayúba._--De _goaia_, valle, _y_, agua, _jur_, vir, _be_ por
-onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha
-e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital.
-
-Pag. 81.--I. _Ambar._ As praias do Ceará eram n'esse tempo muito
-abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, _Pira
-repoti_ esterco de peixe.
-
-II. _Coatyá._--pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares
-Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará.
-
-Pag. 82.--_Coatyabo._--A desinencia _abo_ significa o objecto que
-soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de _aba_, gente, creatura.
-
-Pag. 90.--_Imbú._--Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral.
-É saborosa e semelhante ao cajá.
-
-Pag. 93.--I. _Tupinambás._--Nação formidavel, ramo primitivo da
-grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não podendo
-expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde fizeram
-alliança com os francezes que já então infestavam aquellas paragens.
-O nome que elles se davam significava--gente parente dos Tupys--de
-_Tupy_--_anama_--ba.
-
-II. _Maracatim._--Grande barco que levava na proa _tim_--um _maracá_.
-Aos barcos menores ou canoas chamavam _igara_--de _ig_--agua--e _jara_,
-senhor; senhora d'agua.
-
-Pag. 95.--_Moacyir._--Filho do soffrimento--de _moacy_, dôr e _ira_,
-desinencia, que significa sahido de.
-
-Pag. 96.--_Faxa._--É o que chamam vulgarmente _typoia_; rejeitou-se o
-termo proprio do texto por andar degradado no estylo chulo.
-
-Pag. 97.--_Chupou tua alma._--Creança em tupy é _pitanga_, de _piter_
-chupar e _anga_ alma; chupa alma. Seria porque as creanças attrahem e
-deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção d'alma dos
-paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido.
-
-Pag. 99.--_Cariman._--Uma conhecida preparação de mandioca. _Caric_,
-correr, _mani_, mandioca. Mandioca escorrida.
-
-Pag. 100.--_Tauape_, lugar de barro amarello, de _tauá_ e _ipé_. Fica
-no caminho de Maranguape.
-
-Pag. 103.--_Copim._--Insecto conhecido. O nome compõe-se de _co_ buraco
-e _pim_ ferrão.
-
-Pag. 104.--_Albuquerque._--Jeronymo d'Albuquerque chefe da expedição
-do Maranhão em 1612.
-
-Pag. 117.--_Colibri._--D'esse lethargo do colibri no inverno fala Simão
-de Vasconcellos.
-
-Pag. 125--_Mocejana._--Lagoa e povoação a 2 leguas da capital. O verbo
-_cejar_ significa--abandonar; a desinencia _ana_ indica a pessoa que
-exercita a acção do verbo. _Cejana_--significa o que abandona. Junta a
-particula _mo_ do verbo _monhang_, fazer, vem a palavra a significar o
-que fez abandonar ou que foi lugar e occasião de abandonar.
-
-
-
-
-CARTA
-AO DR. JAGUARIBE
-
-
-Eis-me de novo, conforme o promettido.
-
-Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.
-
-Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um
-estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que
-convida á doce pratica.
-
-Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por
-isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das
-salas.
-
-Sem mais.
-
-Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro
-annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra
-importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua
-primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava
-iniciativa generosa para melhor situação.
-
-Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso
-buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da
-patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você,
-politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas
-litterarias, não por menos preço, sim por vocação.
-
-A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e
-amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que
-tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema.
-
-É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que
-tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus
-costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de
-litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e
-fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e
-estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga
-que se possa impingir ao pio leitor.
-
-Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a
-_Confederação dos Tamoyos_ dizer: "as tradições dos indigenas dão
-materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem
-ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias."
-
-Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e
-tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle.
-Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas
-para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o
-plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego
-ao quarto canto.
-
-Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe
-confessar o motivo.
-
-Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma
-especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem
-indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes
-para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era
-simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias
-antigas.
-
-Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se
-publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia
-nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos
-autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas
-accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da
-lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram
-primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez
-ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos
-indigenas, não se encontrava ali.
-
-Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa
-na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da
-natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas
-aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu
-poema não concluido dos _Timbiras_, propoz-se a descrever a epopea
-brazileira.
-
-Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o
-que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo
-Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que
-não é verosimil tivessem no estado da natureza.
-
-Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as
-idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção
-está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde
-quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente
-as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao
-leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.
-
-O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a
-nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo,
-como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as
-tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua
-vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que
-ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.
-
-Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as
-idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a
-reflexão consolidou-as e robusteceu.
-
-Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a
-investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e
-espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar
-essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém
-fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a
-etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.
-
-Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me
-seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha
-sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou
-pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil
-inspiração?
-
-E sobre esse, logo outro receio.
-
-A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados
-em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam
-inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura
-moderna?
-
-Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas,
-senhor do caminho, _pyguara_. A belleza da expressão selvagem em sua
-traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam
-sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, _coaub_, porque essa
-phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado
-selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na
-occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa
-direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.
-
-Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional?
-
-Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os
-brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se
-inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez,
-embora não corresponda ao pensamento do selvagem.
-
-Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não
-ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o
-mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer?
-Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que
-ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos
-proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo
-escolhido, que emittisse juizo illustrado?
-
-Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o
-primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro
-não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que
-pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e
-dar-lhe novos rumos.
-
-Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja;
-ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do
-pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração
-fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações
-o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão
-cerca de dois mil versos heroicos.
-
-Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os
-acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares,
-monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o
-papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem
-nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para
-cabocolos."
-
-Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da
-experiencia _in anima prosaico_. O verso pela sua dignidade e nobreza
-não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae
-mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então
-que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não
-passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que
-havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa.
-
-O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848
-revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e
-tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado
-uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o
-ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos
-portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o
-thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a
-belleza da mulher.
-
-Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro;
-precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi
-_Iracema_. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma
-testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as
-auras cearenses?
-
-Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles
-as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi
-poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A
-etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer
-tirados da composição das palavras, são de cunho original.
-
-Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza
-no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra
-de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi
-de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos
-entendidos.
-
-Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter
-algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao
-cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter
-perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de
-serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que
-vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o
-silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais
-esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os
-versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos,
-reliquias autobiographicas.
-
-Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci
-me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa
-com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa
-semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos
-ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia
-conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora
-corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e
-de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos.
-
- Agosto de 1995.
-
- J. DE ALENCAR.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK IRACEMA ***
-
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-be renamed.
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-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary
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-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
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