diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 4 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/67724-0.txt | 9407 | ||||
| -rw-r--r-- | old/67724-0.zip | bin | 140907 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/67724-h.zip | bin | 225956 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/67724-h/67724-h.htm | 9707 | ||||
| -rw-r--r-- | old/67724-h/images/cover.jpg | bin | 82695 -> 0 bytes |
8 files changed, 17 insertions, 19114 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..34b84b5 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #67724 (https://www.gutenberg.org/ebooks/67724) diff --git a/old/67724-0.txt b/old/67724-0.txt deleted file mode 100644 index bbc832e..0000000 --- a/old/67724-0.txt +++ /dev/null @@ -1,9407 +0,0 @@ -The Project Gutenberg eBook of O Guarany:, by José Martiniano de -Alencar - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: O Guarany: - romance brazileiro Vol. 01 (of 2) - -Author: José Martiniano de Alencar - -Release Date: March 28, 2022 [eBook #67724] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images - generously made available by Hathi Trust Digital Library.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: *** - - - - - -J. DE ALENCAR - - -O GUARANY - -ROMANCE BRAZILEIRO - - -QUINTA EDIÇÃO - - -TOMO PRIMEIRO - - -RIO DE JANEIRO - -B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR - -71, RUA DO OUVIDOR, 71 - -PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER. - -Ficão reservados os direitos de propriedade. - -1883 - - - - -AO LEITOR - - -Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição -uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a -rever. - -Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema -benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para -divida de reconhecimento. - -Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos, -achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem -corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e -sobra o tedio de um labor ingrato. - -Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o -desalinho de um estylo não castigado. - - - - -INDICE -PRIMEIRA PARTE -OS AVENTUREIROS -I.--Scenario......................................... 5 -II.--Lealdade........................................ 13 -III.--A bandeira..................................... 23 -IV.--A Luta.......................................... 35 -V.--Loura e morena................................... 45 -VI.--A Volta......................................... 57 -VII.--A prece........................................ 63 -VIII.--Tres linhas................................... 81 -IX.--Amor............................................ 91 -X.--Ao alvorecer..................................... 101 -XI.--No banho........................................ 111 -XII.--A onça......................................... 121 -XIII.--Revelação..................................... 133 -XIV.--A india........................................ 145 -XV.--Os tres......................................... 157 -SEGUNDA PARTE -PERY -I.--O Carmelita...................................... 175 -II.--Yara!........................................... 191 -III.--Genio do mal................................... 205 -IV.--Cecy............................................ 217 -V.--Vilania.......................................... 231 -VI.--Nobreza......................................... 243 -VII.--No precipicio.................................. 257 -VIII.--O bracelete................................... 269 -IX.--Testamento...................................... 281 -X.--Despedida........................................ 293 -XI.--Travessura...................................... 305 -XII.--As mensagens de Pery........................... 317 -XIII.--Trama......................................... 329 -XIV.--A chacara...................................... 341 -Notas................................................ 353 - - - - -PRIMEIRA PARTE - - -OS AVENTUREIROS - - - - -I - -SCENARIO - - -De um dos cabeços da _Serra dos Órgãos_ deslisa um fio d'agua que se -dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu -curso de dez leguas, torna-se rio caudal. - -É o _Paquequer_: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma -serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba, -que rola magestosamente em seu vasto leito. - -Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio, -altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés -do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e -serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as -canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do -senhor. - -Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas -acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta -patria da liberdade. - -Ahi, o _Paquequer_ lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as -florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas -de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De -repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um -momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só -arremesso, como o tigre sobre a presa. - -Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e -adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como -em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes. - -A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e -vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que -corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos -leques das palmeiras. - -Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista, -tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem -é apenas um simples comparsa. - -No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava -deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia -menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o -interior. - -Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, -construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma -muralha de rocha cortada a pique. - -A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um -semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças -quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita -metade pela natureza e metade pela arte. - -Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, -encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma -fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, -chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado -pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens. - -Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza -para crear meios de segurança e defeza. - -De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, -alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; -entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava -aquelle pequeno valle impenetravel. - -A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda -apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de -frente, baixas, largas, quasi quadradas. - -Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um -pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado -esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que -abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha. - -No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que -chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a -natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do -rochedo. - -Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal -de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata -tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e -graça admiravel. - -Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde -se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de -gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a -natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma -miniatura. - -O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma -cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de -morada a aventureiros e acostados. - -Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se -uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião -nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o -chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta -habitação selvagem. - -Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a -maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada -porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do -edificio. - -A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente, -respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em -um deserto, como era então aquelle sitio. - -As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de -pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que -representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa. - -Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de -cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata -sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada -de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e -por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça. - -Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo -brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um -oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno -docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues. - -Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés -torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a -mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste. - -Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações -heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e -era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que -revelava a presença de uma mulher. - -Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis -de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas -em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de -um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens. - -A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual -havia um escabello de madeira dourada. - -Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras -hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de -Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e -formas exquisitas. - -Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia -definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias -côres e entremeiada de pennas negras e escarlates. - -Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico -a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas -brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos -olhos profanos. - -Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado -nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso -que uma fada habitava. - - - - -II - -LEALDADE - - -A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo -portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro. - -Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da -conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens. - -Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria -alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da -fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa -capitania. - -Fez parte em 1578 da celebre expedição do Dr. Antonio de Salema contra -os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para -fazerem o contrabando de páo-brasil. - -Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da -alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo -pela republica e a sua dedicação ao rei. - -Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os -indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do -interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o -governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo -sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito -tempo devoluta. - -A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio, -vierão modificar a vida de D. Antonio de Mariz. - -Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao -rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito -e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil D. Filippe II -como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a -espada e retirou-se do serviço. - -Por algum tempo esperou a projectada expedição de D. Pedro da Cunha, -que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então -sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, D. Antonio, prior do Crato. - -Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e -sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe -guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão, -as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que -lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia -assentar o seu novo solar, D. Antonio de Mariz erguendo o vulto direito, -e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em -torno, exclamou: - ---Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal, -que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo -meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás, -Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro! - -Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita -sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima -phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol -que transmontava. - -Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os -trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de -residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino -construirão e decorárão a casa que já conhecemos. - -D. Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida -aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á -sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um -sertão, todo o luxo e commodidade possiveis. - -Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de -Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos -productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e -hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para -proverem os seus habitantes de todo o necessario. - -Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as -ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha -de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma -resistencia inexpugnavel. - -Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus -selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares -habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão -comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição. - -Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em -que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e -que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez -e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras -preciosas, que ião vender na costa. - -Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos -indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza -commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D. -Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade -media. - -O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo -aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era -estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua -visinhança, estabelecer-se por esses lugares. - -Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do -Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e -por isso D. Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se -premunido para qualquer occurrencia. - -Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos -coloniaes, uma banda de aventureiros que lhe servião nas suas -explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados, -destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a -astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma -especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo. - -D. Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma -disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do -chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual -na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por -um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello, -como sem demora e hesitação. - -Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor -de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios; -devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação -dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de -conservara ordem, a disciplina e a harmonia. - -Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior -á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á -cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos -necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros -pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente -pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos -de consumo. - -Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa -pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus -usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao -seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa -superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as -massas. - -Para D. Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua -fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era -senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só -se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da -corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que -se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as -frontes inclinavão. - -D. Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a -consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação -que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de -seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de -sua pequena familia. - -Esta se compunha de quatro pessoas: - -Sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de -fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um -bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de -um acto de dedicação: - -Seu filho, D. Diogo de Mariz, que devia mais tarde proseguir na carreira -de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço -na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas: - -Sua filha, D. Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse -pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o -seu genio travesso e a sua mimosa faceirice: - -D. Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de D. Antonio, embora nada -dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma -india que havia captivado em uma das suas explorações. - -Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes -personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se -comprehendão os acontecimentos que depois se passárão. - -Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos. - - - - -III - -A BANDEIRA - - -Era meio dia. - -Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas, -costeava a margem direita do Parahyba. - -Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada -de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta -dous pistoletes, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado -a tiracollo pelo hombro esquerdo. - -Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de -caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os -abrigava da chuva. - -Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena -distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não -atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo -a dianteira. - -Naquelle tempo dava-se o nome de _bandeiras_ a essas caravanas de -aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de -ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras -ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba, -era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os -productos de sua expedição pelos terrenos auriferos. - -Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que -seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e -que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito -garbo e gentileza, quebrou o silencio geral. - ---Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de -diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro -leguas! - -Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á -cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço. - ---Ao que parece, tendes pressa de chegar, Sr. Alvaro de Sá? disse elle -com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de -ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita. - ---De certo, Sr. Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o -desejo de chegar. - ---Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais -natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes. - ---Que quereis dizer com isto, Sr. Loredano? perguntou Alvaro com um -movimento de enfado. - ---Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e -medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes -das seis horas. - -Alvaro corou. - ---Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos -chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite. - ---Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer -dia! replicou o italiano no mesmo tom. - -Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o -seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e -respondeo: - ---Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e -com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo. - ---Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que -aquelle que não quer ouvir. - ---Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: -foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o -ensinou? disse o cavalheiro gracejando. - ---Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos -Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas -arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro -á sua dama. - -Alvaro enrubeceo pela terceira vez. - -Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava -meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o -incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo. - -Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro -proseguio com extrema amabilidade: - ---Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei, -Sr. cavalheiro? - ---Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de -arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas -galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza. - ---É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz -lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das -outras vezes erão nunca menos de dez e quinze. - ---Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou -fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas -acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las. - ---_Per Bacco_, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos -pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis -justo que cada um pense á sua maneira. - ---Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e -avançando o passo da sua cavalgadura. - -A conversa interrompeo-se. - -Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão -silenciosos uma par do outro. - -Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a -distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia -pensativo e preoccupado. - -Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto, -cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma -cansoneta de _condottiere_, de quem elle apresentava o verdadeiro typo. - -Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o -sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a -fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro; -alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os -principaes traços deste aventureiro. - -A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia -mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta. - -Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas -profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa -folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava -nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos -seculares dos acaris e araribás. - -O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus -échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas -interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as -folhas seccas. - -Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo -envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso. - -Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de -sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se -de repente nomeio do _claro-escuro_ da floresta. - -Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de -verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe -indicasse a hora. - -Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios. - ---Não vos dê cuidado, Sr. cavalheiro, antes de seis horas lá -estaremos; sou eu que vo-lo digo. - -O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho. - ---Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que -me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos -o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos -guarde de tocar em objectos que são sagrados. - -Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto -conservou-se calmo e sereno. - ---Bem sabeis que vos devo obediência, Sr. cavalheiro, e não faltarei -della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que -tenho dito póde ser mais claro do que é. - ---Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para -outros. - -Ora dizei-me, Sr. cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me -ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa -possivel? - ---Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em -adevinhar. - ---Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta -expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias -eis-nos ao cabo della? - ---Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr. - ---Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com -satisfação, quando o coração nelle se interessa. - ---Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e -colhendo as redeas. - -O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou: - ---Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de D. Antonio de -Mariz, sem duvida? - ---Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço -com arrogancia. - ---Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano -cortezmente, partistes do _Paquequer_ em uma segunda feira, quando o dia -designado era um domingo. - ---Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de -despeito. - -Reparo em tudo, Sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, -que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente -antes do domingo. - ---E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e -fazendo um esforço para conter-se. - ---Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos -fallei. - ---E qual é ella, se vos praz? - ---Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos. - ---Dizei sempre, Sr. Loredano: nada é perdido entre dous homens que se -entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça. - ---Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D. -Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no -_Paquequer_ um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece. - ---Tendes um dom admiravel, Sr. Loredano; o que é de lamentar, é que o -empregueis em futilidades. - ---Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a -olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem? - ---Com effeito é uma boa distracção. - ---Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos -outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de -olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida. - ---Contai-nos isto, ha de ser curioso. - ---Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor -ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver -cousa mais simples? - -Alvaro empallideceo desta vez. - ---Sabeis uma cousa, Sr. Loredano? - ---Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer. - ---Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos -muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de -espião. - -O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao -cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém -dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual. - ---Quereis gracejar, senhor cavalheiro?... - ---Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao -italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por -Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como -a uma cobra venenosa. - -A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma -impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo -desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os -traços vigorosos. - -Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo: - ---Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos -diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber -qual é o que tem a temer!... - ---Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez. - ---Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem, -accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo. - -E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e -misturou-se com os seus companheiros. - -A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se -de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes -zimborios de verdura. - -Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a -solidão com os échos estridentes. - -Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os -cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente, -lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores. - - - - -IV - -A LUTA - - -Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma -scena curiosa. - -Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores, -encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um indio na flor -da idade. - -Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão _aimará_, -apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos -hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto -como um junco selvagem. - -Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre, -brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a -tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a -fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem -modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a -belleza inculta da graça, da força e da intelligencia. - -Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do -lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, -vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel. - -Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa, -ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé -pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as -flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha -verticalmente diante de si um longo forcado de páo ennegrecido pelo -fogo. - -Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena -bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga, -cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil. - -Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas -que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava -imperceptivelmente. - -Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de -um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se -brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os -reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol. - -Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore, -e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto -gigantesco. - -Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como -procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma -especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e -mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão -fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima. - -O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não -perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e -serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade -do olhar revelava um pensamento de defeza. - -Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se -mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre -agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada -da clareira. - -Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue, -eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia -arriscar o ataque. - -O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e -apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição, -nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita. - -Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das -florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua -marcha. - -Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a -pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de -impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao -peito: - ---É meu!... meu só! - -Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e -sonora, mas em tom de energia e resolução. - -O italiano rio. - ---Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa -amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a -tiracollo; ella vo-lo agradecerá. - -Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta -do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se -elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros -comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o -caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração -offensiva. - -Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse -um só instante com os olhos o inimigo. - -Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha, -e entranhárão-se de novo na floresta. - -O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado, -não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos -arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da -matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento. - -Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore -houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um -pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario -uma distancia de trinta palmos. - -O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os -seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os -cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la. - -Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma -flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda -do grande arco, que excedia de um terço á sua altura. - -Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a -pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda, -açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior. - -O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns -nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se -novamente. - -Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou -tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um -momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito. - -Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas -armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem, -consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada. - -O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze -passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade -extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo -raio. - -Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o -corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os -dentes promptos a cortarlhe a jugullar. - -A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em -que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle -azevichada, já a fera tocava o chão com as patas. - -Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade. - -Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava -na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos -magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se -ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo -com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe -o collo, e vacillou. - -Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao -lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e -foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, -com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu -vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras. - -Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas -pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim -immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á -sua passagem. - -Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia -senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha, -metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de _ticum_ que tinha -enrolada á cintura em muitas voltas. - -Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e -passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez -o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que -a onça não podesse abrir a bocca. - -Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de -agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara -cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu -vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o -prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião -impotentes. - -Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta, -e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e -afogueado. - -O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da -carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, -arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do -sangue quente e fumegante. - -Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue -que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão -violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo -e abafado. - -O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que -a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem -essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela -tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que -podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais -terrivel. - -Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na -matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o -outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para -jantar. - -Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou -com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas -colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as -mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho. - -Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro, -e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a -picada por onde tinha seguido a cavalgata. - -Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma -moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com -uma trofa de pennas amarellas. - -Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que -ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra, -e assim ficou algum tempo. - -Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção -que o outro tomára pouco tempo antes. - - - - -V - -LOURA E MORENA - - -Cahia a tarde. - -No pequeno jardim da casado _Paquequer_, uma linda moça se embalançava -indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia -silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas -e perfumadas. - -Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião -languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as -palpebras rosadas. - -Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da gardenia dos nossos -campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro -exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de -algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião, -desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas. - -O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel -conceber; mistura de luxo e de simplicidade. - -Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul -apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de -perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as -mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso -contorno do seu braço arqueado sobre o seio. - -Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, -descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma -resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e -perfeição admiravel. - -A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava -carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para -imprimir á rede uma doce oscillação. - -Esta moça era Cecilia. - -O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel -descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa, -deixava que a imaginação corresse livre. - -Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das -madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo -e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido, -algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos. - -Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado, -roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha -cahir a seus pés timido e supplicante. - -Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces; -mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um -gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios. - -Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz, -abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo -cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem. - -Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha -offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a -relva a ponta de um pézinho de menina. - -Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de -preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de -inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar. - -Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella -sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra -de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia -desvanecer. - -Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e -outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro, -aproximou-se da rede. - -Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro -em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de -languidez e malicia, de indolencia e vivacidade. - -Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos, -labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de -seducção irresistivel. - -Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde -furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de -contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um -despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo. - -Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para -beija-la ou ver se estava dormindo. - -Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua -prima. - ---Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo. - ---É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que -projectavão as arvores; está quasi noite. - ---E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra -gracejando. - ---Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me -sinto triste. - ---Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves -ao nascer do sol. - ---Está bem! não queres acreditar! - ---Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o -anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um -passarinho? - ---É para vêres! Tudo cança neste mundo. - ---Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos. - ---Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que -quero-lhes como se me tivessem visto nascer. - ---Então o que é que te faz triste? - ---Não sei; falta-me alguma cousa. - ---Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho! - ---Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada. - ---Ora! o que te falta. - ---Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo. - ---Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames, -e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro -animal selvagem. - ---Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima. - ---Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e -como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida. - ---Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje? - ---Não; nem sei o que é feito delle. - ---Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma -desgraça! disse a moça estremecendo. - ---Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o -dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia? - ---Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á -casa. - ---O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua -vida antiga e livre. - ---Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos -abandonasse assim! - ---Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão? - ---É verdade!... disse a moça preoccupada. - -Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta -posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla -negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus -olhos. - -A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que -fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu -regaço. - ---Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão -sobre o seu pello assetinado. - ---Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da -moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e -ficará mais manso do que o teu Pery. - ---Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito -injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum. - ---Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle -escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal -como um cavallo, ou um cão? - -Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha -de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente. - ---Isabel!... exclamou ella resentida. - ---Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não -olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que -não percebo o desdem com que me tratão? - ---Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, -e te respeitão como devem. - -Isabel abanou tristemente a cabeça. - ---Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho -razão. - ---Ora, um momento de zanga de minha mãi... - ---É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso -amargo. - ---Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima -e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito -severa mesmo para comigo. - ---Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que -já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão. - ---Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já -que me tratasses como irmã? - ---Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua -irmã!... - ---E porque não has de se-lo? Quero que o sejas! - ---Para ti, que para elle... - -Este _elle_ foi murmurado dentro d'alma. - ---Mas olha que exijo uma cousa. - ---O que é? perguntou Isabel. - ---É que eu serei a irmã mais velha. - ---Apezar de seres mais moça?... - ---Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer? - ---De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir. - ---Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver -triste, ouviste? Senão fico zangada. - ---E tu não estavas triste ha pouco? - ---Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede. - -Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco, -scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de -menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas -voltava de novo. - -Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a -graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o -ar livre e a vida passada no campo. - -Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com -uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a -rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio, -estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua -penugem macia. - ---Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis -fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não -é? - -E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus -dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem -revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, -envolta pela graça infantil de seu espirito. - -Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel -lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros -que entravão a cerca. - -Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo. - ---Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima. - ---São elles que chegão. - -Elles quem? - ---O Sr. Alvaro e os outros. - ---Ah!... exclamou a moça corando. - ---Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar -na perturbação de sua prima. - ---Muito; quem sabe se houve alguma cousa! - ---Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente. - ---Contaste os dias? - ---É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã -fazem tres semanas. - ---Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem! - ---Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de -melancolia. - ---Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti. -Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu -tenho inveja do teu moreninho, prima? - ---E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia. - ---Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos. - -E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado -da entrada. - - - - -VI - -A VOLTA - - -Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens -passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o -edificio. - -Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo -pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro. - -Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no -peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem -pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de -ouro. - -Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão, -e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e -nobre cabeça de velho. - -De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de -cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba -alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca -ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos. - -Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta -annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o -porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na -força da idade. - -O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres -Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o -fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo. - -A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a -sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa -semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais -augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina -côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual -erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções. - ---Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, -medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer. - ---Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo -commetteo uma imprudencia matando essa india. - ---Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, -o desculpo! - ---Julgais com demasiada severidade. - ---E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, -commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me -acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, -que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um -momento de desvario, a erguesse contra uma mulher. - ---Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem... - ---Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os -meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos -que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra -que conquistamos, mas são homens! - ---Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe -deo a Sra. D. Lauriana. - ---Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é -disto que discorriamos. - ---Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de D. -Diogo. - ---E que pensas tu? - ---Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, Sr. D. -Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a -atacar-vos. - ---Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me. - ---Não sou capaz de tal, Sr. cavalheiro! - ---Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes -que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão -tudo, a vida e a liberdade. - ---Não desconheço isto, respondeo o escudeiro. - ---Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem -offendidos por mim soffrerão tudo para vingar-se. - ---Tendes mais experiencia do que eu, Sr. cavalheiro; mas queira Deus que -vos enganeis. - -Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D. -Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que -atravessava pela frente da casa. - ---Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em -todo o caso que estejamos preparados para recebe-los. - ---Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se. - -D. Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia -sentado a alguns passos. - -Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se -esperou-o n'uma attitude respeitosa. - ---Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as -ordens que vos dei. - ---Senhor... - ---Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses -selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a -vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar -satisfeito de vossa obra. - ---Meu pai!... - ---Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção -indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso -da espada que trazeis á cinta. - ---Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis -vosso filho. - ---Não é vosso pai que vos rebaixa, Sr. cavalheiro, e sim a acção que -praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei -para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir -d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender -a vossa vida. - -D. Diogo inclinou-se em signal de obediencia. - ---Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e -ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois -portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas -combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando -ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre. - ---Cumprirei as vossas ordens, meu pai. - ---Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé -desta casa sem minha ordem. Ide, Sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho -sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um -braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para -protege-las. - -O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma -palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai. - -D. Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob -a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo -caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no -soleira da porta. - -D. Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte -e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados -por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um -desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e -fingião uma especie de diadema. - -Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na -frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo -donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas -arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os -hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os -seus ornatos. - -Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e -devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um -realce, nella tornava-se uma ridicula exageração. - -No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a -distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos -quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama -fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, -e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um -throno. - -Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella -sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato -do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um -espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente. - -Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por -concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua -mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, -exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia -immediatamente que era escusado insistir. - -Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a -repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho -fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua -mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus -sentimentos. - ---Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo -os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido. - ---Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o -fidalgo. - ---Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio! - ---E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero -que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua -companhia. - ---Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antonio? - ---D. Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai -viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o -tempo em extravagancias. - ---Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso -filho da casa paterna! - ---Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a -sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca? - ---Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho, -cheia de inquietações pela sua sorte. - ---Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi. - ---Sois cruel, senhor. - ---Sou justo apenas. - -Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel -distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa. - ---Oh! exclamou D. Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá. - -O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se, -subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do -cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente. - -O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á -saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a -inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se -abaixarão sobre o rosto dos aventureiros. - -Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e -os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro, -sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que -servião de bancos. - -D. Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde -se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só -teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de -Bragança. - -O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi -misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro. - -Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos -chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades, -outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo -tempo, de modo que ninguem se entendia. - -Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou -tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu -para sua mãi. - -Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana, -Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo -na mão foi inclinar-se corando diante da moça. - ---Eis-vos de volta, Sr. Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para -disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes! - ---Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o -pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se. - -Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi. - -Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres -olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos -cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e -mocidade. - -D. Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle -lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto -veneravel. - -Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, -cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas -dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima. - -Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos -negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se -naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço. - -Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava -além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do -Italiano que vio o sorriso de D. Antonio de Mariz e o comprehendeo. - -Em quanto isto succedia, D. Diogo que se havia retirado, voltou a saudar -Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto -a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de -seu pai. - - - - -VII - -A PRECE - - -A tarde ia morrendo. - -O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, -que illuminava com os seus ultimos raios. - -A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa, -enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das -arvores. - -Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o -ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o -orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto -a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos -com que se despede do dia. - -Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o -rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder -á doce influencia da tarde. - -Era Ave-Maria. - -Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do -crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para -murmurar a prece da noite! - -Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas -gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios -perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um -momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma. - -O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que, -reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o -toque lento e pausado do _angelus_. - -A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que -parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da -tarde que morre. - -Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a -impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a -esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado -de um certo temor. - -De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar -quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava -Ave-Maria. - -Todos se descobrirão. - -D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o -lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou. - -Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D. -Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo, -ajoelharáo-se a alguns passos de distancia. - -O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos -do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo -cavalheiro. - -Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa -prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos, -illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito. - -Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia -como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto -de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a -quem dirigia a sua prece. - -Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava -ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo -recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava -imperceptivelmente os labios. - -Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o -precipio, e um tiro saudou o occaso. - -Era noite. - -Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando -a pouco e pouco. - -Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma -graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro. - -Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. -Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de -um abbade. - -Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um -desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta -ceia. - -Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra -emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da -familia, o que havia recebido como um favor immenso. - -O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão -simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia -estabelecido na sua habitação. - -Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente -separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se -com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria. - -Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada, -onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua -oração da tarde. - -Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da -casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á -distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento -extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo -rio. - -Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia -o italiano, de chegar ao _Paquequer_ em um sabbado, e antes das seis -horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de -contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez -occasião de arriscar uma palavra. - -Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de -Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, -timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem -que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia. - -Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual -elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um -pretexto que a chamasse á conversa. - ---Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de -uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem. - ---Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo. - ---Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery. - ---Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle. - ---Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão. - ---Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos -parecerá tão simples. - ---O que fazia então? - ---Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia. - ---Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito. - ---Que tens, menina? perguntou D. Lauriana. - ---É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi. - ---Não se perde grande cousa, respondeo a senhora. - ---Mas eu serei a causa de sua morte! - ---Como assim, minha filha? disse D. Antonio. - ---Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe -saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande -medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!... - ---E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo -rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito. - ---Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o -morto. - ---Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se. - ---E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a -moça sentida. - ---Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o -animal! - -E o moço contou parte da scena passada na floresta. - ---Não ha duvida, disse D. Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por -Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma -das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse -indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua -vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro, -é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem! - -A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais -parte nella. - -D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o -moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no -terreiro da casa veio annunciar a ceia. - -Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na -habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com -Cecilia. - ---Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á -meia voz. - ---Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi? - ---Todas e mais... disse o moço balbuciando. - ---E mais o que? perguntou Cecilia. - ---E mais uma cousa que não pedistes. - ---Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado. - ---Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente. - ---Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis? - ---Sim; porque é uma lembrança vossa. - ---Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a -bem. - -E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença -delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e -que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas, -espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de -pistolas primorosamente embutidas. - -Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo: - ---Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes. - -A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a -refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se -respeitava. - -Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça -fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e -tanta esperança. - -Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando -diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi -levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia -na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria. - -Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, -tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a -vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir. - -Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos -que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que -servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés -roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha -vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno -della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira. - -Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se -lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão -timido, que córava diante della, como ella diante delle. - -De repente a moça estremeceo. - -Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu -pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e -flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor -duvida. - -Era Pery. - -Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao -prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos -que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer. - -Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não -tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de -Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo. - - - - -VIII - -TRES LINHAS - - -Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do -lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas. - -Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu -caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão -uma mesma idéa. - -Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão -essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento, -convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo. - -Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que -mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice. - -N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis -aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em -escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira -que fazia honra ao appetite dos convivas. - -O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta -fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos -do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os -aventureiros podião beber á larga. - -O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens; -afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o -alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez. - -A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se -ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o -ranger da faca na escudella. - -Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu -immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de -choro confuso e discordante. - -Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou -estas palavras: - ---E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos -ouvir uma palavra! - ---Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que -vos traz mudo, algo tendes, misser italiano. - ---Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por -alguma moçoila que andou requestando em S. Sebastião. - ---Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano -seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez? - ---E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em -que o aperte mais a uns do que a outros. - ---Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu -pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e -galanteios. - -O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem -á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com -affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito. - ---Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na -vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu! - ---Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está -penado da amores. - ---E por quem, se vos parece? perguntárão alguns. - ---Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe -está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita? - -Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança. - -Ayres Gomes appareceu á porta do saguão. - ---Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar -severa. Leva rumor! - ---É um dia de chegada, Sr. escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio -Ruy Soeiro. - -Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que -estava em frente delle. - ---Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous -aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já -refizestes, e os mais esperão sua vez. - -Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume -ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo. - ---Estais hoje muito severo, Sr. Ayres Gomes, disse Martim Vaz, - ---Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer, -respondeu o escudeiro. - ---Ah! porque não dizieis isto logo! - ---Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos -que ver. - ---Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás -pacas e porcos do matto. - ---E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras -de polvora? perguntou Vasco Affonso. - ---Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia? - -Loredano ergueu a cabeça. - ---Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão? -perguntou elle. - ---Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a -chamusco, exclamou Martim Vaz. - -A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos -aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e -deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas. - -Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e -os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano -murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra: - ---Amanhã! - -Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous -aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano -continuar o seu caminho até a beira do precipicio. - -Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue -reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não -podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada. - -Ahi esperou. - -Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que -soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o -sorriso que a acompanhou. - -Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia -contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que -lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha -vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um -soffrimento cruel. - -Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou -um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda -uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e -aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia. - -Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que -a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse. - -Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha -chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um -thesouro. - -No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro, -depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando -um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que -a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir, -foi a maneira por que sahira quasi logo. - -Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma -ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo -immediatamente. - -O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua -sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz -que coava entre as cortinas da janella. - -Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um -desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto -segurou-se ao galho de um oleo gigante que, elevando-se sobre a encosta -fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa. - -Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no -galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem -aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho -marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias. - -Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e, -escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro -das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que -Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão -igualmente á alguns passos. - -A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do -aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que -lhe havião chegado do Rio de Janeiro. - -Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o -precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e -sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a -todo o instante! - -Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente, -satisfeita; podia ir dormir e repousar. - -Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a -moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha -primores como aquelles para offertar-lhe. - -O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como -para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas -da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos -pés de Cecilia. - -Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas -partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão -collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella -frouxamente illuminada. - -Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para -tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o -perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de -mercadejar por ella um prazer. - -É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande -e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração. - - - - -IX - -AMOR - - -As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado. - -Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e -virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações -bem differentes. - -Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um -desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; -o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela -impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se -elevava entre elle, pobre colono, e a filha de D. Antonio de Mariz, rico -fidalgo de solar e brazão. - -Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um -acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as -leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso -uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que -seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem -á condição de homens. - -O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já -tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos -é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e -uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de -Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio. - -Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição -nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores -do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos -amores daquelle tempo de crença e lealdade. - -Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo -balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando -encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se -entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança. - -Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle -comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer -a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua -janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe -perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda. - -Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na -qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para -sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se -inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar -que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma -realidade. - -Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume -inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente -para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava -alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa -mesma noite, nesse mesmo instante. - -Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, -que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o -outro uma paixão, o ultimo uma religião. - -Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a -vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: -o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir. - -Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem -correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o -quarto de Cecilia. - -Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da -ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio -tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das -janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre -esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma -adhesão ao pé mais firme e mais seguro. - -Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado -profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia -de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na -sombra e na humidade. - -Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga -e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, -seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que -enchião essas grotas e alcantis. - -Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas -uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o -quadro da janella. - -O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, -onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. -Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da -janella. - -Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o -precipicio seguia as menores evoluções da sombra. - -Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no -parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a -forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano -adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta -mão havia deitado na janella. - -E não se enganava. - -Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o -respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu -intento. - -Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a -esperança de que Cecilia lhe perdoaria. - -Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos -do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. -Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára. - -Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a -curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo. - -Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e -aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento, -bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento -para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras. - -Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo, -e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena. - -Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous -homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar. - -Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se -fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a -menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha -reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do -cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor -suspeita. - -O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli -naquella hora silenciosa da noite? - -O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia -fazer-lhe comprehender o resto. - -Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um -esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do -precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o -prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa. - -Pery não se moveu. - -Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume -do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração -fanatica um pensamento, que para elle era muito simples. - -Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o -mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza, -e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era -differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um -pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora. - -Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando -que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para -dizer-lhe que protegesse sua filha na terra. - -E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava -a fachada do edificio. - -Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema -do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel. - -Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima -que desfiava-lhe pela face. - -Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de -recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um -martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as -suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que -atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle -passava. - -De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas -palavras imperceptiveis: - ---Si eu quizesse! - -Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um -annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal. - -O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que -justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a -pupilla negra de Isabel? - -Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a -face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente? - -Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a -natureza humana não devia resistir? - -Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza -possivel senão em um milagre da Providencia. - -Era o pó subtil do _curari_, o veneno terrivel dos selvagens. - -Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio. - ---Minha mãi?... minha mãi!... - -Um soluço rompeu-lhe o seio. - - - - -X - -AO ALVORECER - - -No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim -e aproximou-se da cerca. - ---Pery! disse ella. - -O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e -submisso. - -Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar -um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um -sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios. - -Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão -de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que -de rigor: - ---Estou muito zangada com Pery! - -O semblante do selvagem annuviou-se. - ---Tu, senhora, zangada com Pery! Porque? - ---Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, -vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida. - ---Cecy desejou ver uma onça viva! - ---Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu -corras atraz della como um louco? - ---Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o -indio. - ---Vai, sim. - ---Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar? - ---Que tem isso? - ---Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar. - -Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a -que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e -originalidade. - -Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por -causa do susto que lhe havia feito na vespera. - ---Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a -mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr? - ---Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora. - ---Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te -pedisse aquella nuvem?... - -E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas -sombras pallidas da noite. - ---Pery ia buscar. - ---A nuvem? perguntou a moça admirada. - ---Sim a nuvem. - -Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou: - -Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery -morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy. - -Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o -coração. - -A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a -sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta. - -A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus -labios um sorriso divino. - ---Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que -arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a -conserves para me defenderes como já fizeste uma vez. - ---Senhora, não está mais zangada com Pery? - ---Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora -affligir-se cuidando que elle ia morrer. - ---E Cecy ficou triste? exclamou o Indio. - ---Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade. - ---Perdôa, senhora! - ---Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente. - -Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia -encommendado a Alvaro. - ---Olha! Pery não desejava ter umas? - ---Muito! - ---Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança -de Cecilia, não é verdade? - ---Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas. - ---Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para -defenderem e salvarem a tua vida. - ---Porque é tua, não é, senhora? - ---Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim. - -O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma -felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a -cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de -Deus. - -Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a -divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu -culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os -thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza -virgem. - -Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu -rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas -ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces. - -A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma -antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada -dia augmentava. - -Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho. - ---Pery te acompanha, senhora? - ---Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o -socegado. - -A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem -comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão -quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao -domingo. - -Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua -mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais -altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem -aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se -banhavão. - -Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio -traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em -que se collocára o percebia immediatamente. - -Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente -com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta -arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava -assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por -elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para -embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava. - -Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que -todos votavão a D. Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava -caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o -chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto. - -E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não -duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do -rio, visse a moça a banhar-se nas aguas. - -Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas -com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a -côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para -nadarem. - -Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que -um olhar de quem quer que fosse visse a _senhora_ no seu trajo de banho; -nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia -offende-la, a ella que era o seu unico Deus. - -Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida, -e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem -que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa -a corrente e as margens do rio. - -O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma -cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um -cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de -côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer -caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore; -tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se -estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco -ou sobre o chão. - -Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das -aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma -sapucaia pendida sobre o _Paquequer_ estalava prestes a cahir, o indio, -veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da -sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que -boiavão. - -Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela -fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser -uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a -moça soffresse por falta de cuidado seu. - -Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e -infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça -podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque -todo o poder do homem fóra impotente para evitar. - -Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse -quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação -era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer -não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr -de pequiá. - -Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto -da escada. - -Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu -ligeiramente seguida por sua prima. - -Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua -loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu -receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe. - -Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer, -e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus -sorrisos sarcasticos. - ---Bom dia, Sr. cavalheiro. - -Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço -que roçassem uma na outra. - -Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das -pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos. - -O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel -tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a -Loredano. - -Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão -commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia -lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio. - -Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento. - -Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre -elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua -senhora. - - - - -XI - -NO BANHO - - -Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima: - ---Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao Sr. Alvaro? - -Isabel estremeceu. - ---Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á -cortezia que elle nos faz. - ---Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente. - ---Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia? - -A moça calou-se. - ---Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou -Cecilia galanteando. - -Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as -pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas -palavras que parecião queimar-lhe os labios: - ---Bem sabes que o aborreço!... - -Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo -chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a -brincar com uma alegria infantil sobre a relva. - -Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha -sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao -verdadeiro. - -A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão -natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que -era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia -córar. - -Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma -de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da -moça acabavão de proferir. - -Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu -coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi -uma blasphemia. - -Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse -mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos -os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel. - -Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem -o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia -rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a -fizesse soffrer. - -O sol vinha nascendo. - -O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia -beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro. - -Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia -as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores. - -Era a hora em que o cactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio -das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol -crestasse a alvura diaphana de suas petalas. - -Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda -humida colhendo uma graciola azul que se embalançava sobre a haste, ou -um malvalisco que abria os lindos botões escarlates. - -Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que -tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda -com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a -viuvinha que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha -raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer. - -Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de -longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo -corpo um calafrio: lembrára-se do tigre. - -De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á -alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas -que se espedaçavão, e o indio appareceu. - -Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula: - ---Que é isto, Pery? - ---Nada, senhora. - ---É assim que prometteste estar quieto? - ---Cecy não se ha de zangar mais. - ---Que queres tu dizer? - ---Pery sabe! respondeu o indio sorrindo. - -Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um -animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça, -julgando que isso lhe causava um prazer. - -Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira, -em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a -revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos -devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre -dedicação que se expandia no sorriso de seus labios. - -As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado -a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse -fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o -sorriso. - -Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda -d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do -indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em -satisfazer as vontades da menina. - -Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se -na relva. - -Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a -entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e -examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma -fresta por onde o olhar do dia penetrasse. - -A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir -espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas -roupagens. - -Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, -que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa -cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina -quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as -folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:--_Bem -te vi_! - -Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho -que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de -menina. - -Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por -com prazer ficou sentada á beira do rio. - -Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, -com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão -graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma -dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão -mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no -crystal das aguas. - -Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul -ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que -fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado -superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um -barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela -correnteza. - -A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia -offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a -tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração -procura illudir-se. - -Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia -que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o -contrario mentia. - -Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado -sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na -margem opposta as guaximas se agitarem. - -A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol, -e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz -de umas grandes pedras que havia á beira do rio. - -Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado -entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido -por um animal de grande corpulencia. - -Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa -ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se -perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação -dos arbustos. - -Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por -uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a -partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão -as pedras para despedirem o tiro. - -E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e -ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava. - -Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria -um perigo, e portanto não reflectio, não calculou. - -Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que -partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos -cabellos mudou de direcção. - -Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de -um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua -senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens. - -Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi -logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava: - ---Pery!... - -Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous -passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se -ligeiramente no matto. - -Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em -lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande -avanço. - -Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica -de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero -o coração como para reter o sangue que espadanava. - -Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a -força da vontade e o poder da natureza. - -O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços -como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para -manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle. - -Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para -a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto -succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer -lutar ainda. - -Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente -retrahindo e tocou a terra com os joelhos. - -Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, -e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um -esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos -vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual -se abraçou convulsivamente. - -Era uma cabuiba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e -de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em -lagrimas. - -O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos -amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de -felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo, -que entrou no seu seio como um balsamo poderoso. - -Sentio-se renascer. - -Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou. - -Estava salvo. - - - - -XII - -A ONÇA - - -Voltemos á casa. - -Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a -Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que -dirigia-se ao rio. - -Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu -a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto. - -Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na -esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta. - -Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns -talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção. - -O pateo ficou deserto. - -Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas -para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos; -um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé, -annunciando que os trabalhos caseiros havião começado. - -De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas -e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez, -como se um inimigo cahisse de assalto. - -Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D. -Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma -cousa extraordinária. - ---Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já! -gritou a dama. - -A janella fechou-se de novo com o ferrolho. - -A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada -dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com -sol alto ainda toda a habitação parecia dormir. - ---Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella. - ---Sim; estais armado? perguntou D. Lauriana por detraz da porta. - ---Tenho a minha espada; mas que novidade ha? - -A physionomia decomposta de D. Lauriana appareceu de novo na fresta da -janella. - ---A onça! Ayres Gomes!... A onça!... - -O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se -fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda. - -A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á -janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado -contra as féras. - -Alguns minutos se passárão assim; D. Lauriana rezando; e Ayres Gomes -rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o -atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de -armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude. - -Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede -do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente; -pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar. - -Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em -voz alta: - ---Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, Sra. D. Lauriana; -ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal. - ---Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se. - ---Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos. - ---É verdade! Mas em alguma parte ha de estar! - ---E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra. -D. Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado. - ---Pois não sabeis? exclamou a dama. - ---O que, senhora? - ---Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça -viva para a casa! - ---Quem, o perro do cacique? - ---E quem mais senão aquelle cão tinhoso! - ---É das que elle costuma fazer! - ---Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes! - ---Mas a culpa não tem elle! - ---Quero ver se o Sr. Mariz ainda teima em guardar essa boa joia. - ---E que é feito da féra, Sra. D. Lauriana? - ---Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e -tragão-me aqui. - ---É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe -permittião as suas botas de couro de raposa. - -Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da -esplanada. - -Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a -espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes. - -Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo, -voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou: - ---Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo! - -Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e -marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu -reflexo pallido. - -Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o -gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas. - ---Que é lá isso? Tem medo? - -E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob -as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre. - -Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza. - -A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo -laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára. - -Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até -á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar -onde havia expirado. - -Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em -armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na -casa de D. Lauriana. - -Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e -arrastando o animal foi apresenta-lo á dama. - -Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto, -entre-abrio-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arripiada, olhou -estremecendo o corpo da féra. - ---Deixe-o ahi mesmo. O Sr. D. Antonio ha da vê-lo com seus olhos! - -Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello -accusatorio que ia fulminar contra Pery. - -Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a -expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava -para causar-lhe um faniquito. - -Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua -lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle -embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como -pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos -de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará. - -Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que -seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem -que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que -importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em -risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della? - -Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de -Mariz assomava á porta. - ---Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa? - ---Ahi a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça comum gesto -soberbo. - ---Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as -presas do tigre. - ---Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o -trouxe!... - ---Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra -com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo: -não tem o signal de uma só ferida! - ---É obra daquelle excommungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D. -Lauriana preparando-se para o ataque. - ---Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e -de que nos fallou Alvaro! - ---Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca! - ---A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel? - ---Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo! - -Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto. - -O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao -passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou -que tinha as patas e as mandibulas ligadas. - ---É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora; -ainda conserva o calor. - -D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal, -certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar -de ser favoraveis ao seu plano. - -Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a -cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a -D. Antonio: - ---Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos -hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis -acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem... - -A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto -energico apontando para o animal morto: - ---Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que -podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que -corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras. - -O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia -precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um -chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira. - -D. Lauriana sorria-se do seu triumpho. - ---E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã -vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia; -encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos, -porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias! - ---Exagerais muito tambem, D. Lauriana. É certo que Pery fez uma -selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma -reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará. - ---Se o conhecesseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis -ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça! - ---Prevenções vossas, que não partilho. - -A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe -decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso. - ---Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas -eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa -de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei -que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa -está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a -semelhante martyrio! - -D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher, -e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia -produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo -conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la. - -D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer. - - - - -XIII - -REVELAÇÃO - - -Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da -porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso -do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha. - -Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que -fascinava. - -Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando -um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do -roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus -hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr -do sol. - -As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se -da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na -pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios -recommendando silencio. - ---Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D. -Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte. - ---Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa? - ---Umas das suas, e de que já sabes parte. - ---E eu vou contar-te o resto! atalhou D. Lauriana, tocando com a mão o -braço de sua filha. - -E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais -dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido -a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da -familia. - -Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de -uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas -com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa, -todos áquella hora estarião defuntos. - -Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que -atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus -olhos brilharão. - ---Assim, concluio peremptoriamente D. Lauriana, não é concebivel que -continuemos com semelhante praga em casa. - ---Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis -manda-lo embora? - ---Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem -nos mattos. - ---Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu -pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo: - -D. Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou: - ---Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou -Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra. - ---E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia. - -D. Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das -moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha -nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por -semana. - ---Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco? - ---E tambem um perigo que correu Cecilia. - ---Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa. - ---Susto, sim; mas pelo que vi... - ---Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada. - -A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais -uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez D. Lauriana ao -voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe -que nada dissesse. - -A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia: - ---Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a -algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore. -Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir -a dous passos de minha prima! - ---Ouça cá, Sr. Mariz! exclamou D. Lauriana; ouça as estrepolias do -capeta! - ---No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola, -que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem -para nosso lado. - ---Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a -esse bugio? - ---Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia. - ---Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas -mesmo... Senhor Deus! perdoai-me! - -D. Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a -alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave. - -Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem -passeava pela esplanada: - ---O que diz tua prima é verdade? - ---É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade. - ---Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua -mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo. - ---Elle vai sentir muito!! - ---E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu -pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado. - ---Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento -e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre! - ---Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a. - ---Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções. - -D. Antonio abraçou-a. - ---Ah! tenho uma cousa a pedir-vos! - ---Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto. - ---Mandareis conservar este animal? Sim! - ---Desde que o desejas... - ---Será uma lembrança que teremos de Pery. - ---Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle, -podia eu agora apertar-te nos meus braços? - ---Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai? - ---É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á -fraqueza da mulher, e que negou á força do homem. - -O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão -ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes. - ---Que decidistes, Sr. D. Antonio? perguntou a dama. - ---Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje -mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui -estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle -monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe -desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por -alguem. Entendeis, minha mulher? - -D. Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução -naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples -phrase, inclinou a cabeça. - ---Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte, -Ayres Gomes, que venha ter comigo. - -O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se: - ---Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo -conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas. - -D. Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo. - ---E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha -menos medo de onças. - -D. Antonio afastou-se. - -A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado -domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria. - -Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca -devêra ter entrado. - -Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o -canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava -inquieto e pensativo. - ---D. Cecilia! disse o moço. - ---Oh! deixai-me, Sr. Alvaro! respondeu Cecilia sem parar. - ---Em que vos offendi eu para que me trateis assim? - ---Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes. - ---É que quando se commetteu uma falta... - ---Uma falta? perguntou a menina admirada. - ---Sim! respondeu o moço abaixando os olhos. - ---E que falta commettestes vós, Sr. Alvaro? - ---Desobedeci-vos. - ---Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso. - ---Não zombeis, D. Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem -feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo -parece-me que era capaz de pratica-lo de novo. - ---Mas, Sr. Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei -apenas que se trata de uma desobediencia! - ---Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que... - ---Sim! atalhou a moça corando; um objecto que... - ---Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui. - ---Como! que dizeis! - ---Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas... - ---Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a -moça com um movimento de impaciencia. - -Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha -feito na vespera á noite. - -Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria. - ---Sr. Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em -praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos. - ---Eu juro pela minha honra! - ---Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella -janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e -em que não posso tocar. - ---Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido. - -Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e -desespero, que sentio-se commovida. - ---Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa -é vossa. - ---Eu o sinto; e não me queixo. - ---Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma -lembrança. - ---Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta, -e m'a recordará sempre. - ---Será agora uma triste recordação... - ---E posso-as eu ter alegres! - ---Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um -jasmim; é tão doce esperar! - -Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a -Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente. - -A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro -apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e -beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com -os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem -sentir. - -Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz -inimitavel: - ---É tambem uma restituição! - -Alvaro empallideceu. - -A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima. - -Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos, -lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a -innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa -que se escondia aos olhos dos outros. - -Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um -sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação -que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito -defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão. - -Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao -mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella; -seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais. - -Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um -cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de -caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada -a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma -falta. - -Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se -desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas. - ---Isabel, abre esta janella. - -A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu -corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento. - -Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em -que se abrio. - -Nada havia alli. - -A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente -voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua -physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem -descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama. - -Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a -admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina. - ---Isabel!... - -A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia. - -Tinha-se trahido. - - - - -XIV - -A INDIA - - -Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha -atravez da floresta. - -Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma -rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com -que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as -pisadas de um animal qualquer. - -Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e -partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas, -são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na -floresta, e que elles seguem sem hesitação. - -Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir -aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de -agarra-la. - -Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns -acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas -vizinhanças do _Paquequer_. - -No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da -Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os -vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão. - -Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas -margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e -uma filha. - -Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os -guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter -uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais -vistosa penna do seu cocar. - -Estamos no domingo. - -Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta -imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle -traduzia pelo doce nome de _Cecy_. - -Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa -nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia -qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um -dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba. - -Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de -sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a -caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio -do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por -uma bala. - -Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de -Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros. - -O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento, -recebêra a carga da espingarda e cahira morta. - -O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos -frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando -reanima-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de -piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não -desejava perder a sua pontaria. - -Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a -fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha -escolhido. - -De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a -cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa. - -Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a D. Diogo -que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada. - -O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de -sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e -que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua -terra, onde outr'ora vivião livres e felizes. - -Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao -redor estavão sentados dous selvagens e uma india. - -O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e -aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma -pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes -pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de -dous palmos de comprimento. - -A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos -frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no -regaço. - -Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india -de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão -grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca -aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão; -depois continuavão o seu trabalho. - -No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho -saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que -vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o -atirou a quatro passos com um empurrão. - -Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse -mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher -tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas -costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue. - -Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os -olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios -erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa -exclamação. - -Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e -pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua -desconhecida, e que Pery não entendeu. - -O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do -cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de -perto. - -Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho -pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance -dos selvagens. - -Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento -do banho lhe revelára claramente. - -Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o -signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos -caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes -de guia. - -Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo -sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei -de talião que era o unico principio de direito e justiça que -reconhecião. - -Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu -inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça. - -Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já -sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do -_Paquequer_, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura. - -Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto -da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e -que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como -um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella -filha dos Aymorés. - -Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem -religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no -chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que -podesse vir assaltar a casa de D. Antonio de Mariz. - -Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um -vestigio de sua passagem. - -Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a -percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço -durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido -pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antonio -immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que -exigia a imminencia de perigo. - -Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se -destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol. - -Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo -um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um cãozinho, que -reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço. - -Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente -seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto -por causa das guaximas. - -O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta, -que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava. - -Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que -se havia passado. - -Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma -creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, -e deixaria traços de ferimento. - -O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha -bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a -produzira morte quasi immediatamente. - -Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?--Porque, respondia o -espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não -podia acompanhar serviria para denuncia-la. - -Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da -terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e -encostou de novo o ouvido ao chão. - -Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração; -tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus -sentidos o illudissem. - -Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e -assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se -elevava n'uma baixa do terreno. - -Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a -cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um -instrumento que cavava a terra. - -Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era -impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao -olhar. - -Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas -largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente -formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer -idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas -cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras. - -Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não -podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os -cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide. - -Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que -se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou -reconhecer exclamou. - ---_Per Dio_! eil-a! - -O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer -o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a -conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que -os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente -escondida entre as flôres e a relva. - -Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea, -ouvir o que aquelles homens dizião. - -Mas por que meio? - -Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e -pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava -a cavar, lhe chegava mais distincto. - -O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento. - -O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de -barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima -da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem. - -Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterraneas -construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e -trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo -da terra. - -Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes -em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo. - -O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura, -deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de -certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que -conversavão. - -Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe -trazia as palavras claras e distinctas. - -Sentou-se e ouvio. - - - - -XV - -OS TRES - - -Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se -entranhou na matta esperou. - -Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy -Soeiro. - -Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava -adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em -quando um olhar significativo. - -Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio: - ---Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que -nos fizestes vir aqui, misser Loredano? - ---Não, respondeu o italiano laconicamente. - ---Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo. - ---Esperai! - ---Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida... -Onde nos pretendeis levar nesta marcha? - ---Vereis. - ---Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser -Loredano. - ---Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos. - ---Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis. - -E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano -voltou-se com um gesto de desprezo. - ---Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que -estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a -minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a -todos. - -Os dous aventureiros empallidecêrão. - ---Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar -rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas -que se obstinão a fallar. - ---Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis -no caso de que eu vos quizesse denunciar? - ---A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua -resolução. - ---E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que -as vossas venetas, misser italiano. - ---E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo. - ---Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia -assegurar a sua existencia e o seu descanço? - ---Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e -de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um -segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa -laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos -incidentes! - ---Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro; -será morte antes que homizio. - ---Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões. - -O italiano continuou: - ---Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu -que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de -longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me. - ---Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada. - ---A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antonio de Mariz o -meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. -Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim -para que trabalhamos. - -Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros. - ---Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, -se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo -fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente. - -Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse -fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio -com um esforço recobrar a palavra. - ---É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem -que o fizesse. - ---Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel. - ---Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida. - ---Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano; -confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos? - ---Disse a verdade. - ---Mentes! gritou o aventureiro desesperado. - -O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do -punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma: - ---Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste -mundo, e minha alma no outro, juro. - -Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não -deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e -silenciosa. - -Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios -tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do -desespero. - -Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e -suffocada: - ---Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde -existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia? - ---Confiei-o! - ---E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua -mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de -vossos intentos? - ---Escrevi tudo! - ---Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer -della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós? - ---Sim! - ---E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a -outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para -decidir a qual deverá tocar? - ---Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o -italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas -mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa -os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do -Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem. - -Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os -dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle. - -Passou-se algum tempo em silencio. - ---Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto -de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é -preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo. -Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em -diante--obediência cega e passiva! - -Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude -respondia melhor do que mil protestos. - ---Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antonio -é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai -esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta. - -A physionomia de Bento Simões reanimou-se. - ---Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro. - ---Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á -vontade. - ---Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é -devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas. - ---Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai. - -Os dous tirárão os punhaes e as espadas. - ---Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para -me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia! - -Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que -depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já -descrevêmos. - -Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e -descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que -tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura. - -De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta -ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos -nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um -pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres -aventureiros. - ---Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho -dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja -que vos dará no gôto. - -Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli -estava deitada, e que collocou no meio do grupo. - ---É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem! - ---Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija -tinha restituido todo o bom humor. - ---A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste -buraco uma botija de vinho. - ---É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo -bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse. - ---E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella -á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades! - -Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu -lugar. - ---Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando -vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos. - -Os dous inclinárão a cabeça. - ---A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de -nós, podemos toca-la. - ---Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda. - ---Não vai assim tambem, falla-se figuradamente. - -Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della -é preciso... - ---O que? Dizei! - ---A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia. - ---Uma historia! replicou Ruy Soeiro. - ---Da carocha? perguntou Bento Simões. - ---Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre. -Ouvistes fallar algum dia, em um certo Roberio Dias? - ---Roberio Dias... Ah! sei! um tal de S. Salvador? disse Ruy Soeiro. - ---O mesmo, sem tirar nem pôr. - ---Vi-o ha cousa de oito annos em S. Sebastião, donde se passou ás -Hespanhas. - ---E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do -Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano. - ---Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava -offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande -fidalgo de sua casa. - ---E o resto, não vos chegou á noticia? - ---Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias. - ---Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui -lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que, -como sabeis, tinha as unhas demasiado longas. - ---E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro. - ---Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco -ante de paga-lo. - ---E então? - ---Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco. - ---Como ouco? - ---Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para -nós, que vamos lograr o miôlo. - ---Sois um homem de caixas encouradas, Loredano! - ---Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos. - ---Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa -terra? - ---Nem todos são mitrados como vós, dom italiano. - ---Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em -Madrid a Felippe II, amigos, está aqui! - -E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia -ao lado. - -Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da -razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que -elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra -começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous -observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião -conjecturas e supposições. - -O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro, -que o fez tinir. - ---_Per Dio_, exclamou, eil-a! - -Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro -vidrado, a que os indios chamavão _camuci_; este era pequeno e fechado -por todos os lados. - -Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel -vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer. - ---Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias; -pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de -Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza. - -O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços. - -Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver -correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos. -Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto -por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo. - -Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o -pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes -letras vermelhas. - -Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer, -de pasmo e admiração. - -Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no -meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura. - ---Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e -o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá -quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha -palavra, como á lei do destino. - ---Juramos! - ---Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo. -A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia -pertencer D. Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões -terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre -cavalheiro. - -Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto -marcial. - ---Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão -bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da -porta da filha de D. Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a -minha parte de presa! É a parte do leão. - -Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado. - -Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao -vento. - ---Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, -poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer; -tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com -um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei... - -Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz -sepulcral a houvesse pronunciado. - ---Traidores!... - -Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e -lividos: parecião cadaveres surgindo da campa. - -Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e -lançou um olhar rapido. - -Tudo estava em socego. - -O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao -sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva. - -O dia no seu esplendor dominava a natureza. - - - - -FIM DA PRIMEIRA PARTE. - - - - -SEGUNDA PARTE - - -PERY - - - - -I - -O CARMELITA - - -Corria o mez de março de 1603. - -Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia. - -Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre -o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão -alguns colonos e indios cathequisados. - -Estava quasi a anoitecer. - -Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas -faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava -as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão -ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago -amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a -natureza nadava n'um oceano de fogo. - -No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo -prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com -elles, não deixava de ter alguma belleza. - -Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do -alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma -exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade. - -O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o -tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a -sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha -os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até -perder-se no matto. - -Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade -carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o -progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços -accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que -revelava o seu caracter. - -Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz -do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a -vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o -céo e a terra para obtê-lo. - -Fr. Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido -da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis -mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava -breve trazer ao gremio da igreja. - -Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de -passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa -que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de -empregar-se no trabalho das missões. - -Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente -enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a Fr. Diogo -do Rosario, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, -pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da -Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão -Fr. Angelo di Luca. - -Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de -Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de -um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor. - ---Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava -deitado na rede. - ---Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se. - ---E o tempo que vai fazer? - ---Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita -caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo? - ---Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com -semelhante borrasca. - -O frade voltou-se: - ---Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, -em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do -céo, e a estes não ha abrigo que os salve. - -Fernão Aines sorrio ironicamente. - ---Crêdes isso, Fr. Angelo? - ---Creio em Deus, irmão. - ---Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum -despenhadeiro. - ---Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario... - ---Ora deixa fallar Fr. Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá -seria a tempestade que zombaria de mim. - ---Fernão Aines!... exclamou Nunes. - ---Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo. - -O silencio se restabeleceu. - -De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo -ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que -havia defronte do pouso. - -A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma -permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o -terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no -fundo do alpendre. - -Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer -como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para -fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto -contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco. - -O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da -catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo -um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque -violento que soffrêra. - -Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o -ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço, -e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas -palavras: - ---Castigo do céo! - -Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o -remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de -confissão. - -Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para -o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro. - -Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por -instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o -confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que -ia gradualmente enfraquecendo. - ---Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me -restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o -meu crime. - ---Fallai, irmão; eu vos escuto. - ---Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um -parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor -acolhimento. - -«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de -aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo -resultado seria grande riqueza para nós ambos. - -«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que -abrio-se inteiramente comigo. - -«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia -descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes -que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa. - -«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um -roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se -achar o lugar onde estão situadas as ditas minas. - -«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e -por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para -contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente. - -«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos -não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em -mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...» - -O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz -debil: - -«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia -que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas, -e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar -silencio. - -«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só -a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás -Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao -menos lograr o premio. - -«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos -os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que, -necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou -que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus -riscos e esperanças. - -«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi -o meu primeiro erro!...» - -A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado -sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras -balbuciadas pelo moribundo. - ---Coragem, filho! - ---Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro -fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se -desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um -crime! Assassinei meu parente; e sua mulher... - ---E... exclamou o frade com a voz surda. - -E roubei o segredo! - -O frade sorrio nas trevas. - ---Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que -fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero -que este papel lhe seja entregue... Prometteis, Fr. Angelo?... - ---Prometto! O papel?... - ---Está... occulto... - ---Aonde? - ---Nes... ta... - -O moribundo agonisava. - -Fr. Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á -sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o -coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo -sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda. - ---Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava. - -O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga -como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado. - -Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede, -e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no -seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito. - ---Cruz!... - -Fr. Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na -cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de -páo tosca e mal lavrada. - -Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de -encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da -madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que -estivera. - -Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á -claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de -letras vermelhas, que rezava nestes termos: - -«_Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio -Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde -descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que -existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas -e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20 -de janeiro, dia do martyr S. Sebastião, e terminado na primeira dominga -de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de -S. Salvador._» - -Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima -afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção -do penitente. - -Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas -mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o -braço, entregou-se á funda meditação. - -Que pensava elle?... - -Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada -lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e -resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de -prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma, -que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando -á luz do sol. - -Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um -espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta, -virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo. - -Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo -estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma -sinistra; o peccador expirava impenitente. - -Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e -pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com -que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro, -e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta. - -Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre. - -O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta, -deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo -trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o -largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes. - ---_Consumatum est_, irmão! disse elle com um tom compungido. - ---Deus tenha sua alma! - ---Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu -ultimo voto, que é uma reparação... - ---De um grave peccado? - ---De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario, -nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais -novas de mim. - -O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas -ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de -Nunes partio. - -Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se -com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios, -descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e -espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava. - -O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo -castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se -realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo -ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a -colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel: - ---Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e -poderoso, contra a vontade do mundo inteiro! - -Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de -Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador. - -Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma -grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario -conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos -selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas -rompesse o dia. - -A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé, -esfusiando por entre a palha. - -O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito -um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem -um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já -se illuminava. - -Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o -tempo estava sereno. - -O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo -campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou -depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a -ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de -satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle -e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco. - -No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um -só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um -aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda -os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca. - -Este aventureiro chamou-se Loredano. - -Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo; -isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver. - -Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma -que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de -sua fé apostolica. - - - - -II - -YARA! - - -Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a -familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do _Paquequer_. - -O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous -outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que -tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das -pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, -tornavão aquelle retiro pittoresco. - -Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, -do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das -aves concertava com o trepido murmurio das aguas. - -Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia -vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da -frescura deliciosa que alli se respirava. - -D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre -uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os -filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma -palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova -de Bernardim Ribeiro. - -Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo -rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio -solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a -avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse -folguedo um vivo prazer. - -Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, -que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan -natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos -estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: -e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração. - -Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave -painel que formava esse grupo de familia. - -De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um -grito vibrante e uma palavra de lingua estranha: - ---_Yara!_ - -E um vocabulo guarany: significa _a senhora_. - -D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia -que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro -original. - -De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, -um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a -uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela -encosta. - -O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a -esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore -mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo. - -A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão -n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da -collina. - -Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma -sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava. - -Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á -morte, foi para D. Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento, -que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que -era toda a sua vida. - -No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o -regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre -si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão. - -Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo -choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no -perigo que já estava passado. - -Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia -estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, -arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antonio, ainda pallido e -tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra -que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um -genio bemfazejo das florestas do Brazil. - -O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que -elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a -si proprio da morte. - -Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, D. Antonio não se -admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente -calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança -erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre. - -Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava -de transformar de modo tão imprevisto. - -D. Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças; -Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a -mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de -admiração sobre a moça que tinha salvado. - -Por fim D. Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, -caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e -affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo. - ---De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany. - ---Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez. - ---Como te chamas? - ---Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu. - ---Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça, -conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a -minha amizade. - ---Pery aceita; tu já eras amigo. - ---Como assim? perguntou D. Antonio admirado. - ---Ouve. - -O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce -pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves -das florestas virgens, esta simples narração: - - -«Era o tempo das arvores de ouro. - -«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de -guerra. - -«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse: - -«--Pai morreu; aquelle que fôr o mais forte entre todos, terá o arco -de Ararê. Guerra!» - -«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra! - -«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao -céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma -guerra. Houve sangue, houve fogo. - -«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na taba dos brancos -uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza. - -«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza. - -Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos -os guerreiros. - -Sua mãi chegou e disse: - -«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és -forte como teu pai; tua mãi te ama. - -«Os guerreiros chegárão e disserão: - -«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da -tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem. - -«As mulheres chegárão e disserão: - -«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a -canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas. - -«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos -guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir. - -«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a senhora dos -brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio. - -«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava -vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz. - -«O fogo passou; a casa da cruz cahio. - -«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e -fallou assim: - -«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a -parte, como a estrella grande acompanha o dia. - -«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra; -todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a -terra, e Pery não podia subir ao céo. - -«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem -sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos. - -«Assim Pery ficou triste. - -«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus -olhos. - -«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o -sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai. - -«Veio o tempo da guerra. - -«Partimos; andámos; chegámos ao grande rio. Os guerreiros armárão -as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol. - -«Vio passar o gavião. - -«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo. - -«Vio passar o vento. - -«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar. - -Vio passar a sombra. - -«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite. - -«Os passarinhos dormirão tres vezes. - -«Sua mãi veio e disse: - -«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca -tambem. - -«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser -amigo; e a filha da senhora para ser escravo. - -«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou -longe a tua casa grande. - -«A virgem branca appareceu. - -«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da -primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas. - -«Pery disse: - -«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do -sol, acompanhará a senhora na terra. - -«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A -pedra estalou e quiz fazer mal á senhora. - -«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora -ficasse triste, e voltasse ao céo. - -«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da -nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és -amigo.» - - -O indio terminou aqui a sua narração. - -Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem -lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora -ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força. - -Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e -modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas -civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto -reconhecia. - -D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão -singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos -maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem -poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar -do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia. - -Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous -dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra -de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem. - ---Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão -amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade. - ---E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais -aos filhos. - ---Tu cearás comnosco. - ---Pery te obedece. - -A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia, -acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada. - -D. Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina -tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas -mãos do indio. - ---É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio -fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery -tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu -pai. - -O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento. - ---Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo. - -A campa do terreiro tocou annunciando a ceia. - -O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, -não sabia como se ter. - -Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel -em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria -de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar. - -Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era -inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias. - ---Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem -beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a -coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o -amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê. - ---E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque -salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro. - -A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem -fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de -Cecilia. - - - - -III - -GENIO DO MAL - - -Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz. - -O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu -caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta. - -Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua -dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um -desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de -cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança. - -Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a -presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz, -da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente -tratada. - -Quanto a D. Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento -prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão. -Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava -assim, mas por prejuizos de educação. - -Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres -Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antonio que estava no seu -gabinete. - ---Sr. D. Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas -semanas, pede-vos audiencia. - ---Manda-o vir. - -Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se -havia transformado o carmelita Fr. Angelo di Luca. - ---Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa? - ---Ao contrario, Sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria -ficar. - ---E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o -nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida. - ---A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, Sr. cavalheiro; mas -não é della que desejo fallar. - ---Explicai-vos então. - ---Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e -filhos que lhe chegarão do Reino. - ---Sim; já hontem me fallou disso. - ---Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso -inconveniente. - ---Nem um absolutamente. - ---Nesse caso posso considerar-me como admittido? - ---Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos -sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido. - ---Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo. - ---Ide sempre. - -O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao -facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu -serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava -com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto -grotesca. - -Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte -introito: - ---Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que -se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do Sr. cavalheiro -D. Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em -linha recta. - -Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio. - ---_Primo_: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte -natural. - -O italiano fez um gesto de approvação. - ---Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o Sr. D. Antonio vos -mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai; -porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres -Gomes, lá ireis. - -Loredano sorrio. - ---_Segundo_: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario... - ---Com o vosso respeito, Sr. Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho -inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de -continuar. - ---Que quereis dizer? - ---Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me -descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica. - ---Não obstante... - ---Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes. - -E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o -gabinete de D. Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter -levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor, -resmungava: - ---Não póde ser boa casta de gente? - -Loredano apresentou-se a D. Antonio. - ---Então? disse o fidalgo. - ---Aceito. - ---Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse -naturalmente. - ---Qual, Sr. cavalheiro? - ---É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o -hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um -amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de -toda a familia a que actualmente pertenceis. - -O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a -alteração da physionomia. - -Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já -então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que -vimos revelar-se um anno depois. - -Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro -caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade -que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de -Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna. - -Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se -vira possuidor do roteiro de Roberio Dias. - -Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro -soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha? - -Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu -serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da -grandeza? - -Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma -resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado -desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, -como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antonio de Mariz. - -Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e -então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com -elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder. - -Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de -observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de -uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as -proporções de um projecto. - -Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um -salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o -dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr. -Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no -regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros. - ---Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo. - -No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução -nas suas idéas. - -Viu Cecilia. - -A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella -organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da -faisca sobre a polvora. - -Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que -o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue -vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias, -refluirão ao coração e o suffocárão um momento. - -Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela -corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração -revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de -sua vida. - -Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o -thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a -riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante. - -Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o -obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado. - -Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava -tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas -encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á -Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de -vela para a Europa. - -Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro, -tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus -olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade. - -Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e -intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy -Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final. - -Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava -surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder. -Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de -uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que -podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D. -Antonio de Mariz. - -Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o -italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição -dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia -pois até na hora extrema em que o papel devia fallar. - -A confiança que tinha, e com razão, no caracter de D. Antonio -tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo -abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito. - -Eis como Fr. Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano, -pertencendo á casa de D. Antonio de Mariz e preparando-se para realisar -a final o seu pensamento de todos os instantes. - -Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera -dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous -complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos -obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo -animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o -atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na -voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo. - -Este sentimento foi a ambição. - -Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da -riqueza, a _auri sacra fames_ que se havia apoderado delle proprio, no -momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata -fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o -devorava. - -O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos -aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel -de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu -amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia. - -Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera -modificar a situação. - -Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes -daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que -servirão para o seguimento desta veridica historia. - - - - -IV - -CECY - - -Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de D. Antonio -de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado -opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente. - -O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, -senão quando via de longe a D. Antonio de Mariz passeando sobre a -esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do -velho fidalgo sentia por elle alguma estima. - -Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; D. Antonio suppunha já -que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que -só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes. - -A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de S. Thomé -e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por -diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas. - -Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de -Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir -igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco -Fernandes Coutinho. - -Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe. - -O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira -insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra -esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe -salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a -dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que -lhe inspirava. - -Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao -reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez -com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse. - -O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto -Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe: - ---Vinde ver Pery, que chega, meu pai. - ---Ah! inda bem, respondeu o fidalgo. - -E acompanhando sua filha, D. Antonio foi ao encontro do indio que já -subia a esplanada. - -Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito -de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os -fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os -pequenos habitantes desse ninho gracioso. - -O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos -para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina -assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; -alguns conseguirão escapar-se. - -Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em -torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um -fructo. - -A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras -azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e -delicadas! - -Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um -sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as -flôres na terra e as estrellas no céo. - -Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os, -aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para -que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno -della. - -Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha -sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da -senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente, -era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D. -Antonio de Mariz e disse-lhe: - ---Pery vai partir. - ---Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos? - ---Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê. - -D. Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de -sua filha. - ---Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse -Cecilia. - -O fidalgo traduzio a pergunta. - ---Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi -e seus irmãos. - ---E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou -a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio. - -Ouvindo dos labios de D. Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que -responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por -seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e -elle não estivesse junto della para salva-la. - ---Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica. - -Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se -daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no -fundo do seu coração de moça. - -Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou -como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa -que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como -a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés -submissa, vencida, escrava!... - -Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar -essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se -diante do seu olhar. - -As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior -ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é -forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, -o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los. - -Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo -homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e -não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força. - -Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha -consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era -filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade. - ---A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de -rainha, e fazendo um gesto com a cabeça. - -O indio comprehendeu perfeitamente o gesto. - ---Pery fica. - ---Vêde, Cecilia, replicou D. Antonio rindo: elle te obedece! - -Cecilia sorrio. - ---Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas -nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu. - ---A senhora mandou, respondeu o indio. - ---Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está -satisfeita; consente que partas. - ---Não! - ---Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre? - ---Pery é escravo da senhora. - ---Mas Pery é um guerreiro e um chefe. - ---A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos -ligeiros como o vôo do gavião. - ---Assim, decididamente queres ficar? - ---Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore -da floresta lhe servirá de abrigo. - ---Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta -para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha. - ---Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra. - ---E o coração de ouro. - -Emquanto D. Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse, -ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta. - -Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde -partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica -particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys: - - -«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas -azas. - -«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos. - -«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres -trabalhão; ha vinho. - -«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de -andar.» - - -A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa; -encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a -scena que passava na esplanada. - -Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado. - ---Mãi!... exclamou elle. - ---Vem! disse a india seguindo pela matta. - ---Não! - ---Nós partimos. - ---Pery fica. - -A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração. - ---Teus irmãos partem! - -O selvagem não respondeu. - ---Tua mãi parte! - -O mesmo silencio. - ---Teu campo te espera! - ---Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida. - ---Porque? - ---A senhora mandou. - -A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia -do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora, -que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em -Cecilia. - -Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha -sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr -de cobre. - ---Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e -queima a cabana de Ararê. - ---Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua -mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve -o filho de Ararê ao campo onde nasceu. - -Pery abanou a cabeça com tristeza; - ---Pery não voltará! - -Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero. - ---O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se -despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha; -tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio. - ---A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe -roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e -mata tudo que se chega a ella. - -Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se -revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos. - ---Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se -lembraria de ti. - -Os dous ficárão algum tempo em silencio. - ---Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução. - ---E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem -contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? -Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos -brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as -bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos? - -Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle -as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e -respondeu: - ---Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do -jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os -fructos da arvore. - -A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a -fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão -dos olhos de ambos se confundirão. - -Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que -desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella. -Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu -pai; ficou. - -Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta -do rochedo, e que ia ser o seu mundo. - -Passárão tres mezes. - -Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo -selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da -ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia. - -Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia, -ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o -portuguez, afastava-se triste e humilde. - -Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D. -Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia, -guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras -preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para -procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e -pedia-lhe désse a _Cecy_, pois já não se animava a chegar-se para -ella, com receio de desgota-la. - -_Cecy_ era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe -tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia. - -Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto -para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, -reprehendeu-o com aspereza: - ---Porque me chamas tu _Cecy_? - ---Não sabes dizer Cecilia? - -Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto -era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro -letras, das quaes uma era o L. - ---Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu -nome, porque não o dizes sempre? - ---Porque _Cecy_ é o nome que Pery tem dentro da alma. - ---Ah! é um nome de tua lingua? - ---Sim. - ---O que quer dizer? - ---O que Pery sente. - ---Mas em portuguez? - ---Senhora não deve saber. - -A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de -impaciencia. - -D. Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro: - ---Meu pãi, dizei-me o que significa _Cecy_ nessa lingua selvagem que -fallais. - ---_Cecy_!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que -significa doer, magoar. - -A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se -do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, -egoista e cruel. - ---Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro. - -Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou -a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo -fiel e dedicado. - ---Chama-me _Cecy_, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome -me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa. - - - - -V - -VILANIA - - -É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de -contar alguns factos anteriores. - -Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros -tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles. - -Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe -naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião -nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a -semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e -cava devia ser de um homem. - -Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? -Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e -incertezas. - -Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e -apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se -pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando -virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o -italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro. - -O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para -reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia -comprehender. - -Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, -trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. -Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente -comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das -duas moças. - -Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus -companheiros: - ---Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que -attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!... - -E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo. - ---Esperai-me aqui. - ---O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro. - -O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a -pergunta do seu companheiro não merecesse reposta. - -Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um -resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o -fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo. - ---Quereis que falle?... disse Loredano. - ---É mais um crime inutil! acudio Bento Simões. - -O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido: - ---Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo. - -E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo -nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho. - -O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos -nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens. - -Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das -costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de -repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto. - -A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os -rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais -forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai -perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das -arvores. - -Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe -um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o -campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de -uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou. - -Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou -homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o -receberia. - -Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e -hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que -concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra -_traidores_, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia -com que o moço evitava uma sorpreza. - -O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma -destreza admiravel. - -A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, -volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do -cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e -auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma -cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava. - -A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que -parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada -da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de -pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe -servirem de alvo. - -Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a -senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse -uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e -fosse por todos admirado. - -Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe -vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a -superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante -que é a sua vida. - -Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo -desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil -tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a -sua vida e a sua fortuna. - -Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha -passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes -desprezava-o. - ---Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o -aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia. - ---Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente. - ---Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se -melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros. - ---Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, -é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do -que o vosso aspecto. - ---Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; -eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto. - ---Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da -espada. - -O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a -ponta da lamina de aço batendo na face do italiano. - -Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos -injectárão-se de sangue: - ---Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de -fazer. - ---É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a -arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos. - -Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, -segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu -punhal, excellente folha de Damasco. - -Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o -italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas -vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o -talho de seu gibão de belbute. - -De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu -a mão esquerda em signal de tregoa. - ---Estais satisfeito? perguntou Alvaro. - ---Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a -fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito. - ---Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente. - ---Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos -reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo -tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o -outro não leve um vestigio que o possa denunciar. - ---Que quereis fazer neste caso? - ---O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos -cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou -simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não -incommodará o outro. - ---Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de -Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade. - ---Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos -tempo em palavras. - -Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se -distinctamente. - -Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o -menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais -pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que -um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate -franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas. - -Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de -proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e -prende-la de novo. - -O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as -idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo? - ---Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la -escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem -testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto. - -Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e -seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de -suas pisadas não excitassem a attenção do moça. - -Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe -d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os -grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez -melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella -belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo -louro de seus amores. - -Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, -como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia -entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que -esse segredo era elle. - -Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, -elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e -alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha -consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse -sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria -um resto de resentimento que talvez conservasse. - -Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe -dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia -beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo. - -Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio -foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se -associa á baixeza, lembrou-se de uma traição. - -Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle -miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com -altivez e seguio. - -Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo -seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do -italiano. - - - - -VI - -NOBREZA - - -Alvaro ouvio um sibillo agudo. - -A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a -ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro. - -O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu -rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o -labio superior, sombreado pelo bigode negro. - -O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza -extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez -passos delle. - -Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua -organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, -curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar. - -O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente -dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante. - -O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para -crava-la no alto da cabeça do italiano. - -Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão -ao indio. - ---Solta este miseravel, Pery! - ---Não! - ---A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de -atirar sobre elle. - -Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e -apoiava a bocca na fronte do italiano. - ---Ides morrer. Fazei a vossa oração. - -Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou. - -O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e -satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao -pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia -talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra -gozar. - -Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho -do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto -frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto. - -Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina: - ---Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de -guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á -justiça de Deus. - -Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de -esperança. - ---Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e -nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva. - ---Juro! exclamou o italiano. - -O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e -apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do -peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento. - ---Ergue-te; e tira-te dos meus olhos. - -E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua -clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery -para que o acompanhasse. - -O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia -profundamente. - -Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, -quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal -á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido -lançar-se aos tres inimigos e mata-los. - -Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; -mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso -Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve -medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para -sacrifica-las todas á sua salvação. - -Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que -subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a -sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que -soubessem que estava ferido. - -Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção. - -Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio -de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o -receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse -justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens -brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava -para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o -italiano. - -Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta -reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião -matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do -mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse -vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e -anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir. - -A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa -terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio -com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas -as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para -realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem -possuia em grão tão elevado. - -Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de -avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle -tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos -olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o -cavalheiro. - -Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os -joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o -virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado. - -A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser -procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous -aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse -consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria: - ---Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me. - -A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, -transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery -ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da -tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o -cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, -satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa. - -Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as -cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o -conseguiria. - -Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios -daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho -fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava -todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos -barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do -Mestre de Aviz, o rei cavalheiro. - -Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida -a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença -delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada -para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia. - -E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a -quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro -tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse -sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao -seu descanço, ao seu socego e felicidade. - -O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem -importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro. - -Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do -rio. - ---Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela -estima que me tens. - -E o moço apertou a mão do selvagem: - ---Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora. - -Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia -em suas palavras. - ---Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora -contente. - ---Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que -succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a -ver. - ---Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que -ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno -que abre a flôr da noite. - ---Pery!... exclamou Alvaro. - ---Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu -fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde -e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; -Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da -corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua. - -Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem -cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a -delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração -gasto pelo attrito da sociedade? - -A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza -brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle -espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo. - -Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o -cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos -da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; -quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados -que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da -relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil -reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro -sentio. - -Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo -o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder -alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo -aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par -da vida brilhante? - -Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse -berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno -contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do -veneno, não é um poeta? - -Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; -ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante -dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a -alma. - -Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da -creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes -cousas que a natureza fez sorrindo. - -A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se -despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras -desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa. - -Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á -beira do _Paquequer_, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas -impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço. - -O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento -hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por -Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava. - -Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia -me quer? disse o moço. - ---Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste -mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu. - ---Mas se Cecilia não me quizesse como julgas? - ---Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr. - ---E se eu não amasse a Cecilia? - ---Impossivel! - ---Quem sabe? disse o moço sorrindo. - ---Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla -negra irradiou. - ---Sim? o que farias? - ---Pery te mataria. - -A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida -sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com -effusão. - -Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe -com um tom commovido: - ---Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a -pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle -arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não -levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy. - ---Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa -menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a -amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é -maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim -mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz. - ---Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame. - -O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite -antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do -italiano; desta vez não lhe perdoára. - ---Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto. - -Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, -quando Pery segurou o braço de Alvaro: - ---O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, -manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem -para combaterem comtigo, e salvarem Cecy. - ---Mas quem é o inimigo da casa? - ---Queres saber? - ---De certo; como hei de combate-los? - ---Tu saberás. - -Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo -pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao -redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia. - -Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem -surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e -hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca. - -O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito -galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre -a relva. - -Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a -força dos pulmões: - ---Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve -cá! - -Pery não se voltou. - - - - -VII - -NO PRECIPICIO - - -Pery tinha parado para ver Cecilia de longe. - -Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao -braço. - ---Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... -disse o escudeiro resfolgando. - ---Deixa! respondeu o indio sem se mover. - ---Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua -procura! Tinha que ver! - -Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto -antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á -presença de D. Antonio de Mariz. - -Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia -boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, -tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho. - -Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o -fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; -ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se -enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada. - -Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, -que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de -semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria! - -Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, -causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não -estava de accordo. - ---Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se. - ---Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, -não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é -como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que -chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette -a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, -boca! não me pies mais! - -Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual -havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como -estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que -segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho. - -Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto -mato. - ---Que vens fazer? perguntou-lhe o indio. - ---E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem. - ---Pery vai longe! - ---Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho. - -O indio voltou-se para elle com um gesto decidido. - ---Pery não quer que tu o sigas. - ---Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda -ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de -faca e calhão. - ---Pery não manda duas vezes! - ---Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem. - -Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da -obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este -executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo. - ---Quem te deo a ordem? - ---D. Lauriana. - ---Para que? - ---Para te levar á casa. - ---Pery vai só. - ---Veremos! - -O indio tirou a sua faca. - ---Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. -D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! -Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé. - ---Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra. - ---Como?... Como é lá isso? - -O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se -engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a -mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao -selvagem. - -Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o -indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se -valentemente. - -Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao -pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres -Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as -regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde -a mais tenra idade. - -Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, -combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um -vime delgado. - ---Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de -partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na -durindana! - -Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a -voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos -de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era -assaltar o adversario pelas costas. - -Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para -defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio -aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o -pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em -que estava encostado. - -Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós -ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu -caminho placidamente. - ---Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me -pagarás com lingua de palmo!... - -Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o -mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa. - -Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso -profundo que passava em baixo de sua janella. - -A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o -ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a -nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que -sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava -magoa-la. - -Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao -contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse -só. - ---Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido! - -Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que -saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a -chamarão ao seu proprio soffrimento. - -Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o -anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo -ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; -sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado. - -O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a -affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, -e um prazer que a fazia sorrir. - -Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, -e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o -exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o -objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima. - -Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu -que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia -obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã. - -Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do -coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa -subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que -podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o -respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor -fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha -a Pery. - -Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: -nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar -a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de -sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a -existencia para ella seria de flôres. - -Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que -tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em -luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma. - -Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos -menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e -sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão -melancolica. - -Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a -existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista. - -Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; -era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou -a desatar-se com o primeiro raio do sol. - -Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella -olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera -modificar a sua existencia. - ---Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel -como eu a amo e quanto a desejo feliz. - -Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery -comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar -como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a -moça sentia por isso um pezar. - -Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria -ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro -_endireitar isto_, como elle dizia na sua linguagem simples. - -Chegou-se ao fosso. - -Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo -precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde -risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo -uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava. - -Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das -serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia -entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra. - -Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o -calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma -linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um -arbusto. - -Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o -acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o -receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o -objecto que ia procurar. - -Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores -chamárão _candêa_; tirou fogo, e começou a descer com o facho -acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus -pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta. - -A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente -o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida. - -Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o -outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada -uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser -vibradas. - ---Pery!... - -O indio levantou os olhos para ella. - ---Tu choras, senhora? disse elle estremecendo. - -A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma. - ---Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que -desejas. - ---O que eu desejo?... - ---Sim; Pery sabe. - -A moça abanou a cabeça. - ---Está alli; e apontou para o fundo do precipicio. - ---Quem te disse? perguntou a menina admirada. - ---Os olhos de Pery. - ---Tu viste? - ---Sim. - -O indio continuou a descer. - ---Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada. - ---Buscar o que é teu. - ---Meu!... murmurou melancolicamente. - ---Elle te deo. - ---Elle quem? - ---Alvaro. - -A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o -precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o -murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo. - ---Pery, disse empallidecendo, não desças, volta! - ---Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar. - ---Mas tu vais morrer!... - ---Não tem medo. - ---Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não -desças. - -O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para -elle: cumpria-se irremissivelmente. - -Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na -ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro -da janella córando. - -O indio sorrio. - ---Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração. - -E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio. - -Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella. - - - - -VIII - -O BRACELETE - - -O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e -horror. - -De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis, -lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos -rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos -fios da têa. - -No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o -estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no -fundo do abysmo. - -O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho. - -Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse -morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o -seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para -salva-lo. - -Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se -desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e -descobrir o indio. - -Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da -folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma -esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular -chama _lavandeira de Deus_. - -A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais -tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a -lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a. - -Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra -ainda com a voz tremula e fraca: - ---Pery! - -No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade -cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou: - ---Espera, senhora! - -Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu -á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz -chegou-lhe ao ouvido surda e rouca. - ---Estás ferido? perguntou inquieta. - -Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou -pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando -bravia passou seguida por uma ninhada de filhos. - -Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de -encontro á almofada da janella. - -Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante -della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma -bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo -escarlate. - -Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro -horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com -sofreguidão: - ---Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize! - -O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante. - ---Tiveste medo, senhora? - ---Muito! exclamou a menina. - -O indio sorrio. - ---Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio -das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão. - -O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos -os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo. - -Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle -imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são -devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens -ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery -descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma -trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro. - -Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: -assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e -surda. - -Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava -assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, -attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção -simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A -sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a -prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado. - -A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do -mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que -tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de -Cecilia. - -A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é -innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe -bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou -a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo: - ---Pery sente uma cousa. - ---O que? - ---Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te. - ---E porque sentes isto? - ---Porque te acompanharião sempre. - -Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura. - -Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este -bracelete, trouxesse um presente dado por ti? - ---Muito. - ---E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina -gracejando. - -O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua -vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um -adorno digno de sua senhora! - -Cecilia teve pena do seu embaraço. - ---Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez -deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço. - -Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava -a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na -caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa. - -Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no -jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina -prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente -desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao -quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo. - -Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois -que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu -amor. - -As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e -consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o -coração, o queimão como o rescaldo da paixão. - -Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com -um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava -rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma -oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as -faces. - -Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os -olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo. - -Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um -enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe -gracioso. - -Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de -sua prima. - ---Já te disse que não te quero vêr triste. - ---Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se. - ---Que é isto? Faço-te medo? - ---Não... mas... - ---Mas, o que? - ---Nada... - ---Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de -ti. Confessa! - ---Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de -tua amizade. - -E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos -devemos amar sempre? - ---Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel -admirada. - ---Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada. - ---Não; perdoa; porém é que... - -A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o -espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma -idéa assaltou-lhe o espirito. - -Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de -merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir -amargamente. - ---Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou -entre nós; não é verdade? - ---Tu o queres! - ---Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença, -accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter -segredos para comigo. - ---Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel. - ---Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua -boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e -rir-me comtigo quando ficares contente. Sim? - ---Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de -mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha. - ---E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes -amar uma outra pessoa? - -Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe -ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia -nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos -de Alvaro fitos nos seus. - ---Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas, -minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não -zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro! - ---Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que -soffras por minha causa; entendes? - ---Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr -preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza. - ---Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu -te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz! - ---Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente. - ---Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao -ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem. - -Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve -bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos. - ---Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia? - -Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que -deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o -mereço? - ---Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio -é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia. - ---Porque? - ---Porque elle te ama! murmurou Isabel. - -A menina corou. - ---Não digas isto, é falso. - ---É bem verdade. - ---Elle te disse? - ---Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma. - ---Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me -importa o que elle sente a meu respeito? - -E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas -voltou da porta. - ---Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti. - -Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao -braço de Isabel. - ---Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te -achará bonita! - -Este bracelete!... - -Isabel teve de repente uma suspeita. - -A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida. - ---Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim, -e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão -agasto-me comtigo. - -Isabel abaixou a cabeça. - ---Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até -logo. - -E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo. - -A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as -impressões tristes da manhã. - - - - -IX - -TESTAMENTO - - -No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a -esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua -physionomia expressão ainda mais grave que a habitual. - -O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando -ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que -se aproximassem. - -Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz -até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do -oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma -escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol. - -Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros -descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como -homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de -não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa -abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas -arrobas de polvora. - -O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era -a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um -descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete -d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente. - -D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e -fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado. - ---Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, -disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos -interessa e a mim antes do que a todos. - -D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um -sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho -fidalgo. - ---Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto -deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me -durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e -sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á -terra aquillo que veio da terra. - -Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos -illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos -illurdirmos a nós proprios. - -D. Antonio conteve-os com um gesto nobre. - ---Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma -declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais -comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta -annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem -vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar -tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas. - -Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a -segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal -desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda! - ---De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha -remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda -vida que vos deo o novo mundo. - ---Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo; -quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente -da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua -ultima vontade, e fazer o seu testamento. - ---O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido. - ---Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve -preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho -aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua -ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas. -Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que -tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um -documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento. -Ouvi-me. - -Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D. -Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo -com uma emoção de tristeza e respeito. - ---Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe -da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um -esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi -na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas -cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que -me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu -nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou -meu pai. - -O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para -o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação. - ---A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que -conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis -por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a -felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem -já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido. - -Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma -das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os -n'um mesmo olhar de amor paternal. - ---Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda. - -D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os -dous corações nobres baterão um de encontro ao outro. - ---O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma -falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha -natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre -menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o -titulo de sobrinha. - ---Isabel?... exclamou D. Diogo. - ---Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre -como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e -carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe -mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi. - -A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se -que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia -despertado. - ---Pobre mulher!... murmurou elle. - -Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua -emoção, voltou aos dous moços. - ---Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço -um juramento; basta-me a vossa palavra. - -Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que -comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os. - ---Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A -tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis -muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que -até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é. - ---Assim o tinha entendido, disse Alvaro. - ---Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo -tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das -partes do meu testamento. Sabeis qual? - ---A da minha felicidade!... respondeu o moço córando. - -D. Antonio apertou-lhe a mão. - ---Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um -triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro? - ---Vi-o ha pouco. - ---Ide e mandai-o a mim. - -O moço retirou-se. - ---Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho. - -D. Diogo obedeceu. - -O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que -fechou com um retroz e sellou com as suas armas. - -D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo. - ---Sentai-vos, minha mulher. - -D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que -ia praticar. - -Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido: - ---Que queres tu dar-lhe? - -A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que -tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo -entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião -expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um -selvagem. - -Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido -tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava. - ---Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella. - ---É necessario; eu te disse. - ---Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario. - ---Impossivel! - ---Que mal faz elle aqui? - ---Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves -crêr-me. - ---Não vos agasteis!... - ---Assim não te oppões? - -Cecilia calou-se. - ---Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e -eu, porque lhe prometti. - ---Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai. - -Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no -seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida. - -A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata -das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos -percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do -cavalheiro. - -Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu -irmão D. Diogo. - ---Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o -fidalgo. - ---Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr. - ---Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima? - ---Sim; porque o disse e mostrou. - ---Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste -por elle, salvando sua filha? - ---Se fosse preciso, sim. - ---Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á -tua tribu. - -O indio estremeceu. - ---Porque pedes isto? - ---Porque assim é preciso, amigo. - ---Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade! - ---Não! - ---Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita -de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento: -sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery -não te custa nada. - -Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana -mesma parecia enternecida. - ---Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa, -se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana. -Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu. - ---Porque então mandas Pery embora? - -D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um -pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da -religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria. - ---Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a -quem amamos, respeitamos e obedecemos. - ---Sim. - ---Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o -adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda. - ---O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua -tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te. - -Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar. - ---Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas -que Pery vá, senhora? - -D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas -prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha. - ---Sim! balbuciou Cecilia. - -O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face. - -O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo -das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira -vez sente-se vencida pela dôr. - - - - -X - -DESPEDIDA - - -D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão: - ---O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim -mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a -sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos -nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e -de tua senhora e no meu. - -O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e -voltou-se para seu filho: - ---Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa -ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por -elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos -deixo a cumprir, meu filho. - ---Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa -divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em -satisfação dos meus proprios sentimentos. - ---Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao -indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos -todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo -onde nasceste. - -Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, -como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não -podião exprimir. - -Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força -invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua -senhora. - -A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, -e deitou-a no pescoço do indio: - ---Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery. - ---Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou. - -Cecilia estremeceu. - -O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não -podia dominar a sua emoção. - ---Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a -terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não -voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a -alegria se partisse no fim da lua. - ---Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos -separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias. - ---Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery -estaria comtigo para defender-te. - ---Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo. - ---Sim: podes contar. - -E por quem? - ---Pelo Aymoré. - ---E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar -desconfiado. - -O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta. - ---Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou -sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e -caminharem para sua tribu. - ---E tu o que fizeste? - ---Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares. - -O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade. - ---É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu -não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e -meus. - -O indio sorrio tristemente. - ---Erão mais fortes; Pery deixou que passassem. - -D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, -e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria. - -Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a -principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a -fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que -apparecia no saio de algodão do indio. - -Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais -distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado -a solução de um difficil problema. - ---Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente. - -Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o -talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, -e viu que estavão descarregadas. - -O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio -com admiração profunda. - ---Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é -de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o -coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, -que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de -sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos. - -O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado -pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas -restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e -confuso, parecia um criminoso em face do juiz. - ---Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo -para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade. - ---Falla. - ---Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no -banho? - ---Foi Pery. - ---Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia? - -Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo. - ---Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos -selvagens? - -Pery não respondeu. - ---É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te -offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste. - ---Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu. - -O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta. - ---Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda. - -Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse -com um tom supplicante: - ---Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo -embora, depois do que fez por mim? - ---Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da -guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e -para sempre. - -Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos -labios de D. Antonio. - ---Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma -expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela -segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por -nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma -dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva -sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi -não estivera? - -D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o -seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. -As palavras de seu marido achárão écho em sua alma. - ---Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, -sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho -tambem a minha divida a pagar. - -O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe -estendêra. - -Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para -o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu -pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, -e seguiria o exemplo que lhe dava. - -Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou -estupefacto. - -O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma -indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente. - -Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma -janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do -_Paquequer_. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava -que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande -corpulencia. - -Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e -monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de -jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa -em que atravessou para a margem opposta. - -Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu -pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma -de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os -selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento -cerrou-lhe o coração. - -D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um -receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito -involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que -se tinha mostrado tão severo com seu filho. - -Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, -aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela -disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte -presentimento. - -Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre -sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra -naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia -definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás -vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á -casa. - -Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente -enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não -queria assustar sua mulher. - -O mais já sabemos. - -Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, -e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia. - -Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; -recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel -havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o -houvesse presenciado. - -A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante -o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o -saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um -raio de luz para D. Antonio. - -O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos -conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar -os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do -que se passava. - -Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. -Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de -gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao -escudeiro. - -Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente -com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença -para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse -despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; -mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, -Ayres Gomes não hesitava. - -D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle -não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery. - ---Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo -que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo -dedicado de toda a minha familia. - -Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer -a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão -que o havia injuriado? - -Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o -pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la. - ---Vamos, Ayres! - -O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão -sorrindo. - ---Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez. - -Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha -passado, e ninguem pôde deixar de rir-se. - ---Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre -mostrar o que és. - -Era hora do jantar: o toque soou. - - - - -XI - -TRAVESSURA - - -Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão -passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma -da outra. - -Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa -belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de -uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão. - -O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão -os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que -fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a -contemplavão. - -Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento -elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e -lembrava-se dos anginhos de Deus. - -Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito -apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, -lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho. - -No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um -certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que -costumava praticar. - -Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; -parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente -Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua -alma. - -Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida -dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de -jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola -brilhante que bem se podia chamar _a alma do amor_. - -O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a -luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve -roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe -sensações voluptuosas. - -Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem -comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua -prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno -semblante. - ---Como estás bonita! disse a menina de repente. - -E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo -suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima. - ---Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de -Cecilia. - -É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado. - -Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a -verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir. - ---Vamos busca-lo? - ---Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio. - ---Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs. - ---Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs. - -Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente. - -Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho -D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela -esplanada conversando. - -Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do -joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida. - ---Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está -tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos -acompanhassem? - ---Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo -galanteando; cumpririamos a tua ordem. - ---Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas! - ---E o que são os desejos de um lindo anginho como tu? - ---Assim, nos acompanhais? - ---De certo. - ---E vós, Sr. Alvaro? - ---Eu... obedeço. - -Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a -perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle. - -Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a -durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez -lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da -sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e -satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa -de que elle se accusava. - -A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que -de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem -guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára -Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o -chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho -encantador que ia esvaecer-se. - -As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas -de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás -vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela -vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por -detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por -algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se -ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo. - -Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se -aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão -brejeiro, que Isabel ficou inquieta. - ---Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai. - ---Sim! E o que é? - ---Um segredo. - ---Pois vem contar-m'o. - -Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o -braço. - ---Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se; -conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo -bracelete... Ainda não o vistes? - -E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella -tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e -Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir -o seu effeito. - -A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é -impossivel de descrever. - -Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a -enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua -prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado. - -Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia -tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não -podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que -devia ser um segredo entre ambos. - -Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos; -avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o -olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o -seu braço mimoso. - -Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma -explicação, animou-se a romper o silencio: - ---Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante. - ---Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando. - ---Como? - ---Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me -fazer aceita-lo; pois se eu soubesse... - ---Que vinha de minha mão! Não aceitarieis? - ---Nunca!... exclamou a moça com fogo. - -Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra; -parecia dar um juramento. - ---Qual o motivo? perguntou depois de um momento. - -A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e -tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse -teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem -o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um -mysterio, e desejava esclarecê-lo. - -Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste: - ---Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o -que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes -escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar -com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro? - -Isabel estremeceu. - ---Fallai: eu vos escuto, Sr. Alvaro. - ---Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste -bracelete, não é verdade? - ---Sim! balbuciou a moça. - ---Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço. -Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até -que ponto zombão de mim. - ---Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me. - ---E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais? - ---Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do -coração. - ---Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico! - -Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça -implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e -revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle -havia dado. - -Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse -merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que -lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado. - -A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida; -seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu -vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar -ardente cahia sobre o moço e o fascinava. - ---Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer -assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego. - ---E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça. - ---Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me -annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo -receber-se a má nova de voz amiga! - -Isabel ia fallar, mas parou estremecendo: - ---Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo! - ---E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim -um amigo. - ---Se fosseis!... - -E os olhos de Isabel scintillárão. - ---Acabai! - ---Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar. - ---Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe? -disse Alvaro admirado. - -A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos. - -Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da -parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu -espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas. - -Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que -tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o -cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um -enigma. - ---D. Isabel! - -A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas. - ---Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo. - ---Não m'o pergunteis!... - ---Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós? -Dizei! - ---Quereis saher? perguntou a moça com exaltação. - ---Tanto tempo ha que supplico-vos! - -Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della -esperava emfim uma resposta. - -Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão -das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as -faces. - ---Me perdoareis? - ---Sim! Mas porque? - ---Porque... - -Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução -subita se tinha operado em toda a sua organisação. - -O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão -abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas -que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel. - -O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a -menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia -transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo. - -As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço, -ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia -esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos -labios. - -Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do -rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha -ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se -nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se -pelas fórmas palpitantes. - -Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a -primeira palavra. - -Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor -desfallecida sobre a haste, murmurou: - -Porque... vos amo! - - - - -XII - -AS MENSAGENS DE PERY - - -Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas -veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo. - -Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração -leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o -amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma -profanação. - -A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento -rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava -ajoelhada aos pés do cavalheiro. - -Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto -tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se, -embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração. - ---Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante. - ---Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a; -peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa. - ---Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha -mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem -mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos! - -E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação. - ---Que desejais de mim? perguntou o moço. - ---Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós -será para mim um consolo. M'o negareis? - -Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um -desespero surdo e concentrado. - ---Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um -irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero. - ---Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição. - ---E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel. - -A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas -palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a -suffocava. - -Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o -que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel -era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já -cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava -como pai. - ---Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me -por vosso irmão. - ---Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua -irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim? - ---Sim, D. Isabel. - ---Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? -perguntou ella com timidez. - -Alvaro hesitou. - ---Sim, Isabel. - -A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os -labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o -acariciavão. - ---Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É -preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco. - ---Contai-me as vossas magoas. - ---Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero -mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais. - ---Culpada! Em que! - ---Em querer-vos, disse Isabel corando. - -Alvaro tornou-se frio e reservado. - ---Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me, -depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã. - -A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro -não pode resistir. - ---Fallai, minha irmã. - ---Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo, -e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me -queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; -entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que -me tratão fez-me desprezar a outra. - ---Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de -D. Antonio de Mariz. - ---Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo -que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar -alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!... - ---Tendes razão, Isabel. - ---Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição -que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a -amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma. - -A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro. - ---Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o -percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e -conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos. - -O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel. - ---Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, -sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um -prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de -lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se -aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso -semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o -raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um -gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão -as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me -fallavão... - -Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro -palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a -ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco. - ---Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me -deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. -Podeis-me ouvir sem temor. - ---Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro. - ---Resta a explicação que ha pouco me pedieis. - ---Ah! emfim! - -Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que -guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e -o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete. - ---Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, -donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos -aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A -esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e -fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes -que lembrar-vos de mim para odiar-me! - ---Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós -senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela -affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã. - -O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, -apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para -reflectir sobre o que lhe acontecia. - -Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; -e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz -lhe dava a mão de sua filha! - -Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do -coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; -caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de -arvores, destacados aqui e alli sobre a campina. - -Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo -estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião -perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos. - -A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os -olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez -temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore -começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a -aproximação da noite. - -Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente -sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante -de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o -movimento que lhe tinha imprimido o arco. - -O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo -aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão -de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça. - -Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do -rosto de Cecilia. - -Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, -tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião -uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres. - ---Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio. - ---Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; -queres? - ---Pery te pede. - ---Quaes achas mais bonitas? - ---A de teu rosto, e a de teus olhos. - -Cecilia sorrio. - ---Toma-as; eu te as dou. - -Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e -brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra -tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres. - -Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta, -tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da -phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares. - -Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um -aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou -mensageira muda, uma simples interjeição: _Alto_! - -O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia -dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação -com esse mysterio que apenas deixara entrever. - -Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com -o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse -attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do -indio. - -Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os -braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava -no fundo azul do horizonte, esperou. - -Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no -tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se; -Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á -ordem. - -Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do -cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em -duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a -trinta passos do lugar onde parára a principio. - -Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que -acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem -ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no -arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem. - -Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais -ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde -conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão -cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho. - -Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia -segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma -sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao -ouvido uma palavra. - ---São elles. - ---Elles quem? - ---Os inimigos brancos. - ---Não te entendo. - ---Espera: Pery volta. - -E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava -rapidamente. - - - - -XIII - -TRAMA - - -Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros. - -O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; -passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por -lhe escaparem os seus inimigos. - -Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e -o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os -homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas -nunca homens de energia e resolução. - -Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e -Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal -parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos -meios de sahir da posição difficil em que se achava. - -Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando -receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que -complicasse a situação. - -Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia -nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que -respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano. - ---Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda. - ---Como sabeis? - ---Se fosse, acreditais que me deixasse a vida? - ---É verdade; mas quem foi então? - ---Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem -que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez. - -Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara -silencioso. - ---Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra? - ---Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro. - -O italiano sorrio de escarneo. - ---Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por -este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido -que devemos tomar. - ---Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em -tudo isto uma cousa sobrenatural. - ---Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com -impaciencia. - ---Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de -creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia -da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade. - -Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, -onde tivera lugar a sua entrevista. - ---Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma -palavra sequer. - -Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o -som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e -perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se -porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava -até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação -da scena anterior. - ---Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra -vos passará pela cabeça e não sahirá da terra. - ---Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra -observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; -desconfia apenas. - ---Ainda insistis em que fosse um homem? - ---Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do -que de uma cobra; é de um homem visionario. - ---Visionario! dizei crente! - ---Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em -espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde -servireis de carniça aos urubús. - -O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da -pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos -corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava. - ---Pensastes? - ---Sim. - ---Admittis que fosse um homem? - ---Admitto tudo. - ---Jurais? - ---Juro. - ---Sobre... - ---Sobre minha salvação. - -O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao -Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter. - -Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão -feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos. - -Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma -hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A -posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances -da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do -abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle. - -Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o -abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste -homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do -gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento -do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se -expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol -ardente que fazia borbulhar o sangue. - -Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões -violentas. - -Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na -contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e -fugia-lhe. - -A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue -quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever -inspirar senão affeições castas. - -A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. -Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e -arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene? - -Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no -mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro -sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia -conquistar. - -Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua -como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo. - ---Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui -mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós? - ---Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto -antes, e andar dia e noite sem parar. - ---E vós, Ruy, sois do mesmo aviso? - ---Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, -obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda -a parte. - ---Que propondes então? - ---Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos -descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; -ou ignorão tudo e não corremos o menor risco. - ---Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a -nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que -devemos ganhar tudo ou perder tudo. - -Houve longa pausa durante que o italiano reflectia. - ---Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle. - ---Com oito. - ---E vós, Bento? - ---Sete. - ---Decididos? - ---Promptos ao menor signal. - ---Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da -batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso -que á noite tudo esteja concluido. - ---E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões. - ---Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da -casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará -signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda -esperança de salvar-se. - -Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas -fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição. - -Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de -sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto. - -Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros -carregar as suas, e disse-lhes: - ---Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é -nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em -todo o caso será depois menos um que teremos contra nós. - -Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com -as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta. - -Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous -passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia -produzida pela correnteza do vento. - -Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros -como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e -conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua -procura. - -O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando -Bento Simões parou: - ---Quem entrará primeiro? - ---A sorte decidirá, respondeu Ruy. - ---Como? - ---Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro -chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro. - ---Está dito! - -Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida. - -Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; -como Loredano, elle tambem disse, comsigo: - ---O ultimo será o primeiro. - -E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros -sem que um percebesse a morte dos outros. - -Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando -Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no -chão ao fio comprido do lombo. - -Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já -ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia. - -O plano de Pery tinha gorado. - ---Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou -cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento. - -O aventureiro não replicou. - -Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião -favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de -longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que -ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao -cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se. - -Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, -espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um -e um, mata-los. - -Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos. - -Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, -Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio -com seu pai e sua prima. - -A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; -escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse -assustar a menina, quanto mais offendê-la. - -Bento Simões passou incolume. - - - - -XIV - -A CHACARA - - -Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro. - -Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe -escapavão por uma especie de fatalidade. - -O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; -modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os -tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava -que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle -sabia. - -Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este -expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano -executara sua trama. - -O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a -D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já -acudido ao pensamento do indio. - -Foi ter com Alvaro que o esperava. - -O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição -quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para -sempre. - -Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de -Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta -lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela -mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano. - -Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer -repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os -olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor. - -Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da -cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o -echo das queixas murmuradas pela voz maviosa. - -O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella -imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola -esplendida. - -Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; -passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o -incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de -suas esperanças. - -Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e -desapego da vida, que succedem ás dores profundas. - ---Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos? - ---Sim; respondeu o indio. - ---Quero conhecê-los. - ---Para que? - ---Para ataca-los. - ---Mas são tres. - ---Melhor. - -O indio hesitou: - ---Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle -morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado. - ---Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos? - ---Pery póde; mas não quer dizer. - ---Porque? - ---Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás -os máos. - ---Oh! que não. Falla! - ---Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas -a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles. - ---Como? - ---Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, -a todos da casa. Tem outros que os seguem. - ---Uma revolta!... exclamou Alvaro. - ---O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não -deixará. - ---É impossivel! disse o moço surprendido. - -Pery te diz verdade. - ---Não creio!... - -Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma -exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio, -não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de -sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal. - -O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca -durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um -só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de -disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas -não passava disto. - -O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se -obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu -cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros. - ---Tu duvidas de Pery? - ---Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; -mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem. - ---Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o -indio com firmeza. - ---Que queres dizer com isto? - ---Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se -elle perder a vida dirás ainda que se engana? - -Alvaro foi abalado pelas palavras do indio. - ---Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz. - ---Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; -Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar -o bote. - ---Mas então o que queres de mim? - ---Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle -fez; que salves a senhora! - ---Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro -senão contra o ferro! - -O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas. - ---Tu não amas Cecy! - -Alvaro estremeceu. - ---Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo. - ---Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida -sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria -de meu pai. - -Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a -mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as -circumstancias da vida havião creado nelles um contraste. - -Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão -todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse -quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do -dever. - -Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em -torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; -sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé -dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia. - -Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra -filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, -comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas -Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os -grandes sentimentos. - -Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de -sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido. - -O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do -cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a -mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia: - ---Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; -tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno -das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade -de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta. - ---Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o -teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a -minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em -torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que -passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua -senhora. - ---Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das -florestas; Pery te chamaria irmão. - -Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro -lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de -defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e -prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo. - -O indio tinha a sua idéa. - -Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que -occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia. - -Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na -cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores -para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco -do jardim. - -Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta -abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava -no vão esclarecido. - -A menina avistando o indio correu para elle: - ---Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? -E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! -Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre. - ---Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para -elle ficar. - ---Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo. - ---O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio -simplesmente. - ---Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de -contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me -salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; -todos os dias te arriscas a morrer por minha causa. - -O indio sorrio: - ---Que queres que Pery faça de sua vida, senhora? - ---Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe -ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro. - -Pery abanou a cabeça. - ---Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do -céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo -isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma -cruz no peito. Sim? - ---A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para -abrir; Pery precisa de liberdade para viver. - ---Mas tu serás livre; e nobre como meu pai! - ---Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o -peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o -passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida -em que nasceu. - -Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia. - ---Não te zanga, senhora. - ---Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te -chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste. - -E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu -para o seu quarto, e bateu a porta com violencia. - -O indio voltou pezaroso á sua cabana. - -De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma -antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os -sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da -musica. - -A chacara dizia assim: - - - Foi um dia.--Infanção mouro - Deixou - Alcaçar de prata e ouro. - - Montado no seu corcel, - Partio - Sem pagem, sem anadel. - - Do castello á barbacã - Chegou - Viu formosa castellã. - - Aos pés daquella a quem ama - Jurou - Ser fiel á sua dama. - - A gentil dona e senhora - Sorrio; - Ai! que isenta ella não fora - - «Tu és mouro; eu sou christã:» - Fallou - A formosa castellã. - - «Mouro, tens o meu amor: - Christão, - Serás meu nobre senhor.» - - Sua voz era um encanto, - O olhar - Quebrado, pedia tanto! - - «Antes de ver-te, senhora, - Fui rei; - Serei teu escravo agora. - - «Por ti deixo meu alcaçar - Fiel; - Meus paços d'ouro e de nacar. - - «Por ti deixo o paraiso; - Meu céo - É teu mimoso sorriso.» - - A dona em um doce enleio - Tirou - Seu lindo collar do seio. - - E duas almas christãs, - Na cruz - Um beijo tornou irmãs. - - -A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um -momento as suas doces modulações. - - - - -FIM DA SEGUNDA PARTE. - - -NOTAS - -DO TOMO PRIMEIRO. - - -PAG. 3.--=Guarany=. - -O titulo que damos a este romance significa o _indigena brazileiro_. Na -occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes -a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e -expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta -raça pelo nome _Tupi_ mas esta denominação não era usada senão por -algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia -dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome -primitivo da grande nação. - - -PAG. 3.--=O Paquequer=. - -Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer -naquella epoca, lêa-se B. da Silva Lisboa, _Annaes do Rio de -Janeiro_, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café -transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e -desertos. - - -PAG. 4.--=Brazão d'armas=. - -Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos _Annaes do Rio -de Janeiro_, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei -litteralmente. - - -PAG. 11.--=D. Antonio de Mariz=. - -Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu -passado, antes da epoca em que começa o romance. - -Nos _Annaes do Rio de Janeiro_, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve -noticia sobre sua vida. - - -PAG. 13.--=D. Pedro da Cunha=. - -Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla -Warnhagen na sua historia do Brazil. - - -PAG. 16.--=Aventureiros=. - -O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda -de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas. -Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a -necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares -para as conquistas e explorações. - - -PAG. 14.--=D. Lauriana=. - -Segundo B. da S. Lisboa a mulher de D. Antonio de Mariz chamava-se -Lauriana Simoa, e era natural de S. Paulo. - - -PAG. 19.--=D. Diogo de Mariz=. - -Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega -do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes. -S. Lisboa.--_Annaes_. - - -PAG. 20.--=Pistoletes=. - -Ou arcabuzes pequenos. Pela ord. n° 5, tit. 80, s. 13ª, era defesa -trazê-los armados ou tê-los em casa. - - -PAG. 32.--=Um indio=. - -O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se -encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os -escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da -regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por -Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a -raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou -depois. - - -PAG. 38.--=Forcado=. - -Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria, -é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que -cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados -já estão. - - -PAG. 40.--=Ticum=. - -O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os -Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para -cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina -de almocega era fortissimo. - - -PAG. 42.--=Biribá=. - -Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito, -roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. B. da S. -Lisboa.--_Annaes_. - - -PAG. 43.--=Gardenia=. - -Nome scientifico que Fr. Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena -silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a -mais commum é a branca e escarlate. - - -PAG. 73.--=Pery=. - -Palavra da lingua guarany que significa _junco silvestre_. - - -PAG. 80.--=Oleo=. - -É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de -cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura. - - -PAG. 94.--=Hirara=. - -Especie de gato selvagem, indigena do Brazil. - - -PAG. 100.--=Soffrer=. - -É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um -negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por -que os primeiros colonos lhe derão esse nome. - - -PAG. 102.--=Cecy=. - -É um verbo da lingua guarany que significa _magoar_, _doer_. - - -PAG. 106.--=Sapucaia=. - -Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição -de um côco. - - -PAG. 107.--=Pequiá=. - -Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de -brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro. - - -PAG. 111.--=O cactus=. - -Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o -rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão _urumbeba_. Todos elles -abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol. - - -PAG. 111.--=Graciola=. - -É o nome scientifico que Fr. Velloso na sua _Flora Fluminense_ dá á -pequena flôr azul de um arbusto indigena. - - -PAG. 111.--=Malvalisco=. - -Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira, -cuja flor é escarlate. - - -PAG. 112.--=Viuvinha=. - -Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro -que saúda o nascimento do dia. - - -PAG. 113.--=Jasmineiro=. - -Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous -botanicos que citamos acima. - - -PAG. 115.--=Colhereira=. - -É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma -bella côr de rosa. - - -PAG. 146.--=O cão=. - -Diz o Sr. Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o -companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu. - - -PAG. 149.--=Cabuiba=. - -A cabuiba ou cabureiba, _Balsamum Peruvianum_ de Pison, _Cabuibaiba_ de -Maregrave e _Miroxilem Cabriuva_ de outros naturalistas, é uma arvore -das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama -arvore do balsamo. - -Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para -cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; S. Lisboa e Ayres do Casal.) - - -PAG. 154.--=Formigueiro=. - -No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas, -feitas por uma formiga, a que os indios chamárão _taciahy_. - - -PAG. 161.--=Garcia Ferreira=. - -Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro -por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (B. da Silva -Lisboa.) - - -PAG. 163.--=Roberio Dias=. - -Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de -prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia; -pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado. -Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão. - -Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das -minas. (B. da S. Lisboa.) - - -PAG. 177.--=Convento do Carmo=. - -«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de -José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre Fr. Pedro, -para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o -anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590, -pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição -geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (B. da S. Lisboa, tom. -VII°, cap. 2°, § 6.) - - -PAG. 196.--=Arvores de ouro=. - -A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta -flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á -embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (G. Soares, _Roteiro do -Brazil_, e B. da S. Lisboa _Annaes_). - -Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase -figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de -setembro.» - - -PAG. 196.--=O mais forte=. - -É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que -tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de -hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era -ephemero. - - -PAG. 197.--=Taba dos brancos=. - -Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito -Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um -desses combates que o indio conta de passagem. - - -PAG. 198.--=Senhora dos brancos=. - -Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na -occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de -Nossa Senhora, que o impressionou vivamente. - - -PAG.--=A estrella grande=. - -O que dizem alguns chronistas, a respeito da ignorancia absoluta dos -indigenas sobre a astronomia, me parece inexacto. Os Guaranys tinhão os -conhecimentos rudes, filhos da observação. Chamavão a estrella -_jacy-tato_, fogo da lua; suppunhão pois que a lua é que transmittia a -luz ás estrellas. Conhecião as quatro phases da lua: a lua nova, -_jacy-peçaçu_; o quarto crescente, _jacy-jemorotuçu_; a lua cheia, -_jacy-caboaçu_; e o quarto minguante, _jacy-jearoca_. Dividião o anno -em duas estações: a estação do sol, _coaracyara_, e a estação da -chuva, _ama'na-ara_; são as mesmas que hoje conhecemos, e as unicas que -realmente existem no Brazil. Muitas outras observações podiamos fazer, -que omittimos para evitar prolixidade. - - -PAG. 199.--=Grande rio=. - -Esta palavra é relativa: todas as nações chamavão assim o maior rio -que havia no territorio que ellas conhecião, e é por isso que se -encontrão tantos _rios grandes_ nos nomes dos rios do nosso paiz. Para -os Goytacazes o Rio-Grande era o Parabyba. - - -PAG. 218.--=A nação goytacaz=. - -Esses factos lêem-se em qualquer dos escriptores que se têm occupado -dos primeiros tempos coloniaes do Brazil, e especialmente em G. Soares, -que foi contemporâneo delles. - - -PAG. 260--=Cipós=. - -Diz Gabriel Soares: «Deu a natureza ao Brazil, por entre os arvoredos, -umas cordas muito rijas, muitas que nascem aos pés dos arvores e -atrepão por ellas acima, a que chamão cipós, com que os indios atão -a madeira de suas casas e os brancos que não podem mais. Nestes mesmos -mattos se crião outras cordas mais delgadas e primas a que os indios -chamavão «timbós,» que são mais rijas que os cipós acima.» - -A quantidade infinita de cipós é uma das originalidades das florestas -do Brazil, e admirou os naturalistas estrangeiros que o visitárão. - - -PAG. 222.--=Candêa=. - -Diz o mesmo autor: «Ha uma arvore meã que se chama «ibiriba» a qual -os Indios fazem em fios para fachos, com que vão mariscar e para -andarem de noite; e ainda que seja verde, cortada daquella hora, pega o -fogo nella como em alcatrão, e não apaga o vento os fachos della; e em -casa servem-se os indios de achas dessa madeira, como de candêas. - - -PAG. 269.--=Cauan=. - -É uma ave que devora as cobras, pelo que ellas fogem della, Os indios, -segundo affirma Ayres do Casal, imitavão o seu canto, quando andavão -á noite pelo matto, e assim preservavão-se de serem mordidos. - - -PAG. 338.--=Setta por elevação=. - -A destreza e a habilidade com que os Indios atiravão a setta era tal, -que os Europeus a admiravão. Para atirarem por elevação, -deitavão-se, seguravão o arco com os dous dedos dos pés e lançavão -ao ar a setta que, subindo, descrevia uma parabola e ia cahir no alvo. -Ainda ha pouco tempo no Pará se vião, nas aldêas de indios já -cathequisados, pareos deste jogo, em que o alvo era um tronco de -bananeira decepado. O tenente Pimentel, filho do presidente de -Matto-Grosso, foi assassinado pelos indios deste modo, cavalgando no -meio de muitos cavalleiros. Nenhum foi ferido: e todas as settas -abatêrão-se sobre o moço de quem os selvagens se querião vingar. - - - - -FIM DAS NOTAS DO TOMO PRIMEIRO. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you will have to check the laws of the country where - you are located before using this eBook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that: - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation's website -and official page at www.gutenberg.org/contact - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without -widespread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/67724-0.zip b/old/67724-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index aff5100..0000000 --- a/old/67724-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/67724-h.zip b/old/67724-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 47de341..0000000 --- a/old/67724-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/67724-h/67724-h.htm b/old/67724-h/67724-h.htm deleted file mode 100644 index 4ad7dea..0000000 --- a/old/67724-h/67724-h.htm +++ /dev/null @@ -1,9707 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html;charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - O Guarany - Tomo Primeiro, by J. De Alencar—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent: 1em; -} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media print { hr.chap {display: none; visibility: hidden;} } - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} -ul { - list-style-type: none; -} -li { - margin-top: 0em; - text-indent: -2em; - padding-left: 1em; -} - -.center {text-align: center; text-indent: 0em;} - -/* Poetry */ -.poetry {text-align: left; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} -/* uncomment the next line for centered poetry in browsers */ -.poetry {display: inline-block;} -.poetry .stanza {margin: 1em auto;} -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media print { .poetry {display: block;} } -.x-ebookmaker .poetry {display: block;} - -.space-above -{ - margin-top: 2em; -} - -.small {font-size: 0.8em;} -.big {font-size: 1.2em;} - - </style> - </head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span>, by José Martiniano de Alencar</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>romance brazileiro Vol. 01 (of 2)</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: José Martiniano de Alencar</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: March 28, 2022 [eBook #67724]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div> - -<p class="center"><br /> -<span class="big">J. DE ALENCAR</span></p> -<hr class="r5" /> - -<h1 class="space-above"><span class="small">O</span><br /> -<span class="big">GUARANY</span><br /><br /> -<span class="small">ROMANCE BRAZILEIRO</span></h1> -<hr class="r5" /> - -<p class="center space-above">QUINTA EDIÇÃO<br /><br /></p> -<hr class="r5" /> -<p class="center">TOMO PRIMEIRO</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center space-above"><span class="big">RIO DE JANEIRO</span><br /><br /> -B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR<br /> -<span class="small">71, RUA DO OUVIDOR, 71</span><br /> -PARIS.—E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center">Ficão reservados os direitos de propriedade.</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center"><strong>1883</strong></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="AO_LEITOR">AO LEITOR</h2> -<hr class="r5" /> -</div> - - -<p>Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição -uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a -rever.</p> - -<p>Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema -benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para -divida de reconhecimento.</p> - -<p>Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos, -achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem -corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e -sobra o tedio de um labor ingrato.</p> - -<p>Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o -desalinho de um estylo não castigado.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2> -<p class="center"><a href="#PRIMEIRA_PARTE">PRIMEIRA PARTE<br /> -<strong>OS AVENTUREIROS</strong></a></p> -<ul> -<li><a href="#p1-I">I.—Scenario</a></li> -<li><a href="#p1-II">II.—Lealdade</a></li> -<li><a href="#p1-III">III.—A bandeira</a></li> -<li><a href="#p1-IV">IV.—A Luta</a></li> -<li><a href="#p1-V">V.—Loura e morena</a></li> -<li><a href="#p1-VI">VI.—A Volta</a></li> -<li><a href="#p1-VII">VII.—A prece</a></li> -<li><a href="#p1-VIII">VIII.—Tres linhas</a></li> -<li><a href="#p1-IX">IX.—Amor</a></li> -<li><a href="#p1-X">X.—Ao alvorecer</a></li> -<li><a href="#p1-XI">XI.—No banho</a></li> -<li><a href="#p1-XII">XII.—A onça</a></li> -<li><a href="#p1-XIII">XIII.—Revelação</a></li> -<li><a href="#p1-XIV">XIV.—A india</a></li> -<li><a href="#p1-XV">XV.—Os tres</a></li> -</ul> -<p class="center"> -<a href="#SEGUNDA_PARTE">SEGUNDA PARTE<br /> -<strong>PERY</strong></a></p> -<ul> -<li><a href="#p2-I">I.—O Carmelita</a></li> -<li><a href="#p2-II">II.—Yara!</a></li> -<li><a href="#p2-III"> -III.—Genio do mal</a></li> -<li><a href="#p2-IV"> -IV.—Cecy</a></li> -<li><a href="#p2-V"> -V.—Vilania</a></li> -<li><a href="#p2-VI"> -VI.—Nobreza</a></li> -<li><a href="#p2-VII"> -VII.—No precipicio</a></li> -<li><a href="#p2-VIII"> -VIII.—O bracelete</a></li> -<li><a href="#p2-IX"> -IX.—Testamento</a></li> -<li><a href="#p2-X"> -X.—Despedida</a></li> -<li><a href="#p2-XI"> -XI.—Travessura</a></li> -<li><a href="#p2-XII"> -XII.—As mensagens de Pery</a></li> -<li><a href="#p2-XIII"> -XIII.—Trama</a></li> -<li><a href="#p2-XIV"> -XIV.—A chacara</a></li> -<li><a href="#Notas"> -Notas</a></li> -</ul> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="PRIMEIRA_PARTE"><span class="small">PRIMEIRA PARTE</span><br /> -<span class="big"><span id="Nota1">OS AVENTUREIROS</span></span></h2> -</div> - - - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-I">I<br /> -SCENARIO</h3> -</div> - - - - -<p>De um dos cabeços da <i>Serra dos Órgãos</i> deslisa um fio d'agua que se -dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu -curso de dez leguas, torna-se rio caudal.</p> - -<p id="Nota2">É o <i>Paquequer</i>: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma -serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba, -que rola magestosamente em seu vasto leito.</p> - -<p>Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio, -altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés -do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e -serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as -canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do -senhor.</p> - -<p>Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas -acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta -patria da liberdade.</p> - -<p>Ahi, o <i>Paquequer</i> lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as -florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas -de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De -repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um -momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só -arremesso, como o tigre sobre a presa.</p> - -<p>Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e -adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como -em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.</p> - -<p>A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e -vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que -corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos -leques das palmeiras.</p> - -<p>Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista, -tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem -é apenas um simples comparsa.</p> - -<p>No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava -deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia -menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o -interior.</p> - -<p>Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, -construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma -muralha de rocha cortada a pique.</p> - -<p>A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um -semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças -quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita -metade pela natureza e metade pela arte.</p> - -<p>Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada, -encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma -fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer, -chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado -pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.</p> - -<p>Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza -para crear meios de segurança e defeza.</p> - -<p>De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que, -alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio; -entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava -aquelle pequeno valle impenetravel.</p> - -<p>A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda -apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de -frente, baixas, largas, quasi quadradas.</p> - -<p>Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um -pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado -esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que -abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.</p> - -<p>No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que -chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a -natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do -rochedo.</p> - -<p>Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal -de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata -tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e -graça admiravel.</p> - -<p>Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde -se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de -gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a -natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma -miniatura.</p> - -<p>O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma -cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de -morada a aventureiros e acostados.</p> - -<p>Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se -uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião -nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o -chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta -habitação selvagem.</p> - -<p>Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a -maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada -porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do -edificio.</p> - -<p>A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente, -respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em -um deserto, como era então aquelle sitio.</p> - -<p>As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de -pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que -representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.</p> - -<p>Sobre a porta do centro desenhava-se um <span id="Nota3">brasão d'armas</span> em campo de -cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata -sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada -de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e -por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.</p> - -<p>Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo -brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um -oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno -docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.</p> - -<p>Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés -torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a -mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.</p> - -<p>Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações -heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e -era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que -revelava a presença de uma mulher.</p> - -<p>Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis -de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas -em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de -um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.</p> - -<p>A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual -havia um escabello de madeira dourada.</p> - -<p>Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras -hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de -Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e -formas exquisitas.</p> - -<p>Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia -definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias -côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.</p> - -<p>Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico -a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas -brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos -olhos profanos.</p> - -<p>Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado -nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso -que uma fada habitava.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-II">II<br /> -LEALDADE</h3> -</div> - -<p>A habitação que descrevemos, pertencia a <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota4">Antonio de Mariz</span>, fidalgo -portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da -conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.</p> - -<p>Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria -alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da -fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa -capitania.</p> - -<p>Fez parte em 1578 da celebre expedição do <abbr title="Doutor">Dr.</abbr>Antonio de Salema contra -os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para -fazerem o contrabando de páo-brasil.</p> - -<p>Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da -alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo -pela republica e a sua dedicação ao rei.</p> - -<p>Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os -indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do -interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o -governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo -sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito -tempo devoluta.</p> - -<p>A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio, -vierão modificar a vida de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao -rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito -e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil <abbr title="Dom">D.</abbr> Filippe II -como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a -espada e retirou-se do serviço.</p> - -<p>Por algum tempo esperou a projectada expedição de <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota5">Pedro da Cunha</span>, -que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então -sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, prior do Crato.</p> - -<p>Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e -sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe -guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão, -as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que -lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia -assentar o seu novo solar, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz erguendo o vulto direito, -e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em -torno, exclamou:</p> - -<p>—Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal, -que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo -meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás, -Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!</p> - -<p>Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita -sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima -phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol -que transmontava.</p> - -<p>Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os -trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de -residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino -construirão e decorárão a casa que já conhecemos.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida -aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á -sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um -sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.</p> - -<p>Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de -Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos -productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e -hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para -proverem os seus habitantes de todo o necessario.</p> - -<p>Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as -ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha -de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma -resistencia inexpugnavel.</p> - -<p>Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus -selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares -habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão -comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.</p> - -<p>Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em -que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e -que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez -e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras -preciosas, que ião vender na costa.</p> - -<p>Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos -indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza -commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D. -Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade -media.</p> - -<p>O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo -aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era -estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua -visinhança, estabelecer-se por esses lugares.</p> - -<p>Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do -Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e -por isso <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se -premunido para qualquer occurrencia.</p> - -<p>Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos -coloniaes, uma banda de <span id="Nota6">aventureiros</span> que lhe servião nas suas -explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados, -destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a -astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma -especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma -disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do -chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual -na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por -um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello, -como sem demora e hesitação.</p> - -<p>Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor -de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios; -devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação -dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de -conservara ordem, a disciplina e a harmonia.</p> - -<p>Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior -á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á -cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos -necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros -pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente -pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos -de consumo.</p> - -<p>Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa -pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus -usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao -seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa -superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as -massas.</p> - -<p>Para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua -fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era -senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só -se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da -corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que -se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as -frontes inclinavão.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a -consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação -que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de -seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de -sua pequena familia.</p> - -<p>Esta se compunha de quatro pessoas:</p> - -<p>Sua mulher, <abbr title="Dona">D.</abbr> <span id="Nota7">Lauriana</span>, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de -fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um -bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de -um acto de dedicação:</p> - -<p>Seu filho, <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota8">Diogo de Mariz</span>, que devia mais tarde proseguir na carreira -de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço -na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:</p> - -<p>Sua filha, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse -pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o -seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, embora nada -dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma -india que havia captivado em uma das suas explorações.</p> - -<p>Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes -personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se -comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.</p> - -<p>Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-III">III<br /> -A BANDEIRA -</h3></div> - - - - -<p>Era meio dia.</p> - -<p>Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas, -costeava a margem direita do Parahyba.</p> - -<p>Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada -de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta -dous <span id="Nota9">pistoletes</span>, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado -a tiracollo pelo hombro esquerdo.</p> - -<p>Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de -caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os -abrigava da chuva.</p> - -<p>Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena -distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não -atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo -a dianteira.</p> - -<p>Naquelle tempo dava-se o nome de <em>bandeiras</em> a essas caravanas de -aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de -ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras -ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba, -era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os -productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.</p> - -<p>Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que -seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e -que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito -garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.</p> - -<p>—Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de -diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro -leguas!</p> - -<p>Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á -cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.</p> - -<p>—Ao que parece, tendes pressa de chegar, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro de Sá? disse elle -com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de -ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.</p> - -<p>—De certo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o -desejo de chegar.</p> - -<p>—Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais -natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.</p> - -<p>—Que quereis dizer com isto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano? perguntou Alvaro com um -movimento de enfado.</p> - -<p>—Quero dizer, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e -medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes -das seis horas.</p> - -<p>Alvaro corou.</p> - -<p>—Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos -chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.</p> - -<p>—Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer -dia! replicou o italiano no mesmo tom.</p> - -<p>Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o -seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e -respondeo:</p> - -<p>—Ora, Deus, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e -com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.</p> - -<p>—Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que -aquelle que não quer ouvir.</p> - -<p>—Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião: -foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o -ensinou? disse o cavalheiro gracejando.</p> - -<p>—Nem um nem outro, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos -Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas -arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro -á sua dama.</p> - -<p>Alvaro enrubeceo pela terceira vez.</p> - -<p>Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava -meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o -incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.</p> - -<p>Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro -proseguio com extrema amabilidade:</p> - -<p>—Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei, -<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro?</p> - -<p>—Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de -arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas -galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.</p> - -<p>—É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz -lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das -outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.</p> - -<p>—Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou -fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas -acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.</p> - -<p>—<i lang="it">Per Bacco</i>, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos -pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis -justo que cada um pense á sua maneira.</p> - -<p>—Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e -avançando o passo da sua cavalgadura.</p> - -<p>A conversa interrompeo-se.</p> - -<p>Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão -silenciosos uma par do outro.</p> - -<p>Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a -distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia -pensativo e preoccupado.</p> - -<p>Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto, -cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma -cansoneta de <i lang="it">condottiere</i>, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.</p> - -<p>Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o -sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a -fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro; -alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os -principaes traços deste aventureiro.</p> - -<p>A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia -mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.</p> - -<p>Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas -profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa -folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava -nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos -seculares dos acaris e araribás.</p> - -<p>O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus -échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas -interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as -folhas seccas.</p> - -<p>Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo -envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.</p> - -<p>Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de -sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se -de repente nomeio do <em>claro-escuro</em> da floresta.</p> - -<p>Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de -verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe -indicasse a hora.</p> - -<p>Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.</p> - -<p>—Não vos dê cuidado, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, antes de seis horas lá -estaremos; sou eu que vo-lo digo.</p> - -<p>O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que -me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos -o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos -guarde de tocar em objectos que são sagrados.</p> - -<p>Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto -conservou-se calmo e sereno.</p> - -<p>—Bem sabeis que vos devo obediência, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, e não faltarei -della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que -tenho dito póde ser mais claro do que é.</p> - -<p>—Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para -outros.</p> - -<p>Ora dizei-me, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me -ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa -possivel?</p> - -<p>—Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em -adevinhar.</p> - -<p>—Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta -expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias -eis-nos ao cabo della?</p> - -<p>—Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.</p> - -<p>—Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com -satisfação, quando o coração nelle se interessa.</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e -colhendo as redeas.</p> - -<p>O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:</p> - -<p>—Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de -Mariz, sem duvida?</p> - -<p>—Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço -com arrogancia.</p> - -<p>—Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano -cortezmente, partistes do <i>Paquequer</i> em uma segunda feira, quando o dia -designado era um domingo.</p> - -<p>—Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de -despeito.</p> - -<p>Reparo em tudo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda, -que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente -antes do domingo.</p> - -<p>—E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e -fazendo um esforço para conter-se.</p> - -<p>—Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos -fallei.</p> - -<p>—E qual é ella, se vos praz?</p> - -<p>—Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.</p> - -<p>—Dizei sempre, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano: nada é perdido entre dous homens que se -entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.</p> - -<p>—Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de <abbr title="Dom">D.</abbr> -Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no -<i>Paquequer</i> um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.</p> - -<p>—Tendes um dom admiravel, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano; o que é de lamentar, é que o -empregueis em futilidades.</p> - -<p>—Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a -olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?</p> - -<p>—Com effeito é uma boa distracção.</p> - -<p>—Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos -outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de -olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.</p> - -<p>—Contai-nos isto, ha de ser curioso.</p> - -<p>—Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor -ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver -cousa mais simples?</p> - -<p>Alvaro empallideceo desta vez.</p> - -<p>—Sabeis uma cousa, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano?</p> - -<p>—Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.</p> - -<p>—Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos -muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de -espião.</p> - -<p>O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao -cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém -dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.</p> - -<p>—Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...</p> - -<p>—Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao -italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por -Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como -a uma cobra venenosa.</p> - -<p>A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma -impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo -desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os -traços vigorosos.</p> - -<p>Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:</p> - -<p>—Visto que tomais a cousa neste tom, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro de Sá, cumpre que vos -diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber -qual é o que tem a temer!...</p> - -<p>—Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.</p> - -<p>—Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem, -accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.</p> - -<p>E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e -misturou-se com os seus companheiros.</p> - -<p>A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se -de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes -zimborios de verdura.</p> - -<p>Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a -solidão com os échos estridentes.</p> - -<p>Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os -cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente, -lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-IV">IV<br /> -A LUTA</h3></div> - - -<p>Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma -scena curiosa.</p> - -<p>Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores, -encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um <span id="Nota10">indio</span> na flor -da idade.</p> - -<p>Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão <i>aimará</i>, -apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos -hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto -como um junco selvagem.</p> - -<p>Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre, -brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a -tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a -fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem -modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a -belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.</p> - -<p>Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do -lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, -vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.</p> - -<p>Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa, -ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé -pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as -flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha -verticalmente diante de si um longo <span id="Nota11">forcado</span> de páo ennegrecido pelo -fogo.</p> - -<p>Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena -bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga, -cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.</p> - -<p>Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas -que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava -imperceptivelmente.</p> - -<p>Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de -um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se -brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os -reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.</p> - -<p>Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore, -e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto -gigantesco.</p> - -<p>Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como -procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma -especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e -mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão -fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.</p> - -<p>O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não -perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e -serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade -do olhar revelava um pensamento de defeza.</p> - -<p>Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se -mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre -agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada -da clareira.</p> - -<p>Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue, -eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia -arriscar o ataque.</p> - -<p>O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e -apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição, -nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.</p> - -<p>Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das -florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua -marcha.</p> - -<p>Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a -pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de -impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao -peito:</p> - -<p>—É meu!... meu só!</p> - -<p>Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e -sonora, mas em tom de energia e resolução.</p> - -<p>O italiano rio.</p> - -<p>—Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa -amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a -tiracollo; ella vo-lo agradecerá.</p> - -<p>Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta -do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se -elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros -comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o -caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração -offensiva.</p> - -<p>Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse -um só instante com os olhos o inimigo.</p> - -<p>Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha, -e entranhárão-se de novo na floresta.</p> - -<p>O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado, -não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos -arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da -matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.</p> - -<p>Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore -houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um -pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario -uma distancia de trinta palmos.</p> - -<p>O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os -seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os -cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.</p> - -<p>Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma -flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda -do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.</p> - -<p>Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a -pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda, -açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.</p> - -<p>O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns -nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se -novamente.</p> - -<p>Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou -tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um -momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.</p> - -<p>Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas -armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem, -consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.</p> - -<p>O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze -passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade -extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo -raio.</p> - -<p>Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o -corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os -dentes promptos a cortarlhe a jugullar.</p> - -<p>A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em -que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle -azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.</p> - -<p>Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.</p> - -<p>Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava -na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos -magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se -ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo -com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe -o collo, e vacillou.</p> - -<p>Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao -lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e -foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, -com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu -vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.</p> - -<p>Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas -pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim -immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á -sua passagem.</p> - -<p>Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia -senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha, -metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de <span id="Nota12"><i>ticum</i></span> que tinha -enrolada á cintura em muitas voltas.</p> - -<p>Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e -passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez -o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que -a onça não podesse abrir a bocca.</p> - -<p>Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de -agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara -cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu -vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o -prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião -impotentes.</p> - -<p>Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta, -e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e -afogueado.</p> - -<p>O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da -carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava, -arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do -sangue quente e fumegante.</p> - -<p>Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue -que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão -violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo -e abafado.</p> - -<p>O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que -a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem -essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela -tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que -podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais -terrivel.</p> - -<p>Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na -matta dous galhos soccos de <span id="Nota13">biribá</span>, e roçando rapidamente um contra o -outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para -jantar.</p> - -<p>Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou -com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas -colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as -mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.</p> - -<p>Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro, -e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a -picada por onde tinha seguido a cavalgata.</p> - -<p>Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma -moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com -uma trofa de pennas amarellas.</p> - -<p>Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que -ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra, -e assim ficou algum tempo.</p> - -<p>Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção -que o outro tomára pouco tempo antes.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-V">V<br /> -LOURA E MORENA</h3></div> - - - - -<p>Cahia a tarde.</p> - -<p>No pequeno jardim da casado <i>Paquequer</i>, uma linda moça se embalançava -indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia -silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas -e perfumadas.</p> - -<p>Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião -languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as -palpebras rosadas.</p> - -<p>Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da <span id="Nota14">gardenia</span> dos nossos -campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro -exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de -algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião, -desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.</p> - -<p>O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel -conceber; mistura de luxo e de simplicidade.</p> - -<p>Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul -apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de -perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as -mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso -contorno do seu braço arqueado sobre o seio.</p> - -<p>Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, -descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma -resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e -perfeição admiravel.</p> - -<p>A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava -carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para -imprimir á rede uma doce oscillação.</p> - -<p>Esta moça era Cecilia.</p> - -<p>O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel -descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa, -deixava que a imaginação corresse livre.</p> - -<p>Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das -madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo -e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido, -algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.</p> - -<p>Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado, -roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha -cahir a seus pés timido e supplicante.</p> - -<p>Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces; -mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um -gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.</p> - -<p>Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz, -abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo -cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.</p> - -<p>Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha -offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a -relva a ponta de um pézinho de menina.</p> - -<p>Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de -preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de -inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.</p> - -<p>Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella -sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra -de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia -desvanecer.</p> - -<p>Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e -outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro, -aproximou-se da rede.</p> - -<p>Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro -em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de -languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.</p> - -<p>Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos, -labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de -seducção irresistivel.</p> - -<p>Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde -furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de -contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um -despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.</p> - -<p>Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para -beija-la ou ver se estava dormindo.</p> - -<p>Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua -prima.</p> - -<p>—Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.</p> - -<p>—É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que -projectavão as arvores; está quasi noite.</p> - -<p>—E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra -gracejando.</p> - -<p>—Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me -sinto triste.</p> - -<p>—Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves -ao nascer do sol.</p> - -<p>—Está bem! não queres acreditar!</p> - -<p>—Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o -anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um -passarinho?</p> - -<p>—É para vêres! Tudo cança neste mundo.</p> - -<p>—Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.</p> - -<p>—Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que -quero-lhes como se me tivessem visto nascer.</p> - -<p>—Então o que é que te faz triste?</p> - -<p>—Não sei; falta-me alguma cousa.</p> - -<p>—Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!</p> - -<p>—Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.</p> - -<p>—Ora! o que te falta.</p> - -<p>—Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.</p> - -<p>—Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames, -e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro -animal selvagem.</p> - -<p>—<span id="Nota15">Pery</span>! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.</p> - -<p>—Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e -como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.</p> - -<p>—Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?</p> - -<p>—Não; nem sei o que é feito delle.</p> - -<p>—Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma -desgraça! disse a moça estremecendo.</p> - -<p>—Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o -dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?</p> - -<p>—Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á -casa.</p> - -<p>—O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua -vida antiga e livre.</p> - -<p>—Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos -abandonasse assim!</p> - -<p>—Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?</p> - -<p>—É verdade!... disse a moça preoccupada.</p> - -<p>Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta -posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla -negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus -olhos.</p> - -<p>A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que -fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu -regaço.</p> - -<p>—Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão -sobre o seu pello assetinado.</p> - -<p>—Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da -moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e -ficará mais manso do que o teu Pery.</p> - -<p>—Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito -injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.</p> - -<p>—Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle -escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal -como um cavallo, ou um cão?</p> - -<p>Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha -de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.</p> - -<p>—Isabel!... exclamou ella resentida.</p> - -<p>—Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não -olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que -não percebo o desdem com que me tratão?</p> - -<p>—Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, -e te respeitão como devem.</p> - -<p>Isabel abanou tristemente a cabeça.</p> - -<p>—Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho -razão.</p> - -<p>—Ora, um momento de zanga de minha mãi...</p> - -<p>—É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso -amargo.</p> - -<p>—Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima -e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito -severa mesmo para comigo.</p> - -<p>—Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que -já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.</p> - -<p>—Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já -que me tratasses como irmã?</p> - -<p>—Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua -irmã!...</p> - -<p>—E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!</p> - -<p>—Para ti, que para elle...</p> - -<p>Este <em>elle</em> foi murmurado dentro d'alma.</p> - -<p>—Mas olha que exijo uma cousa.</p> - -<p>—O que é? perguntou Isabel.</p> - -<p>—É que eu serei a irmã mais velha.</p> - -<p>—Apezar de seres mais moça?...</p> - -<p>—Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?</p> - -<p>—De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.</p> - -<p>—Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver -triste, ouviste? Senão fico zangada.</p> - -<p>—E tu não estavas triste ha pouco?</p> - -<p>—Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.</p> - -<p>Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco, -scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de -menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas -voltava de novo.</p> - -<p>Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a -graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o -ar livre e a vida passada no campo.</p> - -<p>Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com -uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a -rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio, -estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua -penugem macia.</p> - -<p>—Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis -fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não -é?</p> - -<p>E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus -dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem -revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, -envolta pela graça infantil de seu espirito.</p> - -<p>Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel -lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros -que entravão a cerca.</p> - -<p>Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.</p> - -<p>—Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.</p> - -<p>—São elles que chegão.</p> - -<p>Elles quem?</p> - -<p>—O <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro e os outros.</p> - -<p>—Ah!... exclamou a moça corando.</p> - -<p>—Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar -na perturbação de sua prima.</p> - -<p>—Muito; quem sabe se houve alguma cousa!</p> - -<p>—Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.</p> - -<p>—Contaste os dias?</p> - -<p>—É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã -fazem tres semanas.</p> - -<p>—Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!</p> - -<p>—Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de -melancolia.</p> - -<p>—Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti. -Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu -tenho inveja do teu moreninho, prima?</p> - -<p>—E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.</p> - -<p>—Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.</p> - -<p>E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado -da entrada.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-VI">VI -<br /> -A VOLTA</h3> -</div> - - - - -<p>Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens -passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o -edificio.</p> - -<p>Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo -pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.</p> - -<p>Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no -peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem -pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de -ouro.</p> - -<p>Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão, -e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e -nobre cabeça de velho.</p> - -<p>De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de -cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba -alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca -ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.</p> - -<p>Este fidalgo era <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta -annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o -porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na -força da idade.</p> - -<p>O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres -Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o -fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.</p> - -<p>A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a -sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa -semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais -augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina -côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual -erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.</p> - -<p>—Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, -medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.</p> - -<p>—Não digo de todo que não, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; confesso que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo -commetteo uma imprudencia matando essa india.</p> - -<p>—Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, -o desculpo!</p> - -<p>—Julgais com demasiada severidade.</p> - -<p>—E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva, -commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me -acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, -que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um -momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.</p> - -<p>—Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...</p> - -<p>—Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os -meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos -que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra -que conquistamos, mas são homens!</p> - -<p>—Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe -deo a Sra. <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p> - -<p>—Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é -disto que discorriamos.</p> - -<p>—Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de <abbr title="Dom">D.</abbr> -Diogo.</p> - -<p>—E que pensas tu?</p> - -<p>—Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> D. -Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a -atacar-vos.</p> - -<p>—Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.</p> - -<p>—Não sou capaz de tal, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro!</p> - -<p>—Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes -que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão -tudo, a vida e a liberdade.</p> - -<p>—Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.</p> - -<p>—Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem -offendidos por mim <span id="Nota17">soffrerão</span> tudo para vingar-se.</p> - -<p>—Tendes mais experiencia do que eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas queira Deus que -vos enganeis.</p> - -<p>Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, <abbr title="Dom">D.</abbr> -Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que -atravessava pela frente da casa.</p> - -<p>—Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em -todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.</p> - -<p>—Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia -sentado a alguns passos.</p> - -<p>Vendo aproximar-se seu pai, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se -esperou-o n'uma attitude respeitosa.</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as -ordens que vos dei.</p> - -<p>—Senhor...</p> - -<p>—Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses -selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a -vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar -satisfeito de vossa obra.</p> - -<p>—Meu pai!...</p> - -<p>—Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção -indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso -da espada que trazeis á cinta.</p> - -<p>—Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis -vosso filho.</p> - -<p>—Não é vosso pai que vos rebaixa, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, e sim a acção que -praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei -para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir -d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender -a vossa vida.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo inclinou-se em signal de obediencia.</p> - -<p>—Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e -ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois -portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas -combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando -ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.</p> - -<p>—Cumprirei as vossas ordens, meu pai.</p> - -<p>—Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé -desta casa sem minha ordem. Ide, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; lembrai-vos que tenho -sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um -braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para -protege-las.</p> - -<p>O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma -palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob -a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo -caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no -soleira da porta.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte -e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados -por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um -desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e -fingião uma especie de diadema.</p> - -<p>Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na -frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo -donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas -arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os -hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os -seus ornatos.</p> - -<p>Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e -devoção; o espirito de nobreza que em <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz era um -realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.</p> - -<p>No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a -distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos -quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama -fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade, -e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um -throno.</p> - -<p>Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella -sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato -do culto, que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um -espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.</p> - -<p>Apezar desta differença de caracteres, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, ou por -concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua -mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel, -exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia -immediatamente que era escusado insistir.</p> - -<p>Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a -repugnancia que <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho -fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua -mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus -sentimentos.</p> - -<p>—Fallaveis a <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo com um ar tão severo! disse <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana descendo -os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.</p> - -<p>—Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o -fidalgo.</p> - -<p>—Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio!</p> - -<p>—E vós com extrema benevolencia, <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana. Assim como não quero -que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua -companhia.</p> - -<p>—Jesus! Que dizeis, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio?</p> - -<p>—<abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai -viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o -tempo em extravagancias.</p> - -<p>—Vós não fareis isto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso -filho da casa paterna!</p> - -<p>—Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo passe toda a -sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?</p> - -<p>—Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho, -cheia de inquietações pela sua sorte.</p> - -<p>—Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.</p> - -<p>—Sois cruel, senhor.</p> - -<p>—Sou justo apenas.</p> - -<p>Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel -distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.</p> - -<p>—Oh! exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.</p> - -<p>O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se, -subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do -cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.</p> - -<p>O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á -saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, a -inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se -abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.</p> - -<p>Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e -os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro, -sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que -servião de bancos.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde -se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só -teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de -Bragança.</p> - -<p>O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi -misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.</p> - -<p>Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos -chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades, -outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo -tempo, de modo que ninguem se entendia.</p> - -<p>Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou -tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu -para sua mãi.</p> - -<p>Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, -Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo -na mão foi inclinar-se corando diante da moça.</p> - -<p>—Eis-vos de volta, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para -disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!</p> - -<p>—Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o -pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.</p> - -<p>Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.</p> - -<p>Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres -olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos -cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e -mocidade.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle -lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto -veneravel.</p> - -<p>Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros, -cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas -dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.</p> - -<p>Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos -negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se -naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.</p> - -<p>Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava -além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do -Italiano que vio o sorriso de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e o comprehendeo.</p> - -<p>Em quanto isto succedia, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo que se havia retirado, voltou a saudar -Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto -a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de -seu pai.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-VII">VII -<br /> -A PRECE -</h3> -</div> - - - - -<p>A tarde ia morrendo.</p> - -<p>O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, -que illuminava com os seus ultimos raios.</p> - -<p>A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa, -enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das -arvores.</p> - -<p>Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o -ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o -orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto -a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos -com que se despede do dia.</p> - -<p>Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o -rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder -á doce influencia da tarde.</p> - -<p>Era Ave-Maria.</p> - -<p>Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do -crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para -murmurar a prece da noite!</p> - -<p>Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas -gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios -perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um -momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.</p> - -<p>O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que, -reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o -toque lento e pausado do <em>angelus</em>.</p> - -<p>A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que -parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da -tarde que morre.</p> - -<p>Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a -impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a -esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado -de um certo temor.</p> - -<p>De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar -quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava -Ave-Maria.</p> - -<p>Todos se descobrirão.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o -lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.</p> - -<p>Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e <abbr title="Dom">D.</abbr> -Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo, -ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.</p> - -<p>O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos -do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo -cavalheiro.</p> - -<p>Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa -prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos, -illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.</p> - -<p>Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia -como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto -de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a -quem dirigia a sua prece.</p> - -<p>Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava -ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo -recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava -imperceptivelmente os labios.</p> - -<p>Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o -precipio, e um tiro saudou o occaso.</p> - -<p>Era noite.</p> - -<p>Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando -a pouco e pouco.</p> - -<p>Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma -graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.</p> - -<p>Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de <abbr title="Dona">D.</abbr> -Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de -um abbade.</p> - -<p>Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um -desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta -ceia.</p> - -<p>Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra -emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da -familia, o que havia recebido como um favor immenso.</p> - -<p>O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão -simples convite, era o regimen caseiro que <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana havia -estabelecido na sua habitação.</p> - -<p>Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente -separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se -com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.</p> - -<p>Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada, -onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua -oração da tarde.</p> - -<p>Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da -casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á -distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento -extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo -rio.</p> - -<p>Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia -o italiano, de chegar ao <i>Paquequer</i> em um sabbado, e antes das seis -horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de -contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez -occasião de arriscar uma palavra.</p> - -<p>Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de -Mariz, Alvaro e <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, -timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem -que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.</p> - -<p>Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual -elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um -pretexto que a chamasse á conversa.</p> - -<p>—Esquecia-me contar-vos, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, disse elle aproveitando-se de -uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.</p> - -<p>—Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.</p> - -<p>—Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.</p> - -<p>—Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.</p> - -<p>—Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.</p> - -<p>—Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos -parecerá tão simples.</p> - -<p>—O que fazia então?</p> - -<p>—Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia.</p> - -<p>—Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.</p> - -<p>—Que tens, menina? perguntou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p> - -<p>—É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.</p> - -<p>—Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.</p> - -<p>—Mas eu serei a causa de sua morte!</p> - -<p>—Como assim, minha filha? disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p> - -<p>—Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe -saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande -medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...</p> - -<p>—E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo -rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.</p> - -<p>—Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o -morto.</p> - -<p>—Não vos assusteis, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia; elle saberá defender-se.</p> - -<p>—E vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a -moça sentida.</p> - -<p>—Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o -animal!</p> - -<p>E o moço contou parte da scena passada na floresta.</p> - -<p>—Não ha duvida, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por -Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma -das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse -indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua -vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro, -é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!</p> - -<p>A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais -parte nella.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o -moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no -terreiro da casa veio annunciar a ceia.</p> - -<p>Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na -habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com -Cecilia.</p> - -<p>—Não me perguntais pelo que me ordenastes, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia? disse elle á -meia voz.</p> - -<p>—Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?</p> - -<p>—Todas e mais... disse o moço balbuciando.</p> - -<p>—E mais o que? perguntou Cecilia.</p> - -<p>—E mais uma cousa que não pedistes.</p> - -<p>—Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.</p> - -<p>—Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.</p> - -<p>—Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?</p> - -<p>—Sim; porque é uma lembrança vossa.</p> - -<p>—Nesse caso guardai-a, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a -bem.</p> - -<p>E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença -delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e -que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas, -espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de -pistolas primorosamente embutidas.</p> - -<p>Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:</p> - -<p>—Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.</p> - -<p>A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a -refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se -respeitava.</p> - -<p>Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça -fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e -tanta esperança.</p> - -<p>Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando -diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi -levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia -na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.</p> - -<p>Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, -tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a -vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.</p> - -<p>Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos -que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que -servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés -roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha -vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno -della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.</p> - -<p>Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se -lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão -timido, que córava diante della, como ella diante delle.</p> - -<p>De repente a moça estremeceo.</p> - -<p>Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu -pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e -flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor -duvida.</p> - -<p>Era Pery.</p> - -<p>Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao -prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos -que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.</p> - -<p>Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não -tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de -Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-VIII">VIII -<br /> -TRES LINHAS -</h3> -</div> - - - - -<p>Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do -lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.</p> - -<p>Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu -caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão -uma mesma idéa.</p> - -<p>Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão -essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento, -convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.</p> - -<p>Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que -mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.</p> - -<p>N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis -aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em -escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira -que fazia honra ao appetite dos convivas.</p> - -<p>O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta -fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos -do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os -aventureiros podião beber á larga.</p> - -<p>O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens; -afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o -alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.</p> - -<p>A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se -ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o -ranger da faca na escudella.</p> - -<p>Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu -immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de -choro confuso e discordante.</p> - -<p>Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou -estas palavras:</p> - -<p>—E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos -ouvir uma palavra!</p> - -<p>—Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que -vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.</p> - -<p>—Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por -alguma moçoila que andou requestando em <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião.</p> - -<p>—Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano -seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?</p> - -<p>—E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em -que o aperte mais a uns do que a outros.</p> - -<p>—Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu -pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e -galanteios.</p> - -<p>O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem -á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com -affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.</p> - -<p>—Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na -vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!</p> - -<p>—Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está -penado da amores.</p> - -<p>—E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.</p> - -<p>—Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe -está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?</p> - -<p>Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.</p> - -<p>Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.</p> - -<p>—Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar -severa. Leva rumor!</p> - -<p>—É um dia de chegada, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio -Ruy Soeiro.</p> - -<p>Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que -estava em frente delle.</p> - -<p>—Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous -aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já -refizestes, e os mais esperão sua vez.</p> - -<p>Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume -ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.</p> - -<p>—Estais hoje muito severo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Ayres Gomes, disse Martim Vaz,</p> - -<p>—Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer, -respondeu o escudeiro.</p> - -<p>—Ah! porque não dizieis isto logo!</p> - -<p>—Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos -que ver.</p> - -<p>—Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás -pacas e porcos do matto.</p> - -<p>—E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras -de polvora? perguntou Vasco Affonso.</p> - -<p>—Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?</p> - -<p>Loredano ergueu a cabeça.</p> - -<p>—Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão? -perguntou elle.</p> - -<p>—Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a -chamusco, exclamou Martim Vaz.</p> - -<p>A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos -aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e -deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.</p> - -<p>Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e -os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano -murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:</p> - -<p>—Amanhã!</p> - -<p>Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous -aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano -continuar o seu caminho até a beira do precipicio.</p> - -<p>Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue -reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não -podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.</p> - -<p>Ahi esperou.</p> - -<p>Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que -soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o -sorriso que a acompanhou.</p> - -<p>Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia -contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que -lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha -vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um -soffrimento cruel.</p> - -<p>Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou -um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda -uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e -aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.</p> - -<p>Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que -a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.</p> - -<p>Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha -chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um -thesouro.</p> - -<p>No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro, -depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando -um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que -a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir, -foi a maneira por que sahira quasi logo.</p> - -<p>Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma -ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo -immediatamente.</p> - -<p>O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua -sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz -que coava entre as cortinas da janella.</p> - -<p>Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um -desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto -segurou-se ao galho de um <span id="Nota16">oleo</span> gigante que, elevando-se sobre a encosta -fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.</p> - -<p>Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no -galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem -aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho -marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.</p> - -<p>Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e, -escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro -das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que -Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão -igualmente á alguns passos.</p> - -<p>A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do -aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que -lhe havião chegado do Rio de Janeiro.</p> - -<p>Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o -precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e -sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a -todo o instante!</p> - -<p>Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente, -satisfeita; podia ir dormir e repousar.</p> - -<p>Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a -moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha -primores como aquelles para offertar-lhe.</p> - -<p>O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como -para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas -da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos -pés de Cecilia.</p> - -<p>Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas -partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão -collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella -frouxamente illuminada.</p> - -<p>Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para -tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o -perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de -mercadejar por ella um prazer.</p> - -<p>É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande -e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-IX">IX -<br />AMOR -</h3> -</div> - - - - -<p>As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.</p> - -<p>Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e -virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações -bem differentes.</p> - -<p>Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um -desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue; -o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela -impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se -elevava entre elle, pobre colono, e a filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, rico -fidalgo de solar e brazão.</p> - -<p>Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um -acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as -leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso -uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que -seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem -á condição de homens.</p> - -<p>O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já -tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos -é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e -uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de -Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.</p> - -<p>Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição -nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores -do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos -amores daquelle tempo de crença e lealdade.</p> - -<p>Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo -balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando -encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se -entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.</p> - -<p>Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle -comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer -a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua -janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe -perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.</p> - -<p>Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na -qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para -sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se -inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar -que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma -realidade.</p> - -<p>Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume -inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente -para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava -alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa -mesma noite, nesse mesmo instante.</p> - -<p>Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações, -que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o -outro uma paixão, o ultimo uma religião.</p> - -<p>Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a -vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar: -o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.</p> - -<p>Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem -correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o -quarto de Cecilia.</p> - -<p>Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da -ribanceira, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio -tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das -janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre -esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma -adhesão ao pé mais firme e mais seguro.</p> - -<p>Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado -profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia -de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na -sombra e na humidade.</p> - -<p>Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga -e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha, -seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que -enchião essas grotas e alcantis.</p> - -<p>Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas -uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o -quadro da janella.</p> - -<p>O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho, -onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente. -Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da -janella.</p> - -<p>Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o -precipicio seguia as menores evoluções da sombra.</p> - -<p>Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no -parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a -forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano -adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta -mão havia deitado na janella.</p> - -<p>E não se enganava.</p> - -<p>Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o -respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu -intento.</p> - -<p>Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a -esperança de que Cecilia lhe perdoaria.</p> - -<p>Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos -do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio. -Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da <span id="Nota44">hirára</span>.</p> - -<p>Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a -curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.</p> - -<p>Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e -aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento, -bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento -para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.</p> - -<p>Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo, -e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.</p> - -<p>Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous -homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.</p> - -<p>Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se -fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a -menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha -reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do -cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor -suspeita.</p> - -<p>O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli -naquella hora silenciosa da noite?</p> - -<p>O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia -fazer-lhe comprehender o resto.</p> - -<p>Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um -esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do -precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o -prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.</p> - -<p>Pery não se moveu.</p> - -<p>Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume -do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração -fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.</p> - -<p>Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o -mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza, -e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era -differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um -pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.</p> - -<p>Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando -que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para -dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.</p> - -<p>E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava -a fachada do edificio.</p> - -<p>Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema -do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.</p> - -<p>Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima -que desfiava-lhe pela face.</p> - -<p>Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de -recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um -martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as -suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que -atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle -passava.</p> - -<p>De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas -palavras imperceptiveis:</p> - -<p>—Si eu quizesse!</p> - -<p>Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um -annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.</p> - -<p>O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que -justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a -pupilla negra de Isabel?</p> - -<p>Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a -face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?</p> - -<p>Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a -natureza humana não devia resistir?</p> - -<p>Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza -possivel senão em um milagre da Providencia.</p> - -<p>Era o pó subtil do <i>curari</i>, o veneno terrivel dos selvagens.</p> - -<p>Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.</p> - -<p>—Minha mãi?... minha mãi!...</p> - -<p>Um soluço rompeu-lhe o seio.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-X">X -<br /> -AO ALVORECER</h3> -</div> - - - - -<p>No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim -e aproximou-se da cerca.</p> - -<p>—Pery! disse ella.</p> - -<p>O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e -submisso.</p> - -<p>Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar -um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um -sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.</p> - -<p>Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão -de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que -de rigor:</p> - -<p>—Estou muito zangada com Pery!</p> - -<p>O semblante do selvagem annuviou-se.</p> - -<p>—Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?</p> - -<p>—Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, -vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.</p> - -<p>—<span id="Nota18">Cecy</span> desejou ver uma onça viva!</p> - -<p>—Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu -corras atraz della como um louco?</p> - -<p>—Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o -indio.</p> - -<p>—Vai, sim.</p> - -<p>—Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?</p> - -<p>—Que tem isso?</p> - -<p>—Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.</p> - -<p>Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a -que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e -originalidade.</p> - -<p>Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por -causa do susto que lhe havia feito na vespera.</p> - -<p>—Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a -mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?</p> - -<p>—Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.</p> - -<p>—Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te -pedisse aquella nuvem?...</p> - -<p>E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas -sombras pallidas da noite.</p> - -<p>—Pery ia buscar.</p> - -<p>—A nuvem? perguntou a moça admirada.</p> - -<p>—Sim a nuvem.</p> - -<p>Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:</p> - -<p>Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery -morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.</p> - -<p>Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o -coração.</p> - -<p>A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a -sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.</p> - -<p>A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus -labios um sorriso divino.</p> - -<p>—Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que -arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a -conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.</p> - -<p>—Senhora, não está mais zangada com Pery?</p> - -<p>—Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora -affligir-se cuidando que elle ia morrer.</p> - -<p>—E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.</p> - -<p>—Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.</p> - -<p>—Perdôa, senhora!</p> - -<p>—Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.</p> - -<p>Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia -encommendado a Alvaro.</p> - -<p>—Olha! Pery não desejava ter umas?</p> - -<p>—Muito!</p> - -<p>—Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança -de Cecilia, não é verdade?</p> - -<p>—Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.</p> - -<p>—Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para -defenderem e salvarem a tua vida.</p> - -<p>—Porque é tua, não é, senhora?</p> - -<p>—Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.</p> - -<p>O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma -felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a -cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de -Deus.</p> - -<p>Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a -divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu -culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os -thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza -virgem.</p> - -<p>Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu -rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas -ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.</p> - -<p>A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma -antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada -dia augmentava.</p> - -<p>Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.</p> - -<p>—Pery te acompanha, senhora?</p> - -<p>—Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o -socegado.</p> - -<p>A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem -comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão -quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao -domingo.</p> - -<p>Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua -mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais -altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem -aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se -banhavão.</p> - -<p>Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio -traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em -que se collocára o percebia immediatamente.</p> - -<p>Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente -com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta -arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava -assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por -elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para -embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.</p> - -<p>Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que -todos votavão a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava -caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o -chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.</p> - -<p>E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não -duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do -rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.</p> - -<p>Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas -com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a -côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para -nadarem.</p> - -<p>Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que -um olhar de quem quer que fosse visse a <em>senhora</em> no seu trajo de banho; -nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia -offende-la, a ella que era o seu unico Deus.</p> - -<p>Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida, -e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem -que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa -a corrente e as margens do rio.</p> - -<p>O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma -cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um -cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de -côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer -caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore; -tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se -estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco -ou sobre o chão.</p> - -<p>Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das -aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma -<span id="Nota19">sapucaia</span> pendida sobre o <i>Paquequer</i> estalava prestes a cahir, o indio, -veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da -sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que -boiavão.</p> - -<p>Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela -fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser -uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a -moça soffresse por falta de cuidado seu.</p> - -<p>Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e -infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça -podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque -todo o poder do homem fóra impotente para evitar.</p> - -<p>Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse -quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação -era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer -não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr -de <span id="Nota20">pequiá</span>.</p> - -<p>Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto -da escada.</p> - -<p>Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu -ligeiramente seguida por sua prima.</p> - -<p>Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua -loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu -receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.</p> - -<p>Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer, -e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus -sorrisos sarcasticos.</p> - -<p>—Bom dia, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro.</p> - -<p>Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço -que roçassem uma na outra.</p> - -<p>Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das -pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.</p> - -<p>O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel -tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a -Loredano.</p> - -<p>Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão -commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia -lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.</p> - -<p>Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.</p> - -<p>Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre -elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua -senhora.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-XI">XI -<br />NO BANHO</h3> -</div> - - - - -<p>Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:</p> - -<p>—Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p> - -<p>Isabel estremeceu.</p> - -<p>—Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á -cortezia que elle nos faz.</p> - -<p>—Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.</p> - -<p>—Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?</p> - -<p>A moça calou-se.</p> - -<p>—Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou -Cecilia galanteando.</p> - -<p>Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as -pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas -palavras que parecião queimar-lhe os labios:</p> - -<p>—Bem sabes que o aborreço!...</p> - -<p>Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo -chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a -brincar com uma alegria infantil sobre a relva.</p> - -<p>Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha -sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao -verdadeiro.</p> - -<p>A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão -natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que -era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia -córar.</p> - -<p>Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma -de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da -moça acabavão de proferir.</p> - -<p>Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu -coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi -uma blasphemia.</p> - -<p>Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse -mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos -os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.</p> - -<p>Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem -o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia -rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a -fizesse soffrer.</p> - -<p>O sol vinha nascendo.</p> - -<p>O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia -beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.</p> - -<p>Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia -as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.</p> - -<p>Era a hora em que o <span id="Nota21">cactus</span>, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio -das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol -crestasse a alvura diaphana de suas petalas.</p> - -<p>Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda -humida colhendo uma <span id="Nota22">graciola</span> azul que se embalançava sobre a haste, ou -um <span id="Nota23">malvalisco</span> que abria os lindos botões escarlates.</p> - -<p>Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que -tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda -com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a -<span id="Nota24">viuvinha</span> que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha -raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.</p> - -<p>Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de -longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo -corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.</p> - -<p>De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á -alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas -que se espedaçavão, e o indio appareceu.</p> - -<p>Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:</p> - -<p>—Que é isto, Pery?</p> - -<p>—Nada, senhora.</p> - -<p>—É assim que prometteste estar quieto?</p> - -<p>—Cecy não se ha de zangar mais.</p> - -<p>—Que queres tu dizer?</p> - -<p>—Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.</p> - -<p>Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um -animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça, -julgando que isso lhe causava um prazer.</p> - -<p>Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira, -em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a -revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos -devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre -dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.</p> - -<p>As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado -a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse -fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o -sorriso.</p> - -<p>Cecilia tinha chegado a uma latada de <span id="Nota25">jasmineiros</span> que havia á borda -d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do -indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em -satisfazer as vontades da menina.</p> - -<p>Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se -na relva.</p> - -<p>Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a -entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e -examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma -fresta por onde o olhar do dia penetrasse.</p> - -<p>A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir -espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas -roupagens.</p> - -<p>Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma, -que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa -cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina -quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as -folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:—<em>Bem -te vi</em>!</p> - -<p>Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho -que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de -menina.</p> - -<p>Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por -com prazer ficou sentada á beira do rio.</p> - -<p>Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente, -com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão -graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma -dessas garças brancas, ou <span id="Nota26">colhereiras</span> de rosea côr que deslisão -mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no -crystal das aguas.</p> - -<p>Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul -ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que -fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado -superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um -barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela -correnteza.</p> - -<p>A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia -offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a -tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração -procura illudir-se.</p> - -<p>Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia -que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o -contrario mentia.</p> - -<p>Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado -sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na -margem opposta as guaximas se agitarem.</p> - -<p>A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol, -e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz -de umas grandes pedras que havia á beira do rio.</p> - -<p>Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado -entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido -por um animal de grande corpulencia.</p> - -<p>Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa -ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se -perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação -dos arbustos.</p> - -<p>Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por -uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a -partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão -as pedras para despedirem o tiro.</p> - -<p>E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e -ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.</p> - -<p>Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria -um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.</p> - -<p>Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que -partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos -cabellos mudou de direcção.</p> - -<p>Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de -um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua -senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.</p> - -<p>Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi -logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:</p> - -<p>—Pery!...</p> - -<p>Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous -passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se -ligeiramente no matto.</p> - -<p>Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em -lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande -avanço.</p> - -<p>Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica -de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero -o coração como para reter o sangue que espadanava.</p> - -<p>Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a -força da vontade e o poder da natureza.</p> - -<p>O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços -como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para -manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.</p> - -<p>Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para -a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto -succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer -lutar ainda.</p> - -<p>Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente -retrahindo e tocou a terra com os joelhos.</p> - -<p>Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar, -e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um -esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos -vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual -se abraçou convulsivamente.</p> - -<p>Era uma <span id="Nota28">cabuiba</span> de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e -de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em -lagrimas.</p> - -<p>O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos -amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de -felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo, -que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.</p> - -<p>Sentio-se renascer.</p> - -<p>Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.</p> - -<p>Estava salvo.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-XII">XII -<br />A ONÇA</h3> -</div> - - - - -<p>Voltemos á casa.</p> - -<p>Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a -Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que -dirigia-se ao rio.</p> - -<p>Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu -a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.</p> - -<p>Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na -esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.</p> - -<p>Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns -talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.</p> - -<p>O pateo ficou deserto.</p> - -<p>Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas -para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos; -um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé, -annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.</p> - -<p>De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas -e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez, -como se um inimigo cahisse de assalto.</p> - -<p>Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D. -Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma -cousa extraordinária.</p> - -<p>—Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já! -gritou a dama.</p> - -<p>A janella fechou-se de novo com o ferrolho.</p> - -<p>A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada -dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com -sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.</p> - -<p>—Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.</p> - -<p>—Sim; estais armado? perguntou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana por detraz da porta.</p> - -<p>—Tenho a minha espada; mas que novidade ha?</p> - -<p>A physionomia decomposta de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana appareceu de novo na fresta da -janella.</p> - -<p>—A onça! Ayres Gomes!... A onça!...</p> - -<p>O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se -fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.</p> - -<p>A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á -janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado -contra as féras.</p> - -<p>Alguns minutos se passárão assim; <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana rezando; e Ayres Gomes -rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o -atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de -armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.</p> - -<p>Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede -do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente; -pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.</p> - -<p>Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em -voz alta:</p> - -<p>—Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, <abbr title="Senhora">Sra.</abbr> <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana; -ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.</p> - -<p>—Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.</p> - -<p>—Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.</p> - -<p>—É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!</p> - -<p>—E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra. -<abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.</p> - -<p>—Pois não sabeis? exclamou a dama.</p> - -<p>—O que, senhora?</p> - -<p>—Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça -viva para a casa!</p> - -<p>—Quem, o perro do cacique?</p> - -<p>—E quem mais senão aquelle cão tinhoso!</p> - -<p>—É das que elle costuma fazer!</p> - -<p>—Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!</p> - -<p>—Mas a culpa não tem elle!</p> - -<p>—Quero ver se o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.</p> - -<p>—E que é feito da féra, <abbr title="Senhora">Sra.</abbr> <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana?</p> - -<p>—Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e -tragão-me aqui.</p> - -<p>—É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe -permittião as suas botas de couro de raposa.</p> - -<p>Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da -esplanada.</p> - -<p>Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a -espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.</p> - -<p>Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo, -voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:</p> - -<p>—Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!</p> - -<p>Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e -marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu -reflexo pallido.</p> - -<p>Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o -gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.</p> - -<p>—Que é lá isso? Tem medo?</p> - -<p>E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob -as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.</p> - -<p>Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.</p> - -<p>A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo -laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.</p> - -<p>Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até -á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar -onde havia expirado.</p> - -<p>Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em -armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na -casa de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p> - -<p>Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e -arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.</p> - -<p>Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto, -entre-abrio-se a porta, e <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana ainda toda arripiada, olhou -estremecendo o corpo da féra.</p> - -<p>—Deixe-o ahi mesmo. O <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio ha da vê-lo com seus olhos!</p> - -<p>Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello -accusatorio que ia fulminar contra Pery.</p> - -<p>Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a -expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava -para causar-lhe um faniquito.</p> - -<p>Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua -lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle -embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como -pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos -de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.</p> - -<p>Desta vez porém <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que -seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem -que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que -importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em -risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?</p> - -<p>Terminava esta reflexão justamente no momento em que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de -Mariz assomava á porta.</p> - -<p>—Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?</p> - -<p>—Ahi a tendes! exclamou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana apontando para a onça comum gesto -soberbo.</p> - -<p>—Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as -presas do tigre.</p> - -<p>—Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o -trouxe!...</p> - -<p>—Deve ter sido um habil caçador, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio contemplando a féra -com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo: -não tem o signal de uma só ferida!</p> - -<p>—É obra daquelle excommungado caboclo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! respondeu D. -Lauriana preparando-se para o ataque.</p> - -<p>—Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e -de que nos fallou Alvaro!</p> - -<p>—Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!</p> - -<p>—A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?</p> - -<p>—Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!</p> - -<p>Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.</p> - -<p>O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao -passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou -que tinha as patas e as mandibulas ligadas.</p> - -<p>—É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora; -ainda conserva o calor.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal, -certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar -de ser favoraveis ao seu plano.</p> - -<p>Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a -cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a -<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio:</p> - -<p>—Bom é que vejais, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos -hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis -acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...</p> - -<p>A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto -energico apontando para o animal morto:</p> - -<p>—Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que -podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que -corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.</p> - -<p>O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia -precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um -chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana sorria-se do seu triumpho.</p> - -<p>—E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã -vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia; -encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos, -porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!</p> - -<p>—Exagerais muito tambem, <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana. É certo que Pery fez uma -selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma -reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.</p> - -<p>—Se o conhecesseis como eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! É bugre e basta! Podeis -ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!</p> - -<p>—Prevenções vossas, que não partilho.</p> - -<p>A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe -decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.</p> - -<p>—Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas -eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa -de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei -que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa -está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a -semelhante martyrio!</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher, -e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia -produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo -conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-XIII">XIII -<br />REVELAÇÃO -</h3> -</div> - - - - -<p>Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da -porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso -do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.</p> - -<p>Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que -fascinava.</p> - -<p>Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando -um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do -roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus -hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr -do sol.</p> - -<p>As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se -da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na -pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios -recommendando silencio.</p> - -<p>—Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D. -Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.</p> - -<p>—Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?</p> - -<p>—Umas das suas, e de que já sabes parte.</p> - -<p>—E eu vou contar-te o resto! atalhou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, tocando com a mão o -braço de sua filha.</p> - -<p>E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais -dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido -a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da -familia.</p> - -<p>Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de -uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas -com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa, -todos áquella hora estarião defuntos.</p> - -<p>Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que -atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus -olhos brilharão.</p> - -<p>—Assim, concluio peremptoriamente <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, não é concebivel que -continuemos com semelhante praga em casa.</p> - -<p>—Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis -manda-lo embora?</p> - -<p>—Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem -nos mattos.</p> - -<p>—Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu -pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:</p> - -<p>—Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou -Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.</p> - -<p>—E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das -moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha -nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por -semana.</p> - -<p>—Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?</p> - -<p>—E tambem um perigo que correu Cecilia.</p> - -<p>—Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.</p> - -<p>—Susto, sim; mas pelo que vi...</p> - -<p>—Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.</p> - -<p>A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais -uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana ao -voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe -que nada dissesse.</p> - -<p>A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:</p> - -<p>—Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a -algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore. -Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir -a dous passos de minha prima!</p> - -<p>—Ouça cá, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! exclamou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana; ouça as estrepolias do -capeta!</p> - -<p>—No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola, -que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem -para nosso lado.</p> - -<p>—Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a -esse bugio?</p> - -<p>—Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.</p> - -<p>—Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas -mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a -alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.</p> - -<p>Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem -passeava pela esplanada:</p> - -<p>—O que diz tua prima é verdade?</p> - -<p>—É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.</p> - -<p>—Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua -mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.</p> - -<p>—Elle vai sentir muito!!</p> - -<p>—E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu -pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.</p> - -<p>—Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento -e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!</p> - -<p>—Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.</p> - -<p>—Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio abraçou-a.</p> - -<p>—Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!</p> - -<p>—Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.</p> - -<p>—Mandareis conservar este animal? Sim!</p> - -<p>—Desde que o desejas...</p> - -<p>—Será uma lembrança que teremos de Pery.</p> - -<p>—Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle, -podia eu agora apertar-te nos meus braços?</p> - -<p>—Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?</p> - -<p>—É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á -fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.</p> - -<p>O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão -ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.</p> - -<p>—Que decidistes, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio? perguntou a dama.</p> - -<p>—Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje -mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui -estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle -monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe -desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por -alguem. Entendeis, minha mulher?</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução -naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples -phrase, inclinou a cabeça.</p> - -<p>—Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte, -Ayres Gomes, que venha ter comigo.</p> - -<p>O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:</p> - -<p>—Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo -conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.</p> - -<p>—E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha -menos medo de onças.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio afastou-se.</p> - -<p>A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado -domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.</p> - -<p>Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca -devêra ter entrado.</p> - -<p>Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o -canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava -inquieto e pensativo.</p> - -<p>—<abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia! disse o moço.</p> - -<p>—Oh! deixai-me, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.</p> - -<p>—Em que vos offendi eu para que me trateis assim?</p> - -<p>—Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.</p> - -<p>—É que quando se commetteu uma falta...</p> - -<p>—Uma falta? perguntou a menina admirada.</p> - -<p>—Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.</p> - -<p>—E que falta commettestes vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p> - -<p>—Desobedeci-vos.</p> - -<p>—Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.</p> - -<p>—Não zombeis, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem -feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo -parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.</p> - -<p>—Mas, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei -apenas que se trata de uma desobediencia!</p> - -<p>—Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...</p> - -<p>—Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...</p> - -<p>—Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.</p> - -<p>—Como! que dizeis!</p> - -<p>—Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...</p> - -<p>—Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a -moça com um movimento de impaciencia.</p> - -<p>Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha -feito na vespera á noite.</p> - -<p>Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em -praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.</p> - -<p>—Eu juro pela minha honra!</p> - -<p>—Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella -janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e -em que não posso tocar.</p> - -<p>—Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.</p> - -<p>Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e -desespero, que sentio-se commovida.</p> - -<p>—Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa -é vossa.</p> - -<p>—Eu o sinto; e não me queixo.</p> - -<p>—Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma -lembrança.</p> - -<p>—Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta, -e m'a recordará sempre.</p> - -<p>—Será agora uma triste recordação...</p> - -<p>—E posso-as eu ter alegres!</p> - -<p>—Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um -jasmim; é tão doce esperar!</p> - -<p>Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a -Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.</p> - -<p>A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro -apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e -beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com -os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem -sentir.</p> - -<p>Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz -inimitavel:</p> - -<p>—É tambem uma restituição!</p> - -<p>Alvaro empallideceu.</p> - -<p>A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.</p> - -<p>Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos, -lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a -innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa -que se escondia aos olhos dos outros.</p> - -<p>Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um -sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação -que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito -defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.</p> - -<p>Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao -mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella; -seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.</p> - -<p>Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um -cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de -caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada -a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma -falta.</p> - -<p>Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se -desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.</p> - -<p>—Isabel, abre esta janella.</p> - -<p>A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu -corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.</p> - -<p>Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em -que se abrio.</p> - -<p>Nada havia alli.</p> - -<p>A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente -voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua -physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem -descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.</p> - -<p>Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a -admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.</p> - -<p>—Isabel!...</p> - -<p>A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.</p> - -<p>Tinha-se trahido.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-XIV">XIV -<br /> -A INDIA</h3> -</div> - - - - -<p>Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha -atravez da floresta.</p> - -<p>Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma -rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com -que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as -pisadas de um animal qualquer.</p> - -<p>Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e -partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas, -são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na -floresta, e que elles seguem sem hesitação.</p> - -<p>Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir -aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de -agarra-la.</p> - -<p>Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns -acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas -vizinhanças do <i>Paquequer</i>.</p> - -<p>No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da -Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os -vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.</p> - -<p>Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas -margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e -uma filha.</p> - -<p>Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os -guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter -uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais -vistosa penna do seu cocar.</p> - -<p>Estamos no domingo.</p> - -<p>Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta -imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle -traduzia pelo doce nome de <i>Cecy</i>.</p> - -<p>Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa -nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia -qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um -dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.</p> - -<p>Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de -sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a -caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio -do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por -uma bala.</p> - -<p>Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de -Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.</p> - -<p>O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento, -recebêra a carga da espingarda e cahira morta.</p> - -<p>O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos -frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando -reanima-la. <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de -piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não -desejava perder a sua pontaria.</p> - -<p>Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a -fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha -escolhido.</p> - -<p>De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a -cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.</p> - -<p>Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo -que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.</p> - -<p>O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de -sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e -que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua -terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.</p> - -<p>Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao -redor estavão sentados dous selvagens e uma india.</p> - -<p>O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e -aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma -pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes -pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de -dous palmos de comprimento.</p> - -<p>A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos -frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no -regaço.</p> - -<p>Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india -de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão -grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca -aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão; -depois continuavão o seu trabalho.</p> - -<p>No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho -saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que -vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o -atirou a quatro passos com um empurrão.</p> - -<p>Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse -mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher -tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas -costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.</p> - -<p>Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os -olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios -erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa -exclamação.</p> - -<p>Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e -pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua -desconhecida, e que Pery não entendeu.</p> - -<p>O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do -cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de -perto.</p> - -<p>Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho -pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance -dos selvagens.</p> - -<p>Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento -do banho lhe revelára claramente.</p> - -<p>Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o -signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos -caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes -de guia.</p> - -<p>Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo -sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei -de talião que era o unico principio de direito e justiça que -reconhecião.</p> - -<p>Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu -inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.</p> - -<p>Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já -sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do -<i>Paquequer</i>, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.</p> - -<p>Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto -da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e -que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como -um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella -filha dos Aymorés.</p> - -<p>Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem -religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no -chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que -podesse vir assaltar a casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um -vestigio de sua passagem.</p> - -<p>Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a -percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço -durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido -pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio -immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que -exigia a imminencia de perigo.</p> - -<p>Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se -destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.</p> - -<p>Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo -um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um <span id="Nota27">cãozinho</span>, que -reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.</p> - -<p>Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente -seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto -por causa das guaximas.</p> - -<p>O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta, -que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.</p> - -<p>Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que -se havia passado.</p> - -<p>Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma -creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, -e deixaria traços de ferimento.</p> - -<p>O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha -bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a -produzira morte quasi immediatamente.</p> - -<p>Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?—Porque, respondia o -espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não -podia acompanhar serviria para denuncia-la.</p> - -<p>Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da -terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e -encostou de novo o ouvido ao chão.</p> - -<p>Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração; -tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus -sentidos o illudissem.</p> - -<p>Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e -assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se -elevava n'uma baixa do terreno.</p> - -<p>Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a -cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um -instrumento que cavava a terra.</p> - -<p>Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era -impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao -olhar.</p> - -<p>Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas -largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente -formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer -idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas -cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.</p> - -<p>Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não -podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os -cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.</p> - -<p>Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que -se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou -reconhecer exclamou.</p> - -<p>—<em>Per Dio</em>! eil-a!</p> - -<p>O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer -o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a -conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que -os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente -escondida entre as flôres e a relva.</p> - -<p>Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea, -ouvir o que aquelles homens dizião.</p> - -<p>Mas por que meio?</p> - -<p>Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e -pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava -a cavar, lhe chegava mais distincto.</p> - -<p>O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.</p> - -<p>O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de -barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima -da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.</p> - -<p>Era a entrada de um <span id="Nota29">formigueiro</span>, de uma dessas casas subterraneas -construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e -trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo -da terra.</p> - -<p>Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes -em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.</p> - -<p>O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura, -deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de -certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que -conversavão.</p> - -<p>Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe -trazia as palavras claras e distinctas.</p> - -<p>Sentou-se e ouvio.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p1-XV">XV -<br />OS TRES -</h3> -</div> - - - - -<p>Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se -entranhou na matta esperou.</p> - -<p>Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy -Soeiro.</p> - -<p>Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava -adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em -quando um olhar significativo.</p> - -<p>Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:</p> - -<p>—Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que -nos fizestes vir aqui, misser Loredano?</p> - -<p>—Não, respondeu o italiano laconicamente.</p> - -<p>—Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.</p> - -<p>—Esperai!</p> - -<p>—Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida... -Onde nos pretendeis levar nesta marcha?</p> - -<p>—Vereis.</p> - -<p>—Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser -Loredano.</p> - -<p>—Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.</p> - -<p>—Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.</p> - -<p>E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano -voltou-se com um gesto de desprezo.</p> - -<p>—Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que -estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a -minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a -todos.</p> - -<p>Os dous aventureiros empallidecêrão.</p> - -<p>—Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar -rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas -que se obstinão a fallar.</p> - -<p>—Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis -no caso de que eu vos quizesse denunciar?</p> - -<p>—A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua -resolução.</p> - -<p>—E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que -as vossas venetas, misser italiano.</p> - -<p>—E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.</p> - -<p>—Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia -assegurar a sua existencia e o seu descanço?</p> - -<p>—Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e -de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um -segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa -laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos -incidentes!</p> - -<p>—Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro; -será morte antes que homizio.</p> - -<p>—Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.</p> - -<p>O italiano continuou:</p> - -<p>—Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu -que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de -longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.</p> - -<p>—Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.</p> - -<p>—A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz o -meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. -Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim -para que trabalhamos.</p> - -<p>Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.</p> - -<p>—Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, -se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo -fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.</p> - -<p>Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse -fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio -com um esforço recobrar a palavra.</p> - -<p>—É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem -que o fizesse.</p> - -<p>—Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.</p> - -<p>—Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.</p> - -<p>—Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano; -confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?</p> - -<p>—Disse a verdade.</p> - -<p>—Mentes! gritou o aventureiro desesperado.</p> - -<p>O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do -punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:</p> - -<p>—Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste -mundo, e minha alma no outro, juro.</p> - -<p>Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não -deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e -silenciosa.</p> - -<p>Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios -tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do -desespero.</p> - -<p>Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e -suffocada:</p> - -<p>—Pois vós, Loredano, confiastes a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz um papel onde -existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?</p> - -<p>—Confiei-o!</p> - -<p>—E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua -mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de -vossos intentos?</p> - -<p>—Escrevi tudo!</p> - -<p>—Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer -della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?</p> - -<p>—Sim!</p> - -<p>—E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a -outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para -decidir a qual deverá tocar?</p> - -<p>—Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o -italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas -mãos de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa -os pingos de cera preta com que mestre <span id="Nota30">Garcia Ferreira</span>, tabellião do -Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.</p> - -<p>Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os -dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.</p> - -<p>Passou-se algum tempo em silencio.</p> - -<p>—Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto -de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é -preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo. -Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em -diante—obediência cega e passiva!</p> - -<p>Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude -respondia melhor do que mil protestos.</p> - -<p>—Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio -é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai -esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.</p> - -<p>A physionomia de Bento Simões reanimou-se.</p> - -<p>—Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.</p> - -<p>—Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á -vontade.</p> - -<p>—Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é -devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.</p> - -<p>—Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.</p> - -<p>Os dous tirárão os punhaes e as espadas.</p> - -<p>—Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para -me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!</p> - -<p>Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que -depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já -descrevêmos.</p> - -<p>Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e -descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que -tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.</p> - -<p>De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta -ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos -nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um -pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres -aventureiros.</p> - -<p>—Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho -dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja -que vos dará no gôto.</p> - -<p>Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli -estava deitada, e que collocou no meio do grupo.</p> - -<p>—É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!</p> - -<p>—Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija -tinha restituido todo o bom humor.</p> - -<p>—A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste -buraco uma botija de vinho.</p> - -<p>—É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo -bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.</p> - -<p>—E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella -á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!</p> - -<p>Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu -lugar.</p> - -<p>—Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando -vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.</p> - -<p>Os dous inclinárão a cabeça.</p> - -<p>—A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de -nós, podemos toca-la.</p> - -<p>—Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.</p> - -<p>—Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.</p> - -<p>Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della -é preciso...</p> - -<p>—O que? Dizei!</p> - -<p>—A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.</p> - -<p>—Uma historia! replicou Ruy Soeiro.</p> - -<p>—Da carocha? perguntou Bento Simões.</p> - -<p>—Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre. -Ouvistes fallar algum dia, em um certo <span id="Nota31">Roberio Dias</span>?</p> - -<p>—Roberio Dias... Ah! sei! um tal de <abbr title="São">S.</abbr> Salvador? disse Ruy Soeiro.</p> - -<p>—O mesmo, sem tirar nem pôr.</p> - -<p>—Vi-o ha cousa de oito annos em <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião, donde se passou ás -Hespanhas.</p> - -<p>—E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do -Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.</p> - -<p>—Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava -offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande -fidalgo de sua casa.</p> - -<p>—E o resto, não vos chegou á noticia?</p> - -<p>—Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.</p> - -<p>—Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui -lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que, -como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.</p> - -<p>—E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.</p> - -<p>—Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco -ante de paga-lo.</p> - -<p>—E então?</p> - -<p>—Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.</p> - -<p>—Como ouco?</p> - -<p>—Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para -nós, que vamos lograr o miôlo.</p> - -<p>—Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!</p> - -<p>—Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.</p> - -<p>—Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa -terra?</p> - -<p>—Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.</p> - -<p>—Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em -Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!</p> - -<p>E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia -ao lado.</p> - -<p>Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da -razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que -elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra -começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous -observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião -conjecturas e supposições.</p> - -<p>O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro, -que o fez tinir.</p> - -<p>—<em>Per Dio</em>, exclamou, eil-a!</p> - -<p>Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro -vidrado, a que os indios chamavão <i>camuci</i>; este era pequeno e fechado -por todos os lados.</p> - -<p>Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel -vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.</p> - -<p>—Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias; -pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de -Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.</p> - -<p>O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.</p> - -<p>Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver -correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos. -Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto -por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.</p> - -<p>Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o -pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes -letras vermelhas.</p> - -<p>Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer, -de pasmo e admiração.</p> - -<p>Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no -meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.</p> - -<p>—Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e -o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá -quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha -palavra, como á lei do destino.</p> - -<p>—Juramos!</p> - -<p>—Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo. -A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia -pertencer <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões -terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre -cavalheiro.</p> - -<p>Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto -marcial.</p> - -<p>—Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão -bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da -porta da filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a -minha parte de presa! É a parte do leão.</p> - -<p>Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.</p> - -<p>Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao -vento.</p> - -<p>—Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres, -poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer; -tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com -um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...</p> - -<p>Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz -sepulcral a houvesse pronunciado.</p> - -<p>—Traidores!...</p> - -<p>Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e -lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.</p> - -<p>Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e -lançou um olhar rapido.</p> - -<p>Tudo estava em socego.</p> - -<p>O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao -sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.</p> - -<p>O dia no seu esplendor dominava a natureza.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_PRIMEIRA_PARTE"><span class="small">FIM DA PRIMEIRA PARTE.</span></h2> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="SEGUNDA_PARTE"><span class="small">SEGUNDA PARTE</span><br /> -PERY</h2> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> -<div class="chapter"> - - -<h3 id="p2-I">I<br /> -O CARMELITA</h3> -</div> - -<p>Corria o mez de março de 1603.</p> - -<p>Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.</p> - -<p>Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre -o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão -alguns colonos e indios cathequisados.</p> - -<p>Estava quasi a anoitecer.</p> - -<p>Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas -faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava -as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão -ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago -amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a -natureza nadava n'um oceano de fogo.</p> - -<p>No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo -prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com -elles, não deixava de ter alguma belleza.</p> - -<p>Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do -alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma -exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.</p> - -<p>O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o -tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a -sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha -os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até -perder-se no matto.</p> - -<p>Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade -carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o -progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços -accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que -revelava o seu caracter.</p> - -<p>Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz -do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a -vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o -céo e a terra para obtê-lo.</p> - -<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido -da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis -mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava -breve trazer ao gremio da igreja.</p> - -<p>Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de -passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa -que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de -empregar-se no trabalho das missões.</p> - -<p>Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente -enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Diogo -do Rosario, então prior do <span id="Nota32">convento do Carmo</span> no Rio de Janeiro, -pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da -Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão -<abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p> - -<p>Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de -Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de -um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.</p> - -<p>—Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava -deitado na rede.</p> - -<p>—Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.</p> - -<p>—E o tempo que vai fazer?</p> - -<p>—Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita -caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?</p> - -<p>—Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com -semelhante borrasca.</p> - -<p>O frade voltou-se:</p> - -<p>—Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão, -em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do -céo, e a estes não ha abrigo que os salve.</p> - -<p>Fernão Aines sorrio ironicamente.</p> - -<p>—Crêdes isso, <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo?</p> - -<p>—Creio em Deus, irmão.</p> - -<p>—Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum -despenhadeiro.</p> - -<p>—Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...</p> - -<p>—Ora deixa fallar <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá -seria a tempestade que zombaria de mim.</p> - -<p>—Fernão Aines!... exclamou Nunes.</p> - -<p>—Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.</p> - -<p>O silencio se restabeleceu.</p> - -<p>De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo -ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que -havia defronte do pouso.</p> - -<p>A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma -permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o -terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no -fundo do alpendre.</p> - -<p>Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer -como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para -fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto -contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.</p> - -<p>O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da -catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo -um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque -violento que soffrêra.</p> - -<p>Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o -ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço, -e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas -palavras:</p> - -<p>—Castigo do céo!</p> - -<p>Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o -remedio espiritual; com a voz fraca pedio a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo que o ouvisse de -confissão.</p> - -<p>Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para -o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.</p> - -<p>Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por -instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o -confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que -ia gradualmente enfraquecendo.</p> - -<p>—Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me -restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o -meu crime.</p> - -<p>—Fallai, irmão; eu vos escuto.</p> - -<p>—Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um -parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor -acolhimento.</p> - -<p>«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de -aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo -resultado seria grande riqueza para nós ambos.</p> - -<p>«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que -abrio-se inteiramente comigo.</p> - -<p>«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia -descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes -que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.</p> - -<p>«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um -roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se -achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.</p> - -<p>«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e -por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para -contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.</p> - -<p>«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos -não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em -mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»</p> - -<p>O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz -debil:</p> - -<p>«Já então com a chegada do governador <abbr title="Dona">D.</abbr> Francisco de Souza se sabia -que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas, -e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar -silencio.</p> - -<p>«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só -a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás -Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao -menos lograr o premio.</p> - -<p>«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos -os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que, -necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou -que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus -riscos e esperanças.</p> - -<p>«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi -o meu primeiro erro!...»</p> - -<p>A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado -sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras -balbuciadas pelo moribundo.</p> - -<p>—Coragem, filho!</p> - -<p>—Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro -fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se -desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um -crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...</p> - -<p>—E... exclamou o frade com a voz surda.</p> - -<p>E roubei o segredo!</p> - -<p>O frade sorrio nas trevas.</p> - -<p>—Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que -fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero -que este papel lhe seja entregue... Prometteis, <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo?...</p> - -<p>—Prometto! O papel?...</p> - -<p>—Está... occulto...</p> - -<p>—Aonde?</p> - -<p>—Nes... ta...</p> - -<p>O moribundo agonisava.</p> - -<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á -sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o -coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo -sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.</p> - -<p>—Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.</p> - -<p>O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga -como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.</p> - -<p>Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede, -e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no -seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.</p> - -<p>—Cruz!...</p> - -<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na -cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de -páo tosca e mal lavrada.</p> - -<p>Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de -encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da -madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que -estivera.</p> - -<p>Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á -claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de -letras vermelhas, que rezava nestes termos:</p> - -<p>«<i>Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio -Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde -descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que -existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas -e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20 -de janeiro, dia do martyr <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião, e terminado na primeira dominga -de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de -<abbr title="São">S.</abbr> Salvador.</i>»</p> - -<p>Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima -afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção -do penitente.</p> - -<p>Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas -mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o -braço, entregou-se á funda meditação.</p> - -<p>Que pensava elle?...</p> - -<p>Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada -lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e -resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de -prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma, -que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando -á luz do sol.</p> - -<p>Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um -espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta, -virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.</p> - -<p>Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo -estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma -sinistra; o peccador expirava impenitente.</p> - -<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e -pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com -que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro, -e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.</p> - -<p>Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.</p> - -<p>O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta, -deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo -trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o -largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.</p> - -<p>—<i lang="la">Consumatum est</i>, irmão! disse elle com um tom compungido.</p> - -<p>—Deus tenha sua alma!</p> - -<p>—Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu -ultimo voto, que é uma reparação...</p> - -<p>—De um grave peccado?</p> - -<p>—De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Diogo do Rosario, -nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais -novas de mim.</p> - -<p>O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas -ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de -Nunes partio.</p> - -<p>Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se -com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios, -descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e -espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.</p> - -<p>O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo -castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se -realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo -ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a -colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:</p> - -<p>—Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e -poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!</p> - -<p>Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de -Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.</p> - -<p>Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma -grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario -conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos -selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas -rompesse o dia.</p> - -<p>A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé, -esfusiando por entre a palha.</p> - -<p>O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito -um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem -um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já -se illuminava.</p> - -<p>Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o -tempo estava sereno.</p> - -<p>O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo -campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou -depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a -ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de -satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle -e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.</p> - -<p>No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um -só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um -aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda -os traços do carmelita <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p> - -<p>Este aventureiro chamou-se Loredano.</p> - -<p>Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo; -isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.</p> - -<p>Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma -que o irmão <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de -sua fé apostolica.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-II">II<br /> -YARA!</h3> -</div> - - - - -<p>Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a -familia de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz estava reunida na margem do <i>Paquequer</i>.</p> - -<p>O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous -outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que -tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das -pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura, -tornavão aquelle retiro pittoresco.</p> - -<p>Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio, -do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das -aves concertava com o trepido murmurio das aguas.</p> - -<p>Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia -vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da -frescura deliciosa que alli se respirava.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre -uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os -filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma -palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova -de Bernardim Ribeiro.</p> - -<p>Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo -rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio -solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a -avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse -folguedo um vivo prazer.</p> - -<p>Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva, -que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan -natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos -estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete: -e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.</p> - -<p>Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave -painel que formava esse grupo de familia.</p> - -<p>De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um -grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:</p> - -<p>—<i lang="gn">Yara!</i></p> - -<p>E um vocabulo guarany: significa <i>a senhora</i>.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia -que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro -original.</p> - -<p>De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha, -um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a -uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela -encosta.</p> - -<p>O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a -esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore -mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.</p> - -<p>A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão -n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da -collina.</p> - -<p>Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma -sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.</p> - -<p>Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á -morte, foi para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento, -que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que -era toda a sua vida.</p> - -<p>No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o -regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre -si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.</p> - -<p>Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo -choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no -perigo que já estava passado.</p> - -<p>Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia -estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem, -arrancando a relva e ferindo o chão. <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, ainda pallido e -tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra -que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um -genio bemfazejo das florestas do Brazil.</p> - -<p>O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que -elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a -si proprio da morte.</p> - -<p>Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não se -admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente -calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança -erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.</p> - -<p>Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava -de transformar de modo tão imprevisto.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças; -Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a -mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de -admiração sobre a moça que tinha salvado.</p> - -<p>Por fim <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha, -caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e -affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.</p> - -<p>—De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.</p> - -<p>—Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.</p> - -<p>—Como te chamas?</p> - -<p>—Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.</p> - -<p>—Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça, -conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a -minha amizade.</p> - -<p>—Pery aceita; tu já eras amigo.</p> - -<p>—Como assim? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio admirado.</p> - -<p>—Ouve.</p> - -<p>O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce -pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves -das florestas virgens, esta simples narração:</p> - - -<p>«Era o tempo das <span id="Nota33">arvores de ouro</span>.</p> - -<p>«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de -guerra.</p> - -<p>«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:</p> - -<p>«—Pai morreu; aquelle que fôr <span id="Nota34">o mais forte</span> entre todos, terá o arco -de Ararê. Guerra!»</p> - -<p>«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!</p> - -<p>«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao -céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma -guerra. Houve sangue, houve fogo.</p> - -<p>«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na <span id="Nota35">taba dos brancos</span> -uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.</p> - -<p>«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.</p> - -<p>Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos -os guerreiros.</p> - -<p>Sua mãi chegou e disse:</p> - -<p>«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és -forte como teu pai; tua mãi te ama.</p> - -<p>«Os guerreiros chegárão e disserão:</p> - -<p>«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da -tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.</p> - -<p>«As mulheres chegárão e disserão:</p> - -<p>«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a -canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.</p> - -<p>«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos -guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.</p> - -<p>«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a <span id="Nota36">senhora dos -brancos</span>; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.</p> - -<p>«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava -vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.</p> - -<p>«O fogo passou; a casa da cruz cahio.</p> - -<p>«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e -fallou assim:</p> - -<p>«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a -parte, como a <span id="Nota37">estrella grande</span> acompanha o dia.</p> - -<p>«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra; -todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a -terra, e Pery não podia subir ao céo.</p> - -<p>«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem -sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.</p> - -<p>«Assim Pery ficou triste.</p> - -<p>«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus -olhos.</p> - -<p>«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o -sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.</p> - -<p>«Veio o tempo da guerra.</p> - -<p>«Partimos; andámos; chegámos ao <span id="Nota38">grande rio</span>. Os guerreiros armárão -as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.</p> - -<p>«Vio passar o gavião.</p> - -<p>«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.</p> - -<p>«Vio passar o vento.</p> - -<p>«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.</p> - -<p>Vio passar a sombra.</p> - -<p>«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.</p> - -<p>«Os passarinhos dormirão tres vezes.</p> - -<p>«Sua mãi veio e disse:</p> - -<p>«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca -tambem.</p> - -<p>«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser -amigo; e a filha da senhora para ser escravo.</p> - -<p>«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou -longe a tua casa grande.</p> - -<p>«A virgem branca appareceu.</p> - -<p>«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da -primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.</p> - -<p>«Pery disse:</p> - -<p>«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do -sol, acompanhará a senhora na terra.</p> - -<p>«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A -pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.</p> - -<p>«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora -ficasse triste, e voltasse ao céo.</p> - -<p>«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da -<span id="Nota39">nação Goytacaz</span>, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és -amigo.»</p> - - -<p>O indio terminou aqui a sua narração.</p> - -<p>Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem -lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora -ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.</p> - -<p>Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e -modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas -civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto -reconhecia.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão -singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos -maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem -poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar -do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.</p> - -<p>Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous -dias por <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra -de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.</p> - -<p>—Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão -amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.</p> - -<p>—E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais -aos filhos.</p> - -<p>—Tu cearás comnosco.</p> - -<p>—Pery te obedece.</p> - -<p>A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia, -acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina -tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas -mãos do indio.</p> - -<p>—É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio -fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery -tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu -pai.</p> - -<p>O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.</p> - -<p>—Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.</p> - -<p>A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.</p> - -<p>O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito, -não sabia como se ter.</p> - -<p>Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel -em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria -de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.</p> - -<p>Por fim <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era -inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.</p> - -<p>—Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem -beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a -coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o -amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.</p> - -<p>—E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque -salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.</p> - -<p>A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem -fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de -Cecilia.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-III">III -<br />GENIO DO MAL -</h3> -</div> - - - - -<p>Pery voltou por differentes vezes á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu -caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.</p> - -<p>Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua -dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um -desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de -cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.</p> - -<p>Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a -presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz, -da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente -tratada.</p> - -<p>Quanto a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento -prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão. -Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava -assim, mas por prejuizos de educação.</p> - -<p>Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres -Gomes atravessou a esplanada e foi ter com <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio que estava no seu -gabinete.</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas -semanas, pede-vos audiencia.</p> - -<p>—Manda-o vir.</p> - -<p>Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se -havia transformado o carmelita <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p> - -<p>—Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?</p> - -<p>—Ao contrario, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria -ficar.</p> - -<p>—E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o -nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.</p> - -<p>—A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas -não é della que desejo fallar.</p> - -<p>—Explicai-vos então.</p> - -<p>—Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e -filhos que lhe chegarão do Reino.</p> - -<p>—Sim; já hontem me fallou disso.</p> - -<p>—Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso -inconveniente.</p> - -<p>—Nem um absolutamente.</p> - -<p>—Nesse caso posso considerar-me como admittido?</p> - -<p>—Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos -sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.</p> - -<p>—Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.</p> - -<p>—Ide sempre.</p> - -<p>O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao -facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu -serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava -com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto -grotesca.</p> - -<p>Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte -introito:</p> - -<p>—Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que -se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro -<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em -linha recta.</p> - -<p>Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.</p> - -<p>—<i lang="it">Primo</i>: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte -natural.</p> - -<p>O italiano fez um gesto de approvação.</p> - -<p>—Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio vos -mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai; -porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres -Gomes, lá ireis.</p> - -<p>Loredano sorrio.</p> - -<p>—<i lang="it">Segundo</i>: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...</p> - -<p>—Com o vosso respeito, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho -inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de -continuar.</p> - -<p>—Que quereis dizer?</p> - -<p>—Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me -descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.</p> - -<p>—Não obstante...</p> - -<p>—Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.</p> - -<p>E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o -gabinete de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter -levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor, -resmungava:</p> - -<p>—Não póde ser boa casta de gente?</p> - -<p>Loredano apresentou-se a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p> - -<p>—Então? disse o fidalgo.</p> - -<p>—Aceito.</p> - -<p>—Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse -naturalmente.</p> - -<p>—Qual, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro?</p> - -<p>—É que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o -hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um -amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de -toda a familia a que actualmente pertenceis.</p> - -<p>O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a -alteração da physionomia.</p> - -<p>Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já -então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que -vimos revelar-se um anno depois.</p> - -<p>Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro -caminhou direito á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade -que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de -Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.</p> - -<p>Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se -vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.</p> - -<p>Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro -soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?</p> - -<p>Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu -serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da -grandeza?</p> - -<p>Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma -resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado -desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu, -como dissemos, ir pedir hospitalidade a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e -então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com -elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.</p> - -<p>Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de -observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de -uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as -proporções de um projecto.</p> - -<p>Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um -salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o -dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. <abbr title="Frei">Fr.</abbr> -Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no -regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.</p> - -<p>—Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.</p> - -<p>No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução -nas suas idéas.</p> - -<p>Viu Cecilia.</p> - -<p>A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella -organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da -faisca sobre a polvora.</p> - -<p>Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que -o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue -vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias, -refluirão ao coração e o suffocárão um momento.</p> - -<p>Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela -corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração -revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de -sua vida.</p> - -<p>Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o -thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a -riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.</p> - -<p>Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o -obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.</p> - -<p>Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava -tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas -encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á -Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de -vela para a Europa.</p> - -<p>Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro, -tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus -olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade.</p> - -<p>Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e -intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy -Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final.</p> - -<p>Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava -surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder. -Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de -uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que -podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D. -Antonio de Mariz.</p> - -<p>Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o -italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição -dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia -pois até na hora extrema em que o papel devia fallar.</p> - -<p>A confiança que tinha, e com razão, no caracter de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio -tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo -abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito.</p> - -<p>Eis como <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano, -pertencendo á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e preparando-se para realisar -a final o seu pensamento de todos os instantes.</p> - -<p>Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera -dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous -complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos -obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo -animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o -atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na -voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo.</p> - -<p>Este sentimento foi a ambição.</p> - -<p>Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da -riqueza, a <i lang="la">auri sacra fames</i> que se havia apoderado delle proprio, no -momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata -fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o -devorava.</p> - -<p>O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos -aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel -de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu -amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia.</p> - -<p>Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera -modificar a situação.</p> - -<p>Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes -daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que -servirão para o seguimento desta veridica historia.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-IV">IV -<br />CECY</h3> -</div> - - - - -<p>Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio -de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado -opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.</p> - -<p>O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, -senão quando via de longe a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz passeando sobre a -esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do -velho fidalgo sentia por elle alguma estima.</p> - -<p>Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio suppunha já -que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que -só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.</p> - -<p>A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de <abbr title="São">S.</abbr> Thomé -e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por -diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.</p> - -<p>Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de -Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir -igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco -Fernandes Coutinho.</p> - -<p>Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.</p> - -<p>O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira -insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra -esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe -salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a -dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que -lhe inspirava.</p> - -<p>Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao -reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez -com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.</p> - -<p>O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto -Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:</p> - -<p>—Vinde ver Pery, que chega, meu pai.</p> - -<p>—Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.</p> - -<p>E acompanhando sua filha, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio foi ao encontro do indio que já -subia a esplanada.</p> - -<p>Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito -de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os -fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os -pequenos habitantes desse ninho gracioso.</p> - -<p>O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos -para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina -assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; -alguns conseguirão escapar-se.</p> - -<p>Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em -torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um -fructo.</p> - -<p>A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras -azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e -delicadas!</p> - -<p>Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um -sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as -flôres na terra e as estrellas no céo.</p> - -<p>Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os, -aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para -que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno -della.</p> - -<p>Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha -sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da -senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente, -era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D. -Antonio de Mariz e disse-lhe:</p> - -<p>—Pery vai partir.</p> - -<p>—Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?</p> - -<p>—Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de -sua filha.</p> - -<p>—Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse -Cecilia.</p> - -<p>O fidalgo traduzio a pergunta.</p> - -<p>—Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi -e seus irmãos.</p> - -<p>—E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou -a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.</p> - -<p>Ouvindo dos labios de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que -responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por -seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e -elle não estivesse junto della para salva-la.</p> - -<p>—Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.</p> - -<p>Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se -daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no -fundo do seu coração de moça.</p> - -<p>Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou -como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa -que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como -a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés -submissa, vencida, escrava!...</p> - -<p>Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar -essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se -diante do seu olhar.</p> - -<p>As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior -ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é -forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, -o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.</p> - -<p>Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo -homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e -não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.</p> - -<p>Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha -consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era -filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.</p> - -<p>—A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de -rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.</p> - -<p>O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.</p> - -<p>—Pery fica.</p> - -<p>—Vêde, Cecilia, replicou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio rindo: elle te obedece!</p> - -<p>Cecilia sorrio.</p> - -<p>—Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas -nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.</p> - -<p>—A senhora mandou, respondeu o indio.</p> - -<p>—Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está -satisfeita; consente que partas.</p> - -<p>—Não!</p> - -<p>—Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?</p> - -<p>—Pery é escravo da senhora.</p> - -<p>—Mas Pery é um guerreiro e um chefe.</p> - -<p>—A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos -ligeiros como o vôo do gavião.</p> - -<p>—Assim, decididamente queres ficar?</p> - -<p>—Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore -da floresta lhe servirá de abrigo.</p> - -<p>—Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta -para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.</p> - -<p>—Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.</p> - -<p>—E o coração de ouro.</p> - -<p>Emquanto <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse, -ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.</p> - -<p>Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde -partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica -particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:</p> - - -<p>«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas -azas.</p> - -<p>«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.</p> - -<p>«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres -trabalhão; ha vinho.</p> - -<p>«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de -andar.»</p> - - -<p>A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa; -encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a -scena que passava na esplanada.</p> - -<p>Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.</p> - -<p>—Mãi!... exclamou elle.</p> - -<p>—Vem! disse a india seguindo pela matta.</p> - -<p>—Não!</p> - -<p>—Nós partimos.</p> - -<p>—Pery fica.</p> - -<p>A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.</p> - -<p>—Teus irmãos partem!</p> - -<p>O selvagem não respondeu.</p> - -<p>—Tua mãi parte!</p> - -<p>O mesmo silencio.</p> - -<p>—Teu campo te espera!</p> - -<p>—Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—A senhora mandou.</p> - -<p>A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia -do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora, -que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em -Cecilia.</p> - -<p>Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha -sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr -de cobre.</p> - -<p>—Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e -queima a cabana de Ararê.</p> - -<p>—Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua -mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve -o filho de Ararê ao campo onde nasceu.</p> - -<p>Pery abanou a cabeça com tristeza;</p> - -<p>—Pery não voltará!</p> - -<p>Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.</p> - -<p>—O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se -despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha; -tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.</p> - -<p>—A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe -roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e -mata tudo que se chega a ella.</p> - -<p>Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se -revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.</p> - -<p>—Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se -lembraria de ti.</p> - -<p>Os dous ficárão algum tempo em silencio.</p> - -<p>—Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.</p> - -<p>—E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem -contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? -Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos -brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as -bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?</p> - -<p>Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle -as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e -respondeu:</p> - -<p>—Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do -jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os -fructos da arvore.</p> - -<p>A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a -fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão -dos olhos de ambos se confundirão.</p> - -<p>Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que -desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella. -Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu -pai; ficou.</p> - -<p>Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta -do rochedo, e que ia ser o seu mundo.</p> - -<p>Passárão tres mezes.</p> - -<p>Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo -selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da -ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.</p> - -<p>Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia, -ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o -portuguez, afastava-se triste e humilde.</p> - -<p>Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D. -Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia, -guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras -preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para -procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e -pedia-lhe désse a <i>Cecy</i>, pois já não se animava a chegar-se para -ella, com receio de desgota-la.</p> - -<p><i>Cecy</i> era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe -tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.</p> - -<p>Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto -para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, -reprehendeu-o com aspereza:</p> - -<p>—Porque me chamas tu <i>Cecy</i>?</p> - -<p>—Não sabes dizer Cecilia?</p> - -<p>Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto -era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro -letras, das quaes uma era o L.</p> - -<p>—Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu -nome, porque não o dizes sempre?</p> - -<p>—Porque <i>Cecy</i> é o nome que Pery tem dentro da alma.</p> - -<p>—Ah! é um nome de tua lingua?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—O que quer dizer?</p> - -<p>—O que Pery sente.</p> - -<p>—Mas em portuguez?</p> - -<p>—Senhora não deve saber.</p> - -<p>A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de -impaciencia.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:</p> - -<p>—Meu pãi, dizei-me o que significa <i>Cecy</i> nessa lingua selvagem que -fallais.</p> - -<p>—<i>Cecy</i>!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que -significa doer, magoar.</p> - -<p>A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se -do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, -egoista e cruel.</p> - -<p>—Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.</p> - -<p>Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou -a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo -fiel e dedicado.</p> - -<p>—Chama-me <i>Cecy</i>, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome -me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-V">V<br /> -VILANIA</h3> -</div> - - - - -<p>É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de -contar alguns factos anteriores.</p> - -<p>Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros -tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.</p> - -<p>Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe -naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião -nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a -semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e -cava devia ser de um homem.</p> - -<p>Quem elle era? Seria <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? -Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e -incertezas.</p> - -<p>Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e -apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se -pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando -virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o -italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.</p> - -<p>O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para -reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia -comprehender.</p> - -<p>Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, -trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. -Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente -comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das -duas moças.</p> - -<p>Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus -companheiros:</p> - -<p>—Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que -attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...</p> - -<p>E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.</p> - -<p>—Esperai-me aqui.</p> - -<p>—O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.</p> - -<p>O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a -pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.</p> - -<p>Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um -resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o -fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.</p> - -<p>—Quereis que falle?... disse Loredano.</p> - -<p>—É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.</p> - -<p>O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:</p> - -<p>—Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.</p> - -<p>E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo -nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.</p> - -<p>O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos -nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.</p> - -<p>Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das -costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de -repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.</p> - -<p>A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os -rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais -forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai -perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das -arvores.</p> - -<p>Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe -um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o -campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de -uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.</p> - -<p>Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou -homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o -receberia.</p> - -<p>Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e -hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que -concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra -<i>traidores</i>, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia -com que o moço evitava uma sorpreza.</p> - -<p>O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma -destreza admiravel.</p> - -<p>A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, -volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do -cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e -auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma -cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.</p> - -<p>A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que -parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada -da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de -pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe -servirem de alvo.</p> - -<p>Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a -senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse -uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e -fosse por todos admirado.</p> - -<p>Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe -vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a -superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante -que é a sua vida.</p> - -<p>Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo -desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil -tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a -sua vida e a sua fortuna.</p> - -<p>Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha -passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes -desprezava-o.</p> - -<p>—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro? disse o -aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.</p> - -<p>—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.</p> - -<p>—Pretendo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se -melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.</p> - -<p>—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, -é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do -que o vosso aspecto.</p> - -<p>—Não disputemos sobre palavras, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; -eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.</p> - -<p>—Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da -espada.</p> - -<p>O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a -ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.</p> - -<p>Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos -injectárão-se de sangue:</p> - -<p>—<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de -fazer.</p> - -<p>—É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a -arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.</p> - -<p>Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, -segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu -punhal, excellente folha de Damasco.</p> - -<p>Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o -italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas -vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o -talho de seu gibão de belbute.</p> - -<p>De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu -a mão esquerda em signal de tregoa.</p> - -<p>—Estais satisfeito? perguntou Alvaro.</p> - -<p>—Não, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a -fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.</p> - -<p>—Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.</p> - -<p>—Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos -reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo -tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o -outro não leve um vestigio que o possa denunciar.</p> - -<p>—Que quereis fazer neste caso?</p> - -<p>—O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos -cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou -simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não -incommodará o outro.</p> - -<p>—Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de -Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.</p> - -<p>—Sigamos, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos -tempo em palavras.</p> - -<p>Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se -distinctamente.</p> - -<p>Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o -menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais -pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que -um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate -franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.</p> - -<p>Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de -proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e -prende-la de novo.</p> - -<p>O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as -idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?</p> - -<p>—Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la -escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem -testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.</p> - -<p>Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e -seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de -suas pisadas não excitassem a attenção do moça.</p> - -<p>Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe -d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os -grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez -melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella -belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo -louro de seus amores.</p> - -<p>Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, -como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia -entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que -esse segredo era elle.</p> - -<p>Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, -elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e -alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha -consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse -sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria -um resto de resentimento que talvez conservasse.</p> - -<p>Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe -dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia -beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.</p> - -<p>Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio -foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se -associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.</p> - -<p>Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle -miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com -altivez e seguio.</p> - -<p>Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo -seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do -italiano.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-VI">VI -<br />NOBREZA</h3> -</div> - - - - -<p>Alvaro ouvio um sibillo agudo.</p> - -<p>A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a -ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.</p> - -<p>O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu -rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o -labio superior, sombreado pelo bigode negro.</p> - -<p>O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza -extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez -passos delle.</p> - -<p>Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua -organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano, -curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.</p> - -<p>O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente -dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.</p> - -<p>O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para -crava-la no alto da cabeça do italiano.</p> - -<p>Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão -ao indio.</p> - -<p>—Solta este miseravel, Pery!</p> - -<p>—Não!</p> - -<p>—A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de -atirar sobre elle.</p> - -<p>Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e -apoiava a bocca na fronte do italiano.</p> - -<p>—Ides morrer. Fazei a vossa oração.</p> - -<p>Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.</p> - -<p>O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e -satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao -pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia -talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra -gozar.</p> - -<p>Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho -do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto -frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.</p> - -<p>Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:</p> - -<p>—Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de -guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á -justiça de Deus.</p> - -<p>Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de -esperança.</p> - -<p>—Vais jurar que amanhã deixarás a casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, e -nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.</p> - -<p>—Juro! exclamou o italiano.</p> - -<p>O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e -apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do -peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.</p> - -<p>—Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.</p> - -<p>E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua -clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery -para que o acompanhasse.</p> - -<p>O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia -profundamente.</p> - -<p>Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros, -quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal -á sua senhora e a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido -lançar-se aos tres inimigos e mata-los.</p> - -<p>Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação; -mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso -Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve -medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para -sacrifica-las todas á sua salvação.</p> - -<p>Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que -subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a -sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que -soubessem que estava ferido.</p> - -<p>Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.</p> - -<p>Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio -de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o -receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse -justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens -brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava -para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o -italiano.</p> - -<p>Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta -reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião -matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do -mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse -vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e -anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.</p> - -<p>A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa -terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio -com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas -as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para -realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem -possuia em grão tão elevado.</p> - -<p>Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de -avisar a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle -tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos -olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o -cavalheiro.</p> - -<p>Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os -joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o -virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.</p> - -<p>A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser -procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous -aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse -consumado iria ter com <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e lhe diria:</p> - -<p>—Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.</p> - -<p>A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano, -transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery -ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da -tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o -cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade, -satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.</p> - -<p>Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as -cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o -conseguiria.</p> - -<p>Alvaro tinha recebido de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz todos os principios -daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho -fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava -todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos -barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do -Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.</p> - -<p>Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida -a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença -delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada -para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.</p> - -<p>E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a -quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro -tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse -sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao -seu descanço, ao seu socego e felicidade.</p> - -<p>O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem -importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.</p> - -<p>Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do -rio.</p> - -<p>—Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela -estima que me tens.</p> - -<p>E o moço apertou a mão do selvagem:</p> - -<p>—Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.</p> - -<p>Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia -em suas palavras.</p> - -<p>—Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora -contente.</p> - -<p>—Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que -succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a -ver.</p> - -<p>—Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que -ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno -que abre a flôr da noite.</p> - -<p>—Pery!... exclamou Alvaro.</p> - -<p>—Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu -fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde -e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio; -Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da -corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.</p> - -<p>Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem -cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a -delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração -gasto pelo attrito da sociedade?</p> - -<p>A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza -brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle -espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.</p> - -<p>Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o -cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos -da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado; -quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados -que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da -relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil -reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro -sentio.</p> - -<p>Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo -o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder -alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo -aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par -da vida brilhante?</p> - -<p>Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse -berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno -contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do -veneno, não é um poeta?</p> - -<p>Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; -ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante -dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a -alma.</p> - -<p>Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da -creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes -cousas que a natureza fez sorrindo.</p> - -<p>A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se -despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras -desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.</p> - -<p>Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á -beira do <i>Paquequer</i>, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas -impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.</p> - -<p>O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento -hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por -Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.</p> - -<p>Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia -me quer? disse o moço.</p> - -<p>—Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste -mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.</p> - -<p>—Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?</p> - -<p>—Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.</p> - -<p>—E se eu não amasse a Cecilia?</p> - -<p>—Impossivel!</p> - -<p>—Quem sabe? disse o moço sorrindo.</p> - -<p>—Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla -negra irradiou.</p> - -<p>—Sim? o que farias?</p> - -<p>—Pery te mataria.</p> - -<p>A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida -sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com -effusão.</p> - -<p>Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe -com um tom commovido:</p> - -<p>—Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a -pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle -arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não -levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.</p> - -<p>—Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa -menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a -amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é -maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim -mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.</p> - -<p>—Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.</p> - -<p>O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite -antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do -italiano; desta vez não lhe perdoára.</p> - -<p>—Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.</p> - -<p>Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle, -quando Pery segurou o braço de Alvaro:</p> - -<p>—O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer, -manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem -para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.</p> - -<p>—Mas quem é o inimigo da casa?</p> - -<p>—Queres saber?</p> - -<p>—De certo; como hei de combate-los?</p> - -<p>—Tu saberás.</p> - -<p>Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo -pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao -redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.</p> - -<p>Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem -surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e -hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.</p> - -<p>O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito -galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre -a relva.</p> - -<p>Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a -força dos pulmões:</p> - -<p>—Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve -cá!</p> - -<p>Pery não se voltou.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-VII">VII -<br />NO PRECIPICIO</h3> -</div> - - - - -<p>Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.</p> - -<p>Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao -braço.</p> - -<p>—Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... -disse o escudeiro resfolgando.</p> - -<p>—Deixa! respondeu o indio sem se mover.</p> - -<p>—Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua -procura! Tinha que ver!</p> - -<p>Com effeito <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto -antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á -presença de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia -boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, -tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.</p> - -<p>Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o -fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; -ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se -enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.</p> - -<p>Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, -que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de -semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!</p> - -<p>Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, -causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não -estava de accordo.</p> - -<p>—Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.</p> - -<p>—Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, -não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é -como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que -chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette -a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, -boca! não me pies mais!</p> - -<p>Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual -havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como -estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que -segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.</p> - -<p>Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto -mato.</p> - -<p>—Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.</p> - -<p>—E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.</p> - -<p>—Pery vai longe!</p> - -<p>—Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.</p> - -<p>O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.</p> - -<p>—Pery não quer que tu o sigas.</p> - -<p>—Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda -ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de -faca e calhão.</p> - -<p>—Pery não manda duas vezes!</p> - -<p>—Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.</p> - -<p>Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da -obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este -executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.</p> - -<p>—Quem te deo a ordem?</p> - -<p>—<abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p> - -<p>—Para que?</p> - -<p>—Para te levar á casa.</p> - -<p>—Pery vai só.</p> - -<p>—Veremos!</p> - -<p>O indio tirou a sua faca.</p> - -<p>—Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> -<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! -Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.</p> - -<p>—Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.</p> - -<p>—Como?... Como é lá isso?</p> - -<p>O indio começou a cortar com a maior calma um longo <span id="Nota40">cipó</span> que se -engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a -mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao -selvagem.</p> - -<p>Mas a ordem de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o -indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se -valentemente.</p> - -<p>Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao -pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres -Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as -regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde -a mais tenra idade.</p> - -<p>Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, -combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um -vime delgado.</p> - -<p>—Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de -partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na -durindana!</p> - -<p>Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a -voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos -de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era -assaltar o adversario pelas costas.</p> - -<p>Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para -defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio -aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o -pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em -que estava encostado.</p> - -<p>Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós -ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu -caminho placidamente.</p> - -<p>—Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me -pagarás com lingua de palmo!...</p> - -<p>Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o -mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.</p> - -<p>Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso -profundo que passava em baixo de sua janella.</p> - -<p>A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o -ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a -nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que -sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava -magoa-la.</p> - -<p>Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao -contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse -só.</p> - -<p>—Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!</p> - -<p>Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que -saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a -chamarão ao seu proprio soffrimento.</p> - -<p>Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o -anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo -ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; -sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.</p> - -<p>O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a -affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, -e um prazer que a fazia sorrir.</p> - -<p>Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, -e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o -exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o -objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.</p> - -<p>Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu -que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia -obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.</p> - -<p>Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do -coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa -subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que -podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o -respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor -fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha -a Pery.</p> - -<p>Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: -nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar -a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de -sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a -existencia para ella seria de flôres.</p> - -<p>Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que -tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em -luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.</p> - -<p>Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos -menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e -sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão -melancolica.</p> - -<p>Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a -existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.</p> - -<p>Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; -era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou -a desatar-se com o primeiro raio do sol.</p> - -<p>Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella -olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera -modificar a sua existencia.</p> - -<p>—Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel -como eu a amo e quanto a desejo feliz.</p> - -<p>Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery -comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar -como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a -moça sentia por isso um pezar.</p> - -<p>Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria -ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro -<i>endireitar isto</i>, como elle dizia na sua linguagem simples.</p> - -<p>Chegou-se ao fosso.</p> - -<p>Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo -precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde -risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo -uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.</p> - -<p>Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das -serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia -entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.</p> - -<p>Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o -calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma -linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um -arbusto.</p> - -<p>Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o -acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o -receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o -objecto que ia procurar.</p> - -<p>Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores -chamárão <span id="Nota41"><i>candêa</i></span>; tirou fogo, e começou a descer com o facho -acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus -pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.</p> - -<p>A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente -o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.</p> - -<p>Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o -outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada -uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser -vibradas.</p> - -<p>—Pery!...</p> - -<p>O indio levantou os olhos para ella.</p> - -<p>—Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.</p> - -<p>A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.</p> - -<p>—Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que -desejas.</p> - -<p>—O que eu desejo?...</p> - -<p>—Sim; Pery sabe.</p> - -<p>A moça abanou a cabeça.</p> - -<p>—Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.</p> - -<p>—Quem te disse? perguntou a menina admirada.</p> - -<p>—Os olhos de Pery.</p> - -<p>—Tu viste?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>O indio continuou a descer.</p> - -<p>—Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.</p> - -<p>—Buscar o que é teu.</p> - -<p>—Meu!... murmurou melancolicamente.</p> - -<p>—Elle te deo.</p> - -<p>—Elle quem?</p> - -<p>—Alvaro.</p> - -<p>A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o -precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o -murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.</p> - -<p>—Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!</p> - -<p>—Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.</p> - -<p>—Mas tu vais morrer!...</p> - -<p>—Não tem medo.</p> - -<p>—Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não -desças.</p> - -<p>O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para -elle: cumpria-se irremissivelmente.</p> - -<p>Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na -ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro -da janella córando.</p> - -<p>O indio sorrio.</p> - -<p>—Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.</p> - -<p>E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.</p> - -<p>Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-VIII">VIII -<br />O BRACELETE</h3> -</div> - - - - -<p>O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e -horror.</p> - -<p>De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis, -lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos -rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos -fios da têa.</p> - -<p>No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o -estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da <span id="Nota42">cauan</span> no -fundo do abysmo.</p> - -<p>O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.</p> - -<p>Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse -morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o -seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para -salva-lo.</p> - -<p>Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se -desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e -descobrir o indio.</p> - -<p>Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da -folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma -esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular -chama <i>lavandeira de Deus</i>.</p> - -<p>A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais -tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a -lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.</p> - -<p>Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra -ainda com a voz tremula e fraca:</p> - -<p>—Pery!</p> - -<p>No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade -cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:</p> - -<p>—Espera, senhora!</p> - -<p>Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu -á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz -chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.</p> - -<p>—Estás ferido? perguntou inquieta.</p> - -<p>Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou -pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando -bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.</p> - -<p>Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de -encontro á almofada da janella.</p> - -<p>Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante -della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma -bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo -escarlate.</p> - -<p>Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro -horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com -sofreguidão:</p> - -<p>—Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!</p> - -<p>O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.</p> - -<p>—Tiveste medo, senhora?</p> - -<p>—Muito! exclamou a menina.</p> - -<p>O indio sorrio.</p> - -<p>—Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio -das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.</p> - -<p>O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos -os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.</p> - -<p>Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle -imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são -devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens -ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery -descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma -trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.</p> - -<p>Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr: -assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e -surda.</p> - -<p>Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava -assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles, -attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção -simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A -sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a -prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.</p> - -<p>A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do -mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que -tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de -Cecilia.</p> - -<p>A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é -innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe -bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou -a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:</p> - -<p>—Pery sente uma cousa.</p> - -<p>—O que?</p> - -<p>—Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.</p> - -<p>—E porque sentes isto?</p> - -<p>—Porque te acompanharião sempre.</p> - -<p>Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.</p> - -<p>Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este -bracelete, trouxesse um presente dado por ti?</p> - -<p>—Muito.</p> - -<p>—E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina -gracejando.</p> - -<p>O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua -vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um -adorno digno de sua senhora!</p> - -<p>Cecilia teve pena do seu embaraço.</p> - -<p>—Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez -deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.</p> - -<p>Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava -a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na -caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.</p> - -<p>Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no -jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina -prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente -desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao -quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.</p> - -<p>Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois -que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu -amor.</p> - -<p>As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e -consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o -coração, o queimão como o rescaldo da paixão.</p> - -<p>Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com -um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava -rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma -oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as -faces.</p> - -<p>Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os -olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.</p> - -<p>Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um -enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe -gracioso.</p> - -<p>Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de -sua prima.</p> - -<p>—Já te disse que não te quero vêr triste.</p> - -<p>—Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.</p> - -<p>—Que é isto? Faço-te medo?</p> - -<p>—Não... mas...</p> - -<p>—Mas, o que?</p> - -<p>—Nada...</p> - -<p>—Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de -ti. Confessa!</p> - -<p>—Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de -tua amizade.</p> - -<p>E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos -devemos amar sempre?</p> - -<p>—Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel -admirada.</p> - -<p>—Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.</p> - -<p>—Não; perdoa; porém é que...</p> - -<p>A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o -espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma -idéa assaltou-lhe o espirito.</p> - -<p>Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de -merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir -amargamente.</p> - -<p>—Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou -entre nós; não é verdade?</p> - -<p>—Tu o queres!</p> - -<p>—Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença, -accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter -segredos para comigo.</p> - -<p>—Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.</p> - -<p>—Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua -boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e -rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?</p> - -<p>—Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de -mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.</p> - -<p>—E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes -amar uma outra pessoa?</p> - -<p>Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe -ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia -nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos -de Alvaro fitos nos seus.</p> - -<p>—Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas, -minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não -zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!</p> - -<p>—Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que -soffras por minha causa; entendes?</p> - -<p>—Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr -preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.</p> - -<p>—Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu -te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!</p> - -<p>—Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.</p> - -<p>—Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao -ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.</p> - -<p>Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve -bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.</p> - -<p>—Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?</p> - -<p>Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que -deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o -mereço?</p> - -<p>—Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio -é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Porque elle te ama! murmurou Isabel.</p> - -<p>A menina corou.</p> - -<p>—Não digas isto, é falso.</p> - -<p>—É bem verdade.</p> - -<p>—Elle te disse?</p> - -<p>—Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.</p> - -<p>—Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me -importa o que elle sente a meu respeito?</p> - -<p>E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas -voltou da porta.</p> - -<p>—Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.</p> - -<p>Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao -braço de Isabel.</p> - -<p>—Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te -achará bonita!</p> - -<p>Este bracelete!...</p> - -<p>Isabel teve de repente uma suspeita.</p> - -<p>A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.</p> - -<p>—Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim, -e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão -agasto-me comtigo.</p> - -<p>Isabel abaixou a cabeça.</p> - -<p>—Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até -logo.</p> - -<p>E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.</p> - -<p>A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as -impressões tristes da manhã.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-IX">IX -<br />TESTAMENTO</h3> -</div> - - - - -<p>No momento em que Cecilia deixou Isabel, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz subia a -esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua -physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.</p> - -<p>O velho fidalgo avistou de longe seu filho <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo e Alvaro passeando -ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que -se aproximassem.</p> - -<p>Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz -até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do -oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma -escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.</p> - -<p>Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros -descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio como -homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de -não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa -abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas -arrobas de polvora.</p> - -<p>O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era -a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um -descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete -d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e -fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.</p> - -<p>—Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia, -disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos -interessa e a mim antes do que a todos.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um -sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho -fidalgo.</p> - -<p>—Tenho sessenta amos, continuou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio; estou velho. O contacto -deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me -durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e -sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á -terra aquillo que veio da terra.</p> - -<p>Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos -illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos -illurdirmos a nós proprios.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio conteve-os com um gesto nobre.</p> - -<p>—Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma -declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais -comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta -annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem -vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar -tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.</p> - -<p>Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo; mas é a -segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal -desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!</p> - -<p>—De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha -remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda -vida que vos deo o novo mundo.</p> - -<p>—Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio sorrindo; -quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente -da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua -ultima vontade, e fazer o seu testamento.</p> - -<p>—O vosso testamento, meu pai! disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo pallido.</p> - -<p>—Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve -preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho -aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua -ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas. -Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que -tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um -documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento. -Ouvi-me.</p> - -<p>Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava <abbr title="Dom">D.</abbr> -Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo -com uma emoção de tristeza e respeito.</p> - -<p>—Não trato de vós, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe -da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um -esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi -na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas -cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que -me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu -nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou -meu pai.</p> - -<p>O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo para -o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.</p> - -<p>—A vós, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que -conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis -por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a -felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem -já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.</p> - -<p>Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma -das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os -n'um mesmo olhar de amor paternal.</p> - -<p>—Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os -dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.</p> - -<p>—O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma -falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha -natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre -menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o -titulo de sobrinha.</p> - -<p>—Isabel?... exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p> - -<p>—Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre -como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e -carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe -mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.</p> - -<p>A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se -que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia -despertado.</p> - -<p>—Pobre mulher!... murmurou elle.</p> - -<p>Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua -emoção, voltou aos dous moços.</p> - -<p>—Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço -um juramento; basta-me a vossa palavra.</p> - -<p>Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, que -comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.</p> - -<p>—Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A -tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis -muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que -até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.</p> - -<p>—Assim o tinha entendido, disse Alvaro.</p> - -<p>—Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo -tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das -partes do meu testamento. Sabeis qual?</p> - -<p>—A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio apertou-lhe a mão.</p> - -<p>—Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um -triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?</p> - -<p>—Vi-o ha pouco.</p> - -<p>—Ide e mandai-o a mim.</p> - -<p>O moço retirou-se.</p> - -<p>—Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo obedeceu.</p> - -<p>O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que -fechou com um retroz e sellou com as suas armas.</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p> - -<p>—Sentai-vos, minha mulher.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que -ia praticar.</p> - -<p>Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:</p> - -<p>—Que queres tu dar-lhe?</p> - -<p>A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que -tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo -entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião -expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um -selvagem.</p> - -<p>Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido -tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.</p> - -<p>—Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.</p> - -<p>—É necessario; eu te disse.</p> - -<p>—Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.</p> - -<p>—Impossivel!</p> - -<p>—Que mal faz elle aqui?</p> - -<p>—Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves -crêr-me.</p> - -<p>—Não vos agasteis!...</p> - -<p>—Assim não te oppões?</p> - -<p>Cecilia calou-se.</p> - -<p>—Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e -eu, porque lhe prometti.</p> - -<p>—Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.</p> - -<p>Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no -seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.</p> - -<p>A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata -das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos -percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do -cavalheiro.</p> - -<p>Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu -irmão <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p> - -<p>—Pery, acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o -fidalgo.</p> - -<p>—Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.</p> - -<p>—Acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz te estima?</p> - -<p>—Sim; porque o disse e mostrou.</p> - -<p>—Acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste -por elle, salvando sua filha?</p> - -<p>—Se fosse preciso, sim.</p> - -<p>—Pois bem, Pery; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á -tua tribu.</p> - -<p>O indio estremeceu.</p> - -<p>—Porque pedes isto?</p> - -<p>—Porque assim é preciso, amigo.</p> - -<p>—Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!</p> - -<p>—Não!</p> - -<p>—Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita -de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento: -sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery -não te custa nada.</p> - -<p>Cecilia chorava; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e seu filho estavão commovidos; <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana -mesma parecia enternecida.</p> - -<p>—Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa, -se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana. -Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.</p> - -<p>—Porque então mandas Pery embora?</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um -pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da -religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.</p> - -<p>—Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a -quem amamos, respeitamos e obedecemos.</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o -adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.</p> - -<p>—O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua -tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.</p> - -<p>Houve um momento de silencio; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não sabia o que replicar.</p> - -<p>—Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas -que Pery vá, senhora?</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas -prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.</p> - -<p>—Sim! balbuciou Cecilia.</p> - -<p>O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.</p> - -<p>O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo -das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira -vez sente-se vencida pela dôr.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-X">X -<br />DESPEDIDA</h3> -</div> - - - - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:</p> - -<p>—O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim -mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a -sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos -nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e -de tua senhora e no meu.</p> - -<p>O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e -voltou-se para seu filho:</p> - -<p>—Este papel, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa -ser prisioneiro, que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por -elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos -deixo a cumprir, meu filho.</p> - -<p>—Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa -divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em -satisfação dos meus proprios sentimentos.</p> - -<p>—Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao -indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos -todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo -onde nasceste.</p> - -<p>Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, -como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não -podião exprimir.</p> - -<p>Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força -invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua -senhora.</p> - -<p>A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, -e deitou-a no pescoço do indio:</p> - -<p>—Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.</p> - -<p>—Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.</p> - -<p>Cecilia estremeceu.</p> - -<p>O selvagem ergueu-se, e caminhou para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, que não -podia dominar a sua emoção.</p> - -<p>—Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a -terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não -voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a -alegria se partisse no fim da lua.</p> - -<p>—Por que razão? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio; desde que é necessario que nos -separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.</p> - -<p>—Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery -estaria comtigo para defender-te.</p> - -<p>—Vou ser atacado? exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio pensativo.</p> - -<p>—Sim: podes contar.</p> - -<p>E por quem?</p> - -<p>—Pelo Aymoré.</p> - -<p>—E como sabes isto? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio fitando nelle um olhar -desconfiado.</p> - -<p>O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.</p> - -<p>—Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou -sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e -caminharem para sua tribu.</p> - -<p>—E tu o que fizeste?</p> - -<p>—Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.</p> - -<p>O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.</p> - -<p>—É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu -não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e -meus.</p> - -<p>O indio sorrio tristemente.</p> - -<p>—Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, -e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.</p> - -<p>Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a -principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a -fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que -apparecia no saio de algodão do indio.</p> - -<p>Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais -distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado -a solução de um difficil problema.</p> - -<p>—Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.</p> - -<p>Pery recuou um passo; mas <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio lançando-se para elle entreabrio o -talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, -e viu que estavão descarregadas.</p> - -<p>O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio -com admiração profunda.</p> - -<p>—Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é -de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o -coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, -que vistes um dia <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de -sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.</p> - -<p>O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado -pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas -restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e -confuso, parecia um criminoso em face do juiz.</p> - -<p>—Vamos, Pery, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo -para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.</p> - -<p>—Falla.</p> - -<p>—Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no -banho?</p> - -<p>—Foi Pery.</p> - -<p>—Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?</p> - -<p>Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.</p> - -<p>—Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos -selvagens?</p> - -<p>Pery não respondeu.</p> - -<p>—É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te -offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.</p> - -<p>—Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.</p> - -<p>O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.</p> - -<p>—Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.</p> - -<p>Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse -com um tom supplicante:</p> - -<p>—Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo -embora, depois do que fez por mim?</p> - -<p>—Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da -guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e -para sempre.</p> - -<p>Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos -labios de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p> - -<p>—Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana com uma -expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela -segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por -nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma -dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva -sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi -não estivera?</p> - -<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o -seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. -As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.</p> - -<p>—Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, -sou eu que vos peço agora esta graça, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; tenho -tambem a minha divida a pagar.</p> - -<p>O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe -estendêra.</p> - -<p>Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para -o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu -pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, -e seguiria o exemplo que lhe dava.</p> - -<p>Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou -estupefacto.</p> - -<p>O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma -indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.</p> - -<p>Pela manhã, depois do almoço, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, chegando a uma -janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do -<i>Paquequer</i>. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava -que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande -corpulencia.</p> - -<p>Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e -monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de -jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa -em que atravessou para a margem opposta.</p> - -<p>Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu -pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma -de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os -selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento -cerrou-lhe o coração.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um -receio vago quando soube da morte que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo tinha feito -involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que -se tinha mostrado tão severo com seu filho.</p> - -<p>Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, -aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela -disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte -presentimento.</p> - -<p>Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre -sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra -naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia -definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás -vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á -casa.</p> - -<p>Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente -enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não -queria assustar sua mulher.</p> - -<p>O mais já sabemos.</p> - -<p>Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, -e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.</p> - -<p>Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; -recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel -havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o -houvesse presenciado.</p> - -<p>A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante -o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o -saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um -raio de luz para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p> - -<p>O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos -conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar -os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do -que se passava.</p> - -<p>Pery, beijando a mão de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, Cecilia contente e risonha, <abbr title="Dom">D.</abbr> -Antonio de Mariz e <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo contemplando o indio com um olhar de -gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao -escudeiro.</p> - -<p>Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente -com o fim de contar o occorrido e pedir a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz licença -para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse -despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; -mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, -Ayres Gomes não hesitava.</p> - -<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle -não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.</p> - -<p>—Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo -que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo -dedicado de toda a minha familia.</p> - -<p>Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer -a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão -que o havia injuriado?</p> - -<p>Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o -pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.</p> - -<p>—Vamos, Ayres!</p> - -<p>O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão -sorrindo.</p> - -<p>—Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.</p> - -<p>Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha -passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.</p> - -<p>—Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre -mostrar o que és.</p> - -<p>Era hora do jantar: o toque soou.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-XI">XI -<br />TRAVESSURA</h3> -</div> - - - - -<p>Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão -passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma -da outra.</p> - -<p>Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa -belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de -uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.</p> - -<p>O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão -os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que -fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a -contemplavão.</p> - -<p>Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento -elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e -lembrava-se dos anginhos de Deus.</p> - -<p>Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito -apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso, -lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.</p> - -<p>No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um -certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que -costumava praticar.</p> - -<p>Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos; -parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente -Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua -alma.</p> - -<p>Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida -dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de -jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola -brilhante que bem se podia chamar <i>a alma do amor</i>.</p> - -<p>O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a -luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve -roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe -sensações voluptuosas.</p> - -<p>Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem -comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua -prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno -semblante.</p> - -<p>—Como estás bonita! disse a menina de repente.</p> - -<p>E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo -suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.</p> - -<p>—Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de -Cecilia.</p> - -<p>É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.</p> - -<p>Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a -verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.</p> - -<p>—Vamos busca-lo?</p> - -<p>—Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.</p> - -<p>—Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.</p> - -<p>—Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.</p> - -<p>Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.</p> - -<p>Tinhão chegado á frente da casa. <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana conversava com seu filho -<abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, emquanto <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela -esplanada conversando.</p> - -<p>Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do -joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.</p> - -<p>—Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está -tão linda! Se eu vos pedisse e ao <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro para que nos -acompanhassem?</p> - -<p>—Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo -galanteando; cumpririamos a tua ordem.</p> - -<p>—Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!</p> - -<p>—E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?</p> - -<p>—Assim, nos acompanhais?</p> - -<p>—De certo.</p> - -<p>—E vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p> - -<p>—Eu... obedeço.</p> - -<p>Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a -perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.</p> - -<p>Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a -durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez -lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da -sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e -satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa -de que elle se accusava.</p> - -<p>A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que -de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem -guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára -Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio o -chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho -encantador que ia esvaecer-se.</p> - -<p>As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas -de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás -vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela -vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por -detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por -algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se -ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.</p> - -<p>Uma occasião porém Cecilia deixou que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e Alvaro se -aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão -brejeiro, que Isabel ficou inquieta.</p> - -<p>—Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.</p> - -<p>—Sim! E o que é?</p> - -<p>—Um segredo.</p> - -<p>—Pois vem contar-m'o.</p> - -<p>Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o -braço.</p> - -<p>—Tende paciencia por um instante, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella voltando-se; -conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo -bracelete... Ainda não o vistes?</p> - -<p>E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella -tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e -Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir -o seu effeito.</p> - -<p>A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é -impossivel de descrever.</p> - -<p>Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a -enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua -prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.</p> - -<p>Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia -tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não -podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que -devia ser um segredo entre ambos.</p> - -<p>Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos; -avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o -olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o -seu braço mimoso.</p> - -<p>Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma -explicação, animou-se a romper o silencio:</p> - -<p>—Que significa tudo isto, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel? perguntou elle supplicante.</p> - -<p>—Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.</p> - -<p>—Como?</p> - -<p>—Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me -fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...</p> - -<p>—Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?</p> - -<p>—Nunca!... exclamou a moça com fogo.</p> - -<p>Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra; -parecia dar um juramento.</p> - -<p>—Qual o motivo? perguntou depois de um momento.</p> - -<p>A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e -tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse -teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem -o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um -mysterio, e desejava esclarecê-lo.</p> - -<p>Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:</p> - -<p>—Perdoai-me, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o -que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes -escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar -com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?</p> - -<p>Isabel estremeceu.</p> - -<p>—Fallai: eu vos escuto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr>Alvaro.</p> - -<p>—Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste -bracelete, não é verdade?</p> - -<p>—Sim! balbuciou a moça.</p> - -<p>—Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço. -Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até -que ponto zombão de mim.</p> - -<p>—Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.</p> - -<p>—E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?</p> - -<p>—Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do -coração.</p> - -<p>—Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!</p> - -<p>Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça -implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e -revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle -havia dado.</p> - -<p>Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse -merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que -lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.</p> - -<p>A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida; -seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu -vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar -ardente cahia sobre o moço e o fascinava.</p> - -<p>—Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer -assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.</p> - -<p>—E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.</p> - -<p>—Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me -annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo -receber-se a má nova de voz amiga!</p> - -<p>Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:</p> - -<p>—Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!</p> - -<p>—E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim -um amigo.</p> - -<p>—Se fosseis!...</p> - -<p>E os olhos de Isabel scintillárão.</p> - -<p>—Acabai!</p> - -<p>—Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.</p> - -<p>—Perdoar-vos, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe? -disse Alvaro admirado.</p> - -<p>A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.</p> - -<p>Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da -parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu -espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.</p> - -<p>Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que -tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o -cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um -enigma.</p> - -<p>—<abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel!</p> - -<p>A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.</p> - -<p>—Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.</p> - -<p>—Não m'o pergunteis!...</p> - -<p>—Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós? -Dizei!</p> - -<p>—Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.</p> - -<p>—Tanto tempo ha que supplico-vos!</p> - -<p>Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della -esperava emfim uma resposta.</p> - -<p>Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão -das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as -faces.</p> - -<p>—Me perdoareis?</p> - -<p>—Sim! Mas porque?</p> - -<p>—Porque...</p> - -<p>Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução -subita se tinha operado em toda a sua organisação.</p> - -<p>O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão -abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas -que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.</p> - -<p>O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a -menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia -transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.</p> - -<p>As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço, -ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia -esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos -labios.</p> - -<p>Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do -rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha -ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se -nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se -pelas fórmas palpitantes.</p> - -<p>Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a -primeira palavra.</p> - -<p>Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor -desfallecida sobre a haste, murmurou:</p> - -<p>Porque... vos amo!</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-XII">XII -<br />AS MENSAGENS DE PERY</h3> -</div> - - - - -<p>Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas -veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.</p> - -<p>Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração -leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o -amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma -profanação.</p> - -<p>A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento -rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava -ajoelhada aos pés do cavalheiro.</p> - -<p>Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto -tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se, -embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.</p> - -<p>—Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.</p> - -<p>—Não tenho que perdoar-vos, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel, respondeu o moço erguendo-a; -peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.</p> - -<p>—Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha -mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem -mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!</p> - -<p>E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.</p> - -<p>—Que desejais de mim? perguntou o moço.</p> - -<p>—Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós -será para mim um consolo. M'o negareis?</p> - -<p>Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um -desespero surdo e concentrado.</p> - -<p>—Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um -irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.</p> - -<p>—Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.</p> - -<p>—E uma affeição calma e serena que vai bem outras, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel.</p> - -<p>A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas -palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a -suffocava.</p> - -<p>Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; o -que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel -era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já -cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava -como pai.</p> - -<p>—Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me -por vosso irmão.</p> - -<p>—Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua -irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?</p> - -<p>—Sim, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel.</p> - -<p>—Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente? -perguntou ella com timidez.</p> - -<p>Alvaro hesitou.</p> - -<p>—Sim, Isabel.</p> - -<p>A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os -labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o -acariciavão.</p> - -<p>—Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É -preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.</p> - -<p>—Contai-me as vossas magoas.</p> - -<p>—Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero -mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.</p> - -<p>—Culpada! Em que!</p> - -<p>—Em querer-vos, disse Isabel corando.</p> - -<p>Alvaro tornou-se frio e reservado.</p> - -<p>—Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me, -depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.</p> - -<p>A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro -não pode resistir.</p> - -<p>—Fallai, minha irmã.</p> - -<p>—Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo, -e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me -queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; -entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que -me tratão fez-me desprezar a outra.</p> - -<p>—Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de -<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>—Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo -que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar -alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...</p> - -<p>—Tendes razão, Isabel.</p> - -<p>—Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição -que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a -amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.</p> - -<p>A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.</p> - -<p>—Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o -percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e -conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.</p> - -<p>O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.</p> - -<p>—Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões, -sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um -prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de -lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se -aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso -semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o -raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um -gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão -as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me -fallavão...</p> - -<p>Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro -palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a -ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.</p> - -<p>—Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me -deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo. -Podeis-me ouvir sem temor.</p> - -<p>—Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.</p> - -<p>—Resta a explicação que ha pouco me pedieis.</p> - -<p>—Ah! emfim!</p> - -<p>Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que -guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e -o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.</p> - -<p>—Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração, -donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos -aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A -esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e -fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes -que lembrar-vos de mim para odiar-me!</p> - -<p>—Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós -senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela -affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.</p> - -<p>O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e, -apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para -reflectir sobre o que lhe acontecia.</p> - -<p>Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado; -e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz -lhe dava a mão de sua filha!</p> - -<p>Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do -coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa; -caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de -arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.</p> - -<p>Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo -estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião -perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.</p> - -<p>A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os -olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez -temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore -começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a -aproximação da noite.</p> - -<p>Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente -sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante -de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o -movimento que lhe tinha imprimido o arco.</p> - -<p>O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo -aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão -de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.</p> - -<p>Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do -rosto de Cecilia.</p> - -<p>Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade, -tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião -uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.</p> - -<p>—Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.</p> - -<p>—Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar; -queres?</p> - -<p>—Pery te pede.</p> - -<p>—Quaes achas mais bonitas?</p> - -<p>—A de teu rosto, e a de teus olhos.</p> - -<p>Cecilia sorrio.</p> - -<p>—Toma-as; eu te as dou.</p> - -<p>Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e -brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra -tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.</p> - -<p>Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta, -tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da -phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.</p> - -<p>Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um -aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou -mensageira muda, uma simples interjeição: <em>Alto</em>!</p> - -<p>O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia -dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação -com esse mysterio que apenas deixara entrever.</p> - -<p>Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com -o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse -attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do -indio.</p> - -<p>Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os -braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava -no fundo azul do horizonte, esperou.</p> - -<p>Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no -tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se; -Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á -ordem.</p> - -<p>Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do -cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em -duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a -trinta passos do lugar onde parára a principio.</p> - -<p>Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que -acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem -ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no -arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.</p> - -<p>Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais -ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde -conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão -cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.</p> - -<p>Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia -segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma -sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao -ouvido uma palavra.</p> - -<p>—São elles.</p> - -<p>—Elles quem?</p> - -<p>—Os inimigos brancos.</p> - -<p>—Não te entendo.</p> - -<p>—Espera: Pery volta.</p> - -<p>E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava -rapidamente.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-XIII">XIII -<br />TRAMA</h3> -</div> - - - - -<p>Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.</p> - -<p>O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; -passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por -lhe escaparem os seus inimigos.</p> - -<p>Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e -o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os -homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas -nunca homens de energia e resolução.</p> - -<p>Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e -Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal -parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos -meios de sahir da posição difficil em que se achava.</p> - -<p>Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando -receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que -complicasse a situação.</p> - -<p>Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia -nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que -respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.</p> - -<p>—Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.</p> - -<p>—Como sabeis?</p> - -<p>—Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?</p> - -<p>—É verdade; mas quem foi então?</p> - -<p>—Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem -que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.</p> - -<p>Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara -silencioso.</p> - -<p>—Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?</p> - -<p>—Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.</p> - -<p>O italiano sorrio de escarneo.</p> - -<p>—Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por -este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido -que devemos tomar.</p> - -<p>—Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em -tudo isto uma cousa sobrenatural.</p> - -<p>—Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com -impaciencia.</p> - -<p>—Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de -creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia -da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.</p> - -<p>Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, -onde tivera lugar a sua entrevista.</p> - -<p>—Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma -palavra sequer.</p> - -<p>Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o -som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e -perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se -porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava -até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação -da scena anterior.</p> - -<p>—Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra -vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.</p> - -<p>—Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra -observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; -desconfia apenas.</p> - -<p>—Ainda insistis em que fosse um homem?</p> - -<p>—Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do -que de uma cobra; é de um homem visionario.</p> - -<p>—Visionario! dizei crente!</p> - -<p>—Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em -espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde -servireis de carniça aos urubús.</p> - -<p>O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da -pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos -corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.</p> - -<p>—Pensastes?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Admittis que fosse um homem?</p> - -<p>—Admitto tudo.</p> - -<p>—Jurais?</p> - -<p>—Juro.</p> - -<p>—Sobre...</p> - -<p>—Sobre minha salvação.</p> - -<p>O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao -Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.</p> - -<p>Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão -feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.</p> - -<p>Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma -hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A -posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances -da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do -abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.</p> - -<p>Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o -abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste -homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do -gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento -do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se -expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol -ardente que fazia borbulhar o sangue.</p> - -<p>Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões -violentas.</p> - -<p>Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na -contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e -fugia-lhe.</p> - -<p>A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue -quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever -inspirar senão affeições castas.</p> - -<p>A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. -Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e -arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?</p> - -<p>Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no -mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro -sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia -conquistar.</p> - -<p>Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua -como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.</p> - -<p>—Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui -mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?</p> - -<p>—Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto -antes, e andar dia e noite sem parar.</p> - -<p>—E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?</p> - -<p>—Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, -obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda -a parte.</p> - -<p>—Que propondes então?</p> - -<p>—Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos -descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; -ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.</p> - -<p>—Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a -nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que -devemos ganhar tudo ou perder tudo.</p> - -<p>Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.</p> - -<p>—Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.</p> - -<p>—Com oito.</p> - -<p>—E vós, Bento?</p> - -<p>—Sete.</p> - -<p>—Decididos?</p> - -<p>—Promptos ao menor signal.</p> - -<p>—Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da -batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso -que á noite tudo esteja concluido.</p> - -<p>—E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.</p> - -<p>—Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da -casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará -signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda -esperança de salvar-se.</p> - -<p>Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas -fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.</p> - -<p>Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de -sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.</p> - -<p>Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros -carregar as suas, e disse-lhes:</p> - -<p>—Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é -nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em -todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.</p> - -<p>Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com -as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.</p> - -<p>Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous -passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia -produzida pela correnteza do vento.</p> - -<p>Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros -como a sua sombra; o indio deixando <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio dera pela sua ausencia, e -conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua -procura.</p> - -<p>O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando -Bento Simões parou:</p> - -<p>—Quem entrará primeiro?</p> - -<p>—A sorte decidirá, respondeu Ruy.</p> - -<p>—Como?</p> - -<p>—Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro -chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.</p> - -<p>—Está dito!</p> - -<p>Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.</p> - -<p>Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; -como Loredano, elle tambem disse, comsigo:</p> - -<p>—O ultimo será o primeiro.</p> - -<p>E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros -sem que um percebesse a morte dos outros.</p> - -<p>Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando -Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no -chão ao fio comprido do lombo.</p> - -<p>Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já -ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.</p> - -<p>O plano de Pery tinha gorado.</p> - -<p>—Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou -cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.</p> - -<p>O aventureiro não replicou.</p> - -<p>Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião -favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de -longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que -ião os aventureiros; despedindo uma <span id="Nota43">setta por elevação</span> dera ao -cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.</p> - -<p>Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, -espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um -e um, mata-los.</p> - -<p>Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.</p> - -<p>Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, -Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio -com seu pai e sua prima.</p> - -<p>A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; -escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse -assustar a menina, quanto mais offendê-la.</p> - -<p>Bento Simões passou incolume.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h3 class="nobreak" id="p2-XIV">XIV -<br />A CHACARA -</h3> -</div> - - - - -<p>Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.</p> - -<p>Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe -escapavão por uma especie de fatalidade.</p> - -<p>O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; -modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os -tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava -que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle -sabia.</p> - -<p>Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este -expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano -executara sua trama.</p> - -<p>O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a -<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já -acudido ao pensamento do indio.</p> - -<p>Foi ter com Alvaro que o esperava.</p> - -<p>O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição -quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para -sempre.</p> - -<p>Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de -Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta -lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela -mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.</p> - -<p>Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer -repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os -olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.</p> - -<p>Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da -cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o -echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.</p> - -<p>O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella -imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola -esplendida.</p> - -<p>Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; -passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o -incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de -suas esperanças.</p> - -<p>Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e -desapego da vida, que succedem ás dores profundas.</p> - -<p>—Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?</p> - -<p>—Sim; respondeu o indio.</p> - -<p>—Quero conhecê-los.</p> - -<p>—Para que?</p> - -<p>—Para ataca-los.</p> - -<p>—Mas são tres.</p> - -<p>—Melhor.</p> - -<p>O indio hesitou:</p> - -<p>—Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle -morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.</p> - -<p>—Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?</p> - -<p>—Pery póde; mas não quer dizer.</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás -os máos.</p> - -<p>—Oh! que não. Falla!</p> - -<p>—Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas -a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.</p> - -<p>—Como?</p> - -<p>—Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, -a todos da casa. Tem outros que os seguem.</p> - -<p>—Uma revolta!... exclamou Alvaro.</p> - -<p>—O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não -deixará.</p> - -<p>—É impossivel! disse o moço surprendido.</p> - -<p>Pery te diz verdade.</p> - -<p>—Não creio!...</p> - -<p>Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma -exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, -não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de -sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.</p> - -<p>O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca -durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um -só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de -disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas -não passava disto.</p> - -<p>O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se -obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu -cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.</p> - -<p>—Tu duvidas de Pery?</p> - -<p>—Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; -mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.</p> - -<p>—Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o -indio com firmeza.</p> - -<p>—Que queres dizer com isto?</p> - -<p>—Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se -elle perder a vida dirás ainda que se engana?</p> - -<p>Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.</p> - -<p>—Melhor é que falles a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p> - -<p>—Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; -Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar -o bote.</p> - -<p>—Mas então o que queres de mim?</p> - -<p>—Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle -fez; que salves a senhora!</p> - -<p>—Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro -senão contra o ferro!</p> - -<p>O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.</p> - -<p>—Tu não amas Cecy!</p> - -<p>Alvaro estremeceu.</p> - -<p>—Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.</p> - -<p>—Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida -sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria -de meu pai.</p> - -<p>Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a -mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as -circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.</p> - -<p>Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão -todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse -quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do -dever.</p> - -<p>Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em -torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; -sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé -dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.</p> - -<p>Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra -filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, -comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas -Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os -grandes sentimentos.</p> - -<p>Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de -sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.</p> - -<p>O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do -cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a -mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:</p> - -<p>—Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; -tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno -das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade -de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.</p> - -<p>—Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o -teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a -minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em -torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que -passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua -senhora.</p> - -<p>—Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das -florestas; Pery te chamaria irmão.</p> - -<p>Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro -lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de -defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e -prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.</p> - -<p>O indio tinha a sua idéa.</p> - -<p>Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que -occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.</p> - -<p>Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na -cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores -para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco -do jardim.</p> - -<p>Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta -abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava -no vão esclarecido.</p> - -<p>A menina avistando o indio correu para elle:</p> - -<p>—Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? -E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! -Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.</p> - -<p>—Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para -elle ficar.</p> - -<p>—Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.</p> - -<p>—O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio -simplesmente.</p> - -<p>—Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de -contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me -salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; -todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.</p> - -<p>O indio sorrio:</p> - -<p>—Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?</p> - -<p>—Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe -ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo e o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro.</p> - -<p>Pery abanou a cabeça.</p> - -<p>—Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do -céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo -isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma -cruz no peito. Sim?</p> - -<p>—A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para -abrir; Pery precisa de liberdade para viver.</p> - -<p>—Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!</p> - -<p>—Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o -peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o -passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida -em que nasceu.</p> - -<p>Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.</p> - -<p>—Não te zanga, senhora.</p> - -<p>—Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te -chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.</p> - -<p>E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu -para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.</p> - -<p>O indio voltou pezaroso á sua cabana.</p> - -<p>De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma -antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os -sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da -musica.</p> - -<p>A chacara dizia assim:</p> - -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">Foi um dia.—Infanção mouro</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Deixou</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Alcaçar de prata e ouro.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">Montado no seu corcel,</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Partio</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Sem pagem, sem anadel.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">Do castello á barbacã</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Chegou</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Viu formosa castellã.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">Aos pés daquella a quem ama</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Jurou</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Ser fiel á sua dama.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">A gentil dona e senhora</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Sorrio;</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Ai! que isenta ella não fora</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">«Tu és mouro; eu sou christã:»</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Fallou</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">A formosa castellã.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">«Mouro, tens o meu amor:</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Christão,</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Serás meu nobre senhor.»</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">Sua voz era um encanto,</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">O olhar</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Quebrado, pedia tanto!</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">«Antes de ver-te, senhora,</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Fui rei;</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Serei teu escravo agora.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">«Por ti deixo meu alcaçar</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Fiel;</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Meus paços d'ouro e de nacar.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">«Por ti deixo o paraiso;</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Meu céo</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">É teu mimoso sorriso.»</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">A dona em um doce enleio</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Tirou</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Seu lindo collar do seio.</span><br /></div> - -<div class="stanza"> -<span style="margin-left: 2.5em;">E duas almas christãs,</span><br /> -<span style="margin-left: 6em;">Na cruz</span><br /> -<span style="margin-left: 2.5em;">Um beijo tornou irmãs.</span><br /></div> -</div> - -<p>A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um -momento as suas doces modulações.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_SEGUNDA_PARTE"><span class="small">FIM DA SEGUNDA PARTE.</span></h2> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 id="Notas">NOTAS - -<br />DO TOMO PRIMEIRO.</h2> - - -<p>PAG. 3.—<b><a href="#Nota1">Guarany</a></b>.</p> - -<p>O titulo que damos a este romance significa o <i>indigena brazileiro</i>. Na -occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes -a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e -expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta -raça pelo nome <i>Tupi</i> mas esta denominação não era usada senão por -algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia -dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome -primitivo da grande nação.</p> - - -<p>PAG. 3.—<b><a href="#Nota2">O Paquequer</a></b>.</p> - -<p>Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer -naquella epoca, lêa-se <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da Silva Lisboa, <i>Annaes do Rio de -Janeiro</i>, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café -transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e -desertos.</p> - - -<p>PAG. 4.—<b><a href="#Nota3">Brazão d'armas</a></b>.</p> - -<p>Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos <i>Annaes do Rio -de Janeiro</i>, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei -litteralmente.</p> - - -<p>PAG. 11.—<b><a href="#Nota4"><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz</a></b>.</p> - -<p>Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu -passado, antes da epoca em que começa o romance.</p> - -<p>Nos <i>Annaes do Rio de Janeiro</i>, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve -noticia sobre sua vida.</p> - - -<p>PAG. 13.—<b><a href="#Nota5"><abbr title="Dom">D.</abbr> Pedro da Cunha</a></b>.</p> - -<p>Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla -Warnhagen na sua historia do Brazil.</p> - - -<p>PAG. 16.—<b><a href="#Nota6">Aventureiros</a></b>.</p> - -<p>O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda -de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas. -Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a -necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares -para as conquistas e explorações.</p> - - -<p>PAG. 14.—<b><a href="#Nota7"><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana</a></b>.</p> - -<p>Segundo <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa a mulher de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz chamava-se -Lauriana Simoa, e era natural de <abbr title="São">S.</abbr> Paulo.</p> - - -<p>PAG. 19.—<b><a href="#Nota8"><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de Mariz</a></b>.</p> - -<p>Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega -do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes. -<abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa.—<i>Annaes</i>.</p> - - -<p>PAG. 20.—<b><a href="#Nota9">Pistoletes</a></b>.</p> - -<p>Ou arcabuzes pequenos. Pela <abbr title="ordem">ord.</abbr> <abbr title="numero">n°</abbr> 5, <abbr title="título">tit.</abbr> 80, <abbr title="seção">s.</abbr> <abbr title="décimo terceira">13ª</abbr>, era defesa -trazê-los armados ou tê-los em casa.</p> - - -<p>PAG. 32.—<b><a href="#Nota10">Um indio</a></b>.</p> - -<p>O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se -encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os -escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da -regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por -Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a -raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou -depois.</p> - - -<p>PAG. 38.—<b><a href="#Nota11">Forcado</a></b>.</p> - -<p>Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria, -é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que -cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados -já estão.</p> - - -<p>PAG. 40.—<b><a href="#Nota12">Ticum</a></b>.</p> - -<p>O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os -Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para -cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina -de almocega era fortissimo.</p> - - -<p>PAG. 42.—<b><a href="#Nota13">Biribá</a></b>.</p> - -<p>Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito, -roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> -Lisboa.—<i>Annaes</i>.</p> - - -<p>PAG. 43.—<b><a href="#Nota14">Gardenia</a></b>.</p> - -<p>Nome scientifico que <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena -silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a -mais commum é a branca e escarlate.</p> - - -<p>PAG. 73.—<b><a href="#Nota15">Pery</a></b>.</p> - -<p>Palavra da lingua guarany que significa <i>junco silvestre</i>.</p> - - -<p>PAG. 80.—<b><a href="#Nota16">Oleo</a></b>.</p> - -<p>É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de -cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura.</p> - - -<p>PAG. 94.—<b><a href="#Nota44">Hirara</a></b>.</p> - -<p>Especie de gato selvagem, indigena do Brazil.</p> - - -<p>PAG. 100.—<b><a href="#Nota17">Soffrer</a></b>.</p> - -<p>É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um -negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por -que os primeiros colonos lhe derão esse nome.</p> - - -<p>PAG. 102.—<b><a href="#Nota18">Cecy</a></b>.</p> - -<p>É um verbo da lingua guarany que significa <i>magoar</i>, <i>doer</i>.</p> - - -<p>PAG. 106.—<b><a href="#Nota19">Sapucaia</a></b>.</p> - -<p>Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição -de um côco.</p> - - -<p>PAG. 107.—<b><a href="#Nota20">Pequiá</a></b>.</p> - -<p>Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de -brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro.</p> - - -<p>PAG. 111.—<b><a href="#Nota21">O cactus</a></b>.</p> - -<p>Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o -rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão <i lang="gn">urumbeba</i>. Todos elles -abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol.</p> - - -<p>PAG. 111.—<b><a href="#Nota22">Graciola</a></b>.</p> - -<p>É o nome scientifico que <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Velloso na sua <i>Flora Fluminense</i> dá á -pequena flôr azul de um arbusto indigena.</p> - - -<p>PAG. 111.—<b><a href="#Nota23">Malvalisco</a></b>.</p> - -<p>Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira, -cuja flor é escarlate.</p> - - -<p>PAG. 112.—<b><a href="#Nota24">Viuvinha</a></b>.</p> - -<p>Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro -que saúda o nascimento do dia.</p> - - -<p>PAG. 113.—<b><a href="#Nota25">Jasmineiro</a></b>.</p> - -<p>Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous -botanicos que citamos acima.</p> - - -<p>PAG. 115.—<b><a href="#Nota26">Colhereira</a></b>.</p> - -<p>É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma -bella côr de rosa.</p> - - -<p>PAG. 146.—<b><a href="#Nota27">O cão</a></b>.</p> - -<p>Diz o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o -companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu.</p> - - -<p>PAG. 149.—<b><a href="#Nota28">Cabuiba</a></b>.</p> - -<p>A cabuiba ou cabureiba, <i lang="la">Balsamum Peruvianum</i> de Pison, <i lang="la">Cabuibaiba</i> de -Maregrave e <i lang="la">Miroxilem Cabriuva</i> de outros naturalistas, é uma arvore -das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama -arvore do balsamo.</p> - -<p>Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para -cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa e Ayres do Casal.)</p> - - -<p>PAG. 154.—<b><a href="#Nota29">Formigueiro</a></b>.</p> - -<p>No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas, -feitas por uma formiga, a que os indios chamárão <i>taciahy</i>.</p> - - -<p>PAG. 161.—<b><a href="#Nota30">Garcia Ferreira</a></b>.</p> - -<p>Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro -por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da Silva -Lisboa.)</p> - - -<p>PAG. 163.—<b><a href="#Nota31">Roberio Dias</a></b>.</p> - -<p>Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de -prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia; -pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado. -Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão.</p> - -<p>Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das -minas. (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa.)</p> - - -<p>PAG. 177.—<b><a href="#Nota32">Convento do Carmo</a></b>.</p> - -<p>«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de -José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Pedro, -para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o -anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590, -pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição -geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa, <abbr title="tomo">tom.</abbr> -VII°, <abbr title="capítulo">cap.</abbr> 2°, <abbr title="seção">§</abbr> 6.)</p> - - -<p>PAG. 196.—<b><a href="#Nota33">Arvores de ouro</a></b>.</p> - -<p>A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta -flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á -embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (<abbr title="Gabriel">G.</abbr> Soares, <i>Roteiro do -Brazil</i>, e <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa <i>Annaes</i>).</p> - -<p>Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase -figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de -setembro.»</p> - - -<p>PAG. 196.—<b><a href="#Nota34">O mais forte</a></b>.</p> - -<p>É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que -tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de -hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era -ephemero.</p> - - -<p>PAG. 197.—<b><a href="#Nota35">Taba dos brancos</a></b>.</p> - -<p>Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito -Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um -desses combates que o indio conta de passagem.</p> - - -<p>PAG. 198.—<b><a href="#Nota36">Senhora dos brancos</a></b>.</p> - -<p>Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na -occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de -Nossa Senhora, que o impressionou vivamente.</p> - - -<p>PAG.—<b><a href="#Nota37">A estrella grande</a></b>.</p> - -<p>O que dizem alguns chronistas, a respeito da ignorancia absoluta dos -indigenas sobre a astronomia, me parece inexacto. Os Guaranys tinhão os -conhecimentos rudes, filhos da observação. Chamavão a estrella -<i>jacy-tato</i>, fogo da lua; suppunhão pois que a lua é que transmittia a -luz ás estrellas. Conhecião as quatro phases da lua: a lua nova, -<i>jacy-peçaçu</i>; o quarto crescente, <i>jacy-jemorotuçu</i>; a lua cheia, -<i>jacy-caboaçu</i>; e o quarto minguante, <i>jacy-jearoca</i>. Dividião o anno -em duas estações: a estação do sol, <i>coaracyara</i>, e a estação da -chuva, <i>ama'na-ara</i>; são as mesmas que hoje conhecemos, e as unicas que -realmente existem no Brazil. Muitas outras observações podiamos fazer, -que omittimos para evitar prolixidade.</p> - - -<p>PAG. 199.—<b><a href="#Nota38">Grande rio</a></b>.</p> - -<p>Esta palavra é relativa: todas as nações chamavão assim o maior rio -que havia no territorio que ellas conhecião, e é por isso que se -encontrão tantos <em>rios grandes</em> nos nomes dos rios do nosso paiz. Para -os Goytacazes o Rio-Grande era o Parabyba.</p> - - -<p>PAG. 218.—<b><a href="#Nota39">A nação goytacaz</a></b>.</p> - -<p>Esses factos lêem-se em qualquer dos escriptores que se têm occupado -dos primeiros tempos coloniaes do Brazil, e especialmente em <abbr title="Gabriel">G.</abbr> Soares, -que foi contemporâneo delles.</p> - - -<p>PAG. 260—<b><a href="#Nota40">Cipós</a></b>.</p> - -<p>Diz Gabriel Soares: «Deu a natureza ao Brazil, por entre os arvoredos, -umas cordas muito rijas, muitas que nascem aos pés dos arvores e -atrepão por ellas acima, a que chamão cipós, com que os indios atão -a madeira de suas casas e os brancos que não podem mais. Nestes mesmos -mattos se crião outras cordas mais delgadas e primas a que os indios -chamavão «timbós,» que são mais rijas que os cipós acima.»</p> - -<p>A quantidade infinita de cipós é uma das originalidades das florestas -do Brazil, e admirou os naturalistas estrangeiros que o visitárão.</p> - - -<p>PAG. 222.—<b><a href="#Nota41">Candêa</a></b>.</p> - -<p>Diz o mesmo autor: «Ha uma arvore meã que se chama «ibiriba» a qual -os Indios fazem em fios para fachos, com que vão mariscar e para -andarem de noite; e ainda que seja verde, cortada daquella hora, pega o -fogo nella como em alcatrão, e não apaga o vento os fachos della; e em -casa servem-se os indios de achas dessa madeira, como de candêas.</p> - - -<p>PAG. 269.—<b><a href="#Nota42">Cauan</a></b>.</p> - -<p>É uma ave que devora as cobras, pelo que ellas fogem della, Os indios, -segundo affirma Ayres do Casal, imitavão o seu canto, quando andavão -á noite pelo matto, e assim preservavão-se de serem mordidos.</p> - - -<p>PAG. 338.—<b><a href="#Nota43">Setta por elevação</a></b>.</p> - -<p>A destreza e a habilidade com que os Indios atiravão a setta era tal, -que os Europeus a admiravão. Para atirarem por elevação, -deitavão-se, seguravão o arco com os dous dedos dos pés e lançavão -ao ar a setta que, subindo, descrevia uma parabola e ia cahir no alvo. -Ainda ha pouco tempo no Pará se vião, nas aldêas de indios já -cathequisados, pareos deste jogo, em que o alvo era um tronco de -bananeira decepado. O tenente Pimentel, filho do presidente de -Matto-Grosso, foi assassinado pelos indios deste modo, cavalgando no -meio de muitos cavalleiros. Nenhum foi ferido: e todas as settas -abatêrão-se sobre o moço de quem os selvagens se querião vingar.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - - -<h2 class="nobreak" id="FIM_DAS_NOTAS_DO_TOMO_PRIMEIRO"><span class="small">FIM DAS NOTAS DO TOMO PRIMEIRO.</span></h2> -</div> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin:0.83em 0; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE<br /> -<span style='font-size:smaller'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE<br /> -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</span> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg™ License when -you share it without charge with others. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you - are not located in the United States, you will have to check the laws - of the country where you are located before using this eBook. - </div> -</blockquote> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase “Project -Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg™ License. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format -other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg™ website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain -Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works -provided that: -</div> - -<div style='margin-left:0.7em;'> - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation.” - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ - works. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg™ works. - </div> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right -of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/67724-h/images/cover.jpg b/old/67724-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index b106359..0000000 --- a/old/67724-h/images/cover.jpg +++ /dev/null |
