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-The Project Gutenberg eBook of O Guarany:, by José Martiniano de
-Alencar
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O Guarany:
- romance brazileiro Vol. 01 (of 2)
-
-Author: José Martiniano de Alencar
-
-Release Date: March 28, 2022 [eBook #67724]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images
- generously made available by Hathi Trust Digital Library.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: ***
-
-
-
-
-
-J. DE ALENCAR
-
-
-O GUARANY
-
-ROMANCE BRAZILEIRO
-
-
-QUINTA EDIÇÃO
-
-
-TOMO PRIMEIRO
-
-
-RIO DE JANEIRO
-
-B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
-71, RUA DO OUVIDOR, 71
-
-PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.
-
-Ficão reservados os direitos de propriedade.
-
-1883
-
-
-
-
-AO LEITOR
-
-
-Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição
-uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a
-rever.
-
-Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema
-benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para
-divida de reconhecimento.
-
-Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos,
-achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem
-corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e
-sobra o tedio de um labor ingrato.
-
-Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o
-desalinho de um estylo não castigado.
-
-
-
-
-INDICE
-PRIMEIRA PARTE
-OS AVENTUREIROS
-I.--Scenario......................................... 5
-II.--Lealdade........................................ 13
-III.--A bandeira..................................... 23
-IV.--A Luta.......................................... 35
-V.--Loura e morena................................... 45
-VI.--A Volta......................................... 57
-VII.--A prece........................................ 63
-VIII.--Tres linhas................................... 81
-IX.--Amor............................................ 91
-X.--Ao alvorecer..................................... 101
-XI.--No banho........................................ 111
-XII.--A onça......................................... 121
-XIII.--Revelação..................................... 133
-XIV.--A india........................................ 145
-XV.--Os tres......................................... 157
-SEGUNDA PARTE
-PERY
-I.--O Carmelita...................................... 175
-II.--Yara!........................................... 191
-III.--Genio do mal................................... 205
-IV.--Cecy............................................ 217
-V.--Vilania.......................................... 231
-VI.--Nobreza......................................... 243
-VII.--No precipicio.................................. 257
-VIII.--O bracelete................................... 269
-IX.--Testamento...................................... 281
-X.--Despedida........................................ 293
-XI.--Travessura...................................... 305
-XII.--As mensagens de Pery........................... 317
-XIII.--Trama......................................... 329
-XIV.--A chacara...................................... 341
-Notas................................................ 353
-
-
-
-
-PRIMEIRA PARTE
-
-
-OS AVENTUREIROS
-
-
-
-
-I
-
-SCENARIO
-
-
-De um dos cabeços da _Serra dos Órgãos_ deslisa um fio d'agua que se
-dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu
-curso de dez leguas, torna-se rio caudal.
-
-É o _Paquequer_: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma
-serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba,
-que rola magestosamente em seu vasto leito.
-
-Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio,
-altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés
-do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e
-serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as
-canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do
-senhor.
-
-Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas
-acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta
-patria da liberdade.
-
-Ahi, o _Paquequer_ lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as
-florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas
-de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De
-repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um
-momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só
-arremesso, como o tigre sobre a presa.
-
-Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e
-adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como
-em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
-
-A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e
-vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que
-corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos
-leques das palmeiras.
-
-Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista,
-tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem
-é apenas um simples comparsa.
-
-No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava
-deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia
-menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o
-interior.
-
-Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa,
-construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma
-muralha de rocha cortada a pique.
-
-A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um
-semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças
-quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita
-metade pela natureza e metade pela arte.
-
-Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada,
-encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma
-fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer,
-chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado
-pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.
-
-Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza
-para crear meios de segurança e defeza.
-
-De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que,
-alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio;
-entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava
-aquelle pequeno valle impenetravel.
-
-A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda
-apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de
-frente, baixas, largas, quasi quadradas.
-
-Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um
-pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado
-esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que
-abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.
-
-No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que
-chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a
-natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do
-rochedo.
-
-Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal
-de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata
-tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e
-graça admiravel.
-
-Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde
-se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de
-gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a
-natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma
-miniatura.
-
-O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma
-cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de
-morada a aventureiros e acostados.
-
-Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se
-uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião
-nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o
-chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta
-habitação selvagem.
-
-Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a
-maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada
-porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do
-edificio.
-
-A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente,
-respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em
-um deserto, como era então aquelle sitio.
-
-As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de
-pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que
-representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.
-
-Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de
-cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata
-sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada
-de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e
-por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.
-
-Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo
-brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um
-oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno
-docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.
-
-Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés
-torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a
-mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.
-
-Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações
-heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e
-era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que
-revelava a presença de uma mulher.
-
-Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis
-de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas
-em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de
-um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.
-
-A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual
-havia um escabello de madeira dourada.
-
-Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras
-hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de
-Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e
-formas exquisitas.
-
-Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia
-definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias
-côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.
-
-Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico
-a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas
-brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos
-olhos profanos.
-
-Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado
-nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso
-que uma fada habitava.
-
-
-
-
-II
-
-LEALDADE
-
-
-A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo
-portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.
-
-Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da
-conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.
-
-Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria
-alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da
-fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa
-capitania.
-
-Fez parte em 1578 da celebre expedição do Dr. Antonio de Salema contra
-os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para
-fazerem o contrabando de páo-brasil.
-
-Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da
-alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo
-pela republica e a sua dedicação ao rei.
-
-Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os
-indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do
-interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o
-governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo
-sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito
-tempo devoluta.
-
-A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio,
-vierão modificar a vida de D. Antonio de Mariz.
-
-Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao
-rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito
-e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil D. Filippe II
-como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a
-espada e retirou-se do serviço.
-
-Por algum tempo esperou a projectada expedição de D. Pedro da Cunha,
-que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então
-sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, D. Antonio, prior do Crato.
-
-Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e
-sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe
-guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão,
-as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que
-lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia
-assentar o seu novo solar, D. Antonio de Mariz erguendo o vulto direito,
-e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em
-torno, exclamou:
-
---Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal,
-que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo
-meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás,
-Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!
-
-Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita
-sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima
-phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol
-que transmontava.
-
-Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os
-trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de
-residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino
-construirão e decorárão a casa que já conhecemos.
-
-D. Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida
-aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á
-sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um
-sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.
-
-Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de
-Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos
-productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e
-hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para
-proverem os seus habitantes de todo o necessario.
-
-Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as
-ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha
-de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma
-resistencia inexpugnavel.
-
-Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus
-selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares
-habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão
-comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.
-
-Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em
-que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e
-que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez
-e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras
-preciosas, que ião vender na costa.
-
-Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos
-indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza
-commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D.
-Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade
-media.
-
-O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo
-aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era
-estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua
-visinhança, estabelecer-se por esses lugares.
-
-Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do
-Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e
-por isso D. Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se
-premunido para qualquer occurrencia.
-
-Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos
-coloniaes, uma banda de aventureiros que lhe servião nas suas
-explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados,
-destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a
-astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma
-especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.
-
-D. Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma
-disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do
-chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual
-na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por
-um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello,
-como sem demora e hesitação.
-
-Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor
-de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios;
-devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação
-dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de
-conservara ordem, a disciplina e a harmonia.
-
-Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior
-á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á
-cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos
-necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros
-pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente
-pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos
-de consumo.
-
-Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa
-pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus
-usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao
-seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa
-superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as
-massas.
-
-Para D. Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua
-fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era
-senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só
-se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da
-corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que
-se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as
-frontes inclinavão.
-
-D. Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a
-consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação
-que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de
-seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de
-sua pequena familia.
-
-Esta se compunha de quatro pessoas:
-
-Sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de
-fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um
-bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de
-um acto de dedicação:
-
-Seu filho, D. Diogo de Mariz, que devia mais tarde proseguir na carreira
-de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço
-na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:
-
-Sua filha, D. Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse
-pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o
-seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:
-
-D. Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de D. Antonio, embora nada
-dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma
-india que havia captivado em uma das suas explorações.
-
-Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes
-personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se
-comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.
-
-Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.
-
-
-
-
-III
-
-A BANDEIRA
-
-
-Era meio dia.
-
-Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas,
-costeava a margem direita do Parahyba.
-
-Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada
-de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta
-dous pistoletes, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado
-a tiracollo pelo hombro esquerdo.
-
-Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de
-caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os
-abrigava da chuva.
-
-Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena
-distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não
-atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo
-a dianteira.
-
-Naquelle tempo dava-se o nome de _bandeiras_ a essas caravanas de
-aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de
-ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras
-ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba,
-era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os
-productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.
-
-Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que
-seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e
-que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito
-garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.
-
---Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de
-diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro
-leguas!
-
-Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á
-cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.
-
---Ao que parece, tendes pressa de chegar, Sr. Alvaro de Sá? disse elle
-com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de
-ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.
-
---De certo, Sr. Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o
-desejo de chegar.
-
---Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais
-natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.
-
---Que quereis dizer com isto, Sr. Loredano? perguntou Alvaro com um
-movimento de enfado.
-
---Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e
-medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes
-das seis horas.
-
-Alvaro corou.
-
---Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos
-chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.
-
---Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer
-dia! replicou o italiano no mesmo tom.
-
-Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o
-seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e
-respondeo:
-
---Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e
-com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.
-
---Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que
-aquelle que não quer ouvir.
-
---Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião:
-foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o
-ensinou? disse o cavalheiro gracejando.
-
---Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos
-Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas
-arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro
-á sua dama.
-
-Alvaro enrubeceo pela terceira vez.
-
-Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava
-meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o
-incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.
-
-Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro
-proseguio com extrema amabilidade:
-
---Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei,
-Sr. cavalheiro?
-
---Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de
-arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas
-galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.
-
---É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz
-lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das
-outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.
-
---Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou
-fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas
-acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.
-
---_Per Bacco_, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos
-pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis
-justo que cada um pense á sua maneira.
-
---Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e
-avançando o passo da sua cavalgadura.
-
-A conversa interrompeo-se.
-
-Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão
-silenciosos uma par do outro.
-
-Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a
-distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia
-pensativo e preoccupado.
-
-Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto,
-cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma
-cansoneta de _condottiere_, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.
-
-Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o
-sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a
-fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro;
-alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os
-principaes traços deste aventureiro.
-
-A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia
-mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.
-
-Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas
-profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa
-folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava
-nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos
-seculares dos acaris e araribás.
-
-O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus
-échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas
-interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as
-folhas seccas.
-
-Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo
-envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.
-
-Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de
-sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se
-de repente nomeio do _claro-escuro_ da floresta.
-
-Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de
-verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe
-indicasse a hora.
-
-Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.
-
---Não vos dê cuidado, Sr. cavalheiro, antes de seis horas lá
-estaremos; sou eu que vo-lo digo.
-
-O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.
-
---Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que
-me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos
-o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos
-guarde de tocar em objectos que são sagrados.
-
-Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto
-conservou-se calmo e sereno.
-
---Bem sabeis que vos devo obediência, Sr. cavalheiro, e não faltarei
-della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que
-tenho dito póde ser mais claro do que é.
-
---Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para
-outros.
-
-Ora dizei-me, Sr. cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me
-ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa
-possivel?
-
---Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em
-adevinhar.
-
---Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta
-expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias
-eis-nos ao cabo della?
-
---Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.
-
---Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com
-satisfação, quando o coração nelle se interessa.
-
---Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e
-colhendo as redeas.
-
-O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:
-
---Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de D. Antonio de
-Mariz, sem duvida?
-
---Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço
-com arrogancia.
-
---Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano
-cortezmente, partistes do _Paquequer_ em uma segunda feira, quando o dia
-designado era um domingo.
-
---Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de
-despeito.
-
-Reparo em tudo, Sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda,
-que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente
-antes do domingo.
-
---E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e
-fazendo um esforço para conter-se.
-
---Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos
-fallei.
-
---E qual é ella, se vos praz?
-
---Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.
-
---Dizei sempre, Sr. Loredano: nada é perdido entre dous homens que se
-entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.
-
---Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D.
-Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no
-_Paquequer_ um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.
-
---Tendes um dom admiravel, Sr. Loredano; o que é de lamentar, é que o
-empregueis em futilidades.
-
---Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a
-olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?
-
---Com effeito é uma boa distracção.
-
---Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos
-outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de
-olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.
-
---Contai-nos isto, ha de ser curioso.
-
---Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor
-ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver
-cousa mais simples?
-
-Alvaro empallideceo desta vez.
-
---Sabeis uma cousa, Sr. Loredano?
-
---Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.
-
---Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos
-muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de
-espião.
-
-O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao
-cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém
-dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.
-
---Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...
-
---Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao
-italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por
-Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como
-a uma cobra venenosa.
-
-A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma
-impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo
-desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os
-traços vigorosos.
-
-Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:
-
---Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos
-diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber
-qual é o que tem a temer!...
-
---Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.
-
---Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem,
-accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.
-
-E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e
-misturou-se com os seus companheiros.
-
-A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se
-de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes
-zimborios de verdura.
-
-Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a
-solidão com os échos estridentes.
-
-Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os
-cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente,
-lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.
-
-
-
-
-IV
-
-A LUTA
-
-
-Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma
-scena curiosa.
-
-Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores,
-encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um indio na flor
-da idade.
-
-Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão _aimará_,
-apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos
-hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto
-como um junco selvagem.
-
-Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre,
-brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a
-tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a
-fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem
-modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a
-belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.
-
-Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do
-lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral,
-vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.
-
-Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa,
-ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé
-pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as
-flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha
-verticalmente diante de si um longo forcado de páo ennegrecido pelo
-fogo.
-
-Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena
-bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga,
-cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.
-
-Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas
-que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava
-imperceptivelmente.
-
-Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de
-um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se
-brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os
-reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.
-
-Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore,
-e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto
-gigantesco.
-
-Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como
-procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma
-especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e
-mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão
-fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.
-
-O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não
-perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e
-serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade
-do olhar revelava um pensamento de defeza.
-
-Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se
-mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre
-agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada
-da clareira.
-
-Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue,
-eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia
-arriscar o ataque.
-
-O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e
-apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição,
-nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.
-
-Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das
-florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua
-marcha.
-
-Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a
-pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de
-impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao
-peito:
-
---É meu!... meu só!
-
-Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e
-sonora, mas em tom de energia e resolução.
-
-O italiano rio.
-
---Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa
-amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a
-tiracollo; ella vo-lo agradecerá.
-
-Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta
-do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se
-elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros
-comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o
-caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração
-offensiva.
-
-Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse
-um só instante com os olhos o inimigo.
-
-Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha,
-e entranhárão-se de novo na floresta.
-
-O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado,
-não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos
-arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da
-matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.
-
-Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore
-houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um
-pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario
-uma distancia de trinta palmos.
-
-O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os
-seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os
-cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.
-
-Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma
-flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda
-do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.
-
-Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a
-pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda,
-açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.
-
-O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns
-nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se
-novamente.
-
-Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou
-tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um
-momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.
-
-Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas
-armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem,
-consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.
-
-O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze
-passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade
-extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo
-raio.
-
-Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o
-corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os
-dentes promptos a cortarlhe a jugullar.
-
-A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em
-que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle
-azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.
-
-Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.
-
-Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava
-na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos
-magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se
-ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo
-com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe
-o collo, e vacillou.
-
-Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao
-lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e
-foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas,
-com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu
-vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.
-
-Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas
-pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim
-immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á
-sua passagem.
-
-Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia
-senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha,
-metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de _ticum_ que tinha
-enrolada á cintura em muitas voltas.
-
-Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e
-passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez
-o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que
-a onça não podesse abrir a bocca.
-
-Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de
-agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara
-cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu
-vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o
-prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião
-impotentes.
-
-Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta,
-e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e
-afogueado.
-
-O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da
-carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava,
-arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do
-sangue quente e fumegante.
-
-Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue
-que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão
-violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo
-e abafado.
-
-O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que
-a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem
-essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela
-tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que
-podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais
-terrivel.
-
-Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na
-matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o
-outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para
-jantar.
-
-Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou
-com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas
-colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as
-mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.
-
-Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro,
-e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a
-picada por onde tinha seguido a cavalgata.
-
-Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma
-moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com
-uma trofa de pennas amarellas.
-
-Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que
-ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra,
-e assim ficou algum tempo.
-
-Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção
-que o outro tomára pouco tempo antes.
-
-
-
-
-V
-
-LOURA E MORENA
-
-
-Cahia a tarde.
-
-No pequeno jardim da casado _Paquequer_, uma linda moça se embalançava
-indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia
-silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas
-e perfumadas.
-
-Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião
-languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as
-palpebras rosadas.
-
-Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da gardenia dos nossos
-campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro
-exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de
-algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião,
-desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.
-
-O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel
-conceber; mistura de luxo e de simplicidade.
-
-Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul
-apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de
-perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as
-mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso
-contorno do seu braço arqueado sobre o seio.
-
-Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças,
-descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma
-resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e
-perfeição admiravel.
-
-A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava
-carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para
-imprimir á rede uma doce oscillação.
-
-Esta moça era Cecilia.
-
-O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel
-descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa,
-deixava que a imaginação corresse livre.
-
-Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das
-madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo
-e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido,
-algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.
-
-Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado,
-roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha
-cahir a seus pés timido e supplicante.
-
-Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces;
-mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um
-gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.
-
-Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz,
-abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo
-cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.
-
-Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha
-offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a
-relva a ponta de um pézinho de menina.
-
-Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de
-preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de
-inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.
-
-Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella
-sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra
-de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia
-desvanecer.
-
-Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e
-outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro,
-aproximou-se da rede.
-
-Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro
-em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de
-languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.
-
-Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos,
-labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de
-seducção irresistivel.
-
-Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde
-furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de
-contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um
-despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.
-
-Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para
-beija-la ou ver se estava dormindo.
-
-Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua
-prima.
-
---Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.
-
---É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que
-projectavão as arvores; está quasi noite.
-
---E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra
-gracejando.
-
---Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me
-sinto triste.
-
---Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves
-ao nascer do sol.
-
---Está bem! não queres acreditar!
-
---Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o
-anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um
-passarinho?
-
---É para vêres! Tudo cança neste mundo.
-
---Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.
-
---Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que
-quero-lhes como se me tivessem visto nascer.
-
---Então o que é que te faz triste?
-
---Não sei; falta-me alguma cousa.
-
---Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!
-
---Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.
-
---Ora! o que te falta.
-
---Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.
-
---Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames,
-e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro
-animal selvagem.
-
---Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.
-
---Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e
-como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.
-
---Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?
-
---Não; nem sei o que é feito delle.
-
---Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma
-desgraça! disse a moça estremecendo.
-
---Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o
-dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?
-
---Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á
-casa.
-
---O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua
-vida antiga e livre.
-
---Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos
-abandonasse assim!
-
---Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?
-
---É verdade!... disse a moça preoccupada.
-
-Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta
-posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla
-negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus
-olhos.
-
-A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que
-fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu
-regaço.
-
---Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão
-sobre o seu pello assetinado.
-
---Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da
-moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e
-ficará mais manso do que o teu Pery.
-
---Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito
-injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.
-
---Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle
-escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal
-como um cavallo, ou um cão?
-
-Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha
-de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.
-
---Isabel!... exclamou ella resentida.
-
---Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não
-olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que
-não percebo o desdem com que me tratão?
-
---Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem,
-e te respeitão como devem.
-
-Isabel abanou tristemente a cabeça.
-
---Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho
-razão.
-
---Ora, um momento de zanga de minha mãi...
-
---É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso
-amargo.
-
---Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima
-e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito
-severa mesmo para comigo.
-
---Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que
-já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.
-
---Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já
-que me tratasses como irmã?
-
---Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua
-irmã!...
-
---E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!
-
---Para ti, que para elle...
-
-Este _elle_ foi murmurado dentro d'alma.
-
---Mas olha que exijo uma cousa.
-
---O que é? perguntou Isabel.
-
---É que eu serei a irmã mais velha.
-
---Apezar de seres mais moça?...
-
---Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?
-
---De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.
-
---Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver
-triste, ouviste? Senão fico zangada.
-
---E tu não estavas triste ha pouco?
-
---Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.
-
-Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco,
-scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de
-menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas
-voltava de novo.
-
-Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a
-graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o
-ar livre e a vida passada no campo.
-
-Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com
-uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a
-rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio,
-estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua
-penugem macia.
-
---Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis
-fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não
-é?
-
-E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus
-dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem
-revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração,
-envolta pela graça infantil de seu espirito.
-
-Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel
-lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros
-que entravão a cerca.
-
-Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.
-
---Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.
-
---São elles que chegão.
-
-Elles quem?
-
---O Sr. Alvaro e os outros.
-
---Ah!... exclamou a moça corando.
-
---Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar
-na perturbação de sua prima.
-
---Muito; quem sabe se houve alguma cousa!
-
---Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.
-
---Contaste os dias?
-
---É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã
-fazem tres semanas.
-
---Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!
-
---Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de
-melancolia.
-
---Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti.
-Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu
-tenho inveja do teu moreninho, prima?
-
---E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.
-
---Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.
-
-E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado
-da entrada.
-
-
-
-
-VI
-
-A VOLTA
-
-
-Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens
-passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o
-edificio.
-
-Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo
-pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.
-
-Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no
-peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem
-pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de
-ouro.
-
-Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão,
-e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e
-nobre cabeça de velho.
-
-De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de
-cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba
-alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca
-ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.
-
-Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta
-annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o
-porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na
-força da idade.
-
-O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres
-Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o
-fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.
-
-A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a
-sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa
-semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais
-augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina
-côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual
-erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.
-
---Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro,
-medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.
-
---Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo
-commetteo uma imprudencia matando essa india.
-
---Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho,
-o desculpo!
-
---Julgais com demasiada severidade.
-
---E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva,
-commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me
-acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada,
-que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um
-momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.
-
---Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...
-
---Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os
-meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos
-que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra
-que conquistamos, mas são homens!
-
---Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe
-deo a Sra. D. Lauriana.
-
---Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é
-disto que discorriamos.
-
---Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de D.
-Diogo.
-
---E que pensas tu?
-
---Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, Sr. D.
-Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a
-atacar-vos.
-
---Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.
-
---Não sou capaz de tal, Sr. cavalheiro!
-
---Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes
-que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão
-tudo, a vida e a liberdade.
-
---Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.
-
---Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem
-offendidos por mim soffrerão tudo para vingar-se.
-
---Tendes mais experiencia do que eu, Sr. cavalheiro; mas queira Deus que
-vos enganeis.
-
-Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D.
-Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que
-atravessava pela frente da casa.
-
---Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em
-todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.
-
---Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.
-
-D. Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia
-sentado a alguns passos.
-
-Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se
-esperou-o n'uma attitude respeitosa.
-
---Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as
-ordens que vos dei.
-
---Senhor...
-
---Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses
-selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a
-vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar
-satisfeito de vossa obra.
-
---Meu pai!...
-
---Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção
-indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso
-da espada que trazeis á cinta.
-
---Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis
-vosso filho.
-
---Não é vosso pai que vos rebaixa, Sr. cavalheiro, e sim a acção que
-praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei
-para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir
-d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender
-a vossa vida.
-
-D. Diogo inclinou-se em signal de obediencia.
-
---Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e
-ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois
-portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas
-combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando
-ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.
-
---Cumprirei as vossas ordens, meu pai.
-
---Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé
-desta casa sem minha ordem. Ide, Sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho
-sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um
-braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para
-protege-las.
-
-O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma
-palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.
-
-D. Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob
-a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo
-caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no
-soleira da porta.
-
-D. Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte
-e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados
-por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um
-desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e
-fingião uma especie de diadema.
-
-Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na
-frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo
-donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas
-arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os
-hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os
-seus ornatos.
-
-Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e
-devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um
-realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.
-
-No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a
-distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos
-quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama
-fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade,
-e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um
-throno.
-
-Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella
-sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato
-do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um
-espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.
-
-Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por
-concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua
-mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel,
-exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia
-immediatamente que era escusado insistir.
-
-Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a
-repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho
-fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua
-mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus
-sentimentos.
-
---Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo
-os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.
-
---Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o
-fidalgo.
-
---Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio!
-
---E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero
-que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua
-companhia.
-
---Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antonio?
-
---D. Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai
-viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o
-tempo em extravagancias.
-
---Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso
-filho da casa paterna!
-
---Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a
-sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?
-
---Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho,
-cheia de inquietações pela sua sorte.
-
---Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.
-
---Sois cruel, senhor.
-
---Sou justo apenas.
-
-Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel
-distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.
-
---Oh! exclamou D. Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.
-
-O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se,
-subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do
-cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.
-
-O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á
-saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a
-inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se
-abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.
-
-Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e
-os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro,
-sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que
-servião de bancos.
-
-D. Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde
-se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só
-teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de
-Bragança.
-
-O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi
-misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.
-
-Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos
-chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades,
-outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo
-tempo, de modo que ninguem se entendia.
-
-Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou
-tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu
-para sua mãi.
-
-Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana,
-Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo
-na mão foi inclinar-se corando diante da moça.
-
---Eis-vos de volta, Sr. Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para
-disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!
-
---Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o
-pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.
-
-Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.
-
-Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres
-olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos
-cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e
-mocidade.
-
-D. Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle
-lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto
-veneravel.
-
-Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros,
-cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas
-dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.
-
-Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos
-negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se
-naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.
-
-Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava
-além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do
-Italiano que vio o sorriso de D. Antonio de Mariz e o comprehendeo.
-
-Em quanto isto succedia, D. Diogo que se havia retirado, voltou a saudar
-Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto
-a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de
-seu pai.
-
-
-
-
-VII
-
-A PRECE
-
-
-A tarde ia morrendo.
-
-O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas,
-que illuminava com os seus ultimos raios.
-
-A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa,
-enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das
-arvores.
-
-Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o
-ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o
-orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto
-a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos
-com que se despede do dia.
-
-Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o
-rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder
-á doce influencia da tarde.
-
-Era Ave-Maria.
-
-Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do
-crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para
-murmurar a prece da noite!
-
-Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas
-gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios
-perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um
-momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.
-
-O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que,
-reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o
-toque lento e pausado do _angelus_.
-
-A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que
-parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da
-tarde que morre.
-
-Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a
-impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a
-esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado
-de um certo temor.
-
-De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar
-quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava
-Ave-Maria.
-
-Todos se descobrirão.
-
-D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o
-lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.
-
-Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D.
-Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo,
-ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.
-
-O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos
-do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo
-cavalheiro.
-
-Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa
-prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos,
-illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.
-
-Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia
-como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto
-de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a
-quem dirigia a sua prece.
-
-Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava
-ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo
-recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava
-imperceptivelmente os labios.
-
-Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o
-precipio, e um tiro saudou o occaso.
-
-Era noite.
-
-Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando
-a pouco e pouco.
-
-Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma
-graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.
-
-Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D.
-Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de
-um abbade.
-
-Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um
-desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta
-ceia.
-
-Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra
-emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da
-familia, o que havia recebido como um favor immenso.
-
-O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão
-simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia
-estabelecido na sua habitação.
-
-Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente
-separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se
-com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.
-
-Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada,
-onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua
-oração da tarde.
-
-Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da
-casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á
-distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento
-extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo
-rio.
-
-Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia
-o italiano, de chegar ao _Paquequer_ em um sabbado, e antes das seis
-horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de
-contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez
-occasião de arriscar uma palavra.
-
-Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de
-Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças,
-timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem
-que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.
-
-Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual
-elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um
-pretexto que a chamasse á conversa.
-
---Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de
-uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.
-
---Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.
-
---Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.
-
---Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.
-
---Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.
-
---Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos
-parecerá tão simples.
-
---O que fazia então?
-
---Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia.
-
---Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.
-
---Que tens, menina? perguntou D. Lauriana.
-
---É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.
-
---Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.
-
---Mas eu serei a causa de sua morte!
-
---Como assim, minha filha? disse D. Antonio.
-
---Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe
-saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande
-medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...
-
---E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo
-rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.
-
---Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o
-morto.
-
---Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se.
-
---E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a
-moça sentida.
-
---Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o
-animal!
-
-E o moço contou parte da scena passada na floresta.
-
---Não ha duvida, disse D. Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por
-Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma
-das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse
-indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua
-vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro,
-é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!
-
-A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais
-parte nella.
-
-D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o
-moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no
-terreiro da casa veio annunciar a ceia.
-
-Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na
-habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com
-Cecilia.
-
---Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á
-meia voz.
-
---Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?
-
---Todas e mais... disse o moço balbuciando.
-
---E mais o que? perguntou Cecilia.
-
---E mais uma cousa que não pedistes.
-
---Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.
-
---Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.
-
---Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?
-
---Sim; porque é uma lembrança vossa.
-
---Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a
-bem.
-
-E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença
-delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e
-que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas,
-espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de
-pistolas primorosamente embutidas.
-
-Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:
-
---Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.
-
-A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a
-refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se
-respeitava.
-
-Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça
-fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e
-tanta esperança.
-
-Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando
-diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi
-levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia
-na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.
-
-Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo,
-tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a
-vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.
-
-Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos
-que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que
-servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés
-roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha
-vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno
-della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.
-
-Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se
-lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão
-timido, que córava diante della, como ella diante delle.
-
-De repente a moça estremeceo.
-
-Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu
-pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e
-flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor
-duvida.
-
-Era Pery.
-
-Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao
-prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos
-que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.
-
-Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não
-tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de
-Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.
-
-
-
-
-VIII
-
-TRES LINHAS
-
-
-Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do
-lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.
-
-Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu
-caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão
-uma mesma idéa.
-
-Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão
-essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento,
-convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.
-
-Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que
-mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.
-
-N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis
-aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em
-escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira
-que fazia honra ao appetite dos convivas.
-
-O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta
-fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos
-do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os
-aventureiros podião beber á larga.
-
-O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens;
-afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o
-alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.
-
-A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se
-ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o
-ranger da faca na escudella.
-
-Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu
-immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de
-choro confuso e discordante.
-
-Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou
-estas palavras:
-
---E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos
-ouvir uma palavra!
-
---Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que
-vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.
-
---Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por
-alguma moçoila que andou requestando em S. Sebastião.
-
---Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano
-seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?
-
---E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em
-que o aperte mais a uns do que a outros.
-
---Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu
-pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e
-galanteios.
-
-O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem
-á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com
-affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.
-
---Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na
-vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!
-
---Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está
-penado da amores.
-
---E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.
-
---Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe
-está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?
-
-Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.
-
-Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.
-
---Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar
-severa. Leva rumor!
-
---É um dia de chegada, Sr. escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio
-Ruy Soeiro.
-
-Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que
-estava em frente delle.
-
---Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous
-aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já
-refizestes, e os mais esperão sua vez.
-
-Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume
-ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.
-
---Estais hoje muito severo, Sr. Ayres Gomes, disse Martim Vaz,
-
---Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer,
-respondeu o escudeiro.
-
---Ah! porque não dizieis isto logo!
-
---Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos
-que ver.
-
---Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás
-pacas e porcos do matto.
-
---E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras
-de polvora? perguntou Vasco Affonso.
-
---Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?
-
-Loredano ergueu a cabeça.
-
---Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão?
-perguntou elle.
-
---Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a
-chamusco, exclamou Martim Vaz.
-
-A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos
-aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e
-deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.
-
-Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e
-os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano
-murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:
-
---Amanhã!
-
-Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous
-aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano
-continuar o seu caminho até a beira do precipicio.
-
-Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue
-reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não
-podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.
-
-Ahi esperou.
-
-Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que
-soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o
-sorriso que a acompanhou.
-
-Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia
-contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que
-lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha
-vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um
-soffrimento cruel.
-
-Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou
-um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda
-uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e
-aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.
-
-Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que
-a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.
-
-Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha
-chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um
-thesouro.
-
-No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro,
-depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando
-um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que
-a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir,
-foi a maneira por que sahira quasi logo.
-
-Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma
-ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo
-immediatamente.
-
-O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua
-sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz
-que coava entre as cortinas da janella.
-
-Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um
-desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto
-segurou-se ao galho de um oleo gigante que, elevando-se sobre a encosta
-fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.
-
-Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no
-galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem
-aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho
-marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.
-
-Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e,
-escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro
-das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que
-Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão
-igualmente á alguns passos.
-
-A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do
-aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que
-lhe havião chegado do Rio de Janeiro.
-
-Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o
-precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e
-sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a
-todo o instante!
-
-Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente,
-satisfeita; podia ir dormir e repousar.
-
-Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a
-moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha
-primores como aquelles para offertar-lhe.
-
-O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como
-para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas
-da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos
-pés de Cecilia.
-
-Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas
-partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão
-collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella
-frouxamente illuminada.
-
-Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para
-tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o
-perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de
-mercadejar por ella um prazer.
-
-É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande
-e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.
-
-
-
-
-IX
-
-AMOR
-
-
-As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.
-
-Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e
-virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações
-bem differentes.
-
-Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um
-desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue;
-o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela
-impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se
-elevava entre elle, pobre colono, e a filha de D. Antonio de Mariz, rico
-fidalgo de solar e brazão.
-
-Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um
-acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as
-leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso
-uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que
-seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem
-á condição de homens.
-
-O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já
-tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos
-é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e
-uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de
-Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.
-
-Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição
-nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores
-do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos
-amores daquelle tempo de crença e lealdade.
-
-Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo
-balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando
-encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se
-entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
-
-Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle
-comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer
-a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua
-janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe
-perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
-
-Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na
-qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para
-sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se
-inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar
-que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma
-realidade.
-
-Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume
-inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente
-para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava
-alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa
-mesma noite, nesse mesmo instante.
-
-Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações,
-que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o
-outro uma paixão, o ultimo uma religião.
-
-Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a
-vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar:
-o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
-
-Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem
-correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o
-quarto de Cecilia.
-
-Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da
-ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio
-tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das
-janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre
-esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma
-adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
-
-Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado
-profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia
-de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na
-sombra e na humidade.
-
-Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga
-e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha,
-seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que
-enchião essas grotas e alcantis.
-
-Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas
-uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o
-quadro da janella.
-
-O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho,
-onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente.
-Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da
-janella.
-
-Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o
-precipicio seguia as menores evoluções da sombra.
-
-Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no
-parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a
-forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano
-adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta
-mão havia deitado na janella.
-
-E não se enganava.
-
-Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o
-respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu
-intento.
-
-Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a
-esperança de que Cecilia lhe perdoaria.
-
-Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos
-do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio.
-Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára.
-
-Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a
-curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.
-
-Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e
-aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento,
-bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento
-para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.
-
-Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo,
-e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.
-
-Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous
-homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.
-
-Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se
-fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a
-menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha
-reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do
-cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor
-suspeita.
-
-O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli
-naquella hora silenciosa da noite?
-
-O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia
-fazer-lhe comprehender o resto.
-
-Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um
-esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do
-precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o
-prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.
-
-Pery não se moveu.
-
-Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume
-do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração
-fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.
-
-Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o
-mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza,
-e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era
-differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um
-pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.
-
-Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando
-que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para
-dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
-
-E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava
-a fachada do edificio.
-
-Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema
-do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
-
-Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima
-que desfiava-lhe pela face.
-
-Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de
-recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um
-martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as
-suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que
-atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle
-passava.
-
-De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas
-palavras imperceptiveis:
-
---Si eu quizesse!
-
-Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um
-annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
-
-O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que
-justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a
-pupilla negra de Isabel?
-
-Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a
-face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?
-
-Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a
-natureza humana não devia resistir?
-
-Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza
-possivel senão em um milagre da Providencia.
-
-Era o pó subtil do _curari_, o veneno terrivel dos selvagens.
-
-Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.
-
---Minha mãi?... minha mãi!...
-
-Um soluço rompeu-lhe o seio.
-
-
-
-
-X
-
-AO ALVORECER
-
-
-No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim
-e aproximou-se da cerca.
-
---Pery! disse ella.
-
-O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e
-submisso.
-
-Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar
-um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um
-sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.
-
-Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão
-de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que
-de rigor:
-
---Estou muito zangada com Pery!
-
-O semblante do selvagem annuviou-se.
-
---Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?
-
---Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora,
-vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.
-
---Cecy desejou ver uma onça viva!
-
---Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu
-corras atraz della como um louco?
-
---Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o
-indio.
-
---Vai, sim.
-
---Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?
-
---Que tem isso?
-
---Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.
-
-Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a
-que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e
-originalidade.
-
-Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por
-causa do susto que lhe havia feito na vespera.
-
---Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a
-mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?
-
---Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
-
---Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te
-pedisse aquella nuvem?...
-
-E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas
-sombras pallidas da noite.
-
---Pery ia buscar.
-
---A nuvem? perguntou a moça admirada.
-
---Sim a nuvem.
-
-Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:
-
-Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery
-morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.
-
-Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o
-coração.
-
-A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a
-sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.
-
-A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus
-labios um sorriso divino.
-
---Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que
-arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a
-conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.
-
---Senhora, não está mais zangada com Pery?
-
---Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora
-affligir-se cuidando que elle ia morrer.
-
---E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.
-
---Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.
-
---Perdôa, senhora!
-
---Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.
-
-Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia
-encommendado a Alvaro.
-
---Olha! Pery não desejava ter umas?
-
---Muito!
-
---Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança
-de Cecilia, não é verdade?
-
---Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.
-
---Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para
-defenderem e salvarem a tua vida.
-
---Porque é tua, não é, senhora?
-
---Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.
-
-O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma
-felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a
-cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de
-Deus.
-
-Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a
-divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu
-culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os
-thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza
-virgem.
-
-Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu
-rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas
-ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.
-
-A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma
-antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada
-dia augmentava.
-
-Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.
-
---Pery te acompanha, senhora?
-
---Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o
-socegado.
-
-A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem
-comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão
-quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao
-domingo.
-
-Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua
-mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais
-altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem
-aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se
-banhavão.
-
-Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio
-traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em
-que se collocára o percebia immediatamente.
-
-Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente
-com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta
-arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava
-assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por
-elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para
-embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.
-
-Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que
-todos votavão a D. Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava
-caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o
-chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.
-
-E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não
-duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do
-rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.
-
-Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas
-com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a
-côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para
-nadarem.
-
-Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que
-um olhar de quem quer que fosse visse a _senhora_ no seu trajo de banho;
-nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia
-offende-la, a ella que era o seu unico Deus.
-
-Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida,
-e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem
-que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa
-a corrente e as margens do rio.
-
-O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma
-cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um
-cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de
-côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer
-caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore;
-tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se
-estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco
-ou sobre o chão.
-
-Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das
-aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma
-sapucaia pendida sobre o _Paquequer_ estalava prestes a cahir, o indio,
-veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da
-sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que
-boiavão.
-
-Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela
-fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser
-uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a
-moça soffresse por falta de cuidado seu.
-
-Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e
-infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça
-podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque
-todo o poder do homem fóra impotente para evitar.
-
-Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse
-quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação
-era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer
-não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr
-de pequiá.
-
-Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto
-da escada.
-
-Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu
-ligeiramente seguida por sua prima.
-
-Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua
-loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu
-receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.
-
-Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer,
-e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus
-sorrisos sarcasticos.
-
---Bom dia, Sr. cavalheiro.
-
-Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço
-que roçassem uma na outra.
-
-Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das
-pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.
-
-O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel
-tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a
-Loredano.
-
-Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão
-commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia
-lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.
-
-Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.
-
-Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre
-elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua
-senhora.
-
-
-
-
-XI
-
-NO BANHO
-
-
-Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:
-
---Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao Sr. Alvaro?
-
-Isabel estremeceu.
-
---Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á
-cortezia que elle nos faz.
-
---Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.
-
---Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?
-
-A moça calou-se.
-
---Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou
-Cecilia galanteando.
-
-Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as
-pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas
-palavras que parecião queimar-lhe os labios:
-
---Bem sabes que o aborreço!...
-
-Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo
-chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a
-brincar com uma alegria infantil sobre a relva.
-
-Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha
-sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao
-verdadeiro.
-
-A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão
-natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que
-era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia
-córar.
-
-Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma
-de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da
-moça acabavão de proferir.
-
-Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu
-coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi
-uma blasphemia.
-
-Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse
-mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos
-os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.
-
-Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem
-o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia
-rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a
-fizesse soffrer.
-
-O sol vinha nascendo.
-
-O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia
-beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.
-
-Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia
-as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.
-
-Era a hora em que o cactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio
-das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol
-crestasse a alvura diaphana de suas petalas.
-
-Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda
-humida colhendo uma graciola azul que se embalançava sobre a haste, ou
-um malvalisco que abria os lindos botões escarlates.
-
-Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que
-tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda
-com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a
-viuvinha que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha
-raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.
-
-Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de
-longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo
-corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.
-
-De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á
-alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas
-que se espedaçavão, e o indio appareceu.
-
-Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:
-
---Que é isto, Pery?
-
---Nada, senhora.
-
---É assim que prometteste estar quieto?
-
---Cecy não se ha de zangar mais.
-
---Que queres tu dizer?
-
---Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.
-
-Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um
-animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça,
-julgando que isso lhe causava um prazer.
-
-Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira,
-em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a
-revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos
-devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre
-dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.
-
-As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado
-a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse
-fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o
-sorriso.
-
-Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda
-d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do
-indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em
-satisfazer as vontades da menina.
-
-Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se
-na relva.
-
-Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a
-entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e
-examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma
-fresta por onde o olhar do dia penetrasse.
-
-A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir
-espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas
-roupagens.
-
-Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma,
-que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa
-cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina
-quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as
-folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:--_Bem
-te vi_!
-
-Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho
-que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de
-menina.
-
-Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por
-com prazer ficou sentada á beira do rio.
-
-Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente,
-com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão
-graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma
-dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão
-mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no
-crystal das aguas.
-
-Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul
-ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que
-fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado
-superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um
-barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela
-correnteza.
-
-A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia
-offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a
-tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração
-procura illudir-se.
-
-Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia
-que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o
-contrario mentia.
-
-Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado
-sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na
-margem opposta as guaximas se agitarem.
-
-A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol,
-e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz
-de umas grandes pedras que havia á beira do rio.
-
-Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado
-entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido
-por um animal de grande corpulencia.
-
-Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa
-ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se
-perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação
-dos arbustos.
-
-Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por
-uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a
-partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão
-as pedras para despedirem o tiro.
-
-E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e
-ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.
-
-Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria
-um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.
-
-Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que
-partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos
-cabellos mudou de direcção.
-
-Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de
-um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua
-senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.
-
-Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi
-logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:
-
---Pery!...
-
-Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous
-passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se
-ligeiramente no matto.
-
-Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em
-lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande
-avanço.
-
-Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica
-de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero
-o coração como para reter o sangue que espadanava.
-
-Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a
-força da vontade e o poder da natureza.
-
-O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços
-como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para
-manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.
-
-Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para
-a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto
-succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer
-lutar ainda.
-
-Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente
-retrahindo e tocou a terra com os joelhos.
-
-Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar,
-e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um
-esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos
-vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual
-se abraçou convulsivamente.
-
-Era uma cabuiba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e
-de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em
-lagrimas.
-
-O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos
-amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de
-felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo,
-que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.
-
-Sentio-se renascer.
-
-Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.
-
-Estava salvo.
-
-
-
-
-XII
-
-A ONÇA
-
-
-Voltemos á casa.
-
-Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a
-Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que
-dirigia-se ao rio.
-
-Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu
-a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.
-
-Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na
-esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.
-
-Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns
-talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.
-
-O pateo ficou deserto.
-
-Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas
-para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos;
-um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé,
-annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.
-
-De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas
-e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez,
-como se um inimigo cahisse de assalto.
-
-Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D.
-Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma
-cousa extraordinária.
-
---Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já!
-gritou a dama.
-
-A janella fechou-se de novo com o ferrolho.
-
-A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada
-dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com
-sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.
-
---Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.
-
---Sim; estais armado? perguntou D. Lauriana por detraz da porta.
-
---Tenho a minha espada; mas que novidade ha?
-
-A physionomia decomposta de D. Lauriana appareceu de novo na fresta da
-janella.
-
---A onça! Ayres Gomes!... A onça!...
-
-O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se
-fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.
-
-A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á
-janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado
-contra as féras.
-
-Alguns minutos se passárão assim; D. Lauriana rezando; e Ayres Gomes
-rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o
-atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de
-armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.
-
-Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede
-do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente;
-pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.
-
-Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em
-voz alta:
-
---Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, Sra. D. Lauriana;
-ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.
-
---Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.
-
---Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.
-
---É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!
-
---E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra.
-D. Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.
-
---Pois não sabeis? exclamou a dama.
-
---O que, senhora?
-
---Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça
-viva para a casa!
-
---Quem, o perro do cacique?
-
---E quem mais senão aquelle cão tinhoso!
-
---É das que elle costuma fazer!
-
---Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!
-
---Mas a culpa não tem elle!
-
---Quero ver se o Sr. Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.
-
---E que é feito da féra, Sra. D. Lauriana?
-
---Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e
-tragão-me aqui.
-
---É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe
-permittião as suas botas de couro de raposa.
-
-Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da
-esplanada.
-
-Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a
-espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.
-
-Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo,
-voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:
-
---Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!
-
-Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e
-marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu
-reflexo pallido.
-
-Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o
-gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.
-
---Que é lá isso? Tem medo?
-
-E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob
-as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.
-
-Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.
-
-A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo
-laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.
-
-Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até
-á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar
-onde havia expirado.
-
-Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em
-armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na
-casa de D. Lauriana.
-
-Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e
-arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.
-
-Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto,
-entre-abrio-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arripiada, olhou
-estremecendo o corpo da féra.
-
---Deixe-o ahi mesmo. O Sr. D. Antonio ha da vê-lo com seus olhos!
-
-Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello
-accusatorio que ia fulminar contra Pery.
-
-Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a
-expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava
-para causar-lhe um faniquito.
-
-Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua
-lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle
-embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como
-pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos
-de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.
-
-Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que
-seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem
-que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que
-importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em
-risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?
-
-Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de
-Mariz assomava á porta.
-
---Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?
-
---Ahi a tendes! exclamou D. Lauriana apontando para a onça comum gesto
-soberbo.
-
---Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as
-presas do tigre.
-
---Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o
-trouxe!...
-
---Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra
-com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo:
-não tem o signal de uma só ferida!
-
---É obra daquelle excommungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D.
-Lauriana preparando-se para o ataque.
-
---Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e
-de que nos fallou Alvaro!
-
---Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!
-
---A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?
-
---Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!
-
-Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.
-
-O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao
-passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou
-que tinha as patas e as mandibulas ligadas.
-
---É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora;
-ainda conserva o calor.
-
-D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal,
-certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar
-de ser favoraveis ao seu plano.
-
-Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a
-cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a
-D. Antonio:
-
---Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos
-hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis
-acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...
-
-A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto
-energico apontando para o animal morto:
-
---Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que
-podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que
-corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.
-
-O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia
-precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um
-chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.
-
-D. Lauriana sorria-se do seu triumpho.
-
---E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã
-vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia;
-encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos,
-porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!
-
---Exagerais muito tambem, D. Lauriana. É certo que Pery fez uma
-selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma
-reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.
-
---Se o conhecesseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis
-ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!
-
---Prevenções vossas, que não partilho.
-
-A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe
-decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.
-
---Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas
-eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa
-de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei
-que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa
-está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a
-semelhante martyrio!
-
-D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher,
-e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia
-produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo
-conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.
-
-D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.
-
-
-
-
-XIII
-
-REVELAÇÃO
-
-
-Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da
-porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso
-do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.
-
-Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que
-fascinava.
-
-Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando
-um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do
-roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus
-hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr
-do sol.
-
-As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se
-da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na
-pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios
-recommendando silencio.
-
---Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D.
-Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.
-
---Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?
-
---Umas das suas, e de que já sabes parte.
-
---E eu vou contar-te o resto! atalhou D. Lauriana, tocando com a mão o
-braço de sua filha.
-
-E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais
-dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido
-a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da
-familia.
-
-Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de
-uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas
-com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa,
-todos áquella hora estarião defuntos.
-
-Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que
-atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus
-olhos brilharão.
-
---Assim, concluio peremptoriamente D. Lauriana, não é concebivel que
-continuemos com semelhante praga em casa.
-
---Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis
-manda-lo embora?
-
---Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem
-nos mattos.
-
---Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu
-pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:
-
-D. Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:
-
---Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou
-Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.
-
---E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.
-
-D. Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das
-moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha
-nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por
-semana.
-
---Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?
-
---E tambem um perigo que correu Cecilia.
-
---Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.
-
---Susto, sim; mas pelo que vi...
-
---Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.
-
-A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais
-uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez D. Lauriana ao
-voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe
-que nada dissesse.
-
-A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:
-
---Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a
-algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore.
-Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir
-a dous passos de minha prima!
-
---Ouça cá, Sr. Mariz! exclamou D. Lauriana; ouça as estrepolias do
-capeta!
-
---No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola,
-que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem
-para nosso lado.
-
---Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a
-esse bugio?
-
---Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.
-
---Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas
-mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!
-
-D. Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a
-alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.
-
-Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem
-passeava pela esplanada:
-
---O que diz tua prima é verdade?
-
---É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.
-
---Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua
-mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.
-
---Elle vai sentir muito!!
-
---E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu
-pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.
-
---Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento
-e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!
-
---Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.
-
---Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.
-
-D. Antonio abraçou-a.
-
---Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!
-
---Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.
-
---Mandareis conservar este animal? Sim!
-
---Desde que o desejas...
-
---Será uma lembrança que teremos de Pery.
-
---Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle,
-podia eu agora apertar-te nos meus braços?
-
---Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?
-
---É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á
-fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.
-
-O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão
-ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.
-
---Que decidistes, Sr. D. Antonio? perguntou a dama.
-
---Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje
-mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui
-estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle
-monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe
-desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por
-alguem. Entendeis, minha mulher?
-
-D. Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução
-naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples
-phrase, inclinou a cabeça.
-
---Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte,
-Ayres Gomes, que venha ter comigo.
-
-O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:
-
---Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo
-conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.
-
-D. Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.
-
---E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha
-menos medo de onças.
-
-D. Antonio afastou-se.
-
-A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado
-domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.
-
-Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca
-devêra ter entrado.
-
-Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o
-canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava
-inquieto e pensativo.
-
---D. Cecilia! disse o moço.
-
---Oh! deixai-me, Sr. Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.
-
---Em que vos offendi eu para que me trateis assim?
-
---Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.
-
---É que quando se commetteu uma falta...
-
---Uma falta? perguntou a menina admirada.
-
---Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.
-
---E que falta commettestes vós, Sr. Alvaro?
-
---Desobedeci-vos.
-
---Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.
-
---Não zombeis, D. Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem
-feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo
-parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.
-
---Mas, Sr. Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei
-apenas que se trata de uma desobediencia!
-
---Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...
-
---Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...
-
---Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.
-
---Como! que dizeis!
-
---Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...
-
---Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a
-moça com um movimento de impaciencia.
-
-Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha
-feito na vespera á noite.
-
-Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.
-
---Sr. Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em
-praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.
-
---Eu juro pela minha honra!
-
---Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella
-janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e
-em que não posso tocar.
-
---Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.
-
-Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e
-desespero, que sentio-se commovida.
-
---Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa
-é vossa.
-
---Eu o sinto; e não me queixo.
-
---Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma
-lembrança.
-
---Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta,
-e m'a recordará sempre.
-
---Será agora uma triste recordação...
-
---E posso-as eu ter alegres!
-
---Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um
-jasmim; é tão doce esperar!
-
-Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a
-Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.
-
-A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro
-apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e
-beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com
-os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem
-sentir.
-
-Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz
-inimitavel:
-
---É tambem uma restituição!
-
-Alvaro empallideceu.
-
-A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.
-
-Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos,
-lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a
-innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa
-que se escondia aos olhos dos outros.
-
-Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um
-sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação
-que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito
-defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.
-
-Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao
-mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella;
-seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.
-
-Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um
-cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de
-caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada
-a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma
-falta.
-
-Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se
-desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.
-
---Isabel, abre esta janella.
-
-A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu
-corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.
-
-Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em
-que se abrio.
-
-Nada havia alli.
-
-A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente
-voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua
-physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem
-descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.
-
-Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a
-admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.
-
---Isabel!...
-
-A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.
-
-Tinha-se trahido.
-
-
-
-
-XIV
-
-A INDIA
-
-
-Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha
-atravez da floresta.
-
-Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma
-rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com
-que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as
-pisadas de um animal qualquer.
-
-Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e
-partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas,
-são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na
-floresta, e que elles seguem sem hesitação.
-
-Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir
-aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de
-agarra-la.
-
-Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns
-acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas
-vizinhanças do _Paquequer_.
-
-No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da
-Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os
-vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.
-
-Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas
-margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e
-uma filha.
-
-Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os
-guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter
-uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais
-vistosa penna do seu cocar.
-
-Estamos no domingo.
-
-Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta
-imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle
-traduzia pelo doce nome de _Cecy_.
-
-Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa
-nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia
-qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um
-dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.
-
-Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de
-sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a
-caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio
-do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por
-uma bala.
-
-Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de
-Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.
-
-O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento,
-recebêra a carga da espingarda e cahira morta.
-
-O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos
-frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando
-reanima-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de
-piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não
-desejava perder a sua pontaria.
-
-Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a
-fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha
-escolhido.
-
-De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a
-cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.
-
-Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a D. Diogo
-que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.
-
-O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de
-sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e
-que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua
-terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.
-
-Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao
-redor estavão sentados dous selvagens e uma india.
-
-O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e
-aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma
-pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes
-pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de
-dous palmos de comprimento.
-
-A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos
-frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no
-regaço.
-
-Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india
-de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão
-grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca
-aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão;
-depois continuavão o seu trabalho.
-
-No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho
-saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que
-vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o
-atirou a quatro passos com um empurrão.
-
-Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse
-mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher
-tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas
-costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.
-
-Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os
-olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios
-erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa
-exclamação.
-
-Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e
-pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua
-desconhecida, e que Pery não entendeu.
-
-O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do
-cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de
-perto.
-
-Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho
-pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance
-dos selvagens.
-
-Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento
-do banho lhe revelára claramente.
-
-Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o
-signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos
-caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes
-de guia.
-
-Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo
-sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei
-de talião que era o unico principio de direito e justiça que
-reconhecião.
-
-Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu
-inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.
-
-Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já
-sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do
-_Paquequer_, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.
-
-Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto
-da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e
-que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como
-um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella
-filha dos Aymorés.
-
-Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem
-religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no
-chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que
-podesse vir assaltar a casa de D. Antonio de Mariz.
-
-Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um
-vestigio de sua passagem.
-
-Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a
-percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço
-durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido
-pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antonio
-immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que
-exigia a imminencia de perigo.
-
-Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se
-destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.
-
-Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo
-um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um cãozinho, que
-reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.
-
-Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente
-seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto
-por causa das guaximas.
-
-O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta,
-que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.
-
-Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que
-se havia passado.
-
-Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma
-creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras,
-e deixaria traços de ferimento.
-
-O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha
-bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a
-produzira morte quasi immediatamente.
-
-Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?--Porque, respondia o
-espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não
-podia acompanhar serviria para denuncia-la.
-
-Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da
-terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e
-encostou de novo o ouvido ao chão.
-
-Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração;
-tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus
-sentidos o illudissem.
-
-Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e
-assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se
-elevava n'uma baixa do terreno.
-
-Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a
-cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um
-instrumento que cavava a terra.
-
-Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era
-impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao
-olhar.
-
-Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas
-largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente
-formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer
-idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas
-cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.
-
-Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não
-podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os
-cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.
-
-Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que
-se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou
-reconhecer exclamou.
-
---_Per Dio_! eil-a!
-
-O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer
-o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a
-conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que
-os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente
-escondida entre as flôres e a relva.
-
-Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea,
-ouvir o que aquelles homens dizião.
-
-Mas por que meio?
-
-Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e
-pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava
-a cavar, lhe chegava mais distincto.
-
-O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.
-
-O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de
-barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima
-da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.
-
-Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterraneas
-construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e
-trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo
-da terra.
-
-Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes
-em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.
-
-O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura,
-deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de
-certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que
-conversavão.
-
-Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe
-trazia as palavras claras e distinctas.
-
-Sentou-se e ouvio.
-
-
-
-
-XV
-
-OS TRES
-
-
-Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se
-entranhou na matta esperou.
-
-Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy
-Soeiro.
-
-Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava
-adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em
-quando um olhar significativo.
-
-Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:
-
---Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que
-nos fizestes vir aqui, misser Loredano?
-
---Não, respondeu o italiano laconicamente.
-
---Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.
-
---Esperai!
-
---Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida...
-Onde nos pretendeis levar nesta marcha?
-
---Vereis.
-
---Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser
-Loredano.
-
---Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.
-
---Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.
-
-E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano
-voltou-se com um gesto de desprezo.
-
---Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que
-estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a
-minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a
-todos.
-
-Os dous aventureiros empallidecêrão.
-
---Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar
-rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas
-que se obstinão a fallar.
-
---Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis
-no caso de que eu vos quizesse denunciar?
-
---A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua
-resolução.
-
---E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que
-as vossas venetas, misser italiano.
-
---E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.
-
---Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia
-assegurar a sua existencia e o seu descanço?
-
---Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e
-de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um
-segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa
-laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos
-incidentes!
-
---Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro;
-será morte antes que homizio.
-
---Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.
-
-O italiano continuou:
-
---Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu
-que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de
-longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.
-
---Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.
-
---A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antonio de Mariz o
-meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto.
-Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim
-para que trabalhamos.
-
-Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.
-
---Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes,
-se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo
-fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.
-
-Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse
-fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio
-com um esforço recobrar a palavra.
-
---É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem
-que o fizesse.
-
---Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.
-
---Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.
-
---Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano;
-confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?
-
---Disse a verdade.
-
---Mentes! gritou o aventureiro desesperado.
-
-O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do
-punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:
-
---Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste
-mundo, e minha alma no outro, juro.
-
-Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não
-deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e
-silenciosa.
-
-Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios
-tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do
-desespero.
-
-Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e
-suffocada:
-
---Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde
-existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?
-
---Confiei-o!
-
---E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua
-mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de
-vossos intentos?
-
---Escrevi tudo!
-
---Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer
-della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?
-
---Sim!
-
---E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a
-outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para
-decidir a qual deverá tocar?
-
---Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o
-italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas
-mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa
-os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do
-Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.
-
-Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os
-dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.
-
-Passou-se algum tempo em silencio.
-
---Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto
-de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é
-preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo.
-Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em
-diante--obediência cega e passiva!
-
-Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude
-respondia melhor do que mil protestos.
-
---Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antonio
-é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai
-esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.
-
-A physionomia de Bento Simões reanimou-se.
-
---Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.
-
---Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á
-vontade.
-
---Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é
-devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.
-
---Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.
-
-Os dous tirárão os punhaes e as espadas.
-
---Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para
-me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!
-
-Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que
-depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já
-descrevêmos.
-
-Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e
-descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que
-tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.
-
-De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta
-ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos
-nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um
-pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres
-aventureiros.
-
---Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho
-dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja
-que vos dará no gôto.
-
-Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli
-estava deitada, e que collocou no meio do grupo.
-
---É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!
-
---Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija
-tinha restituido todo o bom humor.
-
---A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste
-buraco uma botija de vinho.
-
---É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo
-bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.
-
---E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella
-á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!
-
-Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu
-lugar.
-
---Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando
-vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.
-
-Os dous inclinárão a cabeça.
-
---A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de
-nós, podemos toca-la.
-
---Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.
-
---Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.
-
-Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della
-é preciso...
-
---O que? Dizei!
-
---A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.
-
---Uma historia! replicou Ruy Soeiro.
-
---Da carocha? perguntou Bento Simões.
-
---Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre.
-Ouvistes fallar algum dia, em um certo Roberio Dias?
-
---Roberio Dias... Ah! sei! um tal de S. Salvador? disse Ruy Soeiro.
-
---O mesmo, sem tirar nem pôr.
-
---Vi-o ha cousa de oito annos em S. Sebastião, donde se passou ás
-Hespanhas.
-
---E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do
-Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.
-
---Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava
-offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande
-fidalgo de sua casa.
-
---E o resto, não vos chegou á noticia?
-
---Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.
-
---Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui
-lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que,
-como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.
-
---E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.
-
---Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco
-ante de paga-lo.
-
---E então?
-
---Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.
-
---Como ouco?
-
---Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para
-nós, que vamos lograr o miôlo.
-
---Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!
-
---Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.
-
---Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa
-terra?
-
---Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.
-
---Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em
-Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!
-
-E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia
-ao lado.
-
-Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da
-razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que
-elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra
-começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous
-observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião
-conjecturas e supposições.
-
-O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro,
-que o fez tinir.
-
---_Per Dio_, exclamou, eil-a!
-
-Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro
-vidrado, a que os indios chamavão _camuci_; este era pequeno e fechado
-por todos os lados.
-
-Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel
-vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.
-
---Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias;
-pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de
-Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.
-
-O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.
-
-Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver
-correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos.
-Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto
-por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.
-
-Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o
-pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes
-letras vermelhas.
-
-Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer,
-de pasmo e admiração.
-
-Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no
-meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.
-
---Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e
-o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá
-quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha
-palavra, como á lei do destino.
-
---Juramos!
-
---Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo.
-A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia
-pertencer D. Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões
-terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre
-cavalheiro.
-
-Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto
-marcial.
-
---Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão
-bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da
-porta da filha de D. Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a
-minha parte de presa! É a parte do leão.
-
-Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.
-
-Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao
-vento.
-
---Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres,
-poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer;
-tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com
-um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...
-
-Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz
-sepulcral a houvesse pronunciado.
-
---Traidores!...
-
-Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e
-lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.
-
-Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e
-lançou um olhar rapido.
-
-Tudo estava em socego.
-
-O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao
-sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.
-
-O dia no seu esplendor dominava a natureza.
-
-
-
-
-FIM DA PRIMEIRA PARTE.
-
-
-
-
-SEGUNDA PARTE
-
-
-PERY
-
-
-
-
-I
-
-O CARMELITA
-
-
-Corria o mez de março de 1603.
-
-Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.
-
-Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre
-o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão
-alguns colonos e indios cathequisados.
-
-Estava quasi a anoitecer.
-
-Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas
-faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava
-as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão
-ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago
-amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a
-natureza nadava n'um oceano de fogo.
-
-No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo
-prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com
-elles, não deixava de ter alguma belleza.
-
-Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do
-alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma
-exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.
-
-O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o
-tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a
-sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha
-os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até
-perder-se no matto.
-
-Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade
-carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o
-progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços
-accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que
-revelava o seu caracter.
-
-Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz
-do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a
-vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o
-céo e a terra para obtê-lo.
-
-Fr. Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido
-da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis
-mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava
-breve trazer ao gremio da igreja.
-
-Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de
-passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa
-que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de
-empregar-se no trabalho das missões.
-
-Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente
-enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a Fr. Diogo
-do Rosario, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro,
-pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da
-Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão
-Fr. Angelo di Luca.
-
-Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de
-Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de
-um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.
-
---Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava
-deitado na rede.
-
---Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.
-
---E o tempo que vai fazer?
-
---Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita
-caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?
-
---Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com
-semelhante borrasca.
-
-O frade voltou-se:
-
---Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão,
-em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do
-céo, e a estes não ha abrigo que os salve.
-
-Fernão Aines sorrio ironicamente.
-
---Crêdes isso, Fr. Angelo?
-
---Creio em Deus, irmão.
-
---Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum
-despenhadeiro.
-
---Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...
-
---Ora deixa fallar Fr. Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá
-seria a tempestade que zombaria de mim.
-
---Fernão Aines!... exclamou Nunes.
-
---Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.
-
-O silencio se restabeleceu.
-
-De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo
-ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que
-havia defronte do pouso.
-
-A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma
-permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o
-terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no
-fundo do alpendre.
-
-Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer
-como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para
-fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto
-contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.
-
-O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da
-catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo
-um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque
-violento que soffrêra.
-
-Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o
-ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço,
-e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas
-palavras:
-
---Castigo do céo!
-
-Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o
-remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de
-confissão.
-
-Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para
-o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.
-
-Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por
-instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o
-confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que
-ia gradualmente enfraquecendo.
-
---Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me
-restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o
-meu crime.
-
---Fallai, irmão; eu vos escuto.
-
---Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um
-parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor
-acolhimento.
-
-«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de
-aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo
-resultado seria grande riqueza para nós ambos.
-
-«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que
-abrio-se inteiramente comigo.
-
-«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia
-descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes
-que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.
-
-«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um
-roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se
-achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.
-
-«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e
-por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para
-contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.
-
-«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos
-não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em
-mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»
-
-O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz
-debil:
-
-«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia
-que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas,
-e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar
-silencio.
-
-«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só
-a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás
-Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao
-menos lograr o premio.
-
-«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos
-os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que,
-necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou
-que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus
-riscos e esperanças.
-
-«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi
-o meu primeiro erro!...»
-
-A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado
-sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras
-balbuciadas pelo moribundo.
-
---Coragem, filho!
-
---Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro
-fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se
-desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um
-crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...
-
---E... exclamou o frade com a voz surda.
-
-E roubei o segredo!
-
-O frade sorrio nas trevas.
-
---Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que
-fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero
-que este papel lhe seja entregue... Prometteis, Fr. Angelo?...
-
---Prometto! O papel?...
-
---Está... occulto...
-
---Aonde?
-
---Nes... ta...
-
-O moribundo agonisava.
-
-Fr. Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á
-sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o
-coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo
-sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.
-
---Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.
-
-O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga
-como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.
-
-Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede,
-e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no
-seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.
-
---Cruz!...
-
-Fr. Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na
-cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de
-páo tosca e mal lavrada.
-
-Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de
-encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da
-madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que
-estivera.
-
-Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á
-claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de
-letras vermelhas, que rezava nestes termos:
-
-«_Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio
-Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde
-descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que
-existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas
-e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20
-de janeiro, dia do martyr S. Sebastião, e terminado na primeira dominga
-de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de
-S. Salvador._»
-
-Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima
-afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção
-do penitente.
-
-Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas
-mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o
-braço, entregou-se á funda meditação.
-
-Que pensava elle?...
-
-Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada
-lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e
-resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de
-prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma,
-que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando
-á luz do sol.
-
-Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um
-espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta,
-virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.
-
-Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo
-estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma
-sinistra; o peccador expirava impenitente.
-
-Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e
-pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com
-que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro,
-e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.
-
-Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.
-
-O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta,
-deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo
-trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o
-largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.
-
---_Consumatum est_, irmão! disse elle com um tom compungido.
-
---Deus tenha sua alma!
-
---Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu
-ultimo voto, que é uma reparação...
-
---De um grave peccado?
-
---De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario,
-nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais
-novas de mim.
-
-O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas
-ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de
-Nunes partio.
-
-Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se
-com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios,
-descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e
-espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.
-
-O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo
-castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se
-realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo
-ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a
-colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:
-
---Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e
-poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!
-
-Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de
-Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.
-
-Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma
-grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario
-conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos
-selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas
-rompesse o dia.
-
-A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé,
-esfusiando por entre a palha.
-
-O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito
-um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem
-um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já
-se illuminava.
-
-Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o
-tempo estava sereno.
-
-O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo
-campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou
-depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a
-ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de
-satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle
-e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.
-
-No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um
-só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um
-aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda
-os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca.
-
-Este aventureiro chamou-se Loredano.
-
-Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo;
-isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.
-
-Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma
-que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de
-sua fé apostolica.
-
-
-
-
-II
-
-YARA!
-
-
-Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a
-familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do _Paquequer_.
-
-O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous
-outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que
-tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das
-pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura,
-tornavão aquelle retiro pittoresco.
-
-Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio,
-do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das
-aves concertava com o trepido murmurio das aguas.
-
-Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia
-vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da
-frescura deliciosa que alli se respirava.
-
-D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre
-uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os
-filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma
-palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova
-de Bernardim Ribeiro.
-
-Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo
-rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio
-solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a
-avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse
-folguedo um vivo prazer.
-
-Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva,
-que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan
-natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos
-estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete:
-e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.
-
-Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave
-painel que formava esse grupo de familia.
-
-De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um
-grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:
-
---_Yara!_
-
-E um vocabulo guarany: significa _a senhora_.
-
-D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia
-que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro
-original.
-
-De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha,
-um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a
-uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela
-encosta.
-
-O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a
-esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore
-mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.
-
-A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão
-n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da
-collina.
-
-Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma
-sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.
-
-Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á
-morte, foi para D. Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento,
-que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que
-era toda a sua vida.
-
-No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o
-regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre
-si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.
-
-Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo
-choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no
-perigo que já estava passado.
-
-Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia
-estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem,
-arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antonio, ainda pallido e
-tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra
-que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um
-genio bemfazejo das florestas do Brazil.
-
-O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que
-elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a
-si proprio da morte.
-
-Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, D. Antonio não se
-admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente
-calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança
-erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.
-
-Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava
-de transformar de modo tão imprevisto.
-
-D. Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças;
-Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a
-mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de
-admiração sobre a moça que tinha salvado.
-
-Por fim D. Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha,
-caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e
-affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.
-
---De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.
-
---Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.
-
---Como te chamas?
-
---Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.
-
---Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça,
-conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a
-minha amizade.
-
---Pery aceita; tu já eras amigo.
-
---Como assim? perguntou D. Antonio admirado.
-
---Ouve.
-
-O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce
-pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves
-das florestas virgens, esta simples narração:
-
-
-«Era o tempo das arvores de ouro.
-
-«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de
-guerra.
-
-«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:
-
-«--Pai morreu; aquelle que fôr o mais forte entre todos, terá o arco
-de Ararê. Guerra!»
-
-«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!
-
-«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao
-céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma
-guerra. Houve sangue, houve fogo.
-
-«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na taba dos brancos
-uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.
-
-«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.
-
-Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos
-os guerreiros.
-
-Sua mãi chegou e disse:
-
-«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és
-forte como teu pai; tua mãi te ama.
-
-«Os guerreiros chegárão e disserão:
-
-«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da
-tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.
-
-«As mulheres chegárão e disserão:
-
-«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a
-canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.
-
-«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos
-guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.
-
-«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a senhora dos
-brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.
-
-«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava
-vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.
-
-«O fogo passou; a casa da cruz cahio.
-
-«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e
-fallou assim:
-
-«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a
-parte, como a estrella grande acompanha o dia.
-
-«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra;
-todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a
-terra, e Pery não podia subir ao céo.
-
-«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem
-sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.
-
-«Assim Pery ficou triste.
-
-«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus
-olhos.
-
-«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o
-sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.
-
-«Veio o tempo da guerra.
-
-«Partimos; andámos; chegámos ao grande rio. Os guerreiros armárão
-as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.
-
-«Vio passar o gavião.
-
-«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.
-
-«Vio passar o vento.
-
-«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.
-
-Vio passar a sombra.
-
-«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.
-
-«Os passarinhos dormirão tres vezes.
-
-«Sua mãi veio e disse:
-
-«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca
-tambem.
-
-«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser
-amigo; e a filha da senhora para ser escravo.
-
-«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou
-longe a tua casa grande.
-
-«A virgem branca appareceu.
-
-«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da
-primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.
-
-«Pery disse:
-
-«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do
-sol, acompanhará a senhora na terra.
-
-«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A
-pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.
-
-«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora
-ficasse triste, e voltasse ao céo.
-
-«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da
-nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és
-amigo.»
-
-
-O indio terminou aqui a sua narração.
-
-Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem
-lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora
-ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.
-
-Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e
-modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas
-civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto
-reconhecia.
-
-D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão
-singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos
-maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem
-poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar
-do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.
-
-Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous
-dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra
-de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.
-
---Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão
-amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.
-
---E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais
-aos filhos.
-
---Tu cearás comnosco.
-
---Pery te obedece.
-
-A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia,
-acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.
-
-D. Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina
-tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas
-mãos do indio.
-
---É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio
-fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery
-tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu
-pai.
-
-O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.
-
---Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.
-
-A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.
-
-O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito,
-não sabia como se ter.
-
-Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel
-em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria
-de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.
-
-Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era
-inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.
-
---Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem
-beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a
-coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o
-amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.
-
---E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque
-salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.
-
-A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem
-fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de
-Cecilia.
-
-
-
-
-III
-
-GENIO DO MAL
-
-
-Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz.
-
-O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu
-caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.
-
-Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua
-dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um
-desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de
-cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.
-
-Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a
-presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz,
-da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente
-tratada.
-
-Quanto a D. Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento
-prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão.
-Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava
-assim, mas por prejuizos de educação.
-
-Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres
-Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antonio que estava no seu
-gabinete.
-
---Sr. D. Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas
-semanas, pede-vos audiencia.
-
---Manda-o vir.
-
-Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se
-havia transformado o carmelita Fr. Angelo di Luca.
-
---Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?
-
---Ao contrario, Sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria
-ficar.
-
---E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o
-nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.
-
---A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, Sr. cavalheiro; mas
-não é della que desejo fallar.
-
---Explicai-vos então.
-
---Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e
-filhos que lhe chegarão do Reino.
-
---Sim; já hontem me fallou disso.
-
---Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso
-inconveniente.
-
---Nem um absolutamente.
-
---Nesse caso posso considerar-me como admittido?
-
---Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos
-sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.
-
---Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.
-
---Ide sempre.
-
-O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao
-facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu
-serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava
-com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto
-grotesca.
-
-Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte
-introito:
-
---Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que
-se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do Sr. cavalheiro
-D. Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em
-linha recta.
-
-Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.
-
---_Primo_: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte
-natural.
-
-O italiano fez um gesto de approvação.
-
---Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o Sr. D. Antonio vos
-mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai;
-porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres
-Gomes, lá ireis.
-
-Loredano sorrio.
-
---_Segundo_: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...
-
---Com o vosso respeito, Sr. Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho
-inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de
-continuar.
-
---Que quereis dizer?
-
---Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me
-descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.
-
---Não obstante...
-
---Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.
-
-E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o
-gabinete de D. Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter
-levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor,
-resmungava:
-
---Não póde ser boa casta de gente?
-
-Loredano apresentou-se a D. Antonio.
-
---Então? disse o fidalgo.
-
---Aceito.
-
---Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse
-naturalmente.
-
---Qual, Sr. cavalheiro?
-
---É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o
-hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um
-amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de
-toda a familia a que actualmente pertenceis.
-
-O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a
-alteração da physionomia.
-
-Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já
-então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que
-vimos revelar-se um anno depois.
-
-Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro
-caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade
-que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de
-Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.
-
-Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se
-vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.
-
-Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro
-soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?
-
-Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu
-serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da
-grandeza?
-
-Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma
-resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado
-desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu,
-como dissemos, ir pedir hospitalidade a D. Antonio de Mariz.
-
-Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e
-então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com
-elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.
-
-Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de
-observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de
-uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as
-proporções de um projecto.
-
-Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um
-salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o
-dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. Fr.
-Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no
-regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.
-
---Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.
-
-No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução
-nas suas idéas.
-
-Viu Cecilia.
-
-A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella
-organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da
-faisca sobre a polvora.
-
-Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que
-o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue
-vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias,
-refluirão ao coração e o suffocárão um momento.
-
-Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela
-corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração
-revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de
-sua vida.
-
-Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o
-thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a
-riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.
-
-Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o
-obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.
-
-Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava
-tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas
-encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á
-Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de
-vela para a Europa.
-
-Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro,
-tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus
-olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade.
-
-Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e
-intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy
-Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final.
-
-Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava
-surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder.
-Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de
-uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que
-podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D.
-Antonio de Mariz.
-
-Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o
-italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição
-dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia
-pois até na hora extrema em que o papel devia fallar.
-
-A confiança que tinha, e com razão, no caracter de D. Antonio
-tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo
-abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito.
-
-Eis como Fr. Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano,
-pertencendo á casa de D. Antonio de Mariz e preparando-se para realisar
-a final o seu pensamento de todos os instantes.
-
-Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera
-dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous
-complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos
-obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo
-animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o
-atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na
-voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo.
-
-Este sentimento foi a ambição.
-
-Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da
-riqueza, a _auri sacra fames_ que se havia apoderado delle proprio, no
-momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata
-fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o
-devorava.
-
-O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos
-aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel
-de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu
-amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia.
-
-Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera
-modificar a situação.
-
-Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes
-daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que
-servirão para o seguimento desta veridica historia.
-
-
-
-
-IV
-
-CECY
-
-
-Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de D. Antonio
-de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado
-opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.
-
-O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa,
-senão quando via de longe a D. Antonio de Mariz passeando sobre a
-esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do
-velho fidalgo sentia por elle alguma estima.
-
-Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; D. Antonio suppunha já
-que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que
-só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.
-
-A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de S. Thomé
-e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por
-diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.
-
-Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de
-Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir
-igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco
-Fernandes Coutinho.
-
-Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.
-
-O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira
-insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra
-esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe
-salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a
-dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que
-lhe inspirava.
-
-Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao
-reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez
-com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.
-
-O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto
-Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:
-
---Vinde ver Pery, que chega, meu pai.
-
---Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.
-
-E acompanhando sua filha, D. Antonio foi ao encontro do indio que já
-subia a esplanada.
-
-Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito
-de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os
-fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os
-pequenos habitantes desse ninho gracioso.
-
-O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos
-para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina
-assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro;
-alguns conseguirão escapar-se.
-
-Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em
-torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um
-fructo.
-
-A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras
-azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e
-delicadas!
-
-Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um
-sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as
-flôres na terra e as estrellas no céo.
-
-Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os,
-aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para
-que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno
-della.
-
-Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha
-sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da
-senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente,
-era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D.
-Antonio de Mariz e disse-lhe:
-
---Pery vai partir.
-
---Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?
-
---Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.
-
-D. Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de
-sua filha.
-
---Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse
-Cecilia.
-
-O fidalgo traduzio a pergunta.
-
---Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi
-e seus irmãos.
-
---E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou
-a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.
-
-Ouvindo dos labios de D. Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que
-responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por
-seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e
-elle não estivesse junto della para salva-la.
-
---Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.
-
-Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se
-daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no
-fundo do seu coração de moça.
-
-Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou
-como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa
-que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como
-a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés
-submissa, vencida, escrava!...
-
-Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar
-essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se
-diante do seu olhar.
-
-As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior
-ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é
-forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem,
-o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.
-
-Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo
-homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e
-não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.
-
-Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha
-consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era
-filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.
-
---A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de
-rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.
-
-O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.
-
---Pery fica.
-
---Vêde, Cecilia, replicou D. Antonio rindo: elle te obedece!
-
-Cecilia sorrio.
-
---Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas
-nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.
-
---A senhora mandou, respondeu o indio.
-
---Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está
-satisfeita; consente que partas.
-
---Não!
-
---Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?
-
---Pery é escravo da senhora.
-
---Mas Pery é um guerreiro e um chefe.
-
---A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos
-ligeiros como o vôo do gavião.
-
---Assim, decididamente queres ficar?
-
---Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore
-da floresta lhe servirá de abrigo.
-
---Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta
-para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.
-
---Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.
-
---E o coração de ouro.
-
-Emquanto D. Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse,
-ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.
-
-Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde
-partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica
-particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:
-
-
-«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas
-azas.
-
-«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.
-
-«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres
-trabalhão; ha vinho.
-
-«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de
-andar.»
-
-
-A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa;
-encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a
-scena que passava na esplanada.
-
-Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.
-
---Mãi!... exclamou elle.
-
---Vem! disse a india seguindo pela matta.
-
---Não!
-
---Nós partimos.
-
---Pery fica.
-
-A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.
-
---Teus irmãos partem!
-
-O selvagem não respondeu.
-
---Tua mãi parte!
-
-O mesmo silencio.
-
---Teu campo te espera!
-
---Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.
-
---Porque?
-
---A senhora mandou.
-
-A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia
-do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora,
-que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em
-Cecilia.
-
-Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha
-sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr
-de cobre.
-
---Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e
-queima a cabana de Ararê.
-
---Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua
-mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve
-o filho de Ararê ao campo onde nasceu.
-
-Pery abanou a cabeça com tristeza;
-
---Pery não voltará!
-
-Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.
-
---O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se
-despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha;
-tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.
-
---A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe
-roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e
-mata tudo que se chega a ella.
-
-Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se
-revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.
-
---Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se
-lembraria de ti.
-
-Os dous ficárão algum tempo em silencio.
-
---Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.
-
---E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem
-contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes?
-Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos
-brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as
-bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?
-
-Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle
-as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e
-respondeu:
-
---Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do
-jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os
-fructos da arvore.
-
-A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a
-fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão
-dos olhos de ambos se confundirão.
-
-Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que
-desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella.
-Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu
-pai; ficou.
-
-Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta
-do rochedo, e que ia ser o seu mundo.
-
-Passárão tres mezes.
-
-Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo
-selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da
-ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.
-
-Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia,
-ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o
-portuguez, afastava-se triste e humilde.
-
-Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D.
-Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia,
-guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras
-preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para
-procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e
-pedia-lhe désse a _Cecy_, pois já não se animava a chegar-se para
-ella, com receio de desgota-la.
-
-_Cecy_ era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe
-tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.
-
-Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto
-para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto,
-reprehendeu-o com aspereza:
-
---Porque me chamas tu _Cecy_?
-
---Não sabes dizer Cecilia?
-
-Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto
-era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro
-letras, das quaes uma era o L.
-
---Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu
-nome, porque não o dizes sempre?
-
---Porque _Cecy_ é o nome que Pery tem dentro da alma.
-
---Ah! é um nome de tua lingua?
-
---Sim.
-
---O que quer dizer?
-
---O que Pery sente.
-
---Mas em portuguez?
-
---Senhora não deve saber.
-
-A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de
-impaciencia.
-
-D. Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:
-
---Meu pãi, dizei-me o que significa _Cecy_ nessa lingua selvagem que
-fallais.
-
---_Cecy_!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que
-significa doer, magoar.
-
-A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se
-do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má,
-egoista e cruel.
-
---Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.
-
-Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou
-a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo
-fiel e dedicado.
-
---Chama-me _Cecy_, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome
-me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.
-
-
-
-
-V
-
-VILANIA
-
-
-É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de
-contar alguns factos anteriores.
-
-Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros
-tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.
-
-Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe
-naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião
-nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a
-semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e
-cava devia ser de um homem.
-
-Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros?
-Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e
-incertezas.
-
-Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e
-apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se
-pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando
-virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o
-italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.
-
-O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para
-reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia
-comprehender.
-
-Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem,
-trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima.
-Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente
-comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das
-duas moças.
-
-Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus
-companheiros:
-
---Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que
-attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...
-
-E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.
-
---Esperai-me aqui.
-
---O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.
-
-O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a
-pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.
-
-Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um
-resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o
-fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.
-
---Quereis que falle?... disse Loredano.
-
---É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.
-
-O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:
-
---Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.
-
-E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo
-nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.
-
-O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos
-nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.
-
-Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das
-costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de
-repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.
-
-A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os
-rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais
-forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai
-perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das
-arvores.
-
-Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe
-um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o
-campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de
-uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.
-
-Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou
-homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o
-receberia.
-
-Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e
-hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que
-concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra
-_traidores_, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia
-com que o moço evitava uma sorpreza.
-
-O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma
-destreza admiravel.
-
-A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida,
-volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do
-cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e
-auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma
-cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.
-
-A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que
-parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada
-da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de
-pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe
-servirem de alvo.
-
-Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a
-senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse
-uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e
-fosse por todos admirado.
-
-Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe
-vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a
-superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante
-que é a sua vida.
-
-Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo
-desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil
-tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a
-sua vida e a sua fortuna.
-
-Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha
-passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes
-desprezava-o.
-
---Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o
-aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.
-
---Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.
-
---Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se
-melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.
-
---Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo,
-é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do
-que o vosso aspecto.
-
---Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo;
-eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.
-
---Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da
-espada.
-
-O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a
-ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
-
-Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos
-injectárão-se de sangue:
-
---Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de
-fazer.
-
---É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a
-arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
-
-Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma,
-segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu
-punhal, excellente folha de Damasco.
-
-Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o
-italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas
-vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o
-talho de seu gibão de belbute.
-
-De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu
-a mão esquerda em signal de tregoa.
-
---Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
-
---Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a
-fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
-
---Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
-
---Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos
-reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo
-tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o
-outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
-
---Que quereis fazer neste caso?
-
---O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos
-cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou
-simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não
-incommodará o outro.
-
---Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de
-Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
-
---Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos
-tempo em palavras.
-
-Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se
-distinctamente.
-
-Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o
-menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais
-pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que
-um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate
-franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
-
-Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de
-proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e
-prende-la de novo.
-
-O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as
-idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
-
---Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la
-escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem
-testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
-
-Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e
-seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de
-suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
-
-Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe
-d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os
-grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez
-melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella
-belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo
-louro de seus amores.
-
-Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja,
-como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia
-entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que
-esse segredo era elle.
-
-Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo,
-elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e
-alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha
-consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse
-sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria
-um resto de resentimento que talvez conservasse.
-
-Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe
-dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia
-beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
-
-Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio
-foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se
-associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
-
-Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle
-miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com
-altivez e seguio.
-
-Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo
-seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do
-italiano.
-
-
-
-
-VI
-
-NOBREZA
-
-
-Alvaro ouvio um sibillo agudo.
-
-A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a
-ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
-
-O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu
-rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o
-labio superior, sombreado pelo bigode negro.
-
-O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza
-extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez
-passos delle.
-
-Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua
-organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano,
-curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
-
-O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente
-dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
-
-O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para
-crava-la no alto da cabeça do italiano.
-
-Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão
-ao indio.
-
---Solta este miseravel, Pery!
-
---Não!
-
---A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de
-atirar sobre elle.
-
-Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e
-apoiava a bocca na fronte do italiano.
-
---Ides morrer. Fazei a vossa oração.
-
-Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
-
-O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e
-satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao
-pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia
-talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra
-gozar.
-
-Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho
-do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto
-frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
-
-Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
-
---Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de
-guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á
-justiça de Deus.
-
-Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de
-esperança.
-
---Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e
-nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
-
---Juro! exclamou o italiano.
-
-O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e
-apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do
-peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
-
---Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
-
-E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua
-clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery
-para que o acompanhasse.
-
-O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia
-profundamente.
-
-Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros,
-quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal
-á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido
-lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
-
-Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação;
-mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso
-Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve
-medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para
-sacrifica-las todas á sua salvação.
-
-Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que
-subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a
-sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que
-soubessem que estava ferido.
-
-Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
-
-Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio
-de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o
-receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse
-justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens
-brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava
-para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o
-italiano.
-
-Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta
-reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião
-matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do
-mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse
-vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e
-anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
-
-A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa
-terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio
-com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas
-as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para
-realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem
-possuia em grão tão elevado.
-
-Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de
-avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle
-tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos
-olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o
-cavalheiro.
-
-Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os
-joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o
-virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
-
-A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser
-procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous
-aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse
-consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria:
-
---Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
-
-A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano,
-transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery
-ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da
-tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o
-cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade,
-satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
-
-Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as
-cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o
-conseguiria.
-
-Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios
-daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho
-fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava
-todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos
-barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do
-Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
-
-Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida
-a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença
-delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada
-para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
-
-E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a
-quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro
-tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse
-sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao
-seu descanço, ao seu socego e felicidade.
-
-O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem
-importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
-
-Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do
-rio.
-
---Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela
-estima que me tens.
-
-E o moço apertou a mão do selvagem:
-
---Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
-
-Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia
-em suas palavras.
-
---Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora
-contente.
-
---Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que
-succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a
-ver.
-
---Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que
-ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno
-que abre a flôr da noite.
-
---Pery!... exclamou Alvaro.
-
---Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu
-fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde
-e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio;
-Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da
-corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
-
-Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem
-cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a
-delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração
-gasto pelo attrito da sociedade?
-
-A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza
-brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle
-espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
-
-Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o
-cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos
-da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado;
-quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados
-que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da
-relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil
-reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro
-sentio.
-
-Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo
-o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder
-alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo
-aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par
-da vida brilhante?
-
-Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse
-berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno
-contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do
-veneno, não é um poeta?
-
-Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza;
-ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante
-dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a
-alma.
-
-Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da
-creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes
-cousas que a natureza fez sorrindo.
-
-A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se
-despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras
-desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
-
-Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á
-beira do _Paquequer_, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas
-impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
-
-O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento
-hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por
-Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
-
-Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia
-me quer? disse o moço.
-
---Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste
-mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
-
---Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
-
---Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
-
---E se eu não amasse a Cecilia?
-
---Impossivel!
-
---Quem sabe? disse o moço sorrindo.
-
---Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla
-negra irradiou.
-
---Sim? o que farias?
-
---Pery te mataria.
-
-A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida
-sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com
-effusão.
-
-Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe
-com um tom commovido:
-
---Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a
-pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle
-arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não
-levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
-
---Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa
-menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a
-amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é
-maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim
-mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
-
---Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
-
-O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite
-antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do
-italiano; desta vez não lhe perdoára.
-
---Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
-
-Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle,
-quando Pery segurou o braço de Alvaro:
-
---O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer,
-manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem
-para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
-
---Mas quem é o inimigo da casa?
-
---Queres saber?
-
---De certo; como hei de combate-los?
-
---Tu saberás.
-
-Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo
-pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao
-redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
-
-Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem
-surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e
-hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
-
-O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito
-galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre
-a relva.
-
-Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a
-força dos pulmões:
-
---Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve
-cá!
-
-Pery não se voltou.
-
-
-
-
-VII
-
-NO PRECIPICIO
-
-
-Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.
-
-Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao
-braço.
-
---Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?...
-disse o escudeiro resfolgando.
-
---Deixa! respondeu o indio sem se mover.
-
---Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua
-procura! Tinha que ver!
-
-Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto
-antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á
-presença de D. Antonio de Mariz.
-
-Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia
-boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis,
-tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.
-
-Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o
-fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas;
-ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se
-enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.
-
-Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas,
-que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de
-semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!
-
-Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio,
-causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não
-estava de accordo.
-
---Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.
-
---Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes,
-não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é
-como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que
-chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette
-a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te,
-boca! não me pies mais!
-
-Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual
-havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como
-estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que
-segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.
-
-Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto
-mato.
-
---Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.
-
---E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.
-
---Pery vai longe!
-
---Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.
-
-O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.
-
---Pery não quer que tu o sigas.
-
---Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda
-ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de
-faca e calhão.
-
---Pery não manda duas vezes!
-
---Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.
-
-Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da
-obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este
-executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.
-
---Quem te deo a ordem?
-
---D. Lauriana.
-
---Para que?
-
---Para te levar á casa.
-
---Pery vai só.
-
---Veremos!
-
-O indio tirou a sua faca.
-
---Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr.
-D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria!
-Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.
-
---Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.
-
---Como?... Como é lá isso?
-
-O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se
-engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a
-mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao
-selvagem.
-
-Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o
-indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se
-valentemente.
-
-Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao
-pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres
-Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as
-regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde
-a mais tenra idade.
-
-Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo,
-combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um
-vime delgado.
-
---Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de
-partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na
-durindana!
-
-Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a
-voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos
-de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era
-assaltar o adversario pelas costas.
-
-Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para
-defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio
-aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o
-pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em
-que estava encostado.
-
-Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós
-ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu
-caminho placidamente.
-
---Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me
-pagarás com lingua de palmo!...
-
-Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o
-mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.
-
-Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso
-profundo que passava em baixo de sua janella.
-
-A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o
-ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a
-nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que
-sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava
-magoa-la.
-
-Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao
-contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse
-só.
-
---Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!
-
-Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que
-saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a
-chamarão ao seu proprio soffrimento.
-
-Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o
-anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo
-ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos;
-sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.
-
-O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a
-affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar,
-e um prazer que a fazia sorrir.
-
-Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era,
-e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o
-exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o
-objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.
-
-Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu
-que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia
-obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.
-
-Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do
-coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa
-subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que
-podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o
-respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor
-fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha
-a Pery.
-
-Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz:
-nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar
-a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de
-sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a
-existencia para ella seria de flôres.
-
-Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que
-tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em
-luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.
-
-Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos
-menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e
-sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão
-melancolica.
-
-Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a
-existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.
-
-Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella;
-era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou
-a desatar-se com o primeiro raio do sol.
-
-Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella
-olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera
-modificar a sua existencia.
-
---Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel
-como eu a amo e quanto a desejo feliz.
-
-Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery
-comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar
-como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a
-moça sentia por isso um pezar.
-
-Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria
-ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro
-_endireitar isto_, como elle dizia na sua linguagem simples.
-
-Chegou-se ao fosso.
-
-Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo
-precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde
-risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo
-uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.
-
-Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das
-serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia
-entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.
-
-Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o
-calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma
-linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um
-arbusto.
-
-Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o
-acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o
-receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o
-objecto que ia procurar.
-
-Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores
-chamárão _candêa_; tirou fogo, e começou a descer com o facho
-acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus
-pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.
-
-A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente
-o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.
-
-Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o
-outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada
-uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser
-vibradas.
-
---Pery!...
-
-O indio levantou os olhos para ella.
-
---Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.
-
-A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.
-
---Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que
-desejas.
-
---O que eu desejo?...
-
---Sim; Pery sabe.
-
-A moça abanou a cabeça.
-
---Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.
-
---Quem te disse? perguntou a menina admirada.
-
---Os olhos de Pery.
-
---Tu viste?
-
---Sim.
-
-O indio continuou a descer.
-
---Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.
-
---Buscar o que é teu.
-
---Meu!... murmurou melancolicamente.
-
---Elle te deo.
-
---Elle quem?
-
---Alvaro.
-
-A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o
-precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o
-murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.
-
---Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!
-
---Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.
-
---Mas tu vais morrer!...
-
---Não tem medo.
-
---Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não
-desças.
-
-O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para
-elle: cumpria-se irremissivelmente.
-
-Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na
-ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro
-da janella córando.
-
-O indio sorrio.
-
---Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.
-
-E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.
-
-Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.
-
-
-
-
-VIII
-
-O BRACELETE
-
-
-O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e
-horror.
-
-De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis,
-lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos
-rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos
-fios da têa.
-
-No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o
-estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no
-fundo do abysmo.
-
-O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.
-
-Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse
-morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o
-seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para
-salva-lo.
-
-Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se
-desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e
-descobrir o indio.
-
-Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da
-folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma
-esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular
-chama _lavandeira de Deus_.
-
-A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais
-tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a
-lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.
-
-Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra
-ainda com a voz tremula e fraca:
-
---Pery!
-
-No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade
-cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:
-
---Espera, senhora!
-
-Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu
-á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz
-chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.
-
---Estás ferido? perguntou inquieta.
-
-Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou
-pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando
-bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.
-
-Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de
-encontro á almofada da janella.
-
-Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante
-della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma
-bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo
-escarlate.
-
-Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro
-horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com
-sofreguidão:
-
---Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!
-
-O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.
-
---Tiveste medo, senhora?
-
---Muito! exclamou a menina.
-
-O indio sorrio.
-
---Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio
-das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.
-
-O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos
-os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.
-
-Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle
-imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são
-devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens
-ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery
-descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma
-trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.
-
-Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr:
-assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e
-surda.
-
-Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava
-assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles,
-attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção
-simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A
-sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a
-prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.
-
-A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do
-mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que
-tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de
-Cecilia.
-
-A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é
-innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe
-bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou
-a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:
-
---Pery sente uma cousa.
-
---O que?
-
---Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.
-
---E porque sentes isto?
-
---Porque te acompanharião sempre.
-
-Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.
-
-Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este
-bracelete, trouxesse um presente dado por ti?
-
---Muito.
-
---E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina
-gracejando.
-
-O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua
-vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um
-adorno digno de sua senhora!
-
-Cecilia teve pena do seu embaraço.
-
---Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez
-deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.
-
-Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava
-a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na
-caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.
-
-Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no
-jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina
-prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente
-desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao
-quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.
-
-Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois
-que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu
-amor.
-
-As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e
-consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o
-coração, o queimão como o rescaldo da paixão.
-
-Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com
-um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava
-rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma
-oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as
-faces.
-
-Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os
-olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.
-
-Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um
-enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe
-gracioso.
-
-Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de
-sua prima.
-
---Já te disse que não te quero vêr triste.
-
---Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.
-
---Que é isto? Faço-te medo?
-
---Não... mas...
-
---Mas, o que?
-
---Nada...
-
---Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de
-ti. Confessa!
-
---Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de
-tua amizade.
-
-E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos
-devemos amar sempre?
-
---Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel
-admirada.
-
---Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.
-
---Não; perdoa; porém é que...
-
-A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o
-espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma
-idéa assaltou-lhe o espirito.
-
-Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de
-merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir
-amargamente.
-
---Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou
-entre nós; não é verdade?
-
---Tu o queres!
-
---Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença,
-accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter
-segredos para comigo.
-
---Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.
-
---Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua
-boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e
-rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?
-
---Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de
-mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.
-
---E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes
-amar uma outra pessoa?
-
-Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe
-ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia
-nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos
-de Alvaro fitos nos seus.
-
---Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas,
-minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não
-zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!
-
---Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que
-soffras por minha causa; entendes?
-
---Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr
-preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.
-
---Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu
-te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!
-
---Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.
-
---Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao
-ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.
-
-Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve
-bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.
-
---Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?
-
-Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que
-deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o
-mereço?
-
---Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio
-é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.
-
---Porque?
-
---Porque elle te ama! murmurou Isabel.
-
-A menina corou.
-
---Não digas isto, é falso.
-
---É bem verdade.
-
---Elle te disse?
-
---Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.
-
---Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me
-importa o que elle sente a meu respeito?
-
-E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas
-voltou da porta.
-
---Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.
-
-Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao
-braço de Isabel.
-
---Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te
-achará bonita!
-
-Este bracelete!...
-
-Isabel teve de repente uma suspeita.
-
-A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.
-
---Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim,
-e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão
-agasto-me comtigo.
-
-Isabel abaixou a cabeça.
-
---Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até
-logo.
-
-E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.
-
-A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as
-impressões tristes da manhã.
-
-
-
-
-IX
-
-TESTAMENTO
-
-
-No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a
-esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua
-physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.
-
-O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando
-ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que
-se aproximassem.
-
-Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz
-até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do
-oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma
-escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.
-
-Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros
-descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como
-homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de
-não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa
-abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas
-arrobas de polvora.
-
-O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era
-a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um
-descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete
-d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.
-
-D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e
-fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.
-
---Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia,
-disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos
-interessa e a mim antes do que a todos.
-
-D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um
-sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho
-fidalgo.
-
---Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto
-deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me
-durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e
-sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á
-terra aquillo que veio da terra.
-
-Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos
-illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos
-illurdirmos a nós proprios.
-
-D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.
-
---Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma
-declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais
-comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta
-annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem
-vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar
-tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.
-
-Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a
-segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal
-desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!
-
---De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha
-remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda
-vida que vos deo o novo mundo.
-
---Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo;
-quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente
-da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua
-ultima vontade, e fazer o seu testamento.
-
---O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido.
-
---Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve
-preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho
-aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua
-ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas.
-Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que
-tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um
-documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento.
-Ouvi-me.
-
-Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D.
-Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo
-com uma emoção de tristeza e respeito.
-
---Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe
-da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um
-esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi
-na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas
-cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que
-me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu
-nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou
-meu pai.
-
-O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para
-o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.
-
---A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que
-conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis
-por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a
-felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem
-já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.
-
-Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma
-das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os
-n'um mesmo olhar de amor paternal.
-
---Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.
-
-D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os
-dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.
-
---O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma
-falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha
-natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre
-menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o
-titulo de sobrinha.
-
---Isabel?... exclamou D. Diogo.
-
---Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre
-como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e
-carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe
-mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.
-
-A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se
-que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia
-despertado.
-
---Pobre mulher!... murmurou elle.
-
-Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua
-emoção, voltou aos dous moços.
-
---Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço
-um juramento; basta-me a vossa palavra.
-
-Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que
-comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.
-
---Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A
-tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis
-muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que
-até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.
-
---Assim o tinha entendido, disse Alvaro.
-
---Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo
-tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das
-partes do meu testamento. Sabeis qual?
-
---A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.
-
-D. Antonio apertou-lhe a mão.
-
---Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um
-triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?
-
---Vi-o ha pouco.
-
---Ide e mandai-o a mim.
-
-O moço retirou-se.
-
---Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.
-
-D. Diogo obedeceu.
-
-O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que
-fechou com um retroz e sellou com as suas armas.
-
-D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo.
-
---Sentai-vos, minha mulher.
-
-D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que
-ia praticar.
-
-Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:
-
---Que queres tu dar-lhe?
-
-A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que
-tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo
-entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião
-expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um
-selvagem.
-
-Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido
-tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.
-
---Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.
-
---É necessario; eu te disse.
-
---Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.
-
---Impossivel!
-
---Que mal faz elle aqui?
-
---Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves
-crêr-me.
-
---Não vos agasteis!...
-
---Assim não te oppões?
-
-Cecilia calou-se.
-
---Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e
-eu, porque lhe prometti.
-
---Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.
-
-Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no
-seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.
-
-A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata
-das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos
-percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do
-cavalheiro.
-
-Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu
-irmão D. Diogo.
-
---Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o
-fidalgo.
-
---Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.
-
---Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima?
-
---Sim; porque o disse e mostrou.
-
---Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste
-por elle, salvando sua filha?
-
---Se fosse preciso, sim.
-
---Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á
-tua tribu.
-
-O indio estremeceu.
-
---Porque pedes isto?
-
---Porque assim é preciso, amigo.
-
---Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!
-
---Não!
-
---Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita
-de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento:
-sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery
-não te custa nada.
-
-Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana
-mesma parecia enternecida.
-
---Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa,
-se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana.
-Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.
-
---Porque então mandas Pery embora?
-
-D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um
-pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da
-religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.
-
---Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a
-quem amamos, respeitamos e obedecemos.
-
---Sim.
-
---Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o
-adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.
-
---O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua
-tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.
-
-Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar.
-
---Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas
-que Pery vá, senhora?
-
-D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas
-prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.
-
---Sim! balbuciou Cecilia.
-
-O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.
-
-O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo
-das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira
-vez sente-se vencida pela dôr.
-
-
-
-
-X
-
-DESPEDIDA
-
-
-D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:
-
---O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim
-mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a
-sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos
-nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e
-de tua senhora e no meu.
-
-O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e
-voltou-se para seu filho:
-
---Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa
-ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por
-elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos
-deixo a cumprir, meu filho.
-
---Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa
-divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em
-satisfação dos meus proprios sentimentos.
-
---Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao
-indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos
-todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo
-onde nasceste.
-
-Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes,
-como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não
-podião exprimir.
-
-Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força
-invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua
-senhora.
-
-A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta,
-e deitou-a no pescoço do indio:
-
---Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.
-
---Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.
-
-Cecilia estremeceu.
-
-O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não
-podia dominar a sua emoção.
-
---Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a
-terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não
-voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a
-alegria se partisse no fim da lua.
-
---Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos
-separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.
-
---Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery
-estaria comtigo para defender-te.
-
---Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.
-
---Sim: podes contar.
-
-E por quem?
-
---Pelo Aymoré.
-
---E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar
-desconfiado.
-
-O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.
-
---Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou
-sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e
-caminharem para sua tribu.
-
---E tu o que fizeste?
-
---Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.
-
-O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.
-
---É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu
-não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e
-meus.
-
-O indio sorrio tristemente.
-
---Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.
-
-D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias,
-e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.
-
-Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a
-principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a
-fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que
-apparecia no saio de algodão do indio.
-
-Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais
-distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado
-a solução de um difficil problema.
-
---Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.
-
-Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o
-talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as,
-e viu que estavão descarregadas.
-
-O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio
-com admiração profunda.
-
---Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é
-de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o
-coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas,
-que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de
-sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.
-
-O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado
-pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas
-restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e
-confuso, parecia um criminoso em face do juiz.
-
---Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo
-para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.
-
---Falla.
-
---Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no
-banho?
-
---Foi Pery.
-
---Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?
-
-Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.
-
---Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos
-selvagens?
-
-Pery não respondeu.
-
---É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te
-offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.
-
---Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.
-
-O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.
-
---Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.
-
-Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse
-com um tom supplicante:
-
---Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo
-embora, depois do que fez por mim?
-
---Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da
-guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e
-para sempre.
-
-Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos
-labios de D. Antonio.
-
---Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma
-expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela
-segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por
-nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma
-dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva
-sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi
-não estivera?
-
-D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o
-seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos.
-As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.
-
---Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar,
-sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho
-tambem a minha divida a pagar.
-
-O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe
-estendêra.
-
-Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para
-o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu
-pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava,
-e seguiria o exemplo que lhe dava.
-
-Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou
-estupefacto.
-
-O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma
-indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.
-
-Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma
-janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do
-_Paquequer_. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava
-que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande
-corpulencia.
-
-Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e
-monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de
-jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa
-em que atravessou para a margem opposta.
-
-Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu
-pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma
-de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os
-selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento
-cerrou-lhe o coração.
-
-D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um
-receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito
-involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que
-se tinha mostrado tão severo com seu filho.
-
-Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões,
-aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela
-disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte
-presentimento.
-
-Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre
-sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra
-naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia
-definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás
-vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á
-casa.
-
-Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente
-enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não
-queria assustar sua mulher.
-
-O mais já sabemos.
-
-Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa,
-e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.
-
-Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto;
-recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel
-havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o
-houvesse presenciado.
-
-A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante
-o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o
-saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um
-raio de luz para D. Antonio.
-
-O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos
-conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar
-os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do
-que se passava.
-
-Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D.
-Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de
-gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao
-escudeiro.
-
-Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente
-com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença
-para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse
-despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos;
-mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa,
-Ayres Gomes não hesitava.
-
-D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle
-não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.
-
---Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo
-que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo
-dedicado de toda a minha familia.
-
-Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer
-a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão
-que o havia injuriado?
-
-Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o
-pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.
-
---Vamos, Ayres!
-
-O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão
-sorrindo.
-
---Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.
-
-Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha
-passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.
-
---Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre
-mostrar o que és.
-
-Era hora do jantar: o toque soou.
-
-
-
-
-XI
-
-TRAVESSURA
-
-
-Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão
-passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma
-da outra.
-
-Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa
-belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de
-uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.
-
-O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão
-os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que
-fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a
-contemplavão.
-
-Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento
-elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e
-lembrava-se dos anginhos de Deus.
-
-Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito
-apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso,
-lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.
-
-No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um
-certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que
-costumava praticar.
-
-Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos;
-parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente
-Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua
-alma.
-
-Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida
-dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de
-jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola
-brilhante que bem se podia chamar _a alma do amor_.
-
-O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a
-luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve
-roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe
-sensações voluptuosas.
-
-Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem
-comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua
-prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno
-semblante.
-
---Como estás bonita! disse a menina de repente.
-
-E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo
-suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.
-
---Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de
-Cecilia.
-
-É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.
-
-Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a
-verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.
-
---Vamos busca-lo?
-
---Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.
-
---Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.
-
---Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.
-
-Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.
-
-Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho
-D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela
-esplanada conversando.
-
-Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do
-joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.
-
---Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está
-tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos
-acompanhassem?
-
---Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo
-galanteando; cumpririamos a tua ordem.
-
---Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!
-
---E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?
-
---Assim, nos acompanhais?
-
---De certo.
-
---E vós, Sr. Alvaro?
-
---Eu... obedeço.
-
-Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a
-perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.
-
-Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a
-durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez
-lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da
-sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e
-satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa
-de que elle se accusava.
-
-A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que
-de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem
-guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára
-Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o
-chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho
-encantador que ia esvaecer-se.
-
-As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas
-de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás
-vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela
-vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por
-detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por
-algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se
-ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.
-
-Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se
-aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão
-brejeiro, que Isabel ficou inquieta.
-
---Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.
-
---Sim! E o que é?
-
---Um segredo.
-
---Pois vem contar-m'o.
-
-Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o
-braço.
-
---Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se;
-conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo
-bracelete... Ainda não o vistes?
-
-E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella
-tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e
-Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir
-o seu effeito.
-
-A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é
-impossivel de descrever.
-
-Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a
-enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua
-prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.
-
-Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia
-tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não
-podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que
-devia ser um segredo entre ambos.
-
-Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos;
-avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o
-olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o
-seu braço mimoso.
-
-Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma
-explicação, animou-se a romper o silencio:
-
---Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante.
-
---Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.
-
---Como?
-
---Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me
-fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...
-
---Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?
-
---Nunca!... exclamou a moça com fogo.
-
-Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra;
-parecia dar um juramento.
-
---Qual o motivo? perguntou depois de um momento.
-
-A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e
-tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse
-teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem
-o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um
-mysterio, e desejava esclarecê-lo.
-
-Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:
-
---Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o
-que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes
-escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar
-com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?
-
-Isabel estremeceu.
-
---Fallai: eu vos escuto, Sr. Alvaro.
-
---Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste
-bracelete, não é verdade?
-
---Sim! balbuciou a moça.
-
---Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço.
-Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até
-que ponto zombão de mim.
-
---Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.
-
---E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?
-
---Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do
-coração.
-
---Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!
-
-Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça
-implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e
-revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle
-havia dado.
-
-Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse
-merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que
-lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.
-
-A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida;
-seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu
-vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar
-ardente cahia sobre o moço e o fascinava.
-
---Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer
-assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.
-
---E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.
-
---Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me
-annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo
-receber-se a má nova de voz amiga!
-
-Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:
-
---Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!
-
---E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim
-um amigo.
-
---Se fosseis!...
-
-E os olhos de Isabel scintillárão.
-
---Acabai!
-
---Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.
-
---Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe?
-disse Alvaro admirado.
-
-A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.
-
-Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da
-parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu
-espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.
-
-Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que
-tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o
-cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um
-enigma.
-
---D. Isabel!
-
-A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.
-
---Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.
-
---Não m'o pergunteis!...
-
---Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós?
-Dizei!
-
---Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.
-
---Tanto tempo ha que supplico-vos!
-
-Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della
-esperava emfim uma resposta.
-
-Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão
-das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as
-faces.
-
---Me perdoareis?
-
---Sim! Mas porque?
-
---Porque...
-
-Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução
-subita se tinha operado em toda a sua organisação.
-
-O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão
-abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas
-que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.
-
-O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a
-menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia
-transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.
-
-As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço,
-ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia
-esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos
-labios.
-
-Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do
-rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha
-ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se
-nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se
-pelas fórmas palpitantes.
-
-Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a
-primeira palavra.
-
-Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor
-desfallecida sobre a haste, murmurou:
-
-Porque... vos amo!
-
-
-
-
-XII
-
-AS MENSAGENS DE PERY
-
-
-Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas
-veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.
-
-Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração
-leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o
-amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma
-profanação.
-
-A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento
-rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava
-ajoelhada aos pés do cavalheiro.
-
-Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto
-tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se,
-embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.
-
---Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.
-
---Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a;
-peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.
-
---Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha
-mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem
-mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!
-
-E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.
-
---Que desejais de mim? perguntou o moço.
-
---Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós
-será para mim um consolo. M'o negareis?
-
-Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um
-desespero surdo e concentrado.
-
---Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um
-irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.
-
---Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.
-
---E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel.
-
-A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas
-palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a
-suffocava.
-
-Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o
-que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel
-era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já
-cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava
-como pai.
-
---Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me
-por vosso irmão.
-
---Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua
-irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?
-
---Sim, D. Isabel.
-
---Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente?
-perguntou ella com timidez.
-
-Alvaro hesitou.
-
---Sim, Isabel.
-
-A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os
-labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o
-acariciavão.
-
---Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É
-preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.
-
---Contai-me as vossas magoas.
-
---Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero
-mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.
-
---Culpada! Em que!
-
---Em querer-vos, disse Isabel corando.
-
-Alvaro tornou-se frio e reservado.
-
---Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me,
-depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.
-
-A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro
-não pode resistir.
-
---Fallai, minha irmã.
-
---Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo,
-e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me
-queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas;
-entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que
-me tratão fez-me desprezar a outra.
-
---Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de
-D. Antonio de Mariz.
-
---Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo
-que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar
-alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...
-
---Tendes razão, Isabel.
-
---Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição
-que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a
-amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.
-
-A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.
-
---Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o
-percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e
-conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.
-
-O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.
-
---Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões,
-sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um
-prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de
-lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se
-aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso
-semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o
-raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um
-gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão
-as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me
-fallavão...
-
-Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro
-palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a
-ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.
-
---Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me
-deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo.
-Podeis-me ouvir sem temor.
-
---Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.
-
---Resta a explicação que ha pouco me pedieis.
-
---Ah! emfim!
-
-Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que
-guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e
-o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.
-
---Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração,
-donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos
-aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A
-esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e
-fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes
-que lembrar-vos de mim para odiar-me!
-
---Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós
-senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela
-affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.
-
-O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e,
-apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para
-reflectir sobre o que lhe acontecia.
-
-Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado;
-e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz
-lhe dava a mão de sua filha!
-
-Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do
-coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa;
-caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de
-arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.
-
-Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo
-estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião
-perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.
-
-A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os
-olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez
-temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore
-começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a
-aproximação da noite.
-
-Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente
-sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante
-de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o
-movimento que lhe tinha imprimido o arco.
-
-O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo
-aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão
-de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.
-
-Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do
-rosto de Cecilia.
-
-Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade,
-tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião
-uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.
-
---Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.
-
---Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar;
-queres?
-
---Pery te pede.
-
---Quaes achas mais bonitas?
-
---A de teu rosto, e a de teus olhos.
-
-Cecilia sorrio.
-
---Toma-as; eu te as dou.
-
-Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e
-brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra
-tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.
-
-Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta,
-tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da
-phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.
-
-Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um
-aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou
-mensageira muda, uma simples interjeição: _Alto_!
-
-O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia
-dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação
-com esse mysterio que apenas deixara entrever.
-
-Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com
-o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse
-attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do
-indio.
-
-Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os
-braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava
-no fundo azul do horizonte, esperou.
-
-Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no
-tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se;
-Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á
-ordem.
-
-Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do
-cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em
-duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a
-trinta passos do lugar onde parára a principio.
-
-Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que
-acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem
-ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no
-arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.
-
-Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais
-ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde
-conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão
-cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.
-
-Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia
-segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma
-sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao
-ouvido uma palavra.
-
---São elles.
-
---Elles quem?
-
---Os inimigos brancos.
-
---Não te entendo.
-
---Espera: Pery volta.
-
-E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava
-rapidamente.
-
-
-
-
-XIII
-
-TRAMA
-
-
-Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.
-
-O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se;
-passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por
-lhe escaparem os seus inimigos.
-
-Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e
-o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os
-homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas
-nunca homens de energia e resolução.
-
-Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e
-Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal
-parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos
-meios de sahir da posição difficil em que se achava.
-
-Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando
-receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que
-complicasse a situação.
-
-Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia
-nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que
-respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.
-
---Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.
-
---Como sabeis?
-
---Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?
-
---É verdade; mas quem foi então?
-
---Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem
-que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.
-
-Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara
-silencioso.
-
---Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?
-
---Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.
-
-O italiano sorrio de escarneo.
-
---Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por
-este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido
-que devemos tomar.
-
---Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em
-tudo isto uma cousa sobrenatural.
-
---Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com
-impaciencia.
-
---Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de
-creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia
-da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.
-
-Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos,
-onde tivera lugar a sua entrevista.
-
---Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma
-palavra sequer.
-
-Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o
-som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e
-perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se
-porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava
-até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação
-da scena anterior.
-
---Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra
-vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.
-
---Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra
-observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio;
-desconfia apenas.
-
---Ainda insistis em que fosse um homem?
-
---Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do
-que de uma cobra; é de um homem visionario.
-
---Visionario! dizei crente!
-
---Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em
-espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde
-servireis de carniça aos urubús.
-
-O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da
-pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos
-corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.
-
---Pensastes?
-
---Sim.
-
---Admittis que fosse um homem?
-
---Admitto tudo.
-
---Jurais?
-
---Juro.
-
---Sobre...
-
---Sobre minha salvação.
-
-O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao
-Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.
-
-Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão
-feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.
-
-Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma
-hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A
-posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances
-da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do
-abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.
-
-Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o
-abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste
-homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do
-gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento
-do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se
-expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol
-ardente que fazia borbulhar o sangue.
-
-Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões
-violentas.
-
-Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na
-contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e
-fugia-lhe.
-
-A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue
-quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever
-inspirar senão affeições castas.
-
-A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões.
-Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e
-arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?
-
-Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no
-mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro
-sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia
-conquistar.
-
-Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua
-como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.
-
---Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui
-mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?
-
---Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto
-antes, e andar dia e noite sem parar.
-
---E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?
-
---Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão,
-obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda
-a parte.
-
---Que propondes então?
-
---Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos
-descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem;
-ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.
-
---Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a
-nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que
-devemos ganhar tudo ou perder tudo.
-
-Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.
-
---Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.
-
---Com oito.
-
---E vós, Bento?
-
---Sete.
-
---Decididos?
-
---Promptos ao menor signal.
-
---Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da
-batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso
-que á noite tudo esteja concluido.
-
---E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.
-
---Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da
-casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará
-signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda
-esperança de salvar-se.
-
-Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas
-fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.
-
-Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de
-sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.
-
-Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros
-carregar as suas, e disse-lhes:
-
---Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é
-nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em
-todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.
-
-Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com
-as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.
-
-Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous
-passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia
-produzida pela correnteza do vento.
-
-Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros
-como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e
-conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua
-procura.
-
-O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando
-Bento Simões parou:
-
---Quem entrará primeiro?
-
---A sorte decidirá, respondeu Ruy.
-
---Como?
-
---Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro
-chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.
-
---Está dito!
-
-Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.
-
-Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se;
-como Loredano, elle tambem disse, comsigo:
-
---O ultimo será o primeiro.
-
-E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros
-sem que um percebesse a morte dos outros.
-
-Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando
-Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no
-chão ao fio comprido do lombo.
-
-Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já
-ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.
-
-O plano de Pery tinha gorado.
-
---Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou
-cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.
-
-O aventureiro não replicou.
-
-Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião
-favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de
-longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que
-ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao
-cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.
-
-Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros,
-espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um
-e um, mata-los.
-
-Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.
-
-Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca,
-Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio
-com seu pai e sua prima.
-
-A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte;
-escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse
-assustar a menina, quanto mais offendê-la.
-
-Bento Simões passou incolume.
-
-
-
-
-XIV
-
-A CHACARA
-
-
-Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.
-
-Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe
-escapavão por uma especie de fatalidade.
-
-O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva;
-modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os
-tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava
-que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle
-sabia.
-
-Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este
-expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano
-executara sua trama.
-
-O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a
-D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já
-acudido ao pensamento do indio.
-
-Foi ter com Alvaro que o esperava.
-
-O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição
-quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para
-sempre.
-
-Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de
-Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta
-lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela
-mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.
-
-Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer
-repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os
-olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.
-
-Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da
-cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o
-echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.
-
-O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella
-imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola
-esplendida.
-
-Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle;
-passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o
-incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de
-suas esperanças.
-
-Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e
-desapego da vida, que succedem ás dores profundas.
-
---Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?
-
---Sim; respondeu o indio.
-
---Quero conhecê-los.
-
---Para que?
-
---Para ataca-los.
-
---Mas são tres.
-
---Melhor.
-
-O indio hesitou:
-
---Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle
-morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.
-
---Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?
-
---Pery póde; mas não quer dizer.
-
---Porque?
-
---Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás
-os máos.
-
---Oh! que não. Falla!
-
---Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas
-a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.
-
---Como?
-
---Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti,
-a todos da casa. Tem outros que os seguem.
-
---Uma revolta!... exclamou Alvaro.
-
---O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não
-deixará.
-
---É impossivel! disse o moço surprendido.
-
-Pery te diz verdade.
-
---Não creio!...
-
-Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma
-exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio,
-não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de
-sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.
-
-O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca
-durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um
-só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de
-disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas
-não passava disto.
-
-O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se
-obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu
-cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.
-
---Tu duvidas de Pery?
-
---Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery;
-mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.
-
---Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o
-indio com firmeza.
-
---Que queres dizer com isto?
-
---Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se
-elle perder a vida dirás ainda que se engana?
-
-Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.
-
---Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.
-
---Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente;
-Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar
-o bote.
-
---Mas então o que queres de mim?
-
---Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle
-fez; que salves a senhora!
-
---Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro
-senão contra o ferro!
-
-O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.
-
---Tu não amas Cecy!
-
-Alvaro estremeceu.
-
---Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.
-
---Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida
-sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria
-de meu pai.
-
-Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a
-mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as
-circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.
-
-Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão
-todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse
-quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do
-dever.
-
-Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em
-torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida;
-sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé
-dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.
-
-Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra
-filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa,
-comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas
-Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os
-grandes sentimentos.
-
-Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de
-sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.
-
-O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do
-cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a
-mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:
-
---Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte;
-tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno
-das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade
-de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.
-
---Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o
-teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a
-minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em
-torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que
-passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua
-senhora.
-
---Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das
-florestas; Pery te chamaria irmão.
-
-Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro
-lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de
-defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e
-prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.
-
-O indio tinha a sua idéa.
-
-Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que
-occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.
-
-Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na
-cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores
-para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco
-do jardim.
-
-Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta
-abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava
-no vão esclarecido.
-
-A menina avistando o indio correu para elle:
-
---Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade?
-E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir!
-Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.
-
---Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para
-elle ficar.
-
---Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.
-
---O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio
-simplesmente.
-
---Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de
-contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me
-salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita;
-todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.
-
-O indio sorrio:
-
---Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?
-
---Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe
-ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.
-
-Pery abanou a cabeça.
-
---Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do
-céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo
-isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma
-cruz no peito. Sim?
-
---A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para
-abrir; Pery precisa de liberdade para viver.
-
---Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!
-
---Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o
-peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o
-passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida
-em que nasceu.
-
-Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.
-
---Não te zanga, senhora.
-
---Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te
-chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.
-
-E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu
-para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.
-
-O indio voltou pezaroso á sua cabana.
-
-De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma
-antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os
-sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da
-musica.
-
-A chacara dizia assim:
-
-
- Foi um dia.--Infanção mouro
- Deixou
- Alcaçar de prata e ouro.
-
- Montado no seu corcel,
- Partio
- Sem pagem, sem anadel.
-
- Do castello á barbacã
- Chegou
- Viu formosa castellã.
-
- Aos pés daquella a quem ama
- Jurou
- Ser fiel á sua dama.
-
- A gentil dona e senhora
- Sorrio;
- Ai! que isenta ella não fora
-
- «Tu és mouro; eu sou christã:»
- Fallou
- A formosa castellã.
-
- «Mouro, tens o meu amor:
- Christão,
- Serás meu nobre senhor.»
-
- Sua voz era um encanto,
- O olhar
- Quebrado, pedia tanto!
-
- «Antes de ver-te, senhora,
- Fui rei;
- Serei teu escravo agora.
-
- «Por ti deixo meu alcaçar
- Fiel;
- Meus paços d'ouro e de nacar.
-
- «Por ti deixo o paraiso;
- Meu céo
- É teu mimoso sorriso.»
-
- A dona em um doce enleio
- Tirou
- Seu lindo collar do seio.
-
- E duas almas christãs,
- Na cruz
- Um beijo tornou irmãs.
-
-
-A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um
-momento as suas doces modulações.
-
-
-
-
-FIM DA SEGUNDA PARTE.
-
-
-NOTAS
-
-DO TOMO PRIMEIRO.
-
-
-PAG. 3.--=Guarany=.
-
-O titulo que damos a este romance significa o _indigena brazileiro_. Na
-occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes
-a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e
-expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta
-raça pelo nome _Tupi_ mas esta denominação não era usada senão por
-algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia
-dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome
-primitivo da grande nação.
-
-
-PAG. 3.--=O Paquequer=.
-
-Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer
-naquella epoca, lêa-se B. da Silva Lisboa, _Annaes do Rio de
-Janeiro_, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café
-transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e
-desertos.
-
-
-PAG. 4.--=Brazão d'armas=.
-
-Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos _Annaes do Rio
-de Janeiro_, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei
-litteralmente.
-
-
-PAG. 11.--=D. Antonio de Mariz=.
-
-Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu
-passado, antes da epoca em que começa o romance.
-
-Nos _Annaes do Rio de Janeiro_, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve
-noticia sobre sua vida.
-
-
-PAG. 13.--=D. Pedro da Cunha=.
-
-Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla
-Warnhagen na sua historia do Brazil.
-
-
-PAG. 16.--=Aventureiros=.
-
-O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda
-de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas.
-Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a
-necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares
-para as conquistas e explorações.
-
-
-PAG. 14.--=D. Lauriana=.
-
-Segundo B. da S. Lisboa a mulher de D. Antonio de Mariz chamava-se
-Lauriana Simoa, e era natural de S. Paulo.
-
-
-PAG. 19.--=D. Diogo de Mariz=.
-
-Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega
-do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes.
-S. Lisboa.--_Annaes_.
-
-
-PAG. 20.--=Pistoletes=.
-
-Ou arcabuzes pequenos. Pela ord. n° 5, tit. 80, s. 13ª, era defesa
-trazê-los armados ou tê-los em casa.
-
-
-PAG. 32.--=Um indio=.
-
-O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se
-encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os
-escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da
-regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por
-Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a
-raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou
-depois.
-
-
-PAG. 38.--=Forcado=.
-
-Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria,
-é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que
-cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados
-já estão.
-
-
-PAG. 40.--=Ticum=.
-
-O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os
-Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para
-cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina
-de almocega era fortissimo.
-
-
-PAG. 42.--=Biribá=.
-
-Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito,
-roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. B. da S.
-Lisboa.--_Annaes_.
-
-
-PAG. 43.--=Gardenia=.
-
-Nome scientifico que Fr. Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena
-silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a
-mais commum é a branca e escarlate.
-
-
-PAG. 73.--=Pery=.
-
-Palavra da lingua guarany que significa _junco silvestre_.
-
-
-PAG. 80.--=Oleo=.
-
-É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de
-cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura.
-
-
-PAG. 94.--=Hirara=.
-
-Especie de gato selvagem, indigena do Brazil.
-
-
-PAG. 100.--=Soffrer=.
-
-É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um
-negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por
-que os primeiros colonos lhe derão esse nome.
-
-
-PAG. 102.--=Cecy=.
-
-É um verbo da lingua guarany que significa _magoar_, _doer_.
-
-
-PAG. 106.--=Sapucaia=.
-
-Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição
-de um côco.
-
-
-PAG. 107.--=Pequiá=.
-
-Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de
-brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro.
-
-
-PAG. 111.--=O cactus=.
-
-Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o
-rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão _urumbeba_. Todos elles
-abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol.
-
-
-PAG. 111.--=Graciola=.
-
-É o nome scientifico que Fr. Velloso na sua _Flora Fluminense_ dá á
-pequena flôr azul de um arbusto indigena.
-
-
-PAG. 111.--=Malvalisco=.
-
-Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira,
-cuja flor é escarlate.
-
-
-PAG. 112.--=Viuvinha=.
-
-Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro
-que saúda o nascimento do dia.
-
-
-PAG. 113.--=Jasmineiro=.
-
-Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous
-botanicos que citamos acima.
-
-
-PAG. 115.--=Colhereira=.
-
-É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma
-bella côr de rosa.
-
-
-PAG. 146.--=O cão=.
-
-Diz o Sr. Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o
-companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu.
-
-
-PAG. 149.--=Cabuiba=.
-
-A cabuiba ou cabureiba, _Balsamum Peruvianum_ de Pison, _Cabuibaiba_ de
-Maregrave e _Miroxilem Cabriuva_ de outros naturalistas, é uma arvore
-das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama
-arvore do balsamo.
-
-Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para
-cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; S. Lisboa e Ayres do Casal.)
-
-
-PAG. 154.--=Formigueiro=.
-
-No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas,
-feitas por uma formiga, a que os indios chamárão _taciahy_.
-
-
-PAG. 161.--=Garcia Ferreira=.
-
-Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro
-por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (B. da Silva
-Lisboa.)
-
-
-PAG. 163.--=Roberio Dias=.
-
-Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de
-prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia;
-pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado.
-Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão.
-
-Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das
-minas. (B. da S. Lisboa.)
-
-
-PAG. 177.--=Convento do Carmo=.
-
-«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de
-José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre Fr. Pedro,
-para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o
-anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590,
-pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição
-geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (B. da S. Lisboa, tom.
-VII°, cap. 2°, § 6.)
-
-
-PAG. 196.--=Arvores de ouro=.
-
-A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta
-flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á
-embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (G. Soares, _Roteiro do
-Brazil_, e B. da S. Lisboa _Annaes_).
-
-Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase
-figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de
-setembro.»
-
-
-PAG. 196.--=O mais forte=.
-
-É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que
-tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de
-hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era
-ephemero.
-
-
-PAG. 197.--=Taba dos brancos=.
-
-Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito
-Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um
-desses combates que o indio conta de passagem.
-
-
-PAG. 198.--=Senhora dos brancos=.
-
-Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na
-occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de
-Nossa Senhora, que o impressionou vivamente.
-
-
-PAG.--=A estrella grande=.
-
-O que dizem alguns chronistas, a respeito da ignorancia absoluta dos
-indigenas sobre a astronomia, me parece inexacto. Os Guaranys tinhão os
-conhecimentos rudes, filhos da observação. Chamavão a estrella
-_jacy-tato_, fogo da lua; suppunhão pois que a lua é que transmittia a
-luz ás estrellas. Conhecião as quatro phases da lua: a lua nova,
-_jacy-peçaçu_; o quarto crescente, _jacy-jemorotuçu_; a lua cheia,
-_jacy-caboaçu_; e o quarto minguante, _jacy-jearoca_. Dividião o anno
-em duas estações: a estação do sol, _coaracyara_, e a estação da
-chuva, _ama'na-ara_; são as mesmas que hoje conhecemos, e as unicas que
-realmente existem no Brazil. Muitas outras observações podiamos fazer,
-que omittimos para evitar prolixidade.
-
-
-PAG. 199.--=Grande rio=.
-
-Esta palavra é relativa: todas as nações chamavão assim o maior rio
-que havia no territorio que ellas conhecião, e é por isso que se
-encontrão tantos _rios grandes_ nos nomes dos rios do nosso paiz. Para
-os Goytacazes o Rio-Grande era o Parabyba.
-
-
-PAG. 218.--=A nação goytacaz=.
-
-Esses factos lêem-se em qualquer dos escriptores que se têm occupado
-dos primeiros tempos coloniaes do Brazil, e especialmente em G. Soares,
-que foi contemporâneo delles.
-
-
-PAG. 260--=Cipós=.
-
-Diz Gabriel Soares: «Deu a natureza ao Brazil, por entre os arvoredos,
-umas cordas muito rijas, muitas que nascem aos pés dos arvores e
-atrepão por ellas acima, a que chamão cipós, com que os indios atão
-a madeira de suas casas e os brancos que não podem mais. Nestes mesmos
-mattos se crião outras cordas mais delgadas e primas a que os indios
-chamavão «timbós,» que são mais rijas que os cipós acima.»
-
-A quantidade infinita de cipós é uma das originalidades das florestas
-do Brazil, e admirou os naturalistas estrangeiros que o visitárão.
-
-
-PAG. 222.--=Candêa=.
-
-Diz o mesmo autor: «Ha uma arvore meã que se chama «ibiriba» a qual
-os Indios fazem em fios para fachos, com que vão mariscar e para
-andarem de noite; e ainda que seja verde, cortada daquella hora, pega o
-fogo nella como em alcatrão, e não apaga o vento os fachos della; e em
-casa servem-se os indios de achas dessa madeira, como de candêas.
-
-
-PAG. 269.--=Cauan=.
-
-É uma ave que devora as cobras, pelo que ellas fogem della, Os indios,
-segundo affirma Ayres do Casal, imitavão o seu canto, quando andavão
-á noite pelo matto, e assim preservavão-se de serem mordidos.
-
-
-PAG. 338.--=Setta por elevação=.
-
-A destreza e a habilidade com que os Indios atiravão a setta era tal,
-que os Europeus a admiravão. Para atirarem por elevação,
-deitavão-se, seguravão o arco com os dous dedos dos pés e lançavão
-ao ar a setta que, subindo, descrevia uma parabola e ia cahir no alvo.
-Ainda ha pouco tempo no Pará se vião, nas aldêas de indios já
-cathequisados, pareos deste jogo, em que o alvo era um tronco de
-bananeira decepado. O tenente Pimentel, filho do presidente de
-Matto-Grosso, foi assassinado pelos indios deste modo, cavalgando no
-meio de muitos cavalleiros. Nenhum foi ferido: e todas as settas
-abatêrão-se sobre o moço de quem os selvagens se querião vingar.
-
-
-
-
-FIM DAS NOTAS DO TOMO PRIMEIRO.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O GUARANY: ***
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- O Guarany - Tomo Primeiro, by J. De Alencar&mdash;A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span>, by José Martiniano de Alencar</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Guarany:</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>romance brazileiro Vol. 01 (of 2)</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: José Martiniano de Alencar</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: March 28, 2022 [eBook #67724]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues and Kristen Carmean (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div>
-
-<p class="center"><br />
-<span class="big">J. DE ALENCAR</span></p>
-<hr class="r5" />
-
-<h1 class="space-above"><span class="small">O</span><br />
-<span class="big">GUARANY</span><br /><br />
-<span class="small">ROMANCE BRAZILEIRO</span></h1>
-<hr class="r5" />
-
-<p class="center space-above">QUINTA EDIÇÃO<br /><br /></p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">TOMO PRIMEIRO</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center space-above"><span class="big">RIO DE JANEIRO</span><br /><br />
-B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR<br />
-<span class="small">71, RUA DO OUVIDOR, 71</span><br />
-PARIS.&mdash;E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">Ficão reservados os direitos de propriedade.</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center"><strong>1883</strong></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="AO_LEITOR">AO LEITOR</h2>
-<hr class="r5" />
-</div>
-
-
-<p>Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição
-uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a
-rever.</p>
-
-<p>Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema
-benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para
-divida de reconhecimento.</p>
-
-<p>Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos,
-achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem
-corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e
-sobra o tedio de um labor ingrato.</p>
-
-<p>Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o
-desalinho de um estylo não castigado.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2>
-<p class="center"><a href="#PRIMEIRA_PARTE">PRIMEIRA PARTE<br />
-<strong>OS AVENTUREIROS</strong></a></p>
-<ul>
-<li><a href="#p1-I">I.&mdash;Scenario</a></li>
-<li><a href="#p1-II">II.&mdash;Lealdade</a></li>
-<li><a href="#p1-III">III.&mdash;A bandeira</a></li>
-<li><a href="#p1-IV">IV.&mdash;A Luta</a></li>
-<li><a href="#p1-V">V.&mdash;Loura e morena</a></li>
-<li><a href="#p1-VI">VI.&mdash;A Volta</a></li>
-<li><a href="#p1-VII">VII.&mdash;A prece</a></li>
-<li><a href="#p1-VIII">VIII.&mdash;Tres linhas</a></li>
-<li><a href="#p1-IX">IX.&mdash;Amor</a></li>
-<li><a href="#p1-X">X.&mdash;Ao alvorecer</a></li>
-<li><a href="#p1-XI">XI.&mdash;No banho</a></li>
-<li><a href="#p1-XII">XII.&mdash;A onça</a></li>
-<li><a href="#p1-XIII">XIII.&mdash;Revelação</a></li>
-<li><a href="#p1-XIV">XIV.&mdash;A india</a></li>
-<li><a href="#p1-XV">XV.&mdash;Os tres</a></li>
-</ul>
-<p class="center">
-<a href="#SEGUNDA_PARTE">SEGUNDA PARTE<br />
-<strong>PERY</strong></a></p>
-<ul>
-<li><a href="#p2-I">I.&mdash;O Carmelita</a></li>
-<li><a href="#p2-II">II.&mdash;Yara!</a></li>
-<li><a href="#p2-III">
-III.&mdash;Genio do mal</a></li>
-<li><a href="#p2-IV">
-IV.&mdash;Cecy</a></li>
-<li><a href="#p2-V">
-V.&mdash;Vilania</a></li>
-<li><a href="#p2-VI">
-VI.&mdash;Nobreza</a></li>
-<li><a href="#p2-VII">
-VII.&mdash;No precipicio</a></li>
-<li><a href="#p2-VIII">
-VIII.&mdash;O bracelete</a></li>
-<li><a href="#p2-IX">
-IX.&mdash;Testamento</a></li>
-<li><a href="#p2-X">
-X.&mdash;Despedida</a></li>
-<li><a href="#p2-XI">
-XI.&mdash;Travessura</a></li>
-<li><a href="#p2-XII">
-XII.&mdash;As mensagens de Pery</a></li>
-<li><a href="#p2-XIII">
-XIII.&mdash;Trama</a></li>
-<li><a href="#p2-XIV">
-XIV.&mdash;A chacara</a></li>
-<li><a href="#Notas">
-Notas</a></li>
-</ul>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="PRIMEIRA_PARTE"><span class="small">PRIMEIRA PARTE</span><br />
-<span class="big"><span id="Nota1">OS AVENTUREIROS</span></span></h2>
-</div>
-
-
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-I">I<br />
-SCENARIO</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>De um dos cabeços da <i>Serra dos Órgãos</i> deslisa um fio d'agua que se
-dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu
-curso de dez leguas, torna-se rio caudal.</p>
-
-<p id="Nota2">É o <i>Paquequer</i>: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma
-serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba,
-que rola magestosamente em seu vasto leito.</p>
-
-<p>Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio,
-altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés
-do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e
-serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as
-canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do
-senhor.</p>
-
-<p>Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas
-acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta
-patria da liberdade.</p>
-
-<p>Ahi, o <i>Paquequer</i> lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as
-florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas
-de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De
-repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um
-momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só
-arremesso, como o tigre sobre a presa.</p>
-
-<p>Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e
-adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como
-em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.</p>
-
-<p>A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e
-vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que
-corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos
-leques das palmeiras.</p>
-
-<p>Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista,
-tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem
-é apenas um simples comparsa.</p>
-
-<p>No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava
-deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia
-menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o
-interior.</p>
-
-<p>Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa,
-construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma
-muralha de rocha cortada a pique.</p>
-
-<p>A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um
-semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças
-quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita
-metade pela natureza e metade pela arte.</p>
-
-<p>Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada,
-encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma
-fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer,
-chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado
-pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.</p>
-
-<p>Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza
-para crear meios de segurança e defeza.</p>
-
-<p>De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que,
-alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio;
-entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava
-aquelle pequeno valle impenetravel.</p>
-
-<p>A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda
-apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de
-frente, baixas, largas, quasi quadradas.</p>
-
-<p>Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um
-pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado
-esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que
-abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.</p>
-
-<p>No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que
-chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a
-natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do
-rochedo.</p>
-
-<p>Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal
-de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata
-tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e
-graça admiravel.</p>
-
-<p>Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde
-se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de
-gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a
-natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma
-miniatura.</p>
-
-<p>O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma
-cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de
-morada a aventureiros e acostados.</p>
-
-<p>Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se
-uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião
-nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o
-chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta
-habitação selvagem.</p>
-
-<p>Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a
-maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada
-porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do
-edificio.</p>
-
-<p>A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente,
-respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em
-um deserto, como era então aquelle sitio.</p>
-
-<p>As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de
-pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que
-representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.</p>
-
-<p>Sobre a porta do centro desenhava-se um <span id="Nota3">brasão d'armas</span> em campo de
-cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata
-sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada
-de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e
-por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.</p>
-
-<p>Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo
-brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um
-oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno
-docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.</p>
-
-<p>Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés
-torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a
-mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.</p>
-
-<p>Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações
-heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e
-era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que
-revelava a presença de uma mulher.</p>
-
-<p>Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis
-de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas
-em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de
-um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.</p>
-
-<p>A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual
-havia um escabello de madeira dourada.</p>
-
-<p>Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras
-hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de
-Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e
-formas exquisitas.</p>
-
-<p>Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia
-definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias
-côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.</p>
-
-<p>Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico
-a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas
-brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos
-olhos profanos.</p>
-
-<p>Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado
-nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso
-que uma fada habitava.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-II">II<br />
-LEALDADE</h3>
-</div>
-
-<p>A habitação que descrevemos, pertencia a <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota4">Antonio de Mariz</span>, fidalgo
-portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da
-conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.</p>
-
-<p>Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria
-alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da
-fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa
-capitania.</p>
-
-<p>Fez parte em 1578 da celebre expedição do <abbr title="Doutor">Dr.</abbr>Antonio de Salema contra
-os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para
-fazerem o contrabando de páo-brasil.</p>
-
-<p>Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da
-alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo
-pela republica e a sua dedicação ao rei.</p>
-
-<p>Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os
-indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do
-interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o
-governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo
-sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito
-tempo devoluta.</p>
-
-<p>A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio,
-vierão modificar a vida de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao
-rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito
-e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil <abbr title="Dom">D.</abbr> Filippe II
-como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a
-espada e retirou-se do serviço.</p>
-
-<p>Por algum tempo esperou a projectada expedição de <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota5">Pedro da Cunha</span>,
-que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então
-sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, prior do Crato.</p>
-
-<p>Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e
-sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe
-guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão,
-as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que
-lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia
-assentar o seu novo solar, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz erguendo o vulto direito,
-e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em
-torno, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal,
-que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo
-meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás,
-Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!</p>
-
-<p>Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita
-sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima
-phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol
-que transmontava.</p>
-
-<p>Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os
-trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de
-residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino
-construirão e decorárão a casa que já conhecemos.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida
-aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á
-sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um
-sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.</p>
-
-<p>Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de
-Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos
-productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e
-hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para
-proverem os seus habitantes de todo o necessario.</p>
-
-<p>Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as
-ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha
-de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma
-resistencia inexpugnavel.</p>
-
-<p>Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus
-selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares
-habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão
-comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.</p>
-
-<p>Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em
-que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e
-que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez
-e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras
-preciosas, que ião vender na costa.</p>
-
-<p>Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos
-indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza
-commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D.
-Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade
-media.</p>
-
-<p>O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo
-aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era
-estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua
-visinhança, estabelecer-se por esses lugares.</p>
-
-<p>Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do
-Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e
-por isso <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se
-premunido para qualquer occurrencia.</p>
-
-<p>Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos
-coloniaes, uma banda de <span id="Nota6">aventureiros</span> que lhe servião nas suas
-explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados,
-destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a
-astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma
-especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma
-disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do
-chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual
-na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por
-um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello,
-como sem demora e hesitação.</p>
-
-<p>Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor
-de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios;
-devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação
-dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de
-conservara ordem, a disciplina e a harmonia.</p>
-
-<p>Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior
-á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á
-cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos
-necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros
-pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente
-pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos
-de consumo.</p>
-
-<p>Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa
-pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus
-usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao
-seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa
-superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as
-massas.</p>
-
-<p>Para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua
-fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era
-senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só
-se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da
-corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que
-se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as
-frontes inclinavão.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a
-consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação
-que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de
-seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de
-sua pequena familia.</p>
-
-<p>Esta se compunha de quatro pessoas:</p>
-
-<p>Sua mulher, <abbr title="Dona">D.</abbr> <span id="Nota7">Lauriana</span>, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de
-fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um
-bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de
-um acto de dedicação:</p>
-
-<p>Seu filho, <abbr title="Dom">D.</abbr> <span id="Nota8">Diogo de Mariz</span>, que devia mais tarde proseguir na carreira
-de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço
-na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:</p>
-
-<p>Sua filha, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse
-pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o
-seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, embora nada
-dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma
-india que havia captivado em uma das suas explorações.</p>
-
-<p>Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes
-personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se
-comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.</p>
-
-<p>Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-III">III<br />
-A BANDEIRA
-</h3></div>
-
-
-
-
-<p>Era meio dia.</p>
-
-<p>Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas,
-costeava a margem direita do Parahyba.</p>
-
-<p>Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada
-de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta
-dous <span id="Nota9">pistoletes</span>, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado
-a tiracollo pelo hombro esquerdo.</p>
-
-<p>Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de
-caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os
-abrigava da chuva.</p>
-
-<p>Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena
-distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não
-atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo
-a dianteira.</p>
-
-<p>Naquelle tempo dava-se o nome de <em>bandeiras</em> a essas caravanas de
-aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de
-ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras
-ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba,
-era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os
-productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.</p>
-
-<p>Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que
-seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e
-que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito
-garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de
-diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro
-leguas!</p>
-
-<p>Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á
-cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.</p>
-
-<p>&mdash;Ao que parece, tendes pressa de chegar, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro de Sá? disse elle
-com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de
-ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.</p>
-
-<p>&mdash;De certo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o
-desejo de chegar.</p>
-
-<p>&mdash;Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais
-natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis dizer com isto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano? perguntou Alvaro com um
-movimento de enfado.</p>
-
-<p>&mdash;Quero dizer, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e
-medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes
-das seis horas.</p>
-
-<p>Alvaro corou.</p>
-
-<p>&mdash;Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos
-chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.</p>
-
-<p>&mdash;Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer
-dia! replicou o italiano no mesmo tom.</p>
-
-<p>Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o
-seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e
-respondeo:</p>
-
-<p>&mdash;Ora, Deus, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e
-com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.</p>
-
-<p>&mdash;Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que
-aquelle que não quer ouvir.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião:
-foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o
-ensinou? disse o cavalheiro gracejando.</p>
-
-<p>&mdash;Nem um nem outro, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos
-Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas
-arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro
-á sua dama.</p>
-
-<p>Alvaro enrubeceo pela terceira vez.</p>
-
-<p>Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava
-meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o
-incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.</p>
-
-<p>Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro
-proseguio com extrema amabilidade:</p>
-
-<p>&mdash;Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei,
-<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro?</p>
-
-<p>&mdash;Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de
-arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas
-galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz
-lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das
-outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.</p>
-
-<p>&mdash;Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou
-fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas
-acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.</p>
-
-<p>&mdash;<i lang="it">Per Bacco</i>, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos
-pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis
-justo que cada um pense á sua maneira.</p>
-
-<p>&mdash;Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e
-avançando o passo da sua cavalgadura.</p>
-
-<p>A conversa interrompeo-se.</p>
-
-<p>Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão
-silenciosos uma par do outro.</p>
-
-<p>Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a
-distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia
-pensativo e preoccupado.</p>
-
-<p>Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto,
-cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma
-cansoneta de <i lang="it">condottiere</i>, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.</p>
-
-<p>Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o
-sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a
-fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro;
-alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os
-principaes traços deste aventureiro.</p>
-
-<p>A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia
-mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.</p>
-
-<p>Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas
-profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa
-folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava
-nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos
-seculares dos acaris e araribás.</p>
-
-<p>O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus
-échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas
-interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as
-folhas seccas.</p>
-
-<p>Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo
-envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.</p>
-
-<p>Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de
-sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se
-de repente nomeio do <em>claro-escuro</em> da floresta.</p>
-
-<p>Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de
-verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe
-indicasse a hora.</p>
-
-<p>Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos dê cuidado, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, antes de seis horas lá
-estaremos; sou eu que vo-lo digo.</p>
-
-<p>O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que
-me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos
-o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos
-guarde de tocar em objectos que são sagrados.</p>
-
-<p>Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto
-conservou-se calmo e sereno.</p>
-
-<p>&mdash;Bem sabeis que vos devo obediência, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, e não faltarei
-della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que
-tenho dito póde ser mais claro do que é.</p>
-
-<p>&mdash;Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para
-outros.</p>
-
-<p>Ora dizei-me, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me
-ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa
-possivel?</p>
-
-<p>&mdash;Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em
-adevinhar.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta
-expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias
-eis-nos ao cabo della?</p>
-
-<p>&mdash;Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.</p>
-
-<p>&mdash;Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com
-satisfação, quando o coração nelle se interessa.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e
-colhendo as redeas.</p>
-
-<p>O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:</p>
-
-<p>&mdash;Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de
-Mariz, sem duvida?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço
-com arrogancia.</p>
-
-<p>&mdash;Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano
-cortezmente, partistes do <i>Paquequer</i> em uma segunda feira, quando o dia
-designado era um domingo.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de
-despeito.</p>
-
-<p>Reparo em tudo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda,
-que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente
-antes do domingo.</p>
-
-<p>&mdash;E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e
-fazendo um esforço para conter-se.</p>
-
-<p>&mdash;Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos
-fallei.</p>
-
-<p>&mdash;E qual é ella, se vos praz?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.</p>
-
-<p>&mdash;Dizei sempre, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano: nada é perdido entre dous homens que se
-entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.</p>
-
-<p>&mdash;Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no
-<i>Paquequer</i> um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes um dom admiravel, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano; o que é de lamentar, é que o
-empregueis em futilidades.</p>
-
-<p>&mdash;Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a
-olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?</p>
-
-<p>&mdash;Com effeito é uma boa distracção.</p>
-
-<p>&mdash;Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos
-outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de
-olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.</p>
-
-<p>&mdash;Contai-nos isto, ha de ser curioso.</p>
-
-<p>&mdash;Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor
-ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver
-cousa mais simples?</p>
-
-<p>Alvaro empallideceo desta vez.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis uma cousa, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Loredano?</p>
-
-<p>&mdash;Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos
-muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de
-espião.</p>
-
-<p>O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao
-cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém
-dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.</p>
-
-<p>&mdash;Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...</p>
-
-<p>&mdash;Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao
-italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por
-Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como
-a uma cobra venenosa.</p>
-
-<p>A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma
-impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo
-desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os
-traços vigorosos.</p>
-
-<p>Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:</p>
-
-<p>&mdash;Visto que tomais a cousa neste tom, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro de Sá, cumpre que vos
-diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber
-qual é o que tem a temer!...</p>
-
-<p>&mdash;Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem,
-accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.</p>
-
-<p>E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e
-misturou-se com os seus companheiros.</p>
-
-<p>A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se
-de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes
-zimborios de verdura.</p>
-
-<p>Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a
-solidão com os échos estridentes.</p>
-
-<p>Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os
-cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente,
-lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-IV">IV<br />
-A LUTA</h3></div>
-
-
-<p>Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma
-scena curiosa.</p>
-
-<p>Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores,
-encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um <span id="Nota10">indio</span> na flor
-da idade.</p>
-
-<p>Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão <i>aimará</i>,
-apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos
-hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto
-como um junco selvagem.</p>
-
-<p>Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre,
-brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a
-tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a
-fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem
-modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a
-belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.</p>
-
-<p>Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do
-lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral,
-vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.</p>
-
-<p>Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa,
-ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé
-pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as
-flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha
-verticalmente diante de si um longo <span id="Nota11">forcado</span> de páo ennegrecido pelo
-fogo.</p>
-
-<p>Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena
-bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga,
-cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.</p>
-
-<p>Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas
-que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava
-imperceptivelmente.</p>
-
-<p>Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de
-um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se
-brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os
-reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.</p>
-
-<p>Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore,
-e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto
-gigantesco.</p>
-
-<p>Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como
-procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma
-especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e
-mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão
-fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.</p>
-
-<p>O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não
-perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e
-serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade
-do olhar revelava um pensamento de defeza.</p>
-
-<p>Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se
-mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre
-agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada
-da clareira.</p>
-
-<p>Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue,
-eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia
-arriscar o ataque.</p>
-
-<p>O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e
-apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição,
-nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.</p>
-
-<p>Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das
-florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua
-marcha.</p>
-
-<p>Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a
-pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de
-impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao
-peito:</p>
-
-<p>&mdash;É meu!... meu só!</p>
-
-<p>Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e
-sonora, mas em tom de energia e resolução.</p>
-
-<p>O italiano rio.</p>
-
-<p>&mdash;Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa
-amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a
-tiracollo; ella vo-lo agradecerá.</p>
-
-<p>Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta
-do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se
-elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros
-comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o
-caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração
-offensiva.</p>
-
-<p>Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse
-um só instante com os olhos o inimigo.</p>
-
-<p>Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha,
-e entranhárão-se de novo na floresta.</p>
-
-<p>O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado,
-não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos
-arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da
-matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.</p>
-
-<p>Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore
-houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um
-pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario
-uma distancia de trinta palmos.</p>
-
-<p>O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os
-seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os
-cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.</p>
-
-<p>Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma
-flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda
-do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.</p>
-
-<p>Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a
-pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda,
-açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.</p>
-
-<p>O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns
-nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se
-novamente.</p>
-
-<p>Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou
-tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um
-momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.</p>
-
-<p>Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas
-armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem,
-consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.</p>
-
-<p>O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze
-passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade
-extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo
-raio.</p>
-
-<p>Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o
-corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os
-dentes promptos a cortarlhe a jugullar.</p>
-
-<p>A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em
-que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle
-azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.</p>
-
-<p>Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.</p>
-
-<p>Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava
-na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos
-magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se
-ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo
-com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe
-o collo, e vacillou.</p>
-
-<p>Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao
-lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e
-foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas,
-com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu
-vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.</p>
-
-<p>Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas
-pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim
-immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á
-sua passagem.</p>
-
-<p>Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia
-senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha,
-metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de <span id="Nota12"><i>ticum</i></span> que tinha
-enrolada á cintura em muitas voltas.</p>
-
-<p>Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e
-passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez
-o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que
-a onça não podesse abrir a bocca.</p>
-
-<p>Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de
-agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara
-cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu
-vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o
-prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião
-impotentes.</p>
-
-<p>Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta,
-e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e
-afogueado.</p>
-
-<p>O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da
-carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava,
-arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do
-sangue quente e fumegante.</p>
-
-<p>Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue
-que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão
-violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo
-e abafado.</p>
-
-<p>O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que
-a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem
-essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela
-tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que
-podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais
-terrivel.</p>
-
-<p>Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na
-matta dous galhos soccos de <span id="Nota13">biribá</span>, e roçando rapidamente um contra o
-outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para
-jantar.</p>
-
-<p>Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou
-com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas
-colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as
-mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.</p>
-
-<p>Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro,
-e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a
-picada por onde tinha seguido a cavalgata.</p>
-
-<p>Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma
-moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com
-uma trofa de pennas amarellas.</p>
-
-<p>Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que
-ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra,
-e assim ficou algum tempo.</p>
-
-<p>Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção
-que o outro tomára pouco tempo antes.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-V">V<br />
-LOURA E MORENA</h3></div>
-
-
-
-
-<p>Cahia a tarde.</p>
-
-<p>No pequeno jardim da casado <i>Paquequer</i>, uma linda moça se embalançava
-indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia
-silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas
-e perfumadas.</p>
-
-<p>Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião
-languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as
-palpebras rosadas.</p>
-
-<p>Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da <span id="Nota14">gardenia</span> dos nossos
-campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro
-exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de
-algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião,
-desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.</p>
-
-<p>O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel
-conceber; mistura de luxo e de simplicidade.</p>
-
-<p>Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul
-apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de
-perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as
-mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso
-contorno do seu braço arqueado sobre o seio.</p>
-
-<p>Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças,
-descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma
-resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e
-perfeição admiravel.</p>
-
-<p>A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava
-carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para
-imprimir á rede uma doce oscillação.</p>
-
-<p>Esta moça era Cecilia.</p>
-
-<p>O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel
-descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa,
-deixava que a imaginação corresse livre.</p>
-
-<p>Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das
-madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo
-e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido,
-algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.</p>
-
-<p>Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado,
-roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha
-cahir a seus pés timido e supplicante.</p>
-
-<p>Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces;
-mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um
-gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.</p>
-
-<p>Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz,
-abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo
-cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.</p>
-
-<p>Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha
-offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a
-relva a ponta de um pézinho de menina.</p>
-
-<p>Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de
-preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de
-inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.</p>
-
-<p>Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella
-sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra
-de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia
-desvanecer.</p>
-
-<p>Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e
-outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro,
-aproximou-se da rede.</p>
-
-<p>Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro
-em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de
-languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.</p>
-
-<p>Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos,
-labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de
-seducção irresistivel.</p>
-
-<p>Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde
-furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de
-contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um
-despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.</p>
-
-<p>Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para
-beija-la ou ver se estava dormindo.</p>
-
-<p>Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua
-prima.</p>
-
-<p>&mdash;Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que
-projectavão as arvores; está quasi noite.</p>
-
-<p>&mdash;E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra
-gracejando.</p>
-
-<p>&mdash;Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me
-sinto triste.</p>
-
-<p>&mdash;Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves
-ao nascer do sol.</p>
-
-<p>&mdash;Está bem! não queres acreditar!</p>
-
-<p>&mdash;Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o
-anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um
-passarinho?</p>
-
-<p>&mdash;É para vêres! Tudo cança neste mundo.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.</p>
-
-<p>&mdash;Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que
-quero-lhes como se me tivessem visto nascer.</p>
-
-<p>&mdash;Então o que é que te faz triste?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; falta-me alguma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!</p>
-
-<p>&mdash;Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.</p>
-
-<p>&mdash;Ora! o que te falta.</p>
-
-<p>&mdash;Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames,
-e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro
-animal selvagem.</p>
-
-<p>&mdash;<span id="Nota15">Pery</span>! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.</p>
-
-<p>&mdash;Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e
-como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.</p>
-
-<p>&mdash;Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?</p>
-
-<p>&mdash;Não; nem sei o que é feito delle.</p>
-
-<p>&mdash;Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma
-desgraça! disse a moça estremecendo.</p>
-
-<p>&mdash;Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o
-dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á
-casa.</p>
-
-<p>&mdash;O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua
-vida antiga e livre.</p>
-
-<p>&mdash;Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos
-abandonasse assim!</p>
-
-<p>&mdash;Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade!... disse a moça preoccupada.</p>
-
-<p>Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta
-posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla
-negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus
-olhos.</p>
-
-<p>A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que
-fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu
-regaço.</p>
-
-<p>&mdash;Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão
-sobre o seu pello assetinado.</p>
-
-<p>&mdash;Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da
-moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e
-ficará mais manso do que o teu Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito
-injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.</p>
-
-<p>&mdash;Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle
-escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal
-como um cavallo, ou um cão?</p>
-
-<p>Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha
-de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel!... exclamou ella resentida.</p>
-
-<p>&mdash;Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não
-olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que
-não percebo o desdem com que me tratão?</p>
-
-<p>&mdash;Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem,
-e te respeitão como devem.</p>
-
-<p>Isabel abanou tristemente a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho
-razão.</p>
-
-<p>&mdash;Ora, um momento de zanga de minha mãi...</p>
-
-<p>&mdash;É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso
-amargo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima
-e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito
-severa mesmo para comigo.</p>
-
-<p>&mdash;Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que
-já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já
-que me tratasses como irmã?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua
-irmã!...</p>
-
-<p>&mdash;E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!</p>
-
-<p>&mdash;Para ti, que para elle...</p>
-
-<p>Este <em>elle</em> foi murmurado dentro d'alma.</p>
-
-<p>&mdash;Mas olha que exijo uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;O que é? perguntou Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;É que eu serei a irmã mais velha.</p>
-
-<p>&mdash;Apezar de seres mais moça?...</p>
-
-<p>&mdash;Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?</p>
-
-<p>&mdash;De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver
-triste, ouviste? Senão fico zangada.</p>
-
-<p>&mdash;E tu não estavas triste ha pouco?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.</p>
-
-<p>Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco,
-scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de
-menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas
-voltava de novo.</p>
-
-<p>Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a
-graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o
-ar livre e a vida passada no campo.</p>
-
-<p>Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com
-uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a
-rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio,
-estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua
-penugem macia.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis
-fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não
-é?</p>
-
-<p>E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus
-dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem
-revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração,
-envolta pela graça infantil de seu espirito.</p>
-
-<p>Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel
-lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros
-que entravão a cerca.</p>
-
-<p>Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.</p>
-
-<p>&mdash;São elles que chegão.</p>
-
-<p>Elles quem?</p>
-
-<p>&mdash;O <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro e os outros.</p>
-
-<p>&mdash;Ah!... exclamou a moça corando.</p>
-
-<p>&mdash;Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar
-na perturbação de sua prima.</p>
-
-<p>&mdash;Muito; quem sabe se houve alguma cousa!</p>
-
-<p>&mdash;Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.</p>
-
-<p>&mdash;Contaste os dias?</p>
-
-<p>&mdash;É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã
-fazem tres semanas.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!</p>
-
-<p>&mdash;Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de
-melancolia.</p>
-
-<p>&mdash;Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti.
-Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu
-tenho inveja do teu moreninho, prima?</p>
-
-<p>&mdash;E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.</p>
-
-<p>E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado
-da entrada.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-VI">VI
-<br />
-A VOLTA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens
-passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o
-edificio.</p>
-
-<p>Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo
-pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.</p>
-
-<p>Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no
-peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem
-pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de
-ouro.</p>
-
-<p>Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão,
-e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e
-nobre cabeça de velho.</p>
-
-<p>De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de
-cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba
-alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca
-ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.</p>
-
-<p>Este fidalgo era <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta
-annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o
-porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na
-força da idade.</p>
-
-<p>O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres
-Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o
-fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.</p>
-
-<p>A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a
-sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa
-semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais
-augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina
-côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual
-erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.</p>
-
-<p>&mdash;Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro,
-medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.</p>
-
-<p>&mdash;Não digo de todo que não, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; confesso que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo
-commetteo uma imprudencia matando essa india.</p>
-
-<p>&mdash;Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho,
-o desculpo!</p>
-
-<p>&mdash;Julgais com demasiada severidade.</p>
-
-<p>&mdash;E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva,
-commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me
-acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada,
-que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um
-momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.</p>
-
-<p>&mdash;Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...</p>
-
-<p>&mdash;Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os
-meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos
-que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra
-que conquistamos, mas são homens!</p>
-
-<p>&mdash;Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe
-deo a Sra. <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p>
-
-<p>&mdash;Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é
-disto que discorriamos.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Diogo.</p>
-
-<p>&mdash;E que pensas tu?</p>
-
-<p>&mdash;Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> D.
-Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a
-atacar-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.</p>
-
-<p>&mdash;Não sou capaz de tal, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro!</p>
-
-<p>&mdash;Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes
-que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão
-tudo, a vida e a liberdade.</p>
-
-<p>&mdash;Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem
-offendidos por mim <span id="Nota17">soffrerão</span> tudo para vingar-se.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes mais experiencia do que eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas queira Deus que
-vos enganeis.</p>
-
-<p>Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que
-atravessava pela frente da casa.</p>
-
-<p>&mdash;Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em
-todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.</p>
-
-<p>&mdash;Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia
-sentado a alguns passos.</p>
-
-<p>Vendo aproximar-se seu pai, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se
-esperou-o n'uma attitude respeitosa.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as
-ordens que vos dei.</p>
-
-<p>&mdash;Senhor...</p>
-
-<p>&mdash;Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses
-selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a
-vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar
-satisfeito de vossa obra.</p>
-
-<p>&mdash;Meu pai!...</p>
-
-<p>&mdash;Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção
-indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso
-da espada que trazeis á cinta.</p>
-
-<p>&mdash;Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis
-vosso filho.</p>
-
-<p>&mdash;Não é vosso pai que vos rebaixa, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, e sim a acção que
-praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei
-para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir
-d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender
-a vossa vida.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo inclinou-se em signal de obediencia.</p>
-
-<p>&mdash;Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e
-ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois
-portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas
-combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando
-ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.</p>
-
-<p>&mdash;Cumprirei as vossas ordens, meu pai.</p>
-
-<p>&mdash;Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé
-desta casa sem minha ordem. Ide, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; lembrai-vos que tenho
-sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um
-braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para
-protege-las.</p>
-
-<p>O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma
-palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob
-a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo
-caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no
-soleira da porta.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte
-e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados
-por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um
-desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e
-fingião uma especie de diadema.</p>
-
-<p>Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na
-frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo
-donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas
-arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os
-hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os
-seus ornatos.</p>
-
-<p>Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e
-devoção; o espirito de nobreza que em <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz era um
-realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.</p>
-
-<p>No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a
-distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos
-quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama
-fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade,
-e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um
-throno.</p>
-
-<p>Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella
-sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato
-do culto, que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um
-espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.</p>
-
-<p>Apezar desta differença de caracteres, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, ou por
-concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua
-mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel,
-exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia
-immediatamente que era escusado insistir.</p>
-
-<p>Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a
-repugnancia que <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho
-fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua
-mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus
-sentimentos.</p>
-
-<p>&mdash;Fallaveis a <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo com um ar tão severo! disse <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana descendo
-os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.</p>
-
-<p>&mdash;Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o
-fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio!</p>
-
-<p>&mdash;E vós com extrema benevolencia, <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana. Assim como não quero
-que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua
-companhia.</p>
-
-<p>&mdash;Jesus! Que dizeis, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio?</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai
-viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o
-tempo em extravagancias.</p>
-
-<p>&mdash;Vós não fareis isto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso
-filho da casa paterna!</p>
-
-<p>&mdash;Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo passe toda a
-sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?</p>
-
-<p>&mdash;Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho,
-cheia de inquietações pela sua sorte.</p>
-
-<p>&mdash;Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.</p>
-
-<p>&mdash;Sois cruel, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Sou justo apenas.</p>
-
-<p>Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel
-distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.</p>
-
-<p>O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se,
-subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do
-cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.</p>
-
-<p>O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á
-saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, a
-inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se
-abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.</p>
-
-<p>Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e
-os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro,
-sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que
-servião de bancos.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde
-se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só
-teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de
-Bragança.</p>
-
-<p>O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi
-misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.</p>
-
-<p>Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos
-chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades,
-outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo
-tempo, de modo que ninguem se entendia.</p>
-
-<p>Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou
-tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu
-para sua mãi.</p>
-
-<p>Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana,
-Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo
-na mão foi inclinar-se corando diante da moça.</p>
-
-<p>&mdash;Eis-vos de volta, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para
-disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!</p>
-
-<p>&mdash;Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o
-pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.</p>
-
-<p>Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.</p>
-
-<p>Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres
-olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos
-cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e
-mocidade.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle
-lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto
-veneravel.</p>
-
-<p>Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros,
-cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas
-dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.</p>
-
-<p>Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos
-negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se
-naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.</p>
-
-<p>Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava
-além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do
-Italiano que vio o sorriso de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e o comprehendeo.</p>
-
-<p>Em quanto isto succedia, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo que se havia retirado, voltou a saudar
-Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto
-a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de
-seu pai.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-VII">VII
-<br />
-A PRECE
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>A tarde ia morrendo.</p>
-
-<p>O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas,
-que illuminava com os seus ultimos raios.</p>
-
-<p>A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa,
-enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das
-arvores.</p>
-
-<p>Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o
-ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o
-orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto
-a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos
-com que se despede do dia.</p>
-
-<p>Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o
-rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder
-á doce influencia da tarde.</p>
-
-<p>Era Ave-Maria.</p>
-
-<p>Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do
-crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para
-murmurar a prece da noite!</p>
-
-<p>Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas
-gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios
-perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um
-momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.</p>
-
-<p>O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que,
-reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o
-toque lento e pausado do <em>angelus</em>.</p>
-
-<p>A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que
-parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da
-tarde que morre.</p>
-
-<p>Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a
-impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a
-esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado
-de um certo temor.</p>
-
-<p>De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar
-quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava
-Ave-Maria.</p>
-
-<p>Todos se descobrirão.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o
-lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.</p>
-
-<p>Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo,
-ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.</p>
-
-<p>O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos
-do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo
-cavalheiro.</p>
-
-<p>Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa
-prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos,
-illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.</p>
-
-<p>Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia
-como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto
-de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a
-quem dirigia a sua prece.</p>
-
-<p>Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava
-ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo
-recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava
-imperceptivelmente os labios.</p>
-
-<p>Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o
-precipio, e um tiro saudou o occaso.</p>
-
-<p>Era noite.</p>
-
-<p>Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando
-a pouco e pouco.</p>
-
-<p>Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma
-graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.</p>
-
-<p>Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de <abbr title="Dona">D.</abbr>
-Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de
-um abbade.</p>
-
-<p>Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um
-desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta
-ceia.</p>
-
-<p>Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra
-emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da
-familia, o que havia recebido como um favor immenso.</p>
-
-<p>O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão
-simples convite, era o regimen caseiro que <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana havia
-estabelecido na sua habitação.</p>
-
-<p>Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente
-separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se
-com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.</p>
-
-<p>Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada,
-onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua
-oração da tarde.</p>
-
-<p>Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da
-casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á
-distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento
-extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo
-rio.</p>
-
-<p>Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia
-o italiano, de chegar ao <i>Paquequer</i> em um sabbado, e antes das seis
-horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de
-contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez
-occasião de arriscar uma palavra.</p>
-
-<p>Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de
-Mariz, Alvaro e <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças,
-timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem
-que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.</p>
-
-<p>Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual
-elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um
-pretexto que a chamasse á conversa.</p>
-
-<p>&mdash;Esquecia-me contar-vos, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, disse elle aproveitando-se de
-uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.</p>
-
-<p>&mdash;Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.</p>
-
-<p>&mdash;Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos
-parecerá tão simples.</p>
-
-<p>&mdash;O que fazia então?</p>
-
-<p>&mdash;Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.</p>
-
-<p>&mdash;Que tens, menina? perguntou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p>
-
-<p>&mdash;É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.</p>
-
-<p>&mdash;Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu serei a causa de sua morte!</p>
-
-<p>&mdash;Como assim, minha filha? disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p>
-
-<p>&mdash;Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe
-saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande
-medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...</p>
-
-<p>&mdash;E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo
-rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.</p>
-
-<p>&mdash;Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o
-morto.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos assusteis, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia; elle saberá defender-se.</p>
-
-<p>&mdash;E vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a
-moça sentida.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o
-animal!</p>
-
-<p>E o moço contou parte da scena passada na floresta.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha duvida, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por
-Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma
-das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse
-indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua
-vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro,
-é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!</p>
-
-<p>A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais
-parte nella.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o
-moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no
-terreiro da casa veio annunciar a ceia.</p>
-
-<p>Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na
-habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com
-Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Não me perguntais pelo que me ordenastes, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia? disse elle á
-meia voz.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?</p>
-
-<p>&mdash;Todas e mais... disse o moço balbuciando.</p>
-
-<p>&mdash;E mais o que? perguntou Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;E mais uma cousa que não pedistes.</p>
-
-<p>&mdash;Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.</p>
-
-<p>&mdash;Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.</p>
-
-<p>&mdash;Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; porque é uma lembrança vossa.</p>
-
-<p>&mdash;Nesse caso guardai-a, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a
-bem.</p>
-
-<p>E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença
-delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e
-que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas,
-espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de
-pistolas primorosamente embutidas.</p>
-
-<p>Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:</p>
-
-<p>&mdash;Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.</p>
-
-<p>A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a
-refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se
-respeitava.</p>
-
-<p>Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça
-fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e
-tanta esperança.</p>
-
-<p>Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando
-diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi
-levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia
-na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.</p>
-
-<p>Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo,
-tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a
-vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.</p>
-
-<p>Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos
-que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que
-servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés
-roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha
-vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno
-della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.</p>
-
-<p>Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se
-lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão
-timido, que córava diante della, como ella diante delle.</p>
-
-<p>De repente a moça estremeceo.</p>
-
-<p>Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu
-pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e
-flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor
-duvida.</p>
-
-<p>Era Pery.</p>
-
-<p>Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao
-prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos
-que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.</p>
-
-<p>Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não
-tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de
-Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-VIII">VIII
-<br />
-TRES LINHAS
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do
-lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.</p>
-
-<p>Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu
-caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão
-uma mesma idéa.</p>
-
-<p>Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão
-essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento,
-convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.</p>
-
-<p>Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que
-mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.</p>
-
-<p>N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis
-aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em
-escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira
-que fazia honra ao appetite dos convivas.</p>
-
-<p>O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta
-fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos
-do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os
-aventureiros podião beber á larga.</p>
-
-<p>O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens;
-afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o
-alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.</p>
-
-<p>A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se
-ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o
-ranger da faca na escudella.</p>
-
-<p>Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu
-immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de
-choro confuso e discordante.</p>
-
-<p>Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou
-estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos
-ouvir uma palavra!</p>
-
-<p>&mdash;Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que
-vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por
-alguma moçoila que andou requestando em <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião.</p>
-
-<p>&mdash;Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano
-seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?</p>
-
-<p>&mdash;E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em
-que o aperte mais a uns do que a outros.</p>
-
-<p>&mdash;Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu
-pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e
-galanteios.</p>
-
-<p>O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem
-á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com
-affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na
-vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!</p>
-
-<p>&mdash;Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está
-penado da amores.</p>
-
-<p>&mdash;E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.</p>
-
-<p>&mdash;Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe
-está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?</p>
-
-<p>Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.</p>
-
-<p>Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.</p>
-
-<p>&mdash;Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar
-severa. Leva rumor!</p>
-
-<p>&mdash;É um dia de chegada, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio
-Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que
-estava em frente delle.</p>
-
-<p>&mdash;Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous
-aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já
-refizestes, e os mais esperão sua vez.</p>
-
-<p>Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume
-ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Estais hoje muito severo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Ayres Gomes, disse Martim Vaz,</p>
-
-<p>&mdash;Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer,
-respondeu o escudeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! porque não dizieis isto logo!</p>
-
-<p>&mdash;Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos
-que ver.</p>
-
-<p>&mdash;Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás
-pacas e porcos do matto.</p>
-
-<p>&mdash;E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras
-de polvora? perguntou Vasco Affonso.</p>
-
-<p>&mdash;Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?</p>
-
-<p>Loredano ergueu a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão?
-perguntou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a
-chamusco, exclamou Martim Vaz.</p>
-
-<p>A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos
-aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e
-deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.</p>
-
-<p>Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e
-os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano
-murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:</p>
-
-<p>&mdash;Amanhã!</p>
-
-<p>Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous
-aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano
-continuar o seu caminho até a beira do precipicio.</p>
-
-<p>Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue
-reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não
-podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.</p>
-
-<p>Ahi esperou.</p>
-
-<p>Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que
-soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o
-sorriso que a acompanhou.</p>
-
-<p>Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia
-contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que
-lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha
-vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um
-soffrimento cruel.</p>
-
-<p>Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou
-um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda
-uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e
-aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.</p>
-
-<p>Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que
-a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.</p>
-
-<p>Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha
-chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um
-thesouro.</p>
-
-<p>No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro,
-depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando
-um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que
-a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir,
-foi a maneira por que sahira quasi logo.</p>
-
-<p>Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma
-ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo
-immediatamente.</p>
-
-<p>O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua
-sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz
-que coava entre as cortinas da janella.</p>
-
-<p>Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um
-desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto
-segurou-se ao galho de um <span id="Nota16">oleo</span> gigante que, elevando-se sobre a encosta
-fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.</p>
-
-<p>Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no
-galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem
-aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho
-marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.</p>
-
-<p>Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e,
-escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro
-das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que
-Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão
-igualmente á alguns passos.</p>
-
-<p>A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do
-aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que
-lhe havião chegado do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o
-precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e
-sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a
-todo o instante!</p>
-
-<p>Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente,
-satisfeita; podia ir dormir e repousar.</p>
-
-<p>Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a
-moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha
-primores como aquelles para offertar-lhe.</p>
-
-<p>O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como
-para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas
-da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos
-pés de Cecilia.</p>
-
-<p>Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas
-partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão
-collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella
-frouxamente illuminada.</p>
-
-<p>Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para
-tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o
-perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de
-mercadejar por ella um prazer.</p>
-
-<p>É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande
-e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-IX">IX
-<br />AMOR
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.</p>
-
-<p>Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e
-virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações
-bem differentes.</p>
-
-<p>Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um
-desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue;
-o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela
-impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se
-elevava entre elle, pobre colono, e a filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, rico
-fidalgo de solar e brazão.</p>
-
-<p>Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um
-acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as
-leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso
-uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que
-seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem
-á condição de homens.</p>
-
-<p>O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já
-tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos
-é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e
-uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de
-Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.</p>
-
-<p>Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição
-nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores
-do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos
-amores daquelle tempo de crença e lealdade.</p>
-
-<p>Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo
-balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando
-encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se
-entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.</p>
-
-<p>Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle
-comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer
-a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua
-janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe
-perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.</p>
-
-<p>Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na
-qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para
-sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se
-inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar
-que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma
-realidade.</p>
-
-<p>Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume
-inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente
-para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava
-alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa
-mesma noite, nesse mesmo instante.</p>
-
-<p>Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações,
-que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o
-outro uma paixão, o ultimo uma religião.</p>
-
-<p>Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a
-vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar:
-o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.</p>
-
-<p>Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem
-correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o
-quarto de Cecilia.</p>
-
-<p>Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da
-ribanceira, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio
-tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das
-janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre
-esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma
-adhesão ao pé mais firme e mais seguro.</p>
-
-<p>Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado
-profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia
-de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na
-sombra e na humidade.</p>
-
-<p>Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga
-e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha,
-seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que
-enchião essas grotas e alcantis.</p>
-
-<p>Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas
-uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o
-quadro da janella.</p>
-
-<p>O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho,
-onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente.
-Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da
-janella.</p>
-
-<p>Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o
-precipicio seguia as menores evoluções da sombra.</p>
-
-<p>Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no
-parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a
-forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano
-adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta
-mão havia deitado na janella.</p>
-
-<p>E não se enganava.</p>
-
-<p>Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o
-respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu
-intento.</p>
-
-<p>Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a
-esperança de que Cecilia lhe perdoaria.</p>
-
-<p>Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos
-do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio.
-Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da <span id="Nota44">hirára</span>.</p>
-
-<p>Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a
-curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.</p>
-
-<p>Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e
-aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento,
-bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento
-para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.</p>
-
-<p>Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo,
-e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.</p>
-
-<p>Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous
-homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.</p>
-
-<p>Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se
-fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a
-menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha
-reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do
-cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor
-suspeita.</p>
-
-<p>O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli
-naquella hora silenciosa da noite?</p>
-
-<p>O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia
-fazer-lhe comprehender o resto.</p>
-
-<p>Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um
-esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do
-precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o
-prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.</p>
-
-<p>Pery não se moveu.</p>
-
-<p>Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume
-do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração
-fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.</p>
-
-<p>Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o
-mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza,
-e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era
-differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um
-pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.</p>
-
-<p>Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando
-que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para
-dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.</p>
-
-<p>E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava
-a fachada do edificio.</p>
-
-<p>Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema
-do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.</p>
-
-<p>Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima
-que desfiava-lhe pela face.</p>
-
-<p>Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de
-recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um
-martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as
-suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que
-atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle
-passava.</p>
-
-<p>De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas
-palavras imperceptiveis:</p>
-
-<p>&mdash;Si eu quizesse!</p>
-
-<p>Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um
-annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.</p>
-
-<p>O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que
-justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a
-pupilla negra de Isabel?</p>
-
-<p>Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a
-face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?</p>
-
-<p>Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a
-natureza humana não devia resistir?</p>
-
-<p>Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza
-possivel senão em um milagre da Providencia.</p>
-
-<p>Era o pó subtil do <i>curari</i>, o veneno terrivel dos selvagens.</p>
-
-<p>Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.</p>
-
-<p>&mdash;Minha mãi?... minha mãi!...</p>
-
-<p>Um soluço rompeu-lhe o seio.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-X">X
-<br />
-AO ALVORECER</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim
-e aproximou-se da cerca.</p>
-
-<p>&mdash;Pery! disse ella.</p>
-
-<p>O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e
-submisso.</p>
-
-<p>Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar
-um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um
-sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.</p>
-
-<p>Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão
-de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que
-de rigor:</p>
-
-<p>&mdash;Estou muito zangada com Pery!</p>
-
-<p>O semblante do selvagem annuviou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora,
-vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.</p>
-
-<p>&mdash;<span id="Nota18">Cecy</span> desejou ver uma onça viva!</p>
-
-<p>&mdash;Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu
-corras atraz della como um louco?</p>
-
-<p>&mdash;Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o
-indio.</p>
-
-<p>&mdash;Vai, sim.</p>
-
-<p>&mdash;Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?</p>
-
-<p>&mdash;Que tem isso?</p>
-
-<p>&mdash;Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.</p>
-
-<p>Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a
-que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e
-originalidade.</p>
-
-<p>Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por
-causa do susto que lhe havia feito na vespera.</p>
-
-<p>&mdash;Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a
-mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?</p>
-
-<p>&mdash;Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te
-pedisse aquella nuvem?...</p>
-
-<p>E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas
-sombras pallidas da noite.</p>
-
-<p>&mdash;Pery ia buscar.</p>
-
-<p>&mdash;A nuvem? perguntou a moça admirada.</p>
-
-<p>&mdash;Sim a nuvem.</p>
-
-<p>Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:</p>
-
-<p>Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery
-morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.</p>
-
-<p>Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o
-coração.</p>
-
-<p>A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a
-sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.</p>
-
-<p>A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus
-labios um sorriso divino.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que
-arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a
-conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.</p>
-
-<p>&mdash;Senhora, não está mais zangada com Pery?</p>
-
-<p>&mdash;Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora
-affligir-se cuidando que elle ia morrer.</p>
-
-<p>&mdash;E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.</p>
-
-<p>&mdash;Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.</p>
-
-<p>&mdash;Perdôa, senhora!</p>
-
-<p>&mdash;Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.</p>
-
-<p>Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia
-encommendado a Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Olha! Pery não desejava ter umas?</p>
-
-<p>&mdash;Muito!</p>
-
-<p>&mdash;Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança
-de Cecilia, não é verdade?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.</p>
-
-<p>&mdash;Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para
-defenderem e salvarem a tua vida.</p>
-
-<p>&mdash;Porque é tua, não é, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.</p>
-
-<p>O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma
-felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a
-cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de
-Deus.</p>
-
-<p>Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a
-divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu
-culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os
-thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza
-virgem.</p>
-
-<p>Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu
-rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas
-ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.</p>
-
-<p>A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma
-antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada
-dia augmentava.</p>
-
-<p>Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.</p>
-
-<p>&mdash;Pery te acompanha, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o
-socegado.</p>
-
-<p>A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem
-comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão
-quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao
-domingo.</p>
-
-<p>Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua
-mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais
-altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem
-aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se
-banhavão.</p>
-
-<p>Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio
-traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em
-que se collocára o percebia immediatamente.</p>
-
-<p>Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente
-com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta
-arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava
-assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por
-elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para
-embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.</p>
-
-<p>Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que
-todos votavão a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava
-caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o
-chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.</p>
-
-<p>E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não
-duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do
-rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.</p>
-
-<p>Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas
-com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a
-côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para
-nadarem.</p>
-
-<p>Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que
-um olhar de quem quer que fosse visse a <em>senhora</em> no seu trajo de banho;
-nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia
-offende-la, a ella que era o seu unico Deus.</p>
-
-<p>Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida,
-e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem
-que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa
-a corrente e as margens do rio.</p>
-
-<p>O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma
-cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um
-cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de
-côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer
-caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore;
-tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se
-estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco
-ou sobre o chão.</p>
-
-<p>Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das
-aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma
-<span id="Nota19">sapucaia</span> pendida sobre o <i>Paquequer</i> estalava prestes a cahir, o indio,
-veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da
-sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que
-boiavão.</p>
-
-<p>Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela
-fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser
-uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a
-moça soffresse por falta de cuidado seu.</p>
-
-<p>Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e
-infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça
-podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque
-todo o poder do homem fóra impotente para evitar.</p>
-
-<p>Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse
-quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação
-era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer
-não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr
-de <span id="Nota20">pequiá</span>.</p>
-
-<p>Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto
-da escada.</p>
-
-<p>Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu
-ligeiramente seguida por sua prima.</p>
-
-<p>Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua
-loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu
-receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.</p>
-
-<p>Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer,
-e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus
-sorrisos sarcasticos.</p>
-
-<p>&mdash;Bom dia, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro.</p>
-
-<p>Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço
-que roçassem uma na outra.</p>
-
-<p>Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das
-pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.</p>
-
-<p>O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel
-tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a
-Loredano.</p>
-
-<p>Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão
-commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia
-lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.</p>
-
-<p>Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.</p>
-
-<p>Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre
-elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua
-senhora.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-XI">XI
-<br />NO BANHO</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:</p>
-
-<p>&mdash;Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p>
-
-<p>Isabel estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á
-cortezia que elle nos faz.</p>
-
-<p>&mdash;Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.</p>
-
-<p>&mdash;Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?</p>
-
-<p>A moça calou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou
-Cecilia galanteando.</p>
-
-<p>Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as
-pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas
-palavras que parecião queimar-lhe os labios:</p>
-
-<p>&mdash;Bem sabes que o aborreço!...</p>
-
-<p>Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo
-chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a
-brincar com uma alegria infantil sobre a relva.</p>
-
-<p>Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha
-sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao
-verdadeiro.</p>
-
-<p>A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão
-natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que
-era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia
-córar.</p>
-
-<p>Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma
-de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da
-moça acabavão de proferir.</p>
-
-<p>Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu
-coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi
-uma blasphemia.</p>
-
-<p>Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse
-mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos
-os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.</p>
-
-<p>Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem
-o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia
-rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a
-fizesse soffrer.</p>
-
-<p>O sol vinha nascendo.</p>
-
-<p>O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia
-beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.</p>
-
-<p>Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia
-as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.</p>
-
-<p>Era a hora em que o <span id="Nota21">cactus</span>, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio
-das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol
-crestasse a alvura diaphana de suas petalas.</p>
-
-<p>Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda
-humida colhendo uma <span id="Nota22">graciola</span> azul que se embalançava sobre a haste, ou
-um <span id="Nota23">malvalisco</span> que abria os lindos botões escarlates.</p>
-
-<p>Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que
-tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda
-com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a
-<span id="Nota24">viuvinha</span> que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha
-raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.</p>
-
-<p>Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de
-longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo
-corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.</p>
-
-<p>De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á
-alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas
-que se espedaçavão, e o indio appareceu.</p>
-
-<p>Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:</p>
-
-<p>&mdash;Que é isto, Pery?</p>
-
-<p>&mdash;Nada, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;É assim que prometteste estar quieto?</p>
-
-<p>&mdash;Cecy não se ha de zangar mais.</p>
-
-<p>&mdash;Que queres tu dizer?</p>
-
-<p>&mdash;Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.</p>
-
-<p>Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um
-animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça,
-julgando que isso lhe causava um prazer.</p>
-
-<p>Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira,
-em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a
-revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos
-devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre
-dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.</p>
-
-<p>As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado
-a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse
-fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o
-sorriso.</p>
-
-<p>Cecilia tinha chegado a uma latada de <span id="Nota25">jasmineiros</span> que havia á borda
-d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do
-indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em
-satisfazer as vontades da menina.</p>
-
-<p>Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se
-na relva.</p>
-
-<p>Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a
-entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e
-examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma
-fresta por onde o olhar do dia penetrasse.</p>
-
-<p>A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir
-espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas
-roupagens.</p>
-
-<p>Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma,
-que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa
-cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina
-quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as
-folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:&mdash;<em>Bem
-te vi</em>!</p>
-
-<p>Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho
-que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de
-menina.</p>
-
-<p>Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por
-com prazer ficou sentada á beira do rio.</p>
-
-<p>Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente,
-com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão
-graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma
-dessas garças brancas, ou <span id="Nota26">colhereiras</span> de rosea côr que deslisão
-mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no
-crystal das aguas.</p>
-
-<p>Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul
-ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que
-fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado
-superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um
-barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela
-correnteza.</p>
-
-<p>A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia
-offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a
-tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração
-procura illudir-se.</p>
-
-<p>Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia
-que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o
-contrario mentia.</p>
-
-<p>Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado
-sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na
-margem opposta as guaximas se agitarem.</p>
-
-<p>A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol,
-e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz
-de umas grandes pedras que havia á beira do rio.</p>
-
-<p>Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado
-entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido
-por um animal de grande corpulencia.</p>
-
-<p>Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa
-ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se
-perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação
-dos arbustos.</p>
-
-<p>Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por
-uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a
-partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão
-as pedras para despedirem o tiro.</p>
-
-<p>E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e
-ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.</p>
-
-<p>Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria
-um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.</p>
-
-<p>Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que
-partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos
-cabellos mudou de direcção.</p>
-
-<p>Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de
-um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua
-senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.</p>
-
-<p>Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi
-logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:</p>
-
-<p>&mdash;Pery!...</p>
-
-<p>Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous
-passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se
-ligeiramente no matto.</p>
-
-<p>Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em
-lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande
-avanço.</p>
-
-<p>Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica
-de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero
-o coração como para reter o sangue que espadanava.</p>
-
-<p>Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a
-força da vontade e o poder da natureza.</p>
-
-<p>O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços
-como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para
-manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.</p>
-
-<p>Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para
-a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto
-succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer
-lutar ainda.</p>
-
-<p>Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente
-retrahindo e tocou a terra com os joelhos.</p>
-
-<p>Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar,
-e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um
-esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos
-vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual
-se abraçou convulsivamente.</p>
-
-<p>Era uma <span id="Nota28">cabuiba</span> de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e
-de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em
-lagrimas.</p>
-
-<p>O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos
-amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de
-felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo,
-que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.</p>
-
-<p>Sentio-se renascer.</p>
-
-<p>Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.</p>
-
-<p>Estava salvo.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-XII">XII
-<br />A ONÇA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Voltemos á casa.</p>
-
-<p>Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a
-Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que
-dirigia-se ao rio.</p>
-
-<p>Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu
-a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.</p>
-
-<p>Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na
-esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.</p>
-
-<p>Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns
-talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.</p>
-
-<p>O pateo ficou deserto.</p>
-
-<p>Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas
-para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos;
-um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé,
-annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.</p>
-
-<p>De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas
-e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez,
-como se um inimigo cahisse de assalto.</p>
-
-<p>Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D.
-Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma
-cousa extraordinária.</p>
-
-<p>&mdash;Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já!
-gritou a dama.</p>
-
-<p>A janella fechou-se de novo com o ferrolho.</p>
-
-<p>A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada
-dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com
-sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.</p>
-
-<p>&mdash;Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; estais armado? perguntou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana por detraz da porta.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho a minha espada; mas que novidade ha?</p>
-
-<p>A physionomia decomposta de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana appareceu de novo na fresta da
-janella.</p>
-
-<p>&mdash;A onça! Ayres Gomes!... A onça!...</p>
-
-<p>O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se
-fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.</p>
-
-<p>A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á
-janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado
-contra as féras.</p>
-
-<p>Alguns minutos se passárão assim; <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana rezando; e Ayres Gomes
-rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o
-atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de
-armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.</p>
-
-<p>Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede
-do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente;
-pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.</p>
-
-<p>Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em
-voz alta:</p>
-
-<p>&mdash;Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, <abbr title="Senhora">Sra.</abbr> <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana;
-ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.</p>
-
-<p>&mdash;Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.</p>
-
-<p>&mdash;Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!</p>
-
-<p>&mdash;E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra.
-<abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não sabeis? exclamou a dama.</p>
-
-<p>&mdash;O que, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça
-viva para a casa!</p>
-
-<p>&mdash;Quem, o perro do cacique?</p>
-
-<p>&mdash;E quem mais senão aquelle cão tinhoso!</p>
-
-<p>&mdash;É das que elle costuma fazer!</p>
-
-<p>&mdash;Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!</p>
-
-<p>&mdash;Mas a culpa não tem elle!</p>
-
-<p>&mdash;Quero ver se o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.</p>
-
-<p>&mdash;E que é feito da féra, <abbr title="Senhora">Sra.</abbr> <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana?</p>
-
-<p>&mdash;Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e
-tragão-me aqui.</p>
-
-<p>&mdash;É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe
-permittião as suas botas de couro de raposa.</p>
-
-<p>Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da
-esplanada.</p>
-
-<p>Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a
-espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.</p>
-
-<p>Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo,
-voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:</p>
-
-<p>&mdash;Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!</p>
-
-<p>Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e
-marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu
-reflexo pallido.</p>
-
-<p>Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o
-gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.</p>
-
-<p>&mdash;Que é lá isso? Tem medo?</p>
-
-<p>E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob
-as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.</p>
-
-<p>Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.</p>
-
-<p>A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo
-laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.</p>
-
-<p>Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até
-á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar
-onde havia expirado.</p>
-
-<p>Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em
-armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na
-casa de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p>
-
-<p>Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e
-arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.</p>
-
-<p>Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto,
-entre-abrio-se a porta, e <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana ainda toda arripiada, olhou
-estremecendo o corpo da féra.</p>
-
-<p>&mdash;Deixe-o ahi mesmo. O <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio ha da vê-lo com seus olhos!</p>
-
-<p>Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello
-accusatorio que ia fulminar contra Pery.</p>
-
-<p>Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a
-expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava
-para causar-lhe um faniquito.</p>
-
-<p>Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua
-lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle
-embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como
-pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos
-de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.</p>
-
-<p>Desta vez porém <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que
-seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem
-que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que
-importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em
-risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?</p>
-
-<p>Terminava esta reflexão justamente no momento em que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de
-Mariz assomava á porta.</p>
-
-<p>&mdash;Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?</p>
-
-<p>&mdash;Ahi a tendes! exclamou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana apontando para a onça comum gesto
-soberbo.</p>
-
-<p>&mdash;Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as
-presas do tigre.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o
-trouxe!...</p>
-
-<p>&mdash;Deve ter sido um habil caçador, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio contemplando a féra
-com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo:
-não tem o signal de uma só ferida!</p>
-
-<p>&mdash;É obra daquelle excommungado caboclo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! respondeu D.
-Lauriana preparando-se para o ataque.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e
-de que nos fallou Alvaro!</p>
-
-<p>&mdash;Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!</p>
-
-<p>&mdash;A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?</p>
-
-<p>&mdash;Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!</p>
-
-<p>Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.</p>
-
-<p>O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao
-passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou
-que tinha as patas e as mandibulas ligadas.</p>
-
-<p>&mdash;É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora;
-ainda conserva o calor.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal,
-certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar
-de ser favoraveis ao seu plano.</p>
-
-<p>Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a
-cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio:</p>
-
-<p>&mdash;Bom é que vejais, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos
-hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis
-acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...</p>
-
-<p>A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto
-energico apontando para o animal morto:</p>
-
-<p>&mdash;Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que
-podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que
-corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.</p>
-
-<p>O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia
-precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um
-chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana sorria-se do seu triumpho.</p>
-
-<p>&mdash;E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã
-vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia;
-encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos,
-porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!</p>
-
-<p>&mdash;Exagerais muito tambem, <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana. É certo que Pery fez uma
-selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma
-reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.</p>
-
-<p>&mdash;Se o conhecesseis como eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! É bugre e basta! Podeis
-ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!</p>
-
-<p>&mdash;Prevenções vossas, que não partilho.</p>
-
-<p>A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe
-decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.</p>
-
-<p>&mdash;Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas
-eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa
-de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei
-que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa
-está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a
-semelhante martyrio!</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher,
-e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia
-produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo
-conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-XIII">XIII
-<br />REVELAÇÃO
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da
-porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso
-do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.</p>
-
-<p>Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que
-fascinava.</p>
-
-<p>Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando
-um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do
-roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus
-hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr
-do sol.</p>
-
-<p>As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se
-da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na
-pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios
-recommendando silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D.
-Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.</p>
-
-<p>&mdash;Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Umas das suas, e de que já sabes parte.</p>
-
-<p>&mdash;E eu vou contar-te o resto! atalhou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, tocando com a mão o
-braço de sua filha.</p>
-
-<p>E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais
-dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido
-a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da
-familia.</p>
-
-<p>Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de
-uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas
-com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa,
-todos áquella hora estarião defuntos.</p>
-
-<p>Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que
-atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus
-olhos brilharão.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, concluio peremptoriamente <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, não é concebivel que
-continuemos com semelhante praga em casa.</p>
-
-<p>&mdash;Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis
-manda-lo embora?</p>
-
-<p>&mdash;Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem
-nos mattos.</p>
-
-<p>&mdash;Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu
-pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:</p>
-
-<p>&mdash;Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou
-Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.</p>
-
-<p>&mdash;E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das
-moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha
-nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por
-semana.</p>
-
-<p>&mdash;Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?</p>
-
-<p>&mdash;E tambem um perigo que correu Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Susto, sim; mas pelo que vi...</p>
-
-<p>&mdash;Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.</p>
-
-<p>A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais
-uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana ao
-voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe
-que nada dissesse.</p>
-
-<p>A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a
-algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore.
-Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir
-a dous passos de minha prima!</p>
-
-<p>&mdash;Ouça cá, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Mariz! exclamou <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana; ouça as estrepolias do
-capeta!</p>
-
-<p>&mdash;No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola,
-que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem
-para nosso lado.</p>
-
-<p>&mdash;Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a
-esse bugio?</p>
-
-<p>&mdash;Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas
-mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a
-alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.</p>
-
-<p>Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem
-passeava pela esplanada:</p>
-
-<p>&mdash;O que diz tua prima é verdade?</p>
-
-<p>&mdash;É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.</p>
-
-<p>&mdash;Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua
-mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Elle vai sentir muito!!</p>
-
-<p>&mdash;E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu
-pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento
-e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!</p>
-
-<p>&mdash;Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio abraçou-a.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!</p>
-
-<p>&mdash;Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.</p>
-
-<p>&mdash;Mandareis conservar este animal? Sim!</p>
-
-<p>&mdash;Desde que o desejas...</p>
-
-<p>&mdash;Será uma lembrança que teremos de Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle,
-podia eu agora apertar-te nos meus braços?</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?</p>
-
-<p>&mdash;É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á
-fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.</p>
-
-<p>O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão
-ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.</p>
-
-<p>&mdash;Que decidistes, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio? perguntou a dama.</p>
-
-<p>&mdash;Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje
-mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui
-estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle
-monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe
-desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por
-alguem. Entendeis, minha mulher?</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução
-naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples
-phrase, inclinou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte,
-Ayres Gomes, que venha ter comigo.</p>
-
-<p>O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo
-conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.</p>
-
-<p>&mdash;E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha
-menos medo de onças.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio afastou-se.</p>
-
-<p>A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado
-domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.</p>
-
-<p>Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca
-devêra ter entrado.</p>
-
-<p>Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o
-canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava
-inquieto e pensativo.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia! disse o moço.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! deixai-me, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.</p>
-
-<p>&mdash;Em que vos offendi eu para que me trateis assim?</p>
-
-<p>&mdash;Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.</p>
-
-<p>&mdash;É que quando se commetteu uma falta...</p>
-
-<p>&mdash;Uma falta? perguntou a menina admirada.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.</p>
-
-<p>&mdash;E que falta commettestes vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;Desobedeci-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.</p>
-
-<p>&mdash;Não zombeis, <abbr title="Dona">D.</abbr> Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem
-feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo
-parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.</p>
-
-<p>&mdash;Mas, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei
-apenas que se trata de uma desobediencia!</p>
-
-<p>&mdash;Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...</p>
-
-<p>&mdash;Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...</p>
-
-<p>&mdash;Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.</p>
-
-<p>&mdash;Como! que dizeis!</p>
-
-<p>&mdash;Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...</p>
-
-<p>&mdash;Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a
-moça com um movimento de impaciencia.</p>
-
-<p>Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha
-feito na vespera á noite.</p>
-
-<p>Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em
-praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.</p>
-
-<p>&mdash;Eu juro pela minha honra!</p>
-
-<p>&mdash;Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella
-janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e
-em que não posso tocar.</p>
-
-<p>&mdash;Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.</p>
-
-<p>Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e
-desespero, que sentio-se commovida.</p>
-
-<p>&mdash;Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa
-é vossa.</p>
-
-<p>&mdash;Eu o sinto; e não me queixo.</p>
-
-<p>&mdash;Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma
-lembrança.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta,
-e m'a recordará sempre.</p>
-
-<p>&mdash;Será agora uma triste recordação...</p>
-
-<p>&mdash;E posso-as eu ter alegres!</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um
-jasmim; é tão doce esperar!</p>
-
-<p>Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a
-Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.</p>
-
-<p>A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro
-apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e
-beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com
-os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem
-sentir.</p>
-
-<p>Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz
-inimitavel:</p>
-
-<p>&mdash;É tambem uma restituição!</p>
-
-<p>Alvaro empallideceu.</p>
-
-<p>A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.</p>
-
-<p>Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos,
-lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a
-innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa
-que se escondia aos olhos dos outros.</p>
-
-<p>Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um
-sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação
-que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito
-defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.</p>
-
-<p>Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao
-mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella;
-seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.</p>
-
-<p>Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um
-cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de
-caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada
-a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma
-falta.</p>
-
-<p>Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se
-desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel, abre esta janella.</p>
-
-<p>A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu
-corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.</p>
-
-<p>Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em
-que se abrio.</p>
-
-<p>Nada havia alli.</p>
-
-<p>A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente
-voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua
-physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem
-descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.</p>
-
-<p>Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a
-admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel!...</p>
-
-<p>A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.</p>
-
-<p>Tinha-se trahido.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-XIV">XIV
-<br />
-A INDIA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha
-atravez da floresta.</p>
-
-<p>Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma
-rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com
-que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as
-pisadas de um animal qualquer.</p>
-
-<p>Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e
-partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas,
-são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na
-floresta, e que elles seguem sem hesitação.</p>
-
-<p>Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir
-aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de
-agarra-la.</p>
-
-<p>Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns
-acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas
-vizinhanças do <i>Paquequer</i>.</p>
-
-<p>No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da
-Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os
-vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.</p>
-
-<p>Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas
-margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e
-uma filha.</p>
-
-<p>Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os
-guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter
-uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais
-vistosa penna do seu cocar.</p>
-
-<p>Estamos no domingo.</p>
-
-<p>Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta
-imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle
-traduzia pelo doce nome de <i>Cecy</i>.</p>
-
-<p>Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa
-nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia
-qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um
-dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.</p>
-
-<p>Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de
-sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a
-caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio
-do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por
-uma bala.</p>
-
-<p>Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de
-Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.</p>
-
-<p>O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento,
-recebêra a carga da espingarda e cahira morta.</p>
-
-<p>O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos
-frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando
-reanima-la. <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de
-piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não
-desejava perder a sua pontaria.</p>
-
-<p>Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a
-fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha
-escolhido.</p>
-
-<p>De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a
-cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.</p>
-
-<p>Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo
-que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.</p>
-
-<p>O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de
-sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e
-que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua
-terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.</p>
-
-<p>Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao
-redor estavão sentados dous selvagens e uma india.</p>
-
-<p>O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e
-aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma
-pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes
-pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de
-dous palmos de comprimento.</p>
-
-<p>A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos
-frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no
-regaço.</p>
-
-<p>Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india
-de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão
-grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca
-aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão;
-depois continuavão o seu trabalho.</p>
-
-<p>No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho
-saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que
-vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o
-atirou a quatro passos com um empurrão.</p>
-
-<p>Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse
-mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher
-tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas
-costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.</p>
-
-<p>Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os
-olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios
-erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa
-exclamação.</p>
-
-<p>Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e
-pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua
-desconhecida, e que Pery não entendeu.</p>
-
-<p>O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do
-cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de
-perto.</p>
-
-<p>Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho
-pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance
-dos selvagens.</p>
-
-<p>Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento
-do banho lhe revelára claramente.</p>
-
-<p>Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o
-signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos
-caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes
-de guia.</p>
-
-<p>Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo
-sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei
-de talião que era o unico principio de direito e justiça que
-reconhecião.</p>
-
-<p>Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu
-inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.</p>
-
-<p>Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já
-sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do
-<i>Paquequer</i>, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.</p>
-
-<p>Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto
-da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e
-que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como
-um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella
-filha dos Aymorés.</p>
-
-<p>Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem
-religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no
-chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que
-podesse vir assaltar a casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um
-vestigio de sua passagem.</p>
-
-<p>Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a
-percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço
-durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido
-pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio
-immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que
-exigia a imminencia de perigo.</p>
-
-<p>Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se
-destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.</p>
-
-<p>Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo
-um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um <span id="Nota27">cãozinho</span>, que
-reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.</p>
-
-<p>Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente
-seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto
-por causa das guaximas.</p>
-
-<p>O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta,
-que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.</p>
-
-<p>Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que
-se havia passado.</p>
-
-<p>Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma
-creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras,
-e deixaria traços de ferimento.</p>
-
-<p>O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha
-bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a
-produzira morte quasi immediatamente.</p>
-
-<p>Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?&mdash;Porque, respondia o
-espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não
-podia acompanhar serviria para denuncia-la.</p>
-
-<p>Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da
-terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e
-encostou de novo o ouvido ao chão.</p>
-
-<p>Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração;
-tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus
-sentidos o illudissem.</p>
-
-<p>Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e
-assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se
-elevava n'uma baixa do terreno.</p>
-
-<p>Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a
-cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um
-instrumento que cavava a terra.</p>
-
-<p>Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era
-impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao
-olhar.</p>
-
-<p>Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas
-largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente
-formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer
-idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas
-cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.</p>
-
-<p>Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não
-podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os
-cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.</p>
-
-<p>Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que
-se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou
-reconhecer exclamou.</p>
-
-<p>&mdash;<em>Per Dio</em>! eil-a!</p>
-
-<p>O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer
-o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a
-conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que
-os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente
-escondida entre as flôres e a relva.</p>
-
-<p>Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea,
-ouvir o que aquelles homens dizião.</p>
-
-<p>Mas por que meio?</p>
-
-<p>Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e
-pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava
-a cavar, lhe chegava mais distincto.</p>
-
-<p>O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.</p>
-
-<p>O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de
-barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima
-da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.</p>
-
-<p>Era a entrada de um <span id="Nota29">formigueiro</span>, de uma dessas casas subterraneas
-construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e
-trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo
-da terra.</p>
-
-<p>Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes
-em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.</p>
-
-<p>O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura,
-deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de
-certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que
-conversavão.</p>
-
-<p>Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe
-trazia as palavras claras e distinctas.</p>
-
-<p>Sentou-se e ouvio.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p1-XV">XV
-<br />OS TRES
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se
-entranhou na matta esperou.</p>
-
-<p>Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy
-Soeiro.</p>
-
-<p>Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava
-adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em
-quando um olhar significativo.</p>
-
-<p>Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:</p>
-
-<p>&mdash;Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que
-nos fizestes vir aqui, misser Loredano?</p>
-
-<p>&mdash;Não, respondeu o italiano laconicamente.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.</p>
-
-<p>&mdash;Esperai!</p>
-
-<p>&mdash;Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida...
-Onde nos pretendeis levar nesta marcha?</p>
-
-<p>&mdash;Vereis.</p>
-
-<p>&mdash;Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser
-Loredano.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.</p>
-
-<p>&mdash;Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.</p>
-
-<p>E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano
-voltou-se com um gesto de desprezo.</p>
-
-<p>&mdash;Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que
-estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a
-minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a
-todos.</p>
-
-<p>Os dous aventureiros empallidecêrão.</p>
-
-<p>&mdash;Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar
-rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas
-que se obstinão a fallar.</p>
-
-<p>&mdash;Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis
-no caso de que eu vos quizesse denunciar?</p>
-
-<p>&mdash;A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua
-resolução.</p>
-
-<p>&mdash;E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que
-as vossas venetas, misser italiano.</p>
-
-<p>&mdash;E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia
-assegurar a sua existencia e o seu descanço?</p>
-
-<p>&mdash;Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e
-de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um
-segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa
-laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos
-incidentes!</p>
-
-<p>&mdash;Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro;
-será morte antes que homizio.</p>
-
-<p>&mdash;Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.</p>
-
-<p>O italiano continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu
-que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de
-longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.</p>
-
-<p>&mdash;Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.</p>
-
-<p>&mdash;A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz o
-meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto.
-Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim
-para que trabalhamos.</p>
-
-<p>Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes,
-se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo
-fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.</p>
-
-<p>Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse
-fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio
-com um esforço recobrar a palavra.</p>
-
-<p>&mdash;É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem
-que o fizesse.</p>
-
-<p>&mdash;Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.</p>
-
-<p>&mdash;Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.</p>
-
-<p>&mdash;Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano;
-confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?</p>
-
-<p>&mdash;Disse a verdade.</p>
-
-<p>&mdash;Mentes! gritou o aventureiro desesperado.</p>
-
-<p>O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do
-punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:</p>
-
-<p>&mdash;Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste
-mundo, e minha alma no outro, juro.</p>
-
-<p>Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não
-deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e
-silenciosa.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios
-tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do
-desespero.</p>
-
-<p>Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e
-suffocada:</p>
-
-<p>&mdash;Pois vós, Loredano, confiastes a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz um papel onde
-existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?</p>
-
-<p>&mdash;Confiei-o!</p>
-
-<p>&mdash;E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua
-mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de
-vossos intentos?</p>
-
-<p>&mdash;Escrevi tudo!</p>
-
-<p>&mdash;Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer
-della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?</p>
-
-<p>&mdash;Sim!</p>
-
-<p>&mdash;E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a
-outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para
-decidir a qual deverá tocar?</p>
-
-<p>&mdash;Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o
-italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas
-mãos de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa
-os pingos de cera preta com que mestre <span id="Nota30">Garcia Ferreira</span>, tabellião do
-Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.</p>
-
-<p>Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os
-dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.</p>
-
-<p>Passou-se algum tempo em silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto
-de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é
-preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo.
-Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em
-diante&mdash;obediência cega e passiva!</p>
-
-<p>Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude
-respondia melhor do que mil protestos.</p>
-
-<p>&mdash;Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio
-é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai
-esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.</p>
-
-<p>A physionomia de Bento Simões reanimou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á
-vontade.</p>
-
-<p>&mdash;Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é
-devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.</p>
-
-<p>Os dous tirárão os punhaes e as espadas.</p>
-
-<p>&mdash;Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para
-me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!</p>
-
-<p>Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que
-depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já
-descrevêmos.</p>
-
-<p>Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e
-descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que
-tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.</p>
-
-<p>De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta
-ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos
-nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um
-pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres
-aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho
-dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja
-que vos dará no gôto.</p>
-
-<p>Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli
-estava deitada, e que collocou no meio do grupo.</p>
-
-<p>&mdash;É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!</p>
-
-<p>&mdash;Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija
-tinha restituido todo o bom humor.</p>
-
-<p>&mdash;A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste
-buraco uma botija de vinho.</p>
-
-<p>&mdash;É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo
-bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.</p>
-
-<p>&mdash;E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella
-á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!</p>
-
-<p>Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu
-lugar.</p>
-
-<p>&mdash;Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando
-vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.</p>
-
-<p>Os dous inclinárão a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de
-nós, podemos toca-la.</p>
-
-<p>&mdash;Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.</p>
-
-<p>&mdash;Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.</p>
-
-<p>Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della
-é preciso...</p>
-
-<p>&mdash;O que? Dizei!</p>
-
-<p>&mdash;A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.</p>
-
-<p>&mdash;Uma historia! replicou Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Da carocha? perguntou Bento Simões.</p>
-
-<p>&mdash;Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre.
-Ouvistes fallar algum dia, em um certo <span id="Nota31">Roberio Dias</span>?</p>
-
-<p>&mdash;Roberio Dias... Ah! sei! um tal de <abbr title="São">S.</abbr> Salvador? disse Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>&mdash;O mesmo, sem tirar nem pôr.</p>
-
-<p>&mdash;Vi-o ha cousa de oito annos em <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião, donde se passou ás
-Hespanhas.</p>
-
-<p>&mdash;E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do
-Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava
-offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande
-fidalgo de sua casa.</p>
-
-<p>&mdash;E o resto, não vos chegou á noticia?</p>
-
-<p>&mdash;Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.</p>
-
-<p>&mdash;Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui
-lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que,
-como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.</p>
-
-<p>&mdash;E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco
-ante de paga-lo.</p>
-
-<p>&mdash;E então?</p>
-
-<p>&mdash;Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.</p>
-
-<p>&mdash;Como ouco?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para
-nós, que vamos lograr o miôlo.</p>
-
-<p>&mdash;Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!</p>
-
-<p>&mdash;Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa
-terra?</p>
-
-<p>&mdash;Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em
-Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!</p>
-
-<p>E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia
-ao lado.</p>
-
-<p>Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da
-razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que
-elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra
-começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous
-observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião
-conjecturas e supposições.</p>
-
-<p>O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro,
-que o fez tinir.</p>
-
-<p>&mdash;<em>Per Dio</em>, exclamou, eil-a!</p>
-
-<p>Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro
-vidrado, a que os indios chamavão <i>camuci</i>; este era pequeno e fechado
-por todos os lados.</p>
-
-<p>Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel
-vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.</p>
-
-<p>&mdash;Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias;
-pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de
-Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.</p>
-
-<p>O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.</p>
-
-<p>Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver
-correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos.
-Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto
-por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.</p>
-
-<p>Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o
-pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes
-letras vermelhas.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer,
-de pasmo e admiração.</p>
-
-<p>Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no
-meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e
-o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá
-quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha
-palavra, como á lei do destino.</p>
-
-<p>&mdash;Juramos!</p>
-
-<p>&mdash;Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo.
-A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia
-pertencer <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões
-terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre
-cavalheiro.</p>
-
-<p>Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto
-marcial.</p>
-
-<p>&mdash;Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão
-bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da
-porta da filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a
-minha parte de presa! É a parte do leão.</p>
-
-<p>Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.</p>
-
-<p>Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao
-vento.</p>
-
-<p>&mdash;Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres,
-poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer;
-tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com
-um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...</p>
-
-<p>Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz
-sepulcral a houvesse pronunciado.</p>
-
-<p>&mdash;Traidores!...</p>
-
-<p>Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e
-lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.</p>
-
-<p>Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e
-lançou um olhar rapido.</p>
-
-<p>Tudo estava em socego.</p>
-
-<p>O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao
-sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.</p>
-
-<p>O dia no seu esplendor dominava a natureza.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_PRIMEIRA_PARTE"><span class="small">FIM DA PRIMEIRA PARTE.</span></h2>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="SEGUNDA_PARTE"><span class="small">SEGUNDA PARTE</span><br />
-PERY</h2>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-<div class="chapter">
-
-
-<h3 id="p2-I">I<br />
-O CARMELITA</h3>
-</div>
-
-<p>Corria o mez de março de 1603.</p>
-
-<p>Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.</p>
-
-<p>Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre
-o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão
-alguns colonos e indios cathequisados.</p>
-
-<p>Estava quasi a anoitecer.</p>
-
-<p>Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas
-faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava
-as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão
-ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago
-amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a
-natureza nadava n'um oceano de fogo.</p>
-
-<p>No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo
-prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com
-elles, não deixava de ter alguma belleza.</p>
-
-<p>Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do
-alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma
-exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.</p>
-
-<p>O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o
-tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a
-sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha
-os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até
-perder-se no matto.</p>
-
-<p>Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade
-carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o
-progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços
-accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que
-revelava o seu caracter.</p>
-
-<p>Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz
-do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a
-vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o
-céo e a terra para obtê-lo.</p>
-
-<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido
-da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis
-mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava
-breve trazer ao gremio da igreja.</p>
-
-<p>Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de
-passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa
-que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de
-empregar-se no trabalho das missões.</p>
-
-<p>Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente
-enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Diogo
-do Rosario, então prior do <span id="Nota32">convento do Carmo</span> no Rio de Janeiro,
-pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da
-Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão
-<abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p>
-
-<p>Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de
-Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de
-um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.</p>
-
-<p>&mdash;Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava
-deitado na rede.</p>
-
-<p>&mdash;Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.</p>
-
-<p>&mdash;E o tempo que vai fazer?</p>
-
-<p>&mdash;Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita
-caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?</p>
-
-<p>&mdash;Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com
-semelhante borrasca.</p>
-
-<p>O frade voltou-se:</p>
-
-<p>&mdash;Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão,
-em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do
-céo, e a estes não ha abrigo que os salve.</p>
-
-<p>Fernão Aines sorrio ironicamente.</p>
-
-<p>&mdash;Crêdes isso, <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo?</p>
-
-<p>&mdash;Creio em Deus, irmão.</p>
-
-<p>&mdash;Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum
-despenhadeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...</p>
-
-<p>&mdash;Ora deixa fallar <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá
-seria a tempestade que zombaria de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Fernão Aines!... exclamou Nunes.</p>
-
-<p>&mdash;Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.</p>
-
-<p>O silencio se restabeleceu.</p>
-
-<p>De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo
-ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que
-havia defronte do pouso.</p>
-
-<p>A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma
-permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o
-terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no
-fundo do alpendre.</p>
-
-<p>Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer
-como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para
-fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto
-contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.</p>
-
-<p>O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da
-catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo
-um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque
-violento que soffrêra.</p>
-
-<p>Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o
-ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço,
-e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas
-palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Castigo do céo!</p>
-
-<p>Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o
-remedio espiritual; com a voz fraca pedio a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo que o ouvisse de
-confissão.</p>
-
-<p>Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para
-o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.</p>
-
-<p>Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por
-instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o
-confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que
-ia gradualmente enfraquecendo.</p>
-
-<p>&mdash;Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me
-restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o
-meu crime.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai, irmão; eu vos escuto.</p>
-
-<p>&mdash;Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um
-parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor
-acolhimento.</p>
-
-<p>«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de
-aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo
-resultado seria grande riqueza para nós ambos.</p>
-
-<p>«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que
-abrio-se inteiramente comigo.</p>
-
-<p>«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia
-descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes
-que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.</p>
-
-<p>«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um
-roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se
-achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.</p>
-
-<p>«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e
-por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para
-contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.</p>
-
-<p>«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos
-não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em
-mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»</p>
-
-<p>O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz
-debil:</p>
-
-<p>«Já então com a chegada do governador <abbr title="Dona">D.</abbr> Francisco de Souza se sabia
-que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas,
-e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar
-silencio.</p>
-
-<p>«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só
-a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás
-Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao
-menos lograr o premio.</p>
-
-<p>«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos
-os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que,
-necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou
-que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus
-riscos e esperanças.</p>
-
-<p>«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi
-o meu primeiro erro!...»</p>
-
-<p>A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado
-sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras
-balbuciadas pelo moribundo.</p>
-
-<p>&mdash;Coragem, filho!</p>
-
-<p>&mdash;Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro
-fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se
-desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um
-crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...</p>
-
-<p>&mdash;E... exclamou o frade com a voz surda.</p>
-
-<p>E roubei o segredo!</p>
-
-<p>O frade sorrio nas trevas.</p>
-
-<p>&mdash;Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que
-fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero
-que este papel lhe seja entregue... Prometteis, <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo?...</p>
-
-<p>&mdash;Prometto! O papel?...</p>
-
-<p>&mdash;Está... occulto...</p>
-
-<p>&mdash;Aonde?</p>
-
-<p>&mdash;Nes... ta...</p>
-
-<p>O moribundo agonisava.</p>
-
-<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á
-sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o
-coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo
-sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.</p>
-
-<p>&mdash;Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.</p>
-
-<p>O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga
-como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.</p>
-
-<p>Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede,
-e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no
-seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.</p>
-
-<p>&mdash;Cruz!...</p>
-
-<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na
-cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de
-páo tosca e mal lavrada.</p>
-
-<p>Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de
-encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da
-madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que
-estivera.</p>
-
-<p>Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á
-claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de
-letras vermelhas, que rezava nestes termos:</p>
-
-<p>«<i>Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio
-Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde
-descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que
-existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas
-e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20
-de janeiro, dia do martyr <abbr title="São">S.</abbr> Sebastião, e terminado na primeira dominga
-de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de
-<abbr title="São">S.</abbr> Salvador.</i>»</p>
-
-<p>Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima
-afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção
-do penitente.</p>
-
-<p>Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas
-mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o
-braço, entregou-se á funda meditação.</p>
-
-<p>Que pensava elle?...</p>
-
-<p>Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada
-lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e
-resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de
-prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma,
-que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando
-á luz do sol.</p>
-
-<p>Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um
-espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta,
-virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.</p>
-
-<p>Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo
-estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma
-sinistra; o peccador expirava impenitente.</p>
-
-<p><abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e
-pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com
-que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro,
-e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.</p>
-
-<p>Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.</p>
-
-<p>O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta,
-deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo
-trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o
-largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.</p>
-
-<p>&mdash;<i lang="la">Consumatum est</i>, irmão! disse elle com um tom compungido.</p>
-
-<p>&mdash;Deus tenha sua alma!</p>
-
-<p>&mdash;Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu
-ultimo voto, que é uma reparação...</p>
-
-<p>&mdash;De um grave peccado?</p>
-
-<p>&mdash;De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Diogo do Rosario,
-nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais
-novas de mim.</p>
-
-<p>O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas
-ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de
-Nunes partio.</p>
-
-<p>Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se
-com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios,
-descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e
-espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.</p>
-
-<p>O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo
-castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se
-realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo
-ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a
-colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:</p>
-
-<p>&mdash;Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e
-poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!</p>
-
-<p>Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de
-Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.</p>
-
-<p>Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma
-grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario
-conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos
-selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas
-rompesse o dia.</p>
-
-<p>A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé,
-esfusiando por entre a palha.</p>
-
-<p>O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito
-um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem
-um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já
-se illuminava.</p>
-
-<p>Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o
-tempo estava sereno.</p>
-
-<p>O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo
-campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou
-depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a
-ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de
-satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle
-e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.</p>
-
-<p>No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um
-só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um
-aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda
-os traços do carmelita <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p>
-
-<p>Este aventureiro chamou-se Loredano.</p>
-
-<p>Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo;
-isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.</p>
-
-<p>Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma
-que o irmão <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de
-sua fé apostolica.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-II">II<br />
-YARA!</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a
-familia de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz estava reunida na margem do <i>Paquequer</i>.</p>
-
-<p>O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous
-outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que
-tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das
-pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura,
-tornavão aquelle retiro pittoresco.</p>
-
-<p>Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio,
-do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das
-aves concertava com o trepido murmurio das aguas.</p>
-
-<p>Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia
-vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da
-frescura deliciosa que alli se respirava.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre
-uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os
-filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma
-palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova
-de Bernardim Ribeiro.</p>
-
-<p>Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo
-rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio
-solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a
-avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse
-folguedo um vivo prazer.</p>
-
-<p>Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva,
-que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan
-natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos
-estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete:
-e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.</p>
-
-<p>Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave
-painel que formava esse grupo de familia.</p>
-
-<p>De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um
-grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:</p>
-
-<p>&mdash;<i lang="gn">Yara!</i></p>
-
-<p>E um vocabulo guarany: significa <i>a senhora</i>.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia
-que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro
-original.</p>
-
-<p>De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha,
-um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a
-uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela
-encosta.</p>
-
-<p>O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a
-esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore
-mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.</p>
-
-<p>A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão
-n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da
-collina.</p>
-
-<p>Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma
-sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.</p>
-
-<p>Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á
-morte, foi para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento,
-que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que
-era toda a sua vida.</p>
-
-<p>No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o
-regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre
-si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.</p>
-
-<p>Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo
-choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no
-perigo que já estava passado.</p>
-
-<p>Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia
-estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem,
-arrancando a relva e ferindo o chão. <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, ainda pallido e
-tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra
-que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um
-genio bemfazejo das florestas do Brazil.</p>
-
-<p>O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que
-elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a
-si proprio da morte.</p>
-
-<p>Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não se
-admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente
-calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança
-erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.</p>
-
-<p>Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava
-de transformar de modo tão imprevisto.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças;
-Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a
-mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de
-admiração sobre a moça que tinha salvado.</p>
-
-<p>Por fim <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha,
-caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e
-affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.</p>
-
-<p>&mdash;Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.</p>
-
-<p>&mdash;Como te chamas?</p>
-
-<p>&mdash;Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.</p>
-
-<p>&mdash;Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça,
-conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a
-minha amizade.</p>
-
-<p>&mdash;Pery aceita; tu já eras amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Como assim? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio admirado.</p>
-
-<p>&mdash;Ouve.</p>
-
-<p>O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce
-pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves
-das florestas virgens, esta simples narração:</p>
-
-
-<p>«Era o tempo das <span id="Nota33">arvores de ouro</span>.</p>
-
-<p>«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de
-guerra.</p>
-
-<p>«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:</p>
-
-<p>«&mdash;Pai morreu; aquelle que fôr <span id="Nota34">o mais forte</span> entre todos, terá o arco
-de Ararê. Guerra!»</p>
-
-<p>«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!</p>
-
-<p>«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao
-céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma
-guerra. Houve sangue, houve fogo.</p>
-
-<p>«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na <span id="Nota35">taba dos brancos</span>
-uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.</p>
-
-<p>«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.</p>
-
-<p>Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos
-os guerreiros.</p>
-
-<p>Sua mãi chegou e disse:</p>
-
-<p>«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és
-forte como teu pai; tua mãi te ama.</p>
-
-<p>«Os guerreiros chegárão e disserão:</p>
-
-<p>«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da
-tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.</p>
-
-<p>«As mulheres chegárão e disserão:</p>
-
-<p>«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a
-canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.</p>
-
-<p>«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos
-guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.</p>
-
-<p>«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a <span id="Nota36">senhora dos
-brancos</span>; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.</p>
-
-<p>«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava
-vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.</p>
-
-<p>«O fogo passou; a casa da cruz cahio.</p>
-
-<p>«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e
-fallou assim:</p>
-
-<p>«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a
-parte, como a <span id="Nota37">estrella grande</span> acompanha o dia.</p>
-
-<p>«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra;
-todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a
-terra, e Pery não podia subir ao céo.</p>
-
-<p>«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem
-sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.</p>
-
-<p>«Assim Pery ficou triste.</p>
-
-<p>«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus
-olhos.</p>
-
-<p>«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o
-sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.</p>
-
-<p>«Veio o tempo da guerra.</p>
-
-<p>«Partimos; andámos; chegámos ao <span id="Nota38">grande rio</span>. Os guerreiros armárão
-as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.</p>
-
-<p>«Vio passar o gavião.</p>
-
-<p>«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.</p>
-
-<p>«Vio passar o vento.</p>
-
-<p>«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.</p>
-
-<p>Vio passar a sombra.</p>
-
-<p>«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.</p>
-
-<p>«Os passarinhos dormirão tres vezes.</p>
-
-<p>«Sua mãi veio e disse:</p>
-
-<p>«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca
-tambem.</p>
-
-<p>«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser
-amigo; e a filha da senhora para ser escravo.</p>
-
-<p>«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou
-longe a tua casa grande.</p>
-
-<p>«A virgem branca appareceu.</p>
-
-<p>«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da
-primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.</p>
-
-<p>«Pery disse:</p>
-
-<p>«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do
-sol, acompanhará a senhora na terra.</p>
-
-<p>«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A
-pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.</p>
-
-<p>«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora
-ficasse triste, e voltasse ao céo.</p>
-
-<p>«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da
-<span id="Nota39">nação Goytacaz</span>, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és
-amigo.»</p>
-
-
-<p>O indio terminou aqui a sua narração.</p>
-
-<p>Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem
-lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora
-ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.</p>
-
-<p>Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e
-modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas
-civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto
-reconhecia.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão
-singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos
-maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem
-poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar
-do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.</p>
-
-<p>Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous
-dias por <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra
-de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão
-amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.</p>
-
-<p>&mdash;E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais
-aos filhos.</p>
-
-<p>&mdash;Tu cearás comnosco.</p>
-
-<p>&mdash;Pery te obedece.</p>
-
-<p>A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia,
-acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina
-tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas
-mãos do indio.</p>
-
-<p>&mdash;É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio
-fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery
-tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu
-pai.</p>
-
-<p>O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.</p>
-
-<p>&mdash;Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.</p>
-
-<p>A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.</p>
-
-<p>O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito,
-não sabia como se ter.</p>
-
-<p>Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel
-em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria
-de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.</p>
-
-<p>Por fim <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era
-inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem
-beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a
-coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o
-amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.</p>
-
-<p>&mdash;E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque
-salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.</p>
-
-<p>A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem
-fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de
-Cecilia.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-III">III
-<br />GENIO DO MAL
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Pery voltou por differentes vezes á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu
-caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.</p>
-
-<p>Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua
-dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um
-desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de
-cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.</p>
-
-<p>Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a
-presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz,
-da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente
-tratada.</p>
-
-<p>Quanto a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento
-prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão.
-Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava
-assim, mas por prejuizos de educação.</p>
-
-<p>Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres
-Gomes atravessou a esplanada e foi ter com <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio que estava no seu
-gabinete.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas
-semanas, pede-vos audiencia.</p>
-
-<p>&mdash;Manda-o vir.</p>
-
-<p>Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se
-havia transformado o carmelita <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca.</p>
-
-<p>&mdash;Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Ao contrario, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria
-ficar.</p>
-
-<p>&mdash;E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o
-nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.</p>
-
-<p>&mdash;A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas
-não é della que desejo fallar.</p>
-
-<p>&mdash;Explicai-vos então.</p>
-
-<p>&mdash;Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e
-filhos que lhe chegarão do Reino.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; já hontem me fallou disso.</p>
-
-<p>&mdash;Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso
-inconveniente.</p>
-
-<p>&mdash;Nem um absolutamente.</p>
-
-<p>&mdash;Nesse caso posso considerar-me como admittido?</p>
-
-<p>&mdash;Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos
-sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Ide sempre.</p>
-
-<p>O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao
-facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu
-serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava
-com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto
-grotesca.</p>
-
-<p>Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte
-introito:</p>
-
-<p>&mdash;Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que
-se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em
-linha recta.</p>
-
-<p>Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.</p>
-
-<p>&mdash;<i lang="it">Primo</i>: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte
-natural.</p>
-
-<p>O italiano fez um gesto de approvação.</p>
-
-<p>&mdash;Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio vos
-mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai;
-porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres
-Gomes, lá ireis.</p>
-
-<p>Loredano sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;<i lang="it">Segundo</i>: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...</p>
-
-<p>&mdash;Com o vosso respeito, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho
-inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de
-continuar.</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis dizer?</p>
-
-<p>&mdash;Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me
-descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.</p>
-
-<p>&mdash;Não obstante...</p>
-
-<p>&mdash;Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.</p>
-
-<p>E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o
-gabinete de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter
-levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor,
-resmungava:</p>
-
-<p>&mdash;Não póde ser boa casta de gente?</p>
-
-<p>Loredano apresentou-se a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p>
-
-<p>&mdash;Então? disse o fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Aceito.</p>
-
-<p>&mdash;Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse
-naturalmente.</p>
-
-<p>&mdash;Qual, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro?</p>
-
-<p>&mdash;É que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o
-hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um
-amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de
-toda a familia a que actualmente pertenceis.</p>
-
-<p>O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a
-alteração da physionomia.</p>
-
-<p>Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já
-então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que
-vimos revelar-se um anno depois.</p>
-
-<p>Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro
-caminhou direito á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade
-que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de
-Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.</p>
-
-<p>Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se
-vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.</p>
-
-<p>Iria á Europa vender o seu segredo a Felippe III ou a qualquer outro
-soberano de uma nação poderosa e inimiga da Hespanha?</p>
-
-<p>Exploraria por sua conta com alguns aventureiros que tomasse ao seu
-serviço esse thesouro fabuloso que devia eleva-lo ao fastigio da
-grandeza?</p>
-
-<p>Esta ultima idéa lhe sorria mais; entretanto não tomou nem uma
-resolução definitiva; posto o seu segredo em lugar seguro, alliviado
-desse peso que o fazia estremecer a cada momento, o italiano resolveu,
-como dissemos, ir pedir hospitalidade a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Ahi formularia o seu plano, traçaria o caminho que devia seguir, e
-então voltaria a procurar o papel que dormia no seio da terra, e com
-elle marcharia á riqueza, á fortuna, ao poder.</p>
-
-<p>Chegado á casa do fidalgo, o ex-carmelita com o seu espirito de
-observação estudou o terreno e achou-o favoravel á realisação de
-uma idéa que começou logo a germinar no seu espirito até que tomou as
-proporções de um projecto.</p>
-
-<p>Homens mercenarios que vendem a sua liberdade, consciencia e vida por um
-salario, não tem dedicação verdadeira senão a um objecto, o
-dinheiro; seu senhor, seu chefe e seu amigo é o que mais lhes paga. <abbr title="Frei">Fr.</abbr>
-Angelo conhecia o coração humano, e por isso apenas iniciado no
-regimento da banda, avaliou do caracter dos aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Esses homens me servirião perfeitamente, disse elle comsigo.</p>
-
-<p>No meio dessas reflexões um facto veio produzir completa revolução
-nas suas idéas.</p>
-
-<p>Viu Cecilia.</p>
-
-<p>A imagem dessa bella menina, casta e innocente, produzio naquella
-organisação ardente e por muito tempo comprimida o mesmo effeito da
-faisca sobre a polvora.</p>
-
-<p>Toda a continencia da sua vida monastica, todos os desejos violentos que
-o habito tinha sellado como uma crosta de gelo, todo esse sangue
-vigoroso e forte da mocidade, passada em vigilias e abstinencias,
-refluirão ao coração e o suffocárão um momento.</p>
-
-<p>Depois um extasis de voluptuosidade immensa embebeu essa alma velha pela
-corrupção e pelo crime, mas virgem para o amor. O seu coração
-revelava-se com toda a vehemencia da vontade audaz, que era o movel de
-sua vida.</p>
-
-<p>Sentio que essa mulher era tão necessaria á sua existencia, como o
-thesouro que sonhava; ser rico para ella, possui-la para gozar a
-riqueza, foi desde então o seu unico pensamento, a sua idéa dominante.</p>
-
-<p>Um dos aventureiros deixava a casa; Loredano solicitou o seu lugar e o
-obteve como acabamos de ver; o seu plano estava traçado.</p>
-
-<p>Qual era, já o sabemos pelas scenas passadas; o italiano contava
-tornar-se senhor da banda, apoderar-se de Cecilia, ir ás minas
-encantadas, carregar tanta prata quanta podesse levar, dirigir-se á
-Bahia, assaltar uma náo hespanhola, toma-la de abordagem, e fazer-se de
-vela para a Europa.</p>
-
-<p>Ahi armava navios de corso, voltava ao Brazil, explorava o seu thesouro,
-tirava delle riquezas immensas e... E o mundo abria-se diante de seus
-olhos cheio de esperança, de futuro e felicidade.</p>
-
-<p>Durante um anno trabalhou nessa empreza com uma sagacidade e
-intelligencia superior; ganhara os dous homens influentes da banda. Ruy
-Soeiro e Bento Simões; por meio delles preparava o desenlace final.</p>
-
-<p>Ignorado pelos outros elle dirigia essa conspiração que lavrava
-surdamente; só havia em toda a banda duas pessoas que o podião perder.
-Ora, Loredano não era homem que deixasse de prever a eventualidade de
-uma traição, e que entregasse aos seus dous complices uma arma com que
-podessem feri-lo; dahi a lembrança desse testamento que entregára a D.
-Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Sómente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o
-italiano dissera a Ruy Soeiro, elle havia apenas indicado a traição
-dos dous aventureiros, declarando-se seduzido por elles; o frade mentia
-pois até na hora extrema em que o papel devia fallar.</p>
-
-<p>A confiança que tinha, e com razão, no caracter de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio
-tranquillisava-o completamente; sabia que em caso algum o fidalgo
-abriria um testamento que lhe fôra dado em deposito.</p>
-
-<p>Eis como <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Angelo di Luca achava-se sob o seu novo nome de Loredano,
-pertencendo á casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e preparando-se para realisar
-a final o seu pensamento de todos os instantes.</p>
-
-<p>Um anno havia que esperava, e como elle dizia estava cançado: resolvera
-dar emfim o golpo e para isso, depois de haver esmagado os dous
-complices com a sua ameaça, depois de os haver reduzido a automatos
-obedecendo ao seu gesto; entendeu que seria conveniente ao mesmo tempo
-animar esses manequins com algum sentimento que lhes désse o
-atrevimento, a audacia e a força necessaria para se lançarem na
-voragem, e não trepidarem diante de nenhum obstaculo.</p>
-
-<p>Este sentimento foi a ambição.</p>
-
-<p>Á vista do roteiro era impossivel que não sentissem a febre da
-riqueza, a <i lang="la">auri sacra fames</i> que se havia apoderado delle proprio, no
-momento em que vira abrir-se diante de seus olhos um mar de prata
-fundida em que os seus labios podido matar a sede ardente que o
-devorava.</p>
-
-<p>O effeito não desmentio a sua previsão; lendo o rotulo, cada um dos
-aventureiros ficára electrisado; para tocar aquelle abysmo insondavel
-de riquezas, nem um delles hesitaria em passar sobre o corpo de seu
-amigo, ou mesmo sobre as cinzas de uma casa ou a ruina de uma familia.</p>
-
-<p>Infelizmente aquella voz inesperada, sahida do seio da terra, viera
-modificar a situação.</p>
-
-<p>Mas não anticipemos; por ora ainda estamos em 1603, um anno antes
-daquella scena, e ainda nos faltão contar certas circumstancias que
-servirão para o seguimento desta veridica historia.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-IV">IV
-<br />CECY</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio
-de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado
-opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.</p>
-
-<p>O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa,
-senão quando via de longe a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz passeando sobre a
-esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do
-velho fidalgo sentia por elle alguma estima.</p>
-
-<p>Havia quatro dias que o selvagem não apparecia; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio suppunha já
-que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que
-só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.</p>
-
-<p>A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo de <abbr title="São">S.</abbr> Thomé
-e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por
-diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.</p>
-
-<p>Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de
-Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir
-igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco
-Fernandes Coutinho.</p>
-
-<p>Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.</p>
-
-<p>O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira
-insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra
-esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe
-salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a
-dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que
-lhe inspirava.</p>
-
-<p>Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao
-reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez
-com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.</p>
-
-<p>O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto
-Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Vinde ver Pery, que chega, meu pai.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.</p>
-
-<p>E acompanhando sua filha, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio foi ao encontro do indio que já
-subia a esplanada.</p>
-
-<p>Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito
-de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os
-fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os
-pequenos habitantes desse ninho gracioso.</p>
-
-<p>O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos
-para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina
-assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro;
-alguns conseguirão escapar-se.</p>
-
-<p>Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em
-torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um
-fructo.</p>
-
-<p>A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras
-azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e
-delicadas!</p>
-
-<p>Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um
-sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as
-flôres na terra e as estrellas no céo.</p>
-
-<p>Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os,
-aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para
-que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno
-della.</p>
-
-<p>Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha
-sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da
-senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente,
-era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D.
-Antonio de Mariz e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai partir.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?</p>
-
-<p>&mdash;Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de
-sua filha.</p>
-
-<p>&mdash;Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse
-Cecilia.</p>
-
-<p>O fidalgo traduzio a pergunta.</p>
-
-<p>&mdash;Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi
-e seus irmãos.</p>
-
-<p>&mdash;E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou
-a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.</p>
-
-<p>Ouvindo dos labios de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que
-responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por
-seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e
-elle não estivesse junto della para salva-la.</p>
-
-<p>&mdash;Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.</p>
-
-<p>Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se
-daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no
-fundo do seu coração de moça.</p>
-
-<p>Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou
-como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa
-que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como
-a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés
-submissa, vencida, escrava!...</p>
-
-<p>Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar
-essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se
-diante do seu olhar.</p>
-
-<p>As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior
-ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é
-forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem,
-o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.</p>
-
-<p>Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo
-homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e
-não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.</p>
-
-<p>Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha
-consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era
-filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de
-rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.</p>
-
-<p>O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.</p>
-
-<p>&mdash;Pery fica.</p>
-
-<p>&mdash;Vêde, Cecilia, replicou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio rindo: elle te obedece!</p>
-
-<p>Cecilia sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas
-nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora mandou, respondeu o indio.</p>
-
-<p>&mdash;Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está
-satisfeita; consente que partas.</p>
-
-<p>&mdash;Não!</p>
-
-<p>&mdash;Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?</p>
-
-<p>&mdash;Pery é escravo da senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Mas Pery é um guerreiro e um chefe.</p>
-
-<p>&mdash;A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos
-ligeiros como o vôo do gavião.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, decididamente queres ficar?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore
-da floresta lhe servirá de abrigo.</p>
-
-<p>&mdash;Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta
-para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.</p>
-
-<p>&mdash;Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.</p>
-
-<p>&mdash;E o coração de ouro.</p>
-
-<p>Emquanto <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse,
-ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.</p>
-
-<p>Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde
-partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica
-particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:</p>
-
-
-<p>«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas
-azas.</p>
-
-<p>«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.</p>
-
-<p>«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres
-trabalhão; ha vinho.</p>
-
-<p>«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de
-andar.»</p>
-
-
-<p>A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa;
-encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a
-scena que passava na esplanada.</p>
-
-<p>Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.</p>
-
-<p>&mdash;Mãi!... exclamou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Vem! disse a india seguindo pela matta.</p>
-
-<p>&mdash;Não!</p>
-
-<p>&mdash;Nós partimos.</p>
-
-<p>&mdash;Pery fica.</p>
-
-<p>A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.</p>
-
-<p>&mdash;Teus irmãos partem!</p>
-
-<p>O selvagem não respondeu.</p>
-
-<p>&mdash;Tua mãi parte!</p>
-
-<p>O mesmo silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Teu campo te espera!</p>
-
-<p>&mdash;Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;A senhora mandou.</p>
-
-<p>A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia
-do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora,
-que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em
-Cecilia.</p>
-
-<p>Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha
-sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr
-de cobre.</p>
-
-<p>&mdash;Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e
-queima a cabana de Ararê.</p>
-
-<p>&mdash;Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua
-mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve
-o filho de Ararê ao campo onde nasceu.</p>
-
-<p>Pery abanou a cabeça com tristeza;</p>
-
-<p>&mdash;Pery não voltará!</p>
-
-<p>Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.</p>
-
-<p>&mdash;O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se
-despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha;
-tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.</p>
-
-<p>&mdash;A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe
-roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e
-mata tudo que se chega a ella.</p>
-
-<p>Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se
-revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.</p>
-
-<p>&mdash;Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se
-lembraria de ti.</p>
-
-<p>Os dous ficárão algum tempo em silencio.</p>
-
-<p>&mdash;Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.</p>
-
-<p>&mdash;E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem
-contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes?
-Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos
-brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as
-bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?</p>
-
-<p>Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle
-as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do
-jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os
-fructos da arvore.</p>
-
-<p>A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a
-fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão
-dos olhos de ambos se confundirão.</p>
-
-<p>Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que
-desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella.
-Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu
-pai; ficou.</p>
-
-<p>Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta
-do rochedo, e que ia ser o seu mundo.</p>
-
-<p>Passárão tres mezes.</p>
-
-<p>Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo
-selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da
-ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.</p>
-
-<p>Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia,
-ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o
-portuguez, afastava-se triste e humilde.</p>
-
-<p>Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D.
-Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia,
-guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras
-preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para
-procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e
-pedia-lhe désse a <i>Cecy</i>, pois já não se animava a chegar-se para
-ella, com receio de desgota-la.</p>
-
-<p><i>Cecy</i> era o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe
-tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.</p>
-
-<p>Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto
-para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto,
-reprehendeu-o com aspereza:</p>
-
-<p>&mdash;Porque me chamas tu <i>Cecy</i>?</p>
-
-<p>&mdash;Não sabes dizer Cecilia?</p>
-
-<p>Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto
-era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro
-letras, das quaes uma era o L.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu
-nome, porque não o dizes sempre?</p>
-
-<p>&mdash;Porque <i>Cecy</i> é o nome que Pery tem dentro da alma.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! é um nome de tua lingua?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;O que quer dizer?</p>
-
-<p>&mdash;O que Pery sente.</p>
-
-<p>&mdash;Mas em portuguez?</p>
-
-<p>&mdash;Senhora não deve saber.</p>
-
-<p>A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de
-impaciencia.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:</p>
-
-<p>&mdash;Meu pãi, dizei-me o que significa <i>Cecy</i> nessa lingua selvagem que
-fallais.</p>
-
-<p>&mdash;<i>Cecy</i>!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que
-significa doer, magoar.</p>
-
-<p>A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se
-do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má,
-egoista e cruel.</p>
-
-<p>&mdash;Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.</p>
-
-<p>Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou
-a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo
-fiel e dedicado.</p>
-
-<p>&mdash;Chama-me <i>Cecy</i>, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome
-me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.</p>
-
-
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-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-V">V<br />
-VILANIA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de
-contar alguns factos anteriores.</p>
-
-<p>Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros
-tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.</p>
-
-<p>Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe
-naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião
-nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a
-semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e
-cava devia ser de um homem.</p>
-
-<p>Quem elle era? Seria <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros?
-Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e
-incertezas.</p>
-
-<p>Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e
-apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se
-pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando
-virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o
-italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.</p>
-
-<p>O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para
-reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia
-comprehender.</p>
-
-<p>Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem,
-trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima.
-Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente
-comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das
-duas moças.</p>
-
-<p>Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus
-companheiros:</p>
-
-<p>&mdash;Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que
-attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...</p>
-
-<p>E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.</p>
-
-<p>&mdash;Esperai-me aqui.</p>
-
-<p>&mdash;O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a
-pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um
-resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o
-fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Quereis que falle?... disse Loredano.</p>
-
-<p>&mdash;É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.</p>
-
-<p>O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:</p>
-
-<p>&mdash;Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.</p>
-
-<p>E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo
-nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.</p>
-
-<p>O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos
-nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.</p>
-
-<p>Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das
-costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de
-repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.</p>
-
-<p>A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os
-rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais
-forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai
-perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das
-arvores.</p>
-
-<p>Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe
-um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o
-campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de
-uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.</p>
-
-<p>Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou
-homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o
-receberia.</p>
-
-<p>Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e
-hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que
-concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra
-<i>traidores</i>, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia
-com que o moço evitava uma sorpreza.</p>
-
-<p>O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma
-destreza admiravel.</p>
-
-<p>A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida,
-volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do
-cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e
-auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma
-cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.</p>
-
-<p>A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que
-parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada
-da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de
-pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe
-servirem de alvo.</p>
-
-<p>Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a
-senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse
-uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e
-fosse por todos admirado.</p>
-
-<p>Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe
-vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a
-superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante
-que é a sua vida.</p>
-
-<p>Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo
-desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil
-tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a
-sua vida e a sua fortuna.</p>
-
-<p>Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha
-passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes
-desprezava-o.</p>
-
-<p>&mdash;Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro? disse o
-aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.</p>
-
-<p>&mdash;Pretendo, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se
-melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.</p>
-
-<p>&mdash;Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo,
-é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do
-que o vosso aspecto.</p>
-
-<p>&mdash;Não disputemos sobre palavras, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; tudo vem dar no mesmo;
-eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.</p>
-
-<p>&mdash;Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da
-espada.</p>
-
-<p>O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a
-ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.</p>
-
-<p>Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos
-injectárão-se de sangue:</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de
-fazer.</p>
-
-<p>&mdash;É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a
-arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.</p>
-
-<p>Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma,
-segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu
-punhal, excellente folha de Damasco.</p>
-
-<p>Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o
-italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas
-vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o
-talho de seu gibão de belbute.</p>
-
-<p>De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu
-a mão esquerda em signal de tregoa.</p>
-
-<p>&mdash;Estais satisfeito? perguntou Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Não, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a
-fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.</p>
-
-<p>&mdash;Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.</p>
-
-<p>&mdash;Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos
-reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo
-tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o
-outro não leve um vestigio que o possa denunciar.</p>
-
-<p>&mdash;Que quereis fazer neste caso?</p>
-
-<p>&mdash;O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos
-cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou
-simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não
-incommodará o outro.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de
-Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.</p>
-
-<p>&mdash;Sigamos, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos
-tempo em palavras.</p>
-
-<p>Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se
-distinctamente.</p>
-
-<p>Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o
-menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais
-pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que
-um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate
-franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.</p>
-
-<p>Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de
-proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e
-prende-la de novo.</p>
-
-<p>O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as
-idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?</p>
-
-<p>&mdash;Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la
-escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem
-testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.</p>
-
-<p>Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e
-seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de
-suas pisadas não excitassem a attenção do moça.</p>
-
-<p>Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe
-d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os
-grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez
-melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella
-belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo
-louro de seus amores.</p>
-
-<p>Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja,
-como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia
-entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que
-esse segredo era elle.</p>
-
-<p>Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo,
-elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e
-alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha
-consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse
-sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria
-um resto de resentimento que talvez conservasse.</p>
-
-<p>Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe
-dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia
-beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.</p>
-
-<p>Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio
-foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se
-associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.</p>
-
-<p>Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle
-miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com
-altivez e seguio.</p>
-
-<p>Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo
-seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do
-italiano.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-VI">VI
-<br />NOBREZA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Alvaro ouvio um sibillo agudo.</p>
-
-<p>A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a
-ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.</p>
-
-<p>O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu
-rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o
-labio superior, sombreado pelo bigode negro.</p>
-
-<p>O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza
-extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez
-passos delle.</p>
-
-<p>Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua
-organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano,
-curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.</p>
-
-<p>O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente
-dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.</p>
-
-<p>O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para
-crava-la no alto da cabeça do italiano.</p>
-
-<p>Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão
-ao indio.</p>
-
-<p>&mdash;Solta este miseravel, Pery!</p>
-
-<p>&mdash;Não!</p>
-
-<p>&mdash;A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de
-atirar sobre elle.</p>
-
-<p>Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e
-apoiava a bocca na fronte do italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Ides morrer. Fazei a vossa oração.</p>
-
-<p>Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.</p>
-
-<p>O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e
-satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao
-pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia
-talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra
-gozar.</p>
-
-<p>Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho
-do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto
-frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.</p>
-
-<p>Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:</p>
-
-<p>&mdash;Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de
-guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á
-justiça de Deus.</p>
-
-<p>Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de
-esperança.</p>
-
-<p>&mdash;Vais jurar que amanhã deixarás a casa de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, e
-nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.</p>
-
-<p>&mdash;Juro! exclamou o italiano.</p>
-
-<p>O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e
-apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do
-peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.</p>
-
-<p>&mdash;Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.</p>
-
-<p>E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua
-clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery
-para que o acompanhasse.</p>
-
-<p>O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia
-profundamente.</p>
-
-<p>Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros,
-quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal
-á sua senhora e a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido
-lançar-se aos tres inimigos e mata-los.</p>
-
-<p>Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação;
-mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso
-Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve
-medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para
-sacrifica-las todas á sua salvação.</p>
-
-<p>Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que
-subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a
-sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que
-soubessem que estava ferido.</p>
-
-<p>Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.</p>
-
-<p>Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio
-de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o
-receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse
-justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens
-brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava
-para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o
-italiano.</p>
-
-<p>Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta
-reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião
-matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do
-mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse
-vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e
-anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.</p>
-
-<p>A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa
-terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio
-com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas
-as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para
-realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem
-possuia em grão tão elevado.</p>
-
-<p>Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de
-avisar a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle
-tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos
-olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o
-cavalheiro.</p>
-
-<p>Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os
-joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o
-virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.</p>
-
-<p>A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser
-procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous
-aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse
-consumado iria ter com <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e lhe diria:</p>
-
-<p>&mdash;Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.</p>
-
-<p>A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano,
-transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery
-ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da
-tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o
-cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade,
-satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.</p>
-
-<p>Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as
-cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o
-conseguiria.</p>
-
-<p>Alvaro tinha recebido de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz todos os principios
-daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho
-fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava
-todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos
-barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do
-Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.</p>
-
-<p>Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida
-a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença
-delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada
-para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.</p>
-
-<p>E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a
-quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro
-tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse
-sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao
-seu descanço, ao seu socego e felicidade.</p>
-
-<p>O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem
-importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.</p>
-
-<p>Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do
-rio.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela
-estima que me tens.</p>
-
-<p>E o moço apertou a mão do selvagem:</p>
-
-<p>&mdash;Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.</p>
-
-<p>Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia
-em suas palavras.</p>
-
-<p>&mdash;Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora
-contente.</p>
-
-<p>&mdash;Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que
-succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a
-ver.</p>
-
-<p>&mdash;Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que
-ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno
-que abre a flôr da noite.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!... exclamou Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu
-fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde
-e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio;
-Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da
-corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.</p>
-
-<p>Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem
-cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a
-delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração
-gasto pelo attrito da sociedade?</p>
-
-<p>A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza
-brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle
-espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.</p>
-
-<p>Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o
-cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos
-da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado;
-quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados
-que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da
-relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil
-reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro
-sentio.</p>
-
-<p>Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo
-o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder
-alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo
-aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par
-da vida brilhante?</p>
-
-<p>Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse
-berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno
-contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do
-veneno, não é um poeta?</p>
-
-<p>Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza;
-ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante
-dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a
-alma.</p>
-
-<p>Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da
-creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes
-cousas que a natureza fez sorrindo.</p>
-
-<p>A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se
-despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras
-desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.</p>
-
-<p>Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á
-beira do <i>Paquequer</i>, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas
-impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.</p>
-
-<p>O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento
-hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por
-Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.</p>
-
-<p>Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia
-me quer? disse o moço.</p>
-
-<p>&mdash;Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste
-mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.</p>
-
-<p>&mdash;Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?</p>
-
-<p>&mdash;Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.</p>
-
-<p>&mdash;E se eu não amasse a Cecilia?</p>
-
-<p>&mdash;Impossivel!</p>
-
-<p>&mdash;Quem sabe? disse o moço sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla
-negra irradiou.</p>
-
-<p>&mdash;Sim? o que farias?</p>
-
-<p>&mdash;Pery te mataria.</p>
-
-<p>A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida
-sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com
-effusão.</p>
-
-<p>Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe
-com um tom commovido:</p>
-
-<p>&mdash;Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a
-pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle
-arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não
-levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa
-menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a
-amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é
-maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim
-mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.</p>
-
-<p>O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite
-antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do
-italiano; desta vez não lhe perdoára.</p>
-
-<p>&mdash;Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.</p>
-
-<p>Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle,
-quando Pery segurou o braço de Alvaro:</p>
-
-<p>&mdash;O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer,
-manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem
-para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.</p>
-
-<p>&mdash;Mas quem é o inimigo da casa?</p>
-
-<p>&mdash;Queres saber?</p>
-
-<p>&mdash;De certo; como hei de combate-los?</p>
-
-<p>&mdash;Tu saberás.</p>
-
-<p>Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo
-pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao
-redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.</p>
-
-<p>Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem
-surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e
-hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.</p>
-
-<p>O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito
-galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre
-a relva.</p>
-
-<p>Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a
-força dos pulmões:</p>
-
-<p>&mdash;Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve
-cá!</p>
-
-<p>Pery não se voltou.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-VII">VII
-<br />NO PRECIPICIO</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.</p>
-
-<p>Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao
-braço.</p>
-
-<p>&mdash;Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?...
-disse o escudeiro resfolgando.</p>
-
-<p>&mdash;Deixa! respondeu o indio sem se mover.</p>
-
-<p>&mdash;Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua
-procura! Tinha que ver!</p>
-
-<p>Com effeito <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto
-antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á
-presença de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia
-boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis,
-tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.</p>
-
-<p>Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o
-fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas;
-ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se
-enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.</p>
-
-<p>Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas,
-que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de
-semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!</p>
-
-<p>Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio,
-causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não
-estava de accordo.</p>
-
-<p>&mdash;Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.</p>
-
-<p>&mdash;Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes,
-não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é
-como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que
-chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette
-a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te,
-boca! não me pies mais!</p>
-
-<p>Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual
-havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como
-estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que
-segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.</p>
-
-<p>Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto
-mato.</p>
-
-<p>&mdash;Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.</p>
-
-<p>&mdash;E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai longe!</p>
-
-<p>&mdash;Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.</p>
-
-<p>O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não quer que tu o sigas.</p>
-
-<p>&mdash;Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda
-ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de
-faca e calhão.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não manda duas vezes!</p>
-
-<p>&mdash;Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.</p>
-
-<p>Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da
-obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este
-executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.</p>
-
-<p>&mdash;Quem te deo a ordem?</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana.</p>
-
-<p>&mdash;Para que?</p>
-
-<p>&mdash;Para te levar á casa.</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai só.</p>
-
-<p>&mdash;Veremos!</p>
-
-<p>O indio tirou a sua faca.</p>
-
-<p>&mdash;Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr>
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria!
-Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.</p>
-
-<p>&mdash;Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.</p>
-
-<p>&mdash;Como?... Como é lá isso?</p>
-
-<p>O indio começou a cortar com a maior calma um longo <span id="Nota40">cipó</span> que se
-engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a
-mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao
-selvagem.</p>
-
-<p>Mas a ordem de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o
-indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se
-valentemente.</p>
-
-<p>Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao
-pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres
-Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as
-regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde
-a mais tenra idade.</p>
-
-<p>Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo,
-combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um
-vime delgado.</p>
-
-<p>&mdash;Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de
-partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na
-durindana!</p>
-
-<p>Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a
-voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos
-de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era
-assaltar o adversario pelas costas.</p>
-
-<p>Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para
-defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio
-aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o
-pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em
-que estava encostado.</p>
-
-<p>Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós
-ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu
-caminho placidamente.</p>
-
-<p>&mdash;Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me
-pagarás com lingua de palmo!...</p>
-
-<p>Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o
-mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.</p>
-
-<p>Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso
-profundo que passava em baixo de sua janella.</p>
-
-<p>A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o
-ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a
-nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que
-sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava
-magoa-la.</p>
-
-<p>Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao
-contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse
-só.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!</p>
-
-<p>Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que
-saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a
-chamarão ao seu proprio soffrimento.</p>
-
-<p>Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o
-anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo
-ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos;
-sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.</p>
-
-<p>O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a
-affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar,
-e um prazer que a fazia sorrir.</p>
-
-<p>Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era,
-e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o
-exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o
-objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.</p>
-
-<p>Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu
-que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia
-obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.</p>
-
-<p>Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do
-coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa
-subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que
-podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o
-respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor
-fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha
-a Pery.</p>
-
-<p>Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz:
-nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar
-a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de
-sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a
-existencia para ella seria de flôres.</p>
-
-<p>Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que
-tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em
-luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.</p>
-
-<p>Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos
-menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e
-sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão
-melancolica.</p>
-
-<p>Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a
-existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.</p>
-
-<p>Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella;
-era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou
-a desatar-se com o primeiro raio do sol.</p>
-
-<p>Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella
-olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera
-modificar a sua existencia.</p>
-
-<p>&mdash;Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel
-como eu a amo e quanto a desejo feliz.</p>
-
-<p>Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery
-comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar
-como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a
-moça sentia por isso um pezar.</p>
-
-<p>Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria
-ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro
-<i>endireitar isto</i>, como elle dizia na sua linguagem simples.</p>
-
-<p>Chegou-se ao fosso.</p>
-
-<p>Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo
-precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde
-risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo
-uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.</p>
-
-<p>Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das
-serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia
-entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.</p>
-
-<p>Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o
-calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma
-linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um
-arbusto.</p>
-
-<p>Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o
-acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o
-receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o
-objecto que ia procurar.</p>
-
-<p>Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores
-chamárão <span id="Nota41"><i>candêa</i></span>; tirou fogo, e começou a descer com o facho
-acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus
-pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.</p>
-
-<p>A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente
-o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.</p>
-
-<p>Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o
-outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada
-uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser
-vibradas.</p>
-
-<p>&mdash;Pery!...</p>
-
-<p>O indio levantou os olhos para ella.</p>
-
-<p>&mdash;Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.</p>
-
-<p>A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.</p>
-
-<p>&mdash;Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que
-desejas.</p>
-
-<p>&mdash;O que eu desejo?...</p>
-
-<p>&mdash;Sim; Pery sabe.</p>
-
-<p>A moça abanou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.</p>
-
-<p>&mdash;Quem te disse? perguntou a menina admirada.</p>
-
-<p>&mdash;Os olhos de Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Tu viste?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>O indio continuou a descer.</p>
-
-<p>&mdash;Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.</p>
-
-<p>&mdash;Buscar o que é teu.</p>
-
-<p>&mdash;Meu!... murmurou melancolicamente.</p>
-
-<p>&mdash;Elle te deo.</p>
-
-<p>&mdash;Elle quem?</p>
-
-<p>&mdash;Alvaro.</p>
-
-<p>A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o
-precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o
-murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!</p>
-
-<p>&mdash;Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu vais morrer!...</p>
-
-<p>&mdash;Não tem medo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não
-desças.</p>
-
-<p>O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para
-elle: cumpria-se irremissivelmente.</p>
-
-<p>Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na
-ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro
-da janella córando.</p>
-
-<p>O indio sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.</p>
-
-<p>E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.</p>
-
-<p>Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-VIII">VIII
-<br />O BRACELETE</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e
-horror.</p>
-
-<p>De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis,
-lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos
-rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos
-fios da têa.</p>
-
-<p>No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o
-estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da <span id="Nota42">cauan</span> no
-fundo do abysmo.</p>
-
-<p>O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.</p>
-
-<p>Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse
-morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o
-seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para
-salva-lo.</p>
-
-<p>Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se
-desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e
-descobrir o indio.</p>
-
-<p>Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da
-folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma
-esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular
-chama <i>lavandeira de Deus</i>.</p>
-
-<p>A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais
-tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a
-lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.</p>
-
-<p>Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra
-ainda com a voz tremula e fraca:</p>
-
-<p>&mdash;Pery!</p>
-
-<p>No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade
-cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:</p>
-
-<p>&mdash;Espera, senhora!</p>
-
-<p>Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu
-á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz
-chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.</p>
-
-<p>&mdash;Estás ferido? perguntou inquieta.</p>
-
-<p>Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou
-pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando
-bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.</p>
-
-<p>Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de
-encontro á almofada da janella.</p>
-
-<p>Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante
-della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma
-bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo
-escarlate.</p>
-
-<p>Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro
-horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com
-sofreguidão:</p>
-
-<p>&mdash;Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!</p>
-
-<p>O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.</p>
-
-<p>&mdash;Tiveste medo, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Muito! exclamou a menina.</p>
-
-<p>O indio sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio
-das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.</p>
-
-<p>O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos
-os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.</p>
-
-<p>Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle
-imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são
-devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens
-ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery
-descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma
-trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.</p>
-
-<p>Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr:
-assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e
-surda.</p>
-
-<p>Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava
-assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles,
-attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção
-simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A
-sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a
-prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.</p>
-
-<p>A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do
-mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que
-tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de
-Cecilia.</p>
-
-<p>A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é
-innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe
-bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou
-a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:</p>
-
-<p>&mdash;Pery sente uma cousa.</p>
-
-<p>&mdash;O que?</p>
-
-<p>&mdash;Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.</p>
-
-<p>&mdash;E porque sentes isto?</p>
-
-<p>&mdash;Porque te acompanharião sempre.</p>
-
-<p>Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.</p>
-
-<p>Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este
-bracelete, trouxesse um presente dado por ti?</p>
-
-<p>&mdash;Muito.</p>
-
-<p>&mdash;E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina
-gracejando.</p>
-
-<p>O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua
-vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um
-adorno digno de sua senhora!</p>
-
-<p>Cecilia teve pena do seu embaraço.</p>
-
-<p>&mdash;Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez
-deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.</p>
-
-<p>Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava
-a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na
-caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.</p>
-
-<p>Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no
-jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina
-prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente
-desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao
-quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.</p>
-
-<p>Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois
-que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu
-amor.</p>
-
-<p>As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e
-consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o
-coração, o queimão como o rescaldo da paixão.</p>
-
-<p>Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com
-um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava
-rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma
-oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as
-faces.</p>
-
-<p>Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os
-olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.</p>
-
-<p>Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um
-enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe
-gracioso.</p>
-
-<p>Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de
-sua prima.</p>
-
-<p>&mdash;Já te disse que não te quero vêr triste.</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.</p>
-
-<p>&mdash;Que é isto? Faço-te medo?</p>
-
-<p>&mdash;Não... mas...</p>
-
-<p>&mdash;Mas, o que?</p>
-
-<p>&mdash;Nada...</p>
-
-<p>&mdash;Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de
-ti. Confessa!</p>
-
-<p>&mdash;Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de
-tua amizade.</p>
-
-<p>E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos
-devemos amar sempre?</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel
-admirada.</p>
-
-<p>&mdash;Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.</p>
-
-<p>&mdash;Não; perdoa; porém é que...</p>
-
-<p>A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o
-espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma
-idéa assaltou-lhe o espirito.</p>
-
-<p>Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de
-merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir
-amargamente.</p>
-
-<p>&mdash;Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou
-entre nós; não é verdade?</p>
-
-<p>&mdash;Tu o queres!</p>
-
-<p>&mdash;Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença,
-accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter
-segredos para comigo.</p>
-
-<p>&mdash;Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua
-boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e
-rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?</p>
-
-<p>&mdash;Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de
-mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.</p>
-
-<p>&mdash;E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes
-amar uma outra pessoa?</p>
-
-<p>Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe
-ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia
-nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos
-de Alvaro fitos nos seus.</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas,
-minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não
-zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!</p>
-
-<p>&mdash;Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que
-soffras por minha causa; entendes?</p>
-
-<p>&mdash;Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr
-preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.</p>
-
-<p>&mdash;Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu
-te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!</p>
-
-<p>&mdash;Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao
-ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.</p>
-
-<p>Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve
-bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.</p>
-
-<p>&mdash;Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?</p>
-
-<p>Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que
-deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o
-mereço?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio
-é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque elle te ama! murmurou Isabel.</p>
-
-<p>A menina corou.</p>
-
-<p>&mdash;Não digas isto, é falso.</p>
-
-<p>&mdash;É bem verdade.</p>
-
-<p>&mdash;Elle te disse?</p>
-
-<p>&mdash;Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.</p>
-
-<p>&mdash;Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me
-importa o que elle sente a meu respeito?</p>
-
-<p>E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas
-voltou da porta.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.</p>
-
-<p>Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao
-braço de Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te
-achará bonita!</p>
-
-<p>Este bracelete!...</p>
-
-<p>Isabel teve de repente uma suspeita.</p>
-
-<p>A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.</p>
-
-<p>&mdash;Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim,
-e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão
-agasto-me comtigo.</p>
-
-<p>Isabel abaixou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até
-logo.</p>
-
-<p>E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.</p>
-
-<p>A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as
-impressões tristes da manhã.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-IX">IX
-<br />TESTAMENTO</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>No momento em que Cecilia deixou Isabel, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz subia a
-esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua
-physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.</p>
-
-<p>O velho fidalgo avistou de longe seu filho <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo e Alvaro passeando
-ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que
-se aproximassem.</p>
-
-<p>Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz
-até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do
-oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma
-escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.</p>
-
-<p>Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros
-descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio como
-homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de
-não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa
-abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas
-arrobas de polvora.</p>
-
-<p>O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era
-a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um
-descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete
-d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e
-fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia,
-disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos
-interessa e a mim antes do que a todos.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um
-sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho
-fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho sessenta amos, continuou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio; estou velho. O contacto
-deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me
-durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e
-sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á
-terra aquillo que veio da terra.</p>
-
-<p>Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos
-illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos
-illurdirmos a nós proprios.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio conteve-os com um gesto nobre.</p>
-
-<p>&mdash;Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma
-declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais
-comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta
-annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem
-vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar
-tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.</p>
-
-<p>Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo; mas é a
-segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal
-desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!</p>
-
-<p>&mdash;De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha
-remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda
-vida que vos deo o novo mundo.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio sorrindo;
-quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente
-da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua
-ultima vontade, e fazer o seu testamento.</p>
-
-<p>&mdash;O vosso testamento, meu pai! disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo pallido.</p>
-
-<p>&mdash;Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve
-preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho
-aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua
-ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas.
-Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que
-tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um
-documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento.
-Ouvi-me.</p>
-
-<p>Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo
-com uma emoção de tristeza e respeito.</p>
-
-<p>&mdash;Não trato de vós, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe
-da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um
-esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi
-na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas
-cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que
-me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu
-nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou
-meu pai.</p>
-
-<p>O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo para
-o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.</p>
-
-<p>&mdash;A vós, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que
-conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis
-por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a
-felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem
-já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.</p>
-
-<p>Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma
-das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os
-n'um mesmo olhar de amor paternal.</p>
-
-<p>&mdash;Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os
-dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.</p>
-
-<p>&mdash;O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma
-falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha
-natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre
-menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o
-titulo de sobrinha.</p>
-
-<p>&mdash;Isabel?... exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre
-como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e
-carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe
-mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.</p>
-
-<p>A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se
-que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia
-despertado.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre mulher!... murmurou elle.</p>
-
-<p>Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua
-emoção, voltou aos dous moços.</p>
-
-<p>&mdash;Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço
-um juramento; basta-me a vossa palavra.</p>
-
-<p>Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, que
-comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.</p>
-
-<p>&mdash;Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A
-tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis
-muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que
-até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.</p>
-
-<p>&mdash;Assim o tinha entendido, disse Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo
-tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das
-partes do meu testamento. Sabeis qual?</p>
-
-<p>&mdash;A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio apertou-lhe a mão.</p>
-
-<p>&mdash;Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um
-triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;Vi-o ha pouco.</p>
-
-<p>&mdash;Ide e mandai-o a mim.</p>
-
-<p>O moço retirou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo obedeceu.</p>
-
-<p>O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que
-fechou com um retroz e sellou com as suas armas.</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p>
-
-<p>&mdash;Sentai-vos, minha mulher.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que
-ia praticar.</p>
-
-<p>Quando Cecilia entrou, elle perguntou-lhe ao ouvido:</p>
-
-<p>&mdash;Que queres tu dar-lhe?</p>
-
-<p>A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que
-tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo
-entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião
-expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um
-selvagem.</p>
-
-<p>Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido
-tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.</p>
-
-<p>&mdash;Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.</p>
-
-<p>&mdash;É necessario; eu te disse.</p>
-
-<p>&mdash;Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.</p>
-
-<p>&mdash;Impossivel!</p>
-
-<p>&mdash;Que mal faz elle aqui?</p>
-
-<p>&mdash;Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves
-crêr-me.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos agasteis!...</p>
-
-<p>&mdash;Assim não te oppões?</p>
-
-<p>Cecilia calou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e
-eu, porque lhe prometti.</p>
-
-<p>&mdash;Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.</p>
-
-<p>Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no
-seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.</p>
-
-<p>A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata
-das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos
-percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do
-cavalheiro.</p>
-
-<p>Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu
-irmão <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o
-fidalgo.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.</p>
-
-<p>&mdash;Acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz te estima?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; porque o disse e mostrou.</p>
-
-<p>&mdash;Acreditas que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste
-por elle, salvando sua filha?</p>
-
-<p>&mdash;Se fosse preciso, sim.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem, Pery; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á
-tua tribu.</p>
-
-<p>O indio estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Porque pedes isto?</p>
-
-<p>&mdash;Porque assim é preciso, amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!</p>
-
-<p>&mdash;Não!</p>
-
-<p>&mdash;Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita
-de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento:
-sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery
-não te custa nada.</p>
-
-<p>Cecilia chorava; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e seu filho estavão commovidos; <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana
-mesma parecia enternecida.</p>
-
-<p>&mdash;Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa,
-se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana.
-Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.</p>
-
-<p>&mdash;Porque então mandas Pery embora?</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um
-pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da
-religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.</p>
-
-<p>&mdash;Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a
-quem amamos, respeitamos e obedecemos.</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o
-adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.</p>
-
-<p>&mdash;O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua
-tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.</p>
-
-<p>Houve um momento de silencio; <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não sabia o que replicar.</p>
-
-<p>&mdash;Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas
-que Pery vá, senhora?</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas
-prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! balbuciou Cecilia.</p>
-
-<p>O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.</p>
-
-<p>O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo
-das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira
-vez sente-se vencida pela dôr.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-X">X
-<br />DESPEDIDA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:</p>
-
-<p>&mdash;O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim
-mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a
-sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos
-nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e
-de tua senhora e no meu.</p>
-
-<p>O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e
-voltou-se para seu filho:</p>
-
-<p>&mdash;Este papel, <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa
-ser prisioneiro, que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por
-elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos
-deixo a cumprir, meu filho.</p>
-
-<p>&mdash;Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa
-divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em
-satisfação dos meus proprios sentimentos.</p>
-
-<p>&mdash;Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao
-indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos
-todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo
-onde nasceste.</p>
-
-<p>Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes,
-como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não
-podião exprimir.</p>
-
-<p>Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força
-invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua
-senhora.</p>
-
-<p>A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta,
-e deitou-a no pescoço do indio:</p>
-
-<p>&mdash;Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.</p>
-
-<p>Cecilia estremeceu.</p>
-
-<p>O selvagem ergueu-se, e caminhou para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, que não
-podia dominar a sua emoção.</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a
-terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não
-voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a
-alegria se partisse no fim da lua.</p>
-
-<p>&mdash;Por que razão? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio; desde que é necessario que nos
-separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.</p>
-
-<p>&mdash;Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery
-estaria comtigo para defender-te.</p>
-
-<p>&mdash;Vou ser atacado? exclamou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio pensativo.</p>
-
-<p>&mdash;Sim: podes contar.</p>
-
-<p>E por quem?</p>
-
-<p>&mdash;Pelo Aymoré.</p>
-
-<p>&mdash;E como sabes isto? perguntou <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio fitando nelle um olhar
-desconfiado.</p>
-
-<p>O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.</p>
-
-<p>&mdash;Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou
-sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e
-caminharem para sua tribu.</p>
-
-<p>&mdash;E tu o que fizeste?</p>
-
-<p>&mdash;Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.</p>
-
-<p>O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.</p>
-
-<p>&mdash;É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu
-não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e
-meus.</p>
-
-<p>O indio sorrio tristemente.</p>
-
-<p>&mdash;Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias,
-e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.</p>
-
-<p>Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a
-principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a
-fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que
-apparecia no saio de algodão do indio.</p>
-
-<p>Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais
-distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado
-a solução de um difficil problema.</p>
-
-<p>&mdash;Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.</p>
-
-<p>Pery recuou um passo; mas <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio lançando-se para elle entreabrio o
-talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as,
-e viu que estavão descarregadas.</p>
-
-<p>O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio
-com admiração profunda.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é
-de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o
-coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas,
-que vistes um dia <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de
-sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.</p>
-
-<p>O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado
-pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas
-restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e
-confuso, parecia um criminoso em face do juiz.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, Pery, disse <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo
-para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.</p>
-
-<p>&mdash;Falla.</p>
-
-<p>&mdash;Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no
-banho?</p>
-
-<p>&mdash;Foi Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?</p>
-
-<p>Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.</p>
-
-<p>&mdash;Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos
-selvagens?</p>
-
-<p>Pery não respondeu.</p>
-
-<p>&mdash;É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te
-offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.</p>
-
-<p>&mdash;Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.</p>
-
-<p>O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.</p>
-
-<p>&mdash;Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.</p>
-
-<p>Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse
-com um tom supplicante:</p>
-
-<p>&mdash;Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo
-embora, depois do que fez por mim?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da
-guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e
-para sempre.</p>
-
-<p>Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos
-labios de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p>
-
-<p>&mdash;Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana com uma
-expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela
-segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por
-nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma
-dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva
-sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi
-não estivera?</p>
-
-<p><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o
-seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos.
-As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.</p>
-
-<p>&mdash;Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar,
-sou eu que vos peço agora esta graça, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; tenho
-tambem a minha divida a pagar.</p>
-
-<p>O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe
-estendêra.</p>
-
-<p>Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para
-o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu
-pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava,
-e seguiria o exemplo que lhe dava.</p>
-
-<p>Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou
-estupefacto.</p>
-
-<p>O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma
-indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.</p>
-
-<p>Pela manhã, depois do almoço, <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz, chegando a uma
-janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do
-<i>Paquequer</i>. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava
-que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande
-corpulencia.</p>
-
-<p>Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e
-monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de
-jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa
-em que atravessou para a margem opposta.</p>
-
-<p>Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu
-pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma
-de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os
-selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento
-cerrou-lhe o coração.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um
-receio vago quando soube da morte que <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo tinha feito
-involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que
-se tinha mostrado tão severo com seu filho.</p>
-
-<p>Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões,
-aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela
-disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte
-presentimento.</p>
-
-<p>Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre
-sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra
-naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia
-definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás
-vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á
-casa.</p>
-
-<p>Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente
-enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não
-queria assustar sua mulher.</p>
-
-<p>O mais já sabemos.</p>
-
-<p>Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa,
-e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.</p>
-
-<p>Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto;
-recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel
-havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o
-houvesse presenciado.</p>
-
-<p>A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante
-o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o
-saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um
-raio de luz para <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio.</p>
-
-<p>O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos
-conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar
-os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do
-que se passava.</p>
-
-<p>Pery, beijando a mão de <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana, Cecilia contente e risonha, <abbr title="Dom">D.</abbr>
-Antonio de Mariz e <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo contemplando o indio com um olhar de
-gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao
-escudeiro.</p>
-
-<p>Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente
-com o fim de contar o occorrido e pedir a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz licença
-para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse
-despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos;
-mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa,
-Ayres Gomes não hesitava.</p>
-
-<p><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle
-não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.</p>
-
-<p>&mdash;Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo
-que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo
-dedicado de toda a minha familia.</p>
-
-<p>Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer
-a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão
-que o havia injuriado?</p>
-
-<p>Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o
-pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos, Ayres!</p>
-
-<p>O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão
-sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.</p>
-
-<p>Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha
-passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.</p>
-
-<p>&mdash;Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre
-mostrar o que és.</p>
-
-<p>Era hora do jantar: o toque soou.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-XI">XI
-<br />TRAVESSURA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão
-passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma
-da outra.</p>
-
-<p>Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa
-belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de
-uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.</p>
-
-<p>O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão
-os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que
-fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a
-contemplavão.</p>
-
-<p>Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento
-elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e
-lembrava-se dos anginhos de Deus.</p>
-
-<p>Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito
-apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso,
-lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.</p>
-
-<p>No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um
-certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que
-costumava praticar.</p>
-
-<p>Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos;
-parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente
-Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua
-alma.</p>
-
-<p>Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida
-dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de
-jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola
-brilhante que bem se podia chamar <i>a alma do amor</i>.</p>
-
-<p>O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a
-luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve
-roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe
-sensações voluptuosas.</p>
-
-<p>Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem
-comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua
-prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno
-semblante.</p>
-
-<p>&mdash;Como estás bonita! disse a menina de repente.</p>
-
-<p>E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo
-suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.</p>
-
-<p>&mdash;Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de
-Cecilia.</p>
-
-<p>É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.</p>
-
-<p>Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a
-verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos busca-lo?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.</p>
-
-<p>&mdash;Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.</p>
-
-<p>&mdash;Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.</p>
-
-<p>Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.</p>
-
-<p>Tinhão chegado á frente da casa. <abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana conversava com seu filho
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo, emquanto <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela
-esplanada conversando.</p>
-
-<p>Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do
-joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.</p>
-
-<p>&mdash;Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está
-tão linda! Se eu vos pedisse e ao <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro para que nos
-acompanhassem?</p>
-
-<p>&mdash;Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo
-galanteando; cumpririamos a tua ordem.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!</p>
-
-<p>&mdash;E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?</p>
-
-<p>&mdash;Assim, nos acompanhais?</p>
-
-<p>&mdash;De certo.</p>
-
-<p>&mdash;E vós, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;Eu... obedeço.</p>
-
-<p>Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a
-perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.</p>
-
-<p>Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a
-durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez
-lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da
-sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e
-satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa
-de que elle se accusava.</p>
-
-<p>A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que
-de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem
-guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára
-Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio o
-chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho
-encantador que ia esvaecer-se.</p>
-
-<p>As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas
-de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás
-vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela
-vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por
-detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por
-algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se
-ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.</p>
-
-<p>Uma occasião porém Cecilia deixou que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio e Alvaro se
-aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão
-brejeiro, que Isabel ficou inquieta.</p>
-
-<p>&mdash;Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.</p>
-
-<p>&mdash;Sim! E o que é?</p>
-
-<p>&mdash;Um segredo.</p>
-
-<p>&mdash;Pois vem contar-m'o.</p>
-
-<p>Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o
-braço.</p>
-
-<p>&mdash;Tende paciencia por um instante, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro, disse ella voltando-se;
-conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo
-bracelete... Ainda não o vistes?</p>
-
-<p>E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella
-tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e
-Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir
-o seu effeito.</p>
-
-<p>A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é
-impossivel de descrever.</p>
-
-<p>Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a
-enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua
-prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.</p>
-
-<p>Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia
-tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não
-podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que
-devia ser um segredo entre ambos.</p>
-
-<p>Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos;
-avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o
-olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o
-seu braço mimoso.</p>
-
-<p>Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma
-explicação, animou-se a romper o silencio:</p>
-
-<p>&mdash;Que significa tudo isto, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel? perguntou elle supplicante.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.</p>
-
-<p>&mdash;Como?</p>
-
-<p>&mdash;Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me
-fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...</p>
-
-<p>&mdash;Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?</p>
-
-<p>&mdash;Nunca!... exclamou a moça com fogo.</p>
-
-<p>Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra;
-parecia dar um juramento.</p>
-
-<p>&mdash;Qual o motivo? perguntou depois de um momento.</p>
-
-<p>A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e
-tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse
-teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem
-o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um
-mysterio, e desejava esclarecê-lo.</p>
-
-<p>Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:</p>
-
-<p>&mdash;Perdoai-me, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o
-que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes
-escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar
-com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?</p>
-
-<p>Isabel estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai: eu vos escuto, <abbr title="Senhor">Sr.</abbr>Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste
-bracelete, não é verdade?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! balbuciou a moça.</p>
-
-<p>&mdash;Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço.
-Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até
-que ponto zombão de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.</p>
-
-<p>&mdash;E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?</p>
-
-<p>&mdash;Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do
-coração.</p>
-
-<p>&mdash;Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!</p>
-
-<p>Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça
-implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e
-revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle
-havia dado.</p>
-
-<p>Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse
-merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que
-lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.</p>
-
-<p>A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida;
-seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu
-vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar
-ardente cahia sobre o moço e o fascinava.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer
-assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.</p>
-
-<p>&mdash;E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me
-annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo
-receber-se a má nova de voz amiga!</p>
-
-<p>Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:</p>
-
-<p>&mdash;Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!</p>
-
-<p>&mdash;E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim
-um amigo.</p>
-
-<p>&mdash;Se fosseis!...</p>
-
-<p>E os olhos de Isabel scintillárão.</p>
-
-<p>&mdash;Acabai!</p>
-
-<p>&mdash;Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.</p>
-
-<p>&mdash;Perdoar-vos, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe?
-disse Alvaro admirado.</p>
-
-<p>A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.</p>
-
-<p>Todo este dialogo, vivo, animado, cheio de reticencias e hesitações da
-parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu
-espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.</p>
-
-<p>Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que
-tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o
-cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um
-enigma.</p>
-
-<p>&mdash;<abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel!</p>
-
-<p>A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.</p>
-
-<p>&mdash;Não m'o pergunteis!...</p>
-
-<p>&mdash;Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós?
-Dizei!</p>
-
-<p>&mdash;Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.</p>
-
-<p>&mdash;Tanto tempo ha que supplico-vos!</p>
-
-<p>Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della
-esperava emfim uma resposta.</p>
-
-<p>Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão
-das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as
-faces.</p>
-
-<p>&mdash;Me perdoareis?</p>
-
-<p>&mdash;Sim! Mas porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque...</p>
-
-<p>Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução
-subita se tinha operado em toda a sua organisação.</p>
-
-<p>O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão
-abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas
-que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.</p>
-
-<p>O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a
-menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia
-transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.</p>
-
-<p>As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço,
-ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia
-esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos
-labios.</p>
-
-<p>Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do
-rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha
-ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se
-nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se
-pelas fórmas palpitantes.</p>
-
-<p>Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a
-primeira palavra.</p>
-
-<p>Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor
-desfallecida sobre a haste, murmurou:</p>
-
-<p>Porque... vos amo!</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-XII">XII
-<br />AS MENSAGENS DE PERY</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas
-veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.</p>
-
-<p>Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração
-leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o
-amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma
-profanação.</p>
-
-<p>A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento
-rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava
-ajoelhada aos pés do cavalheiro.</p>
-
-<p>Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto
-tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se,
-embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.</p>
-
-<p>&mdash;Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho que perdoar-vos, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel, respondeu o moço erguendo-a;
-peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha
-mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem
-mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!</p>
-
-<p>E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.</p>
-
-<p>&mdash;Que desejais de mim? perguntou o moço.</p>
-
-<p>&mdash;Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós
-será para mim um consolo. M'o negareis?</p>
-
-<p>Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um
-desespero surdo e concentrado.</p>
-
-<p>&mdash;Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um
-irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.</p>
-
-<p>&mdash;Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.</p>
-
-<p>&mdash;E uma affeição calma e serena que vai bem outras, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel.</p>
-
-<p>A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas
-palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a
-suffocava.</p>
-
-<p>Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz; o
-que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel
-era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já
-cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava
-como pai.</p>
-
-<p>&mdash;Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me
-por vosso irmão.</p>
-
-<p>&mdash;Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua
-irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, <abbr title="Dona">D.</abbr> Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente?
-perguntou ella com timidez.</p>
-
-<p>Alvaro hesitou.</p>
-
-<p>&mdash;Sim, Isabel.</p>
-
-<p>A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os
-labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o
-acariciavão.</p>
-
-<p>&mdash;Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É
-preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.</p>
-
-<p>&mdash;Contai-me as vossas magoas.</p>
-
-<p>&mdash;Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero
-mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.</p>
-
-<p>&mdash;Culpada! Em que!</p>
-
-<p>&mdash;Em querer-vos, disse Isabel corando.</p>
-
-<p>Alvaro tornou-se frio e reservado.</p>
-
-<p>&mdash;Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me,
-depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.</p>
-
-<p>A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro
-não pode resistir.</p>
-
-<p>&mdash;Fallai, minha irmã.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo,
-e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me
-queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas;
-entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que
-me tratão fez-me desprezar a outra.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>&mdash;Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo
-que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar
-alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...</p>
-
-<p>&mdash;Tendes razão, Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição
-que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a
-amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.</p>
-
-<p>A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o
-percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e
-conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.</p>
-
-<p>O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.</p>
-
-<p>&mdash;Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões,
-sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um
-prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de
-lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se
-aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso
-semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o
-raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um
-gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão
-as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me
-fallavão...</p>
-
-<p>Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro
-palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a
-ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.</p>
-
-<p>&mdash;Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me
-deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo.
-Podeis-me ouvir sem temor.</p>
-
-<p>&mdash;Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Resta a explicação que ha pouco me pedieis.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! emfim!</p>
-
-<p>Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que
-guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e
-o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.</p>
-
-<p>&mdash;Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração,
-donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos
-aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A
-esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e
-fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes
-que lembrar-vos de mim para odiar-me!</p>
-
-<p>&mdash;Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós
-senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela
-affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.</p>
-
-<p>O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e,
-apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para
-reflectir sobre o que lhe acontecia.</p>
-
-<p>Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado;
-e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz
-lhe dava a mão de sua filha!</p>
-
-<p>Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do
-coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa;
-caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de
-arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.</p>
-
-<p>Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo
-estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião
-perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.</p>
-
-<p>A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os
-olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez
-temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore
-começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a
-aproximação da noite.</p>
-
-<p>Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente
-sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante
-de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o
-movimento que lhe tinha imprimido o arco.</p>
-
-<p>O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo
-aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão
-de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.</p>
-
-<p>Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do
-rosto de Cecilia.</p>
-
-<p>Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade,
-tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião
-uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.</p>
-
-<p>&mdash;Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar;
-queres?</p>
-
-<p>&mdash;Pery te pede.</p>
-
-<p>&mdash;Quaes achas mais bonitas?</p>
-
-<p>&mdash;A de teu rosto, e a de teus olhos.</p>
-
-<p>Cecilia sorrio.</p>
-
-<p>&mdash;Toma-as; eu te as dou.</p>
-
-<p>Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e
-brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra
-tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.</p>
-
-<p>Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta,
-tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da
-phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.</p>
-
-<p>Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um
-aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou
-mensageira muda, uma simples interjeição: <em>Alto</em>!</p>
-
-<p>O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia
-dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação
-com esse mysterio que apenas deixara entrever.</p>
-
-<p>Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com
-o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse
-attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do
-indio.</p>
-
-<p>Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os
-braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava
-no fundo azul do horizonte, esperou.</p>
-
-<p>Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no
-tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se;
-Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á
-ordem.</p>
-
-<p>Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do
-cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em
-duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a
-trinta passos do lugar onde parára a principio.</p>
-
-<p>Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que
-acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem
-ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no
-arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.</p>
-
-<p>Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais
-ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde
-conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão
-cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.</p>
-
-<p>Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia
-segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma
-sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao
-ouvido uma palavra.</p>
-
-<p>&mdash;São elles.</p>
-
-<p>&mdash;Elles quem?</p>
-
-<p>&mdash;Os inimigos brancos.</p>
-
-<p>&mdash;Não te entendo.</p>
-
-<p>&mdash;Espera: Pery volta.</p>
-
-<p>E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava
-rapidamente.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-XIII">XIII
-<br />TRAMA</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.</p>
-
-<p>O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se;
-passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por
-lhe escaparem os seus inimigos.</p>
-
-<p>Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e
-o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os
-homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas
-nunca homens de energia e resolução.</p>
-
-<p>Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e
-Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal
-parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos
-meios de sahir da posição difficil em que se achava.</p>
-
-<p>Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando
-receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que
-complicasse a situação.</p>
-
-<p>Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia
-nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que
-respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.</p>
-
-<p>&mdash;Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.</p>
-
-<p>&mdash;Como sabeis?</p>
-
-<p>&mdash;Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?</p>
-
-<p>&mdash;É verdade; mas quem foi então?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem
-que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.</p>
-
-<p>Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara
-silencioso.</p>
-
-<p>&mdash;Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?</p>
-
-<p>&mdash;Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.</p>
-
-<p>O italiano sorrio de escarneo.</p>
-
-<p>&mdash;Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por
-este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido
-que devemos tomar.</p>
-
-<p>&mdash;Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em
-tudo isto uma cousa sobrenatural.</p>
-
-<p>&mdash;Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com
-impaciencia.</p>
-
-<p>&mdash;Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de
-creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia
-da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.</p>
-
-<p>Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos,
-onde tivera lugar a sua entrevista.</p>
-
-<p>&mdash;Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma
-palavra sequer.</p>
-
-<p>Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o
-som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e
-perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se
-porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava
-até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação
-da scena anterior.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra
-vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.</p>
-
-<p>&mdash;Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra
-observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio;
-desconfia apenas.</p>
-
-<p>&mdash;Ainda insistis em que fosse um homem?</p>
-
-<p>&mdash;Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do
-que de uma cobra; é de um homem visionario.</p>
-
-<p>&mdash;Visionario! dizei crente!</p>
-
-<p>&mdash;Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em
-espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde
-servireis de carniça aos urubús.</p>
-
-<p>O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da
-pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos
-corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.</p>
-
-<p>&mdash;Pensastes?</p>
-
-<p>&mdash;Sim.</p>
-
-<p>&mdash;Admittis que fosse um homem?</p>
-
-<p>&mdash;Admitto tudo.</p>
-
-<p>&mdash;Jurais?</p>
-
-<p>&mdash;Juro.</p>
-
-<p>&mdash;Sobre...</p>
-
-<p>&mdash;Sobre minha salvação.</p>
-
-<p>O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao
-Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.</p>
-
-<p>Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão
-feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.</p>
-
-<p>Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma
-hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A
-posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances
-da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do
-abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.</p>
-
-<p>Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o
-abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste
-homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do
-gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento
-do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se
-expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol
-ardente que fazia borbulhar o sangue.</p>
-
-<p>Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões
-violentas.</p>
-
-<p>Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na
-contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e
-fugia-lhe.</p>
-
-<p>A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue
-quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever
-inspirar senão affeições castas.</p>
-
-<p>A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões.
-Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e
-arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?</p>
-
-<p>Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no
-mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro
-sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia
-conquistar.</p>
-
-<p>Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua
-como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.</p>
-
-<p>&mdash;Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui
-mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?</p>
-
-<p>&mdash;Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto
-antes, e andar dia e noite sem parar.</p>
-
-<p>&mdash;E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?</p>
-
-<p>&mdash;Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão,
-obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda
-a parte.</p>
-
-<p>&mdash;Que propondes então?</p>
-
-<p>&mdash;Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos
-descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem;
-ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.</p>
-
-<p>&mdash;Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a
-nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que
-devemos ganhar tudo ou perder tudo.</p>
-
-<p>Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.</p>
-
-<p>&mdash;Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.</p>
-
-<p>&mdash;Com oito.</p>
-
-<p>&mdash;E vós, Bento?</p>
-
-<p>&mdash;Sete.</p>
-
-<p>&mdash;Decididos?</p>
-
-<p>&mdash;Promptos ao menor signal.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da
-batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso
-que á noite tudo esteja concluido.</p>
-
-<p>&mdash;E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da
-casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará
-signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda
-esperança de salvar-se.</p>
-
-<p>Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas
-fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.</p>
-
-<p>Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de
-sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.</p>
-
-<p>Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros
-carregar as suas, e disse-lhes:</p>
-
-<p>&mdash;Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é
-nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em
-todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.</p>
-
-<p>Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com
-as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.</p>
-
-<p>Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous
-passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia
-produzida pela correnteza do vento.</p>
-
-<p>Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros
-como a sua sombra; o indio deixando <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio dera pela sua ausencia, e
-conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua
-procura.</p>
-
-<p>O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando
-Bento Simões parou:</p>
-
-<p>&mdash;Quem entrará primeiro?</p>
-
-<p>&mdash;A sorte decidirá, respondeu Ruy.</p>
-
-<p>&mdash;Como?</p>
-
-<p>&mdash;Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro
-chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.</p>
-
-<p>&mdash;Está dito!</p>
-
-<p>Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.</p>
-
-<p>Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se;
-como Loredano, elle tambem disse, comsigo:</p>
-
-<p>&mdash;O ultimo será o primeiro.</p>
-
-<p>E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros
-sem que um percebesse a morte dos outros.</p>
-
-<p>Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando
-Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no
-chão ao fio comprido do lombo.</p>
-
-<p>Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já
-ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.</p>
-
-<p>O plano de Pery tinha gorado.</p>
-
-<p>&mdash;Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou
-cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.</p>
-
-<p>O aventureiro não replicou.</p>
-
-<p>Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião
-favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de
-longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que
-ião os aventureiros; despedindo uma <span id="Nota43">setta por elevação</span> dera ao
-cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.</p>
-
-<p>Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros,
-espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um
-e um, mata-los.</p>
-
-<p>Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.</p>
-
-<p>Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca,
-Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio
-com seu pai e sua prima.</p>
-
-<p>A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte;
-escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse
-assustar a menina, quanto mais offendê-la.</p>
-
-<p>Bento Simões passou incolume.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h3 class="nobreak" id="p2-XIV">XIV
-<br />A CHACARA
-</h3>
-</div>
-
-
-
-
-<p>Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.</p>
-
-<p>Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe
-escapavão por uma especie de fatalidade.</p>
-
-<p>O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva;
-modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os
-tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava
-que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle
-sabia.</p>
-
-<p>Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este
-expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano
-executara sua trama.</p>
-
-<p>O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a
-<abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já
-acudido ao pensamento do indio.</p>
-
-<p>Foi ter com Alvaro que o esperava.</p>
-
-<p>O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição
-quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para
-sempre.</p>
-
-<p>Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de
-Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta
-lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela
-mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.</p>
-
-<p>Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer
-repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os
-olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.</p>
-
-<p>Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da
-cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o
-echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.</p>
-
-<p>O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella
-imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola
-esplendida.</p>
-
-<p>Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle;
-passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o
-incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de
-suas esperanças.</p>
-
-<p>Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e
-desapego da vida, que succedem ás dores profundas.</p>
-
-<p>&mdash;Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?</p>
-
-<p>&mdash;Sim; respondeu o indio.</p>
-
-<p>&mdash;Quero conhecê-los.</p>
-
-<p>&mdash;Para que?</p>
-
-<p>&mdash;Para ataca-los.</p>
-
-<p>&mdash;Mas são tres.</p>
-
-<p>&mdash;Melhor.</p>
-
-<p>O indio hesitou:</p>
-
-<p>&mdash;Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle
-morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.</p>
-
-<p>&mdash;Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?</p>
-
-<p>&mdash;Pery póde; mas não quer dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Porque?</p>
-
-<p>&mdash;Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás
-os máos.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! que não. Falla!</p>
-
-<p>&mdash;Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas
-a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.</p>
-
-<p>&mdash;Como?</p>
-
-<p>&mdash;Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti,
-a todos da casa. Tem outros que os seguem.</p>
-
-<p>&mdash;Uma revolta!... exclamou Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não
-deixará.</p>
-
-<p>&mdash;É impossivel! disse o moço surprendido.</p>
-
-<p>Pery te diz verdade.</p>
-
-<p>&mdash;Não creio!...</p>
-
-<p>Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma
-exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio,
-não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de
-sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.</p>
-
-<p>O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca
-durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um
-só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de
-disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas
-não passava disto.</p>
-
-<p>O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se
-obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu
-cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.</p>
-
-<p>&mdash;Tu duvidas de Pery?</p>
-
-<p>&mdash;Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery;
-mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.</p>
-
-<p>&mdash;Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o
-indio com firmeza.</p>
-
-<p>&mdash;Que queres dizer com isto?</p>
-
-<p>&mdash;Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se
-elle perder a vida dirás ainda que se engana?</p>
-
-<p>Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.</p>
-
-<p>&mdash;Melhor é que falles a <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz.</p>
-
-<p>&mdash;Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente;
-Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar
-o bote.</p>
-
-<p>&mdash;Mas então o que queres de mim?</p>
-
-<p>&mdash;Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle
-fez; que salves a senhora!</p>
-
-<p>&mdash;Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro
-senão contra o ferro!</p>
-
-<p>O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.</p>
-
-<p>&mdash;Tu não amas Cecy!</p>
-
-<p>Alvaro estremeceu.</p>
-
-<p>&mdash;Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.</p>
-
-<p>&mdash;Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida
-sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria
-de meu pai.</p>
-
-<p>Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a
-mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as
-circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.</p>
-
-<p>Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão
-todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse
-quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do
-dever.</p>
-
-<p>Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em
-torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida;
-sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé
-dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.</p>
-
-<p>Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra
-filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa,
-comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas
-Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os
-grandes sentimentos.</p>
-
-<p>Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de
-sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.</p>
-
-<p>O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do
-cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a
-mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:</p>
-
-<p>&mdash;Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte;
-tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno
-das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade
-de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o
-teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a
-minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em
-torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que
-passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua
-senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das
-florestas; Pery te chamaria irmão.</p>
-
-<p>Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro
-lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de
-defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e
-prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.</p>
-
-<p>O indio tinha a sua idéa.</p>
-
-<p>Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que
-occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.</p>
-
-<p>Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na
-cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores
-para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco
-do jardim.</p>
-
-<p>Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta
-abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava
-no vão esclarecido.</p>
-
-<p>A menina avistando o indio correu para elle:</p>
-
-<p>&mdash;Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade?
-E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir!
-Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.</p>
-
-<p>&mdash;Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para
-elle ficar.</p>
-
-<p>&mdash;Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.</p>
-
-<p>&mdash;O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio
-simplesmente.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de
-contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me
-salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita;
-todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.</p>
-
-<p>O indio sorrio:</p>
-
-<p>&mdash;Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe
-ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão <abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo e o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Alvaro.</p>
-
-<p>Pery abanou a cabeça.</p>
-
-<p>&mdash;Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do
-céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo
-isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma
-cruz no peito. Sim?</p>
-
-<p>&mdash;A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para
-abrir; Pery precisa de liberdade para viver.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!</p>
-
-<p>&mdash;Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o
-peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o
-passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida
-em que nasceu.</p>
-
-<p>Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.</p>
-
-<p>&mdash;Não te zanga, senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te
-chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.</p>
-
-<p>E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu
-para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.</p>
-
-<p>O indio voltou pezaroso á sua cabana.</p>
-
-<p>De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma
-antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os
-sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da
-musica.</p>
-
-<p>A chacara dizia assim:</p>
-
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">Foi um dia.&mdash;Infanção mouro</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Deixou</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Alcaçar de prata e ouro.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">Montado no seu corcel,</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Partio</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Sem pagem, sem anadel.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">Do castello á barbacã</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Chegou</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Viu formosa castellã.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">Aos pés daquella a quem ama</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Jurou</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Ser fiel á sua dama.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">A gentil dona e senhora</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Sorrio;</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Ai! que isenta ella não fora</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Tu és mouro; eu sou christã:»</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Fallou</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">A formosa castellã.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Mouro, tens o meu amor:</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Christão,</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Serás meu nobre senhor.»</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">Sua voz era um encanto,</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">O olhar</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Quebrado, pedia tanto!</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Antes de ver-te, senhora,</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Fui rei;</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Serei teu escravo agora.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Por ti deixo meu alcaçar</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Fiel;</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Meus paços d'ouro e de nacar.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">«Por ti deixo o paraiso;</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Meu céo</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">É teu mimoso sorriso.»</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">A dona em um doce enleio</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Tirou</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Seu lindo collar do seio.</span><br /></div>
-
-<div class="stanza">
-<span style="margin-left: 2.5em;">E duas almas christãs,</span><br />
-<span style="margin-left: 6em;">Na cruz</span><br />
-<span style="margin-left: 2.5em;">Um beijo tornou irmãs.</span><br /></div>
-</div>
-
-<p>A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um
-momento as suas doces modulações.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DA_SEGUNDA_PARTE"><span class="small">FIM DA SEGUNDA PARTE.</span></h2>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 id="Notas">NOTAS
-
-<br />DO TOMO PRIMEIRO.</h2>
-
-
-<p>PAG. 3.&mdash;<b><a href="#Nota1">Guarany</a></b>.</p>
-
-<p>O titulo que damos a este romance significa o <i>indigena brazileiro</i>. Na
-occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes
-a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e
-expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta
-raça pelo nome <i>Tupi</i> mas esta denominação não era usada senão por
-algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia
-dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome
-primitivo da grande nação.</p>
-
-
-<p>PAG. 3.&mdash;<b><a href="#Nota2">O Paquequer</a></b>.</p>
-
-<p>Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer
-naquella epoca, lêa-se <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da Silva Lisboa, <i>Annaes do Rio de
-Janeiro</i>, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café
-transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e
-desertos.</p>
-
-
-<p>PAG. 4.&mdash;<b><a href="#Nota3">Brazão d'armas</a></b>.</p>
-
-<p>Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos <i>Annaes do Rio
-de Janeiro</i>, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei
-litteralmente.</p>
-
-
-<p>PAG. 11.&mdash;<b><a href="#Nota4"><abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz</a></b>.</p>
-
-<p>Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu
-passado, antes da epoca em que começa o romance.</p>
-
-<p>Nos <i>Annaes do Rio de Janeiro</i>, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve
-noticia sobre sua vida.</p>
-
-
-<p>PAG. 13.&mdash;<b><a href="#Nota5"><abbr title="Dom">D.</abbr> Pedro da Cunha</a></b>.</p>
-
-<p>Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla
-Warnhagen na sua historia do Brazil.</p>
-
-
-<p>PAG. 16.&mdash;<b><a href="#Nota6">Aventureiros</a></b>.</p>
-
-<p>O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda
-de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas.
-Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a
-necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares
-para as conquistas e explorações.</p>
-
-
-<p>PAG. 14.&mdash;<b><a href="#Nota7"><abbr title="Dona">D.</abbr> Lauriana</a></b>.</p>
-
-<p>Segundo <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa a mulher de <abbr title="Dom">D.</abbr> Antonio de Mariz chamava-se
-Lauriana Simoa, e era natural de <abbr title="São">S.</abbr> Paulo.</p>
-
-
-<p>PAG. 19.&mdash;<b><a href="#Nota8"><abbr title="Dom">D.</abbr> Diogo de Mariz</a></b>.</p>
-
-<p>Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega
-do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes.
-<abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa.&mdash;<i>Annaes</i>.</p>
-
-
-<p>PAG. 20.&mdash;<b><a href="#Nota9">Pistoletes</a></b>.</p>
-
-<p>Ou arcabuzes pequenos. Pela <abbr title="ordem">ord.</abbr> <abbr title="numero">n°</abbr> 5, <abbr title="título">tit.</abbr> 80, <abbr title="seção">s.</abbr> <abbr title="décimo terceira">13ª</abbr>, era defesa
-trazê-los armados ou tê-los em casa.</p>
-
-
-<p>PAG. 32.&mdash;<b><a href="#Nota10">Um indio</a></b>.</p>
-
-<p>O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se
-encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os
-escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da
-regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por
-Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a
-raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou
-depois.</p>
-
-
-<p>PAG. 38.&mdash;<b><a href="#Nota11">Forcado</a></b>.</p>
-
-<p>Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria,
-é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que
-cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados
-já estão.</p>
-
-
-<p>PAG. 40.&mdash;<b><a href="#Nota12">Ticum</a></b>.</p>
-
-<p>O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os
-Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para
-cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina
-de almocega era fortissimo.</p>
-
-
-<p>PAG. 42.&mdash;<b><a href="#Nota13">Biribá</a></b>.</p>
-
-<p>Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito,
-roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr>
-Lisboa.&mdash;<i>Annaes</i>.</p>
-
-
-<p>PAG. 43.&mdash;<b><a href="#Nota14">Gardenia</a></b>.</p>
-
-<p>Nome scientifico que <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena
-silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a
-mais commum é a branca e escarlate.</p>
-
-
-<p>PAG. 73.&mdash;<b><a href="#Nota15">Pery</a></b>.</p>
-
-<p>Palavra da lingua guarany que significa <i>junco silvestre</i>.</p>
-
-
-<p>PAG. 80.&mdash;<b><a href="#Nota16">Oleo</a></b>.</p>
-
-<p>É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de
-cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura.</p>
-
-
-<p>PAG. 94.&mdash;<b><a href="#Nota44">Hirara</a></b>.</p>
-
-<p>Especie de gato selvagem, indigena do Brazil.</p>
-
-
-<p>PAG. 100.&mdash;<b><a href="#Nota17">Soffrer</a></b>.</p>
-
-<p>É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um
-negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por
-que os primeiros colonos lhe derão esse nome.</p>
-
-
-<p>PAG. 102.&mdash;<b><a href="#Nota18">Cecy</a></b>.</p>
-
-<p>É um verbo da lingua guarany que significa <i>magoar</i>, <i>doer</i>.</p>
-
-
-<p>PAG. 106.&mdash;<b><a href="#Nota19">Sapucaia</a></b>.</p>
-
-<p>Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição
-de um côco.</p>
-
-
-<p>PAG. 107.&mdash;<b><a href="#Nota20">Pequiá</a></b>.</p>
-
-<p>Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de
-brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro.</p>
-
-
-<p>PAG. 111.&mdash;<b><a href="#Nota21">O cactus</a></b>.</p>
-
-<p>Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o
-rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão <i lang="gn">urumbeba</i>. Todos elles
-abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol.</p>
-
-
-<p>PAG. 111.&mdash;<b><a href="#Nota22">Graciola</a></b>.</p>
-
-<p>É o nome scientifico que <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Velloso na sua <i>Flora Fluminense</i> dá á
-pequena flôr azul de um arbusto indigena.</p>
-
-
-<p>PAG. 111.&mdash;<b><a href="#Nota23">Malvalisco</a></b>.</p>
-
-<p>Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira,
-cuja flor é escarlate.</p>
-
-
-<p>PAG. 112.&mdash;<b><a href="#Nota24">Viuvinha</a></b>.</p>
-
-<p>Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro
-que saúda o nascimento do dia.</p>
-
-
-<p>PAG. 113.&mdash;<b><a href="#Nota25">Jasmineiro</a></b>.</p>
-
-<p>Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous
-botanicos que citamos acima.</p>
-
-
-<p>PAG. 115.&mdash;<b><a href="#Nota26">Colhereira</a></b>.</p>
-
-<p>É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma
-bella côr de rosa.</p>
-
-
-<p>PAG. 146.&mdash;<b><a href="#Nota27">O cão</a></b>.</p>
-
-<p>Diz o <abbr title="Senhor">Sr.</abbr> Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o
-companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu.</p>
-
-
-<p>PAG. 149.&mdash;<b><a href="#Nota28">Cabuiba</a></b>.</p>
-
-<p>A cabuiba ou cabureiba, <i lang="la">Balsamum Peruvianum</i> de Pison, <i lang="la">Cabuibaiba</i> de
-Maregrave e <i lang="la">Miroxilem Cabriuva</i> de outros naturalistas, é uma arvore
-das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama
-arvore do balsamo.</p>
-
-<p>Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para
-cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa e Ayres do Casal.)</p>
-
-
-<p>PAG. 154.&mdash;<b><a href="#Nota29">Formigueiro</a></b>.</p>
-
-<p>No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas,
-feitas por uma formiga, a que os indios chamárão <i>taciahy</i>.</p>
-
-
-<p>PAG. 161.&mdash;<b><a href="#Nota30">Garcia Ferreira</a></b>.</p>
-
-<p>Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro
-por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da Silva
-Lisboa.)</p>
-
-
-<p>PAG. 163.&mdash;<b><a href="#Nota31">Roberio Dias</a></b>.</p>
-
-<p>Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de
-prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia;
-pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado.
-Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão.</p>
-
-<p>Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das
-minas. (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa.)</p>
-
-
-<p>PAG. 177.&mdash;<b><a href="#Nota32">Convento do Carmo</a></b>.</p>
-
-<p>«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de
-José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre <abbr title="Frei">Fr.</abbr> Pedro,
-para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o
-anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590,
-pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição
-geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (<abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa, <abbr title="tomo">tom.</abbr>
-VII°, <abbr title="capítulo">cap.</abbr> 2°, <abbr title="seção">§</abbr> 6.)</p>
-
-
-<p>PAG. 196.&mdash;<b><a href="#Nota33">Arvores de ouro</a></b>.</p>
-
-<p>A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta
-flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á
-embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (<abbr title="Gabriel">G.</abbr> Soares, <i>Roteiro do
-Brazil</i>, e <abbr title="Baltasar">B.</abbr> da <abbr title="Silva">S.</abbr> Lisboa <i>Annaes</i>).</p>
-
-<p>Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase
-figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de
-setembro.»</p>
-
-
-<p>PAG. 196.&mdash;<b><a href="#Nota34">O mais forte</a></b>.</p>
-
-<p>É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que
-tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de
-hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era
-ephemero.</p>
-
-
-<p>PAG. 197.&mdash;<b><a href="#Nota35">Taba dos brancos</a></b>.</p>
-
-<p>Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito
-Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um
-desses combates que o indio conta de passagem.</p>
-
-
-<p>PAG. 198.&mdash;<b><a href="#Nota36">Senhora dos brancos</a></b>.</p>
-
-<p>Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na
-occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de
-Nossa Senhora, que o impressionou vivamente.</p>
-
-
-<p>PAG.&mdash;<b><a href="#Nota37">A estrella grande</a></b>.</p>
-
-<p>O que dizem alguns chronistas, a respeito da ignorancia absoluta dos
-indigenas sobre a astronomia, me parece inexacto. Os Guaranys tinhão os
-conhecimentos rudes, filhos da observação. Chamavão a estrella
-<i>jacy-tato</i>, fogo da lua; suppunhão pois que a lua é que transmittia a
-luz ás estrellas. Conhecião as quatro phases da lua: a lua nova,
-<i>jacy-peçaçu</i>; o quarto crescente, <i>jacy-jemorotuçu</i>; a lua cheia,
-<i>jacy-caboaçu</i>; e o quarto minguante, <i>jacy-jearoca</i>. Dividião o anno
-em duas estações: a estação do sol, <i>coaracyara</i>, e a estação da
-chuva, <i>ama'na-ara</i>; são as mesmas que hoje conhecemos, e as unicas que
-realmente existem no Brazil. Muitas outras observações podiamos fazer,
-que omittimos para evitar prolixidade.</p>
-
-
-<p>PAG. 199.&mdash;<b><a href="#Nota38">Grande rio</a></b>.</p>
-
-<p>Esta palavra é relativa: todas as nações chamavão assim o maior rio
-que havia no territorio que ellas conhecião, e é por isso que se
-encontrão tantos <em>rios grandes</em> nos nomes dos rios do nosso paiz. Para
-os Goytacazes o Rio-Grande era o Parabyba.</p>
-
-
-<p>PAG. 218.&mdash;<b><a href="#Nota39">A nação goytacaz</a></b>.</p>
-
-<p>Esses factos lêem-se em qualquer dos escriptores que se têm occupado
-dos primeiros tempos coloniaes do Brazil, e especialmente em <abbr title="Gabriel">G.</abbr> Soares,
-que foi contemporâneo delles.</p>
-
-
-<p>PAG. 260&mdash;<b><a href="#Nota40">Cipós</a></b>.</p>
-
-<p>Diz Gabriel Soares: «Deu a natureza ao Brazil, por entre os arvoredos,
-umas cordas muito rijas, muitas que nascem aos pés dos arvores e
-atrepão por ellas acima, a que chamão cipós, com que os indios atão
-a madeira de suas casas e os brancos que não podem mais. Nestes mesmos
-mattos se crião outras cordas mais delgadas e primas a que os indios
-chamavão «timbós,» que são mais rijas que os cipós acima.»</p>
-
-<p>A quantidade infinita de cipós é uma das originalidades das florestas
-do Brazil, e admirou os naturalistas estrangeiros que o visitárão.</p>
-
-
-<p>PAG. 222.&mdash;<b><a href="#Nota41">Candêa</a></b>.</p>
-
-<p>Diz o mesmo autor: «Ha uma arvore meã que se chama «ibiriba» a qual
-os Indios fazem em fios para fachos, com que vão mariscar e para
-andarem de noite; e ainda que seja verde, cortada daquella hora, pega o
-fogo nella como em alcatrão, e não apaga o vento os fachos della; e em
-casa servem-se os indios de achas dessa madeira, como de candêas.</p>
-
-
-<p>PAG. 269.&mdash;<b><a href="#Nota42">Cauan</a></b>.</p>
-
-<p>É uma ave que devora as cobras, pelo que ellas fogem della, Os indios,
-segundo affirma Ayres do Casal, imitavão o seu canto, quando andavão
-á noite pelo matto, e assim preservavão-se de serem mordidos.</p>
-
-
-<p>PAG. 338.&mdash;<b><a href="#Nota43">Setta por elevação</a></b>.</p>
-
-<p>A destreza e a habilidade com que os Indios atiravão a setta era tal,
-que os Europeus a admiravão. Para atirarem por elevação,
-deitavão-se, seguravão o arco com os dous dedos dos pés e lançavão
-ao ar a setta que, subindo, descrevia uma parabola e ia cahir no alvo.
-Ainda ha pouco tempo no Pará se vião, nas aldêas de indios já
-cathequisados, pareos deste jogo, em que o alvo era um tronco de
-bananeira decepado. O tenente Pimentel, filho do presidente de
-Matto-Grosso, foi assassinado pelos indios deste modo, cavalgando no
-meio de muitos cavalleiros. Nenhum foi ferido: e todas as settas
-abatêrão-se sobre o moço de quem os selvagens se querião vingar.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-
-<h2 class="nobreak" id="FIM_DAS_NOTAS_DO_TOMO_PRIMEIRO"><span class="small">FIM DAS NOTAS DO TOMO PRIMEIRO.</span></h2>
-</div>
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O GUARANY:</span> ***</div>
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-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
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-and official page at www.gutenberg.org/contact
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
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diff --git a/old/67724-h/images/cover.jpg b/old/67724-h/images/cover.jpg
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index b106359..0000000
--- a/old/67724-h/images/cover.jpg
+++ /dev/null
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