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- The Project Gutenberg eBook of Lupe, by Affonso Celso.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Lupe, by Afonso Celso de Assis Figueiredo
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Lupe
-
-Author: Afonso Celso de Assis Figueiredo
-
-Release Date: November 2, 2020 [EBook #63606]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUPE ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_i"></a>[i]</span></p>
-
-<h1>LUPE</h1>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_ii"></a>[ii]</span></p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Typ. Aldina—Rua Sete de Setembro 79</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_iii"></a>[iii]</span></p>
-
-<p class="titlepage"><span class="u">AFFONSO CELSO</span></p>
-
-<p class="titlepage larger">LUPE</p>
-
-<p class="titlepage">(Segunda edição corrigida e com um prefacio novo)</p>
-
-<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;">
-<img src="images/hugo.jpg" width="100" height="115" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">PERNAMBUCO<br />
-HUGO &amp; C.—Editores<br />
-<span class="smaller">79, Rua do Imperador, 79</span><br />
-1895</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_iv"></a>[iv]</span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_v"></a>[v]</span></p>
-
-<p class="dedication">A<br />
-<span class="larger"><i>URBANO DUARTE</i></span><br />
-E<br />
-<span class="larger"><i>CORRÊA DE MENEZES</i>,</span><br />
-Amigos nos bons e nos máos tempos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_vi"></a>[vi]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter" id="Dedicatoria">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_vii"></a>[vii]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header0.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-</div>
-
-<p>Dos ensaios litterarios que ultimamente
-tenho dado a lume, foi <i>Lupe</i> o que
-suscitou mais vivas e contradictorias apreciações.</p>
-
-<p>Criticos houve, tão exaggeradamente
-benevolos, que de primorosa qualificaram
-a singela narrativa, chegando ao extremo
-de emparelhal-a com <i>Cinco Minutos</i> de
-José de Alencar e <i>Graziella</i> de Lamartine.</p>
-
-<p>Outros, em compensação, a acoimaram
-de romancete fraco e ephemero, onde
-a acção se arrasta enfadonhamente, com<span class="pagenum"><a id="Page_viii"></a>[viii]</span>
-defeitos notaveis de forma e escandalosos
-erros de observação.</p>
-
-<p>E, conforme os habitos da terra, depois
-de malsinar o livro, atiraram-se desapiedados
-contra o autor, chamando-lhe
-vaidoso, ignorante, humilhador da
-patria lingua e quejandas amenidades.</p>
-
-<p>Em consciencia, reputo-me autorisado
-a repetir os versos da tragedia raciniana:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
- <div class="stanza">
- <div class="verse indent0"><i>.... Je n’ai mérité</i></div>
- <div class="verse indent0"><i>Ni cet excès d’honneur, ni cette indignité!</i></div>
- </div>
-</div>
-</div>
-
-<p><i>Lupe</i> não passa de modesto episodio<span class="pagenum"><a id="Page_ix"></a>[ix]</span>
-de viagem, despreoccupadamente contado,
-sem pretenção de especie alguma.</p>
-
-<p>Achei prazer em escrevel-o, e, simplesmente
-por isso, o escrevi.</p>
-
-<p>Publiquei-o com a inoffensiva esperança
-de transmittir a outros uma parte
-d’esse prazer.</p>
-
-<p>E parece que não me illudi de todo
-nos meus intuitos, pois duas tiragens de
-<i>Lupe</i>,—mil exemplares cada uma,—a
-despeito da epocha turbada em que se expuzeram
-á venda, dentro de breves dias se
-esgotaram.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_x"></a>[x]</span></p>
-
-<p>Entre os senões apontados pelos censores,
-confesso que varios se me afiguraram
-justos. Corrigi-os na presente edição
-e me esforçarei por não reincidir.</p>
-
-<p>A alguns, porém, peço venia para offerecer
-ligeira contestação.</p>
-
-<p>—Desagrada em vossas producções,—accusaram-me,—o
-tom intensamente
-pessoal que n’ellas impéra. Falais em demasia
-de vós mesmo. D’ahi a pécha de
-vaidoso que vos assacaram.</p>
-
-<p>Como o orador romano, podem n’este<span class="pagenum"><a id="Page_xi"></a>[xi]</span>
-ponto bradar os profligadores: <i>habemus
-confitentem reum</i>.</p>
-
-<p>Sim; todo o meu empenho consiste
-exactamente em imprimir, nos meus trabalhos
-litterarios a mais funda feição individual
-possivel.</p>
-
-<p>Segundo o meu ideial,—falso talvez,
-mas sincero,—tanto maior se revela o artista
-quanto mais singular a sua obra, isto
-é, quanto mais se destaca da dos outros,
-affirmando nitidamente, por meio de suas
-peculiaridades, o <i>eu</i> de quem a criou.</p>
-
-<p>Ignoro o que seja arte impessoal.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xii"></a>[xii]</span></p>
-
-<p>Ponderou muito bem um amigo que
-accorreu em minha defesa: “n’um trabalho
-d’arte tudo trae a mão que o fez, o
-cerebro que o pensou, o coração que o
-sentio; o cunho do temperamento individual
-é condição essencialissima para sua
-vitalidade.”</p>
-
-<p>De facto, mesmo os objectivistas e
-impassiveis, sem embargo de quaesquer
-artificios, assignala-os e distingue-os essa
-propria impassibilidade ou objectivismo.</p>
-
-<p>Quando menos, eil-os particularisados<span class="pagenum"><a id="Page_xiii"></a>[xiii]</span>
-no estylo, onde cada qual, máo grado seu,
-estampa o seu sello original.</p>
-
-<p>Até na arte photographica, que se
-limita á reproducção automatica das apparencias,
-patenteia-se a personalidade do
-artista na distribuição dos grupos, na selecção
-das posições e dos objectos photographados,
-em mil traços, em summa, inconscientes
-e caracteristicos.</p>
-
-<p>—Mas,—insistirão,—escolheis assumptos
-excessivamente intimos. Vossos
-escriptos são auto-biographias. A egomania
-vos domina.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xiv"></a>[xiv]</span></p>
-
-<p>Retorquirei, recorrendo á autoridade
-suprema de Victor Hugo.</p>
-
-<p>Quanto á opção das materias, doutrinou
-elle, (cito de memoria) no prefacio
-das <i>Orientaes</i>:</p>
-
-<p>“Não reconheço á critica o direito
-de interpellar o poéta acerca da sua
-phantasia e de o increpar porque adoptou
-um assumpto de preferencia a outro, utilisou-se
-de tal tinta, colheu n’aquella arvore,
-bebeu em determinada fonte. É
-bôa ou má a obra? Eis o dominio da
-critica. Não ha em poesia bons ou máos<span class="pagenum"><a id="Page_xv"></a>[xv]</span>
-assumptos, mas bons ou máos poetas.
-Tudo é assumpto. O dominio da arte
-abrange tudo. Não pesquizeis o motivo
-que me levou a eleger tal argumento. Examinai
-o como trabalhei, e não o sobre
-que e o porque.”</p>
-
-<p>No tocante ao pretenso abuso do pronome
-pessoal, apadrinhar-me-hei ainda
-com o grande mestre, que, no proemio das
-<i>Contemplações</i>, ensinou:</p>
-
-<p>“Ninguem tem a honra de possuir
-uma vida que seja exclusivamente sua.
-A minha vida é a vossa; a vossa vida é a<span class="pagenum"><a id="Page_xvi"></a>[xvi]</span>
-minha; vós viveis o que eu vivo; o destino
-é um só. Tomai este espelho e mirai-vos
-n’elle. Queixosos ha dos escriptores
-que dizem—eu. Falai de nós,—bradam
-esses. Por Deus! Quando falo
-de mim, falo de vós. Como não o sentis!?
-Ah! quão insensato és se julgas
-que eu não sou tu. Este livro contem
-tanto a individualidade do autor como á
-do leitor. <i>Homo sum.</i>”</p>
-
-<p>Não careço explicar que entre esta
-concepção da identidade humana e a do<span class="pagenum"><a id="Page_xvii"></a>[xvii]</span>
-personalismo na arte nenhuma antinomia
-existe.</p>
-
-<p>Somos todos fundamentalmente irmãos,
-com faculdades equivalentes, sujeitos
-em perfeita igualdade á acção de
-inflexiveis leis physicas e moraes. Mas,
-dentro da orbita da unidade generica, as
-individuações se manifestam, as aptidões
-variam.</p>
-
-<p>Artista é o que sabe concretisar estethicamente
-os fructos da sua superna
-aptidão criadora.</p>
-
-<p>Assim, em que peze aos meus illustres<span class="pagenum"><a id="Page_xviii"></a>[xviii]</span>
-aristarchos, persistirei em guardar
-completa independencia com relação a
-themas e a pronomes, embora sobre mim
-attraia esse proposito abominaveis epithetos.
-Tomei, de ha muito, Job como
-meu mentor, em meio dos successos de
-nosso caro Brazil.</p>
-
-<p>O meu estylo soffreu tambem duros
-reparos.</p>
-
-<p>Arguiram-n’o de truncado, telegraphico,
-desigual, inçado de orações ellipticas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xix"></a>[xix]</span></p>
-
-<p>Que fazer? Infelizmente, não se me
-depara por emquanto outro melhor.</p>
-
-<p>Apezar de todas as suas mazellas,
-consigo com esse estylo externar o meu
-pensamento, tornando-me entendido da
-maioria dos leitores. Isso me basta. Valha-me
-a intenção de buscar maxima clareza
-e concisão seguindo a regra estylistica
-formulada por Spencer:—poupai
-o tempo e a attenção de quem vos lê.</p>
-
-<p>N’esta quadra de palavriado torrencial,
-deve-se indulgencia aos que ambicionam<span class="pagenum"><a id="Page_xx"></a>[xx]</span>
-furtar-se ao <i>words! words!</i> do
-principe dinamarquez.</p>
-
-<p><i>Iriel</i>, o finissimo chronista parisiense
-do <i>Jornal do Commercio</i>, occupando-se de
-<i>Lupe</i> com inexcedivel gentileza, que me
-penhorou e desvaneceu, observa, entretanto,
-que a protogonista se exprime
-n’uma linguagem emphatica e declamatoria.</p>
-
-<p>—Ella não conversa, discursa,—diz
-o meu eminente confrade,—o que constitue
-nota discordante e desagradavel.</p>
-
-<p>Mas na maneira empolada de se expressar<span class="pagenum"><a id="Page_xxi"></a>[xxi]</span>
-residia um dos <i>tics</i>, naturaes ou
-affectados, da joven mexicana.</p>
-
-<p>Muito de industria, mantive simelhante
-diapasão por parte d’ella nos dialogos
-relatados, para dar ideia fiel da minha
-heroina.</p>
-
-<p>Concluindo este pequeno cavaco,
-cumpro o dever de manifestar varios
-agradecimentos.</p>
-
-<p>Agradeço, em primeiro logar, ao publico
-fluminense a nimia generosidade
-com que tem acolhido os meus escriptos.
-Continuarei a trabalhar com crescente<span class="pagenum"><a id="Page_xxii"></a>[xxii]</span>
-esmero e escrupulo, a fim de me mostrar
-digno de tamanho favor.</p>
-
-<p>Agradeço á imprensa as noticias publicadas
-sobre esses escriptos.</p>
-
-<p>Sou reconhecido ainda ás menos favoraveis,
-comtanto que haja bôa fé e polidez.
-Prefiro juizos severos, que emendam
-e estimulam, ao silencio calculado
-da má vontade, o qual, com offender,
-desanima.</p>
-
-<p>Agradeço finalmente ao meu bom
-editor e amigo, Sr. Domingos de Magalhães,
-o verdadeiro carinho que dispensa<span class="pagenum"><a id="Page_xxiii"></a>[xxiii]</span>
-a meus livros, julgando-os merecedores
-de luxuosos requintes typographicos.</p>
-
-<p>As primeiras tiragens de <i>Lupe</i>, feitas
-em typo <i>mingon</i> na afamada casa Leuzinger,
-foram um mimo.</p>
-
-<p>Não lhes fica somenos a actual, confiada
-á Typographia Aldina.</p>
-
-<p>E, consoante velha usança:</p>
-
-<p>—<i>Vale</i>, amigo leitor!</p>
-
-<p class="smaller mt5">Alto da Serra, (Petropolis) 1 de Agosto de 1894.</p>
-
-<p class="right">A. C.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxiv"></a>[xxiv]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header1.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Frisco">Frisco<br />
-I</h2>
-
-</div>
-
-<p>Muito triste a minha partida de
-S. Francisco da California,—Frisco,—segundo
-o dizer vulgar dos respectivos
-habitantes.</p>
-
-<p>Eu passara alli uma semana,
-no maior isolamento.</p>
-
-<p>Com obsequioso interesse, o
-consul geral do Brazil nos Estados<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span>
-Unidos, Salvador de Mendonça,
-me havia recommendado ao
-seu agente n’aquella cidade, Mr. J.
-L. M. Randolph.</p>
-
-<p>Dispensara-me este a inexcedivel
-amabilidade dos americanos,
-quando condescendem em se mostrar
-affaveis.</p>
-
-<p>Mas era um negociante occupadissimo,
-sempre ás carreiras,
-para quem constituia séria contrariedade
-o desperdicio de um minuto.</p>
-
-<p>Morava no <i>Cosmos-Club</i> com
-varios rapazes celibatarios, quasi
-todos empregados no commercio.</p>
-
-<p>Obteve a minha admissão,
-como socio temporario, n’esse club,
-luxuosa e confortavelmente installado;
-offereceu-me ahi excellente
-jantar, regado de saborosos e
-variegados vinhos, fabricados sem
-excepção na California, inclusive
-o <i>champagne</i> e o <i>porto</i>; presenteiou-me<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span>
-com minucioso guia illustrado
-da povoação; forneceu-me
-concisamente preciosas informações,
-de perspicassissimo cunho
-pratico, sobre tudo aquillo de que
-poderia precisar um viajante na
-minha idade e condições (eu entrara
-então nos 24 annos); e, abalando-me
-os ossos n’um formidavel <i>shake-hands</i>,
-concluio, ao entregar-me o
-seu cartão de visita, em cujo dorso
-se alinhavam algarismos manuscriptos,
-semelhando uma taboada:</p>
-
-<p>—Sinto não me ser dado
-acompanhal-o sempre, <i>mister
-Cilso</i>. Eis aqui os numeros telephonicos
-deste club, onde durmo;
-do escriptorio onde trabalho; do
-<i>bar</i>, onde bebo; do bilhar onde
-jogo; da egreja, onde rezo; do
-centro politico, onde discuto; das
-casas de cavalheiros e damas que
-frequento. Em precisando de mim,<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span>
-a qualquer hora do dia ou da
-noite, chame-me desassombradamente
-e accorrerei logo, cheio de
-prazer, para lhe prestar serviços.
-E <i>good bye, my dear, good
-bye</i>...</p>
-
-<p>Assim, eu visitara sosinho as
-curiosidades locaes, vivendo dias
-inteiros sem conversar com quem
-quer que fosse.</p>
-
-<p>Em 1845, S. Francisco, a antiga
-Yerba Buena dos mexicanos,
-contava 1.500 moradores; accusa
-o recenseamento ultimo cerca de
-300.000.</p>
-
-<p>Valle entre morros parallelos,
-entremeado de outeiros, com o
-seu magnifico porto e as suas
-casas brancas, guarnecidas ordinariamente
-de varandas, trasbordantes
-de plantas tropicaes, nota-se
-em sua physionomia algo da
-do Rio de Janeiro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p>
-
-<p>Mas as ruas são ali mais largas
-e limpas, usando commummente
-numeros em logar de nomes;
-os edificios mais altos; o typo architectonico
-mais extravagante; a
-população mais heterogenea e vivaz,
-talvez offerecendo ainda vestigios
-dos audaciosos aventureiros
-de que descende. Em compensação
-menos grandiosa do que a nossa
-a natureza, somenos a perspectiva,
-e inferior a bahia em extensão,
-magestade, segurança e bellezas
-naturaes.</p>
-
-<p>Entre as construcções normaes
-de Frisco, destacam a miude
-torres, cupulas, columnatas. Causa
-surpreza a infinidade de fios telegraphicos
-suspensos em póstes e
-nos telhados. Galgam ingremes
-collinas filas de <i>bonds</i> movidos
-por um cabo metallico que róla
-occultamente dentro de apertado<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span>
-tubo, no meio dos trilhos, abaixo
-do nivel do caminho. Por meio de
-um apparelho em forma de pinça,
-o vehiculo se engata facilmente
-no motor.</p>
-
-<p>Interessante a enseada, na
-qual ancoram navios tripolados de
-gente extranha, oriunda de mysteriosas
-regiões asiaticas.</p>
-
-<p>A communicação com o pleno
-mar faz-se, como na capital brazileira,
-por estreito corredor,—porta
-de ouro (<i>Golden Gate</i>) chamado.</p>
-
-<p>Descortina-se d’esse ponto esplendido
-panorama,—feliz combinação
-de ilhas, montanhas, planicies,
-agglomerações caprichosas de
-predios, sob amplissimo horizonte
-assiduamente colorido de violentos
-e sumptuosos matizes.</p>
-
-<p>A originalidade de S. Francisco,
-porém, reside no seu quarteirão
-chinez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p>
-
-<p>Em todos os angulos da cidade
-cruzam com o transeunte filhos do
-celeste imperio,—olhos obliquos e
-microscopicos, cara redonda, cutis
-bronzea, maçans do rosto salientes,
-vestuarios soltos e vistosos,
-chapéos de sol de côres vivas, sapatos
-de páo, cabeça raspada a
-meio, longo rabicho fluctuante ou
-enrolado no pescoço. Andam dois
-a dois, lentos e impassiveis. A
-sua presença dá incisivas notas
-exoticas à multidão banal.</p>
-
-<p>Mas cumpre, para devidamente
-aprecial-os, percorrer o bairro especial
-que occupam.</p>
-
-<p>Imaginai dilatado labyrintho
-de viélas sujas, esguias, tresandando
-olores acidos, que irritam a
-pituitaria, ladeiadas de edificações
-excentricas, coalhadas de inscripções
-estapafurdias e de estramboticos
-objectos, onde pullulam<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span>
-representantes da raça amarella
-em todos os recantos, n’um indizivel
-formigamento, emquanto cães
-e gallinhas remechem tranquillamente
-montes de lixo abandonados
-ás portas...</p>
-
-<p>Todavia, apresentam-se excellentes
-as condições sanitarias d’esse
-perimetro, a despeito do desaceio
-e da incrivel promiscuidade que
-n’elle dominam.</p>
-
-<p>Milhares de creaturas humanas
-alli se empilham, exercendo
-toda sorte de industrias e profissões.
-O <i>Globe Hotel</i> acommodava
-em 50 aposentos acanhados mais
-de 1.600 chins.</p>
-
-<p>E são ordeiros, resignados, sobrios,
-pessoalmente limpos, habilissimos,
-refractarios a epidemias,
-respeitadores das autoridades, de
-extraordinaria aptidão para qualquer
-trabalho, inflexiveis na observancia<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span>
-de suas usanças e tradições.
-Vivem n’aquella circumscripção como
-em seu proprio paiz. Os materiaes
-de certas moradias,—blocos
-de granito finamente lavrados,—vieram
-inteiros da China, preparados
-de modo a se armarem
-promptamente.</p>
-
-<p>Restaurantes, assignalados por
-enormes disticos vermelhos, e innumeraveis
-lanternas de papel na
-fachada, e onde se servem inverosimeis
-iguarias em maravilhosa
-louça de porcelana; artisticos salões
-de chá; templos de diversas
-seitas, nos quaes se adoram divindades
-de interminaveis bigodes;
-casas de exquisitos jogos; theatros
-em que se desenrola durante mezes
-o entrecho da mesma peça militar;
-reductos clandestinos para
-fumadores de opio; lindas lojas
-de sedas e artefactos de ebano<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span>
-embutido; medicos que só recebem
-honorarios quando o cliente goza
-saude e os perdem se este adoece:—as
-mil peculiaridades caracteristicas
-do immenso estado mongolico,
-encontram-se no centro de
-S. Francisco, emergindo da espurcicia
-extrinseca, de Pacific street
-a Sacramento street, verdadeira
-incrustação de perfeito fragmento
-do Oriente n’um activo nucleo de
-civilisação norte-americana.</p>
-
-<p>Bastaram-me oito dias para
-examinar attentamente tudo isto.</p>
-
-<p>Satisfeita a anciedade de <i>touriste</i>,
-urgia-me partir para diante.
-Tomei passagem no <i>Colima</i>, velho
-vapor de uma companhia de cabotagem
-entre os Estados Unidos,
-Mexico, America Central e Panamá.</p>
-
-<p>Intensa melancholia, ao embarcar.
-Ia aventurar-me n’uma<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span>
-viagem, tentada por poucos brazileiros:
-as costas do Pacifico até
-ao estreito de Magalhães, tocando,
-além das regiões já mencionadas,
-no Equador, Perú, Chile e Patagonia.</p>
-
-<p>Eu sahira do Brazil na direcção
-do norte. Visitara Bahia,
-Pernambuco, Maranhão, Pará, Barbadas,
-S. Thomaz, antes de chegar
-a Nova-York. Atravessara o
-continente, depois de percorrer o
-Canadá, na grande linha ferrea que
-liga os dois oceanos. Regressando
-ao Rio de Janeiro, com escala em
-Montevidéo, traçaria enorme circulo
-em torno da America.</p>
-
-<p>Iniciava-se agora a phase mais
-penosa do trajecto. Até então vinham-me
-noticias constantes da familia;
-não raros compatriotas se
-me deparavam; promptos seriam,
-em centros que mantêm frequentes<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span>
-relações com o Brazil, o regresso
-e os soccorros, se necessarios.</p>
-
-<p>Mas, de ora avante, Guatemala,
-Honduras, Costa-Rica me
-apartariam absolutamente da patria,
-alheia em tudo a esses paizes.
-Era entranhar-me no desconhecido,
-destituido de qualquer amparo natural,
-sem o menor ponto de apoio
-affectivo, cada vez mais separado
-dos meus.</p>
-
-<p>—Que será de mim, adoecendo?
-Se me achar privado de
-recursos materiaes? Se fallecer
-inopinadamente?! Que de difficuldades
-para que os meus amigos
-e parentes venham a descobrir o
-paradeiro de meus despojos!...</p>
-
-<p>D’estas proprias reflexões, comtudo,
-provinha-me singular encanto.
-Acariciava-me a imaginação a possibilidade
-de conhecer, sob a imminencia<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span>
-do perigo, novos aspectos
-de homens e cousas.</p>
-
-<p>Em pé, no tombadilho do <i>Colima</i>,
-prestes a levantar ferro, eu
-contemplava um alteroso paquete,
-atracado, como aquelle, a uma
-dóca. Entrara horas antes de
-Yokohama. Agitava-se no interior
-d’elle multidão compacta,—typos
-de oppostas raças, semblantes e
-trajos disparatados.</p>
-
-<p>O espectaculo enleiava-me a
-attenção.</p>
-
-<p>Bateram-me, porém, no hombro.</p>
-
-<p>Era Mr. Randolph que tivera a
-gentileza de roubar alguns minutos
-aos seus affazeres para se despedir
-de mim.</p>
-
-<p>Com a habitual presteza, dentro
-em pouco, apresentou-me elle
-ao commandante, recommendou-me
-ao commissario, presidiu á collocação<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span>
-das minhas malas no camarote
-escolhido, ministrou-me dados
-estatisticos sobre a marcha do
-navio, duração do percurso, logares
-em que parariamos para carregar
-ou descarregar.</p>
-
-<p>Quasi ao se retirar, murmurou
-sorrindo:</p>
-
-<p>Fui informado de que terá
-uma agradavel companheira, graças
-á qual a travessia lhe parecerá
-curta.</p>
-
-<p>—Quem?</p>
-
-<p>—A celebre Miss Lupe Hedges
-que, depois de haver imperado em
-S. Francisco, como soberana da
-moda e do bom gosto, perdeu a
-realeza e recolhe-se, em companhia
-da mãe, a Acapulco, sua terra natal.
-Mister Hedges, o pai, um
-agente de cambio, antigo caixeiro
-viajante, vivia com inaudita opulencia.
-Consideravam-n’o riquissimo,<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span>
-posto ninguem explicasse satisfactoriamente
-a origem de seus
-cabedaes. Fulminou-o ha perto de
-dous mezes uma apoplexia. Deu-se-lhe
-balanço. Completamente insolvavel,
-meu caro; só legou aos
-herdeiros incommensuraveis dividas.
-Os credores tomaram quanto
-a familia possuia. Colossal ainda
-assim o prejuizo. A viuva e a filha,
-habituadas ao maior luxo, reduzidas
-inesperadamente á penuria, não se
-afazendo a vegetar n’uma posição
-modesta na terra em que sobrancearam,
-resolveram regressar ao patrio
-ninho. Mudam-se para o Mexico,
-donde Hedges as trouxera ha annos
-e onde possuem um parente
-empregado do governo, ao que
-dizem.</p>
-
-<p>—Que casta de gente é?...</p>
-
-<p>—Oh! Summamente aprazivel
-a moça.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span></p>
-
-<p>—Apenas isso?</p>
-
-<p>—Que mais deseja um rapaz
-que viaja?—inquirio o meu interlocutor.
-Trate de captar a
-amizade de Lupe e não se arrependerá.
-Aposto que entreterá
-com ella optimas relações. Rosna-se
-por ahi muita cousa,—casa
-de jogo mantida por Hedges e da
-qual a filha constituia o principal
-chamariz etc., etc. Mas eu não
-acredito. Em summa...</p>
-
-<p>N’isto, ouviram-se toques de
-sineta, seguidos de um apito surdo
-do vapor. Observava-se a bordo
-a lufa-lufa da partida immediata.</p>
-
-<p>Mr. Randolph, sem terminar
-a phrase, segurou-me a dextra,
-sacudindo-a vehemente.</p>
-
-<p>—Adeus... adeus... exclamou.
-Bôa viagem. Divirta-se. Confio
-em que levará excellentes impressões
-da nossa gloriosa nação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p>
-
-<p>E sumiu-se de prompto, no
-meio das pessoas que desciam apressadamente
-a escada do portaló.</p>
-
-<p>Breve o <i>Colima</i> desligou as
-amarras e desprendeu-se lento de
-terra, n’uma suave manobra.</p>
-
-<p>Já se cavava regular intervallo
-entre elle e o caes, quando
-surdio n’este, correndo esbaforido,
-um joven chinez. Trazia na mão
-um papel e fazia gestos desesperados
-a outro chinez que da prôa
-do navio lhe respondia, com acenos
-igualmente furiosos. O espaço
-intermediario augmentava a cada
-segundo. Então o chinez que ficava
-apanhou bruscamente uma
-pedra no chão, envolveu-a no papel
-e arremessou-a esforçado ao
-chinez que partia. Grande, porém,
-a distancia interposta. O projectil
-descreveu no ar um arco de circulo<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span>
-e cahio n’agua, submergindo-se.
-Soaram gargalhadas.</p>
-
-<p>No rosto amarello do arremessante
-transpareceu profunda
-magua. Poz-se a chorar. Nada
-mais engraçado do que um chinez
-chorando. Dos olhinhos sardonicos
-saltitavam-lhe lagrimas, na apparencia
-differentes das nossas,
-emquanto os traços se lhe amarfanhavam
-n’uma inconcebivel careta.</p>
-
-<p>Sentirão elles como nós? Serão
-identicas ás que nos impellem
-as suas paixões? Corresponderá á
-dissemelhança physica um contraste
-moral? Não revestirá o desgosto
-d’elles, bem como a alegria, formas
-e expressões caracteristicas,
-de accordo com as feições e vestuarios?
-Haverá raças d’almas,—tartaras,
-ethiopes, japonezas, diversas<span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span>
-das européas e americanas?!...</p>
-
-<p>Um corcóvo do navio cortou-me
-as cogitações. Sahiamos barra
-fóra, atravessando <i>Golden-Gate</i>.</p>
-
-<p>O <i>Colima</i> entestara com o
-pleno oceano. Ao primeiro embate,
-curveteava. Diante de nós se desdobrava
-até roçagar no firmamento
-o chamalóte verde das vagas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header2.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Mao_exordio">Máo exordio<br />
-II</h2>
-
-</div>
-
-<p>De subito, soaram a meu lado
-estas palavras proferidas em inglez
-por alguem, cuja approximação o
-ruido da helice tornara despercebida:</p>
-
-<p>—Não ha, nem póde haver
-no mundo paizagem maritima mais
-arrebatadora...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p>
-
-<p>Voltei-me. A dois passos de
-mim, bonita rapariga, morena e
-elegantissima, trajando rigoroso
-lucto, fitava com um binoculo os
-planos longinquos da agua e do céu.
-Alta, nervosa, esbelta, graciosamente
-petulante. Mas das linhas
-de seu rosto algo de desconforto resumbrava.
-Na commissura dos labios
-lobrigava-se-lhe o vinco das decepções.</p>
-
-<p>Ao cabo de minutos, como eu
-não respondesse, repetiu em hespanhol,
-dirigindo-se directamente
-a mim:</p>
-
-<p>—Não acha, cavalheiro, ser
-impossivel na natureza perspectiva
-superior a esta?!</p>
-
-<p>—Perdão, repliquei. Julgo com
-effeito admiravel o espectaculo que
-presenciamos. A bahia do Rio de
-Janeiro, porém, excede incomparavelmente<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span>
-em bellezas a de S. Francisco.</p>
-
-<p>—Que bahia?!... indagou ella,
-qual se não houvesse apprehendido
-o nome.</p>
-
-<p>—A do Rio de Janeiro, capital
-do Brazil.</p>
-
-<p>—Ah!... Pertence porventura
-o cavalheiro a semelhante terra?...
-murmurou com surpreza satyrica,
-depois de ligeira pausa.</p>
-
-<p>Á minha affirmativa, a desconhecida
-guardou lentamente o binoculo
-no estojo pendente a tiracollo,
-e saccou do bolso uma d’essas
-lunetas encaixilhadas em tartaruga,
-que tem longo cabo perpendicular
-aos vidros. Limpou com o lenço
-devagarinho esses vidros e, em seguida,
-assestou-os sobre mim, mirando-me
-da cabeça aos pés, como
-se eu fôra um animal raro.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p>
-
-<p>Supportei imperturbavel o impertinente
-exame, fixando a pesquizadora
-sem pestanejar.</p>
-
-<p>Ao fim, soltando uma risada:</p>
-
-<p>—Pois ninguem acreditaria,—declarou,—que
-o cavalheiro nascesse
-no Brazil. Está bem certo
-d’isso?...</p>
-
-<p>—Como assim?!...</p>
-
-<p>—Eu suppunha que o Brazil
-só produzisse negros e selvagens.</p>
-
-<p>—Enganou-se, como vê. Em
-geral, ignoram a minha patria no
-estrangeiro, ou não tributam a devida
-justiça á sua civilisação.</p>
-
-<p>—Eu conheço perfeitamente o
-Brazil,—interrompeu ella. É uma
-zona extensissima, cheia de florestas,
-na qual o vomito preto dizima
-os indigenas, onde perdura a barbaria
-da escravidão e governa patriarchalmente
-ha 50 annos um velho
-rei, muito sabio e bom...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p>
-
-<p>—Illude-se ainda,—retorqui
-friamente. O Brazil é um paiz civilisado,
-o mais civilisado e prospero
-da America Latina.</p>
-
-<p>Ella desfechou uma grande gargalhada
-insolente, mostrando soberbos
-dentes agudos e alvissimos.</p>
-
-<p>—Lá, pelo menos,—terminei,
-a voz um tanto acre,—as mulheres
-costumam ser discretas e os homens
-sabem ser polidos.</p>
-
-<p>Com a arrogante luneta, novamente
-a desconhecida submetteu-me
-a demorada investigação.</p>
-
-<p>Curvou-se, depois, n’uma mesura
-ironica, exclamando:</p>
-
-<p>—Cavalheiro, humilde servidora
-de <i>usted</i>...</p>
-
-<p>E afastou-se, erecta e airosa,
-n’um passo de rainha.</p>
-
-<p>Fiquei só, e, sem saber porque,
-furioso commigo mesmo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p>
-
-<p>Certo, eu acabava de conversar
-com a celebre Lupe, de quem
-fallara Mister Randolph.</p>
-
-<p>Ao envez do que este annunciara,
-não se antolhavam propicias
-as nossas relações.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header3.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Spleen">Spleen<br />
-III</h2>
-
-</div>
-
-<p>Tornou-se-me insupportavel a
-infundada irritação contra mim proprio.
-Achei-me desasado e estupido.
-Acudiam-me, infelizmente um pouco
-tarde, numerosas replicas felizes que
-haveriam determinado no espirito
-da desconhecida indelevel e suave
-impressão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p>
-
-<p>Virou-se após a hostilidade do
-meu máo humor para a natureza e
-objectos circumjacentes.</p>
-
-<p>—A fallar a verdade,—raciocinava
-eu, em soliloquio intimo,—não
-vale absolutamente a pena
-abalar-se um mortal do seu lar com
-o intuito de conhecer o famigerado
-Oceano Pacifico! Que formidavel
-decepção! O Pacifico é isto!...
-Em nada dissemelhante do Atlantico:—identicos
-movimentos monotonos,
-perfeita uniformidade de apparencias,
-as mesmas immundicies,
-igual immensidade entediadora e inutil...
-De que lhe serve constituir a
-mais avultada massa liquida do
-globo, ser chamado Grande Oceano,
-Mar Amarello, Mar do Japão, Mar
-de Bhering, Mar das Indias, banhar
-a Australia, a China, a Coréa, o
-Tonkin, Sião, as ilhas Sandwich, as
-mais antigas e legendarias plagas,<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span>
-recolher o tributo de um rio denominado
-<i>Amor</i>, estender-se entre
-quatro continentes, espelhar cataclysmos
-de centenares de cratéras,
-elaborar constantemente novos bancos
-de coral, se nem se descrimina
-á primeira vista de outras vulgares
-planicies aquaticas, não proporcionando
-sensações especiaes,—méra
-cousa chata, banal, destituida de
-individuação, desesperadoramente
-commum!... E assim tambem os
-homens de todos os seculos e raças!...
-Glorioso imbecil o tal Fernão de
-Magalhães, perlustrador inicial do
-dito Oceano. Occorria-me sob rebarbativo
-aspecto a chronica do ousado
-navegante. Com effeito, abandonar
-a patria; arrostar com 230
-homens as furias de incognitas
-ondas; arcar com sedições de equipagem,
-provocadas pelo frio e insoffriveis
-rigores; largar, á guiza<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span>
-de punição, em praias virgens os
-companheiros rebeldes; vêr a sua
-frota reduzida a tres navios; aportar
-ás Philippinas, cerca de quatro
-mezes depois de atravessar o estreito
-a que legou o nome; guerrear
-ao lado do rei Zebú, commandando
-simplesmente 56 compatriotas
-superstites; morrer, emfim,
-assassinado a pedradas no archipelago
-malasio, emquanto apenas dezoito
-sobreviventes da expedição
-logravam volver á Hespanha, communicando
-ao mundo a effectividade
-da primeira viagem de circumnavegação,
-na qual despenderam tres
-annos e quatorze dias,—tudo isto
-prova unicamente até que desvairadas
-aventuras se póde arrojar a
-ambição humana!...</p>
-
-<p>E quão detestavel o vapor que
-me conduzia! Que desaceiado e
-ronceiro, proprio para arvorar o<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span>
-pavilhão de alguma potencia barbara,
-e indigno da bandeira estrellada
-que lhe tremulava á pôpa!</p>
-
-<p>N’uma allucinação pessimista,
-eu encarava o universo pelo prisma
-de Schopenhauer. Arrependia-me
-de ter embarcado; revoltava-me
-por haver nascido. A capricho infernal
-de divindade perversa attribuia
-a creação. Amargos protestos fervilhavam-me
-n’alma, sequiosa da
-paz imperturbavel do nada.</p>
-
-<p>Debatendo-me em tamanha
-amargura (oh! como punge, aos
-vinte e quatro annos, o remorso de
-ter offendido uma formosa mulher!)
-não ouvi a campainha annunciadora
-do <i>lunch</i>.</p>
-
-<p>Foi preciso que um <i>steward</i>,
-o qual, consoante os estylos, embolsara
-previamente manifestações
-sonantes da minha munificencia,<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span>
-viesse solicito inquirir se eu me
-sentia enjoado.</p>
-
-<p>E nauseas realmente me agitavam,—mas
-d’esse enjôo moral, peculiar
-aos tripolantes do “navio
-que Deus na Mancha ancorou”—o
-intraduzivel <i>spleen</i>.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header4.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Os_passageiros_do_Colima">Os passageiros do Colima<br />
-IV</h2>
-
-</div>
-
-<p>Graças á recommendação de
-Mister Randolph, o commandante
-do <i>Colima</i> me reservara á sua direita
-o primeiro logar na meza das
-refeições.</p>
-
-<p>Em frente a mim, sentava-se a
-minha interlocutora de momentos
-antes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span></p>
-
-<p>Seguia-se-lhe uma senhora de
-certa idade, severa e secca, trajos
-de viuva, cabellos negros e duros de
-cabocla,—a mãi da precedente.</p>
-
-<p>Raros os mais passageiros, que
-mal occupavam as poltronas fixas do
-refeitorio.</p>
-
-<p>Facto curioso a rapidez com
-que se estabelecem intimidades a
-bordo. Bastam poucas horas de convivio
-para que se tratem como se de
-muitos annos mantivessem relações
-todos quantos a sorte congrega
-n’uma excursão maritima.</p>
-
-<p>Sabem-se logo e insensivelmente
-nomes, posições sociaes, projectos,
-cabedaes, particularidades de cada
-um. Trocam-se confidencias: ligações
-se produzem, derivadas talvez
-da solidariedade inconsciente dos
-riscos communs.</p>
-
-<p>Não terminára o <i>lunch</i> e eu já<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span>
-possuia informações precisas sobre
-os meus companheiros.</p>
-
-<p>Era effectivamente Lupe a gentil
-mexicana de fronte de mim.</p>
-
-<p><i>Senorita</i> Lupe chamavam-lhe
-em castelhano. O commandante dizia
-reverente—Miss Hedges.</p>
-
-<p>Do sexo feminino havia apenas,
-além desta: a sua progenitora, a
-supra-dita viuva; Miss Jackson,
-velha americana, de oculos e bandos,
-socia do club exoterico de Nova
-York; e D. Maria Augusta Gordó
-de Zorraquinos, hespanhola, mulher
-de um commerciante de Guatemala.
-Quarentona a ultima, gorducha, o
-cabello complicadamente penteiado,
-illuminada pelos reflexos posthumos
-de fenecida boniteza.</p>
-
-<p>Ao pé das tres matronas, avultavam
-intensamente a graça e a mocidade
-de Lupe.</p>
-
-<p>Representantes masculinos enumeravam-se:<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span>
-um judeu allemão, negociante
-de joias; um engenheiro
-hollandez, por nome Pfeiffer, empregado
-nas obras do canal de Panamá;
-dois inglezes feios e insignificantes;
-e o insulso annotador d’estas linhas.
-Em terceira classe, amontoavam-se
-á prôa trabalhadores para as mencionadas
-obras, entre os quaes muitos
-chinezes.</p>
-
-<p>Instruiram-me tambem desde
-cedo sobre a origem da exquisita designação—Lupe.
-Simples abreviatura
-de Guadalupe, localidade mexicana
-famosa por varios motivos.
-Encerra ella um sanctuario, que ha
-quatro seculos attrahe sem cessar
-fanaticos peregrinos. Milagrosa imagem
-effectuou ali, á semelhança de
-Lourdes, repetidas apparições, sendo
-a primeira, pouco depois da conquista
-hespanhola, a um indio recemconvertido.
-É Nossa Senhora de<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span>
-Guadalupe, padroeira do Mexico.
-Foi no mesmo sanctuario que se tramou
-o movimento de independencia
-contra a dominação castelhana, capitaneado
-pelo cura Hydalgo.</p>
-
-<p>O estandarte da revolta arvorava
-a imagem da santa. Guadalupe—Hidalgo
-denomina-se hoje a cidade.</p>
-
-<p>Ao ser acclamado imperador,
-instituio o general Agostinho Iturbide,
-em 1822, a ordem nacional de
-Guadalupe, supprimida com o seu
-ephemero imperio e restabelecida,
-em 1864, por Maximiliano. Muito
-commum em mulheres mexicanas o
-nome baptismal Guadalupe, tal como
-Laffayette (pronuncia-se <i>Lafahitte</i>)
-nas dos Estados Unidos.</p>
-
-<p>A graciosa alcunha Lupe evocava,
-portanto, idéas de revolução,
-liberdade e fé.</p>
-
-<p>A sua sonoridade incisiva, de<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span>
-sabor a um tempo avelludado e acre,
-quadrava maravilhosamente com a
-estranha creatura que a usava. Parecia
-antes rebuscado adjectivo
-adrede escolhido para a qualificar e
-determinar. Nos labios della propria
-as duas syllabas de Lupe adquiriam
-encanto ineffavel. Proferindo-as,
-ella estendia a bocca em fórma
-de bico, como se fosse dar um beijo;
-e o som se exhalava voluptuoso,
-acariciando o ouvido, electrisando
-deliciosamente os nervos dos presentes,
-qual offego supplice de amor.</p>
-
-<p>Durante a collação, ora em hespanhol,
-ora em inglez, Lupe dirigio
-a palavra a todos os circumstantes,
-menos a mim. Scintillante e escarninha
-affigurou-se-me a disposição
-de seu espirito. Ligeiramente aggressivas
-as phrases que articulava.</p>
-
-<p>Mais de uma vez senti que me
-fitava de soslaio. E o seu olhar produzia<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span>
-a sensação de uma alfinetada
-subtil.</p>
-
-<p>Encarquilhada e macambuzia,
-guardava a mãi obstinada reserva.
-Mas, de quando em quando, a alguma
-mordacidade da filha, sorria
-silenciosamente, exhibindo eburnea
-dentadura.</p>
-
-<p>No correr do dia, não mais me
-encontrei com as mexicanas, recolhidas
-ao camarote. Á hora do jantar
-Lupe demorou-se. Appareceu,
-já iniciado o serviço, penteiada de
-festa, o vestido negro quasi decotado,
-ar cerimonioso, flores na abertura
-do seio.</p>
-
-<p>Permaneceu, como no <i>lunch</i>,
-calada para commigo, emquanto entabolava
-vivaz conversa com os mais,
-sem excepção. Extraordinaria, decididamente,
-a sua maliciosa <i>verve</i>
-esfusiante.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span></p>
-
-<p>Ao nos levantarmos, disse-me
-bruscamente:</p>
-
-<p>—<i>Dom</i> brazileiro, queira ter a
-galanteria de me offerecer o seu
-braço.</p>
-
-<p>Obedeci surprehendido. Subimos
-ao convez. Suavissima a noite;
-juncado o céu de constellações. O
-<i>Colima</i> arfava languido sobre ondas
-placidas. O Pacifico justificava o seu
-titulo. Singrava o navio entre
-alas de phosphorescencias; dir-se-hia
-arrastar longa cauda de
-flóccos argenteos; e tremeluziam-lhe
-lanternas nas vergas altas,—avançadas
-atalaias de luz.</p>
-
-<p>Lupe embuçou a cabeça e os
-hombros n’uma mantilha, cujas franjas
-escuras lhe sublinhavam o resplendor
-do olhar. Reclinou-se, quasi
-deitada, n’uma <i>chaise-long</i>, conchegando
-aos pés espessa manta escosseza.
-Indicou-me depois, com imperativo<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span>
-gesto, cadeira igual ao lado
-d’ella.</p>
-
-<p>Houve pequeno silencio.</p>
-
-<p>—Falle-me do seu paiz, <i>dom</i>
-brazileiro,—murmurou por fim.
-Falle-me longamente. Veja se consegue
-effeitos de eloquencia. Acalente-me
-ao som de mavioso hymno
-á sua terra, que parece amar tanto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header5.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Salve_Brazil">Salve, Brazil!<br />
-V</h2>
-
-</div>
-
-<p>Nunca, oh! minha patria, mais
-ardente e commovida apologia se
-ergueu ainda aos teus primores...</p>
-
-<p>Excitava-me tudo o imaginar.</p>
-
-<p>A noite, povoada de magicos
-fluidos, a suggestão romantica das
-vagas, a proximidade d’aquella bonita
-mulher, tão nova e provocante,<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span>
-de comprazer a qual me nascia vehementissima
-ambição, infiltravam-me
-de dulçuroso calor communicativo o
-pensamento e a voz.</p>
-
-<p>Foi longo o colloquio; de proposito
-o procurei demorar.</p>
-
-<p>Comecei repetindo o conceito
-externado sobre o Brazil por Amerigo
-Vespucci n’uma de suas cartas:
-<i>se nel mondo é alcun paradiso terrestre,
-senzá dubio dee esser non
-molto lontano da questi luoghi</i>.</p>
-
-<p>Descrevi a extensão do nosso
-territorio, pouco menos vasto que o
-do continente europeu, superior aos
-da China e da Russia propriamente
-ditas, no qual a menor circumscripção
-provincial—Sergipe—sobreleva a
-Dinamarca, a Hollanda, a Belgica,
-S. Salvador, onde a maior—Amazonas,—contem
-municipios excedentes
-a Portugal, Grecia, Suissa, e
-em cujas aguas uma só ilha,—a de<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span>
-Marajó,—sobrepuja as da Madeira,
-Heligoland e Malta reunidas, territorio
-parte inexplorado ainda, que,
-em sendo habitado como o é o belga,
-conterá mais gente que na actualidade
-a superficie inteira do orbe.</p>
-
-<p>Pintei a nossa incomparavel natureza,
-com seu aspecto nivelado e
-calmo, desprovida de culminancias e
-abysmos ameaçadores, sem cratéras
-activas nem vestigios siquer de apagados
-vulcões, a amena variedade de
-seus climas, a ausencia total de
-cataclysmos, terremotos, seccas prolongadas,
-innundações; o nosso systema
-hydrographico completo, o estupendo
-numero de lagos, regatos e
-rios navegaveis, entre os quaes o
-gigantesco Amazonas, soberano fluvial
-do mundo, com cerca de seis mil
-kilometros de curso, contando uma
-caterva de affluentes, tambem collossaes;
-o nosso littoral dilatadissimo,<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span>
-destituido de nevoeiros, cachopos ou
-quaesquer perigos, abrangendo dezenas
-de magnificos portos sempre
-abertos, e a bahia de Guanabara, a
-mais bella, ampla e segura do universo;
-a exuberancia indescriptivel
-de nosso sólo, a sua prodigiosa flóra,
-fecunda, ao mesmo tempo, na phrase
-de um viajante, em cedros sobranceiros
-aos do Libano, em flôres
-enormes, (como a Victoria-Regia,
-que fluctúa sobre o mencionado Amazonas,
-a maior até hoje conhecida,
-igual em dimensões a uma canoa,
-com folhas redondas, capaz cada qual
-de suster um menino)—em orchideas
-phantasticas, obras-primas de rendilhadas
-formas, matizes e olores,
-em plantas ornamentaes, alimenticias
-e medicinaes de infinitas especies,
-em fructas de imprevistas conformações
-artisticas, satisfazendo
-as mais requintadas exigencias do<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span>
-paladar, e em florestas de preciosas
-arvores tão densas que se lhes poderia
-andar firmemente por cima das
-cópas entrelaçadas; a nossa fauna
-opulenta, apresentando inestimaveis
-specimens, desde o jaguar, mosqueado
-de azeviche e fulvo, até o
-célere veado, as borboletas polychromas,
-os radiantes colibris, fragmentos
-animados do arco-iris, e mil
-outros passaros encantadores, verdadeiras
-joias volantes, portadores
-de aérias harmonias; a nossa magnificencia
-geologica,—jazidas incommensuraveis
-de ferro, cobre, crystaes,
-amethystas, topazios amarellos
-e roseos, turmalinas, marmores brancos
-e verdes de delicadissimos matizes,
-montanhas revestidas de talco
-e mica, fulgindo como se fossem de
-ouro, veios d’este metal e depositos
-de diamantes, profusos ao ponto de
-haver, conforme observação de um<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span>
-sabio, uma região, mais extensa do
-que a França, chamada Minas
-Geraes e cidades denominadas—Ouro
-Branco, Ouro Preto, Ouro
-Fino, Diamantina; o nosso firmamento,
-emfim, perpetuamente risonho,
-trasbordante durante o dia de
-gloriosa claridade, coalhado, á noite,
-de astros fascinadores,—relicario
-sublime de um cruzeiro formado de
-estrellas...</p>
-
-<p>Demonstrei que eramos a primeira
-nação latina do Novo Mundo,
-dispondo de recursos inexgotaveis,
-em pleno progresso commercial,
-industrial e agricola, fabricas surdindo
-activamente, fios telegraphicos
-e estradas de ferro annulando cada
-hora as distancias, a instrucção se
-expandindo n’uma ascenção rapida e
-estavel, a riqueza publica augmentando,
-a immigração estrangeira
-affluindo em escala assombrosa, o<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span>
-credito nacional cotado a par do
-dos mais prosperos estados, o governo
-e os proprietarios libertando os escravos
-remanescentes no meio de
-festas, elevando-os desde logo ao
-nivel de cidadãos, sem preconceitos
-de raças, aristocracias de sangue ou
-dinheiro, nem distinções de côr.</p>
-
-<p>Referi-me ás particularidades
-de nossa zona, aos seringaes, á baunilha,
-ás selvas de cacáo e café, aos
-peixes electricos, ás palmeiras alevantadas
-e iguaes como columnas
-de fina architectura, aos cursos d’agua
-doce que luctam com o oceano
-e penetram indomaveis por elle a
-dentro, ás cachoeiras rivaes do Niagara,
-ás grutas encantadas com decorações
-inimitaveis de stalactites
-e stalagmites, ás fontes thermaes
-extensamente espalhadas, á primavera
-perpetua da vegetação, ás lianas
-textis, ao cipó do caçador que<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span>
-fornece um liquido edulcorado e fresco,
-ás madeiras de construcção mais
-resistentes que o bronze, á terra
-roxa de uberdade pasmosa, á arvore
-do pão, aos pampas, ás mattas
-virgens...</p>
-
-<p>Recordei o juizo manifestado
-por excursionistas illustres sobre o
-Brazil:—Saint-Hilaire declarando
-que a Minas seria licito segregar-se
-do resto do mundo, pois encontraria
-em si propria tudo quanto
-pudesse necessitar; Agassiz commemorando
-em phrases enlevadas a sua
-missão scientifica ao imperio sul-americano;
-Darwin qualificando-o
-de grandioso; Humboldt presagiando
-que residiria n’elle o nucleo da
-civilisação futura; Martius pedindo
-que sobre o seu tumulo se collocassem
-folhas de palmaceas brazileiras.</p>
-
-<p>Enumerei os costumes singelos
-e bons do povo, a sua perfeita tranquillidade,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span>
-espirito hospitaleiro, habitos
-patriarchaes, tolerancia absoluta
-para com quaesquer crenças e
-opiniões, tendencias humanitarias,
-ausencia de separações sociaes, facilidade
-de accesso aos mais altos
-cargos, disposições para o progresso,
-amor ao bello, desconhecimento de
-exageros patrioticos e exclusivismos
-bairristas, inteira segurança, independencia
-e liberdade, faculdades
-estheticas, reveladas na arte plumaria
-dos autochtones, em geniaes
-artistas incultos, como o Aleijadinho,
-no geral apreço da melodia,
-nas verdadeiras notabilidades produzidas,
-a despeito de influencias
-depressoras e falta de educação conveniente,
-em litteratura, pintura,
-esculptura e musica.</p>
-
-<p>Esbocei, em seguida, os episodios
-salientes dos nossos fastos,
-limpidos e serenos, quaes os de uma<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span>
-raça eleita de Deus: a descoberta
-suave da Terra da Vera Cruz; as
-legendas de Caramurú, Moema e
-Paraguassú: inglezes, francezes,
-hollandezes e hespanhóes disputando
-a posse da nova colonia; as proezas
-de Henrique Dias, o negro, e de
-Camarão, o indio, na guerra dos
-trinta annos; as figuras santas de
-Nobrega e Anchietta; a intrepidez
-epica dos bandeirantes e dos garimpeiros,
-appellidados viradores de
-rios e homens-diabos pelos indigenas;
-Amador Bueno recusando uma
-corôa de rei; as luctas tremendas
-contra os elementos para a conquista
-do sertão; a campanha dos Palmares,
-em que o chefe dos pretos
-revoltados, o Zumbi, Spartacus
-americano, prefere ao captiveiro e
-á ignominia da derrota despenhar-se
-com os seus melhores auxiliares
-do cume de alcantilada montanha;<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span>
-Alexandre de Gusmão, inventando
-os areostatos; Antonio José da Silva
-queimado pela inquisição; Tiradentes,
-capitaneando uma legião de
-inspirados poetas, que sonhavam a
-independencia da patria, executado
-como um martyr; o Rio de Janeiro
-capital da monarchia portugueza,
-acossada da Europa pelas armas napoleonicas;
-a emancipação politica
-facilmente adquirida; D. Pedro I,
-o fundador do imperio, expulso por
-haver attentado contra as liberdades
-publicas; a posição excepcional
-d’este principe, abdicando de dois
-diademas sobre a cabeça de dois filhos
-infantes, deixando o primeiro
-entregue aos cuidados de uma revolução
-victoriosa,—que acolhe maternalmente
-a creança como a loba
-latina os filhos de Rhéa Sylvia,—e
-indo sustentar os direitos do segundo,
-uma menina, com armas na<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span>
-mão, até implantar o regimen liberal
-na velha Luzitania; o reinado
-semi-secular de D. Pedro II, intitulado
-por Victor Hugo o neto de
-Marco Aurelio, o soberano sabio,
-modesto, abnegado, emulo de Numa
-Pompilio e de Washington, reinado
-durante o qual o Brazil effectuou
-immensos adiantamentos pacificos,
-impôz-se á admiração do orbe policiado
-como modelo digno de imitação,
-ao ponto de frequentemente ser
-escolhido arbitro supremo das contendas
-de pujantes nacionalidades,
-só emprehendeu guerras externas
-no intuito cavalheiresco de libertar
-visinhos irmãos de aviltantes tyrannias,
-e, no meio das convulsões politicas
-e sociaes de quasi todos os
-póvos, gozou de venturosa paz interna,
-comparavel á das culminações
-luminosas da historia, percorrendo
-as mais melindrosas phases<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span>
-do seu evolver de modo predestinadamente
-feliz, mostrando assim ter
-jus á primazia da raça latina no
-porvir, abrigar em seu seio as sementes
-dos vindouros ideiaes da humanidade,
-ser o prototypo superno
-em proximos seculos da civilisação
-e da gloria universaes...</p>
-
-<p>Muito tarde quando terminei.
-Só o ranger das machinas e o zunir
-do vento nas enxarcias quebrava
-o silencio que envolvera o <i>Colima</i>.</p>
-
-<p>Lupe ouvira attenta, interrompendo-me
-a trechos com breves perguntas
-sobre pontos que mais especialmente
-a interessavam.</p>
-
-<p>—Falta um esclarecimento,—observou,
-levantando-se.</p>
-
-<p>—Qual?</p>
-
-<p>—Não revelou ainda se as mulheres
-brazileiras são bellas.</p>
-
-<p>—Sim: rivalisam algumas com
-as mais formosas do mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p>
-
-<p>—E sabem amar?</p>
-
-<p>—Não existem mães, esposas
-e irmans mais affectuosas e meigas.
-Logo apóz a descoberta, o portuguez
-Ramalho desposou uma brazileira
-indigena, filha do cacique Tibiriçá
-e foi felicissimo. Garibaldi
-casou-se em primeiras nupcias com
-uma brazileira, a intrepida Annita,
-que summamente auxiliou o heróe
-no começo de sua carreira.</p>
-
-<p>—Não é isso,—bradou, cortando-me
-a phrase. Pergunto se as
-mulheres brazileiras comprehendem
-o amor, se são capazes de todos os
-divinos desvarios da paixão...</p>
-
-<p>—Sim... creio que sim...—balbuciei.</p>
-
-<p>—Como sabe?!</p>
-
-<p>Não respondi immediatamente,
-surprehendido com interrogativa
-tão extranha. Ella soltou uma
-risada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p>
-
-<p>—Bôa noite, <i>dom</i> brazileiro,—disse,
-afastando-se. Basta para
-primeira conversação. Todos já
-dormem a bordo. Cumpre evitar
-commentarios de más linguas...</p>
-
-<p>De longe, acenou-me com a mão
-e desappareceu.</p>
-
-<p>Eu fiquei ainda largo tempo
-passeiando sózinho no tombadilho, a
-olhar absorto para as nuvens e as
-ondas, perdido em incoherente scismar.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header6.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Filha_e_Mai">Filha e Mãi<br />
-VI</h2>
-
-</div>
-
-<p>Complicado temperamento o
-da joven mexicana! Quem só lhe
-notasse os modos desenvoltos, as
-sahidas inconsideradas na conversação,
-a peraltice de certos accessorios
-do vestuario, a insolencia menos
-nativa que estudada, predicados
-communs, aliás, na livre educação<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span>
-femina dos <i>yankees</i>, tomal-a-hia
-naturalmente por uma loureira atrevida
-e pedante.</p>
-
-<p>Mas, a par d’isso, quanta ingenuidade
-e meiguice bruscamente
-descortinadas na penumbra de seu
-coração! E mostrava leitura variada
-em historia e bellas lettras. De subito,
-estancava-se-lhe ás vezes a
-ruidosa alegria habitual. Dir-se-hia
-que depuzéra então uma mascara.
-Invadia-lhe as feições a amargura
-de funda tristeza comprimida. E os
-seus traços doridos reverberavam
-purezas angelicaes.</p>
-
-<p>De ordinario, porém, insupportavel
-<i>enfant terrible</i>. A mãi, constantemente
-taciturna e amuada, vivia
-a cochilar pelos cantos, ao passo
-que Lupe andava ás soltas, tagarellando
-com marinheiros e officiaes,
-visitando os mais defesos angulos
-do navio, trazendo tudo em róda<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span>
-viva, atanazando todos com troças
-e remoques.</p>
-
-<p>Vi-a uma tarde na camara do
-commandante jogando <i>whist</i>, a fumar
-cigarros de Havana e a beber
-<i>punch</i>. Gostavam d’ella; temiam-n’a,
-todavia, algum tanto, e lhe tributavam
-a complacencia protectora,
-mixto de sympathia e desdem, que
-inspira uma interessante desclassificada.</p>
-
-<p>Entretanto, a mim, distinguia-me
-ella com especial deferencia.
-Sarcastica relativamente aos mais,
-assumia, em se approximando de
-mim, affavel compostura, imprimindo
-ás phrases que me endereçava o
-tom natural de amistosa camaradagem.</p>
-
-<p>Infelizmente, esquivava-se a colloquios
-semelhantes aos da primeira
-noite de bórdo. Procurava-me a
-miúdo, mas rapida, sem nunca<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span>
-mais consentir em sentar-se a meu
-lado para intima palestra. Tel-a-hia
-eu enfadado com o panegyrico
-do Brazil?</p>
-
-<p>Parte por desfastio nos infindaveis
-ocios da travessia, parte por
-curiosidade, no intento de, em estudando
-a arvore, melhor apreciar o
-fructo, deliberei conquistar as bôas
-graças de Mrs. Hedges, a mãi de
-Lupe.</p>
-
-<p>Nada facil. A velha, sob o
-jugo de real desgosto e victima de
-enjôo, resistia ás minhas amabilidades,
-refractaria ás mais insistentes
-seducções. Extorquiam-se-lhe penosamente
-phrases triviaes. Quanto
-aos seus antecedentes e aos de sua
-familia, baldados esforços.</p>
-
-<p>Comtudo, as informações de
-Mr. Randolph, indiscreções de Lupe
-e uma ou outra indicação surprehendida
-por acaso, elucidavam-me a<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span>
-pouco e pouco sobre o estado de espirito
-da sombria matrona.</p>
-
-<p>Não se resignava ella ao revez
-de fortuna que soffrera.</p>
-
-<p>Doia-lhe como inaudita injustiça
-a situação precaria em que se
-encontrava. Chegava a nutrir despeito
-e rancor contra o finado marido
-por haver este expirado inopinadamente,
-legando-lhe a miseria,—elle
-que em vida acoroçoava os
-habitos de fausto e desperdicio da
-familia, fazendo-a acreditar na solidez
-de seus cabedaes inextinguiveis.</p>
-
-<p>Fôra crudelissima á viuva a
-transição desabrida da opulencia
-para a carestia. E, demais, não
-lhe bruxoleiava no horizonte o minimo
-clarão de esperança. Nada
-confiava quanto ao seu futuro e ao
-da filha do regresso á patria. Ia
-soccorrer-se de um irmão, modesto<span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span>
-empregado publico em Acapulco. E
-affigurava-se-lhe cruciante humilhação
-volver assim pobre ao seio dos
-seus, que repudiara, por ventura,
-nos dias aureos. Regressava a impetrar
-asylo no modesto lar donde
-partira talvez altaneira, e de que
-constituira o orgulho e o lustre!
-Que desforra para as rivaes necessariamente
-existentes! Que espesinhadora
-irrisão por parte dos invejosos
-de outr’ora!...</p>
-
-<p>Estes e congeneres sentimentos
-procellavam na alma da velha mexicana,
-com a violencia concentrada
-e a tenebrosa energia, apanagios da
-sua raça.</p>
-
-<p>Magoava-a tambem a leveza
-com que Lupe supportava o infortunio.
-Nimiamente contradictorio o
-coração humano! Mrs. Hedges
-amava a filha, mas preferia vel-a
-mais acabrunhada, embora depois<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span>
-esse acabrunhamento lhe angustiasse
-dobradamente o maternal affecto.
-Só em caso de rara abnegação, toleramos
-indifferentes que a outrem
-gére deleite áquillo mesmo que nos
-mortificou. O facto nos instiga,
-quando menos, dolorosa sorpresa,
-ou duvidamos da alheia sinceridade.</p>
-
-<p>Seria Lupe insensivel? Não
-comprehenderia as agruras da sua
-posição?</p>
-
-<p>Á sobremeza de um jantar em
-que a jovialidade caustica da moça
-se expandira como nunca, Mrs.
-Hedges não se poude conter. Rio-se,
-a principio, a seu geito, imitando
-os mais; porem, por fim, manifestou
-extranheza em breves exclamações
-reprehensivas.</p>
-
-<p>Lupe voltou-se para mim, e, em
-tom solemnemente entristecido:</p>
-
-<p>—Escute, dom brazileiro,—disse.
-Guatimozim ou Quanhtemoc,<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span>
-o ultimo imperador dos aztécas, anteriormente
-sacerdote de Vitzilopuchtli,
-deus dos exercitos, sustentou
-com grande dignidade a sua corôa
-e as suas desgraças. Combateu
-impavido os hespanhóes e morreu
-heroicamente. Como sabe, foi queimado
-vivo a fogo lento em companhia
-de alguns altos dignitarios de
-sua côrte. O soberano não deu a
-menor demonstração de soffrimento
-durante o horrivel supplicio. Um
-de seus companheiros, que se extorcia
-e uivava desesperado, objurgou
-a impassibilidade do monarcha. Então
-Guatimozim, severo e altivo,
-retorquio:—Julgas tu que eu estou
-sobre um leito de rosas?!</p>
-
-<p>E a moça concluio, retomando
-o costumado diapasão zombeteiro:</p>
-
-<p>—De resto, era originalmente
-formado o caracter de nossos antepassados,
-os antigos aztécas. Entregavam-se<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span>
-ao goso sem calculo
-nem previdencia. Preparavam, despidos
-de inquietação, a propria ruina;
-e, saciados, affrontavam calmos
-a desdita. Sabiam arrostar
-a morte, que desprezavam. Aprazia-lhes
-sobretudo expirar com apparato.
-Havia-os que succumbiam gabando a
-pericia do golpe do adversario que os
-prostrava. Finavam-se com graça.
-Era bello; não acham?! Mas, tome
-apontamentos, dom brazileiro, ande,
-que isto está sahindo superfino.
-Quando dou para erudita, ninguem
-me leva a palma. Nem mesmo a veneranda
-e illustre doutora, Miss Jackson,
-que me está fitando com olhos
-apocalypticos,—a nossa sacerdotisa
-impolluta de Isis. Perdôe, Sr. commandante,
-se me exprimo agora em
-latim. Supponho que o genero não
-se classifica entre os contrabandos<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span>
-do <i>Colima</i> e faço a todos os cavalheiros
-presentes a justiça de os presumir
-versados no classico idioma
-de Nabuchodonosor.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header7.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="A_socia_do_club_exoterico">A socia do club exoterico<br />
-VII</h2>
-
-</div>
-
-<p>Miss Jackson, a velha americana
-a cujas manias cabalisticas Lupe alludira,
-constituia igualmente uma
-curiosidade de bórdo, embora de genero
-diverso.</p>
-
-<p>Eclipsava-a o prestigio dominador
-de Miss Hedges. Mas era, sem
-duvida, digna de attenção e interesse,<span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span>
-superiormente versada n’essa classe
-de conhecimentos ou desconhecimentos
-que se intitulam sciencias
-occultas. Consiste o fim de taes
-sciencias, conforme Miss Jackson, em
-estudar as relações do visivel com o
-invisivel, perscrutando a significação
-recondita do universo.</p>
-
-<p>Praticar com ella importava
-aprender algo de novo, lobrigar veredas
-attractivas e pouco trilhadas
-do raciocinio e da imaginação. Genuina
-fanatica de suas crendices,
-como as ha aos milhares nos Estados
-Unidos e na Inglaterra (exemplos:—o
-Exercito de Salvação, a Sociedade
-de Temperança e mil seitas biblicas
-e theosophas, qual mais disparatada)
-agitava-a a febre do proselytismo.
-Não perdia occasião de promover
-a propaganda das suas suppostas
-verdades.</p>
-
-<p>Encontrando em mim attento<span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span>
-ouvinte, <i>dilettante</i> que sou de todas
-as excentricidades, Miss Jackson
-abarrotava-me de occultismo nas
-horas deixadas disponiveis por Lupe.</p>
-
-<p>Tomava esta a velha americana
-por objectivo predilecto de gracejos
-e travessuras.</p>
-
-<p>Escondia-lhe os livros e os
-oculos, pedia-lhe noticias de defuntos
-celebres, chamava-lhe feiticeira,
-mandava por intermedio d’ella recados
-ao demonio. E Miss Jackson
-aturava as brincadeiras com inalteravel
-bom humor, levantando os
-hombros, sem demonstração alguma
-de enfado.</p>
-
-<p>Prolixos os seus discursos, recheados
-de formulas asceticas e confusas.
-No conjuncto, porém, apanhavam-se
-n’elles noções aproveitaveis.</p>
-
-<p>Conhecia as artes de adivinhação:
-chiromancia, cartomancia,<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span>
-astrologia, necromancia, physionognomia,—apparelhos
-de perfectibilidade,—sustentava,—presentemente
-embryonarios, mas susceptiveis de
-desenvolvimento infinito. D’ella ouvi
-pela primeira vez referencias á transmissão
-do pensamento á distancia
-(telepathia) e á levitação,—faculdade
-de fluctuarem no ether os mais pesados
-corpos, infringindo a lei newtoniana
-da gravitação.</p>
-
-<p>Mostrava-se admiradora apaixonada
-de duas mulheres: Madame
-Lenormant e Madame Blavatzky, as
-mentalidades culminantes da historia
-contemporanea,—affirmava.</p>
-
-<p>A primeira, celebre adivinha do
-fim do seculo passado e começo do
-actual, consultada por Marat, Saint-Just,
-Robespierre e Josephina Beauharnais,
-dos quaes predisse o destino,
-prophetisando as phases da revolução
-franceza e os cyclos da epopeia<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span>
-napoleonica. Presa e processada por
-vezes, jámais se enganou nos seus
-vaticinios e exerceu genuino predominio
-sobre não poucos representantes
-illustres de tres gerações.</p>
-
-<p>Madame Blavatzky, uma russa
-recentemente fallecida, tornou-se celebre
-pelas suas viagens á India e
-ao Thibet. Autora de uma volumosa
-obra em dous tomos <i>Isis Unveiled</i>,—na
-qual desvendou, segundo asseveram
-seus adeptos, os sublimes arcanos
-das religiões orientaes.</p>
-
-<p>Coadjuvada pelo coronel americano
-Henry Olcott, Madame Blavatzky
-fundou em Nova-York (1875)
-a primeira sociedade exoterica do
-occidente, da qual Miss Jackson
-fazia parte e por cuja conta viajava.
-Um dos escôpos primordiaes d’essa
-associação está em alliar o christianismo
-ao budhismo. De semelhante
-connubio provirá a posse dos supremos<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span>
-dogmas, a omnisciencia, o
-exercicio pleno da força psychica, a
-fraternisação universal, a explicação
-das leis incognitas da natureza, o
-desenvolvimento de faculdades latentes
-no homem.</p>
-
-<p>Sob a influencia ainda de Madame
-Blavatzky, installou-se em
-Paris outra sociedade exoterica,
-patrocinada pela duqueza de Pomar,
-viuva de lord Caithness. D’ahi, irradiou
-o movimento por todo o mundo
-occidental. Enumeram-se hoje esparsos
-pela terra numerosos nucleos
-congeneres, debaixo da direcção
-central dos magnos sacerdotes do
-Thibet.</p>
-
-<p>Alguns d’esses pontifices maximos
-da grey conhecem o segredo da
-livre aggremiação e desaggremiação
-das moleculas corporaes e são contemporaneos
-de Christo. A visionaria
-slava pretende haver escripto<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span>
-o seu referido livro suggestionada
-por elles. Nos Estados Unidos
-funccionam 25 sociedades exotericas,
-10 na Inglaterra, 7 em Ceylão,
-3 em França e varias na Russia, Allemanha,
-Austria e Hollanda. Contam
-as suas Corfú, Odessa, Cabo,
-St. Thomas, Australia. A de Adyar,
-perto de Madrasta na India, onde
-ellas abundam, dispôe de sumptuosa
-bibliotheca technica. Homens notaveis
-pertencem a esses gremios.
-Excluindo os antigos (Dante, Shakspeare,
-Gœthe, Miguel Angelo,
-Leonardo da Vinci, Bacon, passam
-por ter professado o exoterismo)
-apontam-se contemporaneamente,
-além de outros, o celebre physico
-inglez Crookes, o philosopho allemão
-Hartman, Gladstone, Charcot
-e Edison como adhesos ás praticas
-exotericas. Este ultimo parece dever
-a ellas o seu portentoso genio inventivo.<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span>
-Os opulentos <i>rajahs</i> da India
-subsidiam largamente as ditas sociedades
-que manejam amplos recursos
-materiaes. Não se é nomeado membro
-d’ellas senão mediante prova de
-difficultosos requisitos.</p>
-
-<p>Dimanam da sciencia exoterica
-os poderes magicos dos fakirs que
-permanecem annos a fio enterrados
-até ao pescoço, deixam-se morder
-impunemente por animaes venenosissimos,
-engólem toxicos violentos,
-apertam de encontro ao pescoço laminas
-aguçadas, digerem vidro
-moido, atravessam illesos chammas
-abrasadoras e sepultam-se vivos, sahindo,
-ao cabo de seis mezes, de debaixo
-do sólo, no qual germinaram
-plantas por cima d’elles, bons e fortes,
-exactamente no estado em que
-foram inhumados,—factos estes de
-authenticidade garantida por testemunhas
-fidedignas. Taes actos physiologicos<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span>
-milagrosos são simples
-emanações de incognitos principios
-que o exoterismo se propõe elucidar.</p>
-
-<p>Entre as faculdades incubadas
-do espirito humano susceptiveis de
-se alargarem, destaca, conforme a
-doutrina de Miss Jackson, a do presentimento.
-O vago instincto que
-temos de certos acontecimentos vindouros
-ou occorridos em pontos longinquos,
-póde transformar-se n’uma
-funcção activa e normal, rica de proficuos
-resultados. Presentemente, o
-homem, em dadas condições, sente a
-previsão indistincta de alguns successos.
-Uma especie de voz interior o
-adverte de perigo imminente, da
-morte distante de amado ser. Partilham
-essa obscura intuição varios animaes:
-pombos que abandonam com
-antecedencia o telhado do predio
-onde vai morrer alguem, ratos que
-fogem da embarcação ameaçada de<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span>
-sossobrar. Semelhante aptidão avultará
-em extensão e potencia se o homem
-se applicar a cultival-a. A humanidade
-jámais deixou de acreditar
-na veracidade dos presagios. Formigam
-nas chronicas exemplos de coincidencias,
-apprehensões, vaticinios
-assombrosos. Raro o individuo que
-não cite um em sua vida. Grandes homens
-de todas as éras e raças prestaram
-fé a phenomenos d’essa especie.
-No povo mais positivo e forte da historia,
-o romano, os presagios influiam
-sobre as deliberações das assembléas
-e orientação do governo. Os
-augures preponderavam na politica.
-E como medravam na cidade eterna
-as superstições! Dias faustos e infaustos,
-vôos de passaros, encontros
-fortuitos, accidentes minimos, encerravam
-para os dominadores do globo
-sentido enigmatico que importava
-respeitar. Uma topada na porta de<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span>
-casa, ao sahir, a ruptura repentina
-do laço do sapato, prender-se n’um
-movel a roupa de quem se queria levantar,
-estremecimentos de palpebras,
-significavam para os romanos,—como
-modernamente treze convivas
-á mesa, vestir a camisa pelo
-avesso, entornar oleo no assoalho,
-accender simultaneamente tres luzes,
-quebrar um espelho, uivos de cão a
-deshóras,—significavam prenuncios
-aziagos de graves desprazeres, despertando
-austeras cogitações.</p>
-
-<p>E Miss Jackson empenhava-se
-por me convencer da base racional
-de tudo isso, affirmando que nos máos
-olhados, talismans, quebrantos, preconceitos
-e abusões populares, communs,
-em verdade, ao orbe inteiro,
-deparam-se ao investigador elementos
-efficazes para a sciencia do futuro,—essa
-sciencia complexa e omnipotente
-que proporcionará facil<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span>
-communicação entre os habitantes
-dos myriades de planetas que fervilham
-no céo, abolirá a morte, dominará
-o tempo e o espaço, approximará
-as creaturas do fóco infinito,
-remontado cada vez mais alto pelas
-descobertas e conquistas do esforço
-intellectual, e, por isso mesmo, cada
-vez mais engrandecido, a causa das
-causas,—Deus.</p>
-
-<p>Miss Jackson, demais, era exaltada
-vegetaliana, seguindo á risca
-as prescripções alimenticias da religião
-fundada por Sakya-Muni 500
-annos antes de Christo e adoptada
-actualmente por mais de 500 milhões
-de almas.</p>
-
-<p>Abstinha-se de toda e qualquer
-nutrição que houvesse soffrido morte.
-Bastavam-lhe legumes, fructas, lacticinios,
-pão. Proscrevia igualmente
-bebidas alcoolicas. Imagine-se a verdadeira<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span>
-provação que curtia á bordo
-com similhante regimen.</p>
-
-<p>Enunciando argumentos, vulgarisados
-por Chaboseau (<i>Ensaio
-sobre a philosophia budhica, capitulo
-XX</i>)—e pelo Dr. Bonnejoy,
-(<i>O Vegetalismo</i>)—ella condemnava
-energicamente a zoophagia,
-prohibida pelo fundador do budhismo.</p>
-
-<p>O vegetal, doutrinava a sectaria,
-possue todas as substancias indispensaveis
-á manutenção da vida,
-não se dando isso com a carne. Só
-as gramineas suppririam todas as
-necessidades da alimentação humana.
-De nenhuma carne se poderá
-dizer o mesmo. A nossa especie pela
-conformação dos dentes, estomago,
-figado, e tubo intestinal, deve ser
-essencialmente frugivora, digerindo
-e assimilando os alimentos vegetaes
-muito mais natural e completamente<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span>
-que os animaes. A zoophagia determina
-ou desenvolve a trichinose, o
-escorbuto, a tenia, as affecções verminosas,
-a nephrite, emquanto o vegetalismo
-é remedio efficaz contra a
-gota, o rheumatismo, a paralysia,
-as molestias cutaneas, auxilia a cura
-rapida de feridas, obsta ás más consequencias
-de operações cirurgicas e
-extermina o vicio do alcoolismo. Accresce
-que a carne, pelo sangue venoso
-deixado nos vasos capillares,
-os elementos anatomicos em via de
-decomposição, no momento da morte,
-os parasitas que escapam inevitavelmente
-ao mais severo exame, constitue
-nucleo constante de perigos para
-a saúde humana, e que a mor parte
-dos animaes entregues ao consumo
-publico estão doentes por infecção
-(typho, tuberculose, etc.) e por alimentação
-insufficiente, defeituosa
-ou excessiva. Vêde que são herbivoros<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span>
-os quadrupedes mais fortes,
-mais intrepidos, mais pacientes,
-mais uteis:—o cavallo, o boi, o camello,
-o elephante. Vegetalianos os
-povos mais energicos, laboriosos e
-infatigaveis. Assim o chinez, o escossez,
-o irlandez, o romano da éra republicana,
-o spartano. Na Grecia,
-os athletas eximiam-se systhematicamente
-ao uso da carne. Ponderai
-que um terreno consagrado á cultura
-de cereaes e fructas dá subsistencia
-e trabalho a um numero de homens
-muito mais consideravel que se fôra
-destinado á criação de animaes. Os
-camponezes possuem vigor physico
-extraordinario e disfructam inalteravel
-saúde, quasi não comendo
-carne.</p>
-
-<p>Os asiaticos robustos, resistentes,
-adaptaveis aos mais insalubres
-climas, apenas se sustentam de
-arroz. Além d’isso, os animaes são<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span>
-nossos irmãos. Não nos assiste o direito
-de os trucidar para subsistirmos,
-quando poupando-os podemos
-viver melhor. D’essa arte o entenderam
-e praticaram os espiritos superiores
-da humanidade. Pythagoras,
-Socrates, Platão, Plutarcho, Seneca,
-os primeiros padres da Egreja,
-grandes santos, como Santo Agostinho
-e Santo Ambrosio, jámais mancharam
-seus labios com a carne e o
-sangue de um animal assassinado.
-Modernamente, o vegetalismo caminha
-a passos accelerados na conquista
-do mundo. Vegetalianos convencidos,
-sabios, artistas, poetas;—Michelet,
-Lamartine, Herbert Spencer,
-Ricardo Wagner, Elisée Reclus.</p>
-
-<p>É o regimen economico e intellectual
-por excellencia. Nas cidades
-inglezas e americanas de importancia
-encontram-se ás dezenas <i>restaurants</i>
-vegetalianos, largamente<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span>
-frequentados. Se a sociedade inteira
-se convertesse ao vegetalismo, resolveria
-a questão social, pois a vida
-material tornar-se-hia baratissima,
-facil a todos, e desappareceriam,
-consequentemente, a miseria, a fome,
-a distincção principal entre pobres
-e ricos.</p>
-
-<p>Sim! banamos a carne. Da
-morte não pódem resultar vida e
-saúde. Deixemos de ingerir postas
-de cadaveres. Lucraremos com essa
-abstenção immensamente. A exclusiva
-alimentação vegetal imprime ás
-physionomias e á compostura dos
-corpos elegancia, delicadeza, agilidade
-e vigor. Torna fina a pelle e
-limpidos os olhos; apura os sentidos;
-flexibilisa, esclarece, e dilata a intelligencia
-e a memoria; predispõe
-para o trabalho; purifica os costumes;
-suavisa e eleva o caracter...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p>
-
-<p>Emquanto Miss Jackson me
-desfechava esta tirada, Lupe approximava-se
-sorrateiramente, e por
-detraz da oradora, arremedava-a
-com visagens e tregeitos de indiscriptivel
-comico. Custava-me suster
-o riso.</p>
-
-<p>—Muito bem, Miss Jackson,
-muito bem!—bradou por fim. Acaba
-de proferir uma arenga digna do
-ágora atheniense, revelando admiravel
-espirito de classe. Esqueceu-lhe
-entretanto, concretisar a theoria em
-exemplos impressionadores. E a evidencia
-de seus principios, oh! dama
-sapiente, resalta da sua propria
-pessôa. Examinai incredulos, as excellencias
-do vegetalismo e batei
-contrictos no peito. Contemplai este
-regio porte, esta cutis de lyrio, estes
-dentes de perola, estes cabellos magestaticos...
-Á semelhança de
-Venus surgindo de entre as espumas,<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span>
-foi das folhas dos pomares e das
-hortas, do meio das couves e alfaces,
-que emergio este primor...</p>
-
-<p>E apontava para os tristes bandós
-grisalhos, a bocca desdentada e
-escura, a face encarquilhada, o todo
-rachitico e feio da velha occultista.</p>
-
-<p>Esta, pela primeira vez, pareceu
-agastar-se com o gracejo, realmente
-um tanto pesado. Na entonação mystica
-dos seus momentos eloquentes,
-replicou:</p>
-
-<p>—Talvez ignore, Miss Hedges,
-que n’um dos antigos templos aztécas
-da sua patria, rutilava gravado em
-lettras de ouro este distico: <i>Vem
-proxima a hora em que se patenteiará
-o fado sombrio, grande
-destruidor</i>. Medite n’essas palavras,
-menina, e tambem nas do divino
-Shakspeare: <i>ha mais cousas no
-céo e sobre a terra do que se imagina
-nos sonhos da philosophia</i>.<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span>
-Oxalá jamais a abandone a disposição
-de rir. Mas a vida é séria, mysteriosa
-e grave. Cumpre attender
-mais ao invisivel do que ao visivel.
-Eis aqui a senhora e este <i>gentleman</i>.
-(E designou-me com o dedo secco).
-Nasceram em regiões separadas por
-milhares de leguas. Nunca presumiram
-que se encontrariam. Em
-breves dias, seguirá cada qual o seu
-rumo, convencidos de que jamais se
-hão de rever. E quem sabe se já não
-se conheceram em encarnações anteriores?...
-Póde muito bem dar-se
-que haja ainda cruzamento dos respectivos
-destinos n’este planeta ou
-algures, n’uma intersecção dramatica,
-influindo o de um decisivamente
-sobre o do outro. Viram talvez a luz
-sobre estrellas predestinadas a fatidica
-conjuncção. Fatal o horoscopio
-de cada um! Constringe-nos a tyrannia
-immanente do arcano. Tudo<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span>
-enigma no cosmos. Enigmas ambulantes
-nós proprios, a nos debatermos
-no pelago incognoscivel. Ai dos que
-renunciam a tentar decifrações!
-Suicidas moraes, condemnados a
-retrogradar na escala dos seres!...
-Indignos da parcella do eterno lume
-que lhes tocou!</p>
-
-<p>Lupe, a principio, escutou prazenteira,
-arregalando os olhos e
-abrindo a bocca n’uma admiração
-burlesca engraçadissima.</p>
-
-<p>Mas, subitamente, ficou meditativa.
-Disfarçou um suspiro; e foi
-com a voz velada de melancholia,
-realçada por fingido sorriso ironico,
-que me perguntou, quando Miss Jackson
-sahio:</p>
-
-<p>—Então, dom brazileiro, acredita
-porventura que as nossas sinas
-venham ainda a mesclar-se n’este
-planeta ou n’um outro?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header8.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="As_joias_do_judeu">As joias do judeu<br />
-VIII</h2>
-
-</div>
-
-<p>Encantadora manhan! O <i>Colima</i>
-deslisava pelo mar compacto e
-liso, com a macieza de um patinador
-sobre camadas de gelo azul.</p>
-
-<p>Ermo de nuvens o espaço. Os
-floccos do vapor quedavam indecisos,
-como receiosos de partir para fluctuar
-sósinhos, no firmamento fulguroso<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span>
-e vasio. Á mais tenue aragem,
-se dissolviam em diaphaneidades
-opalinas.</p>
-
-<p>Passageiros e tripolantes passeiavam
-no tombadilho, leves e bem
-dispostos. Lupe balouçava-se indolente
-n’uma cadeira de balanço,
-os olhos semi-fechados, na deliciosa
-morbideza que insinuam calmarias
-no alto mar.</p>
-
-<p>Mas Salomon, o viajante judeu,
-trouxe do seu camarote pesado involucro.
-Abrio-o com precauções
-meticulosas. Era um cofre portatil,
-armado de complexas fechaduras.
-Amontoavam-se dentro pequenos
-estojos multicôres de velludo e
-setim.</p>
-
-<p>Collocou-os Salomon enfileirados
-n’um banco e os foi descerrando
-carinhosamente, como se guardassem
-sagradas reliquias. Continham
-as joias em que elle negociava. Talvez,<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span>
-mesmo a bordo, effectuasse feliz
-transacção. Quando menos, lisongear-lhe-hia
-o amor proprio estadear
-as suas riquezas. Ou movia-o
-simplesmente a volupia argentaria
-de mirar as faiscações do sol na pedraria
-rara. D’ahi a exhibição.</p>
-
-<p>Accorreram todos, tocados da
-hypnotisação que exercem sobre os
-transeuntes vitrinas de ourivesaria.
-Lupe exultava, enthusiasmada.
-Com suspiros de prazer e exclamações
-de jubilosa surpreza, examinava
-os preciosos artefactos, finamente
-burilados.</p>
-
-<p>—Que bonito! Que mimo! reparem
-n’esta cinzeladura! Calculem
-o valor deste brilhante!...—murmurava
-em extasis.</p>
-
-<p>O judeu sorria ufano. Esplendido
-na realidade o seu sortimento!</p>
-
-<p>E nos olhos da mexicana lucilavam
-fremitos de cubiça, saudades do<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span>
-tempo em que possuira primores
-iguaes, despeitos de já lhe não ser
-dado, em troca de miseraveis cedulas
-bancarias, adquirir n’um momento,
-para lhe sublinhar a belleza,
-os mais deslumbradores d’aquelles
-magnificos adornos...</p>
-
-<p>Dir-se-hia que as suas pupillas
-e o esmalte de seus dentes trocavam
-com as gemmas scintillações fraternaes.</p>
-
-<p>De repente, a impetuosa moça
-não se poude mais refreiar. Com
-um movimento rapidissimo, arrecadou
-no vestido, regaçado como uma
-bolsa, os escrinios expostos, e, carregando
-o valioso volume, desappareceu
-a correr.</p>
-
-<p>Profunda estupefacção dos assistentes!
-Salomon, as feições
-decompostas, precipitou-se atraz
-d’ella.</p>
-
-<p>—Nada receie,—gritei-lhe.<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span>
-Não ha onde fugir a bordo, nem se
-pódem dar extravios.</p>
-
-<p>Minutos depois Lupe voltava.
-Puzéra, com incrivel presteza, um
-antigo vestido de baile, lembrança
-da extincta opulencia, ordenara os
-cabellos em festivo penteiado, e collocara
-em si todos os braceletes, anneis,
-collares, broches e diademas
-do judeu.</p>
-
-<p>Que linda e singular estava,—princeza
-encantada de legendas
-arabicas, constellação viva, formoso
-ser phantastico, recamado de
-luz!...</p>
-
-<p>Circumdava-a um halo de ouro.
-Da cabeça aos pés resplandecia. E
-os rubins, esmeraldas, diamantes,
-amethystas, topazios, saphiras, profusamente
-fixados em seu corpo, desferiam
-incisivos relampagos azues,
-crystalinos, verdes, roxos, roseos,
-rubros, no meio dos quaes languidas<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span>
-as perolas soltavam claridades pallidas
-de luar.</p>
-
-<p>Idolo extranho; flôr de sonho,
-crivada de pyrilampos divinos!</p>
-
-<p>Lupe deixou que a admirassemos
-á vontade n’aquella apotheóse.
-Aprumava soberba o porte, donosa
-e feliz. Depois debruçou-se da amurada,
-bradando:</p>
-
-<p>—Eis-me em trajo proprio para
-visitar nymphas. E se me atirasse
-agora ao fundo d’agoa?!...
-Teria, ao menos, mortalha e sepulchro
-dignos de mim...</p>
-
-<p>E inclinou-se mais no parapeito,
-como se tencionasse realmente effectuar
-a ameaça. Da sua imagem,
-pendida sobre as ondas, brotavam
-reflexos fugazes e tremeluzentes de
-fabulosa apparição.</p>
-
-<p>Mas o judeu impacientissimo
-julgou que o gracejo se prolongava
-demasiado. Correu para ella, as<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span>
-mãos estendidas, exclamando, entre
-irritado e supplice:</p>
-
-<p>—Miss Hedges... Senorita
-Lupe... Senorita Lupe...</p>
-
-<p>A mexicana fitou-o com intraduzivel
-desdem. Em seguida, um a
-um, lentamente, restituiu-lhe os adereços,
-desprendendo-os de si com
-visivel pezar.</p>
-
-<p>Salomon submettia cada joia a
-severo exame, para verificar se nada
-lhe faltava.</p>
-
-<p>E no despojar de Lupe havia
-qualquer cousa de tragico,—a solemnidade
-triste dos irreparaveis
-sacrificios. O seu vestido de luxo
-appareceu, por fim, roto, manchado,
-lamentavel resto de outr’ora.</p>
-
-<p>Ella cahio então n’uma cadeira,
-escondendo o rosto nas mãos.</p>
-
-<p>—Envergonhada da brincadeira,—interpretou-se
-em roda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span></p>
-
-<p>Só eu percebi quanto desespero
-alanceava a alma da pobre moça.</p>
-
-<p>Pela primeira vez—quem sabe?—acabava
-de ter, á rutilação d’aquellas
-joias, inacessiveis para ella,
-como estrellas, a visão nitida da sua
-miseria, a amarga consciencia da
-sua ruina.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header9.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Uma_intrigante">Uma intrigante<br />
-IX</h2>
-
-</div>
-
-<p>D. Maria Augusta Gordó de
-Zorraquinos, a nedia esposa do negociante
-guatemalteco, em raras occasiões
-conversava commigo.</p>
-
-<p>De resto, pouco tempo lhe sobejava
-para outros misteres que não
-os de ataviar o rosto, reparando por
-meio de sabios artificios as deteriorações
-recalcitrantes da idade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span></p>
-
-<p>Manhans inteiras, levava-as a
-espremer cravos e extorquir pellos
-da cara, untando-a depois de pomadas
-cheirosas ou caiando-a de pó de
-arroz.</p>
-
-<p>Merecia-lhe o cabello especial
-cuidado. Presumia, sem duvida,
-que, como a de Samsão, residia nas
-melenas a sua força.</p>
-
-<p>Alisava-as repetidas vezes ao
-dia, arrancando-lhes intransigentemente
-os fios brancos e gastava horas
-a confabular com grampos, espelhos
-e pentes, imaginando combinações
-ineditas de cachos, caracóes,
-pastinhas, topetes, das quaes aguardava
-irresistiveis effeitos.</p>
-
-<p>No mais, requebrava os olhos
-quando falava, tinha melifluidades
-beatas na voz, comprazendo-se com
-a narração de perfidias mansas, de
-crueldades hypocritas e frias. Unctuoso
-tudo nella; dir-se-hia que, em<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span>
-logar de sangue, rolava-lhe azeite
-nas veias.</p>
-
-<p>Lupe azoinava-a de epigrammas;
-appellidou-a madre abbadessa;
-achava meios de lhe desmanchar
-o trabalhoso penteiado, e, descobrindo
-que nada a agoniava como
-qualquer allusão á sua obesidade incipiente,
-a cada momento a interpellava:</p>
-
-<p>—Oh! D. Maria Augusta, indubitavelmente
-as auras marinhas
-dilatam os seus tecidos. Não calcula
-quanto já augmentou. Admira
-como os seus vestidos, de certo elasticos,
-conseguem ainda abrangel-a.
-Está hyperbolica, minha rica senhora,
-o que, aliás, multiplica os seus
-attractivos, pois todos elles se ampliaram.
-Mas, continuando assim,
-o seu digno marido, ao ter a gloria
-de revel-a, correrá o risco de não
-abarcar nos braços amanteticos sinão<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span>
-metade de sua cara metade, isto
-é, se Pythagoras não mente, apenas
-a sua quarta parte.</p>
-
-<p>D. Maria Augusta Gordó de
-Zorraquinos repulsava estas chacótas
-com um silencio sobranceiro,
-dardejando obliquamente sobre a
-moça odientos olhares. Evitava,
-quanto podia, a mexicana. Dirigia-lhe
-sómente, pela manhan, ligeira
-inclinação de cabeça.</p>
-
-<p>Mas Lupe fazia-se de desentendida,
-voltando á carga sempre que
-se lhe propiciava ensejo.</p>
-
-<p>Na meza, a hespanhola palestrava
-baixinho, muito amavel, com
-o commissario de bordo,—americano
-de pés e mãos enormes, supinamente
-calvo e rubicundo. Abaixando-me
-eu, de uma feita, para
-levantar o guardanapo que cahira,
-pareceu-me entrever o sapatão do
-commissario idyllicamente pousado<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span>
-sobre uma das rechonchudas bases
-da hespanhola, sua vizinha. Não
-liguei importancia ao incidente,
-preoccupado de Lupe e outros
-assumptos.</p>
-
-<p>Surprehendeu-me vivamente
-uma manhan o me chamar a gorda
-senhora para junto de si. Assumira
-um ar de confidencia; e foi pausada,
-com ademanes protectores,
-que assim me evangelisou:</p>
-
-<p>—Não se póde negar que dom
-Alfonso é um guapo mancebo, bem
-educado e seguramente de excellente
-familia. Desculpe se offendo a sua
-modestia, mas possúo experiencia
-da vida e aquelles dotes logo se reconhecem.
-Dom Alfonso me inspira
-sympathia. Demais, costumo fazer
-bem sem olhar a quem. Por
-isso, espontanea e desinteressada,
-quero lhe prestar um serviço. Vou
-abrir-lhe os olhos... Mais tarde<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span>
-me agradecerá. Cuidado com a
-mexicana, dom Alfonso. Aquillo é
-gente mais traiçoeira que Judas.
-Está patente que as impudencias
-da joven desmiolada lhe transtornaram
-o coração. Não negue:—basta
-observar os olhos compridos
-que lhe lança, o modo immerecido
-como a acolhe, o açodamento com
-que a procura, desdenhando os mais.
-E ella o comprehendeu, a patifa, e
-vai usando das mil artimanhas do
-seu repertorio para o embahir. Colher
-proveitos positivos da ingenuidade
-alheia, eis o seu programma.
-Cautella, dom Alfonso. Nada de
-compromettimentos inuteis. Não
-dispenda tão fina cera com tão máo
-defunto. Agora, se pretende simplesmente
-divertir-se, o caso muda
-de figura. Está no seu direito e é proprio
-da feliz idade em que se acha.
-Mas, então, coragem, homem! Ponha<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span>
-á margem timidez e escrupulos
-injustificados. Não queira que, em
-vez de dom Alfonso (um bonito
-nome,—o de meu rei e senhor, a
-quem Deus guarde) o chamem de
-dom José, ridiculo não raro perante
-as mulheres. Nada de luxos n’uma
-praça aberta, onde entra quem quer.
-Trate-a como ella o merece. Caramba!
-Devia haver nos paquetes
-uma classe á parte para certa gente,
-afim de que damas immaculadas,
-como eu e Miss Jackson, não nos
-vissemos forçadas á convivencia de
-desgraçadas d’aquelle jaez. Parece
-que não acredita, dom Alfonso?...
-Noto-lhe geitos de protesto... Pois
-arrisque uma experiencia facillima...
-Passe, depois que apagarem as luzes,
-pelo camarote d’ella. Encontrará
-a porta entre-aberta. Penetre
-resoluto e abençoará as minhas
-caridosas indicações. Não será o<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span>
-primeiro, nem o ultimo. A cousa
-data de longe. Informe-se em S.
-Francisco...</p>
-
-<p>E a castelhana deu-me familiar
-pancadinha no hombro, revirando as
-pupillas oleosas e arreganhando-se
-n’uma risada maligna.</p>
-
-<p>Menos indignação que tristeza
-me produziram as insinuações de
-D. Maria Augusta. Repugnava-me
-admittir Lupe como a aventureira
-descripta. Sem embargo, as maneiras
-levianas d’ella, juntas ás informações
-de Mr. Randolph e ás que eu
-acabava de ouvir, projectavam-me
-no espirito sombras de duvida. E
-essa duvida me penalisava inexplicavelmente,
-como cruel desillusão.</p>
-
-<p>Tentei a defeza de Lupe, negando
-sobretudo os sentimentos que
-a casquilha matronaça me attribuia.
-Mas falleciam-me elementos quanto
-á justificação d’aquella. Não havia<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span>
-ainda um mez que eu a conhecera,
-na promiscuidade de bordo. Onde
-buscar factos que rebatessem as accusações?...</p>
-
-<p>Nem convinha patenteiar summo
-calor na advocacia, sob pena de
-corroborar as affirmativas concernentes
-ao estado de meu coração.</p>
-
-<p>D. Maria Augusta abanava a
-cabeça, prazenteira, não se dignando
-contrariar meus argumentos tibios e
-confusos.</p>
-
-<p>D’essa data em diante entrei a
-notar que o commandante, o commissario,
-os inglezes, o proprio engenheiro
-hollandez, Herr Pfeiffer,
-tão circumspecto e assiduamente entregue
-a calculos e leituras scientificas,
-derramavam sobre Lupe e
-sobre mim alternativos olhares carregados
-de malicia, gryphados, a
-revezes, de equivocos sorrisos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span></p>
-
-<p>D. Maria Augusta urdira, de
-certo, alguma calumniosa intriga.</p>
-
-<p>Como reagir, esmagar a inverdade,
-impedir as inoffensivas, porem
-irritantes manifestações dos companheiros?...</p>
-
-<p>E eu me affligia atrozmente, sem
-razão já se vê, pois nenhum aleive
-importava, afinal de contas, devendo,
-ao contrario, lisongear-me a
-vaidade, o imaginarem elles ligações
-amorosas entre um rapaz solteiro
-na minha situação e uma bonita
-viajante, de pouco austéras apparencias.</p>
-
-<p>Felizmente, perto estava o porto
-de Acapulco, onde Lupe desembarcaria.</p>
-
-<p>Agitavam-me de sorte estes
-pensamentos, que não me permittiam
-dormir. Onze horas bateram
-n’um relogio proximo, abafadas pelo
-ruido da helice.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p>
-
-<p>Iam apagar-se todas as luzes do
-<i>Colima</i>, á excepção das regulamentares,
-deixadas em determinados
-pontos.</p>
-
-<p>Insensivelmente, ergui-me do
-beliche e sahi descalço, pé ante pé.
-Urgia-me verificar a verdade das
-asserções da hespanhola contra Miss
-Hedges. Na hypothese negativa,
-desforçaria a innocencia. Na affirmativa...
-oh materia humana quanto
-és exigente e vil...</p>
-
-<p>Eu ignorava o numero exacto do
-camarote de Lupe. Sabia que se
-achava collocado no meio de um pequeno
-corredor, para ambos os lados
-do qual outros abriam, em linha.</p>
-
-<p>Dirigia-me cauteloso para ahi,
-quando ouvi passos furtivos atraz
-de mim.</p>
-
-<p>Mal restou-me tempo de me dissimular.
-Pesado vulto masculino enfiou
-pelo dito corredor, encostou-se<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span>
-no centro d’este a uma porta que
-promptamente cedeu, e sumio-se.</p>
-
-<p>Correram dentro um ferrolho.</p>
-
-<p>Approximei-me então, guiado
-pelo rangido. Na minha frente e
-nas minhas costas, frouxamente allumiadas
-por uma lampada do salão
-contiguo, estendiam-se duas séries
-de portas fechadas, perfeitamente
-iguaes. Pareceu-me, comtudo, que
-o vulto penetrara na de numero 19.</p>
-
-<p>Seria a do beliche de Lupe?</p>
-
-<p>Não se calcula a superexcitação
-que desassocegou-me o resto da
-noite. Desencontradas idéas fervilhavam-me
-dolorosamente no espirito.</p>
-
-<p>No almoço da manhan seguinte,
-Lupe apresentou-se fresca e jovial,
-como nunca.</p>
-
-<p>Esquadrinhei-lhe ancioso as
-feições, e, com intima alegria, averiguei
-que as embebia, sob a vivacidade<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span>
-costumeira, serena expressão
-virginal.</p>
-
-<p>Mas as exterioridades illudem.
-Suspeita horrivel continuava a me
-torturar.</p>
-
-<p>Subimos ao tombadilho após a
-refeição e trocamos banalidades sobre
-o tempo, a marcha do <i>Colima</i>,
-as nossas respectivas condições sanitarias.</p>
-
-<p>Abruptamente perguntei-lhe:</p>
-
-<p>—Qual o numero de seu camarim?</p>
-
-<p>A moça fitou-me admiradissima,
-recuando ligeiramente, como prestes
-a repellir uma injuria.</p>
-
-<p>—Que tem com isso!?...</p>
-
-<p>—Perdôe-me a indiscreção,
-Lupe. As superstições de Miss
-Jackson principiaram a actuar em
-meu animo. Quero comprar no primeiro
-porto um bilhete de loteria<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span>
-com aquelle algarismo. Trar-me-ha
-felicidade.</p>
-
-<p>—Ah! que fantasia!—murmurou
-rindo. Duas duzias menos
-dois, eis ahi.</p>
-
-<p>—22?!... Quem occupa então
-o 19!</p>
-
-<p>—Ao decimo-nono, fronteiro ao
-meu, cabe a honra de hospedar Sua
-Adiposidade a Senhora Dona Maria
-Augusta Gordó de Zorraquinos.</p>
-
-<p>Pequena pausa. Em seguida,
-com estrondosa gargalhada:</p>
-
-<p>—Mas para que diabo deseja
-assim informar-se arithmeticamente
-sobre o poleiro da pingue castelhana?!
-Ora essa! Será tambem com
-a intenção de alcançar a sorte
-grande? Ou premeditará acaso
-(e acertei... acertei...) fazer concurrencia
-ao commissario do navio?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p>
-
-<p>E, com entonação galhofeiramente
-reprehensiva, no fundo da
-qual vibrava certa magoa:</p>
-
-<p>—Oh! dom brazileiro! que cousa
-feia... que cousa feia... Nunca o
-supporia capaz de tanto. Leia um
-tratado de esthetica. Aquella posta
-de carne! Torne-se vegetaliano...
-Deixe-se d’isso, pelo amor de
-Deus!...</p>
-
-<p>Mais tarde verifiquei que Lupe
-dormia no mesmo camarote que sua
-mãi. Em frente a esse, costumava
-permanecer aberto, depois de todos
-accommodados, o da hespanhola,
-que esperava o seu visinho de meza,—o
-rubro e alentado americano!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header10.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Noche_triste">Noche triste.<br />
-X</h2>
-
-</div>
-
-<p>Haviamos passado pelas ilhas
-Carmen e Margherita, parando no
-cabo de S. Lucas. Demoramo-nos
-um dia em Mazatlan, máo porto
-e regular cidade, sem nenhum caracteristico
-relevante. Costeamos
-Manzanilla. Mais 48 horas e ancorariamos
-em Acapulco, ponto terminal
-da viagem de Lupe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p>
-
-<p>Esta, á medida que proseguiamos,
-afigurava-se-me melancholica.</p>
-
-<p>Na vespera da chegada, ao
-anoitecer, achei-a sósinha no tombadilho,
-recostada taciturna na <i>chaise-longue</i>.</p>
-
-<p>Tomei assento igual, ao lado
-d’ella, como em a noite da partida,
-e perguntei solicito qual a causa do
-seu desusado pesar.</p>
-
-<p>—Que quer, dom brazileiro?...
-sômos todos sujeitos a crises mais
-ou menos graves. Sabe a historia
-de Fernan Cortez, o legendario
-conquistador do Mexico. Alma de
-tão rija tempera, energia mais inflexivel
-difficilmente se hão de reproduzir
-na historia. Sublimes, epicas
-as suas façanhas; sobrehumanas
-as suas faculdades de resistencia e
-aggressão. Pois o proprio Cortez
-desanimou. Na noite fatal de 1 de
-Julho de 1520, expulso com os seus<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span>
-da capital revoltada, batido, fugindo,
-vendo mortos ou feridos os seus
-mais possantes camaradas, o heróe
-deixou-se cahir á beira da estrada,
-junto a um cypreste, que ainda hoje
-existe, e ahi abandonou-se á morte,
-duvidoso da sua estrella, renunciando
-ao porvir. A arvore funebre
-conserva o nome com que a tradicção
-a sagrou,—<i>cypreste da noite triste</i>,
-pois por <i>noche triste</i> é conhecido
-aquelle episodio de nossos annaes.
-Quem não encontra na vida uma ou
-muitas <i>noches tristes</i>?... Hoje,
-dom brazileiro, é a minha.</p>
-
-<p>—Mas Cortez levantou-se, reconstituio-se,
-venceu...</p>
-
-<p>—Cortez era Cortez. E contava,
-demais, com um elemento
-decisivo de victoria.</p>
-
-<p>—Qual?...</p>
-
-<p>—Malitzin, ou Marina, a formosa
-india, filha do Cacique de Painallas,<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span>
-sem a qual talvez naufragasse
-o temerario emprehendimento do
-conquistador; Malitzin, a providencia
-do exercito de Cortez, a sua
-interprete, sentinella infatigavel,
-conselheira segura, embaixatriz eloquente
-e astuta, o principal instrumento
-da quéda de Montezuma;
-Malitzin, que Cortez amava e que
-adorava frenetica o estrangeiro
-Cortez...</p>
-
-<p>Houve demorado silencio. Depois,
-—a voz carinhosa e meiga,
-qual até então nunca lhe ouvira, voz
-ungida de lagrimas represas,—Lupe
-continuou:</p>
-
-<p>—Fique no Mexico, dom brazileiro.
-Desembarque amanhan em
-nossa companhia; consagre algum
-tempo ao estudo dos costumes e
-natureza do meu paiz. Não se arrependerá,
-asseguro. Não me disse
-que viaja para aprender?... Pois,<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span>
-permanecendo ali, aprenderá muito...
-Oh! infelizmente eu não sei
-descrever a minha patria como <i>usted</i>,
-dom brazileiro, descreveu a sua,—descripção
-que eu jámais esquecerei
-e me fez amar o Brazil a ponto
-de sonhar percorrel-o, á semelhança
-de quem perlustra scismando a região
-das chimeras e das maravilhas...
-Mas fique no Mexico e reconhecerá
-que a minha terra instiga tambem
-inspirações ao poeta, interesse ao
-sabio, indeleveis lembranças ao peregrino.
-Medrou, entre nós, em éras
-longinquas, estranha e magnifica civilisação.
-Vestigios de monumentos
-soberbos attestam ainda agora o
-seu esplendor. Sobre os palacios
-immensos dos velhos imperadores
-aztécas, desfraldavam-se largas bandeiras
-niveas, franjadas de ouro.
-Ouro, prata, pedrarias, thesouros
-estupendos era tudo no interior, onde<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span>
-dominavam pomposas etiquetas
-de metter inveja ás orientaes. E
-que arte divina no preparo das pedras
-ricas! Cortez apoderou-se de
-cinco enormes esmeraldas, cujo inaudito
-trabalho assombrou os artistas
-europeus de seu tempo. Representavam
-uma rosa, uma trombeta de
-caça, um peixe com olhos de diamante,
-uma campainha tendo por
-badalo uma perola, e uma taça,
-gravada de religiosos disticos. Aurea
-cadeia, espantosamente cinzelada,
-concatenava-as. A imperatriz
-Izabel, esposa de Carlos V, quiz
-possuir esse primor; e o monarcha
-propôz compral-o por fabuloza quantia.
-Mas Cortez brindou com elle
-sua noiva, D. Juana de Zunia, filha
-dos duques de Bejar. Mais tarde,
-levando a Argel as famosas esmeraldas,
-o conquistador naufragou e
-perdeu-as no lodo da praia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p>
-
-<p>Terriveis, dom brazileiro, as
-divindades adoradas n’aquella civilisação.
-Do altar de Huitzilopochtli,
-deus da guerra, gottejava perenne
-o sangue dos holocaustos. Assignalava-se
-a coroação de cada soberano
-por sacrificios monstruosos. Sustentavam-se
-guerras sagradas com
-o intuito exclusivo de apanhar victimas.
-Nos alicerces dos templos, ladeiados
-de pyramides de craneos,
-punha-se uma mistura de ouro em
-pó, aljofres, plantas magicas e sangue
-humano. Quando nascia uma
-creança, o pai a apertava até que
-ella gemia de dôr, e então murmurava:—vieste
-ao mundo para soffrer;
-soffre, pois oh! meu filho!—E
-acreditavam na metempsychóse;
-marcavam a giz o caminho percorrido
-por um enterro, a fim de que a
-alma do defunto soubesse volver
-para se reencarnar em algum recemnascido;<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span>
-conjuravam os astros; liam
-a sorte, atravez fragmentos de crystal...
-Depois, viéram os hespanhóes,
-a <i>gente de razon</i>, a conquista,
-o aniquilamento dos indios. Os
-descendentes d’estes, porém, ainda
-hoje acreditam que o deus redemptor,
-Qualtzalcoath, dorme no fundo de
-uma caverna, á espera do despertar
-de sua raça. A monarchia aztéca
-soube expirar stoicamente. Rutilam,
-apoz ella, traços heroicos nos nossos
-annaes. Luctas homericas sustentamol-as
-contra a dominação estrangeira
-e as classes privilegiadas.
-Benemeritos da humanidade o cura
-Hidalgo e Morelos, iniciadores da
-nossa independencia. Agostinho
-Iturbide, outro heroe d’essa independencia,
-fizemol-o, em pouco mais de
-um anno, generalissimo, acclamamol-o
-dictador, cingimos-lhe a fronte
-do diadema imperial e o banimos e<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span>
-fuzilamos, como desleal á Patria.
-Novo imperador, imposto pela
-França, batida em Puebla, fuzilamol-o
-tambem. E foi uma epopeia de
-denodo e patriotismo, digna da
-America indomável, a campanha
-victoriosa de Juarez! Temos padecido,
-como nenhum outro povo, os
-horrores da olygarchia militar. O general
-Sant’Anna empolgou o poder
-seis vezes por meio de revoluções,
-governou vinte e tres annos quasi
-sempre dictatorialmente e adoptou o
-titulo de Alteza Serenissima. Os
-constantes sobresaltos e perigos em
-que vive a população tornaram-n’a intrepida,
-inaccessivel á fraqueza, idonea
-para inverosimeis ousadias, fanatica
-pela liberdade. Hospitaleira,
-além d’isso, doce, polida, apresentando
-typos de formosura esculptural.
-Mulheres da plebe, ajoelhadas
-nos templos, o busto immovel, o<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span>
-olhar fixo, o peito alto, dão a impressão
-cabalistica das esphynges
-egypcias. E que amorosas essas
-nossas mulheres, dom brazileiro!...
-Que destemidas, quando necessario!
-Maria Quintana, uma freira, combateu
-valorosamente na guerra da
-emancipação. Catalina Erazo,—a
-celebre <i>monja alferes</i> que aos
-19 annos fugio do convento e se
-disfarçou de homem, levando até
-aos 28 incrivel vida de aventuras,
-duellos e campanhas, conquistando
-no exercito por actos de bravura
-o posto que lhe motivou o apellido,
-merecendo do papa autorisação
-para usar vestuario masculino,
-e acabando christãmente, recolhida,
-ainda em plena mocidade, ao claustro
-d’onde se escapára,—Catalina
-Erazo, nasceu em Hespanha, mas
-educou-se e praticou no Mexico as
-suas façanhas lendarias. Accordes<span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span>
-os historiadores em testemunharem
-a benefica influencia femenina nos
-fastos nacionaes. O general Prim
-casou-se com uma mexicana. Bazaine
-igualmente. Condemnado e
-envilecido pelos seus compatriotas,
-que o acoimavam de traidor, o infeliz
-defensor de Metz só encontrou
-allivio ao seu infortunio na dedicação
-inalteravel da valente esposa,
-graças á qual evadio-se da fortaleza
-de Sainte Marguerite, em Cannes,
-onde jazia encarcerado. O amor
-das mexicanas não o destróem o
-tempo e o espaço. Se confiam a
-alguem o coração, não o reclamam
-mais nunca. Demore-se em minha
-terra, dom brazileiro. Conhecerá
-ali as manifestações mais grandiosas
-da natureza, os volcões. Um
-d’elles, o Popocatepetl, arroja-se,
-cingido de neve, a uma excelsitude
-de cerca de seis mil metros. A<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span>
-erupção de outro, o Orizaba, durou
-vinte annos. De um terreno perfeitamente
-plano levantou-se terceiro,
-o Jorullo, no correr de uma só noite
-a mil e duzentos metros de altura,
-cercado de duas mil boccas que expellem
-fumo! N’uma só noite, ouça
-bem, ergueu-se n’uma planicie lisa
-esse formidavel volcão. Curiosissimo,
-não acha?! E ha sentimentos
-que brotam de analoga maneira em
-corações virgens... Oh! não siga
-para diante amanhã, dom brazileiro.
-Não parta, meu amigo. Que lhe
-custa sacrificar alguns dias? No
-Mexico descobrirá largos materiaes
-para seus estudos, dilatará os seus
-conhecimentos, retemperará a sua
-experiencia, enriquecerá su’alma de
-novas affeicções. E será abençoado,
-querido, feliz... <i>Pordioseros</i>
-chamam-se em nossas cidades os
-mendigos, porque supplicam esmola,<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span>
-<i>por Dios</i>,—em nome de Deus. Considere
-em mim uma inditosa <i>pordiosera</i>,
-digna de dó e de todos
-repellida. Por piedade não parta
-amanhã; não me abandone; ampare-me,
-salve-me, soccorra-me, perdoe-me,—que
-eu não sei mais o que
-digo, nem o que sinto, nem o que vai
-ser de mim...</p>
-
-<p>E poz-se a soluçar, a face occulta
-nas mãos.</p>
-
-<p>Quedei acabrunhado diante de
-explosão tão inesperada. Não me
-occorria uma só palavra em resposta.
-Que significava aquillo?
-Algum accesso hysterico?...</p>
-
-<p>Simplesmente absurdo o que
-ella me propunha. Como interromper
-a minha viagem, esquecer a familia,
-descer e deter-me n’um obscuro
-porto, alheio do meu itinerario,
-em zona diametralmente opposta á
-do Brazil, e isso unicamente para<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span>
-satisfazer o subitaneo capricho de
-uma quasi desconhecida, sobre cuja
-reputação tantas ambiguidades pairavam?!</p>
-
-<p>Se eu a attendesse, quantas
-complicações e contrariedades não
-poderiam derivar d’esse passo irreflectido?!...</p>
-
-<p>Decorreram alguns minutos penosissimos.
-Lupe sempre a soluçar.</p>
-
-<p>Mas, vendo que eu nada dizia,
-levantou-se altiva, passando dedos
-convulsos pela fronte, como quem
-expelle incommoda visão.</p>
-
-<p>E deixou-me só, em face do
-eterno mysterio do firmamento e do
-mar.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header11.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="O_berco_de_Lupe">O berço de Lupe<br />
-XI</h2>
-
-</div>
-
-<p>Acapulco. Semi-circular a bahia,
-alastrada de ilhotas de pedra.
-Casas abarracadas de modesta apparencia
-bordam as praias razas.
-Morros graniticos, em amphitheatro,
-no fundo, erriçados de mesquinha
-vegetação.</p>
-
-<p>Estreitos navios de cabotagem
-ancorados aqui e ali. Calor abafadiço.<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span>
-Silencio de inactividade e de
-tedio embebendo o ambiente. Ar de
-pobreza e de atrazo nas canôas que
-se acercam do <i>Colima</i>.</p>
-
-<p>N’um dos rochedos que emergem
-das agoas, no centro da enseada
-e em face da povoação, acocoram-se
-alguns homens, totalmente nús. Escondem
-o rosto, quando passa por
-perto d’elles uma canôa; e a gente
-d’esta prorompe então em assobios
-e surriadas.</p>
-
-<p>São vagabundos e ebrios da
-cidade,—soubemol-o logo,—que a
-autoridade local condemna áquelle
-original castigo: permanecerem despidos,
-durante horas, no pelourinho
-oceanico, expostos á irrisão dos bateleiros.
-Ai do que tentasse fugir,
-nadando! Pagaria carissimo a sua
-rebeldia contra o systhema penal
-acapulcano.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p>
-
-<p>Entraramos ao amanhecer e esperavamos
-a visita aduaneira e
-a hygienica para ir á terra.</p>
-
-<p>Muito pallida Lupe, mas affectando
-jovialidade. Ennumerava,
-com abundancia de gestos, aos circumstantes
-os edificios de Acapulco.</p>
-
-<p>—Eis acolá a cathedral, mais
-adiante o mercado, e, do lado opposto,
-o castello de San Diego, celebre
-na quadra colonial.</p>
-
-<p>Percebia-se que a insignificancia
-do seu torrão natal a humilhava um
-pouco.</p>
-
-<p>A sua reduzida bagagem amontoava-se,
-prompta para o transporte,
-junto ao portaló. Ella e a
-mãi promptas tambem:—enluvadas,
-de chapéu. Causou-me pena observar
-que uma das luvas da moça estava
-rasgada e gasta nas pontas dos
-dedos; e a faceira procurava attentamente
-dissimulal-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p>
-
-<p>Mas largo escaler se approxima,
-arvorando o pavilhão mexicano:—
-verde, contendo poderosa aguia de
-azas espalmadas que segura no bico
-uma serpente.</p>
-
-<p>—É da alfandega,—murmura-se.</p>
-
-<p>De pé, na prôa da embarcação,
-alguem faz acenos animados para o
-<i>Colima</i>.</p>
-
-<p>Mrs. Hedges e a filha parecem
-reconhecer o autor de taes acenos.</p>
-
-<p>Mal o escaler atracou, um individuo
-sóbe os degráos ás carreiras
-e se precipita, aos abraços e beijos,
-sobre as mexicanas.</p>
-
-<p>Era o irmão de Mrs. Hedges, o
-tio de Lupe, para a casa de quem
-ellas iam. Simples guarda-fiscal, ou
-cousa que o valha,—o sustentaculo
-unico das recem-vindas.</p>
-
-<p>Mas que grotesco typo o sujeito!
-Genuino caboclo, compridas<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span>
-guedelhas duras, pellos asperos esparsos
-pela face icterica, bocca descomedida,
-fortificada de dentes negros,
-confinando com superabundantes
-orelhas. Traja calças brancas
-aniladas e tão empastadas de gomma
-que sussurram quando elle se mexe,
-camisa frondosa de fólhos, gravata
-de retroz roxo fluctuante e uma ensebadissima
-fardeta, viuva da mór
-parte dos botões amarellos, deixando
-a descoberto as nadegas, onde a
-roupa se lhe enfuna em balão. Cobre-o
-no cocuruto do craneo diminuto
-bonet, emulo da jaqueta em
-oleosidades.</p>
-
-<p>Via-se que o homem, em honra
-ás parentas, se esmerara na <i>toilette</i>.</p>
-
-<p>O que, porém, enleia a attenção
-desde logo na sua figura é uma espada
-recurva e ferrugenta, que elle
-traz pendente da cintura.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p>
-
-<p>Contrasta de modo a arma esdruxula
-com a vestimenta do cavalheiro
-que ninguem o olha sem vontade
-de rir.</p>
-
-<p>E elle masca fumo, Santo Deus!
-N’um minuto, o soalho brunido do
-convez mosqueia-se de escarros escuros
-e fetidos, que o commissario
-de bordo manda limpar com ostentosa
-repugnancia.</p>
-
-<p>E Lupe, tão elegante, tão habituada
-aos refinamentos do luxo, tão
-afeita á intimidade de todas as selecções,
-tão educada e satyrica, vai
-sahir com aquillo, morar com aquillo!
-Coitada!</p>
-
-<p>D. Maria Augusta Gordó de
-Zorraquinos ri-se á socapa, contente
-e vingada. Miss Jackson examina o
-funccionario mexicano como uma
-raridade zoologica.</p>
-
-<p>O engenheiro hollandez, Herr
-Pfeiffer, traça-lhe disfarçadamente<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span>
-a lapis a caricatura no livro de
-notas. O judeu, os mais passageiros
-e os officiaes trocam a meia voz ponderações
-chistosas.</p>
-
-<p>Lupe, todavia, não trahe constrangimento.
-Com ares de altivo
-desafio, apresenta-o aos assistentes:</p>
-
-<p>—Meu tio, a cuja bondade devemos
-o não ficar ao desamparo.</p>
-
-<p>Elle aperta as mãos rudemente,
-resmungando palavras inintelligiveis
-e rindo muito.</p>
-
-<p>São horas de partir. Lupe e a
-mãi comprimentam, proferindo trivialidades
-agradecidas sobre a boa
-companhia que encontraram na
-viagem.</p>
-
-<p>A moça estende-me frouxamente
-os dedos, sem me encarar.</p>
-
-<p>Descem a escada. O tio pega
-nas malas e as suspende aos hombros,
-como um carregador. Mas a
-espada o embaraça. Enfia-se-lhe,<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span>
-por entre as pernas, ameaçando derribal-o.</p>
-
-<p>Eil-o que pára, desafivéla o cinturão,
-mette o chanfalho debaixo do
-braço e acompanha as damas, vergado
-ao peso dos volumes, deixando
-após si um rasto de cuspo.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header12.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="O_adeus">O adeus<br />
-XII</h2>
-
-</div>
-
-<p>A despedida indifferente de
-Lupe premia-me o coração. Agitava-me
-imperiosa necessidade de a ver
-ainda, de lhe dizer algumas palavras
-amistosas no momento de nos separarmos
-seguramente para sempre.</p>
-
-<p>O <i>Colima</i> só levantaria ferro á
-tardinha. Todos os passageiros desembarcaram.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span></p>
-
-<p>Ninguem que viaje resiste ao
-prazer de pisar terra firme, beber
-agua fresca e variar de comida, após
-demorada travessia maritima.</p>
-
-<p>Assás mofino Acapulcho! Ruas
-irregulares, desprovidas de calçamento,
-atulhadas de areia quente
-que tolhe e molesta os pés; raros
-transeuntes, caboclos na maioria;
-escassos recursos; predios somnolentos;
-atmosphera carregada de
-mórnas exhalações humidas; logarejo,
-em summa, antipathico e retrogrado,
-onde a gente sente-se indisposta
-e anciosa de se ir embora com
-maxima presteza.</p>
-
-<p>Eu gyrava a esmo, em busca da
-moradia de Lupe. Ignorando o nome
-do tio, não me era facil descobril-a.</p>
-
-<p>—Ah! já sei,—respondeu-me
-afinal um taverneiro. É a casa onde
-chegaram hoje duas fidalgas dos<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span>
-Estados Unidos. Espere que lhe vou
-mostrar o caminho.</p>
-
-<p>Levou-me a acanhada rua de
-bairro remoto. Em face de uma vivenda
-baixa, caiada de amarello,
-agrupavam-se garotos, olhando
-curiosos para o interior. Occorria
-dentro alguma novidade.</p>
-
-<p>—É alli,—ensinou o guia,
-apontando.</p>
-
-<p>Agradeci e acerquei-me da porta
-designada.</p>
-
-<p>Lupe e a mãi,—eis a novidade
-que desafiava o interesse dos ociosos.
-A moça falava, na sala que abria
-para a rua, a varias mulheres, entre
-as quaes algumas, como as pretas
-minas da Bahia, o collo e os braços
-nús, vestidas de simples camisas de
-renda decotadas e saias de babados,
-com muita roda.</p>
-
-<p>Quando deu commigo, fez um
-movimento de quem se quer esconder.<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span>
-Á minha entrada, esgueiraram-se
-as outras para um commodo contiguo,
-d’onde se puzeram a me espiar.</p>
-
-<p>—Vim dizer-lhe adeus, Lupe.
-Partiria cheio de remorsos se o praticasse
-sem a saudar.</p>
-
-<p>—Mil graças. Agradeço-lhe
-tambem, ainda uma vez, as delicadezas
-que me dispensou no <i>Colima</i>.
-As nossas conversações, dom brazileiro,
-foram os unicos momentos
-agradaveis da minha vida nos ultimos
-tempos.</p>
-
-<p>E calou-se, baixando os olhos.
-Quão mudada em poucas horas! Esvahira-se-lhe,
-por encanto, a buliçosa
-expressão habitual. Intenso desconforto
-desbordava-se do seu todo.</p>
-
-<p>Circumvaguei a vista pelo aposento;
-moveis estragados e insufficientes,
-aceio problematico, signaes
-manifestos de descuido ou
-penuria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p>
-
-<p>Enxergava-se o pateo central
-descoberto, peculiar ás habitações
-hespanholas. Alguem tocava a
-bomba do poço existente no meio
-d’este pateo; e esse alguem, a que
-eu lobrigava as costas, afigurou-se-me
-o guarda fiscal, tio de Lupe.</p>
-
-<p>—Quaes seus projectos aqui?...
-indaguei, após alguns minutos de
-silencio.</p>
-
-<p>—Viver, como Deus fôr servido.
-Não tenciono ser pesada a meu tio,
-que generoso nos acolhe. Sei coser;
-toco piano; entendo de modas;
-trabalharei. E ha outra solução,
-accrescentou com indizivel melancholia.</p>
-
-<p>—Qual?</p>
-
-<p>—Estou desacclimada... O vomito
-negro, febre amarella do Brazil,
-grassa em Acapulco endemicamente,
-não poupando os recem-chegados...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p>
-
-<p>—Por quem é, Lupe, não alimente
-pensamentos funebres. Julgava-a
-mais valente. Deixe-se de semelhantes
-romantismos. Está moça,
-robusta, bella. Quem sabe o esplendoroso
-futuro que ainda lhe reserva
-a Providencia? Casará certamente
-com algum rapagão de bom gosto
-que a comprehenda e aprecie. Rever-se-ha
-na linda próle. Será feliz...</p>
-
-<p>—Não!—interrompeu ella energicamente.
-Eu só desposaria aquelle
-a quem o meu coração pertencesse...
-E o meu coração... o meu coração...
-não pertencerá a ninguem.</p>
-
-<p>N’isto, o tocador de bomba, terminada
-a tarefa, encaminhou-se para
-a nossa sala. Era, effectivamente, o
-dono da casa.</p>
-
-<p>Tirara a fardeta e arregaçara
-as mangas da camisa, em cujos
-folhos abatidos nodoas côr de vinho
-transpareciam. Mas reatara á cinta<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span>
-a espada, que se arrastava tlintando
-medonha no assoalho.</p>
-
-<p>Mal me viu, arremessou-se-me
-aos braços, n’um terno arrebatamento
-intempestivo.</p>
-
-<p>Chamou-me effusivamente—illustre
-amigo—e convidou-me acto
-continuo a tomar <i>pulque</i> (a bebida
-popular mexicana, feita de uma
-planta denominada <i>pulquero</i> e embriagadora,
-como o alcool), á saude
-da irman e da sobrinha. A vinda das
-duas, asseverava, voz em grita,
-cumulava-o de regosijo.</p>
-
-<p>E berrou para trazerem o licôr
-offerecido:</p>
-
-<p>—Ó Pancha... Ó Dolores...
-Ó alguem... Ó inferno!...</p>
-
-<p>Como não acudissem, commentou
-furibundo:</p>
-
-<p>—Caramba! Com oitocentos
-mil milhões de demonios!... Cambada
-de surdos!... Canalha!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p>
-
-<p>Lá se foi elle proprio, praguejando,
-buscar o <i>pulque</i>. A durindana
-batia ás tontas nas cadeiras e
-portas.</p>
-
-<p>Provei o liquido espesso que me
-apresentou n’um copo de barro. Desagradaveis
-o cheiro e o sabor, lembrando
-os de queijo velho. Quanto
-a elle, empinou consecutivamente
-duas vezes o vaso transbordante, estalando
-a lingua. E queria á força
-que Lupe o acompanhasse. Confirmavam-se-me
-desconfianças:—o
-homem embebedava-se.</p>
-
-<p>Conheci que a minha assistencia
-áquella scena affligia sobremaneira a
-moça, que permanecia immovel, de
-pé.</p>
-
-<p>—Adeus, <i>senorita</i>. É tempo
-de tornar para bordo.</p>
-
-<p>A mexicana estendeu-me ambas
-as mãos, apertando as minhas com
-ardor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span></p>
-
-<p>—Adeus, dom brazileiro. Chegando
-ao Brazil, escreva-me. Mande-me
-o seu endereço, bem como
-vistas e livros de seu paiz. Promette?</p>
-
-<p>—Prometto.</p>
-
-<p>—Adeus,—repetio (e os seus
-dedos tremiam, entrelaçados nos
-meus), adeus. Se não nos encontrarmos
-mais n’esta vida, o que é provavel,
-até á outra, segundo a predicção
-de Miss Jackson...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header13.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Chfftpmnth">Chfftpmnth!...<br />
-XIII</h2>
-
-</div>
-
-<p>Sem Lupe, o <i>Colima</i> parecia
-deserto. Os primeiros dias, depois
-de Acapulco, vivi-os inquieto e
-saudoso, achando insipidissima a
-existencia de bordo e impreenchivel
-o abysmo do tempo.</p>
-
-<p>Fôra-se a alegria, a alma, o encanto
-do navio, que lugubre boiava
-sobre o pelago do aborrecimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p>
-
-<p>Urgia-me chegar.</p>
-
-<p>Os companheiros mettiam á
-bulha a minha displicencia. D. Maria
-Augusta Gordó de Zorraquinos, que,
-em seguida á aventura do commissario,
-eu evitava quanto possivel,
-carpia com simulados suspiros:</p>
-
-<p>—Inconsolavel viuvo! Mas queixe-se
-de si proprio. Porque não seguio
-os meus conselhos maternaes?
-Porque não a trouxe comsigo?...</p>
-
-<p>—Oh! senhora!...</p>
-
-<p>—De que se espanta, casto
-José?... Se houvesse proposto á
-delambida que o acompanhasse, ella,
-mãi, tio, todos beijar-lhe-hiam os
-pés. Por essa solução andava ella
-morta. Não sei como não representou,
-para movel-o a isso, alguma
-scena dramatica, de alto pathetico,
-nas quaes é mestra...</p>
-
-<p>—E depois?... e as consequencias...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span></p>
-
-<p>—Qual depois, qual nada...
-Quando se sentisse farto, o senhor a
-largaria em qualquer porto,—no
-Panamá, por exemplo, onde, com os
-trabalhos da empreza, róla o ouro e
-ajuntou-se gente de todas as castas
-e de todos os paladares. Proseguiria,
-isto feito, tranquillamente na sua
-viagem. Asseguro que ella não morreria
-de fome nem de frio, e, no final
-da historia, havia de lhe ser grata...</p>
-
-<p>—Não se exprima assim, D.
-Maria Augusta. Olhe que commette
-cruel injustiça. Lupe é uma infeliz
-rapariga, leviana, concordo, porém
-honesta.</p>
-
-<p>—Não ha peior cégo do que
-aquelle que não quer ver,—atalhou
-rindo a hespanhola. Pois guarde a
-convicção da honestidade d’ella, e
-que lhe faça bom proveito...</p>
-
-<p>Amofinavam-me estes dicterios,
-tanto mais quanto não me occorriam<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span>
-argumentos para os refutar. Resolvi
-deixal-os passar desattendidamente.</p>
-
-<p>Miss Jackson me emprestara
-livros budhistas,—para me suavisar
-a dôr ao influxo da mais elevada philosophia
-concebida,—ponderara gravemente
-ao entregar-m’os.</p>
-
-<p>Engolphei-me na leitura da
-legenda de Sakya-Muni, o iniciador
-da religião da vontade, justiça e affinidade.
-Divertio-me o estudo dos
-Upadhis, do Kama-Loka, dos Skandhas,
-do caminho de Bodhi e do
-Nirvana.</p>
-
-<p>A imagem de Lupe se esvaeceu
-rapida de meu espirito, onde reconheci
-que deixara apenas superficial
-impressão.</p>
-
-<p>Contribuio tambem efficazmente
-para distrahir-me Herr Pfeiffer, o
-engenheiro hollandez.</p>
-
-<p>Occupado com a mexicana, eu
-desdenhara a companhia d’esse varão<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span>
-conspicuo,—calmo, retrahido, intelligentissimo
-e possuidor de solido
-saber.</p>
-
-<p>Após Acapulco, tornei-me seu
-camarada e pude apreciar a sua cerebração
-equilibrada, o seu bom
-senso nitido e seguro, os seus conhecimentos
-positivos, em contraste
-com as imaginações transcendentes
-de Miss Jackson.</p>
-
-<p>Era pessôa de 40 annos, barba
-e cabellos ruivos, oculos, um curto
-cachimbo inamovivel do canto da
-bocca.</p>
-
-<p>Casado, deixara a esposa e cinco
-filhos em Rotterdam.</p>
-
-<p>Não ligava inteira fé ao successo
-do emprehendimento de Lesseps,
-opinando que o canal entre o Pacifico
-e o Atlantico devia ser perfurado
-mais ao norte, em Tehuantepec. Mas
-no Panamá, concluia, ha immenso a
-ganhar e a aprender.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p>
-
-<p>Um dia, não me lembra por que
-desvio, versou a nossa palestra sobre
-Lupe.</p>
-
-<p>—Pobre louquinha!—disse
-Herr Pfeiffer.</p>
-
-<p>—Qual o seu juizo a respeito
-d’ella?—inquiri.</p>
-
-<p>—Physicamente considerando,
-superlativo.</p>
-
-<p>—E o moral?</p>
-
-<p>—Oh! não formúlo quanto ao
-moral juizo algum, por falta de
-dados sufficientes. Incompletos os
-materiaes de apreciação. Os modos,
-indubitavelmente, revelavam,
-uma <i>evaporada</i> ou <i>fanada</i>, conforme
-expressão dos Estados Unidos.
-<i>A fast girl.</i> Mas nem sempre
-a forma coincide precisamente com
-a realidade intrinseca. Ninguem,
-como o senhor, póde fornecer esclarecimentos
-sobre aquelle gentil producto
-hybrido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p>
-
-<p>Dá-se ali o cruzamento de uma
-descendente de aztéca com um
-<i>yankee</i>, aventureiro da California.
-Miss Hedges se lhe offerecia da
-maneira a mais clara, escandalosa,
-se me toléra o termo. Era mais
-que o <i>flirt</i>, o namoro americano, o
-qual comporta tamanhas concessões,
-era...</p>
-
-<p>—Perdão,—contravim. Entre
-mim e a <i>senorita</i> Lupe reinou sempre
-a mais completa correcção.</p>
-
-<p>—Que significa para o senhor
-correcção, relativamente a uma mulher?!
-Póde-se ser correcto com
-ellas de differentes e oppostos modos.</p>
-
-<p>—Jamais olvidei de tributar a
-Miss Hedges o respeito e as deferencias
-que mereceria a qualquer cavalheiro
-uma menina, recentemente
-orphan, desprotegida, que viaja
-sósinha com sua mãi.</p>
-
-<p>—Devéras?! interrogou fleugmatico<span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span>
-o hollandez, expellindo uma
-baforada de fumo pelo cachimbo e
-me olhando por cima dos óculos.—Devéras?!
-Ande lá... Nem um
-beijo?!...</p>
-
-<p>—Nem um beijo palavra de
-honra...</p>
-
-<p>—Basta... acredito... Pois,
-meu caro, juraria o contrario. Ha,
-n’um dialecto de minha terra, intraduzivel
-vocabulo que define a pessôa
-a quem fallece o instincto das occasiões.
-Toleirão, inexperto, imbecil,
-não possuem o mesmo sentido.
-A cousa é especial. Imagine um
-homem intelligente e habil, mas que
-não sabe aproveitar as emergencias
-preciosas que a bôa fortuna lhe
-depara, por descuido, incomprehensão
-ou paralysia da iniciativa nos
-momentos psychologicos. Permitta
-que amistosamente eu applique tal
-palavra ao seu caso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p>
-
-<p>E Herr Pfeiffer resmungou um
-agglomerado barbaro de consoantes,
-que soou aos meus ouvidos pouco
-mais ou menos assim:</p>
-
-<p>—<i>Chfftpmnth!</i>...</p>
-
-<p>Suffocou-me a indignação, como
-se houvéra sido insultado, na impossibilidade
-de me desforçar.</p>
-
-<p>—<i>Chfftpmnth</i> é elle!—vieram-me
-ganas frementes de redarguir.</p>
-
-<p>Mas assistiria a razão a Mister
-Randolpho, a D. Maria Augusta, ao
-hollandez nos severos julgamentos
-sobre Lupe? Teria eu sido méro
-acatador ridiculo de deteriorada candura?
-Estaria áquella hora a mexicana
-a motejar da minha ingenua
-simpleza, attribuindo-me injustissimamente
-os timidos escrupulos a incompetencias
-de varonilidade?!</p>
-
-<p>E me acudiam aos amargados
-labios centenares de milhões de <i>carambas</i>,
-a par de outras interjeições<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span>
-do idioma de Cervantes, ainda mais
-fogosas e apropriadas á hypothese,
-posto menos confessaveis.</p>
-
-<p>Pungia-me a exprobração intima
-com que nos penitenciamos de certas
-hesitações infaustas,—o secreto arrependimento
-(quem nunca o sentio?)
-de não haver praticado opportunamente
-uma deleitavel asneira...</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header14.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Omnia_vanitas">Omnia vanitas!<br />
-XIV</h2>
-
-</div>
-
-<p>Succedem-se depressa agora os
-portos da America Central. S. Benito
-foi o ultimo do sul do
-Mexico.</p>
-
-<p>Ancoramos seguidamente em
-Champerico e S. José, na republica
-de Guatemala, avistando os vulcões
-d’Agoa e do Fogo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p>
-
-<p>Detivemo-nos depois em Acajutla,
-republica de S. Salvador, e em
-Amapala, Honduras.</p>
-
-<p>Como o <i>Colima</i> se demorasse no
-primeiro, a tomar carvão e carregamento
-de café, internamo-nos, Herr
-Pfeiffer e eu, n’uma diminuta estrada
-de ferro, até á villa de Sonzonato,
-proxima ao vulcão Isalco, em constante
-erupção. Não cessam os trovões
-subterraneos d’essa cratéra; e,
-do mar, á noite, o seu pennacho de
-flammas imita gigantesco pharól.</p>
-
-<p>Paramos ainda em obscuras
-enseadas de Nicaragua; atravessamos
-a bahia de Dulce; arribamos
-em Punta-Arenas, no golpho Nicoya,
-pittoresca localidade no littoral da
-Republica de Costa Rica; e, finalmente,
-mais de um mez após a partida
-de S. Francisco, chegamos ao Panamá,
-então em plena effervescencia
-das obras do canal. Esperei ahi oito<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span>
-dias novo paquete que me conduzisse
-ao Perú.</p>
-
-<p>As diversões originadas da visita
-a cada um dos referidos portos,
-do facto de sahirem companheiros e
-entrarem outros, dos mil episodios
-consequentes a longa navegação,
-alliadas á natural acção do tempo,
-foram insensivelmente delindo de
-minha memoria a imagem de Lupe.</p>
-
-<p>Ao tomar passagem no <i>Santa
-Rosa</i>, da <i>Pacific Steam Navigation
-Company</i>, para Calláo, já não me
-restava d’ella sinão esbatida lembrança.</p>
-
-<p>O encontro fortuito com a mexicana
-produzira móssa mediocre em
-meu animo.</p>
-
-<p>A sua recordação baixaria em
-breve á valla commum dos incidentes
-triviaes, ephemeramente doirados.</p>
-
-<p>No <i>Santa Rosa</i>, travei conhecimento
-com D. Nicolás Pierola, exchefe<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span>
-supremo do Perú. Interessou-me
-vivamente o convivio do celebre
-caudilho.</p>
-
-<p>O desembarque em Esmeralda,
-Manta e Guayaquil, no Equador; em
-Payta, Eten, Pacasmayo, Salaverry,
-Calláo, Tambos de Móra, Pisco,
-Challa, Mollendo, no antigo imperio
-dos Incas; em Arica, Pisagua, Iquique,
-Tocopilla, Cobija, Antofagasta,
-os tres primeiros então tambem pertencentes
-ao Perú e os restantes á
-Bolivia, hoje todos do Chile; em
-Caldera, Coquimbo e Valparaiso, no
-dito Chile; a excursão a Lima;—sitios
-curiosos, sem excepção e repletos
-de vestigios da guerra recemfinda
-entre os tres estados andinos
-em ultimo lugar acima designados, o
-desembarque n’aquelles pontos, digo,
-e o estudo das respectivas condições
-materiaes e moraes, não me propiciavam
-ensejo para avivar reminiscencias,<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span>
-solicitada ininterruptamente
-a attenção por novos objectivos.</p>
-
-<p>Sobre Lupe adensavam-se as
-sombras do olvido.</p>
-
-<p>Em Calláo, eu me passara do
-<i>Santa Rosa</i> para outro paquete, o
-<i>Mendoza</i>, e em Valparaiso para o
-transatlantico <i>Araucania</i>, propriedade
-os tres da mesma companhia
-ingleza que monopolisa o trafego
-maritimo nas costas sul americanas
-do Pacifico, dividido o serviço, mui
-regularmente executado, em secções,
-a cada uma das quaes inhere esquadrilha
-especial de vapores de variadas
-formas e dimensões. Os passageiros
-costumam traduzir injustamente
-P. S. N. C., abreviação de
-<i>Pacific Steam Navigation Company</i>,
-iniciaes escriptas em cada
-canto a bordo, por <i>Picaro sin ninguna
-consideracion</i>.</p>
-
-<p>O <i>Araucania</i> transportou-me<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span>
-ao Rio de Janeiro, tocando em Talcahuano,
-Coronel, Lota, Punta-Arenas
-da Patagonia, a cidade mais
-austral do globo, e Montevidéo,
-havendo atravessado o estreito de
-Magalhães.</p>
-
-<p>Semelha esse estreito,—em cuja
-entrada pelo Pacifico, o cabo Pilar,
-reinam sempre borrascas tremendas,—ora
-um rio calmo e largo, de planas
-margens arenosas, ora apertado
-desfiladeiro entre arrojadas montanhas
-aureoladas de neve, ora extranho
-labyrintho aquatico, formado
-por innumeros canaes, sombrios,
-finos e caprichosos.</p>
-
-<p>Os selvagens fueguinos abordam
-ahi os navios que passam, implorando
-em côro:—<i>galleta, tabaco!</i>...
-(pão, fumo) e mendigam roupas de
-inverno, por meio de uma pantomima
-de tremores exagerados, bradando:
-<i>mucho frio! mucho frio!</i></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p>
-
-<p>No mais, vendem pelles de guanaco
-e flexas com pontas feitas de
-vidros de garrafas. Possuem extraordinaria
-aptidão para repetir, com
-o sotaque proprio, nitidamente, qualquer
-phrase de idioma estrangeiro,
-articulada uma só vez diante delles.</p>
-
-<p>Darwin, (narra Luiz Bastide)
-que presenciou o encontro de um
-fueguino com a respectiva mãi,
-depois de longa separação, declara
-que as demonstrações sympathicas
-de ambos revelaram-se menos affectuosas
-que as de um cavallo achando
-um velho companheiro.</p>
-
-<p>Dentro de poucos mezes fôra-me
-dado contemplar estes miseraveis
-fueguinos, infima expressão da humildade
-humana, verberados do
-berço ao tumulo por inclemencias
-terriveis, e os americanos do norte,
-prototypo da civilisação contemporanea,
-rodeados de maximo conforto<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span>
-e de todos os requintes do progresso
-industrial; vira um povo
-vencido, aniquilado, o seu territorio
-invadido, no derradeiro gráo de
-abatimento,—o peruano,—e outro
-povo, victorioso, altaneiro,—o chileno,—transbordante
-de confiança em
-si e no futuro, no apogeu da gloria
-militar; comparara o atrazo material
-de Nicaragua e Honduras com os
-machinismos hetorogeneos da empreza
-do Panamá, instrumentos
-aperfeiçoadissimos postos pela
-sciencia a serviço de commettimentos
-titanicos; sentira as exhalações
-de fogo do clima equatorial e as
-lufadas, glacialmente cortantes, da
-Patagonia; gosara das suavidades
-do oceano transformado em lago e
-padecera os rigores do mesmo oceano
-convulsionado pela tormenta;
-arremessara os olhos ás culminancias
-excelsas dos Andes e alongara<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span>
-a vista pelas razas e infindaveis
-pampas do Uruguay; enlevara-me
-ante a soberba quéda d’agoa do
-Niagára e confrangera-me perante
-a nudez esteril do deserto de Atacama,
-onde nunca chove; conhecera
-isthmos, canaes, golphos, vulcões,
-ilhas, rios, florestas, cataractas, o
-Amazonas, o Mississipi, o estuario
-do Prata, o Cotopaxi, o Chimborazo,
-o Farwest,—metropoles opulentas
-e ermos inhopitos; divisara baleias,
-vicunhas, bufalos, alpacas; praticara
-com budhistas, mormons, fetichistas,
-atheus, selvagens e chefes
-de estado; hombreiara com indigenas
-repulsivos e os archi-milionarios reis
-da bolsa de Nova York e Chicago;
-topara representantes de todas as
-raças, faunas e floras; observara o
-mais ferrenho despotismo, a caudilhagem,
-a anarchia, as terras dos
-<i>pronunciamentos</i> e a suprema expansão<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span>
-das liberdades, a ordem, o
-funccionamento regular de nobilissimas
-instituições; percorrera, em
-summa, enorme extensão do planeta,
-scismando ao clarão de constellações
-infinitas...</p>
-
-<p>Qual o resultado?!</p>
-
-<p>Insondavel tristeza, por fim:—o
-homem sempre igual no fundo em
-toda parte, identicas paixões o agitando,
-desgraças equivalentes o deprimindo,
-a mesma fatalidade o subjugando,
-o mysterio inflexivel das
-cousas, dos seres, do porvir envolvendo
-tudo na proteiforme miseria
-universal!</p>
-
-<p>Foi, em ultima analyse, de allivio
-a sensação que experimentei ao repisar
-o sólo brazileiro.</p>
-
-<p>Bemdictas sejais—familia, patria,
-fé,—unicas ancoras de ouro
-para o pégo voraginosos do destino!</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header15.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Teria_razao_Miss_Jackson">Teria razão Miss Jackson?!<br />
-XV</h2>
-
-</div>
-
-<p>Decorreram annos. A Providencia
-me beneficiara deparando-me
-excellente esposa e o mais tranquillo
-dos lares.</p>
-
-<p>Eu disfructava a felicidade possivel
-na terra, ao lado da companheira
-dillecta e um par de anjos
-em que a nossa união prolificara.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p>
-
-<p>Espessas camadas de acontecimentos
-se amontoavam sobre a lembrança
-das antigas viagens.</p>
-
-<p>A vastos intervallos, a imagem
-de Lupe, tremeluzia-me, vagalume
-indeciso, nas trevas da memoria. Se
-inopinadamente eu encontrasse Miss
-Hedges na rua, custaria talvez a reconhecel-a.</p>
-
-<p>Uma formosa manhã, ia eu prosaicamente
-n’um bonde para meu escriptorio.
-Sentia-me bem disposto,
-sadio, alegre, nas mais propicias condições
-corporeas e intellectuaes para
-trabalhar.</p>
-
-<p>Percorria distrahido os jornaes
-do dia emquanto o vehiculo caminhava.</p>
-
-<p>Recordo-me bem de que massudo
-editorial, recheiado de cifras e de
-citações, demonstrativo por a+b de-que
-o paiz se achava ás borda do classico
-abysmo, produziu-me saudades<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span>
-do leito, escancarando-me as mandibulas
-em bocejos escandalosos.</p>
-
-<p>De repente, sem que circumstancia
-alguma o suggerisse, saltou-me,
-limpida e vibrante, dos recessos
-profundos da reminiscencia,
-a visão retrospectiva da excursão
-no <i>Colima</i>.</p>
-
-<p>E Mr. Randolph, Herr Pfeiffer
-Miss Jackson, o judeu, Mrs. Hedges,
-D. Maria Augusta e Lupe,—Lupe
-principalmente,—ressuscitaram na
-minha imaginação. Ouvia-lhes a voz,
-figurava-me que os tocava, evocava,
-com precisão assombrosa, particularidades
-minimas das suas pessoas
-e vestuarios. Era como se os tivesse
-deixado minutos antes e novamente
-os devesse logo após encontrar.</p>
-
-<p>E agudo remorso martellou-me
-então a consciencia.</p>
-
-<p>—Não procedi bem relativamente<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span>
-á joven mexicana, reflecti.
-Prometti escrever-lhe e enviar-lhe
-livros e vistas do Brazil,
-apenas chegasse; não o fiz. Fôsse
-ella o que fôsse, aventureira ou infeliz
-menina mal educada, a verdade
-é que fugi ao cumprimento de um
-compromisso contrahido para com
-ella. Que ideia formará Lupe de
-mim?... Será occasião ainda de reparar
-a falta?... Dei á pobre moça
-razão justificada de queixa. Porque?!...</p>
-
-<p>Afflige singularmente a certas
-sensibilidades a convicção de que o
-paciente d’ellas causou a alguem
-um aggravo, embora se retirasse o
-aggravado para muito longe e sobre
-o facto volvesse immenso tracto de
-tempo.</p>
-
-<p>Sahira de casa leve e despreoccupado;
-entrei no escriptorio
-inexplicavelmente nervoso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p>
-
-<p>Em cima de minha mesa, estendia-se
-a correspondencia,—cartas
-e revistas, trazidas por um
-paquete europeu chegado na vespera.</p>
-
-<p>Attrahio-me a attenção largo
-enveloppe, tarjado de lucto, cheio
-de sellos e carimbos de correios exoticos.</p>
-
-<p>Rasguei-o tremulo e vi quatro
-paginas de miúda lettra desconhecida.
-Corri á assignatura:—Lupe!</p>
-
-<p>E occorreram-me as dissertações
-de Miss Jackson a respeito do
-presentimento. Eu acabava de experimentar
-estranho phenomeno telepathico.</p>
-
-<p>Possuirá realmente a alma humana
-aptidões innatas de farejar
-em mysteriosos indicios porvindouros
-successos?!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header16.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Carta_de_Lupe">Carta de Lupe<br />
-XVI</h2>
-
-</div>
-
-<p>A missiva datada, mezes havia,
-de Acapulco, peregrinara extensamente
-antes de vir a mim.</p>
-
-<p>Eis a traducção do seu teôr:</p>
-
-<div class="blockquote">
-
-<p>“Dom brazileiro, meu sempre
-lembrado amigo.</p>
-
-<p>Não sei se será esforço baldado
-o dirigir-lhe eu estas linhas, pois só<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span>
-de incompletas indicações disponho
-a respeito de seu endereço. Mas não
-importa que a minha epistola se
-perca. Escrevo-a, á semelhança de
-quem solta machinalmente um grito
-de soccorro, no meio da afflicção,
-sem cuidar de que esse grito seja
-ouvido, ou se dissolva no ar. Tenho
-soffrido muito... muitissimo... Nunca
-suppuz que se podesse soffrer assim.
-Minha mãi morreu de desgostos.
-Meu tio foi fusilado, em seguida
-a um <i>pronunciamento</i> que aqui
-houve contra a administração. A
-familia d’elle dispersou-se; duas
-filhas, minhas primas, perderam-se.
-Hoje vivo só. Ganho escassamente
-o que comer cosendo e ensinando
-meninas. As costuras e discipulas
-não raro faltam, e atravesso trances
-bem duros n’esta triste cidade, de
-tão rude gente e tão aspero clima.
-Horrivel a quadra do <i>pronunciamento</i>.<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span>
-Estive presa, como suspeita;
-curti fome e máos tratos;
-ouvi, meu amigo, injurias atrozes
-de soldados ébrios. Aquella Lupe
-do <i>Colima</i> sumio-se. Subsiste
-apenas um espectro d’ella, velho,
-fenecido, acabado, de quem dom
-brazileiro sentiria dó, se o visse.
-O que me vale é a crença na
-santa religião que, mercê de Deus,
-me voltou vehementissima. O tempo
-que me sobeja do trabalho consagro-o
-á Egreja. Rezo de joelhos,
-horas e horas, o rozario nas mãos,
-jejúo, commungo, confesso-me
-quasi todos os dias, para que o
-Santissimo se compadeça d’esta
-desgraçada alma. Quantas vezes,
-meu amigo, me lembro de seu nome
-nas minhas ardentes orações! Assaltam-me,
-comtudo, de quando em
-quando, desfallecimentos crueis,
-verdadeiras instigações do inimigo.<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span>
-Recordo o meu passado de galas
-em S. Francisco, o meu luxo, a
-minha mocidade sacrificada, os meus
-encantos (apregoavam-n’os tanto
-outr’ora, que cheguei a acreditar
-n’elles), os meus encantos, deixe-me
-dizel-o, os meus encantos extinctos,
-os meus sonhos ludibriados, o meu
-coração innutilizado, o meu caracter
-e sentimentos desconhecidos... E
-então me revolto, e me desespero,
-e quasi enlouqueço de tanto padecer.
-Ah! se a sorte me proporcionasse
-conselhos e affecto de alguem que
-me comprehendesse e guiasse, quão
-proveitosa e feliz me correria a existencia,
-e com que carinhoso frenesi
-eu saberia adorar esse alguem!
-Perdoe estas expansões
-descabidas e ás quaes não me
-assiste direito para com <i>usted</i>. Tomei
-a penna, repito, sob a pressão de
-uma das taes crises. Aqui ninguem<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span>
-as entende nem as poderia serenar.
-Chamam-me doida. E não o ficarei
-na verdade? Como confiar na integridade
-da minha razão, tão ferozmente
-flagelada?... Vou deitar
-esta carta no correio, como o naufrago
-atira ás ondas uma garrafa
-contendo a noticia garatujada da sua
-agonia. Entretanto, uma palavra
-sua em resposta, dom brazileiro,
-me animaria e consolaria extraordinariamente.
-Vinda de tão longe,
-far-me-hia o effeito sobrehumano
-de voz celestial. Que é dos livros
-e vistas do Brazil que me prometteu?
-Quem sabe se m’os enviou
-e se extraviaram no caminho?!
-Acapulco é tão obscuro! Prefiro
-esta ultima hypothese, pois me dóe
-muito pensar que se tivesse esquecido
-de mim. Em todo caso, solicito
-nova remessa. Ser-lhe-ia penoso remetter-me
-tambem o seu retrato?<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span>
-Não olvide Lupe, dom brazileiro;
-não a olvide, supplico. Não queira
-que ella ao descrever o Brazil ás
-suas discipulas, depois de enumerar
-todas as bellas qualidades dos filhos
-d’aquella terra, qualidades de que
-póde dar testemunho, exclame pezarosa,
-por fim:—mas, desgraçadamente,
-caracterisa-os a mais negra
-ingratidão! Adeos, dom brazileiro,
-meu querido amigo, sempre lembrado
-por mim até á eternidade. Jesus
-misericordioso o proteja e lhe dê
-em felicidades o que em provações
-me tem dado a mim. Lembra-se
-de Miss Jackson?... Até um dia
-n’esta vida, ou em outra. Com
-todas as véras de meu ser, me
-assigno, chorando, sua humilde servidora
-agradecida—<i>Lupe Hedges</i>.</p>
-
-<p>P. S.—Responda-me; sim?!...”</p></div>
-
-<p>Respondi immediatamente, mandando<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span>
-as vistas e os livros pedidos.</p>
-
-<p>Com sincera commoção, prodigalisei-lhe
-expressões de sympathia
-e conforto e narrei-lhe a minha
-vida desde que nos separaramos.</p>
-
-<p>Não soube, porém, se a destinataria
-recebeu essa resposta e o envolucro
-que a acompanhava. Nunca
-mais tive a menor noticia de Lupe.</p>
-
-<p>A principio, aguardava ancioso
-os paquetes estrangeiros, buscando
-impaciente communicações de Acapulco.
-Interessavam-me quaesquer
-informações sobre o Mexico e exasperava-me
-de que tão raras se publicassem
-no Brazil.</p>
-
-<p>Mas, a pouco e pouco, imperceptivelmente,
-a imagem da mexicana
-foi regressando á penumbra da
-indifferença.</p>
-
-<p>Empolgou-a, afinal, outra vez, o
-sorvedoiro do olvido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/header17.jpg" width="500" height="80" alt="" />
-</div>
-
-<h2 class="nobreak" id="Pobre_senorita">Pobre señorita!<br />
-XVII</h2>
-
-</div>
-
-<p>Nove annos rolaram. Copia
-immensa de factos, arrastou-os o
-tempo em sua correnteza irrepressivel.</p>
-
-<p>Já quasi um decennio depois
-da minha excursão aos Estados-Unidos....
-um decennio!—o periodo
-da guerra de Troya, o dobro do da
-campanha do Paraguay!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p>
-
-<p>Quão diversas das de então as
-preoccupações actuaes! Que largo
-montão de sedimentos,—detritos
-de jubilos, decepções, projectos,
-experiencias, vicissitudes de toda
-casta,—me depositou sobre a reminiscencia
-d’aquella phase o fluxo constante
-da vida!....</p>
-
-<p>Durante o prazo alludido, haviam-se-me
-acrescido a familia e os
-encargos; eu emprehendera outras
-viagens longinquas; supportara embates
-de revolução; curtira amarguras
-de exilio.</p>
-
-<p>E cada dia recúam para limbos
-mais indistinctos as scenas da primavera
-juvenil.</p>
-
-<p>Á medida que galgo a montanha,
-se relanceio para baixo saudosos
-olhos, mais e mais duvidosamente
-distinguo os contornos do
-sopé, no fundo de um abysmo, povoado<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span>
-de brumas. É a lei ineluctavel,
-e quiçá providencial, do existir.</p>
-
-<p>Sem embrago ha uma semana,
-no curso de trabalhos encetados,
-pouco tendentes a divagações imaginarias,
-reproduziu-se-me, repentinamente,
-o extranho phenomeno
-evocativo occorrido por occasião da
-carta de Lupe.</p>
-
-<p>Revi-a, a joven mexicana, pela
-segunda vez tão nitidamente como
-da primeira, n’uma reflorescencia
-magica de recordações.</p>
-
-<p>Mas circundaram agora a figura
-resurgida reverberações tumulares.
-Exhalou-se d’ella a emanação melancholica
-de algo definitivamente
-extincto. Gracioso phantasma, repassou-me
-de indizivel fluido sobrenatural.</p>
-
-<p>Lupe morreu! Uma voz intima
-m’o affirma irrecusavelmente. Tenho
-tanta certeza do seu fallecimento<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span>
-como se lhe houvesse cerrado
-piedoso os olhos travessos, cruzado
-sobre o seu peito as suas mãos fidalgas
-e atirado sobre o seu corpo donairoso
-a derradeira pá de cal.</p>
-
-<p>Pobre Lupe, estrella cadente
-que debuxou rapida linha de luz
-mysteriosa no horizonte da minha
-mocidade,—galante esphynge pousada
-á beira da minha remota estrada
-percorrida!</p>
-
-<p>Que eras tu? Alma corrompida
-ou pura? Corpo maculado, ou de
-virgem? Victima apenas de pernicioso
-meio? Flôr venenosa do mal?!</p>
-
-<p>Pude simplesmente apprehender
-que foste uma perseguida do destino.</p>
-
-<p>Deixa-me fixar depressa no papel
-os teus traços fugitivos, n’estas paginas
-escriptas a correr.</p>
-
-<p>Amanhã será tarde. Tudo passa,
-tudo acaba. Quanto mais as saudades<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span>
-que inspiras, leviana señorita?!...</p>
-
-<p>Eil-as, enfeixadas aqui, essas
-saudades, fragil tributo de um estrangeiro,
-que tenuemente entreviste
-e chamavas amigo...</p>
-
-<p>Coitadas! Boiam á tona do
-esquecimento, como petalas de rosa
-cahidas de célere batel sobre vagalhões
-de alto mar.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">NOTA</h2>
-
-</div>
-
-<p>Á <a href="#Page_77">pagina 77</a>, primeira linha, onde se lê—Alexandre
-de Gusmão, inventando os areostatos,—leia-se,—<i>Bartholomeu
-de Gusmão</i> etc.</p>
-
-<hr />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 class="nobreak">INDICE</h2>
-
-</div>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td><i>Dedicatoria</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Dedicatoria"><i>3</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Frisco</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Frisco"><i>25</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Máo exordio</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Mao_exordio"><i>45</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Spleen</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Spleen"><i>50</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Os passageiros do <span class="upright">Colima</span></i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Os_passageiros_do_Colima"><i>57</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Salve, Brazil!</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Salve_Brazil"><i>67</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Filha e Mãe</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Filha_e_Mai"><i>83</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>A socia do Club Exoterico</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_socia_do_club_exoterico"><i>93</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>As joias do judeu</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#As_joias_do_judeu"><i>115</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Uma intrigante</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Uma_intrigante"><i>123</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Noche triste</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Noche_triste"><i>139</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>O berço de Lupe</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#O_berco_de_Lupe"><i>153</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>O adeus</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#O_adeus"><i>161</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Chfftpmnth</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Chfftpmnth"><i>171</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Omnia Vanitas</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Omnia_vanitas"><i>181</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Teria razão Miss Jackson!?</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Teria_razao_Miss_Jackson"><i>191</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Carta de Lupe</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Carta_de_Lupe"><i>197</i></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td><i>Pobre señorita</i></td>
- <td class="tdpg"><a href="#Pobre_senorita"><i>205</i></a></td>
- </tr>
-</table>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's Lupe, by Afonso Celso de Assis Figueiredo
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUPE ***
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