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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Lupe - -Author: Afonso Celso de Assis Figueiredo - -Release Date: November 2, 2020 [EBook #63606] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUPE *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_i"></a>[i]</span></p> - -<h1>LUPE</h1> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_ii"></a>[ii]</span></p> - -<p class="center"><span class="smcap">Typ. Aldina—Rua Sete de Setembro 79</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iii"></a>[iii]</span></p> - -<p class="titlepage"><span class="u">AFFONSO CELSO</span></p> - -<p class="titlepage larger">LUPE</p> - -<p class="titlepage">(Segunda edição corrigida e com um prefacio novo)</p> - -<div class="figcenter titlepage" style="width: 100px;"> -<img src="images/hugo.jpg" width="100" height="115" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">PERNAMBUCO<br /> -HUGO & C.—Editores<br /> -<span class="smaller">79, Rua do Imperador, 79</span><br /> -1895</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_iv"></a>[iv]</span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_v"></a>[v]</span></p> - -<p class="dedication">A<br /> -<span class="larger"><i>URBANO DUARTE</i></span><br /> -E<br /> -<span class="larger"><i>CORRÊA DE MENEZES</i>,</span><br /> -Amigos nos bons e nos máos tempos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vi"></a>[vi]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter" id="Dedicatoria"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_vii"></a>[vii]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header0.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -</div> - -<p>Dos ensaios litterarios que ultimamente -tenho dado a lume, foi <i>Lupe</i> o que -suscitou mais vivas e contradictorias apreciações.</p> - -<p>Criticos houve, tão exaggeradamente -benevolos, que de primorosa qualificaram -a singela narrativa, chegando ao extremo -de emparelhal-a com <i>Cinco Minutos</i> de -José de Alencar e <i>Graziella</i> de Lamartine.</p> - -<p>Outros, em compensação, a acoimaram -de romancete fraco e ephemero, onde -a acção se arrasta enfadonhamente, com<span class="pagenum"><a id="Page_viii"></a>[viii]</span> -defeitos notaveis de forma e escandalosos -erros de observação.</p> - -<p>E, conforme os habitos da terra, depois -de malsinar o livro, atiraram-se desapiedados -contra o autor, chamando-lhe -vaidoso, ignorante, humilhador da -patria lingua e quejandas amenidades.</p> - -<p>Em consciencia, reputo-me autorisado -a repetir os versos da tragedia raciniana:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> - <div class="stanza"> - <div class="verse indent0"><i>.... Je n’ai mérité</i></div> - <div class="verse indent0"><i>Ni cet excès d’honneur, ni cette indignité!</i></div> - </div> -</div> -</div> - -<p><i>Lupe</i> não passa de modesto episodio<span class="pagenum"><a id="Page_ix"></a>[ix]</span> -de viagem, despreoccupadamente contado, -sem pretenção de especie alguma.</p> - -<p>Achei prazer em escrevel-o, e, simplesmente -por isso, o escrevi.</p> - -<p>Publiquei-o com a inoffensiva esperança -de transmittir a outros uma parte -d’esse prazer.</p> - -<p>E parece que não me illudi de todo -nos meus intuitos, pois duas tiragens de -<i>Lupe</i>,—mil exemplares cada uma,—a -despeito da epocha turbada em que se expuzeram -á venda, dentro de breves dias se -esgotaram.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_x"></a>[x]</span></p> - -<p>Entre os senões apontados pelos censores, -confesso que varios se me afiguraram -justos. Corrigi-os na presente edição -e me esforçarei por não reincidir.</p> - -<p>A alguns, porém, peço venia para offerecer -ligeira contestação.</p> - -<p>—Desagrada em vossas producções,—accusaram-me,—o -tom intensamente -pessoal que n’ellas impéra. Falais em demasia -de vós mesmo. D’ahi a pécha de -vaidoso que vos assacaram.</p> - -<p>Como o orador romano, podem n’este<span class="pagenum"><a id="Page_xi"></a>[xi]</span> -ponto bradar os profligadores: <i>habemus -confitentem reum</i>.</p> - -<p>Sim; todo o meu empenho consiste -exactamente em imprimir, nos meus trabalhos -litterarios a mais funda feição individual -possivel.</p> - -<p>Segundo o meu ideial,—falso talvez, -mas sincero,—tanto maior se revela o artista -quanto mais singular a sua obra, isto -é, quanto mais se destaca da dos outros, -affirmando nitidamente, por meio de suas -peculiaridades, o <i>eu</i> de quem a criou.</p> - -<p>Ignoro o que seja arte impessoal.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xii"></a>[xii]</span></p> - -<p>Ponderou muito bem um amigo que -accorreu em minha defesa: “n’um trabalho -d’arte tudo trae a mão que o fez, o -cerebro que o pensou, o coração que o -sentio; o cunho do temperamento individual -é condição essencialissima para sua -vitalidade.”</p> - -<p>De facto, mesmo os objectivistas e -impassiveis, sem embargo de quaesquer -artificios, assignala-os e distingue-os essa -propria impassibilidade ou objectivismo.</p> - -<p>Quando menos, eil-os particularisados<span class="pagenum"><a id="Page_xiii"></a>[xiii]</span> -no estylo, onde cada qual, máo grado seu, -estampa o seu sello original.</p> - -<p>Até na arte photographica, que se -limita á reproducção automatica das apparencias, -patenteia-se a personalidade do -artista na distribuição dos grupos, na selecção -das posições e dos objectos photographados, -em mil traços, em summa, inconscientes -e caracteristicos.</p> - -<p>—Mas,—insistirão,—escolheis assumptos -excessivamente intimos. Vossos -escriptos são auto-biographias. A egomania -vos domina.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xiv"></a>[xiv]</span></p> - -<p>Retorquirei, recorrendo á autoridade -suprema de Victor Hugo.</p> - -<p>Quanto á opção das materias, doutrinou -elle, (cito de memoria) no prefacio -das <i>Orientaes</i>:</p> - -<p>“Não reconheço á critica o direito -de interpellar o poéta acerca da sua -phantasia e de o increpar porque adoptou -um assumpto de preferencia a outro, utilisou-se -de tal tinta, colheu n’aquella arvore, -bebeu em determinada fonte. É -bôa ou má a obra? Eis o dominio da -critica. Não ha em poesia bons ou máos<span class="pagenum"><a id="Page_xv"></a>[xv]</span> -assumptos, mas bons ou máos poetas. -Tudo é assumpto. O dominio da arte -abrange tudo. Não pesquizeis o motivo -que me levou a eleger tal argumento. Examinai -o como trabalhei, e não o sobre -que e o porque.”</p> - -<p>No tocante ao pretenso abuso do pronome -pessoal, apadrinhar-me-hei ainda -com o grande mestre, que, no proemio das -<i>Contemplações</i>, ensinou:</p> - -<p>“Ninguem tem a honra de possuir -uma vida que seja exclusivamente sua. -A minha vida é a vossa; a vossa vida é a<span class="pagenum"><a id="Page_xvi"></a>[xvi]</span> -minha; vós viveis o que eu vivo; o destino -é um só. Tomai este espelho e mirai-vos -n’elle. Queixosos ha dos escriptores -que dizem—eu. Falai de nós,—bradam -esses. Por Deus! Quando falo -de mim, falo de vós. Como não o sentis!? -Ah! quão insensato és se julgas -que eu não sou tu. Este livro contem -tanto a individualidade do autor como á -do leitor. <i>Homo sum.</i>”</p> - -<p>Não careço explicar que entre esta -concepção da identidade humana e a do<span class="pagenum"><a id="Page_xvii"></a>[xvii]</span> -personalismo na arte nenhuma antinomia -existe.</p> - -<p>Somos todos fundamentalmente irmãos, -com faculdades equivalentes, sujeitos -em perfeita igualdade á acção de -inflexiveis leis physicas e moraes. Mas, -dentro da orbita da unidade generica, as -individuações se manifestam, as aptidões -variam.</p> - -<p>Artista é o que sabe concretisar estethicamente -os fructos da sua superna -aptidão criadora.</p> - -<p>Assim, em que peze aos meus illustres<span class="pagenum"><a id="Page_xviii"></a>[xviii]</span> -aristarchos, persistirei em guardar -completa independencia com relação a -themas e a pronomes, embora sobre mim -attraia esse proposito abominaveis epithetos. -Tomei, de ha muito, Job como -meu mentor, em meio dos successos de -nosso caro Brazil.</p> - -<p>O meu estylo soffreu tambem duros -reparos.</p> - -<p>Arguiram-n’o de truncado, telegraphico, -desigual, inçado de orações ellipticas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xix"></a>[xix]</span></p> - -<p>Que fazer? Infelizmente, não se me -depara por emquanto outro melhor.</p> - -<p>Apezar de todas as suas mazellas, -consigo com esse estylo externar o meu -pensamento, tornando-me entendido da -maioria dos leitores. Isso me basta. Valha-me -a intenção de buscar maxima clareza -e concisão seguindo a regra estylistica -formulada por Spencer:—poupai -o tempo e a attenção de quem vos lê.</p> - -<p>N’esta quadra de palavriado torrencial, -deve-se indulgencia aos que ambicionam<span class="pagenum"><a id="Page_xx"></a>[xx]</span> -furtar-se ao <i>words! words!</i> do -principe dinamarquez.</p> - -<p><i>Iriel</i>, o finissimo chronista parisiense -do <i>Jornal do Commercio</i>, occupando-se de -<i>Lupe</i> com inexcedivel gentileza, que me -penhorou e desvaneceu, observa, entretanto, -que a protogonista se exprime -n’uma linguagem emphatica e declamatoria.</p> - -<p>—Ella não conversa, discursa,—diz -o meu eminente confrade,—o que constitue -nota discordante e desagradavel.</p> - -<p>Mas na maneira empolada de se expressar<span class="pagenum"><a id="Page_xxi"></a>[xxi]</span> -residia um dos <i>tics</i>, naturaes ou -affectados, da joven mexicana.</p> - -<p>Muito de industria, mantive simelhante -diapasão por parte d’ella nos dialogos -relatados, para dar ideia fiel da minha -heroina.</p> - -<p>Concluindo este pequeno cavaco, -cumpro o dever de manifestar varios -agradecimentos.</p> - -<p>Agradeço, em primeiro logar, ao publico -fluminense a nimia generosidade -com que tem acolhido os meus escriptos. -Continuarei a trabalhar com crescente<span class="pagenum"><a id="Page_xxii"></a>[xxii]</span> -esmero e escrupulo, a fim de me mostrar -digno de tamanho favor.</p> - -<p>Agradeço á imprensa as noticias publicadas -sobre esses escriptos.</p> - -<p>Sou reconhecido ainda ás menos favoraveis, -comtanto que haja bôa fé e polidez. -Prefiro juizos severos, que emendam -e estimulam, ao silencio calculado -da má vontade, o qual, com offender, -desanima.</p> - -<p>Agradeço finalmente ao meu bom -editor e amigo, Sr. Domingos de Magalhães, -o verdadeiro carinho que dispensa<span class="pagenum"><a id="Page_xxiii"></a>[xxiii]</span> -a meus livros, julgando-os merecedores -de luxuosos requintes typographicos.</p> - -<p>As primeiras tiragens de <i>Lupe</i>, feitas -em typo <i>mingon</i> na afamada casa Leuzinger, -foram um mimo.</p> - -<p>Não lhes fica somenos a actual, confiada -á Typographia Aldina.</p> - -<p>E, consoante velha usança:</p> - -<p>—<i>Vale</i>, amigo leitor!</p> - -<p class="smaller mt5">Alto da Serra, (Petropolis) 1 de Agosto de 1894.</p> - -<p class="right">A. C.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_xxiv"></a>[xxiv]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_25"></a>[25]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header1.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Frisco">Frisco<br /> -I</h2> - -</div> - -<p>Muito triste a minha partida de -S. Francisco da California,—Frisco,—segundo -o dizer vulgar dos respectivos -habitantes.</p> - -<p>Eu passara alli uma semana, -no maior isolamento.</p> - -<p>Com obsequioso interesse, o -consul geral do Brazil nos Estados<span class="pagenum"><a id="Page_26"></a>[26]</span> -Unidos, Salvador de Mendonça, -me havia recommendado ao -seu agente n’aquella cidade, Mr. J. -L. M. Randolph.</p> - -<p>Dispensara-me este a inexcedivel -amabilidade dos americanos, -quando condescendem em se mostrar -affaveis.</p> - -<p>Mas era um negociante occupadissimo, -sempre ás carreiras, -para quem constituia séria contrariedade -o desperdicio de um minuto.</p> - -<p>Morava no <i>Cosmos-Club</i> com -varios rapazes celibatarios, quasi -todos empregados no commercio.</p> - -<p>Obteve a minha admissão, -como socio temporario, n’esse club, -luxuosa e confortavelmente installado; -offereceu-me ahi excellente -jantar, regado de saborosos e -variegados vinhos, fabricados sem -excepção na California, inclusive -o <i>champagne</i> e o <i>porto</i>; presenteiou-me<span class="pagenum"><a id="Page_27"></a>[27]</span> -com minucioso guia illustrado -da povoação; forneceu-me -concisamente preciosas informações, -de perspicassissimo cunho -pratico, sobre tudo aquillo de que -poderia precisar um viajante na -minha idade e condições (eu entrara -então nos 24 annos); e, abalando-me -os ossos n’um formidavel <i>shake-hands</i>, -concluio, ao entregar-me o -seu cartão de visita, em cujo dorso -se alinhavam algarismos manuscriptos, -semelhando uma taboada:</p> - -<p>—Sinto não me ser dado -acompanhal-o sempre, <i>mister -Cilso</i>. Eis aqui os numeros telephonicos -deste club, onde durmo; -do escriptorio onde trabalho; do -<i>bar</i>, onde bebo; do bilhar onde -jogo; da egreja, onde rezo; do -centro politico, onde discuto; das -casas de cavalheiros e damas que -frequento. Em precisando de mim,<span class="pagenum"><a id="Page_28"></a>[28]</span> -a qualquer hora do dia ou da -noite, chame-me desassombradamente -e accorrerei logo, cheio de -prazer, para lhe prestar serviços. -E <i>good bye, my dear, good -bye</i>...</p> - -<p>Assim, eu visitara sosinho as -curiosidades locaes, vivendo dias -inteiros sem conversar com quem -quer que fosse.</p> - -<p>Em 1845, S. Francisco, a antiga -Yerba Buena dos mexicanos, -contava 1.500 moradores; accusa -o recenseamento ultimo cerca de -300.000.</p> - -<p>Valle entre morros parallelos, -entremeado de outeiros, com o -seu magnifico porto e as suas -casas brancas, guarnecidas ordinariamente -de varandas, trasbordantes -de plantas tropicaes, nota-se -em sua physionomia algo da -do Rio de Janeiro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_29"></a>[29]</span></p> - -<p>Mas as ruas são ali mais largas -e limpas, usando commummente -numeros em logar de nomes; -os edificios mais altos; o typo architectonico -mais extravagante; a -população mais heterogenea e vivaz, -talvez offerecendo ainda vestigios -dos audaciosos aventureiros -de que descende. Em compensação -menos grandiosa do que a nossa -a natureza, somenos a perspectiva, -e inferior a bahia em extensão, -magestade, segurança e bellezas -naturaes.</p> - -<p>Entre as construcções normaes -de Frisco, destacam a miude -torres, cupulas, columnatas. Causa -surpreza a infinidade de fios telegraphicos -suspensos em póstes e -nos telhados. Galgam ingremes -collinas filas de <i>bonds</i> movidos -por um cabo metallico que róla -occultamente dentro de apertado<span class="pagenum"><a id="Page_30"></a>[30]</span> -tubo, no meio dos trilhos, abaixo -do nivel do caminho. Por meio de -um apparelho em forma de pinça, -o vehiculo se engata facilmente -no motor.</p> - -<p>Interessante a enseada, na -qual ancoram navios tripolados de -gente extranha, oriunda de mysteriosas -regiões asiaticas.</p> - -<p>A communicação com o pleno -mar faz-se, como na capital brazileira, -por estreito corredor,—porta -de ouro (<i>Golden Gate</i>) chamado.</p> - -<p>Descortina-se d’esse ponto esplendido -panorama,—feliz combinação -de ilhas, montanhas, planicies, -agglomerações caprichosas de -predios, sob amplissimo horizonte -assiduamente colorido de violentos -e sumptuosos matizes.</p> - -<p>A originalidade de S. Francisco, -porém, reside no seu quarteirão -chinez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_31"></a>[31]</span></p> - -<p>Em todos os angulos da cidade -cruzam com o transeunte filhos do -celeste imperio,—olhos obliquos e -microscopicos, cara redonda, cutis -bronzea, maçans do rosto salientes, -vestuarios soltos e vistosos, -chapéos de sol de côres vivas, sapatos -de páo, cabeça raspada a -meio, longo rabicho fluctuante ou -enrolado no pescoço. Andam dois -a dois, lentos e impassiveis. A -sua presença dá incisivas notas -exoticas à multidão banal.</p> - -<p>Mas cumpre, para devidamente -aprecial-os, percorrer o bairro especial -que occupam.</p> - -<p>Imaginai dilatado labyrintho -de viélas sujas, esguias, tresandando -olores acidos, que irritam a -pituitaria, ladeiadas de edificações -excentricas, coalhadas de inscripções -estapafurdias e de estramboticos -objectos, onde pullulam<span class="pagenum"><a id="Page_32"></a>[32]</span> -representantes da raça amarella -em todos os recantos, n’um indizivel -formigamento, emquanto cães -e gallinhas remechem tranquillamente -montes de lixo abandonados -ás portas...</p> - -<p>Todavia, apresentam-se excellentes -as condições sanitarias d’esse -perimetro, a despeito do desaceio -e da incrivel promiscuidade que -n’elle dominam.</p> - -<p>Milhares de creaturas humanas -alli se empilham, exercendo -toda sorte de industrias e profissões. -O <i>Globe Hotel</i> acommodava -em 50 aposentos acanhados mais -de 1.600 chins.</p> - -<p>E são ordeiros, resignados, sobrios, -pessoalmente limpos, habilissimos, -refractarios a epidemias, -respeitadores das autoridades, de -extraordinaria aptidão para qualquer -trabalho, inflexiveis na observancia<span class="pagenum"><a id="Page_33"></a>[33]</span> -de suas usanças e tradições. -Vivem n’aquella circumscripção como -em seu proprio paiz. Os materiaes -de certas moradias,—blocos -de granito finamente lavrados,—vieram -inteiros da China, preparados -de modo a se armarem -promptamente.</p> - -<p>Restaurantes, assignalados por -enormes disticos vermelhos, e innumeraveis -lanternas de papel na -fachada, e onde se servem inverosimeis -iguarias em maravilhosa -louça de porcelana; artisticos salões -de chá; templos de diversas -seitas, nos quaes se adoram divindades -de interminaveis bigodes; -casas de exquisitos jogos; theatros -em que se desenrola durante mezes -o entrecho da mesma peça militar; -reductos clandestinos para -fumadores de opio; lindas lojas -de sedas e artefactos de ebano<span class="pagenum"><a id="Page_34"></a>[34]</span> -embutido; medicos que só recebem -honorarios quando o cliente goza -saude e os perdem se este adoece:—as -mil peculiaridades caracteristicas -do immenso estado mongolico, -encontram-se no centro de -S. Francisco, emergindo da espurcicia -extrinseca, de Pacific street -a Sacramento street, verdadeira -incrustação de perfeito fragmento -do Oriente n’um activo nucleo de -civilisação norte-americana.</p> - -<p>Bastaram-me oito dias para -examinar attentamente tudo isto.</p> - -<p>Satisfeita a anciedade de <i>touriste</i>, -urgia-me partir para diante. -Tomei passagem no <i>Colima</i>, velho -vapor de uma companhia de cabotagem -entre os Estados Unidos, -Mexico, America Central e Panamá.</p> - -<p>Intensa melancholia, ao embarcar. -Ia aventurar-me n’uma<span class="pagenum"><a id="Page_35"></a>[35]</span> -viagem, tentada por poucos brazileiros: -as costas do Pacifico até -ao estreito de Magalhães, tocando, -além das regiões já mencionadas, -no Equador, Perú, Chile e Patagonia.</p> - -<p>Eu sahira do Brazil na direcção -do norte. Visitara Bahia, -Pernambuco, Maranhão, Pará, Barbadas, -S. Thomaz, antes de chegar -a Nova-York. Atravessara o -continente, depois de percorrer o -Canadá, na grande linha ferrea que -liga os dois oceanos. Regressando -ao Rio de Janeiro, com escala em -Montevidéo, traçaria enorme circulo -em torno da America.</p> - -<p>Iniciava-se agora a phase mais -penosa do trajecto. Até então vinham-me -noticias constantes da familia; -não raros compatriotas se -me deparavam; promptos seriam, -em centros que mantêm frequentes<span class="pagenum"><a id="Page_36"></a>[36]</span> -relações com o Brazil, o regresso -e os soccorros, se necessarios.</p> - -<p>Mas, de ora avante, Guatemala, -Honduras, Costa-Rica me -apartariam absolutamente da patria, -alheia em tudo a esses paizes. -Era entranhar-me no desconhecido, -destituido de qualquer amparo natural, -sem o menor ponto de apoio -affectivo, cada vez mais separado -dos meus.</p> - -<p>—Que será de mim, adoecendo? -Se me achar privado de -recursos materiaes? Se fallecer -inopinadamente?! Que de difficuldades -para que os meus amigos -e parentes venham a descobrir o -paradeiro de meus despojos!...</p> - -<p>D’estas proprias reflexões, comtudo, -provinha-me singular encanto. -Acariciava-me a imaginação a possibilidade -de conhecer, sob a imminencia<span class="pagenum"><a id="Page_37"></a>[37]</span> -do perigo, novos aspectos -de homens e cousas.</p> - -<p>Em pé, no tombadilho do <i>Colima</i>, -prestes a levantar ferro, eu -contemplava um alteroso paquete, -atracado, como aquelle, a uma -dóca. Entrara horas antes de -Yokohama. Agitava-se no interior -d’elle multidão compacta,—typos -de oppostas raças, semblantes e -trajos disparatados.</p> - -<p>O espectaculo enleiava-me a -attenção.</p> - -<p>Bateram-me, porém, no hombro.</p> - -<p>Era Mr. Randolph que tivera a -gentileza de roubar alguns minutos -aos seus affazeres para se despedir -de mim.</p> - -<p>Com a habitual presteza, dentro -em pouco, apresentou-me elle -ao commandante, recommendou-me -ao commissario, presidiu á collocação<span class="pagenum"><a id="Page_38"></a>[38]</span> -das minhas malas no camarote -escolhido, ministrou-me dados -estatisticos sobre a marcha do -navio, duração do percurso, logares -em que parariamos para carregar -ou descarregar.</p> - -<p>Quasi ao se retirar, murmurou -sorrindo:</p> - -<p>Fui informado de que terá -uma agradavel companheira, graças -á qual a travessia lhe parecerá -curta.</p> - -<p>—Quem?</p> - -<p>—A celebre Miss Lupe Hedges -que, depois de haver imperado em -S. Francisco, como soberana da -moda e do bom gosto, perdeu a -realeza e recolhe-se, em companhia -da mãe, a Acapulco, sua terra natal. -Mister Hedges, o pai, um -agente de cambio, antigo caixeiro -viajante, vivia com inaudita opulencia. -Consideravam-n’o riquissimo,<span class="pagenum"><a id="Page_39"></a>[39]</span> -posto ninguem explicasse satisfactoriamente -a origem de seus -cabedaes. Fulminou-o ha perto de -dous mezes uma apoplexia. Deu-se-lhe -balanço. Completamente insolvavel, -meu caro; só legou aos -herdeiros incommensuraveis dividas. -Os credores tomaram quanto -a familia possuia. Colossal ainda -assim o prejuizo. A viuva e a filha, -habituadas ao maior luxo, reduzidas -inesperadamente á penuria, não se -afazendo a vegetar n’uma posição -modesta na terra em que sobrancearam, -resolveram regressar ao patrio -ninho. Mudam-se para o Mexico, -donde Hedges as trouxera ha annos -e onde possuem um parente -empregado do governo, ao que -dizem.</p> - -<p>—Que casta de gente é?...</p> - -<p>—Oh! Summamente aprazivel -a moça.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_40"></a>[40]</span></p> - -<p>—Apenas isso?</p> - -<p>—Que mais deseja um rapaz -que viaja?—inquirio o meu interlocutor. -Trate de captar a -amizade de Lupe e não se arrependerá. -Aposto que entreterá -com ella optimas relações. Rosna-se -por ahi muita cousa,—casa -de jogo mantida por Hedges e da -qual a filha constituia o principal -chamariz etc., etc. Mas eu não -acredito. Em summa...</p> - -<p>N’isto, ouviram-se toques de -sineta, seguidos de um apito surdo -do vapor. Observava-se a bordo -a lufa-lufa da partida immediata.</p> - -<p>Mr. Randolph, sem terminar -a phrase, segurou-me a dextra, -sacudindo-a vehemente.</p> - -<p>—Adeus... adeus... exclamou. -Bôa viagem. Divirta-se. Confio -em que levará excellentes impressões -da nossa gloriosa nação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_41"></a>[41]</span></p> - -<p>E sumiu-se de prompto, no -meio das pessoas que desciam apressadamente -a escada do portaló.</p> - -<p>Breve o <i>Colima</i> desligou as -amarras e desprendeu-se lento de -terra, n’uma suave manobra.</p> - -<p>Já se cavava regular intervallo -entre elle e o caes, quando -surdio n’este, correndo esbaforido, -um joven chinez. Trazia na mão -um papel e fazia gestos desesperados -a outro chinez que da prôa -do navio lhe respondia, com acenos -igualmente furiosos. O espaço -intermediario augmentava a cada -segundo. Então o chinez que ficava -apanhou bruscamente uma -pedra no chão, envolveu-a no papel -e arremessou-a esforçado ao -chinez que partia. Grande, porém, -a distancia interposta. O projectil -descreveu no ar um arco de circulo<span class="pagenum"><a id="Page_42"></a>[42]</span> -e cahio n’agua, submergindo-se. -Soaram gargalhadas.</p> - -<p>No rosto amarello do arremessante -transpareceu profunda -magua. Poz-se a chorar. Nada -mais engraçado do que um chinez -chorando. Dos olhinhos sardonicos -saltitavam-lhe lagrimas, na apparencia -differentes das nossas, -emquanto os traços se lhe amarfanhavam -n’uma inconcebivel careta.</p> - -<p>Sentirão elles como nós? Serão -identicas ás que nos impellem -as suas paixões? Corresponderá á -dissemelhança physica um contraste -moral? Não revestirá o desgosto -d’elles, bem como a alegria, formas -e expressões caracteristicas, -de accordo com as feições e vestuarios? -Haverá raças d’almas,—tartaras, -ethiopes, japonezas, diversas<span class="pagenum"><a id="Page_43"></a>[43]</span> -das européas e americanas?!...</p> - -<p>Um corcóvo do navio cortou-me -as cogitações. Sahiamos barra -fóra, atravessando <i>Golden-Gate</i>.</p> - -<p>O <i>Colima</i> entestara com o -pleno oceano. Ao primeiro embate, -curveteava. Diante de nós se desdobrava -até roçagar no firmamento -o chamalóte verde das vagas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_44"></a>[44]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_45"></a>[45]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header2.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Mao_exordio">Máo exordio<br /> -II</h2> - -</div> - -<p>De subito, soaram a meu lado -estas palavras proferidas em inglez -por alguem, cuja approximação o -ruido da helice tornara despercebida:</p> - -<p>—Não ha, nem póde haver -no mundo paizagem maritima mais -arrebatadora...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_46"></a>[46]</span></p> - -<p>Voltei-me. A dois passos de -mim, bonita rapariga, morena e -elegantissima, trajando rigoroso -lucto, fitava com um binoculo os -planos longinquos da agua e do céu. -Alta, nervosa, esbelta, graciosamente -petulante. Mas das linhas -de seu rosto algo de desconforto resumbrava. -Na commissura dos labios -lobrigava-se-lhe o vinco das decepções.</p> - -<p>Ao cabo de minutos, como eu -não respondesse, repetiu em hespanhol, -dirigindo-se directamente -a mim:</p> - -<p>—Não acha, cavalheiro, ser -impossivel na natureza perspectiva -superior a esta?!</p> - -<p>—Perdão, repliquei. Julgo com -effeito admiravel o espectaculo que -presenciamos. A bahia do Rio de -Janeiro, porém, excede incomparavelmente<span class="pagenum"><a id="Page_47"></a>[47]</span> -em bellezas a de S. Francisco.</p> - -<p>—Que bahia?!... indagou ella, -qual se não houvesse apprehendido -o nome.</p> - -<p>—A do Rio de Janeiro, capital -do Brazil.</p> - -<p>—Ah!... Pertence porventura -o cavalheiro a semelhante terra?... -murmurou com surpreza satyrica, -depois de ligeira pausa.</p> - -<p>Á minha affirmativa, a desconhecida -guardou lentamente o binoculo -no estojo pendente a tiracollo, -e saccou do bolso uma d’essas -lunetas encaixilhadas em tartaruga, -que tem longo cabo perpendicular -aos vidros. Limpou com o lenço -devagarinho esses vidros e, em seguida, -assestou-os sobre mim, mirando-me -da cabeça aos pés, como -se eu fôra um animal raro.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_48"></a>[48]</span></p> - -<p>Supportei imperturbavel o impertinente -exame, fixando a pesquizadora -sem pestanejar.</p> - -<p>Ao fim, soltando uma risada:</p> - -<p>—Pois ninguem acreditaria,—declarou,—que -o cavalheiro nascesse -no Brazil. Está bem certo -d’isso?...</p> - -<p>—Como assim?!...</p> - -<p>—Eu suppunha que o Brazil -só produzisse negros e selvagens.</p> - -<p>—Enganou-se, como vê. Em -geral, ignoram a minha patria no -estrangeiro, ou não tributam a devida -justiça á sua civilisação.</p> - -<p>—Eu conheço perfeitamente o -Brazil,—interrompeu ella. É uma -zona extensissima, cheia de florestas, -na qual o vomito preto dizima -os indigenas, onde perdura a barbaria -da escravidão e governa patriarchalmente -ha 50 annos um velho -rei, muito sabio e bom...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_49"></a>[49]</span></p> - -<p>—Illude-se ainda,—retorqui -friamente. O Brazil é um paiz civilisado, -o mais civilisado e prospero -da America Latina.</p> - -<p>Ella desfechou uma grande gargalhada -insolente, mostrando soberbos -dentes agudos e alvissimos.</p> - -<p>—Lá, pelo menos,—terminei, -a voz um tanto acre,—as mulheres -costumam ser discretas e os homens -sabem ser polidos.</p> - -<p>Com a arrogante luneta, novamente -a desconhecida submetteu-me -a demorada investigação.</p> - -<p>Curvou-se, depois, n’uma mesura -ironica, exclamando:</p> - -<p>—Cavalheiro, humilde servidora -de <i>usted</i>...</p> - -<p>E afastou-se, erecta e airosa, -n’um passo de rainha.</p> - -<p>Fiquei só, e, sem saber porque, -furioso commigo mesmo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_50"></a>[50]</span></p> - -<p>Certo, eu acabava de conversar -com a celebre Lupe, de quem -fallara Mister Randolph.</p> - -<p>Ao envez do que este annunciara, -não se antolhavam propicias -as nossas relações.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_51"></a>[51]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header3.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Spleen">Spleen<br /> -III</h2> - -</div> - -<p>Tornou-se-me insupportavel a -infundada irritação contra mim proprio. -Achei-me desasado e estupido. -Acudiam-me, infelizmente um pouco -tarde, numerosas replicas felizes que -haveriam determinado no espirito -da desconhecida indelevel e suave -impressão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_52"></a>[52]</span></p> - -<p>Virou-se após a hostilidade do -meu máo humor para a natureza e -objectos circumjacentes.</p> - -<p>—A fallar a verdade,—raciocinava -eu, em soliloquio intimo,—não -vale absolutamente a pena -abalar-se um mortal do seu lar com -o intuito de conhecer o famigerado -Oceano Pacifico! Que formidavel -decepção! O Pacifico é isto!... -Em nada dissemelhante do Atlantico:—identicos -movimentos monotonos, -perfeita uniformidade de apparencias, -as mesmas immundicies, -igual immensidade entediadora e inutil... -De que lhe serve constituir a -mais avultada massa liquida do -globo, ser chamado Grande Oceano, -Mar Amarello, Mar do Japão, Mar -de Bhering, Mar das Indias, banhar -a Australia, a China, a Coréa, o -Tonkin, Sião, as ilhas Sandwich, as -mais antigas e legendarias plagas,<span class="pagenum"><a id="Page_53"></a>[53]</span> -recolher o tributo de um rio denominado -<i>Amor</i>, estender-se entre -quatro continentes, espelhar cataclysmos -de centenares de cratéras, -elaborar constantemente novos bancos -de coral, se nem se descrimina -á primeira vista de outras vulgares -planicies aquaticas, não proporcionando -sensações especiaes,—méra -cousa chata, banal, destituida de -individuação, desesperadoramente -commum!... E assim tambem os -homens de todos os seculos e raças!... -Glorioso imbecil o tal Fernão de -Magalhães, perlustrador inicial do -dito Oceano. Occorria-me sob rebarbativo -aspecto a chronica do ousado -navegante. Com effeito, abandonar -a patria; arrostar com 230 -homens as furias de incognitas -ondas; arcar com sedições de equipagem, -provocadas pelo frio e insoffriveis -rigores; largar, á guiza<span class="pagenum"><a id="Page_54"></a>[54]</span> -de punição, em praias virgens os -companheiros rebeldes; vêr a sua -frota reduzida a tres navios; aportar -ás Philippinas, cerca de quatro -mezes depois de atravessar o estreito -a que legou o nome; guerrear -ao lado do rei Zebú, commandando -simplesmente 56 compatriotas -superstites; morrer, emfim, -assassinado a pedradas no archipelago -malasio, emquanto apenas dezoito -sobreviventes da expedição -logravam volver á Hespanha, communicando -ao mundo a effectividade -da primeira viagem de circumnavegação, -na qual despenderam tres -annos e quatorze dias,—tudo isto -prova unicamente até que desvairadas -aventuras se póde arrojar a -ambição humana!...</p> - -<p>E quão detestavel o vapor que -me conduzia! Que desaceiado e -ronceiro, proprio para arvorar o<span class="pagenum"><a id="Page_55"></a>[55]</span> -pavilhão de alguma potencia barbara, -e indigno da bandeira estrellada -que lhe tremulava á pôpa!</p> - -<p>N’uma allucinação pessimista, -eu encarava o universo pelo prisma -de Schopenhauer. Arrependia-me -de ter embarcado; revoltava-me -por haver nascido. A capricho infernal -de divindade perversa attribuia -a creação. Amargos protestos fervilhavam-me -n’alma, sequiosa da -paz imperturbavel do nada.</p> - -<p>Debatendo-me em tamanha -amargura (oh! como punge, aos -vinte e quatro annos, o remorso de -ter offendido uma formosa mulher!) -não ouvi a campainha annunciadora -do <i>lunch</i>.</p> - -<p>Foi preciso que um <i>steward</i>, -o qual, consoante os estylos, embolsara -previamente manifestações -sonantes da minha munificencia,<span class="pagenum"><a id="Page_56"></a>[56]</span> -viesse solicito inquirir se eu me -sentia enjoado.</p> - -<p>E nauseas realmente me agitavam,—mas -d’esse enjôo moral, peculiar -aos tripolantes do “navio -que Deus na Mancha ancorou”—o -intraduzivel <i>spleen</i>.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_57"></a>[57]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header4.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Os_passageiros_do_Colima">Os passageiros do Colima<br /> -IV</h2> - -</div> - -<p>Graças á recommendação de -Mister Randolph, o commandante -do <i>Colima</i> me reservara á sua direita -o primeiro logar na meza das -refeições.</p> - -<p>Em frente a mim, sentava-se a -minha interlocutora de momentos -antes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_58"></a>[58]</span></p> - -<p>Seguia-se-lhe uma senhora de -certa idade, severa e secca, trajos -de viuva, cabellos negros e duros de -cabocla,—a mãi da precedente.</p> - -<p>Raros os mais passageiros, que -mal occupavam as poltronas fixas do -refeitorio.</p> - -<p>Facto curioso a rapidez com -que se estabelecem intimidades a -bordo. Bastam poucas horas de convivio -para que se tratem como se de -muitos annos mantivessem relações -todos quantos a sorte congrega -n’uma excursão maritima.</p> - -<p>Sabem-se logo e insensivelmente -nomes, posições sociaes, projectos, -cabedaes, particularidades de cada -um. Trocam-se confidencias: ligações -se produzem, derivadas talvez -da solidariedade inconsciente dos -riscos communs.</p> - -<p>Não terminára o <i>lunch</i> e eu já<span class="pagenum"><a id="Page_59"></a>[59]</span> -possuia informações precisas sobre -os meus companheiros.</p> - -<p>Era effectivamente Lupe a gentil -mexicana de fronte de mim.</p> - -<p><i>Senorita</i> Lupe chamavam-lhe -em castelhano. O commandante dizia -reverente—Miss Hedges.</p> - -<p>Do sexo feminino havia apenas, -além desta: a sua progenitora, a -supra-dita viuva; Miss Jackson, -velha americana, de oculos e bandos, -socia do club exoterico de Nova -York; e D. Maria Augusta Gordó -de Zorraquinos, hespanhola, mulher -de um commerciante de Guatemala. -Quarentona a ultima, gorducha, o -cabello complicadamente penteiado, -illuminada pelos reflexos posthumos -de fenecida boniteza.</p> - -<p>Ao pé das tres matronas, avultavam -intensamente a graça e a mocidade -de Lupe.</p> - -<p>Representantes masculinos enumeravam-se:<span class="pagenum"><a id="Page_60"></a>[60]</span> -um judeu allemão, negociante -de joias; um engenheiro -hollandez, por nome Pfeiffer, empregado -nas obras do canal de Panamá; -dois inglezes feios e insignificantes; -e o insulso annotador d’estas linhas. -Em terceira classe, amontoavam-se -á prôa trabalhadores para as mencionadas -obras, entre os quaes muitos -chinezes.</p> - -<p>Instruiram-me tambem desde -cedo sobre a origem da exquisita designação—Lupe. -Simples abreviatura -de Guadalupe, localidade mexicana -famosa por varios motivos. -Encerra ella um sanctuario, que ha -quatro seculos attrahe sem cessar -fanaticos peregrinos. Milagrosa imagem -effectuou ali, á semelhança de -Lourdes, repetidas apparições, sendo -a primeira, pouco depois da conquista -hespanhola, a um indio recemconvertido. -É Nossa Senhora de<span class="pagenum"><a id="Page_61"></a>[61]</span> -Guadalupe, padroeira do Mexico. -Foi no mesmo sanctuario que se tramou -o movimento de independencia -contra a dominação castelhana, capitaneado -pelo cura Hydalgo.</p> - -<p>O estandarte da revolta arvorava -a imagem da santa. Guadalupe—Hidalgo -denomina-se hoje a cidade.</p> - -<p>Ao ser acclamado imperador, -instituio o general Agostinho Iturbide, -em 1822, a ordem nacional de -Guadalupe, supprimida com o seu -ephemero imperio e restabelecida, -em 1864, por Maximiliano. Muito -commum em mulheres mexicanas o -nome baptismal Guadalupe, tal como -Laffayette (pronuncia-se <i>Lafahitte</i>) -nas dos Estados Unidos.</p> - -<p>A graciosa alcunha Lupe evocava, -portanto, idéas de revolução, -liberdade e fé.</p> - -<p>A sua sonoridade incisiva, de<span class="pagenum"><a id="Page_62"></a>[62]</span> -sabor a um tempo avelludado e acre, -quadrava maravilhosamente com a -estranha creatura que a usava. Parecia -antes rebuscado adjectivo -adrede escolhido para a qualificar e -determinar. Nos labios della propria -as duas syllabas de Lupe adquiriam -encanto ineffavel. Proferindo-as, -ella estendia a bocca em fórma -de bico, como se fosse dar um beijo; -e o som se exhalava voluptuoso, -acariciando o ouvido, electrisando -deliciosamente os nervos dos presentes, -qual offego supplice de amor.</p> - -<p>Durante a collação, ora em hespanhol, -ora em inglez, Lupe dirigio -a palavra a todos os circumstantes, -menos a mim. Scintillante e escarninha -affigurou-se-me a disposição -de seu espirito. Ligeiramente aggressivas -as phrases que articulava.</p> - -<p>Mais de uma vez senti que me -fitava de soslaio. E o seu olhar produzia<span class="pagenum"><a id="Page_63"></a>[63]</span> -a sensação de uma alfinetada -subtil.</p> - -<p>Encarquilhada e macambuzia, -guardava a mãi obstinada reserva. -Mas, de quando em quando, a alguma -mordacidade da filha, sorria -silenciosamente, exhibindo eburnea -dentadura.</p> - -<p>No correr do dia, não mais me -encontrei com as mexicanas, recolhidas -ao camarote. Á hora do jantar -Lupe demorou-se. Appareceu, -já iniciado o serviço, penteiada de -festa, o vestido negro quasi decotado, -ar cerimonioso, flores na abertura -do seio.</p> - -<p>Permaneceu, como no <i>lunch</i>, -calada para commigo, emquanto entabolava -vivaz conversa com os mais, -sem excepção. Extraordinaria, decididamente, -a sua maliciosa <i>verve</i> -esfusiante.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_64"></a>[64]</span></p> - -<p>Ao nos levantarmos, disse-me -bruscamente:</p> - -<p>—<i>Dom</i> brazileiro, queira ter a -galanteria de me offerecer o seu -braço.</p> - -<p>Obedeci surprehendido. Subimos -ao convez. Suavissima a noite; -juncado o céu de constellações. O -<i>Colima</i> arfava languido sobre ondas -placidas. O Pacifico justificava o seu -titulo. Singrava o navio entre -alas de phosphorescencias; dir-se-hia -arrastar longa cauda de -flóccos argenteos; e tremeluziam-lhe -lanternas nas vergas altas,—avançadas -atalaias de luz.</p> - -<p>Lupe embuçou a cabeça e os -hombros n’uma mantilha, cujas franjas -escuras lhe sublinhavam o resplendor -do olhar. Reclinou-se, quasi -deitada, n’uma <i>chaise-long</i>, conchegando -aos pés espessa manta escosseza. -Indicou-me depois, com imperativo<span class="pagenum"><a id="Page_65"></a>[65]</span> -gesto, cadeira igual ao lado -d’ella.</p> - -<p>Houve pequeno silencio.</p> - -<p>—Falle-me do seu paiz, <i>dom</i> -brazileiro,—murmurou por fim. -Falle-me longamente. Veja se consegue -effeitos de eloquencia. Acalente-me -ao som de mavioso hymno -á sua terra, que parece amar tanto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_66"></a>[66]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_67"></a>[67]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header5.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Salve_Brazil">Salve, Brazil!<br /> -V</h2> - -</div> - -<p>Nunca, oh! minha patria, mais -ardente e commovida apologia se -ergueu ainda aos teus primores...</p> - -<p>Excitava-me tudo o imaginar.</p> - -<p>A noite, povoada de magicos -fluidos, a suggestão romantica das -vagas, a proximidade d’aquella bonita -mulher, tão nova e provocante,<span class="pagenum"><a id="Page_68"></a>[68]</span> -de comprazer a qual me nascia vehementissima -ambição, infiltravam-me -de dulçuroso calor communicativo o -pensamento e a voz.</p> - -<p>Foi longo o colloquio; de proposito -o procurei demorar.</p> - -<p>Comecei repetindo o conceito -externado sobre o Brazil por Amerigo -Vespucci n’uma de suas cartas: -<i>se nel mondo é alcun paradiso terrestre, -senzá dubio dee esser non -molto lontano da questi luoghi</i>.</p> - -<p>Descrevi a extensão do nosso -territorio, pouco menos vasto que o -do continente europeu, superior aos -da China e da Russia propriamente -ditas, no qual a menor circumscripção -provincial—Sergipe—sobreleva a -Dinamarca, a Hollanda, a Belgica, -S. Salvador, onde a maior—Amazonas,—contem -municipios excedentes -a Portugal, Grecia, Suissa, e -em cujas aguas uma só ilha,—a de<span class="pagenum"><a id="Page_69"></a>[69]</span> -Marajó,—sobrepuja as da Madeira, -Heligoland e Malta reunidas, territorio -parte inexplorado ainda, que, -em sendo habitado como o é o belga, -conterá mais gente que na actualidade -a superficie inteira do orbe.</p> - -<p>Pintei a nossa incomparavel natureza, -com seu aspecto nivelado e -calmo, desprovida de culminancias e -abysmos ameaçadores, sem cratéras -activas nem vestigios siquer de apagados -vulcões, a amena variedade de -seus climas, a ausencia total de -cataclysmos, terremotos, seccas prolongadas, -innundações; o nosso systema -hydrographico completo, o estupendo -numero de lagos, regatos e -rios navegaveis, entre os quaes o -gigantesco Amazonas, soberano fluvial -do mundo, com cerca de seis mil -kilometros de curso, contando uma -caterva de affluentes, tambem collossaes; -o nosso littoral dilatadissimo,<span class="pagenum"><a id="Page_70"></a>[70]</span> -destituido de nevoeiros, cachopos ou -quaesquer perigos, abrangendo dezenas -de magnificos portos sempre -abertos, e a bahia de Guanabara, a -mais bella, ampla e segura do universo; -a exuberancia indescriptivel -de nosso sólo, a sua prodigiosa flóra, -fecunda, ao mesmo tempo, na phrase -de um viajante, em cedros sobranceiros -aos do Libano, em flôres -enormes, (como a Victoria-Regia, -que fluctúa sobre o mencionado Amazonas, -a maior até hoje conhecida, -igual em dimensões a uma canoa, -com folhas redondas, capaz cada qual -de suster um menino)—em orchideas -phantasticas, obras-primas de rendilhadas -formas, matizes e olores, -em plantas ornamentaes, alimenticias -e medicinaes de infinitas especies, -em fructas de imprevistas conformações -artisticas, satisfazendo -as mais requintadas exigencias do<span class="pagenum"><a id="Page_71"></a>[71]</span> -paladar, e em florestas de preciosas -arvores tão densas que se lhes poderia -andar firmemente por cima das -cópas entrelaçadas; a nossa fauna -opulenta, apresentando inestimaveis -specimens, desde o jaguar, mosqueado -de azeviche e fulvo, até o -célere veado, as borboletas polychromas, -os radiantes colibris, fragmentos -animados do arco-iris, e mil -outros passaros encantadores, verdadeiras -joias volantes, portadores -de aérias harmonias; a nossa magnificencia -geologica,—jazidas incommensuraveis -de ferro, cobre, crystaes, -amethystas, topazios amarellos -e roseos, turmalinas, marmores brancos -e verdes de delicadissimos matizes, -montanhas revestidas de talco -e mica, fulgindo como se fossem de -ouro, veios d’este metal e depositos -de diamantes, profusos ao ponto de -haver, conforme observação de um<span class="pagenum"><a id="Page_72"></a>[72]</span> -sabio, uma região, mais extensa do -que a França, chamada Minas -Geraes e cidades denominadas—Ouro -Branco, Ouro Preto, Ouro -Fino, Diamantina; o nosso firmamento, -emfim, perpetuamente risonho, -trasbordante durante o dia de -gloriosa claridade, coalhado, á noite, -de astros fascinadores,—relicario -sublime de um cruzeiro formado de -estrellas...</p> - -<p>Demonstrei que eramos a primeira -nação latina do Novo Mundo, -dispondo de recursos inexgotaveis, -em pleno progresso commercial, -industrial e agricola, fabricas surdindo -activamente, fios telegraphicos -e estradas de ferro annulando cada -hora as distancias, a instrucção se -expandindo n’uma ascenção rapida e -estavel, a riqueza publica augmentando, -a immigração estrangeira -affluindo em escala assombrosa, o<span class="pagenum"><a id="Page_73"></a>[73]</span> -credito nacional cotado a par do -dos mais prosperos estados, o governo -e os proprietarios libertando os escravos -remanescentes no meio de -festas, elevando-os desde logo ao -nivel de cidadãos, sem preconceitos -de raças, aristocracias de sangue ou -dinheiro, nem distinções de côr.</p> - -<p>Referi-me ás particularidades -de nossa zona, aos seringaes, á baunilha, -ás selvas de cacáo e café, aos -peixes electricos, ás palmeiras alevantadas -e iguaes como columnas -de fina architectura, aos cursos d’agua -doce que luctam com o oceano -e penetram indomaveis por elle a -dentro, ás cachoeiras rivaes do Niagara, -ás grutas encantadas com decorações -inimitaveis de stalactites -e stalagmites, ás fontes thermaes -extensamente espalhadas, á primavera -perpetua da vegetação, ás lianas -textis, ao cipó do caçador que<span class="pagenum"><a id="Page_74"></a>[74]</span> -fornece um liquido edulcorado e fresco, -ás madeiras de construcção mais -resistentes que o bronze, á terra -roxa de uberdade pasmosa, á arvore -do pão, aos pampas, ás mattas -virgens...</p> - -<p>Recordei o juizo manifestado -por excursionistas illustres sobre o -Brazil:—Saint-Hilaire declarando -que a Minas seria licito segregar-se -do resto do mundo, pois encontraria -em si propria tudo quanto -pudesse necessitar; Agassiz commemorando -em phrases enlevadas a sua -missão scientifica ao imperio sul-americano; -Darwin qualificando-o -de grandioso; Humboldt presagiando -que residiria n’elle o nucleo da -civilisação futura; Martius pedindo -que sobre o seu tumulo se collocassem -folhas de palmaceas brazileiras.</p> - -<p>Enumerei os costumes singelos -e bons do povo, a sua perfeita tranquillidade,<span class="pagenum"><a id="Page_75"></a>[75]</span> -espirito hospitaleiro, habitos -patriarchaes, tolerancia absoluta -para com quaesquer crenças e -opiniões, tendencias humanitarias, -ausencia de separações sociaes, facilidade -de accesso aos mais altos -cargos, disposições para o progresso, -amor ao bello, desconhecimento de -exageros patrioticos e exclusivismos -bairristas, inteira segurança, independencia -e liberdade, faculdades -estheticas, reveladas na arte plumaria -dos autochtones, em geniaes -artistas incultos, como o Aleijadinho, -no geral apreço da melodia, -nas verdadeiras notabilidades produzidas, -a despeito de influencias -depressoras e falta de educação conveniente, -em litteratura, pintura, -esculptura e musica.</p> - -<p>Esbocei, em seguida, os episodios -salientes dos nossos fastos, -limpidos e serenos, quaes os de uma<span class="pagenum"><a id="Page_76"></a>[76]</span> -raça eleita de Deus: a descoberta -suave da Terra da Vera Cruz; as -legendas de Caramurú, Moema e -Paraguassú: inglezes, francezes, -hollandezes e hespanhóes disputando -a posse da nova colonia; as proezas -de Henrique Dias, o negro, e de -Camarão, o indio, na guerra dos -trinta annos; as figuras santas de -Nobrega e Anchietta; a intrepidez -epica dos bandeirantes e dos garimpeiros, -appellidados viradores de -rios e homens-diabos pelos indigenas; -Amador Bueno recusando uma -corôa de rei; as luctas tremendas -contra os elementos para a conquista -do sertão; a campanha dos Palmares, -em que o chefe dos pretos -revoltados, o Zumbi, Spartacus -americano, prefere ao captiveiro e -á ignominia da derrota despenhar-se -com os seus melhores auxiliares -do cume de alcantilada montanha;<span class="pagenum"><a id="Page_77"></a>[77]</span> -Alexandre de Gusmão, inventando -os areostatos; Antonio José da Silva -queimado pela inquisição; Tiradentes, -capitaneando uma legião de -inspirados poetas, que sonhavam a -independencia da patria, executado -como um martyr; o Rio de Janeiro -capital da monarchia portugueza, -acossada da Europa pelas armas napoleonicas; -a emancipação politica -facilmente adquirida; D. Pedro I, -o fundador do imperio, expulso por -haver attentado contra as liberdades -publicas; a posição excepcional -d’este principe, abdicando de dois -diademas sobre a cabeça de dois filhos -infantes, deixando o primeiro -entregue aos cuidados de uma revolução -victoriosa,—que acolhe maternalmente -a creança como a loba -latina os filhos de Rhéa Sylvia,—e -indo sustentar os direitos do segundo, -uma menina, com armas na<span class="pagenum"><a id="Page_78"></a>[78]</span> -mão, até implantar o regimen liberal -na velha Luzitania; o reinado -semi-secular de D. Pedro II, intitulado -por Victor Hugo o neto de -Marco Aurelio, o soberano sabio, -modesto, abnegado, emulo de Numa -Pompilio e de Washington, reinado -durante o qual o Brazil effectuou -immensos adiantamentos pacificos, -impôz-se á admiração do orbe policiado -como modelo digno de imitação, -ao ponto de frequentemente ser -escolhido arbitro supremo das contendas -de pujantes nacionalidades, -só emprehendeu guerras externas -no intuito cavalheiresco de libertar -visinhos irmãos de aviltantes tyrannias, -e, no meio das convulsões politicas -e sociaes de quasi todos os -póvos, gozou de venturosa paz interna, -comparavel á das culminações -luminosas da historia, percorrendo -as mais melindrosas phases<span class="pagenum"><a id="Page_79"></a>[79]</span> -do seu evolver de modo predestinadamente -feliz, mostrando assim ter -jus á primazia da raça latina no -porvir, abrigar em seu seio as sementes -dos vindouros ideiaes da humanidade, -ser o prototypo superno -em proximos seculos da civilisação -e da gloria universaes...</p> - -<p>Muito tarde quando terminei. -Só o ranger das machinas e o zunir -do vento nas enxarcias quebrava -o silencio que envolvera o <i>Colima</i>.</p> - -<p>Lupe ouvira attenta, interrompendo-me -a trechos com breves perguntas -sobre pontos que mais especialmente -a interessavam.</p> - -<p>—Falta um esclarecimento,—observou, -levantando-se.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—Não revelou ainda se as mulheres -brazileiras são bellas.</p> - -<p>—Sim: rivalisam algumas com -as mais formosas do mundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_80"></a>[80]</span></p> - -<p>—E sabem amar?</p> - -<p>—Não existem mães, esposas -e irmans mais affectuosas e meigas. -Logo apóz a descoberta, o portuguez -Ramalho desposou uma brazileira -indigena, filha do cacique Tibiriçá -e foi felicissimo. Garibaldi -casou-se em primeiras nupcias com -uma brazileira, a intrepida Annita, -que summamente auxiliou o heróe -no começo de sua carreira.</p> - -<p>—Não é isso,—bradou, cortando-me -a phrase. Pergunto se as -mulheres brazileiras comprehendem -o amor, se são capazes de todos os -divinos desvarios da paixão...</p> - -<p>—Sim... creio que sim...—balbuciei.</p> - -<p>—Como sabe?!</p> - -<p>Não respondi immediatamente, -surprehendido com interrogativa -tão extranha. Ella soltou uma -risada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_81"></a>[81]</span></p> - -<p>—Bôa noite, <i>dom</i> brazileiro,—disse, -afastando-se. Basta para -primeira conversação. Todos já -dormem a bordo. Cumpre evitar -commentarios de más linguas...</p> - -<p>De longe, acenou-me com a mão -e desappareceu.</p> - -<p>Eu fiquei ainda largo tempo -passeiando sózinho no tombadilho, a -olhar absorto para as nuvens e as -ondas, perdido em incoherente scismar.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_82"></a>[82]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_83"></a>[83]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header6.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Filha_e_Mai">Filha e Mãi<br /> -VI</h2> - -</div> - -<p>Complicado temperamento o -da joven mexicana! Quem só lhe -notasse os modos desenvoltos, as -sahidas inconsideradas na conversação, -a peraltice de certos accessorios -do vestuario, a insolencia menos -nativa que estudada, predicados -communs, aliás, na livre educação<span class="pagenum"><a id="Page_84"></a>[84]</span> -femina dos <i>yankees</i>, tomal-a-hia -naturalmente por uma loureira atrevida -e pedante.</p> - -<p>Mas, a par d’isso, quanta ingenuidade -e meiguice bruscamente -descortinadas na penumbra de seu -coração! E mostrava leitura variada -em historia e bellas lettras. De subito, -estancava-se-lhe ás vezes a -ruidosa alegria habitual. Dir-se-hia -que depuzéra então uma mascara. -Invadia-lhe as feições a amargura -de funda tristeza comprimida. E os -seus traços doridos reverberavam -purezas angelicaes.</p> - -<p>De ordinario, porém, insupportavel -<i>enfant terrible</i>. A mãi, constantemente -taciturna e amuada, vivia -a cochilar pelos cantos, ao passo -que Lupe andava ás soltas, tagarellando -com marinheiros e officiaes, -visitando os mais defesos angulos -do navio, trazendo tudo em róda<span class="pagenum"><a id="Page_85"></a>[85]</span> -viva, atanazando todos com troças -e remoques.</p> - -<p>Vi-a uma tarde na camara do -commandante jogando <i>whist</i>, a fumar -cigarros de Havana e a beber -<i>punch</i>. Gostavam d’ella; temiam-n’a, -todavia, algum tanto, e lhe tributavam -a complacencia protectora, -mixto de sympathia e desdem, que -inspira uma interessante desclassificada.</p> - -<p>Entretanto, a mim, distinguia-me -ella com especial deferencia. -Sarcastica relativamente aos mais, -assumia, em se approximando de -mim, affavel compostura, imprimindo -ás phrases que me endereçava o -tom natural de amistosa camaradagem.</p> - -<p>Infelizmente, esquivava-se a colloquios -semelhantes aos da primeira -noite de bórdo. Procurava-me a -miúdo, mas rapida, sem nunca<span class="pagenum"><a id="Page_86"></a>[86]</span> -mais consentir em sentar-se a meu -lado para intima palestra. Tel-a-hia -eu enfadado com o panegyrico -do Brazil?</p> - -<p>Parte por desfastio nos infindaveis -ocios da travessia, parte por -curiosidade, no intento de, em estudando -a arvore, melhor apreciar o -fructo, deliberei conquistar as bôas -graças de Mrs. Hedges, a mãi de -Lupe.</p> - -<p>Nada facil. A velha, sob o -jugo de real desgosto e victima de -enjôo, resistia ás minhas amabilidades, -refractaria ás mais insistentes -seducções. Extorquiam-se-lhe penosamente -phrases triviaes. Quanto -aos seus antecedentes e aos de sua -familia, baldados esforços.</p> - -<p>Comtudo, as informações de -Mr. Randolph, indiscreções de Lupe -e uma ou outra indicação surprehendida -por acaso, elucidavam-me a<span class="pagenum"><a id="Page_87"></a>[87]</span> -pouco e pouco sobre o estado de espirito -da sombria matrona.</p> - -<p>Não se resignava ella ao revez -de fortuna que soffrera.</p> - -<p>Doia-lhe como inaudita injustiça -a situação precaria em que se -encontrava. Chegava a nutrir despeito -e rancor contra o finado marido -por haver este expirado inopinadamente, -legando-lhe a miseria,—elle -que em vida acoroçoava os -habitos de fausto e desperdicio da -familia, fazendo-a acreditar na solidez -de seus cabedaes inextinguiveis.</p> - -<p>Fôra crudelissima á viuva a -transição desabrida da opulencia -para a carestia. E, demais, não -lhe bruxoleiava no horizonte o minimo -clarão de esperança. Nada -confiava quanto ao seu futuro e ao -da filha do regresso á patria. Ia -soccorrer-se de um irmão, modesto<span class="pagenum"><a id="Page_88"></a>[88]</span> -empregado publico em Acapulco. E -affigurava-se-lhe cruciante humilhação -volver assim pobre ao seio dos -seus, que repudiara, por ventura, -nos dias aureos. Regressava a impetrar -asylo no modesto lar donde -partira talvez altaneira, e de que -constituira o orgulho e o lustre! -Que desforra para as rivaes necessariamente -existentes! Que espesinhadora -irrisão por parte dos invejosos -de outr’ora!...</p> - -<p>Estes e congeneres sentimentos -procellavam na alma da velha mexicana, -com a violencia concentrada -e a tenebrosa energia, apanagios da -sua raça.</p> - -<p>Magoava-a tambem a leveza -com que Lupe supportava o infortunio. -Nimiamente contradictorio o -coração humano! Mrs. Hedges -amava a filha, mas preferia vel-a -mais acabrunhada, embora depois<span class="pagenum"><a id="Page_89"></a>[89]</span> -esse acabrunhamento lhe angustiasse -dobradamente o maternal affecto. -Só em caso de rara abnegação, toleramos -indifferentes que a outrem -gére deleite áquillo mesmo que nos -mortificou. O facto nos instiga, -quando menos, dolorosa sorpresa, -ou duvidamos da alheia sinceridade.</p> - -<p>Seria Lupe insensivel? Não -comprehenderia as agruras da sua -posição?</p> - -<p>Á sobremeza de um jantar em -que a jovialidade caustica da moça -se expandira como nunca, Mrs. -Hedges não se poude conter. Rio-se, -a principio, a seu geito, imitando -os mais; porem, por fim, manifestou -extranheza em breves exclamações -reprehensivas.</p> - -<p>Lupe voltou-se para mim, e, em -tom solemnemente entristecido:</p> - -<p>—Escute, dom brazileiro,—disse. -Guatimozim ou Quanhtemoc,<span class="pagenum"><a id="Page_90"></a>[90]</span> -o ultimo imperador dos aztécas, anteriormente -sacerdote de Vitzilopuchtli, -deus dos exercitos, sustentou -com grande dignidade a sua corôa -e as suas desgraças. Combateu -impavido os hespanhóes e morreu -heroicamente. Como sabe, foi queimado -vivo a fogo lento em companhia -de alguns altos dignitarios de -sua côrte. O soberano não deu a -menor demonstração de soffrimento -durante o horrivel supplicio. Um -de seus companheiros, que se extorcia -e uivava desesperado, objurgou -a impassibilidade do monarcha. Então -Guatimozim, severo e altivo, -retorquio:—Julgas tu que eu estou -sobre um leito de rosas?!</p> - -<p>E a moça concluio, retomando -o costumado diapasão zombeteiro:</p> - -<p>—De resto, era originalmente -formado o caracter de nossos antepassados, -os antigos aztécas. Entregavam-se<span class="pagenum"><a id="Page_91"></a>[91]</span> -ao goso sem calculo -nem previdencia. Preparavam, despidos -de inquietação, a propria ruina; -e, saciados, affrontavam calmos -a desdita. Sabiam arrostar -a morte, que desprezavam. Aprazia-lhes -sobretudo expirar com apparato. -Havia-os que succumbiam gabando a -pericia do golpe do adversario que os -prostrava. Finavam-se com graça. -Era bello; não acham?! Mas, tome -apontamentos, dom brazileiro, ande, -que isto está sahindo superfino. -Quando dou para erudita, ninguem -me leva a palma. Nem mesmo a veneranda -e illustre doutora, Miss Jackson, -que me está fitando com olhos -apocalypticos,—a nossa sacerdotisa -impolluta de Isis. Perdôe, Sr. commandante, -se me exprimo agora em -latim. Supponho que o genero não -se classifica entre os contrabandos<span class="pagenum"><a id="Page_92"></a>[92]</span> -do <i>Colima</i> e faço a todos os cavalheiros -presentes a justiça de os presumir -versados no classico idioma -de Nabuchodonosor.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_93"></a>[93]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header7.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="A_socia_do_club_exoterico">A socia do club exoterico<br /> -VII</h2> - -</div> - -<p>Miss Jackson, a velha americana -a cujas manias cabalisticas Lupe alludira, -constituia igualmente uma -curiosidade de bórdo, embora de genero -diverso.</p> - -<p>Eclipsava-a o prestigio dominador -de Miss Hedges. Mas era, sem -duvida, digna de attenção e interesse,<span class="pagenum"><a id="Page_94"></a>[94]</span> -superiormente versada n’essa classe -de conhecimentos ou desconhecimentos -que se intitulam sciencias -occultas. Consiste o fim de taes -sciencias, conforme Miss Jackson, em -estudar as relações do visivel com o -invisivel, perscrutando a significação -recondita do universo.</p> - -<p>Praticar com ella importava -aprender algo de novo, lobrigar veredas -attractivas e pouco trilhadas -do raciocinio e da imaginação. Genuina -fanatica de suas crendices, -como as ha aos milhares nos Estados -Unidos e na Inglaterra (exemplos:—o -Exercito de Salvação, a Sociedade -de Temperança e mil seitas biblicas -e theosophas, qual mais disparatada) -agitava-a a febre do proselytismo. -Não perdia occasião de promover -a propaganda das suas suppostas -verdades.</p> - -<p>Encontrando em mim attento<span class="pagenum"><a id="Page_95"></a>[95]</span> -ouvinte, <i>dilettante</i> que sou de todas -as excentricidades, Miss Jackson -abarrotava-me de occultismo nas -horas deixadas disponiveis por Lupe.</p> - -<p>Tomava esta a velha americana -por objectivo predilecto de gracejos -e travessuras.</p> - -<p>Escondia-lhe os livros e os -oculos, pedia-lhe noticias de defuntos -celebres, chamava-lhe feiticeira, -mandava por intermedio d’ella recados -ao demonio. E Miss Jackson -aturava as brincadeiras com inalteravel -bom humor, levantando os -hombros, sem demonstração alguma -de enfado.</p> - -<p>Prolixos os seus discursos, recheados -de formulas asceticas e confusas. -No conjuncto, porém, apanhavam-se -n’elles noções aproveitaveis.</p> - -<p>Conhecia as artes de adivinhação: -chiromancia, cartomancia,<span class="pagenum"><a id="Page_96"></a>[96]</span> -astrologia, necromancia, physionognomia,—apparelhos -de perfectibilidade,—sustentava,—presentemente -embryonarios, mas susceptiveis de -desenvolvimento infinito. D’ella ouvi -pela primeira vez referencias á transmissão -do pensamento á distancia -(telepathia) e á levitação,—faculdade -de fluctuarem no ether os mais pesados -corpos, infringindo a lei newtoniana -da gravitação.</p> - -<p>Mostrava-se admiradora apaixonada -de duas mulheres: Madame -Lenormant e Madame Blavatzky, as -mentalidades culminantes da historia -contemporanea,—affirmava.</p> - -<p>A primeira, celebre adivinha do -fim do seculo passado e começo do -actual, consultada por Marat, Saint-Just, -Robespierre e Josephina Beauharnais, -dos quaes predisse o destino, -prophetisando as phases da revolução -franceza e os cyclos da epopeia<span class="pagenum"><a id="Page_97"></a>[97]</span> -napoleonica. Presa e processada por -vezes, jámais se enganou nos seus -vaticinios e exerceu genuino predominio -sobre não poucos representantes -illustres de tres gerações.</p> - -<p>Madame Blavatzky, uma russa -recentemente fallecida, tornou-se celebre -pelas suas viagens á India e -ao Thibet. Autora de uma volumosa -obra em dous tomos <i>Isis Unveiled</i>,—na -qual desvendou, segundo asseveram -seus adeptos, os sublimes arcanos -das religiões orientaes.</p> - -<p>Coadjuvada pelo coronel americano -Henry Olcott, Madame Blavatzky -fundou em Nova-York (1875) -a primeira sociedade exoterica do -occidente, da qual Miss Jackson -fazia parte e por cuja conta viajava. -Um dos escôpos primordiaes d’essa -associação está em alliar o christianismo -ao budhismo. De semelhante -connubio provirá a posse dos supremos<span class="pagenum"><a id="Page_98"></a>[98]</span> -dogmas, a omnisciencia, o -exercicio pleno da força psychica, a -fraternisação universal, a explicação -das leis incognitas da natureza, o -desenvolvimento de faculdades latentes -no homem.</p> - -<p>Sob a influencia ainda de Madame -Blavatzky, installou-se em -Paris outra sociedade exoterica, -patrocinada pela duqueza de Pomar, -viuva de lord Caithness. D’ahi, irradiou -o movimento por todo o mundo -occidental. Enumeram-se hoje esparsos -pela terra numerosos nucleos -congeneres, debaixo da direcção -central dos magnos sacerdotes do -Thibet.</p> - -<p>Alguns d’esses pontifices maximos -da grey conhecem o segredo da -livre aggremiação e desaggremiação -das moleculas corporaes e são contemporaneos -de Christo. A visionaria -slava pretende haver escripto<span class="pagenum"><a id="Page_99"></a>[99]</span> -o seu referido livro suggestionada -por elles. Nos Estados Unidos -funccionam 25 sociedades exotericas, -10 na Inglaterra, 7 em Ceylão, -3 em França e varias na Russia, Allemanha, -Austria e Hollanda. Contam -as suas Corfú, Odessa, Cabo, -St. Thomas, Australia. A de Adyar, -perto de Madrasta na India, onde -ellas abundam, dispôe de sumptuosa -bibliotheca technica. Homens notaveis -pertencem a esses gremios. -Excluindo os antigos (Dante, Shakspeare, -Gœthe, Miguel Angelo, -Leonardo da Vinci, Bacon, passam -por ter professado o exoterismo) -apontam-se contemporaneamente, -além de outros, o celebre physico -inglez Crookes, o philosopho allemão -Hartman, Gladstone, Charcot -e Edison como adhesos ás praticas -exotericas. Este ultimo parece dever -a ellas o seu portentoso genio inventivo.<span class="pagenum"><a id="Page_100"></a>[100]</span> -Os opulentos <i>rajahs</i> da India -subsidiam largamente as ditas sociedades -que manejam amplos recursos -materiaes. Não se é nomeado membro -d’ellas senão mediante prova de -difficultosos requisitos.</p> - -<p>Dimanam da sciencia exoterica -os poderes magicos dos fakirs que -permanecem annos a fio enterrados -até ao pescoço, deixam-se morder -impunemente por animaes venenosissimos, -engólem toxicos violentos, -apertam de encontro ao pescoço laminas -aguçadas, digerem vidro -moido, atravessam illesos chammas -abrasadoras e sepultam-se vivos, sahindo, -ao cabo de seis mezes, de debaixo -do sólo, no qual germinaram -plantas por cima d’elles, bons e fortes, -exactamente no estado em que -foram inhumados,—factos estes de -authenticidade garantida por testemunhas -fidedignas. Taes actos physiologicos<span class="pagenum"><a id="Page_101"></a>[101]</span> -milagrosos são simples -emanações de incognitos principios -que o exoterismo se propõe elucidar.</p> - -<p>Entre as faculdades incubadas -do espirito humano susceptiveis de -se alargarem, destaca, conforme a -doutrina de Miss Jackson, a do presentimento. -O vago instincto que -temos de certos acontecimentos vindouros -ou occorridos em pontos longinquos, -póde transformar-se n’uma -funcção activa e normal, rica de proficuos -resultados. Presentemente, o -homem, em dadas condições, sente a -previsão indistincta de alguns successos. -Uma especie de voz interior o -adverte de perigo imminente, da -morte distante de amado ser. Partilham -essa obscura intuição varios animaes: -pombos que abandonam com -antecedencia o telhado do predio -onde vai morrer alguem, ratos que -fogem da embarcação ameaçada de<span class="pagenum"><a id="Page_102"></a>[102]</span> -sossobrar. Semelhante aptidão avultará -em extensão e potencia se o homem -se applicar a cultival-a. A humanidade -jámais deixou de acreditar -na veracidade dos presagios. Formigam -nas chronicas exemplos de coincidencias, -apprehensões, vaticinios -assombrosos. Raro o individuo que -não cite um em sua vida. Grandes homens -de todas as éras e raças prestaram -fé a phenomenos d’essa especie. -No povo mais positivo e forte da historia, -o romano, os presagios influiam -sobre as deliberações das assembléas -e orientação do governo. Os -augures preponderavam na politica. -E como medravam na cidade eterna -as superstições! Dias faustos e infaustos, -vôos de passaros, encontros -fortuitos, accidentes minimos, encerravam -para os dominadores do globo -sentido enigmatico que importava -respeitar. Uma topada na porta de<span class="pagenum"><a id="Page_103"></a>[103]</span> -casa, ao sahir, a ruptura repentina -do laço do sapato, prender-se n’um -movel a roupa de quem se queria levantar, -estremecimentos de palpebras, -significavam para os romanos,—como -modernamente treze convivas -á mesa, vestir a camisa pelo -avesso, entornar oleo no assoalho, -accender simultaneamente tres luzes, -quebrar um espelho, uivos de cão a -deshóras,—significavam prenuncios -aziagos de graves desprazeres, despertando -austeras cogitações.</p> - -<p>E Miss Jackson empenhava-se -por me convencer da base racional -de tudo isso, affirmando que nos máos -olhados, talismans, quebrantos, preconceitos -e abusões populares, communs, -em verdade, ao orbe inteiro, -deparam-se ao investigador elementos -efficazes para a sciencia do futuro,—essa -sciencia complexa e omnipotente -que proporcionará facil<span class="pagenum"><a id="Page_104"></a>[104]</span> -communicação entre os habitantes -dos myriades de planetas que fervilham -no céo, abolirá a morte, dominará -o tempo e o espaço, approximará -as creaturas do fóco infinito, -remontado cada vez mais alto pelas -descobertas e conquistas do esforço -intellectual, e, por isso mesmo, cada -vez mais engrandecido, a causa das -causas,—Deus.</p> - -<p>Miss Jackson, demais, era exaltada -vegetaliana, seguindo á risca -as prescripções alimenticias da religião -fundada por Sakya-Muni 500 -annos antes de Christo e adoptada -actualmente por mais de 500 milhões -de almas.</p> - -<p>Abstinha-se de toda e qualquer -nutrição que houvesse soffrido morte. -Bastavam-lhe legumes, fructas, lacticinios, -pão. Proscrevia igualmente -bebidas alcoolicas. Imagine-se a verdadeira<span class="pagenum"><a id="Page_105"></a>[105]</span> -provação que curtia á bordo -com similhante regimen.</p> - -<p>Enunciando argumentos, vulgarisados -por Chaboseau (<i>Ensaio -sobre a philosophia budhica, capitulo -XX</i>)—e pelo Dr. Bonnejoy, -(<i>O Vegetalismo</i>)—ella condemnava -energicamente a zoophagia, -prohibida pelo fundador do budhismo.</p> - -<p>O vegetal, doutrinava a sectaria, -possue todas as substancias indispensaveis -á manutenção da vida, -não se dando isso com a carne. Só -as gramineas suppririam todas as -necessidades da alimentação humana. -De nenhuma carne se poderá -dizer o mesmo. A nossa especie pela -conformação dos dentes, estomago, -figado, e tubo intestinal, deve ser -essencialmente frugivora, digerindo -e assimilando os alimentos vegetaes -muito mais natural e completamente<span class="pagenum"><a id="Page_106"></a>[106]</span> -que os animaes. A zoophagia determina -ou desenvolve a trichinose, o -escorbuto, a tenia, as affecções verminosas, -a nephrite, emquanto o vegetalismo -é remedio efficaz contra a -gota, o rheumatismo, a paralysia, -as molestias cutaneas, auxilia a cura -rapida de feridas, obsta ás más consequencias -de operações cirurgicas e -extermina o vicio do alcoolismo. Accresce -que a carne, pelo sangue venoso -deixado nos vasos capillares, -os elementos anatomicos em via de -decomposição, no momento da morte, -os parasitas que escapam inevitavelmente -ao mais severo exame, constitue -nucleo constante de perigos para -a saúde humana, e que a mor parte -dos animaes entregues ao consumo -publico estão doentes por infecção -(typho, tuberculose, etc.) e por alimentação -insufficiente, defeituosa -ou excessiva. Vêde que são herbivoros<span class="pagenum"><a id="Page_107"></a>[107]</span> -os quadrupedes mais fortes, -mais intrepidos, mais pacientes, -mais uteis:—o cavallo, o boi, o camello, -o elephante. Vegetalianos os -povos mais energicos, laboriosos e -infatigaveis. Assim o chinez, o escossez, -o irlandez, o romano da éra republicana, -o spartano. Na Grecia, -os athletas eximiam-se systhematicamente -ao uso da carne. Ponderai -que um terreno consagrado á cultura -de cereaes e fructas dá subsistencia -e trabalho a um numero de homens -muito mais consideravel que se fôra -destinado á criação de animaes. Os -camponezes possuem vigor physico -extraordinario e disfructam inalteravel -saúde, quasi não comendo -carne.</p> - -<p>Os asiaticos robustos, resistentes, -adaptaveis aos mais insalubres -climas, apenas se sustentam de -arroz. Além d’isso, os animaes são<span class="pagenum"><a id="Page_108"></a>[108]</span> -nossos irmãos. Não nos assiste o direito -de os trucidar para subsistirmos, -quando poupando-os podemos -viver melhor. D’essa arte o entenderam -e praticaram os espiritos superiores -da humanidade. Pythagoras, -Socrates, Platão, Plutarcho, Seneca, -os primeiros padres da Egreja, -grandes santos, como Santo Agostinho -e Santo Ambrosio, jámais mancharam -seus labios com a carne e o -sangue de um animal assassinado. -Modernamente, o vegetalismo caminha -a passos accelerados na conquista -do mundo. Vegetalianos convencidos, -sabios, artistas, poetas;—Michelet, -Lamartine, Herbert Spencer, -Ricardo Wagner, Elisée Reclus.</p> - -<p>É o regimen economico e intellectual -por excellencia. Nas cidades -inglezas e americanas de importancia -encontram-se ás dezenas <i>restaurants</i> -vegetalianos, largamente<span class="pagenum"><a id="Page_109"></a>[109]</span> -frequentados. Se a sociedade inteira -se convertesse ao vegetalismo, resolveria -a questão social, pois a vida -material tornar-se-hia baratissima, -facil a todos, e desappareceriam, -consequentemente, a miseria, a fome, -a distincção principal entre pobres -e ricos.</p> - -<p>Sim! banamos a carne. Da -morte não pódem resultar vida e -saúde. Deixemos de ingerir postas -de cadaveres. Lucraremos com essa -abstenção immensamente. A exclusiva -alimentação vegetal imprime ás -physionomias e á compostura dos -corpos elegancia, delicadeza, agilidade -e vigor. Torna fina a pelle e -limpidos os olhos; apura os sentidos; -flexibilisa, esclarece, e dilata a intelligencia -e a memoria; predispõe -para o trabalho; purifica os costumes; -suavisa e eleva o caracter...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_110"></a>[110]</span></p> - -<p>Emquanto Miss Jackson me -desfechava esta tirada, Lupe approximava-se -sorrateiramente, e por -detraz da oradora, arremedava-a -com visagens e tregeitos de indiscriptivel -comico. Custava-me suster -o riso.</p> - -<p>—Muito bem, Miss Jackson, -muito bem!—bradou por fim. Acaba -de proferir uma arenga digna do -ágora atheniense, revelando admiravel -espirito de classe. Esqueceu-lhe -entretanto, concretisar a theoria em -exemplos impressionadores. E a evidencia -de seus principios, oh! dama -sapiente, resalta da sua propria -pessôa. Examinai incredulos, as excellencias -do vegetalismo e batei -contrictos no peito. Contemplai este -regio porte, esta cutis de lyrio, estes -dentes de perola, estes cabellos magestaticos... -Á semelhança de -Venus surgindo de entre as espumas,<span class="pagenum"><a id="Page_111"></a>[111]</span> -foi das folhas dos pomares e das -hortas, do meio das couves e alfaces, -que emergio este primor...</p> - -<p>E apontava para os tristes bandós -grisalhos, a bocca desdentada e -escura, a face encarquilhada, o todo -rachitico e feio da velha occultista.</p> - -<p>Esta, pela primeira vez, pareceu -agastar-se com o gracejo, realmente -um tanto pesado. Na entonação mystica -dos seus momentos eloquentes, -replicou:</p> - -<p>—Talvez ignore, Miss Hedges, -que n’um dos antigos templos aztécas -da sua patria, rutilava gravado em -lettras de ouro este distico: <i>Vem -proxima a hora em que se patenteiará -o fado sombrio, grande -destruidor</i>. Medite n’essas palavras, -menina, e tambem nas do divino -Shakspeare: <i>ha mais cousas no -céo e sobre a terra do que se imagina -nos sonhos da philosophia</i>.<span class="pagenum"><a id="Page_112"></a>[112]</span> -Oxalá jamais a abandone a disposição -de rir. Mas a vida é séria, mysteriosa -e grave. Cumpre attender -mais ao invisivel do que ao visivel. -Eis aqui a senhora e este <i>gentleman</i>. -(E designou-me com o dedo secco). -Nasceram em regiões separadas por -milhares de leguas. Nunca presumiram -que se encontrariam. Em -breves dias, seguirá cada qual o seu -rumo, convencidos de que jamais se -hão de rever. E quem sabe se já não -se conheceram em encarnações anteriores?... -Póde muito bem dar-se -que haja ainda cruzamento dos respectivos -destinos n’este planeta ou -algures, n’uma intersecção dramatica, -influindo o de um decisivamente -sobre o do outro. Viram talvez a luz -sobre estrellas predestinadas a fatidica -conjuncção. Fatal o horoscopio -de cada um! Constringe-nos a tyrannia -immanente do arcano. Tudo<span class="pagenum"><a id="Page_113"></a>[113]</span> -enigma no cosmos. Enigmas ambulantes -nós proprios, a nos debatermos -no pelago incognoscivel. Ai dos que -renunciam a tentar decifrações! -Suicidas moraes, condemnados a -retrogradar na escala dos seres!... -Indignos da parcella do eterno lume -que lhes tocou!</p> - -<p>Lupe, a principio, escutou prazenteira, -arregalando os olhos e -abrindo a bocca n’uma admiração -burlesca engraçadissima.</p> - -<p>Mas, subitamente, ficou meditativa. -Disfarçou um suspiro; e foi -com a voz velada de melancholia, -realçada por fingido sorriso ironico, -que me perguntou, quando Miss Jackson -sahio:</p> - -<p>—Então, dom brazileiro, acredita -porventura que as nossas sinas -venham ainda a mesclar-se n’este -planeta ou n’um outro?!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_114"></a>[114]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_115"></a>[115]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header8.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="As_joias_do_judeu">As joias do judeu<br /> -VIII</h2> - -</div> - -<p>Encantadora manhan! O <i>Colima</i> -deslisava pelo mar compacto e -liso, com a macieza de um patinador -sobre camadas de gelo azul.</p> - -<p>Ermo de nuvens o espaço. Os -floccos do vapor quedavam indecisos, -como receiosos de partir para fluctuar -sósinhos, no firmamento fulguroso<span class="pagenum"><a id="Page_116"></a>[116]</span> -e vasio. Á mais tenue aragem, -se dissolviam em diaphaneidades -opalinas.</p> - -<p>Passageiros e tripolantes passeiavam -no tombadilho, leves e bem -dispostos. Lupe balouçava-se indolente -n’uma cadeira de balanço, -os olhos semi-fechados, na deliciosa -morbideza que insinuam calmarias -no alto mar.</p> - -<p>Mas Salomon, o viajante judeu, -trouxe do seu camarote pesado involucro. -Abrio-o com precauções -meticulosas. Era um cofre portatil, -armado de complexas fechaduras. -Amontoavam-se dentro pequenos -estojos multicôres de velludo e -setim.</p> - -<p>Collocou-os Salomon enfileirados -n’um banco e os foi descerrando -carinhosamente, como se guardassem -sagradas reliquias. Continham -as joias em que elle negociava. Talvez,<span class="pagenum"><a id="Page_117"></a>[117]</span> -mesmo a bordo, effectuasse feliz -transacção. Quando menos, lisongear-lhe-hia -o amor proprio estadear -as suas riquezas. Ou movia-o -simplesmente a volupia argentaria -de mirar as faiscações do sol na pedraria -rara. D’ahi a exhibição.</p> - -<p>Accorreram todos, tocados da -hypnotisação que exercem sobre os -transeuntes vitrinas de ourivesaria. -Lupe exultava, enthusiasmada. -Com suspiros de prazer e exclamações -de jubilosa surpreza, examinava -os preciosos artefactos, finamente -burilados.</p> - -<p>—Que bonito! Que mimo! reparem -n’esta cinzeladura! Calculem -o valor deste brilhante!...—murmurava -em extasis.</p> - -<p>O judeu sorria ufano. Esplendido -na realidade o seu sortimento!</p> - -<p>E nos olhos da mexicana lucilavam -fremitos de cubiça, saudades do<span class="pagenum"><a id="Page_118"></a>[118]</span> -tempo em que possuira primores -iguaes, despeitos de já lhe não ser -dado, em troca de miseraveis cedulas -bancarias, adquirir n’um momento, -para lhe sublinhar a belleza, -os mais deslumbradores d’aquelles -magnificos adornos...</p> - -<p>Dir-se-hia que as suas pupillas -e o esmalte de seus dentes trocavam -com as gemmas scintillações fraternaes.</p> - -<p>De repente, a impetuosa moça -não se poude mais refreiar. Com -um movimento rapidissimo, arrecadou -no vestido, regaçado como uma -bolsa, os escrinios expostos, e, carregando -o valioso volume, desappareceu -a correr.</p> - -<p>Profunda estupefacção dos assistentes! -Salomon, as feições -decompostas, precipitou-se atraz -d’ella.</p> - -<p>—Nada receie,—gritei-lhe.<span class="pagenum"><a id="Page_119"></a>[119]</span> -Não ha onde fugir a bordo, nem se -pódem dar extravios.</p> - -<p>Minutos depois Lupe voltava. -Puzéra, com incrivel presteza, um -antigo vestido de baile, lembrança -da extincta opulencia, ordenara os -cabellos em festivo penteiado, e collocara -em si todos os braceletes, anneis, -collares, broches e diademas -do judeu.</p> - -<p>Que linda e singular estava,—princeza -encantada de legendas -arabicas, constellação viva, formoso -ser phantastico, recamado de -luz!...</p> - -<p>Circumdava-a um halo de ouro. -Da cabeça aos pés resplandecia. E -os rubins, esmeraldas, diamantes, -amethystas, topazios, saphiras, profusamente -fixados em seu corpo, desferiam -incisivos relampagos azues, -crystalinos, verdes, roxos, roseos, -rubros, no meio dos quaes languidas<span class="pagenum"><a id="Page_120"></a>[120]</span> -as perolas soltavam claridades pallidas -de luar.</p> - -<p>Idolo extranho; flôr de sonho, -crivada de pyrilampos divinos!</p> - -<p>Lupe deixou que a admirassemos -á vontade n’aquella apotheóse. -Aprumava soberba o porte, donosa -e feliz. Depois debruçou-se da amurada, -bradando:</p> - -<p>—Eis-me em trajo proprio para -visitar nymphas. E se me atirasse -agora ao fundo d’agoa?!... -Teria, ao menos, mortalha e sepulchro -dignos de mim...</p> - -<p>E inclinou-se mais no parapeito, -como se tencionasse realmente effectuar -a ameaça. Da sua imagem, -pendida sobre as ondas, brotavam -reflexos fugazes e tremeluzentes de -fabulosa apparição.</p> - -<p>Mas o judeu impacientissimo -julgou que o gracejo se prolongava -demasiado. Correu para ella, as<span class="pagenum"><a id="Page_121"></a>[121]</span> -mãos estendidas, exclamando, entre -irritado e supplice:</p> - -<p>—Miss Hedges... Senorita -Lupe... Senorita Lupe...</p> - -<p>A mexicana fitou-o com intraduzivel -desdem. Em seguida, um a -um, lentamente, restituiu-lhe os adereços, -desprendendo-os de si com -visivel pezar.</p> - -<p>Salomon submettia cada joia a -severo exame, para verificar se nada -lhe faltava.</p> - -<p>E no despojar de Lupe havia -qualquer cousa de tragico,—a solemnidade -triste dos irreparaveis -sacrificios. O seu vestido de luxo -appareceu, por fim, roto, manchado, -lamentavel resto de outr’ora.</p> - -<p>Ella cahio então n’uma cadeira, -escondendo o rosto nas mãos.</p> - -<p>—Envergonhada da brincadeira,—interpretou-se -em roda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_122"></a>[122]</span></p> - -<p>Só eu percebi quanto desespero -alanceava a alma da pobre moça.</p> - -<p>Pela primeira vez—quem sabe?—acabava -de ter, á rutilação d’aquellas -joias, inacessiveis para ella, -como estrellas, a visão nitida da sua -miseria, a amarga consciencia da -sua ruina.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_123"></a>[123]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header9.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Uma_intrigante">Uma intrigante<br /> -IX</h2> - -</div> - -<p>D. Maria Augusta Gordó de -Zorraquinos, a nedia esposa do negociante -guatemalteco, em raras occasiões -conversava commigo.</p> - -<p>De resto, pouco tempo lhe sobejava -para outros misteres que não -os de ataviar o rosto, reparando por -meio de sabios artificios as deteriorações -recalcitrantes da idade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_124"></a>[124]</span></p> - -<p>Manhans inteiras, levava-as a -espremer cravos e extorquir pellos -da cara, untando-a depois de pomadas -cheirosas ou caiando-a de pó de -arroz.</p> - -<p>Merecia-lhe o cabello especial -cuidado. Presumia, sem duvida, -que, como a de Samsão, residia nas -melenas a sua força.</p> - -<p>Alisava-as repetidas vezes ao -dia, arrancando-lhes intransigentemente -os fios brancos e gastava horas -a confabular com grampos, espelhos -e pentes, imaginando combinações -ineditas de cachos, caracóes, -pastinhas, topetes, das quaes aguardava -irresistiveis effeitos.</p> - -<p>No mais, requebrava os olhos -quando falava, tinha melifluidades -beatas na voz, comprazendo-se com -a narração de perfidias mansas, de -crueldades hypocritas e frias. Unctuoso -tudo nella; dir-se-hia que, em<span class="pagenum"><a id="Page_125"></a>[125]</span> -logar de sangue, rolava-lhe azeite -nas veias.</p> - -<p>Lupe azoinava-a de epigrammas; -appellidou-a madre abbadessa; -achava meios de lhe desmanchar -o trabalhoso penteiado, e, descobrindo -que nada a agoniava como -qualquer allusão á sua obesidade incipiente, -a cada momento a interpellava:</p> - -<p>—Oh! D. Maria Augusta, indubitavelmente -as auras marinhas -dilatam os seus tecidos. Não calcula -quanto já augmentou. Admira -como os seus vestidos, de certo elasticos, -conseguem ainda abrangel-a. -Está hyperbolica, minha rica senhora, -o que, aliás, multiplica os seus -attractivos, pois todos elles se ampliaram. -Mas, continuando assim, -o seu digno marido, ao ter a gloria -de revel-a, correrá o risco de não -abarcar nos braços amanteticos sinão<span class="pagenum"><a id="Page_126"></a>[126]</span> -metade de sua cara metade, isto -é, se Pythagoras não mente, apenas -a sua quarta parte.</p> - -<p>D. Maria Augusta Gordó de -Zorraquinos repulsava estas chacótas -com um silencio sobranceiro, -dardejando obliquamente sobre a -moça odientos olhares. Evitava, -quanto podia, a mexicana. Dirigia-lhe -sómente, pela manhan, ligeira -inclinação de cabeça.</p> - -<p>Mas Lupe fazia-se de desentendida, -voltando á carga sempre que -se lhe propiciava ensejo.</p> - -<p>Na meza, a hespanhola palestrava -baixinho, muito amavel, com -o commissario de bordo,—americano -de pés e mãos enormes, supinamente -calvo e rubicundo. Abaixando-me -eu, de uma feita, para -levantar o guardanapo que cahira, -pareceu-me entrever o sapatão do -commissario idyllicamente pousado<span class="pagenum"><a id="Page_127"></a>[127]</span> -sobre uma das rechonchudas bases -da hespanhola, sua vizinha. Não -liguei importancia ao incidente, -preoccupado de Lupe e outros -assumptos.</p> - -<p>Surprehendeu-me vivamente -uma manhan o me chamar a gorda -senhora para junto de si. Assumira -um ar de confidencia; e foi pausada, -com ademanes protectores, -que assim me evangelisou:</p> - -<p>—Não se póde negar que dom -Alfonso é um guapo mancebo, bem -educado e seguramente de excellente -familia. Desculpe se offendo a sua -modestia, mas possúo experiencia -da vida e aquelles dotes logo se reconhecem. -Dom Alfonso me inspira -sympathia. Demais, costumo fazer -bem sem olhar a quem. Por -isso, espontanea e desinteressada, -quero lhe prestar um serviço. Vou -abrir-lhe os olhos... Mais tarde<span class="pagenum"><a id="Page_128"></a>[128]</span> -me agradecerá. Cuidado com a -mexicana, dom Alfonso. Aquillo é -gente mais traiçoeira que Judas. -Está patente que as impudencias -da joven desmiolada lhe transtornaram -o coração. Não negue:—basta -observar os olhos compridos -que lhe lança, o modo immerecido -como a acolhe, o açodamento com -que a procura, desdenhando os mais. -E ella o comprehendeu, a patifa, e -vai usando das mil artimanhas do -seu repertorio para o embahir. Colher -proveitos positivos da ingenuidade -alheia, eis o seu programma. -Cautella, dom Alfonso. Nada de -compromettimentos inuteis. Não -dispenda tão fina cera com tão máo -defunto. Agora, se pretende simplesmente -divertir-se, o caso muda -de figura. Está no seu direito e é proprio -da feliz idade em que se acha. -Mas, então, coragem, homem! Ponha<span class="pagenum"><a id="Page_129"></a>[129]</span> -á margem timidez e escrupulos -injustificados. Não queira que, em -vez de dom Alfonso (um bonito -nome,—o de meu rei e senhor, a -quem Deus guarde) o chamem de -dom José, ridiculo não raro perante -as mulheres. Nada de luxos n’uma -praça aberta, onde entra quem quer. -Trate-a como ella o merece. Caramba! -Devia haver nos paquetes -uma classe á parte para certa gente, -afim de que damas immaculadas, -como eu e Miss Jackson, não nos -vissemos forçadas á convivencia de -desgraçadas d’aquelle jaez. Parece -que não acredita, dom Alfonso?... -Noto-lhe geitos de protesto... Pois -arrisque uma experiencia facillima... -Passe, depois que apagarem as luzes, -pelo camarote d’ella. Encontrará -a porta entre-aberta. Penetre -resoluto e abençoará as minhas -caridosas indicações. Não será o<span class="pagenum"><a id="Page_130"></a>[130]</span> -primeiro, nem o ultimo. A cousa -data de longe. Informe-se em S. -Francisco...</p> - -<p>E a castelhana deu-me familiar -pancadinha no hombro, revirando as -pupillas oleosas e arreganhando-se -n’uma risada maligna.</p> - -<p>Menos indignação que tristeza -me produziram as insinuações de -D. Maria Augusta. Repugnava-me -admittir Lupe como a aventureira -descripta. Sem embargo, as maneiras -levianas d’ella, juntas ás informações -de Mr. Randolph e ás que eu -acabava de ouvir, projectavam-me -no espirito sombras de duvida. E -essa duvida me penalisava inexplicavelmente, -como cruel desillusão.</p> - -<p>Tentei a defeza de Lupe, negando -sobretudo os sentimentos que -a casquilha matronaça me attribuia. -Mas falleciam-me elementos quanto -á justificação d’aquella. Não havia<span class="pagenum"><a id="Page_131"></a>[131]</span> -ainda um mez que eu a conhecera, -na promiscuidade de bordo. Onde -buscar factos que rebatessem as accusações?...</p> - -<p>Nem convinha patenteiar summo -calor na advocacia, sob pena de -corroborar as affirmativas concernentes -ao estado de meu coração.</p> - -<p>D. Maria Augusta abanava a -cabeça, prazenteira, não se dignando -contrariar meus argumentos tibios e -confusos.</p> - -<p>D’essa data em diante entrei a -notar que o commandante, o commissario, -os inglezes, o proprio engenheiro -hollandez, Herr Pfeiffer, -tão circumspecto e assiduamente entregue -a calculos e leituras scientificas, -derramavam sobre Lupe e -sobre mim alternativos olhares carregados -de malicia, gryphados, a -revezes, de equivocos sorrisos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_132"></a>[132]</span></p> - -<p>D. Maria Augusta urdira, de -certo, alguma calumniosa intriga.</p> - -<p>Como reagir, esmagar a inverdade, -impedir as inoffensivas, porem -irritantes manifestações dos companheiros?...</p> - -<p>E eu me affligia atrozmente, sem -razão já se vê, pois nenhum aleive -importava, afinal de contas, devendo, -ao contrario, lisongear-me a -vaidade, o imaginarem elles ligações -amorosas entre um rapaz solteiro -na minha situação e uma bonita -viajante, de pouco austéras apparencias.</p> - -<p>Felizmente, perto estava o porto -de Acapulco, onde Lupe desembarcaria.</p> - -<p>Agitavam-me de sorte estes -pensamentos, que não me permittiam -dormir. Onze horas bateram -n’um relogio proximo, abafadas pelo -ruido da helice.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_133"></a>[133]</span></p> - -<p>Iam apagar-se todas as luzes do -<i>Colima</i>, á excepção das regulamentares, -deixadas em determinados -pontos.</p> - -<p>Insensivelmente, ergui-me do -beliche e sahi descalço, pé ante pé. -Urgia-me verificar a verdade das -asserções da hespanhola contra Miss -Hedges. Na hypothese negativa, -desforçaria a innocencia. Na affirmativa... -oh materia humana quanto -és exigente e vil...</p> - -<p>Eu ignorava o numero exacto do -camarote de Lupe. Sabia que se -achava collocado no meio de um pequeno -corredor, para ambos os lados -do qual outros abriam, em linha.</p> - -<p>Dirigia-me cauteloso para ahi, -quando ouvi passos furtivos atraz -de mim.</p> - -<p>Mal restou-me tempo de me dissimular. -Pesado vulto masculino enfiou -pelo dito corredor, encostou-se<span class="pagenum"><a id="Page_134"></a>[134]</span> -no centro d’este a uma porta que -promptamente cedeu, e sumio-se.</p> - -<p>Correram dentro um ferrolho.</p> - -<p>Approximei-me então, guiado -pelo rangido. Na minha frente e -nas minhas costas, frouxamente allumiadas -por uma lampada do salão -contiguo, estendiam-se duas séries -de portas fechadas, perfeitamente -iguaes. Pareceu-me, comtudo, que -o vulto penetrara na de numero 19.</p> - -<p>Seria a do beliche de Lupe?</p> - -<p>Não se calcula a superexcitação -que desassocegou-me o resto da -noite. Desencontradas idéas fervilhavam-me -dolorosamente no espirito.</p> - -<p>No almoço da manhan seguinte, -Lupe apresentou-se fresca e jovial, -como nunca.</p> - -<p>Esquadrinhei-lhe ancioso as -feições, e, com intima alegria, averiguei -que as embebia, sob a vivacidade<span class="pagenum"><a id="Page_135"></a>[135]</span> -costumeira, serena expressão -virginal.</p> - -<p>Mas as exterioridades illudem. -Suspeita horrivel continuava a me -torturar.</p> - -<p>Subimos ao tombadilho após a -refeição e trocamos banalidades sobre -o tempo, a marcha do <i>Colima</i>, -as nossas respectivas condições sanitarias.</p> - -<p>Abruptamente perguntei-lhe:</p> - -<p>—Qual o numero de seu camarim?</p> - -<p>A moça fitou-me admiradissima, -recuando ligeiramente, como prestes -a repellir uma injuria.</p> - -<p>—Que tem com isso!?...</p> - -<p>—Perdôe-me a indiscreção, -Lupe. As superstições de Miss -Jackson principiaram a actuar em -meu animo. Quero comprar no primeiro -porto um bilhete de loteria<span class="pagenum"><a id="Page_136"></a>[136]</span> -com aquelle algarismo. Trar-me-ha -felicidade.</p> - -<p>—Ah! que fantasia!—murmurou -rindo. Duas duzias menos -dois, eis ahi.</p> - -<p>—22?!... Quem occupa então -o 19!</p> - -<p>—Ao decimo-nono, fronteiro ao -meu, cabe a honra de hospedar Sua -Adiposidade a Senhora Dona Maria -Augusta Gordó de Zorraquinos.</p> - -<p>Pequena pausa. Em seguida, -com estrondosa gargalhada:</p> - -<p>—Mas para que diabo deseja -assim informar-se arithmeticamente -sobre o poleiro da pingue castelhana?! -Ora essa! Será tambem com -a intenção de alcançar a sorte -grande? Ou premeditará acaso -(e acertei... acertei...) fazer concurrencia -ao commissario do navio?!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_137"></a>[137]</span></p> - -<p>E, com entonação galhofeiramente -reprehensiva, no fundo da -qual vibrava certa magoa:</p> - -<p>—Oh! dom brazileiro! que cousa -feia... que cousa feia... Nunca o -supporia capaz de tanto. Leia um -tratado de esthetica. Aquella posta -de carne! Torne-se vegetaliano... -Deixe-se d’isso, pelo amor de -Deus!...</p> - -<p>Mais tarde verifiquei que Lupe -dormia no mesmo camarote que sua -mãi. Em frente a esse, costumava -permanecer aberto, depois de todos -accommodados, o da hespanhola, -que esperava o seu visinho de meza,—o -rubro e alentado americano!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_138"></a>[138]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_139"></a>[139]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header10.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Noche_triste">Noche triste.<br /> -X</h2> - -</div> - -<p>Haviamos passado pelas ilhas -Carmen e Margherita, parando no -cabo de S. Lucas. Demoramo-nos -um dia em Mazatlan, máo porto -e regular cidade, sem nenhum caracteristico -relevante. Costeamos -Manzanilla. Mais 48 horas e ancorariamos -em Acapulco, ponto terminal -da viagem de Lupe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_140"></a>[140]</span></p> - -<p>Esta, á medida que proseguiamos, -afigurava-se-me melancholica.</p> - -<p>Na vespera da chegada, ao -anoitecer, achei-a sósinha no tombadilho, -recostada taciturna na <i>chaise-longue</i>.</p> - -<p>Tomei assento igual, ao lado -d’ella, como em a noite da partida, -e perguntei solicito qual a causa do -seu desusado pesar.</p> - -<p>—Que quer, dom brazileiro?... -sômos todos sujeitos a crises mais -ou menos graves. Sabe a historia -de Fernan Cortez, o legendario -conquistador do Mexico. Alma de -tão rija tempera, energia mais inflexivel -difficilmente se hão de reproduzir -na historia. Sublimes, epicas -as suas façanhas; sobrehumanas -as suas faculdades de resistencia e -aggressão. Pois o proprio Cortez -desanimou. Na noite fatal de 1 de -Julho de 1520, expulso com os seus<span class="pagenum"><a id="Page_141"></a>[141]</span> -da capital revoltada, batido, fugindo, -vendo mortos ou feridos os seus -mais possantes camaradas, o heróe -deixou-se cahir á beira da estrada, -junto a um cypreste, que ainda hoje -existe, e ahi abandonou-se á morte, -duvidoso da sua estrella, renunciando -ao porvir. A arvore funebre -conserva o nome com que a tradicção -a sagrou,—<i>cypreste da noite triste</i>, -pois por <i>noche triste</i> é conhecido -aquelle episodio de nossos annaes. -Quem não encontra na vida uma ou -muitas <i>noches tristes</i>?... Hoje, -dom brazileiro, é a minha.</p> - -<p>—Mas Cortez levantou-se, reconstituio-se, -venceu...</p> - -<p>—Cortez era Cortez. E contava, -demais, com um elemento -decisivo de victoria.</p> - -<p>—Qual?...</p> - -<p>—Malitzin, ou Marina, a formosa -india, filha do Cacique de Painallas,<span class="pagenum"><a id="Page_142"></a>[142]</span> -sem a qual talvez naufragasse -o temerario emprehendimento do -conquistador; Malitzin, a providencia -do exercito de Cortez, a sua -interprete, sentinella infatigavel, -conselheira segura, embaixatriz eloquente -e astuta, o principal instrumento -da quéda de Montezuma; -Malitzin, que Cortez amava e que -adorava frenetica o estrangeiro -Cortez...</p> - -<p>Houve demorado silencio. Depois, -—a voz carinhosa e meiga, -qual até então nunca lhe ouvira, voz -ungida de lagrimas represas,—Lupe -continuou:</p> - -<p>—Fique no Mexico, dom brazileiro. -Desembarque amanhan em -nossa companhia; consagre algum -tempo ao estudo dos costumes e -natureza do meu paiz. Não se arrependerá, -asseguro. Não me disse -que viaja para aprender?... Pois,<span class="pagenum"><a id="Page_143"></a>[143]</span> -permanecendo ali, aprenderá muito... -Oh! infelizmente eu não sei -descrever a minha patria como <i>usted</i>, -dom brazileiro, descreveu a sua,—descripção -que eu jámais esquecerei -e me fez amar o Brazil a ponto -de sonhar percorrel-o, á semelhança -de quem perlustra scismando a região -das chimeras e das maravilhas... -Mas fique no Mexico e reconhecerá -que a minha terra instiga tambem -inspirações ao poeta, interesse ao -sabio, indeleveis lembranças ao peregrino. -Medrou, entre nós, em éras -longinquas, estranha e magnifica civilisação. -Vestigios de monumentos -soberbos attestam ainda agora o -seu esplendor. Sobre os palacios -immensos dos velhos imperadores -aztécas, desfraldavam-se largas bandeiras -niveas, franjadas de ouro. -Ouro, prata, pedrarias, thesouros -estupendos era tudo no interior, onde<span class="pagenum"><a id="Page_144"></a>[144]</span> -dominavam pomposas etiquetas -de metter inveja ás orientaes. E -que arte divina no preparo das pedras -ricas! Cortez apoderou-se de -cinco enormes esmeraldas, cujo inaudito -trabalho assombrou os artistas -europeus de seu tempo. Representavam -uma rosa, uma trombeta de -caça, um peixe com olhos de diamante, -uma campainha tendo por -badalo uma perola, e uma taça, -gravada de religiosos disticos. Aurea -cadeia, espantosamente cinzelada, -concatenava-as. A imperatriz -Izabel, esposa de Carlos V, quiz -possuir esse primor; e o monarcha -propôz compral-o por fabuloza quantia. -Mas Cortez brindou com elle -sua noiva, D. Juana de Zunia, filha -dos duques de Bejar. Mais tarde, -levando a Argel as famosas esmeraldas, -o conquistador naufragou e -perdeu-as no lodo da praia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_145"></a>[145]</span></p> - -<p>Terriveis, dom brazileiro, as -divindades adoradas n’aquella civilisação. -Do altar de Huitzilopochtli, -deus da guerra, gottejava perenne -o sangue dos holocaustos. Assignalava-se -a coroação de cada soberano -por sacrificios monstruosos. Sustentavam-se -guerras sagradas com -o intuito exclusivo de apanhar victimas. -Nos alicerces dos templos, ladeiados -de pyramides de craneos, -punha-se uma mistura de ouro em -pó, aljofres, plantas magicas e sangue -humano. Quando nascia uma -creança, o pai a apertava até que -ella gemia de dôr, e então murmurava:—vieste -ao mundo para soffrer; -soffre, pois oh! meu filho!—E -acreditavam na metempsychóse; -marcavam a giz o caminho percorrido -por um enterro, a fim de que a -alma do defunto soubesse volver -para se reencarnar em algum recemnascido;<span class="pagenum"><a id="Page_146"></a>[146]</span> -conjuravam os astros; liam -a sorte, atravez fragmentos de crystal... -Depois, viéram os hespanhóes, -a <i>gente de razon</i>, a conquista, -o aniquilamento dos indios. Os -descendentes d’estes, porém, ainda -hoje acreditam que o deus redemptor, -Qualtzalcoath, dorme no fundo de -uma caverna, á espera do despertar -de sua raça. A monarchia aztéca -soube expirar stoicamente. Rutilam, -apoz ella, traços heroicos nos nossos -annaes. Luctas homericas sustentamol-as -contra a dominação estrangeira -e as classes privilegiadas. -Benemeritos da humanidade o cura -Hidalgo e Morelos, iniciadores da -nossa independencia. Agostinho -Iturbide, outro heroe d’essa independencia, -fizemol-o, em pouco mais de -um anno, generalissimo, acclamamol-o -dictador, cingimos-lhe a fronte -do diadema imperial e o banimos e<span class="pagenum"><a id="Page_147"></a>[147]</span> -fuzilamos, como desleal á Patria. -Novo imperador, imposto pela -França, batida em Puebla, fuzilamol-o -tambem. E foi uma epopeia de -denodo e patriotismo, digna da -America indomável, a campanha -victoriosa de Juarez! Temos padecido, -como nenhum outro povo, os -horrores da olygarchia militar. O general -Sant’Anna empolgou o poder -seis vezes por meio de revoluções, -governou vinte e tres annos quasi -sempre dictatorialmente e adoptou o -titulo de Alteza Serenissima. Os -constantes sobresaltos e perigos em -que vive a população tornaram-n’a intrepida, -inaccessivel á fraqueza, idonea -para inverosimeis ousadias, fanatica -pela liberdade. Hospitaleira, -além d’isso, doce, polida, apresentando -typos de formosura esculptural. -Mulheres da plebe, ajoelhadas -nos templos, o busto immovel, o<span class="pagenum"><a id="Page_148"></a>[148]</span> -olhar fixo, o peito alto, dão a impressão -cabalistica das esphynges -egypcias. E que amorosas essas -nossas mulheres, dom brazileiro!... -Que destemidas, quando necessario! -Maria Quintana, uma freira, combateu -valorosamente na guerra da -emancipação. Catalina Erazo,—a -celebre <i>monja alferes</i> que aos -19 annos fugio do convento e se -disfarçou de homem, levando até -aos 28 incrivel vida de aventuras, -duellos e campanhas, conquistando -no exercito por actos de bravura -o posto que lhe motivou o apellido, -merecendo do papa autorisação -para usar vestuario masculino, -e acabando christãmente, recolhida, -ainda em plena mocidade, ao claustro -d’onde se escapára,—Catalina -Erazo, nasceu em Hespanha, mas -educou-se e praticou no Mexico as -suas façanhas lendarias. Accordes<span class="pagenum"><a id="Page_149"></a>[149]</span> -os historiadores em testemunharem -a benefica influencia femenina nos -fastos nacionaes. O general Prim -casou-se com uma mexicana. Bazaine -igualmente. Condemnado e -envilecido pelos seus compatriotas, -que o acoimavam de traidor, o infeliz -defensor de Metz só encontrou -allivio ao seu infortunio na dedicação -inalteravel da valente esposa, -graças á qual evadio-se da fortaleza -de Sainte Marguerite, em Cannes, -onde jazia encarcerado. O amor -das mexicanas não o destróem o -tempo e o espaço. Se confiam a -alguem o coração, não o reclamam -mais nunca. Demore-se em minha -terra, dom brazileiro. Conhecerá -ali as manifestações mais grandiosas -da natureza, os volcões. Um -d’elles, o Popocatepetl, arroja-se, -cingido de neve, a uma excelsitude -de cerca de seis mil metros. A<span class="pagenum"><a id="Page_150"></a>[150]</span> -erupção de outro, o Orizaba, durou -vinte annos. De um terreno perfeitamente -plano levantou-se terceiro, -o Jorullo, no correr de uma só noite -a mil e duzentos metros de altura, -cercado de duas mil boccas que expellem -fumo! N’uma só noite, ouça -bem, ergueu-se n’uma planicie lisa -esse formidavel volcão. Curiosissimo, -não acha?! E ha sentimentos -que brotam de analoga maneira em -corações virgens... Oh! não siga -para diante amanhã, dom brazileiro. -Não parta, meu amigo. Que lhe -custa sacrificar alguns dias? No -Mexico descobrirá largos materiaes -para seus estudos, dilatará os seus -conhecimentos, retemperará a sua -experiencia, enriquecerá su’alma de -novas affeicções. E será abençoado, -querido, feliz... <i>Pordioseros</i> -chamam-se em nossas cidades os -mendigos, porque supplicam esmola,<span class="pagenum"><a id="Page_151"></a>[151]</span> -<i>por Dios</i>,—em nome de Deus. Considere -em mim uma inditosa <i>pordiosera</i>, -digna de dó e de todos -repellida. Por piedade não parta -amanhã; não me abandone; ampare-me, -salve-me, soccorra-me, perdoe-me,—que -eu não sei mais o que -digo, nem o que sinto, nem o que vai -ser de mim...</p> - -<p>E poz-se a soluçar, a face occulta -nas mãos.</p> - -<p>Quedei acabrunhado diante de -explosão tão inesperada. Não me -occorria uma só palavra em resposta. -Que significava aquillo? -Algum accesso hysterico?...</p> - -<p>Simplesmente absurdo o que -ella me propunha. Como interromper -a minha viagem, esquecer a familia, -descer e deter-me n’um obscuro -porto, alheio do meu itinerario, -em zona diametralmente opposta á -do Brazil, e isso unicamente para<span class="pagenum"><a id="Page_152"></a>[152]</span> -satisfazer o subitaneo capricho de -uma quasi desconhecida, sobre cuja -reputação tantas ambiguidades pairavam?!</p> - -<p>Se eu a attendesse, quantas -complicações e contrariedades não -poderiam derivar d’esse passo irreflectido?!...</p> - -<p>Decorreram alguns minutos penosissimos. -Lupe sempre a soluçar.</p> - -<p>Mas, vendo que eu nada dizia, -levantou-se altiva, passando dedos -convulsos pela fronte, como quem -expelle incommoda visão.</p> - -<p>E deixou-me só, em face do -eterno mysterio do firmamento e do -mar.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_153"></a>[153]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header11.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="O_berco_de_Lupe">O berço de Lupe<br /> -XI</h2> - -</div> - -<p>Acapulco. Semi-circular a bahia, -alastrada de ilhotas de pedra. -Casas abarracadas de modesta apparencia -bordam as praias razas. -Morros graniticos, em amphitheatro, -no fundo, erriçados de mesquinha -vegetação.</p> - -<p>Estreitos navios de cabotagem -ancorados aqui e ali. Calor abafadiço.<span class="pagenum"><a id="Page_154"></a>[154]</span> -Silencio de inactividade e de -tedio embebendo o ambiente. Ar de -pobreza e de atrazo nas canôas que -se acercam do <i>Colima</i>.</p> - -<p>N’um dos rochedos que emergem -das agoas, no centro da enseada -e em face da povoação, acocoram-se -alguns homens, totalmente nús. Escondem -o rosto, quando passa por -perto d’elles uma canôa; e a gente -d’esta prorompe então em assobios -e surriadas.</p> - -<p>São vagabundos e ebrios da -cidade,—soubemol-o logo,—que a -autoridade local condemna áquelle -original castigo: permanecerem despidos, -durante horas, no pelourinho -oceanico, expostos á irrisão dos bateleiros. -Ai do que tentasse fugir, -nadando! Pagaria carissimo a sua -rebeldia contra o systhema penal -acapulcano.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_155"></a>[155]</span></p> - -<p>Entraramos ao amanhecer e esperavamos -a visita aduaneira e -a hygienica para ir á terra.</p> - -<p>Muito pallida Lupe, mas affectando -jovialidade. Ennumerava, -com abundancia de gestos, aos circumstantes -os edificios de Acapulco.</p> - -<p>—Eis acolá a cathedral, mais -adiante o mercado, e, do lado opposto, -o castello de San Diego, celebre -na quadra colonial.</p> - -<p>Percebia-se que a insignificancia -do seu torrão natal a humilhava um -pouco.</p> - -<p>A sua reduzida bagagem amontoava-se, -prompta para o transporte, -junto ao portaló. Ella e a -mãi promptas tambem:—enluvadas, -de chapéu. Causou-me pena observar -que uma das luvas da moça estava -rasgada e gasta nas pontas dos -dedos; e a faceira procurava attentamente -dissimulal-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_156"></a>[156]</span></p> - -<p>Mas largo escaler se approxima, -arvorando o pavilhão mexicano:— -verde, contendo poderosa aguia de -azas espalmadas que segura no bico -uma serpente.</p> - -<p>—É da alfandega,—murmura-se.</p> - -<p>De pé, na prôa da embarcação, -alguem faz acenos animados para o -<i>Colima</i>.</p> - -<p>Mrs. Hedges e a filha parecem -reconhecer o autor de taes acenos.</p> - -<p>Mal o escaler atracou, um individuo -sóbe os degráos ás carreiras -e se precipita, aos abraços e beijos, -sobre as mexicanas.</p> - -<p>Era o irmão de Mrs. Hedges, o -tio de Lupe, para a casa de quem -ellas iam. Simples guarda-fiscal, ou -cousa que o valha,—o sustentaculo -unico das recem-vindas.</p> - -<p>Mas que grotesco typo o sujeito! -Genuino caboclo, compridas<span class="pagenum"><a id="Page_157"></a>[157]</span> -guedelhas duras, pellos asperos esparsos -pela face icterica, bocca descomedida, -fortificada de dentes negros, -confinando com superabundantes -orelhas. Traja calças brancas -aniladas e tão empastadas de gomma -que sussurram quando elle se mexe, -camisa frondosa de fólhos, gravata -de retroz roxo fluctuante e uma ensebadissima -fardeta, viuva da mór -parte dos botões amarellos, deixando -a descoberto as nadegas, onde a -roupa se lhe enfuna em balão. Cobre-o -no cocuruto do craneo diminuto -bonet, emulo da jaqueta em -oleosidades.</p> - -<p>Via-se que o homem, em honra -ás parentas, se esmerara na <i>toilette</i>.</p> - -<p>O que, porém, enleia a attenção -desde logo na sua figura é uma espada -recurva e ferrugenta, que elle -traz pendente da cintura.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_158"></a>[158]</span></p> - -<p>Contrasta de modo a arma esdruxula -com a vestimenta do cavalheiro -que ninguem o olha sem vontade -de rir.</p> - -<p>E elle masca fumo, Santo Deus! -N’um minuto, o soalho brunido do -convez mosqueia-se de escarros escuros -e fetidos, que o commissario -de bordo manda limpar com ostentosa -repugnancia.</p> - -<p>E Lupe, tão elegante, tão habituada -aos refinamentos do luxo, tão -afeita á intimidade de todas as selecções, -tão educada e satyrica, vai -sahir com aquillo, morar com aquillo! -Coitada!</p> - -<p>D. Maria Augusta Gordó de -Zorraquinos ri-se á socapa, contente -e vingada. Miss Jackson examina o -funccionario mexicano como uma -raridade zoologica.</p> - -<p>O engenheiro hollandez, Herr -Pfeiffer, traça-lhe disfarçadamente<span class="pagenum"><a id="Page_159"></a>[159]</span> -a lapis a caricatura no livro de -notas. O judeu, os mais passageiros -e os officiaes trocam a meia voz ponderações -chistosas.</p> - -<p>Lupe, todavia, não trahe constrangimento. -Com ares de altivo -desafio, apresenta-o aos assistentes:</p> - -<p>—Meu tio, a cuja bondade devemos -o não ficar ao desamparo.</p> - -<p>Elle aperta as mãos rudemente, -resmungando palavras inintelligiveis -e rindo muito.</p> - -<p>São horas de partir. Lupe e a -mãi comprimentam, proferindo trivialidades -agradecidas sobre a boa -companhia que encontraram na -viagem.</p> - -<p>A moça estende-me frouxamente -os dedos, sem me encarar.</p> - -<p>Descem a escada. O tio pega -nas malas e as suspende aos hombros, -como um carregador. Mas a -espada o embaraça. Enfia-se-lhe,<span class="pagenum"><a id="Page_160"></a>[160]</span> -por entre as pernas, ameaçando derribal-o.</p> - -<p>Eil-o que pára, desafivéla o cinturão, -mette o chanfalho debaixo do -braço e acompanha as damas, vergado -ao peso dos volumes, deixando -após si um rasto de cuspo.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_161"></a>[161]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header12.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="O_adeus">O adeus<br /> -XII</h2> - -</div> - -<p>A despedida indifferente de -Lupe premia-me o coração. Agitava-me -imperiosa necessidade de a ver -ainda, de lhe dizer algumas palavras -amistosas no momento de nos separarmos -seguramente para sempre.</p> - -<p>O <i>Colima</i> só levantaria ferro á -tardinha. Todos os passageiros desembarcaram.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_162"></a>[162]</span></p> - -<p>Ninguem que viaje resiste ao -prazer de pisar terra firme, beber -agua fresca e variar de comida, após -demorada travessia maritima.</p> - -<p>Assás mofino Acapulcho! Ruas -irregulares, desprovidas de calçamento, -atulhadas de areia quente -que tolhe e molesta os pés; raros -transeuntes, caboclos na maioria; -escassos recursos; predios somnolentos; -atmosphera carregada de -mórnas exhalações humidas; logarejo, -em summa, antipathico e retrogrado, -onde a gente sente-se indisposta -e anciosa de se ir embora com -maxima presteza.</p> - -<p>Eu gyrava a esmo, em busca da -moradia de Lupe. Ignorando o nome -do tio, não me era facil descobril-a.</p> - -<p>—Ah! já sei,—respondeu-me -afinal um taverneiro. É a casa onde -chegaram hoje duas fidalgas dos<span class="pagenum"><a id="Page_163"></a>[163]</span> -Estados Unidos. Espere que lhe vou -mostrar o caminho.</p> - -<p>Levou-me a acanhada rua de -bairro remoto. Em face de uma vivenda -baixa, caiada de amarello, -agrupavam-se garotos, olhando -curiosos para o interior. Occorria -dentro alguma novidade.</p> - -<p>—É alli,—ensinou o guia, -apontando.</p> - -<p>Agradeci e acerquei-me da porta -designada.</p> - -<p>Lupe e a mãi,—eis a novidade -que desafiava o interesse dos ociosos. -A moça falava, na sala que abria -para a rua, a varias mulheres, entre -as quaes algumas, como as pretas -minas da Bahia, o collo e os braços -nús, vestidas de simples camisas de -renda decotadas e saias de babados, -com muita roda.</p> - -<p>Quando deu commigo, fez um -movimento de quem se quer esconder.<span class="pagenum"><a id="Page_164"></a>[164]</span> -Á minha entrada, esgueiraram-se -as outras para um commodo contiguo, -d’onde se puzeram a me espiar.</p> - -<p>—Vim dizer-lhe adeus, Lupe. -Partiria cheio de remorsos se o praticasse -sem a saudar.</p> - -<p>—Mil graças. Agradeço-lhe -tambem, ainda uma vez, as delicadezas -que me dispensou no <i>Colima</i>. -As nossas conversações, dom brazileiro, -foram os unicos momentos -agradaveis da minha vida nos ultimos -tempos.</p> - -<p>E calou-se, baixando os olhos. -Quão mudada em poucas horas! Esvahira-se-lhe, -por encanto, a buliçosa -expressão habitual. Intenso desconforto -desbordava-se do seu todo.</p> - -<p>Circumvaguei a vista pelo aposento; -moveis estragados e insufficientes, -aceio problematico, signaes -manifestos de descuido ou -penuria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_165"></a>[165]</span></p> - -<p>Enxergava-se o pateo central -descoberto, peculiar ás habitações -hespanholas. Alguem tocava a -bomba do poço existente no meio -d’este pateo; e esse alguem, a que -eu lobrigava as costas, afigurou-se-me -o guarda fiscal, tio de Lupe.</p> - -<p>—Quaes seus projectos aqui?... -indaguei, após alguns minutos de -silencio.</p> - -<p>—Viver, como Deus fôr servido. -Não tenciono ser pesada a meu tio, -que generoso nos acolhe. Sei coser; -toco piano; entendo de modas; -trabalharei. E ha outra solução, -accrescentou com indizivel melancholia.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—Estou desacclimada... O vomito -negro, febre amarella do Brazil, -grassa em Acapulco endemicamente, -não poupando os recem-chegados...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_166"></a>[166]</span></p> - -<p>—Por quem é, Lupe, não alimente -pensamentos funebres. Julgava-a -mais valente. Deixe-se de semelhantes -romantismos. Está moça, -robusta, bella. Quem sabe o esplendoroso -futuro que ainda lhe reserva -a Providencia? Casará certamente -com algum rapagão de bom gosto -que a comprehenda e aprecie. Rever-se-ha -na linda próle. Será feliz...</p> - -<p>—Não!—interrompeu ella energicamente. -Eu só desposaria aquelle -a quem o meu coração pertencesse... -E o meu coração... o meu coração... -não pertencerá a ninguem.</p> - -<p>N’isto, o tocador de bomba, terminada -a tarefa, encaminhou-se para -a nossa sala. Era, effectivamente, o -dono da casa.</p> - -<p>Tirara a fardeta e arregaçara -as mangas da camisa, em cujos -folhos abatidos nodoas côr de vinho -transpareciam. Mas reatara á cinta<span class="pagenum"><a id="Page_167"></a>[167]</span> -a espada, que se arrastava tlintando -medonha no assoalho.</p> - -<p>Mal me viu, arremessou-se-me -aos braços, n’um terno arrebatamento -intempestivo.</p> - -<p>Chamou-me effusivamente—illustre -amigo—e convidou-me acto -continuo a tomar <i>pulque</i> (a bebida -popular mexicana, feita de uma -planta denominada <i>pulquero</i> e embriagadora, -como o alcool), á saude -da irman e da sobrinha. A vinda das -duas, asseverava, voz em grita, -cumulava-o de regosijo.</p> - -<p>E berrou para trazerem o licôr -offerecido:</p> - -<p>—Ó Pancha... Ó Dolores... -Ó alguem... Ó inferno!...</p> - -<p>Como não acudissem, commentou -furibundo:</p> - -<p>—Caramba! Com oitocentos -mil milhões de demonios!... Cambada -de surdos!... Canalha!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_168"></a>[168]</span></p> - -<p>Lá se foi elle proprio, praguejando, -buscar o <i>pulque</i>. A durindana -batia ás tontas nas cadeiras e -portas.</p> - -<p>Provei o liquido espesso que me -apresentou n’um copo de barro. Desagradaveis -o cheiro e o sabor, lembrando -os de queijo velho. Quanto -a elle, empinou consecutivamente -duas vezes o vaso transbordante, estalando -a lingua. E queria á força -que Lupe o acompanhasse. Confirmavam-se-me -desconfianças:—o -homem embebedava-se.</p> - -<p>Conheci que a minha assistencia -áquella scena affligia sobremaneira a -moça, que permanecia immovel, de -pé.</p> - -<p>—Adeus, <i>senorita</i>. É tempo -de tornar para bordo.</p> - -<p>A mexicana estendeu-me ambas -as mãos, apertando as minhas com -ardor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_169"></a>[169]</span></p> - -<p>—Adeus, dom brazileiro. Chegando -ao Brazil, escreva-me. Mande-me -o seu endereço, bem como -vistas e livros de seu paiz. Promette?</p> - -<p>—Prometto.</p> - -<p>—Adeus,—repetio (e os seus -dedos tremiam, entrelaçados nos -meus), adeus. Se não nos encontrarmos -mais n’esta vida, o que é provavel, -até á outra, segundo a predicção -de Miss Jackson...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_170"></a>[170]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_171"></a>[171]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header13.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Chfftpmnth">Chfftpmnth!...<br /> -XIII</h2> - -</div> - -<p>Sem Lupe, o <i>Colima</i> parecia -deserto. Os primeiros dias, depois -de Acapulco, vivi-os inquieto e -saudoso, achando insipidissima a -existencia de bordo e impreenchivel -o abysmo do tempo.</p> - -<p>Fôra-se a alegria, a alma, o encanto -do navio, que lugubre boiava -sobre o pelago do aborrecimento.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_172"></a>[172]</span></p> - -<p>Urgia-me chegar.</p> - -<p>Os companheiros mettiam á -bulha a minha displicencia. D. Maria -Augusta Gordó de Zorraquinos, que, -em seguida á aventura do commissario, -eu evitava quanto possivel, -carpia com simulados suspiros:</p> - -<p>—Inconsolavel viuvo! Mas queixe-se -de si proprio. Porque não seguio -os meus conselhos maternaes? -Porque não a trouxe comsigo?...</p> - -<p>—Oh! senhora!...</p> - -<p>—De que se espanta, casto -José?... Se houvesse proposto á -delambida que o acompanhasse, ella, -mãi, tio, todos beijar-lhe-hiam os -pés. Por essa solução andava ella -morta. Não sei como não representou, -para movel-o a isso, alguma -scena dramatica, de alto pathetico, -nas quaes é mestra...</p> - -<p>—E depois?... e as consequencias...</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_173"></a>[173]</span></p> - -<p>—Qual depois, qual nada... -Quando se sentisse farto, o senhor a -largaria em qualquer porto,—no -Panamá, por exemplo, onde, com os -trabalhos da empreza, róla o ouro e -ajuntou-se gente de todas as castas -e de todos os paladares. Proseguiria, -isto feito, tranquillamente na sua -viagem. Asseguro que ella não morreria -de fome nem de frio, e, no final -da historia, havia de lhe ser grata...</p> - -<p>—Não se exprima assim, D. -Maria Augusta. Olhe que commette -cruel injustiça. Lupe é uma infeliz -rapariga, leviana, concordo, porém -honesta.</p> - -<p>—Não ha peior cégo do que -aquelle que não quer ver,—atalhou -rindo a hespanhola. Pois guarde a -convicção da honestidade d’ella, e -que lhe faça bom proveito...</p> - -<p>Amofinavam-me estes dicterios, -tanto mais quanto não me occorriam<span class="pagenum"><a id="Page_174"></a>[174]</span> -argumentos para os refutar. Resolvi -deixal-os passar desattendidamente.</p> - -<p>Miss Jackson me emprestara -livros budhistas,—para me suavisar -a dôr ao influxo da mais elevada philosophia -concebida,—ponderara gravemente -ao entregar-m’os.</p> - -<p>Engolphei-me na leitura da -legenda de Sakya-Muni, o iniciador -da religião da vontade, justiça e affinidade. -Divertio-me o estudo dos -Upadhis, do Kama-Loka, dos Skandhas, -do caminho de Bodhi e do -Nirvana.</p> - -<p>A imagem de Lupe se esvaeceu -rapida de meu espirito, onde reconheci -que deixara apenas superficial -impressão.</p> - -<p>Contribuio tambem efficazmente -para distrahir-me Herr Pfeiffer, o -engenheiro hollandez.</p> - -<p>Occupado com a mexicana, eu -desdenhara a companhia d’esse varão<span class="pagenum"><a id="Page_175"></a>[175]</span> -conspicuo,—calmo, retrahido, intelligentissimo -e possuidor de solido -saber.</p> - -<p>Após Acapulco, tornei-me seu -camarada e pude apreciar a sua cerebração -equilibrada, o seu bom -senso nitido e seguro, os seus conhecimentos -positivos, em contraste -com as imaginações transcendentes -de Miss Jackson.</p> - -<p>Era pessôa de 40 annos, barba -e cabellos ruivos, oculos, um curto -cachimbo inamovivel do canto da -bocca.</p> - -<p>Casado, deixara a esposa e cinco -filhos em Rotterdam.</p> - -<p>Não ligava inteira fé ao successo -do emprehendimento de Lesseps, -opinando que o canal entre o Pacifico -e o Atlantico devia ser perfurado -mais ao norte, em Tehuantepec. Mas -no Panamá, concluia, ha immenso a -ganhar e a aprender.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_176"></a>[176]</span></p> - -<p>Um dia, não me lembra por que -desvio, versou a nossa palestra sobre -Lupe.</p> - -<p>—Pobre louquinha!—disse -Herr Pfeiffer.</p> - -<p>—Qual o seu juizo a respeito -d’ella?—inquiri.</p> - -<p>—Physicamente considerando, -superlativo.</p> - -<p>—E o moral?</p> - -<p>—Oh! não formúlo quanto ao -moral juizo algum, por falta de -dados sufficientes. Incompletos os -materiaes de apreciação. Os modos, -indubitavelmente, revelavam, -uma <i>evaporada</i> ou <i>fanada</i>, conforme -expressão dos Estados Unidos. -<i>A fast girl.</i> Mas nem sempre -a forma coincide precisamente com -a realidade intrinseca. Ninguem, -como o senhor, póde fornecer esclarecimentos -sobre aquelle gentil producto -hybrido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_177"></a>[177]</span></p> - -<p>Dá-se ali o cruzamento de uma -descendente de aztéca com um -<i>yankee</i>, aventureiro da California. -Miss Hedges se lhe offerecia da -maneira a mais clara, escandalosa, -se me toléra o termo. Era mais -que o <i>flirt</i>, o namoro americano, o -qual comporta tamanhas concessões, -era...</p> - -<p>—Perdão,—contravim. Entre -mim e a <i>senorita</i> Lupe reinou sempre -a mais completa correcção.</p> - -<p>—Que significa para o senhor -correcção, relativamente a uma mulher?! -Póde-se ser correcto com -ellas de differentes e oppostos modos.</p> - -<p>—Jamais olvidei de tributar a -Miss Hedges o respeito e as deferencias -que mereceria a qualquer cavalheiro -uma menina, recentemente -orphan, desprotegida, que viaja -sósinha com sua mãi.</p> - -<p>—Devéras?! interrogou fleugmatico<span class="pagenum"><a id="Page_178"></a>[178]</span> -o hollandez, expellindo uma -baforada de fumo pelo cachimbo e -me olhando por cima dos óculos.—Devéras?! -Ande lá... Nem um -beijo?!...</p> - -<p>—Nem um beijo palavra de -honra...</p> - -<p>—Basta... acredito... Pois, -meu caro, juraria o contrario. Ha, -n’um dialecto de minha terra, intraduzivel -vocabulo que define a pessôa -a quem fallece o instincto das occasiões. -Toleirão, inexperto, imbecil, -não possuem o mesmo sentido. -A cousa é especial. Imagine um -homem intelligente e habil, mas que -não sabe aproveitar as emergencias -preciosas que a bôa fortuna lhe -depara, por descuido, incomprehensão -ou paralysia da iniciativa nos -momentos psychologicos. Permitta -que amistosamente eu applique tal -palavra ao seu caso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_179"></a>[179]</span></p> - -<p>E Herr Pfeiffer resmungou um -agglomerado barbaro de consoantes, -que soou aos meus ouvidos pouco -mais ou menos assim:</p> - -<p>—<i>Chfftpmnth!</i>...</p> - -<p>Suffocou-me a indignação, como -se houvéra sido insultado, na impossibilidade -de me desforçar.</p> - -<p>—<i>Chfftpmnth</i> é elle!—vieram-me -ganas frementes de redarguir.</p> - -<p>Mas assistiria a razão a Mister -Randolpho, a D. Maria Augusta, ao -hollandez nos severos julgamentos -sobre Lupe? Teria eu sido méro -acatador ridiculo de deteriorada candura? -Estaria áquella hora a mexicana -a motejar da minha ingenua -simpleza, attribuindo-me injustissimamente -os timidos escrupulos a incompetencias -de varonilidade?!</p> - -<p>E me acudiam aos amargados -labios centenares de milhões de <i>carambas</i>, -a par de outras interjeições<span class="pagenum"><a id="Page_180"></a>[180]</span> -do idioma de Cervantes, ainda mais -fogosas e apropriadas á hypothese, -posto menos confessaveis.</p> - -<p>Pungia-me a exprobração intima -com que nos penitenciamos de certas -hesitações infaustas,—o secreto arrependimento -(quem nunca o sentio?) -de não haver praticado opportunamente -uma deleitavel asneira...</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_181"></a>[181]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header14.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Omnia_vanitas">Omnia vanitas!<br /> -XIV</h2> - -</div> - -<p>Succedem-se depressa agora os -portos da America Central. S. Benito -foi o ultimo do sul do -Mexico.</p> - -<p>Ancoramos seguidamente em -Champerico e S. José, na republica -de Guatemala, avistando os vulcões -d’Agoa e do Fogo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_182"></a>[182]</span></p> - -<p>Detivemo-nos depois em Acajutla, -republica de S. Salvador, e em -Amapala, Honduras.</p> - -<p>Como o <i>Colima</i> se demorasse no -primeiro, a tomar carvão e carregamento -de café, internamo-nos, Herr -Pfeiffer e eu, n’uma diminuta estrada -de ferro, até á villa de Sonzonato, -proxima ao vulcão Isalco, em constante -erupção. Não cessam os trovões -subterraneos d’essa cratéra; e, -do mar, á noite, o seu pennacho de -flammas imita gigantesco pharól.</p> - -<p>Paramos ainda em obscuras -enseadas de Nicaragua; atravessamos -a bahia de Dulce; arribamos -em Punta-Arenas, no golpho Nicoya, -pittoresca localidade no littoral da -Republica de Costa Rica; e, finalmente, -mais de um mez após a partida -de S. Francisco, chegamos ao Panamá, -então em plena effervescencia -das obras do canal. Esperei ahi oito<span class="pagenum"><a id="Page_183"></a>[183]</span> -dias novo paquete que me conduzisse -ao Perú.</p> - -<p>As diversões originadas da visita -a cada um dos referidos portos, -do facto de sahirem companheiros e -entrarem outros, dos mil episodios -consequentes a longa navegação, -alliadas á natural acção do tempo, -foram insensivelmente delindo de -minha memoria a imagem de Lupe.</p> - -<p>Ao tomar passagem no <i>Santa -Rosa</i>, da <i>Pacific Steam Navigation -Company</i>, para Calláo, já não me -restava d’ella sinão esbatida lembrança.</p> - -<p>O encontro fortuito com a mexicana -produzira móssa mediocre em -meu animo.</p> - -<p>A sua recordação baixaria em -breve á valla commum dos incidentes -triviaes, ephemeramente doirados.</p> - -<p>No <i>Santa Rosa</i>, travei conhecimento -com D. Nicolás Pierola, exchefe<span class="pagenum"><a id="Page_184"></a>[184]</span> -supremo do Perú. Interessou-me -vivamente o convivio do celebre -caudilho.</p> - -<p>O desembarque em Esmeralda, -Manta e Guayaquil, no Equador; em -Payta, Eten, Pacasmayo, Salaverry, -Calláo, Tambos de Móra, Pisco, -Challa, Mollendo, no antigo imperio -dos Incas; em Arica, Pisagua, Iquique, -Tocopilla, Cobija, Antofagasta, -os tres primeiros então tambem pertencentes -ao Perú e os restantes á -Bolivia, hoje todos do Chile; em -Caldera, Coquimbo e Valparaiso, no -dito Chile; a excursão a Lima;—sitios -curiosos, sem excepção e repletos -de vestigios da guerra recemfinda -entre os tres estados andinos -em ultimo lugar acima designados, o -desembarque n’aquelles pontos, digo, -e o estudo das respectivas condições -materiaes e moraes, não me propiciavam -ensejo para avivar reminiscencias,<span class="pagenum"><a id="Page_185"></a>[185]</span> -solicitada ininterruptamente -a attenção por novos objectivos.</p> - -<p>Sobre Lupe adensavam-se as -sombras do olvido.</p> - -<p>Em Calláo, eu me passara do -<i>Santa Rosa</i> para outro paquete, o -<i>Mendoza</i>, e em Valparaiso para o -transatlantico <i>Araucania</i>, propriedade -os tres da mesma companhia -ingleza que monopolisa o trafego -maritimo nas costas sul americanas -do Pacifico, dividido o serviço, mui -regularmente executado, em secções, -a cada uma das quaes inhere esquadrilha -especial de vapores de variadas -formas e dimensões. Os passageiros -costumam traduzir injustamente -P. S. N. C., abreviação de -<i>Pacific Steam Navigation Company</i>, -iniciaes escriptas em cada -canto a bordo, por <i>Picaro sin ninguna -consideracion</i>.</p> - -<p>O <i>Araucania</i> transportou-me<span class="pagenum"><a id="Page_186"></a>[186]</span> -ao Rio de Janeiro, tocando em Talcahuano, -Coronel, Lota, Punta-Arenas -da Patagonia, a cidade mais -austral do globo, e Montevidéo, -havendo atravessado o estreito de -Magalhães.</p> - -<p>Semelha esse estreito,—em cuja -entrada pelo Pacifico, o cabo Pilar, -reinam sempre borrascas tremendas,—ora -um rio calmo e largo, de planas -margens arenosas, ora apertado -desfiladeiro entre arrojadas montanhas -aureoladas de neve, ora extranho -labyrintho aquatico, formado -por innumeros canaes, sombrios, -finos e caprichosos.</p> - -<p>Os selvagens fueguinos abordam -ahi os navios que passam, implorando -em côro:—<i>galleta, tabaco!</i>... -(pão, fumo) e mendigam roupas de -inverno, por meio de uma pantomima -de tremores exagerados, bradando: -<i>mucho frio! mucho frio!</i></p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_187"></a>[187]</span></p> - -<p>No mais, vendem pelles de guanaco -e flexas com pontas feitas de -vidros de garrafas. Possuem extraordinaria -aptidão para repetir, com -o sotaque proprio, nitidamente, qualquer -phrase de idioma estrangeiro, -articulada uma só vez diante delles.</p> - -<p>Darwin, (narra Luiz Bastide) -que presenciou o encontro de um -fueguino com a respectiva mãi, -depois de longa separação, declara -que as demonstrações sympathicas -de ambos revelaram-se menos affectuosas -que as de um cavallo achando -um velho companheiro.</p> - -<p>Dentro de poucos mezes fôra-me -dado contemplar estes miseraveis -fueguinos, infima expressão da humildade -humana, verberados do -berço ao tumulo por inclemencias -terriveis, e os americanos do norte, -prototypo da civilisação contemporanea, -rodeados de maximo conforto<span class="pagenum"><a id="Page_188"></a>[188]</span> -e de todos os requintes do progresso -industrial; vira um povo -vencido, aniquilado, o seu territorio -invadido, no derradeiro gráo de -abatimento,—o peruano,—e outro -povo, victorioso, altaneiro,—o chileno,—transbordante -de confiança em -si e no futuro, no apogeu da gloria -militar; comparara o atrazo material -de Nicaragua e Honduras com os -machinismos hetorogeneos da empreza -do Panamá, instrumentos -aperfeiçoadissimos postos pela -sciencia a serviço de commettimentos -titanicos; sentira as exhalações -de fogo do clima equatorial e as -lufadas, glacialmente cortantes, da -Patagonia; gosara das suavidades -do oceano transformado em lago e -padecera os rigores do mesmo oceano -convulsionado pela tormenta; -arremessara os olhos ás culminancias -excelsas dos Andes e alongara<span class="pagenum"><a id="Page_189"></a>[189]</span> -a vista pelas razas e infindaveis -pampas do Uruguay; enlevara-me -ante a soberba quéda d’agoa do -Niagára e confrangera-me perante -a nudez esteril do deserto de Atacama, -onde nunca chove; conhecera -isthmos, canaes, golphos, vulcões, -ilhas, rios, florestas, cataractas, o -Amazonas, o Mississipi, o estuario -do Prata, o Cotopaxi, o Chimborazo, -o Farwest,—metropoles opulentas -e ermos inhopitos; divisara baleias, -vicunhas, bufalos, alpacas; praticara -com budhistas, mormons, fetichistas, -atheus, selvagens e chefes -de estado; hombreiara com indigenas -repulsivos e os archi-milionarios reis -da bolsa de Nova York e Chicago; -topara representantes de todas as -raças, faunas e floras; observara o -mais ferrenho despotismo, a caudilhagem, -a anarchia, as terras dos -<i>pronunciamentos</i> e a suprema expansão<span class="pagenum"><a id="Page_190"></a>[190]</span> -das liberdades, a ordem, o -funccionamento regular de nobilissimas -instituições; percorrera, em -summa, enorme extensão do planeta, -scismando ao clarão de constellações -infinitas...</p> - -<p>Qual o resultado?!</p> - -<p>Insondavel tristeza, por fim:—o -homem sempre igual no fundo em -toda parte, identicas paixões o agitando, -desgraças equivalentes o deprimindo, -a mesma fatalidade o subjugando, -o mysterio inflexivel das -cousas, dos seres, do porvir envolvendo -tudo na proteiforme miseria -universal!</p> - -<p>Foi, em ultima analyse, de allivio -a sensação que experimentei ao repisar -o sólo brazileiro.</p> - -<p>Bemdictas sejais—familia, patria, -fé,—unicas ancoras de ouro -para o pégo voraginosos do destino!</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_191"></a>[191]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header15.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Teria_razao_Miss_Jackson">Teria razão Miss Jackson?!<br /> -XV</h2> - -</div> - -<p>Decorreram annos. A Providencia -me beneficiara deparando-me -excellente esposa e o mais tranquillo -dos lares.</p> - -<p>Eu disfructava a felicidade possivel -na terra, ao lado da companheira -dillecta e um par de anjos -em que a nossa união prolificara.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_192"></a>[192]</span></p> - -<p>Espessas camadas de acontecimentos -se amontoavam sobre a lembrança -das antigas viagens.</p> - -<p>A vastos intervallos, a imagem -de Lupe, tremeluzia-me, vagalume -indeciso, nas trevas da memoria. Se -inopinadamente eu encontrasse Miss -Hedges na rua, custaria talvez a reconhecel-a.</p> - -<p>Uma formosa manhã, ia eu prosaicamente -n’um bonde para meu escriptorio. -Sentia-me bem disposto, -sadio, alegre, nas mais propicias condições -corporeas e intellectuaes para -trabalhar.</p> - -<p>Percorria distrahido os jornaes -do dia emquanto o vehiculo caminhava.</p> - -<p>Recordo-me bem de que massudo -editorial, recheiado de cifras e de -citações, demonstrativo por a+b de-que -o paiz se achava ás borda do classico -abysmo, produziu-me saudades<span class="pagenum"><a id="Page_193"></a>[193]</span> -do leito, escancarando-me as mandibulas -em bocejos escandalosos.</p> - -<p>De repente, sem que circumstancia -alguma o suggerisse, saltou-me, -limpida e vibrante, dos recessos -profundos da reminiscencia, -a visão retrospectiva da excursão -no <i>Colima</i>.</p> - -<p>E Mr. Randolph, Herr Pfeiffer -Miss Jackson, o judeu, Mrs. Hedges, -D. Maria Augusta e Lupe,—Lupe -principalmente,—ressuscitaram na -minha imaginação. Ouvia-lhes a voz, -figurava-me que os tocava, evocava, -com precisão assombrosa, particularidades -minimas das suas pessoas -e vestuarios. Era como se os tivesse -deixado minutos antes e novamente -os devesse logo após encontrar.</p> - -<p>E agudo remorso martellou-me -então a consciencia.</p> - -<p>—Não procedi bem relativamente<span class="pagenum"><a id="Page_194"></a>[194]</span> -á joven mexicana, reflecti. -Prometti escrever-lhe e enviar-lhe -livros e vistas do Brazil, -apenas chegasse; não o fiz. Fôsse -ella o que fôsse, aventureira ou infeliz -menina mal educada, a verdade -é que fugi ao cumprimento de um -compromisso contrahido para com -ella. Que ideia formará Lupe de -mim?... Será occasião ainda de reparar -a falta?... Dei á pobre moça -razão justificada de queixa. Porque?!...</p> - -<p>Afflige singularmente a certas -sensibilidades a convicção de que o -paciente d’ellas causou a alguem -um aggravo, embora se retirasse o -aggravado para muito longe e sobre -o facto volvesse immenso tracto de -tempo.</p> - -<p>Sahira de casa leve e despreoccupado; -entrei no escriptorio -inexplicavelmente nervoso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_195"></a>[195]</span></p> - -<p>Em cima de minha mesa, estendia-se -a correspondencia,—cartas -e revistas, trazidas por um -paquete europeu chegado na vespera.</p> - -<p>Attrahio-me a attenção largo -enveloppe, tarjado de lucto, cheio -de sellos e carimbos de correios exoticos.</p> - -<p>Rasguei-o tremulo e vi quatro -paginas de miúda lettra desconhecida. -Corri á assignatura:—Lupe!</p> - -<p>E occorreram-me as dissertações -de Miss Jackson a respeito do -presentimento. Eu acabava de experimentar -estranho phenomeno telepathico.</p> - -<p>Possuirá realmente a alma humana -aptidões innatas de farejar -em mysteriosos indicios porvindouros -successos?!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_196"></a>[196]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_197"></a>[197]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header16.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Carta_de_Lupe">Carta de Lupe<br /> -XVI</h2> - -</div> - -<p>A missiva datada, mezes havia, -de Acapulco, peregrinara extensamente -antes de vir a mim.</p> - -<p>Eis a traducção do seu teôr:</p> - -<div class="blockquote"> - -<p>“Dom brazileiro, meu sempre -lembrado amigo.</p> - -<p>Não sei se será esforço baldado -o dirigir-lhe eu estas linhas, pois só<span class="pagenum"><a id="Page_198"></a>[198]</span> -de incompletas indicações disponho -a respeito de seu endereço. Mas não -importa que a minha epistola se -perca. Escrevo-a, á semelhança de -quem solta machinalmente um grito -de soccorro, no meio da afflicção, -sem cuidar de que esse grito seja -ouvido, ou se dissolva no ar. Tenho -soffrido muito... muitissimo... Nunca -suppuz que se podesse soffrer assim. -Minha mãi morreu de desgostos. -Meu tio foi fusilado, em seguida -a um <i>pronunciamento</i> que aqui -houve contra a administração. A -familia d’elle dispersou-se; duas -filhas, minhas primas, perderam-se. -Hoje vivo só. Ganho escassamente -o que comer cosendo e ensinando -meninas. As costuras e discipulas -não raro faltam, e atravesso trances -bem duros n’esta triste cidade, de -tão rude gente e tão aspero clima. -Horrivel a quadra do <i>pronunciamento</i>.<span class="pagenum"><a id="Page_199"></a>[199]</span> -Estive presa, como suspeita; -curti fome e máos tratos; -ouvi, meu amigo, injurias atrozes -de soldados ébrios. Aquella Lupe -do <i>Colima</i> sumio-se. Subsiste -apenas um espectro d’ella, velho, -fenecido, acabado, de quem dom -brazileiro sentiria dó, se o visse. -O que me vale é a crença na -santa religião que, mercê de Deus, -me voltou vehementissima. O tempo -que me sobeja do trabalho consagro-o -á Egreja. Rezo de joelhos, -horas e horas, o rozario nas mãos, -jejúo, commungo, confesso-me -quasi todos os dias, para que o -Santissimo se compadeça d’esta -desgraçada alma. Quantas vezes, -meu amigo, me lembro de seu nome -nas minhas ardentes orações! Assaltam-me, -comtudo, de quando em -quando, desfallecimentos crueis, -verdadeiras instigações do inimigo.<span class="pagenum"><a id="Page_200"></a>[200]</span> -Recordo o meu passado de galas -em S. Francisco, o meu luxo, a -minha mocidade sacrificada, os meus -encantos (apregoavam-n’os tanto -outr’ora, que cheguei a acreditar -n’elles), os meus encantos, deixe-me -dizel-o, os meus encantos extinctos, -os meus sonhos ludibriados, o meu -coração innutilizado, o meu caracter -e sentimentos desconhecidos... E -então me revolto, e me desespero, -e quasi enlouqueço de tanto padecer. -Ah! se a sorte me proporcionasse -conselhos e affecto de alguem que -me comprehendesse e guiasse, quão -proveitosa e feliz me correria a existencia, -e com que carinhoso frenesi -eu saberia adorar esse alguem! -Perdoe estas expansões -descabidas e ás quaes não me -assiste direito para com <i>usted</i>. Tomei -a penna, repito, sob a pressão de -uma das taes crises. Aqui ninguem<span class="pagenum"><a id="Page_201"></a>[201]</span> -as entende nem as poderia serenar. -Chamam-me doida. E não o ficarei -na verdade? Como confiar na integridade -da minha razão, tão ferozmente -flagelada?... Vou deitar -esta carta no correio, como o naufrago -atira ás ondas uma garrafa -contendo a noticia garatujada da sua -agonia. Entretanto, uma palavra -sua em resposta, dom brazileiro, -me animaria e consolaria extraordinariamente. -Vinda de tão longe, -far-me-hia o effeito sobrehumano -de voz celestial. Que é dos livros -e vistas do Brazil que me prometteu? -Quem sabe se m’os enviou -e se extraviaram no caminho?! -Acapulco é tão obscuro! Prefiro -esta ultima hypothese, pois me dóe -muito pensar que se tivesse esquecido -de mim. Em todo caso, solicito -nova remessa. Ser-lhe-ia penoso remetter-me -tambem o seu retrato?<span class="pagenum"><a id="Page_202"></a>[202]</span> -Não olvide Lupe, dom brazileiro; -não a olvide, supplico. Não queira -que ella ao descrever o Brazil ás -suas discipulas, depois de enumerar -todas as bellas qualidades dos filhos -d’aquella terra, qualidades de que -póde dar testemunho, exclame pezarosa, -por fim:—mas, desgraçadamente, -caracterisa-os a mais negra -ingratidão! Adeos, dom brazileiro, -meu querido amigo, sempre lembrado -por mim até á eternidade. Jesus -misericordioso o proteja e lhe dê -em felicidades o que em provações -me tem dado a mim. Lembra-se -de Miss Jackson?... Até um dia -n’esta vida, ou em outra. Com -todas as véras de meu ser, me -assigno, chorando, sua humilde servidora -agradecida—<i>Lupe Hedges</i>.</p> - -<p>P. S.—Responda-me; sim?!...”</p></div> - -<p>Respondi immediatamente, mandando<span class="pagenum"><a id="Page_203"></a>[203]</span> -as vistas e os livros pedidos.</p> - -<p>Com sincera commoção, prodigalisei-lhe -expressões de sympathia -e conforto e narrei-lhe a minha -vida desde que nos separaramos.</p> - -<p>Não soube, porém, se a destinataria -recebeu essa resposta e o envolucro -que a acompanhava. Nunca -mais tive a menor noticia de Lupe.</p> - -<p>A principio, aguardava ancioso -os paquetes estrangeiros, buscando -impaciente communicações de Acapulco. -Interessavam-me quaesquer -informações sobre o Mexico e exasperava-me -de que tão raras se publicassem -no Brazil.</p> - -<p>Mas, a pouco e pouco, imperceptivelmente, -a imagem da mexicana -foi regressando á penumbra da -indifferença.</p> - -<p>Empolgou-a, afinal, outra vez, o -sorvedoiro do olvido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_204"></a>[204]</span></p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_205"></a>[205]</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/header17.jpg" width="500" height="80" alt="" /> -</div> - -<h2 class="nobreak" id="Pobre_senorita">Pobre señorita!<br /> -XVII</h2> - -</div> - -<p>Nove annos rolaram. Copia -immensa de factos, arrastou-os o -tempo em sua correnteza irrepressivel.</p> - -<p>Já quasi um decennio depois -da minha excursão aos Estados-Unidos.... -um decennio!—o periodo -da guerra de Troya, o dobro do da -campanha do Paraguay!</p> - -<p><span class="pagenum"><a id="Page_206"></a>[206]</span></p> - -<p>Quão diversas das de então as -preoccupações actuaes! Que largo -montão de sedimentos,—detritos -de jubilos, decepções, projectos, -experiencias, vicissitudes de toda -casta,—me depositou sobre a reminiscencia -d’aquella phase o fluxo constante -da vida!....</p> - -<p>Durante o prazo alludido, haviam-se-me -acrescido a familia e os -encargos; eu emprehendera outras -viagens longinquas; supportara embates -de revolução; curtira amarguras -de exilio.</p> - -<p>E cada dia recúam para limbos -mais indistinctos as scenas da primavera -juvenil.</p> - -<p>Á medida que galgo a montanha, -se relanceio para baixo saudosos -olhos, mais e mais duvidosamente -distinguo os contornos do -sopé, no fundo de um abysmo, povoado<span class="pagenum"><a id="Page_207"></a>[207]</span> -de brumas. É a lei ineluctavel, -e quiçá providencial, do existir.</p> - -<p>Sem embrago ha uma semana, -no curso de trabalhos encetados, -pouco tendentes a divagações imaginarias, -reproduziu-se-me, repentinamente, -o extranho phenomeno -evocativo occorrido por occasião da -carta de Lupe.</p> - -<p>Revi-a, a joven mexicana, pela -segunda vez tão nitidamente como -da primeira, n’uma reflorescencia -magica de recordações.</p> - -<p>Mas circundaram agora a figura -resurgida reverberações tumulares. -Exhalou-se d’ella a emanação melancholica -de algo definitivamente -extincto. Gracioso phantasma, repassou-me -de indizivel fluido sobrenatural.</p> - -<p>Lupe morreu! Uma voz intima -m’o affirma irrecusavelmente. Tenho -tanta certeza do seu fallecimento<span class="pagenum"><a id="Page_208"></a>[208]</span> -como se lhe houvesse cerrado -piedoso os olhos travessos, cruzado -sobre o seu peito as suas mãos fidalgas -e atirado sobre o seu corpo donairoso -a derradeira pá de cal.</p> - -<p>Pobre Lupe, estrella cadente -que debuxou rapida linha de luz -mysteriosa no horizonte da minha -mocidade,—galante esphynge pousada -á beira da minha remota estrada -percorrida!</p> - -<p>Que eras tu? Alma corrompida -ou pura? Corpo maculado, ou de -virgem? Victima apenas de pernicioso -meio? Flôr venenosa do mal?!</p> - -<p>Pude simplesmente apprehender -que foste uma perseguida do destino.</p> - -<p>Deixa-me fixar depressa no papel -os teus traços fugitivos, n’estas paginas -escriptas a correr.</p> - -<p>Amanhã será tarde. Tudo passa, -tudo acaba. Quanto mais as saudades<span class="pagenum"><a id="Page_209"></a>[209]</span> -que inspiras, leviana señorita?!...</p> - -<p>Eil-as, enfeixadas aqui, essas -saudades, fragil tributo de um estrangeiro, -que tenuemente entreviste -e chamavas amigo...</p> - -<p>Coitadas! Boiam á tona do -esquecimento, como petalas de rosa -cahidas de célere batel sobre vagalhões -de alto mar.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">NOTA</h2> - -</div> - -<p>Á <a href="#Page_77">pagina 77</a>, primeira linha, onde se lê—Alexandre -de Gusmão, inventando os areostatos,—leia-se,—<i>Bartholomeu -de Gusmão</i> etc.</p> - -<hr /> - -<div class="chapter"> - -<h2 class="nobreak">INDICE</h2> - -</div> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td><i>Dedicatoria</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Dedicatoria"><i>3</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Frisco</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Frisco"><i>25</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Máo exordio</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Mao_exordio"><i>45</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Spleen</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Spleen"><i>50</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Os passageiros do <span class="upright">Colima</span></i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Os_passageiros_do_Colima"><i>57</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Salve, Brazil!</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Salve_Brazil"><i>67</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Filha e Mãe</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Filha_e_Mai"><i>83</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>A socia do Club Exoterico</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#A_socia_do_club_exoterico"><i>93</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>As joias do judeu</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#As_joias_do_judeu"><i>115</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Uma intrigante</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Uma_intrigante"><i>123</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Noche triste</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Noche_triste"><i>139</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>O berço de Lupe</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#O_berco_de_Lupe"><i>153</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>O adeus</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#O_adeus"><i>161</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Chfftpmnth</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Chfftpmnth"><i>171</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Omnia Vanitas</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Omnia_vanitas"><i>181</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Teria razão Miss Jackson!?</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Teria_razao_Miss_Jackson"><i>191</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Carta de Lupe</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Carta_de_Lupe"><i>197</i></a></td> - </tr> - <tr> - <td><i>Pobre señorita</i></td> - <td class="tdpg"><a href="#Pobre_senorita"><i>205</i></a></td> - </tr> -</table> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of Project Gutenberg's Lupe, by Afonso Celso de Assis Figueiredo - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUPE *** - -***** This file should be named 63606-h.htm or 63606-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/6/0/63606/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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