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-The Project Gutenberg EBook of Romanceiro I, by V. de Almeida Garrett
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org/license
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-
-Title: Romanceiro I
- Romances da Renascença
-
-Author: V. de Almeida Garrett
-
-Release Date: October 12, 2020 [EBook #63438]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROMANCEIRO I ***
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-
-Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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- OBRAS
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- DO
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- V. DE ALMEIDA GARRETT
-
- IV
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- (PRIMEIRO DO ROMANCEIRO)
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- ROMANCEIRO
-
- PELO
- V. DE ALMEIDA GARRETT
-
- I
- ROMANCES DA RENASCENÇA
-
- QUINTA EDIÇÃO
-
- LISBOA
- IMPRENSA NACIONAL
- 1875
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-
-NA TERCEIRA EDIÇÃO
-
-
-Publicamos emfim ésta nova edição da primeira parte do ROMANCEIRO que
-vai muito superior ás antecedentes, tanto pela correcção como pelos
-addicionamentos importantes que leva.
-
-A de Londres de 1828 continha apenas a Adozinda e o Bernal-francez; a de
-Lisboa de 1843 ja lhe accrescentou mais quatro romances; na presente ha
-oito, alêm das novas traducções em várias linguas que n’este intervallo
-se teem publicado pela Europa. Não são todas porém, e ja muitas das mais
-notaveis versões appareceram colligidas no appendice do terceiro volume
-da presente obra publicado em 1851; outras o tinham sido no segundo
-junctamente com os originaes portuguezes primitivos que o nosso auctor
-reconstruíra.
-
-A sua predilecção por éstas reliquias da antiga poesia peninsular tem
-feito com que, desde a infancia até hoje, tenham ellas sempre sido a
-occupação das suas ‘Horas de lazer’—‘_Hours of idleness_’ segundo a
-frisante expressão de Lord Byron; um quasi mialheiro poetico em que por
-intervallos, mas sempre, se vão deitando pequenas quantias até que chegam
-a formar um thesouro. Este é ja um verdadeiro thesouro para os que sabem
-avaliar a riqueza de uma lingua e de uma litteratura.
-
-No meio dos trabalhos mais graves, das contrariedades mais apertadas
-da vida pública, o auctor não se tem esquecido do seu mialheiro, que,
-tornâmos a dizê-lo, para nós é thesouro riquissimo. Se ainda assim o não
-julga Portugal, saiba ao menos que essa é a opinião da Europa.
-
- Julho 8, 1853.
-
- OS EDITORES.
-
-
-
-
-NA SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
-Depois que publiquei em Londres, em 1828, o meu romancinho a
-_Adozinda_ que aqui vai na frente d’este volume, cheguei a ter uma
-bastante collecção d’essas trovas e romances populares, xácaras e
-soláos—designações que, sinceramente confesso, não sei ainda quadrar bem
-nas diversas especies e variedades em que se divide o genero.
-
-Eram uns vinte e tantos havidos pela tradição oral do povo, quasi todos
-colligidos nas circumvizinhanças de Lisboa pela indústria de amigos
-zelosos, e principalmente pelo obsequioso cuidado de uma joven senhora
-minha amiga muito do coração.
-
-Por voltas do anno seguinte, 1829, os tinha eu pela maior parte
-correctos, annotados,—e collacionadas as principaes das infinitas
-variantes que todos trazem, porque cada rhapsodista d’estes que sabe a
-sua xácara, a repette a seu modo, e sempre differente em alguma coisa do
-que outro a diz.
-
-Cresceram logo mais os meus haveres pela contribuição de outro amigo
-tambem muito particular e muito prezado, o Sr. Duarte Lessa, homem de
-raras e prestantes qualidades que amenizava a constante applicação a
-mais graves estudos, cultivando a litteratura e as artes, cujas obras
-appreciava com tacto finissimo e zelava com fervor patriotico, porque
-intendia—e bem o intendia!—que ellas são o espirito, a alma, o _in ipso
-vivimus et sumus_ de uma nação. Tinha elle adquirido em Londres varios
-livros e manuscriptos que haviam sido do célebre portuguez o cavalheiro
-de Oliveira, aquelle que renunciou ao importante cargo de nosso ministro
-na Haya para abraçar a communhão protestante, na qual viveu em Inglaterra
-os ultimos annos da sua vida, quasi unicamente da charidade de seus novos
-correligionarios.
-
-Havia entre esses livros um exemplar da Bibliotheca de Barboza,
-inquadernados os tomos com folhas brancas de permeio, e escriptas éstas,
-assim como as amplas margens do folio impresso, de lettra muito miuda,
-mas muito clara e legivel, com annotações, commentarios, emendas e
-addições aos escriptos do nosso douto e laborioso mas incorrecto abbade.
-
-Via-se por muitas partes que o longo trabalho do Oliveira fôra feito
-depois da publicação das suas _Memorias_, porque a miudo se referia
-a ellas, confirmando e ampliando, corrigindo ou retractando o que lá
-dissera.
-
-Nos artigos _D. Diniz_, _Gil-Vicente_, _Bernardim-Ribeiro_, _Fr. Bernardo
-de Brito_, _Rodrigues-Lobo_, _D. Francisco-Manuel_, e em varios outros
-que vinha a proposito, as notas manuscriptas citavam, e transcreviam como
-illustração, muitas coplas, romances e trovas antigas—e até prophecias,
-como as do Bandarra—fielmente copiadas, asseverava elle, de Mss. antigos
-que tivera em seu poder na Hollanda e em Portugal, franqueados uns por
-judeus portuguezes das familias emigradas, outros havidos das preciosas
-collecções que d’antes se conservavam com tão louvavel cuidado nas
-livrarias e cartorios dos nossos fidalgos.
-
-Foi-me logo confiada a inextimavel descuberta; percorri com avidez
-aquellas notas, examinei-as com escrupulosa attenção, e, extractando
-uma por uma quantas coplas, cantigas e xácaras achei, completas e
-incompletas, accrescentei assim os meus haveres com umas cinquenta e
-tantas peças, d’ellas anonymas e verdadeiramente tradicionaes, d’ellas
-de auctor conhecido e que nas edições de suas obras se incontram,—taes
-como Bernardim-Ribeiro, Gil-Vicente e Rodrigues-Lobo—mas que differiam
-das impressas, consideravelmente ás vezes, muitas até na linguagem da
-composição, poisque algumas alli achei em portuguez, e manifestamente
-antigo e da respectiva epocha, as quaes só andam impressas em castelhano.
-
-Com este auxilio corrigi denovo muitos dos exemplares que ja tinha, e
-completei alguns fragmentos que ja desesperára de podêr vir nunca a
-restaurar. E tomando para modêlo as estimadas collecções de Elis e do
-bispo Percy, e a das fronteiras de Scocia por Sir Walter Scott, comecei
-a dar novo methodo e mais amplos limites á minha compilação que ao
-principio intitulára _Romanceiro-Portuguez_.
-
-O longo e mais serio trabalho que por esse tempo emprehendi no meu
-tractado geral _Da Educação_, cujo primeiro volume se publicou em Londres
-em 1829, me fez relaxar n’aquell’outro: depois os cuidados politicos e
-alguns officiaes, o complemento e impressão de outra obra de mais grave
-assumpto, o _Portugal na Balança da Europa_, que foi impresso no anno
-seguinte, 1830,—talvez alguma inconstancia de auctor, bem desculpavel
-n’aquella tarefa, tam tediosa ás vezes, de collacionar, estudar e
-explicar textos ja viciados da ignorancia do vulgo por cujas bôccas e
-memorias andaram, ja de outra ignorancia mais confiada e mais corruptora
-ainda, a de copistas presumpçosos de lettrados e de castigadores do que
-elles suppoem vício.
-
-Comtudo, e apezar d’aquellas e de outras occupações e distracções, eu
-sempre voltava de vez em quando ao meu _Romanceiro_, e o tinha bastante
-adeantado, quando nos fins de 1831 abandonei tudo o que eram cuidados
-de sciencia ou recreações litterarias para me alistar no exercito da
-Rainha, e imbarcar para os Açores. Em Janeiro de 1832 sahi de París com
-praça de simples soldado, consegui por este modo tomar minha humilde
-parte n’aquella expedição, cujos avisados e cautelosos directores com
-tanto impenho afastavam toda a gente conhecida de verdadeira liberal,
-por todos os modos, por modos que hãode parecer incriveis, e que elles
-hoje negariam a pés junctos, se fosse possivel negar o de que ha tantas
-testimunhas e tantas victimas ainda vivas, tantos documentos que hãode
-durar mais que ellas.
-
-A minha curta estada nas ilhas foi impregada quasi toda nos trabalhos
-de legislação e organização administrativa a que alli se procedeu, e de
-que me encarregou a amizade e confiança de um amigo particular, então
-em grande valimento, ao qual e á dura necessidade de me achar eu unico
-alli que tivesse estudado aquellas materias, teve de ceder forçosamente
-a ciosa malevolencia dos accaparadores que ja na esperança estavam
-devorando as ruinas de Portugal a que almejavam chegar—pelos esforços e
-risco alheio—não porcerto para meditar sôbre ellas como outros Marios—oh
-que Marios!—mas para as revolver e basculhar como Alaricos...
-
-Faziam-me a honra de me querer mal esses senhores: lisongeio-me de lh’o
-merecer: davam-se ao incómmodo de me intrigar; e era desperdicio de tempo
-e de arte, porque não ha mister intrigas para tirar favor de principes
-a quem, como eu, os apprecia muito e se honra muito d’elles, mas não é
-capaz de fazer o mais leve sacrificio para os conservar; jamais soube, em
-tantas opportunidades, convertê-los em nenhuma _consequencia legítima_;
-nunca, nem o mais indirectamente que é possivel, tractou de os consolidar
-em nenhuma realidade utilitaria e de proveito pessoal.
-
-Peço perdão da digressão: não a fiz eu mas as coisas,—que pelos tempos
-em que vivemos tam baralhado anda tudo, que até a historia litteraria e
-poetica se confunde com a dos successos e relações politicas.
-
-D’esse tam pouco e tam occupado tempo permittiu comtudo o accaso
-que alguns instantes se podessem approveitar em beneficio do pobre
-_Romanceiro_, que alli ia tambem, o coitado, na expedição, incolhido
-e amarrotado na mochilla de um triste soldado raso, sem se lembrar de
-aspirar á inaudita honra de seu illustre predecessor, o Cancioneiro de
-Rezende, que serviu de Evangelho para jurar aquelle rei gentio.—Havia
-pouco por alli quem lhe importasse com Evangelhos e juramentos.
-
-Foi o caso que umas criadas velhas de minha mãe e uma mulata brazileira
-de minha irman appareceram sabendo varios romances que eu não tinha,
-e muitas variadas licções de outros que eu sim tinha, porêm mais
-incompletos. Assim se additou copiosamente o meu _Romanceiro_.
-
-Mas este achado fez mais do que inriquecer, salvou-o: porque, ao partir
-para San’Miguel, o deixei em Angra com minha mãe que Deus tem em glória,
-que desejava distrahir, com essas curiosidades que ella intendia e
-avaliava com o tacto perfeito e a sensibilidade elegantissima de que
-era dotada, alguma hora das tantas em que ja lhe pesavam duramente
-as molestias do último quartel da vida... Molestias aggravadas de
-muita afflicção e cuidado—nenhum que seus filhos voluntariamente lhe
-dessem—todos a adorámos e honrámos sempre—mas que lhe davamos, comtudo,
-pelas circumstâncias fataes da epocha e das confusões politicas em que
-andavamos mettidos.
-
-Os meus outros papeis, trabalhos de historia consideraveis, fructo
-de longas visitas ao Museu-Real de Londres e á riquissima livraria
-portugueza do meu amigo o Sr. Goodeen; uma tragedia que tinha sido
-julgada valer alguma coisa pelos que a viram—era o assumpto o
-Infante-Sancto em Fez;—um largo poema com pretenções, antes desejos,
-de ser Orlando, ja em trinta e tantos cantos—e promettia crescer!—cujo
-assumpto era o _Magriço_ e os seus _Doze_;—o segundo volume do tractado
-_Da Educação_ prompto a entrar no prélo:—quatro livros ou cantos de um
-romance ou poema—cabia-lhe uma e outra designação—a que dava thema a
-interessante e romanesca legenda da fundação da casa de Menezes—pedido
-de minha boa irman que decerto não tinha vaidade, porque sempre lhe
-sobrou o juizo, mas gôsto sim, de que seus filhos se honrassem com o
-nome illustre de seu pae:—uma quantidade immensa de estudos e trabalhos
-sôbre administração pública;—tudo isso veio commigo para S. Miguel e ahi
-o deixei ao imbarcar, porque era defeso ao pobre soldado levar as suas
-mallas, e o logar era pouco para as bagagens dos que só eram bagagem.
-D’ahi me vinha, com outros valores mais substanciaes, e se perdeu tudo
-em um navio que affundaram as ballas inimigas á entrada do Porto nos
-derradeiros dias d’esse mesmo anno de 1832.
-
-Descancem em paz no amigo lodo do meu patrio rio! N’outros lodaçaes
-peiores teriam de cahir talvez se escapassem: o da indifferença pública
-que porventura mereciam, o de muitos odiosinhos e invejasinhas tolas que
-não mereciam decerto, porque eram filhos de bom e innocente ânimo, como
-sempre têem sido os meus.
-
-Assim fossem todos!
-
-Desde 1834, que me voltou a Lisboa o milagrosamente escapado
-_Romanceiro_, ainda não passei verão que lhe não désse algumas das horas
-descuidadas que n’aquella quadra ou se hãode dar a éstas occupações
-mais leves ou a nenhumas. E n’estes oito annos tem-se locupletado
-consideravelmente com as contribuições de muitos amigos e benevolentes
-a alguns dos quaes nem posso ter o gôsto de agradecer aqui o favor
-recebido, porque incitados pela leitura da _Adozinda_, me remetteram
-anonymamente pelo correio o fructo de suas colheitas. A principal parte
-de um bello romance, um dos mais bellos que jamais vi em collecção alguma
-nacional ou extrangeira e que hoje inriquece o meu Romanceiro, assim me
-foi mandada, creio que do Minho. Outro fragmento que vinha nos respigos
-ajunctados n’esta ceara pelo nosso insigne poeta o Sr. A. F. de Castilho,
-e que elle teve a bondade de me confiar, veiu dar-lhe o complemento que
-faltava e restituir á perfeição em que hoje está. É um romance de origem
-visivelmente franceza, se provençal ou normanda não me atrevo a decidir,
-em que se conta—um tanto diversa das chronicas antigas e do elegante
-poema de _Millevoix_, a historia do secretario Eginard e da muito bondosa
-filha de seu senhor e amo o poderoso imperador Carlos-Magno. Os nossos
-Scaldos vulgares lem hoje... não lem tal, mas repettem _Gerinaldo_,
-corrupção do que ao principio foi Eginaldo, adoçados em _ll_ os _rr_
-francezes, como se fez em Giraldo, Reginaldo, antigamente em Bernal e
-Bernaldo, e em outros muitos nomes que de la vieram tam duros ou mais.
-
-Mencionei este exemplo entre muitos por cahir em coisa notavel, e para se
-ajuizar dos outros.
-
-Mr. Pichon, bem conhecido em Lisboa, que foi ultimamente consul francez
-no Porto e agora creio que em Barcelona, tinha começado a formar em
-1832-33 uma pequena colecção de xácaras portuguezas de que tambem me
-approveitei. Mas o incançavel collector a quem mais obrigações devi em
-Portugal foi o meu condiscipulo o Sr. Dr. Emygdio Costa, advogado n’esta
-côrte e ha pouco fallecido, que generosamente me confiou a sua larga
-collecção principalmente feita nas duas Beiras, n’aquelle verdadeiro
-coração e amago do Portugal primitivo que occupa a região d’entre Lamego
-e Serra d’Estrella.
-
-O Sr. Rivara, bibliothecario em Evora, o meu velho amigo o Sr. M.
-Rodrigues d’Abreu, bibliothecario em Braga, o meu antigo e fiel
-companheiro o Dr. J. Eloy Nunes-Cardoso, de Montemor-o-Novo, com
-assentamento dobrado, como diria um _bel esprit_, um _dos cultos_ de
-Seiscentos, na Casa Real d’Apollo, por doutor e trovador tambem,—todos
-estes cavalheiros me têem ajudado com indicações, livros, folhetos
-antigos e cópias laboriosamente escriptas sob o dictar dos rusticos
-depositarios das nossas tradições populares.
-
-Os trabalhos e recopilações de D. Agustin Duran sôbre os cancioneiros e
-romanceiros castelhanos, obra publicada em Madrid em 1832, mas que só por
-aqui chegou cinco ou seis annos depois, veiu illustrar-me em muita dúvida
-e ajudar-me a classificar muita coisa difficil. A nova e augmentada
-edição do Sr. Ochoa, impressa em París em 1838, e que mais depressa nos
-trouxe a mais habitual conversação e commercio litterario que temos com
-a França, algum tanto me auxiliou tambem. A traducção elegante de Mr.
-Lockart que n’aquella tam linda e fastosa edição de Londres de 1841 deu
-á lingua e á nação ingleza a mais poetica e romantica idea que jamais
-será possivel dar a um povo extranho e em idioma extranho das immensas
-riquezas do Nibelungen peninsular, mais que nenhuma coisa me inspirou e
-animou no meu trabalho, porque é um documento, um monumento grandioso
-da extraordinaria importancia e valia que este genero de coisas está
-merecendo á Europa culta.
-
-O Sr. Herculano, bibliothecario da Real bibliotheca da Ajuda, com cuja
-provada amisade me honro tanto quanto a nação deve gloriar-se de seus
-escriptos, tambem me tem ajudado não pouco com os preciosos achados
-que, no seu incessante lavrar das minas archeologicas, tem incontrado
-e repartido commigo. Por seu favor tornei a examinar, no Ms. original,
-o famoso cancioneiro ditto do Collegio dos Nobres, hoje na bibliotheca
-Real; e com éstas e com as collecções allemans e francezas, e creio que
-com quasi todas as dos povos do Norte, tenho collacionado as nossas
-rhapsodias populares, muitas das quaes, por este modo vim a conhecer
-visivelmente, que tinham a mesma commum origem. Os eruditos trabalhos de
-Mr. Raynouard sôbre a lingua romance ou provençal me allumiaram muita vez
-n’esta obscura e inredada tarefa.
-
-A interessante e conscienciosa memoria do Dr. Bellermann impressa em
-Berlim em 1840, e o conhecimento de que a sociedade alleman para a
-reimpressão dos livros raros estava publicando em portuguez o nosso
-Cancioneiro de Rezende; o interêsse geral que hoje se tem desenvolvido
-no mundo pela litteratura popular das nações modernas e especialmente das
-nossas peninsulares—interêsse que, porfim e emfim, hade vir a reflectir
-em nós tambem, e despertar-nos para abrir os olhos ás riquezas proprias,
-ainda que não seja senão pelas ver tam prezadas de extranhos—os conselhos
-e rogos do meu particular amigo e quasi compatriota nosso, o sr. João
-Adamson, tudo isto me fez alargar mais o plano da minha obra e collecção.
-
-Resolvi, sob nova denominação de _Romanceiro e Cancioneiro-Geral_[1],
-reunir todos os documentos que eu podesse para a historia da nossa poesia
-popular, desde onde memorias ou conjecturas ha, até á epocha actual,
-acompanhando-os de explicações e glossas, que vão servindo de nexo, que
-sejam como a liaça, o nastro que áte estes pergaminhos.
-
-Quem não tem olhado senão á superficie da nossa litteratura, quem cego do
-brilho classico das nossas tantas epopeas, seduzido pela flauta magica
-dos nossos bucolicos, enthusiasmado pelo estro tam ricco e variado dos
-innumeraveis poetas que, nos quartetos e tercetos sicilianos da elegia,
-da epistola e do soneto, rivalizam, e tantas vezes luctam de vantagem,
-com o proprio Petrarcha: quem, sôbre tudo—porque n’esse genero é a musa
-portugueza superior á de todas as linguas vivas—adora em Sá-de-Miranda,
-Ferreira, Diniz, Garção e Filinto o genio redivivo de Horacio e de
-Pindaro—não crê, não suspeita, hade ficar maravilhado de ouvir dizer,
-como eu quero dizer e provar no presente trabalho, que ao pé, por baixo
-d’essa aristocracia de poetas, que nem a viam talvez, andava, cantava,
-e nem com o desprêzo morria, outra litteratura que era a verdadeira
-nacional, a popular, a vencida, a tyrannizada por esses invasores gregos
-e romanos, e que a todos os esforços d’elles para lhe oblitterarem e
-confundirem o character primitivo, resistia na servidão com aquella fôrça
-de inercia com que uma raça vencida, com que a população aborigine de um
-paiz resiste a igual impenho de seus conquistadores que lhe usurparam
-a dominação, e que, seculos e seculos depois, quando esses já não são,
-ou não cuidam ser, senão uma casta privilegiada e patriciana, reagem
-fortes aquell’outros com o que seus proprios senhores lhes insinaram,
-regenerados por seu longo martyrio, e extirpam muitas vezes, mas
-geralmente se contentam de avassallar, os seus antigos oppressores.
-
-É a historia de todos os povos, e por consequencia de todas as
-litteraturas.
-
-É a historia litteraria de Portugal no segundo quartel d’este seculo: é o
-que foi ésta reacção vulgarmente chamada romantica, mas que não fez mais
-do que trazer a _renascença_ da poesia nacional e popular. Nenhuma coisa
-póde ser nacional se não é popular.
-
-Aqui está o porquê, o como e o paraquê fiz a collecção de que este volume
-é a primeira parte, ou mais exactamente a introducção, e que apenas
-contêm o que eu, á mingua de melhor nome, designarei com o titulo de
-_Romances da renascença_: são os que resuscitei e como que traduzi das
-quasi apagadas e mutiladas inscripções que desinterrei da memoria dos
-povos.
-
-Os textos originaes d’estes, restituidos quanto é possivel, os de muitos
-outros que appareceram menos imperfeitos na mesma excavação, muitissimos
-que se têem achado em livros e papeis desprezados hoje, e em collecções
-Mss., estão promptos, classificados, annotados, e sahirão em seguimento
-d’este volume, apenas o permittam as difficuldades, sempre recrescentes
-em Portugal, de se publicar qualquer coisa.
-
-Eu tenho posto termo, ou pelo menos suspensão indefinida a toda a
-occupação litteraria propriamente ditta, para absolutamente me dedicar,
-em quanto posso e valho, á conclusão de um trabalho antigo, mas
-interrompido muitas vezes, que agora jurei acabar; são _Vinte annos da
-historia de Portugal_, periodo que começa em 1820 e chega aos dias de
-hoje, mas que não sei se ja anda mais inredado e confuso do que o dos
-mais antigos e obscuros seculos da monarchia.
-
-Espero começar a publicá-lo no fim d’este anno[2]; e nenhum tempo ou
-logar me sobrará portanto para mais nada. O _Romanceiro_ porêm e _Fr.
-Luiz de Sousa_ estão promptos a entrar no prelo e, quanto é por minha
-parte, não farão esperar o público.
-
- Lisboa, 12 de Agosto de 1843.
-
-
-
-
-ROMANCEIRO
-
-LIVRO PRIMEIRO
-
-
-
-
-I
-
-ADOZINDA
-
-
-AO SR. DUARTE LESSA[3]
-
-Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas
-últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem
-paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações
-que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa:
-tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê.
-
-Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em
-Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior
-extenção, n’este genero de versos pequenos, _octosyllabos_, ou de
-redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da
-historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do
-_Parnaso-Lusitano_ impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha
-n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e
-systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris,
-ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em
-tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos _octosyllabos_, que
-nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e,
-para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que
-nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na
-Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não
-foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas
-compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a
-dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de
-Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros
-primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo
-genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, _fugitiva_.
-Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello
-ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das
-suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram
-posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os
-campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam
-_romances_—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende
-por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu
-o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e
-delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia _de sociedade_.
-
-A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio
-e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi
-commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão
-com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão
-septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco,
-ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo
-vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos
-porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais
-de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára
-spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e
-deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas
-Hespanhas decerto.
-
-Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma
-especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto
-deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de
-todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se
-cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos
-classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger,
-os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes
-e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este
-gôsto e o fizeram _da moda_. Fatigados do grego e romano em architecturas
-e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da
-Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e
-Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas
-porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da
-sculptura gothica.
-
-Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e
-Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos
-de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros
-poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e
-duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver,
-de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia,
-mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado
-agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto
-mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente,
-‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva,
-a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de
-ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das
-nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm
-melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a
-mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se
-appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido
-reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago
-e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o
-astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do
-castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e
-musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas
-fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm
-o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia,
-modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados
-aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica.
-Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e
-incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora.
-
-Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para
-nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia
-d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos
-trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez
-popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros
-simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás
-composições d’aquelle genero.
-
-Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim
-convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para
-este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o
-hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são
-uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se
-offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes
-improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de
-espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é
-sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o
-da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros,
-isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella
-é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua.
-
-Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do
-Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de
-Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas,
-os romances populares ou _xácaras_, que por tradição immemorial se
-conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro
-octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar
-sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes,
-reliquias da nossa archeologia.
-
-O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos
-primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda _specimens_ das canções
-que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D.
-Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos
-Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito,
-creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições
-poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas
-tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por
-Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças
-singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões
-e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra
-de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos
-menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois
-d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções
-tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia
-suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico,
-e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja
-observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo
-_Pastor-peregrino_, pela _Primavera_, e nos seus romances moiriscos
-e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no
-_Naufragio-de-Sepulveda_, quando o deixam com a natureza e lhe permittem
-ter _senso commum_ as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem
-escolhido assumpto, tam bellas scenas.
-
-Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o
-mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V.
-descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso
-infeliz Oliveira.
-
-Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita
-Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto
-poetico affugentou os _acrostichos_ e os _labyrintos_ seiscentistas, o
-genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante
-e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso
-Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres,
-do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico
-injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado
-e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender,
-condemnaram-n’o sem o ouvir.
-
-No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de
-stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da
-restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria
-com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de
-Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não
-vencido.
-
-D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do
-trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz
-ou infeliz successo.
-
-Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura
-portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu
-romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou
-patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter
-instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma
-especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais
-antiga de que tradição nos chegou.
-
-De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada
-nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas
-longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas,
-éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de
-lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do
-canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e
-mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos
-em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como
-presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá
-pena e prazer ao mesmo tempo[4].
-
-Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros,
-prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da
-vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e
-no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de
-repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares
-da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre.
-
-Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas
-novellas poeticas, as _ballads_ allemans de Bürger, as inglezas de
-Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias
-nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e
-que podiam e deviam ser aproveitadas.
-
-Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa
-edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a
-percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do
-romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso
-mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito
-e por Miguel Leitão.
-
-Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a
-leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo
-todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha.
-Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por
-agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi
-quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e
-lendas populares.
-
-Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita
-cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento
-de _amas-sêccas_ e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes
-depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que
-para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o _pullus
-gallinaceus_ de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada
-pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma
-coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto
-custou.
-
-Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos
-de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo,
-mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em
-todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e
-para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais
-curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado
-ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da
-historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia
-e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças.
-
-A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim
-reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais
-symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de
-_Romanceiro-portuguez_, ou outro que tal, para conservar um monumento
-de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua
-portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi
-todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6].
-
-Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero,
-mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza.
-
-Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me
-sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião
-a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas
-queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente
-injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão
-e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que
-sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia
-ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho
-ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se
-vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de
-columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe,
-desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids
-e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo
-d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante!
-
-Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando
-mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro
-romance que originalmente se intitula _A Silvana_, cujo assumpto notavel
-e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem
-repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes
-o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia
-grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella,
-virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de
-luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia
-extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara,
-para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma
-_ballada_, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito
-maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas.
-Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe _Adozinda_, que soa melhor e é portuguez
-mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella
-são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é
-outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto.
-
-Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar.
-É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais
-visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8].
-
-Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha _Adozinda_, gerada
-no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de
-uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este
-romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias
-que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram
-por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o
-deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para
-sempre chorada!...
-
-Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas
-sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem
-as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em
-termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem
-os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha
-a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer
-versos[9].
-
-Londres, 14 d’Agosto de 1828.
-
-
-A ELYSA
-
-_Campolide, 11 d’Agosto 1827._
-
- Thus, while I ape the measure wild,
- Of tales that charmed me yet a child,
- Rude though they be, still with the chime
- Return the thoughts of early time;
- And feelings, roused in life’s first day
- Glow in the line, and prompt the lay.
-
- WALTER SCOTT.
-
- Campo da lide é este; aqui lidaram,
- Elysa, os nossos quando os nossos eram
- Lidadores por glória,—aqui prostraram
- Suberbas castelhanas, e—venceram;
- Que pelo rei e patria combatendo
- Nunca foram vencidos Portuguezes.
- —Este terreno é sancto: inda estás vendo
-
- Alli aquelles restos mal poupados[10]
- Do tempo esquecedor,
- Dos homens deslembrados;
- Nobres reliquias são d’altas muralhas
- Forradas ja de lucidos arnezes,
- De tresdobradas malhas.
- Talvez fluctuava alli n’aquelle canto,
- Suberbo e vencedor
- Das Quinas o pendão victorioso;
- E junctos ao redor
- D’esse paladio augusto e sacrosancto,
- Invencivel trincheira lhe faziam
- Toda a flor dos mais nobres e esforçados;
- Que á voz da patria (voz que nunca ouviam
- Sem sentir redobrados
- Do nobre coração os movimentos)
- Heroes são todos, facil a victoria,
- Faceis as palmas que lh’infeixa a glória.
-
- Ah!—paremos aqui:—ve quaes na frente
- As arterias violentas me rebatem:
- Febril, descompassado corre e ardente
- E me angustia o sangue...—Ah! sim paremos
- Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho
- Depressa o desceremos.
- Faz-me bem ésta vista:—essas arcadas[11]
- Suberbas, elevadas,
- Que uniram monte a monte e serra a serra,
- Acaso não serão
- Tam illustres talvez,—não lembram guerra,
- Glória não lembram; nem com sangue livido
- A morte da victoria companheira
- Para o erguido padrão
- O cimento amassou.
- Um rei que amou as artes, rei pacífico,
- A quem amor fadou
- Que seu fôsse e das musas,—que fugidas
- Da pátria ha tanto, á patria as volveria;
- Do povo á utilidade
- Este sublime monumento erguia.
- Para a posteridade
- Isto só lhe appurou o nome e a glória,
- E lhe ganhou as paginas da historia.
-
- Inda é muita oppressão; inda me acanha
- Tanta arte humana o coração no peito.
- Tam grandes massas, fábrica tammanha
- Absorto deixarão—mas satisfeito
- O ânimo, os sentidos?.. Não, Elysa,
- Não satisfaz ao homem a arte humana:
- Por mais que ella se uffana,
- Que aos abysmos o centro opprime e pisa
- C’os fundamentos de eternaes pyramides,
- Ou c’os erguidos vertices
- Ás nuvens rasga o seio tempestuoso.
- Nem assim:—á tristeza ou á alegria,
- E áquelle estado de innefavel gôso
- Que entre a dor e o prazer a alma suspende
- Brandamente e se diz _melancholia_,
- Oh! nada d’isso o excita.
- Oh! nada d’isso o coração intende!
- Oh! nada d’isso o espirito nos move
- Se a natureza, a pura natureza
- Por sua ingenua attracção nos não commove.
- Posso admirar o homem e a grandeza
- De suas nobres feituras,
- Mas somente admirar;
- Mais não póde excitar
- Mesquinha creação de creaturas.
-
- Vamos por essa incosta
- Subindo.—Eu gósto do alto das montanhas,
- Dos picos das erguidas serranias,
- O avaro á terra mãe abra as intranhas,
- Cave oiro e crimes, com que incurte os dias
- Seus e dos seus, e a sombra da virtude
- Acabe de varrer da face d’ella.
- Mas o que, em paz commigo e co’a existencia,
- Ainda ama a innocencia,
- Inda se apraz co’a natureza bella,
- A seus quadros surri, com seus dons gosa,
- Oh! esse venha ao cume do alto monte,
- Venha estender a vista saudosa
- Pelo valle que á falda lhe verdeja,
- A messe que loureja,
- E a despenhada fonte
- Que vai garrula e trepida saltando
- Té que se junta em cava pederneira.
- D’onde sai, o arco d’Iris imitando
- Na espadana da férvida cachoeira.
- Venha na solidão—e o só dos montes
- É mais só que nenhum,—o silencioso
- Mais augusto, solemne e magestoso!
- Venha na solidão
- Comsigo conversar, fallar um’hora
- Com o seu coração.
- —Quantos ha que annos longos hão vivido
- C’os outros sempre, sempre c’os de fóra
- Sem viverem comsigo nem um dia,
- Nem um momento só!
- Tenhamos d’elles dó;
- Viver não... têem apenas existido.
- Tua meiga companhia
- É doce, Elysa; e sempre na minha alma
- Foi teu brando fallar—e quantas vezes!—
- Celeste orvalho que abrandou a calma
- De paixões, que adoçou o agro a revezes:
- Porêm a minha solidão querida,
- De vez em quando, lá quando a alma o pede,
- Oh! não m’a tirem que é tirar-me a vida.
- Agora conversemos: eu ignoro
- A arte das vans palavras que bem soam;
- Oiço-as, e não demoro
- No ouvido os sons que de per si se escoam.
-
- O sol declina;—temos largamente
- Hoje philosophado.
- Na viva flor da edade e da saude
- Nem de todos sería accreditado
- Que tam suavemente
- Em austeras conversas de virtude
- Nos fôsse o tempo.—Crê-me, Elysa amavel,
- Tem muito mais prazeres a amizade
- E mais doces que amor:
- Para todos os sexos, toda a edade,
- Em todo o tempo a mesma, sempre affavel,
- Sem o cancro roedor
- Do ciume voraz que no mais puro
- D’amor, no mais seguro
- Suas raizes venenosas lança,
- E co’a mais branda flor
- Seus mordentes espinhos lhes intrança.
-
- Detestemos, Elysa, essa funesta
- Paixão brutal que a tudo e em tudo damna,
- Da virtude a tyranna:
- Não nos illuda a tam commum cegueira;
- Detesta o crime quem amor detesta.
- Crimes!—vê a amizade prazenteira,
- Que nenhuns tem;—e amor, ai! quantos, quantos!
- Honras perdidas, thalamos violados,
- Os vinculos mais sanctos
- Dos homens e de Deus, da natureza,
- Da propria natureza—espedaçados
- Por esse amor, que sua tocha accesa
- Do vivo fogo traz do averno immundo
- Para de crimes abrazar o mundo.
-
- Honesto, justo, sancto, consagrado,
- Nada respeita:—o sangue, o altar em meio
- De seus desejos não é termo ou freio;
- Não ha pomo vedado
- No Eden da virtude
- Que a mão perversa e rude
- Tocar não ouse,—árvore da vida
- Que dos gryphos mordida,
- Em peçonha de morte não converta,
- E a seiva salutar já corrompida
- Em lethal beneficio não perverta.
- Lembra-te aquella historia
- Que ingenuo o povo em seus trabalhos canta,
- E de longa memoria
- Entre elles perpetuada,
- É singella legenda de uma sancta,
- Que por brutal amor sacrificada,
- Desvalida virtude,
- Só do crime escapou no seio á morte?
- Eu a canção magoada
- Em verso menos rude,
- Mais moldado verti, dei novo córte
- Ao vestido antiquissimo, á simpleza
- Que ha seculos lhe deu
- De nossos bons maiores a rudeza.
- —Sereno está o ceo,
- Tranquillo o vento, a calma descahida;
- E, pois que não te infada
- A singella toada
- Do bardo alahude que sem arte soa
- E a rhyma desgarrada
- Da popular canção rustico intoa,—
- Aqui t’a cantarei, ouve: e se ao pranto
- Te commover a saudosa endeixa,
- Na selvagem bonina,
- Na campainha agreste d’esse mato
- Arrociá-lo deixa;
- São lagrymas sinceras, propria fonte
- Para regar as innocentes flores
- Que arte não sabem, nem conhecem arte;
- Flores como os meus versos não variados
- De refinadas côres,
- Em que alma só e coração tem parte,
- Não por classica musica modulados
- Ao graduado som de grega lyra,
- De cithara romana.
- A minha é melodia que só mana
- Dos intimos accordes só do peito;
- Nem ha corda que fira
- Em meu alahude rustico
- Tom menos natural, mais contrafeito.
-
- Em suberbos canaes, alto impedrados
- Por ingenhoso hydraulico,
- Vão d’arte subjugados
- Os caudaes da torrente conduzindo
- Riquezas de preciosa mercancia:
- E o arroio, que serpeia entre pedrinhas
- Pela relva macia,
- Bordado em-tôrno sinuosamente,
- Que póde elle levar
- Em sua doce e trépida corrente?
- —Alguma folha de silvestre rosa
- Que, ingenua divagando,
- Pastorinha formosa
- Lhe foi acaso á margem desfolhando.
-
-
-ADOZINDA
-
-
-CANTIGA PRIMEIRA
-
- No, I’ll not weep:
- I have full cause of weeping; but this heart
- Shall break into an hundred thousand flaws
- Or ere I’ll weep.
-
- SHAKSPEARE.
-
-
-I
-
- Onde vas tam alva e linda,
- Mas tam triste e pensativa
- Pura, celeste Adozinda,
- Da côr da singella rosa
- Que nasceu ao-pé do rio?
- Tam ingenua, tam formosa
- Como a flor, das flores brio
- Que em serena madrugada
- Abre o seio descuidada
- A doce manhan d’Abril!
- —Roupas de seda que leva
- Alvas de neve que cega
- Como os picos do Gerez
- Quando em Janeiro lhe neva.
- Cinto côr de violeta
- Que á sombra desabrochou;
- Cintura mais delicada
- Nunca outro cinto apertou.
- Anneis louros do cabello
- Como o sol resplandecentes
- Folgam soltos; dá-lh’o vento,
- Dá no veo ligeiro e bello,
- Veo por suas mãos bordado,
- De um sancto ermitão fadado
- Que vinha da Palestina;
- Passou pelo povoado,
- Foi-se direito ao castello
- Pediu pousada, e lh’a deram
- Porque intercede a menina:
- Que o pae suberbo e descrido,
- —‘N’essa gente peregrina,
- Disse, quem sabe o que vem?’
- —Mas pede Adozinda bella,
- Tal virtude e formosura,
- Quem lh’o hade negar a ella?
- Não póde o pae nem ninguem.
-
-
-II
-
- Mas o outro dia á luz nada
- Houve quem visse Adozinda
- Debruçada em seu balcão
- Haver prática alongada
- Co’ aquelle velho ermitão.
- Quem sabe o que lhe elle disse?
- —Ninguem no castello ouviu:
- Mas d’aquella occasião
- A alegria lhe fugiu
- Dos olhos e do semblante:
- Ficou triste, sempre triste;
- Mas em seu rosto divino
- Fez-se formosa a tristeza.
- Como olhos d’amor quebrados
- Disseras os olhos d’ella;
- Mas não tem d’amor cuidados,
- Que a ninguem conhece a bella.
-
-
-III
-
- Qual semente arrebatada
- Da flor de vergel mimoso
- Pelos furacões do Outomno,
- Vai no incôsto pedregoso
- Cahir de serra escalvada;
- Vem Abril, e a seu bafejo
- Brota e nasce a linda flor,
- De ninguem vista ou sabida,
- Nem de damas cubiçada
- Nem de pastores colhida,
- E o vento da solidão
- Lhe bebe o perfume em vão.
-
-
-IV
-
- Quinze annos tem Adozinda;
- E desd’a vez que o romeiro
- Do saio pardo e grosseiro
- Lhe fallou ao seu balcão,
- Faz tres para o San-João.
-
-
-V
-
- E Adozinda sempre triste
- Vai sosinha pelo eirado
- Pelo jardim, pelo prado;
- Nem ja a divertem flores
- Em que punha o seu cuidado.
- Pelos sombrios verdores
- De sua espessa coutada
- Vaga á toa e derramada,
- Como a novilha perdida,
- Como a ovelha desgarrada
- A quem o tenro filhinho
- Lobo do mato levou:
- —Desfaz-se a mãe em balidos,
- Que de ninguem são ouvidos,
- E o filhinho não tornou!
-
-
-VI
-
- Que tem Adozinda bella
- Que em tal desconsôlo a traz?
- Serão saudades do pae
- Que anda co’os Mouros á guerra
- Por defender sua terra
- Mais a sancta lei de Deus?
- Tres annos ha que se foi;
- E dous filhos que levou,
- A cadaqual sua espada
- Com juramento intregou
- De lh’a tornarem lavada
- No sangue mouro descrido:
- E assim cada um jurou.
- Fizeram gente em suas villas,
- (Que preito muitas lhe dão)
- E guiaram seu pendão
- Para terras de Moirama.
- Ja vejo chorar donzellas,
- Vejo carpir muita dama,
- Que onde chega Dom Sisnando,
- Com sua espada portugueza
- Não ha lanças nem rodellas
- Que sirvam para defesa.
-
-
-VII
-
- Mas não são do pae saudades,
- Que sempre a lidar com armas
- Como ellas duro se fez;
- Mais lhe importam do que a filha
- Seus ginetes, seu arnez.
- E até—quem diria tal!—
- Quando a mãe, por diverti-la,
- Lhe falla do pae ausente
- E lhe diz que hade voltar,
- Parece que se lhe sente
- O coração apertar.
- —Suspira em silencio Auzenda,
- Auzenda tam bella ainda
- Que ao-pé da bella Adozinda
- Mais irman que mãe parece
- De filha tam môça e linda.
- Suspira em silencio a triste,
- Porque suspira não diz:
- —‘Filha amante de seu pae
- Conceder-me o ceo não quiz!’
- —Ai! que sem razão se chora!
- —Ai! Auzenda malfadada,
- Tem de vir minguada hora
- Que á filhinha desgraçada
- Darás mais razão que agora.
-
-
-VIII
-
- Que tropel que vai nos paços
- De Landim ao-pé dos rios!
- Sons de festa e sons de guerra
- Em seus muros e alta tôrre?
- Geme a ponte, treme a terra
- C’o peso d’homens armados.
- Cavallos acobertados
- Trotam ligeiros;—e corre
- O alferes que tremolando
- Vai guião de roxa cruz...
- Ja chegado é Dom Sisnando.
- Entre os cavalleiros todos
- Sua armadura reluz:
- E o pennacho fluctuante
- Das plumas alvas de neve
- Sôbre o elmo rutilante
- De longe a vista percebe.
-
-
-IX
-
- —‘Portas do castello, abri-vos,
- Correi, pagens e donzellas,
- Que é chegado meu senhor,
- Meu espôso e meu amor!’
- Auzenda bradava e corre.
- Portas se abrem, soam vivas,
- E o echo da antiga tôrre
- Com o som festivo acordou.
- —‘Viva, viva Dom Sisnando!’
- E o tropel que dobra e cresce,
- E ás portas que chega o bando
- Dos guerreiros triumphantes.
- Do corcel suberbo desce
- E aos braços anhelantes
- Da cara espôsa voou.
- Doce amor que os apertou
- Não lhes deixou mais sentidos
- Que para se ver unidos,
- Ajuntar-se peito a peito,
- E em laço tam brando e estreito
- Longa saudade afogar.
- A Auzenda gotteja o pranto,
- Pranto que é todo alegria;
- E o rosto que nunca infia
- Do esforçado lidador
- Tambem sentiu—mais que a dor
- Póde o gôso!—descuidada
- Uma lagryma sensivel
- De seus olhos escapada.
-
-
-X
-
- Mas as lagrymas de gôsto,
- Como as de mágoa, teem fim;
- Dom Sisnando inchuga o rosto,
- E tomando a mão á espôsa:
- —‘D’onde vem, lhe diz, senhora,
- Que a joia mais preciosa
- Não vejo d’estes meus paços,
- D’onde vem que aos meus abraços
- Minha filha?..’ A filha bella,
- Pasmada, trémula, a um lado,
- O rosto ao chão inclinado,
- Parecia humilde estrella
- Que ao primeiro raio vivo
- Do sol que no alvor reluz
- Não fica, não, menos bella,
- Porêm pállida e sem luz.
-
-
-XI
-
- Tres annos ja são passados
- Que Dom Sisnando a não via,
- N’essa joven, linda dama
- Sua filha não conhecia.
- —‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia
- A mãe, que d’um braço a trava,
- ‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava
- O pae na formosa filha,
- E de assombro e maravilha
- Mudo, estatico ficou.
- Cora Adozinda, suspira,
- E—‘Pae!’ disse em voz tremente
- Submissa...—; languidamente
- Ajoelha, osculo frio
- Na paterna mão imprime:
- Pranto que atelli reprime,
- Corre agora em sôlto rio.
- —‘Que tens tu, filha querida,
- Que assim choras tam carpida?
- É teu pae, que hade querer-te,
- Que hade amar-te como eu te amo.’
- E tomou-a nos seus braços,
- E a levanta Auzenda bella.
- Pasma o pae, suspira ella;
- E a custo os doces abraços
- De pae, de filha se deram.
-
-
-XII
-
- Pouco alegre a companhia
- Entrou nos paços brilhantes;
- E os atabales soantes
- Pregoaram festa e alegria
- No castello de Landim.
-
-
-CANTIGA SEGUNDA
-
- But yet thou art my flesh, my blood, my daughter!
-
- SHAKSPEARE.
-
-
-I
-
- Oh! que alegrias que vão
- Pelos paços de Landim!
- Que magnificos banquetes,
- Que sumptuoso festim!
- Juncto ao valente campeão,
- Á cabeceira da mesa
- Ficou a bella Adozinda.
- A tam celeste belleza
- Estão todos admirando;
- E o imbevecido Sisnando
- Não se farta de abraçá-la,
- De beijar filha tam linda.
- Auzenda de gôsto chora,
- E abençoa a feliz hora
- Em que tanto amor nasceu.
- —‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza
- De tanto lidar com armas
- Á innocencia, á belleza
- Da amada filha cedeu!’
- Ella as caricias paternas
- Ja não ousa de esquivar-se;
- Cora, mas deixa abraçar-se;
- Ve-se que tantos affagos
- A repugnancia venceram
- Da timidez natural,
- —Ou, se outra causa fatal,
- Mais incuberta ella tinha...
- Ao menos lh’a adormeceram.
-
-
-II
-
- Ja de exquisitos manjares
- Os convivas saciados,
- De folias e cantares
- Pagens, donzellas cançados,
- E dos brindes amiudados
- Finda a primeira alegria,
- Doce repoiso pedía
- Quanto ésta noite em Landim
- Velou em baile e festim.
- A seus nobres aposentos
- Adozinda retirada,
- Com permissão outorgada
- —A custo—do pae, se foi.
- Auzenda, em grave cortêjo
- De suas damas rodeada
- Deixou ha muito o festêjo,
- E em seu camarim deitada
- Espera o momento anciosa
- Em que a sós a amante e a espôsa
- Nos braços de Dom Sisnando
- Se hãode em breve confundir.
-
-
-III
-
- Como um tapete mimoso,
- Juncto ao paço de Landim
- Se estende jardim formoso,
- De boninas arrelvado
- Da verde gramma e de flores:
- Remata em bosque frondoso
- Cujos opacos verdores
- Eternas sombras acoitam.
- —De pesados sentimentos
- Oppresso o peito fremente,
- A respirar livremente
- O ar puro da noite fria
- Entrou insensivelmente
- Dom Sisnando em seu vergel
- Jamais tam rico docel
- De azul bordado d’estrellas
- Se estendeu por sôbre a terra
- Do estio nas noites bellas.
-
-
-IV
-
- Alta a lua vai no ceo,
- E as sombras leves e raras
- Não impedem ás florinhas,
- Não tolhem ás aguas claras
- De brilhar co’a luz nocturna,
- Menos resplendente e fúlgida,
- Porêm mais suave e placida,
- Mais amavel que a diurna.
- Manso o vento, que murmura
- Entre as folhas brandamente,
- Convida suavemente
- A respirar, a bebê-la,
- Essa fresca viração,
- Das flores exhalação,
- Tam doce como o bafejo
- De dous amantes queridos
- Quando por amor unidos
- Se dão mútuo e doce bejo.
-
-
-V
-
- Na feiticeira belleza
- Da noite, do ceo, das flores
- Várias d’aroma e de côres,
- Sisnando todo imbebido,
- No seio da natureza
- Do resto do orbe esquecido,
- Pouco a pouco a agitação
- D’alma lhe foi abrandando,
- E o pesado coração
- Do affôgo desappertando:
- Ja póde gemer,—suspira,
- E como que se lhe tira
- Um pêso de sôbre o peito,
- Que a suspirar foi desfeito.
-
-
-VI
-
- Porque geme, porque anceia
- Dom Sisnando, o lidador?
- Sisnando, o triumphador,
- Cujo alto pendão campeia
- Victorioso e senhor
- Por tanta suberba ameia
- De nunca entrado castello,
- De jamais vencida tôrre!
- —Dor que lhe nasce no peito
- É dor que no peito morre;
- Ancia que lhe ralla a vida
- Não é para ser sabida.
- —E desde quando? ha tam pouco
- Feliz e ditoso ainda,
- Com tanta alegria e júbilo
- Festejada sua vinda!..
- Vassallos, espôsa, filha...
- Filha!.. A filha é tam formosa!
- Oh! essa Adozinda bella
- Nos olhos incantadores
- Tem com que matar d’amores
- A metade dos humanos!
- Não, não é peito sensivel
- Peito que lhe resistir:
- Mas o pae!.. não é possivel.
-
-
-VII
-
- Não é, não é.—Mas Sisnando,
- Sem saber onde caminha,
- Melancholico e pesado,
- Insensivel foi entrando
- Pelo bosque immaranhado
- Que ao jardim avizinha:
- E o silencio, que o seguiu,
- Que no espesso coito habita,
- Nem um verde ramo agita,
- Nem uma folha buliu.
- —Á toa por entre as árvores
- Sem seguir carreiro ou trilho,
- Nem guiado d’um só brilho
- De froixa estrella que entrasse
- Por tam medonha espessura,
- Ora lento e vagaroso,
- Ora os passos apressura,
- Ja por caminho fragoso,
- Ja por vereda macia,
- Té que n’um claro onde os troncos
- Escasseiam de repente,
- E onde pallido e tremente
- Seu reflexo a lua infia,
- Sem o saber, foi parar.
-
-
-VIII
-
- Agreste, não feio é o sitio,
- Medonho, horrivel de ver;
- Porêm tem a natureza
- Horrores que são belleza,
- Tristezas que dão prazer,
- Mão d’arte alli não chegou;
- A virginal aspereza
- Ficou em toda a rudeza
- Que a creação lhe deixou.
- De um lado, choupos anciãos
- Seus ramos lobregos pendem,
- E o vivo seixo fendem
- Crespas raizes nodosas
- Das sovereiras annosas
- Que as cortiças remendadas
- Têem dos estios lascadas
- A pedaços a cahir.
- —Do outro, altivos rochedos,
- Como do ceo pendurados,
- Diffundem pallidos medos
- Que em funda gruta acoitados
- De espectros a povoaram.
- —Di-lo toda a vizinhança,
- Que ou são sombras de finados,
- Ou de negras bruxas más
- Alli ha nocturna dança.
- —Redobra ao sítio o pavor
- Um jôrro alto que despenha
- Saltando de penha em penha,
- E os echos em deredor
- Vai temeroso acordando.
- Este unico som d’horror
- Á callada solidão
- Da mudez quebra o condão.
- —Sisnando, o ardido Sisnando,
- O do forte coração,
- Sentiu soçobrar-lhe o ânimo:
- Uma voz dentro do peito
- Lhe diz que não passe ávante;
- Mas outra voz mais possante,
- Outra voz que é voz do fado,
- Voz que ao mortal desgraçado
- Não deixa fôrça ou razão,
- Lhe brada: _Persiste, segue_...
- —Ai do que a ella se intregue,
- Que se intrega á perdição!
-
-
-IX
-
- No seixo cavada grutta
- Tem escassa entrada aberta,
- Quasi de todo cuberta
- De festões d’hera lustrosa
- Que cingindo a rocha bruta
- Pende em grinalda ramosa.
- Entre as folhas, que meneia
- Ligeiro sôpro de vento,
- Viu Sisnando—e alma lhe anceia—
- Um lampejar vago, incerto
- De luz fraca,—ouve um accento
- De voz doce mas gemente,
- Voz que se ouve que está perto,
- Que intoa suavemente
- Uma angelica harmonia,
- Tam triste que faz chorar!
- E ésta voz assim dizia
- Em seu languido cantar:
-
- —‘Anjos do ceo, acudi-me,
- Valei-me, sanctos do ceo,
- Que me rouba mais que a vida
- Quem só a vida me deu.
-
- ‘Sancto ermitão, que me deste
- Aquella esperança ainda
- Que a desgraçada Adozinda
- Viria a ser venturosa
- Apóz de longo penar...
- Sorte que vieste
- Sôbre mim deitar,
- Sorte desastrosa
- Vem ver começar.
-
- ‘Anjos do ceo, acudi-me,
- Valei-me, sanctos do ceo,
- Que me rouba mais que a vida
- Quem só a vida me deu.
-
- Mas ah! tam negro crime,
- Tam horrida paixão
- D’um pae no coração...
- D’um pae...—Como é possivel!
- Não, não, não hade entrar.’
-
-
-X
-
- —‘Pois treme, infeliz, e sabe
- Que essa horrorosa paixão
- Aqui n’este coração...’
- Sisnando, a quem ja não cabe
- No peito a angústia, o tormento
- De tam criminoso amor,
- N’estas vozes de terror
- Rompendo, a caverna entrou.
-
-
-XI
-
- Oh que pavoroso instante!
- Os anjos todos cubriram
- Seus rostos co’a aza brilhante;
- Sem vento os troncos d’emtôrno
- A ramagem sacudiram;
- A lua no ceo mais pallida
- Como de susto infiou
- E para traz da montanha
- Foi correndo, e se eclipsou.
-
-
-XII
-
- Quem hade a filha chorar
- Que está nos braços paternos!
- Oh! quem se hade horrorizar
- Dos beijos doces e ternos
- Que o amor...—Que amor é esse
- De ouvir tam medonho horror
- O proprio inferno estremece,
- E só lá... ha tal amor!
-
-
-XIII
-
- Oh! como heide eu cantar
- Se no peito a voz me treme!
- Historia que é de chorar,
- Quem a diz não canta, geme.
- —Só não gemia Adozinda,
- Que toda morta, gelada,
- Sancto Deus!—mais bella ainda,
- Na viva rocha, estirada
- Como um cadaver ficou.
-
-
-XIV
-
- E o pae ousou levantá-la,
- E apertar juncto a seu peito
- Aquella morta belleza!
- —Repugnou a natureza;
- E, da paixão a despeito,
- De si a affasta, vacilla...
- O anjo da sua guarda
- Inda um momento o resguarda...
- Mas ha na terra ou no ceo
- Fôrça maior que a paixão,
- Que subjugue um coração
- Que d’amor indoudeceu?
- Se a ha, não lhe acudiu Deus,
- Venceram peccados seus.
- Lembrou-lhe fugir... ficou:
- Sim, lembrou-lhe a salvação...
- E á sua condemnação
- O infeliz se votou.
-
-
-XV
-
- Geme, chora; altos soluços
- Do peito lhe véem bradando;
- Porêm fugir de Adozinda
- Não póde o triste Sisnando.
- Ella acorda, e em voz sumida:
- —‘Piedade, senhor, piedade!...’
- Só pôde dizer: perdida
- Nos echos da soledade
- Vai soando e murmurando
- A voz triste e condoida.
- Ouve-a elle; e o coração
- No peito lhe estremeceu;
- Na execranda pretenção
- Recúa,—mas não cedeu.
-
-
-XVI
-
- Palavras que lh’elle disse,
- Respostas que lh’ella deu,
- Oh! não as contarei eu,
- Não as contará ninguem....
- Quiz que lh’ella promettesse
- (E a terra alli não se abriu
- Quando tal a um pae ouviu!)
- Que para a noite seguinte,
- Quando tudo em paz jazesse
- Em seu leito o recebesse....
-
-
-XVII
-
- Chora a infeliz, chora, geme,
- De horror e de pasmo treme:
- Insta o perigo imminente,
- A esperança na demora....
- Com voz cortada e gemente:
- —‘Senhor, não insteis agora,
- Deixae-me cobrar alento,
- E ámanhan responderei.’
- —‘Pois solemne juramento
- Farás de que...’—‘Sim, farei...’
- —‘Que ámanhan, antes que o dia
- Do horisonte despareça,
- Darás resposta final
- E ai de ti, ai do mortal
- A quem ousasses!...—Pereça
- O infeliz n’esse momento:
- Só a morte, só o inferno
- De meu cru resentimento
- O poderiam salvar.’
-
-
-CANTIGA TERCEIRA
-
- I must a tale unfold whose lightest word
- Will harrow up thy soul; freeze thy blood;
- Make thy two eyes, like stars, start from their spheres.
-
- SHAKESPEARE.
-
-
-I
-
- Que mau fado, que hora má,
- Oh! qual agoirada estrella
- Levou Adozinda bella
- Á fadada grutta escura?
- Que foi ella fazer lá?
- No mais denso da espessura,
- A tão aziagas horas,
- Só, alta noite, a deshoras,
- Sem donzella ou escudeiro,
- Como o pedia a decencia,
- Sem levar mais companheiro
- Que sua debil innocencia,
- Que seu joven coração!
-
-
-II
-
- Quem o sabe?—No castello
- Nem a propria mãe, que a adora,
- Que pela filha querida
- Dera tudo, dera a vida...
- Nem a propria mãe sabê-lo!
- E como é que Auzenda ignora,
- Por que incanto ou maravilha,
- Que ao pino da meia noite
- Todos os dias a filha
- O escuro parque atravessa,
- E tenteando a treva espessa
- Vai sosinha áquella grutta
- Que no mais claro do dia
- Ninguem a entrar ousaria?
- —Mas vai; não o sabe Auzenda:
- N’este segredo fatal
- Coisa sobrenatural,
- Coisa medonha, tremenda
- Ha por certo... oh! que inda mal!
-
-
-III
-
- Desde aquella madrugada
- Que Adozinda em seu balcão
- Fallou c’o velho ermitão,
- De noite á grutta fadada
- Sempre vai. Sibille o vento
- No bosque medonho e feio,
- Ás nuvens o pardo seio
- Rasgue horrisono trovão,
- Nada teme; a passo lento,
- Só, para alli se incaminha
- E em rezas, em penitencia
- Horas longas jaz sosinha.
- Talvez d’aquelle romeiro,
- Por salutar providencia,
- Seu fado lhe foi preditto;
- Talvez lhe fôsse prescritto
- Por tam sancto conselheiro
- Que passasse em oração
- N’aquellas medonhas fragas
- Certas horas aziagas
- Em que a fatal conjuncção
- D’um astro seu inimigo
- Maior fizesse o perigo
- Da terrivel maldicção
- Que a persegue,—ella inocente!—
- Que tam injusta cahiu
- N’aquella votada frente...
- Mas diz que não ha condão
- Peior que o da maldicção!
- E quantas não attrahiu
- Sôbre a familia inculpada
- A suberba despiedada
- D’esse orgulhoso Sisnando?
- Quantas vezes o infeliz,
- C’os filhinhos expirando,
- Á porta do seu castello
- Se viu gemendo e chorando,
- E o desalmado senhor
- Essa gentalha atrevida
- Escorrassar a mandou!
- Taes peccados não guardou
- Para os punir na outra vida
- O supremo Arbitrador.
-
-
-IV
-
- Mas ja despontava o dia,
- Que tam alegre hoje vem,
- Tam risonho parecia,
- Que não dissera ninguem
- Senão que traz alegria:
- —E tantas, tam negras mágoas,
- Nunca as trouxe o sol nascente
- Desde que assoma no oriente
- E se sepulta nas aguas.
- Toda a noite longa, immensa,
- Auzenda velou chorando,
- De suas lagrymas regando
- O leito viuvo e só;
- A ninguem sua dor intensa
- A desgraçada confia:
- Ninguem da triste houve dó,
- Que do espôso em companhia
- Todo o castello a julgou.
- Porêm a noite passou,
- E porfim, do novo dia
- Ja o alvor vinha raiando,
- Sem apparecer Sisnando.
-
-
-V
-
- É manhan;—tenue inda a luz,
- Mas ve-se que é madrugada.
- Auzenda ainda acordada
- Sente abrirem-lhe com tento
- A porta do aposento,
- E entrar...—‘Será elle?... Oh vem!
- És tu, suspirado espôso?!
- Disse ella em timida voz:
- Não lhe responde ninguem.
- Um suspiro doloroso
- Lhe dissipou a illusão.
- Oh! quem se hade inganar
- Com aquelle suspirar!
- É Adozinda,—voaram
- Do maternal coração
- Toda a mágoa e dissabores;
- E os sentidos que ficaram
- Foi para amargar as dores
- Que n’aquelle _ai_ a assaltaram.
-
-
-VI
-
- —‘Filha, filha... a ésta hora!
- Que succedeu?... que tens tu?’
- Callada Adozinda chora.
- —‘Ai, não, não me chameis filha!’
- Rompe em fim, a soluçar,
- Nadando n’um mar de pranto.
- Pasmo, terror, maravilha,
- Susto, medo, horror, espanto
- No peito da triste Auzenda
- Em confusão estupenda
- De tropel foram quebrar.
- —Que será?—E esse tyranno
- De todo o socêgo humano,
- _Dúvida_, o monstro fatal,
- Que até nos deixa a esperança
- Paraque do incerto mal
- Seja maior a pujança,
- Venha mais fino o punhal
- Quando n’alma se nos crava,
- Esse do peito lhe trava,
- E ao cruel padecimento
- Dobra angústias e tormento.
-
-
-VII
-
- Adozinda, ajoelhada
- Juncto ao leito onde convulsa
- Jaz a mãe attribulada,
- Do coração, que lhe pulsa
- Como se fôra quebrar,
- Traz d’amargo pranto um rio,
- Que dos olhos vem a fio
- As maternas mãos banhar;
- As mãos que ella aperta e beja,
- E que o pranto que gotteja
- Ja não sentem derramar.
-
-
-VIII
-
- Volve a ti, mãe desgraçada,
- Volve, que o morrer agora
- Tammanha ventura fôra
- Que da sorte despiedada
- Concedido não será.
- Vem ouvir tua sentença
- De morte... peior que morte,
- Vergonha horrorosa, offensa...
- E de quem!... de teu consorte,
- Do pae monstro, monstro espôso...
- Ai! para o tormento odioso,
- Para tammanha afflicção
- Não tem fôrça o coração.
-
-
-IX
-
- Tudo lhe conta Adozinda,
- Tudo... tudo,—interrompendo
- A horrorosa narração
- Ora as lagrymas fervendo,
- Ora os soluços rompendo
- Do rasgado coração,
- Ora os labios descorados
- De pejo e terror gelados,
- Sem podêr nem balbuciar
- O que é fôrça revelar.
-
-
-X
-
- —‘Irás’ disse Auzenda emfim,
- E a voz, que treme, assegura:
- ‘Irás a teu...’—_pae_ não disse,
- E um som rouco lhe murmura
- Nos labios onde a meiguice,
- Onde a maternal ternura
- Procuram em vão surrir:
- ‘Irás, filha, a Dom Sisnando
- E lhe dirás que...’
- —‘Senhora!’
- Interrompe ella chorando
- —‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora
- Da meia-noite soar,
- Em teu quarto o hasde esperar.
- Não temas, filha, não tremas,
- Não chores, minha Adozinda,
- Querida filha, não gemas,
- Que hasde ser feliz ainda.
- No angustiado seio
- Guardemos inda a esperança:
- Do ceo mandada me veio
- Uma ditosa lembrança
- Que nos poderá salvar.
- No teu leito d’ouro fino
- Sou eu que me heide ir deitar;
- Tua camiza de hollanda
- A meu corpo heide lançar:
- E quando elle nos seus braços
- Ter Adozinda julgar...
- Ah! que o ceo hade abençoar
- Este ingano virtuoso,
- E a ser pae, a ser espôso
- Dom Sisnando hade voltar.’
-
-
-XI
-
- O dia em rezas passaram
- Em devotas orações;
- Mas quando as trevas poisaram
- Sôbre as muralhas da tôrre,
- Voltaram as afflicções:
- E o tempo—que leve corre
- Para todos os viventes—
- Só áquellas innocentes
- Accintoso parecia
- Que da ampulheta fadada
- Bago por bago espremia
- Cada hora minguada.
-
-
-XII
-
- Emfim meia-noite soa:
- Dom Sisnando, aguilhoado
- Do torpe amor—do peccado,
- Impaciente ao prazo voa
- Que elle d’amor julga dado.
- Como louco, arrebatado
- Corre ao leito de Adozinda,
- Cego bêja a face linda,
- Que decerto não é d’ella,
- Mas que não é menos bella;
- Ao convulso peito aperta
- Aquelle peito formoso...
- —Desgraçado, é tempo ainda,
- Do cruel sonho desperta,
- Que ao precipicio horroroso
- Ja te vai a despenhar!...
-
-
-XIII
-
- Dom Sisnando é criminoso
- Quanto o podia ficar;
- Do intento abominoso
- Nada resta a consummar.
- Ja tristemente acordou
- De seu delirio fatal,
- E surrindo amargamente,
- Á infeliz assim fallou:
- —‘E era por isto... innocente!
- Que tanto se recatava
- Tua virtude fingida?
- Ah! essa alma corrompida
- Mais do que teu corpo estava.
- E tu...’
- —Não pôde ouvir mais
- A triste mãe; não lhe soffrem
- As intranhas maternais
- Ouvir a filha adorada
- De tal modo calumniada,
- E por quem, e em que momento!
- C’um suffocado lamento,
- Que do peito rebentando
- Trouxe aos labios alma e vida,
- Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando!
- Ah, senhor, mattae-me embora;
- A desgraçada sou eu.’
- E a terra n’aquella hora
- Rasgada não soverteu
- O infeliz, que meio morto,
- No abysmo do crime absorto,
- D’este golpe inesperado
- A violencia cedeu!
-
-
-XIV
-
- Silencio largo, mortal
- Foi a unica expressão
- Que por longa duração
- N’aquelle estado fatal
- Entre esses dous foi ouvida.
- Porêm no perdido peito
- De Sisnando atribulado
- Foi a vergonha vencida
- Pelo irritado despeito:
- Dos remorsos avexado,
- Porêm mais pungido ainda
- De seu crime mallogrado,
- Brada em cholera abrasado:
- —‘Pereça a filha descrida
- Que deshonrou seu...’
- —_Pae_ não,
- _Pae_ não ousa proferir.
- A palavra, suspendida
- Por fria, pesada mão
- De remorso insubjugado,
- Lhe voltou ao coração
- A lacerar-lh’o, a vingar-se
- Da mal-soffrida oppressão.
-
-
-XV
-
- —‘Ouvi-me, senhor: culpada
- Sou eu só...’ a triste espôsa
- Lhe diz; mas não ouve nada
- Aquella alma furiosa,
- Ja n’este mundo rallada
- De quanta pena horrorosa
- No inferno está guardada
- Para crimes como o seu.
-
-
-XVI
-
- Parte, corre;—o brado horrivel
- Por todo o castello soa
- Tam medonho como troa
- Medonho trovão d’outomno.
- Despertos do brando somno
- Todos são:—ordens que deu
- São taes, que de horror tremeu
- A gente absorta e pasmada.
- Tristemente obedecendo,
- Co’a face ao chão inclinada
- Se vão a medo, e mal crendo
- Que não seja sonho vão
- O que ouvindo e vendo estão.
-
-
-XVII
-
- Do castello para um lado
- Uma antiga tôrre havia
- Cercada de largos fossos,
- Que é memoria haver fundado
- Um rei mouro que vivia
- Ha muito, de quando os nossos
- Mourisca gente regia.
- Alli uma espôsa sua,
- Que elle achou ser-lhe infiel,
- Sette annos e mais um dia
- Fechada a teve o cruel,
- Sozinha, a grilhões e nua;
- E só pão sêcco lhe dava,
- Mas agua não consentia
- Que nunca ninguem lh’a desse
- Para que á sêde morresse.
- Valeu-lhe quem tudo póde,
- Que ao infeliz sempre accode:
- Vinha-lhe orvalho do ceo,
- De que os sette annos bebeu.
- E emfim o septimo anno
- De tal milagre vencido
- Foi o proprio rei tyranno,
- Que a liberdade lhe deu,
- E do crime commettido,
- Se o havia, se esqueceu.
-
-
-XVIII
-
- Para ésta tôrre deserta,
- No verão ao sol exposta,
- Que abrasado a queima e tosta,
- No rigor do hinverno aberta
- A chuvas, á ventania,
- Sisnando—quem tal diria!
- Mandou a filhinha linda,
- Que alli fechada gemesse,
- A virtuosa Adozinda!...
- E ai de quem agua lhe desse,
- Lhe desse vestido ou cama,
- Que da sêde á morte crua
- —Qual o mouro a sua dama—
- Alli quer que morra nua,
- De todos desemparada,
- De seu pae amaldiçoada,
- Só da triste mãe chorada!
-
-
-XIX
-
- Sem dar somente um gemido,
- Sem se carpir nem queixar,
- Como a ovelhinha tremente
- Que sem dar nem um balido
- Se deixa á morte levar,
- Vai Adozinda innocente
- Para aquella feia tôrre.
- Pranto que furtivo corre
- De quantos olhos a viam
- A acompanha tristemente.
- E o pae!... Ancias que o remordem
- Ninguem as sabe nem vê.
- N’um aposento incerrado,
- Onde nem ao mais privado
- Concedido é metter pé,
- Só ficou, só permanece:
- Só!—antes acompanhado
- De quem os seus não esquece,
- Do remorso,—do peccado.
-
-
-CANTIGA QUARTA
-
- You do me wrong, to take me out o’the grave:—
- Thou art a soul of bliss: but I am bound
- Upon a wheel of fire, that mine own tears
- Do scald like molten lead.
-
- SHAKSPEARE.
-
-
-I
-
- Sette annos e um dia
- Foi a sentença cruel
- Que Adozinda cumpriria
- N’aquella tôrre fechada.
- E o tyranno bem sabia
- Que nem tres dias somente
- Viver podia a innocente
- Com a sêde, a denudez.
- Uma semana é passada
- Passado é um mez e outro mez,
- Anno e annos decorreram;
- E os sette annos feneceram
- Sem que Adozinda formosa
- Em tal mingua perecesse,
- Sem que ao menos desmer’cesse
- Em seu rosto uma só rosa.
-
-
-II
-
- Veio um dia—n’esse dia
- O captiveiro acabava—
- No mais alto o sol ardia
- E a terra toda abrasava,
- Na tôrre uma voz se ouvia,
- (E é ésta a primeira vez)
- Era uma voz que pedia,
- Que supplicava piedade:
- —‘Uma sêde, uma só d’agua,
- Uma só por compaixão,
- Que me abraso n’esta fragua,
- Que me estalla o coração.’
-
-
-III
-
- A voz de Adozinda bella
- Todos clara conheceram;
- C’os olhos na alta janella
- De toda a parte correram:
- —‘Vive, inda vive!’ bradavam,
- ‘A innocente! vinde ve-la.’
- E uns aos outros recontavam
- Das virtudes, da paciencia
- D’aquelle anjo d’innocencia
- Que, ha muito, morta julgavam.
- —Outra vez se torna a ouvir
- O mesmo clamor sahir
- Da torreada prisão:
- —‘Uma sêde, uma só d’agua,
- Uma só por compaixão,
- Que me abraso n’esta fragua,
- Que me estalla o coração!’
-
-
-IV
-
- A todos se commoveu
- O mais intimo do peito,
- Mas não ousam a affrontar
- Do pae o sevo despeito.
- —‘Tem paciencia, anjo do ceo!’
- Com lagrymas responderam,
- ‘Que ja não póde tardar
- O pae que te vem soltar.
- Os sette annos decorreram,
- O dia está a acabar;
- Soffre mais este momento,
- Que hoje acaba o teu tormento.’
-
-
-V
-
- —‘Oh! como heide eu supportar,
- Amigos meus da minha alma,
- Se a vida sinto acabar,
- Sinto abrasar-me da calma?
- Sette annos me accudiu Deus,
- Que por milagre vivi,
- Dava-me orvalho dos ceos,
- De que sette annos bebi.
- Do estio ardentes queimores
- No meu corpo os não senti,
- Do hinverno os frios rigores
- Tambem esses não tremi.
- Mas ha tres dias que a mão
- Do Senhor me abandonou.
- Tudo, tudo me faltou...
- Oh! tende de mim piedade!
- Uma sêde, uma só d’agua,
- Uma só por compaixão,
- Que me abraso n’esta fragua,
- Que me estalla o coração!’
- —De novo alto chôro ergueram,
- Lastimado pranto gemem;
- Mas de seu tyranno tremem,
- Só a chorar se atreveram.
-
-
-VI
-
- Soa a nova no castello,
- Vai correndo em derredor,
- De que porfim fôra ouvido
- Aquelle anjo soffredor
- Soltar queixoso gemido,
- Piedade emfim suppllicar.
- Só a Auzenda, que expirando
- No leito da morte jaz,
- Para que morresse em paz
- Vão a noticia occultando.
- Mas soube tudo Sisnando,
- E no duro coração
- Ja vacilla a crueldade,
- Ja vislumbra a compaixão:
- Dos seccos olhos covados,
- Que inspiravam medo e espanto,
- Como que da mão tocados
- D’algum anjo punidor,
- Salta repentino o pranto,
- Qual onda que estalla em flor
- Sôbre o penedo ourissado.
- Todo em lagrymas sanguineas
- O infeliz debulhado,
- Para aquella infausta tôrre
- Com incerto passo corre
- Em altos gritos bradando:
- —‘Agua! trazei agua, vinde,
- Accudi á desgraçada,
- A uma filha malfadada
- Que por mãos de seu pae morre!’
-
-
-VII
-
- Assim correndo e gritando
- Chegava á horrivel prisão
- Em que gemia Adozinda:
- —‘Filha, filha, é tempo ainda;
- Perdão, ó filha, perdão
- Para este algoz...’—Cortou-lhe
- O excesso da paixão
- Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe,
- E por morto cai no chão.
-
-
-VIII
-
- Oh! que povo se ajuntava
- No castello de Landim!
- E com que horror que elle olhava
- Para aquelle triste fim
- De tammanho cavalleiro,
- Tam ricco e grande senhor,
- Tam esforçado guerreiro!
- A Auzenda chega o rumor
- Do successo inesperado,
- Dá-lhe fôrça e vida amor;
- O fio meio cortado
- Da existencia lhe atou.
- Ei-la se ergue, e em mal-firmado
- Passo corre—e lá chegou.
-
-
-IX
-
- E ja por ordem de Auzenda
- Co’a porta negra e tremenda
- Investem da tôrre erguida:
- Range o ferro, os gonzos gemem,
- Parece que ja rendida
- Vai de todo;—á roda tremem,
- Do fundamento aluida
- A tôrre, os solidos muros.
- Mas em vão de centenares
- Dos mais rijos braços duros
- Se movem os instrumentos
- Que em muralhas mais valentes
- De castellos regulares,
- De mais solidos cimentos
- Têem a miudo triumphado.
-
-
-X
-
- Parece incanto:—será?
- O povo maravilhado
- Ja por tal, tremendo, o dá.
- Cessam todos, incantado
- É o negro portão ferrado...
- E o povo desanimado
- Da impreza desiste ja.
-
-
-XI
-
- Arreda, arreda, infançoes,
- Cavalleiros, dae logar,
- Com licença, nobre dama,
- Que ahi vem um sancto ermitão:
- Com as suas orações
- Este incanto hade quebrar,
- Ou, se do demonio é trama,
- Com o seu bento condão
- Elle o hade desmanchar.
- —Ei-lo chega:—este semblante
- Não é aqui desconhecido...
- Ésta barba, este vestido...
- É elle, o mesmo ermitão
- Que a noite de San’João
- (Não ha dez annos ainda)
- No castello pernoitou,
- —Que Sisnando o maltrattou.
- Mas, por a bella Adozinda
- Pedir muito, lá ficou.
-
-
-XII
-
- Com a cabeça cuberta
- Do seu agudo capuz,
- Os olhos de côr incerta,
- Pasmados, fixos... e a luz
- Que d’elles sai é tam viva
- Que a espaços da vista priva
- Quem de perto os quer fitar!
- As mãos cruzadas no peito,
- Vagaroso seu andar,
- Tam pesado e de tal geito
- Que faz um echo tremendo
- Quando os passos vai movendo,
- E como que a terra e o ar,
- Com o pêso vão gemendo...
- —Foi seu caminho direito
- Da tôrre á porta ferrada;
- Sem attender a mais nada,
- Sem olhar nem para Auzenda,
- Que em lagrymas debulhada
- Supplices mãos lh’estendia.
- Chega á porta, e em voz horrenda
- —‘Abre-te!’—disse. Estallou
- O ferro medonhamente,
- E a porta se escancarou,
- —Mas elle subitamente,
- Voltando-se para a turba,
- Que alto alarido alevanta
- E em derredor se perturba,
- Com gesto que aos mais ousados
- Todo o ânimo quebranta,
- —‘Immudecei!’ lhes bradou.
- Ficaram todos callados;
- E—_immudecei_—revibrou
- De echos em echos dobrados
- Pelo castello e jardim,
- Pelos soutos ao redor,
- Pelos campos dilatados
- Que a Dom Sisnando obedecem
- E por senhor reconhecem
- Ao ricco-homem de Landim.
- —Depois estendendo a mão
- Ao logar onde jazia
- Por morto no frio chão
- O desgraçado Sisnando,
- Éstas palavras dizia
- Que em ouco som vão soando:
-
- —‘Eu te esconjuro,
- Alma perdida,
- Volta-te á vida!
-
- ‘Que o teu peccado,
- Abominado
- Do proprio inferno,
- Só tem perdão
- Com longa vida
- De penitencia,
- De contrição,
- Que a alma perdida
- Salve do inferno,
- Da maldicção.
-
- ‘Eu te esconjuro,
- Alma perdida,
- Volta-te á vida!
-
- ‘O anjo celeste
- Na hora última
- Te perdoou,
- E ao Pae Eterno
- A tua victima
- Por ti rogou
-
- ‘Lazaro immundo,
- N’esta grande hora
- Volve-te á vida,
- Vem, surge fóra!’
-
-
-XIII
-
- Em pé está Dom Sisnando:
- Vivo está, morto parece,
- Tam negro veo lh’innoitece
- O verde-pallido rosto,
- Onde o seu sêllo ja pôsto
- Tinha o archanjo da morte.
-
-
-XIV
-
- De joelhos o ermitão,
- Com a cabeça cuberta,
- Á porta da tôrre aberta
- Faz breve e baixa oração.
- Eis violento repellão
- A terra, tremendo, deu,
- E d’alto abaixo a muralha
- Largamente se fendeu.
- Viram todos claramente
- O interior patente
- Em que jazia Adozinda,
- D’onde ha poucas horas inda
- Sua voz se ouviu clamar,
- E por uma sêde d’agua
- Ao seu algoz supplicar.
-
-
-XV
-
- N’um leito de frescas rosas,
- Que aromas do ceo recendem,
- Morta Adozinda jazia:
- Suas feições mais formosas,
- Mais angelicas resplendem.
- Uma suave harmonia
- Tam brandamente soava,
- Que ao coração parecia
- Que por piedade o affagava
- A quem saudoso gemia.
- —A alva frente, não tocada
- Pela mão da morte livida,
- De lirios do ceo coroada
- Brilhava com luz tam vivida
- Que parecia toucada
- De puros raios do sol.
- As mãos postas sôbre o peito
- Para o ceo se alevantavam,
- E como que d’alma justa
- Para a morada apontavam.
-
-
-XVI
-
- Oh! que vista, oh! que momento
- Para a triste mãe!—Faltava
- Só este último tormento.
- A malfadada cuidava
- Que nenhum padecimento
- Para gemer lhe sobrava!
- Era este.—E a dor ignora,
- Não sabe o que é padecer
- Quem o filhinho que adora
- Não viu ainda morrer...
-
-
-XVII
-
- Levantou-se o ermitão
- E bradou:—‘Ajoelhemos,
- E a mão de Deus adoremos.’
- —Submissa resignação
- Póde a voz tolher á dor,
- Não tira do coração
- Seu espinho pungidor,
- Que em silencio é mais cruel,
- Rasga mais, e na ferida
- Mais acre derrama o fel.
- A paciencia soffrida
- Da triste Auzenda cedeu;
- Não exclamou, não gemeu,
- E em tributo de respeito
- Sua mágoa fechou no peito.
-
-
-XVIII
-
- E Sisnando?—O desgraçado
- No pó da terra humilhado,
- Só se lhe conhece a vida
- Na agitação comprimida
- Do convulso soluçar.
-
-
-XIX
-
- Para a ermida do castello
- Emfim o corpo levaram
- E n’um cofre d’ouro fino
- Como reliquia o guardaram.
- —Muito a não carpiu Auzenda,
- Que a morte compadecida
- Cedo a libertou da vida.
- Porêm a longa existencia
- De remorso e penitencia
- Sisnando foi condemnado:
- Cuberto de horror e opprobrio
- Cumpriu seu mesquinho fado;
- Onde?—Ninguem mais o soube.
- Do castello aquella noite
- Com o ermitão se sumiu;
- Nunca mais d’elle se ouviu.
- Mas á meia-noite em ponto
- Na capella de Landim
- Se ficou sempre escutando
- Gemer uma voz medonha,
- Que pede perdão bradando:
- E essa voz diziam todos
- Que era a voz de Dom Sisnando.
-
-
-
-
-II
-
-BERNAL-FRANCEZ
-
-
-Este romance é tirado de uma das mais conhecidas e provavelmente mais
-antigas xácaras que o povo canta. Sua contextura simples mas forte, a
-scena tão dramatica com que abre, o fexo sublime com que termina dão-lhe
-todos os characteres de poesia primitiva e grande de um povo heroico, de
-uma gente que tomava as coisas da vida ao serio, como a nossa era. Estou
-que é originariamente portuguez: não apparece em nenhum dos romanceiros
-castelhanos, nem na vasta collecção de Ochoa.—O texto, como o conservou
-a tradição oral dos povos, da-lo-hei no logar competente, segundo lh’o
-talhei no prefacio d’este volume[12], e demandava o systema da minha
-compilação: e ahi se vejam as conjecturas que tenho feito sôbre ésta
-preciosa reliquia da nossa poesia popular.
-
-Mr. Southey, o famoso poeta e historiador inglez, tendo lido a Adozinda
-e o Bernal, quando os publiquei a primeira vez em Londres em 1828,
-escrevia ao meu amigo Mr. Adamson, o biographo de Camões: ‘que estes
-eram dois monumentos de mais remota antiguidade talvez do que nenhumas
-d’aquellas canções irlandezas que elle até alli tivera na conta de serem
-os vestigios mais antigos de toda a poesia popular das nações do oeste da
-Europa.’
-
-Communicando-me ésta reflexão, tam lisongeira para um collector
-enthusiasta de antigualhas, mandou-me o Sr. Adamson a traducção ingleza
-que pela primeira vez agora sai impressa, e o leitor achará logo adeante
-do texto portuguez[13].
-
-No verão de 1840, quando apromptei para a presente edição ésta parte
-do volume, dediquei o Bernal-Francez a uma joven senhora que juntava
-a outras admiraveis qualidades a de possuir, no mais eminente grau
-que ainda incontrei, o sentimento do bello, do grande, do verdadeiro
-nas artes. Este romancinho era o seu valído d’entre todas as minhas
-escreveduras poeticas: consagrei-lh’o... Hoje é um monumento! bem pobre e
-mesquinho para memoria de tanta saudade!
-
-Todavia o seu desejo e impenho era que eu fizesse uma verdadeira epopea,
-e me deixasse d’estas coisas que nunca podiam passar de _bonitinhas_. A
-perda de D. Sebastião em Africa era o assumpto que me dava: dizia—e dizia
-bem—que devia ser o reverso da medalha dos Lusiadas, e que podia ser o
-mais popular e nacional de todos os poemas portuguezes depois d’aquelle.
-Ponho isto aqui para commentario dos versos que se seguem, e que alias
-não seriam intendidos.
-
-15 de Outubro de 1842.
-
-
-A ADELIA
-
- Tu queres, amiga, que eu deixe
- Minha harpa no chopo do monte,
- Que nem sempre me chore e queixe,
- Que seja poeta... a cantar!
- Que da brava inculta deveza
- Me não fique pasmado á fonte
- A admirar só a natureza,
- Sem um brado de glória alçar!
- Na escarpada selvatica brenha
- Não se colhem senão rudes flores,
- Bem o sei—crescem-lhe hirtas na grenha,
- São singellas
- De fôlha e de côres,
- Não se toucam as bellas
- Com ellas:
- Não se infeitem jardins de formosas
- Com musquetas bravias e rosas!
-
- —‘Vê o nobre, magnifico traço[14]
- Do regrado edificio de Homero,
- Do mavioso Virgilio, do Tasso!
- (Dizes tu, maga musa d’amor)
- ‘E ora terno e mavioso, ora fero,
- Ja sublime, ja doce—o cantor
- De Ignez bella, feio Adamastor.
- Como erguendo, campea, a alta frente
- Sôbre todos os vates do Pindo!’
- —Vejo, oh! vejo, que ésta alma ardente
- Ja nos voos andou seguindo
- Essas aguias mais remontadas...
- Hoje é abelha, ahi anda zumbindo
- Por entre agras, singellas flores
- Desalinhadas:
-
- Mas são flores que nascem na serra
- Onde todo o seu mundo se incerra,
- Porque ahi tem—o seu bem—seus amores.
-
-Bemfica, 12 de maio de 1840.
-
-
-BERNAL-FRANCEZ
-
-
-I
-
- Ao mar se foi D. Ramiro,
- Galé formosa levava;
- Seu pendão terror dos Mouros
- N’alta poppa tremolava.
-
- Oh que adeus na despedida!
- De saudades vai rallado;
- Com tantos annos de amores,
- Não tem um de desposado.
-
- Nem ha dama em toda a Hespanha
- Tam bella como é Violante;
- Não a houvera egual no mundo
- Se ella fôra mais constante.
-
- Bate o mar na barbacan
- Do castello alevantado,
- Só a vela[15] na alta tôrre
- Não cede ao somno pesado.
-
- Tudo o mais repousa e dorme,
- Tudo é silencio ao redor;
- Dobra o recato nas portas
- Com a ausencia do senhor.
-
- Mas a certa hora da noite
- Se vê luz n’uma setteira,
- E logo cruzar por perto
- Leve barca aventureira.
-
- Muitas noites que passaram,
- Manso esteja ou bravo o mar,
- A mesma luz, á mesma hora,
- A mesma barca a passar.
-
- E isto ignora o bom Rodrigo,
- Que tam fiel prometteu
- De guardar a seu senhor
- Juramento que lhe deu?
-
- Sabera, não sabera:
- Mas a c’ravella ligeira,
- Que aopé da torre varada
- Jazia alli na ribeira.
-
- Uma noite escura e feia
- Na praia menos se achou...
- Quem n’ella foi não se sabe,
- Mas onde foi não tornou.
-
- E o farol que no alto luz
- Á mesma hora a brilhar...
- Só a barca aventureira
- Não foi vista hoje passar.
-
- E d’um lado aopé da rocha
- Havia um falso postigo:
- Só o sabem D. Ramiro,
- Violante e o fiel Rodrigo.
-
- Mas alta noite, horas mortas,
- Gente que o postigo entrava,
- E á porta de Violante
- Manso bater se escutava.
-
- —‘Quem bate á minha porta,
- Quem bate, oh! quem ’stá ahi?
- —’Sou Bernal-francez, senhora,
- Vossa porta a amor abri.’
-
- Ao descer do leito d’oiro
- A fina hollanda rasgou,
- Ao abrir mansinho a porta
- A luz que se lhe apagou:
-
- Pela mão tremente o toma,
- Ao seu apposento o guia:
- —‘Como treme, amor querido,
- Esta mão, como está fria!’
-
- E com osculos ardentes
- E no seio palpitante,
- Que lhe aquece as frias mãos
- A namorada Violante.
-
- —‘De longe vens?’—‘De mui longe.’
- —‘Bravo estava o mar!’—‘Tremendo.’
- —‘Armado vens!’—Não responde.
- Vai-lhe as armas desprendendo.
-
- Em pura essencia de rosas
- O amado corpo banhou,
- E em seu leito regallado
- A par de si o deitou.
-
- —‘Meia noite ja é dada
- Sem para mim te voltares,
- Que tens tu, querido amante,
- Que me incobres teus pezares!
-
- ‘Se temes de meus irmãos,
- Elles não virão aqui;
- Se de meu cunhado temes,
- Não é homem para ti.
-
- ‘Meus criados e vassallos
- Por essa tôrre a dormir,
- Nem de nosso amor suspeitam,
- Nem o podem descubrir.
-
- ‘Se de meu marido temes,
- A longes terras andou:
- Por lá o detenham Mouros,
- Saudades ca não deixou.’
-
- —‘Eu não temo os teus criados,
- Meus criados tambem são:
- Irmãos nem cunhado temo,
- São meus cunhados e irmão.
-
- ‘De teu marido não temo
- Nem tenho de que temer...
- Aqui está aopé de ti,
- Tu é que deves tremer.’
-
-
-II
-
- E o sol ja no oriente erguido
- Da tôrre ameias dourava;
- Violante mais bella que elle
- Para a morte caminhava:
-
- Alva tella aspera e dura
- Veste o corpo delicado,
- Por cintura rijo esparto
- Em grosseiro laço atado.
-
- Choram pagens e donzellas,
- Que a piedade o crime esquece;
- O proprio offendido espôso
- Com tal vista se internece.
-
- Dá signal a campa triste,
- O algoz o cutello affia...
- —‘Meu senhor mereço a morte’
- A malfadada dizia,
-
- ‘De joelhos, D. Ramiro,
- Humilde perdão vos peço,
- Perdoae-me por piedade...
- A morte não, que a mereço:
-
- ‘Da affronta que vos hei feito
- Por minha triste cegueira,
- Dae-me quitação co’a morte
- N’ésta hora derradeira:
-
- ‘Mas só eu sou criminosa
- Do aggravo que vos fiz,
- Não tireis, senhor, vingança
- D’esse misero, infeliz...’
-
- Talvez ia perdoar-lhe
- O espôso compadecido...
- Renovou-se-lhe o odio todo,
- D’aquelle rôgo offendido:
-
- O semblante roxo d’ira
- Para não vê-la torceu,
- E co’ a esquerda mão alçada
- O fatal accêno deu.
-
- Sôbre o collo crystallino,
- Desmaiado, e inda tam bello,
- De golpe tremendo e subito
- Cai o terrivel cutello.
-
-
-III
-
- Oh! que procissão que sai
- Da antiga porta da tôrre!
- Que gente que acode a vê-la,
- Que povo que triste corre!
-
- Tochas de pallida cera
- Nas trevas da noite escura
- Vão dando luz baça e triste,
- Luz que guia á sepultura:
-
- Cubertos com seus capuzes
- Rezam frades ao-redor,
- A dobrar desintoados
- Os sinos causam terror...
-
- Duas noites são passadas,
- Já não ha luz na setteira,
- Mas passando e repassando
- Anda a barca aventureira.
-
- Linda barca tam ligeira
- Que nenhum mar soçobrou,
- O farol que te guiava,
- Ja não luz, ja se apagou.
-
- A tua linda Violante,
- O teu incanto tam bello,
- Teve por ti feia morte,
- Crua morte de cutello.
-
- Na egreja de San’Gil
- Ouves a campa a dobrar?
- Ves essas tochas ao longe?
- Ella que vai a interrar.
-
- Ja se fez o interramento,
- Ja cahiu a louza fria,
- Só na egreja solitaria
- Um cavalleiro se via;
-
- Vestido de dó tam negro,
- E mais negro o coração,
- Sôbre a fresca sepultura
- De rôjo se atira ao chão:
-
- —‘Abre-te, ó campa sagrada,
- Abre-te a um infeliz!...
- Seremos na morte unidos,
- Ja que em vida o ceu não quiz.
-
- ‘Abre-te, ó campa sagrada
- Que escondes tal formosura,
- Esconde tambem meu crime
- Com a sua desventura.
-
- ‘Vida que eu viver não quero,
- Vida que eu só tinha n’ella,
- Recebe-a, ó campa sagrada,
- Que não posso já soffrê-la.’
-
- E o pranto de correr,
- E os soluços de estallar,
- E a mão que leva á espada
- Para alli se traspassar.
-
- Mas a mão gelou no punho
- Voz que da campa se erguia,
- Voz que ainda é suave e doce,
- Mas tam medonha e tam fria,
-
- Do sepulchro tão cortada,
- Que as carnes lhe arripia
- E a vida deixou parada:
-
- —‘Vive, vive, cavalleiro,
- Vive tu, que eu ja vivi;
- Morte que me deu meu crime,
- Fui eu só que a mereci.
-
- ‘Ai n’este gêlo da campa,
- Onde tudo é frio horror,
- Só da existencia conservo
- Meu remorso e meu amor!
-
- ‘Braços com que te abraçava
- Ja não teem vigor em si;
- Cobre a terra humida e dura
- Os olhos com que te vi;
-
- ‘Bôcca com que te bejava
- Ja não tem sabor em si;
- Coração com que te amava...
- Ai! só n’esse não morri!
-
- ‘Vive, vive, cavalleiro,
- Vive, vive e sê ditoso;
- E apprende em meu triste fado
- A ser pae e a ser espôso.
-
- ‘Donzella com quem casares
- Chama-lhe tambem Violante;
- Não amará mais do que eu...
- Mas—que seja mais constante!
-
- ‘Filhas que d’ella tiveres
- Ensina-as melhor que a mim,
- Que se não percam por homens
- Como eu me perdi por ti.’
-
-
-VERSÃO INGLEZA
-
-
-I
-
- See, Don Ramiro’s galley speeds
- Across the heavy seas,
- His pennant which the moor so dreads
- Now flutters in the breeze.
-
- Oh! when he went, his heart was moved
- With grief that would not hide...
- To part with her he long had loved
- Though lately called his bride!
-
- Spain’s loveliest maids or royal queen
- In charms could not compare
- With Violante, had she been
- True as her form was fair.
-
- Against the castle’s flanking tower
- Wild beats the surging deep,
- And there a watch at midnight hour
- Would not submit to sleep:
-
- All else lulled by the breaker’s jar
- In slumber calm reposed,
- And as its lord was distant far
- His castle gates were closed.
-
- But lo! a bark at dead of night
- Alone doth swiftly glide
- Beneath the tower from whence a light
- Shines glimmering on the tide.
-
- And many a darksome night the bark,
- As falls that hour, returns;
- Through wind and wave its path to mark
- The signal torch-light burns.
-
- Roderigo, rouse thee up from sleep;
- The oath which thou didst swear
- To thy good lord, how canst thou keep
- When strangers come so near!
-
- For knowest thou not, where softest swell[16]
- The waves around thy strand,
- With sail unstretched, a caravel
- Remains upon the sand?
-
- Ah! in a stormy night and dark
- It reckless left the shore;
- Who was its pilot none could mark
- But it came back no more.
-
- Yet at the hour, the guiding light
- On high began to burn,
- ’Twas vain—no eye observed, this night,
- The little bark return.
-
- Far down the rugged rock that spread
- Its masses round the tower,
- Was placed a secret gate which led
- To Violante’s bower.
-
- Within this postern, steps were heard
- At night approaching near,
- And on her door so firmly barred
- A knock aroused her ear;
-
- —‘Oh! who can thus, unknown advance
- And knock so boldly there?’—
- —’Tis Bernal, lady, thine of France:
- He seeks thy smile to share.’
-
- From couch of gold she reached the floor
- And rent her vestment gay,
- And as she gently opened the door
- It quenched her taper’s ray.
-
- His clay cold hand she seized him by
- And led him to her bower!
- —‘Love, tremble not: within our sky
- No clouds of sorrow lower.’
-
- Then on her fair and glowing breast
- That, heaving, throbbed the more
- She pressed his hands: and fondly kissed
- His cold lips o’er and o’er.
-
- —‘Far have you come!’—‘Yes very far.’
- —‘Rough was the raging sea?’
- —‘It was.’—‘Why come you armed for war?
- Nay tell thy thoughts to me.’
-
- She doffed his armour, and the dew
- Of roses, scenting wide,
- In liquid drops she o’er him threw
- And laid him by her side.
-
- —‘Twelve hours hath rung the castle bell;
- To her, who loves thee, turn
- Thy face, as thou wert wont, and tell
- What gives thee cause to mourn.
-
- ‘Oh! if my brothers thou dost fear,
- They will not come to me;
- My husband’s brother, were he here,
- Can never cope with thee.
-
- ‘My serfs and vassals, through the halls,
- Will sleep till morning light;
- Nor can they deem that, in my walls,
- I welcome such a knight.
-
- ‘My husband, fond of martial fray,
- To distant lands is gone,
- And may the Moors prolong his stay,
- Regret here left he none.’
-
- —‘They are my own, I need not fear
- Those kneeling slaves of thine,
- Nor brothers, for the badge they wear
- Above their helms is mine.
-
- ‘Nor do I dread thy husband’s wrath;
- Know... he reposes here,
- Even by his lady, void of faith,
- ’Tis she who well may fear.’
-
-
-II
-
- The sun dispelled morn’s shadows dim,
- And on the castle shone,
- When Violante, more fair than him,
- To meet her doom hath gone:
-
- Her lovely form, a garment long
- And coarse was wrapped around,
- A knotted rope, like cable strong,
- Her graceful person bound.
-
- And gushing tear drops blind the eye
- Of page and maiden fair;
- Nor are Ramiro’s lashes dry,
- Fresh moisture glistens there
-
- Pealed from lhe tower the signal bell,
- The axe was lifted high
- O’er Violante... Ere it fell
- She saw her husband nigh.
-
- —‘My lord’ she cried ‘I merit death,
- Yet on my bended knee,
- Ere from my bosom parts my breath,
- I pardon crave from thee.
-
- ’Tis not through blighted years to live
- Lamenting o’er the past,
- But my offense to thee, forgive,
- This hour is now my last.
-
- ‘On me, for I have wronged thy bed,
- Alone let vengeance light,
- Nor wreck thy rage upon the head
- Of Bernal, hapless knight.’
-
- To grant her wish, Ramiro’s breast
- With rising pity burned,
- But when she urged her last request,
- His former hate returned.
-
- Dark lowered his brow, fierce flashed his eye,
- As when his faulchion brave
- Repelled the foe,—his left hand high
- The fatal signal gave.
-
- Then on that neck of grace and love,
- Whose blue veins shining tell
- The pureness of the skin above,
- The headsman’s weapon fell.
-
-
-III
-
- Forth from the castle’s ancient gate,
- A dread procession slow
- Advanced, who mourned the happless fate
- That laid such beauty low.
-
- Above them many a waxen torch,
- In darkness of the night,
- Shed to the chapel’s gothic porch
- A dim and mournful light.
-
- And hooded closely many a friar
- Sung prayers the bier around,
- The massy bells within the spire
- Rung forth an awful sound.
-
- Two nights had passed, no torche’s ray
- Illumed the testless tide,
- But fleetly o’er the castle bay
- Again the skiff did glide.
-
- Swift bark, thy pilot braved the wrath
- Of ocean’s wildest war,
- But knows not how the damp of death
- Has quenched his leading star.
-
- Alas the fair whose beauty lured
- His path across the wave,
- The headsman’s stroke for him endured
- To fill a bloody grave.
-
- Within the chapel of Saint Gil
- Intombed she slumbers low;
- See, distant torches burning still...
- Hark, bells are pealing slow!
-
- All now is past—lies o’er the dead
- The cold sepulchral stone;
- And, see: a knight doth ceaseless tread
- The echoing aisles alone.
-
- His robes are black, but woe doth shroud
- His heart in darker gloom;
- And lo, he stretches, sobbing loud,
- His form upon her tomb.
-
- —‘Oh! open, grave, my heart is riven,
- I taste delight no more,
- Let death unite us now, whom heaven
- In life asunder tore.
-
- ‘And her who calmly sleeps beneath
- Again to me reveal,
- That by her side, I may, in death,
- My crime with her conceal.
-
- ‘It is not, torn with inward strife,
- My wish to linger on,
- And live, when she, the very life
- Of all my hopes, is gone.’
-
- Then fell his tears; his hands were clasped,
- And moanings of despair
- Burst from his heart, his blade he grasped
- To still the conflict there.
-
- But why inactive did he stand?
- A voice unearthly rose
- Out of the tomb, and stayed his hand
- Till on the hilt it froze.
-
- Like hollow gusts in winter drear,
- That sound, appalling, came
- So deep and sudden o’er his ear,
- It deathlike thrilled his frame.
-
- —‘Live, cavalier, though I no more
- Survive, let life be thine,
- Since for my crime the stroke I bore
- The fault alone was mine.
-
- ‘Cold horror dwells beneath this stone,
- And all I knew above
- Of glowing life from me is gone,
- Except remorse and love.
-
- ‘The arms shall clasp thy neck no more
- Whose shape thou oft hast praised,
- The eyes with earth are covered o’er—
- That kindly on thee gazed.
-
- ‘The mouth whose lips did revel free
- On thine, is senseless now;
- But that fond heart which beat for thee
- Death cannot chill its glow.
-
- ‘Live, live, Sir Knight; a soul like thine
- To honour should aspire;
- Oh! learn to be, from fate like mine,
- A husband and a sire.
-
- ‘And name the maiden after me
- Whose heart shall thee adore:
- Than I, more faultless she may be,
- But cannot love thee more.
-
- ‘And oh! instruct her daughters young
- That love may never sway
- Their hearts to ill—think how I flung
- For thee my life away.’
-
-
-
-
-III
-
-NOITE DE SAN’JOÃO
-
-
-Este romance é e não é da minha simples composição. Estavam-me na saudosa
-memoria as vagas reminiscencias d’aquelles cantares tam graciosos com
-que, na minha infancia, ouvia o povo do Minho festejar a abençoada
-noite de San’João; estavam-me as fogueiras e as alcachofas de Lisboa a
-arder tambem na imaginação; e eu era muito longe de Portugal, e muito
-esperançado de me ver n’elle cedo: aqui está como e quando fiz ésta
-cantiga.
-
-Foi em San’Miguel, as antenas dos nossos navios ja levantadas para sahir
-a expedição;—soltámo-las ao vento d’ahi a horas... Isto escrevia-se
-na quinta do meu velho amigo, o Sr. José Leite, cavalheiro dos mais
-distinctos, e velho o mais amavel que produziu o archipelago dos Açores.
-
-Tambem alli estavam, para inspirar o poeta, uns olhos pretos de quinze
-annos, que promettiam arder ainda tanta noite de San’João, fazer queimar
-tanta alcachofa por sua conta!... Ja os cubriu a terra.
-
-Faz hoje dez annos que aquillo foi; e ainda não invelheci bastante para o
-esquecer.
-
-O romance é tam feito dos ditos e cantares do povo, que nem uma idea nem
-talvez um verso inteiro tenha que seja bem e todo meu. Por este motivo,
-principalmente, lhe dei logar aqui.
-
-Lisboa, 23 de Junho 1842.
-
- * * * * *
-
-Na collecção ja citada, a LUSITANIA ILLUSTRATA, part. II, pelo Sr. J.
-Adamson appareceu a traducção ingleza d’este romance, que vai transcripta
-no appendice ao LIVRO II do presente ROMANCEIRO.
-
-Sabe-se tambem de uma versão em Italiano, e de outra em Allemão, que não
-chegámos a ver ainda.
-
- Abril, 16—1853.
-
- OS EDITORES.
-
-
-NOITE DE SAN’JOÃO
-
- Té os moiros da Moirama
- Festejam a San’João:
- San’João, San’João, San’João!
- Dae-me peras do vosso balcão.
-
- CANTIG. POPUL.
-
-
-I
-
- —‘Meia noite já é dada,
- San’João, meu San’João,
- N’esta noite abençoada
- Ouvi a minha oração!
-
- ‘Ouvi-me, sancto bemditto,
- Ouvi a minha oração,
- Com ser eu moira nascida
- E vós um sancto christão:
-
- ‘Que eu ja deixei a Mafoma
- E a sua lei do alkorão,
- E só quero a vós, meu sancto,
- Sancto do meu Dom João.
-
-
-II
-
- ‘Como eu queimo ésta alcachofa
- Em vossa fogueira benta,
- Amor queime a saudade
- Que no peito me rebenta.
-
- ‘Como arde esta alcachofa
- Na vossa fogueira benta,
- Assim arda a negra barba
- Do moiro que me atormenta.
-
- ‘Como ésta fogueira abrasa
- A minha alcachofa benta,
- Ao meu cavalleiro abrase
- A chamma de amor violenta.
-
-
-III
-
- ‘Sacudi do alto do ceo
- Vossa capella de flores,
- Que n’este ramo queimado
- Renasçam por meus amores.
-
- Orvalhadas milagrosas
- Que saram de tantas dores,
- N’este coração, meu sancto,
- Acalmem os meus ardores.
-
- San’João, meu San’João,
- Sancto de tantos primores,
- N’esta noite abençoada,
- Oh! trazei-me os meus amores!’
-
-
-IV
-
- Ja se apagava a fogueira,
- Ja se acabava a oração,
- Ainda está de joelhos
- A moira no seu balcão.
-
- Os olhos tinha alongados,
- Batia-lhe o coração:
- Muita fe tem aquella alma,
- Grande é sua devoção!
-
- Ouviu-a o sancto bemditto:
- Que, por sua intercessão,
- D’aquelle extasi acordava
- Nos braços de Dom João.
-
-
-
-
-IV
-
-O ANJO E A PRINCEZA
-
-
-O célebre êrro commettido pelos Settenta na traducção do _v._ 2 do cap.
-VI do GENESIS deu um poema inteiro a Thomaz Moore, ‘_Os Amores dos
-Anjos_—The Loves of the Angels’ E d’este partiu o pallido reflexo da
-‘Chute d’un Ange’ que apenas animam as bellas pinturas de paizagem feitas
-do vivo e natural, e como de mão que as copiou nos proprios sitios: em
-tudo o mais o poema de Lamartine é inferior ao do Anacreonte d’Irlanda.
-
-Hoje lêmos na Vulgata:—‘Videntes filii Dei filias hominum quod essent
-pulchrae, acceperunt sibi uxores ex omnibus quas elegerant.
-
-O Padre Antonio Pereira verteu:—‘Vendo os filhos de Deus, que as filhas
-dos homens eram fermosas, tomárão por suas mulheres as que d’entrellas
-lhes agradárão mais.’
-
-O Padre João Ferreira d’Almeida assim:—‘Viram os filhos de Deus que as
-filhas dos homens eram fermosas, e tomaram para si mulheres de todas as
-que escolheram.’
-
-Mas os Settenta não tinham intendido assim o texto hebraico, e em
-vez de—_filhos de Deus_, traduziram—_anjos de Deus_ (_οἰ Αγγελοι του
-Θεου_); êrro, que ajudado pelos commentos poeticos de Philon, e pelas
-ficções do apocrypho livro de Enoch, accendeu as imaginações meio pagans
-de Tertuliano, de Lactancio, e até de San’Clemente-Alexandrino. Seja
-ditto com o devido respeito a estes Padres da Egreja: nem Hesiodo nem
-Ovidio estenderam fábula alguma do polytheismo por maiores desvarios do
-que elles poetizaram acêrca d’esta ficção. Rejeitou-a todavia a maior
-parte dos Sanctos Padres. Deplorou-a como absurdo San’João Chrysostomo,
-stigmatizou-a de loucura San’Cyrillo. Segundo elles as palavras—_filhos
-de Deus_—querem dizer:—os _descendentes de Seth por Enos_, porque
-foram os primeiros que invocaram o nome do Senhor. Assim por estoutras
-palavras—_as filhas dos homens_—devemos intender:—_as filhas da corrupta
-raça de Cain_. É opinião seguida sem disputa, na egreja catholica e em
-quasi todas as outras, desde Sancto Thomaz até hoje.
-
-O TARGUM DE ONKELOS, que é a mais antiga das paraphrases chaldaicas, e a
-versão de Symacho traduziram—_os filhos dos nobres ou grandes_; a versão
-samaritana diz—_os filhos dos juizes_.
-
-E parece que a palavra hebraica, _Elohim_, admitte todas éstas tam
-desvairadas interpretações.
-
-Seja como for, d’aquelle desvio de texto e de imaginação nasceu muita
-poesia para os escriptores mysticos dos judeus e dos christãos primitivos
-e dos gnosticos e de todas essas seitas do Oriente, e porfim, em nossos
-dias, para os poemas de dois vates, ambos christianissimos hoje, ambos
-eminentemente catholicos—o francez talvez agora um tanto menos,—o
-inglez muito mais, principalmente depois d’essa ultima sua obra
-philologo-orthodoxa.
-
-Eu porêm não quiz fazer mais do que uma ‘lenda-romance’ como a comporia
-um menestrel da edade-media em cujas coplas os donairosos sonhos da
-mythologia, assim como os severos mysterios da crença, tomavam sempre
-os habitos sociaes do seu tempo. Jupiter era Dom Jupiter, rei de coroa
-na cabeça e barbas até á cinta, rodeado de condes e de pagens, servido
-por nobres donzellas de espartilho e toucas altas; San’Miguel e o
-proprio Lucifer dois cavalleiros de lança em punho e escudo imbraçado,
-justando em mui leal batalha n’essas nuvens, com Legiões e Potestades
-por mantenedores do campo;—o Olympo era um castello feudal, e o ceo uma
-roca-forte. Em summa, sem princezas e cavalleiros não havia poesia para
-elles, nem a podia haver, porque essa era a vida que elles conheciam, o
-bello e sublime da vida que concebiam.
-
-Por isto o tom biblico d’esta lenda ou legenda necessariamente é
-modificado e predominado do ar cavalheresco ou romantico, proprio de um
-cultor da Gaya-Sciencia. Veja-se no Cancioneiro de Rezende como, ainda
-no seculo XV, o nosso João Rodrigues de-Sa-e-Menezes traduzia—não tanto
-do latim para portuguez, quanto do romano para romance, a epistola de
-Laodamia. Veja-se como o proprio Sá-de-Miranda na egloga IV reconta as
-classicas aventuras de Cupido e Psychis,—verdadeira fonte tambem da muito
-romantica e trovada historia da carochinha, _A Bella e a Fera_, que toda
-a gente sabe—ou soube quando era pequeno.
-
-O fio da minha legenda é muito singelo. Era uma vez a filha de um rei,
-môça, linda, e unica herdeira do throno. Fugia das diversões e grandezas
-da côrte para se intregar á meditação na soledade. Adoece mortalmente
-emquanto el-rei seu pae anda á guerra. Volta elle triumphante e vem-n’a
-achar na derradeira agonia. O seu mal não o intendem os physicos.
-Lembra-lhes se será alguma secreta paixão d’amor. Elrei está prompto
-a tomar para genro seja quem for, comtanto que lhe viva a filha. Nem
-assim. Morre a pobre da princeza, e morre de mal d’amores. Mas como
-não havia de ser, se a sua fatal paixão é por um espirito—um gnomo, um
-sylpho, um anjo—quem sabe o quê!—talvez outro Bertrand que se apoderou
-d’esta Rosalia.—Ao menos, escapámos de segundo Roberto-do-diabo, porque a
-boa da infanta era de consciencia, e morreu antes d’isso.
-
-E d’ahi, quem sabe? seria anjo bom o que ella amava. Segundo
-San’Basilio, _de vera virginitate_, não póde ser; segundo Tertuliano e
-San’Clemente-Alexandrino ja se viu que podia ser.
-
-Campolide, 5 d’Outubro 1842.
-
-
-Á ILLUSTRISSIMA E EXCELLENTISSIMA SENHORA MARQUEZA DE FRONTEIRA
-
-Ésta lenda-romance foi escripta no seu album, Minha-Senhora, para cumprir
-uma promessa feita ha tanto tempo, e por cujo desimpenho tam retardado V.
-Ex.ª teve a bondade de nunca ralhar commigo. Dedico-lh’a agora que sai
-impressa; e é a primeira vez na vida que offereço versos ou prosas minhas
-a pessoa que podesse imaginar devê-lo á sua qualidade e grandeza. Será
-provavelmente a última, emquanto não fizer mais proselytos e imitadores
-o espirito verdadeiramente nobre e as maneiras verdadeiramente fidalgas
-que me obrigam a quebrar n’esta occasião o meu proposito tam firme e tam
-necessario n’esta terra.
-
- De V. Ex.ª
-
- Criado e fiel captivo
-
- ALMEIDA-GARRETT
-
- Campolide, 20 de Outubro 1842.
-
-
-O ANJO E A PRINCEZA
-
- ... Waft me hence to thy own sphere,
- Thy heaven or—ay, even _that_ with thee.
-
- MOORE, LOVES OF THE ANGELS.
-
- Oh que choros vão no paço
- Oh que luttos, que tristeza!
- Morre, morre a cada instante
- A nossa linda princeza.
-
- Os physicos não se intendem,
- Vão-se uns e outros vêem;
- Mas o mal que ella padece
- Não lh’o descobre ninguem.
-
- Nos olhos que se lhe inturvam,
- Ja treme a luz derradeira.
- Resa o officio da agonia
- Negro monge á cabeceira.
-
- Se inda chegará a tempo
- D’essas guerras d’além-mar
- O bom do rei, que inda possa
- A sua filha abraçar!
-
- A filha que elle ama tanto,
- Unica filha querida,
- A menina dos seus olhos,
- Bordão da cansada vida!
-
- Pois chegou. Tanto captivo,
- Tanto despôjo que traz!...
- Com victorias o inganava
- Fortuna, que acinte o faz.
-
- Pelas portas de palacio
- O real cortêjo entrava,
- Olha o rei a um lado e outro,
- Nem uma voz o acclamava...
-
- Pela filha, que não via,
- Não se atreve a perguntar,
- Mas ao quarto da princeza
- Foi direito sem parar:
-
- —‘Minha filha, minha filha!
- Que tens tu, filha querida?’
- E ella abria os olhos turvos
- Que ja não teem quasi vida...
-
- ‘Ametade do meu reino,
- Da minha c’roa real,
- A quem salvar a princeza,
- Quem acertar c’o este mal.’
-
- A éstas palavras do pae
- Meneia a pallida frente,
- Como quem diz:—‘Não o entendem,
- Nem cura o meu mal consente.’
-
- —‘São pezares... não se sabe...’
- Responde o physico-mor,
- ‘Outro mal lhe não descubro...
- Só se for o mal d’amor.’
-
- Um rubor desfallecido
- Assomou na face lenta
- Que já do suor da morte
- Se cobria macilenta.
-
- Os olhos, que no pae tinha
- Cravados desde que o viu,
- Com mostras de pêjo e medo
- Para a terra os descahiu.
-
- —‘Não tenhas, filha, receio,
- Levanta os olhos, querida;
- Seja quem for, será teu:
- Jurei-o por tua vida.
-
- ‘Seja elle ou ricco ou pobre,
- Seja fidalgo ou peão,
- Desde já por genro o tómo,
- E aqui lhe dou tua mão.’
-
- Como quem o último esfôrço
- De doce mágoa fazia,
- Com ineffavel brandura
- Os olhos ao pae erguia;
-
- Suave, longo suspiro
- D’entre os labios lhe fugiu...
- Era a vida que passava,
- Que sem dor se despediu.
-
- Foram para a amortalhar,
- No peito um signal lhe achavam
- De letras que ninguem leu,
- Que estranhas fórmas tomavam.
-
- Sette sabios são chamados
- Para haver de as deciphrar:
- Cada-um sette linguas sabe,
- Não n’as podem soletrar.
-
- Só o mais velho dos sette,
- Que andára na Palestina,
- Disse:—‘Outras letras como éstas
- Eu já vi n’uma ruina,
-
- ‘Junto dos cedros do Libano,
- Ja meio entre a terra e os ceos,
- Do tempo que ás filhas do homem
- Fallavam anjos de Deus.
-
- ‘Mas le-las não sei nem posso:
- Nem que soubesse, o fizera:
- Segredos são d’outro mundo
- Que, n’este, Deus não tolera.’
-
- No alto d’aquelle monte
- Um alto cedro nasceu;
- Ou anjos o semearam,
- Ou foram aves do ceo,
-
- Que ali cresceu de repente,
- De uma noite para um dia;
- E outro igual em todo o reino
- Como aquelle não havia:
-
- Foi a noite que a princeza
- Alli veio a sepultar:
- Era um sitio seu querido
- Donde sohia de estar,
-
- Aonde horas esquecidas,
- Sósinha, de quando em quando,
- Com as estrellas do ceo
- Parecia estar fallando;
-
- E onde, uma noite sem lua
- Que as estrellas mais brilhavam,
- Houve quem visse nos ares
- Umas roupas que alvejavam,
-
- E descer a pouco e pouco,
- E aopé da infanta parar
- Um vulto... visão... ou sombra...
- Mas sombra de luz sem par:
-
- E foi desd’aquella noite
- Que a não viu mais rir ninguem.
- Anjo era o que lhe fallava...
- Mas se de Deus... ou de quem?...
-
-
-
-
-V
-
-O CHAPIM D’ELREI OU PARRAS VERDES
-
-
-Foi verdadeiramente reconstruida ésta xácara dos fragmentos soltos da
-composição popular antiga, como hoje se reconstruiria das pedras cahidas
-de uma tôrre velha,—não exactamente o mesmo edificio, porque o cimento, e
-algum inchume novo aqui ou alli, seria mister impregar—mas quasi a mesma
-coisa; na fórma e nos materiaes a mesmissima.
-
-Vieram-me de Evora os fragmentos por intervenção do Sr. Rivara, o habil
-e zeloso bibliothecario d’aquella cidade: são parte em prosa, parte em
-verso, estado em que alguns d’estes fósseis se desinterram ás vezes.
-Verifiquei depois que pelas vizinhanças de Lisboa se incontravam na mesma
-fórma e quasi os mesmos.
-
-Deixei-lhe com mais seguridade o titulo de xácara que trazem muitos
-outros de nossos romances populares, porque effectivamente creio que
-quadra mais aos d’esta especie de narrativa que é feita dramaticamente
-pelos dizeres de um e outro dos seus personagens, emquanto o poeta pouco
-ou nada diz epicamente elle mesmo.
-
-Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as tres
-especies, romance, xácara, soláo: no romance predomina a fórma epica,
-conta e canta principalmente o poeta; na xácara prevalece a fórma
-dramatica, diz o poeta pouco, ás vezes nada—fallam os seus personagens
-muito: o soláo é mais plangente e mais lyrico, lamenta mais do que
-reconta o facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás vezes, como no soláo
-da Ama em Bernardim-Ribeiro, não ha senão o lamento de uma só pessoa que
-vai alludindo a certos successos, mas que os não conta.
-
-Apezar do que levo ditto no princípio d’estas linhas, como não posso
-negar que ha bastante do meu cimento no ligar e assentar das pedras
-velhas, e ellas eram tam poucas e tam sôltas, escrupulisei de pôr ésta
-peça no II livro do ROMANCEIRO paraque me não accusassem de macaquear as
-imposturas de Macpherson ou de Fr. Bernardo de Brito.
-
-A anecdota, que eu deixei religiosamente como a refere o povo, parece
-dever ter sido algum facto que realmente acontecesse:—como, quando
-e aonde? Não pude encontrar vestigio. É o que diz o pobre do conde,
-scismando:
-
- O chapim aqui o tenho,
- O chapim bem n’o topei:
-
-mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do outro mundo o dito rei para
-no-lo dizer.
-
-Lisboa, 27 de Março de 1843.
-
- * * * * *
-
-No appendice ao II livro do ROMANCEIRO achará o leitor a versão ingleza
-d’esta xácara, publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA ILLUSTRADA,
-part. II.
-
- Abril, 17—1853.
-
- OS EDITORES.
-
-
-O CHAPIM D’ELREI
-
-OU
-
-PARRAS VERDES
-
-
-I
-
- Verdes parras tem a vinha,
- Riccas uvas n’ella achei,
- Tam maduras, tão coradas...
- Estão dizendo ‘comei!’
-
- —‘Quero saber quem n’as guarda;
- Ide, mordomo, e sabei:’
- Disse o rei ao seu mordomo.
- Mas porque o dizia o rei?
-
- Porque viu n’aquelle monte
- —E como elle o viu não sei’—
- Essa donna imparedada,
- Não se sabe por que lei,
-
- Que por seu mal é condessa,
- Condessa de Valderey:
- Antes ser pobre e villan,
- Antes pela minha fei[17]!
-
- Verdes parras tem a vinha:
- Uvas que lhe víra el-rei
- Tam maduras, tão coradas,
- Estão dizendo ‘comei!’
-
-
-II
-
- Veio o mordomo do monte:
- —‘Boas novas, senhor rei!
- A vinha anda bem guardada,
- Mas eu sempre lá entrei.
-
- ‘O dono foi-se a outras terras,
- Quando volverá não sei;
- A porta é velha, e a porteira
- Com chave de ouro a tentei.
-
- ‘Serve a chave á maravilha,
- Tudo porfim ajustei:
- Ésta noite á meia-noite
- Comvosco á vendima irei.’
-
- —‘Valeis um reino, mordomo,
- Grandes mercês vos farei:
- Ésta noite á meia-noite
- Riccas uvas comerei.’
-
- A vinha tem parras verdes,
- Madura a uva lhe achei;
- E tam madura, tam bella,
- Que está dizendo ‘comei!’
-
-
-III
-
- Ao pino da meia-noite
- Foi mordomo e foi o rei:
- Doblas que deram á velha,
- Um conto que nem eu sei.
-
- —‘Mordomo ficae á porta,
- Á porta que eu entrarei;
- Não me saltem cães na vinha
- Em quanto eu vendimarei.’
-
- A porteira o que lhe importa
- É a dá-me que te darei...
- No camarim da condessa
- Veis agora entrar o rei.
-
- Levava um candil acceso;
- Era de prata, sabei:
- Não ha senão prata e oiro
- Na casa de Valderey.
-
- Da vinha as parras são verdes
- As uvas maduras sei,
- São tão coradas, tão bellas...
- D’ellas—quando comerei!
-
-
-IV
-
- No camarim da condessa
- Tudo andava á mesma lei,
- Era o ceo d’aquelle anjo:
- Que mais vos diga não sei.
-
- Riccas sedas de Millão,
- Toalhas de Courteney...
- Tremia o rei—se era susto,
- Se era de gôsto não sei.
-
- Cortinas de seda verde
- Vai ergo não erguerei...
- Tal clarão lhe deu na vista,
- Como não cahiu não sei.
-
- Era uma tal formosura...
- Ora que mais vos direi?
- Outro primor como aquelle
- Não vistes nem eu verei.
-
- Verdes parras tem a vinha,
- Riccas uvas lhe avistei,
- Tam formosas, tam maduras,
- Estão dizendo ‘comei!’
-
-
-V
-
- Dormia tam descançada
- Como eu no ceo dormirei
- Quando for tam innocente...
- Jesus! se eu lá chegarei!
-
- De joelhos toda a noite
- Alli fica o bom do rei,
- Pasmado a olhar para ella
- Sem bulir nem mão nem pei[18].
-
- E dizia:—‘Senhor Deus!
- Perdoae-me o que já pequei,
- Mas este anjo de innocencia
- Não sou eu que offenderei.
-
- Tem verdes parras a vinha;
- Lindas uvas que eu lhe achei,
- Tenho medo que me travem...
- D’ellas, ai! não comerei.
-
-
-VI
-
- Ja vinha arraiando o dia,
- E elle, como vos contei,
- Ouve apitar o mordomo...
- —‘Jesus, senhor, me valei!’
-
- Era o signal ajustado
- —Vindo o conde, apitarei—
- Deixou cahir as cortinas
- Dizendo:—‘Não vendimei!’
-
- Lindas parras tem a vinha,
- Bellas uvas n’ella achei;
- Mas doeu-me a consciencia,
- Das uvas não comerei.
-
-
-VII
-
- Deita a correr com tal pressa
- Que voava o bom do rei:
- —‘Ai que perdi um chapim...’
- —‘Tomae, que um meu vos darei:
-
- ‘Mas nem um instante mais,
- Que o conde ja avistei
- Descendo d’aquella altura;
- Se nos colherá não sei...’
-
- Era o medo do mordomo:
- Outro era o medo do rei.
- Qual d’elles tinha razão
- Agora vo-lo direi.
-
- Parras verdes viu na vinha,
- Uvas maduras de lei;
- Foi travo da consciencia,
- Diz:—‘D’ellas não comerei.’
-
-
-VIII
-
- Chega o conde á sua tôrre,
- O conde de Valderey,
- Topou n’um chapim bordado...
- Como ficou não direi.
-
- Vai-se ao quarto da condessa:
- —‘Morrerá, mattá-la-hei.’
- Viu-a dormir tão serena:
- —‘Jesus! não sei que farei!’
-
- Corre a casa ao derredor:
- —‘Deus me tenha em sua lei,
- Que ou ésta mulher é bruxa
- Ou eu c’o chapim sonhei!
-
- ‘O chapim aqui o tenho,
- O chapim bem n’o topei...
- Mas que durma assim tão manso
- Quem tal fez, não n’o crerei.’
-
- Entrou a scismar n’aquillo:
- —‘Valha-me Deus! que farei?
- Por menos fica homem doudo;
- E eu como o não ficarei?’
-
- Minha vinha tão guardada!
- Uvas que n’ella deixei
- Não é fructa que se conte...
- Da que me falta não sei.’
-
-
-IX
-
- Foi-se fechar no mais alto
- Da tôrre de Valderey:
- —‘Não quero comer do pão,
- Nem do vinho beberei;
-
- ‘Minhas barbas e cabellos
- Tambem mais os não farei,
- Que ésta verdade não saiba
- D’aqui me não tirarei.’
-
-
- Verdes parras d’essa vinha,
- Uvas que eu não comerei,
- Ficae-vos sêccas embora,
- Que eu já’gora—morrerei.
-
-
-X
-
- Por tres dias e tres noites
- Que se guarda aquella lei;
- Clama a triste da condessa:
- —‘Ao seu mal que lhe farei!’
-
- De quem foi ella valer-se?
- Agora vo-lo direi.
- Foi lastimar-se a innocente...
- Onde iria?—ao proprio rei.
-
- —‘Ide, condessa, ide embora,
- Que eu remedio lhe darei;
- O segredo do seu mal
- Sei-o eu... Se o saberei?
-
- ‘Palavra de cavalleiro
- Em lealdade vos darei,
- Que ou elle hade ser quem era,
- Ou eu, quem sou, não serei.’
-
- As verdes parras da vinha,
- As uvas que eu cubicei,
- Ellas a travar-me n’alma...
- E mais d’ellas não provei!
-
-
-XI
-
- Fôra d’alli a condessa,
- Não tardou em ir o rei:
- —‘Quero ouvir o que elles dizem,
- A ésta porta escutarei.’
-
- Ouviu uma voz celeste
- Como tal nunca ouvirei,
- Cantando em doce toada
- Este triste vireley:
-
- —‘Já fui vinha bem cuidada,
- Bem querida, bem trattada:
- Como eu medrei!
- Ora não sou nem serei:
- O porquê não sei
- Nem n’o saberei!’
-
- Com as lagrimas nos olhos
- Foi d’alli o bom do rei:
- —‘Oiçamos agora o outro,
- E o que sabe, saberei!’
-
- —‘Minha vinha tam guardada!
- Quando n’ella entrei
- Rastos do ladrão achei;
- Se me elle roubou não sei:
- Como o saberei?’
-
- Era o conde a lastimar-se.
- Surrindo dizia o rei
- (Se era de si ou do conde
- Que elle se ria não sei):
-
- —‘Eu fui que na vinha entrei,
- Rastos de ladrão deixei,
- Parras verdes levantei,
- Uvas bellas
- N’ellas—vi:
- E assim Deus me salve a mi
- Como d’ellas
- Não comi!’
-
-
-XII
-
- A porta tinha uma fresta:
- Tirou o chapim do pei[19],
- Atirou-lh’o para dentro,
- Disse-lhe:—‘Vêde e sabei.’
-
- Do mais que alli succedeu
- Para que vos contarei?
- O conde soube a verdade,
- E o rei soube—ser rei.
-
- Verdes parras tem a vinha,
- Riccas uvas lá deixei:
- Quem m’a guardou foi o medo...
- De Deus e da sua lei.
-
-
-
-
-VI
-
-ROSALINDA
-
-
-É verdadeiramente sublime, tem toda a frescura viçosa das imagens da
-poesia primitiva, a com que termina este romance. Tudo o que ha de
-asqueroso n’uma sepultura desapparece do tumulo em que amor desfolhou
-os seus goivos: alli não ha corrupção nem vermes: uma bella árvore, um
-rosal florido reproduzem em ‘novas e mudadas fórmas’ os corpos de dois
-amantes. A vida não acabou, mudou só; e nem mudou tanto, que a vegetal
-seiva d’esses ramos não ferva ainda do mesmo ardor que ja animou aquelle
-sangue. Tendem umas para as outras as apaixonadas vergonteas; cortam-n’as
-e ellas recrescem, e vão-se abraçar como duas palmeiras namoradas.
-
-Sente-se aqui o BELLO, sente-o qualquer porque é bello devéras. Assim
-se popularizou ésta imagem e fez a volta da Europa, que a achâmos
-nos romances e soláos de quantos povos entraram na grande communhão
-romano-celtica, romano-theutonica, ou celto-theutonica:—talvez seja o
-modo mais exacto de dizer, este último.
-
-O romance _Prence Robert_, publicado por Sir Walter Scott, da tradição
-oral das raias d’Escocia[20], remata com éstas coplas:
-
- The tane was buried in Marie’s kirk
- The tother in Marie’s quair;
- And out o’the tane there spring a birk,
- And out o’the tother a brier.
-
- And thae twa met, and thae twa plat,
- The birk but and the brier;
- And by that ye may very weel ken
- They were twa lovers dear.
-
-Cito éstas coplas escocezas por serem as que mais se parecem com
-as do nosso romance: ha muitos outros parallelismos, mais ou menos
-approximados, nos romanceiros e cancioneiros de quasi todas as linguas.
-Não é possivel descubrir hoje onde nasceu a idea original; no portuguez
-é onde ella está mais lindamente expressada e com mais ‘sentimento.’
-Na famosa historia de Dom Tristam, apontada a este proposito por Sir W.
-Scott, occorre a mesma imagem.
-
-‘_Ores veitil que de la tumbe de Tristam yssait une belle ronce verte
-et feuilleuse, qui aleoit par la chapelle, et dêscendoit le bout de la
-ronce sur la tumbe d’Isseult, et entroit dedans._’ Tres vezes cortaram a
-milagrosa planta, mas, continúa o bom do historiador, Rusticien de Puise,
-‘_le lendemain estoit aussi belle comme elle avoit cydevant été, et ce
-miracle estoit sur Tristam et sur Ysseult à tout jamais advenir_.’
-
-É um ponto luminoso para as indagações philologicas na historia das
-linguas modernas—ou da sua poesia, que é a mesma coisa. É para mais
-ainda; porque a historia do homem, por aqui a hade começar a estudar quem
-verdadeiramente a quizer saber.
-
-Eu fiz este romance de tres fragmentos diversos, tam fragmentos que
-nenhum d’elles per si se intendia bem. O primeiro appareceu-me inserido
-no de Eginaldo, Reginaldo—ou Girinaldo, como diz em muitas partes o
-povo. O segundo e terceiro involtos com o de Claralinda ou Clara-lindes,
-que os castelhanos chamam _Clara-niña_, e ao romance o do conde Claros.
-
-No logar competente do cancioneiro darei esses romances que hoje tenho
-restituidos pela collação de outros fragmentos e de melhores cópias que
-depois me vieram[21].
-
-Campolide, 8 de Setembro 1843.
-
- * * * * *
-
-Tambem na LUSITANIA ILLUSTRATA vem a traducção ingleza d’este romance que
-vai copiada no appendice á II parte do LIVRO II do nosso ROMANCEIRO.
-
-Aqui damos agora o bello estudo e versão franceza de M. Edouard Fournier
-sôbre a Rosalinda, que se publicou em Paris em 1852.
-
- Abril, 16-1853.
-
- OS EDITORES.
-
-
-ROSALINDA
-
- Era por manhã de maio,
- Quando as aves a piar,
- As árvores e as flores,
- Tudo se anda a namorar;
-
- Era por manhã de maio,
- Á fresca riba de mar,
- Quando a infanta Rosalinda
- Alli se estava a toucar.
-
- Trazem das flores vermelhas,
- Das brancas para a infeitar;
- Tam lindas flores como ella
- Não n’as poderam achar:
-
- Que é Rosalinda mais linda
- Que a rosa, que o nenuphar,
- Mais pura que a açucena
- Que a manhan abre a chorar.
-
- Passava o conde almirante
- Na sua galé do mar;
- Tantos remos tem por banda
- Que se não podem contar;
-
- Captivos que a vão remando
- A Moirama os foi tomar;
- D’elles são grandes senhores,
- D’elles de sangue real:
-
- Que não ha moiro seguro
- Entre Ceuta e Gibraltar
- Mal sai o conde almirante
- Na sua galé do mar.
-
- Oh que tam linda galera,
- Que tam certo é seu remar!
- Mais lindo capitão leva,
- Mais certo no marear.
-
- —‘Dizei-me, o conde almirante
- Da vossa galé do mar,
- Se os captivos que tomais
- Todos los fazeis remar?’
-
- —‘Dizei-me, a bella infanta,
- Linda rosa sem egual,
- Se os escravos que lá tendes
- Todos vos sabem toucar?’
-
- —‘Cortez sois, Dom Almirante:
- Sem responder, perguntar!’
- —‘Responder, responderei,
- Mas não vos heisde infadar:
-
- ‘Captivos tenho de todos,
- Mais bastos que um aduar;
- Uns que mareiam as velas,
- Outros no banco a remar:
-
- ‘As captivas que são lindas
- Na poppa vão a dançar,
- Tecendo alfombras de flores
- Para o senhor se deitar.’
-
- —‘Respondeis, respondo eu,
- Que é boa lei de pagar:
- Tenho escravos para tudo,
- Que fazem o meu mandar;
-
- ‘D’elles para me vestir,
- D’elles para me toucar...
- Para um só tenho outro imprêgo,
- Mas está por captivar...
-
- —‘Captivo está, tam captivo
- Que se não quer resgatar.
- Rema, a terra a terra, moiros,
- Voga certo, e a varar!’
-
- Ja se foi a Rosalinda
- Com o almirante a folgar:
- Fazem sombra as larangeiras,
- Goivos lhe dão cabeçal.
-
- Mas fortuna, que não deixa
- A nenhum bem sem dezar,
- Faz que um monteiro d’elrei
- Por alli venha a passar.
-
- —‘Oh monteiro, do que viste,
- Monteiro, não vás contar:
- Dou-te tantas bolsas de oiro
- Quantas tu possas levar.’
-
- Tudo o que viu o monteiro
- A elrei o foi contar,
- A casa da estudaria
- Onde elrei stava a estudar.
-
- —‘Se á puridade o disseras,
- Tença te havia de dar:
- Quem taes novas dá tam alto,
- Alto hade ir... a inforcar.
-
- ‘Arma, arma, meus archeiros
- Sem charamellas tocar!
- Cavalleiros e piões,
- Tudo á tapada a cercar.’
-
- Inda não é meio dia,
- Começa a campa a dobrar;
- Inda não é meia noite,
- Vão ambos a degollar.
-
- Ao toque de ave-marias
- Foram ambos a interrar:
- A infanta no altar mor,
- Elle á porta principal.
-
- Na cova da Rosalinda
- Nasce uma árvore real,
- E na cova do almirante
- Nasceu um lindo rosal.
-
- Elrei, assim que tal soube,
- Mandou-os logo cortar,
- E que os fizessem em lenha
- Para no lume queimar.
-
- Cortados e recortados,
- Tornavam a rebentar:
- E o vento que os incostava,
- E elles iam-se abraçar.
-
- Elrei, quando tal ouviu,
- Nunca mais pôde fallar;
- A rainha, que tal soube,
- Cahia logo mortal.
-
- —‘Não me chamem mais rainha,
- Rainha de Portugal...
- Apartei dous innocentes
- Que Deus queria juntar!’
-
-
-ÉTUDES SUR LA ROSALINDA
-
-Les rapports entre la littérature française et la littérature portugaise,
-au moyen-âge, furent plus grands et plus directs que l’éloignement des
-deux pays ne le donnerait à penser. M. Raynouard a été des premiers à
-le remarquer; il ne s’est même pas borné à une simple constatation du
-fait, il l’a appuyé de toutes sortes de preuves. Afin même de montrer
-complètement combien la langue portugaise se rapprochait de la langue
-romane, il a été jusqu’à traduire dans la langue des troubadours, une
-petite pièce du Camoëns[22]. Épreuve triomphante! car à quelques syllabes
-près, les deux pièces, l’original et la traduction, se sont trouvés les
-mêmes. Il n’y a pas plus complète identité contre les _Noei_ en patois
-bourguignon et la très facile traduction française que tout le monde peut
-en faire. Qu’on en juge par la seconde des deux strophes:
-
- PORTUGAIS LANGUE DES TROUBADOURS
-
- Melhor deve ser Melhor deu esser
- N’este aventurar En est aventurar
- Ver e não guardar Vezer e no guardar
- Que guardar e ver. Que guardar e vezer.
- Ver e defender Vezer e defender
- Muito bom seria, Molt bon seria,
- Mas quem poderia? Mas qui poiria?
-
-Dans tout cela, je le répète, il n’y a pas une syllabe qui ne soit sœur
-de celle qui la traduit.
-
-Les mots qui servaient à designer les diverses sortes de pièces de poésie
-étaient les mêmes pour les poëtes portugais et pour les poëtes de la
-langue romane. Ceux-ci, par exemple, avaient le _lai_ qui correspondait
-directement au _leod_ allemand et au _laoi_ des Irlandais; ceux-là,
-Portugais et Espagnols, avaient le _loa_. La même chose sous le même
-mot. Une autre espèce de poëme s’appelait _dict_ chez les trouvères, et
-les Portugais le connaissaient aussi sous un nom presque pareil. Dans la
-_Carta del marquès de Santillana_, se lit cette phrase par laquelle se
-trouvent indiqués ces _dicts_ en langue portugaise: ‘Cantigas serranas,
-e _dicires_ Portugueses e Gallegos.’ Pour exprimer la rime dans toute
-sa primitivité native, mais mélodieuse, nous avions le mot _assonnance_
-qui est resté, et le verbe _assonner_ qui n’a malheureusement pas eu
-le même sort. Les Espagnols et les Portugais avaient de même le verbe
-_asonar_ qu’ils étendaient jusqu’au sens de l’expression ‘_mettre en
-musique_[23].’ Enfin, il n’est pas jusqu’au mot _troubadour_ qui ne
-se retrouve à peine modifié dans la langue portugaise. Tantôt c’est
-_trobar_, tantôt c’est _trobador_. Le premier de ces mots se trouve dans
-ce vers des _Fragmentos de hum Cancioneiro inedito_[24]:
-
- Et por que m’ora quitey de trobar,
-
-et le second, aux fol. 91 et 101 du même recueil.
-
-Ces similitudes ne se retrouvent pas seulement dans les idiomes, mais
-encore dans le génie des deux nations. On voit par les œuvres qu’ont
-laissées leurs poëtes que toutes deux puisent aux mêmes sources et
-se renvoient mutuellement l’inspiration. Mais elle vient surtout des
-troubadours, il faut bien le dire; et quand nous avons appris que le
-roi de Portugal Diniz prit pour maître en l’art des vers le troubadour
-de Cahors, Aymeric d’Ebrard, qui lui apprit à faire même des vers
-provençaux, et qui reçut en récompense l’archevêché de Lisbonne où il
-fonda la fameuse université transportée en 1308 à Coïmbre; nous n’avons
-pas été surpris. À cette époque déjà, tous les bons maîtres venaient de
-France.
-
-Pour preuve de la communauté d’inspiration des poëtes portugais et des
-troubadours, nous citerons deux exemples. Une chanson portugaise que
-nous lisons au fol. 78 du recueil rarissime cité tout-à-l’heure sera le
-premier. On la trouva ainsi traduite dans les _Prolégomènes de l’Histoire
-de la Poésie scandinave_, par M. Edelestand Du Méril[25].
-
- ‘Par Dieu! ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour
- vous.
-
- ‘Vous me semblez si belle, ô dame, que jamais je n’en vis
- d’aussi belle et je vous dis une grande vérité, telle que je
- n’en sais pas de plus vraie. Par Dieu, ô dame Léonor, notre
- Seigneur fut bien prodigue pour vous.
-
- ‘Et Dieu, qui vous tient en sa puissance, vous combla si
- généreusement de ses dons, qu’il n’est rien au monde qui puisse
- ajouter à votre mérite. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur
- fut bien prodigue pour vous.
-
- ‘En vous créant, Madame, sa puissance montra tout ce qu’il
- était capable de réunir en une dame de mérite, de beauté et
- d’esprit. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien
- prodigue pour vous.
-
- ‘Comme brille le bon rubis au milieu des perles, vous brillez
- entre toutes celles que j’ai jamais vues, et c’est pour moi qui
- suis épris de tant d’amour que Dieu vous a créée. Par Dieu,
- dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.’
-
-Notre second exemple será ce chant charmant de la Rosalinda. M. de
-Almeida-Garrett, avec ce tact exquis et cet haut goût archéologique qui
-le placent à la tête des poëtes les mieux inspirés et en même temps les
-plus érudits du Portugal, a retrouvé dans les vieilles traditions du
-peuple lusitain, et reconstruit d’après trois différents fragments, les
-meilleures variantes de ce chant depuis si longtemps populaire. Le poëte
-se trouve à chaque vers de cette chanson telle qu’il l’a rétablie, et
-l’érudit à chaque ligne de l’introduction historique dont il l’a fait
-précéder. Jamais en n’a mieux prouvé que dans cette préface savante,
-les rapports poétiques qui existèrent au moyen-âge entre les races du
-midi et celles du nort. Où M. Garrett trouve-t-il, en effet, le premier
-germe de la poétique image qui couronne la ballade portugaise? Dans
-les chants écossais, dans la romance du _Prince Robert_, telle que la
-tradition orale l’avait transmise a Walter-Scott pour son _Minstrelsy of
-the scottish border_ etc.[26]; ou bien encore dans cette fameuse histoire
-de Tristam et de la belle Iseult, par Rusticien de Puise, dont il cite,
-d’après Walter-Scott, de trop courts fragments...
-
-Ces détails miraculeux de l’histoire d’Iseult se retrouvent dans les
-dernières strophes de la _Rosalinda_[27]. On le verra, du reste, par
-la traduction complète que nous en avons tentée. Elle est en vers
-souvent inélégants et mal rimés, mais exacts, je crois, et serrant du
-plus près qu’il est possible la strophe portugaise, bien que dans un
-rhythme différent. Pour nous excuser des rimes insuffisantes et des mots
-vieillis, nous dirons que s’ils sont de mise quelque part, c’est dans
-un chant populaire, et nous alléguerons, à qui ne nous le pardonnerait
-pas, l’enthousiasme du morose Alceste pour cette vieille chanson du _roi
-Henri_, qui cependant est pleine de ces mêmes défauts. Ce qu’il dit pour
-les excuser devra nous justifier nous-même, et c’est l’un des vers que
-Molière lui prête que nous servira d’épigraphe.
-
-
-ROSALINDA
-
-BALLADE PORTUGAISE
-
- La rime n’est pas riche et le style en est vieux[28]
-
- MOLIÈRE, _Misanthrope_.
-
- C’était un matin de mai,
- Quand l’oiseau dans la nuée,
- L’arbre au bois, la fleur au pré,
- Chantent l’amour réveillée.
-
- C’était un matin de mai,
- Quand Rosalinda l’infante
- Sur le rivage embaumé
- Peignait sa tête charmante.
-
- Blanches fleurs on lui portait,
- Rouges fleurs avec leur branche:
- Mais en grâce elle passait
- Et la fleur rouge et la blanche.
-
- Mieux que celle des épis,
- Mieux que la rose nouvelle,
- Le nénuphar et le lis
- La belle infante était belle.
-
- Le comte amiral passait
- Avec sa galère sombre
- Mainte rame s’y pressait
- Tant, qu’on n’en sait pas le nombre.
-
- Les captifs ses noirs rameurs
- Il les prit au pays More.
- Tous, ils sont de grands seigneurs,
- Ou du sang royal encore.
-
- Depois Ceuta, pas un port
- Qui ne redoute la guerre
- Quand le comte amiral sort
- Avec sa noire galère.
-
- Voyez, comme elle fend l’eau,
- Comme on y rame em mesure!
- Que son capitaine est beau,
- Que sa main est forte et sûre!
-
- —‘Dites moi, comte amiral,
- Pour ces captifs, votre prise,
- Le labeur, est-il égal?
- Rament-ils tous, sous la brise?
-
- —‘Vous que je vois se mirer,
- Belle infante, fleur d’élite,
- Savent-ils, tous vous parer
- Ces esclaves, votre suite?’
-
- —‘L’amiral est peu galant,
- Pour réponse une demande!
- Qu’il parle, il se peut pourtant
- Que sa réponse on lui rende.’
-
- —‘Ainsi qu’un chef d’Adouar,
- J’ai bien des captifs, madame,
- Du travail tous ont leur part,
- L’un manœuvre et l’autre rame.
-
- ‘Les captives au beau front
- Dansent, effeuillant la rose,
- Et de fleurs jonchent le pont,
- Pour que leur maître y repose.
-
- —‘Vous répondez, je vous dois
- Comte, égale politesse:
- J’ai, dociles à ma voix,
- Esclaves de toute espèce.
-
- ‘L’un est là pour m’atourner
- Et cet autre me fait brave (belle).
- Un emploi reste à donner,
- Où manque encor un esclave...
-
- —‘Cet esclave il est trouvé,
- Il défend qu’on le libère;
- Il ne veut qu’être arrivé,
- Ramez vite, allons à terre!
-
- Et Rosalinda partit:
- Et le comte est avec elle,
- Les fleurs leur prêtent un lit,
- L’oranger sa verte ombelle.
-
- Mais le sort,—c’est là sa loi—
- Ne veut qu’un bien sans mal vienne:
- Là, passe un veneur du roi...
- C’est ce destin qui l’amène.
-
- —‘De tout ce qui tu vis là,
- Ne conte rien à personne,
- Veneur, on te donnera
- De l’or à payer un trône.’
-
- Mais ce que le veneur sait,
- Près du roi vite il s’en vante,
- Qui dans son palais était,
- Et qui pensait à l’infante.
-
- —‘En honneur dis chaque mot
- Tu recevras récompense
- Mais qui dit haut, ira haut,
- C’est-à-dire à la potence.’
-
- ‘Vite, archers, vite clairons,
- Sonnez, comme pour combattre,
- Nobles, cavaliers, piétons
- Vite, allons la forêt battre.’
-
- Midi n’était pas frappé
- Que sonne un glas mortuaire,
- Minuit n’avait pas tinté
- Que leur tête était par terre.
-
- Quand l’Angelus vint après
- Dans leur fosse on les emporte,
- Elle au maître-autel, lui près
- Des marches de la grand’ porte.
-
- Voilà qu’au premier tombeau
- Nait un noble et puissant arbre,
- Quand un rosier grand et beau
- Pousse auprès du second marbre.
-
- —‘Ça qu’on les lie en fagot
- Pour en faire de la cendre,’
- Cria le vieux roi, sitôt
- Que la chose il put apprendre.
-
- Mais on eut beau les raser,
- Chacun à l’envi repousse;
- Même, ils semblent se baiser
- Sous la bise qui les pousse.
-
- Au roi l’on a révélé
- Cette aventure inouie.
- Depuis, il n’a plus parlé;
- La reine est évanoui.
-
- D’elle on a pu retenir
- Ces mots: ‘Je ne suis plus reine!
- Dieu voulait les réunir,
- Nous avons rompu leur chaîne!’
-
-
-
-
-VII
-
-MIRAGAIA
-
-
-É a terceira vez que se imprime o romance MIRAGAIA; só agora porêm vai
-restituido ao seu devido logar n’este primeiro livro do ROMANCEIRO.
-Publicou-se primeiramente no ‘Jornal das Bellas-artes[29],’ foi logo
-vertido em Inglez não sei por quem, e não me lembra em que publicação
-appareceu, nem o acho.
-
-Traduziu-o em Francez um curioso[30]; e não me metto a appreciar a que
-elle modestamente chama ‘imitação’ do meu romance; dou-a em appendice.
-
-Tambem sei que existe uma versão castelhana pelo Sr. Isidoro Gil, o mesmo
-que n’esse idioma traduzira o BERNAL-FRANCEZ. Creio que se publicou em um
-jornal de Madrid, mas não a vi nunca.
-
-Eu, quando dei esta bagatella aos Srs. editores do ‘Jornal das
-Bellas-artes’ para encherem algum vão que lhes sobrasse n’aquella sua
-linda e elegante publicação, escrevi, a um canto do proprio rascunho
-original que não tive paciencia de copiar, as seguintes palavras:
-
-‘Este romance é a verdadeira reconstrucção de um monumento antigo.
-Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular,
-e se cantam no meio da historia ‘rezada’ ainda hoje repettida por
-velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos
-tambem fabulam cada um a seu modo sôbre a legenda. O auctor, ou, mais
-exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do
-povo, e sôbre tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de contar e cantar
-d’elle; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não póde restituir a
-perdida nacionalidade á nossa litteratura.’
-
-O postscriptum, servindo de nota ao commento, sahiu impresso no referido
-jornal, e foi ampliado com algumas observações por extremo lisongeiras
-dos Srs. editores, a quem muito desejei auxiliar como elles mereciam por
-sua gentil imprêza, que era a mais bella e das mais uteis que se teem
-commettido em Portugal.
-
-Devo ao seu favor, não só o terem adornado a minha MIRAGAIA com as lindas
-gravuras em madeira que todos admiraram, mas o permittirem que se fizesse
-com ellas a pequena edição em separado com que quiz brindar alguns
-amigos, apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares.
-
-Era uma folha avulsa do meu ROMANCEIRO, e n’elle vai reposta agora que se
-offerece tempo e logar conveniente.
-
-Foi das primeiras coisas d’este genero em que trabalhei: e é a mais
-antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque
-eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se
-passam as principaes scenas d’este romance. Dos cinco aos dez annos de
-edade vivi com meus paes n’uma pequena quinta, chamada ‘O Castello’ que
-tinhamos áquem Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruinas que alli
-jazem do castello mourisco.
-
-Na ermida da quinta se venerava uma imagem antiquissima de Nossa-Senhora
-com a mesma invocação ‘do Castello,’ e com a sua legenda popular tambem,
-segundo o costume.
-
-Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados
-pela tradição. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é
-deliciosa comeffeito; e tenho idea de me ter custado caro, outra vez, o
-imitar, com uma gaita da feira de San’Miguel, os toques da bozina de S.
-M. Leoneza, impoleirando-me, como elle, n’um resto de muralha velha do
-castello d’elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante
-energia, que ainda hoje me lembra tambem.
-
-Assim ólho para ésta pobre MIRAGAIA como para um brinco meu de criança
-que me apparecesse agora; e quero-lhe—que mal ha n’isso?—quero-lhe como a
-tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale.
-
-Lisboa, 24 de Janeiro 1847.
-
-
-MIRAGAIA
-
-
-CANTIGA PRIMEIRA
-
- Noite escura tam formosa,
- Linda noite sem luar,
- As tuas estrellas de oiro
- Quem n’as poderá contar!
-
- Quantas folhas ha no bosque,
- Areias quantas no mar?...
- Em tantas lettras se escreve
- O que Deus mandou guardar.
-
- Mas guai do homem que se fia
- N’essas lettras deciphrar!
- Que a ler no livro de Deus
- Nem anjo póde atinar.
-
- Bem ledo está Dom Ramiro
- Com sua dama a folgar;
- Um perro bruxo judio
- Foi causa de elle a roubar.
-
- Disse-lhe que pelos astros
- Bem lhe podia affirmar
- Que Zahara, a flor da belleza,
- Lhe devia de tocar.
-
- E o rei veio de cilada
- D’alêm do Doiro passar,
- E furtou a linda moira,
- A irman d’Alboazar.
-
- A Milhor, que é terra sua
- E está na beira do mar,
- Se acolheu com sua dama...
- Do mais não sabe cuidar.
-
- Chora a triste da rainha,
- Não se póde consolar;
- Deixá-la por essa moira,
- Deixá-la com tal dezar!
-
- E a noite é escura cerrada,
- Noite negra sem luar...
- Ella sósinha ao balcão
- Assim se estava a queixar:
-
- —‘Rei Ramiro, rei Ramiro,
- Rei de muito mau pezar,
- Em que te errei d’alma ou corpo,
- Que fiz para tal penar?
-
- ‘Diz que é formosa essa moira,
- Que te soube infeitiçar...
- Mas tu dizias-me d’antes
- Que eu era bella sem par.
-
- ‘Que é môça, na flor da vida...
- Eu, se ainda bem sei contar,
- Ha tres que tinha vinte annos,
- Fi-los depois de casar.
-
- ‘Diz que tem os olhos pretos,
- D’estes que sabem mandar...
- Os meus são azues, coitados!
- Não sabem senão chorar.
-
- ‘Zahara, que é flor, lhe chamam,
- A mim, Gaia... Que acertar!
- Eu fiquei sem alegria,
- Ella a flor não torna a achar.
-
- ‘Oh! quem podéra ser homem,
- Vestir armas, cavalgar,
- Que eu me fôra ja direita
- A esse moiro Alboazar...’
-
- Palavras não eram dittas,
- Os olhos foi a abaixar,
- Muitos vultos acercados
- Ao palacio viu estar;
-
- —‘Peronella, Peronella,
- Criada do meu mandar,
- Que vultos serão aquelles
- Que por alli vejo andar?’
-
- Peronella não responde;
- Que havia de ella fallar?
- Ricas peitas de oiro e joias
- A tinham feito callar.
-
- A rainha que se erguia
- Por sua gente a bradar,
- Sette moiros cavalleiros
- A foram logo cercar;
-
- Soltam prégas de um turbante,
- A bôcca lhe vão tapar:
- Tres a tomaram nos braços...
- Nem mais um ai pôde dar.
-
- Criados da sua casa
- Nenhum veio a seu chamar;
- Ou peitados ou captivos
- Não n’a podem resgatar.
-
- São sette os moiros que entraram
- Sette os estão a aguardar;
- Não fallam nem uns nem outros...
- E prestes a cavalgar!
-
- Só um, que de arção a toma,
- Parece aos outros mandar...
- Junctos junctos, certos certos,
- Galopa a bom galopar!
-
- Toda a noite, toda a noite
- Vão correndo sem cessar,
- Pelos montes trote largo,
- Por valles a desfilar.
-
- Nos ribeiros—peito n’agua,
- Chape, chape, a vadear!
- Nas defesas dos vallados
- Up! salto—e a galgar!
-
- Vai o dia alvorocendo,
- Estão á beira do mar,
- Que rio é este tam fundo
- Que n’elle vem desaguar?
-
- A bôcca ja tinha livre,
- Mas não acerta a fallar
- A pasmada da rainha...
- Cuida ainda de sonhar!
-
- —‘Rio Doiro, rio Doiro,
- Rio de mau navegar,
- Dize-me, essas tuas aguas
- Adonde as foste buscar;
-
- ‘Dir-te-hei a perola fina
- Aonde eu a fui roubar.
- Ribeiras correm ao rio
- O rio corre a la mar,
-
- ‘Quem me roubou minha joia,
- Sua joia lhe fui roubar...’
- O moiro que assim cantava,
- Gaia que o estava a mirar...
-
- Quanto o mais mirares, Gaia,
- Mais formoso o hasde achar.
- —‘Que de barcos que alli vêem!’
- —‘Barcos que nos vêem buscar.’
- —‘Que lindo castello aquelle!’
- —‘É o do moiro Alboazar.’
-
-
-CANTIGA SEGUNDA
-
- Rei Ramiro, rei Ramiro,
- Rei de muito mau pezar,
- Ruins fadas te fadaram,
- Má sina te foram dar.
-
- Do que tens não fazer conta,
- O que não tens cubiçar!..
- Zahara, a flor dos teus cuidados,
- Ja te não dá que pensar.
-
- A rainha, que era tua,
- Que não soubeste guardar,
- Agora morto de zelos
- Do moiro a queres cobrar.
-
- Oh! que barcos são aquelles
- Doiro acima a navegar?
- A noite escura cerrada,
- E elles mansinho a remar!
-
- Cozeram-se com a terra,
- Lá se foram incostar;
- Entre os ramos dos salgueiros
- Mal se podem divisar.
-
- Um homem saltou na praia:
- Onde irá n’aquelle andar?
- Leva bordão e esclavina,
- Nas contas vai a rezar.
-
- Inda a névoa tolda o rio,
- O sol ja vem a rasgar,
- Pela incosta do castello
- Vai um romeiro a cantar:
-
- —‘Sanctiago de Galliza,
- Longe fica o vosso altar:
- Peregrino que lá chegue
- Não sabe se ha de voltar.’
-
- Na incosta do castello
- Uma fonte está a manar;
- Donzella que está na fonte
- Pôs-se o romeiro a escutar.
-
- A donzella está na fonte,
- A jarra cheia a deitar:
- —‘Bemditto sejais, romeiro,
- E o vosso doce cantar!
-
- ‘Por éstas terras de moiros
- É maravilha de azar,
- Ouvir cantigas tam sanctas,
- Cantigas do meu criar.
-
- ‘Sette padres as cantavam
- Á roda de um bento altar;
- Outros sette respondiam
- No côro do salmear,
-
- ‘Entre véspera e completas,
- E os sinos a repicar.
- Ai triste da minha vida
- Que os não oiço já tocar!
-
- ‘E as rezas d’estes moiros
- Ao démo as quizera eu dar.’
- Ouvireis ora o romeiro
- Resposta que lhe foi dar:
-
- —‘Deus vos mantenha, donzella,
- E o vosso cortez fallar:
- Por éstas terras de moiros
- Quem tal soubera de achar!
-
- ‘Por vossa tenção, donzella,
- Uma reza heide rezar
- Aqui aopé d’esta fonte,
- Que não posso mais andar.
-
- ‘Oh! que fresca está a fonte,
- Oh! que sêde de mattar!
- Que Deus vos salve, donzella,
- Se aqui me deixais sentar.’
-
- —‘Sente-se o bom do romeiro,
- Assente-se a descansar.
- Fresca é a fonte, doce a agua,
- Tem virtude singular:
-
- ‘D’outra não bebe a rainha
- Que aqui m’a manda buscar
- Por manhanzinha bem cêdo,
- Antes do o sol aquentar.’
-
- —‘Doce agua deve de ser,
- De virtude singular:
- Dae-me vós uma vez d’ella,
- Que me quero consolar.’
-
- —‘Beba o peregrino, beba
- Por ésta fonte real,
- Cântara de prata virgem,
- Tem mais valor que oiro tal.’
-
- —‘Dona Gaia que diria,
- Que faria Alboazar
- Se visse o pobre romeiro
- Beber da fonte real?..’
-
- —‘Inda era noite fechada
- Meu senhor foi a caçar:
- Maus javardos o detenham,
- Que é bem ruim de aturar!
-
- ‘Minha senhora, coitada,
- Essa não tem que fallar:
- Quem ja teve fontes de oiro
- Prata não sabe zelar.’
-
- —‘Pois um recado, donzella,
- Agora lhe heisde levar;
- Que o romeiro christão.
- Lhe deseja de fallar.
-
- ‘Da parte de um que é ja morto,
- Que morreu por seu pezar,
- Que á hora de sua morte
- Este annel lhe quiz mandar.’
-
- Tirou o annel do dedo
- E na jarra o foi deitar:
- —‘Quando ella beber da agua
- No annel hade attentar.’
-
- Foi-se d’alli a donzella,
- Ia morta por fallar...
- —‘Anda ca, ó Peronella,
- Criada de mau mandar.
-
- ‘Tua ama morrendo á sêde
- E tu na fonte a folgar?’
- —‘Folgar não folguei, senhora,
- Mas deixei-me adormentar,
-
- ‘Que a moira vida que eu levo
- Ja não n’a posso aturar.
- Ai terra da minha terra,
- Ai Milhor da beira-mar!
-
- ‘Aquella sim que era vida,
- Aquillo que era folgar!
- E em sancto temor de Deus:
- Não aqui n’este peccar!’
-
- —‘Cal-te, cal-te, Peronella,
- Não me queiras attentar;
- Que eu a viver entre moiros
- Me não vim por meu gostar.
-
- ‘Mas ja tenho perdoado
- A quem lá me foi roubar;
- Que antes escrava contente,
- Do que rainha a chorar.
-
- ‘Forte christandade aquella,
- Bom era aquelle reinar!
- Viver só, desamparada,
- Ver a moira em meu logar!..’
-
- Lembrava-lhe a sua offensa,
- Está-lhe o sangue a queimar:
- Na agua fria da fonte
- A sêde quiz apagar.
-
- A fonte de prata virgem,
- Á bôcca foi a levar,
- As riccas pedras do annel
- No fundo viu a brilhar.
-
- —‘Jesus seja co’a minha alma!
- Feitiços me querem dar...
- O fogo a arder dentro n’agua,
- E ella fria de nevar!’
-
- —‘Senhora, co’esses feitiços
- Me tomara eu imbruxar!
- Foi um bemditto romeiro
- Que á fonte fui incontrar,
-
- ‘Que ahi deitou esse annel
- Para prova singular
- De um recado que vos trouxe,
- Com que muito heisde folgar.’
-
- —‘Venha ja esse romeiro
- Que lhe quero ja fallar:
- Embaixador deve ser
- Quem traz presente real.’
-
-
-CANTIGA TERCEIRA
-
- —‘Por Deus vos digo, romeiro
- Que vos queirais levantar;
- Minhas mãos não são reliquias,
- Basta de tanto bejar!’
-
- O romeiro não se erguia,
- As mãos não lhe quer largar:
- Os bejos uns sôbre os outros,
- Que era um nunca acabar.
-
- Ia a infadar-se a rainha,
- Viu que entrava a soluçar,
- E as lagrymas, quatro e quatro,
- Nas mãos sentia rollar:
-
- —‘Que tem o bom do romeiro,
- Que lhe dá tanto pezar?
- Diga-me las suas penas
- Se lh’as posso alliviar.’
-
- —‘Minhas penas não são minhas,
- Que aos mortos morre o penar;
- Mas a vida que eu perdi
- Em vós podia incontrar.
-
- ‘Minhas penas não são minhas,
- Senão vossas, mal pezar!
- Que uma rainha christan
- Feita moira vim achar...’
-
- —‘Romeiro, não tomeis cuita
- Por quem se não quer cuitar:
- Do que fui ja me não lembro,
- O que sou não me é dezar.
-
- ‘Deus terá dó da minha alma,
- Que meu não foi o peccar;
- E a esse traidor Ramiro
- As contas lhe hade tomar.’
-
- —‘Pois não espereis, senhora,
- Por Deus, que póde tardar:
- Dom Ramiro aqui o tendes,
- Mandae-o ja castigar.’
-
- Em pé está Dom Ramiro,
- Ja não ha que disfarçar:
- Aquellas barbas tam brancas
- Cahiram de um impuxar.
-
- O bordão e a esclavina
- A terra foram parar;
- Não ha ver mais gentilezas
- De meneio e de trajar.
-
- Quem viu olhos como aquelles
- Com que o ella está a mirar!
- Quem passou ja transes d’alma
- Como ella está a passar?
-
- Um tremor que não é mêdo,
- Um sorriso de infiar,
- Vergonha que não é pejo,
- Faces que ardem sem corar...
-
- Tudo isso tem no semblante,
- Tudo lhe está a assomar
- Como ondas que vão e vêem
- Na travessia do mar.
-
- A vingança é o prazer do homem,
- Da mulher é o seu manjar:
- Assim perdoa elle e vive,
- Ella não—que era acabar.
-
- Vingar-se foi o primeiro
- E o derradeiro pensar
- Que entre tantos pensamentos,
- Em Gaia estão a pullar:
-
- Logo depois a vaidade,
- O gôsto de triumphar
- N’um coração que foi seu,
- Que seu lhe torna a voltar.
-
- E o rei moiro estava longe
- C’os seus no monte a caçar,
- Ella só n’aquella tôrre...
- Prudencia e dissimular!
-
- Abre a bôcca a um sorriso
- Doce e triste—de mattar!
- Tempéra a chamma dos olhos,
- Abafa-a por mais queimar.
-
- Pôs na voz aquelle incanto
- Que, ou minta ou não, é fatal;
- E com o inferno no seio,
- Falla o ceo no seu fallar.
-
- Ja os amargos queixumes
- Se imbrandecem no chorar,
- E em sua propria justiça
- Com arte finge affrouxar.
-
- Protesta a bôcca a verdade:
- —‘Que não hade perdoar...’
- Mas a verdade dos labios
- Os olhos querem negar.
-
- De joelhos Dom Ramiro
- Alli se estava a humilhar,
- Supplíca, roga, promette...
- Ella parece hesitar.
-
- Senão quando, uma bozina
- Se ouviu ao longe tocar...
- A rainha mal podia
- O seu prazer disfarçar:
-
- —‘Escondei-vos, Dom Ramiro,
- Que é chegado Alboazar,
- Depressa n’este aposento...
- Ou ja me vereis mattar.’
-
- Mal a chave deu tres voltas,
- Na manga a foi resguardar;
- Mal tirou a mão da cotta,
- Que o rei moiro vinha a entrar:
-
- —‘Tristes novas, minha Gaia,
- Novas de muito pezar!
- Primeira vez em tres annos
- Que me succede este azar!...
-
- ‘Toquei a minha bozina
- Ás portas, antes de entrar,
- E não correste ás ameias
- Para me ver e saudar!
-
- ‘Muito mal fizeste, amiga,
- Em tam mal me costumar;
- Não sei agora o que fazes
- Em me querer emendar...’
-
- No coração da rainha
- Batalha se estão a dar
- Os mais estranhos affectos
- Que nunca se hãode incontrar:
-
- O que foi, o que é agora...
- E a ambição de reinar...
- O amor que tem ao moiro,
- E o gôsto de se vingar...
-
- Venceu amor e vingança:
- Deviam de triumphar,
- Que era em peito de mulher
- Que a batalha se foi dar.
-
- ‘Novas tenho e grandes novas,
- Amigo para vos dar:
- Tomae ésta chave e abride,
- Vereis se são de pezar.’
-
- Com que ância elle abriu a porta,
- Vista que foi encontrar!..
- Palavras que alli disseram,
- Não n’as saberei contar:
-
- Que foi um bramir de ventos,
- Um bater d’aguas no mar,
- Um confundir ceo e terra,
- Querer-se o mundo acabar.
-
- Vereis porfim o rei moiro
- Que sentença veio a dar:
- —‘Perdeste a honra, christão;
- Vida, quero-t’a deixar.
-
- ‘De uma vez, que me roubaste,
- Muito bem me fiz pagar:
- D’esta basta-me a vergonha
- Para de ti me vingar.’
-
- Sentia-se elrei Ramiro
- Do despeito devorar;
- Com ar contricto e affligido
- Assim lhe foi a fallar:
-
- —‘Grandes foram meus peccados,
- Poderoso Alboazar;
- E taes que a mercê da vida
- De ti não posso acceitar:
-
- ‘Eu não vim a teu castello
- Senão só por me intregar,
- Para receber a morte
- Que tu me quizeres dar:
-
- ‘Que assim me foi ordenado
- Para minha alma salvar
- Por um sancto confessor
- A quem me fui confessar.
-
- ‘E mais me disse e mandou,
- E assim t’o quero rogar,
- Que, pois foi publica a offensa,
- Público seja o penar:
-
- ‘Que ahi n’essa praça d’armas
- Tua gente faças junctar;
- Ahi deante de todos
- A vida quero acabar
-
- ‘Tangendo n’esta bozina,
- Tangendo até rebentar;
- Que digam todos que isto virem,
- E lhes fique de alembrar:
-
- «Grande foi o seu peccado,
- No mundo andou a soar;
- Mas a sua penitencia
- Mais alto som veio a dar.»
-
- Quizera-lhe o bom do moiro
- Por força alli perdoar;
- Mas se a pêrra da rainha
- Jurou de á morte o levar!...
-
- Veis na praça do castello,
- Toda a moirama a ajunctar;
- Em pé no meio da turba
- Ramiro se foi alçar.
-
- Tange que lhe tangerás,
- Toca rijo a bom tocar;
- Por muitas leguas á roda
- Reboava o bozinar.
-
- Se o ouvirão nas galés
- Que deixou a beira-mar?
- Decerto ouviram, que um grito
- Tremendo se ouve soar...
-
-
-CANTIGA QUARTA
-
- —‘Sanctiago!.. Cerra, cerra!
- Sanctiago, e a mattar!’
- Abertas estão as portas
- Da tôrre de par em par.
-
- Nem atalaias nos muros,
- Nem roldas para as velar...
- Os moiros despercebidos
- Sentem-se logo apertar
-
- De um tropel de leonezes
- Ja portas a dentro a entrar.
- Deixa a bozina Ramiro,
- Mão á espada foi lançar.
-
- E de um só golpe fendente,
- Sem mais pôr nem mais tirar,
- Parte a cabeça até aos peitos
- Ao rei moiro Alboazar...
-
- Ja tudo é morto ou captivo,
- Ja o castello está a queimar;
- Ás galés com seu despôjo
- Se foram logo a imbarcar.
-
- —‘Voga, rema! d’alêm Doiro
- Á pressa, á pressa a passar,
- Que ja oiço alli na praia
- Cavallos a relinchar.
-
- ‘Bandeiras são de Leão
- Que lá vejo tremular.
- Voga, voga, que alêm Doiro
- É terra nossa!... A remar!
-
- ‘D’aqui é moirama cerrada
- Até Coimbra e Thomar.
- Voga, rema, e d’alêm Doiro!
- D’aquem não ha que fiar.’
-
- Á poppa vai Dom Ramiro
- De sua galé real,
- Leva a rainha á direita,
- Como quem a quer honrar:
-
- Ella, muda, os olhos baixos
- Leva n’agua... sem olhar,
- E como quem de outras vistas
- Se quer só desaffrontar.
-
- Ou Dom Ramiro fingia
- Ou não vem n’isso a attentar;
- Ja vão a meia corrente,
- Sem um para o outro fallar.
-
- Ainda arde, inda fumega
- O alcaçar de Alboazar;
- Gaia alevantou os olhos,
- Triste se pôs a mirar;
-
- As lagrymas, uma e uma,
- Lhe estavam a desfiar,
- Ao longo, longo das faces
- Correm... sem ella as chorar.
-
- Olhou elrei para Gaia,
- Não se pôde mais callar;
- Cuidava o bom do marido
- Que era remorso e pezar
-
- Do mau termo atraiçoado
- Que com elle fôra usar
- Quando o intregou ao moiro
- Tam só para se vingar.
-
- Com a voz internecida
- Assim lhe foi a fallar
- —‘Que tens, Gaia... minha Gaia?
- Ora pois! não mais chorar,
-
- ‘Que o feito é feito...’—‘E bem feito!’
- Tornou-lhe ella a soluçar,
- Rompendo agora n’uns prantos
- Que parecia estalar;
-
- ‘E bem feito, rei Ramiro!
- Valente acção de pasmar!
- Á lei de bom cavalleiro,
- Para de um rei se contar!
-
- ‘Á falsa fé o mattaste...
- Quem a vida te quiz dar!
- Á traição... que d’outro modo,
- Não es homem para tal.
-
- ‘Mattaste o mais bello moiro,
- Mais gentil, mais para amar
- Que entre moiros e christãos
- Nunca mais não terá par.
-
- ‘Perguntas-me porque chóro!..
- Traidor rei, que heide eu chorar?
- Que o não tenho nos meus braços,
- Que a teu podêr vim parar.
-
- ‘Perguntas-me o que miro!
- Traidor rei, que heide eu mirar?
- As tôrres d’aquelle alcaçar,
- Que ainda estão a fumegar.
-
- ‘Se eu fui alli tam ditosa,
- Se alli soube o que era amar,
- Se alli me fica alma e vida...
- Traidor rei, que heide eu mirar!’
-
- —‘Pois _mira, Gaia!_’ E, dizendo,
- Da espada foi arrancar:
- ‘_Mira, Gaia_, que esses olhos
- Não terão mais que mirar.’
-
- Foi-lhe a cabeça de um talho;
- E com o pé, sem olhar,
- Borda fóra impuxa o corpo...
- O Doiro que os leve ao mar.
-
- Do estranho caso inda agora
- Memoria está a durar:
- _Gaia_ é o nome do castello
- Que alli Gaia fez queimar;
-
- E d’alêm Doiro, essa praia
- Onde o barco ia a aproar
- Quando bradou—‘Mira, Gaia!’
- O rei que a vai degollar,
-
- Ainda hoje está dizendo
- Na tradição popular,
- Que o nome tem—MIRAGAIA
- D’aquelle fatal mirar.
-
-
-VERSÃO FRANCEZA
-
-
-I
-
- Nuit sombre, mais si belle encor!
- Belle nuit, à travers ton ombre,
- Oh! qui de tes étoiles d’or
- Pourra jamais compter le nombre?
-
- Compte-t’on les feuilles du bois?
- Ou de la mer les grains des sables?
- De l’Eternel telle est la voix
- Écrite en lettres innombrables.
-
- Hélas! dans ce livre divin
- Nul ne peut espérer de lire!
- Un auge l’essaierait en vain;
- Son savoir n’y pourrait suffire.
-
- Dom Ramire, dans son palais
- Vivait heureux avec la reine,
- Un juif maudit troubla leur paix
- Et brisa leur tant douce chaîne.
-
- Il prédit au roi, trop flatté
- Du beau destin qu’on lui dévoile,
- Que Zahara, fleur de beauté
- Serait à lui!... c’est son étoile!
-
- Le roi, que l’amour tient au cœur,
- Va, plein du feu qui le dévore,
- D’Alboazar ravir la sœur
- Et fuit avec la belle Maure.
-
- À Milhor, lieu rempli d’attraits,
- Dont la mer baigne les rivages,
- Tous deux sans soucis, sans regrets
- Passaient leurs jours exempts d’orages.
-
- La reine de ce coup affreux
- Gémit et pleure et pleure encore:
- Trahir ainsi ses chastes feux!
- La délaisser pour une Maure!
-
- Triste et rêveuse, à son balcon,
- Seule, durant la nuit obscure,
- Victime d’un lâche abandon
- Elle soccombe à sa blessure:
-
- —‘Roi Ramire! perfide roi,
- Pourquoi me causer cette peine?
- Mon cœur a-t’il trahi sa foi?
- Je t’aimais tant!... pourquoi ta haine?
-
- ‘On dit qu’elle a quelques attraits
- Cette Maure, cette infidèle;
- Tu m’as pourtant, quand tu m’aimais,
- Dit cent fois que j’étais plus belle.
-
- ‘On dit qu’elle a mille agréments,
- Qu’elle est jeune, à la fleur de l’âge.
- Moi, j’ai compté vingt trois printemps
- Après mon triste mariage.
-
- ‘Ses yeux sont noirs! ce sont des yeux
- Si beaux, si fiers, si pleins de charmes!
- Hélas! les miens ne sont que bleus...
- Et puis toujours remplis de larmes!
-
- ‘On nomme Zahara la Fleur...
- _Gaia_ c’est le nom qu’on me donne!
- _Gaia_ j’étais dans mon bonheur;
- Plus ne le suis—l’on m’abandonne!
-
- ‘Oh! que ne suis-je un homme, hélas!
- Dans le transport qui me dévore,
- J’irais moi-même de ce pas
- Trouver Alboazar le more.’
-
- Elle achevait ces mots: soudain
- Tournant ses regards vers la terre
- Elle aperçoit dans le lointain
- Des chevaux, des hommes de guerre.
-
- —‘Peronelle, vois-tu là-bas
- Ces armes qui brillent dans l’ombre?
- Regarde... ce sont des soldats;
- D’où viennent-ils? quel est leur nombre?
-
- La suivante, d’un air surpris
- Paraît écouter ce langage;
- Des joyaux, des bijoux de prix
- De son silence étaient le gage.
-
- Où sont ses autres serviteurs?
- En vain la reine les appelle
- Sept cavaliers, malgré ses pleurs,
- Bientôt se sont emparés d’elle.
-
- De leurs turbans les plis soyeux
- Bandent ses yeux, ferment sa bouche;
- Et trois dans leurs bras vigoureux
- La soulèvent d’un air farouche.
-
- Ils sont entrés sept au palais;
- Sept autres en sentinelle.
- Pas un mot... tous semblent muets...
- Et vite en selle!... ils sont en selle!
-
- Un seul paraît les commander:
- Sur son coursier il tient la reine...
- —‘Allons!’ dit-il ‘il faut marcher!’
- Tous au galop fendent la plaine.
-
- Point de répit, point de repos,
- Chacun stimule sa monture.
- Ils courent par monts et par vaux,
- Ils courent tant que la nuit dure.
-
- Dans les torrents, poitrail dans l’eau
- —‘A gué,’ marchons! que l’on avance!
- Ailleurs, sur les flancs d’un côteau:
- —Houp! en avant! que l’on s’élance!
-
- Le jour se lève radieux,
- Ils sont près de la mer profonde,
- Quel est ce fleuve sinueux?
- Qui vient s’engouffrer dans son onde?
-
- La reine ouvre ses yeux enfin,
- Sa bouche est libre, elle respire:
- Las! elle songe à son destin
- Et tout bas tristement soupire.
-
- —‘Douro, fleuve aux perfides eaux,
- Qui de dangers sèmes ta course,
- Ne veux-tu donc pas de tes flots,
- Me révéler quelle est la source?
-
- ‘Je te dirai par quel moyen
- Cette perle est en ma puissance:
- À qui m’a dérobé mon bien
- J’ai dérobé son espérance.
-
- ‘C’est le sort qui le veut ainsi;
- Tout suit cette pente sécrète.
- Par les eaux du torrent grossi,
- Le fleuve dans la mer se jette.
-
- Ainsi chantait le ravisseur,
- Et Gaia l’écoutait sans haîne.
- Bientôt de ton heureux vainqueur,
- Gaia, tu porteras la chaîne.
-
- —‘Mais que font ces barques sur l’eau?’
- —‘Elles viennent chercher la reine.’
- —‘Quel est ce superbe château?’
- —‘D’Alboazar c’est le domaine.’
-
-
-II
-
- Roi Ramire, roi malheureux,
- À ta naissance un noir génie
- T’a jetté quelque sort fâcheux
- Qui devait tourmenter ta vie.
-
- Peu satisfait de ce qu’il a,
- À d’autres biens ton cœur aspire.
- Ta fleur de beauté, Zahara,
- Sur toi n’exerce plus d’empire,
-
- La reine qu’on t’a vu chérir
- Et qui par toi fut délassée...
- Tu veux au more la ravir;
- C’est là maintenant ta pensée.
-
- Quelle est cette barque qui fuit,
- Et du Douro va fendant l’onde?
- Le bruit des rames, de la nuit
- Trouble à peine la paix profonde.
-
- Elle glisse sur les roseaux,
- Elle est déjà prés du rivage;
- Les saules penchés sur les eaux
- La cachent sous leur vert feuillage.
-
- Un homme s’élance soudain;
- D’un bond il a touché la terre.
- Il tient un bourdon d’une main,
- Et de l’autre porte un rosaire.
-
- Bientôt le soleil du matin
- Répand sa clarté sur la rive.
- Près du castel un pélerin
- Fait entendre sa voix plaintive.
-
- —‘Saint de Galice, qu’à genoux
- Le pauvre pélerin implore,
- Pour arriver au rendez-vous.
- Que ton autel est loin encore!
-
- Au pied de la tour du palais
- Coule une source claire et vive:
- Une jeune fille est auprès,
- Elle est là, debout et pensive.
-
- Elle écoutait d’un air rêveur
- L’eau tombant de sa coupe pleine;
- —‘Oh! votre voix, bon voyageur,
- M’a causé la plus douce peine.
-
- ‘Sur cette terre de maudits,
- C’est pour moi bien grande merveille
- D’entendre ces chants du pays,
- Qui jadis frappaient mon oreille.
-
- ‘Sept prêtres, autour de l’autel,
- Chantaient alors cette prière,
- Sept autres au chant solemnel
- Répondaient d’une voix austère.
-
- ‘Le chœur entier psalmodiait,
- Tous priaient d’une âme fervente;
- Et la cloche retentissait
- Portant au ciel sa voix bruyante.
-
- ‘Ce son qui vibrait dans les airs,
- Que ne puis-je l’entendre encore?
- Que ne puis-je au fond des enfers
- Étouffer tous les chants du more!
-
- —‘Que le bon Dieu veille sur vous!
- Qu’il vous bénisse, jouvencelle!
- Une telle langage semble doux
- Où règne en maître l’infidèle,
-
- ‘Je veux prier pour vous, hélas!
- Je souffre et me soutiens à peine,
- Il faut que s’arrêtent mes pas
- Près de cette claire fontaine.
-
- ‘Ah! qu’on est bien! quelle fraîcheur!
- Comme cette eau me semble belle!
- Laissez asseoir le voyageur;
- Dieu vous le rendra, jouvencelle.’
-
- —‘Asseyez-vous, bon pélerin,
- —‘Asseyez-vous sur cette pierre;
- L’eau qui coule dans ce bassin
- Est douce et fraîche, et désaltère.
-
- ‘La reine en boit à son réveil;
- J’en viens chercher avant l’aurore;
- Je viens, avant que le soleil
- Ne l’ait pu réchauffer encore.’
-
- —‘Cette eau si pure doit avoir
- Une vertu particulière.
- Ah! pour juger de son pouvoir,
- Donnez m’en, je vous prie, un verre.’
-
- —‘Buvez, buvez, bon pélerin,
- À la fontaine du roi more.
- Tenez; ce vase d’argent fin
- Vaut de l’or... il vaut mieux encore.’
-
- —‘Mais que dirait votre seigneur?
- Que dirait Gaia, votre reine;
- S’ils voyaient l’humble voyageur
- Boire à la royale fontaine?’
-
- —‘Alboazar, avant le jour,
- A quitté ce lieu solitaire.
- Il est dans les bois d’alentour,
- Aux sangliers faisant la guerre.
-
- ‘Ma maîtresse de ce trésor
- Ne peut se montrer soucieuse:
- Pour qui posséda vases d’or,
- Cette coupe est peu précieuse.’
-
- —‘De grace! Encore une faveur!
- Dites-lui, bonne jouvencelle,
- Qu’un pauvre chrétien voyageur
- Désire être conduit près d’elle.
-
- ‘Dites-lui bien qu’un malheureux,
- Mort de chagrin et de misère,
- L’a de cet anneau précieux
- Fait pour elle, dépositaire.’
-
- Il tire de son doigt l’anneau,
- Dans le fond du vase il le jette:
- —‘Quand elle boira de cette eau
- Sa surprise sera complète!
-
- Mais la jeune fille a bientôt,
- En courant, quitté la fontaine.
- —‘Pourquoi ne pas venir plus tôt?’
- Dit, d’un ton sévère, la reine,
-
- ‘Joyeusement tu folâtrais,
- Quand de soif mourrait ta maîtresse?
- —‘Oh! non, tristement je songeais,
- Car je songeais à ma jeunesse.
-
- ‘Que mon destin me semble amer!
- Ici, pour moi quelle existence!
- Ó Milhor que baigne la mer,
- Milhor, pays de mon enfance!
-
- ‘Là, chaque jour est un plaisir,
- Gaîment se passe le bel âge;
- C’est là qu’à Dieu l’on peut offrir
- D’un saint amour le pur hommage!
-
- —‘Tais-toi, Peronelle, tais-toi,
- Ne réveille pas ma souffrance:
- Tu sais bien que ce n’est pas moi
- Qui désirais cette existence.
-
- ‘Mais à mon ravisseur enfin
- J’ai pardonné, rendu les armes.
- Esclave, je vis sans chagrin;
- Reine, je vivais dans les larmes.
-
- ‘Ce vain titre était peu pour moi,
- Trop peu pour tromper ma disgrâce.
- Voir, auprès d’un époux sans foi,
- Une more occuper ma place!’
-
- À ce souvenir, de rougeur
- Soudain son beau front se colore
- Puisse cette eau, par sa fraîcheur,
- Calmer la soif que la dévore!
-
- Elle prend le vase d’argent,
- Le porte à ses lèvres brûlantes,
- Et voit luire au même moment
- De l’anneau les pierres brillantes.
-
- —‘C’est un sort, Jésus, mon sauveur!
- Que l’on veut jetter sur mon âme:
- Cette eau glace par sa fraîcheur,
- Et dans le fond c’est de la flamme.’
-
- —‘Voilà ce charme merveilleux
- Qui me tenait loin de la reine.
- C’est au pélerin malheureux
- Que j’ai vu près de la fontaine;
-
- ‘C’est lui que dans le fond de l’eau
- A voulu déposer ce gage:
- De ses souhaits ce riche anneau
- Devait servir de témoignage.’
-
- —‘Oh qu’il vienne ce voyageur,
- Qu’il vienne ici! que je l’entende!
- Car je veux voir l’ambassadeur
- Qui m’apporte une telle offrande.’
-
-
-III
-
- —‘Ne baisez point ainsi ma main;
- De grâce, je vous en conjure:
- Cessez, cessez, bon pélerin,
- Et quittez cette humble posture.’
-
- Mais le pélerin à ses vœux
- Résiste... il devient téméraire,
- Et ses baisers vont, deux à deux,
- Tomber sur cette main qu’il serre.
-
- La reine a pâlit cette fois,
- Dans son cœur le courroux fermente.
- Soudain, elle sent sur ces doigts
- Couler une larme brûlante...
-
- —‘Qui peut causer, bon pélerin,
- La douleur que je vois paraître?
- Là, contez-moi votre chagrin;
- Je puis vous soulager peut-être.’
-
- —‘Oh! non, ce n’est pas mon chagrin;
- La mort fait cesser la souffrance:
- Mais en vous j’espérais enfin
- Retrouver ma douce existence.
-
- ‘Oh! non; ce n’est pas mon destin,
- C’est la vôtre que je déplore:
- La compagne d’un roi chrétien
- Devenir celle d’un roi more!’
-
- —‘Ah! ne me parlez pas ainsi!
- La pitié peut être indiscrète.
- Du présent je n’ai nul souci,
- Et du passé rien ne regrette.
-
- ‘Dieu m’accordera son pardon;
- Ce n’est pas moi qui fus coupable.
- De cette lâche trahison
- Ramire doit être comptable.
-
- —‘Le ciel, jusqu’ici trop clément,
- Doit en effet punir ce traître.
- Ordonnez donc son châtiment,
- Ramire à vos yeux va paraître.’
-
- Ramire se lève soudain,
- Et laissant là toute imposture,
- De sa barbe de pélerin
- Il a dépouillé sa figure.
-
- Le bourdon qu’il tient dans sa main
- Près de là va rouler à terre;
- Et d’un geste plein de dédain,
- Il jette à ses pieds son rosaire.
-
- Qui pourrait dire de quels yeux
- Le regardait la noble dame,
- Quels sentiments impétueux
- Troublaient en ce moment son âme?
-
- Elle tremble, mais non de peur;
- Sans gaîté, sa bouche est riante:
- Elle est honteuse, sans pudeur;
- Elle pâlit... elle est brûlante.
-
- On voit ces sentiments divers
- Se succéder sur son visage,
- Comme les flots, au sein des mers,
- Se heurter dans un jour d’orage.
-
- À l’homme la vengeance plait;
- Pour la femme c’est un délice;
- L’un pardonne, il est satisfait;
- L’autre veut qu’elle s’accomplisse.
-
- Sous le poids de ce souvenir,
- Dont la reine a l’âme oppressée,
- Ce fut là son premier désir,
- Ce fut sa dernière pensée.
-
- Et puis, pour elle quel honneur!
- Combien elle doit être vaine,
- De pouvoir triompher d’un cœur
- Qui revient reprendre sa chaîne!
-
- Mais dans les forêts d’alentour
- Chasse en ce moment le roi more,
- Elle est seule dans cette tour...
- Il faut se taire et feindre encore.
-
- Elle sourit, mais tristement,
- De ce sourire qui fend l’âme,
- Et voile son regard charmant
- Pour mieux en tempérer la flamme.
-
- De sa voix le son enchanteur
- Séduit par son pouvoir funeste;
- Et si l’enfer est dans son cœur,
- Sa parole est toute céleste.
-
- Elle paraît près de fléchir,
- Ses pleurs ont calmé sa colère;
- Son âme feint de s’attendrir
- Et sa douleur est moins amère.
-
- Elle répète, en sanglottant:
- —‘Pour pardonner, je suis trop fière.’
- Mais ses yeux, dans le même instant,
- Semble dire tout le contraire.
-
- Dom Ramiro est à ses genoux;
- D’une voix émue, il l’implore;
- Il veut désarmer son courroux;
- Il supplie... elle hésite encore.
-
- Soudain, on entend retentir
- Le bruit du cor, là dans la plaine;
- La reine se sent tressaillir
- Bien plus de plaisir que de peine.
-
- —‘C’est Alboazar, c’est le roi!’
- Dit-elle: ‘cachez-vous, Ramire:
- S’il vous voit, c’en est fait de moi;
- Fuyez, ou, sous vos yeux, j’expire.’
-
- A peine elle a, d’un air troublé,
- Fermé la porte, et par prudence,
- Dans son sein déposé la clé,
- Que vers elle le roi s’avance.
-
- —‘Tristes nouvelles, je le vois,
- Nouvelles de mauvais augure!
- C’est du moins, la première fois
- Que m’arrive cette aventure.
-
- ‘Avant d’entrer dans cette cour,
- J’ai sonné du cor dans la plaine,
- Et sur les créneaux de la tour
- Je n’ai pas vu venir la reine.
-
- ‘C’est mal à vous, ma chère enfant,
- D’avoir manqué d’exactitude.
- Me faudra-t-il donc maintenant
- Renoncer à cette habitude?’
-
- Une horrible perplexité
- A troublé l’esprit de la reine;
- Son triste cœur flotte agité
- Entre l’indulgence et la haine.
-
- Le souvenir de ses beaux jours,
- De l’ambition l’influence,
- Ici, de nouvelles amours,
- Là, le désir de la vengeance...
-
- Bientôt la vengeance et l’amour
- L’auront emporté dans son âme.
- Ne devaient-ils pas, sans retour,
- Triompher dans un cœur de femme?
-
- —‘J’ai des nouvelles, en effet,
- Et d’étranges à vous apprendre.
- Entrez là, dans ce cabinet;
- Vous verrez de quoi vous surprendre.’
-
- Alboazar ouvre en tremblant,
- Et recule, en voyant Ramire.
- Ce qui se dit dans cet instant,
- Point ne saurais vous le redire.
-
- Ce fut comme un vent orageux,
- Comme une tempête sur l’onde,
- Comme si la terre et les cieux
- Luttaient pour abîmer le monde.
-
- À la raison enfin rendu,
- Le roi prononce la sentence:
- —‘Chrétien, ton honneur est perdu;
- Je veux te laisser l’existence.
-
- ‘J’ai pû me payer largement
- Du mal dont tu m’as fait victime;
- Ta honte suffit maintenant
- Pour expier ton nouveau crime.’
-
- Dom Ramire sentait son cœur
- Gonflé de dépit et de rage;
- D’un air contrit, plein de candeur,
- Il fait entendre ce langage!
-
- —‘Bien grand, hélas! fut mon forfait!
- Envers toi je fus trop coupable;
- Je ne veux pas d’un tel bienfait;
- La mort me semble préférable.
-
- ‘C’est pour me mettre à ta merci,
- Pour me livrer à ta vengeance
- Que je suis venu seul ici;
- Non pour implorer ta clémence.
-
- ‘C’est pour racheter mon erreur,
- Sauver mon âme de l’abîme:
- C’est l’ordre d’un saint confesseur
- À qui j’ai confessé mon crime.
-
- ‘Il faut, m’a-t-il dit justement,
- Et c’est mon vœu, je te le jure,
- Que public soit le châtiment,
- Puisque publique fut l’injure.
-
- ‘Ordonne ici de tes soldats
- Que la troupe se réunisse,
- Et que sous leurs yeux, mon trépas
- Satisfasse enfin ta justice.
-
- ‘Vite! qu’ils entendent au loin
- Le son du cor qui les appelle;
- Que chacun, de ma mort témoin,
- En garde un souvenir fidèle.
-
- ‘Qu’on dise, en me voyant mourir:
- —«Quelque bruit qu’ait fait son offense,
- Un bruit plus fort va retentir,
- Et c’est celui de la vengeance!»
-
- Le roi touché de son remords,
- Lui veut conserver l’existence;
- Mais la reine a juré sa mort;
- Elle s’oppose à la clémence.
-
- On voit les soldats accourir;
- Le château prend un air de fête;
- Ramire debout, sans pâlir,
- Regarde la morte qui s’apprète.
-
- —‘Sonnez, trompettes et clairons,
- Et qu’au loin ce bruit retentisse!’
- Et l’écho, répétant ces sons,
- Annonçait l’heure du supplice:
-
- On entendit près de la mer
- Ce bruit, d’un sinistre présage;
- Et soudain s’éléva dans l’air
- Un long cri, parti du rivage.
-
-
-IV
-
- —‘De par tous les saints, en avant!
- En avant, allons, du courage!
- Et bientôt la porte, en tombant,
- Aux assaillants ouvre passage.
-
- Sur les créneaux point de soldats,
- Près des murs point de sentinelles;
- Rien ne peut arrêter leurs pas,
- Ils sont maîtres des infidèles.
-
- Sur eux ils s’élancent soudain,
- Comme des lions, pleins de rage.
- Ramire prend un glaive en main,
- Et par ses cris, les encourage.
-
- D’un seul coup, d’un coup sûr et prompt,
- Que rend terrible sa colère,
- Du More il coupe en deux le front,
- Et le jette sur la poussière.
-
- Déjà tous sont morts ou captifs;
- Du feu terrible est le ravage;
- Et les vainqueurs sur les esquifs
- Ont abandonné le rivage.
-
- —‘Alerte! il faut quitter ces bords!
- Allons, rameurs, plus de courage!
- Alerte! et redoublez d’efforts;
- J’entends des chevaux sur la plage.
-
- ‘Ce drapeau, qui flotte là-bas,
- De Léon c’est bien la bannière;
- Allons rameurs, force de bras;
- Voguons, voguons vers notre terre!
-
- ‘Ce pays au More est soumis;
- Jusqu’à Coimbre il règne en maître.
- Loin du Douro voguons, amis;
- Je dois craindre ici quelque traître.
-
- On voit Ramire s’avancer
- Vers la poupe où se tient la reine,
- À sa droite il la fait placer,
- Comme marque d’honneur certaine
-
- Sans même détourner les yeux
- D’un air pensif elle se lève,
- Son front est resté soucieux,
- Elle semble sortir d’un rêve.
-
- Ramire parut n’en rien voir:
- C’était peut-être par prudence.
- À ses côtés il va s’asseoir,
- Et tous deux gardent le silence.
-
- Du malheureux Alboazar
- Le château brûle et fume encore.
- Gaia jette un dernier regard
- Et voit le feu qui le dévore.
-
- À ce spectacle douloureux
- Son cœur est brisé de souffrance.
- Des larmes coulent de ses yeux;
- Elle pleure, mais en silence,
-
- Ramire, d’un air attendri,
- La contemple et ne peut se taire;
- Il croyait, le pauvre mari,
- Que son remords était sincère.
-
- Que c’était le seul souvenir
- De sa honteuse perfidie;
- Qu’elle pleurait de repentir
- D’avoir au roi livré sa vie.
-
- D’une voix pleine de douceur,
- Où se peint sa vive tendresse,
- Il dit:—‘Gaia, pourquoi ton cœur
- Garde-t-il encor sa tristesse?
-
- ‘Calme, ma Gaia, ta douleur;
- Notre vengeance est satisfaite.’
- Mais elle, redoublant ses pleurs:
- —‘Oh! oui la vengeance est parfaite.
-
- ‘De ce grand coup applaudis-toi;
- Il mérite bien qu’on l’admire.
- Il est vraiment digne d’un roi,
- D’un cavalier tel que Ramire.
-
- ‘Tu viens de frapper un rival,
- Qui t’avait offert l’existence:
- N’est-ce pas un trait bien loyal,
- Une noble et belle vengeance?
-
- ‘Ta main a frappé, sans regret,
- Le More le mieux fait pour plaire,
- Des cavaliers le plus parfait
- Que jamais ait porté la terre.
-
- ‘Tu demandes, perfide roi,
- D’où me vient ma vive souffrance?
- Oh! que n’est-il auprès de moi
- Pour me soustraire à ta puissance!
-
- ‘Tu veux savoir où mes regards
- Cherchent à s’arrêter encore?
- Contemple d’ici ces remparts,
- Vois la flamme qui les dévore.
-
- ‘Là tout entière à mon bonheur,
- De l’amour j’ai connu l’empire;
- C’est là que j’ai laissé mon cœur...
- Comprends-tu bien ce que je _mire_?
-
- —‘Contente donc alors tes yeux;
- _Mire_, Gaia, _mire_, infidèle.
- Et soudain d’un bras furieux,
- Il lève son glaive sur elle.
-
- Cédant à d’horribles transports,
- D’un seul coup, il tranche sa tête,
- Et du pied repousse le corps...
- Dans la mer le Douro le jette.
-
- De cet évènement cruel
- Le souvenir se garde encore:
- Gaia, c’est le nom du castel
- Qui fut l’asile du roi more.
-
- À ce cri que jette bien haut
- Le batelier sur cette plage,
- _Mira Gaia_! tout aussitôt
- Se dresse une sanglante image.
-
- Le peuple, dit-on, conserva
- De ce fait la trace fidèle;
- Et la place où Gaia _mira_
- MIRA-GAIA depuis s’appelle.
-
-Lisbonne, 10 janvier 1847.
-
-
-
-
-VIII
-
-POR BEM
-
-AS PÊGAS DE CINTRA
-
-
-Dou aqui logar a ésta composição que, moderna, como é, e minha, toda
-é feita de coisas populares e antigas. A anecdota devêra ter sido
-celebrada pelos menestreis do tempo: não o foi, e eu procurei supprir o
-seu descuido. Não apparece pois em meu nome, senão no d’elles, embora de
-longe os rastreie.
-
-Quando a primeira vez sahiu de minha carteira a presente ballada foi
-para se imprimir na ILLUSTRAÇÃO[31], jornal que se publicava em Lisboa
-em 1845-46. Reimprimirei com ella aqui tambem a carta que então escrevi
-ao redactor d’aquelle jornal, porque devéras contêm a historia de sua
-composição.
-
-Eis aqui a carta:
-
-’—Queria escrever-lhe um artigo, meu caro redactor, para a sua
-ILLUSTRAÇÃO, que realmente faz milagres no meio d’esta escacez de tudo,
-e d’estes impedimentos para tudo que characterizam a nossa boa terra.
-É promessa velha e que eu devia ter cumprido ha muito. Mas como, mas
-quando? E que hade um homem escrever que se leia—que se leia por damas
-bellas e elegantes cavalheiros—quando lhe anda intallado nos bicos da
-penna o fatal fio da politica, que a faz espirrar e esgravatear em tudo o
-mais?
-
-‘Com as leis das eleições, e as questões da fazenda, e as organisações
-ministeriaes, e não sei que mais coisas taes, foi-se-me detodo a
-derradeira reminiscencia litteraria que ainda por cá havia. Tenho saudade
-d’ella, mas foi-se, ‘morreu pela patria!’
-
-‘Não sei se morreu bem ou mal, se fez bem ou mal em morrer; mas é certo
-que morreu.
-
-‘Eu porêm nunca prometti, que faltasse, a homem nenhum—nem a mulher,
-que mais é! O ponto está que me acceitem em pagamento aquillo que eu
-posso dar. Que, ás vezes, o máu pagador não é máu senão pelas absurdas e
-excessivas exigencias do crédor. Axioma de eterna verdade, especialmente
-quando applicado a tudo o que passa entre os representantes de nosso pae
-Adão e as representantas de nossa mãe Eva...
-
-‘Passemos adeante. Quer, senhor redactor, acceitar-me, em pagamento da
-lettra de minha promessa, este papel que achei embrulhado entre mil
-rabiscos de projectos de lei, tenções de autos, notas ao orçamento e
-outras coisas galantes do mesmo genero?
-
-‘Se quer aqui o tem, e disponha d’elle.
-
-‘Deixe-me só dizer-lhe o que é, e como foi feito.
-
-‘Estava eu em Cintra, foi em... Que importa lá quando foi? Basta saber
-que não era n’essa estação _fashionavel_ em que a elegancia de Lisboa se
-vai infastiar classicamente para o mais romantico sítio da terra. Era na
-primavera; passeavamos dois sós, ou quasi sós, n’aquelle Eden delicioso.
-Fomos ver o palacio; chegámos á sala das pêgas. Pêgas são chocalheiras e
-linguarudas: eu detesto o bicho... e n’este tempo, estava-lhe com zanga
-de morte...
-
-‘Abominavel bicho! Isto ja lá vai ha muito tempo, meu caro redactor, e
-ainda me faz ferver o sangue...
-
-‘Passemos adeante!
-
-‘Perguntaram-me a explicação d’aquellas pêgas da sala. Contei a historia
-popular que é tam sabida. Acharam-lhe graça, pediram-me que a posesse em
-verso: fiz isto.
-
-‘E isto que é? Não sei. É romance ou é apologo? É fabula ou é cantiga?
-Nunca fui grande classificador d’essas coisas; que fará agora!
-
-‘O que lhe sei dizer é que no seculo XVI a XVII, segundo consta do
-‘Fidalgo aprendiz’ do nosso Francisco Manuel de Mello, se cantava em
-Portugal uma cantiga que começava assim como ésta:
-
- «Gavião, gavião branco,
- Vai ferido e vai voando.»
-
-‘Nunca pude encontrar o resto, nem procurei muito por elle; mas ingracei
-com este princípio, e servi-me d’elle aqui. Acha mal feito? Eu não.
-
-‘Se soubesse, meu caro senhor, todas as circumstancias d’esta composição!
-Se soubesse de certa pêga ou pêgas que me perseguiram com seu malditto
-palrear, e me queriam, ainda em cima, assacar, a mim gavião, ellas pêgas,
-as manhas que só ellas têem!
-
-‘Mas ficou lograda a pêga e...
-
-‘Adeus, meu amigo, outra vez, adeante! O gavião, e sobretudo o gavião
-branco—note—é animal nobre, de especie, genero e até de familia
-differente da pêga.
-
-‘Passe muito bem. Aqui estão os versos; eu vou salvar a patria.’
-
-‘Julho, 22—1846.’
-
-
-POR BEM
-
-AS PÊGAS DE CINTRA
-
- Gavião, gavião branco
- Vai ferido e vai voando;
- Mas não diz quem n’o feriu,
- Gavião, gavião branco!
-
- O gavião é callado,
- Vai ferido e vai voando;
- Assim fôra a negra pêga
- Que hade sempre andar palrando.
-
- A pêga é negra e palreira,
- O que sabe vai contando...
- Muito palra, palra a pêga
- Que sempre hade estar palrando.
-
- Mas quer Deus que os chocalheiros
- Guardem ás vezes, fallando,
- O segredo dos sisudos
- Que elles não guardam callando.
-
- Era uma pêga no paço
- Que el-rei tomára caçando;
- Trazem-n’a as damas mimosa
- Com a estar sempre afagando.
-
- Nos paços era de Cintra
- Onde estava el-rei poisando:
- A rainha e as suas damas
- No jardim andam folgando,
-
- Entre assucenas e rosas,
- Entre os goivos trebelhando;
- Umas regavam as flores,
- Outras as vão apanhando;
-
- E a minha pêga com ellas
- Sempre, sempre palreando.
- Vinha el-rei atraz de todos
- Com Dona Mécia fallando.
-
- Era a mais formosa dama
- Que andava n’aquelle bando:
- No hombro de Dona Mécia,
- A pêga vinha poisando,
-
- E zelosa parecia
- Que os andava espreitando...
- Colhêra el-rei uma rosa,
- A Dona Mécia a ia dando,
-
- Com um requêbro nos olhos
- Tam namorado e tam brando...
- Inda bem, minha rainha,
- Que adiante te vais andando!
-
- Pegou na rosa a donzella,
- Disfarçada a está cheirando...
- Senão quando a negra pêga
- Que lh’a tira e vai voando.
-
- Deu um grito Dona Mécia...
- E a rainha, voltando,
- Deu com os olhos em ambos...
- Ambos se estão delatando.
-
- —‘Foi por bem!’ lhe disse o rei,
- Seu accôrdo recobrando:
- —‘Foi por bem!’—‘Por bem’ repete
- A pêga emtôrno voando.
-
- —‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta,
- De má malicia cuidando
- Co’a chocalheira da lingua
- Andar o caso inredando.
-
- Mas quer Deus que os chocalheiros
- Guardem ás vezes fallando
- O segredo dos sisudos
- Que elles não guardam callando
-
- Riu-se a rainha da pêga,
- E ficou acreditando
- Que a innocencia do caso
- N’ella se estava provando.
-
- Da pêga mexeriqueira,
- Do bem que fez, mal pensando,
- Nos reaes paços de Cintra
- A memoria está durando.
-
- E eis-aqui, senhora, a historia
- Da pêga que ahi ves palrando,
- Da rosa que tem no bico,
- Da lettra que a está cercando.
-
- A pêga é negra e palreira,
- O que sabe vai contando:
- Mas quer Deus que os chocalheiros
- Guardem segredo fallando.
-
- O gavião, esse é outro;
- Vai ferido e vai voando:
- Mas não diz quem n’o feriu...
- Gavião, gavião branco!
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Alterou-se este plano; só se tracta por agora do _Romanceiro_.
-
-[2] Dez annos são passados e a promessa nem commeçou a cumprir-se (1853).
-Suppomos o A. receioso de arrostar com a audaciosa responsabilidade de
-historiador contemporaneo.
-
-[3] Serviu de prefacio á primeira ed. de Londres no anno de 1828.
-
-[4] O Sr. Duque de Ribas, bem conhecido na Europa hoje, tomou para
-epigraphe do seu _Moro-esposito_ este paragrapho da presente carta:
-não me desvanece por mim, mas dá-me gôsto que precedessemos os nossos
-vizinhos na restauração da poesia popular das Hespanhas. _Ed. de 1843._
-
-[5] É o do Bernal Francez, n’este vol.—Vid. tambem o vol. II, pag. 121.
-
-[6] É o pensamento que agora se realiza.
-
-[7] O auctor esteve por espaço de tres mezes preso sem mais pretexto que
-o de ter tido parte em uma publicação censurada e impressa com todas as
-licenças necessarias. Não foi preso o censor, nem prohibida a publicação,
-nem no fim de tres mezes se achou materia de culpa! _Ed. de 1828._—O
-jornal era o Portuguez, cuja moderação em doutrina, e urbanidade em
-estylo ainda não foram imitadas. _Ed. de 1843._
-
-[8] Está a pag. 101 do II vol. do ROMANCEIRO, liv. II, part. I, rom. 8.
-
-[9] Corrigiu-se comtudo agora ésta carta para a presente reimpressão,
-porque escripta muito á pressa em Londres logo ao chegar de Portugal, não
-tinha agora essa desculpa, que então podia valer. _Ed. de 1843._
-
-[10] Ruinas de fortificações antigas em Campolide. Vid. notas no fim.
-
-[11] Aqueducto das aguas livres.—Vid. notas no fim.
-
-[12] Vid. ROMANCEIRO, liv. II, part. I, no tom. II, pag. 135.
-
-[13] Vid. loc cit. a nova traducção por M. Adamson, LUSITANIA ILLUSTRAT.,
-part II. Newcastle 1846. Ésta segunda versão ingleza vem a pag. 142 do
-referido II vol. no ROMANCEIRO. E a pag. 151 ibid. a traducção castelhana
-do Sr. Isidoro Gil, já tam conhecida e appreciada entre nós.
-
-[14] Vid. a introducção ante, pag. 94.
-
-[15] Vigia.
-
-[16] Vid. nota no fim.
-
-[17] Fe, fee, fei. Vid. nota no fim.
-
-[18] Pé, pee, pei. Vid. nota no fim.
-
-[19] Vid. nota no fim.
-
-[20] Minstrelsy of the Scottish border etc. by Sir Walter Scott, mihi,
-ed. de Paris 1838—2 vol. pag. 125.
-
-[21] Vej. no livro II, part. I, o romance XIII, _Claralinda_, pag. 219 do
-2.º vol.; e na part. II, o romance XVIII, _Conde Nillo_, pag. 19 do 3.º
-vol.; ibid. o romance XX a _Peregrina_, pag. 35, etc.
-
-[22] _Poèsie des Troubadours_, tom. VI, pag. 385.
-
-[23] Ap. Sanchez, tom I, pag. LVIII.
-
-[24] Le manuscrit du _Cancioneiro_ date du XIII siècle et les pièces
-qu’il contient semblent plus anciennes. Il a été publié à Paris en 1823
-par Sir Ch. Stuart of Rothsay et tiré seulement à 23 exemplaires, dont
-aucun n’a été mis dans le commerce. Vid. a nova ed. do Sr. Varnhagen,
-Madrid 1851.
-
-[25] Pag. 339, note 1.
-
-[26] Vid. ante, pag. 164 d’este I do tomo do ROMANCEIRO.
-
-[27] Vid, ibid.; e tomo II do MINSTRELSY etc. de Sir. W. Scott.
-
-[28] Note pour la traduction
-
-[29] Jornal das Bellas-artes, Lisboa 1845, vol. I.
-
-[30] Mr. Zanole que foi depois, em 1848-1849, addido á legação franceza
-na China.
-
-[31] ILLUSTRAÇÃO, vol. II, n.º 5, 1 de Agosto 1846.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-A ADOZINDA
-
-
-NOTA A
-
- O romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de
- Portugal
-
- pag. 3.
-
-A Adozinda foi começada em Campolide, ao-pé de Lisboa, no verão de 1827,
-concluida na cadeia do Limoeiro no fim d’esse mesmo anno, e publicada em
-Londres no outomno de 1828, em 1 vol., 12.º sem nome do auctor, e com a
-seguinte breve advertencia precedendo a carta ao sr. Duarte Lessa que era
-o verdadeiro prefacio:
-
-‘ADVERTENCIA.—O auctor d’este romance, animado pelo lisongeiro favor que
-outras publicações suas teem merecido ao público portuguez e a distinctos
-litteratos extrangeiros, imprehende ésta nova publicação, cujo assumpto
-é tirado da antiquissima tradição popular e se refere aos mais remotos
-tempos e costumes de nossas epochas heroicas e maravilhosas. Espera
-elle que não desagradará aos amantes de um genero que fez a colossal
-reputação de Sir Walter Scott, e restituiu á antiga Escocia—na republica
-das lettras—o nome e independencia que ha tanto perdêra na ordem politica.
-
-‘Aindaque em pouco habeis mãos, a lingua portugueza sahirá mais uma vez
-a próva singular de bisarria com as mais cultas e gabadas linguas da
-Europa: e será culpa do cavalleiro, não sua, se o premio da belleza e
-valentia lhe não for adjudicado por todo o juiz imparcial.’ (_Nota da
-segunda edição._)
-
-
-NOTA B
-
- Resummo da historia da lingua e da poesia portuguesa, que vem
- no I vol. do PARNASO-LUSITANO
-
- pag. 4.
-
-Foi o meu primeiro ensaio de critica litteraria, e muito ha que devo ao
-público reimprimi-lo emendando-o e additando-o, como tanto precisa. É
-trabalho que demanda porêm o vagar de outros cuidados e uma serenidade de
-espirito que não tenho tido. Heide fazê-lo e breve. (_Nota da terceira
-edição._)
-
-
-NOTA C
-
- Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos
-
- pag. 4.
-
-A expressão é inexacta: os Toscanos houveram os metros hendecasyllabos
-dos mesmos de quem nós os houvemos, dos trovadores. Vej. o Cancioneiro
-do Collegio dos Nobres. (_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA D
-
- A lingua provençal, primeira culta da Europa
-
- pag. 6.
-
-Generalizaram ésta opinião no mundo os eruditos trabalhos de Mr.
-Raynouard: eu duvido hoje muito d’ella, isto é, formulada d’este modo.
-Estou inclinado a crer que houve uma lingua romance, que teve por base
-o Romano-rustico fallado, e que geralmente predominou nos paizes de
-dominação wisigothica desde a extrema Aquitania até o que hoje é Algarve;
-e que ésta lingua quasi-latina é o commum tronco do Provençal que
-morreu á nascença, do Aragonez que não passou da infancia, do Portuguez
-e do Castelhano que chegaram a perfeita maturidade, e de outros mais
-obscuros dialectos cujo desenvolvimento as circumstancias politicas e
-topographicas annullaram. Nem julgo difficil demonstrá-lo; mas não é
-aqui o logar, nem caberia no curto espaço de uma nota. (_Nota da segunda
-edição._)
-
-
-NOTA E
-
- Logo vieram esses trovadores de Provença...
-
- pag. 6.
-
-A simples leitura dos nossos cancioneiros mostra que aquella não era
-a poesia popular: os seus requebros, todos cortezãos e palacianos,
-desdizem da ruda singeleza e energica originalidade do trovar do povo.
-E comparados aquelles cantares de saraus com os fragmentos das xácaras
-e soláos que a tradição oral tem conservado, aindaque pervertidos e
-viciados como elles andam, ve-se que estes é que são a primitiva e
-legitima poesia nacional. (_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA F
-
- As balladas de Bürger, os romances de Sir W. Scott
-
- pag. 7.
-
-Vej. na collecção intitulada _Minstrelsy of the Scottish border_
-(cancioneiro das fronteiras da Scocia) a historia da renascença do genero
-popular na Gran’Bretanha contada pelo mesmo W. Scott. (_Nota da segunda
-edição._)
-
-
-NOTA G
-
- Cancioneiro do Collegio dos Nobres
-
- pag. 10.
-
-Ha tempos que se designa com este nome o Cancioneiro do tempo d’elrei D.
-Diniz que se guarda na livraria do que hoje é Escola Polytechnica, e era
-então Collegio dos Nobres. Copiou-o quando esteve ministro em Lisboa Sir
-Charles (depois Lord) Stuart, e em Paris o imprimiu, 25 exemplares creio
-eu, quando alli foi embaixador.
-
-Descubriram-se, ha poucos annos, na Bibliotheca de Evora algumas
-folhas que faltavam no manuscripto de Lisboa, e com este additamento se
-reimprimiu em Madrid ultimamente pelo zeloso cuidado do Sr. Varnhagem,
-ministro do Brasil n’aquella côrte. (_Nota da terceira edição._)
-
-
-NOTA H
-
- Canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, etc.
-
- pag. 11.
-
-Éstas e todas as reliquias duvidosas do nosso romance irão todavia no
-logar e livro competente da actual collecção. (_Nota da terceira edição._)
-
-
-NOTA I
-
- Aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro
-
- pag. 12.
-
-É um curioso e rarissimo exemplar, documento notavel da litteratura
-portugueza do seculo dezesette. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto
-em um folheto de 4.º, com 15 ou 20 paginas. Tenho hoje grande pena de não
-ter tirado cópia inteira d’elle antes de o restituir ao meu amigo o Sr.
-Lessa, em cujo espólio deverá estar: mas não pude obter mais noticias
-d’elle; e outro exemplar não o vi nem sei de quem o visse. Começa com
-éstas duas oitavas que agora incontro, incompletas, entre os meus
-apontamentos. Todo o poema é na mesma rhyma.
-
- I
-
- Cantemos de Ramiro rei d’Hespanha
- E de el-rei Almançor de Berberia,
- Quando por desventura tam estranha,
- No mais de Hespanha então mouros havia,
- Com ânimo cruel, com cruel sanha
- Cadaqual ao outro pretendia
- Privar de sua fama, honra e estado,
- Com todas suas fôrças e cuidado.
-
- II
-
- D’esse Ramiro, digo, o esforçado,
- Que d’este nome tres com elle hão sido,
- D’âquelle que com Gaya foi casado
- Por quem tantos trabalhos ha soffrido...
-
-(_Nota da segunda edição._)
-
-Possuo hoje um exemplar completo que devo ao obsequioso cuidado do Sr. N.
-M. de Sousa Moura, distincto e letrado official do nosso exercito, que,
-talvez por isso, não occupa n’elle o logar que lhe pertence. (_Terceira
-edição._)
-
-
-NOTA K
-
- Adeante copio um dos mais curiosos (o do Bernal-francez)
-
- pag. 17 e 18.
-
-O romance d’este nome na primeira edição da ‘Adozinda’ em Londres ia
-inserto na presente carta: por melhor classificação vai agora separado. E
-o texto original, segundo o conservou a tradição dos povos, irá no logar
-competente do ‘Romanceiro’, mas muito mais correcto e melhorado agora
-pela collação das diversas versões que tenho obtido. (_Nota da segunda
-edição._)
-
-
-NOTA L
-
- Este terreno é sancto: inda estás vendo
- Alli aquelles restos mal poupados
-
- pag. 23 e 24.
-
-Em Campolide e nas alturas que avizinham o célebre aqueducto das _Aguas
-livres_ se incontram muitos restos de fortificações antigas e que parecem
-de diversas datas. O proprio nome de Campolide, abreviação de campo
-da-lide, ficou a este sitio da batalha que alli se deu nas guerras da
-acclamação de D. João I. Vej. Próvas genealogic., Duarte Nun. e quasi
-todos os nossos historiadores. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA M
-
- ... Essas arcadas,
- Suberbas, elevadas
-
- pag. 24.
-
-O aqueducto das _Aguas-livres_ é o mais nobre e util monumento de Lisboa:
-edificou-o D. João V, que nem sempre impregou tam bem os immensos
-cabedaes dos thesouros do estado, que então regurgitavam com o ouro das
-minas do Brazil e de outras possessões portuguezas. D. João V todavia
-amou, ao menos protegeu, as artes e as lettras; foi culpa não sua mas do
-seculo, se de tam mau gôsto eram as lettras que protegeu. O crepusculo
-de nossa rehabilitação litteraria luziu em seu reinado. A isto alludem os
-versos:
-
- Um rei que amou as artes, rei pacífico
- A quem amor fadou
- Que seu fôsse e das musas, etc.
-
-Assim como alludem tambem a seus bem sabidos amores e espirito
-galanteador. D. João V tinha a ambição de querer imitar Luiz XIV, seu
-contemporaneo—até nas fraquezas. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA N
-
- Lembra-te aquella historia
- Que ingenuo o povo nos seus trabalhos canta.
-
- pag. 29.
-
-É a xácara ou lenda da ‘Silvaninha’, cujo texto original vai no logar
-competente do ‘Romanceiro.’ (_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA O
-
- É singela legenda de uma santa,
- Que por brutal amor sacrificada,
- Desvalida virtude,
- Só de crime escapou no seio á morte
-
- pag. 29.
-
-A tradição popular attribue ésta nefanda aventura a um rei que se
-namorou da sua propria filha, como a antiga Myrrha se namorára de seu
-pae.—Provavelmente ambas as duas anecdotas teem seu fundamento historico
-na chronica escandalosa das familias de alguns regulos ou senhores das
-diversas epochas. O observador curioso notará o differente character
-de duas historias tam similhantes, e colherá o essencial ponto em
-que o nosso _maravilhoso_ moderno differe da antiga mythologia, não
-tanto nos nomes de deuses e deusas e outros agentes sôbrenaturaes, mas
-principalmente no tom, na moral, na sensibilidade, e n’um certo não sei
-quê de ternura e melancholia que nos mais rudes e imperfeitos ensaios da
-poesia nacional se acha sempre como principal e dominante côr do quadro.
-A differença não está em chamar ao sol Apollo, ao amor Cupido, á guerra
-Marte; sim na maneira de conceber, de pensar, de pintar, de moralisar as
-mesmas ideas, as mesmas coisas por differente modo. (_Nota da primeira
-edição._)
-
-
-NOTA P
-
- Cantiga primeira
-
- pag. 33.
-
-Na primeira edição chamavam-se cantos as quatro partes d’este romance.
-Era dar-lhe uma pretenção de epopea que o pobre não tinha. Demais,
-cantiga é o nome popular verdadeiro, e por isso lh’o mudei para elle. Os
-antigos menestreis inglezes chamavam _fitts_—como quem diria _accesos_—os
-francezes _lays_—como quem diz _ramos_—às diversas secções em que partiam
-os seus romances mais longos. A partição fazia-se por causa do canto:
-e _cantiga_, ‘o que se póde cantar de uma vez’ parece portanto o mais
-proprio nome. O Cancioneiro do Collegio-dos-Nobres diz _cantares_. (_Nota
-da segunda edição._)
-
-
-NOTA Q
-
- Como os picos do Gerez
- Quando em Janeiro lhe neva
-
- pag. 34.
-
-O Gerez é serra altissima na provincia do Minho, de alpestres alcantis,
-coberta de plantas alpinas de curiosissima _flora_; as summidades
-conservam quasi todo o anno resplandecentes massas de gêlo. Ha nas faldas
-da serra as famosas aguas mineraes conhecidas pelo nome de caldas do
-Gerez. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA R
-
- Mas pede Adozinda bella,
- Tal virtude e formosura,
- Quem lh’o hade negar a ella?
- Não póde o pae nem ninguem
-
- pag. 34 e 35.
-
-É uma occurrencia muito commum nos romances populares, e de sincera
-belleza homerica, ésta de negar o senhor do castello a poisada ao
-peregrino, mas ceder depois ás intercessões da filha compadecida,
-donzella innocente e malfadada, que quasi sempre vem a ser victima de sua
-propria bondade. Assim na lenda tam sabida e tam nacional de Sancta Iria:
-
- Pedia poisada,
- Meu pae lh’a negava;
- Mas eu tanto fiz
- Que porfim entrava.
-
-(_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA S
-
- E guiaram seu pendão
- Para terras de Moirama
-
- pag. 37.
-
-Moirama, na phrase do povo, quer dizer terra de moiros. N’outro genero de
-poesia é certo que não ficaria bem o vocabulo, mas n’este quadra. (_Nota
-da primeira edição._)
-
-
-NOTA T
-
- Que tropel que vai nos paços
- De Landim aopé dos rios
-
- pag. 39.
-
-Em minha imaginação puz a scena d’este romance em um dos sitios mais
-pittorescos da mais formosa provincia de Portugal, o Minho. Landim
-(haverá mais terras do mesmo nome; ésta é a que eu conheço) é uma
-povoação pequena em que houve, outro tempo, uma famosa casa e pingue
-possessão de Jesuitas: fica perto dos rios Ave e Vizella, que não longe
-d’ahi se juntam para correr unidos a desimbocar em Villa-do-Conde e
-perder-se no mar. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA U
-
- Que ou são sombras de finados,
- Ou de negras bruxas más
- Alli ha nocturna dança
-
- pag. 50.
-
-Éstas bôccas de cavernas, e outros recéssos—assim de bosques, montanhas e
-que taes, são em todos os paizes, pela imaginação do vulgo, povoados de
-entes mysteriosos e ás vezes malfazejos. Sombras de finados cantando seus
-hymnos terriveis, bruxas celebrando os torpes mysterios do seu _sabbado_,
-são cosmopolitas. A nossa mythologia popular tem mais outra especie de
-entes sobrenaturaes, que é privativa nossa.—São as _moiras incantadas_,
-que nem são bruxas, duendes nem fadas, mas lindas e amaveis creaturas
-que se divertem a incantar, a excitar os desejos dos pobres mortaes—e ás
-vezes, tam boas são! a satisfazê-los.
-
-Não é d’este logar o exame, que sería bem curioso, da mythologia nacional
-portugueza. Basta dizer, como o A. de D. Branca, que devemos explorar
-ésta mina tam ricca, e tam pouco lavrada, de bellezas poeticas originaes
-e novas que, sem imprestimo nem favor alheio, podêmos haver do nosso e de
-casa. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA V
-
- Se a ha, não lhe acudiu Deus,
- Venceram peccados seus
-
- pag. 54.
-
-O povo é geralmente fatalista; e o nosso portuguez o mais fatalista que
-eu conheço. _Tinha de succeder, ra coisa que o perseguia_, e outras
-que taes razões, são a explicação de todo o phenomeno estranho que os
-surprehende.
-
-Aqui a cegueira da ignorancia leva pelo mesmo caminho que os desvarios da
-sciencia. A coisa é a mesma ao cabo: vaidade e presumpção humana. (_Nota
-da primeira edição._)
-
-
-NOTA X
-
- Mas diz que não ha condão
- Peior que o da maldicção
-
- pag. 59.
-
-A maldicção do pae desacatado, ou do pobre maltrattado, passam entre o
-povo por ser as mais terriveis e inevitaveis. Atéqui a moral de accôrdo
-com a crença vulgar. Mas a maldicção, hereditaria em seus effeitos, é
-outra parte d’este dogma popular que em verdade repugna.—É certo porêm
-que se é acaso, o acaso tem servido muito bem os fautores d’aquella
-crença. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA Y
-
- Ah! essa alma corrompida
- Mais do que teu corpo estava
-
- pag. 67.
-
-O leitor verá n’esta passagem, no conselho de Auzenda á filha, em
-muitos logares d’esta e da cantiga IV principalmente, quanto fiz por
-me conservar perto do romance primitivo, assim no pensamento como até
-na phrase e stylo, tanto quanto o permittia a decencia, e outras vezes
-a correcção da phrase, e ja tambem a indole do meu romance. (_Nota da
-primeira edição._)
-
-
-NOTA Z
-
- Sette annos e um dia
- Foi a sentença cruel
- Que Adozinda cumpriria
-
- pag. 72.
-
-Sette annos e um dia é o periodo mysterioso de quasi todos os nossos
-contos de fadas, incantamentos e coisas similhantes.
-
-No mui galante romance do _Caçador_, que é um dos mais queridos do povo,
-se diz:
-
- Sette fadas me fadaram
- Nos braços de mi’ madrinha,
- Que estivesse aqui sette annos,
- Sette annos e mais um dia.
-
-O numero sette é mysterioso em todos os povos, mas ésta expressão
-algebrico-negromantica de 7 + 1 creio que é só portugueza. (_Nota da
-primeira edição._)
-
-É de toda a peninsula. Vej. os romanceros castelhanos. (_Nota da segunda
-edição._)
-
-
-NOTA AA
-
- Arreda, arreda, infanções,
- Cavalleiros, dae logar
-
- pag. 78.
-
-Veja o glossario de S.ta Rosa para ampla explicação do que eram
-_infanções_ entre nós. Para intelligencia d’esta passagem basta saber-se
-que era uma especie de vassallos mais distinctos. (_Nota da primeira
-edição._)
-
-
-NOTA BB
-
- E por senhor reconhecem
- Ao ricco-homem de Landim
-
- pag. 80.
-
-Sôbre _ricco-homem_, veja o mesmo glossario. A dignidade de ricco-homem
-perfeitamente obsoleta em Portugal, ainda a mencionam os fidalgos
-castelhanos em seus titulos.
-
-Ricco-homem, naturalmente, quer dizer magnata, da primeira aristocracia,
-_procer_, grande senhor. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-NOTA CC
-
- E essa voz diziam todos
- Que era a voz de Dom Sisnando
-
- pag. 85.
-
-Ésta especie de _vindicta-pública_, com que o povo stigmatisa a memoria
-dos malvados e grandes criminosos, é muito provavelmente a origem das
-almas-do-outro-mundo, dos _revenants_, vampiros, etc., etc.
-
-Se se procurar bem a fonte primitiva de todas as fábulas, ver-se-ha que
-não ha credulidade mythologica que não tenha por base o instincto da
-moral e da justiça, commum a todos os povos. (_Nota da primeira edição._)
-
-
-AO BERNAL-FRANCEZ
-
-
-NOTA A
-
- ‘Quem bate á minha porta,
- Quem bate, oh! quem ’stá ahi?’
-
- pag. 97.
-
-Por estes versos começa o romance original, tradicionalmente conservado
-na memoria do povo, e sómente impresso a primeira vez em Londres na
-primeira edição da Adozinda em 1828. Ja n’outra parte se deram as razões
-por que irá agora esse texto no logar competente do Romanceiro, no
-segundo livro e segundo volume d’elle. (_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA B
-
- For knowest thou not, where softest swell
-
- pag. 107.
-
-A versão ingleza, quasi sempre litteral, afasta-se aqui do texto
-sensivelmente, mas sem alterar as proprias ideas, sómente a fórma
-d’ellas. (_Nota da segunda edição._)
-
-
-Á NOITE DE SAN’JOÃO
-
-
-NOTA A
-
- Té os moiros na Moirama
- Festejam a San’João
-
- pag. 119.
-
-É uma cantiga popular do Minho ainda hoje cantada por toda essa noite
-de San’João, que n’aquellas terras ninguem dorme, como é sabido. A
-superstição da alcachofa é toda do Sul, toda lisboeta, talvez coirman
-d’aquellas de dia de Maio que o catholico senado municipal votou e
-prometteu a Nossa Senhora da Escada de acabar para sempre. Mas San’João
-fez-se um santo de exemplar tolerancia desde que lhe tiraram a cabeça
-por elle não podêr ver, sem ralhar, as desinvoltas pernas da baiadera
-Herodias.
-
-Não quero folgar com o que é serio: mas é notavel que a devoção quasi
-universal dos christãos tomasse para patrono e orago de seus mais livres
-folgares e festanças, e lhe consagrasse a mais risonha e lasciva estação
-do anno, ao austero percursor do Christo, o jejuador penitente do
-deserto, o severo censor da soltura cortezan, o protomartyr da moralidade
-evangelica.
-
-Sería que a timida singelleza de nossos passados fôsse de proposito
-buscar aquelle austero e invisivel inspector de seus ainda então
-innocentes brinquedos? (_Nota da segunda edição._)
-
-
-AO CHAPIM D’ELREI
-
-
-NOTA A
-
- Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as
- tres especies, romance, xácara, soláo
-
- pag. 142.
-
-Ésta classificação é em parte conjectural, ou para fallar com mais
-propriedade, sim ésta é a regra, mas com tantas excepções que chegam a
-fazer duvidar d’ella. Os que escreviam e compunham n’aquelles tempos
-primitivos curavam pouco de cingir-se a regras ou classificações. D’ahi
-veio uma certa anarchia, constituida e fundada no exemplo, ou na falta
-d’elle, que se prolongou por muitos seculos depois.
-
-A respeito de soláos, por exemplo, temos para abonar a definição que
-d’elles se dá no logar annotado, a auctoridade immensa de Bernardim
-Ribeiro na _Menina e Môça_: ahi cap. 21.
-
- Pondo-se a ama a pençar a menina sua criada como sohia, como
- pessoa agastada de algua noua dor, se quiz tornar ás cantigas,
- e começou ella entam contra a menina que estaua pençando, a
- cantar-lhe um cantar á maneira de soláo, que era o que nas
- coisas tristes se acostumava nestas partes: e dizia assi: etc.
-
-Mas por outra parte, temos o não menos grave pêso de Sá-de-Miranda na
-egloga 4:
-
- Que se os velhos soláos fallam verdade,
- Bem sabe ella por próva como Amor
- Magôa, e averá de mi piedade.
-
-Da primeira citação parece concluir-se que o soláo é, como deixo ditto,
-um cantar todo lyrico, de tristeza e lamentos: na segunda considera-se
-como narrativo e usurpando propriamente a provincia do romance. (_Nota da
-segunda edição._)
-
-Vej. o que a este respeito se escreve no liv. II do ROMANCEIRO. (_Nota da
-terceira edição._)
-
-
-NOTA B
-
- Antes ser pobre e villan,
- Antes, pela minha fei
-
- pag. 146.
-
-Nas provincias transtaganas e em muitas das ilhas adjacentes
-pronunciam-se as palavras _fé_, _pé_ e similhantes—_fei_, _pei_, etc.
-Talvez seja devido á antiga orthographia que nas vogaes longas, _a_, _e_,
-dobrava as lettras em vez de as carregar com assento grave ou agudo. O
-povo, que sempre foge dos hyatos, preferiu mudar a última lettra, fazendo
-o som mais suave. (_Nota da segunda edição._)
-
-
-NOTA C
-
- Sem bulir nem mão nem pei
-
- pag. 149.
-
-Vej. a nota antecedente. (_Idem._)
-
-
-Á ROSALINDA
-
-
-NOTA A
-
- Era por manhan de maio
- Quando as aves a piar
-
- pag. 163.
-
-O mez de maio foi sempre o valido dos poetas populares de todas as
-nações: um sem-número de cantigas dos trovadores provençaes, dos
-menestreis normandos e saxonios, dos _minnesingers_ allemães começam
-com éstas alegrias do mez de maio. Citarei dos minnesingers de que aqui
-incontro apontamentos, por serem os menos conhecidos entre nós. Uma bella
-canção do tyrolez Steinmar começa:
-
- Ich will gruen mit der sat
- Dú so wunneklichen stat;
- Ich wil mit dien bluomen bluen,
- Und mit den voheling singen:
- Ich wil louben so der walt,
- Sam dú heide sin gestalt: etc.
-
-Outra do margrave Othon de Brandeburgo:
-
- Uns kumt aber ein liehter meie
- Der machet manig herze fruat, etc.
-
-Estoutra do duque de Breslan é uma especie de drama lyrico entre o poeta,
-Maio, as flores, o bosque e o prado:
-
- Ich clage dir, meie, ich elage dir, sumer wunne! etc.
-
-Herzog Heinrich von Pressela, IV do nome, reinou de 1266 a 1299, e foi
-o objecto dos elogios de todos os poetas do seu tempo. A cantiga citada
-é uma das mais bellas e extraordinarias composições d’aquelles seculos.
-(_Nota da segunda edição._)
-
-
-FIM DO VOLUME PRIMEIRO
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Pag.
-
- INTRODUCÇÃO dos Editores na terceira edição V
-
- do A. na segunda edição VII
-
- ROMANCEIRO, LIVRO I 1
-
- I Adozinda 33
-
- II Bernal-francez 87
-
- III Noite de San’João 115
-
- IV O Anjo e a Princeza 123
-
- V O chapim d’elrei 139
-
- VI Rosalinda 157
-
- VII Miragaia 179
-
- VIII As Pêgas de Cintra 235
-
- NOTAS 247
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Romanceiro I, by V. de Almeida Garrett
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROMANCEIRO I ***
-
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-even without complying with the full terms of this agreement. See
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-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
-and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
-works. See paragraph 1.E below.
-
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-1.E.9.
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-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
-Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
-http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
-permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
-Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
-throughout numerous locations. Its business office is located at
-809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
-business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
-information can be found at the Foundation's web site and official
-page at http://pglaf.org
-
-For additional contact information:
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
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-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To
-SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
-particular state visit http://pglaf.org
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations.
-To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
-
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
-works.
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-Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
-concept of a library of electronic works that could be freely shared
-with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
-Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
-
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
-unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
-keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
-
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-Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
-
- http://www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.