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DE ALMEIDA GARRETT - - IV - - (PRIMEIRO DO ROMANCEIRO) - - - - - ROMANCEIRO - - PELO - V. DE ALMEIDA GARRETT - - I - ROMANCES DA RENASCENÇA - - QUINTA EDIÇÃO - - LISBOA - IMPRENSA NACIONAL - 1875 - - - - -NA TERCEIRA EDIÇÃO - - -Publicamos emfim ésta nova edição da primeira parte do ROMANCEIRO que -vai muito superior ás antecedentes, tanto pela correcção como pelos -addicionamentos importantes que leva. - -A de Londres de 1828 continha apenas a Adozinda e o Bernal-francez; a de -Lisboa de 1843 ja lhe accrescentou mais quatro romances; na presente ha -oito, alêm das novas traducções em várias linguas que n’este intervallo -se teem publicado pela Europa. Não são todas porém, e ja muitas das mais -notaveis versões appareceram colligidas no appendice do terceiro volume -da presente obra publicado em 1851; outras o tinham sido no segundo -junctamente com os originaes portuguezes primitivos que o nosso auctor -reconstruíra. - -A sua predilecção por éstas reliquias da antiga poesia peninsular tem -feito com que, desde a infancia até hoje, tenham ellas sempre sido a -occupação das suas ‘Horas de lazer’—‘_Hours of idleness_’ segundo a -frisante expressão de Lord Byron; um quasi mialheiro poetico em que por -intervallos, mas sempre, se vão deitando pequenas quantias até que chegam -a formar um thesouro. Este é ja um verdadeiro thesouro para os que sabem -avaliar a riqueza de uma lingua e de uma litteratura. - -No meio dos trabalhos mais graves, das contrariedades mais apertadas -da vida pública, o auctor não se tem esquecido do seu mialheiro, que, -tornâmos a dizê-lo, para nós é thesouro riquissimo. Se ainda assim o não -julga Portugal, saiba ao menos que essa é a opinião da Europa. - - Julho 8, 1853. - - OS EDITORES. - - - - -NA SEGUNDA EDIÇÃO - - -Depois que publiquei em Londres, em 1828, o meu romancinho a -_Adozinda_ que aqui vai na frente d’este volume, cheguei a ter uma -bastante collecção d’essas trovas e romances populares, xácaras e -soláos—designações que, sinceramente confesso, não sei ainda quadrar bem -nas diversas especies e variedades em que se divide o genero. - -Eram uns vinte e tantos havidos pela tradição oral do povo, quasi todos -colligidos nas circumvizinhanças de Lisboa pela indústria de amigos -zelosos, e principalmente pelo obsequioso cuidado de uma joven senhora -minha amiga muito do coração. - -Por voltas do anno seguinte, 1829, os tinha eu pela maior parte -correctos, annotados,—e collacionadas as principaes das infinitas -variantes que todos trazem, porque cada rhapsodista d’estes que sabe a -sua xácara, a repette a seu modo, e sempre differente em alguma coisa do -que outro a diz. - -Cresceram logo mais os meus haveres pela contribuição de outro amigo -tambem muito particular e muito prezado, o Sr. Duarte Lessa, homem de -raras e prestantes qualidades que amenizava a constante applicação a -mais graves estudos, cultivando a litteratura e as artes, cujas obras -appreciava com tacto finissimo e zelava com fervor patriotico, porque -intendia—e bem o intendia!—que ellas são o espirito, a alma, o _in ipso -vivimus et sumus_ de uma nação. Tinha elle adquirido em Londres varios -livros e manuscriptos que haviam sido do célebre portuguez o cavalheiro -de Oliveira, aquelle que renunciou ao importante cargo de nosso ministro -na Haya para abraçar a communhão protestante, na qual viveu em Inglaterra -os ultimos annos da sua vida, quasi unicamente da charidade de seus novos -correligionarios. - -Havia entre esses livros um exemplar da Bibliotheca de Barboza, -inquadernados os tomos com folhas brancas de permeio, e escriptas éstas, -assim como as amplas margens do folio impresso, de lettra muito miuda, -mas muito clara e legivel, com annotações, commentarios, emendas e -addições aos escriptos do nosso douto e laborioso mas incorrecto abbade. - -Via-se por muitas partes que o longo trabalho do Oliveira fôra feito -depois da publicação das suas _Memorias_, porque a miudo se referia -a ellas, confirmando e ampliando, corrigindo ou retractando o que lá -dissera. - -Nos artigos _D. Diniz_, _Gil-Vicente_, _Bernardim-Ribeiro_, _Fr. Bernardo -de Brito_, _Rodrigues-Lobo_, _D. Francisco-Manuel_, e em varios outros -que vinha a proposito, as notas manuscriptas citavam, e transcreviam como -illustração, muitas coplas, romances e trovas antigas—e até prophecias, -como as do Bandarra—fielmente copiadas, asseverava elle, de Mss. antigos -que tivera em seu poder na Hollanda e em Portugal, franqueados uns por -judeus portuguezes das familias emigradas, outros havidos das preciosas -collecções que d’antes se conservavam com tão louvavel cuidado nas -livrarias e cartorios dos nossos fidalgos. - -Foi-me logo confiada a inextimavel descuberta; percorri com avidez -aquellas notas, examinei-as com escrupulosa attenção, e, extractando -uma por uma quantas coplas, cantigas e xácaras achei, completas e -incompletas, accrescentei assim os meus haveres com umas cinquenta e -tantas peças, d’ellas anonymas e verdadeiramente tradicionaes, d’ellas -de auctor conhecido e que nas edições de suas obras se incontram,—taes -como Bernardim-Ribeiro, Gil-Vicente e Rodrigues-Lobo—mas que differiam -das impressas, consideravelmente ás vezes, muitas até na linguagem da -composição, poisque algumas alli achei em portuguez, e manifestamente -antigo e da respectiva epocha, as quaes só andam impressas em castelhano. - -Com este auxilio corrigi denovo muitos dos exemplares que ja tinha, e -completei alguns fragmentos que ja desesperára de podêr vir nunca a -restaurar. E tomando para modêlo as estimadas collecções de Elis e do -bispo Percy, e a das fronteiras de Scocia por Sir Walter Scott, comecei -a dar novo methodo e mais amplos limites á minha compilação que ao -principio intitulára _Romanceiro-Portuguez_. - -O longo e mais serio trabalho que por esse tempo emprehendi no meu -tractado geral _Da Educação_, cujo primeiro volume se publicou em Londres -em 1829, me fez relaxar n’aquell’outro: depois os cuidados politicos e -alguns officiaes, o complemento e impressão de outra obra de mais grave -assumpto, o _Portugal na Balança da Europa_, que foi impresso no anno -seguinte, 1830,—talvez alguma inconstancia de auctor, bem desculpavel -n’aquella tarefa, tam tediosa ás vezes, de collacionar, estudar e -explicar textos ja viciados da ignorancia do vulgo por cujas bôccas e -memorias andaram, ja de outra ignorancia mais confiada e mais corruptora -ainda, a de copistas presumpçosos de lettrados e de castigadores do que -elles suppoem vício. - -Comtudo, e apezar d’aquellas e de outras occupações e distracções, eu -sempre voltava de vez em quando ao meu _Romanceiro_, e o tinha bastante -adeantado, quando nos fins de 1831 abandonei tudo o que eram cuidados -de sciencia ou recreações litterarias para me alistar no exercito da -Rainha, e imbarcar para os Açores. Em Janeiro de 1832 sahi de París com -praça de simples soldado, consegui por este modo tomar minha humilde -parte n’aquella expedição, cujos avisados e cautelosos directores com -tanto impenho afastavam toda a gente conhecida de verdadeira liberal, -por todos os modos, por modos que hãode parecer incriveis, e que elles -hoje negariam a pés junctos, se fosse possivel negar o de que ha tantas -testimunhas e tantas victimas ainda vivas, tantos documentos que hãode -durar mais que ellas. - -A minha curta estada nas ilhas foi impregada quasi toda nos trabalhos -de legislação e organização administrativa a que alli se procedeu, e de -que me encarregou a amizade e confiança de um amigo particular, então -em grande valimento, ao qual e á dura necessidade de me achar eu unico -alli que tivesse estudado aquellas materias, teve de ceder forçosamente -a ciosa malevolencia dos accaparadores que ja na esperança estavam -devorando as ruinas de Portugal a que almejavam chegar—pelos esforços e -risco alheio—não porcerto para meditar sôbre ellas como outros Marios—oh -que Marios!—mas para as revolver e basculhar como Alaricos... - -Faziam-me a honra de me querer mal esses senhores: lisongeio-me de lh’o -merecer: davam-se ao incómmodo de me intrigar; e era desperdicio de tempo -e de arte, porque não ha mister intrigas para tirar favor de principes -a quem, como eu, os apprecia muito e se honra muito d’elles, mas não é -capaz de fazer o mais leve sacrificio para os conservar; jamais soube, em -tantas opportunidades, convertê-los em nenhuma _consequencia legítima_; -nunca, nem o mais indirectamente que é possivel, tractou de os consolidar -em nenhuma realidade utilitaria e de proveito pessoal. - -Peço perdão da digressão: não a fiz eu mas as coisas,—que pelos tempos -em que vivemos tam baralhado anda tudo, que até a historia litteraria e -poetica se confunde com a dos successos e relações politicas. - -D’esse tam pouco e tam occupado tempo permittiu comtudo o accaso -que alguns instantes se podessem approveitar em beneficio do pobre -_Romanceiro_, que alli ia tambem, o coitado, na expedição, incolhido -e amarrotado na mochilla de um triste soldado raso, sem se lembrar de -aspirar á inaudita honra de seu illustre predecessor, o Cancioneiro de -Rezende, que serviu de Evangelho para jurar aquelle rei gentio.—Havia -pouco por alli quem lhe importasse com Evangelhos e juramentos. - -Foi o caso que umas criadas velhas de minha mãe e uma mulata brazileira -de minha irman appareceram sabendo varios romances que eu não tinha, -e muitas variadas licções de outros que eu sim tinha, porêm mais -incompletos. Assim se additou copiosamente o meu _Romanceiro_. - -Mas este achado fez mais do que inriquecer, salvou-o: porque, ao partir -para San’Miguel, o deixei em Angra com minha mãe que Deus tem em glória, -que desejava distrahir, com essas curiosidades que ella intendia e -avaliava com o tacto perfeito e a sensibilidade elegantissima de que -era dotada, alguma hora das tantas em que ja lhe pesavam duramente -as molestias do último quartel da vida... Molestias aggravadas de -muita afflicção e cuidado—nenhum que seus filhos voluntariamente lhe -dessem—todos a adorámos e honrámos sempre—mas que lhe davamos, comtudo, -pelas circumstâncias fataes da epocha e das confusões politicas em que -andavamos mettidos. - -Os meus outros papeis, trabalhos de historia consideraveis, fructo -de longas visitas ao Museu-Real de Londres e á riquissima livraria -portugueza do meu amigo o Sr. Goodeen; uma tragedia que tinha sido -julgada valer alguma coisa pelos que a viram—era o assumpto o -Infante-Sancto em Fez;—um largo poema com pretenções, antes desejos, -de ser Orlando, ja em trinta e tantos cantos—e promettia crescer!—cujo -assumpto era o _Magriço_ e os seus _Doze_;—o segundo volume do tractado -_Da Educação_ prompto a entrar no prélo:—quatro livros ou cantos de um -romance ou poema—cabia-lhe uma e outra designação—a que dava thema a -interessante e romanesca legenda da fundação da casa de Menezes—pedido -de minha boa irman que decerto não tinha vaidade, porque sempre lhe -sobrou o juizo, mas gôsto sim, de que seus filhos se honrassem com o -nome illustre de seu pae:—uma quantidade immensa de estudos e trabalhos -sôbre administração pública;—tudo isso veio commigo para S. Miguel e ahi -o deixei ao imbarcar, porque era defeso ao pobre soldado levar as suas -mallas, e o logar era pouco para as bagagens dos que só eram bagagem. -D’ahi me vinha, com outros valores mais substanciaes, e se perdeu tudo -em um navio que affundaram as ballas inimigas á entrada do Porto nos -derradeiros dias d’esse mesmo anno de 1832. - -Descancem em paz no amigo lodo do meu patrio rio! N’outros lodaçaes -peiores teriam de cahir talvez se escapassem: o da indifferença pública -que porventura mereciam, o de muitos odiosinhos e invejasinhas tolas que -não mereciam decerto, porque eram filhos de bom e innocente ânimo, como -sempre têem sido os meus. - -Assim fossem todos! - -Desde 1834, que me voltou a Lisboa o milagrosamente escapado -_Romanceiro_, ainda não passei verão que lhe não désse algumas das horas -descuidadas que n’aquella quadra ou se hãode dar a éstas occupações -mais leves ou a nenhumas. E n’estes oito annos tem-se locupletado -consideravelmente com as contribuições de muitos amigos e benevolentes -a alguns dos quaes nem posso ter o gôsto de agradecer aqui o favor -recebido, porque incitados pela leitura da _Adozinda_, me remetteram -anonymamente pelo correio o fructo de suas colheitas. A principal parte -de um bello romance, um dos mais bellos que jamais vi em collecção alguma -nacional ou extrangeira e que hoje inriquece o meu Romanceiro, assim me -foi mandada, creio que do Minho. Outro fragmento que vinha nos respigos -ajunctados n’esta ceara pelo nosso insigne poeta o Sr. A. F. de Castilho, -e que elle teve a bondade de me confiar, veiu dar-lhe o complemento que -faltava e restituir á perfeição em que hoje está. É um romance de origem -visivelmente franceza, se provençal ou normanda não me atrevo a decidir, -em que se conta—um tanto diversa das chronicas antigas e do elegante -poema de _Millevoix_, a historia do secretario Eginard e da muito bondosa -filha de seu senhor e amo o poderoso imperador Carlos-Magno. Os nossos -Scaldos vulgares lem hoje... não lem tal, mas repettem _Gerinaldo_, -corrupção do que ao principio foi Eginaldo, adoçados em _ll_ os _rr_ -francezes, como se fez em Giraldo, Reginaldo, antigamente em Bernal e -Bernaldo, e em outros muitos nomes que de la vieram tam duros ou mais. - -Mencionei este exemplo entre muitos por cahir em coisa notavel, e para se -ajuizar dos outros. - -Mr. Pichon, bem conhecido em Lisboa, que foi ultimamente consul francez -no Porto e agora creio que em Barcelona, tinha começado a formar em -1832-33 uma pequena colecção de xácaras portuguezas de que tambem me -approveitei. Mas o incançavel collector a quem mais obrigações devi em -Portugal foi o meu condiscipulo o Sr. Dr. Emygdio Costa, advogado n’esta -côrte e ha pouco fallecido, que generosamente me confiou a sua larga -collecção principalmente feita nas duas Beiras, n’aquelle verdadeiro -coração e amago do Portugal primitivo que occupa a região d’entre Lamego -e Serra d’Estrella. - -O Sr. Rivara, bibliothecario em Evora, o meu velho amigo o Sr. M. -Rodrigues d’Abreu, bibliothecario em Braga, o meu antigo e fiel -companheiro o Dr. J. Eloy Nunes-Cardoso, de Montemor-o-Novo, com -assentamento dobrado, como diria um _bel esprit_, um _dos cultos_ de -Seiscentos, na Casa Real d’Apollo, por doutor e trovador tambem,—todos -estes cavalheiros me têem ajudado com indicações, livros, folhetos -antigos e cópias laboriosamente escriptas sob o dictar dos rusticos -depositarios das nossas tradições populares. - -Os trabalhos e recopilações de D. Agustin Duran sôbre os cancioneiros e -romanceiros castelhanos, obra publicada em Madrid em 1832, mas que só por -aqui chegou cinco ou seis annos depois, veiu illustrar-me em muita dúvida -e ajudar-me a classificar muita coisa difficil. A nova e augmentada -edição do Sr. Ochoa, impressa em París em 1838, e que mais depressa nos -trouxe a mais habitual conversação e commercio litterario que temos com -a França, algum tanto me auxiliou tambem. A traducção elegante de Mr. -Lockart que n’aquella tam linda e fastosa edição de Londres de 1841 deu -á lingua e á nação ingleza a mais poetica e romantica idea que jamais -será possivel dar a um povo extranho e em idioma extranho das immensas -riquezas do Nibelungen peninsular, mais que nenhuma coisa me inspirou e -animou no meu trabalho, porque é um documento, um monumento grandioso -da extraordinaria importancia e valia que este genero de coisas está -merecendo á Europa culta. - -O Sr. Herculano, bibliothecario da Real bibliotheca da Ajuda, com cuja -provada amisade me honro tanto quanto a nação deve gloriar-se de seus -escriptos, tambem me tem ajudado não pouco com os preciosos achados -que, no seu incessante lavrar das minas archeologicas, tem incontrado -e repartido commigo. Por seu favor tornei a examinar, no Ms. original, -o famoso cancioneiro ditto do Collegio dos Nobres, hoje na bibliotheca -Real; e com éstas e com as collecções allemans e francezas, e creio que -com quasi todas as dos povos do Norte, tenho collacionado as nossas -rhapsodias populares, muitas das quaes, por este modo vim a conhecer -visivelmente, que tinham a mesma commum origem. Os eruditos trabalhos de -Mr. Raynouard sôbre a lingua romance ou provençal me allumiaram muita vez -n’esta obscura e inredada tarefa. - -A interessante e conscienciosa memoria do Dr. Bellermann impressa em -Berlim em 1840, e o conhecimento de que a sociedade alleman para a -reimpressão dos livros raros estava publicando em portuguez o nosso -Cancioneiro de Rezende; o interêsse geral que hoje se tem desenvolvido -no mundo pela litteratura popular das nações modernas e especialmente das -nossas peninsulares—interêsse que, porfim e emfim, hade vir a reflectir -em nós tambem, e despertar-nos para abrir os olhos ás riquezas proprias, -ainda que não seja senão pelas ver tam prezadas de extranhos—os conselhos -e rogos do meu particular amigo e quasi compatriota nosso, o sr. João -Adamson, tudo isto me fez alargar mais o plano da minha obra e collecção. - -Resolvi, sob nova denominação de _Romanceiro e Cancioneiro-Geral_[1], -reunir todos os documentos que eu podesse para a historia da nossa poesia -popular, desde onde memorias ou conjecturas ha, até á epocha actual, -acompanhando-os de explicações e glossas, que vão servindo de nexo, que -sejam como a liaça, o nastro que áte estes pergaminhos. - -Quem não tem olhado senão á superficie da nossa litteratura, quem cego do -brilho classico das nossas tantas epopeas, seduzido pela flauta magica -dos nossos bucolicos, enthusiasmado pelo estro tam ricco e variado dos -innumeraveis poetas que, nos quartetos e tercetos sicilianos da elegia, -da epistola e do soneto, rivalizam, e tantas vezes luctam de vantagem, -com o proprio Petrarcha: quem, sôbre tudo—porque n’esse genero é a musa -portugueza superior á de todas as linguas vivas—adora em Sá-de-Miranda, -Ferreira, Diniz, Garção e Filinto o genio redivivo de Horacio e de -Pindaro—não crê, não suspeita, hade ficar maravilhado de ouvir dizer, -como eu quero dizer e provar no presente trabalho, que ao pé, por baixo -d’essa aristocracia de poetas, que nem a viam talvez, andava, cantava, -e nem com o desprêzo morria, outra litteratura que era a verdadeira -nacional, a popular, a vencida, a tyrannizada por esses invasores gregos -e romanos, e que a todos os esforços d’elles para lhe oblitterarem e -confundirem o character primitivo, resistia na servidão com aquella fôrça -de inercia com que uma raça vencida, com que a população aborigine de um -paiz resiste a igual impenho de seus conquistadores que lhe usurparam -a dominação, e que, seculos e seculos depois, quando esses já não são, -ou não cuidam ser, senão uma casta privilegiada e patriciana, reagem -fortes aquell’outros com o que seus proprios senhores lhes insinaram, -regenerados por seu longo martyrio, e extirpam muitas vezes, mas -geralmente se contentam de avassallar, os seus antigos oppressores. - -É a historia de todos os povos, e por consequencia de todas as -litteraturas. - -É a historia litteraria de Portugal no segundo quartel d’este seculo: é o -que foi ésta reacção vulgarmente chamada romantica, mas que não fez mais -do que trazer a _renascença_ da poesia nacional e popular. Nenhuma coisa -póde ser nacional se não é popular. - -Aqui está o porquê, o como e o paraquê fiz a collecção de que este volume -é a primeira parte, ou mais exactamente a introducção, e que apenas -contêm o que eu, á mingua de melhor nome, designarei com o titulo de -_Romances da renascença_: são os que resuscitei e como que traduzi das -quasi apagadas e mutiladas inscripções que desinterrei da memoria dos -povos. - -Os textos originaes d’estes, restituidos quanto é possivel, os de muitos -outros que appareceram menos imperfeitos na mesma excavação, muitissimos -que se têem achado em livros e papeis desprezados hoje, e em collecções -Mss., estão promptos, classificados, annotados, e sahirão em seguimento -d’este volume, apenas o permittam as difficuldades, sempre recrescentes -em Portugal, de se publicar qualquer coisa. - -Eu tenho posto termo, ou pelo menos suspensão indefinida a toda a -occupação litteraria propriamente ditta, para absolutamente me dedicar, -em quanto posso e valho, á conclusão de um trabalho antigo, mas -interrompido muitas vezes, que agora jurei acabar; são _Vinte annos da -historia de Portugal_, periodo que começa em 1820 e chega aos dias de -hoje, mas que não sei se ja anda mais inredado e confuso do que o dos -mais antigos e obscuros seculos da monarchia. - -Espero começar a publicá-lo no fim d’este anno[2]; e nenhum tempo ou -logar me sobrará portanto para mais nada. O _Romanceiro_ porêm e _Fr. -Luiz de Sousa_ estão promptos a entrar no prelo e, quanto é por minha -parte, não farão esperar o público. - - Lisboa, 12 de Agosto de 1843. - - - - -ROMANCEIRO - -LIVRO PRIMEIRO - - - - -I - -ADOZINDA - - -AO SR. DUARTE LESSA[3] - -Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas -últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem -paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações -que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa: -tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê. - -Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em -Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior -extenção, n’este genero de versos pequenos, _octosyllabos_, ou de -redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da -historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do -_Parnaso-Lusitano_ impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha -n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e -systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris, -ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em -tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos _octosyllabos_, que -nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e, -para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que -nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na -Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não -foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas -compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a -dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de -Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros -primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo -genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, _fugitiva_. -Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello -ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das -suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram -posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os -campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam -_romances_—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende -por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu -o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e -delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia _de sociedade_. - -A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio -e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi -commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão -com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão -septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco, -ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo -vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos -porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais -de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára -spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e -deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas -Hespanhas decerto. - -Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma -especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto -deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de -todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se -cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos -classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger, -os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes -e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este -gôsto e o fizeram _da moda_. Fatigados do grego e romano em architecturas -e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da -Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e -Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas -porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da -sculptura gothica. - -Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e -Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos -de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros -poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e -duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver, -de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia, -mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado -agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto -mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente, -‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva, -a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de -ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das -nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm -melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a -mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se -appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido -reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago -e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o -astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do -castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e -musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas -fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm -o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia, -modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados -aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica. -Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e -incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora. - -Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para -nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia -d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos -trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez -popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros -simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás -composições d’aquelle genero. - -Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim -convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para -este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o -hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são -uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se -offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes -improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de -espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é -sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o -da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros, -isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella -é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua. - -Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do -Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de -Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas, -os romances populares ou _xácaras_, que por tradição immemorial se -conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro -octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar -sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes, -reliquias da nossa archeologia. - -O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos -primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda _specimens_ das canções -que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D. -Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos -Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito, -creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições -poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas -tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por -Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças -singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões -e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra -de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos -menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois -d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções -tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia -suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico, -e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja -observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo -_Pastor-peregrino_, pela _Primavera_, e nos seus romances moiriscos -e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no -_Naufragio-de-Sepulveda_, quando o deixam com a natureza e lhe permittem -ter _senso commum_ as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem -escolhido assumpto, tam bellas scenas. - -Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o -mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V. -descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso -infeliz Oliveira. - -Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita -Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto -poetico affugentou os _acrostichos_ e os _labyrintos_ seiscentistas, o -genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante -e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso -Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres, -do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico -injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado -e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender, -condemnaram-n’o sem o ouvir. - -No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de -stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da -restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria -com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de -Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não -vencido. - -D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do -trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz -ou infeliz successo. - -Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura -portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu -romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou -patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter -instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma -especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais -antiga de que tradição nos chegou. - -De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada -nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas -longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas, -éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de -lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do -canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e -mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos -em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como -presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá -pena e prazer ao mesmo tempo[4]. - -Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros, -prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da -vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e -no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de -repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares -da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre. - -Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas -novellas poeticas, as _ballads_ allemans de Bürger, as inglezas de -Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias -nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e -que podiam e deviam ser aproveitadas. - -Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa -edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a -percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do -romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso -mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito -e por Miguel Leitão. - -Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a -leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo -todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha. -Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por -agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi -quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e -lendas populares. - -Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita -cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento -de _amas-sêccas_ e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes -depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que -para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o _pullus -gallinaceus_ de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada -pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma -coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto -custou. - -Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos -de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo, -mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em -todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e -para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais -curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado -ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da -historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia -e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças. - -A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim -reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais -symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de -_Romanceiro-portuguez_, ou outro que tal, para conservar um monumento -de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua -portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi -todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6]. - -Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero, -mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza. - -Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me -sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião -a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas -queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente -injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão -e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que -sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia -ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho -ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se -vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de -columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe, -desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids -e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo -d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante! - -Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando -mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro -romance que originalmente se intitula _A Silvana_, cujo assumpto notavel -e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem -repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes -o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia -grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella, -virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de -luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia -extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara, -para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma -_ballada_, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito -maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas. -Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe _Adozinda_, que soa melhor e é portuguez -mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella -são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é -outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto. - -Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar. -É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais -visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8]. - -Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha _Adozinda_, gerada -no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de -uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este -romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias -que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram -por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o -deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para -sempre chorada!... - -Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas -sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem -as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em -termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem -os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha -a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer -versos[9]. - -Londres, 14 d’Agosto de 1828. - - -A ELYSA - -_Campolide, 11 d’Agosto 1827._ - - Thus, while I ape the measure wild, - Of tales that charmed me yet a child, - Rude though they be, still with the chime - Return the thoughts of early time; - And feelings, roused in life’s first day - Glow in the line, and prompt the lay. - - WALTER SCOTT. - - Campo da lide é este; aqui lidaram, - Elysa, os nossos quando os nossos eram - Lidadores por glória,—aqui prostraram - Suberbas castelhanas, e—venceram; - Que pelo rei e patria combatendo - Nunca foram vencidos Portuguezes. - —Este terreno é sancto: inda estás vendo - - Alli aquelles restos mal poupados[10] - Do tempo esquecedor, - Dos homens deslembrados; - Nobres reliquias são d’altas muralhas - Forradas ja de lucidos arnezes, - De tresdobradas malhas. - Talvez fluctuava alli n’aquelle canto, - Suberbo e vencedor - Das Quinas o pendão victorioso; - E junctos ao redor - D’esse paladio augusto e sacrosancto, - Invencivel trincheira lhe faziam - Toda a flor dos mais nobres e esforçados; - Que á voz da patria (voz que nunca ouviam - Sem sentir redobrados - Do nobre coração os movimentos) - Heroes são todos, facil a victoria, - Faceis as palmas que lh’infeixa a glória. - - Ah!—paremos aqui:—ve quaes na frente - As arterias violentas me rebatem: - Febril, descompassado corre e ardente - E me angustia o sangue...—Ah! sim paremos - Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho - Depressa o desceremos. - Faz-me bem ésta vista:—essas arcadas[11] - Suberbas, elevadas, - Que uniram monte a monte e serra a serra, - Acaso não serão - Tam illustres talvez,—não lembram guerra, - Glória não lembram; nem com sangue livido - A morte da victoria companheira - Para o erguido padrão - O cimento amassou. - Um rei que amou as artes, rei pacífico, - A quem amor fadou - Que seu fôsse e das musas,—que fugidas - Da pátria ha tanto, á patria as volveria; - Do povo á utilidade - Este sublime monumento erguia. - Para a posteridade - Isto só lhe appurou o nome e a glória, - E lhe ganhou as paginas da historia. - - Inda é muita oppressão; inda me acanha - Tanta arte humana o coração no peito. - Tam grandes massas, fábrica tammanha - Absorto deixarão—mas satisfeito - O ânimo, os sentidos?.. Não, Elysa, - Não satisfaz ao homem a arte humana: - Por mais que ella se uffana, - Que aos abysmos o centro opprime e pisa - C’os fundamentos de eternaes pyramides, - Ou c’os erguidos vertices - Ás nuvens rasga o seio tempestuoso. - Nem assim:—á tristeza ou á alegria, - E áquelle estado de innefavel gôso - Que entre a dor e o prazer a alma suspende - Brandamente e se diz _melancholia_, - Oh! nada d’isso o excita. - Oh! nada d’isso o coração intende! - Oh! nada d’isso o espirito nos move - Se a natureza, a pura natureza - Por sua ingenua attracção nos não commove. - Posso admirar o homem e a grandeza - De suas nobres feituras, - Mas somente admirar; - Mais não póde excitar - Mesquinha creação de creaturas. - - Vamos por essa incosta - Subindo.—Eu gósto do alto das montanhas, - Dos picos das erguidas serranias, - O avaro á terra mãe abra as intranhas, - Cave oiro e crimes, com que incurte os dias - Seus e dos seus, e a sombra da virtude - Acabe de varrer da face d’ella. - Mas o que, em paz commigo e co’a existencia, - Ainda ama a innocencia, - Inda se apraz co’a natureza bella, - A seus quadros surri, com seus dons gosa, - Oh! esse venha ao cume do alto monte, - Venha estender a vista saudosa - Pelo valle que á falda lhe verdeja, - A messe que loureja, - E a despenhada fonte - Que vai garrula e trepida saltando - Té que se junta em cava pederneira. - D’onde sai, o arco d’Iris imitando - Na espadana da férvida cachoeira. - Venha na solidão—e o só dos montes - É mais só que nenhum,—o silencioso - Mais augusto, solemne e magestoso! - Venha na solidão - Comsigo conversar, fallar um’hora - Com o seu coração. - —Quantos ha que annos longos hão vivido - C’os outros sempre, sempre c’os de fóra - Sem viverem comsigo nem um dia, - Nem um momento só! - Tenhamos d’elles dó; - Viver não... têem apenas existido. - Tua meiga companhia - É doce, Elysa; e sempre na minha alma - Foi teu brando fallar—e quantas vezes!— - Celeste orvalho que abrandou a calma - De paixões, que adoçou o agro a revezes: - Porêm a minha solidão querida, - De vez em quando, lá quando a alma o pede, - Oh! não m’a tirem que é tirar-me a vida. - Agora conversemos: eu ignoro - A arte das vans palavras que bem soam; - Oiço-as, e não demoro - No ouvido os sons que de per si se escoam. - - O sol declina;—temos largamente - Hoje philosophado. - Na viva flor da edade e da saude - Nem de todos sería accreditado - Que tam suavemente - Em austeras conversas de virtude - Nos fôsse o tempo.—Crê-me, Elysa amavel, - Tem muito mais prazeres a amizade - E mais doces que amor: - Para todos os sexos, toda a edade, - Em todo o tempo a mesma, sempre affavel, - Sem o cancro roedor - Do ciume voraz que no mais puro - D’amor, no mais seguro - Suas raizes venenosas lança, - E co’a mais branda flor - Seus mordentes espinhos lhes intrança. - - Detestemos, Elysa, essa funesta - Paixão brutal que a tudo e em tudo damna, - Da virtude a tyranna: - Não nos illuda a tam commum cegueira; - Detesta o crime quem amor detesta. - Crimes!—vê a amizade prazenteira, - Que nenhuns tem;—e amor, ai! quantos, quantos! - Honras perdidas, thalamos violados, - Os vinculos mais sanctos - Dos homens e de Deus, da natureza, - Da propria natureza—espedaçados - Por esse amor, que sua tocha accesa - Do vivo fogo traz do averno immundo - Para de crimes abrazar o mundo. - - Honesto, justo, sancto, consagrado, - Nada respeita:—o sangue, o altar em meio - De seus desejos não é termo ou freio; - Não ha pomo vedado - No Eden da virtude - Que a mão perversa e rude - Tocar não ouse,—árvore da vida - Que dos gryphos mordida, - Em peçonha de morte não converta, - E a seiva salutar já corrompida - Em lethal beneficio não perverta. - Lembra-te aquella historia - Que ingenuo o povo em seus trabalhos canta, - E de longa memoria - Entre elles perpetuada, - É singella legenda de uma sancta, - Que por brutal amor sacrificada, - Desvalida virtude, - Só do crime escapou no seio á morte? - Eu a canção magoada - Em verso menos rude, - Mais moldado verti, dei novo córte - Ao vestido antiquissimo, á simpleza - Que ha seculos lhe deu - De nossos bons maiores a rudeza. - —Sereno está o ceo, - Tranquillo o vento, a calma descahida; - E, pois que não te infada - A singella toada - Do bardo alahude que sem arte soa - E a rhyma desgarrada - Da popular canção rustico intoa,— - Aqui t’a cantarei, ouve: e se ao pranto - Te commover a saudosa endeixa, - Na selvagem bonina, - Na campainha agreste d’esse mato - Arrociá-lo deixa; - São lagrymas sinceras, propria fonte - Para regar as innocentes flores - Que arte não sabem, nem conhecem arte; - Flores como os meus versos não variados - De refinadas côres, - Em que alma só e coração tem parte, - Não por classica musica modulados - Ao graduado som de grega lyra, - De cithara romana. - A minha é melodia que só mana - Dos intimos accordes só do peito; - Nem ha corda que fira - Em meu alahude rustico - Tom menos natural, mais contrafeito. - - Em suberbos canaes, alto impedrados - Por ingenhoso hydraulico, - Vão d’arte subjugados - Os caudaes da torrente conduzindo - Riquezas de preciosa mercancia: - E o arroio, que serpeia entre pedrinhas - Pela relva macia, - Bordado em-tôrno sinuosamente, - Que póde elle levar - Em sua doce e trépida corrente? - —Alguma folha de silvestre rosa - Que, ingenua divagando, - Pastorinha formosa - Lhe foi acaso á margem desfolhando. - - -ADOZINDA - - -CANTIGA PRIMEIRA - - No, I’ll not weep: - I have full cause of weeping; but this heart - Shall break into an hundred thousand flaws - Or ere I’ll weep. - - SHAKSPEARE. - - -I - - Onde vas tam alva e linda, - Mas tam triste e pensativa - Pura, celeste Adozinda, - Da côr da singella rosa - Que nasceu ao-pé do rio? - Tam ingenua, tam formosa - Como a flor, das flores brio - Que em serena madrugada - Abre o seio descuidada - A doce manhan d’Abril! - —Roupas de seda que leva - Alvas de neve que cega - Como os picos do Gerez - Quando em Janeiro lhe neva. - Cinto côr de violeta - Que á sombra desabrochou; - Cintura mais delicada - Nunca outro cinto apertou. - Anneis louros do cabello - Como o sol resplandecentes - Folgam soltos; dá-lh’o vento, - Dá no veo ligeiro e bello, - Veo por suas mãos bordado, - De um sancto ermitão fadado - Que vinha da Palestina; - Passou pelo povoado, - Foi-se direito ao castello - Pediu pousada, e lh’a deram - Porque intercede a menina: - Que o pae suberbo e descrido, - —‘N’essa gente peregrina, - Disse, quem sabe o que vem?’ - —Mas pede Adozinda bella, - Tal virtude e formosura, - Quem lh’o hade negar a ella? - Não póde o pae nem ninguem. - - -II - - Mas o outro dia á luz nada - Houve quem visse Adozinda - Debruçada em seu balcão - Haver prática alongada - Co’ aquelle velho ermitão. - Quem sabe o que lhe elle disse? - —Ninguem no castello ouviu: - Mas d’aquella occasião - A alegria lhe fugiu - Dos olhos e do semblante: - Ficou triste, sempre triste; - Mas em seu rosto divino - Fez-se formosa a tristeza. - Como olhos d’amor quebrados - Disseras os olhos d’ella; - Mas não tem d’amor cuidados, - Que a ninguem conhece a bella. - - -III - - Qual semente arrebatada - Da flor de vergel mimoso - Pelos furacões do Outomno, - Vai no incôsto pedregoso - Cahir de serra escalvada; - Vem Abril, e a seu bafejo - Brota e nasce a linda flor, - De ninguem vista ou sabida, - Nem de damas cubiçada - Nem de pastores colhida, - E o vento da solidão - Lhe bebe o perfume em vão. - - -IV - - Quinze annos tem Adozinda; - E desd’a vez que o romeiro - Do saio pardo e grosseiro - Lhe fallou ao seu balcão, - Faz tres para o San-João. - - -V - - E Adozinda sempre triste - Vai sosinha pelo eirado - Pelo jardim, pelo prado; - Nem ja a divertem flores - Em que punha o seu cuidado. - Pelos sombrios verdores - De sua espessa coutada - Vaga á toa e derramada, - Como a novilha perdida, - Como a ovelha desgarrada - A quem o tenro filhinho - Lobo do mato levou: - —Desfaz-se a mãe em balidos, - Que de ninguem são ouvidos, - E o filhinho não tornou! - - -VI - - Que tem Adozinda bella - Que em tal desconsôlo a traz? - Serão saudades do pae - Que anda co’os Mouros á guerra - Por defender sua terra - Mais a sancta lei de Deus? - Tres annos ha que se foi; - E dous filhos que levou, - A cadaqual sua espada - Com juramento intregou - De lh’a tornarem lavada - No sangue mouro descrido: - E assim cada um jurou. - Fizeram gente em suas villas, - (Que preito muitas lhe dão) - E guiaram seu pendão - Para terras de Moirama. - Ja vejo chorar donzellas, - Vejo carpir muita dama, - Que onde chega Dom Sisnando, - Com sua espada portugueza - Não ha lanças nem rodellas - Que sirvam para defesa. - - -VII - - Mas não são do pae saudades, - Que sempre a lidar com armas - Como ellas duro se fez; - Mais lhe importam do que a filha - Seus ginetes, seu arnez. - E até—quem diria tal!— - Quando a mãe, por diverti-la, - Lhe falla do pae ausente - E lhe diz que hade voltar, - Parece que se lhe sente - O coração apertar. - —Suspira em silencio Auzenda, - Auzenda tam bella ainda - Que ao-pé da bella Adozinda - Mais irman que mãe parece - De filha tam môça e linda. - Suspira em silencio a triste, - Porque suspira não diz: - —‘Filha amante de seu pae - Conceder-me o ceo não quiz!’ - —Ai! que sem razão se chora! - —Ai! Auzenda malfadada, - Tem de vir minguada hora - Que á filhinha desgraçada - Darás mais razão que agora. - - -VIII - - Que tropel que vai nos paços - De Landim ao-pé dos rios! - Sons de festa e sons de guerra - Em seus muros e alta tôrre? - Geme a ponte, treme a terra - C’o peso d’homens armados. - Cavallos acobertados - Trotam ligeiros;—e corre - O alferes que tremolando - Vai guião de roxa cruz... - Ja chegado é Dom Sisnando. - Entre os cavalleiros todos - Sua armadura reluz: - E o pennacho fluctuante - Das plumas alvas de neve - Sôbre o elmo rutilante - De longe a vista percebe. - - -IX - - —‘Portas do castello, abri-vos, - Correi, pagens e donzellas, - Que é chegado meu senhor, - Meu espôso e meu amor!’ - Auzenda bradava e corre. - Portas se abrem, soam vivas, - E o echo da antiga tôrre - Com o som festivo acordou. - —‘Viva, viva Dom Sisnando!’ - E o tropel que dobra e cresce, - E ás portas que chega o bando - Dos guerreiros triumphantes. - Do corcel suberbo desce - E aos braços anhelantes - Da cara espôsa voou. - Doce amor que os apertou - Não lhes deixou mais sentidos - Que para se ver unidos, - Ajuntar-se peito a peito, - E em laço tam brando e estreito - Longa saudade afogar. - A Auzenda gotteja o pranto, - Pranto que é todo alegria; - E o rosto que nunca infia - Do esforçado lidador - Tambem sentiu—mais que a dor - Póde o gôso!—descuidada - Uma lagryma sensivel - De seus olhos escapada. - - -X - - Mas as lagrymas de gôsto, - Como as de mágoa, teem fim; - Dom Sisnando inchuga o rosto, - E tomando a mão á espôsa: - —‘D’onde vem, lhe diz, senhora, - Que a joia mais preciosa - Não vejo d’estes meus paços, - D’onde vem que aos meus abraços - Minha filha?..’ A filha bella, - Pasmada, trémula, a um lado, - O rosto ao chão inclinado, - Parecia humilde estrella - Que ao primeiro raio vivo - Do sol que no alvor reluz - Não fica, não, menos bella, - Porêm pállida e sem luz. - - -XI - - Tres annos ja são passados - Que Dom Sisnando a não via, - N’essa joven, linda dama - Sua filha não conhecia. - —‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia - A mãe, que d’um braço a trava, - ‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava - O pae na formosa filha, - E de assombro e maravilha - Mudo, estatico ficou. - Cora Adozinda, suspira, - E—‘Pae!’ disse em voz tremente - Submissa...—; languidamente - Ajoelha, osculo frio - Na paterna mão imprime: - Pranto que atelli reprime, - Corre agora em sôlto rio. - —‘Que tens tu, filha querida, - Que assim choras tam carpida? - É teu pae, que hade querer-te, - Que hade amar-te como eu te amo.’ - E tomou-a nos seus braços, - E a levanta Auzenda bella. - Pasma o pae, suspira ella; - E a custo os doces abraços - De pae, de filha se deram. - - -XII - - Pouco alegre a companhia - Entrou nos paços brilhantes; - E os atabales soantes - Pregoaram festa e alegria - No castello de Landim. - - -CANTIGA SEGUNDA - - But yet thou art my flesh, my blood, my daughter! - - SHAKSPEARE. - - -I - - Oh! que alegrias que vão - Pelos paços de Landim! - Que magnificos banquetes, - Que sumptuoso festim! - Juncto ao valente campeão, - Á cabeceira da mesa - Ficou a bella Adozinda. - A tam celeste belleza - Estão todos admirando; - E o imbevecido Sisnando - Não se farta de abraçá-la, - De beijar filha tam linda. - Auzenda de gôsto chora, - E abençoa a feliz hora - Em que tanto amor nasceu. - —‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza - De tanto lidar com armas - Á innocencia, á belleza - Da amada filha cedeu!’ - Ella as caricias paternas - Ja não ousa de esquivar-se; - Cora, mas deixa abraçar-se; - Ve-se que tantos affagos - A repugnancia venceram - Da timidez natural, - —Ou, se outra causa fatal, - Mais incuberta ella tinha... - Ao menos lh’a adormeceram. - - -II - - Ja de exquisitos manjares - Os convivas saciados, - De folias e cantares - Pagens, donzellas cançados, - E dos brindes amiudados - Finda a primeira alegria, - Doce repoiso pedía - Quanto ésta noite em Landim - Velou em baile e festim. - A seus nobres aposentos - Adozinda retirada, - Com permissão outorgada - —A custo—do pae, se foi. - Auzenda, em grave cortêjo - De suas damas rodeada - Deixou ha muito o festêjo, - E em seu camarim deitada - Espera o momento anciosa - Em que a sós a amante e a espôsa - Nos braços de Dom Sisnando - Se hãode em breve confundir. - - -III - - Como um tapete mimoso, - Juncto ao paço de Landim - Se estende jardim formoso, - De boninas arrelvado - Da verde gramma e de flores: - Remata em bosque frondoso - Cujos opacos verdores - Eternas sombras acoitam. - —De pesados sentimentos - Oppresso o peito fremente, - A respirar livremente - O ar puro da noite fria - Entrou insensivelmente - Dom Sisnando em seu vergel - Jamais tam rico docel - De azul bordado d’estrellas - Se estendeu por sôbre a terra - Do estio nas noites bellas. - - -IV - - Alta a lua vai no ceo, - E as sombras leves e raras - Não impedem ás florinhas, - Não tolhem ás aguas claras - De brilhar co’a luz nocturna, - Menos resplendente e fúlgida, - Porêm mais suave e placida, - Mais amavel que a diurna. - Manso o vento, que murmura - Entre as folhas brandamente, - Convida suavemente - A respirar, a bebê-la, - Essa fresca viração, - Das flores exhalação, - Tam doce como o bafejo - De dous amantes queridos - Quando por amor unidos - Se dão mútuo e doce bejo. - - -V - - Na feiticeira belleza - Da noite, do ceo, das flores - Várias d’aroma e de côres, - Sisnando todo imbebido, - No seio da natureza - Do resto do orbe esquecido, - Pouco a pouco a agitação - D’alma lhe foi abrandando, - E o pesado coração - Do affôgo desappertando: - Ja póde gemer,—suspira, - E como que se lhe tira - Um pêso de sôbre o peito, - Que a suspirar foi desfeito. - - -VI - - Porque geme, porque anceia - Dom Sisnando, o lidador? - Sisnando, o triumphador, - Cujo alto pendão campeia - Victorioso e senhor - Por tanta suberba ameia - De nunca entrado castello, - De jamais vencida tôrre! - —Dor que lhe nasce no peito - É dor que no peito morre; - Ancia que lhe ralla a vida - Não é para ser sabida. - —E desde quando? ha tam pouco - Feliz e ditoso ainda, - Com tanta alegria e júbilo - Festejada sua vinda!.. - Vassallos, espôsa, filha... - Filha!.. A filha é tam formosa! - Oh! essa Adozinda bella - Nos olhos incantadores - Tem com que matar d’amores - A metade dos humanos! - Não, não é peito sensivel - Peito que lhe resistir: - Mas o pae!.. não é possivel. - - -VII - - Não é, não é.—Mas Sisnando, - Sem saber onde caminha, - Melancholico e pesado, - Insensivel foi entrando - Pelo bosque immaranhado - Que ao jardim avizinha: - E o silencio, que o seguiu, - Que no espesso coito habita, - Nem um verde ramo agita, - Nem uma folha buliu. - —Á toa por entre as árvores - Sem seguir carreiro ou trilho, - Nem guiado d’um só brilho - De froixa estrella que entrasse - Por tam medonha espessura, - Ora lento e vagaroso, - Ora os passos apressura, - Ja por caminho fragoso, - Ja por vereda macia, - Té que n’um claro onde os troncos - Escasseiam de repente, - E onde pallido e tremente - Seu reflexo a lua infia, - Sem o saber, foi parar. - - -VIII - - Agreste, não feio é o sitio, - Medonho, horrivel de ver; - Porêm tem a natureza - Horrores que são belleza, - Tristezas que dão prazer, - Mão d’arte alli não chegou; - A virginal aspereza - Ficou em toda a rudeza - Que a creação lhe deixou. - De um lado, choupos anciãos - Seus ramos lobregos pendem, - E o vivo seixo fendem - Crespas raizes nodosas - Das sovereiras annosas - Que as cortiças remendadas - Têem dos estios lascadas - A pedaços a cahir. - —Do outro, altivos rochedos, - Como do ceo pendurados, - Diffundem pallidos medos - Que em funda gruta acoitados - De espectros a povoaram. - —Di-lo toda a vizinhança, - Que ou são sombras de finados, - Ou de negras bruxas más - Alli ha nocturna dança. - —Redobra ao sítio o pavor - Um jôrro alto que despenha - Saltando de penha em penha, - E os echos em deredor - Vai temeroso acordando. - Este unico som d’horror - Á callada solidão - Da mudez quebra o condão. - —Sisnando, o ardido Sisnando, - O do forte coração, - Sentiu soçobrar-lhe o ânimo: - Uma voz dentro do peito - Lhe diz que não passe ávante; - Mas outra voz mais possante, - Outra voz que é voz do fado, - Voz que ao mortal desgraçado - Não deixa fôrça ou razão, - Lhe brada: _Persiste, segue_... - —Ai do que a ella se intregue, - Que se intrega á perdição! - - -IX - - No seixo cavada grutta - Tem escassa entrada aberta, - Quasi de todo cuberta - De festões d’hera lustrosa - Que cingindo a rocha bruta - Pende em grinalda ramosa. - Entre as folhas, que meneia - Ligeiro sôpro de vento, - Viu Sisnando—e alma lhe anceia— - Um lampejar vago, incerto - De luz fraca,—ouve um accento - De voz doce mas gemente, - Voz que se ouve que está perto, - Que intoa suavemente - Uma angelica harmonia, - Tam triste que faz chorar! - E ésta voz assim dizia - Em seu languido cantar: - - —‘Anjos do ceo, acudi-me, - Valei-me, sanctos do ceo, - Que me rouba mais que a vida - Quem só a vida me deu. - - ‘Sancto ermitão, que me deste - Aquella esperança ainda - Que a desgraçada Adozinda - Viria a ser venturosa - Apóz de longo penar... - Sorte que vieste - Sôbre mim deitar, - Sorte desastrosa - Vem ver começar. - - ‘Anjos do ceo, acudi-me, - Valei-me, sanctos do ceo, - Que me rouba mais que a vida - Quem só a vida me deu. - - Mas ah! tam negro crime, - Tam horrida paixão - D’um pae no coração... - D’um pae...—Como é possivel! - Não, não, não hade entrar.’ - - -X - - —‘Pois treme, infeliz, e sabe - Que essa horrorosa paixão - Aqui n’este coração...’ - Sisnando, a quem ja não cabe - No peito a angústia, o tormento - De tam criminoso amor, - N’estas vozes de terror - Rompendo, a caverna entrou. - - -XI - - Oh que pavoroso instante! - Os anjos todos cubriram - Seus rostos co’a aza brilhante; - Sem vento os troncos d’emtôrno - A ramagem sacudiram; - A lua no ceo mais pallida - Como de susto infiou - E para traz da montanha - Foi correndo, e se eclipsou. - - -XII - - Quem hade a filha chorar - Que está nos braços paternos! - Oh! quem se hade horrorizar - Dos beijos doces e ternos - Que o amor...—Que amor é esse - De ouvir tam medonho horror - O proprio inferno estremece, - E só lá... ha tal amor! - - -XIII - - Oh! como heide eu cantar - Se no peito a voz me treme! - Historia que é de chorar, - Quem a diz não canta, geme. - —Só não gemia Adozinda, - Que toda morta, gelada, - Sancto Deus!—mais bella ainda, - Na viva rocha, estirada - Como um cadaver ficou. - - -XIV - - E o pae ousou levantá-la, - E apertar juncto a seu peito - Aquella morta belleza! - —Repugnou a natureza; - E, da paixão a despeito, - De si a affasta, vacilla... - O anjo da sua guarda - Inda um momento o resguarda... - Mas ha na terra ou no ceo - Fôrça maior que a paixão, - Que subjugue um coração - Que d’amor indoudeceu? - Se a ha, não lhe acudiu Deus, - Venceram peccados seus. - Lembrou-lhe fugir... ficou: - Sim, lembrou-lhe a salvação... - E á sua condemnação - O infeliz se votou. - - -XV - - Geme, chora; altos soluços - Do peito lhe véem bradando; - Porêm fugir de Adozinda - Não póde o triste Sisnando. - Ella acorda, e em voz sumida: - —‘Piedade, senhor, piedade!...’ - Só pôde dizer: perdida - Nos echos da soledade - Vai soando e murmurando - A voz triste e condoida. - Ouve-a elle; e o coração - No peito lhe estremeceu; - Na execranda pretenção - Recúa,—mas não cedeu. - - -XVI - - Palavras que lh’elle disse, - Respostas que lh’ella deu, - Oh! não as contarei eu, - Não as contará ninguem.... - Quiz que lh’ella promettesse - (E a terra alli não se abriu - Quando tal a um pae ouviu!) - Que para a noite seguinte, - Quando tudo em paz jazesse - Em seu leito o recebesse.... - - -XVII - - Chora a infeliz, chora, geme, - De horror e de pasmo treme: - Insta o perigo imminente, - A esperança na demora.... - Com voz cortada e gemente: - —‘Senhor, não insteis agora, - Deixae-me cobrar alento, - E ámanhan responderei.’ - —‘Pois solemne juramento - Farás de que...’—‘Sim, farei...’ - —‘Que ámanhan, antes que o dia - Do horisonte despareça, - Darás resposta final - E ai de ti, ai do mortal - A quem ousasses!...—Pereça - O infeliz n’esse momento: - Só a morte, só o inferno - De meu cru resentimento - O poderiam salvar.’ - - -CANTIGA TERCEIRA - - I must a tale unfold whose lightest word - Will harrow up thy soul; freeze thy blood; - Make thy two eyes, like stars, start from their spheres. - - SHAKESPEARE. - - -I - - Que mau fado, que hora má, - Oh! qual agoirada estrella - Levou Adozinda bella - Á fadada grutta escura? - Que foi ella fazer lá? - No mais denso da espessura, - A tão aziagas horas, - Só, alta noite, a deshoras, - Sem donzella ou escudeiro, - Como o pedia a decencia, - Sem levar mais companheiro - Que sua debil innocencia, - Que seu joven coração! - - -II - - Quem o sabe?—No castello - Nem a propria mãe, que a adora, - Que pela filha querida - Dera tudo, dera a vida... - Nem a propria mãe sabê-lo! - E como é que Auzenda ignora, - Por que incanto ou maravilha, - Que ao pino da meia noite - Todos os dias a filha - O escuro parque atravessa, - E tenteando a treva espessa - Vai sosinha áquella grutta - Que no mais claro do dia - Ninguem a entrar ousaria? - —Mas vai; não o sabe Auzenda: - N’este segredo fatal - Coisa sobrenatural, - Coisa medonha, tremenda - Ha por certo... oh! que inda mal! - - -III - - Desde aquella madrugada - Que Adozinda em seu balcão - Fallou c’o velho ermitão, - De noite á grutta fadada - Sempre vai. Sibille o vento - No bosque medonho e feio, - Ás nuvens o pardo seio - Rasgue horrisono trovão, - Nada teme; a passo lento, - Só, para alli se incaminha - E em rezas, em penitencia - Horas longas jaz sosinha. - Talvez d’aquelle romeiro, - Por salutar providencia, - Seu fado lhe foi preditto; - Talvez lhe fôsse prescritto - Por tam sancto conselheiro - Que passasse em oração - N’aquellas medonhas fragas - Certas horas aziagas - Em que a fatal conjuncção - D’um astro seu inimigo - Maior fizesse o perigo - Da terrivel maldicção - Que a persegue,—ella inocente!— - Que tam injusta cahiu - N’aquella votada frente... - Mas diz que não ha condão - Peior que o da maldicção! - E quantas não attrahiu - Sôbre a familia inculpada - A suberba despiedada - D’esse orgulhoso Sisnando? - Quantas vezes o infeliz, - C’os filhinhos expirando, - Á porta do seu castello - Se viu gemendo e chorando, - E o desalmado senhor - Essa gentalha atrevida - Escorrassar a mandou! - Taes peccados não guardou - Para os punir na outra vida - O supremo Arbitrador. - - -IV - - Mas ja despontava o dia, - Que tam alegre hoje vem, - Tam risonho parecia, - Que não dissera ninguem - Senão que traz alegria: - —E tantas, tam negras mágoas, - Nunca as trouxe o sol nascente - Desde que assoma no oriente - E se sepulta nas aguas. - Toda a noite longa, immensa, - Auzenda velou chorando, - De suas lagrymas regando - O leito viuvo e só; - A ninguem sua dor intensa - A desgraçada confia: - Ninguem da triste houve dó, - Que do espôso em companhia - Todo o castello a julgou. - Porêm a noite passou, - E porfim, do novo dia - Ja o alvor vinha raiando, - Sem apparecer Sisnando. - - -V - - É manhan;—tenue inda a luz, - Mas ve-se que é madrugada. - Auzenda ainda acordada - Sente abrirem-lhe com tento - A porta do aposento, - E entrar...—‘Será elle?... Oh vem! - És tu, suspirado espôso?! - Disse ella em timida voz: - Não lhe responde ninguem. - Um suspiro doloroso - Lhe dissipou a illusão. - Oh! quem se hade inganar - Com aquelle suspirar! - É Adozinda,—voaram - Do maternal coração - Toda a mágoa e dissabores; - E os sentidos que ficaram - Foi para amargar as dores - Que n’aquelle _ai_ a assaltaram. - - -VI - - —‘Filha, filha... a ésta hora! - Que succedeu?... que tens tu?’ - Callada Adozinda chora. - —‘Ai, não, não me chameis filha!’ - Rompe em fim, a soluçar, - Nadando n’um mar de pranto. - Pasmo, terror, maravilha, - Susto, medo, horror, espanto - No peito da triste Auzenda - Em confusão estupenda - De tropel foram quebrar. - —Que será?—E esse tyranno - De todo o socêgo humano, - _Dúvida_, o monstro fatal, - Que até nos deixa a esperança - Paraque do incerto mal - Seja maior a pujança, - Venha mais fino o punhal - Quando n’alma se nos crava, - Esse do peito lhe trava, - E ao cruel padecimento - Dobra angústias e tormento. - - -VII - - Adozinda, ajoelhada - Juncto ao leito onde convulsa - Jaz a mãe attribulada, - Do coração, que lhe pulsa - Como se fôra quebrar, - Traz d’amargo pranto um rio, - Que dos olhos vem a fio - As maternas mãos banhar; - As mãos que ella aperta e beja, - E que o pranto que gotteja - Ja não sentem derramar. - - -VIII - - Volve a ti, mãe desgraçada, - Volve, que o morrer agora - Tammanha ventura fôra - Que da sorte despiedada - Concedido não será. - Vem ouvir tua sentença - De morte... peior que morte, - Vergonha horrorosa, offensa... - E de quem!... de teu consorte, - Do pae monstro, monstro espôso... - Ai! para o tormento odioso, - Para tammanha afflicção - Não tem fôrça o coração. - - -IX - - Tudo lhe conta Adozinda, - Tudo... tudo,—interrompendo - A horrorosa narração - Ora as lagrymas fervendo, - Ora os soluços rompendo - Do rasgado coração, - Ora os labios descorados - De pejo e terror gelados, - Sem podêr nem balbuciar - O que é fôrça revelar. - - -X - - —‘Irás’ disse Auzenda emfim, - E a voz, que treme, assegura: - ‘Irás a teu...’—_pae_ não disse, - E um som rouco lhe murmura - Nos labios onde a meiguice, - Onde a maternal ternura - Procuram em vão surrir: - ‘Irás, filha, a Dom Sisnando - E lhe dirás que...’ - —‘Senhora!’ - Interrompe ella chorando - —‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora - Da meia-noite soar, - Em teu quarto o hasde esperar. - Não temas, filha, não tremas, - Não chores, minha Adozinda, - Querida filha, não gemas, - Que hasde ser feliz ainda. - No angustiado seio - Guardemos inda a esperança: - Do ceo mandada me veio - Uma ditosa lembrança - Que nos poderá salvar. - No teu leito d’ouro fino - Sou eu que me heide ir deitar; - Tua camiza de hollanda - A meu corpo heide lançar: - E quando elle nos seus braços - Ter Adozinda julgar... - Ah! que o ceo hade abençoar - Este ingano virtuoso, - E a ser pae, a ser espôso - Dom Sisnando hade voltar.’ - - -XI - - O dia em rezas passaram - Em devotas orações; - Mas quando as trevas poisaram - Sôbre as muralhas da tôrre, - Voltaram as afflicções: - E o tempo—que leve corre - Para todos os viventes— - Só áquellas innocentes - Accintoso parecia - Que da ampulheta fadada - Bago por bago espremia - Cada hora minguada. - - -XII - - Emfim meia-noite soa: - Dom Sisnando, aguilhoado - Do torpe amor—do peccado, - Impaciente ao prazo voa - Que elle d’amor julga dado. - Como louco, arrebatado - Corre ao leito de Adozinda, - Cego bêja a face linda, - Que decerto não é d’ella, - Mas que não é menos bella; - Ao convulso peito aperta - Aquelle peito formoso... - —Desgraçado, é tempo ainda, - Do cruel sonho desperta, - Que ao precipicio horroroso - Ja te vai a despenhar!... - - -XIII - - Dom Sisnando é criminoso - Quanto o podia ficar; - Do intento abominoso - Nada resta a consummar. - Ja tristemente acordou - De seu delirio fatal, - E surrindo amargamente, - Á infeliz assim fallou: - —‘E era por isto... innocente! - Que tanto se recatava - Tua virtude fingida? - Ah! essa alma corrompida - Mais do que teu corpo estava. - E tu...’ - —Não pôde ouvir mais - A triste mãe; não lhe soffrem - As intranhas maternais - Ouvir a filha adorada - De tal modo calumniada, - E por quem, e em que momento! - C’um suffocado lamento, - Que do peito rebentando - Trouxe aos labios alma e vida, - Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando! - Ah, senhor, mattae-me embora; - A desgraçada sou eu.’ - E a terra n’aquella hora - Rasgada não soverteu - O infeliz, que meio morto, - No abysmo do crime absorto, - D’este golpe inesperado - A violencia cedeu! - - -XIV - - Silencio largo, mortal - Foi a unica expressão - Que por longa duração - N’aquelle estado fatal - Entre esses dous foi ouvida. - Porêm no perdido peito - De Sisnando atribulado - Foi a vergonha vencida - Pelo irritado despeito: - Dos remorsos avexado, - Porêm mais pungido ainda - De seu crime mallogrado, - Brada em cholera abrasado: - —‘Pereça a filha descrida - Que deshonrou seu...’ - —_Pae_ não, - _Pae_ não ousa proferir. - A palavra, suspendida - Por fria, pesada mão - De remorso insubjugado, - Lhe voltou ao coração - A lacerar-lh’o, a vingar-se - Da mal-soffrida oppressão. - - -XV - - —‘Ouvi-me, senhor: culpada - Sou eu só...’ a triste espôsa - Lhe diz; mas não ouve nada - Aquella alma furiosa, - Ja n’este mundo rallada - De quanta pena horrorosa - No inferno está guardada - Para crimes como o seu. - - -XVI - - Parte, corre;—o brado horrivel - Por todo o castello soa - Tam medonho como troa - Medonho trovão d’outomno. - Despertos do brando somno - Todos são:—ordens que deu - São taes, que de horror tremeu - A gente absorta e pasmada. - Tristemente obedecendo, - Co’a face ao chão inclinada - Se vão a medo, e mal crendo - Que não seja sonho vão - O que ouvindo e vendo estão. - - -XVII - - Do castello para um lado - Uma antiga tôrre havia - Cercada de largos fossos, - Que é memoria haver fundado - Um rei mouro que vivia - Ha muito, de quando os nossos - Mourisca gente regia. - Alli uma espôsa sua, - Que elle achou ser-lhe infiel, - Sette annos e mais um dia - Fechada a teve o cruel, - Sozinha, a grilhões e nua; - E só pão sêcco lhe dava, - Mas agua não consentia - Que nunca ninguem lh’a desse - Para que á sêde morresse. - Valeu-lhe quem tudo póde, - Que ao infeliz sempre accode: - Vinha-lhe orvalho do ceo, - De que os sette annos bebeu. - E emfim o septimo anno - De tal milagre vencido - Foi o proprio rei tyranno, - Que a liberdade lhe deu, - E do crime commettido, - Se o havia, se esqueceu. - - -XVIII - - Para ésta tôrre deserta, - No verão ao sol exposta, - Que abrasado a queima e tosta, - No rigor do hinverno aberta - A chuvas, á ventania, - Sisnando—quem tal diria! - Mandou a filhinha linda, - Que alli fechada gemesse, - A virtuosa Adozinda!... - E ai de quem agua lhe desse, - Lhe desse vestido ou cama, - Que da sêde á morte crua - —Qual o mouro a sua dama— - Alli quer que morra nua, - De todos desemparada, - De seu pae amaldiçoada, - Só da triste mãe chorada! - - -XIX - - Sem dar somente um gemido, - Sem se carpir nem queixar, - Como a ovelhinha tremente - Que sem dar nem um balido - Se deixa á morte levar, - Vai Adozinda innocente - Para aquella feia tôrre. - Pranto que furtivo corre - De quantos olhos a viam - A acompanha tristemente. - E o pae!... Ancias que o remordem - Ninguem as sabe nem vê. - N’um aposento incerrado, - Onde nem ao mais privado - Concedido é metter pé, - Só ficou, só permanece: - Só!—antes acompanhado - De quem os seus não esquece, - Do remorso,—do peccado. - - -CANTIGA QUARTA - - You do me wrong, to take me out o’the grave:— - Thou art a soul of bliss: but I am bound - Upon a wheel of fire, that mine own tears - Do scald like molten lead. - - SHAKSPEARE. - - -I - - Sette annos e um dia - Foi a sentença cruel - Que Adozinda cumpriria - N’aquella tôrre fechada. - E o tyranno bem sabia - Que nem tres dias somente - Viver podia a innocente - Com a sêde, a denudez. - Uma semana é passada - Passado é um mez e outro mez, - Anno e annos decorreram; - E os sette annos feneceram - Sem que Adozinda formosa - Em tal mingua perecesse, - Sem que ao menos desmer’cesse - Em seu rosto uma só rosa. - - -II - - Veio um dia—n’esse dia - O captiveiro acabava— - No mais alto o sol ardia - E a terra toda abrasava, - Na tôrre uma voz se ouvia, - (E é ésta a primeira vez) - Era uma voz que pedia, - Que supplicava piedade: - —‘Uma sêde, uma só d’agua, - Uma só por compaixão, - Que me abraso n’esta fragua, - Que me estalla o coração.’ - - -III - - A voz de Adozinda bella - Todos clara conheceram; - C’os olhos na alta janella - De toda a parte correram: - —‘Vive, inda vive!’ bradavam, - ‘A innocente! vinde ve-la.’ - E uns aos outros recontavam - Das virtudes, da paciencia - D’aquelle anjo d’innocencia - Que, ha muito, morta julgavam. - —Outra vez se torna a ouvir - O mesmo clamor sahir - Da torreada prisão: - —‘Uma sêde, uma só d’agua, - Uma só por compaixão, - Que me abraso n’esta fragua, - Que me estalla o coração!’ - - -IV - - A todos se commoveu - O mais intimo do peito, - Mas não ousam a affrontar - Do pae o sevo despeito. - —‘Tem paciencia, anjo do ceo!’ - Com lagrymas responderam, - ‘Que ja não póde tardar - O pae que te vem soltar. - Os sette annos decorreram, - O dia está a acabar; - Soffre mais este momento, - Que hoje acaba o teu tormento.’ - - -V - - —‘Oh! como heide eu supportar, - Amigos meus da minha alma, - Se a vida sinto acabar, - Sinto abrasar-me da calma? - Sette annos me accudiu Deus, - Que por milagre vivi, - Dava-me orvalho dos ceos, - De que sette annos bebi. - Do estio ardentes queimores - No meu corpo os não senti, - Do hinverno os frios rigores - Tambem esses não tremi. - Mas ha tres dias que a mão - Do Senhor me abandonou. - Tudo, tudo me faltou... - Oh! tende de mim piedade! - Uma sêde, uma só d’agua, - Uma só por compaixão, - Que me abraso n’esta fragua, - Que me estalla o coração!’ - —De novo alto chôro ergueram, - Lastimado pranto gemem; - Mas de seu tyranno tremem, - Só a chorar se atreveram. - - -VI - - Soa a nova no castello, - Vai correndo em derredor, - De que porfim fôra ouvido - Aquelle anjo soffredor - Soltar queixoso gemido, - Piedade emfim suppllicar. - Só a Auzenda, que expirando - No leito da morte jaz, - Para que morresse em paz - Vão a noticia occultando. - Mas soube tudo Sisnando, - E no duro coração - Ja vacilla a crueldade, - Ja vislumbra a compaixão: - Dos seccos olhos covados, - Que inspiravam medo e espanto, - Como que da mão tocados - D’algum anjo punidor, - Salta repentino o pranto, - Qual onda que estalla em flor - Sôbre o penedo ourissado. - Todo em lagrymas sanguineas - O infeliz debulhado, - Para aquella infausta tôrre - Com incerto passo corre - Em altos gritos bradando: - —‘Agua! trazei agua, vinde, - Accudi á desgraçada, - A uma filha malfadada - Que por mãos de seu pae morre!’ - - -VII - - Assim correndo e gritando - Chegava á horrivel prisão - Em que gemia Adozinda: - —‘Filha, filha, é tempo ainda; - Perdão, ó filha, perdão - Para este algoz...’—Cortou-lhe - O excesso da paixão - Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe, - E por morto cai no chão. - - -VIII - - Oh! que povo se ajuntava - No castello de Landim! - E com que horror que elle olhava - Para aquelle triste fim - De tammanho cavalleiro, - Tam ricco e grande senhor, - Tam esforçado guerreiro! - A Auzenda chega o rumor - Do successo inesperado, - Dá-lhe fôrça e vida amor; - O fio meio cortado - Da existencia lhe atou. - Ei-la se ergue, e em mal-firmado - Passo corre—e lá chegou. - - -IX - - E ja por ordem de Auzenda - Co’a porta negra e tremenda - Investem da tôrre erguida: - Range o ferro, os gonzos gemem, - Parece que ja rendida - Vai de todo;—á roda tremem, - Do fundamento aluida - A tôrre, os solidos muros. - Mas em vão de centenares - Dos mais rijos braços duros - Se movem os instrumentos - Que em muralhas mais valentes - De castellos regulares, - De mais solidos cimentos - Têem a miudo triumphado. - - -X - - Parece incanto:—será? - O povo maravilhado - Ja por tal, tremendo, o dá. - Cessam todos, incantado - É o negro portão ferrado... - E o povo desanimado - Da impreza desiste ja. - - -XI - - Arreda, arreda, infançoes, - Cavalleiros, dae logar, - Com licença, nobre dama, - Que ahi vem um sancto ermitão: - Com as suas orações - Este incanto hade quebrar, - Ou, se do demonio é trama, - Com o seu bento condão - Elle o hade desmanchar. - —Ei-lo chega:—este semblante - Não é aqui desconhecido... - Ésta barba, este vestido... - É elle, o mesmo ermitão - Que a noite de San’João - (Não ha dez annos ainda) - No castello pernoitou, - —Que Sisnando o maltrattou. - Mas, por a bella Adozinda - Pedir muito, lá ficou. - - -XII - - Com a cabeça cuberta - Do seu agudo capuz, - Os olhos de côr incerta, - Pasmados, fixos... e a luz - Que d’elles sai é tam viva - Que a espaços da vista priva - Quem de perto os quer fitar! - As mãos cruzadas no peito, - Vagaroso seu andar, - Tam pesado e de tal geito - Que faz um echo tremendo - Quando os passos vai movendo, - E como que a terra e o ar, - Com o pêso vão gemendo... - —Foi seu caminho direito - Da tôrre á porta ferrada; - Sem attender a mais nada, - Sem olhar nem para Auzenda, - Que em lagrymas debulhada - Supplices mãos lh’estendia. - Chega á porta, e em voz horrenda - —‘Abre-te!’—disse. Estallou - O ferro medonhamente, - E a porta se escancarou, - —Mas elle subitamente, - Voltando-se para a turba, - Que alto alarido alevanta - E em derredor se perturba, - Com gesto que aos mais ousados - Todo o ânimo quebranta, - —‘Immudecei!’ lhes bradou. - Ficaram todos callados; - E—_immudecei_—revibrou - De echos em echos dobrados - Pelo castello e jardim, - Pelos soutos ao redor, - Pelos campos dilatados - Que a Dom Sisnando obedecem - E por senhor reconhecem - Ao ricco-homem de Landim. - —Depois estendendo a mão - Ao logar onde jazia - Por morto no frio chão - O desgraçado Sisnando, - Éstas palavras dizia - Que em ouco som vão soando: - - —‘Eu te esconjuro, - Alma perdida, - Volta-te á vida! - - ‘Que o teu peccado, - Abominado - Do proprio inferno, - Só tem perdão - Com longa vida - De penitencia, - De contrição, - Que a alma perdida - Salve do inferno, - Da maldicção. - - ‘Eu te esconjuro, - Alma perdida, - Volta-te á vida! - - ‘O anjo celeste - Na hora última - Te perdoou, - E ao Pae Eterno - A tua victima - Por ti rogou - - ‘Lazaro immundo, - N’esta grande hora - Volve-te á vida, - Vem, surge fóra!’ - - -XIII - - Em pé está Dom Sisnando: - Vivo está, morto parece, - Tam negro veo lh’innoitece - O verde-pallido rosto, - Onde o seu sêllo ja pôsto - Tinha o archanjo da morte. - - -XIV - - De joelhos o ermitão, - Com a cabeça cuberta, - Á porta da tôrre aberta - Faz breve e baixa oração. - Eis violento repellão - A terra, tremendo, deu, - E d’alto abaixo a muralha - Largamente se fendeu. - Viram todos claramente - O interior patente - Em que jazia Adozinda, - D’onde ha poucas horas inda - Sua voz se ouviu clamar, - E por uma sêde d’agua - Ao seu algoz supplicar. - - -XV - - N’um leito de frescas rosas, - Que aromas do ceo recendem, - Morta Adozinda jazia: - Suas feições mais formosas, - Mais angelicas resplendem. - Uma suave harmonia - Tam brandamente soava, - Que ao coração parecia - Que por piedade o affagava - A quem saudoso gemia. - —A alva frente, não tocada - Pela mão da morte livida, - De lirios do ceo coroada - Brilhava com luz tam vivida - Que parecia toucada - De puros raios do sol. - As mãos postas sôbre o peito - Para o ceo se alevantavam, - E como que d’alma justa - Para a morada apontavam. - - -XVI - - Oh! que vista, oh! que momento - Para a triste mãe!—Faltava - Só este último tormento. - A malfadada cuidava - Que nenhum padecimento - Para gemer lhe sobrava! - Era este.—E a dor ignora, - Não sabe o que é padecer - Quem o filhinho que adora - Não viu ainda morrer... - - -XVII - - Levantou-se o ermitão - E bradou:—‘Ajoelhemos, - E a mão de Deus adoremos.’ - —Submissa resignação - Póde a voz tolher á dor, - Não tira do coração - Seu espinho pungidor, - Que em silencio é mais cruel, - Rasga mais, e na ferida - Mais acre derrama o fel. - A paciencia soffrida - Da triste Auzenda cedeu; - Não exclamou, não gemeu, - E em tributo de respeito - Sua mágoa fechou no peito. - - -XVIII - - E Sisnando?—O desgraçado - No pó da terra humilhado, - Só se lhe conhece a vida - Na agitação comprimida - Do convulso soluçar. - - -XIX - - Para a ermida do castello - Emfim o corpo levaram - E n’um cofre d’ouro fino - Como reliquia o guardaram. - —Muito a não carpiu Auzenda, - Que a morte compadecida - Cedo a libertou da vida. - Porêm a longa existencia - De remorso e penitencia - Sisnando foi condemnado: - Cuberto de horror e opprobrio - Cumpriu seu mesquinho fado; - Onde?—Ninguem mais o soube. - Do castello aquella noite - Com o ermitão se sumiu; - Nunca mais d’elle se ouviu. - Mas á meia-noite em ponto - Na capella de Landim - Se ficou sempre escutando - Gemer uma voz medonha, - Que pede perdão bradando: - E essa voz diziam todos - Que era a voz de Dom Sisnando. - - - - -II - -BERNAL-FRANCEZ - - -Este romance é tirado de uma das mais conhecidas e provavelmente mais -antigas xácaras que o povo canta. Sua contextura simples mas forte, a -scena tão dramatica com que abre, o fexo sublime com que termina dão-lhe -todos os characteres de poesia primitiva e grande de um povo heroico, de -uma gente que tomava as coisas da vida ao serio, como a nossa era. Estou -que é originariamente portuguez: não apparece em nenhum dos romanceiros -castelhanos, nem na vasta collecção de Ochoa.—O texto, como o conservou -a tradição oral dos povos, da-lo-hei no logar competente, segundo lh’o -talhei no prefacio d’este volume[12], e demandava o systema da minha -compilação: e ahi se vejam as conjecturas que tenho feito sôbre ésta -preciosa reliquia da nossa poesia popular. - -Mr. Southey, o famoso poeta e historiador inglez, tendo lido a Adozinda -e o Bernal, quando os publiquei a primeira vez em Londres em 1828, -escrevia ao meu amigo Mr. Adamson, o biographo de Camões: ‘que estes -eram dois monumentos de mais remota antiguidade talvez do que nenhumas -d’aquellas canções irlandezas que elle até alli tivera na conta de serem -os vestigios mais antigos de toda a poesia popular das nações do oeste da -Europa.’ - -Communicando-me ésta reflexão, tam lisongeira para um collector -enthusiasta de antigualhas, mandou-me o Sr. Adamson a traducção ingleza -que pela primeira vez agora sai impressa, e o leitor achará logo adeante -do texto portuguez[13]. - -No verão de 1840, quando apromptei para a presente edição ésta parte -do volume, dediquei o Bernal-Francez a uma joven senhora que juntava -a outras admiraveis qualidades a de possuir, no mais eminente grau -que ainda incontrei, o sentimento do bello, do grande, do verdadeiro -nas artes. Este romancinho era o seu valído d’entre todas as minhas -escreveduras poeticas: consagrei-lh’o... Hoje é um monumento! bem pobre e -mesquinho para memoria de tanta saudade! - -Todavia o seu desejo e impenho era que eu fizesse uma verdadeira epopea, -e me deixasse d’estas coisas que nunca podiam passar de _bonitinhas_. A -perda de D. Sebastião em Africa era o assumpto que me dava: dizia—e dizia -bem—que devia ser o reverso da medalha dos Lusiadas, e que podia ser o -mais popular e nacional de todos os poemas portuguezes depois d’aquelle. -Ponho isto aqui para commentario dos versos que se seguem, e que alias -não seriam intendidos. - -15 de Outubro de 1842. - - -A ADELIA - - Tu queres, amiga, que eu deixe - Minha harpa no chopo do monte, - Que nem sempre me chore e queixe, - Que seja poeta... a cantar! - Que da brava inculta deveza - Me não fique pasmado á fonte - A admirar só a natureza, - Sem um brado de glória alçar! - Na escarpada selvatica brenha - Não se colhem senão rudes flores, - Bem o sei—crescem-lhe hirtas na grenha, - São singellas - De fôlha e de côres, - Não se toucam as bellas - Com ellas: - Não se infeitem jardins de formosas - Com musquetas bravias e rosas! - - —‘Vê o nobre, magnifico traço[14] - Do regrado edificio de Homero, - Do mavioso Virgilio, do Tasso! - (Dizes tu, maga musa d’amor) - ‘E ora terno e mavioso, ora fero, - Ja sublime, ja doce—o cantor - De Ignez bella, feio Adamastor. - Como erguendo, campea, a alta frente - Sôbre todos os vates do Pindo!’ - —Vejo, oh! vejo, que ésta alma ardente - Ja nos voos andou seguindo - Essas aguias mais remontadas... - Hoje é abelha, ahi anda zumbindo - Por entre agras, singellas flores - Desalinhadas: - - Mas são flores que nascem na serra - Onde todo o seu mundo se incerra, - Porque ahi tem—o seu bem—seus amores. - -Bemfica, 12 de maio de 1840. - - -BERNAL-FRANCEZ - - -I - - Ao mar se foi D. Ramiro, - Galé formosa levava; - Seu pendão terror dos Mouros - N’alta poppa tremolava. - - Oh que adeus na despedida! - De saudades vai rallado; - Com tantos annos de amores, - Não tem um de desposado. - - Nem ha dama em toda a Hespanha - Tam bella como é Violante; - Não a houvera egual no mundo - Se ella fôra mais constante. - - Bate o mar na barbacan - Do castello alevantado, - Só a vela[15] na alta tôrre - Não cede ao somno pesado. - - Tudo o mais repousa e dorme, - Tudo é silencio ao redor; - Dobra o recato nas portas - Com a ausencia do senhor. - - Mas a certa hora da noite - Se vê luz n’uma setteira, - E logo cruzar por perto - Leve barca aventureira. - - Muitas noites que passaram, - Manso esteja ou bravo o mar, - A mesma luz, á mesma hora, - A mesma barca a passar. - - E isto ignora o bom Rodrigo, - Que tam fiel prometteu - De guardar a seu senhor - Juramento que lhe deu? - - Sabera, não sabera: - Mas a c’ravella ligeira, - Que aopé da torre varada - Jazia alli na ribeira. - - Uma noite escura e feia - Na praia menos se achou... - Quem n’ella foi não se sabe, - Mas onde foi não tornou. - - E o farol que no alto luz - Á mesma hora a brilhar... - Só a barca aventureira - Não foi vista hoje passar. - - E d’um lado aopé da rocha - Havia um falso postigo: - Só o sabem D. Ramiro, - Violante e o fiel Rodrigo. - - Mas alta noite, horas mortas, - Gente que o postigo entrava, - E á porta de Violante - Manso bater se escutava. - - —‘Quem bate á minha porta, - Quem bate, oh! quem ’stá ahi? - —’Sou Bernal-francez, senhora, - Vossa porta a amor abri.’ - - Ao descer do leito d’oiro - A fina hollanda rasgou, - Ao abrir mansinho a porta - A luz que se lhe apagou: - - Pela mão tremente o toma, - Ao seu apposento o guia: - —‘Como treme, amor querido, - Esta mão, como está fria!’ - - E com osculos ardentes - E no seio palpitante, - Que lhe aquece as frias mãos - A namorada Violante. - - —‘De longe vens?’—‘De mui longe.’ - —‘Bravo estava o mar!’—‘Tremendo.’ - —‘Armado vens!’—Não responde. - Vai-lhe as armas desprendendo. - - Em pura essencia de rosas - O amado corpo banhou, - E em seu leito regallado - A par de si o deitou. - - —‘Meia noite ja é dada - Sem para mim te voltares, - Que tens tu, querido amante, - Que me incobres teus pezares! - - ‘Se temes de meus irmãos, - Elles não virão aqui; - Se de meu cunhado temes, - Não é homem para ti. - - ‘Meus criados e vassallos - Por essa tôrre a dormir, - Nem de nosso amor suspeitam, - Nem o podem descubrir. - - ‘Se de meu marido temes, - A longes terras andou: - Por lá o detenham Mouros, - Saudades ca não deixou.’ - - —‘Eu não temo os teus criados, - Meus criados tambem são: - Irmãos nem cunhado temo, - São meus cunhados e irmão. - - ‘De teu marido não temo - Nem tenho de que temer... - Aqui está aopé de ti, - Tu é que deves tremer.’ - - -II - - E o sol ja no oriente erguido - Da tôrre ameias dourava; - Violante mais bella que elle - Para a morte caminhava: - - Alva tella aspera e dura - Veste o corpo delicado, - Por cintura rijo esparto - Em grosseiro laço atado. - - Choram pagens e donzellas, - Que a piedade o crime esquece; - O proprio offendido espôso - Com tal vista se internece. - - Dá signal a campa triste, - O algoz o cutello affia... - —‘Meu senhor mereço a morte’ - A malfadada dizia, - - ‘De joelhos, D. Ramiro, - Humilde perdão vos peço, - Perdoae-me por piedade... - A morte não, que a mereço: - - ‘Da affronta que vos hei feito - Por minha triste cegueira, - Dae-me quitação co’a morte - N’ésta hora derradeira: - - ‘Mas só eu sou criminosa - Do aggravo que vos fiz, - Não tireis, senhor, vingança - D’esse misero, infeliz...’ - - Talvez ia perdoar-lhe - O espôso compadecido... - Renovou-se-lhe o odio todo, - D’aquelle rôgo offendido: - - O semblante roxo d’ira - Para não vê-la torceu, - E co’ a esquerda mão alçada - O fatal accêno deu. - - Sôbre o collo crystallino, - Desmaiado, e inda tam bello, - De golpe tremendo e subito - Cai o terrivel cutello. - - -III - - Oh! que procissão que sai - Da antiga porta da tôrre! - Que gente que acode a vê-la, - Que povo que triste corre! - - Tochas de pallida cera - Nas trevas da noite escura - Vão dando luz baça e triste, - Luz que guia á sepultura: - - Cubertos com seus capuzes - Rezam frades ao-redor, - A dobrar desintoados - Os sinos causam terror... - - Duas noites são passadas, - Já não ha luz na setteira, - Mas passando e repassando - Anda a barca aventureira. - - Linda barca tam ligeira - Que nenhum mar soçobrou, - O farol que te guiava, - Ja não luz, ja se apagou. - - A tua linda Violante, - O teu incanto tam bello, - Teve por ti feia morte, - Crua morte de cutello. - - Na egreja de San’Gil - Ouves a campa a dobrar? - Ves essas tochas ao longe? - Ella que vai a interrar. - - Ja se fez o interramento, - Ja cahiu a louza fria, - Só na egreja solitaria - Um cavalleiro se via; - - Vestido de dó tam negro, - E mais negro o coração, - Sôbre a fresca sepultura - De rôjo se atira ao chão: - - —‘Abre-te, ó campa sagrada, - Abre-te a um infeliz!... - Seremos na morte unidos, - Ja que em vida o ceu não quiz. - - ‘Abre-te, ó campa sagrada - Que escondes tal formosura, - Esconde tambem meu crime - Com a sua desventura. - - ‘Vida que eu viver não quero, - Vida que eu só tinha n’ella, - Recebe-a, ó campa sagrada, - Que não posso já soffrê-la.’ - - E o pranto de correr, - E os soluços de estallar, - E a mão que leva á espada - Para alli se traspassar. - - Mas a mão gelou no punho - Voz que da campa se erguia, - Voz que ainda é suave e doce, - Mas tam medonha e tam fria, - - Do sepulchro tão cortada, - Que as carnes lhe arripia - E a vida deixou parada: - - —‘Vive, vive, cavalleiro, - Vive tu, que eu ja vivi; - Morte que me deu meu crime, - Fui eu só que a mereci. - - ‘Ai n’este gêlo da campa, - Onde tudo é frio horror, - Só da existencia conservo - Meu remorso e meu amor! - - ‘Braços com que te abraçava - Ja não teem vigor em si; - Cobre a terra humida e dura - Os olhos com que te vi; - - ‘Bôcca com que te bejava - Ja não tem sabor em si; - Coração com que te amava... - Ai! só n’esse não morri! - - ‘Vive, vive, cavalleiro, - Vive, vive e sê ditoso; - E apprende em meu triste fado - A ser pae e a ser espôso. - - ‘Donzella com quem casares - Chama-lhe tambem Violante; - Não amará mais do que eu... - Mas—que seja mais constante! - - ‘Filhas que d’ella tiveres - Ensina-as melhor que a mim, - Que se não percam por homens - Como eu me perdi por ti.’ - - -VERSÃO INGLEZA - - -I - - See, Don Ramiro’s galley speeds - Across the heavy seas, - His pennant which the moor so dreads - Now flutters in the breeze. - - Oh! when he went, his heart was moved - With grief that would not hide... - To part with her he long had loved - Though lately called his bride! - - Spain’s loveliest maids or royal queen - In charms could not compare - With Violante, had she been - True as her form was fair. - - Against the castle’s flanking tower - Wild beats the surging deep, - And there a watch at midnight hour - Would not submit to sleep: - - All else lulled by the breaker’s jar - In slumber calm reposed, - And as its lord was distant far - His castle gates were closed. - - But lo! a bark at dead of night - Alone doth swiftly glide - Beneath the tower from whence a light - Shines glimmering on the tide. - - And many a darksome night the bark, - As falls that hour, returns; - Through wind and wave its path to mark - The signal torch-light burns. - - Roderigo, rouse thee up from sleep; - The oath which thou didst swear - To thy good lord, how canst thou keep - When strangers come so near! - - For knowest thou not, where softest swell[16] - The waves around thy strand, - With sail unstretched, a caravel - Remains upon the sand? - - Ah! in a stormy night and dark - It reckless left the shore; - Who was its pilot none could mark - But it came back no more. - - Yet at the hour, the guiding light - On high began to burn, - ’Twas vain—no eye observed, this night, - The little bark return. - - Far down the rugged rock that spread - Its masses round the tower, - Was placed a secret gate which led - To Violante’s bower. - - Within this postern, steps were heard - At night approaching near, - And on her door so firmly barred - A knock aroused her ear; - - —‘Oh! who can thus, unknown advance - And knock so boldly there?’— - —’Tis Bernal, lady, thine of France: - He seeks thy smile to share.’ - - From couch of gold she reached the floor - And rent her vestment gay, - And as she gently opened the door - It quenched her taper’s ray. - - His clay cold hand she seized him by - And led him to her bower! - —‘Love, tremble not: within our sky - No clouds of sorrow lower.’ - - Then on her fair and glowing breast - That, heaving, throbbed the more - She pressed his hands: and fondly kissed - His cold lips o’er and o’er. - - —‘Far have you come!’—‘Yes very far.’ - —‘Rough was the raging sea?’ - —‘It was.’—‘Why come you armed for war? - Nay tell thy thoughts to me.’ - - She doffed his armour, and the dew - Of roses, scenting wide, - In liquid drops she o’er him threw - And laid him by her side. - - —‘Twelve hours hath rung the castle bell; - To her, who loves thee, turn - Thy face, as thou wert wont, and tell - What gives thee cause to mourn. - - ‘Oh! if my brothers thou dost fear, - They will not come to me; - My husband’s brother, were he here, - Can never cope with thee. - - ‘My serfs and vassals, through the halls, - Will sleep till morning light; - Nor can they deem that, in my walls, - I welcome such a knight. - - ‘My husband, fond of martial fray, - To distant lands is gone, - And may the Moors prolong his stay, - Regret here left he none.’ - - —‘They are my own, I need not fear - Those kneeling slaves of thine, - Nor brothers, for the badge they wear - Above their helms is mine. - - ‘Nor do I dread thy husband’s wrath; - Know... he reposes here, - Even by his lady, void of faith, - ’Tis she who well may fear.’ - - -II - - The sun dispelled morn’s shadows dim, - And on the castle shone, - When Violante, more fair than him, - To meet her doom hath gone: - - Her lovely form, a garment long - And coarse was wrapped around, - A knotted rope, like cable strong, - Her graceful person bound. - - And gushing tear drops blind the eye - Of page and maiden fair; - Nor are Ramiro’s lashes dry, - Fresh moisture glistens there - - Pealed from lhe tower the signal bell, - The axe was lifted high - O’er Violante... Ere it fell - She saw her husband nigh. - - —‘My lord’ she cried ‘I merit death, - Yet on my bended knee, - Ere from my bosom parts my breath, - I pardon crave from thee. - - ’Tis not through blighted years to live - Lamenting o’er the past, - But my offense to thee, forgive, - This hour is now my last. - - ‘On me, for I have wronged thy bed, - Alone let vengeance light, - Nor wreck thy rage upon the head - Of Bernal, hapless knight.’ - - To grant her wish, Ramiro’s breast - With rising pity burned, - But when she urged her last request, - His former hate returned. - - Dark lowered his brow, fierce flashed his eye, - As when his faulchion brave - Repelled the foe,—his left hand high - The fatal signal gave. - - Then on that neck of grace and love, - Whose blue veins shining tell - The pureness of the skin above, - The headsman’s weapon fell. - - -III - - Forth from the castle’s ancient gate, - A dread procession slow - Advanced, who mourned the happless fate - That laid such beauty low. - - Above them many a waxen torch, - In darkness of the night, - Shed to the chapel’s gothic porch - A dim and mournful light. - - And hooded closely many a friar - Sung prayers the bier around, - The massy bells within the spire - Rung forth an awful sound. - - Two nights had passed, no torche’s ray - Illumed the testless tide, - But fleetly o’er the castle bay - Again the skiff did glide. - - Swift bark, thy pilot braved the wrath - Of ocean’s wildest war, - But knows not how the damp of death - Has quenched his leading star. - - Alas the fair whose beauty lured - His path across the wave, - The headsman’s stroke for him endured - To fill a bloody grave. - - Within the chapel of Saint Gil - Intombed she slumbers low; - See, distant torches burning still... - Hark, bells are pealing slow! - - All now is past—lies o’er the dead - The cold sepulchral stone; - And, see: a knight doth ceaseless tread - The echoing aisles alone. - - His robes are black, but woe doth shroud - His heart in darker gloom; - And lo, he stretches, sobbing loud, - His form upon her tomb. - - —‘Oh! open, grave, my heart is riven, - I taste delight no more, - Let death unite us now, whom heaven - In life asunder tore. - - ‘And her who calmly sleeps beneath - Again to me reveal, - That by her side, I may, in death, - My crime with her conceal. - - ‘It is not, torn with inward strife, - My wish to linger on, - And live, when she, the very life - Of all my hopes, is gone.’ - - Then fell his tears; his hands were clasped, - And moanings of despair - Burst from his heart, his blade he grasped - To still the conflict there. - - But why inactive did he stand? - A voice unearthly rose - Out of the tomb, and stayed his hand - Till on the hilt it froze. - - Like hollow gusts in winter drear, - That sound, appalling, came - So deep and sudden o’er his ear, - It deathlike thrilled his frame. - - —‘Live, cavalier, though I no more - Survive, let life be thine, - Since for my crime the stroke I bore - The fault alone was mine. - - ‘Cold horror dwells beneath this stone, - And all I knew above - Of glowing life from me is gone, - Except remorse and love. - - ‘The arms shall clasp thy neck no more - Whose shape thou oft hast praised, - The eyes with earth are covered o’er— - That kindly on thee gazed. - - ‘The mouth whose lips did revel free - On thine, is senseless now; - But that fond heart which beat for thee - Death cannot chill its glow. - - ‘Live, live, Sir Knight; a soul like thine - To honour should aspire; - Oh! learn to be, from fate like mine, - A husband and a sire. - - ‘And name the maiden after me - Whose heart shall thee adore: - Than I, more faultless she may be, - But cannot love thee more. - - ‘And oh! instruct her daughters young - That love may never sway - Their hearts to ill—think how I flung - For thee my life away.’ - - - - -III - -NOITE DE SAN’JOÃO - - -Este romance é e não é da minha simples composição. Estavam-me na saudosa -memoria as vagas reminiscencias d’aquelles cantares tam graciosos com -que, na minha infancia, ouvia o povo do Minho festejar a abençoada -noite de San’João; estavam-me as fogueiras e as alcachofas de Lisboa a -arder tambem na imaginação; e eu era muito longe de Portugal, e muito -esperançado de me ver n’elle cedo: aqui está como e quando fiz ésta -cantiga. - -Foi em San’Miguel, as antenas dos nossos navios ja levantadas para sahir -a expedição;—soltámo-las ao vento d’ahi a horas... Isto escrevia-se -na quinta do meu velho amigo, o Sr. José Leite, cavalheiro dos mais -distinctos, e velho o mais amavel que produziu o archipelago dos Açores. - -Tambem alli estavam, para inspirar o poeta, uns olhos pretos de quinze -annos, que promettiam arder ainda tanta noite de San’João, fazer queimar -tanta alcachofa por sua conta!... Ja os cubriu a terra. - -Faz hoje dez annos que aquillo foi; e ainda não invelheci bastante para o -esquecer. - -O romance é tam feito dos ditos e cantares do povo, que nem uma idea nem -talvez um verso inteiro tenha que seja bem e todo meu. Por este motivo, -principalmente, lhe dei logar aqui. - -Lisboa, 23 de Junho 1842. - - * * * * * - -Na collecção ja citada, a LUSITANIA ILLUSTRATA, part. II, pelo Sr. J. -Adamson appareceu a traducção ingleza d’este romance, que vai transcripta -no appendice ao LIVRO II do presente ROMANCEIRO. - -Sabe-se tambem de uma versão em Italiano, e de outra em Allemão, que não -chegámos a ver ainda. - - Abril, 16—1853. - - OS EDITORES. - - -NOITE DE SAN’JOÃO - - Té os moiros da Moirama - Festejam a San’João: - San’João, San’João, San’João! - Dae-me peras do vosso balcão. - - CANTIG. POPUL. - - -I - - —‘Meia noite já é dada, - San’João, meu San’João, - N’esta noite abençoada - Ouvi a minha oração! - - ‘Ouvi-me, sancto bemditto, - Ouvi a minha oração, - Com ser eu moira nascida - E vós um sancto christão: - - ‘Que eu ja deixei a Mafoma - E a sua lei do alkorão, - E só quero a vós, meu sancto, - Sancto do meu Dom João. - - -II - - ‘Como eu queimo ésta alcachofa - Em vossa fogueira benta, - Amor queime a saudade - Que no peito me rebenta. - - ‘Como arde esta alcachofa - Na vossa fogueira benta, - Assim arda a negra barba - Do moiro que me atormenta. - - ‘Como ésta fogueira abrasa - A minha alcachofa benta, - Ao meu cavalleiro abrase - A chamma de amor violenta. - - -III - - ‘Sacudi do alto do ceo - Vossa capella de flores, - Que n’este ramo queimado - Renasçam por meus amores. - - Orvalhadas milagrosas - Que saram de tantas dores, - N’este coração, meu sancto, - Acalmem os meus ardores. - - San’João, meu San’João, - Sancto de tantos primores, - N’esta noite abençoada, - Oh! trazei-me os meus amores!’ - - -IV - - Ja se apagava a fogueira, - Ja se acabava a oração, - Ainda está de joelhos - A moira no seu balcão. - - Os olhos tinha alongados, - Batia-lhe o coração: - Muita fe tem aquella alma, - Grande é sua devoção! - - Ouviu-a o sancto bemditto: - Que, por sua intercessão, - D’aquelle extasi acordava - Nos braços de Dom João. - - - - -IV - -O ANJO E A PRINCEZA - - -O célebre êrro commettido pelos Settenta na traducção do _v._ 2 do cap. -VI do GENESIS deu um poema inteiro a Thomaz Moore, ‘_Os Amores dos -Anjos_—The Loves of the Angels’ E d’este partiu o pallido reflexo da -‘Chute d’un Ange’ que apenas animam as bellas pinturas de paizagem feitas -do vivo e natural, e como de mão que as copiou nos proprios sitios: em -tudo o mais o poema de Lamartine é inferior ao do Anacreonte d’Irlanda. - -Hoje lêmos na Vulgata:—‘Videntes filii Dei filias hominum quod essent -pulchrae, acceperunt sibi uxores ex omnibus quas elegerant. - -O Padre Antonio Pereira verteu:—‘Vendo os filhos de Deus, que as filhas -dos homens eram fermosas, tomárão por suas mulheres as que d’entrellas -lhes agradárão mais.’ - -O Padre João Ferreira d’Almeida assim:—‘Viram os filhos de Deus que as -filhas dos homens eram fermosas, e tomaram para si mulheres de todas as -que escolheram.’ - -Mas os Settenta não tinham intendido assim o texto hebraico, e em -vez de—_filhos de Deus_, traduziram—_anjos de Deus_ (_οἰ Αγγελοι του -Θεου_); êrro, que ajudado pelos commentos poeticos de Philon, e pelas -ficções do apocrypho livro de Enoch, accendeu as imaginações meio pagans -de Tertuliano, de Lactancio, e até de San’Clemente-Alexandrino. Seja -ditto com o devido respeito a estes Padres da Egreja: nem Hesiodo nem -Ovidio estenderam fábula alguma do polytheismo por maiores desvarios do -que elles poetizaram acêrca d’esta ficção. Rejeitou-a todavia a maior -parte dos Sanctos Padres. Deplorou-a como absurdo San’João Chrysostomo, -stigmatizou-a de loucura San’Cyrillo. Segundo elles as palavras—_filhos -de Deus_—querem dizer:—os _descendentes de Seth por Enos_, porque -foram os primeiros que invocaram o nome do Senhor. Assim por estoutras -palavras—_as filhas dos homens_—devemos intender:—_as filhas da corrupta -raça de Cain_. É opinião seguida sem disputa, na egreja catholica e em -quasi todas as outras, desde Sancto Thomaz até hoje. - -O TARGUM DE ONKELOS, que é a mais antiga das paraphrases chaldaicas, e a -versão de Symacho traduziram—_os filhos dos nobres ou grandes_; a versão -samaritana diz—_os filhos dos juizes_. - -E parece que a palavra hebraica, _Elohim_, admitte todas éstas tam -desvairadas interpretações. - -Seja como for, d’aquelle desvio de texto e de imaginação nasceu muita -poesia para os escriptores mysticos dos judeus e dos christãos primitivos -e dos gnosticos e de todas essas seitas do Oriente, e porfim, em nossos -dias, para os poemas de dois vates, ambos christianissimos hoje, ambos -eminentemente catholicos—o francez talvez agora um tanto menos,—o -inglez muito mais, principalmente depois d’essa ultima sua obra -philologo-orthodoxa. - -Eu porêm não quiz fazer mais do que uma ‘lenda-romance’ como a comporia -um menestrel da edade-media em cujas coplas os donairosos sonhos da -mythologia, assim como os severos mysterios da crença, tomavam sempre -os habitos sociaes do seu tempo. Jupiter era Dom Jupiter, rei de coroa -na cabeça e barbas até á cinta, rodeado de condes e de pagens, servido -por nobres donzellas de espartilho e toucas altas; San’Miguel e o -proprio Lucifer dois cavalleiros de lança em punho e escudo imbraçado, -justando em mui leal batalha n’essas nuvens, com Legiões e Potestades -por mantenedores do campo;—o Olympo era um castello feudal, e o ceo uma -roca-forte. Em summa, sem princezas e cavalleiros não havia poesia para -elles, nem a podia haver, porque essa era a vida que elles conheciam, o -bello e sublime da vida que concebiam. - -Por isto o tom biblico d’esta lenda ou legenda necessariamente é -modificado e predominado do ar cavalheresco ou romantico, proprio de um -cultor da Gaya-Sciencia. Veja-se no Cancioneiro de Rezende como, ainda -no seculo XV, o nosso João Rodrigues de-Sa-e-Menezes traduzia—não tanto -do latim para portuguez, quanto do romano para romance, a epistola de -Laodamia. Veja-se como o proprio Sá-de-Miranda na egloga IV reconta as -classicas aventuras de Cupido e Psychis,—verdadeira fonte tambem da muito -romantica e trovada historia da carochinha, _A Bella e a Fera_, que toda -a gente sabe—ou soube quando era pequeno. - -O fio da minha legenda é muito singelo. Era uma vez a filha de um rei, -môça, linda, e unica herdeira do throno. Fugia das diversões e grandezas -da côrte para se intregar á meditação na soledade. Adoece mortalmente -emquanto el-rei seu pae anda á guerra. Volta elle triumphante e vem-n’a -achar na derradeira agonia. O seu mal não o intendem os physicos. -Lembra-lhes se será alguma secreta paixão d’amor. Elrei está prompto -a tomar para genro seja quem for, comtanto que lhe viva a filha. Nem -assim. Morre a pobre da princeza, e morre de mal d’amores. Mas como -não havia de ser, se a sua fatal paixão é por um espirito—um gnomo, um -sylpho, um anjo—quem sabe o quê!—talvez outro Bertrand que se apoderou -d’esta Rosalia.—Ao menos, escapámos de segundo Roberto-do-diabo, porque a -boa da infanta era de consciencia, e morreu antes d’isso. - -E d’ahi, quem sabe? seria anjo bom o que ella amava. Segundo -San’Basilio, _de vera virginitate_, não póde ser; segundo Tertuliano e -San’Clemente-Alexandrino ja se viu que podia ser. - -Campolide, 5 d’Outubro 1842. - - -Á ILLUSTRISSIMA E EXCELLENTISSIMA SENHORA MARQUEZA DE FRONTEIRA - -Ésta lenda-romance foi escripta no seu album, Minha-Senhora, para cumprir -uma promessa feita ha tanto tempo, e por cujo desimpenho tam retardado V. -Ex.ª teve a bondade de nunca ralhar commigo. Dedico-lh’a agora que sai -impressa; e é a primeira vez na vida que offereço versos ou prosas minhas -a pessoa que podesse imaginar devê-lo á sua qualidade e grandeza. Será -provavelmente a última, emquanto não fizer mais proselytos e imitadores -o espirito verdadeiramente nobre e as maneiras verdadeiramente fidalgas -que me obrigam a quebrar n’esta occasião o meu proposito tam firme e tam -necessario n’esta terra. - - De V. Ex.ª - - Criado e fiel captivo - - ALMEIDA-GARRETT - - Campolide, 20 de Outubro 1842. - - -O ANJO E A PRINCEZA - - ... Waft me hence to thy own sphere, - Thy heaven or—ay, even _that_ with thee. - - MOORE, LOVES OF THE ANGELS. - - Oh que choros vão no paço - Oh que luttos, que tristeza! - Morre, morre a cada instante - A nossa linda princeza. - - Os physicos não se intendem, - Vão-se uns e outros vêem; - Mas o mal que ella padece - Não lh’o descobre ninguem. - - Nos olhos que se lhe inturvam, - Ja treme a luz derradeira. - Resa o officio da agonia - Negro monge á cabeceira. - - Se inda chegará a tempo - D’essas guerras d’além-mar - O bom do rei, que inda possa - A sua filha abraçar! - - A filha que elle ama tanto, - Unica filha querida, - A menina dos seus olhos, - Bordão da cansada vida! - - Pois chegou. Tanto captivo, - Tanto despôjo que traz!... - Com victorias o inganava - Fortuna, que acinte o faz. - - Pelas portas de palacio - O real cortêjo entrava, - Olha o rei a um lado e outro, - Nem uma voz o acclamava... - - Pela filha, que não via, - Não se atreve a perguntar, - Mas ao quarto da princeza - Foi direito sem parar: - - —‘Minha filha, minha filha! - Que tens tu, filha querida?’ - E ella abria os olhos turvos - Que ja não teem quasi vida... - - ‘Ametade do meu reino, - Da minha c’roa real, - A quem salvar a princeza, - Quem acertar c’o este mal.’ - - A éstas palavras do pae - Meneia a pallida frente, - Como quem diz:—‘Não o entendem, - Nem cura o meu mal consente.’ - - —‘São pezares... não se sabe...’ - Responde o physico-mor, - ‘Outro mal lhe não descubro... - Só se for o mal d’amor.’ - - Um rubor desfallecido - Assomou na face lenta - Que já do suor da morte - Se cobria macilenta. - - Os olhos, que no pae tinha - Cravados desde que o viu, - Com mostras de pêjo e medo - Para a terra os descahiu. - - —‘Não tenhas, filha, receio, - Levanta os olhos, querida; - Seja quem for, será teu: - Jurei-o por tua vida. - - ‘Seja elle ou ricco ou pobre, - Seja fidalgo ou peão, - Desde já por genro o tómo, - E aqui lhe dou tua mão.’ - - Como quem o último esfôrço - De doce mágoa fazia, - Com ineffavel brandura - Os olhos ao pae erguia; - - Suave, longo suspiro - D’entre os labios lhe fugiu... - Era a vida que passava, - Que sem dor se despediu. - - Foram para a amortalhar, - No peito um signal lhe achavam - De letras que ninguem leu, - Que estranhas fórmas tomavam. - - Sette sabios são chamados - Para haver de as deciphrar: - Cada-um sette linguas sabe, - Não n’as podem soletrar. - - Só o mais velho dos sette, - Que andára na Palestina, - Disse:—‘Outras letras como éstas - Eu já vi n’uma ruina, - - ‘Junto dos cedros do Libano, - Ja meio entre a terra e os ceos, - Do tempo que ás filhas do homem - Fallavam anjos de Deus. - - ‘Mas le-las não sei nem posso: - Nem que soubesse, o fizera: - Segredos são d’outro mundo - Que, n’este, Deus não tolera.’ - - No alto d’aquelle monte - Um alto cedro nasceu; - Ou anjos o semearam, - Ou foram aves do ceo, - - Que ali cresceu de repente, - De uma noite para um dia; - E outro igual em todo o reino - Como aquelle não havia: - - Foi a noite que a princeza - Alli veio a sepultar: - Era um sitio seu querido - Donde sohia de estar, - - Aonde horas esquecidas, - Sósinha, de quando em quando, - Com as estrellas do ceo - Parecia estar fallando; - - E onde, uma noite sem lua - Que as estrellas mais brilhavam, - Houve quem visse nos ares - Umas roupas que alvejavam, - - E descer a pouco e pouco, - E aopé da infanta parar - Um vulto... visão... ou sombra... - Mas sombra de luz sem par: - - E foi desd’aquella noite - Que a não viu mais rir ninguem. - Anjo era o que lhe fallava... - Mas se de Deus... ou de quem?... - - - - -V - -O CHAPIM D’ELREI OU PARRAS VERDES - - -Foi verdadeiramente reconstruida ésta xácara dos fragmentos soltos da -composição popular antiga, como hoje se reconstruiria das pedras cahidas -de uma tôrre velha,—não exactamente o mesmo edificio, porque o cimento, e -algum inchume novo aqui ou alli, seria mister impregar—mas quasi a mesma -coisa; na fórma e nos materiaes a mesmissima. - -Vieram-me de Evora os fragmentos por intervenção do Sr. Rivara, o habil -e zeloso bibliothecario d’aquella cidade: são parte em prosa, parte em -verso, estado em que alguns d’estes fósseis se desinterram ás vezes. -Verifiquei depois que pelas vizinhanças de Lisboa se incontravam na mesma -fórma e quasi os mesmos. - -Deixei-lhe com mais seguridade o titulo de xácara que trazem muitos -outros de nossos romances populares, porque effectivamente creio que -quadra mais aos d’esta especie de narrativa que é feita dramaticamente -pelos dizeres de um e outro dos seus personagens, emquanto o poeta pouco -ou nada diz epicamente elle mesmo. - -Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as tres -especies, romance, xácara, soláo: no romance predomina a fórma epica, -conta e canta principalmente o poeta; na xácara prevalece a fórma -dramatica, diz o poeta pouco, ás vezes nada—fallam os seus personagens -muito: o soláo é mais plangente e mais lyrico, lamenta mais do que -reconta o facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás vezes, como no soláo -da Ama em Bernardim-Ribeiro, não ha senão o lamento de uma só pessoa que -vai alludindo a certos successos, mas que os não conta. - -Apezar do que levo ditto no princípio d’estas linhas, como não posso -negar que ha bastante do meu cimento no ligar e assentar das pedras -velhas, e ellas eram tam poucas e tam sôltas, escrupulisei de pôr ésta -peça no II livro do ROMANCEIRO paraque me não accusassem de macaquear as -imposturas de Macpherson ou de Fr. Bernardo de Brito. - -A anecdota, que eu deixei religiosamente como a refere o povo, parece -dever ter sido algum facto que realmente acontecesse:—como, quando -e aonde? Não pude encontrar vestigio. É o que diz o pobre do conde, -scismando: - - O chapim aqui o tenho, - O chapim bem n’o topei: - -mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do outro mundo o dito rei para -no-lo dizer. - -Lisboa, 27 de Março de 1843. - - * * * * * - -No appendice ao II livro do ROMANCEIRO achará o leitor a versão ingleza -d’esta xácara, publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA ILLUSTRADA, -part. II. - - Abril, 17—1853. - - OS EDITORES. - - -O CHAPIM D’ELREI - -OU - -PARRAS VERDES - - -I - - Verdes parras tem a vinha, - Riccas uvas n’ella achei, - Tam maduras, tão coradas... - Estão dizendo ‘comei!’ - - —‘Quero saber quem n’as guarda; - Ide, mordomo, e sabei:’ - Disse o rei ao seu mordomo. - Mas porque o dizia o rei? - - Porque viu n’aquelle monte - —E como elle o viu não sei’— - Essa donna imparedada, - Não se sabe por que lei, - - Que por seu mal é condessa, - Condessa de Valderey: - Antes ser pobre e villan, - Antes pela minha fei[17]! - - Verdes parras tem a vinha: - Uvas que lhe víra el-rei - Tam maduras, tão coradas, - Estão dizendo ‘comei!’ - - -II - - Veio o mordomo do monte: - —‘Boas novas, senhor rei! - A vinha anda bem guardada, - Mas eu sempre lá entrei. - - ‘O dono foi-se a outras terras, - Quando volverá não sei; - A porta é velha, e a porteira - Com chave de ouro a tentei. - - ‘Serve a chave á maravilha, - Tudo porfim ajustei: - Ésta noite á meia-noite - Comvosco á vendima irei.’ - - —‘Valeis um reino, mordomo, - Grandes mercês vos farei: - Ésta noite á meia-noite - Riccas uvas comerei.’ - - A vinha tem parras verdes, - Madura a uva lhe achei; - E tam madura, tam bella, - Que está dizendo ‘comei!’ - - -III - - Ao pino da meia-noite - Foi mordomo e foi o rei: - Doblas que deram á velha, - Um conto que nem eu sei. - - —‘Mordomo ficae á porta, - Á porta que eu entrarei; - Não me saltem cães na vinha - Em quanto eu vendimarei.’ - - A porteira o que lhe importa - É a dá-me que te darei... - No camarim da condessa - Veis agora entrar o rei. - - Levava um candil acceso; - Era de prata, sabei: - Não ha senão prata e oiro - Na casa de Valderey. - - Da vinha as parras são verdes - As uvas maduras sei, - São tão coradas, tão bellas... - D’ellas—quando comerei! - - -IV - - No camarim da condessa - Tudo andava á mesma lei, - Era o ceo d’aquelle anjo: - Que mais vos diga não sei. - - Riccas sedas de Millão, - Toalhas de Courteney... - Tremia o rei—se era susto, - Se era de gôsto não sei. - - Cortinas de seda verde - Vai ergo não erguerei... - Tal clarão lhe deu na vista, - Como não cahiu não sei. - - Era uma tal formosura... - Ora que mais vos direi? - Outro primor como aquelle - Não vistes nem eu verei. - - Verdes parras tem a vinha, - Riccas uvas lhe avistei, - Tam formosas, tam maduras, - Estão dizendo ‘comei!’ - - -V - - Dormia tam descançada - Como eu no ceo dormirei - Quando for tam innocente... - Jesus! se eu lá chegarei! - - De joelhos toda a noite - Alli fica o bom do rei, - Pasmado a olhar para ella - Sem bulir nem mão nem pei[18]. - - E dizia:—‘Senhor Deus! - Perdoae-me o que já pequei, - Mas este anjo de innocencia - Não sou eu que offenderei. - - Tem verdes parras a vinha; - Lindas uvas que eu lhe achei, - Tenho medo que me travem... - D’ellas, ai! não comerei. - - -VI - - Ja vinha arraiando o dia, - E elle, como vos contei, - Ouve apitar o mordomo... - —‘Jesus, senhor, me valei!’ - - Era o signal ajustado - —Vindo o conde, apitarei— - Deixou cahir as cortinas - Dizendo:—‘Não vendimei!’ - - Lindas parras tem a vinha, - Bellas uvas n’ella achei; - Mas doeu-me a consciencia, - Das uvas não comerei. - - -VII - - Deita a correr com tal pressa - Que voava o bom do rei: - —‘Ai que perdi um chapim...’ - —‘Tomae, que um meu vos darei: - - ‘Mas nem um instante mais, - Que o conde ja avistei - Descendo d’aquella altura; - Se nos colherá não sei...’ - - Era o medo do mordomo: - Outro era o medo do rei. - Qual d’elles tinha razão - Agora vo-lo direi. - - Parras verdes viu na vinha, - Uvas maduras de lei; - Foi travo da consciencia, - Diz:—‘D’ellas não comerei.’ - - -VIII - - Chega o conde á sua tôrre, - O conde de Valderey, - Topou n’um chapim bordado... - Como ficou não direi. - - Vai-se ao quarto da condessa: - —‘Morrerá, mattá-la-hei.’ - Viu-a dormir tão serena: - —‘Jesus! não sei que farei!’ - - Corre a casa ao derredor: - —‘Deus me tenha em sua lei, - Que ou ésta mulher é bruxa - Ou eu c’o chapim sonhei! - - ‘O chapim aqui o tenho, - O chapim bem n’o topei... - Mas que durma assim tão manso - Quem tal fez, não n’o crerei.’ - - Entrou a scismar n’aquillo: - —‘Valha-me Deus! que farei? - Por menos fica homem doudo; - E eu como o não ficarei?’ - - Minha vinha tão guardada! - Uvas que n’ella deixei - Não é fructa que se conte... - Da que me falta não sei.’ - - -IX - - Foi-se fechar no mais alto - Da tôrre de Valderey: - —‘Não quero comer do pão, - Nem do vinho beberei; - - ‘Minhas barbas e cabellos - Tambem mais os não farei, - Que ésta verdade não saiba - D’aqui me não tirarei.’ - - - Verdes parras d’essa vinha, - Uvas que eu não comerei, - Ficae-vos sêccas embora, - Que eu já’gora—morrerei. - - -X - - Por tres dias e tres noites - Que se guarda aquella lei; - Clama a triste da condessa: - —‘Ao seu mal que lhe farei!’ - - De quem foi ella valer-se? - Agora vo-lo direi. - Foi lastimar-se a innocente... - Onde iria?—ao proprio rei. - - —‘Ide, condessa, ide embora, - Que eu remedio lhe darei; - O segredo do seu mal - Sei-o eu... Se o saberei? - - ‘Palavra de cavalleiro - Em lealdade vos darei, - Que ou elle hade ser quem era, - Ou eu, quem sou, não serei.’ - - As verdes parras da vinha, - As uvas que eu cubicei, - Ellas a travar-me n’alma... - E mais d’ellas não provei! - - -XI - - Fôra d’alli a condessa, - Não tardou em ir o rei: - —‘Quero ouvir o que elles dizem, - A ésta porta escutarei.’ - - Ouviu uma voz celeste - Como tal nunca ouvirei, - Cantando em doce toada - Este triste vireley: - - —‘Já fui vinha bem cuidada, - Bem querida, bem trattada: - Como eu medrei! - Ora não sou nem serei: - O porquê não sei - Nem n’o saberei!’ - - Com as lagrimas nos olhos - Foi d’alli o bom do rei: - —‘Oiçamos agora o outro, - E o que sabe, saberei!’ - - —‘Minha vinha tam guardada! - Quando n’ella entrei - Rastos do ladrão achei; - Se me elle roubou não sei: - Como o saberei?’ - - Era o conde a lastimar-se. - Surrindo dizia o rei - (Se era de si ou do conde - Que elle se ria não sei): - - —‘Eu fui que na vinha entrei, - Rastos de ladrão deixei, - Parras verdes levantei, - Uvas bellas - N’ellas—vi: - E assim Deus me salve a mi - Como d’ellas - Não comi!’ - - -XII - - A porta tinha uma fresta: - Tirou o chapim do pei[19], - Atirou-lh’o para dentro, - Disse-lhe:—‘Vêde e sabei.’ - - Do mais que alli succedeu - Para que vos contarei? - O conde soube a verdade, - E o rei soube—ser rei. - - Verdes parras tem a vinha, - Riccas uvas lá deixei: - Quem m’a guardou foi o medo... - De Deus e da sua lei. - - - - -VI - -ROSALINDA - - -É verdadeiramente sublime, tem toda a frescura viçosa das imagens da -poesia primitiva, a com que termina este romance. Tudo o que ha de -asqueroso n’uma sepultura desapparece do tumulo em que amor desfolhou -os seus goivos: alli não ha corrupção nem vermes: uma bella árvore, um -rosal florido reproduzem em ‘novas e mudadas fórmas’ os corpos de dois -amantes. A vida não acabou, mudou só; e nem mudou tanto, que a vegetal -seiva d’esses ramos não ferva ainda do mesmo ardor que ja animou aquelle -sangue. Tendem umas para as outras as apaixonadas vergonteas; cortam-n’as -e ellas recrescem, e vão-se abraçar como duas palmeiras namoradas. - -Sente-se aqui o BELLO, sente-o qualquer porque é bello devéras. Assim -se popularizou ésta imagem e fez a volta da Europa, que a achâmos -nos romances e soláos de quantos povos entraram na grande communhão -romano-celtica, romano-theutonica, ou celto-theutonica:—talvez seja o -modo mais exacto de dizer, este último. - -O romance _Prence Robert_, publicado por Sir Walter Scott, da tradição -oral das raias d’Escocia[20], remata com éstas coplas: - - The tane was buried in Marie’s kirk - The tother in Marie’s quair; - And out o’the tane there spring a birk, - And out o’the tother a brier. - - And thae twa met, and thae twa plat, - The birk but and the brier; - And by that ye may very weel ken - They were twa lovers dear. - -Cito éstas coplas escocezas por serem as que mais se parecem com -as do nosso romance: ha muitos outros parallelismos, mais ou menos -approximados, nos romanceiros e cancioneiros de quasi todas as linguas. -Não é possivel descubrir hoje onde nasceu a idea original; no portuguez -é onde ella está mais lindamente expressada e com mais ‘sentimento.’ -Na famosa historia de Dom Tristam, apontada a este proposito por Sir W. -Scott, occorre a mesma imagem. - -‘_Ores veitil que de la tumbe de Tristam yssait une belle ronce verte -et feuilleuse, qui aleoit par la chapelle, et dêscendoit le bout de la -ronce sur la tumbe d’Isseult, et entroit dedans._’ Tres vezes cortaram a -milagrosa planta, mas, continúa o bom do historiador, Rusticien de Puise, -‘_le lendemain estoit aussi belle comme elle avoit cydevant été, et ce -miracle estoit sur Tristam et sur Ysseult à tout jamais advenir_.’ - -É um ponto luminoso para as indagações philologicas na historia das -linguas modernas—ou da sua poesia, que é a mesma coisa. É para mais -ainda; porque a historia do homem, por aqui a hade começar a estudar quem -verdadeiramente a quizer saber. - -Eu fiz este romance de tres fragmentos diversos, tam fragmentos que -nenhum d’elles per si se intendia bem. O primeiro appareceu-me inserido -no de Eginaldo, Reginaldo—ou Girinaldo, como diz em muitas partes o -povo. O segundo e terceiro involtos com o de Claralinda ou Clara-lindes, -que os castelhanos chamam _Clara-niña_, e ao romance o do conde Claros. - -No logar competente do cancioneiro darei esses romances que hoje tenho -restituidos pela collação de outros fragmentos e de melhores cópias que -depois me vieram[21]. - -Campolide, 8 de Setembro 1843. - - * * * * * - -Tambem na LUSITANIA ILLUSTRATA vem a traducção ingleza d’este romance que -vai copiada no appendice á II parte do LIVRO II do nosso ROMANCEIRO. - -Aqui damos agora o bello estudo e versão franceza de M. Edouard Fournier -sôbre a Rosalinda, que se publicou em Paris em 1852. - - Abril, 16-1853. - - OS EDITORES. - - -ROSALINDA - - Era por manhã de maio, - Quando as aves a piar, - As árvores e as flores, - Tudo se anda a namorar; - - Era por manhã de maio, - Á fresca riba de mar, - Quando a infanta Rosalinda - Alli se estava a toucar. - - Trazem das flores vermelhas, - Das brancas para a infeitar; - Tam lindas flores como ella - Não n’as poderam achar: - - Que é Rosalinda mais linda - Que a rosa, que o nenuphar, - Mais pura que a açucena - Que a manhan abre a chorar. - - Passava o conde almirante - Na sua galé do mar; - Tantos remos tem por banda - Que se não podem contar; - - Captivos que a vão remando - A Moirama os foi tomar; - D’elles são grandes senhores, - D’elles de sangue real: - - Que não ha moiro seguro - Entre Ceuta e Gibraltar - Mal sai o conde almirante - Na sua galé do mar. - - Oh que tam linda galera, - Que tam certo é seu remar! - Mais lindo capitão leva, - Mais certo no marear. - - —‘Dizei-me, o conde almirante - Da vossa galé do mar, - Se os captivos que tomais - Todos los fazeis remar?’ - - —‘Dizei-me, a bella infanta, - Linda rosa sem egual, - Se os escravos que lá tendes - Todos vos sabem toucar?’ - - —‘Cortez sois, Dom Almirante: - Sem responder, perguntar!’ - —‘Responder, responderei, - Mas não vos heisde infadar: - - ‘Captivos tenho de todos, - Mais bastos que um aduar; - Uns que mareiam as velas, - Outros no banco a remar: - - ‘As captivas que são lindas - Na poppa vão a dançar, - Tecendo alfombras de flores - Para o senhor se deitar.’ - - —‘Respondeis, respondo eu, - Que é boa lei de pagar: - Tenho escravos para tudo, - Que fazem o meu mandar; - - ‘D’elles para me vestir, - D’elles para me toucar... - Para um só tenho outro imprêgo, - Mas está por captivar... - - —‘Captivo está, tam captivo - Que se não quer resgatar. - Rema, a terra a terra, moiros, - Voga certo, e a varar!’ - - Ja se foi a Rosalinda - Com o almirante a folgar: - Fazem sombra as larangeiras, - Goivos lhe dão cabeçal. - - Mas fortuna, que não deixa - A nenhum bem sem dezar, - Faz que um monteiro d’elrei - Por alli venha a passar. - - —‘Oh monteiro, do que viste, - Monteiro, não vás contar: - Dou-te tantas bolsas de oiro - Quantas tu possas levar.’ - - Tudo o que viu o monteiro - A elrei o foi contar, - A casa da estudaria - Onde elrei stava a estudar. - - —‘Se á puridade o disseras, - Tença te havia de dar: - Quem taes novas dá tam alto, - Alto hade ir... a inforcar. - - ‘Arma, arma, meus archeiros - Sem charamellas tocar! - Cavalleiros e piões, - Tudo á tapada a cercar.’ - - Inda não é meio dia, - Começa a campa a dobrar; - Inda não é meia noite, - Vão ambos a degollar. - - Ao toque de ave-marias - Foram ambos a interrar: - A infanta no altar mor, - Elle á porta principal. - - Na cova da Rosalinda - Nasce uma árvore real, - E na cova do almirante - Nasceu um lindo rosal. - - Elrei, assim que tal soube, - Mandou-os logo cortar, - E que os fizessem em lenha - Para no lume queimar. - - Cortados e recortados, - Tornavam a rebentar: - E o vento que os incostava, - E elles iam-se abraçar. - - Elrei, quando tal ouviu, - Nunca mais pôde fallar; - A rainha, que tal soube, - Cahia logo mortal. - - —‘Não me chamem mais rainha, - Rainha de Portugal... - Apartei dous innocentes - Que Deus queria juntar!’ - - -ÉTUDES SUR LA ROSALINDA - -Les rapports entre la littérature française et la littérature portugaise, -au moyen-âge, furent plus grands et plus directs que l’éloignement des -deux pays ne le donnerait à penser. M. Raynouard a été des premiers à -le remarquer; il ne s’est même pas borné à une simple constatation du -fait, il l’a appuyé de toutes sortes de preuves. Afin même de montrer -complètement combien la langue portugaise se rapprochait de la langue -romane, il a été jusqu’à traduire dans la langue des troubadours, une -petite pièce du Camoëns[22]. Épreuve triomphante! car à quelques syllabes -près, les deux pièces, l’original et la traduction, se sont trouvés les -mêmes. Il n’y a pas plus complète identité contre les _Noei_ en patois -bourguignon et la très facile traduction française que tout le monde peut -en faire. Qu’on en juge par la seconde des deux strophes: - - PORTUGAIS LANGUE DES TROUBADOURS - - Melhor deve ser Melhor deu esser - N’este aventurar En est aventurar - Ver e não guardar Vezer e no guardar - Que guardar e ver. Que guardar e vezer. - Ver e defender Vezer e defender - Muito bom seria, Molt bon seria, - Mas quem poderia? Mas qui poiria? - -Dans tout cela, je le répète, il n’y a pas une syllabe qui ne soit sœur -de celle qui la traduit. - -Les mots qui servaient à designer les diverses sortes de pièces de poésie -étaient les mêmes pour les poëtes portugais et pour les poëtes de la -langue romane. Ceux-ci, par exemple, avaient le _lai_ qui correspondait -directement au _leod_ allemand et au _laoi_ des Irlandais; ceux-là, -Portugais et Espagnols, avaient le _loa_. La même chose sous le même -mot. Une autre espèce de poëme s’appelait _dict_ chez les trouvères, et -les Portugais le connaissaient aussi sous un nom presque pareil. Dans la -_Carta del marquès de Santillana_, se lit cette phrase par laquelle se -trouvent indiqués ces _dicts_ en langue portugaise: ‘Cantigas serranas, -e _dicires_ Portugueses e Gallegos.’ Pour exprimer la rime dans toute -sa primitivité native, mais mélodieuse, nous avions le mot _assonnance_ -qui est resté, et le verbe _assonner_ qui n’a malheureusement pas eu -le même sort. Les Espagnols et les Portugais avaient de même le verbe -_asonar_ qu’ils étendaient jusqu’au sens de l’expression ‘_mettre en -musique_[23].’ Enfin, il n’est pas jusqu’au mot _troubadour_ qui ne -se retrouve à peine modifié dans la langue portugaise. Tantôt c’est -_trobar_, tantôt c’est _trobador_. Le premier de ces mots se trouve dans -ce vers des _Fragmentos de hum Cancioneiro inedito_[24]: - - Et por que m’ora quitey de trobar, - -et le second, aux fol. 91 et 101 du même recueil. - -Ces similitudes ne se retrouvent pas seulement dans les idiomes, mais -encore dans le génie des deux nations. On voit par les œuvres qu’ont -laissées leurs poëtes que toutes deux puisent aux mêmes sources et -se renvoient mutuellement l’inspiration. Mais elle vient surtout des -troubadours, il faut bien le dire; et quand nous avons appris que le -roi de Portugal Diniz prit pour maître en l’art des vers le troubadour -de Cahors, Aymeric d’Ebrard, qui lui apprit à faire même des vers -provençaux, et qui reçut en récompense l’archevêché de Lisbonne où il -fonda la fameuse université transportée en 1308 à Coïmbre; nous n’avons -pas été surpris. À cette époque déjà, tous les bons maîtres venaient de -France. - -Pour preuve de la communauté d’inspiration des poëtes portugais et des -troubadours, nous citerons deux exemples. Une chanson portugaise que -nous lisons au fol. 78 du recueil rarissime cité tout-à-l’heure sera le -premier. On la trouva ainsi traduite dans les _Prolégomènes de l’Histoire -de la Poésie scandinave_, par M. Edelestand Du Méril[25]. - - ‘Par Dieu! ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour - vous. - - ‘Vous me semblez si belle, ô dame, que jamais je n’en vis - d’aussi belle et je vous dis une grande vérité, telle que je - n’en sais pas de plus vraie. Par Dieu, ô dame Léonor, notre - Seigneur fut bien prodigue pour vous. - - ‘Et Dieu, qui vous tient en sa puissance, vous combla si - généreusement de ses dons, qu’il n’est rien au monde qui puisse - ajouter à votre mérite. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur - fut bien prodigue pour vous. - - ‘En vous créant, Madame, sa puissance montra tout ce qu’il - était capable de réunir en une dame de mérite, de beauté et - d’esprit. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien - prodigue pour vous. - - ‘Comme brille le bon rubis au milieu des perles, vous brillez - entre toutes celles que j’ai jamais vues, et c’est pour moi qui - suis épris de tant d’amour que Dieu vous a créée. Par Dieu, - dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.’ - -Notre second exemple será ce chant charmant de la Rosalinda. M. de -Almeida-Garrett, avec ce tact exquis et cet haut goût archéologique qui -le placent à la tête des poëtes les mieux inspirés et en même temps les -plus érudits du Portugal, a retrouvé dans les vieilles traditions du -peuple lusitain, et reconstruit d’après trois différents fragments, les -meilleures variantes de ce chant depuis si longtemps populaire. Le poëte -se trouve à chaque vers de cette chanson telle qu’il l’a rétablie, et -l’érudit à chaque ligne de l’introduction historique dont il l’a fait -précéder. Jamais en n’a mieux prouvé que dans cette préface savante, -les rapports poétiques qui existèrent au moyen-âge entre les races du -midi et celles du nort. Où M. Garrett trouve-t-il, en effet, le premier -germe de la poétique image qui couronne la ballade portugaise? Dans -les chants écossais, dans la romance du _Prince Robert_, telle que la -tradition orale l’avait transmise a Walter-Scott pour son _Minstrelsy of -the scottish border_ etc.[26]; ou bien encore dans cette fameuse histoire -de Tristam et de la belle Iseult, par Rusticien de Puise, dont il cite, -d’après Walter-Scott, de trop courts fragments... - -Ces détails miraculeux de l’histoire d’Iseult se retrouvent dans les -dernières strophes de la _Rosalinda_[27]. On le verra, du reste, par -la traduction complète que nous en avons tentée. Elle est en vers -souvent inélégants et mal rimés, mais exacts, je crois, et serrant du -plus près qu’il est possible la strophe portugaise, bien que dans un -rhythme différent. Pour nous excuser des rimes insuffisantes et des mots -vieillis, nous dirons que s’ils sont de mise quelque part, c’est dans -un chant populaire, et nous alléguerons, à qui ne nous le pardonnerait -pas, l’enthousiasme du morose Alceste pour cette vieille chanson du _roi -Henri_, qui cependant est pleine de ces mêmes défauts. Ce qu’il dit pour -les excuser devra nous justifier nous-même, et c’est l’un des vers que -Molière lui prête que nous servira d’épigraphe. - - -ROSALINDA - -BALLADE PORTUGAISE - - La rime n’est pas riche et le style en est vieux[28] - - MOLIÈRE, _Misanthrope_. - - C’était un matin de mai, - Quand l’oiseau dans la nuée, - L’arbre au bois, la fleur au pré, - Chantent l’amour réveillée. - - C’était un matin de mai, - Quand Rosalinda l’infante - Sur le rivage embaumé - Peignait sa tête charmante. - - Blanches fleurs on lui portait, - Rouges fleurs avec leur branche: - Mais en grâce elle passait - Et la fleur rouge et la blanche. - - Mieux que celle des épis, - Mieux que la rose nouvelle, - Le nénuphar et le lis - La belle infante était belle. - - Le comte amiral passait - Avec sa galère sombre - Mainte rame s’y pressait - Tant, qu’on n’en sait pas le nombre. - - Les captifs ses noirs rameurs - Il les prit au pays More. - Tous, ils sont de grands seigneurs, - Ou du sang royal encore. - - Depois Ceuta, pas un port - Qui ne redoute la guerre - Quand le comte amiral sort - Avec sa noire galère. - - Voyez, comme elle fend l’eau, - Comme on y rame em mesure! - Que son capitaine est beau, - Que sa main est forte et sûre! - - —‘Dites moi, comte amiral, - Pour ces captifs, votre prise, - Le labeur, est-il égal? - Rament-ils tous, sous la brise? - - —‘Vous que je vois se mirer, - Belle infante, fleur d’élite, - Savent-ils, tous vous parer - Ces esclaves, votre suite?’ - - —‘L’amiral est peu galant, - Pour réponse une demande! - Qu’il parle, il se peut pourtant - Que sa réponse on lui rende.’ - - —‘Ainsi qu’un chef d’Adouar, - J’ai bien des captifs, madame, - Du travail tous ont leur part, - L’un manœuvre et l’autre rame. - - ‘Les captives au beau front - Dansent, effeuillant la rose, - Et de fleurs jonchent le pont, - Pour que leur maître y repose. - - —‘Vous répondez, je vous dois - Comte, égale politesse: - J’ai, dociles à ma voix, - Esclaves de toute espèce. - - ‘L’un est là pour m’atourner - Et cet autre me fait brave (belle). - Un emploi reste à donner, - Où manque encor un esclave... - - —‘Cet esclave il est trouvé, - Il défend qu’on le libère; - Il ne veut qu’être arrivé, - Ramez vite, allons à terre! - - Et Rosalinda partit: - Et le comte est avec elle, - Les fleurs leur prêtent un lit, - L’oranger sa verte ombelle. - - Mais le sort,—c’est là sa loi— - Ne veut qu’un bien sans mal vienne: - Là, passe un veneur du roi... - C’est ce destin qui l’amène. - - —‘De tout ce qui tu vis là, - Ne conte rien à personne, - Veneur, on te donnera - De l’or à payer un trône.’ - - Mais ce que le veneur sait, - Près du roi vite il s’en vante, - Qui dans son palais était, - Et qui pensait à l’infante. - - —‘En honneur dis chaque mot - Tu recevras récompense - Mais qui dit haut, ira haut, - C’est-à-dire à la potence.’ - - ‘Vite, archers, vite clairons, - Sonnez, comme pour combattre, - Nobles, cavaliers, piétons - Vite, allons la forêt battre.’ - - Midi n’était pas frappé - Que sonne un glas mortuaire, - Minuit n’avait pas tinté - Que leur tête était par terre. - - Quand l’Angelus vint après - Dans leur fosse on les emporte, - Elle au maître-autel, lui près - Des marches de la grand’ porte. - - Voilà qu’au premier tombeau - Nait un noble et puissant arbre, - Quand un rosier grand et beau - Pousse auprès du second marbre. - - —‘Ça qu’on les lie en fagot - Pour en faire de la cendre,’ - Cria le vieux roi, sitôt - Que la chose il put apprendre. - - Mais on eut beau les raser, - Chacun à l’envi repousse; - Même, ils semblent se baiser - Sous la bise qui les pousse. - - Au roi l’on a révélé - Cette aventure inouie. - Depuis, il n’a plus parlé; - La reine est évanoui. - - D’elle on a pu retenir - Ces mots: ‘Je ne suis plus reine! - Dieu voulait les réunir, - Nous avons rompu leur chaîne!’ - - - - -VII - -MIRAGAIA - - -É a terceira vez que se imprime o romance MIRAGAIA; só agora porêm vai -restituido ao seu devido logar n’este primeiro livro do ROMANCEIRO. -Publicou-se primeiramente no ‘Jornal das Bellas-artes[29],’ foi logo -vertido em Inglez não sei por quem, e não me lembra em que publicação -appareceu, nem o acho. - -Traduziu-o em Francez um curioso[30]; e não me metto a appreciar a que -elle modestamente chama ‘imitação’ do meu romance; dou-a em appendice. - -Tambem sei que existe uma versão castelhana pelo Sr. Isidoro Gil, o mesmo -que n’esse idioma traduzira o BERNAL-FRANCEZ. Creio que se publicou em um -jornal de Madrid, mas não a vi nunca. - -Eu, quando dei esta bagatella aos Srs. editores do ‘Jornal das -Bellas-artes’ para encherem algum vão que lhes sobrasse n’aquella sua -linda e elegante publicação, escrevi, a um canto do proprio rascunho -original que não tive paciencia de copiar, as seguintes palavras: - -‘Este romance é a verdadeira reconstrucção de um monumento antigo. -Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular, -e se cantam no meio da historia ‘rezada’ ainda hoje repettida por -velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos -tambem fabulam cada um a seu modo sôbre a legenda. O auctor, ou, mais -exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do -povo, e sôbre tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de contar e cantar -d’elle; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não póde restituir a -perdida nacionalidade á nossa litteratura.’ - -O postscriptum, servindo de nota ao commento, sahiu impresso no referido -jornal, e foi ampliado com algumas observações por extremo lisongeiras -dos Srs. editores, a quem muito desejei auxiliar como elles mereciam por -sua gentil imprêza, que era a mais bella e das mais uteis que se teem -commettido em Portugal. - -Devo ao seu favor, não só o terem adornado a minha MIRAGAIA com as lindas -gravuras em madeira que todos admiraram, mas o permittirem que se fizesse -com ellas a pequena edição em separado com que quiz brindar alguns -amigos, apaixonados, como eu, de nossas antigualhas populares. - -Era uma folha avulsa do meu ROMANCEIRO, e n’elle vai reposta agora que se -offerece tempo e logar conveniente. - -Foi das primeiras coisas d’este genero em que trabalhei: e é a mais -antiga reminiscencia de poesia popular que me ficou da infancia, porque -eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se -passam as principaes scenas d’este romance. Dos cinco aos dez annos de -edade vivi com meus paes n’uma pequena quinta, chamada ‘O Castello’ que -tinhamos áquem Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruinas que alli -jazem do castello mourisco. - -Na ermida da quinta se venerava uma imagem antiquissima de Nossa-Senhora -com a mesma invocação ‘do Castello,’ e com a sua legenda popular tambem, -segundo o costume. - -Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados -pela tradição. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é -deliciosa comeffeito; e tenho idea de me ter custado caro, outra vez, o -imitar, com uma gaita da feira de San’Miguel, os toques da bozina de S. -M. Leoneza, impoleirando-me, como elle, n’um resto de muralha velha do -castello d’elrei Alboazar: o que meu pae desapprovou com tam significante -energia, que ainda hoje me lembra tambem. - -Assim ólho para ésta pobre MIRAGAIA como para um brinco meu de criança -que me apparecesse agora; e quero-lhe—que mal ha n’isso?—quero-lhe como a -tal. Não a julguem tambem por mais, que o não vale. - -Lisboa, 24 de Janeiro 1847. - - -MIRAGAIA - - -CANTIGA PRIMEIRA - - Noite escura tam formosa, - Linda noite sem luar, - As tuas estrellas de oiro - Quem n’as poderá contar! - - Quantas folhas ha no bosque, - Areias quantas no mar?... - Em tantas lettras se escreve - O que Deus mandou guardar. - - Mas guai do homem que se fia - N’essas lettras deciphrar! - Que a ler no livro de Deus - Nem anjo póde atinar. - - Bem ledo está Dom Ramiro - Com sua dama a folgar; - Um perro bruxo judio - Foi causa de elle a roubar. - - Disse-lhe que pelos astros - Bem lhe podia affirmar - Que Zahara, a flor da belleza, - Lhe devia de tocar. - - E o rei veio de cilada - D’alêm do Doiro passar, - E furtou a linda moira, - A irman d’Alboazar. - - A Milhor, que é terra sua - E está na beira do mar, - Se acolheu com sua dama... - Do mais não sabe cuidar. - - Chora a triste da rainha, - Não se póde consolar; - Deixá-la por essa moira, - Deixá-la com tal dezar! - - E a noite é escura cerrada, - Noite negra sem luar... - Ella sósinha ao balcão - Assim se estava a queixar: - - —‘Rei Ramiro, rei Ramiro, - Rei de muito mau pezar, - Em que te errei d’alma ou corpo, - Que fiz para tal penar? - - ‘Diz que é formosa essa moira, - Que te soube infeitiçar... - Mas tu dizias-me d’antes - Que eu era bella sem par. - - ‘Que é môça, na flor da vida... - Eu, se ainda bem sei contar, - Ha tres que tinha vinte annos, - Fi-los depois de casar. - - ‘Diz que tem os olhos pretos, - D’estes que sabem mandar... - Os meus são azues, coitados! - Não sabem senão chorar. - - ‘Zahara, que é flor, lhe chamam, - A mim, Gaia... Que acertar! - Eu fiquei sem alegria, - Ella a flor não torna a achar. - - ‘Oh! quem podéra ser homem, - Vestir armas, cavalgar, - Que eu me fôra ja direita - A esse moiro Alboazar...’ - - Palavras não eram dittas, - Os olhos foi a abaixar, - Muitos vultos acercados - Ao palacio viu estar; - - —‘Peronella, Peronella, - Criada do meu mandar, - Que vultos serão aquelles - Que por alli vejo andar?’ - - Peronella não responde; - Que havia de ella fallar? - Ricas peitas de oiro e joias - A tinham feito callar. - - A rainha que se erguia - Por sua gente a bradar, - Sette moiros cavalleiros - A foram logo cercar; - - Soltam prégas de um turbante, - A bôcca lhe vão tapar: - Tres a tomaram nos braços... - Nem mais um ai pôde dar. - - Criados da sua casa - Nenhum veio a seu chamar; - Ou peitados ou captivos - Não n’a podem resgatar. - - São sette os moiros que entraram - Sette os estão a aguardar; - Não fallam nem uns nem outros... - E prestes a cavalgar! - - Só um, que de arção a toma, - Parece aos outros mandar... - Junctos junctos, certos certos, - Galopa a bom galopar! - - Toda a noite, toda a noite - Vão correndo sem cessar, - Pelos montes trote largo, - Por valles a desfilar. - - Nos ribeiros—peito n’agua, - Chape, chape, a vadear! - Nas defesas dos vallados - Up! salto—e a galgar! - - Vai o dia alvorocendo, - Estão á beira do mar, - Que rio é este tam fundo - Que n’elle vem desaguar? - - A bôcca ja tinha livre, - Mas não acerta a fallar - A pasmada da rainha... - Cuida ainda de sonhar! - - —‘Rio Doiro, rio Doiro, - Rio de mau navegar, - Dize-me, essas tuas aguas - Adonde as foste buscar; - - ‘Dir-te-hei a perola fina - Aonde eu a fui roubar. - Ribeiras correm ao rio - O rio corre a la mar, - - ‘Quem me roubou minha joia, - Sua joia lhe fui roubar...’ - O moiro que assim cantava, - Gaia que o estava a mirar... - - Quanto o mais mirares, Gaia, - Mais formoso o hasde achar. - —‘Que de barcos que alli vêem!’ - —‘Barcos que nos vêem buscar.’ - —‘Que lindo castello aquelle!’ - —‘É o do moiro Alboazar.’ - - -CANTIGA SEGUNDA - - Rei Ramiro, rei Ramiro, - Rei de muito mau pezar, - Ruins fadas te fadaram, - Má sina te foram dar. - - Do que tens não fazer conta, - O que não tens cubiçar!.. - Zahara, a flor dos teus cuidados, - Ja te não dá que pensar. - - A rainha, que era tua, - Que não soubeste guardar, - Agora morto de zelos - Do moiro a queres cobrar. - - Oh! que barcos são aquelles - Doiro acima a navegar? - A noite escura cerrada, - E elles mansinho a remar! - - Cozeram-se com a terra, - Lá se foram incostar; - Entre os ramos dos salgueiros - Mal se podem divisar. - - Um homem saltou na praia: - Onde irá n’aquelle andar? - Leva bordão e esclavina, - Nas contas vai a rezar. - - Inda a névoa tolda o rio, - O sol ja vem a rasgar, - Pela incosta do castello - Vai um romeiro a cantar: - - —‘Sanctiago de Galliza, - Longe fica o vosso altar: - Peregrino que lá chegue - Não sabe se ha de voltar.’ - - Na incosta do castello - Uma fonte está a manar; - Donzella que está na fonte - Pôs-se o romeiro a escutar. - - A donzella está na fonte, - A jarra cheia a deitar: - —‘Bemditto sejais, romeiro, - E o vosso doce cantar! - - ‘Por éstas terras de moiros - É maravilha de azar, - Ouvir cantigas tam sanctas, - Cantigas do meu criar. - - ‘Sette padres as cantavam - Á roda de um bento altar; - Outros sette respondiam - No côro do salmear, - - ‘Entre véspera e completas, - E os sinos a repicar. - Ai triste da minha vida - Que os não oiço já tocar! - - ‘E as rezas d’estes moiros - Ao démo as quizera eu dar.’ - Ouvireis ora o romeiro - Resposta que lhe foi dar: - - —‘Deus vos mantenha, donzella, - E o vosso cortez fallar: - Por éstas terras de moiros - Quem tal soubera de achar! - - ‘Por vossa tenção, donzella, - Uma reza heide rezar - Aqui aopé d’esta fonte, - Que não posso mais andar. - - ‘Oh! que fresca está a fonte, - Oh! que sêde de mattar! - Que Deus vos salve, donzella, - Se aqui me deixais sentar.’ - - —‘Sente-se o bom do romeiro, - Assente-se a descansar. - Fresca é a fonte, doce a agua, - Tem virtude singular: - - ‘D’outra não bebe a rainha - Que aqui m’a manda buscar - Por manhanzinha bem cêdo, - Antes do o sol aquentar.’ - - —‘Doce agua deve de ser, - De virtude singular: - Dae-me vós uma vez d’ella, - Que me quero consolar.’ - - —‘Beba o peregrino, beba - Por ésta fonte real, - Cântara de prata virgem, - Tem mais valor que oiro tal.’ - - —‘Dona Gaia que diria, - Que faria Alboazar - Se visse o pobre romeiro - Beber da fonte real?..’ - - —‘Inda era noite fechada - Meu senhor foi a caçar: - Maus javardos o detenham, - Que é bem ruim de aturar! - - ‘Minha senhora, coitada, - Essa não tem que fallar: - Quem ja teve fontes de oiro - Prata não sabe zelar.’ - - —‘Pois um recado, donzella, - Agora lhe heisde levar; - Que o romeiro christão. - Lhe deseja de fallar. - - ‘Da parte de um que é ja morto, - Que morreu por seu pezar, - Que á hora de sua morte - Este annel lhe quiz mandar.’ - - Tirou o annel do dedo - E na jarra o foi deitar: - —‘Quando ella beber da agua - No annel hade attentar.’ - - Foi-se d’alli a donzella, - Ia morta por fallar... - —‘Anda ca, ó Peronella, - Criada de mau mandar. - - ‘Tua ama morrendo á sêde - E tu na fonte a folgar?’ - —‘Folgar não folguei, senhora, - Mas deixei-me adormentar, - - ‘Que a moira vida que eu levo - Ja não n’a posso aturar. - Ai terra da minha terra, - Ai Milhor da beira-mar! - - ‘Aquella sim que era vida, - Aquillo que era folgar! - E em sancto temor de Deus: - Não aqui n’este peccar!’ - - —‘Cal-te, cal-te, Peronella, - Não me queiras attentar; - Que eu a viver entre moiros - Me não vim por meu gostar. - - ‘Mas ja tenho perdoado - A quem lá me foi roubar; - Que antes escrava contente, - Do que rainha a chorar. - - ‘Forte christandade aquella, - Bom era aquelle reinar! - Viver só, desamparada, - Ver a moira em meu logar!..’ - - Lembrava-lhe a sua offensa, - Está-lhe o sangue a queimar: - Na agua fria da fonte - A sêde quiz apagar. - - A fonte de prata virgem, - Á bôcca foi a levar, - As riccas pedras do annel - No fundo viu a brilhar. - - —‘Jesus seja co’a minha alma! - Feitiços me querem dar... - O fogo a arder dentro n’agua, - E ella fria de nevar!’ - - —‘Senhora, co’esses feitiços - Me tomara eu imbruxar! - Foi um bemditto romeiro - Que á fonte fui incontrar, - - ‘Que ahi deitou esse annel - Para prova singular - De um recado que vos trouxe, - Com que muito heisde folgar.’ - - —‘Venha ja esse romeiro - Que lhe quero ja fallar: - Embaixador deve ser - Quem traz presente real.’ - - -CANTIGA TERCEIRA - - —‘Por Deus vos digo, romeiro - Que vos queirais levantar; - Minhas mãos não são reliquias, - Basta de tanto bejar!’ - - O romeiro não se erguia, - As mãos não lhe quer largar: - Os bejos uns sôbre os outros, - Que era um nunca acabar. - - Ia a infadar-se a rainha, - Viu que entrava a soluçar, - E as lagrymas, quatro e quatro, - Nas mãos sentia rollar: - - —‘Que tem o bom do romeiro, - Que lhe dá tanto pezar? - Diga-me las suas penas - Se lh’as posso alliviar.’ - - —‘Minhas penas não são minhas, - Que aos mortos morre o penar; - Mas a vida que eu perdi - Em vós podia incontrar. - - ‘Minhas penas não são minhas, - Senão vossas, mal pezar! - Que uma rainha christan - Feita moira vim achar...’ - - —‘Romeiro, não tomeis cuita - Por quem se não quer cuitar: - Do que fui ja me não lembro, - O que sou não me é dezar. - - ‘Deus terá dó da minha alma, - Que meu não foi o peccar; - E a esse traidor Ramiro - As contas lhe hade tomar.’ - - —‘Pois não espereis, senhora, - Por Deus, que póde tardar: - Dom Ramiro aqui o tendes, - Mandae-o ja castigar.’ - - Em pé está Dom Ramiro, - Ja não ha que disfarçar: - Aquellas barbas tam brancas - Cahiram de um impuxar. - - O bordão e a esclavina - A terra foram parar; - Não ha ver mais gentilezas - De meneio e de trajar. - - Quem viu olhos como aquelles - Com que o ella está a mirar! - Quem passou ja transes d’alma - Como ella está a passar? - - Um tremor que não é mêdo, - Um sorriso de infiar, - Vergonha que não é pejo, - Faces que ardem sem corar... - - Tudo isso tem no semblante, - Tudo lhe está a assomar - Como ondas que vão e vêem - Na travessia do mar. - - A vingança é o prazer do homem, - Da mulher é o seu manjar: - Assim perdoa elle e vive, - Ella não—que era acabar. - - Vingar-se foi o primeiro - E o derradeiro pensar - Que entre tantos pensamentos, - Em Gaia estão a pullar: - - Logo depois a vaidade, - O gôsto de triumphar - N’um coração que foi seu, - Que seu lhe torna a voltar. - - E o rei moiro estava longe - C’os seus no monte a caçar, - Ella só n’aquella tôrre... - Prudencia e dissimular! - - Abre a bôcca a um sorriso - Doce e triste—de mattar! - Tempéra a chamma dos olhos, - Abafa-a por mais queimar. - - Pôs na voz aquelle incanto - Que, ou minta ou não, é fatal; - E com o inferno no seio, - Falla o ceo no seu fallar. - - Ja os amargos queixumes - Se imbrandecem no chorar, - E em sua propria justiça - Com arte finge affrouxar. - - Protesta a bôcca a verdade: - —‘Que não hade perdoar...’ - Mas a verdade dos labios - Os olhos querem negar. - - De joelhos Dom Ramiro - Alli se estava a humilhar, - Supplíca, roga, promette... - Ella parece hesitar. - - Senão quando, uma bozina - Se ouviu ao longe tocar... - A rainha mal podia - O seu prazer disfarçar: - - —‘Escondei-vos, Dom Ramiro, - Que é chegado Alboazar, - Depressa n’este aposento... - Ou ja me vereis mattar.’ - - Mal a chave deu tres voltas, - Na manga a foi resguardar; - Mal tirou a mão da cotta, - Que o rei moiro vinha a entrar: - - —‘Tristes novas, minha Gaia, - Novas de muito pezar! - Primeira vez em tres annos - Que me succede este azar!... - - ‘Toquei a minha bozina - Ás portas, antes de entrar, - E não correste ás ameias - Para me ver e saudar! - - ‘Muito mal fizeste, amiga, - Em tam mal me costumar; - Não sei agora o que fazes - Em me querer emendar...’ - - No coração da rainha - Batalha se estão a dar - Os mais estranhos affectos - Que nunca se hãode incontrar: - - O que foi, o que é agora... - E a ambição de reinar... - O amor que tem ao moiro, - E o gôsto de se vingar... - - Venceu amor e vingança: - Deviam de triumphar, - Que era em peito de mulher - Que a batalha se foi dar. - - ‘Novas tenho e grandes novas, - Amigo para vos dar: - Tomae ésta chave e abride, - Vereis se são de pezar.’ - - Com que ância elle abriu a porta, - Vista que foi encontrar!.. - Palavras que alli disseram, - Não n’as saberei contar: - - Que foi um bramir de ventos, - Um bater d’aguas no mar, - Um confundir ceo e terra, - Querer-se o mundo acabar. - - Vereis porfim o rei moiro - Que sentença veio a dar: - —‘Perdeste a honra, christão; - Vida, quero-t’a deixar. - - ‘De uma vez, que me roubaste, - Muito bem me fiz pagar: - D’esta basta-me a vergonha - Para de ti me vingar.’ - - Sentia-se elrei Ramiro - Do despeito devorar; - Com ar contricto e affligido - Assim lhe foi a fallar: - - —‘Grandes foram meus peccados, - Poderoso Alboazar; - E taes que a mercê da vida - De ti não posso acceitar: - - ‘Eu não vim a teu castello - Senão só por me intregar, - Para receber a morte - Que tu me quizeres dar: - - ‘Que assim me foi ordenado - Para minha alma salvar - Por um sancto confessor - A quem me fui confessar. - - ‘E mais me disse e mandou, - E assim t’o quero rogar, - Que, pois foi publica a offensa, - Público seja o penar: - - ‘Que ahi n’essa praça d’armas - Tua gente faças junctar; - Ahi deante de todos - A vida quero acabar - - ‘Tangendo n’esta bozina, - Tangendo até rebentar; - Que digam todos que isto virem, - E lhes fique de alembrar: - - «Grande foi o seu peccado, - No mundo andou a soar; - Mas a sua penitencia - Mais alto som veio a dar.» - - Quizera-lhe o bom do moiro - Por força alli perdoar; - Mas se a pêrra da rainha - Jurou de á morte o levar!... - - Veis na praça do castello, - Toda a moirama a ajunctar; - Em pé no meio da turba - Ramiro se foi alçar. - - Tange que lhe tangerás, - Toca rijo a bom tocar; - Por muitas leguas á roda - Reboava o bozinar. - - Se o ouvirão nas galés - Que deixou a beira-mar? - Decerto ouviram, que um grito - Tremendo se ouve soar... - - -CANTIGA QUARTA - - —‘Sanctiago!.. Cerra, cerra! - Sanctiago, e a mattar!’ - Abertas estão as portas - Da tôrre de par em par. - - Nem atalaias nos muros, - Nem roldas para as velar... - Os moiros despercebidos - Sentem-se logo apertar - - De um tropel de leonezes - Ja portas a dentro a entrar. - Deixa a bozina Ramiro, - Mão á espada foi lançar. - - E de um só golpe fendente, - Sem mais pôr nem mais tirar, - Parte a cabeça até aos peitos - Ao rei moiro Alboazar... - - Ja tudo é morto ou captivo, - Ja o castello está a queimar; - Ás galés com seu despôjo - Se foram logo a imbarcar. - - —‘Voga, rema! d’alêm Doiro - Á pressa, á pressa a passar, - Que ja oiço alli na praia - Cavallos a relinchar. - - ‘Bandeiras são de Leão - Que lá vejo tremular. - Voga, voga, que alêm Doiro - É terra nossa!... A remar! - - ‘D’aqui é moirama cerrada - Até Coimbra e Thomar. - Voga, rema, e d’alêm Doiro! - D’aquem não ha que fiar.’ - - Á poppa vai Dom Ramiro - De sua galé real, - Leva a rainha á direita, - Como quem a quer honrar: - - Ella, muda, os olhos baixos - Leva n’agua... sem olhar, - E como quem de outras vistas - Se quer só desaffrontar. - - Ou Dom Ramiro fingia - Ou não vem n’isso a attentar; - Ja vão a meia corrente, - Sem um para o outro fallar. - - Ainda arde, inda fumega - O alcaçar de Alboazar; - Gaia alevantou os olhos, - Triste se pôs a mirar; - - As lagrymas, uma e uma, - Lhe estavam a desfiar, - Ao longo, longo das faces - Correm... sem ella as chorar. - - Olhou elrei para Gaia, - Não se pôde mais callar; - Cuidava o bom do marido - Que era remorso e pezar - - Do mau termo atraiçoado - Que com elle fôra usar - Quando o intregou ao moiro - Tam só para se vingar. - - Com a voz internecida - Assim lhe foi a fallar - —‘Que tens, Gaia... minha Gaia? - Ora pois! não mais chorar, - - ‘Que o feito é feito...’—‘E bem feito!’ - Tornou-lhe ella a soluçar, - Rompendo agora n’uns prantos - Que parecia estalar; - - ‘E bem feito, rei Ramiro! - Valente acção de pasmar! - Á lei de bom cavalleiro, - Para de um rei se contar! - - ‘Á falsa fé o mattaste... - Quem a vida te quiz dar! - Á traição... que d’outro modo, - Não es homem para tal. - - ‘Mattaste o mais bello moiro, - Mais gentil, mais para amar - Que entre moiros e christãos - Nunca mais não terá par. - - ‘Perguntas-me porque chóro!.. - Traidor rei, que heide eu chorar? - Que o não tenho nos meus braços, - Que a teu podêr vim parar. - - ‘Perguntas-me o que miro! - Traidor rei, que heide eu mirar? - As tôrres d’aquelle alcaçar, - Que ainda estão a fumegar. - - ‘Se eu fui alli tam ditosa, - Se alli soube o que era amar, - Se alli me fica alma e vida... - Traidor rei, que heide eu mirar!’ - - —‘Pois _mira, Gaia!_’ E, dizendo, - Da espada foi arrancar: - ‘_Mira, Gaia_, que esses olhos - Não terão mais que mirar.’ - - Foi-lhe a cabeça de um talho; - E com o pé, sem olhar, - Borda fóra impuxa o corpo... - O Doiro que os leve ao mar. - - Do estranho caso inda agora - Memoria está a durar: - _Gaia_ é o nome do castello - Que alli Gaia fez queimar; - - E d’alêm Doiro, essa praia - Onde o barco ia a aproar - Quando bradou—‘Mira, Gaia!’ - O rei que a vai degollar, - - Ainda hoje está dizendo - Na tradição popular, - Que o nome tem—MIRAGAIA - D’aquelle fatal mirar. - - -VERSÃO FRANCEZA - - -I - - Nuit sombre, mais si belle encor! - Belle nuit, à travers ton ombre, - Oh! qui de tes étoiles d’or - Pourra jamais compter le nombre? - - Compte-t’on les feuilles du bois? - Ou de la mer les grains des sables? - De l’Eternel telle est la voix - Écrite en lettres innombrables. - - Hélas! dans ce livre divin - Nul ne peut espérer de lire! - Un auge l’essaierait en vain; - Son savoir n’y pourrait suffire. - - Dom Ramire, dans son palais - Vivait heureux avec la reine, - Un juif maudit troubla leur paix - Et brisa leur tant douce chaîne. - - Il prédit au roi, trop flatté - Du beau destin qu’on lui dévoile, - Que Zahara, fleur de beauté - Serait à lui!... c’est son étoile! - - Le roi, que l’amour tient au cœur, - Va, plein du feu qui le dévore, - D’Alboazar ravir la sœur - Et fuit avec la belle Maure. - - À Milhor, lieu rempli d’attraits, - Dont la mer baigne les rivages, - Tous deux sans soucis, sans regrets - Passaient leurs jours exempts d’orages. - - La reine de ce coup affreux - Gémit et pleure et pleure encore: - Trahir ainsi ses chastes feux! - La délaisser pour une Maure! - - Triste et rêveuse, à son balcon, - Seule, durant la nuit obscure, - Victime d’un lâche abandon - Elle soccombe à sa blessure: - - —‘Roi Ramire! perfide roi, - Pourquoi me causer cette peine? - Mon cœur a-t’il trahi sa foi? - Je t’aimais tant!... pourquoi ta haine? - - ‘On dit qu’elle a quelques attraits - Cette Maure, cette infidèle; - Tu m’as pourtant, quand tu m’aimais, - Dit cent fois que j’étais plus belle. - - ‘On dit qu’elle a mille agréments, - Qu’elle est jeune, à la fleur de l’âge. - Moi, j’ai compté vingt trois printemps - Après mon triste mariage. - - ‘Ses yeux sont noirs! ce sont des yeux - Si beaux, si fiers, si pleins de charmes! - Hélas! les miens ne sont que bleus... - Et puis toujours remplis de larmes! - - ‘On nomme Zahara la Fleur... - _Gaia_ c’est le nom qu’on me donne! - _Gaia_ j’étais dans mon bonheur; - Plus ne le suis—l’on m’abandonne! - - ‘Oh! que ne suis-je un homme, hélas! - Dans le transport qui me dévore, - J’irais moi-même de ce pas - Trouver Alboazar le more.’ - - Elle achevait ces mots: soudain - Tournant ses regards vers la terre - Elle aperçoit dans le lointain - Des chevaux, des hommes de guerre. - - —‘Peronelle, vois-tu là-bas - Ces armes qui brillent dans l’ombre? - Regarde... ce sont des soldats; - D’où viennent-ils? quel est leur nombre? - - La suivante, d’un air surpris - Paraît écouter ce langage; - Des joyaux, des bijoux de prix - De son silence étaient le gage. - - Où sont ses autres serviteurs? - En vain la reine les appelle - Sept cavaliers, malgré ses pleurs, - Bientôt se sont emparés d’elle. - - De leurs turbans les plis soyeux - Bandent ses yeux, ferment sa bouche; - Et trois dans leurs bras vigoureux - La soulèvent d’un air farouche. - - Ils sont entrés sept au palais; - Sept autres en sentinelle. - Pas un mot... tous semblent muets... - Et vite en selle!... ils sont en selle! - - Un seul paraît les commander: - Sur son coursier il tient la reine... - —‘Allons!’ dit-il ‘il faut marcher!’ - Tous au galop fendent la plaine. - - Point de répit, point de repos, - Chacun stimule sa monture. - Ils courent par monts et par vaux, - Ils courent tant que la nuit dure. - - Dans les torrents, poitrail dans l’eau - —‘A gué,’ marchons! que l’on avance! - Ailleurs, sur les flancs d’un côteau: - —Houp! en avant! que l’on s’élance! - - Le jour se lève radieux, - Ils sont près de la mer profonde, - Quel est ce fleuve sinueux? - Qui vient s’engouffrer dans son onde? - - La reine ouvre ses yeux enfin, - Sa bouche est libre, elle respire: - Las! elle songe à son destin - Et tout bas tristement soupire. - - —‘Douro, fleuve aux perfides eaux, - Qui de dangers sèmes ta course, - Ne veux-tu donc pas de tes flots, - Me révéler quelle est la source? - - ‘Je te dirai par quel moyen - Cette perle est en ma puissance: - À qui m’a dérobé mon bien - J’ai dérobé son espérance. - - ‘C’est le sort qui le veut ainsi; - Tout suit cette pente sécrète. - Par les eaux du torrent grossi, - Le fleuve dans la mer se jette. - - Ainsi chantait le ravisseur, - Et Gaia l’écoutait sans haîne. - Bientôt de ton heureux vainqueur, - Gaia, tu porteras la chaîne. - - —‘Mais que font ces barques sur l’eau?’ - —‘Elles viennent chercher la reine.’ - —‘Quel est ce superbe château?’ - —‘D’Alboazar c’est le domaine.’ - - -II - - Roi Ramire, roi malheureux, - À ta naissance un noir génie - T’a jetté quelque sort fâcheux - Qui devait tourmenter ta vie. - - Peu satisfait de ce qu’il a, - À d’autres biens ton cœur aspire. - Ta fleur de beauté, Zahara, - Sur toi n’exerce plus d’empire, - - La reine qu’on t’a vu chérir - Et qui par toi fut délassée... - Tu veux au more la ravir; - C’est là maintenant ta pensée. - - Quelle est cette barque qui fuit, - Et du Douro va fendant l’onde? - Le bruit des rames, de la nuit - Trouble à peine la paix profonde. - - Elle glisse sur les roseaux, - Elle est déjà prés du rivage; - Les saules penchés sur les eaux - La cachent sous leur vert feuillage. - - Un homme s’élance soudain; - D’un bond il a touché la terre. - Il tient un bourdon d’une main, - Et de l’autre porte un rosaire. - - Bientôt le soleil du matin - Répand sa clarté sur la rive. - Près du castel un pélerin - Fait entendre sa voix plaintive. - - —‘Saint de Galice, qu’à genoux - Le pauvre pélerin implore, - Pour arriver au rendez-vous. - Que ton autel est loin encore! - - Au pied de la tour du palais - Coule une source claire et vive: - Une jeune fille est auprès, - Elle est là, debout et pensive. - - Elle écoutait d’un air rêveur - L’eau tombant de sa coupe pleine; - —‘Oh! votre voix, bon voyageur, - M’a causé la plus douce peine. - - ‘Sur cette terre de maudits, - C’est pour moi bien grande merveille - D’entendre ces chants du pays, - Qui jadis frappaient mon oreille. - - ‘Sept prêtres, autour de l’autel, - Chantaient alors cette prière, - Sept autres au chant solemnel - Répondaient d’une voix austère. - - ‘Le chœur entier psalmodiait, - Tous priaient d’une âme fervente; - Et la cloche retentissait - Portant au ciel sa voix bruyante. - - ‘Ce son qui vibrait dans les airs, - Que ne puis-je l’entendre encore? - Que ne puis-je au fond des enfers - Étouffer tous les chants du more! - - —‘Que le bon Dieu veille sur vous! - Qu’il vous bénisse, jouvencelle! - Une telle langage semble doux - Où règne en maître l’infidèle, - - ‘Je veux prier pour vous, hélas! - Je souffre et me soutiens à peine, - Il faut que s’arrêtent mes pas - Près de cette claire fontaine. - - ‘Ah! qu’on est bien! quelle fraîcheur! - Comme cette eau me semble belle! - Laissez asseoir le voyageur; - Dieu vous le rendra, jouvencelle.’ - - —‘Asseyez-vous, bon pélerin, - —‘Asseyez-vous sur cette pierre; - L’eau qui coule dans ce bassin - Est douce et fraîche, et désaltère. - - ‘La reine en boit à son réveil; - J’en viens chercher avant l’aurore; - Je viens, avant que le soleil - Ne l’ait pu réchauffer encore.’ - - —‘Cette eau si pure doit avoir - Une vertu particulière. - Ah! pour juger de son pouvoir, - Donnez m’en, je vous prie, un verre.’ - - —‘Buvez, buvez, bon pélerin, - À la fontaine du roi more. - Tenez; ce vase d’argent fin - Vaut de l’or... il vaut mieux encore.’ - - —‘Mais que dirait votre seigneur? - Que dirait Gaia, votre reine; - S’ils voyaient l’humble voyageur - Boire à la royale fontaine?’ - - —‘Alboazar, avant le jour, - A quitté ce lieu solitaire. - Il est dans les bois d’alentour, - Aux sangliers faisant la guerre. - - ‘Ma maîtresse de ce trésor - Ne peut se montrer soucieuse: - Pour qui posséda vases d’or, - Cette coupe est peu précieuse.’ - - —‘De grace! Encore une faveur! - Dites-lui, bonne jouvencelle, - Qu’un pauvre chrétien voyageur - Désire être conduit près d’elle. - - ‘Dites-lui bien qu’un malheureux, - Mort de chagrin et de misère, - L’a de cet anneau précieux - Fait pour elle, dépositaire.’ - - Il tire de son doigt l’anneau, - Dans le fond du vase il le jette: - —‘Quand elle boira de cette eau - Sa surprise sera complète! - - Mais la jeune fille a bientôt, - En courant, quitté la fontaine. - —‘Pourquoi ne pas venir plus tôt?’ - Dit, d’un ton sévère, la reine, - - ‘Joyeusement tu folâtrais, - Quand de soif mourrait ta maîtresse? - —‘Oh! non, tristement je songeais, - Car je songeais à ma jeunesse. - - ‘Que mon destin me semble amer! - Ici, pour moi quelle existence! - Ó Milhor que baigne la mer, - Milhor, pays de mon enfance! - - ‘Là, chaque jour est un plaisir, - Gaîment se passe le bel âge; - C’est là qu’à Dieu l’on peut offrir - D’un saint amour le pur hommage! - - —‘Tais-toi, Peronelle, tais-toi, - Ne réveille pas ma souffrance: - Tu sais bien que ce n’est pas moi - Qui désirais cette existence. - - ‘Mais à mon ravisseur enfin - J’ai pardonné, rendu les armes. - Esclave, je vis sans chagrin; - Reine, je vivais dans les larmes. - - ‘Ce vain titre était peu pour moi, - Trop peu pour tromper ma disgrâce. - Voir, auprès d’un époux sans foi, - Une more occuper ma place!’ - - À ce souvenir, de rougeur - Soudain son beau front se colore - Puisse cette eau, par sa fraîcheur, - Calmer la soif que la dévore! - - Elle prend le vase d’argent, - Le porte à ses lèvres brûlantes, - Et voit luire au même moment - De l’anneau les pierres brillantes. - - —‘C’est un sort, Jésus, mon sauveur! - Que l’on veut jetter sur mon âme: - Cette eau glace par sa fraîcheur, - Et dans le fond c’est de la flamme.’ - - —‘Voilà ce charme merveilleux - Qui me tenait loin de la reine. - C’est au pélerin malheureux - Que j’ai vu près de la fontaine; - - ‘C’est lui que dans le fond de l’eau - A voulu déposer ce gage: - De ses souhaits ce riche anneau - Devait servir de témoignage.’ - - —‘Oh qu’il vienne ce voyageur, - Qu’il vienne ici! que je l’entende! - Car je veux voir l’ambassadeur - Qui m’apporte une telle offrande.’ - - -III - - —‘Ne baisez point ainsi ma main; - De grâce, je vous en conjure: - Cessez, cessez, bon pélerin, - Et quittez cette humble posture.’ - - Mais le pélerin à ses vœux - Résiste... il devient téméraire, - Et ses baisers vont, deux à deux, - Tomber sur cette main qu’il serre. - - La reine a pâlit cette fois, - Dans son cœur le courroux fermente. - Soudain, elle sent sur ces doigts - Couler une larme brûlante... - - —‘Qui peut causer, bon pélerin, - La douleur que je vois paraître? - Là, contez-moi votre chagrin; - Je puis vous soulager peut-être.’ - - —‘Oh! non, ce n’est pas mon chagrin; - La mort fait cesser la souffrance: - Mais en vous j’espérais enfin - Retrouver ma douce existence. - - ‘Oh! non; ce n’est pas mon destin, - C’est la vôtre que je déplore: - La compagne d’un roi chrétien - Devenir celle d’un roi more!’ - - —‘Ah! ne me parlez pas ainsi! - La pitié peut être indiscrète. - Du présent je n’ai nul souci, - Et du passé rien ne regrette. - - ‘Dieu m’accordera son pardon; - Ce n’est pas moi qui fus coupable. - De cette lâche trahison - Ramire doit être comptable. - - —‘Le ciel, jusqu’ici trop clément, - Doit en effet punir ce traître. - Ordonnez donc son châtiment, - Ramire à vos yeux va paraître.’ - - Ramire se lève soudain, - Et laissant là toute imposture, - De sa barbe de pélerin - Il a dépouillé sa figure. - - Le bourdon qu’il tient dans sa main - Près de là va rouler à terre; - Et d’un geste plein de dédain, - Il jette à ses pieds son rosaire. - - Qui pourrait dire de quels yeux - Le regardait la noble dame, - Quels sentiments impétueux - Troublaient en ce moment son âme? - - Elle tremble, mais non de peur; - Sans gaîté, sa bouche est riante: - Elle est honteuse, sans pudeur; - Elle pâlit... elle est brûlante. - - On voit ces sentiments divers - Se succéder sur son visage, - Comme les flots, au sein des mers, - Se heurter dans un jour d’orage. - - À l’homme la vengeance plait; - Pour la femme c’est un délice; - L’un pardonne, il est satisfait; - L’autre veut qu’elle s’accomplisse. - - Sous le poids de ce souvenir, - Dont la reine a l’âme oppressée, - Ce fut là son premier désir, - Ce fut sa dernière pensée. - - Et puis, pour elle quel honneur! - Combien elle doit être vaine, - De pouvoir triompher d’un cœur - Qui revient reprendre sa chaîne! - - Mais dans les forêts d’alentour - Chasse en ce moment le roi more, - Elle est seule dans cette tour... - Il faut se taire et feindre encore. - - Elle sourit, mais tristement, - De ce sourire qui fend l’âme, - Et voile son regard charmant - Pour mieux en tempérer la flamme. - - De sa voix le son enchanteur - Séduit par son pouvoir funeste; - Et si l’enfer est dans son cœur, - Sa parole est toute céleste. - - Elle paraît près de fléchir, - Ses pleurs ont calmé sa colère; - Son âme feint de s’attendrir - Et sa douleur est moins amère. - - Elle répète, en sanglottant: - —‘Pour pardonner, je suis trop fière.’ - Mais ses yeux, dans le même instant, - Semble dire tout le contraire. - - Dom Ramiro est à ses genoux; - D’une voix émue, il l’implore; - Il veut désarmer son courroux; - Il supplie... elle hésite encore. - - Soudain, on entend retentir - Le bruit du cor, là dans la plaine; - La reine se sent tressaillir - Bien plus de plaisir que de peine. - - —‘C’est Alboazar, c’est le roi!’ - Dit-elle: ‘cachez-vous, Ramire: - S’il vous voit, c’en est fait de moi; - Fuyez, ou, sous vos yeux, j’expire.’ - - A peine elle a, d’un air troublé, - Fermé la porte, et par prudence, - Dans son sein déposé la clé, - Que vers elle le roi s’avance. - - —‘Tristes nouvelles, je le vois, - Nouvelles de mauvais augure! - C’est du moins, la première fois - Que m’arrive cette aventure. - - ‘Avant d’entrer dans cette cour, - J’ai sonné du cor dans la plaine, - Et sur les créneaux de la tour - Je n’ai pas vu venir la reine. - - ‘C’est mal à vous, ma chère enfant, - D’avoir manqué d’exactitude. - Me faudra-t-il donc maintenant - Renoncer à cette habitude?’ - - Une horrible perplexité - A troublé l’esprit de la reine; - Son triste cœur flotte agité - Entre l’indulgence et la haine. - - Le souvenir de ses beaux jours, - De l’ambition l’influence, - Ici, de nouvelles amours, - Là, le désir de la vengeance... - - Bientôt la vengeance et l’amour - L’auront emporté dans son âme. - Ne devaient-ils pas, sans retour, - Triompher dans un cœur de femme? - - —‘J’ai des nouvelles, en effet, - Et d’étranges à vous apprendre. - Entrez là, dans ce cabinet; - Vous verrez de quoi vous surprendre.’ - - Alboazar ouvre en tremblant, - Et recule, en voyant Ramire. - Ce qui se dit dans cet instant, - Point ne saurais vous le redire. - - Ce fut comme un vent orageux, - Comme une tempête sur l’onde, - Comme si la terre et les cieux - Luttaient pour abîmer le monde. - - À la raison enfin rendu, - Le roi prononce la sentence: - —‘Chrétien, ton honneur est perdu; - Je veux te laisser l’existence. - - ‘J’ai pû me payer largement - Du mal dont tu m’as fait victime; - Ta honte suffit maintenant - Pour expier ton nouveau crime.’ - - Dom Ramire sentait son cœur - Gonflé de dépit et de rage; - D’un air contrit, plein de candeur, - Il fait entendre ce langage! - - —‘Bien grand, hélas! fut mon forfait! - Envers toi je fus trop coupable; - Je ne veux pas d’un tel bienfait; - La mort me semble préférable. - - ‘C’est pour me mettre à ta merci, - Pour me livrer à ta vengeance - Que je suis venu seul ici; - Non pour implorer ta clémence. - - ‘C’est pour racheter mon erreur, - Sauver mon âme de l’abîme: - C’est l’ordre d’un saint confesseur - À qui j’ai confessé mon crime. - - ‘Il faut, m’a-t-il dit justement, - Et c’est mon vœu, je te le jure, - Que public soit le châtiment, - Puisque publique fut l’injure. - - ‘Ordonne ici de tes soldats - Que la troupe se réunisse, - Et que sous leurs yeux, mon trépas - Satisfasse enfin ta justice. - - ‘Vite! qu’ils entendent au loin - Le son du cor qui les appelle; - Que chacun, de ma mort témoin, - En garde un souvenir fidèle. - - ‘Qu’on dise, en me voyant mourir: - —«Quelque bruit qu’ait fait son offense, - Un bruit plus fort va retentir, - Et c’est celui de la vengeance!» - - Le roi touché de son remords, - Lui veut conserver l’existence; - Mais la reine a juré sa mort; - Elle s’oppose à la clémence. - - On voit les soldats accourir; - Le château prend un air de fête; - Ramire debout, sans pâlir, - Regarde la morte qui s’apprète. - - —‘Sonnez, trompettes et clairons, - Et qu’au loin ce bruit retentisse!’ - Et l’écho, répétant ces sons, - Annonçait l’heure du supplice: - - On entendit près de la mer - Ce bruit, d’un sinistre présage; - Et soudain s’éléva dans l’air - Un long cri, parti du rivage. - - -IV - - —‘De par tous les saints, en avant! - En avant, allons, du courage! - Et bientôt la porte, en tombant, - Aux assaillants ouvre passage. - - Sur les créneaux point de soldats, - Près des murs point de sentinelles; - Rien ne peut arrêter leurs pas, - Ils sont maîtres des infidèles. - - Sur eux ils s’élancent soudain, - Comme des lions, pleins de rage. - Ramire prend un glaive en main, - Et par ses cris, les encourage. - - D’un seul coup, d’un coup sûr et prompt, - Que rend terrible sa colère, - Du More il coupe en deux le front, - Et le jette sur la poussière. - - Déjà tous sont morts ou captifs; - Du feu terrible est le ravage; - Et les vainqueurs sur les esquifs - Ont abandonné le rivage. - - —‘Alerte! il faut quitter ces bords! - Allons, rameurs, plus de courage! - Alerte! et redoublez d’efforts; - J’entends des chevaux sur la plage. - - ‘Ce drapeau, qui flotte là-bas, - De Léon c’est bien la bannière; - Allons rameurs, force de bras; - Voguons, voguons vers notre terre! - - ‘Ce pays au More est soumis; - Jusqu’à Coimbre il règne en maître. - Loin du Douro voguons, amis; - Je dois craindre ici quelque traître. - - On voit Ramire s’avancer - Vers la poupe où se tient la reine, - À sa droite il la fait placer, - Comme marque d’honneur certaine - - Sans même détourner les yeux - D’un air pensif elle se lève, - Son front est resté soucieux, - Elle semble sortir d’un rêve. - - Ramire parut n’en rien voir: - C’était peut-être par prudence. - À ses côtés il va s’asseoir, - Et tous deux gardent le silence. - - Du malheureux Alboazar - Le château brûle et fume encore. - Gaia jette un dernier regard - Et voit le feu qui le dévore. - - À ce spectacle douloureux - Son cœur est brisé de souffrance. - Des larmes coulent de ses yeux; - Elle pleure, mais en silence, - - Ramire, d’un air attendri, - La contemple et ne peut se taire; - Il croyait, le pauvre mari, - Que son remords était sincère. - - Que c’était le seul souvenir - De sa honteuse perfidie; - Qu’elle pleurait de repentir - D’avoir au roi livré sa vie. - - D’une voix pleine de douceur, - Où se peint sa vive tendresse, - Il dit:—‘Gaia, pourquoi ton cœur - Garde-t-il encor sa tristesse? - - ‘Calme, ma Gaia, ta douleur; - Notre vengeance est satisfaite.’ - Mais elle, redoublant ses pleurs: - —‘Oh! oui la vengeance est parfaite. - - ‘De ce grand coup applaudis-toi; - Il mérite bien qu’on l’admire. - Il est vraiment digne d’un roi, - D’un cavalier tel que Ramire. - - ‘Tu viens de frapper un rival, - Qui t’avait offert l’existence: - N’est-ce pas un trait bien loyal, - Une noble et belle vengeance? - - ‘Ta main a frappé, sans regret, - Le More le mieux fait pour plaire, - Des cavaliers le plus parfait - Que jamais ait porté la terre. - - ‘Tu demandes, perfide roi, - D’où me vient ma vive souffrance? - Oh! que n’est-il auprès de moi - Pour me soustraire à ta puissance! - - ‘Tu veux savoir où mes regards - Cherchent à s’arrêter encore? - Contemple d’ici ces remparts, - Vois la flamme qui les dévore. - - ‘Là tout entière à mon bonheur, - De l’amour j’ai connu l’empire; - C’est là que j’ai laissé mon cœur... - Comprends-tu bien ce que je _mire_? - - —‘Contente donc alors tes yeux; - _Mire_, Gaia, _mire_, infidèle. - Et soudain d’un bras furieux, - Il lève son glaive sur elle. - - Cédant à d’horribles transports, - D’un seul coup, il tranche sa tête, - Et du pied repousse le corps... - Dans la mer le Douro le jette. - - De cet évènement cruel - Le souvenir se garde encore: - Gaia, c’est le nom du castel - Qui fut l’asile du roi more. - - À ce cri que jette bien haut - Le batelier sur cette plage, - _Mira Gaia_! tout aussitôt - Se dresse une sanglante image. - - Le peuple, dit-on, conserva - De ce fait la trace fidèle; - Et la place où Gaia _mira_ - MIRA-GAIA depuis s’appelle. - -Lisbonne, 10 janvier 1847. - - - - -VIII - -POR BEM - -AS PÊGAS DE CINTRA - - -Dou aqui logar a ésta composição que, moderna, como é, e minha, toda -é feita de coisas populares e antigas. A anecdota devêra ter sido -celebrada pelos menestreis do tempo: não o foi, e eu procurei supprir o -seu descuido. Não apparece pois em meu nome, senão no d’elles, embora de -longe os rastreie. - -Quando a primeira vez sahiu de minha carteira a presente ballada foi -para se imprimir na ILLUSTRAÇÃO[31], jornal que se publicava em Lisboa -em 1845-46. Reimprimirei com ella aqui tambem a carta que então escrevi -ao redactor d’aquelle jornal, porque devéras contêm a historia de sua -composição. - -Eis aqui a carta: - -’—Queria escrever-lhe um artigo, meu caro redactor, para a sua -ILLUSTRAÇÃO, que realmente faz milagres no meio d’esta escacez de tudo, -e d’estes impedimentos para tudo que characterizam a nossa boa terra. -É promessa velha e que eu devia ter cumprido ha muito. Mas como, mas -quando? E que hade um homem escrever que se leia—que se leia por damas -bellas e elegantes cavalheiros—quando lhe anda intallado nos bicos da -penna o fatal fio da politica, que a faz espirrar e esgravatear em tudo o -mais? - -‘Com as leis das eleições, e as questões da fazenda, e as organisações -ministeriaes, e não sei que mais coisas taes, foi-se-me detodo a -derradeira reminiscencia litteraria que ainda por cá havia. Tenho saudade -d’ella, mas foi-se, ‘morreu pela patria!’ - -‘Não sei se morreu bem ou mal, se fez bem ou mal em morrer; mas é certo -que morreu. - -‘Eu porêm nunca prometti, que faltasse, a homem nenhum—nem a mulher, -que mais é! O ponto está que me acceitem em pagamento aquillo que eu -posso dar. Que, ás vezes, o máu pagador não é máu senão pelas absurdas e -excessivas exigencias do crédor. Axioma de eterna verdade, especialmente -quando applicado a tudo o que passa entre os representantes de nosso pae -Adão e as representantas de nossa mãe Eva... - -‘Passemos adeante. Quer, senhor redactor, acceitar-me, em pagamento da -lettra de minha promessa, este papel que achei embrulhado entre mil -rabiscos de projectos de lei, tenções de autos, notas ao orçamento e -outras coisas galantes do mesmo genero? - -‘Se quer aqui o tem, e disponha d’elle. - -‘Deixe-me só dizer-lhe o que é, e como foi feito. - -‘Estava eu em Cintra, foi em... Que importa lá quando foi? Basta saber -que não era n’essa estação _fashionavel_ em que a elegancia de Lisboa se -vai infastiar classicamente para o mais romantico sítio da terra. Era na -primavera; passeavamos dois sós, ou quasi sós, n’aquelle Eden delicioso. -Fomos ver o palacio; chegámos á sala das pêgas. Pêgas são chocalheiras e -linguarudas: eu detesto o bicho... e n’este tempo, estava-lhe com zanga -de morte... - -‘Abominavel bicho! Isto ja lá vai ha muito tempo, meu caro redactor, e -ainda me faz ferver o sangue... - -‘Passemos adeante! - -‘Perguntaram-me a explicação d’aquellas pêgas da sala. Contei a historia -popular que é tam sabida. Acharam-lhe graça, pediram-me que a posesse em -verso: fiz isto. - -‘E isto que é? Não sei. É romance ou é apologo? É fabula ou é cantiga? -Nunca fui grande classificador d’essas coisas; que fará agora! - -‘O que lhe sei dizer é que no seculo XVI a XVII, segundo consta do -‘Fidalgo aprendiz’ do nosso Francisco Manuel de Mello, se cantava em -Portugal uma cantiga que começava assim como ésta: - - «Gavião, gavião branco, - Vai ferido e vai voando.» - -‘Nunca pude encontrar o resto, nem procurei muito por elle; mas ingracei -com este princípio, e servi-me d’elle aqui. Acha mal feito? Eu não. - -‘Se soubesse, meu caro senhor, todas as circumstancias d’esta composição! -Se soubesse de certa pêga ou pêgas que me perseguiram com seu malditto -palrear, e me queriam, ainda em cima, assacar, a mim gavião, ellas pêgas, -as manhas que só ellas têem! - -‘Mas ficou lograda a pêga e... - -‘Adeus, meu amigo, outra vez, adeante! O gavião, e sobretudo o gavião -branco—note—é animal nobre, de especie, genero e até de familia -differente da pêga. - -‘Passe muito bem. Aqui estão os versos; eu vou salvar a patria.’ - -‘Julho, 22—1846.’ - - -POR BEM - -AS PÊGAS DE CINTRA - - Gavião, gavião branco - Vai ferido e vai voando; - Mas não diz quem n’o feriu, - Gavião, gavião branco! - - O gavião é callado, - Vai ferido e vai voando; - Assim fôra a negra pêga - Que hade sempre andar palrando. - - A pêga é negra e palreira, - O que sabe vai contando... - Muito palra, palra a pêga - Que sempre hade estar palrando. - - Mas quer Deus que os chocalheiros - Guardem ás vezes, fallando, - O segredo dos sisudos - Que elles não guardam callando. - - Era uma pêga no paço - Que el-rei tomára caçando; - Trazem-n’a as damas mimosa - Com a estar sempre afagando. - - Nos paços era de Cintra - Onde estava el-rei poisando: - A rainha e as suas damas - No jardim andam folgando, - - Entre assucenas e rosas, - Entre os goivos trebelhando; - Umas regavam as flores, - Outras as vão apanhando; - - E a minha pêga com ellas - Sempre, sempre palreando. - Vinha el-rei atraz de todos - Com Dona Mécia fallando. - - Era a mais formosa dama - Que andava n’aquelle bando: - No hombro de Dona Mécia, - A pêga vinha poisando, - - E zelosa parecia - Que os andava espreitando... - Colhêra el-rei uma rosa, - A Dona Mécia a ia dando, - - Com um requêbro nos olhos - Tam namorado e tam brando... - Inda bem, minha rainha, - Que adiante te vais andando! - - Pegou na rosa a donzella, - Disfarçada a está cheirando... - Senão quando a negra pêga - Que lh’a tira e vai voando. - - Deu um grito Dona Mécia... - E a rainha, voltando, - Deu com os olhos em ambos... - Ambos se estão delatando. - - —‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, - Seu accôrdo recobrando: - —‘Foi por bem!’—‘Por bem’ repete - A pêga emtôrno voando. - - —‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, - De má malicia cuidando - Co’a chocalheira da lingua - Andar o caso inredando. - - Mas quer Deus que os chocalheiros - Guardem ás vezes fallando - O segredo dos sisudos - Que elles não guardam callando - - Riu-se a rainha da pêga, - E ficou acreditando - Que a innocencia do caso - N’ella se estava provando. - - Da pêga mexeriqueira, - Do bem que fez, mal pensando, - Nos reaes paços de Cintra - A memoria está durando. - - E eis-aqui, senhora, a historia - Da pêga que ahi ves palrando, - Da rosa que tem no bico, - Da lettra que a está cercando. - - A pêga é negra e palreira, - O que sabe vai contando: - Mas quer Deus que os chocalheiros - Guardem segredo fallando. - - O gavião, esse é outro; - Vai ferido e vai voando: - Mas não diz quem n’o feriu... - Gavião, gavião branco! - - - - -NOTAS - - -[1] Alterou-se este plano; só se tracta por agora do _Romanceiro_. - -[2] Dez annos são passados e a promessa nem commeçou a cumprir-se (1853). -Suppomos o A. receioso de arrostar com a audaciosa responsabilidade de -historiador contemporaneo. - -[3] Serviu de prefacio á primeira ed. de Londres no anno de 1828. - -[4] O Sr. Duque de Ribas, bem conhecido na Europa hoje, tomou para -epigraphe do seu _Moro-esposito_ este paragrapho da presente carta: -não me desvanece por mim, mas dá-me gôsto que precedessemos os nossos -vizinhos na restauração da poesia popular das Hespanhas. _Ed. de 1843._ - -[5] É o do Bernal Francez, n’este vol.—Vid. tambem o vol. II, pag. 121. - -[6] É o pensamento que agora se realiza. - -[7] O auctor esteve por espaço de tres mezes preso sem mais pretexto que -o de ter tido parte em uma publicação censurada e impressa com todas as -licenças necessarias. Não foi preso o censor, nem prohibida a publicação, -nem no fim de tres mezes se achou materia de culpa! _Ed. de 1828._—O -jornal era o Portuguez, cuja moderação em doutrina, e urbanidade em -estylo ainda não foram imitadas. _Ed. de 1843._ - -[8] Está a pag. 101 do II vol. do ROMANCEIRO, liv. II, part. I, rom. 8. - -[9] Corrigiu-se comtudo agora ésta carta para a presente reimpressão, -porque escripta muito á pressa em Londres logo ao chegar de Portugal, não -tinha agora essa desculpa, que então podia valer. _Ed. de 1843._ - -[10] Ruinas de fortificações antigas em Campolide. Vid. notas no fim. - -[11] Aqueducto das aguas livres.—Vid. notas no fim. - -[12] Vid. ROMANCEIRO, liv. II, part. I, no tom. II, pag. 135. - -[13] Vid. loc cit. a nova traducção por M. Adamson, LUSITANIA ILLUSTRAT., -part II. Newcastle 1846. Ésta segunda versão ingleza vem a pag. 142 do -referido II vol. no ROMANCEIRO. E a pag. 151 ibid. a traducção castelhana -do Sr. Isidoro Gil, já tam conhecida e appreciada entre nós. - -[14] Vid. a introducção ante, pag. 94. - -[15] Vigia. - -[16] Vid. nota no fim. - -[17] Fe, fee, fei. Vid. nota no fim. - -[18] Pé, pee, pei. Vid. nota no fim. - -[19] Vid. nota no fim. - -[20] Minstrelsy of the Scottish border etc. by Sir Walter Scott, mihi, -ed. de Paris 1838—2 vol. pag. 125. - -[21] Vej. no livro II, part. I, o romance XIII, _Claralinda_, pag. 219 do -2.º vol.; e na part. II, o romance XVIII, _Conde Nillo_, pag. 19 do 3.º -vol.; ibid. o romance XX a _Peregrina_, pag. 35, etc. - -[22] _Poèsie des Troubadours_, tom. VI, pag. 385. - -[23] Ap. Sanchez, tom I, pag. LVIII. - -[24] Le manuscrit du _Cancioneiro_ date du XIII siècle et les pièces -qu’il contient semblent plus anciennes. Il a été publié à Paris en 1823 -par Sir Ch. Stuart of Rothsay et tiré seulement à 23 exemplaires, dont -aucun n’a été mis dans le commerce. Vid. a nova ed. do Sr. Varnhagen, -Madrid 1851. - -[25] Pag. 339, note 1. - -[26] Vid. ante, pag. 164 d’este I do tomo do ROMANCEIRO. - -[27] Vid, ibid.; e tomo II do MINSTRELSY etc. de Sir. W. Scott. - -[28] Note pour la traduction - -[29] Jornal das Bellas-artes, Lisboa 1845, vol. I. - -[30] Mr. Zanole que foi depois, em 1848-1849, addido á legação franceza -na China. - -[31] ILLUSTRAÇÃO, vol. II, n.º 5, 1 de Agosto 1846. - - - - -NOTAS - - -A ADOZINDA - - -NOTA A - - O romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de - Portugal - - pag. 3. - -A Adozinda foi começada em Campolide, ao-pé de Lisboa, no verão de 1827, -concluida na cadeia do Limoeiro no fim d’esse mesmo anno, e publicada em -Londres no outomno de 1828, em 1 vol., 12.º sem nome do auctor, e com a -seguinte breve advertencia precedendo a carta ao sr. Duarte Lessa que era -o verdadeiro prefacio: - -‘ADVERTENCIA.—O auctor d’este romance, animado pelo lisongeiro favor que -outras publicações suas teem merecido ao público portuguez e a distinctos -litteratos extrangeiros, imprehende ésta nova publicação, cujo assumpto -é tirado da antiquissima tradição popular e se refere aos mais remotos -tempos e costumes de nossas epochas heroicas e maravilhosas. Espera -elle que não desagradará aos amantes de um genero que fez a colossal -reputação de Sir Walter Scott, e restituiu á antiga Escocia—na republica -das lettras—o nome e independencia que ha tanto perdêra na ordem politica. - -‘Aindaque em pouco habeis mãos, a lingua portugueza sahirá mais uma vez -a próva singular de bisarria com as mais cultas e gabadas linguas da -Europa: e será culpa do cavalleiro, não sua, se o premio da belleza e -valentia lhe não for adjudicado por todo o juiz imparcial.’ (_Nota da -segunda edição._) - - -NOTA B - - Resummo da historia da lingua e da poesia portuguesa, que vem - no I vol. do PARNASO-LUSITANO - - pag. 4. - -Foi o meu primeiro ensaio de critica litteraria, e muito ha que devo ao -público reimprimi-lo emendando-o e additando-o, como tanto precisa. É -trabalho que demanda porêm o vagar de outros cuidados e uma serenidade de -espirito que não tenho tido. Heide fazê-lo e breve. (_Nota da terceira -edição._) - - -NOTA C - - Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos - - pag. 4. - -A expressão é inexacta: os Toscanos houveram os metros hendecasyllabos -dos mesmos de quem nós os houvemos, dos trovadores. Vej. o Cancioneiro -do Collegio dos Nobres. (_Nota da segunda edição._) - - -NOTA D - - A lingua provençal, primeira culta da Europa - - pag. 6. - -Generalizaram ésta opinião no mundo os eruditos trabalhos de Mr. -Raynouard: eu duvido hoje muito d’ella, isto é, formulada d’este modo. -Estou inclinado a crer que houve uma lingua romance, que teve por base -o Romano-rustico fallado, e que geralmente predominou nos paizes de -dominação wisigothica desde a extrema Aquitania até o que hoje é Algarve; -e que ésta lingua quasi-latina é o commum tronco do Provençal que -morreu á nascença, do Aragonez que não passou da infancia, do Portuguez -e do Castelhano que chegaram a perfeita maturidade, e de outros mais -obscuros dialectos cujo desenvolvimento as circumstancias politicas e -topographicas annullaram. Nem julgo difficil demonstrá-lo; mas não é -aqui o logar, nem caberia no curto espaço de uma nota. (_Nota da segunda -edição._) - - -NOTA E - - Logo vieram esses trovadores de Provença... - - pag. 6. - -A simples leitura dos nossos cancioneiros mostra que aquella não era -a poesia popular: os seus requebros, todos cortezãos e palacianos, -desdizem da ruda singeleza e energica originalidade do trovar do povo. -E comparados aquelles cantares de saraus com os fragmentos das xácaras -e soláos que a tradição oral tem conservado, aindaque pervertidos e -viciados como elles andam, ve-se que estes é que são a primitiva e -legitima poesia nacional. (_Nota da segunda edição._) - - -NOTA F - - As balladas de Bürger, os romances de Sir W. Scott - - pag. 7. - -Vej. na collecção intitulada _Minstrelsy of the Scottish border_ -(cancioneiro das fronteiras da Scocia) a historia da renascença do genero -popular na Gran’Bretanha contada pelo mesmo W. Scott. (_Nota da segunda -edição._) - - -NOTA G - - Cancioneiro do Collegio dos Nobres - - pag. 10. - -Ha tempos que se designa com este nome o Cancioneiro do tempo d’elrei D. -Diniz que se guarda na livraria do que hoje é Escola Polytechnica, e era -então Collegio dos Nobres. Copiou-o quando esteve ministro em Lisboa Sir -Charles (depois Lord) Stuart, e em Paris o imprimiu, 25 exemplares creio -eu, quando alli foi embaixador. - -Descubriram-se, ha poucos annos, na Bibliotheca de Evora algumas -folhas que faltavam no manuscripto de Lisboa, e com este additamento se -reimprimiu em Madrid ultimamente pelo zeloso cuidado do Sr. Varnhagem, -ministro do Brasil n’aquella côrte. (_Nota da terceira edição._) - - -NOTA H - - Canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, etc. - - pag. 11. - -Éstas e todas as reliquias duvidosas do nosso romance irão todavia no -logar e livro competente da actual collecção. (_Nota da terceira edição._) - - -NOTA I - - Aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro - - pag. 12. - -É um curioso e rarissimo exemplar, documento notavel da litteratura -portugueza do seculo dezesette. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto -em um folheto de 4.º, com 15 ou 20 paginas. Tenho hoje grande pena de não -ter tirado cópia inteira d’elle antes de o restituir ao meu amigo o Sr. -Lessa, em cujo espólio deverá estar: mas não pude obter mais noticias -d’elle; e outro exemplar não o vi nem sei de quem o visse. Começa com -éstas duas oitavas que agora incontro, incompletas, entre os meus -apontamentos. Todo o poema é na mesma rhyma. - - I - - Cantemos de Ramiro rei d’Hespanha - E de el-rei Almançor de Berberia, - Quando por desventura tam estranha, - No mais de Hespanha então mouros havia, - Com ânimo cruel, com cruel sanha - Cadaqual ao outro pretendia - Privar de sua fama, honra e estado, - Com todas suas fôrças e cuidado. - - II - - D’esse Ramiro, digo, o esforçado, - Que d’este nome tres com elle hão sido, - D’âquelle que com Gaya foi casado - Por quem tantos trabalhos ha soffrido... - -(_Nota da segunda edição._) - -Possuo hoje um exemplar completo que devo ao obsequioso cuidado do Sr. N. -M. de Sousa Moura, distincto e letrado official do nosso exercito, que, -talvez por isso, não occupa n’elle o logar que lhe pertence. (_Terceira -edição._) - - -NOTA K - - Adeante copio um dos mais curiosos (o do Bernal-francez) - - pag. 17 e 18. - -O romance d’este nome na primeira edição da ‘Adozinda’ em Londres ia -inserto na presente carta: por melhor classificação vai agora separado. E -o texto original, segundo o conservou a tradição dos povos, irá no logar -competente do ‘Romanceiro’, mas muito mais correcto e melhorado agora -pela collação das diversas versões que tenho obtido. (_Nota da segunda -edição._) - - -NOTA L - - Este terreno é sancto: inda estás vendo - Alli aquelles restos mal poupados - - pag. 23 e 24. - -Em Campolide e nas alturas que avizinham o célebre aqueducto das _Aguas -livres_ se incontram muitos restos de fortificações antigas e que parecem -de diversas datas. O proprio nome de Campolide, abreviação de campo -da-lide, ficou a este sitio da batalha que alli se deu nas guerras da -acclamação de D. João I. Vej. Próvas genealogic., Duarte Nun. e quasi -todos os nossos historiadores. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA M - - ... Essas arcadas, - Suberbas, elevadas - - pag. 24. - -O aqueducto das _Aguas-livres_ é o mais nobre e util monumento de Lisboa: -edificou-o D. João V, que nem sempre impregou tam bem os immensos -cabedaes dos thesouros do estado, que então regurgitavam com o ouro das -minas do Brazil e de outras possessões portuguezas. D. João V todavia -amou, ao menos protegeu, as artes e as lettras; foi culpa não sua mas do -seculo, se de tam mau gôsto eram as lettras que protegeu. O crepusculo -de nossa rehabilitação litteraria luziu em seu reinado. A isto alludem os -versos: - - Um rei que amou as artes, rei pacífico - A quem amor fadou - Que seu fôsse e das musas, etc. - -Assim como alludem tambem a seus bem sabidos amores e espirito -galanteador. D. João V tinha a ambição de querer imitar Luiz XIV, seu -contemporaneo—até nas fraquezas. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA N - - Lembra-te aquella historia - Que ingenuo o povo nos seus trabalhos canta. - - pag. 29. - -É a xácara ou lenda da ‘Silvaninha’, cujo texto original vai no logar -competente do ‘Romanceiro.’ (_Nota da segunda edição._) - - -NOTA O - - É singela legenda de uma santa, - Que por brutal amor sacrificada, - Desvalida virtude, - Só de crime escapou no seio á morte - - pag. 29. - -A tradição popular attribue ésta nefanda aventura a um rei que se -namorou da sua propria filha, como a antiga Myrrha se namorára de seu -pae.—Provavelmente ambas as duas anecdotas teem seu fundamento historico -na chronica escandalosa das familias de alguns regulos ou senhores das -diversas epochas. O observador curioso notará o differente character -de duas historias tam similhantes, e colherá o essencial ponto em -que o nosso _maravilhoso_ moderno differe da antiga mythologia, não -tanto nos nomes de deuses e deusas e outros agentes sôbrenaturaes, mas -principalmente no tom, na moral, na sensibilidade, e n’um certo não sei -quê de ternura e melancholia que nos mais rudes e imperfeitos ensaios da -poesia nacional se acha sempre como principal e dominante côr do quadro. -A differença não está em chamar ao sol Apollo, ao amor Cupido, á guerra -Marte; sim na maneira de conceber, de pensar, de pintar, de moralisar as -mesmas ideas, as mesmas coisas por differente modo. (_Nota da primeira -edição._) - - -NOTA P - - Cantiga primeira - - pag. 33. - -Na primeira edição chamavam-se cantos as quatro partes d’este romance. -Era dar-lhe uma pretenção de epopea que o pobre não tinha. Demais, -cantiga é o nome popular verdadeiro, e por isso lh’o mudei para elle. Os -antigos menestreis inglezes chamavam _fitts_—como quem diria _accesos_—os -francezes _lays_—como quem diz _ramos_—às diversas secções em que partiam -os seus romances mais longos. A partição fazia-se por causa do canto: -e _cantiga_, ‘o que se póde cantar de uma vez’ parece portanto o mais -proprio nome. O Cancioneiro do Collegio-dos-Nobres diz _cantares_. (_Nota -da segunda edição._) - - -NOTA Q - - Como os picos do Gerez - Quando em Janeiro lhe neva - - pag. 34. - -O Gerez é serra altissima na provincia do Minho, de alpestres alcantis, -coberta de plantas alpinas de curiosissima _flora_; as summidades -conservam quasi todo o anno resplandecentes massas de gêlo. Ha nas faldas -da serra as famosas aguas mineraes conhecidas pelo nome de caldas do -Gerez. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA R - - Mas pede Adozinda bella, - Tal virtude e formosura, - Quem lh’o hade negar a ella? - Não póde o pae nem ninguem - - pag. 34 e 35. - -É uma occurrencia muito commum nos romances populares, e de sincera -belleza homerica, ésta de negar o senhor do castello a poisada ao -peregrino, mas ceder depois ás intercessões da filha compadecida, -donzella innocente e malfadada, que quasi sempre vem a ser victima de sua -propria bondade. Assim na lenda tam sabida e tam nacional de Sancta Iria: - - Pedia poisada, - Meu pae lh’a negava; - Mas eu tanto fiz - Que porfim entrava. - -(_Nota da segunda edição._) - - -NOTA S - - E guiaram seu pendão - Para terras de Moirama - - pag. 37. - -Moirama, na phrase do povo, quer dizer terra de moiros. N’outro genero de -poesia é certo que não ficaria bem o vocabulo, mas n’este quadra. (_Nota -da primeira edição._) - - -NOTA T - - Que tropel que vai nos paços - De Landim aopé dos rios - - pag. 39. - -Em minha imaginação puz a scena d’este romance em um dos sitios mais -pittorescos da mais formosa provincia de Portugal, o Minho. Landim -(haverá mais terras do mesmo nome; ésta é a que eu conheço) é uma -povoação pequena em que houve, outro tempo, uma famosa casa e pingue -possessão de Jesuitas: fica perto dos rios Ave e Vizella, que não longe -d’ahi se juntam para correr unidos a desimbocar em Villa-do-Conde e -perder-se no mar. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA U - - Que ou são sombras de finados, - Ou de negras bruxas más - Alli ha nocturna dança - - pag. 50. - -Éstas bôccas de cavernas, e outros recéssos—assim de bosques, montanhas e -que taes, são em todos os paizes, pela imaginação do vulgo, povoados de -entes mysteriosos e ás vezes malfazejos. Sombras de finados cantando seus -hymnos terriveis, bruxas celebrando os torpes mysterios do seu _sabbado_, -são cosmopolitas. A nossa mythologia popular tem mais outra especie de -entes sobrenaturaes, que é privativa nossa.—São as _moiras incantadas_, -que nem são bruxas, duendes nem fadas, mas lindas e amaveis creaturas -que se divertem a incantar, a excitar os desejos dos pobres mortaes—e ás -vezes, tam boas são! a satisfazê-los. - -Não é d’este logar o exame, que sería bem curioso, da mythologia nacional -portugueza. Basta dizer, como o A. de D. Branca, que devemos explorar -ésta mina tam ricca, e tam pouco lavrada, de bellezas poeticas originaes -e novas que, sem imprestimo nem favor alheio, podêmos haver do nosso e de -casa. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA V - - Se a ha, não lhe acudiu Deus, - Venceram peccados seus - - pag. 54. - -O povo é geralmente fatalista; e o nosso portuguez o mais fatalista que -eu conheço. _Tinha de succeder, ra coisa que o perseguia_, e outras -que taes razões, são a explicação de todo o phenomeno estranho que os -surprehende. - -Aqui a cegueira da ignorancia leva pelo mesmo caminho que os desvarios da -sciencia. A coisa é a mesma ao cabo: vaidade e presumpção humana. (_Nota -da primeira edição._) - - -NOTA X - - Mas diz que não ha condão - Peior que o da maldicção - - pag. 59. - -A maldicção do pae desacatado, ou do pobre maltrattado, passam entre o -povo por ser as mais terriveis e inevitaveis. Atéqui a moral de accôrdo -com a crença vulgar. Mas a maldicção, hereditaria em seus effeitos, é -outra parte d’este dogma popular que em verdade repugna.—É certo porêm -que se é acaso, o acaso tem servido muito bem os fautores d’aquella -crença. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA Y - - Ah! essa alma corrompida - Mais do que teu corpo estava - - pag. 67. - -O leitor verá n’esta passagem, no conselho de Auzenda á filha, em -muitos logares d’esta e da cantiga IV principalmente, quanto fiz por -me conservar perto do romance primitivo, assim no pensamento como até -na phrase e stylo, tanto quanto o permittia a decencia, e outras vezes -a correcção da phrase, e ja tambem a indole do meu romance. (_Nota da -primeira edição._) - - -NOTA Z - - Sette annos e um dia - Foi a sentença cruel - Que Adozinda cumpriria - - pag. 72. - -Sette annos e um dia é o periodo mysterioso de quasi todos os nossos -contos de fadas, incantamentos e coisas similhantes. - -No mui galante romance do _Caçador_, que é um dos mais queridos do povo, -se diz: - - Sette fadas me fadaram - Nos braços de mi’ madrinha, - Que estivesse aqui sette annos, - Sette annos e mais um dia. - -O numero sette é mysterioso em todos os povos, mas ésta expressão -algebrico-negromantica de 7 + 1 creio que é só portugueza. (_Nota da -primeira edição._) - -É de toda a peninsula. Vej. os romanceros castelhanos. (_Nota da segunda -edição._) - - -NOTA AA - - Arreda, arreda, infanções, - Cavalleiros, dae logar - - pag. 78. - -Veja o glossario de S.ta Rosa para ampla explicação do que eram -_infanções_ entre nós. Para intelligencia d’esta passagem basta saber-se -que era uma especie de vassallos mais distinctos. (_Nota da primeira -edição._) - - -NOTA BB - - E por senhor reconhecem - Ao ricco-homem de Landim - - pag. 80. - -Sôbre _ricco-homem_, veja o mesmo glossario. A dignidade de ricco-homem -perfeitamente obsoleta em Portugal, ainda a mencionam os fidalgos -castelhanos em seus titulos. - -Ricco-homem, naturalmente, quer dizer magnata, da primeira aristocracia, -_procer_, grande senhor. (_Nota da primeira edição._) - - -NOTA CC - - E essa voz diziam todos - Que era a voz de Dom Sisnando - - pag. 85. - -Ésta especie de _vindicta-pública_, com que o povo stigmatisa a memoria -dos malvados e grandes criminosos, é muito provavelmente a origem das -almas-do-outro-mundo, dos _revenants_, vampiros, etc., etc. - -Se se procurar bem a fonte primitiva de todas as fábulas, ver-se-ha que -não ha credulidade mythologica que não tenha por base o instincto da -moral e da justiça, commum a todos os povos. (_Nota da primeira edição._) - - -AO BERNAL-FRANCEZ - - -NOTA A - - ‘Quem bate á minha porta, - Quem bate, oh! quem ’stá ahi?’ - - pag. 97. - -Por estes versos começa o romance original, tradicionalmente conservado -na memoria do povo, e sómente impresso a primeira vez em Londres na -primeira edição da Adozinda em 1828. Ja n’outra parte se deram as razões -por que irá agora esse texto no logar competente do Romanceiro, no -segundo livro e segundo volume d’elle. (_Nota da segunda edição._) - - -NOTA B - - For knowest thou not, where softest swell - - pag. 107. - -A versão ingleza, quasi sempre litteral, afasta-se aqui do texto -sensivelmente, mas sem alterar as proprias ideas, sómente a fórma -d’ellas. (_Nota da segunda edição._) - - -Á NOITE DE SAN’JOÃO - - -NOTA A - - Té os moiros na Moirama - Festejam a San’João - - pag. 119. - -É uma cantiga popular do Minho ainda hoje cantada por toda essa noite -de San’João, que n’aquellas terras ninguem dorme, como é sabido. A -superstição da alcachofa é toda do Sul, toda lisboeta, talvez coirman -d’aquellas de dia de Maio que o catholico senado municipal votou e -prometteu a Nossa Senhora da Escada de acabar para sempre. Mas San’João -fez-se um santo de exemplar tolerancia desde que lhe tiraram a cabeça -por elle não podêr ver, sem ralhar, as desinvoltas pernas da baiadera -Herodias. - -Não quero folgar com o que é serio: mas é notavel que a devoção quasi -universal dos christãos tomasse para patrono e orago de seus mais livres -folgares e festanças, e lhe consagrasse a mais risonha e lasciva estação -do anno, ao austero percursor do Christo, o jejuador penitente do -deserto, o severo censor da soltura cortezan, o protomartyr da moralidade -evangelica. - -Sería que a timida singelleza de nossos passados fôsse de proposito -buscar aquelle austero e invisivel inspector de seus ainda então -innocentes brinquedos? (_Nota da segunda edição._) - - -AO CHAPIM D’ELREI - - -NOTA A - - Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as - tres especies, romance, xácara, soláo - - pag. 142. - -Ésta classificação é em parte conjectural, ou para fallar com mais -propriedade, sim ésta é a regra, mas com tantas excepções que chegam a -fazer duvidar d’ella. Os que escreviam e compunham n’aquelles tempos -primitivos curavam pouco de cingir-se a regras ou classificações. D’ahi -veio uma certa anarchia, constituida e fundada no exemplo, ou na falta -d’elle, que se prolongou por muitos seculos depois. - -A respeito de soláos, por exemplo, temos para abonar a definição que -d’elles se dá no logar annotado, a auctoridade immensa de Bernardim -Ribeiro na _Menina e Môça_: ahi cap. 21. - - Pondo-se a ama a pençar a menina sua criada como sohia, como - pessoa agastada de algua noua dor, se quiz tornar ás cantigas, - e começou ella entam contra a menina que estaua pençando, a - cantar-lhe um cantar á maneira de soláo, que era o que nas - coisas tristes se acostumava nestas partes: e dizia assi: etc. - -Mas por outra parte, temos o não menos grave pêso de Sá-de-Miranda na -egloga 4: - - Que se os velhos soláos fallam verdade, - Bem sabe ella por próva como Amor - Magôa, e averá de mi piedade. - -Da primeira citação parece concluir-se que o soláo é, como deixo ditto, -um cantar todo lyrico, de tristeza e lamentos: na segunda considera-se -como narrativo e usurpando propriamente a provincia do romance. (_Nota da -segunda edição._) - -Vej. o que a este respeito se escreve no liv. II do ROMANCEIRO. (_Nota da -terceira edição._) - - -NOTA B - - Antes ser pobre e villan, - Antes, pela minha fei - - pag. 146. - -Nas provincias transtaganas e em muitas das ilhas adjacentes -pronunciam-se as palavras _fé_, _pé_ e similhantes—_fei_, _pei_, etc. -Talvez seja devido á antiga orthographia que nas vogaes longas, _a_, _e_, -dobrava as lettras em vez de as carregar com assento grave ou agudo. O -povo, que sempre foge dos hyatos, preferiu mudar a última lettra, fazendo -o som mais suave. (_Nota da segunda edição._) - - -NOTA C - - Sem bulir nem mão nem pei - - pag. 149. - -Vej. a nota antecedente. (_Idem._) - - -Á ROSALINDA - - -NOTA A - - Era por manhan de maio - Quando as aves a piar - - pag. 163. - -O mez de maio foi sempre o valido dos poetas populares de todas as -nações: um sem-número de cantigas dos trovadores provençaes, dos -menestreis normandos e saxonios, dos _minnesingers_ allemães começam -com éstas alegrias do mez de maio. Citarei dos minnesingers de que aqui -incontro apontamentos, por serem os menos conhecidos entre nós. Uma bella -canção do tyrolez Steinmar começa: - - Ich will gruen mit der sat - Dú so wunneklichen stat; - Ich wil mit dien bluomen bluen, - Und mit den voheling singen: - Ich wil louben so der walt, - Sam dú heide sin gestalt: etc. - -Outra do margrave Othon de Brandeburgo: - - Uns kumt aber ein liehter meie - Der machet manig herze fruat, etc. - -Estoutra do duque de Breslan é uma especie de drama lyrico entre o poeta, -Maio, as flores, o bosque e o prado: - - Ich clage dir, meie, ich elage dir, sumer wunne! etc. - -Herzog Heinrich von Pressela, IV do nome, reinou de 1266 a 1299, e foi -o objecto dos elogios de todos os poetas do seu tempo. A cantiga citada -é uma das mais bellas e extraordinarias composições d’aquelles seculos. -(_Nota da segunda edição._) - - -FIM DO VOLUME PRIMEIRO - - - - -INDICE - - - Pag. - - INTRODUCÇÃO dos Editores na terceira edição V - - do A. na segunda edição VII - - ROMANCEIRO, LIVRO I 1 - - I Adozinda 33 - - II Bernal-francez 87 - - III Noite de San’João 115 - - IV O Anjo e a Princeza 123 - - V O chapim d’elrei 139 - - VI Rosalinda 157 - - VII Miragaia 179 - - VIII As Pêgas de Cintra 235 - - NOTAS 247 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Romanceiro I, by V. de Almeida Garrett - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROMANCEIRO I *** - -***** This file should be named 63438-0.txt or 63438-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/4/3/63438/ - -Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Email contact links and up to date contact -information can be found at the Foundation's web site and official -page at http://pglaf.org - -For additional contact information: - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. 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